
MEIRA, Luciano, SHLIEMANN, Analúcia, CARRAHER, David,
SPINILLO, Auna. FALCÃO, Jorge da Rocha. Estudos em Psi-cologia
da Educação Matemática.
A história das relações entre as ciências da cognição e a prática
instrucional na escola têm sido, no mínimo, problemáticas. De fato. não
existe uma conexão trivial entre teorias da aprendizagem, ou do
desenvolvimento cognitivo, e modelos instrucionais para o ensino de
disciplinas específicas. A respeito destas complexas relações, atribui-se
ao renomado psicólogo Ulric Nasser uma crítica à Psicologia, segundo a
qual "se x é um problema socialmente relevante, x foi raramente abordado
pela Psicologia". Assim é que outro importante representante das ciências
cognitivas na atualidade, Andrea di Sessa. defende com muita propriedade
que, se uma teoria cognitiva é articulada e robusta, sua "aplicação" direta
na prática educacional é não trivial, senão impraticável.
Exageros à parte, as teses mais avançadas em diversas linhas da Psicologia
(experimental, do desenvolvimento e cognitiva) eram vistas há até bem
pouco tempo como um campo periférico aos interesses mais amplos da
educação. A influência da Psicologia na educação ficava por conta quase
exclusiva da área de influência behaviorista, através de estudos de
aprendizagem que investigavam comportamentos de relevância duvidosa
para a aprendizagem humana, em situações fora do laboratório. Análises
de conceitos complexos como aqueles encontrados diariamente nas aulas
de Matemática, por exemplo, não eram comuns na literatura psicológica.
ou divergiam bastante das análises realizadas por matemáticos. Em outros
casos, os conceitos eram tratados como medidas de testes de inteligência,
ou mesmo como respostas mecânicas a serem adquiridas pelo aluno em
conformidade com uma história de reforço.
Por outro lado, o psicólogo que mantinha contato direto com o professor
— o psicólogo escolar — preocupava-se com questões relativas a
dificuldades emocionais, afetivas e de inteligência ou aptidão. Este
profissional exercia na escola um papel semelhante àquele do psicólogo
clínico: diagnosticava os alunos com suspeita de serem "portadores" de
problemas, identificava sua suposta origem e aconselhava o professor, a
família e a Direção da escola sobre as providências necessárias.
Freqüentemente, concluía-se que residia no próprio aluno a causa de
seus problemas, ou que o problema era localizado na família, nas
condições de vida do aluno, na sociedade. Raramente, o papel da escola
na emergência destes problemas era questionado. Ao longo dos últimos
anos. tornou-se evidente que este procedimento não passa de uma forma
de deslocar o foco de discussão de questões fundamentais relativas a
formas de ensinar e de aprender, para questões onde a escola não poderia
ser responsabilizada. É importante notar que o aluno '"normal", bem
como a "aprendizagem normal", não eram assuntos para o psicólogo.
Claro, a Psicologia evoluiu enormemente nos últimos anos. Com a
divulgação dos trabalhos de Jean Piaget c Lev Vygotsky. entre outros, a
relação entre a Psicologia e a educação iniciou um período de redefinição.
As pesquisas piagetianas e vygotskianas deram apoio a uma idéia
relativamente simples e muito importante, cujas repercussões continuam
a expandir-se: o desenvolvimento e a aprendizagem são profundamente
relevantes para o ensino. É verdade que esta noção havia sido antecipada
nas concepções filosóficas de Rousseau e Dewey. Mas Piaget, por exemplo.
conduziu, pela primeira vez, estudos empíricos minuciosos e elaborou
complexas análises teóricas sobre uma variedade enorme de conceitos
matemáticos e científicos, tais como número, espaço, tempo, causalidade,
probabilidade, força, velocidade, aceleração, reação química, razão e
proporção, relação, função, etc. Embora estas análises nâo indicassem
diretamente o que deveria ser feito em sala de aula, elas foram importantes
para que começássemos a compreender como a criança pensa e quais as
dificuldades que enfrenta na aprendizagem de conceitos. Com Vygotsky.
hoje em evidência mundial, passamos também a reconhecer a necessidade
de empreender estudos mais diretamente relacionados aos contextos
socioculturais da escola e da atividade profissional e à aprendizagem de
conteúdos específicos, que poderiam ser trabalhados na escola. Os
conceitos de Zona de Desenvolvimento Proximal (que coloca de forma
Em Aberto, Brasília, ano 14, n. 62, abr./jun. 1994