
O ensino das Ciências tem problemas mais graves
Por que problemas comuns a outras áreas de ensino são conside-
rados mais graves no caso do ensino das Ciências? De fato, não
são privativas da área do ensino das Ciências questões como dis-
tanciamento entre graduação e atuação profissional dos profes-
sores; pouca relação entre os currículos das licenciaturas e perfil
do profissional professor; frágil intercâmbio entre Universidade e
1º e 2º graus; precárias condições de trabalho nas escolas, traba-
lho isolado do professor e seu infame salário. Todas sofrem o mes-
mo problema; entretanto, na área do ensino de Ciências (primeiro
grau) acrescentam-se algumas dificuldades maiores.
Uma delas, sempre apontada, refere-se à formação do professor
de Ciências
4
, polêmica constantemente aberta em simpósios
organizados pela SBPC, SBF. Além de questões e projetos, um re-
sultado concreto foi a rejeição às licenciaturas de curta du-
ração
5
, uma das grandes aberrações implantadas como medida
de emergência na década de 70
6
. Abolidas da maioria das uni-
versidades públicas, é ainda mantida em escolas superiores isola-
das, cujos egressos - comprovadamente despreparados - com-
põem o grande contingente de professores da nossa escola, prin-
cipalmente a oficial, que cresceu às custas desta programada má
organização
7
. Graças a um empenho muito grande de poucos
cientistas, foi possível banir parte deste processo acelerado de
juntar, superficialmente, em curto tempo, áreas do saber tão am-
plas e desenvolvidas, como Biologia, Física, Química e também
4
HAMBURGER, A. l. Alguns dilemas da licenciatura. Ciência e Cultura, 35(3) :307 -
5
BARROS, S.B.; SILVA, J.L.C.; GOMES, A.E Q.; HAMBURGER. A.l. Simpósio: As li-
cenciaturas nas áreas de ciências exatas e naturais. Ciência e Cultura, 35 (6):
746-7. HAMBURGER, A.l. Questões sobre a formação de professores de Ciên-
cias no Brasil, levantadas no debate sobre as licenciaturas curtas polivalentes.
Ciência e Cultura, 36 (9): 1 544-55
6
Resolução n.° 30, de 11.7.74, do Conselho Federal de Educação, que fixa os míni-
mos de conteúdo e duração a observar na organização do curso de licenciatura em
Ciências — conhecida como licenciatura curta e/ou parcelada. Documenta, CFE,
13(164):509-11, Brasília, julho de 1974.
Em Aberto, Brasília, ano 7, n. 40, out./dez. 1988
Geociências, unidas à Matemática. É preciso lembrar os estudos
feitos e as tentativas mais sérias para solucionar esta questão do
currículo que licencia o professor de Ciências. Destacam-se reu-
niões, simpósios, mesas-redondas promovidos durante as reu-
niões, anuais da SBPC
8
, o Encontro Anual "Perspectivas para o en-
sino das Ciências", da Profª Myrian Krasilchik
9
, entre outros.
Cabe ressaltar, ainda, a luta da Associação dos Biólogos que, com
afinco, defende o reconhecimento da profissão e procura criticar
os cursos de formação, visando a contribuir para sua reformu-
lação. Mas pergunta-se como trabalhar as diferentes áreas do saber
na organização do programa de ensino das Ciências, de modo a
atender ao aluno no seu aspecto nobre, talvez o mais nobre: a sua
alfabetização/iniciação científica.
10
O biólogo foi eleito e ganhou a
tradição para ensinar Ciências. É o seu maior mercado de trabalho.
Um grande avanço na direção de se desenvolverem pesquisas que
apontem um caminho seguro, como é esperado desta área, foi a
Proposta Curricular (CENP-SP, 1986)
11
, que preferimos chamar de
projeto, pois contém as linhas gerais para se empreender uma total
reformulação no ensino, cuja ação, na época do lançamento da pri-
meira versão, foi duramente combatida pela grande imprensa pau-
lista.
7
KRASILCHIK, M. O professor e o currículo das ciências. São Paulo, EPU/EDUSP
1987. p. 48.
8
GOMIDE, E.F. Os cursos de licenciatura e a formação de professores. A licenciatu-
ra na área de ciências naturais e exatas. Ciência e Cultura, 35(9): 1254-7.
SILVA, J.C Análise e conclusão sobre as licenciaturas em ciências a partir de do-
cumentos e discussões - regiões sul e sudoeste. Ciência e Cultura,
36(9):1 559-64. Simpósio: a licenciatura em questão. Ciência e Cultura,
40(2):143-63.
9
I, II e III Encontro "Perspectivas para o ensino das Ciências" — Faculdade de Edu-
cação da USP, 1986, 1987, 1988.
10
BARBIERI, M.R. Folha Avulsa n.° 1: Ciência e Alfabetização. LEC/FFCLRP-USP,
1984.
11
A Proposta Curricular para o Ensino de Ciências e Programas de Saúde - 1 ° grau
— CENP — Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas — Secretaria de
Educação de São Paulo, versão 1988. "... produto de um longo processo de
construção que se foi forjando em sucessivas versões, através da colaboração
decisiva de inúmeros educadores, (...) trata-se de uma proposta coletivamente
construída, mas não acabada".