
Em 1500 A.D., a velocidade máxima sobre a água era a da caravela,
também de cerca de 8km por hora; em 1800, as diligências atingiam no
máximo 30 km horários ( Peccei, 1981). Assim, da biga à diligência, num
largo período de quase 5.000 anos, todo o avanço tecnológico se
resumiu à passagem de dois para seis cavalos.
No final do século XIX, trens e navios cruzavam continentes e mares, nas
rotas de um correio já institucionalizado. Mas uma carta poderia levar dois
meses para chegar a um destinatário distante. No início do século XX,
em plena Belle Époque, Santos Dumont emociona Paris com o vôo do
14Bis. Uns anos mais, e o correio aéreo parece um avanço insuperável.
Hoje, aviões e foguetes cruzam os ares em velocidades supersônicas,
o homem pisou a Lua, e o fax e o telefone nos ligam instantaneamente
a qualquer ponto do globo.
Modificação de Comportamento e Conceitos
Até 1700 ou 1800, a vida média era muito curta. Nessa época, para
estabelecer uma família, era preciso casar logo que se atingia a idade
de reprodução; quase todos os casais perdiam filhos; e o juramento de
fidelidade eterna, feito pelos noivos junto ao altar, significava cerca de dez
ou quinze anos. Hoje, a vida média no primeiro mundo está em torno dos
70 anos. E a fidelidade "até que a morte os separe" pode, cada vez mais,
significar longos períodos de quarenta ou cinqüenta anos, o que certa-
mente continuará a manter os advogados ocupados com processos de
divórcio.
Outra mudança ocasionada pela ciência foi a das relações do homem
com a alma e o divino. As manifestações psicológicas do ser humano
— a sensação do sublime ligada à música, ao amor ou a certas
experiências místicas, os sentimentos de ódio, fúria, etc. — sempre foram
considerados como manifestações da alma ou mesmo do divino. E em
muitas culturas, a loucura estava relacionada ao sagrado. Mesmo
quando se utilizavam drogas, como o vinho ou extratos de plantas, para
induzir estados alterados de consciência, estas drogas eram de alguma
forma sacralizadas ou ligadas ao ritual. Também os fenômenos naturais
— os rios, a chuva, o raio, os furacões — eram interpretados como
manifestações de divindades ligadas àqueles fenômenos e toda a
natureza era animizada. Com o avanço do conhecimento, os "estados
da alma" são interpretados em outro contexto. Os efeitos do álcool ou do
diazepan sobre o comportamento são interpretados à luz da moderna
farmacologia e da neuroquímica. Os fenômenos da natureza receberam
explicações racionais: o raio é uma faísca elétrica, a chuva é o resultado
da condensação de vapor atmosférico, o vendaval, o deslocamento de
massas de ar. Pode parecer que a ciência derrubou ou pretendeu
derrubar os conceitos de alma ou do divino, quando, na verdade, estes
conceitos teriam que ser adaptados a um novo quadro de referências.
Fundamentada num método, a ciência moderna não propunha nem
estava comprometida com nenhuma metafísica, não negava, a priori, a
existência da alma ou de Deus, e muitos cientistas foram, ou são,
homens de religião e fé. Mas, ao desenvolver-se no seio de um sistema
de produção massificado e pouco humano, a ciência, como qualquer
outra atividade, sofreria a sua influência. Assim, o espetacular sucesso
de suas conquistas materiais e tecnológicas seria o aspecto mais
valorizado e assimilável pelo sistema econômico vigente, interpretado
como sua finalidade última e bem supremo, assim como o mais
facilmente identificado pela sociedade em geral. Além disso, seja por
esse contexto, seja por condições inerentes ao tratamento matemático
dos dados, ao privilegiar variáveis quantificáveis e mensuráveis, e os
aspectos extensivos da natureza, a ciência não negou a existência da
alma ou de Deus, mas preparou terreno para que outros o fizessem em
seu nome. Finalmente, ao derrubar noções ligadas a religiões e mitos,
substituindo deuses por explicações racionais, e o aparecimento do
homem pela Teoria da Evolução, e não pela criação de Adão e Eva, tal
como descrito no Gênesis, a ciência entrou em choque com as camadas
mais conservadoras da Igreja. E o homem comum, já abalado pela
dicotomia implícita entre os valores espirituais e religiosos da tradição
humanista por uma lado, e os valores materiais, cada vez mais eficazes
no seu cotidiano, este homem que, quanto mais culto, menos podia
aceitar sem discussão as explicações literais de uma Igreja retrógrada,
ao ver explicitados alguns conflitos entre a ciência e a Igreja, interpretou-
os como um conflito entre ciência e religião, ou materialismo e
espiritualismo, e, muitas vezes, aliou-se aos primeiros, adotando mais
Em Aberto, Brasília, ano 11, nº 55, jul./set. 1992