- Perdoa, nhanhã, mas não sou tão caipora assim... Pelo menos tive uma grande felicidade na
vida!
- Qual foi, não me dirás?
- A de ter casado contigo...
Nhanhã mordeu os lábios, porque não achou o que responder, e naquele dia as suas
impertinências habituais não foram mais longe.
* * *
O pobre Reginaldo - assim se chamava o marido - habituara-se de muito àquelas recriminações
insensatas, e era um quase fenômeno de resignação e paciência.
Ela bem sabia que a coisa seria outra, se realmente a fortuna se deixasse agarrar pelos
cabelos: o que nhanhã não lhe perdoava era a sua pobreza, - não era o seu caiporismo. Ela não
podia ter em casa do marido o mesmo luxo que tinha em casa do pai; não podia rivalizar com
alguma amiga em ostentação: era isto, só isto que a afligia, ou antes, que os afligia a ambos,
marido e mulher.
* * *
Reginaldo tinha aversão ao jogo; nem mesmo a loteria o tentava.
Entretanto, uma tarde meteu-se num bonde do Catete, para recolher-se à casa, e no Largo do
Machado, onde se apeou, pois morava naquelas imediações, foi perseguido por um garoto que
à viva força lhe queria impingir um bilhete de loteria, - uma grande loteria de cem contos de réis,
cuja extração estava anunciada para o dia seguinte.
Reginaldo resistiu, caminhando apressado sem dar resposta ao garoto, que o acompanhava
insistindo; mas de repente lhe acudiu a idéia de que aquele maltrapilho poderia ser a fortuna
disfarçada. Era preciso agarrá-la pelos cabelos! Comprou o bilhete, e foi para casa, onde o
esperavam os tristes feijões quotidianos.
* * *
Ele bem sabia que, se dissesse a nhanhã que havia feito essa despesa extra-orçamentária, não
teria a sua aprovação; mas que querem, - o pobre rapaz era um desses maridos submissos, que
não ficam em paz com a consciência quando não contam por miúdo às caras-metades tudo
quanto lhes sucede.
Ao saber da compra do bilhete, nhanhã pôs as mãos na cabeça: