
Mas, a alfabetização. .. Os meninos estão brincando na escola. Quando chega à idade "an-
tropológica "em que todo mundo acha que deve saber ler, aia mãe fica furiosa: "Ah! o me-
nino não aprendeu a ler". O diabo é que tem menino, hoje, aprendendo a ler sozinho. A
maior confusão. Já viu? Mas hoje os estímulos presentes, dentro do corpo social, a televisão
e os cartazes etc, são tão abundantes que alguns meninos, terminam aprendendo a ler sozi-
nho, isto é, se ninguém atrapalha, ensinando, eles aprendem a ler. Então quando ele se alfa-
betiza, o menino já sabe ler, se os pais se desligam de novo. Se, dias depois, for reprovado,
em matemática, dizem: "O menino não dá pra Matemática". Ninguém diz: "Ele não dá pra
alfabetização". Nunca se diz isso. Não se alfabetizou, pronto: "Meu filho, oh! ou é heredi-
tário ou é o meio. . ." Eu respondo assim: "Eu não sei se foi o meio, em casa, ou a heredita-
riedade: de qualquer modo, a senhora é a culpada". Desde Roma que se fala no problema da
alfabetização. O que é alfabetização? É a decifração de um código que inventaram, para re-
produzir o som. Um risquinho combinado com outro significa algum som. A escrita devia ser
a forma de comunicação mais importante, nas escolas. Mas não! Em geral, as escolas não to-
mam conhecimento da escrita. Todo professor acha que deve "recitar" a aula. Não sei por-
quê. Quando morei, no Humaitá tinha, como vizinhos, dois colégios. De manhãzinha, não
precisava de despertador. Quando o professor começava a gritar, lá embaixo, sobre o des-
cobrimento do Brasil, eu, lá no décimo andar, acordava e comentava: "esse cara ainda afirma
essas besteiras. Não tá vendo que o Cabral não descobriu o Brasil por acaso? Só se o povo
português era, realmente, débil mental. Sair lá da África, chegar no Brasil, por acaso, seis mil
quilómetros e o almirante não notou que se tinha desviado da rota. Inventaram essa besteira
e o cara fica repetindo aos gritos". Por que o mestre não comenta a lição por escrito?
A maioria dos doutores, médicos, engenheiros, não passa perto de banca de jornal, pra
não ter de olhar pras manchetes e ter de ler. Daria nele um choque! Não lê nada. Há cara que
faz o curso todinho sem nunca ter aberto um livro. Tudo é apostila, ou de ouvida Você já
imaginou o sujeito ser surdo numa escola assim? Num país desses? País em que tudo é oral?
De maneira que esse problema da leitura é importante. Estamos voltando à oralidade. Você
vai ler um livro com um gravador: vá lendo e parando, fazendo comentários. Quando termi-
na, ao ouvir os comentários, você dispõe de toda a reflexão sobre a leitura. A maioria das
pessoas não passou pela escrita. E a escrita é a base de todo o progresso. A ciência tem de ser
escrita. Matemática só existe escrita. Ninguém faz matemática oral, porque você esquece o
que faz. Desde antigamente se usa o ábaco ou os próprios dedinhos para contar. Calcular vem
de calculus (cálculo renal): pedrinha. Inventaram o cálculo com pedrinhas. .. Eh, a máquina
de calcular!... Sempre se usou máquina, desde a pré-história. A máquina antiga era o ábaco,
as pedrinhas. O cara botava as pedrinhas nos bolsos enquanto as ovelhas iam saindo do cur-
ral. Passava as pedrinhas para o outro bolso. Se sobrasse uma pedrinha, faltava uma ovelha.
Ah, usar máquina! Mas é lógico! A matemática precisa ser sustentada em algum processo
concreto. Sem isto você não raciocina. Agora, voltemos ao grande problema da alfabetiza-
çáo. ..! Nesses últimos anos, nesse século, todo mundo inventa algum método de alfabetiza-
ção. Basicamente, o método tradicional é o silábico, o chinês usava-o antes da era do Crista
O método silábico vem da Idade Média (ba, be, bi, bo bu). Quando eu era menino, na esco-
linha, lá da minha terra, todo mundo tinha de sentar, num banco alto, balançando as pernas,
suspensas cantando: "um b com a, bá, b com é.. ." E todo mundo se alfabetizava. Existem,
hoje, os mais variados métodos. Por ocasião do Congresso Piagetiano, uma senhora queria
mostrar um projeto sobre alfabetização. Ora, Piaget não estuda métodos. Ele estuda-a cabeça
das pessoas. Eu não sabia como meter, no Congresso, o método de alfabetização da senhora.
Eu disse: "Faça uma demonstração". Ela tinha um saquinho cheio de coisinhas fabricadas
por ela, muito bonitinhas. Entáo ela, tirou uma motocicletazinha, e disse: "Olha. Isso aqui é
para ensinar o t". Eu disse. "Mas como? Motocicleta dá um t". Ela disse: "Não. Mas olhando
de frente... Você olha, assim, as rodas e os braços". Eu disse: "Mas, realmente! Todo mun-
do que vê motocicleta de frente já sabe que é um t"... Estas imbecilidades são vendidas, no
comércio, como "método de alfabetização"! O número de besteiras tidas como método de