Hércules enche o passado. Concretiza a alma dispersa das resistências. Vive na Pérsia, no
Egito, nas Gálias a tradição herculana, como símbolo da força propícia contra a força
adversidade. Hércules é o amparo e a defesa. O chão é rebelde e estéril, - Hércules é o sol que
cria a nuvem e a fecundidade. A humanidade está cercada pela conspiração dos monstros,
hostilizada pelas forças ocultas da natureza e pelas sugestões da maldade, a iniqüidade
devastadora campeia em auge - Hércules faz a justiça de Talião. Monstro de Neméia, hidra de
Lema, corcéis de Diomedes, touro de Creta, Anteu, Lacínio, Gerion, Cacus, Buziris, sob
qualquer fisionomia que se manifeste a tirania e a violência,. Q herói a chama a combate.
Zombou de Juno, que era a cólera celeste, e libertou Prometeu, que era o sofrimento humano.
Carregou aos ombros o firmamento, por alívio de Atlas, que era o trabalho forçado, e destruiu a
necessidade cosmegônica, abrindo à expansão ampla do oceano a clausura do pedrado
Mediterrâneo, erguendo às portas do Atlântico padrões eternos do cometimento - as poderosas
colunas.
Missionário do sacrifício, era a lei dos fados que o herói sucumbisse. Armou-se a intriga maldita
do amor da esposa com a vingança do centauro e Ele foi vencido, o bom, o forte, o justiceiro, o
sempre vencedor - pela traição do Destino. Sofreu como deve sofrer o sol envolvido no
esplendor flamejante da própria glória e, como o sol, vestindo a túnica da sua tortura, Hércules
fez a jornada do dia, caminho do ocidente, atravessando o teatro das grandes empresas, direito
às nuvens sobre o monte, escuras como o pressentimento dos amores de Iola, e foi pedir
sossego à morte na fogueira do Oeta, simultaneamente incendiada com a rebentação rubra do
crepúsculo.
Cristo é a mitologia nova. Veio aperfeiçoar o mosaísmo no sentido do coração e substituir o
ideal fatigado das aras pagãs. A fatalidade fluvial dos fatos reconquistara o primitivo andamento.
Haviam renascido os monstros do sangue derramado dos monstros. O egoísmo, filho da Terra
como Anteu, ressurgia da última derrota, válido e potente. Era preciso ensaiar de novo a
Redenção do Cáucaso. Nasceu, então, o filho de Maria, por graça do Espírito Santo, como
outrora o filho de Alcmene por obra de Júpiter. Repetiu-se o sagrado mistério da encarnação do
Ideal na humanidade: veio à luz o inimigo da serpente do Gênesis, esmagada como as de Juno.
Mas estava transformado o mundo. Começava a civilizar-se o mal, perdida a feição rudimentar
de brutalidade da natureza nascente, vegetando outro, sobre a geologia tranqüila do planeta
constituído; entrava até a decair a grandeza romana. O novo campeão, em vez da hercúlea dava
teve o ânimo da propaganda e um ramo de oliveira. Paz entre os homens na terra, como a
beatitude dos anjos na altura. Guerra ao demônio apenas, com as armas da fé e da graça. Crer
e esperar. Guerra ao demônio sensualidade, guerra ao demônio ambição - inimigos da ventura
calma do bem. Abaixo os altares do terror e do sangue! Façamos a eucaristia incruenta do
amor.
Arranquemos a espada às mãos da velha Justiça, em nome da Justiça nova do perdão. Contra
as vaidades, desprezo; contra as tiranias, paciência; contra as injúrias, silêncio: Jesus tacebat.
Amor ao homem por amor do Ideal divino.
E espalhou-se pelo universo a doutrina do pregador Nazareno; ora, terrível de energia como no
evangelho de ferro de São Mateus, com o estribilho tenaz dos prantos e o estridor dos dentes e
o nervoso conselho: quem tiver ouvidos - ouça! ora, triunfal e radiante, como em São João.
À semelhança do seu antecessor da Grécia pré-histórica, Cristo acabou no suplício. Falharia,
entretanto, a verdade do poema humano dos séculos, se, vitimados os heróis, não fosse salva a
apoteose da Idéia. O Bem é imortal. Hércules ressurge: