Download PDF
ads:
Fernanda Mourão
117 E OUTROS POEMAS
À PROCURA DA PALAVRA DE EMILY DICKINSON
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras:
Estudos Literários da Faculdade de Letras da Universidade
Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção
do título de Doutora em Letras – Literatura Comparada,
sob a orientação da Profa. Dra. Lucia Castello Branco.
Belo Horizonte, 11 de julho de 2008.
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
Fascículo 0
para Papai
Onde começa, numa obra,
o momento em que as palavras
se tornam mais fortes do que seu sentido
e em que o sentido se torna mais material
do que a palavra?
Maurice Blanchot
AGRADECIMENTOS
Ao Sérgio, pelo amor, a escrita e a vida, o trabalho das formas, a mão estendida.
Ao Mateus, pela companhia, a cumplicidade e as colaborações.
A JoMourão, Maria de Lourdes, Márcia e Simone, por estarem sempre por perto.
A Izabela DUrço, Maria Alice Sanna, paulo de andrade e Sônia Queiroz, pela participação na
concepção deste objeto.
À Sônia, mais uma vez, e ao Tom Burns, pela valiosa contribuição da leitura, para o Exame de
Qualificação.
Aos amigos da Faculdade de Letras da UFMG.
À Fapemig, que financiou parte desta pesquisa.
À Lucia Castello Branco, por tudo o que foi e que ainda será, para sempre.
CONTEÚDO
esta é minha carta ao mundo – fasculo 1
a procura da palavra – fascículo 2
o poder e a glória – fascículo 3
a rima e a vida – fascículo 4
amorte fascículo 5
outros poemas fascículo 6
carta-resposta ou do método – fasculo 7
RESUMO
Este trabalho procura, a partir da experiência de leitura e tradução de poemas e cartas de Emily
Dickinson, chegar a um pensamento sobre a tradução e um modo um método de traduzir, uma
poética extraída da própria escrita da poeta. Para compor o que seria esse pensamento sobre a
tradução e a escrita, convocou-se escritores como Walter Benjamin, Jacques Derrida, Maurice
Blanchot, Roland Barthes, Maria Gabriela Llansol e João Barrento, entre outros teóricos e
tradutores.
Palavras-chave: poesia, carta, escrita, tradão, publicação.
ads:
ABSTRACT
This work searches, departing from the experience of reading and translating Emily Dickinson’s
poems and letters, the conception of a thought about translation and a method of translating, a
poetics extracted from the very writing of the poet. In order to compose this thought about
translation and writing, some writers have been convoked such as Walter Benjamin, Jacques
Derrida, Maurice Blanchot, Roland Barthes, Maria Gabriela Llansol and João Barrento, among
other theoreticians and translators.
Key words: poetry, letter, writing, translation, publication.
REFERÊNCIAS
DE EMILY DICKINSON
DICKINSON, Emily. Collected poems. New York: Barnes & Noble Books, 1993.
DICKINSON, Emily. Selected Letters. Ed. Thomas H. Johnson. Cambridge, London: The
Belknap Press of Harvard University Pres, 1986.
DICKINSON, Emily. The complete poems of Emily Dickinson. Ed. Thomas H. Johnson.
Boston, New York, London, Toronto: Litle, Brown and Company, 1960.
TRADUÇÕES DE EMILY DICKINSON
ASCHER, Nelson. 9 poemas do inglês / Emily Dickinson: 5 poemas. In: Polímica, n. 3,
1981, p. 78-79.
BANDEIRA, Manuel; MEIRELES, Cecília. Emily Dickinson. In: MILLIET, Sérgio (Org.).
Obras primas da poesia universal. 3. ed. São Paulo: Martins, 1957. p.84-85.
BANDEIRA, Manuel. Cinco poemas de Emily Dickinson. In: _______. Estrela da vida
inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p.406-407.
BRITTO, Paulo Henriques. Cinco poemas. In: Inimigo Rumor, n. 6, 1999. p.40-47.
CAMPOS, Augusto de. O anticrítico. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.105-119.
CESAR, Ana Cristina. Cinco e meio. In: ________, Crítica e tradução. São Paulo: Ática,
1999, p.383-398.
DICKINSON, Emily. Algumas cartas: cartas de Emily Dickinson a Thomas Wentworth
Higginson. Trad. Rosaura Eichenberg. Florianópolis: Noa Noa, 1983.
DICKINSON, Uma centena de poemas. Trad. Aíla de Oliveira Gomes. São Paulo: T. A.
Queiroz / Edusp, 1985.
DICKINSON, Emily. Poemas. Trad. Idelma Ribeiro de Faria. São Paulo: Hucitec, 1986.
DICKINSON, Emily. Bilhetinhos com poemas. Trad. Ana Fontes. Sintra: Colares, 1995.
DICKINSON, Emily. Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas. Trad. Cecília Rego
Pinheiro. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997.
DICKINSON, Fifty poems: cinqüenta poemas. Trad. Isa Marà Lando. Rio de Janeito / São
Paulo: Imago / Alumni, 1999.
DICKINSON, Emily. 75 poemas. Trad. Lucia Olinto. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.
DICKINSON, Emily. Poemas de Emily Dickinson. Trad. Ivo Bender. Porto Alegre: Mercado
Aberto: 2002.
DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2006.
DICKINSON, Emily. Um livro de horas. Trad. Angela-Lago. São Paulo: Scipione, 2007.
FARIA, Idelma Rimeiro de. T. S. Eliot, Emily Dickinson, René Depestre: Seleção, Tradução
e Ensaios. São Paulo: Hucitec, 1992. p.86-141.
FARR, Judith. Nunca lhe apareci de branco. Trad. Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro:
Rocco: 1998. Trad. poema 632. p.239.
JOHNSON, Mistério e Solidão: a vida e a obra de Emily Dickinson. Trad. Vera das Neves
Pedroso. Rio de Janeiro: Lidador, 1965.
MENDES CAMPOS, Paulo. Oito poemas. In: _________. Trinca de copas. Rio de Janeiro:
Achiamé, 1984. p.47-50.
MOURÃO, Fernanda. Tradução de poemas e cartas. In: BRANCO, Lucia Castello. A branca
dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson. Rio de Janeiro: 7Letras / Belo Horizonte:
UFMG, 2003, p.83-104.
PIGNATARI, Décio. Poesia pois é poesia: 1950-1975. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
p.71,73.
SOBRE EMILY DICKINSON
BIANCHI, Martha Dickinson. Emily Dickinson face to face. Boston, New York: Houghton
Miffin Company, 1932.
BRANCO, Lucia Castello. A branca dor da escrita. Três tempos com Emily Dickinson.
Tradução dos poemas e cartas: Fernanda Mourão. Rio de Janeiro: 7Letras; Belo Horizonte:
UFMG, Programa de Pós-graduação em Letras, 2003.
CODY, John. After great pain. The inner life of Emily Dickinson. Cambridge, Massachussets
/ London, England: Harvard College, 1992.
FRANKLIN, R. W. The manuscript books of Emily Dickinson. Cambridge, London: The
Belknap Press of Harvard University Press, 1981. V. 1. Introduction.
HART, Ellen Louise. The encoding of homoerotic desire. Emily Dickinson’s letters and
poems to Susan Dickinson, 1850-1886. In: TURCO, Lewis (Org.). Emily Dickinson: woman
of letters. Albany: State University of New York Press, 1993. p. 99-128.
JOAQUIM, Augusto. Como começam as cidades. Prefácio a DICKINSON, Emily. Bilhetinhos
com poemas. Trad. Ana Fontes. Colares: Colares Editora, 1995. p.5-32.
JOHNSON, Thomas H. Introduction. In: DICKINSON, Emily. The complete poems of Emily
Dickinson. Ed. Thomas H. Johnson. Boston, New York, London, Toronto: Litle, Brown
and Company, 1960. p. v-xi.
LIRA, José. Emily Dickinson e a poética da estrangeirização. Recife: Programa de Pós-
Graduação em Letras – UFPE, 2006.
LIRA, José. A críptica beleza. In: DICKINSON, Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo:
Iluminuras, 2006. p.21-40.
POLLAK, Vivian R. Dickinson: the anxiety of gender. Ithaca/London: Cornell University
Press, 1984.
SCHERWOOD, William R. Circunference and circumstance. Stages in the mind and art of
Emily Dickinson. New York, London: Columbia University Press, 1968.
WOOLF, Cynthia Griffin. Emily Dickinson. New York: Wesley Publishing Company INC,
1996.
GERAL
ANDRADE, Paulo de. Nada no dia se vê da noite esta passagem: amor, escrita e tradução em
Marguerite Duras. Belo Horizonte, Faculdade de Letras da UFMG, 2005 (Tese de
Doutorado em Literatura Comparada).
BARRENTO, João. A espiral vertiginosa. Ensaios sobre a cultura contemporânea. Lisboa:
Cotovia, 2001. p.83-104.
BARRENTO, João. O poço de Babel: para uma poética da tradução literária. Lisboa:
Antropos; Relógio d’Água, 2002.
BARRENTO. O que resta sem resto sobre o fragmento. In: NOVALIS. Fragmentos são
sementes. Lisboa: Roma Editora, 2006. p.9-19.
BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, s.d.
BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, s.d.
BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988.
BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loyola. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1985.
BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. 2. ed. (rev.). Rio de Janeiro, Instituto de
Letras/UERJ, s.d., p.v-xii (Cadernos do Mestrado). (Trad. Karlheinz Bark e equipe).
BLANCHOT, Maurice. Traduzir. Tradução inédita de Cynthia de Cássia Santos Barra, a
partir de BLANCHOT, Maurice. Traduire. In: ______. L’amitié. Paris: Gallimard, 1971. p.
69-73.
BLANCHOT, Maurice. A besta de Lascaux. Tradução inédita de Márcio V. Barbosa, a partir
de BLANCHOT, Maurice. La bête de Lascaux. Paris: Fata Morgana, 1972.
BLANCHOT, Maurice. L’écriture du desastre. Paris: Gallimard, 1980.
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Lisboa: Relógio d’Água, 1984.
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
BRANCO, Lucia Castello. Encontro com escritoras portuguesas. Boletim do CESP. Belo
Horizonte: UFMG, v. 14, n. 16, p. 103-114, jul.-dez. 1993.
BRANCO, Lucia Castello. A traição de Penélope. São Paulo: AnnaBlume, 1994.
BRANCO, Lucia Castello; BRANDÃO, Ruth Silviano. Literaterras. As bordas do corpo
literário. São Paulo: AnnaBlume, 1995, p. 131-147. (Coleção E, 4).
BRANCO, Lucia Castello. Os absolutamente sós. Llansol a letra Lacan. Belo Horizonte:
Autêntica, 2000.
BRANCO, Lucia Castello; BRANDÃO, Ruth Silviano (orgs.). A força da letra. Estilo, escrita
representação. Belo Horizonte: Editora UFMG/PósLit – Fale-UFMG, 2000.
BRANCO, Lucia Castello. A branca dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson.
Tradução dos poemas e cartas: Fernanda Mourão. Rio de Janeiro: 7Letras; Belo Horizonte:
UFMG, Programa de Pós-graduação em Letras, 2003.
CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras,
1993.
CAMPOS, Haroldo de. A palavra vermelha de Hölderlin. In: CAMPOS, Haroldo de. A arte no
horizonte do provável. São Paulo: Perspectiva, 1977.
CAMPOS, Haroldo de. Para além do princípio da saudade. Folha de S. Paulo. Folhetim, 9
dez. 1984.
CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura comparada. São Paulo: Ática, 2001. (Série
Princípios).
CARVALHAL, Tânia Franco. O próprio e o alheio. Ensaios de literatura comparada. São
Leopoldo: Unisinos, 2003.
CARVALHO, Raimundo; SALGUEIRO, Wilberth (Orgs.). Sob o signo de Babel. Vitória:
PPGL/MEL; Flor&Cultura Editores, 2006.
CELAN, Paul. Arte poética. Lisboa: Cotovia, 1996.
COMTE-SPONVILLE, André. O amor a solidão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1997.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Kafka: por uma literatura menor. Rio de Janeiro:
Imago, 1977.
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 1995.
DERRIDA, Jacques. O que é uma tradução “relevante”? Alfa. Revista de Lingüística. São
Paulo, Unesp/Fapesp, v. 44, 2000. (número especial: Tradução, desconstrução e pós-
modernidade.)
DERRIDA, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia? Coimbra: Angelus Novus, 2003.
DURAS, Marguerite; GAUTIER, Xavière. Les parleuses. Paris: Minuit, 1974.
DURAS, Marguerite. A vida material. Trad. Heloísa Jahan. Rio de Janeiro: Globo, 1989.
DURAS, Marguerite. Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
DURAS, Marguerite. É tudo. Trad. Hygina Bruzzi. Cadernos Viva Voz. Belo Horizonte:
Fale/UFMG, 2006.
FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. São Paulo: Princípio, 1990.
LACAN, Jacques. Escritos. São Paulo: Perspectiva, 1978. p.17-67: Seminário sobre “A carta
roubada”; p.223-259: A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud.
LACAN, Jacques. Le séminaire. Livre VII. L’éthique de la psychanalyse. Paris: Seuil, 1986.
LACAN, Jacques. Homenagem a Marguerite Duras pelo “Arrebatamento de Lol V. Stein”.
In: LACAN, Jacques. Shakespeare, Duras, Wedekind, Joyce. Trad. e org. José Martinho.
Lisboa: Assírio & Alvim, 1989.
LAGES, Susana Kampff. Walter Benjamin: tradução e melancolia. São Paulo: Edusp, 2002.
LLANSOL, Maria Gabriela. Hölder, de Hölderlin. Colares: Colares Editora, s.d.
LLANSOL, Maria Gabriela. Um falcão no punho. 2. ed. Lisboa: Relógio d’Água, 1988.
LLANSOL, Maria Gabriela. O curso natural. Prefácio a ÉLUARD, Paul. Últimos poemas de
amor. Trad. Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio d’Água, 2002. p.13-22.
LLANSOL, Maria Gabriela. O jogo da liberdade da alma. Lisboa: Relógio d’Água, 2003.
LOPES, Silvina Rodrigues. Literatura, defesa do atrito. Lisboa: Vendaval, 2003.
MESCHONNIC, Henri. La rime et la vie. Lagrasse: Verdier, 1989.
NOVALIS. Fragmentos são sementes. Lisboa: Roma Editora, 2006.
PAZ, Octavio. Tradução, literatura e literariedade. Trad. Doralice Alves de Queiroz.
Cadernos Viva Voz, Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2006.
REY, Jean-Michel. O nascimento da poesia: Antonin Artaud. Trad. Ruth Silviano Brandão.
Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
SCHNEIDER, Michel. Ladrões de palavras. Campinas: Editora da UNICAMP, 1990.
SILVA, Maria das Graças G. Villa da. O silêncio das línguas. A possibilidade de traduzir um
poema. Revista de Letras. São Paulo, Unesp, v. 40, p. 181-191, 2000.
SOUZA, Eneida Maria de. Literatura Comparada: o espaço nômade do saber. Revista
Brasileira de Literatura Comparada. Abralic, n. 2, p. 19-24.
LISTA GERAL DE POEMAS
Em ordem crescente, e de acordo com a numeração da edição de T. H. Johnson, The
complete poems of Emily Dickinson.
28 So has a Daisy vanished
Então se foi a Margarida
49 I never lost as much but twice
Perdi tudo duas vezes
50 I haven’t told my garden yet
Ainda não contei ao meu jardim –
54 If I should die
Se eu devesse morrer
56 If I should cease to bring a Rose
Se eu deixar de trazer uma Rosa
67 Success is counted sweetest
O Sucesso é tão mais doce
71 A throe upon the features –
Um espasmo nas feições –
98 One dignity delays for all –
Uma honra que às vezes demora
106 The Daisy follows soft the Sun –
A Margarida segue suave o Sol
114 Good night, because we must
Boa noite, porque devemos
136 Have you got a Brook in your little heart
Você tem um Riacho no peito
137 Flowers – Well – if anybody
Flores – Bem – se pode alguém
145 This heart that broke so long
O coração há muito partido –
153 Dust is the only Secret –
O Pó único Segredo
162 My River runs to thee –
Meu Rio corre para ti –
164 Mama never forget her birds
Mamãe nunca esquece os passarinhos
169 In Ebon Box, when years have flown
A Caixa de Ébano, anos depois
177 Ah, Necromancy Sweet!
Ah, Doce Necromancia!
180 As if some little Arctic flower
Como se uma pequena flor do Ártico
184 A transport one cannot contain
Um transporte que não se contém
190 He was weak, and I was strong – then –
Ele era fraco, e eu forte – então –
199 I’m “wife” – I’ve finished that –
Sou “esposa” – está acabado –
211 Come slowly – Eden!
Vem devagar – Éden!
216 Safe in their Alabaster Chambers
A salvo em seus quartos de Alabastro –
221 It can’t be “Summer”!
Não pode ser “Verão”!
240 Ah, Moon – and Star!
Ah, Luae Estrela!
241 I like a look of Agony
Gosto de um olhar de Agonia
244 It is easy to work when the soul is at play
É bom trabalhar quando a alma brinca
246 Forever at His side to walk –
Sempre a Seu lado andar –
249 Wild Nights – Wild Nights!
Noites Selvagens – Noites Selvagens!
250 I shall keep singing!
Continuarei cantando!
253 You see I cannot see – your lifetime –
Você vê que não posso ver sua existência –
256 If I’m lost – now
Se estou perdida – agora
258 There’s a certain Slant of light
uma certa Intenção de luz
273 He put the Belt around my Life
Ele colocou o Cinto em minha vida
280 I felt a Funeral, in my Brain
Senti um Funeral em meu Cérebro
281 ’Tis so appalling – it exhilarates –
Tão temível – que alegra
284 The Drop, that wrestles in the Sea –
A Gota, querendo o Mar –
288 I Nobody! Who are you?
Eu sou Ninguém! Quem é você?
301 I reason, Earth is short –
Penso, a Terra é curta –
318 I’ll tell you how the Sun rose
Vou te contar como o Sol nasceu –
319 The nearest Dream recedes unrealized
O sonho mais próximo recua adiado
320 We play at Paste –
Brincamos com a Massa Vítrea –
323 As if I asked a common Alms
Como se eu pedisse uma simples Esmola
334 All the letters I can write
Todas as cartas que eu escreva
341 After great pain, a formal feeling comes –
Depois de grande dor, vem um sentimento formal –
349 I had the Glory that will do
Tive Glória é o bastante –
368 How sick – to wait – in any place – but thine
Que aflição – esperar – em um lugar – que não o teu –
406 Some Work for immortality
Alguns trabalham para a Imortalidade –
418 Not in this World to see his face –
Não neste mundo ver seu rosto –
429 The Moon is distant from the Sea
A Lua é do Mar distante –
434 To love thee Year by Year –
Amar-te Ano após Ano
438 Forget! The lady with the Amulet
Esqueça! A mulher com o Amuleto
441 This is my letter to the World
Esta é minha carta ao Mundo
448 This was a Poet
Este foi um Poeta
449 I died for Beauty – but was scarce
Pela Beleza morri – mas mal
453 Love – thou art high
Amor – tu, arte alta
456 So well that I can live without
Tanto que posso viver sem –
463 I live with Him – I see His face –
Vivo com Ele – vejo Seu rosto –
464 The power to be true to You
O poder de ser fiel a Você
465 I heard a Fly buzzwhen I died –
Ouvi uma Mosca zumbir – quando morria –
478 I had no time to hate –
Não tive tempo para odiar –
485 To make One’s Toillete – after Death
Fazer a Toalete – depois
487 You love the Lord you cannot see
Amas o Senhor e não vês –
488 Myself was formed a Carpenter
Me formei Carpinteiro –
491 While it is alive
Enquanto isso viver
494 Going to Him! Happy Letter!
Vai até Ele Carta feliz!
498 I envy Seas whereon He rides –
Invejo os Mares onde Ele navega
505 I would not paint a picture –
Eu não pintaria um quadro
508 I’m ceded – I’ve stopped being Theirs –
Fui transferida – deixei de ser Deles –
516 Beautybe not caused – It is –
A Beleza – não é provocada – ela é
521 Endow the Livingwith the Tears –
Dotassem os vivos – com as lágrimas –
523 Sweet – You forgot – but I remembered
Amor – você esqueceu – mas eu lembrei
524 Departed – to the Judgement –
Embora – ao Julgamento –
528 Mine – by the Right of the White Election!
Meu – por Direito da Eleição Branca!
530 You cannot put a Fire out
Não se pode expulsar o Fogo
537 Me prove it now Whoever doubt
Eu provo agora – quem duvida
544 The Martyr Poets did not tell
O Poeta Mártir não contou
549 That I did always love
De que eu sempre amei
568 We learned the Whole of Love –
Aprendemos todo o Amor –
569 I reckon when I count at all
Calculo que quando contá-los todos –
570 I could dieto know
Eu morreria – pra saber –
571 Must be a Woe –
Deve ser um Pesar –
572 Delight – be pictorial –
O Deleite – se torna vívido
573 The Test of Love – is Death
O Teste do Amor – é a Morte –
599 There is a pain so utter –
uma dor – tão completa
620 It makes no difference abroad –
Não faz diferença lá fora
636 The way I read a Letter’s – this –
Meu Modo de ler uma cartaé assim –
638 To my small Hearth His Fire came –
Ao meu pequeno Coração seu fogo veio –
640 I cannot live with You
Eu não posso viver com Você –
643 I could suffice for Him, I knew –
Eu poderia bastar a Ele, eu sabia –
644 You left me – Sire – two Legacies –
Deixou-me – Sr. – dois Legados
650 Pain – has an Element of Blank
A Dor – tem um elemento em Branco –
654 A long – long Sleep – A famous – Sleep –
Um longo famoso – Sono
664 Of all the Souls that stand create –
De todas as Almas existentes
695 As if the Sea should part
Como se o Mar se abrisse
709 Publication is the Auction
Publicação eis o Leilão
713 Fame for Myself, to justify
Fama, para Mim, comprova
729 Alter! When the Hills do
Mudar! Se o fizer a Montanha –
738 You said that I “was Great” – one Day –
Você disse que eu era “Grande” – um Dia –
740 You taught me Waiting with Myself –
Você me ensinou a Espera –
749 All but Death, can be adjusted –
Tudo exceto a Morte, pode-se ajustar –
751 My Worthiness is all my Doubt
Meu Mérito é toda a minha Dúvida –
775 If Blame be my side – forfeit Me
Se a Culpa está comigo Perde-me
780 The Truth – is stirless
A Verdade – não se mexe
781 To wait an Hour – is long –
Esperar uma Hora – é muito –
808 So set its Sun in Thee
Se coloco o Sol em Ti
809 Unable are the Loved to die
Incapazes são os amados de morrer
813 This quiet Dust was Gentlemen and Ladies
Este discreto Pó foi Senhores e Damas
836 Truth – is as old as God
A Verdade – é velha como Deus –
850 I sing to use the Waiting
Eu canto para usar da Espera
866 Fame is he tint that scholars leave
Fama é matiz que deixa o Sábio
877 Each Scar I’ll keep for Him
Cada Cicatriz guardada pra Ele
883 The Poet light but Lamps –
Os Poetas inflamam –
887 We outgrow love, like other things
Superamos o amor, como outras coisas
903 I hide myself within my flower
Eu me escondo em minha flor
907 Till Death – is narrow Loving –
Até a Morte – o Amor é curto –
909 I make His Crescent fill or lack –
Faço seu Quarto crescer ou minguar
914 I cannot be ashamed
Eu não posso ter vergonha
917 Love is anterior to Life
O Amor é ancestral da Vida –
924 Love is that later thing than Death –
Amor é aquilo posterior à Morte –
956 What shall I do when the Summer troubles –
O que farei quando o Verão estorvar
960 As plan for Noon and plan for Night
Plano pro Dia, plano pra Noite
967 Pain – expands the Time
A Dor – expande o Tempo –
976 Death is a Dialogue between
A Morte é um Diálogo
988 The Definition of Beauty is
A Definição da Beleza é
1005 Bind me – I still can sing
Ata-me – e posso cantar ainda
1026 The Dying need but little, Dear
Quem more, meu bem, pouco precisa
1028 ’Twas my one Glory –
Foi minha única Glória
1049 Pain has but one Acquaintance
A Dor tem um só Conhecido
1052 I never saw a Moor –
Nunca vi um Pântano
1053 It was a quiet way –
Foi de um jeito quieto –
1063 Ashes denote that Fire was –
Cinzas mostram que o Fogo foi
1067 Except the smaller size
Exceto as de pequeno porte
1071 Perception of an object
A Percepção de um objeto
1088 Ended, ere it begun –
Terminado, antes de começar
1126 Shall I take thee, the Poet said
Devo tomar-te? Disse o Poeta
1129 Tell all the Truth but tell it slant –
Diga toda a Verdade mas diga devagar –
1132 The smouldering embers blush –
O carvão queimando cora
1136 The Frost of Death was on the Pane –
O Gelo da Morte na Vidraça –
1168 As old as Woe –
Velho como a Dor –
1203 The Past is such a curious Creature
O Passado é curioso
1212 A Word is dead
Uma Palavra é morta
1218 Let my first knowledge be of thee
Que o meu primeiro Saber seja teu
1229 Because He loves Her
Porque Ele a ama
1231 Somewhere upon the general Earth
Nalgum lugar desta Terra
1240 The Beggar at the Door for Fame
O Pedinte à Porta da Fama
1247 To pile like a Thunder to its close
Acumular o estrondo como o Trovão
1248 The incidents of love
Os incidentes do amor
1263 There is no Frigate like a Book
Não Fragata como o Livro
1272 So proud she was to die
Tão orgulhosa de morrer
1307 That short – potential stir
Um breve – potente tumulto
1313 Warm in her Hand these accents lie
Quente em sua Mão repousa o acento
1314 When a Lover is a Beggar
Quando o Amante é um Pedinte
1334 How soft this Prison is
Tão agradável a Prisão
1383 Long Years apart – can make no
Longos Anos longe – não causam fenda
1398 I have no Life but this –
Não tenho outra Vida mas esta –
1445 Death is the supple Suitor
A Morte é um Pretendente
1449 I thought the Train would never come –
Pensei que o Trem nunca viria –
1453 A Counterfeit – a Plated Person –
Uma Farsa – um Encouraçado –
1455 Opinion is a flitting thing
A Opinião, rápido se esvai
1456 So gay a Flower
Tão vibrante a Flor
1472 To see the Summer Sky
Ver o Céu de Verão
1474 Estranged from Beauty – none can be –
Apartado da Beleza – ninguém vive –
1475 Fame is the one that does not stay
Fama é aquela que não demora –
1485 Love is done when Love’s begun
Faz-se o Amor quando o Amor nasce
1530 A Pang is more conspicuous in Spring
Uma Dor na Primavera é mais evidente
1531 Above Oblivion’s Tide there is a Pier
Acima da Maré do Esquecimento há um Cais
1563 By homely gift and hindered Words
Por um dom primitivo e Palavras tortas
1619 Not knowing when the Dawn will come
Sem saber quando vem o Dia
1639 A Letter is a joy of Earth
A Carta é uma alegria da Terra
1654 Beauty crowds me till I die
Beleza, habita-me à morte
1659 Fame is a fickle food
Fama é comida inconstante
1660 Glory is that bright tragic thing
Glória é aquele algo trágico e radiante
1680 Sometimes with the Heart
Com o Coração – às vezes
1695 There is a solitude of space
Existe a solidão do céu
1716 Death is like the insect
A Morte é como o Inseto
1731 Love can do all but raise the Dead
O Amor pode tudo, mas não ergue os Mortos
1732 My Life closed twice before its close –
Minha Vida fechou duas vezes antes do fim –
1755 To make a prairie it takes a clover and one bee
Para fazer um prado é preciso
1760 Elysium is as far as to
O Paraíso é tão longe
1763 Fame is a bee
Fama é uma abelha
1765 That Love is all there is
Que o Amor é tudo o que existe
1775 The earth has many keys
O mundo tem muitas chaves
Fascículo 1
ESTA É MINHA CARTA AO MUNDO
para Sérgio
Saber que não se escreve para o outro, saber que as coisas que vou
escrever não me farão nunca amado por aquele que amo, saber que
a escritura não compensa nada, não sublima nada, que ela está
precisamente aí onde você não está – é o começo da escritura.
Roland Barthes
15 de abril de 1862
Sr. Higginson,
O senhor está tão intensamente ocupado para dizer se o meu Verso está vivo?
A Mente está, ela própria, tão próxima – não pode ver com clareza – e não tenho
a quem perguntar –
Se o senhor achar que respira e puder me dizer eu sentiria imediata gratidão
Se eu cometo o equívoco que ousará dizer me daria grande honra com o
seu gesto –
Incluo o meu nome pedindo-lhe, se me faz o favor senhor de me dizer o
que é verdade?
Que o senhor não me traia é desnecessário pedir que a Honra é garantia dela
mesma –
A salvo em seus quartos de Alabastro –
Intocados pela Manhã
E intocados pela Tarde
Dormem meigos os membros da Ressurreição –
Viga de Cetim – e Teto de Lage.
Grandiosos, vão-se os Anos – no Crescenteacima –
Mundos cavam seus Arcos –
E Firmamentos – sucedem –
Diademas – tombam – e Doges – se rendem –
Em silêncio como gotas – em um Disco de Neve –
***
Vou te contar como o Sol nasceu
Uma fita por vez
As Torres mergulhadas em Ametista –
Notícias, como Esquilos, a correr –
Os Montes desatando os Gorros
Começava – o Curió –
Então eu disse a mim mesma
“Deve ter sido o Sol”!
Mas como ele se pôs não sei dizer
Parecia uma púrpura escada
E pequenas crianças Douradas
Escalando sem parar
Até que ao chegar do outro lado,
Um Sacerdote em Negro Manto
Hasteou a Bandeira da Noite –
E conduziu embora o bando
***
O Sonho mais próximo recua – adiado
O Céu que perseguimos,
Como a Abelha – diante do Menino,
Convida ao Brinquedo –
Inclina-se – a um Trevo –
Mergulha – escapa – provoca – faz que luta
E aí – às Nuvens Régias
Eleva seu leve Barco
Esquecida do Menino –
Fita – confusa – o céu que zomba –
Saudosa do Mel que espera
Ah, a Abelha não voa.
Fermenta o raro néctar!
***
Brincamos na Massa Vítrea –
E aí, para Pérola treinados –
Deixamos então a Massa –
E nos julgamos insensatos –
As Formas porém – as mesmas
E nossas Mãos atuais
Chegaram a Táticas de Gema
Praticando Areais
***
Ao introduzir The complete poems of Emily Dickinson, Thomas H. Johnson
1
identifica algumas datas importantes na história literária americana durante o século XIX.
Uma delas seria 21 de agosto de 1837, quando Emerson, na ocasião da formatura da turma
de Thoreau, apresenta seu “American Scholar”, imediatamente aclamado pelo então jovem
Oliver Wendell Holmes como “nossa Declaração da Independência intelectual.” Outra
poderia ser um dia de julho, em 1855, quando Walt Whitman coloca pela primeira vez em
circulação, para um público restrito, cópias impressas de Leaves of grass. Finalmente, outra
data seria, inquestionavelmente, 15 de abril de 1862, quando Thomas Wentworth
Higginson recebe essa primeira carta de Emily Dickinson, acompanhada de quatro de seus
poemas.
De fato, a importância da correspondência de Emily Dickinson com aquele que
seria seu “preceptor” até o fim da vida não pode ser subestimada. Higginson seria, a partir
daquela primeira carta, seu maior “público” e também aquele que levaria sua obra a
público, embora apenas depois da morte da escritora. Na referida data, Emily, contando
então trinta e um anos, e com uma produção de nada menos que trezentos poemas,
escreve ao homem de letras profissional para perguntar se seus versos “respiravam”.
Higginson, na época, colaborava em diversos jornais escrevendo sobre Emerson,
Hawthorne, Lowell, James, Helen Jackson (o único escritor no caso, escritora com
quem Dickinson se correspondeu), Whitman, Longfellow, Poe etc.
Emily toma a iniciativa de escrever a Higginson ao ler, no Atlantic Monthly, seu
artigo intitulado “Letter to a young contributor”, que oferecia conselhos práticos para os
jovens escritores desejosos de iniciar uma carreira. Higginson era conhecido como um
pensador liberal e interessado na condição da mulher, particularmente da mulher escritora.
Em seu artigo de jornal, declarava sua satisfação em poder trazer a público novos talentos.
Contudo, o típico tradicionalista naqueles meados do século XIX não esperava ser
convocado a comentar e endossar o trabalho de um talento completamente novo, como
aqueles primeiros poemas recebidos o revelavam.
1
Jonhson é o editor de The complete poems of Emily Dickinson, bem como de Selected letters, ambas edições
usadas neste trabalho. Todos os poemas e cartas de Dickinson (e a ela endereçadas) aqui apresentados são
traduções minhas a partir das referidas edições, e muitas vezes serão tratados pela numerão que recebem
nas edições de Johnson.
O mesmo estranhamento e atração provocados pela primeira carta de Emily
acompanhariam Higginson por toda a vida. Em 1891, ele escreve um artigo descrevendo o
início de sua correspondência com a escritora:
A impressão de um gênio completamente novo e original foi clara em minha mente na
ocasião da primeira leitura daqueles quatro poemas como o é ainda agora, depois de
trinta anos de um maior conhecimento; e com aquela impressão veio o problema, até
hoje não resolvido, de qual lugar seria reservado na literatura para o que é tão
impressionante e ao mesmo tempo tão indefinível à crítica.
2
De fato, sua obra resistiria desafiando uma crítica disposta a encontrar, a qualquer
preço, indícios na vida da escritora que pudessem “justificar” sua escrita tão peculiar, em
uma interpretação biográfica baseada na imediata relação vida-obra. Sem sucesso, muitas
vezes essa crítica terminou por concordar com o fato de que “é difícil determinar
precisamente ‘sobre o que’ essa poesia nos fala.
3
Se não conseguimos compreender Emily Dickinson através de sua vida pessoal,
tampouco a época literária em que viveu nos é elucidativa nessa tarefa. Quem eram os
contemporâneos de Emily? Ao lado de Walt Whitman, Emily é apontada como a maior
poeta na literatura americana do século XIX. Mas quais teriam sido suas “influências”?
Também Higginson, ao se deparar com sua poesia, quis sabê-lo. E eis a resposta que
recebe, entre outras sobre idade, família, educação:
Sr. Higginson,
Sua delicadeza exigira gratidão imediata – mas estive doente – e escrevo hoje, na cama.
Obrigada pela cirurgia – não foi tão dolorosa como eu supunha. Trago-lhe outros
[poemas] – como o senhor me pede – embora eles pareçam não diferir –
Enquanto meu pensamento está despido Eu posso fazer a distinção, mas quando os
coloco na Toga – eles parecem semelhantes, e entorpecidos.
O senhor perguntou quantos anos eu tinha? Não fiz versos apenas um ou dois até
este inverno – senhor.
Vivi um terror desde setembro não poderia contá-lo a ninguém e então eu canto,
como o Menino canta em torno das Sepulturas, porque tenho medo o senhor pergunta
sobre meus Livros Por Poetas Tenho Keats e Sr. e Sra. Browning. Em Prosa Sr.
Ruskin Sir Thomas Browne e o Apocalipse. Entrei para a escola – mas, por assim dizer
não tive educação. Quando Menina, tive um amigo, que me ensinou a Imortalidade – mas
aventurando-se muito perto, ele próprio nunca retornou Logo depois, meu tutor morreu
e por vários anos, meu Léxico foi meu único companheiro Depois encontrei mais um
– mas ele não me quis como discípula – e então deixou o Terreno.
O senhor pergunta sobre meus Companheiros, Colinas senhor – e o Pôr-do-Sol e um
Cão tão grande como eu, que meu Pai me trouxe Eles são melhores que Pessoas
porque sabem mas não contam e o barulho no Poço, ao Meio-dia, supera meu Piano.
2
JOHNSON. Introduction, p.6. Tradução minha.
3
WOOLF. Emily Dickinson, p.140.
Tenho um Irmão e uma Irmã Minha e não importância ao Pensamento e o Pai,
muito ocupado com seus Relatórios para perceber o que fazemos Ele me compra muitos
Livros mas implora para que eu não os leia porque teme que eles perturbem a Mente.
Eles são religiosos exceto eu e cortejam um Eclipse, toda manhã que eles chamam de
“Pai”. Mas temo que minha história o fatigue Eu gostaria de aprender o senhor poderia
me ensinar como crescer – ou é intransmissívelcomo Melodia – ou Bruxaria?
O senhor fala do sr. Whitman nunca li seu Livromas me foi dito que ele é infame
De Miss Prescott, li “Circunstância”, mas o texto me seguiu, na escuridão então eu a
evitei –
Dois Editores de Jornais vieram até a Casa de meu Pai, este inverno e me perguntaram
sobre minha Mente e quando lhes perguntei Por quê”, disseram-me que sou digna de
pena – e eles usariam isso para o Mundo –
Não poderia mensurar-me a mim mesma – Eu mesma –
Meu tamanho senti pequeno para mim Li seus Capítulos no “Atlântico e senti
orgulho do senhor – Estava certa de que o senhor não recusaria uma questão confidencial –
É isto – senhor – o que pediu para lhe contar?
Sua amiga,
E – Dickinson
4
Mr Higginson,
Your kindness claimed earlier gratitude but I was ill and write today, from my
pillow.
Thank you for the surgery it was not so painful as I supposed. I bring you others as
you ask though they do no differ / While my thought is undressed I can make the
distinction, but when I put them in the Gown – they look alike, and numb.
You asked how old I was? I made no verse – but one or two – until this winterSir –
I had a terror – since September – I could tell to none – and so I sing, as the Boy does by
the Burying Ground because I am afraid You inquire my Books For Poets I have
Keats and Mr and Mrs Browning. For Prose Mr Ruskin Sir Thomas Browne and the
Revelations. I went to school but in your manner of the phrase had no education. When
a little Girl, I had a friend, who taught me Immortality but venturing too near, himself
he never returned Soon after, my Tutor, died and for several years, my Lexicon was
my only companion Then I found one more but he was not contented I be his scholar
so he left the Land.
You ask of my Companions Hills Sir and the Sundown and a Dog large as
myself, that my Father bought me They are better than Beings because they know, but
do not tell and the noise in the Pool, at Noon excels my Piano. I have a Brother and
Sister My Mother does not care for thought and Father, too busy with his Briefs to
notice what we do He buys me many Books but begs me not to read them because he
fears they joggle the Mind. They are religious except me and address an Eclipse, every
morning whom they call ‘Father.’ But I fear my story fatigues you I would like to learn
– Could you tell me how to grow – or it is unconveyed – like Melody – or Witchcraft?
You speak of Mr Whitman I never read his Book – but was told that he was
disgraceful –
4
Carta 261, em 25 de abril de 1862. O original seguirá no corpo do texto, logo após cada carta de Emily
Dickinson traduzida.
I read Miss Prescott’s Circumstance,but it followed me, in the Dark so I avoided
and when I asked them Why,’ they said I was penurious and they, would use it for the
World
I could not weight myself – Myself –
My size felt small to me I read your Chapters in the Atlantic and experienced
honor for you I was sure you would not reject a confiding question –
Is this – Sir – what you asked me to tell you?
Your friend,
E – Dickinson
Emily Dickinson uma idéia de sua existência até então. Vaga idéia, entretanto,
que traz apenas traços de vida, menção a alguns nomes, uma atenção especial ao cão
Carlo, ao que parece, o ser mais importante da casa, para ela, e ao qual se refere em várias
cartas –, os livros – não tanto os autores –, a relação difícil com a mãe e o pai, e desde já os
editores. Sobre sua idade, vale comentar o trecho “O senhor perguntou quantos anos eu
tinha? Não fiz versos apenas um ou dois até este inverno senhor”. Quando escreveu a
Higginson, aos trinta e um anos, Emily Dickinson contava com uma produção de trezentos
poemas aproximadamente e, nem pela quantidade, nem pela qualidade, e nem por sua idade
poderia ser considerada uma “novata”. Entretanto, esse número estava ainda longe de
alcançar o total de sua obra, que, somente naquele mesmo ano de 1862, ela escreveria
pelo menos outros 366 poemas. De fato, o período de 1858 a 1861, culminando
precisamente com a decisão de enviar seus poemas à apreciação de Higginson, no início de
1862, é de suma importância para sua consolidação como poeta:
Este é, finalmente, o peodo em que ela começava a se pensar como algm que
poderia escrever para a posteridade. A troca de cartas com Sue, sobre o poema do
“Alabastro”, que ocorreu do meio pro fim do verão de 1861, parece ter sido sua
primeira tentativa de consulta sobre a sua poética. A próxima e última acontece em
abril de 1862, quando inicia uma correspondência com T. W. Higginson. Os anos de
1858 a 1861 são um período em que suas forças se reuniam e o fluxo de seu talento
aumentava a cada dia.
5
Assim, quando fala de sua idade como não tendo feito mais que um ou dois versos
até então, poderíamos ver talvez uma Emily que começa agora a nascer como poeta que
agora começa a se ver como tal –, a ter consciência daquela voz que passa a se inscrever na
literatura o que pode ser evidenciado pelo fato de que, após o início de sua
5
DICKINSON. Selected Letters, p.140. Tradução minha. A respeito da troca de correspondência sobre o poema
do “Alabastro”, e as outras versões do poema, ver o fascículo “A rima e a vida” neste trabalho, na parte das
traduções e das notas.
correspondência com Higginson, ela por vezes assinou suas cartas como simplesmente
“Dickinson”, supostamente pensando si mesma como um nome público.
Ao receber aquela carta, como vemos, longe de encontrar uma luz à qual pudesse ler
Dickinson e seus poemas, Higginson se vê, como haveria de ser sempre, diante do
intocável, do inapreensível. Mas não resiste à pronta tentação de “corrigi-los”
intervenções “cirúrgicas” a que a escritora se refere sem mágoas, mas não sem ironia. A
pedido de Higginson, Emily inclui na segunda carta outros poemas, porém prevenindo o
leitor sobre seu caráter. Sem conseguir penetrar em seu mundo, em sua escrita, supõe-se
que Higginson a tenha aconselhado a não publicar. Se ele nunca disse que seus versos não
“respiravam” (ele próprio viveu do seu sopro) que era o que em suma ela precisava saber
– também não lhe poupou da impressão de que aquela respiração era descompassada,
“descontrolada”, “espasmódica” inapropriada para o que se esperava na época. Ao que
ela responde, sem anexar nenhum poema desta vez:
Querido amigo.
Sua carta não me causou Embriaguez, porque provei Rum antes Domingo chega
apenas uma vez embora até hoje tenha tido poucos prazeres tão profundos quanto sua
opinião e, se eu tentasse lhe agradecer, minhas lágrimas me travariam a garganta
Perto de morrer, meu Tutor me disse que ele gostaria de viver até que eu me tornasse
poeta, mas a Morte foi hábil Ladra para que eu pudesse vencê-la então E quando longe,
depois – uma luz repentina nos Pomares ou uma mudança de ventos perturbou minha
atenção, senti uma pontada, aqui, – os Versos apenas aliviam –
Sua segunda carta surpreendeu-me e, por um momento, balançou Eu não o supunha.
Sua primeira não ofendeu, por causa da Verdade não tenho vergonha Agradeço-lhe
por sua justiça mas não poderia calar os sinos que, tinindo, acalmaram minha Marcha
Talvez o Bálsamo fosse melhor, já que o senhor sangrou-me antes
Sorrio quando o senhor sugere que eu adie a “publicação estando isto tão fora do
meu pensamento, como o Firmamento dos Peixes –
Se a fama me pertencesse, eu não conseguiria fugir a ela se assim não fosse, o mais
longo dos dias seria gasto em seu encalço e eu perderia a aprovação do meu Cão assim
– minha Ordem-Descalça é melhor
O senhor pensa meu passo “espasdico” – Estou em perigo – senhor
O senhor me pensa “descontrolada” – Não tenho Tribunal.
O senhor teria tempo para ser o “amigo” de que o senhor pensa que preciso? Minha
forma é pequena – não entulharia sua Escrivaninha e não sou tão barulhenta como o Rato
que morde suas Coleções – Se eu pudesse trazer para o senhor o que faço – não tão
freqüente que chegasse a importuná-lo e perguntar-lhe se fui clara isso seria controle,
para mim
O Marinheiro não pode ver o Norte – mas sabe que a Agulha pode –
A mão que me estende no escuro”, ali coloco a minha, e vou-me embora não tenho
mais Língua, agora –
Como se eu pedisse uma simples Esmola,
E, em minha mão surpresa,
Um Estranho prensasse um Reino,
E eu, confusa, suportasse –
Como se eu pedisse que o Oriente
Trouxesse a Manhã, para mim
E ela abrisse seus Diques de Púrpura,
A me espatifar com Aurora!
Mas, o senhor seria meu Preceptor, Sr. Higginson?
Sua amiga,
E. Dickinson
6
Dear friend,
Your letter gave me no Drunkenness, because I tasted Rum before Domingo comes
but once yet I have few pleasures so deep as your opinion, and if I tried to thank you, my
tears would block my tongue –
My dying Tutor told me that he would like to live till I had been a poet, but Death was
much of Mob as I could master then And when far afterward a sudden light on
Orchards, or a new fashion in the wind troubled my attention I felt a palsy, here the
Verses just relieve –
Your second letter surprised me, and for a moment, swung I had not supposed it. Your
first gave no dishonor, because the True are not ashamed I thanked you for your
justice – but could not drop the Bells whose jingling cooled my Tramp Perhaps the Balm,
seemed better, because you bled me, first.
I smile when you suggest that I delay “to publish” – that being foreign to my thought, as
Firmament to Fin
If fame belonged to me, I could not escape her if she did not, the longest day would
pass me on the chase and the approbation of my Dog, would forsake me then My
Barefoot-Rank is better
You think my gait “spasmodic” – I am in danger – Sir
You think me “uncontrolled” – I have no Tribunal.
Would you have time to be the “friend” you should think I need?
I have a little shape it would not crowd your Desk nor make much Racket as the
Mouse, that dents your Galleries
If I might bring you what I do not so frequent to trouble you and ask you if I told it
clear – ’twould be control, to me
The Sailor cannot see the North – but knows the Needle can
The “hand you stretch me in the Dark,” I put mine in, and turn away I have no Saxon,
now –
As if I asked a common Alms,
And in my wondering hand
A Stranger pressed a Kingdom,
And I, bewildered, stand
As if I asked the Orient
6
Carta 265, em 7 de junho de 1862.
Had it for me a Morn
And it should lift it’s purples Dikes,
And shatter me with Dawn!
But, will you be my Preceptor, Mr Higginson?
Your friend
E Dickinson –
Essa carta revela que, a partir de então se assim não era antes a escrita, tanto
de cartas quanto de poemas, passa a ter para Emily um sentido outro que não o de
comunicar seja ao público, seja aos amigos –, que não o de dar-se à compreensão de um
outro.
“A ilusão da comunicação intersubjectiva está na base de grande parte dos discursos
justificativos da produção ou da publicação de cartas,” diz Silvina Rodrigues Lopes,
7
para
comentar a mesquinhez da exploração do íntimo que o gênero suscita. É a natureza íntima
da correspondência, segundo a autora, o que justifica em grande parte o interesse por ela,
demonstrando o gosto pela exploração do íntimo”, a “vontade de devassa” de um público
ávido por novidades, mas que, diria Blanchot, “antes de ler leu”: O que é público não tem
precisamente necessidade de ser lido; é sempre conhecido, antecipadamente, de um
conhecimento que sabe tudo e não quer saber nada.
8
Ainda que assim se quisesse, Emily Dickinson não permitiria tal leitura de suas
cartas, mesmo porque a natureza de sua escrita chega a impossibilitar a distinção de
gêneros “gênero não me pega mais”, diria talvez, antecipando Clarice Lispector.
9
Em
muitas cartas, como na citada acima, por vezes temos dúvida sobre onde termina a carta e
onde começa o poema ou mesmo se toda a carta não é um grande poema, assim como
seus poemas seriam uma grande carta.
Além disso, quem recorresse a sua correspondência como um material puramente
biográfico, fatalmente voltaria de mãos vazias, pois o que dizer, como figurar uma escritora
7
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.135.
8
BLANCHOT. O livro por vir, p.258.
9
“Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais.” Ver
LISPECTOR. Água viva, p.17.
que, tendo uma vez se deixado fotografar por um daguerreótipo, agora se apresenta
assim, na próxima carta a Higginson, em resposta ao provável pedido de um retrato seu?
O senhor me veria sem? Não tinha aqui nenhum retrato, mas sou pequena, como o
Rouxinol, e meu Cabelo é cheio, como o Ouriço da Castanheira e meus olhos, como
Sherry no fundo do copo, deixado pela visita – Isso servirá?
O que sempre preocupa meu Pai Ele diz que a morte pode ocorrer, e que ele tem
Moldes para todo o resto mas nenhum Molde meu, mas eu notei que os Vivos rapidamente
disem dessas coisas, e antecipam a desonraO senhor não veria aqui um capricho meu
O senhor disse “Sombrio”. Conheço a Borboleta – e o Lagarto – e a Orquídea
Não são estes também seus Compatriotas?
Estou feliz por ser sua aluna, e merecerei sua gentileza, que não posso retribuir.
Se o senhor permite, repito a lição, agora –
O senhor me dirá minha falta, franco como a si mesmo, pois prefiro o susto, que a morte
Não se chama o Cirurgião para aprovar o Osso mas para emendar, e a fissura interna,
senhor, é mais crítica. E por isso, senhor, devo trazer-lhe Obediência a Flor do meu
Jardim, e toda a gratidão que eu conheça. O senhor talvez esteja a rir de mim. Não posso
parar por isso meu Trabalho é a Circunferência Uma ignorância, não de Costumes, mas
se for pega pela Aurora ou se o Pôr-do-Sol me vir eu mesma o único Canguru em meio
à Beleza, senhor, por favor, pois que isso me aflige, e pensei tal instrução talvez pudesse
me livrar.
Porque o senhor tem muito trabalho, além do meu crescimento, e deve me dizer, o
senhor mesmo, quão freqüente devo vir sem inconveniência. E se a qualquer tempo
arrepender-se de me ter recebido ou se eu me mostrar feita de material diferente do que
supunha – deverá banir-me –
Quando me coloco, a mim mesma, como a Representante do Verso isto não quer dizer
– eu – mas uma pessoa suposta. O senhor está certo, sobre a “perfeição.”
O Hoje faz o Ontem significar.
Falou-me de Pippa Passes nunca ouvi falar de Pippa Passes – antes.
O senhor vê que minha postura é de despreparo.
Agradecer-lhe me desconcerta. O senhor é completamente poderoso? Tendo eu prazer
que o senhor não tenha experimentado, poderia com satisfação trazer-lhe.
Sua aluna.
10
Could you believe me without? I had no portrait, now, but am small, like the Wren,
and my Hair is bold, like the Chesnut Bur and my eyes, like the Sherry in the Glass, that
the Guest leavesWould this do just as well?
It often alarms Father He says Death might occur, and he has Molds of all the rest
but has no Mold of me, but I noticed the Quick wore off those things, in a few days, and
forestall the dishonor – You will think no caprice of me
You saidDark.” I know the Butterfly – and the Lizard – and the Orchis
Are not those not your Countrymen?
I am happy to be your scholar, and will deserve the kindness, I cannot repay.
If you truly consent, I recite, now –
Will you tell me my fault, frankly as to yourself, for I had rather wince, than die. Men
do not call the surgeon, to commend the Bone, but to set it, Sir, and fracture within, is
more critical. And for this, Preceptor, I shall bring you Obedience the Blossom from
my Garden, and every gratitude I know. Perhaps you smile at me. I could not stop for that
10
Carta 268, em julho de 1862.
My Business is Circumference – An ignorance, not of customs, but if caught with the
Dawn or the Sunset see me Myself the only Kangaroo among the Beauty, Sir, if you
please, it afflicts me, and I thought that instruction would take it away.
Because you have much business, beside the growth of me you will appoint, yourself,
how often I shall come without your inconvenience. And if at any time you regret you
received me, or I prove a different fabric to that you supposed – you must banish me –
When I state myself, as the Representative of the Verse it does not mean me but a
supposed person. You are true, about the “perfection.”
Today, makes Yesterday mean.
You spoke of Pippa Passes – I never heard anybody speak of Pippa Passes before.
You see my posture is benighted.
To thank you, baffles me. Are you perfectly powerful? Had I a pleasure you had not, I
could delight to bring it.
Your Scholar.
Emily não se à decifração. Mesmo após tantos anos de intensa correspondência,
Higginson mantém intacta a curiosidade sobre sua figura e o desejo de conhecê-la
pessoalmente. Mais de uma vez, sugere que ela encontrá-lo em Boston. Aqui, Emily
responde a uma carta em que Higginson provavelmente a chama de “evasiva”:
Querido amigo.
Quem meu Cão conheceu não poderia escapar ao outro.
Ficaria feliz em lhe ver, mas seria um prazer espectral a não se realizar. Não tenho
certeza sobre Boston.
Tinha prometido visitar meu Médico por uns dias em maio, mas o Pai se opõe, pois se
acostumou a minha presença.
É muito mais longe até Amherst?
O senhor encontraria uma pequena Anfitriã mas uma grande Acolhida
Para que o senhor não encontre minha Serpente e pense que o engano no fato de ela ter
sido roubada derrotada também na terceira linha pela pontuação. A terceira e a quarta
eram uma eu lhe disse que não publicava temia que me achasse pretensiosa. Se eu
ainda insistir que o senhor me ensine, não ficaria muito chateado?
Serei paciente constante, nunca rejeitarei seu bisturi, e que a minha lentidão o instigue,
o senhor que antes de mim soube que
Exceto as de pequeno porte
Nenhuma vida é redonda
Estas – rápido tornam-se esfera
E ali se findam
As maiores crescem devagar
E mais tarde pendoam
Os Verões das Hespérides
Mais tempo perduram.
Dickinson
11
Dear friend.
Whom my Dog understood could not elude others.
I should be glad to see you, but think it an apparitional pleasure not to be fulfilled. I
am uncertain of Boston.
I had promised to visit my Physician for a few days in May, but Father objects because
he is in the habit of me.
Is it more far to Amherst?
You would find a minute Host but a spacious Welcome
Lest you meet my Snake and suppose I deceive it was robbed of me defeated too of
the third line by the punctuation. The third and fourth were one I had told you I did not
print I feared you might think me ostensible. If I still entreat you to teach me, are you
much displeased?
I will be patient constant, never reject your knife and should my slowness goad you,
you knew before myself that
Except the smaller size
No lives are round –
These – hurry to a sphere
And show an end –
The larger – slower grow
And later hang
The Summers of Hesperides
Are long.
Dickinson
Em junho de 1866, uma nova recusa – e um novo convite:
Querido amigo
Agrada à sua senhora, por favor. É muita gentileza dela se preocupar.
Devo esquecer Boston. O Pai prefere assim. Ele gosta que eu viaje com ele, mas é
contra eu fazer visitas.
Poderia eu insistir para que seja meu Convidado no Pouso de Amherst? Quando tiver
lhe visto, aperfeiçoar será ainda melhor prazer, pois que deverei saber quais são os
enganos.
Sua opinião me dá um sentimento de importância. Gostaria de ser o que o senhor me
crê.
Obrigada, eu digo por Carlo.
O tempo é um teste de provações
Mas não um remédio –
Se ele assim se prova, prova também
Que não havia moléstia.
11
Carta 316, do início de 1866.
Tenho ainda a Colina, e meu resto de Gibraltar.
A Natureza, parece, brinca sem um amigo.
O senhor fala de Imortalidade.
É o caso do Rio. Me disseram que a Margem era o lugar mais seguro para uma Mente
sem Barbatanas. Tenho explorado pouco desde o meu Cúmplice mudo, contudo, a Beleza
infinita” de que o senhor fala parece tão perto para procurar.
Para escapar ao encantamento, deve-se voar.
O Paraíso é da opção.
Qualquer um poderá ter Posse no Éden apesar de Adão e a Revogação.
Dickinson.
12
Dear friend
Please to thank the Lady. She is very gentle to care.
I must omit Boston. Father prefers so. He likes me to travel with him but objects that I visit.
Might I entrust you, as my Guest to the Amherst Inn? When I have seen you, to improve will
be better pleasure because I shall know which are the mistakes.
Your opinion gives me a serious feeling. I would like to be what you deem me.
Thank you, I wish for Carlo.
Time is a test of trouble
But not a remedy
If such it prove, it prove too
There was no malady.
Still I have the Hill, my Gibraltar remnant.
Nature, seems it to myself, plays without a friend.
You mention Immortality.
That is the Flood subject. I was told that the Bank was the safest place for a Finless Mind. I
explore but little since my mute Confederate, yet the “infinite Beauty” of which you speak
comes too near to seek.
To escape enchantment, one must always flee.
Paradise is of the option.
Whosoever will Own in Eden notwithstanding Adam and Repeal.
Dickinson.
Após sua segunda recusa parece ter havido um lapso na correspondência dos dois,
que viria a ser interrompido com a breve nota por parte de Emily, no ano seguinte:
Trazendo ainda meu “apelo pela Cultura,”
Esta me ensinaria agora?
13
Bringing still my “plea for Culture,”
Would it teach me now?
12
Carta 319, em 9 de junho de 1866.
13
Carta 323, em julho de 1867.
Essa clara referência ao artigo de Higginson intitulado “Um apelo pela cultura”,
publicado em janeiro de 1867 no Atlantic Monthly, juntamente com a data de postagem é o
que determina a data atribuída a essa carta, além da caligrafia, como em todas as cartas não
datadas ou com a data não preservada. O fato é que os lapsos na correspondência, bem
menores e menos freqüentes a partir de 1870, podem se dever tanto à questão da
preservação do material mais antigo quanto a questões de ordem pessoal de Emily –
momentos em que a escritora teria se retraído e espaçado o contato com os amigos, como
quando de tratamentos de saúde ou da morte de seu cão, que a levou a retomar a
correspondência com Higginson, aparentemente após dezoito meses de silêncio:
Carlo morreu
E. Dickinson
O senhor me ensinaria agora?
14
Carlo died
E. Dickinson
Would you instruct me now?
Dessa forma, temos de tirar nossas próprias conclusões ou não do fato de a
próxima carta a Higginson preservada, após aquela segunda recusa de Emily em ir a
Boston, ser de quase dois anos depois, quando a escritora responde à seguinte carta de seu
preceptor:
Às vezes tomo suas cartas e versos, querida amiga, e quando sinto seu estranho poder,
não é estranho que encontre dificuldade em escrever e que longos meses se passem. Tenho
grande desejo de lhe ver, sentindo sempre que quem sabe se eu pudesse uma vez tomar-lhe
pelas mãos eu poderia ser algo para você; mas até então você só se envolve nessa ardente
névoa e eu não posso alcançá-la, mas apenas me alegro com as raras faíscas de luz. Todo
ano penso que inventarei algum jeito de ir a Amherst e vê-la: mas é difícil, pois sou sempre
obrigado a viajar para palestras, e raramente posso viajar por prazer. Ficaria feliz de ir a
Boston, a qualquer tempo possível, para encontrá-la. Sou sempre o mesmo em relação a
você, e nunca diminui meu interesse naquilo que me envia. Gostaria de ter nocias suas
com freqüência, mas me retraio para que o que eu escreva não seja mal calculado e eu
perca o fino limite de pensamento a que você beira. Seria tão fácil, eu temo, perdê-la. Mas
ainda assim, veja, eu tento. Penso que se eu pudesse uma vez vê-la e saber que é real, eu
poderia me sentir melhor. [...]
É difícil para mim entender como pode viver tão sozinha, com pensamentos de tal
qualidade vindo a voe mesmo privada da companhia de seu cão. Embora isso pudesse
impedir qualquer um de pensar além de um certo ponto e ter tais luminosos flashes como
acontece a você – então talvez o lugar não faça muita diferença.
Você não viria a Boston vez ou outra? Todas as senhoras o fazem. Imagino se seria
posvel seduzi-la aos encontros da 3ª segunda do mês, na casa da Sra. Sargent à rua
14
Carta 314, em janeiro de 1866.
Chestnut, n
o
13, às 10 da manquando alguém um texto e os outros conversam ou
escutam. Na próxima segunda a Sra. Emerson lê e então às 3 e meia da tarde há um
encontro no Clube das Senhoras em Tremont Place, 3, onde lerei um trabalho sobre as
deusas gregas. Seria um bom momento para você vir, embora eu prefira que venha num dia
em que eu não esteja tão atarefado que meu objetivo é muito mais vê-la que entretê-la.
Também estarei em Boston durante a semana do meu aniversário, de 25* a 28 de junho
ou quem sabe o Festival de Música, também em junho, tentaria você. Veja que falo a sério.
Ou não precisa da brisa do mar no verão? Escreva e conte qualquer coisa em prosa ou
verso, e serei menos melindroso no futuro, e mais desejoso de escrever-lhe canhestras
linhas ao invés de nenhuma.
Sempre seu amigo
* Há um encontro extra na casa da Sra. Sargent nesse dia e o Sr. Weiss lerá um ensaio.
Tenho direito de convidá-la e garanto que você pode simplesmente bater e entrar.
15
Temos então a resposta de Emily, com sua terceira recusa a ir a Boston e o terceiro
convite a Higginson, para que a visitasse em Amherst:
Querido amigo
Uma carta sempre me toca como a imortalidade, pois é a mente apenas sem o amigo em
corpo. Em dívida em nossa conversa com a atitude e o tom, parece haver no pensamento
um poder espectral que caminha sozinho gostaria de agradecer-lhe pela sua grande
gentileza, mas nunca tento erguer palavras que não posso carregar.
Se o senhor viesse a Amherst, talvez eu pudesse melhorar, embora a Gratidão seja a
tímida riqueza daqueles que nada têm. Estou certa de que fala a verdade pois que os nobres
assim fazem, mas suas cartas me deixam sempre surpresa. Minha vida tem sido simples e
dura demais para perturbar alguém.
“Olhada pelos anjos”, sem ser de todo minha responsabilidade.
É difícil não se tornar ficcional em um lugar tão belo, mas os mais severos testes são
permitidos.
Quando Menina me lembro de ouvir aquela notável passagem e de escolher o “Poder,”
não sabendo naquela época que “Reino” e “Glória” estavam incluídos.
O senhor observou o fato de eu viver sozinha para um Desterrado, todo País é inútil
exceto o seu. O senhor fala com carinho em me ver. Se fosse por favor da sua conveniência
vir tão longe como a Amherst eu ficaria muito feliz, mas não atravessarei o chão de meu
Pai para alcançar nenhuma Casa ou cidade.
De nossos maiores atos somos ignorantes –
O senhor não tem consciência de que salvou minha Vida. Agradecer-lhe pessoalmente
tem sido, desde então, um de meus poucos desejos. A criança que pede minha flor “Vo
me dá,” – diz ela – “me dá?” – não conheço outra forma de pedir o que desejo.
O senhor me desculpe cada uma dessas palavras, porque ninguém mais me ensinou?
Dickinson
16
Dear friend
A Letter always feels to me like immortality because it is the mind alone without
corporeal friend. Indebted in our talk to attitude and accent, there seems a spectral power in
thought that walks alone – I would like to thank you for your great kindness but never try to
lift the words which I cannot hold.
15
Carta 330a, de 11 de maio de 1869. Tradução minha.
16
Carta 330, em junho de 1869.
Should you come to Amherst, I might then succeed, though Gratitude is the timid
wealth of those who have nothing. I am sure that you speak the truth, because the noble do,
but your letters always surprise me. My life has been too simple and stern to embarrass any.
“Seen of Angels” scarcely my responsibility.
It is difficult not to be fictitious in so fair a place, but test’s severe repairs are permitted
all.
When a little Girl I remember hearing that remarkable passage and preferring the
“Power,” not knowing at the time that “Kingdom” and “Glorywere included.
You noticed my dwelling alone To an Emigrant, Country is idle except it be his own.
You speak kindly of seeing me. Could it please your convenience to come so far as
Amherst I should be very glad, but I do not cross my Father’s ground to any House or
town.
Of our greatest acts we are ignorant –
You were not aware that you saved my Life. To thank you in person has been since
then one of my few requests. The child that asks my flower Will you,” he says Will
you” – and so to ask for what I want I know no other way.
You will excuse each that I say, because no other taught me?
Dickinson
Pois bem. Dessa forma, em 1870, oito anos após o início da correspondência,
Higginson vai -la em Amherst. O encontro é para ele tão marcante que o registra por
inteiro em seu diário e em cartas para sua esposa e irmã. Entretanto, nem mesmo estando
diante dela consegue apreender a escritora, como entrevemos nessa carta à esposa, escrita
logo depois do encontro:
Não devo ficar a noite toda lhe escrevendo tudo sobre E. D. querida [sic.], mas se vo
tivesse lido os romances da Sra. Stoddard entenderia uma casa onde cada membro cuida de
sua própria vida. Contudo, eu vi apenas ela.
Uma grande casa de advogado do município, tijolos marrons, grandes árvores e um
jardim entreguei meu cartão. Um salão sombrio e frio e formal, uns poucos livros e
gravuras e um piano aberto – Malbone e jornais entre outros livros.
Um passo de criança na entrada e de repente uma mulher pequena e comum, com os
cabelos avermelhados e cheios repartidos e o rosto parecido com o da Belle Dove; não
menos com nenhum belo traço em um simples e primorosamente branco piquê e um
xale de malha de penteada azul. Ela veio até mim com dois lírios que colocou de forma
infantil em minha mão dizendo: “São minha apresentação”, com uma voz de criança, suave
e sem fôlego, e meio amedrontada acrescentando entre a respiração Desculpe se estou
assustada; nunca vejo estranhos e quase não sei o que dizer mas então falou rápido e a
partir dsem parar respeitosamente às vezes parando para pedir que eu falasse em seu
lugar mas prontamente recomeçando. Algo entre Angie Tilton e Mr. Alcott, mas
completamente sincera e simples, dizendo muitas coisas que voacharia tolas e eu sábias
– e algumas coisas que você teria gostado. Reproduzo algumas aqui.
[...]
“Mulheres falam: homens são calados: por isso temo as mulheres.”
“Meu pai apenas aos domingos – ele lê livros solitários e rigorosos.”
“Se eu leio um livro e ele torna meu corpo tão frio que nenhum fogo é capaz de aquecê-
lo, sei que aquilo é poesia. Se sinto fisicamente como se o topo da minha cabeça estivesse a
ser arrancado, sei que aquilo é poesia. São as únicas maneiras de saber. Existe alguma
outra?”
“Como a maioria das pessoas vive sem nenhum pensamento? Existem muitas pessoas
no mundo (deve ter notado nas ruas) Como elas vivem? Como m forças para se vestir de
manhã?
“Quando perdi o uso de meus Olhos foi um conforto pensar que existiam tão poucos
livros de verdade que eu acharia facilmente alguém para os ler pra mim.
“A verdade é uma coisa tão rara que é delicioso dizê-la.”
“Encontro êxtase na vida. A mera sensação de viver é alegria bastante.”
Perguntei a ela se nunca sentia falta de uma ocupação, nunca saindo de casa e nunca
vendo visitas “Eu nunca pensei em conceber que eu pudesse algum dia ter a menor
aproximação de tal falta por toda a minha existência (e completou) “Sinto que não fui
clara o suficiente.[...]
17
Higginson vai em busca de um retrato de sua correspondente, mas o que
consegue é relatar, extasiado, os momentos fugidios em que com ela esteve – uma cor, uma
sensação, uma respiração, um movimento – e repetir, sem palavras, as dela que para sempre
ecoariam em sua memória. No dia seguinte, escreve novamente à esposa, dizendo ter
saudades e lamentar sua ausência, acrescentando que ela provavelmente detestaria a
viagem. Talvez para justificar tamanha empolgação em transcrever as falas de E. D.,
confessa estar feliz em não viver junto de quem profere afirmações como as registradas:
“O senhor poderia me contar como é uma casa.”
“Nunca tive uma mãe. Suponho que mãe seja alguém para quem você corre quando tem
problemas.” [...]
“Será esquecimento ou absorção quando as coisas abandonam nossa mente?” [...]
Quando eu disse que voltaria em algum tempo ela disse “Diga daqui a muito tempo, será
mais perto. Algum tempo é nada.” [...] Eu nunca estive com alguém que sorvesse tanto a
minha energia nervosa. Sem tocá-la, ela me sugava. Fico contente de não viver perto dela.
Ela sempre me achava cansado, parecia pensar muito nos outros.
18
Vinte anos depois, ainda o enigma:
A impressão indubitavelmente em mim causada foi de um excesso de tensão, e de uma
vida anormal. Talvez na época eu pudesse ter ido além daquela relação de certo modo
excessivamente tensa que não a minha vontade, mas suas necessidades, tinham nos
imposto. Certamente eu teria sido mais feliz se a tivesse trazido para o nível da simples
verdade e da camaradagem diária, mas não era de todo fácil. Ela era um ser enigmático
demais para que eu a decifrasse em uma hora de entrevista, e o instinto me disse que a
menor tentativa de uma investigação direta faria com que ela se recolhesse em sua
concha; eu podia apenas sentar quieto e observar, como se faz na selva; devo nomear
meu pássaro sem uma arma, recomenda Emerson.
19
Bem, se Higginson reconheceu não ter conseguido penetrar no mundo de E. D. e
ele tentou – não podemos partir para uma leitura de suas cartas que pretendesse sua
17
Carta 342a, de 16 de agosto de 1870. Tradução minha.
18
Carta 342b, de 17 de agosto de 1870. Tradução minha.
19
DICKINSON. Selected Letters, p.211. Essa passagem, Higginson a escreveu no Atlantic Monthly LXVIII, em
outubro de 1891.
decifração, ou mesmo uma “reconstituição” de sua vida o que não é o propósito aqui.
Sabemos que devemos resistir a tal impulso em favor de perceber traços de sua vida-
escrita,
20
biografemas, retratos formados a partir de “cavacos de lembranças, a erosão que
só deixa da vida passada alguns vincos”, nas palavras de Roland Barthes:
Se eu fosse escritor, morto, como gostaria que a minha vida se reduzisse, pelos cuidados
de um biógrafo amigo e desenvolto, a alguns pormenores, a alguns gostos, a algumas
inflexões, digamos: “biografemas, cuja distinção e mobilidade poderiam viajar fora de
qualquer destino e vir tocar, à maneira dos átomos epicurianos, algum corpo futuro,
prometido à mesma dispersão; uma vida furada, em suma, como Proust soube escrever a
sua na sua obra, ou então um filme à moda antiga, de que esausente toda palavra e cuja
vaga de imagens [...] é entrecortada, à moda de soluços salutares, pelo negro apenas escrito
do intertítulo, a irrupção desenvolta de outro significante: o regalo branco de Sade, os vasos
de flores de Fourier, os olhos espanhóis de Inácio.
21
As vestes brancas, o cabelo do Ouriço, o quarto e o Cão, o retrato único de Emily:
biografemas da própria falta, vestígios da ausência. A partir de um desses traços o traço
da escrita é que se pretende apresentar a escritora. É a partir do biografema da própria
escrita a cômoda cheia de pacotinhos –, da própria experiência literária de Emily que
poderemos aprender um modo de ler a escritora. Assim, longe de tratar suas cartas como
portais de acesso à vida para a compreensão da obra, o que podemos é tomar desde
suas cartas como obra, pois que, enfim, toda a sua obra se escreve se inscreve como
carta – sua carta ao mundo.
Retomemos então a questão das cartas. Segundo Silvina Rodrigues Lopes, o espaço
da carta principalmente daquela de artistas e pensadores, pelo seu evidente valor
intelectual é um espaço múltiplo, onde pensamento e poesia se encontram. Contudo, o
que mais interessa à autora, e que está além desse estatuto múltiplo da carta, é:
aquilo em que a leitura de uma correspondência pode ser importante por mostrar a
construção de uma margem onde o escritor toma consciência da fragilidade da relação
eu-outro e, sobretudo, do seu apagamento na passagem à escrita literária, na exacta
medida em que nela o “autobiográfico a escrita de si – é profundamente anti-
autobiográfico, entendida a autobiografia como narração e descrição de factos e
relações.
22
Além disso, Silvina aponta uma “dimensão autobiográfica” que nada teria a ver com
o gênero autobiográfico, e diz que é naquela dimensão que a literatura evidencia a estrutura
20
Ruth Silviano Brandão cunha o termo em seu livro A vida escrita (7Letras, 2006). Silvina Rodrigues Lopes
já se referira algumas vezes à “relação vida-escrita”. Aqui, opto pelo nome composto “vida-escrita”.
21
BARTHES. Sade, Fourier, Loyola, p.12.
22
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.137.
intersubjetiva da destinação epistolar: “É nesse sentido que se pode dizer que todos os
textos literários se constituem como ‘cartas’ para nada (o que não significa que sejam para
o vazio), ‘textos para nada’ (Beckett). Por isso, não têm destinadores nem destinatários.”
23
Então, para que Emily escreve cartas? Para quem? poderíamos nos perguntar,
especialmente no caso de Higginson, que a correspondência entre os dois seria parte de
uma tutela, que supostamente habilitaria Emily a finalmente publicar – o que jamais
acontece. Quem é esse interlocutor que, mesmo impressionado com a qualidade da escrita
de Emily se interpõe entre ela e o público? Para que Emily continua a lhe escrever? Se não
um objetivo, um motivo: porque, sabia Emily, não é para um outro que se escreve.
Porque, sabia também, com Marguerite Duras, que não se pode escrever.
Escrever.
Não posso.
Ninguém pode.
É preciso dizer: não se pode.
E se escreve.
24
E Dickinson escreve. É precisamente por isso que escreve. Porque sabe que, de
alguma forma, não é ela que escreve: “Quando me coloco, a mim mesma, como a
Representante do Verso isto não quer dizer eu mas uma pessoa suposta.” Blanchot
comenta essa passagem do “eu” ao “ele” na escrita a partir da obra de Kafka, distinguindo
este “ele”, que designa como “neutro”, do “ele” correspondente ao outro interlocutor na
instância discursiva:
Quando escrever é entregar-se ao interminável, o escritor que aceita sustentar-lhe a
essência perde o poder de dizer Eu”. [...] O Ele” que toma o lugar do Eu”, eis a
solidão que sobrevém ao escritor por intermédio da obra. “Ele” não designa o interesse
objetivo, o desprendimento criador. “Elenão glorifica a consciência em um outro que
não eu, o impulso de uma vida humana que, no espaço imagirio da obra de arte,
conservaria a liberdade de dizer Eu”. Ele” sou eu convertido em ninguém, outrem
que se torna o outro, e que, no lugar onde estou, não possa mais dirigir-se a mim e que
aquele que se me dirige não diga “Eu”, não seja ele mesmo.
25
O que conduz “à despossessão, à experiência do desaparecimento, ao abandonar-se
a si mesmo e entrar no espaço da ficção, ou da literatura.”
26
Silvina toca este ponto da
23
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.137.
24
DURAS. Escrever, p.47.
25
BLANCHOT. O espaço literário, p.17,19.
26
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.148.
escrita em que ela se pelo desaparecimento do sujeito, citando as palavras de Aldo
Gargani:
Escrevo para me aniquilar, escrevo linhas para me reduzir a um ponto, para que
finalmente se manifeste a esperança que se exprime apenas por si e que não posso, que
ninguém a si pode dar [...]. Eu, cada qual, sou, somos o ponto do desenraizamento e do
embate entre um mundo que se desvanece e outro que se desenha na deriva da sua
instabilidade, e é toda a realidade não pressagiada e incalculável.
27
Para Blanchot, a origem da obra se nesse momento em que o escritor se
abandona à sua solidão, em que a despossessão do sujeito lugar à sua ocupação pelo
exterior “O meu pensamento abandona-me em todos os graus,”
28
Artaud fala, ecoando
Emily: Is it oblivion or absorption when things pass from our minds?
29
Para Emily, desterrada, estrangeira, é na escrita, no seu próprio desaparecimento
que se dá na escrita, que ela realiza o agir impessoal, o neutro, o “tornar-se presença” de
que fala Gargani:
Na espolião de nós, que é um por em acção de nós mesmos, tornamo-nos a nossa
própria presença, precisamente a presença estreme que rodeia nossa situação de radical
solidão.
30
Silvina Lopes, ao comentar as cartas de Van Gogh a seu irmão, destaca uma onde
“do que se trata é também de manter a ligação que impede o mundo de deslizar para o
insuportável”:
não posso imaginar que poderia viver de outra maneira; não aspiro sequer a ser
desembaraçado das minhas dificuldades e preocupações; a única esperança que
alimento é que estas dificuldades e preocupações se me não tornem insuportáveis. Isso
não acontecerá enquanto puder trabalhar e alegrar-me com a simpatia que me
testemunham homens como tu.
31
É também por isso que Emily escreve, e escreve cartas. Sabe da fragilidade da
relação eu-outro do apagamento mesmo do eu na escrita, bem como da inexistência do
outro do discurso, e, nas palavras de Silvina Lopes, “se o outro nunca esteve para onde
dirigimos a palavra isso implica uma solidão tão radical que corresponde à perda da palavra
própria, palavra que antes de mais deveria ter vindo do outro.”
32
Ainda assim, ou
precisamente por isso, procura se não comunicar conectar-se com os que amava, e com
o mundo, de uma certa forma. Esse mundo que muitos dizem Emily não ter conhecido foi
27
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.138-139.
28
Citação de trecho de carta de Artaud a Jacques Rivière, em 1923.
29
Vimos essa frase na carta 342b, em que Higginson relata à esposa trechos de sua conversa com E. D.
30
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.139.
31
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.143-144.
32
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.147.
por ela escrito em suas cartas e poemas, e sua relação com ele e as pessoas era mais forte do
que se poderia achar, a julgar apenas por sua reclusão. Higginson notou sua preocupação
com os outros, quando esteve com ela, e sua tentativa de contato, ainda que com um ramo
de flores ou uma porta entreaberta a se interpor, o que é fácil perceber em cartas como esta:
Querido Mestre
Estou doente, mas, mais aflita porque está doente, faço o meu mais pesado trabalho
manual longo o suficiente para lhe dizer. Pensei que talvez estivesse no Céu, e quando
falou novamente, pareceu-me tão doce, e maravilhoso, e tanto me surpreendeu queria que
estivesse bem.
Queria que todos os que amo nunca mais estivessem frágeis. As Violetas estão do meu
lado, o Tordo muito perto, e a “Primavera” – dizem, Quem é ela – indo pela porta
Decerto é a casa de Deus e esses sãos os portões do Céu, e pra e pra lá os Anjos
vão, com seus postiles eu queria ser grande, como o Sr. Michelangelo, e poder pintar
para o senhor. Pergunta o que minhas flores disseram então elas foram desobedientes
mandei-lhes mensagens. Disseram o que as orlas no Oeste dizem, quando o sol se põe, e
assim diz a Aurora.
Ouça de novo, Mestre. Eu não lhe disse que hoje era dia de Sábado.
Cada Sábado no Mar me faz contar os Sábados até nos encontrarmos na costa – e
(estarão) se estiveram as colinas tão azuis como dizem os marinheiros. Não posso mais
falar (ficar mais) esta noite (agora), pois esta dor me proíbe.
Que forte e frágil é recordar, e fácil, absolutamente, amar. Queira me dizer, por favor,
diga-me assim que estiver bem.
33
Dear Master
I am ill, but grieving more that you are ill, I make my stronger hand work long enoto
tell you. I thought perhaps you were in Heaven, and when you spoke again, it seemed quite
sweet, and wonderful, and surprised me soI wish that you were well.
I would that all I love, should be weak no more. The Violets are by my side, the Robin
very near, and “Spring” – they say, Who is she – going by the door –
Indeed it is God’s house and these are gates of Heaven, and to and fro, the Angels go,
with their sweet postillions I wish that I were great, like Mr. Michael Angelo, and could
paint for you. You ask me what my flowers said then they were disobedient I gave them
messages. They said what the lips in the West, say, when the sun goes down, and so says
the Dawn.
Listen again, Master. I did not tell you that today had been the Sabbath Day.
Each Sabbath on the Sea, makes me count the Sabbaths, till we meet on shore and
(will the) whether the hills will look as blue as the sailors say. I cannot talk any more (stay
any longer) tonight (now), for this pain denies me.
How strong when weak to recollect, and easy, quite, to love. Will you tell me, please tell
me, soon as you are well.
33
Carta 187, por volta de 1858. Esta é uma das três “cartas ao mestre”, o qual especula-se que seja o
Reverendo Charles Wadsworth, tendo sido encontrada entre os papéis de E. D. Uma cópia provavelmente foi
enviada ao destinatário, pois parece claro que se trata de uma resposta.
De fato, muitos se perguntaram, com estranheza, como ela podia escrever, sem
ter “nenhuma experiência”, subestimando a vida que Emily supostamente levava: sem
graça, sozinha. Contudo, não é assim que Emily se mostra em relação à vida. Ao contrário,
sempre mostra um prazer I find ecstasy in living um contentamento the mere sense of
living is joy enough –, algo que ela pôde aproveitar talvez principalmente após o “controle”
de que fala, e que foi trazido pela correspondência com Higginson, aquele que a tolhia mas
ao mesmo tempo lhe permitia ser ela mesma, na esfera íntima das cartas, que
eventualmente trouxeram o belo pensamento: “Existence has overpowered Books”:
34
Pensava que ser um Poema impedisse de se escrever poemas, mas percebo o Engano.
Foi como voltar à Casa, ver seu belo pensamento uma vez mais, agora muito interdito
o Intelecto é o que o Patriota quer dizer quando fala de sua “Terra Natal”? Eu deveria ter
medo de “citar” aquilo que o senhor “mais valoriza.”
O senhor experimentou a santidade.
Não foi por mim tentada.
Da Vida possuir –
Da Vida retirar –
Mas nunca a Reserva tocar –
O senhor pergunta gentilmente por minhas Flores e Folhas tenho lido muito pouco
ultimamente – a Existência dominou os Livros. Hoje, matei um Cogumelo –
Senti que a relva gostara
De tal interrupção.
Esse Rebento Secreto
Circunspeto do Verão.
As palavras mais vastas são tão estreitas que podemos facilmente atravessá-las mas
águas mais profundas que aquelas sem Ponte. Meus Irmãos adorariam vê-lo. Duas vezes, o
senhor partiuMestre –
Não viria apenas mais uma vez? –
35
I thought that being a Poem one’s self precluded the writing Poems, but perceive the
Mistake. It seemed like going Home, to see your beautiful thought once more, now so long
forbade it Is it Intelect that the Patriot means when he speaks of his “Native Land”? I
should have feared to “quote” to you what youmost valued.”
You have experienced sanctity.
It is to me untried.
Of Life to own –
From Life to draw –
34
Vemos uma posição semelhante em André Comte-Sponville, que em O amor a solidão por mais de uma
vez declara ter consciência da soberania da vida em relação à literatura, pensamento que se tornava tanto mais
claro quanto maior sua experiência de escrita.
35
Carta 413, no fim de maio de 1874.
But never touch the Reservoir –
You kindly ask for my Blossoms and Books – I have read but a little recently –
Existence has overpowered Books. Today, I slew a Mushroom –
I felt as if the Grass was pleased
To have it intermit.
This Surreptitious Scion
Of Summer’s circumspect.
The broadest words are so narrow we can easily cross them but there is water deeper
than those which has no Bridge [sic.]. My Brother and Sisters would love to see you.
Twice, you have gone – Master –
Would you but once come –
Para manter contato com esse mundo, precisava de um mestre. Foi sempre afeita a
eles, como escreve aos dezessete anos, na expectativa de entrar para o Seminário: “I am
always in love with my teachers.” Thomas H. Johnson comenta:
A expressão tem aquela qualidade de candura e precisa auto-avaliação que dá a Emily
Dickinson estatura como pessoa e como poeta. Por toda a sua vida ela procurou pela
liderança de um mestre.” A partir de 1862, Higginson ocupou esse lugar para ela,
como todas as suas cartas a ele deixam claro. Certamente esse era seu sentimento em
relação ao Dr. Wadsworth, e quem sabe outros, agora jamais sabidos. Mas a
necessidade de um tutor ou guia, que poderia conduzi-la à maneira de Dante pelas
visões de uma divina comédia, é a extensão lógica de toda pessoa sensível, e
especialmente necessária aos poetas, que procuram traduzir a humanidade para
pastagens mais verdes, através da linguagem. A busca de Emily Dickinson por um
guia, ela a expressou com admirável franqueza a Higginson em agosto de 1862. Sem
reticências e com clara auto-análise ela disse: Não tenho Monarca em minha vida, e
não posso me governar, e quando tento me organizar explodem-se minhas pequenas
Forças e fico a descoberto –
36
Talvez por isso Emily continue a pedir a tutela de Higginson. Aceitou ser guiada
por ele, mesmo se sabendo incompreendida, pois parecia saber ser essa a condição
inelutável do ser humano. Renunciou à publicação em favor da escrita, desse contato com o
mundo que poderia ter em vida sua ordem-descalça. Seu nascimento como poeta nasce
justamente com sua renúncia à fama; é o seu desaparecimento como autora que lugar ao
surgimento da obra seu livro por vir. E, por isso, várias vezes, e de diversas formas, ela
diz de sua gratidão a Higginson: Gratitude is the only secret that cannot reveal itself,
37
You
36
DICKINSON. Selected Letters, p.xi.
37
DICKINSON. Selected Letters, p.209. Carta 342b, de Higginson à esposa, em que registra essa frase que E.
D. lhe teria dito em sua partida.
were not aware that you saved my Life convicção esta provavelmente muito forte, visto
que E. D. usaria a mesma expressão em outra carta a Higginson, dez anos depois.
38
Da mesma forma, Emily Dickinson procura seu ponto de contato com o mundo
através dos amigos poucos, mas constantes durante toda sua vida que, lançando-se
também à escrita das cartas, davam a Emily o material sobre o qual construir sua vida-
escrita, e o modo de fazê-la sentir-se parte de um mundo e um tempo tão fictícios quanto
pareciam ser-lhes aqueles em que vivia. “O que importa é que se tenha escolhido a forma-
carta enquanto forma de resposta a uma amizade, pois isso assinala que se é ainda parte de
uma comunidade.”
39
Essa comunidade, Emily soube reinventá-la na escrita, criando, na
verdade, uma que transcenderia o breve espaço de tempo de sua existência: A letter always
feels to me like immortality because it is the mind alone without corporeal friend.
40
E nós, parte dessa imortalidade, dessa comunidade, somos também convidados a ler
sua letter e, longe de estranhá-la, partilhar de sua estrangeiridade, tornarmos nós mesmos
estrangeiros, desenraizados, desertados num sem-tempo, sem-lugar, que é a terra da escrita.
Esta é minha carta ao Mundo
Que nunca escreveu a Mim
As simples Novas que a Natureza contou –
Com suave Majestade
Sua Mensagem é para aqueles
Cujas Mãos não posso ver
Por amor a Ela – Caros – Confrades
Julguem brandamentemeu Ser
41
This is my letter to the World
That never wrote to Me –
The simple News that Nature told –
With tender Majesty
Her Message is committed
To Hands I cannot see –
For love of Her – Sweet – countrymen
Judge tenderly – of Me
38
DICKINSON. Selected Letters, p.197. Vimos essa frase na carta 330, aqui traduzida.
39
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.150.
40
Essa frase, que já vimos na carta 330, que E. D. escreve a Higginson em 1869, ela a ecoaria bem mais tarde,
em 1882, em carta ao amigo James Clark, que era amigo de Charles Wadsworth, e com quem iniciou
correspondência após a morte deste último, o suposto “master” das correspondências.
41
Poema 441: This is my letter to the World / That never wrote to Me – / The simple News that Nature told –
/ With tender Majesty // Her Message is committed / To Hands I cannot see / For love of Her Sweet
countrymen – / Judge tenderly – of Me
REFERÊNCIAS
BARTHES, Roland. Sade, Fourier, Loyola. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Lisboa: Relógio d’Água, 1984.
COMTE-SPONVILLE, André. O amor a solidão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
DICKINSON, Emily. Selected Letters. Ed. Thomas H. Johnson. Cambridge, London: The
Belknap Press of Harvard University Pres, 1986.
DICKINSON, Emily. The complete poems of Emily Dickinson. Ed. Thomas H. Johnson.
Boston, New York, London, Toronto: Litle, Brown and Company, 1960.
DURAS, Marguerite. Escrever. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
JOHNSON, Thomas H. Introduction. In: DICKINSON, Emily. The complete poems of Emily
Dickinson. Ed. Thomas H. Johnson. Boston, New York, London, Toronto: Litle, Brown
and Company, 1960. p. v-xi.
LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Francisco Alvim, 1994.
LOPES, Silvina Rodrigues. Literatura, defesa do atrito. Lisboa: Vendaval, 2003.
WOOLF, Cynthia Griffin. Emily Dickinson. New York: Wesley Publishing Company INC,
1996.
169
In Ebon Box, when years have flown
To reverently peer,
Wiping away the velvet dust
Summers have sprinkled there!
To hold a letter to the light –
Grown Tawny now, with time
To con the faded syllables
That quickened us like Wine!
Perhaps a Flower’s shrivelled cheek
Among its stores to find
Plucked far away, some morning –
By gallant – mouldering hand!
A curl, perhaps, from foreheads
Our constancy forgot –
Perhaps, and Antique trinket –
In vanished fashions set!
And then lay them quiet back –
And go about its care –
As if the little Ebon Box
Were none of our affair!
169
A Caixa de Ébano, tempos depois
Com reverência perscrutar,
Limpando o aveludado pó
Que os verões vêm salpicar
Segurar a carta à contraluz
De tanto tempo, agora Fulva –
Estudar a letra velada
Tal qual Vinho nos avulta!
Talvez a face seca de uma Flor
Encontrar entre os tesouros
Arrebatada para longe, na manhã –
Por mãos nobres, criadoras –
Um cacho, quem sabe, de frontes,
Por teimosia esquecidas –
Quem sabe, um adorno antigo –
De antigas modas idas!
E então guardar tudo de volta –
E cuidar que fique quieto –
Como se a pequena Caixa de Ébano
Não fosse do nosso afeto!
334
All the letters I can write
Are not fair as this –
Syllables of Velvet
Sentences of Plush,
Depths of Ruby, undrained,
Hid, Lip, for Thee –
Play it were a Humming Bird
And just sipped – me
334
Todas as cartas que eu escreva
Não serão belas como esta –
Sílabas de Veludo –
Sentenças de Pelúcia,
Profundezas de Rubi, inesgotadas,
Guardadas, Lábio, para Ti
Como fosse um Beija-Flor –
Me sorve – aqui –
487
You love the Lord – you cannot see –
You write Him – every day –
A little notewhen you awake
And further the Day.
An Ample Letter how you miss
And would delight to see –
But then His House – is but a Step
And Mine’s in Heaven – you see.
487
Amas o Senhor – e não vês –
Escreves-lhe – todo dia
Uma pequena nota – quando acordas –
E ao longo do Dia.
Uma Extensa Carta – como sentes –
E adoraria ver
Mas Sua Casa – está a um Passo –
E a Minha no Céu – como vês.
494
Version I
Going to Him! Happy Letter!
Tell Him –
Tell Him the page I didn’t write –
Tell Him – I only Said the Syntax –
And left the Verb and the pronoun out –
Tell Him just how the fingers hurried –
Then – how they waded – slow – slow –
And then you wished you had eyes in your pages –
So you could see what moved them so –
Tell Him – it wasn’t a Practiced Writer –
You guessed – from the way the sentence toiled –
You could hear the Bodice tug, behind you –
As if it held but the might of a Child
You almost pitied it – you – it worked so –
Tell Him – no – you may quibble there –
For it would split His Heart, to know it
And then you and I were silenter.
Tell Him – Night finished – before we finished –
And the Old Clock kept neighing “Day”!
And you – got sleepy – and begged to be ended –
What could it hinder so – to say?
Tell Him – just how she sealed you – Cautious!
But – if He ask where you are hid
Until tomorrow – Happy letter!
Gesture Coquette – and shake your Head!
494
Versão I
Vai até Ele! Carta feliz!
Vai e diz –
Diz a Ele da página que não escrevi –
Diz a Ele – que só usei a sintaxe –
E deixei o Verbo e o pronome de fora
Diz a Ele como os dedos se apressaram –
E então como prosseguiram – devagar – devagar –
E como quiseras ter olhos em tuas páginas –
Pra ver o que tanto os movia –
Vai e diz – não foi um Versado Escritor –
Adivinhastespelo jeito que a frase penou –
Ouvias o Corpete arfar, atrás de ti
Como se emanasse a força de uma criança, apenas –
Quase lamentastes – tu – tanto trabalhava –
Diz a Ele – não – minúcias
Partiria Seu Coração, saber –
Então nós duas – silenciamos.
Vai e diz – que a Noite acabou – antes de nós –
E o Velho Relógio anunciava: “Dia”!
E tu – com sono – implorando o fim –
O que impediria – de dizer?
Diz a Ele – como ela te selou – Prudente!
Masse Ele perguntar onde te escondes –
Até amanhã – Carta feliz!
Faceira – balança a Cabeça – não digas onde!
494
Version II
Going – toHer!
Happy – Letter! Tell Her
Tell Her – the page I never wrote!
Tell Her, I only Said the Syntax –
And left the Verb and the pronounout!
Tell Her just how the fingers – hurried –
Then – how they – stammered – slow – slow –
And then – you wished you had eyes – in your pages –
So you could see – what moved – them – so –
Tell Her – it wasn’t a practiced writer –
You guessed –
From the way the sentence – toiled
You could hear the Bodice – tug – behind you –
As if it held but the might of a child!
You almost pitied it – you – it worked so
Tell Her – No – you may quibble – there
For it would split Her Heart – to know it
And then – you and I – were silenter!
Tell Her – Day – finished – before we – finished –
And the Old Clock kept neighing – “Day”!
And you – got sleepy – and begged to be ended –
What could – it hinder so – to say?
Tell Her – just how she sealed – you – Cautious!
But – if she ask “where you are hid” – until the evening
Ah! Be bashful!
Gesture Coquette –
And shake your Head!
494
Versão II
Vai – até – Ela!
Carta – feliz! Vai e diz –
Diz a Ela – da página que nunca escrevi –
Diz a Ela – que só usei – a sintaxe –
E deixei o Verbo e o pronome – fora –
Diz a Ela como os dedos – se apressaram –
E então como eles – prosseguiram – devagar devagar –
E então como quiseras ter olhos – em tuas páginas
Pra ver – o que tanto – os movia
Vai e diz – não foi um versado escritor –
Adivinhastes
Pelo jeito que a frase – penou –
Ouvias o Corpete – arfando – atrás de ti –
Como se emanasse a força de uma criança, apenas!
Quase lamentastes – tu – tanto trabalhava –
Diz a Ela – Não minúcias –
Partiria Seu Coração, saber –
Então – nós duas – silenciamos!
Vai e diz – o Dia – acabou – antes de nós
E o velho Relógio anunciava – “Dia”!
E tu – com sono – implorando o fim –
O que impediria – de dizer?
Diz a Ela – como ela te selou – Prudente!
Masse ela perguntar “onde te escondes” – até a noite –
Ah! Tem recato! Não te esqueças –
Faceira –
Balança a Cabeça!
636
The Way I read a Letter’s – this –
’Tis first – I lock the Door –
And push it with my fingers – next –
For transport it be sure –
And then I go the furthest off
To counteract a knock –
Then draw my little Letter forth
And slowly pick the lock –
Then – glancing narrow, at the Wall –
And narrow at the floor
For firm Conviction of a Mouse
Not exorcised before
Peruse how infinite I am
To no one that Youknow
And sigh for lack of Heaven – but not
The Heaven God bestow –
636
Meu Modo de ler uma Carta – é assim –
Primeiro – fecho a Porta
E empurro com os dedos – a seguir
Para assegurar o transporte
Então me afasto o bastante
Para nenhum chamado escutar –
Abro minha pequena Carta
E a penetro devagar –
Sondando as Paredes –
E investigando o chão
Para a Condenação de um Rato
Não exorcizado até então –
Descubro que sou infinita
Para ninguém que Você – conheça –
E suspiro pelo Céu – mas não –
Que Deus não o ofereça –
1313
Warm in her Hand these accents lie
While faithful and afar
The Grace so awkward for her sake
Its fond subjection wear
1313
Quente em sua Mão repousa o acento
Enquanto fiel e à distância
A Graça, desajeitada por sua causa,
Veste sua amorosa dependência –
1639
A Letter is a joy of Earth
It is denied the Gods
1639
A Carta é uma alegria da Terra –
Aos Deuses é negada –
LISTA DE POEMAS
Em ordem de aparecimento, e de acordo com a numeração da edição de T. H. Johnson, The
complete poems of Emily Dickinson.
216 Safe in their Alabaster Chambers
A salvo em seus quartos de Alabastro –
318 I’ll tell you how the Sun rose
Vou te contar como o Sol nasceu –
319 The nearest Dream recedes unrealized
O sonho mais próximo recua adiado –
320 We play at Paste –
Brincamos com a Massa Vítrea –
323 As if I asked a common Alms
Como se eu pedisse uma simples Esmola
1067 Except the smaller size
Exceto as de pequeno porte
441 This is my letter to the World
Esta é minha carta ao Mundo
169 In Ebon Box, when years have flown
A Caixa de Ébano, anos depois
334 All the letters I can write
Todas as cartas que eu escreva
487 You love the Lord you cannot see
Amas o Senhor e não vês –
494 Going to Him! Happy Letter!
Vai até Ele Carta feliz!
636 The way I read a Letter’s – this –
O Modo como leio uma Carta
1313 Warm in her Hand these accents lie
Quente em sua Mão repousa o acento
1639 A Letter is a joy of Earth
A Carta é uma alegria da Terra
Fascículo 2
A PROCURA DA PALAVRA
para paulo
_________ digo, às vezes, a mim mesma que
os poetas não podem ser traduzidos,
mas procuro que não seja verdade;
procuro é a palavra.
Maria Gabriela Llansol
Silenciosamente, no quarto da escritora, naqueles meados de século XIX da puritana
Amherst, a obra de Emily Dickinson inaugurava algo de novo na literatura. “De vez em
quando, algures, o mundo começa.” começa assim Augusto Joaquim o Prefácio à
coletânea de cartas traduzidas de Emily Dickinson intitulada Bilhetinhos com poemas. E
prossegue:
Sim, isto. A terra, o chão debaixo dos pés, o céu por cima, as relações com os bichos.
A paisagem tem outra luz ou desaparece. O cosmos caseiro dos homens altera-se. E
eles mudam entre eles, quase sem se darem por isso. Aglomeram-se ainda mais,
nascem cidades, os perigos imprevisíveis diminuem, aparecem novas perplexidades.
As hierarquias entre grupos humanos modificam-se. Muda a escrita e acelera-se a
velocidade. novas palavras no ar. Espécies novas ou novas maneiras de as fazer
dizer. São antigas, mas parecem inaugurais. A partir dessa raiz-mãe imperceptível
novas literaturas são construídas. Ao princípio não se por nada. É assim que as
coisas se passam. Quando depois se olha, vê-se como tudo é sempre simples. Algo
mudou, tudo se modificou, é certo. Unicamente porque mudou o olhar de alguém ou
nasceu um olhar novo. Houve ali uma massa de início. [...]
A mensagem demora a chegar, como se fosse a luz de uma estrela. Mas acaba por
chegar.
42
“A Dickinson é uma dessas estrelas” – continua ele. E continua por todo o Prefácio a tentar
decifrar o enigma da mulher que, com tão intensa produção poética, teria sua obra
publicada em uma edição crítica 70 anos após sua morte. Em 1912, um quarto de século
após seu falecimento, Emily Dickinson é vista como uma excêntrica e esquecida poetisa.
De fato, a imagem da escritora que convinha à crítica literária americana do início do
século era a da mulher excêntrica, solteirona, isolada em casa, inapreensível. Na verdade,
ninguém se interessava realmente em saber o que escrevera ela nos famosos bilhetinhos
comenta A. Joaquim. E continua: “E, no entanto, esse ninguém não tinha – nem nunca teria
42
JOAQUIM. Como comam as cidades, p.5.
o poder de apagar o que ela neles escrevera. O olhar dela não mudaria jamais, mas a
época ia fatalmente mudar.”
43
Sim. A obra de Dickinson não encontrara ainda um leitor à altura. Suas primeiras
edições tentam, segundo Jorge de Sena, domesticar sua poesia corrigindo-lhe a métrica,
colocando-lhe rimas onde não havia e até mesmo títulos, que nunca existiram em qualquer
poema de Emily.
44
Em 1955, Thomas H. Johnson, através da Universidade de Harvard em
Cambridge, organiza e publica os 1775 poemas e fragmentos de Dickinson, pela primeira
vez apresentados em uma edição crítica. Três anos depois, Johnson faz o similar trabalho de
compilação e comentário das 1100 cartas e fragmentos em prosa. “Ia finalmente poder ser
lida,” diz A. Joaquim. Mas, pergunta-se, quem se disporia a escutá-la e a lê-la no que ela
escrevera?”
45
Pensemos, pois, no leitor à altura. E, desde já, no leitor-tradutor, e em uma tradução
da obra de Emily Dickinson que oferecesse hoje uma leitura de sua escrita. Para tanto,
parto primeiramente da minha própria experiência com as traduções de Emily. Comecei a
traduzi-la um pouco sem pensar em todas essas questões, muito mais atendendo a um
chamado que, no ano de 2003, fez-se imperativo. Lucia Castello Branco convocara-me a
traduzir alguns poemas e cartas de Emily que ela citaria em seu livro de ensaios sobre a
escritora, intitulado A branca dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson,
46
e do qual
eu havia vertido para o inglês um dos ensaios, originalmente parte de sua pesquisa de
pós-doutorado na Universidade da Califórnia. Desde então, o chamado da escrita de Emily
se fez presente e vi-me completamente envolvida com a tarefa da tradução. No entanto,
como traduzir uma escritora que, mesmo hoje, muitas vezes é tida como ilegível?
Desde os anos 1980, vemos um crescente interesse em se traduzir Emily Dickinson,
particularmente a partir do surgimento de Uma centena de poemas (traduções de Aíla de
Oliveira Gomes), em 1985, a maior empreitada de tradução da escritora a o recente
lançamento, no final de 2006, das 245 traduções de José Lira. Outras tentativas esparsas e
menores aconteceram nesse intervalo de tempo.
47
Contudo, a julgar pela extensão da obra
43
JOAQUIM. Como comam as cidades, p.8.
44
JOAQUIM. Como comam as cidades, p.7.
45
JOAQUIM. Como comam as cidades, p.10.
46
Esse livro foi publicado pela Pós-Lit e pela 7Letras, em 2003.
47
Carlos Daghlian recentemente fez um levantamento de todas as traduções da obra de Dickinson em língua
portuguesa, disponível no site www.ibilce.unesp.br/departamentos/lem/emilydickinsoninbrazil
de Dickinson, poderíamos considerar que pouco ainda de sua obra foi traduzido. Mas é
sobretudo o modo como essas traduções vêm sendo publicadas muitas vezes sem os
originais, freqüentemente omitindo os característicos traços e maiúsculas de Emily que
nos faz pensar que essa obra carece ainda de uma melhor leitura. Isso sem falar que, com
poucas exceções, os tradutores têm escolhido traduzir os mesmos poemas, talvez aqueles
mais passíveis de uma “interpretação” pois que os críticos concordam ser difícil precisar
sobre o que fala sua poesia –, talvez aqueles que se encontrem entre os mais “palatáveis” –
evitando quem sabe se confrontar com uma escrita que se faz estrangeira em sua própria
língua. De qualquer maneira, o interesse, tanto no estudo, quanto na tradução de sua obra
indica que aquela escrita tem ainda hoje, e cada vez mais, uma vida, um lugar – mesmo que
de difícil precisão.
De fato, o “descontrole” e o “passo espasmódico” da escrita de Emily como a
julgou Higginson, nas palavras irônicas da própria escritora
48
leva-nos a pensar sobre o
lugar dessa obra dentro da literatura, e sobre o lugar dessa dicção dentro da língua em que
ela se inscreve. Poderíamos então pensar a literatura de Emily Dickinson, no contexto da
literatura americana, como literatura menor, conforme Deleuze e Guattari:
Vale dizer que “menor” não qualifica mais certas literaturas, mas as condições
revolucionárias de toda literatura no seio daquela que chamamos de grande (ou
estabelecida). Mesmo aquele que tem a infelicidade de nascer no país de uma grande
literatura deve escrever em sua ngua, como um judeu tcheco escreve em alemão, ou
como um usbeque escreve em russo. Escrever como um cão que faz seu buraco, um
rato que faz sua toca. E, para isso, encontrar seu próprio ponto de subdesenvolvimento,
seu próprio patoá, seu próprio terceiro mundo, seu próprio deserto.
49
O deserto, o exílio. Exilada do mundo, exilada na língua, em sua estrangeiridade,
Emily Dickinson escreve.
Desde a idade dos 28 anos, deixou-se tomar pela mania de correr quando a campainha
toca. No ano seguinte, inauguraria o hábito de vestir-se exclusivamente de branco,
hábito que manteria pelo resto de sua vida. Nas raras ocasiões em que consentia a
visita de velhos amigos, ela e o visitante conversariam através da porta semicerrada.
50
Vários desses trabalhos são citados e comentados no fascículo “A rima e a vida”.
48
Carta 265: “You think my gait ‘spasmodic’ I am in danger Sir/You think me ‘uncontrolled’ I have no
Tribunal.” Todas as passagens de Dickinson aqui citadas são traduções minhas a partir das edições de
Johnson: The complete poems of Emily Dickinson e Selected letters.
49
DELEUZE, GUATTARI. Kafka, por uma literatura menor, p.28-29.
50
BRANCO. A branca dor da escrita, p.20.
Exilada em suas brancas vestes, uma contemporânea do futuro, Emily nos endereça
sua carta. A transmissão de sua obra através da tradução talvez seja a resposta que
possamos oferecer-lhe.
Sem dúvida, a tradução, que sempre integrou o campo de estudos da Literatura
Comparada, hoje sua importância aumentando progressivamente. João Barrento chega
mesmo a identificar uma
inversão de posições na relão entre literatura comparada e estudos da tradução: estes,
que antes se viam subalternizados (pela linística ou pela própria literatura
comparada), foram-se afirmando progressivamente no âmbito do novo
comparativismo, a ponto de se tornarem o “lugar privilegiado da reflexão sobre as
várias vertentes do fenómeno literário”.
51
O autor atribui essa mudança de valores em relação à tradução a
factores que têm a ver, quer com o estatuto hermenêutico e semiótico de um processo
de reescrita como o da tradução, quer com a viragem de teor culturalista trazida com a
nova fase, dita pós-estruturalista e s-colonial, das ciências humanas e do simbólico
em geral, que não apenas da tradução.
52
Tânia F. Carvalhal também assinala que, desde os estudos desenvolvidos a partir
dos anos 70, a tradução vem deixando de ser uma “arte secundária” para alcançar um valor
próprio. Ela também aponta a importância de um entendimento da tradução literária como
ato criativo, visão que permite um posicionamento que leve em conta a natureza criadora
do trabalho da tradução e que, ainda, compreenda a tradução como um ato de intermediação
de culturas. A autora continua:
Isto porque se trata de transferir para uma determinada (e contemporânea) tradição
literária uma obra escrita em outra língua e, muitas vezes, em outro tempo. Se
evocarmos a etimologia, traducere, do latim, significa “levar além”. Assim, a primeira
função da tradução (e papel dos tradutores) é fazer circular um texto fora da literatura
de origem, disseminá-lo, difundi-lo.
53
Em “A tarefa do tradutor”, Walter Benjamin já nos fala da íntima relação da
tradução com a sobrevivência da obra: “Pois a tradução sucede ao original e, no que
concerne às obras importantes, que nunca encontram no tempo de seu nascimento o
tradutor predestinado, assinala a sua pervivência (Fortleben).”
54
Assim, se a tarefa da
51
BARRENTO. Literaturas em rede: tradução e globalização, p.92-93.
52
BARRENTO. Literaturas em rede: tradução e globalização, p.92-93.
53
CARVALHAL. O próprio e o alheio, p.219.
54
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.vii.
tradução é garantir a pervivência da obra, novamente se nos coloca a questão: como levar
além uma obra que originalmente oferece resistências ao entendimento, posto que nos fala
justamente do indizível?
Blanchot nos diz que a tradução não se destina a fazer desaparecer a diferença” da
qual ela vem; ao contrário, “constantemente ela faz alusão a isso, ela dissimula, mas, às
vezes, revelando-a e, muitas vezes, acentuando-a, ela é a vida mesma dessa diferença”.
55
Dessa forma, diz Benjamin, desde o original haveria esse algo de inapreensível,
indizível, estranho, estrangeiro, “poético” sem o que, aliás, a obra não teria sentido em
ser traduzida. Algo que dificultaria a tradução mas, ao mesmo tempo, é o que a possibilita
por ser exatamente aquilo que pede, que chama pela tradução:
a obra não esna idade e nem possui a dignidade de ser traduzida a não ser que ela
encubra, e de alguma maneira deixe dispovel, aquela diferença, seja porque fez
referência originalmente a uma língua, seja porque rne, de uma maneira privilegiada,
as possibilidades, que detém toda ngua viva, de ser diferente dela mesma e
estrangeira a ela mesma. O original não é jamais imóvel, e tudo aquilo que de vir de
uma ngua em um certo momento, tudo que nela designa ou chama um outro estado,
às vezes perigosamente outro, afirma-se dentro da deriva solene das obras literárias. A
tradução está ligada a esse porvir, ela o “traduz” e o cumpre, ela somente é possível
por causa desse movimento e dessa vida da qual se apossa, às vezes para libertá-la, às
vezes para capturá-la penosamente.
56
A partir daí, entendemos, então, quão tênue pode ser o limite entre a traduzibilidade
e a intraduzibilidade, como nos lembra Lucia Castello Branco. A autora trabalha a questão
da memória, que sobrevive à custa do esquecimento, para ressaltar que, do mesmo modo, a
sobrevivência de um texto deve-se, tanto quanto ao seu potencial de traduzibilidade, àquilo
que possui de singular, de intraduzível. E aí retoma as palavras de Eugenio Donato:
Um texto vive na medida em que ele sobre-vive e ele só sobre-vive se for ao mesmo
tempo traduzível e intraduzível [...]. Totalmente traduvel, ele desaparece como texto,
como escritura, como corpo da ngua. Totalmente intraduzível, mesmo no interior
daquilo que se acredita ser uma ngua, ele morre também. A tradução triunfante não é
então a vida nem a morte de um texto, mas sua sobrevida.
57
De fato, a própria língua se sustenta na relação presença/ausência, contida na
origem do significado. Essa instabilidade, inerente a toda e qualquer língua, é o que confere
sentido a uma palavra pela mera presença de um determinado som ao invés de outro, que
transformaria a mesma palavra em outra. Maria das Graças G. Villa da Silva lembra que
55
BLANCHOT. Traduire, p.69-73. Tradução inédita de Cynthia de Cássia Santos Barra.
56
BLANCHOT. Traduire, p.69-73. Tradução inédita de Cynthia de Cássia Santos Barra.
57
BRANCO. Discretas infidelidades, p.139.
Derrida cria o neologismo différance (grafado com a ao invés de e) para exemplificar o
jogo existente entre o significado e sua instabilidade:
Différance, com a mesma pronúncia de différence, permite a demonstração desse jogo.
Oculta a diferença que não pode ser ouvida, mas é percebida na escrita. Substitui a
noção saussuriana da diferença por presença/ausência, deixando o significado,
marcado por esse traço, entregue à oscilação da presença/ausência, configurada como
elemento desestabilizador. A língua se sustenta na alternância entre o que está lá e o
que não está. Essa suplementaridade do signo ou movimento de
disseminação/contaminação do significado compõe toda a rede de significados da
língua e permite a leitura e tradução de textos.
58
Dessa forma, diz Silva, a questão da fidelidade/infidelidade ou da intraduzibilidade
parece estar resolvida. Contudo, seu próprio artigo, intitulado “O silêncio das nguas: a
possibilidade de traduzir um poema” é uma resposta ao freqüente retorno dessas mesmas
questões, o que acontece em O silêncio das línguas da impossibilidade de traduzir um
poema, texto em que Sérgio Augusto de Andrade fala da “tarefa impossível”, do “ato
ingênuo”, da “impertinência indecorosa” de sua própria tradução de um poema de e. e.
cummings, apresentada no mesmo texto, e da qual Silva vai se utilizar para defender a tese
da possibilidade da tradução.
Assim, a chamada “intraduzibilidade” já não é mais um problema (muito pelo
contrário) se levarmos em conta que a possibilidade de significar de um texto qualquer
(original ou tradução) se faz no jogo presença/ausência, transparência/opacidade da língua,
do qual resulta que a própria possibilidade de traduzir se funda na relação
traduzibilidade/intraduzibilidade, comunicabilidade/incomunicabilidade. Também João
Barrento vem falar da tradução como espelho e véu, lembrando o poema de David Mourão-
Ferreira – “Que o verbo seja um espelho / Ao mesmo tempo um véu”
59
– que nos diz que o
sentido e sua falta estão já na origem.
Concordemos, pois, com Benjamin, que o essencial em uma obra literária não é o
que ela comunica. Assim, uma tradução que procurasse apenas comunicar, servir ao leitor
que não compreende o original o que Benjamin chama de “tradução servil” – nada
comunicaria senão a comunicação logo, algo de inessencial, diz Benjamin, acrescentando
que este é um indício da má tradução. E prossegue:
58
SILVA. O silêncio das línguas, p.183.
59
BARRENTO. O poço de Babel, p.107.
Mas aquilo que em uma obra (Dichtung) excede a comunicação e mesmo o mau
tradutor o admiti como essencial não é geralmente tido por inapreensível,
misterioso, “poético”? Aquilo que o tradutor só pode reproduzir também poetizando?
60
Pensemos, pois, na obra de Emily Dickinson. Pensemos na estrangeiridade de sua
escrita. Emily pergunta a Higginson, naquela sua primeira carta:
O senhor está tão intensamente ocupado para dizer se meu Verso está vivo?
A Mente está, ela própria, tão próxima não pode ver com clareza e não tenho a
quem perguntar –
Se o senhor achar que respira – e puder me dizer – eu sentiria imediata gratidão –
61
Já vimos que Higginson, como porta-voz de sua época, embora para sempre atraído
por aqueles versos, jamais teria convicções sobre a “validade” daquela poesia, sobre a vida
daquela escritora dentro da literatura. Como então pensar em uma pervivência, em uma
sobrevida para a obra de Emily, através da tradução? Como fazer seus versos respirarem
em outra língua? Considerando, desde já, que se trata de uma obra que, por sua
estrangeiridade, pelo seu próprio ponto de intraduzibilidade pede a tradução, terá ela
encontrado, entre a totalidade de seus leitores, um tradutor adequado? E qual seria a tarefa
do tradutor de Emily Dickinson?
Tânia Carvalhal recupera uma frase de Salas Subirat, tradutor de Joyce para o
espanhol: “Traduzir é a maneira mais atenta de ler”.
62
Sendo o tradutor, antes de tudo, um
leitor atento, lerá no original de que maneira ele pede para ser traduzido, “complementado”,
nas palavras de Derrida. Retomando Benjamin, Derrida explica que o original pede o
complemento da tradução para que sobreviva e se transforme. E, porquanto pede um
complemento, o original nunca esteve sem falta, pleno, donde se conclui que a tradução
deverá recuperar essa própria falta. Nas palavras de Derrida:
Desde a origem do original a traduzir, existe a queda e o exílio. O tradutor deve
resgatar (erlösen), absolver, resolver, tratando de absolver-se a si mesmo de sua ppria
dívida que é, no fundo, a mesma e sem fundo. “Resgatar na sua própria ngua essa
linguagem pura exilada na ngua estrangeira, liberar transpondo essa linguagem pura
cativa na obra, tal é a tarefa do tradutor [...].”
63
60
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.v-vi.
61
Carta 260: “Are you too deeply occupied to say if my Verse is alive?/The Mind is so near itself it cannot
see, distinctly and I have none to ask /Should you think it breathed and had you the leisure to tell me, I
should feel quick gratitude –”.
62
CARVALHAL. O próprio e o alheio, p.221.
63
DERRIDA. Torres de Babel, p.47.
Cada texto pede uma leitura, uma forma de tradução. E toda tradução traz em si
uma teoria da tradução. A decisão, a escolha: aclimatar ou estrangeirizar? Benjamin diz que
a tradução deve estrangeirizar – ou estranhar – a língua de chegada, promovendo um
movimento em direção à linguagem pura ou pura língua –, uma intimidade pré-existente,
pré-Babel, entre as línguas.
64
No caso de Dickinson, principalmente, o tradutor não poderia senão recuperar, na
língua de chegada, o mesmo espanto que suas cartas e poemas causaram em Higginson, e
que impediram que aquela escrita circulasse em seu próprio tempo e lugar, mas trouxesse
até nós a falta que pede a tradução, legando-nos esta tarefa.
Walter Benjamin comenta uma teoria de Rudolf Panwitz, que diz:
Nossas traduções (Übertragungen), mesmo as melhores, partem de um falso princípio;
elas querem germanizar o sânscrito, o grego, o inglês, em vez de sanscritizar,
helenizar, anglicizar o alemão. Elas têm muito respeito (Ehrfurcht) pelos usos de sua
própria ngua do que pelo espírito da obra estrangeira. [...] O erro fundamental do
tradutor (Übertragenden) é conservar o estado contingente de sua própria ngua em
vez de deixá-la mover-se violentamente através da língua estrangeira.
65
Emily Dickinson, particularmente estrangeira em sua própria língua, pede para
continuar estrangeira. Assim, a forma como vejo a tarefa da tradução passa sobretudo pelo
outro sentido da palavra no alemão “die Aufgabe” –, que também quer dizer “renúncia”,
como observou Susana Kampff Lages.
66
Renúncia à comunicação, a uma compreensão
totalizadora, a uma apreensão, que seria um aprisionamento, de um sentido e de um espírito
que se querem dinâmicos como a língua tanto a do original quanto a da tradução. Por
isso, o que se nas traduções que aqui ouso fazer é uma despudorada tentativa, mesmo
que vã, de fazer o texto de Emily falar, em um português anglicizado, de seu
arrebatamento, sua loucura e seu desejo que, por mim escolhidos, são também meus
embora eu creia muito mais que os poemas que escolhi” traduzir aqui, na verdade, foram
eles que escolheram ser traduzidos, na medida em que me foram impostos por um modo de
pensar a tradução, um modo também ditado por eles. Por isso acredito, como João
Barrento, que:
Para traduzir um poeta não será necessário (nem conveniente) dispor de nenhuma
teoria, mas é fundamental encontrar um método, ou seja, um caminho próprio de
preferência mais próprio do outro do que de mim.
67
64
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.xi-xii.
65
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.xx-xxi.
66
LAGES. Walter Benjamin: tradução e melancolia, p.169.
67
BARRENTO. O poço de Babel, p.97.
Dickinson pede uma tradução literal uma tradução voltada à letra, não ao sentido.
Derrida nos lembra que o ensaio de Walter Benjamin, “A tarefa do tradutor” tem como uma
de suas bases profundas uma teoria do nome. “A linguagem é determinada a partir da
palavra e do privilégio da nomeação.”
68
De fato, Benjamin diz que “é a palavra, e não a
frase, o elemento originário do tradutor. Pois a frase é o muro diante da língua do original, a
literalidade a arcada”
69
o muro esconde o original, enquanto a arcada o a ver, deixa
passar a sua luz.
70
Daí o pressuposto de Benjamin segundo o qual de nada serve a tradução
a quem não conhece o original, que perpassa todo o seu ensaio.
Então, é essa fidelidade à letra a literalidade e não à proposição, à articulação
sintática – o que persegue o tradutor (ao menos o “bom tradutor”, diria Benjamin
71
).
Porque, novamente, tradução não é comunicação, porque não um conteúdo a ser
comunicado. E porque é justamente o incomunicável o que deve ser transmitido. João
Barrento também teoriza sobre a questão quando fala que o que há a ser traduzido não é um
sentido nem uma forma, mas a forma de um sentido o que se obterá através de um modo
de significar, segundo Benjamin.
Sabemos que buscar essa tradução implica um risco. Em seu ensaio “A palavra
vermelha de Hölderlin”, Haroldo de Campos comenta justamente as conseqüências da
famosa tradução literal feita por Hölderlin da Antígone, que ignora o sentido conotativo do
grego para a palavra traduzida como “vermelha” e leva o tradutor a ser ridicularizado por
seus contemporâneos. Estranhando sua língua, o alemão, nesse “erro criativo”, como o
define Haroldo de Campos ou no “equívoco produtivo” de Benjamin Hölderlin e suas
traduções serviriam de material às modernas reflexões sobre a tarefa do tradutor.
72
Emily Dickinson, com sua dicção espasmódica, pede uma tradução que tenha um
ponto de literalidade, que privilegie a letra, a palavra a palavra vermelha de Hölderlin.
Uma obra publicada à revelia da escritora; publicada pois que exige seu retorno ao exterior.
E traduzida pois que, do seu ponto de intraduzibilidade, pede a tradução, pede o
renascimento de sua estrangeiridade, o estranhamento da língua em direção à pura língua, o
nascimento da poesia.
68
DERRIDA. Torres de Babel, p.45.
69
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.xviii.
70
Cf. DERRIDA. Torres de Babel, p.46.
71
Em oposição ao “mau tradutor”. Cf. BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.xviii.
72
CAMPOS. A palavra vermelha delderlin, p.93-94.
Se isso acontecerá aqui, não sabemos. Perseguimos um reino de difícil acesso, e é
pela promessa dessa palavra porvir que prosseguimos, aceitamos essa tarefa com a renúncia
que ela traz em si.
Esse reino não é jamais atingido, tocado, pisado, pela tradução. Existe o intocável e
nesse sentido a reconciliação é somente prometida. Mas uma promessa não é nada, ela
não é marcada somente pelo que lhe falta para se realizar. Enquanto promessa, a
tradução é um acontecimento, e a assinatura definitiva de um contrato. Que ele seja
ou não honrado não impede o engajamento de acontecer e de legar seu arquivo. Uma
tradução que chega, que chega a prometer a reconciliação, a falar dela, a desejá-la ou
fazer desejar, uma tal produção é um acontecimento raro e considerável.
73
Derrida continua, lembrando que “o sempre intacto, o intangível, o intocável
(unberührbar), é o que fascina e orienta o trabalho do tradutor. Ele quer tocar o intocável, o
que resta do texto quanto dele se extraiu o sentido comunicável”.
74
O poeta americano
Robert Frost (1874-1963) disse: “a poesia é o que resta de um poema depois de ter sido
traduzido.”
75
Aí, antecipava a perigosa tarefa de quem se aventura à tradução literária, para
a qual a comunicação é o que menos importa. Talvez por isso Blanchot escolha o exemplo
de Hölderlin, que fez suas maiores traduções na fronteira da insanidade, para falar que:
o homem apto a traduzir está dentro de uma intimidade constante, perigosa, admirável,
e é por essa familiaridade que ele tem o direito de ser o mais orgulhoso ou o mais
secreto dos escritores – com aquela convicção que traduzir é, no fim das contas,
loucura.
76
Essa loucura, a loucura da poesia, Dickinson a conheceu.
Se eu leio um livro e ele torna meu corpo tão frio que nenhum fogo é capaz de aquecê-
lo, sei que aquilo é poesia. Se sinto fisicamente como se o topo da minha cabeça
estivesse a ser arrancado, sei que aquilo é poesia.
77
E é sobre ela que fala nos poemas que vemos a seguir.
REFERÊNCIAS
BARRENTO, João. Literaturas em rede: tradução e globalização. In: BARRENTO, João. A
espiral vertiginosa: ensaios sobre a cultura contemporânea. Lisboa: Cotovia, 2001. p. 83-
104.
BARRENTO, João. O poço de Babel: para uma poética da tradução literária. Lisboa:
Antropos; Relógio d’Água, 2002.
73
DERRIDA. Torres de Babel, p.51.
74
DERRIDA. Torres de Babel, p.51-52.
75
BARRENTO. O poço de Babel, p.97.
76
BLANCHOT. Traduire, p.69-73. Tradução inédita de Cynthia de Cássia Santos Barra.
77
DICKINSON. Selected Letters, p.208.
BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. ed. (rev.). Rio de Janeiro, Instituto de
Letras/UERJ, s.d., p.v-xii (Cadernos do Mestrado) (trad. Karlheinz Bark e equipe).
BLANCHOT, Maurice. Traduire. In: BLANCHOT, Maurice. L’amitié. Paris: Gallimard, 1971.
p. 69-73. Tradução inédita de Cynthia de Cássia Santos Barra.
BRANCO, Lucia Castello. Discretas infidelidades. In: BRANCO, Lucia Castello; BRANDÃO,
Ruth Silviano. Literaterras. As bordas do corpo literário. São Paulo: AnnaBlume, 1995, p.
131-147. (Coleção E, 4).
BRANCO, Lucia Castello. A branca dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson.
Tradução dos poemas e cartas: Fernanda Mourão. Rio de Janeiro: 7Letras; Belo Horizonte:
UFMG, Programa de Pós-graduação em Letras, 2003.
CAMPOS, Haroldo de. A palavra vermelha de Hölderlin. In: CAMPOS, Haroldo de. A arte no
horizonte do provável. São Paulo: Perspectiva, 1977.
CARVALHAL, Tânia Franco. O próprio e o alheio: ensaios de literatura comparada. São
Leopoldo: Unisinos, 2003.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Kafka. Por uma literatura menor. Rio de Janeiro:
Imago, 1977.
DERRIDA, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
DICKINSON, Emily. Selected Letters. Ed. Thomas H. Johnson. Cambridge, London: The
Belknap Press of Harvard University Pres, 1986.
DICKINSON, Emily. The complete poems of Emily Dickinson. Ed. Thomas H. Johnson.
Boston, New York, London, Toronto: Litle, Brown and Company, 1960.
JOAQUIM, Augusto. Como começam as cidades. Prefácio a DICKINSON, Emily. Bilhetinhos
com poemas. Trad. Ana Fontes. Colares: Colares Editora, 1995. p.5-32.
LAGES, Susana Kampff. Walter Benjamin: tradução e melancolia. São Paulo: Edusp, 2002.
SILVA, Maria das Graças G. Villa da. O silêncio das línguas. A possibilidade de traduzir um
poema. Revista de Letras. São Paulo, Unesp, v. 40, p. 181-191, 2000.
250
I shall keep singing!
Birds will pass me
On their way to Yellower Climes –
Each – with a Robin’s expectation –
I – with my Redbreast –
And my Rhymes –
Late – when I take my place in Summer –
But – I shall bring a fuller tune
Vespersare sweeter than Matins – Signor –
Morning – only the seed of Noon –
250
Continuarei cantando!
Pássaros por mim passarão
A caminho de Melhores Climas –
Cada um – com a expectativa do Sabiá –
Eu – com meu Pintarroxo
E minhas Rimas –
Atrasada – para tomar meu lugar ao sol –
Trarei – porémmelhor melodia –
Tardes – são mais doces que as Manhãs – Senhor –
A Manhã – só a semente do Meio-Dia –
320
We play at Paste –
Till qualified, for Pearl –
The, drop the Paste –
And deem ourself a fool –
The Shapes – though – were similar
And our new Hands
Learned Gem-Tactics –
Practicing Sands
320
Brincamos na Massa Vítrea –
E aí, para Pérola treinados –
Deixamos então a Massa –
E nos julgamos insensatos –
As Formas – porém – as mesmas
E nossas Mãos atuais
Chegaram a Táticas de Gema
Praticando Areais
448
This was a Poet – It is That
Distills amazing sense
From ordinary Meanings
And Attar so immense
From familiar species
That perished by the Door –
We wonder it was not Ourselves
Arrested it before
Of Pictures, the Discloser –
The Poet – it is He –
Entitles Us – by Contrast –
To ceaseless Poverty
Of Portion – so unconscious
The Robbing – could not harm
Himself – to Him a Fortune –
Exterior – to Time –
448
Este foi um Poeta – Aquele
Que destila espantoso senso
De Sentidos costumeiros –
E Essência tão imensa
De espécies ordinárias
Que definham na Calçada
Provavelmente fomos Nós
Que as fizemos maltratadas –
De cenas, Revelador –
É Ele – o Poeta –
Nos concede – por contraste –
A Pobreza incessante –
De seu lote – inconsciente
O Roubo – não é temor –
É – para Ele – Fortuna –
Ao Tempo – Exterior –
488
Myself was formed – a Carpenter –
An unpretending time
My Plane – and I, together wrought
Before a Builder came –
To measure our attainments
Had we the Art of Boards
Sufficient developed – He’d hire us
At Halves –
My Tools took Human – Faces
The Bench, where we had toiled
Against the Man – persuaded –
We – Temples build – I said –
488
Me formei Carpinteiro
Tempo despretencioso
Minha Plaina – e eu, trabalhamos
Antes de vir o Engenheiro
Medir nossos feitos –
Tivéssemos a Arte das Margens
Desenvolvida a contento – Ele nos alugaria
Às Metades
Minhas Ferramentas – Faces Humanas –
A Bancada, onde labutei –
Contra o Homem – persuadido –
Nós – construímos Templos – falei
505
I would not paint – a picture –
I’d rather be the One
Its bright impossibility
To dwell – delicious – on –
And wonder how the fingers feel
Whose rare – celestial – stir –
Evokes so sweet a Torment
Such a sumptuous – Despair
I would not talk, like Cornets –
I’d rather be the One
Raised softly to the Ceilings –
And out, and easy on –
Through Villages of Ether
Myself endued Balloon
By but a lip of Metal –
The pier to my Pontoon
Nor would I be a Poet –
It’s finer – own the Ear –
Enamored – impotent – content –
The License to revere,
A privilege so awful
What would the Dower be,
Had I the Art to stun myself
With Bolts of Melody!
505
Eu não pintaria – um quadro –
Antes ser Aquela –
Que sobre sua clara impossibilidade
Demora – delícia
E imagina como se sentem os dedos
Cujo raro – celeste – tumulto
Evoca tão doce Tormento –
Tão suntuoso – Desespero –
Eu não falaria, como Cornetas –
Antes ser Aquela
Que, dependurada nos Arcos –
Por fora, e em gesto fácil, flutua
Pelas Cidades de Éter –
Em Balão soprada
Tão somente por um lábio de Metal –
Pilar para minha Ponte
Nem seria eu Poeta
É mais sutil – ter o Ouvido
Enamorado – impotente – contente –
A Licença para reverenciar,
Que sublime privilégio
Ah, que Dote eu possuiria, se tivesse
A Arte de ensurdecer
Com Dardos de Melodia!
544
The Martyr Poets – did not tell –
But wrought their Pang in Syllable –
That when their mortal name be numb –
Their mortal fate – encourage Some –
The Martyr Painters – never spoke
Bequeathing – rather to their work –
That when their conscious fingers cease –
Some seek in Art – the Art of Peace –
544
O Poeta Mártir – não falou –
Trabalhou em Letra a Angústia –
E quando seu nome mortal dormir –
O Mortal Fado – alentará Alguns –
O Pintor Mártir – nunca disse
Transmitiu a obra – ao invés –
E quando seu dedo sábio partir –
Buscarão na Arte – a Arte da Paz
569
I reckon – when I count at all
First – Poets – Then the Sun –
Then Summer – Then the Heaven of God
And then – the List done –
But, looking back – the first so seems
To Comprehend the Whole –
The Others look a needless Show –
So I write – Poets – All –
Their Summer – lasts a Solid Year –
They can afford a Sun
The East – would deem extravagant –
And if the Further Heaven –
Be Beautiful as they prepare
For Those who worship Them –
It is too difficult a Grace
To justify the Dream
569
Calculo – que quando contá-los todos
Primeiro – o Poeta – então o Sol –
Depois Verão – só aí o Céu –
E está escalado o Rol –
Mas, espere – o Primeiro parece
Compreender o Todo –
Os Outros – um Show inútil –
Então anoto – Poetas – Todos –
Seu Verão – dura o Ano inteiro –
Podem dispor do Sol
O Oriente – julgaria exagero
E se o Divino Céu –
For Belo como preparam
Para Aqueles que Os honram
É muito cara a Graça –
Para justificar o Sonho
883
The Poets light but Lamps –
Themselves – go out
The Wicks they stimulate
If vital Light
Inhere as do the Suns –
Each Age a Lens
Disseminating their
Circumference –
883
Os Poetas inflamam –
E eles mesmos – se apagam –
Ao pavio que incitam
Se a Luz vital
É inerente como ao Sol –
Cada Era uma Lente
Disseminando sua
Circunferência –
1071
Perception of an object costs
Precise the Object’s loss –
Perception in itself a Gain
Replying to its Price –
The Object Absolute – is nought
Perception sets it fair
And then upbraids a Perfectness
That situates so far
1071
A Percepção de um objeto
Traz sua perda como fator –
É em si mesmo um Ganho
Que responde ao seu Valor –
O Objeto Absoluto – é nada –
Revela-o a Percepção
E rejeita uma Completude
Tão longe até então
1126
Shall I take thee, the Poet said
To the propounded word?
Be stationed with Candidates
Till I have finer tried –
The Poet searched Philology
And when about to ring
For the suspended Candidate
There came unsommoned in
That portion of the Vision
The Word applied to fill
Not unto nomination
The Cherubim reveal –
1126
Devo tomar-te? Disse o Poeta
À palavra proposta –
Aguarde com as Candidatas
Até que eu tenha uma resposta –
Foi à Filologia, o Poeta
E quando ia convocar
A Candidata suspensa
Eis que entra sem chamar –
Aquela parte da Visão
À que a Palavra se aplicava
Não até a nomeação
Que o Querubim revelava –
1212
A Word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.
1212
Uma Palavra é morta
Quando dita,
Alguém diria.
Digo que apenas
Começa a viver
Naquele dia.
1247
To pile like a Thunder to its close
Then crumble grand away
While Everything created hid
This – would be – Poetry
Or Love – the two coeval come –
We both and neither prove
Experience neither and consume –
For None see God and live
1247
Acumular o estrondo como o Trovão
E explodir ao fim do dia
Quando Tudo que existe se oculta
Isto – seria Poesia –
Ou o Amor – são contemporâneos –
Provamos nenhum ou os dois –
Experimente qualquer e consuma-se –
Pois Nada vê Deus e vive depois –
1263
There is no Frigate like a Book
To take us Lands away
Nor any coursers like a Page
Of prancing Poetry –
This Traverse may the poorest take
Without oppress of Toll
How frugal is the Chariot
That bears the Human soul.
1263
Não há Fragata como o Livro
Que nos leva a Terras distantes
Nem Corcel como a Página
De Versos galopantes –
Tal Travessia pode o pobre
Sem opressão da Grana –
Quão parca a Carruagem
Que conduz a Alma Humana.
1472
To see the Summer Sky
Is Poetry, though never in a Book it lie
True Poems flee –
1472
Ver o Céu de Verão
É Poesia, que em nenhum Livro verás –
O Verdadeiro Poema não jaz –
1563
By homely gift and hindered Words
The human heart is told
Of Nothing
“Nothing” is the force
That renovates the World –
Por um dom primitivo e Palavras tortas
O coração humano conhece
O Nada –
“Nada” é a força
Que renova o Universo –
LISTA DE POEMAS
Em ordem crescente, de acordo com a numeração da edição de T. H. Johnson, The
complete poems of Emily Dickinson.
250 I shall keep singing!
Continuarei cantando!
320 We play at Paste –
Brincamos na Massa Vítrea –
448 This was a Poet
Este foi um Poeta
488 Myself was formed – a Carpenter –
Me formei Carpinteiro
505 I would not paint – a picture –
Eu não pintaria – um quadro –
544 The Martyr Poets – did not tell –
O Poeta Mártir – não contou –
569 I reckon – when I count at all
Calculo – que quando contá-los todos
883 The Poets light but lamps –
Os Poetas inflamam –
1071 Perception of an object
A Percepção de um objeto
1126 Shall I take thee, the Poet said
Devo tomar-te? Disse o Poeta
1212 A Word is dead
Uma Palavra é morta
1247 To pile Thunder to its close
Acumular o estrondo como o Trovão
1263 There is no Frigate like a Book
Não há Fragata como o Livro
1472 To see the Summer Sky
Ver o Céu de Verão
1563 By homely gift and hindered Words
Por um dom primitivo e Palavras tortas
Fascículo 3
O PODER E A GLÓRIA
para Lucia
Daí a riqueza e a miséria, o orgulho e a
humildade, a extrema divulgação e a extrema
solidão do nosso trabalho literário, que tem pelo
menos o rito de não desejar
o poder nem a glória.
Maurice Blanchot
É no mínimo intrigante o caso da escritora cuja obra se confunde com a própria vida, cuja
vida nos lega nada mais, nada menos, que sua experiência com a literatura. Se quase nada
se sabe sobre a figura Emily Dickinson, se para o mundo de sua época sua vida passou em
branco, foi na branca noite da escrita que ela viveu, e hoje é difícil figurar a mulher fora de
sua experiência literária.
De fato, além do pouco sabido sobre sua vida pessoal, a própria escrita de Emily
Dickinson não nos permite fazer muitas aproximações. Se Walt Whitman, seu
contemporâneo, é o poeta que rompe as fronteiras do espírito norte-americano com seu
“grito bárbaro” e escreve a epopéia de sua época, o gênio da escritora não é de nenhuma
maneira épico, humanitário, nacionalista ou público mas, ao contrário, lírico, pessoal,
intensamente concentrado, e quase secreto.
A partir da “experiência Emily”, da leitura de sua obra, venho traduzindo seus
poemas e agora, curiosamente, apresento aqui uma seleção daqueles que nos dizem
exatamente de sua preocupação com a questão da fama. O fato é que, se Whitman lança seu
livro como um manifesto e passa toda sua vida reeditando e reafirmando aquela obra que
seria sua grande missão e contribuição à humanidade, Emily nada publica jamais seria
conhecida por seus contemporâneos pois que era, desde sempre, uma contemporânea do
futuro. Disso ela parecia saber, pois, ainda que alguma vez tivesse considerado tal
possibilidade, certamente renunciara ao poder e à glória da notoriedade em favor de uma
total dedicação à escrita quando inicia a correspondência com aquele que lhe aconselharia –
temendo a recepção do público – adiar a publicação:
Sorrio quando o senhor sugere que eu adie a “publicação” que sempre esteve tão
longe do meu pensamento, como o Firmamento dos Peixes
Se a Fama me pertencesse, eu não conseguiria fugir a ela se assim não fosse, o mais
longo dos dias seria gasto em seu encalço e eu perderia a aprovação do meu Cão
assim – minha Ordem-Descalça é melhor
78
De fato, Emily Dickinson nada publica. Apenas meia dúzia de poemas seus são
publicados esparsamente, por amigos, à revelia da escritora. O mundo literário de sua época
não tomaria conhecimento de sua existência. Não obstante, ela escreve. Lembramos aqui de
André Comte-Sponville, ao falar sobre sua relação com a poesia: “Escrevi muitos
[poemas], e nunca parei de todo. A poesia me parece o essencial do que a linguagem pode
dizer e ser portadora. Mas escrever é outra coisa; e publicar ainda outra.”
79
Trancada no quarto, ela escreve. A partir dos vinte e oito anos, passa a vestir-se
exclusivamente de branco e a conversar com os amigos, nas raras ocasiões em que os
recebia, somente através da porta entreaberta.
80
Ao morrer, Emily deixa, nas gavetas
daquele mesmo quarto onde viveu reclusa em sua escrita, 1775 poemas, 900 dos quais
cuidadosamente copiados a tinta em 60 pequenos volumes, ou “fascículos”, como foram
chamados folhas de papel meticulosamente dobradas e costuradas seu livro por vir.
Muitos outros poemas foram encontrados ainda, escritos em papéis de diferentes formas e
tamanhos, envelopes usados, páginas de cadernos e folhas de receitas.
Mas por que não publica Emily Dickinson? Por que motivos passa toda a vida
enviando sua produção poética a um tutor que, apesar de reconhecer a força daquela escrita,
não deixaria nunca de tentar corrigi-la? Por que escolhe como interlocutor exatamente
aquele que se colocaria entre ela e o público, e justamente por temer sua recepção?
Mas Emily não escreve para Higginson. Sabia que não era lida por ele; mais ainda,
sabia da inutilidade de se escrever para ser lida em qualquer circunstância pois que, lendo,
o público apenas lê a si próprio. Como Blanchot, sabia que
o autor que escreve especialmente para um público, na realidade, não escreve: é esse
público que escreve, e, por essa razão, esse blico não pode ser mais leitor; a leitura é
apenas em aparência, no fundo ela é nula. Da insignificância das obras feitas para
serem lidas – ninguém as lê.
81
Realmente, mesmo um quarto de século após sua morte, com parte de sua produção
publicada, a crítica literária americana descreve a escritora como uma mulher excêntrica,
solteirona, isolada em casa, inapreensível. O público, este tem então sua opinião formada
78
Carta 265, cf. edão de Thomas H. Johnson, The complete poems of Emily Dickinson, usada neste trabalho.
Tradução minha.
79
COMTE-SPONVILLE. O amor a solidão, p.113.
80
CODY. After great pain, p.19-20.
81
BLANCHOT. A parte do fogo, p.297.
antes mesmo de se interessar pelo que escrevera Emily. Mais tempo ainda, setenta anos
após o falecimento da escritora e com todos os seus poemas pela primeira vez publicados
conforme o original (as publicações anteriores sofreram “revisões”), Emily finalmente
poderia ser lida. Mas, assim se pergunta Augusto Joaquim: “quem se disporia a escutá-la e
a lê-la no que ela escrevera?”
82
Não. Mesmo hoje não podemos dizer que a publicação de seus poemas tenha
resultado em sua leitura. Pois que
Publicar não é fazer-se ler, nem dar a ler o que quer que seja. O que é público não tem
precisamente necessidade de ser lido; é sempre já conhecido, antecipadamente, de um
conhecimento que sabe tudo e não quer saber nada.
83
Emily parecia disso saber, e também, como Blanchot ainda, do perigo de se
procurar o leitor no público, como Orfeu a procurar Eurídice nos infernos, orientando-se
para uma palavra que ninguém ouvirá. Por isso escreve em silêncio, no
Movimento de uma palavra desapossada e desenraizada, que à pretensão de dizer tudo
prefere nada dizer e, sempre que diz alguma coisa mais não faz que designar o nível
abaixo do qual é preciso descer ainda, se se quer começar a falar.
84
Assim, trancada em seu quarto, vestida de branco, essa mulher escreve. É apesar de
tudo isso que ela escreve, e é pela mesma causa que a lemos – ou não.
É contra uma palavra indefinida e incessante, sem começo nem fim, contra ela mas
também com a sua ajuda, que o autor se exprime. É contra o interesse blico, contra a
curiosidade distraída, instável, universal e omnisciente, que o leitor acaba por ler,
emergindo penosamente dessa primeira leitura que antes de ter lido leu: lendo contra
ela mas mesmo assim através dela. O leitor e o autor participam, um numa escuta
neutra, o outro numa palavra neutra, que gostariam de suspender por momentos para
lhe substituírem uma expressão mais bem ouvida.
85
É assim que Emily dedica toda a sua vida a uma produção poética incessante, à
exigência de uma obra que se faria presente mesmo sem o encorajamento da aclamação
pública. Pois se não se escreve ou publica para ser lido, e muito menos pela pequena glória
do renome e da fama Blanchot nos lembra que o mais célebre dos escritores é menos
nomeado que o locutor diário da rádio! –, somente uma necessidade da própria obra pode
fazer com que ela seja.
Penso que o escritor não deseja nada para si, nem para sua obra. Mas a necessidade de
publicação quer dizer de aceder à existência exterior, a essa divulgação-dissolução
82
JOAQUIM. Como comam as cidades, p.10.
83
BLANCHOT. O livro por vir, p.258.
84
BLANCHOT. O livro por vir, p.261.
85
BLANCHOT. O livro por vir, p.258.
que as nossas grandes cidades proporcionam pertence à obra, como uma lembrança
do movimento de onde ela vem [...].
86
Perguntado sobre o que pede à escrita, e sobre o que a escrita lhe dá, Comte-
Sponville responde:
Peço-lhe cada menos e ela me cada vez menos. [...] Quanto mais se liberta de si,
menos a escrita tapa o real; quanto menos nos enganamos sobre ela, menos ela nos
engana sobre o mundo.
87
Emily Dickinson não se enganou com a pequena glória da literatura. “Existence has
overpowered Booksdisse ela certa vez. Como Blanchot, não desejou nada para si, pois
sabia que, antes de possuí-la, “o escritor pertence à obra, mas o que lhe pertence é somente
um livro, um amontoado mudo de palavras estéreis, o que de mais insignificante no
mundo.”
88
Sabia queo seria esse amontoado de palavras estéreis o que lhe traria a
Imortalidade; esteve todo o tempo “votada ao erro de um empreendimento necessariamente
um pouco mais longo que a sua vida.”
89
O Livro existia, desde sempre. A verdadeira
Glória daquela que apenas uma vez deixou-se capturar em imagem, por um daguerreótipo,
seria justamente a glória do desaparecimento, da renúncia, para dar lugar a essa Obra.
É assim que sua “carta ao mundo” se escreve como exigência, como resultado da
passividade daquela mulher que renuncia à vida em favor da obra “Eu não posso viver
com Você /Isso seria Vida –”.
90
Ou, melhor, que vive em sua obra; obra que traz em si
essa vida a lei de sua pervivência. A publicação, assim, mais cedo ou mais tarde
aconteceria, também como exigência. Quanto a nós, continuamos sendo chamados pela sua
letter, e traduzir pode ser uma forma de fazer soprar essa vida, de deixar falar essa voz que
exige seu retorno ao rumor incessante do exterior.
A história das grandes obras de arte conhece sua descendência a partir de suas fontes,
sua estruturação na época do artista e o período, em princípio eterno, de sua
pervivência nas gerações seguintes. Esta última, quando ocorre, chama-se glória. As
traduções que são mais que meras mediações nascem quando, em sua pervivência, a
obra alcança a época de sua glória. Elas antes devem sua existência a esta glória do que
a promovem, como supõem os maus tradutores. Nelas, a vida do original, em
renovação constante, alcança um outro e mais extenso desdobramento.
91
86
BLANCHOT. O livro por vir, p.259.
87
COMTE-SPONVILLE. O amor a solidão, p.109.
88
BLANCHOT. O espaço literário, p.13.
89
BLANCHOT. O livro por vir, p.103.
90
Poema 640.
91
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.viii.
REFERÊNCIAS
BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. ed. (rev.). Rio de Janeiro, Instituto de
Letras/UERJ, s.d., p.v-xii (Cadernos do Mestrado) (trad. Karlheinz Bark e equipe).
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Lisboa: Relógio d’Água, 1984.
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
CODY, John. After great pain: the inner life of Emily Dickinson. Cambridge: Harvard
University Press, 1971.
COMTE-SPONVILLE, André. O amor a solidão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
DICKINSON, Emily. The complete poems of Emily Dickinson. Ed. Thomas H. Johnson.
Boston, New York, London, Toronto: Litle, Brown and Company, 1960.
JOAQUIM, Augusto. Como começam as cidades. Prefácio a DICKINSON, Emily. Bilhetinhos
com poemas. Trad. Ana Fontes. Colares: Colares Editora, 1995.
67
Success is counted sweetest
By those who ne’er succeed.
To comprehend a nectar
Requires sorest need.
Not one of all the purple Host
Who took the Flag today
Can tell the definition
So clear of Victory
As he defeated – dying –
On whose forbidden ear
The distant strains of triumph
Burst agonized and clear!
67
O Sucesso é tão mais doce
Aos que nunca o provaram.
Compreender um néctar
Requer sofrimento raro.
Nem o que na Multidão
Ergue a Bandeira agora
Pode dar definição
Mais clara da Vitória
Que o derrotadoa morrer –
Em cujo ouvido distante
A sonora canção do triunfo
Ecoa agônica, gritante!
288
I’m Nobody! Who are you?
Are you Nobody – Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!
How dreary to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!
Eu sou Ninguém! Quem é você?
Você é – Ninguém – também?
Então somos dois – Não conte!
Ou seremos notícia – veja bem!
Que medo – ser – Alguém!
Tão público – como a Rã –
Coachar seu nome o Verão todo
Tendo o Brejo como fã!
349
I had the Glory – that will do –
An Honor, Thought can turn her to
When lesser Fames invite –
With one long “Nay” –
Bliss’ early shape
Deforming Dwindling Golfing up –
Time’s possibility.
349
Tive Glóriaé o bastante –
Honra, o Pensamento pode torná-la
Quando a pequena Fama chamar
Com um longo “Mais” –
A forma primeira da Alegria
Deformando – Diminuindo – Devorando –
O Tempo assim faz.
406
Some – Work for Immorality
The Chiefer part, for Time
He – Compensates – immediately –
The former – Checks – on Fame
Slow Gold – but Everlasting –
The Bullion of Today –
Contrasted with the Currency
Of Immortality –
A Beggar – Here and There
Is gifted to discern
Beyond the Broker’s insight
One’s – Money – One’s the Mine –
406
Alguns – trabalham para a Imortalidade –
Os Maiores, para o Tempo –
Estes – imediatamente – se saciam –
Os primeiros – confiam – na Fama
Demorado – mas Duradouro –
O Ouro do Dia –
Contrastado à Moeda
Da Imortalidade –
Um Pedinte – Aqui e Ali –
Melhor discrimina
Que o bom negociante –
Uma coisa – Dinheiro – Outra – a Mina –
709
Publication – is the Auction
Of the Mind of Man –
Poverty – be justifying
For so foul a thing
Possibly – but We – would rather
From Our Garret go
White – Unto the White Creator
Than invest – Our Snow
Thought belong to Him who gave it –
Then – to Him Who bear
Its Corporeal illustration – Sell
The Royal Air –
In the Parcel – Be the Merchant
Of the Heavenly Grace –
But reduce no Human Spirit
To Disgrace of Price –
709
Publicação – eis o Leilão
Da Consciência Humana –
Pobreza – o motivo
Para tamanha infâmia
Talvez – mas Nós – preferimos
De nosso Sótão partir
De Branco – para o Branco Criador
Que investir nossa Neve –
O Pensamento pertence Àquele, que o deu –
Àquele que sustenta – então –
Sua Corpórea Ilustração – Venda-se
O Ar Real –
Do Lote – seja o Negociante
Da Graça Celeste –
Mas não reduza um Espírito Humano
À Desonra do Lance –
713
Fame for Myself, to justify,
All other Plaudit be,
Superfluous – an incense
Beyond Necessity –
Fame for Myself to lack – Although
My Name be else Supreme –
This were an Honor honorless –
A futile Diadem
713
Fama, para Mim, comprova
Ser todo Aplauso
Em Vão – um incenso
Maior que a Precisão –
Fama, para Mim, inútil –
Embora meu Nome reine
Uma Honra infame
Um Diadema fútil
866
Fame is the tint that Scholars leave
Upon their Setting Names –
The Iris not of Occident
That disappears as comes –
866
Fama é matiz que deixa o Sábio
Em seu Nome Poente
Como vem, some –
Íris do Oriente
1240
The Beggar at the Door for Fame
Were easily supplied
But Bread is that Diviner thing
Disclosed to the denied
1240
O Pedinte à Porta da Fama
Seria facilmente atendido
Mas Pão é coisa mais Divina
Dada ao excluído
1475
Fame is the one that does not stay –
Its occupant must die
Or out of sight of estimate
Ascend incessantly –
Or be that most insolvent thing
A Lightning in the Germ
Electrical the embryo
But we demand the Flame
1475
Fama é aquela que não demora –
Seu ocupante deve morrer
Ou longe de estimativas
Constantemente ascender
Tem algo de devedor
Um Raio em seu Germe
Eletricidade embrionária
Quando queremos Fulgor
1531
Above Oblivion’s Tide there is a Pier
And an effaceless “Few” are lifted there –
Nay – lift themselves – Fame has no Arms –
And but one smile – that meagres Balms –
1531
Acima da Maré do Esquecimento há um Cais
“Poucos” até lá são içados –
Não! – sobem sozinhos – Fama não tem Braços –
Tem um só sorriso – Bálsamo escasso –
1659
Fame is a fickle food
Upon a shifting plate
Whose table once a
Guest but not
The second time is set.
Whose crumbs the crows inspect
And with ironic caw
Flap past it to the
Farmer’s Corn –
Men eat of it and die.
1659
Fama é comida inconstante
Sobre um prato instável
Em cuja mesa um
Visitante que
Uma vez só é saciado.
Suas migalhas vigia o corvo
E por sobre elas com grasnido torpe
Voa até a
Plantação –
O homem delas come e morre.
1660
Glory is that bright tragic thing
That for an instant
Means Dominion
Warms some poor name
That never felt the Sun,
Gently replacing
In oblivion
1660
Glória é aquilo trágico e radiante
Que por um instante
É Domínio
Aquece algum pobre nome
Que nunca experimentou o Sol,
E gentilmente o recoloca
No Limbo
1763
Fame is a bee.
It has a song –
It has a sting –
Ah, too, it has a wing.
1763
Fama é uma abelha.
Tem uma música –
Possui um ferrão
E asas! – como não?
LISTA DE POEMAS
Em ordem crescente, de acordo com a numeração da edição de T. H. Johnson, The
complete poems of Emily Dickinson.
67- Success is counted sweetest
67- O Sucesso é tão mais doce
288- I’m Nobody! Who are you?
288- Eu sou Ninguém! Quem é você?
349- I had the Glory that will do
349- Tive Glória é o bastante –
406- Some Work for immortality
406- Alguns trabalham para a Imortalidade –
709- Publication is the Auction
709- Publicação eis o Leilão
713- Fame for Myself, to justify
713- Fama, para Mim, comprova
866- Fame is he tint that scholars leave
866- Fama é matiz que deixa o Sábio
1240- The Beggar at the Door for Fame
1240- O Pedinte à Porta da Fama
1475- Fame is the one that does not stay
1475- Fama é aquela que não demora –
1531- Above Oblivion’s Tide there is a Pier
1531- Acima da Maré do Esquecimento há um Cais
1659- Fame is a fickle food
1659- Fama é comida inconstante
1660- Glory is that bright tragic thing
1660- Glória é aquele algo trágico e radiante
1763- Fame is a bee
1763- Fama é uma abelha
Fascículo 4
A RIMA E A VIDA
para Sônia
O ritmo é o que há de mais inauvel
no reino do sentido.
Henri Meschonnic
Se sabemos que as primeiras edições da obra de Emily Dickinson sofreram
“adaptações” ao gosto particular dos editores e sua época, com as traduções não tem sido
diferente. Traduzida para o português com uma freqüência cada vez maior desde a década
de 1940, a poesia de Emily Dickinson poucas vezes alcançou, na nossa língua, uma
expressão merecida. Ao iniciar meus estudos e traduções da escritora, vali-me do fato de
que sua obra era pouco traduzida como uma justificativa era preciso alguma! para que
eu me lançasse a tal projeto. Bem depois, através do levantamento organizado por Carlos
Daghlian,
92
soube que cerca de 90 tradutores – salvo engano vêm traduzindo Emily
Dickinson para o português desde Manuel Bandeira, em 1943. Por que continuava ainda
com a impressão de que a poeta era pouco traduzida?
Analisando o referido levantamento, confirmei o que percebia: se a obra da
escritora não é largamente lida e divulgada, tampouco é tão ou tão-bem – traduzida
quanto os números sugeririam. Não que eu pretenda que essa obra devesse ter mais ou
menos “visibilidade”; muito pelo contrário, pois que acredito ser essa uma questão uma
exigência
93
intrínseca a ela, a obra. O fato é que suas traduções aparecem, na maioria das
vezes, ou pelas mãos de escritores-tradutores interessados na experimentação da poesia de
E. Dickinson pelo viés da tradução – freqüentemente em ensaios esparsos e escassas
publicações ou pelos estudiosos da poeta. Nesse caso, é comum tratar-se de traduções
com a declarada finalidade de contemplar uma antologia, ou possibilitar ao leitor de língua
portuguesa “entender” o poema a “tradução servil” de que nos fala Benjamin e que,
segundo Octavio Paz, é “algo mais próximo do dicionário que da tradução, que é sempre
uma operação literária.”
94
Assim, temos grande parte dessas traduções inseridas, por exemplo, na tradução da
biografia de Emily Dickinson por seu editor T. H. Johnson,
95
em que mais de duas centenas
de poemas são incluídos e, portanto, constam da tradução de Vera das Neves Pedroso para
o português, em 1965. Não notas da tradutora, mas a edição é pioneira em trazer os
poemas originais em pé-de-página, contribuindo para o conhecimento da escritora no
Brasil. Apesar de procurar manter a pontuação de Emily, a sintaxe é muitas vezes
aclimatada, tornando o poema fluido onde ele não o é, e o vocabulário é às vezes
92
www.ibilce.unesp.br/departamentos/lem/emilydickinsoninbrazil
93
Cf. BLANCHOT. O livro por vir.
94
PAZ. Tradução, literatura e literariedade, p.6.
95
JOHNSON. Mistério e Solidão: a vida e a obra de Emily Dickinson.
contaminado por um rebuscamento, um peso que contrasta com a simplicidade de Emily.
Por não trazerem ganho significativo ao nosso trabalho aqui, não incluirei nenhuma dessas
versões. O mesmo em relação às traduções de Isa Marà Lando, de 1999, para a Associação
Alumni, com o objetivo de “fazer o intercâmbio com os Estados Unidos” através da
publicação de obras de “pouco conhecimento no Brasil.” Esta edição, inclusive, traz, por
vezes, mais de uma opção em português para uma determinada palavra, expressão, ou
versos inteiros, em uma tentativa didática de ampliar a “possível consulta do leitor
brasileiro.”
96
Além desse tipo de trabalho, que pouco contribui para a leitura que pede a obra de
Dickinson, vale lembrar a indisponibilidade prática de grande parte das traduções citadas
por Daghlian, visto que muitas delas se acham em periódicos de universidades, jornais, ou
edições esgotadas – volumes encontrados somente nas referidas instituições ou em sebos de
raridades –; poucas à mão do apreciador de poesia hoje. Algumas tentativas têm sido feitas
no sentido de trazer essa obra para o público presente, como é o caso do trabalho de José
Lira lançado em 2006, bem depois de iniciadas minhas traduções. Mais tarde ainda, na
verdade pouco antes de concluir esta tese, recebi em minhas mãos, juntamente com a
incumbência de resenhá-lo, o livro de horas de Angela-Lago, uma seleção de poemas de
Dickinson traduzidos em uma bela edição ilustrada e sobre o qual teremos oportunidade de
comentar mais tarde.
Enfim, é por tudo isso que poderia dizer que ainda carecíamos de traduções de
Emily Dickinson e assim justificar minha opção por fazê-lo. Mas não é o que acontece. Isso
não seria minha motivação, mesmo porque até começar eu não tinha tido contato com
praticamente nenhuma de suas traduções apenas alguns poemas, no original, nos idos
cursos de Literatura Americana do séc. XIX. Foi, antes, o chamado dessa própria obra – seu
desejo de retorno ao exterior
97
que me invocou bem mais tarde, através de Lucia Castello
Branco, a, após verter para o inglês um ensaio seu sobre a escritora, trazer para nossa língua
alguns poemas e cartas a pedido daquela que viria a ser minha orientadora – o que rendeu o
livro A branca dor da escrita em 2003, pela editora 7Letras, e promoveu meu reencontro
com a poeta. A partir daí, lancei-me a este projeto de doutorado que é um projeto de estudo
de leitura da obra de Emily Dickinson através de sua experiência de escrita, passando então,
obrigatoriamente, pela minha experiência de traduzi-la, de escrevê-la em minha ngua. Foi
assim que traduzi em torno de 250 poemas e uma dúzia cartas, que vieram a se organizar de
acordo com as questões que aquela escrita me trazia a própria escrita, a correspondência,
a fama, o amor, a morte etc. –, para agora me confrontar com outros tradutores, com o
que se pode ler de Emily Dickinson em português.
O que gostaria de fazer aqui, portanto, seria justamente apresentar algumas das
minhas traduções de Emily Dickinson, de poemas que também têm sido traduzidos ao
longo dessas décadas, colocando lado a lado algumas dessas versões. Antes, contudo,
destaco alguns tradutores, desde Manuel Bandeira até os dias de hoje, para que possamos
pensar sobre como tem se apresentado a obra de Emily Dickinson traduzida e editada em
nossa língua, durante esse tempo.
96
DICKINSON. Fifty poems: cinqüenta poemas, orelha.
97
Cf. BLANCHOT. O livro por vir.
Ana Cristina Cesar fez a pertinente observação de que Poemas traduzidos, livro
de Bandeira, de 1948, que traz Cinco poemas de Emily Dickinson,
98
é uma antologia que
apresenta apenas as traduções, sem os textos originais, configurando-se quase que como
“um livro de poesias de Manuel Bandeira, cuja autoria é compartilhada com 57 poetas.”
99
E
continua:
Não há referências, notas ou prefácio. No livro traduzido por Manuel Bandeira, o leitor é
remetido diretamente às traduções. A antologia parece nos convidar a esquecer qualquer
problema porventura existente nos textos originais ausentes, entregando-nos ao plaisir de
lire. Como não existe uma unidade aparente (nenhuma voz predominante, nem tampouco
um único autor), estamos, na realidade, lendo o próprio Bandeira. É sua habilidade
profissional de poeta que dá unidade à coletânea, ou, mais precisamente, seu “nome”, como
sinal de autoria se preferirmos usar o enfoque de Foucault. Essa prática e esse nome são
facilmente identificáveis através da escolha dos temas (e não do caráter modernista da
poesia de Manuel Bandeira).
100
De fato, as escolhas de Bandeira em Poemas traduzidos tornam o livro identificável
como um livro de poemas do autor, com seus temas favoritos como a morte, a beleza, o
sofrimento, o fim de um amor, da vida. E, nesse caso, sob o ponto de vista de uma poética
da tradução a ser extraída da experiência tradutória de Bandeira dos poemas de E.
Dickinson, valeria a instigante pergunta de Benjamin: “Uma tradução é feita para os
leitores que não compreendem o original?”
101
Durante todo o seu ensaio, Benjamin
demonstrará que de nada serve a tradução a quem não conhece o original, pois que este lhe
é essencial justo na medida em que “liberou o tradutor e à sua obra do esforço e da ordem
da comunicação.”
102
Assim, de que maneira os leitores de Dickinson podem ler aquelas
traduções que se afastam do original ao ponto de excluí-lo do corpo do livro? Ou, ainda,
que tipo de extração poética pode ser realizada pelo leitor, se é justamente dos atritos, das
renúncias e dos ganhos da tradução, com relação ao original, que essa poética se dá a ver?
O que Ana Cristina aponta como intrigante é o fato de, nas traduções de Bandeira, a
expressão de uma subjetividade através de tais temas se sobrepor à sua figura como poeta
modernista:
O que poderia, porém, ter ditado tal discrepância entre poeta e tradutor? Talvez sua fixação
em determinados temas? Ou uma relação particular com o fato da tradução, que pode ser
considerado como um desafio técnico, no qual a subjetividade pode se expressar
livremente, sem a obrigação de ser “moderna”? Talvez pudéssemos até mesmo fazer a
seguinte indagação: não seria a modernidade, a esta altura, uma espécie de fardo para uma
pessoa tão intensamente subjetivista como Manuel Bandeira?
103
98
BANDEIRA. Cinco poemas de Emily Dickinson. In: ______, Estrela da vida inteira, p.347-432. Dois desses
poemas (49 e 449) haviam sido publicados em Lanterna Verde,, 7, agosto de 1943.
99
CESAR. Crítica e tradução, p.399.
100
CESAR. Crítica e tradução, p.400
101
BENJAMIN. “A tarefa do tradutor”, p.v.
102
BENJAMIN. “A tarefa do tradutor”, p.xviii.
103
CESAR. Crítica e tradução, p.401.
De acordo com Ana Cristina Cesar, uma tendência, em todo o livro Poemas
traduzidos, de dissolução do autor original, que “parece indicar uma prática de tradução
que absorve o texto original e se concentra na reconfiguração de um tema favorito.”
104
É
assim que, no caso de suas traduções de Dickinson, em que Bandeira privilegia o tema da
morte, vemos inclusive surgirem títulos que sabemos nunca terem existido (atitude já
muitas vezes abominada por conta das primeiras tentativas de se tentar “corrigir” e
“adaptar” a escritora ao público de sua época), como que a marcar e enfatizar ainda mais
uma posição tradutória, do poeta que parece pretender tomar para si, e nomear, aquele
objeto-poema que expressou com exatidão um tema tão caro, e que, portanto, já lhe
pertence. Segundo Ana Cristina, esse posicionamento, no caso de Bandeira, produz
traduções que não traem o espírito original, e, particularmente nas traduções de Dickinson,
essa “apropriação” consegue mesmo manter o padrão enxuto e denso da escritora. Ao
comparar Manuel Bandeira e Augusto de Campos como tradutores (no geral,o em
relação à Dickinson), Ana Cristina César disse ainda que o concretismo deste último
“parece rejeitar a questão do tema, da figuração, das sensações sentimentais”, ao passo que
o primeiro, ao contrário, “se entrega a esse envolvimento, sem qualquer reticência, mesmo
que o resultado não se revele tão arguto e habilidoso, na tradução. Suas traduções são de tal
nível, que permitem esse envolvimento e não nos apercebemos de qualquer imperfeição no
poema.”
105
Até porque, podemos completar, elas nos privam do original, corroborando a
hipótese de que “o teste da verdadeira tradução consiste em que, ao ser lida, ela não seja
reconhecida como uma tradução”,
106
crença da qual, por tudo que vimos discutindo, não
posso partilhar.
Já na década seguinte, em 1954, temos Cecília Meireles e sua tradução de um único
poema da escritora, incluída em Obras-primas da poesia universal
107
e apresentada ao lado
de duas das traduções de Manuel Bandeira À Porta de Deus e Nunca vi um Campo de
Urzes. Da mesma maneira que estas, a versão de Cecília Meireles também é intitulada, e
coincide com uma das cinco de Bandeira, não incluída no volume em questão. Trata-se de
“I died for Beauty”, que Bandeira intitulara “Beleza e Verdade”, e que Cecília apresenta
simplesmente como “Morri pela Beleza” uma tradução literal do primeiro verso, como
costumam ser identificados os poemas de Emily, justamente por não terem títulos. Isso nos
leva a refletir novamente sobre as traduções de Bandeira, e parece ficar ainda mais evidente
sua determinação em “nomear” os poemas, evidenciar-lhes o tema, e não apenas
“identificá-los”, visto que, dos cinco traduzidos, apenas o título de um coincide com seu
primeiro verso.
No caso de Obras-primas da poesia universal, é importante comentar que, à
semelhança dos Poemas traduzidos de Manuel Bandeira, a edição não é bilíngüe e
tampouco traz notas sobre a tradução. Apenas uma pequena introdução do organizador,
Sérgio Milliet, que assim abre o volume: “Não é esta uma antologia dos melhores poemas
da literatura universal desde os românticos até os modernos. É apenas uma antologia dos
melhores poemas vertidos para o português ou escritos nesta língua.”
108
Novamente, então,
104
CESAR. Crítica e tradução, p.401.
105
CESAR. Crítica e tradução, p.409.
106
NIDA citado por SILVA.Tradução de poesia: transcriação, crítica e algo mais. In: SOUZA; CARVALHO;
SALGUEIRO (Orgs.). Sob o signo de Babel, p.238.
107
MILLIET. Obras primas da poesia universal, p.84.
108
MILLIET. Obras primas da poesia universal, p.5.
somos lançados ao poema traduzido sem o confronto com o original, e o leitor que não for à
fonte jamais terá idéia, assim como acontece com as traduções de Bandeira, da pontuação
incomum de Emily, seu uso dos travessões e das maiúsculas, por exemplo. Nem, no caso da
tradução de Cecília, das rimas originais, muitas vezes não-convencionais na época e que ali
se tornam rimas perfeitas. Assim como no caso de Bandeira, é Cecília Meireles que lemos
aí. Trata-se um tipo de tradução que pode ser considerada bem-realizada em seu contexto,
mas que não deixa ver o original, o que, concordando com Benjamin, é essencial numa
tradução.
Também dos anos 50, temos a tradução de Décio Pignatari de “There’s a certain
Slant of light”. A tradução de 1952, publicada como inédito em Poesia pois é poesia, de
1977, é de um poema pelo qual tenho uma afeição especial e foi um dos primeiros que
traduzi. A coletânea de Décio Pignatari inclui escritos de 1950 a 1975, incluindo várias
traduções. Os originais, contudo, não acompanham, não prefácio ou notas, nem nada é
mencionado sobre as traduções, que de repente estão ali, acomodadas em meio à obra do
poeta. A outra tradução de Dickinson, inclusive, parece estar bem-adaptada ao volume que
traz poesia concreta, semiótica, ideogramática.
109
Entretanto, a tradução de “There’s a
certain Slant of light”, que apresentarei aqui, preserva o tom solene e sóbrio do poema,
como se ele assim o exigisse algo que pude perceber quando o traduzi. Curiosamente,
também Pignatari suprime os travessões e as maiúsculas, um traço “concreto” na poesia de
Dickinson.
em 1969, temos Paulo Mendes Campos e a tradução de seus “Oito poemas”, em
Trinca de copas. Novamente, nenhuma pista nos é dada sobre as escolhas do tradutor. Os
poemas originais também não são apresentados, de modo que não se faz visível a supressão
dos característicos travessões e das maiúsculas de Emily. Contudo, ao menos nos dois
poemas que apresentarei aqui (“As if the Sea should part” e “There is a solitude of space”),
gosto muito do resultado, mesmo da fluidez conseguida com a retirada das pausas
gosto menos da inclusão das reticências... Emily Dickinson não é nada reticente.
Traduzidos inicialmente para a revista José, em 1976, os 10 poemas de Dickinson
escolhidos por Augusto de Campos reaparecem na coletânea O Anticrítico, de 1986. As
traduções vêm então acompanhadas dos originais e precedidas por um belo texto intitulado
“Emily: o difícil anonimato”. A proposta de Augusto de Campos é a crítica através da
tradução; a própria tradução – sendo uma forma de leitura – como uma crítica. Sua tradução
é o que ele chama de re-criação a tradução-arte –, que é “uma questão de forma, mas
também uma questão de alma.
110
No mais, não comentários ou notas de tradução dos
poemas lado a lado com os originais, elas falam por si, deixam transparecer a leitura do
poeta-tradutor. Em sua re-criação, Augusto preserva o uso dos travessões e das maiúsculas,
algumas vezes até lhes acrescentando, como em “I felt a Funeral”, na última estrofe
liberdade que, no caso, demonstra uma intimidade com o texto, uma afinidade de alma,
quando o ímpeto primeiro de muitos é “suavizar” esses traços de Emily na tradução.
Em 1981, o n
o
3 de Polímica traz “Emily Dickinson: 5 poemas” como parte da
seção “9 poemas do inglês”, traduzidos por Nelson Ascher, cujas traduções de “My Life
109
Refiro-me ao poema 621, que não traduzi e que assim ficou na versão de Pignatari: Pedi um artigo apenas
/ Só ele estava em falta. / Propus pagá-lo em $er: / Sorryu-me o caixa-alta. // Brasil? Botãotorcendo, / Cerrou,
sem ver-me, o cenho: / – A minha cara senhora / Não quer mais nada, por ora?
PIGNATARI. Poesia pois é poesia, p.73.
110
CAMPOS. O anticrítico, orelha.
closed twice” e “I reason, Earth is short” incluo neste trabalho. Os originais acompanham
as traduções, mas não comentários específicos sobre elas. A pista sobre o que guiou
Ascher em suas traduções fica sendo mesmo a dedicatória a Augusto de Campos, “mestre
sem defeitos”:
Augusto de Campos, em particular, criou linguagens para os poetas de nguas inglesas da
Renascença, Barroco (metafísicos) e século XIX. Assim, além de traduzir poetas
intraduzíveis destas épocas, tornou-os traduzíveis, desmatando o terreno da linguagem e
facilitando o trabalho dos futuros colonos, dos quais é, sem vida, o primeiro. Tentei falar,
nos poemas que seguem, suas linguagens. Dedico-lhe, por isto, estas traduções.
111
Em 1983, logo após a morte de Ana Cristina César, aparecem no Folhetim, da Folha
de S. Paulo, os “Poemas de Emily Dickinson” cinco traduções que, juntamente com suas
notas e mais uma versão incompleta, irão compor “Cinco e meio” em Escritos da
Inglaterra (1988), mais tarde incluídos em Crítica e tradução (1999), que reúne a obra
teórica da escritora. Em “Cinco e meio”, Ana Cristina comenta detalhadamente cada
tradução à exceção da última, que não considera bem-realizada (“I felt a Funeral”, que seria
a “meia” tradução). A autora faz importantes considerações acerca da rima e da métrica em
Emily Dickinson, questões que me assombram desde minhas primeiras traduções e para as
quais encontrei eco de minhas intuições em Ana Cristina. Sei que Emily, na maioria das
vezes, apresenta construções prosódicas semelhantes às de um hinário religioso. Ficava
muito angustiada, por exemplo, com o fato de eu nunca ter conseguido traduzir escandindo
os versos (ou ao menos pensava que não); quando conseguia manter o esquema silábico do
poema original sabia ser por conseqüência, nunca era algo perseguido. Contudo, procurei
sempre me aproximar do tom do poema e, talvez, de maneira ainda mais inconsciente,
daquilo que Henri Meschonnic entenderá como o ritmo: esse elo sutil entre a vida e a
escrita (ou, como ele assinala, entre “a rima e a vida”), levando-se sempre em conta que “o
ritmo é o que de mais inaudível no reino do sentido.”
112
Penso que é sobre isso que Ana Cristina fala quando diz que o importante na poesia
de Dickinson é a contradição entre a simplicidade da forma prosódica e a densidade do
sentido. Então, “mesmo que a métrica não seja rigorosamente respeitada, o que importa é a
preservação da contradição, revelando a impressão de simplicidade, quase ingenuidade ou
‘primitivismo’ da prosódia.”
113
Ana Cristina acrescenta que o tom deve ser “de conversa,
informal, sem paixão, sem tom “literário” (uma espécie de “modéstia” de expressão); a
rigor, o tom não é coloquial; é, por assim dizer, seco.”
114
Gosto muito deste “seco”, e é
mesmo como percebo a maioria dos poemas de Emily. Mas eu diria, mais ainda, um tom
branco, que é um seco decantado, mais sublime: branco seco.
115
Quanto às rimas, Ana Cristina declara a dificuldade de achar correspondência para a
“qualidade estrutural (isto é, emocional) das rimas de Emily.”
116
T. H. Johnson, biógrafo e
editor da escritora, apontara a sua evidente crença de que “versos que se limitam à rima
111
ASCHER. Polímica, p.75.
112
MESCHONNIC. La rime et la vie, p.20-21. Tradução minha.
113
CESAR. Crítica e tradução, p.386.
114
CESAR. Crítica e tradução, p.387.
115
A esse respeito, ver também a não de “branca dorem BRANCO. A branca dor da escrita: três tempos
com Emily Dickinson.
116
CESAR. Crítica e tradução, p.383.
exata não têm a fluência que os outros tipos de rima podem proporcionar.”
117
Johnson
destaca o conhecimento de Dickinson da literatura francesa e clássica para lembrar que a
poeta tinha todas as condições para ultrapassar a tradição inglesa das rimas. E acrescenta:
Emily Dickinson ampliou enormemente o campo de variações dentro de limites
controlados, acrescentando às rimas exatas e aparentes quatro tipos de rimas que os poetas
de língua inglesa nunca conseguiram dominar a ponto de os impor à aceitação geral: rimas
idênticas (ex. move-remove); rimas vocálicas (ex. see-buy); rimas imperfeitas (vogais
idênticas seguidas de consoantes diferentes – ex. time-thine) e rimas suspensas (vogais
diferentes seguidas de consoantes idênticasex. thing-along).
118
Mas o mais importante nessas questões de metro e rima, segundo Ana Cristina
Cesar, e que também eu procurei seguir, é a prosódia simples, com regularidade e
“primitivismo”, e, “se possível, um padrão definido de rimas.”
119
Dentro disso, Ana Cristina
se permite não sem conflitos sacrificar uma imagem importante em favor de uma
regularidade da rima, como acontece em sua tradução de “There is no Frigate like a Book”:
“omiti por completo a expressão ‘human soul’ e a proverbial excelência dos dois últimos
versos, exclusivamente por amor a uma rima adequada.”
120
Confesso que eu também estive
muitas vezes nesse dilema, e a perda de uma imagem em favor de uma rima, ou vice-versa,
ou mesmo o aparecimento de uma rima onde não havia acontecerão desde que assim eu
espero – não firam o espírito poético de Emily.
Ana Cristina Cesar, com seu “Cinco e meio”, nos dá grande contribuição não
apenas para o pensamento de uma poética da tradução para Emily Dickinson, mas também
para os estudos e a prática da tradução em geral, com seus comentários ao mesmo tempo
detalhados, despretensiosos e honestos sobre as suas versões.
No mesmo ano, temos também um pequeno volume de traduções de Rosaura
Eichenberg, intitulado Algumas Cartas: cartas de Emily Dickinson a Thomas Wentworth
Higginson. A partir de cartas extraídas do original Selected Poems & Letters editado por
Linscott, a tradutora constrói uma narrativa para contar a “história de amizade entre a
escritora e seu preceptor. As cartas são entremeadas de supostos comentários de Higginson,
que as ligam umas às outras. Como a edição não é bilíngüe (somente os poemas, quando
há, vêm acompanhados dos originais no corpo mesmo das cartas), nem tampouco se refere
a esse “caráter ficcional” dado ao trabalho pela “voz” de Higginson no texto, o leitor
desavisado pensará tratar-se de um real depoimento de Higginson citando e comentando as
cartas, traduzido na íntegra. Outro trabalho que faz coisa semelhante é Nunca lhe apareci
de branco, de Judith Farr, traduzido por Waldéa Barcellos em 1998. Carlos Daghlian
destaca, neste volume, apenas um poema como sendo de Dickinson em meio a tantas cartas
e versos. O fato é que se trata, como apresentado desde a capa, de “um romance epistolar da
vida de Emily Dickinson”, em que cartas e personagens reais se misturam a fictícias e
mesmo poemas são criados para compor esse trabalho que, mais uma vez, demonstra a sede
da crítica com relação à “verdadeira vida do mito de Amherst.”
117
JOHNSON. Mistério e Solidão: a vida e a obra de Emily Dickinson, p.95.
118
JOHNSON. Mistério e solidão: a vida e a obra de Emily Dickinson, p. 96.
119
CESAR. Crítica e tradução, p.387. Grifo meu.
120
CESAR. Crítica e tradução, p.390.
Em 1985 é a vez de Aíla de Oliveira Gomes apresentar sua Uma centena de
poemas. Sua iniciativa foi louvada, com justiça, na apresentação de Paulo Rónai. De fato,
podemos dizer que foi uma empreitada de fôlego traduzir e comentar uma centena de
poemas de Dickinson. As anotações sobre cada poema e sua tradução, Aíla o faz de forma
sistemática, ao final da edição bilíngüe, quase sempre analisando o metro, as rimas, e
muitas vezes o contexto do poema original. Aíla também discorreu sobre sua dificuldade
com as rimas em Dickinson, e gostaria de trazer aqui seu comentário:
É sabido que rimar em língua portuguesa é mais fácil que em inglês; assim, muitas vezes, se
a rima encontrada para a tradução era, por um lado, acolhida com prazer, pelo que
justificava o ritmo e conferia ao poema rounding off poético, por outro lado, se constita
em empecilho, porque tendia a tornar melódico o que, no original, se marcava muito mais
como um expediente no âmbito da harmonia. O efeito de quadras bem rimadas, ou só em
parte, é bastante diverso; contudo, simplesmente não rimar falseava a tradução. Eis aqui um
dos pontos onde a fidelidade ao textos foi, não poucas vezes, abalada e onde, ao tradutor, só
resta um mea culpa. As rimas perfeitas ficam, às vezes (nem sempre, felizmente) parecendo
um recurso fácil, até empobrecedor de certos efeitos que Emily sabia (ou poeta de sua
marca), e empregava por sofisticação de arte, ou gênio poético.
121
Aproveito o momento para também eu fazer meu mea culpa e concordar com a
tradutora nessa questão. Como disse, procurei manter ou não, ou mesmo criar outras
rimas de acordo com o ganho poético geral, e esperando não destoar do espírito original. Já
em relação à pontuação e às maiúsculas de Emily, Aíla se posiciona de forma bem mais
objetiva, tratando a questão como um “embaraço editorial”, que tem sido “resolvido de
diferentes maneiras por diferentes editores”,
122
e conta como ela abordou o tema:
As letras maiúsculas, não em substantivos, parecem reservadas em prática, entretanto,
não muito rigorosa às palavras que Emily Dickinson julgava importantes na composição
poética. Nas traduções aqui feitas, elas foram reduzidas a um mínimo facilmente aceitável
em termos de personificação e de ênfase, tal como adotado em certas edições de categoria,
como a de Linscott e outras. Tampouco seria razoável, onde custa tornar inteligível a
compacta sintaxe, as tropelias de gramática, as analogias distantes abruptamente lançadas
num contexto, os riddles e outras complexidades de Emily Dickinson, vir-se a adotar o uso
de travessões, tal como os manejou a autora, e como Johnson os reproduziu fielmente no
volume único, que, embora destinado a leitores em geral, não deixa de ser uma obra de
requinte textual. Com base na autoridade de outros editores, que lançaram mão de uma
pontuação lógica, também assim, com muito mais razão, foi feito nas traduções, embora se
tenha tido o cuidado de pontuar tão sobriamente quanto possível e de usar o travessão tantas
vezes quanto, numa versão em língua portuguesa, ele tivesse cabimento.
123
Aíla chega a admitir a complexidade da questão dizendo que compreende que
“[alterar] a pontuação nas traduções possa implicar, em certos casos, uma interpretação;
121
DICKINSON. Uma centena de poemas, p. 155.
122
DICKINSON. Uma centena de poemas, p.156.
123
DICKINSON. Uma centena de poemas, p.157.
havia-se, porém, de correr o risco, pois afinal, traduzir é também desvendar um sistema
semântico; não é apenas transcrever sinais.”
124
Não posso concordar com a tradutora neste
ponto, pois para mim está muito clara a importância da pontuação de Emily na poeticidade
de toda a sua obra, bem como a força das maiúsculas e “a compacta sintaxe, as tropelias de
gramática,” que elevam sua escrita ao ponto de letra,
125
de traço, de rasura que se inscreve e
não pode ser apagada, de nó que não se desfaz, ao ponto do ponto mínimo que tange apenas
o sentido, que não pode ser desvendado pela tradução, apenas tocado.
Da mesma forma que a tangente toca o círculo apenas de forma fugitiva e em um único
ponto e que é esse o contato, não o ponto, que lhe designa a lei segundo a qual ela
prossegue sua marcha em linha reta, assim a tradução toca o original de forma fugitiva e
somente em um ponto, infinitamente pequeno do sentido, para seguir em seguida [suivre
ensuite] sua marcha a mais própria, segundo a lei da fidelidade na liberdade do movimento
linguageiro.
126
Por isso acho perigoso incorrer nessa “interpretação”, nessa tentativa de se
“desvendar um sistema semântico” que diz Aíla. Por isso mesmo, preferi me ater às edições
de Johnson dos poemas e cartas, que tiveram a proposta de preservar a grafia e a pontuação
dos originais. Se “nada garante que, em muitos casos, eles [os travessões] não tenham sido
provisórios: talvez o abuso deles marque os poemas realmente inacabados”,
127
como pensa
Aíla, não serei eu quem decidirá os que devem permanecer. Pensando que a Obra não é
acabada ou inacabada ela é –,
128
não me coube aqui ocupar-me dessas questões, mas,
antes, procurar transmitir, na concepção de Benjamin, esses traços do que não é traduzível
e não me refiro apenas aos travessões –, aquilo que excede a comunicação, “o que resta”
do poema depois de traduzido, de extraído o significado.
Logo após a centena de poemas de Aíla, em 1986, temos a publicação de Poemas
50 traduções de Emily Dickinson por Idelma Ribeiro de Faria. A edição bilíngüe não traz
notas de tradução nem mesmo faz qualquer referência ao original que lhe serviu como
ponto de partida. Entretanto, logo percebemos que, desde o original reproduzido, faltam as
maiúsculas e os travessões de Dickinson. Em “Morri pela beleza”, assim como em pelo
menos mais uma tradução, curiosamente são acrescentados parênteses não presentes no
original pontuação que, salvo engano, nunca foi utilizada por Emily em seus poemas.
Outra tradução de Idelma que incluirei aqui é a de “If I should die”, poema em cuja
tradução eu considero ter sido bem-sucedida na manutenção do ritmo, particularmente
importante aqui porque também presente no tema do poema: a manutenção do ritmo da
vida após a morte de quem fala. Em 1992, Idelma publicaria ainda um outro volume de
traduções, agora uma seleção de poemas de Dickinson, T. S. Eliot e René Depestre, com
um texto introdutório a cada escritor. Dessa vez, ela inclui doze novas traduções de
Dickinson na seleção de 23 poemas, comentando brevemente quatro ao final. Um deles é o
1755, por cuja tradução da última linha ela pede perdão por modificar o último verso, já
124
DICKINSON. Uma centena de poemas, p.157.
125
A respeito do “ponto de letra”, ver BRANCO, “Palavra em ponto de p” In: ______. Os absolutamente sós,
p.19-33.
126
DERRIDA. Torres de Babel, p.46-48.
127
DICKINSON. Uma centena de poemas, p. 157.
128
BLANCHOT. O espaço literário, p.12.
que “esta jóia de poema tem infelizmente uma pequena jaça”
129
ela questiona o verso “If
bees are few” pelo fato de o primeiro verso dizer que só se precisa de uma abelha para fazer
uma campina. A julgar pelos outros comentários, Idelma parece atribuir essas situações
desconcertantes” ao fato de a poeta não ter revisado seus poemas, o que freqüentemente a
leva (a tradutora) “à tentação de modificar o texto”.
130
em 1995, recebemos Bilhetinhos com poemas. No levantamento de Daghlian
constam os poemas traduzidos por Ana Fontes, contudo, a listagem não nos idéia do
caráter maior do trabalho de tradução da escritora portuguesa, na realidade Maria Gabriela
Llansol,
131
que propõe uma diferente leitura da obra de Emily. Através de uma seqüência de
cartas, na maioria dirigidas a Higginson e às primas Norcross, a poesia de Dickinson se
revela não apenas nos versos freqüentemente inclusos, mas em toda sua escrita, mostrando-
nos a poeta das coisas comuns, das coisas mais simples e assombrosas. Organizados de
forma cronológica, porém esparsa, e sem uma pretensão de “reconstituição” da vida da
escritora, os bilhetinhos nos mostram a obra de Emily em sua dimensão de carta cartas
para nada,
132
carta ao mundo. Penso, aliás, nesse caso, que não são exatamente nos poemas,
mas nas cartas, que se pode melhor apreciar a poeta na voz de Ana Fontes, como se a
tradutora quisesse enfatizar que é láe, mais propriamente, nas cartas com poemas – que o
“ponto de letra” em Emily Dickinson se apura: a “letter” condensando, enfim, a carta e a
letra. Mesmo assim trago aqui, na dicção portuguesa de Llansol, e destacadamente das
cartas, as traduções de “As if I asked a common Alms”, que foi um poema incluído numa
das primeiras cartas de Emily a Higginson, de certa forma agradecendo-lhe a “tutoria”,
ainda que enviesada, e “There’s no Frigate like a Book”, poema que originalmente compôs
uma carta escrita às primas Luísa e Frances.
Outra portuguesa vem, em 1997, lembrar-nos da carta ao mundo de Emily. Esta é
minha carta ao mundo e outros poemas se apresenta como uma seleção e tradução de “um
conjunto de poemas considerados significativos dentro do cânone dickinsoniano e, na sua
maioria, não contemplados nas traduções anteriores.”
133
Cecília Rego Pinheiro se refere,
naturalmente, à divulgação da obra de Dickinson junto ao público português. Ainda assim,
isso não deixa de ser verdade em relação às edições brasileiras e, dentro desse critério, eu
escolho trazer aqui as traduções de “The Martyr Poets” e “The Poets light but Lamps”, que
falam do trabalho do poeta, além do mais conhecido “This is my Letter to the World”, que
nome à coletânea. Na nota introdutória e única Cecília diz que na tradução dos
textos considerou-se prioritária a fidelidade ao sentido, procurando-se, sempre que possível,
não desvirtuar a condensação discursiva nem a pontuação por travessões, que caracterizam
a linguagem poética de Emily Dickinson.”
134
A tradutora informa, ainda, que seguiu a
edição de Thomas H. Johnson.
Dois anos depois, o n
o
6 de Inimigo Rumor apresenta “Cinco poemas”, traduções de
Dickinson por Paulo Henriques Britto. Nenhum comentário ou nota acompanha as
129
FARIA. T. S. Eliot, Emily Dickinson, René Depestre: Seleção, Tradução e Ensaios, p.141.
130
FARIA. T. S. Eliot, Emily Dickinson, René Depestre: Seleção, Tradução e Ensaios, p.140.
131
Llansol, em suas demais traduções – do francês – não usa pseudônimo. É provável que ela não se
assumisse como uma tradutora do inglês, porém não resistira ao chamado daquela voz que lhe ecoava no
século XIX, daquela figura que habitava sua obra agora.
132
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.138.
133
DICKINSON. Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas, p.7.
134
DICKINSON. Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas, p.7.
traduções, que parecem seguir os originais de Johnson. Percebemos também que Britto é
atento às questões da rima e da métrica, como veremos em suas traduções de “Wild Nights”
e “There’s a certain Slant of Light”. Contudo, nesta última, penso que a métrica e a rima
perfeitas acontecem em detrimento da imagem final do poema, que fica sacrificada tanto
em relação ao sentido quanto na expressão do último verso, que no original é muito mais
forte.
Ainda em 1999, vemos surgir os 75 poemas traduzidos por Lucia Olinto. A edição
bilíngüe, que traz os originais em pé-de-página, seguiu a edição de Johnson à exceção do
poema 903, em cuja tradução Lucia Olinto inclui a primeira estrofe, encontrada em
Emily Dickinson: selected poems Gramercy Books, New York, Avenel, 1993. No
Prefácio, a tradutora previne o leitor de que “não se trata aqui de uma tradução analítica,
erudita, baseada numa pesquisa histórica ou literária”
135
e lembra que a esse
empreendimento se entregou Aíla de Oliveira Gomes, sendo sua tarefa bem mais
modesta. Continuando, Lucia pede, ainda, tolerância ao leitor em relação às rimas e à
métrica, tendo evitado que estas “prejudicassem o sentido ou a estrutura geral do poema.”
136
Trago aqui sua tradução do referido poema 903 (“I hide myself within my flower”) e
também de “There’s a certain Slant of light”, que é uma das apenas três traduções
comentadas nas notas ao fim do volume.
Ivo Bender, em 2002, apresenta uma seleção de poemas que parece se originar da
edição de Johnson, que o tradutor cita em sua Introdução. Contudo, Bender afirma que, na
transcrição dos originais, “foram abolidos, em parte, os travessões, tão peculiares à maneira
de grafar da poeta.” E esclarece que “tal ocorreu sempre que a supressão não implicasse
algum obscurecimento de sentido. Igualmente as maiúsculas, no corpo das estrofes, foram
descartadas, preservando-se aquelas cuja eliminação o se fez necessária.”
137
Ora,
desnecessário é repetir que tal postura está longe do que se propõe aqui para uma tradução
de Emily Dickinson. Bender ainda títulos a vários poemas não apenas às traduções,
mas desde a transcrição do original, por ele adaptado. Isso acontece, por exemplo, com o
poema “Elysium is as faz as to”, que ele intitula “Suspense”.
Logo mais, em 2003, é que se a publicação do livro de Lucia Castello Branco A
branca dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson, que traz minhas primeiras
traduções. Dessa primeira seleção de 18 poemas e 4 cartas, ditados pela autora a partir dos
três ensaios que compõem o livro, podemos ver neste caderno vários deles, como “I felt a
Funeral”, “All the letters I can write”, “After great pain”, “This is my letter to the World”,
“I died for Beauty”, “I sing to use the Waiting” e outros. Nesse livro, em que a autora dos
ensaios apura a noção de “branca dor em E. Dickinson, apuram-se, também, a noção
freudiana de sublimação e, a ela articulada, a idéia de que a sublimação, em Dickinson,
estaria justamente na “branca dor”, espécie de ponto de letra” atingido pela poesia de
Dickinson em sua condensação máxima da dor: o branco.
138
Já em 2006, temos a publicação de Alguns poemas, por José Lira. As 245 traduções
de Emily Dickinson parecem seguir os originais de Johnson, mas Lira não utiliza sua
numeração, o que dificulta um trabalho de consulta a que, creio, um trabalho desse porte
pode também se prestar. As traduções vêm identificadas pelos primeiros versos e divididas
135
DICKINSON. 75 poemas, p.10.
136
DICKINSON. 75 poemas, p.11.
137
DICKINSON. Poemas de Emily Dickinson, p.16.
138
BRANCO. A branca dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson.
em três categorias. Segundo Lira, na primeira, as “recriações”, procuram-se a máxima
identidade possível com a forma common meter, short meter ou variações mais atenção
aos aspectos fônicos e maior aproximação sintática manutenção das “estranhezas” do
original. Nas “imitações”, Lira propõe uma ampliação” textual, com métrica não usual,
despreocupação quanto aos aspectos fônicos e “normalização da linguagem fragmentária” e
“explicação” de “termos e expressões mais obscuras, resultando em textos tanto menos fiéis
quanto mais ‘fluidos’”. Nas “invenções” Lira promete uma “modernização” da forma
poemática, tornando a tradução “mais o resultado de uma ‘impressão’ de leitura.” Ali,
ocorre a freqüente “intromissão” de outros textos, o que, segundo o tradutor, “não torna a
tradução necessariamente infiel’, mas é parte de um jogo de avanços e recuos que gira
sempre em função da preservação do sentido original.”
139
Lira admite que são muitas vezes
tênues os limites entre essas noções, principalmente no caso das duas primeiras categorias.
Honestamente, no meu modo de ver a tradução, não vejo o porquê dessas categorias,
especialmente no caso daquela última que, a meu ver, na maioria das vezes apresenta algo
que se distancia mais que o necessário do poema e da poesia de Dickinson.
Isso lembra o que Octavio Paz nos diz sobre os poetas muitas vezes não são serem
bons tradutores – estando fora de questão o fato de ser ou não Lira um poeta, já que se trata
apenas de um posicionamento (Paz logo em seguida cita poetas que o grandes
tradutores):
Não são porque quase sempre usam o poema alheio como ponto de partida para escrever
seu poema. O bom tradutor se move em uma direção contrária: seu ponto de chegada é um
poema análogo, ainda não idêntico, ao original. Não se afasta do poema senão para segui-lo
mais de perto.
140
Sobre isso, cabem também as palavras de Benjamin:
É por isso que, sobretudo na época em que a tradução aparece, o maior elogio que se lhe
pode fazer não é que ela se leia como uma obra original de sua própria língua. [...] A
verdadeira tradução é transparente, não esconde o original, não o ofusca, mas faz com que
caia tanto mais plenamente sobre o original, como se forçada por seu próprio meio, a língua
pura.
141
Não questiono a qualidade do trabalho de Lira, apenas o uso, como aos outros aqui
citados, para ajudar a compor o meu pensamento sobre a tradução. E, nesse caso, eu, que
me questionei tanto sobre o “sentido” de se traduzir Emily Dickinson, não posso me furtar
às considerações sobre a validade daquele tipo de tradução é uma questão de por que
fazê-lo? A obra pede essa tradução? Também não sei se poderia responder. De qualquer
forma, tais “invenções” formam um grupo bem menor, enquanto que as “recriações”, “mais
‘literais’ e mais próximas da prosódia dickinsoniana”,
142
formam a maior parte do livro.
Nesse caso, apresentarei aqui alguns poemas de cada categoria de Lira: das “recriações”,
“Mama never forgets her birds”, “I reason, Earth is short”, “This is my Letter to the
World”, “To make One’s Toillete”, “So proud she was to die” “The smouldering embers
139
LIRA. A críptica beleza, p.27. In: DICKINSON. Alguns poemas.
140
PAZ. Tradução, literatura e literariedade, p.11.
141
BENJAMIN. “A tarefa do tradutor”, p.xviii.
142
LIRA. A críptica beleza, p.27. In: DICKINSON. Alguns poemas.
blush”, “Flowers Well if anybody” e “There is a solitude of space”. Das “imitações”:
“In Ebon Box”, “I died for Beauty”, “All but Death”, “My life closed twice”, “I like a look
of Agony” e “The Dying need but little”. Finalmente, das “invenções”: “A word is dead”,
“The way I read a Letter”, “All the letters I can write”, “I never lost as much but twice” e
“To make a prairie”.
Outra consideração que devo fazer a respeito das traduções de Lira é a respeito da
pontuação. Lá, diferentemente de todas as outras, veremos traços curtos, que o tradutor
identifica da seguinte forma:
Emily Dickinson criou um tipo de sinal gráfico até então inexistente em língua inglesa: a
disjunção, um traço curto que alguns vêem como simples hábito de escrita e outros como
sintoma de distaxia (e que em geral é confundido com o travessão). A disjunção é, na
verdade, um dos principais recursos estilísticos de sua escrita: destaca uma palavra ou
expressão, marca pausas de leitura ou dicção, modifica o ritmo de alguns versos, separa
segmentos frasais, expressa continuidade (ou descontinuidade) de uma idéia, explica algo
que veio antes ou que virá em seguida [...]
143
Do uso que Emily fez dos tais traços já sabemos, mas sabemos também que eles não
eram regulares; ao contrário, eram de tamanhos variados e mesmo por vezes entremeados
de cruzinhas, como um bordado. Da mesma forma que a caligrafia da escritora muitas
vezes deixava dúvidas sobre uma letra, maiúscula ou não, e mesmo sobre a ortografia, é
natural que não possamos reproduzir com exatidão esses traços. Assim, qualquer sinal
escolhido será uma convenção, mas prefiro ainda, como Johnson, o travessão, por ter uma
força maior de pausa na escrita.
Às vésperas de finalizar este texto, recebi a edição bilíngüe Um livro de horas
poemas de Emily Dickinson com seleção, tradução e belas iluminuras de Angela-Lago, que
assim nos apresenta o livro:
Desde menina costumo declamar poemas nas horas de aflição. Deus, que vive em toda
parte, lá no fundo de mim, escuta. E me dá de imediato o conforto da beleza.
Faz vinte anos, um amigo me presenteou com um livro de Emily Dickinson. Ele devia saber
dessa minha maneira de rezar, pois o livro veio com a dedicatória: “Para Angela lembrar de
suas orações”.
E aqui estou eu, tantos anos depois, desenhando este livro de horas.
Escolhi 24 dos 1775 poemas da senhorita reclusa do século XIX, voz maior da literatura
ocidental. Seus poemas, encontrados em cartas e cadernos, não tinham títulos. Aproveitei
para nomeá-los como bem quis.
Os poemas em inglês, bem como sua numeração, estão de acordo com a rigorosa
organização feita por Thomas H. Johnson.
Mas optei por uma tradução livre. Queria rezar com espontaneidade, na minha própria
dicção.
144
No pequeno texto, Angela diz o que precisamos saber e como encontraremos Emily
Dickinson ali. O livro de horas, como gênero medieval, trazia orações e salmos para as
várias horas do dia. Em geral, vinha ornamentado por iluminuras, que contornavam os
143
LIRA. A críptica beleza, p.22. In: DICKINSON. Alguns poemas.
144
DICKINSON. Um livro de horas, p.7.
manuscritos e ornavam a capa com vinhetas, florões, traços de renda e bordado. Emily
Dickinson, que tem sido a poeta dos românticos, dos metafísicos, dos céticos, dos
concretos, é apresentada agora em poemas-orações como “Para a hora do amor” e “Para a
hora da verdade” (poemas 211 e 1129). Penso que, se os poemas de Dickinson servem para
rezar e não nos esqueçamos de que a primeira referência de poesia para Emily, e que
nunca deixou de a acompanhar, foram os hinários religiosostalvez isso se deva ao fato de
esses poemas condensarem, em si mesmos, alguns dos elementos essenciais às orações: a
repetição de alguns significantes mestres, a prosódia, o ritmo tomado como “o que de
mais inaudível no reino do sentido”, e a rima e a vida, aliando o sopro/espírito ao corpo da
letra. É assim que penso em minhas próprias escolhas tradutórias, quando as tomo como
objeto de reflexão, tentando extrair daí uma poética.
Enfim, deixo agora que as traduções falem por si mesmas. Algumas delas serão
comentadas ao final da seleção, e para isso utilizei a pontuação de Johnson a identificar e
ordenar os poemas. Não serão, de nenhuma forma, comentários minuciosos e analíticos;
cumprirão muito mais o papel de uma reflexão, a posteriori e face às outras traduções, do
que me levou a escolher uma ou outra palavra, mover-me em tal ou qual direção. Afinal,
concordando com Raimundo Carvalho, poeta e tradutor, “o que interessa mesmo ao leitor é
o texto que ele tem à sua frente e não a quantidade de obstáculos que teve o poeta-tradutor
de superar para chegar onde chegou.”
145
Que o leitor seja brando ao julgar o ritmo e a
respiração, o corpo e o sopro, a rima e a vida que tentei dar aos poemas de Emily.
REFERÊNCIAS
TRADUÇÕES DE E. D.
ASCHER, Nelson. 9 poemas do inglês / Emily Dickinson: 5 poemas. In: Polímica, n. 3,
1981, p. 78-79.
BANDEIRA, Manuel; MEIRELES, Cecília. Emily Dickinson. In: MILLIET, Sérgio (Org.),
Obras primas da poesia universal. 3. ed. São Paulo: Martins, 1957.p.84-85.
BANDEIRA, Manuel. Cinco poemas de Emily Dickinson. In: _______, Estrela da vida
inteira. 20. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p.406-407.
BRITTO, Paulo Henriques. Cinco poemas. In: Inimigo Rumor n. 6, 1999. p.40-47.
CAMPOS, Augusto de. O anticrítico. São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p.105-119.
CESAR, Ana Cristina. Cinco e meio. In: ________, Crítica e tradução. São Paulo: Ática,
1999, p.383-398.
DICKINSON, Emily. Algumas cartas: cartas de Emily Dickinson a Thomas Wentworth
Higginson. Trad. Rosaura Eichenberg. Florianópolis: Noa Noa, 1983.
DICKINSON, Uma centena de poemas. Trad. Aíla de Oliveira Gomes. São Paulo: T. A.
Queiroz / Edusp, 1985.
DICKINSON, Emily. Poemas. Trad. Idelma Ribeiro de Faria. São Paulo: Hucitec, 1986.
DICKINSON, Emily. Bilhetinhos com poemas. Trad. Ana Fontes. Sintra: Colares, 1995.
DICKINSON, Emily. Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas. Trad. Cecília Rego
Pinheiro. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997.
145
CARVALHO. Traduzindo as Bucólicas: uma poética em ação, p.68. Em seu ensaio, o autor chama poeta-
tradutor ao tradutor de poesia.
DICKINSON, Fifty poems: cinqüenta poemas. Trad. Isa Marà Lando. Rio de Janeito / São
Paulo: Imago / Alumni, 1999.
DICKINSON, Emily. 75 poemas. Trad. Lucia Olinto. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.
DICKINSON, Emily. Poemas de Emily Dickinson. Trad. Ivo Bender. Porto Alegre: Mercado
Aberto: 2002.
DICKINSON, Emily. Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo: Iluminuras, 2006.
DICKINSON, Emily. Um livro de horas. Trad. Angela-Lago. São Paulo: Scipione, 2007.
FARIA, Idelma Rimeiro de. T. S. Eliot, Emily Dickinson, René Depestre: Seleção, Tradução
e Ensaios. São Paulo: Hucitec, 1992. p.86-141.
FARR, Judith. Nunca lhe apareci de branco. Trad. Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro:
Rocco: 1998, Trad. poema 632. p.239.
JOHNSON, Mistério e Solidão: a vida e a obra de Emily Dickinson. Trad. Vera das Neves
Pedroso. Rio de Janeiro: Lidador, 1965.
MENDES CAMPOS, Paulo. “Oito poemas”. In: _________, Trinca de copas. Rio de Janeiro:
Achiamé, 1984, p. 47-50.
MOURÃO, Fernanda. Tradução de poemas e cartas. In: BRANCO, Lucia Castello. A branca
dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson. Rio de Janeiro: 7Letras / Belo Horizonte:
UFMG, 2003, p. 83-104.
PIGNATARI, Décio. Poesia pois é poesia: 1950-1975. São Paulo: Duas Cidades, 1977,
p.71,73.
OUTRAS
ANDRADE, Paulo de. Nada no dia se vê da noite esta passagem: amor, escrita e tradução em
Marguerite Duras. Belo Horizonte, Faculdade de Letras da UFMG, 2005 (Tese de
Doutorado em Literatura Comparada).
BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. ed. (rev.). Rio de Janeiro, Instituto de
Letras/UERJ, s.d., p.v-xii (Cadernos do Mestrado) (trad. Karlheinz Bark e equipe).
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Lisboa: Relógio d’Água, 1984.
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
BRANCO, Lucia Castello. “Palavra em ponto de p” In: ______. Os absolutamente sós:
Llansol – a letra – Lacan. Belo Horizonte: Faculdade de Letras; Autêntica, 2000. p.19-33.
BRANCO, Lucia Castello. A branca dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson. Rio
de Janeiro: 7Letras / Belo Horizonte: UFMG, 2003.
CARVALHO. Traduzindo as Bucólicas: uma poética em ação. In: SOUZA, Marcelo Paiva de;
CARVALHO, Raimundo; SALGUEIRO, Wilberth (Orgs.). Sob o signo de Babel. p.65-68.
DERRIDA, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
LIRA, A críptica beleza, p.27. In: DICKINSON, Alguns poemas. Trad. José Lira. São Paulo:
Iluminuras, 2006. p.21-40.
LOPES, Silvina Rodrigues. Literatura, defesa do atrito. Lisboa: Vendaval, 2003.
MESCHONNIC, Henri. La rime et la vie, Lagrasse: Verdier, 1989.
PAZ, Octavio. Tradução, literatura e literariedade. Trad. Doralice Alves de Queiroz.
Cadernos Viva Voz, Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2006.
SILVA, Andréa Cristina da. Tradução de poesia: transcriação, crítica e algo mais. In: SOUZA,
Marcelo Paiva de; CARVALHO, Raimundo; SALGUEIRO, Wilberth (Orgs.). Sob o signo de
Babel. p.237-241.
49
I never lost as much but twice,
And that was in the sod.
Twice have I stood a beggar
Before the door of God!
Angels twice descending
Reimbursed my store –
Burglar! Banker – Father!
I am poor once more!
À PORTA DE DEUS
Duas vezes perdi tudo
E foi debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga
À porta de Deus.
Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.
Ladrão, banqueiro, pai,
Estou pobre mais uma vez!
Manuel Bandeira
Duas vezes perdi
tudo que tinha
e no barro
caí
duas vezes
fui Mendiga
ante a porta
de DeuS
AnJos vieram
duas vezes
reembolsar-me das perdas
LADRÃO
BANQUEIRO
PAI
estou pobre
outra vez
José Lira
Perdi tudo duas vezes
Por duas vezes fui ao chão.
Parei como um pedinte – Deus!
Diante de Teu portão!
Anjos duas vezes vieram
Reembolsar-me a riqueza
Ladrão! Banqueiro Pai!
Estou pobre outra vez!
Fernanda Mouo
54
If I should die,
And you should live –
And time should gurgle on
And morn should beam
And noon should burn
And it has usual done –
If Birds should build as early
And Bees as bustling go
One might depart at option
From enterprise below!
’Tis sweet to know that stocks will stand
When we with Daisies lie –
That commerce will continue –
And Trades as briskly fly
It makes the parting tranquil
And keeps the soul serene
That gentlemen so sprightly
Conduct the pleasing scene!
Se eu partisse
E você continuasse vivo,
E o tempo marulhando prosseguisse,
E as manhãs brilhassem,
E o meio-dia escaldasse,
Como sempre;
E as abelhas esvoaçassem,
E os pássaros construíssem, como sempre;
Poder-se-ia abandonar
Por opção,
Toda ocupação terrena.
E seria doce constatar
Que as fachadas se mantinham
Enquanto jazíamos com as margaridas;
Que o corcio fluía,
E os negócios, ativos, prosseguiam.
Tranqüila seria a partida,
De alma serena,
Pois senhores tão vivazes
Conduziam
A agradável cena.
Idelma Ribeiro de Faria
Se eu devesse morrer,
E você ficar
O tempo correr –
E a man brilhar –
Se o sol queimar –
E isso tem acontecido
Os Pássaros a madrugar
E as Abelhas em alarido
Pode-se optar por deixar
Toda essa lida!
É doce saber que o estoque perdura
Se dormimos com as Margaridas
Que o corcio continua –
E os Negócios vão tranqüilos –
Torna a partida suave
E deixa a alma serena
Que senhores tão vivazes
Conduzam a amável cena!
Fernanda Mouo
67
Success is counted sweetest
By those who ne’er succeed.
To comprehend a nectar
Requires sorest need.
Not one of all the purple Host
Who took the Flag today
Can tell the definition
So clear of Victory
As he defeated dying –
On whose forbidden ear
The distant strains of triumph
Burst agonized and clear!
O sucesso é mais doce
A quem nunca sucede.
A compreensão do néctar
Requer severa sede.
Ninguém da Hoste ignata
Que hoje desfila em Glória
Pode entender a clara
Derrota da Vitória
Como esse – moribundo
Em cujo ouvido o escasso
Eco oco do triunfo
Passa como um fracasso!
Augusto de Campos
O Sucesso é tão mais doce
Aos que nunca o provaram.
Compreender um néctar
Requer sofrimento raro.
Nem o que na Multidão
Ergue a Bandeira agora
Pode dar definição
Mais clara da Vitória
Que o derrotado – a morrer
Em cujo ouvido distante
A sonora canção do triunfo
Ecoa agônica, gritante!
Fernanda Mouo
137
Flowers – Well – if anybody
Can the ecstasy define –
Half a transport – half a trouble –
With which flowers humble men:
Anybody find the fountain
From which floods so contra flow –
I will give him all the Daisies
Which upon the hillside blow.
Too much pathos in their faces
For a simple breast like mine
Butterflies from St. Domingo
Cruising round the purple line –
Have a system of aesthetics
Far superior to mine.
FloresBem – se pode alguém
O êxtase definir –
Meio um transporte – maio um transtorno
Quando as flores humilham os homens:
Aquele que encontra a fonte
De onde voltam as enchentes –
Eu lhe darei todas as Margaridas
Que balançam sobre o monte.
Muita paixão em suas faces
Para o simples peito meu
Borboletas em São Domingos
Cruzando o rubro céu
Têm um sistema estético –
Tão superior ao meu.
Fernanda Mouo
Flores - bem - se se pudesse
Esse Êxtase explicar -
Meio prazer - meio pranto -
Que elas nos podem causar.
Para quem fixar a fonte
Donde o fluxo contraflui -
Dou todas as Margaridas
Que uma colina possui.
Muito apelo em suas faces
Para o frágil peito meu -
Borboleta em São Domingos
Que a rubra trilha escolheu
Tem estéticos sistemas
Superiores ao meu.
José Lira
164
Mama never forget her birds,
Though in another tree –
She looks down just as often
And just as tenderly
As when her little mortal nest
With cunning care she wove –
If either of her “sparrows fall,
She “notices,” above.
“Mamãe” não larga os passarinhos
Que noutra árvore deixa -
Ela os observa com o cuidado
Que já teve ao tecer
O seu pequeno e frágil ninho
Experiente e meiga -
Mesmo que caia um dos “filhotes
Lá de cima ela “vê”.
José Lira
Mamãe nunca esquece os passarinhos,
Embora em outra árvore –
Olha pra baixo como sempre
E com o mesmo carinho
De quando seu pequeno mortal ninho
Com habilidade e cuidado teceu –
Se cai qualquer de seus pardais
Ela “percebe,” do céu.
Fernanda Mouo
169
In Ebon Box, when years have flown
To reverently peer,
Wiping away the velvet dust
Summers have sprinkled there!
To hold a letter to the light
Grown Tawny now, with time –
To con the faded syllables
That quickened us like Wine!
Perhaps a Flower’s shrivelled cheek
Among its stores to find –
Plucked far away, some morning –
By gallantmouldering hand!
A curl, perhaps, from foreheads
Our constancy forgot –
Perhaps, and Antique trinket –
In vanished fashions set!
And then lay them quiet back
And go about its care –
As if the little Ebon Box
Were none of our affair!
Abrir com devão, guardada há anos,
Uma Caixinha de Ébano,
Tirando-lhe a poeira aveludada
Que de verões de fez -
Uma carta apagada pelo tempo
Olhar à luz da lâmpada -
Reler frases que outrora - como o vinho -
Nos fizeram sonhar -
Achar talvez, por entre essas relíquias,
Uma enrugada pétala
Que extinta mão gentil em outras plagas
Certa mancolheu -
Uma trança, talvez, de alguma fronte
Que há muito não lembrávamos -
Uma bijuteria envelhecida
Pela moda fugaz -
E em silêncio guardar tudo de novo
E essa Caixinha de Ébano
Deixar de lado - como se conosco
Nada tivesse a ver -
José Lira
A Caixa de Ébano, tempos depois
Com reverência perscrutar,
Limpando o aveludado pó
Que os vees vêm salpicar
Segurar a carta à contraluz –
De tanto tempo, agora Fulva –
Estudar a letra velada
Tal qual Vinho nos avulta!
Talvez a face seca de uma Flor
Encontrar entre os tesouros
Arrebatada para longe, na manhã –
Por mãos nobres, criadoras
Um cacho, quem sabe, de frontes,
Por teimosia esquecidas
Quem sabe, um adorno antigo
De antigas modas idas!
E então guardar tudo de volta –
E cuidar que fique quieto –
Como se a pequena Caixa de Ébano
Não fosse do nosso afeto!
Fernanda Mouo
211
Come slowlyEden!
Lips unused to Thee –
Bashful – sip thy Jessamines
As the fainting Bee
Reaching late his flower,
Round her chamber hums
Counts his nectars
Enters – and is lost in Balms.
Vem devagar – Éden!
Lábios castos para Ti –
Tímidos – sorvem Jasmins
Como a Abelha em torpor –
Demorando a achar sua flor,
Ronda a alcova a zumbir –
Adivinha o néctar – entra –
Para em Bálsamo imergir.
Fernanda Mouo
PARA A HORA DO AMOR
Vem devagar, Jardim!
A boca desacostumada,
Ruborizada, bebe jasmim
Feito abelha embriagada,
Que a flor alcança tarde,
Ao redor do quarto arde,
Néctar, néctar roga.
Entra, e em bálsamo se afoga.
Angela-Lago
216 (1859)
Safe in their Alabaster Chambers
Untouched by Morning
And untouched by Noon
Sleep the meek members of the Resurrection
Rafter of satin,
And Roof of stone.
Light laughs the breeze
In her Castle above them
Babbles the Bee in a stolid Ear,
Pipe the Sweet Birds in ignorant cadence
Ah, what sagacity perished here!
A salvo em suas alcovas de alabastro,
Intanveis à manhã,
Intanveis à luz do meio-dia,
Dormem os quietos membros da Ressurreição
Sob caibros de setim
E pétreos tetos.
Em seu castelo acima deles
Levemente a brisa ri
A abelha balbucia junto a ouvido impassível –
Os pássaros gorjeiam em cadência ignorada –
Ah! quanta sagacidade sepultada ali!
Aíla de Oliveira Gomes
A salvo em seus Quartos de Alabastro –
Intocados pela Manhã
E intocados pela Tarde
Dormem dóceis os membros da Ressurreição –
Viga de Cetim,
E Teto de Lage.
Suave sorri a brisa
Em seu Castelo logo acima –
Balbucia a Abelha em eslido Ouvido,
Assobia o Pássaro em cadência esquecida –
Ah, quanta sagacidade aqui se finda!
Fernanda Mouo
(1861)
Safe in their Alabaster Chambers
Untouched by Morning
And untouched by Noon
Lie the meek members of the Resurrection
Rafter of satin – and Roof of Stone!
Grand go the Years – in the Crescent – above them –
Worlds scoop their Arcs
And Firmaments – row
Diadems – drop – and Doges – surrender
Soundless as dots – on a Disc of Snow –
No crescente acima deles,
imponentes, rolam os anos –
Os mundos cavam seus arcos
E os firmamentos flutuam –
Diademas caem – e Doges capitulam –
Sem ruído – pingos em um disco de neve.
Aíla de Oliveira Gomes
A salvo em seus Quartos de Alabastro –
Intocados pela Manhã
E intocados pela Tarde
Dormem dóceis os membros da Ressurreição –
Viga de Cetim – e Teto de Lage.
Grandiosos, vão-se os Anos – no Crescenteacima –
Mundos cavam seus Arcos –
E Firmamentos – sucedem –
Diademas – tombam – e Doges – se rendem –
Em silêncio como gotas – em um Disco de Neve –
Fernanda Mouo
Outra versão para a segunda estrofe (1861):
Springs – shake the sills –
But – the Echoes stiffen –
Hoar – is the Window –
And numb the Door –
Tribes of Eclipse – in Tents of Marble
Staples of Ages – have buckled – there –
Primaveras – sacodem as vigas
Mas – os Ecos se calam –
Gelada – a Janela –
E dormente – a Porta –
Tribos de Eclipse – em Tendas de Mármore –
Que Fechos de Eras – ali trancaram –
Fernanda Mouo
241
I like a look of Agony,
Because I know it’s true
Men do not sham Convulsion,
Nor simulate, a Throe –
The Eyes glaze once – and that is Death
Impossible to feign
The Beads upon the Forehead
By homely Anguish strung.
Gosto de um rosto em Agonia
Porque sei que é real -
A Convulsão não pode ser fingida
Nem o Transe final -
O Olho congela - e isto é a Morte -
Não há como evitar
O Rosário na Testa que a Ânsia crua
Se põe a desfiar.
José Lira
Gosto de um olhar de Agonia,
Porque sei que é verdadeiro –
Os homens não fingem o Espasmo,
Nem simulam o Desespero
Os Olhos vítreos, uma vez – e é a Morte
Não há impostura
As Contas sobre a Fronte
Enfeitada pela Angústia.
Fernanda Mouo
249
Wild Nights – Wild Nights!
Were I with thee
Wild Nights should be
Our luxury!
Futile – the Winds
To a Heart in port –
Done with the Compass
Done with the Chart!
Rowing in Eden –
Ah, the Sea!
Might I but moor – Tonight –
In Thee!
Noites Loucas – Noites Loucas!
Estivesse eu contigo
Noites Loucas seriam
Nosso luxuoso abrigo!
Para Coração em porto
Ventos são coisas fúteis –
Bússolas – dispensáveis
Portulanos – inúteis!
Navegando em pleno Éden –
Ah, o Mar!
Quem dera esta Noite – em Ti
Ancorar!
Paulo Henriques Britto
Noites Selvagens Noites Selvagens!
Estivesse eu contigo
Noites Selvagens seriam
Nosso devasso abrigo!
Fúteis – os Ventos
Ao Coração ancorado –
Inúteis – os Mapas –
Pra quê – o Compasso?
Remando pelo Éden
Ah, o Mar!
Pudesse eu esta Noite –
Em Ti atracar!
Fernanda Mouo
258
There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons –
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes
Heavenly Hurt, it gives us –
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are –
None may teach it – Any
’Tis the Seal Despair –
An imperial affliction
Sent us of the Air
When it comes, the Landscape listens
Shadows – hold their breath –
When it goes, ’tis like the Distance
On the look of Death
Há um certo declinar de luz
Nas tardes invernais,
Que oprime como a música
Nas graves catedrais.
Fere-nos celestial:
Não vemos cicatriz, não
Víssemos a diferença interna
Onde os desígnios são.
Ninguém pode ensiná-lo
Em nada: sinete-desespero
Ou anstia imperial
Dos ares enviada.
A paisagem escuta, suspendem o fôlego
(Quando ele se anuncia) as sombras;
E quando parte, é como a distância
Ao olhar da morte.
Décio Pignatari
Às vezes, em Tardes de Inverno,
Uma Luz Enviesada –
Como o Som das Catedrais
Opressora, Pesada –
Nos fere com Dor Divina –
Porém cicatriz não fica
Senão no fundo de nós,
Onde o sentido habita –
É o Selo do Desespero –
A ele – Nada lhe Falta –
Angústia imperial
Que nos desce do alto
Quando vem, a Terra se atenta –
Sombras – param no ar
Quando vai, é como a Morte
Ao Longe, a se afastar –
Paulo Henriques Britto
Há um desvio de luz
Em Tardes Hibernais –
Que oprime como o Peso
De Sons em Catedrais.
É Ferida Divina –
Não deixa cicatriz,
Mas diferença interna
Onde um Sentido existe –
Dominá-la – Impossível –
É Sina – Desespero –
Aflição Imperial
Que nos vem do Ar –
Quando chega, a paisagem a escuta –
Sombras – prendem a respiração
Ao ir-se, é como a Distância
No olhar da Morte.
Lucia Olinto
Há uma certa Intenção de luz,
Tardes Invernais
Que oprime, como o Peso
Dos Tons das Catedrais –
A Ferida Celeste, ela nos abre –
Marcas não ficam,
Apenas a diferença, dentro
Onde os Sentidos habitam –
Ninguém pode explicarNada –
É o Desespero Selado
Aflição imperativa
Do Alto enviada –
Quando vem, a paisagem se atenta –
Na respiração – um corte –
Quando vai, é como a Distância
Nos olhos da Morte –
Fernanda Mouo
Há uma incidência de luz
Nas tardes invernais,
Que oprime, como a pesada
Música de catedrais.
Traz-nos a ferida dos céus;
Não vemos a cicatriz;
Vemos a diferença, dentro
Do que a palavra nos diz.
Ninguém lhe ensinará nada,
Traz selo: desesperança
Imperial aflição
Que do ar nos alcança.
Se chega, a paisagem escuta,
Calam-se as sombras; se parte,
É assim como a distância
No olhar da Morte.
João Barrento
280
I felt a Funeral, in my Brain,
And Mourners to and fro
Kept treading treading – till it seemed
That Sense was breaking through
And when they all were seated,
A Service, like a Drum –
Kept beating – beating – till I thought
My Mind was going numb –
And then I heard them lift a Box
And creak across my Soul
With those same Boots of Lead, again,
Then Space – began to toll,
And all the Heavens were a Bell,
And Being, but an Ear,
And I, and Silence, some strange Race
Wrecked, solitary, here –
And then a Plank in Reason, broke,
And I dropped down, and down –
And hit a World, at every plunge,
And Finished knowing – then –
Senti um funeral dentro de mim,
gente enlutada a caminhar,
a caminhar, até
que meus sentidos se partiram.
E quando todos por fim se sentaram,
um ofício como um tambor
ficou a ressoar, a ressoar,
até parar meu pensamento.
Eles então ergueram uma caixa,
rangendo por meu coração
com as botinas de chumbo novamente.
O espaço começou a retinir.
Como se o firmamento fosse um sino,
e fosse o Ser só um olvido,
e eu e o silêncio uma raça estranha,
arruinada,, no mundo.
Paulo Mendes Campos
Senti um Féretro em meu Cérebro
E Carpideiras indo e vindo
A pisar – a pisar – até eu sonhar
Meus sentidos fugindo –
E quando tudo se sentou,
O Tambor de um Ofício –
Bateu – bateu até eu sentir
Inerte o meu Juízo –
E eu as ouvi – erguida a Tampa –
Rangerem por minha Alma com
Todo o Chumbo dos Pés, de novo,
E o Espaço – dobrou,
Como se os Céus fossem um Sino
E o Ser apenas um Ouvido,
E eu e o Silêncio a estranha Raça
Só, naufragada, aqui
Partiu-se a Tábua em minha Mente
E eu fui cair de Chão em Chão –
E em cada Chão achei um Mundo
E Terminei sabendo – então
Augusto de Campos
Senti um Funeral em meu Cérebro,
E Carpideiras indo e vindo
Indo e vindo – em procissão – até que
O sentido foi explodindo –
E quando todos estavam sentados
As Exéquias, com um Tambor –
Continuaram batendo batendo até que
A Mente entrasse num torpor –
Então ouvi levantarem uma Caixa
E ranger em minha Alma
Com as mesmas Botas de Chumbo, ainda
E o Espaço – badalava
E todos os Céus eram Sinos
E o Ser, um simples Ouvido
E eu, e o Silêncio, uma estranha Raça
Naufragamos, solitários, sem sentido –
E então a Tábua da Razão se quebrou
E eu caí, caí, caí
E alcancei um Mundo, em cada mergulho,
E parei de conhecer –
Fernanda Mouo
288
I’m Nobody! Who are you?
Are you – Nobody – Too?
Then there’s a pair of us!
Don’t tell! they’d advertise – you know!
How dreary – to be – Somebody!
How public – like a Frog –
To tell one’s name – the livelong June –
To an admiring Bog!
Não sou Ninguém. Quem é você?
Ninguém – Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar.
Que triste – ser – Alguém!
Que pública – a Fama!
Dizer seu nome – como a Rã
Para as palmas da Lama.
Augusto de Campos
Eu sou Ninguém! Quem é vo?
Você éNingm – também?
Então somos dois – Não conte!
Ou seremos notícia – veja bem!
Que medo – ser – Alguém!
Tão público – como a Rã –
Coachar seu nome o Verão todo –
Tendo o Brejo como fã!
Fernanda Mouo
301
I reason, Earth is short –
And Anguish absolute –
And many hurt,
But, what of that?
I reason, we could die
The best Vitality
Cannot excel Decay,
But, what of that?
I reason, that in Heaven
Somehow, it will be even
Some new Equation, given –
But, what of that?
Raciocino: a Terra é curta
E a Angústia absoluta,
Tanta coisa nos desgosta –
Mas que importa?
Raciocino: há o morrer –
O mais vital não sustém
Uma força que se esgota –
Mas que importa?
Raciocino que no céu
Nova equação se coloca;
De algum jeito vai dar certo –
Mas que importa?
Aíla de Oliveira Gomes
Penso - o Mundo é restrito -
E a Angústia - absoluta -
E há muito sofrimento,
Mas e daí?
Penso - a Morte não tarda -
A maior Fortaleza
Acaba-se em Ruína,
Mas e daí?
Penso - que o Paraíso
De alguma forma - é digno -
Outra Equação - posvel -
Mas e daí?
José Lira
Eu penso, a terra é curta,
a angústia absoluta,
há muito luto;
mas e daí?
Eu penso, a morte poda:
a saúde não pode
sobrepujar o podre;
mas e daí?
Eu penso, o céu existe,
talvez seja mais justo
numa equação revista;
mas e daí?
Nelson Ascher
Penso, a Terra é curta
Agonia – absoluta –
E muita ferida,
Mas, e daí?
Penso, podemos morrer –
A maior Vida
Não supera a Queda,
Mas, e daí?
Penso, no Paraíso –
Uma nova Equação –
Torna tudo preciso
Mas, e daí?
Fernanda Mouo
318
I’ll tell you how the Sun rose –
A Ribbon at a time –
The Steeples swam in Amethyst
The news, like Squirrels, ran
The Hills untied their Bonnets –
The Bobolinks – begun –
Then I said softly to myself
“That must have been the Sun!
But how he set – I know not
There seemed a purple stile
That little Yellow boys and girls
Were climbing all the while –
Till when they reached the other side,
A Dominie in Gray
Put gently up the evening Bars –
And led the flock away –
Vou te contar como é que o sol nasceu:
De repente uma fita apareceu,
Campanários nadaram em ametista
E notícias correram como esquilos;
Colinas desataram seus toucados,
Os passarinhos romperam em trinados.
Então disse baixinho p’ra mim mesma,
‘Deve ter sido o Sol’!
Mas como ele se pôs, não sei dizer.
No céu, um torniquete avermelhado
Meninos e meninas de amarelo
Pulavam por ali em atropelo,
Na pressa de alcançar o outro lado
Quando um clérigo de hábito cinzento
Fez o gradil da noite subir manso
E dispersou o bando.
Aíla de Oliveira Gomes
Vou te contar como o Sol nasceu
Uma fita por vez
As Torres mergulhadas em Ametista –
Notícias, como Esquilos, a correr –
Os Montes desatando os Gorros
Começava – o Curió –
Então eu disse a mim mesma
“Deve ter sido o Sol”!
Mas como ele se pôs não sei dizer
Parecia uma púrpura escada
E pequenas crianças Douradas
Escalando sem parar
Até que ao chegar do outro lado,
Um Sacerdote em Negro Manto
Hasteou a Bandeira da Noite –
E conduziu embora o bando
Fernanda Mouo
320
We play at Paste –
Till qualified, for Pearl –
Then, drop the Paste –
And deem ourself a fool
The Shapes – thoughwere similar
And our new Hands
Learned Gem-Tactics
Practicing Sands
Brincamos na Massa Vítrea –
E aí, para Pérola treinados –
Deixamos então a Massa –
E nos julgamos insensatos –
As Formas porém – as mesmas
E nossas Mãos atuais
Chegaram a Táticas de Gema
Praticando Areais
Fernanda Mouo
Brincamos com pedra falsa,
Puxando-a a ponto de pérola
Depois soltamos a massa
E vemos quão tolos fomos
E, no entanto, as formas eram análogas, –
E a mão que ainda tateia
Aprendeu tática de gemas
Praticando com areia.
Aíla de Oliveira Gomes
323
As if I asked a common Alms,
And in my wondering hand
A Stranger pressed a Kingdom –,
And I, bewildered, stand
As if I asked the Orient
Had it for me a Morn
And it should lift it’s purples Dikes,
And shatter me with Dawn!
Como se eu pedisse uma vulgar Esmola
E um estrangeiro, na minha mão estendida,
Viesse depositar um Reino
E eu me deixasse ficar fulminada –
Como se eu pedisse que o Oriente
Me desse de presente a Manhã
Que ele abra as suas comportas púrpura,
E me despedace com a Madrugada! –
Ana Fontes
Como se eu pedisse uma simples Esmola,
E, em minha mão surpresa,
Um Estranho prensasse um Reino,
E eu, confusa, suportasse –
Como se eu pedisse que o Oriente
Trouxesse a Manhã, para mim
E ela abrisse seus Diques de Púrpura,
A me espatifar com Aurora!
Fernanda Mouo
334
All the letters I can write
Are not fair as this
Syllables of Velvet
Sentences of Plush,
Depths of Ruby, undrained,
Hid, Lip, for Thee –
Play it were a Humming Bird
And just sipped – me –
Nenhuma das cartas
Que eu te escreva
É tão bela quanto esta –
Sílabas de veludo
Sentenças de terciopelo,
Profundezas de rubi não drenadas,
Escondidas num beijo para ti –
Faz de conta que esta é um beija-flor
Que ainda há pouco me sugou.
Ivo Bender
Eu nunca mais
faço uma carta
tão amável
como esta
Sílabas de veludo
frases de pelúcia
abismos de rubi não explorados
reservados
(ó lábio)
para ti
Faz de conta que foi
um beija-flor
que agora mesmo
me sugou
José Lira
Todas as cartas que eu escreva
Não serão belas como esta
Sílabas de Veludo –
Sentenças de Pelúcia,
Profundezas de Rubi, inesgotadas,
Guardadas, Lábio, para Ti –
Como fosse um Beija-Flor –
Me sorve – aqui
Fernanda Mouo
441
This is my letter to the World
That never wrote to Me –
The simple News that Nature told –
With tender Majesty
Her Message is committed
To Hands I cannot see –
For love of Her – Sweet – countrymen
Judge tenderly – of Me
Esta é minha carta ao Mundo
Que nunca Me escreveu
As Notícias simples que a Natureza contou –
Com branda Majestade
A sua Mensagem está destinada
A Mãos que não consigo ver –
Pelo Seu amor Afáveiscamponeses –
Julguem-me brandamente – a Mim
Cecília Rego Pinheiro
Eis minha carta ao Mundo
Que nunca me escreveu -
Breves Notícias que com Fidalguia
A Natureza deu
Trazem Sua Mensagem
Mãos que não posso ver -
Por Ela me julgueis - gentis Senhores -
Com brando parecer
José Lira
Esta é minha carta ao Mundo
Que nunca escreveu a Mim
As simples Novas que a Natureza contou –
Com suave Majestade
Sua Mensagem é para aqueles
Cujas Mãos não posso ver
Por amor a Ela – Caros – Confrades
Julguem brandamentemeu Ser
Fernanda Mouo
Esta é minha carta ao mundo
Que a mim nunca me escreveu –
Simples novas que a natureza,
Terna e majestosa, contou.
Sua mensagem vai cair
Em mãos que não verei daqui;
Por amor dela, irmãos, fazei
Um juízo amável de mim.
João Barrento
449
I died for Beauty but was scarce
Adjusted to the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In an adjoining Room –
He questioned softly “Why I failed”?
“For Beauty”, I replied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren, are”, He said
And so, as Kinsmen, met a Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names
BELEZA E VERDADE
Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meumulo,
Alguém que morrera pela verdade
Era depositado no carneiro contíguo.
Perguntou-me baixinho o que me matara:
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.
Manuel Bandeira
MORRI PELA BELEZA
Morri pela beleza, e ainda não estava
Meu corpo à tumba acostumado
Quando alguém que morreu pela verdade
Foi pôsto do outro lado.
Brandamente indagou: “Por quem morreste?”
“Pela beleza” disse. “Pois
Eu, foi pela verdade. Ambas são o mesmo.
Somos irmãos, os dois.”
E assim, parentes de noite encontrados,
Conversamos entre as paredes,
Até que o musgo nos chegasse aos lábios
Nossos nomes cerrando em suas rêdes.
Cecília Meirelles
Morri pela beleza e mal estava
Ao túmulo ajustado
Alguém veio habitar a sepultura ao lado.
(Defendera a verdade.)
Baixinho perguntou: “Por que morreste?
“Pela beleza”, respondi.
“E eu pela verdade. São ambas uma só.
Somos irmãos”, me disse.
E assim como parentes que à noite se encontram
Entre os jazigos conversamos,
Até que o musgo alcançou nossos lábios
E cobriu nossos nomes.
Idelma Ribeiro de Faria
Morri pela Beleza - e em minha Cova
Eu não me sentia a gosto
Quando Alguém que morreu pela Verdade
À Cova ao lado chegou -
Ele indagou gentil por que eu viera -
Eu disse - “Pela Beleza” -
“Eu vim pela Verdade - a Mesma Coisa -
Somos Irmãos” - respondeu
E quais parentes juntos numa Noite
Conversamos nos Jazigos -
Até que o Musgo nos chegou aos lábios
E nossos nomes cobriu
José Lira
Pela Beleza morri – mas mal
Me tinha ao mulo acomodado
Quando um que morreu pela Verdade
Colocaram na Cova ao lado –
Indagou-me, manso, “Porque fracassei”?
“Pela Beleza”, respondi
“Eu – pela Verdade – sei, é o mesmo”,
Ele disse, “Somos Confrades” –
E assim, como Irmãos, à Noite –
Entre Túmulos falamos
Até que o Musgo alcançou nossos lábios
E cobriu – nossos nomes
Fernanda Mouo
485
To make One’s Toilette – after Death
Has made the Toilette cool
Of only Taste we cared to please
Is difficult, and still –
That’s easier – than Braid the Hair –
And make the Bodice gay
When eyes that fondled it are wrenched
By Decalogues – away
Fazer a Toalete - após a Morte
Frio deixar na Toalete
O único Sabor que ela nos dava -
É difícil, embora -
Seja mais fácil - que fazer as Tranças -
E um ar feliz dar ao Corpete -
Se o olho que a mimou foi arrancado -
Por Decálogos - fora -
José Lira
Fazer a Toalete – depois
Que a Morte esfria
O único Motivo de fazê-la
É difícil, e todavia –
É mais fácil que fazer
Tranças, e Corpetes apertados –
Quando olhos que afagaram
Por Decálogos são – arrebatados
Ana Cristina Cesar
Fazer a Toalete – depois
Que a Morte a torna fria
Cuidamos da Distinção, apenas
E é difícil, todavia
Mais fácil – que fazer Tranças –
E apertar o Corpete –
Quando o olhar que afagou se faz
Por Decálogos – ausente –
Fernanda Mouo
544
The Martyr Poets did not tell
But wrought their Pang in Syllable –
That when their mortal name be numb –
Their mortal fateencourage Some
The Martyr Painters – never spoke –
Bequeathing – rather – to their work
That when their conscious fingers cease –
Some seek in Art – the Art of Peace
Os Poetas Mártires – não contaram –
Mas moldaram a sua Dor em sílaba –
Para que quando o seu nome mortal adormecesse
O seu mortal destinoAlguns encorajasse
Os Pintores Mártires – nunca disseram –
Legando – antes – a sua Arte –
Para que quando os seus cônscios dedos cessassem
Alguns na Arte – a Arte da Paz buscassem –
Cecília Rego Pinheiro
O Poeta Mártir – não falou –
Trabalhou em Letra a Angústia –
E quando seu nome mortal dormir –
O Mortal Fado – alentará Alguns –
O Pintor Mártir – nunca disse –
Transmitiu a obra – ao invés –
E quando seu dedo sábio partir –
Buscarão na Arte – a Arte da Paz
Fernanda Mouo
636
The Way I read a Letter’s this –
’Tis first – I lock the Door –
And push it with my fingers – next
For transport it be sure –
And then I go the furthest off
To counteract a knock –
Then draw my little Letter forth
And slowly pick the lock
Then – glancing narrow, at the Wall
And narrow at the floor
For firm Conviction of a Mouse
Not exorcised before
Peruse how infinite I am
To no one that You – know –
And sigh for lack of Heaven – but not
The Heaven God bestow –
É assim que leio uma carta
fecho a porta do quarto e me asseguro
que está trancada
para que não me fuja
a excitação
aí me afasto da porta
para não ser surpreendida
se algm bater
aí olho as paredes olho o chão apreensiva
com medo que sei lá
a alma de um rato
esteja à espreita
e devagar e com cuidado
eu abro a carta
E aí leio que sou
tudo no mundo
para alguém
nem queira saber
quem é
E fico suspirando pelo Céu
mas outro Céu não o Céu
que Deus dará
José Lira
Meu Modo de ler uma Cartaé assim –
Primeiro – fecho a Porta –
E empurro com os dedosa seguir
Para assegurar o transporte –
Então me afasto o bastante
Para nenhum chamado escutar –
Abro minha pequena Carta
E a penetro devagar
Sondando as Paredes
E investigando o chão
Para a Condenação de um Rato
Não exorcizado até então
Descubro que sou infinita
Para ninguém que Você – conheça –
E suspiro pelo Céu – mas não –
Que Deus não o ofereça
Fernanda Mouo
695
As if the Sea should part
And show a further Sea –
And that – a further – and the Three
But a presumption be
Of Periods of Seas –
Unvisited of Shores
Themselves the Verge of Seas to be –
Eternity – is Those
Como se o mar se apartasse
e revelasse outro mar,
e esse mar outro mar, e os três
fossem só a presunção
de mares consecutivos
despossuídos de praias...
E mares à margem de mares a vir...
Assim, a Eternidade.
Paulo Mendes Campos
Como se o Mar se abrisse
E mostrasse outro Mar
E esse – outro Mar – e os Três
Fossem só intenção
De Eras de Mares
Sem Litoral –
Mas Mares à Margem de Mares por vir –
Eis aíEternidade –
Fernanda Mouo
749
All but Death, can be adjusted –
Dynasties repaired
Systems – settled in their Sockets –
Citadels – dissolved
Wastes of Lives – resown with Colors
By Succeding Springs –
Death – unto itself – Exception
Is exempt from Change
Tudo pode ajustar-se exceto a Morte -
Restaurar Dinastias -
Reestruturar as Peças de um Sistema -
Baluartes - quebrar -
Restos de Vidas - costurar nas Cores
De Novas Primaveras -
A Morte - Exceção para si própria -
Não se pode mudar -
José Lira
Tudo exceto a Morte, pode-se ajustar
Dinastias corrigidas
Sistemas – assentados –
Fortalezas – dissolvidas –
Restos de Vidas – semeadas em Cores
Por Primaveras Sucessivas
A Morte – a ela mesma – Exceção –
De Mudança está livre –
Fernanda Mouo
813
This quiet Dust was Gentlemen and Ladies
And Lads and Girls
Was laughter and ability and Sighing
And Frocks and Curls.
This Passive Place a Summer’s nimble mansion
Where Bloom and Bees
Exits an Oriental Circuit
Then Cease, like these –
CEMITÉRIO
Este pó foram damas, cavalheiros,
Rapazes e meninos;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos, tranças finas.
Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.
Manuel Bandeira
Este discreto foi Senhores e Damas
E Rapazes e Moças –
Foi riso, dança e Desejo
E Saias e Ondas.
Este Lugar Passivo um vivo solar de Verão
Onde Flores e Abelhas
Deixando um Circuito Oriental
Findam então, como aqueles
Fernanda Mouo
850
I sing to use the Waiting
My Bonnet but to tie
And shut the Door unto my House
No more to do have I
Till His best step approaching
We journey to the Day
And tell each other how We sung
To Keep the Dark away.
Canto para usar a Espera.
É só atar o chapéu
E fechar a porta da casa
Nada mais preciso eu,
Até que Ele, enfim, chegando,
Viajemos para o Dia,
Contando-nos como espantamos
O Escuro com cantoria
Aíla de Oliveira Gomes
Eu canto para usar da Espera
Meu Gorro, é só amarrar
E fecho a Porta da Casa
Nada mais a preparar
À espera de Sua vinda
Vamos rumo ao Grande Dia
A contar como cantamos
Para afastar a Escura Via.
Fernanda Mouo
883
The Poets light but Lamps –
Themselves – go out
The Wicks they stimulate –
If vital Light
Inhere as do the Suns
Each Age a Lens
Disseminating their
Circumference –
Os Poetas apenas ateiam Chamas
Eles próprios – extinguem –
Os Pavios que acendem –
Se a Luz vital
É inerente como nos Sóis
Cada Idade uma Lente
Disseminando-se
Circularmente –
Cecília Rego Pinheiro
Os Poetas inflamam
E eles mesmos – se apagam
Ao pavio que incitam –
Se a Luz vital
É inerente como ao Sol –
Cada Era uma Lente
Disseminando sua
Circunferência –
Fernanda Mouo
903
I hide myself within my flower,
That wearing on your breast,
You, unsuspecting, wear me too
And angels know the rest.
I hide myself within my flower,
That fading from your Vase,
You, unsuspecting, feel for me
Almost a loneliness.
Dentro da minha flor me escondo,
Que em tua lapela esvaece,
Sem o notar, de mim te vestes
E o resto os anjos saberão.
Dentro da minha flor me escondo,
A que no teu jarro fenece,
Sem o saber, sentes por mim
Quase uma solidão.
Lucia Olinto
Eu me escondo em minha flor,
Que tão usada em seu terno,
Você, desavisado, também me usa
E os anjos sabem o resto.
Eu me escondo em minha flor,
Que murchando em seu Vaso,
Você, desavisado, sente por mim –
Um abandono, quase.
Fernanda Mouo
976
Death is a Dialogue between
The Spirit and the Dust
“Dissolve” says Death – The Spirit “Sir
I have another Trust” –
Death doubts itArgues from the Ground –
The Spirit turns away
Just laying off for evidence
An Overcoat of Clay.
A Morte é um Diálogo entre
A Alma e o Pó.
Diz a Morte “Some” – A Alma “Só
Me cabe ser Crente”
A Morte – sob a Terraclama.
Vai-se a Alma
Deixando o seu – prova cabal –
Manto de Lama.
Augusto de Campos
A Morte é um Diálogo
Entre a Alma e o Pó.
“Some” diz a Morte – e a Alma
“Eu tenho outra Fé” –
Duvida a Morte – lá do Chão –
A Alma então se vira
E deixa apenas – evidência
Um Sobretudo de Argila.
Fernanda Mouo
1026
The Dying need but little, Dear,
A Glass of Water’s all,
A Flower’s unobtrusive Face
To Punctuate the Wall,
A Fan, perhaps, a Friend’s Regret
And Certainty that one
No color in the Rainbow
Perceive, when you are gone.
Os que estão morrendo, amor,
Precisam de tão pouco:
um Copo d’água, o Rosto
Discreto de uma Flor.
Uma lágrima, talvez um Leque,
E a certeza que nenhuma cor
do Arco-Íris perceba
Quando você for.
Ana Cristina Cesar
Quem morre, Amor, pouco lhe basta -
Um Copo d’Água para a sede,
Uma discreta Flor em frente
Realçando a parede,
Talvez um Leque, um Amigo aflito,
E a Convicção que alguém na vida
Não verá cores no Arco-Íris
Após tua Partida.
José Lira
Quem morre, meu bem, pouco precisa
Um Copo d’Água é o bastante, e também
A Face discreta da Flor
A pontuar a Estante
Um Leque, talvez, o Pesar de um Amigo
E a Certeza que alguém
Não verá cor no Arco-íris
Quando estiveres além.
Fernanda Mouo
1052
I never saw a Moor
I never saw the Sea
Yet know I how the Heather looks
And what a Billow be.
I never spoke with God
Nor visited in Heaven –
Yet certain am I of the spot
As if the Checks were given –
NUNCA VI UM CAMPO DE URZES
Nunca vi um campo de urzes.
Também nunca vi o mar.
No entanto sei a urze como é,
Posso a onda imaginar.
Nunca estive no Céu,
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.
Manuel Bandeira
Nunca vi uma charneca,
Nem o mar eu vi jamais:
Sei, pom, a forma da urze
E como há de ser a vaga.
Nunca falei com Deus,
Nem O visitei, no céu, jamais;
Do lugar, pom, tenho tal certeza
Como se lhe conhecesse a carta.
Ivo Bender
Nunca vi um Pântano
Nunca vi o Mar –
Mas sei como é a Urze
E o que uma Onda será.
Nunca falei com Deus –
Nunca fui à sua Morada
Mas estou certa do ponto
Como se a Direção fosse dada –
Fernanda Mouo
1129
Tell all the Truth but tell it slant
Success in Circuit lies
Too bright for our infirm Delight
The Truth’s superb surprise
As Lightning to the Children eased
With explanation kind
The Truth must dazzle gradually
Or every man be blind –
Diga toda a Verdade mas diga devagar –
No Circuito o sucesso repousa
Clara demais para nosso Deleite enfermo
A Verdade é suprema surpresa
Como o Raio explicado à Criança
Em suave e gentil maneira
A Verdade deve vir aos poucos
Ou aos homens traz cegueira
Fernanda Mouo
PARA A HORA DA VERDADE
Fale a verdade toda, mas fale de viés.
No rodeio está o sucesso.
Para nossa frágil felicidade,
A surpresa da verdade brilha em excesso.
Como o raio que, por bondade,
Alguém explica à criança que se assusta,
Deve brilhar pouco a pouco a verdade,
Ou todos seremos cegos à sua custa.
Angela-Lago
1132
The smouldering embers blush
Oh Hearts within the Coal
Hast thou survived so many years?
The smouldering embers smile –
Soft stirs the news of Light
The stolid seconds glow
One requisite has Fire that lasts
Prometheus never knew
A brasa arde e enrubesce -
Ó Alma sob as Cinzas
Todo esse tempo e não morreste?
A brasa arde e sorri -
Branda Luz se faz nova
Brilham horas extintas
Próprio do Fogo é a persistência
E Prometeu não viu -
José Lira
O Carvão queimando cora –
Ah, Corações nas Brasas
Sobrevivestes tantos anos?
O Carvão queimando sorri –
Suave estalam as novas de Luz
Estólidos segundos incandescem
Uma condição tem o Fogo que dura
Prometeu o desconhece –
Fernanda Mouo
1203
The Past is such a curious Creature
To look her in the Face
A Transport my receipt us
Or a Disgrace
Unarmed if any meet her
I charge him fly
Her faded Ammunition
Might yet reply.
O Passado é estranha Criatura
Olhá-la de Frente
É Delícia pura / É Arrebatamento
Ou Sofrimento – Ou Agonia –
Se a encontrares desarmado
É bom fugir
Sua munição tão gasta
Poderá ferir.
Ana Cristina Cesar
O Passado é curioso
Olhá-lo na Face
Ou nos leva ao Êxtase
Ou à Desgraça –
Se desarmado o encontrar
Aconselho fugir
Que a Munão antiga
Pode ainda ferir.
Fernanda Mouo
1212
A Word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.
Uma palavra morre
Quando é dita –
Dir-se-ia –
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.
Aíla de Oliveira Gomes
Uma palavra morre
ao ser pronunciada
é o que se diz
(flor que se cumpre
sem pergunta)
Digo que é nesse
exato dia
que ela começa
a viver
José Lira
Uma Palavra é morta
Quando dita,
Alguém diria.
Digo que apenas
Começa a viver
Naquele dia.
Fernanda Mouo
1263
There is no Frigate like a Book
To take us Lands away
Nor any coursers like a Page
Of prancing Poetry
This Traverse may the poorest take
Without oppress of Toll –
How frugal is the Chariot
That bears the Human soul.
Não há Fragata igual a um livro, que daqui
Nos distancie
Nem Corcel que galope mais que um Verso
De poesia –
Não custa Pedágio ao pobre
Essa Travessia –
Frugal é o Carro que nos leva
Nesta Via.
Ana Cristina Cesar
Não há fragata que chegue a um livro
Para nos levar a léguas de distância,
Nem corcel que chegue a uma página
De impaciente poesia.
É também uma viagem para os mais pobres
Sem a prepotência da portagem;
Como é modesta a carruagem
Que transporta a alma humana.
Ana Fontes
Não há Fragata como o Livro
Que nos leva a Terras distantes
Nem Corcel como a Página
De Versos galopantes –
Tal Travessia pode o pobre
Sem opressão da Grana
Quão parca a Carruagem
Que conduz a Alma Humana.
Fernanda Mouo
1272
So proud she was to die
It made us all ashamed
That what we cherished, so unknown
To her desire seemed
So satisfied to go
Where none of us should be
Immediately – that Anguish stooped
Almost to Jealousy
Tão orgulhosa de morrer
Que nos envergonhamos
De tudo que amamos,
E o seu desejo desconhece
Tão satisfeita de partir
Que nós que não podemos
Subitamente – percebemos
Que à Inveja a Angústia quase cede –
Ana Cristina César
Tão altiva morria
Que nos envergonhávamos
De parecer o nosso gosto
Contrário ao seu querer -
Partia tão contente
Para onde não iríamos
De imediato - que a Angústia
Quase Inveja se fez -
José Lira
Tão orgulhosa de morrer
Nos deixa constrangidos
O que desejamos, é
Para ela – desconhecido
Tão satisfeita de ir
Onde nenhum des esteja
Que a nossa Angústia se rebaixa
A uma quase Inveja
Fernanda Mouo
1695
There is a solitude of space
A solitude of sea
A solitude of death, but these
Society shall be
Compared with that profounder site
That polar privacy
A soul admitted to itself –
Finite infinity.
Há uma solidão do céu,
uma solidão do mar
e uma solidão da morte.
Mas fazem todas companhia
comparadas a este local profundo,
esta polar intimidade,
uma Alma que reconhece a Si mesma:
finita infinidade.
Paulo Mendes Campos
Há solitude pelo espaço
No mar há solitude
Na morte há solitude - porém todas
São uma sociedade
À vista dessa instância mais profunda
Polar privacidade
Que uma alma dá para si própria -
Finita infinitude.
José Lira
Existe a solidão do céu
A solidão do mar
A solidão da morte, mas todas
Sociedade
Frente ao mais íntimo lugar
Polar privacidade
Uma alma que admite ser
Finita infinitude.
Fernanda Mouo
1732
My Life closed twice before its close –
It yet remains to see
If Immortality unveil
A third event to me
So huge, so hopeless to conceive
As these that twice befell.
Parting is all we know of Heaven,
And all we need of hell.
MINHA VIDA ACABOU DUAS VEZES
Já morri duas vezes, e vivo.
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na vida
Sofrerei assim
Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu que é adeus,
Basta a saudade como Inferno.
Manuel Bandeira
Minha vida acabou por duas vezes -
Resta ser confirmado
Se na Imortalidade um novo evento
Me será revelado
Como esses que passei assim tão fora
De medida e de juízo -
Partir é tudo que do Céu conheço
E do Inferno preciso.
José Lira
Minha Vida fechou duas vezes antes do fim –
Mas perdura para ver ainda
Se a Imortalidade revela
Um terceiro evento pra mim
Tão vasto, impossível de conceber
Como os que duas vezes vieram.
Partir é tudo que sabemos do Céu
E tudo que precisamos do Inferno.
Fernanda Mouo
1755
To make a prairie it takes a clover and one bee,
One clover, and a bee,
And revery.
The revery alone will do,
If bees are few.
Para fazer um prado é preciso
Um trevo e uma abelha.
Um trevo, uma abelha,
E devaneio.
Só o devaneio serve,
Se faltarem abelhas.
Fernanda Mouo
Para fazer uma campina
Basta um só trevo e uma abelha.
Trevo, abelha e fantasia.
Ou apenas fantasia
Faltando a abelha.
Idelma Ribeiro de Faria
Para fazer um prado toma-se a abelha e um trevo
uma abelha e o trevo
(abelha e trevo
e devaneio)
O devaneio basta
se houver poucas
abelhas
José Lira
1760
Elysium is as far as to
The very nearest Room
If in that Room a friend await
Felicity or Doom –
What fortitude the Soul contains,
That it can so endure
The accent of a coming Foot
The opening of a Door –
Suspense
Os Elísios se encontram à distância
Do mais pximo recinto
Se, nesse, um amigo aguarda
A felicidade ou a ruína.
Que forças não abriga a alma
Se tranqüila assim suporta
O som de passos que se aproximam,
O abrir-se de uma porta!
Ivo Bender
O Paraíso é tão longe
Quanto a Casa da esquina
Tudo depende se ali se espera
A Felicidade ou a Ruína –
Que força tem o Espírito
Como é que ele suporta
A Cadência do Passo lento
Que avança pela Porta –
Fernanda Mouo
NOTAS ESPARSAS
Poema 54
É um poema do qual, à primeira leitura, entendemos a música, o ritmo. Há algo que pulsa e
se impõe, e que ao mesmo tempo tem uma naturalidade que me permitiu traduzi-lo de uma
vez, sem contar sílabas, e remeter a esse que é o próprio ritmo da vida cotidiana de que
fala o poema. Em when we with Daisies lie, creio que preferi a idéia de dormir a jazer por
considerar desnecessário enfatizar o fato da morte, anunciado na primeira linha, e para
não tirar a leveza do poema com uma palavra pesada, no português.
Poema 67
Neste poema, o que mais gosto é da imagem da estrofe final. Não conseguiria usar
moribundo como fez Augusto, então usei o simples a morrer, que, afinal, é o que dying diz.
Forbidden ear tornou-se o ouvido distante, esta última palavra servindo também aos dois
versos seguintes: The distant strains of triumph / Burst agonized and clear. Assim, o som
distante da vitória ressoa claro naquele ouvido a morrer, e, portanto, distante.
Poema 164
Poema enviado às primas por ocasião da morte da mãe, irmã da mãe de Emily Dickinson.
Quando o traduzi não sabia disso, depois o veria na carta. Também não tinha atentado
para a alusão bíblica que Lira aponta: “Are not two sparrows sold for a penny? Yet not one
of them will fall to the ground apart from the will of your Father.” (Matthew 10:29) Isso
justifica as aspas em “sparrows fall”. Como a história de cada poema não me preocupava
ao contrário, preferi traduzi-los sem saber muito “sobre” não hesitei ante aquela
estranheza. Apenas retirei as aspas por pensar que, na tradução, elas poderiam criar uma
aura enigmática e mantê-las, então, não seria o caso de transpor uma estranheza, mas de
criar um significado oculto que nem eu sabia qual era. De fato, se, como o próprio Lira
lembrou, as traduções da Bíblia em nossa ngua não falam em pardais, mas em
passarinhos, acho que não faria mesmo sentido marcar com aspas a tradução de “sparrows
fall”, como ele fez com “filhotes”. na última linha, ela percebe”, do céu, mantive essa
marca que poderia ser de um sentido figurado da mãe vendo os filhos do céu, ou mesmo de
uma pitada de ironia. Quanto à palavra Mama, Lira traduz por “Mamãe”, com aspas,
interpretando-a como uma indicação de anaforização, além da feminização de um Deus-
Pai; mas o fato é que, segundo a edição de Johnson, ao menos, esta palavra não é grafada
com aspas. Lira condena a suposta tradução de mortal nest por mortal ninho, tendo ele
preferido frágil ninho. eu não abri mão da carga semântica de mortal, que além do
sentido de humano e terreno que a palavra assume no original, traz em si a palavra morte, e
paradoxalmente associada ao ninho, lugar de concepção e início da vida. Além de se tratar
de um cognato, trazendo a mesma sonoridade. Por tudo isso, e alguma coisa que me faz
gostar desta tradução, trago-a aqui em minha primeira e única versão.
Poema 216
pelo menos três versões do poema “Safe in their Alabaster Chambers”, com mudanças
praticamente apenas na segunda estrofe, que Emily enviou primeiramente à sua cunhada
Susan, no verão de 1861, portanto antes de escrever a Higginson. Em minhas pesquisas,
não localizei qual delas foi incluída na carta a Higginson. Na “reprodução” da carta, o
manuscrito que incluo no primeiro fascículo, de caráter apenas ilustrativo, opto pela
segunda versão enviada à cunhada Susan uma escolha pessoal mas não aleatória, que
baseada na troca de correspondência. Sue, na verdade, teria dito que o poema dispensaria
qualquer segunda estrofe, que “Strange things always go alone as there is only one
Gabriel and one Sun”. Ver mais sobre a questão em DICKINSON. Selected letters, p. 161-
163. Apesar de haver, na segunda versão, a mudança do verbo sleep para lie, na primeira
estrofe, traduzo ambos por dormem, pois que lie o permite, e não apenas no sentido
figurado. Além da sonoridade formada em dormem dóceis, a crua realidade de “jazer” não
cabe no contexto irônico da estrofe.
Poema 241
Originalmente, minha segunda estrofe para este poema era: O Olhos vítreos, uma vez e é
a Morte / Não impostura / As Gotas sobre a Fronte / Depois da usual Tortura. Depois,
quis seguir mais de perto o original atentando para a personificação da Angústia (conforme
as personificações anteriores) a arranjar as gotas de suor como se contas de um colar (cf.
string: enfiar, enfileirar; beads: contas). Pensei ainda em trocar “Não impostura” por
“Não fuga”, para tentar uma melhor aproximação com a palavra “angústia”, mas seria
fugir mais do que eu queria. E gosto dessa “ausência de impostura”, que é também uma
ausência de “compostura”, de imposição de uma máscara; ao contrário, ali a exposição,
a verdade nua e cruase há algum “enfeite” é o da própria Angústia!
Poema 258
Não conhecia este poema ainda quando paulo de andrade encomendou-me a tradução, para
que incluísse em sua tese de doutorado sobre Marguerite Duras. A autora tem um romance
intitulado Emily L., em que a personagem homônima, após perder a filha no parto, escreve
um poema que o marido encontra e lê. Atordoado pelo fato de nada no poema falar sobre a
tragédia, sobre a filha morta, atira-o ao fogo. É um poema inacabado, que aparece no
romance através de uma minuciosa descrição poderíamos dizer uma tradução em prosa
que, somada ao único verso original citado But internal difference, where the meanings
are” permite a identificação do poema como o de número 258 de Emily Dickinson. Após
traduzi-lo, tive a grata surpresa de conhecer essa história e, bem depois, ler a bela e
impressionante descrição – tradução – do poema por Marguerite Duras:
O Capitão lera o poema através das rasuras e das regiões claras da escrita. Esta região lhe
parecia mais estranha do que aquelas que ele hesitara. Através das rasuras, ela dizia que em
certas tardes de inverno os raios de sol que se infiltravam nas naves das catedrais oprimiam
tanto quanto o retumbar sonoro dos grandes órgãos. Nas partes claras, dizia que as feridas
que essas mesmas espadas de sol nos causavam nos eram infligidas pelo céu. Que não
deixavam vestígio nem cicatriz visível, nem na carne de nosso corpo nem em nosso
pensamento. Que não nos feriam nem aliviavam. Que era outra coisa. Que era outro lugar.
Em outro lugar e onde de onde se poderia supor. Que essas feridas não anunciavam nada,
nem confirmavam nada que poderia ter-se constituído em objeto de ensinamento, de uma
provocação no seio do reino de Deus. Não, era a percepção da diferença última: aquela,
interna, no centro das significações.
Perto do fim do poema, as regiões da escrita fiavam obscuras, indecisas. Estava dito, ou
quase dito, que essa diferença interna era alcançada através do desespero soberano do qual,
de certa maneira, ela era o selo. Em seguida o poema se perdia em uma viagem rea, nos
últimos vales antes dos píncaros, na fria noite de verão, na aparição da morte.
146
O sentimento de estranheza, de alienação, perpassa todo o poema, entrecortado ele mesmo
em seu “desespero selado”, que “ninguém pode explicar”. Determinei que precisava
terminar com Morte, e ainda com uma rima adequada, pois que vem daí a força desse final,
no poema em inglês. Inicialmente, o segundo verso da última estrofe ficou “Sombras
respiram mais forte”. Apesar da aparente contradição com hold their breath (prendem a
respiração), achei que poderia dar a mesma idéia de apreensão, além de me dar a rima da
qual o abria mão. pouco tempo, porém, mudei o verso para Na respiração um
corte”. Perco as sombras, mas elas estão na paisagem. E o corte cai bem no poema. A
versão de João Barrento é muito bem conseguida nisso, com seu “calam-se as sombras” e a
rima parte / Morte. Sua tradução não está relacionada entre as publicações posto que,
juntamente com a tradução do poema 441 (“This is my Letter to the World”), compõe O
livro das oferendas, edição artesanal de um exemplar só, ofertado a Lucia Castello Branco.
Poema 280
Algumas edições desse poema não trazem a quinta estrofe, e parece ter sido o caso daquela
de que Paulo Mendes Campos se valeu em sua tradução. Interessante é sua tradução de ear
por olvido, na quarta estrofe. É possível que tenha sido um engano, mas faz algum sentido,
embora eu não veja porque fugir da concretude de Ear. Gosto muito da última estrofe de
Augusto de Campos, de seu Chão em Chão. Mas parece que vamos em direções opostas no
último verso, que continuo vendo como a imagem da ação última, que é justamente a falta
da ação, assim como “Aí falharam-me as Janelas / E não pude ver para ver –” em
“Ouvi uma Mosca zumbir(poema 465). Mas não deixo de ver uma convergência entre as
duas traduções: saber o quê? Conhecer o quê? Ambas apontam para o vazio, a suspensão do
sentido culminada por then –
Poema 288
Na tradução deste poema-ícone da própria história da escritora, havia que se observar o tom
de gracejo, a ironia e a sonoridade, de preferência em versos curtos. Assim como o som da
palavra-chave do poema – nobody – ecoa em todo o resto (too, know, somebody, frog, June,
bog), o som nasal de ninguém que tem um tom de desdém –, naturalmente ecoou em
também, bem, alguém, rã, fã. Para a palavra dreary, no primeiro verso da segunda estrofe,
entre as muitas possibilidades, e após pensar em triste e chato, escolhi medo, cuja ironia
não sem um quê de verdade aqui me pareceu mais apropriada. A segunda estrofe de
Augusto de Campos é irretocável; a liberdade que ele se permite o aproxima da dicção
de Emily, ao menos nesse caso.
Poema 301
O conflito entre a razão (I reason) e a fé (Heaven) explode na angústia da incerteza
disfarçada de indiferença ao fim de cada estrofe: But, what of that? Tentei manter os versos
os mais curtos possíveis, e usar palavras simples que ecoassem umas nas outras: ferida,
vida, queda. Na última estrofe do original, os três primeiros versos apresentam uma rima
146
ANDRADE. Nada no dia se vê da noite esta passagem, p.190-191.
mais evidente, um ritmo mais melódico, como a encaminhar para um desfecho, uma
solução, que afinal não se apresenta (what of that?). Eu queria manter a palavra Equação,
então precisava conseguir uma rima entre o primeiro e o terceiro versos, mas que não fosse
em ão. A partir de Paraíso, cheguei a preciso, que traduz bem even no sentido de precisão,
igualdade, que afinal é o que representa uma equação. Se na terra ela não é justa, precisa, é
porque está errada, e no céu (somehow, de alguma forma que não pude incluir) uma nova
há de ser apresentada.
Poema 320
Este é um dos quatro poemas enviados a Higginson na primeira carta, e parece dizer do
progresso da artista. Talvez ela o tenha escolhido para mostrar a Higginson que o era
uma novata, experimentara bastante e passara a fase de moldar o vidro, não sendo de
grande interesse sua produção anterior. Isso se confirmaria quando, perguntada por ele
sobre sua idade, em uma carta, Dickinson responde: “Não fiz versos – apenas um ou dois
até este inverno senhor.” Preferi traduzir paste por massa vítrea, apesar do
desdobramento em duas palavras. Não consegui outra forma que depois daria sentido a
sands (que remete tanto ao vidro, no caso o usado em imitações de pedras preciosas, e cuja
massa contém areia, quanto à perola, que também dela é formada), sem sacrificar a idéia do
material primitivo. Vidro, apenas, simplificaria, onde “play at paste” idéia do processo,
não do material final, algo como “pôr a mão na massa”, que é mesmo o trabalho do artífice.
Poema 441
Poema “obrigatório” em todas as antologias, causa embaraço aos tradutores pela
dificuldade de unir a simplicidade e a nobreza com que fala de uma renúncia: a renúncia a
fazer parte do mundo de sua época por parte daquela que desejou o mundo, que a ele
escreveu. É assim que entendo countrymen: ela endereça sua carta àqueles que virão a ser
seus conterrâneos e seus contemporâneos, seu tempo e seu mundo. Traduzo por confrades,
que, além da rima com majestade, traz a idéia de comunhão, de uma possível identidade, e
ao mesmo tempo é uma palavra liberta do sentido de tempo e lugar. Todas as palavras do
poema são simples, o tom é que é nobre, e por isso não se poderia usar palavras rebuscadas.
Nisso foi muito bem-sucedido João Barrento, com a escolha da palavra “irmãos” e todo o
resto. As traduções de João Barrento dos poemas 441 e 258, conforme dito acima, na nota
deste último, são inéditas para o público geral.
Poema 485
Como bem notou Ana Cristina Cesar, este é um poema em que o tema da morte é
apresentado de uma perspectiva bem feminina, mas sem nenhum sentimentalismo. De fato,
as palavras Toillete, Taste, Braid e Bodice pontuam o poema, metonimicamente, como
signos do cuidado e da vaidade que, agora, assumem um outro sentido, ou uma falta de
sentido face à ausência do olhar, peça fundamental, e mesmo motivadora, para que uma
mulher “se apronte”. Traduzi Taste por Distinção, que denota o zelo que há em toda toalete,
mas, associado a apenas, indica-nos a falta, ali, do gosto, que justamente seria dado pelo
olhar. Aos dois primeiros versos, onde entendo que a morte torna a toalete cool “fria” no
sentido de sem sentimento e fácil a tradução que consegui talvez traga um pouco de
imprecisão. “Fazer a Toalete depois / Que a morte a torna fria” diz o que acabei de
descrever, mas pode também, pela não-repetição da palavra toalete no segundo verso, levar
à imagem da Morte tornando fria a mulher, figura implícita desde o início. O que seria
apenas um reforço da idéia de “frio” e que, de toda maneira, não pude evitar já que não
consegui repetir toalete sem espichar mais do que eu queria um dos versos.
Poema 544
Neste poema que fala do artista e da obra, optei pelo uso do singular ao traduzir Martyr
Poets e Martyr Painters, que ficaram “O Poeta Mártire “O Pintor Mártir”. Tal escolha se
deveu à maior concisão das formas verbais proporcionada pelo singular, além de uma
abstração, da formação de um conceito, que considerei apropriadas ao poema. O poema em
português acabou por atingir um paralelismo análogo ao do original, com cada verso de
uma estrofe ecoando seu correspondente na outra. Assim espero no último verso da
estrofe, é possível perceber o sujeito de “buscarão” como o mesmo “alguns” da estrofe,
que aqui teve de ficar subentendido para não se perder o ritmo do poema, especialmente em
seu final.
Poema 636
Ao recopiar esta tradução aqui, acabei fazendo algumas alterações que, acredito, deram
mais precisão à versão portuguesa. O antigo verso 3 (“E, a seguir – aperto-a com os dedos –
”) tinha uma construção que permitia entender que os dedos apertavam a carta. Preferi
explicitar o movimento de se empurrar a porta para a garantia de que ela esteja bem
fechada, principalmente pelo aparente paradoxo a se formar com o verso seguinte, que diz
que é isso que irá “assegurar o transporte”. Transport, entendido como o êxtase (um sair de
si) provocado pela carta, ao ser traduzido por “transporte” engendra uma interessante
relação não só de sonoridade, mas também semântica, com a palavra “porta” – aquilo que é
preciso justamente estar fechada para que o transporte ocorra. Outra alteração importante
ocorreu na estrofe, com a substituição de “Lançando um olhar oblíquo à parede / E
olhando assim o chão” por “Sondando as Paredes / E investigando o chão”, que me
pareceu justamente a tradução desse olhar perscrutador de glancing narrow. O vocabulário
investigativo, aliás, pareceu-me bem apropriado ao poema desde o seu início, que anuncia
um método de leitura de uma carta. O que se confirma pelo resultado desse olhar
Conviction of a Mouse para o que preferi a palavra “condenação”, sabendo que
conviction também pode remeter para a simples “confirmação” de que é só um rato que está
ali com aquela pessoa, após a averiguação do recinto. De qualquer maneira, a “condenação
do rato” mostra o que importa: ela quer ficar sozinha para “pick the lock”, que sugere essa
entrada furtiva onde não se tem acesso no caso, a carta –, o que foi traduzido por “E a
penetro devagar ”, esperando-se passar essa idéia de cuidado ao adentrar um terreno
desconhecido, talvez proibido além, é claro, de uma relação sensual, quase erótica com
aquele objeto-carta passível de lhe trazer o êxtase. Uma vez nesse terreno, a descoberta:
“Peruse how infinite I am” – mais uma vez o olhar investigativo, perante o qual eu
finalmente decidi iniciar a última estrofe com “Descubro” e não “Leio”, como
anteriormente. Mais que “ler” (Emily poderia ter escolhido simplesmente read), peruse
indica um modo de ler atentamente, examinando.
Poema 903
Conforme comentei anteriormente, este poema foi traduzido por Lucia Olinto de acordo
com a edição Emily Dickinson: selected poems Gramercy Books, New York, Avenel,
1993, onde aparece com a primeira estrofe. Eu o tinha traduzido como um poema de
quatro versos (segundo a edição de Johnson), dos quais gosto muito. Após conhecer a
primeira estrofe, não deixo de perceber as duas como independentes para uma apreciação,
mas, como Lucia Olinto, achei que valia a pena tentar traduzi-la para a apresentação do
poema aqui. Foi, aliás, uma das raríssimas vezes em que consegui traduzir um poema após
vê-lo traduzido, e talvez isso se deva ao fato de eu já ter a minha própria tradução (a
“segunda” estrofe, que em nada modifiquei), para tentar seguir o tom dela mesma, já que
um paralelismo entre essas duas estrofes que pede isso. Para a tradução dessa primeira
estrofe, pensei numa solução para a palavra wearing, que, no verso 2, pode tanto antecipar
o sentido de usar, vestir presente no verso 3 (“You, unsuspecting, wear me too –”), quanto
funcionar como um adjetivo para a florno caso, usada no sentido de gasta, desgastada –,
o que remeteria inclusive à segunda estrofe, que traz a análoga imagem da flor “murchando
em seu Vaso”.
Poema 1026
Evitei, como os outros tradutores, a palavra “moribundo” para Dying, que destoaria
totalmente do tom delicado do poema. Para Dear, escolhi “meu bem”, ao contrário de Jo
Lira e Ana Cristina Cesar, que optaram por amor. Em suas notas, Ana Cristina justifica a
escolha (ela diz que a melhor tradução seria bem/meu bem) pela seqüência de rimas
conseguidas para o poema (amor/flor/cor/for), que superaram o fato de amor ser uma
palavra “ligeiramente mais nobre” que Dear, motivo pelo qual ela dispensou o uso da
maiúscula. Partindo de meu bem, e também dispensando a maiúscula por se tratar de duas
palavras, criei uma seqüência de rimas que perpassa todo o poema
(bem/também/alguém/além). Na primeira estrofe, opto por colocar o vocativo a interromper
o verso. Ao traduzir, senti uma “urgência em convocar esse meu bem”, que ficaria
muito distante ao final de “quem morre pouco precisa”, a não ser que eu deslocasse a idéia
do “pouco precisar” para o verso, como bem fez Ana Cristina. Na minha tradução,
contudo, gostei dessas pausas que se formaram aí e nos versos 2 e 5 (com e também e
talvez), que conferiram um ritmo entrecortado que, existente no original, pela própria
enumeração dos poucos elementos necessários a quem morre (o quase nada), foi
propriamente intensificado na versão portuguesa, de versos inevitavelmente mais longos.
Os poucos elementos “pontuam” o poema, e reconstroem a visão do quarto, também
entrecortada para aquele que morre: um Copo d’Água; uma Flor; um Leque; um Amigo.
Em minha versão, a flor, discreta, pontua a “estante” e não a “parede”. Essa opção, que não
interfere na imagem a ser formada, reconstrói a rima all/Wall em bastante/Estante,
neutralizando o meu bem/também em versos seguidos e criando um cruzamento de rimas
internas que enriqueceu a sonoridade do poema. Um último comentário resta ser feito em
relação à segunda estrofe, que parece ter dado margem a dois entendimentos: one no color,
entendido como sujeito, produz a versão de Ana Cristina nenhuma cor do arco-íris
perceberá sua partida”, enquanto que, entendendo-se o sujeito como apenas o
indeterminado one, temos: “não se verá cor no arco-íris após sua partida”, o que se em
minha versão e também na de Lira. Considerando a menção de pelo menos um amigo como
importante a quem morre, pareceu-me um pouco contraditória a idéia de que, a quem está a
morrer, seria reconfortante saber que “nenhuma cor do arco-íris perceberá sua partida”.
Poema 1129
Gostei da tradução de slant para “de viés”, na versão de Angela-Lago, que a idéia é
mesmo espacial e não temporal. Pensei mesmo em mudar a minha, apesar de devagar”
estar em consonância com a idéia geral do poema, explicitada no “aos poucos” do
penúltimo verso. Na verdade, eu também tinha me acostumado demais a esse primeiro
verso “Diga toda a Verdade mas diga devagar” e não conseguiria pensá-lo de outra
forma.
Poema 1132
É um poema de que gosto muito, e também da tradução. Também aqui o final do poema
gera duas perspectivas diferentes nas traduções apresentadas. Na minha versão, para o fogo
que “dura” que não é roubado uma explicação, uma condição: Prometeu dele nunca
soube (never knew), ou o levaria (daí, Prometeu o desconhece). Na tradução de Lira, o fogo
tem uma condição a persistência – que Prometeu não viu. Quis preservar a idéia de que o
fogo é desejado por advir da própria vida (Hearts), e do tempo (seconds), que reacendem
com as brasas que, ao inflamar, coram e sorriem, como a criança – prenúncio de boas novas
trazidas pela Luz, até que esta seja subtraída. Ali onde sobra o carvão, contudo, a brasa
poderá arder novamente. Em Soft stirs the news of Light/ The stolid seconds glow, ouço os
“estalidos das brasas, que tentei manter em Suave estalam as novas de Luz/Estólidos
segundos incandescem.
Poema 1263
De início, optei por o Livro e a Página, ao invés de um e uma, visando uma melhor
sonoridade e maior condensação. No segundo verso, intensifico essa idéia d’o livro (em
oposição a um livro) dizendo que livro é esse: aquele que nos leva a terras distantes. O
poema exigia versos enxutos e um padrão de rimas que, em minha versão, conseguiu seguir
o original (versos 2 e 4/ 6 e 8). Ana Cristina criou um ritmo interessante para o poema,
encurtando os versos pares e ao mesmo tempo dando a todos eles uma rima única. Mesmo
questionando a “fidelidade” de sua tradução, ela confessa: “Estou, porém, meio paralisada
pelo orgulho de ter descoberto a seqüência de rimas. A rima guiou minha mão e meu
coração.”
147
Isso lhe custou o sacrifício de algumas imagens, como a alma humana, que
pouco precisa para ser transportada. Eu, que o queria omiti-la a Alma Humana
arranjei-lhe de companhia a Grana! “Por amor a uma rima adequada”,
148
como dissera Ana
Cristina, também incorri no risco de trazer uma palavra cujo uso corrente talvez possa
destoar do poema (assim como ela chamou Carro o que seria “carruagem”). Penso,
contudo, que em ambas as versões o tom geral do poema neutraliza o uso corriqueiro de
tais palavras.
Poema 1272
A primeira atitude que tomei aqui foi trazer a cena para o presente, suprimindo she was, na
tradução. Isso resultou em um verso impactante, que é a marca de Emily, e simplificou
todas as formas verbais até onde eu queria chegar: o esteja do verso 6, a rimar com Inveja.
Se Emily é uma “poeta de verso”, vale também dizer o mesmo em relação aos seus
últimos versos! Aqui, principalmente, eu não abria mão da simplicidade de “Almost to
Jealousy –”, e queria preservar, além da palavra inveja”, a palavra “quase”, que transmite
o tom freqüentemente reservado de Emily, com todas as suas sutilezas.
147
CESAR. Crítica e tradução, p.388.
148
CESAR. Crítica e tradução, p.390.
Poema 1695
Este é um poema seco e simples, que desenvolve uma idéia que caminha de forma direta do
primeiro ao último verso. Embora tenha também considerado a palavra “solitude”, que
reproduziria a mesma forma do original, preferi solidão por ser uma palavra mais comum,
sem “tom literário”, como diria Ana Cristina Cesar, e menos pesada para se repetir por três
vezes. Além disso, não a deslocaria para o fim do verso 2, como fez Lira, por acreditar que,
nesse caso, mais importante que a rima era manter a mesma ordem direta dos versos
originais (Existe a solidão do céu / A solidão do mar / A solidão da morte), garantindo uma
prosódia simples, uma modéstia de expressão”, para citar Ana Cristina novamente. Em
minhas experimentações, cheguei à conclusão de que este poema ficaria melhor em
português quanto mais eu me aproximasse das palavras originais no som e no sentido,
que isso era possível. Assim, utilizei sociedade, privacidade e infinitude. Da primeira vez,
usei “infinidade”, mas, após ler e reler, abdiquei da rima perfeita o que é curioso, que
tantas vezes a perseguimos sem sucesso! Mas aqui, concluí não ser necessário devido à
sonoridade que o poema em português alcançara naturalmente, para o que contribuíram os
versos curtos. Além disso, infinitude pareceu-me transmitir uma idéia maior de intensidade
em relação a infinidade, que freqüentemente empregamos no sentido de quantidade, como
confirmei depois.
149
Lista de poemas
Em ordem de aparecimento, e crescente, de acordo com a numeração da edição de T. H.
Johnson, The complete poems of Emily Dickinson.
49 I never lost as much but twice
Perdi tudo duas vezes
54 If I should die
Se eu devesse morrer
67 Success is counted sweetest
O Sucesso é tão mais doce
137 Flowers – Well – if anybody
Flores – Bem se pode alguém
164 Mama never forget her birds
Mamãe nunca esquece os passarinhos
149
Cf. dic. eletrônico Houaiss: Infinitude: 1. qualidade do que é infinito; infinidade 2. grande extensão;
amplidão, grandeza 3. caráter do que é muito intenso ou do que parece não ter fim. Infinidade: 1. qualidade do
que é infinito; infinitude 2. grande quantidade, grande número.
169 In Ebon Box, when years have flown
A Caixa de Ébano, tempos depois
211 Come slowly – Eden!
Vem devagar – Éden!
216 Safe in their Alabaster Chambers –
A salvo em seus Quartos de Alabastro –
241 I like a look of Agony
Gosto de um olhar de Agonia
249 Wild Nights – Wild Nights!
Noites Selvagens – Noites Selvagens!
258 There’s a certain Slant of light
Há uma certa Intenção de luz
280 I felt a Funeral, in my Brain
Senti um Funeral em meu Cérebro
288 I Nobody! Who are you?
Eu sou Ninguém! Quem é você?
301 I reason, Earth is short –
Penso, a Terra é curta –
318 I’ll tell you how the Sun rose –
Vou te contar como o Sol nasceu –
320 We play at Paste –
Brincamos na Massa Vítrea –
323 As if I asked a common Alms
Como se eu pedisse uma simples Esmola
334 All the letters I can write
Todas as cartas que eu escreva
441 This is my letter to the World
Esta é minha carta ao Mundo
449 I died for Beauty – but was scarce
Pela Beleza morri – mas mal
485 To make One’s Toillete – after Death
Fazer a Toalete – depois
544 The Martyr Poets – did not tell –
O Poeta Mártir – não falou
636 The way I read a Letter
Meu Modo de ler uma carta – é assim –
695 As if the Sea should part
Como se o Mar se abrisse
749 All but Death, can be adjusted –
Tudo exceto a Morte, pode-se ajustar –
813 This quiet Dust was Gentlemen and Ladies
Este discreto Pó foi Senhores e Damas
850 I sing to use the Waiting
Eu canto para usar da Espera
883 The Poet light but Lamps –
Os Poetas inflamam –
903 I hide myself within my flower
Eu me escondo em minha flor
976 Death is a Dialogue between
A Morte é um Diálogo
1026 The Dying need but little, Dear
Quem more, meu bem, pouco precisa
1052 I never saw a Moor –
Nunca vi um Pântano
1129 Tell all the Truth but tell it slant –
Diga toda a Verdade mas diga devagar –
1132 The smouldering embers blush –
O carvão queimando cora
1203 The Past is such a curious Creature
O Passado é curioso
1212 A word is dead
Uma Palavra é morta
1263 There is no Frigate like a Book
Não há Fragata como o Livro
1272 So proud she was to die
Tão orgulhosa de morrer
1695 There is a solitude of space
Existe a solidão do céu
1732 My Life closed twice before its close –
Minha Vida fechou duas vezes antes do fim
1755 To make a prairie it takes a clover and one bee
Para fazer um prado é preciso
1760 Elysium is as far as to
O Paraíso é tão longe
Fascículo 5
AMORTE
para Angela
Escrever, amar, morrer talvez...
Lucia Castello Branco
A necessidade deste fascículo se apóia na consideração de que não se poderia falar da
obra de Emily Dickinson senão através de sua afirmação, fazendo-a manifestar-se em sua
própria dicção fragmentária – espasmódica –, na gagueira de um texto que ecoa inúmeras
vozes. Ao intentar uma apresentação de alguns de seus poemas que mais nos colocam
frente ao indizível e à radicalidade de sua escrita, o que ensaiei nos outros fascículos se
elevou a uma potência maior, e o fulgor e a humildade dos fragmentos nos salvam nessa
hora.
“Não sendo necessariamente hermético, o fragmento é a forma de linguagem própria de
Hermes-Toth, deus egípcio-grego que preside ao nascimento da escrita, às encruzilhadas e
ao comércio. Em cada fragmento se negoceiam sentidos, se tomam decisões nas
encruzilhadas da linguagem, se buscam caminhos para a significação, brechas para o
salto que permita o acesso a um ponto de vista mais alto’ (Heidegger). Pensar é abrir
caminho, e o salto que conduz o pensamento a partir desse caminho não significa o
abandono do lugar de onde se partiu, mas o acesso a outro ponto de vista ou patamar, que
o fragmento não contém, mas indicia e implica.
[...]
Ao assumir o seu lugar próprio dentro do discurso literário, o fragmento toma consciência
do trabalho vão de querer dizer, e aceita o desafio do nome: nomeia enigmaticamente o
objecto ou a idéia, como o oráculo. Tem uma lógica interna própria, conta com o leitor e
as potencialidades comunicativas do silêncio, parece aproximar-se mais daquele secreto
desejo, que partilha com o ensaio, de se reduzir ao caroço, núcleo duro, pérola, do
rizoma, ponto de fuga. É a manifestação mais clara da escrita como sistema intensivo cuja
intensidade última seria a da redução ao nome (ao indizível absoluto: Deus), ou ao
silêncio.”
Apenas abdicando do trabalho vão de querer dizer, como o fez a própria Emily, e
arriscando-me ao silêncio da escrita, à tarefa da tradução cuja teoria parte, ela mesma,
de uma teoria do nome – foi que pude conceber este trabalho, desde o início.
_____________________
BARRENTO. O que resta sem resto – sobre o fragmento, p.12,15.
Como é feito este fascículo
– e todos os outros
Todo este fascículo é concebido a partir de Fragmentos de um discurso amoroso, de
Roland Barthes. Porque tudo partiu de um princípio: era preciso ler Emily, era preciso
deixá-la falar. Era preciso escrevê-la, dar-lhe voz na escrita. E, para isso, não era preciso
explicar-lhe a vida, nem a rima. Daí, o método dramático.
1. Figuras
Como em Barthes, a fala do amor, da morte, da beleza, da dor em Emily Dickinson. Do que
não se pode cindir. A escrita dessa escrita, não a escrita sobre a escrita. Uma enunciação,
não uma análise. Um retrato.
O mesmo para os outros fascículos reuniões de figuras que compõem esse retrato, que
falam junto com Emily através de sua presença mesma no texto deste trabalho. As figuras,
que Llansol também chamou cenas fulgor: um escritor, uma imagem, uma quimera.
Neste fascículo, especialmente, reúnem-se alguns poemas de Emily Dickinson sob a égide
de uma palavra criada para designar um certo estado, diríamos de arrebatamento, a partir
do qual parece se escrever sua obra, um significante de Lacan criado a partir da personagem
Lol V. Stein, de Marguerite Duras: amorte figura que é uma condensação das figuras
reunidas aqui e que são a expressão desse arrebatamento.
A tentativa de fazer falar uma linguagem primeira, sem metalinguagem a linguagem da
poesia. O poema-ouriço, que “pode enrolar-se em bola, mas fá-lo ainda para voltar os seus
signos agudos para fora. Ele pode, sem dúvida, reflectir a língua ou dizer a poesia mas
nunca se refere a si mesmo”.
A diferença entre a compreensão analítica (partir para fechar o sentido) e a explanação (o
transporte de um todo, a abertura do sentido; ex: um movimento para fora, um
desdobramento.). Aí, neste olhar sem cindir, a tradução.
As próprias traduções que figuram aqui como um ato de amor.
2. Ordem
Aqui, cada figura é apresentada sob um título-argumento, uma holofrase, uma cena fulgor:
“Se eu devesse morrer”, “Pela beleza morri”, “Esta é minha carta ao mundo”, “A dor tem
um elemento em branco”, “Eu não posso viver com você”, “Faz-se o amor quando o amor
nasce” e “Diga toda a verdade”.
Esses títulos extraídos de primeiros versos de poemas de Emily encabeçam figuras de
sua obra que aparecem aqui em sete verbetes organizados, como não podia deixar de ser,
segundo a milenar convenção de nossa ordem alfabética: “Arrebatamento”, “Beleza”,
“Carta”, “Dor”, “Impossibilidade”, “Poesia” e “Verdade”.
O método do dicionário, da ocorrência lexical, da palavra – a base da poesia.
Para além da servidão da frase.
3. Referências
As figuras que compõem este retrato, esta leitura da obra de Emily, remetem a figuras
diversas que, na maioria da vezes, ocorrem nos outros fascículos deste trabalho. Nas
margens, autores / textos dos quais tomo alguns pensamentos, imagens, conceitos, na
construção dos verbetes. Ao final de cada um desses verbetes, as referências, quando no
caso de citações. Para Barthes no seu Fragmentos, uso a letra F, seguida do número de
página, no corpo do texto. No caso dos poemas e cartas de Dickinson (e também cartas de
Higginson), o número correspondente, segundo Johnson, entre parênteses.
___________________________
LLANSOL. Um falcão no punho, p.130.
DERRIDA. Che cos’è la poesia?, p.10.
LLANSOL. O curso natural, p.13.
Assim sendo
é a escrita
que fala e que diz:
Se eu devesse morrer
ARREBATAMENTO. Um esquecimento, uma supressão. Ravishment: também um rapto. “[...]
Lol V. Stein fica de tal modo arrebatada pelo espetáculo do noivo com aquela desconhecida
vestida de preto que esquece de sofrer. Não sofre por ser esquecida, traída. É devido a essa
supressão da dor que ela irá enlouquecer. Isso poderia ser dito de outra maneira,
poderíamos dizer que ela compreende o fato de o noivo aproximar-se de outra mulher, que
adere completamente a essa escolha feita contra ela própria e que é devido a esse fato que
ela perde a razão. É um esquecimento.”
1. “Arrebatamento (ravissement) – esta palavra cria um enigma. É objetivo ou subjetivo, na
medida em que Lol. V. Stein o determina?
Arrebatada. Evoca-se a alma e é a beleza que opera. Deste sentido ao alcance da mão,
desembaraçar-no-emos como podemos, com o símbolo.
Arrebatadora também é a imagem que nos vai impor esta figura de ferida, de exilada das
coisas, que não se ousa tocar, mas que faz de nós a sua presa.
Os dois movimentos atam-se, todavia, numa cifra que se revela deste nome sabiamente
formado no contorno do escrever: Lol V. Stein.
Lol V. Stein: asas de papel, V tesoura, Stein a pedra, perdes-te no jogo da amorte (de la
mourre).
2. Assim como eu-te-amo, amorte é uma holofrase: “não transmite um sentido, mas se
prende a uma situação limite”. (F, p. 98)
“Assim como o amém está no limite da língua, sem ligação com seu sistema, tirando dela
sua ‘capa reativa’, também o proferimento de amor (eu-te-amo) está no limite da sintaxe,
aceita a tautologia (eu-te-amo quer dizer eu-te-amo), afasta a servidão da Frase apenas
uma holofrase). Como proferimento, eu-te-amo não é um signo, mas luta contra os signos.”
(F, p. 102)
3. (a)morte – uma negação da morte – uma morte sem morte – o morrer.
Blanchot reivindica, para a literatura, o direito ao morrer, mostrando que é em direção ao
infinitivo do verbo que o infinito literário pode se instaurar. Para Blanchot, a palavra é “a
vida que carrega a morte e nela se mantém. A imagem do arrebatamento, extraída de
Duras, e retomada por Lacan, inscreve o “arrebatamento” no terreno do amor e da morte,
que ele se constitui justamente como o franqueamento dos limites: arrebatada, Lol V. Stein
(Love) é justamente aquela que se dirige, infinitamente, em direção ao amor, à morte que se
situa no coração desse amor, amorte.
De maneira análoga, podemos ler em Dickinson: “Uma Palavra é morta / Quando dita, /
Alguém diria. // Digo que apenas / Começa a viver / Naquele dia”. (poema 1212)
_________________________
DURAS. A vida material, p.29.
LACAN. Homenagem a Marguerite Duras pelo “Arrebatamento de Lol V. Stein”, p.123.
BLANCHOT. A literatura e o direito à morte.
Pela Beleza morri
BELEZA. Aparece na escrita de Dickinson pela própria escrita, tomadas (a beleza, a escrita)
em sua função de resistência, de véu que recobre o Real, o horror da morte, a verdade. A
beleza é o que faz limite com a verdade, mas de forma tal que chega a ser a própria verdade
esse belo que cobre a verdade é sem impostura; não a encobre, não a escamoteia ou: a
verdade, no seu horror, é, no fim das contas, o belo. A Beleza, a Verdade e a Morte
formam, então, uma tríade.
1. A resistência do escrito: “a função existencial da literatura” como “reação ao peso do
viver”.
“Como a maioria das pessoas vive sem nenhum pensamento? Existem muitas pessoas no
mundo (deve ter notado nas ruas) Como elas vivem? Como têm forças para se vestir de
manhã?” (carta 342a)
Emily resiste, e escreve. Um de seus atos de resistência é quando se recusa a enviar um
retrato a Higginson. Qual a verdadeira imagem de Emily? Aquela do daguerreótipo
cultuado como prova da existência do “mito de Amherst”? Ou aquela, do retrato escrito ao
preceptor, em que figura com o “cabelo do Ouriço” e como “o único Canguru em meio à
Beleza”? (carta 268) Como o ouriço, Emily não se deixa penetrar. O mesmo mais tarde,
quando, frente a Higginson, Emily interpõe entre os dois um ramo de flores dizendo: “São
minha apresentação.” E ele não a toca. E aquela é Emily Dickinson, a quem Higginson
tanto precisava tomar as mãos, para saber que era real. (carta 330a)
2. “A Beleza não é provocada Ela é / Se perseguida, ela cessa / Se não, ela é fiel –”
(E. D., poema 516)
A escrita sem impostura. A escrita do não-escrever.
“Não escrever – que longo caminho até aí chegar, e isso não é nunca certo, não se trata nem
de recompensa nem de castigo, é preciso somente escrever na incerteza e na necessidade.”
3. “A verdadeira barreira que paralisa o sujeito diante do campo inominável do desejo
radical, à medida que ele é o campo da destruição absoluta, da destruição além da
putrefação, é, propriamente falando, o fenômeno estético, à medida que ele é identificável à
experiência do belo o belo em seu brilho esplendoroso, esse belo do qual se disse que é o
esplendor do verdadeiro. É evidentemente porque o verdadeiro não é exatamente agradável
de se ver que o belo é, senão o esplendor, no mínimo a cobertura.”
Se a beleza cobre a verdade sem encobrir, ela é o ponto de contato mesmo da escrita com o
real, do sujeito com a morte a beleza como último anteparo ante o horror do Real.
“Beleza, habita-me à morte / Beleza, tem clemência / Mas caso eu morra hoje / Que seja em
tua presença –” (poema 1654)
_________________________________
CALVINO. Seis propostas para o próximo milênio, p.39.
BLANCHOT. L’écriture du désastre, p.23.
LACAN (Lé séminaire, Livre VII) citado por BRANCO. A branca dor da escrita, p.37.
Esta é minha carta ao Mundo
CARTA. Como em Barthes, a figura da carta em Dickinson contém a dialética da carta de
amor “é a ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (cheia de vontade de
significar o desejo” (F, p. 32) mas, mais ainda, ao assumir o estatuto de própria condição
de escrita na obra da escritora – posicionamento que, ao contrário da carta de amor,
dispensa o destinatário –, engendra um movimento para além da dialética.
1. “Todas as cartas que eu escreva” (poema 334) – a carta é concebida metonimicamente
a carta é o próprio sujeito apaixonado que se oferece sensual e sensoriamente ao leitor
(Sílabas de Veludo – / Sentenças de Pelúcia, [...] Guardadas, Lábio, para Ti –).
O poema não fala da carta e muito menos de uma carta que fala de amor. A escrita é o
próprio amor que fala. E fala justamente na medida em que essa escrita não comunica nada:
“nada tenho para lhe dizer, a não ser que esse nada, é para você que digo.” (F, p. 32)
“A verdadeira carta é, por natureza, poética.”
2. “Meu modo de ler uma carta” (poema 636)o biografema da carta em Emily Dickinson,
para quem receber uma carta era um evento que lhe arrebatava a alma (the transport) e ao
qual ela dedicava tempo e energia da mesma forma que ao escrever (Primeiro fecho a
Porta – / E empurro com os dedos – a seguir – / Para assegurar o transporte –).
Ao mesmo tempo, como na correspondência de amor, o que fala é o desejo permanecido
desejo: deseja-se ser alguém para alguém; deseja-se algo, e que esse algo não seja atingido.
“É meu desejo que desejo, e o ser amado nada mais é que seu agente.” (F, p. 23)
“Descubro que sou infinita / Para ninguém que Você conheça / E suspiro pelo Céu
mas não – / Que Deus não o ofereça –” (636)
3. “Esta é minha carta ao Mundo” (poema 441) a dimensão última de carta que assume a
escrita de Emily Dickinson em toda a sua obra. Carta para nada, essa obra não se escreve
em função de uma resposta.
“Saber que não se escreve para o outro, saber que as coisas que vou escrever não me farão
nunca amado por aquele que amo, saber que a escritura não compensa nada, não sublima
nada, que ela está precisamente onde você não está – é o começo da escritura.” (F, p. 93)
____________________________
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.138.
NOVALIS. Fragmentos são sementes, p.34.
A Dor tem um elemento em Branco
DOR. Lapidada na escrita de Dickinson em direção ao sublime, a dor se configura seja
aliada à idéia de sofrimento, seja aliada à idéia de êxtase em um elemento em branco”
(poema 650). Ela se coloca no lugar da exterioridade, enquanto o sujeito se abandona à
passividade. Mesmo o desespero é branco (poema 640).
1. Do(e)r – um infinitivo
“Não tem futuro – além de si mesma / Seu infinito é maior / Que o passado” (650).
A dor / o doer é sempre agora.
“A Dor – expande o Tempo [...] A Dor contrai o Tempo” (poema 967)
A ausência de tempo: o tempo da escrita, o tempo da dor.
“Escrever é entregar-se ao fascínio da ausência de tempo. [...] O tempo da ausência de
tempo é sempre presente, sem presença. [...] Mas o que é sem presente tampouco aceita o
presente de uma lembrança. A chamada lembrança de um acontecimento: isso foi uma vez
e agora nunca mais. Do que é sem presente, de que nem mesmo se apresenta sem ter sido, o
caráter irremediável, diz: isso jamais aconteceu, jamais houve uma primeira vez; e, não
obstante, isso recomeça, de novo, e de novo, ad infinitum. É sem fim, sem começo. É sem
futuro.
“Já não pode se lembrar / Quando começou – ou se havia / Um tempo em que não havia –”
(650)
“O frio Coração pergunta se era ele que sofria / Ontem, ou séculos passados?” (poema 341)
2. A dor – o êxtase
“Velho como a Dor – / O quanto é isso? / Uns dez mil anos de idade – / Velho como o
Êxtase / O quanto é isso? / Eles são da mesma idade” (poema 1168)
3. Nos poemas de Emily, não o sujeito que chora sua dor, mas é a dor que fala, ela
mesma, no texto – o texto dói. A branca dor da escrita.
“O escritor é alguém que tem dificuldade com as palavras (poderíamos dizer mais
tragicamente: ele tem a doença das palavras. Ou, mais psicologicamente: suas palavras
doem.) A linguagem não é seu lar. Ele busca suas palavras, nos dois sentidos da expressão:
gagueira incoercível e busca de estilo. Duas doenças levam a escrever. Alguns querem
arrancar o que dizer do silêncio, da brancura, apesar de tudo. Outros se debatem no negro
escrito, o rumorejar do já-dito. A agrafia atada de uns responde a grafomania asfixiada dos
outros: tal é a armadilha que espera o escritor: ele se lança sobre a palavra para enganar o
vazio que nele habita (faltam-me as palavras) e eis que, pouco a pouco, aparece um novo
vazio, não mais sob, mas nas próprias palavras. Elas flutuam, desertadas, ociosas.
Secretamente, o humor negro de escrever tende a atingir o branco, o mais alto, o mais
difícil”.
4. Aprende a pensar com dor.
“Dor. Ela desune, mas não de uma maneira visível (por um deslocamento ou uma
disposição que seria espetacular); de uma maneira silenciosa, fazendo calar o barulho
através das palavras. A dor perpétua, perdida, esquecida. Ela não torna o pensamento
doloroso. Ela não se deixa socorrer.”
Depois da dor, a branca dor a dor depurada. Depois de grande dor, vem um sentimento
formal –” (341)
“Esta é a Hora de Chumbo – Rememorada, se conseguida” (341)
“É a hora em que contamos nossas fadigas, em que olhamos com pavor as frieiras em nossa
pele. Não temos nada, nada além de uma vontade indomável de subir mais alto, de acabar,
de morrer... Pouco importa! Morramos na neve, na branca dor de nosso desejo.”
“Primeiro – Frio – depois Letargia – depois deixar-se ir – ” (341)
___________________________
BLANCHOT. O espaço literário, p.20-21.
BRANCO. A branca dor da escrita.
SCHNEIDER. Ladrões de palavras, p.451.
BLANCHOT. L’écriture du désastre, p.220.
FLAUBERT citado por SCHNEIDER. Ladrões de palavras, p.454.
Eu não posso viver com Você
IMPOSSIBILIDADE. É o outro nome do amor na obra de Emily Dickinson. A impossibilidade
aparece no amor em sua dimensão de desencontro e desejo, no biografema da falta. Se a
história da escritora aponta a inexistência de uma relação amorosa, é justamente em sua
escrita que o amor se fará.
1. “Não há relação sexual” – é o princípio de Lacan que, podemos dizer, resume o amor em
Emily Dickinson. Enquanto muitos discutem que experiência amorosa teria tido a mulher,
pensemos que a escritora, em sua “solidão essencial” que é a solidão da obra –, submete
sua vida à “exigência” dessa obra, pois “Eu não posso viver com Você / Isso seria Vida”
(poema 640).
“Diante da impossibilidade da complementaridade entre os sexos, diante da inexistência de
proporção e de simetria entre os seres falantes, alguns sujeitos amam, outros escrevem.
Alguns, arrebatados que vivem sob a exigência da obra, fazem desse arrebatamento o seu
manto de letras, o seu manto de amor.”
Pois: “A palavra amor existe.”
Mas: “o que é escabroso no amor é que não tem anel.”
2. “Amar o amor” acima de tudo, ama-se o amor. “Que o Amor é tudo o que existe / É
tudo o que sabemos do Amor(poema 1765) O amor está acima dos amantes, como no
poema 453: “Amor tu, arte alta [...] Amor tu, arte profunda [...] Amor tu, arte
Velada”.
No texto, o amor se faz com o amor, e é o desejo que se escreve – o arrebatamento:
“Diz – Mar – Leva-me já!” (poema 162)
“Vem devagar – Éden! / Lábios castos para Ti / Tímidos – sorvem Jasmins” (poema 211)
“Mas Lua, e Estrela, / Embora tão longe / Existe alguém ainda além / Ele mais que o
firmamento – de Mim / Se distancia!” (poema 240)
“Remando pelo Éden – / Ah, o Mar! / Pudesse eu – esta Noite – / Em Ti atracar!” (poema
249)
3. O sem-tempo do amor. Como a dor, o amor se constitui como infinitivo que independe
do sujeito para que se faça na escrita. Como a escrita, o amor independe do destinatário
para que habite o sujeito.
“O Amor é ancestral da Vida / Da Morte a posteridade / Início da Criação / Expoente da
Humanidade” (poema 917)
“De que eu sempre amei / Trago-te a Confirmação / Até que eu amasse / Não tive vida
então” (poema 549)
4. “O amor é forte como a morte.”
Ata-me / Mata-me (poema 1005) – e o amor vive ainda.
“O amor pode tudo, mas não ergue os Mortos” (poema 1731)
“O Teste do Amor – é a Morte” (poema 573)
Emily sabe que o amor, assim como a escrita, é um empreendimento necessariamente um
pouco mais longo que a sua vida.”
“O Amor é como a Vida apenas mais longo / O Amor é como a Morte, durante a Cova
(poema 491).
__________________________
LACAN (O seminário. Livro 20) citado por BRANCO. A branca dor da escrita, p.22.
BRANCO. A branca dor da escrita, p.60.
DURAS. É tudo, p.27.
LLANSOL, Maria Gabriela. lder, de lderlin.
BLANCHOT. O livro por vir, p. 103.
Faz-se o Amor quando o Amor nasce
POESIA. Emily Dickinson, em sua obra, por diversas vezes se valeu de fortes imagens numa
tentativa de aproximação do conceito de poesia sempre ligada ao amor e à verdade, e
mesmo a uma perturbação mental a que o sujeito é submetido quando exposto a esse estado
– o do amor atravessado pela morte.
1. O nascimento da poesia – o nascimento do amor.
“Poros, o autor cuja tradução tenho à minha frente, simplesmente por estar diante do texto,
o traduz, não sem pertinência, por Expediente. Se isso significa Recurso, certamente é uma
tradução válida. Astúcia também, já que Poros é filho de Metis, que é mais a invenção que a
sabedoria. Diante dele, temos a personagem feminina que vai ser a mãe do amor, Penia, a
saber, Pobreza, ou mesmo Miséria. Ela é caracterizada no texto como aporia, a saber, sem
recursos. É isso o que ela sabe sobre si mesma: recursos, não os tem. O termo aporia, vocês
o reconhecem, é aquele que nos serve como referência ao processo filosófico. É um
impasse, aquilo frente a que entregamos os pontos, ficamos sem recursos. Eis, portanto, a
Aporia fêmea diante do Poros, o Expediente, o que parece bastante esclarecedor.
O que é muito bonito nesse mito é a maneira pela qual a Aporia engendra Amor com Poros.
No momento em que isso se deu, era Aporia quem velava, quem tinha os olhos bem
abertos. Contam-nos que ela viera para os festejos do nascimento de Afrodite, e como
qualquer Aporia que se preze, nessa época hierárquica, permaneceu nos degraus, próximo
da porta. Por ser Aporia, isto é, por nada ter a oferecer, não entrou na sala do festim. Mas a
felicidade das festas é que justamente acontecem coisas ali que invertem a ordem comum.
Poros adormece. Adormece porque estava embriagado, e é isso o que permite a Aporia
fazer-se emprenhar por ele, e ter esse filhote que se chama o Amor, cuja data da concepção
vai coincidir, portanto, com a data do nascimento de Afrodite. É por isso mesmo, nos
explicam, que o amor terá sempre alguma relação obscura com o belo, aquilo que se vai
tratar, com efeito, no desenvolvimento de Diotima. Isso está ligado ao fato de que Afrodite
é uma deusa bela.”
“Faz-se o Amor quando o Amor nasce / o Sábio diria / Mas o que sabe um Sábio? / A
Verdade adia a Dádiva / Sem Dia. (poema 1485)
Longe da sapiência”, essa Verdade a verdade da poesia e do amor está na fronteira da
insanidade. Assim como os loucos escrevem completamente, “poucos amam
completamente” (poema 1680).
2. A loucura – a mente estar com o poema, e o corpo ausente.
“Se eu leio um livro e ele torna meu corpo tão frio que nenhum fogo é capaz de aquecê-lo,
sei que aquilo é poesia. Se sinto fisicamente como se o topo da minha cabeça estivesse a ser
arrancado, sei que aquilo é poesia. São as únicas maneiras de saber. Existe alguma outra?”
(carta 342a)
“[...] e os seus poemas tinham revestido a superfície externa do seu crânio.”
“Acumular o estrondo como o Trovão / E implodir ao fim do dia / Quando Tudo o que
existe se oculta / Isso poderia ser Poesia // Ou Amor são contemporâneos / Provamos
nenhum ou os dois / Experimente qualquer e consuma-se / Pois nada Deus e vive
depois” (poema 1247).
Na fronteira da insanidade, como Hölderlin, está também o homem apto a traduzir. Pois
que “traduzir é, no fim das contas, loucura.
3. O nascimento do amor – o nascimento da tradução
“O poeta será então esse homem capaz de ‘ser o filho de suas obras’; esse ser susceptível de
completar o trabalho da versão, no sentido que esse último termo designa, entre outras
coisas, a mudança de posição imposta ao feto, para se facilitar o parto.”
Traduzir é um ato de amor: “a tradução, ao invés de se fazer semelhante ao sentido do
original, deve, em um movimento amoroso que chega ao nível do detalhe, fazer passar em
sua própria língua o modo de significar do original. Do mesmo modo que os cacos tornam-
se reconhecíveis como fragmentos de uma mesma ânfora, assim também original e
tradução tornam-se reconhecíveis como fragmentos de uma linguagem maior. Mesmo por
isso a tradução deve, em alta medida, renunciar ao intento de comunicar algo.”
É a partir dessa renúncia, dessa consciência mesma da falta de recursos frente ao texto, que
se pode traduzir. Porque, dirá Lacan, “O amor é dar o que não se tem.”
O renascimento da poesia na tradução: uma leitura, uma ressurreição – a pervivência.
Sim digo-te, pousando as mãos nos teus joelhos: Desejo encontrar alguém que me
ame com bondade, e saiba ler.
– Alguém que queira ressuscitar para ti?
–Sim, alguém que tenha para comigo essa memória.
alguém que deixe espaços entre as palavras para evitar que a última se agarre à próxima
que vou escrever
alguém que admita que a cartografia dos animais e da pontuação não está ainda
estabelecida
alguém que eu possa ler diferentemente depois de me ler
alguém que dirá aos animais e às plantas que nem sempre serão servos
alguém que nos amarmos se reconheça de matéria estelar
ou seja, Témia,
ou seja,
“Fazer o amor, como o nome o indica, é poesia.”
______________________
LACAN (O Seminário. Livro 8) citado por BRANCO. Os absolutamente sós, p.112-113.
DURAS, GAUTIER. Les parleuses, p.49.
LLANSOL. Hölder, de Hölderlin.
BLANCHOT. Traduire.
REY. O nascimento da poesia, p.85-6.
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p. xvii-xviii.
LLANSOL. O jogo da liberdade da alma, p.80.
LACAN (O Seminário. Livro 20) citado por BRANCO. Os absolutamente sós, p.93.
Diga toda a Verdade
VERDADE. Figura vinculada à Beleza “é o mesmo somos confrades”. (poema 449) A
escrita de Emily quer toda a verdade. A Verdade, como a Honra, é perseguida na obra de
Emily Dickinson num movimento inverso à própria escrita, ou na busca de uma escrita que
se abisma em direção à vida e à morte, que, talvez, seja onde melhor possamos vê-la,
que a Verdade é também o Real em seu horror.
1. Ainda que em pequenas doses, ainda que os homens não estejam preparados para ela, a
verdade deverá ser dita pois que, em Circuito, ela sempre retorna. “Diga toda a Verdade,
mas diga devagar / No circuito o sucesso repousa / Clara demais para nosso Deleite
enfermo / A Verdade é suprema surpresa” (poema 1129). Não se pode fugir a ela; no
entanto, ela sempre espanta, horroriza, ao mesmo tempo que atrai.
2. “Gosto de um olhar de Agonia, / Porque sei que é verdadeiro –” (poema 241).
Ali repousa a verdade. A verdade, “nua e crua” (como no poema 281), é (re)vestida /
(re)velada pela beleza que lhe cabe – último anteparo ente o horror do Real:
“Os Olhos vítreos, uma vez – e é a Morte – / Não há impostura / As Contas sobre a Fronte /
Enfeitadas pela Angústia” (241).
É ali, onde não há impostura, que repousa a beleza. Diríamos, ainda, a arte, a escritura.
3. Se para Emily a verdade não se separa da beleza, não se separa também da escrita. E é
por isso que Emily se lança a uma escrita fora da “impostura da língua”, não fazendo
concessões, não se deixando tolher pela crítica de sua época e renunciando ao
reconhecimento público. Pois, se
“O trabalho foi um fracasso, ela não se incomoda: ele está plenamente realizado, pensa ela,
pois o fracasso é sua essência, seu desaparecimento faz com que ele se realize, e ela se
alegra, o insucesso a satisfaz. Mas, se o livro nem chega a nascer, permanece um puro
nada? Pois bem, ainda é melhor: o silêncio, o nada, isso é a essência da literatura, “a
própria Coisa”. É verdade, o escritor mais importância ao sentido que sua obra tem
somente para ele. Portanto, não importa que seja boa ou ruim, célebre ou esquecida. Se as
circunstâncias a negligenciam, ele se felicita, pois a escreveu para negar as
circunstâncias.”
“Uma Farsa – um Encouraçado / Eu não seria –” (poema 1453)
“é a arte que está acima da obra, o ideal que esta busca representar [...] A meta não é o que
o escritor faz, mas a verdade do que faz. Nisso, ele merece ser chamado consciência
honesta, desinteressada: o homem honesto. Mas atenção: na literatura, assim que a
probidade entra em jogo, a impostura está ali. A má-fé é aqui verdade, e, quanto maior é
a pretensão à moral e à seriedade, mais certo ganham a mistificação e o engodo.”
Como na Beleza – na arte –, é na Verdade que Emily encontra o prazer. Se renuncia à fama
da obra, não renuncia ao prazer do texto, ao “texto de gozo” aquele que está justamente
liberado do entendimento, do aprisionamento da compreensão, compromissado apenas com
a sua verdade, como a escrita de Emily logo se posicionou.
“Veja bem: a língua é uma impostura, tudo aquilo que estamos aqui a falar é uma
impostura. Mas é possível, em algum momento, atingir a linguagem, a língua sem
impostura. É isso que o meu texto quer.”
É o que poderia dizer Emily Dickinson:
“A verdade é uma coisa tão rara que é delicioso dizê-la.” (carta 342a)
_________________________
BLANCHOT. A literatura e o direito à morte, p.298.
BARTHES. O prazer do texto.
LLANSOL citada por BRANCO. Encontro com escritoras portuguesas.
REFERÊNCIAS
BARRENTO. O que resta sem resto sobre o fragmento. In: NOVALIS. Fragmentos são
sementes. Lisboa: Roma Editora, 2006. p.9-19.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1985.
BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, s/d.
BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. ed. (rev.). Rio de Janeiro, Instituto de
Letras/UERJ, s.d., p.v-xii (Cadernos do Mestrado) (trad. Karlheinz Bark e equipe).
BLANCHOT, Maurice. L’écriture du désastre. Paris, Gallimard, 1980.
BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
BLANCHOT. A literatura e o direito à morte. In BLANCHOT, Maurice. A parte do fogo. Rio
de Janeiro: Rocco, 1997. p.289-330.
BLANCHOT, Maurice. Traduire. In: BLANCHOT, Maurice. L’amitié. Paris: Gallimard, 1971.
p. 69-73. Tradução inédita de Cynthia de Cássia Santos Barra.
BRANCO, Lucia Castello. Encontro com escritoras portuguesas. Boletim do CESP. Belo
Horizonte: UFMG, v. 14, n. 16, p. 103-114, jul./dez. 1993.
BRANCO, Lucia Castello. Os absolutamente sós: Llansol – a letra – Lacan. Belo Horizonte:
Faculdade de Letras; Autêntica, 2000.
BRANCO, Lucia Castello. A branca dor da escrita: três tempos com Emily Dickinson. Rio
de Janeiro: 7Letras; Belo Horizonte: UFMG, Pos-Lit, 2003.
CALVINO, Ítalo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras,
1993.
DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia? Coimbra: Angelus Novus, 2003.
DURAS, Marguerite; GAUTIER, Xavière. Les parleuses. Paris: Minuit, 1974.
DURAS, Marguerite. A vida material. Trad. Heloísa Jahan. Rio de Janeiro: Globo, 1989.
DURAS, Marguerite. É tudo. Trad. Hygina Bruzzi. Cadernos Viva Voz. Belo Horizonte:
Fale/UFMG, 2006.
LACAN, Jacques. Homenagem a Marguerite Duras pelo “Arrebatamento de Lol V. Stein”.
In: LACAN, Jacques. Shakespeare, Duras, Wedekind, Joyce. Trad. e org. José Martinho.
Lisboa: Assírio & Alvim, 1989.
LLANSOL, Maria Gabriela. Hölder, de Hölderlin. Colares: Colares Editora, s/d.
LLANSOL, Maria Gabriela. Um falcão no punho. 2ª ed. Lisboa: Relógio d’Água, 1988.
LLANSOL, Maria Gabriela. O curso natural. Prefácio a ÉLUARD, Paul. Últimos poemas de
amor. Lisboa: Relógio d’Água, 2002. p.13-22.
LLANSOL, Maria Gabriela. O jogo da liberdade da alma. Lisboa: Relógio d’Água, 2003.
LOPES, Silvina Rodrigues. Literatura, defesa do atrito. Lisboa: Vendaval, 2003.
NOVALIS. Fragmentos são sementes. Lisboa: Roma Editora, 2006.
REY, Jean-Michel. O nascimento da poesia: Antonin Artaud. Trad. Ruth Silviano Brandão.
Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
POEMAS
50
I haven’t told my garden yet
Lest that should conquer me
I haven’t quite the strength now
To break it to the Bee
I will not name it in the street
For shops would stare at me
That one so shy – so ignorant
Should have the face to die.
The hillsides must not know it
Where I have rambled so
Nor tell the loving forests
The day that I shall go
Nor lisp it at the table
Nor heedless by the way
Hint that within the Riddle
One will walk today –
50
Ainda não contei ao meu jardim
Com medo que ele me vença
Não tenho forças ainda
Para revelar às Abelhas
Não direi nada nas ruas
Elas não iam entender
Como alguém tão tênue – tão débil
Teria a face a morrer.
As montanhas não podem saber –
Lá onde eu vago sem hora –
Nem contar para a floresta
O dia em que irei embora –
Nem deixar escapar à mesa
Ou descuidada, sugerir
Que alguém Enigma adentro
Muito em breve vai seguir –
54
If I should die,
And you should live –
And time should gurgle on
And morn should beam
And noon should burn
And it has usual done –
If Birds should build as early
And Bees as bustling go
One might depart at option
From enterprise below!
’Tis sweet to know that stocks will stand
When we with Daisies lie –
That commerce will continue –
And Trades as briskly fly
It makes the parting tranquil
And keeps the soul serene
That gentlemen so sprightly
Conduct the pleasing scene!
54
Se eu devesse morrer,
E você ficar
O tempo correr –
E a man brilhar –
Se o sol queimar –
E isso tem acontecido
Os Pássaros a madrugar
E as Abelhas em alarido
Pode-se então deixar
Toda essa lida!
É doce saber que o estoque perdura
Se dormimos com as Margaridas
Que o corcio continua –
E os Negócios vão tranqüilos –
Torna a partida suave
E deixa a alma serena
Que senhores tão vivazes
Conduzam a amável cena!
56
If I should cease to bring a Rose
Upon a festal day,
’Twill be because beyond the Rose
I have been called away
If I should cease to take the names
My buds commemorate
’Twill be because Death’s finger
Claps my murmuring lip!
56
Se eu deixar de trazer uma Rosa
Em um dia festivo,
Será porque além da Rosa
Recebi um chamado furtivo
Se eu deixar de chamar os nomes
A celebrar minhas bodas
Será porque o dedo da Morte
Calou-me o céu da boca!
71
A throe upon the features
A hurry in the breath –
An ecstasy of parting
DenominatedDeath”
An anguish at the mention
Which when to patience grown,
I’ve known permission given
To rejoin its own.
71
Um espasmo nas feições
Na respiração um corte
Um êxtase de partir
Denominado “Morte” –
Uma angústia à menção
Que tornada paciência
Conheço a dada permissão
Para retornar aos seus.
98
One dignity delays for all –
One mitred Afternoon –
None can avoid this purple –
None evade this Crown!
Coach, it insures, and footman –
Chamber, and state, and throng –
Bells, also, in the village
As we ride grand along!
What dignified Attendants
What service when we pause!
How loyally at parting
Their hundred hats they raise!
How pomp surpassing ermine
When simple You, and I,
Present our meek escutcheon
And claim the rank to die!
98
Uma honra que às vezes demora
Uma Tarde de Mitra
Ninguém evita esse estrelato
Dessa Coroa não se livra!
Carruagem, é certo, e lacaios
Um Quarto, pompa e circunstância
Também sinos, na aldeia
Enquanto a corte avança!
Que respeitáveis Criados
Que serviço, ao parar!
Quão leais na partida
Quantos chapéus a saudar!
Que fausto, quanto luxo
E simplesmente, Eu e Você
Trazemos nosso humilde brasão
Almejando o grau de morrer!
162
My River runs to thee –
Blue Sea! Wilt welcome me?
My River waits reply
Oh Sea – look graciously –
I’ll fetch thee Brooks
From spotted nooks
Say SeaTake Me!
162
Meu Rio corre para ti –
Mar Azul! Acolherias a mim?
Meu Rio espera resposta –
Oh Mar – sê indulgente –
Eu te trarei Regatos
De escondidas nascentes –
DizMar – Leva-me já!
211
Come slowlyEden!
Lips unused to Thee –
Bashful – sip thy Jessamines
As the fainting Bee
Reaching late his flower,
Round her chamber hums
Counts his nectars
Enters – and is lost in Balms.
211
Vem devagar – Éden!
Lábios castos para Ti –
Tímidos – sorvem Jasmins
Como a Abelha em torpor –
Demorando a achar sua flor,
Ronda a alcova a zumbir –
Adivinha o néctar – entra –
Para em Bálsamo imergir.
221
It can’t be “Summer”!
That – got through!
It’s early – yet for “Spring”!
There’s that long town of White – to cross
Before the Blackbirds sing!
It cane beDying”!
It’s too Rouge
The Dead shall go in White
So Sunset shuts my question down
With Cuffs of Chrysolite!
221
Não pode ser “Verão”!
Esse – já passou!
É cedo ainda – para a “Primavera”!
Temos essa longa cidade de Branco – a cruzar
Antes que cantem os Pássaros Negros!
Não pode ser “Morrer”!
É muito Vermelho
Os Mortos devem vir em Branco
Então or-do-Sol cala minha pergunta
Com Punhos de Ouro Velho!
240
Ah, Moon – and Star!
You are very far –
But were no one
Farther than you –
Do you think I’d stop
For a Firmament –
Or a Cubit – or so?
I could borrow a Bonnet
Of the Lark –
And a Chamois’ Silver Boot
And a stirrup of an Antelope –
And be with you Tonight!
But, Moon, and Star,
Though you’re very far –
There is one – farther than you –
He – is more than a firmament – from Me –
So I can never go!
240
Ah, Lua – e Estrela!
Tão longe estais –
Mas não houvesse alguém
Mais longe de mim
Achais que eu chegaria
A um Firmamento –
Ou Cúbito – coisa assim?
Poderia pedir um Chapéu
À Cotovia –
E uma Bota de Prata ao Antílope –
E também o seu estribo
E convosco estarao fim do Dia!
Mas, Lua, e Estrela,
Embora tão longe –
Existe alguém – ainda além
Ele – mais que o firmamento de Mim
Se distancia!
241
I like a look of Agony,
Because I know it’s true
Men do not sham Convulsion,
Nor simulate, a Throe –
The Eyes glaze once – and that is Death
Impossible to feign
The Beads upon the Forehead
By homely Anguish strung.
241
Gosto de um olhar de Agonia,
Porque sei que é verdadeiro –
Os homens não fingem o Espasmo,
Nem simulam o Desespero
Os Olhos vítreos, uma vez – e é a Morte
Não há impostura
As Contas sobre a Fronte
Enfeitada pela Angústia.
249
Wild Nights – Wild Nights!
Were I with thee
Wild Nights should be
Our luxury!
Futile – the Winds
To a Heart in port –
Done with the Compass
Done with the Chart!
Rowing in Eden –
Ah, the Sea!
Might I but moor – Tonight –
In Thee!
249
Noites Selvagens Noites Selvagens!
Estivesse eu contigo
Noites Selvagens seriam
Nosso devasso abrigo!
Fúteis – os Ventos
Ao Coração ancorado –
Inúteis – os Mapas –
Pra quê – o Compasso?
Remando pelo Éden
Ah, o Mar!
Pudesse eu esta Noite –
Em Ti atracar!
258
There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons –
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes
Heavenly Hurt, it gives us –
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are –
None may teach it – Any
’Tis the Seal Despair –
An imperial affliction
Sent us of the Air
When it comes, the Landscape listens
Shadows – hold their breath –
When it goes, ’tis like the Distance
On the look of Death
258
Há uma certa Intenção de luz,
Tardes Invernais
Que oprime, como o Peso
Dos Tons das Catedrais –
A Ferida Celeste, ela nos abre –
Marcas não ficam,
Apenas a diferença, dentro
Onde os Sentidos habitam –
Ninguém pode explicarNada –
É o Desespero Selado
Aflição imperativa
Do Alto enviada –
Quando vem, a paisagem se atenta –
Na respiração – um corte –
Quando vai, é como a Distância
Nos olhos da Morte –
280
I felt a Funeral, in my Brain,
And Mourners to and fro
Kept treading treading – till it seemed
That Sense was breaking through
And when they all were seated,
A Service, like a Drum –
Kept beating – beating – till I thought
My Mind was going numb –
And then I heard them lift a Box
And creak across my Soul
With those same Boots of Lead, again,
Then Space – began to toll,
And all the Heavens were a Bell,
And Being, but an Ear,
And I, and Silence, some strange Race
Wrecked, solitary, here –
And then a Plank in Reason, broke,
And I dropped down, and down –
And hit a World, at every plunge,
And Finished knowing – then –
280
Senti um Funeral em meu Cérebro,
E Carpideiras indo e vindo
Indo e vindo – em procissão – até que
O sentido foi explodindo –
E quando todos estavam sentados
As Exéquias, como um Tambor –
Continuaram batendo batendo até que
A Mente entrasse num torpor –
Então ouvi levantarem uma Caixa
E ranger em minha Alma
Com as mesmas Botas de Chumbo, ainda
E o Espaço – badalava
E todos os Céus eram Sinos
E o Ser, um simples Ouvido
E eu, e o Silêncio, uma estranha Raça
Naufragamos, solitários, sem sentido –
E então um Pilar da Razão se quebrou
E eu caí, caí, caí
E alcancei um Mundo, em cada mergulho,
E parei de conhecer –
281
’Tis so appalling – it exhilarates
So over Horror, it half captivates –
The Soul stares after it, secure –
A Sepulchre, fears frost, no more –
To scan a Ghost, is faint
But grappling, conquers it –
How easy, Torment, now –
Suspense kept sawing so –
The Truth, is Bold, and Cold –
But that will hold –
If any are not sure
We show them – prayer –
But we, who know,
Stop hoping, now –
Looking at Death, is Dying
Just let go the Breath
And not the pillow at your Cheek –
So Slumbereth
Others, Can wrestle –
Yours, is done –
And so of Woe, bleak dreaded come,
It sets the Fright at liberty –
And Terror’s free
Gay, Ghastly, Holiday!
281
Tão temível – que alegra –
Acima do Horror – quase atrai –
A Alma o encara, segura
Sepulcro, teme o frio, não mais –
Encarar um Espírito – tremor –
Mas na luta, o vence –
Quãocil, agora, o Terror
Serrado pelo Suspense –
A Verdade, é Nua e Crua
Mas vai segurar –
Se ninguém es certo –
Mostramos como rezar –
Mas nós, que sabemos,
Deixamos de esperar
Olhar a Morte, é Morrer
Vai-se o último Suspiro
Não é uma Cama macia –
Não é um Cochilo –
Outros, podem lutar –
A sua, esfeita –
E então de Dor, desertado – vem,
Coloca o Medo em liberdade –
E liberta-se o Terror –
Dia Santo, Assustador!
341
After great pain, a formal feeling comes
The Nerves sit ceremonious, like Tombs
The stiff Heart questions was it He, that bore,
And Yesterday, or Centuries before?
The Feet, mechanical, go round
Of Ground, or Air, or Ought
A Wooden way
Regardless grown,
A Quartz contentment, like a stone –
This is the Hour of Lead
Remembered, if outlived,
As freezing persons, recollect the Snow –
First – Chill – then Stupor – then the letting go –
341
Depois de grande dor, vem um sentimento formal
Os Nervos sentam-se cerimoniosos, como Tumbas
O frio coração pergunta se era ele que sofria,
Ontem, ou séculos passados?
Os Pés, mecânicos, andam em círculo –
No Chão, no Ar, no Nada –
Caminho de árvores
Chão abandonado
Contentamento de Quartzo, como pedra –
Esta é a Hora de Chumbo –
Rememorada, se conseguida,
Pessoas geladas, lembrando a Neve
PrimeiroFrio – depois Letargia – depois deixar-se ir
418
Not in this World to see his face –
Sounds long – until I read the place
When this – it said to be
But just the Primer – to a life
Unopened – rareUpon the Shelf –
Clasped yet – to Himand me –
And yet – My Brain suits me so
I would not choose – a Book to know
Than that – be sweeter wise
Might some one else – so learned – be –
And leave me – just my A – B – C –
Himself – could have the Skies
418
Não neste mundo ver seu rosto
Parece muitoaté que eu leia o posto
Onde isto – é dito acontecer
Mas justo a Cartilha – para uma vida –
Não aberta – rara – na Estante esquecida
Ainda afivelada – para mim – e Você –
E ainda – Minha Cartilha serve tanto
Não escolheria – outro Livro a contento
Que não este – faça bom juízo –
Pudesse qualquer outro – tão sábio – ser
E me deixar – apenas meu A – B – C –
Ele mesmo teria o Paraíso –
429
The Moon is distant from the Sea
And yet, with Amber Hands –
She leads Him – docile as a Boy –
Along appointed Sands –
He never misses a Degree –
Obedient to Her Eye
He comes just so far – toward the Town –
Just so far – goes away –
Oh, Signor, Thine, the Amber Hand
And mine – the distant Sea
Obedient to the least command
Thine eye impose on me
429
A Lua é do Mar distante –
Mesmo assim, com Mãos de Âmbar –
Ela o guia – Bom Menino –
À sua maneira ele anda –
Não perde nunca um Passo
Ao seu Olho, obediente
Vem chegando – na Cidade
Pra depois – seguir adiante –
Senhor, é Tua, a Mão de Âmbar –
E meu – o distante Mar –
Fiel ao menor comando
Que me impõe o Teu olhar –
449
I died for Beauty but was scarce
Adjusted to the Tomb
When One who died for Truth, was lain
In an adjoining Room –
He questioned softly “Why I failed”?
“For Beauty”, I replied –
“And I – for Truth – Themself are One –
We Brethren, are”, He said
And so, as Kinsmen, met a Night –
We talked between the Rooms –
Until the Moss had reached our lips –
And covered up – our names
449
Pela Beleza morri – mas mal
Me tinha ao mulo acomodado
Quando um que morreu pela Verdade
Colocaram na Cova ao lado –
Indagou-me, manso, “Porque fracassei?”
“Pela Beleza”, respondi
“Eu – pela Verdade – sei, é o mesmo”,
Ele disse, “Somos Confrades” –
E assim, como Irmãos, à Noite –
Entre Túmulos falamos
Até que o Musgo alcançou nossos lábios
E cobriu – nossos nomes
453
Love – thou art high –
I cannot climb thee –
But, were it Two –
Who knows but we
Taking turns – at the Chimborazo
Ducalat last – stand by thee –
Love – thou art deep
I cannot cross thee –
But, were there Two –
Instead of One –
Rower, and Yacht some sovereign Summer
Who knows – but we’d reach the Sun?
Love – thou art Veiled –
A few – behold thee –
Smile – and alter – and prattle – and die –
Bliss – were an Odditywithout thee –
Nicknamed by God –
Eternity –
453
Amor – tu, arte alta –
Não posso te escalar
Mas fôssemos Dois –
Quem sabe nós –
Nos revezando – no Chimborazo
Duques afinal – a teus pés
Amor – tu, arte profunda –
Não posso te atravessar
Mas houvesse Dois
Ao invés de Um
Vento, e Vela – voluntarioso Verão
Quem sabe – alcançar o Sol?
Amor – tu, arte Velada
Poucos – eis tu –
Sorriem – e transformame balbuciam – e morrem –
Alegria sem Ti – excentricidade –
Apelidado por Deus
Eternidade
456
So well that I can live without –
I love thee – then How well is that?
As well as Jesus?
Prove it me
That He – loved Men
As I – love thee
456
Tanto que posso viver sem
É como te amo – o Quanto é isto?
Tanto quanto Cristo?
Prove a mim
Que Ele – amou os Homens –
Como Euamo a ti –
465
I heard a Fly buzz – when I died –
The Stillness in the Room
Was like the Stillness in the Air –
Between the Heaves of Storm –
The Eyes around – had wrung them dry
And Breaths were gathering firm
For that last Onset – when the King
Be witnessed – in the Room
I willed my Keepsakes – Signed away
What portion of me be
Assignable – and then it was
There interposed a Fly –
With Blue – uncertain stumbling Buzz
Between the light – and me –
And then the Windows failed – and then
I could not see to see –
465
Ouvi uma Mosca zumbir – quando morria
A Calmaria no Quarto
Como no Ar a Calmaria
Depois da Tempestade –
Os Olhos à volta – apertados –
Os Fôlegos suspensos
Para a última Partida – quando o Rei
No Quarto – aparecesse
Deixei lembranças em Testamento
Leguei a parte possível
De mim – e foi então
Quando uma Mosca apareceu
Com Azul – incerto Zumbir –
Entre a luze o meu ser
Aí falharam-me as Janelas –
E já não pude ver para ver –
478
I had no time to Hate
Because
The Grave would hinder Me –
And Life was not so
Ample I
Could finish – Enmity –
Nor had I time to Love
But since
Some Industry must be –
The little Toil of Love –
I thought
Be large enough for Me –
478
Não tive tempo para Odiar –
A Sepultura interromperia
E a Vida não era tão
Vasta para que eu
Terminasse – a Antipatia –
Nem tive tempo pra Amar –
Mas já que
Deve ser uma Empreitada –
O pequeno Trabalho do Amor –
Eu pensei
Ser para Mim grande demais –
491
While it is alive
Until Death touches it
While it and I lap one Air
Dwell in one Blood
Under one Sacrement
Show me Division can split or pare –
Love is like Lifemerely longer
Love is like Death, during the Grave
Love is the Fellow of the Ressurection
Scooping up the Dust and chanting “Live”!
491
Enquanto isso viver
Até que a Morte o toque
Enquanto isso e eu sorvemos o mesmo Ar
Habitamos o mesmo sangue
Sob o mesmo Sacramento
Mostre que a Partilha pode desunir ou aparar
O Amor é como a Vida – apenas mais longo
O Amor é como a Morte, durante a Cova
O Amor é o Confrade da Ressurreição
Escavando o e ordenando “Viva”!
516
Beauty be not caused – It is
Chase it, and it ceases –
Chase it not, and it abides –
Overtake the Creases
In the Meadow – When the Wind
Runs his fingers thro’ it
Deity will see to it
That you never do it
516
A Beleza – não é provocadaEla é –
Se perseguida, ela cessa
Se não, ela é fiel
Supera as Rugas
No prado Quando o Vento
Passa por ela os dedos
Os Deuses tomam conta
Você não faz o mesmo –
537
Me prove it now – Whoever doubt
Me stop to prove it – now –
Make haste – the Scruple! Death be scant
For Opportunity
The River reaches to my feet
As yet – My Heart be dry
Oh Lover – Life could not convince
Might Death – enable Thee
The River reaches to my Breast –
Still – still – My Hands above
Proclaim with their remaining Might –
Dost recognize the Love?
The River reaches to my Mouth –
Remember – when the Sea
Swept by my searching eyes the last –
Themselves were quick – with Thee!
537
Eu provo agora – Quem duvida
Paro de provar – agora –
Apressa-te – Escrúpulo! A morte é escassa
Para a Oportunidade –
O Rio alcança meus Pés –
Até agoraÁrido, meu Coração
Oh Amado – a Vida não convenceria
Poderia a Morte – habilitar-Te então –
O Rio alcança meu Peito
Ainda – ainda – Minhas Mãos acima
Proclamam com seu Poder derradeiro
Reconheces o Amor ainda?
O Rio alcança minha Boca
Lembra quando o Mar
Lavou meus olhos sedentos – que foram
CorrendoTe encontrar!
549
That I did always love
I bring thee Proof
That till I loved
I never lived – Enough –
That I shall love alway –
I argue thee
That love is life –
And life hath Immortality –
This – dost thou doubt – Sweet
Then have I
Nothing to show
But Calvary –
549
De que eu sempre amei
Trago-te a Confirmação
Até que eu amasse
Não tive vida – então
Que hei de amar sempre
Provo-te tal e qual
Pois que amor é vida
E a vida é Imortal –
Disto – duvides – Querido –
E será necessário
Apresentar-te nada menos
Que o Calvário –
572
Delight – be pictorial
When viewed through Pain
More fair – because impossible
That any gain
The Mountain at a given distance
In Amber – lies
Approached – the Amber flits – a little –
And That’s – the Skies –
572
O Deleite – se torna vívido
Se visto através da Dor
Mais belo – porque impossível
Que qualquer valor –
A Montanhaa uma dada distância
Em Âmbar jaz –
De perto – o Âmbar some – quase –
E o Céu – lá es
573
The Test of Love – is Death
Our Lord “so loved” – it saith
What Largest Lover – hath –
Another – doth –
If smaller Patience – be –
Through less Infinity –
If Bravo, sometimes swerve
Through fainter Nerve –
Accept its Most
And Overlook – the Dust –
Last – Least –
The Cross’ – Request
573
O Teste do Amoré a Morte –
Nosso Senhor – “tão amado” – dizem –
Que Maior Amante – tem –
Outro – também
Se em menor Paciência – existe –
Em menor Infinitude –
Se Bravo, por vezes desvia –
Entre sutil Energia –
Aceita seu Maior –
E renega – o
Por fim – no Fim –
A Cruz – Seduz
599
There is a pain so utter –
It swallows substance up
Then covers the Abyss with Trance
So Memory can step
Around across – upon it –
As one within a Swoon –
Goes safetywhere an open eye –
Would drop HimBone by Bone.
599
Há uma dor – tão completa –
Que engole toda a matéria –
Depois enche o Abismo de Transe –
Para a Memória andar
Em torno – através – sobre –
Como que em êxtase
Vai segura – onde um olho aberto
A derrubaria – Dente por Dente.
640
I cannot live with You
It would be Life –
And Life is over there –
Behind the Shelf
The Sexton keeps the key to –
Putting up
Our LifeHis Porcelain
Like a Cup –
Discarded of the Housewife –
Quaint or Broke –
A Newer Sevres pleases
Old Ones crack –
I could not die – with You –
For One must wait
To shut the Other’s Gaze down –
You – could not
And I – Could I stand by
And see You – freeze –
Without my Right of Frost –
Death’s privilege?
Nor could I stand by
And see You – freeze –
Without my Right of Frost –
Death’s privilege?
Nor could I rise – with You
Because Your Face
Would put out Jesus’
That New Grace
Glow plain and foreign
On my homesick Eye –
Except that You and He
Shone closer by –
They’d judge Us – How –
For You – served Heaven You know,
Or sought to
I could not –
Because You saturated Sight –
And I had no more Eyes
For sordid excellence
As Paradise
And were You lost, I would be
Though My Name
Rang loudest
On the Heavenly fame –
And were You – saved –
And I – condemned to be
Where You were not –
That self – were Hell to Me
So We must meet apart –
You there – I here
With just the Door ajar
That Oceans are – and Prayer –
And that White Sustenance
Despair –
640
Eu não posso viver com Você –
Isso seria Vida –
E a Vida está para lá –
Atrás da Prateleira –
O Sacristão tem sua Chave –
Para acomodar
Nossa Vida – Sua Porcelana
Como uma Xícara –
Descartada pela dona da Casa
Estranha – ou Trincada
As mais novas vão à mesa –
As velhas se desfazem –
Eu não poderia morrer – com Você
Pois deve-se esperar
Para cerrar o Olhar do Outro
Você – não poderia –
E eu – poderia eu ao lado seu
Vê-locongelar –
Sem meu Direito Frio
Privilégio da Morte?
Tampouco poderia ascender – com Você
Pois que Sua Face
A de Jesus apagaria –
Essa nova Graça
Arde clara – e estrangeira
Em meu nostálgico Olho
Mas não Você, que brilhou
Mais perto que Ele –
Eles nos julgariam – Como –
Pois Você serviu o Céu – bem sabe,
Ou tentou –
Eu não pude
Eles nos julgariam – Como –
Pois Você serviu o Céu – bem sabe,
Ou tentou –
Eu não pude
Porque Você saturou a Vista –
E eu não tinha Olhos mais
Para sórdida excelência
Como o Paraíso
E estivesse Você perdido, Eu existiria –
Embora Meu Nome
O mais alto soasse
Na Celeste fama –
E estivesse Você – salvo
E Eu – condenada a ser
Onde Você não fosse mais –
Aquele ser – seria o Inferno para mim
Então devemos nos encontrar à parte –
Você – lá – Eu – aqui
E apenas a Porta entreaberta
Que são os Mares e a Prece
E esse Alimento Branco
Desespero
643
I could suffice for Him, I knew
He – could suffice for Me –
Yet Hesitating Fractions – Both
Surveyed Infinity –
“Would I be Whole” He sudden broached –
My syllable rebelled
’Twas face to face with Nature – forced
’Twas face to face with God
Withdrew the Sun – to Other Wests –
Withdrew the furthest Star
Before Decision – stooped to speech
And then – be audibler
The Answer of the Sea unto
The Motion of the Moon
Herself adjust Her Tides – unto
Could I – do elsewith Mine?
643
Eu poderia bastar a Ele, eu sabia –
Ele – bastaria para MimAinda
Frações Hesitantes – Ambos
Procurando o Infindo –
“Seria Eu o Todo” Ele falou de repente –
Minha sílaba se rebelou
Era face a face com a Natureza – à força –
Era face a face com o Senhor –
Retirou-se o Sol – para Outros Oestes –
Retirou-se a Estrela mais distante
Antes da Decisãome curvei para dizer –
E ser mais auvel – então
A resposta do Mar
À Movimentão da Lua –
Se Ele ajusta suas Marés – a Ela –
Eu não me ajustaria – à Tua?
644
You left me – Sire – two Legacies –
A Legacy of Love
A Heavenly Father would suffice
Had He the offer of –
You left me Boundaries of Pain
Capacious as the Sea –
Between Eternity and Time
Your Consciousnessand Me
644
Deixou-me – Sr. – dois Legados
Um Legado de Amor
Que deleitará o Pai nos Céus
Se a Ele oferecido for –
Deixou-me Fronteiras de Dor –
Como do Mar a Imensidão
Entre a Eternidade e o Tempo –
Eu – e Sua Percepção
650
Pain – has an Element of Blank –
It cannot recollect
When it begun – or if there were
A time when it was not
It has no Future – but itself –
Its infinite contain
Its Past – enlightened to perceive
New periods – of Pain.
650
A Dor – tem um Elemento em Branco –
Já não pode se lembrar
Quando começou ou se havia
Um tempo em que não havia
Não tem futuro – além de si mesma –
Seu Infinito é maior
Que o Passado – instruído a perceber
Novos períodos – de Dor.
781
To wait an Hour – is long
If Love is just beyond –
To wait Eternity – is short –
If Love reward the end –
781
Esperar uma Horaé muito –
Se o Amor está logo ali
Esperar a Eternidade – pouco –
Se o Amor recompensa o fim
808
So set its Sun in Thee
What Day be dark to me
What Distance – far –
So I the Ships may see
That touch how seldomly
Thy Shore?
808
Se coloco o Sol em Ti
Que dia seescuro pra mim –
Que Distância – descomunal
Se posso ver os Navios
Que tocam – tão raro
Teu Litoral?
809
Unable are the Loved to die
For Love is Immortality,
Nay, it is Deity
Unable they that love – to die
For Love reforms Vitality
Into Divinity.
809
Incapazes são os Amados de morrer
Pois que Amor é Imortalidade,
Mais ainda, Divindade
Incapazes são os Amantes – de morrer
Pois que o Amor transforma Vitalidade
Em Eternidade.
836
Truth – is as old as God –
His Twin identity
And will endure as long as He
A Co-Eternity
And perish on the Day
Himself is borne away
From Mansion of the Universe
A lifeless Deity.
836
A Verdade – é velha como Deus
Sua Gêmea identidade
E dura tanto quanto Ele
Uma Co-Eternidade –
E perece no Dia
Em que Ele for arrastado
Da Mansão do Universo
Um Deus inanimado.
917
Love is anterior to Life –
Posterior – to Death –
Initial of Creation, and
The Exponent of Earth –
917
O Amor é ancestral da Vida –
Da Morte – a posteridade –
Início da Criação,
Expoente da Humanidade
924
Love is that later thing than Death
More previous – than Life
Confirms it at its entrance – And
Usurps it – of itself –
Tastes Death – the first – to hand the sting
The Second – to its friend –
Disarms the little interval –
Deposits Him with God
Then hovers – an inferior Guard
Lest this Beloved Charge
Need once in an Eternity
A smaller than the Large –
924
Amor – é aquilo posterior à Morte –
Anterior – à Vida –
Confirma isso na entradae
Usurpa de si mesmo
Prova a Morte – a primeira – a ferroar
A Segunda para o amigo –
Desarma o pequeno intervalo –
Em Deus A deposita –
Então paira – uma Sentinela inferior –
Para que este Caro Dever
Não precise – na Eternidade –
De um dever menor
967
Pain – expand the Time
Ages coil within
The minute Circumference
Of a single Brain –
Pain contracts – the Time
Occupied with Shot
Gammuts of Eternities
Are as they were not –
967
A Dor – expande o Tempo –
Eras se contorcem por dentro
Da Circunferência minúscula
De um Cérebro único
A Dor contrai – o Tempo –
Com o Tiro ocupada
Gamas de Eternidades
Como se não fossem nada –
988
The Definition of Beauty is
That Definition is none –
Of Heaven, easing Analysis,
Since Heaven and He are one.
988
A Definição da Beleza é
Que a Definição é nenhuma –
Do Céu, simples Análise,
Já que o Céu e Ela são um.
1005
Bind me – I still can sing
Banish – my mandolin
Strikes true within –
Slay – and my Soul shall rise
Chanting to Paradise –
Still thine.
1005
Ata-me e posso cantar ainda –
Deporte – meu bandolim
Bate dentro de mim –
Mata-mee minha Alma flutua
Cantando no Paraíso –
Ainda tua.
1049
Pain has but one Acquaintance
And that is Death
Each one unto the other
Society enough.
Pain is the Junior Party
By just a Second’s right
Death tenderly assists Him
And then absconds from Sight.
1049
A Dor tem um só Conhecido
E ele é a Morte –
Cada uma é para a outra
Sociedade bastante.
A Dor é a Parte Menor
Só por direito de pacto –
A Morte a ajuda gentil
E se esconde no Ato.
1129
Tell all the Truth but tell it slant
Success in Circuit lies
Too bright for our infirm Delight
The Truth’s superb surprise
As Lightning to the Children eased
With explanation kind
The Truth must dazzle gradually
Or every man be blind –
1129
Diga toda a Verdade mas diga devagar –
No Circuito o sucesso repousa
Clara demais para nosso Deleite enfermo
A Verdade é suprema surpresa
Como o Raio explicado à Criança
Em suave e gentil maneira
A Verdade deve vir aos poucos
Ou aos homens traz cegueira
1168
As old as Woe –
How old is that?
Some eighteen thousand years
As old as Bliss
How old is that
They are of equal years
Together chiefest they are found
But seldom side by side
From neither of them tho’ he try
Can Human nature hide
1168
Velho como a Dor –
O quanto é isso?
Uns dez mil anos de idade –
Velho como o Êxtase
O quanto é isso?
Eles são da mesma idade
Juntos, soberanos, reinam
Mas se um está, o outro onde?
De nenhum deles, embora tente
A Natureza Humana se esconde
1247
To pile like a Thunder to its close
Then crumble grand away
While Everything created hid
This – would be – Poetry
Or Love – the two coeval come –
We both and neither prove –
Experience neither and consume –
For None see God and live –
1247
Acumular o estrondo como o Trovão
E implodir ao fim do dia
Quando Tudo o que existe se oculta
Isto – poderia ser – Poesia –
Ou Amor – são contemporâneos
Provamos nenhum ou os dois –
Experimente qualquer e consuma-se
Pois Nada vê Deus e vive depois
1272
So proud she was to die
It made us all ashamed
That what we cherished, so unknown
To her desire seemed
So satisfied to go
Where none of us should be
Immediately – that Anguish stooped
Almost to Jealousy
1272
Tão orgulhosa de morrer
Nos deixa constrangidos
O que desejamos, é
Para ela – desconhecido
Tão satisfeita de ir
Onde nenhum des esteja
Que a nossa Angústia se rebaixa
A uma quase Inveja
1453
A Counterfeit – a Plated Person
I would not be –
Whatever strata of Iniquity
My Nature underlie –
Truth is good Healthand Safety, and the Sky.
How meager, what an Exile – is a Lie,
And Vocal when we die –
1453
Uma farsa – um Encouraçado –
Eu não seria
Em qualquer Iniquidade
Eu estivesse –
A Verdade é Vida – Segurança – Céu.
Quão escassa, que Exílio – a Mentira,
E Sonora – quando a morte
1455
Opinion is a flitting thing,
But truth, outlasts the Sun –
If then we cannot own them both
Possess the oldest one
1455
A Opinião, rápido se esvai
Mas a Verdade, sobrevive ao Sol
Se não podemos ter os dois
É melhor ter o maior –
1456
So gay a Flower
Bereaves the Mind
As if it were a Woe –
Is Beauty an Affliction – then?
Tradition ought to know –
1456
Tão vibrante a Flor
Devasta a Mente
Como fosse Dor
Será a Beleza Angústia – então?
Deve saber a Tradição
1474
Estranged from Beauty – none can be –
For Beauty is Infinity
And power to be finite ceased
Before Identity was leased.
1474
Apartado da Beleza – ninguém vive –
Pois Beleza é Infinitude –
E o poder de ser finito cessa
Antes do aluguel da Identidade.
1485
Love is done when Love’s begun,
Sages say,
But have Sages known?
Truth adjourn your Boon
Without Day.
1485
Faz-se o Amor quando o Amor nasce,
O Sábio diria
Mas o que sabe um Sábio?
A Verdade adia a Dádiva
Sem Dia.
1654
Beauty crowds me till I die
Beauty mercy have on me
But if I expire today
Let it be in sight of thee –
1654
Beleza, habita-me à morte
Beleza, tem clemência
Mas caso eu morra hoje
Que seja em tua presença –
1680
Sometimes with the Heart
Seldom with the Soul
Scarcer once with the Might
Few – love at all.
1680
Com o Coração – às vezes
Com a Alma – raramente
Com Pujança – mais escasso
Poucos amam – completamente.
1731
Love can do all but raise the Dead
I doubt if even that
From such a giant were withheld
Were flesh equivalent
But love is tired and must sleep,
And hungry and must graze,
And so abets the shining Fleet
Till it is out of gaze.
1731
O amor pode tudo, mas não ergue os Mortos
Duvido se mesmo aquilo
De tal gigante retido
Era carne, do mesmo modo.
Mas o amor está cansado, e deve dormir
Faminto, deve pastar
Então se alia a uma esquadrilha que brilha
Até sumir no ar.
1765
That Love is all there is;
Is all we know of Love;
It’s enough, the freight should be
Proportioned to the groove.
1765
Que o Amor é tudo o que existe;
É tudo o que sabemos do Amor;
Isso basta, a carga deve ser
Proporcional ao andor.
LISTA DE POEMAS
Em ordem de aparecimento, e crescente, de acordo com a numeração da edição de T. H.
Johnson, The complete poems of Emily Dickinson.
50 I haven’t told my garden yet
Ainda não contei ao meu jardim –
54 If I should die
Se eu devesse morrer
56 If I should cease to bring a Rose
Se eu deixar de trazer uma Rosa
71 A throe upon the features –
Um espasmo nas feições –
98 One dignity delays for all –
Uma honra que às vezes demora
162 My River runs to thee –
Meu Rio corre para ti –
211 Come slowly – Eden!
Vem devagar – Éden!
221 It can’t be “Summer”!
Não pode ser “Verão”!
240 Ah, Moon – and Star!
Ah, Luae Estrela!
241 I like a look of Agony
Gosto de um olhar de Agonia
249 Wild Nights – Wild Nights!
Noites Selvagens – Noites Selvagens!
258 There’s a certain Slant of light
Há uma certa Intenção de luz
280 I felt a Funeral, in my Brain
Senti um Funeral em meu Cérebro
281 ’Tis so appalling – it exhilarates –
Tão temível – que alegra
341 After great pain, a formal feeling comes –
Depois de grande dor, vem um sentimento formal –
418 Not in this World to see his face –
Não neste mundo ver seu rosto –
429 The Moon is distant from the Sea
A Lua é do Mar distante –
449 I died for Beauty – but was scarce
Pela Beleza morri – mas mal
453 Love – thou art high
Amor – tu, arte alta –
456 So well that I can live without
Tanto que posso viver sem –
465 I heard a Fly buzzwhen I died –
Ouvi uma Mosca zumbir – quando morria –
478 I had no time to hate –
Não tive tempo para odiar –
491 While it is alive
Enquanto isso viver
516 Beautybe not caused – It is –
A Beleza – não é provocada – ela é –
537 Me prove it now Whoever doubt
Eu provo agora – quem duvida
549 That I did always love
De que eu sempre amei
572 Delight – be pictorial –
O Deleite – se torna vívido
573 The Test of Love – is Death
O Teste do Amor – é a Morte
599 There is a pain so utter –
Há uma dor – tão completa
640 I cannot live with You
Eu não posso viver com Você –
643 I could suffice for Him, I knew –
Eu poderia bastar a Ele, eu sabia –
644 You left me – Sire – two Legacies –
Deixou-me – Sr.dois Legados
650 Pain – has an Element of Blank
A Dor tem um elemento em Branco –
781 To wait an Hour – is long –
Esperar uma Hora – é muito –
808 So set its Sun in Thee
Se coloco o Sol em Ti
809 Unable are the Loved to die
Incapazes são os amados de morrer
836 Truth – is as old as God
A Verdade – é velha como Deus –
917 Love is anterior to Life
O Amor é ancestral da Vida –
924 Love is that later thing than Death –
Amor é aquilo posterior à Morte –
967 Pain – expands the Time
A Dor expande o Tempo –
988 The Definition of Beauty is
A Definição da Beleza é
1005 Bind me – I still can sing
Ata-me – e posso cantar ainda
1049 Pain has but one Acquaintance
A Dor tem um só Conhecido
1129 Tell all the Truth but tell it slant –
Diga toda a Verdade mas diga devagar –
1168 As old as Woe –
Velho como a Dor –
1247 To pile like a Thunder to its close
Acumular o estrondo como o Trovão
1272 So proud she was to die
Tão orgulhosa de morrer
1453 A Counterfeit – a Plated Person –
Uma Farsa – um Encouraçado –
1455 Opinion is a flitting thing
A Opinião, rápido se esvai
1456 So gay a Flower
Tão vibrante a Flor
1474 Estranged from Beauty – none can be –
Apartado da Beleza – ninguém vive
1485 Love is done when Love’s begun
Faz-se o Amor quando o Amor nasce
1654 Beauty crowds me till I die
Beleza, habita-me à morte
1680 Sometimes with the Heart
Com o Coração – às vezes
1731 Love can do all but raise the Dead
O Amor pode tudo, mas não ergue os Mortos
1765 That Love is all there is
Que o Amor é tudo o que existe
Fascículo 6
OUTROS POEMAS
para Tom
A poesia está à espera não só de uma tradução
mas também de uma outra sensibilidade.
A poesia está à espera de um leitor que a traduza.
Octavio Paz
28
So has a Daisy vanished
From the fields today
So tiptoed many a slipper
To Paradise away –
Oozed so in crimson bubbles
Day’s departing tide
Blooming – tripping – flowing –
Are ye then with God?
28
Então se foi a Margarida
Destes campos aos elísios –
Sorrateira, então se foi
Embora, ao Paraíso –
Esvaiu-se, em bolhas rubras
Maré que se afasta no tempo
Linda – leve – ligeira –
Estais com Deus portanto?
106
The Daisy follows soft the Sun
And when his golden walk is done –
Sits shyly at his feet –
He – walking finds the flower there –
Wherefore – Marauder – art thou here?
Because, Sir, love is sweet!
We are the Flower – Thou the Sun!
Forgive us, if as days decline –
We nearer steal to Thee!
Enamored of the parting West –
The peace – the flight – the Amethyst –
Night’s possibility!
106
A Margarida segue suave o Sol
Com seu andar dourado, e ao final
Senta a seus pés, com rubor –
Ele – andando – encontra ali a flor –
Por que – Saqueadora – estás aqui?
Porque, Senhor, é doce o amor!
Somos a Flor – Tu és o Sol!
Perdão, se sempre ao fim do dia
Quase roubamos de Ti!
Enamorados do Oeste que parte
A paz – o vôo – a Ametista –
Noturna possibilidade!
114
Good night, because we must,
How intricate the dust!
I would go, to know!
Oh incognito!
Saucy, Saucy Seraph
To elude me so!
Father! they won’t tell me,
Won’t you tell them to?
114
Boa noite, porque devemos,
Inexplicável, o pó!
E eu iria, conhecer,
Ah, o incógnito!
Astuto Serafim
Para me iludir assim!
Pai! Ninguém me diz,
Por que não contam pra mim?
136
Have you got a Brook in your little heart,
Where bashful flowers blow,
And blushing birds go down to drink,
And shadows tremble so –
And nobody knows, so still it flows,
That any brook is there,
And yet your little draught of life
Is daily drunken
Why, look out for the little brook in March,
When the rivers overflow,
And the snows come hurrying from the hills,
And the bridges often go –
And later, in August it may be
When the meadows parching lie,
Beware, lest this little brook of life,
Some burning noon go dry!
136
Você tem um Riacho no peito,
Onde tímidas plantas florescem,
E pássaros coram ao vir beber
E até as sombras estremecem?
E ninguém conhece – e ele então permanece –
Nenhum riacho ali.
Mesmo assim seu pequeno trago de vida
Todo dia é sorvido ali
Então cuide dele em março,
Quando há muita inundação,
A neve precipita-se dos montes,
E as pontes sempre se vão –
E mais tarde, em agosto talvez –
Quando o prado a seca anuncia –
Cuide que este pequeno regato de vida
Não suma ao sol do meio-dia!
145
This heart that broke so long –
These feet that never flagged
This faith that watched for star in vain,
Give gently to the dead –
Hound cannot overtake the Hare
That fluttered panting, here
Nor any schoolboy rob the nest
Tenderness buildered there.
145
O coração há muito partido –
Os pés que nunca esmoreceram –
A fé que em vão olhou os céus,
Entregai aos que morreram
O Cão não alcançará a Lebre
Que passou ligeira, aqui
Menino algum roubará o ninho
Com amor tecido, ali –
153
Dust is the only Secret –
Death, the only One
You cannot find all about
In his “native town.”
Nobody knew “his Father”
Never was a Boy –
Hadn’t any playmates,
Or “Early history” –
Industrious! Laconic!
Punctual! Sedate!
Bold as Brigand!
Stiller than a Fleet!
Builds, like a Bird, too!
Christ robs the Nest –
Robin after Robin
Smuggled to Rest!
153
O Pó único Segredo
Morte – é aquela tal
Não se pode desvendá-la
Em sua “terra natal”.
Ninguém conhece seu Pai –
Nunca foi uma Criança –
Nunca teve Companheiros
Nem lhe coube alguma Herança –
Laboriosa! Breve!
Pontual! Sossegada!
Audaz como um Pirata!
Mais serena que uma Esquadra!
Também constrói, como um Pássaro!
Cristo rouba a Ninhada –
Sabiá por Sabiá
Ao Sono contrabandeada!
177
Ah, Necromancy Sweet!
Ah, Wizard erudite!
Teach me the skill,
That I instil the pain
Surgeons assuage in vain,
Nor Herb of all the plain
Can heal!
177
Ah, Doce Necromancia!
Ah, Bruxo erudito!
Ensine-me a magia,
Que eu instile a dor
Que o doutor não alivia,
Nem Erva alguma do mundo
Remedia!
180
As if some little Arctic flower
Upon the polar hem –
Went wandering down the Latitudes
Until it puzzled came
To continents of summer
To firmaments of sun –
To strange, bright crowds of flowers –
And birds, of foreign tongue!
I say, As if this little flower
To Eden, wandered in –
What then? Why nothing,
Only, your inference therefrom!
180
Como se uma pequena flor do Ártico
Na orla polar –
Descesse errante pelas Latitudes
Até confusa chegar
A continentes de verão –
A firmamentos de sol –
A estranhas, brilhantes multidões de flores –
E pássaros, de língua sem igual!
Digo, Como se essa pequena flor
Para o Éden, vagasse então –
E agora? Não é por nada, mas
Apenas tire sua conclusão!
184
A transport one cannot contain
May yet a transport be
Though God forbid it lift the lid
Unto its Ecstasy!
A Diagram – of Rapture!
A sixpence at a Show
With Holy Ghosts in Cages!
The Universe would go!
184
Um transporte que não se contém
Pode ser um transporte ainda –
Embora Deus não permita que se abra
Até sua Epifania!
Um Esboço de Êxtase!
Um Show Ninharia
Com Fantasmas Sagrados em Jaulas!
O Universo todo iria!
190
He was weak, and I was strong – then –
So He let me lead him in –
I was weak, and He was strong then
So I let him lead me – Home.
’Twasn’t far – the door was near –
’Twasn’t dark – for He went – too –
’Twasn’t loud, for He said nought –
That was all I cared to know.
Day knocked – and we must part
Neither – was strongest – now
He strove – and I strove – too –
We didn’t do it – tho’!
190
Ele era fraco, e eu forte – então –
E Ele deixou-me levá-lo pra dentro –
Eu era fraca, e Ele forte – então
E eu o deixei conduzir-me – Ventre.
Não era longe a porta por perto
Não era escuro – Ele estava –
Não fazia barulho – Ele nada dizia –
Era tudo o que importava.
O Dia batia – devemos partir –
Nenhum era forte – agora –
Ele tentou – e eu tentei – também –
Não conseguimos – embora!
199
I’m “wife” – I’ve finished that –
That other state –
I’m Czar – I’m “Woman” now
It’s safer so –
How odd the Girl’s life looks
Behind this soft Eclipse –
I think that Earth feels so
To folks in Heaven – now –
This being comfort – then
That other kind – was pain –
But why compare?
I’m “Wife”! Stop there!
199
Sou “esposa” – está acabado –
Aquele outro estado –
Sou Czar – sou “Mulher” agora –
É mais seguro desta forma –
Que estranha a vida da Jovem
Por trás deste Eclipse ameno –
Acho que a Terra é vista assim
Por aqueles no Céu sereno –
Se isto é conforto – então
Antes era – aflição –
Mas por que comparar?
Sou “Esposa”! Alto lá!
244
It is easy to work when the soul is at play –
But when the soul is in pain –
The hearing him put his playthings up
Makes work difficult – then –
It is simple, to ache in the Bone, or in the Rind –
But Gamlets – among the nerve –
Mangle daintier – terribler
Like a Panther in the Glove
244
É bom trabalhar quando a alma brinca
Mas quando a alma padece – não –
Põe de lado seus brinquedos
Faz o trabalho difícil – então
É natural, doer o Osso, ou a Pele
Mas a Faca – nos nervos –
Destroça o Belo – terrível –
Como uma Pantera de Luvas –
246
Forever at His side to walk
The smaller of the two!
Brain of His Brain –
Blood of His Blood –
Two lives – One Being – now
Forever of His fate to taste –
If grief – the largest part
If joy – to put my piece away
For that beloved Heart
All life – to know each other –
Whom we can never learn –
And bye and bye – a Change –
Called Heaven –
Rapt neighborhoods of Men –
Just finding out – what puzzled us –
Without the lexicon!
246
Sempre a Seu lado andar –
A menor dos dois!
Mente da Sua Mente –
Sangue do Seu Sangue –
Duas vidas – Um Ser – pois –
Sempre provar da Sua sorte –
O maior pedaço – se aflição –
Se alegria – recusar minha parte
Pelo amado Coração –
Toda a vida – conhecer um ao outro –
Quem jamais podemos aprender –
E logo mais – uma Mudança –
Chamada Céu –
Região de Homens absortos –
Apenas decifrando – o que nos confundiu
Sem o léxico!
253
You see I cannot see – your lifetime –
I must guess
How many times it ache for me today – Confess –
How many times for my sake
The brave eyes film –
But I guess guessing hurts –
Mine – get so dim!
Too vague the face –
My own – so patient – covers –
Too far – the strength –
My timidness enfolds –
Haunting the Heart
Like other translated faces
Teasing the want –
It – only – can suffice!
253
Você vê que não posso ver sua existência –
Devo pensar –
Quantas vezes sofreu por mim – hoje – Confesse –
Quantas vezes por minha distante causa
Os olhos valentes registram –
Mas penso que dói pensar –
Tão cansados – eles ficam!
Vaga demais – a face –
A minha – tão paciente – cobre –
Longe demais – a força –
Minha timidez envolve –
Assombrando o Coração –
Como as faces dela, traduzidas
Provocando o desejo –
Ele – apenas – satisfaz!
256
If I’m lost – now
That I was found
Shall still my transport be –
That once – on me – those Jasper Gates
Blazed open – suddenly –
That in my awkward – gazing – face –
The Angels – softly peered –
And touched me with their fleeces,
Almost as if they cared –
I’m banished – now – you know it –
How foreign that can be
You’ll know – Sir – when the Savior’s face
Turns so – away from you –
256
Se estou perdida – agora
Que fui achada –
Deve ser ainda meu transporte
Que uma vez – em mim – os Portões de Jaspe
Resplandeceram abertos – de repente
Que em minha desajeitada – atenta – face –
Os Anjos – observavam quietos –
E me tocavam com suas plumas,
Quase como se cuidassem –
Estou banido – agora – você sabe –
Quão estrangeiro pode parecer
Saberá – Senhor – quando a face do Salvador
Se virar – para longe de você
273
He put the Belt around my Life –
I heard the Buckle snap –
And turned away, imperial,
My Lifetime folding up –
Deliberate, as a Duke would do
A Kingdom’s Title Deed –
Henceforth, a Delicate sort –
A member of the Cloud.
Yet not too far to come at call –
And do the little Toils
That make the Circuit of the Rest –
And deal occasional smiles
To lives that stoop to notice mine –
And kindly ask it in
Whose invitation, know you not
For Whom I must decline?
273
Ele colocou o Cinto em minha vida
Ouvi a Fivela estalar –
E se virou, imperial,
Minha existência a fracassar –
Deliberado, como faria um Duque
Um Feito de Título Real
Doravante, um tipo Dedicado
Um Membro Celestial.
Mas não tão longe para responder –
E fazer os pequenos Trabalhos
Que fazem o Circuito do Resto –
E distribuir sorrisos ocasionais
A vidas que se curvam para observar a minha
E gentilmente chamá-la a adentrar –
Cujo convite, você não sabe
Por Quem devo eu recusar?
284
The Drop, that wrestles in the Sea –
Forgets her own locality –
And I – toward Thee –
She knows herself an incence small –
Yet small – she sighs – if All is All
How larger – be?
The Ocean – smiles – at her Conceit –
But she, forgetting Amphitrite –
Pleads – “Me” ?
284
A Gota, querendo o Mar –
Esquece seu lugar –
Como Eu – que quero Você –
Sabe que é pequena oferta –
Mesmo pequenaela suspira – se Tudo é Tudo
Maior – o quê?
O Oceano – sorri – aos seus Planos –
Mas ela, esquecendo Anfitrite –
Suplica – “Eu”?
368
How sick – to wait – in any place – but thine –
I knew last night when someone tried to twine –
Thinking perhaps – that I looked tired – or alone –
Or breaking – almost – with unspoken pain –
And I turned – ducal –
That right – was thine
One port – suffices – for a Brig – like mine
Ours be the tossing – wild though the sea –
Rather than a Mooring – unshared by thee.
Ours be the Cargo unladen here
Rather than the “spicy isles –”
And thou – not there
368
Que aflição – esperar – em um lugar – que não o teu –
Soube noite passada quando alguém tentou entreter –
Achando-me – talvez – cansadaou sozinha –
Ou rompendo quase – em dor por dizer –
E eu me virei – altiva –
Aquilo, sim – era teu –
Um posto – basta – a um Navio – como o meu
Nosso seja o balanço – embora bravio o mar –
Melhor que o Ancoradouro – por ti não partilhado.
Nossa seja a Carga – despejadaaqui
Melhor que as “ilhas picantes –”
E tu – não ali –
434
To love thee Year by Year –
May less appear
Than sacrifice, and cease –
However, dear,
Forever might be short, I thought to show –
And so I pieced it, with a flower, now.
434
Amar-te Ano após Ano
Pode parecer por engano
Menos que sacrifício
Contudo, meu bem,
A eternidade pode ser breve, eu quis mostrar –
Então com uma flor, agora, eu a fiz encurtar.
438
Forget! The lady with the Amulet
Forget she wore it at her Heart
Because she breathed against
Was Treason twixt?
Deny! Did Rose her Bee –
For Privilege of Play
Or Wile of Butterfly
Or Opportunity – Her Lord away?
The lady with the Amuletwill fade
The Bee – in Mausoleum laid –
Discard his Bride –
But longer than the little Rill –
That cooled the Forehead of the Hill –
While Other – went the Sea to fill
And Other went to turn the Mill
I’ll do thy Will
438
Esqueça! A mulher com o Amuleto
Esqueça que ela o levou ao Coração
Porque ela arfava contra ele
Foi traçada a Traição?
Negue! Sua Abelha Voou
Para a Brincadeira somente
Ou a Astúcia da Borboleta
Ou Oportunidade – Seu Lorde ausente?
A mulher com o Amuletodesfalecida
A Abelha – no Mausoléu abatida –
Sua Noiva – suprimida –
Mas além do pequeno Riacho –
Que esfriou a Fronte da Colina
Enquanto Outro – foi ao Mar se saciar –
E Outro – ao Moinho girar –
Eu seguirei tua Sina
463
I live with Him – I see His face –
I go no more away
For Visitoror Sundown
Death’s single privacy
The Only One – forestalling Mine –
And that – by Right that He
Presents a Claim invisible –
No wedlock – granted Me –
I live with Him – I hear his Voice –
I stand alive Today
To witness to the Certainty
Of Immortality –
Taught Me – by Timethe lower way
Conviction – Every day –
That Life like This – is stopless –
Be Judgement – what it may –
463
Vivo com Ele – vejo Seu rosto –
Não vou mais lá fora
Para Visitas – ou o Pôr-do-Sol –
Direito único da Morte
A única – abarcando o Meu –
E que – por Direito d’Ele
Apresenta reivindicação invisível
Nenhum Casamento – a Mim concedido –
Vivo com Ele – ouço a sua Voz –
Estou viva – no presente –
Para testemunhar a Certeza
Da Imortalidade –
Ensinada – pelo Tempo –
Todo dia – a Certeza –
Que a Vida assim – é infinda –
Seja qual for – a Sentença –
464
The power to be true to You,
Until upon my face
The Judgement push His picture
Presumptuous of your Place –
Of This – Could Man deprive Me –
Himself – the Heaven Excel –
Whose invitation – Yours reduced
Until it showed too small –
464
O poder de ser fiel a Você,
Até que sobre o meu rosto
O Julgamento imponha a Imagem d’Ele –
De seu lugar, Presunçosa –
Disto – pode o Homem Me privar –
Ele próprio – excede o Céu –
Cujo convite – o Seu reduzido
Até se tornar trivial –
498
I envy Seas whereon He rides –
I envy Spokes of Wheel
Of Chariots, that Him convey
I envy Crooked Hills
That Gaze upon His Journey
How easy All can see
What is forbidden utterly
As Heaven – unto me!
I envy Nests of Sparrows –
That dot His distant Eaves –
The Wealthy Fly, upon His Pane –
The happy happy Leaves –
That just abroad His Window
Have Summer’s leave to play –
The Ear Rings of Pizarro
Could not obtain for me –
I envy Light – that wakes Him
And Bells – that boldly ring
To tell Him it is Noon, abroad –
Myself – be Noon to Him
Yet interdict my Blossom –
And abrogate – my Bee
Lest Noon in Everlasting Night –
Drop Gabriel – and Me –
498
Invejo os Mares onde Ele navega –
Invejo os Raios das Rodas
Das Carruagens, que o carregam
Invejo as Montanhas Tortas
Que Vigiam sua Jornada –
A tudo podem assistir
O que é proibido sempre
Como o Céu – para mim!
Invejo os ninhos de Pardais –
Que povoam Suas Marquises –
O Vôo intenso, na Sua Vidraça –
As Folhas tão felizes –
Que bem ali na sua Janela
Têm o Verão pra brincar –
Os Brincos de Pizarro
Não poderiam me alcançar –
Invejo a Luz – que O acorda
E os Sinos – que com ousadia
Anunciam que é Meio-Dia, lá fora –
Seria eu mesma – seu Meio-Dia –
Mas interdito – a minha Flor –
E renuncio – ao meu Mel –
Pro Meio-Dia na Noite Eterna –
Não desistir de Mim – e Gabriel
508
I’m ceded – I’ve stopped being Theirs –
The name They dropped upon my face
With water, in the country church
Is finished using, now,
And They can put it with my Dolls,
My childhood, and the string of spools,
I’ve finished threading – too
Baptized, before, without the choice,
But this time, consciously, of Grace
Unto supremest name –
Called to my Full – The Crescent dropped
Existence’s whole Arc, filled up,
With one small Diadem.
My second Rank – too small the first –
Crowned – Crowing – on my Father’s breast –
A half unconscious Queen –
But this time Adequate – Erect,
With Will to chose, or to reject,
And I choose, just a Crown
508
Fui transferida – deixei de ser Deles –
O nome que espirraram em meu rosto
Com a água, na igreja do campo
Não tem mais uso, agora,
E Eles podem juntá-lo às minhas Bonecas,
Minha infância, e a linha dos carretéis,
Que eu parei de costurar – também –
Antes batizada sem escolha,
Mas consciente, agora, da Graça –
Com o mais supremo nome
Chamada à minha Lua Cheia caiu a Meia-Lua –
Todo o arco da existência preenchido
Com um único pequeno Diadema.
Meu segundo Posto – tão pequeno o primeiro –
Coroada – Comemorando – no peito de meu Pai –
Uma Rainha semi-consciente –
Mas, agora – Adequada – Ereta,
Resoluta para escolher, ou rejeitar,
E eu escolho, apenas o Trono –
521
Endow the Living – with the Tears –
You squander on the Dead,
And they were Men and Women – now,
Around your Fireside –
Instead of Passive Creatures,
Denied the Cherishing
Till They – the Cherishing deny
With Death’s Ethereal Scorn
521
Dotassem os vivos – com as lágrimas –
Que Você desperdiça nos Mortos
E fossem eles Homens e Mulheres – agora,
Em volta do Seu Fogo
Ao invés de Criaturas Passivas,
Negando o Querer Bem
Até que Eles – também o negassem –
Com Mortal Etéreo Desdém –
523
Sweet – You forgot – but I remembered
Every time – for Two –
So that the Sum be never hindered
Through Decay of You
Say if I erred? Accuse my Farthings
Blame the little Hand
Happy it be for You – a Beggar’s –
Seeking More – to spend –
Just to be Rich – to waste my Guineas
On so Best a Heart –
Just to be Poor – for Barefoot Vision
You – Sweet – Shut me out –
523
Amor – você esqueceu – mas eu lembrei
Por Dois – todo o tempo
Para que a Soma não fosse impedida
Pelo Seu Decaimento –
Diga se errei Acuse minhas Migalhas –
Culpe a pequena Mão
Feliz seja ela por Você – um Pedinte –
Querendo Mais – consumição –
Só pra ser Rico – esbanjar meu Ouro
Em Coração Melhor
Só pra ser Pobre – pela Visão Descalça
Você – me deixou de fora – Amor –
524
Departed – to the Judgement –
A Mighty Afternoon
Great Clouds – like Ushers – leaning –
Creation – looking on –
The Flesh – Surrended – Cancelled –
The Bodiless – begun –
Two Worlds – like Audiences – disperse
And leave the Soul – alone –
524
Embora – ao Julgamento –
Uma Tarde – Imensidão –
Grandes Nuvens – Porteiras –
De espectadora – a Criação –
A Carne – Vencida – Anulada
Começavao Pó
Dois Mundos – Audiências – dispersas
Deixando a Alma – só –
528
Mine – by the Right of the White Election!
Mine – by the Royal Seal!
Mine – by the Sign in the Scarlet prison
Bars – cannot conceal!
Mine – here – in Vision and in Veto!
Mine – by the Grave’s Repeal –
Titled Confirmed
Delirious Charter!
Mine – long as Ages Steal!
528
Meu – por Direito da Eleição Branca!
Meu – pelo Selo Real!
Meu – pela Marca na prisão Escarlate
Que as barras – escondem mal!
Meu – aqui – na Visão – e no Veto!
Meu – pela Revogação da Sepultura
Titulado Confirmado
Delirante Escritura !
Meu – pelo Tempo Roubado!
530
You cannot put a Fire out –
A Thing that can ignite
Can go, itself, without a Fan
Upon the slowest Night –
You cannot fold a Flood
And put it in a Drawer
Because the Winds would find it out –
And tell your Cedar Floor –
530
Não se pode expulsar o Fogo
Uma Coisa que inflama
Pode levar sozinha, sem Vento
Noite adentro, sua Chama –
Não se pode dobrar a Chuva –
E guardá-la no Armário –
Os Ventos iam descobrir –
E contar ao Assoalho –
568
We learned the Whole of Love –
The Alphabet – the Words
A Chapter – then the Mighty Book –
Then – Revelation closed –
But in Each Other’s eyes
An Ignorance beheld –
Diviner than the Childhood’s –
And each to each, a Child –
Attempted to expound
What Neither – understood –
Alas, that Wisdom is so large
And Truth – so manifold!
568
Aprendemos todo o Amor –
O Alfabeto – as Palavras
Um Capítulo – E o Poderoso Livro –
E – a Revelação encerrada –
Mas nos olhos do Outro
Via-se uma Ignorância –
Mais divina que a da Infância
E uma à outra, a Criança –
Tentava explicar
O que Nenhuma – entendia
Ai, que é tão vasto o Saber
E a Verdade – tão vária!
570
I could dieto know –
’Tis a trifling knowledge –
News – Boys salute the Door –
Carts – joggle by –
Morning’s bold face – stares in the window –
Were but mine – the Charter of the least Fly
Houses hunch the House
With their Brick Shoulders –
Coals – from a Rolling Load – rattle how – near –
To the very SquareHis foot is passing –
Possibly, this moment
While I dream Here –
570
Eu morreria – para saber –
Conhecimento banal –
Meninos às Portas – com o jornal –
Carroças a estremecer –
A face clara da manhã – na janela –
Fosse minha – a Licença do menor Vôo –
Casas curvam a Casa
Com seus Ombros de Tijolos –
Carvão – Carga que rola – chacoalha – tão – perto –
Da mesma Praça – que passam seus pés –
Possivelmente, neste instante –
E eu – Aqui – não desperto –
571
Must be a Woe –
A loss or so –
To bend the eye
Best Beauty’s way –
But – once aslant
It notes Delight
As difficult
As Stalactite
A Common Bliss
Were had for less –
The price – is
Even as the Grace –
Our lord – thought no
Extravagance
To pay – a Cross
571
Deve ser um Pesar –
Ou uma Perda
Desviar os olhos
Melhor forma da Beleza –
Masuma vez oblíquo
Percebe o Deleite
Tão difícil
Quanto Estalactite
Um Simples Êxtase
Tido por menos –
O preço – é
Mesmo a Graça –
Nosso lorde – não achou
Extravagância
Pagar – uma Cruz –
620
It makes no difference abroad
The Seasons – fit – the same –
The Morning blossom into Noons –
And split their Pods of Flame
Wild Flowers – kindle in the Woods –
The Brooks slam – all the Day
No Black Bird bates his Banjo –
For passing Calvary –
Auto da Fe – and Judgement –
Are nothing to the Bee –
His separation from his Rose –
To Him – sums – Misery –
620
Não faz diferença lá fora
As estações – próprias – de costume –
As manhãs florecem em Meios-Dias –
E se abrem em brotos de Lume
Flores selvagens – se alastram no Mato –
O dia todo os riachos – em arruaça –
Nenhum Pássaro Preto toca Banjo –
Para o Calvário que passa –
Auto da Fé – e Julgamento –
Para a Abelha não são nada –
Na separação da Sua Rosa –
Sua Miséria é contada –
638
To my small Hearth His Fire came –
And all my House aglow
Did fan and rock, with sudden light
’Twas Sunrise – ’twas the sky –
Impanelled from no Summer brief –
With limit of Decay –
’Twas Noon – without the News of Night –
Nay, Nature, it was Day –
638
Ao meu pequeno Coração seu fogo veio –
A Casa toda se acendeu
Refrescou e acalentou, com súbita luz
Era o Sol Nascenteera o Céu –
Uma causa – não de Verão
Com limite de Ruína
Era Meio-Dia – sem as Novas da Noite –
Não, Natureza, era o Dia
644
You left meSire – two Legacies –
A Legacy of Love
A Heavenly Father would suffice
Had He the offer of –
You left me Boundaries of Pain –
Capacious as the Sea –
Between Eternity and Time
Your Consciousness – and Me –
644
Deixou-me – Paidois Legados
Um Legado de Amor
Que deleitará o Pai do Céu
Se a Ele oferecido for
Deixou-me Fronteiras de Dor
Vasta, como o Mar –
Entre a Eternidade e o Tempo –
Sua consciência – e o meu Ser
654
A long – long Sleep – A famous – Sleep –
That makes no show for Morn
By stretch of Limb – or stir of Lid
An independent One –
Was ever idleness like This?
Upon a Bank of Stone
To bask the centuries away –
Nor once look up – for Noon?
654
Um longo famoso – Sono
Ao Dia não se apresenta –
Por extensão do Limbo – ou mexer de Olho
Algo independente.
Então é Isso, a inércia?
Através da pétrea Lage
Gozar o passar dos Séculos –
Mas nunca ver a Tarde?
664
Of all the Souls that stand create –
I have elected – One
When Sense from Spirit – files away –
And Subterfuge – is done
When that which is and that which was –
Apart – intrinsic – stand –
And this brief Drama in the flesh –
Is shifted – like a Sand
When Figures show their royal front –
And Mists – are carved away,
Behold the Atom I preferred –
To all the lists of Clay!
664
De todas as Almas existentes
Uma – eu tenho eleita –
Quando o Senso do Espírito – toma nota –
E o Subterfúgio – é feito –
Quando aquilo que é – e aquilo que foi –
Apartados – intrínsecos – são –
E este breve Drama na carne
Se transforma – como o Grão –
Quando as Sombras mostram sua Face real –
E a névoa – é entalhada em jarro,
Eis o Átomo – eu prefiro –
A todo o prazer do Barro!
729
Alter! When the Hills do
Falter! When the Sun
Question if His Glory
Be the Perfect One
Surfeit! When the Daffoldil
Doth of the Dew –
Even as Herself – Sir –
I will – of You –
729
Mudar! Se o fizer a Montanha –
Vacilar! Quando o Sol
Se perguntar se
Sua Glória é tamanha –
Exceder! Quando o Narciso
Do Orvalho se encher –
Como Ele Senhor –
Eu me fartarei – de Você –
738
You said that I “was Great” – one Day
Then “Great” it be – if that please Thee –
Or Small – or any size at all –
Nay – I’m the size suit Thee –
Tall – like the Slag – would that?
Or lower – like the Wren –
Or other heights of Other Ones
I’ve seen?
Tell which – it’s dull to guess –
And I must be Rhinoceros
Or Mouse
At once – for Thee –
So say – if Queen it be –
Or Page please Thee –
I’m that – or nought –
Or other thing – if other thing there be –
With just this Stipulus
I suit Thee –
738
Você disse que eu era “Grande” – um Dia –
Que eu seja então – se lhe faz feliz
Ou Pequena – ou qualquer tamanho
Ou – como você sempre quis –
Alta – como a Escória isso serve?
Ou mais baixa – como a Carriça –
Ou outra altura de Outras
Que tenho visto?
Diga qual – inútil adivinhar –
E Rinoceronte devo ser
Ou Rata
De uma vez – para Você –
Diga então – se Rainha –
Ou Pagem – lhe agrada –
Sou isso – ou nada
Ou outra coisa – se é que pode ser
Com apenas um Comando –
Eu me ajusto a Você –
740
You taught me Waiting with Myself –
Appointment strictly kept
You taught me fortitude of Fate –
This – also – I have learnt
An Altitude of Death, that could
No bitterer debar
Than Life had done before it
Yet there is a science more
The Heaven you know to understand
That you be not ashamed
Of Me in Christ’s bright Audience
Upon the further Hand
740
Você me ensinou a Espera –
Fiz o meu apontamento –
Ensinou-me a Constância da Sorte –
Também – tomei conhecimento –
Uma Altivez de Morte, que poderia
Excluir, não mais pungente
Que a Vida – antes – fizera
Porém – existe outra ciência –
Seu Céu – compreender
Que não fique envergonhado
De mim – na Audiência Divina
Por outro lado –
751
My Worthiness is all my Doubt
His Merit – all my fear –
Contrasting which, my quality
Do lowlier – appear –
Lest I should insufficient prove
For His beloved Need –
The Chiefest Apprehension
Upon my thronging Mind –
’Tis true – that Deity to stoop
Inherently incline
For nothing higher than Itself
Itself can rest upon
So I – the undivine abode
Of His Elect Content –
Conform my Soul – as ’twere a Church,
Unto Her Sacrament
751
Meu Mérito é toda a minha Dúvida –
O Merecimento dele – todo o meu temor –
Contrastando, minha qualidade
Parece – inferior –
Que eu não me prove insuficiente
À Sua cara Necessidade –
Apreensão Primeira
Em minha Mente Sufocante –
É verdade – aquele Ser Divino
Naturalmente se curvar –
A algo menor que Ele mesmo
Sobre o qual pode até repousar –
Então Eu – a morada mundana
De seu Eleito Contento –
Ajusto minha Alma como uma Seita,
Ao Seu Sacramento –
775
If Blame be my side – forfeit Me –
But doom me not to forfeit Thee –
To forfeit Thee? The very name
Is sentence from Belief – and Home
775
Se a Culpa está comigo Perde-me
Mas condena-me a não te perder –
Perder-te? O próprio nome
É sentença da Crença – e Morrer –
780
The Truth is stirless –
Other force – may be presumed to move –
This – then – is best for confidence –
When oldest Cedars swerve –
And Oaks untwist their fists –
And Mountains – feeble – lean –
How excellent a Body, that
Stands without a Bone –
How vigorous a Force
That holds without a Prop –
Truth stays herself – and every man –
That trusts Her – boldly up –
780
A Verdade – não se mexe
Outra força – talvez se mova –
Esta – então serve mais à confidência –
Quando o Velho Cedro se curva
E o Carvalho desfaz seus punhos –
E a Montanha – frágilnão agüenta –
Que belo um Corpo, que
Sem Ossos se sustenta
Que vigorosa Força
Que se mantém sem escora
A verdade permanece – e todo homem
Que Nela crê – sem demora –
877
Each Scar I’ll keep for Him
Instead I’ll say of Gem
In His long absence worn
A Costlier one
But every Tear I bore
Were He to count them o’er
His own would fall so more
I’ll mis sum them.
877
Cada Cicatriz guardada pra Ele
Será uma Jóia Preciosa
Usada em sua longa Ausência
Das mais Suntuosas
Mas cada Lágrima derramada
Ele poderá conferir
As dele serão tantas
Que impossível resumir.
887
We outgrow love, like other things
And put it in the Drawer –
Till it an Antique fashion shows –
Like Costumes Grandsires wore.
887
Superamos o amor, como outras coisas
E o colocamos na Gaveta –
Até que uma Antiga moda o resgate –
Fantasias perdidas no Tempo.
907
Till Death – is narrow Loving –
The scantest Heart extant
Will hold you till your privilege
Of Finiteness – be spent –
But He whose loss procures you
Such Destitution that
Your Life too abject for itself
Thenceforward imitate –
Until – Resemblance perfect –
Yourself, for His pursuit
Delight of Nature – abdicate –
Exhibit Love – somewhat –
907
Até a Morte – o Amor é curto –
O Coração mais exíguo
Estará contigo até teu privilégio
De Finitude – ser consumido –
Mas Ela cuja perda te seduz
Tanta Destituição que
Tua Vida tão abjeta
Imita desde então –
Até que – perfeita Semelhança –
Tu mesmo, em Seu pleito
Deleite da Natureza – abdica –
E exibe o Amor – de algum jeito
909
I make His Crescent fill or lack –
His Nature is at Full
Or Quarter – as I signify –
His Tides – do I control –
He holds superior in the Sky
Or gropes, at my Command
Behind inferior Clouds – or round
A Mist’s slow Colonnade –
But since We hold a Mutual Disc –
And front a Mutual Day –
Which is the Despot, neither knows –
Nor Whose – the Tyranny
909
Faço seu Quarto crescer ou minguar –
Sua Natureza é Cheia
Ou Crescente – se eu anuncio –
Suas Faseseu freio
Ele reina altivo no Céu
Ou tateia, ao meu Comando
Por trás das Nuvens baixas – ou ronda
Um Pátio Enevoado –
Mas se ocupamos um Mesmo Disco
E enfrentamos um Mesmo Dia –
Quem é o Déspota, ninguém sabe –
Nem de Quem – a Tirania –
914
I cannot be ashamed
Because I cannot see
The love you offer –
Magnitude
Reverses Modesty
And I cannot be proud
Because a Height so high
Involves Alpine
Requirements
And services of Snow.
914
Eu não posso ter vergonha
Porque não posso ver
O amor que você oferece –
A Magnitude
Reveste a Modéstia
E não posso ter orgulho
Porque uma Altura tão alta
Envolve Alpina
Exigência
E serviços de Neve.
956
What shall I do when the Summer troubles –
What, when the Rose is ripe –
What, when the Eggs fly off in Music
From the Maple Keep?
What shall I do when the Skies a’chirrup
Drop a Tune on me –
When the Bee hangs all Noon in the Buttercup
What will become of me?
Oh, When the Squirrel fills his Pockets
And the Berries stare
How can I bear their jocund Faces
Thou from Here, so far?
’Twouldn’t afflict a Robin
All His Goods have Wings –
I – do not fly, so wherefore
My Perennial Things?
956
O que farei quando o Verão estorvar
O que, quando madurar a Rosa –
O que, quando os Ovos voarem em Música
Dos Prados de Bordo?
O que farei quando o Céu trinando
Pingar uma Toada em mim –
Quando a Abelha zumbir dia todo
O que será de mim?
Ah, quando o Esquilo encher os Bolsos
E os Frutos a olhar
Como suportar sua Face alegre
Mesmo não estando lá?
Isso não aflige o Sabiá –
Suas Asas são o Bastante –
Eu – não vôo – então pra que
Meu Desejo Incessante?
960
As plan for Noon and plan for Night
So differ Life and Death
In positive Prospective –
The Foot upon the Earth
At Distance, and Achievement, strains,
The Foot upon the Grave
Makes effort at conclusion
Assisted faint of Love.
960
Plano pro Dia, plano pra Noite
Assim diferem Vida e Morte
Por um ponto de vista –
O Pé na Sorte
Por outro, e após Feitos, um passo,
O Pé na Cova
Na difícil conclusão
De que o Amor não salva.
1028
’Twas my one Glory
Let it be
Remembered
I was owned of Thee –
1028
Foi minha única Glória
Deixe viver
Na Memória
Eu pertenci a Você –
1053
It was a quiet way –
He asked if I was his –
I made no answer of the Tongue
But answer of the Eyes –
And then He bore me on
Before this mortal noise
With swiftness, as of Chariots
And distance, as of Wheels.
This World did drop away
As Acres from the feet
Of one that leaneth from Balloon
Upon an Ether street.
The Gulf behind was not,
The Continents were new
Eternity it was before
Eternity was due
No Seasons were to us –
It was not Night nor Morn –
But Sunrise stopped upon the place
And fastened it in Dawn.
1053
Foi de um jeito quieto –
Perguntou se eu era dele –
Resposta da Língua não dei
Mas o Olhar respondeu –
Ele então se ligou a mim
Antes deste barulho mortal
Com rapidez, como de Carros
E distância, como de Rodas.
Este Mundo se afastou então
Como Acres dos pés
Daquele a subir num Balão
Sobre uma rua de Éter.
O Abismo atrás não existia,
Eram novos os Continentes –
Antes era a Eternidade
A Eternidade, conveniente.
Estações para nós não havia –
Não era Noite nem Manhã –
Mas o Sol Nascente ali parou
E apressou o Dia.
1063
Ashes denote that Fire was –
Revere the Grayest Pile
For the Departed Creature’s sake
That hovered there awhile –
Fire exists the first in light
And then consolidates
Only the Chemist can disclose
Into what Carbonates.
1063
Cinzas mostram que o Fogo foi
Respeite a Pira Escura
Por amor aos que se foram
E pairavam ali outrora –
O Fogo existe em Luz primeiro
E se consolida então
Só o Alquimista o revela
Depois da Combustão.
1088
Ended, ere it begun –
The Title was scarcely told
When the Preface perished from Consciousness
The Story, unrevealed –
Had it been mine, to print!
Had it been yours, to read !
That it was not Our privilege
The interdict of God –
1088
Terminado, antes de começar –
O Título mal foi dado
Quando o Prefácio se perdeu da Consciência
O Conto, não revelado –
Tivesse sido meu, para publicar!
Tivesse sido seu, para ler!
Não foi Nosso privilégio
O interdito de Deus –
1136
The Frost of Death was on the Pane –
“Secure your Flower” said he.
Like Sailors fighting with a Leak
We fought Mortality.
Our passive Flower we held to Sea
To Mountain – to the Sun
Yet even on his Scarlet shelf
To crawl the Frost begun –
We pried him back
Ourselves we wedged
Himself and her between,
Yet easy as the narrow Snake
He forked his way along
Till all her helpless beauty bent
And then our wrath begun
We hunted him to his Ravine
We chased him to his Den
We hated Death and hated Life
And nowhere was to go
Than Sea and continent there is
A larger – it is Woe –
1136
O Gelo da Morte na Vidraça –
Dizia – “Proteja sua Flor” –
Marujos combatendo a Enchente
Combatemos o Torpor.
Levamos ao Sol a frágil Flor –
Às Montanhas – ao Mar –
Contudo sua Face Escarlate
Veio o Gelo escalar –
Nós o afastamos
Fomos nós a cunha
Que entre os dois se impôs
Mas ligeiro como a Serpente esguia
Ele achou seu caminho entre nós
Até se dobrar a impotente beleza
E a nossa fúria então insurgiu
Perseguimos até o seu Antro
Caçamos até seu Covil –
Praguejamos a Morte – e a Vida
Não temos lugar, seja onde for –
Nem o Mar, nem a terra
São maiores – que a Dor –
1218
Let my first Knowing be of thee
With morning’s warming Light –
And my first Fearing, lest Unknowns
Engulf thee in the night
1218
Que o meu primeiro Saber seja teu
Com a matutina Luz quente –
E meu primeiro Medo, para que o Obscuro
Não te engula na noite
1229
Because He loves Her
We will pry and see if she is fair
What difference is on her Face
From Features others wear.
It will not harm her magic pace
That we so far behind
Her Distances propitiate
As Forests touch the Wind
Not hoping for his notice vast
But nearer to adore
’Tis Glory’s far sufficiency
That makes our trying poor.
1229
Porque Ele a ama
Descobriremos se é formosa
Qual diferença em sua Face
Das feições de outras moças.
Não lhe fere o passo mágico
Se a seguirmos um momento –
Distância dela manteremos
Como a Selva toca o Vento
Sem esperar que ele perceba
Mas mais perto de adorar
É a Glória que faz
Nossa tentativa fracassar.
1231
Somewhere upon the general Earth
Itself exist Today
The Magic passive but extant
That consecrated me –
Indifferent Seasons doubtless play
Where I for right to be –
Would pay each Atom that I am
But Immortality –
Reserving that but just to prove
Another Date of Thee –
Oh God of Width, do not for us
Curtail Eternity!
1231
Nalgum lugar desta Terra
De todos existe o Hoje –
Mágica passiva mas real
Que a mim consagrou –
Indiferentes, as Estações brincam
Onde eu por direito de estar –
Pagaria cada Átomo que sou
Mas não a Imortalidade –
Reservando-a, só para provar
Outra Data de Ti
Oh, Deus da Amplidão, por favor
Não nos negue a Eternidade!
1248
The incidents of love
Are more than its Events –
Investment’s best Expositor
Is the minute Per Cents –
1248
Os incidentes do amor
São mais que seus Eventos –
No Investimento o maior Valor
São os minutos Por Cento –
1307
That short – potential stir
That each can make but once –
That Bustle so illustrious
’Tis almost Consequence –
Is the éclat of Death –
Oh, thou unknown Renown
That not a Beggar would accept
Had he the power to spurn
1307
Um breve – potente tumulto
Só se causa uma vez cada –
Aquele ilustre Alvoroço
É quase um Resultado –
É a fama da Morte –
Celebridade invulgar
Nem um Pedinte aceitaria
Se ele pudesse recusar –
1314
When a Lover is a Beggar
Abject is his knee –
When a Lover is an Owner
Different is he –
What he begged is then the Beggar –
Oh Disparity –
Bread of Heaven resents bestowal
Like an obloquy –
1314
Quando o Amante é um Pedinte
Miserável é seu Joelho
Quando um Amante é o Dono
Diferente é ele
O que ele pede é então Pedinte –
Oh, Disparidade –
O Pão Celeste se ressente da doação
Como calamidade –
1334
How soft this Prison is
How sweet these sullen bars
No Despot but the King of Dawn
Invented this repose
Of Fate if this is All
Has he no added Realm
A Dungeon but a Kinsman is
Incarceration – Home
1334
Tão agradável a Prisão
Tão doce o Calabouço
Nenhum Déspota – só o Rei das Dunas
Inventaria este repouso
Se isso é Tudo, do Destino
Se outro Reino não há
A Masmorra é a Morada
O Cárcere – um Lar.
1383
Long Years apart – can make no
Breach a second cannot fill
The absence of the Witch does not
Invalidate the spell –
The embers of a Thousand Years
Uncovered by the Hand
That fondled them when they were Fire
Will stir and understand –
1383
Longos Anos longe – não causam fenda
Que não una um instante –
A ausência da Feiticeira
Não invalida o encanto –
As brasas de Mil Anos
Descobertas pela Mão
Que as afagaram quando Fogo
Vão se acender e entenderão –
1398
I have no Life but this
To lead it here –
Nor any Death – but lest
Dispelled from there –
Nor tie to Earths to come
Nor Action new –
Except through this extent
The Realm of you
1398
Não tenho outra Vida mas esta –
Para chegar aqui
Tampouco a Morte para que não
Dispersasse dali
Nem laços a Terras por vir –
Tampouco novos fascínios
Exceto até agora
O seu Domínio –
1445
Death is the supple Suitor
That wins at last –
It is a stealthy Wooing
Conduct first
By pallid innuendoes
And dim approach
But brave at last with Bugles
And a bisected Coach
It bears away in triumph
To troth unknown
And kindred as responsive
As Porcelain.
1445
A Morte é um Pretendente
Que vence no fim
Galanteador secreto
Primeiro atraído
Por insinuações pálidas
E insinuações obscuras
Mas bravo ao final com os Clarins
E um Coche para dois
Parte em triunfo
Para a Promessa anônima
Um Amante tão quente
Quanto Porcelana.
1449
I thought the Train would never come
How slow the whistle sang –
I don’t believe a peevish Bird
So whimpered for the Spring –
I taught my Heart a hundred times
Precisely what to say –
Provoking Lover, when you came
Its Treatise flew away
To hide my strategy too late
To wiser be too soon
For miseries so halcyon
The happiness atone –
1449
Pensei que o Trem nunca viria –
Tão lento o apito cantava –
Custo a crer que um Pássaro aflito
Pela Primavera assim se queixava –
Treinei mais de mil vezes
Pra dizer tudo de cor –
Mas quando chegou – Provocante Amor
Todo o Estudo foi embora.
Esconder a estratégia, tarde demais
Muito cedo, pra ser sábia –
Pois misérias tão bem-vindas
A felicidade expia –
1530
A Pang is more conspicuous in Spring
In contrast with the things that sing
Not Birds entirely – but Minds –
Minute Effulgencies and Winds –
When what they sung for is undone
Who cares about a Blue Bird’s Tune
Why, Ressurection had to wait
Till they had moved a Stone
1530
Uma Dor na Primavera é mais evidente
Em contraste com as coisas cantantes
Não pássaros somente – mas Mentes –
Fugazes Fulgores e Ventos –
Quando o que cantam é desfeito
Quem se importa com tais cantos –
Se a Ressurreição teve de esperar
Até que se movesse o Rochedo –
1619
Not knowing when the Dawn will come,
I open every Door,
Or has it Feathers, like a Bird,
Or Billows, like a Shore ––
1619
Sem saber quando vem o Dia,
Eu vigio cada Umbral,
Ou verei Plumas, como um Pássaro,
Ou Vagalhões, num Litoral
1716
Death is like the insect
Menacing the tree,
Competent to kill it,
But decoyed may be.
Bait it with the balsam,
Seek it with the saw,
Baffle, if it cost you
Everything you are.
Then, if it have burrowed
Out of reach of skill –
Wring the tree and leave it,
’Tis the vermin’s will.
1716
A Morte é como o Inseto
Que ameaça a árvore,
Capaz de matá-la,
Mas pode ser enganado.
Atraia com o bálsamo,
Procure com a serra,
Iluda, mesmo que custe
Tudo o que você era.
Mas, se o Verme entranhar
Inútil toda habilidade –
É melhor deixar a árvore,
Pois venceu Sua vontade.
1775
The earth has many keys.
Where melody is not
Is the unknown peninsula.
Beauty is nature’s fact.
But witness for her land,
And witness for her sea,
The cricket is her utmost
Of elegy to me.
1775
O mundo tem muitas chaves.
Onde não está a melodia
Está a ilha desconhecida.
A Beleza é um fato da vida.
Mas ateste a sua terra,
Venha seu mar assistir,
O grilo é sua máxima
Elegia para mim.
Lista de poemas
Em ordem de aparecimento, e crescente, de acordo com a numeração da edição de T. H.
Johnson, The complete poems of Emily Dickinson.
28- So has a Daisy vanished
Então se foi a Margarida
106- The Daisy follows soft the Sun –
A Margarida segue suave o Sol
114- Good night, because we must
Boa noite, porque devemos
136- Have you got a Brook in your little heart
Você tem um Riacho no peito
145- This heart that broke so long –
O coração há muito partido –
153- Dust is the only Secret
O Pó único Segredo
177- Ah, Necromancy Sweet!
Ah, Doce Necromancia!
180 - As if some little Arctic flower
Como se uma pequena flor do Ártico
184- A transport one cannot contain
Um transporte que não se contém
190- He was weak, and I was strong – then
Ele era fraco, e eu forte – então –
199- I’m “wife” – I’ve finished that –
Sou “esposa” – está acabado –
244- It is easy to work when the soul is at play –
É bom trabalhar quando a alma brinca
246- Forever at His side to walk –
Sempre a Seu lado andar –
253- You see I cannot seeyour lifetime –
Você vê que não posso ver sua existência –
256- If I’m lostnow
Se estou perdida – agora
273- He put the Belt around my Life –
Ele colocou o Cinto em minha vida
284- The Drop, that wrestles in the Sea –
A Gota, querendo o Mar –
368- How sick – to wait – in any place – but thine –
Que aflição – esperar – em um lugar – que não o teu –
434- To love thee Year by Year
Amar-te Ano após Ano
438- Forget! The lady with the Amulet
Esqueça! A mulher com o Amuleto
463- I live with Him – I see His face –
Vivo com Ele – vejo Seu rosto –
464- The power to be true to You
O poder de ser fiel a Você
498- I envy Seas whereon He rides –
Invejo os Mares onde Ele navega
508- I’m ceded – I’ve stopped being Theirs –
Fui transferida – deixei de ser Deles –
521- Endow the Living – with the Tears –
Dotassem os vivos – com as lágrimas –
523- Sweet – You forgot – but I remembered
Amor – você esqueceu – mas eu lembrei
524- Departed to the Judgement –
Embora – ao Julgamento –
528- Mine – by the Right of the White Election!
Meu – por Direito da Eleição Branca!
530- You cannot put a Fire out –
Não se pode expulsar o Fogo
568- We learned the Whole of Love
Aprendemos todo o Amor –
570- I could die – to know –
Eu morreria – pra saber –
571- Must be a Woe –
Deve ser um Pesar –
620- It makes no difference abroad
Não faz diferença lá fora
638- To my small Hearth His Fire came –
Ao meu pequeno Coração seu fogo veio –
644- You left me – Sire – two Legacies –
Deixou-me – Paidois Legados
654- A long – long Sleep – A famous – Sleep
Um longo famoso – Sono
664- Of all the Souls that stand create –
De todas as Almas existentes
729- Alter! When the Hills do
Mudar! Se o fizer a Montanha –
738- You said that I “was Great” – one Day
Você disse que eu era “Grande” – um Dia –
740- You taught me Waiting with Myself –
Você me ensinou a Espera –
751- My Worthiness is all my Doubt –
Meu Mérito é toda a minha Dúvida –
775- If Blame be my side – forfeit Me –
Se a Culpa está comigo Perde-me
780- The Truth – is stirless –
A Verdade – não se mexe
877- Each Scar I’ll keep for Him
Cada Cicatriz guardada pra Ele
887- We outgrow love, like other things
Superamos o amor, como outras coisas
907- Till Death – is narrow Loving –
Até a Morte – o Amor é curto –
909- I make His Crescent fill or lack –
Faço seu Quarto crescer ou minguar –
914- I cannot be ashamed
Eu não posso ter vergonha
956- What shall I do when the Summer troubles –
O que farei quando o Verão estorvar
960- As plan for Noon and plan for Night
Plano pro Dia, plano pra Noite
1028- ’Twas my one Glory –
Foi minha única Glória
1053- It was a quiet way
Foi de um jeito quieto –
1063- Ashes denote that Fire was –
Cinzas mostram que o Fogo foi
1088- Ended, ere it begun
Terminado, antes de começar –
1136- The Frost of Death was on the Pane
O Gelo da Morte na Vidraça –
1218- Let my first knowledge be of thee
Que o meu primeiro Saber seja teu
1229- Because He loves Her
Porque Ele a ama
1231- Somewhere upon the general Earth
Nalgum lugar desta Terra
1248- The incidents of love
Os incidentes do amor
1307- That short – potential stir
Um breve – potente tumulto
1314- When a Lover is a Beggar
Quando o Amante é um Pedinte
1334- How soft this Prison is
Tão agradável a Prisão
1383- Long Years apart – can make no
Longos Anos longe – não causam fenda
1398- I have no Life but this –
Não tenho outra Vida mas esta –
1445- Death is the supple Suitor
A Morte é um Pretendente
1449- I thought the Train would never come
Pensei que o Trem nunca viria –
1530- A Pang is more conspicuous in Spring
Uma Dor na Primavera é mais evidente
1619- Not knowing when the Dawn will come
Sem saber quando vem o Dia
1716- Death is like the insect
A Morte é como o Inseto
1775- The earth has many keys
O mundo tem muitas chaves
Fascículo 7
CARTA-RESPOSTA OU DO MÉTODO
para Ivan
Não há senão poema, antes de toda a poiese.
Jacques Derrida
Belo Horizonte, 11 de julho de 2008. Quase um século e meio após a primeira carta
de Emily a Higginson, perguntando se seus versos tinham vida, se “respiravam”, eis aqui
uma tentativa de responder sua pergunta, e de responder à sua obra devolvendo-lhe em
outra língua seu sopro de vida. Mesmo após tantos anos, tantos estudos, tantas traduções,
teria mesmo este trabalho uma razão de existir? Para mim, a quem o chamado de sua escrita
se deu desde o início através de uma incumbência de tradução – de uma tarefa –, sim.
A mulher que, ao morrer, em 1886, deixou sua carta ao mundo nas gavetas de seu
quarto, na pequena e puritana Amherst de então, pedia pede uma forma de ler. Uma
forma que aquela escrita não encontrara em sua época – essa escrita que, ainda hoje, suscita
mais comentários que leituras. Pois mesmo após ser finalmente publicada de acordo com os
manuscritos originais, o que se deu apenas em 1955, no caso dos poemas, e, três anos
depois, no caso das cartas, “ninguém estava interessado em saber o que de facto ela
escrevera nos famosos bilhetinhos!”
150
Quem faz esse comentário é o escritor português
Augusto Joaquim, que prefacia o livro Bilhetinhos com poemas, uma coletânea de cartas de
Emily endereçadas tanto a seu preceptor Higginson quanto a amigos e familiares, e que
invariavelmente incluíam versos, traduzidas por Ana Fontes. Nesse texto, Augusto Joaquim
se refere a Dickinson como uma figura na obra da escritora portuguesa Maria Gabriela
Llansol.
151
Sabemos que, na realidade, Llansol e Ana Fontes são a mesma, não passando
esta última de um pseudônimo, na única vez em que a escritora e tradutora o usou. Pois
150
JOAQUIM. Como comam as cidades, p.8.
151
A respeito da não de “figura” na obra de Maria Gabriela Llansol, ver “Gênese e significado das figuras”
em LLANSOL. Um falcão no punho, p.130: “[...] identifiquei progressivamente ‘nós construtivos’ do texto a
que chamo figuras e que, na realidade, não são necessariamente pessoas, mas módulos, contornos,
delineamentos. Uma pessoa que historicamente existiu pode ser uma figura, ao mesmo título que uma frase
(“este é o jardim que o pensamento permite”), um animal ou uma quimera. O que mais tarde chamei cenas
fulgor.”
bem, Augusto quer dizer, assim como Blanchot, que a publicação de uma obra não é
garantia de que ela será lida, pois que “o que é público não tem precisamente necessidade
de ser lido; é sempre conhecido, antecipadamente, de um conhecimento que sabe tudo e
não quer saber nada.”
152
De que leitura é essa que se fala, então? Que leitura seria desejada
para uma escrita?
Maria Gabriela Llansol desenvolve, em sua obra, a noção de legente para distinguir
uma postura do leitor que seria agente, participante no processo de leitura, em oposição ao
mero espectador, o curioso público de que fala Blanchot. Ela própria às voltas com o
dilema da tradução, em prefácio à sua versão portuguesa Últimos poemas de amor, de Paul
Éluard, diz de seu modo de pensar este trabalho que, a seu ver, é de acessar a poesia oculta
no poema, mantendo-o unido na tradução:
__________________ digo, às vezes, a mim mesma que os poetas não podem ser
traduzidos, mas procuro que não seja verdade, procuro é a palavra. O que está escrito a
forma, o ritmo, a textura não é a poesia; o que se oculta na sua realidade é a sua
realidade essa; sem dúvida, o acesso a esse material oculto não é evidente, mas não
faz desesperar; faz apenas esperar; admito muito mais voltar a traduzir os poetas que
traduzi, do que rescrever qualquer dos meus textos; voltar a traduzir o traduzido é saber que
nesse sentido de forma aberta se pode atingir e dar estatura definitiva a qualquer poema
em si; se ele se mantiver unido, através de tentativas de tradução diversas, estou em face de
poesia sem impostura; se se esvai, se se torna impreciso, é porque não havia sentido a
conviver com as palavras, e a poesia, inexistente ou incompleta, na sua aparência,
finalmente fugiu. O poema não soube, então, responder à única procura da poesia: se
posvel olhar sem cindir?
153
Esse olhar sem cindir, que é um olhar não-analítico, no sentido de não pretender
definir, explicar e levar assim o poema à dissolução da poesia em seu processo de tradução
é um desejo de conseguir aprenderapreender, não deixando escapar – a poesia de cor – de
coração –, não perguntando “o que é?”. “O que é...? chora a desaparição do poema uma
outra catástrofe. Ao anunciar o que é tal como é, uma pergunta saúda o nascimento da
prosa.”
154
Derrida fala do intocável da poesia usando a imagem do ouriço,
155
animal que,
152
BLANCHOT. O livro por vir, p.258.
153
LLANSOL. O curso natural, p.13.
154
DERRIDA. Che cos’è la poesia?, p.10.
155
Fridedrich Schlegel utilizara a imagem do ouriço para fazer uma analogia com o fragmento, a qual é
retomada por João Barrento quando este pondera que esse fechar-se em si, no caso do fragmento, não
significa a constituição de um microcosmo autônomo, mas também uma relação com o exterior (Blanchot),
através da qual o fragmento se afirma em uma identidade constituída ao mesmo tempo pelo que ele é e pelo
que ele não é (Garrigues). O que não deixa de estar em consonância com a relação que faz Derrida da referida
imagem com a poesia, como vemos aqui. Ver BARRENTO. O que resta sem resto – sobre o fragmento, p.13-14.
enrolado em bola, é ao mesmo tempo corpo e coração. “O poema pode enrolar-se em bola,
mas fá-lo ainda para voltar os seus signos agudos para fora. Ele pode, sem dúvida, reflectir
a ngua ou dizer a poesia mas nunca se refere a si mesmo”.
156
Corpo-coração, rodeado de
espinhos, o poema-ouriço não permite o entendimento pela análise cirúrgica. Por isso: “eu
sou um ditado, profere a poesia, aprende-me de cor, recopia-me, vela-me e guarda-me”.
Enrolado em bola, mas eriçado de espinhos, o poema está fechado e exposto ao mesmo
tempo. “A poesia já não se impõe, expõe-se.”
157
Se o intocável ou poético –, aquilo que faz da tradução algo mais que mera
comunicação
158
está ali, à vista, é do “verdadeiro tradutor”
159
o olhar sem cindir, o olhar que
vela e guarda, de cor, e que assim poderá preservar esse intocável da poesia, “re-copiá-lo”,
na tradução. Derrida chama atenção ao fato de que, em “A tarefa do tradutor”,
Benjamin não fala da tarefa ou do problema da tradão. Ele nomeia o sujeito da tradução
como sujeito endividado, obrigado por um dever, em situação de herdeiro, inscrito como
sobrevivente dentro de uma genealogia, como sobrevivente ou agente de sobrevida. A
sobrevida das obras, não dos autores. Talvez a sobrevida de nomes de autores e das
assinaturas, mas não dos autores. Tal sobrevida dá um pouco mais de vida, mais que uma
sobrevivência. A obra não vive apenas mais tempo, ela vive mais e melhor, acima dos
meios de seu autor.
160
Para fazer a obra de Emily respirar hoje, dar-lhe a vida que ela pede e não pôde
alcançar em sua época – que é o que em geral acontece às obras importantes –
161
e
concordando que “traduzir é a maneira mais atenta de ler,”
162
desde o começo pensei na
tradução como uma forma de legência, e no tradutor como aquele leitor-agente que vai
atuar sobre o texto original libertando a linguagem pura cativa na obra e conferindo-lhe a
sobrevida, a pervivência de que fala Benjamin.
163
A partir daí, era preciso começar. Mas como começar a traduzir Emily Dickinson?
Muito tem se falado sobre métodos de tradução, mas acreditei, com João Barrento, que era
preciso encontrar um método próprio, e “de preferência mais próprio do outro do que de
156
DERRIDA. Che cos’è la poesia?, p.10.
157
CELAN. Arte poética, p.9.
158
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.xiii.
159
Cf. BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.xiii.
160
DERRIDA. Torres de Babel, p.33.
161
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.vii.
162
CARVALHAL. O próprio e o alheio, p.221.
163
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p. vii.
mim.”
164
Na verdade, desde o início eu parecia me defrontar com a ambivalência trazida
pela questão do método, no que se referia ao trabalho com a literatura e sobretudo ao
trabalho da tradução.
O perigo do Método (de uma fixação ao Método) vem do seguinte: o trabalho da pesquisa
deve atender a duas demandas; a primeira é uma demanda de responsabilidade: é necessário
que o trabalho aumente a lucidez, chegue a desmascarar as implicações de um
procedimento, os álibis de uma linguagem, constitua afinal uma crítica (lembremos mais
uma vez que criticar quer dizer: pôr em crise); o Método é aqui inevitável, insubstituível,
não pelos seus “resultados”, mas precisamente ou pelo contrário porque realiza o mais
alto grau de consciência de uma linguagem que não esquece a si mesma; mas a segunda
demanda é de ordem muito diversa: é da ordem da escritura, espaço de dispersão do desejo,
onde dispensa é dada à Lei; é preciso, então, em dado momento, voltar-se contra o Método,
ou pelo menos tratá-lo sem privilégio fundador, como uma das vozes do plural: como uma
vista, em suma, um espetáculo, encaixado no texto; o texto que é, afinal de contas, o único
resultado “verdadeiro de qualquer pesquisa.
165
Assim, voltei-me ao texto. Uma vez tendo definido que trabalharia com as edições –
tanto a de poemas quanto a de cartas de T. H. Johnson, por ter sido este o primeiro e
único a organizar os escritos de Emily de forma cronológica e mantendo a grafia e a
pontuação (para mim, uma forma mais neutra), lancei-me ao volume de 1775 poemas
esperando encontrar uma chave de ler. Por algum tempo, não pude começar. Então, por
ter traduzido alguns poemas que traziam a questão da glória, da fama, da publicação, e tê-
los encontrado através do índice remissivo de Johnson, decidi seguir nesta busca pela
palavra, que não conseguia, por mim mesma, escolher que poemas traduzir. E foi assim
que fui atrás da palavra amor. E então morte, beleza, Letter esta com todas as suas
nuances de carta, letra, escrita e ainda outras palavras, que compuseram as questões em
torno das quais afinal se organizou este trabalho.
Após um certo volume de poemas traduzidos, e que começavam a se agrupar,
percebi que, mesmo tendo a oportunidade de consultar edições que organizam a obra de
Emily em temas, meu trabalho se constituía em torno da palavra. Não tinha a pretensão de
definir ou explicar os poemas, categorizando-os em “assuntos”, mas tinha o chamado da
palavra. E entendi que isso era uma forma de leitura, que era esse o meu trabalho, e que
tinha tudo a ver com o método de tradução que aquela escrita exigia: o método literal, da
letter – letra e carta.
164
BARRENTO. O poço de Babel, p.97.
165
BARTHES. O rumor da língua, p.396-397.
Em sua leitura do ensaio “A tarefa do tradutor”, de Walter Benjamin, Derrida nos
diz da teoria do nome como uma de suas bases profundas – a narrativa de Babel como mito
da origem do próprio mito sobre a origem das línguas e da tradução. Babel, nome próprio e
comum a um tempo o nome pronunciável de Deus e o que se traduz por confusão
vem instaurar uma luta pela apropriação do nome, que é “a origem da confusão das línguas,
a multiplicidade dos idiomas, a tarefa necessária e impossível da tradução, sua necessidade
como impossibilidade.”
166
Segundo Derrida, é a partir dessa questão do nome, segundo a
qual “a tradução torna-se a lei, o dever e a dívida, mas vida que não se pode mais
quitar,”
167
que Benjamin demonstra que o elemento originário do tradutor’ é a palavra e
não a proposição, a articulação sintática,” propondo a imagem do muro e da arcada:
Ao passo que o muro escora escondendo (ele está diante do original), a arcada sustenta
deixando passar o dia e dando a ver o original [...]. Esse privilégio da palavra sustenta
evidentemente aquele do nome e com ele a propriedade do nome próprio, ganhos e perdas e
possibilidade do contrato de tradução.
168
Na poesia de Dickinson, ou em toda poesia, cada palavra é um nome próprio. “Sua
filosofia particular lhe ensinou cedo que Tudo está em Tudo: não gradações. Da mesma
forma, nada é inferior ou comum,
169
o que talvez explique inclusive a questão das capital
letters, que tanto embaraçam os editores e tradutores. Desde o começo eu sentira isto: não
havia diferença quase entre nome próprio e comum, e então a confusão: nunca se conseguiu
extrair uma lógica no seu uso da letra maiúscula, e por isso reitero sempre minha
preferência em mantê-la, em sua estranheza original.
E foi assim que, letra por letra, palavra por palavra e traço por traço também eu
estive às voltas com o “problema econômico” da tradução, que é a economia como lei e
como relação quantitativa: “traduzir é transpor um nome próprio em várias palavras, em
uma frase ou em uma descrição?” – questiona Derrida.
170
Não, e é isso o que fará o tradutor
perseguir uma literalidade que é uma fidelidade à letra, não ao sentido que, por sua vez,
dar-se-á “pela forma como o significado se une ao modo de significar a palavra em
166
DERRIDA. Torres de Babel, p.21.
167
DERRIDA. Torres de Babel, p.25.
168
DERRIDA. Torres de Babel, p. 45-6.
169
DICKINSON. Collected poems, p.viii. São as palavras de sua sobrinha Martha Dickinson Bianchi: “Her own
philosophy had early taught her that All was in All: there were no degrees in anything. Accordingly nothing
was mean or trivial (…).” Tradão minha. O poema 284 (v. fascículo “Outros poemas”) é um em que se
pode ver a expressão de tal idéia.
170
DERRIDA. Torres de Babel, p.46.
questão.”
171
“Num único algarismo, o poema (aprendê-lo de cor) sela juntamente o sentido
e a letra, como um ritmo espaçando o tempo.
172
A palavra, a letra, a carta. Jacques Lacan, em um momento da construção do
conceito de letra em sua obra, propõe uma leitura do conto “A carta roubada”, de Edgar
Allan Poe. A partir do trocadilho de James Joyce, a letter, a litter (uma carta, um lixo),
Lacan também evoca o duplo sentido do francês lettre (letra, carta) para, a propósito da
carta que “desaparece”, atentar para a materialidade da letra, da carta.
173
A obra de Emily,
como carta que é, não é apenas portadora de mensagens – lembremos, etimologicamente, o
latim charta, papel. Como objeto, como legado, antecipa sua vocação para o porvir. Ao
mesmo tempo, e como todo texto literário, constitui-se como “carta para nada”,
174
que
não há um sentido a ser comunicado.
No fundamental, um texto literário não tem destinatário. O seu apelo ao interlocutor dá-se
no abandono dos territórios do humano em direcção a um aquém, interminavelmente
aquém, da imposição de significações. É na resistência à quase-necessidade desta
imposição, e portanto à socialidade que a sustenta, que o literário se afirma como abertura
de sentido. Não sendo por isso um destinatário, o interlocutor é aquele que recebe a garrafa
atirada ao mar com a menção “sem retorno”.
175
Emily Dickinson institui um destinatário, para destituí-lo. E é justamente quando o
faz, quando assume correspondência com quem jamais poderá correspondê-la, quando
renuncia ao desejo de ser lida, é que ela escreve. Pois parece entender, como Barthes, que
Saber que não se escreve para o outro, saber que as coisas que vou escrever não me farão
nunca amado por aquele que amo, saber que a escritura não compensa nada, não sublima
nada, que ela está precisamente aí onde vocêo está é o começo da escritura.
176
Sabendo que não se escreve para o outro, é através da correspondência com aquele
que não a que a escritora lança sua obra ao mar – esta é minha carta ao mundo.
Letter: a letra, a carta. Daí derivou meu trabalho de tradução. O método-carta. O
método do dicionário, da palavra. Do fragmento. Da letra. Foi assim que meu trabalho se
constituiu também como carta, e como resposta suscitada por essa obra de Emily, portadora
mesma da menção sem retorno”, pois que não pretensão de retorno à origem.
171
BENJAMIN. A tarefa do tradutor, p.xvii.
172
DERRIDA. Che cos’è la poesia?, p.8-9.
173
Cf. Lacan. Escritos, p.17-67.
174
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.138.
175
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.139-140.
176
BARTHES. Fragmentos de um discurso amoroso, p.93.
Exatamente por saber que esse círculo não se fecha, mas, ao contrário, por esperar que ele
se abra, é que esta carta-resposta encerra meu trabalho escrito e abre esta apresentação
pois, na verdade, ele poderia ser uma introdução ou uma conclusão. Quanto aos outros
fascículos (chamei-os assim, como a ir de Emily aos caderninhos costurados pela
própria escritora, evocando a idéia dos fragmentos, de certa forma independentes, mas
partes de uma obra maior), vieram cada um a seu tempo.
Primeiro, escrevi “A procura da palavra”, que desde o início dava título ao trabalho,
e que fala do porque e como traduzir Emily Dickinson hoje. Foi minha justificativa, para
ingressar com tal projeto de tese que pretendia extrair da própria poética de Dickinson
uma poética de tradução. A esse texto, juntaram-se, logo mais, traduções de poemas que
falam principalmente da poesia, da palavra, da arte de compor, extraídos do volume de
traduções que vinha se formando.
Em seguida, precisava me haver com a questão da publicação, precisava ratificar,
para mim mesma, a validade de um trabalho como o que eu me propunha: como e por que
trazer ao público uma escritora que se recusou a publicar mas que editou e costurou seus
próprios caderninhos? Este, então, foi o primeiro texto que surgiu como um fascículo, e
que ditou a forma de toda a tese. Nele, eu me fiz apresentar tornar pública justamente
uma seleção de poemas e suas traduções que falavam da questão da fama, do sucesso,
da publicação, inspirada no texto de Blanchot “O poder e a glória”, d’O livro por vir.
Admitindo que “a literatura começa no momento em que a literatura se torna uma
questão”,
177
era preciso, como disse, ater-me a esta que é uma questão também para Emily
Dickinson – e que atravessa sua obra – antes de prosseguir.
Outra questão a questão das cartas na obra de Emily Dickinson, e de sua obra
como carta – desde o início esteve colocada para mim como crucial no modo como
recebemos essa obra e no modo como a iremos ler, traduzir. Esta é minha carta ao mundo”
se constituiu então como um fascículo de apresentação da escritora através de um pouco de
sua correspondência, e de sua obra a partir de sua primeira carta a Higginson, o interlocutor
que, desaconselhando a escritora a publicar, interpõe-se entre ela e o público destinatário
por ela escolhido e por ela destituído, sendo prova disso sua própria obra, que, apesar e,
ainda assim, por causa – dessa interlocução, escreveu-se e inscreveu-se na literatura. Pensei
177
BLANCHOT. A parte do fogo, p.291.
então que esse fascículo era o que apresentava essa escrita segundo a qual eu pretendia
traduzir, com aquela carta inicial que era mesmo a palavra começante
178
uma abertura da
obra para o mundo , e o coloquei na frente dos outros dois.
A esse ponto, tinha um número considerável de poemas traduzidos eu os vinha
traduzindo paralelamente – e era hora de me confrontar com os outros tradutores de
Dickinson para o português. Não os lera antes, em sua maioria ao menos os poemas que
eu iria traduzir para que pudesse achar a minha palavra, uma palavra que eu pudesse
tornar de Emily. De Manuel Bandeira, o primeiro, até os dias de hoje, tomei os que pude
alcançar e creio que o suficiente para pensar de que modo Emily vem sendo traduzida
desde a década de 1940. Notei que os tradutores têm tido quase uma “obsessão” em
quantificar suas traduções de Dickinson, nomeando-as 50 poemas, Uma centena de
poemas, 75 poemas, “8 poemas”, “5 poemas” (vários deles!) e mesmo “Cinco e meio”
(caso à parte, em que a tradutora, Ana Cristina sar, demonstra consciência do fato ao
comentar que 5 parece ser o “número mágico” dos tradutores de Emily, num misto de
honestidade e ironia com seu ½”). E não escapa nem aquele que publica Alguns poemas
(José Lira, em 2006), ao lançar suas 245 traduções apresentadas como o maior volume
bilíngüe da escritora até agora. Confirmei, ainda, que os poemas traduzidos freqüentemente
coincidem, como adiantara em “A procura da palavra”, e procurei fazer uma seleção que
desse ao leitor oportunidade de cotejamento. “A rima e a vida” se constituiu, então, no
fascículo central, em que eu tento expor um pouco o ritmo, o sopro, a vida que tentei dar
aos poemas de Emily através da tradução.
A partir daí, restava organizar o corpo maior de traduções. Nele, voltei à palavra
amor, a primeira a me guiar. Queria trazer junto a morte. Mas não me satisfazia mais uma
organização que lembrasse as primeiras edições de Emily em torno dos temas Life, Nature,
Love, Time and Eternity
179
não fora esse o meu caminho. Se “Tudo está em Tudo”, como
ela mesma nos disse, procurei, como Llansol, “olhar sem cindir”, e amorte assim mesmo,
junto tornou-se então a palavra a nomear esse fascículo. Com esse nome em mente,
178
Cf. BLANCHOT. A besta de Lascaux, p.18. Toda palavra começante, ainda que seja o movimento mais
doce e mais secreto é, porque ela nos ultrapassa infinitamente, aquela que agita e que exige mais: tal como o
mais doce nascer do sol em que se declara toda a violência de uma primeira claridade, e tal como a palavra
oracular que não diz nada, que não obriga a nada, que até mesmo nem fala, mas faz desse silêncio o dedo
imperiosamente fixado na direção do desconhecido.”
179
Cf. DICKINSON. Collected poems, originalmente publicado em 1924 como The complete poems of Emily
Dickinson.
primeiro reli os poemas, selecionando aqueles que me pareciam dever entrar. Vi que ali, no
amor e na morte sob os signos da impossibilidade e do arrebatamento condensam-se
todos os “temas de Emily unidos pela beleza e pela verdade palavras de ordem que
formam uma só – não sem a dor. Era o que me ditavam aqueles poemas, cujo agrupamento
falava por si mesmo o que quase me paralisou na tentativa de escrita de um texto que o
precedesse. Este, acabou se constituindo em verbetes, aos quais ajuntei a figura da carta e
um pensamento da poesia e da tradução. As várias figuras autores, personagens, textos,
imagens que esses poemas evocavam me levaram a convocar essas vozes mesmas, na
consciência de que eu não poderia falar sobre. Foi que vi que naquele fascículo se
elevaria ao ponto máximo a condensação já desde a radicalidade do seu nome –, a
manifestação mesma do método fragmentário, enciclopédico, de toda a tese. Foi assim que
terminei por escrever explicitamente à maneira de Fragmentos de um discurso amoroso
para além da exigência, uma homenagem àquele que nos trouxe a afirmação de um
discurso numa escrita sem impostura, e que sempre nos ensinou o prazer dos começos pelos
fragmentos. Da mesma forma, os próprios fascículos em que este trabalho se apresenta são,
também, uma homenagem àquela que costurou seus fragmentos, na afirmação de sua obra.
“Outros poemas” reúne o que restou do volume inicial de traduções de onde,
afinal, foram extraídos os outros fascículos – menos o que não deveu caber neste trabalho
abdiquei de várias traduções, por ora –, quando vi que minha contribuição para a obra de
Emily não seria a quantidade de poemas traduzidos, mas sim uma forma de traduzir e de
apresentá-los. Não se deve, portanto, entender este outros dentro de uma hierarquia; ao
contrário, toda a tese nasce desses “outros poemas”, que eram tudo o que existia no
começo, e que não quer dizer nada mais do que diz: outros poemas, outras traduções, outra
leitura dentro do tanto já feito em relação à obra de Emily Dickinson.
Toda essa forma, que se anunciava em meu projeto como um modo de fazer
extraído do fazer poético de Emily – uma “poética da tradução” – revelou-se aos poucos, ao
longo da leitura e do trabalho de tradução, apresentação e edição. Essa poética da tradução
para Emily Dickinson de fato se revelou e se cumpriu, mas de uma forma que eu não
poderia anunciar, porque seguiu mesmo um método “muito mais próprio do outro do que
de mim,” e que eu só conheceria de fato ao realizar aquela tarefa.
O poeta e tradutor Raimundo Carvalho, ao falar de seu processo de tradução das
Bucólicas, admite que não são as intenções, mas os resultados, o que deve ser considerado
numa tradução, acrescentando que não tem a descabida pretensão de oferecer uma “receita
de tradução poética” mas tão-somente relatar como deu conta “bem ou mal, os leitores
dirão” – de sua tarefa.
Quem tem freqüentado a imensa bibliografia sobre tradução sabe que nem sempre a prática
está à altura das formulações teóricas. Creio mesmo que as melhores teorias são aquelas
resultantes do embate direto que se efetivamente no trabalho de tradução. E mesmo
assim, essas formulações só podem iluminar retroativamente o caminho. Cada tradão é
uma aventura particular e única, o que não nos impede de formular um esboço de caminho
que possa ser trilhado por quem queira se aventurar nessa atividade.
180
Ou, nas palavras de Meschonnic, “as obras nos ensinam a ler.”
181
E foi assim que, ao final, não quis apresentar meu trabalho com o título inicial A
procura da palavra: por uma poética da tradução em Emily Dickinson. Não queria parecer
propor algo novo, inaugural, e supostamente a ser seguido, e tive medo dessa conotação,
apesar de esse título conter a idéia de que de dentro da obra, e de cada obra – por isso
em Emily Dickinson podemos extrair uma poética. O título que sobreveio, porém, diz o
mesmo de forma mais simples, talvez mais concreta: 117 e outros poemas: à procura da
palavra de Emily Dickinson pareceu dar a dimensão exata do que eu fizera ali – a dimensão
do pequeno, do fragmentário, do inacabado. Exprimia uma despretensiosa verdade: os
poemas prevaleceram à poética. O próprio número, não exato, remete à pobreza – à falta de
recursos do trabalho de tradução de escrita que procura, com seus trocados, acessar a
Obra, alcançar a Palavra, tocar a pura língua. A quantidade, não totalizante, longe de
arredondar o trabalho da tradução o abre como a própria obra de Emily se abriu para o
mundo: não publicada em vida, e com milhares de escritos entre cartas e poemas e que
muitas vezes se confundem jamais teremos sua “obra completa”, e 1775 poemas não
passam de uma ficção.
180
CARVALHO. Traduzindo as Bucólicas: uma poética em ação, p.65.
181
MESCHONNIC, La rime et la vie, p.32.
Gostaria e tentei, inicialmente, que cada um destes fascículos fossem independentes.
Ainda acho que de certa forma o são, apesar da necessidade de apresentá-los sob uma
ordem, em que eles naturalmente se assentaram e assim dialogam, confirmando a idéia de
que o fragmento nunca vem só, mas vive e morre na relação com os outros,
182
constituindo-
se como a “forma mais suportável da incompletude”.
183
Este último, que, mais
visivelmente, termina começando como muitas vezes os guias das enciclopédias tentou
não mais que explicitar, de forma honesta, um modo de traduzir de ler em resposta a
uma escrita. A simples verdade de como tomei um trabalho. Esta tarefa, que se abre hoje
aqui, abre-se como a própria carta ao mundo de Emily, como a garrafa lançada ao mar, sem
retorno que não ao próprio exterior.
REFERÊNCIAS
BARRENTO, João. O poço de Babel. Para uma poética da tradução literária. Lisboa:
Antropos; Relógio d’Água, 2002.
BARRENTO. O que resta sem resto sobre o fragmento. In: NOVALIS. Fragmentos são
sementes. Lisboa: Roma Editora, 2006. p.9-19.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves,
1985.
BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p.385-411:
Escritores, intelectuais, professores.
BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor. ed. (rev.). Rio de Janeiro, Instituto de
Letras/UERJ, s.d., p.v-xii (Cadernos do Mestrado) (trad. Karlheinz Bark e equipe).
BLANCHOT, Maurice. A besta de Lascaux. Tradução inédita de Márcio V. Barbosa, a partir
de BLANCHOT, Maurice. La bête de Lascaux. Paris: Fata Morgana, 1972.
BLANCHOT, Maurice. O livro por vir. Lisboa: Relógio d’Água, 1984.
CARVALHAL, Tânia Franco. O próprio e o alheio. Ensaios de literatura comparada. São
Leopoldo: Unisinos, 2003.
CARVALHO. Traduzindo as Bucólicas: uma poética em ação. In: SOUZA, Marcelo Paiva de;
CARVALHO, Raimundo; SALGUEIRO, Wilberth (Orgs.). Sob o signo de Babel. p.65-68.
CELAN, Paul. Arte poética. Lisboa: Cotovia, 1996.
DERRIDA, Jacques. Torres de Babel. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia? Coimbra: Angelus Novus, 2003.
182
BARRENTO. O que resta sem resto – sobre o fragmento, p.10.
183
NOVALIS citado por BARRENTO. O que resta sem resto – sobre o fragmento, p.17.
DICKINSON, Emily. Collected poems. New York: Barnes&Noble Books, 1993. p.v-ix:
Introduction.
JOAQUIM, Augusto. Como começam as cidades. Prefácio a DICKINSON, Emily. Bilhetinhos
com poemas. Trad. Ana Fontes. Colares: Colares Editora, 1995. p.5-32.
LACAN, Jacques. Escritos. São Paulo: Perspectiva, 1978. p.17-67: Seminário sobre “A carta
roubada”; p.223-259: A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud.
LACAN, Jacques. Le séminaire. Livre VII. L’éthique de la psychanalyse. Paris: Seuil, 1986.
LLANSOL, Maria Gabriela. Um falcão no punho. 2ª ed. Lisboa: Relógio d’Água, 1988.
LLANSOL, Maria Gabriela. O curso natural. Prefácio a ÉLUARD, Paul. Últimos poemas de
amor. Lisboa: Relógio d’Água, 2002. p.13-22.
LOPES, Silvina Rodrigues. Literatura, defesa do atrito. Lisboa: Vendaval, 2003.
MESCHONNIC, Henri. La rime et la vie, Lagrasse: Verdier, 1989.
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo