que “esta jóia de poema tem infelizmente uma pequena jaça”
129
– ela questiona o verso “If
bees are few” pelo fato de o primeiro verso dizer que só se precisa de uma abelha para fazer
uma campina. A julgar pelos outros comentários, Idelma parece atribuir essas “situações
desconcertantes” ao fato de a poeta não ter revisado seus poemas, o que freqüentemente a
leva (a tradutora) “à tentação de modificar o texto”.
130
Já em 1995, recebemos Bilhetinhos com poemas. No levantamento de Daghlian
constam os poemas traduzidos por Ana Fontes, contudo, a listagem não nos dá idéia do
caráter maior do trabalho de tradução da escritora portuguesa, na realidade Maria Gabriela
Llansol,
131
que propõe uma diferente leitura da obra de Emily. Através de uma seqüência de
cartas, na maioria dirigidas a Higginson e às primas Norcross, a poesia de Dickinson se
revela não apenas nos versos freqüentemente inclusos, mas em toda sua escrita, mostrando-
nos a poeta das coisas comuns, das coisas mais simples e assombrosas. Organizados de
forma cronológica, porém esparsa, e sem uma pretensão de “reconstituição” da vida da
escritora, os bilhetinhos nos mostram a obra de Emily em sua dimensão de carta – cartas
para nada,
132
carta ao mundo. Penso, aliás, nesse caso, que não são exatamente nos poemas,
mas nas cartas, que se pode melhor apreciar a poeta na voz de Ana Fontes, como se a
tradutora quisesse enfatizar que é lá – e, mais propriamente, nas cartas com poemas – que o
“ponto de letra” em Emily Dickinson se apura: a “letter” condensando, enfim, a carta e a
letra. Mesmo assim trago aqui, na dicção portuguesa de Llansol, e destacadamente das
cartas, as traduções de “As if I asked a common Alms”, que foi um poema incluído numa
das primeiras cartas de Emily a Higginson, de certa forma agradecendo-lhe a “tutoria”,
ainda que enviesada, e “There’s no Frigate like a Book”, poema que originalmente compôs
uma carta escrita às primas Luísa e Frances.
Outra portuguesa vem, em 1997, lembrar-nos da carta ao mundo de Emily. Esta é
minha carta ao mundo e outros poemas se apresenta como uma seleção e tradução de “um
conjunto de poemas considerados significativos dentro do cânone dickinsoniano e, na sua
maioria, não contemplados nas traduções anteriores.”
133
Cecília Rego Pinheiro se refere,
naturalmente, à divulgação da obra de Dickinson junto ao público português. Ainda assim,
isso não deixa de ser verdade em relação às edições brasileiras e, dentro desse critério, eu
escolho trazer aqui as traduções de “The Martyr Poets” e “The Poets light but Lamps”, que
falam do trabalho do poeta, além do mais conhecido “This is my Letter to the World”, que
dá nome à coletânea. Na nota introdutória – e única – Cecília diz que “na tradução dos
textos considerou-se prioritária a fidelidade ao sentido, procurando-se, sempre que possível,
não desvirtuar a condensação discursiva nem a pontuação por travessões, que caracterizam
a linguagem poética de Emily Dickinson.”
134
A tradutora informa, ainda, que seguiu a
edição de Thomas H. Johnson.
Dois anos depois, o n
o
6 de Inimigo Rumor apresenta “Cinco poemas”, traduções de
Dickinson por Paulo Henriques Britto. Nenhum comentário ou nota acompanha as
129
FARIA. T. S. Eliot, Emily Dickinson, René Depestre: Seleção, Tradução e Ensaios, p.141.
130
FARIA. T. S. Eliot, Emily Dickinson, René Depestre: Seleção, Tradução e Ensaios, p.140.
131
Llansol, em suas demais traduções – do francês – não usa pseudônimo. É provável que ela não se
assumisse como uma tradutora do inglês, porém não resistira ao chamado daquela voz que lhe ecoava no
século XIX, daquela figura que habitava sua obra agora.
132
LOPES. Literatura, defesa do atrito, p.138.
133
DICKINSON. Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas, p.7.
134
DICKINSON. Esta é a minha carta ao mundo e outros poemas, p.7.