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Setembro de 2004
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Livros Grátis
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Milhares de livros grátis para download.
edições UNESCO
Conselho Editorial
Jorge Werthein
Cecilia Braslavsky
Juan Carlos Tedesco
Adama Ouane
Célio da Cunha
Comitê para a Área de Desenvolvimento Social
Julio Jacobo Waiselfisz
Carlos Alberto Vieira
Marlova Jovchelovitch Noleto
Edna Roland
Assistente Editorial: Rachel Gontijo de Araújo
Apoio Técnico: Luiz Siveres
Revisão: Olga Maria Alves de Sousa e Cida Ribeiro
Diagramação: Paulo Selveira
Projeto Gráfico: Edson fogaça
© UNESCO, 2004
(Re)conhecer diferenças, construir resultados. Organizado por Edison José Corrêa,
Eleonora Schettini Martins Cunha, Aysson Massote Carvalho. – Brasília: UNESCO,
2004.
576p.
ISBN:
1. Educação Superior–Interação Social–Brasil 2. Universidades–Transformação
Social–Brasil 3. Universidades–Pluralismo Cultural–Brasil 4. Extensão Universitária–
Brasil I. Corrêa, Edison José II. Cunha, Eleonora Schettini Martins III. Carvalho, Aysson
Massote IV. UNESCO
CDD 378
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
SAS, Quadra 5 Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9º andar.
70070-914 – Brasília – DF – Brasil
Tel.: (55 61) 21063500
Fax: (55 61) 322-4261
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85-7652-022-2
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Avaliação Institucional da Extensão Universitária
Fernando Setembrino Cruz Meirelles – Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Flaviano Agostinho de Lima – Universidade de Sorocaba
Maria Auxiliadora Jacy – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
Maria da Consolação Gomes de Castro – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Maria das Dores Pimentel Nogueira – Universidade Federal de Minas Gerais
Sônia Regina Mendes dos Santos – Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Comunicação
Ivone de Lourdes Oliveira – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Márcio Simeone Henriques – Universidade Federal de Minas Gerais
Sandra de Deus – Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Therezinha Maria Novais de Oliveira – Universidade da Região de Joinville
Cultura
Andrea Ciacchi – Universidade Federal da Paraíba
Fabrício José Fernandino – Universidade Federal de Minas Gerais
José Leão da Cunha Filho – Universidade Católica de Brasília
Rosilene Martins – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Vera Lúcia de Souza e Lima – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
Desenvolvimento Regional
Dimitri Fazito de A. Rezende – Universidade Federal de Minas Gerais
Herbe Xavier– Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Lúcia Helena Ciccarini Nunes – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Roberto Nascimento Rodrigues – Universidade Federal de Minas Gerais
Virgínia da Costa Liebort Nina – Universidade São Marcos
Direitos Humanos
Adalva Maria Galindo – Universidade de Cuiabá
Adilson Moraes Seixas – Pontifícia Universidade Católica do Paraná
Edite da Penha Cunha – Universidade Federal de Minas Gerais
Eleonora Schettini Martins Cunha – Universidade Federal de Minas Gerais
Maria de Nazaré Tavares Zenaide – Universidade Federal da Paraíba
Nuno Manuel Morgadinho dos Santos Coelho – Universidade Federal de Ouro Preto
Colaboradores
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Educação
Carmem Elvira Flores Mendonza Prado – Universidade Federal de Minas Gerais
Cristina Gouveia – Universidade Federal de Minas Gerais
Edite Mafra – Universidade Federal de Minas Gerais
Eduardo Lyra – Universidade Federal de Alagoas
Elisia Terezinha Megaco de Afonseca – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Erondina Leal Barbosa – Centro Universitário do Sul de Minas
Gladys Rocha – Universidade Federal de Minas Gerais
Irlen Gonçalves – Universidade Fumec
Isabel Campos Araújo Pádua – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Isabel de Oliveira e Silva – Universidade Fumec
Juliana Gonzaga Jayme – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Leideana Galvao B. de Farias – Faculdade de Natal
Luciano Mendes de Faria Filho – Universidade Federal de Minas Gerais
Luiz Síveres – Universidade Católica de Brasília
Maria da Consolação Azevedo Oliveira – Centro Universitário UniBH
Meily Linhales – Universidade Federal de Minas Gerais
Paulo César Santos Ventura – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
Rose Maria Belim Motter – Universidade Estadual do Oeste do Paraná
Sandra de Faria – Universidade Católica de Goiás
Sérgio Dias Cirino – Universidade Federal de Minas Gerais
Silvia Maria de Contaldo – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Gestão da Extensão
Edison José Corrêa – Universidade Federal de Minas Gerais
Jacqueline Costa Azevedo – Centro Universitário Newton Paiva
João Maurício de Andrade Goulart – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
Jorge Hamilton Sampaio – Universidade Metodista de Piracicaba
Maria de Fátima da Rocha Brekenfeld – Universidade Católica de Pernambuco
Vera Lúcia P. Carneiro Soares – Universidade da Amazônia
Meio Ambiente
Eugênio Batista Leite – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Gisele Brandão Machado de Oliveira – Universidade Federal de Minas Gerais
Jadergudson Pereira – Universidade Estadual de Santa Cruz
Janice Pereira de Araújo Carvalho – Universidade Estadual de Minas Gerais
José Angel Silva Delgado – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
Osvaldo Campos Júnior – Centro Universitário São Camilo
Saúde
Alysson Massote Carvalho – Universidade Federal de Minas Gerais
Andréa Maria Duarte Vargas – Universidade Federal de Minas Gerais
Ari de Pinho Tavares – Universidade Federal de Minas Gerais
Cassandra Pereira França – Universidade Federal de Minas Gerais
Edison José Corrêa – Universidade Federal de Minas Gerais
Efigênia Ferreira e Ferreira – Universidade Federal de Minas Gerais
Emanuel Vítor Guimarães – Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais
Geraldo Cunha Cury – Universidade Federal de Minas Gerais
Izabel Friche Passos – Universidade Federal de Minas Gerais
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Leandro Mallory Dinil – Faculdade Metropolitana de Belo Horizonte
Lindalva Armond – Universidade Federal de Minas Gerais
Lúcia Horta Figueiredo Goulart – Universidade Federal de Minas Gerais
Mara Vasconcelos – Universidade Federal de Minas Gerais
Maria Elice Nery Procópio – Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais
Marisa Maia Drumond – Universidade Federal de Minas Gerais
Natanael Atilas Aleva – Universidade Vale do Rio Verde de Três Corações
Oswaldo França Neto – Universidade Federal de Minas Gerais
Paulo César de Carvalho Ribeiro – Universidade Federal de Minas Gerais
Paulo Sérgio Miranda – Universidade Federal de Minas Gerais
Rebeca Duarte – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Rita de Cássia Lopes – Universidade Federal do Paraná
Zally Pinto Vasconcellos de Queiroz – Centro Universitário São Camilo
Tecnologia
Eugênio Daniel – Centro Universitário Claretiano
Jorge A. Onoda Pessanha – Universidade Cruzeiro do Sul
Marco Antônio Faria – Universidade Federal do Rio de Janeiro
Patrícia Romero Soares Jota – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
Sérgio Mauri Fabri – Universidade Tuiuti do Paraná
Targino de Araújo Filho – Universidade Federal de São Carlos
Trabalho
Antônio Moreira de Carvalho Neto – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Jacqueline Moreno Theodoro Silva – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
Jáder dos Reis Sampaio – Universidade Federal de Minas Gerais
Luciane Pinho de Almeida – Universidade Católica Dom Bosco
Manuel Esteves – Universidade Salgado de Oliveira
Ricardo Augusto Alves de Carvalho – Universidade Federal de Minas Gerais
Valéria Heloísa Kemp – Universidade Federal de São João del–Rei
Revisores
Regina Maria de Moraes Miranda
Adelmar Pereira Damasceno
Luzia América Avelar dos Santos
Comissões Organizadoras do
2º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária
Geral
Edison José Corrêa – Universidade Federal de Minas Gerais
Jorge Hamilton Sampaio – Universidade Metodista de Piracicaba
Jorge Onoda Pessanha – Universidade Cruzeiro do Sul
Luiz Síveres – Universidade Católica de Brasília
Vera Maria Victer Ananias – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Neide Wood Almeida – Universidade do Estado de Minas Gerais
Janice Pereira de Araújo Carvalho – Universidade do Estado de Minas Gerais
Geraldo Antônio dos Reis – Universidade Estadual de Montes Claros
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Valéria Heloísa Kemp – Universidade Federal de São João del–Rei
Edina E. Casali Meireles de Souza – Universidade Federal de Juiz de Fora
Maria das Dores Pimentel Nogueira – Universidade Federal de Minas Gerais
Maria da Consolação Gomes de Castro – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Jacqueline Costa Azevedo – Centro Universitário Newton Paiva
Maria Cecília Diniz Nogueira – Universidade Federal de Minas Gerais
Alysson Massote Carvalho – Universidade Federal de Minas Gerais
Ana Inês Sousa – Universidade Federal do Rio de Janeiro
Linda Bernardes – Universidade Federal de São Paulo
João Maurício de A. Goulart – Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
Eleonora Schettini M. Cunha – Universidade Federal de Minas Gerais
Comunicação
Beatriz Lima – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Ceres Maria Pimenta Spínola – Universidade Federal de Minas Gerais
Marcelo Almeida – Centro Universitário Newton de Paiva
Otávio Ramos – Universidade Federal de Minas Gerais
Silvestre Random – Universidade do Estado de Minas Gerais
Cultura
Fabrício Fernandino – Universidade Federal de Minas Gerais
Haroldo Marques – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Vicente Oliveira – Universidade do Estado de Minas Gerais
Valnei Pereira – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Infra–estrutura
Maria Célia Nogueira Lima – Coordenação de Assuntos Comunitários/Universidade Federal de Minas
Gerais
Secretaria e Receptivo
Ana Márcia de Oliveira Fonseca – Universidade Federal de Minas Gerais
Ana Maria Jerônyma de Lima – Universidade Federal de Minas Gerais
Antônio Augusto de Freitas – Universidade Federal de Minas Gerais
Camila Mendonça Carisio – Universidade Federal de Minas Gerais
Glorimar Pereira Rocha – Universidade Federal de Minas Gerais
Luiz Henrique Martins – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Tânia Miranda – Centro Universitário Newton Paiva
Comissão Científica
Alysson Massote Carvalho – Universidade Federal de Minas Gerais – Presidente
Mara Vasconcelos – Universidade Federal de Minas Gerais
Apoio/Patrocinadores
Copiadora Exata, Caixa de Assistência à Saúde da Universidade, Banco do Brasil, UNESCO, Fundep,
Ministério da Saúde, Ministério da Educação, Telemig Faculdade Senac, Unisol, Coopmed
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Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .13
Prefácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .17
Avaliação Institucional da Extensão Universitária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
19
•Avaliação do processo didático-pedagógico do Internato Rural – IR:
construção de um modelo para avaliação de experiências de integração
universidade-serviço de saúde . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .19
Contribuição para a avaliação institucional da extensão universitária:
técnica quali-quantitativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .29
•Aavaliação da extensão universitária na UERJ: resultados e desafios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .37
•Aconstrução de categorias e indicadores para avaliação institucional de
cursos, projetos e atividades de extensão universitária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .44
•Avaliação institucional da extensão na PUC Minas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .53
•Avaliando o Programa de Bolsas de Extensão PBEXT/UFMG . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .62
Comunicação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .71
Dicas de saúde pelo rádio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .71
Comunicação e mobilização para a cultura do Vale do Jequitinhonha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .80
Registro Urbano Audiovisual – RUA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .87
Comunicação cidadã: projeto de assessoria a entidades populares e
instituições voltadas para projetos de mídias comunitárias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .95
Crítica de mídia e formação da cidadania . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .105
Grupo de mídia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .112
Cultura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .121
Educação patrimonial: revisitando Ouro Preto por meio da cantaria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .121
•Tertúlia literária dialógica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .129
•Aexposição é o caminho: desafios e discussões na implantação da
ação educativa em espaços de ciência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .139
Gerais de Minas: a expressão popular nas manifestações culturais do povo mineiro . . . . . . . . . . .146
Percepção e cultura na periferia de Salvador:
o bairro em imagens, uma experiência de ensino, extensão e pesquisa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .154
•Teatro e rádio comunitária como instrumentos de mobilização social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .162
Desenvolvimento Regional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .171
•O espaço e sua memória: desafios para a ação acadêmica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .171
•Aformação de rede como estratégia de desenvolvimento comunitário . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .179
Extensão Universitária na Amazônia: ações socioeducativas de arte e cultura
nas comunidades ribeirinhas dos Municípios de Coari e Carauari – AM . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .186
Sumário
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Programa de alfabetização e formação profissional no Vale do Jequitinhonha . . . . . . . . . . . . . . . . . .193
Programa Trilhas Potiguares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .201
Projeto UniCampo – uma experiência de extensão no Cariri paraibano . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .209
Direitos Humanos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .219
Acessibilidade e cidadania: barreiras arquitetônicas e
exclusão social dos portadores de deficiências físicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .219
Projeto Cortiço Vivo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .227
Rede de proteção às pessoas em situação de violência intrafamiliar:
a experiência de Blumenau/SC . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .235
Ações educativas e a construção da cidadania . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .242
Programa Rede Universitários de Espaços Populares – Ruep Niterói e São Gonçalo . . . . . . . . . . .251
Rede e Inclusão Social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .260
Educação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .271
Educação e cultura no Riacho Fundo II . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .271
Comunidades de aprendizagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .280
Reminiscências: três encontros com a intergeracionalidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .289
Inclusão socioeducacional no ensino de ciências integra alunos e
coloca a célula ao alcance da mão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .297
Internato rural da Faculdade de Medicina da UFMG – 25 anos
de integração docente-assistencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .305
Elaborando uma proposta curricular para o ensino de Libras e
Língua Portuguesa no ensino de surdos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .314
Gestão da Extensão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .323
Extensão universitária: uma possibilidade de formação mais emancipadora na área da saúde . . . .323
As práticas curriculares da extensão universitária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .332
Cooperação internacional: a interface com a extensão universitária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .340
Do desejo do (re)conhecimento de diferenças à gestão de resultados:
análise de uma proposta de política substantiva de extensão universitária . . . . . . . . . . . . . . . . . . .347
Extensão universitária e suas mediações político-pedagógicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .356
•Aexperiência de autofinanciamento da extensão na
Universidade Federal de Santa Catarina . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .363
Meio Ambiente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .371
Educação ambiental como instrumento de inserção social e
geração de renda no Município de Esperança PB . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .371
•Tecendo o tupé: a extensão universitária na construção da gestão ambiental
de uma reserva de desenvolvimento sustentável amazônica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .380
Projeto Juá, você e o porco: rádio e teatro para uma agropecuária sustentável . . . . . . . . . . . . . . . . . . .389
Educação ambiental e reciclagem de lixo um exercício de cidadania . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .399
Projeto Manuelzão de Bem com a Vida promoção de saúde e meio ambiente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .406
Programa Estação Ecológica/UFMG – a extensão, o ensino e
a pesquisa integrados para a conservação de uma área . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .415
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Saúde . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .423
Mãos Amigas: ensino, pesquisa, extensão e intervenção em câncer
de mama resultados e avaliação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .423
Mudanças na atenção à saúde mental no Amazonas:
projeto para subsidiar a implantação dos serviços residenciais terapêuticos . . . . . . . . . . . . . . . . . .432
Internato Rural de Farmácia da Faculdade de Farmácia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .440
Programa de extensão interdisciplinar da Universidade Federal
de São Paulo no município de Cananéia São Paulo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .448
Grupo CicloBrasil, parceria Udesc/UFSC, Santa Catarina, núcleo de extensão
e pesquisa sobre o uso da bicicleta como meio de transporte . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .456
Afetividade e sexualidade na adolescência – a experiência da construção de uma oficina . . . . . . .465
Tecnologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .473
•Aação de extensão universitária interdisciplinar e articulada com
a comunidade rural: a nova experiência do Projeto Solo Planta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .473
Da fabricação de tijolos ecológicos à construção da cidadania coletiva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .481
Extensão universitária na Amazônia para acesso a serviços sociais:
na comunidade ribeirinha de N. Sra. das Graças, em Manacapuru/AM . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .491
Difusão do uso de plantas medicinais anti-helmínticas na produção de
caprinos do sistema de produção da região de Patos/PB . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .498
Papel das pré-incubadoras de empresas no desenvolvimento do
empreendedorismo: o caso do Gene-Blumenau . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .507
Aplicação de músculos artificiais pneumáticos em uma órtese para quadril . . . . . . . . . . . . . . . . . .515
Trabalho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .523
Das hortas domésticas para a horta comunitária:
um estudo de caso no bairro Jardim Oriente em Piracicaba, SP . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .523
•Organização comunitária como pressuposto para geração de renda no
assentamento rural Cocal D’água Quente – Planaltina/GO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .532
Processo socioeducativo de organização comunitária para cidadania
nas comunidades ribeirinhas do Município de Maués Estado do Amazonas . . . . . . . . . . . . . . . . . .541
•O programa de implantação de micros e pequenas agroindústrias no
semi-árido paraibano: um instrumento de inclusão social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .549
Programa de incubadora tecnológica de economia solidária
(empreendimentos solidários ES) UFMG . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .559
•Trabalho, solidariedade e autonomia: a Associação de Catadores de
Material Reciclável de São João del-Rei – Ascas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .567
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A Universidade Federal de Minas Gerais coordena, com a participação de outras
universidades públicas, comunitárias e privadas, a realização do 2º Congresso Brasileiro de
Extensão Universitária, em Belo Horizonte, de 12 a 15 de setembro de 2004, aberto a docentes,
discentes e técnico e administrativos das Instituições de Ensino Superior brasileiras e à
comunidade em geral. O evento, organizado pela Pró-Reitoria de Extensão da UFMG, é iniciativa
do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras, com o apoio do
Fórum Nacional de Extensão das Universidades e Instituições de Ensino Superior Comunitárias
e do Fórum de Extensão das IES Brasileiras, que congrega instituições particulares.
O Congresso objetiva reforçar a interação social das instituições de ensino superior
no Brasil, tendo como linha norteadora a metodologia dos trabalhos de extensão universitária,
voltados para a redução das vulnerabilidades e a promoção da inclusão social. Pensar a univer-
sidade a partir dessa interação atende à necessidade premente do debate quanto à produção e
difusão do conhecimento e retoma tema muito presente nas universidades, o do compromisso
de buscar caminhos para a transformação social e o enfrentamento dos problemas que perpetuam
as desigualdades e levam à vulnerabilidade e à exclusão de grandes parcelas da população
brasileira.
O Congresso adotou como lema (Re)conhecer diferenças, construir resultados, o
que espelha a complexidade e diversidade tanto das questões a serem abordadas como das
organizações sociais – incluída a Universidade – que se propõem a um trabalho transformador,
ou seja, de construir resultados.
A Unesco, tantas vezes presente no debate sobre a Universidade que o nosso século
exige, alia-se a esse empreendimento, apoiando a organização e edição do presente livro, que
incorpora, no título, o tema do congresso. Entre os trabalhos aprovados, os 66 melhores,
6 por área temática, foram selecionados para essa publicação. Embora sem expressar o
quantitativo da produção universitária na extensão, trazem a dimensão da diversidade, da
qualidade e da interação social.
Nesse sentido foi solicitada à comunidade acadêmica a apresentação de suas
experiências, sob a forma de trabalhos completos, em áreas temáticas – de 790 trabalhos
recebidos, 741 que atenderam estritamente às normas publicadas foram submetidos a
pareceristas ad hoc, que aprovaram 653. De acordo com as áreas temáticas, os artigos
ficaram assim distribuídos: Avaliação Institucional da Extensão Universitária – 12;
Comunicação – 15; Cultura – 28; Desenvolvimento Regional – 30; Direitos Humanos – 68;
13
Apresentação
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Educação – 183; Gestão da Extensão – 15; Meio Ambiente – 57; Saúde – 203; Tecnologia –
14; e Trabalho – 32.
Embora tenha sido adotado o recurso de organização dos trabalhos nessas 11 áreas, a
leitura dos 66 integrantes desse livro leva à constatação da intensa abordagem interdisciplinar.
Assim, área temática deve ser entendida como o tema desencadeador ou articulador da ação,
com múltiplas interfaces. Essa questão era esperada, e desejada, porque interdisciplinaridade
é uma das diretrizes colocadas, hoje, para a ação da extensão universitária. Outras diretrizes
– o impacto social e a contribuição à transformação social, a relação dialógica com outros
setores da sociedade e a indissociabilidade ensino, pesquisa e extensão – devem ser identi-
ficadas nos artigos.
Duas das áreas abordam a questão da Gestão da Extensão Universitária e a Avaliação
Institucional. Esses temas remetem à necessária sistematização e institucionalização da extensão
e à obrigatória avaliação de todas as etapas das ações extensionistas. Os trabalhos nessas áreas
relatam a experiência de algumas universidades – na organização geral da extensão – e
de alguns programas específicos. Interfaces importantes são abordadas em alguns artigos: a
articulação com o ensino, as mediações político-pedagógicas e a interface com a cooperação
internacional.
Na área da Saúde – que somada à área de Educação recebeu cerca de 59% dos
trabalhos – as contribuições versam essencialmente sobre a integração de projetos de
extensão com a atenção à saúde, articulada ao Sistema Único de Saúde, com experiências
de regiões diferentes do país.
Na Educação, além da interface do trabalho da universidade com o sistema de Ensino –
especialmente o público – e organizações sociais, os processos de alfabetização e educação
continuada são relatados em vários artigos.
As contribuições na área de Meio Ambiente focalizam a questão da educação ambiental:
um dos artigos se refere a um programa de base regional, atingindo 55 municípios e a bacia
do mais importante afluente do Rio São Francisco – o Rio das Velhas. São relatadas as
experiências de gestão ambiental feita por universidades em duas reservas ecológicas, uma
no Sudeste, outra na Região Amazônica. Inserção social, geração de renda e exercício de
cidadania são questões também abordadas nos trabalhos da área de Meio Ambiente.
Tecnologia em Saúde, transferência tecnológica rural, tijolos ecológicos, incubadores
de empresas, empreendedorismo e acesso a serviços sociais são temas abordados na área
de Tecnologia.
A área de Trabalho é uma das que vêm, progressivamente, ampliando o número de
projetos de extensão nas universidades brasileiras. Nesse livro, os artigos representativos se
relacionam, principalmente, a questões de organização comunitária para geração de renda e
de incubadoras tecnológicas de economia solidária, na vertente da autonomia.
Os artigos em Comunicação têm uma tônica: a assessoria a entidades populares, nos
chamados projetos de mídia comunitária. As experiências relatadas vão do Vale do
Jequitinhonha ao Norte e Sul do país.
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Em Direitos Humanos, três dos trabalhos se referem a redes sociais. Todos perpassam a
ação educativa, a construção da cidadania e da inclusão social. Aspectos focais são abordados
em relação a pessoas portadoras de deficiências físicas e em situação de violência familiar.
Na área de Cultura, teatro, literatura e rádio são abordados como instrumentos de mobi-
lização; a expressão popular nas manifestações culturais é captada e relatada em dois trabalhos.
Educação patrimonial e correlação cultura e ciência são abordadas em dois outros.
O tema Desenvolvimento Regional, embora destacado como uma das áreas para a
inscrição dos trabalhos, pode ser identificado em, praticamente, quase todos os artigos aqui
publicados. Nessa seção específica, o Cariri, a Amazônia, o Jequitinhonha estão representa-
dos, bem como questões integrantes, como a alfabetização e a construção de redes sociais.
O conjunto de todos os trabalhos – os aqui publicados e os restantes que comporão
os Anais, com trabalhos completos em versão eletrônica –, bem como uma visão geral da
produção da extensão e localização de referências institucionais, pode ser pesquisado no
endereço eletrônico <www.renex.org.br>.
Um desafio é lançado aos pesquisadores da extensão. A extensão universitária
brasileira, ao apresentar, publicamente, suas experiências, cumpre uma etapa de democra-
tização do conhecimento conceitual e processual que tem desenvolvido e de ampliação da
missão da Universidade de interação social, com qualidade e pertinência. A partir dos
trabalhos apresentados ao Congresso, da correlação com os setores de origem – univer-
sidades públicas, particulares e comunitárias –, com as regiões, com a participação por
áreas temáticas, e outras variáveis, um estudo deverá ser feito para orientação prospectiva
da política acadêmica e social de extensão.
Os Fóruns de Extensão e a comunidade universitária agradecem à Unesco o apoio, não
só a essa publicação, mas à sua presença em importantes momentos de reflexão, como em sua
participação durante o 2º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária, contribuindo para o
tema “o que a sociedade e o novo século esperam da universidade brasileira”.
Edison José Corrêa
Pró-Reitor de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais
Presidente do 2º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária
Belo Horizonte – Campus da Universidade Federal de Minas Gerais
Setembro de 2004.
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A realização do 2.o Congresso Brasileiro de Extensão coincide com um momento em
que o Ministério da Educação está preparando, após muitos debates públicos, a sua proposta de
reforma universitária para apresentar ao Congresso Nacional. Assim, se tornam oportunas
algumas reflexões em torno do tema com vistas ao objetivo de oferecer subsídios para que a
universidade de modo geral e, em especial, a universidade brasileira, possa reexaminar-se para
se consolidar como instância capaz de operar a síntese entre o seu objeto central de produção
de saberes e conhecimento e as necessidades sociais.
Como disse certa vez Celso Furtado, criticando a quase inexistência da atividade cri-
adora nas escolas de ensino superior da região Nordeste, “o futuro da região refletirá em boa
medida a forma como se comportem suas universidades”(1). Em outras palavras, esse pensador
estava procurando ressaltar a importância da educação e a responsabilidade social da universi-
dade. Sem dúvida, nenhuma região, nenhum país, consegue avançar sem o substrato do conheci-
mento. Não aquele conhecimento que é produzido e depositado nas bibliotecas e centros de
documentação. Mas o conhecimento contextualizado, que circula e interage com a sociedade,
de forma a penetrar e se tornar relevante em todas as camadas sociais. Nisso reside a
importância da extensão universitária, sobretudo devido ao fato de a globalização ter colocado
o conhecimento no ponto mais alto da hierarquia dos fatores que condicionam o progresso.
Por isso mesmo, a Declaração Mundial para a Educação Superior no século XXI, da
UNESCO, aprovada em Paris, em outubro de 1998, deu destaque ao papel da extensão. Esse
documento, que passou a ser uma referência mundial, sublinha que se deve tomar todas as
medidas necessárias para reforçar o serviço de extensão, especialmente nas atividades que objetivam
a eliminação da pobreza, do analfabetismo, fome e enfermidades. Observe-se, nessa passagem
do plano de ação da Declaração Mundial, a preocupação da UNESCO com os excluídos. Sobre
essa questão, não há mais necessidade DE citar dados, pois a imprensa cuida disso quase que
diariamente.
O que importa chamar a atenção nesta oportunidade, é que a reforma universitária que
está em discussão no país não pode deixar de considerar o problema da exclusão. E não basta
somente dizer que ele é importante. Torna-se necessário uma nova postura da comunidade
acadêmica, uma verdadeira mudança de mentalidade eu diria, sem o que, será difícil manter e
ampliar a credibilidade que ela conquistou ao longo da história. Para operar essa mudança,
certamente que os serviços de extensão, pela experiência e conhecimento que possuem sobre a
conjuntura e as circunstâncias da comunidade, terão um papel renovado a cumprir, qual seja, o
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Prefácio
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de alimentar o processo de reexame da universidade, condição indispensável para ampliar a
sua relevância.
E quando falo em relevância, refiro-me tanto à dimensão científica quanto à social,
pois ambas devem convergir para a missão maior e compartilhada que é a de ajudar o país a
combater as desigualdades e a pobreza. No caso desta, há de se ter em mente que não se trata
somente da pobreza econômica, quanto das demais que decorrem de se manter à margem dos
avanços da educação e da ciência milhões de pessoas, impedindo que elas conheçam os seus
direitos e se apropriem das condições mínimas para lutar pela sua cidadania.
Por último, quero enfatizar que, percorrendo, ainda que de forma lacônica, os diversos
trabalhos que serão discutidos nesse Congresso, pude ver, com real otimismo, relatos de experiências
e textos teóricos que apontam em direção a uma nova universidade. Estou seguro de que a gene-
ralização dessa tendência poderá retirar a universidade brasileira da encruzilhada, colocando-a
em rotas que assegurem o pleno exercício de sua função ética, criadora e socialmente relevante.
Jorge Werthein
Representante da UNESCO no Brasil
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Avaliação do processo didático-pedagógico do Internato Rural – IR:
construção de um modelo para avaliação de experiências de integração
universidade-serviço de saúde
Geraldo da Cunha Cury, Professor Adjunto Doutor
Elza Machado de Melo, Professora Adjunta Doutora
Marcos Vinicius Polignano, Professor Adjunto Doutor
Antônio Alves Leite, Professor Adjunto Doutor
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
Atividade de integração docente-assistencial denominada Internato Rural é desenvolvi-
da pelo DMPS/FM da UFMG (Faculdade de Medicina da UFMG) há vinte e seis anos,
buscando construir um novo Sistema de Saúde que trate da promoção da saúde e da qualidade
de vida. Constitui-se numa experiência ímpar em Educação Médica. Importante parte dessa
história ficou e ainda permanece sem registro — aquela em que ocorreu um efetivo envolvi-
mento com o movimento dos trabalhadores rurais e das comunidades de base. O resgate destas
memórias foge ao escopo deste trabalho, mas não pode deixar de ser mencionado, pois produziu
a inserção social necessária para guiar e dar durabilidade ao trabalho ora apresentado. O posi-
cionamento frente à luta dos trabalhadores faz parte do leque de relações estabelecidas pelo
Internato Rural, as quais são elementos essenciais na formação dos nossos alunos inseridos na
construção do SUS, objeto principal desta atividade. Para avaliação de um programa de
tamanho porte, foi elaborado o trabalho denominado “Avaliação do Processo Didático-
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Avaliação Institucional
da Extensão Universitária
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Pedagógico do Internato Rural – a Construção de um Modelo”. Foi feita avaliação do progra-
ma no aspecto quantitativo, realizando-se também a abordagem qualitativa. Os resultados
foram analisados apontando uma avaliação positiva das várias etapas que constituem o
Internato Rural.
Palavras-chave: integração docente-assistencial
Introdução e objetivos
Como decorrência do novo currículo médico implantado em meados da década de 70 na
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (FM/UFMG), os Serviços
de Saúde, particularmente os públicos, passaram a ser reconhecidos como parceiros da
Universidade no direcionamento da Educação Médica.
O ápice deste processo é representado pela implantação do Internato Rural em 1978,
uma das mais antigas experiências de integração docente-assistencial existente no país onde
Sistema de Saúde torna-se um local privilegiado de trabalho. É importante recordar que a
implantação do Internato Rural na região do Centro Regional de Saúde de Montes Claros foi
possível porque, em 1974, um convênio celebrado entre o Governo Brasileiro e a United States
Agency for International Development (USAID) liberou recursos num montante de quatro
milhões de dólares, com os quais foi construída uma rede de Postos (180) e Centros de Saúde (55),
sendo treinadas cerca de 580 pessoas para trabalhar nestes locais, os Agentes de Saúde. Esta
região contava com 1.078.000 habitantes, dispersos por 128.816 km
2
(CAMPOS, 1980).
O Internato Rural, uma disciplina obrigatória, hoje denominada Internato em Saúde
Coletiva, é desenvolvida em rodízios trimestrais sucessivos, atendendo, por trimestre, a 80
alunos do 11º período do curso de Graduação em Medicina da UFMG, com uma carga horária
de 330 horas. Estes alunos organizam-se em duplas que são designadas para as cidades do inte-
rior do Estado, onde irão morar e trabalhar no período determinado. Para a implantação e pleno
funcionamento do estágio curricular, a princípio, firmavam-se convênios tripartites —
envolvendo a Secretaria de Estado da Saúde – SES, a UFMG e as Prefeituras Municipais.
Com o advento do Sistema Único de Saúde – SUS e o processo de municipalização em curso,
os convênios passaram a ser bipartites, sendo mantido o convênio UFMG/SES e realizados con-
vênios entre a UFMG e as Prefeituras.
Trimestralmente, todos os alunos e supervisores do Internato Rural participam da
Reunião Geral para avaliação da Disciplina, sendo regularmente convidados o diretor e o vice-
diretor da Faculdade de Medicina, o Coordenador do Colegiado de curso Médico e os chefes
de departamentos da Faculdade de Medicina. Em várias oportunidades compareceram
também representantes dos Serviços Municipais e Estaduais de Saúde, das comunidades
envolvidas nos trabalhos, bem como diretores e docentes de outras unidades da UFMG.
Além dessas reuniões gerais, todas as duplas apresentam um relatório ao final da disci-
plina no qual avaliam seu estágio, as condições de trabalho, as atividades desenvolvidas e a
supervisão recebida em termos de periodicidade, qualidade e eficiência.
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O Colegiado do curso Médico da UFMG reafirma a ementa curricular da disciplina:
“Colocar o aluno em contato com a realidade de saúde local para a compreensão e trans-
formação da mesma, através de atendimento ambulatorial, do reconhecimento dos deter-
minantes do processo saúde-doença e da organização dos serviços de saúde” (UNIVERSIDADE
FEDERAL DE MINAS GERAIS, Colegiado de curso de Medicina, 1993).
O Internato Rural tem sido objeto de dissertações de mestrado ou tese de doutoramento
de docentes da disciplina (ALVES, 1996; BARBOSA, 1995) e apresentou demandas que
influenciaram a realização de dissertações de mestrado e teses de doutoramento de outros
docentes da Disciplina (CURY, 1985; CURY, 1992; PINHEIRO, 1985; MELO, 1999).
Apesar das inúmeras dificuldades vividas, ele representa o maior, mais perma-
nente e sólido programa Docente-Assistencial da Universidade Brasileira.
É importante lembrar que o Projeto Manuelzão, reconhecido em nível da UFMG e de
outras instituições como importante atividade de extensão da Universidade relacionada à
questão meio ambiente e saúde, teve sua origem e tem importante inserção no Internato Rural,
seja através dos docentes ou dos estagiários do IR que nele atuam.
Espaço concreto onde todas as questões referentes à saúde se apresentam e se fazem sentir;
universo que se efetiva num território delimitado e acessível, perpassado por todas as relações
e conteúdos que são próprios da vida humana em sociedade.
Constitui também um espaço trabalhado a partir das relações entre a Universidade,
serviços de saúde, administrações municipais e população, englobando processo de ensino,
produção de saber e aplicação do mesmo na solução de problemas, enfim, processos de
aprendizado no seu mais pleno sentido, não poderia ser conhecido, total, ou parcialmente,
se qualquer um destes aspectos for ignorado.
Durante o Internato Rural, os acadêmicos desenvolvem diversas ações: atendimento
ambulatorial; atividades referentes ao meio ambiente e à organização do Sistema de Saúde e
outras relacionadas à saúde pública tais como palestras e formação de grupos de hipertensos, de
diabéticos, de gestantes e outros, e trabalhos em creches.
Apesar desta diversidade de atividades dos acadêmicos do Internato Rural, o atendimento ambulato-
rial é a que mais prevalece em quase todos os municípios, em detrimento das ações preventivas.
Esta constatação e outros importantes relatos sobre este programa de integração docente-
assistencial levaram os profissionais envolvidos neste programa docente-assistencial, nacional
e internacionalmente reconhecido, a realizar a presente avaliação. Esta se deu em duas etapas
definidas: avaliação quantitativa e qualitativa, com a participação todos os atores envolvidos
direta ou indiretamente no desenvolvimento da atividade.
Durante os dois períodos pretendeu-se construir instrumentos que permitam a avaliação
quanto à:
• metodologia utilizada para o desenvolvimento do Programa;
visão dos vários atores do processo (alunos, docentes, secretários de saúde municipais e
conselheiros);
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A autora faz distinção entre categorias analíticas e categorias empíricas. Salienta que as
categorias analíticas “podem ser consideradas balizas para o conhecimento do objeto nos seus
aspectos gerais. Elas mesmas comportam vários graus de abstração, generalização e aproxi-
mação. As categorias empíricas são aquelas construídas com finalidade operacional, visando ao
trabalho de campo (...) ou a partir do trabalho de campo. Elas têm a propriedade de conseguir
apreender as determinações e as especificidades que se expressam na realidade empírica”.
A partir das respostas apresentadas pelos alunos, procurou-se avaliar o processo
didático pedagógico do Internato Rural, considerando diferentes aspectos relacionados à
Disciplina. Um total de 146 alunos (dentre 156) responderam ao questionário elaborado pela
equipe do Internato Rural, sendo que 75 deles realizaram a disciplina no terceiro trimestre de
1998 e 71 no quarto trimestre de 1998.
Para análise, o questionário dos alunos foi reorganizado formando seis blocos contendo
as questões relacionadas à disciplina; à formação médica; ao docente do IR; ao modelo de
assistência à saúde em nível local; à relação do IR com a Prefeitura; à conjuntura político-social.
No segundo momento da pesquisa foi avaliado o teor qualitativo da Disciplina numa
abordagem mais direcionada e aprofundada do impacto do Internato Rural sobre a formação dos
alunos: a contribuição que traz para a aquisição de seus saberes e habilidades para o desen-
volvimento de sua autonomia como profissionais prestes a se formar e, sobretudo, para a
incorporação de uma nova concepção de saúde e de tomada de atitudes éticas e responsáveis,
compatíveis com uma atuação respeitosa, criativa e inovadora.
A metodologia utilizada foi o instrumento Grupo Focal, uma técnica de coleta e análise
de dados em pesquisas qualitativas, mercadológicas e de opinião que envolve pessoas que
ocupam os mesmo lugares sociais e vivendo experiências que se assemelham. Neste contexto,
os participantes, ao serem levados a discutir sobre temas apresentados, explicitam seus
consensos atingindo, desta forma, o objetivo que levou o pesquisador a utilizar esta estratégia.
As idéias e valores extraídos dos Grupos Focais não são produtos de uma reflexão
consciente, mas de uma situação focalizada, onde, a partir de um roteiro previamente estabele-
cido, uma pessoa do grupo é capaz de ouvir de outra, o que ela própria sente, pensa ou diria, só
que com outras palavras.
A partir deste conhecimento teórico, foram realizados seis grupos focais, envolvendo os
estagiários que estavam em pleno desenvolvimento do Internato Rural, sendo dois na Capital e
os outros quatro em municípios do interior do Estado, envolvendo todos os estagiários que
estavam cumprindo o Internato Rural.
Após análises de todos estes grupos focais foram tirados consensos sobre a Disciplina e
suas implicações: a fase que antecede o Internato Rural; a falta de continuidade das atividades;
o papel do supervisor; o currículo de graduação; o envolvimento entre Internato Rural e
política local; a relação estagiários com a população usuária e agentes de saúde; a concepção
do estagiário sobre o Internato Rural e a inferência da atividade na vida pessoal e profissional
do aluno; as críticas e as sugestões apontadas ao Internato Rural.
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Conclusão
Com base no marco teórico estabeleceram-se as bases para a discussão inicial do tipo de
avaliação a ser feita.
A questão da análise qualitativo x quantitativo, muito bem tratada por Minayo (1993),
subsidiou o projeto no sentido de se determinar as características da avaliação a ser desen-
volvida em duas etapas. Na primeira, a base foi o trabalho com relatórios detalhados relativos
ao Internato Rural, preenchidos por todos os estagiários e questionários semi-estruturados
aplicados aos vários atores do processo. A segunda etapa tem sido desenvolvida com a análise
qualitativa propriamente dita, onde entre outras técnicas utilizadas, estão as de análise do discurso.
A elaboração dos questionários aplicados aos vários atores do processo e a remodelação
e informatização do Relatório Final de Estágio do Internato Rural representaram os primeiros
produtos da pesquisa, sendo a análise destes instrumentos a fonte básica dos dados produzidos.
O relato fornecido, anonimamente, pelos alunos, demonstrou que o IR oferece uma
oportunidade ímpar de crescimento pessoal e profissional; de estabelecimento de parcerias com
instituições e grupos organizados do município; de reuniões com lideranças; de realização de
visitas domiciliares; de implantação de campanhas enfocando a nosologia prevalente; de
apresentação de palestras sobre temas diversos (meio ambiente, saúde, DST e Aids, sexualidade,
mulher, adolescente, criança, higiene, etc.); de avaliação do Sistema de Saúde local e
proposição das mudanças cabíveis.
Os relatos dos outros atores do processo (Docentes do IR, Secretários e Conselheiros
Municipais de Saúde), corroboram as impressões levantadas pelos discentes e fornecem as
opiniões que nos levam à conclusão de que o Internato Rural é um local de praxis em que todos
os envolvidos podem ser reconhecidos como sujeitos, capazes de agir e falar, donos de um saber
e importantes nos processos de tomada de decisão a partir das relações estabelecidas na
Disciplina, o que está de acordo com as conceituações teóricas de vários autores contemporâ-
neos, entre as quais as apresentadas por Habermas, 1996.
A metodologia adotada permitiu, além das considerações sobre a Disciplina em questão,
apontar caminhos a serem perseguidos e percorridos na construção de um novo modelo de
desenvolvimento desta atividade didático-assistencial.
O método qualitativo confirmou a abordagem quantitativa que apontou a ótima imagem
do Internato Rural junto aos alunos. Poder-se-ia dizer que o seu grau de aprovação é surpreen-
dente — “O Internato Rural é fantástico”.
O IR está consolidado como programa, o seu método pedagógico é um sucesso e propi-
cia uma experiência pessoal e profissional extraordinária para os alunos.
Uma conclusão desta natureza obrigaria os pesquisadores a reconhecer que o resultado
da pesquisa é contraditório com as suas premissas teóricas, principalmente aquelas referentes a
um certo fracasso da chamada Medicina Comunitária e ao que se chama de crise do Modelo
de Atenção à Saúde.
Entretanto opta-se por um outro ângulo mais crítico de abordagem desta conclusão.
Santos (1997) em Pela mão de Alice afirma que “Marx nos ensinou a ler o real existente
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segundo uma hermenêutica da suspeição...”. Se a hermenêutica é o estudo da relação entre o
sentido da obra e o seu contexto, a conclusão principal partirá da grande contradição que a
pesquisa demonstrou, ou seja, o Internato de Saúde Coletiva tem predominância da clínica e da
saúde individual. A saúde coletiva é marginal, eventual na prática dos alunos. Até a abordagem
da Medicina Preventiva feita nos Grupos de Discussão é predominantemente conceitual,
contraditando com a pedagogia do “aprender fazendo” preconizada pela Disciplina.
A saúde pública encontra-se, ainda, diante do “dilema preventivista”, expressão
cunhada por Sergio Arouca há mais de vinte anos. Esta abordagem não implica em desconhecer
a grande obra pedagógica que é o Internato Rural, ainda hoje referência nacional e internacional
para o ensino médico. Não se pretende desconsiderar a importância da clínica, pelo contrário,
partindo dela, principalmente do seu conteúdo de tecnologia leve, superar o dilema preven-
tivista. O caminho escolhido apenas obriga os pesquisadores a penetrar no contexto da realização
da Disciplina na atualidade, não só promovendo os ajustes citados, mas ousando transformar a
sua prática e a dos alunos, isto é, localizando e superando as dificuldades estruturais e identificadas.
O Internato de Saúde Coletiva deveria oferecer para o aluno a possibilidade de adquirir
conhecimentos e habilidades daquilo que se convencionou chamar cuidados primários. Estes
implicam em pelo menos quatro tipos de atividades quais sejam, atividades curativas, preventivas,
gerenciamento e planejamento e promoção de saúde. A pesquisa constatou, inequivocamente, a
predominância das atividades curativas, ou seja a abordagem individual do paciente dentro do
consultório. Entretanto, mesmo em relação à clínica, a vivência dos alunos é muito mais rica
que a realizada no Hospital das Clínicas em estágios extra-curriculares ou mesmo nos ambu-
latórios periféricos. O Internato possibilita a realização da clínica por inteiro, recuperando as
dimensões do acolhimento, da fala, da escuta, da responsabilização, do vínculo com o paciente
e também da autonomização. Até então os acadêmicos conheciam a medicina de procedimentos,
tecnologia-dura dependente, realizada em plantões hospitalares e mesmo em ambulatórios da
região metropolitana de Belo Horizonte, prática que viabiliza o contato com o paciente no
máximo uma vez, rompendo a possibilidade da responsabilização e do vínculo com os
pacientes. A Disciplina permite o que se está chamando de clínica por inteiro porque as cidades
sob responsabilidade dos alunos são, em geral, pequenas ou médias, o que permite a criação do
vínculo com o paciente e o seu acompanhamento cotidiano.
Há de se ressaltar o fato, comprovado pela Pesquisa, que o currículo de graduação de
medicina prepara bem os alunos para a prática clínica. Eles rapidamente adquirem segurança
dentro do consultório e realizam com competência a abordagem individual do paciente. Além
disto a possibilidade de realização da clínica por inteiro enfrentando problemas reais e estabe-
lecendo vínculo com os pacientes é ao mesmo tempo gratificante e rica para seu aprendizado.
Mesmo a tendência à especialização precoce não os faz rejeitar a ação curativa do cuidado
primário, pelo contrário, os atrai para a medicina geral pelo menos durante o estágio.
Finalmente a ação curativa permite-lhes perceber a autonomização dos pacientes, ou
seja, na medida em que seus clientes ganham “autonomia no seu modo de andar a vida”, o
resultado e a eficácia da clínica passam a ser vivenciados no cotidiano do Internato Rural.
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“A surpresa que eu tive em Internato é assim grau de resolução em nível ambulatorial.
É muito grande, eu ponho aí em torno 80 a 90% atendimentos que nós conseguimos resolver a
nível ambulatorial. Com uma simples consulta nem retorno.”
As atividades preventivas realizadas pelos alunos giram em torno de três ações mais
freqüentes, educação para a saúde, grupos operativos e campanhas de vacinação.
As razões do predomínio da atividade curativa no Internato podem ser encontradas no
currículo, muito centrado na clínica, ou nas próprias disciplinas do Departamento de Medicina
Preventiva, que têm um enfoque essencialmente conceitual e não se preocupam em desen-
volver, ao longo do curso, habilidades ligadas às atividades preventivas de gerenciamento/
planejamento e promoção de saúde. A realidade dos serviços onde a Disciplina atua também
pode fornecer pistas que justifiquem a hegemonia da clínica. A municipalização do SUS é
recente e as prefeituras ainda não absorveram as novas técnicas de gestão e realização dos
chamados cuidados primários. Assim, realizar consultas e vacinar as crianças é o máximo de
universalização alcançada pelo SUS. Eis o dilema preventivista de nossos dias. Não se formam
profissionais aptos à plena realização dos cuidados primários e, ao mesmo tempo, não se encon-
tram serviços que permitam ao aluno aprender fazendo atividades preventivas, de gerencia-
mento/planejamento e promoção de saúde. Em um ponto permanece-se como há vinte anos, na
implantação do Internato Rural: o movimento ainda é essencialmente contra-hegemônico.
Portanto, é preciso mudar o Modelo de Atenção a Saúde.
Um redirecionamento baseado nesta avaliação passa pelo enfrentamento das tensões
sofridas pela Disciplina resumidas numa só: a Tensão do Modelo já referida no quadro teórico
desta pesquisa. A transformação da Disciplina vai exigir mais trabalho de investigação, apesar
de já contar-se com informações que permitem sinalizar para algumas mudanças.
Um caminho seria dedicar atenção especial ao Programa de Saúde da Família – PSF,
uma estratégia governamental de mudança do Modelo de Atenção. Para ele foi criado um
Sistema de Informações – o Siab que facilita a utilização das ferramentas da epidemiologia em
cuidados primários. O PSF valoriza a tecnologia leve, reativando práticas antigas da clínica,
como as visitas domiciliares, agora partilhadas com toda a equipe de saúde e estimula ações
coletivas como os Grupos Operativos e mesmo intervenções multissetoriais no meio ambiente,
atividades de promoção da saúde. Além disto, o PSF está interferindo no mercado de trabalho
e despertando interesse entre os estudantes.
Sabemos que na prática o PSF enfrenta dificuldades. O modelo hegemônico médico
centrado define a conduta dos alunos, das equipes dos centros de saúde e até mesmo a postura
da população.
Finalmente a experiência do Manuelzão tem sido muito rica na medida em que sua
metodologia possibilita uma atuação real no meio ambiente, além de introduzir o saneamento
básico na formação do aluno de medicina.
Portanto conclui-se que ajustes podem e devem ser feitos imediatamente na Disciplina,
mas a sua transformação vai depender da continuidade de pesquisas que buscam criar e facili-
tar a introdução das novas tecnologias do cuidado primário nos locais onde o Internato Rural
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atua e no próprio SUS. A integração maior com o PSF e uma melhor sistematização da
experiência recém-adquirida pelo grupo do Internato Rural são os caminhos antevistos pelo
presente trabalho como potencializador da experiência em curso.
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Contribuição para a avaliação institucional da extensão universitária:
técnica quali-quantitativa
Ana Lúcia Caetano dos Santos, Graduanda em Estatística
Regina Serrão Lanzillotti, Professora Adjunta do curso de Estatística
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Resumo
Esta proposta diz respeito a uma forma alternativa de avaliação de projetos vinculados
às áreas temáticas da Extensão Universitária da UERJ. Este estudo, de caráter quali-quantita-
tivo, visa analisar os projetos de uma forma holística, identificando as áreas temáticas que
detêm a maior probabilidade de ocorrência ou não de projetos que alcançaram os objetivos pro-
postos. Nesta avaliação serão utilizadas as técnicas estatísticas: Análise Exploratória de Dados,
Análise de Agrupamento, Tabela de Contingência e Modelo Loglinear. A Análise Exploratória
de Dados serve para avaliar os atributos inerentes aos produtos e serviços que resultam na resposta
às metas propostas. A Análise de Agrupamento permite grupar os projetos segundo as áreas
temáticas e seus respectivos retornos à comunidade, consubstanciados nos objetivos, classificando-
os qualitativamente de acordo com o desempenho aferido pelos instrumentos construtos da
avaliação. Esta classificação dos projetos é base para o desenvolvimento de etapas subseqüentes,
visando identificar as áreas temáticas com maior índice de projetos que atenderam as propostas
formuladas no cadastramento, utilizando-se a Tabela de Contingência e o modelo Loglinear,
que estabelece a distribuição esperada de ocorrência para associação dos atributos. A qualifi-
cação dos projetos em função do desempenho alcançado será uma informação de entrada para
a distribuição de bolsas para universitários
.
Palavras-chave: análise exploratória de dados, análise de grupamento e modelo Loglinear
Introdução e objetivos
A Extensão Universitária prescinde de uma forma alternativa de avaliação dos projetos
vinculados às áreas temáticas que agregam as linhas programáticas. Este fato levou à busca de
uma técnica de avaliação que prestigie simultaneamente a integração do Ensino, da Pesquisa e
da Extensão, privilegiando os produtos, a realização de eventos, a divulgação técnico-científica
e a educação continuada, não negligenciando os segmentos que contemplam o papel da
Universidade junto à Comunidade. O Plano de Trabalho de Extensão Universitária avança na
concepção de Extensão ao ampliar as formas por meio das quais ela se processaria, ou seja, cursos,
serviços, difusão de trabalhos e pesquisa, projetos de ação comunitária ou cultural e outras.
Indica que o compromisso social da Universidade se daria em direção às “populações de modo
geral” e introduz dois elementos novos: a relação entre as atividades acadêmicas de Ensino,
Pesquisa e Extensão, sendo esta o componente pelo qual se faria o repensar das outras duas.
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E, por último, registra a comunicação entre Universidade e Sociedade, não mais num sentido
elitista de transmissão de conhecimento, mas no sentido de troca entre saberes acadêmicos e
popular, que teria como resultado a produção de um conhecimento já confrontado com a reali-
dade (NOGUEIRA, 2003). A Extensão Universitária tal qual processos educativos, culturais e
científicos que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável viabilizam, a relação
transformadora entre Universidade e Sociedade (PRÓ-REITORES DA UERJ, 2000). O caráter
multi, inter ou transdisciplinar e interprofissionais dificulta a análise simplificada, pois a
modelagem impõe modelos multivariados. O levantamento do estado da arte mostrou que os
ensaios trabalhados para a Avaliação da Extensão Universitária não conseguiram implemen-
tar a interação entre os atributos quantitativos e os qualitativos. O estudo é uma proposta do
projeto final do curso de Estatística da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, que
busca um procedimento para avaliar projetos de forma holística, visando implementar o acom-
panhamento dos mesmos para o desenvolvimento, de acordo com as áreas temáticas, sem que
haja fuga dos objetivos tomados como meta dentro dessas áreas. Esta modelagem tem como
meta avaliar a probabilidade da ocorrência ou não do alcance dos objetivos propostos, agrupar
os projetos de acordo com as características dos atributos e propiciar um método que auxilie na
distribuição das bolsas de Extensão Universitária, privilegiando o empenho dos Coordenadores
de Projetos e de Núcleos.
Metodologia
A Sub-Reitoria de Extensão e Cultura da UERJ – SR3 possui um cadastro dos projetos
com as respectivas características de identificação, tipo, componentes da equipe, das parcerias
constituídas e dos procedimentos implementados e de auto-avaliação. Os atributos inerentes aos
produtos e serviços nos projetos permitem que se efetive a Análise Exploratória dos Dados,
técnica que viabiliza reconhecer padrões e também auxiliar na construção dos grupos para a
aplicação da Análise de Agrupamento (GENGRELLI, 1963). A Análise de Agrupamento tem
como objetivo separar dados e constituir agregados, permitindo classificar e agrupar indivíduos
de um conjunto em grupos homogêneos segundo características de interesse. Esta técnica
também é utilizada para verificar a existência de homogeneidade em populações. No presente
caso, estas correspondem aos projetos que tem similaridade quanto aos fatores qualitativos e
quantitativos. No caso dos quantitativos, estes serão padronizados em desvios padrões para que
se elimine a diferença de mensuração de cada variável envolvida. Nos atributos categóricos
utilizam-se as variáveis Dummy, pois transformam adjetivos em valores numéricos. A carac-
terização da ausência de variabilidade nos grupos é estabelecida de acordo com uma distância
calculada entre os valores atribuídos a cada variável, podendo-se optar pela Distância
Euclidiana ou Distância de Mahalanobis. A Distância Euclidiana é uma métrica estatística
utilizada para comparar os desvios individualizados e identificar o comportamento mais
próximo entre eles, ou seja, a menor distância, sendo que as observações serão agregadas
de acordo com estas distâncias. No caso da Distância de Mahalanobis, esta medida utiliza os
desvios de cada valor observado para um único ponto, o centróide. Esta distância ressalta a
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variabilidade por meio da matriz de covariância, agregando grupos de menor variância em
contraposição aos de expressiva variabilidade. A análise destes grupos de projetos permitirá
proceder à taxionomia, privilegiando os que alcançaram os objetivos propostos. A princípio, o
estudo não estabelece o número de classificações, que podem ser aumentadas de acordo com a
necessidade identificada na Análise de Agrupamento. A título de mostrar a aplicação desta
modelagem foi utilizado o banco de dados/2001 da avaliação dos projetos da Sub-Reitoria de
Extensão da UERJ – SR3/UERJ. Na etapa seguinte, utilizar-se-á a Tabela de Contingência, que
relacionará os cruzamentos de áreas temáticas da Extensão com as classificações dos grupos de
projetos obtidas na Análise de Agrupamento. Este tipo de tabela é construída levando-se
em consideração os agrupamentos estabelecidos que foram classificados pelos produtos
desenvolvidos e serviços prestados, estes estruturados nos objetivos propostos. Este modo de
apresentação tabular serve como entrada para a aplicação da técnica de modelagem estatística
do Modelo Loglinear (DOBSON, 1990), modelo que descreve padrões de associação entre
variáveis categóricas. Com a aproximação Loglinear, modela-se contagem de celas em uma
tabela de contingência em termos de associação entre variáveis. Nesta proposta, o Modelo
Loglinear será desenvolvido para que seja determinado em quais áreas temáticas há maior
incidência de projetos com objetivos não atingidos. Este procedimento tem por finalidade
resumir as características mais importantes de um conjunto de dados, descrevendo-as da
maneira mais simples possível, usando para isto a transformação de valores individuais em
funções matemáticas com um número restrito de parâmetros. Também permite avaliar a
distribuição esperada (probabilidade condicional) do cruzamento da gradação dos objetivos
atingidos e das áreas temáticas e, ainda, estabelece a razão de chance da ocorrência dos
eventos do perfil linha e do perfil coluna da Tabela de Contingência. Isto significa que tomada
uma categoria como padrão, deve-se verificar qual a razão de chance das demais categorias
terem o mesmo perfil. Se uma área temática é selecionada como referência, a razão de chance
indica se outras áreas temáticas se comportam de maneira similar. Esta técnica de modelagem,
baseada nas freqüências observadas, deve ser validada por meio de Estatística Teste.
Primeiramente, pensou-se em três classificações: Projetos que não atingiram os objetivos,
Projetos que atingiram parcialmente os objetivos e Projetos que atingiram plenamente os
objetivos. A seguir foi exemplificada uma Tabela de Contingência, destacando-se que no corpo
da tabela estão as freqüências dos projetos segundo classificações da pertinência da consecução
dos objetivos a serem alcançados e a Área Temática em que são implementados.
Consubstanciada na valoração dos atributos, identificar-se-á se existe uma interação significa-
tiva entre fatores qualitativos e quantitativos, transformando escalas de razão e intervalares
em categóricas. AAnálise de Agrupamento ressalta a homogeneidade intragrupo, isto é, aquele
projeto que não alcançou o objetivo, não pode estar compartilhando dos grupos que atingiram
ou estão atingindo suas metas. Os projetos estarão sendo avaliados sob a ótica de
funções condicionais de razões de vantagens, ressaltando de forma simultânea a Classificação
de Projetos em relação às Áreas Temáticas, utilizando-se a freqüência de ocorrência
dos projetos.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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instrumentos de estímulo ao alcance das metas a serem alcançadas, porque se ocorrer a classi-
ficação “Atingiu parcialmente os objetivos”, denota que nem todos os atributos alcançaram
níveis desejáveis pela avaliação. Os coordenadores de projetos mais experientes, que fazem
parte do grupo que “Atingiu plenamente os objetivos”, poderão ser os disseminadores dos
atributos que conduzirão à posição bem acima da linha de corte, e ainda contribuir na formação
de novos gestores de Núcleos e de Projetos. Ainteração das Áreas Temáticas é um desafio muito
grande para a Extensão Universitária; neste mister, será privilegiado o caráter multi, inter ou
transdisciplinar e, interprofissional entre os participantes dos projetos de Extensão. Ressalta-se
que para o bolsista o aprendizado torna-se cada vez mais interativo e facilitador da sua inserção
no mercado de trabalho. A implementação desta proposta é o objeto do projeto final do curso
de Estatística da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, como pré-requisito para obtenção
do título de bacharel em Estatística. A colaboração que este estudo pretende não é só identificar
as falhas, mas apontar os atributos, que devem ser perseguidos para melhorar o desempenho dos
projetos. A agregação do Ensino e Pesquisa à Extensão incentiva a maturidade profissional do
estagiário de Extensão, pois há uma troca de experiências interdisciplinares nas Unidades
Acadêmicas com surgimento de novas linhas de Pesquisa originadas de Projetos de Extensão
que levaram seus resultados a encontros técnico-científicos com propagação por meio de arti-
gos em revistas especializadas. A Extensão é uma via de mão dupla, com trânsito assegurado à
comunidade acadêmica, que encontrará, na sociedade, a oportunidade da elaboração da práxis
de um conhecimento acadêmico. No retorno à Universidade, docentes e discentes trarão um
aprendizado que, submetido à reflexão teórica, será acrescido àquele conhecimento. Este fluxo,
que estabelece a troca de saberes sistematizados, acadêmico e popular, terá como conseqüência:
a produção de um conhecimento resultante do confronto com a realidade brasileira, a democra-
tização do conhecimento acadêmico e a participação efetiva da comunidade na universidade.
Além de instrumentalizadora deste processo dialético de teoria/prática, a Extensão é um
trabalho interdisciplinar que favorece a visão integrada do social. Avaliar a Extensão
Universitária implica em processos complexos, porém essenciais como instrumento de auto-
conhecimento e de indicação do caminho que oriente a instituição no cumprimento de sua mis-
são social. Atividades extensionistas, nas atuais diretrizes curriculares, caracterizam-se por
atividades complementares possíveis de serem agregadas ao currículo em seu conceito amplia-
do. Possibilita um processo contínuo de troca entre o saber erudito e o saber popular na cons-
trução de um novo paradigma. O caráter quali-quantitativo da modelagem permite avaliar
holisticamente as atividades extensionistas.
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•A avaliação da extensão universitária na UERJ: resultados e desafios
Sonia Regina Mendes dos Santos, Professora Adjunta da Faculdade de Educação
Luciana M. Cerqueira Castro, Professora Adjunta do Instituto de Nutrição
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Resumo
Este trabalho apresenta uma síntese do percurso da metodologia de avaliação adotada
pela UERJ, em especial, os seus objetivos e as principais etapas elaboradas e os primeiros resul-
tados alcançados. A proposta de avaliação da extensão universitária na UERJ teve como pres-
suposto que ela não seria utilizada com o propósito de controle e fiscalização, mas que teria
como objetivo fundamental fornecer subsídios que permitissem viabilizar o processo de tomada
de decisões da Sub-reitoria de Extensão e Cultura, valorizando as ações bem sucedidas, e, muitas
das vezes, apresentando alternativas que se revelassem necessárias, de forma a propiciar que os
objetivos traçados para a extensão na UERJ pudessem ser alcançados. Para isso as propostas e os
instrumentos de avaliação foram elaborados a partir da discussão com os participantes da extensão.
Um aspecto importante foi manter em todo o processo de elaboração da proposta de avaliação
as linhas básicas do Fórum Nacional de Extensão Universitária. Ao final, identificamos alguns
desafios que se apresentam para a gestão da extensão universitária tais como a necessidade de se
investir em financiamento da extensão; de estimular as parcerias e de fomentar a articulação
ensino-pesquisa e extensão
.
Palavras-chave: avaliação, extensão universitária, universidade
Sobre a construção do processo de avaliação na UERJ
A avaliação é um processo político. Tanto as políticas para o ensino superior, em
especial para a extensão, quanto a avaliação não se dão em um vazio político. A avaliação,
como processo de investigação, lida com ideologias, perspectivas sociais para a educação e
interesses de grupos distintos, que confluem para um processo avaliativo e para a atuação de um
grupo que tem o poder de planejar as políticas da avaliação e os meios como ela se desen-
volverá. A avaliação também é uma técnica, caracterizada por uma elaboração própria, de
acordo com as decisões políticas. Além disso, por meio dela as instituições podem responder
como estão sendo aplicados os recursos e que resultados estão sendo alcançados.
É por essa via de entendimento que pudemos pensar algumas possibilidades da avaliação
da extensão na UERJ tornar-se mais do que um processo de aferição de situações, o que já vem
sendo realizado, mas um processo crítico de análise das mudanças que ocorrem no âmbito da
atividade extensionista na universidade, enfatizando uma perspectiva mais participativa entre os
coordenadores das atividades extensionistas e o processo avaliativo. Um dos aspectos centrais
no processo de construção da avaliação foi localizar de imediato as questões que pretendíamos
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responder, quais sejam: “em que medida programas e projetos existentes se aproximam dos
objetivos da extensão na UERJ? Quais os resultados obtidos pelos programas/projetos desen-
volvidos na universidade? Que conceito, concepções e práticas nas atividades deveriam ser
intensificadas? Que programas/projetos seriam incentivados? Quais deveriam ser redimensionados?
Até que ponto as atividades extensionistas interferem no processo formativo dos alunos, na
dinâmica de organização e funcionamento dos cursos de graduação e na constituição da autono-
mia econômica e social das populações envolvidas?” (MENDES e CASTRO, 2001, p. 12).
A resposta a tais questões não foi tarefa fácil, exigia que a avaliação da extensão uni-
versitária tivesse um caráter contínuo e adotasse uma forma mista de procedimentos de aferição
das atividades desenvolvidas a partir das suas proposições realizadas no âmbito dos departa-
mentos das unidades acadêmicas, seu planejamento, sua execução e resultados, de forma a
permitir a realização de análises quantitativas e, principalmente, qualitativas.
As primeiras iniciativas da avaliação não pretendiam ser confundidas com procedimentos
de mero controle e fiscalização, mas almejavam ser identificadas como uma atividade que
buscava fornecer subsídios que permitissem confirmar decisões e ações bem sucedidas, intro-
duzir outras que se revelassem necessárias, tendo como referência os objetivos da extensão
na universidade quais sejam: as atividades de extensão devem dar especial atenção às oportu-
nidades que oferecem aos estudantes, professores e técnicos para ação e reflexão em torno de
questões da área de estudo a que se dedicam; estabelecer prioridades de acesso à Universidade
de grupos dela excluídos; realizar transferência de tecnologia, produção e difusão do saber e
contribuir na formulação e avaliação de políticas públicas (LÁZARO, 2000).
Um outro aspecto importante foi conceber uma proposta de avaliação na UERJ, atrelada
às diretrizes gerais da política nacional de avaliação, definidas para a extensão através do Fórum
Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas.
De posse desses parâmetros, demos início à elaboração de uma proposta de avaliação
pautada em três etapas de acordo com o fluxo de registro e acompanhamento das atividades
extensionistas na UERJ. As etapas do processo que dão suporte para avaliação foram assim
concebidas:
a) a avaliação do projeto/programa no momento de sua proposição, onde se avaliava a
identidade com a natureza das ações extensionistas; a relevância social, econômica e
política dos problemas abordados, em especial, as necessidades a que o projeto espera
responder; a relevância acadêmica, ou seja, as possibilidades proclamadas de:
articulação com a pesquisa e o ensino, os segmentos sociais envolvidos, a interação com
órgãos públicos e privados; a possibilidade de disseminação de conhecimentos; a
disponibilidade de recursos materiais, financeiros, técnicos e humanos, e a estrutura do
projeto — seus níveis de autoridade e procedimentos — incluindo a promoção de
mecanismos de avaliação; e por último, suas possibilidades de concretização;
b) a avaliação da implementação dos projetos/programas da extensão universitária na
universidade que procura detectar as dificuldades encontradas no desenvolvimento do
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projeto, a busca de soluções e gestão dos coordenadores sobre o projeto, as articulações
desenvolvidas com o ensino e a pesquisa, a interação com os órgãos públicos e privados
e outros segmentos organizados sociais envolvidos. A gestão do projeto nesse processo
inclui a definição de critérios de acompanhamento e avaliação adotados, seus recursos
materiais e humanos e as suas condições operacionais. Privilegiou-se como fonte
principal dessas informações o resultado da avaliação realizada na Mostra de Extensão
realizada anualmente na UERJ;
c) a avaliação dos efeitos, onde se avalia em que medida o projeto alcança seus resultados,
quais foram os seus efeitos previstos e não previstos. Aavaliação dos resultados alcançados;
apropriação, utilização e reprodução do conhecimento envolvido na atividade de
extensão pelos parceiros. Procura captar, em suma, o efeito da interação resultante da
ação da extensão nas atividades acadêmicas. A fonte principal de informação são
os relatórios finais elaborados anualmente pelos coordenadores de projetos (MENDES
e CASTRO, 2001).
Os três aspectos da avaliação se interligam, sendo que não há um privilegiar de um olhar
sobre cada um deles sem considerar as relações postas com os demais momentos do processo.
Realizar a avaliação sobre cada um desses momentos tem representado muito esforço, desde a
elaboração de documentos até a preparação de equipes através do convite de avaliadores ad hoc,
pois cada uma das etapas pressupõe uma série de implicações tanto de ordem conceitual como
operacional, quanto a seleção das estratégias metodológicas e dos procedimentos técnicos que
vão ser utilizados na coleta de dados e, ainda mais, pressupõe sistematicamente, a revisão de
procedimentos e instrumentos de coleta de dados.
É preciso destacar que tivemos, como prática, o incentivo para que a avaliação inicial do
projeto ocorresse dentro das próprias unidades acadêmicas, nos departamentos e órgãos
colegiados e no Conselho Departamental de forma que a proposta seja aprovada quanto a
pertinência do seu conteúdo. Ao ser encaminhada ao Departamento de Projetos de Extensão –
Depext, este designava um avaliador, membro da Comissão de Assessoramento e Avaliação
do Depext, que apreciaria o projeto sob os aspectos apontados anteriormente.
Acomunicação dos resultados do processo avaliativo, de modo geral, se constituiu como
momento privilegiado para o debate sobre o papel das atividades de extensão realizadas na
universidade.
Desafios e questões enfrentadas
Definidas as etapas do processo avaliativo, seus principais procedimentos e instrumentos,
uma das questões enfrentadas foi ampliar a discussão sobre as dimensões da avaliação adotada,
de forma a mobilizar a comunidade acadêmica explicitando que permaneceriam as necessárias
autonomia e liberdade de ação para a realização das atividades. Nessa perspectiva, não
podemos ignorar que as referências mais significativas do processo de avaliação incidem
sobre o planejamento da extensão na UERJ, sua gestão e os resultados do trabalho que se
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As avaliações nos mostram, portanto, um avanço na formalização da pesquisa junto
aos projetos, fato que os tem tornado mais consistentes teoricamente, mostrando também a
incorporação da reflexão sobre seu fazer. Este fato reforça a tese de que a extensão não está
somente centrada no ativismo, que tanto caracterizou suas atividades ao longo dos anos. Quanto
à integração com o ensino formal, ainda temos muito que avançar. Apesar de nossos projetos já
servirem de campo de prática para as disciplinas do currículo e terem, a partir de suas
experiências, elaborado disciplinas eletivas, é possível perceber que a indissociabilidade é mais
freqüente quando os coordenadores das propostas são também professores de disciplinas afins.
Assim, ainda nos falta tornar as atividades de extensão mais orgânicas e integradas consisten-
temente na vida da unidade acadêmica. Esta desagregação passa também pelo fato de se ter
tempos diferenciados. Aidéia do ensino articulado à extensão baseia-se em atitudes de reflexão,
análise, tomada de decisão, articulação com o outro, escuta atenta, parcerias. A lógica de orga-
nização de um currículo que contemple a extensão universitária não pode ser a que aí está, a
qual o separa em caixinhas. Deve prever um tempo e um acontecer diferentes. Um tempo dos
parceiros, um tempo dos contatos, um acontecer de revisitas às propostas (CASTRO, 2004, p.
159). As possibilidades de integração são grandes e podem ser profícuas, mas dependem de
novas redefinições, aprendizagens e de novos tipos de gestões da extensão, da pesquisa e do
ensino de nível superior (BOTOMÉ, 2001, p. 159).
Sabemos também que a dissociação entre as três funções está intimamente ligada à
lógica que preside os projetos pedagógicos das Universidades, ou seja, alicerçados numa
concepção de conhecimento decorrente de um paradigma de ciência e de mundo fragmentados,
portanto a tarefa é mais ampla que a extensão, é da concepção dos currículos.
Outro ponto percebido, através das avaliações, foi que os projetos ainda não incorpo-
raram de forma efetiva a avaliação de suas ações e dos seus alunos. Entendemos que a
avaliação é uma oportunidade para se refazer os caminhos traçados para o projeto, em parceria
com a equipe. Ela deve estar prevista em cada etapa de trabalho e permite que, ao final da
atividade, se tenha a possibilidade de avaliar a proposta como um todo. É importante salientar
que não havia, por parte da gerência da extensão, uma orientação de como se fazer avaliação
e sim o estímulo para que cada proposta desenvolvesse um tipo de avaliação que fosse mais
condizente com seu trabalho.
Percebeu-se também que as propostas desenvolveram como atividades do projeto algum
tipo de produto, sendo a maioria a elaboração de artigos científicos e a realização de eventos. Outro
fator importante a ser destacado foi a apresentação da proposta em eventos científicos. Estes fatos
indicam que os projetos de extensão podem disseminar os conhecimentos produzidos por eles.
Em relação às parcerias, verificou-se que a maioria dos projetos desenvolvem suas
atividades sem parceiros internos, de outros departamentos ou unidades. Estas dificuldades
apontam para a necessidade de desenvolvimento de estratégias gerenciais para o fomento da
articulação interna. Acreditamos que o fortalecimento das áreas temáticas, com coordenações
específicas, pode trazer resultados nesta área. Quanto às parcerias externas à Universidade,
verificamos que esta se dá, em sua maioria, com órgãos públicos. O fato de realizar tais atividades
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
41
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com órgãos públicos, contudo, parece não significar que os projetos incorporem uma postura
avaliativa em relação às políticas públicas ou tenham influência na sua elaboração ou reformulação.
De um modo geral, a parceria conflui para a realização de ações identificadas como significa-
tivas para a formação do aluno e o desenvolvimento do projeto naquela área específica.
O processo avaliativo também detectou as dificuldades enfrentadas pelos coordenadores.
Dentre elas, destaca-se sobremaneira o financiamento da extensão. Apesar da UERJ oferecer
420 bolsas de extensão, ter normatizado a alocação de carga horária dos professores em extensão
(Sub-Reitoria de Extensão..., 2003), pontuar as atividades de extensão para obtenção de Bolsa
do Prociência — modalidade de bolsa recebida por professores com 40 horas semanais e com
produtividade reconhecida através da análise de seu currículo —, e ter conseguido possibilitar
a participação de professores e técnicos em atividades científicas, não existe um financiamento
específico e freqüente, em moeda, para a realização das atividades.
À guisa de conclusão
A extensão universitária, diferentemente do ensino e da pesquisa, pouco foi regulamen-
tada pelos órgãos de governo, tanto no que diz respeito à normalização de suas práticas,
quanto ao financiamento de suas atividades. “Este distanciamento imposto permitiu que ela se
organizasse por dentro e pudesse se dedicar a construir uma relação mais próxima da sociedade”
(CASTRO, 2004, p. 48), e, no caso da avaliação, desenhar seu próprio processo avaliativo.
Porém o que se percebe é que ainda parece difícil conseguir ingressar de forma mais consistente
nas arenas de decisão de assuntos relevantes. O distanciamento, se por um lado facilita o
desenho de uma extensão que se deseja para cada universidade, por outro impõe uma tarefa
árdua de construção de processos e assim de constantes adaptações e revisitas às propostas.
A avaliação é uma função da gestão universitária destinada a auxiliar o processo de
decisão, visando a torná-lo o mais efetivo possível. No campo da extensão, o processo de avali-
ação também se constitui uma exigência contemporânea, ou seja, uma exigência no caminho de
tentar alcançar a complexidade que é avaliar práticas e ações no campo da extensão.
Nesse sentido, a avaliação da extensão tem se constituído um campo de trabalho propício
para a análise de processo de trabalho implementado pela extensão, os resultados alcançados com esse
processo de trabalho e as repercussões das ações na comunidade interna e externa da universidade.
A avaliação exige, cada vez mais, a utilização de uma série de técnicas abrangentes
adequadas ao que se vai avaliar, que permitam “dar voz” a todos os participantes do processo
visando, principalmente, ao avanço no processo de análise, aprofundamento do conhecimento
dado pelas informações coletadas e geração de novas questões.
No contexto atual, podemos apontar para algumas análises significativas; uma delas nos
remete a aspectos que já foram introduzidos nos projetos, que, muitas das vezes, redirecionaram
suas ações, em suma, reorganizaram-se em função da avaliação. Do outro lado, estamos cada
vez mais cônscios de que a extensão universitária na UERJ realiza relevante produção de
conhecimentos e se alicerça no conceito de teoria-prática, consciência/autoconsciência dos
participantes, sendo importante instância formadora dos nossos discentes. Assim, há de se
42
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considerar a extensão como uma das formas que a universidade tem de produzir, e de disseminar
conhecimento, alicerçado principalmente na experiência. Nessa perspectiva, emerge a
discussão da flexibilização curricular, onde a extensão não só suscita a criação e o desenvolvi-
mento de novas áreas de conhecimento necessárias para a formação integral dos estudantes, mas
reconhece o desafio de garantir como preocupação inicial o registro das atividades extensionistas
no histórico escolar dos seus alunos, que de forma independente e autônoma participam dos inúmeros
projetos extensionistas da UERJ. Os projetos que congregam tais preocupações são potencialmente
os projetos que fazem com que a extensão reafirme seu lugar na universidade, uma Universidade
que se quer sintonizada e comprometida com os problemas cruciais da sociedade.
Em suma, sabemos por nossa experiência que a avaliação que produz conhecimento
apropriável pela comunidade, não o faz de forma descontextualizada. A avaliação da extensão
não tem sentido se estiver desconectada do cenário que é hoje a extensão universitária, e que
gera a própria necessidade de avaliação da função. Contudo, é de tal monta essa variação do
ponto de vista da extensão universitária, que não se pode abordá-la como se fosse única, como
uma possibilidade ímpar de pensá-la e vivê-la nas universidades públicas do país, mas há que
se considerar as várias “extensões” existentes dentro de uma mesma universidade. Por todo esse
percurso, a avaliação da extensão, na UERJ, tornou-se mais do que um processo de aferição de
situações, pois caminha para um processo crítico de análise das mudanças que ocorrem no
âmbito da atividade extensionista na universidade, o que não a isenta de enfrentar algumas
questões de extrema importância para o seu processo de aprimoramento tais como: aprofundar
a articulação entre as três funções da universidade a partir da extensão universitária, bem como
instigar que cada projeto incorpore a dimensão avaliativa, de forma que possa apreender o
aprimoramento da formação do aluno e o manejo do conhecimento pela sociedade.
Referências bibliográficas
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a universidade. In: FARIA, D.S. (Org.).
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21/08/2003
. Regulamenta a alocação de Carga Horária em Extensão e dá outras providências.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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•A construção de categorias e indicadores para avaliação institucional de
cursos, projetos e atividades de extensão universitária
Carmen Cecília de Campos Lavras, Doutora em Saúde Coletiva
Elisabete M. M. de Pádua, Doutora em Filosofia e História da Educação
Maria José Comparini Nogueira de Sá, Especialista em Planejamento em Saúde
Maria Teresa D. F. P. M. Porto, Especialista em Recursos Humanos e Planejamento em Saúde
Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC-Campinas
Resumo
O artigo apresenta as principais categorias e critérios para indicadores que compõem a
avaliação dos diferentes momentos do processo de formulação e implementação de atividades,
cursos e projetos de extensão. Este conteúdo faz parte do Proex – Programa de Fomento e
Avaliação da Extensão Universitária da PUC-Campinas, desenvolvido pela Pró-Reitoria de
Extensão e Assuntos Comunitários. Estabeleceram-se preliminarmente categorias e critérios para
indicadores de avaliação, os quais foram socializados e discutidos, em Seminário Interno, com
todos os responsáveis pela Gestão da Extensão na Instituição. As categorias e critérios para indi-
cadores identificados se constituem como referência para a construção de instrumentos de auto-
avaliação institucional da Extensão Universitária
.
Palavras-chave: extensão, avaliação, procedimentos metodológicos
Introdução e objetivos
A Extensão Universitária, entendida como prática acadêmica que expressa a interação
Universidade-Sociedade por meio da articulação de atividades de ensino e pesquisa com
demandas sociais mais abrangentes, tem, sistematicamente, se constituído em objeto de
reflexão e discussão no âmbito da PUC-Campinas.
Em 2002, com a aprovação, pelo Conselho Universitário, da Política de Extensão da
PUC-Campinas, foi formulado o Proex, entendido como um conjunto de iniciativas de caráter
técnico e operacional, de apoio ao desenvolvimento e de avaliação permanente das atividades
de extensão propostas pelas unidades acadêmicas e organismos da Universidade.
Tendo como um dos principais objetivos a implantação e o desenvolvimento deste
processo avaliativo, a Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, durante o ano de
2003, buscou consolidar uma gestão compartilhada com os docentes responsáveis pelas
atividades de Extensão e com as diferentes instâncias de gestão, entendendo que o referido
Programa deve contemplar as seguintes dimensões: 1) acompanhamento e avaliação da política
de Extensão, 2) acompanhamento e avaliação da gestão da Extensão e 3) acompanhamento e
avaliação das atividades de Extensão, no caso, cursos, projetos e atividades como: conferências,
palestras, oficinas, mini cursos, semanas comemorativas e outras.
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Diante da necessidade de definição de diferentes procedimentos, métodos e instrumentos
que contribuíssem para alcançar os objetivos propostos, foram desencadeadas ações de caráter
acadêmico-administrativo que, embora de natureza diferenciada, puderam trazer subsídios para
a consolidação do Programa.
No que se refere à dimensão “acompanhamento e avaliação das atividades de extensão”,
em 2003 foram definidos e implementados formulários e roteiros específicos para apresentação
das propostas de cursos e projetos de extensão; foram ainda definidos e implementados os
procedimentos operacionais para tramitação e aprovação de cursos e projetos, estabelecendo-se
o fluxograma hoje vigente.
Em 2004, o “I Seminário de Avaliação da Extensão Universitária”, realizado em
30/03/2004, constituiu-se em espaço de trabalho coletivo, para discussão das categorias e
critérios para indicadores no processo de avaliação de cursos e projetos de extensão, apresenta-
dos pela Pró-Reitoria. Este Seminário contou com a participação das direções dos Centros
Universitários, direções de Faculdades, coordenadores dos Núcleos de Pesquisa e Extensão dos
Centros, professores representantes da extensão nos Núcleos de Pesquisa e Extensão, equipe da
Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, todos envolvidos diretamente com a gestão
da Extensão, e demais professores interessados no tema.
Metodologia
1. Análise documental.
2. Levantamento e definição das instâncias de avaliação das propostas de cursos, projetos
e atividades de extensão.
3. Levantamento e definição preliminar de categorias e critérios para indicadores de
avaliação de cursos e projetos de extensão, como marco referencial para a construção
de instrumentos de auto-avaliação institucional da Extensão.
Resultados e discussões
A análise documental buscou rever, no Estatuto e Regimento da PUC-Campinas, as
atribuições das diferentes instâncias acadêmico-administrativas envolvidas com a Proext – Pró-
Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, no que se refere às atividades de extensão.
Assim, quanto ao levantamento e definição das instâncias de avaliação das propostas de
atividades de extensão, foram identificados os seguintes momentos/instâncias do processo de
formulação, tramitação e aprovação de cursos e projetos, que poderiam tornar-se objeto da
avaliação institucional:
• elaboração da proposta;
análise e parecer pela Direção da Faculdade/Órgãos Complementares/Setor a que a
proposta se vincula;
análise e parecer pela Coordenação do Conselho do Núcleo de Pesquisa e Extensão do
Centro Universitário/Órgão Complementar/Setor a que a proposta se vincula;
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processo deveria ser avaliado, tanto no que se refere ao trabalho docente, quanto ao próprio
processo de gestão da extensão.
O que também pudemos verificar é que a Universidade tem oferecido um grande número
de Eventos/Atividades de extensão, muitos como desdobramento dos projetos de extensão, que
só agora começam a ser devidamente mapeados.
Finalmente, cabe registrar que consideramos esses critérios para indicadores comple-
mentares aos indicadores quantitativos já existentes na instituição, bem como complementares
aos indicadores hoje utilizados pelo MEC no processo de avaliação da Extensão nas IES.
Conclusão
A definição destas categorias e indicadores se constitui como marco referencial para a
construção dos instrumentos de avaliação institucional da Extensão (questionários, formulários,
roteiros de entrevistas, outros), que será a etapa seguinte deste processo.
Embora o mesmo deva ser continuadamente desenvolvido e aprimorado, a presente
etapa, sem dúvida, contribuiu para o fortalecimento da cultura de avaliação da Extensão na
Universidade, em função da forma democrática e transparente como vem sendo desenvolvida;
assim, na perspectiva da avaliação como aprimoramento, o processo de definição destas cate-
gorias e indicadores contribuiu também para o fortalecimento dos mecanismos de integração
entre a Pró-Reitoria de Extensão e as demais instâncias gestoras da Extensão na Universidade.
Acreditamos, ainda, que os resultados deste processo possam contribuir com outras IES,
no sentido da troca de experiências que possibilitem o aperfeiçoamento e consolidação dos
programas de auto-avaliação institucional da Extensão.
Referências bibliográficas
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Brasília: MEC/INEP/SESU, 2003.
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Estatuto e regimento.
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Campinas: PUC-Campinas/Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, 2002.
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Repensando a extensão universitária na PUC-Campinas. Campinas: PUC-
Campinas/Coordenadoria Geral de Extensão, 1998.
Avaliação institucional da extensão na PUC Minas
Maria da Consolação Gomes de Castro, Mestre em Ciências Sociais Aplicadas à Educação pela
FAE/UFMG. Professora e Assessora da Pró-Reitoria de Extensão da PUC Minas. Membro da
Comissão Central de Avaliação Institucional da PUC Minas – Cocenai
Matilde de Souza, Doutora em Ciências Humanas. Professora da PUC Minas. Membro da
Comissão Central de Avaliação Institucional da PUC Minas – Cocenai
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas
Resumo
Considerando os atuais desafios enfrentados pelas Instituições de Ensino Superior do
Brasil, o presente artigo pretende explicitar os princípios e a metodologia adotados pelo
Programa Permanente de Avaliação Institucional da PUC Minas – Propav, enfocando espe-
cialmente a avaliação institucional da extensão universitária. O Propav pretende aferir a quali-
dade da prática educativa mediante adoção de quatro parâmetros que, no entendimento de seus
formuladores, estruturam e articulam o trabalho com o conhecimento: a indissociabilidade
entre ensino, pesquisa e extensão; a articulação teoria/prática; a interdisciplinaridade e a trans-
versalidade; a formação humanista. Este Programa tem sido desenvolvido por meio da
metodologia participativa, portanto, obra coletiva e fundamentada no princípio da educação
como bem público; na participação democrática da comunidade acadêmica e da sociedade no
processo avaliativo. A avaliação da extensão centra-se no Projeto Pedagógico dos cursos como
instrumento adequado para se aferir a qualidade da prática educativa e nos programas/projetos
desenvolvidos pela Pró-Reitoria de Extensão
.
Palavras-chave: avaliação institucional, extensão universitária, processos de avaliação
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Introdução e objetivos
“A abertura ao outro é o sentido profundo da democratização da universidade, uma democratização
que vai muito além da democratização do acesso à universidade e da permanência nesta. Numa
sociedade cuja quantidade e qualidade de vida assentam-se em configurações cada vez mais
complexas de saberes, a legitimidade da universidade só será cumprida quando as atividades, hoje
ditas de extensão, se aprofundarem tanto que desapareçam enquanto tais e passem a ser parte
integrante das atividades de investigação e de ensino.”
(Boaventura de Souza Santos, Pela mão de Alice, p. 225)
A experiência de avaliação institucional que trazemos para reflexão encontra sua princi-
pal justificativa no desejo e na necessidade dos agentes em refletir sobre o seu fazer, a partir de
objetivos propostos. Trata-se de um processo que tem como princípios norteadores o processo
democrático, participativo e accountable, que sugere um sistema de mútua responsabilidade
entre todos os que interagem para a realização do objetivo-fim da Instituição. Pretende-se, por
meio do Propav, instituir um processo avaliativo que seja, ele mesmo, um recurso pedagógico,
pois pretende-se um instrumento fundamental para o redirecionamento das atividades-fim da
Universidade. Assim, concebe-se a avaliação como obra coletiva, desde sua proposição até a
discussão de prioridades quanto à implementação de seus resultados, visando à correção de
rumos ou adequação de procedimentos. Este é um dos princípios que tem orientado o Programa
Permanente de Avaliação Institucional da PUC Minas (Propav).
Como bem lembra Dias Sobrinho (2000), a avaliação institucional vem adquirindo
grande importância nas políticas universitárias. Muito embora se admita que a avaliação é
mecanismo de regulação utilizado pelo Estado para controle da atividade educativa, também se
compreende que ela pode ser rico espaço institucional de reflexão sobre a qualidade do trabalho
com o conhecimento que se desenvolve na Universidade. Porém, para que essa reflexão se
revele prática da liberdade acadêmica e não mecanismo de controle interno, o processo de
avaliação deve ser participativo, democrático e educativo.
Breve contextualização da PUC Minas
A Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais tem hoje, aproximadamente, 43 mil
alunos, distribuídos em 47 cursos de graduação oferecidos nos turnos matutino, vespertino e
noturno; diversos cursos de pós-graduação lato e stricto sensu; reúne quase 3.000 professores e
cerca de 1.300 funcionários. Essa comunidade acadêmica está distribuída em quatro Campi,
sendo um localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte e três em cidades do interior
do Estado — Arcos, Poços de Caldas e Serro. O Campus de Belo Horizonte se organiza em
cinco Unidades sediadas nos Bairros Coração Eucarístico, Barreiro e São Gabriel e nas cidades
de Betim e Contagem, que compõem a Região Metropolitana. Esses números fazem da PUC
Minas uma das cinco maiores universidades brasileiras, o que tem exigido, inclusive, uma
revisão nos seus estatutos, no sentido de adequá-los à nova realidade da instituição, tanto do
54
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ponto de vista quantitativo quanto qualitativo, aí envolvida a discussão da dimensão organiza-
cional e da dimensão política que uma revisão desse tipo requer.
Dentre as preocupações de natureza qualitativa que esse processo faz emergir, com-
preende-se que a garantia da qualidade das atividades-fim da Universidade (ensino, pesquisa e
extensão) ocupa lugar de destaque. Ao lado dessa razão primordial, figuram as exigências da
própria legislação e a necessidade expressa pela administração superior da Universidade de se
produzir um processo de autoconhecimento desse novo perfil institucional, cujas mudanças
precisavam ser mais bem conhecidas por parte dos responsáveis pela finalidade máxima da
instituição, que é a formação de pessoas. Desse modo, e a partir de reflexão crítica quanto a
processos anteriores de auto-avaliação, a PUC Minas lançou, em setembro de 2002, o Propav,
objetivando produzir elementos para o autoconhecimento da Universidade por parte de todos
que a integram.
A avaliação institucional na PUC Minas
Experiências anteriores de avaliação vivenciadas pela PUC Minas, sobretudo a avaliação
realizada por meio do Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras –
Paiub nos anos 90, expressam claramente a compreensão da Universidade quanto ao caráter
político de todo processo avaliativo, muito embora a dimensão técnica não possa ser descarta-
da, ou simplesmente desconsiderada como aspecto relevante. Aprimeira avaliação institucional,
implementada pela Pró-Reitoria de Graduação da Universidade, aconteceu no início dos anos
90 e produziu ressonâncias positivas, mas também gerou desconfortos, principalmente em
decorrência da ainda pouco desenvolvida cultura de avaliação na Instituição.
Essas experiências permitiram evidenciar a importância de um instrumento avaliativo
para a melhoria do desempenho acadêmico, a possibilidade de participação da comunidade na
gestão universitária e a relevância de se informar adequadamente os atores da Instituição e o
público externo a respeito de seus resultados. Finalizadas as etapas de avaliação do Paiub, a
PUC Minas desenvolveu uma outra metodologia, que inovava no sentido de se pensar a
avaliação como ponto de partida para a proposição de adequações nos projetos pedagógicos dos
cursos em relação às Diretrizes Curriculares e às novas exigências e desafios do ensino supe-
rior. Havia, também, o propósito de se ampliar o diálogo interno quanto a prioridades para o
ensino, a pesquisa e a extensão universitária.
Acertos e equívocos decorreram dessas experiências. Observando seus resultados,
pode-se admitir que, apesar dos sobressaltos iniciais, o saldo positivo é bem mais expressivo,
principalmente pelo fato de a experiência ter produzido amadurecimento, ter contribuído para
o desenvolvimento de uma metodologia de avaliação e ter produzido o início de um percurso
rumo à constituição de uma cultura institucional na qual a avaliação pode ser compreendida
como aspecto primordial do fazer acadêmico e prática imprescindível para a produção de
políticas institucionais.
O Propav nasce como fruto dessas reflexões e pode ser considerado resultante desse
aprendizado institucional. Como política de avaliação, o Propav buscou se ancorar nos
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
55
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ensinamentos anteriores, sustentar-se nos objetivos da própria Instituição, fundamentar-se
numa percepção da prática educativa como exercício de liberdade e na formação de pessoas
como o objetivo máximo daqueles atores que, independentemente do lugar que ocupam na
hierarquia da Universidade, contribuem para a realização de seu objetivo fim. O Propav envolve
alunos, professores, funcionários e gestores; engloba o ensino de graduação e de pós-graduação,
a pesquisa, e a extensão, que se complementam para a formação integral do aluno, bem como
as atividades de gestão.
A avaliação institucional da extensão universitária no contexto do Propav/PUC Minas
Considerando a avaliação como principal meio de reflexão e aperfeiçoamento de toda
atividade humana que se realize, entende-se que em uma Instituição de Ensino Superior que se
destinada à formação profissional, a avaliação torna-se necessária em todas as dimensões a ela
relacionadas e permite o desenvolvimento de mecanismos que propiciem que o processo se
retroalimente.
Para pensar o processo de avaliação institucional da extensão universitária, necessário se
faz entender o conceito de extensão que tem norteado os programas/projetos da Pró-Reitora de
Extensão da PUC Minas. Conforme o Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das
Universidades Públicas em 1987, a extensão conceitua-se como: “um processo educativo,
cultural e científico, que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável, viabiliza a
relação transformadora entre a universidade e os demais segmentos da sociedade, trazendo para
a universidade a pergunta sobre a relevância da produção e socialização do conhecimento”.
De acordo com Fórum, a extensão é uma das atividades-fim da universidade que objetiva
disseminar o conhecimento desenvolvido por ela além de se tornar também, um momento de
captação e sistematização de conhecimentos produzidos pela sociedade e que se caracteriza por
uma intervenção na mesma. Nesse processo interativo, a extensão busca não só atender às
necessidades locais e regionais como também propiciar ao ensino e à pesquisa subsídios para a
produção do conhecimento considerando os desafios e problemas da realidade. Assim sendo, o
desejável é que o ensino e a pesquisa estejam em consonância com as demandas e necessidades
da sociedade, vinculando a prestação de serviços a uma filosofia de construção de sujeitos
autônomos. Uma das formas de operacionalizar esta filosofia é propiciar ao acadêmico a possi-
bilidade de vivenciar a relação ensino-aprendizagem a partir de relações interativas com os
problemas advindos da sociedade. A matéria-prima oriunda desta relação precisa ser
equacionada para além da sala de aula, mas também em seu interior, considerando-se o saber
na sua construção inter, multi e transdisciplinar.
Em conformidade com as orientações fornecidas pelo Sinaes – Sistema Nacional de
Avaliação da Educação Superior, a extensão deve se pautar em valores educativos, observando-
se sua integração com o ensino e a pesquisa buscando transferir o conhecimento e avaliando os
impactos das atividades científicas, técnicas e culturais para o desenvolvimento regional e
nacional. As políticas de extensão devem cumprir os preceitos estabelecidos pela missão da
universidade, considerando a importância social de suas ações no desenvolvimento da ordem
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democrática e na promoção da cidadania. Ainda conforme o documento, é preciso que as ações
de extensão mantenham uma articulação entre os setores público, o produtivo e o mercado de
trabalho, contribuindo para que os alunos desenvolvam no processo ensino-aprendizagem o
espírito crítico próprio de uma formação cidadã. A extensão deve se submeter de forma
contínua a um processo avaliativo, permitindo-lhe verificar a efetividade de suas ações.
As IES Comunitárias, por meio do ForExt – Fórum Nacional de Extensão e Ação
Comunitária das Universidades e Instituições de Ensino Superior Comunitárias, que a PUC
Minas integra, confirmam estas diretrizes e consideram que, para se formular um conceito de
extensão, deve-se orientar por uma filosofia educacional, intrinsecamente, definida em sua
missão e contemplada nos projetos político-pedagógicos dos cursos. A Carta Internacional
dos Direitos Humanos é o documento orientador das ações destas universidades que, à luz de
princípios cristãos, buscam promover a dignidade da vida.
A PUC Minas, como uma universidade que se define de natureza confessional,
filantrópica e comunitária, tem envidado esforços no sentido de traçar estratégias políticas para
cumprir os preceitos estabelecidos em sua missão. Ahistória da instituição tem demonstrado sua
sensibilidade em aceitar os desafios da interação ensino, pesquisa e extensão na perspectiva de
construir um projeto societário que busque de forma efetiva concretizar uma pauta de inclusão.
Hoje vivemos um momento de questionamento e redefinição da extensão universitária.
Questionam-se o lugar da extensão na universidade e o tratamento secundário que lhe tem sido
dado nacionalmente. Interroga-se, ainda, sobre como efetivar a indissociabilidade entre a
extensão, o ensino e a pesquisa. Um esforço nacional tem sido feito no sentido de reconhecer a
extensão como uma atividade-fim da universidade, buscando-se superar seu entendimento
como atividade-meio, desintegrada dos projetos pedagógicos dos cursos, por não ser
contemplada nos currículos, nas disciplinas, na pesquisa e no estágio. A institucionalização da
extensão na estrutura dos cursos apresenta-se, portanto, como desafio a ser assumido pela
comunidade universitária, promovendo o diálogo entre as disciplinas e entre a cultura científica
ea cultura humanística. Diante do exposto, acredita-se que a avaliação institucional da extensão
pode ser um importante instrumento para a abertura e/ou ampliação de um diálogo que busque
a concretização desse processo e enfrentamento dos desafios próprios das atividades de extensão
no âmbito universitário.
A extensão universitária da PUC Minas atualmente se organiza por meio de seis linhas
de atuação: Fortalecimento dos Programas da Saúde, Programa sociocomunitário, Programa
socioeducativo, Programa sociocultural, Programa socioambiental, e Programa sociotecnológi-
co. Por meio dessas linhas de atuação, pretende-se promover o diálogo entre universalidade e
singularidade, preferencialmente de forma multi, inter e transdisciplinar, o que supõe intensa
cooperação entre docentes e discentes de diferentes cursos e áreas do conhecimento, favore-
cendo o intercâmbio, a re-elaboração e a produção de conhecimento sobre a realidade e
suas alternativas de transformação e o aprendizado da cidadania, base para a formação e auto-
educação do ser humano.
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57
_0217_UVE_LIVRO_FB 5 03.09.04 09:33 Page 57
A metodologia de avaliação institucional da extensão
A avaliação da extensão universitária está inserida na avaliação proposta pelo Propav e
integrada com as demais áreas do trabalho acadêmico. Está sendo gestada pela subcomissão de
avaliação da extensão, órgão integrante da Cocenai, composta por cinco professores e tem como
objetivos: abranger todas as ações da extensão desenvolvidas pela PUC Minas; demonstrar,
consolidar e contribuir para aprimorar a qualidade da produção acadêmica desenvolvida na
extensão; identificar o perfil da extensão universitária na PUC Minas, nas dimensões de política
de gestão, programas e infra-estrutura; analisar comparativamente as mudanças ocorridas
considerando o perfil da extensão universitária nas demais IES do Brasil e subsidiar o Programa
Permanente de Avaliação Institucional e a elaboração do Plano de Desenvolvimento
Institucional com informações para a elaboração e desenvolvimento de políticas de extensão. A
subcomissão de avaliação da extensão tem como tarefa a elaboração, aplicação e análise de
instrumentos de coleta de dados em três modalidades: formulário para registro das informações
sobre a base normativa proposta pelo Propav; quadro diagnóstico dos indicadores de infra-
estrutura e política de gestão; questionários de avaliação da extensão na perspectiva dos
gestores, coordenadores de programas e projetos, discentes e comunidades envolvidas nas ações
de extensão.
As atividades de avaliação previstas pela subcomissão são as seguintes:
a) realização de um diagnóstico global da extensão — mapeamento dos Programas/
Projetos/Atividades; pessoas envolvidas; nº de beneficiados diretamente nos diversos
projetos; número de cursos e eventos promovidos; parcerias e dados sobre a
Coordenação de Estágio Integrado;
b) auto-avaliação da política e práticas de extensão – Instrumento I, a ser aplicado ao Pró-
Reitor de Extensão, assessores, coordenadores de extensão dos Campi, considerando as
seguintes dimensões: dimensão I – Política de Gestão da Extensão, incluindo a Política
de extensão na PUC Minas; a integração entre as ações de extensão, ensino e pesquisa;
a concepção de extensão; dimensão II – Infra estrutura: recursos humanos e materiais,
incluindo a estrutura organizacional da extensão; o sistema de acompanhamento e
avaliação; o financiamento da extensão e recursos materiais; dimensão III – Relação
entre Universidade e sociedade; dimensão IV – Documentação, produção científica e
divulgação.
É importante destacar que estes processos estão sendo elaborados pela Subcomissão de
Avaliação Institucional da Extensão para posterior discussão e aprimoramento na Cocenai e só
serão implementados após aprovação pela mesma e pela Pró-Reitoria de Extensão.
Mediante avaliação da graduação (docentes e discentes), realizada no ano de 2003, pode-
se perceber que os acadêmicos em sua maioria (77,7%) responderam não conhecer ou não
participar de projetos/atividades de extensão, apenas 6,8% afirmaram participar de projetos
de extensão promovidos pela PUC Minas e a maioria considera que faltam estímulos e
58
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conhecimentos para se integrarem em projetos de extensão. Quanto aos docentes, percebe-se
pelos dados coletados que menos de 20% dos professores utilizam atividades de extensão como
recurso pedagógico e 21,4% participam ou coordenam atividades de extensão promovidas pela
Proex. Observa-se também que as atividades de extensão não são contempladas nos projetos
pedagógicos dos cursos. No Censo da Extensão, realizado no segundo semestre de 2003, com
os cursos da Unidade Coração Eucarístico (cerca de 40 cursos), ficou evidente o desconheci-
mento e as dificuldades em identificar a natureza extensionista de algum projeto ou atividade
desenvolvida pelos cursos. A maioria dos projetos de extensão hoje existentes na PUC Minas
são promovidos ou demandados pela Proex, a partir de demandas da sociedade. Está em pauta
na PUC Minas a discussão sobre o pouco estimulo até hoje dado à extensão universitária, que
não dispõe de orçamento próprio para o desenvolvimento de suas atividades, a não validação de
créditos para participação em atividades de extensão e a dificuldade de se conseguir horas de
dedicação para os professores que desejam desenvolver projetos de extensão. Boa parte dos pro-
jetos desenvolvidos ou em desenvolvimento são custeados por Instituições Financiadoras ou
por parcerias de cooperação mútua.
Após a implementação do Propav e o empenho das Pró-Reitorias de Graduação,
Extensão e Pós-Graduação e Pesquisa, este quadro vem sendo alterado significativamente: a
maioria das comissões internas da Universidade tem integrantes da Proex, dentre elas merece
destaque a comissão de análise de projetos político-pedagógicos, coordenada pela Prograd, na
qual a Proex tem uma representação que analisa e discute com a comissão de elaboração do PPP
e com as demais Pró-Reitorias as possibilidades e viabilidade de incorporar ações de extensão
a partir do campo de atuação do profissional que se quer formar. O atual desafio da Proex, da
Prograd e da Proppg é discutir com os cursos a incorporação de ações da extensão nos projetos
político- pedagógicos, a partir da articulação ensino, pesquisa e extensão.
Considerações finais
Acredita-se que a inclusão da extensão universitária como um dos parâmetros de avaliação
importante da Universidade constitui um avanço na medida em que propicia a valorização e
institucionalização da extensão no cenário interno e externo à PUC Minas.
Esta proposta de avaliação da extensão tem como finalidade a definição e consolidação
de uma Política de Extensão da PUC Minas e a construção de processos e metodologias que
fortaleçam a extensão no interior dos cursos, mediante projetos político-pedagógicos, e possi-
bilitem o cumprimento da missão da Universidade juntamente com o ensino e a pesquisa, que
visa à formação humanista, ou formação do sujeito em sentido lato, cuidando do desenvolvi-
mento integral do ser humano de modo a garantir sua inclusão na sociedade por meio do
exercício da cidadania.
A dimensão pedagógica do Propav encontra-se no fato de que a avaliação do trabalho
com o conhecimento se ancora na auto-reflexão dos agentes a respeito de suas atividades, tendo
em vista as intenções que as regem; nas atividades de capacitação realizadas com diversos
agentes; na abertura do diálogo institucional para a discussão da proposta e da metodologia da
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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avaliação, momento no qual a dimensão pedagógica aparece imbricada com a participação
democrática. A dimensão democrática envolve a abertura de possibilidade para que os agentes
manifestem suas opiniões e participem, em diversos momentos, de atividades que visam pro-
duzir reflexões coletivas sobre a própria avaliação. O diálogo institucional tem sido estimulado
por meio da realização de diversas reuniões nas várias Unidades e Campi da PUC Minas,
envolvendo alunos, professores e funcionários. Esse envolvimento tem garantido a observância
da participação e engajamento desses atores no processo da avaliação. Segundo opiniões
coletadas junto a professores, alunos e coordenadores de curso, o Propav revela o desejo, por
parte da comunidade acadêmica, quanto à abertura de espaços plurais de diálogo interno, além
de propiciador da avaliação como aspecto relevante da cultura institucional.
Espera-se que os resultados sejam divulgados e discutidos com a comunidade acadêmica
e que esta possa participar quanto às futuras decisões a respeito das prioridades institucionais.
É possível perceber que, apesar dos obstáculos que poderão ser encontrados, como, por
exemplo, garantir a permanência de um programa de avaliação e obter resultados satisfatórios
na avaliação das diversas atividades-fim da PUC Minas, a política do Propav orienta-se pela
troca permanente de experiências e de sugestões, de ajustes e adequações, para construir, con-
juntamente, a Universidade que todos queremos. (LEITE et al., 2004)
A Cocenai e a subcomissão de avaliação institucional pretendem no segundo semestre
de 2004, realizar a avaliação institucional da extensão universitária, o que com certeza con-
tribuirá para a redefinição e refinamento dos projetos e atividades de extensão na PUC Minas.
O processo, depois de validado pela Cocenai, será realizado envolvendo a gestão da Proex, os
coordenadores de extensão dos Campi/Unidades Acadêmicas, os coordenadores e demais mem-
bros (professores e acadêmicos) dos projetos/programas de extensão e a comunidade ou os
atores sociais envolvidos nas ações de extensão universitária.
Referências bibliográficas
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(Re)conhecer diferenças, construir resultados
61
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•Avaliando o Programa de Bolsas de Extensão – PBEXT/UFMG
Marilia Guimarães, Mestre em Psicologia Social
Edite Cunha, Mestranda em Ciência Política
Maria das Dores Nogueira, Mestre em Educação
Marcos Roberto Gonzaga, Graduando em Estatística
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
A Pró-Reitoria de Extensão/UFMG tem priorizado a sistematização das ações de extensão
desenvolvidas pela Universidade, assim como a implementação de sistema de acompanhamento
eavaliação dessas, por parte dos seus coordenadores e alunos bolsistas. O objetivo desse trabalho
é apresentar a metodologia utilizada e os resultados dessa avaliação que têm possibilitado a
revisão de procedimentos institucionais e a proposição de novas diretrizes e estratégias para a
extensão. As ações de extensão avaliadas nesse trabalho referem-se aos programas/projetos con-
templados no Programa de Bolsas de Extensão – PBEXT, no ano de 2002. O instrumento utilizado
para a coleta de dados foi um questionário estruturado auto-aplicável. Os resultados da avali-
ação permitiram concluir que tanto os coordenadores quanto os alunos bolsistas tiveram uma
percepção positiva do alcance dos programas/projetos, da contribuição desses para o seu desenvol-
vimento pessoal e acadêmico, bem como do envolvimento e atuação de ambos no desenvolvimento
dos programas/projetos; que essas ações de extensão têm gerado benefícios para a comunidade/
público-alvo; possibilitado a relação dialógica entre a universidade e a sociedade; contribuído
para a intersetorialidade entre unidades, departamentos e setores da UFMG; viabilizado a
articulação entre diferentes áreas do conhecimento e materializado a integração da extensão com
o ensino e a pesquisa.
Palavras-chave: avaliação, programas, extensão
Introdução e objetivos
“A extensão é processo educativo, cultural e científico, articulado com o ensino e a
pesquisa de forma indissociável, e tem por objetivo ampliar a relação entre universidade e
sociedade” (Proposta de Regimento Geral da UFMG, art. 56). Expressa o compromisso social
da universidade em promover ações integradas voltadas para a garantia dos valores democráticos,
da igualdade e do desenvolvimento social.
A Pró-Reitoria de Extensão da UFMG, como integrante do Fórum de Pró-Reitores de
Extensão das Universidades Públicas Brasileiras, é signatária do Plano Nacional de Extensão,
que sistematiza a Política de Extensão para as universidades públicas brasileiras. Por isso adota
como princípios básicos norteadores das ações de extensão a relação dialógica com a comu-
nidade externa, a atuação social deliberada e de impacto, a interdisciplinaridade e a articulação
62
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da extensão com o ensino e a pesquisa.
Esse Plano relaciona, como um dos objetivos da extensão, tornar permanente a avaliação
institucional das atividades de extensão universitária como um dos parâmetros de avaliação da
própria universidade, tendo como meta a implementação de um programa de avaliação
de extensão nas Instituições de Ensino Superior. Assim, a UFMG, por meio da Pró-Reitoria de
Extensão, tem priorizado a sistematização das ações de extensão desenvolvidas pela
Universidade, tendo como um de seus objetivos implementar sistema de acompanhamento e
avaliação dessas ações, buscando uma apreensão mais ampla e acurada da percepção dos
programas/projetos, por parte dos seus coordenadores e alunos bolsistas, por meio de dados
anualmente coletados em questionário.
O objetivo desse trabalho é apresentar a metodologia utilizada e os resultados da avali-
ação de ações de extensão, que têm possibilitado a revisão de procedimentos institucionais e a
proposição de novas diretrizes e estratégias para a extensão. Dentre elas destacam-se: a busca
da articulação de projetos em programas; o fortalecimento dos cursos e eventos como ações
educadoras; a prestação de serviços institucionalizada como atividade de extensão legítima e
enriquecedora do ponto de vista acadêmico e indutora do desenvolvimento científico, tec-
nológico, social e cultural.
As ações de extensão avaliadas nesse trabalho referem-se aos programas/projetos
contemplados no Programa de Bolsas de Extensão – PBEXT, no ano de 2002. O PBEXT é
um importante instrumento de fomento às ações de extensão, inclusive como mecanismo de
articulação de projetos e atividades, bem como de valorização dessas. As bolsas são concedidas
a partir de julgamento e seleção pela Câmara de Extensão, de programas e projetos que respondem
a Edital, publicado ao final do ano letivo, concorrendo para o ano letivo seguinte. O Programa
é apoiado com dotação orçamentária da UFMG e as bolsas de extensão, desde o ano de 1999,
passaram a ter seu valor equiparado ao das bolsas de graduação e pesquisa. O PBEXT busca a
valorização do bolsista exigindo dos coordenadores dos programas/projetos a definição e
execução de um plano didático que oriente sua formação. Busca, ainda, o fortalecimento da
vivência acadêmica e social do bolsista e a integração curricular dessa atividade em um processo
de flexibilização curricular.
No presente trabalho foram aplicadas técnicas estatísticas para análise de um banco de
dados construído a partir dos questionários respondidos. A metodologia específica, adotada no
cruzamento de variáveis, está baseada na teoria de Estatísticas Não Paramétricas (estatísticas
baseadas em amostras das quais não se sabe o tipo de distribuição de probabilidade às quais elas
pertencem), partindo do pressuposto que se tem um banco de dados constituído basicamente por
variáveis categóricas. Neste contexto, a partir de dados disponíveis numa tabela de contingên-
cia (matriz de cruzamento de duas ou mais variáveis), foi calculado o Coeficiente de Kappa
(SPRENT, 2001), muito utilizado para verificar a concordância entre as opiniões de duas pes-
soas referentes ao mesmo assunto.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
63
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Metodologia
O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questionário estruturado auto-
aplicável, composto de dois formulários: o primeiro respondido pelos coordenadores e, o segundo,
pelos bolsistas dos programas/projetos contemplados com bolsas de extensão no ano de 2002.
O questionário apresentava perguntas com alternativas de respostas previamente indicadas
(fechadas) e questões abertas.
O primeiro formulário, respondido pelos coordenadores, era dividido em quatro partes.
A primeira parte tratou de questões relativas ao programa/projeto, abrangendo: a identificação
do mesmo, bem como da coordenação e equipe; sua caracterização, contemplando questões
relativas às parcerias, à participação dos alunos, ao plano pedagógico dos alunos, à participação
da comunidade, à articulação com o ensino e pesquisa e à interdisciplinaridade; o sistema de
avaliação do programa/projeto e dos alunos bolsistas; as outras ações de extensão promovidas
e os resultados alcançados. A segunda parte foi composta de questões referentes ao conheci-
mento da política de extensão por parte do coordenador. A terceira parte tratou de questões
relativas a auto-avaliação do coordenador e, a quarta parte, referiu-se a questões sobre o desem-
penho e envolvimento dos bolsistas nos programas/projetos e as contribuições da participação
deles para aquisição de novos conhecimentos e sua formação.
O segundo formulário tratou da avaliação do programa/projeto realizada pelo bolsista,
abrangendo as contribuições que sua participação no mesmo trouxe para ele, abrangendo
questões sobre o plano pedagógico, bem como a avaliação da atuação do coordenador e dos
resultados das ações desenvolvidas.
Em ambos os formulários, buscou-se apreender as críticas e sugestões dos coordenadores e
alunos bolsistas relativas ao programa/projeto, bem como à gestão da política de extensão na UFMG.
A amostra da avaliação abrangeu 111 programas/projetos de extensão apoiados pelo
PBEXT no ano de 2002 e 374 alunos bolsistas de extensão participantes dos mesmos. Observa-se
que o número total de programas/projetos contemplados com bolsas de extensão foi de 175, mas
obteve-se retorno de 111 avaliações, o que corresponde a uma amostra significativa de 63,43%.
Observa-se, ainda, que o número total de bolsistas (374) refere-se ao somatório do número dos
alunos que responderam ao questionário, mas não foram avaliados pelos coordenadores (44),
aqueles que foram avaliados pelos coordenadores, mas não fizeram a sua avaliação (32), e
aqueles que foram avaliados pelos coordenadores e fizeram a sua avaliação (298). Isso significa
que nem todos os bolsistas foram avaliados pelos coordenadores ou fizeram a sua avaliação do
programa/projeto e auto-avaliação. No entanto, esse quantitativo de 298 bolsistas foi considerado
amostra significativa, não comprometendo, assim, a avaliação.
Outra observação necessária diz respeito à diferença entre o número de bolsas e o de
bolsistas, o que pode ser explicado pelo fato de que uma mesma bolsa destinou-se a mais de um
bolsista em diferentes meses, o que ocorreu devido a substituições ou desistência de bolsistas
durante o período de vigência da bolsa. Registra-se, ainda, que o número de bolsistas por
programa/projeto é bastante diversificado, uma vez que o número de bolsas por cada um desses
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varia de uma a 26 bolsas concedidas.
A aplicação de metodologias estatísticas mostrou-se um instrumento relevante na cons-
trução e utilização dos bancos de dados para responder a questões pertinentes para a avaliação
em geral. Os bancos de dados foram construídos por meio do software – SPSS 11.1.
O primeiro banco de dados se refere à tabulação do formulário 1 do questionário de
avaliação respondido pelo coordenador. Já o segundo banco de dados contém a tabulação da
avaliação individual dos bolsistas pelo coordenador, que corresponde à parte 4 do formulário 1.
Finalmente, o terceiro banco de dados contém a tabulação do formulário 2 do questionário, que
se refere à avaliação realizada pelo aluno bolsista.
Resultados e discussão
Os dados, em geral, apontaram para uma avaliação positiva dos resultados dos progra-
mas/projetos com o alcance total dos seus objetivos gerais (62%). Em relação aos objetivos
específicos observou-se uma menor incidência de realização (50%). Identificou-se que 62% dos
programas/projetos atingiram o público que pretendia, destacando, como os principais benefícios
obtidos pela comunidade/público-alvo, a aquisição de conhecimentos; a ampliação da partici-
pação, organização e mobilização; a melhoria da qualidade dos serviços; a melhoria da qualidade
de vida; o crescimento cultural e educacional; e a articulação educação-cultura-cidadania.
Segundo a opinião dos coordenadores, a participação do bolsista no programa/projeto
trouxe grande contribuição para o desenvolvimento, tanto pessoal quanto acadêmico, do mesmo
(93%). Nesse último aspecto, constatou-se que a grande maioria dos bolsistas adquiriu novos
conhecimentos; teve oportunidade de confrontar a formação acadêmica com a prática; de vivenciar
práticas político-sociais e de desenvolver ações multidisciplinares. A comparação entre a
opinião dos coordenadores e a dos bolsistas, relativa às contribuições dos programas/projetos
para o desenvolvimento acadêmico desses alunos, mostrou que, em geral, existe concordância
entre essas opiniões (com nível de significância de 95%). Entretanto, identificou-se que em dois
dos sete itens analisados, a saber, aquisição de novos conhecimentos e confronto entre a for-
mação acadêmica com a prática, houve apenas uma concordância parcial.
Observou-se que, em sua grande maioria (95%), os programas/projetos contribuíram
para o desenvolvimento dos coordenadores, sendo destacado, por estes, a possibilidade de pro-
moverem a articulação entre extensão e pesquisa e/ou ensino; de serem autores ou co-autores
de publicações ou outros produtos acadêmicos; o reconhecimento da carga horária dedicada
como atividade acadêmica; e a valorização das ações de extensão na Gratificação de Estímulo
à Docência – GED.
Segundo os coordenadores, todos os bolsistas tiveram conhecimento do Plano
Pedagógico que deveriam cumprir no desenvolvimento do programa/projeto. No entanto, 5%
dos alunos registraram não ter conhecido o Plano. Os coordenadores mostram, ainda, que o
cumprimento integral desse plano só foi alcançado por 70% dos alunos, principalmente devido
à insuficiência de tempo, à falta de recursos e às limitações impostas pela instituição atendida.
Verificou-se que, em todos os programas/projetos, houve algum tipo de participação da
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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comunidade, seja no seu desenvolvimento e avaliação (40%) ou em todas as fases do processo
(26%). Na sua grande maioria (70%), os programas/projetos tiveram parceiros externos, sendo,
principalmente, instituições públicas (54%) e privadas (26%) e, em menor número, organiza-
ções não-governamentais (15%), destacando-se a participação dos parceiros no financiamento
das ações.
A grande maioria dos programas/projetos (87%) integrou diferentes áreas do conheci-
mento, seja nas atividades que desenvolveram, seja pela existência de equipe multidisciplinar.
É importante ressaltar a significativa incidência de parceiros internos compartilhando a coorde-
nação (43%) e o desenvolvimento dos programas/projetos (14%).
Em geral os programas/projetos ou estavam ligados a uma disciplina (56%) e/ou
geraram créditos (57%), por meio da própria disciplina ou de estágio. Alguns chegaram a gerar
uma disciplina (26%). Outros foram incorporados como componente curricular (41%), na sua
grande maioria, como atividade acadêmica ou disciplina/estágio. Pouco mais da metade
articulou pesquisa e extensão, seja realizando pesquisa ou por terem sido gerados a partir de
uma pesquisa.
Os programas/projetos contaram, além dos alunos bolsistas de extensão (64%), com a
participação de vários outros alunos bolsistas e não bolsistas de diversos cursos de graduação e
pós-graduação. A maioria dos alunos era da graduação (93%), sendo eles bolsistas ou não.
Aavaliação mista, ou seja, quantitativa e qualitativa, foi o tipo mais utilizado pelos coor-
denadores para avaliar tanto os programas/projetos (62%), quanto os bolsistas (55%). Comparando-
se os tipos de avaliação dos programas/projetos com os tipos de avaliação dos bolsistas, verifi-
cou-se que aquela exclusivamente qualitativa foi mais freqüente para avaliar os alunos.
Os instrumentos utilizados pelos coordenadores para a realização da avaliação dos
programas/projetos foram múltiplos, com destaque para reuniões, observações e relatórios.
Na avaliação dos bolsistas, os principais instrumentos foram as reuniões, o atendimento ao
público-alvo, a produção de textos, relatórios e outros, a auto-avaliação e, em menor incidência,
o trabalho final.
A periodicidade das avaliações dos programas/projetos diferiram de projeto para proje-
to bem como em um mesmo programa/projeto, mas, em sua maioria, foram semestrais (45%)
ou anuais (40%). A periodicidade da avaliação dos alunos, em geral, foi menor, sendo realiza-
da, além de semestralmente (41%), a cada mês (43%) ou semana (38%).
Os programas/projetos foram avaliados por vários sujeitos, com destaque para os coor-
denadores (85%), para os bolsistas (83%), os professores (62%) e os usuários (53%). Quanto
aos alunos, os principais avaliadores foram os professores (82%), os próprios alunos (60%) e
os coordenadores de campo (53%). A comunidade externa também foi ouvida em relação a
alguns programas/projetos (26%) e na avaliação dos bolsistas (19%). Destaca-se a importância
da consideração, por parte da coordenação, da opinião dos diversos sujeitos envolvidos, sobre
os programas/projetos.
Os objetivos apresentados pelos coordenadores para a avaliação dos programas/projetos
foram múltiplos, abrangendo a reorganização das ações (94%) e a revisão de planejamento e/ou
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redimensionamento das metas (74%). Os principais objetivos da avaliação dos bolsistas foram
dimensionar a contribuição do projeto para o seu desenvolvimento (86%), a sua orientação
(82%), a reorganização das atividades (85%) e a revisão do plano pedagógico (63%). Observou-
se que os objetivos se referiram àqueles voltados para o próprio aluno e aos relacionados com
as atividades que esses desenvolveram.
Os coordenadores, em geral, fizeram uma avaliação positiva e convergente dos bolsistas
de extensão, em relação aos aspectos: integração com o grupo, responsabilidade, interesse,
desempenho acadêmico global nas atividades do projeto, capacidade de organização e gerencia-
mento da rotina, grau de envolvimento com o projeto, empenho, disponibilidade, iniciativa,
pontualidade e assiduidade. A avaliação da atuação dos coordenadores pelos alunos bolsistas
também foi bastante positiva, destacando-se o incentivo à autonomia do bolsista (93%), a
orientação do seu trabalho (91%), ser fonte de aprendizado para o bolsista (88%), a divisão da
responsabilidade do projeto com os bolsistas (86%) e o estímulo à troca de experiências e
saberes entre os integrantes do programa/projeto (86%).
Os dados apontaram que 59% dos coordenadores dos programas/projetos já leram algum
documento sobre o Plano Nacional de Extensão; 58%, sobre a política de extensão da UFMG;
37% sobre a política de extensão da Unidade. O nível de informações dos coordenadores dos
programas/projetos no que se referiu aos documentos básicos da política de extensão (tanto no
nível nacional quanto na UFMG e na sua Unidade), bem como ao Sistema de Informações de
Extensão – SiexBrasil, ficou abaixo das expectativas da Pró-Reitoria de Extensão. Esses dados
apontam para a necessidade de a Proex fortalecer estratégias de divulgação da política de exten-
são na UFMG, bem como de apoiar os Centros de Extensão – Cenexs na definição e imple-
mentação da política de extensão das unidades.
Quanto às ações de extensão desenvolvidas nos programas/projetos, identificou-se que,
dentre os eventos, destacaram-se os seminários (19%) e as exposições (15%); entre os cursos,
a maioria foi de iniciação (38%); entre as prestações de serviço, 24% foram consultorias e, cerca
de 18%, assistência ambulatorial à saúde; entre as publicações e produtos acadêmicos, sobres-
saíram os relatórios técnicos (40%), pôsteres (13%) e comunicação em anais (10%). Observou-
se uma grande discrepância no que se refere à quantidade de publicações e/ou produtos
acadêmicos entre os programas/projetos.
Conclusões
A metodologia utilizada para a avaliação dos programas/projetos do PBEXT mostrou-se
adequada aos objetivos propostos, contudo, necessitando do aperfeiçoamento e da adoção de
outros instrumentos e ou estratégias que possibilitem a apreensão da complexidade que envolve
o cumprimento das diretrizes de extensão pelas ações desenvolvidas, assim como a facilitação
do preenchimento do questionário pelos coordenadores e bolsistas dos programas/projetos, bem
como da tabulação dos dados. Uma das possibilidades, já em discussão, é a disponibilização e
preenchimento on-line do questionário, em interação com o SiexBrasil, de modo que os dados
já identificados por este Sistema pudessem migrar automaticamente para o instrumento de cole-
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ta de dados. O preenchimento do questionário on-line poderia viabilizar a tabulação automáti-
ca dos dados, otimizando, assim, a estrutura hoje disponibilizada para esse processo e reduzindo
o tempo gasto no mesmo.
O questionário de coleta de dados viabilizou a avaliação dos programas/projetos em
vários dos aspectos pretendidos, entretanto, apresentou alguns problemas que evidenciaram a
necessidade de seu aperfeiçoamento: grande incidência de respostas inadequadas em algumas
questões; reclamações relativas ao tamanho do questionário; perguntas mal formuladas; o uso
de termos que pressupunham um nivelamento conceitual, o que não correspondeu à realidade;
existência de questões que trouxeram pouca contribuição para a avaliação pretendida dos
programas/projetos. A partir da identificação desses problemas, foram feitas as alterações no
instrumento: redução do questionário mediante exclusão daquelas questões que trouxeram
pouca contribuição para a avaliação pretendida dos programas/projetos; reformulação e reestru-
turação de algumas questões que apresentaram problemas de entendimento devido à sua
formulação; explicitação de certos conceitos nos quais foram detectados problemas de inter-
pretação; sistematização, definição e inserção de novas variáveis a partir da categorização das
respostas às questões abertas; padronização de questões nos dois formulários (coordenadores e
bolsistas) visando possibilitar uma análise comparativa da percepção dos coordenadores e dos
alunos bolsistas sobre o programa/projeto.
Em relação ao tratamento dos dados, observou-se que o fato de terem sido criados três
bancos de dados restringiu a análise comparativa entre a opinião dos coordenadores e dos bolsistas
sobre um maior número de questões. No sentido de aprofundar a análise, por meio da identificação
do nível de concordância entre coordenadores e alunos, foi proposta a tabulação das informações
em um único banco de dados.
Os resultados da avaliação permitiram concluir que tanto os coordenadores quanto os
alunos bolsistas tiveram uma percepção positiva do alcance dos programas/projetos, da con-
tribuição desses para o seu desenvolvimento pessoal e acadêmico, bem como do envolvimento
e atuação de ambos no desenvolvimento dos programas/projetos.
A análise dos dados permitiu tirar algumas conclusões relativas ao PBEXT. As ações
desenvolvidas por esse Programa têm gerado benefícios para a comunidade/público-alvo;
possibilitado a relação dialógica entre a universidade e a sociedade; contribuído para a interse-
torialidade entre unidades, departamentos e setores da UFMG; viabilizado a articulação entre
diferentes áreas do conhecimento, ainda que não configurada enquanto ação interdisciplinar;
materializado a integração da extensão com o ensino e a pesquisa, ainda que não no estágio de
interação desejável pela Proex.
A avaliação dos programas/projetos, uma vez que possibilitou a apreensão mais ampla e
acurada dos indicadores que refletem o cumprimento das diretrizes das ações de extensão
que norteiam a análise de mérito dos mesmos, contribuiu para o processo de seleção do
PBEXT/2003 realizada pela Câmara de Extensão para concessão das bolsas de extensão. Tem,
ainda, possibilitado a revisão de procedimentos institucionais e a proposição de novas diretrizes
e estratégias de gestão da extensão. Além disso, essa avaliação vem se constituindo, também,
68
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como contribuição para a avaliação da Extensão na UFMG.
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(Re)conhecer diferenças, construir resultados
69
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Dicas de saúde pelo rádio
Maria Cristina Soares Figueiredo Trezza, Doutora em Enfermagem.
Professora Adjunta IV do Departamento de Enfermagem. Líder do Grupo de Pesquisa Procuidado
Fátima Maria de Melo Brito, Enfermeira. Técnica do Departamento de Enfermagem. Membro do
Procuidado e Coordenadora do projeto
Regina Maria dos Santos, Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta IV do Departamento
de Enfermagem. Membro do Procuidado e Orientadora do projeto
Evilânia Carla de Godoi Bezerra, Monitora do projeto. Aluna do 3º ano do curso de Graduação em
Enfermagem. Membro do Procuidado. Relatora do trabalho
Universidade Federal de Alagoas – UFAL
Resumo
Trata-se do relato da experiência de implantar um sistema de educação para a saúde
através de dicas de saúde pelo rádio. Seu objetivo é divulgar informações que contribuam para:
promoção, proteção, recuperação e reabilitação da saúde; prevenção de acidentes domésticos; pre-
venção e detecção precoce de doenças; cuidado de saúde de mulheres, crianças, idosos, adultos e
pessoas deficientes em casa. É realizado em parceria com a Radio Difusora de Alagoas AM 960,
que veicula diariamente quatro dicas, distribuídas nos três turnos, elaboradas pelos alunos
e professores do Grupo de Pesquisa Procuidado do Departamento de Enfermagem da
Universidade Federal Alagoas. Segue-se a seguinte metodologia: durante a semana elaboram-se,
individualmente ou em dupla, as dicas, que são avaliadas na reunião semanal do Procuidado,
para serem gravadas e divulgadas na semana seguinte. O projeto está acordado para durar um
71
Comunicação
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ano, sendo garantido espaço para participação dos ouvintes através de cartas ou e-mails. Até o
momento, passados já sete meses, foram divulgadas 504 dicas. A Rádio tem recebido cartas e,
eventualmente, os ouvintes participam ao vivo, com perguntas e elogios à iniciativa. Os temas
das cartas e telefonemas estão sendo arquivados para estudos e pesquisas. O resultado final será
a publicação de um livro intitulado “Dicas de saúde pelo Rádio”.
Palavras-chave: educação em saúde, comunicação, enfermagem
Introdução e objetivos
Este trabalho é o relato da experiência de implantar um sistema de educação para a
saúde, de alcance estadual, que representasse uma contribuição do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas – UFAL para a melhoria das condições de
saúde da população alagoana.
A idéia de realizá-lo surgiu da compreensão da Universidade como um espaço de
estudo, investigação e produção de conhecimento, com a responsabilidade de, dentro do seu
compromisso social, divulgar os resultados dos seus esforços para atender às necessidades da
sociedade onde está inserida ou, como diz Luckesi, plantada numa realidade concreta, na qual
terá suas raízes, para que possa criticamente identificar e estudar seus reais e significativos
problemas e desafios (LUCKESI, 1998, p. 42), ao que acrescentamos a responsabilidade de, a
partir dos conhecimentos produzidos e reproduzidos nas diversas áreas do saber, oferecer à
população, no mínimo, informações que lhe possibilite viver melhor.
O projeto é, ainda, uma contribuição para desfazer a imagem da universidade como um
espaço de privilegiados, fechado em si mesmo, local de produção de um saber esotérico
(acessível somente aos especialistas) e anônimo (quantitativo e formalizado)... Em tais
condições, o cidadão perde o direito ao conhecimento, face ao enfraquecimento da respon-
sabilidade e da solidariedade dos espaços de produção do saber (MORIN, 2000, p. 18-19).
Foi com este espírito que nasceu o projeto, levar para fora dos muros da instituição um
trabalho de fácil acesso e compreensão, que contribui para elevar a qualidade de saúde das
pessoas. Foi uma iniciativa do Grupo de Pesquisa Procuidado, pertencente ao Departamento de
Enfermagem da UFAL, sob a liderança da Professora Dra. Maria Cristina Soares Figueiredo
Trezza, o qual tem como propósito buscar alternativas que ampliem as possibilidades da(o)
enfermeira(o) cuidar de sua clientela.
Talvez se possa questionar a realização deste projeto por um grupo de pesquisa, porém,
a decisão de realizá-lo se construiu a partir do sentido de que a indissociabilidade entre o ensino,
a pesquisa e a extensão é uma meta a se perseguir, abrindo espaço para a elaboração de dicas
com base em resultados de pesquisas ao mesmo tempo em que se abre espaço para a divulgação
dos resultados obtidos pelo próprio grupo, fazendo assim um movimento dialético entre saber
produzido, saber popular e saber reproduzido a partir de outros centros de produção de saberes.
Por outro lado, justifica-se a escolha do investimento em educação para a saúde com
base na premissa de que uma das funções que compõe a natureza do trabalho da enfermagem é
72
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EDUCAR, sendo esta função desempenhada tanto na vertente de formar profissionais,
mantendo-os constantemente atualizados, como na vertente de proporcionar educação para
a saúde das pessoas.
Este projeto está sustentado na função educativa para a saúde, entendendo-se Educação
para a saúde como uma educação baseada no diálogo, ou seja, na troca de saberes (...) um
intercâmbio entre o saber científico e o popular em que cada um deles tem muito a ensinar e
aprender (VASCONCELOS, 1997, p. 20). Melo vai mais além, traduzindo o compromisso
social dos profissionais com a causa da educação em saúde, quando reconhece que
entender a educação em saúde como um compromisso de consciência traduz o compromisso dos
profissionais com o SUS, com o PSF, com a profissão e consigo próprio como cidadão que atingiu
um ponto destacável no processo educativo e sente o dever de aplicar seus conhecimentos em benefício
de uma população que carece de informações para poder viver melhor. (MELO, 2003, p. 16)
Daí a idéia de disponibilizar conhecimentos sobre como cuidar da saúde das pessoas,
veiculando dicas de saúde pelo rádio, considerando que este é um instrumento de comunicação
amplamente difundido, sendo hábito entre a população alagoana acompanhar sua programação
diuturnamente. A escolha do rádio como caminho de difusão de conhecimentos foi fortalecida
pela observação de que em qualquer espaço social há um rádio ligado, além de informações dos
profissionais de saúde sobre a carência de recursos para desenvolver programas de educação em
saúde, principalmente nos municípios do interior do Estado, como comprovou Melo: Percebi a
escassez de ações educativas (...) assim como a produção de material educativo voltado para a
informação da população em geral, priorizando os aspectos preventivos bem como a adoção de
hábitos saudáveis de vida (MELO, 2003, p. 6). Essa percepção é referendada pelos sujeitos da
sua pesquisa que resumidamente declararam: “as condições são precárias porque não dispomos
de materiais didáticos nem apoio técnico”.
Assim, foi objetivo deste projeto: divulgar informações que contribuam para a
promoção, proteção, recuperação e reabilitação da saúde das pessoas; prevenção de acidentes
domésticos; prevenção e detecção precoce de doenças; cuidado de saúde de mulheres, crianças,
adultos, idosos e pessoas doentes ou deficientes que permanecem no domicílio.
Metodologia
Para executar o projeto foi adotada a seguinte metodologia: inicialmente os alunos e
professores componentes do Procuidado elaboraram um conjunto de setenta dicas de saúde
sobre temas diversificados, escritas em linguagem de fácil compreensão, imprimidas e gravadas
em disquete. Com este material, buscou-se a direção da Radio Difusora de Alagoas – AM a quem
foi submetida a proposta. Foi escolhida uma rádio do tipo AM porque grande parte do seu público-
alvo é composto por pessoas que o grupo pretendia atingir, ou seja, o maior número possível de
pessoas de todas as classes sociais, sendo dirigido principalmente àquelas que não tivessem
fácil acesso às informações sobre como cuidar da própria saúde e das pessoas ao seu redor.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Os dados da Tabela 1 evidenciam que houve predomínio de dicas direcionadas ao
objetivo prevenção e detecção precoce de doenças. Este resultado deve-se ao fato de que houve
um profundo respeito pela iniciativa dos participantes do Procuidado, os quais escolheram livre-
mente os temas de suas dicas. Um dos fatores determinantes dessas escolhas foi a experiência
de cada um, ao longo da vida profissional ou da vivência estudantil. Por outro lado, a liberdade de
criação das dicas veio ao encontro do desejo da emissora de rádio quando solicitava que as dicas
fossem bastante variadas, a fim de que o maior número possível de ouvintes fosse contemplado.
Esses dados revelam que os participantes do grupo têm uma preocupação predominante
com a prevenção e detecção precoce de doenças, expressa pela elaboração livre de dicas sobre
sinais e sintomas de doenças como diabete, hipertensão arterial, hanseníase, entre outras, além
de terem elaborado dicas com sinais e sintomas de câncer, recomendações para execução do
exame das mamas tanto para mulheres como para homens. Neste grupo de dicas aparecem tam-
bém cuidados sobre como cuidar do corpo, da alimentação, do vestuário, do trabalho e do
repouso, significando a difusão de hábitos saudáveis de vida, os quais deverão ser adotados
pelos adultos em geral e por aqueles que se apresentam como susceptíveis das doenças crônico
degenerativas mais comuns, conforme o perfil epidemiológico do estado. Ainda nesse grupo se
encontram as dicas de como evitar as parasitoses e doenças veiculadas pela água, como é o caso
do cólera, das diarréias, da leishmaniose, entre outras:
16. Quando você apresentar uma mancha ou alguma parte de seu corpo dormente, sem
sensibilidade deverá procurar com presteza um médico de pele. Esses sintomas podem
ser de uma doença chamada de hanseníase, que é tratável e tem cura.
11.O sal a ser diminuído da comida de uma pessoa que tem pressão alta não é só aquele que
a gente usa para temperar os alimentos. Existem outras formas pela qual se pode ingerir
muito sal e, às vezes, nem percebemos. Isto é, comendo alimentos tipo mortadelas,
lingüiça, charque, ou colocando caldos prontos de galinha, carne e legumes na comida.
Portanto é necessário não comer também essas coisas. De preferência cozinhar sem sal
e só colocá-lo no momento que se está alimentando, o correspondente à quantidade de
uma tampa de uma caneta BIC, nas 24 horas.
186. Os diabéticos têm que prestar muita atenção e cuidado quando forem cortar as unhas. As
mesmas devem ser cortadas em linha reta e nunca as deixe muito curtas; não retire as
cutículas e os cantos das unhas; não use canivete, lâmina de barbear (gilete) ou faca para
cortar as unhas, e informe à pessoa que cuida dos seus pés para seguir estes cuidados.
17. Sinais ou manchas que comecem a se modificar, escurecer, aumentar de tamanho, em
qualquer parte do corpo, como por exemplo na gengiva, solado do pé, unhas e outros
lugares da pele, devem ser vistos imediatamente por um médico de pele. Isso pode se
tratar de um problema sério de pele que, quanto mais cedo for diagnosticado e tratado,
mais chances terá a pessoa de se curar.
18. A rouquidão prolongada (mais de um mês), às vezes acompanhada de tosse e irritação
da garganta, que não cedem com as medidas comuns, deve ser avaliada por um médico,
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principalmente se a pessoa for fumante e gostar de beber com freqüência. Isso é um sinal
de alerta do corpo avisando que alguma coisa muito séria poderá estar acontecendo e
que, se diagnosticada e tratada com prontidão, poderá ser detida e curada.
35. Você sabia que homem também está sujeito a ter câncer de mama e que para prevenção
deverá fazer também o auto-exame das mamas no 1° dia de cada mês? A escolha desse
dia é para manutenção da periodicidade, ou seja, para que o homem se habitue e
memorize essa prática mensal. Aí vai outra dica, essa técnica de escolher o 1° dia de cada
mês também funciona com as mulheres que estão na menopausa.
247. Você sabia que o câncer de mama atinge um número muito alto de mulheres? No entanto,
quanto mais cedo for descoberto, maiores são as chances de cura. O auto-exame, que é
feito pela própria mulher, é uma forma de detectar o câncer e se prevenir; ele deve ser
feito uma vez por mês, após a menstruação e as que não menstruam devem fazer no
primeiro dia de cada mês. Então, fique diante do espelho e procure alterações nas
mamas, feridas e quando estiver no banho ou deitada procure caroços nas mamas e
axilas. Caso seja encontrado algo de diferente procure um serviço de saúde para esclarecer
dúvidas e fazer um exame detalhado.
206. O cólera é uma doença intestinal aguda que provoca uma grave diarréia e desidratação.
Pode ser adquirida através de água contaminada, alimentos mal lavados e crus, e através
de mãos sujas. Por isso, ferva a água por 5 minutos; lave bem as mãos antes de cada
refeição e depois de ir ao banheiro; cozinhe bem os alimentos e não os deixe expostos
às moscas e insetos.
Sobre a elaboração das dicas, deve-se destacar o caráter de intimidade que se procurou
dar à linguagem, o aspecto de leveza, simplicidade e humor, em algumas delas. O grupo pensa
que desta forma haverá mais disposição das pessoas em acatar as informações que são veiculadas,
uma vez que se aproximam do seu jeito mesmo de falar:
9. A tabelinha usada por uma mulher para evitar a gravidez não serve para outra mulher,
mesmo que seja sua mãe, filha ou irmã. O período perigoso para uma mulher engravidar
é diferente para cada mulher e calculado pelo profissional de saúde de modo individual,
com base nos seus ciclos menstruais. Assim, não use a tabela de sua amiga, algumas
vezes pode dar certo, porém, um dia, mais cedo do que você pensa, a casa pode cair.
8. Tem gente que diz usar a pílula anticoncepcional como método para evitar a gravidez,
mas só toma a mesma no dia que vai ter relação ou no dia seguinte. Quem faz assim, mais
cedo ou mais tarde poderá surpreender-se com uma gravidez, como já tivemos oportunidade
de receber mulheres no pré-natal, cujos maridos eram caminhoneiros e que só tomavam
a pílula quando o marido estava em casa. Apílula anticoncepcional, para ter efeito, deve ser
tomada todos os dias de acordo com a prescrição médica, até acabar a cartela e de
preferência na mesma hora, como por exemplo antes da sua novela preferida.
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33. 0 orégano é um tipo de tempero pouco utilizado na cozinha das mulheres nordestinas, no
entanto é rico em antioxidantes capazes de retardar o envelhecimento e prevenir os
males do coração, segundo a nutricionista Ana Vládia Moreira da Universidade de SP,
além de conferir um ótimo sabor aos alimentos. Basta você se lembrar de uma pizza
onde esse condimento é muito utilizado. Portanto comece a experimentar, principal-
mente quem estiver acima da faixa dos 40 anos e os hipertensos, que precisam ser
criativos no sentido de melhorar o sabor dos alimentos.
22. Você sabia que a caminhada e a dança, de forma orientada, ajudam a controlar o estresse
e a ansiedade, além de ajudarem no tratamento de determinadas doenças como hipertensão
e diabetes? Hoje em Maceió, existem grupos de pessoas que se reúnem semanalmente
para praticarem as “Danças Circulares”, como por exemplo a ciranda, muito apropriadas
para esses casos, agradáveis de se dançar e ideais para se fazer muitos amigos.
Por fim, os dados mostraram que a produção de dicas dirigidas aos deficientes e idosos
ainda é muito pequena, devendo agora ser alvo da atenção dos autores.
Conclusão
O Objetivo deste trabalho foi relatar a experiência de implantar um sistema de educação
para a saúde de alcance estadual que representasse uma contribuição do Departamento de
Enfermagem da Universidade Federal de Alagoas – UFAL, para a melhoria das condições de
saúde da população alagoana. Os dados apresentados mostraram que este objetivo foi alcançado.
O projeto “Dicas de Saúde pelo Rádio” está em andamento, tendo encontrado um ambiente
bastante favorável na Rádio Difusora de Alagoas AM. Está sendo um trabalho muito
gratificante, uma vez que foi possível manter um constante diálogo com a emissora, fazendo
os ajustes que foram necessários para deixar as dicas com a linguagem acessível e de fácil
entendimento. Na medida em que chegaram cartas e telefonemas, as dicas foram sendo
aperfeiçoadas, algumas desmembradas, de forma que tivessem o melhor aproveitamento
possível pelo público ouvinte.
Os dados permitiram concluir que a tônica das 504 dicas produzidas até o momento foi
a prevenção e detecção de doenças, sendo a maioria delas dirigidas aos adultos, sobre diversos
temas, com enfoque educativo, referendando o que diz Stotz: “... o educador, o sujeito da ação,
utiliza-se de crenças e valores da comunidade com relação a certa informação sobre saúde, bem
como discute suas implicações práticas; a eficácia deste enfoque é que o usuário tenha uma
compreensão verdadeira de sua situação” (STOTZ, 1993, p. 14-19).
Outra questão que o trabalho permite comentar é o valor simbólico desta experiência,
considerando que a veiculação de dicas de saúde pelo rádio não é a única estratégia de educar
para a saúde, porém, é uma estratégia de longo alcance, tornando acessíveis informações que os
próprios profissionais de saúde reconhecem que é difícil difundir, haja vista os poucos recursos
disponibilizados para este fim e o enfoque predominantemente curativo que é emprestado às
ações de saúde, no âmbito das instituições.
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Este projeto não tem financiamento direto. Os custos com a produção das dicas são
arcados pelos componentes do Procuidado, havendo a parceria com a Rádio Difusora que
recebe as dicas e as divulga em sua programação, sem nenhum tipo de remuneração, em nome
do seu compromisso com a sociedade, cumprindo com isso parte do seu papel.
Assim, este projeto, pelos resultados que apresenta até o momento, pode ser considerado
bem sucedido pelo volume de informações veiculadas, pelo intercâmbio entre a Enfermagem,
a Comunicação Social e a Educação das populações para a saúde, por ser uma estratégia que
articula e concretiza a indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão. Ao mesmo
tempo mostra uma outra forma de aprender e ensinar, possível de ser adotada pelos cursos
de graduação, construindo, além de interessantes conteúdos de aprendizagem, uma forma
prazerosa de construir laços de amizade e compromisso com a profissão, com a educação e com
a sociedade.
Por fim, o projeto vem sendo um sucesso pela oportunidade de aprendizagem que
propicia ao grupo de alunos e professores envolvidos na tarefa de levar informações para os
lugares dos mais próximos aos mais distantes do estado de Alagoas e suas circunvizinhanças,
na perspectiva de que
... a tarefa da educação criativa seria a de buscar o equilíbrio entre a valorização do prazer e
uma ação cooperativa e voluntária. Aprendendo a conviver, sabendo de que maneira ajudar aos
demais, organizando-se em ações voluntárias para atender uma causa justa, o aluno estará
aprendendo a dar voz ativa, ainda que simbólica, a seus sonhos e a seus devaneios. (FREUD, in
ANTUNES, 2002, p. 12)
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(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Comunicação e mobilização para a cultura do Vale do Jequitinhonha
Márcio Simeone Henriques, Professor do Departamento de Comunicação Social
Emanuela de Avelar São Pedro, Relações Públicas. Graduanda em Jornalismo
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
Descreve o projeto de extensão “Suporte de Comunicação para o 22º Festivale”, realizado
pela Universidade Federal de Minas Gerais, por meio do Programa Pólo de Integração da
UFMG no Vale do Jequitinhonha e do Departamento de Comunicação Social. A elaboração do
Plano de Comunicação para este evento se deu de forma coletiva, considerando o conhecimento
técnico da Universidade e o confronto com a realidade do Vale do Jequitinhonha, a partir da
participação de pessoas da região. O Plano previu atividades de divulgação prévia e posterior
ao evento e uma Assessoria de Comunicação em Medina, cidade que sediou o evento no período
de sua realização. Jovens da região participaram de oficinas de rádio e jornalismo, sendo capaci-
tados para a participação, junto à equipe da UFMG, do dia a dia da Assessoria. A comunicação
para mobilização social garantiu a qualificação de recursos humanos locais e a multiplicação
do conhecimento da Universidade dentro daquela comunidade, no que se refere à comunicação.
A experiência aliou a prática da extensão a atividades de ensino e pesquisa, ultrapassando a
vida acadêmica com a permanência de certos valores pela vida do profissional cidadão
.
Palavras-chave: comunicação popular, cultura, suporte de comunicação
Introdução e objetivos
Este relato apresenta o trabalho de extensão universitária de Suporte de Comunicação
para o 22º Festivale – Festival de Música Popular do Vale do Jequitinhonha e traz uma reflexão
sobre o impacto de atividades dessa natureza na vida acadêmica e profissional dos alunos de
Graduação em Comunicação Social da UFMG.
A atividade foi realizada a partir de uma demanda da organização do evento, possível
pelo contato e atuação que a Universidade já possui na região através do Programa Pólo de
Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha. Esse Programa existe desde 1996 e trabalha em
torno de um eixo de desenvolvimento regional e de ações interdisciplinares de ensino, pesquisa
e extensão. O Festivale é o maior evento deste gênero na região, reunindo não apenas a músi-
ca, mas manifestações culturais diversificadas como teatro, dança, artesanato, folclore e poesia.
Organizado pela Federação das Entidades Culturais e Artísticas do Vale do Jequitinhonha –
Fecaje, o Festivale ocorre anualmente, desde 1980, sendo cada edição em uma cidade diferente,
e objetiva repensar a cultura popular do Vale através da luta e garantia de políticas públicas de
resgate, preservação de seus aspectos artísticos, culturais, ambientais e do patrimônio histórico.
Em sua 22ª edição, realizada de 21 a 27 de julho de 2003, o evento foi sediado no município de
Medina, situado a 672 km de Belo Horizonte, na microrregião do Médio Jequitinhonha.
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As atividades do projeto de extensão ocorreram no primeiro semestre letivo de 2003 (de
abril a agosto), dentro da atividade didática do curso de Comunicação Social denominada
“Laboratório de Comunicação para Mobilização Social”, coordenado por um professor do
Departamento de Comunicação Social (Márcio Simeone). Fizeram parte deste trabalho cinco
alunos de Comunicação (Renata Antunes, Daniela Vilaça, Helena Câmara, Thiago Oliveira,
Emanuela São Pedro), sendo que um deles exerceu a função de monitoria (Emanuela São
Pedro), um aluno de Ciências Sociais (Clesiane Pereira) e um servidor técnico da UFMG
(Gilberto Corrêa).
Para o suporte, foi elaborado um Plano de Comunicação, que não se limitou a prever
ações típicas de uma assessoria de comunicação, mas desdobrou-se em atividades prévias
específicas, com o objetivo de preparar uma equipe local. O plano produzido foi apresentado à
Fecaje e as ações aprovadas foram submetidas a um planejamento mais minucioso. Assim,
foram realizadas duas viagens a Medina: de 5 a 8 de junho e de 19 a 28 de julho. A primeira
viagem teve como objetivo a efetivação de um planejamento conjunto in loco e a realização de
oficinas preparatórias de rádio e jornalismo para jovens da região, de maneira que pudessem
executar o trabalho de suporte em conjunto com a equipe da UFMG, durante o evento. A
segunda compreendeu o período de realização do Festival e a implantação do trabalho
de Assessoria em Medina.
O objetivo imediato deste trabalho foi o de reforçar e profissionalizar o trabalho de
mobilização e de divulgação do evento em três momentos: antes, durante e após a sua realiza-
ção, buscando firmar e consolidar as marcas e lembranças do Festivale na região do Vale do
Jequitinhonha e, de modo mais amplo, no Estado de Minas Gerais. O trabalho foi realizado
segundo os seguintes objetivos específicos: (a) concentrar uma divulgação eficiente no próprio
Vale; (b) mobilizar e incentivar a participação de pessoas da região nas atividades previstas; (c)
divulgar o Festivale em Minas Gerais, com foco em Belo Horizonte, como forma de atingir
amigos e nascidos no Vale, que moram na capital; (d) criar um fluxo de informações durante o
evento que permitisse o envolvimento constante dos moradores e visitantes de Medina no clima
do Festivale; (e) dar retorno à sociedade, após o evento, sobre as contribuições sociais,
econômicas e culturais do Festival; (f) envolver a mídia, bem como os demais públicos deste
evento, numa relação diferenciada com a cultura popular do Vale do Jequitinhonha. Do ponto
de vista acadêmico, o trabalho teve o objetivo de envolver os alunos em atividade direta com a
comunidade, ressaltando a relevância de um trabalho de extensão que os coloca em contato com
as reais questões sociais do Vale e de seu rico movimento cultural.
Metodologia
O trabalho foi norteado pelos princípios e valores de extensão universitária adotados
pelo Programa Pólo de Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha e, também, pelos
estudos e orientações metodológicas que vêm sendo construídos por meio de ações articuladas
de ensino, pesquisa e extensão do Programa “Comunicação para Mobilização Social –
Mobiliza”, do Departamento de Comunicação Social.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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As diretrizes de extensão adotadas possuem ligação com o Plano Nacional de Extensão
Universitária, de 1998, e se concretizam no Vale do Jequitinhonha, através da filosofia de
trabalho do Programa Pólo. Deve-se destacar, especialmente, a efetiva participação das pessoas
da região nos trabalhos onde a Universidade é parceira, a interdisciplinariedade e a interinstitu-
cionalidade dos projetos e a articulação de atividades de extensão com o ensino e a pesquisa. O
Programa Pólo parte do pressuposto de que a universidade não é detentora de um conhecimento
acabado e que deve construí-lo coletivamente com a participação das comunidades, entendidas
como sujeitos do processo. Para isso, conta com a parceria com órgãos públicos e privados,
sociedade civil organizada e do próprio povo do Vale. O conhecimento é produzido a partir da
absorção das necessidades e dos valores culturais locais, trabalhando com a interação entre o
saber acadêmico e o saber local e garantindo, dessa forma, a produção de um conhecimento
acessível, apropriado por todos. Um processo que se dá pela interação constante entre o
conhecimento técnico e o popular será legitimado por aqueles aos quais os resultados irão
beneficiar diretamente. Esses sujeitos se vêem também como donos daquele processo e garantem
a sua continuidade e permanência, já que possuem a capacitação e as possibilidades para isso.
A Universidade, após cumprido seu papel, pode se retirar, desfazendo vínculos de dependência
e assistencialismo. Isso tem contribuído para o fortalecimento de ações sustentáveis, que têm
sua permanência longe do vínculo paternalista que pode ser gerado com a instituição de ensino.
Para dentro da própria instituição, traça-se uma visão integrada do social, somando à vida
acadêmica o conhecimento recolhido no confronto com a realidade. A universidade assume seu
compromisso público de estar ligada a questões sociais e regiões de maior carência como é a do
Vale do Jequitinhonha, fazendo com que a população usufrua os resultados produzidos pela
atividade acadêmica.
Acomunicação para mobilização social é descrita por Henriques et al. (2002) como uma
comunicação participativa que inclui a perspectiva do outro, permitindo uma ação transfor-
madora. Surge da necessidade de repensar a produção e distribuição do conhecimento a partir
dos processos comunicativos, dando oportunidade a todos de alcançá-lo. É uma vertente
democrática e pedagógica que alia a comunicação e a educação não só nos âmbitos de uma
comunicação que veicula mensagens educativas ou se propõe uma leitura crítica da mídia, mas
também de uma comunicação popular onde as pessoas são, além de receptoras, produtoras e
emissoras das mensagens. Este processo, a um só tempo comunicativo e pedagógico, depende,
como afirma Peruzzo (1999), de uma participação direta da comunidade nos processos
comunicativos (mensagens, produção, planejamento e gestão dos meios de comunicação) e de
estabelecer uma visão das pessoas como sujeito do processo de conhecimento. Assim, deve-se
estar ciente da necessidade de uma comunicação voltada para a aprendizagem, para a educação
e para a democratização das informações, a partir de vias horizontais de interlocução. A relação
com a comunidade deve evitar ao máximo o paternalismo, o assistencialismo e a simples
transferência de saber. Os agentes extensionistas devem estar prontos para adaptar e aprender
junto com a comunidade, dentro dela, trabalhando com elementos que valorizem as identidades
e raízes culturais, sem impor técnicas ou instrumentos para os quais não exista uma base ou
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preparo ou seja necessário acompanhamento permanente. Busca-se encontrar formas de
adaptar as ferramentas de comunicação e seus usos à realidade da comunidade, bem como de
possibilitar a educação desta para o uso das tecnologias em seu próprio benefício, construindo
em conjunto as formas próprias para sua utilização (FREDERICO et al. 2004). A comunicação
para mobilização social vem possibilitar o diálogo dos saberes exercendo uma função de
cidadania, na medida em que as pessoas envolvidas desenvolvem seu conhecimento e mudam
seu modo de ver e relacionar-se com a sociedade e o próprio sistema de comunicação de massa.
A metodologia de extensão, como se pode ver, complementa a de comunicação para
mobilização social, fazendo com que a base do trabalho seja o estabelecimento de uma relação
dialógica e interativa entre o popular e o acadêmico, a Universidade e a sociedade. Com isso,
vale ainda a referência ao pensamento de Freire (1992) que fala da produção de conhecimento
a partir de sua problematização, exigindo a co-participação e a reciprocidade entre aqueles que
ensinam e, ao mesmo tempo, aprendem.
Resultados e discussão
Os resultados práticos do Suporte de Comunicação para o 22º Festivale foram:
realização de oficinas preparatórias de jornalismo e rádio a nove jovens da região do
Vale do Jequitinhonha para capacitá-los e incorporá-los no trabalho com a equipe UFMG
da Assessoria de Comunicação, realizada durante o evento;
produção de quatro peças radiofônicas para divulgação prévia do evento, com a partici-
pação de artistas do Vale do Jequitinhonha, garantindo a identidade com a região; e
distribuição, com um mês de antecedência, dessas peças para veiculação em rádios
locais (comunitárias ou não) e carros-de-som do Vale do Jequitinhonha;
realização de um coquetel de imprensa em Belo Horizonte com distribuição de press-
kits, participação de artistas, autoridades do Vale do Jequitinhonha, organizadores do
Festivale. Contou com a presença de três veículos de comunicação de abrangência estadual;
produção de quatro pautas específicas para determinados programas de televisão, de
acordo com seus formatos (TV Araçuaí, TV UFMG, Globo Horizonte da TV Globo e
Brasil das Gerais da Redeminas);
produção de dois releases para imprensa local e regional, enviados a jornais impressos,
rádios e televisões, para pautar os veículos na cobertura do evento. Trouxeram infor-
mações sobre o Festivale, seu histórico, sua importância e a programação da 22ª edição;
montagem de uma Assessoria de Comunicação na cidade de Medina, durante a realiza-
ção do Festivale, com um trabalho constante de assessoria de imprensa. Foram produzidos
boletim impresso diário (“Festivale Hoje”), um panfleto de programação diária do
evento (“Passa Lá”) e boletins radiofônicos diários. O boletim impresso, além da
circulação local, foi enviado à imprensa em geral. Os boletins radiofônicos diários, com
duração de 5 a 10 minutos, foram repassados gratuitamente por telefone (audioconferência)
a nove rádios do Vale do Jequitinhonha (Medina FM, Líder FM de Araçuaí, Santa Cruz
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de Jequitinhonha, Mania FM de Itinga, Cultura de Turmalina, Líder de Carbonita,
Aranãs de Capelinha, Pontal de Itaobim, Alternativa FM de Rubim) e à rádio
Inconfidência, com abrangência em Belo Horizonte, para veiculação em suas progra-
mações. O trabalho da Assessoria foi realizado por cinco alunos de comunicação e um
técnico da UFMG, além de sete alunos das oficinas preparatórias;
aplicação de uma pesquisa durante o Festivale a seus participantes, que teve como
objetivos identificar a procedência do público do evento, os movimentos culturais
representados, os meios de convocação mais eficientes e a receptividade em relação ao
jornal “Festivale Hoje” e ao panfleto “Passa Lá”;
produção de um release após o evento, enviado a todos os meios de comunicação
envolvidos na divulgação prévia, fazendo um balanço do Festivale para a economia e
para a cultura da região;
produção de cartas de agradecimento;
produção de clipping com o saldo de divulgação do evento em quatro jornais impressos
de circulação estadual e nacional (O Tempo, Hoje em Dia, Estado de Minas e Diário da
Tarde), três rádios com abrangência na capital mineira (Inconfidência, Itatiaia e Santê
Rádio Comunitária); quatro programas de televisão sendo um de abrangência local
(Jornal da TV Grande Minas, afiliada da TV Globo) e os demais, de abrangência
estadual (Programas Agenda, Brasil das Gerais e Arrumação, da Redeminas).
O Suporte de Comunicação para o 22º Festivale foi a inserção da UFMG numa das
culturas populares de maior expressão nacional, com repercussão dentro e fora do país. No que
diz respeito à construção da imagem do Vale, foi uma contribuição positiva na medida em que
focou riquezas culturais da região, dissociando-a da imagem que se tem ligada apenas à miséria
e pobreza. Respondeu às demandas regionais de um movimento cultural desarticulado que
busca se refazer, retomando os valores de uma cultura emancipatória e cidadã. Estabeleceu-se
com um fluxo ordenado, transparente e eficiente de comunicação, gerando uma nova interface
entre o Festivale e determinados segmentos: associações culturais, órgãos públicos e privados,
financiadores, mídia local e regional, sociedade em geral. Representou a articulação direta entre
a instituição de ensino e o órgão responsável pelo Festivale – a Fecaje, entidade local que pôde
apropriar-se de um conhecimento e de uma experiência construída em parceria.
As atividades do Suporte foram realizadas coletivamente com os organizadores do evento
e pessoas ligadas ao movimento cultural do Vale do Jequitinhonha. As oficinas preparatórias
para os jovens da região foi uma forma de construir conhecimento com o saber local, adicionar
ao trabalho acadêmico a vivência e a realidade do Vale, incentivar a democratização da comu-
nicação, multiplicar o conhecimento adquirido na Universidade e preparar quadros, criando
condições para a atuação de pessoas do local nos próximos festivais. Foram escolhidos, preferen-
cialmente, jovens que já atuavam de alguma forma em meios de comunicação para promover
a capacitação profissional e deixar na região iniciativas de ações sustentáveis. O trabalho
realizado evidenciou a necessidade de outras ações mais efetivas no âmbito da comunicação,
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envolvendo a capacitação para lidar com os seus instrumentos. Esses jovens, inicialmente
incluídos na produção e veiculação de peças de comunicação, podem, no futuro, participar
também de forma mais efetiva nos processos de planejamento e gestão dessas atividades. Cabe
ressaltar que o projeto aqui descrito representa apenas uma inserção pontual num processo que
demanda um prazo mais longo e uma atividade mais contínua, mas que desde já sinaliza uma
experiência promissora a ser repetida em outras ocasiões.
No relacionamento com a mídia, foi a primeira vez que o Festivale manteve um contato
constante e direto no sentido de pautá-la e recebê-la profissionalmente. Foi, sem dúvida, o
primeiro passo para o estabelecimento de vínculos mais fortes e prósperos com esse público,
contribuindo para a formação de uma imagem da região mais condizente com sua realidade.
Foram avaliadas como positivas a realização do coquetel para imprensa e de todo o trabalho de
assessoria, constatados a partir do clipping, que reuniu matérias publicadas a partir de mídia
espontânea num bom número de veículos de comunicação com abrangência satisfatória.
O resultado da pesquisa aplicada durante o evento aponta que o público do Festivale é,
em sua maioria, do próprio Vale do Jequitinhonha, composto por pessoas ligadas diretamente à
cultura popular e que já têm o costume de participar deste evento. Sua divulgação ocorre
principalmente através de contatos pessoais, dada a pouca exploração de estratégias de comu-
nicação até o momento. Um investimento maior em planos de comunicação que coordenem melhor
a divulgação e o fluxo de informações em torno do evento potencializará essa participação
e, conseqüentemente, a repercussão do Festivale e da cultura popular da região. Sobre o jornal
“Festivale Hoje” e o panfleto “Passa Lá”, notou-se grande aceitação e sucesso entre o público
a que foi dirigido. Do total de entrevistados na pesquisa, 91,5% afirmaram já terem lido as duas
publicações. Ao final do evento, muitas pessoas compareceram à Assessoria de Comunicação
para obter edições anteriores do jornal, dando a ele um significado histórico de registro da memória.
Todo o trabalho do Suporte de Comunicação para o 22º Festivale foi documentado e
reunido numa caixa onde também estavam exemplares de todas as peças produzidas (radiofônicas,
jornalísticas), material que compôs a Assessoria de Comunicação (pré-produção, maillings),
clipping e avaliação de todas as atividades. Essa caixa e todos os seus documentos foram
entregues à Fecaje.
Conclusões
O trabalho de extensão aqui descrito foi, na verdade, a prática do ensino universitário,
ocorrido fora das dimensões da sala de aula, a partir de uma vivência real, sempre contando com
a orientação acadêmica e o respaldo da Universidade. Foi a possibilidade de treinar alunos a
lidar com situações reais adversas e muitas vezes imprevistas, com um tempo para reflexão e
espaço para criação. Como define o documento de Avaliação Nacional da Extensão Universitária
(2001), a relação entre o ensino e a extensão supõe transformações no processo pedagógico,
pois professores e alunos constituem-se como sujeitos do ato de ensinar e aprender, levando
à socialização do saber acadêmico. Situações em que o educar e o educando participam de uma
situação dialógica entre si e com a comunidade.
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O Suporte de Comunicação para o 22º Festivale é um bom exemplo de integração de
atividades de ensino, pesquisa e extensão. A partir desta vivência, quatro alunos resolveram tra-
balhar com o projeto experimental de conclusão do curso em Relações Públicas “Rede de
Comunicação no Movimento Cultural do Vale do Jequitinhonha” (FREDERICO et al., 2004).
Este projeto foi uma pesquisa/diagnóstico sobre a situação do movimento cultural desta região,
aprofundando na descrição e problematização das relações que existem entre os públicos deste
movimento. Dessa forma, foram estudadas as relações que especialistas, financiadores,
gestores, agentes e mídia estabelecem entre si e com a causa de uma cultura popular engajada
e emancipatória, inicialmente praticada no Vale do Jequitinhonha. Foram problematizados o
papel desenvolvido pelo Festivale, seu significado e sua função, compondo um quadro crítico
de um movimento desarticulado, que tem ação pontual apenas no Festivale, e um descompro-
metimento com discussões políticas, sociais e culturais. Foi um trabalho de pesquisa, iniciado
a partir de uma atividade de ensino e extensão, que traçou ações a partir dos pontos negativos
e potencialidades do movimento cultural do Vale do Jequitinhonha. A partir disso foi elabora-
do, por esses alunos, um Plano de Ação que busca formatar uma rede de ativos no movimento
cultural e articular os sujeitos envolvidos em torno da causa de uma cultura emancipatória.
A extensão é, portanto, o espaço, dentro do ensino público universitário, de construção
do aluno cidadão e, mais tarde, do profissional cidadão. É a oportunidade que se tem de viven-
ciar situações orientadas da realidade profissional, problematizando-a e refletindo e, assim,
aprendendo. O aluno que passou por essa experiência acadêmica possui um diferencial porque
já teve contato e preparo com situações que não serão mais novas em sua vida profissional.
Além disso, possuirá grande sensibilidade para lidar com questões sociais, estará sempre aberto
a considerar o outro sem invadi-lo ou manipulá-lo no desempenho de sua profissão. Os valores
apreendidos na extensão universitária acompanharão o aluno e, mais tarde, o profissional, com-
provando que essas atividades não se encerram no ambiente acadêmico, mas repercutem por
toda a vida. Saber ouvir, respeitar os diversos saberes e poder construir com a junção de cada
um deles de forma participativa são alguns dos valores que os alunos de Comunicação Social
podem levar para a vida profissional a partir da experiência de extensão universitária.
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Janeiro: Vozes, 2002.
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86
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SUPORTE de comunicação para o 22º Festivale. Curso de Comunicação Social da UFMG.
Relatório. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
Registro Urbano Audiovisual – RUA
Mateus Guerra de Almeida, Graduando do curso de Belas Artes
Regina Helena Alves da Silva, Diretora do Centro Cultural. Professora Doutora do Departamento
de História
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
O Registro Urbano Audiovisual é um projeto do Centro Cultural UFMG, que visa
refletir sobre as formas de percepção e representação da cidade, através da produção de imagens
em vários formatos. O projeto tem como objetivo a pesquisa sobre a linguagem audiovisual e
suas possibilidades de representação da realidade urbana. O resultado é a produção de vídeos
elaborados pelo núcleo permanente do projeto. O RUA também pretende elaborar vídeos que
tenham como referência a cidade e o olhar de seus habitantes, a partir de oficinas realizadas
com a população, tratada como interlocutora da universidade no processo de produção de
conhecimento. Com isso, busca a democratização do processo de comunicação
.
Palavras-chave: hipercentro, linguagem audiovisual, cultura urbana
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Introdução e objetivos
O RUA – Registro Urbano Audiovisual é um projeto de extensão do Centro Cultural
UFMG que faz parte do Laboratório de Imagem e Som — programa que abriga o Cineclube
UFMG e o Concreto Sonoro, programa de rádio sobre temas culturais e o RUA.
O RUA é um projeto que visa à reflexão sobre as formas de percepção e representação
da cidade mediante a produção de imagens em vários formatos. Os trabalhos do RUA se ini-
ciaram em fevereiro de 2003, com a participação de alunos bolsistas da graduação dos cursos
Belas Artes e História. Após um ano, o resultado foi a produção de vídeos elaborados pelos
alunos ou através de oficinas.
Propomos pensar a cidade hoje como um fenômeno dinâmico no tempo e múltipla em
seu espaço. As configurações do poder e as estratégias governamentais que vêm sendo desen-
volvidas não conseguem impedir que os cidadãos façam uso político e recriem a cidade que tem
sido vista como um espaço de segregação. Portanto, as respostas às inquietações que têm surgi-
do nos tempos atuais devem ser construídas a partir da percepção de como os cidadãos atuam
e se apropriam do ambiente urbano e como organizam suas experiências.
Ao contrário de algumas visões de conjunto sobre o significado da vida na cidade, bus-
caremos a diversidade de manifestações que a cidade engendra, os vários tipos de cultura e a
segregação intercultural, social e política.
Nesse sentido, nosso trabalho enfoca a diversidade e a criatividade político-cultural
urbanas, pois são as experiências coletivas que conformam a história das práticas sociais, os
hábitos perceptivos e a disposição pragmático-imaginativa dos receptores.
Diante do que tem sido chamado de era da informação e da disseminação de bens
simbólicos transnacionais através do consumo dos produtos gerados pelos meios audiovisuais,
os lugares emergem atualmente como o domínio de práticas político-culturais e de manifestações
que transitam entre o local e o global, o nacional e o transnacional, as heranças fragmentadas
das antigas culturas populares e a onipresença da cultura de massa. Neste novo cenário, em que
se destacam os processos globalizados de consumo no qual se reestruturam as antigas comu-
nidades de pertencimento, os códigos que nos unificam ou que, pelo menos, permitem o
reconhecimento das identidades individuais e coletivas, devem ser vistos como pactos móveis
de leitura dos bens e das mensagens, situados no tecido polifônico das cidades.
Escolhemos as ruas da região do hipercentro da cidade de Belo Horizonte como um
lugar favorável à apreensão das diferentes maneiras pelas quais os habitantes da cidade se
apropriam dos espaços de uso comum para fins diversos, e consideramos que seu significado é
dado pela multiplicidade de usos efetivos que dela se fazem.
Metodologia
Partimos da noção de que os espaços urbanos já se encontram tão distendidos e frag-
mentados que hoje seria impossível apreendê-los exclusivamente pelo contado direto. Não
existe a possibilidade hoje da rua, como fora outrora, ser vista como o interior de uma casa, um
local atrativo e aconchegante. Espaço privilegiado do encontro com o desconhecido, a rua se
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transformou numa artéria funcional — como inicialmente projetada — cujo papel não é
promover a apropriação coletiva da cidade, mas facilitar o deslocamento cada vez mais rápido
dos automóveis. Se, antes, ela agasalhava as festas urbanas, estimulava o contato entre estranhos,
hoje, mais do que nunca, a rua desfavorece o surgimento do coletivo urbano, do cotidiano
partilhado. Hoje a rua projeta a imagem de lugar da guerra e do medo.
Hoje assistimos ao esvaziamento e desertificação de algumas áreas urbanas que estão se
deteriorando (como as áreas centrais de algumas cidades) e ao que é denominado “falência do
espaço público urbano” como um local privilegiado de sociabilidade. A idéia de insegurança
como situação inalterável mostra ruas e centros urbanos como espaços desligados da vida social
necessária à sua revitalização, como refúgio para camadas mais ou menos subterrâneas da
cidade (os moradores de rua) que proliferam e fazem proliferar a vigilância forçada.
Pensar a cidade, a partir do espaço público, nos permite acessá-la para além do mero
plano urbanístico, onde as funções e os usos já seriam pré-determinados, e entendê-la enquanto
um espaço que é constantemente alimentado com doses maciças de atividades — políticas,
sociais, econômicas e culturais.
Nesse caso, a rua é tomada como um espaço de produção de “mensagens” que marcam
muros, portões, caixas de força; e/ou como lugar instituidor de trajetos; e/ou, como um
conjunto de regras que regem os habitantes da cidade. Assim, a rua se constitui em um veículo
gerador de experiências interativas e de novas formas de sociabilidade. Aqui utilizamos as
noções de “experiência” e de “comunicação” que possuem um sentido convergente: traduzem
a idéia de transmissão e de partilha de uma mensagem.
Resultados e discussão
No caso das oficinas, a população foi considerada como interlocutora da academia no
processo de produção de conhecimento. Nesse sentido, o projeto proporcionou o acesso às
formas de produção audiovisual, seguindo os princípios de democratização da comunicação e
de apropriação do conhecimento produzido na universidade pela sociedade. Com as oficinas, o
projeto também buscou formar uma percepção crítica sobre a linguagem audiovisual,
explorando todas as etapas do processo de produção e contribuindo para um maior domínio
da realidade contemporânea, amplamente compreendida pela produção audiovisual, principal-
mente da grande mídia eletrônica.
Os vídeos produzidos pelo RUA têm como objeto a cidade, sobre a qual o imaginário da
pós-modernidade é construído em uma profusão de representações oriundas dos discursos
sobrepostos sobre seus lugares, da memória coletiva, das identidades históricas construídas, da
diversidade cultural e social, da materialidade significada na arquitetura e nas intervenções
físicas no espaço urbano.
Foram realizadas experimentações audiovisuais em diálogo com linguagens caracterís-
ticas da contemporaneidade, como a internet e a edição ao vivo, típica da televisão. Utilizando
as novas mídias, o projeto conciliou animações e grafismos produzidos a partir de recursos
de informática com imagens geradas por câmeras digitais. O RUA busca pesquisar e mesclar
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as linguagens do vídeo, do documentário, da televisão, da internet e da leitura da cidade, a
exemplo do grafite, sinalização de trânsito, arquitetura e todos os signos que compõem a iden-
tidade do meio urbano.
Essa hibridez é perfeitamente compreendida pela linguagem do audiovisual que permite
conciliar textos, sons, imagens, grafismos em um único conceito. No caso do RUA, a pesquisa
e elaboração conceitual e teórica se deu em interação com a produção. Os vídeos, resultantes do
trabalho interno do projeto passaram, por uma discussão e definição dos temas que seriam
abordados. O segundo passo era um roteiro de trabalho, elaborado com as possíveis fontes
a serem entrevistadas ou pesquisadas. Em seguida, eram feitas entrevistas e registradas as
imagens. O discurso ganhava forma com a edição, preparada a partir do material disponível e
considerando as possíveis intervenções gráficas — criadas e manipuladas com recursos de
informática — e sonoras, como trilha e samplers.
As oficinas seguiram o mesmo princípio do núcleo permanente: os vídeos foram
pensados durante a produção, com as discussões conceituais exemplificadas pelo trabalho reali-
zado. Apesar de amplamente difundida como fonte de informação, os produtos audiovisuais são
pouco conhecidos no que concerne a suas possibilidades e formas de criação.
As vinhetas e vídeos institucionais foram elaborados em conjunto com os integrantes dos
demais projetos. O conceito foi discutido considerando-se a estética do RUA, a identidade visual
do Centro Cultural e as características do produto a ser divulgado.
Através do trabalho elaborado pelo RUA, mostrou-se fecunda a interdisciplinaridade da
história com as artes plásticas na criação audiovisual. Os produtos gerados refletiram, tanto
estética quanto discursivamente, as questões conceituais relativas à percepção da cidade, sua
significação historicamente construída, as leituras possíveis de sua realidade.
Foram produzidos pelo projeto RUA:
1. Vídeo d.ver.cidade
O d.ver.cidade foi o primeiro vídeo do RUA, finalizado em março de 2003. O vídeo foi
produzido na ocasião do lançamento do D-ver.Cidade Cultural: rede de agentes culturais
juvenis, que constitui o resultado e a continuação do projeto de Formação de Agentes Culturais
Juvenis, realizado pela Faculdade de Educação em parceria com o Centro Cultural UFMG. O
vídeo apresenta as possibilidades culturais da periferia de Belo Horizonte, através da perspec-
tiva dos jovens integrantes do projeto e de membros das comunidades que atuam como agentes
culturais. O vídeo apresenta, também, o impacto do projeto na vida dos agentes e o potencial
social de atividades culturais em comunidades de baixa renda. O d.ver.cidade possui cerca de
dez minutos de duração. O vídeo já foi exibido para divulgar o projeto Formação de Agentes
Culturais Juvenis, assim como em cursos e palestras para discutir o papel e potencial do jovem
em comunidades de baixa renda.
2. Oficina mostra plural
Em parceria com a prefeitura de Belo Horizonte, o RUA ministrou uma oficina para
estudantes e professores de escolas públicas da cidade, com o objetivo de elaborar o vídeo
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institucional da 8ª Mostra Plural. A Mostra, realizada em outubro de 2003, é um evento anual
que reúne cerca de 12 mil pessoas e 80 escolas municipais, que apresentam o trabalho
realizado ao longo do ano durante um dia no Parque Municipal, no centro de Belo Horizonte.
O vídeo institucional do evento, com duração de cerca de 8 minutos, foi produzido por sete
alunos da oficina, com a supervisão e edição dos integrantes do RUA.
3. Vídeo Relé
Em maio de 2003, o RUAelaborou relé, uma instalação de vídeo durante o 10º Encontro
Nacional da Anpur – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento
Urbano e Regional. O conceito da instalação foi a tensão e as fronteiras entre o racional e o
irracional, o previsível e o imprevisível, o que é planejado para a cidade e os infinitos possíveis
da realidade urbana. Para refletir sobre as formas de perceber e atuar no meio urbano em
relé, Belo Horizonte foi tomada como objeto do vídeo e de fotografias, assim como ponto de
partida para as reflexões textuais acerca do planejamento urbano.
4. Série mudo
De agosto de 2003 a fevereiro de 2004, o RUA produziu o mudo: uma série de programas
experimentais de TV, que trabalham sobre temáticas urbanas. O conceito do mudo envolve
a idéia de oferecer um espaço de fala e manifestação para a população de Belo Horizonte.
Os programas, com duração de 3 minutos, exploram as imagens e ruídos da cidade, além
de depoimentos. O mudo apresenta um formato que trabalha a linguagem do documentário
associada à estética da internet. Além da veiculação na TV, as séries do mudo servirão de
substrato para vídeo performance, no formato de Live Images.
A primeira série do mudo, com 6 programas, tem como tema o hipercentro de Belo
Horizonte. Os programas trabalham sobre elementos característicos dessa área: camelôs, táxis-
lotação, grupos de dança de rua, o lixo, os sons da cidade, os cinemas de rua que deixaram de
existir.
A segunda série do mudo, com 3 programas, é o resultado de oficinas ministradas pelo
RUA a grupos de professores da rede municipal de ensino de Belo Horizonte, integrantes do
projeto Horizontes da Cidadania. Os programas têm a seleção de temas e direção dos profes-
sores, com o apoio técnico da equipe do RUA. Tratam sobre: o idoso cidadão, a revitalização
da Praça 7 de Setembro e a legalização da prostituição.
5. Oficina experimental de letramento digital
A oficina de letramento digital, que usa o vídeo como suporte, foi ministrada nos dias
20 e 27 de agosto e 12 e 19 de novembro de 2003 para professores da Rede Municipal de Ensino
pelos integrantes do RUA – Registro Urbano Audiovisual.
O objetivo da oficina era explicitar aos professores as possíveis utilizações didáticas
do vídeo, além de proporcionar uma visão crítica sobre a linguagem audiovisual, atualmente de
extrema importância na transmissão de conhecimento com a televisão e o cinema. O trabalho
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apresentou o processo de produção em vídeo em todas as suas etapas, desde a escolha do
tema a ser abordado até a finalização gráfica, passando pelo roteiro, filmagem e entrevistas,
decupagem, montagem e edição.
A oficina teve carga horária de 16 horas para cada uma das três turmas de professores,
em três turnos: manhã, tarde e noite. O trabalho, essencialmente prático, resultou na produção
de uma série do mudo. Foram debatidas, durante a produção, as questões teóricas e as possi-
bilidades de construção de discurso utilizando os recursos audiovisuais, como textos, sons,
imagens e efeitos gráficos.
O cronograma da oficina foi dividido em quatro dias. No primeiro módulo, foram feitas
as apresentações pessoais e dos vídeos produzidos pelo RUA, incluindo um programa mudo que
serviu de modelo para o trabalho. Foram discutidos os recursos e escolhas da linguagem do
mudo, considerando as possibilidades audiovisuais. Em seguida, os professores participantes da
oficina debateram e definiram os temas a serem abordados e foi elaborado um roteiro de
questões que norteariam as entrevistas e a captação de imagens. Ainda, no primeiro dia, foi feito
um exercício de sensibilização com o equipamento de filmagem.
No segundo dia, os participantes da oficina se dividiram em dois grupos: um se ocupou
de fazer imagens relativas ao assunto e o outro se dedicou às entrevistas com pessoas do centro
da cidade. Em seguida os professores iniciaram a decupagem das entrevistas — seleção dos
trechos a serem disponibilizados para a montagem na ilha digital.
No terceiro dia, finalizou-se a decupagem das entrevistas e imagens e iniciou-se a
edição, sempre com os participantes da oficina dirigindo o processo e os integrantes do RUA
manipulando a ilha de edição.
A edição terminou no quarto dia, com a inserção dos efeitos gráficos, textos e imagens
relacionadas às entrevistas. O desenvolvimento e aproveitamento da oficina foram distintos nos
três diferentes turnos. A turma da manhã foi participativa e atuou efetivamente na direção e
produção do programa que tem como tema os idosos. O cronograma proposto foi cumprido.
No turno da tarde, o interesse também foi grande e o cronograma foi igualmente
cumprido, com a produção de um programa sobre a revitalização da Praça Sete de Setembro,
em Belo Horizonte.
No turno da noite, o trabalho foi mais lento devido à dificuldade em se definir um tema
considerando as restrições para filmagem e entrevistas à noite no hipercentro de Belo
Horizonte. No segundo dia, definiu-se como assunto a prostituição, o debate em torno de
sua legalização e a moralidade envolvida. Foram tentadas entrevistas pelo telefone com as
profissionais do sexo, mas não houve sucesso. No terceiro, dia decidiu-se entrevistar pessoas na
rua e no próprio Centro Cultural UFMG, sobre o assunto. Iniciou-se a decupagem, finalizada
no quarto dia, quando também foi feita a grande maioria da edição. No entanto, o trabalho não
terminou com a direção dos participantes da oficina. A deficiência apresentada na turma
da noite deveu-se, principalmente, ao cansaço dos integrantes do RUA, após ministrarem os
dois primeiros turnos e dos professores participantes, depois de um dia de trabalho.
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Conclusões
A abordagem deste projeto conduz a um encontro de especial subjetividade com a
cidade, onde podemos olhá-la como cidade vivida, interiorizada e projetada por grupos sociais
que a habitam e, com suas relações de uso, não só a percorrem como também intervêm nas
formas de circulação e nos sentidos determinados de fluxos criando outros e redirecionando-os.
Neste trabalho levamos em conta os modos sociais de produção de sentidos próprios da cidade.
Neste projeto tomamos a rua como espaço privilegiado de resgate da experiência da
diversidade, possibilitando a presença do forasteiro, o encontro entre desconhecidos, a troca
entre diferentes, o reconhecimento do semelhante, a multiplicidade de usos e olhares. Este é o
espaço que se opõe àquele do domínio privado da casa. Não se trata aqui da rua espaço destinado
ao fluxo, mas a rua que se transforma em moradia, em itinerário de posição, em local de protesto,
passeata e fruição em dia de festa. É a rua vitrine, palco, lugar de trabalho e ponto de encontro.
Não se trata da rua em sua materialidade, mas sim da experiência da rua, da rua viva em sua
experiência.
Nas ruas ocorrem inúmeros eventos. Nesse trabalho, alguns desses eventos são apresen-
tados a partir da indicação de seus possíveis encadeamentos e relações, referenciando-os no
tempo e no espaço. Tudo o que acontece nas ruas é imediatamente compreensível, ainda que
nem sempre se apresente em uma seqüência de fatos lineares e transparentes. Muito do que se
passa na rua foge à familiaridade.
A rua se torna, com freqüência, o lugar da novidade, do inesperado. Para isso, contribui
o fato de ser a rua o lugar por excelência do outro. Estamos falando aqui do estranho — o outro
na sua forma mais radical — e também do outro concebido como aquele com quem mantemos
relações sociais. A rua é o lugar onde se dá o social também como espetáculo. Um espetáculo
que permite assumir certas identidades, desempenhar determinados papéis e, até certo ponto,
escolher os enredos dos quais se participa. É o palco por excelência do social. Os diferentes
contextos (calçadas, esquinas, janelas, muros, etc.) podem ser recortados como palcos ou
platéias. Quer dizer, o que se vê e de onde se vê.
Temos assim uma interação entre a topologia do espaço, os trajetos desenhados pelo
percurso dos usuários da cidade e os signos que vão sendo inscritos nos suportes urbanos.
Pensamos assim em uma escrita da cidade enquanto um conjunto de textos que atuam na vida
dos cidadãos. E, finalmente, na constituição de um “diálogo público” onde o espaço físico é
preenchido por um vocabulário que se declina a partir de diferentes ‘lugares’ e de variadas
práticas. Como essas práticas são relacionais, pois se desenvolvem sob um espaço comum,
sua interpretação depende do contexto no qual se inscrevem. Igualmente, elas são orientadas
segundo a localização; todavia, ao mesmo tempo em que esses lugares modificam o sentido
das práticas, eles são simultaneamente transformados por elas.
Assim, a rua pode ser vista como lugar do encontro e da comunicação, lugar da cena pública
onde se desenrolam a diversidade, os conflitos, as práticas e os imaginários sociais compartilhados,
as possibilidades de diálogos. Algumas dessas ruas se constituem em espaços públicos que
congregam toda a carga simbólica da imagem de uma cidade e de suas formas de sociabilidade.
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•Comunicação cidadã: projeto de assessoria a entidades populares e insti-
tuições voltadas para projetos de mídias comunitárias
Valdir de Castro Oliveira, Professor Titular do Departamento de Comunicação Social.
Coordenador do Promic
Gilmar José dos Santos, Professor Assistente do Departamento de Comunicação Social.
Coordenador do Projeto Comunicação Cidadã
Zuza do Valle Nacif, Aluno do curso de Graduação em Comunicação Social e bolsista do projeto
Rúbia Guimarães Piancastelli, Aluna do curso de Graduação em Comunicação Social
Sara Abreu da Mata Machado, Aluna do curso de Graduação em Comunicação Social
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
A comunicação é um fator-chave de sucesso para qualquer organização atingir os seus
objetivos. Portanto, as ações comunicacionais devem ser desenvolvidas em nível estratégico,
baseadas em um planejamento consistente. O projeto tem como objetivo assessorar entidades
voltadas para a promoção da cidadania a desenvolver projetos de comunicação para mobiliza-
ção social e para a divulgação de seus produtos. Metodologicamente, reuniões, visitas e pesquisas
embasam uma análise dos problemas de comunicação das entidades, fundamentando um
diagnóstico. Em seguida, as entidades são assessoradas na formulação de planos de comunicação
– definição de objetivos, metas e ações táticas. O Comunicação Cidadã não produz peças de
comunicação, mas atua também intermediando as demandas específicas das entidades parceiras
por serviços de comunicação a terceiros. Os principais resultados alcançados foram a formaliza-
ção de parcerias com quatro entidades, cinco em processo de captação e um projeto concluído.
Os projetos já formalizados estão em fase de análise e, dado o tempo de existência do projeto,
nenhum plano de comunicação foi executado. Então, nota-se uma sensibilização dessas enti-
dades para a importância estratégica da comunicação e uma mudança de postura em relação a
tal atividade
.
Palavras-chave: comunicação, cidadania, assessoria de comunicação
Introdução
O Programa de Apoio e Capacitação de Mídias Comunitárias – Promic é um projeto de
extensão vinculado ao Departamento de Comunicação Social da UFMG que conta com mais
três projetos, além do Comunicação Cidadã: “Mídia em pauta”, “Literatura nas ondas do rádio”
e “UFMG Repórter”.
O projeto Comunicação Cidadã teve início em março de 2004 e nasceu a partir da
demanda de entidades voltadas para a promoção da cidadania, que viam na comunicação um
recurso para lhes auxiliar na consecução de seus objetivos. Segundo diagnóstico feito pelas
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próprias entidades, a área da comunicação estaria defasada em suas instituições, sendo
necessário um auxílio que permitisse solucionar os problemas apresentados nessa área.
Dentro dessa perspectiva, o Comunicação Cidadã visa a atender as instituições voltadas
para a promoção da cidadania que tenham identificado a necessidade de aperfeiçoar e melhorar
sua capacidade de planejamento, difusão de informações, mobilização e melhoria das peças
comunicacionais com as quais trabalham ou são instadas a trabalhar.
Partiu-se do princípio que são entidades que enfatizam a luta pela melhoria das
condições de vida da população a que assistem e promovem ações de cunho solidário e voltadas
para o interesse coletivo.
Assim, além de atuar na formação e na capacitação de comunicadores populares, o
Projeto pretende atuar na assessoria de ONG’s ou organizações populares e instituições que,
direta ou indiretamente, buscam formas de mobilização dos seus públicos na perspectiva da
cidadania e de ações sociais solidárias, utilizando a comunicação como um recurso pedagógico
ou de divulgação.
O Comunicação Cidadã é composto por um grupo de cinco alunos de Comunicação,
orientados pelo Prof. Gilmar José dos Santos. O objetivo principal é assessorar as entidades
parceiras a traçar planos de comunicação estratégica — desde a realização de diagnósticos
para delimitar os problemas de comunicação que dificultam o alcance dos seus objetivos, até a
proposição de ações de comunicação, visando a solucionar os problemas encontrados, sendo
sua execução, quando necessária, encaminhada a parceiros que possam competentemente realizá-la.
Objetivos
Objetivo geral
Assessorar entidades voltadas para a promoção da cidadania a desenvolver projetos de
comunicação para mobilização social e para a divulgação de seus produtos.
Objetivos específicos
despertar nas entidades assistidas a necessidade de se investir de modo mais eficiente
nos processos comunicacionais;
• contribuir para o planejamento e o desenvolvimento de atividades comunicacionais das
entidades parceiras;
melhorar os instrumentos comunicacionais utilizados pelas entidades parceiras;
montar oficinas de comunicação com a finalidade de capacitar comunicadores populares
para promover ações comunicacionais, que atendam à demanda da entidade parceira;
•promover oficinas de planejamento de comunicação (análise, diagnóstico, planejamento e
avaliação);
promover diagnósticos sobre os públicos e os problemas apresentados, na área de comu-
nicação, das entidades envolvidas;
avaliar a atuação das entidades assistidas, através de pesquisas com o público e outras
ferramentas;
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assessorar os trabalhos de comunicação interna nas instituições;
permitir que tais entidades atinjam um nível de competência no planejamento dos
seus processos comunicacionais, utilizando a comunicação como fator estratégico para
a promoção da cidadania;
utilizar o conhecimento produzido dentro na Universidade para gerar impacto positivo
junto à comunidade extramuros, via entidades parceiras;
• criar uma aproximação entre as entidades parceiras e a universidade;
melhorar os processos de aprendizado dos alunos envolvidos permitindo-lhes aplicar
as teorias aprendidas no curso e aprofundá-las através de aplicações práticas.
Metodologia
A partir de reuniões, visitas e pesquisas junto às entidades, é feita uma análise dos
problemas de comunicação destas, que embasam um diagnóstico. Em seguida, os integrantes
do Comunicação Cidadã assessoram as entidades a traçar planos de comunicação estratégica,
orientando-as 1) na definição dos objetivos 2) estabelecendo metas e 3) propondo ações táticas.
O Comunicação Cidadã não produz peças de comunicação, mas atua também intermediando as
demandas específicas das entidades parceiras por serviços de comunicação junto a prestadores
de serviços.
Os projetos de parceria são captados pelos coordenadores, que explicam os objetivos do
Comunicação Cidadã oralmente e/ou através de uma carta de apresentação. Apartir da captação
das demandas, os coordenadores reúnem-se com os alunos e são definidas as formas mais
adequadas de se obterem as informações relativas à potencial entidade parceira. Reuniões com
os seus dirigentes, visitas in loco e pesquisas junto aos seus integrantes e público-alvo são os
métodos mais empregados, geralmente envolvendo os estagiários. Esses contatos preliminares
têm como objetivo permitir aos estagiários conhecer a realidade de cada instituição, através de
um atendimento planejado e direcionado às demandas específicas. As reuniões para tal fim são
realizadas tanto na universidade quanto na sede da instituição, promovendo um intercâmbio
entre essas duas realidades.
Um rigoroso trabalho de registro de informações é realizado, visando a sistematizar o
trabalho de análise situacional da entidade parceira:
• todo contato com as entidades é registrado em relatórios de visita, para controle e orga-
nização, tanto por parte do projeto quanto da instituição parceira;
as entrevistas gravadas são transcritas e arquivadas, o mesmo ocorrendo com os
questionários estruturados. Além disso, são registrados o nome, a profissão, a idade,
o cargo etc. de todos os entrevistados;
• é elaborado um organograma simplificado da entidade, com a lista dos principais
dirigentes e responsáveis pelos contatos com o Comunicação Cidadã;
são registradas quaisquer observações decorrentes de reuniões com os parceiros ou
visitas in loco;
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•é realizada leitura, discussão e arquivamento de material apresentado pelas entidades,
bem como análise de peças comunicacionais e da comunicação interna.
As observações de cada reunião são discutidas em sala pelos alunos e professores, no
intuito de traçarem um diagnóstico que possa servir de base para o planejamento de ações
comunicacionais do parceiro atendido.
Todas as decisões e soluções são tomadas em conjunto com o parceiro, pois entende-se
a comunicação como um fator-chave de sucesso, instituinte de um processo estratégico que não
se restringe apenas aos meios de comunicação, mas que vai além, chegando à comunicação
interpessoal. Assim, pretende-se apresentar projetos e planos que devam ser seguidos e
entendidos pelos componentes da entidade. Os processos são conduzidos de tal modo que eles
percebam seus problemas e encontrem soluções para os mesmos, pois dessa maneira, eles é que
implantarão as ações e/ou modificações em seus projetos de comunicação interna e externa,
avaliando a melhor forma de implantá-los.
Durante esse curto tempo de existência do projeto já foram desenvolvidas ações tais
como oficinas e seminários (oficinas de rádio, de mídias comunitárias, de comunicação interna,
de jornalismo e seminários sobre controle social) que possibilitam a capacitação de comuni-
cadores populares e o uso consciente e crítico das várias formas de se comunicar. Isso requer a
análise do melhor meio de conduzir cada etapa do processo, a melhor maneira de se desenvolver
cada oficina e o seu conteúdo, bem como toda sua organização, divulgação, coordenação e
análise dos resultados obtidos com as mesmas.
Ao término de cada etapa é realizada, juntamente com os componentes da instituição e
com os órgãos envolvidos, uma avaliação da eficácia dos métodos utilizados e os resultados
obtidos. Assim, a própria entidade torna-se capaz de avaliar suas ações não apenas de comuni-
cação, mas em todas as suas áreas de atuação.
O Comunicação Cidadã se disponibiliza para discutir não apenas problemas de
comunicação, mas todos os problemas apresentados pela entidade ou percebidos em
visitas/reuniões, que de alguma forma se instituem como obstáculo para que ela possa atingir o
fim a que se propõe. Para tanto, buscam-se parcerias que possam resolver tais problemas,
o que permite a introdução de um novo olhar na entidade, permitindo o seu aprimoramento e
sua preparação para uma melhor execução de seus projetos.
Resultados e discussões
O Comunicação Cidadã tem formalizadas parcerias com quatro entidades, cinco em
processo de captação e um projeto concluído.
Como projeto concluído, o Comunicação Cidadã estabeleceu parceria com o Sindicato
dos Jornalistas Profissionais do Estado de Minas Gerais para a promoção de um curso sobre
Comunicação, Mobilização Social e Cidadania que contou com 50 participantes entre
estudantes, profissionais da comunicação e líderes comunitários.
A seguir são apresentados três casos de parceiros atendidos cujas parcerias já foram
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formalizadas e dois em andamento, ilustrando melhor o trabalho desenvolvido pelo
Comunicação Cidadã.
Conselho Municipal de Saúde de Brumadinho
E-mail: [email protected] – Tel: 35713020 – R: 232
Parceiro atendido desde 27 de abril de 2004
O Conselho Municipal de Saúde de Brumadinho é um órgão colegiado, deliberativo e
permanente do Sistema Único de Saúde – SUS, criado em 1991, integrante da estrutura básica
da Secretaria Municipal de Saúde. Consubstancia a participação da sociedade organizada na
administração da Saúde, propiciando o controle social.
É um órgão deliberativo que deve propor, planejar e fiscalizar as ações da Secretaria
Municipal de Saúde. É livre para promover campanhas e é dotado de regimento interno que
organiza suas comissões permanentes (fiscalização, executiva e comunicação) e reuniões.
O conselho visa abranger aproximadamente 50 localidades do município, o que
representa uma população (cerca de 26 mil habitantes) muito dispersa e heterogênea.
A forma fixa de manter relacionamento com a comunidade se dá através de reuniões
ordinárias, que são abertas, porém voltadas para o encontro com os conselheiros.
O Conselho Municipal de saúde de Brumadinho solicitou a parceria com o
Comunicação Cidadã, pois percebia que não possuía o apoio da população que representava.
Assim, pretendia desenvolver ações que dessem visibilidade ao conselho e apoio popular,
para que ele pudesse contar com o respaldo da comunidade nas pressões diante da
Secretaria Municipal de Saúde da cidade.
Durante os encontros realizados percebeu-se que havia problemas de comunicação
interna, externa e de outras naturezas, como cultural, administrativa, pessoal, organizacional etc.
Diagnóstico
Frágil relação com a população — público que representa. Há pouca participação social
nas reuniões do Conselho; os conselheiros têm pouco contato com a população que deveriam
representar e sabem pouco de suas necessidades. Há poucas formas de diálogo com os
moradores, que muitas vezes não entendem a função do Conselho. A maioria das pessoas que
participam apenas levam problemas, como a dificuldade em conseguir consultas, e não pro-
postas. Muitos ainda vêm o Conselho como pessoas que ficam se reunindo, sem decidir ou fazer
algo de concreto. Com isso, o órgão deixa a desejar em sua função propositiva, havendo poucas
propostas de políticas públicas, já que os conselheiros possuem pouco contato com as bases e a
população, de um modo geral, não reconhece o Conselho como um instrumento social do qual
podem participar para obter resultados na área da saúde. Não existem ações estruturadas e
planejadas para socializar as informações dentro do conselho. A relação do Conselho com a
Secretaria Municipal de Saúde é precária, ficando muitas vezes apenas no plano informal, sem
nenhum registro ou ação efetiva. As ações comunicacionais são todas elas informais. Muitos
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conselheiros não sabem ao certo a real função do Conselho e a maioria de seus componentes
o percebe como um órgão cuja obrigação é apenas a de fiscalizar, o que se confirma em suas
ações.
Resultados esperados
Decidiu-se, juntamente com o Conselho, que seria necessário desenvolver, em um
primeiro momento, ações de comunicação interna paralelas às de comunicação externa. As
ações de comunicação interna teriam o objetivo de possibilitar que os conselheiros tomassem
consciência da real função do órgão que constituem e analisar se o Conselho cumpre sua função
social.
Para as ações de comunicação externa, seriam realizadas oficinas que capacitassem
pessoas para a execução de spots radiofônicos, tendo em vista que a rádio comunitária foi detec-
tada como o meio de maior identificação da população na cidade. Outras ações de comunicação
externa também serão realizadas, como o desenvolvimento de um jornal do Conselho e outras
ações, das quais se está ocupando no momento.
Com as ações de comunicação interna pretende-se conscientizar os conselheiros do
papel que cabe ao Conselho desempenhar dentro desta comunidade específica, contribuindo
para que eles sejam membros ativos da mesma, principalmente no que diz respeito à saúde. Nos
seminários que serão realizados pretende-se capacitá-los para que eles possam indicar a melhor
maneira de estabelecer a comunicação interna, propiciando uma maior circulação de infor-
mação dentro do Conselho. O intuito é fazê-los perceber que são capazes de atingir os objetivos
traçados por eles para atender não apenas os deveres do Conselho, como também os anseios, na
área de saúde, da população em questão. Será necessário encontrar um meio adequado de esta-
belecer um canal de comunicação eficaz entre os conselheiros e a população que representam.
Com as ações de comunicação externa pretende-se mostrar à população que não adianta
reclamar, pois o Conselho tem a “cara” da população. Assim, as pessoas têm de saber qual a
verdadeira função do Conselho para, além de cobrar mais ação — o que servirá também como
estímulo para os conselheiros que se sentirão cobrados, saber de quem realmente se deve cobrar
ou para quem se deve sugerir alguma ação. Aqui, deve-se indicar à população a melhor forma
de se comunicar com os conselheiros, que devem estar preparados para isso.
Cedefes
Centro de Documentação Eloy Ferreira
Parceiro atendido desde 20 de abril de 2004
O objetivo do Cedefes é promover a informação, a formação cultural e pedagógica,
documentar, arquivar, pesquisar e publicar temas do interesse do povo e dos movimentos sociais.
O nome escolhido para o Centro, fundado em 1985, é uma homenagem a Eloy Ferreira
da Silva, trabalhador rural e sindicalista, assassinado em 16 de dezembro de 1984, no Vale do
São Francisco, Minas Gerais.
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A documentação do órgão é construída com um sentido básico de educação e formação
social e política dos trabalhadores rurais, povos indígenas, grupos e organizações populares e
sujeitos escolares como alunos e professores das escolas de todos os níveis, sobretudo da região
de Belo Horizonte, Contagem, Ibirité e Betim.
Ao longo dos anos, o Cedefes veio priorizando dois temas centrais: a questão da terra e
a questão indígena, sobretudo em Minas Gerais. A questão agrária vem se agravando no Brasil
a cada ano e hoje, certamente, os movimentos sociais do campo são um dos mais importantes
focos de resistência à avalanche de dominação econômica e à apatia política que caracterizam
a conjuntura nacional e global. A questão indígena foi se constituindo aos poucos na entidade,
que hoje tem já uma tradição de trabalho nessa área, sendo o único centro de documentação
voltado para o resgate, registro e preservação da história dos povos indígenas, em Minas Gerais.
Recentemente, o Cedefes começou a desenvolver atividades mais específicas na área da
educação, entendidas como atividades de formação, discussão e conscientização das pessoas do
povo, crianças, jovens e adultos, em experiências que facilitem o aprendizado de um modo de
convivência mais democrático e justo, em que as pessoas sejam mais atentas e respeitosas
consigo e com os outros. Também faz parte de uma história mais recente do centro uma
aproximação maior a temas relativos aos afrobrasileiros.
O Cedefes conta com uma biblioteca (revistas, jornais, livros e textos dos movimentos
sociais e entidades), hemeroteca (recortes e classificação de marretais jornalísticos desde 1985
e manutenção de arquivos da mídia eletrônica, desde 1999), mapoteca, coleção de cartazes,
serviços de orientação e consulta em sua sede e empréstimos de partes do acervo.
Há ainda a produção de uma revista, um site e um folder.
O Cedefes trabalha com um público diversificado e heterogêneo. Com o trabalho do
Comunicação Cidadã, a entidade pretende melhorar seus produtos de comunicação e
desenvolver ações que possibilitem uma maior utilização de seu acervo por parte da população
e, com maior visibilidade, obter apoio financeiro para melhor execução de seus projetos.
Diagnóstico
O público a que o Cedefes se dirige é muito amplo e diversificado. Abrange várias
lideranças de movimentos sociais em Minas Gerais — estudantes e professores do ensino
médio e universitário, militantes ligados aos temas sociais — principalmente os que têm como
preocupação a questão do índio e da terra no estado. Dessa maneira, os produtos de
comunicação da entidade se dirigem a diferentes públicos. Porém, não se tem controle de
qual público é atingido com cada ação.
Os produtos comunicacionais não se apresentam em conformidade com os objetivos da
entidade, que já detectou isso.
A identidade visual mostra-se confusa, apagada e muitas vezes fora da proposta do
parceiro em questão.
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Resultados esperados
Pretende-se determinar qual a melhor ação comunicacional para cada público que o
Cedefes pretende atingir. A partir daí, será estabelecida uma parceria com a CRIA, empresa
júnior do curso de Comunicação Social da UFMG, para uma reformulação da identidade visual
da entidade e de suas peças de comunicação.
Após a realização de uma campanha de divulgação da entidade, espera-se um incre-
mento significativo no uso de seu acervo. Portanto, busca-se estabelecer novas parcerias para o
Cedefes, como por exemplo com a comissão estadual que está reformulando o complexo da
praça da Liberdade na cidade de Belo Horizonte. Essa comissão pretende dar suporte para
que todas as entidades que, de certo modo, guardem a memória de Minas Gerais, possam se
transferir para o complexo da praça, oferecendo condições mais adequadas para o desenvolvi-
mento de seu trabalho. Isso daria maior visibilidade ao projeto, bem como facilitaria a obtenção
de recursos para financiar as mudanças em seus produtos de comunicação. Os contatos para a
parceria já se iniciaram, tendo despertado grande interesse na comissão de reformulação da praça.
CEI
Centro de Ecologia Integral
Parceiro atendido desde 18 de maio de 2004
Rua Bernardo Guimarães, 3101 - Salas 204 a 207 - Bairro Santo Agostinho - Belo Horizonte - MG
Brasil. CEP 30140-083, Telefone: (31) 3275-3602 , E-mail: [email protected]
O Centro de Ecologia Integral – CEI é uma organização não-governamental, sem fins
econômicos, que tem como principal finalidade trabalhar por uma cultura de paz e pela ecologia
integral, apoiando e desenvolvendo ações para a defesa, elevação e manutenção da qualidade
de vida do ser humano, da sociedade e do meio ambiente, através de atividades que promovam
a ecologia pessoal, a ecologia social e a ecologia ambiental.
A ecologia pessoal visa à saúde física, emocional, mental e espiritual do ser humano
como estratégia fundamental para o desenvolvimento da paz e da ecologia integral.
A ecologia social busca a integração do ser humano com a sociedade, o exercício da
cidadania, da participação e dos direitos humanos, a justiça social, a simplicidade voluntária e
o conforto essencial, a escala humana, a cultura de paz e não-violência, a ética da diversidade,
os valores universais, a inclusividade, a multi e a transdisciplinariedade.
A ecologia ambiental objetiva a integração do ser humano com a natureza facilitando o
processo de transformação no sentido da redução do consumo e do desperdício, do incentivo à
reutilização e à reciclagem dos recursos naturais, bem como da preservação e defesa do meio
ambiente e de sociedades sustentáveis.
O Comunicação Cidadã atende a uma demanda pontual do CEI, que é a radiofonização
da revista Ecologia Integral, produzida pela entidade para ser distribuída para aproximadamente
100 rádios comunitárias espalhadas não apenas em Minas Gerais, mas por todo o Brasil.
Através de outros dois subprojetos do Promic — UFMG Repórter e Literatura nas ondas do
102
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rádio — o Comunicação Cidadã estudará a melhor forma de tal ação ser executada, assim como
a formação de um núcleo específico para tender a esta demanda.
O CEI ocupará somente quinze minutos de uma fita K7 que será distribuída via Correio.
Será realizado um estudo para se determinar a melhor maneira de se preencher o restante da
fita. Dentre as alternativas consideradas estão o desenvolvimento de um novo programa, a
distribuição dos contos adaptados para o rádio pela Literatura nas ondas do rádio ou a
distribuição de programas de radiojornalismo produzidos pelo UFMG Repórter.
Parcerias em andamento
Conselho Comunitário de Segurança Pública de Brumadinho cuja parceria visa dar
suporte ao planejamento da comunicação e possibilitar maior visibilidade do Conselho junto à
comunidade.
Artebom – Associação dos Artesãos de Bom Despacho demanda em fase de captação,
que visa ao desenvolvimento de ações de comunicação externa divulgando o trabalho dos
artesãos dessa cidade mineira e organizando seminários que possam capacitá-los para a plena
execução de suas atividades. Com essa demanda pretende-se estabelecer parcerias com a Escola
de Belas Artes da UFMG, para um aprimoramento da arte produzida, e com a UFMG
Consultoria Jr., empresa júnior do curso de Administração da UFMG, para atender às necessi-
dades administrativas. Esse projeto tem potencial para ser estendido a outras entidades da
cidade, como a Cooperativa das Costureiras de Bom Despacho.
Conclusão
O pouco tempo de existência do projeto não permite uma avaliação dos impactos gera-
dos nas instituições atendidas e nos públicos que elas atendem. No entanto, percebe-se em todas
elas uma nova percepção do papel estratégico da comunicação para atingir os seus objetivos.
Elas percebem a importância de se investir de forma sistemática e planejada em comunicação
para facilitar o cumprimento de sua função social.
Embora ainda não haja resultados quanto à contribuição da comunicação sobre o
impacto dessas instituições na sociedade, há expectativa de que essa relação seja positiva.Para
tanto, todos os projetos incluirão uma fase de avaliação que permitirá quantificar diversas
variáveis de desempenho das ações promovidas tais como: participação popular nos projetos
das entidades, contribuição das instituições para a causa que elas defendem, o nível de
conhecimento que o público-alvo tem da instituição e o apoio que ela recebe da sociedade.
Dessa forma, a comunicação estará contribuindo para a formação de cidadãos ativos que
contribuam não apenas dentro da instituição da qual fazem parte, como também em outras
instâncias sociais que forem solicitados. Isso permite a criação de uma dinâmica social em que
os cidadãos tenham um papel ativo na transformação de sua realidade.
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Crítica de mídia e formação da cidadania
Valdir de Castro Oliveira, Doutor em Ciências da Comunicação e Coordenador do projeto
Fernanda Aguilar de Araújo, Estudante de Comunicação Social e bolsista do projeto
Thaís de Almeida Maia, Estudante de Comunicação Social e bolsista do projeto
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
Este artigo discute a importância de um programa de crítica de mídia, intitulado Mídia
em Pauta, produzido por estudantes e professores do Departamento de Comunicação Social na
TV Comunitária de Belo Horizonte, com apoio da Pró-Reitoria de Extensão da UFMG. O
programa é produzido semanalmente e veiculado três vezes por semana. O objetivo principal do
projeto é propiciar e levar ao telespectador do canal informações críticas sobre o funcionamento
da mídia e sua importância no contexto social, cultural e político brasileiro como pressuposto
para o desenvolvimento da cidadania. O projeto conta com a participação de 29 alunos e pro-
fessores do curso/Departamento de Comunicação Social, além de contar com a participação
indireta da população através de técnicas de interação, como enquetes realizadas nas ruas e
correspondências eletrônicas. No ano de 2004 já foram produzidos 20 programas semanais.
Somados aos 48 programas produzidos no ano de 2003, esse número passa para 68. Até o final
do ano a expectativa é de que sejam produzidos mais 26 programas. O projeto é de extrema
importância para a formação cidadã não só dos telespectadores, mas também dos alunos nele
envolvidos enquanto um projeto de extensão
.
Palavras-chave: mídias comunitárias, televisão, cidadania
Introdução e objetivos
O contexto desse projeto é o campo das mídias comunitárias, objeto de pesquisa e de
práticas do Promic. Segundo John Downing (2002) este campo é voltado para um enfoque
alternativo aos conteúdos e às formas de organização da mídia convencional, principalmente
daquela que se caracteriza como comercial. Para Downing, essa mídia tende a ser de pequena
escala e democrática em sua gestão, além de permitir uma interação maior entre produtores e
receptores. Mas para que isso ocorra, segundo o autor, é necessário que a mídia comunitária se
conscientize de seu papel e abra espaços para novos formatos de programas, independente de
gerar ou não lucros para os veículos que a constituem, como o rádio e a televisão comunitários.
Foi nessa perspectiva que o subprojeto Mídia em Pauta foi desenvolvido na TV
Comunitária de Belo Horizonte cujo compromisso com o público manifesta-se através de temas
e assuntos que fazem parte da agenda pública e, principalmente, da agenda popular. Embora não
se dirija a uma audiência específica e geograficamente delimitada por comunidades ou bairros
de Belo Horizonte, a TV Comunitária tem como prática auscultar a sociedade civil organizada
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— como entidades e associações comunitárias — atendendo seus pedidos para enfocar temas e
formatos de programação, além de estabelecer parcerias com entidades voltadas com a
promoção da cidadania na cidade, como a parceria mantida com o Promic da UFMG.
E o que justifica um programa como o Mídia em Pauta? A primeira, como apontou
Sérgio Costa, tem a ver com a centralidade conferida aos meios de comunicação de massa que
interferem no cotidiano social e demandam do cidadão uma interpretação cada vez mais crítica
acerca da estética e dos conteúdos por eles transmitidos. É por esta razão que os instrumentos
de comunicação (rádio, tv, impresso, internet) são disputados por aqueles que querem “moldar
as preferências” das massas que os vêem, escutam ou lêem.
A segunda tem a ver com as formas organizativas da mídia no Brasil cuja principal carac-
terística é o monopólio da mídia por parte de algumas empresas, gerando, em conseqüência,
também o monopólio da fala.
É contra este tipo de situação que surge a TV Comunitária de Belo Horizonte e a busca
de parcerias com entidades culturais para viabilizar formas alternativas de mídia no espaço
público brasileiro. Apesar de modesta contribuição, a resposta do Promic à solicitação da TV
Comunitária foi a produção do programa Mídia em Pauta, como uma atividade de extensão do
curso/Departamento de Comunicação Social, objeto de avaliação desse trabalho.
O Mídia em Pauta é um programa semanal de crítica de mídia, produzido por estudantes
e professores do curso/Departamento de Comunicação Social da UFMG. Ele é exibido na TV
Comunitária, canal 13, de Belo Horizonte (Net e Way TV). Trata-se de um subprojeto do
Promic – Programa de Apoio, Melhoria e Capacitação das Mídias Comunitárias, programa de
extensão da universidade coordenado pelo professor Valdir de Castro Oliveira e dirigido pelas
respectivas bolsistas, Fernanda Aguilar e Thaís Maia.
Os temas discutidos são os mais variados possíveis dentro do universo da mídia —
impressos, rádio, TV e internet — assim como o relacionamento desta com a comunidade. O
Mídia em Pauta configura-se como um espaço de debate entre especialistas, profissionais da
área e estudantes acerca de um recorte temático.
No atual formato, participam do programa dois convidados — especialistas e estudiosos
do tema — e um estudante de Comunicação Social da UFMG, que faz parte da equipe de
voluntários do programa. Adiscussão é mediada por uma das bolsistas, também aluna do curso.
Precedendo a gravação do programa, os estudantes envolvidos, com a supervisão do professor,
participam primeiramente da discussão coletiva da pauta e, para participar como entrevistador,
o estudante deve, obrigatoriamente, ter participado da elaboração da pauta e pesquisado o
assunto do programa em que ele estará presente. Durante o programa, cabe a ele levantar
questões para os convidados e intervir no debate, além de acrescentar dados, curiosidades e
informações adicionais ao assunto.
Quanto ao apresentador e condutor do programa, a função principal é a de mediar e
direcionar as perguntas para os convidados, tornando a discussão mais clara e mais didática para
o telespectador. Este apresentador também faz a abertura e introduz cenas externas feitas pelos
alunos que participam da produção do programa. O apresentador também é responsável por
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Tendo em vista o grande espaço que as mídias ocupam no cotidiano das pessoas, acredi-
tamos que fazer crítica a elas é algo relevante. Pretendemos despertar nas pessoas o senso crítico
e a consciência da necessidade de uma leitura questionadora das informações, a fim de que elas
não sejam meras receptoras passivas. Para nós, o termo crítica, ao contrário de sua conotação
pejorativa, significa uma análise aprofundada dos lados positivo e negativo do que está sendo
veiculado. Não buscamos ser unilaterais em nossas análises, nem queremos julgar ou condenar
a mídia, mas compreendê-la. Com isso podemos reconhecer criticamente seus erros e acertos.
O Mídia em Pauta tem como objetivo principal proporcionar ao telespectador uma leitura
crítica da mídia através de discussões aprofundadas. Não faz parte do caráter do programa
fornecer conclusões prontas ao público. Buscamos oferecer-lhe os diversos pontos de vista
acerca do tema discutido, a fim de estimulá-lo a refletir. Acreditamos que, dessa forma, ele
poderá formar sua própria opinião. Assim atingimos nosso objetivo final, que é fortalecer esse
espaço fundamental para o avanço da democracia dos meios de comunicação no Brasil, que
constitui uma das maiores conquistas de nossa sociedade, além de promover o desenvolvimento
da consciência cidadã.
Metodologia
O projeto conta com a participação direta na produção de alunos do curso de
Comunicação Social da UFMG e dos professores do Departamento de Comunicação Social que
ajudam na avaliação do programa, bem como participam do debate. Conta também com a
participação indireta da população através de técnicas de interação, como enquetes realizadas
nas ruas, que tecnicamente denominamos como “Povo Fala” e correspondências eletrônicas
através do nosso e-mail: [email protected].
A equipe central do Mídia em Pauta é formada pelas duas bolsistas, Fernanda Aguilar e
Thaís Maia, o professor Valdir de Castro Oliveira e 27 estudantes voluntários do curso de
Comunicação Social da UFMG que estão divididos nos seguintes núcleos: núcleo de arquivo,
núcleo de avaliação, núcleo de criação, núcleo de divulgação, núcleo de estúdio, núcleo de
pauta, núcleo de produção de externa, núcleo de roteiro e núcleo de direção.
O núcleo de arquivo é formado pelas duas bolsistas. Sua finalidade é catalogar todo o
material impresso utilizado na realização do programa, tais como pautas, roteiros, clippings,
releases, peças gráficas e modelos de documentos. Também é feito o arquivo semanal do pro-
grama em vídeo (VHS). O núcleo de avaliação é formado pelas bolsistas, alunos pauteiros do
programa a ser avaliado e um(a) professor(a) da área de TV. A avaliação é feita semanalmente.
Após assistir ao programa, os integrantes debatem os pontos negativos e positivos do mesmo,
a fim de analisar o trabalho desenvolvido e promover melhorias.
O núcleo de criação é formado por oito voluntários da área de publicidade. Dentre suas
atividades estão a elaboração e manutenção do site do programa e criação de todas as peças
gráficas (cartões de visita, banner, folder, etc.).
O núcleo de divulgação é formado por quatro voluntários das áreas de publicidade,
relações públicas e jornalismo. Sua finalidade é desenvolver estratégias de divulgação do
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programa. Dentre suas atividades estão a elaboração e o envio de releases para a imprensa, para
os convidados e para a comunidade acadêmica. O núcleo também é responsável pelo anúncio
do programa em jornais impressos e revistas locais.
O núcleo de estúdio é formado obrigatoriamente pelas bolsistas, três voluntários e o diretor
de imagem. Dois dos voluntários devem ter elaborado a pauta da semana, sendo que um
participará do debate e o outro permanecerá no estúdio, contribuindo para o bom andamento da
gravação. O terceiro voluntário deverá ficar na sala de corte, junto ao editor e ao diretor de
imagem, dando suporte à equipe do estúdio.
O núcleo de pauta é formado por toda a equipe de voluntários. Sua finalidade é produzir
a pauta semanal que norteará o programa. O tema da pauta é definido na reunião de pauta, que
ocorre todas as quartas-feiras às 11h10min e da qual participam todos os voluntários, as bolsistas
e o professor coordenador do projeto. Uma vez definido o tema, são determinados três
pauteiros, que elaborarão a pauta da semana com base no material recortado de diversos
veículos de comunicação e em estudos mais aprofundados.
O núcleo de produção de externas é formado pelas bolsistas e quatro voluntários.
Sua finalidade é produzir as externas que serão inseridas nos blocos do programa. Dentre suas
atividades estão a produção (fazer contatos, reservar equipamentos e visitar locações), a elabo-
ração do roteiro de filmagem e do texto para o off, a filmagem e o acompanhamento da edição.
O núcleo de direção também é formado apenas pelas bolsistas. Sua finalidade é
coordenar e integrar todos os núcleos, bem como realizar a direção geral do programa e de
todas as suas atividades.
Resultados e discussão
No ano de 2004 já foram produzidos vinte programas semanais que discutiram os mais
variados temas possíveis dentro de sua proposta: a crítica de mídia.Os temas discutidos no pro-
grama entre janeiro e maio deste ano foram os seguintes: Mídias Femininas, Mídia e
Consumismo, A Guerra Publicitária nos Comerciais de Cerveja, Mídia e Racismo, As
Perspectivas do Cinema Brasileiro para 2004, Sexo e Erotismo na Mídia, Mídias Infantis,
Software Livre e a Inclusão Digital, Mídia e Terrorismo, A Polêmica gerada pelo filme “A
Paixão de Cristo”, A Cobertura Midiática do Aniversário de 40 Anos do Golpe Militar
Brasileiro, O Fenômeno Reality Shows, A Violência na Mídia, O Relacionamento do Governo
Lula com a Mídia, O Merchandising Social, O MST na Mídia, A Qualidade Jornalística, o
Fotojornalismo, A Construção de Ídolos e Mitos pela Mídia e o Filme “Deus e o Diabo na Terra
do Sol”, de Glauber Rocha.
Dentre as vinte produções de 2004, podemos incluir também a produção de mais de
30 externas para o programa, o que contou com a participação dos técnicos do curso de
Comunicação, como cinegrafistas e editores. Participaram também dessas externas várias vozes
da nossa sociedade civil, que deram sua opinião e levantaram questionamentos.
Dentre os ganhos obtidos com esses resultados, podemos citar o enorme aprendizado dos
alunos envolvidos no projeto. Durante todo esse tempo, eles desenvolveram suas habilidades
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técnicas e intelectuais, exigidas pela própria dinâmica de produção do programa. Além disso,
podemos citar também o desenvolvimento de uma visão crítica do próprio objeto de trabalho desses
futuros profissionais da mídia e o desenvolvimento de uma formação humana e cidadã a partir
da consciência da responsabilidade de se trabalhar diretamente com a comunicação e o público.
Indo além do espaço da produção, o programa contribuiu para a consolidação dos obje-
tivos das TVs Comunitárias, que é o desenvolvimento democrático da mídia em nossa
sociedade onde estejam presentes a pluralidade dos discursos sociais e não apenas o discurso
comercial que tem predominado na programação da mídia aberta convencional. Foi assim que
pudemos ouvir nas ruas e expressar no Mídia em Pauta as opiniões das pessoas sobre vários
temas, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, as fotos de tortura dos pri-
sioneiros de guerra iraquianos divulgadas posteriormente pela mídia, o filme “A Paixão de
Cristo”, de Mel Gibson, as telenovelas, o cinema de Glauber Rocha, dentre vários outros.
Adiscussão aprofundada destes temas em um canal de TV Comunitária, como é o caso do
Canal Treze de Belo Horizonte, é também uma forma e uma oportunidade de colocar professores
da UFMG, profissionais da mídia e lideranças comunitárias em contato direto com o cidadão/
telespectador contribuindo assim para a melhoria da qualidade de programação da televisão.
Conclusões
Duas conclusões básicas podemos tirar do Mídia em Pauta. Por um lado, o fato inques-
tionável sobre a importância que tem para o aprendizado dos estudantes. Semanalmente eles
recebem uma carga de aprendizado teórica, pois a cada semana são levantados temas a serem
discutidos no espaço do programa, obrigando-os a pesquisar e a atualizar o assunto.
Simultaneamente, é assegurado a eles também o aprendizado técnico, pois participam de todo
o processo de produção de um programa semanal, o que inclui o manuseio de equipamentos,
como câmeras digitais e ilhas de edição, a dinâmica de produção, como agendamento de
convidados, elaboração de pautas e roteiros, dentre outros.
Além disso, é importante ressaltar o caráter inédito desse programa. O Mídia em Pauta,
além de ser um dos poucos programas de crítica de mídia produzidos nacionalmente, é o único
a ser produzido essencialmente por estudantes e professores de Comunicação Social preocupa-
dos com o fato de que a formação crítica do futuro profissional não pode ocorrer apenas nos
limites da sala de aula, mas também através do compromisso com a realidade que, no caso deste
subprojeto, acontece junto com a TV Comunitária, uma entidade criada por várias entidades da
sociedade civil com o claro compromisso de democratização da comunicação na vida social.
Por outro lado, podemos concluir também que o mídia em pauta tem grande importância
para o público da TV comunitária, pois o tipo de crítica feita contribui para que os telespec-
tadores recebam, semanalmente, análises aprofundadas sobre os principais temas veiculados
pela mídia nacional e regional, contribuindo assim para que sejam receptores mais críticos
dos produtos midiáticos.
Dessa forma o subprojeto Mídia em Pauta tanto contribui para a formação cidadã do estudante
quanto para o desenvolvimento crítico do público da TV Comunitária de Belo Horizonte.
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Grupo de mídia
Anamaria Brasil de Miranda, Acadêmica do curso de Psicologia
Daniela Parisotti da Silveira Pilla, Acadêmica do curso de Psicologia
Clarissa Galecki Andrade, Acadêmica do curso de Psicologia
Helenara Silveira Fagundes, Mestre em Serviço Social. Professora do curso de Serviço Social
Rosemarie Gärtner Tschiedel, Mestre em Psicologia Social. Professora do curso de Psicologia
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UniSinos
Resumo
Esta intervenção ocorre com crianças e adolescentes participantes do Projeto de Extensão
Sapecca – Serviço de Atenção, Pesquisa e Estudos Com Crianças e Adolescentes – da
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UniSinos, que desenvolve um trabalho socioeducativo
com um grupo de crianças e adolescentes da Vila Brás, que se localiza-se na periferia de São
Leopoldo. O Objetivo desse trabalho é problematizar como a mídia produz subjetividade nas
crianças e adolescentes e de que maneira ela atravessa suas vidas e da comunidade, buscando
desenvolver o senso crítico e aumento da bagagem cultural. Tem como meta a construção de um
jornal comunitário. O trabalho é em grupo onde são realizados debates escolhidos pelo grupo,
pelos estagiários e seus supervisores. É um grupo aberto em número de participantes. Observamos
o crescimento da violência que atravessa as atividades do grupo. Nele se desenvolvem “pequenos
movimentos instituintes, quando os participantes rompem com a idéia cristalizada da violência
na comunidade. O grupo foi se apropriando dos problemas na Vila, tais como: mau atendi-
mento no posto de saúde, lixo nas ruas, falta de espaços de lazer. Mediante a redação de reporta-
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gens, relacionadas a estes temas, o grupo pode (re)significar esta violência. O grupo de Mídia
contribui para o entendimento crítico das relações sociais construídas historicamente pelo
homem. Foi um meio para outras possibilidades de intervenção, de reflexão e problematização
do exercício cotidiano da cidadania, atingindo a subjetividade e o senso crítico
.
Palavras-chave: comunicação comunitária, crianças e adolescentes, mídia
Introdução e objetivos
Este projeto surge da fusão de dois projetos, um realizado no Sapecca – Serviço de
Atenção e Pesquisa com Crianças e Adolescentes no segundo semestre de 2003, onde foi desen-
volvido um “grupo de vídeo” e, outro, o projeto de intervenção sobre rádio comunitária. Esse
projeto também nasceu devido à necessidade de integrar as diversas disciplinas que compõem
o Sapecca (Serviço Social, Psicologia, Educação Física, Filosofia, etc.) para trabalhar com as
crianças e adolescentes aspectos fundamentais como o desenvolvimento do senso crítico, o
aumento da bagagem de cultura e o trabalho em grupo. Portanto, esta intervenção, “grupo de
mídia”, é realizada com crianças e adolescentes participantes do Sapecca, com o objetivo de
problematizar a mídia e averiguar o modo como esta vem produzindo subjetividade na Vila
Brás. O grupo tem como meta a construção de um jornal comunitário. Faz-se necessário
esclarecer o que chamaremos de “mídia”, com esse termo, referimo-nos a todos os programas
e anúncios publicitários que utilizam os meios de comunicação áudio e/ou visuais como, por
exemplo, revistas, jornais, outdoors e a televisão.
Esclarecemos, também, que o fenômeno da produção de subjetividade é, ao mesmo
tempo, individual e coletivo: o fenômeno acontece em massa, mas depende de cada um de nós
aceitarmos ou não com passividade o que a mídia expõe.
Processos de subjetivação, segundo Baremblitt (2002), são processos que constituem o
sujeito, estes são constantes e produzidos durante todo o desenvolvimento humano. São
próprios de cada momento histórico e social, lugar e conjunturas.
Temos como objetivo geral problematizar como a mídia produz a subjetividade das cri-
anças e dos adolescentes e de que maneira ela vem atravessando as vidas dos participantes do
Sapecca e da comunidade da Vila Brás, buscando o desenvolvimento do senso crítico, aumen-
to da bagagem de cultura e vivência em grupo, oportunizando, assim, o usufruto de uma mani-
festação centrada no ser humano, buscando a valorização do mesmo enquanto cidadão cons-
ciente e reflexivo. Os objetivos específicos são: criar canais criativos e críticos que possibilitem
o conhecimento frente ao mundo; possibilitar um espaço de reflexão, problematização e cons-
cientização de valores já cristalizados pela nossa sociedade; resgatar raízes, história, valores,
cultura e identidade dos integrantes do Sapecca mediante de rodas informais de conversas; for-
talecer a convivência em grupo com atividades dirigidas ao mesmo, desenvolvendo propriedade
de solucionar seus próprios problemas através de um espírito comunitário; possibilitar a criação
de um meio de comunicação e integração da comunidade, mediante a da construção de um
jornal comunitário.
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Metodologia
A intervenção é desenvolvida em grupo, aberto em número de crianças e adolescentes e,
nos encontros, participam cerca de 15 integrantes com idades de 10 a 18 anos, semanalmente
no turno inverso ao escolar, no espaço da Associação de Moradores da Vila Brás. Também são
realizadas visitas à UniSinos ou a outros locais para a realização de atividades. A metodologia
é participativa, contando com a coordenação de estagiários curriculares e extra-curriculares da
Universidade. Os temas são propostos, a partir do que expressam as crianças e adolescentes,
vinculados ao objetivo deste grupo, e são escolhidos pelo grupo e pelos estagiários junto aos
seus supervisores. Estes são trabalhados por meio de recursos e técnicas como: colagem, cons-
trução de painéis e objetos com sucata, escrita e desenho, o uso de equipamentos como:
gravador, máquina fotográfica.
Esta intervenção é uma pesquisa-intervenção, já que acreditamos que pesquisador e
campo de pesquisa se criam ao mesmo tempo. “As práticas produzem os objetos assim como
também produzem políticas de subjetivação” (BARROS, 1994). A intervenção se dá em
processo, o momento de pesquisa é o momento de produção teórica assim como o momento de
intervenção. Apesquisa-intervenção busca um movimento contínuo de ação crítica do cotidiano
que produza novos sentidos que se encontram cristalizados.
Desta forma, a análise de implicação se torna fundamental. A análise de implicação é a
reação da equipe interventora no contato, e/ou antes deste, com o objeto de análise. Portanto,
são realizadas reuniões de discussão e planejamento das intervenções, semanalmente, bem
como de supervisão.
Resultados e discussão
Na nossa sociedade, cada vez mais estamos nos deparando e sofrendo crises de identi-
dade. Há uma busca constante de padrões os quais são reforçados pela mídia. A manifestação
deste tipo de funcionamento psíquico está atrelada à heteronomia do pensar, sentir e agir,
constituindo conjunção global psicológica caracterizada pelo desrespeito à individualidade
Percebe-se hoje a massificação do indivíduo, tornando-se cada vez mais difícil constatar
autonomia e diferenças individuais. Segundo Rolnik (1996), “está acontecendo uma verdadeira
revolução no modo de produção do desejo. As pessoas deixam de se conceber como unidades
autônomas. Por outro lado, passam a ter que dedicar muito de seu tempo e de seu dinheiro a
tentar administrar esse processo: mal conseguem administrar de um lado e, de outro já se
desarrumaram inteiramente”. Rolnik (s.d.) nos mostra que, hoje, temos melhor memória visual
do que auditiva. Temos um maior repertório de opções, mas não de territórios. Diversidade
cultural e ao mesmo tempo homogeneização. O mecanismo de influência não é feito pela
opressão, mas pela incitação do desejo (sedução). A imagem é a realidade. A virtualidade nos
fala, nos pensa. A TV induz a estados que se aproximam de estados hipnóticos, favorecendo a
indução de suas mensagens (não é à toa que pessoas dormem na frente da televisão). Coelho
(1999) diz que há uma realidade social em que se pode reconhecer um crescente interesse dos
meios de comunicação em incluir o pensamento psicanalítico entre as novas “tecnologias”
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usadas para interpretar e analisar fatos cotidianos e comportamentos de uma maneira geral. É
preciso registrar também que há, em algum nível, a preocupação da mídia em divulgar e ajudar
a construir novas tentativas de padronizar, através desta “tecnologia”, regras ou normas de
comportamento que possam servir de referência em um contexto social caracterizado pela
grande velocidade de transformação nas esferas éticas e morais. No entanto, o conhecimento
psicanalítico vem sendo utilizado em outro contexto que não a prática clínica; é a mídia que usa
a psicanálise e os psicanalistas como mais um campo de informação a ser diluído em seu
caldeirão de signos, imagens e mensagens.
Os espaços do mercado, da publicidade e da mídia falam “a mim”, falam dos nossos
sonhos, das nossas ilusões, da nossa sexualidade, das possibilidades mais desejadas como a de
encontrar a beleza ideal e a juventude eterna. Segundo Czermak e Neves (2001), “desejo é pura
intensidade nômade à procura de uma linguagem. Para que possa se expressar é justamente essa
intensidade que será captada pela mídia e investida de um certo significado; assim, sentimos
que viver, ter prazer é possuir um certo tipo de corpo, fazer determinados esportes”. As autoras
especificam: “ao captar a intensidade movediça e mutante da formação do desejo no social, a
mídia consegue criar uma linguagem, onde o desejo se concretiza e acontece. No entanto, o que
não se percebe é que, neste momento, o desejo, enquanto potência ativa de criação, vincula-se
a uma intensidade homogeneizadora de sentidos que, por sua vez, anula o caráter ativo da pos-
sibilidade de produções singulares no social que, certamente, daria “vazão” a uma multiplici-
dade de singularidades revolucionárias que se oporia à igualdade e individualidade capitalísti-
cas”. Acompanhamos, através das diversas intervenções do Projeto junto a crianças e
adolescentes, o quanto a mídia está presente em seu cotidiano e com poucos espaços de
reflexão a respeito do que é veiculado. Os meios de comunicação estão mais preocupados com
a audiência do que com o conteúdo, pois quanto maior for a audiência, maior o custo da
publicidade (já que são elas que sustentam as emissoras). A TV e o computador produzem um
confinamento interativo. E sabe-se que aquilo que se torna público, constante, repetitivo e isen-
to de ponderação crítica e de impunidade adquire valor de verdade, de autoridade, de
permissividade. Vivemos numa realidade que é atravessada pelo sistema capitalista, e um dos
dispositivos utilizados para reforçar este sistema é a mídia, que está claramente a serviço deste,
o que acaba por produzir a exclusão social de uma maioria (em termos numéricos). A televisão
produz subjetividades, entra nos lares e exibe valores éticos e consumistas. Sabemos que muitos
meios de comunicação têm uma vocação educativa, e tanto faz o formato do programa, a
linguagem audiovisual adotada, seja jornalismo, novela, filme, ficção, show de auditório, mini-
série, desenho ou programa infantil, pouco importa os meios, pois, no fim, todo conteúdo
midiático, de alguma forma, será assimilado como educação. Ou seja, tudo que a mídia eletrônica
emite é capaz de interferir, ensinar, modificar, inseminar, contaminar e encantar corações e
mentes. “Os que assistem aos programas de entretenimento podem não ter a intenção de
aprender, mas aprendem, e acabam sendo manipulados” (FORMIGA, 2003).
Fischer (2001) explica que “quando assistimos à TV, esses olhares dos outros também
nos olham, mobilizam-nos, justamente porque é possível enxergar ali muito do que somos (ou
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do que não somos), do que negamos ou daquilo em que acreditamos, ou ainda do que apren-
demos a desejar ou a rejeitar, ou simplesmente a apreciar. Em poucas palavras: em maior ou
menor grau, nós sempre estamos um pouco naquelas imagens”.
Umas das provas mais extravagantes de como os jornalistas das grandes empresas de
comunicação são limitados no sentido ético, intelectual, ou em ambos, é sua incapacidade de
mostrar a realidade ao povo. Desta forma, a mídia produz alienação através da difusão de um
ideal de comodidade, o que tem como conseqüência a passividade das pessoas frente à situação
de calamidade social. Ignora-se o estado crítico da enorme diferença entre as classes.
Como se observa, a mídia se tornou o crivo da verdade, e não um meio que possibilite
ao indivíduo refletir e fazer seus próprios julgamentos diante da realidade. Isso não é preocu-
pante? Não parece que está tudo pronto, acabado e que ninguém mais precise pensar? A imprensa
tem cumprido seu papel de zelar pela liberdade?
As leis de imprensa deveriam ter um único e exclusivo objetivo: regular as relações da
sociedade com a mídia de notícias, ou seja, assegurar os direitos constitucionais dos cidadãos e
das instituições no campo da informação pública.
A partir destas considerações, questionamos sobre o conteúdo do que a mídia divulga: a
banalização da violência, o incentivo à discriminação racial, sexual e econômica e a falta de
democratização dos meios de comunicação, entendendo esta como uma intervenção em busca
da cidadania.
A Comunicação Comunitária cuida de temas que não têm espaço em outros meios: a
cultura, as festas, a saúde, a segurança da comunidade, que é o lugar onde as pessoas vivem,
constróem relações de sangue e de espírito e suas subjetividades.
A comunidade, tendo seu veículo, faz sua própria comunicação; comunicação não
formal, mas concreta e real. Assim, todos podem falar, dialogar no plano público, produzir
consensos para a resolução das dificuldades individuais e coletivas. Diminuir a criminalidade,
aumentando a solidariedade social, a segurança coletiva, a cidadania, a democracia, concretizando-
se a liberdade de expressão.
Estas considerações foram as norteadoras da construção da nossa intervenção do grupo
de mídia na Vila Brás e, no decorrer dos encontros, foi possível observar mudanças no processo
do grupo. Nos encontros iniciais foi possível observar a demanda que havia em trabalhar a
violência na Vila Brás, uma violência que atravessa as atividades do grupo. Esta violência
estava tão explicitada que era possível observar atos violentos entre os integrantes do grupo.
Nas discussões esta demanda foi explicitada através das explicações de para quê servia cada
meio de comunicação. Por exemplo: “o telefone serve para denunciar quando dá ‘bolo’ na
vizinhança”, ou “para chamar a ambulância quando tem alguém doente”, ou ainda, “para
xingar sem ser pego”. “O jornal serve para dar notícia”; perguntamos “notícia de quê?”. Eles
respondem: “notícia de quando alguém morre, e de quem matou”, mas outro argumenta: “se tu
disser quem que matou, tu vai ser o próximo a morrer”. Esses relatos surgiram espon-
taneamente; e eles mostram como a comunidade está inserida num cotidiano de violência e de
lei do silêncio. A questão das drogas também aparece nas discussões quando um dos meninos
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relata não gostar de filmes com violência e drogas. Refere-se às drogas como sendo “cocaína,
cachimbo, tirar provavelmente maconha e armas”. Ele se posiciona contra, mas vemos que o
assunto, desde cedo, já é de conhecimento deles. No processo grupal foi possível desenvolver
“pequenos” movimentos instituintes, no momento em que as crianças e adolescentes começam
a romper com a idéia já cristalizada da violência, não negando este fato, mas mostrando que há
mais do que violência na Vila. O grupo está se apropriando dos problemas da comunidade, tais
com: mal atendimento no posto de saúde, lixo nas ruas, falta de espaços de lazer. E estes
problemas também não deixam de ser violentos com a população. Porém, mediante a redação
de reportagens relacionadas a estes temas para a construção do jornal, parece que o grupo pode
simbolizar e ressignificar esta violência e não precisou ser tão explícita como nos primeiros
encontros. Na formação do grupo, os coordenadores tinham a idéia de que o grupo seria de dis-
cussão, porém não supria a demanda de movimento corporal que as crianças e adolescentes
demonstraram. Os coordenadores pareciam desorganizados perante esta situação, o que assim
constituía um grupo desorganizado. Foi possível perceber o quanto um grupo se constitui num
processo, pois ocorrido este fato foi necessário rever as estratégias de intervenção. O grupo é
formado pelos coordenadores, que são alunos estagiários e pelas crianças e adolescentes.
Através das relações estabelecidas naquele local com aquelas pessoas é que se deu o processo
grupal. Em um dos encontros foi possível exemplificar o que estamos tentando expressar. A
coordenação do grupo preparou determinada atividade, mas, ao chegar na associação
de moradores, o local estava sendo ocupado por outras pessoas para uma reunião. Ficamos
decepcionados com o ocorrido, mas o encontro foi realizado em outra parte do mesmo local.
Assim, o que aconteceu foi que toda a atividade deste dia se constituiu deste processo de
desânimo. As crianças não se interessaram pela atividade e muitas até foram embora. Esta
passagem demonstra também a nossa análise de implicação, pois com o ocorrido nós não
estávamos mais implicados naquele encontro o que fez com que o grupo como um todo se
processasse de forma que nos pareceu “desimplicada”. O grupo demonstrou momentos de auto-
análise: após efetuar uma atividade de reportagem no posto de saúde, quando cada participante
tinha uma tarefa, alguns elaboraram as perguntas para a entrevista, outros tiraram fotos, outros
entrevistaram e assim por diante. Eles voltaram para a associação de moradores e discutiram
sobre a atividade. Perceberam como cada tarefa era relevante sem ordem de importância, ou
seja, todos no grupo foram fundamentais para realização das tarefas. Estes momentos podem ter
proporcionado alguns movimentos autogestivos no grupo. Quando o grupo já se mostrou
mais apropriado da proposta da construção do jornal, este se organizou sem a intervenção dos
coordenadores. No início de cada atividade é realizada uma roda para esclarecer como será a
atividade de cada dia. Esta roda era feita quando os coordenadores do grupo chegavam. Porém,
a partir de certos encontros, quando chegávamos ao local, a roda já estava formada.
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Conclusão
As populações mais humildes e desprovidas, geralmente, não são atingidas pelas formas
convencionais do ensino oficial. Acontece que elas são a maioria e por isso são as maiores
interessadas em criar um mundo onde tenham lugar. O grupo de mídia é um dos instrumentos
nessa educação para as massas. A proposta de formação de um grupo de mídia ensejou valores
e características essenciais que podem contribuir para o entendimento crítico das relações
sociais construídas historicamente pelo homem a partir de ações concretas. É um meio para
outras possibilidades de intervenção, de reflexão e problematização do exercício cotidiano da
cidadania podendo fazer ligação com diversos temas, proporcionando debates em rodas infor-
mais de conversas, atingindo a subjetividade e o senso crítico. Assim, a democratização dos
meios de comunicação é indispensável para a democratização da sociedade, pois hoje não é
suficiente falar em liberdade de expressão e manifestação, se isto não for acompanhado do
direito de expressar opiniões através dos meios de massa.
É verdade que a democratização da comunicação passa pelo esforço de revisão das
atuais normas de concessão de rádio e televisão comerciais, mas também, e superiormente, em
construir a possibilidade de que toda população tenha acesso ao fazer, às rádios comunitárias,
às TV’s populares, aos jornais de bairro; tenha direito a democratizar o falar.
Diversificar as fontes de informação, multiplicar os meios de comunicação dentro da
sociedade, contribui para torná-la mais complexa, mais rica, mais independente e mais
democrática. O papel básico da comunicação comunitária é o de articuladora dessas vidas pri-
vadas com a história e o meio onde elas são vividas, dando-lhes sentido e dimensão, aproxi-
mando o mundo distante ao cotidiano das pessoas e da comunidade. É uma poderosa ferramenta
em mãos de uma comunidade que assume a tarefa de ver e contar, de refletir coletivamente
sobre o seu cotidiano, de favorecer sua identidade cultural para reconhecer sua força e seu valor.
O ideal seria que cada vila, cada bairro tivesse sua rádio comunitária, seu jornal, sua TV popu-
lar — não apenas para “falar para fora”, mas também para facilitar a percepção da vida em seu
entorno, para ampliar o intercâmbio de pontos de vida e de experiências entre todos os agentes
sociais envolvidos neste processo, para a recuperação da própria história, testemunha e
documento dos momentos cruciais da vida daquele bairro, daquela vila, daquela comunidade.
Assim, esta intervenção de comunicação comunitária através do Projeto de Extensão Sapecca,
torna-se fundamental para a criação de uma rede de comunicação local que seja capaz de gerar
um fluxo de informações educativas e integradoras, o que auxilia as crianças e adolescentes no
processo de conquista da cidadania e redescoberta da identidade local.
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Educação patrimonial: revisitando Ouro Preto por meio da cantaria
Fabiano Gomes da Silva (1), Licenciado e Bacharelando em História
Heloisa Oliveira (1), Graduanda em Engenharia de Minas
Antônio Netto Júnior (1), Graduando em História
Simone Monteiro Silvestre Fernandes (2), Especialista
Carlos Alberto Pereira (1), Doutor
(1) Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP
(2) Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN – 13ª Sub-Regional
Resumo
A cidade de Ouro Preto possui um dos mais belos conjuntos arquitetônicos do Barroco
no mundo, mas que vem sofrendo com a ausência de políticas nas áreas de conservação e preser-
vação desse patrimônio cultural da humanidade. Buscando contribuir para preservação deste
acervo, a Escola de Cantaria de Ouro Preto resolveu montar um programa de educação
patrimonial, denominado Revisitando Ouro Preto por meio da cantaria, que tem por objetivo
o estabelecimento de novas relações de apropriação dos monumentos e lugares históricos por parte
das crianças e adolescentes. Desenvolver uma relação de pertencimento entre as novas gerações e
o patrimônio que lhes foi legado, que elas se reconheçam e reconheçam naquele patrimônio um
pedaço de suas histórias e de seus descendentes, estabelecendo novos lugares e suportes para a
memória, mas de forma prazerosa e lúdica. O Revisitando Ouro Preto por meio da cantaria
trabalha com as crianças do Ensino Fundamental do município, sendo que em 2003 conseguiu
atender mais ou menos 1000 crianças em um ano de atividades, além de oferecer aos professores
e escolas das redes públicas e privadas um importante suporte na área de educação patrimonial
.
Palavras-chave: educação patrimonial, cantaria, Ouro Preto-MG
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Cultura
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Introdução
Ouro Preto, antiga Vila Rica, é reconhecida como modelo de espaço urbano e arquitetura
da ocupação do interior do país no período colonial, caracterizada pelo somatório de arrua-
mentos, edificações e equipamentos urbanos dos séculos XVIII, XIX e XX. Em relação ao
núcleo urbano surgido e erguido durante o período colonial, o sítio natural e as características
da atividade mineradora condicionaram o traço característico do seu desenho urbano. A sua
configuração, orgânica e linear, é fruto do agrupamento dos diversos arraiais surgidos em
função da descoberta do ouro em 1698, que deu origem, em 1711, à antiga Vila Rica de
Albuquerque e que, em 1720, tornou-se a capital da Capitania das Minas Gerais. A ligação dos
arraiais se consolidou a partir do segundo quartel do século XVIII, por meio de intervenções
urbanas significativas, promovidas pelo governo Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela
(1735-1763). Nesse período foram construídos chafarizes e pontes, foi implantado o centro
administrativo, hoje praça Tiradentes, delimitado pela construção do Palácio dos Governadores
e posteriormente pela antiga Casa de Câmara e Cadeia. O novo núcleo unificou os seus dois
mais importantes arraiais, Antônio Dias e Pilar, elevando Vila Rica a condição de um dos
principais núcleos Setecentista de extração do ouro e propiciando importantes inovações na
arquitetura, na pintura e na escultura.
Tempos áureos foram aqueles. Já em nosso tempo, a cidade de Ouro Preto tem constan-
temente aparecido no noticiário da imprensa nacional e internacional. Pena que tal atenção não
seja para veicular boas informações sobre a cidade, mas para dar conta do descompromisso das
autoridades na manutenção de um dos maiores conjuntos de obras do barroco no mundo. O
episódio mereceu a atenção da Unesco que ameaçou cassar o título de Patrimônio Histórico da
Humanidade da cidade, caso não fossem desenvolvidas determinadas ações para sua preservação.
As críticas às autoridades são várias: inexistência de um Plano Diretor que possa con-
trolar a ocupação da área urbana, detendo as invasões de áreas de reconhecido valor histórico,
como o local das ruínas da primeira residência dos Governadores em Vila Rica, o antigo Palácio
dos Governadores; ausência de um efetivo controle do tráfego de automóveis na área central,
local de maior concentração de imóveis históricos tombados; falhas na proteção das obras
sacras mantidas nas diversas igrejas da cidade; entre outros assuntos mais específicos.
Acreditamos que as críticas apresentadas são pertinentes, mas duvidamos que a simples
sanção de leis e normas punitivas possa, no dia-a-dia, construir condições para a preservação e
manutenção desse conjunto. Anossa dúvida nasce da percepção de que os significados dos bens
que compõem esse patrimônio cultural têm andado longe da experiência de vida de uma
considerável parcela da população, particularmente as crianças e os jovens.
Não é difícil encontrar as marcas das “intervenções” das crianças e jovens em
monumentos próximos às escolas, quase sempre rabiscados com “corretivos” e várias espécies
de tintas, quando elas não explodem bombas nos tubos de água de algum chafariz. É recorrente:
faz-se o trabalho de restauro e dias depois já são perceptíveis as marcas nos monumentos. A
exemplo temos a Ponte Marília de Dirceu que passou por um demorado processo de restauro e,
tão logo entregue à comunidade, não tardaram essas “intervenções”.
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Dessa forma, torna-se difícil a manutenção e preservação de qualquer bem histórico, seja
ele material ou imaterial, quando não há por parte da comunidade sensibilidade sobre a
importância da valorização e entendimento dos sinais e registros do passado em suas vidas. É
preciso desenvolver uma relação de pertencimento entre as novas gerações e o patrimônio que
lhes foi legado, que elas se reconheçam e reconheçam naquele patrimônio um pedaço de suas
histórias e de seus ascendentes, estabelecendo novos lugares e suportes para a memória, mas de
forma prazerosa e lúdica.
É movida por essas preocupações que a Escola de Cantaria decidiu montar um programa
de educação patrimonial voltado para as séries iniciais do Ensino Fundamental, especificamente
a quarta série.
Com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão da UFOP, Fapemig – Fundação de Amparo a
Pesquisa em Minas Gerais, Alcan Alumínio do Brasil e do IPHAN/13ª Sub-Regional II, criamos
o programa, denominado Revisitando Ouro Preto por meio da Cantaria, que objetiva estimular
a apropriação e o uso do patrimônio cultural da cidade sob novo olhar, um olhar sensibilizado
pela beleza e técnica da cantaria mineira. Encontrada nas edificações coloniais brasileiras,
usada nos elementos arquitetônicos ou em partes mais nobres das construções setecentistas, a
cantaria, entendida por pedra lavrada ou simplesmente aparelhada em formas geométricas para
construção de edifícios e, em geral, para qualquer construção, foi amplamente utilizada em
Ouro Preto. Também empregada como ornamento, a origem do termo deu-se em função do
trabalho com rochas para construção dos cantos das casas, e o ofício é desenvolvido pelo
chamado “canteiro”, que é, na realidade, “o escultor da pedra” (VILLELA, 2003; SILVA, 2003).
O programa visa não só a preparar os professores para trabalharem os conteúdos da
história regional, memória, preservação e patrimônio cultural, organizando material que sirva
de suporte em sala de aula e estimulando o trabalho interdisciplinar, como também despertar,
desenvolver e fomentar nos educandos da cidade atitudes de respeito, valorização e preservação
do Patrimônio Cultural de Ouro Preto.
Aqui, o conceito de patrimônio cultural é usado na sua acepção mais ampla, confluindo
para suas fronteiras o patrimônio material e o imaterial (HORTA, 1999; RANGEL, 2002; LEMOS,
1982); buscando fomentar novos olhares para o patrimônio edificado, destacando o trabalho
esculpido na rocha, seja na esteatita (pedra-sabão), no quartzito (itacolomito) ou no quartzo
clorita-xisto; levando para a realidade da criança ou adolescente um leque de informações
que lhes possibilitem identificar a qualidade dos materiais usados nos elementos artísticos, a tra-
balhabilidade de cada uma, as ferramentas usadas, a maneira de extração da rocha nos morros da
cidade, além da própria localização e identificação desses bens no conjunto urbano e paisagístico.
No entanto, não nos restringimos ao edificado, ao material e monumentalizado. Almeja-
se manter inteligíveis as relações originais que permitam o trabalho manual do artesão, a explo-
ração dos modos de fazer artesanal, diferenciando-os de outras formas de produção, como a
industrial. Valorizar o savoir-faire dos canteiros, “quer enquanto atividades únicas e insubsti-
tuíveis na produção de certos bens, quer enquanto repositório de saberes tradicionais que
tendem a desaparecer com a morte dos artesãos que a elas se dedicam” (MANIQUE, 1994, p. 84).
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E só após o trabalho de sensibilização dos professores é que começamos a trabalhar com
os alunos, desenvolvendo as atividades relacionadas no quadro anterior, exceto o passeio nas
ruas do centro histórico ou a locais próximo à escola, pois essa etapa fica sob a responsabilidade
dos professores.
Resultados
Os resultados foram bem animadores. Em 2003 reunimos oito escolas no primeiro
semestre e mais oito no segundo, totalizando 16 escolas atendidas em um ano de trabalho e,
aproximadamente, 1000 alunos. Algumas escolas já incluíram o programa na agenda escolar e
os professores conseguiram realizar um interessante trabalho multidisciplinar, criando espaços
para conteúdos das áreas de História, Geografia e Língua Portuguesa nas atividades propostas.
Tivemos certos problemas na ampliação do programa no segundo semestre, principal-
mente por dificuldades financeiras para subsidiar maior apoio ao deslocamento dos alunos
das escolas até a oficina da Escola de Cantaria. Acrescentamos, ainda, os problemas de infra-
estrutura existentes em algumas unidades de ensino da rede pública e o desinteresse de deter-
minados professores em trabalharem, juntamente com os nossos bolsistas, no desenvolvimento
do tema em sala de aula, problema esse não circunscrito apenas às escolas públicas, mas
estendível ao setor privado. E para nossa surpresa e satisfação, as escolas da periferia da cidade
apresentaram um maior envolvimento em relação às do centro, maior disposição em
participarem das atividades e professores mais participativos.
Quanto à receptividade e participação dos alunos, destacamos a curiosidade bem
peculiar da idade, capaz de nos surpreender pela complexidade das informações inquiridas.
Quando eram questionadas, buscavam sempre se reportar ao leque de suas experiências ou às
de seus pais e parentes próximos. Citavam com entusiasmo o fato de seus pais terem trabalhado
em pedreiras da cidade ou em profissões relacionadas à manutenção ou restauração de imóveis
como pedreiros, carpinteiros, engenheiros.
Parece-nos que a visita à oficina da Escola de Cantaria foi a etapa que mais despertou o
interesse das crianças. Perguntavam tudo. Gostavam principalmente quando o mestre canteiro
as ajudava a picar a rocha escolhida por eles. Esta etapa exigiu uma preocupação redobrada com
a segurança das crianças, principalmente em relação ao tamanho dos grupos, já que não se pode
flexibilizar muito quanto ao tamanho dos grupos, sob o risco de se perder o controle dos mesmos.
Na etapa de envolvimento afetivo com o uso, conservação e preservação do patrimônio
cultural apropriado, as crianças criaram roteiros dos monumentos da cidade, destacando no
espaço urbano os imóveis e monumentos que elas consideravam mais significativos, nomeando
e estabelecendo legenda para facilitar o trabalho do leitor. Nota-se, também, uma preocupação
em evidenciar no roteiro, o bairro onde se localiza a escola deles, recorrendo, inclusive, ao uso
de orientações geográficas na identificação.
Em algumas escolas optou-se por outras formas de expressão como poemas, pinturas,
desenhos, peças teatrais, músicas e outros. O resultado acabou contemplando as expectativas,
já que as turmas diversificaram os meios utilizados para expressarem o conteúdo trabalhado.
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Uma questão que nos tem tirado o sono é a construção de um método adequado para
avaliar todo o processo do programa. Tem sido extremamente difícil estabelecer critérios para
avaliar apropriações de experiências, valores e posturas do aluno frente ao seu cotidiano.
Quanto a isso não fechamos questão, pois estamos apostando nas soluções lançadas pelos pro-
fessores e as sugestionadas nos trabalhos desenvolvidos pelos alunos. O resultado tem mostra-
do ser uma estratégia interessante.
É provável que os melhores frutos desse trabalho nas escolas, com essa faixa etária, não
sejam perceptíveis em intervalo de tempo tão curto como um ano e meio. É preciso que os
lugares e espaços re-apropriados pelas crianças durante o programa sejam continuamente tra-
balhados pelo corpo docente da escola, pois educação patrimonial não pode ser encarada como
uma mercadoria que se destina a um determinado público e com prazo de validade. Mas deve
sim, ser encarada como um processo permanente e ininterrupto, inclusive lançando mão dos
mais diversos recursos didáticos e paradidáticos para manutenção desse processo.
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•Tertúlia literária dialógica
Roseli Rodrigues de Mello, Professora Doutora. Pós-Doutorado em Sociologia e Educação/Centro
de Investigação Social e Educativa – Crea, da Universidade de Barcelona/Espanha
Thaís Helena Batel, Graduanda em Licenciatura em Pedagogia
Adriana Marcela Bogado, Mestranda em Ciências Sociais
Tiago Hori, Mestrando em Genética e Evolução
Universidade Federal de São Carlos/Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa
– Niase/DME/DEP
Resumo
A Tertúlia Literária Dialógica é uma atividade cultural e educativa desenvolvida a
partir da leitura de clássicos da Literatura Universal. É gratuita, aberta a todas as pessoas de
diferentes coletivos sociais e culturais, incluindo pessoas recém-alfabetizadas. O objetivo é pro-
mover espaços de diálogo igualitário e de transformação (pessoal e do entorno social mais
próximo). Sua metodologia baseia-se na aprendizagem dialógica. O projeto é desenvolvido pelo
Niase/UFSCar por meio de parcerias com instituições ou projetos educacionais, culturais ou
sociais. Em encontros semanais, a partir de obra literária escolhida em comum acordo, cada
pessoa destaca trechos do texto lido para comentá-los com o grupo. Desde que iniciamos o projeto,
atuamos junto a estudantes do ensino médio de escola pública e de curso pré-vestibular para
população carente. Atualmente atuamos junto a homens e mulheres de uma turma de Educação
de Jovens e Adultos e de duas turmas da Universidade da Terceira Idade. Os principais resul-
tados são o acesso a obras literárias, a aprendizagem instrumental com sentido e o princípio de
unidade na diferença. Frente à experiência desenvolvida desde 2002, conclui-se que a Tertúlia
assume uma função social transformadora, já que democratiza a literatura como fonte de
diálogo e a interação entre diferentes pessoas e conhecimentos
.
Palavras-chave: aprendizagem dialógica, transformação, democratização
Introdução e objetivos
ATertúlia Literária Dialógica é uma atividade cultural e educativa que está sendo
desenvolvida em vários países, em diferentes tipos de entidades, como escolas de pessoas
adultas, associações de pais, grupos de mulheres, entidades culturais e educativas, como forma
de superação da exclusão social pelo diálogo. Não apresenta nenhum obstáculo social ou
cultural para a participação, pois é uma atividade gratuita, aberta a todas as pessoas, de
diferentes coletivos sociais e culturais, inclusive às pessoas que recém aprenderam a
ler (MELLO, 2003).
Consiste na leitura dos clássicos da literatura universal e é baseada no diálogo. Não se
pretende descobrir nem analisar aquilo que o autor ou autora de uma determinada obra quer
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dizer em seus textos, mas sim promover uma reflexão a partir das diferentes e possíveis
interpretações que derivam de um mesmo texto.
Frente às práticas de exclusão social e cultural e, nelas, a de exclusão escolar, a crença a
respeito de que tipo de texto cada pessoa pode ou não pode ler, mitifica a prática de leitura
tornando-a prática distintiva. A escolarização e a especialidade passam a esconder e a sustentar
discriminação por classe social, idade, grupo cultural, sexo (MELLO, 2003).
ATertúlia Literária Dialógica surgiu em 1978, na Escola de Educação de Pessoas
Adultas de La Verneda de Sant-Martí, em Barcelona, Espanha. Foi criada por educadores e
participantes. Atualmente é difundida pela Confederação de Federações e Associações de
Participantes em Educação e Cultura Democrática de Pessoas Adultas (Confapea), da Espanha,
por meio do projeto “Mil y Una Tertulias Literarias Dialógicas por Todo el Mundo”.
No Brasil, as Tertúlias Literárias Dialógicas são divulgadas e desenvolvidas pelo Núcleo
de Investigação e Ação Social e Educativa – Niase, da Universidade Federal de São Carlos. Este
Núcleo é composto por pessoas de diferentes áreas de conhecimento (professores universitários,
alunas e alunos de doutorado, de mestrado e de graduação da Universidade Federal de São
Carlos e de outras instituições).
O Niase foi criado a partir e com base nos estudos realizados junto ao Centro de
Investigação Social e Educativa – Crea, da Universidade de Barcelona/Espanha (MELLO,
2002a). No Niase, são desenvolvidas ações de pesquisa, ensino e extensão considerando-se
diferentes práticas sociais e educativas, com o objetivo de contribuir para a superação da
exclusão social, cultural e educacional.
Na extensão universitária, as ações do Niase se dão por meio do Programa de Extensão
“Democratização do conhecimento e do acesso à escolarização”, da Universidade Federal de
São Carlos. A Tertúlia Literária Dialógica é um dos projetos desenvolvidos pelo Niase, no pro-
grama de extensão e na linha de pesquisa “aprendizagem dialógica e ações comunicativas”, do
diretório de grupo do CNPq.
O Niase divulgou o projeto e iniciou o primeiro grupo de Tertúlia na cidade de São
Carlos/SP e, desde então, o projeto vem sendo desenvolvido, por meio de parcerias, em
diferentes instituições.
Com relação a esse projeto, prevêem-se os seguintes objetivos (MELLO, 2002b):
1.Promover o encontro de pessoas distintas entre si (diferentes gerações, regiões de
origem, descendências, etc.) com obras da literatura clássica, internacional ou nacional.
2. Promover o diálogo e a reflexão entre diferentes pessoas em torno das obras lidas e
dos temas que elas suscitam.
3. Estimular o acesso a diferentes conhecimentos e modos de vida, como ampliação da
solidariedade e da possibilidade de convívio entre as pessoas.
4. Explicitar a existência da inteligência cultural como capacidade de se aprender
diferentes coisas ao longo de toda a vida.
5. Auxiliar na criação de sentido para a leitura como atividade cultural, de direito de todos.
130
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Metodologia
Na origem das Tertúlias, na Escola de Educação de Pessoas Adultas de La Verneda de
Sant Martí, em Barcelona/Espanha, pessoas que estavam aprendendo a ler e a escrever, ou que
se firmavam neste processo, aceitaram o desafio de quebrar um muro cultural, colocado pelo
discurso dominante a respeito de que a literatura Universal só pode ser lida e entendida por
quem teve longa formação acadêmica. Passaram a se encontrar semanalmente com autores e
autoras como Kafka, Proust, Machado, Youcernart, etc.
Seguindo o que ali se começava a construir, enquanto concepção de educação, a dinâmica
foi sendo estabelecida a partir dos princípios da aprendizagem dialógica (FLECHA, 1997). A
aprendizagem dialógica é um conceito elaborado pelo Centro de Investigação Social e Educativa
(Crea), da Universidade de Barcelona, com base nas contribuições de Paulo Freire, para a Educação,
e de Habermas para a Sociologia. Implica sete princípios que são indissociáveis: diálogo
igualitário, inteligência cultural, transformação, dimensão instrumental, criação de sentido,
solidariedade e igualdade de diferenças.
O diálogo igualitário implica que em uma Tertúlia são respeitadas todas as falas igual-
mente; o que não se aceita é que nenhuma pessoa queira impor a sua idéia como válida.
Pressupõe que o encontro se dá entre sujeitos capazes de linguagem e ação. Assim, as diferentes
manifestações são consideradas em função da validade dos argumentos, e não da posição de
poder de uns sobre os outros. A relação é estabelecida em torno do que cada pessoa pode trazer
à discussão e à aprendizagem de determinado tema — o que não implica o questionamento de
conhecimentos estabelecidos, como aconteceria numa perspectiva construtivista, mas de
considerar argumentos que se apóiam não apenas no mundo objetivo, como também no mundo
social e no mundo subjetivo (como construção de intersubjetividades) (MELLO, 2002a).
O princípio de diálogo igualitário é possível porque está apoiado em outro: o de
inteligência cultural. Entende-se que ao longo de nossa vida aprendemos muitas coisas e de
maneiras muito diversas. Todas as pessoas têm uma inteligência cultural, ou seja, têm as mes-
mas capacidades para participar de um diálogo igualitário, ainda que cada uma possa demons-
trá-las em ambientes distintos (FLECHA, 1997). Esta inteligência se desenvolve segundo os
contextos de inserção das pessoas, permitindo, portanto, reformulações constantes a partir das
novas inserções e interações (MELLO, 2003).
Vivendo o processo de diálogo igualitário, com base na inteligência cultural, as pessoas
vão podendo viver transformações pessoais quanto à sua auto-imagem e à maneira de se
colocarem no mundo, produzindo transformações nas relações estabelecidas em seu entorno
imediato e podendo chegar a se engajar em movimentos mais amplos, pela transformação social
e cultural. Realiza-se, desta maneira, o princípio de transformação, constitutivo da aprendizagem
dialógica.
A aprendizagem instrumental é outro princípio envolvido. O acesso a um conhecimento
sistematizado em conteúdos e habilidades acadêmicos não é desprezado. Flecha (1997)
esclarece que: “o dialógico não se opõe ao instrumental, mas sim à colonização tecnocrática da
aprendizagem. É dizer, evita que os objetivos e procedimentos sejam decididos à margem das
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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pessoas, protegendo-se atrás de razões de tipo técnico que escondem os interesses exclusores de
umas minorias” (p. 33).
Como esclarece um participante da Tertúlia da Escola de La Verneda de Sant-Martí:
O diálogo possibilita também que aprendamos conhecimentos mais acadêmicos e instrumentais,
já que quando lemos e comentamos uma obra também nos interessamos pelo que acontecia na
época em que foi escrita, a qual movimento literário pertence, quais são suas características. Tudo
isso é pesquisado por quem quer, perguntando-se a familiares, procurando-se em enciclopédias, na
internet... e depois é exposto ao grupo. (CONFAPEA, 1999)
Deste processo, de acordo com Flecha (1997) surge a criação de sentido, como possibili-
dade de sonhar e agir, dando sentido à própria existência. Ao se unirem, no processo de apren-
dizagem, conhecimentos vindos das instituições que estruturam a sociedade moderna (escola,
ciência, literatura, etc.) e vindos do mundo da vida, proporciona-se um enriquecimento mútuo
a esses dois âmbitos da vida. Permite-se a integração do cognitivo, do ético, do estético e do
afetivo, superando-se a sensação de desilusão e fragmentação trazidas pela crescente necessidade
de se mover e de escolher na atual sociedade, sob a pressão dos muitos riscos que temos
que enfrentar. Uma criação de sentido que se dá em torno da vida coletiva, embora beneficie
diretamente a vida pessoal.
A solidariedade encontra-se nas Tertúlias Literárias Dialógicas já de partida, na
solidariedade de condutores da atividade com as pessoas em situação de exclusão, priorizando
sempre a sua participação. Isto se garante desde a gratuidade da atividade, até o apoio a que
pessoas que têm vergonha possam expor suas idéias e serem respeitadas nesta exposição. Não
se busca impor a própria verdade, mas promover a aprendizagem conjunta entre todos. Destas
relações de respeito e solidariedade nos encontros, vão nascendo ações de solidariedade com a
comunidade mais ampla.
Por fim, a aprendizagem dialógica supõe e cultiva a igualdade de diferenças, como “o
mesmo direito de cada pessoa de viver de forma diferente” (FLECHA, 1997, p. 42). Tal
proposição supera tanto a concepção homogeneizante de igualdade, como a concepção
relativista de diferença — “quando se expõe a diferença separada da igualdade, geram-se
desigualdades” (FLECHA, ibid., p. 42). As pessoas têm garantido o igual direito a expor suas
idéias e argumentar, não se pretendendo uma homogeneização de opiniões e pontos de vista,
mas o conhecimento de diferentes perspectivas e a potencialização de processos reflexivos.
A partir de tais princípios, educadores e participantes foram, na escola de La Verneda
de Sant-Martí, desenvolvendo e aperfeiçoando a dinâmica da atividade. Flecha (1997) assim
sintetiza tal dinâmica:
A tertúlia literária se reúne em sessão semanal de duas horas. Decide-se conjuntamente o livro e a
parte a comentar em cada próxima reunião. Todas as pessoas lêem, reflexionam e conversam com
familiares e amigos durante a semana. Cada uma traz um fragmento eleito para ler em voz alta
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e explicar por quê lhe há resultado especialmente significativo. O diálogo se vai construindo a partir
dessas contribuições. Os debates entre diferentes opiniões se resolvem apenas através de argumentos.
Se todo o grupo chega a um acordo, ele se estabelece como a interpretação provisoriamente ver-
dadeira. Caso não se chegue a um consenso, cada pessoa ou subgrupo mantém sua própria postura;
não há ninguém que, por sua posição de poder, explique a concepção certa e a errônea (p. 17-18).
Tanto a dinâmica como elementos de estabilidade da atividade devem ser respeitados
para se garantir a efetiva participação e a aprendizagem dialógica. Como elementos de estabili-
dade são ressaltados: a) que se garanta que a Tertúlia ocorra sempre no mesmo horário e local
e b) que mantenha sua duração de duas horas. É importante que os participantes possam nela
entrar e dela sair quando necessitem ou desejem, sabendo que a atividade ali estará quando a
ela quiserem retornar. Também é importante que não seja interrompida durante sua realização,
e nem cancelada para o desenvolvimento de outra atividade.
Tais elementos foram sendo indicados pelos participantes da Tertúlia de La Verneda, ao
longo dos anos de seu desenvolvimento, como fatores de respeito às pessoas que freqüentam
atividades educacionais e culturais, e foram estendidos a todas as outras atividades da escola.
Mais tarde, foram confirmados como elemento-chave de participação na educação de pessoas
adultas, em pesquisa ampla desenvolvida pelo Crea (1996) em toda a Catalunha.
Aqui no Brasil, o Niase oferece e coordena a Tertúlia Literária Dialógica desde 2002.
Neste período, desenvolveu e vem desenvolvendo a Tertúlia em diferentes instituições, e
aperfeiçoando as características da oferta, com base nos princípios, dinâmica e elementos de
estabilidade já descritos, para que se efetive como atividade transformadora.
Enquanto metodologia de aproximação e de relacionamento com as instituições par-
ceiras, ao ser procurado, o Niase explica os princípios, a dinâmica e a necessidade de garantia
de estabilidade da Tertúlia, a um responsável da instituição requerente. Depois, em comum
acordo com o responsável da instituição, organiza e realiza a divulgação da atividade junto aos
participantes, explicando-lhes a origem, a finalidade e a dinâmica do trabalho e realizando uma
pequena demonstração da atividade. Em diálogo com os participantes e responsáveis da insti-
tuição, é escolhido o dia, o local e o horário da atividade. A condução é então assumida por um
membro do Niase e apoiada por outro.
A formalização do projeto junto aos parceiros tem sido feita por meio de solicitação por
escrito e assinatura de compromisso, por parte do parceiro, de que as condições de estabilidade
da atividade serão por ele garantidas. Tal formalização tem sido realizada semestralmente.
Desenvolvimento, resultados e discussão: Tertúlias Literárias Dialógicas no Brasil
O primeiro grupo de Tertúlia Literária Dialógica, no Brasil, funcionou de setembro de
2002 a junho de 2003 na Biblioteca Comunitária da UFSCar. Este grupo estava formado por
professores, alunos de graduação e pós-graduação da UFSCar e pessoas da cidade. Reunia-se
uma vez por semana e teve, como função principal, a formação de condutores da atividade em
outras instituições. Neste grupo, foram lidos e debatidos os livros “Germinal”, de Emile Zola,
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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e “A casa de Bernarda Alba”, de García Lorca. Essa Tertúlia foi extinta em junho de 2003, por
decisão do grupo, já que sua função de formação de condutores fora realizada e que se con-
figurou como uma Tertúlia de pessoas da universidade e que não sofrem nenhum tipo de
exclusão social ou educativa — para o que se destina o trabalho com as Tertúlias Literárias
Dialógicas. Pode-se dizer que a decisão do grupo foi pautada no contraste que se vivia entre esta
Tertúlia e a que fora criada, concomitantemente a ela, no ano de 2002, junto à Universidade da
Terceira Idade – Uati, da Fundação Educacional de São Carlos – FESC, da Prefeitura Municipal
de São Carlos, onde a atividade cumpria sua função.
Desde outubro de 2002, a Tertúlia Literária Dialógica se efetivou na Uati, junto a homens
e mulheres de diferentes idades, ascendências, grupos sociais e graus de escolaridade, que
se juntaram ao movimento internacional em dois grupos de Tertúlia Literária Dialógica (ver
BENTO et. al. 2003a).
Primeiro nasceu a turma da manhã que, desde outubro de 2002, reúne-se na sala de
leitura da Uati, às quintas-feiras, das 8h às 10 horas, com pelo menos dois membros do Niase,
para ler e discutir as obras da literatura clássica universal. Neste tempo, foram escolhidos, lidos
e compartilhados os livros: “Memórias de Adriano”, de Margaret Youcenar; “Os Sertões”, de
Euclides da Cunha. Atualmente, estão iniciando a leitura de “A Divina Comédia” de Dante
Alighieri.
A segunda turma da Uati iniciou suas atividades em abril de 2003, por requisição de
pessoas que não podiam freqüentar a turma da manhã. Ela funciona das 14h às 16h, também
às quintas-feiras. Desde seu início, foram lidas as seguintes obras: “Madame Bovary”,
de Gustave Flaubert, “A Metamorfose”, de Franz Kafka e, atualmente, lê-se “No caminho
de Swann”, de Marcel Proust.
Os participantes destas duas turmas de Tertúlia têm sido parceiros incondicionais no
trabalho desenvolvido pelo Niase. São homens e mulheres que têm nos acompanhado em várias
ocasiões e espaços de solidaridade com outros coletivos. A divulgação das Tertúlias em outras
instituições, por exemplo, tem sido sempre feita em conjunto entre participantes da Uati e
membros do Niase.
Uma das atividades marcantes que pudemos vivenciar com as turmas da Uati foi um
espaço de comunicação, em tempo real, com participantes de Tertúlias de Barcelona/Espanha,
por meio de uma videoconferência realizada nas dependências da UFSCar, em 14 de maio de
2003. Funcionários da UFSCar e pessoas do grupo de Tertúlia dedicaram um mês na preparação
do evento (BENTO et. al, 2003b).
Foi também por meio da Uati, que teve início o terceiro grupo de Tertúlia da cidade. No
mês de outubro de 2003, uma das participantes da Tertúlia da Uati comentou que sua filha, biblio-
tecária da escola estadual de ensino médio — EEEB “Esterina Placco” — estava interessada em
oferecer a atividade aos estudantes da escola. Assim, decidimos entrar em contato com ela para
contar um pouco sobre o projeto. Da primeira reunião informativa, que foi realizada na
biblioteca da escola, participaram a bibliotecária e a vice-diretora da escola, participantes da
Uati, a coordenadora e uma das moderadoras do projeto. Nessa reunião, foi combinada
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a difusão do projeto entre os alunos do Ensino Médio e os participantes da Tertúlia da Uati,
do período da manhã, fizeram uma demonstração da atividade, comentando sua experiência de
leitura na Tertúlia. A demonstração foi realizada com o livro “Memórias de Adriano” de
Marguerite Yourcenar.
ATertúlia na Escola “Esterina Placco” foi desenvolvida de dezembro de 2003 a março
de 2004, às quintas-feiras, das 16h às 18h. Os alunos participantes decidiram, por consenso, que
o primeiro livro a ser lido seria “A revolução dos bichos”, de Orson Wells. Neste período, além
da condutora e da pessoa de apoio do Niase, participou na animação do grupo um senhor da
Universidade da Terceira Idade, que se ofereceu para acompanhar-nos. A atividade foi suspensa
em março de 2003, frente à troca de direção da escola.
Uma quarta Tertúlia foi também iniciada com a ajuda dos participantes da Uati, no final
de 2003. O projeto desenvolvido pelo Núcleo UFSCar-Escola, curso Pré-vestibular, solicitou a
atividade ao Niase e, na primeira semana de novembro, foi feita a divulgação por pessoas do
grupo e participantes da Tertúlia da Uati, do período da manhã, com o livro “Memórias de
Adriano”, de Marguerite Yourcenar. Estiveram presentes aproximadamente 50 estudantes do
cursinho nesta divulgação. A Tertúlia do Cursinho, que contou com quinze participantes, durou
de novembro de 2003 a março de 2004, funcionando aos sábados, das 13h às 15h, nas
dependências da UFSCar. Como as demais, foi conduzida por dois membros do Niase — um
como condutor e outro como apoio. O livro escolhido para ler foi “Primeiras Estórias”, de
Guimarães Rosa.
Neste momento, junho de 2004, nasce mais um grupo de Tertúlia Literária Dialógica,
junto a uma turma de Educação de Jovens e Adultos, na cidade de São Carlos. Homens e
mulheres que realizam o equivalente às séries iniciais do ensino fundamental, começam a se
reunir para escolher o livro a ler. Dos grupos com os quais trabalhamos, entendemos que este
será o nosso maior desafio, já que estamos diante de pessoas que vivem e sofrem, em maior
amplitude e profundidade, processos de exclusão social e cultural. Cremos, no entanto, que os
princípios do diálogo igualitário nos guiarão na interlocução com essas pessoas, como tem
acontecido com os demais grupos.
Como principais resultados do trabalho desenvolvido pelo Niase no projeto “Tertúlias
Literárias Dialógicas” podemos indicar a participação de muitas pessoas nos grupos citados,
vivenciando os princípios da aprendizagem dialógica. Vários depoimentos de participantes
ilustram esta vivência.
Sobre o diálogo igualitário, destacamos duas falas:
“Ariqueza da literatura é a imaginação” – comentava uma participante ao se referir às possibili-
dades interpretativas que a atividade oferece. O que é reafirmado por outra participante:
“Aqui não é preciso chegar a um consenso nas interpretações que se fazem sobre a leitura”.
Sobre a transformação, vale ressaltar os seguintes depoimentos:
“O autor considera que os fatos não influem sobre as crenças. Mas existem fatos que são
possibilidades de mudança de crenças, e isto é aprender” – comentário de uma partici-
pante sobre o livro “No caminho de Swann”.
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“Se não fosse a Tertúlia, eu nunca iria ler um livro como este” – relato de uma partici-
pante da Tertúlia quando fala sobre o livro “Os Sertões”.
Quanto à dimensão instrumental da educação, a leitura de “Os Sertões” pelos partici-
pantes da Uati foi prova intensa deste princípio. A leitura de textos de história, a retira-
da do filme de mesmo nome, as informações trazidas sobre o autor, tudo por iniciativa
própria, estimulada pelos condutores, foram constituindo um aprofundamento tão
grande de conhecimento que possibilitou a ultrapassagem de mitos em torno do livro, do
autor e do contexto tratado:
“Ele primeiro escrevia normal e depois trocava tudo por palavras mais rebuscadas” –
participante.
“Isto que ele fala sobre os mulatos não há teoria que sustente. É pura ignorância e pre-
conceito” – participante.
•“Avida inteira eu pensei que o Estado de São Paulo tivesse sido invadido pelos nordes-
tinos. No livro eu vi que, muito antes, os paulistas invadiram o nordeste para roubar as
suas riquezas” – participante.
Enquanto criação de sentido, damos como exemplos:
”Rotina escraviza ou as pessoas se deixam escravizar por ela, as tecnologias tiram a
gente da rotina” – participante se referindo à videoconferência entre Uati e a Espanha.
“O hábito pega a gente pelos pés, braços, coração” – participante referindo-se ao livro
“No caminho de Swann”.
Frente à leitura de “Memórias de Adriano”, muitos foram os momentos de criação de
sentido no diálogo. Falou-se sobre vida e morte, a renúncia da velhice para se preparar para a
morte; a morte versus o processo de Crisálida (como pessoa se esconde para esperar a morte);
o mistério de estar aqui no mundo; comunicação não mais em vida (questão de religião). Batel
& Bogado (2003) assim sintetizaram o interesse pelo tema:
“O tema despertou distintos sentimentos nas/os participantes, a maneira como vivemos
a morte das pessoas que amamos, e a proximidade da morte vivida por uma ou outra pessoa do
grupo em algum momento da vida. A morte está presente em qualquer fase da vida e não só na
velhice. Por isso, é preciso recriar o sentido tanto da idade como da morte, a idade pode ser
registro da vida, de experiências, de conhecimentos; enquanto que a morte pode ser um momento
de reavaliação da vida das pessoas. No diálogo, surgem alternativas, outras formas de encarar
o tema, a valorização dos sonhos e dos projetos como motores da vida”.
Os livros “Madame Bovari” e “Memórias de Adriano” inspiraram muitas reflexões sobre
solidariedade e, no caso, a solidariedade necessária entre as mulheres e para com elas, para que
se possa transformar a sua situação de desvantagem social. Sobre tal debate Guerios et al.
(2003) afirmam: “Ao fazer sua reflexão sobre as palavras do autor, a participante disse que ‘a
vida das mulheres é demasiado limitada’não por incompetência própria, mas por falta de tempo
para crescer. Criar filhos exige muito. Somos cobradas por não dar atenção suficiente à família
ou, em não optando pela maternidade, por não sermos completas na plenitude do ser. As
próprias mulheres são as maiores críticas (‘se eu agisse assim, também poderia ser grande na
136
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vida — ter preferido a carreira a filhos’), ao invés de colaborarem com o crescimento da outra,
dando apoio à criação de seus filhos”.
Por fim, a igualdade de diferenças, como entendimento de que todas as pessoas das
Tertúlias são iguais e diferentes, e isto implica o direito de todas a viver e a pensar de maneira
diferente, se exercita em relação às emoções e a situações. Os fatos produzem reações distintas
nas pessoas. As emoções são distintas de um para outro, mas todos somos iguais na
humanidade. Uma participante da Tertúlia do cursinho relatava em um encontro: “Perceber
que as pessoas respeitam as diferenças diminui meu medo de falar sobre o livro.”
O princípio de inteligência cultural é o que permite que os outros se estabeleçam. Cada
um dos depoimentos anteriores é exemplo, também, deste princípio: aprendemos reportados a
contextos e nas interações e, estando em constante interação, sempre estamos nos transformando.
A partir da aprendizagem dialógica, pretendemos fazer da Tertúlia um contexto de interação
positivo e transformador.
Como produto e divulgação do trabalho, no decorrer de 2003, o grupo envolvido no tra-
balho de Tertúlias apresentou três comunicações orais e um painel em Congressos acadêmicos
e publicou quatro artigos sobre a atividade. São eles: dois trabalhos apresentados no I Congresso
Regional de Pessoas Adultas (I Crepa), sendo um deles de autoria de duas participantes da
Tertúlia juntamente com um membro do Niase, e outro apresentado no II Encontro sobre Prática
de Leitura, Gênero e Exclusão. 14° Congresso de Leitura realizado em Campinas.
Conclusões
Como podemos ver, conforme consta da proposta da atividade, por meio de sua
metodologia consegue-se que pessoas, que muitas vezes nunca leram um livro, desfrutem de
obras da literatura clássica. Por meio dos princípios da Aprendizagem Dialógica promove-se,
ainda, acesso ao conhecimento histórico, literário e sociológico, de diferentes culturas (no caso
do Brasil, diversidade advinda das descendências e das migrações internas).
Ao estimular o acesso à literatura como direito de todas as pessoas, independente de
idade, grau de escolaridade, profissão, etc., ajuda-se a democratizar uma atividade cultural que
muitas vezes é vista como atividade de propriedade de determinado estrato social, profissional
ou escolar.
Por fim, vale ressaltar o espaço de aprendizagem que as Tertúlias Literárias Dialógicas
constituem para os estudantes de doutorado, mestrado e graduação dos cursos da UFSCar e para
professor da universidade, que compõem o Niase. O aprendizado de estabelecimento de
diálogo igualitário entre pessoas com diferentes origens favorece o exercício dos princípios
teóricos que o projeto envolve e que são a base de todos os projetos do Niase. Estamos
envolvidas e envolvidos em processos de estudos conjuntos, tomada de decisão em processo de
democracia deliberativa e ação social e produção de conhecimentos acadêmicos que só são
enriquecidos pelo que aprendemos com tantos homens e mulheres, meninas e meninos com
quem compartilhamos palavras nos grupos de Tertúlia.
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, v. 3, n. 3, p. 449-457, set./dez. 2003.
138
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•A exposição é o caminho: desafios e discussões na implantação da ação
educativa em espaços de ciência
Rita de Cássia Marques, Doutora em História. Coordenadora do Projeto Memória e Cultura
Médica de Minas Gerais. Professora da Escola de Enfermagem
André Vieira Guimarães, Graduando em História
Lizziane Melo Barros, Graduando em História
Luis Gustavo Molinari Mundin, Graduando em História
Luiz Fernando Silva Ferreira, Graduando em História
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Centro de Memória da Medicina de
Minas Gerais – Faculdade de Medicina
Resumo
O Projeto Memória e Cultura Médica de Minas Gerais vem se ocupando desde 1998 da
organização do acervo e da revitalização do espaço do Centro de Memória da Medicina da
Faculdade de Medicina da UFMG. Nesse período foi implantada uma biblioteca para pesquisa
de história da medicina e revitalização do espaço museal com organização de exposições tem-
porárias e, recentemente, foi inaugurada uma exposição permanente com uma proposta de Ação
Educativa e de exposição itinerante. Há uma interação do público com o acervo. As peças foram
identificadas, pesquisadas quanto ao funcionamento e disponibilizadas para o público. Os
equipamentos são tocados, experimentados e desvendados. Realização de uma gincana para os
participantes de visita monitorada. Uma proximidade dos educandos com os objetos, exclusivos
da prática médica, aguça a curiosidade, facilita a compreensão de conceitos e práticas da
medicina, como da ciência em geral. Por meio das peças do museu, aspectos da história da
medicina, assim como da biologia e da física podem ser aprendidos de forma divertida. Usando
seu espaço interativamente, o museu potencializa a capacidade de ser um espaço de aprendiza-
gem e não somente um local de visita.
Palavras-chave: ação educativa, museu, difusão científica
Introdução e objetivos
O Centro de Memória da Medicina de Minas Gerais – Cememor foi criado em 1977,
com a finalidade de funcionar como museu e laboratório de ensino e pesquisa. Ao longo de mais
de 25 anos de existência, o Cememor tem recolhido um importante e vasto acervo que
documenta aspectos diversos relacionados à prática e ao conhecimento científico na área da
saúde. A diversidade do acervo contempla materiais divididos entre: documentos de arquivos
institucionais e privados, livros, fotos e quadros, objetos tridimensionais (especialmente
equipamentos e instrumentos médico-hospitalares). Entretanto, por falta de pessoal especializado
e insuficiência de financiamento, o acervo que foi sendo recolhido ao longo desse período,
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não recebeu tratamento e acondicionamento adequados. Essa situação colocava em risco a
conservação do acervo sob sua guarda, além de dificultar sua disponibilização para o público e
o exercício de sua função de transmissor e difusor do conhecimento científico no campo da
saúde. Isso contrariava duas das principais diretrizes que nortearam a criação do Cememor,
quais sejam, a preservação e a difusão da memória científica da saúde. Com a implantação do
projeto Memória e Cultura Médica em Minas Gerais, no ano de 1998, foi possível viabilizar
uma série de medidas para o tratamento desse acervo, tais como: higienização, classificação,
recuperação e a organização com vistas à sua disponibilização para os pesquisadores e
consulentes que demandam o Cememor. O projeto, desde sua implantação, contou com o apoio
da Faculdade de Medicina da UFMG; recebeu auxílio financeiro da Fundação de Amparo a
Pesquisa em Minas Gerais (Fapemig) nos anos de 2000 e 2001; da Pró-Reitoria de Extensão
da UFMG – Proex desde 2001 e, a partir de 2004, também do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. Em 2001, o Cememor passou a integrar a
Rede de Museus, Centros e Espaços de Ciência e Tecnologia da UFMG, uma iniciativa da Proex
que visa a articular metodologicamente as diversas experiências em curso nos espaços de ciência
existentes na UFMG, possibilitando a oferta de ambientes interativos de ciência e cultura e a
formação de recursos humanos. Com os auxílios recebidos, iniciou-se no Cememor o trabalho
de organização do seu acervo. Inicialmente a preocupação maior foi com o material bibliográ-
fico. O Cememor sempre foi ponto de reunião de pesquisadores da história da medicina de
Minas Gerais e, em fins de 2001, foi elaborado um projeto propondo um novo circuito de
exposição para uma das salas do museu — a antiga sala denominada “Museu de Tecnologia da
Medicina”. A temática escolhida para a montagem dessa nova exposição privilegiou a História
da Medicina, partindo dos cuidados dispensados ao corpo doente desde os primórdios da
civilização, a percepção das doenças e as práticas curativas, até o desenvolvimento de uma
medicina científica e suas especialidades, cujo enfoque está voltado para os séculos XIX e XX.
Essa exposição, intitulada Medicina e História: Um olhar sobre o acervo do Centro de Memória
da Medicina de Minas Gerais, foi aberta ao público no segundo semestre de 2003 e contou com
o auxílio da Profa. Fernanda Borges e de quatro estagiários da Faculdade de Arquitetura da
UFMG. A equipe interdisciplinar, que se formou para conceber a exposição, trabalhou com a
concepção de museu como um espaço de educação não formal, de lazer e cultura. Esse novo
circuito de exposição tem como objetivo contribuir com a difusão científica e a aprendizagem,
despertando o interesse e a vocação de novos pesquisadores. Assim, durante este ano de 2004,
vem sendo desenvolvido um trabalho voltado para a montagem de atividades de exploração da
exposição — Ação Educativa — direcionada aos alunos do ensino fundamental e médio,
de escolas da rede pública e particular da cidade de Belo Horizonte. A demanda externa por
atividades dessa natureza é bastante expressiva, tomando-se como exemplo as experiências de
sucesso desenvolvidas pelo Museu de Morfologia do Instituto de Ciências Biológicas – ICB da
UFMG, pelo Observatório da Serra da Piedade e pelo Museu de História Natural da UFMG.
Além disso, a capacidade de atendimento ao público ainda está aquém das solicitações, existindo
uma demanda não-atendida bastante significativa, haja vista o crescimento da população
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estudantil. Sabemos que no país existem diversos acervos que documentam a história e a
evolução da ciência. Porém, de nada servirão se não forem objeto de tratamento e organização
e se não estiverem disponibilizados para o público. A informação só existe na presença de um
receptor, só adquire sentido numa relação dialógica. Da mesma forma, qualquer artefato só se
transforma em testemunho quando apresentado/reconhecido como tal. Se não comunicam nada
e não são reconhecidos pela população, objetos, práticas e idéias perdem seu caráter de
patrimônio, de herança cultural a ser preservada, investigada e transformada.Entre os objetivos
dessa visita-orientada está: a consolidação dos conhecimentos apreendidos, estimulando a
curiosidade e o espírito de investigação; a difusão da memória e o patrimônio da história e da
cultura médica de Minas Gerais; ampliar o atendimento ao público interno e externo à UFMG;
integrar o Cememor, de modo mais efetivo, nas atividades extensionistas da Rede de Museus
da UFMG; organizar mostras com o material do acervo em exposições provisórias e itinerantes.
Este projeto também vem contribuindo para a melhoria dos recursos humanos que atendem aos
museus da UFMG, ao se ocupar da preparação dos bolsistas que servem ao espaço.
Metodologia
A atividade pedagógica vem sendo elaborada dentro de uma perspectiva interacionista,
onde o museu se consolida como um espaço de comunicação e aprendizagem. Essa metodologia
visa a integrar visitante/museu numa relação dialógica, contrapondo-se à idéia de um museu
contemplativo, no qual o visitante é colocado como agente passivo no processo de construção
do conhecimento.Desenvolvida de forma efetiva desde a década de 1980, a idéia de “aprender
fazendo” consolidou-se como uma necessidade pedagógica a ser desenvolvida em espaços de
ciência. Nos museus essa perspectiva se refletiu nas chamadas exposições
push buttom. Este
tipo de exposição caracterizava-se por uma interação mecânica, na qual os visitantes acionam
dispositivos do tipo “girar manivelas” ou apertar botões, obtendo respostas relacionadas aos ele-
mentos expostos. Entretanto, esta interatividade revelou-se ineficiente por não proporcionar um
envolvimento efetivo entre o visitante e os aparatos em questão. Constatou-se que este simples
“apertar de botões” na verdade limitava as possibilidades de interpretação do conhecimento
exposto, ao gerar apenas um tipo de resposta quando do acionamento do mecanismo. A intera-
tividade, por si só, era tida como sinônimo de êxito e qualidade na comunicação com o
visitante. Isto porque no modelo
push buttom, o conhecimento era dado para o visitante de
forma ágil e compacta. No entanto, a interatividade deve estar intrinsecamente ligada a uma
prática pedagógica bem definida que considere as especificidades do espaço e da educação não
formal. Tendo a interatividade como princípio, procedeu-se um minucioso estudo das peças
expostas, procurando por informações sobre sua história e funcionamento. Realizou-se ampla
pesquisa em catálogos antigos de equipamentos, que foi enriquecida pela contribuição de alguns
ex-professores da Faculdade de Medicina que se prontificaram a falar sobre os equipamentos.
Os módulos pensados para a organização da exposição foram assim definidos: história geral
da medicina, anatomia, bacteriologia, cirurgia, radiologia, sala de estudos, oftalmologia e odon-
tologia. Para o desenvolvimento da Ação Educativa foram distribuídas entre os educandos,
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fichas para anotações, as denominadas “fichas de médicos”(nome, idade, escola e pistas) e
“ficha de resposta”(dividida para as respostas dos módulos), prancheta, lápis e borracha.
Interagindo com o acervo exposto o visitante deixa de ser um mero visitante e torna-se um
educando, pois ao entrar em contato com as peças, aprende sobre seu funcionamento, seu
porquê e seu período histórico. O desafio proposto aos educandos parte da distribuição de pistas
pelos diversos módulos, levando-os a interagir com as peças. A compreensão dos módulos
permite descobrir a resposta das pistas do desafio espalhadas pela exposição. Ao fim da visita,
os pontos são somados e os vencedores aclamados. A primeira atividade da visita foi desenvolvida
em torno do painel pintado por Jarbas Juarez e que traça um panorama histórico das práticas de
tratamento e cura das doenças desde a pré-história até a medicina atual. A decomposição das
cenas do quadro é o mote para a visita: 14 gravuras, com situações características de várias fases
da história da medicina, foram distribuídas aos visitantes para que as relacionassem às cenas
retratadas no painel. A proposta da atividade é fazer com que o aluno perceba que o cuidado
com o corpo está relacionado com um contexto histórico. Para o segundo módulo, que trata da
anatomia e bacteriologia como base para a cirurgia, duas atividades foram desenvolvidas: uma
em torno do microscópio e outra sobre os diversos instrumentos cirúrgicos. Na atividade do
microscópio, lâminas foram selecionadas e entregues para a observação do grupo. Após um
tempo de observação, gravuras com imagens de estruturas microscópicas foram distribuídas
para que os alunos as identificassem e as relacionassem com a imagem vista do microscópio e
anotassem as conclusões na ficha de resposta. Ao lado da mesa de cirurgia, os educandos
recebem fotos de equipamentos e instrumentos utilizados em várias profissões. É pedido aos
mesmos que identifiquem aqueles objetos que se relacionam com a prática cirúrgica. As
respostas devem ser anotadas na ficha de resposta. No módulo raio X, foram colocadas várias
chapas de raio-X com diferentes doenças ou traumas para que os alunos tentassem identificar o
diagnóstico. Cada grupo escolhe uma chapa que contem pistas para ajudar os alunos. As pistas
ficarão no módulo da sala de estudos e os educandos, por meio de um representante, têm um
tempo para achar as pistas e identificar as chapas. Após a “brincadeira-diagnóstico” discute-se
o impacto da descoberta do raio X na medicina, relacionando-a aos recentes avanços na área de
diagnóstico por imagem. O módulo da oftalmologia foi contemplado com a atividade “Caixa de
Lentes” — uma caixa histórica com o acervo das lentes utilizadas nas consultas oftalmológicas
na metade do século XX. Com a apresentação e disponibilização do conteúdo da caixa, o
visitante pode interagir com o material e dessa forma, experimentar como era realizado o exame
para determinar o tipo de lentes que o paciente deveria usar. A técnica da época é mostrada ao
mesmo tempo em que se explica o processo, que parte do mesmo principio, mas que foi
modernizado pela tecnologia. Duas deficiências visuais — miopia e hipermetropia — são explicadas
com o recurso de gravuras que reproduzem as imagens vistas por um míope e um hipermetrope.
O último módulo a ser trabalhado é o do consultório odontológico. Nesse módulo é trabalhado
o ‘jogo das diferenças’, onde os alunos devem descobrir as diferenças entre as imagens que
reproduzem cenas da prática odontológica em tempos históricos diversos. Com isso busca-se a
compreensão da odontologia como uma prática de cuidado do corpo, relacionando seus métodos
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com a história. Com essa atividade finda-se a proposta da Ação, restando a correção das
respostas pelos monitores e a declaração do grupo vencedor. Assim, a elaboração das atividades
de Ação Educativa desenvolvida no Cememor buscou desenvolver atividades de interação que
proporcionassem, além da participação do educando, a possibilidade de construir um conheci-
mento processual que integre as questões científicas a um contexto histórico e cultural.
Resultados e discussão
Amontagem da atividade de Ação Educativa contou com a colaboração do Professor Dr.
Luis Carlos Villalta, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da UFMG, que tem orientado a elaboração do trabalho de exploração pedagógica a
ser apresentado a escolas e educadores e desenvolvido com os grupos de visitantes. Para tanto,
têm sido realizadas reuniões periódicas entre toda a equipe envolvida com o projeto, no sentido
de estabelecer e explorar as diretrizes definidas para essa atividade. A Ação Educativa,
desenvolvida no museu do Cememor, foi pensada a partir da definição de um público-alvo,
privilegiando-se os estudantes do ensino fundamental e médio. O objetivo é trabalhar o
desenvolvimento do conhecimento na área da saúde, que exerce um impacto científico,
tecnológico, social e cultural na formação de nossos jovens, funcionando como instrumento
complementar de inclusão social, atendendo, ainda, aos professores da rede pública e particular,
em um processo de educação permanente. O envolvimento dos professores no processo de edu-
cação não formal é fundamental para o sucesso da aprendizagem nestes espaços. Entendendo
que museus e centros de ciências têm importante papel no processo de democratização cultural,
a Ação Educativa visa a estabelecer uma comunicação dinâmica/interativa com o público. A
atividade proposta sugere que o estudante desenvolva por si, a partir da interação com a
exposição, o conhecimento. Assim, antes de conhecer a exposição, o educando é questionado
sobre quais são suas expectativas em relação à visita e quais conhecimentos sobre o tema eles
trazem, a priori, que deverão ser trabalhados pelos monitores durante a visita. A atividade apre-
senta várias dinâmicas para cada módulo da exposição, organizando-se como uma gincana.
Consideramos o desafio como uma forma metodológica adequada para despertarmos nos jovens
o interesse pela ciência médica e seu desenvolvimento. As atividades apresentadas propõem que
os educandos percebam as mudanças verificadas nos objetos, práticas, processos e teorias
relacionados ao cuidados com o corpo. Procedendo desta forma, eles mesmos percebem essas
mudanças. Além disso, é pretendido que eles percebam como o olhar sobre as doenças e as
práticas de cura varia ao longo do tempo. Após a elaboração da atividade, foi realizada uma visi-
ta-piloto com a participação de duas turmas do ensino médio do Colégio Técnico da UFMG –
Coltec. Essa experiência serviu para avaliar as atividades propostas pela Ação Educativa, o
comportamento dos alunos diante da dinâmica, a compreensão dos processos enfocados e as
informações adquiridas/transformadas após as atividades. As visitas-piloto são um termômetro
importante para que se observem os temas de interesses despertados pela exposição, infor-
mações processadas pelos estudantes, dificuldades e falhas que, por ventura, não tinham sido
percebidas, possibilitando os ajustes dos eventuais problemas. A experiência realizada no
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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último mês de maio/2004 apontou aspectos importantes: por um lado, a metodologia baseada
no desafio foi bem sucedida, haja vista o grande interesse e participação pela totalidade dos
alunos; por outro, constatou-se a necessidade da criação de um novo espaço no qual os grupos
possam ser recebidos, divididos e instruídos sobre a atividade a ser realizada, além da necessi-
dade da redução do número de participantes de cada grupo para que o aproveitamento da visita
seja mais eficaz. Estas impressões sobre a visita-piloto foram coletadas pelos monitores durante
a visita e debatidas em reunião posterior. Foi também pedido aos alunos que fizessem uma
avaliação apontando suas impressões sobre a visita que tem auxiliado na reformulação da ativi-
dade. Uma proposta para o desenvolvimento futuro é a confecção de cartilhas destinadas aos
professores, que possam contribuir para ampliar e aprofundar aspectos trabalhados na
exposição, como por exemplo: desenvolvimento da biologia; aspectos das ciências físicas e
químicas presentes no conhecimento e na prática médica; descobertas tecnológicas relacionadas
à medicina, entre outros. Além da visita-piloto e atendendo ao objetivo de organizar mostras
itinerantes, parte da exposição foi apresentada ao público num evento externo ao espaço do
Cememor. O evento “Público e Museus” aconteceu no Observatório Astronômico da UFMG,
na Serra da Piedade (Caeté-MG), no dia 22 de maio de 2003. O Cememor levou para o local a
mostra “As lentes na medicina” composta basicamente por peças dos módulos de bacteriologia
e oftalmologia da sua exposição permanente. Aproveitando o fato do evento acontecer num
observatório, cuja maior atração são as grandes lentes para ver o universo, o Cememor com-
pareceu com uma caixa de lentes, usadas em exames de vista da primeira metade do século XX
e um microscópio. As pequenas lentes foram disponibilizadas ao público que pôde manipulá-
las e melhor entender como elas funcionam e para que servem. Com a ajuda das peças do
museu, conceitos como miopia e hipermetropia e o funcionamento de um microscópio puderam
ser explicados. O contato com as lentes simplifica a compreensão dos conceitos por qualquer
tipo de público, desde o infantil até o de idosos e de deficientes físicos, como um grupo de
surdos-mudos que puderam ver a diferença da imagem formada por lentes côncavas e convexas
e de como se dá o mecanismo da visão. A nosso ver, a implantação das atividades da Ação
Educativa fortalece o papel do Cememor como espaço de divulgação científica, ampliando as
atividades extensionistas desenvolvidas pela UFMG e incentivando a prática da educação não
formal junto ao público do ensino médio e fundamental.
Conclusões
Aconsolidação dos espaços de ciência é fator fundamental no processo de democratização
do saber científico. Explorar o potencial de aprendizagem nesses ambientes é atividade indis-
pensável para a difusão do conhecimento. Isto porque o acesso a essas fontes de conhecimento,
guardadas nesses locais, não poderiam ser exploradas em sua totalidade nos espaços exíguos
das salas de aula. Acreditamos que a prática de visitas aos museus ajuda na formação da
cidadania dos estudantes, trazendo discussões sobre questões atuais relacionadas à prática e à
ética científicas, como a produção de transgênicos ou a clonagem. As Ações Educativas, em
museus e espaços de ciência, devem atuar como facilitadoras do processo de aprendizagem,
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despertando a curiosidade e o interesse dos estudantes pelas questões atreladas ao conhecimento
científico. O silêncio dos documentos textuais e tridimensionais guardados nos arquivos do
Cememor, e agora disponíveis em exposição permanente e itinerante, podem e devem con-
viver com as perguntas curiosas de estudantes do ensino fundamental e médio e do público em
geral. No meio das investigações que a exposição necessariamente suscita, risos, brincadeiras e
diversão também devem fazer existir. Os caminhos da aprendizagem são diversificados, cabe
aos organizadores das exposições perceberem as facetas que privilegiem o papel do visitante na
produção do conhecimento. No caso do Cememor, a exposição visa a estabelecer um diálogo
com o público. Diálogo esse, espera-se, que seja promissor e renove-se a cada nova turma
que visite a exposição e a cada novo arranjo do material a ser exposto. Desta forma, o local da
guarda da memória da medicina vitaliza-se ao estabelecer o fluxo permanente de comunicação
com o público. A exposição é o caminho.
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(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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•Gerais de Minas: a expressão popular nas manifestações culturais do povo mineiro
Gustavo Pereira Côrtes, Mestre em Educação. Professor do Departamento de Educação Física.
Coordenador do Projeto de Extensão Escola de Dança e Ritmo Sarandeiros
Alex Fernandes Magalhães, Mestrando em Psicologia Social. Professor do Departamento de
Educação Física. Subcoordenador do Projeto
Mariana Camilo de Oliveira, Ex-Bolsista de extensão. Graduanda em Psicologia
Daniela Gomes, Bolsista de extensão. Graduanda em Terapia Ocupacional
Ana Paula da Silva, Bolsista de extensão. Graduanda em Educação Física
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Escola de Educação Física,
Fisioterapia e Terapia Ocupacional
Resumo
O Grupo Sarandeiros, companhia de dança especializada no estudo, releitura e divul-
gação das tradições brasileiras, apresenta sua mais recente pesquisa para elaboração do espetácu-
lo denominado Gerais de Minas. Neste novo projeto, o grupo investe no estudo das tradições de
Minas Gerais, os aspectos históricos, geográficos e culturais constituintes do povo mineiro.
Consiste também em um trabalho que servirá como fonte de pesquisa para o enriquecimento
das atividades pedagógicas voltadas para o folclore nas escolas de Belo Horizonte e de Minas
Gerais, por meio da elaboração de uma cartilha pedagógica. A metodologia utilizada será a
pesquisa bibliográfica, a pesquisa participante e a pesquisa documental de 04 festas existentes
no Estado de Minas Gerais: Festa de Nossa Senhora do Rosário, no Serro, Festa do Rosário de
Dores do Indaiá, Festival de Folclore de Jequitibá e Festa dos Reis em Alto Belo. Reconhecido
internacionalmente pelo seu trabalho, os Sarandeiros traduzem em Gerais de Minas um olhar
sobre as festas, folguedos e manifestações populares do Estado, buscando verificar, a partir de tais
elementos, aspectos que designem uma possível identidade cultural mineira ou mineiridade
.
Palavras-chave: cultura, folclore e mineiridade
Introdução e objetivos
O Grupo Sarandeiros, companhia de dança que trabalha conjuntamente ao projeto de
extensão Escola de Dança e Ritmo da UFMG, tem se constituído como espaço de aprendiza-
gem, trocas e construção de novos conhecimentos em um trabalho de reconhecida pesquisa e
divulgação das tradições folclóricas nacionais, com diversos espetáculos artísticos, oficinas e
artigos publicados e apresentados no Brasil e no exterior. Fazem parte do repertório dos
Sarandeiros, cinco espetáculos elaborados a partir de estudos da diversificada cultura nacional
nos últimos sete anos de existência do trabalho. Há dois anos, o Grupo Sarandeiros vem estudando,
pesquisando e buscando elementos cênicos para construir um espetáculo inspirado nas tradições
mineiras. Investigar a cultura de um povo de forma artística e traduzir esta expressão em dança
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e música sempre foi o intuito dos Sarandeiros na elaboração de seus shows. A análise que será
feita a seguir buscou perseguir uma resposta a discussões, por vezes acalorada, da presença de
um caráter mineiro, de um mineirismo, ou para ser atual, de uma mineiridade implícita e car-
acterística do povo mineiro. Desta maneira, a pesquisa do Sarandeiros procura investigar em
algumas manifestações folclóricas existentes no Estado, as origens, os usos e costumes exis-
tentes nas músicas, folguedos e danças que fazem parte da expressão cultural mineira e que
tradicionalmente são representativos de um significado na postulação de uma identidade cul-
tural do povo mineiro.
O Estado de Minas Gerais apresenta, segundo Martins 1991, 46 Micro-regiões e 10
unidades culturais:
1. Vale do Jequitinhonha – (Cidades pólos – Diamantina – Araçuaí)
2. Região Norte (Cidade pólo – Montes Claros)
3. Região da Zona da Mata (Cidade pólo – Juiz de Fora)
4. Centro e metalúrgica (Cidades pólos – Belo Horizonte – Curvelo)
5. Triângulo (Cidades pólos – Uberaba – Uberlândia)
6. Grande Sertão – (Cidade pólo – Unaí)
7. Campo das Vertentes (Cidades pólos – São João del-Rei – Tiradentes)
8. Sul (Cidades pólos – Varginha – Poços de Caldas)
9. Nordeste (Cidade pólo – Governador Valadares – Nanuque)
10. Oeste (Cidades pólos – Bom Despacho – Dores do Indaiá)
Esta distribuição não encontra unanimidade na bibliografia sobre o assunto. No site da
Secretaria de Turismo do Estado de Minas (disponível em <http:// www.descubraminas.com.br>)
encontramos outra distribuição das regiões culturais, que divide o Estado em 06 regiões cul-
turais, a saber: São Francisco, Mineração, Café, Zona da Mata, Triângulo Mineiro e Nordeste,
a mesma utilizada pelo Atlas de festas populares do Estado de Minas Gerais, do Instituto de
Geociência Aplicada – IGA, do Governo do Estado de Minas Gerais, de autoria da Professora
Deolinda Alice dos Santos. No site Artesanato Mineiro (disponível em <http:// www.arte-
sanatomineiro.com/html/regioes.html>), entretanto, também encontramos outro estudo, com a
divisão de Minas Gerais em 11 regiões culturais. Estas diferenças entre os estudos demonstram
que os limites culturais são difíceis de serem demarcados, em comparação a critérios conven-
cionais, como regiões políticas, econômicas, físicas naturais, geográficas ou sócio-históricas.
Adespeito do intuito didático de tais delimitações, deve-se fazer a ressalva de que talvez se trate
de uma tentativa de circunscrever algo relativamente idelimitável. Além disso, aspectos
culturais transcendem as fronteiras políticas do Estado. A incorporação de tantos elementos faz
de Minas, portanto, uma espécie de celeiro cultural. Nota-se marcadamente, na pretensa
cultura mineira, influências oriundas de diferentes povos, o que proporcionou muitos tipos de
“mineiridades”, dotando o Estado de manifestações únicas e típicas, e uma extrema diversidade
entre as suas próprias regiões.
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Para compreendermos as manifestações culturais existentes em Minas Gerais, e pela
própria impossibilidade de se definir as regiões culturais do Estado, buscaremos pistas históricas
na formação do povo mineiro e na origem das tradições regionais. Segundo Dias, 1971, existe
certo consenso entre estudiosos de que o caráter regional e cultural do povo de Minas formou-
se no período agudo da mineração. Sabe-se que não existe caráter regional que seja imutável,
intocado pelos processos de mudança. Entretanto, pode-se dizer que alguns fatores contribuíram
para manter, até os dias atuais, a presença de uma noção, ainda que frágil, de cultura mineira.
Um dos argumentos ressaltados é o fator geográfico que, em Minas Gerais, legou aos habitantes
da antiga província um isolamento natural. Avessos aos processos colonizadores do litoral, nos
quais as cidades se mostravam abertas ao mundo pelo mar, as montanhas mineiras tornaram os
municípios verdadeiros anfiteatros, fazendo do mineiro um tipo notadamente retraído e interio-
rano. Sabe-se, contudo, que os fatores geográficos não podem ser tomados isoladamente e, por
si, não determinam exclusivamente os fenômenos da cultura.
Destaca-se também na história de Minas Gerais uma forte influência na intenção de
formação do Brasil como nação. Estima-se que a colonização e a descoberta do ouro e dos dia-
mantes trouxeram para as terras mineiras cerca de meio milhão de pessoas, em uma das maiores
migrações registradas na história do país. As quantidades de minérios e de ouro extraídas entre
1700 e 1800 foram superiores a tudo o que havia sido produzido anteriormente no mundo,
incluindo as minas do Rei Salomão. De acordo com Júnior, 1971, pode-se dizer que o início do
processo de construção de uma nação brasileira se deu a partir da descoberta do ouro em Minas
Gerais, já que muitas pessoas, de todas as procedências e de todas as partes da colônia, vieram
para cá em busca de desenvolvimento e riqueza. Essa situação gerou muitos conflitos de ordem
social e política, reivindicações e protestos em relação à dominação portuguesa, além de lutas
pela independência e pela consolidação da pátria brasileira, dentre os quais destaca-se o famoso
levante colonial, a Inconfidência Mineira (feitas, certamente, as ressalvas quanto ao caráter elitista
da mesma). A hipótese parece pretensiosa, mas relativamente plausível. Por outro lado, a noção
de unidade da pátria brasileira também é questionável. De qualquer maneira, daremos continuidade
à explanação dos argumentos históricos que concorrem para uma idéia de mineiridade.
Dentro do contexto mencionado, a exploração do ouro na região mudou drasticamente o
panorama cultural, social e econômico da antiga província. Contingentes demográficos
numerosos e diversificados, vindos de todas as partes da colônia, foram atraídos para as Minas
Gerais dando ao país o seu primeiro surto migratório. Não eram mais os portos litorâneos ou os
poucos arraiais isolados e usados apenas como pouso que chamavam a atenção do explorador,
mas sim as riquezas do novo eldorado. Vindos de todas as regiões do país, os exploradores em
busca do ouro traziam, para as terras mineiras, a atividade produtiva das mais distintas partes
da colônia. Do Rio de Janeiro, que era o principal porto de saída do ouro, chegavam as mer-
cadorias estrangeiras e mais escravos africanos; de São Paulo, saíam novas levas de
bandeirantes em busca de minerais preciosos; do extremo Sul, os tropeiros gaúchos, fornece-
dores de carne bovina e de muares usados no transporte; do Nordeste, os fazendeiros, trazendo
da Bahia e de Pernambuco o gado e os produtos agrícolas; de mais longe ainda, os curraleiros
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do Maranhão, do Piauí e do Pará. Desta maneira, as áreas de mineração em Minas Gerais foram
ponto de confluência de pessoas provenientes de diferentes partes da colônia e da África, que,
atraídos pelas riquezas do novo eldorado, possibilitaram o desenvolvimento de uma cultura
marcada pela diversidade e pela constituição do tipo mestiço, tido por alguns, nas devidas proporções,
como “verdadeiramente” brasileiro.
Segundo Arruda, 1999, foi também inegável a contribuição dos imigrantes portugueses,
cujo legado trouxeram do Portugal agrário, de aldeias pequenas e pobres, sem qualquer medi-
ação com a vida urbana. Trouxeram consigo valores tradicionais de festas em louvor a santos,
do culto à vida doméstica e do apego ao patriarcalismo, implantando-os em terras mineiras. O
conceito da tradicional família mineira estaria ligada a esses aspectos patriarcais e na defesa das
mulheres de aventureiros que se atiravam no solo das Minas. O autor postula, assim, que graças
ao ouro das terras mineiras ocorreu o milagre da integração brasileira num evidente contraste
com o que se passava no lado hispânico do continente, pulverizado em dezenas de nações.
Outro fator preponderante na formação cultural do Estado mineiro foi a presença da
Igreja Católica. De acordo com Dias, 1971, em Minas Gerais o catolicismo assumiu a forma
contra-reformista que, apoiada na pompa e na ostentação, pregava a elevação do espírito a
Deus. Diversas manifestações culturais existentes atualmente nas terras mineiras surgiram no
embate entre a religião e o poder do ouro. As maiores heranças desta época são as riquíssimas
igrejas e esculturas talhadas em ouro e pedras preciosas, dedicadas ao encontro do espírito com
o divino, e as festas existentes no Estado que homenageiam santos padroeiros. Impregnado de
elementos riquíssimos, o ritualismo marcava todas as manifestações comunitárias. Pode-se
verificar, por exemplo, por meio do pagamento de promessas, cantigas, danças, músicas,
orações, levantamento de mastro para homenagear os santos padroeiros e os belos cortejos com
as suas características próprias. Temos em vista, enfim, que a história consiste também em
releituras do passado e apenas a elas temos acesso.
No trabalho de pesquisa e na elaboração do espetáculo Gerais de Minas, o grupo visa agregar
elementos que contribuem para a noção do povo mineiro, relacionando os diversos aspectos
sociais, políticos, geográficos e econômicos (cujas determinações têm seus limites) com as
manifestações culturais existentes atualmente no Estado. Apesar das representações cristalizadas
sobre o folclore como algo distante, passado ou gasto, buscamos neste trabalho abordar as
tradições do Estado, com o intuito de retratar sua dinamicidade, atualidade e relevância no con-
texto sociocultural, como algo que se presentifica e dá sentido às manifestações populares.
O trabalho dos Sarandeiros apresenta como objetivos principais:
construir um espetáculo que possa se inspirar, recriar e expressar, por meio da dança e
da música folclórica, aspectos da cultura mineira;
buscar formas de compreensão de uma possível identidade cultural mineira que possam
auxiliar na utilização do folclore e da cultura popular do Estado de Minas Gerais como
instrumentos pedagógicos;
verificar, em pesquisas de campo, novos elementos existentes em festas, danças e músicas do
Estado de Minas Gerais, buscando divulgar este trabalho de forma artística e bibliográfica;
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
149
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instrumentalizar professores, por meio de conteúdos do folclore mineiro (dentre danças,
cantigas, brincadeiras, lendas, etc.) como forma de auxiliar no processo de transmissão
desses saberes na escola;
atuar como Grupo de Projeção Folclórica representativo do Estado de Minas Gerais, que
valoriza as tradições de seu Estado, com intuito de divulgar as manifestações populares
existentes no Estado;
abrir discussões na comunidade escolar sobre a suposta identidade mineira, por meio da
apresentação do espetáculo Gerais de Minas, elaboração de uma cartilha pedagógica
sobre este assunto e palestras sobre as festas pesquisadas.
Metodologia
A partir de Gil, 1988, o trabalho metodológico da pesquisa incluirá:
pesquisas bibliográficas sobre o contexto histórico e cultural do Estado de Minas Gerais
e a análise de obras e artigos que investigam a cultura mineira;
pesquisas participantes junto a algumas festas do Estado, em especial: Festa de Nossa
Senhora do Rosário, no Serro, Festa do Rosário de Dores do Indaiá, Festival de Folclore
de Jequitibá e Festa dos Reis em Alto Belo (Bocaiúva), em entrevistas com pesquisadores
ligados à área em reuniões da Comissão Mineira de Folclore;
pesquisa documental mediante a utilização de filmes, documentários e apresentações
folclóricas de danças, músicas e folguedos de vários grupos e pessoas ligadas à pesquisa
das manifestações do Estado, em especial: Grupo de Catira Pedro Pedrinho de Martinho
Campos, Grupos de Congado de Belo Horizonte, Grupos de Catopês de Milho Verde,
Festa do Divino de Diamantina, Grupo de Marujos de Rio Branco, Cavalhada de Morro
Vermelho e de Mateus Leme, Grupos de Caiapós de Poços de Caldas e Oliveira, Grupo
de Congo dos Arturos de Contagem entre outros;
a coleta de dados do trabalho incluirá análise de entrevistas semi-estruturadas com
capitães de guardas, mestres de folias e responsáveis pelas manifestações pesquisadas, e
a análise das fitas, documentários, músicas e danças coletadas nas festas observadas.
Resultados e discussão
Além da sugestividade própria da presença de cidades históricas no Estado, Minas
Gerais ostenta a fisionomia de um estado dançante e musical. As serestas, modinhas de viola,
festas de reis, do Rosário, do divino e os “causos” em volta da fogueira evocam uma idéia de
um espírito festeiro do povo mineiro. Trata-se de um elemento de tradição e da cultura peculiar
que ali se moldou ao longo dos séculos XVIII e XIX. A religião, por exemplo, constitui para o
mineiro um componente essencial na consolidação de uma cultura característica e identitária do
Estado.
A pesquisa, in loco, das manifestações do Estado e o estudo bibliográfico destas
expressões folclóricas possibilitam observar dois aspectos intrínsecos da cultura mineira
relacionados a expressões teológicas distintas. O primeiro, de caráter marcadamente religioso
150
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católico, se refere as manifestações do Congado, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário.
Segundo o Atlas de festas populares de Minas Gerais, existem no Estado 326 Festas do Rosário,
presentes em diversas regiões do Estado. No período da mineração, estas festas eram conhecidas
como festas de escravos e remontam à história de Chico Rei, personagem mítico e considerado
primeiro rei dos negros escravos em Minas Gerais. Segundo Martins, 1991, Chico Rei teria sido
o Rei Ganga Zumba Galanga, Rei do pequeno reino africano Congo dos Quicuios, trazido como
escravo para Vila Rica juntamente com grande parte de sua corte, no princípio do século XVIII,
e que, de acordo com estórias locais, teria se tornado muito rico com a exploração de uma mina
abandonada e libertado vários escravos, criando a primeira irmandade dos negros livres de Vila
Rica. Desta forma, a origem da festa no Brasil em homenagem a Nossa Senhora do Rosário
estaria ligada à figura deste personagem, pois teria sido considerado um milagre da santa a sua
liberdade. Para pagar promessa para Nossa Senhora, Chico Rei teria organizado a primeira festa
dos negros no Estado, ocorrida na Igreja de Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário de Alto
Cruz, na antiga Vila Rica, em 1747. As festividades do Congado, nome genérico dado aos diversos
grupos vinculadas ao culto do santo de devoção, aparecem então sob forma de reprodução
simbólica da história tribal, com a coroação dos reis do Congo, a representação das lutas entre
as monarquias negras contra o colono escravizador, as trocas de embaixadas, etc. De Vila Rica,
a tradição festiva africana se disseminou por todo o território das Minas Gerais.
De acordo com Côrtes, 2000, as festas realizadas em agosto, setembro e outubro são
promovidas pelas Irmandades e compõem-se de duas partes: a litúrgica, de conteúdo católico,
incluindo missas e outros ofícios religiosos; e a folclórica, constituída pela subida do mastro,
espetáculos pirotécnicos, números musicais e a presença dos reinados e suas guardas. Essas
guardas, por vezes chamadas de batalhões, são unidades religiosas ou grupos autônomos,
com denominação particular e estandarte próprio, cujos aspectos rítmicos, indumentárias,
movimentos e cantos são distinguidos entre oito grupos: o Candombe, o Moçambique, o Congo,
os Marujos, os Catopés, os Cavaleiros de São Jorge, o Vilão, e os Caboclos, também conhecidos
como tapuios, botocudos, caiapós, tupiniquins, penachos. A maioria dos estudiosos dá ao papel
da Irmandade e da Festa de Nossa Senhora do Rosário um importante elemento na integração
do negro junto à sociedade brasileira. Agrupado em torno de uma devoção, o povo escravo
procurou manter sua dignidade e aspirava sua valorização como ser humano dotado de conheci-
mentos, que merecia ser tratado com dignidade.
Um segundo aspecto referente à cultura de Minas seria a designação de Caipira, adjetivo
normalmente associado ao povo mineiro. Segundo Cascudo, 1988, caipira é o nome que
designa o habitante do campo, equivalente a aldeão e camponês em Portugal. Símbolo das
principais manifestações relacionadas às caipiradas, ou reuniões de caipiras em festas votivas,
as Folias de Reis, segundo o Atlas da Secretaria de Geociências de Minas Gerais, estão pre-
sentes em 336 cidades do Estado, e constituem uma tradição portuguesa que perdura até os
dias de hoje. Já foram registrados mais de 220 grupos na confederação das Folias de Reis do
Estado, presentes nas festas natalinas existentes no Estado. Nestas festas são comuns danças
como o Calango, o Lundu, o Carneiro, o Batuque, o Pastoril, as Pastorinhas entre outras, que
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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buscam homenagear o nascimento de Cristo. Por vezes, estas danças também são apresentadas
em festas de padroeiros ou de forma notadamente profana, em agradecimento à natureza por
boas colheitas.
As pesquisas realizadas e as produções artísticas do Grupo Sarandeiros oportunizam aos
seus integrantes diversas atuações, como músicos, bailarinos, figurinos e pesquisas para a reali-
zação dos espetáculos da companhia. Tal fato contribui de forma acadêmica e profissional, para
uma maior aquisição de conhecimentos de forma prática pelos integrantes do projeto. Neste
sentido, a elaboração de um espetáculo inspirado nas manifestações populares do povo
mineiro promove a possibilidade de reflexão acerca de tais conteúdos entre bolsistas e demais
integrantes do projeto.
Conclusões
Reconhecer diferenças e construir resultados, tema do II Congresso Brasileiro de
Extensão, expressa, de maneira clara, a intenção da Escola de Dança e Ritmos Sarandeiros, que
se trata de um grande projeto de extensão na UFMG, que busca o estudo e a compreensão das
manifestações culturais populares do Brasil, especialmente relacionadas à dança e a música.
Além de representar o Brasil, Minas Gerais e a UFMG em eventos nacionais e mundiais, o
trabalho da Escola de dança e ritmo, por meio das apresentações e shows elaborados pelo Grupo
Sarandeiros, tem produzido articulações notáveis entre o trabalho dos bolsistas e as atividades
de ensino e pesquisa realizados pelo projeto, com a realização de simpósios, cursos, oficinas,
palestras e artigos inspirados no trabalho do grupo. Nos últimos 5 anos, o Sarandeiros vem
trabalhando, de forma sistematizada, com a elaboração de cartilhas e espetáculos inspirados na
cultura do Brasil. Este ano, o grupo decidiu trabalhar de forma regionalizada na elaboração e na
pesquisa das tradições do Estado mineiro, com o intuito de realizar uma releitura e divulgar
aspectos de Minas e das manifestações populares do Estado para serem apresentadas em
diversos eventos culturais do país e do exterior.
Em agosto próximo, o grupo enviará as cartilhas deste estudo para mais de 500 escolas
do Estado de Minas Gerais, com o apoio do Sinepe e do Sesc/MG, buscando auxiliar profes-
sores e alunos nas atividades pedagógicas relacionadas ao mês do Folclore. Além disso, estreará
o espetáculo “Gerais de Minas” nos dias 24 e 25 de agosto, para mais de 6000 alunos e professores,
no teatro Minascentro. Em setembro, de 01 a 20, o Grupo Sarandeiros levará este espetáculo
para ser apresentado no Fórum Mundial de Cultura em Barcelona, Espanha, divulgando aspectos
intrínsecos da cultura mineira no maior e mais importante fórum mundial de discussão e
reconhecimento das diferenças culturais entre os povos, em um grande evento com a partici-
pação de mais de 100 países em atividades culturais diversas.
152
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. Lisboa: Figueirinhas, 1960.
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MINAS GERAIS. Secretaria de Cultura. Disponível em: <http://www.descubraminas.
com.br.>.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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•Percepção e cultura na periferia de Salvador: o bairro em imagens, uma
experiência de ensino, extensão e pesquisa
Marcelo Sousa Brito, Estudante do curso de Bacharelado em Direção Teatral. Monitor
da disciplina GEO 458. Bolsista de extensão
Angelo Serpa, Professor Adjunto Doutor do Departamento de Mestrado de Geografia da
UFBA. Pesquisador com bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq. Professor coor-
denador da disciplina GEO 458
Universidade Federal da Bahia – UFBA
Resumo
Com esta atividade de extensão universitária, pretendeu-se trabalhar a percepção da
identidade de bairros periféricos em Salvador, com base na realização de entrevistas filmadas
com moradores das áreas pesquisadas. Pretendeu-se, sobretudo, avaliar como os bairros são vividos
e sentidos pelos moradores, identificando-se os referenciais arquitetônicos e urbanísticos e as
manifestações culturais mais relevantes. Trabalha-se a percepção da identidade dos bairros estu-
dados, a partir da noção de intersubjetividade e de transubjetividade das imagens e represen-
tações, entendendo o “bairro” como um espaço social, reflexo e condição do/para o surgimento
de um sistema de relações. Segue-se a ordem/sucessão “meu” (representação individual), “nosso
(representação coletiva, específica para cada grupo — formal ou informal) e “o” bairro (repre-
sentação coletiva de nível superior). Nas entrevistas com os moradores é dada especial atenção
às festas e comemorações e aos possíveis processos de auto-gestão do espaço urbano deflagrados nas
comunidades estudadas. Até aqui já são dois vídeos concluídos e editados, nos bairros de
Plataforma e da Ribeira e um em fase de filmagens no bairro do Curuzu. O andamento das
atividades mostra a possibilidade de se trabalhar relações de interdisciplinaridade entre as
diferentes instâncias e agentes, no processo de construção de uma metodologia pedagógica que
concilie o ensino, a pesquisa e a extensão
.
Palavras-chave: bairro, espaços vividos, vídeo-documentário
Introdução e objetivos
Com esta atividade de extensão universitária, pretendeu-se trabalhar a percepção da
identidade de bairros periféricos em Salvador, com base na realização de entrevistas filmadas
com moradores das áreas pesquisadas. As representações individuais dos moradores entrevista-
dos constituíram a base para a “construção” de uma representação coletiva para cada bairro, a
partir da identificação das redes de relações interpessoais, agrupando-se as representações
em níveis diferenciados até se chegar a uma representação “síntese” dos bairros.
Pretendeu-se, sobretudo, avaliar como os bairros são vividos e sentidos pelos moradores;
identificar os referenciais arquitetônicos e urbanísticos consolidados na percepção dos
154
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habitantes; identificar as manifestações artísticas e culturais mais relevantes; resgatar a história
oral dos bairros; identificar processos de autogestão do espaço urbano, deflagrados por inicia-
tiva dos moradores.
Buscou-se um diálogo interdisciplinar entre a universidade e as representações populares
de bairros da periferia de Salvador, já que trabalhos assim podem subsidiar um planejamento
urbano baseado nos mecanismos de autogestão e participação, entendendo os bairros como
espaços de vivência e áreas prioritárias de intervenção.
Aorganização de um banco de imagens audiovisuais com a edição de uma série de
vídeos didáticos insere-se nas atividades do Projeto Espaço Livre de Pesquisa-Ação, que vem
atuando nos bairros desde 1997 em parceria com a Ampla – Associação de Moradores de
Plataforma, a Amai – Associação de Moradores e Amigos de Itapagipe, e a Amac – Associação
de Moradores e Amigos do Curuzu. A idéia é retornar às comunidades os resultados das
pesquisas, com a organização de debates em escolas públicas e nas associações de moradores,
a partir da exibição do material audiovisual editado.
O projeto Espaço Livre de Pesquisa-Ação articula diferentes variáveis — transporte
público, comércio e serviços, espaço livre público e identidade cultural — na escala do bairro,
priorizando o estudo de bairros carentes e periféricos em Salvador. As variáveis são trabalhadas
de modo específico nos diferentes subprojetos e estão sendo levantadas em campo com auxílio
de entrevistas e aplicação de questionários. Levantamentos cartográficos, fotográficos, bem
como o levantamento de informações estatísticas e de dados históricos junto aos órgãos públicos,
arquivos e bibliotecas são também parte integrante da metodologia aplicada para obtenção
de dados secundários.
Subdividido em diferentes sub-projetos, o grupo de pesquisa já dispõe de um acervo de
dados considerável, a ser disponibilizado em breve para consulta, por meio de um CD-ROM,
com um sistema de informações geo-referenciadas para os bairros pesquisados, de uma coleção
de vídeos-documentário e de uma web-page interativa.
Como fator positivo principal destaca-se a repercussão do trabalho de pesquisa nas
comunidades estudadas, em especial nos bairros de Plataforma e Pirajá, onde os levantamentos
subsidiaram intervenções-piloto em parceria com os moradores. Exemplos disso são as duas
praças projetadas e implantadas em Plataforma e Pirajá, o plantio de 200 mudas de árvores
frutíferas nos quintais de Pirajá, com a colaboração de estudantes da Escola Estadual Alberto
Santos Dumont, e a montagem de espetáculos teatrais que resgatam a história e a identidade de
Plataforma com jovens do bairro (com o apoio da DKA-Austria).
Novas pesquisas estão sendo desenvolvidas nos bairros de Plataforma, Ribeira, Curuzu
e São Tomé de Paripe, com o objetivo de instrumentalizar conceitos e procedimentos da
fenomenologia e da geografia humanística e da percepção, visando à qualificação dos levan-
tamentos realizados nos primeiros anos de pesquisa nas áreas-estudo e sua possível aplicação
no processo de planejamento.
São as seguintes as metas dos trabalhos desenvolvidos pela equipe do Projeto Espaço
Livre de Pesquisa-Ação:
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
155
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desenvolvimento de novas metodologias de planejamento e gestão participativos a
partir da aplicação de métodos e conceitos da geografia humanística e da percepção em
bairros da periferia de Salvador;
• digitalização dos mapas cognitivos individuais dos entrevistados para cada bairro;
cruzamento das informações e elaboração das cartas cognitivas coletivas para cada bair-
ro pesquisado, seguindo a ordem/sucessão descrita nos procedimentos metodológicos;
• elaboração/digitalização das cartas de percursos para cada bairro pesquisado;
elaboração de cartas temáticas para cada bairro, a partir das cartas cognitivas, das cartas
de percursos e das cartas de comércio e serviços, transportes e espaços públicos originadas
de pesquisas anteriores;
construção de um banco de dados digital para disponibilização via CD-ROM e web-page
do Projeto Espaço Livre;
• realização das filmagens relativas aos diferentes bairros;
• edição dos vídeos;
• organização de mostras e de debates do material audiovisual nas associações de
moradores e escolas;
• organização de uma mostra final do conjunto de vídeos para a comunidade acadêmica.
Metodologia
Parte-se do pressuposto de que a percepção humana, as experiências pessoais e as
características culturais das periferias urbanas devem servir de ponto de partida para um plane-
jamento “humanístico” da cidade. Noções e conceitos importantes para o desenvolvimento dos
trabalhos, como “espaço vivido”, “intencionalidade” e “lugar” remetem ao campo da geografia
humanística e da percepção e da fenomenologia. Um olhar fenomenológico sobre o espaço
urbano evidencia que o bairro corresponde para o indivíduo a um espaço sentido e vivido
Assim, o “bairro” é tratado aqui como “lugar”, já que é no lugar que os impactos das
intervenções urbanas se concretizam e se fazem sentir. Daí a inegável importância da aplicação
dos conceitos/instrumentos da fenomenologia e da geografia humanística e da percepção aos
estudos de impacto das intervenções no espaço urbano.
Os procedimentos metodológicos buscam conciliar as técnicas de campo extraídas da
obra de Lynch (1990), e os conceitos e teorias desenvolvidos no âmbito da geografia humanís-
tica e da percepção, bem como da fenomenologia. Trabalha-se a percepção da identidade
dos bairros estudados, a partir da noção de intersubjetividade (HUSSERL, 2000a e b) e de
transubjetividade das imagens e representações (BACHELARD, 1998), entendendo o “bairro”
como um espaço social, reflexo e condição do/para o surgimento de um sistema de relações.
Com base na realização de entrevistas com moradores das áreas pesquisadas, busca-se explicitar
o entendimento e a imagem que se tem do bairro enquanto construção mental.
Assim, a partir das representações individuais dos moradores, uma representação coletiva
é “construída” para cada bairro pesquisado, a partir da identificação das redes de relações
interpessoais, agrupando-se as representações em níveis diferenciados até se chegar a uma
156
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representação coletiva “síntese” do bairro. Segue-se a ordem/sucessão proposta por Tuan
(1983), “meu” (representação individual), “nosso” (representação coletiva de nível intermediário,
específica para cada grupo — formal ou informal) e “o” bairro (representação coletiva de nível
superior).
Nas entrevistas com os moradores é dada também especial atenção às festas e comemo-
rações e aos possíveis processos de auto-gestão do espaço urbano deflagrados nas comunidades
estudadas. As manifestações culturais dos bairros são analisadas sob a ótica do conflito global/
local, expresso, principalmente, na cooptação/folclorização destas manifestações pelo marketing
turístico. Concluídas as análises das entrevistas e a confecção das cartas temáticas para os
bairros estudados, desenvolve-se uma pesquisa de campo complementar, com um universo
amostral restrito, constituído de “informantes-chave”, selecionados como “porta-vozes” dos
diferentes grupos e organizações identificados nos bairros. Os informantes-chave são convidados
a reproduzir, in loco, alguns dos percursos (modo a pé) indicados por eles na primeira
entrevista. As entrevistas são registradas em vídeo, embasando a produção/edição de vídeos-
documentário educativos.
Resultados e discussão
Oferecida pelo Departamento de Geografia desde o primeiro semestre de 2003 como
disciplina optativa do Programa UFBA em Campo – Atividade Curricular em Comunidade, “O
Bairro em Imagens” (GEO 458) contou, desde o início dos trabalhos, com a participação de
estudantes de diferentes cursos da universidade: Geografia, Arquitetura, Psicologia, Ciências
Sociais, Letras, Comunicação, Produção Cultural, Museologia e Geologia. Até aqui já são dois
vídeos concluídos e editados, nos bairros de Plataforma (no Subúrbio Ferroviário de Salvador)
e da Ribeira (na Península de Itapagipe), e um em fase de filmagens no bairro do Curuzu (no
miolo de Salvador).
Os estudantes são avaliados processualmente a partir da sua capacidade de estabelecer
um diálogo com as diferentes representações populares dos bairros, da elaboração de relatórios
parciais mensais e de um relatório final. A repercussão junto às comunidades é avaliada a
partir da exibição do material filmado e editado nas sedes das associações de moradores. O
vídeo número um da série, concluído ao final do primeiro semestre de 2003, “Plataforma: um
alicerce para a vida”, foi exibido na sede da Ampla, para um público de mais de cem pessoas,
entre moradores, estudantes e professores e diretores das escolas públicas do bairro. Todas as
escolas públicas receberam uma cópia do vídeo editado. Na ocasião, foram entregues também
cópias do vídeo editado para os representantes da Pró-Reitoria de Extensão – Proex da UFBA.
O vídeo conta a história do bairro de Plataforma, a partir dos depoimentos de seus moradores.
O segundo vídeo da série, “Ribeira: Uma Comunidade em Rede”, editado ao final do
segundo semestre de 2003, será em breve exibido no bairro, para os moradores, professores e
diretores das escolas públicas. Depois da conclusão do terceiro vídeo da série, no bairro do
Curuzu, em fase de realização das filmagens, pretende-se dedicar o segundo semestre de 2004
ao trabalho junto aos professores de Geografia e História das escolas públicas dos bairros
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pesquisados, embasando-os para utilização dos vídeos em sala de aula. Pretende-se que os
vídeos realizados sirvam de subsídio didático para as aulas de Geografia e História das escolas
públicas existentes nos bairros pesquisados.
Relato do primeiro grupo de estudantes (Ana Caroline Menezes – Psicologia,
Leonardo Brasileiro – Arquitetura, Luís Almeida – Geografia, Moacir Borges – Geografia,
Valfrido Moraes Neto – Ciências Sociais, Vanina Miranda da Cruz – Psicologia, monitorados
por Marcelo Sousa Brito – Direção Teatral):
Ao nos matricularmos na ACC Bairro em Imagens, esperávamos nos relacionar com a concepção
e produção de vídeos que teriam como tema a identidade dos bairros de Plataforma e Ribeira,
além de interagir com essas comunidades.
Infelizmente, devido à greve dos professores e aos reduzidos recursos, abandonamos a idéia de
trabalhar nos dois bairros no mesmo semestre, partindo somente para Plataforma. Também não
foi possível mostrar o material semi-editado para as pessoas entrevistadas como era previsto.
Embora esse material bruto tenha sido mostrado, em outubro, no Salão Interativo da Semana de
Mobilização Científica da Universidade Católica de Salvador e discutido com os alunos e professores
presentes e mostrado também no Convescote, o encontro das ACCs que aconteceu recentemente.
Antes da ida ao bairro, recebemos a visita de Márcia Freitas Cordeiro e Suely dos Santos Coelho
que, em 2001, haviam feito duas pesquisas: A Percepção do Bairro Através dos Diferentes Meios
de Transporte e Bairro e Identidade Cultural na Periferia de Salvador. Essas pesquisas fazem
parte do Projeto Espaço Livre que, com a orientação do professor Angelo Serpa, desde 1997, vem
realizando trabalhos em parceria com comunidades de baixa renda. Com base nesses trabalhos,
selecionamos os entrevistados e fizemos o roteiro da entrevista que seria realizada com eles.
A amostragem foi baseada num critério espacial. Havia a preocupação de incluir pessoas residentes
em diferentes subáreas, para que houvesse uma representatividade de toda sua extensão física, além
da diversidade de perfis, de idade e de gênero. Quanto ao roteiro, pretendia-se que as pessoas
avaliassem seu dia-a-dia no bairro, sua cultura, sua história...
Na primeira visita à Plataforma, fomos à Ampla – Associação de Moradores de Plataforma –
conhecemos alguns de seus membros, percorremos o bairro e vimos “O Buraco do Lixo”, um
vídeo feito pela associação em parceria com o Projeto Espaço Livre, que mostra o trabalho de
um grupo de jovens atores sediado na Ampla. Também vimos uma peça do grupo, A Cantora
Careca, que foi apresentada em sua sede e posteriormente na Aliança Francesa.
Na etapa das entrevistas, primeiro marcávamos com os selecionados e num outro momento nos
revezávamos para filmar as entrevistas propriamente ditas. Para chegarmos aos entrevistados,
mesmo tendo algumas informações antecedentes não foi simples. Alguns dos entrevistados nas
158
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pesquisas anteriores não puderam ser localizados. Isso, no entanto, possibilitou a abertura para a
inserção de pessoas novas a serem entrevistadas. Nesse processo, foi fundamental a ajuda de Luis,
que além de aluno inscrito na ACC é morador e professor de geografia do bairro, possuindo uma
boa rede de relações o que facilitava, em diversos momentos, a busca das pessoas selecionadas ou a
substituição destas por outro morador.
Nas entrevistas, pedíamos que a pessoa escolhesse um lugar ou percorresse um caminho que tivesse
alguma representação afetiva pra ela. Conseguimos entrevistar nove pessoas: Gil Carlos (filho de
santo, dançarino de dança afro), Ana Cira (agente social e professora), Dom Aldeída (professora
aposentada), Sara (agente social), Carlos Alberto (pescador), Iatiara (estudante universitária),
Andrews (estudante e técnico em informática), Antônia Garcia (mestre em Geografia) e
Mondrongo (professor de capoeira). É importante salientar que o trabalho de edição ainda está
em andamento, provavelmente só no semestre que vem essa fita será mostrada à comunidade.
Relato do segundo grupo de estudantes (Ana Luiza Gama – Psicologia, André Gama
– Psicologia, Carol Menezes – Psicologia, Elisângela Sousa – Geografia, Fernanda Beatriz
Silva – Psicologia, Georgia Sales – Produção Cultural, Marilu Santana – Geografia, Tiago da
Arcela – Psicologia, Valfrido Moraes Neto – Ciências Sociais, monitorados por Marcelo Sousa
Brito – Direção Teatral):
Depois da experiência com o bairro de Plataforma, a ACC GEO-458, O Bairro em Imagens,
partiu rumo a Ribeira para descobrir como se constroem as relações entre seus moradores e de que
maneira cada um deles percebe o bairro onde mora.
Como é de costume, antes de irmos a campo, participamos de discussões coordenadas pelo profes-
sor-coordenador Angelo Serpa, nos dando com isso uma base teórica que nos possibilitou uma
melhor compreensão das características geográficas do lugar.
Houve também uma sessão do vídeo realizado em Plataforma onde os novos “accistas” puderam
reconhecer a natureza do trabalho, além de todos poderem sugerir novos rumos para a construção
do novo vídeo.
A primeira visita ao bairro se deu no dia da tradicional Segunda-Feira Gorda da Ribeira,
quando foi possível termos uma primeira impressão do bairro.
A primeira moradora entrevistada, D. Terezinha nos deu algumas informações sobre a Ribeira,
suscitando dúvidas com relação aos limites do bairro. Foi a partir destas questões que discutimos,
então, a dimensão da Ribeira dentro de Itapagipe. Como estas informações variavam de morador
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
159
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para morador, resolvemos que o mais importante seria justamente deixar visível o bairro que
existe em cada um dos moradores. Em seguida, mais confiantes com relação a isto, demos
continuidade às entrevistas com os outros moradores.
Com a leitura do relatórios das pesquisas anteriores e a identificação dos moradores, fomos localizá-
los para uma primeira conversa onde definiríamos junto com eles como seria o desenrolar da
entrevista: onde, como, quando... Em seguida partimos para as entrevistas propriamente ditas.
Nessas, nos preocupamos com a percepção do morador com relação ao seu bairro, abordando
assuntos como: limites, atividades culturais, serviços e comércio, cotidiano, relação entre os vizinhos...
Além de filmarmos a entrevista propriamente dita, também nos ocupamos de conseguir imagens
dos lugares do bairro mencionados pelos entrevistados. Acreditamos que isso é importante na cons-
trução do vídeo, pois torna o produto final mais atraente para os que o assistem. Além disso, as
imagens revelam os espaços do bairro que são importantes para o entrevistado, que fazem parte
da sua história, que o identificam, que lhe dizem respeito.
Com as entrevistas realizadas, iniciamos o processo de análise e seleção das imagens. E, por fim,
faremos a produção do vídeo.
Uma das dificuldades encontradas pela turma foi em relação aos nomes das ruas, pois muitas
delas estavam com os nomes alterados. Outra dificuldade foi que alguns moradores entrevistados
anteriormente haviam mudado do bairro. Esta barreira acabou nos impulsionando a outras dis-
cussões e a descobrir novos moradores que se encaixavam dentro das características dos outros
entrevistados, o que nos fez conhecer melhor o bairro, pois tivemos mais tempo para circular em
outras áreas e conhecer outras pessoas que nos ajudaram a identificar os novos entrevistados.
Conclusões
O andamento das atividades da disciplina “O Bairro em Imagens” mostra a possibilidade
de trabalhar relações de interdisciplinaridade entre as diferentes instâncias e agentes, no processo
de construção de uma metodologia pedagógica que concilie o ensino, a pesquisa e a extensão.
Ao mesmo tempo, o resgate da história oral dos bairros populares de Salvador, das diferentes
visões de mundo e de “espaços vividos” mostra que há muitos bairros, muitas Plataformas e
Ribeiras, muitos Curuzus...
Descobre-se que os bairros são culturas transversais, que abarcam muitas e múltiplas
subculturas, “jovem”, “negra”, “capoeirista”, “afro-brasileira” ou “bairrista”; o outro lado da
moeda traz para dentro dos bairros o mundo e suas subculturas: “turística”, “patrimonialista” ou
“conservacionista”. Descobre-se também a possibilidade de um conhecimento transversal,
derivado e, sobretudo, “processual”; algo que nasce do diálogo entre o conhecimento popular e
o acadêmico, buscando algo às vezes concreto, às vezes abstrato, a “identidade” dos bairros, sua
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cultura e história. Algo às vezes múltiplo, apontando muitos caminhos e possibilidades de troca
(s). Algo em construção...
Construir a geografia do mundo a partir da geografia dos bairros?
Viver o mundo no bairro, pensando o bairro no mundo.
Princípio de partida: deixar a lente da câmera captar múltiplas representações e
significados, sem filtrá-los nem roubar-lhes a luz. Captar acontecimentos, construindo proces-
sos identitários.
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(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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•Teatro e rádio comunitária como instrumentos de mobilização social
Miracy Barbosa de Sousa Gustin, Professora Doutora da Faculdade de Direito
Fernando Limoeiro, Professor e Dramaturgo - Teatro Universitário
Elaine Cristina de Abreu Coelho, Graduanda em Direito. Bolsista da Vertente teatral Trupe “A
Torto e a Direito”/Programa Pólos de Cidadania
Frederico Menezes Breyner, Graduando em Direito. Bolsista do Núcleo de Mediação do Conjunto
Felicidade/Programa Pólos de Cidadania
Rodrigo Barbosa Pithon, Graduando em Direito. Bolsista da Vertente teatral Trupe “A Torto e a
Direito”/Programa Pólos de Cidadania
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Faculdade de Direito – Programa
Pólos de Cidadania
Resumo
O Programa Pólos de Cidadania da Faculdade de Direito, em parceria com o Teatro
Universitário e a Pró-Reitoria de Extensão, pertencentes à UFMG, e o Conselho Popular de
Direitos Humanos e Moradores do Felicidade (COPODHEMFE), no intuito de fomentar o
debate reflexivo nas comunidades parceiras acerca de suas demandas, implementou os seguintes
projetos: a Trupe “A Torto e a Direito” e o programa “Boa pergunta” na Rádio Felicidade
96,1FM. Enquanto a primeira constrói uma esquete com dramaturgia específica de teatro de
rua a ser apresentada nas comunidades, o programa “Boa Pergunta” apresenta entrevistas com
especialistas nos temas provenientes das demandas nelas detectadas.
Durante e após a exibição do espetáculo, observa-se que a população, sensibilizada com
o tema abordado, torna-se mais susceptível à elaboração psicossocial de seus conflitos cotidianos.
Já o programa “Boa Pergunta” possui caráter esclarecedor, uma vez que discute aqueles temas
sob a óptica de um especialista.
Dessa forma, tendo como escopo basilar os temas-problemas das referidas comunidades,
detectados por meio da metodologia de pesquisa-ação do Programa Pólos, a Trupe “A Torto e a
Direito” e o programa “Boa Pergunta” propõem intervenções socioculturais que promovem
diálogo dentro da comunidade e dessa com o Pólos de Cidadania
.
Palavras-chave: mobilização, cultura, debate reflexivo
Introdução e objetivos
Vertente Teatral – Trupe “A Torto e a Direito”
O Programa Pólos de Cidadania, projeto interdisciplinar e interinstitucional de
pesquisa e extensão da Faculdade de Direito da UFMG, desenvolve, desde 1998, em parceria
com o Teatro Universitário e a Pró-Reitoria de Extensão sua vertente teatral: a Trupe A Torto
e a Direito.
162
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ATrupe estréia, com sua primeira formação, em 1998, com o espetáculo “Frango com
quiabo e angu de caroço”, cujo tema era a violência nos morros e a batalha de uma mãe de
família em busca de justiça. Atuou também junto à Associação dos Catadores de Papel –
Asmare na confecção da esquete “Acatação da liberdade” — espetáculo comemorativo dos dez
anos da instituição. Com a peça “Ele é ruim, mas é bom”, a Trupe percorreu Belo Horizonte e
cidades vizinhas. Este espetáculo de rua enfocou o cotidiano de uma família brasileira que,
assombrada pela violência doméstica, vê suas relações corroídas pelo desrespeito e incom-
preensão. A peça, para além de um relato criativo e irônico acerca da violência doméstica, é
também uma tentativa crítica de denunciar a responsabilidade que os diversos segmentos e
instituições de nossa sociedade possuem tanto na compreensão das situações que envolvem a
violência, como na busca conjunta e solidária por soluções. A peça trouxe também como tema
central as mazelas da vida dos moradores de rua, bem como sua luta por sobrevivência e dig-
nidade em meio à selvageria e individualismo das grandes cidades. A montagem da Trupe do
espetáculo “Em terra de urubu, quem cuida do lixo é rei” estreou em Brasília, no 1º Encontro
Nacional dos Catadores de Material Reciclável, em junho de 2001. Percorreu o Brasil,
apresentando-se principalmente junto a associações e cooperativas de catadores de material
reciclável em formação. A temática da peça era a organização popular: catadores de material
reciclável explorados pela figura do Atravessador de material organizam-se, num processo de
reconhecimento de sua condição de sujeito de direitos que culmina com a formação de uma
Cooperativa de catadores.
O objetivo é fomentar e criar mobilização social e cultural por meio do jogo dramático
e lúdico. Dessa forma, a comunidade pode ver a própria realidade refletida no espetáculo, por
ângulos multiformes e extracotidianos, o que possibilita uma visão multiangular dos problemas
que, no dia a dia, podem passar desapercebidas. A linguagem do teatro, então, oferece uma
abertura para novos olhares sobre a realidade vivenciada no cotidiano dos sujeitos que
compartilham uma cultura, ao mesmo tempo em que são produtores da mesma. Assim, cenas
do cotidiano se desenrolam sobre um palco e cenários estranhos e, ao mesmo tempo, familiares
aos sujeitos espectadores. Há uma visão distanciada e crítica, ao mesmo tempo em que a cena
pode lhes ser bem familiar. Contudo, as possibilidades que o teatro abre são muitas. No presente
projeto apostamos, sobretudo, na aprendizagem social que envolve fatores emocionais e
intelectuais de forma integrada. É uma abertura, uma sensibilização para temas que as políticas
propagandistas ou as retóricas moralistas e distantes dos conflitos humanos não conseguem
atingir. Aposta-se nas problematizações e soluções humanas.
Rádio Comunitária – Programa “Boa Pergunta”
O Programa Pólos de Cidadania tem como objetivo promover os direitos fundamentais,
assim como a inclusão social e a emancipação da comunidade, além de atuar para garantir a
todos a possibilidade de exercício da cidadania.
Para isso, trabalha em duas frentes, o Núcleo de Mediação e Cidadania, onde são
atendidos membros da comunidade e suas demandas individuais, com o objetivo de solucionar
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conflitos por meio da mediação na qual as próprias partes chegam a uma solução consensual,
evitando-se a provocação do poder Judiciário, já que o mesmo apresenta um custo alto (princi-
palmente para as comunidades carentes) e grande morosidade; e o Grupo de Expansão, que atua
junto à comunidade organizada, sempre em contato direto com as manifestações e fóruns de
deliberação da comunidade (assembléias de associação de bairro, reunião de colegiado das
escolas, reuniões de grupos produtivos, etc.), procurando detectar e coletivizar as demandas,
mobilizando toda a comunidade em torno delas. Porém, as duas frentes não são estáticas,
podendo a equipe de atendimento verificar um potencial coletivo em uma demanda individual,
assim como, por meio de uma demanda coletiva, pode o grupo de expansão detectar demandas
individuais e encaminhá-las ao Núcleo de Atendimento.
Para este artigo destacaremos a atuação do Programa Pólos no Conjunto Jardim
Felicidade, situado na Região Norte de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, onde as
equipes de atendimento e expansão do Núcleo de Mediação e Cidadania, ali estabelecido,
realizam o Programa de Rádio “Boa Pergunta” transmitido ao vivo pela Rádio Felicidade
96,1FM, aos sábados das 12 às 13 horas.
Possibilitar o exercício da cidadania e promover a emancipação da comunidade, para
que ela própria consiga se organizar e agir para efetivar seus direitos requer um trabalho de
conscientização coletiva, com fincas de criar um “senso de comunidade”, fazendo do direito
de um, o direito de todos; e, uma vez verificada a violação de qualquer direito, coletivo ou
individual, seja desencadeada uma mobilização eficaz gerando uma ação coesa e consciente da
comunidade, para garantir a restauração ou implementação de tal direito.
Sendo assim, agir no sentido de viabilizar o exercício da cidadania significa defender o
próprio Estado Democrático de Direito e suas instituições, já que uma conseqüência desse
paradigma estatal é a crescente organização da sociedade civil (sociedade civil organizada), o
que é incentivado pelo Programa Pólos de Cidadania, constituindo-se em um meio eficaz de
participação da comunidade nas decisões do ente estatal.
Com relação à conscientização, vale ressaltar aqui que essa não significa simplesmente
mostrar à comunidade quais são seus direitos. Isso seria duvidar da capacidade da própria
comunidade em perceber suas carências e os motivos de seus sofrimentos, angústias e conflitos.
A comunidade tem consciência de quais de seus direitos são violados, seja por ação ou
omissão, principalmente quando se trata de direitos fundamentais garantidores de uma
existência digna e realizadores do princípio da dignidade da pessoa humana. Sendo assim, a
conscientização deve ser tomada no sentido de informar à comunidade quais são os canais e
as formas mais eficientes para reivindicar seus direitos.
As equipes de atendimento e de expansão procuram trabalhar no sentido de realizar tal
conscientização, sendo o melhor exemplo desta atuação a função que tem o grupo de expansão
em atuar como ponte entre a comunidade e o poder público, fazendo com que essa possa exigir
do mesmo o atendimento de suas demandas, o que já compete originariamente ao poder público.
O Programa de Rádio “Boa Pergunta” busca realizar esses objetivos (conscientiza-
ção, mobilização e senso de comunidade), pois trata, em entrevista com especialistas, de
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assuntos oriundos da própria comunidade, detectados de acordo com a metodologia do
Programa Pólos.
O Programa de Rádio cumpre eficazmente tais objetivos, uma vez que, por meio da
exposição do tema e do debate com o entrevistado especialista, conscientiza e mobiliza a comu-
nidade em torno de suas demandas, atingindo-a em grande parte.
Ao mesmo tempo em que a informa sobre ações que serão implementadas por algum
grupo da comunidade e/ou sobre eventos a serem realizados, o programa convida toda comu-
nidade a participar dessas ações, mostrando que construir cidadania cabe a todos.
O desenvolvimento do senso de comunidade é um desdobramento desses dois objetivos,
pois, ao se divulgar as ações e os eventos realizados na comunidade, e, em seguida, chamar seus
moradores para uma efetiva participação, esses se sentirão pertencentes àquela comunidade,
vendo, nesses problemas, objetos de tais ações, seus próprios problemas, o que resulta em sua
participação, que é um significativo impulso no sentido de satisfazer suas demandas.
Metodologia
A metodologia utilizada para a pesquisa da demanda do tema-problema a ser abordado,
assim como para o trabalho com a comunidade após a apresentação da peça — que se dá por
meio da discussão incitada pela mesma — é a pesquisa-ação postulada por Michel Thiollent.
Assim como ela é utilizada por todos os outros programas vinculados ao Pólos, esta
metodologia é reestruturada e adequada às necessidades prático-teóricas das ações implementadas
pela Trupe e pelo programa “Boa Pergunta” da Rádio comunitária Felicidade. Tem característica
inovadora pelo inter-relacionamento permanente entre atividades de atuação concreta e de
pesquisa. A metodologia qualitativa de Thiollent visa a formas de, em parceria com comu-
nidades em situação de exclusão social, buscar a promoção e garantias de Direitos Fundamentais
e de Cidadania. Atribui-se à pesquisa-ação, uma valorização à permanente interação e busca de
compreensão entre pesquisadores e membros das situações investigadas. Trata-se de uma linha
de pesquisa que prioriza o contato com problemas coletivos e, ela própria, realiza-se por meio
da ação coletiva, quando prioriza ações, discussões e decisões de equipe, utilizando o controle
metodológico da intersubjetividade e da interdisciplinaridade. Visa a ações que rendam modifi-
cações concretas na realidade social, evitando reformas conjunturalmente emergenciais e
assistencialistas. Tudo se realiza de forma cooperativa e participativa, e isso se refere tanto às
relações entre os membros do Programa quanto às relações entre estes e os demais atores
sociais e institucionais envolvidos na pesquisa-ação.
A concepção de atuação deste método ao qual se é proposto é resultante de diagnósticos
fundados em estratégias de pesquisa especificamente desenvolvidas para a identificação,
análise e explicitação de variáveis já existentes nas comunidades e em suas organizações.
A metodologia de pesquisa-ação adotada sustenta-se a partir de uma conexão da teoria
com a prática social estruturada nos conceitos de cidadania e emancipação. Entenda-se que,
nesse tipo específico de pesquisa, o objeto de investigação constitui-se de uma “situação social”
determinada, onde interagem pessoas, organismos sociais, normas e critérios específicos e
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problemas de naturezas diversas. As finalidades de investigação são tanto teóricas quanto
práticas: o aumento de conhecimento das situações deverá permitir o equacionamento de
problemas comunitários reais e a ampliação das capacidades de transformação dos contextos ou
de condutas. São procedimentos primordiais dessa linha de investigação: a “observação”, a
“escuta”, a “compreensão” e a “intervenção”, que poderão ser realizados por meio de ações
diversificadas.
Assim sendo, quando são detectados os temas-problemas, os quais serão escolhidos para
se trabalhar com o teatro, a demanda é colhida em cada comunidade, sendo reconhecida nos
problemas locais. A pesquisa-ação considera as populações em questão como parceiras (como
previamente fora considerado), e não como um objeto sobre o qual se incidirá um trabalho, pos-
sibilitando que esta influa sobre os rumos das ações. Trata-se de um diálogo entre pesquisadores
e comunidade. O teatro irá atuar então como uma forma de sensibilizar a comunidade daquilo
que o pesquisador, em parceria com esta, levantou como demanda a ser discutida e elaborada,
para enfim, criar soluções que mobilizem em direção a uma responsabilização social em torno
do tema. No entanto, mesmo que o reconhecimento da demanda se dê em contextos par-
ticulares, o teatro tenta transpor os limites físicos, tendendo a universalizar o tema. Ainda assim,
consideram-se as particularidades das comunidades, quando estas se apropriam daquilo que o
teatro pode sensibilizar.
A pesquisa-ação, então, destina-se à descrição e análise de situações concretas que
demandem ações ou intervenções no sentido de explicitar problemas, necessidades e demandas,
de forma a possibilitar sua discussão. São ações problematizantes e problematizadoras que, para
sua realização, exigem investigações concretas nas áreas delimitadas para realização da ação.
Os pesquisadores têm papéis múltiplos, ou seja, são sujeitos que devem estar dispostos a
“conhecer”, “dialogar” e a “responder” ou “fazer”, utilizando-se de procedimentos comunicativos
e interativos próprios das atividades de pesquisa-ação.Enfim, considera-se que o teatro pode ser
um dos instrumentos para a pesquisa e intervenção comunitária quando, ao mesmo tempo em
que trabalha com a comunidade a partir de uma demanda desta, também age como um catalisador
de mudanças e observador. Contudo, a transformação social é sempre a meta da pesquisa-ação,
e o teatro é mais um caminho criativo para uma aprendizagem que vise a mudanças.
O Programa “Boa Pergunta”, por sua vez, pertence a este processo de aprendizagem,
estimulado pela pesquisa-ação, enquanto um instrumento esclarecedor para temas-problemas
que surgem no cotidiano da comunidade.
Técnicas e procedimentos metodológicos utilizados especificamente na construção
do teatro e no programa “Boa Pergunta” da Rádio Comunitária Felicidade
Dentre as técnicas usadas pela Trupe A Torto e a Direito, figuram:
teatro popular de mobilização de Augusto Boal – Teatro do Oprimido;
teatro épico-didático de Bertolt Brecht;
teatro popular nordestino, tais como; altos de natal, bumba meu boi, mamulengo (teatro
popular de bonecos).
166
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Todos os textos e montagens são uma fusão e adaptação destas linguagens adequadas à
demanda de cada proposta cênica.
Assim, os textos são criados a partir das pesquisas e demandas das frentes de cidadania
atuantes na comunidade. Feita a pesquisa, é escolhido o tema a ser abordado e, então, criado o
texto dramatúrgico de forma coletiva, envolvendo estudantes de diversas áreas, tais como
Direito, Psicologia, Filosofia e Teatro, dentre outros possíveis, demonstrando o caráter
interdisciplinar do grupo em consonância com a metodologia básica do “Pólos”. O aspecto
estético é coordenado, principalmente, pelo professor teatrólogo Fernando Limoeiro. Depois do
texto construído é feita uma leitura dramática para os integrantes do programa Pólos. Desta
forma, verifica-se, por meio da avaliação crítica dos referidos membros do programa, se o texto
contempla com clareza, criatividade e objetividade ao tema proposto pela pesquisa. Apartir daí,
dá-se início à segunda etapa que é a montagem, criação de cenários e figurinos e preparação dos
atores. Após 3 meses de ensaio, o texto novamente é submetido a uma avaliação do Pólos antes
de ser apresentado ao público. Então é marcada uma estréia no lugar onde a frente de cidada-
nia é atuante, seguido de um debate com a comunidade. Os espetáculos são fundamentados em
técnicas de teatro popular de rua, objetivando levar o teatro ao povo. Todas as montagens
podem ser mostradas em ruas, praças, salões paroquiais, associações de bairro ou quaisquer
espaços comunitários que se adaptam à proposta. Vale ressaltar que a apresentação das
montagens da Trupe é feita essencialmente nas comunidades parceiras do Programa Pólos,
e, na medida em que são solicitadas, as suas esquetes também são exibidas em outras
comunidades e/ou instituições.
O Programa de Rádio “Boa Pergunta” apresenta entrevistas com especialistas nos
assuntos trabalhados. O entrevistado é escolhido pelos membros das equipes de atendimento e
expansão de acordo com o tema.
O tema é escolhido de acordo com a metodologia da pesquisa-ação, onde as demandas
são detectadas dentro da própria comunidade, por meio de sugestões encaminhadas ao Núcleo,
de reuniões da comunidade com participação do grupo de expansão (por exemplo: assembléias
de associação de bairro, reuniões de colegiado de escolas da comunidade, reuniões de grupos
produtivos, de comitês de proteção ao meio ambiente, Nudec’s – Núcleo de Defesa Civil, de
grupos de ação social presentes na comunidade, etc. ou de atendimento individual realizado no
Núcleo de Mediação.
O Programa de Rádio é aberto à comunidade, em todas as suas fases, podendo sua
população participar desde a escolha do tema (por meio dos mecanismos descritos anterior-
mente) até a própria realização do programa, por meio de intervenções ao vivo, por telefone,
quando encaminham questões e suscitam debates com o entrevistado e entrevistadores.
Resultados e discussão
Vertente Teatral – Trupe “A Torto e a Direito”
Como já explicitado, um dos principais objetivos da Trupe “A Torto e a Direito” é sus-
citar o debate acerca dos conflitos vivenciados pelas comunidades parceiras. Tal discussão é
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facilitada pela linguagem usada pelo teatro, qual seja a representação lúdica da realidade.
Ou seja, a população vê de forma distanciada e ao mesmo tempo familiar e multiangular seus
conflitos cotidianos, que, em geral, são vistos de forma não crítica. Essa atuação engendraria
mobilização social. Dentre as montagens e apresentações do Teatro vale ressaltar sua atuação
nos municípios do Médio Vale do Jequitinhonha:
Um dos Projetos do Programa Pólos de Cidadania atua junto aos municípios do Médio
Vale do Jequitinhonha, para promoção dos direitos da criança e do adolescente, por meio da geração
de renda e diminuição da prostituição infantil. A pesquisa realizada pelo projeto detectou que
entre os maiores problemas da região figuravam a exploração sexual, a violência intrafamiliar
e o alcoolismo.
A partir dessa pesquisa, o teatro elaborou um texto a ser apresentado aos Conselheiros
Tutelares e aos Conselheiros de Direito da Criança e do Adolescente de 13 municípios do Médio
Vale. A primeira apresentação aconteceu em Araçuaí, durante um ciclo de debates, acerca dos
temas-problemas detectados, promovidos pelo Programa Pólos. Após a apresentação, houve
uma discussão iniciada pelos atores do teatro, que foi prosseguida pelos pesquisadores-exten-
sionistas do projeto do Médio Vale. Ao longo da discussão, foram utilizadas imagens de
momentos da peça. Os espectadores que, diariamente, estavam em contato com a realidade
representada, de forma lúdica, na montagem teatral, puderam ver-se distanciadamente, ao
mesmo tempo que se identificavam com os personagens do texto. O que possibilitou um debate
reflexivo, aberto e profundo sobre a condição vivenciada por eles.
A vertente teatral do Programa Pólos reconhece a importância de sua ação pelos
seguintes resultados:
fomentação e criação de mobilização social e cultural por meio do jogo dramático e lúdico
nas comunidades onde o Pólos atua;
difusão do programa dentro das comunidades, dando-lhe maior notoriedade;
incentivo ao interesse da comunidade pelo teatro como expressão artística;
observação da apropriação da peça pela comunidade;
Rádio Comunitária – Programa “Boa Pergunta”
O Programa de Rádio gera grande movimentação na comunidade, pois na medida em
que informa quais são os meios mais eficazes e quais são as melhores formas de deliberação
sobre os seus direitos, possibilita posterior reivindicação dos mesmos. Assim a comunidade se
sente mais segura e mais consolidada (devido também ao senso de comunidade), vislumbrando
concretamente uma possibilidade de que seus direitos sejam implementados.
Essa movimentação transparece na crescente organização da comunidade em torno de
suas demandas e participação da mesma nas decisões políticas do poder público, pois depois do
debate feito no Programa de Rádio, da participação do Grupo de Expansão na detecção dos
temas, a deliberação sobre seus direitos e a reivindicação dos mesmos são vistas como algo que
realmente pode surtir efeito e transformar a sociedade em que vivem, o que os torna também
agentes da transformação social que tanto necessitam.
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Um exemplo concreto se deu em relação ao problema de geração de renda em comu-
nidades carentes, que apesar de ser um problema de âmbito nacional, possui suas especifici-
dades locais, que foram detectadas no Conjunto Jardim Felicidade. Tal demanda foi levada
como tema ao Programa Boa Pergunta, que contou como entrevistado com o Deputado Estadual
André Quintão, que discorreu sobre ações do Poder Público para estimular a geração de renda.
Além de discorrer sobre o tema proposto, informou à comunidade acerca da “Comissão Popular
de Iniciativa de Leis”, na qual qualquer associação representativa regularmente registrada pode
apresentar projetos de lei ou temas a serem tratados nas normas, desde que de competência
legislativa estadual.
Além disso, houve intensa participação da população que fez várias intervenções por
telefone, durante o programa, questionando, pedindo esclarecimentos, criticando e até mesmo
reivindicando ações mais efetivas do Poder Público.
Efetivadas as ações que trabalharam o tema da geração de renda (o que não se resumiu
ao Programa de Rádio), verificou-se um aumento na procura e conseqüente fortalecimento dos
grupos produtivos da comunidade (majoritariamente artesanato e bijouterias), que contaram
sempre com a participação do Grupo de Expansão do Programa Pólos em suas reuniões, auxiliando
também em sua organização.
Conclusões
A mobilização social é fator fundamental para a emancipação de grupos sociais negli-
genciados pelo Estado, uma vez que a criação de uma identidade em toda a comunidade (senso
de identidade coletiva), promove a noção de responsabilidade social. O morador-cidadão se
conscientiza de que os problemas enfrentados por qualquer morador da comunidade, mesmo
que não o afete diretamente, devem ser resolvidos em conjunto, para que toda a comunidade
esteja protegida e o interesse coletivo seja preservado. Dessa forma, vêem nas associações uma
forma eficaz de exigir do Estado os seus direitos.
Uma forma de promoção de mobilização dentro das comunidades é o debate reflexivo
acerca dos problemas vivenciados por sua população. O teatro de rua, na medida em que trata
das questões vivenciadas pelas comunidades onde é apresentado, com personagens de perfis
baseados na realidade da população local, engendra o debate acerca da problemática abordada.
Um dos fundamentos da Trupe não é apontar a saída, mas levantar a questão para que a comu-
nidade reflita sobre os seus temas-problema e encontre a saída mais adequada para eles,
considerando as especificidades da realidade na qual estão inseridos.
A experiência do Programa de Rádio “Boa Pergunta” permite averiguar que a criação de
canais e fóruns de informação, discussão e esclarecimentos de questões pertinentes à comu-
nidade influenciam diretamente a mobilização social e a conseqüente participação de seus
membros na vida da mesma. Quanto mais sólidos e eficientes esses “meios”, mais a população
se interessa pela participação direta. Uma vez que o Programa “Boa Pergunta” se consolidou
como canal de informação, mobilização e discussão, sendo que por meio dele a comunidade
consegue obter informações que auxiliam na luta pela realização da cidadania e acesso a
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direitos, a mesma enxerga em suas ações uma finalidade concreta, ou seja, algo que realmente
pode melhorar sua vida coletiva, assim como propiciar um crescimento individual de seus
membros, fazendo com que os mesmos verifiquem, no direito do próximo, o reflexo de seu
próprio direito.
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•O espaço e sua memória: desafios para a ação acadêmica
Andrea Ciacchi, Doutor em Estudos Ibéricos pela Universidade de Bolonha. Professor Adjunto de
Antropologia na UFPB. Coordenador de Extensão Cultural na Pró-Reitoria de Extensão e
Assuntos Comunitários da UFPB
Resumo
Este trabalho procura refletir aspectos teóricos e metodológicos da ação extensionista em
comunidades de pescadores artesanais, questionando a participação das universidades em
projetos de desenvolvimento sustentado formulados por sujeitos institucionais externos à
Universidade. Os dados para a reflexão provêm de experiências de campo no distrito de Barra
de Camaratuba, Município de Mataraca, litoral Norte da Paraíba. Julgamos que a ação exten-
sionista não possa ser cooptada acriticamente e sem questionamentos em programas que não
contemplem a dimensão participativa por parte das comunidades envolvidas, sob pena de não
avaliarmos os impactos negativos, que são muito mais intensos e dramáticos do que a ideologia
do desenvolvimentismo oficial (de direita ou de esquerda) quer acreditar
.
Palavras-chave: pesca artesanal, desenvolvimento sustentado, turismo e carcinicultura
Introdução e objetivos
Pretendo aqui tecer algumas reflexões sobre a viabilidade das técnicas de leitura da
memória popular como elementos dinamizadores da articulação entre pesquisa acadêmica e
extensão universitária. A memória social e individual registrada nas narrativas e nos depoimentos
colhidos em campo pode revelar-se um caminho enriquecedor para uma velha questão: como
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Desenvolvimento regional
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promover o reencontro das atividades de pesquisa e de extensão realizadas na universidade? O
tema, em nova roupagem, remete para a necessidade de pensar a ação acadêmica, nas suas mais
diversas vertentes, como motor da inclusão social. Nessa perspectiva, o saber popular, fixado
dinamicamente na memória das comunidades e dos sujeitos sociais, revela-se um veículo que
circula numa via de mão dupla: alimenta o conhecimento acadêmico e fortalece as ações
voltadas para a transformação crítica da realidade. Além de considerações de ordem metodológica,
faz-se menção a um conjunto de problemas que se agitam à margem de uma pesquisa desen-
volvida numa comunidade de pescadores artesanais no litoral Norte da Paraíba, Barra do
Camaratuba, no Município de Mataraca.
Metodologia
De fato, estamos nos reportando à realidade dos moradores de Barra do Camaratuba,
protagonistas de um diálogo travado desde 1999 com alunos de graduação e, mais recente-
mente, de doutorado da UFPB. É necessário, antes, “atualizar” o quadro. Se, anteriormente,
relatamos as narrativas de homens e mulheres cada vez mais espremidos entre o conjunto
tradicional de sociabilidades comunitárias (nas esferas da vida econômica, social e cultural) e o
avanço de formas cada vez mais agressivas de modelos de desenvolvimento, nos últimos meses
a situação parece ter se agravado. Por um lado, a “vocação” turística do Município de Mataraca
(quer dizer, do seu único distrito litorâneo, justamente o da Barra do Camaratuba) se acentuou
e tem ocupado a mídia e as ações dos poderes públicos (a própria Administração Municipal e o
órgão estadual de fomento ao turismo – a PbTur). Disso decorreu não só a ampliação da maior
pousada do local, pertencente a um empresário de João Pessoa, ligado a uma das mais
influentes famílias do poder político paraibano, a família Burity, mas também a venda de
outras pousadas menores que saíram das mãos de moradores locais para serem adquiridas por
empresários “de fora”, além da recentíssima construção de uma boite, no centro da comunidade,
a poucos metros da igreja e da caiçara dos pescadores. Processo paralelo a esse tem sido o da
intensificação de construção, reforma e ampliação de residências situadas à beira da praia, e
pertencentes a famílias de João Pessoa, Natal e Recife. Ainda com relação ao fortalecimento da
afirmação do “produto” turístico Barra do Camaratuba, a Administração Municipal tem, entre
outras ações, interferido pesadamente nas festas comunitárias, sobretudo no carnaval e no
período junino, provocando a cada vez maior marginalização dos espaços do lazer tradicional,
como aconteceu, notadamente, na festa de São Pedro e na realização da brincadeira do coco.
Por outro lado, num outro quadrante, existe a situação gerada pela construção de um
viveiro para a criação de camarão, na margem do Rio Camaratuba, com significativas reper-
cussões sobre a situação do mangue e a vida dos moradores que têm nesse espaço uma fonte de
renda e de sustento e uma referência biográfica e social.
Resumindo (pois temos por objetivo maior, aqui, refletir sobre a ação dos pesquisadores
nesse contexto), parece estar se agravando um quadro caracterizado, basicamente, por um recuo
severo da disponibilidade social dos espaços que permitem a manutenção e o desenvolvimento
autônomo dos modos de vida dos moradores da Barra. Estes têm construído as coordenadas dos
172
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seus modos de vida no eixo da cultura pesqueira e no horizonte compartilhado de laços comu-
nitários cimentados por várias manifestações da cultura popular. Nessa perspectiva, os espaços
da comunidade têm representado outros tantos cenários de uma sociabilidade que vai do
econômico ao material, do religioso ao musical. A intercomunicabilidade entre trabalho e lazer,
esferas unificadas pelas narrativas agregadas e aliadas à memória, já não é impermeável às
mudanças rápidas que se desenvolvem entre a praia e os coqueiros, entre o mangue e o rio. O
turismo veio, muito recentemente, a oferecer alternativas de emprego e renda que se colocam
em conflito com as práticas tradicionais — tanto nas técnicas e na organização da pesca como
no campo da vida cultural. A brincadeira do coco, especificamente, ainda que aparentemente
incentivada pela Administração Municipal (que vê nela uma tradução rítmica e pitoresca da
natureza exuberante habitada pelos que cantam e dançam “na pancada do ganzá”), denuncia
sintomas de decadência que provém de um conjunto mais amplo de práticas sociais. Assim, as
vozes dos pescadores da Barra constroem a narrativa nostálgica de um passado que agora
parece ter urgência de reconstruir-se como presente e como futuro, em forma de resistência.
Resultados e discussão
Mas, agora, chegou a hora de ouvir os pescadores da Barra do Camaratuba. O que eles
narram nas suas memórias? Quem são os protagonistas das suas narrativas?
O tempo e o espaço. Melhor: um certo espaço num certo tempo. Melhor ainda: o seu
espaço ao longo do tempo. Nesse espaço há um passado e um presente, freqüentemente contra-
postos. Um passado de fartura, um presente de penúria. Um passado de penúria, um presente de
fartura. Antigamente, pescava-se mais — ou não. Antigamente, comia-se mais e melhor — ou
não. Mas hoje em dia, com certeza, não se dança mais, não se brinca mais, não se vê mais o
mar, não se sente mais a sua brisa, não se encontram mais os caranguejos no mangue, não se
conversa mais com os mais velhos, ou com os mais jovens. O passado mítico — ou mitificado
— é o tempo da cultura, o tempo das relações: entre os homens, entre os homens e o mar, entre
os homens e o mangue.
Já o presente não se narra: se observa e se descreve. O presente é observado por cada
pescador, por cada homem e mulher, mas também está “sob a mira” de homens e mulheres
“estranhos”, que chegam, invadem, dividem, interditam, cercam, fragmentam. Fragmentam-se
os espaços e a experiência do trabalho e do lazer, fragmenta-se a continuidade entre trabalho e
lazer. Estilhaça-se a comunidade: aqui a praia, aqui as nossas casas, ali as pousadas, a boite do
sobrinho de Burity, aqui a casa de farinha, aqui a igreja e a caiçara, ali o bar, ali o trio elétrico.
Aqui o mangue, ali o viveiro de camarão.
Ouçamos seu Antônio Caboco sobre a implantação do viveiro:
E tudo isso já tá devorado. E era os lugares onde a gente pescava e pegava o alimento... vê a nossa
situação... Tou com 52 anos, nunca tive vontade de sair daqui mas agora tá me dando vontade.
Porque eu sei que a tristeza vai ser grande quando terminar essa nação... com essa floresta que a
gente tem aí... Tenho certeza, porque vai ficar mais quente e o alimento se acaba. Que primeiro
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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eles botam uma química que o caranguejo come todo ele, que é pra num fazer furo no varal dos
viveiro. [...] Pra você ver: qual é a continuidade disso daqui pra frente? Acaba com o caranguejo,
acaba com tudo. [...] A maioria da gente daqui depende do mangue. Nós todos aqui, olhe... pra
dizer a verdade: todos. Depende do mangue. Só quem num depende do mangue é o turista. [...]
Essa área dos índios aí eles num podem entrar, que é área indígena, eles num podem entrar ainda.
[...] Mas aqui a continuidade é... fazer mermo... Pregaram essa cerca aí, que aí a manga a gente
tirava à vontade... Chegava ali, olhe, parava uma bicicletinha, pegava uma vasilha, botava na
cabeça, chegava ali, pegava a manga. Eles já, o que é que fizeram? O dono da propriedade, que
o engenheiro diz que é o dono, né? Que tá com essa cerca aí. Botou seis cintas de arame. E man-
dou amarrar a mangueira e ficou a ruma de manga aí, apodreceu. Quer dizer: num tá ficando
cada vez pior pra nossa comunidade? Cada vez mais pior, não melhor! Piora! [...] Os homens diz
que entraram. Têm medo de ninguém. E nós, pobres, vamos fazer o quê? É deixar eles tomar
conta de tudo que a gente num tem poder. O poder tá na mão deles. [...] Porque aqui... pode
ficar sabe quem? Os rico. O pobre num pode ficar. Porque o pobre só procura ficar onde temos
alimento dele se alimentar. [...] Vai ter emprego? Agora, eu mermo já sei da história de todos, dela
toda. Isso num precisa ninguém me contar [...]. Que eu já tenho andado, conheço da história...
sou analfabeto mas num sou tão bobo! Se ele fizer cinqüenta viveiro ele dá cinco emprego. E o
resto? Seiscentos e poucas pessoas, quase setecentos pessoas vai ficar como? [...] Aí, acaba o mangue,
acaba a várzea, acaba tudo! Aí diz: “Preserva a natureza!” Quer dizer: como é que vai preservar
a natureza... se um cabra desse tá devorando tudo?
E acabar com tudo não é processo que se dê apenas no eixo da escassez material. É ainda
Antônio Caboco que fala da ocupação dos terrenos à beira da praia para a construção de pou-
sadas e casas de veraneio:
Quando num tinha isso aqui [a pousada na frente da sua casa], isso aqui era um campo, olhe...
era uma delícia. Rapaz, isso aqui acabou com essa praia. [...] A praia fechou... acabou... Isso aqui era
pra ser o quê? Era uma praça, num era? Era pra ser uma praça, aí acabaram com tudo aí... aí acabou.
Acabou o paladar da gente daqui da praia. [...] Os terreno tá tudo vendido, que tão fechando tudo. [...]
Aí vai fazer uma muralha, né? Aí, quem quiser atravessar...
E por aí vai, por aí vai... como diria o narrador. Outros depoimentos, outras narrativas
ratificam uma situação de inconciliabilidade entre os projetos de “desenvolvimento sustentado”
e as expectativas e necessidades da comunidade, expressas na experiência da memória. Nesse
sentido, aliás, e parafraseando Catherine e Raphaël Larrere, parece-nos sensato dizer que assim
como “a paisagem não é um lugar, mas um olhar sobre um lugar”, a memória não é a
emergência do tempo, mas um olhar sobre o tempo. As narrativas dos moradores da Barra do
Camaratuba que dialogaram com os nossos pesquisadores revelam uma poderosa articulação
entre o passado, o presente e o futuro da comunidade, e uma nítida consciência dos elementos
desestabilizadores da tradição.
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Ora, o que fazer com essas narrativas, o que fazer com os resultados das nossas
pesquisas? Tenho em mente, é claro, as preocupações e os alertas de Alba Zaluar para que não
nos tornemos, mais ou menos ingenuamente, “pesquisadores-agentes políticos”. Mas ainda
acredito, ainda acreditamos na indissociabilidade entre a pesquisa e uma dimensão política,
global, de questionamento e transformação da realidade. Ao recusarmos o enfoque naturalístico
e meramente sociográfico, prestamos atenção aos problemas científicos, morais, políticos e
relacionais colocados pelo diálogo antropológico ao longo da pesquisa: do problema inicial que
lhe dá origem até a comunicação e a utilização dos seus resultados, numa concepção explícita
da pesquisa como um diálogo aberto, cuja finalidade de transformação da realidade se realiza
já no próprio processo da pesquisa, e depois, uma vez que os registros se tornam, por assim
dizer, patrimônio compartilhado na comunidade acadêmica.
Por isso, gostaria agora de deslocar a nossa discussão para a interface que a pesquisa
pode estabelecer com a extensão universitária, recorrendo à experiência desenvolvida na UFPB.
A nossa universidade, e especialmente por intermédio da Pró-Reitoria de Extensão e Ação
Comunitária (Prac), tem sido cada vez mais freqüentemente procurada por parceiros institu-
cionais (Prefeituras, Governo do Estado, Sebrae, entre outros) com vistas à definição, planeja-
mento e implementação de políticas voltadas para o tal de “desenvolvimento sustentado”. Nesse
quadro, o turismo e a carcinocultura têm representado destaque, por terem sido apresentados
como alternativas ideais para a geração de emprego e renda junto às comunidades carentes do
Estado. Por outro lado, é sempre bom lembrar, a ação da universidade pública caracteriza-se (ou
deveria se caracterizar) por uma autonomia conceitual e operacional que transcende a necessi-
dade institucional de firmar parcerias com vistas à resolução dos problemas sociais.
Ora, se o norte das nossas ações está representado pela meta da “inclusão social”, é
porque reconhecemos uma realidade de “exclusão social”. Nesse embate entre exclusão e
inclusão, combatemos ou pretendemos combater, ou temos por missão combater a exclusão
social (que se dá, como é claro para todos, em várias formas, muitas das quais cuidadosamente
ocultadas), e, por outro lado, buscamos, ou pretendemos buscar, ou temos por missão buscar as
formas mais efetivas de promover a inclusão social.
Ora, a exclusão não tem causas “naturais”: ela é resultado de práticas sociais que
assentam na história e, por outro lado, em modelos de desenvolvimento que vêm de longe, mas
que se reproduzem na atualidade, são postos e repostos por vários sujeitos sociais. Esses
sujeitos, salvo raríssimas exceções, situam-se, na atualidade, nas camadas econômicas e
políticas dotadas de hegemonia.
Contudo, iniciativas como os “pactos”, as parcerias para o “desenvolvimento sustenta-
do”, ou outras do mesmo gênero ou estilo, não distinguem entre sujeitos econômicos, políticos
e sociais dotados de hegemonia (prefeitos, gestores de políticas públicas, empresários etc.) e
sujeitos que (devido, justamente, aos efeitos dos processos de exclusão social) apenas vivem na
subalternidade política, econômica e social.
Cabe, assim, nessa perspectiva, questionarmo-nos se os participantes “espontâneos” dos
pactos estão dispostos a olhar para esse impasse, para esse desequilíbrio, para essa assimetria.
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Ou seja: esses pactos são, de fato, entre iguais, sem direção, ou há um plano, um projeto
norteador? Há quem dê um rumo à espontaneidade?
Diante dessa indistinção entre hegemônicos e subalternos, nos pactos, resultado da
indistinção, da “invisibilidade” da distinção entre hegemônicos e subalternos na própria
sociedade, em geral, e em cada comunidade, em particular, como avaliar os critérios de “escolha”
dos parceiros, dos participantes, dos “compactuantes”?
Procuremos, agora, verticalizar os questionamentos e as preocupações, nos aproximando
da ação do Pacto da Zona da Mata da Paraíba, estimulado pelo Sebrae/Pb, com a participação,
entre muitos outros sujeitos, da Universidade Federal da Paraíba, por meio da Pró-Reitoria de
Extensão e Assuntos Comunitários. A própria existência do Pacto da Zona da Mata remete para
uma realidade que demanda mudanças, empreendimentos, projetos, ousadia. Para a Zona da
Mata da Paraíba, e mais especificamente para os Municípios possuidores de áreas litorâneas, o
turismo e a carcinocultura são, ao mesmo tempo, uma vocação, uma necessidade e uma saída.
Aliás, na opinião da professora Tânia Bacellar, encarregada pelo Governo Federal de realizar
estudos voltados para a recriação e remodelação da Sudene, o turismo e a aqüicultura são duas
das principais “cadeias produtivas” para o desenvolvimento sustentado da região.
Mas o turismo dos Municípios litorâneos volta-se, justamente, salvo exceções também
raríssimas, para o litoral. Para as praias. Ora, em alguns Municípios do litoral paraibano ainda
se registra a presença, nas praias e em comunidades à beira-mar, de populações tradicionais (a
noção de “população tradicional”, gerada pelos desenvolvimentos recentes — e paralelos — da
antropologia e da etno-ecologia, está hoje também reconhecida em nível governamental, como,
por exemplo, no Ministério do Meio Ambiente, desde a gestão de Sarney Filho).
A história recente da Paraíba, atestada por pesquisas realizadas na UFPB e até mesmo
pela simples e distraída observação de cada um de nós, mostra o volume e o alcance dos proces-
sos de expulsão de moradores de comunidades tradicionais, em nome do desenvolvimento —
sustentado? — da carcinocultura, do turismo e da construção de moradias de lazer. Os exem-
plos mais contundentes vêm da Grande João Pessoa (praias de Tambaú e da Penha), Cabedelo,
Jacumã, Forte Velho, Lucena, Santa Rita etc., além da própria área de Barra do Camaratuba, no
Município de Mataraca.
Este processo, que tem conseqüências dramáticas, não tem sido questionado pelos
órgãos públicos que, muitas vezes, são protagonistas ou estão por trás dessas ações, fornecendo
respaldo político-ideológico, financiamento ou ausência estratégica.
Nem mesmo a “nova” noção de “desenvolvimento sustentado” tem ensejado uma
revisão crítica dos processos de ocupação (econômica, territorial e cultural) do litoral da
Paraíba. As comunidades tradicionais do litoral paraibano são, basicamente, compostas por
pescadores artesanais ou pescadores-agricultores, possuidores de sistemas próprios de manejo
sustentado dos recursos naturais (mar, rios, mangues, matas etc.), baseados, entre outras
considerações mais, digamos, etno-ecológicas, em relações de trabalho também peculiares: de
tipo familiar, de compadrio ou comunitárias. A esse sistema econômico-social associa-se um
sistema de valores que, basicamente, envolve traços culturais e religiosos. Os dois sistemas (o
176
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econômico-social e o cultural-religioso) assentam, como é óbvio e como, sobretudo, são
evidências mais do que significativa os registros de memória que as nossas pesquisas têm
conseguido levantar, numa série de modalidades de apropriação e uso dos espaços sociais,
como os que mencionamos na primeira parte da nossa exposição.
As comunidades que foram afetadas pelos processos supramencionados apresentaram,
sem exceções, uma desestruturação acentuada dos dois sistemas de valores. Além disso, os
pescadores artesanais (diferentemente dos agricultores, por um lado, e dos pescadores assalari-
ados da pesca industrial, por outro) não possuem, tradicionalmente, vínculos associativos ou
sindicais que lhes dêem força, coesão, margem de negociação ou resistência. Por constituírem,
a princípio, a categoria de trabalhadores menos afetada pelas regras e determinações do sistema
capitalista (não há, entre eles, por exemplo, relação de compra e venda da força de trabalho e
de assalariamento), eles são também, paradoxalmente, os mais desprotegidos e indefesos diante
daquelas regras e determinações. Mal comparando, algo parecido com o efeito de simples
gripes sobre os grupos indígenas nos momentos dos primeiros contatos. Assim, é muito difícil
que os pescadores sejam ouvidos no contexto da formulação, planejamento e implementação
dessas políticas. Aliás, como ficou claro nas reuniões do Pacto da Zona da Mata, nem sequer
foram chamados: Mataraca, por exemplo, só se fez presente por intermédio de empresários de
João Pessoa ou de representantes da Prefeitura. Talvez valesse lembrar que as ciências sociais
brasileiras, desde os anos oitenta, já se dotaram, por meio do conceito de “etnodesenvolvimento”,
de uma ferramenta teórica e metodológica relevante, que, ao sublinhar a necessidade de um
“desenvolvimento participante, jamais tecnocrático, abrindo-se à participação das populações
em todas as etapas de planejamento, execução e avaliação”, conecta, sem descontos, a prática
da pesquisa à questão ética que essa mesma prática levanta a todo instante em cada uma das
suas etapas.
Nessa perspectiva, lembramos que, se existem, como sustenta ainda Antonio Carlos
Diegues, “vários olhares na construção das paisagens: o olhar das populações urbanas ou as
elites, marcado pela noção do estético [...]; o olhar dos cientistas, que vêem nela um conjunto
de hábitats, e o olhar das populações locais”, avaliado e narrado nas memórias e registrados nas
nossas pesquisas, é possível que haja pelo menos mais dois: o olhar dos gestores das políticas
públicas, interligados com os processos de dominação ideológica, econômica e política, que vê
nessas “paisagens” o campo disponível para a atuação de práticas de desenvolvimento que se
sustentam à revelia das comunidades locais; e um quinto olhar, o compartilhado entre comu-
nidades e universidade, por meio do uso eticamente legítimo das evidências antropológicas.
Não me parece difícil, de fato, imaginar um papel relevante para uma ação universitária que
reconheça, por exemplo, que “a diversidade cultural, considerada condição para a manutenção
da diversidade biológica, somente persistirá se as comunidades tradicionais continuarem a ter
acesso aos recursos naturais de seu território e não forem expulsas, seja pela especulação
imobiliária [...]” seja por projetos de turismo ou de carcinocultura, por exemplo.
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Conclusões
E é isso que estamos tentando fazer na Universidade Federal da Paraíba. A nossa partici-
pação nos Pactos e nos vários Fóruns tem provocado viva irritação entre os “nossos parceiros”.
É inútil relatar que temos sido acusados de “arcaicos”, “atrasados”, “tradicionalistas”, ou, com
o epíteto da moda, “radicais”.
Temos procurado, concretamente, levar para esses espaços as vozes, a memória e as
narrativas registradas no tempo e no espaço da pesquisa. Agora, fixadas e ampliadas e
transformadas em outros códigos (a escrita, o caderno de campo, o relatório, o artigo, o livro),
alimentam e retroalimentam o conhecimento acadêmico, a formação de jovens pesquisadores,
mas também as outras ações da universidade, no eixo da extensão universitária. Assim,
alimentam e retroalimentam uma nova visão das políticas públicas para o turismo e o desen-
volvimento sustentado, um “contra discurso” do desenvolvimento que terá de levar em conta os
direitos das comunidades tradicionais, as opiniões e as expectativas de desenvolvimento das
comunidades e dos moradores dos espaços ambicionados por turistas e empresários.
Educação ambiental, manejo sustentado dos recursos naturais, eco turismo, identidade
cultural, cultura popular são discursos que se escondem por trás de práticas sociais, engendradas
em relações de dominação que aqueles discursos, no seu viés ideológico, procuram ocultar,
“naturalizando a cultura “primitiva”, “tradicional”. Cabe, finalmente, à aliança entre pesquisa e
extensão, como práticas indissociáveis de uma universidade voltada para a transformação
crítica da realidade, pronunciar e concretizar esse contra discurso.
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178
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•A formação de rede como estratégia de desenvolvimento comunitário
Rebeca dos Santos Duarte Rosa, Mestre em Enfermagem
Érlia Esteves Benevides, Socióloga
Renata Mascarenhas Bernardes, Acadêmica Enfermagem – PUC Minas
Joice Batista Maciel, Acadêmica de Enfermagem – PUC Minas
Graziela Cançado, Acadêmica de Enfermagem – PUC Minas
Resumo
O Jardim Felicidade, segunda área de maior vulnerabilidade social de Belo Horizonte,
é foco de ação de diversas instituições que agem isoladamente sem conseguir atender as deman-
das da população na promoção do desenvolvimento humano e social. Este trabalho objetiva
descrever a experiência de formação de rede para o desenvolvimento comunitário a partir da
coleta de informações sobre o bairro; identificação das instituições atuantes na comunidade;
estabelecimento de prioridades de ação e potencialidades das entidades envolvidas. Para o desen-
volvimento do trabalho seguiram-se os passos da pesquisa participante de Le Bortef. Foram
identificadas 24 instituições atuando em diversas áreas. Para formação da rede foram criados
5 fóruns: Saúde; Educação, cultura e lazer; Hábitat Urbano e Meio Ambiente; Apoio ao
Desenvolvimento Familiar e Social; Geração de Renda. Tais fóruns promoveram ações concretas
como curso de capacitação para atores da comunidade, implantação do programa Alfabetização
Solidária para adultos e reivindicações para orçamento participativo. Por meio destas ações
conseguiu-se montar uma rede de desenvolvimento daquela região. A partir deste projeto de
extensão foram realizadas ações dentro da realidade vivenciada pelos atores, descobrindo junto
com estes o “patrimônio e o pertencer” de cada um, proporcionando uma vida com dignidade e
justiça social
.
Palavras-chave: formação de rede, desenvolvimento comunitário, rede social
Introdução
O Conjunto Jardim Felicidade localizado na Regional Norte de Belo Horizonte é
considerado a segunda área de maior vulnerabilidade social de Belo Horizonte. Nesta área vive
atualmente cerca de vinte mil pessoas cuja renda per capita é inferior a meio salário mínimo
(CDM/AVSI). Tal comunidade é foco de ação de diversas projetos e programas desenvolvidos
por instituições comunitárias, públicas, ONGs e religiosas, atuando na prestação de serviços à
população. No entanto, apesar dos diversos esforços cada uma vem agindo de forma própria e
independente das demais, sem, contudo, conseguir atender eficazmente as demandas da popu-
lação na promoção do desenvolvimento humano e social dessa comunidade. As ações de saúde,
educação e preservação do meio ambiente, realizadas pelos órgãos governamentais, não
conseguem contemplar satisfatoriamente as necessidades locais devido a vários motivos,
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dentre eles: a imensa demanda característica deste tipo de população; a dificuldade de adap-
tação ao novo modelo assistencial que está sendo implantado, bem como, por realizarem ações
que em pouco consideram os processos sociais vigentes. No que diz respeito à saúde, Machado,
Porto (2003) ressaltam que: “os princípios de construção do SUS desenvolveram-se à luz dessa
visão: qualidade de vida e saúde da população não se limita apenas ao sistema de saúde em si,
mas depende de como a sociedade se organiza e prioriza suas necessidades. É preciso univer-
salizar a Saúde, descentralizar as ações e abrir a gestão do sistema à participação popular”.
Assim como na saúde, outros setores da sociedade deveriam seguir esta mesma premissa, buscando
fortalecer os atores nela envolvidos. Procurando ampliar ainda mais o alcance de suas ações e
aglutinar recursos para acelerar o processo de desenvolvimento da comunidade, a Associação
de Voluntários para o Serviço Internacional – AVSI representada no Brasil pela Cooperação
para o Desenvolvimento e Morada Humana – CDM lançou a proposta que convocava as várias
instituições e atores presentes a se articularem em uma rede de apoio ao desenvolvimento da
comunidade. A formação de redes de apoio ao desenvolvimento comunitário deve ser visto
como algo dinâmico, que traduza a integração de diferentes atores em ações frente às necessi-
dades comuns, implicando sempre num processo de negociação na busca de atender interesses
coletivos a partir das diversas possibilidades e necessidades destes corpos heterogêneos,
minimizando a descontinuidade das ações que, muitas vezes, deixam este grupo vulnerável,
permitindo assim uma maior flexibilidade e durabilidade das propostas, uma vez que todo o
contexto foi discutido com a comunidade, que estabeleceu prioridades, e potencialidades para
a resolução dos mesmos (MACHADO, PORTO, 2003). A realização das atividades, a partir
desta proposta, passa a contar com a participação de alunos e professora da Escola de
Enfermagem da PUC Minas que desenvolvem um projeto de extensão vinculado a disciplina de
Educação para Saúde que teve início em 2001, tem a duração de três anos e encontra-se em fase
de finalização. A extensão, uma das atividades-fim da universidade, foi definida como “um
processo educativo, cultural e científico, que articula o ensino e a pesquisa de forma indisso-
ciável, viabiliza a relação transformadora entre a universidade e os demais segmentos da
sociedade” (BRASIL, 2001). A PUC Minas fundamenta suas ações acadêmicas na visão
humanista do homem como um fim em si mesmo. Esse fundamento se traduz em princípios que
norteiam suas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Entende-se que os saberes interna-
mente produzidos devem pôr-se a serviço da dignidade da pessoa humana. A extensão univer-
sitária consubstancia esses fundamentos nos seguintes princípios: igualdade — de valor dos
seres humanos e garantia de igualdade de direitos entre eles; liberdade — de criação, de
expressão do pensamento e de produção de conhecimento; autonomia — capacidade de for-
mular leis, em contexto de liberdade, e se reger por elas; pluralidade — expressão da igualdade
e diferença entre os homens, iguais porque humanos e diferentes porque singulares; solidariedade
— adesão à causa do outro, fundada no respeito mútuo e na interlocução entre sujeitos da
sociedade; justiça — orientada pela igualdade de direitos e pelo respeito às diferenças. Ajustiça
implica a obrigação de agir quando se tem consciência da injustiça; ética — capacidade de
ver em cada ato humano uma dimensão universal, objetivando uma conduta íntegra e um
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discernimento cuidadoso para com todos os seres. É a noção de responsabilidade de cada indi-
víduo por todos os outros (CASTRO, 2003). Assim, a pessoa como ponto de partida — este é
o princípio que norteia as atividades neste projeto. Ou seja, ajudar para que as pessoas possam
desempenhar seus talentos e responsabilizarem-se por suas próprias vidas, realizando com suas
próprias forças aquilo que são capazes de fazer e dando suporte nos casos onde elas precisam
de apoio para retornar com dignidade o seu desenvolvimento humano e social (LINTON, 1996).
Portanto, como Freire (1987) afirmava, o “fazer com” as pessoas da comunidade e fortalecer as
instituições e atores locais é a nossa proposta.
Objetivos
Descrever a experiência para formação de rede visando ao desenvolvimento regional
mediante coleta de informações sobre o bairro, caracterizando seus problemas e seus potenciais;
identificação das instituições atuantes nos diversos setores na comunidade, evidenciando
aquelas que atuam na área da saúde; descortinando a proposta de criação de uma rede que
potencialize as ações destas instituições em prol das pessoas assistidas; e estabelecendo priori-
dades e potencialidades das entidades envolvidas.
Metodologia
Cenário do estudo: todas as atividades foram realizadas no bairro Conjunto Jardim
Felicidade, foco da nossa ação sendo o espaço físico disponibilizado pelas instituições inte-
grantes do programa. Público-alvo: representantes das entidades e instituições atuantes no bairro.
Foram utilizados os princípios da Pesquisa Participante para o desenvolvimento deste trabalho
seguindo os princípios de Le Bortef (1987). Inicialmente foi realizada uma pesquisa qualitativa
com os moradores do bairro, entrevistas com representantes de entidades locais e encontros com
pessoas da comunidade abordando diversos temas. Após a devolução dos dados coletados para
a comunidade, foi proposta a realização de um trabalho em rede com os atores envolvidos na
comunidade. Foram promovidos, então, encontros com os representantes das principais
entidades e movimentos locais para debater os temas estudados na pesquisa, estabelecendo as
necessidades prioritárias a serem atendidas, bem como a forma de resolução das mesmas. Foi
feito, então, o planejamento conjunto das ações a serem promovidas pela equipe em cada um
dos Fóruns formados. Vários públicos foram beneficiados a partir da criação desta rede, desde
crianças desnutridas e suas famílias, adultos buscando alfabetização, atores atuantes na saúde
da comunidade, jovens em atividades de lazer e cultura e as famílias no seu contexto geral.
Resultados
Seguindo as etapas proposta por Le Bortef (1987) para realização da Pesquisa
Participante, cuja primeira fase é a montagem institucional e metodológica da pesquisa na qual
ocorre a discussão do projeto com a população, delimitação da região a ser estudada e organi-
zação do processo, foi realizada uma pesquisa qualitativa ao longo do ano de 2001, quando
foram contatadas 20 instituições que indicaram seus representantes para a discussão de temas
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ligados a suas áreas de atuação. Os principais temas identificados, foco de ação destas entidades
eram saúde, meio ambiente, geração de trabalho e renda e educação, organização comunitária,
história local, cultura, esportes e lazer. A segunda fase desta metodologia é o estudo preliminar
e provisório da região e da população envolvida que inclui a identificação da estrutura social da
população, o conhecimento do ponto de vista dos indivíduos e dos grupos das regiões envolvidas
além do recenseamento dos dados socioeconômicos e tecnológico. Nesta fase foram discutidos
aspectos importantes, dificuldades e possibilidades do bairro. Foi realizada a construção do
mapa falado das entidades, onde os próprios moradores identificavam áreas de risco, áreas de
ação de cada entidade sendo a partir daí, cadastrados os serviços por área. A partir desta
exposição, foi proposta para as lideranças a realização de um trabalho em rede. Tal proposta foi
aceita por vários atores que passaram a atuar buscando aumentar e fortalecer as parcerias entre
as entidades, grupos e movimentos locais mediante troca de experiência sobre as formas de
atuação de cada um destes. Passaram a ser realizados, então, encontros com os representantes,
por área de atuação, nos quais foram estabelecidas as necessidades prioritárias de ação sendo
formados cinco fóruns, a saber: Saúde; Educação, cultura e lazer; Hábitat Urbano e Meio
Ambiente; Apoio ao Desenvolvimento Familiar e Social; Geração de Renda. Na saúde foram
identificadas nove instituições atuantes no bairro, participantes da rede. Destas, uma era
entidade religiosa, duas prestadoras de serviços da rede pública, duas organizações não
governamentais (ONG) e as demais associações comunitárias. Posteriormente, foi realizado o
Fórum da Saúde, no qual cada representante expôs o objetivo da instituição a qual representa-
va, bem como a forma de atuação da mesma, ressaltando facilidades e entraves encontrados
para realização dos trabalhos. Ao final, cada representante apresentou os recursos e potenciais
disponíveis em sua entidade, indicando as ações que poderiam contribuir para melhoria das
condições de vida no bairro, dentro da proposta da rede. Simultaneamente, os outros fóruns
caminharam da mesma forma, contando com a participação de entidades e parcerias específicas
relacionadas aos temas. Na terceira fase, que consta da análise crítica dos problemas que a
população considera prioritários e que seus membros desejam estudar e resolver ficou
estabelecida, como prioridade na área da saúde, a partir das discussões com as lideranças, a
atenção à criança tendo em vista que no bairro foram cadastradas pelas diversas entidades cerca
de 2.000 crianças menores de 5 anos, muitas delas desnutridas. Esta discussão explicitou a
necessidade da implantação de um curso de capacitação para “agentes (atores) de saúde”
atuantes na região, já que as dificuldades enfrentadas pelos diversos grupos eram comuns e a
necessidade de aprimoramento do tema era essencial a todos os grupos, passando assim, a
ser implantada a quarta fase que implica na programação e aplicação de um plano de ação,
incluindo atividades educacionais que contribuam para a solução dos problemas encontrados.
Iniciou-se, a partir daí, o planejamento conjunto do curso, sendo que cada entidade disponibi-
lizava algo para sua realização, desde o espaço físico até os instrutores para abordagem de
temas pré-definidos. Atualmente, 84 atores de saúde das diversas entidades encontram-se em
capacitação, foi realizado um mutirão no qual foram pesadas aproximadamente 1.500 crianças
e identificadas cerca de 170 em diferentes graus de desnutrição. Tais crianças estão sendo
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acompanhadas de forma potencial pela rede, onde as entidades complementam a assistência
prestada a elas com sistema de referência e contra-referência. Na área da educação foi
implantado o Programa Alfabetização Solidária para jovens e adultos do bairro, que já atendeu
aproximadamente 130 pessoas. Em relação ao Hábitat Urbano e Meio Ambiente foi feita uma
parceria com o projeto Manuelzão, que realiza atividades educativas com a comunidade. Para
os fóruns de Apoio ao Desenvolvimento Familiar e Social e o de Geração de Renda foram
elaboradas propostas para serem apresentadas durante a discussão do orçamento participativo,
mecanismo utilizado pela Prefeitura Municipal para estabelecer as prioridades na aplicação de
verbas na comunidade. Tais fóruns de discussão vêm acontecendo periodicamente com os
representantes das entidades, nos quais são reavaliados todos os processos e discutido os
próximos passos a serem implantados. Todas as ações tinham como princípios do método os
seguintes pontos: centralidade na pessoa humana: isto é, realizar projetos de desenvolvimento
tendo como ponto central a pessoa, o que significa antes de mais nada, compartilhar com ela as
necessidades, o sentido da vida e comover-se pelo seu destino pessoal; isso seria abstrato se ela
não fosse vista nas suas relações primárias — a família — e secundárias — a comunidade local,
a sociedade local, partir do positivo: considerando que cada pessoa, cada comunidade, mesmo
que pobre, representa uma riqueza e possui um patrimônio. Este princípio de método visa
valorizar e fortalecer aquilo que as pessoas têm construído, a sua história, as relações existentes,
o conjunto de experiências que constituem o seu patrimônio de vida. Fazer “com” — Fazer
Junto: seguindo os princípios de Paulo Freire (1987) que afirma que para se promover uma
educação transformadora deve-se partir do relacionamento com as pessoas às quais o projeto se
destina e construir na medida em que os passos amadurecem com estas. Desenvolvimento dos
corpos intermediários e subsidiariedade: ou seja, favorecer e desenvolver as possibilidades
de agregação, isto é, reconhecer, valorizar e favorecer a constituição de corpos sociais
intermediários e de um tecido social rico de participação e de co-responsabilidade. Parceria: a
parceria deriva da aplicação da subsidiariedade. Ter como ponto de partida um sujeito existente,
que envolve nas ações as administrações locais, as forças sociais, as instituições internacionais,
na cooperação, segundo os respectivos papeis, para responder à necessidade com a qual se
depara. A utilização deste método de trabalho permitiu a participação de vários cursos da uni-
versidade, promovendo integração entre os alunos/professores/comunidade, proporcionando
uma visão integral da realidade na qual a comunidade assistida estava inserida. Na área da saúde
houve uma intensa participação da Enfermagem, curso de origens dessas autoras. A inserção da
Enfermagem neste contexto se deu desde o início quando acompanhou todas as discussões,
promovendo a troca de experiências e despertando as instituições para os potenciais nelas
existentes. Esta ação culminou com a coordenação do curso de capacitação no qual a saúde é
discutida sob nova ótica, dentro da realidade vivenciada pelos atores, descobrindo junto com
estes o “patrimônio e o pertencer” de cada um para a efetiva promoção da saúde.
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Considerações finais
A formação de redes sociais vem se firmando cada vez mais como uma estratégia de
desenvolvimento sustentável. Por meio dessas entidades, instituições e movimentos vem se
fortificando, criando um sistema de referência e contra referência em relação as suas ações. No
decorrer da implantação deste trabalho, várias outras instituições aderiram à proposta e
“caíram” na rede. Somou-se à rede da saúde, as entidades ligadas à educação, potencializando,
assim, o binômio saúde-educação. A participação dos alunos ocorreu desde o início do processo,
sendo que estes desenvolveram ações efetivas em todas as fases, subsidiando um conhecimento
de planejamento e gerenciamento de todo o processo, bem como a possibilidade de desen-
volvimento de habilidades relativas à educação popular em saúde complementando a formação
deste, de forma criativa, com ação-reflexão-ação — criação. Todo o processo de supervisão
deste projeto de extensão se deu mediante da realização de reuniões semanais que compunham
um grupo de estudo sobre a educação popular, a programação das atividades e a confecção de
material didático a ser utilizado nos encontros. A elaboração/construção de material didático
utilizado durante as atividades serviu como instrumento de capacitação de novos monitores,
com objetivo de dar continuidade às ações ali implementadas. Tal projeto possibilitou a
discussão da saúde numa nova ótica, que Fernandes (2003) expressa como sendo o “conceito
de pessoa. [...] a pessoa se expressa nas relações a que pertence (família, comunidade, trabalho,
amizades) por meio de suas necessidades e recursos (patrimônio)”. Assim, as ações foram cons-
truídas dentro da realidade vivenciada pelos atores, descobrindo junto com estes o “patrimônio
e o pertencer” de cada um para a efetiva promoção da saúde, com uma visão ampliada do seu
conceito, segundo o qual esta passa a ser entendida como possibilidade de vida digna. Novos
desafios vêm surgindo com a implementação do trabalho, dentre eles destacam-se: a necessi-
dade de oferta de cursos que possibilitem a geração de renda dos atores daquela comunidade e
a implantação de cursos de pré-vestibular comunitário para adultos e adolescentes que
terminaram o segundo grau. Tais desafios justificam a necessidade da manutenção de projetos
de extensão como este, pois, além de possibilitar a integração ensino/pesquisa/extensão,
permite a promoção do desenvolvimento comunitário gerando benefícios para sociedade, sendo
este o propósito da PUC Minas que, desde a sua fundação, “priorizou a criação de mecanismos
de prática profissional, orientados segundo a ética cristã e padrões de qualidade destinados a
atender com competência e dignidade, as pessoas excluídas dos benefícios da sociedade”
(CASTRO, 2003), visando à formação de profissionais cidadãos dentro da sua realidade social,
buscando instrumentalizar os alunos para intervir nesta realidade, promovendo a melhoria da
qualidade de vida da população, compreendendo a educação como algo que ultrapassa o
conhecimento teórico-científico, mas que englobe a humanização e solidariedade, ampliando os
seus horizontes para além dos muros da universidade (ROSA, 2001). As ações desenvolvidas
pela equipe da Enfermagem vêm reforçar a importância das atividades de extensão como uma
estratégia de ensino, vinculando a formação acadêmica com o fazer cotidiano no enfrentamento
dos desafios que surgem a partir dos trabalhos comunitários. Tais atividades proporcionaram a
capacitação dos alunos enquanto educadores populares criativos e pró-ativos em relação às
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atividades desenvolvidas. Proporcionaram, ainda, a promoção de uma coesão dos atores
enquanto grupo, lutando por um objetivo comum, elevando a qualidade de vida daquela população
e subsidiando a construção de um processo de desenvolvimento humano e social, no qual talentos
individuais puderam ser colocados em prática para si mesmos e em apoio ao outro, proporcio-
nando, assim, a vida com dignidade e justiça social.
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(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Extensão universitária na Amazônia: ações socioeducativas de arte e cultura
nas comunidades ribeirinhas dos Municípios de Coari e Carauari – AM
Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves, Docente do Departamento de Serviço Social da
Universidade Federal do Amazonas. Mestre em Sociologia. Doutora em Política Científica e
Tecnológica. Coordenadora do Grupo Inter-Ação/DSS/UFAM
Célia Oliveira de Carvalho, Assistente Social. Mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia
Elane Cristina Lima da Silva, Assistente Social. Pós-graduanda em População e Desenvolvimento
Regional
Maria Auxiliadora, Assistente Social, especialista em Gestão e Organização das Políticas Sociais.
Mestranda em Ciências Florestais e Ambientais
Janaína Silva de Souza, Acadêmica do curso de Serviço Social da UFAM
Resumo
Neste trabalho relata-se a experiência de extensão universitária empreendida no Projeto
Estudo das Condições de Vida e das Formas de Uso dos Recursos nas Comunidades Ribeirinhas
e na Sede dos Municípios de Coari e Carauari – AM, financiado pela Petrobras e realizado pelo
Grupo Interdisciplinar de Estudos Socioambientais e de Desenvolvimento de Tecnologias
Apropriadas na Amazônia – Grupo Inter-Ação, do Departamento de Serviço Social da
Universidade Federal do Amazonas – UFAM. O objetivo deste trabalho será relatar o evento
de mobilização comunitária intitulado “A arte de ser cidadão”, realizado nas comunidades
ribeirinhas e nas sedes dos Municípios de Coari e Carauari/AM. Este visou identificar as
relações comunitárias no uso dos recursos locais, as condições de vida e de acesso aos serviços sociais,
a mobilização dos comunitários em busca de soluções para as problemáticas locais, cuja meta
foi a produção de subsídios para as políticas públicas na região. A metodologia do evento
pautou-se pelo desenvolvimento de um conjunto de ações socioeducativas de arte e cultura. O
resultado consolidou os propósitos didático-pedagógicos de: produção coletiva de conhecimentos,
formação de competência técnica para atuar na região, capacitação dos comunitários, imple-
mentação de campo de extensão e estágio universitário
.
Palavras-chave: extensão, políticas públicas, atividades socioeducativas
Introdução e objetivos
Na atualidade, os discursos inerentes à Amazônia ressaltam o enorme potencial da
região, seja como celeiro inesgotável de possibilidades de exploração de seus recursos naturais
— por sua diversidade sociocultural representada nas suas mais variadas etnias e segmentos
populacionais (índios, caboclos, pescadores, ribeirinhos, seringueiros, castanheiros e outros) —
seja pela grandeza de seu território, sua localização estratégica, a abundância de seus mananciais,
entre outros. Paralelamente a esse universo de riqueza e abundância emerge uma Amazônia
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oprimida por sucessivos planos e projetos econômicos, voltados a desenvolver e integrar a
região, que tem tratado historicamente as populações locais e os espaços de forma homogênea,
renegando as suas especificidades, ocasionando o agravamento das questões sociais na região,
sobretudo no que diz respeito às condições de acesso a bens e serviços sociais para os segmentos
empobrecidos da população. Portanto, na região amazônica complexos desafios se apresentam
para o desenvolvimento de projetos de extensão universitária, tais como: 1) a diversidade socio-
cultural das populações locais, sejam nativas ou migrantes; 2) a variabilidade de problemáticas,
lutas políticas pelo ordenamento territorial (reforma agrária, reforma aquática, demarcação de
terras indígenas, Unidades de Conservação, entre outras); 3) a precariedade e/ou ausência de
acesso aos bens e serviços sociais (saúde, educação, assistência social e técnica, entre outras)
para os segmentos empobrecidos da população; 4) os marcos geopolíticos regionais, a complexa
logística para deslocamento na hinterlândia amazônica. Nesse espaço de conflitos e con-
tradições, a instrumentalização e a organização sociopolítica dos agentes sociais locais tem se
tornado na atualidade uma importante estratégia de defesa dos interesses desses grupos, como
instrumento de luta e como possibilidade de acesso e conquista de direitos sociais básicos.
Partindo dessa perspectiva, os trabalhos de extensão desenvolvidos pelo Grupo Inter-Ação
visam à criação de canais de participação para os segmentos envolvidos, desencadeados a partir
do desenvolvimento de ações socioeducativas de apoio à organização e gestão comunitária que
possibilita arregimentação de forças sociais. Tendo em vista que a organização social é apoiada
pelo Grupo como um instrumento potencializador de conquista de cidadania mediante participação
e construção coletiva de alternativas e mecanismo de acesso a bens e serviços sociais. Deste
modo, a experiência de extensão universitária em comunidades isoladas e junto às populações
tradicionais na Amazônia, realizada pelo Grupo Inter-Ação, tem propiciado a consolidação de
um campo de extensão, pesquisa e estágio importante no processo de formação e capacitação
profissional, instituindo espaços de diálogo, sobretudo, na perspectiva de interdisciplinaridade
e por meio do reconhecimento e respeito às diversas formas do saber (tradicional & técnico). O
trabalho de extensão realizado junto a essas populações privilegia a interlocução entre os diversos
atores sociais envolvidos (universidade e agentes locais), com o intuito de estimular a partici-
pação, a cooperação e a consolidação do compromisso destes na construção e condução da
transformação da realidade local em direção a superação da exclusão social pela melhoria da
qualidade de vida via construção da cidadania. O trabalho foi inaugurado pelo desenvolvimento
da pesquisa-ação na qual buscou-se conhecer a realidade a partir da identificação da proble-
mática e das potencialidades locais, bem como as necessidades e interesses dos agentes sociais.
Os conhecimentos produzidos e a confiança conquistada junto às comunidades permitiram
estruturar as bases para a realização de ações socioeducativas no evento “Aarte de Ser Cidadão”
com as populações das comunidades ribeirinhas de Coari e Carauari. A referida experiência foi
seqüenciada em duas fases: a primeira já concluída (realizada entre abril/2003 e fevereiro/2004)
abrangeu o desenvolvimento da pesquisa-ação; a segunda implementada a partir de maio/2004
envolveu ações de extensão marcadas por ações afirmativas de cidadania. Os Municípios nos
quais as ações estão sendo implementadas estão assim caracterizados: o Município de Coari
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está localizado à margem direita do Lago de Coari, dista de Manaus, capital do Estado do
Amazonas, 363 km em linha reta e 463 km por via fluvial. Em relação aos aspectos demográ-
ficos, a população do Município, segundo o Censo/2000/IBGE, corresponde a 67.087
habitantes, sendo 39.474 (59%) na zona urbana e 27.613 (41%) na zona rural; o Município de
Carauari localiza-se ao Norte do Município de Juruá (Caitaú), ao sul do Município de Itamarati,
a Leste de Tefé e a Oeste de Jutaí. Sua área territorial é de 25.723,8 km_, com população de
aproximadamente 23.421 habitantes, sendo 16.876 na zona urbana e 6.545 na zona rural
(IBGE/2000).
Metodologia
O delineamento claro e preciso do instrumental técnico e dos procedimentos
metodológicos é essencial para a explicitar como se procedeu a efetivação dos objetivos
definidos no trabalho. O instrumental técnico-operativo constitui-se num conjunto articulado de
instrumentos e técnicas compatíveis para a viabilização e a operacionalização das atividades de
extensão. Assim, ao falarmos em instrumental não nos referimos ao instrumento ou à técnica,
mas a ambos de uma forma organicamente articulada. Todavia, cabe aos técnicos, docentes e
discentes utilizarem sua criatividade para dar direção no uso dos instrumentais. No trabalho
junto às populações locais a metodologia, de caráter participativo, permitiu articular ações
socioeducativas de arte e cultura no apoio a gestão comunitária e a discussão sobre o acesso a
bens e serviços sociais essenciais. Essa modalidade de metodologia criou condições favoráveis
para que os comunitários pudessem “produzir e dirigir os usos de seu saber a respeito de si
próprias (...) Participar da produção deste conhecimento e tomar posse dele” (BRANDÃO,
1990, p. 10-11). Aadoção da arte e cultura como elementos para o desenvolvimento de ações socio-
educativas junto aos agentes locais foi identificada neste trabalho como fator preponderante
para consecução dos propósitos didático-pedagógicos da equipe, partindo de uma perspectiva
de extensão ativa e participativa, numa associação fecunda entre práticas investigativas e inter-
ventivas enriquecidas pelo diálogo interdisciplinar. A realização dessas atividades deu-se em
conformidade com a metodologia de trabalho definida, que institui, mediante atividades
pedagógicas de intervenção um importante espaço de troca, haja vista que as mesmas não se
configuram somente como repasse de informações, mas como um processo dinâmico de
produção de conhecimentos de forma coletiva mediante a identificação das necessidades e
potencialidades, para o estabelecimento de estratégias e mecanismos de superação e transformação
do contexto local, possibilitando assim a apreensão de novas nuances dessa mesma realidade.
As ações socioeducativas realizadas nos Municípios de Coari e Carauari foram definidas a
partir das demandas apresentadas pelos agentes locais no levantamento socioeconômico, político,
cultural e ambiental que correspondeu ao primeiro momento da pesquisa-ação. Para isso
buscou-se realizar um evento em Coari e Carauari, ocorrendo em dois espaços socioculturais
distintos — nos bairros da sede e nas comunidades ribeirinhas dos mesmos Municípios. O evento
realizado nos bairros da sede do Município intitulou-se: A arte de ser cidadão. A escolha dos
bairros deu-se mediante a realidade de extrema carência socioeconômica e total ausência de
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infra-estrutura e de saneamento existente nessas áreas, ocasionando o agravamento da
problemática ambiental e da saúde coletiva, haja vista que os mesmos encontram-se localizados
em áreas alagadiças, nas proximidades de igarapés. Arealização do evento na sede do Município
tinha por objetivo propiciar uma ampla reflexão com os moradores locais sobre a problemática
da realidade vivenciada (social, econômica, política, ambiental e cultural), discutindo princi-
palmente questões como o acesso a bens e serviços sociais como preceito de cidadania. Para
isso foram desenvolvidas diversas atividades durante o evento, com conteúdo direcionado e
específico às diferentes faixas etárias do público-alvo (crianças, jovens e adultos).
Resultados e discussão
Para a realização das atividades do evento “A arte de ser cidadão” houve o apoio do
poder público local, por intermédio das Secretarias Municipais e da própria população, de
forma que as atividades do evento visaram propiciar um processo de discussão e interação entre
os diversos segmentos da sociedade local, mediante cursos, palestras e oficinas que aconteceram
de forma simultânea e articulada, nas quais foram debatidas, principalmente, as problemáticas
e as potencialidades locais. Deste modo, as atividades permitiram iniciar um processo de
mobilização, participação, organização política e fortalecimento da comunidade na luta por seus
direitos e busca de recursos. Dentre as atividades realizadas destaca-se: atividades com as
crianças (05 a 11 anos) — mediante desenvolvimento de atividades lúdicas foram trabalhadas
as seguintes temáticas: saúde, higiene pessoal/coletiva, meio ambiente/resíduos sólidos (lixo).
Tais atividades tinham por meta a ampliação das bases de conhecimento sobre a realidade local,
a partir dos saberes e da percepção das crianças; atividades com os adolescentes (12 a 16 anos)
— aplicação de técnicas de abordagem grupal para discutir questões sobre saúde, sexualidade
e meio ambiente. Novamente constituiu-se como meta a disseminação de agentes multipli-
cadores, suscitando uma reflexão sobre as condições de vida dos mesmos; atividades com os
adultos — dentre as atividades dimensionadas para o público adulto realizou-se atividades de
caráter socioeducativo para: a) fomento ao debate e troca de conhecimentos e informações
sobre a especificidade da realidade local e; b) atividades que além do potencial socioeducativo
pudessem configurar-se como alternativas geradoras de trabalho e renda para as famílias locais
— problemática esta detectada como uma das principais demandas existentes na área. Partindo
desse entendimento, foram oferecidos os seguintes cursos: Oficinas de artesanato: mediante de
cursos de confecção de bijuterias e de embalagem de presentes, a partir do aproveitamento e uso
de recursos naturais locais (sementes, resíduos de madeira/pó de serragem), e materiais
descartáveis (caixinhas de papelão, folhas de revistas); cursos de saúde, meio ambiente e
cidadania: teve por objetivo propiciar uma reflexão crítico-pedagógica sobre direitos e deveres
como prerrogativa da consolidação da cidadania e como possibilidade de acesso a bens e
serviços sociais essenciais (saúde, educação, energia), assim como contribuir na formação de
agentes promotores e sensíveis à mudança de atitudes, interesses e valores na sociedade, via
participação, bem como a formação de agentes multiplicadores. Além das atividades realizadas
na sede dos Municípios, buscou-se estabelecer uma programação voltada às demandas e áreas
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de interesse específico das comunidades, consolidando na realização da I Oficina de
Organização Comunitária. Como já fora ressaltado anteriormente, a escolha da temática a ser
discutida levou em consideração as demandas postas pelos comunitários, que indicaram a
necessidade de se capacitarem para organização comunitária por perceberem que os problemas
vivenciados muitas vezes poderiam ser solucionados via mobilização da comunidade e medi-
ante o desejo de se organizarem formando e/ou fortalecendo a associação comunitária existente.
Ao longo dos trabalhos desenvolvidos durante a oficina buscou-se trabalhar a concepção de orga-
nização comunitária a partir do conhecimento e entendimento dos grupos sobre esta temática,
assim como estabelecer uma dinâmica de incorporar novos saberes, a fim de propiciar a
reflexão sobre a importância da participação e da organização sociopolítica como mecanismo
de defesa de interesses coletivos e como possibilidade de acesso a bens e serviços sociais. Para
além das atividades previstas para os adultos na comunidade, realizou-se um trabalho socioe-
ducativo com os adolescentes, com técnicas de abordagem grupal (dinâmicas de grupo) relativas
ao papel que exercem no âmbito de seu grupo doméstico. Foram desenvolvidas atividades com
as crianças objetivando trabalhar o tema proposto, com um enfoque diferenciado e voltado ao
público infantil sobre o uso dos recursos naturais e a percepção sobre a realidade local. A
divisão do trabalho do grupo doméstico nas atividades produtivas está condicionada, principal-
mente — não exclusivamente — pela distribuição de papéis na família e do número de membros
pertencentes à unidade doméstica-familiar. Fato que aponta para as diferenças funcionais da
condição feminina ou masculina junto às famílias. Os homens se engajam de forma diferente
no controle dos recursos materiais na família e na comunidade, nos espaços de intercâmbio
sociocultural, ou seja, em relação ao exercício do poder, da autonomia e da gestão das ativi-
dades, na dinâmica que se efetiva no interior da unidade produtiva e da face que os grupos
domésticos apresentam no exterior. As atividades realizadas proporcionaram a capacitação para
geração de emprego e renda para os participantes das atividades. Predomina uma certa contro-
vérsia entre os autores sobre a criação de novas oportunidades de emprego nos Municípios da
região e, principalmente, no meio rural. Tais possibilidades aparecem como criação de novas
oportunidades para a força de trabalho em atividades produtivas e a geração de empregos na
utilização de rejeitos, sementes, cascas e produtos locais com a incorporação de valor aos
produtos beneficiados. A questão da geração do emprego não pode ser debatida fora da con-
sideração das relações de produção locais, das alternativas locais, dos saberes e das habilidades
dos agentes sociais, daí que as atividades formativas oferecidas no trabalho foram centradas nos
saberes locais e nos recursos naturais existentes. No caso da pequena produção, novos empregos
se geram pela criação de novas atividades relativas ao beneficiamento da produção, da confecção
de artesanato ou da necessidade de mão-de-obra especializada para operar equipamentos.
Enquanto para o produtor de grande e médio porte o acesso a energia pode gerar a troca de
equipamentos mais modernos e a substituição de mão-de-obra, gerando desemprego no campo.
Aexperiência em foco possibilitou ao Grupo Inter-Ação consolidar um campo de extensão,
pesquisa e estágio profissional dos acadêmicos do curso de Serviço Social da Universidade
Federal do Amazonas e da Faculdade privada Uninorte, com vistas a instrumentalização dos
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agentes sociais envolvidos na busca de alternativas e de acesso a bens e serviços sociais e na
formulação de subsídios para as políticas públicas na região. É de suma importância ressaltar
que, especialmente no meio rural, a limitação na viabilização de políticas públicas (pre-
cariedade ou ausência de serviços) contribui para o agravamento da condição de carência e de
empobrecimento dos comunitários ribeirinhos. Este quadro pode ser alterado por meio de progra-
mas integrados que tratem das questões sociais, econômicas e ecológicas que visem, acima de
tudo, a melhoria da qualidade de vida das populações que vivem ao longo dos rios da Amazônia,
proporcionando às comunidades alternativas de produção de renda. O compromisso básico, implícito
nesta proposta, é de atuar em conjunto com os agentes locais, em busca do desenvolvimento
social dos Municípios, na busca de soluções viáveis e coerentes às necessidades existentes.
Outrossim, busca-se, também, a divulgação das informações sobre as referidas populações, suas
necessidades, objetivos e interesses, junto à comunidade acadêmica, aos agentes e aos órgãos
envolvidos. A reprodução social destas populações mesmo em face da extensa pobreza material
se edifica sobre a rica trama do ordenamento sociocultural da gestão participativa comunitária.
No que diz respeito à dependência de recursos naturais disponíveis localmente, a convivência
com os habitantes locais, a proximidade da floresta os torna usuários e aprendizes e, ao mesmo
tempo, mestres, pois adaptam formas novas de uso na coleta, no cultivo, na produção. Estes
agentes configuram-se como aprendizes habilidosos que também ensinam suscitando benefícios
aos demais comunitários em termos de aprendizagem de técnicas novas. Neste contexto particular,
a relação homem-natureza, mediada pela cultura, representa a própria síntese do conhecimento
que a sociedade humana assimila sobre o seu meio e sobre suas inter-relações com ele. O envolvi-
mento e a transformação de homens e mulheres, bem como da natureza circundante, frente a
frente às exigências do seu próprio desenvolvimento expressa uma fecunda relação. Portanto, a
relação que os agentes sociais estabelecem no plano da realidade específica, na relação homem-
natureza e na produção dos bens materiais, são tramas de relações extremamente complexas no
interior da sociedade e de seus próprios grupos. A vinculação de suas vidas e atividades produ-
tivas com as esferas externas ao seu contexto demarcam vínculos que imprimem ritmos diferentes
dos tradicionais à relação com a natureza e no interior do grupo. Morán (1990) destaca que ao
longo da existência histórica “as populações indígenas e caboclas da Amazônia têm-se adaptado
ao meio ambiente físico amazônico e às forças externas da sociedade colonial e nacional. Os
graus de adaptação ao meio ambiente amazônico que cada uma tem atingido num momento
dado varia, em função das forças históricas, sociais e político-econômicas que os têm influen-
ciado. O manejo de algumas sociedades estará menos acoplado ao ambiente físico do que ao
ambiente econômico da sociedade brasileira, enquanto que outras terão práticas sofisticadas de
manejo ambiental desenvolvidas gradativamente” (p. 26). A história das teorias que abordam a
relação do homem com a natureza no mundo ocidental tem seguido três tendências básicas: 1)
a ênfase ao papel determinante do meio ambiente sobre o desenvolvimento da sociedade; 2) a
ênfase no papel dominante da dimensão cultural sobre o ambiente físico; 3) o entendimento de
que a predominância de um elemento ou outro não está pré-determinada, depende de cada
situação particular e complexa.
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Conclusões
Ao longo da história pode-se perceber que a orientação das políticas públicas impostas
à região amazônica esteve quase sempre associada a interesses econômicos de grupos
hegemônicos nacionais e internacionais, visando atender à crescente demanda por matéria-
prima do mercado mundial e a inseri-la no contexto e circuito do capital. Tal orientação das
políticas impôs às populações locais profundas alterações no modo de vida e nas formas de
organização sociopolítico e cultural. Partindo desse entendimento, o trabalho junto a esses
grupos sociais, por meio da extensão universitária, deve ser compreendido como um processo
dinâmico de aprendizado, orientado por princípios metodológicos participativos de estímulo à
cooperação, ao compromisso ético-político e à solidariedade entre os envolvidos. Tendo em
vista que esses grupos sociais, de modo propositivo, têm buscado criar estratégias de organiza-
ção, o apoio a estas iniciativas pode contribuir com os esforços para o estabelecimento de novos
mecanismos de enfrentamento e alternativas de defesa dos interesses coletivos e de direitos
sociais frente às necessidades vigentes. As atividades realizadas no decorrer do projeto tiveram
por objetivo a ampliação das bases de conhecimento sobre a realidade socioeconômica,
política, cultural e ambiental das populações estudadas visando produzir subsídios, mediante
instrumentalização e capacitação dos grupos, na busca por soluções às necessidades e demandas
sentidas.
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•Programa de alfabetização e formação profissional no Vale do Jequitinhonha
Maria das Dores Pimentel Nogueira, Pró-Reitora Adjunta de Extensão. Mestre em Educação –
FaE/UFMG
Gladys Rocha, Professora da Faculdade de Educação FaE. Doutora em Educação – FaE/UFMG
Roberto Nascimento Rodrigues, Professor da Faculdade de Ciências Econômicas, Cedeplar. PHD
em Demografia pela Australian National University
Resumo
O Programa de Alfabetização e Formação Profissional no Vale do Jequitinhonha tem
como objetivos: (a) contribuir para a formação de alfabetizadores de jovens e adultos e diag-
nosticar particularidades dos contextos em que os alunos estão inseridos, sobretudo disponibilizar
material didático para o trabalho nessa modalidade e (b) elaborar diagnósticos de perspectivas
de desenvolvimento regional. Esta proposta de trabalho, vinculada ao Programa Pólo de
Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha, constitui, assim, mais uma ação comprometida
com o desenvolvimento regional de Municípios carentes do Estado de Minas Gerais, contextos
no quais a Universidade Federal de Minas Gerais vem atuando desde 1997. Em relação à
alfabetização, leitura e escrita, considera-se os pressupostos do letramento e suas relações com a
alfabetização. Em relação ao diagnóstico, um dos eixos estruturadores é a apreensão de per-
cepções de sujeitos das comunidades investigadas. Pretende-se contribuir para a formação de
alfabetizadores mediante divulgação e discussão de materiais didáticos e de práticas pedagógicas;
elaborar e publicar um diagnóstico regional que possa subsidiar o desenho de potencialidades
regionais de inserção de jovens e adultos em atividades produtivas
.
Palavras-chave: desenvolvimento regional, alfabetização, geração de emprego e renda
Introdução e objetivos
A Universidade Federal de Minas Gerais, como instituição pública comprometida com
os problemas da maioria da população, e não apenas com aqueles que têm acesso direto a seus
cursos de graduação e pós-graduação, tem grande tradição na extensão universitária. Nesse con-
texto, o Programa de Alfabetização e Formação Profissional no Vale do Jequitinhonha – PAFP
integra uma ação mais ampla e consolidada na região Nordeste do Estado de Minas Gerais, o
Programa Pólo de Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha, por meio do qual a
Universidade reafirma sua presença em uma das regiões mais carentes do Estado de Minas
Gerais. O Programa iniciou suas atividades em 1997 e consolidou-se como promotor e indutor
de ações de desenvolvimento regional no Vale. Sua área de atuação tem como eixo a bacia do
Rio Jequitinhonha e abrange as regiões do Alto, Médio e Baixo Vale do Jequitinhonha. As ações
integram-se nas áreas de Educação, Desenvolvimento Regional e Geração de Ocupação e
Renda, Saúde, Meio Ambiente e Cultura.
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A UFMG tem, com esse Programa, a oportunidade de ampliar e aprofundar sua atuação
consolidando sua presença na região mediante efetiva contribuição para a construção de pro-
jeto de desenvolvimento regional.
Atuar nessa região é uma decisão política da instituição em função de seu compromisso
social como universidade pública empenhada na busca de soluções para os problemas da
maioria da população. Como decorrência disso coloca-se a necessidade de ampliar as possi-
bilidades de a população participar ativamente da busca de superação de formas de exclusão e
de marginalização que a mantém, muitas vezes, alheia ao exercício de seus direitos.
O Programa busca apreender a realidade em sua totalidade. A interdisciplinaridade
ocorre com a realização de atividades acadêmicas que integram diferentes áreas do conheci-
mento. Procura-se superar a visão compartimentada da realidade ao tornar possível a atuação
conjunta de alunos, professores e técnicos de áreas distintas sobre uma mesma realidade. O
espaço de aprendizagem é ampliado da sala de aula tradicional para uma perspectiva mais
abrangente, considerando, como possibilidade de conhecimento, todo espaço onde se realiza o
processo histórico e social.
O Pólo Jequitinhonha não procura substituir os legítimos sujeitos do processo, a
sociedade regional, valorizada, consciente de sua força. Busca, sim, subsidiar algumas destas
comunidades com o conhecimento e as técnicas que a Universidade detém.
Para possibilitar a integração e articulação das várias ações e vertentes que compõem o
Programa, o Pólo Jequitinhonha conta com uma Coordenação Executiva. Uma das atribuições
dessa Coordenação é promover e garantir fluidez e interdisciplinaridade que possibilitem uma
contribuição efetiva na busca do desenvolvimento do Vale do Jequitinhonha. A Coordenação
Executiva cuida, também, de promover uma discussão e construção conjunta entre a equipe da
UFMG e a população do Vale.
Em consonância com a concepção específica do Programa, mas sem perder de vista sua
inserção no Pólo Jequitinhonha, foram estabelecidos alguns objetivos centrais, ou gerais, secun-
dados por um conjunto de objetivos específicos. Sucintamente, eles podem ser descritos da
seguinte forma:
atender a demandas de alfabetização de pessoas jovens e adultas de comunidades rurais
e/ou urbanas do Município de Araçuaí, Chapada do Norte, Francisco Badaró, Itinga,
Jenipapo de Minas e Novo Cruzeiro, todos integrantes do Estado de Minas Gerais e
pertencentes ao Vale do Jequitinhonha, mediante socialização de materiais didáticos
adequados ao público e às especificidades do processo de alfabetização;
contribuir para a composição de um quadro de profissionais com compreensão mais
ampla da alfabetização e de suas particularidades tendo em vista o aluno da educação de
jovens e adultos (EJA);
elaborar um diagnóstico socioeconômico da área de estudo, e do seu entorno, capaz de
subsidiar o desenho de planos municipais de alfabetização que contemplem, além da EJA,
educação continuada visando à qualificação profissional, tendo em vista as possibili-
dades concretas de inserção da população em atividades produtivas regionais e locais;
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com base nos resultados anteriores, estabelecer as diretrizes para uma segunda etapa do
Programa, centrado, a um só tempo, na ampliação das atividades de EJAnos Municípios
atendidos e a outros Municípios da região e na implementação de educação continuada.
Essa formação continuada estará direcionada para a continuidade do processo de alfa-
betização e ampliação de habilidades de leitura e de escrita e para a qualificação profis-
sional, visando à inserção dessa população em atividades produtivas locais e regionais;
constituir uma referência para os esforços no campo da alfabetização, leitura e escrita de
jovens e adultos, por meio da produção e divulgação de materiais didáticos;
realizar seminário de discussão de planos municipais de alfabetização, com vistas a seu
aprimoramento, com base nas sugestões das comunidades locais, assim como objetivando
a aplicação da metodologia a outros universos territoriais;
realizar reuniões periódicas com Prefeitos Municipais, Secretários de Educação e
Planejamento e profissionais da área da educação para discutir o Programa, informar
sobre o andamento das atividades e envolvê-los na avaliação e redimensionamento da
proposta.
Metodologia
Orienta esta proposta de trabalho a concepção de que o processo de alfabetização deve
constituir-se visando ao letramento. Tendo em vista o caráter polissêmico que têm assumido
esses termos, cabe destacar o que se está entendendo por alfabetização e por letramento. A
alfabetização é concebida, aqui, como a apropriação das habilidades iniciais de leitura e de
escrita, a aquisição da “tecnologia da leitura e da escrita”. O letramento, por sua vez, é entendido
como o “estado de uma pessoa que sabe fazer uso da leitura e da escrita como práticas sociais
mediadas pelo por quê, para quê, como e em que situações essas práticas se constituem”
(SOARES, 1998). O letramento diz respeito à interação que o sujeito estabelece com a leitura
e com a escrita tanto do ponto de vista do acesso que ele tem a essas práticas sociais quanto ao
modo como a interação ocorre — ao que o sujeito faz com a leitura e com a escrita e ao que
essas práticas “fazem” com ele.
Assim, pode-se dizer que há profundas relações entre alfabetização e letramento já que
não se deve perder de vista, no trabalho em torno da apropriação da alfabetização que, o ler e o
escrever constituem práticas sociais cujas dimensões, significados, objetivos, regularidades e
particularidades devem ser considerados no fazer pedagógico.
Há que se observar, no entanto, que sem desconsiderar as expectativas do sujeito aluno
da EJA, a finalidade não é, por um lado, mitificar o poder da escrita atribuindo a ela um falso
poder na transformação das condições objetivas de vida do sujeito ou estabelecendo relações
simplistas entre alfabetização e cidadania. Também não é, por outro lado, buscar no conceito de
letramento um modo de justificar o processo de exclusão, a partir da argumentação de que,
embora não saiba ler e escrever, o sujeito tem seus modos de lidar com isso e, portanto, esse
processo não traria maiores prejuízos. É importante considerar, nesse caso, que o indivíduo tem
direito de acesso a esse conhecimento e que o objetivo é, sem superdimensionar as possibili-
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dades decorrentes da apropriação desse conhecimento, criar condições para que o sujeito tenha,
na leitura ou na escrita mediada pelo outro, não a possibilidade de interação com o texto escrito,
mas uma opção.
Não se pode perder de vista, como afirma Ginzburg (1987) que “não há neutralidade
nem inocência nos instrumentos lingüístico-conceituais colocados à disposição dos indivíduos”.
Aliás, há que se destacar que o próprio acesso a esse instrumento é muito circunscrito, como já
foi mencionado, às condições materiais de existência do sujeito. Condições que restringem o
conjunto de eventos de letramento (aqui denominado contexto de letramento) ao qual o sujeito
tem acesso e que acabam por ter papel significativo no modo por meio do qual ele interage e se
comporta em dado evento de letramento, assim como no modo como “pratica” a leitura e a
escrita. [O termo eventos de letramento é aqui entendido com o sentido que lhe é atribuído por
Heath (1982, p. 93), citada por Soares (2003), como as situações em que a língua escrita
constitui-se, para o sujeito, na interação, quer se trate de uma interação autônoma, individual,
em que o sujeito interage com o texto escrito, quer se trate de uma interação mediada, em que
o (s) sujeito(s) participe(m) de uma interação oral mediada por um texto escrito].
Por outro lado, o Programa proposto é parte integrante da política de desenvolvimento
socioeconômico do Vale, o que demanda a articulação dos principais atores, e seus projetos, em
torno de uma linha comum de trabalho. Busca-se, também, criar novas bases, de forma a dar
mais fôlego a essas ações e, assim, gerar maior eficiência. Daí a preocupação em conceber um
Programa que traga, intrinsecamente, a perspectiva de continuidade não apenas no que diz
respeito à sua aplicabilidade em outras áreas ou regiões, mas também no que se refere à efetiva
inserção da população alfabetizada e/ou em processo de alfabetização em atividades produtivas
que lhes permitam, a um só tempo, sedimentar e aplicar os conhecimentos adquiridos, e
garantir a mobilidade social que a educação enseja. Um passo importante nessa direção
constitui-se na inserção dessa população em atividades de educação continuada, visando a uma
qualificação profissional adequada à realidade regional e local.
A qualificação profissional por si mesma não é um passaporte seguro para o emprego,
mas é sua pré-condição cada vez mais obrigatória. O desafio aqui é o da constituição de bases
sólidas para a elaboração de um programa de qualificação profissional como direito, isto é, uni-
versal, gratuito, de qualidade e formador de uma cidadania crítica. O programa de qualificação
profissional deverá estar integrado ao da educação básica de jovens e adultos para potenciar as
condições técnico-formais de acesso ao emprego e sucesso no trabalho. Também deverá se
pautar num conhecimento mais científico dos diferentes atributos do mercado de trabalho no
Vale e seu entorno, de modo a maximizar oportunidades de emprego.
Para isso, faz-se necessário elaborar, para a área de abrangência dos Municípios
contemplados no Programa, e seu entorno, um diagnóstico socioeconômico concebido com
base na interação e percepção dos diversos segmentos que compõem a população da região,
procurando implementar uma abordagem que busca integrar metodologias quantitativas e
qualitativas. Uma das motivações para a implementação de abordagem que busca integrar essas
duas metodologias no âmbito do desenvolvimento do Programa enraíza-se na necessidade de
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descrever a realidade do Vale do Jequitinhonha e dos determinantes dos seus diversos proces-
sos e fluxos migratórios a partir de uma integração de aspectos macro e micro desta realidade.
Os aspectos macro, focalizados com base em dados secundários, determinam a interação
da economia do Vale com a economia mineira e brasileira, assim como determinam as institu-
ições de dominação e controle do Vale que bloqueiam o processo de desenvolvimento da região.
Os aspectos micro, cuja avaliação ancora-se em dados primários, de cunho qualitativo, referem-
se às estratégias de vida das famílias, que englobam aspectos demográficos (migração, fecun-
didade e mortalidade), a produção agrícola familiar, e as perspectivas dos indivíduos atuarem
como agentes sociais de transformação da realidade, individualmente ou em entidades como os
sindicatos, associações de classe e as comunidades de base. Entrevistas em profundidade,
estruturadas e semi-estruturadas, grupos focais, e fóruns de discussão, são alguns exemplos de
fontes de dados de natureza qualitativa a serem explorados na execução do Programa.
Pode-se afirmar que a inserção e investimento da Universidade nesse Programa
representam não apenas uma forma de democratização do ensino, mas, também, de ampliação
e/ou afirmação de seu compromisso social, do ponto de vista da formação docente e da
produção de materiais didáticos, da constituição de oportunidades de alfabetização de jovens e
adultos, área na qual desde 1985 a UFMG vem atuando — nos últimos quatro anos, além da
atuação em Belo Horizonte, também em turmas das zonas rural e urbana de Município do Vale
do Jequitinhonha —, e da perspectiva de proposição e implementação de educação continuada,
no âmbito da qualificação profissional, com base no perfil produtivo regional e local. Essa
assertiva baseia-se, por um lado, na importância de sujeitos envolvidos com a área de educação
refletirem sobre aspectos inerentes à apropriação da leitura e da escrita no contexto da sala de
aula, sobretudo no campo da educação de jovens e adultos em que as oportunidades de
formação são restritas; e, por outro lado, no papel e o significado do domínio de habilidades
de leitura e de escrita e da constituição de oportunidades de “ensino” para pessoas que foram
excluídas do processo regular de escolarização,
É preciso observar, também, o significado, para os Municípios envolvidos, da ampliação
das possibilidades de atuação de seus alfabetizadores, visto que essa constitui uma área, ainda
no atual momento histórico, pouco contemplada pela maioria dos cursos de formação de pro-
fessores e os constantes fracassos na alfabetização remetem, entre outras variáveis, à necessidade
de romper com a visão muito recorrente nesse campo, notadamente quando se trata de público
de EJA, de que qualquer sujeito, desde que imbuído de boa vontade, é capaz de ensinar a outro,
as habilidades necessárias ao exercício das práticas de leitura e de escrita.
O trabalho com alfabetização, leitura e escrita em educação de jovens e adultos coloca a
necessidade de uma abordagem teórico-metodológica que problematize a prática de ensino da
leitura e da escrita e as especificidades da EJA. Nessa perspectiva, as atividades a serem desen-
volvidas na/através da linguagem (oral ou escrita) terão, como eixo norteador, a importância de
conceber os adultos sem ou com pouca escolarização como sujeitos cognoscentes, social e
historicamente constituídos, com recursos e estratégias próprias para interagir na sociedade
letrada. Sociedade na e/a partir da qual o analfabetismo ainda é freqüentemente interpretado
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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como expressão de uma dificuldade, de um problema ou mesmo de preguiça por parte do sujeito
analfabeto e não como decorrência de suas condições materiais de existência, que acabam por
circunscrever tanto o acesso à aprendizagem do ler e do escrever – eminentemente escolar –,
quanto o acesso aos diferentes portadores de textos em que a leitura e a escrita circulam.
Essa premissa indicia a importância da produção de material didático que possa con-
tribuir, tanto nos Municípios envolvidos quanto em outros contextos, para a construção e ampliação
de práticas de alfabetização em EJA, já que a transposição didática não só de atividades e/ou
textos próprios da alfabetização infantil constitui, entre outras, uma questão relevante no
que diz respeito à permanência do aluno em turmas de EJA. Acrescente-se a essa questão a difi-
culdade de construção de um fazer docente que considere as práticas sociais que se constituem
em torno da leitura e da escrita numa sociedade letrada – seus diferentes usos, portadores,
funções, significados, finalidades...
Como se trata de um Programa ainda em construção, alguns dos propósitos evidenciados
a seguir, dadas as condições objetivas de trabalho, foram redimensionados. Entretanto, tendo
em vista suas finalidades e eixo estruturador, a produção e socialização de material didático,
elaboração de diagnóstico e socialização das atividades desenvolvidas mediante seminários e
reuniões, expressos nos objetivos, permanecem como núcleos centrais da proposta:
A produção de material didático para jovens e adultos justifica-se na medida em que,
além de quantitativamente pouco expressiva, seja ainda mais restrita no âmbito da alfabetização.
Observe-se, também, que os didáticos para alfabetização em EJA raramente contemplam os
pressupostos do letramento e/ou dirigem-se a leitores-alunos inseridos em contextos urbanos ou
rurais onde o acesso ao material impresso é restrito. O escasso material de qualidade atualmente
disponível tem caráter eminentemente de grandes centros urbanos. Finalmente, há que se
acrescentar o caráter multiplicador que pode vir a ter esse “material de referência” quando
socializado em contextos inicialmente não integrantes desta proposta.
A socialização desse material constituirá atividades de formação na medida em que,
referenciado nas necessidades locais e em observações de aulas, o produto será socializado a
partir de interlocuções com os alfabetizadores.
Será feito um delineamento das potencialidades da região, de pontos de estrangulamento
que dificultam a exploração de tais potencialidades, as condições de vida da população, e as for-
mas específicas de organização da sociedade no Vale, com vistas à elaboração de diagnósticos
e perspectivas de desenvolvimento regional. Esses diagnósticos serão cotejados não apenas por
meio da leitura e análise de dados globais, secundários, mas também, e principalmente, com
base na percepção dos próprios moradores da região. Com isso, busca-se adequar ações e
planejamento, visando ao desenvolvimento regional, de dentro da região, e com a participação
da população da região, em todas as etapas desse processo, isto é, desde a concepção e gestão
até a efetiva integração nas atividades indutoras de desenvolvimento local. Isso certamente
passa pelo investimento na formação de recursos humanos da região, tanto no contexto da
alfabetização quanto no plano da gestão administrativa, o que exige a integração da pesquisa,
ensino e extensão, exatamente os desafios inovadores de participação interativa da UFMG
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no âmbito do Programa. Estrategicamente, a idéia é gerar condições para que se possa
aproveitar o patrimônio humano e institucional do Vale, para somar forças e, assim, criar um
ambiente técnico, educacional e logístico, que opere de forma articulada, para facilitar a
indução à atividade econômica formal. É assim que se pretende garantir renda a quem dela
necessita, pois se acredita que o desenvolvimento econômico de uma cidade só adquire sentido
se ele incorporar, em seus vários circuitos, a capacidade produtiva de toda a população.
Serão realizados estudos com a finalidade de identificar os contextos de letramento
disponíveis nas comunidades, visando tanto à sua inter-relação com o fazer docente bem como
à sua ampliação, já que não se pode negligenciar o fato de que há estrita relação entre o tipo de
letramento de um indivíduo ou de um grupo e o contexto de letramento, ou seja, o conjunto de
eventos de letramento a que se tem acesso. Há, nessa perspectiva que se considerar, simultanea-
mente, tanto a necessidade de garantia de acesso ao direito de apropriação ao ler e ao escrever
quanto ao que ler e ao que escrever.
A execução do Programa envolve a participação efetiva dos coordenadores, bem como
de estagiários da graduação e da pós-graduação da Universidade, além de bolsistas locais.
Resultados esperados
Pretende-se, além da ampliação das possibilidades de atuação dos alfabetizadores, a
socialização do trabalho desenvolvido nos Municípios, a disponibilização, ao longo e/ou ao
final do processo, dos seguintes produtos:
relatório qualitativo com diagnóstico dos conhecimentos prévios do grupo de alunos dos
seis Municípios em relação à leitura e à escrita;
construção de um perfil do aluno da EJA das turmas, evidenciando convergências nas
trajetórias, condições de vida, entre outros;
identificação, por amostragem, dos contextos de letramento em que os sujeitos estão
inseridos;
• elaboração, teste, publicação e divulgação de material didático para EJA;
elaboração e publicação de diagnóstico regional para subsidiar o desenho de planos de
alfabetização municipal que contemplem, além da EJA, educação continuada baseada
em qualificação profissional, levando-se em consideração as potencialidades econômicas
regionais e locais que permitam a inserção de jovens e adultos em atividades produtivas;
•realização de seminário de discussão das propostas dos planos municipais de alfabetização.
A proposta específica de avaliação do Programa de Alfabetização e Formação
Profissional no Vale do Jequitinhonha é eminentemente processual, já que tanto durante a pro-
dução do diagnóstico quanto do acompanhamento e orientação de atividades docentes com foco
em alfabetização e letramento, os dados obtidos serão constantemente utilizados visando ao
aprimoramento do movimento empreendido nesses procedimentos. O mesmo se pode dizer em
relação ao material didático, que além de produzido para e com sujeitos envolvidos no processo
ensino-aprendizagem será utilizado e discutido, visando à sua ampliação/adequação.
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•Programa Trilhas Potiguares
Rita de Cássia da Conceição Gomes, Coordenadora do Programa. Doutora
Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN
Resumo
Trata-se de um trabalho desenvolvido em seis Municípios do Rio Grande do Norte que
tem por objetivo desenvolver atividades junto às parcelas mais carentes da população. Tem como
missão propor novas formas de aplicação do conhecimento gerado na universidade, tendo por
base os princípios da participação, da ética e da cidadania. O Programa Trilhas associa o
máximo de qualificação acadêmica com o máximo de compromisso social. As ações propostas
buscam estabelecer uma rica interlocução entre universidade e sociedade, resultando em fecundo
e infindável processo de mudanças recíprocas e de sociabilidades, que privilegia o diálogo entre
os diferentes saberes na luta constante pela conquista de uma vida digna em todos os aspectos do
desenvolvimento humano. Este trabalho já foi desenvolvido em outros Municípios cujos resul-
tados foram bastante satisfatórios, nas diversas áreas como: educação, saúde, meio ambiente,
cooperativismo dentre outros. As atividades são realizadas sob a coordenação de um professor e
a participação de alunos dos diversos cursos da UFRN. As atividades desenvolvidas são: oficinas,
atividades de lazer e cultura, palestras, minicursos, treinamentos. Embora o trabalho ainda
esteja em andamento, alguns resultados devem ser destacados: formação de bibliotecas, elabo-
ração de diagnósticos etc. Podemos concluir que atividades dessa natureza são fundamentais no
processo de construção da cidadania.
Palavras-chave: educação, cidadania, desenvolvimento humano
Introdução e objetivos
O Programa Trilhas Potiguares foi criado com o sentido de estabelecer a discussão,
romper com preconceitos estabelecidos e se inserir de forma definitiva nos estudos para a
formulação de alternativas viáveis para os mais urgentes problemas da região em que se insere.
Dessa maneira, “à luz do somatório de experiências vivenciadas, acumuladas ou desejadas pelas
comunidades”, no âmbito dos mais diversos prismas do conhecimento, foi tecido um processo
de intercâmbio acadêmico-científico e social, envolvendo, de um lado a comunidade acadêmica e
de outro as próprias comunidades.
Nos seus oito anos de atuação no Rio Grande do Norte, o Programa tem buscado caminhos
que permitam uma maior interface entre pesquisa, ensino e sociedade, por meio do fortalecimento
de sua dimensão propositiva, incremento de sua inserção social e aumento de sua articulação no
espaço local e global.
Um dos princípios necessários à renovação da universidade é a qualidade da formação
profissional, tanto no que diz respeito ao conteúdo específico de cada curso (qualidade formal),
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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quanto ao envolvimento crítico com os problemas da sociedade (qualidade social). Nesse sen-
tido, o Programa tem reafirmado sua participação no processo de retomada do conhecimento
crítico e participativo sobre os desafios que se apresentam, ao experimentar novas formas de
construção do conhecimento, orientadas pela reflexão-ação-recriação, possibilitando a reforma
do pensamento e a construção de novas interações, democráticas e horizontais, entre a univer-
sidade e os diversos atores da sociedade, seus parceiros.
Tendo como referencial os princípios da participação, da ética e da cidadania, são obje-
tivos da proposta:
Gerais
Colaborar com o processo de formação para a cidadania, associando o máximo de quali-
ficação acadêmica com o máximo de compromisso social dos professores e alunos envolvidos,
mediante efetiva interação entre o saber acadêmico, o saber da tradição e o saber popular.
Integrar ações de ensino, pesquisa e extensão na perspectiva de uma efetiva interação
com os diversos atores sociais envolvidos nas comunidades, no sentido de promover o
empoderamento dos mesmos para a superação da sua condição de exclusão.
Específicos
Oportunizar uma profunda compreensão da realidade existente, por meio de pesquisas
de campo, diagnósticos e levantamentos; para o desenvolvimento de novas perspectivas locais.
Incentivar o desenvolvimento de práticas profissionais de forma cooperativa e interdis-
ciplinar em situações concretas de demandas da população.Oportunizar o acesso ao
conhecimento e à informação a grupos populacionais que se encontram alijados do processo
de participação e controle social.
Apoiar, acompanhar e assessorar projetos comunitários em desenvolvimento que se
coadunem com os princípios e objetivos do Programa.
Promover desenvolvimento de atividades artísticas, culturais e de resgate da memória local.
Possibilitar a troca de saberes e a reflexão conjunta entre as Universidades e a comu-
nidade de modo que todas as iniciativas realizadas se constituam num processo pedagógico de
formação de agentes multiplicadores das ações desenvolvidas pelo Programa.
Metodologia
A proposta desenvolver-se-á em duas fases distintas. No primeiro momento são
definidos os Municípios de atuação, selecionados os alunos, formadas e capacitadas as equipes.
Esta etapa já foi iniciada desde o mês de maio e encontra-se na etapa de capacitação dos alunos,
quando são parametrizados os conceitos (ética, cidadania, participação, desenvolvimento, etc.),
discutidos os princípios e socializada a metodologia das ações do Programa Trilhas Potiguares.
São oferecidas, ainda, oficinas em diversas áreas, como metodologias participativas, registro,
fotografia e documentação, introdução à Educação Ambiental, Cooperativismo, Lazer, Técnicas
de Dinâmicas de Grupo, entre outros.
202
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No segundo momento, os procedimentos técnicos metodológicos operam uma dialógica
entre os aspectos teóricos e práticos das ações, tomando-se como referencial a pedagogia da
problematização, da pesquisa-ação e a pedagogia de projetos, já adotados no desenvolvimento
do Programa Trilhas Potiguares, de acordo com esquema representado.
Para tanto, é imprescindível a realização de um diagnóstico participativo, interativo, que
possibilite captar a percepção, vontades, desejos, limitações e possibilidades, dos diversos
atores da comunidade, de maneira que as ações desenvolvidas lhes permitam transformar-se e
desenvolver sua auto-estima e suas potencialidades, apropriando-se de instrumentos de eman-
cipação para ser um sujeito ativo no enfrentamento da sua realidade de vida.
O diagnóstico interativo definirá e orientará as possibilidades de trabalho e conseqüen-
temente a elaboração dos Projetos específicos, respeitando-se, sempre o princípio da interação,
da não-diretividade e o da construção coletiva com os sujeitos envolvidos.
Este movimento exige o questionamento crítico, a reflexão e a disponibilidade de
recomeçar, pois o conhecimento real só se constrói pelo trabalho crítico/reflexivo sobre as
práticas e na (re)construção permanente do processo.
O pensamento integrado, inter-relacionado, contextualizado e global substitui o
pensar/fazer fragmentado, como forma de desenvolver as habilidades técnicas, investigativas
pedagógicas e políticas, para o trabalho inter, transdisciplinar e multiprofissional.
O processo avaliativo é visto como estratégia de (re)construção do projeto, e acompanha
todos os momentos de construção, desenvolvimento, aplicação e sistematização de resultados
das atividades, em um movimento contínuo de criação, experimentação e repactuação do Programa
face aos seus resultados e impacto na comunidade, nas organizações sociais e na academia.
São alvos da avaliação a forma como o projeto se desenvolve, a eficiência dos métodos
e procedimentos empregados, a eficácia dos métodos e procedimentos utilizados, as transformações
sociais e impactos gerados pelas atividades e o retorno da ação no Município à academia
e a influência na formação cidadã do aluno.
Metas, atividades e produtos esperados
As ações, contidas nos diferentes enfoques temáticos, materializam-se por meio de
projetos específicos, aos quais poderão ser agregados outros, identificados como necessários no
decorrer das atividades. Estão orientadas de forma que levem em consideração a questão da
promoção social, procurando inserir políticas direcionadas ao desenvolvimento social da
juventude, de acordo com contexto sociocultural e ambiental em que se realizam, de forma que
estimulem a organização social e a participação; proporcionem a educação ambiental, a
educação em saúde, possibilite a inovação tecnológica, a geração de renda e a melhoria da
qualidade de vida da população.
As atividades apresentadas consubstanciam-se nas ações já desenvolvidas pelo
Programa Trilhas Potiguares e leva em consideração a visita já feita pelos coordenadores aos
municípios-alvo. Entretanto, faz-se necessário entender o Programa como uma atividade de
extensão, e como tal, com limites e possibilidades.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Agregando diferentes atores sociais com disposição para experimentar e inovar, nas
proposições e nas relações; “aposta” nos valores defendidos, principalmente, na solidariedade,
na inteligência humana e no potencial dos jovens (atores e sujeitos da ação).
META 1
Implementação e continuidade do Programa Trilhas Potiguares em seis Municípios do
Rio Grande do Norte no período de seis meses.
Ações: contato com as Prefeituras Municipais envolvidas; viagem precursora dos coor-
denadores aos Municípios.
Objetivos: levantar as condições de infra-estrutura do Município para receber a equipe,
estabelecer contato inicial com gestores e lideranças, identificar o interlocutor local e levantar
as demandas iniciais e áreas possíveis de intervenção.
Viagem precursora das equipes aos Municípios
Objetivos:
realizar o diagnóstico participativo no Município, discutir e negociar com a
comunidade o(s) problema(s) a ser(em) trabalhado(s), fazer o reconhecimento e definir as áreas
mais prováveis de intervenção.
Elaboração do plano de ação para o Município
Objetivos:
investigar teoricamente os determinantes do(s) problema(s) escolhido(s),
elaborar hipóteses de solução e planejar a intervenção.
Grandes trilhas
Objetivos:
aplicar e avaliar as atividades planejadas, planejar os retornos, socializar os
resultados.
Retornos
Objetivos:
acompanhar, monitorar e avaliar as atividades nos Municípios, (re)pactuar e
socializar os resultados.
Atividades e produtos esperados
Fatores sociais, como a necessidade de garantir a própria sobrevivência ou complemen-
tação do orçamento familiar, bem como outros aspectos, de caráter cultural, como a questão da
herança ou manutenção da terra no campo, tornam a tarefa de erradicação do trabalho infantil
um exercício de continuidade e imaginação, longe de soluções radicais e imediatas. A pobreza
é, pois, o principal fator que leva a população infanto-juvenil ao trabalho, o que resulta não só
no impedimento aos estudos, como também o comprometimento da sua saúde.
O Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA foi criado para regulamentar as conquis-
tas em favor da infância e da juventude, introduzidas na Carta Constitucional de 5 de outubro
de 1988. Em seu artigo 68, introduz a figura do trabalho educativo, o qual regula o trabalho em
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entidades governamentais e não-governamentais que articulam no trabalho sociopedagógico
três componentes: educação, trabalho e geração de renda, podendo a componente educação,
nesse trinômio, ser substituído pela educação informal, complementando o ensino formal
oferecido na escola regular.
As ações aqui propostas consistem na capacitação de adolescentes com idade entre 14 e
17 anos, e integram atividades nas áreas de Saúde, Educação, Meio Ambiente, Arte, Cultura e
Lazer, Comunicação Popular e Geração de Emprego e Renda. É um trabalho que envolve casa,
escola e comunidade; que visa promover impactos sociais, pela transformação dos sujeitos e
inclusão social, produção, inovação e transferência de conhecimentos.
Partindo da realidade local e necessidades mais prementes, o projeto pretende buscar
soluções simples e adaptadas, a partir dos recursos disponíveis nas próprias comunidades. O
desenvolvimento social é a base de todo o trabalho, procurando contextualizar o público em
seu meio e fornecer os instrumentos adequados para que possa interagir com ele de forma
consciente e construtiva.
Os adolescentes serão estimulados por meio de atividades educativas, em que se dis-
cutem conceitos e valores sobre o meio ambiente, qualidade de vida e cidadania, a promover
mudanças qualitativas no seu dia a dia, de forma que atuem também como agentes multipli-
cadores das ações e dos conhecimentos adquiridos, produzindo material de comunicação e
repassando os novos conhecimentos aos alunos das escolas públicas e à comunidade, num
processo que envolve trabalho e educação.
As atividades desenvolver-se-ão por meio de oficinas, minicursos, seminários, apresen-
tações artístico-culturais (teatro, música, dança), onde se pretende trabalhar o conceito de
cidadania provocando a reflexão e a discussão acerca desse tema, facilitando o processo de
percepção dos envolvidos enquanto portadores dos direitos que integram esse conceito.
As atividades esportivas e de lazer pretendem levar os participantes, independente de
gênero e faixa etária, portadores ou não de necessidades especiais, a adotarem atitudes de
respeito mútuo, dignidade, cooperação e solidariedade, possibilitando a integração entre diversos
grupos sociais. Incluem técnicas de jogos coletivos, organização de rua de lazer, organização de
eventos, e técnicas teatrais (teatro de rua, teatro do oprimido) e etc.
Orientações sobre educação para a saúde e prevenção também são previstas e podem
enfocar: higiene e saneamento ambiental, saúde da criança, saúde da mulher, saúde bucal,
controle epidemiológico, assistência simplificada, drogas, sexualidade, controle de hipertensos
e diabéticos, entre outros.
As atividades de Educação Ambiental visam sensibilizar a comunidade para a mudança
de atitudes e comportamentos em relação às questões ambientais e proporcionar aos partici-
pantes um conhecimento acerca da problemática ambiental e a importância de se buscar
soluções corretas e criativas, que promovam a ocupação e a renda, num trabalho articulado
entre as escolas e a comunidade. A partir desse minicurso os grupos estarão aptos a investir em
atividades baseadas na trilogia “reduzir, reutilizar, reciclar”. Incluem-se aí oficinas sobre noções
básicas de educação ambiental, reciclagem, compostagem, incentivo à produção de húmus, etc.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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META 2
Implantação de um projeto de dinamização de bibliotecas e incentivo à leitura, que con-
tribua para o processo de educação permanente nos Municípios.
Atividades e produtos esperados
As ações visam à capacitação, principalmente, de jovens, idosos e portadores de neces-
sidades especiais para o desenvolvimento de atividades que permitam utilizar a leitura como
instrumento de conquista da cidadania e inclusão social, mediante acesso aos bens culturais.
As atividades estão voltadas para a disseminação do conhecimento, proporcionando a
criação de espaços que incentivem a ludicidade, a socialização e a ampliação de horizontes
culturais. A partir da vivência dos participantes, resgate de sua identidade, cultura e história
de vida, serão construídos textos nos quais se trabalhará a leitura, a escrita, a formação
textual e aspectos gramaticais, abrindo caminho para a compreensão de novas propostas
educacionais.
O desenvolvimento de oficinas de contação de história, orientações sobre organização e
uso do espaço de bibliotecas, criação dos espaços destinados a leitura, a difusão da linguagem
LIBRAS (para surdosmudos), dentre outras.
O uso da informática também será incentivado, de modo a preparar o monitor para
utilizar a informática como instrumento de inclusão social, inclusive como ferramenta para
produzir veículos de informação e comunicação nos Municípios.
META 3
Incentivo à criação de espaços culturais e de lazer que oportunizem o resgate e preser-
vação da cultura e memória local.
Atividades e produtos esperados
A arte e a cultura serão trabalhadas como atividade lúdica e de motivação, servindo
como instrumento pedagógico e de inclusão social. Considerando as várias dimensões da prática
pedagógica utilizada, há que perseguir um resgate da identidade cultural nessas comunidades,
buscando uma formação integral dos homens e mulheres.
Essa busca de aproximar as comunidades do universo atual em que se encontram, os
processos comunicacionais e a cultura de massa, será feita com base em leituras e análises de
textos, vídeos e letras de música e também mediante pesquisas e catalogação de material
elaborado, até então, pelas comunidades de maneira que tudo o que for produzido seja
apresentado por meio de eventos, impressos, fotografias e demais formas de comunicação.
Procurando estabelecer parcerias com atividades culturais existentes nas comunidades
de origem dos participantes podem ser oferecidas oficinas de música, dança, pintura, teatro,
folclore, etc., buscando fazer um resgate da cultura e tradição das comunidades.
Haverão de ser trabalhados os vários conceitos de cultura, de forma a viabilizar reflexões
e discussões sobre o tema e a comunicação de massa; a identificação de focos de produção
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cultural; o resgate da identidade cultural e tradição local; de forma a promover a integração dos
grupos culturais locais e difundir a sua produção.
Resultados e discussão
A atual edição do Programa Trilhas Potiguares encontra-se em andamento, no entanto,
como já posta anteriormente, desde 1996 que este Programa vem sendo realizado na
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
No período compreendido entre 1996 e 2002, o Programa Trilhas Potiguares atuou
em 58 Municípios do Rio Grande do Norte. De perfil socioeconômico e ambiental
extremamente diversificados e distribuídos em todas as regiões do Estado, apresentam,
cada um suas especificidades e características. Desde Monte das Gameleiras, localizado
na região da Borborema Potiguar, com apenas 2.541 habitantes e 93 km2, a São Gonçalo do
Amarante, com seus 69.435 habitantes e 261 km2 (IBGE, 2000).
As ações desenvolvidas nos diversos Municípios foram estruturadas a partir
das realidades sociais, culturais e ambientais das localidades e procuraram aplicar
metodologias que contribuíssem para o amadurecimento e consolidação da participação
política dos moradores nos processos de planejamento e intervenção em sua comu-
nidade, buscando a construção solidária do saber e o desenvolvimento sustentável das
comunidades.
Inúmeras atividades foram desenvolvidas nas áreas de Educação, Arte e Cultura, Saúde,
Meio Ambiente, Esporte e Lazer, Organização Comunitária e Cidadania, Transferência de
Tecnologia e Geração de Emprego e Renda. Os resultados obtidos nas comunidades são muitos
e diversificados: criação de associação de moradores, grupos de jovens e cooperativas;
formação de multiplicadores em educação ambiental, implementação de hortas comunitárias,
criação e revitalização de bibliotecas, capacitação de professores em diversas áreas (pedagogia
de projeto, educação inclusiva, etc.), incentivo à reciclagem, reutilização e redução de resíduos
sólidos, criação de grupos artísticos e culturais, programas de desenvolvimento turístico,
campanhas e projetos, controle de hipertensos e diabéticos, incentivo ao pré-natal e aleitamento
materno, apoio às atividades do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, orientações
sobre o uso de fitoterápicos, alimentação alternativa, prevenção à gravidez na adolescência
e doenças sexualmente transmissíveis, entre outros. A realização de diversas campanhas: de
combate à dengue, de higiene bucal e fluoretação e de conservação dos recursos naturais tem
surtido efeitos positivos nas comunidades. A utilização de tecnologias limpas e adaptadas à
região, como a reciclagem, compostagem, produção de húmus e secagem de frutas com
energia solar têm despertado nas populações interagentes uma consciência crítica a respeito
da relação entre a sociedade e a natureza.
Além disso, os trabalhos desenvolvidos nas comunidades têm suscitado um sem-
número de trabalhos acadêmicos e científicos, apresentados nos mais diversos fóruns. O
próprio programa tem gerado trabalhos de final de curso dos alunos que integram as equipes,
bem como tem sido objeto de estudo de dissertações de mestrado e teses de doutoramento.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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O trabalho conjunto entre a UFRN e os Municípios — sob a forma de parceria — ultra-
passa os limites institucionais, otimizando recursos materiais, financeiros e humanos. Constitui-se
em processo de ampliação da mobilização e da participação, assegurando maior inserção da
UFRN na dinâmica das transformações sociais. O Programa tem contribuído na formulação,
implantação e acompanhamento de políticas públicas que promovem o desenvolvimento
regional e, principalmente, dos Municípios em que atua.
Estiveram envolvidos nas ações, entre 1996 e 2003, cerca de 1.500 alunos, de graduação
e pós-graduação, que participaram de forma voluntária e 100 servidores, entre professores e
técnicos de nível superior. Nas comunidades, aproximadamente 100 mil pessoas foram benefi-
ciadas diretamente pelas ações, de grupos sociais diversificados, variando em gênero, faixa
etária, formação e qualificação: crianças e adolescentes, jovens, adultos, idosos, mulheres,
professores, profissionais de saúde, portadores de necessidades especiais, gestores municipais,
lideranças e membros de associações comunitárias, membros de Conselhos Municipais,
pescadores, produtores rurais, artesãos, operários de fábricas, funcionários públicos, etc.
Conclusões
Embora o trabalho ainda não tenha sido totalmente concluído, devemos afirmar que a
experiência do Programa Trilhas Potiguares têm se destacado na atuação da Pró-Reitoria de
Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, uma vez que tem implementado
diversas ações de suma importância no âmbito dos Municípios nos quais o Programa já se
desenvolveu.
Por outro lado, o Programa Trilhas tem se transformado num espaço importante de
participação voluntária dos estudantes dos diversos cursos da UFRN, principalmente para
aqueles alunos cujos cursos não apresentam em sua grade curricular disciplinas ou estágios que
possibilitem o contato com a sociedade, de forma mais direta e atuante.
Outro aspecto bastante relevante diz respeito à própria interação de professores e alunos
das diversas áreas da Universidade, pois, como sabemos, ainda existe uma separação interna
muito grande no ambiente estudantil universitário brasileiro, fruto de uma política de especialização
implementada pelo Estado brasileiro durante o período militar.
Referências bibliográficas
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e econômico; ensino médio. João Pessoa, PB: Grafset, 2002.
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(Doutorado) - Rio Claro.
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Janeiro: 2003.
_____ et al. (Org.).
Metodologia e experiências em projetos de extensão. Niterói: EDUFF,
2000.
•Projeto UniCampo – uma experiência de extensão no Cariri paraibano
Fernanda de Lourdes Almeida Leal, Mestre em Comunicação e Semiótica
Márcio de Matos Caniello, Doutor em Sociologia
Jean-Phillipe Tonneau, Doutor em Geografia Agrária, Université Paris X (Cirad)
Josafá Paulino de Lima, Bacharel em Sociologia (Cead)
Alexandre Eduardo Araújo, Doutorando em Engenharia Agrícola
Universidade Federal de Campina Grande – UFCG
Resumo
Através de um Curso de Extensão em Desenvolvimento Local Sustentável, o Projeto
UniCampo – iniciativa da UFCG – iniciou sua experiência piloto na cidade de Sumé – PB,
com 30 jovens camponeses oriundos de 20 municípios do cariri paraibano entre os meses de
setembro e dezembro de 2003. Como principal objetivo buscou desenvolver e resgatar, através
de um processo pedagógico, o “capital cultural” dos atores envolvidos, estimulando o potencial
criativo, reflexivo, técnico e organizativo destes sujeitos. O processo foi conduzido a partir da
problematização de sete questões-motivo, que nortearam os encontros: Quem somos? O
que temos? Como usamos o que temos? Como potencializar o uso do que temos? Qual é o nosso
projeto? Como nos organizarmos para implementar o projeto? O que fazer para colocarmos o
projeto em prática? Além destas questões foi utilizado um instrumento denominado Teste de
Associação ou Evocação de Palavras. Constatação da capacidade coletiva de produção de
conhecimentos e produtos (cordel, papel reciclado, xilogravura e jogo do cariri) como mostra da
potencialidade e viabilidade de um projeto de desenvolvimento sustentável. Os resultados
obtidos possibilitaram a continuidade da experiência, que já se encontra em curso desde maio
do corrente ano
.
Palavra-chave: Universidade Camponesa, desenvolvimento sustentável, educação
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
209
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Introdução e objetivos
O Projeto UniCampo — pela Universidade Camponesa tem como compromisso
primordial contribuir para o desenvolvimento rural sustentável, promovendo uma agricultura
familiar autônoma através do cultivo de um “capital cultural” que articule, por um lado, o
resgate do ethos camponês entendido como base da identidade, fonte da auto-estima e vetor da
autodeterminação dos agricultores familiares (Cf. CANIELLO, 1991), e, por outro lado, uma
formação voltada para as necessidades e interesses desses atores sociais. Este processo deve ser
construído por intermédio da difusão e crítica da informação sobre a produção técnico-científica,
as políticas públicas e as ações devotadas ao fomento da agricultura familiar e por meio do
debate sobre processos produtivos, de gestão e organização social apropriados às suas
peculiaridades culturais, sociais, políticas, econômicas e ambientais.
A experiência piloto do Projeto UniCampo foi implementada no Campus Avançado da
UFCG nas dependências Escola Agrotécnica de Ensino Fundamental de Sumé, município
situado no “centro geográfico” do Cariri paraibano, através do oferecimento de um Curso de
Extensão em Desenvolvimento Local Sustentável para 30 alunos oriundos de 20 municípios da
micro-região.
A escolha do Cariri paraibano como locus da primeira ação do Projeto UniCampo
deveu-se a vários fatores. Em primeiro lugar porque esta microrregião está encravada em
plena “diagonal seca”, onde se observam os menores índices de precipitação pluviométrica do
semi-árido brasileiro (Cf. COHEN & DUQUE, 2001, p. 48); em segundo lugar, porque “os
produtores agropecuários ainda representam os principais atores econômicos do Cariri,
apesar da crise do setor”, congregando 70% da população economicamente ativa, com forte
presença de agricultores familiares (Cf. BAZIN, 2003, p. 19); em terceiro lugar, porque a
microrregião tem baixos índices de desenvolvimento econômico e humano, com destacada
carência no setor educacional (Cf. BAZIN, 2003, p. 48-52); em quarto lugar, porque a
Escola Agrotécnica de Sumé, cuja experiência educacional é extremamente interessante
(Cf. CANIELLO, 2001: p. 23-25), tem uma excelente infra-estrutura para comportar o
campus avançado.
O Público-alvo foi composto por jovens camponeses com capacidade de liderança,
vontade de progredir através dos estudos, com potencial de disseminação dos conhecimentos
adquiridos e que tenham como opção de vida permanecer na região e trabalhar por seu
desenvolvimento sustentável.
Durante 10 fins de semanas, entre 27 de setembro e 7 de dezembro de 2003, 30
educandos participaram de um curso de extensão de 120 horas/aula, cujo currículo consistiu
de três módulos de formação, um módulo de síntese e três oficinas.
O módulo de formação humanística foi centrado na definição da identidade camponesa
a partir de quatro perspectivas: arqueológica (a revolução agrícola — ou neolítica — como origem
da civilização moderna), antropológica (o campesinato como um modo de vida), histórica
(a formação do campesinato brasileiro e o povoamento do Cariri) e sociológica (os camponeses
e seus dilemas frente ao capitalismo e à “modernidade”).
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O módulo de formação técnica tratou fundamentalmente dos recursos do Cariri
paraibano, seus usos e potencialidades (com a elaboração participativa de um zoneamento agro-
ecológico) e da questão camponesa em face do desenvolvimento sustentável e das políticas
públicas.
O módulo de formação social abordou temáticas como associativismo, cooperativismo e
ação coletiva; o papel das lideranças para o desenvolvimento sustentável; a modernização e as
tecnologias adaptadas ao Cariri (com um dia de campo dedicado à observação de experiências
bem sucedidas).
Além dos conteúdos curriculares, foram promovidas oficinas de cordel, papel reciclado
e xilogravura para que fossem estimuladas atividades que desenvolvessem o potencial artístico-
cultural dos educandos, com três objetivos: estimular a ação criativa como estratégia pedagógica
e meio de resgatar a identidade e a auto-estima; produzir materiais didáticos desenvolvidos
interativamente, como o “jogo do cariri”, forma lúdica de produção de conhecimento local, que
se destina a fixar e difundir os conhecimentos adquiridos para além dos processos presenciais;
e demonstrar a potencialidade econômica da produção cultural (emprego e renda) no âmbito da
“pluriatividade”, que deve caracterizar o desenvolvimento local sustentável.
O módulo de síntese resultou na conclusão de que o desenvolvimento do Cariri deverá
ser fundamentado, por um lado, no resgate da identidade camponesa e, por outro, no fomento a
atividades econômicas essencialmente agrícolas, sendo que a função produtiva comercial não
deverá ser única: a produção para o autoconsumo, o artesanato, a gestão e conservação do meio
ambiente, a preservação dos valores culturais e sociais são também tarefas do camponês cari-
rizeiro. Neste sentido foram definidas as seguintes diretrizes para os projetos de desenvolvi-
mento local sustentável:
1. resgate e afirmação da identidade camponesa através da capacitação de professores do
ensino básico (replicação do curso de extensão);
2. fomento à economia camponesa através do desenvolvimento de projetos baseados na
produção agropecuária familiar, propiciando segurança alimentar ao homem do campo e
às populações marginalizadas das cidades;
3. fomento à cultura camponesa através do desenvolvimento de projetos em turismo,
artesanato e outras produções artísticas.
Articulação e mobilização coletiva para consecução de objetivos e acesso a tecnologias
apropriadas (formação de associações, cooperativas de crédito, bancos de sementes, consórcios
etc).
Em resumo, o principal objetivo do Projeto UniCampo — que finalizou seu primeiro
curso de extensão em dezembro de 2003 e encontra-se na realização do seu segundo ciclo desde
maio deste ano — é construir um processo pedagógico destinado a desenvolver o “capital
cultural” dos atores sociais engajados na agricultura familiar no semi-árido brasileiro — espe-
cialmente a juventude rural —, estimulando o potencial reflexivo, criativo, técnico e organiza-
tivo desses sujeitos, de maneira que eles possam responder ativamente às suas necessidades
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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políticas, técnicas e institucionais para o desenvolvimento sustentável, interferindo especial-
mente na definição e implementação de políticas públicas.
Para atingir este objetivo, propõe-se a:
1. oferecer uma formação básica em Humanidades como estratégia para a construção de
uma visão crítica da realidade e de um instrumental de pesquisa social aplicada;
2. desenvolver a capacitação em tecnologias apropriadas, articulando o saber local e as
inovações científicas;
3.desenvolver capacidades organizativas e de gestão (gerenciamento da unidade
produtiva familiar, associativismo, cooperativismo e questões de organização social e
mobilização política);
4. estimular a construção de projetos de desenvolvimento local e apoiar sua implemen-
tação;
5. promover a interação entre os atores sociais envolvidos na agricultura familiar e a
comunidade técnico-científica;
6. constituir-se num fórum permanente de reflexão participativa, interativa e crítica sobre
os processos de desenvolvimento no Brasil e as políticas públicas a eles relacionadas;
7. constituir-se num meio de difusão de conhecimento técnico-científico, das políticas
públicas e de ações voltadas para o desenvolvimento local sustentável no Brasil.
Metodologia
Antes de nos determos mais especificamente sobre a metodologia do Projeto, parece-
nos necessário discutir a concepção política e pedagógica que orientou a condução do Curso
de Extensão.
Como uma proposta mobilizadora calcada na recuperação e no cultivo das potenciali-
dades do ethos camponês e na promoção de sua interação com o saber técnico-científico
universitário, o Projeto UniCampo buscou uma perspectiva político-pedagógica criativa,
inovadora e filosoficamente revolucionária. Neste sentido, o pensamento de Paulo Freire
mostrou-se como o que melhor responde a essas necessidades, principalmente porque sua
pedagogia se apresenta não como um “manual ortopédico” sobre “como ensinar”, mas como
um processo pedagógico, cuja preocupação epistemológica fundamental consiste em saber “o
que significa conhecer” (SILVA, 1999), respeitando as particularidades daqueles envolvidos
nesse processo e enxergando a educação como meio indispensável à “mudança de uma
sociedade de oprimidos para uma sociedade de iguais” (GADOTTI, 1979, p. 10).
Como um modelo diferente das metodologias tradicionais que consistem ainda hoje em
limitar o pedagógico à sala de aula e à relação hierarquizada de poder/saber entre professor e
aluno, o método de Paulo Freire faz nascer um pensamento pedagógico que conduz o educador
a engajar-se social, cultural e politicamente na luta pela transformação de estruturas que
sejam consideradas opressivas pelos sujeitos nelas inseridos (Cf. GADOTTI, 1979, p. 10).
Assim, no que diz respeito ao modo como o conhecimento é construído, salienta-se a
necessária atenção ao “capital cultural” existente, o qual é continuamente produzido no espaço
212
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pedagógico. O conhecimento, nessa perspectiva, não “aparece” importado de uma fonte
universitária, cujo veículo seria o professor, mas produz-se continuamente como resultado da
interface entre o saber já consolidado, que é re-significado a cada encontro pedagógico, e o
saber que se produz.
Sob essa perspectiva, o professor deve “saber que ensinar não é transferir conhecimento,
mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 1999,
p. 52). É a substituição de um modelo fundamentado na “educação bancária” por uma
metodologia alternativa denominada de “educação problematizadora” (Cf. FREIRE, 1975),
modelo que se pauta numa perspectiva fenomenológica, para a qual não se separa, no processo
de conhecimento, o ato de conhecer daquilo que se conhece, estando implicado nesse ato a
presentificação do mundo para a consciência, que, para Freire, não é nunca um ato isolado e
individual, mas intercomunicativo e intersubjetivo. Na perspectiva da educação problemati-
zadora, o mundo não é simplesmente “comunicado”, mas educador e educandos produzem,
através do diálogo, um conhecimento do mundo (SILVA, 1999).
Quanto aos conteúdos curriculares, Freire desenvolveu uma importante premissa: o
conceito de temas significativos ou temas geradores, que vão se constituir como a base dos con-
teúdos programáticos, para a elaboração dos quais não se dispensa o papel dos especialistas,
mas o currículo é sempre fruto de uma pesquisa da experiência dos próprios educandos, que
participam ativamente desse processo.
Nessa perspectiva, a condução do Projeto foi orientada por 7 questões-motivo que foram
responsáveis pela movimentação de todo o processo pedagógico:
1. quem somos? (Reflexões sobre identidade camponesa, identidade local, campesinato e
capitalismo);
2. o que temos? (Levantamento dos recursos disponíveis da região para o seu desenvolvi-
mento);
3. como usamos o que temos? (Capacidades e problemas no uso dos recursos disponíveis);
4. como potencializar o uso do que temos? (Articulando-se os “saberes e fazeres” locais e
o saber técnico-científico definir rotas para o desenvolvimento local sustentável);
5. qual é o nosso projeto? (Formulação participativa de projetos de desenvolvimento local
sustentável);
6. como nos organizarmos para implementar o projeto? (Capacitação em ação coletiva);
7. o que fazer para colocarmos o projeto em prática? (Formação de comitês gestores para
a implementação dos projetos).
Estas questões foram perseguidas em todos os módulos e, a partir delas, pôde-se
visualizar os resultados do processo. A sistematização dos mesmos obedeceu a um olhar mais
qualitativo, não obstante tenha sido aplicado no início e no final do curso um teste de
associação ou evocação de palavras proposto por Tura (1998), que possibilitou visualizar
de modo muito expressivo as mudanças de posição dos sujeitos antes e depois do Curso
de Extensão.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Todo o processo foi documentado através de relatório produzido pela equipe pedagógica,
fotografias, gravações em vídeo e fita cassete. Esse material possibilitou ampliar o alcance
da experiência, principalmente porque dele resultou a elaboração de diversos materiais de
divulgação da mesma.
É conveniente ressaltar, finalmente, que o cerne de todo esse movimento, que
ganhou corpo no Projeto UniCampo, parte do pressuposto de que o Curso de Extensão teve
como proposta metodológica “escutar” os mais diversos sujeitos envolvidos no processo
para, a partir dessa “escuta”, traçar, de modo mais sintonizado com essa produção, seus
caminhos.
Resultados e discussão
Os trabalhos desenvolvidos ao longo da experiência do Projeto Unicampo convenceram
os participantes de que, malgrado suas extremas vulnerabilidades ambientais, sociais,
políticas e econômicas, o Cariri paraibano, como tantas outras paragens da região semi-árida
mais populosa do Mundo, é um lugar prenhe de possibilidades de existência digna para os
camponeses. Com efeito, os trabalhos demonstraram a capacidade coletiva de produção de
conhecimentos e para melhor se identificar estas potencialidades e valorizá-las num projeto
de desenvolvimento sustentável.
Depois de dez finais de semana de formação pode-se considerar que os educandos
modificaram profundamente a sua visão em relação às perspectivas de desenvolvimento
sustentável, valorizando a força da sua identidade, as potencialidades dos recursos naturais e
das experiências locais, percebendo o local como centro do processo de desenvolvimento.
Nesse sentido, são elucidativos os resultados obtidos através da aplicação do “teste de
associação de palavras” (Cf. TURA, 1998) realizado por ocasião da abertura e do módulo de
síntese, que tinha como questão a seguinte pergunta: Quais as três primeiras palavras que lhe
vêm à cabeça quando você pensa no Cariri? As respostas dadas nos dois momentos demonstram
uma significativa modificação de perspectiva em relação à vida na região: enquanto na primeira
dinâmica de grupo predominaram evocações negativas (71%), tendo como palavras mais
citadas “seca” (17 evocações) e “dificuldades” (9 evocações), no segundo momento, a situação
se inverte (70% das evocações são positivas), com a prevalência de termos como “persistência”
(6 evocações), “esperança” (5 evocações) e “cultura” (5 evocações). Mais do que simplesmente
significar a evocação de “novas palavras”, essa emergência aponta indícios de mudanças de pers-
pectivas em relação ao Cariri não só como lugar, mas como espaço de produção de identidade.
Aliás, tais mudanças foram sendo maturadas ao longo do Curso e constatadas através dos
comentários, textos e posições adotadas pelos educandos durante os encontros.
Além dessa constatação dos resultados acima apontada, vale ressaltar um depoimento
emblemático de uma das alunas na solenidade de encerramento, registrado no vídeo produzido
sobre a experiência. Levantando-se da mesa redonda em que era uma das expositoras, Auricélia
concluiu sua intervenção dizendo entre lágrimas: “Se eu nascesse dez vezes, dez vezes eu
queria nascer caririzeira”.
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Nesta fala percebe-se que a auto-estima e a identificação com o lugar foram resultados
expressivos. Este fato provocou importante reflexão sobre a necessidade de processos que
estimulem e impliquem os sujeitos envolvidos. Esta parece ser uma importante questão quando
se pensa no papel que este curso de extensão teve: por intermédio das discussões e dos artigos
produzidos nas oficinas (cordel, papel reciclado, xilogravura), observou-se a construção e/ou o
resgate de uma identidade camponesa ou caririzeira, que funcionou como um importante
mecanismo para que houvesse o desejo, por parte dos educandos, de continuidade do curso.
Entretanto, por mais bem sucedida que a experiência piloto se nos afigure algumas lacunas
precisam ser observadas na continuidade do processo. É necessário que os educandos da turma
pioneira adquiram as técnicas, metodologias e práticas necessárias para que eles mesmos
tornem-se o que denominamos coletivamente de agentes de desenvolvimento sustentável,
movimento capaz de fazer com que eles se tornem sujeitos operacionais e ativos de suas
histórias individuais e coletivas. Pois, durante as sessões de avaliação, os educandos expres-
saram o sentimento de obrigação diante dos compromissos que doravante têm em suas
comunidades. Manifestaram também o desejo de desenvolver ações de educação nas escolas e
nas comunidades, ações de desenvolvimento sustentável e de convivência com a seca, ações de
promoção do artesanato.
Diante destas novas necessidades foram identificados três desafios a enfrentar:
acompanhar e monitorar os educandos no desempenho de suas novas tarefas de agentes
de desenvolvimento sustentável;
replicar o curso de extensão, uma vez que a experiência piloto suscitou um apelo muito
forte;
elaborar um projeto de curso superior pautado pelas necessidades e características dos
camponeses do semi-árido, consolidando o propósito de fundação de uma universidade
camponesa no Brasil.
O último desafio, mais ambicioso em seu propósito, delineia-se como meta em longo
prazo. Não obstante sua ambição, acreditamos que o seu êxito será conseqüência do trabalho
atual, que deverá iluminar os caminhos pelos quais percorrerá a Universidade Camponesa no
Brasil.
Conclusão
O projeto UniCampo já mostrou os seus efeitos. Enquanto experiência-piloto gerou um
potencial criador e pleno de iniciativas em seus educandos. Estes, como sujeitos ativos de suas
histórias, desejam e solicitam a continuidade dessa experiência que revela uma forte tendência
de se consolidar como uma iniciativa que extrapola o nível da extensão e tende a caracterizar-
se cada vez mais como uma fórmula nova e original de fomentar a educação.
Foram rápidas as suas conseqüências. As reflexões e os constantes debates da equipe
pioneira concluiu que se faz necessária a utilização de novas e potentes ferramentas que
garantam a continuidade da experiência. Tais reflexões continuam perseguindo a originalidade:
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pensa-se num modelo educativo que seja condizente com a realidade de seus potenciais edu-
candos. Neste sentido, nenhum dos modelos vigentes parece responder a esta realidade especí-
fica. E, assim, criar a partir de uma experiência bem sucedida parece ser a saída.
Perseguindo os princípios já delineados pelo Projeto Unicampo, as experiências multi-
plicadoras poderão se efetivar de maneira singular em cada cidade ou região na qual o Projeto
se instale. Esta parece ser uma oportunidade ímpar de fazer eclodir, em diversos lugares e em
momentos sincrônicos, a partir da atual experiência deste Curso de Extensão, a Universidade
Camponesa no Brasil.
Neste sentido, já está em curso o segundo ciclo do Curso de Extensão em
Desenvolvimento Local Sustentável, que dá prosseguimento à experiência realizada ano passa-
do, com uma ampliação em termos do número de alunos, bem como a sua representatividade
— a experiência atual conta com 35 alunos, sendo que alguns deles são assentados da reforma
agrária.
Evidentemente ainda não podemos avaliar quais serão os resultados dessa segunda
experiência, embora, como dissemos, o desenvolvimento do primeiro módulo aponte para per-
spectivas bastante alentadoras. Seja como for, o processo de construção da Universidade
Camponesa no Brasil nos parece irreversível e, como participantes da iniciativa pioneira, senti-
mo-nos responsáveis pelo desafio de sua consolidação. Para tal consolidação ressalta-se o
importante papel da extensão universitária, pois graças a essa possibilidade de estreitar laços
com a sociedade está sendo possível, no caso especial deste projeto, abrir um veio de comuni-
cação com aqueles a quem mais interessa a construção de um processo educativo no qual eles
possam opinar em sua feitura. Via extensão, Universidade e camponeses começam a desenhar
no semi-árido paraibano um formato novo de ensino superior, até então inusitado neste cenário.
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Hélder Câmara. In: ENCONTRO DE CIENTISTAS SOCIAIS DO NORDESTE, 5, Recife,
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Acessibilidade e cidadania: barreiras arquitetônicas e exclusão social dos
portadores de deficiências físicas
Andreia Lopes Muniz Corrêa, Bolsista PET/Arq.
Juliana Duarte de Melo, Bolsista PET/Arq.
Leonardo Salazar Bittencout, Arquiteto/PHD
Miguel Correia de Moraes, Bolsista PET/Arq.
Raquel Faião Rodrigues, Bolsista PET/Arq.
Universidade Federal de Alagoas – UFAL
Resumo
Segundo dados do IBGE, no ano de 2000, 23,06% da população brasileira era com-
posta por pessoas idosas ou portadoras de algum tipo de deficiência física. Essa significativa
parcela da população encontra-se impedida de exercer plenamente sua cidadania, na medida
em que encontra sérias dificuldades para se locomover no ambiente construído, tanto dos edifícios
como do espaço urbano. Esse trabalho tem como objetivo realizar diagnóstico da situação atual
do Campus A. C. Simões da UFAL, bem como elaborar propostas para adequações arquitetônicas
dos diversos edifícios do mesmo. Foram realizadas entrevistas com os usuários do Campus
portadores de diversos tipos de deficiência a fim de identificar as principais barreiras
arquitetônicas existentes. A seguir, foi realizado um exaustivo levantamento arquitetônico das
vias de acesso e dos edifícios existentes no Campus, assinalando-se as principais barreiras encon-
tradas. No momento, o trabalho encontra-se em fase de elaboração das propostas arquitetônicas.
O resultado não deve se constituir em experiência restrita ao problema de acessibilidade
no âmbito da UFAL. Pretende-se que o mesmo se constitua em um exemplo que a
219
Direitos humanos
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Universidade deve proporcionar à sociedade como um todo, na qualidade de instituição
formadora de opinião cujas ações apresentam forte efeito multiplicador dentro do ambiente
social onde se insere
.
Palavras-chave: acessibilidade, arquitetura e urbanismo, inclusão social
Introdução e objetivos
Segundo a Norma Brasileira 9050 da Associação Brasileira de Normas Técnicas
(ABNT/NBR 9050, 1994), promover a acessibilidade no ambiente construído é proporcionar
condições de mobilidade, com autonomia e segurança, eliminando as barreiras arquitetônicas e
urbanísticas nas cidades, nos edifícios, nos meios de transporte e de comunicação. Isto constitui
um direito universal resultante de conquistas sociais importantes, que reforçam o conceito de
cidadania.
Um espaço construído, quando acessível a todos, é capaz de oferecer oportunidades
igualitárias a todos seus usuários. No entanto, a maioria das cidades é construída e modificada
desconsiderando vários dos diversos tipos humanos que habitam estes ambientes construídos.
A dificuldade de acesso, ao contrário do que muitos imaginam, não se restringe
apenas aos usuários de cadeira de rodas. Existem aqueles que possuem mobilidade reduzida
temporária, gerada por fatores como idade, gravidez, deficiência auditiva ou visual.
Os portadores de deficiência física são chamados, segundo a Associação Brasileira de
Normas Técnicas – ABNT, de ambulatoriais, podendo ser classificados como parciais ou totais.
Os parciais são aqueles que se movimentam com dificuldade ou insegurança, usando ou não
aparelhos ortopédicos e próteses. Dentre esses, se encontram os hemiplégicos, amputados,
pessoas com insuficiência cardíaca ou respiratória, aquelas que levam cargas pesadas ou volu-
mosas, os que levam criança pequena nos braços, engessados ou com vendas, convalescentes
de doenças ou intervenções cirúrgicas, anciãos e pessoas afetadas por doenças ou malformações
que os impeçam de caminhar normalmente.
Os portadores ambulatoriais totais são aqueles que utilizam, temporariamente ou não,
cadeiras de rodas e incluem paraplégicos, tetraplégicos, hemiplégicos, amputados, e pessoas
afetadas fortemente por doenças e malformações que as impossibilitam de andar.
Existem ainda os deficientes sensoriais, entre os quais se enquadram os deficientes
visuais e auditivos. Todos possuem necessidades específicas que, quando não supridas, limitam
a execução de suas atividades, seus fluxos de convívio e sua qualidade de vida.
Segundo levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística –
IBGE, em 2000 o Brasil possuía 8,56% da população composta de idosos, a perspectiva de vida
era de 65 anos, e 14,5% da população era composta de portadores de deficiência permanente.
Somando essas duas parcelas, chega-se à conclusão que aproximadamente 23% da população
brasileira encontra-se neste grupo de pessoas com sérias dificuldades de locomoção. Sem
contar as pessoas portadoras de diversos tipos de deficiência sensorial, deficiência física
temporária, os obesos e pessoas de estatura fora da média.
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Estes dados vêm demonstrar o impacto social decorrente de iniciativas que visem à
promoção da acessibilidade ao espaço habitado no território brasileiro. Como resultado desse
alcance social e da consolidação dos direitos das pessoas portadoras de deficiência, surge
primeiramente a Lei nº 7.853/89, regulamentada pelo Decreto nº 3.298/99, que estabeleceu os
preceitos fundamentais e os princípios de igualdade e não discriminação entre os cidadãos
brasileiros. Mais recentemente, surgiu a Lei n° 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dispõe
sobre prioridade de atendimento e outras providências às pessoas portadoras de algum tipo de
deficiência. Posteriormente, a Lei n° 10.098, de 19 de dezembro de 2000, estabelece normas
gerais e critérios básicos para promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência
ou com mobilidade reduzida, mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias e
espaços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios e nos meios de
transporte e de comunicação.
A Associação Brasileira de Normas Técnicas formulou normas específicas para acessi-
bilidade, fundamentadas nos referidos instrumentos jurídicos, que vêm apoiar a execução de
projetos que objetivem a realização de intervenções arquitetônicas urbanísticas e nos meios
de transportes, por parte dos diferentes agentes políticos da sociedade. Estas normas são:
NBR 9050:1994 – Acessibilidade de pessoas portadoras de deficiência a edificações,
espaço, mobiliário e equipamento urbanos;
NBR 13994:2000 – Elevadores de passageiros – Elevadores para transporte de pessoa
portadora de deficiência;
NBR 14020:1997 – Transporte – Acessibilidade à pessoa portadora de deficiência –
Trem de longo percurso;
NBR 14021:1997 – Transporte – Acessibilidade à pessoa portadora de deficiência –
Trem metropolitano;
NBR 14022:1997 – Transporte – Acessibilidade à pessoa portadora de deficiência em
ônibus e trolebus, para atendimento urbano e intermunicipal;
NBR 14273:1999 – Acessibilidade de pessoas portadoras de deficiência no transporte
aéreo comercial;
Apesar da legislação existente e do conjunto de normas disponíveis, observa-se que a
maioria dos Estados brasileiros não atende às necessidades da acessibilidade de maneira eficaz.
O Estado de Alagoas pertence a esta maioria. Poucas são as edificações acessíveis existentes.
Ainda que muito necessite ser feito para que pessoas com deficiência tenham seus direi-
tos plenamente respeitados pela sociedade brasileira, são visíveis, nos dias atuais, o aumento da
participação social dos mesmos. Nomeadamente no Estado de Alagoas, um número cada vez
maior de pessoas com deficiência está na escola e realizando com êxito seus estudos, apesar dos
dados recolhidos pelo Censo 2000 apontarem que entre aqueles que apresentam deficiências
severas, 25% ainda está excluído do processo de escolarização. Tal fato está gerando uma
situação nova: o número crescente de candidatos com algum tipo de deficiência concorrendo às
vagas oferecidas pela Universidade Federal de Alagoas. No processo seletivo, realizado no ano
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de 2002, foram, pelo menos, 15 surdos e 1 cego inscritos. Esses, infelizmente, não tiveram os
seus direitos assegurados e necessitaram recorrer ao Ministério Público para que tal ocorresse.
Os entraves enfrentados por estes candidatos estavam situados, em primeiro lugar, no desconhe-
cimento em relação à sua individualidade, que por sua vez acabou por criar vários obstáculos
para que eles pudessem concorrer em situação de igualdade com os demais candidatos. Quase
sempre a plena acessibilidade esteve comprometida. Ou seja, entraves ou obstáculos limitaram
ou impediram o acesso à informação ou aos espaços onde a mesma se encontrava. Em se tratan-
do dos surdos, a Linguagem Brasileira de Sinais – Libras não foi reconhecida como sendo a sua
primeira língua e o uso do intérprete foi vetado.
Assim, para que tais situações não se repitam, urge que a Universidade esteja preparada
para incluir alunos surdos, cegos, ou com outro tipo de deficiência, buscando, como Guimarães
(2002) aponta, a transformação das atitudes, do comportamento, da administração, do atendi-
mento e da organização físico-espacial do espaço arquitetônico e urbano.
Nesse contexto, esse projeto de extensão, ora em andamento, tem como objetivo realizar
um diagnóstico sobre a situação do Campus A. C. Simões da Universidade Federal de Alagoas
– UFAL, e propor soluções para resolver os problemas encontrados no referido Campus, tanto
nos acessos externos (ruas, calçadas e estacionamentos) quanto no âmbito das edificações.
Pretende, assim, contribuir para viabilizar o direito constitucional de acessibilidade aos
usuários do Campus e contribuir para a inclusão social de uma parcela significativamente
grande da população brasileira. Acredita-se que a UFAL, na qualidade de instituição de ensino
superior, deve ser um agente inclusivo da sociedade e considerá-la sem discriminação ou
segregação de qualquer natureza. E, mais importante, objetiva proporcionar um importante
efeito multiplicador desse tipo de ação, tanto no âmbito das instituições públicas, como no seio
da comunidade alagoana em geral. Para fomentar esse efeito multiplicador, foi previsto um
curso de capacitação com o objetivo de oferecer treinamento e atualização, na área de acessi-
bilidade, para profissionais e professores de instituições de ensino superior em Alagoas. O
curso tem por finalidade incluir, no ensino de graduação dos cursos ligados à construção civil,
a preocupação com os aspectos relacionados à acessibilidade.
Metodologia
O trabalho está dividido em dois tipos de ação. O primeiro tipo, consiste na elaboração
de propostas arquitetônicas para intervenção no Campus A. C. Simões.
O segundo é constituído por treinamento técnico, tendo como público-alvo profissionais
e professores envolvidos no ensino de projetos arquitetônicos nos cursos de Graduação em
Arquitetura e Urbanismo, do Estado de Alagoas.
As ações previstas, com as respectivas metodologias, estão abaixo discriminadas.
Intervenção no Campus A. C. Simões
A primeira parte dessa ação consistiu na elaboração de um diagnóstico da situação atual.
Foi realizado mediante entrevistas com usuários portadores de deficiências físicas, registro
222
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fotográfico das barreiras encontradas e levantamentos arquitetônicos e técnicos, apoiados na
literatura existente sobre o assunto.
A fim de promover a capacitação preliminar dos envolvidos no projeto, foi realizada
uma revisão bibliográfica da legislação em vigor, particularmente as Leis Federais nº 7.853/89,
regulamentadas pelo Decreto nº 3.298/99, a nº 10.048/00 e a nº 10.098/00, bem como a Portaria
Ministerial do MEC n° 1679/99. Foram ainda consultadas as normas técnicas que fixam os
padrões de medidas para tornar uma edificação acessível. Visando ampliar essa capacitação
técnica da equipe envolvida, os membros do projeto participaram também de cursos e eventos
específicos sobre o tema, realizados em Recife-PE.
A segunda etapa consistiu na realização do levantamento arquitetônico atual, tanto dos
prédios da Universidade Federal de Alagoas, quanto dos equipamentos urbanos que estão
situados no Campus A. C. Simões. Esse levantamento serve de base para a identificação da real
situação das condições de acessibilidade na instituição e do que seria necessário para adaptá-la
às condições adequadas, considerando os custos dessas intervenções.
A terceira etapa, ora em andamento, se constitui na elaboração de propostas
arquitetônicas para tornar acessíveis os prédios existentes e suas vias de acesso com seus
mobiliários urbanos.
Essas etapas estão sendo desenvolvidas por doze bolsistas do grupo PET Arquitetura,
coordenados pelo Prof. Leonardo Bittencourt.
Capacitação de profissionais e professores de projeto arquitetônico nos cursos de Arquitetura
e Urbanismo do Estado de Alagoas
Um fato, freqüentemente constatado pelos arquitetos, consiste na dificuldade de adaptar
um ambiente já construído a fim de torná-lo acessível aos portadores de deficiência. Caso a
intenção de se produzirem espaços adequados estivesse presente desde o início da concepção
arquitetônica e fosse aplicada nas etapas iniciais da concepção do projeto, esses problemas seriam
mais facilmente resolvidos, tanto no que se refere à arquitetura quanto ao fator financeiro, que
se apresenta como um dos principais impasses nas universidades públicas. A partir deste fato
realizou-se uma pesquisa para constatar como o assunto acessibilidade no espaço construído
vem sendo abordado nos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil no Estado
de Alagoas. Com a pesquisa, verificou-se que cerca de 70% dos professores de projeto
arquitetônico e urbanístico desconhecem a Lei n° 10.098, de 19 de dezembro de 2000, bem
como as normas da ABNT para acessibilidade.
Isso ressalta a necessidade de realização do curso “Acessibilidade nos Espaços
Habitados”, destinado a professores envolvidos no ensino das disciplinas relacionadas ao
projeto arquitetônico e ao desenho urbano, a fim de que os conteúdos relativos à acessibilidade
no espaço habitado sejam devidamente considerados nessas disciplinas.
A partir desse treinamento, pretendeu-se que os assuntos ministrados passassem a ser
incluídos como parte das matérias dos cursos de graduação dos profissionais responsáveis pela cons-
trução do espaço habitado, com reflexos positivos no ensino e pesquisas relacionadas ao tema.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Resultados e discussões
As entrevistas feitas forneceram informações detalhadas sobre as necessidades de porta-
dores dos diversos tipos de deficiência, permanente ou temporária, além de uma visão crítica de
alguns pontos das normas técnicas existentes, que talvez necessitem ser revistos.
As visitas preliminares realizadas nos edifícios do Campus A. C. Simões da UFAL
constataram a falta de adequação da totalidade dos edifícios e do mobiliário urbano do
Campus às normas de acessibilidade vigentes.
Observou-se que as calçadas do Campus A. C. Simões não são contínuas e estão
degradadas pela ação do tempo e a presença de vegetação, dificultando bastante a locomoção
entre os diversos prédios. Os equipamentos urbanos tais como telefones públicos, grelhas,
postes de iluminação e energia, não atendem às especificações previstas nas normas da ABNT
sobre acessibilidade. A construção aleatória de rampas não se tem mostrado uma medida
válida, pois aproximadamente 80% dos casos analisados não obedecem às regras estabelecidas
pela NBR 9050 relativa à construção de rampas.
O acesso aos blocos é outro grande entrave. Cerca de 60% dos blocos não possuem
calçadas nem rampas de acesso e mesmo os que possuem encontram-se em estado de
degradação. Detectou-se ainda a ausência de sinalização indicativa da localização como, por
exemplo, a utilização de piso tátil. Todos os blocos com dois pavimentos não possibilitam o
acesso dos cadeirantes ao pavimento superior, embora estejam localizadas, nesse pavimento,
salas de aula e laboratórios de acesso obrigatório a todos os estudantes de graduação e pós-
graduação. As escadas e poucas rampas existentes não possuem corrimãos adequados às normas
vigentes, dificultando os acessos dos usuários com mobilidades reduzidas. Aproximadamente
70% das portas encontram-se com medidas inferiores às estabelecidas em norma, dificultando
a passagem dos deficientes, principalmente quando se trata de cadeirantes. Outro problema
grave são os banheiros, dos quais aproximadamente 65% não possuem equipamentos e
distribuição adequada destes, para manobras e aproximação dos deficientes já citados.
O auditório principal da Universidade, localizado na Reitoria do Campus A. C. Simões
possui sérios problemas de acessibilidade: não possuem assentos e corredores adequados e
espaços para cadeira de rodas. Apenas o auditório da Biblioteca Central possui acesso adequado.
No entanto, o acesso ao palco para palestrante portador de deficiência não está previsto.
Os resultados encontrados e a deficiência na formação dos professores e profissionais da
área em questão reforçaram a necessidade da realização do curso de capacitação
“Acessibilidade nos Espaços Habitados”. O curso foi realizado nos dias 18 e 19 de dezembro
de 2003, tendo duração de 20 horas. Essa ação foi desenvolvida em parceria com o Conselho
Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Alagoas – Crea-AL, que manifestou seu
interesse de continuar atuando nesse sentido. O curso teve como palestrantes:
Adriana Romeiro de Almeida Prado – Centro de Estudos e Pesquisas de Administração
Municipal – Cepam-SP;
Ângela Carneiro Cunha – Crea-PE;
224
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Ângela Rúbia Ferreira – Departamento de Planejamento e Projetos de Trânsito de Recife
– CTTU;
Elcio Eustáquio Rizzi – Coordenador Nacional do Programa de Acessibilidade da
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República;
• Maria Elizabeth Lopes – Universidade de São Paulo-SP;
• Raquel Faião Rodrigues – bolsista do PET Arquitetura da UFAL.
Além do curso propriamente dito, foi disponibilizado material didático aos participantes
do curso para utilização em suas atividades profissionais ou em cursos ministrados. Cópias
desse material foram distribuídas para as bibliotecas do Crea-AL, UFAL, Centro de Estudo
Superior de Maceió – Cesmac, Mestrado em Dinâmicas do Espaço Habitado – DEHA e
Associação dos Deficientes Físicos de Alagoas – Adefal.
A seguir, o conteúdo do curso realizado:
conceitos de acessibilidade e definição de rotas acessíveis;
desenho universal;
• vivência dos problemas mais freqüentes;
leis sobre acessibilidade: Federais, Estaduais e Municipais (Instrumentos para a utiliza-
ção das Normas Brasileiras);
Normas Brasileiras (NBR 9050 e outras sobre acessibilidade em edificações, transportes
e comunicação);
• materiais e equipamentos disponíveis no mercado (disponibilizando os catálogos,
mostruários e contatos);
exemplos de soluções integradas, aplicada em edificações existentes.
O curso despertou grande interesse nos técnicos de órgãos públicos e privados que tra-
balham com legislação, construções e intervenções urbanas, a exemplo do Crea, Serveal, IAB,
Prefeituras Municipais e construtoras. O curso foi estendido a discentes das Escolas de
Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil de Alagoas, constituindo um total de 102 partici-
pantes.
Apesar da grande participação, o número de professores e profissionais capacitados pelo
curso ainda foi reduzido, tendo em vista o quadro crítico em que se apresentam os espaços
construídos no Estado. Os estudantes surpreenderam no número de inscrições e no grau de
envolvimento durante o curso. Isso sugere que a preocupação com o tema proposto vem
crescendo e que as futuras gerações de profissionais e professores da área tendem a estar mais
aptas a construir uma cidade mais acessível.
Etapas concluídas
Preparação de material didático para o curso destinado a profissionais e professores de
projeto arquitetônico.
Realização de curso para profissionais e professores de projeto arquitetônico.
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Levantamento arquitetônico do Campus A. C. Simões da Universidade Federal de
Alagoas.
Elaboração e sistematização do diagnóstico do Campus A. C. Simões.
Etapas a concluir
Elaboração de propostas arquitetônicas para proporcionar acessibilidade nos prédios
estudados, assim como nos espaços externos.
Elaboração de relatório final e prestação de contas.
Conclusão
Observa-se que há um grande interesse por parte da comunidade acadêmica na elaboração
e realização deste projeto. Por meio desta reação percebe-se que a preocupação com as neces-
sidades humanas não tem se restringido aos que são limitados pelas barreiras físicas. Essa
atitude apresenta um sentido bastante promissor, uma vez que uma parte significativa das difi-
culdades para elaborar propostas de mudanças no espaço coletivo é maior quando a sociedade que
ocupa esse espaço não está consciente da importância de torná-lo acessível a todos os cidadãos.
Durante o desenvolvimento desse projeto de extensão, pretendeu-se enfatizar que as
questões ligadas à acessibilidade se constituem em respostas sociais e humanas capazes de
ultrapassar normas e números. Os espaços e os usuários fazem parte de uma prioridade que o
arquiteto precisa relacionar de forma sensata, justa e plural.
Espera-se estar tratando e divulgando a acessibilidade ao ambiente construído como um
importante meio de inclusão social, o qual temos o dever de construir e preservar, oferecendo
desta forma condições de inclusão social mais adequadas àqueles a quem o espaço estabelece
restrições, o que significa mais respeito social para 23% da população brasileira.
Referências bibliográficas
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de pessoas portadoras de deficiência a edificações, espaço, mobiliário e equipamento urbano
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portadora de deficiência. Rio de Janeiro: ABNT, 2001. 15 p.
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Diário Oficial da União, Brasília, 20 dez. 2000.
BRASIL. MEC. Portaria Ministerial nº 1679 de 2 de dezembro de 1999.
Diário Oficial da
União
, Brasília, 03 dez. 1999.
GUIMARÃES, M. P.
A eliminação de barreiras possibilita aos portadores de deficiência
agirem na sociedade
. São Paulo: CVI-BH, 2002.
226
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•Projeto Cortiço Vivo
Andrea Felix de Carvalho Noguchi, Aluna de Graduação (1)
Patrícia Lemos Nogueira Cobra, Aluna de Graduação (1)
Natália Felix de Carvalho Noguchi, Psicóloga e aluna de Pós-Graduação (2)
(1) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade de São Paulo – USP
(2) Instituto de Psicologia – Universidade de São Paulo – USP
Resumo
O Projeto Cortiço Vivo foi uma proposta de intervenção cuja origem se deu a partir de
uma disciplina optativa ministrada pela Profa. Dra. Maria Ruth Amaral de Sampaio na
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Teve por objetivo propor a requalificação de um
cortiço vertical localizado na área central de São Paulo. Para tanto, alunos de diversas facul-
dades de universidades públicas e privadas buscaram desenvolver o trabalho em uma semana
de imersão no edifício, em que se montou um pequeno escritório no andar térreo, aproximando
os estudantes da comunidade. Com as atividades desenvolvidas em cinco frentes de trabalho
que se complementavam – Arquitetura, Jurídico, Financeiro, Social e Comunicação – pôde-se
compreender melhor a realidade do local, as demandas e desenvolver projeto de requalificação
do edifício, além de pensar alternativas de financiamento para os moradores e trabalhar outras
questões, como a reciclagem do lixo e o fortalecimento da comunidade. Esses trabalhos
culminaram com o encaminhamento do projeto arquitetônico à Secretaria de Habitação do
Município e com a formação do Grupo Cortiço Vivo, que dá continuidade às atividades em
todas as frentes de trabalho existentes desde a semana de imersão.
Palavras-chave: cortiço, intervenção, interdisciplinaridade
Introdução e objetivos
A proposta de intervenção a que denominamos Projeto Cortiço Vivo teve origem em
2002, a partir de uma disciplina optativa oferecida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
USP, em que alunos de graduação, sob orientação da Profa. Dra. Maria Ruth Amaral de
Sampaio, iniciaram um projeto visando à requalificação de um cortiço vertical situado na área
central de São Paulo.
O local onde foi realizada a intervenção teve sua construção iniciada entre o final da
década de 70 e início de 80. Em meados dos anos 80, o prédio inacabado, que possuía
apenas a estrutura, atraiu os primeiros invasores, que finalizaram, por conta própria, a
construção do edifício. Dessa forma, eles mesmos se organizaram, dividiram os espaços e
construíram de forma rudimentar as instalações elétrica e hidráulica. O prédio se caracterizou,
então, por unidades habitacionais variadas, com tamanhos, cômodos e materiais de construção
diversos.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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No primeiro contato com o edifício, correspondente ainda à disciplina optativa, foi realiza-
do um levantamento físico e uma breve pesquisa socioeconômica. Ao final dessa disciplina, o
interesse pelo prédio permaneceu. Entretanto, os alunos sentiram a forte necessidade da
participação dos moradores, assim como de estudantes e profissionais de outras áreas que
contribuíssem para a elaboração dos projetos de requalificação do edifício e para o conheci-
mento daquela realidade.
Nessa mesma época, o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, organização não
governamental, e a Unificação da Luta dos Cortiços – ULC, movimento de moradia, realizaram
uma operação destinada a garantir a segurança dos moradores e a regulamentar a situação
desses. Seguindo as recomendações da Subprefeitura da Sé, 29 das 72 famílias que moravam
no local saíram do prédio, sendo indenizadas, enquanto as 43 restantes, entraram com uma ação
de Usucapião Coletivo Urbano na justiça.
Ao final de 2003, os alunos da FAU-USP propuseram uma ação interventiva que
consistia em uma semana de imersão no prédio, com estudantes e profissionais de diversas
áreas de conhecimento, à qual denominaram Projeto Cortiço Vivo. Essa ação teve como base o
Laboratório de Projeto Integrado e Participativo para Requalificação de Cortiço, experiência
de extensão universitária realizada em 1999.
O trabalho da semana tinha como intenção elaborar um esquema de projeto de inter-
venção física para o prédio, integrar estudantes, moradores e profissionais, compreender a
lógica jurídica para regularizar a situação do prédio, refletir sobre a qualidade de vida dos
moradores, suas condições culturais e sociais.
Foi dada ênfase também para o fato de ser um projeto de extensão universitária com obje-
tivo participativo, no qual o trabalho fosse realizado em conjunto por moradores e participantes.
A idéia de uma semana de imersão, com a montagem de um miniescritório no andar térreo do
prédio, foi justamente para facilitar a interação com a comunidade e entre as frentes de atuação.
Além disso, a peculiaridade desse projeto é a interdisciplinaridade. Estudantes e
profissionais de diversas áreas do conhecimento trabalharam em conjunto, visando a uma
intervenção que melhor atendesse às necessidades da população.
Metodologia
Para a realização desse trabalho, a proposta foi divulgada em diversas instituições de
ensino superior, sendo o grupo final formado por estudantes e profissionais de Arquitetura,
Ciências Sociais, Jornalismo, Artes Plásticas, Cinema, Psicologia, Direito e Educação, de diversas
universidades, públicas e privadas.
Os participantes se dividiram nas frentes de trabalho descritas a seguir.
Arquitetura: a Frente de Trabalho de Arquitetura tinha como objetivo elaborar um estu-
do preliminar para requalificação física do prédio. Para tanto, mostrava-se necessário com-
preender melhor a estrutura do edifício, bem como as condições em que a construção se encon-
trava, pois até o momento não havia sido obtida nenhuma planta da Prefeitura nem de estrutu-
ra que pudessem nos balizar no trabalho.
228
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O grupo de Arquitetura se subdividiu em outros grupos menores para poder realizar o
levantamento físico do prédio. Cada subgrupo era responsável pelo levantamento de um ou
mais apartamentos, registrando as medidas destes, a localização dos caixilhos, dos pontos de
água e luz, a situação das paredes (em que se avaliava se ela deveria ser demolida, se só neces-
sitava de algum reparo ou se estava em bom estado). Dessa forma, pôde-se reconhecer a divisão
dos espaços do prédio entre as famílias, definir limites e dimensões dos apartamentos existentes
e os cômodos que abrigavam, além das prumadas de hidráulica e elétrica.
Os desenhos obtidos foram digitalizados para servir de base ao estudo preliminar, que
pretendia sugerir uma redivisão dos espaços e rever as instalações, buscando melhores
condições de habitabilidade no local.
Paralelamente ao levantamento físico, foi sendo realizado um questionário sobre os
aparelhos elétricos existentes em cada apartamento, para ser utilizado no novo cálculo das insta-
lações elétricas.
Para dar prosseguimento ao trabalho, foi convocada uma assembléia com os moradores,
que decidiram pela redivisão dos apartamentos em tamanhos iguais, independente do número
de pessoas na família. A partir desta decisão e utilizando os dados obtidos pela Frente de
Trabalho Social, a frente de trabalho de Arquitetura pôde desenvolver duas propostas de
reforma e requalificação do edifício, que foram apresentadas em reuniões com os moradores em
que se podia explicar as intervenções individualmente, utilizando-se de desenhos e modelos, a
fim de facilitar a compreensão do espaço sugerido. Dessa maneira, os moradores puderam
opinar e sugerir mudanças que julgavam necessárias. Com as duas propostas de divisão dos
apartamentos definidas, pôde-se esboçar um projeto de hidráulica, definindo as prumadas de
água fria e esgoto, além da passagem da fiação elétrica.
Social: a semana de trabalho teve início com a realização de dinâmicas de grupos para facilitar
o entrosamento entre participantes do projeto e moradores do prédio, iniciar um contato e incen-
tivar o envolvimento ativo dos moradores na elaboração das atividades que seriam realizadas.
A Frente de Trabalho Social tinha por intenção fazer um levantamento socioeconômico
da população residente e compreender a realidade dessa. Para isso, foi aplicado um questionário
do qual faziam parte perguntas sobre características das famílias (renda, idade, escolarização,
emprego, etc.), histórico do prédio e dos moradores (tempo de moradia, Estado ou País de
origem), relação com o prédio (participação em movimentos de moradia, realização de
mutirões, participação em assembléias), questões relacionadas aos apartamentos atuais (cômo-
do mais utilizado) e sugestões para a reforma (tamanho dos cômodos, construção de espaços
coletivos, utilização dos espaços vazios, sugestões de atividades a serem desenvolvidas). Os
dados dos questionários foram tabulados e analisados durante a semana, e transmitidos aos
moradores em forma de duas apresentações. Detectadas algumas demandas, foram realizadas
dinâmicas de grupo com os moradores para trabalhar a migração, os riscos apresentados pelo
prédio — para as quais contamos com a presença de professores da Faculdade de Educação
e da Faculdade de Saúde Pública da USP, e a percepção do espaço habitacional resultante do
projeto da frente de trabalho da Arquitetura.
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Também foram realizadas dinâmicas para refletir sobre como as pessoas se sentiam
morando naquele prédio, suas expectativas, dificuldades, decepções, enfatizando a potenciali-
dade das relações existentes entre os moradores, visando fortalecer o sentimento de grupo e
comunidade entre eles.
Um dos pedidos feitos constantemente pelos moradores era de um espaço onde as
crianças pudessem brincar. Isso fez com que a Frente de Trabalho Social reestruturasse suas
atividades para que fosse também reservado um espaço para realização de atividades lúdicas
com as crianças, por se tratar de um período de férias. Dessa forma, foi feito um trabalho de
conscientização a respeito do lixo e da coleta seletiva e uma atividade de criação de brinquedos
a partir de sucata, além de uma atividade de contar histórias e brincadeiras tradicionais como
barra manteiga, corre-cotia, entre outras.
Financeiro: a Frente de Trabalho Financeiro tinha como objetivo orçar parcialmente as
propostas de Arquitetura e estudar possibilidades de financiamento de acordo com a renda dos
moradores. Para isso, foram feitos contatos com representantes de ONGs e Acessorias Técnicas.
Jurídico: a parte jurídica relacionada ao prédio está sob os cuidados do Centro Gaspar
Garcia de Direitos Humanos. Ao formar essa frente de trabalho, tínhamos como objetivo
compreender, junto aos advogados, a situação jurídica do prédio. Para isso, os processos foram
lidos e eram realizados grupos de estudos sobre a legislação vigente no que se refere à habitação
popular. Também foram chamados profissionais como Nabil Bonduki para fazer uma palestra
sobre Zeis – Zona Especial de Interesse Social, para que pudéssemos aumentar as possibilidades
de ação em relação ao prédio.
Comunicação: a Frente de Trabalho de Comunicação tinha como objetivos registrar o
trabalho realizado e cuidar da assessoria de imprensa. As atividades foram filmadas, fotografas
e registradas em fita cassete para a realização de um documentário sobre a semana. Foram
realizadas entrevistas com os moradores para que contassem um pouco sobre suas histórias e a
história do prédio.
Quanto à assessoria de imprensa, essa foi necessária pelo fato de ter ocorrido a divul-
gação do trabalho pelo Jornal da USP, Rádio USP, Jornal O Estado de S.Paulo e TV Futura.
Ao final de cada dia, eram realizadas reuniões gerais para que os grupos se inteirassem
sobre as atividades e para discussão de como prosseguir. Eram também realizadas reuniões com
os moradores para que opinassem sobre nossa presença no prédio e discutissem as demandas
por nós detectadas.
As atividades, sob coordenação e supervisão de professores, também eram acompanhadas
por profissionais das mais diversas instituições – ONGs, associações e movimentos de moradia.
Foram programadas, durante a semana, palestras que discutiam temas de interesse geral.
Para encerrar a semana, foi programado um evento para que os participantes do projeto
apresentassem os resultados do trabalho realizado. Nesse, estavam presentes, além dos
moradores e professores, o Reitor da USP, Adolpho José Melfi, o então Secretário Municipal da
Habitação, Paulo Teixeira e o Diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP,
Ricardo Toledo Silva.
230
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Resultados
Um dos objetivos do Projeto Cortiço Vivo era traçar um perfil socioeconômico dos
moradores do prédio no qual foi realizada a intervenção. Com base nos resultados obtidos, foi
detectado que a população é constituída por 168 moradores, sendo 101 adultos e 67 crianças.
Eles se distribuem em 43 apartamentos, de área variando de menos de 10 m_ a mais de 78 m_,
havendo, em média, três moradores por apartamento — porém, o apartamento com mais pes-
soas abriga 10 moradores e não é o de maiores dimensões. A grande maioria dessa população
chegou no prédio há mais de sete anos, sendo que cinco das famílias está lá há quatorze anos.
Trata-se de uma população em sua maioria migrante, sendo que 61% dos moradores são
procedentes das regiões Norte e Nordeste, sendo possível colocar como hipótese uma busca por
melhores condições de vida, em um movimento migratório característico dos anos 80. Das
famílias entrevistadas, 38% moravam nessa mesma região antes de ir para o prédio em questão.
Das restantes, a maioria morava na periferia de São Paulo, carente de toda a infra-estrutura
disponível no centro da cidade.
O bairro do Bom Retiro absorve 72% dos moradores do prédio que exercem alguma
atividade remunerada, sendo que 37% das atividades profissionais estão relacionadas ao prin-
cipal ramo de atividade no bairro: confecção. Relacionado ao trabalho, foi também constatado
que, dos adultos que trabalham, 62% vão a pé, não tendo nenhum gasto com meio de transporte.
Podemos pensar, a partir desses dados, que a população, por viver no Bom Retiro há
muito tempo, já utiliza a infra-estrutura local de forma intensa. Os moradores enumeraram as
vantagens de morar nessa região comercial e abastecida pela rede de transporte local —
proximidade do metrô Tiradentes e ponto de ônibus no mesmo quarteirão. Além disso, foi
constatado que 92% das crianças estudam em escolas do Bom Retiro e vão a pé à aula.
Com relação às instituições públicas relacionadas à saúde, 81% dos moradores utilizam
o posto de saúde localizado no Bom Retiro, sendo o posto de saúde da Barra Funda uma
alternativa também bastante utilizada.
A apresentação desses dados é de extrema importância para balizar o interesse dos
moradores na legalização dos apartamentos: são pessoas que possuem uma forte ligação com o
bairro, desenvolvendo nele todas as suas atividades. Aremoção das famílias implicaria na busca
por uma habitação na região central, que não exigisse um gasto extra com transporte para esco-
las e trabalho. Todas essas informações devem ser consideradas, dada a provável necessidade
da saída dos moradores para realizar as reformas de revitalização do edifício.
No que se refere à relação que os moradores têm com o prédio, o interesse da comu-
nidade fica evidente no histórico de trabalhos realizados em mutirão: 67% dos moradores
sabem o que é e participam freqüentemente. A limpeza do prédio realizada periodicamente é
uma das atividades desenvolvida pela população em mutirões — 86% das famílias participam
ativamente. A mesma porcentagem de famílias participa das assembléias convocadas
pela Associação de Moradores.
O Projeto Cortiço Vivo também teve como preocupação detectar que demandas
existiam, por parte dos moradores, com relação aos espaços coletivos do prédio. Prioridades e
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231
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interesses da comunidade enumeradas a partir da análise dos dados recolhidos foram consideradas,
e em alguns casos priorizadas, na elaboração dos projetos. Por exemplo, a construção de
espaços coletivos no edifício é entendida como uma necessidade para 88% das famílias, sendo
o uso preferencial desses espaços um centro comunitário, uma creche e uma biblioteca — um
espaço adequado para as reuniões e para o lazer das crianças.
No que diz respeito à estrutura física do prédio, 52% dos moradores entrevistados não
acha o prédio seguro, apontando como principais problemas as redes elétrica e hidráulica. A
presença de fiação exposta em todo o edifício faz com que o risco de incêndio seja constante.
Trata-se de uma constatação considerada grave, já que o prédio não possui infra-estrutura para
esse tipo de situação — extintores, portas corta-fogo, escada de incêndio, ventilação adequada
e, nem sequer, caixa d’água.
Outra discussão constantemente levantada se refere à divisão da conta de luz, que
atualmente é conjunta. Há muito tempo a conta é demasiadamente cara devido às constantes
fugas de energia ocasionadas pelo mau dimensionamento da fiação e pelas conexões precárias
realizadas pelos próprios moradores com fita isolante. Os moradores, como forma temporária
de organização, pagam uma taxa correspondente a uma espécie de condomínio, utilizada para
o pagamento desta conta. Porém, um dos pedidos mais freqüentes é a colocação de relógios
individuais. Para a reforma do prédio, após uma dinâmica de grupo para que os moradores
refletissem a respeito do espaço de moradia, foi realizada uma assembléia em que eles decidi-
ram por uma nova divisão dos apartamentos em áreas iguais, independentemente do número
de moradores de cada apartamento. A discussão, após gerar muita polêmica, auxiliou a Frente
de Trabalho de Arquitetura a elaborar os projetos.
Um dos itens do questionário realizado tratava, inclusive, da discussão sobre cada um
dos cômodos do apartamento. Foi perguntado aos moradores que cômodo era, por eles, mais
utilizado. Ao obter como dado o fato de que a sala e o quarto são preferencialmente ocupados
pelos moradores, pudemos pensar a elaboração dos projetos, priorizando esses cômodos.
Também para auxiliar a confecção dos projetos, foi pedido que imaginassem como
gostariam que fosse o novo apartamento com relação a tamanho de cômodos. Verificou-se que
a maioria dos moradores prefere que a sala seja maior que o quarto e a cozinha. No caso dos
quartos, a maioria optou que o quarto do casal fosse maior que o das crianças. Isso pode ser
justificado pelo fato de que os adultos responderam ao questionário ou porque, em algumas
famílias, é no quarto do casal que dormem as crianças mais novas.
Todo esse trabalho de análise dos questionários e realização de dinâmicas de grupo tinha
como finalidade detectar demandas e elaborar projetos que melhor atendessem às necessidades
da população. Toda essa análise culminou com as duas propostas de reforma apresentadas aos
moradores.
É importante também apresentar como resultado o fortalecimento do vínculo entre
moradores e participantes do projeto. Como forma de agradecimento ao trabalho realizado,
estes organizaram, para o final da semana de intervenção, um churrasco de encerramento, a
primeira festa com a participação de todos na história do prédio.
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Conclusão
A primeira conclusão à qual os participantes do Projeto Cortiço Vivo chegaram foi de
que uma semana é pouco tempo para a intervenção desejada. Formou-se então o Grupo Cortiço
Vivo, por pessoas que desejavam dar continuidade ao trabalho realizado. O grupo permaneceu
subdividido em frentes de trabalho e realiza reuniões quinzenais para discutir as atividades.
Com relação à reforma e à situação legal do prédio, estão sendo realizadas reuniões com
a Secretaria Municipal de Habitação. Foi entregue aos representantes dessa Secretaria um texto
com a análise dos aspetos socioeconômicos dos moradores e as sugestões de intervenção por
parte dos estudantes. Foi também elaborada uma proposta de orçamento incluindo as reformas
das redes elétrica, hidráulica e estrutural, assim como a redivisão dos apartamentos, com base
no estudo preliminar desenvolvido durante a semana, que foi revisado. Além desse orçamento
completo, foi realizado um orçamento de reforma emergencial, que busca eliminar o que pode
oferecer riscos imediatos à população, segundo laudo realizado pelo Instituto de Pesquisas
Tecnológicas – IPT, recuperando a estrutura, redimensionando as fiações elétricas, impermea-
bilizando a cobertura e colocando os caixilhos de maneira adequada.
A Frente de Trabalho Financeiro está agindo juntamente com as Frentes Arquitetura e
Jurídica, fazendo os orçamentos já apresentados à Secretaria Municipal de Habitação. Com o
grupo Jurídico, estão sendo realizados estudos de possíveis financiamentos, entretanto a questão
fundiária que envolve o imóvel é um problema a ser resolvido em qualquer um deles.
A Frente de Trabalho Jurídica continua em contato com o Centro Gaspar Garcia de
Direitos Humanos e acompanhando os processos nos quais o prédio esta envolvido. Atualmente
o grupo realiza uma discussão a respeito da regularização fundiária do edifício, estudando basi-
camente duas propostas a Usucapião e a Desapropriação. Após o encaminhamento do pedido à
Regional da Sé, o lote do edifício foi incluído no Plano Diretor Regional da Sé como uma Zeis.
A Frente de Trabalho de Comunicação elaborou um folder para divulgação do trabalho,
financiado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Há também o projeto, em
andamento, de um site informativo e da elaboração de um documentário sobre a semana de
intervenção.
AFrente de Trabalho Social, após detectar as mais diferentes demandas, pensou algumas
formas de continuidade, as quais já se encontram em andamento: catálogo com instituições de
saúde e educação: a demanda por esse tipo de instituição gerou, no grupo, a vontade de visitar
centros de saúde, escolas de profissionalização e todo o tipo de serviço oferecido gratuitamente
e que a população do prédio pudesse usufruir. Foi realizada uma reunião com os moradores para
apresentar o catálogo, a ser constantemente atualizado; alfabetização de adultos: em vista do
fato de que muitos moradores não têm o primeiro grau completo, será aberta uma sala, a partir
de agosto, de alfabetização de adultos, em parceria com projetos da Prefeitura. A sala cedida
fica em uma escola ao lado do prédio e a turma será formada por moradores do bairro. As aulas
serão quatro vezes por semana, à noite; grupo de estudos para pré-vestibulandos: devido ao
fato de que muitos dos jovens trabalham e estudam, pensamos um projeto em que um grupo de
estudantes de cursinho pré-vestibular pudesse auxiliar os moradores que tivessem vontade
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de estudar para prestar vestibular. Deste, fazem parte alunos de segundo e terceiro colegial ou
que já tenham finalizado os estudos e são trabalhados temas sugeridos pelos próprios alunos.
Os grupos são realizados aos domingos, pela manhã; atividades lúdicas com as crianças: dando
continuidade ao que já tinha sido feito na semana, o Grupo Cortiço Vivo está realizando ativi-
dades quinzenais com as crianças do prédio e região. No primeiro semestre, houve Oficina de
Contar Histórias, Parangolé, Relaxamento e Artes Plásticas. Para o encerramento do semestre
está sendo programada uma festa sugerida pelas próprias crianças; biblioteca: a partir da doação
de armários e livros, está sendo montada uma biblioteca no andar térreo do prédio, que ficará
aos cuidados de moradores que aceitarem receber treinamento para essa atividade.
Existe uma preocupação, por parte da Frente de Trabalho Social, de detectar constante-
mente a demanda dos moradores. Para o segundo semestre, conforme sugestão, estão sendo
pensadas a montagem de uma brinquedoteca no andar térreo e de uma equipe de reforço esco-
lar para alunos de primeira série ao colegial. Além disso, estão sendo programadas atividades a
respeito da alimentação e reaproveitamento de recursos, palestras sobre riscos ambientais,
treinamento para situação de incêndio, oficinas de gerenciamento e liderança e grupos de dis-
cussão sobre sexualidade.
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234
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Rede de proteção às pessoas em situação de violência intrafamiliar: a
experiência de Blumenau/SC
Maria Salete da Silva, Assistente Social - CRESS 0851/12ª Região. Mestre em Sociologia Política
Universidade Regional de Blumenau – Departamento de Serviço Social
Resumo
O Projeto Assistência Sociojurídica atende usuários do Núcleo de Prática Jurídica –
Furb que buscam acesso gratuito à justiça. A violência intrafamiliar é um fenômeno recorrente
na Instituição. Em 2003 foram cadastrados 155 usuários, a maioria mulheres em busca de
apoio e orientação (80%) e 41% apresentaram, com maior incidência, violência física, verbal
e psicológica. Uma dificuldade da equipe refere-se à articulação da rede de proteção social para
garantir a atenção às famílias. Dada a fragmentação da rede, a equipe propôs, em 2003, a
formação do Grupo de Trabalho Rede de Proteção às Pessoas em Situação de Violência
Intrafamiliar, com o objetivo de promover debate sobre a rede de serviços necessários ao atendi-
mento de pessoas em situação de violência intrafamiliar com vistas à formação de uma rede de
proteção. Metodologia: Inicialmente fez-se o levantamento das Instituições que atendem esse
público. Em seguida, organizou-se um ciclo de apresentação destas e, por último, passou-se à
definição das suas atribuições. O GT reúne-se mensalmente e é coordenado por uma comissão.
Principais resultados e conclusões: mobilizou-se cerca de 40 instituições, embora a participação
nas reuniões seja flutuante. A elaboração das atribuições será concluída em julho próximo e,
após, será estabelecido o protocolo de atenção
.
Palavras-chave: rede; violência intrafamiliar; proteção social
Introdução e objetivos
O Projeto Assistência Sociojurídica – PASJ, extensão do Departamento de Serviço
Social da Universidade Regional de Blumenau – Furb, teve início em março de 1998, quando
houve a inserção de quatro alunas do curso de Serviço Social no Núcleo de Prática Jurídica para
desenvolver estágio curricular obrigatório. Posteriormente, a experiência deu origem ao Projeto
de extensão, o qual foi aprovado pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão pelo parecer nº
052/2002, sendo financiado pelo Departamento de Serviço Social, Pró-Reitoria de Extensão e
Relações Comunitárias e Centro de Ciências Jurídicas. O Projeto inclui subprojetos voltados ao
atendimento da população que procura o Núcleo de Prática Jurídica da Furb para acessar
gratuitamente à justiça. Em 2004 a equipe compõe-se de 9 alunas do curso de Serviço Social,
sendo 3 bolsistas de extensão e 6 que realizam estágio curricular obrigatório, as quais atuam
em conjunto com professores e alunos dos cursos de Direito e Psicologia. São realizadas abor-
dagens individuais e coletivas. A abordagem individual ocorre no Subprojeto Plantão Social,
envolvendo os usuários e seus familiares. Neste espaço faz-se a escuta qualificada dos usuários,
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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a análise e reflexão sobre as necessidades sociais expressas, bem como a orientação sobre direitos
sociais e a rede de serviços. Este atendimento pode ser prestado individualmente, pelo Serviço
Social ou em conjunto com os acadêmicos do curso de Direito, o que denominamos de atendi-
mento compartilhado. A abordagem coletiva inclui os Subprojetos Informação, Oficinas de
Cidadania e Seminários Temáticos. Por meio do Subprojeto Informação ocorre a intervenção
educativa na sala de espera, enquanto a população aguarda o atendimento. São discutidos temas
relacionados às demandas apresentadas pela população usuária e, no decorrer do primeiro
semestre de 2004, abordamos a violência contra a mulher, emprego e desemprego, direitos do
idoso, da criança e do adolescente. O Subprojeto Oficinas de Cidadania é executado em parceira
com a comunidade e com outras instituições, tais como a Secretaria Municipal de Assistência
Social, o Centro de Educação de Jovens e Adultos e Organizações Não Governamentais que atendem
crianças e adolescentes. A meta é atender grupos comunitários ou de usuários já constituídos.
As Oficinas versam sobre os temas: família, prevenção ao uso de álcool e violência intrafamiliar.
Com relação às demandas mais freqüentes da população recebida no PASJ, em 2003, podemos
citar: separação ou dissolução de união estável (32,5%); conflitos familiares (18,2%), sejam
conjugais ou entre gerações; solicitação de pensão de alimentos (16%), tanto para crianças
quanto para idosos em condição de vulnerabilidade social; guarda de filhos (11,4%); necessidade
de informação sobre direitos sociais e políticas públicas (6,8%) e regularização de visita (4,5%).
Com relação ao fenômeno da violência intrafamiliar, observamos que 41% dos usuários
declararam viver em situação de violência, sendo que 53,1% registraram o Boletim de Ocorrência.
O principal motivo que ocasionou o não registro, segundo os usuários, foi o fato de não se tratar
de violência física, ou seja, os usuários não recorreram à Delegacia porque não apresentavam
“marcas visíveis”, desestimulando-os de fazerem a denúncia. Quanto às expressões da violência,
encontramos: física, verbal e psicológica com 53 registros. Em 51,5% das situações de violência,
esta estava associada ao uso de substância psicoativa, merecendo destaque o álcool, com 66,6%
de freqüência.
Além da intervenção realizada pela equipe de Serviço Social, Direito e Psicologia no
cleo de Prática Jurídica, a população que vive em situação de violência apresenta necessidades
diversas, cuja satisfação depende da rede de serviços, a qual envolve o conjunto das instituições
governamentais e não governamentais executoras das políticas sociais, em especial, de saúde,
de assistência social e de segurança pública. Em Blumenau várias instituições desenvolvem
ações voltadas às pessoas em situação de violência intrafamiliar, no entanto, a inexistência de
um protocolo de atendimento a estas pessoas (exceto no que tange à violência sexual) tem
dificultado a atuação articulada dos diferentes programas. Como conseqüência, observa-se a
fragmentação das ações e o baixo impacto destas no combate à violência. A partir da experiência
com famílias em situação de violência intrafamiliar atendidas no Projeto Assistência
Sociojurídica, a equipe de Serviço Social, em parceria com a Secretaria Municipal de
Assistência Social de Blumenau – Semas, propôs a criação de um Grupo de Trabalho – GT, que
trouxesse à discussão a temática da violência intrafamiliar e a necessidade de articulação da
rede de serviços. Desse modo, criou-se o GT em 7 de agosto de 2003, com o objetivo de
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promover o debate sobre a rede de serviços necessária ao atendimento de pessoas em situação
de violência intrafamiliar com vistas à formação de uma rede de proteção.
Metodologia
Para a implantação do GT, partimos do pressuposto de que alguns serviços deveriam
funcionar como portas de entrada, já que as pessoas em situação de violência são atendidas,
emergencialmente, em diversas instituições como Polícia Militar, Polícia Civil, Hospitais,
Unidades de Saúde da rede básica, Programas de Assistência Social, sem, no entanto, obter
respostas para o conjunto das suas necessidades e sem que os diversos serviços trabalhem de
forma articulada para ultrapassar o nível imediato. Em face disso, propusemos a discussão em
torno da composição da rede de proteção em etapas que possibilitassem a identificação das
portas de entrada para, posteriormente, constituir a rede propriamente dita. Assim, a proposta
metodológica foi estabelecida contemplando quatro etapas: 1ª - mobilização e sensibilização
das instituições para a composição da rede; 2ª - reconhecimento dos programas sociais destinados
ao atendimento de pessoas em situação de violência intrafamiliar, bem como suas potenciali-
dades e fragilidades; 3ª - elaboração das atribuições das instituições componentes da rede de
proteção; 4ª - elaboração do protocolo de atenção às pessoas em situação de violência intrafa-
miliar. Inicialmente houve o mapeamento e a posterior mobilização de Organizações
Governamentais e Não Governamentais para o primeiro encontro. A questão norteadora em
torno da qual o grupo realizou o primeiro debate foi “Qual a rede de serviços necessária à
atenção às pessoas em situação de violência intrafamiliar?” A discussão foi realizada em
pequenos grupos, com apresentação das conclusões à plenária. Na ocasião, o GT definiu a
realização de encontros mensais com vistas à: a) sensibilização dos/as profissionais das
diferentes políticas para a composição da rede; b) troca de conhecimento entre as instituições
e, c) identificação das fragilidades e potencialidades de cada uma delas. Na seqüência, foram
realizados 7 encontros nos quais houve a apresentação dos programas sociais destinados ao
atendimento das pessoas que vivem em situação de violência intrafamiliar, considerando: os
objetivos; a metodologia e o fluxo de atendimento; os critérios e as dificuldades. Concluída esta
etapa, o GT deu início à elaboração das atribuições de cada instituição/programa no que se
refere ao atendimento, cuja conclusão está prevista para julho de 2004, quando se iniciará a
elaboração do Protocolo de Atenção às Pessoas em Situação de Violência Intrafamiliar.
Resultado e discussão
A 1ª etapa do trabalho resultou na localização e mobilização de cerca de 40 instituições
e/ou programas interessados na discussão do tema, as quais se engajaram no GT, embora a
freqüência às reuniões tenha oscilado entre 15 a 20 participantes; na identificação de uma lista
de instituições cujos serviços destinavam-se ao atendimento emergencial às pessoas em
situação de violência intrafamiliar, sendo citadas: a Delegacia de Proteção à Mulher, à Criança
e ao Adolescente; Conselhos Tutelares; Polícia Militar; Instituto Médico Legal; Secretaria
Municipal de Assistência Social, em especial a Casa Abrigo para Mulheres em Situação de
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Risco de Vida e o Centro de Apoio às Famílias em Situação de Violência; a Secretaria Municipal
de Saúde e o Serviço Judiciário da Furb, sendo, ainda, listadas outras instituições que deveriam
atuar no âmbito da prevenção; criação de um grupo de debate on-line. Todas as informações e
relatórios das reuniões são acessados pelos componentes do GT.
Na 2ª etapa, processo que se estendeu entre setembro de 2003 e março de 2004,
organizamos a apresentação das instituições: Delegacia de Proteção à Mulher, à Criança e ao
Adolescente; Conselho Tutelar; Polícia Militar; Secretaria de Saúde do Município; Secretaria
de Assistência Social (política de gênero); Secretaria Municipal de Educação; Juizado da
Infância e Juventude (Setor de Serviço Social); Projeto Assistência Sociojurídica/Furb; Fórum
de Combate à Violência Doméstica e Intrafamiliar e as Organizações Não Governamentais
Surya e Diretriz. O debate concentrou-se, fundamentalmente, nas dificuldades relativas à
prestação dos serviços, destacando-se a insuficiência de recursos humanos e financeiros para o
atendimento da crescente demanda. Durante a realização da 2ª etapa promovemos uma primeira
avaliação e destacamos como relevantes: 1 - aspectos positivos do GT: está possibilitando o
conhecimento entre as instituições; há envolvimento de profissionais de várias áreas no GT; a
iniciativa da FURB em propor a formação do grupo; a criação de espaço para debater o
fenômeno da violência intrafamiliar; 2 - aspectos negativos: ausência de instituições implicadas
na questão da violência; carência de profissionais nas instituições, tais como delegacias e
hospitais; atendimento fragmentado e isolamento das ações; resistência de algumas instituições
em aceitar críticas, assumindo posturas de permanente justificação das suas ações; 3 -
propostas: envolver representantes de escolas no GT; retomar o contato com as instituições
que não compareceram às reuniões; investir na capacitação permanente da rede; elaborar
cartilha sobre a rede; aproveitar mais a produção acadêmica sobre a violência; envolver outros
cursos da Universidade no GT.
A 3ª etapa de trabalho do GT teve início em abril de 2004 e consiste na elaboração das
atribuições das instituições identificadas como de atendimento emergencial, sendo elas o
Conselho Tutelar; os Programas Casa Abrigo para Mulheres em Risco de Vida e o Centro de
Apoio às Famílias em Situação de Violência Doméstica e Intrafamiliar, ambos da Política de
Assistência Social; os serviços da Secretaria Municipal de Saúde, estes com suas atribuições já
definidas; a Polícia Militar; a Delegacia de Proteção à Mulher, à Criança e ao Adolescente; o
Instituto Médico Legal e os Hospitais, cujas atribuições serão definidas em junho e julho e, a
partir de então, terá início a 4ª etapa de trabalho do GT, da qual resultará o Protocolo de Atenção
e a redefinição do papel do GT, que acreditamos deverá empreender ações de capacitação para
os/as profissionais que compõem a Rede, além da proposição de pesquisa para avaliar, com
mais profundidade, os avanços e as dificuldades da atuação em rede.
Conclusões
A origem da preocupação com a formação de redes, segundo Mioto (2000), situa-se em
dois fatores básicos: de um lado as áreas se sentem cada vez mais impotentes para responder às
demandas e, de outro, as respostas setorizadas e especializadas mostram-se com baixo impacto
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na realidade, cada vez com maior grau de complexidade. Desse modo, a idéia do trabalho com
redes está fundada na preocupação com a redução de custos, na tentativa de racionalizar o uso
de recursos, via de regra, escassos, e com vistas à requalificação dos serviços.
A preocupação com a redução dos custos dos programas sociais poderá conduzir a uma
supervalorização da rede primária, composta de familiares, amigos e vizinhos, a partir de
apelos de ordem moral, sobrecarregando-a de responsabilidades, sem a contrapartida do Estado.
Arede primária não pode ser vista como substituta do sistema de proteção social, composto pelo
aparato do Estado e demais instituições, responsável pelas políticas sociais e pela garantia dos
direitos de cidadania. O cumprimento das atribuições de cuidado e proteção por parte da rede
primária depende, sobretudo, das condições objetivas disponíveis, por exemplo, as políticas
sociais, a conjuntura econômica. É preciso, também, observar as profundas mudanças que
afetam a família, dentre as quais destacamos o aumento do número de idosos, as separações
conjugais, as famílias recombinadas, o aumento de famílias monoparentais, etc.; as alterações
no espaço urbano, tais como a mobilidade das famílias, que gera fragilidade nas relações
comunitárias e de vizinhança e o empobrecimento que tem atingido um número cada vez maior
de pessoas, mesmo aquelas inseridas no mercado formal de trabalho. Estes fatores têm oca-
sionado aumento significativo na procura por serviços sociais ofertados pelas redes secundárias,
formadas a partir das instituições. Ressaltamos que, em 2003, a renda per capita da população
usuária do Projeto Assistência Sociojurídica variava entre zero e meio salário mínimo (42,6%)
e entre meio e um salário mínimo (34,3%). Apenas 28,6% estavam empregados no setor
formal; 34,3% estavam desempregados; 10,1% viviam de trabalho informal e 8,9% eram
mulheres que se declararam “do lar”, portanto, não exerciam atividade remunerada. Desse
modo, trata-se de um segmento da população que não dispõe de outros recursos, a não ser
aqueles oferecidos pelas políticas sociais. Para esta população, a rede secundária é vital, se
considerarmos que tem como finalidades “prestar apoio real e duradouro a um indivíduo ou a
uma família” (MIOTO, 2000, p. 55), coletivizar os problemas e concretizar um processo de
participação e de construção de ações coletivas. Assim, a intervenção em rede coloca-se como
alternativa “quando a rede de referência do sujeito demonstra impossibilidade de desenvolver
suas tarefas de cuidado ou de lidar com expressões particulares de sofrimento de seus
membros” (MIOTO, 2000, p. 56), situação presente nas famílias que vivem em situação de
violência e, neste caso específico dos usuários do PASJ, agravada pelas condições precárias
de existência.
A intervenção em rede é, ainda, uma alternativa possível para romper com modelos
assistenciais cristalizados, marcados por valores conservadores, que tutelam a população e
negam seus direitos, ao invés de atuarem na direção do fortalecimento da identidade e da
autonomia. Mostra-se também como caminho para superar atuações fragmentadas e que se
sobrepõem, em especial, quando se trata da atenção às famílias com doença mental, problemas
afetivos, isolamento e solidão, dependência química, violência doméstica, abuso e maltrato de
crianças e adolescentes e situações de exclusão (MIOTO, 2000), decorrentes da própria
seletividade inerente às instituições. Sabemos que estas se organizam a partir de critérios
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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como público-alvo, tipo de serviço, área de abrangência etc., sendo que este caráter seletivo
atua como filtro que reconhece e responde algumas demandas, enquanto que outras
permanecem sem respostas, embora existam e causem repercussões da vida dos usuários. A
presença dos mecanismos de seletividade, área de abrangência, definição do público-alvo, tipo
de serviço prestado, critérios de acesso, entre outros, se reflete no atendimento parcelado,
contemplando apenas parte das necessidades vividas pela população, exigindo desta um per-
manente trânsito entre os vários serviços em busca da efetivação de seus direitos de cidadania.
Diante destas condições de vulnerabilidade, a constituição de redes é fundamental, pois
“indivíduos sozinhos não têm condições de se fortalecer” (FALEIROS, 1997, p. 24), sejam
estes indivíduos os profissionais inseridos nas instituições ou os usuários dos serviços. A
rede é uma articulação de atores em torno (...) de uma questão ao mesmo tempo política, social,
profundamente complexa e processualmente dialética. (...) Na intervenção em redes, o profis-
sional não se vê nem impotente nem onipotente, mas como um sujeito inserido nas relações
sociais para fortalecer, a partir das questões históricas do sujeito e das suas relações particulares,
as relações destes mesmos sujeitos para ampliação de seu poder, saber, e de seus capitais
(FALEIROS, 1997, p. 25).
A constituição de redes sociais implica em uma nova forma de olhar e agir, exigindo
responsabilidade coletiva das instituições governamentais e não governamentais, com vistas a
proteção da população em situação de vulnerabilidade. Para a constituição de redes são
necessários alguns pressupostos, dentre os quais citamos: disposição para compartilhar
conhecimentos; flexibilidade e humildade para reavaliar as ações; criatividade para construir
e propor novos caminhos; esforço para compreender a realidade social como totalidade;
investimento em qualificação profissional dos sujeitos envolvidos na prestação de serviços;
capacidade de comunicação entre os atores institucionais; compromisso e interesse comum em
contribuir para a superação das situações de vulnerabilidade vividas pela população. Enfim,
segundo Türck, a constituição de redes exige: “flexibilidade para aprender, disponibilidade
para compartilhar e qualificação para executar” (TÜRCK, 2002, p. 32).
A metodologia dos trabalhos em rede é construída coletivamente, pois as pessoas e/ou
recursos sociais se reúnem em face de objetivos e interesses comuns e, a partir destes, “buscam
formas, jeitos para encontrar soluções ou construir novas alternativas de sobrevivência ou de
convívio”, bem como respostas coletivas para demandas sociais que emergem no contexto
social (Türck, 2002, p. 32-33). Cada participante da Rede é responsável pela sua construção,
assim como pela discussão da rede no interior da sua instituição, funcionando como elemento
facilitador e disseminador do processo. A partir da experiência vivida em Blumenau, foi
possível observar que existem dificuldades de várias naturezas para a composição da rede de
Proteção, desde a insuficiência de recursos humanos e financeiros por parte das instituições, o
não reconhecimento da violência intrafamiliar como um fenômeno merecedor de respostas
por meio de políticas públicas, a fragilidade no processo de discussão da rede no interior das
instituições que compõem o GT, até a cultura de resistência de algumas instituições em reavaliar
suas competências, expor suas fragilidades e de se envolver nos debates travados nos espaços
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públicos, pois consideram suas responsabilidades eminentemente técnicas, não reconhecendo
a sua dimensão política.
Por último, o investimento em qualificação, o debate contínuo e a avaliação das redes
constituem condições para a sua existência, pois como afirma Türck, o maior desafio na orga-
nização das redes “não é apenas construí-las, é mantê-las vivas” (TÜRCK, 2002, p. 60).
Referências bibliográficas
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FALEIROS, V. de P.
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TÜRCK, M. da G. M. G.
Rede interna e rede social: o desafio permanente na teia das relações
sociais. 2.ed. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2002. 64 p.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
241
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Ações educativas e a construção da cidadania
Leonardo Avritzer, Doutor em Ciência Política
Edite da Penha Cunha, Assistente social. Mestranda em Ciência Política
Eleonora Schettini Martins Cunha, Assistente social. Mestra em Ciência Política
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
Este trabalho apresenta algumas reflexões acerca do “Projeto de Assessoria ao OP/SP, de
capacitação dos delegados(as) e conselheiros(as) do OP e de realização de uma pesquisa do
perfil dos participantes do OP”, desenvolvido pelo Núcleo de Apoio ao Desenvolvimento da
Política de Assistência Social, em conjunto com a equipe de formação da Coordenadoria do
Orçamento Participativo – COP, da cidade de São Paulo, que tem como objetivo desenvolver
ações educativas junto aos delegados e conselheiros do OP. Ao longo dos três anos que vem sendo
realizado, construiu-se uma metodologia de trabalho relacionada tanto diretamente às ações
educativas, quanto à assessoria para a equipe da COP. Essa metodologia teve como fundamento
básico a efetiva participação dos sujeitos na construção da proposta de trabalho, na sua execução
e avaliação. Seus principais resultados expressam-se não só no número significativo de pessoas
que participaram das ações educativas, 1.100 delegados, mas também na construção da
autonomia da equipe da COP, que hoje executa seu próprio programa de formação, tendo o
Núcleo como assessor
.
Palavras-chave: orçamento participativo, programa de formação, assessoria
Introdução e objetivos
A implementação de instituições híbridas, que Avritzer e Pereira (2002) assim as identi-
ficam por haver a partilha de poder entre sociedade e Estado, como os conselhos de políticas e
os orçamentos participativos, que viabilizaram a participação popular na definição e no
controle sobre as políticas públicas, representa um grande avanço nas relações entre sociedade
e Estado no Brasil. Movimentos sociais, que afirmaram sua autonomia frente ao Estado durante
o processo de redemocratização, aliaram suas lutas específicas por direitos sociais a reivindi-
cações por ampliação da participação política para além do processo eleitoral. Surgem “novos
personagens”, organizações e movimentos que mobilizaram as classes populares, sujeitos
dispostos a atuar no novo cenário que se descortinava.
A Constituição de 1988 inseriu em seu texto o direito da população à participação na
elaboração e controle das ações de governo, especialmente os art. 194, 198, 204, 206 e 227,
sendo que as leis que regulamentaram os artigos referentes à seguridade, saúde, assistência
social, criança e adolescente, dentre outros, estabeleceram a implantação de conselhos como
mecanismos que viabilizariam a participação popular, tendo como referência experiências
242
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anteriores na área da saúde. A partir das determinações legais, são criados os diversos
conselhos de políticas, sendo que só no âmbito municipal foram registrados mais de 25 mil
em todo o Brasil, no ano de 1999.
Em pesquisa recente realizada junto aos principais conselhos do Município de Curitiba,
Fuks et al. (2003) identificam que os conselheiros reconhecem o impacto positivo desta
participação, ainda que percebida de forma diferenciada conforme os segmentos neles repre-
sentados. Por outro lado, sua pesquisa aponta para a reprodução das desigualdades no que diz
respeito à posse de recursos de cultura política presentes na sociedade brasileira para o interior
do próprio conselho. Esta desigualdade é identificada por vários autores que analisam as
experiências de institucionalização da participação, mas é também percebida pelos próprios
atores, que a traduzem em recorrentes demandas por capacitação, de modo que venham a
participar dos processos deliberativos em condições mais iguais.
A necessidade de avançar na efetivação de processos de gestão de políticas democráticos
participativos fez com que alguns governos estaduais e municipais percebessem a necessidade
de aumentar o investimento na capacidade crítica, política e operacional tanto de agentes das
administrações quanto de delegados e conselheiros, visando a uma atuação qualificada nos
novos espaços de participação. Algumas demandas por capacitação têm chegado ao Núcleo de
Apoio ao Desenvolvimento da Política de Assistência Social - Nupass nos últimos quatro anos,
levando o Núcleo a desenvolver diversas ações de extensão que visam ao fortalecimento de
experiências de democracia participativa, articulando a pesquisa e o ensino com as demandas,
interesses e necessidades da sociedade, promovendo a interação entre o saber acadêmico e
o saber popular, inclusive propiciando a produção de novos conhecimentos, resultantes da
interação entre teoria e prática.
Dentre as ações de extensão desenvolvidas, situa-se uma parceria com a Prefeitura de
São Paulo para o processo de capacitação de gestores, delegados e conselheiros do Orçamento
Participativo – OP daquele Município. Neste documento, é apresentada a sistematização
do processo de capacitação dos delegados do OP de São Paulo, realizado em 2002, os pressu-
postos que o nortearam, bem como os métodos, técnicas e conteúdos utilizados para assessoria
da equipe de formação da COP em 2003.
Metodologia
A função socioinstitucional básica da Universidade é a educativa, função que tem
perpassado as principais ações de extensão do Nupass. Educação é aqui compreendida de
modo mais amplo que o processo de ensino formal, pois diz respeito aos processos pelos
quais os grupos sociais criam e recriam suas formas sociais, produzindo e reproduzindo o saber
desses grupos. Há, portanto, vários modelos de educação, formais e informais, que envolvem
saberes produzidos e transmitidos pelo sistema formal de ensino e por meio do convívio social,
todos envolvendo situações de aprendizagem, ou seja, processos de aprender-e-ensinar. A
educação, e conseqüentemente, o saber, existem por toda parte, e essa constatação gerou
diversas experiências de educação popular no Brasil, oriundas de atividades de extensão
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universitária, que ganharam maior visibilidade especialmente com Paulo Freire, na
década de 1960.
Pode-se, assim, falar em saber científico e saber popular. O saber científico (ou acadêmi-
co) é aquele feito tradicionalmente na Universidade, produzido de forma objetiva e científica,
que deve ser testado, comprovado e reconhecido pelos seus pares. O saber popular é gestado no
cotidiano, expressa a compreensão e o modo de vida de determinada classe social, ou seja, é
fruto da reflexão sobre as experiências de vida dessas classes, decorrente de sua práxis aqui
entendida como “reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo” (FREIRE,
1974: p. 40). Ambos os saberes são frutos de momentos históricos e, portanto, não são
permanentes ou duradouros, são transformados e transformam. O saber, portanto, não é único
nem universal, é produzido no cotidiano e na ciência, de forma articulada e complementar.
A ação educativa, portanto, é entendida como um processo político-pedagógico que tem
como premissas alguns princípios ético-pedagógicos baseados no protagonismo dos cidadãos e
na construção de sua autonomia e emancipação. Nesse sentido, o conhecimento popular sobre
a realidade da cidade, seus problemas e possíveis soluções indicam que o processo pedagógico
deve ser entendido como um intercâmbio de saberes e conhecimentos entre facilitadores e
participantes, cujas experiências, muitas vezes distintas, certamente são complementares.
Essa atividade de extensão universitária apresenta-se como a possibilidade de socialização
do saber produzido na Universidade, que possibilita a troca com outros saberes, socialmente
produzidos. As atividades de capacitação dos delegados e dos conselheiros do OP de São Paulo
foram pensadas nessa perspectiva, a partir da compreensão de que a função educativa deve se
dar por meio de uma relação pedagógica baseada na participação dos sujeitos envolvidos, no
intuito de que construam conhecimento crítico sobre sua realidade e estabeleçam estratégias
coletivas de intervenção na mesma, com o objetivo de alcançar a emancipação humana.
A partir desses pressupostos, deu-se o planejamento participativo das ações, originando
um projeto comum, compartilhado pelos que demandaram a ação e pela equipe do Núcleo.
No caso da capacitação para os delegados e conselheiros do OP de São Paulo, o processo
interativo entre a Coordenadoria do Orçamento Participativo – COP e o Nupass resultou num
projeto comum, que atendia às necessidades da Coordenadoria e à missão acadêmico-social da
universidade. Esse processo de planejamento participativo permitiu conhecer os atores, seus
interesses e necessidades, bem como as transformações que almejavam. Neste caso específico,
o planejamento foi realizado mediante reuniões entre as equipes de São Paulo e da universidade,
bem como de um Seminário, do qual participaram as equipes da COP, do Instituto Pólis e
do Departamento de Ciência Política-UFMG, quando foram discutidas e definidas as bases
do processo de capacitação.
O processo de planejamento pode ser descrito em duas fases. Uma primeira, na qual foi
feita a identificação da demanda, ou seja, as expectativas dos demandantes, o levantamento de
dados e informações relacionados ao tema da capacitação (Município de São Paulo, ciclos do
OP de 2001 e 2002), as características do público-alvo, as possibilidades de atuação e parcerias,
a identificação dos objetivos para adequar métodos e técnicas. Numa segunda fase, preparatória,
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foi feita a definição do quadro de referência que sustentou o projeto, considerando os diversos
aspectos que foram identificados na fase anterior; a definição do instrumento pedagógico
(curso), a preparação do material didático e pedagógico adequado ao público-alvo, a preparação
de plano de ação.
A opção metodológica associa princípios e instrumentos, ética e procedimentos. Nesse
sentido, a opção metodológica está baseada na abordagem crítica e construtivista, pois resgata
conhecimentos e saberes, possibilita a construção de novos saberes a partir da interação dos
diversos atores sociais, da diversidade e da pluralidade de atores e idéias, que enriquecem o
processo pedagógico. A metodologia, portanto, é essencialmente participativa, indo contra a
prática de transferência de saber, que pressupõe alguém saber e outro não saber, que deve receber
e aplicar o que aprende. Princípios metodológicos participativos estimulam a cooperação, o
comprometimento, a solidariedade entre os participantes, estimulando-os a estarem conectados
entre si, com capacidade de reflexão e de tomar decisões por si mesmos.
O texto e o material pedagógico utilizados sintetizaram as informações produzidas a
partir dos estudos realizados e foram apresentados em linguagem compatível com os sujeitos
das ações educativas, ou seja, considerando quem faz/fala, assunto, destinatário, interação, contexto,
pressupostos assumidos, canal utilizado, etc. Aprodução desse material possibilitou a formação
e a exposição de pontos de vistas diversos, numa relação dialógica com os leitores, possibili-
tando a interação texto-usuário. Esse material foi utilizado como base para reflexões e discussões
que perpassaram as atividades desenvolvidas, e elas foram fonte permanente de sua revisão.
Os conteúdos abordados no texto e no material, para reflexão nas ações educativas,
foram trabalhados de forma contextualizada, ou seja, situados no tempo e no espaço. Foram
eles: Democracia representativa e participativa; Cidadania; Espaços público e privado;
Participação; Governo autoritário e sua relação com a desigualdade e as carências urbanas;
Formação e organização da sociedade civil no Brasil: associações, movimentos sociais,
movimento constituinte e novas formas de participação; Constituição de 1988 — princípio da
participação, novos direitos e nova forma de gestão das políticas sociais; Poderes Executivo e
Legislativo (funções e competências); Orçamento: privado, público e participativo; Ciclo do
OP de São Paulo; Papel e as funções de novos atores no processo de deliberação pública e
no controle público.
No primeiro ano do projeto, as ações educativas foram executadas sob a responsabili-
dade direta do Nupass, com o apoio da equipe da Prefeitura, abordando os temas descritos
anteriormente, a partir das dimensões descritas a seguir, que possibilitaram aos facilitadores
fazerem das informações algo que mediam a ação educativa e o estabelecimento de uma relação
de conjugação entre a ação e a reflexão.
1 - Sensibilização - dimensão em que os participantes entraram em contato com o tema,
por meio de construções teóricas, traduzidas em linguagem apropriada, tratando de aspectos da
realidade relacionados com a temática. Nesta dimensão também são resgatados os conheci-
mentos produzidos e acumulados pelos grupos. Para concretizar esta dimensão, foram utilizadas
técnicas de apresentação dos participantes resgatando aspectos cognitivos de sua vida, peça de
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
245
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teatro abordando a temática (“Em terra de urubu, quem cuida do lixo é rei”, adaptada para o
Orçamento Participativo), texto de apoio, apresentação do processo do OP de São Paulo (2001
- 2002), bem como a situação da execução do mesmo e apresentação de experiência bem-suce-
dida de participação no OP.
2 - Problematização - dimensão que provocou a reflexão dos participantes acerca do tema,
mediante mobilização de informações, experiências, idéias e conhecimentos, procurando desen-
volver sua capacidade de raciocinar por si mesmos e de relacionar, deduzir e sintetizar. Foram
utilizados roteiros de questões orientadoras, por parte dos facilitadores, com o intuito de
avançar nos esclarecimentos necessários e criar ambiente favorável ao desenvolvimento de
posicionamentos propositivos. As técnicas utilizadas foram o trabalho em pequenos grupos, que
oportunizou o contato face a face e o aumento do nível de participação das pessoas, e o debate
consistente e ampliado de idéias e experiências, gerando novas idéias coletivas e aumentando a
interação entre os participantes. Também foram utilizados jogos de quebra-cabeças e com
palavras-chave e montagem de figuras.
3 - Visualização - dimensão que se ocupou do registro visual permanente do processo de
capacitação, para que todos tivessem conhecimento, de forma organizada, objetiva e transparente,
das idéias discutidas e construídas. As técnicas utilizadas foram a construção de cartazes, a
preparação de transparências, exposições em murais dos trabalhos dos grupos.
4 - Sistematização - dimensão em que foram realizadas sínteses dos conteúdos trabalhados,
dos resultados dos grupos, da análise situacional. Também foi realizado levantamento de proposições
e encaminhamentos, bem como planejamento de intervenções. As técnicas utilizadas foram a
elaboração de resumos para relatos orais, preparação de material para transparências e cartazes.
5 - Socialização dos resultados - dimensão em que houve o compartilhamento dos resultados
e das tomadas de decisões, bem como o estabelecimento de responsabilidades e co-responsa-
bilidades na efetivação dos resultados. As técnicas utilizadas foram as apresentações dos pro-
dutos dos subgrupos ao grupo e deste aos demais, nas plenárias. Também foram preparados
relatórios de cada capacitação para a COP.
6 - Avaliação - dimensão que possibilitou a aferição do nível de satisfação dos partici-
pantes em relação aos conteúdos trabalhados, às técnicas utilizadas, aos facilitadores, à sua
própria participação, à infra-estrutura disponibilizada, dentre outros aspectos. Essa dimensão
possibilitou a permanente revisão e adequação dos instrumentos e técnicas utilizados para as
ações educativas subseqüentes.
Resultados e discussão
A ação educativa relacionada a esses novos atores sociais buscou desenvolver poten-
ciais e habilidades que contribuíssem para o exercício de suas funções, sendo também um
processo político, de interação, de formação para a cidadania e para a democracia, pois na ação
educativa produz-se coletivamente um conjunto de significações sociais, culturais e políticas,
mediante troca de saberes, compartilhamento de significados, potencialização da capacidade
de crítica.
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Esses potenciais mostram-se de grande relevância para aqueles que participam das
instituições híbridas, como os conselhos e os OPs, pois elas são instâncias onde as diferentes
idéias e projetos de sociedade são debatidos e decisões estratégicas são tomadas. Para isso,
torna-se imprescindível a democratização das informações, ou seja, torná-las acessíveis a todos
os sujeitos envolvidos, pois “não é possível fazer o debate em condições de igualdade, ainda
que limitadas, sem que todos tenham igualmente as informações necessárias”, podendo recair
na “presença passiva, cooptável, que muitas vezes é usada para legitimar ações nem sempre discutidas
e construídas coletivamente” (GOMES, 2000, p. 170). Considera-se que o acesso e a construção
coletiva e crítica ao conhecimento dá o caráter politizante da democratização das informações.
Considerando as características das instituições híbridas de gestão e de deliberação, as
ações educativas têm “como perspectiva o oferecimento de instrumentos aos sujeitos sociais
para que possam se apropriar da informação e do conhecimento necessários ao exercício da
participação popular na gestão pública” (DE MARCO, 2000, p. 157). Decorre daí a importância
de que seus integrantes, principalmente os representantes da sociedade civil, estejam de posse
de conhecimentos que lhes permitam compreender as informações que são essenciais para
deliberações qualificadas. Essa parece ser uma condição para que possam influir de forma
propositiva e decisiva nas ações do governo e no controle público sobre essas ações.
A efetividade das ações dos que participam das instituições híbridas está estreitamente
relacionada à sua capacidade de apreender o real em sua singularidade, os processos complexos
que permeiam os problemas ou fenômenos sociais com os quais lidam, bem como o campo de
mediações da sua atuação. Isso lhes permite compreender a particularidade da realidade em que
atuam, dando dupla dimensão à sua prática: conhecimento - intervenção, articulando-as dialeti-
camente, conforme destaca Pontes (2000, p. 47).
Os múltiplos atores que participam do processo de capacitação espelham a própria
estrutura das experiências de gestão participativa, ou seja, espaços de presença em que atores
diferentes compartilham interesses e objetivos, o que demanda cooperação em inúmeras
situações. Assim também deve ser a ação educativa, espaço de aprendizado e de cooperação
entre atores diferentes. Suas histórias distintas são fonte de riqueza quanto a conhecimentos e
experiências acumuladas que, na interação, permitem o amadurecimento de idéias e a formu-
lação de novos saberes. Assim, toda a ação educativa é permeada pelo respeito à cultura local
e aos estágios de participação e de conhecimento de cada participante.
Um outro aspecto considerado relevante é o entendimento da ação educativa como ação
comunicativa, em que a linguagem possibilita a interação e a integração entre sujeitos, que se
relacionam com o mundo por meio de mediação da linguagem. As atividades pedagógicas,
portanto, são baseadas no uso de linguagem, entendida como meio de manifestação do pensar
e do querer, de se estabelecerem vínculos, de direcionar ações — campo de interação social.
Mediante práticas comunicacionais dos grupos que vivenciam o cotidiano, estruturam-se
informações relativas às suas experiências.
A linguagem, portanto, é entendida como uma atividade pública, como ação entre
indivíduos orientada para um fim, que perpassa as práticas dos membros da sociedade e que
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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permite a participação, a descoberta e a construção dos significados e seu compartilhamento
(Habermas). Nesse sentido, torna-se estratégica a utilização de instrumentos e técnicas
pedagógicas que possibilitem a interlocução e a argumentatividade — problemas estudados em
conjunto, discussão de explicações ou soluções, utilização de processos deliberativos, avaliação
dos resultados para todos — uma vez que os processos de raciocínio e argumentação ativam
articulações cognitvas.
As ações educativas do Nupass utilizam-se de alguns pressupostos de pesquisa partici-
pante, que preconiza a adaptação da proposta à realidade, a participação da sociedade nos
processos decisórios, identificação dos sistemas de valores das comunidades envolvidas, adição
de conhecimentos técnico-científicos aos conhecimentos existentes na comunidade, socialização
dos resultados, processo participativo e cooperativo (SOARES, 2000, p. 46). Neste sentido, tem
como requisitos básicos o respeito à cultura e hábitos locais, o compromisso com a verdade, a
interação entre os grupos envolvidos, a preocupação com a isenção, a produção e a socialização
de novos conhecimentos, enfim, a educação continuada. Valoriza o conhecimento adquirido
pela prática, na qual se relacionam sujeito e objeto. Prática aqui entendida como atividade social
que oportuniza cooperação entre ação e reflexão, em que se partilham concepções com outros,
constroem-se saberes, intervém-se no mundo.
Em síntese, o trabalho foi desenvolvido tendo as seguintes diretrizes e estratégias: o
cotidiano, a vida diária é referência para a ação educativa, pois é ela que se pretende transfor-
mar. Pretende-se desenvolver postura crítica frente à realidade, refletindo sobre ela, sobre seu
conteúdo histórico, causas e conseqüências das questões relevantes; socializar experiências de
vida, oportunizando criar laços de solidariedade entre os participantes; discutir valores éticos que
possam informar a construção de uma nova realidade (justiça, igualdade, liberdade, etc.); as
ações educativas devem ser participativas, dialógicas e democráticas, que possibilitem tra-
balhar a relação entre teoria e prática, bem como contribuam para a formação de cidadãos ativos,
que assumam seus direitos e responsabilidades quanto à decisão; estimular e favorecer o com-
promisso coletivo, fortalecendo movimentos e organizações da sociedade civil; difundir a cultura
dos direitos, em detrimento da cultura do clientelismo e do patrimonialismo; possibilitar o diálogo
entre valores e culturas diferentes, próprias de uma sociedade plural e complexa, articulando igual-
dades e diferenças; educadores/facilitadores como mobilizadores de “processos pessoais e grupais
de cunho cultural e social” (CANDAU e ZENAIDE, 1999, p. 20), que contribuem para a articulação
dos conteúdos com a realidade e com a apropriação do conhecido socialmente produzido.
Facilitador, nessas ações, foi o catalisador e orientador metodológico, que organizou e
orientou o processo de discussão dos grupos, estimulando a participação de todos na ação
educativa, resgatando conhecimentos do grupo e utilizando recursos adequados à estimulação
da reflexão e à proposição de alternativas de ações ou de produtos oriundos das reflexões. Suas
principais funções foram: criar um ambiente de cordialidade, respeito e objetividade, motivando
os participantes para os trabalhos em grupo; facilitar a comunicação interpessoal e a construção
de respostas coletivas; atuar como elemento de ligação entre os participantes do grupo;
estimular a participação de todos os integrantes do grupo, mobilizando suas experiências e
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conhecimentos, de forma equilibrada, reduzindo a centralização do uso da palavra e do rumo
das decisões; sensibilizar o grupo quanto à temática e proposta de trabalho do evento; criar
oportunidades de acesso a informações e de processamento de conhecimentos; garantir a
objetividade dos trabalhos; colaborar para que o grupo alcançasse os resultados esperados;
apoiar com métodos, técnicas e instrumentos os trabalhos do grupo; despertar auto-estima do
grupo, valorizando suas experiências, suas necessidades e tratando dos interesses comuns.
Conclusões
No primeiro ano do projeto, as equipes da Prefeitura e do Nupass atuaram em conjunto,
mas com funções diferenciadas: o Núcleo assumiu as ações educativas diretamente e a COP
cuidou da infra-estrutura necessária para o desenvolvimento das atividades, acompanhando-as
e avaliando-as em conjunto. Foram realizados encontros avaliativos que possibilitaram rever a
metodologia, os conteúdos e técnicas, trocar informações e conhecimentos.
No segundo ano, a equipe da COP construiu sua proposta de formação, na qual passou
a assumir as ações educativas relacionadas aos delegados e parte das atividades do curso de
conselheiros, cabendo à universidade assessorá-la na construção do seu programa, contribuir
nas discussões relacionadas à sua proposta metodológica, acompanhar e avaliar as atividades,
oferecendo subsídios para seu aprimoramento.
Neste ano, o terceiro e último do projeto, a equipe de formação da COP, mais autônoma
e experiente, assume praticamente todas as fases do planejamento e da execução das atividades,
contando com a assessoria do Núcleo na discussão de temas que julgou relevantes, no acom-
panhamento e na avaliação das ações. O projeto, portanto, além de contribuir para a construção
da autonomia dos participantes do OP, pôde contribuir na construção da autonomia da própria
equipe de formação da Coordenadora, que toma para si a responsabilidade e o desafio de imple-
mentar seu próprio programa de formação.
Esse programa de formação, da COP, passou a incorporar outras ações educativas,
desenvolvidas no âmbito da parceria da Prefeitura com a UFMG, mediante participação dos
delegados nos Fóruns de Democracia Participativa e Seminários Internacionais. Nessa perspec-
tiva, a idéia de capacitação com a qual trabalha-se foi potencializada e ampliada, ao criar
oportunidades de participação dos delegados em outros espaços de reflexão e discussão,
entendo que a ação educativa pode acontecer por meio de diversos processos e que a capaci-
tação, também, é um processo político de interação que forma para a cidadania e para a
democracia, pois durante a capacitação produz-se coletivamente um conjunto de significações
sociais, culturais e políticas.
A capacitação coletiva permite troca de saberes, compartilhamento de significados e
potencialização da capacidade crítica dos delegados. Entendemos que o projeto de capacitação
apresenta um grande desafio para a equipe de formação da COP, que se configura na necessidade
de chamar à discussão para a ação educativa do processo do OP como um todo, ou seja,
considerar que todos os envolvidos no processo de gestão democrática participativa têm
um papel educativo fundamental a ser desempenhado.
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250
_0217_UVE_LIVRO_FB 5.qxd 06.09.04 09:35 Page 250
• Programa Rede Universitários de Espaços Populares – Ruep Niterói e São
Gonçalo
Margareth Attianezi, Mestre em Saúde Coletiva/Nesa/UERJ
Jorge Luiz Barbosa, Doutor em Geografia/Proex/UFF
Alexandre Duarte Thomas de Aquino, Mestre em Ciências Sociais/UERJ
Marcio Blanco, Cineasta/UFF
Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente/UERJ e Pró-Reitoria de Extensão/UFF
Resumo
Em atenção às diretrizes do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das
Universidades Públicas Brasileiras, as sete universidades públicas do Estado do Rio de Janeiro
desenvolveram um projeto interinstitucional denominado Rede Universitários de Espaços
Populares – Ruep. Trata-se de uma iniciativa pioneira por articular as Instituições Públicas de
Ensino Superior do estado, através de ações que objetivem o envolvimento de alunos moradores
de espaços populares na produção de estudos e atividades voltadas para a proposição de
políticas públicas de desenvolvimento, inclusão social e geração de trabalho e renda. Nesse
sentido, a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal Fluminense (Proex/UFF) e o
Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(Nesa/UERJ), apresentam o Programa Ruep, financiado pela Sesu/MEC, como ação extensionista
em espaços populares dos municípios de Niterói e São Gonçalo, voltado para o tema maior
desenvolvimento social e juventude
.
Palavras-chave: desenvolvimento social; inclusão social; política pública e juventude
Apresentação
O surgimento, expansão e consolidação das favelas e periferias das metrópoles
destacam-se entre os fenômenos mais significativos e, contraditoriamente, desconhecidos da
constituição do espaço fluminense. O fato decorre das favelas serem, historicamente, objeto da
recorrência de um olhar homogeneizador, aliado a pressupostos sociocêntricos, responsável por
leituras genéricas que estigmatizam os espaços populares e seus moradores como violentos e
potencialmente criminosos.
A homogeneização e o sociocentrismo notoriamente vêm impondo sérias limitações aos
habitantes das favelas como instância de sociabilidade, principalmente no que diz respeito ao
reconhecimento e à expansão dos direitos e deveres de cidadania política dos seus moradores
no campo cultural, jurídico e econômico. Tal situação agravou-se nas últimas duas décadas e
implicou — entre os seus resultados mais perversos — a estigmatização, marginalização e
segregação dos jovens residentes nas favelas e periferias.
O atual quadro de desemprego, baixa escolaridade e reduzido acesso aos bens culturais
entre os jovens das favelas e periferias contrastam, entretanto, com a capacidade dos mesmos
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de inventarem suas possibilidades de construção identitária. Os diversos grupos de música,
teatro e dança, os pré-vestibulares comunitários e participação nas Organizações da Sociedade
Civil (Associações de Moradores e ONG’s) são expressões do protagonismo dos jovens
das favelas e periferias, apesar de seus esforços serem marcados, não raramente, pela falta
de continuidade.
Todavia, os poderes públicos estaduais e municipais demonstraram, historicamente,
pouca atenção ao papel protagonista dos jovens dos espaços populares no que diz respeito à
produção de políticas sociais, mesmo as mais específicas para suas demandas. Não há, por
exemplo, estímulo ao primeiro emprego; não se adotam políticas de permanência na escola; não
há espaços culturais alternativos e não estímulo ou apoio às atividades sociais criadas por eles.
Não há, com efeito, um órgão expressivo do setor público que tenha como missão construir um
conjunto de políticas públicas focais para a juventude. Ou, mais importante, que busque
engajar esses jovens, de forma democrática e autônoma, na construção de novas sociabilidades
no espaço urbano.
É preciso, portanto, criar novos espaços de referências de ampliação cultural, qualifi-
cação dos serviços educacionais e exercício de cidadania política, tendo em vista o papel social
pleno da Educação, sobretudo como instrumento de superação das desigualdades sociais. Para
tanto, a Universidade tem um papel importante a cumprir, principalmente através de suas ações
extensionistas voltadas para os bairros populares.
Nossa proposta de trabalho busca contribuir na transformação das condições sociopolíticas
vividas pelos jovens dos espaços populares, a partir da valorização do seu protagonismo na ação
pública. A Ruep envolve os jovens universitários moradores dos espaços populares de Niterói e
São Gonçalo, como criadores e gestores de políticas públicas focais e transversais, superando
sua condição de público-alvo — no limite, objetos — de ações do Estado. Assim, os jovens
serão sujeitos reconhecidos e reconhecíveis na construção de políticas públicas capazes de
superar a situação de vulnerabilidade social em que muitos deles se encontram.
Desenvolvimento
O atual contexto social e educacional de bairros populares tornou indispensável à
criação de ações integradas, cujos objetivos visem melhorar e ampliar as oportunidades
educacionais, culturais e econômicas da população jovem, através do esforço conjugado de
entidades comunitárias, instituições governamentais e não-governamentais. Nossa proposta
enfatiza a organização de uma rede sociopedagógica de ação pluriescalar, cujo objetivo é
envolver múltiplos atores na criação e na sustentabilidade de práticas que possibilitem
um futuro mais generoso aos jovens precariamente incluídos no sistema de ensino público.
Para tanto, tecemos um conjunto de ações educacionais e culturais que associam alunos,
professores e técnicos dos diferentes cursos de graduação da UFF e da UERJ, parceiras do
Programa Ruep, em atividades extensionistas em comunidades populares de Niterói e São
Gonçalo, com o objetivo maior de instituir políticas afirmativas para os jovens.
O trabalho desenvolvido exigiu o envolvimento de outros atores sociais, a exemplo das
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instituições governamentais, das organizações da sociedade civil (Sindicatos, Ong’s, Associações
de Moradores) e movimentos sociais, para constituir um amplo tecido de relações e de atuação
coletiva no espaço público. Desse modo, a universidade se filia a outros sujeitos históricos para
ocupar um lugar de destaque no seio da sociedade.
A Ruep significa, portanto, um novo modo de fazer a extensão universitária, implicando
a construção da interdisciplinaridade acadêmica, tanto no ponto de vista da formação como da
atuação social direta. Os estudos e ações práticas estabelecem um entrelaçamento de um grupo
formado por 45 alunos de diferentes cursos universitários — Pedagogia, Serviço Social, História,
Geografia, Biologia, Ciências Sociais, Estatística, Matemática, Letras, Biblioteconomia, Cinema
e Produção Cultural — que têm habilidades reconhecidas — músicos, atores, contadores de
estória, dançarinos, fotógrafos, entre outros — atuando juntos na produção de conhecimentos e
práticas em um mesmo espaço e com objetivos comuns. Todos eles desenvolvem atividades
balizadas por metodologias plurais de ação, porém integradas quanto ao foco de trabalho. Assim
temos os núcleos da Ruep em cada espaço popular selecionado, como também organizados no
interior das universidades.
A Ruep coloca em prática a pretendida indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão,
por meio de metodologias criativas e produtoras de conhecimento, tendo como eixo à relação
política pública/espaço popular como experiência prática. Valoriza-se, a importância da prática
como momento da formação intelectual, uma vez que a prática não é, simplesmente, uma
aplicação do conhecimento produzido, mas um espaço significativo da criação e da reflexão.
Ela é, portanto, o encontro do inventar e do fazer que gera o conhecimento de modo implícito.
Nesta dinâmica, a prática torna-se imanente à colocação em causa das teorias, das metodologias
e das técnicas da academia, fundando o conhecimento-ação.
Objetivo
O Programa Ruep tem a intenção de subsidiar a criação de agendas para políticas
públicas afirmativas, tendo como princípio à participação de instituições públicas e de
organizações comunitárias e, principalmente, de jovens estudantes das comunidades locais.
Seu objetivo maior é constituir novas relações de saberes e fazeres em relação à realidade dos
jovens dos espaços populares e, através destes, constituir novas práticas sociais capazes de
estimular a participação direta na resolução de demandas socioculturais, geração de trabalho e
renda e na orientação de políticas públicas focais e transversais para juventude residente em
espaços populares.
Objetivo geral
Contribuir na produção e difusão de experiências culturais e educacionais que habilitem
a construção de políticas públicas de desenvolvimento e inclusão social dos jovens residentes
nos espaços populares de Niterói e São Gonçalo.
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Objetivos específicos
Organizar redes socioeducativas e de ações afirmativas, tendo como ponto nodal os estu-
dantes das universidades e demais instituições parceiras.
Elaborar diagnósticos participativos da situação de vulnerabilidade dos grupos sociais
residentes em espaços populares, em especial dos jovens e adolescentes, como linha de
base de construção de agendas de políticas sociais que priorizem os direitos humanos,
a geração de trabalho e renda, ampliação do acesso à educação e a difusão/produção
artística e cultural.
Desenvolver cursos e oficinas de habilitação para o trabalho no campo da cultura e das
artes (música, memória de bairro, fotografia e vídeo) como possibilidade de geração de
renda e valorização social dos jovens residentes nos espaços populares.
Desenvolver práticas educativas no campo da prevenção e da promoção da saúde com
educadores da comunidade.
Organizar e fomentar Bibliotecas Comunitárias.
Criar espaços de vivência, reunindo jovens residentes nos espaços populares e estu-
dantes dos cursos de graduação da UFF/UERJ, para troca de experiências em diferentes
campos do conhecimento e, sobretudo a construção de formas de sociabilidade fundadas
na fraternidade, na amizade e na solidariedade social.
Ampliar o uso de espaços culturais e educacionais das universidades e da cidade —
Teatros, Cinemas, Auditórios, Museus, Bibliotecas — para realização de atividades
educacionais e culturais em rede que visem estabelecer o convívio, a aprendizagem, a
troca de experiências e a formação cidadã de jovens residentes espaços populares.
Metodologia
Adotamos, preliminarmente, como referência de trabalho a necessária atualização das
leituras e interpretações da diversidade das práticas sociais presentes no contemporâneo, através
do desenvolvimento do curso de Políticas Públicas e Juventude e supervisões conjuntas. Da
mesma forma, nos interessa fazer o registro das formas e disposições dos jovens e seus grupos
de aproximação. A premissa básica é entender como o encaminhamento de diferentes estraté-
gias — constituída a partir de sua rede de inserções, trocas e reconhecimento de identidades —
se configuram como experiências de ampliação do espaço-tempo vivido e percebido. Desse
modo particular, trabalha-se com um sentido mais rico e amplo do processo educativo, capaz de
superar os limites que aprisionam a relação ensino-aprendizagem no âmbito institucional e
excluem o prazer, a festa, o lazer e a criação cultural que pulsam nos/dos lugares fora da escola.
A concepção de rede que norteia nosso trabalho compreende trocas recíprocas — de
ordem simbólica e material — entre indivíduos organizados, sem o domínio de hierarquias ou
eixos centrais, porém associados na construção de recursos, habilidades e benefícios comuns.
Com isto em mente, a organização do campo de atuação do trabalho foi pautada pela ação de
fomento a iniciativas já existentes nas comunidades, em conjunto com demandas reconhecidas
na pesquisa do campo. Dois aspectos com relação à metodologia de trabalho devem ser ressalta-
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dos aqui. O primeiro com relação ao processo de seleção dos bolsistas, também atores neste
programa, tendo sido privilegiado alguma formação ou experiência em trabalhos na área
cultural, visto que nesta etapa do programa o recorte de ação se daria pelo fomento às atividades
culturais. Cabe ressaltar que muitos dos selecionados nada haviam mencionado com relação à
experiência com atividades culturais, por acharem “irrelevantes” ou por nunca terem “imaginado
que algum dia isso seria importante”. Outro aspecto foi à forma de se conceber as ações do
campo, uma vez definidas as áreas de atuação. Através de um período de visitas as comunidades
e entrevistas com lideranças locais no intuito de se tentar obter uma radiografia da comu-
nidade, foram possíveis o desenvolvimento de ações inteiramente norteadas pela demanda
da comunidade.
No município de Niterói a escolha recaiu para o Morro do Preventório, sendo o contato
estabelecido, primeiramente com a Associação dos Moradores intermediada por estudantes
moradores da comunidade ou que já haviam ali realizado ou participado de projetos.
A inserção da Comunidade Lara Vilella 94 no projeto se deu num segundo momento ao
perceber-se a necessidade de uma estratégia para o campo. A comunidade apresentava uma série
de vantagens para realizar um trabalho de diagnóstico, familiarizando os bolsistas com o
primeiro contato com o campo além de ser uma comunidade muito pequena, com cerca de 62
casas, ao lado de um dos Campi da UFF. Além de já ter sido realizado um projeto de extensão
com oficina de vídeo para os jovens da comunidade. A ação proposta pela Ruep se enquadrou
numa espécie de continuação de um trabalho, na visão da Associação de Moradores, de
estreitamento de contatos com a universidade, gerando novas ações e demandas, ou seja,
fortalecimento e ampliação de uma rede social.
Em São Gonçalo encontra-se um Campus da UERJ, mas especificamente a Faculdade
de Formação de Professores, o que justifica nossa ação nesse município. O bairro de Porto da
Pedra foi escolhido por ser de moradia de diversos alunos da universidade e abrigar uma
escola de samba que desenvolve iniciativas sociais através da ONG Crescer e Viver, mantendo
uma escola de circo para crianças e jovens como carro chefe de sua atuação.
Trata-se, portanto, da criação de uma rede de atores que, através de relações solidárias,
são capazes de tecer relações horizontalizadas de ação, emanadas por objetivos comuns: a cons-
trução de novas formas de ensino-aprendizagem, a ampliação de suas experiências culturais e,
simultaneamente, a elaboração de novos conteúdos de políticas públicas educacionais e culturais.
Em nossa concepção de rede social, a diversidade e heterogeneidade de vivências e
percepções espaço-temporais ganham espessura sociopolítica e configuram nódulos de comunicação,
circulação e interação dos diversos atores em cena. Assim, os indivíduos e o coletivo interagem,
se afrontam, se descobrem, se permitem, se interditam e também se estendem e se aproximam.
Nossos atores são jovens residentes nos espaços populares e regularmente matriculados
em cursos de graduação. Eles são atores da construção de diagnósticos participativos de perfis
socioculturais e econômicos de jovens residentes nas comunidades eleitas, da organização de
atividades educacionais, atividades de promoção e prevenção à saúde, de formação cultural e
artística. A importância desses jovens para rede sociopedagógica de estudos e práticas sociais
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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situa-se no universo de elaboração e avaliação de políticas públicas afirmativas por parte do
Poder Público, pois além de produtores e multiplicadores de conhecimento, eles também
assumem o papel de agentes de ações cidadãs de educação, cultura, saúde e geração de trabalho
e renda, cujo objetivo maior é superação das profundas desigualdades sociais presentes no
espaço urbano metropolitano.
Cada espaço popular tem seu grupo de trabalho, diretamente acompanhado por orienta-
dores de ações de extensão. Esses orientadores de extensão são mestrandos, responsáveis pela
articulação acadêmica dos jovens universitários, pela coordenação das atividades de socializa-
ção dos investimentos culturais e pelo acompanhamento das atividades dos grupos de trabalho.
Constrói-se, portanto, um envolvimento progressivo entre os cursos de pós-graduação e a
graduação em termos de ações públicas concretas.
Nos momentos mais diretos do trabalho são incorporadas as experiências de formação e
habilitação de diferentes programas e núcleos já existentes nas universidades parceiras. Os
programas e núcleos universitários são mobilizados no trabalho em rede, abrangendo atividades
no interior das universidades e nos próprios espaços populares selecionados, constituindo
dimensões múltiplas de formação e habilitação profissional.
Resultados
O desenho, a construção e a realização de políticas públicas afirmativas fazem parte do
desafio inadiável para a consolidação da democracia e ampliação do significado da cidadania
em nosso país. Para assumir esse desafio se faz necessário identificar as redes socialmente vul-
neráveis na Região Metropolitana, sobretudo às pertencentes aos espaços populares urbanos e,
ato contínuo, desenvolver ações sociais voltadas para ampliação de seus recursos culturais e
investir nas suas possibilidades sociais. Isto significa potencializar as formas organizativas e as
ações solidárias que as comunidades poderão experimentar como seu capital social e como sen-
tido prático da expressão cidadania.
Ações desenvolvidas:
implantação de núcleos locais da Rede Universitários de Espaços Populares em Niterói
(Morro do Preventório; Lara Vilela 94), São Gonçalo (bairro do Porto da Pedra), envol-
vendo 45 alunos bolsistas;
• desenvolvimento de oficinas de música, vídeo, fotografia e memória de bairro;
elaboração de informações sobre as condições socioeducacionais dos jovens residentes
nos espaços populares de Niterói (Preventório e Lara Vilela 94) e São Gonçalo (Porto da
Pedra) a partir de levantamentos amostral e censitário;
organização e realização de curso de Promoção à Saúde da Criança e do Adolescente
para monitores e instrutores da Escola de Circo Pequeno Tigre;
criação de uma Rede Interdisciplinar de Estudos e Ações Solidárias de Políticas Sociais
em Espaços Populares, constituída por Instituições de Ensino Superior, Organizações
Não Governamentais e Entidades da Sociedade Civil;
montagem e organização de Biblioteca Comunitária.
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Produtos
Vídeo institucional – a partir de um banco de imagens obtido ao longo do projeto, foram
realizados três vídeos institucionais. O vídeo foi realizado por uma das bolsistas da escola
de cinema da UFF, com roteiro idealizado pela coordenação do projeto.
Exposição de Fotografias Lara Vilela 94 – realizada a partir da oficina com técnica de
pin hole organizada com moradores da comunidade.
Três Vídeos e um programa para TV, do Preventório – realizados a partir da oficina de
vídeo organizada em parceria com a ONG Bem TV, sendo o programa exibido pela TV
Universitária da UFF.
Biblioteca Comunitária do Preventório – organizada em parceria com a Associação
dos Moradores do Preventório, utilizando espaço físico situado no casarão da FIA
na comunidade.
Capacitação em teoria musical, gravação de CD e vídeo clip do grupo Funk Social –
em parceria com a Fase.
Trabalho de Memória de Bairro no Porto da Pedra, o tema escolhido foi o time de
futebol que teve uma participação importante na ascensão do bloco que posteriormente
se transformaria na Escola de Samba Unidos do Porto da Pedra.
Benefícios alcançados
Os benefícios alcançados devem ser entendidos numa dinâmica de mão dupla, tanto por
parte da experiência obtida pelo aluno bolsista num trabalho de cunho extensionista assim como
a própria comunidade no processo de realização da intervenção sofrida.
O diagnóstico socioeconômico cultural realizado através de questionários forneceu
dados importantes para utilização como base de futuras intervenções de políticas publicas para
a comunidade, mostrando carências e demandas da própria comunidade.
No Preventório a organização da biblioteca com a Associação de Moradores resultou na
formação de uma Secretaria de Cultura na chapa recém empossada. A oficina de vídeo, a segunda
a ser realizada na comunidade, teve grade procura e envolvimento dos alunos na realização
de um programa para a TV Universitária sobre questão especifica da comunidade.
A oficina de fotografia desenvolvida no Lara Vilela 94 teve grande interesse da
comunidade, ampliando a faixa etária a principio programada.
O curso da saúde, desenvolvido para monitores e instrutores da escola de circo se encaixou
numa perspectiva da ação da própria ONG de qualificar seu projeto pedagógico a partir de uma
demanda do público alvo, objetivando a ampliação de conhecimentos sobre técnicas de primeiros
socorros, anatomia e fisiologia do exercício e sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
O projeto de memória do bairro de Porto da Pedra, a ser ainda exibido em escolas e
espaços públicos do bairro, teve grande interesse do grupo privilegiado ao conceder entrevistas
e deixar acesso livre a fotos e documentos. O objetivo de ampliar o sentimento de pertenci-
mento e identificação de moradores com seu meio ambiente imediato foi prontamente
alcançado pelo grau de interesse e envolvimento do público.
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Parcerias
Interinstitucionais:
ONG. Observatório de Favelas
ONG. Bem TV
ONG. Crescer e Viver
Escola de Circo Pequeno Tigre
Grêmio Recreativo Escola de Samba Porto da Pedra
Fundação para a Infância e Adolescência – FIA - Casa da Princesa - Preventório
Fase
Associação de Moradores Lara Vilela 94
Associação de Moradores do Preventório
Movimento Rede Funk Social
Interdepartamentais:
IACS - UFF
Faculdade de Medicina - UFF
Departamento de Biblioteconomia - UFF
Oficina do Saber - UFF
Fomento
Secretaria de Ensino Superior – Ministério da Educação – MEC/Sesu, fomento a
Programas e Projetos de Extensão Universitária
258
EQUIPE RUEP
Margareth Attianezi Nesa/UERJ Coordenação Geral UERJ
Jorge Luiz Barbosa Proex/UFF Coordenação Geral UFF
Alexandre D. T. de Aquino Ciências Sociais Coordenação de atividades
Aluno Curso Atividade
Albert Ramos Nery Matemática Análise de dados
Ana Beatriz S. J. Marques Cinema Coordenação de Fotografia
Ana Maria Tolino Cinema Vídeo Institucional
Ana Paula Ramos da Silva Letras Biblioteca
Anderson Andrade da Silva Geografia Fotografia
Anísia Sampaio do Nascimento Letras Vídeo
Aparísio Arruda Viana Geografia Administração
Átila Rodrigues da B. Morte Letras
Biblioteca
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Aluno Curso Atividade
Bárbara de Assis Oliveira Letras Circo
Camila Canella Moraes Letras Biblioteca
Camila Fernandes de Aquino Geografia Fotografia
Cristiane Passos de Mattos Geografia Administração
Daniel da Silva Contabilidade Administração
Eduardo Santos de Souza Geografia Fotografia
Elaine Rangel Alves Estatística Análise de dados
Fabiane Gomes Batista Serviço Social Biblioteca
Fabiane Grange Leonardo Matemática Análise de dados
Fabio C. P. do Nascimento Letras Memória
Fagner Costa Gil História Memória
Flávia Beatriz F. de Nazaré História Biblioteca
Gabriela ngelo Pinto Geografia Circo
Gil Almeida Félix Mestrando em Ciências Sociais Análise de dados
Guttenberg J. Coutinho Publicidade Fotografia
Hilka F. Saldanha Guida Serviço Social Memória
Jacqueline C. Silva Geografia Administração
Joana N. M. Bispo Pedagogia Circo
Juanna da S. Seoane Serviço Social Biblioteca
Kelly F. Assi Tavares Física Administração
Luciana de Oliveira Daumas Produção Cultural Memória
Margareth de Lima Cruz História Biblioteca
Marina Mendonça S. Nunes Pedagogia Biblioteca
Monique F. de Aguiar Ciências Sociais Vídeo
Neilane B. dos Reis Estatística Análise de dados
Nívea E. Rebello da Silva Letras Circo
Ricardo Ribeiro Percílio Geografia sica
Roberta H. B. dos Santos Geografia Biblioteca
Robson Oliveira Figueiredo Geografia Música
Simone da Cruz Biblioteconomia Coordenação de Biblioteca
Sueli P. Carvalho Gomes Pedagogia Memória
Susan Caldeira da Rocha História Memória
Thaís de Assis M. Muritiba Biologia Circo
Vagner L. Brum dos Santos Geografia Memória
Vanessa de Almeida Pessoa Produção Cultural Memória
Volmar Barbosa de Souza Letras Coordenação de Música
Weslwei Teixeira Falleiro Letras
Biblioteca
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Referências bibliográficas
BARBOSA, J. L. O ordenamento territorial urbano na era da acumulação globalizada. In:
TERRITÓRIOS Territórios. Niterói: PPGEO-UFF, AGB, 2002.
BERGER, P.; LUCKMAM, T.
A construção social da realidade. 10.ed. Rio de Janeiro: Ed.
Vozes, 1993.
CARLOS, A. F. A.
O lugar noldo mundo. São Paulo: HUCITEC, 1996.
GOFFMAN, E.
A representação do eu na vida cotidiana. 5.ed. Rio de Janeiro: Ed. Vozes,
1992.
SANTOS, B. Reinventar a democracia: entre o pré contratualismo e o pós contratualismo. In:
OLIVEIRA, F. de (Org.).
Os sentidos da democracia. São Paulo: FAPESP, Vozes, 1999.
SILVA, J. de S. Um espaço em busca do seu lugar: as favelas para além dos estereótipos. In
TERRITÓRIOS Territórios. Niterói: PPGEO-UFF, AGB, 2002.
Rede e inclusão social
Claudia Andréa Mayorga Borges, Mestre em Psicologia Social/UFMG. Doutoranda em Psicologia
Social/UCM – Espanha
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas
Resumo
No presente trabalho apresentamos o projeto de extensão da PUC Minas, projeto Espaço
Criança Esperança. Tal iniciativa vem sendo implementada junto a adolescentes de 12 a 18
anos, moradores da comunidade do Aglomerado da Serra, Belo Horizonte. Com o objetivo de
promover a inclusão social de adolescentes através de atividades relacionadas à cultura, arte,
esporte, lazer, multimídia, a metodologia utilizada é a da intervenção psicossocial, através do
método de redes. Tal método, que apresentaremos neste trabalho, exige a constituição de
diversos atores sociais que queiram atuar de forma complementar na implementação e fortaleci-
mento de uma efetiva rede de defesa da infância e adolescência. Através das ações-fim realizadas
pelas linhas de ação de intervenção, articulação e capacitação e das ações-meio do monitora-
mento e avaliação e da comunicação, o projeto tem atingido resultados que apontam para a for-
mação de setores da comunidade mais autônomos, críticos, participativos e dispostos a trabalhar
em rede e em prol das questões da infância e da adolescência, reconhecidas como questões da
comunidade. Concluímos que atuar através do método de redes exige uma mudança de
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paradigma, pois exige o abandono de perspectivas individualistas e a busca da solução de
problemas sociais a partir de ações coletivas e participativas
.
Palavras-chave: inclusão, rede, adolescência
Introdução
O Projeto Espaço Criança Esperança – ECE consiste em um projeto de inclusão social
de crianças, adolescentes e famílias de classes populares. Inclusão social que é compreendida
como uma atitude política diante das desigualdades e injustiças sociais, voltada para a instituição
de espaços de comunicação, realização e participação na sociedade de pessoas, grupos e comu-
nidades que, em função de circunstâncias históricas, são privados dos seus direitos e impedidos
de se realizarem como cidadãos.
Em Belo Horizonte, o projeto ECE é fruto da parceria entre Globo, Unesco, Prefeitura
de Belo Horizonte e PUC Minas, entidade coordenadora e executora do projeto. Este consiste
em um projeto de extensão da universidade.
O público-alvo direto do projeto são adolescentes entre 12 e 18 anos e indireto são as
crianças, as famílias e a comunidade do Aglomerado da Serra, região centro-sul da cidade de
Belo Horizonte. O público adolescente foi escolhido, pois, além de serem jovens que se encon-
tram em alto grau de vulnerabilidade social envolvendo aspectos de violência, tráfico de dro-
gas, gravidez na adolescência, evasão escolar, violência doméstica, trabalho infantil, o
Aglomerado da Serra conta com poucos programas governamentais de atendimento a jovens.
Assim, a proposta do ECE é desenvolver ações de proteção integral, a partir de (Unicef,
2003): uma estratégia de combate à violência focalizada nas principais vítimas, as crianças e
adolescentes; uma metodologia que supere a simples ocupação do tempo livre, assegurando o
desenvolvimento das diferentes habilidades da pessoa; um serviço/equipamento social atrativo,
criativo, dinâmico e diversificado, capaz de oferecer oportunidades de desenvolvimento
humano e social; uma retaguarda de proteção especial, capaz de fortalecer os vínculos famili-
ares e comunitários para adolescentes com história de atos infracionais, vida de rua e outras
formas de exclusão; uma estratégia de construção de políticas públicas, a partir da articulação
entre poder público e a sociedade civil organizada, fortalecendo pequenas organizações, atuando
em rede, assegurando a diversidade, sustentabilidade e complementariedade dos serviços.
O ECE tem sido implementado desde novembro de 2002 e seu objetivo é realizar ações
que garantam e promovam os direitos das crianças e dos adolescentes e contribua diretamente
na geração e implementação de políticas públicas. São também objetivos do projeto a promoção
e articulação da comunidade, por meio de uma efetiva rede de atenção ao adolescente; capaci-
tar educadores, lideranças comunitárias, jovens e suas famílias para a construção da autogestão,
participação, gestão em rede e sustentabilidade do projeto; atenção ao público jovem para
investir na cidadania, na inclusão social, no protagonismo e no desenvolvimento de habili-
dades pessoais, sociais e técnicas; coletivização das informações e dados referentes ao projeto
e aos direitos das crianças e adolescentes por meio de canais e instrumentos de comunicação
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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participativos; realização do monitoramento e de um sistema de avaliação para medir e discutir
coletivamente os resultados, seus impactos e caminhos do projeto.
Metodologia
A metodologia que vem sendo utilizada nesse trabalho é a da Intervenção Psicossocial
que parte de uma concepção crítica do sujeito e da realidade. Ser crítico é compreender o sujeito
que marcado pela história, pelas relações de poder, de gênero, raça e classe social, por questões
psicossociais é capaz de estar diante desse mundo sendo ativo, criativo e construindo formas de
vida distintas (BOCK, 2003). O principal objetivo é a mudança social. Tal mudança não acon-
tece simplesmente através da passagem de um estado a outro, mas constitui um processo com-
plexo e dinâmico de desconstrução, deslocamento e reconstrução da realidade (LEVY, 2001).
Um processo que não é linear e sim dinâmico, com idas e vindas, mas que deve ser seguido com
a participação constante dos sujeitos da mudança. Isso quer dizer, que mudança social não é
simplesmente a soma de mudanças individuais, pois consiste na soma das diversas relações
entre os vários atores sociais envolvidos no processo.
Um ponto importante é participação da população envolvida. Nos baseamos na idéia de
que a transformação efetiva só ocorrerá quando os sujeitos envolvidos no processo, durante
tanto tempo tratados como objetos das intervenções, do conhecimento, do governo, etc., sejam
de fato sujeitos (CASTILHO, 2001).
Baseados nessa metodologia, o ECE utiliza a rede como principal método de intervenção
e passamos a descrevê-lo a seguir.
O método de redes
O ECE adota um modelo descentralizado de intervenção que significa fazer uma opção
não só por ações que tenham vários lugares para sua realização, como é o caso do projeto, mas
significa compartilhar de alguns princípios importantes. O primeiro deles é a concepção de
complementariedade. Tal idéia consiste em compreender a realidade na sua vasta complexidade,
como sendo o resultado de uma ampla rede de relações de causalidade, que tiram de um único
ator, toda a responsabilidade para solução de problemas sociais. No ECE, isso quer dizer que para
alcançar uma efetiva inclusão de crianças e jovens na sociedade é necessário convidar vários
atores sociais que a partir das suas especificidades estabeleçam um fluxo tal de relações a ponto
de garantir a defesa dos direitos da infância e da adolescência. Certamente, tecer essa rede não
é uma tarefa simples. Ela exigiu e vem exigindo da equipe do projeto alguns cuidados e ações
específicas que se fizeram presentes desde os primórdios do projeto. Vale a pena lembrar que o
método de redes é algo relativamente novo no Brasil o que nos remete à necessidade de um
constante exercício de monitoramento e avaliação do processo (SHERER-WARREN, 1999).
Assim, alguns aspectos foram fundamentais na forma como estabelecemos relações com
a comunidade no início do tecer da rede:
a) a nossa inserção foi desde o início orientada pelo compromisso de que a intervenção
social deve possibilitar mudança das condições vividas cotidianamente por, no nosso
262
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caso, as crianças, adolescentes e suas famílias. Mas tais mudanças só poderão acontecer
com a participação efetiva dos sujeitos da comunidade, indicando os caminhos e as suas
principais necessidades (FREITAS, 1996). Esse foi o convite feito desde o início à
comunidade, constantemente atualizado, pois sabemos dos riscos do saber que “vem de
fora” e que constantemente tem a “tentação” e “pretensão” de estar vendo as coisas
como elas de fato são. Isso nos coloca constantemente o desafio de realizar o que a cor-
rente institucionalista da psicologia social chama de análise da implicação (CASTILHO,
2001). O ponto principal é compreender que as pessoas com as quais estamos lidando
possuem um saber sobre si mesmos e sua realidade que são fundamentais para os proces-
sos de mudança. Assim, nada de neutralidade, cuidado com o etnocentrismo, análise da
implicação. Analisar a implicação é realizar um exercício contínuo das relações de poder
que atravessam as relações;
b) o segundo ponto acerca da inserção na comunidade se refere aos objetivos do trabalho.
Sabe-se que eles podem ser definidos a priori ou a posteriori (FREITAS, 1996). No caso
do projeto ECE, o que movimentou o projeto foi uma mescla de objetivos definidos a
priori e a posteriori. Isso quer dizer que, o fato de pertencermos a um projeto idealizado
anteriormente, com algumas premissas dadas, como por exemplo, as áreas de atuação
que são o esporte, o lazer, a cultura, a arte e a multimídia, não nos permite sair brusca-
mente dessa direção. Contudo, foi somente através do contato com a comunidade, as
associações, as entidades, os jovens e suas famílias que fomos definindo com mais
clareza, como essas atividades poderiam acontecer.
Quando chegamos na comunidade encontramos uma série de entidades e associações
que já possuíam um histórico de preocupação com a infância e adolescência. Assim começou a
construção da rede: contato com entidades que possuíam atuações e práticas distintas com o
público adolescente e fomos fazendo parceria com algumas delas. Hoje a rede do projeto ECE
consiste em um espaço de referência e sete entidades parceiras entre associações, creches,
instituições sociais, projetos sociais. Mas participar dessa rede é muito mais do que pertencer a
um mesmo projeto. É fundamental, e esse tem sido o nosso exercício, que cada parceiro se
autodefina, se constitua em um ator social, isto é, uma instituição, uma creche, uma associação
com um projeto de mudança e esses projetos devem se relacionar através de um fluxo tal que
permita ações complementares.
O principal desafio na constituição de relações de complementariedade é o fato de estarmos
em uma sociedade marcada pelo individualismo que não concebe os problemas sociais como
um conjunto de ações complexas que exigem, por sua vez, um conjunto de intervenções
complexas. Assim, ainda tem sido desafio fortalecer esses diversos atores sociais, potenciali-
zando e ajudando a construir seus projetos.
A segunda característica do método de redes é: compreender o mundo na sua complexi-
dade e não na sua unidade. Isto é, se antes, no paradigma moderno, conhecer o mundo
significava conhecer a menor partícula possível dele através do método analítico o que
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encontramos hoje é que conhecer e intervir no mundo é buscar construir e mapear a complexa
rede de ações, fatos, atores, relações que compõe esse mundo. Dessa forma, ter como meta a
garantia dos direitos da infância e adolescência utilizando o método de redes é compreender que
tal garantia não será realizada por um único ator: ou o governo, ou a família, ou um projeto
social. É importante conhecer e instituir fluxos que de fato cheguem a esse objetivo. Isso só será
alcançado através da criação de diversos espaços de diálogo, debate, espaços onde possam ser
explicitados os conflitos e se possam buscar ações conjuntas.
O terceiro ponto do trabalho em rede é a não hierarquização dos atores da mesma. O
princípio da rede é a horizontalidade o que tem sido, talvez, uma das maiores dificuldades da
implementação desse método. Isso porque a noção de que as soluções para os problemas da
nossa sociedade possuem vários responsáveis, como o estado, o privado e a sociedade civil de
forma semelhante é motivo de vários debates nas políticas públicas, na universidade, na
sociedade civil em geral. O outro aspecto é a diversidade institucional dos parceiros presentes
no projeto, carregados de representações vinculadas ao poder e aos recursos financeiros.
Esse tem sido o esforço metodológico do projeto ECE: construir uma rede do projeto
estreitamente relacionada com a rede local e municipal de defesa da infância e adolescência. A
intervenção se dá através da construção de parcerias que por sua vez devem estar fortemente
entrelaçadas com as ações do estado e da sociedade civil.
Para tanto, o esforço de se instituir a rede tem acontecido através das ações apresentadas
a seguir.
As ações-fim: intervenção, articulação e capacitação
O ECE tem como fim a intervenção direta com a comunidade em busca da efetiva
inclusão social de crianças e adolescentes. Dividimos as ações-fim em três linhas de ação:
intervenção, articulação e capacitação.
A linha de ação da intervenção se refere ao atendimento direto aos adolescentes entre 12
e 18 anos. Esse atendimento direto acontece através do método de oficinas (AFONSO, 2000)
nas seguintes áreas: arte e cultura, esporte e lazer, multimídia e oficinas temáticas.
A intervenção através de oficinas está baseada na educação libertadora idealizada
por Paulo Freire (1983) que visa à superação das diversas formas de anulação do sujeito e de
suas culturas por meio do desenvolvimento da consciência política, da sensibilidade e da força
interna do conjunto de pessoas. Assim todo o processo educativo proporcionado pelo
método das oficinas procura promover uma educação inclusiva que diz respeito ao reconheci-
mento do sujeito como pertencente a uma coletividade ou a uma determinada condição
social que deve promover cidadania. Isso diz respeito ao acesso efetivo aos direitos. Sendo
assim, o Estatuto da Criança e do Adolescente é conteúdo fundamental a ser trabalhado nas
oficinas que utilizam o esporte, a cultura, o lazer, a multimídia como meios para prática do
diálogo, para lidar com conflitos e diferenças, para autoconhecimento e auto-realização,
responsabilidade, construção coletiva do conhecimento.
Sendo assim, cabe à intervenção preparar os educadores para implementarem o projeto
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pedagógico baseado em todos esses princípios acima descritos. São realizados com os
educadores encontros para construção dos seus projetos específicos de intervenção: capoeira,
dança, teatro, multimídia.
A segunda linha de ação do projeto ECE é a articulação. Considerando que o principal
método de intervenção utilizado no projeto é a rede, a articulação comunitária torna-se uma
ação fundamental na promoção de mudança social e fortalecimento da rede. Considerando
também que a comunidade do Aglomerado da Serra é constituída por 7 diferentes vilas, cada
uma com suas especificidades, lideranças e associações próprias, equipamentos públicos
específicos, e se constitui em um “aglomerado de projetos sociais”, é fundamental, para a
construção da rede, a instituição de espaços permanentes de diálogo e trocas de experiência com
diversos setores da comunidade. Esses espaços acontecem através de reuniões, encontros
formais e informais, conversas informais e entrevistas, mesas de debate, etc.
A articulação comunitária não se dá, é claro, sem conflitos, pois a realidade das vilas
difere em alguns aspectos e sabemos que existe a rede “informal” do tráfico que delimita
territórios e regras de circulação. Além disso, o processo de cristalização de lideranças não dá,
muitas vezes, oportunidade para jovens líderes que possam se destacar através de ações em prol
da comunidade. Portanto, o que temos realizado na comunidade é uma articulação não só das
associações comunitárias instituídas que, inegavelmente, fazem parte da história de conquistas
dessa população, mas também dos grupos culturais, dos grupos esportivos, dos projetos sociais,
dos equipamentos do estado, dos jovens das diversas vilas. Essa articulação tem trazido resultados
importantes como o Grupo de Referência Local e o Criart.
A terceira linha de ação do ECE é a capacitação. As ações de capacitação estão baseadas
no princípio de promoção de mudança social através da mudança cultural, de concepção de
mundo, um espaço de discussão e construção de uma proposta distinta para a comunidade/
sociedade. Significa formar educadores da comunidade que estejam aptos para sensibilizar os
jovens do seu próprio contexto, educadores que sejam agentes de transformação utilizando
como principal instrumento a educação através das artes, do esporte, da multimídia. Assim, a
linha de capacitação possui dois enfoques principais: formar educadores da comunidade con-
siderando que os mesmos fazem parte do mesmo contexto dos jovens, possuem linguagens
semelhantes e muitas vezes, também estão assujeitados e excluídos socialmente. A comunidade
educando a própria comunidade.
O segundo enfoque da capacitação, estreitamente relacionado com o primeiro, se refere
à formação da comunidade para a gestão participativa. É importante que a comunidade, marcada
por intervenções assistencialistas se formem para participar de forma ativa e propositiva no
planejamento, monitoramento e avaliação do projeto. Esse é um resultado que vem sendo
alcançado com o Grupo de Referência Local. Assim, o principal objetivo da linha de ação
da capacitação é a formação de sujeitos autônomos que estejam dispostos a co-gerir o
projeto ECE.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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As ações-meio: monitoramento e avaliação e comunicação e marketing
Para viabilizar as linhas de ação do projeto ECE, contamos com duas assessorias que
constituem as ações-meio do projeto. São ações que devem estar estreitamente vinculadas às
ações-fim, possibilitando a sua execução plena.
O monitoramento e avaliação do projeto ECE tem atuado em duas linhas principais:
levantamento de dados da comunidade e dos jovens atendidos através de diagnósticos e mapea-
mento da área, dos projetos sociais e dos equipamentos públicos. Tais dados nos auxiliam em
todo o processo de monitoramento e avaliação que acontece ao longo do projeto, pois nos traz
elementos que em um momento posterior serão importantes para verificar a efetividade, a eficácia
e a eficiência do projeto (ARMANI, 2002). Tais levantamentos nos permitem também disponi-
bilizar dados para a própria comunidade e verificar quais as áreas de maior vulnerabilidade e
que necessitam de uma atenção mais direta e imediata. A segunda ênfase é o monitoramento
propriamente dito que possibilita, ao longo do processo, caso seja necessário, a mudança de
rumos do projeto e a redefinição de algumas ações e atividades. O nosso grande desafio é a
avaliação da rede como método eficaz para a mudança social.
A comunicação e o marketing são responsáveis pela coletivização das informações e
dados referentes ao projeto e aos direitos da criança e do adolescente por meio de canais e
instrumentos de comunicação participativos. Essas ações vêm sendo realizadas através da cons-
trução de jornais comunitários, programas de rádio dos jovens e informações levantadas pela
própria comunidade, sobre as ações do projeto. A comunicação vem desenvolvendo um impor-
tante trabalho de visibilidade para os diversos grupos de cultura e esporte do Aglomerado
da Serra.
O projeto ECE conta com uma equipe interdisciplinar que, envolvendo profissionais da
psicologia, das ciências sociais, da comunicação, da assistência social, da pedagogia e da
demografia, tem como objetivo uma intervenção que contribua com os diversos olhares das
ciências, buscando formas integradas de ação e, conseqüentemente, transformação social.
Resultados e discussão
A seguir, apresentamos os principais resultados alcançados até o momento pelo projeto
ECE através da intervenção no Aglomerado da Serra, utilizando como método a rede, através
de ações de intervenção, articulação, capacitação, monitoramento e avaliação e comunicação e
marketing.
O Grupo de Referência Local – GRL
A gestão do projeto ECE é realizada coletivamente, por meio de diversos grupos
democráticos. O primeiro grupo denominado Conselho Gestor é formado pelos parceiros insti-
tucionais do projeto: Globo, Unesco, Prefeitura de Belo Horizonte e PUC Minas e tem como
principal objetivo definir as diretrizes gerais do projeto. O segundo grupo denominado
Conselho Executivo é formado pela equipe técnica da universidade e técnicos da prefeitura que
juntos procuram construir formas integradas de ações para os jovens, envolvendo as políticas
266
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públicas e os equipamentos públicos (saúde, educação, assistência social, etc.). O grupo
que gostaríamos de destacar aqui é o Grupo de Referência Local – GRL.
O GRL é formado por representantes: das entidades parceiras locais da comunidade,
das associações das vilas, de equipamentos da prefeitura, da equipe técnica do projeto, de
educadores e adolescentes atendidos pelo ECE.
Os seus principais objetivos são: monitorar as ações implementadas por meio de visitas e
discussões com os parceiros locais; acompanhar a execução das linhas de ação do projeto; propor
melhorias e mudanças necessárias para o compasso entre demandas/expectativas do público-
alvo e o desempenho efetivo do projeto; identificar possíveis atores sociais locais interessados
em participar da rede do projeto; promover o fortalecimento da rede local de atenção à criança
e ao adolescente; garantir o diálogo permanente com os outros espaços de gestão do projeto;
garantir um processo participativo no GRL, renovando periodicamente a sua composição.
O objetivo da formação desse grupo reside na necessidade e no objetivo maior do projeto
de realizar uma intervenção que tenha de fato uma efetiva participação da comunidade.
Construir coletivamente objetivos e modos de ação, isto é, realizar um planejamento participa-
tivo é o nosso principal objetivo ao instituir esse grupo e de fato isso já vem acontecendo. O
grupo participou de um seminário de Planejamento Estratégico onde construiu um plano de
ação que prevê: organização interna do GRL, definição de comissões de articulação, comuni-
cação, acompanhamento das ações, construção de um instrumento de comunicação (informativo
do GRL), construção de um calendário de atividades, realização de relatórios dos acompanha-
mentos das atividades do ECE, etc. Para fortalecer ainda mais esse grupo, o projeto realizará
uma capacitação intensiva para o grupo em gestão democrática onde serão debatidos temas
como gestão em rede, gestão participativa, auto-gestão e co-gestão, protagonismo, etc. Hoje, o GRL
realiza encontros semanais onde são discutidos assuntos relativos ao projeto e à comunidade.
É a comunidade participando de forma crítica. A partir daí, a rede passa a ter uma efetiva
participação de vários atores sociais, já com alguns dos seus fluxos definidos e o que é funda-
mental com espaços periódicos de discussão, trocas de experiência e planejamento de ações.
O Criart
O Criart é o fruto do trabalho da articulação e capacitação realizado com os grupos
culturais do Aglomerado da Serra. O ECE contatou na comunidade cerca de quarenta grupos
em atividade nas diversas áreas da cultura: hip-hop, capoeira, dança, teatro, pagode, reagae,
rock, samba, música popular, poesia. Nos grupos a participação de adolescentes é bastante
significativa e embora muitos deles não participem das atividades de oficinas do projeto, têm
sido contemplados nas ações de articulação e capacitação.
Damos destaque ao curso de Gestão e Produção Cultural que contou com a participação
dos jovens dos grupos culturais. No curso foram discutidos pontos como juventude e cultura,
empreendedorismo cultural, elaboração de projetos. Como resultado foram apresentados 3
projetos culturais. Dois deles gostaríamos de destacar aqui: “Festival de Dança e Música” e
“Centro Cultural Cooperativista – CCC”. Ambos estão interligados.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Os jovens autores desses projetos vêm, desde a conclusão do curso, realizando, junto
com a equipe técnica do ECE, encontros para discutir a viabilidade dos dois projetos. O CCC
diz respeito a uma proposta de gestão para o centro cultural que foi aprovado pelo orçamento
participativo da Prefeitura de Belo Horizonte e que deve ter a sua construção iniciada ainda no
ano de 2004. Contudo, os jovens avaliam que apresentar essa proposta para a prefeitura exige
uma maior articulação dos grupos culturais do Aglomerado a ponto de construir e apresentar
uma política cultural específica dos grupos. Isto é, uma proposta de gestão do centro só será
aprovada, se for apresentada com uma forte articulação da área cultural da comunidade que
sustente a gestão do centro. Essas reuniões vêm sendo coordenadas pelo Criart, comissão
dos grupos culturais, responsável por facilitar a articulação entre os mesmos.
Sendo assim, o Festival de Dança e Música e outros eventos que vêm sendo realizados
com a efetiva participação dos grupos culturais na organização dos mesmos como feiras de
cultura, ensaios abertos e mostras de artesanato estão sendo concebidos como meio (e não como
fim) de articulação e integração dos grupos culturais. Debates sobre o que é fazer cultura na
periferia também vêm sendo realizados e coordenados pelo Criart.
Esse é mais um resultado que aponta para a autonomia e protagonismo dos jovens do
Aglomerado da Serra.
O protagonismo juvenil – jovens multiplicadores
O protagonismo juvenil é um dos princípios básicos no trabalho das oficinas da inter-
venção. Formar jovens críticos, ativos, conscientes da sua realidade e do contexto em que
vivem, criativos e capazes de trabalhar de forma coletiva promovendo a participação é nosso
objetivo no ECE. Assim, nas diversas atividades de arte, cultura, esporte, lazer e multimídia
estamos procurando destacar aqueles jovens que respondem de forma mais direta ao “convite”
do protagonismo. Ao destacar esses jovens, de forma alguma pretendemos trabalhar com
valores como a meritocracia, por exemplo. Nosso objetivo é formar jovens que possam ser
multiplicadores das ações do projeto, isto é, multiplicadores de protagonismo, participação,
criatividade, liderança, etc., para que eles mesmos possam mobilizar e chamar outros jovens.
Em outras palavras, o próprio adolescente pode sensibilizar outro jovem para incluí-lo na
discussão sobre os direitos, sobre os problemas da comunidade, sobre as formas de ação
possíveis da juventude no mundo contemporâneo. Jovens falando a mesma linguagem, jovens
que compartilham um mesmo contexto social, que estão submetidos a situações semelhantes de
vulnerabilidade que devem, mais do que nunca, ser sujeitos da sua própria história.
Alguns desses jovens já vêm sendo selecionados e em breve começarão a coordenar
atividades do projeto ECE na função de multiplicadores.
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Conclusões
A metodologia de intervenção psicossocial, através do método de redes tem possibilitado
uma forte mobilização da comunidade na discussão dos direitos da infância e da adolescência.
Destacamos o GRL, o Criart e os multiplicadores como resultado das ações do projeto que tem
como meta principal promover mudança social com a efetiva participação da comunidade no
que se refere à constituição de uma efetiva rede de defesa das crianças e dos jovens.
O método de rede é certamente, um desafio, pois exige dos diversos atores envolvidos
uma mudança de paradigma. Um paradigma que concebe a mudança social baseada não mais
no individualismo, nem nas ações heróicas, mas em um processo constante de interação entre
diversos atores sociais, em ações complementares, baseadas na solidariedade e na horizontali-
dade. Sabemos que o que se encontra na realidade são diversos conflitos de interesses, antago-
nismos e muita diversidade de objetivos e projetos. Assim, formar a comunidade para se reunir
e construir, de forma ativa, participativa e crítica, o seu próprio caminho, as soluções conjuntas
para seus problemas buscando sustentabilidade e lidando constantemente com a diversidade é
o nosso desafio. Formar uma comunidade que, ciente da complexidade dos seus problemas que
foram sendo instituídos através de um longo e duro processo histórico, compreenda que a
mudança também será fruto de um longo processo onde eles deverão continuar reivindicando o
seu lugar de sujeitos e não de objetos da história.
É essa a perspectiva que orienta todas as atividades do projeto ECE: desde a oficina de
capoeira, as capacitações dos educadores, reuniões com os familiares dos jovens até os eventos
culturais e esportivos realizados no dia a dia.
Cabe destacar que, nesse processo todo, é fundamental ter um olhar crítico sobre a
comunidade/realidade: um olhar que historiciza, contextualiza, considera as relações de poder,
que vê as desigualdades de gênero, raça, etnia e classe e que convida o indivíduo para atuar
como sujeito.
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Educação e cultura no Riacho Fundo II
Adriano José Hertzog Vieira Vieira, Mestre em Educação
André Luiz Carvalho, Especialista em Comunicação Social
Elizabeth Aiko Oda, Mestra em Ciências Sociais
Universidade Católica de Brasília – UCB
Resumo
O artigo versa sobre o Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo
II. Desenvolvido pela Universidade Católica de Brasília desde 2001, tem por objetivo desen-
cadear um processo em que a comunidade, a partir da alfabetização, reconheça seu potencial
educativo. A metodologia utilizada parte da construção de textos, a partir das experiências e
realidades dos alfabetizandos. Num período posterior, os saberes de cada um são partilhados a
fim de gerar alternativas de autogestão e melhoria da qualidade de vida na comunidade.
A partir de atividades de reconhecimento de seu potencial cultural, como o cineclube aqui
apresentado, trabalha-se o resgate e a reconstrução da identidade dos sujeitos e da comunidade.
Além dos alunos alfabetizados, foram desenvolvidos cursos de profissionalização básica que
gerou emprego para os participantes
.
Palavras-chave: educação, cultura, qualidade de vida
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Educação
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Introdução
Há, no pensamento ocidental, uma anteposição entre Cultura e Natureza que embasa a
noção de sociedade, civilização e desenvolvimento. Esta concepção atribui à cultura um valor
instrumental, com perspectivas tecnológicas, que é tanto mais progressiva quanto mais estiver
o ser humano afastado daquilo que o Ocidente forjou como “natureza”. O presente trabalho
procura mostrar que cultura é emergência da natureza no ser humano e se tornam integradas
quando se vive numa perspectiva de conscientização do próprio viver como qualidade do
existir de sujeitos e de uma comunidade.
O Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo II é uma iniciativa
que nasceu do diálogo entre a comunidade da cidade satélite Riacho Fundo II e a Pró-Reitoria
de Extensão da Universidade Católica de Brasília – UCB. Ouvindo as problemáticas da
comunidade, a UCB ofereceu uma perspectiva inovadora para contribuir com a melhoria da
qualidade de vida do Riacho Fundo II: a criação de uma “Comunidade Educativa”. Tratava-se
de construir, com a comunidade, numa metodologia dialógica, a consciência de seu potencial
cultural, a apropriação do mesmo como instrumento de capacitação e autogestão em vista da
melhoria da qualidade de vida.
Num primeiro momento, apresentamos o projeto no contexto da comunidade. Em seguida,
partilhamos com o leitor a reflexão sobre educação e cultura que tem orientado o projeto a
partir dos frutos do percurso já realizado. Finalmente, presenteamos aos que lêem este trabalho
com a descrição de uma das ações desenvolvidas no projeto, a fim de oferecer elementos que nos
permitam verificar a possibilidade de recriação da cultura quando a comunidade é educativa.
Visualizando o início da comunidade educativa
Em 2001, quando teve início o Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa, o Riacho
Fundo II era uma sub-administração do Riacho Fundo I, composto por famílias, em sua maioria,
vindas de ocupações do Distrito Federal como a da Estrutural, Samambaia e SIA – Setor de
Indústrias e Abastecimento. Pessoas migrantes dos Estados mais diversos, principalmente do
Nordeste. O que a maioria tinha em comum era a situação de pobreza e a esperança de estarem
conseguindo ali um lote para construir sua casa.
No início do projeto, a equipe fez contatos com diversos segmentos sociais e políticos
do Riacho Fundo II. Dessas articulações, surgiram pessoas interessadas em conhecer a proposta,
mas principalmente em procurar descobrir o que poderiam “ganhar” da Universidade. Em uma
região administrativa e política que acostumou seus eleitores a serem movidos por assisten-
cialismo e sistema de trocas, nem sempre justas, o fato da Universidade ir a um lugar carente,
criava uma curiosidade na população sobre o que poderiam receber. Havia, e ainda há, na
população, uma relação de dependência para com governos e instituições, historicamente
reforçada, para garantir o poder de comando e o controle de suas administrações.
A proposta do projeto, no entanto, não privilegiava nenhum desses espaços e optou
por fazer com que as pessoas que se envolvessem pudessem se tornar sujeitos dessa nova
construção. Essa tarefa não foi fácil e nem simples, porque exigiu uma etapa de diálogos para
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convencer as pessoas que a UCB não estava ali para dar alguma coisa ou trazer algum donativo
para a comunidade. Mas que o trazer algo ou desenvolver algo na comunidade poderia ser conse-
qüência do trabalho coletivo ali iniciado. A partir do momento que essa idéia foi conquistando
lucidez na mente das pessoas que participavam das reuniões, aqueles que de fato se interessavam
pela proposta ficaram e participaram com freqüência de um grupo mais restrito e permanente.
Ultrapassada essa primeira etapa, a equipe passou a desenvolver um trabalho de for-
mação de identidade de grupo. O grupo era composto de diversas pessoas, homens e mulheres,
jovens e adultos: todos estudantes, desde alfabetizandos, ensino fundamental e supletivo do
ensino médio. Todos trabalhadores, com origens diferentes, motivações diferenciadas, sonhos
distintos, mas com algo essencial em comum: pessoas preocupadas em melhorar suas vidas,
e dispostas, para isso, a melhorar o Riacho Fundo II. Pessoas com horizontes amplos de expec-
tativas, com idéias concretas, à espera do encontro com outras pessoas com quem pudessem
caminhar juntas. Estava composto o grupo gestor da comunidade educativa.
O terceiro momento foi o de consolidar o grupo gestor e pensar coletivamente o RFII.
Mas, para isso, era preciso resgatar os elementos culturais de cada um através da história
individual de cada pessoa do grupo e fazer com que isso estivesse presente na construção da
cidade. As imagens do RFII em fotografias foram fundamentais para o momento inicial do
planejamento participativo do grupo. Esse momento desdobrou-se em outras etapas como a
contextualização da realidade local, identificação de problemas, propostas, avaliação. O
planejamento resultou em propostas de subprojetos sobre cultura, meio ambiente e profissiona-
lização, além de uma determinação do grupo em conseguir um centro de múltiplas funções,
um espaço onde a comunidade pudesse reunir-se e operacionalizar seus objetivos, para desen-
volvimento de atividades culturais e educativas.
O final do planejamento aflorou no grupo a necessidade de tornar conhecidas as suas
propostas e o projeto. Tornou-se evidente que o grupo gestor tinha a consciência de que a
melhoria da qualidade de vida no RFII não dependia da centralização em si mesmo. Nota-se aí
uma mudança de concepção política, em que há a necessidade de tornar participativas as
decisões e ações, que até o momento estavam sempre vindo de cima para baixo. A melhor forma
encontrada para divulgar o projeto foi a de desenvolver algumas atividades que o grupo gestor
planeja, promove e realiza. A demora em começar a realizá-las, característica comum de
grupos que ainda não têm a experiência de planejar as estratégias de preparação e execução de
atividades, enfrentando as demandas de tempo a serem empregadas para esses objetivos, gerou
uma certa inquietação no grupo, que estava ansioso para dar início à pratica.
No estágio atual, o grupo gestor tem desenvolvido atividades de grande impacto para a
comunidade: cineclube, cinema, teatro de bonecos, sempre com excelente participação e
interação dos participantes.
Essas ações se traduzem em avanços do grupo gestor como a elevação da auto-estima e
busca de melhoria da qualidade de vida, maior participação na comunidade, consciência crítica
da sua situação e do projeto; a identificação como grupo, que ressalta o convívio, a troca de
idéias, os laços de amizade e a criação de projetos com possibilidades de tornarem-se realidade.
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Educação e cultura
A construção de um pensamento autônomo, como alternativa para a melhoria da quali-
dade de vida de um grupo humano, constitui-se no agregar reflexivo e reformulado do próprio
pensamento que se vai historicamente compondo entre sujeito-sujeito, sujeito-comunidade. Daí
decorre uma compreensão da ação educativa como recriar a prática tendo um sujeito livre e
criador, participante do processo e, por isso, esperançoso. Trata-se da construção, no sentido
de fazer-se autor, ou seja, da responsabilidade por fazer-se sujeito inteiro e histórico. E esse é,
fundamentalmente, um exercício da consciência histórica.
Sob a óptica do pensamento moderno, a razão passou a dominar como pensamento
hegemônico, vendo o humano fundamentalmente como ser racional. Jogado no senso comum,
este pensamento tomou o rumo de um individualismo encarcerador e autodefinhador.
Encarcerador porque nada do que passa dos limites do racional é considerado humano. Uma
supervalorização da razão tornou o humano cativo em apenas uma das dimensões que o cons-
tituem. Autodefinhador porque a desconsideração das demais potencialidades humanas
coisificou a pessoa. Como conseqüência, surge uma sociedade fragmentada e um ser humano
fragmentado. Uma compreensão absoluta de dominação da noção de autonomia produz o
sujeito dono, os bens privados e o capital. Legitima-se a cultura da competição e do capital
como referência do existir.
A consciência está relacionada com a abertura da razão para acolher pensamentos que,
em determinado momento, não estavam presentes na atividade racional. Brincando com a
palavra poderíamos dizer que “consciência” é a ciência com. Ou seja, o pensamento de outrem,
que pode estar fora de minha racionalidade, enquanto compreensão mais ampla, e é acolhido
como outro pensar, é a ciência de outro que se agrega à minha sem negá-la. Nessa compreensão,
a razão passa a ser instrumento da consciência e não o inverso. Daí que, uma proposta
metodológica a partir do diálogo, a comunidade, partindo de suas ações e pensamentos que são,
a um só tempo, produto e produtoras da consciência, torna-se educativa.
Pensar o sujeito e sua práxis como exercício de uma liberdade real, construída no
cotidiano do pensar-agir-criar, tendo a consciência como referência dessa práxis, conduz a
pensar a intersubjetividade como consciência histórica coletiva. É proposta de busca que se
realiza na própria prática.
Em meio a esta busca incontida, no movimento andarilho e dissociado de nosso tempo,
apresentamos a “Comunidade Educativa” como uma das tantas alternativas emergentes para a
construção da cultura como exercício da consciência.
Para Ernani Maria Fiori, educador e filósofo brasileiro, cultura e conhecimento são dois
movimentos entrelaçados de um mesmo fenômeno de conscientização do ser humano na
criação da história e do mundo. A cultura é uma espécie de lugar da consciência, da construção
e elaboração do conhecimento. Ambos estão de tal forma vinculados, que um não se dá sem o
outro. Por isso, para ele, “cultura significa, originariamente, cultivo da natureza, cultivo dos
campos (...). No caso do homem, há também cultivo, cultivo da pessoa, que, desenvolvendo
suas virtualidades, afirma-se na linha da personalidade” (FIORI, 1991, p. 19).
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O autor concebe o humano numa perspectiva de gerência de si, pela consciência. Por
isso usa a expressão “virtualidade”. A expressão traz uma dinâmica da força interna, da virtus.
O ser humano é sujeito porque virtuoso. A partir de sua interioridade se faz, se re-cria, fazendo
e recriando o mundo. Há uma força interna que o atualiza. Tal virtualidade é desencadeada na
relação com os outros, na comunidade. Os moradores do Riacho Fundo II manifestam a
consciência da importância da cultura nesta perspectiva, quando afirmam: “A cultura pra mim
é como a minha raiz. Assim como uma planta precisa da raiz pra viver, sem cultura eu não vivo”
(Moradora participante de uma sessão de cineclube).
A cultura, no humano, é, ao mesmo tempo, expressão de sua interioridade histórica e
produção de nova história, em ato. A construção histórica do humano, mesmo que determinada,
não é determinante. De outro lado, para Fiori, a natureza humana é fundada na liberdade. Por
isso, em última análise, o humano é sujeito porque, mesmo tendo sido marcado por situações
que colaborem com uma certa fisionomia que o constitui, é capaz de criar a história.
A educação, a partir daí, se constitui, ao mesmo tempo, como resultado e instrumento da
cultura. Nesse sentido, o Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo II é
gestado de tal forma que “a experiência de aprender é vivenciada como um desejo de
embelezamento das pessoas, da comunidade e do meio ambiente” (CUNHA F., 2001, p. 3 –
texto digitado). A metodologia desenvolvida é um constante convite para que os integrantes da
comunidade assumam suas virtualidades, ensinando o que sabem e aprendendo o que os outros
têm para ensinar. Desse modo, apropriam-se do legado cultural e o recriam em vista de alter-
nativas para tornarem-se mais humanos. É este exercício que confirma o que diz Fiori: “O feito
só é feito através do fazer (...) e enquanto o feito, no processo cultural, se transmite, transmite-se
em vista do fazer, porque, em si mesmo, o feito é algo de morto” (FIORI, 1991, p. 20). É a
comunidade que, na ação educativa, vivifica a cultura.
Seguindo esse caminho, podemos afirmar que conhecer e agir são sinônimos. É um posi-
cionamento criador frente ao mundo. Por isso é político: ação na polis. “E a cultura, ao tomar a
dimensão da cidade, feição política em sentido amplo, faz-se civilização, a cultura, na perspectiva
do civil, da cidade, é civilização” (FIORI, 1991, p. 21). Daí decorre uma concepção de ação cultural
como uma das dimensões da política. Por isso, é possível pensar a comunidade educativa como
decorrência e criadora da cultura, portanto, inteiramente política. Talvez, por esta consciência,
um dos moradores do Riacho Fundo II tenha afirmado “A cultura forma a nação, porque um
povo tem que ter cultura”.
É por esta via que a atuação da comunidade educativa não está, jamais, alheia de qualquer
outro momento humano. A educação, nesse sentido, é organísmica, porque interage com outros
espaços/tempos da comunidade. De tal forma isto é posto, que o ensino nunca é só ensino do
fato, mas sempre é novo fato. A pessoa é que, tornando-se sujeito na intersubjetividade, cria e
re-cria a cultura, o mundo, a humanidade.
Daí que é possível pensar o fazer como processo de sujeitificação. Todo processo de
sujeitificação possui um movimento que implica o sujeito enquanto indivíduo, e a intersubje-
tividade (comunidade). A sujeitificação ocorre nas relações entre os sujeitos. Só nesse movimento
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o humano sujeitifica-se, educa-se. Como isso só se dá na comunidade, esta é, necessariamente,
educativa. O processo educativo é, portanto, processo cultural. Sendo a cultura produto e
possibilidade do fazer na intersubjetividade, é fundamental, nos processos educativos a par-
ticipação de toda a comunidade.
Fiori usa o termo “comunidade” para significar “uma associação que se realiza não de
fora para dentro, mas comunhão que surge de dentro para fora, entre os que se unem nas exigências
vitais do espírito e da cultura” (FIORI, 1991, p. 23). A comunidade, na intersubjetivação, é
capaz de fazer emergir os feitos para re-fazê-los. A ação educativa, nessa perspectiva, constitui-
se como problematizadora e, em certa medida, conflitiva. A intersubjetivação faz-se espaço de
presentificação dos sujeitos que são distintos entre si. Sendo a comunidade o lugar de presença
dos sujeitos diferentes entre si, os pensamentos e os atos criados se tornam problematizadores
uns dos outros e convocam a novas elaborações de cada sujeito e da comunidade. Cada sujeito,
participante do processo educativo, ao perceber-se educador e educando, “existencia seu
pensamento numa pedagogia em que o esforço totalizador da práxis humana busca, na interio-
ridade desta, retotalizar-se como ‘prática da liberdade” (FIORI, 1991, p. 52). A prática da
liberdade na ação educativa supõe a consideração das biografias dos sujeitos envolvidos, seus
desejos, suas dimensões e potencialidades. Por isso o sujeito existencia-se no fazer. A ação
pedagógica, neste caso, não se resume numa técnica, mas se move numa perspectiva da cons-
ciência de encontros de existências, por isso não é uma simples prática, mas práxis. E é prática
da liberdade por ver no outro um sujeito de virtualidades e ações constantemente perpassadas
umas pelas outras. Nesta prática, os sujeitos se aproximam, autorizados pela acolhida uns dos
outros e vão tornando-se comunicadores de suas diferenças: “Meu pai conhece um ‘boi’ onde
só homem participava. Vão fazendo verso, mulher não participa não. E não era este ritmo aí”.
Essa consideração do já vivido e do já pensado como possibilidade de novos viveres e
novos pensares na comunidade encaminha para um conhecimento não dogmático, por isso criador
e libertador, por isso esperançoso. E é esse movimento do conhecer que, numa perspectiva da inter-
subjetividade, vai constantemente re-criando a consciência de sujeito com sujeitos na experiência.
O Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo II traz o movimento
de uma construção do conhecimento como inter-relação entre os envolvidos no processo de
conhecer. Nesse sentido, a experiência e o saber tornam-se o lugar do diálogo, da conversa
criadora e re-criadora de novos saberes. Porque trata-se de um processo que não exclui os dados
trazidos, mas, ao contrário, re-configura-os numa prática que é existência e, por isso, da cons-
ciência que se des-cobre e re-des-cobre continuamente como criadora da história. Daí que a
metodologia desenvolvida no projeto concebe a alfabetização como ato de “aprender a ler e
escrever para tornar-se capaz de compreender o mundo para além de suas manifestações
imediatas” (CUNHA F., 2002, p. 3 – digitado). É processo de alfabetização que se abre para a
vida como experiência que passa a ser grafada, bio-grafada, passa a ser história e faz-se cultura.
Por isso, o ato de ler o mundo e escrevê-lo é fundamentalmente um ato de humanização, porque
implica, sobretudo, uma consciência de sujeito naquele que lê e escreve o mundo. Para Fiori:
“Talvez seja este o sentido mais exato da alfabetização: aprender a escrever a sua vida, como
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autor e como testemunha de sua história, isto é, biografar-se, existenciar-se, historicizar-se”
(FIORI, 1991, p. 53).
Nesse sentido, é possível arriscar a afirmação de que a alfabetização deixa de ser um
momento de aprender a decodificar alguns símbolos e passa a ser um modo de posicionar-se
frente ao mundo no cotidiano. Relativizando, assim, uma abordagem cronológica do momento
de alfabetização e tornando a leitura do mundo uma atitude constante do sujeito que, em lendo
e escrevendo o mundo, vai sujeitificando-se.
A construção da educação e da cultura pelo olhar sobre as imagens
Uma das estratégias de mobilização da comunidade e de construção do saber local que
vêm sendo realizadas recentemente no Riacho Fundo II é o cineclube. Constituído como um
espaço itinerante de exibição e discussão de documentários brasileiros de curta (até 15 min.) e
média (de 16 a 50 min.) metragem, com uma freqüência mensal, o cineclube nasce de uma
necessidade dos jovens do Riacho Fundo II que integram o grupo gestor do projeto. A sua
origem encontra-se em uma oficina de vídeo comunitário, Oficina de Imagem Popular, realizada
na Universidade Católica de Brasília, de 01 de julho a 02 de agosto de 2002. Essa atividade fora
proposta por uma empresa privada, a Karibu Cinema, e viabilizada pela Pró-Reitoria de
Extensão da UCB.
Durante um mês e um dia, jovens com idade entre doze e vinte anos, de quatro locali-
dades do Distrito Federal (Riacho Fundo II, Areal, Taguatinga e Ceilândia), participaram de
uma oficina de produção de vídeo, dividida em três etapas: sensibilização e introdução à
linguagem audiovisual, desenvolvimento de roteiro e noções técnicas, produção e finalização
dos documentários. O resultado foi a elaboração de quatro vídeos pelos vinte e quatro partici-
pantes da atividade — “Parque do Areal”, “Retratos não Registrados”, “Albergue de
Imigrantes” e “Cidade dos Cavalos” —, sob a supervisão de cinco oficineiros e quatro moni-
tores. Dentre os vídeos produzidos, o “Cidade dos Cavalos”, que trata de uma área invadida por
carroceiros no Riacho Fundo II, acabou selecionado por diversos festivais regionais e nacionais
de vídeos universitários e para o XXXV Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Terminada a Oficina de Imagem Popular, surge então a proposta de continuidade de um
espaço permanente de exibição de vídeos no Riacho Fundo II. O cineclube acontece, portanto,
em conseqüência de uma ação democratizadora do acesso à linguagem audiovisual como forma
de expressão, capaz de abrir uma perspectiva de disseminação de um saber experimentado, que
agora é compartilhado entre esses jovens e a comunidade. E, nesse sentido, vale ressaltar a
importância de se estar iniciando um trabalho de “alfabetização visual”, defendido por Dondis
como “algo além do simples enxergar, como algo além da simples criação de mensagens
visuais. O alfabetismo visual implica a compreensão e meios de ver e compartilhar o significado
a um certo nível de universalidade” (DONDIS, 1991, p. 227).
Abre-se uma perspectiva permanente de leitura crítica e política da imagem técnica
(fotografia, cinema e vídeo), com uma expectativa de explicitar sua estrutura interna, discutir
sua sintaxe, analisar seus artifícios e verificar suas potencialidades. Essa orientação começa a
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despertar novos interesses à medida que a comunidade percebe na imagem uma maneira de
identificar, valorizar e reconstruir sua cultura: em um dos encontros do grupo gestor, uma
moradora do Riacho Fundo II sugere a realização de uma oficina de produção fotográfica,
justificando seu interesse em elaborar suas próprias fotografias e seu descontentamento em apenas
ser fotografada pelos professores e estagiários da UCB, como mero registro das reuniões.
Estabelece a importância de se constituir também sujeito e não somente objeto da história do
grupo gestor. Quer assumir o fazer, colocar-se atrás da câmera, recortar a realidade segundo seu
olhar próprio, subjetivo e criador. E ai vale lembrar Debray: “Olhar não é receber, mas colocar
em ordem o visível, organizar o seu sentido do olhar, assim como o escrito na leitura”
(DEBRAY, 1993, p. 91). Em outras palavras, podemos dizer que a comunidade do Riacho
Fundo II manifesta o desejo de escrever com a imagem.
Além de uma proposta de alfabetização visual e de formação de público para o documen-
tário independente — cuja temática encontra-se muitas vezes voltada para a realidade brasileira,
mas, no entanto, não encontra espaço no circuito comercial da TV aberta e do cinema —, o
cineclube constitui-se em um território promissor de re-elaboração das percepções de mundo e,
portanto, de produção de conhecimento. Segundo Vilém Flusser, “o caráter aparentemente não
simbólico, objetivo, das imagens técnicas faz com que seu observador as olhe como se fossem
janelas, e não imagens. O observador confia nas imagens técnicas tanto quanto confia em seus
próprios olhos. Quando critica as imagens técnicas (se é que as critica), não o faz enquanto
imagens, mas enquanto visões do mundo” (FLUSSER, 2002, p. 14). Quando falamos de um
vídeo, na maioria das vezes nos referimos mais diretamente à sua história do que à sua forma.
Nesse sentido, o documentário audiovisual apresenta uma forte ligação com o seu
referente, ou seja, com um determinado contexto que, por ter existido, pôde ser gravado e
transformado em vídeo. A imagem técnica pressupõe a existência de uma realidade anterior a
ela, a partir da qual foi elaborada, sua origem, sua matéria-prima. E a certeza da existência desse
referente no tempo passado, algumas vezes distante, representa um terreno privilegiado para a
reflexão do contexto que se está vivendo no presente e, portanto, próximo.
O documentário restringe-se a um dado recorte no tempo e no espaço, tem começo, meio
e fim, limites que não esgotam a totalidade do assunto tratado. E como qualquer forma de
expressão, apresenta uma série de lacunas de significação a serem preenchidas pelos seus
leitores. Atua, desse modo, como “um relê, que aciona nossa imaginação para dentro de um
mundo representado (tangível ou intangível), fixo na sua condição documental, porém moldável
de acordo com nossas imagens mentais, nossas fantasias e ambições, nossos conhecimentos e
ansiedades, nossas realidades e nossas ficções” (KOSSOY, 1999, p. 46). Ao término da exibição
do cineclube, o audiovisual passa a representar tão somente o ponto de partida para a construção
de uma série de teias de significados, construídos por cada leitor/ator/sujeito, tendo como eixo
um tema único (a estória narrada), mas dentro da subjetividade de filtros culturais, religiosos,
sociais, políticos, morais dos moradores do Riacho Fundo II. Assim, está garantido o diálogo,
respeitando-se as diferenças de visões das partes (sujeitos), na busca de um entendimento mais
abrangente da totalidade (intersubjetividade).
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As sessões do cineclube são realizadas sempre aos sábados, por volta das 19 horas, em
locais distintos da cidade, como escolas e galpão comunitário. A intenção desta organização
itinerante é garantir o acesso às diferentes localidades do Riacho Fundo II. Segundo os membros
do grupo gestor, por se tratar de uma cidade-dormitório — o que inviabilizaria exibições em
horários comerciais e durante a semana — essa é a hora mais apropriada para reunir a comu-
nidade, que, na partilha de suas impressões, opiniões e vivências a partir do documentário,
torna-se mais educativa. Antes das sessões, os vídeos são apresentados e discutidos pelo grupo
gestor. A divulgação é feita nas proximidades do local onde ocorrerá o evento, e o público não
deve ultrapassar cinqüenta pessoas, na tentativa de assegurar um diálogo mais produtivo e com
a maior participação dos presentes. Essa estratégia tem garantido uma heterogeneidade dos
presentes, sem a predominância de alguma faixa etária ou gênero específicos. As exibições
costumam levar, no máximo, quarenta minutos, para não cansar os espectadores, e os debates,
de quarenta minutos a uma hora.
À guisa de conclusão
O Projeto Alfabetização e Comunidade Educativa no Riacho Fundo II articula uma
noção de relação entre cultura e natureza no ser humano de tal modo que ambas estão imbri-
cadas no compromisso pela construção do mundo. A noção de conhecimento é, assim, existen-
cial, na medida em que a ação não é simples ação, mas expressão do sujeito, existencialização.
Por isso a prática metodológica desenvolvida no projeto não é uma ação isolada, mas dialoga-
da na intersubjetividade. Ação composta de fazer-ser de quem, em fazendo, existencia-se. O ato
de conhecer, portanto, é ato criador de alternativas que efetivem a melhoria da qualidade de vida
da comunidade.
Referências bibliográficas
CUNHA F. J. L. da. Algumas notas para o Projeto Comunidade Educativa. Brasília:
UCB/PROEx/DPE/PCE, 2001. (Mimeografado).
DEBRAY, R.
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DONDIS, D. A.
Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
FIORI, E. M.
Educação e política. Porto Alegre: L&PM, 1991. (Textos escolhidos; 2).
_____.
Metafísica e história. Porto Alegre: L&PM, 1987. (Textos escolhidos; 1).
FLUSSER, V.
Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de
Janeiro: Relume Dumará, 2002.
KOSSOY, B.
Realidades e ficções na trama fotográfica. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
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Comunidades de aprendizagem
Roseli Rodrigues de Mello, Professora Doutora. Pós-doutorada em Sociologia e em Educação,
Centro de Investigação Social e Educativa – Crea, Universidade de Barcelona
Paulo Eduardo Gomes Bento, Professor Doutor em Engenharia de Produção
Fabiana Marini, Doutoranda em Educação
Eglen Silvia Pípi Rodrigues, Mestre em Educação
Universidade Federal de São Carlos – UFSCar
Resumo
O projeto de extensão “Comunidades de Aprendizagem” é um dos projetos desenvolvidos
pelo Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa – Niase, da Universidade Federal de São
Carlos. Uma Comunidade de Aprendizagem implica uma transformação social e cultural na
escola e no seu entorno, envolvendo mudança de hábitos e atitudes das famílias, dos profissionais
da educação (incluindo professores e professoras), de alunos e alunas e de toda a comunidade, a
fim de construir uma escola onde todas as pessoas aprendam. O objetivo do projeto é auxiliar
escolas de educação infantil, fundamental, média e de adultos a realizarem tal transformação,
apoiando e animando a participação de todos os agentes educativos, por meio de diálogo iguali-
tário, em busca de construção de consensos. A metodologia do projeto envolve duas grandes
etapas: o processo de ingresso no projeto e o processo de sua consolidação. O Niase conduz e apóia
as diferentes fases no decorrer do desenvolvimento do projeto. Os resultados dizem respeito à
democratização da escola e do conhecimento: participação e abertura da escola levam a um
esforço coordenado para aprendizagem máxima de alunado e familiares. O projeto está sendo
desenvolvido em uma escola da rede municipal de São Carlos/SP (Escola Municipal de Ensino
Básico “Antônio Stella Moruzzi”), desde 2003
.
Palavras-chave: comunidades de aprendizagem, aprendizagem dialógica, democratização da escola
Introdução e objetivos
O projeto de extensão “Comunidades de Aprendizagem” é um dos projetos desenvolvidos
pelo Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa – Niase, da Universidade Federal de São
Carlos. Tal Núcleo é composto por pessoas de diferentes áreas de conhecimento (professores
universitários, alunas e alunos de doutorado, de mestrado e de graduação da Universidade
Federal de São Carlos e de outras instituições).
O Niase foi criado a partir e com base em estudos realizados junto ao Centro de
Investigação Social e Educativa – Crea, da Universidade de Barcelona/ Espanha (MELLO,
2002). No Niase, são desenvolvidas ações de pesquisa, ensino e extensão, considerando-se
diferentes práticas sociais e educativas, com vistas a contribuir para a superação de exclusão
social, cultural e educacional.
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Diante dos desafios da Nova Modernidade (Sociedade da Informação, multiculturalismo,
reflexividade e novas exclusões), o Niase busca identificar fatores transformadores e fatores
exclusores que ocorrem em diferentes espaços (investigação) e coopera com os grupos que
produzem as práticas, para potencializar aspectos transformadores e transformar os exclusores
(extensão).
Na extensão universitária, as ações do Niase se dão por meio do Programa de Extensão
“Democratização do conhecimento e do acesso à escolarização”. O projeto Comunidades de
Aprendizagem é um dos projetos desenvolvidos pelo Niase, em tal programa de extensão e na
linha de pesquisa “aprendizagem dialógica e ações comunicativas”, do diretório de grupo do
CNPq.
As ações do Niase pressupõem as transformações sociais ocorridas nas últimas décadas
e as novas necessidades formativas para lhes fazer frente.
Os últimos anos do século XX e primeiros do século XXI têm trazido transformações
nas relações internas e externas, nos e entre os diferentes países quanto ao trabalho e às relações
e comércio, bem como nas ações de instituições e dos sujeitos no mundo da vida. Tais
transformações têm caracterizado a Sociedade da Informação, globalizada, descrita por autores
da Sociologia como uma sociedade organizada em torno do acesso, da seleção e do processamento
de informação. A capacidade de transformar informação em conhecimento é um desafio a enfrentar
para se superar, ou se evitar, a exclusão social a que muitos grupos estão submetidos no Brasil.
Flecha, Gómez & Puigvert (2001), comparando a sociedade industrial com a Sociedade
da Informação que a sucedeu, afirmam: “... na primeira, a chave está nos recursos materiais e,
na segunda, nos recursos humanos e, em concreto, na seleção e no processamento da infor-
mação priorizada. Essa seleção e processamento se levam a cabo com reflexões humanas fre-
qüentemente auxiliadas por tecnologias que se realizam na comunicação com outras pessoas.
Conseqüentemente, as teorias sociológicas atuais dão um grande papel à reflexividade (Beck) e
à comunicação (Habermas)” (p. 86).
Mesmo considerando muitas dificuldades, o Brasil está inserido na Sociedade da
Informação, sofrendo e produzindo exclusões, mas também criando alternativas que implicam
solidariedade e comunicação, características e necessidades do contexto global. Há de se poten-
cializar e de se ampliar alternativas pautadas nos princípios da solidariedade e da comunicação
para a busca de uma Sociedade da Informação para todos.
Neste contexto, apresenta-se à educação, no Brasil, a necessidade de, como diz Gusmão
(1999), formar para se reconhecer as diferenças e transformá-las em matéria prima de com-
preensão e solidariedade. Para tanto, faz-se fundamental a disposição para o diálogo entre os
profissionais da escola e a comunidade que a freqüenta na construção de uma escola de quali-
dade para todos (MELLO, 2003).
Vale aqui lembrar o que ensina Freire (2001) sobre o diálogo para a transformação: a
relação dialógica implica num falar com, e não num falar por ou num falar para, pois não se
trata da conquista de uma pessoa por outra; senão que é uma conquista do mundo pelos sujeitos
dialógicos.
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Baseada na obra de Paulo Freire, Gasparello (2002) resgata a necessidade de esforço de
democratizar o poder pedagógico e educativo como um dos elementos centrais do processo de
democratização da escola brasileira. Indica que, para Freire, a democratização do poder de
participação e decisão, a toda a comunidade escolar, significa a defesa de uma democracia radical,
na qual a população tem de estar presente na história e não simplesmente estar nela representada.
Frente a este contexto e às aspirações de democratização da Sociedade da Informação, a
escola pode assumir papel fundamental, enquanto espaço público, solidário e comunicativo. O
projeto Comunidades de Aprendizagem apresenta-se neste contexto como uma alternativa.
Centro precursor das Comunidades de Aprendizagem na Espanha — na sua vertente
original —, o Centro de Investigação Social e Educativa – Crea, da Universidade de Barcelona,
atua hoje junto a escolas da Catalunha, de Aragão e do País Basco, no sentido de incentivar,
apoiar e compartilhar sua transformação para relações democráticas na construção de educação
de qualidade para todos e de diálogo mais igualitário entre os sujeitos (MELLO, 2003).
Referindo-se ao trabalho desenvolvido pelo Crea, Valls (2000) explica que uma
Comunidade de Aprendizagem implica uma transformação social e cultural na escola e no
entorno porque envolve mudança de hábitos e atitudes das famílias, profissionais da educação
(incluindo-se professores e professoras), alunos e alunas e de toda a comunidade em torno da
idéia de construir uma escola onde todas as pessoas aprendam.
Na escola, tal transformação envolve a participação de todos os agentes educativos, por
meio de diálogo igualitário, em busca de construção de consensos. O importante é que o diálogo
busque as formas de superar os obstáculos à aprendizagem.
Promover mudanças sociais e culturais no entorno no qual se insere a escola e nas suas
relações com a instituição é, igualmente, de fundamental importância, já que no contexto atual
a aprendizagem não depende apenas do que se passa em aula, mas está conectada ao que ocorre
em casa, na rua, ao que veiculam os meios de comunicação. Informação e formação advêm de
diferentes locais, fazendo desaparecerem as fronteiras entre o interior e o exterior da escola, que
deixa de existir enquanto espaço fechado.
Participação, centralidade da aprendizagem, expectativas positivas e progresso perma-
nente fazem parte da orientação pedagógica do projeto. Valls (ibid.) explica que não se trata de
orientações de uma didática concreta, mas mais de bases gerais para se conseguir a igualdade
de resultados educativos entre crianças e entre jovens, para que ninguém seja excluído da
Sociedade da Informação, na qual a principal exigência é a seleção e o uso da informação, para
além do acesso a ela.
A concretização dessa orientação se dá no decorrer do desenvolvimento do projeto
(MELLO, 2002). A transformação de uma escola em uma Comunidade de Aprendizagem
envolve duas grandes etapas: o processo de ingresso no projeto e o processo de sua consolidação.
Na formulação do projeto de extensão, constam como objetivos a serem atingidos pelo
Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa (Niase), junto a escolas de educação infantil,
ensino fundamental, ensino médio e/ou escola de educação de pessoas adultas (entendida como
modalidade anterior ao ingresso na universidade):
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conduzir e apoiar a implementação de mudanças sociais e culturais na vida da escola:
estabelecimento de participação ampla dos profissionais da escola, dos familiares, da
comunidade de entorno e dos estudantes - democracia deliberativa;
conduzir e apoiar a implementação de ações educativas que diversifiquem e intensi-
fiquem as fontes de acesso ao conhecimento na escola;
conduzir e apoiar a conexão entre escola e bairro, como espaços educativos;
conduzir e apoiar a abertura da escola como espaço educativo para familiares e entorno;
conduzir e apoiar a formação de professores e professoras para assumirem com os familiares
o protagonismo de suas práticas educativas, a articulação entre elas e a gestão do projeto.
Metodologia do projeto “Comunidades de Aprendizagem”
A transformação de uma escola em uma Comunidade de Aprendizagem envolve duas
grandes etapas: o processo de ingresso no projeto e o processo de sua consolidação. O Niase
conduz e apoia as diferentes fases no decorrer do desenvolvimento do projeto.
O ingresso no projeto implica as fases de sensibilização, de tomada de decisão, de sonho,
de seleção de prioridades e de planejamento. A etapa de consolidação envolve investigação,
formação e avaliação.
Estabelecidos, com a direção, acordos sobre a difusão do projeto aos agentes educativos
da escola (professorado, familiares, colaboradores, técnicos), tem início a primeira fase: a
sensibilização.
Esta fase é inicialmente realizada com os profissionais da escola (podendo e sendo desejável
que pessoas da comunidade e familiares também já estejam presentes). Neste momento, discutem-
se características da sociedade atual, necessidades de formação para o novo contexto, a estrutura
do projeto e os compromissos a serem assumidos, bem como os antecedentes do projeto.
Quanto à interferência na metodologia de trabalho dos/as professores/as, não se trata de
projeto que vise a interferir na metodologia de trabalho das/os profissionais — na Espanha, há
escolas com ensino mais transmissivo e outras com ensino mais inovador que pertencem ao
projeto de Comunidade de Aprendizagem —; o que interessa é abrir a escola para outras
pessoas e potencializar a aprendizagem de todo o alunado (MELLO, 2003).
Quanto ao envolvimento de professores e professoras de uma escola no projeto, a
decisão a ser tomada é se todos concordam com a transformação da unidade numa Comunidade
de Aprendizagem. O envolvimento de cada pessoa pode ser diferente, de acordo com sua
disponibilidade e vontade. A participação é algo que tem de ser vontade e não imposição.
O projeto incentiva a participação de voluntariado em diferentes espaços e interações da
escola, para potencializar a aprendizagem do alunado. Pessoas voluntárias podem participar na
biblioteca tutorada (atendendo alunado e familiares para desenvolver leitura, tarefas, pesquisas,
etc.), em grupos interativos (forma de organização da aula, na qual a turma é dividida em
pequenos grupos e cada um, acompanhado por um adulto, que recebe orientações da/o pro-
fessor/a da classe — especialista responsável), na formação de familiares e em atividades
complementares.
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O papel do voluntariado é estimular a concentração e a troca entre os alunos no trabalho,
e atuar como pessoas diversas em sala de aula e na escola. Têm de assumir compromisso por
meio de contratos, para não interromper a participação, evitando-se o “turismo social”.
Após a sensibilização da equipe escolar, ela deve decidir se estará ou não inserida no
projeto de Comunidade de Aprendizagem. A maioria tem de ser favorável. Em sendo aprovado,
passa-se à sensibilização de familiares e outros agentes da comunidade.
Sobre a sensibilização destes agentes educacionais, é importante destacar que sua
organização envolve comunidades de bairro, organizações das minorias étnicas e outros
organismos presentes na comunidade local (igrejas, grêmios, etc.). Além de fazer da escola, já
de início, espaço de todos, é importante considerar interlocutores que já estabelecem, com os
coletivos, diálogo mais igualitário, no enfrentamento dos obstáculos historicamente construídos
para a participação popular, com base em exclusão social e exclusão cultural, que acabam por
produzir a auto-exclusão. Caso a comunidade também aprove o ingresso da escola no projeto,
passa-se, então, a uma nova fase: a fase de sonho.
A fase do sonho envolve um diálogo aberto e igualitário entre o Niase, a equipe escolar,
familiares, crianças e representantes da comunidade, sobre a escola que todos desejam. Há
sonhos que podem ser efetivados muito rapidamente.
A fase de sonho é seguida pela de priorização, que envolve o trabalho de organização
dos sonhos, por temática e por consecução. A comissão composta na fase de sonhos se reunirá
com membros do Niase para conhecer a realidade e os meios com os quais contam no momento,
analisando-os e estabelecendo-se as prioridades. A comunidade analisa a realidade da escola e
do entorno, a partir de informação quantitativa e qualitativa, referências sobre o professorado e
o alunado, informação da comunidade e culturas dos/as estudantes e suas famílias, práticas
pedagógicas, potencialidades da escola, recursos, participação dos familiares, fracasso escolar,
etc. (MELLO, 2002).
Priorizam-se, então, as mudanças a fazer e busca-se a flexibilização do centro e da
administração, por exemplo, para a ampliação dos horários e a oferta de formação do centro
(com voluntariado em informática, reforço, etc.). É feito um plano de ação, apresentado ao cole-
tivo e desenvolvido por comissões mistas (compostas por profissionais da escola, familiares,
alunado, voluntários e Niase). Chega-se, então, à etapa de consolidação do projeto.
Nesta nova etapa, os processos de investigação, formação e avaliação serão constantes.
Compõe-se uma comissão gestora (com a direção, a coordenação, representante do âmbito de
vinculação da escola ao poder público, familiares, associações, Niase).
No processo de investigação, as comissões de prioridades exploram as possibilidades
concretas de mudar e organizar sua prática. Dois aspectos são os mais importantes: aprofunda-
mento das estruturas comunicativas de gestão e aplicação pedagógica da aprendizagem
dialógica (Crea, 2000, p. 105).
A formação transforma-se em necessidade para um processo de mudança como o
promovido pelo projeto de Comunidades de Aprendizagem. Os processos de formação devem
ser coordenados pela comissão gestora ou por uma comissão de formação que programe
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atividades de formação para a comissão de prioridades, como por exemplo, professorado e
famílias (MELLO, 2002).
Sobre a avaliação, vale destacar que ela é entendida como uma avaliação permanente da
realização do processo para tomar as decisões que o melhorem e da qual participam todas as
pessoas implicadas (CREA, 2000, p. 106).
Na consolidação, os processos de investigação, formação e avaliação são constantes.
Na direção de construção de condições para estabelecimento do falar com, ou seja, do
diálogo, o conceito de aprendizagem dialógica é central no projeto de Comunidades de Apren-
dizagem, ambos desenvolvidos pelo Crea (ver FLECHA, 1997; MELLO 2002 e MELLO 2003).
Tal conceito é composto por princípios que se articulam nas formulações teóricas para
permitir descrever o que, na prática, se dá como uma unidade. Diálogo igualitário, inteligência
cultural, transformação, dimensão instrumental, criação de sentido, solidariedade e igualdade de
diferenças são estes princípios.
O diálogo igualitário supõe que as falas e proposições de cada participante serão
tomadas por seus argumentos e não pelas posições que ocupam (idade, profissão, sexo, classe
social, grau de escolaridade, etc.). Isto significa que o poder está na argumentação, entendida
como apresentação de razões com pretensões de validade.
Para que a aprendizagem dialógica se estabeleça, há de se utilizar as habilidades comu-
nicativas nos entornos familiares, escolares, de tempo livre, da comunidade, participando de
maneira crítica e reflexiva na sociedade. Assim, outro conceito surge: o de inteligência cultural.
Ao compartilhar diferentes pontos de vista e maneiras de analisar e resolver as situações,
por meio do diálogo guiado pela validade dos argumentos, necessariamente estabelece-se
um processo de mudança com duas orientações comunicáveis: uma transformação interna em
cada participante, e a transformação externa buscada em benefício de todos.
Neste processo de transformação, o acesso ao conhecimento instrumental é uma neces-
sidade para a vida na sociedade da informação e a transformação do entorno. Fala-se da dimensão
instrumental da aprendizagem dialógica.
Diante das múltiplas possibilidades de escolha de como viver, é difícil ter-se um único
projeto para todos os coletivos ou pessoas, sendo igualmente difícil para a escola saber que
valores afirmar. Assim, propor, por meio da aprendizagem dialógica, a criação de sentido pelas
pessoas e pelo grupo, no diálogo igualitário, em que cada pessoa pode examinar as possibili-
dades, refletir criticamente sobre elas e fazer suas escolhas, torna-se fundamental.
A solidariedade transforma-se, dessa maneira, num elemento da aprendizagem dialógica,
desde a interação pessoa-a-pessoa, como de pessoas com a solidarização com os grupos em
situação de exclusão social.
Por meio da aprendizagem dialógica, cada pessoa constrói novas compreensões sobre a
vida e o mundo e reflete sobre a sua cultura e sobre as demais, podendo escolher com maior
liberdade sua maneira de viver e se relacionar, bem como desenvolver o senso de que este
processo ocorre com outras pessoas, criando-se respeito aos diferentes modos de vida, ou seja,
a igualdade de diferenças ou como define Freire (2001), a unidade na diversidade.
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Completa-se, assim, o ciclo de desenvolvimento de condução da própria vida e de
participação na construção de um mundo melhor para todas as pessoas.
Ao se propor que, por meio da inteligência cultural, cada pessoa participa do diálogo
igualitário, dando suas contribuições para a transformação do centro educativo e de seu entorno,
para que todos tenham acesso ao conhecimento instrumental, criando novos sentidos para a vida
de cada um/a e de todos/as, num processo de construção solidária de alternativas, em benefício
dos grupos e pessoas que sofrem exclusão social, busca-se o igual direito que temos de escolher
um modo de vida e, portanto, assumir nossas diferenças.
A aprendizagem dialógica se apresenta como recurso tanto para o trabalho em sala de
aula, como para as relações de organização e funcionamento da escola para garantir a apren-
dizagem máxima, para todos os estudantes e participantes. O projeto de Comunidades de
Aprendizagem efetiva a aprendizagem dialógica, oferecendo, portanto, elementos importantes
para a construção de alternativas de relações mais dialógicas entre escolas de periferia urbana
do Brasil, familiares e estudantes.
O processo leva, em média, dois anos com acompanhamento da equipe do Niase. Após
este tempo, o Núcleo transforma-se num interlocutor presente.
Na Espanha, sob coordenação do Crea, mais de vinte escolas já se transformaram em
Comunidades de Aprendizagem. A mais antiga, é uma Comunidade de Aprendizagem há nove
anos. Os resultados dizem respeito à democratização da escola e do conhecimento: participação
e abertura da escola levam a um esforço coordenado para aprendizagem máxima de alunado e
familiares.
Resultados no Brasil e discussão
A primeira cidade a ter acesso à divulgação do projeto de Comunidade de
Aprendizagem, no Brasil, foi São Carlos, localizada no estado de São Paulo, onde está a
Universidade Federal de São Carlos.
Em março de 2003, o Niase fez a divulgação do projeto junto às escolas municipais de
São Carlos, para diretoras do ensino fundamental, e estabeleceu um acordo de parceria com a
Secretaria Municipal de Educação. De abril a novembro de 2003, a pedido da direção, o Niase
apresentou o projeto para professorado, familiares e alunado da Escola Municipal de Ensino
Básico “Antônio Stella Moruzzi”.
Tendo tal coletivo escolhido transformar a escola em uma Comunidade de
Aprendizagem, desde o início de 2004 estamos fazendo sua implantação. Atualmente estamos
na fase do planejamento. Já estão em funcionamento a biblioteca tutorada, aberta duas noites
por semana; um projeto de inclusão digital que atende crianças, familiares e pessoas da comu-
nidade de entorno, e há grupos interativos em oito turmas. Tais atividades têm sido geridas por
comissões mistas (mães, irmãos, alunas e alunos, professoras, bibliotecária, alunas de
Pedagogia da UFSCar, pessoas do bairro e membros do Niase).
Em artigo escrito conjuntamente por membros do Niase, voluntárias e bibliotecária da
escola, sobre a biblioteca tutorada (FRANCO et al., 2004), explica-se que se tem por objetivo
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permitir diversas interações entre alunos, pais, voluntários e funcionários, a partir das quais a
capacidade de cada pessoa é valorizada, respeitada e potencializada na interação. No período de
atendimento da noite, os horários de funcionamento da Biblioteca coincidem com aqueles das
aulas de informática destinadas às pessoas da comunidade, justamente para que os adultos que
participam desse trabalho possam deixar suas crianças na Biblioteca durante suas aulas. São
atendidas nesse horário uma média de 25 crianças e 5 adultos, que vão para a biblioteca; ali
fazem suas tarefas, leitura ou pesquisa. Além disso, o projeto também foi estendido para os
horários de almoço, das 12h às 13h, buscando auxiliar os alunos da zona rural que não têm
transporte para vir à escola no período contrário à aula. Nesse momento, a Biblioteca fica a
serviço dos alunos por apenas uma hora, pois esse é o tempo disponível das crianças antes de
almoçarem e irem para as salas de aula. As autoras indicam que a aprendizagem das crianças e
das pessoas adultas é notável e também sua mudança de comportamento. Por fim, apontam que,
para elas, bibliotecária, membros do Niase e voluntárias, é também oportunidade de aprender:
“Ampliamos nosso conhecimento a respeito de conteúdos instrumentais para que as atividades
possam ser mais bem aproveitadas. Pesquisamos nossas dúvidas e procuramos respostas para
as nossas perguntas. Refletimos sobre o que fizemos e foi válido e sobre aquilo que não deu
certo, sempre procurando melhorar o ambiente e favorecer o desenvolvimento e a aprendizagem
de todos entre todos” (p. 8).
Nesta e nas demais atividades, percebe-se grande envolvimento de familiares e pessoas
do bairro nas atividades e grande disposição dos profissionais da escola em viver e construir o
processo (textos ainda estão sendo produzidos sobre os temas, por voluntariado, professorado e
membros do Niase e, por decisão tomada conjuntamente, não serão aqui abordados). Vale
destacar a coragem de todas as pessoas que se propuseram a fazer da escola um espaço aberto
e dialógico. Quanto a nós, da universidade, estamos aprendendo, com este coletivo, a dialogar
igualitariamente e a chegar a consensos a partir de uma mesma finalidade: potencializar os
processos educativos de todas as pessoas.
Conclusões
A participação de profissionais da educação, familiares, representantes da comunidade e
alunado se dá desde a fase de apresentação do projeto de Comunidades de Aprendizagem e
permeia todas as fases de seu desenvolvimento.
A centralidade da aprendizagem pressupõe, de um lado, a busca de alternativas para a
estrutura tradicional de atendimento aos estudantes, para que eles estejam, o máximo de tempo
possível, em atividade formativa e, por outro, a formação dos familiares. Para tanto, professores
e professoras unem-se a voluntários e voluntárias, rompendo estruturas de idade e de grupo (de
formação, por exemplo).
Expectativas positivas permeiam as relações entre Niase e profissionais da escola, da
escola com familiares, e de todos os que se envolvem no projeto com relação à aprendizagem
das crianças, jovens e adultos. Cria-se uma corrente de apoio e animação.
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Referências bibliográficas
CENTRE DE RECERCA SOCIAL I EDUCATIVA – Crea. Comunitats d’ aprenentatge.
Barcelona: Universitat de Barcelona, 2000.
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Reminiscências: três encontros com a intergeracionalidade
Neusa Batista Eiras, Coordenadora
Bianca Azevedo, Aluna de pós-graduação
Laura Cristina Eiras Coelho Soares, Bolsista de extensão
Luciana Fernandes Paulino, Bolsista PCP
Luciana Vanzan da Silva, Bolsista PCP
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Resumo
Este projeto objetiva a promoção de encontros entre as gerações como meio facilitador das
trocas intergeracionais e de um espaço de discussão e reflexão sobre conceitos, vivências e experi-
ências de vida. Este trabalho se estrutura a partir da apresentação de três projetos distintos,
desenvolvidos em torno da temática reminiscências e intergeracionalidade. Cada projeto possui
sua própria metodologia de desenvolvimento, contendo, no entanto, objetivos comuns que, para
serem alcançados, requerem a utilização de algumas técnicas semelhantes, como é o caso da
estruturação do trabalho em grupos, a utilização de dinâmicas como motivadoras da discussão,
o uso de recursos audiovisuais e recursos sensoriais. Obtivemos como resultados, a reunião de
dados para publicação de artigos em revistas especializadas, de um tópico tão inexplorado que
é o papel da intergeracionalidade nas relações sociais do mundo atual que conta com um
número cada vez maior de idosos. A prática de dinâmicas e de reminiscências trouxe a sensibi-
lização para questões intergeracionais, promovendo maior qualidade de vida de todos os
envolvidos, garantindo reflexão através do questionamento acerca do envelhecimento e do valor
de nossas histórias, lembranças e interpretações do ambiente que nos cerca e atravessa
.
Palavras-chave: reminiscências, intergeracionalidade, envelhecimento
Introdução
O presente trabalho constitui-se de experiências desenvolvidas pelo Programa Intergera
– Programa de Estudos, Eventos e Pesquisas Intergeracionais, de extensão universitária,
cadastrado no Depext – Departamento de Extensão/UERJ que tem por objetivo a elaboração de
material teórico específico sobre intergeracionalidade e a viabilização de novas pesquisas
acadêmicas e metodologias para o trabalho com diferentes gerações.
O aumento constante e progressivo da proporção de idosos na população, observado nas
últimas décadas, veio transformar o que era considerado um problema familiar em um assunto
de interesse político e social. Paradoxalmente, quando a sociedade necessitava de seus idosos
para a transmissão oral do conhecimento e da experiência adquiridos ao longo da vida — razão
pela qual eram respeitados — eles eram em número pequeno. O transcorrer dos séculos, o
advento do progresso industrial, dos meios de comunicação e dos recursos tecnológicos
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roubaram dos idosos, agora em grande número, a possibilidade de servirem como depositários
da sabedoria, uma vez que o saber não está mais restrito à memória individual, mas sim
relatado em livros e atualmente, buscado nos computadores.
Chauí, na introdução da obra de Bosi (1979), coloca que a função social dos velhos,
guardiões do passado, “é lembrar, unir o começo ao fim, ligando o que foi e o por vir, mas a
sociedade capitalista” “oprime a velhice, recusa seus conselhos, destrói o apoio da memória e
substitui a lembrança pela história oficial celebrativa”. Esse progresso, que os idosos muitas
vezes não conseguem acompanhar, fez com que eles fossem relegados a um segundo plano nas
relações sociais, sem possibilidades de produzir e, portanto, sendo transformados em fardos
para a sociedade, em um “problema social”.
Na sociedade em que vivemos, o processo de envelhecimento biológico é agravado pelo
envelhecimento sociológico. Em outras palavras, dos papéis impostos pela sociedade aos seres
humanos assim que estes atingem uma determinada idade cronológica. Para Bosi (1979, p. 35),
“a sociedade industrial é maléfica para a velhice pois rejeita o velho, não oferece nenhuma
sobrevivência à sua obra e afasta-o do trabalho tão logo a sua produtividade diminui, transfor-
mando-o na representação mesma da desvalorização do ser humano”, reforçando assim os
estereótipos negativos que servem para descrever os indivíduos dessa faixa etária.
Felizmente, nos últimos 25 anos, a velhice e as questões relacionadas ao envelhecimen-
to vêm ocupando cada vez mais espaço entre os temas que preocupam a sociedade como um
todo. As agências governamentais e as organizações privadas vêm estimulando a criação de
trabalhos especificamente voltados para o atendimento integral da pessoa idosa, indicando uma
conscientização crescente da sociedade e do governo em relação às questões próprias da terceira
idade, termo novo que surgiu como conseqüência do processo de transição demográfica.
Nos últimos quarenta anos, os países desenvolvidos, pressionados pela realidade do
envelhecimento de sua população, iniciaram um movimento de resgate da cidadania do idoso,
estabelecendo lentamente novas relações da sociedade com esta faixa etária. Relações que não
são mais baseadas apenas na piedade e na filantropia, mas na nova visão do idoso como ser
humano digno de cuidados e de respeito.
Com o crescimento da população idosa, torna-se necessário que o conjunto da sociedade
tome consciência da série de dificuldades que essa grande parcela da população enfrenta e que
as autoridades, encontrem os caminhos que levem à igualdade na distribuição dos serviços.
Os países em desenvolvimento, como o Brasil, também vêm acompanhando este processo
de transição cultural, lançando um novo olhar sobre a velhice e iniciando um processo de
reconhecimento social desta faixa da população, embora ainda mesclado com representações
sociais da velhice centradas em aspectos preconceituosos, uma vez que os processos de
transformação social são complexos e demorados.
Nesse sentido, o poder público brasileiro sancionou este ano o Estatuto do Idoso como
forma de garantir os direitos dessa população. No entanto, é preciso, sobretudo, colocar os idosos
e os jovens cientes de todos os processos e mudanças que acompanham o desenvolvimento
humano como forma de tornar esses idosos mais ativos para discordarem, aprovarem,
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demonstrarem seus sentimentos, se dispondo para transformar seus cotidianos, e transformar as
concepções e atitudes dos mais jovens perante o processo natural de envelhecimento, além de
prepará-los para a velhice. Logo, preparar para o envelhecer consiste em colaborar para que, no
futuro, tenhamos idosos menos preconceituosos e que consigam vivenciar com menos sofrimento
o processo de envelhecimento.
Diante desses dados demográficos, das particularidades e novas descobertas referentes
aos aspectos bio-fisiológicos, do surgimento de fatores psicológicos característicos do envelhe-
cimento, gradualmente percebe-se que se torna necessária a preparação das novas gerações para
um convívio saudável com essa outra etapa do desenvolvimento humano.
Assim, o presente projeto tem por finalidade e objetivo promover um encontro entre
gerações, priorizando a promoção, facilitação e aproveitamento dos conteúdos relacionados à
temática do envelhecimento que possam surgir a partir da atividade de reminiscências, fazendo
com que cada um possa refletir sobre os conceitos que possuem em relação à terceira idade.
O presente trabalho localizar-se-á no âmbito da promoção de saúde colaborando para
que as atividades promovidas pelo Intergera tornem-se, na verdade, socioculturais e também
educativas, garantindo um espaço de discussão e reflexão sobre temas referentes ao envelheci-
mento e suas particularidades.
Metodologia
O presente trabalho apresentará dois relatos de projetos desenvolvidos pelo Intergera e
um desenvolvido por uma colaboradora, Bianca Azevedo, como tese de pós-graduação.
Todos os trabalhos tratam de experiências que têm como proposta resgatar lembranças
de vida, tanto de idosos como de jovens — crianças e adolescentes.
Os projetos “Re-lembrando, Re-vivendo, Re-contando: gerações unidas pelas reminis-
cências” e “A importância do uso da reminiscência nas relações intergeracionais” realizam um
trabalho intergeracional, contando com a participação de jovens e idosos, o que, além de
promover o resgate das histórias de vida desses participantes, proporcionam um encontro
entre as gerações, um embate de tradições, valores, costumes que, de acordo com o depoimento
dos próprios participantes, viabilizam a troca construtiva de experiências.
Para melhor sistematizar a estrutura deste trabalho, apresentaremos cada projeto em
separado, com seus respectivos objetivos e metodologias.
O projeto “Re-lembrando, Re-vivendo, Re-contando: gerações unidas pelas reminiscências”
tem por finalidade e objetivo promover o encontro entre as gerações, bem como facilitar,
incentivar e aproveitar as trocas intergeracionais — pois acreditamos que só o contato real com
aquilo que é negligenciado ou idealizado pode fazer mudar opiniões e comportamentos —
intermediadas pelas dinâmicas e atividades de reminiscências, que se tornam oportunidades
de verdadeiros encontros onde cada um possa refletir sobre seus conceitos, vivências e
experiências de vida.
Paralelamente, nos idosos ocorre uma valorização, através da escuta de outros idosos ou
jovens em seus relatos acerca de suas opiniões e de suas visões sobre os temas propostos em
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cada um dos encontros realizados, o que se torna positivo, já que segundo Souza (1999), “para
as pessoas idosas, a prática de relembrar pode contribuir para fortalecer ou restituir o senso de
identidade e auto-estima” (p. 21).
Além disso, espera-se incorporar os mais jovens nesse fluxo contínuo e dinâmico que é
a nossa história, que não existe sem a história do outro, para que eles reflitam sobre a trajetória
vital de cada um e de seus pares, sobre suas experiências e vivências, permeadas por seus
valores, metas e interpretações do mundo, bem como pelas possibilidades várias de escolhas
que nos circundam em nosso ambiente.
Nosso principal objetivo é a integração entre gerações e, para isso, utilizamos o relato de
lembranças e de histórias de vida dos participantes. Como forma de motivar a discussão,
delimitamos temas, algumas vezes sugeridos pelos próprios participantes, e desenvolvemos os
encontros a partir de dinâmicas estruturadas e da utilização de recursos — audiovisuais, com
vídeos, músicas, poemas, contos, fotografias, recortes de revistas e qualquer outro objeto que
evoque alguma lembrança significativa.
Dessa forma, utilizamos as técnicas de dinâmica e esses diversos recursos como instru-
mentos para abordar os principais temas ligados à vida de cada um, fazendo uso desse encontro
entre gerações, como um detonador de discussão sobre os temas intrínsecos ao encontro, analisar
o material produzido e desconstruir o já estabelecido nos jovens acerca do envelhecimento.
A escolha dos temas, apesar de estruturadas previamente pelos organizadores do
encontro, traz uma certa flexibilidade a sugestões de outros temas, de modo que, no primeiro
encontro, abre-se um espaço para a discussão desses temas e onde se colhe opiniões de outras
temáticas a serem desenvolvidas ao longo do projeto.
Nosso encontro conta com a participação dos alunos de graduação da UERJ e dos idosos
ex-funcionários da Instituição ou dos que participam de alguma atividade desenvolvida no
campus da Universidade. Os encontros são semanais com a duração de 90 minutos, acontecendo
durante o período letivo da Universidade para facilitar a participação tanto dos alunos quanto
dos idosos.
Uma outra experiência que desenvolvemos em torno do trabalho com reminiscências é
o projeto “Re-visando o passado pelas lentes das reminiscências”, que consiste em reuniões de
grupo cuja proposta é propor formas alternativas de trabalho que atendam as demandas desse
grupo e propiciem a troca de experiências e conhecimentos. Visamos por meio deste trabalho
fazer uma ponte entre o passado e o presente, enfatizando a troca e as contribuições possíveis,
evitando assim uma cristalização no passado. Acreditamos que o trabalho de reminiscências
possa contribuir para o resgate de suas identidades, muitas vezes, diluídas pela cegueira repentina
e/ou pela institucionalização.
Este trabalho vem sendo realizado em uma instituição que abriga senhoras cegas,
chamado Sodalício da Sacra Família, também conhecido como ‘Asilo das velhinhas cegas’, sito
à estrada do Rio Grande, 2116, Jacarepaguá, RJ. O Sodalício é uma instituição de caráter filantrópi-
co sem fins lucrativos, administrado pela Congregação de assistência social ‘Irmãs de Nossa
Senhora da Glória’. A população é composta de senhoras portadoras de deficiência visual,
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sendo totalmente cegas ou com deficiência nos mais variados graus. A faixa etária varia de 40
a 90 anos, em média. São 50 senhoras, aproximadamente, estando a maioria na faixa de 70 a 80 anos.
Sabe-se que nas instituições asilares os idosos em geral rompem com a sociedade por um
certo período e até mesmo para sempre, perdendo, assim, sua identidade, sua individualidade
e privacidade. O trabalho de reminiscências nestes estabelecimentos tem como objetivo
fortalecer ou restituir a identidade e auto-estima do idoso.
A metodologia utilizada nos referidos grupos também apresenta diferenciação uma vez
nos encontros com as idosas cegas não são utilizados recursos visuais, como figuras, vídeo e
leitura conjunta de textos, são explorados os demais sentidos, sobretudo a audição — através da
contação de história da vida de santos, contação de contos infantis, músicas, debates etc. A
proposta é levar atividades e dinâmicas que abarquem também o tato e o olfato, como brin-
quedos antigos, perfumes, miniaturas, biscuits, frutas etc., com o objetivo de estimular também
os demais sentidos.
O referido projeto tem como objetivo promover encontros intermediados por temas que
viabilizem um trabalho de reminiscências, com as idosas cegas residentes na instituição asilar
Sodalício da Sacra Família. Este trabalho traz a oportunidade de troca e reflexão sobre fatos,
vivências, experiências, opiniões e conceitos, onde estes podem ser elaborados e enriquecidos
por todo o grupo, no decorrer do trabalho.
Neste caso específico, as idosas integrantes do grupo participaram do planejamento de
temas. Percebemos que no decorrer das reuniões surgiam interesses sobre outros temas que
acabavam por fim sendo abordados. Os temas utilizados foram, entre outros, culinária, cinema,
natal, música, brincadeira de infância e carnaval. Quando solicitadas a falar sobre culinária,
muitas idosas mostraram interessadas, o que pôde ser percebido pela troca de receitas e
transmissão de ensinamentos de como se fazerem determinados pratos e refeições, o que é
demonstrado na fala de uma das idosas “uma boa feijoada tem que ser acompanhada de arroz
com suã picadinho e refogado” (L). Entretanto, mostraram-se desinteressadas quando
questionadas sobre o seu “aniversário inesquecível”, muitas se referiam a esta data sendo um
dia comum e que nada havia de especial, o que pode ser percebido pela fala de uma das idosas:
“nunca gostei de fazer aniversários, nunca quis festa, não gosto nem de dizer qual é a data, pois
não quero que ninguém faça festa...” (RD). Já na contação de contos infantis, percebemos que
todas as idosas se remeteram a experiências familiares da infância, uma delas inclusive disse o
seguinte e esse respeito: “lembrei os tempos que escutava história da minha avó, não tinha
aparelhos eletrônicos, ouvia até dormir. Ela era a rainha das histórias” (LO). Além da reminis-
cência, proporcionada pelos contos infantis, observamos que as idosas retiraram das histórias
ensinamentos e lições para si, sobre esse respeito temos a seguinte citação: “temos que ter
pensamentos positivos naquilo que desejamos. São como os contos de fada, pode demorar
mas acontece” (LO).
Entretanto, em relação aos outros temas que foram propostos as idosas todas mostraram-
se interessadas e entusiasmadas em compartilhar de suas memórias com outras pessoas e por se
tratar de temas de mútuo interesse.
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Nossos encontros são semanais com uma hora de duração cada. A atividade consiste na
apresentação de temas que as remetam a experiências vividas por elas. Os temas abordados
foram, por exemplo: “brinquedos/brincadeiras/travessuras da infância”, “programa em um dia
de sol/chuva”, “meu prato preferido/pratos típicos da cidade natal” (muitas delas nasceram em
outros Estados brasileiros), “baile/aniversário inesquecível”, “um dia no circo”, “uma viagem
marcante,”programas de rádio”, “cinema/telenovelas”, “revolução feminista”, “Natal”,
“Reveilion”, “Carnaval”, “dia internacional da mulher”.
Verificou-se a presença de temas comuns e de maior interesse no decorrer do trabalho.
A participação e o interesse das idosas, percebidos no decorrer do trabalho, foram considerados
pela equipe como pontos positivos. Segundo elas, essa atividade é importante porque podem
“ensinar e aprender” umas com as outras, além de com isso poderem transmitir o conhecimento
e informação que possuem, como uma deles disse certa vez, “nós somos a história viva do
Brasil”. As idosas também sugeriram temas a serem trabalhados em 2004, como “músicas dos
festivais”, “linguagem/moda/música contemporâneas” etc., mostrando grande integração e
interesse no trabalho. Com essa iniciativa e interesse das idosas, tivemos afirmado o objetivo
do projeto de viabilizar trocas intergeracionais, além de proporcionar um atendimento socio-
psicoterápico através da reminiscência, o que pode ser constatado na fala de uma das idosas “o
exercício da nossa memória é muito bom, pois evita que ela durma, a gente não esquece porque
estamos sempre lembrando da nossa juventude” e “eu posso passar essa experiência para vocês
(se referindo aos estagiários), vocês tem idade de ser minhas filhas” (LO). Esse resultado nos
motivou a continuar, aprimorar e enriquecer o trabalho.
O projeto de pós-graduação “A importância do uso da reminiscência nas relações
intergeracionais”, desenvolvido pela aluna de pós-graduação Bianca Azevedo, coordenado pela
Profa. Neusa Eiras, consistiu, a partir de um trabalho realizado com 7 (sete) idosos acima de
65 anos e 10 (dez) crianças de 8-10 anos, residentes no mesmo bairro, na verificação da
importância do uso da técnica de reminiscências nas relações intergeracionais, na facilitação
das trocas de experiências e na aprendizagem conjunta de crianças e idosos.
A metodologia utilizada foi a história de vida, reconstruída através do relato pessoal do
informante idoso a partir de um roteiro prévio; sessões de dinâmica de grupo e um questionário
estruturado com perguntas abertas e fechadas.
A pesquisa foi dividida em três partes: a primeira constou de coletas de dados, através
da história de vida e realizada com uso do registro da voz, apenas com o grupo de idosos.
Dividiu-se essa parte da pesquisa por temas, para facilitar a análise dos dados, são eles: infância
e moradia; educação e família; comida, vestuário e relações sociais; trabalho e política.
Na segunda parte foram realizadas sessões de dinâmicas de grupo entre idosos e
crianças, onde os temas principais foram abordados e divididos em duas sessões. Foi utilizada
entrevista estruturada e dinâmica de grupo, com igual intenção de melhor conduzir o tra-
balho. A primeira sessão englobou os temas: infância, educação e moradia e a segunda: família,
vestuário e trabalho.
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Na terceira parte, todos os participantes responderam a um questionário de avaliação,
que teve como finalidade investigar as suas dificuldades no trabalho, a importância atribuída a
si próprio e à outra geração, bem como os benefícios logrados para a facilitação do relacionamento
intergeracional.
Resultados e discussão
Entendemos o envelhecimento como uma experiência subjetiva e social intensa e
diferenciada, que pode ser vivido como uma experiência que traz satisfação, mas também como
algo penoso. A chamada terceira idade representa um marco importante, pois nesse período
comportamentos e atitudes refletem nitidamente aquilo que foi incorporado, valorizado e
assumido durante toda a vida.
Às limitações naturais físicas são acrescidas aquelas que a sociedade coloca, fruto de
muitos preconceitos e estereótipos sociais. Especificamente na nossa sociedade moderna em
que os valores do consumo, do efêmero e do instantâneo, associados às qualidades de beleza e
energia da juventude, estão cada vez mais presentes nas práticas cotidianas, acarretando a
descartabilidade dos próprios idosos, de suas práticas, tradições, costumes e valores.
É muito importante para a pessoa que envelhece aceitar a si mesmo com confiança e
flexibilidade, despojando-se de máscaras sociais. Esse pensamento estende-se a todos, pois a
cada dia, passamos por um processo de envelhecimento ou amadurecimento, independente da
idade que tenhamos.
É preciso colocar os idosos e os jovens cientes de tudo que ocorre, tornando esses idosos
mais ativos para discordarem, aprovarem, demonstrarem seus sentimentos, se dispondo a trans-
formar seus cotidianos. Para isso, é preciso que se estabeleça uma rede de projetos e programas
que visem a satisfação das necessidades do idoso e que essa rede possua interesse real em
praticar ações que possibilitem a integração do idoso ao seu meio cultural e social promovendo
a integração entre as gerações.
Além de tornarmos os idosos ativos e conscientes, torna-se fundamental preparar para a
velhice os jovens da atualidade, pois é inegável que com os avanços médicos e tecnológicos as
pessoas tenderão a viver mais cada vez mais. Logo, preparar para o envelhecer através do
encontro intergeracional consiste em colaborar para que, no futuro, tenhamos idosos menos pre-
conceituosos e que consigam vivenciar com menos sofrimento o processo de envelhecimento.
Ao longo de nossas vidas, com nosso desenvolvimento físico, psíquico e cognitivo,
vamos adquirindo funções cognitivas específicas complexas e primordiais para as interações
necessárias com o mundo que nos cerca. Uma dessas funções que surge com o advento da
capacidade simbólica é a capacidade de evocar, re-viver acontecimentos sem que eles estejam
ocorrendo concretamente. E é essa função, combinada com a aquisição da linguagem, que nos
permite eficácia em nossas interações.
Logo, falar, lembrar e principalmente poder falar do que se lembra nos capacitam para a
crescente socialização pela qual passamos e pelo sucesso em nossas ações sobre as pessoas e
sobre o mundo que nos cerca.
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Conclusões
A experiência obtida a partir desses projetos, que apesar de terem suas especificidades,
nos permitiu observar a importância das reminiscências como instrumento de resgate de
memórias de vida e a troca destas como um facilitador de uma relação saudável e construtiva
entre as diferentes gerações.
Aos idosos, proporcionou um sentimento de utilidade, competência e reconhecimento, a
possibilidade de organizar as lembranças, até mesmo um resgate da identidade e auto-estima e
ainda colocarem-se em contato com os fatos, culturas e valores atuais, podendo posicionar-se a
respeito. De acordo com o depoimento de alguns deles, esse bate-papo possibilita que momentos
extremamente felizes sejam recordados e relembrados, mostrando a intensidade de nossas
vidas, em todos os seus aspectos.
Aos jovens, trouxe a oportunidade de se inteirar com fatos e experiências que acontece-
ram no passado e atualizar os mais velhos com os acontecimentos do presente. Além disso, foi
possível estabelecer contato com inúmeras questões referentes à velhice, processo de envelheci-
mento, morte etc., que geraram inúmeras reflexões e discussões em todos os participantes.
Assim, buscamos, com nosso trabalho, afirmar a idéia de que o reconhecimento do valor
e do sentido da vida na velhice exige mudanças de atitudes, pautadas na noção de que a velhice,
cronológica, biológica ou social, deve ser respeitada nos seus aspectos singulares e diferenciados,
e também, a conscientização de que a cada dia passamos por um processo de envelhecimento
ou amadurecimento, sejamos crianças ou integrantes da terceira idade.
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296
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Inclusão socioeducacional no ensino de ciências integra alunos e coloca a
célula ao alcance da mão
Maria das Graças Ribeiro, Professora Doutora em Ciências da Saúde
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
Dentre os problemas que desafiam o Brasil neste início de século, a exclusão social repre-
senta um dos mais graves. Entretanto, a união de esforços visando a inclusão vem congregando
diferentes setores, grupos e instituições envolvidas na educação informal e difusão científica
(como museus e centros de ciência e cultura), por seu alcance social. Na Universidade Federal
de Minas Gerais – UFMG, muitos projetos de inclusão socioeducacional têm se destacado: o
Museu de Ciências Morfológicas – MCM permite o acesso da comunidade em geral ao
conhecimento da estrutura e funcionamento do organismo humano, incentivando a luta pela
preservação da saúde e da vida com qualidade; e “A célula ao alcance da mão”, desenvolvido
no MCM, cuja coleção de modelos didáticos tridimensionais, representativos de células, tecidos
e órgãos humanos, tem causado impacto sobre todos os tipos de público, imprimindo ao estudo
de ciências um caráter lúdico, dinâmico e integrador. Além de facilitar o processo de apren-
dizagem, inclusive para portadores de deficiência visual, o projeto possibilita: a inclusão desses
cidadãos em atividades do Museu; a criação, no MCM, do laboratório especializado na for-
mação de professores de ciências e apoio a estudantes deficientes visuais e de coleção itinerante
visando apoiar escolas com projetos inclusivos
.
Palavras-chave: inclusão social, ensino de ciências, material didático
Introdução e objetivos
Numa reflexão sobre a exclusão social, nem seria necessário um olhar tão perspicaz
sobre a história da humanidade, para lembrar seus diferentes modelos de exclusão. Em nossa
sociedade, a exclusão tem sobrevivido há séculos, com múltiplas razões e aparências, que vão
da exclusão racial à exclusão religiosa, ambas motivando sangrentas e históricas batalhas; da
exclusão política à exclusão cultural, fazendo de ideologias, visões de mundo e até da língua,
fatores de dominação de uns cidadãos sobre outros; da exclusão dos economicamente menos
dotados, em regimes político-econômicos por vezes cruéis, à exclusão de cidadãos portadores
de deficiências ou outras formas de desvantagem. E gerado numa sociedade excludente, até
mesmo o desenvolvimento científico e tecnológico tem deixado sua cota de excluídos: milhares
de cidadãos não têm acesso ao conhecimento, nem aos produtos da ciência e da tecnologia, com
reflexos negativos sobre a sociedade, reflexos esses mais evidentes nos países em desenvolvi-
mento. Entretanto, de forma lenta e gradativa, sinais de inclusão social vêm ganhando força
através de movimentos e iniciativas que visam, mais que tentativas isoladas, alcançar a
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transformação sociopolítico-educacional que nos impõe, como desafio deste início de século, a
criação de uma sociedade realmente inclusiva. Num olhar mais amplo poder-se-ia verificar que,
no momento em que a globalização, principalmente da mídia, expõe o cidadão do mundo em
permanente situação de risco, muitas vezes impotente diante da substituição de valores, da
submissão à industrialização e mercantilização das relações, da banalização do afeto, revela
também, de forma crescente, o surgimento da consciência de se estar finalizando uma etapa e
iniciando um novo e mais amplo processo evolutivo da sociedade humana, baseado em outros
paradigmas. Grupos políticos, em diferentes países, vêm discutindo a necessidade de mudanças,
que conduzam a condições de vida mais justas e igualitárias para todos os povos, ao mesmo
tempo em que muitas empresas computam resultados concretos de seus investimentos na
humanização das condições de trabalho e na estabilidade e harmonização das relações inter-
pessoais, como fatores de aumento da produtividade. Certamente que tais mudanças não são
estimuladas por aqueles que ainda se beneficiam das desigualdades, mas pelos próprios excluídos,
apoiados por daqueles que já abrigam em suas consciências as sementes de um novo modelo de
sociedade, baseado no uso correto das múltiplas inteligências do homem, na liberdade, na
justiça e na solidariedade. Começam a ter visibilidade movimentos e instituições, nos quais o
conhecimento passa a ser usado como fator de identificação e não de dominação; a cultura não
mais impõe superioridade, mas revela diferenças e estas complementam e enriquecem, em vez
de excluir; crescem os movimentos pacificadores, formadores de uma consciência ecológica e
planetária, baseada no respeito e na preservação de bens que são de todos; aumenta a rejeição
a dirigentes opressores, ainda que aparentem lutar pela paz ou contra as drogas e o terror;
crescem movimentos, políticos ou não, reivindicando trabalho, moradia, escola, assistência à
saúde para todos; surgem modelos participativos de gestão política, empresarial e organiza-
cional, sinalizando a chegada de uma tão esperada pedagogia renovadora, ainda sonhada por
educadores de nosso tempo. Reuniões científicas, didáticas, movimentos de caráter político ou
religioso, são iniciativas concretas que reúnem atualmente grande número de brasileiros,
empenhados em resolver questões como, por exemplo, a inclusão social. Projetos e tentativas
de inclusão socioeducacional emergem em instituições de ensino e/ou de pesquisa, organiza-
ções não governamentais, museus ou outros centros de ciência e cultura em todas as regiões
brasileiras. Nos museus de ciências têm surgido projetos inclusivos, cujos resultados vêm
causando impactos sobre a sociedade, sensibilizando e estimulando outras iniciativas. No
Museu de Ciências Morfológicas – MCM, sediado no Instituto de Ciências Biológicas da
Universidade Federal de Minas Gerais, está sendo desenvolvido e experimentado o projeto “A
célula ao alcance da mão”, cujos resultados vêm surpreendendo, por inovar e abranger pontos
fundamentais do processo ensino-aprendizagem de ciências para portadores de necessidades
especiais de aprendizado. A criação e utilização de Coleção de Modelos Didáticos, acompanhada
de livro em impresso tipográfico e em braille, além de contribuir para um ensino de qualidade
aos portadores de deficiência visual, integram todos os alunos nas aulas práticas, imprimindo
um caráter dinâmico e lúdico ao ensino de ciências, que motiva e facilita o seu aprendizado.
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Metodologia
O projeto “a célula ao alcance da mão” teve início na sala de aula da disciplina Citologia
e Histologia geral, ministrada no ciclo básico de cursos das áreas biológica e da saúde pelo
Departamento de Morfologia, Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de
Minas Gerais. Após a constatação das dificuldades no aprendizado da referida disciplina por
estudante portador de deficiência visual total, matriculado no curso de Fisioterapia, e da ausên-
cia de literatura específica em braille, bem como de material didático que pudesse permitir, ao
referido aluno, a compreensão dos conteúdos estudados pelos demais colegas através de
microscópios de luz e de micrografias eletrônicas, o projeto foi iniciado visando, em princípio,
minimizar o problema. Utilizando-se de técnicas relativamente simples, o trabalho foi
desenvolvido em etapas crescentes; da primeira constaram a confecção de pranchas em alto
relevo, para as quais o material biológico em estudo era previamente selecionado pela profes-
sora da disciplina e repassado a uma estudante da mesma turma, que confeccionava e
reproduzia os desenhos em papel ofício ou cartolina branca, sobre placas de cortiça. As
“imagens” produzidas em relevo eram tocadas, propiciando o reconhecimento de formas,
dimensões, proporcionalidade e localização das diferentes estruturas estudadas. Ao final do
período as avaliações dos resultados do projeto, tanto para aquele estudante quanto para sua
turma, foram tão significativas que alimentaram a necessidade de retomá-lo e expandi-lo, tão
logo fosse possível. O reinício do projeto, entretanto, só ocorreu alguns anos depois, com a sua
adoção pelo Museu de Ciências Morfológicas, que viabilizando a sua continuidade, investiu na
possibilidade de incluir os portadores de deficiência visual em suas atividades. Para sua ampli-
ação, o projeto passou a contar com a participação de novas estagiárias do curso de Fisioterapia.
Nesta segunda etapa do projeto foram retomadas as pesquisas e as pranchas passaram a ser con-
feccionadas por processos mais elaborados: os desenhos (reproduzindo as lâminas histológicas
selecionadas) eram feitos em papel colorset, utilizando-se papel carbono, “mouse pad” e
boleadores. E pensando em seu enriquecimento através da reprodução tridimensional das
estruturas, foi confeccionado o primeiro modelo celular, com suas organelas, em massa de biscuit;
o conjunto foi fixado sobre tela de pintura, previamente forrada com a mesma massa, que lhe
serviu de base; a pintura diferenciava as estruturas representadas nos respectivos modelos, facili-
tando o seu reconhecimento tanto por portadores de deficiência visual total como parcial, e con-
tribuindo também para facilitar a sua memorização, o que tornava o material produzido útil
também para estudantes com déficit de aprendizagem. A experimentação do material didático
produzido teve início com grupos de alunos de ensino fundamental e médio, portadores de defi-
ciência visual. A terceira etapa do projeto foi iniciada com a escolha do gesso para confeccionar
a coleção crescente de modelos tridimensionais, uma vez que a massa de biscuit não havia se
mostrado eficaz, nem apresentou a durabilidade desejada. Neste momento, a entrada no projeto,
de estagiária do curso de Belas Artes trouxe significativa contribuição ao trabalho, bem como
soluções práticas para alguns problemas técnicos. A soma de esforços e a participação de
outros estagiários e técnicos tornou possível a confecção de uma coleção de modelos tridimen-
sionais e em relevo, representativa da célula, organelas celulares, todos os tipos de tecidos, fases
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do desenvolvimento embrionário e fetal, órgãos e sistemas orgânicos humanos, em tamanhos
próximos do natural e alguns em grande aumento, visando facilitar a compreensão de cada
estrutura representada. As peças eram modeladas inicialmente em argila, levadas ao forno e, a
partir desses protótipos, foram confeccionadas formas em silicone, facilitando a reprodução das
peças em gesso. Todos os modelos foram lixados, revisados quanto aos detalhes das estruturas
biológicas representadas, e pintados; a escolha das cores levou em conta a diferenciação destas
estruturas, visando facilitar a sua memorização também através de processo associativo, por
alunos deficientes visuais parciais e por aqueles com déficit de aprendizagem. Paralelamente à
criação dos modelos foi redigido o livro didático, com o objetivo de disponibilizar informações
teóricas essenciais à compreensão do conteúdo em estudo, e descrevendo cada modelo da
coleção, de modo a facilitar a sua compreensão e contribuir para a independência dos alunos,
principalmente nas revisões de aprendizagem. As exposições da coleção didática no Museu, seu
primeiro centro experimental, propiciou a interatividade de seus diferentes tipos de público com
os modelos, na medida em que tal coleção também ampliava as possibilidades de inclusão de
portadores de deficiência visual nas atividades do MCM. Da quarta e última etapa, esta em
desenvolvimento, constam a experimentação de todo o material didático em escolas de Belo
Horizonte, com projeto pedagógico desenvolvido em parceria com a Secretaria de Estado da
Educação; a disponibilização da coleção para escolas e/ou outras instituições, acompanhada do
livro didático em impresso tipográfico e em braille; a abertura, no Museu de Ciências Morfológicas,
do laboratório permanente de ensino especializado na formação de professores de ciências para
deficientes visuais e apoio a estudantes; e a criação da Coleção Didática Itinerante, visando
contribuir para o ensino prático de ciências em escolas com projetos inclusivos.
Resultados e discussão
Não há, no Brasil, um déficit tão grande na produção do conhecimento, quanto o que há
em sua democratização. E este é um dos nossos maiores desafios na atualidade: direcionar
esforços para, mais do que difundir o conhecimento, desenvolver em nosso País uma cultura
científica, na qual os resultados das pesquisas científicas e tecnológicas passem a “fazer parte”
da vida da comunidade, a subsidiar a solução de questões da rotina diária dos cidadãos. E esta
responsabilidade, este compromisso o com a inclusão social tem reunido, em torno de ações
concretas, os mais diversos setores, grupos e instituições, dentre estas as escolas, e principal-
mente os museus e centros de ciência e cultura, por sua atuação informal e grande abrangência
social. Embora, em muitos casos, as ações nesta direção se refiram ainda a iniciativas ou
projetos isolados de inserção de portadores de necessidades especiais de aprendizado em escolas,
a algum tipo de informação ou ao mercado de trabalho, tais iniciativas vêm cumprindo impor-
tante papel na conscientização e mobilização de outros segmentos da sociedade para o problema.
Focalizando, de modo mais específico a deficiência visual, todos sabemos que esta é uma
realidade limitante para muitos cidadãos, em todo o mundo. E embora a Constituição Brasileira
garanta, aos portadores de necessidades especiais de aprendizado, todos os direitos do cidadão
comum, e de terem entrado em vigor, em 2001, as diretrizes propostas pela Convenção
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Interamericana, visando eliminar todas as formas de discriminação contra pessoas portadoras
de deficiências (Decreto Legislativo número 198), a realidade ainda está distante da teoria e os
portadores de deficiência visual dispõem de poucas escolas especializadas, escassos recursos
didáticos e número reduzido de professores especializados nas escolas comuns e/ou integrado-
ras, o que acaba por restringir o acesso desses cidadãos a um ensino de qualidade, à informação,
ao desenvolvimento científico e tecnológico, ao trabalho, levando inevitavelmente, como numa
reação em cascata, à sua exclusão social. Quanto ao ensino superior, esse quadro é um pouco
mais delicado, pois apesar de o processo seletivo “democrático” do vestibular possibilitar o
ingresso dos portadores de necessidades especiais de aprendizado em faculdades e/ou universi-
dades, é desestimulante o fato de, ao chegarem a uma universidade, não encontrarem estrutura
adequada à sua formação na área escolhida, como bibliografia em braille, material didático
próprio para suas aulas práticas, oficinas e/ou laboratórios próprios ou inclusivos e professores
especializados. A ausência de material didático especializado torna ainda mais limitante o seu
aprendizado, quando diz respeito à área da saúde, ao estudo da Morfologia Humana, por exemplo.
A Morfologia engloba conteúdos como a Anatomia (visão macroscópica dos órgãos e estruturas
corporais), Embriologia (da fertilização ao desenvolvimento embrionário e fetal), Citologia e
Histologia (a intimidade microscopia do corpo), cujo estudo, essencialmente prático, exige
recursos como microscópios de luz e estereoscópicos, lâminas histológicas, micrografias
eletrônicas, peças anatômicas, embriões e fetos em diferentes estádios de desenvolvimento,
todos estes, recursos visuais, que dificultam aos portadores de deficiência visual parcial ou total
a sua utilização. Os poucos estudantes que se aventuravam aos cursos da área de saúde, tinham
seu aprendizado “prático” limitado à audição de fitas cassete, gravadas por familiares, amigos
ou colaboradores de boa vontade. A ausência de modelos biológicos, contemplando todas as
áreas da Morfologia e com especificidades para atender aos portadores de deficiência visual, foi
constatada após rigorosas pesquisas bibliográficas, consulta a bancos de dados específicos, levan-
tamento em universidades nacionais e internacionais e pesquisa via internet, feitas no início do
projeto “A célula ao alcance da mão” que, conforme referido anteriormente, foi criado em sala
de aula e desenvolvido e experimentado no Museu de Ciências Morfológicas – MCM e em
outras escolas de Belo Horizonte. Este Museu foi criado através de um projeto de pesquisa
desenvolvido na Universidade Federal de Minas Gerais, atendendo à demanda do próprio público
externo, e representa, ele próprio, um projeto de inclusão educacional. Aberto em 1997, o MCM
possibilitou, à comunidade em geral, acesso ao conhecimento da estrutura e funcionamento
do organismo humano que, em decorrência de nosso próprio padrão de ensino curricular, era
restrito, até então, aos futuros profissionais da saúde, matriculados na Universidade. A partir do
MCM, entretanto, milhares de visitantes da comunidade, independentemente de cultura, faixa
etária, escolaridade, condição socioeconômica ou profissão, buscam informar-se sobre questões
relacionadas à saúde e à preservação da vida, principais áreas temáticas e missão do Museu.
Através desta convivência, Museu e público vêm construindo formas de contato e interação
até então desconhecidas, em relação a esta área da ciência. Embora muitos projetos educativo-
sociais sejam desenvolvidos no MCM, uma das grandes metas de sua equipe desde o início, era
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a inclusão de comunidades periféricas, de grupos minoritários ou em desvantagem, bem como
de portadores de necessidades especiais de aprendizado em suas atividades educativas e de
difusão científica; com a preparação de seus monitores e a acessibilidade às dependências do
Museu, isto se tornou possível nos últimos anos, para muitos portadores de deficiência física,
auditiva, idosos e outros cidadãos com alguma forma de desvantagem. Entretanto, pelas carac-
terísticas especiais de seu acervo, a expografia do Museu utiliza recursos de grande apelo visual
e a inclusão de deficientes visuais em seus programas só se tornou possível a partir da retomada
do projeto “A célula ao alcance da mão”. A Coleção Didática desenvolvida pelo projeto, ao
representar, de forma tridimensional e ampliada, células, organelas celulares, tecidos e órgãos
humanos, bem como a estrutura e inter-relações dos diferentes sistemas orgânicos, veio per-
mitir ao MCM incluir os portadores de deficiência visual em suas atividades, cumprindo assim
sua missão de, através do conhecimento, incentivar a busca de melhor qualidade de vida por
todos os cidadãos. Por outro lado, para o projeto “A célula ao alcance da mão”, a parceria com
o Museu de Ciências Morfológicas representou, além de sua viabilidade financeira, tornar-se
seu principal centro de experimentação, ao expor, ao seu público visitante, amplo e diversificado,
a coleção didática do projeto. Estudantes de ensino fundamental e médio, portadores de defi-
ciência visual, com base em preparação prévia (aula ou outra forma de orientação fornecida),
são capazes de, através dos modelos tridimensionais, compreender não só a biologia estrutural
do corpo humano em seus diferentes níveis de organização, como a relação entre a localização
de cada estrutura e as diversas funções por ela desempenhadas. Segundo suas próprias
expressões, os modelos permitem a “formação de imagens mentais” nunca antes imaginadas,
capazes de lhes garantir referências de aprendizado por toda a vida. Estudantes videntes, inde-
pendentemente da faixa etária ou nível de escolaridade, brincam com as células representadas,
retirando-as e recolocando-as em seus respectivos tecidos, fazendo associações mais ricas que
aquelas observadas nas aulas de microscopia. Em turmas de estudantes que contenham alunos
portadores de múltiplas deficiências, a integração é surpreendente. Nas palavras de uma
professora de ensino fundamental de escola pública, pode-se confirmar esta realidade: ...”numa
turma de estudantes, na qual principal característica é a diversidade de deficiências, a natureza
mostra sua principal lição, apontando como a eficiência de uns compensa a deficiência de
outros e todos aprendem; de forma lúdica, todos brincam com as células”. A interatividade do
público em geral com o material didático do referido projeto tem causado grande impacto, ao
promover a integração entre todos os visitantes, estudantes ou não. Diferentes testes e
experimentações têm sido possíveis, validando os modelos ou levando à sua reformulação. O
conhecimento que vem sendo construído a partir da troca de experiências entre o Museu, a
equipe do projeto “a célula ao alcance da mão”, os visitantes portadores de deficiência visual
(dentre eles muitos professores e estudantes) e as escolas cujas turmas incluem deficientes
visuais, extrapola qualquer expectativa. Este projeto encontra-se em fase experimental em
escolas de ensino fundamental e médio: escolas especializadas no atendimento a estudantes
portadores de deficiência visual; escolas com alunos portadores de necessidades especiais de
aprendizado e aquelas que não têm alunos portadores de deficiência. Através de projeto
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pedagógico próprio, tanto para implantação como para acompanhamento e avaliação, as
avaliações levarão em conta parâmetros como a interatividade dos estudantes durante as aulas
práticas de ciências, a facilitação do processo ensino-aprendizagem e o aproveitamento final
dos alunos, em comparação com grupos-controle. Tão logo seja concluída esta fase, toda a
coleção será disponibilizada ao nosso e a outros países que dela puderem se beneficiar. No
Museu de Ciências Morfológicas está sendo construído o laboratório de ensino especializado na
formação continuada de professores de ciências para portadores de deficiência visual, onde uma
coleção dos modelos didáticos do projeto permanecerá exposta, com legendas em impresso
tipográfico e em braille, assim como o livro didático contendo informações teórico-práticas do
conteúdo abordado e a descrição detalhada de cada peça da coleção. O MCM abrigará, ainda, a
Coleção Itinerante, que visa apoiar as escolas que trabalham com projetos inclusivos. Muitas
outras iniciativas, grandes movimentos e projetos também têm contribuído para a inclusão
socioeducacional em nosso País, ainda com tão grandes e sérios problemas sociais. Entretanto,
estimula a equipe do projeto “A célula ao alcance da mão”, saber que este é um momento de
somar esforços na busca de uma solução comum, e o tem feito.
Conclusões
Em nosso País, o exercício do magistério em escolas públicas constitui um desafio
permanente. Muitos problemas nos surpreendem na sala de aula e, sem dispor de recursos para
solucioná-los, restam-nos a sensibilidade, a criatividade e a ousadia de tentar sempre novos
caminhos, novas construções. O projeto “A célula ao alcance da mão” foi desenvolvido a
partir da necessidade de propiciar um ensino prático de qualidade a estudante portador de
deficiência visual e do estímulo diante dos resultados alcançados, mostrados em avaliações
tanto da aprendizagem quanto da integração de todos os alunos da turma. A atuação do
estudante-alvo do projeto, no final do período escolar, como monitor de colegas videntes,
auxiliando-os na compreensão das estruturas morfológicas em estudo, foi apenas o primeiro
resultado de uma série estimuladora. A coleção didática criada, com seus modelos tridimen-
sionais pouco comuns no estudo das ciências morfológicas, tem propiciado a integração
de professores e estudantes de ciências e biologia de escolas especializadas para portadores de
deficiência visual; de escolas da rede pública, muitas delas envolvidas em projetos de inclusão
social e do público em geral, quando da exposição dos modelos, tanto no Museu de Ciências
Morfológicas quanto em eventos científicos. A criação do laboratório de ensino no MCM
permitirá, além da capacitação de professores, manter a troca de experiências com outros
profissionais e instituições, ampliando e divulgando pesquisas nesta área. A disponibilização da
coleção didática para instituições como centros de ciências e museus possibilita a ampliação do
trabalho de educação para a saúde e para a qualidade de vida, desenvolvido no MCM. Uma das
construções computadas pela coordenação do projeto como das mais produtivas refere-se
à formação de novos profissionais: sensíveis, competentes e envolvidos na inclusão socioe-
ducacional; desde os primeiros estagiários, com os quais dividimos os primeiros passos, até os
atuais, cuja participação tem ampliado a troca de experiências que enriquece os laboratórios
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de ensino e pesquisa. Um grupo de estagiárias, entretanto, destacou-se de maneira especial: as
do curso de Fisioterapia, Júnea Mara Gonçalves de Moraes, Daniele Sirineu Pereira, Christiane
de Fátima Tavares e Tatiana Pessoa da Silva Pinto e a do curso de Belas Artes Valéria de Cássia
Resende, atualmente a artista plástica do projeto, por suas valiosas contribuições e pelo caráter
educativo do projeto em todos os níveis, tornaram-se também autoras, tanto da coleção de modelos
como do livro didático, propriedade intelectual da UFMG. De nossa parte gostaríamos de acrescentar
a constatação de que a construção coletiva do conhecimento em todas as fases deste projeto,
assim como de outros em desenvolvimento, propiciada pela extensão universitária, tem signifi-
cado uma experiência ímpar, que extrapola aquela gerada em nossos laboratórios de pesquisa;
e as equipes envolvidas nos trabalhos de inclusão, através das reflexões geradas ao longo desses
anos de experiência, sintetizam suas conclusões ao afirmarem: “ como membros de uma
sociedade excludente, herdamos preconceitos que alimentamos, e com eles sustentamos a
exclusão. Mas se formos capazes de perceber de quantas inclusões necessitamos em nossas ati-
tudes diárias, como a solidariedade, o compromisso com a construção, o respeito ao semelhante,
o afeto, quem sabe possamos, ao final de longo processo reeducativo, não necessitar lutar mais
por inclusão e deixar uma herança mais saudável às gerações futuras. Afinal, a fraternidade é
um processo natural e vivê-la não deve exigir de nós nenhum esforço extraordinário. Mais que
inclusão, é necessária e urgente a criação de uma sociedade fraterna e realmente de todos”.
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Internato rural da Faculdade de Medicina da UFMG – 25 anos de integração
docente-assistencial
Marcus Vinicius Polignano, Doutor Professor Adjunto do DMPS
Elza Machado de Melo, Doutora Professora Adjunta do DMPS
Luiz Eduardo Nascimento, Professor Adjunto do DMPS
Alan Marcone Primo Santana, Monitor da disciplina Internato em Saúde Coletiva
Ismael Alves Rodrigues Junior, Discente
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG – Faculdade de Medicina
Resumo
O artigo relata a experiência do Internato Rural da Faculdade de Medicina da UFMG
que completou 25 anos de existência em 2003, tendo contribuído para a formação de mais de
7.000 médicos, e executado milhares de ações assistenciais, de prevenção e promoção de saúde,
contribuindo para a evolução histórica das políticas sociais e de saúde no estado de Minas
Gerais. O objetivo é propiciar aos estudantes a oportunidade de melhor apreenderem as relações
entre Medicina e Sociedade através da participação direta no SUS e nos movimentos sociais,
dentro da perspectiva de consolidar uma proposta de integração docente-assistencial. Na
metodologia adotada os acadêmicos residem durante 3 meses em localidades do interior do estado,
onde executam ações assistenciais, de prevenção e promoção de saúde em parceria com as
prefeituras. O Internato tem contribuído para a construção de políticas públicas saudáveis,
desenvolvendo milhares de ações de saúde, conscientizando e mobilizando a sociedade na luta
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pela melhoria da qualidade de vida e saúde. O Internato é uma prática pedagógica docente-
assistencial eficaz que tem contribuído para a formação de uma nova consciência social dos
problemas de saúde da comunidade e dos profissionais no sentido de assumir uma postura
socialmente responsável para com as comunidades onde atuam
.
Palavras-chave: educação, saúde
Introdução
Embora a denominação correta da disciplina seja Internato em Saúde Coletiva, ele é
mais conhecido como Internato Rural, tendo completado 25 anos de existência em 2003,
consolidando-se como um dos mais importantes programas de extensão da universidade.
Durante todo esse período de tempo, o trabalho de docentes, funcionários e alunos esteve
voltado para a formação de profissionais comprometidos com a realidade de saúde do país e
com avanços na implantação de um sistema de saúde que atenda às necessidades da população.
O objetivo geral do Internato Rural é propiciar aos estudantes a oportunidade de melhor
apreenderem as relações entre Medicina e Sociedade através da participação direta no SUS e
nos movimentos sociais, dentro da perspectiva de consolidar uma proposta de integração
docente-assistencial, contribuindo para a formação de um profissional capaz de responder às
necessidades assistenciais, de prevenção e promoção de saúde da população, exercendo na sua
plenitude o papel social de cidadania.
É importante destacar que todo o processo de construção do Internato Rural foi pautado
por uma avaliação crítica do pensamento sistêmico sobre o processo saúde/doença, a
intervenção e organização dos serviços e o papel dos profissionais de saúde. Nesse sentido é
importante resgatar um pouco da história da constituição do Internato Rural.
O Internato Rural surgiu no bojo de um longo processo de mudança por que passou a
educação médica no País, marcadamente a Faculdade de Medicina da UFMG no período de
1970-1980.
No momento em que o país vivia um processo de cerceamento das liberdades democráti-
cas e institucionais, a Faculdade de Medicina da UFMG realizou uma abertura do processo
acadêmico, promovendo através da integração docente-assistencial a aproximação e interação
do pensamento acadêmico com os movimentos sociais e com a realidade social e de saúde
das comunidades para além do que era propagado pelos meios de comunicação e pela versão
oficial imposta pelos governos militares.
Este novo currículo, produzido por um Processo de Desenvolvimento Curricular
iniciado em 1972, e reavaliado em fins de 1974, quando da realização do 1º Seminário do
Ensino Médico, foi fruto da participação expressiva dos alunos e professores e incorporou
muitos dos postulados da integração docente-assistencial.
A realização de um estágio voluntário por um grupo de alunos desta Faculdade na região
do Vale do Jequitinhonha serviu de subsídio para a formulação da proposta do Internato Rural
e a sua inclusão no novo currículo a ser implantado.
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Para sua implantação efetiva, que se deu em janeiro de 1978, restava somente a escolha
do local apropriado. Por um raciocínio lógico a sua localização deveria ser próxima a Belo
Horizonte. No entanto, naquele momento ocorria na região norte-mineira a implantação de
um Projeto de Extensão de Cobertura do Serviço Público de Atenção Médica cuja filosofia
adequava-se aos objetivos pedagógicos do Internato Rural.
A Extensão de Cobertura do Serviço Público de Atenção Médica bem como os projetos
de Integração Docente-Assistencial surgiram como resposta à crise que se manifestava interna-
mente ao setor Saúde e que tem os seus determinantes na expansão capitalista no campo e no
processo de acumulação de capital nos setores de produção de equipamentos médicos e na
industria farmacêutica.
Estas propostas foram elaboradas dentro de um conceito de “desenvolvimento social
integrado” adotado pelo Estado, que procura, através das políticas públicas, articular os setores
de economia, saúde e educação, na perspectiva de criar uma superestrutura social que melhor
atenda às formas avançadas de organização do capital.
No plano internacional, organismos como a Cepal passam no início da década de 70, a
recomendar ênfase na formulação de políticas de desenvolvimento social, colocando a necessi-
dade de enfrentar prioritariamente o problema “marginalidade”. São propostos programas de
desenvolvimento comunitário fundamentados no conceito de participação. Em 1972, os
Ministros de Saúde para as Américas reúnem-se em Santiago para elaborar o plano decenal de
Saúde para as Américas, situando como principal objetivo da década de 70 a extensão da
cobertura dos serviços de saúde no campo. Seu corpo doutrinário e conceitual baseia-se na
regionalização, hierarquização e integração dos serviços, na ênfase em ações de cuidados
primários desenvolvidos por pessoal auxiliar e na participação comunitária que visa orientar a
implantação de tais programas.
A implantação de um projeto desta natureza na região polarizada por Montes Claros foi
fruto de um convênio entre governo brasileiro e a Usaid, em 1974, que liberou recursos para a
construção de uma rede de Postos de Saúde (180), Centros de Saúde (55) e o treinamento de
pessoal auxiliar (cerca de 580) para uma população de 1.078.000 habitantes.
A partir de outubro de 1980, a região de Teófilo Otoni e algumas cidades circunvizinhas
passaram a fazer parte da área de estágios do Internato Rural com uma articulação importantes
com os movimentos sociais que questionavam o discurso e a política econômica e social impos-
ta pelos governos militares.
Ainda na década de 1980, parte dos estudantes são concentrados na região de Sete
Lagoas dentro de uma proposta de regionalização dos serviços de saúde e implantação das AIS
Ações Integradas de Saúde.
Em 1989, houve um deslocamento da área de estágio para a região do vale do Aço e do
vale do Mucuri buscando uma articulação com movimentos populares e operários existentes
naquela área, coincidindo com a vitória nas eleições municipais de partidos mais progressistas
e comprometidos com os anseios da população.
No final da década de 1990, o Internato Rural diversificou as suas áreas de atuação em
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diferentes regiões do estado como o vale do Jequitinhonha, vale do São Francisco e o “Projeto
Manuelzão” que procurou desenvolver uma proposta de saúde/ambiente/cidadania concen-
trando-se na bacia do Rio das Velhas.
O objetivo geral do Internato Rural é propiciar aos estudantes a oportunidade de melhor
apreenderem as relações entre Medicina e Sociedade através da participação direta no SUS e
nos movimentos sociais, dentro da perspectiva de consolidar uma proposta de integração
docente-assistencial, contribuindo para a formação de um profissional capaz de responder às
necessidades assistenciais, de prevenção e promoção de saúde da população, exercendo na sua
plenitude o papel social de cidadania.
Metodologia
O programa didático do Internato Rural inicia-se pela exposição aos estudantes, em
reunião geral, do objetivo básico, aspectos estruturais e funcionais da disciplina. São apresenta-
dos, dentro de uma visão panorâmica, os municípios conveniados com a Faculdade de Medicina
da UFMG, as suas características, os trabalhos e pesquisas que estão sendo desenvolvidos.
Posteriormente os estudantes se agrupam em duplas e escolhem a área programática onde
desejam estagiar. Quando há interesse de um maior número de duplas para uma mesma área,
além do que ela comporta, a determinação das duplas que permanecerão nesta área se dá por sorteio.
Uma vez definidas as duplas por área, colocam-se à sua disposição, os relatórios,
atividades e trabalhos executados pelos colegas que os precederam com todos os dados até
então acumulados sobre cada município.
A distribuição dos estudantes pelos municípios englobados numa determinada área pro-
gramática se dá a partir de uma reunião geral. Nesta reunião procura-se fornecer aos estudantes
o quadro completo das condições sociais de cada município, as características e objetivos
dos trabalhos comunitários e/ou projetos de pesquisa em desenvolvimento e os fatores que
obstaculizam o alcance pleno dos objetivos propostos.
As atividades em cada município são desenvolvidas de acordo com a realidade local
conforme orientação do preceptor responsável após discussão com a secretaria de saúde
local.A carga horária regular semanal é de 32 horas.
Ao final do estágio é realizado um SEMINÁRIO FINAL DA DISCIPLINA com a
presença de todos os preceptores, alunos e aberto à participação de convidados. Os estudantes
fazem um relato dos problemas de saúde prevalentes nos diversos municípios, expõem os tra-
balhos sociais em andamento, colocam em discussão as suas ações e apresentam as dificuldades
existentes. São selecionados temas — a partir dos debates nos grupos — que são apresentados
na plenária para que sejam discutidos por todos os presentes com o objetivo de repensar as
formas de organização, atuação e participação do Internato Rural no sistema de saúde, nos
movimentos sociais e no processo acadêmico
Para assegurar a manutenção do Internato procurou-se consolidar uma estrutura
funcional própria constituída por um coordenador, um colegiado de preceptores, uma secretaria,
um núcleo de pesquisa e de informática, setores de apoio (transporte, convênio, contabilidade).
308
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Resultados e discussão
Ao longo dos 25 anos de existência, o Internato Rural atuou em mais de 200 localidades
do Estado de Minas Gerais, e contribuiu para a formação de mais de 7.500 médicos.
Na tabela 1 encontra-se a atual distribuição das localidades conveniadas ao Internato
Rural da FM da UFMG.
Tabela 1
Distância das localidades do IR em relação a Belo Horizonte
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
309
Estrutura Organizacional do Internato Rural
Colegiado de
preceptores
Coordenador
Secretaria geral
Transporte
FM UFMG Prefeituras
FUNDEP
FM UFMG
FUNDEP
FM UFMG
Convênios Contabilidade
Banco de
dados
Site
Registro e
memória
Distância (km) Localidades Número Absoluto Percentual
>100 km
Sabará, Pedro Leopoldo, Caeté, Matozinhos,
Jaboticatubas, Nova União, São Gonçalo do
Bação, Amarantina, São Bartolomeu, Itabira
10 28,6%
101-200 km
Resende Costa, Conceição da Barra de Minas,
Conceição do Mato Dentro, Virginópolis,
Tiradentes
5 14,3%
201-300 km
Morada Nova de Minas, Três Marias, Lassance,
Joaquim Felício, Estrela do Indáia, Congonhas do
Norte, Barra do Guaicuí, Sabinópolis, Buenópolis
9 25,7%
301-400 km
Serro, Minas Novas, Leme do Prado, Teófilo Otoni,
Caraí, Padre Paraíso
6 17,1%
> 400 km
São Romão, Resplendor, Ituêta, Itamarandiba,
Araçuaí
5 14,3%
Total 35
100%
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Tabela 2
População das localidades integrantes do IR
Observa-se pelos dados das tabelas anteriores que o Internato Rural permanece fiel aos
seus princípios inicias, concentrando-se em pequenos municípios (59,8% das localidades têm
menos de 20.000 habitantes). Isto é importante porque em municípios desse porte é mais fácil
a percepção por parte dos alunos dos problemas de saúde, a microfísica do poder, dos processos
sociais e a interação com a sociedade.
Além das ações assistenciais e de promoção de saúde realizadas junto à população, é
importante destacar os benefícios pedagógicos para os alunos de graduação. Para exemplificar
o resultado desse processo, que é principalmente qualitativo, está transcrita a seguir a avaliação
do aluno Ismael Alves Rodrigues Junior sobre o Internato Rural:
“Foi uma experiência muito valiosa.
O contato com a população foi o mais marcante. Na sua carência e desamparo, sem um
profissional diplomado a cuidar de seus filhos ou ouvir suas próprias angústias, as pessoas não
apenas nos titulavam respeitosamente “doutores”, elas acreditavam verdadeiramente que nós já o
fôssemos. Acreditavam por necessidade, contra nossas explicações, porque se não acreditassem
teriam que caminhar longas distâncias até o doutor que os acolhesse, se encontrassem algum. Em
sua crença humilde nos embutiam nossas responsabilidades e nos confrontavam com nossas
próprias limitações.
E como aprendemos... Aprendemos a ouvir melhor, quando esperançosos se postavam diante de
nós e nos faziam desejar que o mestre estivesse ali, amplificando nossa audição imatura.
Aprendemos a procurar melhor a dor que só nós ouvíamos e que a nós cabia ser encontrada.
Aprendemos a investigar melhor os achados, porque não havia mais ninguém ali a quem eles se
revelassem.
310
Número de
habitantes
Localidades Número Absoluto Percentual
<10.000
Amarantina (OP), Estrela do Indáia, Joaquim
Felício, Conceição da Barra de Minas, Leme do
Prado, Congonhas do Norte, Nova União, Itueta
Tiradentes, Lassance, Morada Nova de Minas, São
Romão, São Bartolomeu (OP), Ravena (Sabará)
13 37,0%
10.001-20.000
Resende Costa, Buenópolis, Virginópolis,
Jaboticatubas, Sabinópolis, Resplendor, Padre
Paraíso, Conceição do Mato Dentro
8 22,8%
20.001-30.000 Caraí, Serro, Três Marias, Itamarandiba 4 11,4%
30.001-40.000
Matozinhos, Minas Novas, Barra do Guiacuí,
Caeté, Araçuaí, São Gonçalo do Bação
6 17,1%
40.001-60.000 Pedro Leopoldo 1 2,8%
60.001-100.000 Itabira 1 2,8%
>100.000 Hab. Sabará, Teófilo Otoni 2 5,7%
Total 35
100%
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Tivemos também que aprender a falar. Falar para muitas pessoas ao mesmo tempo, humildes, que
pouco sabiam e muito precisavam do que falávamos. Ou falar para poucas pessoas, distintas,
que muito sabiam e que por isso deviam ouvir o que falávamos. Nos humanizamos e nos politi-
zamos. Os humildes nos humanizaram e por eles nos politizamos. Os distintos nos politizaram e
a eles nós humanizamos com nossas informações.
Atuamos no campo da medicina assistencialista. Curamos quando possível e amenizamos a dor
de várias pessoas que não dispunham de qualquer outro recurso médico. Confortamos todos a
quem tivemos acesso no consultório, nas ruelas, na igreja ou na escola.
Atuamos também no campo da medicina preventiva. Nossa estratégia foi o diálogo multilateral.
Acreditamos que éramos fonte de todo o tipo de informação para o bem estar humano.
Informações simples, antes renegadas à irrelevância por nós mesmos. Mas informações cruciais,
que a maioria esmagadora neste país ainda não detém.
Promovíamos a saúde onde quer que encontrássemos alguém disposto a nos ouvir. Numa comu-
nidade tão paupérrima também em informação, qualquer conhecimento sobre saúde, meio
ambiente ou educação é genuíno. E qualquer esclarecimento é objeto de divulgação pelos próprios
pacientes. O número crescente de mulheres que chegavam de longe para se submeter ao exame
citológico de colo de útero mostrava que o conhecimento introduzido estava se proliferando
espontaneamente entre a comunidade.
Acredito assim, que cumprimos o que fora planejado para a disciplina do internato rural. Nos
dividimos entre a demanda assistencial e preventiva e procuramos nos articular politicamente no
panorama de saúde integrada ao ambiente e à educação. Compreendemos o significado da neces-
sidade de se conceber saúde como um ideal de qualidade de vida”.
No quadro que se segue é apresentado um resumo do relatório do seminário geral dos alunos que
cursaram a disciplina no último trimestre.
Reunião Geral do Internato Rural – 1º trimestre/2004
A opinião consensual dos cerca de oitenta acadêmicos recém-chegados do internato rural
é que a disciplina de internato rural da Faculdade de Medicina da UFMG constitui uma experiên-
cia única no sentido de complementação da formação profissional, humana e política do futuro
médico. Este texto é um relatório da reunião geral final entre os alunos que cursaram o
internato no primeiro trimestre do ano de 2004. Divididas em seis grupos, as cerca de quarenta
duplas de internos expuseram as atividades desenvolvidas em cada cidade, compartilhando
as emoções vividas, analisando a estrutura dos sistemas de saúde municipais e elaborando
propostas para o melhoramento da própria disciplina.
Sobre a operacionalização da disciplina: indubitavelmente, seria muito útil para as duplas
que estão prestes a viajar para a cidade que lhes foi definida, que fosse promovida uma reunião
junto dos acadêmicos recém-chegados desta mesma localidade. A troca de informações é impres-
cindível para a continuidade dos projetos que estão em andamento nos municípios e que
contam com o apoio das equipes de internato rural. Nesse sentido, as duplas sucessivas, com o
apoio da coordenação da disciplina, devem se empenhar na articulação de um objetivo comum
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
311
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para que suas atividades e credibilidade não sejam fragmentadas na transição de suas ações. O
estilo de vida nas pequenas comunidades rurais é muito diferente do cotidiano de um grande
centro. Para os habituados às viagens para o interior, ou mesmo lá nascidos, isso é fato trivial.
Entretanto, é sabido que muitos acadêmicos pouco contato tiveram com as belezas da zona rural
e as particularidades de seu dia-a-dia. E mesmo para os mais experimentados existem dificul-
dades em se inserir nesse cenário. Quanto menor a população, maiores são suas nuanças e maior
a necessidade de a dupla receber o máximo de detalhamento do que encontrará.
Articulação com o preceptor: A presença do preceptor é de suma importância para o fun-
cionamento do internato. É certo que a maioria dos pacientes atendidos pelo acadêmico porta
enfermidades comuns, que não ameaçam a vida e que o aluno está habituado a conduzir sem
dificuldades. De qualquer maneira, é fundamental que o professor esteja acessível quando o
aluno julgar-se limitado. Ressalta-se que a disciplina comporta também conteúdo teórico.
Vários textos sobre saúde pública são discutidos entre as duplas e seus preceptores. Além de
acrescentarem à formação teórica do acadêmico, esses encontros são muito oportunos para que
as dúvidas dos alunos sobre os casos atendidos sejam esclarecidas. De maneira alguma o professor
encarregado pode se ausentar dessas reuniões, que asseguram às duplas a confiança necessária
para darem continuidade a suas atividades.
Sobre políticas de saúde: A disponibilidade de recursos médicos é muito variável entre as
localidades. Em muitas delas faltam os medicamentos da farmácia básica. Na maioria das
cidades a dificuldade para se fornecer o exame de mamografia para as mulheres é desani-
madora. Salvo raras exceções, a fragilidade do suporte financeiro para o sistema de saúde
público contrasta agudamente com o brilhantismo de um SUS “padrão ouro” em teoria. A
medicina assistencial funciona precariamente na maioria das cidades visitadas. Não se pode
curar doentes sem medicamentos. É difícil rastrear o câncer de mama sem exames comple-
mentares. O que fazer então? Todos concordamos que a medicina dentro dos postos de saúde se
encontra muito enfraquecida, particularmente nos municípios mais pobres. A saída estaria na
medicina preventiva, que interpreta saúde como um sentido amplo de qualidade de vida.
Cultivando a prevenção e promovendo saúde estaríamos indiretamente diminuindo as chances
de uma pessoa adoecer. A promoção da saúde dribla as carências de um sistema de saúde cada
vez mais capitalista na medida em que necessita menos dele.
Internato e a promoção da saúde: Nunca devemos perder de vista a necessidade urgente de
termos condições para prestar a assistência médica adequada à população, em seus diversos
níveis de complexidade. Todavia, o assistencialismo como centro principal das políticas de
saúde é falho. Falha porque não exige as mudanças necessárias para o bem estar geral das
pessoas. Basta apenas que as doenças sejam tratadas. Falha porque tem contra ele o peso da
falta de recursos financeiros. O internato rural emoldura a concepção de promoção de saúde
como prioridade e nos faz acrescentá-la em nossa formação profissional. Nos insere em uma
localidade e nos faz adotar uma posição ativa diante de seus problemas, qualquer que seja a
maneira que encontrarmos para atuar.
312
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Conclusão
Os dados disponíveis, as pesquisas realizadas e as avaliações dos alunos permitem con-
cluir que a pedagogia proposta e estabelecida pelo Internato Rural possibilita agregar ensino,
pesquisa e extensão na construção de ações de saúde voltada para as comunidades, formando
profissionais comprometidas com as transformações sociais e do setor saúde.
A integração entre universidade/serviços de saúde/comunidade tem permitido repensar
tanto as práticas de saúde como os movimentos sociais e o ensino de graduação. Os benefícios
advindos dessa prática pedagógica não podem ser avaliados somente por indicadores quantita-
tivos uma vez que as experiências pessoais vivenciadas por docentes, discentes e comunidade
inscrevem-se no campo das relações humanas e da história de vidas das pessoas.
Referências bibliográficas
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institucional
: uma agenda para os anos 90. Rio Janeiro: ENSP, 1996.
MENDES, E.V.
Uma agenda para a saúde. São Paulo: Hucitec, 1996.
SANTOS, M.; SOUZA, M. A.; SILVEIRA, M. L. (Org.). Território: globalização e fragmen-
tação. 5.ed. São Paulo: Hucitec, 2002. 332 p.
STACHTCHENCO, S.; JENICEK, M. Conceptual differences between prevention and heath
promotion: research implications for community health programs.
Canadian Journal of
Public Health
, n. 81, p. 53-55, 1990.
WESTPHAL, M. F.; SANTOS, J. L. F. Práticas emergentes de um novo paradigma: o papel
da universidade.
Estudos Avançados USP, v. 13, n. 35, p. 71-88, jan./abr. 1999.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
313
Estrutura Organizacional do Internato Rural
PESQUISA
Realização de pesquisas
sobre modelos de saúde
e integração docente-
assistencial
IR ATUAR EM
35 Localidades
320 Alunos/Ano
EXTENSÃO ENSINO
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Elaborando uma proposta curricular para o ensino de Libras e Língua
Portuguesa no ensino de surdos
Kaliandra Kaline Silva Cavalcante, Aluna extensionista
Janeíse Taveira Candeia, Aluna extensionista
Jamille Souza Duarte, Aluna extensionista
Verônica Domingos da Silva, Aluna extensionista
Shirley Barbosa das Neves Porto, Professora coordenadora
Eleny Gianini, Professora orientadora
Universidade Federal de Campina Grande – UFCG
Resumo
Superada a discussão inicial sobre a adequação da educação bilíngüe para a educação de
surdos, uma série de questões didático-pedagógicas se colocam, entre as quais as que versam sobre
os papéis das línguas de sinais e portuguesa nesta área de ensino. A fim de assessorarmos uma
escola para surdos no equacionamento destas questões, temos como objetivo geral, deste projeto,
coordenar, observar e analisar o processo de construção de seu projeto político-pedagógico, quanto
a definição do espaço curricular da Libras e da Língua Portuguesa. Desenvolvemos este projeto
de extensão, através de duas ações básicas: (1) formação, em serviço, de instrutores de Língua
Brasileira de Sinais (Libras), acompanhando-os nos planejamentos de aula e em suas reflexões
metodológicas de ensino da Libras, até que autonomamente reflitam e organizem seu trabalho;
(2) seções de estudo para aprofundamento das discussões teóricas sobre o ensino de língua
portuguesa, particularmente a partir de uma perspectiva de ensino de L2, visando um novo
dimensionamento curricular dessa língua e das práticas pedagógicas em sala de aula. Apesar
deste projeto encontrar-se em andamento, podemos afirmar que mudanças significativas, prin-
cipalmente de atitudes, em relação à surdez e ao ensino de surdos vêm ocorrendo tanto por parte
dos ouvintes como dos surdos
.
Palavras-chave: educação bilíngüe, surdez, ensino de línguas
Introdução
Este trabalho que apresentamos traz algumas considerações sobre o projeto de extensão
intitulado “Elaborando uma proposta curricular para o ensino de Libras e Língua Portuguesa no
ensino de surdos”, realizado na Escola de Audiocomunicação de Campina Grande “Demóstenes
Cunha Lima” – EDAC, instituição criada pelos professores da UFCG, responsáveis pela área
de Educação de Surdos, que prestam assessoria pedagógica, através de atividade extensionista,
desde a sua fundação. Trata de uma continuidade de projetos anteriores, desenvolvidos em
2000, 2001 e 2002, que tinham como objetivo contribuir para a construção do Projeto Político-
Pedagógico – PPP dessa instituição, específica para surdos.
314
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Inicialmente, propomo-nos a definir as concepções de surdez, educação e papel da escola
para surdos, bases que fundamentam o PPP. Em um segundo momento, foi analisado qual a
escola que temos e a que queremos. No momento, as discussões versam sobre o espaço
informal e instrucional das línguas usadas pela comunidade escolar: língua de sinais e língua
portuguesa (nas modalidades oral e escrita).
Durante os vinte e um anos de assessoria à Edac, temos amadurecido nossas reflexões
sobre a surdez através da possibilidade dialética de análise das produções teóricas a que temos
acesso e a prática pedagógica nessa escola. Desde que assumimos, conjuntamente com os
professores da Escola, a perspectiva bilíngüe de educação de surdos, houve uma preocupação
com o aprendizado da Língua de Sinais (para nós no Brasil, a Libras) como primeira língua dos
surdos (L1) e o entendimento de que era necessário criar um currículo para a língua portuguesa
como segunda língua (L2).
Superada a discussão sobre a importância da educação bilíngüe, ainda há uma série de
questões de cunho político-pedagógico que merecem reflexão e necessitam de uma posição
dentro das escolas bilíngües para surdos. Uma dessas questões diz respeito ao papel e espaço
das Línguas de Sinais e Portuguesa na organização curricular da escola. Desse modo, não
basta à escola bilíngüe para surdos usar do discurso de que é preciso ter a língua de sinais para
garantir o desenvolvimento pleno desses sujeitos. É preciso respeitar os espaços de uso das
duas línguas, sabendo que isto demanda entendimento sobre a dialética existente na relação
língua e cultura.
Para Sacks (1998), a língua de sinais existe e se sustenta sobre dois pilares o biológico
e o cultural:
No caso da língua de Sinais, aquilo que a distingue, seu “caráter”, é também biológico, pois se
alicerça nos gestos, na iconicidade, numa visualidade radical que a diferencia de todas as línguas
faladas. A língua emerge – biologicamente – de baixo, da necessidade irreprimível que tem o
indivíduo humano de pensar e se comunicar. Mas ela também é gerada, e transmitida –
culturalmente – de cima, uma viva e urgente incorporação da história, de visões de mundo, das
imagens e paixões de um povo. A língua de sinais é para os surdos uma adaptação única a um
outro modo sensorial; mas é também, e igualmente, uma corporificação da identidade pessoal e
cultural dessas pessoas. (p. 136)
É a partir do reconhecimento das peculiaridades lingüísticas dos surdos e do respeito aos
seus modos de construção e apropriação da linguagem que a escola bilíngüe para surdos precisa
repensar seu currículo da língua portuguesa e assumir politicamente a língua de sinais através
da sistematização do currículo de Libras, pois, para que a língua de sinais seja usada em toda
sua plenitude por todos, surdos e ouvintes, é preciso que ela se torne objeto de estudo
sistemático dentro dos espaços escolares.
Para tanto, é preciso reflexão sobre o status lingüístico da língua de sinais e da língua
portuguesa que habitam a escola para surdos, assumindo, como condição sine qua non para a
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
315
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construção de um currículo realmente bilíngüe, que o espaço lingüístico da escola é marcado
por conflitos de poder e valor sobre as línguas. Segundo Dorziat (1999), não é mais possível ter
a ilusão de que os espaços escolares, as técnicas e procedimentos de ensino são neutros, sem
influências ideológicas e conceituais.
Desse modo, é imprescindível que os professores ouvintes e surdos tenham o entendi-
mento da necessidade e respeito aos espaços das línguas. Assim, repensar o uso social e
educacional das línguas portuguesa e de sinais e seus contextos culturais de uso faz-se
necessário e urgente para que política e efetivamente as duas línguas se constituam democra-
ticamente na escola para surdos.
Além do mais, segundo Hoffmeister (1999), a completa acessibilidade formativa e
instrucional para os surdos só se dará com o aprendizado da língua majoritária através da escri-
ta. Para ele, “(...) há duas estratégias principais que são: usar uma língua para ensinar sobre
outra língua; (...) usar uma língua para ensinar informações/conteúdos” (p. 118).
No entanto, ainda, nos dias de hoje, no Brasil, poucas são as referências de sistematiza-
ção curricular para o ensino dessas línguas. Entendemos que duas ações são prementes para que
isto se efetive. A primeira, a de formação continuada dos instrutores de Libras, tanto no ensino
da língua como L1 para os surdos como no ensino para os ouvintes, pois, será através dela que
a autonomia teórico-metodológica se constituirá, tornando-os não apenas executores de lista de
conteúdos a serem trabalhados em sala, mas em pensadores, elaboradores reflexivos do cur-
rículo. Essa problemática da formação dos surdos para tornarem-se educadores e não “dadores”
de aulas língua de sinais é levantada por Lacerda, Mantellato e Lodi (2000):
(...) no Brasil, é difícil que a formação breve do instrutor surdo consiga contemplar todos os aspectos
desejados. A formação de um educador cônscio de seu papel de gerar situações discursivamente
interessantes e contextualizadas para seus alunos, levando em conta suas características e peculiaridades
para a aquisição da língua de sinais, é tarefa árdua e requer uma formação continuada e apro-
fundada. (p. 5)
Entendemos que não é cabível, no momento atual da educação dos surdos, esperar que
os instrutores tenham formação técnica ou em nível superior para depois entrar em sala de aula.
No momento, a melhor opção é a formação continuada, a reflexão sobre a ação, além de estudos
de cunho teórico e metodológico.
A segunda ação refere-se à contínua reflexão sobre o papel da língua portuguesa na vida
do surdo e como a escola bilíngüe significa e sistematiza essa língua. Para tanto, pensamos que
é necessário aprofundar as discussões teóricas sobre o ensino de língua portuguesa, particular-
mente a partir de uma perspectiva de ensino de L2, visando um novo dimensionamento
curricular dessa língua e das práticas pedagógicas em sala de aula.
As primeiras reflexões seguem para o entendimento conceitual da diferença de
aprendizagem de leitura em L1 e L2 para qualquer indivíduo. Numa perspectiva de ensino do
português como L2 para surdos, este conhecimento faz a diferença sobre a percepção e a
316
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compreensão que o professor tem sobre o surdo e sua relação com a língua portuguesa, sobre o
erro e sua função no processo de ensino-aprendizagem, sobre a autonomia leitora e por fim
sobre os resultados nos textos escritos dos surdos. Para Salles et al. (2002), a tarefa de adquirir
uma segunda língua consiste em “(...) domínio dos elementos do léxico, os quais trazem consi-
go informações sintáticas, semânticas e fonológicas, bem como das possíveis combinações
entre eles, o que resulta no conhecimento da boa ou má-formação (sintática, fonológica e
semântica) de seqüências” (p. 123).
Todas essas questões específicas das línguas constituem e são constituídas pelos contextos
de uso da língua. A língua oral ou a língua de sinais são línguas que existem na interação on
line, quaisquer ruídos, desentendimentos, confusões, se percebidos, podem ser desfeitos. A
língua escrita se constitui pela relação off line entre os sujeitos e sua existência não se limita a
sua natureza lingüística, mas ao social, ao político, ao ideológico. Para Karnopp (2002):
O ponto de partida é um entendimento da natureza da escrita como um ato político, social, mental
e lingüístico. Considero a escrita como uma prática social, inserida em relações sociais de uma
determinada comunidade, cada uma com suas próprias e complexas práticas convencionais e ideológicas
em que o indivíduo precisa encontrar identidade como escritor em que ele se sinta confidente e
confortável com a mesma. Argumento ainda que a escrita de surdos é freqüentemente estigmati-
zada, sendo que as produções textuais são consideradas 'erradas' conforme estabelece o português
padrão e, ainda, seus textos não são compreendidos a partir das relações autor-texto-leitor. (p. 56)
Assim, pontuamos os seguintes objetivos para o trabalho de extensão da UFCG na Edac
neste ano de 2004: 1) coordenar estudos teórico-metodológicos sobre o processo de ensino-
aprendizagem da língua portuguesa como L2 para os surdos; 2) definir um novo currículo de
Língua Portuguesa para a Edac; 3) orientar os instrutores de Libras da Edac nos planejamentos
das atividades de sala-de-aula e dos cursos de Libras oferecidos à comunidade escolar e de
Campina Grande, visando a formação continuada e em serviço dos instrutores; 4) iniciar o
processo de sistematização de uma proposta de currículo para o ensino de Libras, tanto para surdos
como para ouvintes; 5) participar dos encontros pedagógicos da Edac, a fim de refletir as questões
teórico-metodológicas referentes ao ensino de surdos, com toda a equipe pedagógica da Escola.
Metodologia
Desenvolvemos este trabalho através das seguintes ações, realizadas na Edac:
1. Para a discussão sobre os espaços das línguas envolvidas na Edac (Libras e
Português), participamos dos encontros pedagógicos da Edac, realizados quinzenalmente, com
toda a equipe pedagógica da escola. Nestes encontros, coordenamos estudos e debates sobre os
temas acima referidos, sempre que se faz necessário.
2. Para o aprofundamento teórico-metodológico sobre o ensino de Língua Portuguesa,
coordenamos sessões de estudo, a serem realizadas também quinzenalmente. Nestas sessões,
participam dez professoras que ensinam Língua Portuguesa, como polivalentes ou como
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
317
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regentes de disciplina. Os estudos acontecem a partir de textos teóricos, oficinas para elabo-
ração de propostas metodológicas e avaliação da execução dessas propostas.
A avaliação das propostas tem como base o registro de observações feitas pelas
professoras, como também pelas alunas extensionistas, que acompanham o trabalho desen-
volvido nas salas de aula.
3. A orientação aos instrutores de Libras é realizada em encontros semanais, para plane-
jamento das atividades de ensino de Libras nas salas de aula da Edac, bem como nos cursos
oferecidos a ouvintes da comunidade escolar e de Campina Grande. Ao longo dos planejamentos,
a partir da avaliação das atividades desenvolvidas em sala de aula, estamos iniciado o processo
de sistematização de uma proposta curricular para o ensino desta língua.
4. Além destas ações, temos encontros quinzenais com a equipe do projeto (professoras
coordenadora e orientadora e alunas extensionistas), para planejamento e avaliação contínua
das atividades do projeto.
Resultados e discussão
Ao assumirmos, desde 1995, a proposta bilíngüe para a educação de surdos, a primeira
grande mudança na organização curricular da Edac foi a inserção da Libras como uma dis-
ciplina e a perspectiva de ensino da Língua Portuguesa, na modalidade escrita, como uma
segunda língua. Apesar de implementarmos estas mudanças, que consideramos, até hoje, como
fundamentais, não havia amadurecimento teórico-metodológico suficiente, tanto por parte dos
ouvintes, como por parte dos surdos envolvidos neste processo, para compreendermos as reais
implicações de uma proposta bilíngüe, que realmente assuma os aspectos lingüísticos, culturais
e políticos dos surdos, no processo educacional.
Tudo era muito novo e incerto: a Libras; a Língua Portuguesa como L2; os status destas
duas línguas no espaço escolar; as relações que passaram a existir entre os professores ouvintes
e os novos instrutores surdos; a formação específica, tanto dos ouvintes como dos surdos, para
atuarem nessa perspectiva, entre outros. Apesar de todas as incertezas, optamos por não
esperar equacionar estas questões, para então iniciarmos as mudanças no processo educacional,
mas no próprio processo, dar respostas a elas.
Não temos dúvidas de que a educação dos surdos tem de ser bilíngüe. Muitas das
incertezas iniciais já se encontram melhor compreendidas e têm reflexos na prática pedagógica
da Escola. Outras, fruto das condições postas neste momento, estão sendo, agora, aprofundadas.
Dentre elas, o espaço, tanto instrucional como social, da Libras e da Língua Portuguesa.
Por este motivo, as ações deste projeto estão centradas nestas duas linhas, uma rela-
cionada à questão do ensino de Libras e a outra ao ensino de Língua Portuguesa.
Apresentaremos os resultados por linha de ação, ressaltando que este é um projeto que se encon-
tra em andamento e que, portanto, os dados são parciais.
a) Ensino de Libras: formação continuada dos instrutores
Ao propormos assessorar os instrutores surdos no planejamento das aulas de Libras,
existente como disciplina na Edac, partimos da preocupação com a não existência de uma orga-
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nização curricular de seu ensino, o que leva a uma falta de clareza sobre o papel dos instrutores
junto aos alunos e a um baixo status dessa disciplina, uma vez que não existe uma sistematização
e avaliação do processo de ensino-aprendizagem. Diferentemente dos demais componentes
curriculares (matemática, língua portuguesa, história, geografia e ciências), não há conteúdos
definidos por série e nem a exigência de avaliação, que permita diagnosticar o nível de apren-
dizagem e desenvolvimento da Libras por parte dos alunos.
Neste sentido, passamos a realizar, semanalmente, encontros com os quatro instrutores
de Libras da Edac e com a instrutora da escola de surdos de Gado Bravo, cidade próxima a
Campina Grande. A referida instrutora foi agregada ao grupo devido à assessoria que a UFCG,
também, presta a aquela escola.
Estes encontros dividem-se em dois momentos. O primeiro, é a discussão, a partir da
temática explorada pela escola, sobre o que pode ser estudado e pode configurar-se como con-
teúdo na disciplina de Libras. O segundo, é a organização do plano de aula para a semana e as
atividades a serem realizadas pelos instrutores em sala de aula.
Como resultados iniciais desta ação, estamos percebendo uma melhor compreensão, por
parte dos instrutores, sobre o fato de que a entrada deles em sala não pode ser espontaneísta e
que não é apenas para conversas em sinais, mas para ensinar conteúdos específicos, como
acontece em qualquer outra disciplina.
Planejar, executar e avaliar são ações que começam a ser compreendidas como
necessárias à prática pedagógica e estão relacionadas ao desempenho do professor. Além disso,
notamos uma preocupação, por parte destes instrutores, sobre a necessidade de se apropriarem,
cada vez mais, do conhecimento lingüístico da Libras.
Consideramos que dois fatores vêm contribuindo para a consciência de que é preciso
conhecer mais profundamente a língua, do ponto de vista lingüístico e pedagógico: 1) os próprios
planejamentos, uma vez que ao se eleger um conteúdo a ser desenvolvido em sala de aula,
ocorre o estudo teórico deste conteúdo; 2) o curso de formação de instrutores de Libras, que vem
sendo oferecido na UFCG e do qual esses instrutores fazem parte. Este curso é composto pelas
disciplinas de Libras, Língua Portuguesa, Didática e Prática de Ensino, ministradas pelas professoras
que também são responsáveis por este projeto, e conta com carga horária de 160 horas/aula.
Além destes fatores, percebemos que os avanços em relação a esta língua são frutos de
um processo de amadurecimento da comunidade surda e a da real apropriação da Libras por
parte dos surdos, levando a uma consciência não só lingüística, mas cultural dessa. A com-
preensão de que a Libras se constitui a partir de sinais oriundos das relações sociais e culturais
estabelecidas na comunidade e não de formas de comunicação familiar ou de pequenos grupos
de surdos, está levando a uma maior estabilidade da língua e a um cuidado com a distinção entre
Libras e LP, distanciando a primeira das formas de português sinalizado, tão utilizado em tem-
pos passados pelos professores ouvintes e incorporado, inocentemente, pelos surdos como
forma genuína da Libras.
b) Ensino do Português como L2: encontros de estudo com as professoras
Nesta linha de trabalho, temos dois objetivos. O primeiro é colaborar para a definição
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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dos espaços das línguas dentro da escola para surdos, pois, apesar dessa ser uma discussão
presente na educação de surdos e, também, na Edac, apenas a cerca de um ano começou a ser
sistematizada. Para tanto, participamos dos encontros pedagógicos da Escola, realizados
quinzenalmente, com toda a equipe técnico-pedagógica, nos quais: (1) promovemos discussões
teóricas sobre a questão dos espaços das línguas; (2) procuramos, coletivamente, estabelecer
ações que levem a uma nova prática educacional; (3) aproveitamos outras situações que surgem,
para provocar reflexões sobre esse assunto.
O segundo objetivo é contribuir na organização curricular do português como L2, pois,
nesse caso, a construção do currículo é necessidade pragmática da escola. Nesse sentido, pro-
movemos um grupo de estudo quinzenal, sobre questões teórico-metodológicas do ensino da
língua portuguesa para surdos, dos quais participam as professoras, que estão diretamente
envolvidas com este ensino.
Quanto ao uso das línguas, a equipe da Edac professa entender que a Libras deve
ocupar, cada vez mais, todos os espaços de interação educacional ou social dentro da escola,
sendo que, toda vez que estiver um surdo presente, a comunicação deve acontecer através da
Libras. Assim, conseguimos uma mudança de atitude, por parte dos ouvintes, nas interações que
ocorrem no cotidiano da Escola, além de um avanço na compreensão da Libras como forma
genuína de interação e não mais como mero instrumento pedagógico. No entanto, percebemos
que ainda surgem conflitos em algumas situações extra-classe, principalmente quando estas
envolvem a participação de professores ouvintes e instrutores surdos, como, por exemplo, nos
encontros pedagógicos, que são realizados em Português, apesar do entendimento acima
exposto e dos apelos dos instrutores surdos para que ocorram em Libras, pois, apesar da
presença de intérpretes, a participação desses fica limitada e empobrecida.
Entendemos que fatos desta natureza fazem parte das relações de poder estabelecidas
entre ouvintes e surdos, sendo que serão devidamente equacionadas quando os surdos
alcançarem níveis acadêmicos de maior prestígio educacional, comporem a maioria da equipe
da escola, entre outros fatores. Neste momento, teremos uma escola de surdos e não uma
escola para surdos, alcançando-se, assim, realmente uma educação bilíngüe e bicultural plena.
Estamos caminhando, também, na elaboração de uma proposta curricular para o ensino
da língua portuguesa como L2 e na sistematização de uma prática pedagógica que julgamos
mais adequada ao ensino desta língua para surdos. Os estudos teóricos sobre concepções de
ensino de L2, fortalecem o entendimento de que o processo de aprendizagem ocorre a partir das
interações sociais que o aluno estabelece com o material escrito, baseadas em seu conhecimento
textual, lingüístico e de mundo, e mediadas pela Libras. Entendemos, também, que é a partir do
contraste das duas línguas, tornando claro as semelhanças e diferenças existentes entre elas, que
avanços significativos no aprendizado da L2 podem ocorrer. Finalmente, por entendermos, de
forma mais clara, ser o surdo um ser por excelência vidente, o uso de material visual de apoio
vem se tornando imprescindível na prática de sala de aula. Assim, materiais pedagógicos que
envolvem o uso de figuras, de vídeos, de desenhos de sinais da Libras, de fotos etc., vêm sendo
elaborados e vivenciados, não só com o objetivo de enriquecer as aulas, mas de construirmos
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uma proposta pedagógica para o ensino de língua portuguesa, que possa a vir ser compartilhada
por todos da Edac e de outras instituições de ensino para surdos.
Conclusão
A Edac, desde sua criação, em 1983, constitui-se como campo extensão, pesquisa e de
estágio para professoras e alunos do curso de Pedagogia, especialmente da Habilitação em
Educação de Deficientes da Audiocomunicação, da UFCG. Este intercâmbio permanente
permite um enriquecimento mútuo, sendo, na verdade, impossível traçar as histórias da Escola
e da Habilitação de forma independente. Muitas das conquistas no campo educacional dos
surdos, em Campina Grande, são frutos de estudos, reflexões sobre a prática pedagógica e lutas
realizadas por estas duas instituições.
Assim, também, vem acontecendo no aprofundamento das questões teórico-metodológicas
referentes ao ensino de Libras e de Língua Portuguesa. Vivenciamos, conjuntamente, todo o
processo, temos o conhecimento efetivo da pluralidade de questões existentes nesta instituição
escolar, o que nos permite afirmar que mudanças significativas, principalmente de atitudes, em relação
à surdez e ao ensino de surdos vêm ocorrendo tanto por parte dos ouvintes como dos surdos.
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2001.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Extensão universitária: uma possibilidade de formação mais emancipadora na
área da saúde
Luciana M. Cerqueira Castro, Professora Assistente do Instituto de Nutrição
Ruben de Araújo Mattos, Professor Adjunto do Instituto de Medicina Social
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
Resumo
Este trabalho pretende oferecer caminhos de compreensão para as potencialidades conti-
das em algumas experiências de extensão, ou seja, suas características emancipadoras e seu papel
na formação dos alunos. Atualmente, as universidades vivenciam múltiplos desafios colocados
tanto pela sociedade, quanto pelo Estado. Estes desafios dizem respeito ao questionamento da
sua hegemonia na produção de conhecimento e de sua legitimidade. Para buscar saídas para
esta crise é preciso, mais que uma análise sobre sua estrutura ou conjuntura, mergulhar no fazer
cotidiano da universidade procurando germes de mudanças, experiências que tragam para o
debate uma maneira de se fazer formação que não seja aquela centrada no modo moderno de
conhecer, onde a razão se separa dos sentimentos, onde as relações são quantificáveis e onde a
experiência foi silenciada. Podemos perceber, que a contribuição das atividades para a formação
do aluno se dá em dois níveis: formação técnica e aquelas mais voltadas para a qualidade das
relações, baseadas no respeito e na criação de vínculos. Foi possível observar também que a
concepção de saúde presente nas propostas não reduz o homem às suas doenças, e que o conheci-
mento produzido é menos disciplinar e mais contextualizado, concretizando-se na articulação
com outras formas de conhecimento
.
Palavras-chave: extensão universitária, conhecimento emancipador, formação em saúde
323
Gestão da extensão
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Introdução
A universidade vem sendo alvo de inúmeros estudos nos últimos anos, principalmente,
sobre a sua capacidade de sobrevivência, sua autonomia e a necessidade de avaliação.
Atualmente, vivencia múltiplos desafios colocados tanto pela sociedade, quanto pelo Estado.
Estes desafios ou crises dizem respeito ao questionamento da sua hegemonia na produção de
conhecimento e de sua legitimidade. A crise da universidade está também, segundo Buarque,
“em muitos casos, na perda da capacidade para definir corretamente os problemas aos quais a
formação e as pesquisas devem servir” (BUARQUE, 1994, p. 225), ou seja, para que, para
quem e como devemos produzir e difundir conhecimento.
Todas estas “crises” geram tensões tanto no relacionamento da universidade com o
Estado e a sociedade, como no interior da própria instituição. Urge então que pensemos as
saídas para estes pontos de tensão. A universidade precisa se repensar, colocar a público seu
projeto para se fazer entender. Ela é uma instituição da sociedade e a ela tem que se referenciar.
E é no sentido de busca de saídas para a crise do conhecimento contemporâneo que procuramos
estudar a extensão universitária e sua forma de produção de conhecimento.
A ciência moderna tem sido pouco cuidadosa na análise das conseqüências dos atos pro-
duzidos por ela. É essa ausência que permite a exploração cientificamente fundada da natureza
até a destruição da terra e do homem pela opressão. O conhecimento produzido não é, em
nenhum momento, neutro e deve ser pensado em concomitância com suas conseqüências para
que os caminhos possam ser reformulados.
Este trabalho tem como objetivos compreender as potencialidades contidas em algumas
propostas de extensão da área da saúde, ou seja, as características agregadoras e emancipado-
ras e seu papel na formação dos alunos, que se quer emancipador, a concepção de saúde
presente na proposta e a relação dos projetos com a política da sua área de atuação.
O propósito de empreender um estudo sobre as características dos projetos de extensão,
dentre elas o potencial emancipador das propostas, nos remete ao conceito de conhecimento-
emancipação de Boaventura Santos (2001). O autor considera como emancipador aquele
conhecimento que pensa as conseqüências de seus atos, nos quais a relação sujeito-objeto é substi-
tuída pela reciprocidade entre os sujeitos e onde a solidariedade e a participação estão presentes.
Segundo Santos, a ciência moderna constitui-se contra o senso comum, o qual, se por um
lado possibilitou o desenvolvimento científico, por outro privou o indivíduo de participar
“enquanto atividade cívica no desvendamento do mundo” (SANTOS, 2000, p. 224). O
conhecimento emancipação, ao tornar-se senso comum, não despreza o conhecimento que
produz tecnologia, mas entende que tal como o conhecimento deve traduzir-se em auto-
conhecimento, o desenvolvimento deve traduzir-se em sabedoria de vida.
A experiência foi silenciada na ciência moderna e no lugar dela aparecem os experi-
mentos. No caso da extensão, o que percebemos é que ela produz conhecimento a partir da
experiência e assim tem uma capacidade de narrar sobre o seu fazer. O conhecimento narrativo
deixa sempre o final aberto para a possibilidade de se criarem outros finais ou se iniciarem
outros processos. Assim, a forma de produção da narrativa não pretende ser verdadeira
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objetivamente, mas ser também subjetiva. Além disto, o que se verifica na extensão é um fazer
que sempre pressupõe a presença de um outro, que não é somente o aluno ou professor, mas um
ouvinte.
Esta ampliação de cenário permite uma ampliação da experiência onde narrador e
ouvinte se misturam e se revezam nos papéis. Quando a experiência é construída numa relação
emancipatória, nascem outros narradores e outros ouvintes.
Será que no berço da ciência há espaço para o desenvolvimento de outras formas de
saber que tenham como princípios os do conhecimento-emancipação? Seria a extensão um
dos loci potenciais de construção do conhecimento emancipatório? Como reconhecer estas
dimensões nas práticas extensionistas?
A História da extensão está ligada à origem das universidades européias, caracterizando-
se por campanhas de saúde e assistência às populações carentes e apontando para uma atividade
pensada para redimir a universidade do seu distanciamento de um determinado grupo social que
não tinha acesso a ela. O que se nota desde a sua origem é que, além do caráter opcional, a
extensão sempre apareceu como a maneira de aproximar a universidade da população, princi-
palmente de forma assistencial, esvaziada de qualquer significado emancipatório, mas como
uma forma de realização das políticas de governo. Porém, existem avanços na reflexão sobre a
extensão universitária, e os questionamentos feitos através dos anos trazem para o debate
acadêmico a discussão de sua verdadeira função e quais deverão ser suas características.
Não queremos com isso subscrever a tese de que a extensão universitária é a articuladora da
universidade com a sociedade e que a redenção da universidade se fará através dela, pois este é
um assunto para o ensino, a pesquisa e a extensão.
Na área da saúde, qual seria a atribuição das universidades e qual o papel da extensão
universitária, já que é tarefa do Estado a oferta de serviços, a promoção e a recuperação da
saúde?
A construção efetiva de um sistema de saúde não excludente, equânime, e porque não
dizer, resolutivo, tem sido o maior desafio colocado para o campo da saúde pública nos últimos
10 anos e ainda o será na entrada deste novo milênio.
Mas como a extensão pode contribuir para a formação na área da saúde?
A prática é grandemente influenciada pela formação profissional que, sob a concepção
mecanicista e economicista do processo saúde/doença, toma o corpo separado da mente como
objeto, cuja preocupação principal é a produtividade e o lucro. A matriz de formação dos profis-
sionais de saúde é influenciada pela racionalidade científica ocidental,caracterizada justamente
pela fragmentação do homem.
Os desafios colocados para a saúde pública passam, desde a formação de profissionais,
produção e reprodução de conhecimentos, até a produção, distribuição e o consumo de bens e
serviços.
Entendemos que à universidade cabe formar recursos humanos comprometidos com
as necessidades sociais e construção de saberes que tenham os princípios do SUS como
fundamento da sua ação (eqüitativo e inclusivo), bem como produzir conhecimentos relevantes
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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e novas metodologias. Ela pode contribuir também para a mudança da dinâmica de organização
dos sistemas de saúde, instituindo novos modelos, mais específicos, definindo prioridades, e
isso deve ser feito, de preferência, através da sua participação em redes intersetoriais que
contribuam para a definição de políticas, planos, projetos que ajudem a superar as defasagens
em saúde.
No caso da saúde, há tempos é solicitado à universidade um repensar sobre o processo
de formação dos profissionais da área da saúde de maneira que possam prestar uma atenção
mais integral e humanizada, que trabalhem em equipe, que saibam tomar decisões, considerando
não somente a situação clínica individual, mas o contexto em que vivem os pacientes (FEUER-
WWERKER, L. C. M., 2001).
A extensão universitária é propícia para este tipo de aprendizagem e pode ser uma
estratégia utilizada para esta experimentação, pois possibilita o olhar da universidade para as
transformações que ocorrem no cotidiano.
Assim, se a crise que a universidade enfrenta passa pela crise do conhecimento contem-
porâneo e, sendo a universidade um espaço de produção de conhecimento, podemos pensar:o
que a extensão traz para a crise?
A nossa intuição é de que em alguns lugares, dentre eles a UERJ, estão acontecendo
atividades que estão produzindo um outro tipo de conhecimento. Alguns chamarão de utopias,
pequenas utopias já presentes no cotidiano universitário.
O caminho percorrido
Este texto faz parte do projeto de doutorado em saúde coletiva, apresentado ao Instituto
de Medicina Social da UERJ para a qualificação.
Para atingir os objetivos foi necessário mergulhar na documentação produzida pelos
projetos cadastrados na Sub-reitoria de Extensão e Cultura da UERJ e realizar entrevistas com
alunos (15), coordenadores (10) e usuários (8) de projetos.
Optamos pelos projetos da área da saúde, nossa área de formação, e selecionamos 10
projetos, dentre os 130 disponíveis, de unidades acadêmicas e administrativas diferenciadas e
cujas documentações informavam da articulação dos projetos de extensão com o ensino e/ou
pesquisa.
Após a realização das entrevistas e de suas sínteses, os eixos de análise e as categorias
foram definidos de forma que pudessem ser comuns à maioria dos depoimentos. Apresentamos
aqui um recorte do trabalho desenvolvido e algumas categorias estudadas:
a) concepção de extensão; b) processo de formação, enfocando a relação entre os
sujeitos: emancipadoras ou reguladora, formação de novas comunidades interpretativas e o
estímulo à reflexão; c) concepção de saúde presente na proposta e d) relação com as políticas
da área de atuação.
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O que encontramos nas falas e nos documentos
Concepção de extensão
Para a maioria dos membros dos projetos a extensão se apresenta como a possibilidade
da universidade interagir com a população e, por conseqüência, a possibilidade, parece que
única, de os alunos terem contato com o mundo fora da universidade.
Esta visão se por um lado reforça o senso comum de que esta é tarefa da extensão, de
outro, desresponsabiliza o ensino e a pesquisa de também se aproximarem desta sociedade. A
palavra sair foi usada por vários membros dos projetos para designar tanto a necessidade de
fazer extensão, quanto para qualificá-la. Outra expressão muito utilizada ao descrever a extensão
foi a de que ela é “alguma coisa fora” da universidade, e porque não, fora do currículo. Esta
concepção está próxima da simbologia da mão única, utilizada para conceituar a extensão.
Significa que a universidade sai e leva o conhecimento produzido dentro dela à comunidade
sem o reconhecimento de que é possível também aprender com a comunidade. Esta é uma linha
de pensamento que reforça a concepção autoritária do fazer acadêmico.
Outro aspecto levantado diz respeito ao lugar da extensão na universidade. Aparecendo
como aquele que, apesar de ser importante e de ser a tarefa que “dá mais trabalho”, não é qualifica-
do o suficiente pelas direções ou colegas de trabalho e não possui financiamento. Mas, apesar
de ser vista como uma atividade secundária no rol das tarefas ilustres da universidade, a extensão
é citada como aquela que possibilita o contato com um “outro”, que não o aluno ou professor,
e pressupõe um trabalho coletivo.
O que se observa nos projetos em geral é a superficialidade ou inexistência da discussão
conceitual sobre a extensão, levando a ambigüidades, pouca clareza e a ausência de chaves de
leitura para a extensão.
Processo de formação
Todos os projetos possuem alunos, bolsistas e/ou voluntários envolvidos na proposta,
sendo que alguns servem de campo de estágio para disciplinas teóricas. A forma de envolvi-
mento dos alunos e professores se diferencia basicamente nos aspectos relacionados à maior ou
menor capacitação teórica, o que pode resultar em maior ou menor contribuição para a
formação técnica.
Ficou evidenciada na maioria das propostas a preocupação em divulgar os conhecimentos
produzidos no projeto através de participação em congressos e seminários, sendo que os alunos
já foram co-autores e apresentadores dos trabalhos. Foi observado também que os projetos ajudam
a aprofundar temáticas pouco desenvolvidas no curso de graduação.
Durante muito tempo a extensão esteve muito centrada no ativismo, próprio de uma
função que nasceu voltada para o mundo externo, “onde o valor não se encontra[va] no número
de linhas/artigo publicados, mas única e exclusivamente na possibilidade ou não de atendimento
às demandas da comunidade externa” (GUIMARÃES, 1997, p. 58). Porém, é possível perceber
algumas mudanças. As atividades vêm incorporando a reflexão sobre o seu fazer e caminhando
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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para uma sistematização e difusão do conhecimento produzido. Conhecimento este fruto do
encontro entre alunos, comunidade e professores. Por outro lado, a dificuldade em produzir e
divulgar o conhecimento de forma mais ampla parece estar associada ainda ao desejo de fazê-
lo vinculado a um outro modo de produção centrado na dinâmica da ciência moderna, que silencia
sobre a experiência.
Em todos os projetos foi possível perceber a capacidade em contribuir para o amadureci-
mento e formação cidadã do aluno. O contato do aluno com a comunidade externa à UERJ, via
projeto de extensão, é relatado como uma experiência que talvez não fosse possível se somente
cursassem as disciplinas tradicionais de seu curso. A ênfase dada pelos alunos diz respeito ao
aprendizado da vida, de cidadania, de relações mais horizontais entre profissionais e usuários.
A fala do aluno exemplifica essa idéia: “a gente alia essa coisa de aprender a ser humano com
a aprendizagem da técnica” ou, ainda, na extensão é [o trabalho] “tanto voltado para a vida
quanto para o acadêmico”.
É visível também o grau de compromisso dos alunos com o trabalho desenvolvido e
a capacidade de falar sobre ele. A formação da consciência crítica não está diretamente
relacionada somente à formação teórica, e sim de como as relações são estabelecidas dentro
do projeto.
No conjunto, temos diferentes formas e graus de apropriação, pelos grupos, dos conheci-
mentos produzidos nas experiências. Estas características de apropriação têm traços mais ou
menos emancipatórios e encaminham para a autonomia. Grosso modo, os projetos que têm mais
capacidade de apropriação dos conhecimentos são aqueles que tematizam de uma maneira abso-
lutamente clara as questões da autonomia, da preocupação com o outro e com a solidariedade.
Relação com as políticas
Ao analisar de que forma se dá a relação dos projetos com as políticas, verificamos que
4 projetos têm uma interlocução direta com os formuladores de políticas. De outro lado, alguns
projetos que não têm interlocução com os formuladores de políticas públicas, seja municipal ou
estadual, e nem com setores específicos dos órgãos públicos que são responsáveis pelas ações
na sua área de atuação, têm recebido, para capacitação, profissionais através de uma demanda
individual, vinculados ou não ao sistema de saúde público. Outros, devido à temática de tra-
balho do projeto, conseguem ter uma influência, de forma indireta, nas políticas públicas da
área. Esta capacidade está porém mais relacionada à temática de trabalho que permite uma
interlocução mais direta.
Acreditamos que projetos com um recorte por grupo alvo mais definido e com uma
equipe mais consolidada têm capacidade de fazer a interlocução externa com mais vigor.
No caso da saúde e da formação em saúde, o envolvimento político com projetos de
reforma da saúde tem induzido a propostas de reatualização do ensino e, por outro lado, a realiza-
ção de análises contínuas sobre o processo político do contexto estimula a instituição a costurar
alianças e proceder a articulação política necessária à construção de sua missão institucional
(PAIM e ALMEIDA FILHO, 1998).
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Para que a universidade possa ter uma maior participação no direcionamento técnico das
ações, a sua gestão não pode ficar somente no âmbito do gerenciamento das atividades, “mas é
preciso também administrar as relações dessas atividades com a realidade social onde elas estão
inseridas” (BOTOMÉ, 1996, p. 103) e aí está o poder político local.
A pouca interlocução com os formuladores de políticas nos leva a uma questão: a de que
a universidade é “ruim de comunicação” (RIBEIRO, 2003, p. 65). Segundo Ribeiro, isto não se
restringe às relações da academia com o que está fora dela mas também internamente. Segundo
ele “o que fazemos com o que está fora fazemos dentro”. O olhar para fora ajudaria neste caso
a explicitar o implícito. Ele afirma ainda que o que está em jogo é uma concepção de universi-
dade em que o diálogo é “raro e ralo”.
De uma forma geral, o que percebemos nos projetos é que para participar do debate
político é necessário ou estar na rede de debate sobre o tema e ter canais para fazer circular o
conhecimento produzido ou a proposta ter sido planejada para programar ações intencionais de
influência sobre o assunto ou de monitoramento sobre o assunto.
Concepção de saúde
Os 10 projetos analisados apresentam-se de forma diferenciada quanto à forma de cuidado
com a saúde. Assim, temos projetos que fazem atendimento clínico, que desenvolvem ações de
promoção da saúde através de atividades grupais e que realizam diagnósticos laboratoriais,
sendo que um mesmo projeto pode desenvolver mais de uma atividade.
O que encontramos na prática cotidiana e nos discursos dos atores dos projetos de extensão
a respeito da concepção de saúde nos leva a uma abordagem que, também pensando a doença
e o sofrimento, não se volta somente para a uma intervenção no corpo, ou seja, reducionista. A
relação percebida na maioria dos projetos é normalmente mais horizontalizada, de forma que o
profissional discuta os processos e não determine as regras a serem seguidas por aqueles que
estão adoecidos. Os sujeitos, neste caso, passam a ser vistos também como aqueles que possuem
desejos e sonhos, e as práticas trazem no seu bojo as relações de solidariedade e de ressignifi-
cação da saúde, apontando para características transdisciplinares, pois entendem que as neces-
sidades de saúde dos indivíduos se diferenciam tanto no seu aspecto qualitativo quanto quanti-
tativo, e pressupõem para sua abordagem uma interação entre os sujeitos.
Um outro fator importante percebido nos projetos foi a criação de vínculos entre alunos,
professores e comunidade-usuários. Isto traz para dentro da universidade e portanto para um dos
espaços de formação, outras dimensões importantes do processo de cura como a sensibilidade,
que perdeu espaço com o domínio da razão.
Assim, podemos colocar que a concepção de saúde presente nas experiências analisadas
é um signo que se relaciona com a perspectiva emancipatória.
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Considerações finais
A construção de uma nova universidade no Brasil, sintonizada e comprometida com os
problemas cruciais da sociedade, precisa na verdade da reforma de pensamento, precisa ser pro-
jetiva e emancipatória, deve cultivar a razão crítica, a arte de gestar, alimentar e gerir os valores
inalienáveis da condição humana: o direito à vida, à informação, aos benefícios do progresso,
da cultura e da felicidade (MORIN, 2000).
No entanto, é preciso ver também com outros olhos algumas iniciativas presentes nas
experiências da universidade. Se não é verdade que a universidade recuperou, se é que no Brasil
ela teve, a sua dimensão mais humanística, também não é verdade que ela se desobrigou
totalmente desta tarefa. Prova disso são as experiências de extensão que estudamos. Com todas
as mazelas, com algum rastro de assistencialismo, com necessidade de se firmar no campo
político, ainda assim elas mostram que é possível se enveredar por outros caminhos.
A extensão universitária, pelas características apresentadas através dos projetos, tem
possibilidade de se concretizar como uma prática acadêmica essencial: coloca-se como um
espaço estratégico para promover práticas integradas entre várias áreas do conhecimento, para
isso é necessário criar mecanismos que favoreçam a aproximação de diferentes sujeitos, favore-
cendo a multidisciplinaridade; potencializando, através do contato de vários indivíduos, o
desenvolvimento de uma consciência cidadã e humana e assim a formação de sujeitos de
mudança, capazes de se colocarem no mundo com uma postura mais ativa e crítica.
Não existe receita e depende basicamente de professores e alunos dispostos, de
gestões que estimulem a prática mais integrada, que valorizem o aprender a ser e a conviver. É
necessário financiamento sim, são necessárias condições de infra-estrutura mínimas para o
encontro dos sujeitos das propostas. Ou seja, é necessário um maior compromisso da instituição
para melhor efetivação das atividades.
Após o estudo, a esperança ainda permanece, pois algumas práticas retêm o germe da
humanização, mesmo que ainda presentes resquícios da regulação, brigam com seus próprios
defeitos, às vezes nem sentidos, mas justificados em ações tidas como científicas, mas que
tentam diminuir a discriminação e a dominação. Vínculos ainda estão sendo criados e quando
permanecem ainda algumas brasas acesas é possível reacender o fogo que os manterá vivos.
Nossas ilusões e idéias diretoras deverão ser reconstruídas, nosso compromisso com o novo
deve ser estimulado, nossos valores deverão ser rearranjados.
É a minha utopia, uma utopia realista, pois se não morreu de tudo, ainda não morreu, está
sufocada, desnutrida numa espera com esperança.
330
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331
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As práticas curriculares da extensão universitária
Edineide Jezine, Doutora em Sociologia
Universidade Federal da Paraíba – UFPB
Resumo
A Extensão Universitária como uma das funções que compõem os pilares da instituição
universidade tem sido alvo de críticas e proposições, cortejada por diversos setores da sociedade
tem assumido ao longo da história diferentes concepções teóricas e ideológicas, que influenciam,
inclusive, na própria concepção de universidade. As Análises dos discursos dos estudiosos do tema
apresentam abordagens teóricas que fundamentam a extensão como função social da universi-
dade, outrossim, no contexto da globalização, abertura de mercado e privatização das institu-
ições públicas, uma nova abordagem teórica e prática tem se imposto à extensão universitária,
qual seja, a mercadológica. Nesse sentido, torna-se importante analisar as abordagens de extensão
como função acadêmica da universidade, na perspectiva de uma ação incorporada ao que fazer
universitário, estando no mesmo patamar de atividade curricular que o ensino e a pesquisa.
Destarte, a extensão universitária é parte orgânica do currículo na formação de educadores e
profissionais, pois a partir de sua dinâmica social se dá a produção das relações interdiscipli-
nares entre as práticas de ensino e pesquisa, caracterizando-se como o elo de integração do
pensar e fazer, da relação teoria-prática na produção do conhecimento
.
Palavras-chave: extensão universitária, função social, teoria-prática
Introdução
A abordagem teórica que defende a extensão como função acadêmica da universidade
objetiva integrar ensino-pesquisa, e a que incorpora a extensão universitária às práticas de
ensino e pesquisa parte da crítica à extensão voltada para prestação de serviços em uma
perspectiva assistencialista, qual seja, a extensão voltada para o atendimento das necessidades
sociais das camadas populares.
No contexto histórico dos últimos 30 anos, no Brasil, mudanças políticas, econômicas e
sociais têm ocorrido, influenciando nas discussões teóricas de caracterização ou não da extensão
como uma função da universidade, formulando-se três concepções de extensão universitária,
quais sejam: a concepção assistencialista, a acadêmica e a mercantilista, que construídas
historicamente se corporificam no exercício da prática curricular das atividades universitárias e
expressam diferentes perspectivas ideológicas de universidade-extensão universitária e da
relação universidade e sociedade.
A diversidade teórica aponta para a importância de se apreender a preponderância
ideológica que norteia as práticas extensionistas na atualidade. Para tanto, a base empírica desta
análise foi a home page das universidades públicas federais, materializada em relatórios, projetos,
planos de ação, divulgação de eventos e outros. Estes dados, considerados discursos, sintetizam
332
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orientações institucionais adotadas em confronto com sentidos circulantes na sociedade
brasileira, foram primeiramente examinados com vistas a apreender sentidos, temas, con-
cepções ideológicas predominantes, mesmo considerando que cada universidade, cada prática
curricular, tem sua própria dinâmica e finalidade em cada momento histórico.
A concepção assistencialista
Autores como Botomé (1996), Morais (1996), Marcovitch (1998) defendem a incorpo-
ração da extensão universitária às práticas de ensino e pesquisa, pois consideram um equívoco
a existência da extensão universitária, uma vez que a criação de uma terceira função na
universidade não supriria as lacunas deixadas pelo ensino e pela pesquisa.
A crítica dos autores centra-se na extensão que evoca a si responsabilidades de
intervenção extramuros a partir do argumento do “compromisso social”
1
da universidade,
muitas vezes substitutivos da ação governamental. Refere-se à influência do modelo americano
de extensão cooperativa,
2
incorporada à prática universitária como prestação de serviços sob a
forma de cursos práticos, conferências e serviços técnicos e assistenciais.
3
Assim, a prestação de serviços como uma das atividades próprias da extensão que pretende
promover a integração universidade sociedade é incluída como uma função da universidade,
constituindo um espaço em que se agregam diversas e diferentes ações, criando a idéia de multiver-
sidade,
4
que inclui variedade de ações, desenvolvimento da ciência aplicada e participação nos
problemas regionais, de modo que as raízes da extensão ainda fertilizam a prática atual exten-
sionista, em que se estabelece como prioridade, a busca de solução para os problemas sociais e
a relação universidade e sociedade tende a ser unívoca, girando em torno do “atendimento de
necessidades sociais emergentes”, como fica patente na análise de algumas universidades públicas
federais através dos seus programas, atividades e eventos organizados, que atendem carentes e
desempregados, promovendo cursos profissionalizantes, assistência técnica e serviços assistenciais.
Embora persista a concepção assistencialista em alguns projetos de extensão, observa-
se, no panorama das atividades extensionistas das universidades federais, uma mudança de
concepção, que se expressa em uma nova postura para a extensão universitária, pautando-se
pelo princípio educativo, entendido por Gramsci (1989, p. 130) como a relação teórico-prática,
proporcionando um novo pensar e fazer, capaz de desenvolver uma concepção histórica de
sujeito e sociedade.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
333
1
O compromisso social na concepção assistencialista é compreendido como o atendimento às necessidades básicas de
educação, saúde e cultura das comunidades carentes.
2
É a ação extensionista praticada através de programas de assistência técnica aos agricultores, programa de economia
doméstica e de organização da juventude, realizado principalmente pelas universidades Land Grant. Ver GURGEL,
1986, p. 61.
3
Já se fazia referência à extensão sob a forma de prestação de serviços no Estatuto das Universidades Brasileiras (1931)
e posteriormente, foi incluída na Lei nº 5.540/68. Ver. TAVARES, 1997 e FÁVERO, 2000.
4
No Brasil a idéia de multiversidade foi experimentada com a Universidade de Brasília, na década de 60, que
pretendia aglutinar a função formadora, de cultura básica, de preparação de especialista, de curso de pós-graduação
e pesquisa, a idéia de serviços e a integração com a sociedade. Ver JEZINE, 2001, p. 127.
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Nessa perspectiva, a extensão universitária, pretende deixar de ser uma função esporádica
e assistemática para caracterizar-se como uma função acadêmica, que compõem o pensar e o
fazer universitário, constituindo-se parte integrante do currículo em uma perspectiva de inter-
disciplinaridade e indissociabilidade entre ensino e pesquisa. Para tanto, Serrano (2001, p. 26)
alerta para a necessidade dessa consolidação, apontando indicadores para essa nova prática:
A institucionalização de uma extensão verdadeiramente acadêmica exige, naturalmente, uma
intensa articulação interna e externa às universidades; tanto na formulação de uma política
pedagógica onde de fato a indissociabilidade entre a extensão, o ensino e a pesquisa se materializem;
quando na formulação de parcerias de dimensão interinstitucional, e na integração com os
agentes sociais dos projetos de extensão.
Assim, alicerçado no princípio da extensão como um processo educativo, os projetos de
extensão baseados na concepção acadêmica objetivam relacionar os diversos saberes, em uma
íntima relação da produção do conhecimento com a realidade social.
A função acadêmica da extensão
Na busca de superação da dimensão de prestação de serviços assistencialistas, a extensão
universitária é redimensionada com ênfase na relação teoria-prática, na perspectiva de uma
relação dialógica entre universidade e sociedade, como oportunidade de troca de saberes. Esses
pilares passam a integrar o conceito de extensão formulado pelo Fórum Nacional de Pró-
Reitores de Extensão Universitária das Universidades Públicas Brasileiras, em 1987, e reafir-
mados no Documento Universidade Cidadã de 1999 e no Plano Nacional de Extensão de 2000,
5
cabendo destacar neste último documento o objetivo a seguir:
Reafirmar a Extensão universitária como processo definido e efetivado em função das exigências
da realidade, indispensável na formação do aluno na qualificação do professor e no intercâmbio
com a sociedade, o que implica em relações multi, inter ou transdisciplinar e interprofissional.
(apud. NOGUEIRA, 2000, p. 121)
A concepção de extensão como função acadêmica se opõe à idéia de que constitua uma
atividade menor na estrutura universitária, a ser realizada por professores sem titulação, nas
sobras de tempo disponível, e que o trabalho junto às comunidades carentes é uma soli-
dariedade individual. Diante dessa nova visão de extensão universitária, esta passa a se
constituir parte integrante da dinâmica pedagógica curricular do processo de formação
e produção do conhecimento, envolvendo professores e alunos de forma dialógica, pro-
movendo a alteração da estrutura rígida dos cursos para uma flexibilidade curricular que
possibilite a formação crítica.
334
5
Ver NOGUEIRA, 2000.
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A adoção dessa concepção pelas diferentes universidades não as conduz a relegar a
prestação de serviços, nem o compromisso social da universidade com as classes populares.
Assim, o caminho não é unilateral da universidade para a sociedade, mas há a preocupação em
auscultar as expectativas produzidas pela sociedade, bem como em valorizar o contexto em que
as atividades se inserem, na busca de uma relação de reciprocidade, mutuamente transfor-
madora, em que o saber científico possa se associar ao saber popular, a teoria à prática, em um
constante movimento dialético permeado pela realidade social e a experiência do pensar e fazer.
Observa-se que a perspectiva ideológica não é mais a mesma da concepção assis-
tencialista, embora se priorize a comunidade carente, trabalha-se junto a ela no sentido de
potencializar a sua organização política e autonomia. Assim, tanto a universidade como a
extensão universitária ganham um novo sentido, deixam de ser redentoras da sociedade e
passam a ser instrumento capaz de promover a organização política, social e cultural dos
grupos desagregados, a partir da relação entre a alta cultura e cultura popular, entre teoria
e prática, estabelecendo o “nexo instrução-educação”, que para Gramsci (1989, p. 131) é
(...) representado pelo trabalho vivo do professor, na medida em que o mestre é consciente dos contrastes
entre o tipo de sociedade e de cultura que ele representa e o tipo de sociedade e cultura represen-
tado pelos alunos, sendo também consciente de sua tarefa, que consiste em acelerar e em disciplinar
a formação da (criança) conforme o tipo superior em luta com o tipo inferior.
Os princípios da integração ensino-pesquisa, teoria e prática que embasam a concepção
de extensão como função acadêmica da universidade revelam um novo pensar e fazer, que se
consubstancia em uma postura de organização e intervenção na realidade, em que a comunidade
deixa de ser passiva no recebimento das informações/conhecimentos transmitidos pela univer-
sidade e passa a ser participativa, crítica e construtora dos possíveis modos de organização e
cidadania.
A confirmação da extensão como função acadêmica da universidade não passa apenas
pelo estabelecimento da interação ensino e pesquisa, mas implica a sua inserção na formação
do aluno, do professor e da sociedade, na composição de um projeto político-pedagógico de
universidade e sociedade em que a crítica e autonomia sejam os pilares da formação e da
produção do conhecimento. Tarefa que se torna desafiante para a extensão, pois sem ter a
função específica do ensino, deve ensinar, sendo elemento de socialização dos conhecimentos.
E sem ser pesquisa, deve pesquisar para buscar os fundamentos das soluções dos problemas
da sociedade. Nesse sentido, a interação ensino-pesquisa-extensão são os pilares que alicerçam
a formação humana/profissional, bem como a interação universidade e sociedade, no cumpri-
mento da função social da universidade.
Assim, a extensão como uma função da universidade, objetivando se firmar a partir da
concepção acadêmica, inserida no contexto de contradições inerentes ao próprio processo de
produção do conhecimento em uma sociedade capitalista, busca uma nova dimensão de uni-
versidade, sociedade e sujeito, consubstanciada na perspectiva ideológica do “compromisso
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
335
_0217_UVE_LIVRO_FB 5.qxd 06.09.04 09:35 Page 335
social”
6
como instituição pública, viabilizando a organização política do grupo, em que, além
da promoção de uma consciência crítica, se almeja a intervenção na realidade em uma
perspectiva transformadora e libertadora da autonomia do sujeito.
O trabalho da extensão universitária numa perspectiva acadêmica pretende, assim,
ultrapassar o limite da ciência técnica, do currículo fragmentado e da visão de homem como
objeto a ser manipulado, encaminhando-se para uma visão multidimensional, em que as dimensões
político-social-humana estejam presentes na formação do sujeito, concebido como ser histórico.
A prestação de serviços na perspectiva mercantilista
Contudo, as transformações econômicas e políticas de globalização da economia, aber-
tura de mercados, flexibilização do trabalho e redução dos gastos do Estado com as instituições
sociais, ocorridas no contexto da sociedade brasileira a partir das políticas neoliberais, têm
provocado significativas mudanças no que se refere ao papel social da universidade e da extensão
universitária, bem como na forma e nos mecanismos de promoção da interação universidade e
sociedade, gerando implicações de cunho teórico e metodológico na prática curricular.
A acelerada produção tecnológica e informatização do conhecimento têm exigido das
universidades, como instância produtora de conhecimentos, uma nova postura no que diz
respeito às condições materiais de produção do seu trabalho. Ou seja, a competitividade do mercado
coloca em xeque a qualidade do seu produto e a sua própria existência como instituição desti-
nada à produção do saber, instigando com isso o estado de crise
7
por que passam as instituições
públicas sociais, em especial as universidades.
Diante desse contexto, as concepções ideológicas de universidade e extensão univer-
sitária adquirem outras significações na prática curricular. Não mais se acentua a preocupação
no atendimento às necessidades sociais da comunidade, a exemplo da concepção assisten-
cialista, ou mesmo a integração do ensino-pesquisa, da relação universidade e sociedade e/ou
da relação teoria-prática, em uma perspectiva dialética, como proposto pela concepção
acadêmica. Outra concepção ideológica tem se constituído frente às novas exigências da
sociedade globalizada, acentua-se a dimensão exterior à universidade, bem como os aspectos
econômicos e de parcerias com outras instituições, deixa-se de privilegiar o atendimento aos
grupos excluídos e passa a tratar a todos como consumidores. Dessa forma, o produto da
universidade transforma-se em mercadoria a ser comercializada, e a extensão passa a ser
um dos principais canais de divulgação e articulação comercial.
A análise de projetos de extensão, discursos de pró-reitores de extensão das universi-
dades públicas brasileiras, e outros documentos revelam que a extensão é o principal órgão de
articulação de parcerias entre a universidade e setores externos da sociedade na busca de
financiamentos e institucionalização das atividades extensionistas. Tal perspectiva, para
336
6
Nessa concepção, “compromisso social” é entendido como um movimento dialético que envolve a filosofia da
práxis que, “não pode ser concebida senão em forma polêmica, de luta perpétua” (GRAMSCI, 1991, p. 145).
7
As crises são caracterizadas por Santos (1995) como crise de hegemonia, legitimidade e institucionalidade.
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alguns pró-reitores de extensão, tem-se tornado inevitável, primeiro pelo encolhimento do
Estado, segundo pelo fortalecimento do mercado e terceiro pelo desenvolvimento de tecnolo-
gias, que passam a requerer da universidade, como instância produtora de conhecimentos,
respostas às demandas geradas pela nova ordem econômica, tanto em termos de formação
profissional como em termos de produto destinado à sociedade.
Essa concepção de extensão universitária, caracterizada como mercantilista, traz em seu
contexto a formação ideológica de um projeto de privatização da universidade que substitui a
possibilidade de igualdade de acesso pelo pagamento de taxas e pela adoção de outros instru-
mentos que não representam a identidade de uma universidade pública e gratuita.
Há de se considerar, diante dessa nova concepção teórica e prática que se esboça na
extensão universitária, que o ensino superior oferecido pelas universidades públicas continua
escasso para as camadas mais pobres da população, porém entende-se que não será via extensão
universitária, seja em uma perspectiva assistencialista, acadêmica ou mercantilista, que vai
ocorrer a diminuição das desigualdades sociais, próprias da estrutura do sistema capitalista.
Contudo, assinala-se a necessidade de a universidade e a extensão universitária cada vez mais
tornarem relevante o seu compromisso social, qual seja, o comprometimento com a crítica e
autonomia dos sujeitos sociais, princípio a ser desenvolvido na prática curricular do ensino, da
pesquisa e da extensão.
Para tanto, torna-se importante refletir, discutir e analisar as concepções ideológicas de
universidade e extensão universitária, detendo-se nas implicações que tais concepções podem
trazer para a prática curricular universitária, no sentido da perspectiva do tipo de formação, de
sujeitos e sociedade que se pretende desenvolver. Portanto, o desafio que se impõe às universi-
dades brasileiras e à extensão universitária no mundo da globalização e de perda das fronteiras
é o de procurar ser elemento articulador da comunicação entre teoria-prática, universidade-
sociedade, construindo a teoria da reciprocidade, integração do pensar, fazer e viver a partir do
rompimento da dimensão dicotômica, dualista e fragmentada que tem sido implementada no
cotidiano universitário.
Assim, partindo das abordagens teóricas e fases históricas apresentadas, pode-se encontrar
na extensão três concepções ideológicas que foram incorporadas nos diversos contextos históricos
e se entrecruzam adquirindo materialidade nas práticas extensionistas das universidades.
A primeira concepção constitui-se desde a origem da extensão sob a ótica do atendi-
mento às demandas sociais por intermédio da prestação de serviços, passando de uma dimensão
transformadora-redentora da sociedade para uma assistencialista-conservadora, uma vez que as
ações extensionistas em sua maioria são voltadas para a manutenção de desigualdades sociais.
Nessa concepção, as ações extensionistas caracterizam-se por programas e atividades esporádicas
nas comunidades, objetivando a “resolução” imediata e paliativa de problemas sociais, sem
discussão previa dos fatores que provocam desigualdades sociais, nem incentivo a formas de
intervenção organizada, daí serem denominadas assistencialistas.
A segunda concepção, formulada inicialmente no bojo dos movimentos sociais, via na
relação universidade/extensão universitária/sociedade a possibilidade de uma ação transfor-
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
337
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madora da sociedade. Trata-se de concepção que influenciou a formulação do conceito de
extensão universitária elaborado pelo Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das
Universidades Públicas Brasileiras e que é defendida por este e por muitos estudiosos como
função acadêmica da universidade.
E a terceira concepção tem-se formado ao longo das mudanças ocorridas na estrutura do
Estado e da sociedade, em concomitância com a luta da extensão para confirmar-se como
função acadêmica com o mesmo nível de valorização do ensino/pesquisa. Concebe as ações
como atendimento às demandas advindas da sociedade, que não são mais vistas como carências
sociais,
8
mas como novas expectativas de serviços geradas pela sociedade globalizada. A parce-
ria ou venda de serviços seria o meio de articular a universidade aos demais setores da
sociedade civil, tornando-a uma produtora de bens e de serviços, concepção aqui denominada
mercantilista.
Nesse sentido, as concepções extensionistas preponderantes expressam ideologias circu-
lantes nos diversos contextos históricos e se evidenciam nas práticas extensionistas das univer-
sidades e nas abordagens teóricas elaboradas pelos estudiosos do assunto, enquanto uns defen-
dem a extensão como função acadêmica da universidade, com o papel de integrar
ensino/pesquisa/extensão, outros concebem a extensão inerente ao processo de ensino e
pesquisa, não tendo necessidade de uma função específica para a socialização do conhecimen-
to, pois este é papel do ensino e da pesquisa e em meio à polaridade teórica se firma a necessi-
dade da universidade como instituição social atender as necessidades da sociedade em sua total-
idade, com isso firma-se a concepção dos serviços sob a ótica da venda, impondo assim, a ide-
ologia da racionalidade empresarial que coloca em xeque a institucionalidade e a hegemonia da
universidade.
Diante do exposto e da nova perspectiva que se forma de extensão universitária, não se
pode permitir que a universidade abra mão de sua identidade histórica, como instituição produ-
tora de conhecimentos, sendo fundamental nesse momento de formulação de novas abordagens
teóricas ter uma ação pró-ativa de valorização do seu que fazer, caso contrário corre o risco de
torna-se passiva diante dos constantes desafios de produção do conhecimento.
338
8
A nova caracterização de atendimento às demandas sociais não significa que as carências sociais tenham sido
sanadas ou resolvidas, ao contrário, continuam até em maiores proporções. No entanto, não se tornam mais
prioridades das universidades para o cumprimento de sua função social, que se estendeu ao atendimento dos
diversos interesses sociais e políticos.
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339
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Cooperação internacional: a interface com a extensão universitária
Edison José Corrêa, Pró-Reitor de Extensão da Universidade Federal de Minas Gerais (2000-
2006). Presidente do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras
(2002-2004)
Sandra Regina Goulart Almeida, Diretora de Relações Internacionais da Universidade Federal de
Minas Gerais (2002-2006)
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
São apresentadas possibilidades de atuação conjunta, envolvendo as assessorias de
cooperação internacional e as pró-reitorias de extensão das universidades brasileiras. Ressalta-se,
inicialmente, no contexto da discussão sobre a reforma universitária brasileira, que a educação
deve ser considerada bem público e parte decisiva de um planejamento nacional, bem como que
a educação superior é condição de soberania na cooperação internacional. Na temática de
institucionalização e gestão, além do aspecto mais facilmente reconhecível para essas ações, o do
intercâmbio, são também assinaladas as possibilidades, e demonstrados exemplos atuais no
Brasil de desenvolvimento de estratégias comuns dos setores acadêmicos para implementação de
política institucional, a participação em organismos e eventos internacionais e o desenvolvi-
mento de projetos colaborativos internacionais
.
Palavras-chave: extensão universitária, cooperação internacional, gestão universitária
A convite, o Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras
— representado por seu presidente — participou de mesa-redonda sobre o tema Interfaces da
Cooperação Internacional, na XVI Reunião Anual do Fórum das Assessorias das Universidades
Brasileiras para Assuntos Internacionais – Faubai, em Brasília, 26 de maio de 2004. Também
participaram representantes dos fóruns das áreas de graduação e de pós-graduação e pesquisa.
O convite suscitou uma reflexão sobre como a extensão universitária brasileira tem participado
em movimentos de cooperação internacional, como coadjuvante dos setores acadêmicos, e que
ações específicas poderiam ser implementadas.
A primeira constatação é que essa inserção da extensão universitária não deve ser
entendida de forma setorial — como mais um campo de ação extensionista, ou de qualquer
outra área acadêmica —, mas dentro de um projeto institucional da universidade.
Conjunturalmente, vive-se um momento particularmente importante, em que a universidade
brasileira é chamada a posicionar-se e contribuir para a efetiva implementação de políticas
públicas e de desenvolvimento. Para essas políticas, a universidade deverá ter respostas, nos
mais diversos campos — educação, cultura, saúde, meio ambiente, tecnologia, trabalho,
comunicação, direitos humanos, entre outros, com uma contribuição que deve abranger
340
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aspectos de formação de pessoas —, na graduação, pós-graduação e educação continuada — de
investigação e inovação, e de interação social —, núcleo básico da extensão universitária, com
abrangência nacional e internacional.
A inserção internacional da universidade brasileira, com participação do setor acadêmico
de extensão, mais do que uma rotina institucional, é uma obrigação para quem pensa em
enfrentar e vencer os desafios, colocados pelo mundo e pela sociedade brasileira às instituições
nacionais de ensino superior. Essa preocupação é atualmente mais reforçada nas discussões
sobre a reforma universitária, nas quais o tema da cooperação internacional deve ter importância
indiscutível. O documento da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais
de Educação Superior – Andifes — Reforma Universitária: Proposta da Andifes para a
Reestruturação da Educação Superior no Brasil —, apresentado como contribuição ao debate
nacional, ao tratar da necessidade de uma política de Estado para a educação superior, afirma:
Como política de Estado, as mudanças no sistema educacional devem ser orientadas por objetivos
de longo prazo e por uma concepção clara da missão da educação superior, de seus desafios e com-
promissos com a Nação. Dizendo respeito ao Estado, e não apenas a governos, a política relativa
ao ensino superior é parte inseparável de um projeto de nação. Contrariamente ao que vem sendo
veiculado nas reuniões do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços (GATS) e da Organização
Mundial do Comércio (OMC), a educação deve ser considerada bem público e parte decisiva de
um planejamento nacional.
O exercício da função reguladora por parte do Estado e a vigorosa participação pública constituem
condições imprescindíveis para que evitemos o tratamento da educação como mercadoria e sua
subordinação aos interesses das elites políticas e econômicas, que, de forma tão perversa, continuam
a acentuar a desigualdade social que marca a história brasileira. Além disso, as condições da
globalização no mundo contemporâneo indicam a estreita aliança entre o desenvolvimento
nacional e a capacidade das nações em constituir parques de conhecimento sólidos e duradouros.
A desatenção para com a educação superior, solo majoritário do desenvolvimento científico, tec-
nológico e cultural, tem como conseqüência inevitável para as nações a renúncia à soberania.
Ressalte-se que, nas instituições públicas, majoritariamente, é conduzida a pesquisa científica
nacional. Nelas foram desenvolvidas tecnologias e conhecimentos que alavancaram as atividades
mais exitosas da sociedade brasileira em todos os setores da atividade humana. Como conseqüência,
reúnem um acervo cuja construção demandou não apenas recursos financeiros, mas anos de
qualificação dos recursos humanos. É fundamental que o encaminhamento do debate sobre
autonomia proponha uma nova relação das IFES com os fundos setoriais, agências de fomento,
empresas e outras organizações financiadoras da inovação, da pesquisa e do desenvolvimento
científico, tecnológico e cultural. A revisão dessas relações é fundamental para o almejado desen-
volvimento científico, tecnológico, econômico, cultural e social do País. Esse novo relacionamento,
preservando a liberdade acadêmica, deverá priorizar e fortalecer as iniciativas institucionais e o
trabalho coletivo.
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Esse princípio da educação superior como política de Estado, no documento da Andifes,
é reforçado, ainda, no item a seguir, ao abordar a cooperação internacional.
A educação superior universitária é condição de soberania na cooperação
internacional
A educação sempre foi absolutamente estratégica para o desenvolvimento das nações.
Nos últimos anos, no contexto da chamada “globalização”, o valor da educação tornou-se mais
evidente. É flagrante a relação existente entre educação em geral e desenvolvimento econômi-
co, social e humano. Hoje, mais do que ontem, uma nação que se mostra incapaz de sustentar
um sistema de educação superior independente, pertinente e qualificado, voltado para a for-
mação de seu povo, para a geração e a disseminação do conhecimento, de fato, abdica de sua
soberania. A educação superior que associa ensino e pesquisa deve ser tratada, sem hesitação,
como um dos mais preciosos e estratégicos investimentos na construção das nações contem-
porâneas.
Para tal, o referido documento apresenta como estratégia:
Formular e estimular programas de intercâmbio de âmbito regional, nacional e internacional,
envolvendo a cooperação acadêmica e a mobilidade de estudantes, professores e pesquisadores,
visando ao aprofundamento das relações do Brasil com outras nações.
Nas universidades brasileiras, para os debates e encaminhamentos, essas questões têm
que ter a abrangência do projeto institucional, com interação de todos os setores acadêmicos.
Do ponto de vista operacional, Diretoria de Relações Internacionais – DRI e Pró-Reitoria de
Extensão – Proex da Universidade Federal de Minas Gerais, ao lado das outras instâncias uni-
versitárias, têm buscado fazer uma reflexão e aproximar suas concepções, metodologias e
planos de trabalho para que se instale uma política institucional de cooperação internacional.
Para tal, assim poderiam ser vislumbrados os papéis de cada setor.
A Diretoria de Relações Internacionais, ligada ao Gabinete da Reitora, apresenta-se
como instância articuladora das relações acadêmico-científicas internacionais, captando, imple-
mentando e acompanhando projetos e parcerias interuniversitários. Tem por missão atuar junto
com os demais órgãos da administração central no sentido de inserir a UFMG no cenário inter-
nacional, para que se fortaleça a interação com instituições do exterior. Responde pelos contatos
internacionais da universidade, pela execução de eventos, assessoria e convênios internacionais
assumidos pela UFMG, pelas articulações internas junto aos setores acadêmicos e de adminis-
tração e planejamento, bem como a representação e cooperação com as outras universidades
brasileiras, com sua participação no Fórum das Assessorias das Universidades Brasileiras para
Assuntos Internacionais – Faubai. Como agente propulsor das atividades de internacionalização
da UFMG, a Diretoria de Relações Internacionais – DRI incumbe-se da construção de parcerias
de qualidade com instituições estrangeiras, da captação, implementação e acompanhamento de
acordos, convênios e programas interuniversitários internacionais, do gerenciamento de
342
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programas de intercâmbio acadêmico, da divulgação de oportunidades acadêmicas interna-
cionais junto a comunidades interna e externa à UFMG. Para a consecução desse objetivo, a
DRI presta assessoria na elaboração de acordos e convênios, acompanha e avalia os convênios
e acordos vigentes, oferece suporte logístico e operacional necessário à viabilização de projetos
de cooperação internacional, gerencia fundos de apoio a iniciativas internacionalizantes,
coordena o comitê de internacionalização da UFMG, capta e divulga as informações rela-
cionadas às ofertas de oportunidades internacionais, gerencia programas de cooperação nas suas
diversas modalidades e busca, ainda, sensibilizar a comunidade universitária para a importância
das experiências institucionais de nível internacional.
A Pró-Reitoria de Extensão planeja e executa a política de extensão da universidade e os
programas institucionais de bolsas acadêmicas, de apoio a programas e projetos de publicações.
Por suas coordenadorias, assessora as atividades dos centros de extensão das escolas, facul-
dades e institutos e acompanha a implantação e o desenvolvimento dos programas e projetos
das unidades acadêmicas e os interinstitucionais. Contribui para o conjunto das universidades
públicas com sua participação no Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades
Públicas Brasileiras — em especial, nesse Fórum, com a gestão da página eletrônica da Rede
Nacional de Extensão Universitária <www.renex.org.br> e a do Sistema de Informação da
Extensão – Siexbrasil.
Pensando o conjunto das universidades brasileiras, pró-reitorias de extensão e assesso-
rias de cooperação internacional, articuladas em um projeto institucional que lhes ultrapasse,
envolvendo toda a instituição de ensino, poderiam atuar em várias vertentes.
Em um primeiro aspecto, vertente de intercâmbio, mais freqüentemente associada à mis-
são das assessorias de cooperação internacional e com ainda pouca participação das pró-reito-
rias de extensão, deve-se atender a necessidades inadiáveis, tais como:
oportunizar aos estudantes de graduação e pós-graduação novos campos de experiência,
na formação e na pesquisa;
oferecer aos docentes a possibilidade de ampliar o alcance das suas atividades acadêmicas
– ensino, pesquisa e extensão –, pela participação em encontros, congressos, seminários,
estágios, programas e projetos especiais e cursos – inclusive a distância – promovidos
com/por universidades estrangeiras;
incentivar a participação de pesquisadores-visitantes e professores de universidades
estrangeiras em atividades nas universidades brasileiras — vivências internacionais,
orientação, etc.;
otimizar pesquisas desenvolvidas com a participação de recursos humanos e/ou
financeiros, do exterior.
Paralelamente, e superando a ação de intercâmbio, os novos cenários políticos, econômi-
cos e sociais do planeta permitem viabilizar outras oportunidades de inserção internacional.
Em particular, é chegada a hora da universidade se conectar ao amplo e articulado movimento
internacional hoje conhecido como “comércio equânime e solidário”, uma rede de distribuição
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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de produtos — alimentícios, têxteis, artesanato, cosméticos, vestuário, decoração, etc. — proce-
dentes de projetos e programas — de agricultura familiar, cooperativas, artesanato, etc. —
desenvolvidos com a interveniência de organizações não-governamentais (ONG’s) e de
instituições oficiais (inclusive universidades) e bancos oficiais, com aplicação de modalidades
de produção e distribuição caracterizadas pelo no-profit. E, também, atuar em uma ampla
rede de cooperação internacional para o desenvolvimento regional, para a implementação
de políticas públicas e para a atualização que o novo século XXI espera das instituições de
educação superior.
Nesse sentido, os setores acadêmicos — destaque aqui para as ACI’s/DRI’s e Proex’s —
podem participar de um movimento articulado, nas universidades para:
1. participação indissociável ensino-pesquisa-extensão em todas as oportunidades de
cooperação;
2. realização de uma campanha de sensibilização da comunidade universitária para a
importância das experiências institucionais internacionais;
3. realização de um mapeamento internacional com o objetivo de aumentar significativa-
mente e fortalecer as oportunidades de bolsas para estudantes, pesquisadores e docentes;
4. revisão e atualização de convênios com universidades estrangeiras, já em vigor, com
destaque para a revitalização da cooperação técnica, científica e cultural;
5. implementação de acordos e convênios, tendo em vista novas formas de organização
internacional, como o Mercosul e a União Européia;
6. incentivo a grupos de pesquisa consolidados para que se registrem e se apresentem insti-
tucionalmente como referência temática/cultural/profissional, facilitadores de novos
contatos, acordos e/ou convênios;
7. referência, nas áreas da organização tecnológica e social — economia solidária, tec-
nologias apropriadas, empresa júnior, cooperativas, incubadoras de base tecnológica,
centros e parques tecnológicos, etc., visando ao desenvolvimento regional sustentado;
8. articulação cultural, “não-ornamental” de eventos, mas integrantes de movimentos e
espaços, internacionalmente interativos, de literatura, música, artes plásticas e cênicas,
etc. Nesse aspecto, podem ser citadas algumas experiências brasileiras dos festivais uni-
versitários, com suas oficinas internacionais de arte contemporânea, entre outras ações:
o Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, em Diamantina – MG,
o Festival de Inverno da Universidade Federal do Paraná, em Antonina – PR, o Inverno
Cultural da Universidade Federal de São João del-Rei, em São João del-Rei – MG, apenas
como exemplos;
9. estabelecimento de convênios com editoras universitárias européias e das Américas, com
o objetivo de realizar distribuição e venda de títulos produzidos e distribuídos pelas
respectivas editoras e livrarias;
10. criação de espaços interculturais nas instituições de educação superior, como a Casa da
Cultura da América Latina, coordenada e gerenciada pelo Decanato de Extensão da
Universidade de Brasília (UnB);
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11. criação de programas e atividades acadêmicas, culturais e científicas com o apoio de
órgãos consulares, diplomáticos e ONGs;
12. apoio à realização e registro de eventos e cursos aplicados à temática da cooperação
internacional;
13. divulgação de oportunidades acadêmicas oferecidas por órgãos de fomento interna-
cionais (bolsas de estudos e programas de fomento internacionais), especialmente
voltadas para as áreas de ensino, pesquisa e extensão universitária;
14. indução ao estabelecimento de parcerias com o objetivo de identificar áreas estratégicas
para a cooperação temática;
Para essas estratégias, é de maior importância o apoio à participação das universidades
em organizações e eventos internacionais, tais como:
1. Asociación Latinoamericana de Extensión Universitaria, que congrega, por adesão, uni-
versidades públicas, filantrópicas e particulares, com sede itinerante, a cada dois anos:
no período 2002-2004, sob responsabilidade da Universidad Católica de Cali, Colômbia,
e com um colegiado internacional formado por representantes dos países membros. A
atual representação brasileira está sendo exercida pela presidência do Fórum de Pró-
Reitores das Universidades Públicas Brasileiras. AAsociación realiza, nos anos ímpares,
o Congresso Ibero-americano de Extensão. Já tendo sido organizado em Cuba, Costa
Rica, Brasil, Venezuela, México e Argentina, o próximo VIII Congresso deverá ser
sediado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em novembro de 2005;
2. Asociación Universidades Grupo Montevideo, da qual participam, no Brasil, a
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a Universidade Federal do Paraná, a
Universidade Federal de Santa Catarina, a Universidade Federal de Santa Maria, a
Universidade Federal de São Carlos e a Universidade de Campinas, e universidades de
outros países — Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile.
3. Outras Redes e Grupos podem ser exemplificados: Rede Alfa, Grupo Coimbra, Grupo
Tordesilhas, Grupo dos 30, Grupo Columbus, União das Universidades da América
Latina – Udual, Associação das Universidades dos Países de Língua Portuguesa – Aulp).
4. Outros eventos internacionais devem ser apoiados e difundidos, como o Congresso
Euro-Latinoamericano de Universidades, os Encontros da Aulp, do Grupo Tordesilhas,
entre outros.
Um terceiro núcleo de atividades colaborativas inclui o desenvolvimento de programas
e projetos especiais. Citam-se, como exemplo, os seguintes:
1. Programa sem Fronteiras – UFMG – Hospede um Estrangeiro, destinado a facilitar o
acolhimento de estudantes e professores em missão de intercâmbio;
2. Programa de Bolsas “Paula Vargas” – programa de apoio a estudantes provenientes da
África de língua portuguesa que cursam a graduação na UFMG. É uma iniciativa da
UFMG, Unesco e do Embaixador Israel Vargas;
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3. Fundo Fundep para a Internacionalização – Programa que apóia iniciativas de docentes
da UFMG através de uma linha de financiamento para contrapartida da instituição em
redes e convênios internacionais temáticas e/ou multidisciplinares cujas demandas não
são contempladas por agências de fomento;
4. Projeto Argolas – Unindo dois Continentes, cooperação Universidade Federal de São
Paulo – Unifesp e o Governo de Angola, com a interveniência do Ministério das
Relações Exteriores/Itamarati, do Brasil;
5. Programa de Rastreamento Neonatal, para erros inatos do metabolismo e anemia
falciforme (Teste do Pezinho), implantado em larga escala em Minas Gerais, atendendo
gratuitamente à população usuária do Sistema Único de Saúde, diagnosticando e prevenin-
do ou tratando, precocemente, problemas que potencialmente causam graves problemas
de saúde, como o retardo mental. Esse programa é desenvolvido pela UFMG, por meio
do Núcleo de Pesquisas em Diagnóstico – Nupad, em cooperação com o governo de Cuba;
6. Formação de centros colaborativos internacionais, como a Universidade Federal de
Minas Gerais e a Universidade Estadual de Londrina que fazem parte da Rede de
Escolas e Instituições de Saúde orientadas para a Comunidade, sendo cada uma delas,
um Centro Colaborador da Organização Mundial de Saúde/Organização Panamericana
de Saúde para Ensino e Prática Médica.
Os exemplos apontados, tomados também em função da experiência na UFMG, na falta
de um diretório nacional com registro dessas atividades, fazem parte apenas de uma lista pos-
sivelmente ampla e que deve merecer uma atenção especial das assessorias e dos fóruns
acadêmicos, no sentido de registrar e promover o intercâmbio de experiências. Como área
acadêmica essencial, a extensão universitária, no plano local, regional e nacional deve inserir a
cooperação internacional como um dos aspectos de sua atuação institucional.
Referência
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS DIRIGENTES DAS INSTITUIÇÕES FEDERAIS DE
EDUCAÇÃO SUPERIOR.
Reforma universitária: proposta da ANDIFES para a reestrutu-
ração da educação superior no Brasil. [s.l.]: ANDIFES, 2004. Disponível em:
<http://www.andifes.org.br>. Acesso em: 10 jun. 2004.
FÓRUM DAS ASSESSORIAS DAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS PARA ASSUN-
TOS INTERNACIONAIS. FAUBAI. Apresenta endereços, notícias, documentos e infor-
mações. Disponível em: <http://www.faubai..org.br>.
FÓRUM DE PRÓ-REITORES DE EXTENSÃO DAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS
BRASILEIRAS.
Avaliação da extensão universitária. Brasília: MEC/SESU, 2002. 97 p.
(Coleção Extensão Universitária; v. 3).
_____.
Plano nacional de extensão universitária. Ilhéus: Editus, UESC, 2001. 65 p. (Coleção
Extensão Universitária; v. 1).
346
_0217_UVE_LIVRO_FB 5.qxd 06.09.04 09:35 Page 346
_____. Rede nacional de extensão – RENEX. Apresenta endereços, notícias, documentos e
informações sobre a extensão nas universidades públicas brasileiras. Disponível em:
<http://www.renex.org.br>.
_____.
Sistema de dados e informações da extensão. Rio de Janeiro: NAPE, UERJ, 2001. 83
p. (Coleção Extensão Universitária; v. 2).
NOGUEIRA M. D. P. (Org.).
Extensão universitária: diretrizes conceituais e políticas. Belo
Horizonte: PROEX/UFMG, 2000. 194 p. (Documentos básicos do Fórum de Pró-Reitores de
Extensão das universidades Públicas Brasileiras, 1987-2000).
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS.
Diretoria de relações internacionais.
Apresenta endereços, notícias, documentos e informações sobre a cooperação internacional na
UFMG e contatos no exterior
. Disponível em: <http://www.ufmg.br/cointer>.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Pró-reitoria de extensão.
Apresenta
endereços, notícias, documentos e informações sobre extensão universitária na UFMG, Sistema
de Informação Siexbrasil, Rede Nacional de Extensão e contatos com outras universidades
.
Disponível em: <http://www.ufmg.br/proex>.
Do desejo do (re)conhecimento de diferenças à gestão de resultados: análise
de uma proposta de política substantiva de extensão universitária
Maria da Consolação Gomes de Castro, MSc. Serviço Social
Armindo dos Santos de Sousa Teodósio, MSc. Ciências Sociais
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas
Resumo
O trabalho discute a proposta de gestão da extensão universitária em construção pela
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Para tanto, são discutidos dados coletados
para avaliação das práticas de extensão vigentes na universidade, bem como são discutidos novos
princípios de orientação da política de extensão institucional. Os dados foram coletados através
de entrevistas desestruturadas e análise documental, sendo que o estudo assume tons de pesquisa-
ação, dado o envolvimento dos autores com as atividades de extensão da universidade. As
conclusões apontam para um modelo de gestão da política de extensão universitária que tente
superar os grandes desafios colocados ao ensino superior no mundo contemporâneo
.
Palavras-chave: gestão universitária, projetos sociocomunitários, gestão social
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Introdução
As primeiras experiências de extensão universitária no Brasil datam de 1911 e 1917, na
Universidade Livre de São Paulo. A literatura especializada aponta como evidência das
atividades de extensão o documento “Estatuto da Universidade Brasileira” (Decreto nº 19.851,
de 11 de abril de 1931), que delineou como atividade de extensão não só a realização de cursos
e conferências objetivando a difusão de conhecimentos “úteis à vida individual e coletiva”, mas
também a “apresentação de soluções para os compromissos sociais e a propagação de idéias e
princípios de interesse nacional”.
Nos anos 40 e 50 prevaleceu a concepção político-acadêmica de extensão esboçada pela
USP na década de 30, concebendo-se a extensão como instrumento disseminador de conheci-
mento para a comunidade, como meio de popularização das ciências, das artes e das letras
através de cursos, de palestras, de radiodifusão e de filmes científicos dirigidos aos diversos
segmentos da sociedade.
Nos anos 60, as universidades e as Instituições de Ensino Superior – IES comunitárias
abriram-se às experiências de educação de base, influenciadas pela atuação de docentes e discentes
junto aos movimentos populares. O envolvimento e o compromisso de segmentos das Igrejas
com a população excluída marcaram as ações de extensão e constituíram referência para as IES
nesse contexto.
Nessa década, marcada pela mobilização popular e pelas reformas sociais no Brasil e na
América Latina, ocorreram movimentos políticos de contestação ao modelo de desenvolvimento
adotado desde os anos 50 — modelo de substituição de importações — chegando tais movi-
mentos a formas mais acirradas de luta no campo e na cidade. Os segmentos universitários
participaram desse movimento, incorporando novas teorias e métodos no desenvolvimento de
suas atividades-fins. A extensão, dado seu caráter de proximidade com os diversos setores da
sociedade, respirou naquele momento o ar de mudança que daí emanava. Sua prática transitou
do enfoque de difusão do conhecimento para o de inserção na realidade socioeconômica,
política e cultural do País, absorvendo as contradições advindas da sociedade e oferecendo, por
meio de suas ações, respostas que contribuíssem para a transformação social.
Na efervescência desses anos, a extensão universitária se fortalece e ganha visibilidade.
Natural, portanto, que suas ações provocassem polêmicas e debates entre a intelectualidade da
época. Paulo Freire, ao examinar o conceito de extensão, o contrapôs ao de comunicação,
denunciando certa presunção da universidade em “estender” seu conhecimento à sociedade,
desconhecendo os saberes produzidos por ela mesma. Esse debate trouxe conseqüências, se não
para aquele momento imediato, para um futuro próximo da universidade, ao repensar o conceito
de extensão e os métodos que envolvem suas ações.
Assim, as Instituições de Ensino Superior se repensaram, conferindo novos sentidos às práticas
de ensino, pesquisa e extensão, entendidas não apenas como repasse de conteúdos, mas como
fruto do diálogo entre os diversos saberes oriundos tanto da sociedade como da universidade.
A Reforma Universitária de 1968, orientada pelos princípios da Lei de Segurança
Nacional, rompeu com o caráter dialógico, ainda embrionário, da extensão e da própria uni-
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versidade, restringindo suas ações e impedindo-a do exercício da autonomia, princípio fundante
dessa instituição. Darcy Ribeiro, nessa época, já alertava a universidade para a perda progressiva
de sua liberdade e de sua capacidade crítica.
A universidade, contudo, enquanto espaço de expressão de conflitos, absorveu e,
simultaneamente, repeliu as políticas impostas pelo regime militar. Se, por um lado, executou
políticas oficiais, como as de extensão expressas no Projeto Rondon e no Centro Rural
Universitário de Treinamento e Ação Comunitária – Crutac, por outro imprimiu a esses
projetos um caráter crítico e participativo, resgatando direitos de cidadania que haviam sido
excluídos pela ditadura.
A década de 80 foi marcada pelo ressurgimento de movimentos sociais de feição
democrática. As aspirações emanadas destes movimentos foram expressas no texto constitu-
cional de 1988. A universidade compartilhou com a sociedade esse projeto democrático,
utilizando a extensão para a realização de práticas que assegurassem os direitos humanos.
A idéia de “extensão redentora” representou, para alguns autores, a marca desse tempo. A
pesquisa alienada e o ensino alienante, portanto, agarraram-se à extensão como atividade
salvadora. Assim, tais atividades proliferaram nas universidades, nas mais diferentes
modalidades: de eventos culturais e cursos de aperfeiçoamento a projetos de ação comu-
nitária. O cunho emancipador e o assistencialista conviveram simultaneamente nessas
propostas (BOTOMÉ, 1996).
Institucionalmente, na passagem dos anos 80 para os 90, a constituição do Fórum de Pró-
Reitores das IES públicas foi decisiva para repensar o papel e a função das universidades no
novo cenário internacional marcado pelo fenômeno da globalização. Essa discussão pôs em tela
o tema da identidade da instituição universitária.
A extensão universitária, no Brasil, inicia os anos de 1990 perpassada por contradições
herdadas de sua história recente e também norteada pelo debate relativo a sua identidade. A
expansão do ensino superior privado no País trouxe a novidade da utilização dos projetos de
extensão como logomarca da cultura de marketing das sociedades de mercado altamente
competitivas. Somada a isso, a reforma do Estado brasileiro colocou em relevo o fato de que
nem tudo que é público é estatal, redefinindo, assim, o caráter das instituições de ensino e,
nelas, as ações extensionistas. Muitas vezes, confundiu-se — e ainda se confunde — o papel da
extensão com o do poder público ou das ONG’s (RENEX, 2000a). Essa configuração trouxe
novos desafios e alguns equívocos, exigindo que a universidade repensasse sua função social
colocando em pauta a natureza de suas atividades-fim. Nesse contexto, não se pode desprezar
as experiências do Programa Comunidade Solidária, através do “Projeto Universidade
Solidária”, que contribuíram, ainda que timidamente, para conferir à extensão um status de
atividade-fim (SEVEGNANI et al, 2003).
Hoje, a partir do marco legal estabelecido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional – LDBEN e pelo Plano Nacional de Extensão – PNE, indaga-se: o que define a extensão,
o ensino e a pesquisa? Essas atividades são indissociáveis? Sendo sim, como se dá essa
indissociabilidade? Se não, como realizá-la? Ou mesmo: é possível realizá-la?
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Na expectativa de responder a essas questões, muitas universidades têm criado, de forma
pioneira, mecanismos institucionais para integrar em seus projetos político-pedagógicos as
atividades de extensão no mesmo patamar do ensino e da pesquisa (RENEX, 200b).
Contemplar essa integração constitui uma exigência de nosso tempo e um dos desafios
a serem enfrentados pela universidade. Torna-se imperativo o debate da extensão universitária
nos marcos da produção do conhecimento, ou seja, a consideração do que lhe é próprio como
teoria e método. Espera-se que essa postura represente um passo no caminhar da história da
universidade brasileira.
Apresentação da instituição PUC Minas
A PUC Minas se define como instituição particular, comunitária e confessional, de
acordo com o previsto na Constituição Federal de 1988. Por não possuir finalidade lucrativa e
aplicar seus excedentes financeiros em educação, seu caráter é público não estatal.
A universidade oferece 48 cursos de graduação, 83 cursos de especialização lato sensu,
14 cursos stricto sensu, sendo 10 de mestrado e 04 de doutorado. Nesse universo convivem
cerca de 44.245 estudantes, 2.169 professores e 1.281 funcionários, distribuídos pelas várias
unidades em Belo Horizonte e região metropolitana e pelos Campi do interior de Minas (dados
do 01/2004).
Desde os primeiros momentos, a universidade priorizou a formação profissional orien-
tada pela ética cristã e por padrões de qualidade destinados a atender, com competência e
dignidade, as pessoas excluídas dos benefícios da sociedade e a contribuir para uma formação
humanista calcada na realidade (PUC Minas, 2001).
A PUC Minas vem acumulando uma rica experiência acadêmica, científica e cultural.
Seu compromisso é o de formar profissionais com um sólido conhecimento técnico, visão
abrangente e empreendedora, condizentes com os períodos históricos de mudanças. Tem
investido em uma firme política de associação com instituições de ensino e pesquisa, nacionais
e internacionais, e com o Poder Público. Mantém convênios em parceria com empresas e
outras instituições privadas, que contribuem para a ampliação do espaço de atuação da univer-
sidade e para a melhoria da qualidade do ensino.
Nas duas últimas décadas, a PUC Minas institucionalizou a área de extensão, concebendo-
a como um processo científico, cultural e educativo, capaz de viabilizar a relação transfor-
madora entre a universidade e a sociedade, articulando ações de extensão com o ensino e a
pesquisa (PUC Minas, 2002).
Conceito de extensão universitária
O Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das universidades Públicas definiu a
extensão como “um processo educativo, cultural e científico, que articula o ensino e a pesquisa
de forma indissociável, viabiliza a relação transformadora entre a universidade e os de segmentos
da sociedade, trazendo para a universidade a pergunta sobre a relevância da produção e socialização
do conhecimento” (FÓRUM NACIONAL DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA, 2001, p. 56).
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De acordo com o Fórum, a extensão é uma das atividades-fim da universidade e tem por
objetivo disseminar o conhecimento desenvolvido por ela, além de captar e sistematizar
conhecimentos produzidos pela sociedade e nela intervir. Nesse processo interativo, a extensão
busca não só atender às necessidades locais e regionais das comunidades, mas também propi-
ciar ao ensino e à pesquisa subsídios para a produção do conhecimento, considerando os
desafios e problemas da realidade. Assim, o desejável é que o ensino e a pesquisa estejam em
consonância com as demandas e necessidades da sociedade, vinculando a prestação de serviços
a uma filosofia de construção de sujeitos autônomos. Uma das formas de operacionalizar essa
filosofia é propiciar ao acadêmico a possibilidade de vivenciar a relação ensino/aprendizagem
a partir da interlocução com os problemas da sociedade. A matéria-prima oriunda de tal relação
precisa ser equacionada dentro e para além da sala de aula, considerando-se o saber em sua
construção inter, multi e transdisciplinar (FÓRUM NACIONAL DE EXTENSÃO UNIVER-
SITÁRIA, 2002).
Em conformidade com as orientações fornecidas pelo Sistema Nacional de Avaliação da
Educação Superior – Sinaes, a extensão deve pautar-se em valores educativos, primando por sua
integração com o ensino e a pesquisa, reforçando a necessidade da transferência do conheci-
mento produzido nas universidades e avaliando os impactos das atividades científicas, técnicas
e culturais para o desenvolvimento regional e nacional. As políticas de extensão devem cumprir
os preceitos estabelecidos pela missão da universidade, considerando a importância social de
suas ações para o desenvolvimento da ordem democrática e a promoção da cidadania. Ainda
conforme o documento anteriormente citado, é preciso que as ações extensionistas mantenham
uma articulação entre os setores público, produtivo e o mercado de trabalho, contribuindo para
que os alunos desenvolvam, no processo ensino/aprendizagem, o espírito crítico próprio de uma
formação cidadã. A extensão deve submeter-se de forma contínua a um processo avaliativo que
lhe permita verificar a efetividade de suas ações.
As IES comunitárias, por intermédio de seu Fórum, integrado pela PUC Minas, confir-
mam essas diretrizes e consideram que, para formular um conceito de extensão, é preciso
orientar-se por uma filosofia educacional intrinsecamente definida em sua missão e contemplada
nos projetos político-pedagógicos dos cursos.
A PUC Minas, como uma universidade confessional, filantrópica e comunitária, vem
envidando esforços para traçar estratégias políticas com o intuito de cumprir os preceitos
estabelecidos em sua missão. A história da instituição tem demonstrado sua sensibilidade
em aceitar os desafios da interação ensino, pesquisa e extensão, na perspectiva de construir um
projeto societário que busque, de forma efetiva, concretizar uma pauta de inclusão.
Princípios da extensão universitária
A PUC Minas fundamenta suas ações acadêmicas na visão humanista do homem como
um fim em si mesmo. Esse fundamento se traduz em princípios que norteiam suas atividades
de ensino, pesquisa e extensão. Entende-se que os saberes internamente produzidos devem
pôr-se a serviço da dignidade da pessoa humana.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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A extensão universitária consubstancia esses fundamentos nos seguintes princípios:
igualdade – de valor dos seres humanos e garantia de igualdade de direitos entre eles;
liberdade – de criação, de expressão do pensamento e de produção de conhecimento;
autonomia – capacidade de formular leis, em contexto de liberdade, e se reger por elas;
pluralidade – expressão da igualdade e diferença entre os homens, iguais porque humanos
e diferentes porque singulares;
solidariedade – adesão à causa do outro, fundada no respeito mútuo e na interlocução
entre sujeitos da sociedade;
justiça – orientada pela igualdade de direitos e pelo respeito às diferenças. A justiça
implica a obrigação de agir quando se tem consciência da injustiça;
ética – capacidade de ver em cada ato humano uma dimensão universal, objetivando uma
conduta íntegra e um discernimento cuidadoso para com todos os seres. É a noção de
responsabilidade de cada indivíduo por todos os outros.
Diretrizes da extensão universitária
As diretrizes da política de extensão da PUC Minas são:
entendimento da extensão como prática acadêmica dialógica entre a universidade e a
sociedade, que se realiza na relação com o ensino e a pesquisa;
• criação de instrumentos, estrutura e mecanismos que expressem a política e a gestão da
extensão no âmbito da PUC Minas;
definição de propostas em consonância com a realidade regional, referenciando-se
primordialmente em: criação e fortalecimento das atividades de extensão nos projetos
pedagógicos dos cursos;
• Promoção de cursos de extensão e prestação de serviços à comunidade;
apoio e incremento à participação dos docentes e discentes nas atividades de extensão,
através de programas com previsão de recursos para custeio de horas-aula e bolsas e/ou
outras modalidades de incentivo;
criação de metodologias que garantam a integração do ensino, da pesquisa e da exten-
são, efetivadas em torno de programas e projetos construídos com base em critérios
científicos, tecnológicos e em experiências comunitárias.
Objetivos da extensão universitária
estabelecer uma política de extensão que observe sua centralidade para a produção do
conhecimento e a formação cidadã da comunidade acadêmica;
• desenvolver programas e projetos de extensão que promovam a integração das diversas
áreas do conhecimento na investigação da realidade e na busca de soluções aos proble-
mas coletivos, em especial os locais e regionais;
estimular a participação da comunidade universitária na produção e socialização do
conhecimento, estabelecendo o diálogo entre a criação cultural e a pesquisa científica e
tecnológica, bem como entre a instituição e a comunidade;
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possibilitar a formação docente e discente de acordo com as diretrizes da política insti-
tucional para a extensão;
estabelecer critérios para julgamento do mérito e relevância dos projetos de extensão
contemplados nos projetos pedagógicos dos cursos e outros desenvolvidos pela Pró-
Reitoria de Extensão;
promover, através de práticas de intervenção social, o desenvolvimento sustentado das
comunidades-foco de atuação da universidade, pautando-se nos princípios humanistas
que a regem;
• estabelecer intercâmbio com órgãos públicos e privados e agências não governa-
mentais, sob a forma de consórcios, redes ou parcerias, buscando desenvolver ações
de solidariedade nacional e internacional.
Considerações finais
O Centro de Extensão da PUC, criado em 1972, voltou-se inicialmente para a realização
de cursos e a promoção de eventos culturais. Aos poucos, ampliou sua atuação com trabalhos
assistenciais, desenvolvidos junto às populações em situação de vulnerabilidade social, por
intermédio das clínicas de odontologia e de psicologia, bem como dos serviços de assistência
jurídica, que hoje integram os projetos pedagógicos dos respectivos cursos. Os projetos de
intervenção social, iniciados na década de 70 com os campi avançados de Araçuaí e de Pirapora,
desdobraram-se em outros modelos de intervenção social na região metropolitana da capital,
em vários municípios mineiros e no nordeste do País.
Hodiernamente a extensão universitária passa por um momento de questionamento e de
redefinição. Questionam-se o lugar da extensão na universidade e o tratamento secundário que
lhe tem sido dado nacionalmente. Interroga-se, ainda, sobre como efetivar a indissociabilidade
entre a extensão, o ensino e a pesquisa. Um esforço nacional vem se fazendo para que a
extensão seja reconhecida como uma atividade-fim da universidade, buscando superar seu
entendimento como atividade-meio, desintegrada dos projetos pedagógicos dos cursos, por não
se ver contemplada nos currículos, nas disciplinas, na pesquisa e no estágio. A institucionalização
da extensão na estrutura dos cursos apresenta-se, portanto, como desafio a ser assumido pela
comunidade universitária, promovendo o diálogo entre as disciplinas e entre a cultura científica
e a cultura humanística.
A extensão universitária da PUC Minas organiza-se em seis linhas de atuação: Programa
de Promoção da Saúde, Programa Sociocomunitário, Programa Socioeducativo, Programa
Sociocultural, Programa Socioambiental e Programa Sociotecnológico. Por meio dessas linhas
de atuação, pretende-se promover o diálogo entre universalidade e singularidade, preferencial-
mente de forma multi, inter e transdisciplinar, o que supõe intensa cooperação entre docentes e
discentes de diferentes cursos, favorecendo o intercâmbio, a reelaboração e a produção de con-
hecimento sobre a realidade e suas alternativas de transformação e o aprendizado da cidadania,
base para a formação e auto-educação do ser humano.
Nesse sentido, definem-se as linhas de atuação com as seguintes características:
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Programa de Promoção da Saúde – programas, projetos e ações cujos objetivos voltam-se
para o desenvolvimento do senso de responsabilidade das pessoas, em relação a sua
saúde e da comunidade na qual estão inseridas, estimulando, ainda, a participação comu-
nitária de uma maneira construtiva e autônoma, visando a uma melhor qualidade de vida.
Programa Sociocomunitário – programas, projetos e ações cujos objetivos voltam-se para o
desenvolvimento e o fortalecimento de ações de intervenção social e para formulação,
execução e avaliação de políticas públicas sociais, que pretendem: a) fomentar e apoiar
a mobilização e a organização social e comunitária, além de; b) desenvolver práticas
socioeducativas e outros trabalhos de promoção humana prioritariamente voltados para
coletividades que se encontram em situação de vulnerabilidade social.
Programa Sociocultural – programas, projetos e ações cujos objetivos voltam-se para a
promoção e/ou difusão das diferentes produções culturais, bem como o resgate e a
preservação de valores culturais e tradições. As atividades culturais têm relevo na uni-
versidade por meio da promoção de reflexões filosóficas, de espetáculos de música
popular e erudita, cinema, exposições de artes plásticas e de artesanato.
Programa Socioeducativo – programas, projetos e ações cujos objetivos voltam-se para o
desenvolvimento de iniciativas de natureza educacional, com vistas à potencialização
dos indivíduos, por meio de práticas político-pedagógicas específicas.
Programa Socioambiental – programas, projetos e ações cujos objetivos voltam-se para o
desenvolvimento da qualidade de vida das populações, compreendendo a sua responsa-
bilidade na conservação da biodiversidade como patrimônio da humanidade e a
importância da ação interdisciplinar ambiental.
Programa Socioteconológico – programas, projetos e ações cujos objetivos voltam-se para
a transferência de tecnologias geradas pela universidade, incentivando contínuas inter-
ações sinergéticas, indicando e implantando a solução mais adequada para cada situação.
A extensão universitária da PUC Minas, a partir destas linhas de atuação, presta serviços
especializados por meio de um conjunto de atividades acadêmicas, transferindo conhecimentos
produzidos ou experiência adquirida/acumulada, em atendimento a uma demanda social ou
contratada por terceiros. Estas ações promovem a produção e a socialização do conhecimento
científico, tecnológico e humanista, reforçando o compromisso social da universidade. Essa
atividade pode realizar-se na forma de: assessoria, que envolve a formulação, acompanhamento
e avaliação de projetos e/ou ações; consultoria, que envolve a participação na criação, elabo-
ração e desenvolvimento de projetos e serviços; e apoio e/ou realização técnica, que envolve a
participação na execução de atividades/serviços contratados.
As atividades de prestação de serviços especializados são consideradas como atividades
de extensão, contratadas ou institucionalizadas, visando à organização, planejamento, execução,
desenvolvimento técnico ou tecnológico, transferência de tecnologia, ensaio, aferição e avali-
ação, em atendimento a entidades públicas ou privadas para esclarecimento, aconselhamento,
desenvolvimento de projetos, cursos, etc., realizados por docentes, técnicos e alunos, através
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dos cursos, órgãos e programas da PUC Minas. Essas atividades devem ser formalizadas em
convênios ou contratos de cooperação e podem se desenvolver em qualquer linha de atuação da
extensão.
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Extensão universitária e suas mediações político-pedagógicas
Sandra de Faria, Doutora e Mestre em Serviço Social pela PUC/SP. Professora do Departamento
de Serviço Social da Universidade Católica de Goiás – UCG. Pró-Reitora de Extensão e Apoio
Estudantil da Universidade Católica de Goiás – UCG
Universidade Católica de Goiás – UCG
Resumo
O trabalho apresenta uma síntese da trajetória da extensão na universidade Católica de
Goiás – UCG, retomando algumas premissas e mediações pedagógicas que foram incorporadas
como fundamentos de sua conceituação, afirmação e gestão acadêmica
.
Palavras-chave: projeto educacional, projeto político-pedagógico da UCG e concepção de extensão
Introdução
Neste trabalho apresenta-se uma síntese da trajetória da extensão na Universidade
Católica de Goiás – UCG, retomando algumas premissas e mediações políticas e pedagógicas
que configuraram a sua institucionalização e que foram incorporadas como fundamentos de sua
conceituação, afirmação e gestão acadêmica, ressaltando que:
a extensão universitária realizada pela UCG inscreve-se no debate crítico sobre as pro-
fundas mudanças que marcaram o plano econômico, social, ético-político, cultural e
educacional brasileiro pós-70;
propõe-se relacionada aos processos educativos e formativos — ao mesmo tempo constituídos
e constituintes das relações sociais — e profundamente identificada ao projeto de universi-
dade comunitária. O Documento “Perfil da Universidade Comunitária/UCG” apresenta
um estudo das características predominantes da instituição, ressaltando que a extensão na UCG
se define, se estrutura e se efetiva de acordo com a seguinte dimensão de universidade:
Concepção de extensão da UCG: a concepção de extensão da UCG deriva do seu próprio Projeto
de Universidade: Ser uma Universidade Comunitária, particular e sem fins lucrativos, ser um
espaço científico, cultural, humano, profissional, consubstanciando-se numa educação/formação
e atuação científica, técnica, social, política e a serviço da libertação do povo, participando das
lutas maiores da sociedade pela justiça e pela liberdade; ser pública, a serviço dos interesses da
maioria da população, de seus problemas e projetos, através de uma pesquisa de relevância social
aliada a um ensino que confirmem, ambos, a natureza maior da extensão. (UCG, 1988, p. 42)
A extensão na UCG é herdeira de uma trajetória histórica que faz da UCG a primeira
instituição de ensino superior criada na região Centro-Oeste do País, fundada em 17 de outubro
de 1959.
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O agrupamento da Escola de Enfermagem São Vicente de Paula – 1949, Faculdade de
Filosofia – 1948, Faculdade de Ciências Econômica – 1951, Faculdade de Farmácia e
Odontologia, Escola de Belas Artes – 1952, Faculdade de Serviço Social – 1951 e Faculdade de
Direito – 1959, deu origem à UCG. Estes cursos foram implantados pela Arquidiocese de
Goiânia, contando com o apoio da Companhia de Jesus. Em 1958, a Arquidiocese criou a
Sociedade Goiana de Cultura – SGC para fundar e manter a UCG.
No período de 1969 a 1970, a UCG buscou a sua consolidação interna, organizando e
estruturando os recursos humanos, financeiros e administrativos da instituição e, ao mesmo
tempo procurou expandir o espaço físico e ampliar o número de alunos e professores. Ainda na
década de 1970, a UCG preocupou-se com a implantação da reforma universitária, promulga-
da pela Lei nº 5.540/68, que provocou a reestruturação acadêmico-administrativa, alterando sua
organização interna, entre outras: a implantação do Primeiro Ciclo de Estudos Gerais – PCEG,
extinção das Faculdades e criação dos Departamentos, adoção do vestibular único e classifi-
catório, introdução do regime de crédito e matrículas por disciplinas. Neste período foi criada
a Ação Comunitária na instituição para assistir aos alunos inadimplentes. Essa área deu
origem à Coordenação de Assuntos Estudantis, integrando e coordenado a política de
assistência estudantil.
No final da década de 1970 e início dos anos 80, a UCG viveu um intenso processo de
redefinição de sua política administrativa e acadêmica, norteado por uma reflexão sobre o seu
papel frente a lutas e movimentos sociais, que exigiam uma inserção cada vez maior da
universidade em seu cotidiano.
Em 1981, foi criada e implantada a Vice-Reitoria para Assuntos Comunitários e
Estudantis (desde dezembro de 2004 designada Pró-Reitoria de Extensão e Apoio Estudantil),
com o objetivo de coordenar, articular e operacionalizar as ações de estágio, extensão e ação
comunitária em desenvolvimento na UCG, bem como orientar os novos programas e projetos
de extensão que estavam sendo criados, com atividades de assessoria e planejamento em
diversos bairros, órgãos e instituições públicas e entidades sociais. Nessa reestruturação
acadêmico-administrativa da UCG a Coordenação Geral de Estágio passou a ser denominada
Coordenação Geral de Estágio e Extensão – ETG e vinculou-se à Vice-Reitoria, criou-se a
Coordenação de Atividades Comunitárias (extinta em 1991). A Proex possui três coordenações
gerais: de Estágio e Extensão, de Assuntos Estudantis e Cultural.
O breve histórico apresentado apresenta marcos importantes da extensão na UCG e pos-
sibilita apreender dimensões importantes de sua institucionalização na instituição.
A extensão na UCG: trajetória conceitual
A extensão na Universidade Católica de Goiás – UCG desde a sua fase inicial
de institucionalização acadêmica e administrativa, primeira metade da década de 1980, propõe-
se relacionada aos processos educativos e formativos, ao mesmo tempo constituídos e
constituintes das relações sociais, e profundamente identificada ao projeto de universidade
comunitária.
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A extensão é concebida, sob o ponto de vista pedagógico/acadêmico, como atividade
indissociável do processo ensino-aprendizagem, traduzido também nas atividades de ensino,
estágio e pesquisa. Considera, assim, a historicidade do conceito de extensão universitária em
face da própria historicidade das concepções de educação.
Assim, a extensão universitária implementada supera a mera prestação de serviços e se
desenvolve entrelaçada com a investigação e a produção de conhecimento, voltada para a
qualificação do ensino e como exigência do próprio sentido, razão e finalidade da universidade.
A política de extensão que vai sendo desenvolvida deriva dos objetivos institucionais de
compromisso social da universidade e se desenvolve como lócus privilegiado para a identifi-
cação de mediações complexas, que configuram a construção de um projeto societário, verdadeira-
mente emancipador.
Ao mesmo tempo, a extensão é pensada como campo de teorização, reunindo um
conjunto de reflexões e concepções, que se enfeixam em torno dos questionamentos sobre o
significado social e histórico da universidade, sobre a sua própria existência institucional,
indagando sobre por que, para que e onde ela existe.
Nesse horizonte, a extensão na UCG sempre assumiu em suas prioridades e desafios da
sua gestão acadêmica intensificar os vínculos com os cursos e departamentos, programas e
cursos de pós-graduação, associando ensino, pesquisa e extensão.
De modo especial esse desafio é enfrentado pela gestão colegiada, descentralizada com
a participação efetiva no processo de planejamento e avaliação de professores, estudantes e
funcionários vinculados às coordenações, projetos, programas, centros e instituto coordenados
pela Pró-Reitoria de Extensão e Apoio Estudantil – Proex.
Outra dimensão importante e que deve ser observada é que essa perspectiva conceitual
assumida pela UCG desenvolve-se em consonância com os debates do Fórum Nacional de
Extensão e Ação Comunitária das Universidades e Instituições de Ensino Superior
Comunitárias. O Fórum consolida-se como um espaço privilegiado para a reflexão e a cons-
trução das questões relativas à extensão no Brasil. Seus documentos e eventos estão voltados
para o objetivo de analisar, debater, propor políticas e questões relativas à extensão e à ação
comunitária de interesse dos seus membros e, ainda, buscar o entendimento com órgãos
governamentais e instituições da sociedade e com organismos de representação universitária.
Quanto ao conceito de extensão, sua gestão e avaliação, o Fórum reafirma que:
Essa compreensão é fruto do próprio conceito de extensão que se está construindo. Com efeito, falar
hoje em gestão e avaliação da extensão indissociada do ensino e da pesquisa, é falar da produção
do conhecimento, do processo pedagógico que envolve a formação dos alunos e da dinâmica
organizacional das IES Comunitárias, assim como de sua relação com a sociedade, o mercado e
o Estado. Trata-se, portanto, de um diálogo da comunidade acadêmica que possa se realizar num
envolvimento crescente das estruturas e dos sujeitos responsáveis pela construção da universidade.
(CARTA DE FLORIANÓPOLIS, 2002)
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Assim, considera-se que a indissociabilidade entre as atividades de extensão, ensino e
pesquisa é fundamental no fazer acadêmico. A relação entre o ensino e a extensão supõe trans-
formações no processo pedagógico, pois professores e alunos constituem-se como sujeitos do
ato de ensinar e aprender, levando à socialização do saber acadêmico.
Nessa direção e à luz de fundamentos teórico-metodológicos, que trazem como pressu-
posto e fim a realidade sociocultural em toda sua amplitude, compreende-se que a extensão
universitária tem a sua gestão e avaliação correlacionadas com a estrutura institucional e seu
projeto acadêmico:
A teoria e a prática pedagógica denotam a relação direta que os professores (e, por conseguinte, a
instituição) possuem com o conhecimento. Uma prática pedagógica reprodutivista ou marcada-
mente teorética revelará uma relação distanciada com a produção do conhecimento e seus critérios
de coerência e destinação, tendendo para a concepção da extensão definida por atividades pontuais
e assistenciais, que se concentram mais em procedimentos quantitativos que qualitativos. Ao contrário,
a pratica pedagógica que considera o educando como sujeito e vê na relação ensino-aprendizagem
um espaço pertinente e necessário para a produção do conhecimento, incluirá, obrigatoriamente,
a extensão na sua concepção de ação que busca a integração com a sociedade, para a superação de
injustiças e efetivação de princípios éticos. (CARTA DE FLORIANÓPOLIS, 2002)
A premissa que se reafirma, inclusive com as contribuições recolhidas dos debates do
Fórum Nacional de Extensão e Ação Comunitária das Universidades e Instituições de Ensino
Superior Comunitárias, é a de que tratar da relação ensino, pesquisa, extensão e exercício da
docência no ensino superior é, necessariamente, tratar da discussão em torno da teoria educa-
cional, da prática pedagógica e do cotidiano da vida acadêmica.
Enfim, explicita-se que a gestão da extensão e a institucionalidade de suas dimensões
conceitual, social e política, somente pode ser apreendida em face de uma determinada con-
cepção de educação, intrínseca a um projeto político pedagógico de universidade.
As reflexões sobre a extensão universitária, inscrita nos processos educativos e forma-
tivos, indicam as mediações políticas e pedagógicas de uma concepção que pressupõe ainda:
o processo sociopedagógico comprometido com a produção de um conhecimento social-
mente construído e historicamente preservado nos diversos níveis de saberes: humano,
científico e tecnológico;
• o processo educativo numa abordagem de totalidade, promovendo o debate, o estudo, a
pesquisa, situando o homem historicamente, suas várias relações sociais, políticas,
econômicas, culturais e com o meio ambiente;
a práxis social que ocorre inserida na realidade, propondo-se a ser um locus privilegiado,
que estimula a apreensão crítica da realidade e a elaboração reflexiva dos conteúdos da
formação profissional e do perfil profissional que se objetiva alcançar.
a relação com a pesquisa, suscitado pela prática social e pelas demandas postas pela
sociedade (UCG/VAE, 1999).
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Essas referências estão relacionadas com o projeto de universidade e marcam todo o
processo de institucionalização da extensão na UCG. No entanto, para aprofundar nas reflexões
encaminhadas, é preciso assinalar outra ordem de questionamentos a partir da qual se desdo-
bram as análises específicas. Considera-se que é preciso indagar sobre os processos societários,
suas profundas transformações, numa perspectiva que possibilita ir além das representações que
se constroem para expressar o mundo imediato, construídas a partir das expressões fenomênicas
da realidade, das questões imediatas e da consciência daquilo que é imediatamente visível e
acessível na realidade.
Por isso, os valores, os conceitos e as explicações construídos sobre a realidade social,
sobre as relações sociais que marcam os nexos entre o mundo do trabalho, a reprodução social
e as lutas, conquistas e garantia (ou não) dos direitos sociais, que no capitalismo expressam a
realização da cidadania, são reveladoras dos métodos utilizados e das diferenças que eles
produzem nas tendências e formas de apropriação da realidade social.
A reflexão apresentada parte do pressuposto de que o Brasil é um país onde em algumas
conjunturas um pouco mais, em outras menos, as políticas sociais assumidas expressam um
processo sociohistórico mais amplo, lembrando que, historicamente, há uma secundarização
das políticas públicas da área social, nitidamente a partir do regime militar.
As políticas sociais, especificamente a educação, seguem subordinadas aos princípios, e
as políticas econômicas, ao planejamento e mais recente ao próprio Banco Central. Nas últimas
décadas, o papel das políticas públicas e dos campos que complementam os direitos do trabalho,
sob várias formas, sofre de um reordenamento subordinado às políticas neoliberais de esta-
bilização da economia, resultando em ações estatais fragmentadas e seletivas, incapazes de
atender as demandas sociais e a denominada condição cidadã, que pode dar sentido ao
desenvolvimento econômico.
Conforme Frigotto (1998) os processos educativos e formativos passam, no contexto
brevemente indicado, por uma profunda alteração no campo de suas concepções e das políticas.
Assim analisa:
Estreita-se ainda mais a compreensão do educativo, do formativo e da qualificação, desvinculando-
os da dimensão ontológica do trabalho e da produção, reduzindo-os ao economicismo do emprego
e, agora, da empregabilidade. Com efeito, no início da crise do modo de regulação fordista anos
50-60, a educação formal e a qualificação profissional apareciam como formadores de capital
humano. Este conceito, mesmo sendo expressão de uma leitura economicista, engendrava uma
perspectiva integradora vinculada à tese do pleno emprego. Difundia-se a ideologia que o
investimento no capital humano permitiria aos países subdesenvolvidos desenvolverem-se, e aos
indivíduos a garantia de melhores empregos, maior produtividade e, por essa via, mobilidade e
ascensão social. Hoje a educação formal e a qualificação são situadas como elementos da com-
petitividade, reestruturação produtiva e da empregabilidade. (1998, p. 14)
360
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O que se verifica neste cenário são alterações socioeconomicas e ideo-políticas-culturais
que se operam na vida social, objetiva e subjetiva, e que não deixam de se constituírem em
múltiplos e diversificados complexos problemáticos para as teorias sociais e suas tradições, para
o processo de investigação e produção de conhecimento e para as intervenções profissionais.
Estes são alguns aspectos indispensáveis para apontar os fundamentos teórico-metodo-
lógicos que permitem esboçar uma reflexão sobre as mediações político-pedagógicas e embasar
a definição de princípios e de diretrizes norteadores de uma política de extensão da UCG.
Breves considerações sobre a política de extensão da UCG
A extensão universitária, quando analisada do ponto de vista histórico e conceitual,
revela que a sua institucionalidade, na trajetória da UCG, se deu somente a partir da década de
80, ao se configurar não mais por meio de experiências concebidas fora do espaço acadêmico,
mas objetivando afirma-se sob princípios que norteiam o conhecimento como dimensão social,
como apropriado às necessidades humanas, em termos sociopolíticos, culturais e tecnológicos.
A extensão que é projetada vai além da compreensão tradicional de disseminação de conheci-
mento, prestação de serviços e difusão cultural.
A extensão afirma-se na UCG e objetiva convergir dois aspectos fundamentais de seu
projeto de universidade: qualidade acadêmica-científica e compromisso social, relacionando os
grandes temas sociopolítico-culturais com os processos educativos.
Assim, a construção conceitual da extensão deriva dos objetivos institucionais procla-
mados no final da década de 70 de compromisso social da universidade que se define mais
claramente nos marcos da sua identidade como Católica, Comunitária e Filantrópica.
Por sua vez essa imbricação entre as expressões conceituais da extensão e o projeto da
universidade apresenta-se capaz de concentrar um conjunto de reflexões e concepções que se
enfeixam em torno dos questionamentos sobre o significado social e histórico da universidade
na contemporaneidade.
Em especial o processo de criação da Vice-Reitoria de Assuntos Comunitários e
Estudantis– VAE (atualmente Proex), em 1981, e sua consolidação na estrutura acadêmico-
administrativa, adensam a cultura universitária e qualificam historicamente as atividades de
ensino, de pesquisa e de serviços de educação.
Nesse sentido as finalidades e orientações que persistem nessa trajetória decorrem da
defesa da indissociabilidade ensino, pesquisa e extensão, pautada no diálogo interdisciplinar
com as mais amplas demandas sociais, referenciada por posturas éticas.
A extensão é pensada, nessa perspectiva, como a categoria ética que pergunta pelo
sentido e relevância do ensino e da pesquisa, denotando a intencionalidade da produção e
da socialização do conhecimento.
A sua afirmação como espaço constitutivo do ensino e pesquisa aprofunda as possibili-
dades de reconhecimento dos vínculos entre as práticas profissionais e as práticas sociais,
ampliando a relação entre formação profissional, compromisso social e transformação do saber
acadêmico em um bem público.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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A grande visibilidade social alcançada pela extensão, com a inserção e participação da
Universidade Católica de Goiás nos movimentos sociopolíticos, cívicos e culturais do Estado
de Goiás e região, confirma a consolidação dessa acadêmica. Assim, a VAE/Proex é a expressão
do acúmulo de experiências, da realização da pesquisa e da produção de conhecimentos cientí-
ficos, dos estudos realizados e da intervenção social e profissional, e, principalmente, do
amadurecimento intelectual e técnico do seu corpo docente, discente e de funcionários. Esses
são aspectos que revelam, de forma inequívoca, o caráter comunitário da UCG que, há mais de
duas décadas, tem na política de extensão a práxis e a dimensão privilegiada capaz de conceber
e fundamentar o seu compromisso social e institucional com a educação e o ensino universitário.
As perspectivas institucionais para a extensão na UCG integram, oficialmente, o Plano
Estratégico de Gestão Participativa, aprovado pelo Conselho Universitário, em 2003, com
destaque para a avaliação e consolidação da concepção e política de extensão, compondo,
simultaneamente, a gestão acadêmica e administrativa da universidade e sua reconhecida
inserção social na cidade de Goiânia, Estado e região Centro-Oeste.
Na extensão universitária está sinalizado como prioridade sistematizar, aprovar e avaliar
as políticas de assistência, estudantil, cultura, estágio/extensão e de educação continuada.
Consolidar, ampliar e criar parceiras com instituições/organismos locais, estaduais e interna-
cionais. Implementar cursos de especialização latu sensu, derivados das áreas de atuação dos
programas/projetos e centro de extensão. Intensificar a pesquisa e a produção de conhecimento
no âmbito da extensão.
Assim a extensão universitária consolida-se como um dos parâmetros de avaliação da
própria universidade, constituindo um desafio permanente para referenciar a universidades
como instituição social e sintonizada com a realidade brasileira.
Referências bibliográficas
CARTA de Florianópolis. In: FÓRUM NACIONAL DE EXTENSÃO E AÇÃO COMU-
NITÁRIA DAS UNIVERSIDADES E INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR
COMUNITÁRIAS. Florianópolis, 2002.
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_____. Vice-Reitoria para Assuntos Comunitários e Estudantis.
A extensão e a ação comu-
nitária
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362
_0217_UVE_LIVRO_FB 5.qxd 06.09.04 09:35 Page 362
A experiência de autofinanciamento da extensão na Universidade Federal de
Santa Catarina
João Carlos Souza, Doutor
Eunice Nodari, Professora Doutora
Gilson Braviano, Professor Doutor
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC – Pró-Reitoria de Cultura e Extensão
Resumo
Diversos setores da UFSC realizam atividades de extensão que revertem em recursos para
a universidade, tais como: assessorias, desenvolvimento de produtos e cursos. No entanto, existem
muitas outras atividades de extensão que atendem a demandas comunitárias e, normalmente,
são carentes de fontes de financiamento. Como é crônica a falta de recursos para estas atividades,
a Universidade Federal de Santa Catarina criou em 1998 o Fundo de Apoio a Projetos de
Extensão – Funex e o Fundo de Bolsas, cada um constituído a partir de uma taxação de 1%
sobre aquelas atividades de extensão que, devidamente regulamentadas por resoluções do
Conselho Universitário, captam recursos externos. Assim, na UFSC, as próprias atividades de
extensão estão financiando grande parte da extensão. A distribuição dos recursos captados se
através do Programa de bolsas de extensão, que mantém aproximadamente 50 bolsistas
anualmente, além de mais 150 bolsas mantidas pelo orçamento próprio da UFSC, e do
Programa de Apoio a Projetos de Extensão – Proextensão que, tendo por objetivo apoiar finan-
ceiramente projetos de extensão de cunho sociocomunitário, articulados com o ensino e a
pesquisa, em atuação conjunta com a comunidade, tem recebido aproximadamente
R$400.000,00 anualmente desde 2002
.
Palavras-chave: extensão, financiamento, UFSC
Introdução
A Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC registra uma média de 1.800 proje-
tos de ações de extensão por ano. Muitos destes projetos são de interesse de empresas e insti-
tuições externas que possuem capacidade para financiá-los e, por isto, diversos setores da UFSC
têm a oportunidade de realizar atividades de extensão que revertem em recursos para seus lab-
oratórios e também para a própria universidade, tais como: assessorias, desenvolvimento de
produtos e cursos. No entanto estas ações de extensão atraem um razoável volume de recursos
financeiros apenas para alguns centros de ensino e departamentos específicos. Por outro lado,
existem muitas outras atividades de extensão, principalmente aquelas relacionadas às áreas de
ciências da educação e ciências humanas que atendem a demandas comunitárias e, normal-
mente, são carentes de fontes de financiamento.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
363
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Em agosto de 1998 o Conselho Universitário editou a Resolução nº 05 regulamentando
as atividades de extensão da UFSC. Esta resolução também regulou os critérios para concessão
de bolsas de extensão e criou o Fundo de Apoio a Projetos de Extensão – Funex, determinando
que todas as atividades de extensão que captam recursos externos serão taxadas em 1% para o
fundo de bolsas e mais 1% para o Funex. Isto está permitindo que na UFSC a própria extensão
esteja financiando boa parte dos recursos necessários para a realização de atividades de
extensão que não atraem o interesse de entidades externas à universidade.
Desde 1998 a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, com os recursos oriundos do fundo de
bolsas, mantém aproximadamente 50 bolsistas de extensão, além de outros 150 que são manti-
dos pelo orçamento da UFSC. Em 2002, por iniciativa da Câmara de Extensão e da Pró-Reitoria
de Cultura e Extensão, com base na Resolução nº 01 da Câmara de Extensão, de 01 de julho de
2002, foi criado o Programa de Apoio a Projetos de Extensão – Proextensão, cuja meta é apoiar
aqueles projetos que atendem diretamente às populações menos favorecidas, mas que padecem
por crônica escassez de financiamento.
A Resolução nº 01 também admite que o Proextensão possa ser viabilizado através de
outros recursos extra-orçamentários da UFSC ou através de doações, sem prejuízo dos demais
programas existentes na UFSC, competindo à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão – PRCE
alocar e gerenciar, dentro das possibilidades do montante do Funex, os recursos financeiros des-
tinados a este Programa. As doações externas poderão vir de quaisquer instituições, associações,
órgãos públicos e privados, bem como de pessoas físicas. A partir de proposta da PRCE, o
Proextensão terá seu orçamento e o valor máximo a ser alocado a cada projeto contemplado,
aprovados pela Câmara de Extensão. Os recursos são administrados pelas fundações univer-
sitárias, ficando a cargo do Departamento de Apoio à Extensão – Daex, da Pró-Reitoria de
Cultura e Extensão, a coordenação e operacionalização do referido programa.
Objetivo
O Fundo de Bolsas e o Programa de Apoio às Atividades de Extensão – Proextensão tem
por objetivo apoiar financeiramente projetos de extensão de cunho sociocomunitário que
tenham articulação com o ensino e a pesquisa, envolvendo alunos, servidores docentes e técni-
co-administrativos da instituição, em atuação conjunta com a comunidade.
Pretende-se, com estes programas, que as ações de extensão tenham uma relação trans-
formadora entre universidade e sociedade, possibilitando o desenvolvimento e a difusão de
novas tecnologias voltadas à comunidade e, preferencialmente, que contribuam para a inserção
política, econômica, social e cultural das populações excluídas.
Com apoio financeiro, espera-se criar condições mais favoráveis para que os coor-
denadores tenham condições de implantar ou de ampliar ações de extensão que, por falta de
recursos, normalmente não poderiam atingir os objetivos propostos, ou ficariam reprimidas,
ou, provavelmente, não aconteceriam.
364
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Metodologia
O processo para distribuição de bolsas e de recursos financeiros é iniciado a partir
da promulgação, pela Câmara de Extensão, de uma resolução e de um edital definindo as
regras, a documentação a ser apresentada e o cronograma do programa. A documentação é
simples: apenas o projeto da ação de extensão, o formulário de registro e o currículo do
coordenador.
Para submeter-se à seleção, o projeto de extensão deve apresentar os seguintes itens:
título, linha programática, área temática, introdução, justificativa, público-alvo, objetivos,
metodologia, viabilidade, cronograma de trabalho, bibliografia, recursos disponíveis e orça-
mento. Se for para participar do processo seletivo para distribuição de bolsas, também deve
estar incluído na documentação o plano de trabalho do bolsista candidato.
No caso do Proextensão, a critério da Câmara de Extensão, podem ser impostas
restrições sobre os percentuais de aplicação dos recursos das diversas rubricas nos respectivos
editais. De antemão, definiu-se que não poderão ser previstas despesas com pagamento a
membro docente, discente ou técnico-administrativo da UFSC, nem a pessoal de instituições
parceiras envolvidas no projeto de extensão.
O processo seletivo é diferente para o Programa de Bolsas e para o Proextensão. No
primeiro, a seleção é feita pelos membros da Câmara de Extensão, que analisam os projetos e,
seguindo uma metodologia pré-definida, definem quais os que devem ser contemplados com
bolsas de extensão. Um dos principais critérios avaliados é a verificação se o plano de trabalho
do bolsista representa realmente uma atividade de extensão ou se traduz atividade de pesquisa,
monitoria ou simplesmente uma atividade de secretaria para o professor coordenador. Nestes
casos a bolsa não é concedida, pois se entende que existem outros programas de bolsas especí-
ficos para cada um deles, como bolsa de pesquisa, de monitoria e de trabalho.
Já para o Proextensão, todas as solicitações são analisadas por duas comissões: uma de
consultores da unidade de ensino a que estiverem vinculados os respectivos coordenadores dos
projetos apresentados e outra com consultores externos à UFSC.
Compete à comissão interna elaborar parecer circunstanciado, classificando os projetos
da respectiva unidade em ordem de prioridade. Os membros das comissões de consultores
internas são indicados pelos diretores das unidades universitárias, dentre os integrantes do seu
corpo docente com experiência em atividades de extensão, levando-se em consideração as áreas
de conhecimento dos projetos. Cada uma das comissões é presidida pelo representante da
unidade universitária na Câmara de Extensão. As solicitações de projetos não vinculados às
unidades universitárias são analisadas por uma comissão de consultores indicada pela PRCE,
que é presidida pelo Coordenador do Daex. Cada comissão interna tem também a prerrogativa
de incluir novos critérios que julgar necessários dentro das especificidades de cada um dos
Centros de Ensino.
Os resultados do processo de seleção efetuado pelas comissões internas são analisados,
quanto ao mérito, por uma comissão externa, composta por membros de outras instituições, com
reconhecida experiência na respectiva área de atuação.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Depois do crivo das duas comissões, os recursos do Proextensão são, então, alocados
proporcionalmente entre as diversas unidades universitárias, de acordo com a relação entre
montante dos orçamentos dos projetos qualificados em cada unidade, dividido pelo montante
dos orçamentos dos projetos qualificados em toda a Instituição. Na divisão dos recursos, os
projetos classificados, oriundos de setores não vinculados às unidades universitárias, serão con-
siderados como pertencentes a uma unidade extra.
Os equipamentos e o material bibliográfico adquiridos com os recursos do Proextensão
serão incorporados de imediato ao patrimônio da universidade, através da Divisão de
Patrimônio ou da Biblioteca Universitária, conforme normas aplicáveis à espécie, respectiva-
mente. Em caso de desistência da execução do projeto, o montante total dos recursos recebidos
deverá ser devolvido ao órgão gerenciador do programa.
Tanto para o Programa de Bolsas como para o Proextensão, as comissões devem julgar
e classificar os projetos de acordo com seu mérito, priorizando aqueles de maior impacto
comunitário, considerando um conjunto de itens: O primeiro deles é constituído por questões
básicas, que podem excluir o projeto do processo, quais sejam: se é realmente uma atividade de
extensão; se tem cunho sociocomunitário, se é viável de ser executado com os recursos solici-
tados e se o projeto é possível de ser executado dentro do cronograma proposto. No segundo
item, realiza-se a análise do currículo do coordenador, verificando se o currículo demonstra
afinidade com o tema do projeto de extensão em análise, se demonstra que o coordenador tem
experiência em atividades de extensão, se o coordenador demonstra produtividade acadêmica
(publicações, participações em eventos, palestras ou cursos relacionados com a extensão). Este
não é um item eliminatório, porém percebe-se que coordenadores habituados a atuar como
extensionistas têm maior sucesso em cumprir os objetivos propostos em seus projetos e por isto
devem ter prioridade para receberem os recursos. O terceiro item leva em conta aspectos tais
como, relevância social; impacto comunitário; caráter inovador; integração ensino, pesquisa e
extensão; participação de alunos; interdisciplinaridade e parcerias interdepartamentais ou
interinstitucionais, difusão dos conhecimentos gerados; adequação dos recursos solicitados;
viabilidade do cronograma de trabalho e consistência da bibliografia apresentada.
Também, em ambos os programas, no término do período de execução do projeto, o
coordenador deverá encaminhar ao Daex o relatório final das atividades do trabalho desen-
volvido, no prazo constante do respectivo edital. No relatório devem ser incluídos os seguintes
itens: título, autor, resumo, introdução; objetivos previstos, metodologia efetivamente aplicada,
resultados obtidos, discussão comparando os objetivos com os resultados alcançados,
conclusões, recomendações, referências bibliográficas, produtividade originada do projeto e
quadro com resumo da aplicação dos recursos. No caso específico das bolsas de extensão, cada
bolsista deve escrever um artigo relativo à experiência extensionista realizada. Os melhores
artigos são publicados na Revista Eletrônica de Extensão – Extensio (www.extensio.ufsc.br).
O relatório final será analisado por comissões de consultores das unidades universitárias,
preferencialmente integradas por aqueles que emitiram parecer sobre o projeto à época de sua
aprovação.
366
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No caso de alterações no cronograma de realização do projeto, que venham a compro-
meter a entrega do relatório final, o coordenador poderá enviar à direção do Daex justificativa
circunstanciada e novo cronograma com as alterações incluídas. O relatório final de cada
projeto, após análise e aprovação pelas comissões de consultores das unidades universitárias,
será devolvido ao coordenador para conhecimento, sendo o parecer arquivado no Daex e
fornecida uma cópia ao coordenador do projeto. No caso de reprovação, a critério da comissão,
poderá o relatório final ser enviado ao coordenador, para que sejam feitas as alterações sugeridas
e para que o novo relatório possa ser avaliado.
Deve ficar bem claro que os recursos financeiros e os bolsistas colocados à disposição
do coordenador deverão ser utilizados em conformidade com o plano de trabalho e com o orça-
mento aprovado, e serão objetos de prestação de contas junto ao órgão responsável pelo repasse
dos recursos, respeitado os prazos estabelecidos em edital. Caso ocorram alterações que
comprometam o cumprimento do prazo de entrega da prestação de contas, o coordenador
deverá solicitar, por escrito, ao Daex, a prorrogação do prazo, antes do término do mesmo,
justificando o pedido.
Caso o coordenador não observe os requisitos citados, ficará impedido de concorrer a
novos programas de Bolsas, bem como apresentar novo projeto ao Proextensão, comprome-
tendo, ainda, a solicitação de quaisquer outros tipos de auxílios gerenciados pelo Daex.
Resultados
Em média são solicitadas 380 bolsas de extensão anualmente. Desde 1998 são disponi-
bilizadas 200 bolsas por ano, com duração de 10 meses, 150 mantidas pelo orçamento da UFSC
e 50 pelo Funex.
Nas edições de 2002 e 2003 foram distribuídos para o Proextensão R$400.000,00
anualmente, admitindo-se que cada projeto solicitasse individualmente um valor de até
R$4.000,00. Em média inscrevem-se para a seleção 160 projetos, dos quais aproximadamente
100 são contemplados.
Todos os Centros de Ensino da UFSC concorreram, mas, como se pode observar na
tabela seguinte, 70% dos projetos contemplados são das áreas da saúde, educação, cultura e
ciências humanas. Os centros tecnológico e socioeconômico que mais realizam ações de exten-
são remuneradas e, conseqüentemente, os que mais contribuem para o Funex, receberam ape-
nas 11% dos recursos do Proextensão e 9% das bolsas disponibilizadas.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Depois da análise dos projetos, os coordenadores contemplados receberam uma corres-
pondência solicitando que se dirigissem às fundações de apoio para receberem instruções sobre
como deverão proceder para utilizar os respectivos valores solicitados no projeto. As fundações
de apoio têm a função de gerenciar os recursos financeiros das atividades de extensão
Os coordenadores dos projetos não classificados também recebem uma correspondência
explicando os motivos pelos quais seus projetos não ficaram incluídos entre os contemplados
com os recursos.
Em 2002 e 2003, a maioria dos coordenadores beneficiados pelo Proextensão aplicou os
recursos recebidos em equipamentos e em material de consumo que foram usados diretamente
para a consecução dos objetivos propostos em seus respectivos projetos de extensão.
Um outro grande investimento que está sendo feito com recursos do Funex é a implan-
tação da biblioteca depositária de extensão, pois, mesmo assumidas como uma das funções
primordiais da universidade, as atividades de extensão sempre careceram de esforços formais
para sua organização, com o objetivo de preservação das informações. Os projetos e os relatórios
normalmente ficavam, ou ainda ficam, arquivados nos setores de registro das respectivas insti-
tuições de ensino e, pela dificuldade de acesso aos interessados, apresentam a tendência de
caírem no esquecimento. Além disto, é fato que algumas das atividades de extensão são objeto
de publicação em livros, revistas, folhetos, anais de eventos ou meio eletrônico. Porém, também
estes veículos, normalmente, não possuem uma vinculação comum e quase sempre têm circu-
lação dirigida a alguns segmentos específicos de leitores, que os mantêm em acervos particulares,
na maioria das vezes inacessíveis ao público.
368
Centro de Ensino
Proextensão Programa de Bolsas
Valor médio
recebido (R$)
Porcentagem
sobre o total
Número médio
Porcentagem
sobre total
Centro Filosofia e Ciências Humanas – CFH
70.500,00 18% 19 9,5%
Centro de Ciências da Saúde – CCS 68.500,00 17% 49 24,5%
Centro de Ciências Agrárias – CCA 42.000,00 11% 19 9,5%
Outros Órgãos da UFSC – PRCE/GR
37.500,00 9% 8 4,0%
Centro de Ciências Biológicas – CCB
33.500,00 8% 11 5,5%
Centro de Desportos – CDS
27.500,00 7% 21 10,5%
Centro de Educação – CED
27.500,00 7% 16 8,0%
Centro de Sócio Econômico – CSE
27.000,00 7% 7 3,5%
Centro C. Físicas e Matemáticas – CFM 25.000,00 6% 19 9,5%
Centro de Comunicação e Expressão – CCE 19.000,00 5% 18 9,0%
Centro Tecnológico – CTC
18.000,00 4% 11 5,5%
Centro de Ciências Jurídicas – CCJ
4.000,00 1% 2 1,0%
Total
400.000,00 100% 200
100%
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A conseqüência destas práticas é que o pesquisador que procure assuntos relativos à
extensão universitária fatalmente terá pela frente um caminho árduo, pois as informações
estarão dispersas e sem um elo entre si. Para a análise do acervo, destaca-se a diversidade de
palavras-chave que caracteriza a produção bibliográfica oriunda de atividades de extensão, o
que dificulta a classificação pelos critérios normalmente utilizados em bibliotecas. A solução
encontrada foi o repasse direcionado para a Biblioteca Universitária – BU do acervo com todas
as publicações relacionadas à extensão que até então estavam distribuídas em diversos setores
desta universidade. Estas publicações passaram a fazer parte da BU, sendo catalogadas e
disponibilizadas dentro dos padrões vigentes no Sistema de Bibliotecas da UFSC. Assim, por
exemplo, se a atividade de extensão foi realizada na área de educação, sua publicação foi
arquivada junto com o material de educação e se, porventura, é um catálogo, ficará junto com
as obras de referência.
No entanto, para que não ocorresse a dispersão das informações, todas as obras rela-
tivas a extensão que foram encaminhadas para a BU receberam um carimbo especial na
primeira página e, no código que classifica o acervo normal da BU, um adendo numérico
que permitirá a fácil identificação do assunto “extensão”. Assim, independentemente da sua
catalogação, passaram a compor um espaço virtual especial, que constitui a Biblioteca
Depositária de Extensão.
Para ter acesso ao acervo de extensão, basta que os interessados dirijam-se aos terminais
da BU ou acessem a rede da UFSC, via Internet. Digitando as palavras “extensão universitária”,
todos os títulos relativos ao tema aparecerão na tela, com sua respectiva localização nas
prateleiras da BU, ou seja, o pesquisador não terá à sua disposição um espaço especial com as
obras oriundas da extensão, mas sim os endereços destas obras, o que também facilitará em
muito a sua busca.
Com a implantação da Biblioteca Depositária de Extensão da UFSC, espera-se
incrementar o acesso a informações sobre extensão, divulgar as atividades extensionistas e,
principalmente, incentivar a realização de novas atividades de extensão, assim como de mais
pesquisas sobre o assunto. Destaca-se, ainda, a necessidade de recomendar que o material
decorrente dessas atividades apresente sempre, nos termos para indexação, as palavras “extensão
universitária”.
Conclusão
Constatou-se que o objetivo principal dos programas de disseminação das informações,
de bolsas, e de apoio financeiro que é apoiar projetos de extensão de cunho sociocomunitário e
que contribuam para a inserção política, econômica, social e cultural das populações excluídas,
está sendo atingido.
Os maiores beneficiários são, justamente, os setores da UFSC mais carentes do apoio
externo e que, por isto, menos contribuem para o Funex. Conseguiu-se fazer uma redistribuição
e uma transferência significativa de recursos para projetos de extensão que sempre tiveram
grandes dificuldades para serem desenvolvidos.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Uma outra importante conclusão que se chegou é que diminuíram as resistências dentro
da comunidade universitária a projetos de extensão remunerados. Com o Fundo de Bolsas e
com o Proextensão despertou-se para o fato de que na UFSC a extensão que capta recursos
externos está financiando uma boa parte da extensão desprovida de meios de sustentação e que,
portanto, deve ser incentivada.
Referências bibliográficas
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BRASILEIRAS.
Plano nacional de extensão universitária. Ilhéus: Editus, 2001. (Coleção
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Sistema de dados e informações: base operacional de acordo com plano
nacional de extensão. Rio de Janeiro; Nape/UERJ, 2001. (Coleção Extensão Universitária; 2).
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370
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Educação ambiental como instrumento de inserção social e geração de renda
no Município de Esperança/PB
Maria Aldano de França Fernandes, Doutoranda, Universidade Federal de Campina Grande – UFCG
Gilney Christierny Barros dos Anjos, Bacharelando em Administração, Universidade Federal de
Campina Grande – UFCG
Alex Sandro da Rocha, Bacharelando em Administração, Universidade Federal de Campina
Grande – UFCG
Patrício Henrique de Vasconcelos, Bacharelando em Administração, Universidade Federal de
Campina Grande – UFCG
Universidade Federal de Campina Grande – UFCG
Resumo
Enfocando a educação ambiental como uma forma de melhoria do ambiente socioe-
conômico, elaborou-se este projeto. Objetiva promover a educação ambiental, proporcionando
a inserção social dos marginalizados e implantando a geração de renda através da participação
destes. Dessa forma, o projeto procurou investigar as atividades práticas e triviais dos atores
sociais e compreender o sentido que estes atribuem aos fatos e acontecimentos da vida diária.
Ou seja, buscou-se conhecer a realidade para determinar as ações. Realizou-se cadastro com as
pessoas que trabalham com a catação de lixo, para organizá-los em uma associação de catadores;
estão sendo produzidos, em parceria com a Prefeitura de Esperança/PB, uniformes e carrinhos
para os catadores melhor realizarem suas atividades; iniciou-se nas escolas, uma série de
palestras com vista à conscientização dos alunos da importância do meio ambiente; está sendo
371
Meio ambiente
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firmada parceria com empresários locais, para os catadores realizarem a coleta seletiva em seus
estabelecimentos. A formação de multiplicadores escolares foi iniciada; serão realizados
mini-cursos e oficinas visando à geração de renda e comercialização dos produtos, utilizando os
materiais coletados. Essas medidas possibilitarão aos catadores, condições de melhorarem sua
qualidade de vida
.
Palavras-chaves: educação ambiental, inserção social, geração de renda
Introdução e objetivos
Observando ampliar-se celeremente a necessidade de trabalharmos a questão ambiental
– entre vários aspectos, diante das conseqüências que já se fazem sentir sobre toda a sociedade,
agravando-se pelas perspectivas desastrosas que se avizinham nos mais diversos recantos do
planeta, com repercussões na qualidade de vida, nas organizações e no ambiente dos negócios
e considerando estudos já realizados por Sousa (2001) no Município de Esperança na Paraíba,
distante 27 km de Campina Grande, no qual foram identificados problemas diversos na região,
entre estes: programa de saneamento básico insuficiente; lixo a céu aberto; falta de geração de
emprego e renda, ausência de um programa permanente sobre a questão do lixo, entre outros –
iniciou-se através do Programa de Bolsas de Extensão – Probex da UFCG, em parceria com a
Prefeitura de Esperança o presente projeto.
O presente projeto visa contribuir para o redimensionamento do novo currículo,
ampliando o espaço da pesquisa sobre a gestão e educação ambiental, buscando atender as
demandas sociais no tocante à melhoria do meio ambiente, saúde coletiva, bem-estar social e
geração de renda, através da economia e inovação ecológica, assim ajudando a micro região do
Município de Esperança/PB, entre outras, libertando-se dos lixões.
A relevância do nosso trabalho também diz respeito fundamentalmente à questão da
educação ambiental, a nível teórico, através da consciência ecológica e a nível prático, onde,
simultaneamente, nossas propostas se inserem na ação coletiva que propõe colocar em prática
os conhecimentos adquiridos nesta nova consciência. Neste sentido, o projeto visa proporcionar
ainda o empenho do administrador no sentido de preparar a consciência coletiva para o com-
portamento centrado na responsabilidade social, evidenciando as diretrizes do MEC, quanto ao
perfil do administrador, agregando a este as seguintes características: responsabilidade social,
formação humanística e visão global que o habilita a compreender o meio social, político,
econômico e cultural, visando capacitá-lo também como agente analítico-transformador da
realidade social, o capítulo destinado ao meio ambiente, artigo 225, inciso VI, determina: “Cabe
ao poder público promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscienti-
zação pública para a preservação do meio ambiente”. Sendo que o Estado não inviabiliza a
responsabilidade individual e coletiva, a participação popular é essencial no processo e, nesse
assunto, a responsabilidade é comum a todos. Entretanto, muito se tem falado em conservação e
preservação ambiental, mas poucos têm tomado consciência de que é primordial um novo rela-
cionamento na interação homem e natureza.
372
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As organizações de ensino estão constantemente envolvidas por mudanças que implicam
na quebra de paradigmas. Cabendo à escola formar o aluno em conhecimentos e habilidades,
valores, atitudes, formas de pensar e atuar na sociedade, através de uma aprendizagem que seja
verdadeiramente significativa. As mudanças fazem surgir novas formas de relacionamento
humano e superar a ênfase na teorização e dinamizar a prática implica em novos conceitos.
A sociedade, em geral, deve ser responsável por esse processo e torna-se sabido que não
é obrigação somente das autoridades ou de empresas, mas sim de todos, e estes devem respon-
sabilizar-se pelo Planeta. Portanto, faz-se mister, desenvolver um cidadão consciente do ambiente
total, sendo ele conhecedor do problema, motivado para as mudanças, principalmente sensibi-
lizado e disposto, sendo, portanto, um dever de todos.
Não basta saber sobre educação ambiental, se faz necessário agir em educação ambiental
trazendo à tona a importância da vinculação escola/família/meios de comunicação, para
que haja sensibilização de forma mais abrangente e despertar da percepção cogno-afetiva do
ambiente circundante em que a sociedade encontra-se inserida.
Nesse processo de evolução de dinamização da educação ambiental, precisa ser levada
em consideração a evolução histórica do homem, já que este é parte integrante do desenvolvi-
mento socioeconômico, cultural e ambiental de seu País, e este processo é a educação, voltada
para o ambiente natural, através da educação ambiental.
À medida que o homem foi modificando, descobrindo a natureza, modificou o seu modo
de vida, aplicando suas novidades, criatividades e descobertas deste ambiente, torna-se assim,
um explorador. Assim, o homem passou de simples habitante natural para habitante explorador
e usuário transformador do ambiente.
A cidadania ambiental compreende as obrigações éticas que nos vinculam tanto à
sociedade como aos recursos naturais do planeta de acordo com nosso papel social e na pers-
pectiva do desenvolvimento sustentável. Trata-se, em síntese, de saber vincular os problemas
ambientais e suas relações com a vida cotidiana e com a busca daquelas relações harmônicas
que nos levem a uma melhoria da qualidade de vida.
Em nosso País, de acordo com a visão de Donaire (1995), a Gestão Ambiental ainda não
foi assumida de forma adequada, e seu panorama atual caracteriza-se pela falta de articulação
entre as diferentes instituições envolvidas, pela ausência de coordenação e acompanhamento e
pela crônica carência de recursos financeiros e humanos para o gerenciamento das questões
relativas ao meio ambiente. O mesmo autor ainda afirma que, “isso decorre da forma como
se verificou, desde os tempos coloniais, o desenvolvimento econômico do Brasil, em que a
existência de determinados ciclos de produção econômica enfatizava a exploração exaustiva de
nossos recursos naturais”.
Falar em educação ambiental não significa mais só proteger orquídeas, bromélias,
árvores e não matar jacarés e borboletas, transcende as áreas formais de conhecimento traba-
lhadas na escola, significa também adquirir valores, ética, cidadania, amor à vida e ao próximo,
pluralidade cultural, racionalização do consumo, higiene e saúde, urbanização, saneamento
básico, sustentabilidade, diversidade biológica, ocupação do solo.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
373
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Segundo Reigota (1994) a educação ambiental “deve ser entendida como educação
política, no sentido de que ela reivindica e prepara os cidadãos para exigir justiça social, cidada-
nia social, nacional e planetária, autogestão e ética nas relações sociais e com a natureza”. Deve
portanto incentivar o indivíduo a participar ativamente da resolução dos problemas no seu con-
texto de realidades específicas.
A educação ambiental se fundamenta em dois princípios básicos (LEEF, 1999):
uma nova ética que orienta os valores e comportamentos para os objetivos de susten-
tabilidade ecológica e a eqüidade social;
uma nova concepção do mundo como sistemas complexos, a reconstituição do conheci-
mento e o diálogo de saberes. Neste aspecto, a interdisciplinaridade se converteu em um
princípio metodológico privilegiado da questão ambiental.
Uma das maiores dificuldades tem sido chegar a um consenso quanto a uma definição
para educação ambiental. Na Conferência de Tbilisi, educação ambiental foi definida como
“uma dimensão que deveria ser dada ao conteúdo e prática educacional, buscando a resolução
dos problemas do meio ambiente via enfoques interdisciplinares, e de uma ativa e responsável
participação de cada indivíduo e da coletividade como um todo”. Os objetivos da educação
ambiental, propostos em Tbilisi (1977), e que se mantêm até hoje são
• consciência;
• conhecimento;
• comportamento;
• habilidades;
• participação.
Então, os objetivos da educação ambiental devem contribuir para a melhoria do
comportamento do homem para com a natureza; da qualidade de vida e do respeito pela vida;
fortalecer o poder das populações, fornecendo-lhes instrumentos para planejar, gerenciar e
implementar suas próprias alternativas às políticas sociais vigentes, além de resgatar e buscar
soluções para a melhoria das condições de vida.
A Carta de Belgrado, escrita em 1975 por especialistas em educação ambiental de todo
o mundo, expressa que a meta da educação ambiental é:
Desenvolver um cidadão consciente do ambiente total, preocupado com os problemas associados a
esse ambiente e que tenha o conhecimento, as atitudes, motivações, envolvimento e habilidades
para trabalhar individualmente e coletivamente em busca de soluções para resolver os problemas
atuais e prevenir os futuros.
374
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Objetivos
A nível local, o projeto visa atender três metas básicas: conscientização ambiental da
população, inserção social dos excluídos e geração de renda para a comunidade do Município
de Esperança, principalmente no tocante à população marginalizada.
Objetivo geral
Promover a educação ambiental, visando ao desenvolvimento sustentável através do
reaproveitamento e reciclagem dos produtos orgânicos e inorgânicos.
Objetivos específicos
promover a educação ambiental utilizando a coleta seletiva como ponto fundamental de
ação, com o objetivo ainda de fomentar a redução do consumo, a reciclagem, o
reaproveitamento adequado das embalagens e produtos orgânicos, através de usina de
compostagem, já existente no local;
proporcionar a inserção social das pessoas marginalizadas, através de suas participações
no processo de reciclagem e reaproveitamento dos produtos orgânicos e inorgânicos
produzidos pelo Município;
implantar a geração de renda através da participação dos marginalizados e da população
em geral no processo de reciclagem e reutilização dos produtos e a posterior capacitação
dos envolvidos para a criatividade e comercialização dos produtos.
Metodologia
Como metodologia utilizou-se do método participativo, no qual houve uma integração
dos responsáveis pelo projeto com a comunidade alvo do trabalho. Essa integração tinha como
objetivo perceber a realidade local através da visão do público-alvo e com isto detectar pos-
síveis itens que exercessem maior atenção e/ou necessidade de se trabalhar de forma mais
rápida e com maior atenção. Alem disso, no trabalho desenvolvido buscou-se aplicar soluções
já adotadas por iniciativas semelhantes em outras cidades, mas considerando que cada realidade
é única. Com isso buscava-se analisar antes as condições de Esperança e compará-la com as
demais onde existem programas que tratam da gestão dos recursos sólidos para, posteriormente,
implantar algumas das medidas que foram adotadas por estes programas.
Dessa forma, o projeto adquiriu, como pressuposto filosófico, a etnometodologia, que,
inspirada na perspectiva fenomenológica, procura investigar as atividades práticas e triviais dos
atores sociais e compreender o sentido que os atores atribuem aos fatos e acontecimentos da
vida diária (CHIZZOTTI, 1995). Ou seja, buscou-se saber da realidade do Município para
determinar a ordem das ações a serem tomadas.
Resultados e discussões
Para a realização desse projeto de extensão frisaram-se, como já foi mencionado, as
prioridades detectadas na realidade local. A partir da identificação dessas prioridades e da
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importância destas na implantação do projeto iniciaram-se as atividades. Nessa fase inicial,
foram desenvolvidas atividades de contatos e interligação entre os vários órgãos que estavam
ligados ao projeto e que iriam auxiliá-lo na sua implantação. No início, essa fase não apresentou
problemas, mas no decorrer do projeto alguns empecilhos começaram a surgir. Um desses
problemas foi a descentralização da administração dos resíduos sólidos em várias secretarias, o
que dificultou a comunicação e início dos trabalhos.
Cadastro dos catadores
De início, realizou-se o cadastro das pessoas que vivem da catação de lixo no Município.
Foram cadastradas 6 pessoas, sendo que 5 delas têm idade superior a 40 anos e são responsáveis
pela manutenção da sua família. Todos afirmaram não receber nenhum tipo de auxílio gover-
namental. A renda média de todos eles é de cerca de 1 salário mínimo. Com base nessas
informações, percebe-se a situação de extrema carência em que essas pessoas se encontram.
Esse cadastro também serviu para dar início ao processo de formação de uma associação de
catadores, com vista a dar um maior respaldo, organização e representatividade àqueles que
vivem da catação.
Após esta etapa, reuniram-se os catadores para informar sobre os objetivos do projeto e
sobre a importância deles na realização do mesmo. Para aqueles que foram cadastrados está
sendo disponibilizado um fardamento que os identifique, e também foi desenvolvido um carrinho
apropriado para o transporte de materiais recicláveis. Foi ressaltado para os catadores que o
carrinho é para ser utilizado apenas para transporte destes materiais. Existirá no decorrer dos
próximos meses, uma fiscalização nos carrinhos para ver se esta norma está sendo cumprida.
Além disso, se utilizará a educação como fator para minimizar as diferenças sociais dos
indivíduos e tornando-a um fator de inclusão social. Isto será feito através de cursos que enfo-
quem a cidadania e ensinem aos catadores a fazerem produtos a base de materiais reutilizados.
O primeiro curso oferecido ensinará os catadores a produzirem caqueiras para plantas feitas de
coco seco. Todos esses cursos serão registrados através de fotos e de apostilhas para servirem,
posteriormente, como difusores destes conhecimentos.
Levantamento dos preços de materiais recicláveis
Para conhecer melhor o mercado de recicláveis, assim como seus preços, procedeu-se
um levantamento dos preços praticados em Esperança e Campina Grande. Essa comparação foi
feita pelo fato de Campina Grande ser o destino do material reciclável de Esperança. Os
catadores vendem o material coletado a comerciantes locais que o revendem para comerciantes
campinenses. A comparação dos valores será uma informação útil para uma posterior venda
direta dos catadores de Esperança ao comércio de Campina Grande. Nas tabelas seguintes listam-
se os valores encontrados.
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Tabela 1
Comércio de sucata em Esperança
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Item Discriminação Unidade Comprador X Comprador Y
01 Alumínio
Kg R$2, 40 R$2, 30
02 Alumínio broco Kg R$1, 60
03 Cobre Kg R$3, 00 R$3, 00
04 Latão
Kg R$1, 30 R$1, 40
05 Antimônio
Kg R$0, 40 R$0, 40
06 Chumbo
Kg R$0, 35 R$0, 40
07 Ferro
Kg R$0, 05 R$0, 05
08 Papel
Kg R$0, 12 R$0, 15
09 Papelão Kg R$0, 12 R$0, 15
10 Karina Kg R$0, 40 R$0, 40
11 Mangueira de bujão Kg R$0, 40 R$0, 40
12 Litro de catuaba
Um R$0, 10 R$0, 10
13 Litro de conhaque
Um R$0, 10 R$0, 10
14 Litro de cachaça
Um R$0, 15 R$0, 10
15 Litro de cachaça ferrado
Um R$0, 15 R$0, 15
16 Litro de wodka ferrado
Um R$0, 10 R$0, 15
17 Bateria de carro ou moto
Kg R$0, 25 R$0, 25
18 Garrafa de suco Uma R$0, 03 R$0, 03
19 Rum Um R$0, 03 R$0, 03
20 Osso
Kg R$0, 10 R$0, 10
21 Solado de tênis
Kg R$0, 10 R$0, 10
22 Vidro quebrado
Kg R$0, 01 R$0, 01
23 Garrafa água sanitária
Uma R$0, 05
24 Plástico filme
Kg R$0, 20 R$0, 20
25 Pet Kg R$0, 15
26 Plástico duro Kg R$0, 10
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Tabela 2
Preços de materiais recicláveis em Campina Grande
Trabalho de conscientização nas escolas e formação de multiplicadores
Sabemos que nenhum processo de mudanças de comportamento tem sucesso se não for
acompanhado de um processo de educação da população. As organizações de ensino estão
constantemente envolvidas por mudanças que implicam na quebra de paradigmas. Cabendo à
escola formar o aluno em conhecimentos e habilidades, valores, atitudes, formas de pensar e
atuar na sociedade, através de uma aprendizagem que seja verdadeiramente significativa.
Portanto, é fundamental para a obtenção de bons resultados a existência de atividades que enfo-
quem a importância da educação ambiental. Mais importante do que reciclar os materiais
descartados pelos seres humanos é reciclar o próprio ser humano. Reciclagem também é a atu-
alização pedagógica e cultural. Mudar a forma de pensar, de agir, mudar os nossos valores e
também a nossa forma de vida. Isso também significa reciclar. Tudo, enfim, começa no ser
humano. Esta abordagem deve conciliar tanto os aspectos teóricos como os práticos, de forma
que os agentes envolvidos (professores e alunos) venham a obter conhecimentos que sejam
aplicáveis no seu dia-a-dia. Neste sentido, para facilitar o desenvolvimento das atividades,
dividiu-se essa etapa em três partes: a primeira que consiste em ministrar palestras nas escolas;
a segunda, a aplicação de princípios de educação ambiental voltados ao processo de ensino-
aprendizagem. A terceira parte se refere ao processo de formação de multiplicadores ambientais,
estes formados por professores e alunos. A primeira parte desse processo já foi realizada, onde
quatro escolas foram trabalhadas. Foi iniciada também a formação dos multiplicadores dentro
de uma escola que servirá de projeto piloto.
Parcerias com os empresários locais
A participação do setor privado em um projeto como esse não poderia ficar de fora. Essa
participação ocorrerá através de um processo de coleta seletiva feita em alguns estabelecimentos
comerciais parceiros do projeto. Os catadores cadastrados terão acesso, em dias especificados
pela empresa, ao material reciclável produzido por esta. A logomarca das empresas parceiras
será colocada no uniforme dos catadores. Também foi definido que os catadores terão que
seguir algumas regras para usufruírem dessas vantagens como, por exemplo, não chegarem
378
Produto Empresa X Empresa Y Empresa Z
Papel ou papelão (kg)
R$0, 08 R$0, 10 R$0, 10
Vidro (Kg)
Ferro (Kg)
R$0, 08 R$0, 10 R$0, 10
Cobre (Kg) R$3, 50 R$3, 70 R$3, 50
Alumínio (Kg) R$2.50 R$2, 80 R$2, 80
Garrafa pet transparente (unidade) R$0, 05
Garrafa pet (Kg) ––
R$0, 10
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bêbados ao estabelecimento. Além desses pontos, outros entendimentos já foram mantidos, fal-
tando definir apenas a data de início desta etapa.
Conclusões
Apesar das dificuldades que surgiram durante a execução do projeto, foi possível a
realização de várias ações que contribuíram para a estruturação de uma política de educação
ambiental e de gerenciamento dos resíduos sólidos em Esperança. Também estão sendo possi-
bilitadas aos catadores melhores condições de trabalho, de geração de renda e de dignidade
perante a sociedade. Também tem sido levada às escolas a mensagem que a educação ambiental
quer passar: a de preservar e explorar de forma racional o meio ambiente em que o homem vive.
Contudo, as conquistas que foram obtidas ainda estão dando os primeiros passos, o que requer
um acompanhamento mais longo.
A realização do referido trabalho tem servido de base para os componentes da equipe, na
ampliação dos conhecimentos a respeito da realidade ambiental local e suas problemáticas,
tendo, com este conteúdo, já produzido palestras, oficinas, mini-cursos e artigos, divulgados em
eventos científicos. Além disso, já serviu de referência para projeto governamental e evento
estadual, referente a segurança alimentar.
Podemos perceber, por fim, que a educação ambiental, desde que trabalhada da forma
correta e dentro de cada realidade, pode muito mais do que se imagina. Ela poderá gerar renda,
dignidade e inclusão. Portanto, fazendo uma análise de tudo o que ocorreu e foi realizado nos
últimos meses, nos quais o presente projeto está sendo desenvolvido, chegamos a nos convencer
de uma verdade essencial: é possível mudar realidades, aparentemente difíceis, desde que se
queira.
Referências bibliográficas
ANDRADE, R. O. B. de. Gestão ambiental. São Paulo: Makron Books, 2000.
CHIZOTTI, A.
Pesquisa em ciências humanas e sociais. 2.ed. São Paulo: Cortez, 1995.
DONAIRE, Denis.
Gestão ambiental na empresa. São Paulo: Atlas, 1995.
FAPESP, 2000.
FERNANDES, M. A. de F.
O problema ecológico das embalagens: elas pedem socorro. Revista
ARIÚS, Campina Grande: UFPB, n. 10, 2001.
FRANCO, M. de A. R.
Planejamento ambiental. São Paulo: Annablume, [s.d.].
JACOBI, P.
Cidade e meio ambiente. São Paulo: Annablume, 2000.
LEFF, E. Educação ambiental e desenvolvimento sustentável. In: VERDE cotidiano o meio
ambiente em discussão. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
REIGOTA, M.
O que é educação ambiental. São Paulo: Brasiliense, 1994.
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SAVASTANO, S. A. A contribuição da educação ambiental para a resolução dos problemas
ambientais. In: EDUCAÇÃO ambiental, desafio do século: um apelo ético. Rio de Janeiro:
Terceiro Milênio, 1998.
SOUSA, M de F. (Org.). Situação da criança e do adolescente do município de Esperança-PB.
João Pessoa: Arpoador, 2001.
Tecendo o Tupé: a extensão universitária na construção da gestão ambiental
de uma reserva de desenvolvimento sustentável amazônica
Ellen Barbosa de Andrade, Esp. Msc.
Annunziata Donadio Chateaubriand
Carla Reny de Oliveira Bezerra
Nádia Aline Pereira de Souza
Universidade Federal do Amazonas – UFAM
Resumo
Este artigo trata da contribuição da extensão universitária da UFAM, por meio do
Programa Tupé, na construção da gestão ambiental participativa da Reserva de
Desenvolvimento Sustentável do Tupé, Manaus/AM, ao longo de mais de sete anos de atuação
contínua (1997-2004). O referencial teórico e metodológico desse trabalho da UFAM tem
estreita relação com o termo tupé, do tupi, “tecido trançado com talas da palmeira”, com muitas
utilidades práticas, posto que esse programa de extensão busca entrançar diversos segmentos da
sociedade local, sensibilizando-os e mobilizando-os, de modo a construir um tecido social que
dê suporte à gestão efetiva daquela unidade de conservação. Dois cenários, datados de antes da
presença da UFAM naquela reserva e do período atual, apresentam os principais resultados da
gestão coletiva, empreendida pelos agentes e agências sociais locais — comunidades de
moradores, visitantes, instituições e empresas, embasando a conclusão de que a extensão
universitária tem um papel indispensável e intransferível na gestão ambiental, contribuindo
para possibilitar e ampliar a reflexão e a participação cidadã dos diferentes segmentos sociais,
na formulação de políticas, na concepção de decisões, bem como na implantação e no acom-
panhamento de ações que afetam o meio ambiente, em suma, que afetam a vida
.
Palavras-chave: extensão universitária, gestão ambiental, educação ambiental
380
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Introdução e objetivos
Desde a época em que a região amazônica era densamente povoada por nações indíge-
nas, passando pelo período de quase duzentos anos de conquista e colonização portuguesa, até
chegar aos dias atuais, diversas localidades da Amazônia brasileira são denominadas por termos
indígenas. Tupé, do tupi, significa “entrançado, tecido trançado com talas da palmeira arumã”,
em cores ou não, usado como objeto de arte, tapete, esteira, toldo de barcos, dentre muitas out-
ras utilidades. Este termo identifica uma localidade da área rural de Manaus, no Amazonas,
muito freqüentada por visitantes locais e estrangeiros e tradicionalmente ocupada por comu-
nidades ribeirinhas, dispersas entre si e isoladas da área urbana desse Município.
A partir de 1990, o poder público municipal, nos âmbitos legislativo e executivo, insti-
tuiu diversos instrumentos legais visando à proteção ambiental dessa região denominada Tupé,
que, em 2002, foi enquadrada como Reserva de Desenvolvimento Sustentável – Redes do Tupé,
integrando o sistema municipal de unidades de conservação. Se por um lado a legislação ambi-
ental já é significativa, por outro lado as ações efetivas ainda são escassas e insuficientes para
a proteção ambiental daquela área, havendo necessidade e urgência em criar, viabilizar e imple-
mentar um efetivo sistema de gestão ambiental para o desenvolvimento sustentável do Tupé,
impedindo sua degradação e garantindo a cidadania de seus moradores e freqüentadores.
A UFAM atua continuamente naquela área, há mais de sete anos, de 1997 a 2004, desen-
volvendo uma ação de extensão iniciada como projeto e, atualmente, caracterizada como
Programa Tupé, cujo objetivo principal é contribuir para estudos, propostas e ações que pro-
movam a formação, a integração e a cooperação na comunidade de agentes e agências sociais
atuantes no Tupé, com fins de proteção ambiental, inclusão social e desenvolvimento susten-
tável.
Este artigo pretende refletir sobre a contribuição desse programa de extensão univer-
sitária na construção do tupé, aqui entendido como o tecido social, formado pelo entrelaça-
mento de diversos segmentos da sociedade local, de modo a viabilizar a gestão ambiental par-
ticipativa da Redes do Tupé.
Metodologia
A gestão ambiental se realiza a partir de um conjunto de valores sociais, construídos
coletivamente ao longo do tempo, a partir do “olhar” e da contribuição individual de cada
agente ou agência social. Segundo ensinam Toro A. e Werneck (1997), é impossível projetar a
ordem de convivência democrática e de produtividade sem a participação ativa de toda a
sociedade: a ordem social não deve ser construída apenas por aqueles que acham que sabem
fazê-lo, para que depois os outros se integrem a ela, “trata-se de construir com todos, inclusive
com os pobres, uma ordem social onde todos possamos conviver, e ser produtivos econômica,
política, cultural e socialmente”. Assim, todos devem ser envolvidos nas diversas etapas da
gestão ambiental — planejamento, execução, controle e avaliação —, valorizando-se tanto o
saber popular como também o científico, construídos e reconstruídos ao longo da história da
humanidade. No “aprender fazendo”, aprender melhorando a própria condição de vida, os
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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indivíduos, sem abrir mão dos conhecimentos acumulados pela humanidade, resgatam tradições
e tecnologias apropriadas ao desenvolvimento e às realidades regionais (SORRENTINO, 2000).
Desse modo, entende-se que mobilização, conhecimento, participação e integração
amplas, devem ser, ao mesmo tempo, meta e meio da gestão que busca conciliar desenvolvimento
e proteção, visando sustentabilidade ambiental ampla, cultural, política, econômica e física.
Para superar a insustentabilidade da sociedade contemporânea, é fundamental que o
meio ambiente seja percebido não apenas como um meio físico, sua flora e fauna, mas como “o
conjunto de atributos dos elementos naturais e criados, socioeconômicos e culturais, que
permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”, segundo dispõe o Código Ambiental do
Município de Manaus (2001). Atualmente, como observa Leonardi (1997), a definição de meio
ambiente considera que seres humanos e natureza pertencem a uma mesma entidade ontológica,
superando a visão reducionista que os separava e criando as bases para construção de uma nova
relação, necessária à sustentabilidade ambiental.
Outro fundamento básico é que a educação ambiental seja entendida como um conjunto
de “processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhe-
cimentos, habilidades e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de
uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade” (Lei nº 9.795,
1999), posto que, segundo destacam Chateaubriand e Andrade (2002), a educação ambiental é
indispensável para o efetivo engajamento e a participação crítica dos indivíduos nos modelos
de gestão para o desenvolvimento sustentável, de modo a contribuírem efetivamente para a
definição e a aplicação de estratégias e instrumentos, adequados a cada realidade ambiental.
Em última instância, realizar a gestão ambiental equivale a realizar um processo educativo,
amplo, permanente e contínuo, em que agentes e agências sociais sejam sensibilizados e
tenham a oportunidade de refletir sobre suas práticas, modificar comportamentos e atuar de
modo integrado, visando à construção de sociedades sustentáveis que promovam a proteção, a
recuperação e a melhoria do ambiente e das condições de vida.
Portanto, para viabilizar uma gestão participativa, multidisciplinar e interinstitucional,
objetivando a ampla sustentabilidade ambiental, é consenso que não se deve prescindir da
contribuição das universidades, seja por meio do ensino e da pesquisa tradicionalmente desen-
volvidos nessas instituições, seja por meio de uma extensão universitária comprometida com a
transformação social.
O Plano Nacional de Extensão (2001), desde sua primeira publicação, estabelece que
extensão universitária “é um processo educativo, cultural e científico, que articula o ensino e a
pesquisa, de forma indissociável, e viabiliza a relação transformadora entre universidade e
sociedade”. Tal concepção tem sido fundamental para promover, no meio acadêmico e fora
dele, a mudança definitiva de uma visão antiga, que entendia a extensão universitária apenas
como um conjunto de atividades eventuais e desarticuladas — modalidade de curso, palestras e
eventos similares, ou ainda, estágios e prestação de serviços à população carente, visão esta que,
no passado, contribuiu para associar as atividades de extensão a ações de “assistencialismo,
domesticação, manipulação e invasão cultural” (ANDRADE e CHATEAUBRIAND, 2004).
382
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As atividades extensionistas, realizadas segundo essa nova concepção, possibilitarão a
progressiva extinção de fronteiras históricas entre teoria e prática, entre as áreas do conheci-
mento, entre os agentes pedagógicos – professores e alunos, entre as funções básicas das uni-
versidades — ensino, pesquisa e extensão e, principalmente, entre universidade e sociedade,
conforme justifica a Pró-Reitoria de Extensão da UFAM (2003).
No contexto específico de gestão ambiental, acredita-se que a extensão universitária
pode desempenhar com propriedade o papel singular de articuladora dos diversos agentes e
agências sociais, mobilizando-os e sensibilizando-os para uma compreensão global do meio
ambiente, elucidando valores e desenvolvendo o comportamento crítico e participativo a
respeito da gestão de recursos naturais para o desenvolvimento sustentado, visando à eliminação
da pobreza extrema e do consumismo desenfreado e, portanto, construindo as bases para a
conservação ambiental, a sobrevivência das espécies, a inclusão social e o pleno exercício da
cidadania.
Em resumo, no que se refere à gestão ambiental, o desafio que se coloca para a extensão
universitária é o de contribuir para possibilitar e ampliar a reflexão e a participação cidadã dos
diferentes segmentos sociais, na formulação de políticas, na concepção de decisões e na implan-
tação de ações que afetam o meio ambiente, isto é, que afetam a vida.
Com esse referencial teórico e metodológico, a UFAM desenvolve o Programa Tupé,
realizado desde 1997, sem interrupções, num processo contínuo que busca afirmar o compro-
misso permanente desta universidade com a contínua transformação social, realizada a partir da
reflexão e da ação integrada dos diversos agentes e agências da sociedade, atuantes na Redes
do Tupé — docentes, discentes e técnico-administrativos da UFAM, de diferentes áreas do
conhecimento; organizações sociais, públicas e privadas; comunidades de moradores da reserva
e de seu entorno; freqüentadores, comerciantes, visitantes e turistas.
Esses segmentos sociais participam, ora individualmente, ora coletivamente, de todas as
etapas de realização do Programa Tupé — planejamento, execução, controle e avaliação —,
buscando-se superar progressivamente o assistencialismo e o individualismo, bem como
construir e consolidar as bases para a gestão ambiental participativa da Redes do Tupé, com
abordagem plural e interdisciplinar, sempre que possível, tendo-se como princípio básico consi-
derar o meio ambiente em suas dimensões físicas e socioculturais. Em síntese, todos numa
mesma canoa, remando numa direção comum.
Assim, naquela reserva, ao longo de mais de sete anos, promove-se: a) a realização
permanente de atividades de educação ambiental; b) a identificação e a caracterização dos problemas
ambientais; c) a definição de prioridades de ação; d) a viabilização e execução de intervenções
no meio; e) o acompanhamento e a avaliação dos resultados alcançados.
Educação ambiental, gestão ambiental, saúde e higiene, saneamento básico (água, esgoto
e resíduos sólidos), práticas agrícolas sustentáveis, energia, construções e organização comu-
nitária têm sido as linhas de ação prioritárias do Programa Tupé, abordadas pelos diversos
projetos de extensão da UFAM, componentes desse programa — “Tupé: Memória, Educação e
Comunicação”, “Tupé: Saúde e Saneamento Ambiental”, “Tupé: Gestão Ambiental e
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Desenvolvimento Sustentável”, “Saúde Bucal no Tupé”, “Oficina de Educação Sanitária e
Ambiental”, “Tupé: Ações de Trabalho Cooperativo”, “Tupé: Questão Fundiária”, dentre outros.
No meio acadêmico, tais projetos envolveram técnicos administrativos de diversos setores,
docentes e discentes, bolsistas e voluntários dos Cursos de Engenharia, Química, Agronomia,
Medicina, Odontologia, Administração, Direito, Desenho Industrial e Educação Artística dessa
universidade, além de vários profissionais de instituições públicas e privadas, que atuam em
parceria ou apóiam ao Programa Tupé.
Resultados e discussão
A Redes do Tupé, com área estimada 12.000 hectares, está situada na área rural de
Manaus/AM e abriga seis comunidades ribeirinhas, tendo outras seis no seu entorno, com uma
população total de aproximadamente 700 pessoas, residentes ao longo dos cursos d’água locais.
Tais comunidades estão dispersas entre si e o acesso entre elas e a área urbana do Município é
feito principalmente por via fluvial, utilizando-se canoas. A beleza do seu cenário natural e o
lazer desenvolvido na Praia do Tupé são os principais atrativos do local.
Buscando controlar o processo de degradação ambiental, causado pelas atividades dos
visitantes e dos moradores daquela localidade, o poder público municipal instituiu alguns
instrumentos legais, dentre os quais destacam-se, em 1990, pela Lei Orgânica do Município de
Manaus, a classificação como Área de Relevante Interesse Ecológico – Arie do Tupé e, em
1999, a publicação de um regulamento estabelecendo a Secretaria Municipal de
Desenvolvimento e Meio Ambiente – Sedema como gestora dessa unidade de conservação
municipal, bem como definindo competências, objetivos e atividades prioritárias a serem
implementadas e incentivadas nessa área protegida.
As ações do poder público na Redes do Tupé foram intensificadas a partir de 1999, tor-
nando-se mais sistemáticas e constantes, impulsionadas pela crescente participação social e pela
necessidade de cumprimento da legislação ambiental, que vem exigindo, progressivamente,
uma atuação planejada dos órgãos públicos componentes do sistema de meio ambiente que, em
última instância, são responsabilizados pela gestão ambiental das unidades de conservação.
Os resultados alcançados na gestão ambiental da Redes do Tupé, com a contribuição da
extensão universitária da UFAM, por meio do Programa Tupé, são apresentados a partir da
descrição de dois cenários daquela reserva — um do ano do início da atuação desse programa,
e outro referente ao ano em curso, conforme consta no Quadro 1.
Os resultados mais expressivos são observados na crescente atuação de diversas instituições
locais na gestão ambiental daquela unidade de conservação municipal, como também na maior
participação ativa e organizada de moradores nesse processo. Embora não tenha ocorrido
alteração da quantidade de associações comunitárias existentes desde 1996, o perfil dessas
organizações mudou: atualmente, elas mostram-se mais atuantes e comprometidas com o bem-
comum e são integradas por significativa quantidade de mulheres, numa mudança significativa
do modelo original de associação comunitária local, formada quase que totalmente por homens,
integrantes passivos na sua maioria, comandados por um presidente autoritário e freqüente-
384
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mente desonesto, que utilizava a entidade em benefício próprio, sem qualquer compromisso
com a comunidade.
Observa-se, também, um maior interesse da população da Redes do Tupé por atividades
educativas que possam capacitá-la a uma participação efetiva na gestão ambiental, de modo a
atuar criticamente e discernir melhor, entre os diversos interessados, quais entidades são seus
legítimos parceiros e quais são apenas oportunistas e aproveitadoras. A UFAM, por meio do
Programa Tupé, e a Sedema, por meio da sua Universidade do Meio Ambiente – Uniambiente,
têm tido um papel destacado na oferta de oportunidades para educação ambiental, formal e não
formal, destacando-se a realização de cursos de práticas agrícolas sustentáveis e a formação
contínua de agentes ambientais voluntários, tendo como público-alvo moradores de localidades
da reserva e de seu entorno.
Igualmente importante é destacar a ampliação e a melhoria da infra-estrutura comu-
nitária da Redes do Tupé, especialmente nas escolas municipais, com a introdução de elementos
físicos indispensáveis à gestão ambiental para o desenvolvimento sustentável numa região com
carências básicas de energia, transporte, alimentação, habitação, trabalho e educação, comuns a
várias localidades ribeirinhas da Amazônia. Por outro lado, as mudanças físicas tornaram-se
elementos essenciais de motivação para a continuidade do processo de gestão ambiental par-
ticipativa, uma vez que introduziram grandes melhorias nas condições de vida das comunidades
e, portanto, são mais perceptíveis do que as mudanças no meio sociocultural.
A partir de 2002, com a mudança no enquadramento dessa área protegida, de Arie para
Redes do Tupé, e com o advento da nova lei relativa ao Sistema Nacional de Unidades de
Conservação – SNUC, publicada em 2000 e regulamentada em 2002, o Programa Tupé tem
concentrado seus esforços no sentido de contribuir para a efetiva aplicação desses instrumentos
legais, especialmente no que se refere à elaboração do Plano de manejo da Redes do Tupé e à
criação e implementação do seu Conselho Deliberativo, órgão deliberativo responsável pela
gestão ambiental dessa reserva, o qual deverá ter composição paritária de representantes de
instituições públicas e da sociedade civil, atendendo à nova legislação federal.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
385
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Quadro 1
Cenários da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé (Redes do Tupé), Manaus/AM, em 1997
e 2004, destacando alguns aspectos de relevância para a gestão ambiental daquela unidade de
conservação municipal
386
Aspecto Cenário em 1997 Cenário em 2004
Instituições mais
atuantes na reserva
Semed, Sedema e Semsa*
Semed, Sedema, Semsa, Ibama, UFAM,
Embrapa, Cefet/AM, CPRM/AM, Ulbra,
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
– Inpa e outras empresas, públicas e
privadas, que atuam mais eventualmente no
apoio às ações desenvolvidas.
Organizações
comunitárias
12 (doze) associações comunitárias formais,
sendo seis na reserva e seis no seu entorno.
12 (doze) associações comunitárias formais,
sendo seis na reserva e seis no seu entorno;
Associação dos barraqueiros da Praia do
Tupé;
Cooperativa de produtores (Cooperin).
Estrutura física escolar
04 (quatro) construções precárias, com
reduzido espaço físico, sem mobiliário e
sem instalações adequadas.
04 (quatro) escolas construídas e/ou
reformadas, em madeira e alvenaria, com
instalações de água e de esgoto, coleta
seletiva de lixo, alojamento para professores,
paisagismo, pomar, viveiro de mudas e horta,
transporte fluvial para os alunos.
Atendimento
educacional, formal e
não formal
Crianças de 1a à 4a séries do ensino
fundamental.
Crianças e adultos, com ensino fundamental
e telecurso 2º grau na maioria das escolas
municipais existentes, metodologia "Escola
ativa", educação ambiental como tema
transversal (agenda ambiental escolar),
projeto escola-comunidade "Amigos do Tupé".
Eventos, cursos, oficinas, palestras e
treinamentos relacionados com temas
diversos.
Saúde
Alta ocorrência de malária.
Agentes de saúde da Semsa e comunitários.
Posto para diagnóstico de malária;
Controle da ocorrência de malária;
Agentes de saúde da Semsa, Funasa e
comunitários;
04 (quatro) postos de saúde comunitários e 01
(um) da Semsa.
Infra-estrutura
Falta de sistema de comunicação
efetivo entre as comunidades;
Falta de sistema público de energia elétrica;
Templos religiosos.
Telefonia celular em algumas comunidades;
Falta de sistema público de energia elétrica
para os domicílios;
Sistema público de energia solar e banheiros
públicos na Praia do Tupé
Templos religiosos;
Sede administrativa da Sedema;
Centro e alojamento de apoio às atividades
comunitárias.
Classificação ambiental
do Tupé, por lei
municipal
Área de Relevante Interesse Ecológico –
Arie do Tupé, desde 1990.
Reserva de Desenvolvimento Sustentável do
Tupé – Redes do Tupé, desde 2002.
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Conclusões
A estratégia metodológica do Programa Tupé, de caráter formativo e informativo para
todos os participantes da gestão ambiental da Redes do Tupé tem conduzido a resultados efe-
tivos e cada vez mais abrangentes, estimulando a continuidade dessa ação de extensão da
UFAM, face à significativa experiência acumulada pela equipe do programa, como também
devido à credibilidade, alcançada pelo programa, no meio acadêmico e fora dele, ao longo de
mais de sete anos de atuação.
A atuação contínua da extensão universitária da UFAM, por meio do Programa Tupé,
contribuiu para a gestão ambiental daquela reserva, promovendo a reflexão e a participação
cidadã dos diferentes segmentos da sociedade local. Em suma, esse programa de extensão uni-
versitária vem cumprindo o objetivo de tecer um tupé, aqui entendido como um tecido social
que dê suporte à gestão ambiental participativa daquela área protegida. A UFAM e outros
agentes e agências sociais constituíram-se em talas componentes da estrutura desse tecido
social: cada tala com a importância que lhe é peculiar, a ponto de não ser possível dispensar
nenhuma delas, sob pena de enfraquecer ou destruir essa esteira social, comprometendo a cons-
trução coletiva na Redes do Tupé.
Apesar dos significativos avanços, ainda há muito que fazer para consolidar os resulta-
dos já obtidos, bem como para ampliá-los, visando ao desenvolvimento sustentável daquela
unidade de conservação amazônica, a inclusão social de sua população e a proteção de seu
patrimônio natural e cultural.
Portanto, o trabalho de tecer o tupé foi iniciado, mas ainda falta muito para ser concluí-
do. É trabalho demorado, requer persistência e constância, face à sua complexidade, con-
siderando-se, principalmente, que a realização desse ideal da coletividade depende da interação
de todos, e, fundamentalmente, da ação de cada um dos envolvidos que, por sua vez, baseiam
suas atitudes em valores e motivações pessoais.
Nesse sentido, a extensão da UFAM tem o dever e a oportunidade de continuar atuando
na Redes do Tupé, contribuindo para a construção e consolidação da trama desse tecido social,
fortalecendo as talas existentes e possibilitando a inclusão de novas talas — universidades,
moradores, associações comunitárias, visitantes, instituições públicas, turistas e empresas.
Todos em diálogo permanente, entrançados.
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388
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Projeto Juá, você e o porco”: rádio e teatro para uma agropecuária sustentável
Muciana A. da Silva Cunha, Bióloga Formada pela Universidade Federal do Ceará – UFC.
Mestranda em Agronomia (Produção Vegetal) pela Universidade Federal de Alagoas – UFAL
Marlécio M. da Silva Cunha, Biólogo Formado pela Universidade Federal do Ceará – UFC.
Mestrando em Educação pela Universidade Federal da Paraíba. Professor Auxiliar da Fundação
Universidade Estadual de Alagoas – Funesa
Aline Silva Lima, Graduanda em História pela Universidade Federal do Ceará – UFC
Walda Viana Brígido de Moura, Professora Assistente do Departamento de Clínica Odontológica
– UFC. Mestre em Odontologia Social. Coordenadora de Ação Comunitária – Pró-Reitoria de
Extensão – UFC. Interlocutora Unisol/UFC
Universidade Federal do Ceará – UFC
Resumo
Pequenos povoados do semi-árido cearense, além de conviver com entraves típicos destas
regiões interioranas (como secas periódicas, êxodo rural, etc.), também enfrentam dificuldades
características de ambientes urbanos: ausência de planejamento de infra-estrutura, problemas
de saúde pública, poluição e degradação ambiental. Um monitoramento da criação de suínos
foi desenvolvido no distrito de Juá (no Município de Irauçuba/CE), objetivando sensibilizar
criadores de porcos quanto a suas práticas e subsidiar a produção e comercialização da carne de
suínos segundo condições sanitárias adequadas, garantindo o desenvolvimento sustentável da
comunidade. Consistiu numa ação integrante do “Projeto Água Subterrânea no Nordeste do
Brasil” – Proasne, em parceria com o Programa Universidade Solidária – Unisol e a
Universidade Federal do Ceará – UFC, na execução do Programa de Cooperação Técnica
Canadá-Brasil. Como metodologia de abordagem desta problemática, além de serem realizadas
reuniões e oficinas periódicas com moradores de Juá, foram feitas entrevistas com moradores da
comunidade, veiculados programas de rádio educativos e apresentada uma peça teatral. Os
resultados obtidos apontaram para a necessidade de um monitoramento contínuo, além da eficácia
dos programas de rádio na (re)educação da população do distrito. Foi possível, assim, promover
uma melhoria das condições higiênico-sanitárias e da qualidade de vida da população de J
.
Palavras-chave: comunicação, educação, sustentabilidade
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Introdução e objetivos
A Região Nordeste representa 18,3% da área territorial do Brasil, na qual vive uma
população de aproximadamente 47 milhões de habitantes. O semi-árido, que corresponde a 53%
da área do Nordeste e abriga 17 milhões de habitantes (SUASSUNA, 2002), é uma zona sujeita a
períodos cíclicos de seca, os quais agravam problemas historicamente determinados nestas regiões.
Pequenos povoados do semi-árido cearense, além de conviver com entraves típicos
destas regiões interioranas (como secas periódicas, carência de suporte técnico-financiador para
atividades economicamente viáveis, êxodo rural), também enfrentam dificuldades característi-
cas de ambientes urbanos: ausência de planejamento de infra-estrutura, problemas de saúde
pública, poluição e degradação ambiental.
Dentro deste contexto, na região norte do Ceará, encontra-se Juá, distrito pertencente ao
Município de Irauçuba — o qual faz parte da Comunidade Ativa, programa da Secretaria
Executiva do Conselho da Comunidade Solidária, cujo objetivo é promover, nos mais diferentes
aspectos, o desenvolvimento de comunidades pobres do Brasil.
Estudos preliminares realizados em Juá indicaram a existência de um peculiar problema
de saúde pública: a livre criação de porcos soltos nas ruas do distrito, fato responsável pela dis-
seminação de doenças entre seus moradores e entre outros animais.
O levantamento deste e de outros dados deu-se no âmbito da execução do “Projeto Água
Subterrânea no Nordeste do Brasil” – Proasne, em parceria com o Programa Universidade
Solidária – Unisol e a Universidade Federal do Ceará – UFC, através de sua Pró-Reitoria de
Extensão. O Proasne está inserido no Programa de Cooperação Técnica Canadá-Brasil, sendo
executado pelo Serviço Geológico do Canadá – GSC e o Serviço Geológico do Brasil – CPRM,
com o apoio financeiro da Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional – The
Canadian International Development Agency – CIDA.
Levando em consideração a gravidade das conseqüências sociais decorrentes desta
forma de criação de animais, atentou-se para a necessidade da promoção de práticas educativas
em saúde e meio ambiente junto à população, culminando com a criação de um programa de
monitoramento da criação de suínos em Juá.
O monitoramento da criação de suínos teve início em agosto de 2002, e consiste numa
ão integrante do plano social e de gênero do Proasne, em parceria com a Unisol e a Pró-Reitoria
de Extensão/UFC. O trabalho intitulado “Projeto Juá, você e o porco”, objetivou sensibilizar
criadores de porcos quanto a suas práticas e, com a participação da população, subsidiar a pro-
dução e comercialização da carne de suínos de acordo com condições sanitárias adequadas,
garantindo o desenvolvimento sustentável da comunidade. Este entendido como o atendimento
às necessidades humanas sem o esgotamento das fontes de satisfação dessas necessidades.
Metodologia
Era marcante para os que conheciam o distrito de Juá a grande quantidade de animais
soltos, em sua maioria porcos. Poucos proprietários possuíam chiqueiros, e os utilizavam
somente como dormitórios para os animais. Observava-se o alto risco a que estavam submeti-
390
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dos os moradores de contrair doenças, fosse pelo lixo espalhado pelos porcos, pelas suas fezes
expostas e de outros animais ou pela ingestão da carne suína contaminada.
Como metodologia de abordagem desta problemática, foram aplicados, mediante visita
domiciliar, questionários junto à população do distrito de Juá, permitindo um levantamento
prévio de dados sobre saneamento, saúde, relações de gênero e educação/escolaridade dos
moradores, além de possibilitar um cadastro dos criadores de porcos.
No mês de março de 2002, durante uma atuação conjunta do Programa Universidade
Solidária – Unisol, a Universidade Federal do Ceará – UFC e a Universidade Luterana do Brasil
– Ulbra, foram realizadas oficinas e visitas domiciliares, que culminaram com a elaboração de
um cadastro dos proprietários de porcos, o qual serviu de suporte para outras atividades poste-
riormente desenvolvidas na execução do Proasne no distrito de Juá. A partir de julho do mesmo
ano, a coordenação do Proasne no Estado do Ceará realizou um diagnóstico socioambiental no
referido distrito, no qual foram aplicados questionários em torno de 50% da população resi-
dente. Em consonância com a demanda apresentada pelo referido diagnóstico, foi elaborado um
projeto para monitorar a criação de porcos naquele distrito, por ser este o animal que causava,
àquela época, um maior impacto ambiental em Juá.
Posteriormente ao questionário socioeconômico, foram feitas reuniões programadas com
os moradores do distrito, oportunidade em que estes apontaram soluções para os principais
problemas levantados por eles e pelas instituições parceiras na execução do Proasne. Nestas
reuniões foram realizadas, também, oficinas sobre saúde animal/saúde humana, gerenciamento
do lixo, alimentação e técnicas de criação de suínos, atividades integrantes do programa de
monitoramento da criação de suínos em Juá. Tais ações constituíram o cerne do “Projeto Juá,
você e o porco”.
As oficinas foram realizadas e monitoradas pelos próprios estudantes da UFC, em suas
visitas programadas ao distrito. Os temas enfocados foram qualidade de vida, saúde animal e
humana, educação ambiental, uso racional de água e relações de gênero, todos visando à orga-
nização da criação de porcos como primeira etapa do projeto em questão. A totalidade das eta-
pas do referido projeto segue abaixo:
Etapas do “Projeto Juá, você e o porco”
a) elaboração e implantação do projeto;
b) reuniões com criadores de porcos e de outros animais que eram criados soltos nas ruas
(iniciadas em de julho de 2002);
c) oficinas de educação para a promoção da saúde animal e humana na criação de porcos e
prevenção de doenças veiculadas por porcos (de agosto a novembro de 2002, com
encontros quinzenais na escola pública da comunidade);
d) visitas domiciliares para cadastramento dos criadores (feitas pelos alunos participantes
do projeto, que visitaram as casas de criadores de animais, previamente identificados no
diagnóstico feito em julho de 2002);
e) organização da criação de porcos visando ao confinamento em chiqueiros domiciliares
e/ou comunitários, onde seria feito um cercado coletivo subdividido em pequenos
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
391
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chiqueiros identificando cada proprietário (posteriormente verificamos a inviabilidade
desta ação, optando por sanitizar os chiqueiros já existentes em cada casa, além de criar
aqueles ainda inexistentes);
f) sensibilização da comunidade para destino do lixo orgânico (a partir de junho de 2003);
g) construção ou reforma do piso e cobertura dos pequenos chiqueiros domiciliares (iden-
tificação de agentes financiadores para implantação de junho a agosto de 2003);
h) implementação de culturas agrícolas para a alimentação dos animais (desde julho de
2003);
Além das etapas básicas do “Projeto Juá, você e o porco”, algumas ações comple-
mentares, desenvolvidas durante a execução do mesmo, merecem destaque:
Projeto de Piscicultura no Açude São Gabriel
a) mobilização da comunidade (conscientização acerca da necessidade de peixamento
como recurso ecologicamente equilibrado e economicamente rentável);
b) limpeza e despoluição do açude;
c) isolamento da área contra aproximação de animais que ainda estavam sendo criados
soltos;
d) urbanização do açude (retirada de lixo e arbustos do caminho de acesso ao mesmo).
Gestão dos recursos naturais do distrito de Juá
a) constituição de um grupo gestor;
b) capacitação de um grupo executor: em Gestão Participativa e em Gestão Sustentável, nos
seguintes aspectos: econômico, ambiental, social (Comaj – Comissão de Multiplicadores
Ambientais de Juá);
c) capacitação do grupo executor para o cultivo de peixe em tanques-rede (Associação de
Pescadores do Distrito de Juá);
Coleta seletiva do lixo de Juá
a) conscientização e mobilização da comunidade para a coleta seletiva;
b) reuniões para planejamento (elaboração de folder explicativo, do mapa da sede do
Distrito de Juá com o roteiro da coleta);
c) capacitação dos garis, agentes de saúde e famílias de Juá;
d) escolha do Sr. Batistinha (líder comunitário informal) para juntamente com sua família
se responsabilizarem pela coleta e separação do material reciclável, como também pelo
depósito e carroça;
e) monitoramento e assessoria na comercialização do material reciclável (Comaj –
Comissão de Multiplicadores Ambientais de Juá).
392
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Programa de rádio “Juá, você e o porco”
O rádio inicialmente surgiu no Brasil com objetivos predominantemente educacionais,
mas que aos poucos foram assumindo também um caráter de difusão de interesses políticos e
econômicos. Seus idealizadores anteviram as potencialidades do veículo como elemento de
informação e formação do povo brasileiro, que teria no rádio um imprescindível aliado na edu-
cação em larga escala num país de território com dimensões continentais (CAPARELLI, 1982,
p. 13). Hoje o uso deste veículo está distante deste objetivo, servindo aos interesses comerciais
das grandes redes de comunicação e de políticos, detentores das concessões de radiodifusão,
vetando o acesso da população aos meios de comunicação. Entretanto, o grupo de estudantes
participantes do “Projeto Juá, você e o porco” entendeu que seria possível, através do rádio,
resgatar o caráter comunitário dos meios de comunicação social, utilizando-o como instrumento
de divulgação da proposta do projeto, bem como um meio de interlocução entre a comunidade
e as pessoas envolvidas de maneira mais direta com a gestão e execução do projeto em questão.
Assim, como forma de dar suporte à continuidade das discussões entre os moradores enquanto
o grupo de universitários não estava presente no distrito, foram transmitidos (através de rádios
FM do Município de Irauçuba) programas educativos durante a execução do projeto em questão,
sendo tais programas elaborados pelos próprios estudantes da UFC atuantes no Proasne. Um
dos programas veiculados pelo rádio dirigidos à comunidade teve a seguinte estrutura:
Personagens: estudantes graduandos da UFC
R – Richristhi
S – Sandro, Morador de Juá
C – Cássia
R – Bom dia, Sr José!
S – Bom dia. Quem são vocês?
C – Nós somos da Universidade Federal do Ceará. Estamos passando nas casas de Juá para
sabermos quem são e quantos são os criadores de porcos daqui.
S – E pra que interessa a vocês saber isso de nós criadores de porcos? Vocês estão querendo
acabar com os porcos de Juá, é?
R Não! De jeito nenhum, Sr José. Pelo contrário! A gente quer é que pessoas como o
senhor continuem criando seus porcos, só que de um jeito melhor, tanto pro senhor,
quanto pros porcos.
S – De onde já se viu isso? Quem disse que os meus porcos e o dos outros estão sendo
criados com problemas? Duvido que exista alguém insatisfeito com essa criação de
porcos aqui do Juá!
C – O pior é que tem, seu José. Essa é uma das maiores reclamações dos moradores do Juá,
pois os porcos ficam soltos por aí, espalhando lixo e doenças para eles, para a gente e
para os outros animais.
S – Mas isso é conversa, dona! O meu porquinho vive solto aqui na frente de casa, não leva
doença pra lugar nenhum.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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R – Pois é, seu José, aí é que está o problema: ele pode até não levar doença, mas sempre
tem um porco doente que traz as doenças da rua para seu porco ou para você mesmo.
S – Que tantas doenças são essas?
R Vixe, são tantas ... Mas só pra dizer algumas: sarna (aquela coceira danada que os bichos
pegam, inclusive o homem), doenças respiratórias, bicheira transmitida por moscas,
teníase e cisticercose.
S – Ave Maria! Se você me explicar o perigo de pelo menos uma dessas que você falou aí,
eu posso pensar no caso.
C Pois bem! Então deixa que eu explico: a teníase, uma doença causada por um verme que
faz tudo para viver dentro de um porco criado sem higiene.
S – Rapaz, deixa logo de arrodeio! Diga qual é o mal que essa tênia faz pra mim?
C – Bem, se o senhor come carne de porco contaminada com tênia, esse verme vai crescer
dentro de você, fazendo você ficar com fastio, anemia, enjôo.
S – E tem jeito de eu não pegar essa doença, mesmo comendo carne de porco?
R Ter, tem. O negócio é o senhor saber de onde vem e por onde andava o porco que o
senhor vai comer.
S – Ah, mas desse jeito que o pessoal tá criando os porcos é quase impossível saber onde o
porco andou e o que comeu, aí fica difícil garantir que o porco não tá doente.
R É justamente por isso que a gente veio aqui pra dar a idéia dos criadores de porco
criarem seus animais presos, e não soltos na rua.
S E qual é a vantagem de criar um porco preso no quintal da casa, por exemplo? Por acaso
eu vou lucrar com isso?
C Todo mundo vai lucrar com isso, seu José. Seu porco, ao invés de ficar fuçando as coisas
pela rua, vai deixar de gastar as energias dele e vai passar a juntar muita gordura no
corpo, engordando rapidinho.
R Sem contar que se o porco ficar preso no chiqueiro, ele não correrá o risco nem de pegar
nem de passar doenças, pois ele vai viver num lugar limpo e comer comida limpa. As
crianças vão ter espaço limpo para brincar. Além disso, as plantas poderão crescer e a
cidade fica mais verde e mais saudável.
S – Mas essa história de dar ração pra porco sai cara demais. Ainda mais para fazer um
cercado, um chiqueiro.
C De jeito nenhum, seu José. Não sai, porque nenhum criador vai precisar comprar
ração.Toda a comida de todos os porcos vai vir do resto das refeições de cada casa de
Juá. É só a população se organizar junto com os criadores para combinar as horas e as
casas onde uma pessoa encarregada vai pegar o resto de comida para levar para os por-
cos.
C – E as pocilgas para colocar os porcos? Onde vão ficar?
R Vai depender da vontade e principalmente da organização dos criadores. Um vizinho
pode criar junto com os porcos dele, os porcos do seu vizinho, num cercado só. Ou até
os criadores podem se juntar e criar os porcos em chiqueiros comunitários.
394
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S – E o que é um chiqueiro comunitário?
C – É um local onde os porcos de várias pessoas vão poder morar, separados por cercas.
S Tô começando a gostar da idéia. Mas quando for pra matar os porcos? Se eu não tiver
um local pra matar meu porco, vai adiantar ter criado?
R Vai adiantar, porque ai os criadores precisam se reunir para organizar um matadouro
coletivo, onde os porcos vão poder ser mortos e tratados de maneira certa. Seria interes-
sante falar com a prefeitura pra pedir um terreno pra se construir nele um matadouro
público igual aqueles pra matar boi.
C E olhe que nesse matadouro não tem nada de complicado, nem difícil de fazer. Eu
acho que a prefeitura aceitaria essa proposta na hora, até porque é pelo bem de toda a
população de Juá.
S – E depois que a gente matasse esses porcos, para onde é que iria tanta carne de porco?
R Acho que essa parte é a mais fácil: quando o povo começar a saber que a carne de porco
de Juá é de confiança e bem cuidada, a procura vai ser grande. Vai ser possível até vender
lingüiça de porco feita em Juá mesmo!
S Mas como é que a gente vai fazer isso, criatura? Em que lugar? Com que dinheiro? Com
que máquinas?
C E o Senhor tá pensando que precisa de tanta máquina e lugar grande assim? Que eu
saiba, as lingüiças podem ser feitas numa fábrica montada num espaço doado pela
Prefeitura. Lá mesmo as lingüiças seriam feitas e vendidas. É só fazer os acordos com a
prefeitura.
C Sei não. Podem até ceder o espaço, mas duvido que soltem algum centavo pra poder
pagar essas máquinas.
R – Ah, mas aí é que tá. Se os criadores se organizarem direitinho, fica muito mais fácil
conseguir a verba fazendo projetos.
S – Como assim? O que é que tem haver a organização da gente e o aparecimento do
dinheiro?
R – Ora, seu José. Nos tempos de hoje, dinheiro não tá fácil. Ninguém quer arriscar finan-
ciar um projeto que pode não dar certo por falta de organização.
S Ah, então quer dizer que se a gente planejar tudo direitinho, essas coisas todas podem
dar certo?
C – Podem sim: as chances de conseguir dinheiro também aumentam se todo mundo estiver
unido e organizado.
S Pois então dá licença, cumpadre, que eu vou já correr atrás de outros criadores pra gente
conversar melhor sobre isso e se organizar pra essa criação de porcos dar certo, e Juá
ficar mais saudável. Até a próxima!
Este texto, após modificação, subsidiou uma peça teatral encenada pelos estudantes
participantes do módulo regional do Programa Universidade Solidária – Unisol, realizado em
outubro de 2002 na sede do Município de Irauçuba/CE e do distrito de Juá. A peça procurou, de
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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forma lúdica, tratar da temática das verminoses, como forma de conscientizar a população de
Juá acerca dos perigos à saúde da população que vivia em contato com animais criados à solta.
A peça foi encenada e gravada na quadra de esportes da única escola pública localizada em Juá,
tendo os moradores do local como platéia, marcando o encerramento da atuação do grupo
Unisol naquele período.
Em médio prazo, seriam elaborados projetos com a finalidade de conseguir financia-
mento para a construção de um matadouro comunitário e de um ponto de comercialização de
carne, havendo no mesmo local uma fábrica de lingüiça. Para a efetivação destas ações, a
prefeitura seria parceira no terreno para o matadouro. O local para o ponto de comercialização
e para a fábrica de lingüiça seria o mercado municipal, que estava desativado quando do início
do projeto. Nenhum financiamento destinado a estas atividades foi disponibilizado.
Resultados e discussão
Os dados obtidos com os questionários serviram como norteadores das diversas ativi-
dades então planejadas visando à sensibilização da população de Juá quanto à necessidade da
substituição das técnicas empregadas, àquela época, na criação de suínos, um dos fatores
responsáveis pela acentuada degradação ambiental daquele distrito.
Os múltiplos problemas estruturais encontrados em Juá, sobretudo os de ordem
ambiental, apontaram para a necessidade de sua resolução através de atividades (re)educativas
interdisciplinares e contínuas. Tal interdisciplinaridade, a nosso ver, seria alcançada mediante
o desenvolvimento da Educação Ambiental – EA, a qual pode ser compreendida como um
enfoque educacional que pressupõe práticas que visam não apenas à solução de proble-
mas ambientais, mas também à transformação holística da sociedade, nos seus mais diversos
segmentos e aspectos.
Partindo desta visão e pelo fato de o “Projeto Juá, você e o porco” estar associado a outro
projeto — “Água, Fonte da Vida”, o qual busca a efetivação de atividades nas áreas social e de
gênero — decidimos trabalhar paralelamente não apenas temas explicitamente ambientais, mas
também aspectos das relações de gênero, resgate da cidadania e da organização de comu-
nidades, os quais afetam profundamente a estrutura social e física do distrito de Juá.
Num total de 4 visitas realizadas entre os meses de agosto e setembro de 2002, 106
pessoas de toda a comunidade estiveram presentes nas reuniões direcionadas à discussão sobre
a criação de suínos. Os criadores de porcos, segmento da população mais diretamente ligado ao
monitoramento da criação de suínos, representaram, em média, 35% do público presente nas
reuniões até então realizadas. É importante ressaltar que, por se tratar de uma prática que afeta
toda a população do distrito, procurou-se mobilizar para as reuniões não apenas aqueles que
criavam os animais (inclusive ovinos, caprinos, galináceos) à solta, mas também pessoas da
comunidade em geral e, em particular, aqueles poucos que já criavam seus animais em regime
de confinamento.
Nas entrevistas informais realizadas junto aos moradores durante as reuniões, os
mesmos referiram-se com freqüência à sua falta de experiência em organização de associações,
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cooperativas, etc. Tendo em vista este fato, foram simuladas, dentro das oficinas, situações em
que era necessária a organização daqueles moradores em grupos, no intuito de prepará-los para
uma fase posterior do monitoramento, quando os mesmos deveriam gerenciar a alimentação dos
porcos confinados em pocilgas comunitárias, administradas pela própria população. O confina-
mento, além de possibilitar a resolução do problema de saúde pública naquela localidade,
permitirá a posterior arborização do local, atividade já realizada sem êxito pelos moradores,
visto que os porcos, criados à solta, se alimentam da maioria das mudas que são plantadas.
As oficinas realizadas permitiram perceber que um dos fatores que mais contribuíam
para a continuidade do método dominante na criação de porcos era a falta de informação
acerca dos hábitos de vida dos suínos, dos ciclos de vida de parasitas comuns àqueles animais
e ao homem, da forma de propagação das doenças causadas por estes vermes e da forma de
como evitá-las. As oficinas e os programas de rádio supriram essa carência inicial, induzindo os
moradores a discutir novas maneiras de criar seus animais, especificamente os porcos. Os
programas de rádio foram sistematicamente veiculados em rádios de Irauçuba/CE, segundo o
seguinte cronograma:
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
397
Data Assunto
12.07 / Quinta-feira
Desertificação
Racionamento de energia
13.07 / Sexta-feira
Auto-estima do idoso
Terra, planeta água
16.07 / Segunda-feira
Saúde bucal
Educação Ambiental
17.07 / Terça-feira
Saúde do Idoso
Higienização dos alimentos
18.07 / Quarta-feira Saúde da mulher
19.07 / Quinta-feira Orçamento familiar
20.07 / Sexta-feira Saneamento ambiental
23.07 / Segunda-feira DSTs
24.07 / Terça-feira Alimentos transgênicos
25.07 / Quarta-feira Relação de gênero
26.07 / Quinta-feira
Assoreamento
Educação alimentar
27.07 / Sexta-feira
Encerramento
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Conclusões
Como resultado destas ações esperou-se contribuir para o desenvolvimento sustentável,
bem como para a melhoria da qualidade de vida no que se refere à aquisição de conhecimento,
organização comunitária e uma melhoria das condições ambientais com futuro projeto de
urbanização e de manutenção de um povoado com condições sanitárias adequadas.
Para a equipe de universitários envolvida no monitoramento, as oficinas realizadas
constituíram uma oportunidade única de desenvolver com a população (especialmente os criadores de
porcos) uma relação pedagógica dialética, democrática e horizontal, como defendia Freire (1996).
A mobilização da população objetivava levar, em médio prazo, à obtenção de financia-
mento para a construção de um matadouro comunitário (em terreno a ser cedido pela Prefeitura
do Município de Irauçuba) e a organização de uma pequena fábrica de beneficiamento da carne
de suínos, visando à produção artesanal de alimentos embutidos e defumados (a serem comer-
cializados no mercado público municipal que, àquela época, estava desativado).
Esperou-se, assim, promover uma melhoria das condições higiênico-sanitárias, da oferta
de emprego e da qualidade de vida da população de Juá, contribuindo para a produção de conhe-
cimento em saúde pública e educação ambiental numa comunidade do semi-árido nordestino.
Referências bibliográficas
BARRETO, G. B. Curso de suinocultura. 5.ed. Campinas: Instituto Campineiro de Ensino
Agrícola, 1973. 295 p.
CAPARELLI, S.
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Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 12.ed. São
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em: <http://www.universidadesolidaria.org.br>. Acesso em: 03 out. 2002.
PROJETO ÁGUA SUBTERRNEA NO NORDESTE DO BRASIL .
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. Disponível em: <http://brazil.gsc.nrcan.gc.ca/sitemapport.html>. Acesso em: 03 mar.
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Semi-árido: proposta de convivência com a seca. Fundação Joaquim Nabuco.
Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br/docs/tropico/desat/js070202.html>. Acesso em: 03
out. 2002.
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Educação Ambiental e Reciclagem de Lixo: um Exercício de Cidadania
Ana Lúcia, Bacharela em Direito. Especialista em Educação Ambiental
Leile Sílvia Cândido Teixeira, Assistente Social. Especialista em Serviço Social
Universidade Católica de Goiás – UCG
Resumo
O trabalho de educação ambiental que o Instituto Dom Fernando, ligado à
Universidade Católica de Goiás, desenvolve com uma parcela da população goianiense, resi-
dente nas margens do rio Meia Ponte tem como objetivos: a) promover atividades de educação
ambiental na comunidade; b) fomentar renda a partir da reciclagem do lixo; c) fomentar a
separação do lixo, coletar o lixo separado e o reciclar; d) desenvolver oficinas pedagógicas com o
tema da educação ambiental para crianças. O desenvolvimento das atividades resultou na
Cooperativa de Reciclagem de Lixo, fundada em 1998, seu trabalho fundamenta-se na coleta
de lixo na comunidade e sua transformação, o processamento do papel em telha; do plástico em
grânulo e do lixo orgânico em húmus. O Instituto Dom Fernando e Cooprec realizam o trabalho
de educação ambiental que no ano de 2003, atingiu 1.029 residências visitadas, 1.507 atendi-
mentos em oficinas, e a visita de 2.729 pessoas à cooperativa. A necessidade de reciclar o lixo e
a geração de renda atingem dois aspectos de estrangulamento social, quais sejam, a questão do
lixo urbano e do desemprego. A inserção deste trabalho na extensão universitária, articulada
com estágio e pesquisas, propõe uma formação universitária que privilegia as necessidades
proeminentes da sociedade goiana
.
Palavras-chave: educação, meio ambiente, reciclagem
Introdução e objetivos
O presente texto refere-se ao trabalho de educação ambiental que o Instituto Dom
Fernando – IDF desenvolve com uma parcela da população residente nas margens do rio Meia
Ponte em Goiânia, especificamente nos setores Jardim Dom Fernando I e II, Jardim Aroeiras
I e II e Jardim Conquista da região leste do Município.
O IDF atualmente compõe a Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Católica de
Goiás, tem como missão contribuir com a construção da cidadania e a luta pela justiça social
por meio de ações socioeducativa-culturais e ambientais qualificadas, visando ao atendimento
das necessidades básicas humanas da população em situação de exclusão social em Goiânia,
especialmente na região leste do Município, construindo e reafirmando direitos sociais e
humanos.
Para a compreensão do trabalho que o IDF realiza na comunidade é mister percorrer,
ainda que de forma sucinta a história do Instituto, que por sua vez é intimamente ligada à
história dos bairros em que este desenvolve seu trabalho.
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A referida área é constitutiva de uma antiga fazenda da Arquidiocese de Goiânia, que na
década de 1980 foi ocupada pela população para fins de moradia. Diante da situação, a
Arquidiocese realiza a doação do terreno para as famílias, o que impingiu à Prefeitura a
urbanização da região.
A população que se deslocou para o local configurava-se com a característica de
pobreza, como ademais ocorre em todas as áreas de posse urbana. Percebe-se uma série de
expressões da questão social como desemprego, baixa qualificação, crianças em situação de
risco social e pessoal. A região é marcada ainda pela proximidade com o rio Meia Ponte, do qual
trataremos com mais propriedade em seguida. Desta conjuntura, a Arquidiocese de Goiânia, por
meio da Sociedade Goiana de Cultura – SGC elaborou o Projeto Meia Ponte. A essência do pro-
jeto consiste em uma contribuição da SGC na comunidade, construindo com isso metade da
ponte da cidadania que seria completada pela ação popular em um trabalho conjunto e contínuo.
A metade da ponte que a SGC construiu fundamenta-se na disponibilização de equipamentos
sociais para atender a algumas necessidades da comunidade. Deste Projeto Meia Ponte, nasce o
Instituto Dom Fernando, em 01 de junho de 1995, data em que se registra o décimo ano de
falecimento de Dom Fernando Gomes dos Santos, Arcebispo de Goiânia, fundador da
Sociedade Goiana de Cultura e Universidade Católica de Goiás.
Por se tratar de uma região próxima ao rio Meia Ponte, a temática da educação ambien-
tal desde muito sedo se configurou como uma prioridade do Instituto Dom Fernando.
O rio Meia Ponte nasce próximo a Itauçu e Taquaral de Goiás, percorre 471, 6 km até
desaguar no rio Paranaíba, próximo à cidade de Cachoeira Dourada, divisa com o Estado de
Minas Gerais, seus principais afluentes são o ribeirão João Leite e os rios Caldas e Dourados.
A área da bacia hidrográfica do rio Meia Ponte representa cerca de 4% do estado [de Goiás] e
abrange 38 municípios onde vivem 2 milhões de pessoas — 50% da população de Goiás (...).
Dentre estes municípios encontra-se Goiânia e Anápolis onde é feita a maior captação de água
para consumo humano e, paradoxalmente, onde a degradação do rio chega ao ponto máximo,
apenas 9% da população da bacia é atendida por sistemas de tratamento de esgotos. (Disponível
em: www.meiaponte.org/bacia.htm)
Existem 248 indústrias instaladas ao longo da bacia, o lançamento de resíduos sólidos é
da ordem de 10 toneladas/dia e o lançamento de esgoto doméstico 183 mil m3/dia. No trecho
do rio percorrido em Goiânia, o comprometimento das águas é devido principalmente aos
frigoríficos, laticínios, esgotos domésticos e lixo hospitalar (Idem).
A cidade de Goiânia foi construída em 1933, e projetada para abrigar 50 mil habitantes,
conta atualmente com cerca de 1,1 milhões (IBGE, 2002). O processo de ocupação do solo urbano
caracteriza-se pela ocupação desordenada, que se agrava nas áreas próximas aos córregos e fun-
dos de vales. Goiânia é cortada por 55 cursos d’água, cujo maior expoente é o rio Meia Ponte.
As ocupações de áreas de preservação ambiental para fins de moradia como as ocupações
nas margens dos córregos de Goiânia ocasionam graves transtornos ambientais para a cidade,
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e riscos para a população, que em sua totalidade é marcada pela vulnerabilidade econômica
e social.
Desta feita, a intervenção do IDF articula os aspectos sociais, econômicos, políticos, cul-
turais e ambientais, compreendendo a educação ambiental como eixo transversal, perpassando
portanto todo o restante do trabalho. Uma das ações do IDF, no sentido de atingir todos esses
aspectos, é a construção de uma usina de reciclagem de lixo, com capacidade para processar
papel, plástico e material orgânico, e fomenta a formação de uma cooperativa de reciclagem de
lixo com moradores da região. A cooperativa é formada inicialmente com 50 cooperados, que
passam a administrar em regime de comodato a usina, gerando renda para suas famílias com a
venda dos produtos da reciclagem. Como pressuposto para a reciclagem, o instituto e a cooperati-
va executam um rico trabalho de educação ambiental na comunidade. Este trabalho tem como
objetivos: a) promover atividades de educação ambiental na comunidade; b) fomentar renda a
partir da reciclagem do lixo; c) fomentar a separação do lixo, coletar o lixo separado e o reciclar;
d) desenvolver oficinas pedagógicas com o tema da educação ambiental para crianças, e) gerar
renda para algumas famílias em situação de vulnerabilidade econômica, moradores da região leste.
Metodologia
Ao partir do suposto gramsciano que “nenhuma sociedade se coloca problemas sem que
existam condições necessárias e suficientes para sua solução ou sem que essas condições este-
jam ao menos em via de aparecer ou desenvolver-se” (GRAMSCI, 1992, p. 44), salientamos
que o trabalho socioeconômico-político-cultural e ambiental desenvolvido pelo IDF na região
leste emerge com uma característica peculiar no que diz respeito a sua concepção teórico-
metodológica.
Trata-se de conceber uma ação socioambiental em um grande centro urbano, na periferia
de uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes, envolvendo bairros cujos moradores são
cidadãos de baixa renda, que se encontram excluídos do processo produtivo na sociedade
capitalista. Uma população que, em sua maioria, luta para garantir a sobrevivência, cuja forma
de reprodução encontra-se no patamar de vida abaixo da linha da pobreza.
Esta população, com a qual o IDF compromete-se em sua ação, vive em permanente
situação de opressão, sem autonomia. Por autonomia entende-se “o grau de compreensão que
uma pessoa tem de si mesma, de sua cultura e do que se espera dela como indivíduo dentro
dessa cultura; a capacidade psicológica que a pessoa possui de formular opções para si mesma;
e as oportunidades objetivas que lhe permitam atuar, como conseqüência” (DOYAL e GOUGH,
apud PEREIRA, 2000, p. 71). Portanto, ao desenvolver suas ações, o IDF parte do reconheci-
mento da realidade no qual se insere, cuja população encontra-se destituída do atendimento de
suas necessidades básicas, tanto em suas necessidades físicas quanto aquelas relacionadas à
autonomia.
Assim, as ações desencadeadas pelo IDF são concebidas para atuar no sentido de buscar
soluções para os graves problemas sociais e ambientais que afetam a região leste do Município
de Goiânia. O processo metodológico pode ser apreendido a partir do contexto geográfico da
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região por onde passa o rio Meia Ponte e possui uma área de preservação ambiental. A preser-
vação do Meia Ponte tem implicação direta com a qualidade de vida da população numa relação
de “ida” e “volta”, uma vez que não é possível preservar o meio ambiente onde a vida de homens,
mulheres e crianças não são preservadas e garantidas. Esta metade da ponte precisa ser cons-
truída e os construtores são os homens, mulheres e crianças, sujeitos de direitos e agentes da
transformação socioambiental.
Ao colocar-se a serviço da população, o IDF posiciona-se a partir de ações afirmativas
que se articulam entre si, circunscritas no âmbito dos direitos sociais, concebendo a assistência
social como um direito.
A educação ambiental destaca-se como tema transversal que permeia todas as ações,
onde o respeito e o cuidado com a vida e a natureza são fundamentais, compreendendo homens
e mulheres como sujeitos transformadores da realidade.
A natureza predatória do modo de produção capitalista intensificado nas últimas décadas
pela necessidade de desenvolver outras fontes de energia causa por um lado o esgotamento dos
recursos naturais e por outro o agravamento da pobreza, fome e doenças.
Impõe-se como exigência à humanidade a proteção dos recursos ambientais, que em
muitas regiões encontram-se com sua capacidade limite esgotada.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN refletem a visão de que a
aprendizagem de valores e atitudes é pouco explorada do ponto de vista pedagógico. Há estudos
que apontam a importância da informação como fator de transformação de valores e atitudes.
Conhecer os problemas ambientais e saber de suas conseqüências desastrosas para a vida humana
é importante para promover uma atitude de cuidado e atenção a essas questões, valorizar ações
preservacionistas e aquelas que proponham a sustentabilidade como princípio para a construção
de normas que regulamentem as intervenções econômicas. (MEC, 1997)
Estruturado nesta visão, o IDF organiza seu trabalho de Educação Ambiental no Núcleo
de Educação Ambiental e Saúde e no Núcleo Industrial de Reciclagem, unidade onde se encontra
a Usina de Reciclagem de Lixo, administrada por uma Cooperativa de Reciclagem de Lixo
formada por moradores da região.
Desenvolvido desde dezembro de 1997, o trabalho consiste na coleta seletiva do lixo
domiciliar, que ocorre três vezes por semana. A coleta de lixo é realizada de porta em porta,
nos cinco bairros participantes do projeto, para tanto a cooperativa dispõe de dois caminhões
de lixo. Esta atividade é feita por meio de um convênio com a Prefeitura de Goiânia, que paga
à Cooperativa pelo serviço de coleta, são realizadas ainda captações de lixo em alguns pontos
da cidade, como shoppings e empresas, um dos pontos é dentro da própria Universidade
Católica, que possui em todas as áreas os coletadores apropriados para a separação do lixo,
buscando desenvolver no cotidiano dos alunos a consciência da sua responsabilidade com o
lixo que produz.
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Para que o trabalho de coleta tenha resultado, são realizadas previamente visitas
domiciliares com o objetivo de orientar os moradores na separação do lixo, informando sobre
a coleta seletiva e a preservação dos recursos naturais e necessidade de preservação do meio
ambiente. É utilizado como recurso didático nas visitas folheto explicativo com informações
sobre a separação do lixo, exemplos de lixo seco, molhado e perigoso, vantagens e desvantagens
da separação do lixo, dias de coleta e convite aos moradores para visita à usina de reciclagem.
Realiza-se, também, o cadastramento dos moradores, possibilitando o levantamento de infor-
mações e verificação do índice de adesão à coleta seletiva.
Outra atividade desenvolvida neste projeto é a Visita Monitorada, trabalho no qual são
atendidas instituições de ensino e entidades que apresentem interesse em conhecer o trabalho
desenvolvido pelo IDF. Tem como objetivo possibilitar que a usina de reciclagem seja um
espaço de pesquisa e troca de experiências, estimulando o pensamento crítico sobre a conduta
individual e coletiva na geração de lixo. O trabalho consiste na sensibilização para uma
mudança de hábitos, valorizando os recursos naturais e incentivando a redução de resíduos
lançados no ambiente. Os visitantes são recepcionados no Núcleo de Educação Ambiental
quando são apresentadas as ações desenvolvidas pelo IDF e Cooprec. Em seguida, é realizada
palestra de Educação Ambiental tendo como temas principais: resíduos sólidos, coleta seletiva,
reciclagem, princípio dos 3R’s (reduzir, reutilizar e reciclar) e preservação do meio ambiente.
São realizadas dinâmicas de grupo e atividades que variam de acordo com a faixa etária dos
visitantes. Em seguida, estes passam a conhecer as instalações da Usina de Reciclagem de Lixo
Realizam-se ainda oficinas temáticas com um grupo permanente de crianças. Os temas
das oficinas são: coleta seletiva, meio ambiente, cultivo de plantas, direitos e deveres da criança
(ECA), higiene individual e do ambiente, alimentação saudável e alternativa, saúde comu-
nitária; constrói-se brinquedos com material reciclado e realiza-se passeios recreativos. Todo o
trabalho de educação ambiental tem como perspectiva o fomento de uma forma de vida que
respeite o ambiente e a natureza.
Os resíduos, depois de coletados pela Cooperativa de Reciclagem de Lixo – Cooprec,
são levados para a usina para processamento.
As usinas de reciclagem e compostagem geram emprego e renda e podem reduzir a quantidade de
resíduos que deverão ser dispostos no solo, em aterros sanitários. A economia da energia que seria
gasta na transformação da matéria-prima, já contida no reciclado, e a transformação do material
orgânico do lixo em composto orgânico adequado para nutrir o solo destinado à agricultura
representam vantagens ambientais e econômicas importantes proporcionadas pelas usinas de reci-
clagem e compostagem. (Manual gerenciamento integrado de resíduos sólidos. Secretaria Especial
de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República – SEDV)
Na usina os resíduos passam primeiramente pela triagem, onde é separado em papel,
plástico, material orgânico e rejeito. O papel é processado e transformado em telha, o plástico em
grânulo, o material orgânico em húmus e o rejeito é levado ao aterro sanitário da cidade. O principal
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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produto da cooperativa é a telha que é vendida especialmente para galpões, o grânulo é vendido
para indústrias de mangueiras de jardinagem e o húmus é aplicado em hortas e jardinagem.
Resultados e discussão
Ao longo destes sete anos de trabalho, os resultados obtidos são variados e ricos, várias
técnicas foram testadas e os resultados foram indicando quais os melhores caminhos a percorrer.
Os dados sistematizados no ano de 2003 somam 1.029 residências visitadas, perfazendo um
total de 5.163 pessoas. Avalia-se a visita domiciliar como um importante instrumento para
orientação das famílias na separação do lixo. Porém, é necessário construir outros mecanismos
que envolvam a população no sentido de assumir com maior responsabilidade a separação do
lixo e o cuidado com o ambiente. A separação do lixo para a coleta seletiva exige mudança de
hábitos da comunidade, trata-se da junção de esforços de todos os envolvidos, IDF, Cooprec,
moradores e entidades organizativas da comunidade.
O trabalho realizado merece destaque no que se refere à receptividade dos moradores, o
que se torna estímulo para a continuidade do trabalho, e demonstra como é possível concreta-
mente realizar a coleta seletiva. Quanto às visitas de instituições à usina, em 2003 atingiu 2.729
pessoas em um total de 37 instituições. O trabalho de oficinas resultou, em 2003, em 77 oficinas
com a participação de 50 crianças, totalizando 1.507 atendimentos. As oficinas apresentam
resultados positivos no que se refere a mudanças de atitudes das crianças em relação ao meio
ambiente, ao relacionamento entre elas, à solidariedade e conscientização de cidadania, possi-
bilitam aos alunos maior compreensão da preservação do meio ambiente na utilização e
transformação do material reciclado.
A Cooperativa de Reciclagem de Lixo – Cooprec é formada atualmente por 31 cooperados,
o que significa por conseguinte a geração de renda direta para 31 famílias, aproximadamente
195 pessoas que têm na cooperativa sua única fonte de renda.
Alguns problemas são observados, como por exemplo os ciclos de produção da telha,
como a telha é secada ao sol, nos períodos de chuva, a produção é substancialmente reduzida,
o que implica em redução da renda dos cooperados. Com relação ao repasse das sobras, para
solucionar este problema vem sendo estudada a produção de papelão, que não precisaria da
secagem ao sol e manteria o fluxo de dinheiro para os cooperados.
Outro problema encontrado é a falta de material, desde sua fundação a cooperativa
compra plástico e atualmente vem discutindo a compra do papel, uma questão delicada, uma
vez que, o mercado do lixo pode fomentar nas pessoas o desejo de produzir mais lixo, o que
seria uma catástrofe do ponto de vista ambiental. Em Goiânia, no entanto, uma das áreas que
mais cresce é a coleta de papel por catadores, que o vende para indústrias de reciclagem a um
preço insignificante, mas que os matem se alimentando. Esta atividade faz com que diminua o
lixo que a Cooprec coletava, obrigando-a a comprar o papel. O implicador é que a cooperativa
não tem liquidez suficiente para pagar o papel à vista, perdendo com isto muitas compras. Nesse
sentido, começa-se a discutir os princípios de economia solidária, buscando articular uma forma
de produzir, comercializar e consumir que seja ética e consciente.
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No que diz respeito à coleta do lixo, atualmente chega a 14 toneladas/dia, com uma
produção mês de 13 toneladas de grânulos (processamento do plástico), 27 mil telhas e 10
toneladas de húmus.
A observação sistematizada do trabalho ao longo dos anos indica a viabilidade da
articulação entre geração de renda, reciclagem e educação ambiental, sendo esta última critério
fundamental para a articulação das anteriores.
A totalidade das atividades realizadas na região busca atingir a todos os segmentos da
comunidade na qual o projeto se insere, priorizando a educação ambiental com crianças, por
estas ainda estarem com seus hábitos e atitudes em relação à vida em formação. A separação e
coleta de lixo, no entanto, encontra várias dificuldades, uma vez que os moradores não
percebem que o lixo é responsabilidade de quem o produz. Outro problema encontrado em
Goiânia atualmente é o comércio do lixo, em muitos casos, empresas que processam o papel
exploram catadores e não realizam a educação ambiental, que é o coração do trabalho.
A organização política em torno da consciência da necessidade de preservação ambiental,
recuperação dos rios e tratamento do lixo ainda é um caminho longo a percorrer, mas sem
dúvida o primeiro passo foi dado.
Conclusões
Educação ambiental, preservação da natureza, tratamento do lixo, consumo responsável,
são temas que aparecem na agenda da sociedade brasileira e mundial com a urgência espantosa
de um planeta que não suporta mais o ritmo de exploração que o homem impôs a ele. Já não se
trata mais de uma mera vontade de ambientalistas ou de naturalistas, mas uma necessidade de
todas as pessoas. É neste sentido que para o IDF este é um tema transversal e por conseguinte
trabalhado em todas as atividades. As ações intensivas de oficinas, visitas às residências,
palestras, coleta seletiva nos bairros, demonstram como é possível construir outra relação com
a natureza.
A inserção deste trabalho dentro da realidade da extensão universitária, articulada com
as unidades acadêmicas, tanto no que diz respeito aos campos de estágio quanto à própria
dinâmica das aulas, orienta para uma formação universitária que privilegia as necessidades
proeminentes da sociedade goiana, é neste sentido que buscamos a pesquisa universitária como
caminho para melhorar os processos dentro da usina e no próprio tratamento dos resíduos.
A vinculação, por outro lado, da necessidade de reciclar o resíduo que não pode ser
reutilizado com a necessidade de geração de renda atinge dois aspectos de estrangulamento
social, quais sejam, a questão do lixo urbano e do desemprego.
O modelo da Usina de Reciclagem e da Cooperativa de Reciclagem é com certeza uma
proposta eficiente para alguns de nossos mais difíceis problemas.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Referências bibliográficas
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MEC, 1997.
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“Projeto Manuelzão de bem com a vida” – promoção de saúde e meio ambiente
Marcus Vinícius Polignano, Doutor. Professor Adjunto do DMPS da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Marco Túlio Gualberto Cintra, Acadêmico de Medicina da Universidade Federal de Minas
Gerais – UFMG
Caroline Guimarães Cardoso, Acadêmica de Medicina da Universidade Federal de Minas
Gerais – UFMG
Cleber Luiz Scheidegger Maia Júnior, Acadêmico de Medicina da Universidade Federal de
Minas Gerais – UFMG
Natália Pimenta Rezende, Acadêmico de Medicina da Universidade Federal de Minas
Gerais – UFMG
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
O artigo relata o trabalho realizado por cinco estudantes da Faculdade de Medicina da
UFMG que defendem a idéia do “Projeto Manuelzão” de preservar o meio ambiente e os recur-
sos hídricos da bacia do Rio das Velhas, uma vez que do estado desta depende a saúde e a
qualidade de vida da população local. O “Projeto Manuelzão de bem com a vida” percorreu os
51 Municípios desta região com o objetivo de promover a saúde nestas comunidades, propor-
cionando lazer, educação ambiental, cultura e atendimento médico primário. Desenvolveu-se
parcerias com prefeituras locais, Secretaria de Esporte do Estado de Minas Gerais, Secretarias
Municipais de Saúde e equipes de PSF locais. O público alvo principal foi crianças em idade
escolar. Atingiu-se um público estimado em 35.000 pessoas e conseguiu-se que lideranças locais
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criassem novos comitês do projeto, incrementando a conscientização e despertando o interesse de
muitas escolas em desenvolver projetos ambientais envolvendo alunos, pais e professores. O
Projeto é um passo importante para a formação de uma nova consciência para proporcionar às
comunidades bem-estar físico, psíquico e social. Também atua na formação de profissionais que
assumam uma postura socialmente responsável com as comunidades onde atuam
.
Palavras-chave: educação de saúde, meio ambiente, promoção da saúde
Introdução
O “Projeto Manuelzão” nasceu em 1997 na UFMG (Departamento de Internato Rural da
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais). É um Projeto de mobilização
social que tem como objetivo a revitalização da bacia hidrográfica do Rio das Velhas através da
exploração de questões relacionadas à saúde, ao meio ambiente e à cidadania. A coordenação
central do Projeto, localizada em Belo Horizonte, interage com os 51 Municípios que abrange,
por meio do sistema de comitês independentes, os quais procuram solucionar autonomamente
os problemas locais das comunidades onde se inserem.
Por via de um primeiro diagnóstico realizado por esses comitês, foi constatada a neces-
sidade de um programa que proporcionasse lazer, educação ambiental, cultura e atendimento
médico primário às populações carentes de toda a bacia. Isso significa atingir 4.200.000
pessoas, o que é, sem dúvida, um grande desafio.
A partir disso, foi feita uma parceria entre o “Projeto Manuelzão” e a Secretaria Estadual
de Esportes de Minas Gerais – Seesp/MG, resultando na criação de uma equipe constituída de
50 monitores da Seesp/MG, 05 estudantes de medicina da UFMG e 01 estudante de fonoaudiologia
da PUC Minas, formando o “Projeto Manuelzão de bem com a vida”, que visitou 21 Municípios
da bacia hidrográfica do Rio das Velhas no ano de 2002. Numa ação conjunta com as prefeituras
locais, foi dada extrema atenção à medicina preventiva, com suas respectivas conseqüências na
expectativa de vida, mortalidade infantil e nos custos da saúde pública.
Segundo a OMS – Organização Mundial da Saúde, ter saúde “é o bem-estar físico,
psíquico e social do ser humano”. Este pensamento, que expõe um conceito amplo, justifica a
proposta do projeto de englobar o lazer, a cultura, a educação ambiental e não simplesmente
fazer um mutirão de atendimento médico nas cidades visitadas.
A educação em saúde se desenvolve em quatro diferentes ambientes: a escola, o local de
trabalho, o ambiente clínico, em seus diferentes níveis de atuação, e a comunidade (CANDEIAS,
1997). Considerando que o que determina a saúde ou a doença é a interação do indivíduo com
o meio, fazer educação ambiental e adotar políticas de promoção de saúde à população das
comunidades da bacia do Rio das Velhas torna-se extremamente necessário. Conscientizar sobre
a importância de se proteger a natureza, de se manter os rios limpos, passa a ser então um dos
objetivos, como forma de proporcionar o conceito de saúde proposto pela OMS. Preservar o
local onde se vive significa afastar doenças, a fome e outros males relacionados ao desenvolvi-
mento não sustentável.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Visando realizar o que foi descrito anteriormente, buscou-se centralizar como público
alvo as crianças, sensibilizando a nova geração, mostrando a elas a importância da higiene, dos
cuidados pessoais e com o ambiente em que vivem. Medidas como andar calçado, higienizar as
mãos e o corpo, limpar o espaço residencial, não jogar lixo nas ruas e nos córregos, entre outras,
são preventivas, não representam gastos adicionais para a população e estão ao alcance de
todos. Essas ações evitam um vasto grupo de doenças infecciosas, que atingem freqüentemente
a faixa etária infantil dos países em desenvolvimento, em particular, a da bacia do Rio das
Velhas, e que, em parte, são uma das responsáveis pela mortalidade infantil.
Portanto, este é um Projeto de mobilização social. A mobilização tem início quando um
grupo ou uma sociedade decide agir com um objetivo mútuo, buscando os resultados desejados
por todos, envolvendo o compartilhamento de discursos, visões, informações e propósitos esta-
belecidos em consenso. O movimento procura sensibilizar as pessoas para que haja uma reela-
boração de valores e uma mudança da atual realidade. Essa inclui uma desinformação e despreo-
cupação da preservação do meio ambiente, que influi fortemente na saúde dos indivíduos.
O projeto procurou cumprir os seguintes objetivos:
implementar a saúde no seu conceito mais amplo, que segundo a OMS “é o bem-estar
físico, psíquico e social do ser humano”;
iniciar um trabalho de conscientização com as crianças sobre a urgente necessidade de
conservar o meio ambiente e recuperar o que já foi destruído, assim como ensiná-las
medidas simples, como não jogar lixo nas ruas e nos córregos, que se realizadas
rotineiramente, seriam de enorme valia;
estimular a participação das comunidades no esforço continuado de diversas entidades,
entre elas o “Projeto Manuelzão” da UFMG, para preservar e recuperar as águas da bacia
hidrográfica do Rio das Velhas e a natureza como um todo, como forma de proporcionar
qualidade de vida;
fornecer à população um conhecimento básico de prevenção de doenças mais preva-
lentes na região;
além de cuidar do lugar onde vive, um indivíduo tem que ser capaz de cuidar de si
mesmo, por isso enfatizamos a questão do autocuidado, que podem evitar diversas
doenças infecciosas;
incentivar hábitos saudáveis, como a prática de esportes, o interesse pela cultura (música,
teatros, etc.) e o convívio social;
realizar atendimento médico primário nas localidades visitadas, muitas vezes com pouco
acesso a este tipo de serviço;
fortalecer a atuação de todos os comitês do “Projeto Manuelzão” nas comunidades alcançadas;
desenvolver as ações citadas em todos os 51 Municípios da bacia do Rio das Velhas,
conscientizando o maior número possível de pessoas;
contribuir para o desenvolvimento do processo de conscientização de todos os envolvidos
(estudantes, professores e comunidades), propiciando uma abordagem da saúde em
todas as suas dimensões, biológica, psíquica e social.
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Metodologia
O “Projeto Manuelzão de bem com a vida”, ligado ao “Projeto Manuelzão” é desen-
volvido como prática extramuros da UFMG, que constitui a principal estratégia de efetivação
do princípio de indissociabilidade ensino/pesquisa/extensão.
É vinculado ao “Projeto Manuelzão” (resultado da parceria deste com Seesp/MG,
SEE/MG e as prefeituras dos Municípios que fazem parte da bacia hidrográfica do Rio das
Velhas), o que permite a agregação de recursos humanos e materiais, a realização de potenciali-
dades de ambos, o enraizamento na comunidade, a complementaridade das ações, etc.
O “Projeto Manuelzão de bem com a vida” surgiu em 2002, com uma equipe composta
de 05 estudantes de medicina, 01 estudante de fonoaudiologia e de 50 monitores da Seesp/MG,
com o objetivo de exercer o conceito da OMS de saúde, “bem estar físico, psíquico e social”,
nos Municípios da bacia do Rio das Velhas/MG. Portanto, a proposta de trabalho era agir
de forma participativa e em equipe, sendo multidisciplinar, buscando sempre alcançar a trans-
diciplinaridade.
Objetivava-se implementar em 21 dos 51 Municípios da bacia, ao longo de 2002,
grandes eventos com atividades envolvendo temas como meio ambiente, saúde, educação,
cultura e lazer.
As organizações de todas as atividades foram partilhadas entre as prefeituras locais, a
Seesp/MG e os comitês locais do “Projeto Manuelzão”. A infra-estrutura ficou sob responsa-
bilidade das prefeituras. A divulgação do evento e a inserção da comunidade, das escolas e das
entidades civis no projeto eram atribuições dos comitês locais. A Seesp/MG ficou responsável
pelas atividades de lazer e cultura e pelo transporte da equipe até o local do evento. O “Projeto
Manuelzão”, através dos acadêmicos de medicina e fonoaudiologia, ficou responsável pelas
atividades relacionadas ao meio ambiente e saúde. A responsabilidade de gerenciar o funciona-
mento desta estrutura ficou a cargo dos estudantes de medicina. O atendimento médico primário
era responsabilidade das Secretarias Municipais de Saúde, do Programa Saúde da Família –
PSF e dos estudantes de medicina do Internato Rural da UFMG.
O público alvo das ações do projeto foram crianças (pré-escolares e escolares) e adoles-
centes. A escolha do público alvo levou em consideração o potencial de multiplicar informações
e a maior facilidade de se conscientizar pessoas cujos conceitos sobre o mundo estão ainda em
formação.
O projeto tem uma estrutura formada por grandes eixos de atuação: recuperação da
bacia, desenvolvimento político e social, desenvolvimento intelectual, físico e artístico, pre-
venção de risco e pesquisa.
Eixo I: Recuperação da bacia do Rio das Velhas
Esta é base de sustentação do projeto. Visa mobilizar a sociedade para recuperar e
preservar seus mananciais, micro bacias e sub-bacias de vivência. A mobilização será alcançada
via conscientização da população sobre a importância da preservação dos recursos hídricos e
os seus impactos sobre a saúde, com perceptível aumento da qualidade de vida.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Eixo II: Desenvolvimento político e social
Refere-se ao estímulo e desenvolvimento de práticas organizativas, pela criação de
espaços apropriados às relações interpessoais, formando nova mentalidade política e social,
segundo novo paradigma da medicina mais humana.
Eixo III: Desenvolvimento intelectual, físico e artístico
Realização de atividades de caráter informativo, oficinas de arte e práticas esportivas.
Eixo IV: Prevenção de riscos
Práticas educativas, abordando vários temas: prevenção de enterocolites parasitárias e
zoonoses.
Eixo V: Mobilização social
O “Projeto Manuelzão” desde sua origem tem buscado mobilizar toda a população da
bacia do Rio das Velhas. Para esse fim vem usando de “fatores multiplicadores”, que utiliza a
estrutura já existente de prefeituras e outras instituições consolidadas, buscando através de um
pequeno número de pessoas conseguir propagar o conhecimento a toda comunidade. A
formação de novos “fatores multiplicadores” tem sido alvo de grande investimento e pesquisa
do “Projeto Manuelzão”. Uma das fórmulas que foi testada com grande sucesso é a metodologia
aplicada no “Manuelzão de bem com a Vida”. Portanto, somos alvo e continuação de um estudo
maior que busca cada vez mais otimizar a forma como a mobilização social é alcançada.
Resultados e discussão
Durante o ano de 2002, o “Projeto Manuelzão de bem com a vida” atuou em 21
Municípios da bacia do Rio das Velhas (Belo Horizonte - Praça da Liberdade e Escola
Municipal Edgar da Mata Machado, Ouro Preto, Caeté, Esmeraldas, Jaboticatubas, Ribeirão das
Neves, distrito de Justinópolis em Ribeirão das Neves, Nova Lima, Raposos, Buenópolis,
Joaquim Felício, Matozinhos, Pedro Leopoldo, Vespasiano, Lagoa Santa, Morro da Garça,
Prudente de Morais, Corinto, Capim Branco, São José da Lapa, Funilândia e Jequitibá), com um
público estimado de 35.000 pessoas, composto na sua maioria por crianças. Em quase todas as
localidades, o “Projeto Manuelzão de bem com a vida” atuou nos bairros periféricos e o público
constituía-se, em sua maior parte, de pessoas de baixa renda.
Os principais resultados obtidos desse trabalho foram qualitativos, como a mobilização
das lideranças locais, o crescimento da consciência coletiva sobre a importância da preservação do
meio ambiente e da sua relação com a qualidade de vida e saúde, a criação de novos comitês do
Projeto Manuelzão”, como os de Ouro Preto e Caeté, assim como a reativação daqueles pouco atuantes.
Houve uma repercussão muito positiva dos eventos nas cidades, que contaram com o
apoio das prefeituras, que incentivaram a participação das escolas e fizeram excelentes tra-
balhos de divulgação. As prefeituras cederam suas equipes de PSF para prestarem atendimento
médico primário à população.
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A realização de atividades recreativas e esportivas através da Seesp/MG foi um forte
fator atrativo para o local do evento, principalmente proporcionando lazer às crianças, um outro
fator importante na promoção da qualidade de vida.
Em parceria com as escolas municipais, houve também espaço para a cultura, na qual os
alunos realizaram teatros, dança e música relacionados com a questão ambiental. Contando com
o apoio das Secretarias Municipais de Cultura, abriu-se espaço para a apresentação de muitos
grupos teatrais, musicais, além de muitos cantores e corais.
Contou-se com a atuação das Secretarias Municipais de Saúde, PSF e do Internato Rural
– IR da Faculdade de Medicina da UFMG, para realizar atendimentos médicos primários à
população local.
Conseguiu-se despertar em muitas escolas o interesse em desenvolver projetos ambientais,
envolvendo toda a comunidade escolar (pais, alunos e professores). Desta forma, essas escolas
formaram núcleos do “Subprojeto Manuelzão vai à escola”, no qual elas recebem assessoria
técnica e pedagógica do “Projeto Manuelzão”.
Os estudantes de medicina e fonoaudiologia trabalharam questões relacionadas a
educação ambiental e medicina preventiva. Tratou-se de assuntos como: a influência da falta de
saneamento básico e de higiene na origem das doenças; medidas profiláticas ao combate à
dengue, parasitoses e outras doenças; a importância da água e da sua preservação na saúde de
todos; contribuição das pessoas para ajudar a conservar o meio em que vive. Procurou-se abor-
dar essas questões de forma interessante e interativa, através de painéis atrativos e brincadeiras,
nas quais as crianças são premiadas pela participação e aprendizado.
Ficou evidente, no contato com as crianças, a grande capacidade que elas possuem de
aprender, muitas vezes, surpreendendo a própria equipe. É fantástico o fator multiplicador das
informações que elas realizam, pois transmitem aos pais orientações sobre higiene pessoal,
prevenção de doenças e a importância de se preservar o meio ambiente. Eram distribuídos
folhetos sobre os assuntos abordados e jornais do “Projeto Manuelzão”, que eram entregues aos
familiares pelas crianças.
A cada final de semana conseguiu-se contato com centenas de crianças. Interagir e
entreter tantas pessoas com a limitação de uma equipe de apenas seis integrantes exigiu muita
flexibilidade e, principalmente, desenvoltura.
Todos os componentes da equipe participavam da explicação dos painéis, assim como
das atividades lúdicas. Assim, ao final do ano, foi com muita satisfação que todos os membros
aprimoraram bastante a capacidade de interagir, sem inibição, com os mais diferentes públicos.
O sucesso e viabilidade do “Projeto Manuelzão de bem com a vida” só foi alcançado
graças ao trabalho em equipe. A composição da equipe, cinco estudantes de medicina e uma
estudante de fonoaudiologia, foi muito positiva, pois integrou dois cursos diferentes, além de
seus componentes estarem em diferentes períodos da graduação, com contribuições diversas a
prestar.
Articulou-se com prefeituras e escolas para receber apoio em infra-estrutura e divul-
gação. Desenvolveu-se a habilidade de dividir tarefas harmoniosamente entre os componentes
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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do Projeto (Seesp/MG, “Projeto Manuelzão” e Prefeituras) de forma que um facilite a atuação
do outro.
Projetos como o “Manuelzão de bem com a Vida” reforçou na população a consciência
e o anseio de um desenvolvimento sustentável, para que possa reivindicar das autoridades
uma otimização da atuação nas questões ambientais. Busca-se despertar na nova geração a
consciência de que o crescimento econômico não precisa ocorrer com destruição ambiental,
que preservar a natureza significa ter qualidade de vida e que isso não representa apenas não
ter doenças, mas também, gozar de bem-estar.
A equipe acredita que a verdadeira formação de profissionais de saúde não se restringe
ao conhecimento biológico, mas deve abranger conhecimentos psicológicos e sociais. Buscou-se,
portanto, interagir com as comunidades para melhor entender seus problemas e necessidades,
em prol de um aprendizado mais eficaz e adequado. Desta forma, fomos capacitados, enquanto
médicos, para prestar um atendimento mais humano, no qual a relação médico-paciente será
valorizada, ao contrário da postura atual de se buscar a doença em depreciação ao doente.
O ensino médico é deficiente na integração do aluno na sociedade. Um aluno sem postu-
ra crítica pode finalizar o curso sem compreender as necessidades da sociedade em que está
inserido. Essa é outra situação que o “Projeto Manuelzão de bem com a vida” almeja modificar.
No quadro que se segue estão listados os principais resultados obtidos pelo “Projeto
Manuelzão” até a presente data.
Subprojeto
Resultados obtidos
412
Data Assunto
Manuelzão Cuida do Esgoto
Foram realizadas diversas discussões técnicas e elaborados diferentes
projetos com o objetivo de apresentar soluções para a questão do destino
dos esgotos dos Municípios situados na bacia do Rio das Velhas.
Consideramos como resultados positivos deste esforço de mobilização e
discussão técnica :
• implantação da ETE Corinto;
• implantação da ETE Matozinhos;
• implantação da ETE Arrudas;
• implantação da ETE Lagoa Santa;
• elaboração do projeto de recuperação do córrego Santa Terezinha e
córrego Tamboril;
• participação no projeto de recuperação de córregos de Belo Horizonte
(Drenurbs) em parceira com a Prefeitura de Belo Horizonte
Manuelzão Cuida do Lixo
• discussão técnica e mobilização social visando à coleta e o destino final
adequado do lixo nos Municípios que compõem a bacia do Rio das Velhas;
• parceria com a Fundação Estadual do Meio Ambiente – FEAM para
acabar com os lixões nos Municípios da bacia.
Manuelzão Cuida da Saúde
• atendimento médico e estudo de correlação das doenças com a
degradação e deficiência de saneamento ambiental.
• número total de pessoas atendidas foi de 129.600.
integração das ações do projeto com o Programa De Saúde Familiar – PSF;
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Conclusão
Durante o ano de 2002, várias cidades foram visitadas, atuando-se em realidades distintas.
Estas visitas proporcionaram o aprimoramento de habilidades como a integração com a
comunidade e adequação do diálogo acadêmico ao público, desenvolvimento de autonomia e
participação de trabalho em equipe e organização de eventos.
Um dos grandes trunfos do projeto foi ter como público alvo as crianças. É extrema-
mente produtivo trabalhar na formação de uma nova consciência daqueles que ainda estão
conhecendo o mundo e aprendendo a explorá-lo. Assim, é possível, ao atingir a faixa etária
escolar, fornecer à nova geração as informações necessárias para a formação dessa consciência.
Promover a educação é uma maneira de promover a saúde dessas crianças, e, acima de
tudo, proporcionar às comunidades bem-estar físico, psíquico e social, que é o conceito amplo
de saúde.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Data Assunto
Manuelzão Faz Ciência
Foram desenvolvidas e concluídas as seguintes pesquisas:
• inventário da fauna de peixes do curso médio do Rio das Velhas e os
impactos dos usos da bacia sobre a diversidade ictiofaunística.
• diagnóstico saúde-ambiente na bacia do rio das Velhas.
• estudos geológicos e ambientais como critérios para um
desenvolvimento ordenado da expansão do turismo e da ocupação do meio
físico na sub-bacia do Riachinho e Santana do Riacho (MG)
• as plantas medicinais como instrumento para a saúde, o
desenvolvimento sustentado e a educação ambiental.
• análise de pesticidas organofosforados e organoclorados em amostras de
água da bacia do Rio das Velhas.
• avaliação do grau de impactação por mercúrio na bacia do Rio das
Velhas através de estudo de especiação do metal em solos e sedimentos.
Manuelzão Vai à Escola
Em parceria com a Secretaria Estadual de Educação estão sendo
mobilizada 1.456 escolas municipais e estaduais situadas nas cidades da
bacia com o objetivo de desenvolver um amplo programa de educação
ambiental voltado para os problemas ambientais existentes na região,
podendo ser mencionadas as seguintes ações já desenvolvidas:
• realização de seminários e oficinas para professores;
• elaboração e distribuição de 20.000 exemplares de um livro texto
sobre a bacia do Rio das Velhas;
• elaboração e distribuição de 20.000 exemplares de um livro texto
sobre educação ambiental (PGAE);
• realização de mais de 200 palestras para professores e alunos;
• desenvolvimento de projetos de capacitação;
• realização de concurso para a premiação dos melhores trabalhos na
área de educação ambiental;
Manuelzão: SOS Velhas
Em parceria com IEF, Polícia Florestal e os núcleos organizados da
população, ONG’s, estamos realizando:
• o monitoramento da qualidade das águas e mortandade de peixes.
Manuelzão Dá o Recado
• 20ª edição do jornal — 100.000 de tiragem por edição.
• videoteca
• produção e divulgação do site: www.manuelzao.ufmg.br
Manuelzão Legal
Parceria com o Ministério Público para o cumprimento das leis ambientais
n
o âmbito da bacia e acompanhamento de termos de ajustamento de conduta
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Portanto, o “Projeto Manuelzão de bem com a vida” foi um passo importante para a for-
mação de uma nova medicina, que valoriza a pessoa e não apenas a doença, centrando-se no
doente que sofre por causa da enfermidade, e que tenha profissionais que assumam uma postu-
ra socialmente responsável com as comunidades onde atuam.
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414
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Programa Estação Ecológica UFMG – a extensão, o ensino e a pesquisa
integrados para a conservação de uma área
Bernardo Machado Gontijo, Doutor em Meio Ambiente e CDS – UnB. Professor Adjunto.
Departamento de Geografia/IGC/UFMG
Celso D’Amato Baeta Neves, Professor. Mestre em Geografia e Análise Ambiental – IGC/UFMG.
Diretor da Estação Ecológica da UFMG
Universidade FederaL de Minas Gerais – UFMG
Resumo
A Estação Ecológica da Universidade Federal de Minas Gerais (E. Eco/UFMG) é uma
unidade de conservação urbana localizada no Campus universitário, onde são realizadas ativi-
dades de pesquisa, ensino e extensão. O Programa Estação Ecológica – Proeco contempla as
atividades extensionistas desenvolvidas na área, desde 2002 junto aos estudantes da educação
básica e superior. O programa procura integrar várias áreas do conhecimento à proposta ambien-
tal, visando oferecer aos participantes uma visão holística do tema ecológico, favorecendo ainda
a interdisciplinaridade e a troca de informação entre graduandos de diferentes cursos da UFMG
e de outras instituições. O programa tem como principais projetos de extensão, o “Projeto
Caminhadas Ecológicas” – PCE e o “Projeto Vida”. O PCE vem sendo realizado há nove anos,
conta com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão – Proex e tem como base uma trilha de inter-
pretação ambiental e oficinas interativas, onde os visitantes são acompanhados por monitores
universitários. O “Projeto Vida” oferece atividades de educação ambiental para grupos de
pessoas com necessidades especiais — grupos de terceira idade, deficientes físicos e pessoas com
sofrimento psíquico. O Proeco é um programa dinâmico, continuamente aperfeiçoado, com a
participação de todos os envolvidos no processo, que proporciona o contato dos cidadãos urbanos
com a natureza, estimulando uma discussão sobre o uso do espaço e do ambiente. O público
inicialmente atendido passou de 3.821 visitantes anuais em 1995, para cerca de 16.000 visi-
tantes, o que demonstra o crescente acesso da comunidade a projetos ambientais e culturais
desenvolvidos na universidade
.
Palavras-chave: extensão, educação, conservação
Introdução e objetivos
A trajetória do homem no planeta Terra é marcada pela utilização crescente e predatória
dos recursos naturais. Um processo cumulativo que vem desde as primeiras tribos nômades,
passa pela sedentarização e formação dos burgos e chega aos atuais adensamentos urbano-
industriais entremeados por uma paisagem rural extremamente alterada se considerarmos a
conformação primitiva original. Diante de um modelo insustentável de utilização dos recursos
naturais, deparamos com a atual crise ambiental que tem levado a uma preocupação genera-
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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lizada da comunidade planetária em relação ao nosso futuro. Nesse contexto, a Educação
Ambiental tem se revelado como uma matéria de crescente importância e discussão nas
sociedades atuais. É importante ressaltar que a análise das questões ambientais requer uma série
de sistemas, modelos e esquemas didáticos capazes de formar e disseminar uma consciência
ambiental na sociedade, além de preparar recursos humanos para uma gestão sustentável do
meio ambiente. A existência de espaços nos quais a prática da Educação Ambiental se realize
de forma satisfatória constitui-se num importante aliado no exercício dessa análise e, neste
contexto, o papel de uma área como a Estação Ecológica da UFMG – E. Eco/UFMG é de
grande relevância.
A E. Eco./UFMG constitui um espaço privilegiado para atividades extensionistas, e mais
particularmente, para Educação Ambiental, proporcionando aos docentes e discentes um labo-
ratório vivo onde os conhecimentos adquiridos em sala de aula possam ser aplicados em
trabalhos de campo e oficinas. A E. Eco/UFMG é uma unidade de conservação que contribui
para a preservação de uma importante área verde da região metropolitana de Belo Horizonte,
onde são oferecidas aos seus usuários atividades ecológicas de pesquisa, ensino e extensão,
desenvolvidas no âmbito da UFMG. Além disso, a área possui um enorme potencial para o lazer
contemplativo e atividades físicas. A Estação está localizada no Campus universitário da
Pampulha (19° S, 43° 58’ W), sendo entrecortada pela Avenida Presidente Carlos Luz, forman-
do-se duas áreas descontínuas. A primeira área faz limite com o Anel Rodoviário (BR 262), o
Ministério do Exército (CPOR), a Comissão de Energia Nuclear, a Rua 14 e a Avenida
Presidente Carlos Luz, sendo denominada quarteirão quatorze. A segunda área é limitada pela
BR 262, Rua Engenho Nogueira e Avenida Presidente Carlos Luz, sendo denominada quar-
teirão quinze. O zoneamento ambiental da unidade de conservação identificou treze biótopos,
numa área total de 114 hectares, onde se encontra uma boa diversidade de fauna e flora. Foram
identificadas na área cerca de nove ordens de mamíferos, 220 espécies de aves, répteis, anfíbios
e invertebrados. A flora é rica em espécies nativas (mutamba, cedro, pau d’óleo, paineira, ipê,
jaborandi, cotieira, etc.) e exóticas (eucalipto, mangueira, jaqueira, jambo, capim elefante,
abacateiro, etc.), constando 555 espécies de vegetais vascularizados. A E. Eco/UFMG tem um
grande diferencial em relação a outras áreas verdes, pois se encontra dentro de um dos maiores
centros de estudos do país, a Universidade Federal de Minas Gerais, o que facilita uma
integração maior entre as suas atividades fins, ao mesmo tempo em que serve como exemplo
de preservação ambiental.
Antiga Fazenda Dalva, há aproximadamente 60 anos atrás, e posteriormente Lar dos
Meninos Dom Orione, inaugurado por Juscelino Kubitschek em 1944, o local ainda guarda
interessantes resquícios de tempos passados, tais como olaria e ruínas de instalações rurais.
Em 13 de julho de 1976 foi apresentada a primeira proposta oficial para criar uma área de
preservação no Campus e implementar o “Programa Ecológico para o Campus Pampulha”.
Este programa foi aprovado através da Portaria da Reitoria da UFMG nº 320 de 31 de janeiro
de 1979, com a coordenação integrada da Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento,
a Prefeitura do Campus e os Institutos de Geociências e Ciências Biológicas. A carência de
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recursos orçamentários inviabilizou a continuidade dos projetos de pesquisa básica que foram
desenvolvidos na área após este período. Para promover a recuperação e a conservação da área
foi criada uma comissão formada por representantes do Instituto de Geociências –IGC, Instituto
de Ciências Biológicas – ICB e Escola de Arquitetura – EA, através da Portaria da Reitoria da
UFMG nº 866 de 29 de julho de 1988 e assinado um convênio com a Prefeitura de Belo
Horizonte. A área até então abandonada, e que se constituía num depósito de entulhos da
universidade, passou, no final dos anos 80, a ser recuperada e conservada graças às ações
promovidas por um grupo de professores, alunos e pela comunidade em geral. Além de receber
vários projetos de pesquisa e ensino, incluindo o curso de mestrado em Ecologia, Conservação
e Manejo da Vida Silvestre – ECMVS do departamento de Biologia Geral do ICB, uma das
principais contribuições foi o estabelecimento e a construção de um projeto de extensão, o
“Projeto Caminhadas Ecológicas” – PCE, mais precisamente voltado para a educação ambiental,
o qual contribuiu decisivamente para o tombamento da área junto ao Conselho de Patrimônio
Cultural de Belo Horizonte.
O PCE foi o precursor do Programa Estação Ecológica – Proeco, e vem sendo desen-
volvido há nove anos com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão junto aos estudantes de ensino
infantil, fundamental, médio e superior. Faz parte do calendário escolar de várias instituições de
ensino e tem atingido com qualidade um público cada vez maior. Quanto ao Programa Estação
Ecológica, ele foi elaborado em 2000 visando expandir as atividades interdisciplinares e as
articulações interinstitucionais realizadas pela Estação Ecológica, o que anteriormente era
realizado através do “Projeto Caminhadas Ecológicas”.
Os principais objetivos do Proeco são:
• desenvolver atividades de extensão junto a escolas, entidades e associações visitantes;
• favorecer a articulação interinstitucional e interdepartamental;
• interagir com a comunidade visando à melhoria da qualidade ambiental do Município;
• implantar “Projetos de Educação Ambiental” junto à comunidade;
• oferecer condições de atendimento aos visitantes com necessidades especiais;
• promover a qualificação ambiental de professores e alunos.
Metodologia
O Proeco busca atender a demanda da comunidade por espaços ambientais, de maneira
diferenciada, incluindo técnicas que articulam o ensino, a pesquisa e a extensão. O público alvo
do programa são escolas públicas e particulares do ensino infantil, fundamental, médio e supe-
rior, professores e alunos dos diversos níveis de ensino, alunos universitários da graduação e
pós-graduação do Instituto de Ciências Biológicas, Instituto de Geociências, Escola de Belas
Artes, Faculdade de Educação –FAE e outras unidades, associações comunitárias, esportivas e
filantrópicas, grupos com necessidades especiais, organizações não governamentais (ONG’s) e
a comunidade em geral. O Proeco é realizado nas dependências da Estação Ecológica da UFMG
no período de janeiro a dezembro. O projeto se desenvolve em três etapas: Inscrição, Execução
e Avaliação. A inscrição é efetuada através de agendamento por contato direto na Estação
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Ecológica ou por telefone. A execução se baseia inicialmente no recebimento dos visitantes
pelos monitores. Logo em seguida, os visitantes são divididos em grupos de no máximo 15 par-
ticipantes, recebem orientações básicas sobre a unidade de conservação (localização, importân-
cia, objetivos, etc.) e saem em caminhada para uma trilha interpretativa, onde são discutidos
temas relacionados à questão ambiental. A avaliação é processual, e são utilizados os seguintes
instrumentos e técnicas: a avaliação instantânea, questionários de avaliação e reuniões de avali-
ação. A avaliação instantânea consiste em avaliar o desempenho dos visitantes nas atividades
através de observações diretas da participação na caminhada e nas dinâmicas. Os questionários
de avaliação são oferecidos aos professores, alunos e demais visitantes logo após as atividades.
Os monitores e a coordenação fazem um diagnóstico semanal coletivo, quando são debatidos
os aspectos positivos e negativos do trabalho. Os monitores ainda participam de coleta de
dados, discussões e workshops em alguns projetos de pesquisa desenvolvidos na área, fazendo
o elo entre a produção do conhecimento e sua transmissão aos visitantes.
O trabalho tem como base uma trilha de interpretação ambiental, onde os visitantes são
acompanhados por monitores universitários. No trajeto, os participantes têm contato direto com
temas, aspectos e problemas do meio ambiente tais como: urbanização, clima, flora, fauna, assoreamento,
desmatamento, poluição, recuperação de áreas degradadas, compostagem, qualidade de vida e
conceitos básicos em ciências da terra (geografia e geologia) e ciências biológicas (botânica,
zoologia e ecologia). Fazem parte do programa oficinas interativas nas quais, através de atividades
lúdicas, os visitantes expressam e/ou reforçam as experiências vividas durante a caminhada.
As principais atividades desenvolvidas são:
trilha ecológica: percurso na área de preservação quando é demonstrada a importância
de espécimes de fauna e da flora, impactos ambientais, estudo do solo e manejo de
unidades de conservação urbanas;
visita às áreas de pesquisa: em locais onde são desenvolvidas várias pesquisas, o que con-
tribui para a ampliação da visão do estudante sobre a preservação do meio ambiente.
Atualmente as pesquisas visitadas são as de compostagem, decomposição de serra-
pilheira, marrecos e perdizes;
visita ao viveiro de animais e mudas: no viveiro são criados animais utilizados em
pesquisas e animais de interesse ecológico e ambiental, além de produção de mudas de
espécies nativas. Alguns animais do viveiro: Iguanas — répteis bastante interessantes e
conhecidos por sua utilização como animais de estimação; Minhocário — onde se
demonstra a relevância ecológica e econômica da minhoca e como é feita a produção de
húmus; Abelhas nativas — organização social das abelhas, interações inseto-planta,
importância ecológica e econômica;
• oficinas interativas: são atividades lúdicas que auxiliam os alunos a expressarem
de várias maneiras o conhecimento adquirido durante a caminhada. Proporcionam um
espaço para o debate sobre vários temas ambientais, de maneira individual ou coletiva,
o que enriquece a percepção do grupo em relação ao ambiente. Serve como avaliação
informal das trilhas e fortalece as metas do programa.
418
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Principais oficinas oferecidas pela Estação Ecológica:
oficina plantar: técnicas de plantio, reflorestamento, adubação, preparação de
sementeiras;
oficina de modelagem e pintura: confecção de trabalhos manuais utilizando tintas,
argilas e massas de modelar, tendo como tema básico as questões ambientais;
oficina da água: leitura participativa e discussão do livro A água nossa de cada dia, de
Ziraldo. Desenhos e pinturas inspirados no assunto;
oficina caminhos do lixo: conceituação e classificação dos tipos de lixo através de jogos
didáticos, destino e possibilidades do lixo produzido na cidade;
oficina retratando a natureza: percepção e discussão de temas ambientais através de
gravuras, cartuns e fotos;
oficina criação de cartões ecológicos: durante a caminhada, os participantes são orienta-
dos a recolherem objetos que julgarem interessantes (pedras, casca de árvores, sementes,
folhas). Estes objetos serão utilizados para decoração de um cartão feito com papel
reciclado;
oficina do bicho-pau: desenhos e colagens sobre o bicho-pau após a leitura do livro O
dilema do bicho-pau de Ângelo Machado. Comentários sobre as características gerais e
discussão sobre a importância ecológica dos insetos;
oficina leis da natureza: oficina de teatro onde os alunos, através de dramatizações,
passam a conhecer as leis ambientais brasileiras;
oficina de solos: estudos da gênese e formação dos solos e seus estratos, tipos de solos
e outras noções básicas;
• oficina teia alimentar: as relações ecológicas entre espécies e a transferência de matéria
e energia no ambiente são discutidas através de um jogo que, além disso, trata de
espécies nativas;
oficina de compostagem: é uma atividade lúdica onde os alunos preparam uma salada
de frutas e obtêm noções básicas sobre a reciclagem de materiais orgânicos;
oficina de energia: utilizando-se ilustrativamente uma casa em miniatura que simula o
consumo de energia por eletrodoméstico, discutem-se questões relacionadas à produção,
distribuição e conservação de energia;
oficina pigmentos: utilização de pigmentos extraídos de elementos naturais para a
confecção de tintas.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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O cronograma anual de execução do Proeco segue o seguinte modelo:
Tabela 1
Cronograma anual
Resultados e discussão
O Proeco tem cumprido o cronograma anual e as metas propostas com a imprescindível
participação de estudantes universitários. É importante ressaltar que o programa promoveu o
treinamento de aproximadamente 210 alunos do ensino superior. Os estudantes envolvidos são
alunos bolsistas e voluntários de diferentes áreas do conhecimento. Os alunos regularmente
matriculados na UFMG têm a possibilidade de transformar as horas dedicadas ao estágio em
créditos passíveis de serem reaproveitados no âmbito da flexibilização curricular, conforme a
proposta preliminar de programa didático pedagógico, submetido à discussão dos colegiados.
Para a etapa de preparação do Proeco (Tabela 1), os monitores participam de um treinamento
que consiste, inicialmente, em reuniões gerais com a Comissão Executiva da Estação Ecológica
e exposições orais sobre a área (histórico, objetivos e projetos). Além disso, realizam trabalhos
de campo nas trilhas interpretativas e recebem um kit contendo as orientações sobre as oficinas
interativas. Visando integrar as propostas da Rede de Museus e Espaços de Ciências da UFMG,
os monitores fazem visitas técnicas a outras instituições.
O Proeco apresentou um aumento substancial no atendimento à comunidade, o que pode
ser percebido analisando-se a Tabela 2. De cerca de 3.000 visitantes em 1995, data do início do
“Projeto Caminhadas Ecológicas”, para mais de 14.000 visitantes em 2003, sendo que a expec-
tativa para 2004 é de um número superior a 18.000 visitantes. Foram realizados seminários
sobre temas ambientais pelos estagiários bolsistas e voluntários dentro de um subprograma de
qualificação dos recursos humanos. O programa foi aprovado pelo colegiado de graduação do
420
Etapas/Meses Preparação Execução Conclusão Avaliação
Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
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Curso de Ciências Biológicas, ministrado no Instituto de Ciências Biológicas como atividade
curricular, o que demonstra a importância na formação dos educandos. Houve ainda um
aumento na participação de voluntários, estagiários da UFMG e de outras instituições
(Faculdade Metodista Izabela Hendrix – FAMIH, Centro Federal de Educação Tecnológica –
Cefet, UNI-BH, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC Minas, Colégio
Pio XII). Foram elaborados e apresentados projetos para fontes de financiamento
(Unibanco/Ecologia, Fundo Fundep e UFMG Jovem) e a Estação Ecológica da UFMG se
constituiu como membro efetivo da Rede de Museus e Espaços de Ciências da UFMG. As ativi-
dades educativas do programa levaram-no a ser indicado pela Secretaria Municipal de Meio
Ambiente como um dos centros de referência em estudos ambientais. Além disso, a conser-
vação dos seus biótopos e o atendimento ao público contribuíram para a citação da Estação
Ecológica no guia turístico de Belo Horizonte. Acrescente-se a essas atividades a presença da
Estação Ecológica nas atividades promovidas anualmente no âmbito da UFMG, como a Semana
do Conhecimento, a UFMG Jovem, a Semana do Calouro e o Domingo no Campus, ocasião em
que a Estação abre suas portas para a realização de suas atividades normais, expõe o resultado
de seus trabalhos e promove atividades diferenciadas como o “Enduro a pé”. Na Semana do
Calouro, a Estação Ecológica oferece a cerca de 800 alunos a oportunidade de conhecer os
trabalhos desenvolvidos na área e a possibilidade para a realização de atividades acadêmicas ao
longo de sua vida universitária. Os calouros são acompanhados em caminhadas ecológicas,
participam de palestras e oficinas sobre as questões ambientais. O Domingo no Campus é uma
atividade realizada pelo Programa UFMG Jovem, em parceria com a Diretoria de Ação Cultural
– DAC, Coordenadoria de Assuntos Comunitários – CAC e Estação Ecológica, que visa
propiciar recreação, diversão, cultura e conhecimento à população através da abertura do
Campus universitário aos domingos. O evento mostra um pouco da produção acadêmica da
UFMG a toda comunidade. O “Enduro a pé” tem por finalidade capacitar os visitantes para
atividades interdisciplinares extraclasse, valorizar o trabalho em equipe e a prática desportiva,
conscientizar sobre a importância da preservação de áreas verdes e incentivar a interpretação de
mapas e trilhas. Durante a competição, os visitantes, divididos em equipes, participam de duas
etapas. A primeira consiste numa caminhada pelas trilhas dentro da área da Estação
Ecológica/UFMG e a segunda numa gincana ecológica. Durante o trajeto, as equipes
contribuem para a preservação da área, plantando mudas em locais predeterminados. O
“Enduro a pé” é uma competição de regularidade, sendo vencedora a equipe que perder o
menor número de pontos durante o percurso.
Tabela 2
Visitantes da área
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Ano 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003
Visitantes
3.821 6.892 8.036 9.268 10.644 8.412 14.597 13.991
14.398
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Conclusões
Uma análise histórica da Estação Ecológica da UFMG nos revela que atualmente a área
apresenta uma condição ambiental mais satisfatória que no século passado. Nesse período, a
vegetação originária foi retirada para a realização de atividades agropastoris e produção de
tijolos. Foram introduzidas várias espécies exóticas, principalmente o eucalipto, e impermeabi-
lizadas áreas para a construções de galpões e oficinas. Intensamente utilizada, a área era pres-
sionada por variados tipos de impactos. Os resquícios dessas atividades e seus impactos, ainda
hoje, aproximadamente sessenta anos depois, são observados e utilizados durante as atividades
desenvolvidas nas trilhas. Atualmente, observa-se a presença de formações vegetacionais em
desenvolvimento com uma estruturação e composição florística e faunística variada, con-
siderando-se tratar de uma unidade de conservação localizada num centro urbano em expansão.
O programa contribui decisivamente para a proteção dessa que é uma das últimas unidades de
conservação da região norte da capital mineira, constantemente ameaçada pela especulação
imobiliária e pelas mais variadas pressões antrópicas. O Proeco atende à demanda das comu-
nidades através da democratização do conhecimento e do uso de metodologias inovadoras e
interativas, favorecendo ainda a interdisciplinaridade e a troca de informações entre graduandos
de diferentes cursos da UFMG. Tem uma grande abrangência social e visibilidade clara da
função extensionista exercida pela universidade. Um dos grandes diferenciais do Proeco é a sua
realização dentro de uma área verde localizada em um dos maiores centros de estudos do país,
a Universidade Federal de Minas Gerais, o que facilita uma integração maior entre as suas ativi-
dades fins e a sua importância na conservação do ambiente.
Referências bibliográficas
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2º Grau. Brasília: MEC/ CETESB , 1977.
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cular e estudo comparativo de sua estrutura arbórea com as de outros fragmentos florestais da
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MEYER, M. A. de A.
Conversas de cobras. Belo Horizonte: [s.n.], 1985. 2 p.
NEVES, C. D’A. B.
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Minas Gerais
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QUALIDADE DE VIDA NA REGIÃO METROPOLITANA DE BELO HORIZONTE, Belo
Horizonte, 1985. 3 p.
422
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Mãos amigas: ensino, pesquisa, extensão e intervenção em câncer de mama –
resultados e avaliação
Paulo Sergio Carneiro Miranda, Professor UFMG/ UEMG/ Funedi/ Inesp
Zuleice Maria Lessa Pacheco. Heloisa Maria Siqueira Rennó. Marcia Christina Caetano Sousa.
Maria Girlene Martins, Professoras do Curso de Enfermagem da UEMG/ Funedi/ Inesp
Alunos do Curso de Enfermagem UEMG/ Funedi/ Inesp
Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade do Estado de Minas Gerais
Resumo
O câncer mama é um dos mais freqüentes entre mulheres. Seu controle e evolução
podem-se dar mediante uma prevenção baseada numa detecção precoce. Este artigo tem por
finalidade descrever o desenvolvimento do projeto “Mãos Amigas”, que teve como objetivo o
ensino, pesquisa, extensão e intervenção em prevenção de Câncer de Mama. Foi desenvolvido
em Divinópolis, Minas Gerais, Brasil, no período 2002-2003, durante 8 meses letivos, por
alunas do Curso de Enfermagem da UEMG/ Funedi/ Inesp, tendo como população alvo 5.000
alunas das escolas de nível médio da cidade. A metodologia empregada contemplou a pesquisa
da prática de Auto-Exame de Mama – AEM, o ensinamento sobre sua prática e a avaliação da
incorporação deste hábito pelas alunas do nível médio. Foram treinadas 4.056 alunas (81%),
ao custo de R$2 reais/aluna de nível médio treinada. Após 12 meses de treinamento, 67,3% das
alunas treinadas ainda realizavam o AEM. O projeto mostrou-se eficaz na incorporação do
hábito de AEM
.
Palavras-chave: câncer, mama, prevenção
423
Saúde
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Introdução e objetivos
O câncer de mama é um dos tumores malignos mais comuns no sexo feminino nos países
ocidentais (sejam eles considerados como desenvolvidos ou em desenvolvimento). Pelos dados
estatísticos têm-se detectado um aumento significativo de incidência da doença (cerca de 1% ao
ano em muitos países), mas a mortalidade mantém-se estável por muitas décadas, o que pode
demonstrar melhoria na detecção precoce e no tratamento.
No Brasil, entre as mulheres, as neoplasias malignas de mama destacam-se com uma
taxa de incidência de 36,47/100.000, em 2001. Estimando-se para este ano um total de 31.950
casos. Esta incidência reflete também na mortalidade. Estima-se para 2001, uma taxa de
mortalidade de 9,99/100.000, mantendo-se esta neoplasia como a primeira causa de morte entre
mulheres. Esta tendência ascendente da mortalidade já vinha se manifestando em anos ante-
riores. Entre 1988 e 1997, a taxa de mortalidade por câncer da mama, no Brasil, aumentou de
6,14/100.000 para 9,31/100.000. Estes dados e esta tendência caracterizam o câncer de mama
como um dos maiores problemas de saúde pública no Brasil.
Em Minas Gerais, o tumor de mama ocupa o primeiro lugar entre os tumores mais
comuns e os mais letais no sexo feminino, esperando-se para o ano de 2002 uma estimativa de
3.520 casos novos (38,02/100.000) e uma estimativa de óbitos de 810 (8,74/100.000).
Kelsey e Gammon, em profunda análise epidemiológica do câncer mamário, encon-
traram distintos fatores associados com o maior risco deste câncer; no entanto, os investigadores
só são capazes de explicar 21 a 29% dos cânceres mamários por meio de análises epidemioló-
gicas. Esta situação conclui que as práticas de prevenção específica de câncer de mama são
inviáveis no momento, levando os profissionais de saúde a procurarem concentrar seus esforços
na detecção precoce da patologia. A detecção aqui entendida como a capacidade de encontrar
anormalidades permite o diagnóstico, aqui referido como a capacidade de classificar uma
alteração da mama como benigna ou maligna. Na atualidade, quatro métodos de detecção são
comumente usados: o auto-exame, o exame clínico, a mamografia e o ultra-som. Mendonça, em
sua dissertação de mestrado, transformada em artigo, analisando os métodos de detecção de
câncer mamário, afirma que a mamografia quando realizada nas condições ideais e por profis-
sional experiente pode ter uma sensibilidade de até 95%, apesar de apresentarem baixa especi-
ficidade, alto custo e os mamógrafos não serem suficientes em número frente à necessidade da
mulher brasileira. O ultra-som, segundo o mesmo pesquisador, apresentou baixa especificidade,
altos índices de falsos positivos e de falsos negativos, sendo indicado como método adjunto à
mamografia, além de apresentar problemas semelhantes de custo e acesso.
Tal situação encontrada direciona a prática da detecção do câncer de mama como
prática de saúde pública para métodos de maior acesso e baixo custo, como o auto-exame e o
exame clínico, apesar de serem reconhecidas suas menores sensibilidades; deixando os estudos
de imagem para serem utilizados em grupos de maior risco e em situações de esclarecimentos
de diagnóstico.
O exame clínico preventivo para o câncer mamário é, em nossa sociedade, quando
realizado, feito numa periodicidade anual. Tal situação leva a que se proponha a prática do auto-
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exame mensal das mamas como uma prática rotineira de promoção da saúde na detecção do
câncer de mama, devido a seu baixo custo e fácil realização ainda que de baixa sensibilidade e
especificidade.
A adesão à prática do auto-exame é muito discutida na literatura. Os resultados guardam
relação com a população trabalhada, o método instrucional utilizado, os estímulos a esta
prática. O estudo feito por Baines, que é o que demonstra uma das maiores adesões à prática do
auto-exame, relata a prática mensal em 64% da população treinada. No entanto, estudo feito por
Borba e cols. mostra que a sensibilidade aumenta nos grupos que fazem o exame mensalmente.
A prática de auto-exame é importante também por outras razões. Morales e cols.
mostram que 90% das patologias mamárias são inicialmente detectadas pelas próprias
pacientes, ou seja, a própria mulher tem uma importância expressiva na detecção precoce das
patologias mamárias.
No entanto, apesar de serem conhecidos os benefícios do auto-exame, a prática deste
autocuidado, de baixo custo, não é realizado pela população nos níveis desejáveis, sendo que
isto acontece em distintos grupos sociais.
Estudos mostram que a prática preventiva do auto-exame quanto ao Câncer de Mama
não é realizada por 19,2% das médicas norueguesas. Entre as alemãs, o auto-exame das mamas
não é realizado por 14% das médicas. Estudo recente (ainda não publicado), realizado em 2001,
sobre a prática preventiva para câncer de mama entre professoras médicas da Faculdade de
Medicina da UFMG, mostrou que cerca de 12% nunca realizaram um auto-exame. Xavier et
cols, em estudo realizado com estudantes de Enfermagem em 2002, encontrou-se que 26% dos
alunos nunca haviam realizado um auto-exame. Sendo que no início do curso este índice
chegava a 49% e no sétimo período já todas as alunas haviam realizado o auto-exame, apesar
de que somente 71% o faziam na freqüência proposta. Este estudo mostra que é possível
modificar a prática de auto-exame, desde que motivada e orientada esteja a mulher.
Os resultados encontrados na literatura e em nossa prática levaram-nos a pesquisar a
prática de auto-exame em usuários do Sistema Único de Saúde. Encontrou-se que, entre
325 usuárias de distintas idades que freqüentaram os centros de saúde da Secretaria Municipal
de Saúde de Divinópolis – Semusa, entre março e junho de 2002, um total de 35% nunca tinha
realizado um auto-exame de mama. Entre menores de 20 anos este valor chegava a 50%; ao
mesmo percentual chegavam as mulheres com 51 anos de idade e mais.
Pesquisando-se com elas os motivos da não-realização deste autocuidado encontraram-
se como principais causas: o desconhecimento de como fazê-lo, o “esquecimento” e o medo.
Resultado semelhante foi encontrado em trabalho de Yoshioca.
Frente aos dados encontrados e procurando seguir as recomendações da Opas estruturou-
se um projeto — considerando que uma das faixas etárias na qual se faz menos auto-exame é a
de menos de 20 anos de idade; que esta faixa é mais susceptível de incorporar hábitos e atitudes;
que é facilmente localizável e acessível nos centros escolares; que é disseminadora de condutas
e que, futuramente, estarão potencialmente entre as mulheres em maior risco; que podem ser
treinadas por alunas de Enfermagem convenientemente orientadas – que visa em 8 meses
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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treinar 5.000 alunas de nível médio de Divinópolis para a prática do Auto-Exame das
Mamas – AEM.
O projeto apresentou os seguintes objetivos geral e específicos.
Objetivo geral
Treinar 5.000 alunas do nível médio de escolas de Divinópolis, Minas Gerais, na técni-
ca de Auto-Exame de Mama, por 10 alunas de graduação em Enfermagem convenientemente
orientadas, selecionadas entre as acadêmicas carentes do Inesp/Funedi, recebendo as alunas de
Enfermagem, em contrapartida, uma bolsa de iniciação científica de R$100,00 reais, desconta-
da de sua mensalidade escolar, durante o período de 8 meses.
Objetivo específico educacional
• capacitar as acadêmicas de Enfermagem no ensino da técnica do auto-exame;
permitir-lhes o emprego e domínio de técnicas pedagógicas visando à promoção da
saúde;
desenvolver-lhes a iniciativa, diminuindo-lhes a insegurança e dando-lhes oportunidades
do desenvolvimento do espírito crítico e do trabalho comunitário.
Objetivo específico de pesquisa
desenvolver pesquisas epidemiológicas sobre a prática de auto-exame entre adolescentes.
Objetivo específico de extensão
• levar à comunidade (alunas de nível médio) o conhecimento sobre práticas de detecção
de patologias mamárias.
Objetivo específico de intervenção
• elevar os índices de prática de auto-exame de mama entre estudantes do nível médio.
Metodologia
Inicialmente, realizou-se o aprofundamento do conhecimento das alunas de Enfermagem
sobre o Auto-Exame de Mama, as patologias mamárias e as técnicas didático-pedagógicas
para divulgação destes conhecimentos, mediante treinamento ministrado pelos professores da
coordenação do projeto.
Em seguida, a coordenação do projeto realizou contato com as escolas de nível médio,
e as alunas do Curso de Enfermagem convenientemente treinadas, fizeram a aplicação de ques-
tionário sobre prática prévia de AEM entre as alunas de nível médio, seguido de treinamento
destas alunas usando a prótese mamaria de silicone (“MamAmiga”).
Após o treinamento, houve a distribuição de adesivos-lembretes para serem fichados
pelas alunas treinadas em lugares estratégicos de suas casas, para realização de AEM, tais
como: azulejo de banheiro; espelho de quarto, etc.
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Periodicamente, as alunas do Inesp replicaram os questionários sobre a prática de AEM
entre as alunas de nível médio visando à avaliação da modificação da prática de AEM, por estas
alunas, e conhecer a incorporação do hábito por elas. Os resultados obtidos durante e ao final
do projeto foram discutidos com os alunos de Enfermagem e preparados para divulgação ampla.
Este projeto foi desenvolvido a partir de agosto de 2002, com um prazo de 8 meses para
o seu desenvolvimento, respeitando as férias escolares dos alunos de nível médio e das alunas
do Curso de Enfermagem da UEMG/ Funedi/ Inesp de Divinópolis, que foram as multipli-
cadoras de conhecimento. O suporte financeiro do projeto foi dado exclusivamente pela
UEMG/ Funedi/ Inesp; houve também o apoio operacional da Superintendência de Ensino de
Divinópolis que facilitou os contatos com as escolas/alunas. As camisetas com o logotipo do
projeto foram cedidas, gratuitamente, por uma indústria de confecção.
O custo detalhado do projeto é apresentado a seguir
Custo do projeto
Resultados e discussão
A meta do projeto era treinar e formar 10 multiplicadores do projeto. Com a participação
dos voluntários — não previstos, inicialmente —, um total de 61 alunos (33% do Curso de
Enfermagem) foram treinados como multiplicadores do projeto e/ou de sua expansão para
cidades próximas.
A meta prevista de alunas de nível médio treinadas era de 5.000 alunas. Foram treinadas
4.056 alunas de nível médio de escolas de Divinópolis, na técnica de Auto-Exame de Mama –
AEM, no período de 8 meses, o que correspondeu a 81% da meta.
Pela pesquisa realizada entre as alunas de nível médio, imediatamente antes do treina-
mento, pelas alunas de Enfermagem, constatou-se que somente 20% das alunas de nível médio
já haviam realizado auto-exame das mamas e, conseqüentemente, 80% não o realizava.
Periodicamente, após 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 12 meses da realização do treinamento, foi feita nova
pesquisa sobre a prática de auto-exame de mamas entre as alunas de nível médio. Procurou-se
tomar o cuidado de nunca ir à mesma escola e/ou turno visitado no mês anterior, para que não
houvesse viés na pesquisa. Nesta segunda pesquisa procurou-se especificar por meio de ques-
tionários aquelas alunas que não realizavam AEM antes do treinamento sobre auto-exame de
mamas e que foram treinadas pelas alunas do Inesp. De um total de 970 alunas que responderam
ao questionário, encontrou-se 376 alunas que ou já realizavam o auto-exame antes de serem
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
427
Bolsistas Número: 10 Valor: 100,00 Tempo: 8 meses Total: 8.000,00
Prótese
Número: 20 Valor: 35,00 Total: 700,00
Adesivos Número: 6.000 Total: 240,00
Questionários Número: 10.000 Total: 1.060,00
Custo total Treinamento de 5.000 alunos de nível médio 10.000,00
Custo unitário Aluno de nível médio treinada
2,00
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treinadas pelas alunas do Inesp ou não estiveram presentes no dia do treinamento. Dentre as 594
que não realizavam AEM antes do treinamento pelas alunas do projeto procurou-se ver a
freqüência de AEM após o treinamento. Encontrou-se que:
1. as alunas que realizavam auto-exame de mama, antes de serem treinadas pelas alunas de
enfermagem, continuavam a realizá-lo;
2. entre as alunas de nível médio que antes do treinamento pelas alunas da enfermagem não
realizavam o auto-exame, um total de 67,3% passou a fazê-lo e, em média, mantinham
o hábito mesmo após 12 meses da realização do treinamento. Ou seja, haviam incorporado
o hábito. Os melhores resultados de incorporação de hábito, em estudos internacionais,
apresentam o resultado de 64%, inferior ao por nós obtido. Os resultados obtidos após
os respectivos meses de realização do treinamento podem ser mais bem visualizados na
tabela seguinte:
Tabela 1
Prática de auto-exame de mamas, após treinamento, entre alunas de nível médio – Divinópolis
/ 2002-2003
Fonte: Pesquisa de campo
Em uma das escolas estivemos 5 meses após o treinamento. Nesta época, a incorporação
do hábito foi de 73%. Retornamos à mesma escola 6 meses depois, ou seja, 11 meses após o treina-
mento, quando encontramos a incorporação do AEM feita por 81,5% das alunas pesquisadas 6
meses antes. Tal resultado nos leva a repetir a visita a outras escolas já visitadas com o objetivo
de ver se o resultado encontrado é fortuito ou se ele se repete também nestas outras escolas.
Os dados iniciais obtidos sobre prática de auto-exame de mama entre alunas de nível
médio de Divinópolis foram transformados em trabalhos científicos e enviados a congressos
nacionais e internacionais. Os dados finais da pesquisa estão seguindo o mesmo destino.
428
Intervalo de tempo
treinamento/pesquisa (meses)
Alunas que não faziam AEM e foram treinadas pelas alunas do Inesp
Fazem AEM atualmente
Não fazem AEM
atualmente
Total
Número % Número % Número %
2 meses 53 62 32 38 85 100
3 meses 84 66 44 34 128 100
4 meses 56 57 43 43 99 100
5 meses
52 76 15 24 67 100
6 meses
23 50 23 50 46 100
7 meses
20 76 06 24 26 100
8 meses
45 71 18 29 63 100
9 meses
31 84 06 16 37 100
12 meses 36 83 07 17 43 100
Total 400 67.3 194 32.7 594
100
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Os resultados obtidos levaram a expandir o projeto para mais 12 cidades da região, pelas
alunas do projeto que residiam nas cidades próximas e para lá levaram o projeto a custo zero.
Expansão do projeto
Com o desenvolvimento do projeto, inicialmente 15 alunos incorporaram-se como
voluntários para ajudar os bolsistas no desenvolvimento do projeto em Divinópolis.
Posteriormente, 36 outros alunos foram agregados ao projeto; treinados, e a partir daí passaram
a expandir o projeto para as escolas de nível médio de suas cidades de origem no entorno de
Divinópolis. As cidades para onde o “Projeto Mãos Amigas” se expandiu, inicialmente, foram:
Cláudio, Camacho, Itapecerica, Itaúna, Martinho Campos, Lagoa da Prata, Pará de Minas,
Estrela do Indaiá.
Bom Despacho, São Sebastião do Oeste, Oliveira, Carmo da Mata. Estas expansões
foram conseguidas em virtude das alunas de Enfermagem retornarem para suas cidades de
origem nos finais de semana (quinta à tarde/sexta de manhã), realizando o treinamento de suas
conterrâneas de nível médio nos seus horários livres. Por meio destas expansões, aproximada-
mente, 1.500 alunas de nível médio da região já foram treinadas na prática de auto-exame
de mamas, sem qualquer aumento de recurso financeiro do projeto, demonstrando, na prática,
as possibilidades de expansão do mesmo. O projeto também se expandiu para a cidade de
Vespasiano por meio da Escola de Enfermagem da Fase.
Em decorrência dos resultados alcançados, a coordenação do projeto levou à presidên-
cia da Funedi a proposta do projeto continuar, concentrando-se agora nas trabalhadoras da
indústria de confecção — principal atividade econômica de Divinópolis — e que apresentam
facilidade de acesso semelhante ao das alunas de nível médio e um risco muito maior de
adquirir a patologia.
Este projeto está em andamento.
Avaliação do desenvolvimento do projeto: mecanismos de acompanhamento
O acompanhamento do projeto deu-se através de reuniões realizadas todas as quintas-
feiras, das 12:00 às 13:00 horas.
Nessa reunião era discutido o planejamento da semana (que escolas seriam treinadas,
contatos com as diretoras, material necessário, quem iria e onde, etc.); era revisto o treinamento
realizado na escola (número de pessoas treinadas, dificuldades encontradas, soluções dadas,
etc.); eram recolhidos os questionários aplicados e repassados aos alunos responsáveis pela
consolidação dos dados. Dessas reuniões, sistematicamente, participava toda a coordenação e a
maioria dos alunos, sendo que os alunos bolsistas tinham obrigação de estarem presentes.
Nas reuniões iniciais de implementação do projeto foi pedido aos alunos que
preenchessem um “diário de campo”, com o relato do ocorrido nos treinamentos e das emoções
sentidas e aprendizados obtidos.
Por meio dos questionários e formulários obtinha-se a evolução do projeto e o quanto
se aproximava da meta proposta, ou seja, media-se o objetivo de extensão do projeto.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Por meio de um segundo questionário aplicado meses após o treinamento observava-se
a incorporação do hábito do auto-exame das mamas, ou seja, mensurava-se o objetivo de
intervenção.
Mediante “diários de campo” e de sua discussão, avaliava-se o objetivo educacional
proposto.
O objetivo da pesquisa era alcançado, gradativamente, pois cada escola treinada nos
permitia dimensionar a prática do auto-exame de mamas antes do projeto.
Reprodutibilidade do projeto
É plenamente viável levar-se a tecnologia desenvolvida a outras comunidades. Isto se dá
pela característica do projeto que não é um projeto que dependa do capital intensivo, mas sim
do trabalho intensivo. E assim já foi feito para 12 cidades da região. E continua a ser expandido
para outras faculdades e regiões do Estado de Minas Gerais.
O custo do equipamento — Prótese de Silicone “MamAmiga” — para a realização do
projeto é irrisório. Uma prótese está custando no momento menos de R$50,00.
O recurso humano utilizado necessita, fundamentalmente, de treinamento, podendo
realizar o trabalho e se tornar multiplicador de conhecimentos, entre outros: auxiliares de saúde,
alunos universitários, professoras de escolas nível médio, além dos profissionais da área da saúde.
Geralmente, os auxiliares de saúde e professores são encontráveis em qualquer comu-
nidade.
O material instrucional para os treinamentos são encontráveis nas Secretarias Estaduais
e Municipais de Saúde, sendo que fitas cassetes contendo explicações sobre a técnica do auto-
exame de mamas se encontram disponíveis e de fácil reprodução.
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(Re)conhecer diferenças, construir resultados
431
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Mudanças na atenção à saúde mental no Amazonas: projeto para subsidiar a
implantação dos serviços residenciais terapêuticos
Ermelinda do Nascimento Salem Muniz, Psicóloga. Docente da Universidade Federal do
Amazonas – UFA
Ana Maria Coelho Marques, Psiquiatra da Associação Amazonense de Psiquiatria – AAP
Antenor P. Cavalcante, Graduando de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas – UFA
Dalit F. Waisman, Graduanda de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas – UFA
Heloísa P. M. Azevedo, Graduanda de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas – UFA
Universidade Federal do Amazonas – UFA
Resumo
Este projeto tem o intuito de instaurar ações que possam pôr em prática o previsto na
legislação referente à Saúde Mental. Por meio de uma equipe multidisciplinar, são efetuados
procedimentos que possibilitam dar suporte técnico-científico ao Hospital Psiquiátrico Eduardo
Ribeiro no sentido de viabilizar a reinserção social dos pacientes asilares. O principal referen-
cial teórico utilizado é o Psicodrama, e a ênfase que trilha a práxis é o vínculo que se estabelece
no encontro entre o portador de sofrimento psíquico e o profissional de saúde. São realizadas
reuniões semanais pela equipe multidisciplinar que tem por objetivo discutir e avaliar questões
concernentes ao avanço da Reforma Psiquiátrica no Brasil e, prioritariamente, no Estado do
Amazonas. Ao longo de pouco mais de 2 anos da implementação do projeto, foram conquistados
avanços significativos que permitiram desmembramentos de outros subprojetos que, além de dar
suporte ao projeto principal, atendem demandas específicas surgidas à medida que as trocas
foram estabelecidas. A perspectiva presente em todo o curso de trabalho é a desinstitucionali-
zação da loucura, que nos moldes como atualmente se apresenta reforça a estigmatização da
“loucura” e contribui com a exclusão e a discriminação dificultando a reinserção social do
portador de sofrimento psíquico
.
Palavras-chave: reforma psiquiátrica, luta antimanicomial, saúde mental
Introdução
Ao longo do processo civilizatório, a humanidade incorporou ganhos e perdas. Tornamo-
nos capazes de constituir agrupamentos humanos e de viver em sociedade. Entretanto, isso
implica em precisarmos abrir mão de necessidades e desejos pessoais, sempre que esses
interferem de forma não satisfatória na vida de outros indivíduos de nossa espécie, ameaçando
o equilíbrio do grupo. Foi assim que começamos a estabelecer regras, normas, princípios,
segundo os quais guiamos nosso comportamento. Desenvolvemos, a partir daí, uma ética das
relações, sem a qual não poderíamos reconhecer os direitos e os deveres nossos e dos outros,
sem a qual não poderíamos aspirar à cidadania. Mas, também, enclausuramo-nos em modelos
432
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de conduta que passaram a determinar o que seria normal ou anormal de fora para dentro — do
grupo para o indivíduo — e começamos a temer desmesuradamente qualquer comportamento
que se desvie das regras da suposta normalidade. Tememos tal comportamento em nós e, espe-
cialmente, nos outros, por não podermos sequer admiti-lo em nós mesmos. Além disso, em
função de interesses de uns grupos em relação a outros, em função da luta pelo poder — o poder
material, o poder da verdade, o poder do controle, entre tantos outros — criamos uma falsa ética
das relações, em que produzimos a exclusão e a segregação como se fossem circunstâncias
absolutamente legítimas. Aparelhos repressores foram construídos, sob o disfarce de instituições
destinadas à manutenção da ordem e da normalidade sociais — na verdade a ordem e a normali-
dade que refletem os interesses de uns grupos em detrimento de outros. Foi a verdadeira
perversão — uns homens impedindo a humanidade de outros.
Assim é que os manicômios, destinados aos tratamentos dos “loucos”, surgem na
história da humanidade: como tantos outros aparelhos repressores, como tantas outras institu-
ições “normatizadoras” que deveriam, sob o disfarce do tratamento, da terapêutica, segregar,
excluir da sociedade os “indesejáveis”. Os “doentes mentais” foram internados, ou mesmo
abandonados, por meses, anos, eternamente, entre grandes muros e muitas grades. Submetidos
a eletrochoques e a excessos de substâncias químicas (os “remédios”), que os dopavam e
impregnavam, cronificando-os. Envoltos em “camisas-de-força”, quase sempre em ambientes
imundos, sem roupas, sem mobiliário, completamente destituídos de sua dignidade. E os
psiquiatras e, mais recentemente, os psicólogos, assumimos os papéis de legítimos agentes
representantes desse aparelho repressor, em nome de um conhecimento científico que nada tem
de neutralidade, mas que, ao contrário, sempre revela uma forma de conceber o homem que
reflete uma determinada cultura, com todos os seus interesses, suas contradições, seus temores
e suas perversões.
Foi preciso que buscássemos tentar libertar-nos de nossas próprias contradições, de nos-
sos próprios temores; que nos tornássemos cada vez mais reflexivos e críticos quanto ao nosso
conhecimento; que nos trabalhássemos no sentido de nos compreendermos como parte desse
grande grupo, que é a humanidade; que atentássemos para o nosso compromisso de uns com os
outros e que buscássemos resgatar ou aprimorar essa legítima ética das relações, para que
começássemos a efetuar mudanças na atenção à saúde mental.
A Reforma Psiquiátrica Brasileira, normatizada pela Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001,
determina regulamentações e ações que se opõem ao modelo manicomial de segregação e
exclusão e estabelece a necessidade de efetivar mudanças nos modelos assistenciais. Essa lei,
nos itens VII e VIII do parágrafo único do artigo 2º, especifica que os pacientes devem receber
o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento e que sejam
tratados em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis.
A Portaria nº 224, do Ministério da Saúde, de 29 de janeiro de 1992, define a criação de
uma rede assistencial substitutiva ao hospital psiquiátrico, com alternativas mais humanizadas
de serviços ambulatoriais e hospitalares, com equipes multiprofissionais (psiquiatras, psicólogos,
enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e outros), habilitadas para o desen-
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
433
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volvimento de ações em saúde mental que, de fato, correspondam às demandas dos usuários,
que estejam voltadas para a saúde e não para a doença, para o indivíduo, no grupo, a caminho
da cidadania e que resultem contrárias às deformações na ética das relações humanas.
A Portaria/GM nº 106, de 11 de fevereiro de 2000, cria os Serviços Residenciais
Terapêuticos e assim os define: “moradias ou casas inseridas preferencialmente na comunidade,
destinadas a cuidar dos portadores de transtornos mentais, egressos de internações psiquiátricas
de longa permanência, que não possuam suporte social e laços familiares e, que viabilizem sua
inserção social”.
A III Conferência Nacional de Saúde Mental, realizada em Brasília no período de 11 a
15 de dezembro de 2001, aprova a proposta de suprimir a expressão “egressos de internações
psiquiátricas de longa permanência” do texto da Portaria nº 106, visando possibilitar a criação
de residências terapêuticas para pessoas com perfil adequado aos critérios estabelecidos pela
portaria, mas que não são oriundas de internações psiquiátricas de longa permanência. Assim,
amplia esse dispositivo para todos os portadores de sofrimento mental, deficientes mentais,
autistas, que assim o requeiram, como, por exemplo, aqueles que vivem nas ruas, os egressos
dos manicômios judiciários e de outras instituições penais, bem como os egressos das demais
estruturas asilares.
Nesta perspectiva, o referencial teórico-técnico do Psicodrama, desenvolvido pelo médico
romeno Jacob Levi Moreno, vem fornecer um dos instrumentos necessários ao desenvolvimento
de uma proposta desta natureza. Em Moreno, concebe-se o homem como um ser comprometido
com o encontro e intrinsecamente responsável por todos os fatos da vida e por todos os outros
homens. A abordagem do indivíduo é realizada no contexto das relações interpessoais, mediante
desempenho de papéis. Este enfoque apresenta-se perfeitamente afinado com a fundamentação
básica da Reforma Psiquiátrica, que exige uma mudança na concepção da “saúde” e “doença”
mental, capaz de desconstruir o modelo de exclusão e alienação com que os portadores de
transtornos mentais têm sido “tratados”. O resgate da cidadania dessas pessoas somente será
efetuado mediante a sua inserção social, conforme aponta a Portaria nº 106. Faz-se necessário,
portanto, trabalhar as relações interpessoais e os papéis sociais amputados ao longo do processo
de abandono, cronificação e institucionalização daqueles que apresentam “problemas mentais”.
Além disso, o referencial Psicodramático apresenta duas vertentes indispensáveis à consecução
de um trabalho com este objetivo, representadas nos referenciais do Psicodrama Pedagógico e
do Psicodrama Terapêutico.
Objetivos
Geral:
trabalhar, junto aos portadores de transtornos mentais com internações psiquiátricas de
longa permanência no CPER, que não possuam suporte social e laços familiares, o
processo de implantação dos SRTs como modalidade assistencial substitutiva à moradia
asilar, viabilizando a inclusão social e o resgate da cidadania desses pacientes.
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Específicos:
promover a qualificação de profissionais e acadêmicos dentro de uma perspectiva de
humanização da atenção em saúde mental;
identificar peculiaridades amazônicas que devem ser consideradas na implantação dos
SRTs;
avaliar e aplicar as possibilidades de contribuição do Psicodrama na implantação de
programas dessa natureza;
• fornecer o maior número de informações a respeito da doença e do tratamento, estimu-
lando a discussão acerca da moradia asilar, bem como dos benefícios e comprometi-
mentos que pode representar à integridade biopsicossocial;
detectar a existência de fatores que incapacitem os pacientes para uma determinada
modalidade de moradia;
promover o resgate dos papéis sociais necessários a uma vida em comunidade o mais
autônoma possível;
auxiliar os pacientes na identificação das dificuldades e possibilidades dos vínculos já
estabelecidos ou que venham a estabelecer entre si, com os membros da equipe de
execução do projeto e comunidade em geral.
Metodologia
Público-alvo
portadores de transtornos mentais com internações psiquiátricas de longa permanência
no Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro que não possuam suporte social e laços familiares.
Identificação e seleção dos pacientes
• seleção, para início do trabalho, de um grupo com no máximo 12 (doze) pacientes com
maiores perspectivas de inserção social (observando-se critérios como maior disponibilidade
para as relações interpessoais, motivação para outro tipo de moradia e outros que se
apresentem quando da identificação dos participantes). Os demais pacientes serão atendidos
subseqüentemente, de forma semelhante.
Avaliação e aplicação da metodologia do psicodrama
discussão e identificação, em reuniões semanais da equipe de execução do projeto, de
elementos indicativos das especificidades regionais, como vocabulário, costumes e
representações mentais inerentes ao contexto situacional dos pacientes, inclusive com o
objetivo de adequar continuamente as intervenções e estratégias à realidade local;
• elaboração, pela equipe executora, do projeto de modelo de avaliação de resultados das
sessões dos grupos de pacientes, em que se evidencie o desempenho e evolução de cada
um; este modelo deverá ser preenchido por todos os profissionais e alunos envolvidos,
por ocasião das reuniões técnicas semanais, possibilitando a mensuração dos resultados
e norteando os avanços de cada grupo trabalhado;
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
435
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utilização do referencial teórico-técnico do Psicodrama Pedagógico e Terapêutico no
treinamento da equipe executora do projeto e nas sessões dos grupos de pacientes.
Detecção de transtornos mentais e/ou seqüelas neurológicas limitantes
levantar história e evolução do quadro clínico apresentado, por meio de pesquisas nos
prontuários e entrevistas com a equipe multiprofissional da Instituição e outras fontes (se
existentes);
solicitar avaliações médicas, psicológicas e laboratoriais julgadas necessárias pela
equipe executora do projeto;
identificar tipos de cuidados médicos, psicológicos, de enfermagem, de fisioterapia
e/ou outros, requeridos em cada caso.
Definição de modalidades de moradias
utilização das informações sobre cuidados especiais requeridos, com o fim de possibilitar
orientações técnicas para definição das modalidades de Serviço Residencial Terapêutico;
repasse dessas informações, bem como das modalidades de Serviços Residenciais
Terapêuticos passíveis de serem viabilizados, nas sessões pedagógicas terapêuticas e em
outras atividades com os pacientes.
Resgate dos papéis sociais
realização de treinamentos e fornecimento de informações acerca de aspectos da cidade
de Manaus, da vida em sociedade, dos afazeres inerentes à administração de uma casa,
do sistema viário da cidade e particularmente do bairro onde residirão, etc.: em ativi-
dades fora do CPER (como, por exemplo, levando-os para conhecer os terminais de
ônibus e auxiliando-os a aprenderem a deslocar-se por meio dessa forma de transporte);
ao longo das sessões pedagógicas terapêuticas no CPER (por meio do role playing dos
papéis que forem sendo identificados ou referidos no grupo, como importantes para a
adaptação à nova moradia; ou auxiliando-os na limpeza e arrumação de seus objetos
pessoais dentro das enfermarias em que dormem, etc.).
Identificação das dificuldades e possibilidades vinculares
focalização do trabalho sobre a relação e não sobre a doença, buscando o desenvolvi-
mento do potencial de estabelecimento de vínculos satisfatórios, por meio da experiência
concreta, da relação democrática e simétrica entre pacientes e equipe executora do pro-
jeto, ao longo de todas as atividades, com vistas a garantir a participação e a tomada de
decisões dos pacientes no processo como um todo e vivenciar a proposta Moreniana do
encontro: “O amor e o compartilhamento mútuo são princípios de trabalho indispen-
sáveis e poderosos numa vida em grupo. Por isso, é imperativo que tenhamos fé nas
intenções de nosso semelhante, uma fé que transcende a mera obediência originada
pela coerção física e legalística” (MORENO, 1997).
436
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Resultados e discussão
Além das duas sessões semanais com os pacientes, outras atividades têm sido propor-
cionadas, algumas das quais desenvolvidas fora da instituição.
A participação dos pacientes no III Seminário Saúde Mental e o SUS no Amazonas,
realizado no período de 14 a 16 de novembro de 2002, foi um marco muito importante, tanto
do ponto de vista sociopolítico – no que se refere à necessidade de serem efetuadas mudanças
vigorosas na atenção à saúde mental em nosso Estado e à necessidade de mudanças na
concepção de saúde mental e doença mental – quanto do ponto de vista terapêutico –, quando
o enfoque deixa de ser a doença e passa a ser a relação do “louco” com a sociedade, verificamos
uma melhora no quadro desse dito “louco” que nos surpreende.
Em novembro de 2002, a presença do Secretário de Saúde e da Coordenadora do
Programa de Saúde Mental em uma sessão pedagógica terapêutica com os pacientes ensejou
uma visita da equipe técnica ao Conjunto Habitacional Nova Cidade, por sugestão do próprio
Secretário. Essa visita teve o objetivo de avaliarmos a possibilidade de utilização de algumas
unidades residenciais do referido conjunto, como Serviços Residenciais Terapêuticos, ocasião
em que, também, contatamos com a equipe do Programa Saúde da Família, no Centro de
Referência Monte das Oliveiras, quando fomos informados que o Conjunto Nova Cidade não
faz parte da área de abrangência dessa unidade. Posteriormente, com vistas a garantir a partici-
pação dos pacientes na tomada de decisões ao longo de todo o processo, aconteceu uma segunda
visita, desta vez com a presença dos mesmos. Na ocasião, manifestaram sua aprovação e o dese-
jo de que sejam realizadas reformas que atendam às suas expectativas, tais como a cor da
pintura, construção de varandas, pátios, muros e cobertura de lavanderias, troca de portas e
janelas, colocação de grades para reforçar a segurança, tipo de vegetação, características
do mobiliário, entre outras mais específicas como, por exemplo, a criação de galinhas e animais
de estimação.
Foi encaminhado, então, um documento ao Secretário de Saúde na época e à
Superintendência de Habitação (SUHAB), propondo a aquisição de imóveis, no Conjunto Nova
Cidade, para a implantação dos Serviços Residenciais Terapêuticos. No documento constam
várias especificações destinadas a atender as necessidades manifestadas pelos pacientes, bem
como as exigências elencadas na Portaria nº 106. Embora tenham sido solicitadas quinze
unidades residenciais, entendemos que, caso sejam criados Serviços Residenciais Terapêuticos
no referido Conjunto, apenas em torno de cinco serão realmente necessárias, tendo em vista que
um número pequeno de pacientes apresenta condições e expectativas (constituição de uma
família pequena) compatíveis com a modalidade de Serviço Residencial Terapêutico que pode
ser instalada nessas unidades (casas pequenas, com apenas 2 quartos pequenos). Para os demais
pacientes, as pensões protegidas apresentam-se como uma modalidade mais adequada, em
função das limitações por eles apresentadas e que vêm a requerer cuidados específicos.
O final do ano de 2002 foi marcado pela realização conjunta (equipe técnica e pacientes)
de uma festa de confraternização, que correspondeu às expectativas construídas ao longo dos
nossos encontros semanais. A aquisição de roupas e adereços culminou com o momento de
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preparação de cada um para a festa, envolvendo desde a escolha do que vestir até a maquilagem
das pacientes. O cardápio também foi escolhido conjuntamente. Essa festa foi vivenciada por
todos nós como um momento de intenso compartilhamento dos vínculos construídos ao longo
de um semestre de relacionamento.
No mês de março de 2003, os pacientes estiveram presentes na abertura da Mostra de
Teatro que aconteceu na Praça da Saudade, com a apresentação da peça O que é e o que não
devia ser. Essa atividade possibilitou a eles um momento de convivência e integração com a
comunidade manauara da qual todos fazemos parte e que, naquele momento, dividia uma
importante manifestação cultural. Na ocasião também participaram de um passeio de ônibus
pela cidade.
No dia 16 de maio de 2003, como parte da programação relativa ao Dia Nacional de Luta
Antimanicomial, participaram de uma concentração em praça pública, passeata e manifestação
em frente à Assembléia Legislativa. Esse evento, iniciativa da Coordenação do Programa de
Saúde Mental da Secretaria Estadual de Saúde, teve o objetivo de despertar a atenção da comu-
nidade para a questão da Reforma Psiquiátrica, mobilizando os deputados para a aprovação do
projeto de lei estadual da Reforma Psiquiátrica. Tal projeto de lei, em tramitação desde o ano
de 2002, é de suma importância para garantir o compromisso do Poder Público com o processo
de mudança da assistência à saúde mental no Amazonas.
Em 27 de maio de 2003, a equipe de execução do projeto conseguiu realizar uma reunião
com a coordenação do Programa Estadual de Saúde Mental. Nessa ocasião, foram levantados
aspectos tais como: a necessidade de encaminhamento do projeto, sob protocolo, à Secretária
de Saúde, garantindo a sua formalização como proposta ou subprojeto do Programa de Saúde
Mental do Estado, possibilitando o aporte financeiro indispensável à sua total realização; a
necessidade de identificação do projeto como projeto de extensão da Universidade Federal
do Amazonas, com a especificação dos membros da equipe de execução e com vistas ao
esclarecimento acerca dos encaminhamentos de correspondências e discussões necessárias; o
acompanhamento e supervisão da execução do projeto pelo Programa de Saúde Mental; a
realização de contato do coordenador do programa com os pacientes participantes do primeiro
grupo, na reunião mensal de familiares e usuários do CPER, em 28.05.03; a viabilidade de
execução de subprojetos específicos, a curto e médio prazos; a análise sobre a localização mais
adequada dos Serviços Residenciais Terapêuticos, com enfoque sobre a importância de estarem
situados em um bairro da cidade que facilite o acesso ao Centro de Saúde, que dará o suporte
assistencial, que seja uma área com a qual os pacientes estejam familiarizados, próxima do
território onde residem atualmente e com fácil acesso a locais de lazer e cultura, tais como o
Teatro Amazonas, cinemas e outros; a avaliação dos resultados do trabalho, com enfoque sobre
a escassa participação dos técnicos do CPER, em parte entendida como resistência às mudanças
na forma de ver e de se relacionar com o portador de transtorno psíquico, proposta funda-
mental que permeia e embasa todas as ações do trabalho, sustentadas na construção de uma
relação com o sujeito que abandone o modelo cultivado e cristalizado de ver a doença em vez
do indivíduo.
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A princípio os pacientes manifestaram um grande temor em participar do projeto. A
instituição asilar, embora lugar de alienação e cronificação do “doente mental”, constituiu-se
para os mesmos, até aquele momento, como o único espaço de acolhimento e amparo, única
referência possível de moradia. Só conseguiam assimilar que sua participação poderia significar
sua saída do hospital e, portanto, o seu abandono. Gradativamente foram sendo esclarecidos
pela equipe técnica, o que os estimulou a permanecerem no projeto.
Em vários momentos temos trabalhado com mais intensidade, junto aos pacientes, o
fornecimento de informações acerca da Reforma, acerca da doença e do tratamento. Durante um
desses trabalhos, um paciente nos disse que sua doença é a “doença da vida”. Quando lhe
perguntamos o que é isso, ele nos informou que é crescer na miséria, sendo abandonado pela
família, não aprendendo a ler e escrever, não tendo um trabalho e nem onde morar. No decorrer
das sessões pedagógicas terapêuticas, em vários momentos ouvimos depoimentos desse tipo,
bem como outros que falam da exclusão, da discriminação e dos maus tratos que sofre o
“louco”. E são nesses momentos, em que mais fortemente constatamos a nossa grande dívida
social para com os portadores de sofrimento psíquico, que temos encontrado forças para
continuar desenvolvendo este projeto.
Em dezembro de 2003, a equipe de execução do projeto constatou a necessidade de
implantação de subprojetos no sentido de sistematizar procedimentos. O Subprojeto
“Visitante”, já implementado em 2004, visa ao resgate do momento de visita poder representar
a implementação de uma estratégia que concretize esse início do processo de reinserção social.
Vivenciado, a princípio, pelos próprios estudantes e profissionais da área de saúde mental,
deverá, posteriormente, abrir espaço a todas as pessoas que assim o desejarem.
Para 2004, estão previstos, ainda, a implantação de outros dois subprojetos, são eles:
“Oficina do B A Ba” com o objetivo de promover o desenvolvimento de habilidades tais
como ler, escrever, executar operações numéricas, entre outras, necessárias a uma vida
em comunidade o mais autônoma possível, ampliando as oportunidades de inserção
social e resgate da cidadania dos pacientes residentes do Centro Psiquiátrico Eduardo
Ribeiro (CPER);
• “Educação em Saúde Mental”, objetivando a implementação de medidas que objetivem
a mudança de uma representação social que exclui e segrega o que foge aos padrões de
“normalidade” socialmente instituídos, como é o caso da concepção vulgar sobre o louco
e a loucura. Considerando a suscetibilidade dos jovens na formação e transformação de
conceitos e opiniões, este projeto propõe a abertura de discussões e reflexões sobre o
doente e a doença mental com adolescentes concludentes do ensino fundamental, com
base na idéia de que os preconceitos nessa faixa ainda não estão cristalizados (e/ou com
outras populações).
Os resultados obtidos demonstram que, quando viabilizamos a interação e vinculação
dos pacientes com pessoas e objetos, em plena vida real, estamos, de fato, trabalhando com a
perspectiva de desinstitucionalização da loucura. E que se esta possibilidade, no desenvolvi-
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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mento deste projeto, não está sendo adequadamente potencializada, há que se criar novos
caminhos para contribuirmos com a transformação desse fenômeno de sofrimento existencial e
social que é a loucura.
Bibliografia
AMARANTE, P. (Coord.). Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio
de Janeiro: Fiocruz, 1995.
BRASIL. Ministério da Saúde.
Legislação em saúde mental. 3.ed. Brasília: MS, 2002.
MORENO, J. L.
Autobiografia. São Paulo: Saraiva,1997.
_____.
Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1997.
III CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL, Brasília, 2002.
Relatório final.
Brasília: Ministério da Saúde/Sistema Único De Saúde/Conselho Nacional De Saúde, 2002.
Internato Rural de farmácia da Faculdade de Farmácia
Antônio Basílio Pereira, Farmacêutico e Mestre
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Resumo
O Internato Rural – IR de farmácia é atividade acadêmica curricular optativa. Alunos
organizam a assistência farmacêutica no SUS/Municipal. Os objetivos são organizar a assistên-
cia farmacêutica; dignificar o atendimento; eliminar desperdícios; orientar a população e
autoridades sobre o uso correto de medicamentos e descarte dos inadequados, para proteger o
meio ambiente; levantar as doenças; levantar a produção de derivados da mandioca, da cana-
de-açúcar e do leite. A metodologia de trabalho envolve diagnosticar a assistência farmacêutica
no SUS/Municipal, avaliando: a) armazenamento e dispensação de medicamentos; b) estoques
de medicamentos em condições de uso e os vencidos ou deteriorados. Organizar o armazena-
mento e a dispensação; promover campanha sobre uso correto de medicamentos e o descarte;
preparar relatórios para os Municípios e a Secretaria de Estado da Saúde. Os resultados alcançados
são: a) econômicos: eliminação dos desperdícios e manutenção da qualidade dos medicamentos;
b) sociais: maior acesso, atendimento com dignidade e melhor qualidade de vida da população,
inclusão dos hipertensos, diabéticos, hansenianos, tuberculosos, aidéticos e com distúrbios
mentais. Foram atendidos 187 Municípios, sendo 41 no Vale do Jequitinhonha, dezesseis no
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Vale do Mucuri e onze no Norte de Minas. Foram beneficiados 3.390.150 habitantes; c)
pedagógicos: formação de profissionais com responsabilidade social
.
Palavras-chave: assistência farmacêutica, SUS/Municipal, Internato Rural de farmácia
Introdução e objetivos
O Programa Internato Rural de farmácia da Faculdade de Farmácia da Universidade
Federal Minas Gerais está regulamentado como uma atividade acadêmica optativa geradora de
quatro créditos contabilizados para integração curricular. As atividades iniciaram em junho de
1995, nos Municípios vinculados ao Consórcio Intermunicipal de Saúde do Alto São Francisco.
Os alunos participam de treinamento especial na Faculdade e, nas férias, vão aos Municípios,
onde permanecem um mês e executam todas as atividades programadas. A contrapartida de cada
Município é conceder hospedagem e alimentação, durante um mês, para os alunos e passagem
de ida e de volta do Município. O Sistema Único de Saúde está municipalizado nos 853
Municípios mineiros com a denominação de SUS/Municipal. Os serviços de saúde estão entre
os fatores de grande importância para a qualidade de vida da população. Esses serviços cons-
tituem grande preocupação dos gestores federal, estadual e municipal, pela natureza das práticas
de assistência que neles se desenvolvem e pela grande soma dos recursos necessários para sua
efetivação. É muito elevado o volume de serviços prestados pelo Sistema Único de Saúde, mas
ainda há uma grande parcela da população excluída de algum tipo de atenção. Na assistência
farmacêutica há uma crescente demanda de medicamentos em face do envelhecimento popula-
cional, e seu atendimento implica em grande aumento do custo social. Para garantir o acesso da
população a medicamentos seguros, eficazes e de qualidade, ao menor custo possível, propõe-
se na Política Nacional de Medicamentos que os gestores do SUS, nas três esferas de Governo,
atuem em estreita parceria e concentrem esforços no sentido de que o conjunto das ações dire-
cionadas para que se alcance esse propósito sejam orientadas por diretrizes bem definidas,
como a adoção de Relação de medicamentos essenciais. Medicamentos essenciais são aqueles
considerados básicos e indispensáveis para atender a maioria dos problemas de saúde da
população. Eles devem estar, continuamente, disponíveis às populações que deles necessitarem,
nas formas farmacêuticas apropriadas e compõem uma relação nacional de referência que
servirá de base para o direcionamento da produção farmacêutica e para o desenvolvimento
científico e tecnológico, bem como para a definição de listas de medicamentos essenciais nos
âmbitos estadual e municipal, que deverão ser estabelecidas com o apoio do gestor federal e
segundo a situação epidemiológica respectiva. A assistência farmacêutica no SUS/Municipal,
de modo geral, está completamente desarticulada e inteiramente fora da realidade social.
Raramente há farmacêutico orientando as ações. Em muitos Municípios ainda é possível receber
medicamentos na Farmácia Municipal, localizada no Posto de Saúde, sem receita médica. É o
primeiro indicativo da falta de estruturação da assistência farmacêutica. Constata-se, facil-
mente, que a grande maioria das pessoas que realizam o atendimento na Farmácia do
SUS/Municipal tem baixo nível de escolaridade e nunca recebeu treinamento adequado.
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Num elevado número de Municípios não há local apropriado para o armazenamento de medica-
mentos e material de ambulatório médico (agulhas, seringas, gases, algodão, esparadrapos, etc.)
separado do local da dispensação. Esses bens de saúde são colocados em almoxarifados com
materiais usados nos diversos setores da administração municipal ou a maior parte deles é
amontoada, diretamente, no piso sobre umidade ou sob ação solar direta, no local onde se realiza
a dispensação, sem controle de entradas, saídas e saldos. Em todos os Municípios o espaço des-
tinado à Farmácia Municipal é muito pequeno. Isso dificulta o atendimento, e muitos pacientes
com prescrição médica não são atendidos porque o próprio atendente não tem acesso ao
medicamento no grande amontoado sobre o piso. Nessa condição, os medicamentos atingem o
prazo de validade ou se deterioram e são descartados sem a preocupação de proteger o meio
ambiente. O mesmo acontece com o material de ambulatório médico. Como conseqüência da
falta de orientação adequada, o descarte de medicamentos e material de ambulatório médico é,
usualmente, realizado: a) retirando os medicamentos das embalagens primárias e lançando-os
em pia ou em vaso sanitário, com destino imediato aos cursos d’água; b) descarregando-os, sem
retirar da embalagem primária, no lixão ou em fossas próximas ao posto de saúde ou ao hospi-
tal, onde são queimados; c) queimando os produtos em céu aberto ou em fornos de baixa tem-
peratura, ao lado do posto de saúde ou do hospital, produzindo uma fumaça pesada e muito
xica. Nesse estado de descontrole não se tem certeza da qualidade dos medicamentos fornecidos
aos pacientes, pois as condições de armazenamento são inteiramente inadequadas. Em alguns
Municípios, logo após a entrega dos medicamentos na Farmácia Municipal, eles são distribuídos
para as famílias mais influentes que os mantêm reservados para alguma necessidade esporádica.
Objetivos: a) realizar um levantamento situacional da assistência farmacêutica no Município,
avaliando as condições de seleção, programação, aquisição, armazenamento, prescrição e dis-
pensação de medicamentos; b) realizar uma avaliação física dos medicamentos e separar os que
atingiram o prazo de validade e os que se deterioraram e realizar seu descarte de modo a proteger
o meio ambiente; c) organizar o armazenamento dos medicamentos, observando-se as condições
necessárias para manutenção de sua qualidade e garantia de sua eficácia; d) organizar o
armazenamento do material de ambulatório médico para que permaneça em condição de uso e
seja eliminado o desperdício; e) registrar o estoque de cada medicamento e de cada material de
ambulatório médico em ficha adequada (ficha de prateleira), com controle de entradas, saídas e
saldos; f) organizar o local de dispensação de medicamentos e refazer sua estrutura para facili-
tar o trabalho do atendente, proporcionar um atendimento com dignidade e manter os controles
necessários para eliminar os desperdícios; g) organizar o armazenamento, a dispensação e o
controle dos medicamentos listados na Portaria nº 344, de 12.05.98, do Ministério da Saúde e
suas alterações; h) treinar e capacitar pessoal para as atividades básicas de assistência
farmacêutica; i) realizar o levantamento das doenças, por faixa etária e sexo, utilizando-se as
fichas clínicas correspondentes ao ano anterior ao Internato Rural, que servirá de subsídio para
a equipe de saúde do Município estabelecer a Relação Municipal de Medicamentos Essenciais
– Remume, com base na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais – Rename; j) desen-
volver ampla campanha sobre o uso correto de medicamentos por meio de folhetos, jornais,
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cartazes, televisão, palestras em rádios, nas escolas, nas comunidades, para os agentes comu-
nitários de saúde e para grupos de terceira idade; k) realizar campanha sobre o descarte dos
medicamentos que atingirem o prazo de validade e dos que se deteriorarem, de modo a proteger
o meio ambiente; l) identificar e caracterizar a produção primária e as unidades de processa-
mento de alimentos derivados do leite, da mandioca e da cana-de-açúcar para obter o perfil
mineiro nessas atividades, para que professores do Departamento de Alimentos da Faculdade
de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais possam, apoiados em projetos específicos,
assessorar, diretamente, os fabricantes para produzirem com qualidade e em maior quantidade,
o que contribuirá para melhorar, muitíssimo, as condições de vida no Município; m) preparar
relatório técnico-científico (NBR 10719 da ABNT), ilustrado, em três vias, sobre as atividades
desenvolvidas no Município. Um exemplar é enviado, pela coordenação do Internato Rural para
o Município e um para a Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais. Justificativa. As ativi-
dades que os alunos vinculados ao Internato Rural de Farmácia desenvolvem nos Municípios
desde 1995, encontram respaldo na Política Nacional de Medicamentos, aprovada pelo Ministro
da Saúde, por meio da Portaria nº 3.916, de 30 de outubro de 1998 Nessa Portaria estão
definidas as responsabilidades dos gestores federais, estaduais e municipais. No âmbito munici-
pal, caberá à Secretaria de Saúde ou ao organismo correspondente as seguintes responsabilidades:
a) coordenar e executar a assistência farmacêutica no seu respectivo âmbito; b) associar-se a
outros Municípios, por intermédio da organização de consórcios, tendo em vista a execução da
assistência farmacêutica; c) promover o uso racional de medicamentos junto à população, aos
prescritores e aos dispensadores; d) treinar e capacitar os recursos humanos para o cumprimento
das responsabilidades do Município no que se refere a esta política; e) coordenar e monitorar o
componente municipal de sistemas nacionais básicos para a Política de Medicamentos, de que
o exemplos o de Vigilância Sanitária, o de Vigilância Epidemiológica e o de Rede de Laboratórios
de Saúde Pública; f) implementar as ações de vigilância sanitária sob sua responsabilidade; g)
assegurar a dispensação adequada dos medicamentos; h) definir a relação municipal de medica-
mentos essenciais, com base na Rename, a partir das necessidades decorrentes do perfil nosológico
da população; i) assegurar o suprimento dos medicamentos destinados à atenção básica à saúde
de sua população, integrando sua programação à do Estado, visando garantir o abastecimento
de forma permanente e oportuna; j) adquirir, além dos produtos destinados à atenção básica,
outros medicamentos essenciais que estejam definidos no Plano Municipal de Saúde como
responsabilidade concorrente do Município; k) utilizar, prioritariamente, a capacidade dos
laboratórios oficiais para o suprimento das necessidades de medicamentos do Município; l)
investir na infra-estrutura de centrais farmacêuticas e das farmácias dos serviços de saúde,
visando assegurar a qualidade dos medicamentos; m) receber, armazenar e distribuir adequada-
mente os medicamentos sob sua guarda.
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Metodologia
Inspeção direta para se realizar, imediatamente, um diagnóstico da situação da assistência
farmacêutica no SUS/Municipal e, logo a seguir, organizá-la para melhorar sua eficiência e
atender, com dignidade, à população. São identificadas as condições físicas do armazenamento
e do local da dispensação de medicamentos e de material de ambulatório médico, com análise
dos seus estoques e registro dos produtos em condições de uso. Para os medicamentos assi-
nalam-se, por ordem alfabética, o nome, a dosagem, o lote, o laboratório de origem, a data de
validade, o estoque no início e no fim do período do Internato Rural, o consumo médio mensal,
a perda estimada com valor unitário e total; identificação das perdas por vencimento do prazo
de validade e por alteração física, registrando-se, em ordem alfabética e separadamente, o nome
de cada medicamento e do material de ambulatório médico, o lote, a quantidade, o preço
unitário, o preço total e o valor total da perda; mudança, quando necessária, dos locais de
armazenamento e de dispensação, para atender os requisitos técnicos; organização técnica do
armazenamento e da dispensação; avaliação da seleção de medicamentos para atenção primária
no SUS/Municipal; identificação da programação de compras e do sistema de aquisição; análise
das prescrições e da dispensação; levantamento dos diagnósticos registrados nas fichas clínicas,
do ano que antecede ao Internato Rural, com separação de faixas etárias e de sexo, de 0 a 6 anos,
de 7 a 14, de 15 a 29, de 30 a 49 e acima de 49 anos; promoção de ampla campanha sobre uso
correto de medicamentos e de descarte dos que atingiram o prazo de validade ou sofreram
alteração física, de modo a proteger o meio ambiente; dignificação do atendimento; apresen-
tação dos resultados, por meio de minuciosos relatórios técnicos ilustrados, aos Municípios e à
Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais.
Resultados e discussão
Até março de 2004 as atividades programadas foram realizadas em 187 Municípios, com
benefícios para 3.390,150 habitantes, das diversas regiões de Minas, sendo 41 Municípios no
Vale do Jequitinhonha com 562.762 habitantes, 16 no Vale do Mucuri com 322.857 habitantes
e 11 no Norte de Minas com 317.342 habitantes. Com o levantamento das doenças, em
todos os Municípios visitados, por meio dos diagnósticos registrados nas fichas clínicas, ficou
constatado que, tanto as de grande prevalência (Tabela 1), quanto às demais (Tabela 2), estão
presentes em todos os Municípios.
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Tabela 1
Diagnósticos de maior prevalência em um Município do
Vale do Jequitinhonha com 5.390 habitantes
Tabela 2
Diagnósticos registrados nas fichas clínicas em um
Município do Vale do Jequitinhonha com 5.390 habitantes
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Nos Municípios dos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri e da região do Norte de Minas
o abastecimento com água potável é para pequena parcela da população e a rede de esgoto
quando existe é lançada nos córregos e rios e os habitantes freqüentam esses cursos d’água. Isso
se revela como causa da prevalência de algumas doenças. Há doenças típicas de países em
desenvolvimento e agravos muito característicos de países desenvolvidos. Desse modo, ao
tempo em que são prevalentes as doenças crônico-degenerativas, aumenta a morbimortalidade
decorrente da violência, especialmente dos homicídios e dos acidentes de trânsito. Como com-
plicador do sistema reaparecem doenças como a cólera, a dengue, a malária, a leishmaniose e
as doenças sexualmente transmissíveis. Os resultados podem ser referenciados como econômicos,
sociais e pedagógicos. Destacam-se como resultados econômicos, para o Poder Público, a
eliminação dos desperdícios e a manutenção da qualidade dos medicamentos obtidos com a
organização do armazenamento e da dispensação e com o treinamento e capacitação de pessoal
para executar atividades básicas de assistência farmacêutica; resultados sociais são evidenciados
com a organização ampla da assistência farmacêutica que contribuiu para a assistência à saúde;
proporcionou maior acesso da população ao tratamento medicamentoso; conscientizou a popu-
lação para o uso correto de medicamentos e o descarte dos que atingirem o prazo de validade
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Diagnósticos Respectivos nºs
distúrbio psiquiátrico, disúria, doença de Parkinson, dor abdominal
2, 16, 33, 1
dor pélvica, dor torácica, dorsalgia, DST, eczema, edema
133, 7, 57, 5, 3, 65
enfisema pulmonar, entorse, enxaqueca, epigastralgia, epilepsia, epistaxe 1, 6, 8, 124, 26, 14
erisipela, escabiose, esplenopmegalia, esquistossomose, estomatite 5, 26, 1, 10, 1
etilismo, exantema, faringite, febre, febre reumática, ferimento 36, 8, 20, 246, 2, 198
fimose, fratura, furunculose, gânglio cervical, gastrite, gastrenterite
3, 23, 33, 1, 7, 3
gengivite, gota, gripe, halitose, hanseníase, hipertensão arterial severa
1, 1, 122, 1, 7, 501
hematoma, hemorragia, hemorróida, hepatite, hepatomegalia, hérnia
3, 4, 6, 1, 2, 18
herpes, hidrocele, hiperceratose, hipercolesterolemia
7, 2, 1, 3
hipertensão pulmonar, hipertireoidismo, hiporexia, hipotireoidismo
2, 1, 40, 2
insuficiência cardíaca congestiva, impetigo, inapetência
12, 43, 10
infarto do miocárdio, infarto pulmonar, infecção genital, insônia 1, 1, 3, 26
intoxicação, insuficiência respiratória aguda, infecção do trato urinário 14, 2, 35
infecção nas vias aéreas superiores, labirintite, leishmaniose, leucopenia 229, 1, 2, 1
lombalgia, luxação, manchas, mastite, melena, menorragia
156,1, 12, 1, 15, 1
mialgia, miíase, mioma, monilíase, náusea, nefrite, neurocisticercose
137, 2, 3, 2, 14, 2, 2
nevralgia, nódulo, obesidade, otalgia, otite, otorréia, ovário policístico
1, 18, 7, 27, 22, 4, 2
pancreatite, paralisia de cordas vocais, parasitose intestinal, parestesia
1, 1, 657, 2
pielonefrite, plaquetopenia, pneumonia, polimenorréia, poliúria, prurido
1, 1, 5, 2, 2, 51
rinite, septicemia, sibilos, sindrome de Down, sindrome de cólon irritável
1, 1, 58, 1, 1
sinusite, sopro, surdez, taquicardia, tonteira, tosse, tensão pré-menstrual 17, 7, 3, 4, 76, 121, 1
traumatismo, tuberculose, tungníase, úlcera péptica, urticária, varizes 54, 1, 1, 5, 3, 9
vitiligo e vômito
1, 113
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ou que estiverem fisicamente alterados; disponibilizou um atendimento com dignidade, em que
o paciente se assenta para receber os medicamentos e orientação sobre o seu uso e eliminou-se
o atendimento através da janelinha onde os pacientes, de posse de prescrição médica, permane-
ciam de pé, no sol ou na chuva, para receberem os medicamentos, sem nenhuma orientação para
sua utilização; contribuiu para melhoria da qualidade de vida da população e assegurou
tratamento aos hipertensos, aos diabéticos, aos com distúrbios mentais, aos hansenianos, aos
tuberculosos e aos aidéticos para manterem uma vida saudável; os resultados pedagógicos
foram obtidos com a participação dos alunos no Internato Rural de Farmácia onde vivenciaram
a realidade da assistência farmacêutica nos Municípios; planejaram e executaram mudanças
para melhorar as condições de armazenamento, de dispensação e de atendimento aos pacientes;
conscientizaram a população para o uso correto de medicamentos e descarte dos medicamentos
vencidos ou deteriorados, de modo a proteger o meio ambiente; conviveram intensamente com
as comunidades; treinaram e capacitaram pessoal para exercer as atividades básicas de assistên-
cia farmacêutica e sentiram a atuação política das autoridades municipais. Essa participação
contribuiu para a formação de profissionais com habilidades para desenvolver a assistência
farmacêutica, numa visão ampla e cidadã, com responsabilidade social.
Conclusões
Os objetivos pretendidos com o Internato Rural de Farmácia foram atingidos plena-
mente. Os habitantes dos Municípios visitados foram muito beneficiados com a organização da
assistência farmacêutica. A atuação dos alunos foi decisiva para que os secretários municipais
de saúde pudessem cumprir suas responsabilidades definidas na Política Nacional de
Medicamentos. Todos os alunos que participaram do Internato Rural de Farmácia o recomen-
dam aos colegas.
Referências bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Portaria nº 3.916, de 30 de
outubro de 1998. Brasília, DF: n. 25. jul. 2001. 39 p. (Política Nacional de Medicamentos:
série C).
PEREIRA, A. B.; MOURA, C. P. G. de; RESENDE, L. C. Internato rural rede descentraliza-
da SUS/MG assistência farmacêutica. Belo Horizonte: UFMG-FAFAR, 2003. 155 p.
(Relatório; 149).
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Programa de extensão interdisciplinar da Universidade Federal de São Paulo
no Município de Cananéia/SP
Luciana Garbelini Sanches, Graduanda do 3º ano de Medicina
Ricardo Nielsen Rodriguez, Graduando do 3º ano de Medicina
Carolina Jacomini do Carmo, Graduanda do 4º ano de Enfermagem
Ligia Cristina, Graduanda do 2º ano de Enfermagem
Marcelo Mendes Souza Câmara, Graduando do 4º ano de Enfermagem
Universidade Federal de São Paulo e Diretório Central dos Estudantes
Resumo
Este é um programa criado e implementado por alunos de graduação, visando à
melhoria de saúde e vida da população de Ariri/ Marujá/ Mandira/ Cananéia, possibilitar aos
graduandos experiências de trabalho interdisciplinar em desenvolvimento comunitário e estimu-
lar uma atuação cidadã do profissional de saúde. Partimos do pressuposto paradigmático de que
o ato de educar acima de tudo deve ser dialógico, entre sujeitos, e requer uma ação transfor-
madora sobre a realidade posta, sendo uma ação criativa. Acreditamos que saúde é “o contínuo
agir do homem frente ao universo físico, mental e social em que vive, sem regatear um só esforço
para modificar, transformar e recriar aquilo que deve ser mudado” (FERRARA, 1976). Os
estudantes, a partir de atividades artísticas e espontâneas, procuram discutir e organizar
atividades com os diversos grupos da comunidade, como a cooperativa de trabalho, práticas de
educação e promoção em saúde, resgate histórico da comunidade, qualificação de agentes comu-
nitários, estudo de plantas medicinais, entre outros projetos. É um projeto de longo prazo, e
como produtos desta parceria com a comunidade temos conseguido implementar projetos para
a melhoria da qualidade de vida da população e permitir um maior exercício da cidadania dos
mesmos e dos universitários
.
Palavras-chave: promoção em saúde, interdisciplinaridade
Introdução e objetivos
Em 1997 um grupo de alunos dos Cursos de Medicina, Biomedicina, Enfermagem e
Fonoaudiologia se propuseram a organizar um projeto que privilegiasse experiências em ativi-
dades comunitárias, de caráter interdisciplinar, que permitisse a compreensão da dinâmica do
processo saúde-doença e permitisse um papel ativo do estudante de saúde na sociedade.
Acreditando que na atuação/trabalho em saúde é “possível de entendê-lo e relativamente
efetivá-lo como instrumento de realização social e pessoal, tornando-se componente essencial
de qualquer projeto de cidadania” (DEMO), por meio de uma atuação do profissional de saúde
na promoção dos direitos humanos e de busca de uma transformação social, passaram a procurar
um Município para operacionalizar tal ensejo de prática.
448
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Por meio de contatos com a Prefeitura do Município de Cananéia foram realizadas algumas
visitas a este Município, para realização de um diagnóstico preliminar. Após a primeira visita o
grupo ficou muito impressionado com a beleza do local e a profunda influência do meio ambiente
na vida das pessoas, pelas condições de vida da população e o defasado sistema de saúde local.
Munidos com estes indicadores, os graduandos redigiram um documento com linhas
gerais para elaboração de um projeto de extensão, o qual foi apresentado, discutido e aprovado
no Conselho de Extensão da Universidade, e a partir de então passou a contar com a partici-
pação de docentes dos Departamentos de Enfermagem e Medicina Preventiva. Desta iniciativa
foi assinado um convênio entre a Universidade e a Prefeitura Municipal de Cananéia, com
vigência de 5 anos.
No período de 02 a 04 de julho de 1999 foi realizada a primeira atividade no bairro de
Ariri/Cananéia. O projeto inicial deu origem ao Programa de Extensão Interdisciplinar da Unifesp
no Município de Cananéia, e conta com a participação atual de cerca de 30 graduandos dos
Cursos de Medicina, Enfermagem, Biomedicina e Fonoaudiologia, um docente, que há 5 anos
desenvolvem projetos de educação e promoção de saúde no distrito de Ariri, 2 anos em Marujá
e recentemente ampliou suas atividades ao bairro do Mandira, todos localizados em Cananéia.
O Município de Cananéia
Estes foram os dados levantados no primeiro levantamento realizado no Município e
baseados nos quais o escolhemos para desenvolver o projeto.
O Município localiza-se no Vale do Ribeira, a 230 km da capital, e conta com dois dis-
tritos: Ariri e Cananéia. Possui área de cerca de 1.200 km2 e é composto de parte continental e
parte insular. A totalidade do Município está incluída em área de proteção ambiental vinculada
à Secretaria do Meio Ambiente, Instituto Florestal e Ibama, e está localizado no Mapa da Fome
do Governo Federal. A população total do Município é de 10.144 habitantes, estando dividida
no distrito de Ariri (646 habitantes) e de Cananéia (9.498 habitantes) (IBGE, 1991). Cerca de
79% dos habitantes se concentram na zona urbana e 21% se distribuem de maneira dispersiva,
agrupando-se em pequenas vilas, tanto na zona rural como insular. Há também cerca de 100
índios guaranis nos bairros de Rio Branco, Itapitangui e Ilha do Cardoso.
O saneamento básico é precário. No distrito de Cananéia 21,7% dos domicílios não são
ligados à rede geral de água, 67,8% não são ligados à rede de esgoto, 21,9% não têm acesso a
coleta de lixo. Em Ariri, 74,5% dos domicílios não têm acesso à rede de água, não existe rede
de esgoto e nem coleta de lixo (IBGE, 1991).
A economia baseia-se na pesca artesanal e empresarial, e no turismo sazonal. O comércio
é pequeno. Em Cananéia 60,3% dos chefes de família não tem renda ou recebem menos de 1,5
salários mínimos mensais, e 21,6% são analfabetos. Em Ariri, o percentual é de 86,3% para
renda e 34,6% para analfabetismo (IBGE, 1991).
Quanto aos recursos de saúde, existem no Município cinco postos de saúde distribuídos
na zona rural e urbana e uma unidade mista com 17 leitos na Ilha de Cananéia, área central do
Município. O atendimento nos postos rurais é feito por agentes de saúde contratados pelo
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Estado há mais de 15 anos, sem reciclagem. No ano de 2001 foi implantado o Programa de
Saúde da Família. A taxa de mortalidade infantil era de 41,49/1000n.n.v.v. em 1997, numa linha
crescente. A distribuição das causas de morte tem como principal grupo o das causas mal
definidas, seguido por causas externas e aparelho circulatório.
Programa de extensão interdisciplinar em Cananéia
Para operacionalizar de forma teórica e prática o Programa Cananéia, tomamos como
referencial de trabalho os paradigmas descritos a seguir. Estamos convencidos de que o ato de
educar acima de tudo deve ser dialógico, entre sujeitos, e requer uma ação transformadora sobre
a realidade posta. Cremos que cabe à universidade não a tarefa de adestramento, treinamento,
pura e simplesmente, mas sim a dimensão participativa, onde COM a comunidade e não PARA
ela, os universitários possam exercitar o ato libertário da educação como prática da transformação
social. A educação vista desta forma torna-se uma ação criativa, portanto não pode ser
padronizada, é a criatividade dos sujeitos que oferecerá condições para a transformação
(FREIRE, SHOR, 1986; FREIRE, 1997).
Nesta perspectiva, enquanto uma universidade da área da Saúde, adotamos o conceito de
saúde proposto por Ferrara (1976), onde ela passa a ser compreendida como “o contínuo agir
do homem frente ao universo físico, mental e social em que vive, sem regatear um só esforço
para modificar, transformar e recriar aquilo que deve ser mudado”. Esta forma de pensar traz
em si o compromisso do sujeito com sua saúde, cabendo ao profissional da saúde oferecer-lhe
condições para que possa compreender o funcionamento do seu organismo e/ou de sua patologia
para viabilizar tomadas de decisões sobre o que fazer com o seu corpo.
O corpo deixa de ser objeto de ação do profissional de saúde na medida em que o indivíduo
passa a ser o sujeito da ação. Foucault (1988) salienta que é por meio do conhecimento do
próprio corpo que o indivíduo adquire condições para resgate de sua cidadania. Nesta ótica
visualizamos o trabalho do profissional e do universitário da área de saúde em atividades de
extensão como aqueles que criam possibilidades para a produção e reconstrução de conheci-
mentos sobre o processo saúde-doença, buscando com a comunidade formas para intervir nos
problemas de saúde sentidos e detectados, e que instrumentalizam os indivíduos para o exercício
da cidadania.
Desta forma, partimos da premissa de que o trabalho comunitário implica no estabeleci-
mento dos princípios de parceria, acolhimento, vínculo e controle social, e que trabalhar
solidariamente significa fazer com a comunidade e não para ela. Para fundamentar a nossa
práxis utilizamos o método do planejamento estratégico situacional (URIBE RIVERA, 1989).
Objetivos
ampliar as atividades de extensão da universidade para além da região da Grande São
Paulo, proporcionando experiências de natureza interdisciplinar de ensino, de assistên-
cia e de pesquisa para alunos dos cursos de graduação em parceria com a Prefeitura
Municipal de Cananéia;
450
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conhecer as necessidades de saúde sentidas pelos agentes comunitários de saúde e
usuários do setor saúde visando construir em parceria com estes sujeitos estratégias de
ensino e assistência para a promoção de saúde, tendo em vista a melhoria da qualidade
de saúde e vida da comunidade;
capacitar graduandos para o desenvolvimento de trabalho comunitário, na perspectiva da
área da saúde coletiva e do trabalho interdisciplinar, estimulando uma postura cidadã dos
mesmos.
Metodologia
Para sua operacionalização foram adotadas as seguintes estratégias:
• cadastramento e seleção de alunos e professores interessados no programa;
preparo da equipe para desenvolver as atividades previstas, abrangendo discussão sobre
os paradigmas adotados que orientam as áreas de Educação e Saúde e procedimentos
técnicos previstos para a execução das atividades;
apresentação e discussão do programa envolvendo as Secretarias Municipais da Saúde,
da Educação e da Promoção Social de Cananéia objetivando estabelecer uma parceria
para seu desenvolvimento;
definição da área territorial para desenvolvimento do trabalho da equipe: o distrito de
Ariri, por indicação da Secretaria Municipal de Saúde;
levantamento e sistematização das necessidades e problemas de saúde detectados, obser-
vados e sentidos pelos agentes diversos atores envolvidos no programa: representantes
da comunidade, agentes comunitários de saúde, lideranças sociais e políticas do distrito
de Ariri, universitários e professores. Essa etapa foi realizada por meio de uma reunião
aberta à comunidade (julho/99);
problematização e interpretação do cotidiano, escutando os ruídos que as necessidades e
problemas colocados pelos diversos atores sociais envolvidos no programa apresentam,
visando a uma explicação situacional (Momento Explicativo);
classificação dos problemas por área e desenho de conteúdo propositivo do Plano de
Ação de ensino e Assistência à Saúde (Momento Normativo);
sistematização de um conjunto de procedimentos estruturados para viabilizar o plano,
definindo prioridades de ação (Momento Estratégico);
estabelecimento de um cronograma de trabalho definindo as responsabilidades de cada
ator social para o desenvolvimento do plano (Momento Tático-Operacional);
monitoramento contínuo da execução do programa por meio de reuniões periódicas entre
os parceiros envolvidos para implementação de reajustes na sua operacionalização;
a sistemática de trabalho da equipe universitária implica em uma reunião semanal para
discussão técnica, administrativa e política sobre o desenvolvimento do programa. As
decisões são coletivas. Os critérios e operacionalização de processo seletivo para
inclusão de novos membros são definidos pelo próprio grupo.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Resultados e discussão
Após 5 anos de existência o programa conta com 14 projetos, alguns encerrados, outros
em fase de avaliação, outros de implantação e/ou implementação de ações e outros ainda em
fase de discussão com a comunidade. As atividades no Município ocorrem uma vez por mês,
durante o fim de semana, na escola de Ariri e no núcleo do parque estadual da Ilha do Cardoso,
em Marujá, e no Centro Comunitário em Mandira. Foram realizadas 38 viagens para Ariri/
Marujá/ Mandira/ Cananéia, no período de julho de 1999 a maio de 2004. O esquema da via-
jem é o seguinte: saída as sextas à noite de São Paulo, chegando na Ilha de Cananéia, no sába-
do pela manhã a equipe vai de barco para Ariri e Marujá e a equipe de Mandira vai de carro até
o local, todo este percurso dura cerca de 7-8 horas. Vale ressaltar que todas as atividades desen-
volvidas são idealizadas, planejadas e implementadas pelos estudantes, em parceria com a
comunidade.
As atividades desenvolvidas são:
1. oficinas comunitárias sobre saúde em Ariri, Marujá e Mandira;
2. biblioteca comunitária;
3. jornal comunitário: estratégia do grupo de adolescentes femininas para integração das
mesmas e discussão de temas, a professora local assumiu a responsabilidade pela
elaboração da 1a edição, mas infelizmente não foi possível a continuidade do mesmo por
falta de discussão sobre aspectos éticos da divulgação da vida das pessoas da comu-
nidade; este projeto depois ressurgiu com o grupo dos adultos e idosos como forma de
divulgar a idéia do cooperativismo e democratizar as informações deste processo, e
como forma de mobilizar a comunidade;
4. qualificação e requalificação profissional de agentes comunitários de saúde e lideranças
comunitárias de Cananéia: este projeto foi uma demanda da Secretaria Municipal de
Saúde de Cananéia. Implicou na capacitação de recursos humanos para a área de saúde
visando melhorar a assistência prestada nas comunidades (rural e insular), onde o acesso
de profissionais de saúde de nível universitário não é diário. O objetivo foi o de intro-
duzir e aprofundar temas relevantes e atualizados sobre questões teórico-práticas que
compõem a área de Saúde Coletiva e visando à implementação de ações básicas de saúde
em Cananéia. Realizou-se um curso no período de 02 a 06 de agosto de 2000 em
Cananéia. Foi estruturado em seis módulos, sendo eles: Saúde Coletiva, Educação para
a Saúde, Desenvolvimento Comunitário, Saúde da Criança e do Adolescente, Saúde da
Mulher, Saúde do Adulto e Idoso e Primeiros Socorros. Os módulos foram teóricos-
práticos, tendo como auxílio didático textos básicos, vídeo sobre a temática em pauta, e
recorremos à relação entre o conteúdo desenvolvido e as experiências e vivências já
acumuladas pelo próprio participante, e foi ministrado pelos alunos e docentes.
Participaram além dos agentes comunitários algumas enfermeiras, auxiliares de
enfermagem e médicos, com ótimos resultados, tanto para os universitários quanto
participantes. Um novo curso foi realizado em abril de 2002, do qual participaram alguns
agentes que tinham participado do primeiro curso e outros que não tinham, a maioria
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integrante das equipes de PSF recém-formadas em Cananéia, foram retomados temas
abordados no primeiro curso e alguns novos como a função do agente comunitário de
saúde no PSF;
5. identificação do princípio ativo de algumas plantas medicinais usualmente utilizadas
pela comunidade: os objetivos deste projeto são a valorização e resgate da cultura local
e do uso de plantas medicinais; a partir de conversas com idosas de Ariri que tinham este
conhecimento, foi feito um levantamento, coleta das plantas mais utilizadas e suas finali-
dades. Neste momento com o ingresso de uma nova agente de saúde comunitária pelo
Programa Saúde da Família, que está interessada nesta área, este programa foi resgata-
do com uma horta comunitária feita por ela e jovens da comunidade;
6. caracterização das condições de vida e saúde da população: foram realizadas 74 visitas
domiciliárias com o objetivo de coletar dados sanitários, sociais e de saúde da comu-
nidade de Ariri, aplicação de um questionário sobre a situação vacinal das crianças e
idosos e uma campanha de diabetes e hipertensão; funcionam principalmente como
forma de integração da equipe universitária com os moradores do local;
7. prática esportiva como estratégia para melhoria da qualidade de vida e instrumento de
educação em saúde: programa implantado a partir de agosto de 2002, tendo por objetivo
criar um ambiente mais propício e agradável para se falar de saúde, de modo que os
adolescentes passem a assumir a responsabilidade por sua própria saúde e pelo desen-
volvimento de hábitos saudáveis, sendo a equipe do projeto apenas intermediária entre
esta busca, fornecendo informações e meios para tal. Temos conseguido uma boa adesão
dos adolescentes a este projeto, tendo abordado os seguintes temas: questionário sobre
hábitos alimentares, aferimento do peso e altura dos adolescentes, alimentação e esporte,
alongamento esportivo;
8. oficinas de ginástica com idosos: iniciado em junho de 2003 tendo como objetivos
melhorar o vínculo com as pessoas desta faixa etária, melhorar sua auto-estima e quali-
dade de vida, discutir as doenças mais freqüentes nessa faixa etária e seu controle;
9. avaliação qualitativa: após 5 anos de atividade o grupo sente a necessidade de avaliar o
impacto das atividades na comunidade e na formação dos estudantes. Assim, iniciaremos
um resgate da história, paradigmas e objetivos do projeto, que será realizado durante as
reuniões semanais, revisaremos os registros e relatórios feitos até o momento. E também
estamos realizando um inquérito domiciliar em Ariri para avaliarmos a abrangência do
projeto;
10. projeto de Integração Institucional para o Desenvolvimento das Comunidades de Ariri e
Mandira (Projeto Ariman) ganhador do Prêmio Banco Real/UniSol em 2003, projeto
realizado em parceria com a ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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4 Conclusões
Para os participantes deste projeto esta experiência tem sido extremamente rica e única
em diversos aspectos, principalmente para a formação dos acadêmicos. Primeiramente por ter
sido uma iniciativa dos próprios alunos, mais de 100 já participaram do projeto de todos os
cursos da faculdade, pôde demonstrar que estes têm a capacidade e interesse em propor novas
alternativas de atuação para a universidade e que desejam uma mudança no papel do profis-
sional de saúde e de sua formação acadêmica.
Depois, devido ao fato que as decisões e organização das atividades são feitas de forma
coletiva, e na maioria das vezes partem de iniciativas dos alunos, estes sendo responsáveis por
implementá-las. Assim, cada estudante toma para si a responsabilidade do bom andamento do
projeto. É importante ressaltar que é um trabalho voluntário e extracurricular.
A relação docente-aluno acaba se tornando de muito mais respeito e compreensão,
podendo as diferenças serem discutidas abertamente. E esta mesma relação educativa que se dá
com os universitários é trabalhada com a comunidade, então os discentes passam a ter a dupla
preocupação tanto do papel de educador quanto de educando, e de valorização dos conheci-
mentos e experiências de cada participante (docente, comunidade e estudantes). Um exemplo
da importância disto foi que o vínculo e parceria com os adolescentes só se estabeleceram após
uma atividade quando estes foram mostrar a alguns universitários a mata da região, e neste
momento perceberam o quanto sabiam das plantas e da região, e que os universitários
desconheciam tudo isto, a partir de então perceberam que a relação era de troca, que eles
tinham algo a ensinar e a aprender. Na verdade, o sentimento da equipe é que aprendemos com
a comunidade muito mais do que ensinamos.
Associado a este modelo pedagógico, os paradigmas de educação e saúde estimulam o
exercício livre e criativo de transformação social e humano, tanto dos universitários quanto da
comunidade. Assim o trabalho profissional pode se tornar um “instrumento de realização social
e pessoal, tornando-se componente essencial de qualquer projeto de cidadania” (DEMO, 2001).
Pouco a pouco se consolida o papel social do estudante da área da saúde que neste projeto pôde
ter noções e discussões ricas sobre educação, o sistema de saúde vigente em nosso país (SUS),
sobre ética, meio ambiente e desenvolvimento sustentável, economia e trabalho, antropologia,
questões sociais e culturais entre outros. Também é uma das raras oportunidades no nosso meio
acadêmico de trabalho em conjunto de estudantes dos diversos cursos da universidade, tanto de
trabalho em grupo quanto de entendimento e comunicação das diversas profissões.
Quanto aos resultados deste trabalho, por se tratar de mudança de hábitos de vida, é um
projeto de longo prazo e não acreditamos que virão na forma de números e mudança de coefi-
cientes e índices, mas na qualidade das relações, o vínculo, por meio de depoimentos, desenhos
e gestos. Detalhes que estamos tentando captar e organizar por meio de gravações, montagem
de um livro ou exposições dos trabalhos desenvolvidos nas oficinas. Temos encontrado um
maior interesse da comunidade para se organizar, efetivo começo da vigilância à saúde — indi-
vidual e coletiva; produzimos com a comunidade material didático para multiplicar o programa
para outras pessoas e/ou grupos do Município, estabelecimento de vínculo e parceria da
454
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comunidade. Nosso maior desejo é que a comunidade não precise de nossa presença, por isto
tentamos ao máximo garantir a autonomia deles na resolução de seus problemas, e procuramos
instrumentalizá-los para isto. Queremos com este projeto discutir também o conceito das
atividades de extensão de nossa universidade, e provocar a reflexão sobre seus retornos para
a sociedade.
Temos encontrado diversas dificuldades nestes 2 anos de atividades do nosso projeto de
transformação social, como: nossa freqüência mensal, que é insuficiente para manter um bom
vínculo com as pessoas da comunidade; a falta de motivação dos agentes de saúde locais e pro-
fessoras, que são potenciais líderes comunitários e muitas vezes perderam a confiança da comu-
nidade e em seu trabalho; a falta de mobilização e organização social da comunidade por um
histórico de tentativas de se organizar que não deram certo por falta de ética de outras iniciati-
vas, e por alguns preconceitos locais; falta de experiência de alunos e docentes para lidar com
algumas situações novas como a criação de uma cooperativa de trabalho; falta de comunicação
e compreensão dos políticos locais que esperavam um trabalho mais assistencialista; por ser
uma atividade extra-curricular algumas vezes fica em segundo plano na vida acadêmica; estran-
hamento dos discentes ao trabalharem com uma dinâmica libertadora; a dificuldade de finan-
ciamento que impossibilita a realização do número total de viagens programadas, interferindo
na manutenção do vínculo com a comunidade, entre outros. Entretanto, o grupo tem mantido a
crença em nossos pressupostos paradigmáticos, e tem encarado este desafio como um apren-
dizado único com a comunidade, que nunca poderia ser obtido dentro da universidade.
Por isso, podemos afirmar que conseguimos, enquanto grupo de graduandos e docentes,
assegurar o caráter interdisciplinar preconizado pelo programa; manter vínculo e estabelecer
parcerias com a comunidade no sentido de conhecer os problemas de saúde para buscar formas
conjuntas de minimizá-los e construir um projeto que contribua para melhoria da qualidade de
vida da população local, e estimulado uma postura profissional de transformação social.
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Paulo: Cortez, 1989.
Grupo Ciclobrasil parceria UdesC/UFSC Santa Catarina, núcleo de extensão
Giselle Noceti Ammon Xavier, Médica do Esporte. Coordenadora do Grupo. Professora. Mestre
do Centro de Educação Física, Fisioterapia e Desportos – Cefid. Universidade do Estado de Santa
Catarina – Udesc, Florianópolis, SC
Milton Carlos Della Giustina, Profissional de Educação Física. Especialista. Diretor da Associação
dos Ciclousuários da Grande Florianópolis – Viaciclo, São José, SC
Markus Vinícius Nahas, Profissional de Educação Física. Professor Titular do Centro de
Desportos. Núcleo de Pesquisas em Atividade Física e Saúde – Nupaf
Jeferson Coutinho de Sousa, Bolsista de Pesquisa do Grupo Ciclobrasil, Cefid
Karine Elmisan Zolet, Bolsista de Extensão do Grupo Ciclobrasil, Cefid
Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC
Resumo
Apesar dos conhecimentos sobre a relação benéfica entre a atividade física regular e a
saúde, ainda é pequeno o número de pessoas que se exercitam regularmente.Talvez erronea-
mente, a promoção da prática de atividades físicas tenha sido focada nas horas de lazer, ao passo
que quando inseridas no dia-a-dia das pessoas, como o caminhar e o pedalar para ir ao trabalho
ou fazer compras, elas tendem a se tornar parte da vida diária, havendo maior aderência. O
trabalho do grupo Ciclobrasil, iniciado em 1997, tem como objetivo a promoção aos meios de
transporte não-motorizados. A metodologia utilizada é a realização de atividades de extensão,
parcerias com órgãos públicos, ONGs, e pesquisas. As parcerias com órgãos públicos permitem
a realização de ações concretas e as parcerias com as ONGs favorecem a participação da
comunidade interessada. Em Florianópolis e Blumenau encontrou-se em média 2% e 3% de
deslocamentos diários realizados por bicicleta, respectivamente. Sem o devido incentivo e políticas
456
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de transporte favoráveis, o caminhar e o pedalar são desencorajados. Os modos de transporte não
motorizados devem ser incentivados devido à sua relação com a promoção da saúde coletiva, a
preservação do meio ambiente e a inclusão social.
Palavras-chave: bicicleta, saúde coletiva, políticas de transporte
Introdução e objetivos
Apesar dos conhecimentos científicos estarem chegando a todas as camadas da população,
e ser de domínio popular a relação benéfica existente entre a atividade física regular e a preservação
da saúde e prevenção de doenças, ainda é pequeno o número de pessoas que se exercitam
regularmente. Talvez erroneamente, a promoção da prática de atividades físicas tenha sido focada
nas horas de lazer, ao passo que quando inseridas no dia-a-dia das pessoas, como o caminhar e
o pedalar para ir ao trabalho ou fazer compras, elas tendem a se tornar parte da vida diária,
havendo maior aderência. Os benefícios do pedalar e do caminhar como meio de transporte têm
sido negligenciados, mais da metade das viagens diárias dos cidadãos são curtas e promovem
uma excelente oportunidade para uma atividade física que é livre e acessível a todos (DORA,
1999). Porém, existe forte evidência da influência do desenho urbano, do tipo de ocupação do
solo e da presença de infra-estrutura adequada, ou não, no número de deslocamentos não motoriza-
dos realizados por uma população. A proximidade e a conectividade (quanto ao trajeto entre
origem e destino é direto ou interrompido) são citadas na literatura como os fatores que mais
influenciam a escolha dos indivíduos. O ambiente viário adequado, isto é, ciclovias, ciclofaixas,
passeios, faixas de pedestres, semáforos, redutores de velocidade, etc., devem ser oferecidos
para estimular deslocamentos ativos (SAELENS; SALLIS; FRANK, 2003).
Promover a utilização da bicicleta como forma de transporte passou a ser uma das metas
da Organização Mundial da Saúde. Tanto pela necessidade de redução de poluentes no ambiente
das cidades, como pela promoção da saúde (e redução de gastos com tratamentos de doenças
crônico-degenerativas) que a sua utilização como meio de transporte pode representar a médio
e longo prazo (DORA, 1999).
No caso de países em desenvolvimento, pode-se, ainda, acrescentar sua imensa con-
tribuição para reduzir os gastos do orçamento familiar com transporte e diminuir a distinção
existente entre classes socioeconômicas, uma forma de promover a inclusão social. Estudos
realizados pelo Ipea revelam que, em 2001, 34% da população brasileira viviam em famílias
com renda inferior à linha de pobreza, o que correspondia a cerca de 55 milhões de habitantes.
O acesso às oportunidades de emprego, aos locais de moradia e de oferta de muitos serviços
essenciais depende das condições de transporte. Em outras palavras, os problemas de mobilidade
podem ser, com freqüência, agravantes da exclusão social e da pobreza (ITRANS, 2004).
Na América Latina, as cidades estão e continuam sendo planejadas para a utilização do
veículo automotor, quando a maioria da população não tem recursos para a utilização do
automóvel particular (e, muitas vezes, nem mesmo para o transporte público). Ciclovias e ciclo-
faixas (e calçadas, principalmente nas periferias) são quase inexistentes, mesmo quando existe
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
457
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uso e demanda para esse tipo de infra-estrutura. Isso significa que a maioria dos investimentos
que são feitos beneficia donos de automóveis, e geralmente os não usuários desse tipo de meio
de locomoção não são considerados na tomada de decisão. A situação exacerba a distinção
existente entre classes socioeconômicas. Os pobres caminham, pedalam ou conduzem veículos
de tração animal e por isso são considerados “menos”. Para essas pessoas não existem outras
opções de locomoção a serem escolhidas, eles são os chamados pedestres ou ciclistas cativos.
As pessoas que têm opção são desestimuladas ao uso da bicicleta (ou de caminhar) pela falta de
condições seguras e pela imagem de “pobreza” que é associada a esse modo de deslocamento
não motorizado (XAVIER; CARABALLO, 2002).
A política de transportes urbanos, em particular a cicloviária, é essencial para estruturar
soluções auto-sustentáveis para as áreas urbanas. A bicicleta até o presente momento não recebeu,
em nosso país, o tratamento adequado ao papel que desempenha como meio de transporte nas
áreas urbanas (BRASIL, 2001). Nas cidades que entenderam essa “mensagem”, principalmente
no Norte Europeu, as bicicletas assumiram importante presença no sistema de transporte
urbano. Realmente, devido a anos de apoio e investimento dos cidadãos e do Poder Público, as
bicicletas hoje são responsáveis por 20 a 30% de todas as viagens em importantes cidades da
Holanda, Dinamarca e Alemanha. Em muitas cidades da Ásia, esse percentual é ainda maior.
Porém, sem o efetivo apoio do Poder Público as bicicletas são marginalizadas por interesses
mais poderosos do setor de transportes (GARDNER, 1998).
Mobilidade ativa, saúde coletiva e políticas de transporte — A relação entre a atividade
física regular e a promoção da saúde e prevenção de doenças está bastante evidenciada. A
recomendação para adultos é de ao menos 30 minutos de atividades físicas diárias como forma
de promoção da saúde em geral. Entretanto, há evidências de que, para muitos, 45-60 minutos
diários de atividade física com intensidade moderada (50 a 75% do VO2max) é necessário para
prevenir a obesidade. Também é consenso que as pessoas que deixam de ser sedentárias e passam
a fazer parte do grupo considerado moderadamente ativo são as que apresentam os maiores
ganhos para a sua saúde. Para deixar de ser considerado sedentário e atingir a faixa dos modera-
damente ativos, e assim reduzir os riscos de doenças crônico-degenerativas, um indivíduo
deve gastar cerca de 1500 a 2500 kcal em atividades físicas semanais (DEPARTMENT
OF HEALTH, 2004). O pedalar é uma das poucas formas de atividade física que pode ser
praticada pela maioria da população como parte das suas atividades de vida cotidiana. Os
estudos de Hendriksen et al (2000) demonstram ganhos de potência máxima (Wmax.) de 13%
e de consumo máximo de oxigênio (VO2max.) de 6% em indivíduos sedentários que passaram
a pedalar 3 vezes por semana, com velocidades médias de 18 km/h e distâncias médias de 8,5
km. Como regra geral, para indivíduos sedentários, esses autores sugerem que seja orientado
pedalar 6 km, em intensidade baixa a moderada (55 a 75% do VO2max.), três vezes por semana
para que ganhos em performance sejam observados e mantidos. Ressaltam, ainda, que a
potência máxima é melhor parâmetro do que o consumo máximo de oxigênio para avaliarem-
se ganhos em performance física nesse tipo de situação, estando menos sujeita a variações
individuais.
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O risco de acidentes é a maior barreira ao uso da bicicleta. Entretanto, estudos com-
parando o risco de acidentes e os benefícios cardiovasculares para uma população sedentária
que passa a ser moderadamente ativa, para pessoas vivendo no Reino Unido, mostrou um
benefício muito maior para o exercício. Mas esse benefício não se mantém em lugares onde o
risco de acidentes é maior. Política de Transporte é, portanto, parcela e parceira da promoção ao
uso da bicicleta (DORA, 1999).
Criado em 1997 como Projeto Pedala Floripa, parceria Udesc/UFSC, o grupo Ciclobrasil
desenvolve extensão, capacitação e pesquisa relacionadas ao uso da bicicleta como transporte.
Desde o começo das atividades ficou evidente a necessidade de interface com os setores de
transporte, trânsito, educação, meio ambiente e desenvolvimento social, entre outros que pode-
riam ser citados.
O trabalho do grupo Ciclobrasil tem como objetivo a promoção aos meios de transporte
não-motorizados apresentando como justificativa a sua forte relação com a promoção da saúde,
a preservação do meio ambiente e a inclusão social.
Metodologia
Atividades de extensão
parcerias com órgãos públicos, ONGs nacionais e internacionais;
• pesquisas sobre deslocamento.
Resultados e discussão
os resultados de ações do núcleo de extensão, capacitação e pesquisa se confundem com
as próprias atividades. Ressaltam-se, a seguir, ações consideradas relevantes e seus
resultados.
Atividades de extensão
Podem ser considerados resultados as próprias atividades de extensão, pois que cada
evento realizado atinge uma parcela do público que fica sensibilizada e mais favorável a
desenvolver ações em prol dos deslocamentos não-motorizados. Desde 1997 se realizam
eventos técnicos e eventos com a comunidade.
Nível municipal
Eventos comunitários regulares: Passeio Ciclístico, Clínica da Bicicleta, Ciclovia de Domingo,
Semana da Bicicleta, participação no Lazer Ativo do Sesi, entre outros. Nesses eventos desen-
volveu-se atividades educativas relacionadas à saúde e de incentivo ao cumprimento do CTB –
Código de Trânsito Brasileiro. Como resultado, o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis
editou manual para os ciclistas, contratou consultor (indicado pelo grupo) que elaborou os
projetos dos estacionamentos de bicicletas (bicicletários) nos terminais de integração de
transporte coletivo, bem como a ciclovia de conexão com os mesmos, além de elaborar o pro-
jeto “Ciclovias, Rotas Inteligentes” que estabelece rotas do sistema cicloviário. Também,
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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através de indicação do grupo, a prefeitura foi incluída no projeto “Integração da Bicicleta no
Tráfego das Cidades de Porte Médio da América Latina” do programa URB-AL, entre outros.
Merece destaque, ainda, a participação do grupo na tramitação da Lei Complementar nº
078/2001, que dispõe sobre o sistema cicloviário e dá outras providências. O resultado foi a
aprovação da lei pela prefeitura de Florianópolis. Eventos técnicos: 1º Encontro Técnico sobre
o Sistema Cicloviário de Florianópolis, Encontro Técnico sobre o Sistema Cicloviário da Grande
Florianópolis: Integração São José/Florianópolis e Continente-Ilha para pedestres e ciclistas.
Nível estadual
I Encontro Catarinense por uma Política Cicloviária e celebração do convênio da Udesc
com a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente – SDM e a Secretaria
de Estado dos Transportes e Obras – STO, para o desenvolvimento de estudos e projetos sobre
os deslocamentos não motorizados, em especial aqueles realizados por bicicletas. Pode ser
considerado resultado dessa ação a presença do governador no evento, e a própria assinatura do
termo de compromisso entre as instituições. Ainda na vigência do convênio aconteceu o lança-
mento do Programa Cidades Amigas da Bicicleta CAB. Esse programa vem se desenvolvendo
até os dias de hoje e já influenciou vários líderes políticos e técnicos municipais. Foram
realizados seminários regionais do programa CAB, contando-se com a presença de técnicos das
prefeituras de São José, Florianópolis, Guaramirim, Timbó, Pomerode, Blumenau, Gaspar;
representantes das Secretarias de Estado do Desenvolvimento Regional de São José (18ª SDR)
e Blumenau (15ª SDR) e representante da Secretaria de Estado da Infra-estrutura. A presença
dos técnicos e líderes políticos pode ser considerada resultado positivo das iniciativas. Assim
como a participação de membros das ONGs representantes dos usuários das bicicletas. Apenas
para enfatizar, como desdobramento do seminário acima referido, o grupo Ciclobrasil foi
convidado a proferir palestra com o título “A Bicicleta como Transporte” no Fórum da Cidade
de São José, que fez parte da etapa local do Fórum das Cidades do Ministério das Cidades.
Quando se fala de mudanças de um paradigma de cultura ao automóvel, o simples fato de
participar em um evento junto com os planejadores urbanos (aqueles que planejam para os
motorizados) já é considerado um resultado muito positivo. A atividade estadual de expressão
mais recentemente desenvolvida é a parceria com o atual governo do Estado na criação do
Programa Plataforma Catarinense de Mobilidade Sustentável, proposta que tem um enfoque mais
abrangente do que as iniciativas anteriores, merecendo destaque a campanha internacional Car
Free Day que consiste em uma série de atividades que visam encorajar o desenvolvimento de
novos padrões de mobilidade humana; a organização e realização anual da Conferência
Catarinense de Mobilidade Sustentável, sendo que a primeira foi realizada em 22 e 23 de Julho
de 2004 em Florianópolis; continuidade ao Programa Cidades Amigas da Bicicleta, com a
realização de Seminários Regionais e do PAM – Plano de Apoio Municipal, capacitação de
técnicos e planejadores municipais; realização da pesquisa-ação Rotas Seguras para a Escola. A
aceitação da proposta de continuidade das atividades iniciadas com o governo estadual anterior,
e o desenvolvimento da plataforma já pode ser considerado per se um resultado positivo.
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Nível Nacional
A convite do Ministério das Cidades o grupo Ciclobrasil participou das reuniões que
tiveram como objetivo obter subsídios para elaboração e implementação do “Programa
Brasileiro de Desenvolvimento Cicloviário”, realizadas pela Secretaria Nacional de Transporte
e Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, realizadas em 25 de novembro de 2003 e 19
de maio de 2004. O simples convite para participar e apresentar tema no evento já pode ser
considerado como resultado positivo direto das atividades do grupo.
Nível Internacional
O grupo participa de dois programas internacionais: Locomotives e World Carfree
Network. Além disso, o grupo representa o International Forum for Rural Transport and
Development no Brasil. Juntamente com parceiros internacionais, o grupo apresentou em
Seminário de Mobilidade, realizado em Manágua/Nicarágua, em fevereiro de 2004, a proposta
de criação do SUSTRAN América Latina, entidade que pretende ser parceira do SUSTRAN
ASIA e SUSTRAN ÁFRICA, que gerenciam recursos e coordenam ações favoráveis aos
transportes não-motorizados e transporte coletivo. O fato de o grupo ter sido aprovado para
participar dos referidos programas e receber recursos para o desenvolvimento de algumas ações
é considerado resultado favorável também.
Parcerias com órgãos públicos, ONGs nacionais e internacionais
As parcerias com órgãos públicos permitem a realização de ações concretas e as parce-
rias com as ONGs permitem a participação da comunidade interessada. Em nível municipal e
estadual, várias ações vêm sendo desenvolvidas em parceria com a Viaciclo – Associação dos
Ciclousuários da Região da Grande Florianópolis e ABC – Associação Blumenauense Pró-
Ciclovias. As Prefeituras de Florianópolis e Blumenau e o governo do Estado merecem
destaque pela parceria nas iniciativas. Em nível internacional, o grupo tem parceria com I-ce,
Interface for Cycling Expertise (www.cycling.nl); IFRTD, International Forum for Rural
Transport and Development (www.ifrtd.org), World Carfree Network (www.worldcarfree.net) e
ITDP, Institute for Transport and Development Policy (www.itdp.org). Todas as parcerias
podem ser consideradas resultados positivos das atividades desenvolvidas, pois representam o
reconhecimento de que os esforços do grupo merecem apoio.
Pesquisas sobre deslocamento
Dois Municípios realizaram pesquisas buscando saber o número de deslocamentos por
bicicleta em diferentes pontos da cidade no ano de 2002: em Florianópolis (pesquisa IPUF com
parceria do grupo Ciclobrasil e Viaciclo) encontraram-se em média 2% de deslocamentos
diários realizados por esse modal de transporte e em Blumenau (pesquisa IPPUB/ABC)
encontrou-se em média 3% de deslocamentos.
Observando localidades com estudos semelhantes, pode-se dizer que este número está
muito próximo de uma realidade nacional (MIRANDA, 2003).
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Na maioria dos países ocidentais houve redução das atividades físicas como parte da
rotina da vida diária das pessoas e um aumento pequeno na proporção de atividades físicas
como lazer quando comparados a 20 ou 30 anos passados. Nos últimos 25 anos andar e pedalar
declinaram em 26% no Reino Unido. A redução total dos níveis de atividades físicas reflete, em
parte, outras mudanças que ocorreram na sociedade como a redução no número de atividades
manuais no trabalho e nas tarefas do lar (DEPARTMENT OF HEALTH, 2004).
Pesquisa com escolares em Florianópolis
A amostra foi composta por estudantes (n = 341) de ensino fundamental e médio da rede
pública e particular, matriculados de 5ª a 8ª série, dos bairros de Coqueiros e Abraão. Os resul-
tados dos questionários sobre o tipo de deslocamento dos escolares no percurso casa/escola/casa
demonstraram que 62% realizam o trajeto a pé, 18% de ônibus, 17% de automóvel e 1,5% de
bicicleta — 58% dos escolares informaram que possuíam bicicleta. Sobre a preferência do
modal de transporte para o percurso, 37% preferiram automóvel; 28% caminhar; 16% ônibus,
14% bicicleta e 5% moto.
Estudos realizados com 80.000 mil escolares no Reino Unido, de 1999 a 2004, revelam
que em média 46% caminham, 3% pedalam, 10% são conduzidos por ônibus escolar, 6% por
ônibus, 35% por carro e 1% outros. Nas faixas etárias correspondentes ao estudo em questão (5ª
a 8ª série — ensino fundamental), os dados britânicos mostram que 42% caminham, 3,5%
pedalam, 16% são conduzidos por ônibus escolar, 10% por ônibus, 26% por carro e 1% outros.
Ainda, 23% referem que desejariam ir para a escola pedalando (YOUNGTRANSNET, 2004).
Embora as realidades sejam distintas, observa-se que a utilização da bicicleta por esco-
lares é pequena, sendo que o desejo de utilizar a bicicleta muito maior que sua utilização,
reflete, em ambos os casos, a demanda reprimida de crianças que poderiam praticar atividades
físicas diariamente, como parte das suas atividades da vida cotidiana.
O menor nível de atividade física e o aumento da obesidade infantil têm levado os profis-
sionais de saúde a considerar o caminhar e o pedalar para ir à escola como importante oportu-
nidade de se incorporar atividades físicas na vida diária dos escolares. Mas, o trânsito intenso
de motorizados e a falta de equipamentos de infra-estrutura viária para a segurança e o conforto
de pedestres e ciclistas desestimulam os escolares a perfazer o trajeto casa/escola/casa
caminhando ou pedalando. Para crianças e jovens, um total de 60 minutos diários de atividades
físicas a intensidades moderadas é o recomendado e, em pelo menos 2 dias da semana, esta
deve incluir atividades para melhorar a saúde óssea (atividades que produzem stress nos ossos),
a força e a flexibilidade (DEPARTMENT OF HEALTH, 2004).
Pesquisa na travessia da ponte Pedro Ivo Campos
Única ligação entre continente e ilha de Florianópolis para pedestres e ciclistas, con-
siderada um local perigoso (insegurança social) pela maioria dos habitantes de Florianópolis. A
pesquisa faz parte das iniciativas de extensão do grupo Ciclobrasil, que identificou a travessia
da ponte como um dos obstáculos aos deslocamentos em direção ao centro. A contagem
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volumétrica na travessia da ponte Pedro Ivo Campos demonstrou uma média de 1.163 desloca-
mentos: pedestres: 632 (55%), ciclistas: 531 (45%). Ressalta-se que em 2000 foi realizada a
mesma pesquisa. Na época, a única ligação entre ilha e continente era a ponte Colombo Salles.
Dos 955 deslocamentos contados naquela ocasião, somente 30% era de usuários de bicicleta. O
aumento do percentual de deslocamentos (para 45%) sugere relação com a troca do acesso de
escadarias (Colombo Salles) para rampas (Pedro Ivo Campos), no entanto, como não há estatís-
ticas sobre o número total de usuários da bicicleta, não se pode afirmar com certeza. Também
foi realizada entrevista, cuja amostra foi intencional, participando aqueles que realizavam a
travessia e que se dispuseram a responder. O total de entrevistas concedidas foi de 506. Os
bairros mais citados como origem e destino dos deslocamentos foram Centro, Coqueiros e
Estreito. A média dos deslocamentos foi de 7,4 km, porém moda e mediana foram de 4 km
(desvio padrão de 6,3). Observa-se que quase 60% dos deslocamentos são para cumprir distâncias
de até 5 km. Se somados ao segundo grupo, de 6 a 10 km, teremos 84% dos deslocamentos para
cumprir distâncias de até 10 km. Encontrou-se que 59,1% dos entrevistados estavam realizando
a travessia da ponte naquele momento por motivo de trabalho; 17,4% por lazer; 13,6% exercí-
cio; 6,3% estudo; compras 2,6% e pescaria 1%. Encontrou-se que: 33,0% a realizam até três
dias por semana; 29,6% realizam a travessia da ponte 4 a 5 dias por semana; 26,7% de 6 a 7
dias por semana; enquanto 3,6% a faziam pela primeira vez.
Estudos de Miranda (2003), com ciclistas de São Paulo, Santo André, Florianópolis e
Piracicaba revelaram que a maioria dos ciclistas estava realizando viagem com mais de 5 km.
Foram encontrados muitos ciclistas fazendo viagens com duração superior a 1h 30min, com
destino ao emprego, permitindo dizer que circulam mais de 3h/dia para ir e voltar ao trabalho.
Quanto às razões para uso da bicicleta “economia”, seguida da “flexibilidade do horário”
foram os maiores destaques. Não se deve relevar, porém, o número de respostas concedidas
como “o transporte coletivo não satisfaz”. Está claro que não somente o custo do transporte
conduz o usuário da bicicleta à escolha deste modal, mas também o fato de as redes de trans-
portes atuais implicarem no pagamento de duas tarifas para atingir o seu destino.
Conclusões
Por meio de ações de extensão, parceria e pesquisa, sejam elas comunitárias, políticas ou
técnicas, conclui-se que o grupo está contribuindo para (i) aumentar a consciência sobre efeitos
indesejáveis da indiscriminada utilização do automóvel particular; (ii) aumentar o uso do
transporte público; (iii) criar uma atitude favorável aos deslocamentos não motorizados; (iv)
promover o caminhar e o pedalar nos setores de saúde, educação, transporte e trânsito; (v)
estimular o planejamento espacial e territorial para deslocamentos não motorizados; (vi)
aumentar os deslocamentos a pé; (vii) aumentar os deslocamentos por bicicleta; (viii) reduzir
os acidentes envolvendo pedestres e ciclistas; (ix) estimular destinação de orçamento do setor
transporte para projetos e obras de infra-estrutura para não-motorizados; (x) fomentar imple-
mentação de melhorias de infra-estrutura que favoreçam os deslocamentos por bicicleta, a pé e
das pessoas com necessidades especiais de mobilidade.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Existe a necessidade de conscientizar políticos, prefeitos, técnicos e a população em
geral sobre os efeitos indesejáveis das atuais políticas de transporte. O público e os líderes
políticos devem ser informados sobre as conseqüências das escolhas de locomoção dos indiví-
duos e das políticas de transporte e de planejamento do espaço urbano. Políticas de transporte
apresentam importantes conseqüências à saúde através de seus efeitos diretos ou sua capacidade
de criar (ou não) ambientes seguros para os deslocamentos a pé e por bicicleta. Sem o devido
incentivo e investimento em infra-estrutura por parte do Poder Público, o caminhar e a utiliza-
ção da bicicleta como forma de transporte são desencorajados devido ao tráfego de motoriza-
dos. Os profissionais de saúde têm o importante papel de reivindicar ambientes viários mais
apropriados e convidativos ao caminhar e ao pedalar, pois desta forma promove-se a saúde, ao
mesmo tempo em que se preserva o meio ambiente e se estimula a inclusão social e o respeito
ao ser humano (independente do veículo que ele dirige!).
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Afetividade e sexualidade na adolescência – a experiência da construção de
uma oficina
Rebeca dos Santos Duarte Rosa, Enfermeira Mestre. Professora da PUC Minas
Renata Lara Guimarães, Acadêmica de Enfermagem
Janaína Silva Baeta Neves, Acadêmica de Enfermagem
Elisa Nunes Figueiredo, Acadêmica de Enfermagem
Pró-Reitoria de Extensão da PUC Minas. Escola de Enfermagem PUC Minas. CDM/AVSI
Resumo
A adolescência é a faixa etária entre 10 e 19 anos, período da vida caracterizado por
intenso crescimento e desenvolvimento que se manifesta por transformações anatômicas,
fisiológicas, psicológicas e sociais, exigindo dos profissionais de saúde a realização de atividades
constantes para promoção da saúde. Este projeto visa descrever a realização de uma oficina sobre
afetividade e sexualidade na adolescência. Foram realizados quatorze encontros, em 2 bairros
de Nova Contagem, duas vezes por semana com 3 horas de duração no período de agosto a
novembro de 2002. Participaram 46 adolescentes de ambos os sexos, de alta vulnerabilidade
social, divididos em dois grupos, sendo cada grupo conduzido por estudantes dos Cursos de
Enfermagem e de Psicologia da PUC Minas. A discussão de temas vinculados à auto-estima e
sexualidade despertou grande interesse entre os adolescentes. Vários deles tornaram-se multipli-
cadores, levando discussões para salas de aula e grupos de igreja. Apesar das várias informações
veiculadas sobre estes temas, percebeu-se uma carência de informações seguras e necessidade
de desmistificar diversos conceitos que ainda predominavam entre os adolescentes. A
realização deste trabalho possibilitou aos alunos, não só a aplicação do conhecimento técnico-
científico aprendido na escola, como também, uma reflexão e mudança de atitudes em suas
vidas pessoais
.
Palavras-chave: adolescência, sexualidade, saúde
Introdução
A adolescência é, segundo o Ministério da Saúde, a “faixa etária entre 10 e 19 anos,
período da vida caracterizado por intenso crescimento e desenvolvimento, que se manifesta por
transformações anatômicas, fisiológicas, psicológicas e sociais” (BRASIL, 2001).
Dados do censo de 1991 mostram que esta faixa etária corresponde a 21,84% da popu-
lação do país. Sua vulnerabilidade aos agravos de saúde, bem como as questões econômicas e
sociais, nas suas vertentes de educação, cultura, trabalho, justiça, esporte, lazer e outros,
determinam a necessidade de atenção mais específica e abrangente.
Assim, o Ministério da Saúde define, como prioritárias, as áreas de acompanhamento do
crescimento e desenvolvimento; sexualidade; saúde bucal; saúde mental e saúde reprodutiva
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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onde devem ser trabalhadas questões como gravidez precoce e não desejada, falta de conheci-
mentos ou uso indevido de métodos contraceptivos, aborto, vitimização, doenças sexualmente
transmissíveis (DST’s e AIDS), traumas psico-sociais, e complicações da gravidez, parto e
puerpério. Dentre as estratégias previstas para o atendimento destas áreas prioritárias
encontram-se os fóruns de debates e a participação dos adolescentes em ações educativas. A
universidade, através dos projetos de extensão, tem se tornado uma grande aliada na viabilização
destas políticas públicas.
Assim, “A EXTENSÃO deve ser entendida como prática acadêmica que interliga a
Universidade nas suas atividades de ensino e de pesquisa, com as demandas da maioria da
população, possibilita a formação do profissional cidadão e se credencia, cada vez mais, junto
à sociedade como espaço privilegiado de produção do conhecimento significativo para a
superação das desigualdades sociais existentes” (MEC, 2001)
Este projeto foi uma parceria com uma Organização não Governamental (ONG)
denominada CDM/AVSI, e faz parte das atividades desenvolvidas pelo Programa Serviço Civil
Voluntário – SCV, coordenado por aquela instituição. Cabe a esta ONG a seleção dos adoles-
centes participantes, a distribuição da bolsa de incentivo para participação, a negociação do
espaço físico para realização das atividades além da coordenação geral de todas as atividades
desenvolvidas.
Objetivo
Descrever a realização de uma oficina onde se discutiu questões relacionados a sexuali-
dade e afetividade na adolescência despertando para a importância de cuidar do seu corpo como
forma de promoção da saúde.
Metodologia
Para a realização das atividades, coube à equipe de alunos uma carga horária de 40 horas
que foram distribuídas em dois encontros semanais com 3 horas de duração, sempre às segundas
e quintas-feiras no turno da tarde, no período de agosto a novembro de 2002. Foram seleciona-
dos 12 alunos para participarem do projeto, sendo 8 alunos do Curso de Enfermagem e 4 do
Curso de Psicologia da PUC Minas. Destes, 9 eram do sexo feminino e 3 do sexo masculino e
todos já haviam cursado pelo menos até o 4º período do seu curso e apenas uma aluna havia
participado do projeto no semestre anterior.
Os alunos foram então divididos em trios, sendo que cada trio era composto por 2 alunos
da Enfermagem e um da Psicologia, e com um homem por trio. Cada dupla de trio acompanhou
um grupo diferente de adolescentes e cada trio tinha um encontro semanal em dia fixo. A forma
de vinculação dos alunos ao projeto era voluntária, exigindo uma dedicação de 10 horas por
semana, divididas entre a discussão/elaboração da atividade, a confecção de material didático e
a realização das atividades em campo. Assim, para elaboração da proposta a ser desenvolvida
foram realizados encontros de orientação semanais, com cerca de 3 horas de duração, durante
todo o processo.
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Foram realizados 14 encontros com os adolescentes, assim distribuídos: 1º Encontro:
Construindo a Oficina – Acordo de Convivência; 2º Encontro: Relação de Gênero; 3º Encontro:
O Corpo Humano; 4º Encontro: Métodos Anticoncepcionais; 5º Encontro: Discutindo
Valores Éticos – Respeito; 6º Encontro: Transando com Saúde – DST/AIDS; 7º Encontro:
Visita à PUC; 8º Encontro: Fatores Protetores e Fatores de Risco; 9º Encontro: Desafios da
Paternidade e Maternidade; 10º Encontro: Discutindo Valores Éticos: Cooperação; 1
Encontro: Conhecendo os Serviços de Saúde da Região; 12º Encontro: Avaliando o Conteúdo:
ZIG-ZAIDS; 13º Encontro: Avaliando a Oficina; 14º Encontro: Como Eu Cheguei, Como
Estou Saindo.
Partimos de alguns pressupostos para a realização deste trabalho, sendo estes: a infor-
mação é de extrema importância, mas isoladamente não é capaz de mudar comportamento; é
necessário sensibilizar os adolescentes para esta mudança; a auto estima deveria ser sempre
priorizada, pois acreditamos que “se eu me gosto, eu cuido de mim”; o acesso a cultura e
atividades lúdicas são restritos a esta população e são de suma importância na construção da
cidadania.
Sujeitos do estudo
Para participar deste programa, os adolescentes selecionados seguiam os critérios
estabelecidos pelo Programa Serviço Civil Voluntário, ou seja, eram maiores de 18 e menores
de 19 anos e 11 meses de idade, não estavam matriculados nas escolas e pertenciam a uma
população de alta vulnerabilidade social. Assim, foram selecionados 46 adolescentes de ambos
os sexos, sendo no entanto, a maioria do sexo masculino, moradores dos bairros Ipê Amarelo e
Darcy Ribeiro, região de Nova Contagem, periferia da grande Belo Horizonte. Estes adoles-
centes foram divididos em 2 grupos de 23 alocados conforme o bairro de origem.
Cenário do estudo
Os encontros foram realizados em espaços cedidos pela comunidade. No bairro Ipê
Amarelo estes aconteciam em um Centro de Capacitação para Jovens e no bairro Darcy Ribeiro
no salão da Associação Comunitária. É importante ressaltar que uma destas localiza-se ao lado
de um presídio de segurança máxima, fato gerador de estigma para aquela população.
Resultados/discussão
O primeiro encontro objetivou conhecer um pouco mais cada participante, criar um
clima de descontração e estabelecer um contrato de convivência onde as normas para o
funcionamento dos encontros e os direitos e deveres de cada participante ficasse claro e bem
estabelecido. Para tal foi utilizada uma dinâmica de apresentação onde os participantes após
dizerem seus nomes, sorteavam um papel onde estava escrita uma palavra e tinham que respon-
der: “se eu fosse (o que foi sorteado) eu gostaria de ser... porque...”. Todos os participantes rece-
beram crachás facilitando sua identificação. Após esta dinâmica foi apresentada a proposta de
trabalho, explicando o tempo de duração dos encontros, o número de reuniões previstas e como
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
467
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seriam desenvolvidas as atividades. Foi então, passado uma caixa de perguntas onde deveriam
ser depositadas as dúvidas sobre o tema sexualidade sem a necessidade de se identificar.
Posteriormente, foi feito o acordo de convivência (contrato social) estabelecendo os
combinados, direitos e deveres de todos, que após serem listados ficaram afixados durante
os encontros.
Para finalizar este encontro foi utilizada a dinâmica dos bonecos onde os alunos foram
divididos em pequenos grupos e receberam um kit contendo 3 bonecos de tamanhos diferentes.
Foi pedido a eles que montassem os bonecos o mais rápido possível. Venceria quem acabasse
primeiro. Como reflexão, após observar os bonecos montados, foi discutida a importância de
pensar antes de agir para não cometer erros grosseiros (engravidar, adquirir DST). como acon-
teceu com os bonecos cabeça grande em corpo pequeno, em pés de tamanho médio.
No segundo encontro foi discutida a relação de gênero, as diferenças entre ser homem e
ser mulher, os papéis que cada um ocupa, independentemente do sexo que tem, sem isto
significar, no entanto, a perda da sua sexualidade.
O grupão foi divido em subgrupos por sexo. As meninas deveriam listar as vantagens e
desvantagens de ser homem e os meninos as vantagens e desvantagens de ser mulher. Após a
apresentação da lista elaborada por cada grupo, foi confeccionado um cartaz grande com as
vantagens e desvantagens de ser mulher e de ser homem. Houve, então, a discussão dos papéis
que cada um ocupa na sociedade e em sua casa dividindo tarefas, e que isto não torna ninguém
mais homem ou mulher.
Em seguida houve a leitura do texto “Nem tão Rosa, Nem tão Azul” e foi pedido aos
adolescentes que contassem experiências vividas que abordavam o tema e o representassem
como quisessem (teatro, música ou como quiserem se expressar).
Para finalizar, foi pedido que os adolescentes pesquisassem, extraclasse, o que é sexuali-
dade e qual a diferença entre sexo e sexualidade.
No terceiro encontro, o tema abordado foi o corpo humano, a função de cada órgão
detalhando o aparelho reprodutor, as modificações corporais presentes na adolescência,
ressaltando os cuidados necessários com cada estrutura para que todo o corpo funcione bem.
Para realizar esta atividade foi pedido que eles construíssem o esboço do corpo humano fazen-
do o contorno de um homem e de uma mulher. Órgãos do corpo humano foram confeccionados
em papel cartão colorido em tamanho natural e espalhados pelo chão, pediu-se então, que
voluntariamente, os adolescentes os fixassem no local correto falando a sua função. Passamos
a discutir a relação corpo com sexualidade e a diferença entre sexo e sexualidade.
Para encerrar foi realizada a dinâmica do espelho onde um espelho é colocado dentro de
uma caixa e dizemos aos alunos que dentro daquela caixa tinha o que há de mais importante no
mundo e por isso deveria ser bem cuidado. Pedimos que todos saíssem da sala e entrassem indi-
vidualmente para olharem dentro da caixa. Aqueles que já houvessem olhado não poderiam comen-
tar o que viram. Perguntamos então o que esperavam encontrar dentro da caixa e se eles perceberam
que eles são o que há de mais importante do mundo. Como atividade lúdico-educativa, distribuí-
mos palavras cruzadas sobre os métodos anticoncepcionais, tema do próximo encontro.
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O quarto encontro abordou os métodos contraceptivos, as várias formas de se evitar uma
gravidez, a segurança oferecida por cada método e os riscos para saúde na escolha do método
inadequado. Este encontro iniciou-se com a correção da cruzadinha, exemplificando e discutindo
cada item, posteriormente foram listados outros métodos anticoncepcionais que os adolescentes
conheciam e não foram citados, discutindo riscos e facilidades de cada um. Demonstramos
como usar cada um destes, eles praticaram e discutimos a escolha do querer ou não ter relação
sexual e engravidar. O aborto foi discutido abordando suas conseqüências para a mulher e para
o bebê.
Discutimos o texto estória em quadrinhos “Ter ou não Relação Sexual” (Marta Suplicy).
Para encerrar foi distribuído o texto “Respeito”.
Valor ético como o respeito foi o tema do quinto encontro. Os valores são assimilados
no convívio com os adultos, cujo exemplo forma a consciência do jovem para o bem e para o
mal e é essa formação que foi discutida. O reflexo destas atitudes no dia-a-dia, seja com os cole-
gas, seja na família, na escola ou no serviço devem ser discutidos, pois indicam a forma como
as pessoas se relacionam. Respeitar o aidético, a adolescente grávida, o usuário de drogas o
alcoólatra não são atitudes fáceis de serem tomadas, pois o preconceito existe independe de
classe social, sexo e raça. Identificar as potencialidades de cada um, reconhecer e respeitar os
limites de cada pessoa e de cada grupo propicia transformações possíveis. Este encontro
iniciou-se com a dinâmica do Titanic, onde é dada a seguinte instrução: todos estão em um
barco que está afundando e o bote salva-vidas só cabe uma pessoa. Quem deverá ir neste bote?
Todos contam inicialmente momento de alegria e vitórias da sua vida, posteriormente relatam
as dificuldades. Ao final os adolescentes deverão escolher quem merece ser salvo. Assim os
participantes contarão um pouco da sua história, o que desperta o respeito dos colegas. Será
apresentado então o teatro baseado no texto “Aikidô” de Fagundes (2001), e pedido que respondam
as seguintes questões: “O que posso fazer para contribuir para que as relações sejam pacíficas,
sem violência? O que devo evitar na convivência com o grupo?”. Novamente uma atividade
lúdica foi proposta para ser realizada extraclasse: um caça palavras cujo tema são as doenças
sexualmente transmissíveis.
O tema do sexto encontro foi doenças sexualmente transmissíveis (DST)/Aids e discuti-
mos o sexo seguro, suas manifestações clínicas e prevenção. Começamos revendo a atividade
extraclasse proposta no encontro anterior. Listamos as doenças que eles mais ouvem falar e, a
partir desta lista, explicamos formas de contaminação, manifestações clínicas, tratamento e
prevenção. As figuras do álbum seriado de DST do Ministério da Saúde foram mostradas.
Posteriormente, discutimos Aids e câncer de colo do útero, reforçando o uso da camisinha
mesmo já usando outros métodos anticoncepcionais. Cartazes do Ministério da Saúde sobre o
uso do preservativo foram afixados pela sala e discutidos.
No sétimo encontro aconteceu uma visita à PUC Minas, Campus Coração Eucarístico,
lugar onde milhares de pessoas estudam para terem uma profissão. “O mundo lá fora é tão
diferente do que a gente conhece... Tem tanta coisa que eu nunca vi... É bom conhecer coisas e
gente nova, ver um mundo diferente para saber que eu posso querer e buscar mais... Existem
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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motivos para eu ir além...” (frases que os adolescentes expressaram ao chegar à Universidade).
Visitamos a biblioteca, o museu, a mata e os laboratórios de Anatomia e de Enfermagem. Além
disso, tivemos uma sessão cinema, onde foi passado um vídeo sobre DST/Aids.
No oitavo encontro foram discutidos os fatores protetores e os fatores de risco. Sabemos
que os adolescentes vivem um processo de diferenciação e maturação e que os impulsos internos
e os estímulos externos são ingredientes necessários para as mudanças e para os progressos,
emocionais e sociais. Estas transformações podem ser influenciadas de maneira positiva e
saudável, ou negativa e distorcida por situações de risco.
O objetivo deste encontro foi identificar o que os adolescentes entendiam por fatores
de risco e protetores, através de uma roda de conversa, de forma que eles compreendessem a
necessidade de fortalecer os fatores protetores e prevenir os fatores de risco.
Ao final da atividade, dividimos o grupão em duas partes e pedimos que uma parte
representasse o que entenderam por fatores protetores (por exemplo, bom funcionamento familiar,
educação, trabalho, lazer bem programado) e a outra os fatores de risco (violência, desagre-
gação familiar, evasão escolar, gestação precoce, uso de drogas).
No nono encontro abordamos os desafios da paternidade e da maternidade, as conse-
qüências de uma gravidez indesejada e as responsabilidades que este novo papel representa na
vida de todos. Para realizar esta atividade os adolescentes foram divididos em casais e distri-
buímos textos sobre gravidez na adolescência. Solicitamos que eles refletissem sobre o tema
para depois discutir em grupo. Ao terminar, eles fizeram um círculo, perguntamos o que
acharam dos textos e deixamos livre para contar as experiências. Distribuímos então uma folha
de papel com as frases “Se algum dia eu for pai... (para os meninos) e se algum dia eu for mãe...
(para as meninas)” e solicitado aos mesmos que escrevessem a sua opinião, e para aqueles que
já são pais ou mães pedimos que relatassem suas experiências. Colocamos as fichas no quadro,
lemos as colocações das fichas e ampliamos conceitos.
Fizemos a dinâmica “O Cego e o Guia”. Discutimos a dinâmica. Para encerrar distribuímos
pintinhos vivos e pedimos que os levassem para casa e cuidassem como se fossem seus filhos
durante uma semana.
Antes de iniciar o décimo encontro, discutimos a experiência de cuidar dos pintinhos —
facilidades e dificuldades. No décimo encontro foi discutido outro valor ético: a cooperação. A
cooperação é um valor muito importante para a vida das pessoas. Sem a cooperação dos ami-
gos, da família, do namorado ou namorada, as coisas vão ficando muito difíceis. É importante
então saber como pode-se cooperar com alguém e como pedir ajuda. Assim, lemos para o grupo
o texto cooperação, inclusive a historinha do cego. Comentamos que cooperação envolve amizade,
respeito, diálogo e responsabilidade. Posteriormente, dividimos o grupo em 4 partes e dis-
tribuímos um texto para cada grupo: “Amizade”, “Responsabilidade”, “Diálogo” e “Respeito”,
todos retirados do livro de Fagundes, 2001, Construindo valores éticos. Solicitamos que cada
grupo lesse o respectivo texto e criasse um breve teatro. Os monitores auxiliavam os grupos.
Demos 1 hora para que eles ensaiassem as peças. Apresentação dos teatros. Encerramento com
a dinâmica dos bombons.
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Pedimos para que eles trouxessem, para o próximo encontro, informações sobre os
principais problemas de saúde na sua família e a dificuldade que têm em conseguir assistência
médica. No décimo primeiro encontro propusemos uma visita às unidades de saúde da região,
buscando identificar os postos de saúde do bairro, conversar com os responsáveis para conhecer
o que cada unidade faz, como funciona, quem trabalha lá e quando procurá-los. Sabendo como
funciona o serviço de saúde, saberiam onde encontrar profissionais capazes de cuidar da sua saúde
e também da sua família, saberiam onde procurar informação segura quando precisassem e saberiam
contar para os outros como eles deveriam fazer quando precisarem de assistência de saúde.
Antes de sair para a visita, elaboramos um roteiro de entrevista junto com os adoles-
centes e asseguramos da segurança no dia visita.
No décimo segundo encontro foi realizada uma avaliação do conteúdo trabalhado nas
oficinas, através do jogo Zig-Zaids onde são feitas várias perguntas sobre a Aids como uma
forma de revisão. Para tal deve-se dividir a turma em grupos e jogar Zig-Zaids anotando as
respostas incorretas (comentá-las durante o jogo) para retomá-las ao final do jogo com o
grupão. Cada monitor acompanhou um subgrupo, durante o jogo, para corrigir as respostas
incorretas. Apresentamos as dúvidas surgidas durante o jogo e corrigimos os erros.
No décimo terceiro encontro foi feita uma avaliação da aprendizagem onde os adoles-
centes foram divididos em pequenos grupos e sortearam um dos temas das reuniões anteriores
já trabalhadas para apresentar de forma criativa. Foram cantados raps, feito teatro, imitações e
realizadas explicações claras sobre os temas abordados.
No último encontro foi distribuída uma folha de papel com as seguintes perguntas:
“Como eu cheguei? Como estou saindo? Quais as dificuldades e facilidades que encontrei? O
que foi bom e o que faltou?” Pedimos que lessem as respostas. Realizamos as dinâmicas da
sucata, que consistia em pegar objetos de sucata espalhados sobre a mesa e relacioná-los com
as oficinas, e do cartão, em que se dobrava um papel colorido ao meio, como um cartão de natal,
escrevia o próprio nome em cima e passava para o colega da direita que deveria escrever uma
mensagem e depois repassar para o próximo da direita até que todos tivessem escritos em todos
os cartões. Fizemos a dinâmica da rede e comentamos sobre o trabalho em equipe e a importância
de cada um na construção de um conhecimento.
Assim, cada encontro foi dimensionado em relação ao tempo e aos recursos necessários
à execução das atividades propostas. Foi construído então, o Manual do Multiplicador que
trazia detalhadamente cada uma das reuniões para que todos pudessem acompanhar a seqüên-
cia e a programação dos encontros.
Considerações finais
A discussão de temas vinculados à auto-estima e à sexualidade despertaram grande
interesse entre os adolescentes. Vários deles tornaram-se multiplicadores, levando discussões
para suas salas de aula e grupos de igreja.
Apesar das várias informações veiculadas na mídia acerca do tema, percebeu-se uma
carência de informações seguras e necessidade de desmistificar diversos conceitos que ainda
predominavam entre os adolescentes.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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A realização deste trabalho de extensão possibilitou aos alunos, não só a aplicação do
conhecimento técnico-científico transmitido na escola, como também uma vivência que estando
dentro da sala de aula não é suficiente para aprender, como o contato com outras comunidades,
culturas e realidades diferentes; o trabalho em equipe multidisciplinar; solidariedade e exercí-
cio da cidadania.
Além disso, a extensão remeteu os alunos a reflexões e mudanças de atitudes em suas
vidas pessoais.
Referências bibliográficas
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MEC, 2001.
BRASIL. Ministério da Saúde.
Programa de saúde do adolescente. Brasília: MS, 2001,
Disponível em: <http://www.saude.gov.br>. Acesso em: 13 ago. 2002.
FAGUNDES, M. B.
Aprendendo valores éticos. 2.ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.
MIRANDA, C. F.; MIRANDA, M. L.
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Crescer, 1995.
RENA, L. C. C. B.
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Horizonte: Autêntica, 2001.
SERRÃO, M.; BALEEIRO, M. C.
Aprendendo a ser e conviver. 2.ed. São Paulo: FTD, 1999.
472
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A ação de extensão universitária interdisciplinar e articulada com a comunidade
rural: a nova experiência do Projeto Solo Planta
Luciano de Almeida, Doutor. Professor do Departamento de Economia Rural e Extensão – DERE/
Universidade Federal do Paraná – UFPR
Nerilde Favaretto, Doutora. Professora do Departamento de Solos e Engenharia Agrícola –
DERE/Universidade Federal do Paraná – UFPR
Marcelo Ricardo de Lima, Doutorando (PGAPV-UFPR). Professor do DSEA/UFPR
Universidade Federal do Paraná – UFPR
Resumo
O projeto de extensão universitária “Solo Planta” atua em duas frentes de ação. Promove
a conscientização e a capacitação dos diferentes agentes envolvidos na produção agropecuária
com relação à importância do sistema de análise de solo e planta, como ferramenta auxiliar
para aumentar a capacidade de gestão dos recursos naturais e dos insumos agrícolas, e para
ampliar a competitividade do produtor rural. Nesse aspecto, o projeto estruturou e mantém um
escritório de atendimento aos produtores, além de desenvolver publicações, cursos e eventos para
produtores, estudantes e profissionais, focados no manejo, fertilidade e conservação de solos, bem
como na nutrição de plantas. A partir desse objetivo, o projeto vem ampliando seu leque de
ações, destacando-se o desenvolvimento de atividades articuladas com disciplinas do curso de
agronomia da UFPR, que visam à aproximação dos conhecimentos e disciplinas numa perspec-
tiva interdisciplinar e o assessoramento de grupos de agricultores. Nesta nova frente de ação, o
projeto participa do desenvolvimento de diagnósticos técnicos, físico-naturais e socioeconômicos
473
Tecnologia
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de microbacias, comunidades e sistemas de produção, atuando na busca de alternativas técnicas
e produtivas que vão além dos limites das ciências do solo, e aproximam áreas como extensão
rural, fitotecnia, olericultura, fruticultura, forragicultura e ecologia.
Palavras-chave: análise de solo, manejo do solo, extensão rural
Introdução e objetivos
O sistema de análise de solo e planta pode ser entendido não somente como a execução
da análise propriamente dita, mas como um sistema que envolve: coleta de amostras
representativas e envio adequado ao laboratório, procedimentos analíticos laboratoriais, inter-
pretação do laudo de análise e recomendação, e adoção das recomendações técnicas. Em cada
uma dessas fases estão envolvidos diversos atores desse processo, como o produtor rural
(coleta e envio das amostras; adoção das recomendações técnicas), engenheiros agrônomos,
engenheiros florestais e zootecnistas (interpretação e recomendação), laboratórios (procedi-
mentos analíticos), mercado varejista de insumos (fornecimento de fertilizantes e corretivos),
agentes financeiros (financiamento da produção primária), e universidade (formadora de
profissionais e geradora de tecnologia).
Apesar de o sistema de análise de solo e planta não se caracterizar em uma tecnologia
recente, o mesmo está em contínua evolução em função dos avanços da pesquisa, muito embora
a extensão para os agentes envolvidos nem sempre acompanhe essa evolução. Além disto, é
evidente que as instituições públicas e privadas que prestam serviços semelhantes não têm
conseguido atender a todos os segmentos de agricultores nem à crescente demanda por serviços
e orientação de qualidade. Nesse particular, a universidade pode exercitar seu papel social,
procurando levar a conscientização a cada um dos atores do sistema, a qualificação aos produ-
tores rurais, e ainda a formação continuada aos profissionais. A universidade pode contribuir de
modo complementar com outros agentes sociais responsáveis pela divulgação e extensão de
serviços e tecnologias a produtores e profissionais. Nesse sentido, Olinger (1998, p. 108)
aponta que “uma solução possível para a sustentabilidade da extensão rural seria sua inclusão
no sistema universitário, fazendo parte integrante dos seus serviços básicos de ensino e
pesquisa”.
No intuito de contribuir para melhorar a eficiência deste sistema, foi criado o projeto de
extensão universitária “Solo Planta”, o qual iniciou suas atividades no ano de 1999, e que está
lotado no Setor de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Paraná –UFPR.
O público alvo prioritário deste projeto são os produtores da região metropolitana de
Curitiba, usuários da análise de solo e planta, especialmente aqueles não atendidos pelos sis-
temas oficiais ou privados de assistência técnica rural. Ao mesmo tempo atende profissionais
com atuação no sistema de análise de solo e planta, e estudantes dos cursos de agronomia,
zootecnia e engenharia florestal.
O presente projeto de extensão universitária teve como objetivo inicial promover a
valorização e capacitação relativa ao sistema de análise de solo e planta. Dentro deste objetivo
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destacam-se como objetivos específicos: a) promover a capacitação do produtor rural para
a adequada retirada e envio de amostras de solo e planta, bem como a correta adoção das
recomendações técnicas; b) oferecer educação continuada a engenheiros agrônomos e florestais
que atuam na prestação de assistência técnica; c) divulgação e melhoria do serviço de análise
de solo e planta; d) aperfeiçoar a formação dos graduandos de agronomia e engenharia florestal,
através do contato com a realidade rural. Tendo em vista a evolução do projeto podem ser
incluídos os seguintes objetivos: e) promover o exercício interdisciplinar nas ações de extensão,
ensino e pesquisa, visando ao aprimoramento de uma formação não fragmentada aos estudantes
de ciências agrárias, a otimização das atividades de ensino, pesquisa e extensão, e a identifi-
cação de problemas de pesquisa sintonizados com a realidade dos produtores; f) estimular a
aproximação da universidade com segmentos à margem dos serviços públicos e privados,
priorizando a ação junto a agricultores familiares e suas referências associativas e comunitárias;
g) valorizar a busca de alternativas produtivas e tecnológicas de caráter conservacionista, a
partir de uma visão crítica quanto aos impactos ambientais e sociais dos padrões convencionais
da agricultura.
Metodologia
Atualmente o Projeto de extensão universitária “Solo Planta” está estruturado em duas
grandes frentes de ação que se articulam continuamente: 1) divulgação do sistema de análise de
solo e planta, através do escritório de atendimento, publicações e cursos de extensão; 2) ação
interdisciplinar em microbacias hidrográficas e/ou comunidades.
Inicialmente o projeto centrou suas atividades na valorização e divulgação do sistema de
análise de solo e planta como importante ferramenta para garantir a sustentabilidade da pro-
dução agrosilvopastoril, tanto pelo aspecto da obtenção de melhores retornos econômicos da
utilização de insumos agrícolas, como pela melhor utilização dos recursos naturais, reduzindo
os impactos dessas atividades sobre o meio ambiente. Este trabalho é desenvolvido através das
ações abaixo descritas:
a) divulgação do sistema de análise de solo e planta: este trabalho envolve a divulgação da
importância da análise de solo e planta para a maximização da utilização do solo e dos
insumos agrícolas, bem como informação para correta coleta de amostras de solo e plan-
ta para análise. Esta divulgação é realizada através de diversos meios, como imprensa,
produção e distribuição de livros, cartilhas, folders, site na internet (www.soloplan.
agrarias.ufpr.br), e informação pessoal ou telefônica.
b) cursos de extensão: são realizados periodicamente cursos de extensão universitária para
profissionais e estudantes na área de diagnóstico da fertilidade e manejo de solos. A
característica fundamental desenvolvida nestes cursos é um trabalho baseado em estu-
dos de caso, de característica interdisciplinar e interprofissional, que envolve professores
e bolsistas na sua elaboração e condução, tendo como metodologia orientadora o
enfoque sistêmico em um estudo integrado de fertilidade e manejo do solo. No decorrer
do curso os participantes visitam a unidade em estudo realizando de forma participativa
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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o diagnóstico do sistema, identificando potencialidades e restrições associadas às opções
técnicas, ao manejo do solo e à gestão da unidade como um todo. A análise dos resulta-
dos e a busca de alternativas é realizada pelo conjunto dos alunos e docentes de
diferentes áreas envolvidas no curso. Ao final de uma semana de análises e discussões é
produzido um relatório que é discutido com o agricultor de modo a avançar na viabili-
dade das alternativas propostas. O uso do enfoque de sistemas no curso baseia-se no
princípio de que “a unidade de produção agropecuária é um sistema aberto que mantém
relações com o meio ambiente físico, socioeconômico e cultural” (LIMA et al., 1995, p.
45). Portanto, as análises e orientações técnicas aos produtores rurais devem reconhecer
a complexidade destes sistemas, suas inter-relações internas e externas, e os riscos de
abordagens e soluções pontuais. O detalhamento da metodologia utilizada nestes cursos
consta em Lima et al. (2003) e Almeida et al. (2000). Tem-se optado, na realização dos
últimos cursos, pelo estabelecimento de uma parceria com a Associação dos Produtores
Orgânicos do Paraná, que participou da seleção das propriedades e colaborou no acesso
a estas. A escolha da produção orgânica como objeto de estudo deriva, de um lado da
realidade imediata da agricultura na Região Metropolitana de Curitiba, marcada por
restrições crescentes à agricultura convencional, e ao debate intenso sobre a busca de
alternativas para a produção agrícola, em especial a produção de hortaliças. De outro
lado, pela carência de uma formação orientada para uma agricultura mais conserva-
cionista no âmbito dos cursos de ciências agrárias da Universidade Federal do Paraná;
c) atendimento a produtores: em um escritório são recepcionadas e discutidas as demandas
dos produtores rurais. A metodologia adotada na produção de recomendações técnicas
segue a seguinte seqüência: qualificação do produtor para correta retirada de amostra
e adequada análise a ser solicitada; discussão entre o produtor e o bolsista visando
elucidar a realidade do produtor e de seu sistema de produção; eventuais visitas às
propriedades para detalhamento de diagnósticos e discussão de alternativas técnicas;
pesquisa por parte do aluno das opções de recomendações com consulta periódica ao
produtor; discussão com o professor sobre as conclusões obtidas; elaboração do laudo de
recomendação; discussão com o produtor rural sobre a possibilidade de adoção das
recomendações técnicas.
Além do atendimento de demandas individuais no escritório de atendimento ao público,
o projeto tem buscado atender demandas coletivas, respeitando-se processos organizativos e
identidades comunitárias e territoriais. A primeira experiência neste sentido foi realizada em
2002, em uma comunidade de produtores localizada no Município de Guaraqueçaba (MARTINS
et al., 2002). No entanto, esta experiência ainda centrava o foco na questão do manejo químico
e físico do solo.
A partir de 2003, vem se desenvolvendo o trabalho em microbacias e/ou comunidades
no Município de Colombo (PR). Este trabalho resulta de, e promove, uma contínua negociação com
os agentes públicos e com os produtores rurais locais sobre o interesse e modo de ação do projeto.
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Esta nova experiência de atuação busca a articulação mais próxima com as atividades de
ensino e a ampliação de seu campo de ação. A estratégia adotada baseou-se, num primeiro
momento, em estimular e viabilizar atividades de ensino de várias disciplinas do curso de
agronomia da UFPR numa mesma área. Dado o regime semestral adotado neste curso, para
cada semestre é escolhida uma microbacia hidrográfica onde os acadêmicos realizam trabalhos
como parte das atividades de diferentes disciplinas.
O recorte “microbacia hidrográfica” é adotado uma vez que esta é a unidade de análise
utilizada por algumas disciplinas. Recortes menores como unidade de produção, áreas de cultivo
específicas, entre outros, são escolhidos dentro da área comum. Os docentes e disciplinas envolvidos
acordam quais atividades vão desenvolver, identificam informações a serem coletadas e cole-
tivizadas, definem momentos de discussão entre disciplinas, e organizam processos de discussão
com os agricultores. A composição das disciplinas participantes tem variado em função das
demandas específicas da região estudada e da organização de cada disciplina.
As atividades desenvolvidas em Colombo são: a) diagnóstico do meio físico, com ênfase
nos solos e diagnóstico técnico e socioeconômico dos sistemas de produção existentes na
microbacia; b) análise dos dados e elaboração de propostas técnicas e produtivas diante das
restrições e potencialidades identificadas; c) reunião e discussão com os produtores dos resul-
tados obtidos e das alternativas elaboradas pelos alunos; d) identificação de problemas cuja
solução demanda ações de pesquisa e/ou experimentação; e) elaboração de projetos de pesquisa
a serem conduzidos pelos estudantes.
As estratégias e mecanismos de articulação entre as disciplinas e as ações do projeto
estão em construção. A partir da disponibilidade de um grupo de docentes vem se buscando
novos parceiros procurando agregar novas disciplinas no levantamento da realidade e na busca
de soluções. Desse modo, há disciplinas (turmas) que focam grande parte de sua inserção prática
na área escolhida, tais como Recursos Naturais Renováveis, Extensão Rural e Ecologia
Agrícola. Outras disciplinas têm inserções mais pontuais através da realização de aulas práti-
cas, tais como Fertilidade do Solo, Conservação do Solo, e Olericultura. Adota-se, como critério
de inserção de disciplinas para desenvolver atividades na área em comum, a geração de produtos
(informações, tecnologias) pelos acadêmicos que possibilitem um processo de assessoramento
e capacitação dos produtores envolvidos.
Os bolsistas e estagiários do “Projeto Solo Planta” bem como os alunos das disciplinas
mencionadas acompanham todas as etapas do diagnóstico, desenvolvem e assessoram as cole-
tas de amostras de solos, bem como a elaboração dos laudos e das recomendações para as
análises de solos. Algumas unidades de produção das microbacias em estudo são escolhidas e
acompanhadas de forma mais próxima pelos membros do projeto. Cabe ao projeto ainda a orga-
nização de uma reunião técnica no final do semestre letivo, em que participam os produtores,
estudantes e docentes das disciplinas envolvidas, estudantes participantes do projeto de exten-
são, além de técnicos da região. A identificação de problemas e prioridades cujas soluções não
foram atendidas pelo trabalho e carecem de mais investigação e/ou experimentação é priori-
tariamente desenvolvida pelos membros do projeto. Enfim, cabe ao “Projeto Solo Planta”
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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assumir o planejamento geral das atividades, primando pela maior articulação possível entre
disciplinas e atividades.
A escolha do Município de Colombo como espaço para o desenvolvimento inicial destas
atividades decorre de um longo processo de estudo (ALMEIDA, 2003) e convivência que permitiu
a identificação de parceiros e de demandas. Esta parceria começa a se efetivar também na esfera
do Poder Público municipal, com o apoio às atividades e à perspectiva de formalização de um convênio.
Cada nova microbacia onde se desenvolve o trabalho é vizinha àquela anteriormente
abordada. Esta escolha visa compreender os processos econômicos, políticos e sociais que
extrapolam o recorte da microbacia, além de facilitar o desenvolvimento do trabalho pela divul-
gação do mesmo entre produtores e moradores de uma mesma comunidade ou de comunidades
próximas. Ao mesmo tempo, esta seqüência permitirá a capacitação conjunta de um número
maior de produtores semelhantes, seja através de cursos, eventos técnicos e publicações, tal
como se planeja nas ações futuras. Atualmente está em curso o terceiro módulo deste trabalho
abrangendo uma nova microbacia. Esta microbacia, assim como as duas anteriormente estudadas,
estão localizadas numa zona relativamente homogênea do ponto de vista dos recursos naturais
e das características técnicas e socioeconômicas. Esta região apresentou-se como uma das mais
problemáticas do Município quanto aos sistemas técnicos de produção e a capacidade de repro-
dução dos agricultores.
Resultados e discussão
Quanto ao trabalho de divulgação da análise de solo e planta, foi desenvolvido, por
professores e bolsistas da extensão, um site na Internet (www.soloplan.agrarias.ufpr.br).
Ademais, foram elaborados e distribuídos folders, cartilhas e livros sobre o tema, além da
apresentação dos resultados referente às atividades do “Projeto Solo Planta” em congressos,
seminários e reuniões técnicas.
Até 2003, um total de 91 produtores rurais participaram no processo de produção de
recomendações técnicas, ressaltando-se que o procedimento adotado não se limita a um mero
processo mecânico de elaboração de laudos. Têm sido estimulados a participação e o compro-
metimento do produtor rural nas diversas fases do trabalho: desde o diagnóstico, com a coleta
e interpretação de informações, até a elaboração de recomendações. Essa participação permite
que as orientações sejam compatíveis com a realidade e interesses do produtor e, ao mesmo
tempo, transforma procedimentos de troca de informações num processo de capacitação mútua.
Este processo procurou privilegiar uma abordagem sistêmica e interdisciplinar da produção
rural, bem como um enfoque participativo e educativo no processo de discussão com o pro-
dutor rural. Esta preocupação do projeto, que se estende aos cursos de extensão e ao trabalho
integrado nas microbacias, parte do pressuposto de que “o primeiro passo de um educador
na busca da prática educacional superadora será ouvir este homem do campo para compreender/
apreender” (FONSECA, 1985, p. 184).
Foram realizados até o momento quatro cursos de extensão universitária sobre
“Diagnóstico da Fertilidade e Manejo dos Solos Agrícolas” (ALMEIDA et al., 2000), os quais
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reuniram 98 participantes, entre engenheiros agrônomos, engenheiros florestais, zootecnistas e
estudantes destes cursos. Cabe indicar, ainda, a realização de um evento de extensão univer-
sitária denominado “Seminário sobre Gestão Sustentável dos Solos Agrícolas” (LIMA, 2002),
o qual teve 51 participantes.
Os cursos e o evento geraram vários resultados como: produção de conhecimento sis-
tematizado em livros; produção de pesquisa de sistema de produção agrícola com enfoque no
manejo e fertilidade do solo nas propriedades estudadas nos cursos; produção de diagnósticos
e recomendações técnicas para os produtores rurais que gerenciam as propriedades agrícolas
estudadas nos cursos; treinamento dos bolsistas envolvidos no projeto de extensão; e treinamento
e atualização de profissionais que atuam ou virão a atuar no mercado de trabalho com produ-
tores rurais.
Muitos dos casos abordados no escritório de atendimento ao público e nos cursos de
extensão universitária também foram utilizados nas disciplinas, assim como o Manual de
diagnóstico da fertilidade e manejo dos solos agrícolas (LIMA et al., 2003), produzido pela
experiência dos cursos do projeto, passou a ser um referencial didático em alguns casos.
Dentre os resultados obtidos com os cursos de extensão, destaca-se aqui o fato de eles
iniciarem e possibilitarem exercícios de aproximação e articulação entre os campos disciplinares
e os docentes. Este mérito se deve à adoção do enfoque de sistemas como instrumento
metodológico de análise das unidades de produção, e a definição de um espaço comum, uma
unidade de produção, como foco de análise e discussões coletivas.
Estas experiências criaram um campo de entrosamento entre disciplinas e iniciaram um
processo de flexibilização de um grupo de docentes no sentido de experimentar as trocas entre
disciplinas e a produção conjunta de conhecimentos. Essa é uma das razões que levou à iniciativa
do trabalho integrado nas microbacias no Município de Colombo/PR.
O imperativo de responder a necessidades específicas de situações reais, seja nas
unidades de produção nos cursos, sejam as microbacias e seus sistemas no trabalho integrado,
cria um “locus” privilegiado de produção e troca de conhecimentos. Estas ações vêm mostrando
que quando a extensão se converte em ações de desenvolvimento concretas, os participantes
institucionais, sejam alunos ou docentes, não podem mais se proteger sob o manto limitado das
disciplinas, e se vêem engajados em processos interdisciplinares de produção de conhecimentos.
Como afirma Raynaut (1998) as ações de desenvolvimento levantam neces-
sariamente problemas, cuja resolução exige expressa colaboração entre as disciplinas. É nessa
perspectiva que se está tentando construir a interdisciplinaridade no âmbito do “Projeto
Solo Planta”.
Ao mesmo tempo cada demanda gerada pelas comunidades com as quais o projeto atua
exige a busca de informações de pesquisa gerada no âmbito da UFPR ou de outras instituições.
Coloca-se, desta forma, “uma das relevantes tarefas da universidade, posta no sentido de
reafirmar sua tradição, qual seja, a de promover a articulação de ensino com a pesquisa
tendo a ciência e tecnologia como elementos facilitadores de promoção e desenvolvimento”
(RODRIGUES, 1999, p. 42).
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Enquanto um projeto em contínua (re)construção, o “Projeto Solo Planta” caminha para
se constituir num espaço importante para que as atividades de ensino e pesquisa se aproximem
e reflitam a realidade da Região Metropolitana de Curitiba, na qual a UFPR está inserida. Neste
processo, acredita-se no aprimoramento das práticas interdisciplinares articuladas nas ações de
diagnóstico, ensino, pesquisa e ações de desenvolvimento, tornando a universidade mais flexível
e sintonizada com a realidade que a cerca.
Conclusões
Este projeto de extensão vem promovendo o exercício interdepartamental e interdisci-
plinar entre estudantes e professores da UFPR. Neste aspecto, a extensão vem se revelando
como um espaço privilegiado para avançar frente aos limites do ensino e da pesquisa por campo
disciplinares. Esta experiência não só produziu novos materiais didáticos que mesclam os conhe-
cimentos destas diferentes áreas, como também permitiu o exercício da interdisciplinaridade,
muito útil à formação dos professores e à mudança de seu próprio comportamento frente às suas
atividades didáticas. Segundo Rodrigues e Mancuzo (1999, p. 23), “no campo da ciência, o termo
interdisciplinaridade está relacionado com a necessidade de superar a visão seccionada da pro-
dução do conhecimento buscando articular coerentemente os inúmeros aspectos da experiência
humana.” Este processo, observado inicialmente na execução dos cursos de extensão univer-
sitária, vem se aprimorando no âmbito do trabalho integrado nas microbacias e comunidades.
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Da fabricação de tijolos ecológicos à construção da cidadania coletiva
Celso Luís da Silva Pedreira, Engenheiro Msc. DMC – FURG
Cláudio Renato Rodrigues Dias, Professor. Doutor. DMC – FURG
Darlene Torrada, Assistente Social Msc. Supext – FURG
FURG- Supext- DMC
Resumo
O Brasil destaca-se mundialmente como um país que apresenta uma das piores dis-
tribuições de renda. A metade sul do Estado do Rio Grande do Sul possui índices semelhantes
àqueles da Região Nordeste, reconhecidamente bolsão de miséria da América Latina. Nesta
zona localiza-se o Município do Rio Grande, onde este projeto pretende contribuir para
melhoria da qualidade de vida das famílias, associando o trabalho científico à construção da
cidadania coletiva, a partir da organização cooperativa na fabricação e comercialização de tijolos
ecológicos de cinza-cal, além de viabilizar a construção de moradia para os associados da
CMCC, em forma de mutirão, e atender uma necessidade de moradia da população de baixa
renda do Município do Rio Grande e cidades vizinhas através da comercialização de tijolos a
baixo custo
.
Palavras-chave: novos materiais, tecnologia e construção civil
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Introdução
Para os contingentes populacionais de baixo poder aquisitivo, depois da alimentação
aparece a moradia como o item que mais pesa no bolso do trabalhador. Não raro ocorre que a
família do trabalhador recebe um salário incapaz de reproduzi-la nos níveis da cidadania, muitas
vezes obrigando seus membros a negligenciar suprimentos alimentares em prol da aquisição de
materiais necessários à construção da casa ou de empregá-los no pagamento do aluguel.
A política habitacional brasileira se delineou como programa estatal a partir da criação
do BNH (1964), por mais que no período anterior se verificassem iniciativas isoladas para fixar
a mão-de-obra de acordo com o processo de industrialização. O projeto habitacional fundante
do referido BNH, além da construção maciça de moradias fazendo frente à demanda ampliada,
objetivava inúmeros efeitos positivos e indiretos no mercado, tais como, estímulo à poupança,
absorção de mão-de-obra não qualificada, desenvolvimento da indústria de material de cons-
trução, fomento às empresas de construção civil. Apesar da quantidade nada desprezível de
unidades financiadas ao longo da existência do BNH apenas parcelas das mesmas foram for-
malmente destinadas aos setores populares. Neste sentido, mesmo com a vigência de programas
com intuito de proporcionar habitação popular, estes absorveram apenas uma pequena parcela
da clientela alvo.
Com a extinção do BNH, sucessivamente emergiram programas sociais, com insistente
delineamento para os segmentos mais carentes, de variadas denominações, com o fito de se cons-
tituírem projetos alternativos baseados no fornecimento de lotes urbanizados ou direcionados à
autoconstrução. Os dados disponíveis indicam baixo desempenho qualitativo das iniciativas não
convencionais, especialmente pelas dificuldades encontradas nas organizações populares para
efetivar sua implementação, devido à falta de comprometimento com uma política pública
habitacional que atenda às reais necessidades da população.
As mudanças institucionais advindas das alterações freqüentes de denominação para
programas sociais com os mesmos fins tiveram, evidentemente, reflexos na produção de
habitações populares. Porém, a despeito dos esforços dos sucessivos governos e da quantidade
de unidades construídas, não se tem conseguido corresponder satisfatoriamente à demanda
decorrente do crescimento populacional.
Sob o ponto de vista da dívida social para com os setores excluídos dos benefícios de um
Estado de bem-estar social, nada justifica a drástica redução no volume de financiamentos
habitacionais. Nem mesmo satisfaz a argumentação de que os programas sociais apresentam-se
sem consistência e continuidade em virtude da redução do FGTS, da queda de captação de
recursos via poupança e nem o baixo nível no retorno de financiamento do sistema habitacional.
O Brasil destaca-se mundialmente como o país que apresenta uma das piores distribuições
de renda. O Rio Grande do Sul é tido como um dos Estados brasileiros onde as distorções são
menores, no entanto, a denominada metade sul possui índices semelhantes àqueles da Região
Nordeste, reconhecidamente bolsão de miséria da América Latina.
No Município do Rio Grande, localizado na metade sul do Rio Grande do Sul, apesar do
elevado índice de industrialização e dos serviços portuários terem absorvido boa parcela da
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mão-de-obra liberada (êxodo rural) com a “modernização da agricultura”, ocorreu um
crescimento desordenado, apontado pela formação de favelas devido ao “inchaço” da cidade,
formando uma população eminentemente urbana — 96% da população reside na cidade.
O desenvolvimento da cidade do Rio Grande permite destacar diversas fases. Para o
nosso interesse basta referir-se ao fato de que após um momento de crise na área de carnes e na
indústria de têxteis, sobreveio um fluxo de crescimento econômico e populacional, em torno da
década de 70, com a instalação do distrito industrial e da ampliação portuária, com o superporto.
A cidade cresceu com o afluxo de migrantes e o aumento vegetativo da população, mas em
descompasso com a capacidade de infra-estrutura urbana para proporcionar bem-estar. Neste
processo, ocasionou-se um crescimento desigual da cidade e sem a presença de uma política
habitacional ou política de ordenamento do espaço urbano para o conjunto dos cidadãos.
A maioria dos programas sociais na área habitacional em período recente tem oferecido
poucos resultados, em parte devido à inexistência de política habitacional regional e aos escassos
recursos destinados. Fato este que ocasionou um grande número de ocupações na década de 90.
Ressalte-se que, embora a moradia seja definida como o abrigo inviolável do cidadão, o
reduto onde se encontra a essência de sua vida, habitar no Brasil ou na periferia da cidade do
Rio Grande representa uma sucessão de incertezas, de esperanças e angústias.
A conjuntura econômica, resultante de equivocados planos de desenvolvimento, somados
aos constantes planos de estabilização monetária, tem levado diariamente contingentes cada vez
maiores da população à marginalidade, com absoluta impossibilidade de satisfação de suas
necessidades mínimas, como alimentação, moradia e saúde, entre outras.
No Município do Rio Grande, apesar de possuir um dos maiores PIBs do Estado, a má
distribuição de renda se faz sentir principalmente através do número de indigentes que, em
1991, totalizava 9.093 famílias, e pela alta concentração de renda, pois somente 5,64% dos
chefes de família possuíam renda acima de 10 salários mínimos e destes 75% não atingiam os
20 salários mínimos, enquanto a maioria (65,73 %) tem renda até 3 salários mínimos, sendo a
renda média mensal geral de US$300,38.
Dados referentes às ocupações irregulares e ilegais em Rio Grande
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Ocupações Nº Lotes Nº Habitação Fonte Propriedade da Área
Parte do BGV
2.780 11.022 Levant. 97 Estado
Vila da Naba
120 333 Levant. 97 Estado/União
Vila Mangueira
60 240 Levant. 97 Estado/União
Fundos Vila Navegantes
60 240 Levant. 97 União
Área junto à Radio Riograndina 15 60 Levant. 97 União
Área junto à Henrique Pancada 212 652 Levant. 97 Município
Fundos do Colégio Getúlio Vargas
81 324 Levant. 97 Estado
Junto ao B. Hidráulica
103 412 Levant. 97 Município
Fundos da Corsan
29 116 Levant. 97
Estado
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Fonte: Movimento Nacional de Luta pela Moradia – MNLM
O Movimento de Moradia fundamentado na atividade cooperada objetiva incidir sobre
o espaço urbano, no sentido da construção do mesmo e sua devida reforma. Como conseqüência,
adota a luta política que busca, além da moradia, discussão sobre a legislação vigente, que
encontre as alternativas para encaminhar a demanda, bem como atuar para a criação de novas
frentes para as políticas habitacionais, visto que temos no Município 18.000 famílias sem casa,
segundo levantamento realizado pelo MNLM.
Além destes dados, estudos realizados pela Universidade com base no Censo IBGE 2000
indicam que existem no Município cerca de 50.000 pessoas em situação de vulnerabilidade, dis-
tribuídas nas regiões periféricas da cidade.
Outro aspecto importante a destacar é o levantamento realizado pela Prefeitura
Municipal para o cadastro único, que aponta mais de 14.000 famílias carentes na zona urbana.
De outra parte, a Fundação Universidade Federal do Rio Grande é detentora de elementos
da práxis acadêmica e aporte teórico (ensino/pesquisa/extensão) tanto no que se refere à pesquisa
de tecnologias alternativas na construção civil realizada pelo Departamento de Materiais e
Construção, neste caso, o tijolo de cinza-cal, como no trabalho de desenvolvimento e organização
de comunidades carentes para geração de trabalho e renda, através da formação de cooperativas
populares com enfoque na economia popular solidária — atividade permanente desenvolvida
pela Superintendência de Extensão da FURG.
Desta forma, considerando o saber construído no cotidiano pela FURG, o trabalho
social, desenvolvido pelo Movimento Nacional de Luta pela Moradia, na defesa do direito da
moradia digna, buscou formas de fortalecer a organização destas comunidades através de
alternativas que garantam seu sustento e habitação.
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Ocupações Nº Lotes Nº Habitação Fonte Propriedade da Área
Rua Castro Alves
22 88 Levant. 97 CEEE
Suc. Adolfo Pinto
49 196 Levant.97 Particular
Área do CPM da Escola São Francisco
40 160 Levant. 97 Particular
Fundos do Parque Residencial Coelho
47 188 Levant. 97 Município
Fundos da Bernadeth 70 280 Levant. 97 Município
Junto a São Miguel 100 400 Levant. 97 União
Junto ao Bosque Silveira
50 200 Levant. 97 União
Praças V. Maria e V. Leônidas
120 480 Levant. 97 Município
Humaitá II
76 304 Levant. 97 Munic./Partic.
Próximo ao "V"
14 56 Levant. 97 Particular
Junto ao Loteamento José Braz 22 88 Levant. 97 Particular
Junto à Rua Dr. Guayba Rache 12 48 Levant. 97 Município
Próximo ao Lot. Castelo Branco
99 396 Levant. 97 Município
Fundos do Touring
38 152 Levant. 97 Munic./Partic./União
Total
4.219 16.435
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Diante de tal realidade, a organização, criação e legalização da Cooperativa de Moradia
e Construção Comunitária –CMCC, em 1999, representou um importante instrumento no
intuito de proporcionar aos cooperados a moradia e o trabalho. Neste sentido, a parceria com a
universidade foi fundamental, tanto para fortalecer a organização cooperativa como para
proporcionar a esta o acesso à tecnologia ecológica e alternativa do tijolo cinza-cal.
Cabe aqui ressaltar que tal tecnologia (tijolos ecológicos fabricados a partir da mistura
de areia, cinza e cal) vem sendo pesquisada pela FURG há mais de 10 anos e obteve aprovação
pela Cientec para uso desde 2000, sendo considerado um produto de qualidade, inédito e
ecológico, pois sua fabricação utiliza como matéria prima a cinza proveniente dos resíduos da
termoelétrica de Candiota e não necessita queima, reagindo na temperatura ambiente. Este tipo
de tijolo permite também a construção no sistema modular, o que representa mais economia na
obra, pois permite a otimização da etapa executiva devido à homogeneidade no tamanho das peças
e diminuição nos gastos com rejunte, reduzindo, desta forma, o tempo de construção da obra.
Atualmente participam desta cooperativa 20 famílias, organizadas com a finalidade de
fabricação e comercialização de tijolos ecológicos (fabricados a partir da mistura de areia, cinza
e cal) visando à geração de trabalho e renda, além de manter vivo o sonho da construção, em
mutirão, de suas próprias moradias.
Sonho este que tem a possibilidade real de viabilizar-se através do apoio institucional da
universidade e de parceiros. Contam também com o Plano Social de Habitação – PSH que busca
resgatar a proposta de uma política pública que atenda às camadas populacionais de baixa
renda, através de financiamento para a construção da casa própria de famílias com renda de até
R$200,00, através de subsídio para a compra de material.
Objetivos
Promover o resgate da cidadania de pessoas desempregadas da periferia do Município
de Rio Grande, oportunizando trabalho, renda e habitação a partir da proposta do cooperativismo,
visando ao desenvolvimento socioeconômico-cultural e humano para formação da cidadania
coletiva, contribuindo, desta forma, para o desenvolvimento local e regional.
Objetivos específicos
ampliar a capacidade produtiva da fábrica e fomentar a comercialização, visando à
viabilidade econômica do empreendimento;
• garantir a manutenção da fábrica de tijolos de cinza-cal da CMCC;
qualificar e reciclar trabalhadores na fabricação dos tijolos ecológicos, na construção de
alvenaria no sistema construtivo modular, na gestão cooperativa e na formação da
cidadania pelo conhecimento de seus direitos e deveres sociais;
• ampliar o debate sobre a problemática habitacional no Município;
buscar parceria com a Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica – CGTEE,
para a doação da cinza (resíduo da Usina Termoelétrica de Candiota) com a finalidade
de baixar o custo dos tijolos;
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gerar renda aos associados da cooperativa através da produção e da comercialização dos
tijolos;
• atender uma necessidade de moradia da população de baixa renda do Município do Rio
Grande e cidades vizinhas, por meio da comercialização de tijolos a baixo custo;
construir moradias em forma de mutirão pelos cooperados, contando com a mediação do
financiamento público do material de construção;
• propiciar reformas e ampliação de moradias dos cooperados;
viabilizar a promoção de política habitacional, por meio do usufruto de programas e
fontes de financiamento propostos por órgãos governamentais competentes, mais
especificamente, o Plano Social de Habitação – PSH;
prestar apoio e assessoria a cooperativa dentro da perspectiva da Economia Popular e
Solidária.
• possibilitar a professores, técnicos e alunos da instituição uma aproximação maior com
a comunidade na qual está inserida a universidade;
apoiar projetos de cunho social que tenham como objetivos a organização comunitária,
a geração de trabalho e renda e o desenvolvimento de recursos humanos, além de
educação ambiental.
Metodologia
O projeto foi implementado sob a coordenação do Departamento de Materiais e
Construção em parceria com o “Projeto Apoio e Assessoria a Grupos de Economia Popular
Solidária” da Superintendência de Extensão da FURG.
Como forma de atuação, usamos o método da ação-reflexão-ação, visando ao processo
de construção coletiva do conhecimento e da cidadania, o que pode ser traduzido como proces-
so reflexivo teórico a partir da prática, tanto científica como empírica, capaz de provocar novas
pesquisas e conhecimentos com aplicação direta nas comunidades demandantes.
Neste projeto, pretendemos manter o atendimento direto às vinte famílias que participam
da CMCC, citadas anteriormente, mais vinte famílias a serem integradas no projeto, além do
atendimento indireto efetivado pelo benefício de uma construção popular, ecológica e de
qualidade que estará à disposição da comunidade em geral, não apenas do Rio Grande, mas de
municípios vizinhos como São José do Norte, Pelotas e Bagé, entre outros.
o trabalho da Cooperativa está ligado à fabricação e comercialização dos tijolos cinza-
cal e a construção e/ou reforma das casas dos cooperados, ambos realizados em regime
de mutirão;
o trabalho de fabricação dos tijolos ocorre na fábrica já construída no Campus da uni-
versidade, onde a cooperativa está sendo incubada com o acompanhamento das duas
unidades já referidas. Para tanto, se faz necessário a aquisição de uma prensa que deverá
ser repassada à cooperativa, uma vez que esta possuiu apenas uma, cedida pela FURG;
o terreno e o financiamento para as casas são de responsabilidade de cada associado que
fará a negociação diretamente com o órgão financiador;
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o associado que não dispuser de dinheiro para cobrir seu financiamento poderá fazê-lo
através da prestação de serviço na fabricação dos tijolos ou no serviço de construção civil;
o critério para definição da ordem de prioridade na construção das casas dos associados
deverá fazer jus aos critérios de distribuição de recursos, uma vez que estes apontam
para o intuito de atenuar as desigualdades sociais de renda e riqueza, considerando,
principalmente, o grau de necessidade;
• os novos integrantes do projeto serão selecionados pela equipe, de acordo com critérios
de carência e disponibilidade para o trabalho, passando, a seguir, por um processo de
formação através de cursos de capacitação em cooperativismo, fabricação de tijolos e
construção de alvenaria no sistema construtivo modular;
os atuais membros da Cooperativa passarão por cursos de reciclagem nas áreas da
construção civil, cooperativismo e gestão.
O planejamento é montado a partir do diagnóstico. Sua efetivação se dará com o acom-
panhamento sistemático e aporte à organização autônoma dos sujeitos envolvidos, de acordo
com a realidade a ser trabalhada.
Etapas do projeto
O projeto, como foi anteriormente apresentado, teve início em 2000. Por se tratar de um
projeto de longo prazo, algumas atividades a seguir descritas já foram realizadas. Outras
aguardam a liberação de recursos e/ou novas parcerias para serem implantadas.
É importante destacar que, mesmo com algumas dificuldades, a CMCC continua
realizando as suas atividades. São etapas do projeto:
Diagnóstico
elaboração do plano de trabalho detalhado, envolvendo seleção dos bolsistas e famílias
a serem beneficiadas pelo projeto, além do desenvolvimento do trabalho de fabricação
dos tijolos e construção das casas;
• apresentação do projeto, para discussão e aprovação, aos parceiros e cooperativa;
• seleção e capacitação dos bolsistas.
Sensibilização
divulgação do projeto à comunidade, em encontros e visitas, com a finalidade de expor
as idéias e estratégias propostas pelo projeto;
• seleção das novas famílias que participarão do projeto;
• preenchimento de Cadastro.
Formação para novas famílias
• oficinas de sensibilização para o trabalho cooperado;
curso de noções básicas de cooperativismo (40 horas/aula);
• curso de fabricação de tijolos (40 horas/aula);
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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curso de técnicas especiais para construção de alvenaria com tijolos ecológicos no
sistema construtivo modular (120 horas/aula).
Formação para famílias já participantes da cooperativa
• oficinas de reciclagem em cooperativismo;
• curso avançado em técnicas especiais para construção de alvenaria com tijolos ecológi-
cos no sistema construtivo modular (120 horas/aula);
• curso de planejamento estratégico (16 horas/aula);
• curso de formação de custo (16 horas/aula).
Acompanhamento sistemático
• formação das equipes de trabalho da cooperativa;
• compra de material permanente, equipamentos e matéria-prima;
• oficinas de grupo;
• oficinas de organização reuniões e assembléias;
• encaminhamentos e articulações com áreas afins;
• apoio à participação no Fórum Microrregional de Economia Popular Solidária;
produção de tijolos para comercialização e construção das casas;
• assistência técnica à produção dos tijolos fabricados;
• realização de testes para a qualidade e resistência dos produtos;
• fomento à participação em eventos e Feira de Economia Popular Solidária;
• projeto arquitetônico das casas dos cooperados sem custo;
• acompanhamento das obras.
A fábrica de tijolos da cooperativa – CMCC
As instalações da fábrica de tijolos da CMCC constam de um galpão, onde estão locali-
zados: o almoxarifado, que é uma sala onde são recebidos e guardados os sacos contendo cinza
e cal, ao abrigo das intempéries, para evitar contaminação e que o fino material que compõe cal
e cinza se espalhe no ambiente, o escritório da cooperativa, as instalações sanitárias, masculina
e feminina e o salão central, onde estão colocadas as prensas e é feita a prensagem. Junto ao
galpão, está instalada a betoneira onde a mistura é preparada. Ao redor, está o pátio de cura dos
tijolos.Toda a instalação da fábrica tem água tratada e luz.
O processo
O processo de fabricação compreende a pesagem dos componentes, a colocação na
betoneira, a mistura e a prensagem dos tijolos. Geralmente a areia é peneirada, para retirar
gravetos, folhas e outras partículas não desejáveis na mistura. Depois de pesada, a massa
de areia é transformada em volume e, a partir daí pode-se usar padiolas, que facilitam o
manuseio do material. A cinza e a cal vêm ambas ensacadas, adquiridas de indústria de
Caçapava do Sul, nas quantidades de 20 kg por saco. Isto facilita o manuseio e evita
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espalhamento de pó. Coloca-se a quantidade de água que foi determinada no laboratório como
da umidade ótima.
Após a mistura dos componentes, transporta-se em carrinhos de mão até junto às prensas,
e o material é prensado para formar os tijolos. Depois de retirados da prensa, os tijolos são colocados
sobre uma mesa e transportados para o local de armazenamento para cura.
Propriedades requeridas para o tijolo
Os tijolos produzidos pela CMCC deverão possuir algumas propriedades, que são con-
troladas pela equipe do laboratório de materiais de construção do DMC da FURG, que consistirá
no controle de qualidade. São controlados: o índice de absorção e a resistência à compressão
(resistência) do tijolo.
Absorção
Os tijolos são elementos que compõem a vedação de uma edificação. Como elemento de
vedação, não devem absorver umidade ou água da chuva, em quantidade que venha a causar
manifestações patológicas e mesmo perda de resistência estrutural. Para tal existem testes que
permitem definir o grau máximo de absorção dos tijolos. Sabe-se que o volume de líquido
absorvido está relacionado à quantidade e distribuição dos poros e dos procedimentos de
ensaios adotados.
Não existe uma norma brasileira específica para absorção em tijolos à base de cinza e
cal. As normas existentes ou são aplicadas aos tijolos cerâmicos, ou às peças de concreto de
cimento. Andrade (1991), ao avaliar os tijolos de cinza e cal, no que se refere à absorção, optou
pela utilização da norma americana ASTM C67/83 para tijolos cerâmicos, por ser semelhante
às normas brasileiras para tijolos de solo-cimento e blocos de concreto, porém, mais detalhada.
Segundo Andrade, o teor de cal exerce influência sobre a absorção dos tijolos, crescendo a
quantidade de cal, diminui a absorção. Adotar-se-á para os tijolos da Cooperativa, como máximo,
o índice de absorção médio de 22%.
Resistência
Outra propriedade importante do tijolo é sua resistência à compressão, ao ser colocado
em uma parede, principalmente as peças que se localizam nas partes mais baixas onde os tijolos
sofrem pressões maiores, além de outros esforços estruturais, quer de vigas ou lajes. É importante
que os tijolos não fissurem ou sofram esmagamentos pela ação de forças. Geralmente um tijolo
cerâmico tem sua resistência definitiva após sua queima no forno. Já os tijolos de solo-cimento
ou cinza-cal necessitam de um tempo maior para atingir sua resistência de uso.
Outro fator importante a considerar é a proporção entre os materiais que compõem a
mistura. Segundo Andrade (1991), os ensaios realizados com a mistura de cinza e cal mostram
um crescimento da resistência à compressão do corpo-de-prova com o aumento da proporção
de cal na mistura, mas, quando a proporção de cal alcançava uma quantidade em torno de 15 a
20%, os ganhos de resistência do material praticamente cessavam. Portanto, a respeito da
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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resistência dos tijolos cinza, cal e areia, verifica-se que o período de cura e o teor de cal
adicionado à mistura têm influência na resistência à compressão dos mesmos. À medida que
aumenta o tempo de cura dos tijolos, cresce a sua resistência; quanto maior o teor de cal, até o
limite de 20%, maior a resistência do tijolo.
Os valores típicos de resistência à compressão simples MPa, para tijolos maciços
cerâmicos para alvenaria, admitidos pela ABNT, Norma 8170/83, são: categoria A: 1,5; categoria
B: 2,5 e categoria C: 4,0. O tijolo da Cooperativa situa-se na categoria B, com média maior que
2,0 MPa.
Conclusão e comentários finais
A partir dos resultados das pesquisas realizadas na FURG com estabilização de areias
com cinza e cal, está sendo transferida a tecnologia à cooperativa, que, em outubro de 2002,
começou a fabricação dos tijolos ecológicos.
Pode-se afirmar que os tijolos são duplamente ecológicos, porque aproveita-se um resíduo
que é a cinza, proveniente da queima do carvão, e por dispensar a queima para que as reações
pozolânicas ocorram.
Um rigoroso controle tecnológico está sendo realizado pelo Laboratório de Materiais de
Construção do DMC/FURG, para garantir que a produção mantenha a qualidade em relação às
propriedades do material gerado.
Os blocos (tijolos) têm mantido, em média, a resistência maior que 2,0 MPa aos 60 dias
e uma absorção média de 21%, garantindo seu uso em paredes portantes.
O empreendimento repassa uma tecnologia, desenvolvida na pesquisa da universidade,
para a comunidade e utiliza bolsistas e estagiários do curso de Engenharia Civil, cumprindo o
papel da universidade de não dissociar ensino, pesquisa e extensão.
Referências bibliográficas
ANDRADE, A. C. F. Tijolos de cinza volante e cal: estudo de desempenho quanto à resistên-
cia, absorção, durabilidade e aderência. 1991. Dissertação (Mestrado) – UFRGS.
CERATTI, J. A. P.; MILITITSKI, J.
Estabilização de solo residual com cal e cinza volante.
Porto Alegre: UFRGS, 1979. (Caderno Técnico; CT-8179).
DIAS, C. R. R.
Estabilização de areias com cal e cinzas volantes : aplicação às areias de Rio
Grande. 1982. Resultado de pesquisa (Doutorado) – FURG.
LEMOS, R. G.
Estudo de tijolos fabricados com areia cinza e cal. 2001. Dissertação (Mestrado
em Química do Carvão) - UFPel.
NUNEZ, W. P.; CERATTI, J. A P.
Aproveitamento de cinza volante estabilizada com cal como
sub-base de piso industrial
. Tucumán, Arg.: Jornadas Sudamericanas de Ingenieria Estructural,
1995.
490
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Extensão universitária na Amazônia para acesso a serviços sociais: na comunidade
ribeirinha de N. Sra. das Graças, em Manacapuru/AM
Maria do P. Socorro Rodrigues Chaves, Assistente Social. Doutora em Política Científica e
Tecnológica. Msc. em Sociologia, Coordenadora do Grupo de Pesquisa Inter-Ação/DSS/UFAM.
Docente do Departamento de Serviço Social
Maria Francenilda Gualberto de Oliveira, Assistente Social. Especialista em Gerontologia
Andréia Santos Cavalcante, Assistente Social. Especialista em Gestão de Políticas Sociais
Jaqueline Teixeira Garcia, Acadêmica de Serviço Social
Deborah C. de J. Cavalcante, Acadêmica de Serviço Social
Universidade Federal do Amazonas – UFA
Resumo
Este trabalho tem como objetivo apresentar os resultados do projeto de extensão desen-
volvido com pequenos produtores familiares no Município de Manacapuru, Estado do
Amazonas, intitulado “Suprimento Energético Integrado da Comunidade Nossa Senhora das
Graças”, realizado de janeiro/2001 a julho/2002, desenvolvido pelo Grupo Interdisciplinar de
Estudos Sócio-Ambientais e de Desenvolvimento de Tecnologias Apropriadas na Amazônia
(Grupo Inter-Ação), vinculado ao Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do
Amazonas, em conjunto com os docentes do Departamento de Engenharia Elétrica, da mesma
instituição. A metodologia adotada no projeto abrangeu um conjunto de atividades de assessoria
a entidade organizativa local com envolvimento de acadêmicos (estágio extracurricular e cur-
ricular) proporcionando a estes aprendizado e contato com a realidade da vida comunitária. O
referido projeto foi desenvolvido a partir de ações formativas e organizativas com a valorização
dos saberes locais. Neste sentido, as ações de extensão constituíram um amplo processo socioeduca-
tivo de formação/capacitação dos atores sociais, na (re)construção de saberes que contribuíram
para instrumentalizar novas práticas associativas e relações democráticas entre os envolvidos.
Todavia, a inserção de novos saberes e práticas foi dimensionada de maneira a respeitar e
valorizar a dinâmica e o processo de organização sociocultural local
.
Palavras-chave: extensão, organização, energia
Introdução e objetivos
Na atualidade, em relação aos bens e mercadorias produzidos na sociedade em geral,
menos que 80% da população mundial atinge o consumo de dessas riquezas. Na realidade
brasileira, a distribuição desigual de riquezas na sociedade deixa um grande contingente
populacional à margem, sem atendimento, sem acesso a diversos bens e serviços sociais, entre
eles a energia elétrica. A exclusão social de extensa parcela da população brasileira vem se con-
figurando como um dos mais graves problemas da contemporaneidade, que exige a formatação
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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de políticas públicas de cunho distributivista e, mais especificamente, políticas sociais para
garantia de direitos sociais. O padrão de consumo e as condições de produção de energia
vigentes no país determinam a viabilidade ou a limitação do acesso aos diferentes segmentos
sociais. O desenvolvimento das forças produtivas locais pressupõe o crescimento da produção,
da produtividade, enfim da capacidade produtiva e da eficiência econômica dos produtores. É
impossível eficiência econômica sem fontes de energia adequadas. Diante deste quadro, pode-
se afirmar que, assim como na conjuntura atual, no futuro próximo, o padrão de consumo e de
produção de energia terá um papel importante como variável que permite identificar o nível de
desenvolvimento econômico das nações, no qual a implementação de um padrão de consumo e
produção de energia não pode prescindir da implementação de um atendimento democrático e
universalizante compatível com os interesses e necessidades dos diferentes segmentos sociais.
A universalização do serviço de energia já se configura numa importante conquista, sua
efetivação representa um real avanço rumo ao desenvolvimento social do país. No meio rural
da região amazônica existem inúmeras comunidades ribeirinhas que possuem especificidades
em razão de seus conhecimentos tradicionais e vivências sociohistóricas. Essas comunidades
apresentam uma modalidade de organização sociocultural particular baseada em diferentes
estratégias de ajuda mútua e de compadrio, às quais põem em ação seus saberes tradicionais
para a realização do manejo coletivo dos recursos naturais, ao mesmo tempo em que arregi-
mentam suas forças no sentido de enfrentar as problemáticas locais de carência de bens e
serviços sociais (saúde, educação, energia, elétrica entre outras). Essa problemática é tratada
neste trabalho a partir do caso da organização da comunidade Nossa Senhora das Graças, situada
no Município de Manacapuru, no Estado do Amazonas. Este Município, segundo os dados do
relatório do IBGE, no censo realizado no ano de 2000, possui uma população de aproximada-
mente 32.303 habitantes, sendo 16.726 homens e 15.577 mulheres. Nesse sentido, o projeto de
pesquisa e extensão, implantado na comunidade supracitada, teve como objetivo desenvolver
uma metodologia para impulsionar o desenvolvimento auto-sustentável, tendo como fator prin-
cipal o suprimento energético a partir de fontes renováveis locais, na observação de tecnologias
adaptadas no meio rural, identificando as mudanças socioeconômicas e culturais das relações
sociais e organizativas dos moradores da comunidade no usufruto e gestão dos recursos locais.
Metodologia
O projeto em seu desenvolvimento articulou um conjunto de ações para conhecer a
realidade da comunidade trabalhada, onde o resultado das atividades de levantamento socioe-
conômico resultou na elaboração do Plano de Ação com a participação dos agentes sociais
envolvidos no projeto, os quais definiram coletivamente, por ordem de prioridade, as suas reais
necessidades, possibilitando o desenvolvimento das fases subseqüentes do projeto. Nesse
sentido, a metodologia utilizada no desenvolvimento do projeto se pautou nas seguintes
referências teórico-metodológicas:
492
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gênero – como elemento transversal no ordenamento do trabalho, o conceito de gênero
foi adotado como elemento sociohistórico, cultural e político que permeia a práxis dos
sujeitos. O vínculo entre estes diversos elementos orienta para a percepção de mulheres
ou homens como partícipes e protagonistas de ações complexas e relacionais, em inter-
câmbio recíproco e contínuo no plano societal;
interdisciplinaridade – necessária para desenvolver ações nas diferentes dimensões —
sociais, culturais, ambientais, econômicas e políticas — que compõem o contexto comu-
nitário, serviu para ordenar e potencializar a associação entre as diferentes áreas disci-
plinares;
participação – sua natureza processual possibilitou uma construção gradual, contínua,
centrada no potencial organizativo dos agentes, além de permitir a criação de mecanismos
e estratégias direcionados para construção da emancipação política dos comunitários. No
projeto, a participação foi implementada como processo socioeducativo de instrumen-
talização dos comunitários para a percepção crítica da realidade social entendida como
processo de natureza complexa, cujo exercício amplia as possibilidades de transfor-
mação da qualidade de vida das populações locais;
gestão comunitária – nas ações do projeto, a gestão comunitária foi tomada como referên-
cia importante para realizar as ações programadas, posto que a gestão comunitária é
estruturada no âmbito comunitário com características próprias, constituindo uma extensa
rede de ajuda mútua. Partindo desses pressupostos, o trabalho se desenvolveu em três
fases relacionadas entre si. A primeira fase se constituiu do levantamento socioe-
conômico para o diagnóstico local, buscando: a) conhecer as condições de vida da
comunidade nos aspectos socioeconômico, político-organizativo, cultural, energético e
ambiental; b) conhecer a organização social para o manejo dos recursos comunitários e
suas práticas produtivas (tipo de produção, formas de comercialização, divisão e as
condições de trabalho); c) identificar as potencialidades locais – conhecer para atuar –,
estruturar em conjunto com os comunitários as estratégias de ação para solução dos
problemas locais. A segunda fase do projeto se constituiu na: a) montagem do banco de
dados; b) retorno dos dados para a comunidade, para retificar e ratificar os resultados,
permitindo que a comunidade obtivesse conhecimento de sua realidade local; c) elabo-
ração do Plano de Ação de modo coletivo, a partir de dinâmicas de abordagem grupal.
Nessa atividade, a comunidade selecionou as atividades a serem implementadas por
ordem de prioridade, de forma a viabilizar o processo socioeducativo nas áreas de educação,
saúde, energia elétrica e organização comunitária. A terceira fase se configurou na
implantação do Plano de Ação.
Resultados e discussão
De um modo particular, o contexto rural enfrenta acentuada precariedade em termos de
prestação e acesso aos serviços energéticos. As políticas do setor de energia, numa região com
vasto potencial de recursos energéticos, além de não contemplar de forma satisfatória as neces-
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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sidades de grande parcela das populações locais, apresenta incompatibilidades em relação às
peculiaridades regionais. O fornecimento de energia elétrica na Amazônia apresenta aspectos
bastante distintos das demais regiões, principalmente pela necessidade preponderante de
sistemas isolados. No que tange ao fornecimento de energia para comunidades isoladas, os
documentos oficiais do governo reafirmam o compromisso do Estado em assumir a responsa-
bilidade da viabilização de projetos para a eletrificação rural, a partir da alocação de recursos
públicos; da construção de linhas de transmissão estratégicas e da implementação de programas
de Pesquisa e Desenvolvimento. Tal compromisso orienta-se pelo argumento de que as soluções
energéticas requerem tecnologias compatíveis com as características peculiares a cada contexto
no qual será adotada. Portanto, faz-se necessário implementar mudanças/reformas setoriais
onde todos os esforços são direcionados para a eficiência e otimização das práticas institu-
cionais — todas as soluções buscam modalidades concretas para empreender o atendimento
destes objetivos. O argumento de cunho neoliberal, repetido e reforçado para justificar a
instauração do processo de reestruturação é que somente a privatização das empresas poderá
assegurar a solução para os problemas enfrentados na produção, transmissão e distribuição.
Considera-se que tais problemas devem-se a performance ineficiente das empresas em função
da gestão ineficiente. Essa incompetência de gestão é atribuída ao fato de as empresas pertencerem
ao setor público. Os novos arranjos regionais, em tese, devem: assumir maior competência na
mesma esfera de atividades; melhorar a gestão e a capacidade técnica; mobilizar meios finan-
ceiros para os trabalhos de manutenção. Uma situação que se apresenta de imediato, como
constatação a partir dos termos da legislação divulgada, é incipiente indicação de atendimento
das necessidades de energia dos setores pobres do campo, mesmo com a modificação das regras
de gestão em vigor no setor. Fora do alcance da rede de eletrificação rural e sob condições
socioeconômicas adversas, os pequenos produtores rurais nas comunidades isoladas ficam sem
usufruir a energia elétrica, pois mesmo as alternativas privadas, como um gerador de baixa
potência, apresentam custos proibitivos. Neste sentido, a demanda de energia dos segmentos de
pequenos produtores rurais na Amazônia vem ganhando terreno e forçando o debate nos fóruns
acadêmicos e centros de pesquisa regionais. Contudo, em que pese o nível de produtividade e
a baixa escala de produção, estes produtores formam um contingente numeroso, de aproxi-
madamente 60% da população rural, com variação de uma região para outra do país, chegando
a produzir 70% da produção agrícola do mercado interno. Dentre os principais resultados
obtidos na execução do trabalho destacam-se: 1) a realização de oficinas para produção de
material didático, folhetos sobre organização comunitária; 2) a realização de palestra de sensi-
bilização quanto à importância dos Recursos Naturais e de Educação Ambiental; 3) Capacitação
dos produtores para melhoria da qualidade dos produtos e para realizar o dimensionamento dos
custos de produção; 4) Oficina de capacitação, formação e organização das lideranças
comunitárias; 5) definição de projeto de um sistema de produção de energia elétrica com painéis
fotovoltaicos; 6) a consolidação do banco de dados sobre aspectos socioeconômico, político-
organizativo, energético e ambiental da comunidade para subsidiar as fases subseqüentes do
trabalho; 7) realização de atividades lúdicas como a apresentação de filmes educativos
494
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reunindo diversas comunidades próximas e dinâmicas educativas com as crianças. Diversas
atividades foram desenvolvidas para criação de instrumentos organizativos, tais como: 1) a
formação de formadores/multiplicadores; 2) a sensibilização dos comunitários quanto à
utilização racional dos recursos locais; 3) apoio à criação de autonomia política e intelectual
das lideranças, a partir de sua capacitação e instrumentalização para atuarem na difusão dos
conhecimentos; 4) a organização e o fortalecimento de entidades representativas formalmente
reconhecidas na comunidade. O conjunto de atividades baseadas numa interação pedagógica
entre equipe e comunitários tomou como mecanismo essencial a participação de todos,
entendendo que esta resulta numa gestão democrática, que associa o conhecimento tradicional
da comunidade ao técnico-científico, no qual eles assumem o papel de protagonistas de sua
história. No desenvolvimento do projeto, observou-se que os vínculos subjetivos/afetivos e
materiais, vivenciados pelos comunitários entre os grupos domésticos e neles próprios, seus
laços familiares, as relações de compadrio e de ajuda mútua instituem a identidade grupal
gerando intercâmbios e condições de igualdade importantes para as mobilizações organizativas.
A modalidade de formação desenvolvida orientou-se no pressuposto de que o processo
socioeducativo deve priorizar a formulação/estruturação de planos, programas e projetos
educacionais que instrumentalizem os agentes para ações de transformação da realidade social,
ou seja, para a construção de uma sociedade em bases solidárias, justas e igualitárias. Para além
da responsabilidade da instrumentalização dos líderes locais, o apoio no plano organizativo
criou as possibilidades para o exercício de um saber crítico, de uma reflexão-ação construída na
experiência coletiva (CHAVES, 2002). O projeto caracterizou-se como um processo dialético,
aberto e dinâmico, resultado do engajamento dos comunitários, momento privilegiado onde se
tornou possível pensar e (re)inventar práticas e alternativas de continuidade das ações. Tais
atividades levaram em consideração o engajamento dos docentes e discentes envolvidos,
visando à busca da melhoria do ensino numa interação de conhecimento teórico-metológico e
prático, proporcionando a qualidade da pesquisa/extensão acadêmica, aumentando a “perspec-
tiva de uma extensão ativa, participativa, capaz de contribuir para estudos, experimentações ou
ações coletivas sobre questões sociais da maior relevância” (THIOLLENT, 2000, p. 19).
O projeto desenvolvido na comunidade N. Sra. das Graças, sob a base de um compromisso
mútuo, de ação participativa, constatou que as relações já estabelecidas na comunidade, são
baseada na autonomia política e no esforço em busca de melhoria da qualidade de vida.
Assim, neste contexto particular da cultura das comunidades ribeirinhas, “os fundamentos de
preservação da vida em comunidade podem, também, fornecer as bases concretas para que os
grupos se mobilizem para além do contexto local em defesa de seu estatuto sociocultural no
interior da sociedade” (CHAVES, 2002). Alguns depoimentos são importantes, no sentido de
qualificar a percepção dos comunitários em relação ao trabalho desenvolvido no momento
de definir suas prioridades:
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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(…) porque nós sabemos que necessitamos, nós não sabemos é como chegar lá... havendo um pro-
jeto propriamente dito teremos como chegar a uma unidade Federal ou Estadual para apresentar
nossas necessidades de luz, saúde e através desses projetos obteremos os recursos. Uma outra neces-
sidade que discutimos em nossas reuniões que chega a 100% a 1000% que se chegasse amanhã
agente já queria, é o uso da energia elétrica, tendo a energia teríamos até um avanço na produ-
tividade aqui da nossa comunidade, em relação a farinha, a rede de nylon. Uma outra coisa dis-
cutida em reunião é a conscientização para a alfabetização de adultos, essa necessidade não é só
dos jovens e das crianças, mas da comunidade em geral, uma comunidade mais informada e alfa-
betizada até para fazermos e para sabermos que direitos nós temos e quais deveres devemos
cumprir. A outra coisa é a conscientização das documentações pessoais, dizer a importância de
cada um, o Registro de Nascimento de criança, tem casos de pessoas que perdem a bolsa-escola por
falta de documentos. (Sr. Welington, coordenador da comunidade).
Se eles não nos ensinarem fazer projetos como vamos fazer?! Então, nós temos que ter alguma orien-
tação. Quando nós vamos a Manacapuru as pessoas dizem “olha gente vocês têm que estar unidos,
fazer projetos pra isso, aquilo”, mas cadê a orientação?! Então nós devemos saber pra onde nós
vamos, mas eles não falam pra onde é... então nós ficamos calados. Nós precisamos de curso de
liderança porque às vezes nós vemos tanta gente aqui na Comunidade que briga pra ficar na
liderança e às vezes outros não querem, dizem até “Deus me livre! Eu lidero mal a minha
família”, então nós queremos de imediato este curso. Essa gincana me chamou muito atenção,
meu Deus! ... acho que se todos souberem de nossa história, outras comunidades irão correr para
ouvir pra saber de nossa história e o que está acontecendo, eu tenho certeza porque essa história
será muito grande... é a nossa vida e eu tenho certeza que essa história mexerá com muitos
corações, porque a vida na comunidade é a nossa vida. (D. Maria de Fátima, comunitária).
A percepção que os comunitários possuem de suas potencialidades, permitiu-lhes o
engajamento nas diversas atividades do projeto e, também, possibilitou obter diversos resulta-
dos positivos ao término do mesmo, que podem ser resumidos basicamente em dois eixos cen-
trais: a) a estruturação de novas formas de organização comunitária discutidas/implementadas
na comunidade; b) participação ativa dos moradores das comunidades (70%) na implementação
do projeto. Em relação à criação de infra-estrutura para a equipe, houve o apoio para
permanência do grupo no local, na casa dos comunitários, durante a realização do trabalho, a
oferta constante e voluntária de apetitosos requintes da culinária local marcou o carinho e a
aceitação deles em relação à equipe. A relação afetuosa proporcionou um clima muito favorável
para a realização do trabalho em todos os momentos. A partir do projeto foi possível conhecer
melhor e potencializar as ações junto aos grupos comunitários. A situação vivida pelos grupos
locais expressou a consolidação de variados graus de adaptação ao meio ambiente regional,
assim como, se registrou as constantes investidas para sua transformação. Entre elas destaca-se
a formulação de projetos como a Escola Ativa e também as reivindicações junto aos diversos
órgãos públicos. Eles falam com orgulho: “Nossa escola foi premiada pelo ‘Projeto Escola
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Ativa’, sendo a mais organizada” (Sr. Antonio) — a escola local foi escolhida como escola
modelo no Brasil, no referido Programa.
Conclusões
O processo socioeducativo traçado no projeto foi implementado e assumido com
compromisso mútuo (equipe e comunitários). A existência de interesses convergentes foi
marcante na definição das ações desenvolvidas, na cooperação e na expectativa dos benefícios
que as ações poderiam vir a concretizar a partir da presença atuante da equipe e dos comu-
nitários ao traçar metas para serem atingidas. Assim, o desenvolvimento do conjunto das
atividades propostas pelo projeto, no que se refere à viabilização das ações de cunho educati-
vo, de apoio organizativo, consolidou práticas e alternativas que atenderam às expectativas dos
comunitários. No campo político-organizativo torna-se importante para pequenos produtores a
participação nos processos de tomada de decisão relativos ao acesso a energia à medida que lhes
permite propor a construção de mecanismos. Vale destacar que o engajamento dos comunitários
no projeto representou um dado significativo da relevância social do trabalho, pois as dis-
cussões coletivas das propostas permitiram aos comunitários a definição de suas principais
necessidades, interesses e, principalmente, de poderem manifestar suas expectativas, contribuindo
no processo de construção do Plano de Ação do projeto, o qual deu o delineamento das atividades
desenvolvidas. Sendo que, a discussão e a participação fomentada a partir de dinâmicas de
grupo trouxeram aprendizados importantes para a equipe e os comunitários. Estes últimos
valorizaram e cooperaram com a equipe, atuando não só como protagonistas do processo, mas
também como parceiros. Tal condição possibilitou a otimização de recursos, a valorização das
habilidades no exercício das diferentes atribuições e responsabilidades, a instituição de um
processo de aprendizado, de formação continuada entre todos (CHAVES, 2002). Contudo,
entende-se que, a melhoria das condições de vida é uma meta complexa na qual a dinâmica
interna de organização comunitária se constitui como ferramenta fundamental.
Referências bibliográficas
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brasileiro: relatório, período 1970/1997
. Brasília: MME, Secretaria de Energia, 1997.
CHAVES, M. do P. S. R.
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Graças no município de Manacapuru/AM
. Manaus: Universidade Federal do Amazonas/
Departamento de Serviço Social, [s.d.].
THIOLLENT, M.; ARAUJO FILHO, T. de; SOARES, R. L. S. (Org.).
Metodologia e experiências
em projetos de extensão
. Niterói: EDUFF, 2000.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Difusão do uso de plantas medicinais anti-helmínticas na produção de caprinos
do sistema de produção da região de Patos/PB
Lázaro Franco Ferreira de Moraes, Graduando em Medicina Veterinária
Roberto César Araújo de Lima, Graduando em Medicina Veterinária
Wirllânea Vasconcelos Fontes de Almeida, Pós-graduanda em Zootecnia
Ana Célia Rodrigues Athayde, Professora adjunta do curso de Medicina Veterinária
Universidade Federal de Campina Grande/CSTR/DMV
Resumo
Os programas de extensão no Nordeste do Brasil pouco contribuem com a assistência
técnica. As universidades difundem técnicas que minimizam os prejuízos da produção con-
tribuindo com o aspecto socioeconômico e favorecendo a consolidação de seus cursos e disciplinas,
junto às necessidades da comunidade. Práticas de exploração inviáveis limitam a caprinocultura,
principalmente aquela com a finalidade social de fixação do homem à terra. Os animais do
sertão paraibano apresentam infecção por vermes, o que determina perdas econômicas. No
Brasil, mais de 300 espécies de plantas medicinais são usadas pela população. Dentre as com
ação sobre vermes têm-se: o melão de São Caetano, a Batata-de-Purga e a semente da abóbora.
O trabalho objetivou através da difusão destas plantas baixar o custo de produção de caprinos,
controlando as verminoses e resgatando a medicina popular. Realizaram-se palestras, contando
com os recursos: álbum seriado ilustrado e amostras de plantas; práticas de preparação e admin-
istração do remédio, exames de fezes e recomendações de ecologia ambiental. Foram atendidos
138 produtores e assistido um rebanho 2.579 animais. Foi controlada uma infecção pela super-
família Trichostrongyloidea, com média de ovos por grama de fezes de 954, 87 para 263, 08,
caracterizando um bom controle ao longo de 12 meses
.
Palavras-chave: plantas medicinais, caprinocultura, vermes
Introdução
A caprinocultura no Nordeste brasileiro assume um papel relevante na economia do país
por apresentar o maior rebanho e pelo aproveitamento dos seus produtos e subprodutos.
Atualmente o caprino vem demonstrado grande interesse na política econômica do país, mas
poucos são os trabalhos desenvolvidos na área de doenças parasitárias, isto por ser considerado
um animal de grande rusticidade, os quais sobrevivem em áreas secas e desprovidas de agricultura
estável (ANUÁRIO ESTATÍSTICO DO BRASIL, 1991).
Os caprinos são utilizados para a produção de alimentos de alto valor biológico, como
carne e leite, e a renda familiar das propriedades é incrementada pela venda de animais vivos, peles
e esterco (VIEIRA, 1991).
498
_0217_UVE_LIVRO_FB 5.qxd 06.09.04 09:35 Page 498
As transformações necessárias à prática racional da caprinocultura no Nordeste tende a
conduzir as criações de forma intensiva e em espaços físicos reduzidos, favorecendo de sobre-
maneira a incidência das parasitoses, as quais ocupam um lugar de destaque entre os fatores que
limitam a produção caprina (PADILHA, 1982).
As helmintoses dos caprinos são causadas por parasitos pertencentes às classes
Nematoda, Cestoda e Trematoda (COSTA et al., 1986). Os principais gêneros parasitas de capri-
nos são, Haemonchus, Trichostrongylus, Strongyloides, Moniezia, Cooperia, Oesophagostomum,
Skrjabinema, Trichuris e Cysticercus (COSTA et al., 1987). Surtos epizoóticos de haemoncose
e strongiloidose caprina no semi-árido paraibano vêm aumentando os índices de morbidade e
mortalidade do efetivo caprino (ATHAYDE et al., 1996).
As helmintoses gastrintestinais de caprinos têm ampla distribuição geográfica, consti-
tuindo uma das principais causas de prejuízos na exploração destes animais. Os helmintos têm
características espoliadora, obstrutivas e de hematofagismo, o que ocorre para interferir na
performance de rebanhos quando neles instalados. Com o objetivo de diagnosticar e caracterizar
estas helmintoses, o laboratório doenças parasitaria dos animais domésticos/CSTR/UFCG
realizou exames parasitológicos num período de 25 meses e concluiu que em caprinos o para-
sitismo se devia em 89,47% a super família Strongiloidea; 47,37% ao Strogyloides e 7,89% ao
gênero Trichuris (TEXEIRA et al.1997).
A elevada prevalência, associada à grande patogenicidade, faz de Haemonchus contor-
tus a principal espécie endoparasita de ovinos e caprinos na região semi-árida e no Brasil. Este
parasita do abomaso e hematófago, ou seja, se alimenta de sangue. Os animais com carga
parasitária elevada podem apresentar anemia e edema submandibular e os casos de mortalidade
por esse parasita são relativamente comuns. Em seguida, em ordem de importância, aparece a
espécie Trichostrongylus colubriformis, parasita do intestino delgado presente em praticamente
todas as criações de ovinos e caprinos, lesam a mucosa intestinal provocando exsudação de
proteínas séricas para a luz intestinal. Em grandes infecções os animais podem apresentar
anorexia, diarréia edema submandibular. As infecções por helmintos gastrintestinais de
pequenos ruminantes são mistas, sendo ainda comum o parasitismo por espécie de Cooperia
spp., Oesophagostomum spp. e Strongiloides papillosus. As principais conseqüências dessas
infecções são prejuízos econômicos devido à redução na produtividade, mortalidade e despesas
com mão-de-obra e antiparasitárias, os quais elevam o custo de produção, podendo inviabilizar
o sistema produtivo.
A eimeriose caprina é uma doença infecciosa aguda por protozoários coccídios do
gênero Eimeria. É uma protozoose cosmopolita, que afeta os caprinos submetidos a diferentes
sistemas de produção, sendo mais freqüente em animais confinados, mantidos em pequenas
áreas, com alta densidade populacional, sendo comum em rebanhos leiteiros (LIMA, 1980;
CAVALCANTE, 1996).
As ectoparasitoses, principalmente a causada pelo Bovicola caprae, apresenta prevalência
de 62,17% e distribuição anual, com maior nível de infestação no período seco acarretam
perdas econômicas na exploração caprina, desde a mortalidade até queda da produtividade. Os
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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efeitos causados sobre a pele depreciam seu valor comercial (FILGUEIRA et al., 2001; COSTA
& VIEIRA, 1984; MACHADO, 1984). Dentre os ácaros causadores de sarnas em caprinos
têm-se os gêneros Sarcoptes, Psoroptes e Demodex, os quais ocasionam perdas econômicas
decorrentes da depreciação da pele por ocasião da comercialização e utilização na indústria
coureira (COSTA & VIEIRA, 1984).
O parasitismo compromete a rentabilidade dos sistemas pecuários produtivos, produzindo
importantes perdas clínicas e subclínicas, além de forçar o seu controle com drogas químicas
que têm a capacidade de permanecer por um período prolongado no organismo animal e con-
seqüentemente requerem períodos semelhantes de eliminação, contribuindo para uma presença
de seus resíduos no leite e derivados que se destinam ao consumo humano. O resíduo de
compostos químico eliminado com as excreções dos animais provoca sérios efeitos ao meio
ambiente. Em algumas situações, os resíduos poderão entrar na cadeia alimentar humana,
podendo ocasionar problemas de saúde pública (VIEIRA, 1991).
O controle das parasitoses de caprinos ainda é essencialmente químico, através de drogas
que liberam resíduos tóxicos no animal e no meio ambiente, além de elevarem a índices irrecu-
peráveis o custo de produção. Atualmente os programas de controle de vermes de caprino
visam, não só curar a doença clínica, que se caracteriza por altas taxas de mortalidade, mas prin-
cipalmente reduzir os prejuízos provocados pelo parasitismo subclínico. Ressalta-se a
necessidade de difusão de métodos alternativos de controle da verminose, contemplando desde
a utilização de vermífugos naturais a orientações sobre práticas de manejo que favorecerão este
controle (COSTA & VIEIRA, 1984).
As primeiras testemunhas do uso das plantas na medicina foram os papiros egípcios, os
escritos chineses nas folhas de bambu e as taboas de argila dos sumérios. No ano 3000 a.C., no
Egito antigo, os papiros registraram o uso de quinhentas plantas medicinais: Menta, Alecrim,
Camomila, Absinto, Babosa, Terebentina, Tomilho e plantas da família Solanácea usadas até
hoje. No entanto, o primeiro tratado de medicina só aparece mil anos a.C., no vale do Tigre e
Eufrates, onde hoje estão o Irã e o Iraque. No vale do Nilo, os primeiros médicos eram os reis,
como Athotis (4000 a.C.) ou Queóps (2750 a.C.), os quais foram sucedidos por médicos
funcionários reais “recrutados por concurso” e hierarquizados ao serviço dos faraós do Nilo.
Mais tarde, já na Grécia e Roma Antigas, a medicina se torna de domínio dos cidadãos em geral,
não mais dos sacerdotes. Em 600 a.C., Atenas decreta que “todo cidadão tem direito a cuidados
médicos gratuitos, pagos pelo Estado”, um tipo de SUS local. Tal benevolência era custeada por
um imposto real denominado “Iatricon”, que aqui se conhece como CPMF.
Depois vem a história, mais ou menos conhecida de Hipócrates (460-377 a.C.),
Dioscorides (100 d.C.) e Galeno (130-200 d.C). A medicina deixa o esoterismo e a imprevisi-
bilidade dos caprichos divinos e avança cientificamente no terreno da terapêutica, classificação
das doenças, posologia e diagnóstico. Os estudos de Farmácia avançaram celeremente neste
período. Quando o Brasil foi descoberto, a Fitoterapia reinava praticamente sozinha, não havia
vacinas nem os medicamentos sintéticos, que só aparecem no final do século XIX com a aspi-
rina. O Brasil tem uma mega-biodiversidade de 55.000 espécies de plantas superiores.
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Pesquisas nas universidades e institutos de pesquisa revelam substâncias ativas em câncer, Aids,
analgésicos, vermífugos, antibióticos e um sem número de outras utilidades. Primeiramente,
devemos identificar bem a planta. A partir daí, devemos coletar: raízes, cascas, sementes, flores
ou folhas, sempre em bom estado. As melhores são as folhas adultas e verdes. As sementes
devem estar maduras e secas. As cascas e raízes podem ser colhidas em qualquer época. As
raízes, as cascas, as flores e as sementes são, geralmente, mais fortes do que as folhas. Portanto,
deve-se usá-las em menor quantidade. E aconselha-se usar apenas uma destas partes da planta
de cada vez. O processo de secagem deverá ser feito à sombra, num ambiente seco e limpo, em
estufa ou forno fracamente aquecido ou ao sol da manhã Disponível em: <http://www.profes-
sorberti.hpg.ig.com.br/plantasmedicinais/PLANTAB.htm>.
Os programas de extensão disponíveis para os pequenos pecuaristas, principalmente no
Nordeste do Brasil, com suas limitações vêm contribuindo de forma primária no tocante à
assistência técnica. A universidade no seu perfil extensionista vem tentando contribuir com o
setor principalmente com a difusão de técnicas que minimizem os prejuízos na produção. Assim
o fazendo, além de contribuir com o aspecto socioeconômico, a universidade favoreceu a
docentes e discentes o caminho de buscas para a consolidação de seus cursos e disciplinas, junto
às reais necessidades da comunidade, onde está inserida.
Respaldado na medicina fitoterápica, o projeto minimizou o custo de produção de caprinos,
no tocante ao controle das helmintoses, em propriedades do sistema de produção da região de
Patos/PB e resgatou a medicina popular. Fazendo com que os pequenos pecuaristas identificas-
sem as plantas medicinais disponíveis na região e soubessem utilizá-las de forma viável com a
finalidade de controlar os surtos de parasitoses que vêm dizimando seu efetivo caprino.
Alcançando seus objetivos inicialmente propostos, como: trabalhar as propriedades com potencial
natural para a caprinocultura; promover a capacitação de recursos humanos destas comunidades
visando à identificação, manipulação e uso correto das plantas medicinais (Batata-de-Purga,
Melão-de-São Caetano e Abóbora), principalmente no tocante à conservação desse recurso no
meio ambiente; integrar as atividades universitárias com as comunidades na área de caprinocul-
tura; participar do planejamento e implantação da caprinocultura viável nestas comunidades.
Metodologia
Local de realização do trabalho
A difusão do uso de plantas medicinais com ação antiparasitária, elaborada para o
sistema de produção caprina da região semi-árida da Paraíba pelo Laboratório de Doenças
Parasitárias dos Animais Domésticos do Departamento de Medicina Veterinária do Centro de
Saúde e Tecnologia Rural da Universidade Federal da Paraíba.
Período de execução
A duração do trabalho correspondeu há oito meses, cujo início se deu em abril de 2003
e término em novembro de 2003.
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Atividades
Cadastro
O efetivo caprino foi cadastrado em fichas individuais, pelos bolsistas, as quais
constaram de dados de identificação da propriedade e do rebanho; dados a cerca do manejo
nutricional e sanitário.
Agenda
O Laboratório de Doenças Parasitárias dos Animais Domésticos/DMV procedeu ao
agendamento de visitas técnicas, coletas de amostras, everminação, palestras técnicas, cursos
sobre assuntos de manejo parasitário (medicamento, aplicação, coleta de amostras, etc.).
Plantas
Sementes de Abóbora (Cucurbita pepo L.), Batata-de-Purga (Operculina hamiltonii) e
Melão de São Caetano (Mormodica charantia L.).
Exames
O Laboratório de Doenças Parasitárias dos Animais Domésticos/DMV disponibilizou o
profissional capacitado, na pessoa do coordenador do projeto, que juntamente com os bolsistas
procederam às análises das amostras coletadas.
Produção do vermífugo natural
O Laboratório de Fitoterapia/DCV disponibilizou profissional capacitado, na pessoa da
professora executora do projeto, que juntamente com os bolsistas procederam à fabricação do
produto natural, para ser administrado aos animais na formulação e dose correta.
Tratamento
O profissional responsável pelo Laboratório de Doenças Parasitárias dos Animais
Domésticos e do Laboratório de Fitoterapia prescreveu o tratamento que foi administrado aos
animais de cada propriedade, assim como todas as recomendações técnicas necessárias a cada
situação.
Monitoramento
O Laboratório de Doenças Parasitárias dos Animais Domésticos e do Laboratório de
Fitoterapia disponibilizou seus profissionais e bolsistas que executaram visitas quinzenais,
depois de instituído cada tratamento, determinando a eficácia da terapêutica indicada. Assim
como foram realizadas palestras educativas consolidando o controle de vermes de caprinos pela
medicina popular.
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Controle
O profissional responsável pelo Laboratório de Doenças Parasitárias dos Animais
Domésticos, após uma análise técnica dos rebanhos do projeto, determinou um controle do tipo
estratégico para as parasitoses de caprinos da região semi-árida paraibana.
Reuniões da equipe executora
Foram realizadas reuniões quinzenais da equipe executora do projeto para integração do
grupo, coletas dos resultados preliminares, registro de dificuldades e elaboração de medidas
renovadoras das ações extensionistas no tocante a resolução dos problemas apontados.
Resultados e discussão
O trabalho de extensão desenvolvido apresentou uma repercussão relevante, pois, em
princípio, se tentou trabalhar com duas propriedades, porém, com a divulgação do trabalho, na
sua primeira vigência e com parcerias (Cooperativa Vinculus e o Sebrae) foi possível desen-
volver o trabalho com muitas outras propriedades, chegando-se a atender outros municípios
vizinhos de Patos, como já exposto nos resultados. No entanto, nessa segunda vigência, com a
ausência da cooperativa Vinculus, que desenvolvia na região um projeto de sustentabilidade e
de inserção social, devido ao término do projeto, foi extremamente difícil concluir as atividades
agendadas, já que a universidade não prioriza a extensão quando se fala em orçamento.
A caprinocultura é sem sombra de dúvidas uma atividade sustentável para o homem rural
da região semi-árida nordestina, e a difusão e uso de plantas medicinais para o controle de
verminoses mostrou-se efetiva, principalmente por não elevar o custo de produção, não agredir
o organismo animal e não deixar resíduos nos seus subprodutos.
Os resultados obtidos no período de abril a novembro de 2003 estão descritos nas
Tabelas 1, 2, 3 e 4. O desempenho da equipe, assim como dos parceiros, foi extremamente
notável e imprescindível em todas as etapas do trabalho. Não deixando de ressaltar a primordial
interação da equipe com as comunidades, resultando no êxito do trabalho, o qual contou com
inúmeras palestras (Tabela 2), várias coletas de material, seguidas de exames e posterior
tratamento dos animais acometidos por vermes.
Foram atendidos 138 produtores (Tabela 1) e assistido um rebanho 2.579 animais
(Tabela 1), os quais estavam extremamente acometidos por vermes (Tabela 3), e receberam um
tratamento através das plantas medicinais e medidas profiláticas e sanitárias, sendo assim
controladas infecções pela superfamília Trichostrongyloidea, que representava uma média de
ovos por grama de fezes de 954,87; reduzindo para 263,08 OPG, caracterizando um controle
eficaz (Tabela 4) ao longo de 12 meses.
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Tabela 1
Núcleos atendidos pelo projeto: difusão do uso de plantas medicinais com ação antiparasitária na
produção de caprinos do sistema de produção da região de Patos/PB
Tabela 2
Número de palestras, coletas, exames e tratamento por núcleo realizados pelo projeto: difusão do uso
de plantas medicinais com ação antiparasitária na produção de caprinos do sistema de produção da
região de Patos/PB
Tabela 3
Perfil parasitológico (Opg) dos animais atendidos pelo projeto: difusão do uso de plantas medicinais
com ação antiparasitária na produção de caprinos do sistema de produção da região de Patos/PB
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Tabela 4
Perfil parasitológico (Opg), após tratamento, dos animais atendidos pelo projeto: difusão do uso de plantas
medicinais com ação antiparasitária na produção de caprinos do sistema de produção da região de Patos/PB
* e ** não refletem doença clínica
Ainda como resultados, a equipe divulgou em eventos de extensão universitária e de
segurança alimentar (I. CONGRESSO BRASILEIRO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA, I.
ENCONTRO DE EXTENSÃO DA UFCG e I ENCONTRO DE SEGURANÇA ALIMENTAR
DA PARAÍBA), quatro resumos sobre o trabalho, sendo que um ficou entre os 10 melhores trabalhos
apresentados na área de difusão de tecnologia, tendo sua publicação na íntegra garantida.
Conclusão
O desempenho da equipe de trabalho, assim como dos parceiros, foi extremamente
notável e imprescindível em todas as etapas do projeto. Não deixando de ressaltar a primordial
interação da equipe com as comunidades, resultando no êxito do trabalho. Tamanho foi a
importância, a abrangência e adoção do trabalho pelas comunidades, que com o fim de algumas
parcerias gerou-se uma expectativa de como contornar o problema para que as ações continuassem
e possa-se, aqui, usar uma linguagem comum, o projeto finalizou suas atividades “por amor à
camisa” por parte da equipe executora. Na comunidade acadêmica o trabalho teve uma boa
repercussão, haja vista a procura por parte dos alunos para colaborarem e conhecerem de perto
o trabalho extensionista. Na comunidade onde a instituição está inserida, o trabalho também gerou
impacto, pois vários foram os programas de rádio onde a equipe se apresentou para responder
perguntas e curiosidades.
De acordo com a grande aceitação e os excelentes resultados alcançados, aumentando a
produtividade e diminuindo os custos para a produção de caprinos da microrregião de Patos/PB,
pode-se concluir que o programa, além de contribuir com a situação socioeconômica do homem
do campo, também proporcionou a inteiração de alunos que tiveram o interesse de conhecer
mais a respeito da Extensão Universitária.
Espera-se que o programa de extensão universitária receba uma maior atenção das IEFS,
principalmente no aporte financeiro, para que consolide o seu perfil, também, extensionista,
para que a sociedade possa contar e utilizar os resultados das pesquisas e conhecimentos cien-
tíficos no seu dia-a-dia.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Núcleos
Diagnóstico (Opg)
Superfamília
Trichostrongyloidea
Gênero
Strongyloides
Gênero Trichuris
Gênero*
Moniezia
Gênero** Eimeria
Trincheiras 441,02 100,00 10,25 1,94 -
Cupiras 352,77 105,55 - 0,05 138,88
Gatos 390,00 96,00 - - 60,00
Serra Branca 50,00 190,90 - - 454,54
Santana/ Queimadas 220,51 41,02 - - 25,64
Cipó/Capesa 122,22 111,11 - -
111,11
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506
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Papel das pré-incubadoras de empresas no desenvolvimento do empreende-
dorismo: o caso do Gene-Blumenau
Micheline Gaia Hoffmann Fallgatter, Ms.
Alexandre Sena, Engenheiro
Fundação Universidade Regional de Blumenau – FURB
Resumo
As incubadoras e pré-incubadoras de empresas ocupam espaço importante no cenário
econômico atual. O objetivo do presente trabalho é demonstrar o papel destes dois tipos de insti-
tuições no processo de apoio ao empreendedorismo e geração de novas empresas. O artigo inicia
discutindo os aspectos conceituais que distinguem incubadoras de pré-incubadoras. Em seguida,
é apresentado o modelo de funcionamento do Gene-Blumenau, uma pré-incubadora de empresas
de base tecnológica, caracterizada como projeto de extensão da Universidade Regional de
Blumenau – FURB, desde 1996. A metodologia de pré-incubação aqui apresentada está rela-
cionada ao modelo atualmente vigente. Após a descrição da metodologia, estão apresentados os
principais resultados obtidos pela pré-incubadora. O artigo conclui que a estrutura de serviços
oferecidos por uma pré-incubadora a suas empresas/projetos deve ser diferenciada em relação à
estrutura oferecida pelas incubadoras, porque as necessidades das empresas apoiadas são diferentes.
O caso do Gene-Blumenau aponta que os processos de capacitação, monitoramento e acompanha-
mento demonstram-se como fatores críticos ao sucesso de projetos de empresas em estágio de pré-
incubação. Ressalta-se, assim, a importância da sedimentação de conceitos acerca dos processos
de pré-incubação e incubação de empresas, de modo que fique mais bem compreendida a
complementaridade entre as duas e otimizada sua sinergia
.
Palavras-chave: empreendedorismo, geração de novas empresas, pré-incubadoras
Introdução e objetivos
O Brasil tem demonstrado uma crescente consciência acerca da necessidade de apoio e
incentivo ao surgimento de novas empresas. Exemplo disso é o aumento substancial do número
de incubadoras criadas nos últimos 10 anos, bem como os programas de formação de
empreendedores que vêm ganhando força em grande parte das universidades brasileiras. De
acordo com o relatório Panorama 2003, elaborado pela Associação Nacional de Entidades
Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas – Anprotec, apenas no ano de 2003
sugiram 14 novas incubadoras no Brasil, totalizando 207 incubadoras.
Uma diferença importante entre as incubadoras existentes refere-se aos tipos de serviços
oferecidos às empresas residentes (incubadas). Estes serviços variam em função, principal-
mente, do estágio de evolução dos projetos apoiados.
Neste sentido, torna-se importante distinguir o conceito de incubadoras e pré-incubadoras,
instituições com objetivos comuns e papéis complementares, uma vez que ambas visam a geração
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de novas empresas, mas atendem a empreendedores cujos projetos encontram-se em diferentes
estágios de desenvolvimento.
Este artigo visa esclarecer a distinção entre o papel destes dois tipos de instituições no
processo de apoio ao empreendedorismo e geração de novas empresas. Adicionalmente, propõe-
se a aprofundar os conceitos relacionados ao modelo de funcionamento de pré-incubadoras.
Metodologia
Inicialmente, o artigo discute aspectos conceituais que distinguem incubadoras de pré-
incubadoras. O aprofundamento em torno do modelo de funcionamento de pré-incubadoras é
feito com base no caso do Gene-Blumenau, projeto de extensão da Universidade Regional de
Blumenau – FURB. A descrição apresentada está baseada na metodologia atualmente em
vigor na pré-incubadora em questão. Já os resultados apresentados, remetem aos sete anos de
operação deste projeto de extensão na FURB.
Discussão
Ao longo do processo de criação e desenvolvimento de uma empresa, é possível a iden-
tificação de quatro estágios diferentes: Concepção, Empresa nascente, Consolidação e Crescimento.
No primeiro estágio, o de Concepção, o empreendedor identifica um nicho de mercado/
necessidade de um dado público-alvo e decide iniciar uma empresa. Neste estágio, a futura
empresa existe apenas “na cabeça” do empreendedor ou “no papel”, na forma de um Plano de
Negócios, onde são descritos os principais aspectos do negócio.
Após o detalhamento da empresa na forma de um Plano de Negócios, o empreendedor
passa a estruturar a empresa e sua equipe, a estabelecer as primeiras alianças e a desenvolver o
produto e/ou serviço desejado. Ao final deste estágio, em geral, o empreendedor já possui uma
empresa juridicamente constituída e, pelo menos, um protótipo do produto ou serviço a ser
comercializado. É muito comum que neste estágio o empreendedor já tenha conseguido os
primeiros clientes de sua empresa.
O próximo estágio no processo evolutivo da empresa é a consolidação em seu mercado
de atuação. Já com um produto rodando, a consolidação ocorre não só em termos de mercado,
mas também com relação à estrutura administrativa da empresa. Neste estágio, começa a haver
maior necessidade de capacidade gerencial, de alianças estratégicas e de capital, para que se
criem condições à alavancagem do negócio, no próximo estágio. A partir da consolidação, a
empresa, já com uma tecnologia comprovada e uma receita equilibrada, passa a buscar a con-
solidação de sua marca e a penetração em novos mercados, ampliando sua área de atuação
(estágio de Crescimento).
Os estágios apresentados não devem ser entendidos como estanques e seqüenciais. A
apresentação linear foi feita apenas como forma de facilitar a compreensão dos estágios. O
importante é perceber que as empresas possuem diferentes necessidades em cada um destes
estágios. Assim, se o objetivo é aumentar as chances de sucesso das empresas, é essencial que
o apoio oferecido em cada estágio seja diferente e adequado ao seu estágio de desenvolvimento.
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É neste ponto que se deve diferenciar entre incubação e pré-incubação. A pré-incubação
fornece apoio a empresas que estão nos dois primeiros estágios de desenvolvimento, ou seja,
nos estágios de Concepção e Empresa Emergente. No início destes estágios, as empresas não
possuem um produto ou serviço que possa ser demonstrado para futuros clientes. Existe apenas
a idéia (no estágio de Concepção) ou um Plano de Negócios escrito e detalhado (início do estágio
Empresa Emergente). Em função disso, as empresas que estão nestes estágios, em geral, não
atraem investidores, uma vez que o grau de incerteza quanto ao sucesso da empresa ainda é
grande. Muitas vezes, esta incerteza decorre não só com relação ao estágio, mas também com
relação ao ineditismo do produto ou serviço proposto pela empresa.
O processo de incubação ocorre, justamente, quando se encerra o processo de pré-
incubação, ou seja, o produto de uma pré-incubadora é uma das “matérias-primas” de uma
incubadora de empresas. No início do processo de incubação (Consolidação) a empresa já possui
pelo menos um protótipo para demonstrar para os clientes em potencial. Em função disso, e de
um Plano de Negócios mais elaborado, a empresa tem maiores chances de atrair investidores de
risco, principalmente “Anjos”. Assim, observa-se que pré-incubadora e incubadora se complementam,
aumentando a probabilidade de sucesso da empresa apoiada.
É na pré-incubadora, portanto, que ocorre o desenvolvimento do perfil e a formação inicial
do empreendedor. Por este motivo, há uma tendência da taxa de sucesso ser menor do que aquela
que ocorre em uma incubadora.
Para que a pré-incubadora aumente a probabilidade dos “casos de sucesso” é essencial
um programa bem articulado, que atenda às peculiaridades dos projetos neste estágio.
Vindo ao encontro deste objetivo é que surgiu o Gene-Blumenau, pré-incubadora ligada
ao projeto Gênesis, coordenado pela Sociedade Softex e apoiado pelo MCT, por meio do CNPq.
Criado em 1996, o Projeto Gênesis caracterizou-se pela implantação de pré-incubadoras de
empresas de base tecnológica em diversas regiões do país. O Gene-Blumenau foi aprovado no
primeiro edital lançado pelo CNPq em 1996. Sua atuação efetiva teve início em 1997, quando
as primeiras equipes de empreendedores foram selecionadas e iniciaram o desenvolvimento de
seus projetos. O projeto de concepção desta pré-incubadora foi elaborado por professores do
Departamento de Sistemas e Computação da FURB. Desde o início, a pré-incubadora foi posi-
cionada nesta universidade como projeto de extensão.
A ênfase em sua atuação é nos dois primeiros estágios de desenvolvimento das empre-
sas, conforme demonstrado anteriormente. Assim, propõe-se a desenvolver um trabalho de base
no que tange o apoio a empresas nascentes, uma vez que seu “modelo de negócio”, denominado
“pré-incubação”, atribui importância estratégica às fases mais iniciais do processo de geração
de uma empresa, que vão desde a sensibilização de potenciais empreendedores até o desen-
volvimento do produto e criação propriamente dita da empresa.
Esta pré-incubadora tem seu modelo de funcionamento interno estruturado em torno de
quatro operações básicas: atração de novos projetos; seleção de projetos; incubação/desen-
volvimento das empresas; graduação das empresas. A seguir estão detalhados os conceitos e as
atividades que atualmente fundamentam cada uma destas quatro operações.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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A primeira atividade é a atração de projetos e, conseqüentemente o processo de seleção.
O Gene-Blumenau atua de forma pró-ativa para aumentar o número de projetos submetidos,
entendendo que, quanto maior a demanda, melhores as possibilidades abertas ao processo de
seleção. Dentre as melhores práticas para a atração de novos projetos, podem ser destacadas as
seguintes: existência de um site para divulgar as vantagens oferecidas e os casos de sucesso,
dentre outras informações (www.criem. institutogene.org.br); inserção, no site das empresas
graduadas e parceiros de um link para o site da incubadora; inclusão, no material publicitário,
das empresas incubadas (folders, cartazes, etc.), de menção de que aquela empresa foi apoiada
pelo CRIEM; realização de palestras em cursos de segundo grau, técnicos e universitários,
sobre empreendedorismo e as vantagens oferecidas pela incubadora; organização de visitas de
alunos e/ou graduados à incubadora; colocação de material publicitário (folders, cartões, car-
tazes, etc.) nas sedes de cada um dos parceiros; palestras em associações da classe empresarial,
divulgando as oportunidades que a incubadora pode oferecer a empresas já estabelecidas;
elaboração de artigos sobre empreendedorismo e geração de novas empresas, para divulgação
na imprensa regional; divulgação, na imprensa, dos casos de sucesso da incubadora.
Ainda referente ao processo de prospecção, existem outros programas que têm auxiliado
o Gene-Blumenau a aumentar a demanda de novos projetos. Dentre eles, pode-se destacar a
Demanda Dirigida, onde uma empresa já estabelecida serve como “célula-geradora” de uma ou
mais empresas, através da identificação de dificuldades técnicas ou operacionais que dificultam
sua expansão no mercado. A partir da identificação clara destas dificuldades, o Gene-Blumenau
faz uma divulgação para a atração de empreendedores interessados na criação de um negócio
que reduza ou elimine a dificuldade apresentada. Estas dentre outras ações, como a realização
de uma Maratona de Empreendedorismo na universidade, contribuíram para aumentar
significativamente a demanda do Gene-Blumenau nos últimos três anos — mais de 400%.
Quanto ao processo de seleção propriamente dito, é constituído por três fases seqüenciais
e eliminatórias: a) pré-seleção: por meio do site da incubadora, os empreendedores preenchem
um formulário no qual descrevem os principais aspectos relacionados ao novo negócio. Esta
pré-seleção é feita pela equipe de gestão da incubadora e se baseia no perfil técnico da equipe,
perfil empreendedor, potencial de inovação, viabilidade financeira e impacto regional; b) hotel
de projetos: após aprovação na primeira fase, a nova empresa ocupa uma sala na incubadora e
tem 6 meses para o desenvolvimento de seu Plano de Negócios detalhado. Nessa fase, a empre-
sa conta com o apoio e a estrutura da incubadora para elaborar seu PN; c) banca de seleção:
após o período de 6 meses, a empresa apresenta seu Plano de Negócios para uma banca. Além
do Plano de Negócios, a banca de avaliação recebe o relatório com o desempenho da empresa,
elaborado pelos tutores, equipe de gestão e pelo Núcleo de Acompanhamento de Projetos.
O segundo grupo de atividade do Gene-Blumenau é o programa de capacitação e desen-
volvimento, este programa está organizado em função de quatro áreas básicas e comple-
mentares: a) gestão, com o objetivo básico de capacitar os empreendedores a administrar suas
empresas de forma a torná-las competitivas e rentáveis. Neste escopo, estão incluídas ações que visam
à construção do conhecimento do empreendedor em áreas como planejamento estratégico,
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gestão do conhecimento, gestão financeira e questões jurídicas; b) mercado, onde o foco visa
aperfeiçoar a sintonia entre as empresas e seu mercado de atuação; c) tecnologia, o que permite
aperfeiçoar a compreensão do empreendedor acerca do processo de inovação tecnológica,
bem como das questões relacionadas à qualidade dos produtos desenvolvidos pelas empresas.
Neste sentido, a criação do Laboratório de Avaliação da Qualidade de Software, em fase de
implantação, irá contribuir decisivamente para a melhoria dos produtos e processos da empre-
sa; d) comportamento, área do programa que se concentra no desenvolvimento das habilidades
do empreendedor para a liderança, a comunicação, a negociação, o entrosamento e o convívio
social, fundamentais nas relações interpessoais que se fazem presentes no comportamento
organizacional.
O Programa de Desenvolvimento Empresarial da incubadora é reconhecido e certificado
pelo Instituto Gene e reconhecido pelo MEC como cursos de curta duração. A composição e a
carga horária variam conforme as necessidades e estágio de desenvolvimento das empresas,
bem como da disponibilidade de recursos da incubadora. Em média, os empreendedores têm a
oportunidade de ter acesso a cerca de 200 horas capacitação/ano.
O programa é composto por cursos (na forma de workshops) seguidos de consultorias
individuais, com vistas à construção de conhecimento aplicado à realidade de cada empresa.
Assim, ao final de cada etapa do programa, os empreendedores possuem um documento
avalizado pelo consultor responsável. Este documento pode ser o plano de marketing, o plano
financeiro, o plano de desenvolvimento, enfim, uma etapa do Plano de Negócios. Ao final do
programa, toda empresa deverá ter um plano de negócios consistente e pelo menos um
empreendedor capacitado a atualizá-lo e aperfeiçoá-lo sistematicamente.
Os consultores das diferentes áreas trabalham em sintonia, de modo a desenvolver um
programa sinérgico e continuado; a cada novo evento (curso-consultoria) do qual o empreendedor
participa leva consigo o material construído anteriormente como “matéria-prima” a ser lapidada.
A terceira parte do processo de pré-incubação do Gene-Blumenau é a mais importante,
o programa de orientação e acompanhamento. Quando o processo de acompanhamento e
orientação das empresas incubadas é de boa qualidade, os problemas por elas enfrentados, bem
como as oportunidades, são rapidamente identificados. Com isso, pode-se implementar as ações
necessárias para auxiliar as empresas e, assim, ampliar sua probabilidade de sucesso.
Em geral, empreendedores em fase de incubação têm a necessidade de discutir aspectos
tecnológicos relacionados a seus produtos/serviços, bem como aspectos relacionados à gestão
estratégica da empresa e mesmo ao desenvolvimento do projeto. Durante o período de incubação,
as dúvidas, problemas e necessidades gerais dos empreendedores devem ser solucionados ou pelo
menos amenizados, de forma que a empresa possa atuar com sucesso no mercado de sua escolha.
Para suprir estas necessidades, o Gene-Blumenau implantou o NAP – Núcleo de
Acompanhamento de Projetos, onde, por meio do Programa de Tutoria, as empresas recebem
a orientação de um Tutor Acadêmico e de um Tutor de Negócios.
O tutor acadêmico tem o papel de acompanhar e orientar a empresa incubada em relação
às características técnicas do produto ou serviço desenvolvido e avaliar a sua evolução/desem-
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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penho ao longo do tempo. Ele deve ter em sua área de especialização/experiência subsídios para
oferecer amplo apoio aos empreendedores em relação às questões tecnológicas do projeto.
Todos os projetos incubados no Gene-Blumenau possuem um tutor acadêmico, que é um
professor/pesquisador da Universidade Regional de Blumenau, notadamente do DSC com
disponibilidade de duas horas semanais para interagir pessoalmente com os empreendedores. O
tutor de negócios também é um professor desta universidade, com formação em Administração
e mestrado na área de Gestão Estratégica de Negócios, além de experiência prática na área.
Todas as empresas usufruem o acompanhamento e orientação pelo tutor de negócios, sendo que
há uma maior dedicação deste profissional àquelas empresas em fase de comercialização.
A partir deste processo de orientação e acompanhamento, o Núcleo de Acompanhamento
de Projetos (tutores) identifica as necessidades e potencialidades da empresa incubada,
indicando as necessidades de cursos e consultorias especializados que devem estar contempladas
do Programa de Capacitação e Desenvolvimento Empresarial, acima apresentado. Para tudo
isto, o NAP conta com a dedicação de um coordenador, também professor do DSC da FURB.
O quarto ponto vem ao encontro de dois grandes desafios com os quais se defrontam as
empresas incubadas, o acesso ao mercado, ou seja, canais de venda e distribuição de seu pro-
duto/serviço, bem como o acesso aos recursos que se fazem necessários para a operacionalização
deste primeiro “salto” em seu ciclo de crescimento. Neste sentido, o Gene-Blumenau adota as
seguintes estratégias para apoiar as empresas: gerar oportunidades de exposição, por meio da
participação em eventos (como feiras comerciais, salões e rodas de negócios) e de serviços de
assessoria de comunicação e publicidade; emprestar sua rede de contatos para a ampliação da
rede de contatos das empresas; a criação e produção de um kit publicitário básico (composto
por logomarca, folder, cartão de visita, banner, pasta e papel timbrado) para as empresas
incubadas, visando seu desenvolvimento comercial; para tanto, o Gene-Blumenau conta com
uma assessoria de comunicação; apoiar individualmente cada empresa no desenvolvimento de
seu Plano de Negócios e na elaboração de projetos para a prospecção de recursos, seja junto a
organismos de fomento, fundos de capital de risco, investidores individuais ou outras potenciais
fontes de recursos para capitalização das empresas.
Para finalizar, há o programa de graduação programada e pós-incubação. O processo de
graduação das empresas do Gene-Blumenau é um processo definido de maneira bastante
particular, entre o coordenador, os empreendedores e seus respectivos tutores. O prazo médio
de incubação gira em torno de 02 a 03 anos, mas o momento mais adequado para a saída de
cada empresa é cuidadosamente avaliado, para que se evite que uma saída precoce prejudique
a fase de consolidação da empresa. Por outro lado, tem-se evitado o prolongamento excessivo
do período de incubação, para que a empresa possa defrontar-se, o quanto antes, com a
realidade do mercado, bastante amenizada pela estrutura de apoio da incubadora. Avaliações
periódicas realizadas pelo coordenador, bem como a sistemática de acompanhamento do NAP,
constituem o instrumento que permite o acompanhamento dos indicadores de desempenho e
desenvolvimento das empresas e é através delas que se define o processo de “desincubação”,
ou graduação.
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Após a graduação da empresa, ela permanece usufruindo serviços do Gene-Blumenau.
Por exemplo, a área de uso comum permanece disponível, espaço em servidor para hospedagem
de seu site, acesso a cursos, consultorias e eventos de um modo geral a custos subsidiados,
apoio na elaboração de projetos e acesso à rede de contatos da incubadora.
Resultado
Desde sua criação em 1996, o Gene-Blumenau forneceu apoio a 58 projetos de empresas.
Deste total, 14 empresas (representando 26% do total) concluíram com sucesso o processo de
pré-incubação e continuam atuando no mercado. Atualmente, o Gene-Blumenau está apoiando
o desenvolvimento de 13 novos projetos (o que representa 22% do total), dentre os quais, 4
estão próximos da graduação.
Um indicador de resultados usualmente adotado para a avaliação dos resultados de
processos de incubação de empresas é o faturamento médio das empresas. No caso das pré-
incubadoras, em função do estágio de desenvolvimento das empresas, os valores absolutos não
são muito expressivos. Por isso, mais importante do que a análise de valores absolutos é a
análise da evolução percentual do faturamento. No caso do Gene-Blumenau, tem-se verificado
um expressivo aumento no faturamento médio das empresas logo no primeiro ano que sucede
o término do período de pré-incubação, 617%.
Outro indicador importante é o número de empregos gerados, cerca de 60 empregos, o
que leva a duas observações. Primeiro, que 50 postos de trabalho são ocupados por empreende-
dores. Isto apresenta um efeito multiplicador, visto que empreendedores fazem crescer o seu
negócio e, conseqüentemente, geram mais empregos. E segundo, que o custo para a abertura
de um novo posto de trabalho no Gene-Blumenau – R$18.500,00 – é extremamente baixo, con-
siderada a média estimada para outros setores, como por exemplo o de infra-estrutura –
R$107.000,00, o de turismo — R$40.000,00 e o de construção civil pública — R$ 25.000,00.
Analisando-se os dados apresentados anteriormente, podemos observar o impacto posi-
tivo que o Gene-Blumenau tem provocado sobre o desenvolvimento socioeconômico de sua
região. É importante notar que este impacto positivo se traduz não apenas na geração de novos
empregos e de impostos, mas também na inovação tecnológica das empresas já estabelecidas,
uma vez que o desenvolvimento de produtos de alto valor agregado pelas empresas incubadas
contribui para o incremento da competitividade de seus clientes e, assim, para o fortalecimento
da economia local como um todo.
Conclusões
Projetos em fase de pré-incubação requerem da instituição que os acolhe uma estrutura
de apoio capaz de atender as necessidades que lhes são peculiares. Nota-se que, em especial, a
estrutura de serviços oferecidos por uma pré-incubadora a suas empresas/projetos deve ser
diferenciada; notadamente os processo de capacitação, monitoramento e acompanhamento
demonstram-se como fatores críticos ao sucesso de projetos neste estágio. Além disso, há que
se discutir mais a fundo quais os melhores indicadores de resultado a serem adotados para
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avaliar o desempenho das pré-incubadoras, visto que suas peculiaridades tornam os parâmetros
tradicionalmente adotados (faturamento médio das empresas, número de empregos gerados,
etc.) inadequados, dado o estágio de desenvolvimento das empresas ali instaladas. Ressalta-se,
assim, a importância da sedimentação de conceitos acerca dos processos de pré-incubação e
incubação de empresas, de modo que fique mais bem compreendida a complementaridade entre
as duas e otimizada sua sinergia.
Referências bibliográficas
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de casos. Brasília: ANPROTEC, 2001.
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Panorama, 2003. Brasília: Anprotec, 2003.
SILVEIRA, C. H. (Org.).
Santa Catarina tecnologia: histórias de sucesso. Florianópolis:
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SILVA, F. Q. B.; ARAÚJO, E. E. R.
Enterprise start-ups in academic departments: the gene-
sis project. Disponível em: <http://www.di.ufpe.br/~genesis>. Acesso em: ago. 1997.
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Aplicação de músculos artificiais pneumáticos em uma órtese para quadril
Claysson B. Vimieiro
Breno G. Nascimento
Henrique R. Martins
Danilo A. P. Nagem
Marcos Pinotti
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Laboratório de Bioengenharia –
Departamento de Engenharia Mecânica
Agradecimentos À Capes e ao CNPq pelo apoio financeiro
Resumo
Este trabalho está inserido no desenvolvimento de tecnologias para projetos de acessibilidade,
no intuito de minimizar o grau de dificuldade de um portador de deficiência física em se loco-
mover e realizar tarefas do cotidiano. A proposta é realizar a aplicação de músculos artificiais
pneumáticos em uma órtese para quadril. Foi selecionada uma paciente que apresenta déficit
neuro-motor resultante de Poliomielite. Foi realizado exame clínico para prescrever a órtese
adequada e para confeccionar o molde do corpo da paciente. Realizou-se cálculos cinemáticos e
dinâmicos para simulação do mecanismo. Foi desenvolvido um sistema para o controle da
compressão e descompressão do músculo pneumático, utilizando o sinal mioelétrico remanes-
cente do músculo da própria paciente. Este sinal é captado por meio de dois eletrodos e é
modulado de forma a fazer o controle do músculo
.
Palavras-chave: músculo artificial, bioengenharia, reabilitação
Introdução e objetivos
O primeiro dispositivo com o nome de músculo artificial de McKibben foi desenvolvido
em 1950, contendo um tubo que se expande cercado por cordas entrelaçadas (CHOU, 1996). O
músculo artificial de McKibben sofre compressão (no sentido longitudinal) quando é pressuri-
zado, ao contrário dos outros atuadores que se expandem. Isto se deve às suas características de
construção. Hoje, devidos aos diferentes materiais utilizados para o tubo interno e a malha
externa, eles são utilizados desde áreas industriais até na fisioterapia para a reabilitação de
pacientes.
O presente trabalho visa à aplicação de um novo conceito de Tecnologia Assistiva.
Denomina-se Tecnologia Assistiva qualquer item, peça de equipamento ou sistema de produtos,
adquirido comercialmente ou desenvolvido artesanalmente, produzido em série, modificado ou
feito sob medida, que é usado para aumentar, manter ou melhorar habilidades de pessoas com
limitações funcionais, sejam físicas ou sensoriais. Para se estudar os movimentos humanos é
necessário estudar a biomecânica do movimento.
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Utilizaram-se alguns princípios biomecânicos que segundo Hall (1991) é a aplicação das
leis físicas e matemáticas a sistemas biológicos. Isto possibilita a análise do comportamento dos
movimentos humanos.
Pacientes usuários de próteses e órteses têm se beneficiado com o advento de estudos na
engenharia (mecânica, elétrica, controle e automação) juntamente com as pesquisas feitas pela
ciência da reabilitação (fisioterapia e terapia ocupacional). Estas equipes vêm trabalhando de
forma integrada através de grupos multidisciplinares que desenvolvem equipamentos para
auxiliar os deficientes a terem maior independência, melhorando assim a qualidade de vida
destes indivíduos. Assim, com o avanço da tecnologia foi possível desenvolver um sistema
pneumático que pode ser utilizado para produzir movimento com o uso do músculo artificial
pneumático de McKibben.
Com o propósito de atender as necessidades de pessoas que apresentam perda parcial
e/ou total dos movimentos dos membros inferiores, resultante de lesões traumáticas e/ou seqüelas
motoras, este trabalho tem como objetivo a aplicação de músculos artificiais pneumáticos em
uma órtese para quadril. Estes indivíduos poderão utilizar este mecanismo como meio de auxílio
para deambulação, aumentando assim sua independência para locomoção, o que possibilita
melhores condições para realizar suas atividades de vida diária.
Metodologia
Foi desenvolvido no Laboratório de Bioengenharia da UFMG (NAGEM, 2002) um músculo
artificial pneumático composto por um tubo interno de látex que se expande com a injeção de ar
comprimido, cercado por uma malha externa entrelaçada, responsável pela contensão do tubo
interno.
Para a montagem do músculo utiliza-se um sistema de fixação já conhecido no mercado
e utilizado em sistemas pneumáticos. com conectores e anilhas. Estes conectores possuem um
tubo interno rígido onde o tubo de látex do músculo se encaixa. Tal conector possui um sistema
que direciona a anilha, fixando a malha externa sobre o tubo do conector. Conecta-se então o
tubo de látex ao tubo rígido do conector e monta-se o sistema de conexão (NAGEM, 2002). Ao
se injetar ar comprimido, o músculo pneumático se expande no sentido radial aumentando seu
raio e se contrai no sentido axial diminuindo seu comprimento.
O percentual de encurtamento está diretamente relacionado com a pressão do ar e com
a carga à qual o músculo é submetido. O aumento da carga diminui o percentual de encurta-
mento, assim como a diminuição da pressão do ar injetado.
O músculo artificial ao ser pressurizado aumenta o seu volume interno. Esta variação de
volume é conseqüência da redução do seu comprimento e aumento do seu diâmetro, e isto gera o
movimento de contração (encurtamento). Este movimento gera um potencial para realização de
força. A intensidade da força exercida pelo músculo é proporcional à intensidade de pressão
inserida.
Em uma bancada de testes, o músculo foi submetido a diversas cargas (0 a 20 kgf) e
foram medidos os percentuais de encurtamento, variando-se a pressão (0 a 7 bar).
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Dentre as diversas aplicações possíveis para os músculos artificiais de McKibben, no
presente trabalho, estudou-se a aplicação prática de uma órtese equipada com músculos artificiais
pneumáticos em uma paciente portadora de seqüelas de Poliomielite.
O vírus da poliomielite destrói seletivamente neurônios motores da medula espinhal, do
tronco cerebral, causando paralisia flácida assimétrica. Segundo (PRICE, 1997), não há cura
para a poliomielite, devendo todo tratamento ser suportivo. Dentro de uma epidemia por
poliomielite somente 1 a 2% dos casos terão paralisia motora. Entretanto, a paralisia não pode
ser curada e somente alguns esforços podem ser feitos para restabelecimento dos movimentos.
Tal paciente apresenta perda progressiva dos movimentos do quadril e dos membros
inferiores. Observa-se grande esforço realizado pela paciente para caminhar com o auxílio de
muletas canadenses, gerando assim uma grande sobrecarga nos membros superiores.
Pode-se definir órtese como um dispositivo exo-esquelético que, aplicado a um ou a
vários segmentos do corpo, tem a finalidade de proporcionar o melhor alinhamento possível,
buscando sempre a posição funcional. Adequar a órtese a uma determinada parte do corpo auxilia
na redução da fadiga, facilita a recuperação do complexo muscular e das articulações afetadas,
proporcionando melhora da função remanescente.
A observação de alguns princípios biomecânicos na confecção de órteses é fundamental
para promover o ajuste apropriado e reduzir o risco de lesões cutâneas e áreas de pressão. São
necessários conhecimentos de patologia, fisiologia, anatomia, cinesiologia e biomecânica para
a confecção e indicação correta de uma órtese. Deve existir uma pressão contínua e bem distribuí-
da, embora não deva existir pressão sobre proeminências ósseas. Deve ser feito um modelo da
órtese para cada paciente, tendo em vista que uma forma genérica raramente se adapta a todos.
Alguns cuidados devem ser tomados durante a fabricação da órtese para se obter um
produto final de boa qualidade:
deve-se sempre acolchoar a órtese nas regiões que entram em contato com proeminências
ósseas. A espuma utilizada deve ser trocada periodicamente para evitar o acúmulo de
suor e de bactérias;
as bordas da órtese podem ser dobradas para fora ou alargadas para evitar pressão sobre
a pele do paciente;
se alguma região da órtese necessitar de reforço, uma peça adicional de termoplástico
deve ser colocada nesta região;
• deve-se reservar bastante tempo para a confecção da órtese e orientação do paciente;
deve ser realizada a monitorização pós-fabricação para evitar zonas de pressão. A
pressão deve ser adequadamente distribuída. Deve-se aguardar cerca de 20 minutos após
a colocação da órtese, retirá-la e observar a coloração da pele. Não deve haver vermelhidão
ou marcas em nenhuma região;
deve ser prescrito um protocolo de tratamento explicando os períodos de utilização da
órtese e intercalando seu uso com exercícios e períodos de repouso.
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Foi confeccionada uma órtese composta por um cesto pélvico, com anteparo sobre a
crista ilíaca, para envolver o quadril dando estabilidade e evitando que a órtese se desloque no corpo
da paciente. O cesto pélvico deve ser feito em duas partes. A parte anterior que irá envolver a
região do apêndice xifóide até a região suprapúbico. A parte posterior que irá envolver o final
da região torácica até a linha glútea. Estas partes serão unidas lateralmente por fitas de velcro.
Uma haste vertical lateral irá fazer a ligação do cesto pélvico com um apoio para a coxa
ou coxal. Esta haste deve possuir uma trava para evitar o movimento de hiperextensão do
quadril. Ela também deverá ser fixada em dois pontos no cesto pélvico e também no coxal, para
dar rigidez e evitar rotação no ponto de fixação.
Para fabricação da órtese, foram utilizados os materiais convencionais na fabricação de
qualquer órtese comum. Para o cesto pélvico e o apoio para a coxa utiliza-se o polietileno. O
fecho foi confeccionado em velcro. Na haste vertical lateral utilizou-se duralumínio.
A fixação do músculo deverá ser o mais alto possível no cesto pélvico, mas sem haver
nenhum incômodo à paciente, para que se tenha um melhor aproveitamento da força do músculo.
Por meio do exame clínico, determinou-se uma altura de 20 cm acima da articulação do quadril.
Com análise a respeito da conservação de momento, pode-se observar que a posição para fixação
do músculo na coxa deve ser o mais próximo possível do joelho, pois é onde se tem o maior
braço de alavanca. Como o CM do conjunto está muito próximo ao joelho, definiu-se fixar o
músculo exatamente no ponto do CM do conjunto.
Para melhor analisar a biomecânica corporal, pode-se fazer uma relação entre hastes e
juntas representando os segmentos corporais e as articulações respectivamente. Os manipu-
ladores são hastes rígidas unidas por juntas ou articulações. No corpo humano, o membro infe-
rior pode ser considerado um manipulador.
Para a determinação dos parâmetros cinemáticos e dinâmicos do mecanismo, será
implementado um método computacional, tendo como dados de entrada variáveis específicas
para cada caso.
Para os parâmetros cinemáticos devem-se identificar quatro parâmetros importantes, que
compõem a tabela de Denavit-Hartenberg (CRAIG, 1995), sendo:
o comprimento da Haste(ai);
o ângulo de Rotação da Haste (ai, );
• a distância entre as Hastes (di);
• o ângulo da junta (q i).
Para os parâmetros dinâmicos deve-se calcular a matriz com os tensores de inércia.
O sistema de controle proposto para comandar a compressão e descompressão do
sculo, utiliza o sinal mioelétrico que ainda existe no músculo da paciente. Este sistema tem
como principal objetivo fazer uma interação paciente-parte mecânica, ou seja, fazer com que o
músculo artificial e, por conseqüência, a órtese respondam a comandos provenientes do sinal
mioelétrico do músculo do próprio paciente, sendo necessário que o sistema nervoso esteja
preservado, possibilitando assim a captura do sinal (mV) do músculo.
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Os sinais de controle provenientes de sensores que convertem as forças musculares por
intermédio de cabos ou hastes não proporcionam ao paciente movimentos naturais ou são métodos
invasivos, dependentes de cirurgias, como a cineplastia. Estes métodos também não propor-
cionam sinais que possam ser processados, extraindo mais de uma informação como os SMEs.
Isto se torna útil quando se deseja obter mais de um movimento usando-se apenas um sensor.
Resultados e discussão
Foram realizados cálculos dos parâmetros cinemáticos e dinâmicos possibilitando estudar
a órtese como uma simulação de um mecanismo robótico. Também foram realizados cálculos
para se determinar a melhor posição para fixação do músculo artificial na órtese, de modo que
se obtenha um melhor rendimento.
Com o modelo cinemático pôde-se determinar a matriz geral de transformação, que
permite obter a posição exata do mecanismo em qualquer situação pré-determinada, fornecendo-
se os valores dos ângulos de cada junta (CRAIG, 1995).
Para os cálculos dos tensores de inércia, foram necessárias aproximações para as geome-
trias dos membros inferiores. A princípio, seria usada a geometria de um cilindro para simular
os membros, mas para uma aproximação mais realista utilizou-se a geometria de um tronco de
cone. Por meio do exame clínico, foi obtido o diâmetro aproximado nas extremidades de cada
parte (coxa, perna e pé) e então desenharam-se os sólidos no software Solidworks, onde foram
realizados os cálculos da matriz de inércia.
Os cálculos dinâmicos geraram resultados para os coeficientes de inércia, da força de
Coriolis, da força centrifuga, os termos de gravidade e de perturbação (CRAIG, 1995). Cada
parâmetro se refere a determinada característica de funcionamento do mecanismo. O termo de
perturbação não foi apresentado por não ser relevante na análise.
O número de operações e equações utilizadas pelo programa para solucionar o modelo
cinemático foi de 67 operações envolvendo 42 equações. Já para o modelo dinâmico, o programa
realizou um total de 822 operações envolvendo 262 equações.
Nos cálculos para determinação do ponto de aplicação do músculo foram avaliadas as
posições, inicial e final, do membro da paciente durante a marcha. Para a posição inicial o mús-
culo, precisa fazer uma força de 15,4 Kgf para levantar o membro.
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Na posição final, o músculo precisa fazer uma força de 19,6 Kgf para levantar o membro.
Foram utilizados dois músculos na órtese para aumentar a sua eficiência, onde cada
músculo exerceu metade da força. Como cada músculo é capaz de levantar até 20 Kg, os dois
juntos levantam até 40 Kg. Logo, para a pior situação, onde a força necessária é de 19,6 Kg,
cada músculo levantou 9,8 Kg.
Para a posição inicial tem-se um comprimento de 52,0 cm para o músculo, e para a
posição final o comprimento cai para 48,3 cm. Isto resulta em um encurtamento de 3,7 cm, que
equivale a 7,15% do comprimento total do músculo. Com este percentual de encurtamento, constata-
se que o músculo é capaz de erguer o membro da paciente o suficiente para ela caminhar sem
arrastar o pé no chão.
Este movimento realizado pela órtese tem a função de produzir uma flexão no quadril da
paciente de aproximadamente 20, para que ela possa deambular sem arrastar o pé no chão.
O sistema de controle do músculo artificial utiliza o sinal mioelétrico remanescente
do músculo da própria paciente. Este sinal é captado por meio de dois eletrodos separados
por menos de dois centímetros, que detectam a diferença de potencial (d.d.p) existente entre
seus terminais no momento em que o músculo exerce alguma atividade, e envia este sinal para
uma pré-amplificação realizada por um amplificador diferencial com um alto valor de
CMRR (taxa rejeição de modo comum). Feito isso, o sinal remanescente é submetido a um
filtro analógico (NILSSON, 1999) para minimizar os harmônicos que tenham freqüência
acima de 500 Hz, porque os sinais com freqüências maiores que esta não correspondem a
sinais mioelétricos.
Em seguida, o sinal é submetido a uma nova amplificação (TEXAS, 2004). No entanto,
esta segunda amplificação será ajustada de acordo com as necessidades provenientes da defi-
ciência do paciente. Então, o sinal é demodulado (SEDRA, 2000), para enfim ser transformado
em um sinal binário após passar por um comparador de tensão (SEDRA, 2000), onde a lógica
binária 1 (10 Volts) significará “contração muscular” e a lógica binária 0 (0 Volts) significará
“relaxamento muscular”.
Como a potência do sinal mioelétrico é muito baixa, sendo esta de alguns micro-watts,
deve-se ainda amplificar a corrente do sinal de saída, por meio de um amplificador Darlington
(SEDRA, 2000), para, só então, o mesmo ser capaz de ativar a válvula pneumática que controla
o fluxo de ar dentro do músculo artificial.
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4
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Após obter a autorização do Comitê de Ética em Pesquisa, serão realizados testes de
marcha para se observar o resultado do uso do exoesqueleto. Inicialmente será utilizado o pro-
tocolo de Tinetti (1986) para auxiliar esta análise.
O protocolo tem como objetivo testar a marcha da paciente. A Tabela 1, mostra as ativi-
dades a serem realizadas para a avaliação de marcha.
Tabela 1
Protocolo de Tinetti (1986)
Conclusões
Foi possível determinar todos os parâmetros cinemáticos e dinâmicos do movimento do
membro inferior para a paciente e determinar o ponto de fixação para o músculo.
O sistema de controle do músculo mostrou-se capaz de captar o sinal mioelétrico do
músculo da paciente, amplificá-lo e modulá-lo de forma a ser utilizado no comando da
compressão e descompressão do músculo artificial.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
521
a) Início d) Continuidade do passo
0 - hesita/tentativas 0 – não
1 - não hesita 1 – sim
............................................................................. .........................................................................
b) Comprimento/altura e) Direção
Pé direito 0 - marcado desvio
0 - não passa da posição 1 - desvio leve/moderado/com apoio
1 - passa da posição 2 - sem apoio
............................................................................. .........................................................................
0 - encosta no chão f) Tronco
1 - não encosta no chão 0 - oscila/com apoio
............................................................................. 1 - flexão de joelhos ou costas/abertura de braços
Pé esquerdo 2 - sem oscilação/flexão ou abertura
0 - não passa da posição .........................................................................
1 - passa da posição g) No andar
............................................................................. 0 - tornozelos separados
0 - encosta no chão 1 - tornozelos quase se tocam
1 - não encosta no chão .........................................................................
............................................................................. Total da marcha _____/12
c) Simetria do passo .........................................................................
0 - comprimento diferente .........................................................................
1 - comprimento igual
.........................................................................
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522
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Das hortas domésticas para a horta comunitária: um estudo de caso no bairro
Jardim Oriente em Piracicaba/SP
Zildo Gallo, Economista pela PUC Campinas. Mestre e Doutor em Geociências pela Universidade
de Campinas – Unicamp. Professor da Faculdade de Gestão e Negócios da Unimep
Roberta Bottino Montolar Spavorek, Engenheira Agrônoma pela Esalq/USP. Mestre em Solos e
Nutrição de Plantas pela Esalq/USP e Voluntária do Programa de Segurança Alimentar e
Nutricional do Município de Piracicaba
Felippe Pereira Lucio Martins, Discente do curso de Ciências Econômicas da Unimep
Resumo
Este artigo é parte integrante de um projeto maior intitulado Incubadora Tecnológica de
Cooperativas Populares e tem a intenção de demonstrar que projetos de inclusão social como
hortas domésticas e comunitárias são processos interativos de aprendizagem entre todos os
envolvidos, além de beneficiar uma parte do mercado informal de trabalho deslocando seus ele-
mentos para o mercado formal. A metodologia desenvolvida é a do planejamento participativo,
que é pensado e realizado junto com a comunidade, que escolhe o melhor caminho para se
chegar ao objetivo proposto. O projeto, ao que se verá, já apresenta alguns resultados, entre eles,
a formação do grupo de trabalho da comunidade, a conscientização do trabalho comunitário,
mutirões realizados para preparação do local da horta comunitária e a conscientização de que
o empreendimento lhes pertence realmente
..
Palavras-chave: cooperativismo, segurança alimentar, economia solidária
523
Trabalho
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Introdução e objetivos
A experiência analisada neste artigo é parte integrante de um projeto maior intitulado
“Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares”, concebido mediante uma parceria multi-
institucional envolvendo professores e alunos da Universidade Metodista de Piracicaba, a Rede
Unitrabalho e a Prefeitura Municipal de Piracicaba. Tal projeto tem como objetivo transferir o
conhecimento científico apreendido pela universidade para a comunidade ou sociedade,
ampliando-o por meio de um processo de integração social que possa auxiliar uma parcela da
população a conquistar os seus direitos e honrar os seus deveres enquanto cidadãos.
A intenção deste artigo é demonstrar que os projetos “Hortas Domésticas” e “Hortas
Comunitárias” são um processo interativo de aprendizado entre todos os envolvidos. A equipe
de trabalho pretende tornar estas experiências geradoras de um novo aprendizado, futuramente
capacitando a Prefeitura e a Universidade Metodista de Piracicaba para a formação de um
número crescente de empreendimentos solidários ancorados na democracia, na liberdade, na
justiça social e na igualdade.
No Programa de Segurança Alimentar e Nutricional do Município de Piracicaba –
PMSAN, com o auxílio do Subprograma de Agricultura Urbana, estão previstas ações que
visam à produção e ao acesso a alimento seguro mediante implantação de hortas domiciliares,
comunitárias, escolares e institucionais. Entre estas ações pode-se citar o Projeto de Hortas
Domésticas do Bosque do Lenheiro – PHDBL e do Jardim Oriente – PHDJO, Projeto Horta
Comunitária da Casa do Morador de Rua – PHCCMR, do Jardim Oriente – PHCJO e o do
Parque dos Sabiás – PHCPS.
No Projeto de Horta Doméstica – PHD o que ocorre é uma parceria entre a Prefeitura
Municipal de Piracicaba e os participantes (moradores dos bairros), sendo que a primeira
oferece assistência técnica com reuniões e visitas quinzenais, bambu para cercar, composto,
esterco, insumos, sementes e mudas de hortaliças. Em contrapartida, o participante, que pode
ser qualquer pessoa da comunidade que deseja cultivar em seu quintal uma horta, se responsa-
biliza pelo cultivo das hortaliças e pelo uso da água.
Neste artigo serão considerados, então, o “Projeto das Hortas Domésticas”, que conta
com a participação de 21 famílias e o “Projeto da Horta Comunitária do Jardim Oriente”, que
possui, próximo à Escola Municipal Thales Castanho de Andrade, uma área doada pela
Prefeitura Municipal de Piracicaba com 1.800 m2, que está sendo preparada pela comunidade,
com o auxílio da Prefeitura e da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares, esta
última ligada à Universidade Metodista de Piracicaba – Unimep e à Rede Unitrabalho.
O bairro Jardim Oriente, que está localizado na região sul de Piracicaba, começou a
existir em 1998 para abrigar famílias que viviam em áreas de risco e em favelas e que tinham
renda entre zero e três salários mínimos. Foi planejado e construído através da parceria entre a
Empresa Municipal de Desenvolvimento Habitacional de Piracicaba – EMDAPH e Unimep,
dentro do Programa Auto Construção Dirigida.
Em 2001, constatou-se que, devido ao baixo poder aquisitivo das famílias que recebiam
leite do Sistema de Vigilância Sanitária – Sisvam, havia baixo consumo de hortaliças. Iniciou-
524
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se, então, no bairro um projeto de hortas domésticas, onde as famílias eram incentivadas a
cultivar hortas em seus quintais com o objetivo de melhorar a qualidade da alimentação e também
de gerar alguma renda com a venda da produção excedente.
Os objetivos dos projetos Hortas Domésticas e Horta Comunitária no Jardim Oriente são os
seguintes: a) promoção da saúde da população como um todo, através de ações educativas (ambiental,
alimentar e comportamental); b) trabalhar de forma prazerosa aspectos ambientais e sociais; c)
criação de vínculos afetivos e solidários entre o grupo envolvido e a comunidade; d) promover
a segurança alimentar do público alvo e da comunidade local; e) geração de trabalho e renda
através da produção de alimento sadio (sem defensivos agrícolas) e com um baixo custo, uma vez
que o custo do transporte do produto foi eliminado do sistema de produção; f) tornar os participantes
capazes de gerenciar o empreendimento (horta comunitária); g) elevação da auto-estima, pois com
o trabalho diário dedicado na produção de seu próprio alimento ajuda a criar a consciência das ativi-
dades cotidianas e do sentimento de identificação com o processo de construção de suas identidades,
resgatando deste modo à alegria de se viver e se sentir incluído na sociedade como um todo.
Metodologia
O Mapa da Exclusão/Inclusão Social de Piracicaba foi o instrumento de pesquisa e
planejamento que identificou áreas de maior exclusão social da cidade. Deste modo, pelos
critérios de seleção e escolha do público alvo, circunscrito nessas áreas, foram identificadas
famílias excluídas do mercado de trabalho e que, de uma forma geral, são assistidas pelos
serviços de assistência social, saúde educação e outros serviços. Então, famílias do bairro
Jardim Oriente, por conta dos critérios acima, foram selecionadas para participarem de projetos
de inclusão social ligados ao Subprograma de Agricultura Urbana.
No campo social, trabalhou-se com a metodologia pesquisa-ação participante, cuja ação
investigativa deve ser ela própria concebida como práxis, ou seja: são ações com intencionali-
dade de transformar tanto a realidade quanto o próprio sujeito da ação. Desta forma, o fazer
investigativo é também reflexivo, pois pressupõe a existência de sujeitos participantes como
seres concretos, em movimentos potenciais de transformação de suas próprias relações sociais,
consciência, atividades cotidianas; de seu sentimento de identificação e processo de construção
de suas identidades. Nestes termos, o planejamento participativo pode ser dividido em três etapas
importantes (VIEIRA, 1995):
1. a formação da consciência crítica, que contempla a fase de autodiagnóstico, com conheci-
mento de teor acadêmico e popular. Portanto essa primeira etapa pode se interpretada
como o momento de trabalhar a educação popular, educação ambiental, e a troca de conhe-
cimentos em geral, a partir de teorias críticas que possibilitem, através de dinâmicas,
reuniões, palestras, exercícios teórico-práticos, o reconhecimento dos determinismos
históricos que objetivam a exclusão social, assim como, desenvolver ocupação, transformação
e geração de produção, através das atividades propostas para efetivação das hortas. Este
momento contempla o saber popular como detentor de conhecimentos imprescindíveis
para a elaboração do trabalho;
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
525
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2. etapa de proposição de soluções para enfrentar os problemas detectados no autodiag-
nóstico, que se materializa pela capacidade de criar um projeto próprio, de ser o sujeito
capaz de realizar a práxis, ou seja, visar a uma ação que possibilite a transformação
social, pessoal e comunitária. Pois o processo de codificação e decodificação leva o
sujeito a estabelecer a percepção de que ele faz parte da realidade e que esta realidade é
o reflexo das ações de todos, passível, portanto de transformações, também a partir de
suas próprias ações. Esta etapa corresponde à perceção da necessidade da autonomia
para a sustentablidade das hortas comuntárias;
3. etapa do descobrimento da necessidade de se organizar, que se traduz pela cidadania
como meio e fim.
Nesse sentido, cabe colocar que algumas organizações da sociedade civil (Pastoral da
Criança, Instituto Polis, Instituto Ecoar e outros), com o interesse de aprimorar o trabalho
popular, desenvolveram métodos de planejamento participativo para trabalhos em grupos
(comunidade, órgãos gestores, movimentos sociais, etc.), que apresentam os seguintes princípios:
intervenção de todos; decisão partilhada; discernimento do grupo (conscientização); ação
desconcentrada.
Segundo as informações da Pastoral da Criança (2000), as experiências têm demonstra-
do que projetos participativos de segurança alimentar e nutricional tendem a ser mais efetivos
e sustentáveis quando o público alvo participa plenamente, tanto em seu planejamento e imple-
mentação como em seu seguimento e avaliação. Portanto, o método participativo proposto neste
projeto visa mostrar a todos a importância de iniciativas de agricultura urbana como estratégias
para geração de trabalho, renda, autonomia de ação, bem como o fortalecimento do Programa
Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional do Município de Piracicaba.
Algumas das famílias, estimuladas pelo aprendizado nas hortas domésticas e pela pers-
pectiva de melhoria da renda, optaram pela construção de uma horta comunitária. Abaixo segue
a tabela com o perfil dessas famílias:
Tabela 1
Hortas caseiras no jardim oriente: perfil dos responsáveis
526
Famílias
Número de
membros
Empregados
Renda
Familiar
Alfabetização
Possui horta
doméstica
Quem
auxilia
Interesse em
horta
comunitária
Família 1
8 1 R$200,00
Sabe ler e
escrever
SIM
irmã
SIM
Família 2 5 2 R$400,00
Sabe ler e
escrever
NÃO filhos SIM
Família 3
7 1 R$640,00
Sabe ler e
escrever
NÃO
ninguém
SIM
Família 4 4 1 R$240,00
Não sabe ler
e escrever
SIM marido NÃO
Família 5
2 0 R$0,00
Sabe ler e
escrever
SIM
ninguém
SIM
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Fonte: Semdes/Sema/Prefeitura Municipal de Piracicaba
A metodologia desenvolvida nestes projetos é a do planejamento participativo onde,
através de reuniões periódicas com os partícipes, o planejamento é realizado como método de
tomada de decisões, ou seja, é pensar com a comunidade qual é o melhor caminho para se
chegar ao objetivo proposto. A intervenção tem como objetivo direcionar e orientar o curso da
história, onde os sujeitos participantes são seres concretos, em movimentos potenciais de trans-
formações de suas próprias relações sociais. Os projetos participativos de segurança alimentar
e nutricional são mais efetivos e sustentáveis quando o público alvo participa plenamente, tanto
em seu planejamento e implementação como em seu seguimento e avaliação.
A organização das famílias que estão participando do PHCJO ocorreu a partir dos
participantes do PHDJO, ou seja, aqueles indivíduos que se identificaram com a produção de
hortaliças em seus quintais ou que não possuíam quintais adequados para o cultivo de uma horta
para ter uma horta e que possuíam o desejo de trabalhar em grupo, numa área maior. O processo
ocorreu desta forma porque desde a sua formação, o bairro conta com ações integradas coorde-
nadas pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semdes) e parcerias, tanto do poder
público como da sociedade civil, que visam o desenvolvimento da comunidade como um todo.
Muitas reuniões ocorreram com o objetivo de estruturar o grupo e organizar as ações. O
resumo da ata das reuniões realizadas e o número de participantes estão relacionados na Tabela 2.
Muitas dificuldades foram encontradas devido à matricida das ações e a necessidade do
comprometimento das parcerias envolvidas, bem como a falta de recursos destinado ao projeto
ficando este dependente muitas vezes de doações. Estas dificuldades estão sendo trabalhadas a
fim de que as metas sejam cumpridas e os objetivos atingidos.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
527
Famílias
Número de
membros
Empregados
Renda
Familiar
Alfabetização
Possui horta
doméstica
Quem
auxilia
Interesse em
horta
comunitária
Família 6
6 1 R$480,00
Sabe ler e
escrever
SIM
esposa
SIM
Família 7 5 1 R$400,00
Sabe ler e
escrever
NÃO esposa SIM
Família 8
6 2 R$0,00
Sabe ler e
escrever
NÃO
ninguém
NÃO
Família 9 3 0 R$0,00
Sabe ler e
escrever
NÃO filhos SIM
Família 10
9 0 R$0,00
Sabe ler e
escrever
NÃO
filhos
SIM
Família 11 10 1 R$320,00
Sabe ler e
escrever
SIM ninguém SIM
Família 12
5 1 R$850,00
Sabe ler e
escrever
SIM
ninguém
NÃO
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Tabela 2
Reuniões do projeto das hortas caseira e comunitária
Fonte: Relatórios técnicos das reuniões com os participantes dos projetos
Implantação do projeto
Os objetivos serão plenamente atingidos somente se o público alvo for envolvido desde
o início do projeto, pois só assim será formada a consciência de que o espaço que está sendo
criado lhes pertence realmente. Os vínculos criados deste modo entre os participantes e local da
horta são mais fortes. Em esquema de mutirão são realizadas as atividades necessárias para a
implantação do PHDJO. Estas atividades são: a) limpeza do terreno; b) instalação do alambrado
e portões; c) instalação da rede hidráulica; d) as construções de alvenaria (casa de máquina e
528
Data Participantes Pauta
16/07/03
11
Apresentação da equipe técnica e dos participantes. Definição das reuniões
quinzenais na Escola Municipal Thales Castanho de Andrade. Definição das
hortaliças a serem cultivadas (alface, rúcula, rabanete, coentro, cebolinha,
mostarda, beterraba, cenoura, etc.). Cadastro das famílias envolvidas com as
hortas caseiras.
24/07/03 09
Levantamento das famílias que necessitam de visita dos técnicos e das hortas
que precisam de bambu para cercar. Distribuição de mudas (alface e rúcula).
06/08/03
13
Troca de informações e orientações técnicas. Distribuição de sementes de
hortaliças. Levantamento das pessoas para ensacar calcário na ESALQ.
20/08/03
10
Reunião com a Incubadora de Cooperativas Populares, ligada à UNIMEP, para
apresentar o projeto de uma cooperativa, visando à organização do
empreendimento e à comercialização das hortaliças.
03/09/03
09
Ausência da equipe técnica. Os participantes falaram da insatisfação do
trabalho técnico, porém querem continuar com a participação deles (técnicos)
no projeto.
A reportagem no Jornal de Piracicaba a respeito do projeto causou revolta, pois
não foram avisados e não gostaram da reportagem (sentiram-se humilhados).
17/09/03 13
Os participantes querem maior transparência das ações e explicação quando as
coisas combinadas nas reuniões não ocorrem. Eles compreendem que nem
sempre é culpa da equipe técnica; questões burocráticas e políticas interferem
no processo.
12/02/04
07
Reunião da Horta Comunitária. Retomada das reuniões, pois nesse período o
projeto passou por dificuldades devido à falta de recursos. Decidiu-se por fazer
reuniões mensais para manter o grupo unido.
02/03/04 12
Discussões sobre a dinâmica do processo de produção na horta comunitária: as
decisões serão tomadas em grupo e por consenso; o grupo decidiu que necessita,
a princípio, de um coordenador; haverá livro-ponto para a assinatura diária e
cada um receberá de acordo com as horas trabalhadas; a produção, no início,
será vendida no próprio bairro; a próxima reunião será realizada após o terreno
estar preparado para o cercamento e início da produção.
31/03/04
15
Discussão sobre o funcionamento do grupo. Todos concordaram com um
sistema de cooperação e comunitário. Ficou combinado que dia 03/04 (Sábado)
um grupo de pessoas vai fazer o mutirão para limpeza da área a fim de que o
trator possa preparar a área.
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rancho para comercialização). O nivelamento do terreno, a construção dos canteiros e as aber-
turas das covas para a instalação da cerca, são as atividades operacionais e serão realizadas
pelas máquinas e implementos agrícolas da Secretaria de Agricultura e Abastecimento – Sema,
Secretária Municipal do Meio Ambiente – Sedema e da Escola Superior de Agricultura Luis de
Queiroz – Esalq. A Sema responsabilizou-se pelos postes e outros materiais necessários para a
instalação da cerca. O alambrado foi doado pela Casa do Morador de Rua de Piracicaba, uma
instituição coordenada pela Semdes, que atende as pessoas sem residência fixa. A estufa para a
produção de mudas foi adquirida pela Semdes e está em via de ser instalada.
Capacitação para a produção
A capacitação do público alvo é realizada nas reuniões onde são abordados os seguintes
temas: a) a importância da horta para a comunidade; b) métodos de produção; c) técnicas de
produção, entre outros. Estas reuniões são coordenadas pelos profissionais responsáveis pelo
projeto e membros da Incubadora de Cooperativas ligada à Unimep e à Rede Unitrabalho e
conta com a presença do assistente social do bairro contará com a presença do assistente social
do bairro. O planejamento da produção será realizado em grupo a fim de que os participantes
sejam capazes de gerenciar o empreendimento sem a tutela dos programas sociais. Entre as
hortaliças que serão plantadas estão: abóbora, alface, almeirão, beterraba, cenoura, chicória,
couve, pepino, pimentão, quiabo, rabanete, repolho, rúcula, cebolinha, salsa, coentro entre
outras. A escolha das espécies a serem cultivadas será realizada juntamente com o grupo,
existindo a preocupação com a diversificação das culturas.
Incubadora de cooperativas
As Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares surgiam a partir do Movimento
da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida entre 1992 e 1994, introduzindo as univer-
sidades na significativa movimentação social que tal ação desencadeara. Atualmente, diversas
universidades brasileiras estão desenvolvendo atividades através das ITCPs auxiliando na
montagem de cooperativas e associações. Tais universidades, com as respectivas Incubadoras,
estão integradas à Rede Unitrabalho, uma fundação voltada aos interesses dos trabalhadores, que
conta com 78 Instituições de Ensino Superior – IES, agregadas à Rede e 51 Núcleos Locais –
NL’S em funcionamento nas universidades.
Para enfrentar esse desafio, a Rede Unitrabalho adota como princípio o Programa
da Economia Solidária, cujos procedimentos orientam a formulação de Incubadoras e
Cooperativas numa lógica que busca assegurar fundamentalmente uma opção contra os valores
dominantes da competição individual e da primazia do capital sobre o trabalho, garantindo um
processo de aprendizado coletivo que vai viabilizar as atividades econômicas ou a empresa
antes mesmo que ela venha a funcionar.
A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares deverá acompanhar semanalmente
os integrantes da horta comunitária, em processo de incubação, com os seguintes objetivos: a)
assessoria no processo de divisão das tarefas; b) assessoria aos participantes no processo de
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
529
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colocação dos produtos no mercado; c) assessoria na administração contábil e financeira d)
assessoria, junto com servidores municipais, na elaboração de cursos e palestras para os partici-
pantes da horta comunitária; e) realização, ao término de cada semestre, de relatório que mostre
a trajetória do grupo, apontando os avanços, dificuldades e indicando ações futuras.
Resultados e discussão
As famílias do PHDJO aumentaram o consumo de hortaliças na dieta, com a produção
a um baixo custo e o acesso ao alimento de boa qualidade facilitado. Este alimento fundamental
para a saúde humana passou a fazer parte da sua alimentação. Os quintais, que antes tinham
entulhos, matos, etc., hoje se tornaram espaços úteis e agradáveis, mantendo-os livre de animais
peçonhentos e indesejáveis. Com isto, o projeto tem proporcionado uma melhora na qualidade
de vida e na auto-estima, gerando, ainda, para algumas famílias renda com a venda do exce-
dente da produção. Outro ponto positivo que deve ser lembrado aqui é que algumas pessoas
identificaram tanto com a produção de hortaliças, que passaram a ter o desejo de organizar uma
horta comunitária, com objetivos econômicos.
A disponibilidade de uma área para a instalação da horta comunitária e os trabalhos que
vêm sendo realizados, o nivelamento do terreno e o preparo do solo também são metas que já
foram cumpridas. O projeto já apresenta alguns resultados positivos, entre eles: a) formação do
grupo de trabalho; b) conscientização sobre o trabalho comunitário, onde os resultados serão
repartidos segundo as horas de dedicação de cada um, o que implica na necessidade da organi-
zação do controle das horas trabalhadas; c) definição de que as decisões serão tomadas em
grupo e em consenso. Outro resultado importante foi o mutirão realizado para a limpeza do terreno;
o envolvimento do público alvo com o espaço criado permitirá a conscientização de que o
empreendimento lhes pertence realmente.
Conclusão
Este artigo tratou de como a economia solidária pode ser o caminho para a geração de
trabalho e renda para a população do mercado informal. É importante ressaltar que sem a parceria
entre o meio acadêmico, o setor público e a sociedade civil este trabalho não seria possível.
A experiência no bairro Jardim Oriente, através das hortas domésticas e comunitárias,
tem mostrado que a formação de cooperativas populares, através de parcerias, incentiva a popu-
lação a melhorar a qualidade de vida, não só para as famílias envolvidas, mas também para a
comunidade local. Essas experiências podem gerar maiores fluxos de renda para a comunidade
e, conseqüentemente, criar melhores condições de vida para a população.
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Professor do Departamento de Zootecnia da UCG
Zuleika Pacheco, Pedagoga. Especialista em Educação
Universidade Católica de Goiás – UCG/Programa Universidade Solidária – UniSol
Resumo
Os pequenos produtores rurais do assentamento Cocal D’Água Quente, no Município de
Planaltina/GO, buscam soluções para problemas localizados e que estão ligados à questão
política agrária do país. São pequenos proprietários que receberam do Ministério de Desenvolvimento
Agrário o título da terra. Essa angustiada classe rural está necessitando de soluções de verdade e
que sejam mais perduráveis no tempo, isto é, medidas que, graças a sua viabilidade e realismo
possam efetivamente ser concretizadas. Através de metodologias participativas e da organiza-
ção comunitária, propomos a criação de uma Granja de Frango Caipira e instalação de
fábrica de ração e chocadeira, com o objetivo de tornar essa atividade uma das principais fontes
de renda das 39 famílias assentadas e promover o desenvolvimento sustentável e conseqüente
melhoria da qualidade de vida dessa comunidade
.
Palavras-chave: trabalho, organização, renda
Introdução
O “Projeto Organização Comunitária como Pressuposto de Geração de Renda para o
assentamento rural Cocal D’Água Quente – Planaltina/GO”, atendeu à chamada de Projetos do
VIII Prêmio Banco Real/Unisol – 2003, tendo como tema desenvolvimento sustentável com
ênfase em geração de renda buscando o fortalecimento da comunidade por meio de ações
educativas.
Atendendo ainda exigências do edital, o projeto procurou ouvir a comunidade envolvi-
da, respeitando um convênio que tem por objeto a atuação integrada da Universidade Católica
de Goiás e a Prefeitura de Planaltina-GO/Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia, que
propõem estudos, pesquisa e atividades de extensão que possam contribuir com o desenvolvimento
da comunidade na forma de assessoria e acompanhamento de ações na área de desenvolvimento
tecnológico e comunitário. Atendeu ainda critérios do edital com a constituição de uma equipe
multidisciplinar com professores, pessoal técnico e acadêmicos da UCG e, ainda, diagnóstico
prévio da comunidade.
A escolha do município de Planaltina/GO e posteriormente da Associação dos
Assentados Rurais de Cocal D’Água Quente se deu devido a um conhecimento prévio da comu-
nidade através de ações desenvolvidas pela UCG em outros assentamentos, à solicitação da
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Prefeitura através da Secretaria de Ciência e Tecnologia/Agricultura e Meio Ambiente, município
que vem investindo em estratégias para a superação da pobreza, na busca de fontes de geração
de renda e promoção do desenvolvimento local sustentável.
O assentamento rural Cocal D’Água Quente, com 39 famílias assentadas pelo Incra, foi
escolhido devido a uma série de problemas que o cerca, sendo o principal a sobrevivência
dessas famílias.
A busca de soluções desses problemas passa pelo entendimento da complexidade da
diversidade da sociedade brasileira e de que não há soluções mágicas e nem modelo único. As
soluções serão encontradas a partir do momento em que forças por parte do governo e da
sociedade civil se unirem, e, que a própria comunidade se organizar e entender a necessidade
de se tornarem cidadãos capazes de participar da vida política, social e econômica do país.
O município de Planaltina/GO está localizado na Região Geoeconômica de Brasília/DF,
sofrendo forte influência não só do Distrito Federal mas também dos municípios vizinhos.
Possui uma área de 2.539 km2, com uma população de 73.546 habitantes, sendo que 95% dessa
população vive na zona urbana, acarretando assim sérias dificuldades para a administração
pública local.
A população rural representa apenas 5% da população do Município e se organiza de
forma elementar na agricultura e pecuária. São 10 associações de pequenos produtores rurais,
sendo que os pequenos proprietários lidam com a exploração da terra e a produção de forma familiar.
Considerando a economia e o interesse dos órgãos públicos locais, contatos estabelecidos
com a Associação de Pequenos Produtores Rurais do Assentamento Cocal D’Água Quente,
alguns levantamentos foram feitos através do Departamento de Zootecnia/Programa de Extensão
Rural/UCG e Programa Universidade Solidária/UCG e algumas questões se apresentaram e sus-
citaram a elaboração de um projeto que nos levasse a articular uma proposta que contemplasse
não apenas a área técnica mas também que respeitasse a cultura local, que resgatasse a auto-
estima, a saúde e a cidadania dessa população, buscando através da organização comunitária a
geração de renda e que contribuísse com o desenvolvimento local de forma sustentável.
A Universidade Católica de Goiás entende que as universidades, sendo instituições privi-
legiadas na elaboração e produção do conhecimento, têm responsabilidade e função social
frente ao quadro que se apresenta e que requer envolvimento frente a esta nova demanda social.
Entende-se que tais demandas se apresentam dentro de um contexto social e que a universidade
deve se inserir e fazer a ligação dessa demanda social e o mundo do trabalho.
Conjugar conhecimento e trabalho não tem sido tarefa fácil para as universidades e também
para os alunos que vêem na extensão universitária um mero fazer de atividades, muitas vezes
decorrentes da desarticulação entre ensino, pesquisa e extensão. Pode-se entender nesse sentido
que a contradição entre a função original atribuída à universidade pode estar criando impedi-
mentos de melhor desempenho dos acadêmicos frente a essa desarticulação teoria e prática. É
preciso aliar conhecimento e mundo do trabalho de modo que essa produção de conhecimento
vise ao desenvolvimento, propicie assessoramento e acompanhamento de ações na área do
desenvolvimento tecnológico e comunitário.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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A intenção desse projeto foi prioritariamente envolver cursos, professores, técnicos e
alunos de graduação em uma atividade interdisciplinar, que contemplou não só a questão da
extensão na universidade, mas também outras fontes, como pesquisa e ação comunitária numa
perspectiva de contribuir para o equacionamento de problemas sociais que dizem respeito não
apenas ao governo, mas também a todos os segmentos da sociedade civil.
O projeto contou com o recurso no valor de R$20.000,00 e sua viabilidade se materializou
devido ao emprego de metodologias participativas e organização comunitária envolvendo
homens, mulheres, jovens e idosos em torno de uma matriz produtiva do assentamento, que é a
criação de frangos caipiras, fechando a cadeia produtiva da agricultura e pecuária familiar com
a instalação de uma fábrica de ração e uma chocadeira de pequeno porte. Outro aspecto que viabili-
zou a proposta é a localização da comunidade próxima a Brasília e todo o seu entorno, grande
mercado promissor para os pequenos produtores que têm nas feiras livres o seu melhor ponto
de negócios.
A proposta teve como objetivo organizar um plano de desenvolvimento sustentável
baseado na otimização dos sistemas de produção agropecuária, na maior eficiência do trabalho,
na utilização adequada dos recursos naturais, na geração de renda e conseqüente melhoria da
qualidade de vida dos assentados. É objetivo também levantar os motivos geradores do não
aproveitamento das potencialidades da comunidade, a partir do seu contexto social supondo
como variáveis: as condições socioeducativas; as demandas frente ao mercado de trabalho/
produção; a contribuição dos órgãos competentes e as agências de fomento e a própria estrutura
das organizações rurais para o desenvolvimento sustentável.
Para tanto, necessário se fez discutir e validar diferentes sistemas de produção, através
de diagnóstico participativo; viabilizar a matriz produtiva do assentamento, levando em conta a
vocação da comunidade e o mercado; identificar a relação entre o perfil do assentado e seu
desempenho produtivo; levantar fatores organizacionais e estruturais que interferem no setor
produtivo: associações e cooperativas; aperfeiçoar canais de comercialização da produção;
propor ações coletivas, apresentando alternativas de renda às famílias; melhorar a qualidade de
vida dos assentados por meio de programas de saúde do ambiente e do espaço social do assen-
tamento; apontar, através de ações, subsídios teóricos e alternativas para um projeto integrado
de desenvolvimento sustentável; viabilizar assistência técnica; apresentar alternativas de
plantios; e capacitar os produtores, em parceria com órgãos responsáveis como Senar/GO e
serviços de extensão rural, para que possam atuar como agentes de desenvolvimento.
Metodologia
Respeitando a cultura local e buscando um referencial teórico e prático, pretendeu-se
através deste projeto, consolidar uma metodologia que valorizasse o produtor como ser humano,
que é construtor de sua história e que respeitasse as diferenças das organizações sociais.
O trabalho se concretizou abordando uma metodologia participativa capaz de dar sus-
tentabilidade a um projeto coletivo com o envolvimento da equipe universitária e a comunidade,
buscando mecanismo capaz de fazer uso do conhecimento acadêmico e tecnológico ao mesmo
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tempo em que a cultura e os saberes da população sejam respeitados, entendendo o contexto
social, econômico e político em que os assentados estão inseridos.
O trabalho coletivo buscou conhecer a realidade do assentamento para posteriormente
poder planejar em conjunto, buscando reconhecer o foco dos problemas, minimizando-os e/ou,
solucionando-os na busca da geração de renda e melhoria da qualidade de vida da comunidade.
Para viabilizar a proposta de geração de renda foi preciso melhorar as condições dos
recursos naturais, desenvolvendo sistemas de manejos de solo para o cultivo das áreas, possi-
bilitando o cultivo da terra e controle da erosão e recuperação do solo degradado, buscando
alternativas que têm a função de melhorar a qualidade estrutural do solo e dos recursos hídricos
do assentamento.
Um dos pontos principais do projeto foi a discussão sobre a matriz produtiva do assen-
tamento. O interesse da comunidade estando voltado para a agricultura e a criação de frango
caipira contemplou o processo da cadeia produtiva.
A participação dos acadêmicos se deu de forma que foram capacitados para a atuação,
tornando assim, importante ponto para a execução do projeto, à medida que, a partir daí, seja
possível articular a reflexão e a ação política, discutir as transformações do trabalho no mundo
globalizado e as interferências na vida pessoal, emocional, produtiva e organizacional.
As atividades foram organizadas de forma que contemplasse uma programação que
respeitasse a participação efetiva dos assentamentos, discutindo os problemas, buscando soluções
e resoluções, compondo grupos e outras ações possíveis no decorrer da execução do projeto.
A orientação se deu no sentido de proporcionar alternativas para o maior desafio que é
a busca da autonomia, sabendo que esta autonomia se constrói partindo do princípio de que se
ensina aprendendo a ouvir, formar, capacitar, buscar recursos, implantar novas formas de produção
e comercialização, fazer estudo e análise de solo e água, orientar para produzir sem degradar o
meio ambiente e que tudo isso possa contribuir para melhorar o cotidiano da comunidade.
Para efetivar a metodologia da proposta contamos com um período de 6 meses com
encontros mensais com a comunidade, com a elaboração de subprojetos e busca de outras parcerias.
Resultados e discussão
Na área da organização comunitária as ações se constituíram primeiramente de sensibi-
lização, mobilização e organização da comunidade de assentados. Posteriormente se realizaram
cursos de capacitação, resgatando e orientando sobre associações e cooperativas, alternativas de
produção agrícola, preservação ambiental e sustentabilidade, apresentando proposta de trabalho
e procedimentos técnicos com sugestões de metodologias. Na seqüência foram dadas orientações
para a criação da granja e cursos de capacitação para que possam adquirir condições mínimas
de alimentação de boa qualidade, abrigos e equipamentos adequados, sanidade e controle de
verminose, vacinação, reprodução e melhoria genética e, ainda, orientação para plantio de milho
e sorgo para fornecimento de alimentos aos frangos e organização da estrutura física da granja.
No que concerne à assistência técnica, realizaram-se dias de campo, palestras, demons-
trações de técnicas de plantio e seleção e compra de animais matrizes e reprodutores.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Finalmente, adquiriram-se uma chocadeira e maquinário para produção de ração. Esta
etapa implicou na participação da comunidade para a definição de maquinário, sua compra e
montagem e, ainda, para repassar orientação técnica sobre seu funcionamento e manutenção.
Avaliação quantitativa do projeto
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Atividade* Metodologia aplicada Público-alvo
Número de
participantes
Duração
1. Levantamento:
1.1 Sistema de produção
1.2 Matriz produtiva
- Discussão em grupo
- Dinâmicas
- Diagnóstico
Famílias do
assentamento rural
Cocal D’ Água Quente
38 famílias
Um encontro
de 4 horas
2.Orientação técnica
2.1 Plantio do milho
- Reunião e Palestra
Famílias do
assentamento rural
Cocal D’ Água Quente
30 famílias
Um encontro
de 4 horas
3. Levantamento:
3.1 Fatores que interferem
na relação do grupo
- Dinâmica de grupo Homens e Mulheres 25 pessoas
Um encontro
de 4 horas
4. Proposta de
alternativas de renda e
economia doméstica
- Palestra
- Visitas domiciliares
Mulheres
20
mulheres
Um encontro
de 4 horas
5. Educação Ambiental
- Oficinas
- Caminhada
ecológica
- Coletas
- Palestras
Jovens e
Adolescentes
15 jovens
Cinco oficinas
de 3 horas
6. Cursos:
6.1. Condições mínimas
para implantação da
granja
6.2. A importância da água
para a saúde das famílias e
das aves
6.3. Noções básicas de
saúde e desenvolvimento
infantil
- Aulas teóricas
- Aulas práticas
- Oficinas
- Dinâmicas de grupo
- Atividades lúdicas
- Famílias
- Famílias
- Famílias e crianças
25 pessoas
25 pessoas
Três encontros
de 3 horas
Três encontros
de 3 horas
Dois encontros
de 3 horas
7. Orientações técnicas:
7.1. O funcionamento e
manutenção dos
equipamentos:
- Montagem;
- Explicações do uso;
- Usando os equipamentos.
7.2. Criando alternativas
para a melhoria da água:
- Montagem de um filtro;
- Cloração da água;
Manutenção da qualidade
da água.
7.3. Comercialização
- Oficinas
- Oficinas
- Palestras e oficinas
- Famílias
- Famílias
25 pessoas
25 pessoas
Quatro encontros
de 3 horas
Quatro encontros
de 3 horas
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Avaliação qualitativa do projeto
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Conteúdo Objetivo Metodologia Avaliação
2.2. Fabricação de
ração
2.3. Montagem,
funcionamento e
manutenção de
equipamentos
2.4. Comercialização
- Preparar alimentos
com baixo custo e
alto teor nutritivo
- Auxiliar nas etapas
de produção
- Aumentar a
eficiência
- Evitar acidentes
- Orientar sobre
vendas, exigência de
mercado para garantir
o ciclo produtivo e
rentabilidade
- Pesquisa de mercado:
feiras e comércio
- Atividades práticas
3. Curso: condições
mínimas para a
implantação da
granja/fábrica de ração
3.1. Abrigo e
equipamentos
3.2. Formação do
plantel
3.3. Alimentação de
boa qualidade
3.4. Manejo
sanitário
manejo de instalação
3.5. Criação de pintos
– incubação
3.6. Custos de
produção
3.7. Higiene e
manipulação dos
alimentos e cuidados
com a água
- Propiciar condições
ambientais favoráveis
- Indicar e adquirir
aves com qualidade
resistentes ao clima e
vegetação da região
- Aumentar ganho de
peso
- Aumentar produção
de ovos
- Prevenir contra
doenças
- Evitar mortalidade
- Garantir a
produção
- Reduzir custos
- Manter aves sob
observação
- Melhorar o índice
de natalidade
- Obter uma escala de
produção rentável
- Controlar a
viabilidade da matriz
produtiva
- Relacionar
custo/benefício e
produto final/lucro
- Evitar
contaminação
proveniente da
manipulação de
alimentos
- Criar alternativas de
tratamento de água
- Conter as despesas
domésticas
- Aproveitar recursos
que serão
desprezados
- Aulas teóricas e práticas
com utilização de recursos
audiovisuais
- Aulas teóricas e práticas
- Aulas teóricas e práticas
- Aulas teóricas e práticas
- Aulas teóricas e práticas
- Avaliamos positivamente a participação
do grupo. O trabalho se deu através da
reutilização de edificações já existentes e
de materiais disponibilizados pelo projeto.
Trabalhamos detalhadamente sobre a
importância dos abrigos bem arejados e
com iluminação adequada, a utilização
adequada dos equipamentos.
- Adquiriu-se 40 matrizes (galinhas) e 4
reprodutores (galos)
- O plantel adquirido foi bem tratado
desde o 1º dia da chegada no
assentamento. Percebemos que estão
saudáveis e já produzindo ovos. O preparo
da ração tem sido feito pelos assentados
sob orientação do professor e alunos de
zootecnia.
- Foi possível trabalhar e obter resultado
para que a produção fosse garantida.
Várias ações foram implementadas, tais
como: vacinação, limpeza diária das
instalações e equipamentos (manejo de
rotina), aplicação de vermífugo, combate
a animais roedores e predadores.
- As orientações se deram através de
apresentação de plantas para organização
dos espaços para garantir proteção
contra chuvas, calor e frio, obedecendo a
relação aves/metro quadrado, como
instalar comedouro e bebedouro.
- Foi trabalhado com grupo como usar o
equipamento para incubação — a
chocadeira: práticas adequadas;
funcionamento e cuidados com os ovos.
Foi feito seleção de ovos para garantir
uma melhor produção.
- Orientações foram dadas sobre custos
fixos e variáveis, análise mercadológica
(vendas)
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Conclusão
O “Projeto Organização Comunitária como Pressuposto de Geração de Renda para o
assentamento rural Cocal D’Água Quente – Planaltina/GO”, proposto pela Universidade
Católica de Goiás, teve como objetivo trabalhar a comunidade para a organização e geração
de renda através da implantação de uma pequena granja de frango caipira e a instalação da
fábrica de ração.
O projeto teve como objetivo viabilizar a organização da comunidade para o desen-
volvimento sustentável, baseado na otimização dos sistemas de produção, na maior eficiência
do trabalho, na utilização adequada dos recursos naturais, na geração de renda e conseqüente-
mente melhoria da qualidade de vida dos assentados. Foi prioridade levantar os motivos
geradores do não aproveitamento das potencialidades das 39 famílias, a partir do seu contexto
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Conteúdo Objetivo Metodologia Avaliação
3.8. Economia
doméstica
3.9. Noções básicas de
saúde e
desenvolvimento
infantil e Educação
Ambiental
- Enfatizar a
importância da
higiene para a saúde
pessoal e grupal
- Promover um
desenvolvimento
infantil saudável
- Mostrar a
importância das
atividades lúdicas
para o
desenvolvimento
infantil
- Despertar o
interesse para o
cuidado com o Meio-
Ambiente.
- Aulas teóricas e práticas
- Aulas teóricas e práticas
- Aula expositiva e prática
- Aulas expositivas e
práticas
- Oficinas
- Excursões/caminhada
ecológica
- Jogos e recreações
- Gincanas
- Foi desenvolvido através de palestras
com auxílio de transparências e
apresentação de uma cartilha
confeccionada pelos alunos de
Engenharia de Alimentos, abordando as
principais doenças relacionadas a
contaminação por alimentos e a água.
Montagem de um filtro alternativo.
Cloração da água.
- O trabalho se desenvolveu através de
visitas domiciliares inicialmente, onde
levantamentos foram feitos com as
senhoras. Foi mostrado a importância da
economia doméstica para evitar
desperdícios e criar alternativas de
contenção de despesas caseiras.
Receitas e fabricações de produtos de
limpeza como sabão caseiro, sabão
líquido, amaciante para roupa,
desinfetante e pasta para brilho foram
implementadas.
- O trabalho se desenvolveu de formar
interativa. Palestras sobre os temas
foram dadas, usando recursos
audiovisuais. Brincadeiras e jogos de
acordo com as etapas de
desenvolvimento das crianças foram
usadas como recursos. Distribuíram-se
escovas e pastas de dentes para as
crianças e técnicas de escovação
foram explicadas às crianças e mães.
Excursões, visitas domiciliares,
gincanas, fizeram parte integrantes dos
cursos com os adolescentes e jovens.
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social, considerando as condições socioeducativas da comunidade. Estas famílias se organizam
como casais com média de três a quatro filhos; viúvas e com filhos solteiros; homens sem
família (família mora na cidade) e outros. O assentamento está a 26 km distante da cidade de
planaltina/GO, acesso via estrada de terra com bom estado de conservação.
Para atingir os objetivos propostos foram usadas metodologias participativas como cursos
de capacitação e atividades práticas, dinâmicas de grupo procurando valorizar a cultura da população,
resgatando assim sua auto-estima e melhorando a convivência e qualidade de vida entre eles.
As dificuldades se deram apenas na etapa inicial da execução do projeto tais como:
grupo desmobilizado e separado em duas associações. dificuldades para reunir o grupo em torno
do projeto. A partir da implementação das ações, o grupo convergiu para uma única associação.
As visitas às casas foram de grande importância para que a equipe ganhasse credibilidade e confiança
por parte da comunidade.
O projeto atingiu a meta de atendimento às 39 famílias através da implantação da granja e
brica de ração; da melhoria da qualidade da água; envolvimento de jovens na questão ambiental;
crianças através de atividades lúdicas e informação sobre higiene.
A comunidade se mostrou receptiva para receber informação e participar das atividades
propostas. Houve uma melhoria na relação entre eles, uma maior interação se deu. Percebe-se
que houve um despertar para a busca da melhoria de vida na comunidade. Podemos apostar:
grande interesse nas atividades de implantação da granja, participação no projeto de tratamento da
água, mães, adolescentes e crianças mais conscientes e participativos, os acadêmicos tiveram a
oportunidade de conhecer a realidade da comunidade bem como de fazer um verdadeiro exercício
de cidadania.
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São Carlos: UFSC, [s.d].
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NOGUEIRA, M. das D. P. (Org.).
Extensão universitária: diretrizes conceituais e políticas.
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540
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Processo socioeducativo de organização comunitária para cidadania nas
comunidades ribeirinhas do Município de Maués — Estado do Amazonas
Maria P. Socorro R. Chaves, Assistente Social. Doutora em Política Científica e Tecnológica
Unicamp/Cired. Msc. em Sociologia. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Inter-Ação/
DSS/UFAM. Docente do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal do Amazonas
Andréia Santos Cavalcante, Assistente Social. Especialista em Gestão de Políticas Sociais
Maria Francenilda Gualberto de Oliveira, Assistente Social Especialista em Gerontologia
Anália Sampaio, Acadêmica de Serviço Social
Silvana Compton, Acadêmica de Serviço Social
Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Amazonas
Resumo
O trabalho apresenta a experiência de extensão do projeto intitulado “Processo
Socioeducativo de Organização Comunitária para Cidadania nas Comunidades Ribeirinhas
do Município de Maués” — Estado do Amazonas, da Pró-Reitoria de Extensão da
Universidade Federal do Amazonas – UFAM, iniciado em janeiro de 2002 e concluído em
dezembro de 2003. Cujo objetivo geral foi desenvolver ações de conservação dos recursos locais
através de atividades socioeducativas de valorização dos saberes locais e na identificação e imple-
mentação de novas técnicas. O projeto foi desenvolvido pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos
Socioambientais e de Desenvolvimento de Tecnologias Apropriadas na Amazônia – Grupo
Inter-Ação. A metodologia abrangeu um conjunto de ações socioeducativas de extensão, desen-
volvidas nas comunidades ribeirinhas situadas no Município supracitado. O projeto serviu
como espaço de produção técnica-científica de conhecimentos sobre a realidade das comu-
nidades, oportunizando aos acadêmicos, técnicos e docentes o desenvolvimento de atividades,
articulando o conhecimento teórico-metodológico com a prática; servindo de apoio às iniciativas
das comunidades locais no desenvolvimento de ações que atendessem suas demandas, interesses
e necessidades de acesso a bens e serviços sociais (educação, saúde, assistência técnica)
.
Palavras-chave: ações socioeducativas, extensão, organização
Introdução e objetivos
As populações do meio rural amazônico compõem um quadro com características
plurais; em termos de diversidade social, têm-se índios, ribeirinhos, pescadores e migrantes de
todas as regiões do Brasil. O Estado do Amazonas é formado por uma diversidade de agrupa-
mentos rurais de pequeno porte, compostos por populações tradicionais que habitam às margens
dos rios e seus tributários, tais agrupamentos são nominados como comunidades ribeirinhas.
Considera-se que há em torno de 200 mil comunidades na região (dados pesquisa Programa
Trópico Úmido e Ministério de Ciência e Tecnologia, 2000) assim caracterizadas, o que
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corresponde a 20% da população total do Estado e abrigam em média 20 famílias, mas o
número de famílias varia entre 05 a 500. A extensão geográfica e a dificuldade de acesso, além
da ausência de políticas públicas para viabilizar o acesso a bens e serviços sociais (saúde, edu-
cação, entre outros) que contemplem as necessidades dessas populações de modo satisfatório,
as relega a uma condição de extrema carência, e mesmo quando têm acesso a tais bens, viven-
ciam a precariedade destes. Estes últimos, de um modo geral, formam um contingente que foi,
por diversos meios, expropriado da terra em outras partes do país. As comunidades são assim
reconhecidas por possuírem pelo menos uma igreja e a escola primária com cursos multisseriados
de 1a a 4a série. O Município de Maués, no qual o trabalho foi realizado, está localizado na 8ª
sub-região — Médio Amazonas —, possui uma área de 40.163,8 km2, correspondentes a 2,5%
do Estado e 32,4% da área norte sudeste; sua população está estimada em 32.286 habitantes,
dos quais 51% vivem na zona urbana, o que representa o segundo maior contingente popula-
cional da área norte sudeste. A sede do Município está situada à margem direita do rio Maués-Açu,
a 267 km em linha reta e 356 km por via fluvial de Manaus. O Município de Maués possui cerca
de 160 comunidades rurais, há no Município 13 associações de produtores rurais, 1 cooperativa,
1 sindicato, 1 associação de criadores de gado e cerca de 800 pescadores registrados. O tempo
de deslocamento para as comunidades ribeirinhas do rio Parauari, por via fluvial — de Manaus
para a sede do município de Maués — fica em torno de 18 horas; da sede do Município de
Maués até a 1a comunidade — Acaoera — 6 horas; da sede do Município até a última comu-
nidade, Santo André, 18 horas. Por via aérea de Manaus para a sede do Município de Maués
dura 45 minutos. Para as populações locais a adaptação ao meio ecológico torna-se possível
graças aos conhecimentos acumulados sobre o território e as diferentes formas pelas quais os
recursos naturais são transformados via processo de trabalho.
No desenvolvimento das atividades produtivas pelos ribeirinhos constituem-se múltiplas
formas de manejo dos recursos, das quais se derivam práticas diferentes e complementares.
Estas dão sustentação para a reprodução do grupo, ao mesmo tempo em que possibilitam a con-
solidação de princípios culturais de integração à natureza e formas apropriadas de manejo. Em
face da acelerada degradação dos recursos naturais e do conjunto de implicações diretas e
indiretas sobre as populações locais, torna-se imprescindível e urgente apoiar as formas de
organizações para desenvolvimento local, pois estes caracterizam diversificadas formas de:
aproveitar/otimizar o uso de materiais e produtos locais; implementar ações educativas com
ações práticas e viáveis; criar estratégias inovadoras de otimização do uso de energéticos;
subsidiar a formulação de políticas sociais públicas e privadas; reivindicar o apoio de órgãos
governamentais e empresariais. Assim, as atividades de extensão deste projeto instituíram um
processo socioeducativo de organização comunitária para cidadania voltada para o desenvolvi-
mento socioambiental das comunidades ribeirinhas, cujo principal objetivo foi desenvolver
ações de conservação dos recursos locais através de atividades socioeducativas de valorização
dos saberes locais e na identificação e implementação de novas técnicas; capacitar os produ-
tores através da formação de formadores; fomentar ações de organização para construção de
alternativas de produção de renda com aproveitamento dos recursos locais, inclusive rejeitos;
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apoiar gestões para constituição de novas parcerias para obter acesso a bens e serviços sociais
coletivos nas áreas de saúde, educação, equipamentos comunitários, adoção de tecnologias
apropriadas e produção agrícola.
Metodologia
Na condição de projeto de extensão adota-se uma dupla finalidade, de um lado, servir
como espaço de produção técnica-científica de conhecimentos sobre a realidade das comu-
nidades e, de outro, tornar-se apoio às iniciativas das comunidades locais no desenvolvimento
de ações que atendam suas demandas, interesses e necessidades por bens e serviços sociais.
Essas duas funções têm caráter indissociável entre si, pois a produção técnico-científica sobre
a realidade das comunidades servirá para a obtenção de conhecimento, de subsídios para busca
de estratégias para o desenvolvimento social das referidas comunidades. Desta maneira, no
escopo deste, apresenta-se em linhas gerais as orientações de natureza técnica e científica do
projeto, tendo em vista que este pretende se consolidar como: a) área de extensão universitária
com atividades de formação comunitária e profissional; b) campo de estágio curricular e
extracurricular para diversos cursos profissionalizantes; c) campo piloto de pesquisa-ação,
pesquisa social aplicada nas áreas sociocultural, econômica, agrícola, tecnológica, ambiental
entre outras. A metodologia de trabalho caracterizou-se por fomentar a participação e represen-
tou uma tentativa de articular ações de apoio à gestão comunitária e de acesso aos bens e
serviços sociais, bem como oportunidade para acadêmicos, técnicos e docentes na realização de
um conjunto de atividades articuladas às necessidades das comunidades nas áreas de: saúde,
educação, organização comunitária, entre outras. Os procedimentos e as técnicas de coleta
servem para desencadear a participação e o engajamento dos envolvidos, considerando as
particularidades da organização local. A sistematização da totalidade dessas informações serve
para a formação de um banco de dados que irá subsidiar as fases subseqüentes do trabalho. Para
tanto, as atividades desenvolvidas foram: diagnóstico local participativo: realizado a partir de
visitas domiciliares com aplicação de formulários (com questões abertas e fechadas), história
oral, trabalhos com dinâmicas de grupo. Tais atividades buscaram desencadear a participação e
o engajamento dos comunitários, o que subsidiou as fases subseqüentes do trabalho. O que
tornou possível mapear a estrutura social das comunidades (número de moradores, divisão por
geração), que está assim dimensionada: Monte Sinai – número de famílias: 13, número de pes-
soas: em torno de 95 (25 crianças e 70 jovens e adultos); Vila Nova – fundada em 1989 possui
15 famílias, número de pessoas: em torno de 90 (22 crianças e 68 jovens e adultos); Santo André
– número de famílias: 12, número de pessoas: em torno de 95 (25 crianças e 70 jovens e
adultos); Vila Darcy – número de famílias: 23, número de pessoas: em torno de 130 (40 crianças
e 90 jovens e adultos); Acaoera – número de famílias: 16, número de pessoas: em torno de 110
(aproximadamente 30 crianças e 80 jovens e adultos). Assim, a fase após o diagnóstico propor-
cionou a elaboração do Plano de Ação. O desenvolvimento do Plano decorre do encadeamento
entre os processos socioeducativo, de monitoramento (acompanhamento e apoio nas ações).
Para assegurar as condições de compatibilidade com os objetivos do Plano, nesta parte, a partir
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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da avaliação técnica dos recursos para investimentos, das condições e do horizonte temporal
disponíveis, faz-se a montagem da estrutura operacional, com a elaboração de instrumentos e
técnicas para ação, e a definição dos critérios para avaliação sistemática. A execução do Plano
de Ação aciona, simultaneamente, a negociação entre os atores, o estímulo à participação/enga-
jamento dos comunitários, a implementação das atividades técnicas, o processo de formação
para criação de competência técnica e fortalecimento das capacidades locais, a ativação dos
mecanismos de monitoramento e de avaliação. Durante o desenvolvimento do Plano, de acor-
do com a dinâmica posta em prática, outras demandas podem aflorar. A partir de uma avaliação
criteriosa dos envolvidos, a incorporação das demandas emergentes pode determinar ganhos
importantes no trabalho. A articulação entre as várias frentes, ou esferas de ação que compõem
o Plano, propicia a otimização de instrumentos, ações e técnicas, a simplificação de operações
e autonomia de produção e gestão local. O mérito dessa metodologia consiste em apoiar a
gestão comunitária e, ao mesmo tempo, captar alguns de seus princípios e tomá-los como ori-
entação de trabalho (rede de ajuda mútua, coletivização do trabalho). Seu molde, similar a um
programa social (com ações integradas de serviços sociais), requer a participação dos usuários
não de modo secundário, mas como protagonistas na determinação dos rumos a serem assumi-
dos. Dentre as orientações prioritárias do projeto está o caráter de sustentabilidade e autonomia
das comunidades a ser construído e buscado. O modelo de trabalho desenvolvido pode ser
observado no esquema a seguir apresentado.
Metodologia de gestão participativa
544
DIAGNÓSTICO LOCAL
PROCESSO SOCIOEDUCATIVO
FORMAÇÃO DO BANCO DE DADOS
DESENVOLVIMENTO DO PLANO DE AÇÃO
Identificar os aspectos:
– Político-institucional
–Sociais
–Econômicos
–Energéticos
–Ambientais
Identificar, dimensionar as
potencialidades:
– Técnicas
– Energéticas
– Econômicas
– Ambientais
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Resultados e discussão
Evidenciou-se nessas comunidades a necessidade de desenvolver atividades que viabi-
lizassem a construção de alternativas de produção de trabalho e renda, baseando-se no fato de
que os recursos monetários são muito limitados, associados à falta de infra-estrutura de bens e
serviços sociais. Pois, em termos de manutenção da família, as atividades de complementação
de renda se revestem de importância estratégica, as quais requerem alternativas diversificadas,
que ao mesmo tempo precisam ter características peculiares em função do contexto e dos agentes
sociais envolvidos. Dentre as orientações prioritárias do projeto, as atividades se pautaram no
caráter de sustentabilidade e autonomia das comunidades a ser construído e buscado (CHAVES,
2002). Dessa forma, o projeto consistiu em apoiar a gestão comunitária e, ao mesmo tempo,
captar alguns de seus princípios e tomá-los como orientação de trabalho (rede de ajuda mútua,
mutirão, coletivização do trabalho), entendendo que a participação dos comunitários, como pro-
tagonistas na determinação dos rumos a serem assumidos, possibilitou alcançar melhores resultados
no término das atividades, bem como, a elaboração de uma proposta de trabalho. Assim, o projeto
abrangeu um amplo processo socioeducativo de extensão interdisciplinar, tomando como referência
a extensão universitária como questão importante na percepção de problemáticas relevantes no
plano societal, ao buscar desenvolver ações mediante desafios reais a partir da identificação das
potencialidades locais (recursos, saberes, habilidades). A implantação do Plano de Atividades
teve como resultado a participação de todos os envolvidos e a obtenção dos seguintes resultados:
Na área de organização
A formação/capacitação de agentes comunitários de saúde, apoio didático-pedagógico
aos professores locais; realização de dinâmicas de sensibilização com músicas, dramatizações
e sociometria; curso de relações humanas; oficina de liderança; reuniões para estruturação de
alternativas de produção de renda; orientação para a formação de cadeia produtiva de artesanato;
curso de alimentação alternativa.
Na área educacional
Realização de ações educativas com dinâmicas de grupo, de apoio aos professores rurais,
com orientação sobre o conteúdo didático e a produção de materiais didáticos voltados à realidade
local; oficina de brinquedo com recursos locais; encontros recreativos e debates educativos;
atividades de dramatização e pintura; dinâmicas de grupo com desenho para montagem de cartilha.
Na área de saúde
Realizaram-se campanhas educativas; oficinas (com técnicas de abordagem grupal) para
formação de agentes comunitários de saúde no trato da saúde dos idosos, das crianças e ado-
lescentes e de jovens e casais; campanha de saúde bucal para casais, jovens e adultos; curso de
saúde reprodutiva e planejamento familiar; atividades de dinâmicas de grupo com idosos abor-
dando os aspectos biopsicossociais do envelhecimento e do papel do idoso na família e na comunidade;
atividades lúdicas, psicomotoras, para debater o tema de sexualidade e drogas; organização de
farmácia comunitária nas comunidades.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Avaliação sistemática
A avaliação foi um instrumento fundamental no decorrer do projeto para avaliar o
processo operacional das atividades propostas, bem como a efetividade de sua operacionalização,
possibilitando o aperfeiçoamento das ações; Para produção de trabalho e renda foram formados
03 Clubes de Mães, a Associação de Arte Cabocla, com a produção de artesanato e aproveita-
mento de rejeitos agrícolas, uma horta comunitária de plantas medicinais (mais de 100 espécies).
Em termos de manutenção da família, as atividades de complementação de renda se revestem
de importância estratégica. Estas requerem alternativas diversificadas, que ao mesmo tempo
precisam ter características peculiares em função do contexto e dos agentes sociais envolvidos.
No presente projeto, pretendeu-se superar tais limitações ao se buscar encaminhar soluções de
produção de renda que proporcionem a otimização da produção e redução do esforço através de
tecnologias simples e de baixo custo e que não comprometam as condições de sobrevivência
dos grupos. Para tal, foram potencializadas e valorizadas as iniciativas criadas pelos próprios
grupos como embrião para soluções comunitárias. A necessidade de desenvolver atividades de
produção de renda nas comunidades se baseia no fato de que os recursos monetários são muito
limitados e associados à falta de infra-estrutura de bens e serviços sociais, o que torna as
condições de vida muito precárias. A maioria dos grupos domésticos recorre ao trabalho
acessório para assegurar a reprodução de sua família. Neste contexto, os mecanismos para
aumento e/ou complemento de renda e das formas de consumo, ou seja, do dispêndio do grupo
doméstico com alimentação, vestuário, educação e habitação são identificados como estratégias
de sobrevivência. Em termos de manutenção da família as atividades de complementação de
renda se revestem de importância estratégica. Estas requerem alternativas diversificadas que ao
mesmo tempo precisam ter características peculiares em função do contexto e dos agentes sociais
envolvidos. A designação de estratégias de sobrevivência serve para identificar as atividades de
trabalho complementares, subsidiárias ao tipo de produção que o grupo exerce tradicionalmente.
No entanto, em termos financeiros, a atividade principal pode render menos que a subsidiária,
ou seja, o fator econômico não é o único determinante da representação que o grupo adota para
eleger sua atividade principal. As atividades apontadas como estratégias de sobrevivência variam
de grupo para grupo. A representação do que seja atividade subsidiária e principal toma como
referência variados aspectos, desde a natureza social e cultural até os que conformam status quo
do grupo no interior da comunidade. Mas as estratégias de sobrevivência identificadas nas
práticas dos agricultores na região portam igualmente elementos negativos ao próprio grupo.
Se, por um lado, fornecem opções alternativas para produção de renda suplementar, por outro,
pode gerar sobrecarga de trabalho aos integrantes do grupo e a “privação de determinadas
necessidades básicas”. A renda conseguida, por exemplo, com a venda de produtos de base alimentar
do grupo doméstico, como os doces caseiros, o “beiju” e o “pé de moleque” os torna escassos
aos integrantes do grupo familiar. Portanto, algumas soluções adotadas são paliativas, conquistas
parciais, individuais e não comunitárias, coletivas. Para tal, objetivou-se potencializar e valorizar
as iniciativas criadas pelos próprios grupos como embrião para soluções comunitárias. Pois a
vida comunitária permitia que a estratégia usada por um grupo doméstico fosse adotada pelos
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demais comunitários. No que se refere ao trabalho comunitário coletivo, a realização de ativi-
dades em geral foram coordenadas pelas entidades organizativas locais a partir de reuniões,
assembléias, “mutirões” e “ajuris”. A prática do “mutirão” qualifica-se como serviço para cole-
tividade, o trabalho compartilhado para usufruto de todos os membros da comunidade. Em
geral, pratica-se o “mutirão” em áreas de domínio da coletividade, em equipamentos comunitários
(escolas, centros comunitários). No “ajuri”, o trabalho realizado pelos comunitários, de maneira
coletiva, tem seus resultados partilhados. Em geral, realizado em áreas coletivas, destina-se a
contemplar as necessidades do grupo cuja divisão se faz de acordo com as necessidades dos grupos
domésticos. De um modo geral, as modalidades de trabalho comunitário se caracterizam como:
formas de cooperação laboral praticadas pelos comunitários; padrão de divisão dos frutos do
trabalho cooperativo de acordo com as necessidades dos grupos; estratégia de ação coletiva para
potencializar a força de trabalho do grupo doméstico; formas diversificadas de produção reali-
zadas de acordo com os ciclos dos produtos (plantio, colheita) e da natureza (inverno e verão);
esforço coletivo requerido por determinadas práticas produtivas e comunitárias (construção de
equipamentos, construção de hortas). A dinâmica de gestão comunitária se configura a partir da
identidade sociocultural dos agentes sociais, das relações que estabelecem entre si (nas ativi-
dades produtivas, de troca entre os grupos domésticos, nas entidades organizativas), com a
natureza circundante e também com o contexto externo. Nesta perspectiva, as formas de orga-
nização sociocultural e política das comunidades na Amazônia, em suas singularidades,
abrigam mecanismos e práticas que podem servir como instrumentos para a construção de alter-
nativas e soluções para atender suas necessidades de bens e serviços sociais. Entende-se que a
gestão comunitária é um atributo importante para a busca de mudança nos padrões atuais de
acesso aos bens coletivos de consumo nas comunidades isoladas da Amazônia. Assim, com-
preende-se que as comunidades se constituem como espaço organizativo peculiar, no qual seus
atores estabelecem o manejo coletivo dos recursos materiais, orientados por seus saberes e em
bases comunicativas e cooperativas. Neste sentido, o ordenamento concreto de uma comunidade
em certa medida representa a afirmação explícita da capacidade de expor suas prioridades, afirmar
formas de atendimento requeridas e, também de identificar novos usos, desenvolver técnicas
simples, enfim, modos de consumo mais adequados às suas necessidades. A dinâmica comunitária
potencializada a partir de ações sociopedagógicas propiciou a busca por mudanças nos padrões
atuais de produção e de acesso aos bens coletivos de consumo.
Conclusões
O projeto se desenvolveu com a finalidade de: servir como espaço de produção técnico-
científica de conhecimentos sobre a realidade das comunidades, oportunizando aos acadêmicos,
técnicos e docentes o desenvolvimento de atividades, articulando o conhecimento teórico-
metodológico com a prática; tornar-se apoio às iniciativas das comunidades locais no desen-
volvimento de ações que atendessem suas demandas, interesses e necessidades por bens e
serviços sociais (educação, saúde, assistência técnica). As atividades desenvolvidas — de socia-
bilidade e organização — tomaram como referência que as formas de organização sociocultural
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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am servir, mediante apoio técnico, como instrumentos para a construção de alternativas
e soluções para atender às necessidades produtivas e organizativas existentes. As soluções estiveram
centradas na organização para a produção de renda e no acesso a bens e serviços sociais (esco-
las, postos de saúde, entre outras), enquanto elementos essenciais para a estruturação da cidadania
das populações locais (CHAVES, 2002). Isso posto, ressalta-se que as comunidades ribeirinhas
constituíram-se como espaços de organização, produção e reprodução social, observando-se
que os comunitários estabelecem o manejo coletivo dos recursos locais, orientados por seus
saberes e habilidades em bases comunicativas e cooperativas. Neste sentido, o presente projeto
buscou contribuir para afirmação de ações de cidadania e fortalecimento das capacidades e
habilidades locais para buscar soluções para as limitações materiais existentes, encontrar
formas de atendimento destas e, também, de formular novas modalidades de uso com o desen-
volvimento de técnicas simples. Essa experiência permitiu considerar que a extensão univer-
sitária possibilita o envolvimento e a articulação de diferentes dimensões da produção e
socialização do conhecimento, criando as condições essenciais para o processo de formação de
discentes e de espaço de exercício de ensino-aprendizagem para os docentes. Outrossim, com
base nesta lógica de extensão, as ações desenvolvidas favoreceram a aliança entre atividades de
natureza acadêmico-científicas, a formação profissional e a sociedade.
Referência
CHAVES, M. P. S. R. Processo sócio-educativo de organização para a cidadania nas comu-
nidades ribeirinhas do município de Maués – Estado do Amazonas
. Manaus, AM:
Universidade Federal do Amazonas/Departamento de Serviço Social. Grupo de Pesquisa
Inter-Ação, 2002.
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O Programa de Implantação de Micro e Pequenas Agroindústrias no Semi-
Árido Paraibano: um instrumento de inclusão social
Carlos Minor Tomiyoshi, Doutor em Engenharia Mecânica
Vicente de Paulo Albuquerque Araújo, Especialista em Recursos Hídricos
Geneceuda Ferreira Monteiro, Especialista em Pedagogia. Fundação Parque Tecnológico da Paraíba
Universidade Federal de Campina Grande – UFCG
Resumo
Este trabalho relata uma experiência realizada pela Universidade Federal de Campina
Grande, através do Programa de Estudos e Ações para o Semi-Árido, em parceria com a
Fundação Parque Tecnológico da Paraíba, denominado Programa de Implantação de Micros e
Pequenas Agroindústrias no Semi-Árido Paraibano. Um programa que trata da verticalização
da produção agropecuária de base familiar na faixa territorial sujeita às secas periódicas na
Paraíba, inserindo-a integralmente na cadeia produtiva, agroindustrializando e comerciali-
zando a sua produção. Difundindo, nas localidades do semi-árido paraibano onde atua, trans-
formações substantivas no espaço da agricultura familiar tradicional, com a missão de gerar
empregos e renda. Diante das condições socioeconômicas e políticas que se instalaram na história
da agropecuária da região, o programa implementa um novo tempo de realizações à medida
que aplica à pequena produção de base familiar dos sertões paraibanos a visão sistêmica do
agribusiness, o que faz considerar também os empecilhos burocráticos, políticos e ideológicos
como decisivos para o sucesso ou fracasso de quaisquer empreendimentos produtivos. Essas ações
levam às comunidades de agricultores familiares uma nova modalidade de acompanha-
mento, além da técnica, também é dada a assistência administrativa e mercadológica
.
Palavras-chave: verticalização, agroindustrialização, agricultura familiar
Introdução e objetivos
Um imenso contingente de homens e mulheres no espaço rural desenvolve atividades
agropecuárias, agroflorestais e aqüícolas em pequenos empreendimentos de natureza e escala
predominantemente familiar. Historicamente, eles têm sido responsáveis pela produção de ali-
mentos, colocados à disposição das populações rurais e urbanas do Brasil. No entanto, foram
sistematicamente excluídos dos meios básicos para o seu desenvolvimento humano e tiveram
limitados os acessos aos circuitos da inovação tecnológica, créditos e dos mercados nacional e
internacional. Os seus talentos e a coragem têm sido fatores responsáveis pela sobrevivência no
campo, onde as escassas e inadequadas políticas públicas foram, ao longo do tempo, a eles
dirigidas.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Nos últimos anos, novas características no espaço rural brasileiro têm se revelado. O
espaço rural deixou de ser exclusivamente um mundo agrícola. Há uma tendência visível de
redução de pessoas ocupadas na agricultura e um aumento no número de residentes no campo
com atividades não-agrícolas, apesar de a maioria dos domiciliados rurais ainda serem pre-
dominantemente agrícolas. Observa-se, de uma maneira geral, que há um redimensionamento
da estrutura social de muitas localidades e, conseqüentemente, uma nova interação entre ativi-
dades agrícolas e não-agrícolas, no meio rural. O lugar e o papel das unidades de produção
familiar deixaram de ser percebidos apenas sob o ângulo das relações de produção agrícola.
O desafio fundamental em relação aos agricultores familiares, no Brasil, é o de criar um
ambiente institucional favorável à expansão e ao desenvolvimento dos mesmos, de modo a
enfrentar os desafios da exclusão que os vêm atingindo. Essa exclusão pode ser explicada, prin-
cipalmente, pelas seguintes condições: o domínio dos lucros das cadeias produtivas do
agronegócio pelos agentes industriais e de distribuição, penalizando e inviabilizando os produ-
tores agrícolas de pequena escala; a modernização da agricultura, via intensificação do uso de
máquinas e implementos, substituindo a mão-de-obra dos agricultores familiares; e a atuação
das agroindústrias integradoras, exigindo escala crescente dos integrados ou a sua migração, ou
a redução da produção.
O Programa de Implantação de Micro e Pequenas Agroindústrias no Semi-Árido
Paraibano insere-se neste contexto como um programa de desenvolvimento no espaço rural
onde o cenário é de pobreza e desemprego. Porém, o programa acredita que, nesse espaço,
existem vários locais e pessoas com potencial produtivo. E acredita que pode contribuir para a
construção da cidadania no campo, a modernização do interior e a segurança alimentar da
sociedade brasileira. O seu objetivo é o fortalecimento e a melhoria de vida dos agricultores do
semi-árido paraibano mediante à criação de oportunidades de ocupações produtivas, possibili-
dade de reconversão, geração de renda de forma desconcentrada, uso sustentado dos fatores
ambientais, redução da migração campo-cidade, ampliação do acesso aos bens e aos serviços
públicos, modernização do processo produtivo e redução das desigualdades sociais.
Metodologia
Localização das agroindústrias
O semi-árido paraibano, que ocupa mais de 70% do território do Estado da Paraíba, para
melhor caracterizar as diferenças de clima, vegetação e solo, é dividido em 6 meso-regiões. As
comunidades e os assentamentos rurais onde o programa atua estão situadas dentro dessas
meso-regiões e mais, dentro da bacia hidrográfica mais representativa:
• Região do Cariri – Bacia do Rio Sucuru;
• Região do Curimataú – Bacia do Rio Guandu;
• Região da Depressão Sertaneja – Bacia do Riacho de Santa Gertrudes;
• Região de Catolé do Rocha – Bacia do Rio Jericó.
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Critérios para seleção das comunidades
No ano de 1998, após já ter identificado as regiões representativas das diferentes carac-
terísticas do semi-árido paraibano e a principal bacia hidrográfica, em cada uma delas, uma
equipe multidisciplinar e interinstitucional visitou todas as comunidades rurais situadas dentro
daquelas bacias hidrográficas e selecionou 10 comunidades rurais e 2 assentamentos rurais,
consideradas como as mais carentes.
Cursos de capacitação como instrumento de aproximação com as comunidades
Praticamente, todas as comunidades selecionadas já tinham experimentado algum tipo
de ação decorrente de programas governamentais. Porém, enquanto havia dinheiro algumas
ações eram realizadas. À medida que os recursos iam escasseando, na mesma proporção
acontecia com as ações. Havia uma evidente decepção dos comunitários com os programas
governamentais que nunca alcançaram as metas prometidas. Portanto, não havia clima para
chegar nessas comunidades com mais uma promessa.
Como instrumento de aproximação da equipe do UFCG/Peasa e da Fundação PaqTcPB
com as comunidades selecionadas foi oferecida a eles a oportunidade de escolher cursos de
capacitação de interesse da comunidade. Cada comunidade poderia indicar até 10 cursos.
Esses cursos possibilitaram o conhecimento mútuo entre a equipe e a comunidade, per-
mitindo, ainda, a identificação das principais lideranças formais e não-formais, as articulações
e atritos políticos, suas vocações produtivas e uma primeira avaliação das condições sociais,
econômicas, educacionais e culturais. A contrapartida da comunidade nesses cursos era sele-
cionar os alunos, organizar o local de realização, além de hospedar e dar a alimentação do
instrutor. No primeiro ano, os cursos de treinamento e capacitação buscaram atender uma
demanda local generalizada, mas a partir da identificação da vocação de cada uma delas, os
treinamentos foram mais específicos visando atender aos objetivos da agroindústria a ser
implantada.
Realização do diagnóstico socioeconômico e o Estudo de Viabilidade Técnica e
Econômica – EVTE das vocações identificadas
Após a identificação da vocação das quatorze comunidades, em 1998, foi realizado o
levantamento socioeconômico das populações dessas comunidades, através do Diagnóstico
Rápido Participativo – DRP. Com recurso financeiro do Sebrae-PB/FINEP/PATME, e uma
equipe formada por especialistas egressos do I Curso de Especialização em agribusiness, foram
realizados, através da Fundação PaqTcPB, os Estudos de Viabilidade Técnica Econômica –
EVTE’s das unidades de produção agroindustrial daquelas comunidades.
Realização de cursos de especialização em agribusiness
Com intuito de capacitar a equipe e os técnicos das instituições parceiras, dentro do
referencial metodológico no qual está inserido o programa, que é o da visão sistêmica nas ativi-
dades agrícolas e agropecuárias, difundido pelo agribusiness, o Peasa/UFCG e a Fundação
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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PaqTcPB firmaram uma parceria com o Programa de Estudos dos Negócios dos Sistemas
Agroindústrias – Pensa/FIA/FEA/USP que resultou, a partir de 1996, na realização de 3 Cursos
de Especialização lato sensu em Agribusiness e 1 Curso de Aperfeiçoamento em Agribusiness,
com apoio financeiro do CNPq, do BNB, do SEBRAE e da FAPESQ. Desde então, foram
formados mais de 50 especialistas, gerando 40 monografias versando, basicamente, de estudos
sobre as principais cadeias produtivas do Nordeste.
Inserção do projeto no Programa Paraibano de Tecnologia Apropriada – PPTA
Em junho de 1998, como um dos projetos inseridos no Programa Paraibano de
Tecnologia Apropriada da Secretaria da Indústria, Comércio, Turismo, Ciência e Tecnologia –
PPTA/SICTCT-PB, o Programa de Implantação de Micro e Pequenas Agroindústrias no Semi-
Árido Paraibano foi contemplado com 10 bolsas DTI (2 anos) e um EV (1 ano) do Programa de
Tecnologia Apropriada do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico –
PTA/CNPq. Tais bolsas foram reduzidas para somente 6 (DTI), durante a renovação do
convênio com o CNPq, para o período de outubro/2001 a outubro/2003.
No primeiro período 1998/2000, a equipe de bolsistas foi responsável pela elaboração
dos projetos técnico/econômicos das 14 unidades agroindustriais que submetidos ao Programa
Pronaf Agroindústria do Ministério da Agricultura e Abastecimento, no ano de 1999, com o
propósito de obter recursos para investimento e custeio, obtiveram parecer favorável junto
àquele programa. Esse resultado foi comunicado pessoalmente ao Magnífico Reitor da UFPB
pelo coordenador do Pronaf Agroindústria, João Batista da Silva e pelo diretor do departamento
de infra-estrutura rural da SDR, Laércio Nunes. Porém, a partir do momento que esse programa
saiu da esfera do MA/SRD para o Ministério Extraordinário da Reforma Agrária, também todos
os contatos entre o Peasa/UFCG e o MA/SDR foram suspensos. Desta forma, a Fundação
PaqTcPB, o Peasa/UFCg, os parceiros e, principalmente, as comunidades envolvidas, tiveram
frustradas suas expectativas quanto à obtenção dos recursos para a implantação das 14 unidades
agroindustriais.
Diante dessa realidade, a Fundação PaqTcPB e o Peasa redimensionaram o Programa
de Implantação de Micro e Pequenas Agroindústrias no Semi-Árido Paraibano, nos aspectos
relativos às metas previstas para o início de funcionamento das agroindústrias, inicialmente de
2 anos, a contar de junho de 98. O suporte financeiro para as atividades foi conseguido através
de contratos e convênios obtidos pela Fundação PaqTcPB.
No segundo período do Convênio 2001/2003, diante da redução do número de bolsistas
e, principalmente a falta de contrapartida do Governo do Estado, ficando sobre a respon-
sabilidade total da Universidade Federal de Campina Grande, o apoio técnico, administrativo,
logístico (transporte dos bolsistas + equipe), a coordenação do programa reduziu para 7 o
número de comunidades atendidas.
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Discussão
Inexistência de auto-estima nas comunidades rurais
As políticas do setor público voltadas para as comunidades rurais que desenvolvem
atividades em nível de agricultura familiar são todas paternalistas. Logo não se preocupam em
valorizar a cidadania e resgatar a auto-estima dessas comunidades. Reverter essa situação é um
processo moroso, e vem sendo conduzido com muita persistência e paciência pelo programa.
Falta de incentivo para atividades de extensão
Um programa dessa natureza é eminentemente um programa de extensão. Identificadas
as demandas das comunidades busca-se dentro das diversas instituições, que atuam com P & D,
qual tem a competência para melhor atender àquelas demandas. Um dos obstáculos encontrados
para atender as demandas levantadas é a falta de apoio principalmente dos professores e técnicos
das universidades, para implementá-las em campo. Programas de bolsas para pesquisadores e
editais para realização de pesquisas existem. Porém, bolsas para quem faz extensão e editais
para identificar e viabilizar o repasse de tecnologias e conhecimento gerados nas instituições de
P & D para comunidades rurais não existem.
Inexistência de uma política de C & T para a agricultura familiar
Apesar de todos os indicadores sociais das comunidades rurais que vivem no semi-árido
paraibano apresentarem um baixo índice social, econômico, educacional e de saúde, ainda
assim vivem ali pessoas com potencial produtivo, como também, na maioria dos locais, há a
possibilidade de desenvolver atividades econômicas rentáveis e ambientalmente sustentáveis.
Por outro lado, as nossas instituições de ensino, pesquisa e desenvolvimento possuem conheci-
mento armazenado que poderiam contribuir na solução de muitos dos problemas vividos pelas
comunidades rurais. O maior problema é que não existe uma política de C & T específica para
a agricultura familiar que permita a inovação tecnológica nesse setor e que possibilite pesquisar
e desenvolver soluções para outras que, ainda, não existem respostas definitivas.
Política de crédito inacessível e inexeqüível
As regras da política de crédito no Brasil são únicas para todo o país. As exigências para
o acesso ao crédito são as mesmas, tanto para o mega empreendimento como para o micro
empreendimento. Ou seja, questões diferentes são tratadas igualmente, quando deveriam ser
tratadas com políticas diferenciadas. Atualmente, o crédito disponível para agricultura familiar
é inacessível, devido às exigências de garantia real. Quando acessível, são inexeqüíveis, pelo
volume disponível que não possibilita aplicar o recurso no empreendimento rural e obter o
retorno para quitar o débito. Portanto, é necessária uma mudança na política de crédito dirigida
à agricultura familiar de modo que ela seja acessível e exeqüível. Ou seja, uma política de crédito
que empreste recursos suficientes para que as comunidades rurais possam alcançar um nível de
qualidade de vida digna.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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Barreiras legislativas para obtenção do certificado – SIF
A maioria dos produtos desenvolvidos pelos empreendimentos do programa busca
atender um nicho de mercado. Porém, num Estado como a Paraíba, muitas vezes, esse mercado
consumidor não é suficiente para tornar o empreendimento economicamente rentável. E mais,
permitir que todos os associados do empreendimento tenham uma ótima qualidade de vida.
Portanto, a alternativa é abrir canais de comercialização em todo o país e, para que isso seja pos-
sível é necessário ter o selo de inspeção do Sistema de Inspeção Federal – SIF e do Ministério
da Saúde. Atualmente, as micro agroindústrias conseguem atender as exigências apenas quanto
à qualidade e sanidade dos produtos, porém, não conseguem atender questões quanto às dimensões
da estrutura física do empreendimento ou o volume de produção mínimo exigido.
Baixo nível educacional, econômico e social
Os Quadros 1 e 2 mostram as diferenças entre o perfil do empreendedor de base tecnológica
e o do empreendedor das comunidades rurais que estão sendo trabalhadas pelo programa, exem-
plificando porque o processo para alcançar os primeiros resultados num empreendimento
agroindustrial, em comunidades rurais do semi-árido paraibano, é bastante lento.
Quadro 1
Perfil do empreendedore
Quadro 2
Incubadora de base tecnológica versus agroindustrial
554
Empreendedores de base tecnológica Empreendedores comunitários de agroindústria
Empresários individuais ou com 2 ou 3 sócios Empreendedores coletivos-comunitários
A grande maioria é classe média A minoria é alfabetizada
A maioria concluiu o curso superior Todos são os chamados excluídos sociais
Muitos contam com os pais e parentes no sustento até
a consolidação do empreendimento
São arrimos de família ou ajudam na composição da
renda familiar.
São jovens, solteiros, com no máximo 30 anos São pessoas maduras, casadas, com mais de 30 anos
Todos sabem o que é uma incubadora
Ninguém sabe o que é uma incubadora
Incubadora de base tecnológica Incubadora agroindústria
Empresários procuram a incubadora. A incubadora
busca a comunidade
Empreendedores coletivos-comunitários
Os empresários precisam se adaptar à linguagem
corrente nesse ambiente. A equipe da incubadora
precisa se adaptar à linguagem dos empreendedores
comunitários
A minoria é alfabetizada
Os empresários adaptam-se às regras da incubadora.
A incubadora precisa adaptar-se à cultura das
comunidades
Todos são os chamados excluídos sociais
Equipe técnica da incubadora: gerente,
comercialização/marketing, jurídica/contábil
Equipe técnica da incubadora agroindustrial: além
daquelas da IBT precisa de uma equipe
multidisciplinar.
São arrimos de família ou ajudam na composição da
renda familiar.
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Resultados
a) Unidade de Beneficiamento da Fibra do Sisal (Agave sisalana, Perr.) para confecção de arte-
sanato de Cuiuiu – Barra de Santa Rosa/PB
O objetivo dessa unidade é produzir artesanato que tenha como matéria prima o sisal. As
ações ali realizadas permitiram a construção do Centro Artesanal de Cuiuiu, construído pela
comunidade com material de construção doado pelo Peasa/UFCG e Sebrae/PB. O galpão com
área de 80m2 está equipado com máquinas, acessórios e mesas para confecção de festão, tear-
es manuais para confecção de tapetes e manta. Pessoal capacitado também para confecção de
peças manuais à base de sisal como adereços e pequenas peças artesanais para decoração. Os
produtos já estão sendo comercializados em lojas especializadas de decorações e foi seleciona-
do, recentemente, para integrar o Programa Caras do Brasil, do Grupo Pão de Açúcar.
b) Unidade de Cotonicultura Verticalizada em Jatobá, Município de Lagoa/PB
A comunidade tradicionalmente cultiva o algodão, vendido diretamente às usinas de
beneficiamento de algodão. A inserção do projeto visa agregar valor ao algodão através da pro-
dução de peças artesanais. Daí foi construído um galpão equipado com um tear elétrico e um
manual, acessórios para confecção de artesanato em algodão e o pessoal capacitado para con-
feccionar redes e mantas de produto. Atualmente, está sendo feito um estudo para definição de
uma linha de produtos a ser desenvolvida na comunidade rural de Jatobá.
c) Unidade de Produção de Ovos e Processamento de Carne de Galinha de Capoeira na
Comunidade Poleiros – Barra de Santa Rosa/PB
A comunidade de Poleiros tinha como vocação produtiva a criação e venda de galinha e
ovos caipira (ou capoeira), vendidos na feira do Município sede Barra de Santa Rosa. O proje-
to aproveitando a vocação da comunidade e em comum acordo com ela implantou o criatório
de galinha de abate e postura utilizando a galinha da raça Label Rouge para abate e Caipira
Negra para postura, ambas criadas de forma semi-intensiva. Atualmente o módulo de produção
é composto de quatro galpões com capacidade para 400 aves cada, com equipamentos e piquete.
O projeto prevê a ampliação do módulo para 12 galpões. Hoje, são criadas somente galinhas de
postura. Os ovos, já embalados, estão sendo comercializados, enquanto uma nova unidade de
abate e processamento está sendo construída.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
555
Incubadora de base tecnológica Incubadora agroindústria
Os empresários não precisam de capacitação em
cooperativismo. Os comunitários precisam internalizar
o espírito associativista
Empreendedores coletivos-comunitários
Incubadora de base tecnológica normalmente se situa
dentro do perímetro urbano e as empresas dentro dela.
Todas as empresas agroindustriais estão situadas fora
do perímetro urbano e distantes da incubadora
A minoria é alfabetizada
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d) Unidade de Criação de Tilápias e Beneficiamento de Pescado na Comunidade de Recanto II,
Jericó/PB
O assentamento rural de Recanto II pescava a tilápia de forma extensiva no açude
Carneiro e vendia o peixe in natura a um intermediário que negociava o produto em Recife e
Fortaleza. Como resultado do trabalho do Peasa/UFCG, juntamente com as instituições par-
ceiras, atualmente a comunidade cria os peixes de forma intensiva (tanques-redes e tanques
escavados) e comercializa o produto processado na forma de filé, almôndegas e lingüiça.
Atualmente, está em fase de implantação um minicurtume de pele de peixe com recurso do
BNB/Etene e a construção de uma nova unidade de beneficiamento e a unidade de produção de
artesanato produzido com couro de peixe. Com a conclusão dessas novas obras, a comunidade
de Recanto II, terá um pequeno complexo agroindustrial para criação, processamento, comer-
cialização do derivados de tilápias e produção de artesanatos confeccionados utilizando-se a
pele de peixe.
e) Unidade de Processamento de Frutas para Elaboração de Polpa Congelada, na Comunidade de
Fechado, Município de Patos/PB
A região sertaneja da Paraíba produz durante praticamente o ano todo, variados tipos de
frutas, umbú, serigüela, cajarana, cajá, etc. Há, ainda, a produção de outras frutas como a goiaba,
a acerola e a manga. Com o propósito de aproveitar essas frutas na época da safra e delas fazer
a polpa, agregando valor e fazer a comercialização no período da entressafra, foi implantada a
unidade de beneficiamento de polpa de frutas de Fechado. Hoje, se processa por semana
1.000kg de polpas de frutas, parte é vendida aos municípios da região para a merenda escolar e
parte é comercializada pela Cooagril.
f) Unidade de Beneficiamento do Leite Caprino e Elaboração de seus Derivados na Comunidade
Amparo, Amparo/PB
A implantação desse projeto está sendo realizada com recurso financeiro do BNB. Foi
construída a unidade física para a produção e processamento do leite caprino e capacitado o pes-
soal para lidar com o manejo do rebanho e o processamento do leite. O rebanho está sendo
geneticamente melhorado para aumentar a produtividade dos animais quanto à produção de
leite. Enquanto este está sendo comercializado pasteurizado e utilizado na produção do queijo
e licor de leite de cabra, o processo de certificação da unidade para obtenção do SIF, e poder
ampliar a comercialização para outros Estados, através das grandes redes de supermercados, já
está em andamento.
g) Projeto de Criação de Camarão Marinho em Tanques Escavados Abastecidos com Resíduos de
Dessalinizador, Comunidade Poleiros, Barra de Santa Rosa/PB
A instalação de um dessalinizador num poço profundo, na comunidade de Poleiros, para
obtenção da água potável trouxe benefício por um lado e, por outro lado, a produção do rejeito
com alto teor de sal jogado diretamente no solo causou sérios problemas ao meio ambiente. A
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alternativa desenvolvida pela Fundação, juntamente, com o Peasa/UFCG foi a criação de
camarão marinho e tilápia utilizando o rejeito. Hoje, existem 10 tanques escavados: 8 para cri-
ação de camarão e 2 para peixe. O rejeito do dessalinizador ainda é utilizado na irrigação de
Atriplex (forrageira) e fruticultura (coco e maracujá).
Repercussões obtidas pelo programa
Prêmios obtidos
a) Primeiro Lugar – Prêmio Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil/2001
b) Prêmio Anprotec - Projeto Inovador do Ano 2002
Repercussão na mídia
Revistas
a) “Cientistas da Esperança são premiados” – Revista Imprensa, dez. 2001
b) “O sal e a multiplicação dos peixes” – Revista Diga Lá, mar. de 2002
c) “Camarões de água salgada na caatinga” – Globo Rural, jul. de 2002
d) “O milagre do sertão” – Dow Notícias, nov./dez./jan./fev 2003
Televisão
a) Camarão do Sertão – Globo Rural/Julho de 2002 – reprisado em abril 2003
b) Tecnologia na terra do forró, Setembro de 2001
c) Brava Gente Brasileira, exibido nos dias 13, 14, 15, 16, 17, e 19 de junho de 2003
Conclusões
A possibilidade de favorecer aos comunitários rurais — envolvidos no Programa de
Implantação de Micro e Pequenas Agroindústrias no Semi-Árido Paraibano — a oportunidade
de provarem o sabor do sucesso é o traço maior que sublinha esta experiência. Trabalhar com a
agricultura familiar de forma que ela seja o principal instrumento de inclusão social dessas
comunidades é o maior desafio. Um desafio que derruba todas as práticas paternalistas criadas
até então. E que, mesmo sem o apoio de políticas de C & T voltadas para o setor, não invalida
a implantação dessas agroindústrias. Um desafio que devolve a dignidade e cidadania às
populações rurais rodeadas pelo fantasma da seca, à medida que começam a colher os frutos do
seu trabalho através dos pequenos confortos que a renda gerada — com a comercialização dos
produtos — pode lhes proporcionar.
Frutos intangíveis, valores incalculáveis se aferidos, apenas, pelas lentes dos economistas.
Tais valores são mensurados através do resgate da auto-estima dessas comunidades e podem ser
comprovados apenas nos sorrisos de satisfação demonstrados por eles mesmos a cada conquista.
São esses aspectos o combustível que o Programa de Implantação de Micro e Pequenas
Agroindústrias no Semi-Árido Paraibano recebe para continuar acreditando nos ideais para os
quais foi criado. São esses aspectos os responsáveis para continuar lutando por este desafio. É
a capacidade de enxergar a importância de pequenas conquistas — como a de dona Deusa
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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(artesã), em ter conseguido comprar uma estante para sua sala, de dona DaPaz (agricultora) ter
comprado seus aparelhos de som e televisão, de Fátima (artesã) poder se casar porque con-
seguiu mobiliar sua casa — a grande causa pela qual deve-se continuar lutando.
A implantação das micro e pequenas agroindústrias no semi-árido paraibano aponta para
uma questão muito simples: a de que as populações oriundas do meio rural nordestino não
querem mais as políticas paternalistas, em vigor há mais de 50 anos, para sobreviverem. O que
essas populações precisam é tão-somente de programas que identifiquem suas demandas, para
que, em torno delas possam proporcionar a dignidade que a oportunidade de trabalhar possi-
bilita a qualquer homem.
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1993.
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. Petrolina: CPATSA. 1997.
558
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Programa de incubadora tecnológica de economia solidária (Empreendimentos
Solidários – ES) UFMG
Ricardo Augusto Alves de Carvalho, Professor Doutor, Coordenador
Ana Rita Trajano, Sub-coordenadora
Gláucia Lúcia Pereira de Oliveira, Colaboradora
Patrize Janssen de Miranda, Colaboradora
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG/Fafich
Resumo
O Grupo de Pesquisa em Economia Solidária, Autogestão e Processos Psicossociais tem
por objetivo analisar como se configuram as relações entre a organização autogestionária do tra-
balho e processos de construção identitária de sujeitos-trabalhadores em empreendimentos
solidários. Busca-se construir uma abordagem metodológica, essencialmente qualitativa, orien-
tando-se pelos pressupostos da Psicossociologia do Trabalho, articulando-se “conversas ao pé da
máquina” (individuais) e “Oficinas de Autogestão” (grupos). A análise dos dados em pesquisas
já concluídas, em nível de iniciação científica e mestrado, realizadas junto aos trabalhadores do
ramo metalúrgico, nos aponta mudanças em processos identitários, afetando a subjetividade de
trabalhadores implicados com a criação destes empreendimentos. Estas pesquisas têm nos reve-
lado a dificuldade de adaptação de processos autônomos para indivíduos que vêm de experiências
heterônomas, bem como dificuldades de se estabelecer um diálogo criativo entre estes trabalha-
dores e os demais do movimento sindical metalúrgico.
Visando à ampliação das pesquisas-ações com trabalhadores em outros ramos produtivos
(reciclagem e outros) o NESTH (Núcleo de Estudos sobre Trabalho Humano), através da
Unitrabalho (Rede Interunversitária de Pesquisas e Estudos sobre Trabalho), propõe a
Incubadora Tecnológica de Socioeconomia Solidária, implicando professores e alunos (graduação
e pós-graduação) de vários cursos/unidades
.
Palavras-chave: autogestão e economia solidária
Introdução e objetivos
O Nesth foi fundado em 1984, como programa interdisciplinar vinculado ao Conselho
de Extensão, visando dois objetivos principais: possibilitar a interdisciplinaridade das pesquisas
e atividades de extensão relacionadas com o mundo do trabalho e estabelecer intercâmbio com
instituições afins. A proposta do Nesth amplia-se no âmbito da UFMG, envolvendo, além de
professores, diversos funcionários e alunos interessados em projetos que privilegiam o trabalho
como eixo central de análise. O Nesth vem realizando pesquisas de abrangência local e
nacional, cursos de extensão, seminários internacionais, consultorias, conferências, contatos
interinstitucionais com órgãos públicos, associações e sindicatos, para promoção conjunta de
atividades formativas, publicações, pesquisas.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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O Grupo de Pesquisa em Economia Solidária, Autogestão e Processos Psicossociais do
Nesth/UFMG, coordenação Prof. Dr. Ricardo Augusto Alves de Carvalho (Departamento de
Psicologia), tem atuado em pesquisas, estudos e formação de trabalhadores e técnicos, com par-
ticipação de estudantes em nível de graduação e mestrado/doutorado.
Ao longo da experiência desenvolveu-se uma metodologia de intervenção psicossocial
em processos autogestionários e solidários, o que vem possibilitando uma atuação no sentido
de construção de uma nova cultura do trabalho.
Atualmente o Nesth sedia, na UFMG, a coordenação da Unitrabalho em Minas Gerais.
A Unitrabalho é uma rede universitária nacional que agrega cerca de 80 universidades e instituições
de ensino superior de todo o Brasil. Criada em 1995, sua missão é contribuir para o resgate da
dívida social que as universidades brasileiras têm para com os trabalhadores, compromisso este
concretizado por meio de parceria em projetos de estudos, pesquisas e capacitação.
Outras práticas (extensão/pesquisa) vêm sendo desenvolvidas, no âmbito da UFMG,
objetivando oferecer apoio às necessidades dos empreendimentos solidários, referentes às diferentes
dimensões do processo em andamento. Propõe-se, para análise de experiência de autogestão, a
descrição dessas dimensões ou perspectivas enfatizando a interdependência e a complementaridade
entre elas:
Dimensão jurídico-econômica
Refere-se às leis, tanto criadas pelos trabalhadores como as leis gerais do país; considera
também as questões econômicas como acesso ao crédito, mercado, parcerias, bens de produção
material e intelectual, situação dentro da economia de uma forma mais ampla.
Dimensão político-administrativa
Engloba as diversas formas de exercício do poder e do controle, assim como os mecanis-
mos gestionários e suas implicações. Inclui as diferentes estruturas de gestão, as formas de
dominação e resistências, as formas de acesso às instâncias decisórias, os mecanismos de infor-
mação e formação, assim como as diversas formas de exercício e luta pelo poder na comunidade
local e na sociedade em geral.
Dimensão sociopsicológica ou psicossocial
Considera-se aqui todo o grupo de relações e interações intersubjetivas que se estabelecem
entre os trabalhadores e entre estes e o empreendimento e o movimento autogestionários.
Engloba também as construções intersubjetivas dos significados e identificações coletivas — a
compreensão coletiva sobre o trabalho e a gestão do empreendimento, as identificações e as
identidades coletivas dos trabalhadores e ainda:
Os choques que podem existir entre estas identidades/identificações e as formas de expressão
intersubjetiva deste choque, bem como os medos e fantasias que povoam o imaginário destes
trabalhadores, tendo em vista o sofrimento psíquico que se estabelece neste processo. (CARVALHO;
PIRES, 2001)
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Assim, temos ações isoladas, sem articulação/diálogo entre diferentes equipes de
pesquisa/professores. Com o presente projeto, buscar-se-á esta interdisciplinaridade/inter-
locução, no sentido de construção de uma REDE de apoio aos ESs, o que se realizará através
da Incubadora Universitária de ES.
Neste atual momento de globalização da economia capitalista, em que se observa o
crescimento do desemprego de longa duração, com a destruição de postos de trabalho e a
“expulsão”/exclusão de trabalhadores do mercado de trabalho, a Economia Solidária surge
como uma alternativa de geração de trabalho e renda, possibilitando a recuperação destes tra-
balhadores, em sentido amplo — econômica, social e psiquicamente.
Reafirmamos nossa convicção de que uma outra globalização é possível e desejável, fundada na
cultura da cooperação e na ética da solidariedade; na participação ativa de todas as cidadãs e
cidadãos do país e do Planeta, no controle e na gestão dos meios para o seu desenvolvimento
pessoal e coletivo. Uma globalização que seja cooperativa e solidária (...). Na perspectiva
solidária, a relação entre quem consome e quem produz vai muito além de comprar e vender o
produto, envolve uma consciência e um compromisso comum em prol do Bem-Viver de todos no
presente e no futuro, que implica no cuidado com a natureza e a biodiversidade, na equidade
entre mulheres e homens e entre etnias, numa concepção de trabalho que realiza, e numa forma
de produzir orientada para satisfazer às necessidades de cada ser humano e de toda a humanidade.
(CARTA DE MENDES, RJ, Encontro Brasileiro de Cultura e Socioeconomia Solidárias,
junho/2000)
No decorrer da prática com os(as) trabalhadores(as) do “Projeto Cenafoco” (convênio
PBH e Escola Sindical), a maioria dos grupos decidiu aplicar os recursos disponíveis para
capacitação em Economia Solidária, com vistas à formação de Empreendimentos Solidários,
numa tentativa de enfrentar o problema do desemprego e exclusão.
Em contatos e debates com professores, pesquisadores e funcionários da Pró-Reitoria de
Extensão da UFMG, a proposta de criação de Incubadora Universitária de ES foi se desenvolvendo,
tendo como uma primeira ação o “Projeto de Capacitação de Trabalhadores” em processo de
construção de Empreendimentos Solidários, sob a responsabilidade do Grupo de Pesquisa ECO
SOL e Autogestão — Nesth/UFMG. As próximas etapas do processo de incubação serão realizadas
através de ações conjuntas/interdisciplinares (envolvendo os departamentos de Ciência Política
e de Psicologia da UFMG), considerando as diferentes realidades dos empreendimentos em
formação.
Desse modo, o objetivo principal consiste em coordenar processos de formação (capaci-
tação e qualificação profissional) de trabalhadores envolvidos com a criação de ES (seja cooperati-
va, associação, ou outra); prestar assessoria técnica e administrativa, de forma interdisciplinar,
aos grupos de “agentes sociais”, participantes de programas/projetos específicos da PBH, como
também a outros grupos de trabalhadores, que apresentem suas demandas conforme critérios
estabelecidos pela Incubadora Universitária; produzir e disseminar conhecimentos sobre
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Economia Solidária, de forma interdisciplinar, tornando-o acessível à sociedade; introduzir nos
programas institucionais da universidade, de forma indissociada, em nível de pesquisa, ensino
e extensão, os princípios e objetivos da Economia Solidária; contribuir para o fortalecimento e
a criação de redes e fóruns de Economia Solidária e Autogestão, nos diferentes níveis: municipal,
estadual, nacional e internacional; além de buscar interlocução com outras incubadoras univer-
sitárias, podendo contribuir para a formação de novas incubadoras.
Metodologia
Inicialmente, o processo de incubação de empreendimentos solidários de trabalhadores
partiu de uma demanda da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte– PBH, através da Secretaria
de Assistência Social/Projeto Cenafoco – Centro Nacional de Formação Comunitária. Cada
grupo/empreendimento, depois de 5 meses de capacitação pela PBH, elaborou projeto de ação
social, tendo estes, optado pela criação de empreendimentos solidários, com aplicação de recursos
em formação/assessoria pela UFMG. Buscou-se uma prática interdisciplinar, incluindo
Psicologia, Ciências Políticas; sendo coordenado pelo Nesth – Núcleo de Estudos sobre Trabalho
Humano. Assim, tivemos recursos financeiros para formação dos próprios trabalhadores, com
apoio da PBH e da Universidade/Nesth.
Buscando-se construir uma ação inter/transdisciplinar, organizamos o processo de
incubação através de atividades, tomando-se como referência as diferentes dimensões
(econômico-jurídica; político-administrativa; psicossocial), que apontam diferentes demandas
de apoio/assessoria. Dessa forma, as atividades e os diferentes saberes (acadêmicos ou não) se
articulam e se relacionam com as diferentes “disciplinas”, faculdades e departamentos da uni-
versidade.
A metodologia de formação parte do princípio de valorização do “saber do educando”,
buscando-se construir junto com os trabalhadores formas mais elaboradas de conhecimento
sobre as temáticas em foco, num exercício permanente de diálogo e confronto de diferentes
saberes e experiências.
A partir da realidade dos grupos do Cenafoco elegemos um conjunto de questões a serem
abordadas em momentos de Oficinas de Autogestão, o que consideramos “pontos de impasse”
dos grupos em processo de emancipação via trabalho cooperado. As Oficinas de Autogestão –
OAG’s assim se denominaram a partir da formação de grupos de trabalhadores, estratégia ado-
tada como forma de favorecer a discussão e reflexão em torno dos principais problemas
enfrentados na prática de construção da autogestão e socioeconomia solidária, instaurando,
dessa forma, a Pesquisa-Ação ou Ação-Investigativa. Sublinhamos que esta proposta poderá se
modificar e/ou se ampliar, conforme diferentes realidades/demandas dos trabalhadores.
A autogestão é um modelo de organização em que o relacionamento e as atividades econômicas
combinam propriedade e/ou controle efetivo dos meios de produção com participação democrática
da gestão. Autogestão também significa autonomia. Assim, as decisões e o controle pertencem aos
próprios profissionais que integram diretamente a empresa. Isso quer dizer que contratar profis-
562
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sionais para administrar o negócio ou mão-de-obra para atender às necessidades do aumento tem-
porário de produção deve ser considerada uma exceção que requer critérios previstos nos estatutos
e/ou nos contratos sociais internos. Os trabalhadores devem ter a capacidade e o poder de decisão
sobre tudo o que acontece na empresa: metas de produção, políticas de investimentos e modernização,
política de pessoal, etc. Isso quer dizer que as atividades educativas e o incentivo à inteligência
coletiva constituem a vida das empresas autogestionárias. Valorizar e incentivar a criatividade do
conjunto dos trabalhadores implica em:
- democratizar as tarefas que envolvem conhecimento, dando oportunidade para que o “saber
fazer” chegue ao conjunto dos trabalhadores;
- superar os entraves ao acesso às informações e conhecimento;
- envolver o conjunto dos trabalhadores nas áreas de pesquisa e desenvolvimento;
- promover regularmente atividades de desenvolvimento do trabalho em equipe e de relaciona-
mento entre as pessoas.
As OAGs – Oficinas de Autogestão ainda poderão se realizar nos momentos finais do
processo de incubação, a saber: assessoria para inserção do EES – Empreendimentos de
Economia Solidária no mercado, conquista da autonomia e fim do processo de incubação, este
representado pela articulação com redes de economia solidária e autogestão, ampliação da
democracia interna, avaliação do grau de autonomia do grupo e por fim, conquista da autono-
mia pelo grupo. Dessa forma, converge com a nossa proposta de Oficinas de Autogestão,
articulando o racional e o afetivo, o consciente e o inconsciente, o pensar e o sentir na cons-
trução de grupos e empreendimentos de autogestão. Ressalta-se, ainda, a questão de se “mexer,
de alguma forma, em escalas de valores”, o que também se encontra com nossa prática de ação-
investigativa, provocando mudanças nas diferentes dimensões do sujeito trabalhador.
Resultados e discussão
O tema desta investigação aborda a relação entre trabalho e identidade. Interessa-nos
particularmente enfocar os processos de construção identitária em Empreendimentos Solidários
de Autogestão. Esses se diferenciam de empresas capitalistas típicas por serem construídos por
trabalhadores como resposta à ameaça de perda de trabalho ou desemprego.
Num primeiro momento, logo que se iniciou o trabalho de assessoria junto com os
grupos de trabalhadores(as) do Cenafoco, dividimos o processo de incubação em etapas, de
acordo com as demandas de assessoria já vivenciadas em diferentes experiências de incubação.
No entanto, tendo em vista que o projeto vem sendo realizado a pouco tempo, não é possível o
levantamento de resultados, mesmo que parciais, que relatem com fidedignidade o desenvolvi-
mento dos grupos incubados. Apesar disso, outra atividade, que foi realizada com o mesmo
foco, nos permite a sinalização de um possível resultado, lembrando que esta é uma investi-
gação qualitativa. O programa em questão se refere à Cooperaço – Cooperativa de
Trabalhadores em Caldeiraria e Estruturas de Aço.
(Re)conhecer diferenças, construir resultados
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A construção dessa cooperativa deu-se após a iniciativa dos atuais diretor-presidente e
diretor-administrativo, contando também com a participação de outros trabalhadores da
Superaço. Diante da impossibilidade de terem seus direitos trabalhistas preservados e diante da
ameaça de perda de seu posto de trabalho, sem perspectivas de (re)inserção no mercado de
trabalho, os trabalhadores decidiram criar a cooperativa. Inicialmente, tinham algumas noções
sobre o movimento cooperativista, buscaram apoio do Sebrae/MG, e assim aconteceu a fun-
dação da Cooperaço.
A Cooperaço iniciou suas atividades com um quadro de 24 trabalhadores oriundos da
antiga empresa, tendo um Estatuto (que define normas, regras, deveres e direitos dos cooperados)
elaborado pelos diretores e apresentado em Assembléia, na época de sua fundação. Atualmente
há uma variação desse número devido tanto a adesões quanto a desligamentos, sendo que a
média atual é em torno de 27 cooperados. O objetivo da Cooperaço é a prestação de serviços
em comum, de logística, consultoria, mão-de-obra na fabricação, manutenção e montagem de
caldeiraria e estruturas de aço, além do fornecimento de manutenção mecânica e elétrica.
A criação da Cooperaço insere-se no movimento mais amplo de construção de uma outra
socioeconomia, referenciada nos princípios da autogestão, da solidariedade e da autonomia dos
trabalhadores. As Cooperativas estão baseadas nos valores da auto-ajuda, auto-responsabilidade
(responsabilidade pessoal), democracia, igualdade, eqüidade e solidariedade. Na tradição de
seus fundadores, os sócios cooperativos fazem seus os valores éticos da honestidade,
transparência, responsabilidade social e a vocação social (interesse pelos demais). Esse movi-
mento surge como resposta à situação de ameaça de perda do trabalho ou desemprego, buscando
construir alternativas socioprodutivas a partir de diferentes situações, seja a partir da massa
falida de empresas capitalistas, seja a partir de grupos de produção que se auto-organizam e
constroem associações ou cooperativas.
Pode-se concluir, a partir da análise e interpretação do material colhido nessas diferentes
situações, que a história da Cooperaço apenas começou. Muitos são os desafios numa trajetória
de avanços e recuos, de esforços coletivos de construção de uma outra maneira de trabalhar e
produzir. Fazendo parte desta história, como sujeitos-pesquisadores-psicólogos, inseridos no
movimento da socioeconomia solidária e autogestão, participamos de momentos de “vitórias e
derrotas”, de troca de experiências e conhecimentos e dificuldades de diálogo e comunicação.
Atualmente, pode-se dizer que se vive um momento de “definição de rumos”, na linguagem de
um cooperado. Ao mesmo tempo em que a Cooperaço procura romper o isolamento, buscando
inserir-se em redes e fóruns, participando do Núcleo Sindical de Apoio às Empresas
Metalúrgicas Autogestionárias; a época não é das melhores em termos de serviços de caldeiraria
e entrada de dinheiro.
Nesta perspectiva de, procura-se sistematizar os princípios do cooperativismo e os
princípios da autogestão, numa tentativa de conhecer os fundamentos desta nova configuração
socioprodutiva, articulando-os com a experiência vivida pelos sujeitos trabalhadores inseridos
neste processo de construção de novas relações de trabalho.
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Conclusões
A partir do que foi dito, conclui-se que este projeto tem como principal objetivo a
incubação de cooperativas em Economia Solidária, ou seja, uma organização de pessoas que
está diretamente ligada à solução de necessidades comuns para que dessa forma possa alcançar
melhores condições de vida. De certa forma, isso faz referência às origens e aos princípios do
“trabalhar juntos”, de maneira solidária e fraterna. Os trabalhadores, então, têm suas necessi-
dades como centro do sistema de produção. E ainda, devem se ver como sujeitos ativos de ações
coletivas, na busca de saídas criativas para o momento em que vivemos, negando práticas de
precarização do trabalho através de cooperativas falsas.
Esta incubadora tem a pretensão de promover a recuperação, tanto individual como cole-
tiva, do sentido do trabalho no interior das empresas, o que poderá trazer um novo sentido à
própria vida dos trabalhadores. “Os trabalhadores das empresas autogestionárias podem fazer a
mudança nas condições e no sentido do trabalho por inteiro. Para mudar é preciso conhecer,
pensar e agir coletivamente”. Nesse contexto, encontra-se uma recusa à lógica economista que
reduz o fazer humano à busca racional do interesse próprio, isso significa que a cooperação é
um agir diferenciado do comportamento habitual de uma comunidade ou grupo diante de uma
realidade.
Neste cenário, sob diversos títulos: economia solidária, economia social, socioeconomia
solidária, humano economia, economia popular, economia de proximidade, etc, têm emergido
práticas de relações econômicas e sociais que, de imediato, propiciam a sobrevivência e a melhora
da qualidade de vida de milhões de pessoas em diferentes partes. Cabe considerar que essa
prática apreende horizontes com maior alcance. São práticas fundadas em relações de colabo-
ração solidária, inspiradas por valores culturais que colocam o ser humano como sujeito e finalidade
da atividade econômica, em vez da acumulação privada de riqueza em geral e de capital.
Enfim, nascida sobretudo entre os “excluídos” dos Estados de Bem-Estar Material, sem
acesso aos bens produtivos, aos mercados, à tecnologia e ao crédito, a Economia Solidária revela
seu potencial de ser um paradigma de outra globalização, de outra economia, que demonstra
que um mundo transformado é possível. Ao mesmo tempo em que reconhecemos todas estas
capacidades propositivas de Economia Solidária, entendemos que é necessário unificar esforços
e articular ações conjuntas para que este projeto não permaneça no plano da idealização.
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Trabalho, solidariedade e autonomia: a Associação de Catadores de Material
Reciclável de São João del-Rei – ASCAS
Valéria Heloisa Kemp, Doutora. Docente do Curso de Psicologia
Edinan Aparecido da Silva, Acadêmico do Curso de Psicologia
Jorge Luís Gonçalves dos Santos, Acadêmico do Curso de Psicologia
Luisa Catizane Ramos, Acadêmica do Curso de Psicologia
Thaís Regina Castro Alves, Acadêmica do Curso de Psicologia
Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ
Resumo
Trata-se de trabalho de extensão/investigação realizado por professores e alunos da UFSJ
junto a um grupo de catadores de material reciclável da cidade. O objetivo geral do trabalho é
a organização desse grupo de catadores em um empreendimento solidário. Adotam-se, articula-
damente, os pressupostos teórico-metodológicos sistematizados pela pesquisa-ação-participante,
desenvolvida nos campos da educação popular, da sociologia, da psicossociologia e da psicologia
social. Como resultados destacam-se as parcerias estabelecidas, por meio de convênio, entre a
Universidade, a Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte, a Diocese, a Associação
Comercial e a Prefeitura Municipal de São João del-Rei, para atuação conjunta no projeto.
Têm ocorrido duas reuniões semanais: uma do grupo de catadores e outra denominada Fórum
Lixo e Cidadania, reunindo entidades parceiras. Em setembro de 2003, a Associação de
Catadores de Materiais Recicláveis de São João del-Rei — Ascas —, foi constituída e registrada
e, em maio de 2004, a Prefeitura Municipal de São João del-Rei se incumbiu de subsidiar o
empreendimento, arcando com o aluguel de um galpão para o funcionamento da Associação.
Preocupou-se com a promoção de alianças entre a sociedade civil e o Poder Público, para que as
políticas públicas pudessem realmente contemplar as necessidades sociais
.
Palavras-chave: práticas associativas, economia solidária, laço social, material
Introdução e objetivos
A maioria das cidades brasileiras de médio e grande porte convive hoje com inúmeros
problemas provocados pelas freqüentes crises econômicas e políticas.
Nas últimas décadas, com a queda na oferta de postos de trabalho, o número de pessoas que
passaram a ocupar as ruas e delas retirar seu sustento começou a crescer. A atividade de catar papéis
e material reciclável existente nas cidades há várias décadas começou a agregar um número cada
vez maior de homens e mulheres que passaram a fazer parte dessa “economia marginal” da cidade.
Na cidade de São João del-Rei, essa realidade se repete. Com a redução do parque indus-
trial, principalmente o têxtil, com o fechamento de fábricas e a redução de postos de trabalho,
houve um significativo contingente de pessoas, que, sem perspectiva de conseguir emprego
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no mercado formal, buscou estratégias para realizar suas atividades no mercado informal,
inserindo-se como catadores de materiais recicláveis.
A maioria dessas pessoas adotou a cata do papel e do material reciclável como a possi-
bilidade que se apresentou para garantir sua sobrevivência e de sua família. Para tanto, subme-
tem-se a situações de muita exploração em suas rotinas de trabalho. Os donos dos depósitos que
comercializam o material recolhido pagam quantias irrisórias aos catadores. Na maioria das
cidades brasileiras, não existe qualquer tipo de suporte para o exercício da atividade, tais como
coleta seletiva de lixo ou galpões para separação e armazenamento do material. Esse fato exige
que o armazenamento do material reciclável seja feito nas casas ou quintais dos catadores até
obterem volume suficiente para a venda, o que constitui um risco para a saúde pública. O
estresse, o alcoolismo e a violência, em geral, atingem altos índices no seio dessa população,
numa demonstração clara da deterioração de sua saúde mental.
Diante desse quadro, um grupo de professores e alunos dos Cursos de Psicologia, de
Administração e de Biologia da Universidade Federal de São João del-Rei, reunidos nos
Laboratórios de Estudos do Meio Ambiente — Lema — e de Pesquisa e Intervenção
Psicossocial — LAPIP —, da UFSJ, resolveram desenvolver um projeto de extensão/investi-
gação junto à população dos catadores de papel da cidade. Como uma das coordenadoras do
presente projeto havia realizado estudo de caso da Associação de Catadores de Papel e Material
Reaproveitável de Belo Horizonte – Asmare, elaborado para composição de tese de doutorado
defendida em 2001 na PUC-SP, conseguiu-se estabelecer parcerias entre a Universidade Federal
de São João del-Rei – UFSJ e a Pastoral de Rua de Belo Horizonte — uma das principais entidades
responsáveis pela criação e consolidação da Asmare. Em seguida, as parcerias foram estendidas
para a Diocese, a Associação Comercial e a Prefeitura Municipal de São João del-Rei, para o
desenvolvimento de um trabalho de organização dos catadores de material reciclável da cidade.
Considera-se, então, imprescindível que o Município conheça a realidade e o perfil desses
trabalhadores e que contribua para sua organização.
O trabalho começou a ser desenvolvido no final do ano de 2002 e tem como objetivo
geral a organização dos catadores de material reciclável da cidade em um empreendimento
solidário (associação ou cooperativa). Tal objetivo desdobra-se: no cadastramento dos cata-
dores, na realização de diagnósticos (tanto socioeconômico desses trabalhadores quanto do lixo
da cidade), na colaboração para identificação e aquisição de galpão para funcionamento das
atividades de triagem e armazenamento do material reciclável recolhido, na orientação para a
organização e registro do empreendimento solidário dos catadores, na realização de capaci-
tações tanto para esclarecimento das alternativas para constituição de empreendimentos solidários
possíveis (as vantagens e desvantagens de cada um) quanto para sua administração pelos
próprios catadores e, ainda, no acompanhamento psicossocial dos catadores no seu processo de
inserção concreta e cotidiana nessas novas práticas coletivas.
A professora e os alunos do Curso de Psicologia têm se interessado em realizar uma ação
de extensão/investigação participante de cunho psicossocial junto à associação de catadores de
material reciclável nascente.
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Compreende-se que essas iniciativas da economia solidária têm como categoria
norteadora de todo o processo produtivo o trabalho de gestão coletiva do próprio empreendi-
mento. Nesse sentido, as associações e as cooperativas podem representar tanto uma estratégia
de vida, compreendida como uma alternativa para a satisfação imediata das necessidades
econômicas, como podem significar uma nova forma de construção de vínculos sociais ou
mesmo da reconstituição do laço social sustentado por um novo contrato social.
Kemp (2001) identificou, nas práticas associativas da economia solidária estudadas, que
na reconstrução da lógica, na qual os atores coletivos inserem-se em projetos econômicos, não
se adota como finalidade principal a criação de emprego, mas a reconstituição do pertencimento
social e a recuperação do sentido de coletividade. O econômico como projeto e atividade passa
a ser suporte de algo mais essencial, que é a participação efetiva, o exercício de uma soli-
dariedade pública, o engajamento expressivo e a recriação do laço social. O enlaçamento social
e o sentido de coletividade destruídos pelos processos de marginalização e exclusão social,
provocados pela crise econômica, são recuperados nos processos associativos da economia
solidária. Nesse cenário, o que se coloca é a capacidade de cada um tornar-se ator e contribuir
para a produção de um bem e de um sentido comum. Trata-se, portanto, de uma ação coletiva
pela qual se resgata uma realidade econômica que aparece como suporte da produção de atores.
Estes não se situam fundamentalmente como “atores de poder”, que lutam por seus interesses
imediatos, mas como “atores de sentido”, que buscam imprimir de diversas formas a sua
identidade, preservando ou resgatando sua saúde mental (EME; LAVILLE, 1994).
As populações de rua que compõem os grupos dos catadores de papel representam um
dos efeitos mais contundentes dos processos de exclusão social e de quebra dos laços sociais.
Acredita-se que um trabalho de pesquisa-intervenção possa aprofundar os conhecimentos e,
assim, ampliar as possibilidades de promoção da reconstituição do laço social, do sentido de
solidariedade pública, da identidade e da saúde mental, recuperando uma propriedade que é do
mundo vivido: a propriedade do agir coletivo.
Metodologia
As ações de extensão/investigação participante envolvem o processo de mobilização e
de construção coletiva da identidade do empreendimento social dos catadores. Esse processo é
desenvolvido em encontros semanais, conforme descrito abaixo. As ações são complementadas
com o estudo do tema das iniciativas da economia solidária e das novas formas de regulação do
laço social, buscando compreender a produção de sentidos que sustentam novas formas de posi-
cionar-se diante da realidade de trabalho constituída por essas iniciativas. A investigação situa-
se, portanto, no campo de estudos do conhecimento social, partindo-se do pressuposto de que
conhecer é dar sentido ao mundo e de que a produção de sentido é um processo de negociação
continuada de identidades sociais (SPINK, 1994).
As iniciativas associativas da economia solidária têm, em geral, congregado as popu-
lações excluídas do mercado de trabalho, não se constituindo como um conjunto homogêneo.
Nesses empreendimentos, os projetos e atividades econômicas passam a ser suporte de algo
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essencial para a vida dos excluídos: a participação efetiva, a criação dos vínculos sociais e a
reconstituição do laço social sobre novas bases. Além disso, o surgimento e a continuidade dos
empreendimentos da economia solidária só podem se realizar se as lógicas de solidariedade que
mobilizam atenção e legitimam apoios e alianças exteriores se articularem com as estratégias
de sobrevivência (determinadas ou determinantes de diferentes formas de reconhecimento
social e individual) e que se concretizam no cotidiano a partir do estabelecimento do laço social,
reconstituído sobre outras bases. Para compreender a situação desses empreendimentos, é
necessário estar atento ao complexo que mobiliza os vínculos constituídos internamente e às
alianças estabelecidas externamente.
De acordo com essas indicações, escolhe-se o método para abordar as iniciativas asso-
ciativas de economia solidária como fenômeno psicossocial. Focalizam-se as práticas sociais
desenvolvidas em microcontextos, tomando-se para investigação/intervenção o particular, a
instância local e o cotidiano de trabalho, porém, sem perder de vista que essa perspectiva está
inserida no campo mais abrangente da sociedade historicamente situada.
Nesse sentido, ao realizar ações de extensão em uma dada realidade social, adota-se,
articuladamente, os pressupostos teórico-metodológicos sistematizados pela pesquisa-ação-par-
ticipante, desenvolvida nos campos da educação popular, da sociologia (FREIRE, 1988, 2002;
THIOLLENT, 1981) e, também, conhecimentos sistematizados por pesquisa-ação realizada no
campo do trabalho pela psicossociologia e pela psicologia social (ENRIQUEZ, 1994a, 1994b,
1997; SPINK, 1991, 1994).
Não entrando em detalhes a respeito de cada um desses pressupostos, ressalta-se, no
entanto, que se trata de uma abordagem inter, multi e transdisciplinar, caracterizada como uma
intervenção/investigação qualitativa, por buscar compreender os aspectos fundamentalmente
qualitativos do objeto das ciências sociais. Segundo indicações de Minayo (1994), a investi-
gação qualitativa trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores
e atitudes, o que equivale a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos.
Essa abordagem investiga a fundo o mundo dos significados das ações e relações humanas, ou
seja, um nível de realidade que não pode ser quantificado ou reduzido à operacionalização de
variáveis. Dessa forma, considera-se que o fenômeno ou processo social tem que ser entendido
nas suas determinações e transformações dadas pelos sujeitos, e é nessa perspectiva que
tomamos essa posição como condutora do nosso trabalho. Sendo assim, a intervenção/investi-
gação está sendo organizada como um processo no qual apresentam-se etapas que não se desenvolvem
separadamente, mas que mantêm relação umas com as outras, num movimento dialético e em
processo de transformações constantes.
Resultados e discussões
Partindo-se do pressuposto de que “não existe conhecimento de um objeto social sem a
intervenção sobre esse objeto e sem a sua colaboração ativa” (ENRIQUEZ, 1997), as estraté-
gias metodológicas específicas resultaram nas seguintes ações no decorrer do projeto:
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1ª etapa: exploração do campo e construção do projeto de intervenção/investigação
contato com a Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte, responsável pelo pro-
jeto de interiorização da experiência de organização dos catadores de material reciclável,
desenvolvido em Belo Horizonte há 14 anos e que tem como resultado a criação da
ASMARE. Inclusão da cidade de São João del-Rei no rol de municípios a serem asses-
sorados pela Pastoral de Rua;
contato e estabelecimento de parcerias com a Diocese de São João del-Rei, com a
Prefeitura Municipal de São João del-Rei e com a Associação Comercial de São João
del-Rei, para atuação conjunta no projeto;
assinatura de convênio com os parceiros acima citados, no qual estão estabelecidas as
responsabilidades de cada um deles no processo de organização dos catadores de mate-
rial reciclável da cidade para a constituição de um empreendimento solidário e para a
implantação da coleta seletiva no Município;
convite ao professor-coordenador do Laboratório de Estudos do Meio Ambiente – Lema,
da UFSJ, para co-coordenar esse projeto de organização dos catadores e de implantação
do processo de coleta seletiva na cidade;
• contato com os catadores nas ruas e no lixão, visando ao seu cadastramento;
realização de duas reuniões semanais: uma delas envolvendo somente o grupo de cata-
dores e a outra contando com a participação de um grupo mais amplo, denominado
Fórum Lixo e Cidadania, que reúne representantes das entidades parceiras e de outras
entidades da sociedade civil organizada do Município, para planejamento, acompanhamen-
to e avaliação das ações do projeto;
constituição, registro e lançamento público da Associação de Catadores de Materiais
Recicláveis de São João del-Rei – Ascas, em setembro de 2003;
realização de sessões de orientação semanal, de cunho psicossocial, com o grupo de
alunos do Curso de Psicologia envolvidos no projeto;
• apresentação da proposta de intervenção/investigação aos membros da associação e,
após aceno positivo, estabelecimento de contato entre o grupo de extensionistas/
pesquisadores e os atores.
2ª etapa: processo de intervenção/investigação – momento inicial e ações realizadas
• os primeiros contatos, realizados em 2002, concentraram-se em ações de mobilização e
estruturação do grupo dos catadores. Foram realizados contatos e convites aos catadores
para reuniões preliminares, nas quais se discutiu a situação de vida e trabalho do grupo,
sendo feito um levantamento de necessidades e de possibilidades de organização. Com
um grupo inicialmente constituído, tomou-se como instrumento a metodologia proposta
pela equipe da Asmare, denominada Diagnóstico Rápido Participativo Urbano – DRPU,
para compreender as características dos catadores de materiais recicláveis de São João
del-Rei e, paralelamente, fazer seu cadastramento. Esse diagnóstico incluía levantamento
de dados como idade, número de familiares e dependentes, interesses, história de vida,
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condição sociocultural, etc. A partir do DRPU, observou-se que os catadores de materi-
ais recicláveis de São João del-Rei são um grupo de pessoas que trabalham em média de
10 a 12 horas diárias, percorrendo centros comerciais e residenciais em busca de mate-
riais. A idade dos catadores varia de 19 a 72 anos, e a renda mensal é de meio a três
salários mínimos. O grau de escolaridade é baixo, e grande parte deles nunca esteve no
mercado formal de trabalho. Após essas primeiras reuniões, ficou estabelecido que
seriam realizados encontros semanais do grupo de catadores, a serem coordenados pelos
alunos do Curso de Psicologia. Foram utilizadas técnicas de dinâmica de grupo, com o
intuito de propiciar reflexões acerca: dos temores e ansiedades diante da tarefa de
construção coletiva de um empreendimento solidário, da definição dos papéis de cada
membro do grupo e dos novos sentidos produzidos pelos catadores, essenciais para se
reposicionarem nessa nova realidade de trabalho e de vida. Atualmente, esses encontros
semanais se mantêm e, além do trabalho que enfoca a inserção subjetiva dos catadores
no projeto, ocorrem, também, cursos de contabilidade e de noções de administração
cooperativa, ministrados por alunos do curso de Administração de Empresas da UFSJ;
em maio de 2004, após alguns meses de negociação com a intermediação da UFSJ, a
Prefeitura Municipal de São João del-Rei se incumbiu, por meio de convênio estabele-
cido com a ASCAS, de subsidiar o empreendimento, arcando com o aluguel de um
galpão para o funcionamento da Associação. No momento atual, organiza-se a inaugu-
ração desse espaço, para que os catadores possam iniciar, efetivamente, as atividades da
Associação (triagem, armazenamento, prensagem e venda do material reciclável) e,
também, para que ali ocorram suas reuniões semanais;
prevê-se, ainda, elaborar a memória histórica do processo de organização do empreendi-
mento solidário. Pretende-se compreender a visão do sujeito sobre o fenômeno no qual
ele está implicado: sua percepção do fato do qual ele tomou parte e sua versão sobre a
história vivida. A relação entre o que foi vivido e o que é vivido é elaborada no momento
do discurso e é construída na relação intersubjetiva entre os membros do grupo.
Destacam-se as relações entre o passado sem trabalho, ou como trabalhador informal e
marginalizado, e a prática atual de construção de formas associativas e autogestionárias
de trabalho, por meio da compreensão do sentido atribuído ao vivido pelos sujeitos em
sua história de vida e de trabalho;
intervenção/investigação propriamente dita – interessa, para além do estudo do fenô-
meno, a construção de estratégias práticas para a solução de questões que podem
emergir no processo de intervenção/investigação. Em especial, no contexto brasileiro, os
empreendimentos da economia solidária encontram-se numa competição desigual no
mercado, apresentando-se, ainda, como iniciativas minoritárias/desviantes. A proposta
da intervenção/investigação abre possibilidades para a discussão e reflexão sobre
os problemas vividos pelo grupo e a construção de perspectivas de ação no sentido de
constituição de redes de solidariedade que viabilizem o empreendimento.
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3ª etapa: análise dos dados
por se tratar de intervenção/investigação qualitativa, a análise dos dados não irá se
restringir a qualquer uma das etapas especificamente; pelo contrário, esteve e estará pre-
sente em todas as fases de levantamento de dados, que ocorre em intervalos definidos,
durante todo o processo de construção da tarefa em desenvolvimento;
compreende-se que a construção conjunta do conhecimento é um caminho que nos
interessa, mantendo o ator como sujeito ativo do processo em interação com o extensionista/
pesquisador, o qual não se esconde e não se nega, mas não intervém no conteúdo da
ação. Busca-se, com isso, a contínua análise interpretativa dos registros dos movimentos
do grupo, com vistas a compreender os elementos que contribuem e interferem no
surgimento e na continuidade do empreendimento cooperativo, bem como procurar
identificar a existência e caracterização do estabelecimento de novos vínculos sociais;
procura-se, ainda, analisar as lógicas de ação que revelem estratégias de sobrevivência e
solidariedade, considerando seu duplo desdobramento: (1) ligado ao complexo que
mobiliza os vínculos constituídos internamente; e (2) voltado para alianças estabelecidas
externamente. Além disso, a partir da análise das falas, procurar-se-ão informações sobre
a dinâmica de organização da cooperativa, destacando-se as facilidades e dificuldades de
realização de formas de funcionamento condizentes com uma gestão cooperativa.
Conclusões
A implantação de uma organização dos catadores de materiais recicláveis em São João
del-Rei ocorre em meio a uma visibilidade e organização maiores do que as práticas associati-
vas da economia solidária têm alcançado. Ainda assim, essas práticas se apresentam como alter-
nativas contra-hegemônicas em relação ao sistema econômico vigente. Nessa perspectiva, as
práticas associativas têm que ser compreendidas tanto em seu potencial e em suas ações de
confronto e influência sobre o sistema político e sobre o Estado, como também em sua possi-
bilidade de afetar o modo de produção e de vida das pessoas envolvidas na ação coletiva. Nesse
sentido, desde as primeiras etapas deste trabalho, preocupou-se em promover o estabelecimento
de alianças entre a sociedade civil e o Poder Público, de maneira a unir as práticas e os saberes
governamentais e não-governamentais, tendo em vista a criação de possibilidades para que as
políticas públicas pudessem realmente contemplar as necessidades sociais. Contribui-se, assim,
para a abertura de um diálogo sobre a divisão de responsabilidades entre a sociedade civil e o
Estado, repensando a possibilidade de um novo contrato social e o conseqüente estabelecimento
de novas formas de regulação do laço social. Dessa forma, o Estado não se eximiria de seu
papel, desenvolvendo políticas alternativas voltadas para a promoção do trabalho, da melhoria
de condições de vida e do maior acesso dos trabalhadores a bens e serviços que se concretizam
no apoio a projetos comunitários oriundos de camadas da população que se encontram em parte,
ou mesmo totalmente excluídas do mercado de trabalho.
Considerando que estamos finalizando uma primeira etapa do processo de constituição
da Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de São João del-Rei, pode-se ressaltar que
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já tem sido alcançado algum avanço na promoção de uma consciência e comportamento ambi-
ental adequado por parte da população da cidade e que já se conquistou uma pequena melhoria
das condições de vida dos indivíduos envolvidos, mediante o aumento de material reciclável
destinado aos catadores. No entanto, é importante que consideremos o aspecto da dinâmica
interna dessa prática associativa que vem se solidificando. O grupo, como tal, vem, pouco a
pouco, construindo suas próprias condições para poder exercer pressão e influir na elaboração
de políticas públicas que contemplem suas necessidades, como também para modificar suas
posições subjetivas frente à atividade que exercem, no momento em que essa atividade vai se
tornando reconhecida e valorizada na sociedade. Se escolhemos uma metodologia de cunho
psicossocial, é por reconhecermos a possibilidade de reinserção social, da reconstituição do
pertencimento social e da recuperação do sentido de coletividade.
Como a Ascas ainda não está totalmente implantada e o processo de intervenção/inves-
tigação não está finalizado, as conclusões apresentadas são parciais. Mas o que se tem obser-
vado é que essa prática coletiva desenvolvida pelos catadores de materiais recicláveis tem
provocado mudanças em seus cotidianos e em seus hábitos de vida e, no momento em que eles
engajam no projeto, abrem-se novas possibilidades de reconstrução dos vínculos sociais. As
repercussões das transformações ocorridas na identidade coletiva dos catadores sobre a identi-
dade pessoal de cada um dos indivíduos envolvidos têm sido acompanhadas pela universidade.
Embora não se tenha, ainda, resultados conclusivos, pode-se dizer que, ao viabilizar a produção
de conhecimentos na interface universidade/comunidade, por meio de projeto de intervenção/
investigação realizado através de metodologias participativas, reafirma-se o compromisso social
da universidade — em especial da pública —, viabilizando sua inserção nas ações de promoção
e garantia dos valores democráticos, de igualdade e de desenvolvimento social.
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