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C U L T U R A E T É C N I C A
Soluções unilaterais
Conferência do Cons.º Alceu Amoroso Lima (do
C.F.E.)
Como todos os problemas humanos, o das relações entre a Técnica e a
Cultura pode apresentar mais de uma solução falsa e mais de uma verdadeira.
Comecemos por aquelas, segundo o método tomista, que nos recomenda
investigar, primeiramente, o que uma coisa não é antes de procurar saber o que ela
é.
Essas falsas soluções, ora são explícitas, ora implícitas. Ora extremadas e
categóricas, ora moderadas e complexas. Essas segundas categorias são muito mais
numerosas do que as primeiras e se traduzem rnais por uma atitude temperamental
do que por uma formulação lógica. For isso mesmo são muito rnais encontráveis no
chamado homem da rua, do que nos livros ou nos homens de mediana cultura. O
que distingue geralmente o homem da rua é olhar para os problemas por um lado só.
E assim generalizar com toda a facilidade. Se as multidões simplificam
exageradamente os problemas, e são por isso levadas às soluções •fanáticas, é
precisamente em conseqüência desse unilateralismo. Ora, como estamos vivendo
uma era em que a civilização de massa predomina sôbre a civilização de minoria e
de elites, essa simplificação perigosa dos problemas, com a conseqüente ausência do
espírito de distinção, ■é dos erros rnais perigosos de nossa mentalidade atual, um
pouco em todo o mundo.
A primeira dessas falsas soluções do problema técnico-cultural é tipicamente
uma solução do "man in the street", ou seja — a incompatibilidade entro uma e
outra. Devemos optar entre a técnica e a cultura.
Segundo essa concepção polizadora, a cultura ê um ornamento: a técnica uma
necessidade. A cultura é acidental; a técnica essencial. A cultura é o devaneio; a
técnica, a precisão. A cultura é a fantasia; a técnica, a verdade. A cultura é a
facilidade; a técnica, o esforço. A cultura ê a improvisão; a técnica, a aplicação.
E assim por deante. Cul-
tura e técnica seriam assim duas direções opostas do mesmo espírito-Válidas ambas,
sem dúvida, mas nitidamente separadas, por natureza, e exigindo, de nossa parte,
uma opção: ou escolhemos o caminho da tecnologia e da conseqüente Tecnocracia,
ou o caminho do culturalismo. Essa concepção do problema é a mais disseminada e
a rnais inconsciente também. Leva, naturalmente, ao malentendido que separa
habitualmente o homem de pensamento dos homens de ação. E com isso à segunda
falsa solução do problema.
Essa segunda colocação, que também considero errada, é a afirmativa de que
uma das duas é intrínsecamente superior à outra. O partidários do homo faber
consideram que a singularidade do homem é poder dominar a natureza física e
colocá-la, bem como os animais inferiores, ao seu serviço. Logo a técnica é
intrínsecamente superior à cultura. Por sua vez, os partidários do homo sapiens
afirmam que o espírito criador,. e não as invenções práticas, é que constituem a mais
alta singularidade do ser humano e, por conseqüência, a cultura é intrinsecamente
superior à técnica.
Embora superior à concepção polari/adora dos dois termos que estamos
procurando analisar, também não me parece acertada essa con-. cepção ¡soladora
digamos assim.
Como também não satisfaz uma observação objetiva e multisecular do
problema, o nivelamento de valores entre técnica e cultura. Para esta terceira
concepção, haveria entre os dois termos um absoluto paralelismo. Técnica e cultura
seriam valores absolutamente autônomos e estanques, cuja escolha depende
exclusivamente de nossa inclinação natural. Não se excluiriam reciprocamente,
como na primeira das soluções apontadas, mas tão pouco se imporiam à nossa,
escolha e muito menos a uma qualquer combinação. Tudo dependeria do critério de
nossa escolha e quando muito do imperativo das "afinidades eletivas", para aplicar a
expressão psicológica goetheana a um problema que seria então puramente
vocacional. Escolheríamos o caminho da técnica ou o caminho da cultura por uma
simples relação livre da vontade e do temperamento individual. É que podemos
chamar a solução atomística do problema.
Resta ainda uma quarta colocação, com muito de verdade, mas ainda pouco
objetiva ou exageradamente generalizadora que considera a civilização moderna,
como de tipo essencialmente técnico, enquanto as civilizações anteriores eram de
tipo cultural.
É o esquema tão magnificamente proposto, por exemplo, por Pitirim Sorokim,
no seu magistral estudo sôbre "A crise de nossa era". O grande sociólogo russo,
como se sabe, distingue três grandes tipos de civilização: a ideacional, a idealistica e
a sensorialista (sensate). Na primeira estariam-incluidos, tanto a civilização medieval
do Ocidente, como as culturas bramânicas, budistas e taoísta do Oriente e a Grega,
do oitavo ao sexto
século antes de Cristo. A cultura idealistica, compreenderia os séculos treze e
quatorze da Europa e a Grécia dos séculos quinto e quarto antes de Cristo. A cultura
sensorialista seria a nossa, a começar do Renascimento e se caracteriza,
particularmente, pela "tendência a substituir os fins pelos meios, o Gênio pela
Técnica". No que tangre ao sistema educacional essa nossa cultura primacialmente
tecnológica, assim se caracteriza, segundo Sorokim: "Savoir pour pouvoir (Bacon)
se constitui num critério supremo... O sistema educacional se transforma, antes e
acima de tudo,' numa escola de treinamento para os "conhecimentos úteis" e para as
profissões práticas (crafts). Sua preocupação máxima é preparar hábeis homens de
negócio, artífices, engenheiros, técnicos, políticos, legisladores, médicos,
professores, pregadores e assim por deante... As escolas elementares, secundárias e
superiores são tôdas orientadas (nesse sistema pragmatista) na mesma direção, dando
pouca atenção, se alguma, ao esquecido objetivo do conhecimento real e da
sabedoria, à natureza da realidade verdadeira e dos autênticos valores". (Pitirim
Sorokim — "The Crisis of our age", 1941, pág. 101).
Estaríamos, portanto, vivendo uma era de absoluto predomínio técnico e
mesmo de exclusão da cultura pela técnica Sorokim não aceita, de modo algum, essa
incompatibilidade, mas a considera como absolutamente representativa da
civilização moderna.
A verdadeira colocação do problema
Qual a verdadeira colocação preliminar do problema das relações entre a
cultura e a técnica?
Antes de tudo a afirmação da perfeita compatibilidade entre ambas. Para isso
basta definir adequadamente o que seja uma e outra, antes de entrar na análise de
cada uma das duas atividades. São palavras ambíguas ou antes polivalentes,
conforme o sentido em que as empregamos. Por isso mesmo se prestam a tantos
malentendidos.
Podemos distinguir no conceito da tècnica dois sentidos fundamentais: o
subjetivo e o objetivo. Técnica em sentido subjetivo, é um método de
aperfeiçoamento próprio a uma arte. A lógica é uma técnica do pensamento. A
poética é uma técnica do verso. O estilo é uma técnica da expressão. Até para amar
há uma técnica, como já o ensinava Ovídio. Quanto rnais para a educação, que é
uma técnica de informar o ser humano, que aliás não ê privilégio dos técnicos de
educação. . . Nesso sentido a técnica é uma qualidade subjetiva e pessoal, que
corresponde socialmente e pedagógicamente ao fenômeno da especialização.
Em sentido objetivo, a técnica é o instrumental com que o homem completa a
sua capacidade de dominar a natureza física. A técnica, messe sentido, é o
prolongamento da mão pela ferramenta e pela ma-equina.
O primeiro é o sentido imanente da técnica. O segundo o seu sentido transitivo.
Tanto um como outro eminentemente ligados à natureza humana.
Quanto à cultura, também pode ser entendida em sentido subjetivo e objetivo,
estrito ou lato.
No primeiro sentido, subjetivo ou estrito, a cultura é a própria integração da
personalidade humana, pela assimilação dos conhecimentos adquiridos à natureza
inata. É portanto um fim em si. Objetivamente e em sentido lato, o termo cultura é
extensivo ao conjunto de características e realizações de uma coletividade humana.
Assim podemos falar de um brasileiro culto, como de uma cultura brasileira.
Como se vê, cultura e técnica são perfeitamente compatíveis e até
recíprocamente indispensáveis, como duas vertentes da nossa natureza pessoal e
coletiva.
Não há, portanto, uma polarização, própriamente dita, entre cultura e técnica, e
sim uma complementaridade. Completam-se, não se opõem. Distinguem-se, por
natureza, não se hostilizam.
Essa complementaridade, porém, não as nivela, como não as isola. Não há uma
superioridade intrínseca nem de uma nem de outra. Nem a técnica é por natureza
superior à cultura, nem a cultura superior à técnica. Nem são paralelas e idênticas
em sua valorização quantitativa e qualitativa. Há entre elas uma relação de
hierarquia e não de nivelamento. De autonomia relativa, não de subondinação
absoluta. Mas de subordinação intrínseca, embora apenas parcial, da técnica à
cultura.
É que técnica é um meio e cultura, um fim. Técnica, um método de ação e de
aperfeiçoamento. Cultura, uma integração e um resultado da aplicação desse
método. Como a máquina, flor da técnica transitiva, no domínio do homem sôbre a
natureza, é um instrumento dirigido pelo homem, sob pena de inverter uma relação
natural e mecanizar o homem, em vez de ser este a humanizar a máquina. Como o
processo educativo se perturba todo quando convertemos o método de ensinar em
finalidade da educação. A relação, portanto, entre técnica e cultura, é de comple-
mentaridade hierárquica.
Quanto à afirmativa de que a Revolução Industrial, ou mesmo as duas
revoluções industriais por que passou a humanidade, a do século XVIII e a do
século XX, deram à nossa época um caráter essencialmente técnico, deve ser
recebida em termos.
Podemos e até mesmo devemos aceitar a observação se mudarmos o
essencialmente para predominantemente.
É fato que os progressos da técnica, especialmente no sentido-objetivo, têm-se
precipitado de tal modo nos últimos séculos, e particularmente nos últimos
decênios, que podemos realmente falar de um equilíbrio ameaçado pela
extrapolação da técnica sôbre a cultura, em nosso tempo. E pela ilusão de que
a técnica, por virtude dessa evolução.
superou a cultura ou inverteu, de direito, a hierarquia de valores. Doravante,
deveríamos falar da cultura como de um epifenômeno da técnica.
Seria a rnais perigosa das confusões e das inversões de valores. O fato dessa
aceleração da técnica, em nossos dias, não altera em nada a relação intrínseca entre
ambas.
A técnica, sendo por natureza impessoal ao passo que a cultura sendo por
natureza pessoal, submeter esta àquela é subverter susbstancial-mente uma ordem
natural de valores A civilização moderna, por sua vez, não é de caráter unívoco,
como faria pressupor essa colocação. Ela é fundamentalmente pluralista. E se
encontra muito rnais em um processo de mutação por intercomunicação de cultura
do que em um processo de superação e muito menos de retrocesso. É o próprio
Sorokim, aliás, que, embora subestimando a importância da técnica e exagerando
sua atual supremacia, indica a necessidade de uma recolocação de valores em seus
devidos lugares, pelo "reconhecimento inequívoco de que a realidade sensorial e os
seus valores são apenas um dos aspectos da verdadeira e infinitamente rnais rica
realidade e valor (na qual) ... o homem não é apenas um organismo mas o portador
de um valor absoluto (exigindo com isso) uma transformação das relações sociais e
das formas de organização social (já que por exemplo tão grandes valores como o
estado nacional ou a propriedade privada são hoje, em grande parte, obsoletos, já
ultrapassaram o período dos grandes serviços prestados à humanidade e são,
atualmente, pontos de desserviço social, mais do que de bem estar social... É mister
uma completa mudança de mentalidade no sentido das normas prescritas pelo
Sermão da Montanha. Quando ocorrer tal mudança, tornar-se-ão fáceis os meios
técnicos de refundir as estruturas econômicas e políticas" (op. cit. pág. 317/19).
A filosofia latente nessa colocação de Sorokim peca por um excesso de
subordinação da técnica à cultura, como se bastasse mudar esta para mudar aquela.
Exatamente o contrário do que pensa o materialismo dialético marxista. A verdade ê
muito rnais sutil e complexa. Até na apontada complementaridade doa dois valores,
que deve ser incutida através de um adequado processo educativo, pelo colocação da
cultura como medida e finalidade da técnica, mas que, sem esta, não pode realizar-
se.
Dicotomías
Colocados então os dois termos da equação em sua, ao que me parece, correta
posição hierárquica complementar, procuremos analisá-los um pouco rnais
profundamente em sua dicotomia convergente.
A técnica pertence ao domínio do que é a cultura ao do que pode o deve ser.
Daí a ligação próxima da técnica com a ciência e da cultura com a arte e a moral.
Ciência, arte e moral são três atitudes
fundamentais do ser humano, no plano natural, em face da natureza total, visível e
invisível. A educação, sendo uma preparação do homem total para uma vida total,
não pode desdenhar nenhum aspeto, nem do homem nem da natureza, física ou
social. De modo que é uma atividade ao mesmo tempo especulativa o prática, ao
mesmo tempo científica, artística e moral. Em tudo o que toca a posição científica,
isto é ao estudo, à observação, ao conhecimento das coisas tais como são, tanto em
nosso mundo interior como em nosso contacto com o mundo exterior, está portanto
a educação em íntimo contacto com a atividade técnica, que é por natureza o
aspecto prático da especulação científica.
Em tudo, por seu lado, o que na educação se refere ks nossas possibilidades de
extrapolação do domínio dos fatos ou de orientação no domínio de nossas ações, a
educação está diretamente ligada à cultura. Como não podemos dissociar um
domínio do outro, como o homem é, ao mesmo tempo, um ser que vive no meio dos
fatos, das idéias, das formas possíveis e das normas do bem viver, é também
impossível dissociar, na educação, a atividade técnica e a atividade cultural, o homo
faber do homo sapiens.
Pertencendo, por natureza, ao domínio do que 6, consiste a técnica
eminentemente numa atividade prática. E nisso se distingue da ciência, de cuja
posição, como vimos, tanto se aproxima. A técnica é a ciência aplicada. Seu
contacto com a realidade é não apenas descritivo, como o da ciência. É também
modificativo. Ora a educação é igualmente uma atividade prática e, por conseguinte,
modificativa. Logo, técnica. Visa precisamente aperfeiçoar a natureza humana,
incutir-lhe hábitos bons e corrigir-lhe os maus. Visa' comunicar conhecimentos, não
apenas por amor do próprio conhecimento, mas para que eles se transformem em
vida. Ora tudo isso é, naturalmente, do domínio da técnica, filosòficamente
considerada e realísticamente aplicada. A cultura, por sua vez, 0 é uma atitude
especulativa, se bem que, por seu lado, esteja intimamente ligada, por sua natureza, à
arte e à moral, que são duas funções humanas de tipo prático e não especulativo.
Tudo isso mostra a interseção entre técnica e cultura, a sua inseparabilidade na tarefa
educativa. O ser humano, essa natureza total que a educação procura aperfeiçoar por
todos os modos, é também naturalmente especulativo e não apenas prático. Essa
vida, a que nos referimos como objeto prático da comunicação de conhecimentos
pelo estudo, tende a desprender-se das dimensões que a prendem à realidade
puramente prática. É precisamente a cultura que nos desprende do realismo prático
— a cultura literária, filosófica, artística, religiosa, — e dá ao homem a sua
dimensão integral. Sem a técnica a cultura se perde no domínio da facilidade e da
fantasia arbitrária. Logo da desordem mental e da diminuição da personalidade. Sem
a cultura, a técnica transforma os homens em simples elos de uma cadeia, na qual
falta o fecho capital — a liberdade. Não há, pois, educação
completa sem a conjugação harmoniosa da atividade prática e da atividade
especulativa. E por conseguinte, da técnica e da cultura.
Por sua natureza pratica, está naturalmente a técnica voltada para o concreto e
para o particular. Ao passo que a cultura nos leva, também espontâneamente, para o
plano das generalidades. Mas também não podemos, em matéria de educação,
separar um domínio do outro. Especialização e cultura geral são duas faces da
mesma tarefa pedagógica. Em todos os planos, graus e tipos de formação educativa,
ambas ressurgem, embora nem sempre em idênticas proporções. É claro que nas
escolas chamadas profissionais, é a técnica que predomina. Não só porque a elas se
devem dirigir aquêles que vocacionalmente têm a inteligência rnais nas mãos que no
cérebro, mas ainda porque visam precisamente preparar indivíduos para tarefas
intrínsecamente técnicas, isto é especializadas e práticas. Mesmo nesse tipo de
escolas, porém, seria errado, já não digo suprimir, mas até mesmo subestimar a
função da cultura e portanto das idéias gerais. Não se pode separar as mãos do
cérebro. O profissionalismo puramente manual é uma deformação da educação dita
profissional. Não há prática sem doutrina. Não há aplicação sem ciência. Não há
particular sem geral. E quando há, como infelizmente acontece em grande escala,
estamos em face de uma deficiência, de uma deturpação, de um malentendido.
Se isso ocorre com o tipo de educação chamado profissional, que é do domínio
onde a primazia da técnica é insofismável, quanto mais nos outros tipos ou graus de
educação. Varia a proporção do particular e do geral, e portanto da técnica e da
cultura, no plano primário, secundário ou universitário, sem dúvida. Poderíamos
dizer, embora simplificando perigosamente, que no plano primário predomina o
particular a portanto a técnica; no plano universitário, o geral e portanto a cultura e,
no plano intermediário se equilibram, o particular e o geral, logo a técnica e a
cultura.
Tudo isso nos leva a acrescentar que a técnica é uma atividade Interessada e a
cultura uma atividade desinteressada. Isso não quer dizer que a técnica seja do
domínio do essencial e a cultura do domínio do acidental. Ou que a técnica seja um
elemento na formação humana, © a cultura um simples condimento. Seria
contradizer tudo o que acabamos de dizer sôbre o caráter fundamental e mesmo
primacial na formação cultural do ser humano. O desinterêsse, que está ligado à cul-
tura, é precisamente a compreensão de que não basta preparar o aluno para obter um
diploma ou estudar apenas as matérias necessárias para uma formação profissional,
que representa o papel totalizador e humanista da educação. Quantas vêzes o
adolescente pergunta a si mesmo, quando não ao professor e sobretudo aos colegas,
para que estudar tanta matemática, quando não vão ser, na maioria dos casos,
matemáticos profissionais?
A resposta é obvia, nem sempre se mede o valor de um estudo pelo interêsse
imediato e consciente que dele temos. E é muitas vêzes o que estudamos
desinteressadamente, como elemento de pura cultura. que rnais vai servir não apenas
à ornamentação do nosso espírito, mas à formação profunda de nossa personalidade.
Outras dicotomías
Outra dicotomia convergente entre os dois valores aqui analizados é que a
técnica é da domínio da ação e a cultura do domínio da contemplação. E a educação
é, simultâneamente, uma e outra coisa. Filosòficamente a ação é o processo de
passagem da potência ao ato, isto é do que é indefinido e imperfeito ao que é
definido e acabado, do que é mera possibilidade ao que ê realidade efetiva. Ora, o
qua visa a educação é precisamente fazer nascer o adolescente dentro da criança, o
moço no adolescente, o adulto no moço e até mesmo, para consolo dos
septuagenários, o velho no adulto. Bastaria essa consideração para compreendermos
que a educação não só é uma ação por natureza, mas ainda que pertence a tôdas as
idades. Ai daquele que não morre aprendendo...
A educação também é uma ação, e portanto uma técnica, no sentido de preparar
o ser humano para. . . sair de si. Não só procura extrair uma idade de outra, mas
procura tirar o homem do seu mundo fechado para o mundo aberto dos contactos
com a natureza, com a sociedade € com os valores absolutos. Especialmente com
Deus, o único Absoluto por definição. A educação prepara para a extroversão, togo
para a ação. Logo para a técnica. É uma técnica que prepara técnicos, em sentido
lato.
Mas, ao mesmo tempo, é uma contemplação, logo uma cultura, porque
justamente tende a despertar, no homem relativo, apressado, efêmero, superficial —
que é a imagem embora distorcida do técnico e do ativista — o homem substancial,
o homem dos valores, dos princípios, da meditação, das raízes, do pensamento. E
tudo isso pertence ao domínio da cultura. O homem completo, que a educação visa
formar, ao menos como ideal, é uma e outra coisa. E não uma ou outra coisa.
A técnica, por sua vez, desenvolve no ser humano, o que Pascal chamou o
"esprit de geometrie" e a cultura o "esprit de finesse". Urna nos leva a 1er nas linhas.
A outra a 1er nas entrelinhas. Uma a raciocinar com clareza. A outra a saber que
nem tudo se resolve pelo raciocínio. E que "há razões que a razão não compreende",
para ainda citar Pascal. O professor de espirito puramente geométrico não será capaz
de vencer, por exemplo, a barreira das idades que geralmente separa mestres e
alunos. O professor puramente sutil, por seu lado, que desdenha as lições da técnica
para ficar apenas no amor da cultura, cumprirá mal o seu
dever, que não é apenas entender as idéias ou as expressar, em seus-entretons, como
o faz o "esprit de finesse", mas comunicar conhecimentos e disciplinar instintos.
A técnica, portanto, parte da primazia do espírito lógico e a cultura do espirito
intuitivo. A técnica nos ensina a pensar com clareza. A cultura a sentir com agudeza,
Daí ser a técnica eminentemente racional e a cultura eminentemente afetiva.
Pertence à categoria daquela a chamada "sapientia mentis", E a esta a "sapientia
cordis".
O mesmo poderíamos dizer do espírito de invenção e do espírito de criação. São
ambas formas dinâmicas da inteligência humana. Representam ambas uma projeção
do ser humano no sentido do seu desdobramento, e toda a educação deve ter em vista
essa extrapolação da personalidade. Mas não se confundem. O espírito inventivo é
tipicamente técnico. Visa uma atividade transitiva: a fabricação de um objeto ou o
encontro de um caminho novo. Ao passo que o espírito criador é uma atitude
imanente, intransitiva, embora se traduza também em obras.. Mas obras do espírito e
não da matéria. Obras de beleza ou de pensamento. Obras de cultura e não de
técnica. Completam-se e partem, mesmo de um impulso comum — o da projeção do
indivíduo para fora e para frente — e portanto no plano eminentemente educativo.
Essa projeção do nosso ser para fora e para frente, que se manifesta pelo espirito
de invenção e pelo espírito de criação, exige um duplo
trabalho pessoal: o da concepção e o da realização. São duas etapas de um mesmo
esforço. Mas que também não se confundem. A etapa conceptual é do domínio
cultural. A etapa realizadora é do domínio técnico. Uma prepara a outra. Nesse
ponto a cultura precede a técnica.
E se entendermos cultura em seu sentido lato e global — e não apenas como
assimilação final de conhecimentos e muito menos como simples ornamentação do
espírito ou revestimento erudito — podemos dizer que ela sempre precede a técnica
na ordem da intenção. Embora possa ser precedida por esta na ordem da realização,
como os meios precedem os fins. Ensinar bem, com métodos técnicos apropriados, é
um processo indispensável para alcançar uma boa formação cultural De modo que a
técnica pode, em certos casos, preceder a cultura. Esta porém é a base e o fim. Está
no princípio como está no resultado. Está na preparação antecipada do espírito até
mesmo para utilizar a técnica de aprender ou de fazer, como está na finalidade
conclusiva do trabalho educativo, que é sempre a de transformar o homem primário
no homem culto. E bem sabemos que o primarismo é um dos males rnais positivos
de que sofrem os países como o nosso, em que a cultura é considerada um luxo e a
técnica improvisada tende a transformar-se em ídolo.
Pois a técnica nos leva naturalmente ao espírito afirmativo, enquanto a cultura
nos prepara para o espírito compreensivo. A técnica nos ensina
a concluir. A cultura nos ensina a duvidar. E se a dúvida sistemática é uma
deformação do verdadeiro espírito crítico, a dúvida hipotética ou psicológica é o
melhor caminho da verdade. E até da boa convivência. Por conseguinte, da educação
bem dirigida. O professor que afirma demais e abusa do dedo em riste pode contar,
como certa, com a antipatia do bom estudante, que em geral não é o estudante
bonzinho, que diz amém a tudo que ouve da boca do oráculo professoral. E quanto
menos professorais forem os professores, .rnais autenticamente serão 03 mestres. . .
Síntese técnico cultural
De tudo o que ficou acima dito a conclusão deriva por si mesma e já está
contida nas premissas do raciocínio: não podemos separar cultura de técnica, nem
subverter a hierarquia natural dos dois valores.
Pois três exigências não podem deixar de ser atendidas, para que a natureza da
educação, e acima de tudo sua efetiva e proveitosa aplicação sejam levadas a bom
termo. A primeira, é uma lúcida análise do que seja cada um desses dois valores
fundamentais da tarefa educativa. A segunda é que sejam colocados em uma relação
de hierarquia proporcionada, sem perda da autonomia de cada qual nem da
relatividade de
cada um em função
do outro. E finalmente que se proclame e se efetue,
na prática, a sua essencial complementaridade. Ou, como a apelidamos, sua
dicotomia convergente.
Pois são duas vertentes, não só da umidade substancial da natureza humana,
mas ainda da exigência essencial da tarefa educativa. Na prática é o eterno problema
da especialização e da cultura geral, tão perene. na obra educativa, como o das
relações da liberdade com a autoridade, no plano político.
Técnica é, por natureza, especialização. E não há cultura autêntica sem
especialização. Cultura é por natureza generalização. E não há boa especialização
sem o preparo por meio das idéias gerais. A colocação proporcional de cada uma, na
obra educativa, varia entretanto de acôrdo com o tipo e o nível de formação, mas
ainda segundo a tendência média da mentalidade de um povo. Entre nós, a vertente
cultural é rnais nativa do que a vertente técnica. Somos mais naturalmente inclinados
à generalização que à especialização. Mais amigos das idéias gerais e da instrução
em superfície e em área de extensão, do que do estudo analítico e em profundidade.
Somos geralmente muito rnais inclinados ao capital que ao trabalho. Ao principal
que ao secundário. Às grandes linhas que aos pormenores. Poderá ser um bem se não
for uma opção. Tanto rnais quanto não se domina a natureza senão obedecendo-lhe,
como já o dizia a sabedoria dos antigos. E nunca devemos perder de vista que a
educação de um povo não pode prescindir do respeito aos caracteres inatos dêsse
povo. E à manutenção de suas qualidades profundas, o que exige também-a correção
dos seus defeitos. Educar é obedecer e corrigir. Simultâneamente. O professor, se
quiser corrigir os alunos, tem de começar por lhes obedecer, isto é, compreendê-los,
acompanhá-los, respeitá-los, e acima de tudo amá-los como são e não apenas na
medida em que correspondem ao modêlo que desejamos oferecer-lhes. E o mesmo
ocorre com o aluno em relação ao professor, a quem só obedece de modo fecundo se
não temer corrigi-lo quando não cumpre com o seu dever. Ou ultrapassa sua
autoridade.
Somos, pois, nós brasileiros naturalmente inclinados a sobrepor a cultura à
técnica, porque somos muito mais naturalmente inclinados àquela do que a esta. Por
isso mesmo é que, em nossa educação, de qualquer grau ou tipo, o esforço no
sentido de despertar e aplicar as exigências da técnica é rnais imperativo e urgente
do que o de desenvolver as qualidades inerentes à tarefa propriamente) cultural, já
que, no homem brasileiro, em geral, e não apenas nos jovens da fase pròpriamente
estudantil, a tendência à cultura é inata e a necessidade da técnica é adquirida. Logo
é rnais difícil incutir a técnica nos nossos hábitos de disciplina interior e exterior que
ela exige, do que desenvolver nossas qualidades culturais. Devemos, pois, uma
atenção rnais imediata e mais cuidada no sentido de desenvolver, entre nós, o
imperativo da especialização, que é uma deficiência a corrigir, do que a preocupação
de estimular o sentido cultural de nossa formação educativa, já que é um impulso
espontâneo do nosso temperamento.
Tomemos um exemplo muito prático e muito diretamente ligado às condições
de nossa vida moderna. É um fato que a maioria absoluta dos nossos estudantes, de
que nível fôr ou de que ramo fôr, vão constituir família e no âmbito dos seus lares é
que exercerão suas profissões respetivas e se dedicarão às tarefas de ordem pública
ou particular, que constituirão o tecido da vida social brasileira. Ora, é também um
fato que há uma classe social, outrora extremamente ligada à vida tradicional e
doméstica brasileira, que ê a das empregadas domésticas Já agora quase que s6 há
empregadas domésticas, isto é do sexo feminino. Ou de menor idade. E pouco a
pouco essa classe tende a desaparecer e a se transformar profundamente, como está
acontecendo nos Estados Unidos, e nos demais países, mesmo da área não socialista.
Pois no dessa última o fato ainda é rnais patente.
Qual a conseqüência educativa desse fato social novo e tão típico deste fim de
século XX? É que devemos dar, não apenas às alunas de todos os cursas, primários e
secundários ao menos, mas a todos os alunos. noções fundamentais de trabalhos
domésticos, que os habilitem a realizar aquilo que um provérbio antigo chamava de
"D. João criado de si mesmo". É uma exigência, essa educação técnica para os
serviços .domésticos elementares — que nasce dos próprios fatos sociais
modernos.
-A chamada economia doméstica já não é hoje uma disciplina para moças, nem
muito menos reduzida a trabalhos de agulha. É uma prática educativa, que eu
chamaria de imperativa, como matéria curricular, para ambos os sexos e para todo
gênero de escola preparatória para a vida de hoje. E até mesmo para a vida cultural
rnais pura. A técnica, Isto é o fazer, como Kercherstein tão definitivamente o
proclamou, é não só uma exigência indispensável para a harmonia da função
educativa, ao mesmo tempo ideativa e fabricativa, como o ser humano, mas é uma
condição fundamental cada vez rnais exigente para a vida real de nossos dias.
Claudel nos legou a fábula do eterno diálogo, em cada um de nós de Animus, o
princípio masculino e Anima, o princípio feminino.
O mesmo se poderá dizer do diálogo perene, em nossa obra educativa, entre o
espírito masculino da Técnica e o espírito feminino da Cultura. É da conjunção das
duas linhas que pode resultar uma educação realmente harmoniosa. Tanto em sua
orientação doutrinária como prática. E que só realizará o seu ideal de elevar a
condição humana, não só individual mas social, se levar à prática essa dicotomia
convergente dos dois princípios. Até mesmo na rnais autêntica concepção religiosa.
da educação, pela qual sabemos que a Graça completa a natureza, não podemos
prescindir dessa complementaridade dos dois fatores, pois a natureza se prepara, pela
técnica, para receber a Graça e só pela cultura autêntica, se abre espontáneamente a
esta.
A educação é uma síntese, uma proporção, uma harmonia, uma convergência. A
boa técnica prepara a cultura, como uma cultura sadia justifica o valor da técnica.
Humanismo tecnológico e tecnologia humanista, se completam. Dar cultura geral aos
técnicos e boa técnica aos que trabalham os campos da cultura geral, é o melhor meio
de evitarmos a idolatria da técnica, em prejuízo da cultura ou a vaidade dos
humanistas com o desprezo pelos técnicos...