Download PDF
ads:
UNIVERSIDADE SÃO FRANCISCO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUÇÃO STRICTO SENSU EM
EDUCAÇÃO
ADRIANA COSTA
A EDUCAÇÃO ESTATÍSTICA NA FORMAÇÃO DO
PROFESSOR DE MATEMÁTICA
ITATIBA
2007
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
UNIVERSIDADE SÃO FRANCISCO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUÇÃO STRICTO SENSU EM
EDUCAÇÃO
Linha de Pesquisa: Matemática, cultura e práticas pedagógicas
ADRIANA COSTA
A EDUCAÇÃO ESTATÍSTICA NA FORMAÇÃO DO
PROFESSOR DE MATEMÁTICA
Dissertação apresentada no Programa de
Pós-Graduação Stricto Sensu em
Educação, da Universidade São
Francisco, para obtenção de título de
Mestre em Educação.
Orientadora: Profa. Dra. Adair Mendes
Nacarato.
ITATIBA
2007
ads:
Ficha catalográfica elaborada pelas bibliotecárias do Setor de
Processamento Técnico da Universidade São Francisco.
371.399.51 Costa, Adriana.
C87e A educação estatística na formação do professor de
matemática / Adriana Costa. -- Itatiba, 2007.
153 p.
Dissertação (mestrado) – Programa de Pós-
Graduação Stricto Sensu em Educação da
Universidade São Francisco.
Orientação de: Adair Mendes Nacarato.
1. Estocástica. 2. Formação de Professores.
3. Educação estatística. I. Nacarato, Adair Mendes.
II. Título.
DEDICATÓRIA
A minha mãe, Mércia, minha primeira professora, pelas palavras de incentivo
e apoio incondicional aos meus sonhos. Com amor, muito obrigada!
Ao meu pai, Edson, pela paciência e pela dedicação intensa à minha realização.
A minha avó, Virgínia, pela ajuda, pela dedicação e pelo carinho
desde os meus primeiros passos.
A Maristela, pela atenção, pelo incentivo e pela presença constante nos momentos
mais importantes da minha vida, meu eterno carinho e gratidão.
Ao Gustavo, meu irmão e meu melhor amigo, pela torcida, pela amizade.
Você é a minha fonte maior de alegria e amor.
AGRADECIMENTOS
À Profa. Dra. Adair Mendes Nacarato, professora orientadora desta pesquisa, pelas
contribuições acadêmicas, por me aceitar e acreditar em mim desde o começo desta jornada.
Pelo trabalho de orientação, pela disponibilidade irrestrita, pela amizade, pela paciência e pelo
apoio durante toda a pesquisa e a escrita desta tese.
À Profa. Dra. Regina Célia Grando, pela alegria e pelo seu exemplo como minha professora.
Pelas contribuições e sugestões no Exame de Qualificação.
À Profa. Dra. Celi Espasandin Lopes, pelo seu exemplo profissional, pelas valiosas
contribuições e sugestões no Exame de Qualificação, que auxiliaram na construção desta tese.
Às Profas. Dra. Alexandrina Monteiro e Dra. Jaqueline Rodrigues Mendes, que muito
colaboraram para a minha formação profissional.
Aos professores formadores Cileda, Clayde, Irene e Paulo, que gentilmente colaboraram com
este trabalho, dispensando parte do seu tempo para responder à nossa pesquisa.
Aos demais professores do mestrado e aos professores que passaram pela minha vida,
principalmente as professoras Maria Lúcia, Geni, Lúcia e Zoraida.
Aos meus amigos e colegas professores do Centro Universitário Anchieta e em especial ao
professor Edgard Dainese, pelo exemplo profissional e fundamental para a consolidação de
minha carreira como professora.
Aos colegas e amigos do mestrado.
Aos meus familiares e amigos.
Aos meus alunos.
A Deus, sem o qual nada é possível.
É graça Divina começar bem.
Graça maior persistir na caminhada certa.
Mas a graça das graças é não desistir nunca.
Dom Helder Câmara
COSTA, Adriana. A Educação Estatística na Formação do professor de
Matemática. Dissertação (Mestrado em Educação), 2007, 153p. Programa de Pós-
Graduação Stricto Sensu em Educação. Universidade São Francisco, Itatiba/SP.
RESUMO
A presente pesquisa centra-se nas seguintes questões de investigação: “Como os
professores da escola básica percebem a inserção da Educação Estatística nos currículos
escolares? Como os professores formadores percebem o ensino de Estocástica na
formação do futuro professor de Matemática?”. Tem como objetivos: (1) analisar as
percepções dos professores da escola básica sobre a inserção da Educação Estatística no
currículo; (2) analisar alguns indícios de inserção da Educação Estatística na sala de
aula da educação básica; (3) identificar as percepções dos professores formadores sobre
a inclusão da Estocástica nos currículos escolares e como estes vêm abordando seus
conteúdos na formação de futuros professores. Inicialmente aplicou-se um questionário
a professores da escola básica, buscando identificar se estes trabalham ou não com a
Estocástica. Os 30 questionários que retornaram respondidos permitiram constatar que a
maioria dos professores não recebeu formação inicial que lhes possibilitasse trabalhar
com o bloco Tratamento da Informação na educação básica. Essa constatação levou-nos
a redirecionar o trabalho para os professores formadores; assim, realizamos entrevistas
com tais profissionais, que, provavelmente, não atuaram na formação desses
professores; no entanto, nosso interesse é analisar se aqueles se preocupam atualmente
com o fato de que a Estocástica está presente nos currículos da educação básica e se
redirecionam suas propostas para atender a essas novas exigências. Desta forma, o
material de análise desta pesquisa é constituído dos questionários respondidos e das
transcrições das entrevistas. O trabalho está organizado em sete capítulos: no capítulo 1,
trazemos elementos de nossa trajetória, apontando nossa aproximação com o objeto de
investigação; no capítulo 2, discutimos a presença e a importância da Estocástica nos
currículos de educação básica; no capítulo 3, tecemos algumas considerações sobre o
diálogo entre Educação Matemática Crítica e Educação Estatística; no capítulo 4,
discutimos a formação do professor e, em especial, o perfil do professor formador; no
capítulo 5, apresentamos os caminhos metodológicos da pesquisa, as mudanças de rumo
que aconteceram durante sua realização; no capítulo 6, trazemos a caracterização dos
professores que responderam o questionário aplicado no início da pesquisa e a análise
da forma como eles vêm tentando ou não incluir conteúdos de Estocástica na educação
básica; no capítulo 7, fazemos considerações sobre o ensino da Estatística, com base nas
entrevistas aplicadas aos formadores. A análise possibilitou constatar que os
professores, mesmo não recebendo formação adequada, quer inicial, quer continuada,
para o exercício profissional corroborando nossa hipótese inicial de pesquisa –,
buscam formas de inserir a Estocástica em suas aulas, apoiando-se, principalmente, em
livros didáticos e paradidáticos. Quanto aos professores formadores, estes reconhecem
que existem lacunas na formação docente, bem como problemas conceituais e
epistemológicos nos livros didáticos; destacam também a pouca flexibilidade nas atuais
ementas dos cursos de licenciatura e sinalizam a necessidade de sua reformulação, de
forma a atender às necessidades da formação do pensamento estatístico nos futuros
professores, para que estes possam atuar com segurança na Educação Básica.
Palavras-chave: Estocástica; formação de professores; Educação Estatística
ABSTRACT
The present research is centered on the following investigative questions: “How do
basic school teachers feel about the insertion of Statistics Education in school
curricula?” and “How do teacher formers feel about Stochastics teaching in educating
future mathematics teachers?”. The aims of the study are (1) to analyze basic school
teachers' perceptions about the insertion of Statistics Education in the curriculum; (2) to
analyze some evidences of the insertion of Statistics Education in basic education
classes; and (3) to identify teacher formers’ perceptions about the insertion of
Stochastics in school curricula and how they have been approaching their contents in
the formation of future teachers. First, a questionnaire was applied to basic school
teachers, in an attempt to find out if they work with Stochastics. The 30 questionnaires
that were answered allowed us to realize that most of them had never had a kind of
education that could enable them to work with Information Treatment at basic
education, and that directed our work to teacher formers. So, we carried out interviews
with those professionals, who probably did not work on the research teachers'
education. Our interest, however, has been to find out if those teachers are presently
worried about the fact that Stochastics is present in basic education curricula and if they
replan their teaching attitudes to meet these new demands. This way, the research
material analyzed in this study is the answered questionnaires and the transcribed
interviews. The work is organized into seven chapters: in chapter 1, we bring some
elements of our profesional route, highlighting our approach to the investigation object;
in chapter 2, we discuss about the presence and importance of Stochastics in basic
education curricula; in chapter 3, we make some comments on the dialogue between
Critical Mathematics Teaching and Statistics Teaching; in chapter 4, we discuss about
teacher education, especially teacher formers’ characteristics; in chapter 5, we present
the methodological routes of the research, as well as the change in direction during its
development; in chapter 6, we characterize the teachers who answered the questionnaire
applied in the beginning of the research and show how they have (not) been trying to
insert Stochastics contents in basic education; and in chapter 7, there are some
considerations about Statistics teaching, based on the interviews applied to teacher
formers. The analysis has allowed us to realize that, even not having ever had proper
education for their professional actions corroborating our hypothesis from the
beginning of the research teachers have been trying to find ways of inserting
Stochastics in their classes, especially with the use of coursebooks and readers. As for
the teacher formers, they recognize that there are some gaps in teacher education, as
well as conceptual and epistemological problems in coursebooks. They also point out to
the little flexibility in today's syllabuses of higher education courses and the need to
replan them in order to meet the needs to build future teachers' statistical thinking, so
that they can work with self-assurance in basic education.
Key words: Stochastics; teacher education; Statistics Education.
SUMÁRIO
1. AS APROXIMAÇÕES COM O OBJETO DE ESTUDO: TRAJETÓRIA
ESTUDANTIL E PROFISSIONAL DA PROFESSORA PESQUISADORA.......... 1
1.1 – Trajetória Estudantil............................................................................................ 2
1.2 – Trajetória Profissional ....................................................................................... 12
1.3 – Ingresso na Pós-Graduação: o despertar para a pesquisa.................................. 19
2. ESTOCÁSTICA: INSERÇÃO NOS CURRÍCULOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA
........................................................................................................................................ 23
2.1. Contextualizando a Estocástica........................................................................... 24
2.2. O desenvolvimento do pensamento estatístico.................................................... 35
2.3. A inserção da Estocástica nos currículos da Educação Básica............................ 44
2.4. Educação Estatística............................................................................................ 48
3. EDUCAÇÃO MATEMÁTICA CRÍTICA E EDUCAÇÃO ESTATÍSTICA: um
diálogo necessário......................................................................................................... 54
3.1. Os processos de globalização e a sociedade do conhecimento ........................... 54
3.2. A Educação Matemática Crítica e a Educação Estatística ................................. 57
4. A FORMAÇÃO DOCENTE E O PROFESSOR FORMADOR.......................... 64
4.1. O professor frente à sociedade globalizada e do conhecimento.......................... 65
4.2. Repertório de saberes que os professores constituem ao longo da formação
profissional ................................................................................................................. 68
4.3. O professor universitário e o professor formador................................................ 75
5. CONSTITUIÇÃO DO OBJETO DE INVESTIGAÇÃO E PROCEDIMENTOS
METODOLÓGICOS................................................................................................... 79
5.1. Definindo o objeto de investigação..................................................................... 79
5.2. Instrumentos de coleta de dados.......................................................................... 84
5.2.1. Aplicação de questionário ............................................................................ 84
5.2.2. Entrevistas com professores formadores...................................................... 85
5.3. Professores formadores participantes da pesquisa............................................... 86
5.4. Análise................................................................................................................. 87
6. O ENSINO DE ESTOCÁSTICA NA CONCEPÇÃO DE PROFESSORES DA
EDUCAÇÃO BÁSICA................................................................................................. 89
6.1. Perfil dos professores participantes da pesquisa.................................................. 89
6.2. Formação em Estatística dos professores participantes da pesquisa................... 96
6.3. Percepções dos professores participantes da pesquisa quanto à inserção da
Estocástica no currículo e na sala de aula da Escola Básica .................................... 101
7. O ENSINO DE ESTATÍSTICA NA PERCEPÇÃO DOS PROFESSORES
FORMADORES......................................................................................................... 105
7.1. A percepção dos formadores quanto à Educação Estatística na formação do
professor de Matemática........................................................................................... 106
7.2. A percepção dos formadores quanto à inserção da Educação Estatística na
Educação Básica....................................................................................................... 126
7.3. Em busca de uma síntese................................................................................... 138
CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................... 141
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................... 147
ANEXOS ......................................................................................................................150
TABELAS
Tabela 1 - Apresentação da faixa etária dos professores investigados....................... 90
Tabela 2 - Distribuição dos professores segundo cidade de residência...................... 91
Tabela 3 - Caracterização dos professores segundo curso de graduação................... 92
Tabela 4 - Distribuição dos professores segundo instituição de graduação e cidade de
residência do professor............................................................................................... 93
Tabela 5 - Ano de conclusão do curso de graduação. ................................................ 94
Tabela 6 - Apresentação de outros cursos de formação dos professores e a sua
modalidade. ................................................................................................................ 95
1
1. AS APROXIMAÇÕES COM O OBJETO DE ESTUDO: TRAJETÓRIA
ESTUDANTIL E PROFISSIONAL DA PROFESSORA PESQUISADORA
Esta pesquisa visa analisar e compreender como os professores de Matemática que
atuam de 5
a
a 8
a
série e os professores formadores percebem a inserção do ensino da
Estatística na Educação Básica e também como os professores formadores a percebem
na formação dos professores que a trabalham nas salas de aula.
A partir de consulta na literatura, encontramos os termos: Estocástica que
entendemos como uma integração de conteúdos de Probabilidade e Estatística –;
Estatística e Probabilidade; e Educação Estatística. Em alguns momentos utilizaremos
esses termos, contextualizando tal utilização.
Nossa hipótese inicial corrobora o argumento de Vendramini (2006, p. 237) de
que:
Professores de diferentes níveis de ensino abordam temas de
Estatística como se estivessem ensinando Matemática, preocupando-
se mais com a demonstração de fórmulas e cálculos matemáticos, ou
com a utilização de recursos computacionais do que propriamente
com conceitos associados a características grupais e não individuais
de variáveis observadas em elementos de um conjunto, a incerteza e a
inferência.
Entendemos que a maior parte dos professores de Matemática recebe na sua
licenciatura um ensino de Estatística em teor igual ao mesmo ensino para outras áreas
de bacharelado ou licenciatura. Entendemos também ser necessário apontar, num
primeiro momento, como e por que nos aproximamos deste objeto de investigação.
Nesse sentido, procurarei
1
detalhar minhas experiências no ensino da Estatística e a
forma como me inseri no Programa de Pós-Graduação e decidi pela presente pesquisa.
1
Durante a descrição da trajetória da pesquisadora, a forma verbal será na primeira pessoa do singular;
quando o texto se referir à investigação como um todo, será empregada a primeira pessoa do plural, visto
que foi um processo compartilhado entre pesquisadora e orientadora.
2
1.1 – Trajetória Estudantil
Localizo minha trajetória profissional e também de escolarização em um modelo
tecnicista de ensino, pautado na memorização de algoritmos, na existência isolada da
Matemática sem relação alguma com áreas afins e na utilização de uma estratégia
única de ensino, independente das dificuldades individuais de aprendizagem, totalmente
distante da utilização do conhecimento cotidiano dos alunos. Em Fiorentini (1995)
uma discussão a respeito de algumas das categorias descritivas das tendências didático-
pedagógicas do ensino de Matemática, levando-se em consideração principalmente as
diferentes práticas pedagógicas do professor. O tecnicismo pedagógico foi a tendência
que me acompanhou no decorrer de boa parte de minha formação, pois, como afirma
Fiorentini (1995, p. 17):
A finalidade do ensino da Matemática na tendência tecnicista,
portanto, seria a de desenvolver habilidades e atitudes computacionais
e manipulativas, capacitando o aluno para a resolução de exercícios ou
de problemas-padrão. Isto porque o tecnicismo, com base no
funcionalismo, parte do pressuposto de que a sociedade é um sistema
tecnologicamente perfeito, orgânico e funcional. Caberia, portanto, à
escola preparar recursos humanos “competentes” tecnicamente para
este sistema. Ou seja, não é preocupação dessa tendência formar
indivíduos não-alienados, críticos e criativos, que saibam situar-se
historicamente no mundo.
Sempre gostei muito de estudar, principalmente Matemática. Quando eu cursava o
Ensino Fundamental na escola estadual que me acolheu depois também no Ensino
Médio todos queriam chegar logo na série, era o momento no qual o número de
disciplinas era maior, onde usaríamos caderno “universitário”, pois tínhamos um
número também maior de professores.
No ano de 1982 eu iniciava a série e posso sentir até os dias de hoje a emoção
de quando a professora de Matemática, Professora Maria Lúcia de Moura Fonseca,
escreveu seus dois primeiros nomes no quadro negro. A facilidade com que ela fazia os
cálculos hoje, após as leituras eu entendo que ela fazia cálculo mental - a sua didática
3
sem igual e a beleza indescritível do formato de sua letra muitas vezes me faziam
atrasar com os deveres de sala de aula. Para ela as quatro operações, os problemas e a
Matemática abstrata sempre tinham uma explicação, uma beleza matemática natural.
Foi ela quem me despertou para a área de Ciências Exatas, aliás, todos os alunos
queriam ser “como a dona Maria Lúcia”. Infelizmente, no Ensino Médio, iniciado no
ano de 1986, essa Matemática agradável e de fácil entendimento foi ofuscada pela
presença de uma Matemática conceitual e abstrata, totalmente desconectada de
situações reais: a disciplina de Matemática tornava-se para mim um conjunto de
conteúdos isolados e sem relação entre si.
Essa foi também uma das fases mais difíceis da minha vida, cheia de competições,
de cobranças e de muitas exigências pessoais.
Eu sempre gostei de resolver as listas de exercícios de Matemática, principalmente
expressões; quando eu terminava sempre tentava encontrar uma forma de “tirar a prova”
do resultado. Sempre acreditei que era mais fácil entender a dimensão das coisas através
de figuras, que me chamavam a atenção, por exemplo, em Geografia apesar do seu
ensino enciclopédico - com a apresentação de gráficos, tabelas e a leitura de mapas.
Cresci ouvindo meus pais e minha avó dizendo que quem estuda tem futuro;
então sempre me policiei quanto ao comprometimento com os estudos. Eu sempre dizia
que seria professora de Matemática e isso passou a ser o sonho dos meus pais que, com
muita dificuldade, proporcionaram-me condições para que eu pudesse me dedicar
somente aos estudos durante um bom período da minha vida. Como a grande maioria
dos pais de meus colegas, os meus transferiram para a minha pessoa os seus desejos de
realizações profissionais e pessoais. Eu saía do Ensino Fundamental e ingressava no
Ensino Médio no ano de 1985.
4
No decorrer do Ensino Médio muitas eram as dúvidas sobre o futuro. A cada dia
eu me sentia mais confusa e insegura, pois nas conversas com os colegas as suas idéias
sobre carreira e futuro envolviam diariamente desde Teologia até Medicina. Minha
maior tendência indiscutivelmente sempre foi para a área de Ciências Exatas e o
interesse pela Estatística e posteriormente pelo seu ensino aconteceu no período em
que eu estava concluindo o Ensino Médio. Gostava de aventurar-me em diferentes
trabalhos nas mais diversas áreas: tive a oportunidade de trabalhar em caráter free-lance
como entrevistadora em um grupo de pesquisa na cidade de Jundiaí. A Prefeitura de
Jundiaí havia encomendado uma pesquisa socioeconômica para um grupo de pesquisa
da cidade, com o objetivo de obter informações pontuais sobre a situação
socioeconômica de algumas áreas localizadas na cidade e também da sua micro-região.
Envolvia-me bastante na discussão sobre a logística da distribuição dos entrevistadores
nas ruas e nas casas que eram aleatoriamente selecionadas para a entrevista e, por fim,
eu me envolvia e participava de forma indireta como ouvinte nas discussões acerca
de resultados numéricos coletados nas pesquisas: foi uma deliciosa sensação entender a
pesquisa que estava sendo realizada como um processo cheio de relações, de erros, e
finalmente compreender que uma variável pode explicar muita coisa, que ser uma
variável é um conceito que vai muito além de apenas uma letra “x”, pois na realidade
ela é uma função matemática.
Minha experiência com a pesquisa foi fundamental e decisiva para minha escolha
profissional: passei a me interessar pelo levantamento estatístico que eu acompanhava
dentro dessa pesquisa socioeconômica da qual participei; lembro-me de ter ficado
também muito curiosa. Foi o meu primeiro contato com algumas técnicas de coletas de
informações, com levantamentos piloto e também com planilhas eletrônicas.
Acompanhei todo o processo de utilização de instrumentos dinâmicos de coleta de
5
informações para a pesquisa, digitação dos dados, criação de relatórios e análise de
dados; com relação ao projeto piloto lembro-me que um dos pesquisadores comentou
que utilizaria o resultado do nosso levantamento para saber como seria daí para frente o
andamento do projeto. Recordo-me de que a sensação que tive nessa ocasião foi de
responsabilidade sobre as informações que coletaríamos nas entrevistas piloto.
O produto final foi uma série de apresentações visuais para divulgação dos
resultados da pesquisa. Um dos pesquisadores utilizava um software estatístico não
me lembro qual e fazia diversos cruzamentos e relações entre os dados das diferentes
regiões da cidade. Esse levantamento foi amplamente divulgado na mídia local e
também na região de Jundiaí; sentia-me orgulhosa por participar da execução desse
trabalho e a conscientização por parte dos responsáveis sobre os objetivos e sobre a
importância do levantamento foi fundamental no processo e na motivação de todos os
envolvidos.
Creio que a minha concepção de Estatística se formou com o tempo, a partir das
minhas experiências e a partir também daquilo de que me apropriei em sala de aula. Eu
não tive nenhum conteúdo relacionado a contagem no meu período escolar e sequer
havia ouvido falar em Estatística até a série do Ensino Fundamental. Tomei
conhecimento desse termo a partir do Ensino Médio, justamente num trabalho fora de
sala de aula, e a sensação que tenho é de que, a partir desse trabalho de levantamento
socioeconômico, também tomei conhecimento de que conteúdos de diferentes
disciplinas conseguem se inter-relacionar. Na ocasião desse levantamento creio que
passei a assimilar e relacionar resultados matemáticos de uma forma diferente, assim
como iniciei também idéias básicas de estimação, com base nas entrevistas que
realizava e com base também no acompanhamento dos resultados gerados e
apresentados pela equipe responsável pelo levantamento.
6
No último ano do Ensino Médio (1988), a Escola Estadual em que eu estudava
programou uma visita até a UNICAMP dentro de um programa chamado “Universidade
Aberta”, que convidava os alunos prestes a concluir o Ensino Médio a conhecer a
universidade. Existia uma mobilização geral de alunos da graduação, da pós-graduação
e de funcionários na recepção dos futuros candidatos a calouros. Lembro-me que fiquei
entusiasmada com os ares acadêmicos e a minha primeira idéia foi visitar dois
departamentos: o de Matemática e o de Estatística; qual não foi a minha surpresa
quando descobri que ambos ficavam no mesmo prédio, o do IMECC (Instituto de
Matemática, Estatística e Ciência da Computação); naquele momento talvez eu tenha
criado alguma relação entre as duas ciências, porém, até aquele momento, eu separava
as duas de forma bastante independente, não conseguia conectá-las de forma global.
Os coordenadores ficavam à disposição para sanar dúvidas sobre os cursos da
UNICAMP e muitos deles programavam-se para palestras informativas. Eu acabei
participando de uma dessas palestras no anfiteatro do IMECC, localizado no piso térreo,
onde a coordenadora do curso de Estatística, professora Eugênia Maria Reginato
Charnet, apresentou algumas informações sobre ele; houve também a apresentação de
alguns trabalhos dos então alunos da graduação em Estatística. Lembro-me que para
mim surgiu a dúvida sobre o curso que eu gostaria de fazer: Matemática ou Estatística?
Inscrevi-me no concurso Vestibular de 1989 e fui aprovada na segunda turma do
curso noturno de Matemática na UNICAMP. Problemas pessoais não me permitiram
iniciar o curso e acabei abrindo mão da vaga no dia da matrícula, ainda dentro do
Ginásio da UNICAMP. Além de problemas pessoais, fiquei insegura também em
relação ao curso, pois em conversa com alunos tive a impressão de que o curso ainda
era muito novo e precisava ainda mudar muito para atingir as expectativas dos
veteranos. Eu ainda tinha dúvidas quanto ao meu destino profissional, não sabia ao certo
7
o que queria e o melhor realmente foi aguardar e amadurecer durante mais um ano. Em
seguida, fiz curso preparatório para o Vestibular no Anglo de Jundiaí: foi nesse
momento que tomei conhecimento, dentro de uma das frentes” nome dado
usualmente à forma de fragmentação dos conteúdos matemáticos em geometria, álgebra,
trigonometria, aritmética –, de muitos conteúdos que jamais havia conhecido ou
trabalhado; um deles era o de problemas combinatórios e também alguns relacionados à
Estatística. Lembro-me que localizei a forma de obtenção de algumas medidas que
haviam sido utilizadas no levantamento socioeconômico e isso soou bastante familiar
para mim. Muitos colegas que comigo faziam tal curso preparatório recebiam tais
conteúdos como revisão; para mim, porém, tudo era novo, eram novos conhecimentos.
Em 1990, fui aprovada em três vestibulares: Matemática no IME-USP,
Matemática pelo vestibular da UNESP e Estatística pela Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP) o qual optei por cursar. Desde a inscrição a UNICAMP era o
meu verdadeiro objetivo e no dia 20 de fevereiro de 1990 confirmei minha matrícula no
curso de Estatística na Cidade Universitária “Zeferino Vaz”.
A partir do segundo ano de faculdade, por indicação da professora Eliana
Marques, do Departamento de Estatística, passei a bolsista de Iniciação Científica, num
trabalho de pesquisa no LAPE-UNICAMP (Laboratório de Pesquisas Epidemiológicas),
em comum com a área médica e sob a orientação da docente da FCM/UNICAMP
professora Marilisa Berti de Azevedo Barros; hoje sei que a iniciação científica na
UNICAMP foi, assim como o meu primeiro contato com pesquisadores, o meu primeiro
passo e também o melhor instrumento para meu desenvolvimento profissional crítico e
criativo. . Muitos colegas da Estatística tinham, como eu, bolsas de iniciação científica
nessa área e, como bolsistas do LAPE, nós desenvolvíamos diversos projetos e boletins
estatísticos, sempre amparados por experientes pesquisadores que, incansavelmente, nos
8
alertavam sobre a importância da Estatística como automação de processos de
diagnóstico.
Dentro do curso de graduação em Estatística é apresentada uma grande quantidade
de testes, métodos clássicos, distribuições de probabilidade e inferência estatística, sem,
entretanto, direcionar o ensino da disciplina de forma personalizada para uma ou outra
área, uma vez que o estudante poderá partir para diferentes campos de atuação. A minha
inserção dentro da área de saúde coletiva e pesquisas epidemiológicas possibilitou um
entendimento maior da aplicação de diferentes técnicas estatísticas para tomada de
decisão, comparação de diferentes tratamentos e também procedimentos pontuais mais
criteriosos. Essa experiência naquele momento do curso possibilitou-me compreender
que os métodos de análise estatística podem ser utilizados com o objetivo de
contribuição às diferentes ciências. Profissionalmente essa experiência proporcionou-
me, além da aprendizagem das técnicas estatísticas, uma aptidão para leitura de
diferentes áreas, assim como uma visão mais crítica sobre diferentes investigações do
conhecimento humano.
Minha concepção sobre Estatística amadureceu um pouco mais naquele momento,
pois percebi que o meu raciocínio sobre os processos estatísticos se tornava ainda mais
vinculado à necessidade de ligação com situações concretas de uso de tais processos e
com suas condições e possibilidades de emprego nas mais variadas áreas.
Recordo-me que foi no primeiro semestre da UNICAMP que tive o meu primeiro
contato com a Estatística: meus professores do Ensino Fundamental ou Ensino Médio
nunca mencionaram a existência de tal área ou disciplina, ou melhor, a relação das
outras áreas com a esta. O que me despertou interesse realmente pela Estatística foi o
contato com a pesquisa, além da descoberta do conceito de Probabilidade utilizado nos
grandes levantamentos —que, de alguma forma, funcionava muito bem.
9
Hoje entendo que todos nós temos condições de tirar conclusões sobre as coisas do
mundo em que vivemos, ou seja, estamos aptos a inferir sobre as mais diversas
situações, afinal nós somos seres intuitivos. A Estatística está presente em todos os
meios, nas mais diversas situações e eu, enquanto estudante, antes da graduação, não fui
estimulada a pensar na solução de problemas na forma quantitativa, não fui orientada a
tomar decisões a partir de conclusões racionais: o pensamento estatístico concretizou-se
em mim com o passar do tempo, foi o resultado de um pensamento por indução,
construído passo a passo a partir das experiências que vivi.
No decorrer do curso de graduação, os conteúdos de Probabilidade I e
Probabilidade II foram os mais difíceis, uma vez que era um novo momento, uma
descoberta, pois eu não tivera tais conteúdos em minha escolarização anterior. Creio que
outro agravante de início de curso foi o fato de nosso professor ter origem indiana e
falar pouco o português. Lembro-me que de uma turma com 70 alunos que eram os
que haviam ingressado pelo vestibular da turma de 1990 a maior parte, na qual eu me
incluo apresentava dificuldade com os novos conteúdos; a minoria encarava tudo
aquilo como uma revisão. Um colega de classe da turma de Estatística que havia
concluído o Ensino Médio em uma das melhores escolas de Brasília sempre comentava
que se sentia entediado com as aulas de Probabilidade; afinal, soava como uma revisão
para ele. Para mim isso repercutia de forma estranha, pois os conteúdos e suas
aplicações eram todos novos e abstratos, eram imensos e profundos desafios.
A minha formação inicial havia sido defasada e, diante da turma de bacharelado
em Estatística, esse era o segundo momento em que sentia isso diante de colegas de sala
de aula: a primeira vez foi no meu curso preparatório para o vestibular. Eu,
definitivamente, não poderia mais simplesmente decorar fórmulas e usá-las, sem
conhecer o verdadeiro significado delas: eu precisava compreender o raciocínio lógico
10
tanto no sentido matemático como no sentido estatístico, e essa ponte era feita por uma
das disciplinas mais importantes do curso de Estatística: Probabilidade que, juntamente
com a Estatística Descritiva, soma as ferramentas para a compreensão da Inferência
Estatística e das tomadas de decisão.
Durante a graduação eu tomava conhecimento do quanto as mais diversas áreas
profissionais e as empresas dependem e precisam da Estatística e utilizam-se de seus
métodos de aplicação. Desde a importância da Estatística para a Bioestatística, para a
Medicina, até áreas diversas como, por exemplo, a Economia, o gerenciamento de
finanças ou mesmo o estudo mercadológico, a indústria e o controle de qualidade e
estatístico do processo: a Estatística é utilizada como auxílio nas tomadas de decisão
diante das inúmeras incertezas que permeiam as mais diversas situações.
Eu acompanhava diariamente os anúncios de estágios afixados próximos ao
LabEst (Laboratório de Estatística) localizado no segundo andar do prédio do IMECC-
UNICAMP e aquela sensação de insegurança sobre o futuro invadia meu pensamento e
eu me perguntava para qual área finalmente eu partiria.
Muitos colegas optaram por continuar nas áreas em que iniciaram seus estágios, a
grande maioria nas áreas emergentes da época que eram o CEP (Controle Estatístico do
Processo) e a mineração de dados em diversas vertentes principalmente avaliação em
seguros conhecido como Data-Mining, cujas técnicas são totalmente pautadas em
Estatística; outros, em Epidemiologia; em Agricultura, dentre outras áreas. Poucos
optaram por seguir o Mestrado em Estatística não me recordo de nenhum colega que
tenha optado por seguir na área da Educação.
A primeira oportunidade de trabalho surgiu na Secretaria de Saúde de Jundiaí, na
área de Controle Epidemiológico, e busquei, através de cursos pontuais, um
aprimoramento na área de estatísticas vitais (estudo de tábuas de vida, morbi-
11
mortalidade e principalmente testes estatísticos voltados para controle de qualidade de
vida). Concluí, na Faculdade de Saúde Pública da USP, cursos de atualização em
Probabilidade e também de treinamento em sistemas computacionais, sempre voltados
para a epidemiologia. Em seguida, parti para cursos na área de Auditoria e Controle em
Saúde, pois eu havia me deslocado para uma nova área dentro da Secretaria de Saúde,
no setor de Avaliação e Controle Ambulatorial e Hospitalar. Posteriormente, atuando
como professora, esses cursos me auxiliaram demais no sentido de direcionar dentro da
sala de aula algumas situações reais e também a aplicação de algumas medidas
estatísticas para explicar tais situações e, conseqüentemente, conduzir os alunos a
conclusões a partir dos dados
Apesar de a minha experiência como professora acontecer na escola pública no
ano de 1991 e na escola particular no ano de 1993 como relatarei a seguir —, foi no
ano de 1996 que concluí o meu primeiro curso de especialização, na minha então área
de atuação que era a da saúde — Administração Hospitalar pela Universidade de
Ribeirão Preto.
As experiências com projetos diversos ligados ao controle epidemiológico
possibilitaram e também me direcionaram para uma abordagem mais diversificada sobre
a Estocástica aos alunos; afinal, eu vivia diariamente com a presença de novas
experiências e informações, o que me ajudou a ampliar e compartilhar novos
conhecimentos.
A disciplina que eu lecionava no curso técnico era Estatística, e era necessário que
eu a apresentasse como ciência e também revelasse as suas relações com as mais
diversas aplicações em distintas áreas. Devido à deficiência de minha formação inicial,
sempre tive grande facilidade para localizar nas minhas turmas dos cursos técnicos
quais eram as maiores dificuldades em termos de compreensão dos conteúdos e pré
12
requisitos necessários para a disciplina de Estatística. Esse sempre foi um processo
muito difícil: afinal, os assuntos contemplados nos cursos técnicos e tecnológicos são os
que estão inseridos nos conteúdos de Estatística Descritiva e também Estatística
Inferencial, porém conceitos básicos de Probabilidade deixam a desejar em termos de
requisitos básicos dos alunos que cursam o nível técnico ou superior.
Nessa época, quando lecionava para tais turmas, eu inicialmente me comportava
como profissional estatístico capaz de coletar grandes volumes de informações
quantitativas e extrair desses as informações que julgasse necessárias, as informações
representativas, ou seja, eu estava preocupada somente em descrever as coisas aos
alunos; minha sensibilidade na época talvez estivesse no fato de compreender as
limitações e deficiências daqueles que estavam nas salas de aula, porém não estava
conscientizada de que essa era somente uma das minhas atribuições como profissional
não entendia ainda que os conjuntos de dados, as amostras eram apenas a matéria-
prima que deveria ser trabalhada.
1.2 – Trajetória Profissional
A oportunidade de ministrar aulas finalmente aconteceu logo no segundo ano de
faculdade, no ano de 1991, tomei conhecimento do afastamento de uma das professoras
da disciplina de Matemática em uma escola estadual de Jundiaíe imediatamente fiz
contato com a coordenação da escola. Apresentei minha disposição para substituir a
professora, em caráter temporário, mesmo estando num curso diferente, o de
Estatística. Sentia-me cheia de vontade e em plenas condições: afinal, havia concluído o
Ensino Médio pouco tempo e o fato de estar em contato constante com os mais
diversos conteúdos de Matemática e Computação - duas disciplinas fundamentais para o
aprimoramento e o desenvolvimento das metodologias estatísticas -, além de estar
13
cursando uma área que auxilia para o entendimento de outras áreas, me dava condições
técnicas de fazer tal substituição.
Antes mesmo do início das aulas naquele ano eu assumi as aulas da disciplina de
Física, na mesma escola.
Durante aproximadamente um ano, acompanhei as turmas de primeiro e segundo
anos do Ensino Médio e Supletivo. Naquele momento o meu papel era dar continuidade
aos conteúdos a então ministrados pela professora em afastamento, seguindo as
orientações da coordenação quanto aos tópicos a serem concluídos em cada uma das
séries. Era uma turma habituada a desenvolver exercícios de forma isolada, repletos de
fórmulas decoradas; alunos amplamente treinados para resolver exercícios de
Matemática sem entendimento ou interpretação de resultados.
Foi um momento de grande confusão e também de muito medo e insegurança: a
maioria dos alunos tinha mais idade e certamente maior vivência do que eu na época e
apresentava muita dificuldade no aprendizado de Matemática e eu tinha que assumir
uma postura da qual nunca havia sido cobrada anteriormente. Além disso, aquela era
uma forma de ensinar Matemática que até então eu desconhecia, pois, afinal, eu
precisava “aprender a ensinar da maneira que eu não fui ensinada quando era estudante”
(HARGREAVES, 2001). Era meu início de formação como professora, e eu precisava
decidir diante de um grupo de professores mais experientes que eu quais seriam
meus métodos de ensino.
Hoje, ao me recordar das experiências iniciais como professora, noto que na
realidade não consegui aproveitar essa oportunidade como de fato deveria. Acabei
acanhando-me e calando-me diante dos demais professores e não considerei a
experiência que os alunos traziam a cada aula. Talvez, se eu tivesse me envolvido mais
com eles no sentido de valorizar o conhecimento que eles traziam da vida fora da escola
14
para a vida dentro da escola, um resultado melhor eu teria conquistado em termos de
aprendizado junto aos alunos.
No início da docência minha decepção comigo mesma e com pessoas ao meu
redor foi muito grande. Eu esperava encontrar professores e alunos cheios de vigor e
com vontade de “mudar o mundo”, mas em pouco tempo as minhas vontades e meus
sonhos de mudança perderam força dentro da escola pública em que eu lecionava e
deram lugar a um comodismo que misteriosamente contagiava a tudo e a todos. Eu
conseguia trabalhar de forma manipulativa, condicionando os alunos a meras resoluções
e correções de problemas em sala de aula. Eu me sentia uma verdadeira treinadora de
Física e de Matemática e, assim como todos os outros professores do colégio, a minha
disciplina também se tornara algo isolado e neutro, como se fossem aquelas fábricas que
trabalham em sistema paralelo. Eu me sentia acuada e não conseguia me transformar,
parecia que não encontrava referências para direcionar o meu modo de ensinar de forma
menos conceitual e mais aplicativa.
Com o passar do tempo as reflexões foram surgindo e uma sensação estranha de
“culpa profissional” aflorou em mim. Eu me perguntava se realmente queria ser esse
tipo do professor que pouco ou nada contribui para a formação do aluno como um
cidadão da sociedade; se eu queria realmente ser um professor que não provoca, que não
lança desafios. Sinceramente não era isso que eu queria para mim. Muito menos para os
meus alunos.
Esse foi um momento de muita reflexão, e hoje consigo entender que foram
momentos importantes de questionamentos e buscas sobre minha própria prática.
Muitas foram as inquietações. Primeiramente, quanto à aprendizagem, ao
despertar interesse, ao desenvolver do raciocínio dos alunos e também quanto à
Matemática como um instrumento social. A oportunidade de participar de cursos na
15
área da Educação infelizmente não surgiu e a minha vontade na realidade era de
aprimorar-me na área de Estatística, participando de cursos de atualização em diversas
áreas. Assim, as inquietações quanto ao ensino dessa disciplina não demoraram a surgir.
A primeira experiência com o ensino de Estatística ocorreu logo no terceiro ano do
Ensino Superior, em 1993, quando ingressei como professora dessa disciplina nas
Escolas “Padre Anchieta”, em Jundiaí, ministrando aulas para o curso Técnico de
Informática e para o curso Técnico de Química.
Essa etapa iniciou-se com muitos objetivos distantes, porém com uma vontade
sem tamanho de realizar algo totalmente renovado, apesar de não saber exatamente de
qual forma ou mesmo por onde poderia começar. Com dúvidas mas o na dúvida
dei o primeiro passo. A experiência com a Estatística foi marcante. A docência
vagarosamente foi se sedimentando com o acompanhamento de áreas afins dentro da
escola; hoje sinto que foi recompensador o trabalho que desenvolvi dentro do curso
técnico.
A disciplina foi trabalhada tendo como referência o programa e o material
adotados pelo professor formado em Ciências Contábeis que estava deixando o
cargo e, particularmente, achei o material complexo e carregado de cálculos. Com o
passar do tempo, fui transformando o plano em função dos conteúdos que julgava
relevantes, tendo como referência o perfil dos cursos em que as aulas eram ministradas
e também a importância da Estatística como complemento de um trabalho profissional,
a partir do curso técnico.
Inicialmente eu tinha uma visão de ensino de Estatística centrada na descrição dos
dados; com o passar do tempo minha preocupação extrapolou para o campo da análise
dos dados e da inferência, como formas de facilitar ou direcionar a tomada de decisões.
16
Como eu lecionava em cursos técnicos distintos, embora utilizasse o mesmo
material para ambos, tinha o cuidado de oferecer exercícios e exemplos diferenciados
para cada uma das áreas, pois achava que deveria agir dessa forma com relação ao
conteúdo, para tentar despertar nos alunos a utilização das medidas estatísticas. Hoje eu
avalio que minha conduta estava perfeitamente correta.
O material que o professor anterior utilizava trazia exemplos e exercícios
exatamente iguais ambos os cursos Técnico em Informática e Técnico em Química
—; além disso, eram conteúdos que se preocupavam em explicar as probabilidades de
moedas e dados, sem relação com uma Estatística voltada para o pensamento crítico ou
mesmo para a tomada de decisões. Assistia-se, assim, a uma abordagem reducionista do
ensino de Probabilidade, comprometendo o desenvolvimento do raciocínio do aluno.
Particularmente acredito que, num curso técnico, o objetivo não deve ser explicar ou
apresentar medidas estatísticas, pois dificilmente um aluno conseguirá atingir um nível
de entendimento ou mesmo ampliar para áreas afins alguns conceitos estatísticos se ele
teve somente como base de apresentação as probabilidades de moedas ou dados. Esse
tipo de abordagem deveria acontecer nas séries iniciais, sem a preocupação com
fórmulas, mas criando situações em que o aluno possa ir construindo seu pensamento
probabilístico. Nesse sentido, concordo com Lopes e Carvalho (2005, p.77): nessa
etapa inicial da escolarização deve-se abandonar “a memorização de fórmulas e
algoritmos, priorizando-se as conexões entre a Matemática e o mundo”. Assim,
pressupõe-se que no Ensino Médio o aluno tenha condições de trabalhar com
conteúdos mais complexos e sistematizados de probabilidades.
O plano de ensino da escola particular tinha a proposta de apresentar aos alunos os
conceitos básicos de Estatística e suas técnicas analíticas tradicionais, normalmente
utilizadas para representar e descrever conjuntos de dados; não se preocupava, no
17
entanto, em apresentar os aspectos práticos, que particularmente julgo de grande
importância, pois compreender Estatística nos torna seres humanos críticos e capazes de
tomar decisões a partir de informações e de direcionar as nossas ações da melhor forma
possível dentro do mundo moderno.
A participação dos alunos dos cursos técnicos sempre foi muito intensa, tanto nas
aulas expositivas como também nos levantamentos e nos trabalhos extra classe que
sempre se fizeram presentes dentro da disciplina, despertando pouco a pouco o olhar
crítico que se espera daqueles que tomam conhecimento da existência de ferramentas
matemáticas e estatísticas. Apresentar aos alunos a verdadeira importância da disciplina,
sem reduzi-la a um detalhamento improdutivo de fórmulas e fenômenos isolados,
contribuiu para o avanço do pensamento estatístico e probabilístico na sala de aula e
para o “bom senso” dos alunos, através da descrição e do detalhamento de dados
observados. Além disso, orientei-os quanto à tomada de decisão e à existência de riscos
ou mesmo de erros a partir da observação de informações. Tal como ocorre com a
aprendizagem matemática, a aprendizagem estatística deveria ter uma dimensão
formativa. Nesse sentido, pode-se pensar nas finalidades do ensino da Estatística, tal
como ocorre com a Matemática. Fiorentini (1995, p.21), ao comentar sobre a finalidade
do ensino da Matemática, fala de sua natureza formativa, na qual
os conteúdos passam a desempenhar papel menos úteis, mas não
indispensáveis, para a construção e desenvolvimento das estruturas
básicas da inteligência. Ou seja, o importante não é aprender isto ou
aquilo, mas sim aprender a aprender e desenvolver o pensamento
lógico formal.
No caso do ensino da Estatística essa dimensão formativa pressupõe um ensino
numa perspectiva crítica de análise e tomada de decisões.
No ano de 1995, no curso de Técnico de Química das Escolas Padre Anchieta, foi
desenvolvido um trabalho de campo com seus alunos do curso de Técnico em
Informática que tinha como objetivo o lançamento virtual de um produto no mercado
18
local. Utilizávamos uma lista telefônica para simular o processo de amostragem,
auxiliados pelo mapa, nela contido, com as ruas da cidade de Jundiaí, ampliando a
sensibilidade dos envolvidos quanto à noção de espaço e de unidades amostrais. Esta
tarefa envolvia os conhecimentos de diversas disciplinas e foi grande o interesse
demonstrado pelos alunos no decorrer das aulas sobre as técnicas de amostragem, a
crítica dos dados, a probabilidade, o levantamento populacional, o marketing do produto
e, finalmente, o relatório de análise da pesquisa concluída.
O desenvolvimento desse trabalho fez com que os alunos enxergassem a
Estatística como um meio, uma orientação para selecionar e fazer uso da grande carga
de informações à qual estamos sujeitos todos os dias. Para que os alunos pudessem
(re)conhecer o raciocínio estatístico, utilizamos exemplos reais, facilitando o
pensamento crítico que pode ser aplicado normalmente em qualquer situação, em
qualquer profissão. Esse projeto facilitou aos professores e também aos alunos o
desenvolvimento e o entendimento de trabalhos interdisciplinares.
A partir do trabalho com estudantes no curso técnico, com os quais tive a
oportunidade de compartilhar e desvendar muitos caminhos, muitas das certezas
transformaram-se em dúvidas ou indagações. As certezas passaram a dar espaço à
vontade de descobrir novas “formas de fazer” e a inquietação com relação ao trabalho
que era desenvolvido em sala de aula aumentou ainda mais.
No ano de 2000 meu desassossego era ainda maior. A vontade de voltar a estudar,
porém agora com ênfase na licenciatura, na formação como professora dentro do
ambiente educacional, fez-me tomar a decisão de prestar o processo Vestibular e, em
seguida, ingressar finalmente como aluna regular no curso noturno de Licenciatura em
Matemática, também na UNICAMP. Uma das primeiras disciplinas cursadas na então
licenciatura foi ministrada pela professora Dione Luchesi de Carvalho e, naquele
19
momento, eu tive o primeiro contato com o termo ainda desconhecido por mim:
Estocástica.
Em Lopes (1998) uma análise do ensino de Probabilidade e Estatística no
currículo de Matemática no Ensino Fundamental, destacando principalmente o contato
do aluno com experiências envolvendo aleatoriedade e tomada de decisão, além do
papel do professor que trabalha esses conteúdos em sala de aula. Chama também a
atenção o destaque feito por Lopes (1998, p.14) de que a Estatística e a Probabilidade
apresentavam-se sempre interligadas nos currículos internacionais, tratadas por um
único termo europeu específico, que é Estocástica.
Um ano e meio após o ingresso no curso de Licenciatura em Matemática na
UNICAMP e após ter cursado algumas disciplinas do curso, por motivos pessoais e por
opções profissionais, abri mão da conclusão de tal graduação e assumi em seguida um
número maior de aulas na escola em que lecionava.
No início de 2004 fui convidada para lecionar a disciplina de Estatística e
Matemática aplicada no curso Tecnológico em Processos Químicos do Centro
Tecnológico Padre Anchieta de Jundiaí. Mantenho-me, desde então, como professora de
alguns cursos tecnológicos e do Curso Técnico de Química das Escolas Padre Anchieta.
1.3 – Ingresso na Pós Graduação: o despertar para a pesquisa
Ainda no ano de 2004 ingressei como aluna especial no Programa de Pós-
Graduação Stricto Sensu em Educação, da Universidade São Francisco, tendo
formalizado minha situação como aluna regular logo no início do ano de 2005.
As leituras, as trocas de experiências, todo um “novo olhar” sobre a Educação
Matemática deixavam-me a cada dia mais feliz e estimulada dentro do ambiente da
20
Universidade São Francisco. No entanto, senti grande dificuldade dentro dessa dinâmica
de aula com exposição de idéias e apresentação de trabalhos escritos a cada semana,
com discussão dos grupos pela Internet; porém os contatos com algumas disciplinas e
também com os professores foram tornando essa experiência estimuladora para novos
estudos e buscas.
A idéia de trabalhar na pesquisa a questão da Estocástica na Educação Básica
nasceu primeiramente da importância que acredito ter tal conteúdo na formação dos
alunos da faixa-etária em questão; além disso, evidenciou-se a possibilidade de
explorar diferentes aplicações do conteúdo tendo em vista o contexto de sala de aula
e o incentivo à pesquisa.
O contato, na época da Licenciatura, com a professora Dione que trabalha
noções e conceitos de Estatística nas aulas de Matemática e estimula o tratamento desse
assunto nas séries iniciais —, aliado aos estudos iniciais no mestrado, estimulou-me a
investigar esse novo campo do saber.
A partir daí, mergulhei na revisão bibliográfica e na leitura dos eixos que
compõem este trabalho: Formação de Professores e Educação Estatística. Pude então
delimitar o foco desta pesquisa, que tem como questão central: “Como os professores da
Escola Básica percebem a inserção da Educação Estatística nos currículos escolares?
Como os professores formadores percebem o ensino de Estocástica na formação do
futuro professor de Matemática?”
Os objetivos para a investigação são:
1. Analisar as percepções que os professores da Escola Básica têm sobre a inserção da
Educação Estatística no currículo.
2. Analisar alguns indícios de inserção da Educação Estatística na sala de aula da
Educação Básica.
21
3. Identificar as percepções dos professores formadores sobre a inclusão da Estocástica
nos currículos escolares e como estes vêm abordando seus conteúdos na formação de
futuros professores.
O presente trabalho foi organizado e dividido em 8 capítulos e este primeiro
trouxe os pontos mais importantes da trajetória da professora e hoje também
pesquisadora. Neste capítulo destacou-se todo o processo de construção da profissional
e da professora, suas experiências dentro da trajetória estudantil até o curso superior,
seu início de caminhada como profissional na área de Estatística e também sua
experiência como professora de Matemática e Estatística. Destacou-se a importante
contribuição do curso de mestrado, as leituras, a capacitação para a prática da pesquisa e
a troca de experiências com colegas, proporcionando a constituição de uma
pesquisadora com pensamento reflexivo e crítico. Nessa trajetória, sem dúvidas,
surgiram questionamentos, curiosidades e lembranças, fundamentais e essenciais para o
amadurecimento do texto que compõe os demais capítulos.
O segundo capítulo traz algumas reflexões sobre a presença da Estocástica nos
currículos de Educação Básica; alguns elementos da constituição do pensamento
estocástico; a carência de pesquisas sobre o tema e também o compromisso da
disciplina como facilitadora e capaz de inserir um pensamento mais crítico e
probabilístico contribuindo para o exercício da cidadania e para o pensamento
científico nos alunos que a ela têm acesso. Numa sociedade da tecnologia, quanto
maior o preparo educacional, mais competente será o aluno para desempenhar funções
que estão em constante mudança.
O terceiro capítulo discute o papel da Estocástica na sociedade globalizada e do
conhecimento e a importância de o aluno ser capaz de interpretar ou mesmo de
22
comparar diferentes informações, sejam elas numéricas ou não. Também é objeto de
análise o diálogo necessário entre Educação Matemática e Educação Estatística.
O quarto capítulo trata da formação do professor e, em especial, do perfil do
professor formador e de seu comprometimento com a formação do pensamento
estatístico do futuro professor.
O quinto capítulo apresenta os caminhos metodológicos da pesquisa, as mudanças
de rumo durante sua realização e anuncia a forma de análise do material coletado.
O sexto capítulo faz a caracterização dos professores que responderam ao
questionário aplicado no início da pesquisa e a análise da forma como eles vêm ou não
tentando incluir conteúdos de Estocástica na Educação Básica.
O sétimo capítulo traz a análise da entrevista realizada com quatro professores
formadores que atuam ou atuaram em cursos de Licenciatura em Matemática. Duas
foram as categorias de análise: a primeira analisa a percepção dos formadores quanto à
Educação Estatística na formação do professor de Matemática e a segunda, o que
pensam aqueles a respeito da Educação Estatística na Educação Básica.
As considerações finais buscam uma síntese do trabalho desenvolvido, as
questões respondidas ou não e as perspectivas para novas pesquisas.
23
2. ESTOCÁSTICA: INSERÇÃO NOS CURRÍCULOS DA
EDUCAÇÃO BÁSICA
Entendemos a Estocástica como uma ciência de análise de dados com um
conteúdo significativo que se utiliza da Matemática e da Estatística Descritiva como
ferramentas. Entendemos também que ela pode ser considerada como um meio de
suporte para que possamos direcionar o aprendizado de forma reflexiva e crítica, além
de ser uma ferramenta facilitadora para inserção do indivíduo no mundo globalizado.
Pode ser considerada facilitadora também no sentido de aperfeiçoar a percepção
individual neste caso, estamos destacando as percepções dos alunos das diferentes
culturas, tradições, ideologias e etnias. Compartilhamos das idéias de LOPES (1999,
p.2), ao afirmar que
A formação básica em Estatística e Probabilidade torna-se
indispensável ao cidadão nos dias de hoje e em tempos futuros. Ao
ensino da Matemática fica o compromisso de não ensinar o
domínio dos meros, mas também a organização de dados e leitura
de gráficos.
Tal compromisso pressupõe a ruptura de aprendizado progressivo, aquele que se
baseia sempre num pré-requisito anterior, tornando muitas vezes o ensino sem sentido
tanto para o aluno como também para o professor. Manter o ensino da Matemática dessa
forma somente fará com que a Estatística inserida no currículo de Matemática também
se torne simplesmente mais um conteúdo isolado, sem significado e tão desinteressante
quanto a própria Matemática é considerada atualmente por muitos alunos.
Romper com esse modelo pressupõe que o ensino se torne responsável por
conteúdos que contribuam para um maior entendimento de assuntos matemáticos devido
não à oportunidade de trabalhar com situações reais, mas também à possibilidade de
extrair, de diferentes jornais ou outros meios de comunicação, informações
interpretáveis.
24
Atualizar o aluno no ensino da Estatística e da Probabilidade é permitir não
que ele amplie seu universo de conhecimentos, mas principalmente que ele desperte e
amadureça o seu próprio pensamento crítico; afinal, o montante de notícias que
circulam a cada minuto exige daquele que as uma grande capacidade de seleção
crítica e não simplesmente de leitura. Ampliar o universo de conhecimentos é permitir
que a informação em todos os níveis em que ela é divulgada se torne uma aquisição e
interpretar ou trabalhar essas informações e esses dados é algo individual e pessoal; ao
professor cabe o papel de auxiliar os alunos no sentido de conseguir contextualizações
das situações propostas, possibilitando o exercício de interpretação e análise das
mesmas.
No Brasil, assim como no mundo globalizado, buscam-se pessoas alfabetizadas,
participativas e principalmente críticas, pois os maiores bens oferecidos pelo mundo
em termos de negócios, trabalho e até mesmo no contexto emocional –, para serem
conquistados, exigem daqueles que buscam tais bens uma maturidade comunicativa e
informativa; nesse sentido, a Estocástica surge como importante área do conhecimento.
Partindo desses pressupostos, discutimos no presente capítulo a contextualização
da Estocástica, o desenvolvimento do pensamento estatístico e a inserção da Estatística
na Educação Básica.
2.1. Contextualizando a Estocástica
O termo Estatística surgiu do latim statisticum collegium, que significava
“palestra sobre os assuntos do Estado”. está a origem da palavra em língua italiana
statista, que significa "homem de estado" ou político, bem como da palavra alemã
Statistik, designando a análise de dados sobre o Estado. Essa palavra apareceu no
25
vocabulário da Enciclopédia Britânica em 1797 e adquiriu um significado de coleta e
classificação de dados no início do século XIX.
A Estatística trabalha com dados obtidos de populações (conjunto de elementos
que têm características em comum) ou amostras (subconjunto de elementos de uma
população) e ela pode ser dividida em duas grandes áreas. A primeira delas é a
Estatística Descritiva, responsável pela apresentação ou descrição dos dados coletados,
utilizando-se de algumas técnicas analíticas e ferramentas estatísticas como, por
exemplo, medidas estatísticas de tendência central ou dispersão, tabelas e gráficos
apresentação da idéia de freqüência; a segunda grande área é chamada de inferencial e é
responsável pela análise e interpretação dos dados previamente coletados e
apresentados. A utilização de técnicas analíticas para identificar e caracterizar eventuais
relações entre as variáveis em estudo e os níveis de relação entre tais variáveis
fundamenta-se na Teoria das Probabilidades, que pode ser explicada como um estudo
matemático das probabilidades.
Exemplos de técnicas e componentes inferenciais podem ser mencionados, tais
como: teste de hipóteses, análise de regressão, análise de séries temporais, dentre tantas
outras técnicas. A grande parte dos campos do conhecimento humano trabalha com a
manipulação estatística, desde o controle de estoque em um supermercado ou mesmo o
controle do fluxo de carros no trânsito e até mesmo o aprimoramento de viagens
espaciais ou um delicado estudo sobre reflorestamento em áreas devastadas. O principal
objetivo da manipulação estatística é conseguir uma formalização da linguagem e dos
processos de decisão, uma vez que um conjunto de dados não tem uma estrutura visual
aparente, pronta para interpretação: somente após a sua organização e a investigação é
que padrões ou características interessantes poderão ser identificados e analisados.
26
O constante uso da Estatística nos dias atuais, agregado à sua eficácia, vem
tornando as grandes empresas cada vez mais dependentes dos dados estatísticos e a
eles subordinadas — como fonte de informação para os processos de trabalho diário dos
empresários ou técnicos, direcionando as tomadas de decisão em função de avaliação de
dados amostrais.
Shaughnessy (1992, p.465) destaca que o termo Estocástica é uma conveniente
abreviatura comumente utilizada na Europa para incluir Probabilidade e Estatística.
O estudo da Estocástica contempla todo um vasto aparato formado por atalhos e
fórmulas complexas para obtenção de medidas, estruturas e gráficos, proporcionando
para aquele que detém tal conhecimento uma maior gama de linhas de argumentação ou,
até mesmo, facilidade e desenvoltura na formulação ou na estruturação de críticas.
Dessa forma, a Estocástica transforma-se em ferramenta facilitadora e
enriquecedora da educação para a sociedade atual, proporcionando maior facilidade na
utilização e na combinação de métodos e técnicas para resolver problemas diários e
profissionais nas mais diversas e variadas áreas, assim como torna possível a qualquer
pessoa a possibilidade de diferentes leituras e interpretações da realidade que a cerca.
Tudo isso garante a possibilidade de análise e o desenvolvimento do raciocínio,
necessários e muito importantes na Educação Básica.
O aprendizado reflexivo e crítico está diretamente ligado ao ensino dos conteúdos
que permitem uma avaliação crítica com base em tópicos presentes na Matemática, em
particular os itens relacionados à Estocástica. No cotidiano escolar essa articulação entre
conteúdos e disciplinas ocorrerá se, “enxergando o papel da matemática como parte de
um desenvolvimento tecnológico” (SKOVSMOSE, 2001, p. 98), a sociedade, numa
mobilização profunda e sem precedentes, assim permitir; desta forma, poderemos
garantir, além do desenvolvimento pedagógico e interdisciplinar, a constituição do
27
aluno como cidadão a ser politizado e não como um indivíduo que está em total
obediência às classes e minorias dominantes.
Ainda hoje carência de pesquisas em torno do tema Estocástica. Talvez por não
ser um assunto muito abordado nas salas de aula do Ensino Fundamental e do Ensino
Médio dentro do conteúdo de Matemática, por razões históricas ou, talvez, por não ter a
atenção merecedora dentro dos cursos de licenciatura: forma-se um ciclo onde se
valoriza cada vez menos a disciplina Estatística e todo seu ferramental - tão importante
para a formação do cidadão e seu senso crítico.
Shaughnessy (1992) traça um amplo panorama histórico da pesquisa em
Estocástica, até o início da década de 1990. Evidentemente, avanços ocorreram na
última década, mas a maioria desses estudos ainda está ausente dos cursos de
Licenciatura. O autor, apoiando-se em Garfield
2
(1988, p.466) aponta quatro aspectos
que têm retardado o ensino efetivo de Estocástica: “(a) o papel da probabilidade e da
estatística no currículo, (b) relações entre pesquisa e instrução, (c) a preparação de
professores de matemática, (d) a maneira pela qual a aprendizagem está sendo
conduzida”.
Outro possível complicador do ensino de Estocástica, segundo o autor, pode ser
decorrente da tradição dualista da noção de probabilidade, que tem gerado debates
estéreis: “grau de confiança” e “cálculo de freqüências estáveis para eventos aleatórios”
(p.468). Ele destaca três tipos de Probabilidade: clássica, freqüentista e subjetiva.
Probabilidade clássica refere-se à atribuição de probabilidades em um
experimento com mecanismo aleatório onde todos os resultados são
igualmente prováveis. Matemáticos chamariam isso de uma
distribuição de probabilidade uniforme. Teorias freqüentistas
consideram probabilidades a serem atribuídas baseadas no
comportamento a longo prazo dos resultados aleatórios.
Matematicamente isso envolve a teoria de limites e convergência.
2
Garfield (1988) cites four issues that hinder the effective teaching of stochastics: (a) the role of
probability and statistics in the curriculum, (b) links between research and instruction, (c) the
preparation of mathematics teachers, and (d) the way learning is currently being assessed”.
28
Probabilidade subjetiva é o termo para opinião do século 20, ou o grau
de confiança. É sempre possível matematizar probabilidades
subjetivas como uma forte dependência sobre o teorema de Bayes, e
uma teoria de revisão de probabilidades, baseada sobre informação
acessível. (Ibidem, p. 469)
3
Tais concepções evidenciam a necessidade de que a Educação Matemática se
preocupe com o ensino e a aprendizagem de Probabilidade e Estatística na Educação
Básica.
Coutinho (1996, p.91), por exemplo, defende que a inserção do estudo de
Probabilidade no Ensino Médio, numa visão freqüentista, favorece o desenvolvimento
de uma leitura mais crítica do mundo:
O ponto de vista social nos leva, finalmente, a reforçar a necessidade
de um ensino de cálculo de Probabilidades desde o segundo grau com
visão freqüentista, para que se tenha mais um instrumento de leitura
da realidade na qual estamos inseridos e a qual podemos diariamente
acompanhar pelos noticiários, repletos de dados estatísticos. Podemos
citar como exemplo a necessidade de se estimar a probabilidade de
sucesso em determinado investimento, para que tenhamos nossos
rendimentos com a menor perda de poder aquisitivo que se faça
possível, o que será possível com a observação da estabilização da
freqüência deste sucesso.
A formação desse pensamento crítico faz-se necessária, visto estarmos vivendo
numa verdadeira sociedade inundada por informações dentro e fora da sala de aula –,
que vão desde dados quantitativos vitais até taxas de empréstimos e carteiras de seguro.
Porém, o pensamento quantitativo não caminha na rapidez dos dados gerados pela atual
sociedade virtual: há sim uma grande legião de analfabetos quantitativos que certamente
não serão absorvidos pelos disputados empregos que exigem rápida interpretação de
dados gerados por sistemas de informação, e nem mesmo conseguirão prosperar na
3
Classical probability refers to the assignment of probabilities in an experiment with a random device
where all outcomes are equally likely. Mathematicians would call this a uniform probability distribuition.
Frequentist theory considers probabilities to be assigned based on the long run behavior of random
outcomes. Mathematically, this involves the theory of limits and convergence. Subjective probability is
the 20
th
century term for opinion, or degree of belief. It is even possible to mathematize subjective
probatility, with a heavy reliance upon Bays Theorem, and a theory of revision of probabilities based on
accessible information”.
29
sociedade moderna; são os “descartáveis” da sociedade globalizada (SKOVSMOSE,
2005).
Prova de que a prosperidade na sociedade moderna se torna mais remota a cada
ano pode ser encontrada nos dados do INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo
Funcional) que revela os níveis de alfabetismo, em termos de práticas de leitura, de
escrita e de Matemática na população brasileira e tem por objetivo avaliar a educação
para descobrir índices de alfabetizados que sabem ler. Essa pesquisa é realizada a cada
dois anos, de forma intercalada: os anos pares para Matemática e ímpares para leitura e
escrita. Até o momento foram publicados os dados relativos às habilidades matemáticas
de 2002 e 2004. A pesquisa de 2002 revelou que os entrevistados não conseguiram
entender aquilo que estavam lendo ou até mesmo aqueles que identificaram números
não ultrapassaram as quatro operações básicas de onde se concluiu que 68% dos
alunos que completam de oito a dez anos de estudos não conseguem atingir o nível
pleno de alfabetização: não lêem textos mais longos; não são capazes de localizar e
relacionar mais de uma informação; de comparar vários textos; de identificar fontes; etc.
Assim, o tempo de estudo o indica necessariamente que haverá sucesso no
aprendizado — o tempo, na verdade, é relativo. Em se tratando de leitura e interpretação
de gráficos e tabelas, a situação é um pouco mais desoladora. Como afirma Fonseca
(2004, p. 23):
A indicação de que apenas 21% da população brasileira consegue
compreender informações a partir de gráficos e tabelas,
freqüentemente estampados nos veículos de comunicação, é
absolutamente aflitiva, na medida em que sugere que a maior parte
dos brasileiros encontra-se privada de uma participação efetiva na vida
social, por não acessar dados e relações que podem ser importantes na
avaliação de situações e na tomada de decisões.
Os resultados do INAF 2004 não são muito diferentes daqueles de 2002; indicam
que apenas 23% da população jovem e adulta brasileira é capaz
de adotar e controlar
30
uma estratégia na resolução de um problema que envolva a execução de uma série de
operações. Só essa parcela é também capaz de resolver problemas que envolvam cálculo
proporcional. É ainda mais preocupante a revelação de que apenas nesse grupo
encontram-se os sujeitos que demonstram certa familiaridade com representações
gráficas como mapas, tabelas e gráficos. Segundo o relatório:
as questões do teste que envolvem a leitura de gráficos ou tabelas
sempre têm baixos índices de acerto (entre 41% e 8%), com vantagens
expressivas dos grupos mais jovens sobre os mais velhos, das classes
A e B sobre as demais, dos homens sobre as mulheres, dos mais sobre
os menos instruídos. Isso sugere o quanto a Escola Básica precisa
dedicar-se ao trabalho com essas representações como estratégia de
democratização do acesso à informação e a recursos e procedimentos
para organizá-la e analisá-la. (INAF 4, 2004, p.19)
Ser analfabeto funcional é não saber ao certo qual é o seu próprio papel dentro da
sociedade em que se vive. Segundo Lopes (2004, p.191)
Os resultados apresentados no INAF 2002 em relação à compreensão
da linguagem gráfica evidenciam a pouca vivência da população
brasileira na leitura de dados que expressam sua realidade, o que gera
menores possibilidades de um exercício crítico de sua cidadania,
diminuindo as perspectivas positivas de transformações sociais.
A dificuldade das pessoas com relação a trabalhar e interpretar informações,
segundo divulgou o INAF, lamentavelmente evidencia não somente o problema da
exclusão no país, como também o fato de que a Estatística mesmo a Descritiva não
tem sido ensinada ou, quando ensinada, limita-se a um conjunto de técnicas, e o a
uma forma de pensar sobre o mundo, de desenvolver o raciocínio estatístico e de dar
significado à informação estatística (LOPES, 2004, p.191).
Sabemos da importância acadêmica da Matemática juntamente com a Estocástica;
da confiança que geram os resultados obtidos a partir de dados quantitativos; da
responsabilidade do profissional no mundo dos negócios; da valorização cultural na
tomada de conhecimento de assuntos públicos, no raciocínio, na inferência e na leitura
de relações simbólicas. Compartilhamos das idéias de Lopes (2003, p.65), que acredita
31
em “uma visão de Educação Matemática que não se destina apenas a formar
matemáticos, mas que possibilite às pessoas a obtenção de uma cultura que lhes permita
aplicar esses conhecimentos em suas atividades profissionais e pessoais”.
O debate sobre a importância das disciplinas vai ao encontro do fato de que o
aluno deve estar “mais bem preparado para sua inserção no mundo do conhecimento e
do trabalho” (BRASIL, 1998, p. 92).
Não podemos deixar de pensar que, assim como a Matemática, a Estatística
também é uma linguagem presente todos os dias nos jornais, nas revistas e nos meios de
comunicação, descrevendo fatos ligados a todas as áreas do conhecimento através de
estimativas, gráficos e tabelas e que no seu ferramental encontramos amparo para outras
disciplinas do Ensino Médio. É importante observar que o perfil da Estocástica dentro
dos objetivos curriculares tende a mudar, uma vez que, segundo os PCN, os alunos
devem saber “utilizar diferentes linguagens para produzir, expressar, comunicar idéias
bem como interpretar e usufruir das produções culturais disponíveis” (BRASIL, 1998,
p. 29).
A importância da Estocástica e de todo o seu ferramental tem aumentado nos
últimos tempos nas mais diversas áreas e aplicações: aumentam as diversidades técnicas
e os desenvolvimentos computacionais; entretanto, as simples técnicas de análise de
dados por meios exploratórios pouco são abordadas nas salas de aula. Se uma simples
abordagem exploratória fosse mais aproveitada, principalmente nas séries iniciais,
certamente uma grande facilidade de entendimento dos dados e até um amadurecimento
na compreensão inferencial ou na utilização de pacotes computacionais estatísticos seria
possível nas séries mais avançadas, com um esforço certamente menor, pois é preciso
pensar na sala de aula e em propostas pedagógicas que usufruam o potencial que as
32
mídias informáticas oferecem aos serem integradas ao cenário educacional (BORBA;
PENTEADO, 2002).
Hoje o acesso a pacotes estatísticos tornou-se algo muito fácil, possibilitando
que muitos profissionais tenham condições, por exemplo, de fazer a entrada dos dados
num sistema computacional de direcionamento à análise estatística; porém, a grande
maioria tem deficiência no passo seguinte, que inclui justamente o uso, a interpretação
e a crítica dos resultados obtidos. Com isso o grande e preocupante resultado poderá ser
uma análise estatística incorreta, levando a considerações e ações que não condizem
com o que justamente os dados indicariam dentro de uma análise mais ponderada e
correta. Como afirma Vendramini (2006, p.240):
Hoje a Estatística é uma ferramenta valiosa para a pesquisa científica
em várias áreas de conhecimento, e por essa razão possui uma
variedade de usuários que, na maioria das vezes, são leigos quanto ao
seu uso e à interpretação de suas técnicas. Uma grande parte das
técnicas estatísticas exige o domínio de uma linguagem própria e
fórmulas complexas de cálculo que dificultam o seu uso e
compreensão.
Essa deficiência também está na dificuldade que os professores de Matemática
têm em lidar com uma disciplina pautada na prática de um ensino tradicional e
decorativo, que gera um despreparo generalizado nos alunos e uma grande dificuldade
no desenvolvimento do raciocínio estatístico. Outro aspecto a ser considerado é o
limitado espaço reservado ao trabalho do conteúdo de Estatística na disciplina de
Matemática. Nas séries mais avançadas cursos superiores, tecnológicos ou técnicos
a ausência de uma visão exploratória de dados prejudica a boa compreensão de um
curso introdutório à Estatística, que parte de um planejamento de experimento e de
obtenção de medidas centrais e de dispersão, e exige a compreensão daquilo que
realmente é um conjunto de dados e seu comportamento. Segundo Vendramini
(2006,
p.249):
33
A compreensão de conceitos estatísticos, atitudes positivas em
relação à Estatística e Matemática, experiências agradáveis de
aprendizagem, com estratégias estimulantes e desafiadoras, a
utilização de pacotes estatísticos adequados a cada nível de ensino e
área de conhecimento, entre outras ações, poderão contribuir para a
aprendizagem e a utilização da estatística no ensino e aprendizagem
da matemática.
Shaughnessy (1992, p.489) discute as contribuições que o uso do computador e
de softwares pode trazer para a aprendizagem e para a mudança de crenças, concepções
e atitudes frente à Estocástica.
Vários pacotes têm sido desenvolvidos para tirar vantagem da
velocidade, gráficos e possibilidades de simulação de
microcomputadores. As possibilidades para o desenvolvimento de
representações interativas de conceitos estatísticos são excitantes.
[…]
Os computadores nos proporcionam a oportunidade de criar
novos ambientes de aprendizagem para nossos estudantes
4
.
A presença da Estatística na grande maioria dos currículos dos cursos de
graduação das universidades parece não facilitar e também o agregar o entendimento
dos conteúdos da Estatística. Nossa experiência nos aponta que os conteúdos estudados
e trabalhados em tais cursos passam por uma abordagem que dificulta aos alunos uma
visão de aplicabilidade, e os exemplos das técnicas e das aplicações estatísticas
apresentados nas salas de aula universitárias muitas vezes não se relacionam com o
conteúdo do curso. Assim, exemplos de análise estatística de amostras que avaliam a
qualidade de peças automotivas são muitas vezes apresentados em turmas de
licenciatura em Pedagogia, o que torna pouco atraente a utilização e o interesse pelas
técnicas e pela aplicação da Estatística dentro da própria área.
Assim como os alunos, os professores muitas vezes sofrem uma espécie de
privação do conhecimento estatístico quando da apresentação da disciplina de
Estatística no curso de graduação. A falta de conexão de tal conteúdo com o dia-a-dia
4
There have been a number of computer packages developed to take advantage of the speed, graphics,
and simulation possibilities of microcomputers. The possibilities for developing interactive
representations of statistical concepts are exciting […]. Computers provide us with the opportunity to
create whole new learning environments for our students”.
34
impossibilita ao professor desenvolver um pensamento próprio e prático de aplicação e
impossibilita, conseqüentemente, a apresentação ao aluno em sala de aula. Além do
pouco entendimento da aplicabilidade de tal conteúdo, também a ausência do
entendimento da Estatística para formação e exercício do pensamento crítico: os itens
apresentados limitam-se à aplicação de fórmulas previamente decoradas e que cairão
certamente no esquecimento após sua utilização, sem o interesse de confirmar o
entendimento do conceito apresentado.
Não é possível formatar uma mesma aula para diferentes alunos de diferentes
cursos; é necessário utilizar uma metodologia para cada grupo e tornar a aula um
processo dinâmico, descobrindo em cada turma as suas próprias características.
Defendemos que num curso de licenciatura os conteúdos estatísticos precisam estar
relacionados às questões educacionais; além disso, a inter-relação entre os conteúdos
deve estar mais clara e evidente, diferentemente das propostas tradicionais.
Talvez a dificuldade esteja na leitura feita do currículo que contempla conteúdos
de Estatística: na tentativa de nivelar conhecimentos, acaba-se por homogeneizar
conteúdos meramente superficiais, formatando a prática do professor, desmerecendo
conteúdos críticos e, conseqüentemente, mudanças de currículos.
Shaughnessy (1992, p.489) propõe alternativas para atenuar o que ele denomina
de “duplo problema”, ou seja, “(a) a falta de conhecimento conceitual em estocástica,
acompanhado por (b) intuições não-formais, crenças e concepções equivocadas”. Para
isso defende a constituição de
sociedades investigativas, nas quais o professor é um co-pesquisador e
o investigador é um co-professor. São necessários experimentos
pedagógicos clínicos que cuidadosamente documentam mudanças em
concepções, crenças e atitudes de estudantes sobre estocástica ao
longo de um período extenso para obter um quadro claro do
desenvolvimento cognitivo e afetivo em estocástica.
[…]
É crucial
que os pesquisadores envolvam professores nos projetos de pesquisa
35
futuros, porque os professores são o último elo para a literacia
estocástica de nossos estudantes.
5
Esse tipo de cooperação também é sugerido por Gal e Garlfield (1997, p.14), que
defendem a necessidade de esforços coletivos entre professores, estatísticos,
especialistas em medidas
6
, psicólogos, educadores matemáticos e especialistas em
tecnologia. Essa colaboração pode contribuir para que se à Estocástica um caráter
interdisciplinar. “É essencial que nós continuemos juntos no esforço de melhorar os
métodos atuais de avaliar a fim de assegurar que todos os estudantes possam atuar
efetivamente como cidadãos e trabalhadores num alto padrão de informação
7
, numa
sociedade estatisticamente orientada”
8
.
Desta forma, defendemos que um curso de Estatística seja para futuros
professores, seja para alunos da Escola Básica deva se pautar no desenvolvimento do
pensamento estatístico. Na literatura os termos “pensamento” e “raciocínio” aparecem
sem distinção; dessa forma, utilizaremos um ou outro, dependendo do autor ao qual
estivermos nos referenciando.
2.2. O desenvolvimento do pensamento estatístico
Explorar com ênfase os tópicos que se referem à Estatística e à Probabilidade é
fundamental desde a Educação Básica, pois é desde as séries iniciais que os
pensamentos conceituais dos campos matemáticos se formarão. Se isso não ocorrer,
cabe aos cursos de formação o desenvolvimento desses conceitos.
5
“I believe it is essential that teacher and researchers form investigative partnerships, in which the
teacher is a co-researcher and the researcher is a co-teacher. Clinical teaching experiments that
carefully document changes in student’s stochastic conceptions, beliefs, and attitudes over long periods of
time are needed to obtain a clearer picture of the cognitive and affective development in stochastics. (…)
It is crucial that researchers involve teachers in future research projects, because the teachers are the
ultimate key to statistical literacy in our students”.
6
“measurement experts” no original (p.14).
7
Information-laden.
8
Original da citação de Gal e Garfield.
36
Muitos professores de Matemática recebem da mesma forma que os mais
diversos profissionais das diferentes áreas de graduação, sejam elas licenciatura ou
bacharelado em sua formação inicial um entendimento do relacionamento da
Estatística com o mundo; além disso, a formação - neste caso desde a inicial do
indivíduo - é praticamente voltada para o pensamento estatístico como determinístico,
dificultando a compreensão da presença e da existência, por exemplo, da variabilidade e
do erro aleatório expressão tão difundida na mídia atualmente, principalmente nos
períodos de pesquisas eleitorais.
A Matemática, em todos os seus veis de aprendizado, tem grande importância
no sentido de auxiliar como instrumento o desenvolvimento do pensamento
estatístico, além de servir como uma ponte entre outras áreas de estudo, possibilitando
que o aluno tenha condições de estabelecer relação dos conteúdos estatísticos, por
exemplo, com diferentes contextos. No Ensino Fundamental é crucial que o aluno
consiga desenvolver os primeiros passos no sentido de ser capaz de estabelecer algumas
comparações e relações fazendo uso da Estatística, e não somente memorizar algumas
aplicações ou resultados; o ensino deve ser direcionado para o pensar estatisticamente,
considerando ainda nas séries iniciais um primeiro contato do aluno com a
Probabilidade e a Estatística. Afinal, a competência em pensar estatisticamente consiste
em que uma pessoa seja capaz de compreender mensagens simples e diretas presentes
no cotidiano, bem como as que envolvem processos complexos de inferência (LOPES,
2006, p. 91).
Entendemos que pensar estatisticamente é ter condições de desenvolver a
capacidade de reconhecer a existência da variabilidade e de interpretar informações,
sejam elas numéricas ou descritivas, estreitando laços com a Estatística Inferencial,
antes mesmo de ter conhecimento sobre os métodos estatísticos existentes. Segundo
37
Snee (1993, p.151), “o levantamento e a análise de dados é o coração do pensamento
estatístico. O levantamento dos dados promove a aprendizagem pela experiência e
relaciona o processo de aprendizagem com a realidade”.
A abordagem estatística nas salas de aulas destaca principalmente a análise de
dados e o emprego da Probabilidade, sendo esta última vista, na grande maioria das
vezes, somente pelo prisma da Matemática numa visão tecnicista – e, tratando-a dessa
forma, estaremos desprezando seu caráter estocástico, deixando de considerar as
percepções aleatórias (LOPES, 2006, p.78).
Concordamos com Lopes (2006), ao afirmar que a Educação Matemática pode
contribuir de forma prática e reflexiva para sua intersecção com a Educação Estatística
com a Educação Estatística no processo de ensino e aprendizagem e que existe uma
distinção entre as duas ciências e, principalmente, entre os dois raciocínios:
Em Estatística, dados são vistos como números com um contexto. O
contexto motiva ou leva procedimentos e é a fonte de significados e
base para interpretação de resultados..
A incerteza ou aleatoriedade dos dados distingue a investigação
estatística da natureza mais precisa e finita que caracteriza as
explorações matemáticas.
Conceitos e procedimentos matemáticos são usados como uma parte
da tentativa de manusear ou “resolver” problemas estatísticos, e
algumas habilidades técnicas com a Matemática podem ser esperadas
em certos cursos e níveis educacionais. Entretanto, a necessidade para
uma aplicação precisa na computação ou execução de procedimentos
está rapidamente sendo substituída pela necessidade mais seletiva,
significativa e precisa dos recursos tecnológicos e um grande aumento
de softwares mais sofisticados.
A natureza fundamental de muitos problemas estatísticos é que eles
não têm uma única solução Matemática. Por outro lado, problemas
estatísticos realísticos usualmente começam com uma questão e
culminam com uma apresentação de uma opinião apoiada por certas
descobertas e suposições. Julgamentos e inferências esperadas dos
estudantes (predições sobre uma população baseada em dados de
amostras coletadas pelos estudantes em uma pesquisa) muito
freqüentemente não podem ser caracterizados como “certo” e
“errado”, mas avaliados em termos de qualidade de raciocínio,
adequação de métodos empregados, natureza de dados e evidências
usadas. (GAL e GARFIELD apud LOPES, 2006, p. 65).
38
No que diz respeito ao trabalho do professor nas séries iniciais com relação ao
desenvolvimento inicial do pensamento estatístico, grande dificuldade pedagógica,
prática e reflexiva acerca de seus métodos e sua utilização. Segundo Batanero (1999) e
Lopes (2006), é preferível integrar as atividades estocásticas à Matemática Escolar
sempre que possível, aproveitando as conexões com Aritmética, Geometria e situações
do cotidiano dos alunos.
Há facilidade de aplicação de fórmulas, porém o problema se concentra na
investigação compartilhada com outras disciplinas, ou seja, na dificuldade de
compreensão, por parte do próprio professor dificuldade naturalmente transmitida
aos alunos –, da existência da interdisciplinaridade, característica própria da natureza
estatística. A respeito da abordagem interdisciplinar da Estatística, Lopes (1998, p. 27)
destaca que “precisamos lembrar também que as raízes da Estatística estão centradas
nas diferentes áreas do conhecimento e essa percepção nos remete à
interdisciplinaridade”.
Investir na qualidade do pensamento estatístico do corpo docente é fundamental,
pois a Estatística passa a ser vista de forma mais séria, aplicável e profissional, e não
como um apêndice da Matemática; não um pensamento estatístico definido junto aos
professores que atuam nas salas de aula, pois não houve uma formação nesse sentido. O
professor não consegue orientar o pensamento estatístico ou mesmo “levar a
questionamentos mais profundos”, uma vez que não tem condições ou mesmo uma
metodologia para conduzir à aprendizagem da Estatística.
Parte dos conteúdos de Estatística, assim como os da Matemática, na grande
maioria das vezes é difundida em sala de aula aos alunos de forma fragmentada, o que
dificulta que o aluno tenha condições de raciocinar sobre o todo e também de
compreender a existência de fenômenos; dessa forma, ou seja, discutido de forma
39
pontual e desvinculado das demais áreas do conhecimento, também é apresentado um
dos temas mais importantes para o desenvolvimento do pensamento estatístico: a
Probabilidade e o desenvolvimento do pensamento probabilístico. Além disso,
entendemos que muitas vezes os professores acabam por confundir a localização do
pensamento estatístico dentro do processo de ensino-aprendizagem, ou seja, acabam por
relacioná-lo de alguma forma com o pensamento matemático. Segundo Lopes (2006, p.
79):
O desenvolvimento do pensamento probabilístico requer o
reconhecimento de situações de acaso na vida cotidiana e no
conhecimento científico, bem como a formulação e comprovação de
conjecturas sobre o comportamento de fenômenos aleatórios simples e
a planificação e realização de experiências nas quais se estude o
comportamento de fatos que abarquem o azar. A partir dessas
considerações, pode-se organizar situações didáticas que envolvam a
observação de experimentos, com seus respectivos registros e análises,
possibilitando a integração entre a Probabilidade e a Estatística. Nessa
conjunção é que se terá o desenvolvimento do raciocínio estocástico.
A partir do conhecimento acerca da presença e da importância dos conteúdos
que compõem o bloco de Tratamento da Informação dentro dos PCN e, em
contrapartida, pela constatação da deficiência que tal tratamento apresenta hoje nas salas
de aula, entendemos que o desenvolvimento do pensamento estatístico é necessário para
que o aluno tenha condições mínimas de compreensão dos dados e informações
diariamente divulgados pelas mais diversas fontes. Isso lhe permitirá desenvolver um
pensamento crítico e reflexivo para a tomada de decisão diante de situações de
incerteza.
O bloco Tratamento da Informação reúne os temas de Estatística, Probabilidade
e Combinatória, revelando a grande importância de tal temática; porém a forma como
esses três temas são trabalhados em sala de aula atualmente não auxilia na construção
do pensamento estatístico. As pesquisas têm evidenciado que os conceitos de Estatística
40
e Probabilidade são difíceis de serem ensinados e freqüentemente são pouco
compreendidos (GAL; GARFIELD, 1997).
Com relação à presença dos temas de Estatística, Probabilidade e Combinatória,
recomendados pelas Propostas Curriculares Nacionais e também internacionais, Lopes
(2006) faz uma discussão ampla sobre as perspectivas para o ensino e a aprendizagem
de tais temas e destaca:
A Combinatória, a Probabilidade e a Estatística inter-relacionam-se
proporcionando uma filosofia do azar de grande alcance para a
compreensão do mundo atual e capacitam pessoas a enfrentarem
tomadas de decisões, quando somente dispõem de dados afetados pela
incerteza situações comuns em nosso cotidiano.
A Combinatória requer uma abordagem centrada na resolução de
problemas, com origens diversificadas. Algumas propostas devem
envolver a possibilidade de se obter a solução diretamente pela
contagem. Outras devem possibilitar aos alunos identificação de
categorias nas quais a situação-problema pode-se classificar
adequadamente.
A dificuldade na transmissão das idéias estatísticas e a necessidade de uma
exploração maior desde as séries iniciais remetem a uma ação inevitável: o estudo das
técnicas descritivas – que funcionam como um elo entre a análise dos dados e as
técnicas estatísticas inferenciais de forma dinâmica, superando a idéia de
determinismo que acompanha o aluno desde o Ensino Fundamental até o seu curso
superior, inserindo a idéia de aleatoriedade e probabilidade e, conseqüentemente
desenvolvendo o pensamento estatístico. Segundo Lopes (2003, p.91):
A competência em pensar estatisticamente consiste em que uma
pessoa seja capaz de compreender mensagens simples e diretas
presentes no cotidiano, bem como as que envolvem processos
complexos de inferência. Percebemos que dominar essa forma de
pensamento seja essencial a qualquer indivíduo comum para que tenha
maiores possibilidades de exercer sua cidadania.
O pensamento estatístico, segundo Lopes (2006, p.8) é “uma ação que envolve a
necessidade de se fazer interpretações baseadas em sínteses e representações de dados”
e o desenvolvimento desse pensamento nas salas de aula desde os veis iniciais
41
contribui para a formação do cidadão, para o exercício de sua cidadania. Além disso,
possibilita o desenvolvimento de uma mais apurada capacidade avaliativa e de senso
crítico sobre as mais diversas situações, auxiliando, assim, na sua tomada de decisão.
O pensamento estatístico permite ao indivíduo uma capacidade de compreensão
sobre o relacionamento que existe entre os dados desde sua análise exploratória, o
conhecimento acerca da presença da aleatoriedade, da chance e da variabilidade até a
possibilidade de inferências sobre eles. Ou seja, o pensamento estatístico viabiliza o
entendimento do processo de análise de dados como um todo; afinal, as conclusões que
obtemos acerca do grande número de dados reunidos numa pesquisa dependem
totalmente de uma análise estatística bem estruturada.
A grande parte dos exemplos e dos exercícios apresentados pelos professores aos
alunos no ensino inicial contempla situações com pequenos grupos principalmente
com jogos de azar –, com um número reduzido de elementos ou situações, as quais
normalmente não apresentarão resultados estatísticos representativos. Isso faz com que
grande parte dos alunos acredite ser essa a única possibilidade de utilização e aplicação
da Probabilidade e da Estatística.
O pensamento estatístico é fundamental para que profissionais das mais diversas
áreas e pessoas comuns tenham condições de traduzir os dados em informação e
também para que tenham condições de tomar decisões acerca de diferentes situações;
ele deve ser inserido e cultivado o quanto antes no desenvolvimento educacional do
aluno, principalmente através da apresentação de situações onde consideramos a
presença e a existência da probabilidade.
Gal e Garfield (1999, p. 208-210) apontam sete objetivos que deveriam
contemplar o ensino de Estatística. São eles:
42
1. Compreender a proposta e a lógica da investigação estatística. Nesse objetivo estão
incluídos os conhecimentos necessários a tal investigação, como: variação, descrição de
população através de técnicas amostrais, redução de um rol pela percepção de
tendências e apresentação dos dados. Pressupõe também a compreensão, por parte dos
estudantes, dos erros de inferência e da necessidade de estimar e controlar erros numa
pesquisa.
2. Compreender o processo de investigação estatística. Trata-se da compreensão de
todas as fases do processo envolvido numa inquirição estatística, desde a coleta dos
dados até o momento de análise, conclusão e direcionamentos a novas pesquisas.
3. Aprimorar habilidades procedimentais. São habilidades necessárias ao processo de
investigação estatística, tais como: organização e exibição de dados, obtenção de
medidas centrais ou de dispersão.
4. Compreender as relações matemáticas. Neste objetivo estão incluídas as idéias
matemáticas necessárias à compreensão da própria Estatística.
5. Compreender probabilidade e chance. Envolve o domínio de vocabulário e de
conceitos relacionados a probabilidade, incerteza e chance, o que favorece a
compreensão de informações freqüentemente presentes no cotidiano das pessoas e na
mídia.
6. Desenvolver habilidades interpretativas e literacia estatística. Trata-se de habilidades
de interpretação de dados, de forma crítica, evitando cios ou limitações nas
informações geradas pelos dados.
7. Desenvolver habilidades para comunicar-se estatisticamente. Envolve não apenas a
capacidade de compreensão, mas de argumentação a partir do uso de um vocabulário
estatístico e probabilístico específico.
43
Esses autores (p. 210-211) apontam, ainda, seis tipos de desenvolvimento do
raciocínio estatístico nas atividades de sala de aula.
1. Raciocínio sobre os dados reconhecer ou categorizar os dados como qualitativos ou
quantitativos, discretos ou contínuos e saber como alocá-los em tabelas ou gráficos.
2. Raciocínio sobre representação de dados compreender a forma como um gráfico
representa uma amostra, saber interpretar um gráfico e identificar as suas principais
características, tais como formato, características centrais e de dispersão.
3. Raciocínio sobre medidas estatísticas compreender o que as medidas de tendência
central e de dispersão nos dizem a respeito dos dados.
4. Raciocínio sobre a incerteza compreender e saber utilizar idéias sobre
aleatoriedade, chance e incerteza, com a habilidade de conseguir tomar decisões acerca
de eventos.
5. Raciocínio sobre amostras conhecer como as amostras se relacionam com a
população de origem e perceber a existência da inferência estatística.
6. Raciocínio sobre associação ter conhecimento da interpretação da relação que pode
existir entre duas variáveis, saber examinar e interpretar uma tabela com duas variáveis
e ter conhecimento da existência da correlação.
Vê-se, assim, a complexidade que envolve a formação do pensamento estatístico
e o quanto ele exigirá do professor da Educação Básica. O fato de este conteúdo ter sido
incluído no currículo de Matemática, sem a devida formação do professor, poderá
contribuir para um ensino totalmente distanciado de contextos significativos para o
aluno.
44
2.3. A inserção da Estocástica nos currículos da Educação Básica
A inserção de conteúdos de Estatística nos currículos da Educação Básica é
bastante recente no Brasil: ocorreu com os Parâmetros Curriculares Nacionais, em 1996;
no entanto, em outros países, tal inserção foi bastante anterior à brasileira: tornou-se
evidente a partir da década de 1980, com a publicação da Agenda para Ação, nos
Estados Unidos. LOPES (1998) apresenta o histórico do desenvolvimento curricular em
diversos países, assim como documentos e materiais didáticos para uma melhor
compreensão do desenvolvimento do ensino da Estatística e Probabilidade. Segundo
Lopes (1998, p. 46):
Percebemos que o artigo “Agenda for Action - Recomendations for
school mathematics of 1980s”, publicado em 1980 pelo National
Council of Theachers of Mathematics (NCTM), influenciou muito a
organização curricular da Matemática em outros países. Esse
documento propõe um ensino de Matemática metodologicamente
apoiado na resolução de problemas, na observação, exploração e
experimentação; destaca, ainda, o uso de calculadoras e computadores.
Para isso, é necessário conceber a Matemática como uma ciência
aberta e dinâmica, não apenas como uma ciência exata, feita,
organizada e pronta. O ensino em que a Matemática tem papel
fundamental na interpretação do mundo real é um processo de
investigação e aquisição de conhecimentos, uma criação humana
continuamente em expansão.
A importância do ensino da Estatística vem sendo amplamente destacada e
discutida no decorrer de todo nosso texto, principalmente a importância da análise de
dados e da tomada de decisões, assim como a capacidade do aluno para conseguir
destacar algumas críticas com base nas informações coletadas. Segundo o NCTM
9
(APM e IE, 1991, p. 125-126):
O ensino da estatística deve incidir no envolvimento activo dos alunos
em todo o processo: formação de questões chave; recolha e
organização dos dados; representação dos dados utilizando gráficos,
tabelas, distribuições de freqüência e estatística elementar; análise de
dados; estabelecimento de conjecturas; e comunicação da informação
numa forma convincente. A compreensão da estatística pode ser
também aumentada através da avaliação das argumentações dos
9
Neste trabalho usamos a tradução portuguesa dos Standards, publicada pelo NCTM em 1989.
45
outros. Este tipo de actividade é de importância particular para todos
os alunos, visto que a publicidade, as previsões meteorológicas e a
política são frequentemente baseadas na análise de dados.
No Brasil, embora a Proposta Curricular para o ensino de Matemática do Estado
de São Paulo, na década de 1980, fizesse referência à Estatística, em nível nacional a
sua inserção no currículo ocorreu com os Parâmetros Curriculares Nacionais.
A proposta dos PCN é de aproximar o aluno da vida quotidiana, das informações,
para que ele se sinta incentivado a manipular, avaliar, criticar e estabelecer relações,
podendo interpretar e criar. LOPES (2005, p.87), ao analisar a importância dos
conteúdos do bloco denominado Tratamento das Informações, destaca que o estudo
desses temas desenvolve, nos estudantes, certas atitudes que possibilitam o
posicionamento crítico, o fazer previsões e o tomar decisões. Os elaboradores desse
documento curricular acreditam que tratar essas questões durante o Ensino Fundamental
seja necessário para a formação dos alunos. Segundo os PCN (BRASIL, 1998, p.85):
O Tratamento da Informação pode ser aprofundado neste ciclo, pois
os alunos têm melhores condições de desenvolver pesquisas sobre sua
própria realidade e interpretá-la, utilizando-se de gráficos e algumas
medidas estatísticas. As pesquisas sobre Saúde, Meio Ambiente,
Trabalho e Consumo etc., podem fornecer contextos em que os
conceitos e procedimentos estatísticos ganham significados.
Os PCN estão organizados de forma a apresentar os objetivos gerais tanto para o
Ensino Fundamental como para cada área disciplinar. Neste caso, expõem também os
objetivos específicos para os quatro ciclos, com uma proposta de conteúdos divididos
em blocos temáticos: Números e Operações, Espaço e Forma, Grandezas e Medidas e
Tratamento da Informação; os temas com referência à Estocástica apresentam-se neste
último bloco, o de Tratamento da Informação.
A inclusão deste nos currículos não aconteceu somente aqui no Brasil, mas
também em muitos outros países como, por exemplo, Espanha, Estados Unidos, França.
Aparentemente os livros didáticos passaram a dar uma maior ênfase aos conteúdos
46
envolvidos em tal bloco; não é nosso objetivo proceder a uma análise da pertinência ou
não desses conteúdos nos livros didáticos. No entanto, nossa hipótese é de que os
professores que lecionam Matemática encontram dificuldades nesses conteúdos, pois
provavelmente estes estiveram ausentes nos cursos de sua formação inicial. Com
relação à importância do bloco dentro dos PCN, Lopes (2005, p. 87) argumenta:
No que se refere ao contexto brasileiro, nos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCN), o ensino da Probabilidade e da Estatística aparece
inserido no bloco de conteúdos denominado “Tratamento das
Informações”, o qual é justificado pela demanda social e por sua
constante utilização na sociedade atual, em razão da necessidade de o
indivíduo compreender as informações veiculadas, tomar decisões e
fazer previsões que influenciam sua vida pessoal e em comunidade.
Nesse bloco, além das noções de estatística e probabilidade, destacam-
se as noções de combinatória.
O texto dos PCN destaca também como objetivo do bloco que o aluno consiga
executar alguns procedimentos estatísticos, tais como a coleta, organização e
apresentação dos dados através da utilização de tabelas e gráficos ou representações e
até mesmo a obtenção de medidas estatísticas de tendência central tais como média,
mediana e moda – que servem como ferramental estatístico para interpretação dos dados
coletados. Outro objetivo é fazer notar ao aluno a existência de fenômenos com
características aleatórias no seu dia-a-dia, introduzindo a noção de aleatoriedade, a
noção de probabilidade de erros e acertos e a utilização de tabelas e gráficos.
Os objetivos propostos para a Matemática, com relação ao raciocínio estatístico e
probabilístico do 4º Ciclo são, segundo os PCN (BRASIL, 1998, p.81):
Construir tabelas de freqüência e representar graficamente dados
estatísticos, utilizando diferentes recursos, bem como elaborar
conclusões a partir da leitura, análise, interpretação de informações
apresentadas em tabelas e gráficos e construir um espaço amostral de
eventos equiprováveis, utilizando o princípio multiplicativo ou
simulações para estimar a probabilidade de sucesso de um dos
eventos.
Com relação à importância da presença da Estatística em todos os níveis escolares,
Batanero (2003, p.1) considera que:
47
Recentemente têm-se divulgado algumas recomendações, tanto das
entidades educativas e decretos curriculares, como também das
associações de professores de matemática sobre a necessidade de
incorporar o ensino da estatística na escola em todos os níveis.
Os conceitos e os procedimentos propostos para o 4º Ciclo são:
1) Leitura e interpretação de dados expressos em gráficos de colunas,
de setores, histogramas e polígonos de freqüência; 2) Organização de
dados e construção de recursos visuais adequados, como gráficos (de
colunas, de setores, histogramas e polígonos de freqüência), para
apresentar globalmente os dados, destacar aspectos relevantes,
sintetizar informações e permitir elaborar inferências; 3) Compreensão
de termos como freqüência, freqüência relativa, amostra de uma
população, para interpretar informações de uma pesquisa; 4)
Distribuição das freqüências de uma variável de uma pesquisa em
classes, de modo que resuma os dados com um grau de precisão
razoável; 5) Obtenção das medidas de tendência central de uma
pesquisa (média, moda e mediana), compreendendo seus significados
para fazer inferências; 6) Construção de espaço amostral, utilizando o
princípio multiplicativo e a indicação de probabilidade de um evento
por meio de uma razão; 7) Elaboração de experimentos simuláveis
para estimar probabilidades e verificar probabilidades previstas
(BRASIL, 1998, p. 91).
Os conceitos e procedimentos propostos para o 3º Ciclo são:
1) Coleta, organização de dados e utilização de recursos visuais
adequados (fluxogramas, tabelas e gráficos) para sintetizá-los,
comunicá-los e permitir a elaboração de conclusões; 2) Leitura e
interpretação de dados expressos em tabelas e gráficos; 3)
Compreensão do significado da média aritmética como um indicador
da tendência de uma pesquisa; 4) Representação e contagem dos casos
possíveis em situações combinatórias; 5) Construção do espaço
amostral e indicação da possibilidade de sucesso de um evento pelo
uso de uma razão (BRASIL, 1998, p. 74).
A tomada de decisão utilizando recursos da Estatística acontece para o aluno a
partir do momento em que o professor consegue extrapolar a Estatística Descritiva de
sala de aula; a Estatística da coleta, a organização e a descrição dos dados possibilitam e
orientam o aluno a ir ao encontro da Estatística da análise, da aleatoriedade e da
interpretação das informações em conjunto com as demais disciplinas e áreas, e não ao
encontro de uma Estatística estática, isolada e desinteressante que não auxilia o
crescimento e o amadurecimento do aluno em prol de uma visão verdadeira da realidade
e nem mesmo possibilita desenvolver um raciocínio probabilístico.
48
A partir dos PCN o ensino da Estatística foi incluído na disciplina de Matemática
e alguns estudos vêm abordando a importância e a necessidade do ensino da Estatística
nas séries iniciais para o desenvolvimento do futuro profissional.
Essa reforma curricular provavelmente tenha desencadeado a necessidade de se
criar um Grupo de Trabalho, na Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM),
com vistas a discutir e socializar estudos e pesquisas nesse campo do conhecimento.
Criou-se, assim, o GT de Educação Estatística – GT 12 da SBEM.
2.4. Educação Estatística
Da mesma forma que ocorreu com a Educação Matemática, ao se constituir em
um campo científico e de atividade profissional (FIORENTINI; LORENZATO, 2006),
a Educação Estatística também vem dando passos no sentido de buscar a constituição
desse campo. Prova disso é que o mais recente grupo de trabalho (GT) criado na
Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM) é o GT de Educação Estatística.
Discutir a constituição do campo da Educação Estatística é relevante, pois, se
falamos em Estatística a partir do contexto do nível da Educação Básica e se tal campo
de estudo como conteúdo escolar está inserido nos currículos de Educação Básica e na
disciplina de Matemática, então entendemos a necessidade de uma discussão, em nível
nacional e internacional, a respeito da Estatística a ser ensinada uma prática social
absolutamente diferente da prática social da Estatística como ciência.
Com a inserção do bloco Tratamento da Informação no currículo da Educação
Básica, os conteúdos de Estatística vinculados aos livros didáticos tornaram-se algo
crescente; a produção de materiais de suporte ao professor também vem ganhando
espaço, gerando assim a necessidade de uma análise e discussão mais crítica dos
mesmos. Além disso, constata-se o início de pesquisas acadêmicas nessa área. Esse
49
movimento justifica a existência de um GT para discussão, análise e avaliação dessas
produções.
O apoio dos institutos de Estatística a uma maior atenção dada à Educação
Estatística vem acontecendo, em nível mundial, de forma gradativamente intensa. Em
primeiro lugar, devido aos avanços da Educação Estatística no campo da pesquisa, onde
inicialmente se apresentava de forma pulverizada e confusa por estar a Estatística dentro
da disciplina de Matemática e também por tratar-se de um conteúdo presente nas mais
diversas áreas. Batanero (2003, p.3) destaca que nos últimos anos a investigação sobre a
Educação Estatística tem vivido um grande crescimento. Ainda, segundo a autora:
A educação estatística tem sido um importante foco de interesse do
Instituto Internacional de Estatística (ISI) desde sua fundação em
1885, que se concretizou oficialmente em 1948, quando o ISI cria o
Comitê de Educação, encarregado de promover uma formação
estatística a nível internacional, colaborando para esse fim com a
UNESCO e outros organismos internacionais e marcando o início de
um programa sistemático de apoio à educação.
10
(BATANERO, 2003,
p.4)
Essa autora destaca os principais espaços de pesquisa, estudos e divulgação da
produção em Educação Estatística:
ISI Instituto Internacional de Estatística, que estabeleceu o Comitê de
Educação, encarregado de promover a formação estatística em nível
internacional, além do desenvolvimento das licenciaturas em Estatística (que
formam professores e profissionais estatísticos). O Instituto foi fundado em
1885.
IASE International Association for Statistical Education, criado em 1991 pelo
ISI com o objetivo de desenvolver a melhoria da educação estatística em âmbito
10
La educación estadística ha sido un importante foco de interes del Instituto Internacional de
Estadística (ISI) desde su fundación em 1885, que se concretó oficialmente em 1948, cuando el ISI
establece el Comitê de Educación, encargado de promover la formación estadística a nível internacional,
colaborando, para este fin, com la UNESCO y otros organismos internacionales, y marcando el
comienzo de um programa sistemático de apoyo a la educación”.
50
internacional em qualquer vel, além do desenvolvimento de softwares
estatísticos e do ensino da Estatística nas empresas e na indústria.
ICOTS - International Conference on Statistical Education iniciado em 1982 na
Universidade de Sheffield. Trata-se de uma conferência criada para estimular a
produção e a difusão do tema Estatística voltado para o ensino.
ISG International Study Group for Research on Lerning Probability and
Statistics, criado no congresso ICOTS 1 por Joan Garfield, David Green,
Michael Shaughnessy, Efaim Fischbein e outros. Esse grupo criou em 1999 um
jornal, a princípio impresso e logo depois eletrônico, que serviu de impulso para
difusão, divulgação e investigação estatística, chamado SERN (Statistics
Education Research Newsletter).
Além dos espaços de pesquisa e estudos existem os meios específicos de
divulgação da produção em Educação Estatística, merecendo destaque o Teaching
Statistics e o Journal of Statistics Education, orientados principalmente aos professores
que trabalham com essa disciplina tanto na Educação Básica como na Secundária ou
Universitária. Além disso, cabe destacar que revistas de Educação Matemática, como o
Journal for Research in Mathematics Education, com grande freqüência, apresentam
temas sobre Educação Estatística.
Ainda com relação aos grupos de pesquisa, é importante destacar que alguns deles
estão inseridos nos eventos de Educação Matemática, como é o caso do grupo de
Estocástica no PME (Psycholoy of Mathematics Education), que existe desde 1976, ou
mesmo a presença dos grupos de Estatística em congressos como o ICME (International
Congress on Mathematics Education).
Assim como na Educação Matemática, o grande desafio da Educação Estatística é,
além de investir na formação de professores, criar subsídios para levar para a sala de
51
aula uma proposta curricular instigante e interessante, e não conteúdos totalmente
desligados da realidade. .
Pela amplitude da comunidade acadêmica destacada anteriormente, pode-se
pressupor a existência de avanços teóricos e metodológicos tanto no campo da pesquisa
quanto no campo profissional.
No entanto, constatamos que no Brasil a grande dificuldade em escrever algo
sobre Educação Estatística é o pequeno número de teses e dissertações com relação a
esse assunto, justificado, talvez pelo fato de ser um novo campo de estudo no nosso
país. A Educação Estatística poderá contribuir para a melhoria do ensino da própria
Estatística e até mesmo da Matemática, se partir uma prática escolar diferenciada
daquela que temos acompanhado no ensino da Matemática. Lopes (2006, p.3) destaca a
importância da Educação Estatística na formação e no direcionamento do ensino da
disciplina:
A Educação Estatística apresenta atualmente, em suas linhas de
pesquisas, investigações sobre currículos da escola básica e da
universidade, formação inicial e continuada de professores, erros e
dificuldades dos estudantes e novas tecnologias. A Estatística é uma
ciência que não se restringe a um conjunto de técnicas. Ela contribui
com conhecimentos que permitem o lidar com a incerteza e
variabilidade dos dados, mesmo durante a coleta, possibilitando
tomadas de decisão com maiores argumentos.
No caso dos pesquisadores brasileiros, o desafio posto consiste não apenas na
divulgação das pesquisas, mas na elaboração de materiais acessíveis aos professores e
formadores que, por motivos diversos, não possuem, muitas vezes, os saberes
necessários a um trabalho pedagógico pautado na investigação e na reflexão.
A prática reflexiva é que possibilitará o enfrentamento dos desafios trazidos
pelas transformações e pelos avanços tecnológicos e científicos. Sem dúvida, a
Educação Estatística é uma poderosa ferramenta que pode conduzir o aluno para a sua
inserção no mundo globalizado.
52
No prefácio de Carzola e Santana (2006, p.7) deparamo-nos com argumentos de
Carmem Batanero sobre o reconhecimento da importância da Estatística e de seu ensino
desde a escola primária:
A Estatística é uma parte da cultura geral que se deseja para os
futuros cidadãos adultos, precisam adquirir a capacidade de leitura
e interpretação de tabelas e gráficos estatísticos que com
freqüência aparecem nos meios informativos.
Ajuda aos estudantes a compreender os demais temas do
currículo, onde com freqüência aparecem idéias estatísticas.
Seu estudo auxilia no desenvolvimento pessoal, contribuindo com
o raciocínio crítico baseado nos valores da evidencia objetiva.
É útil para a vida profissional, onde muitas profissões requerem
conhecimentos básicos do tema
11
.
Assim, necessidade de promover a capacidade de comunicação dos alunos
desde a Educação Infantil, desenvolvendo seu espírito crítico e a busca por decisões a
partir do uso de métodos estatísticos quantitativos inspirados em situações da realidade,
como forma de permitir uma visualização do problema e de todos os níveis de aplicação
das técnicas estatísticas. Acreditamos que as contribuições das pesquisas e dos demais
estudos na área de Educação Estatística não somente a normatização de conteúdos
específicos para professores que atuam nas salas de aula contribuirão para a
implementação dessa área de conhecimento, pois uma carência enorme de leituras
específicas para professores. A promoção da Educação Estatística na Escola Básica não
deve ter como objetivo futuro habilitar o aluno no desenvolvimento de cálculos mais
complexos, mas sim, apresentar a ele alguns conceitos, como forma de aproximá-lo de
importantes conceitos de Estatística, além de ajudá-lo a avançar para o pensamento
estatístico.
11
“La Estadística es uma parte de la cultura general deseable para los futuros ciudadanos
adultos, quienes precisan adquirir la capacidad de lectura e interpretacion de tablas y gráficos
estadísticos que com frecuencia aparecen en los medios informativos.
Ayuda a los estudiantes a comprender los restantes temas del currículo, donde com frecuencia
aparecen ideas estadisticas.
Su estúdio ayuda al desarrollo personal, fomentando um razonamiento crítico, basado em
valoración de la evidencia objetiva.
Es útil para la vida profesional, donde muchas profesiones requieren uns conocimientos básicos
del tema”.
53
O problema é que, na realidade, essa iniciação ao pensamento estatístico não
ocorre, gerando outros problemas e também grandes dificuldades no ensino da
Estatística nas salas de aula, o que se agrava muito mais com o “despreparo dos alunos
em Matemática e a carga horária reduzida das disciplinas de Estatística no currículo dos
cursos [que] dificultam a sua aprendizagem” (VENDRAMINI, 2006, p. 241).
Nesse sentido, entendemos que o GT 12 da SBEM tem o desafio de trabalhar
com Educação Estatística desde os níveis mais elementares até o nível superior,
justamente para subsidiar o professor como profissional formado e também como
agente construtor de conhecimento em sala de aula para trabalhar os conteúdos de
forma significativa, fazendo as devidas conexões com conteúdos interdisciplinares, com
conceitos matemáticos, numa perspectiva crítica. Trata-se de colocar em prática as
comunidades de investigação propostas por Shaughnessy (1992) e Gal e Garfield
(1997).
Essa criticidade será possível se Educação Estatística e Educação Matemática
Crítica dialogarem. Esse será o tema do próximo capítulo.
54
3. EDUCAÇÃO MATEMÁTICA CRÍTICA E EDUCAÇÃO
ESTATÍSTICA: um diálogo necessário
Neste capítulo pretende-se discutir o papel da Educação Matemática Crítica e da
Educação Estatística na atual sociedade globalizada e do conhecimento e algumas de
suas implicações para os processos de escolarização.
3.1. Os processos de globalização e a sociedade do conhecimento
A globalização é um processo que extrapola o nível econômico e social e integra
as pessoas de diferentes países através de transações culturais, econômicas e financeiras;
ocorre desde a ascensão do Império Romano e seu atual ritmo é mais abrangente em
termos de pessoas envolvidas e de suas culturas, dos serviços e áreas afetadas, uma
vez que as tecnologias de comunicação e de informação digital revolucionam-se a cada
dia, exigindo maior fortalecimento intelectual das pessoas, sejam elas alunos ou não.
Nesse sentido, ela pode ser considerada um movimento que estrutura de forma diferente
o sistema capitalista, porém acaba por acentuar as desigualdades sociais e econômicas,
uma vez que as nações precisam fazer determinados acordos em função de produtos e
da oferta destes no mercado mundial.
Para Gimeno Sacristán (2003, p.52), o fenômeno da globalização não é novo;
novo é o fato de ele ocorrer em “um contexto que denominamos sociedade do
conhecimento ou da informação”. Nessa sociedade o conhecimento ocupa papel central
e, como analisa Skovsmose (2005, p. 126):
Conhecimento e informação são elementos significativos na economia
informacional, mas os resultados desta economia podem somente ser
referidos, tanto como “bons” quanto como “ruins”. Onde quer que o
conhecimento venha a ser colocado em operação, teremos que encarar
incertezas.
55
A globalização é “um conceito utilizado para caracterizar a peculiaridade do
tempo presente, reconhecido como a segunda modernidade, que começou a se forjar nas
duas últimas décadas do século XX” (GIMENO SACRISTÁN, 2003, p. 50).
Quando falamos sobre globalização, uma das primeiras idéias que nos surgem é
a questão da qualidade e suas formas de controle dentro do processo de produção ou
avaliação. A melhoria e o aperfeiçoamento da qualidade estão presentes atualmente nas
mais diversas áreas e são tema principal nas mais importantes e variadas discussões
dentro do mercado mundial, devido ao grande número de empresas que se utilizam e se
beneficiam de procedimentos estatísticos para uma melhor compreensão e solução de
problemas, assim como para a avaliação da confiabilidade de produtos ou para o
conhecimento do risco de falhas de componentes. Nas empresas o trabalho dos
engenheiros e estatísticos é voltado para a criação de gráficos de probabilidade ou de
ajuste, por exemplo, e a leitura da avaliação da confiabilidade é fundamental para o
funcionário que participa de decisões no dia-a-dia de qualquer empresa.
A tecnologia, em todas as suas vertentes, é um dos elementos mais importantes
da globalização, pois cria a possibilidade de comunicação entre todos os povos, e esse
processo de troca de experiências é ininterrupto. O grande recurso para que tenhamos
melhores condições, entendimento do risco que existe nas negociações, maior
fortalecimento intelectual e também preparo para conseguir conduzir e sobreviver a tal
processo de globalização é a educação; afinal é ela que finalmente i direcionar a
pessoa no sentido do entendimento e da leitura da realidade que a cerca, possibilitando,
por exemplo, a transformação do meio em que ela vive. Até mesmo questionando se o
conceito de qualidade imposto pela globalização é o que interessa à sociedade como um
todo e à educação, em particular.
56
A manipulação de informações também está diretamente atrelada à
informatização global, em particular à informatização das escolas e da sociedade
brasileira, que se iniciou na primeira metade do século passado: uma grande rede de
tecnologia invadiu os mais diversos segmentos do mercado, trazendo inclusive serviços
informatizados para dentro das escolas públicas, permitindo dentro das limitações
sua utilização por parte de alunos e professores do Ensino Médio e do Ensino
Fundamental e agregando-os como uma importante ferramenta não somente no universo
escolar como também de imensa importância na formação docente. A informática
contribui para o desenvolvimento profissional do docente e, conseqüentemente, para o
processo de ensino-aprendizagem e para a educação para a cidadania.
As diferentes áreas educacionais como, por exemplo, a Matemática e a
Estatística - colaboram para a construção de pessoas críticas, com condições para julgar
diferentes opiniões ou argumentos, cientes do grande e confuso mero de informações
disponíveis e aptas a lidar com a informalidade, desde que tratada de forma contextual,
com o objetivo de superação e compreensão, e não com o objetivo de distanciamento da
realidade política e social que vivemos. No entanto, se a Matemática e a Estatística
possibilitarem a reflexão e a análise de situações ligadas à realidade em que vivemos,
podem servir como catalisadoras da criatividade e do pensamento crítico e reflexivo,
possibilitando finalmente uma maior autonomia do aluno.
O fato de uma pessoa ter condições de processar informações e utilizá-las,
evitando muitas vezes uma possível manipulação como, por exemplo, a leitura correta
de um relatório ou gráfico –, é atualmente um dos fatores mais importantes para que o
profissional – seja ele novato ou um já empreendedor – consiga inserir-se como cidadão
crítico no seu trabalho, no meio empresarial e na sociedade. É nesse ponto que reside a
importância da Educação Estatística, que auxiliará na incorporação de conhecimentos
57
sobre diversas formas de linguagens e também no acompanhamento do
desenvolvimento tecnológico.
3.2. A Educação Matemática Crítica e a Educação Estatística
Vivemos, atualmente, numa era digital marcada diariamente pelo aprimoramento e
pela evolução da tecnologia, dos meios de comunicação e da interação entre ambos. São
tempos de mídia eletrônica, de informação inteligente em alta velocidade, de diferentes
formas de pensamento, de conflitos ideológicos, de diferenças culturais e sociais e de
diversidade de etnias. Estamos no mundo do comércio eletrônico e virtual, de relações
sócio-espaciais através do e-commerce, das grandes avaliações nos meios interno e
externo de negociação, onde é pré-requisito que os consumidores envolvidos – ou
melhor, os indivíduos, estejam sempre muito bem informados e atualizados através da
“nova” Matemática que vem sendo (re) produzida diariamente, à frente dos nossos
olhos.
São em número muito reduzido as empresas dos diversos setores que podem
afirmar, sem pestanejar, que os seus executivos conseguem explicar, inferir e absorver
boa parte das informações obtidas pelos técnicos através dos levantamentos nos seus
bancos de dados. As telecomunicações inclusive as diversas mídias e as tecnologias
de informação e de ponta, apimentadas pela quantificação dos dados e das informações,
colocam o indivíduo em uma situação de incerteza; são milhares de megabytes de
informações e dados obtidos mecanicamente; porém, poucos são os profissionais
capacitados tecnicamente para interpretar, criticar e reinventar tais informações; é
justamente nesse contexto que podemos avaliar qual é a proximidade, qual é o grau de
58
familiaridade dos profissionais com o conhecimento estatístico e com a interpretação de
dados e informações.
Um grande erro é imaginar que, as inovações obtidas a partir do surgimento e do
constante aperfeiçoamento dos computadores, da internet e das calculadoras,
possibilitando a obtenção de resultados de cálculos altamente complexos e informações
com uma rapidez incomparável, já sejam suficientes para que os estudiosos se achem
capacitados para encontrar algumas respostas estatísticas — na verdade, estes não
possuem, muitas vezes, conhecimento aprofundado compatível com o objeto de estudo.
Isso certamente poderá acarretar – em algumas situações – resultados que não condizem
com a realidade do estudo ou mesmo a confirmação de que não bastam equipamentos e
softwares específicos para obtenção de respostas. É preciso o conhecimento da teoria e
a capacidade de interpretação de dados ou mesmo de respostas gráficas.
O número limitado de profissionais com determinadas capacidades técnicas e
conhecimentos garante a manutenção da profundidade do abismo que isola os
detentores do conhecimento daqueles que são excluídos, agregando ainda mais pontos
às estatísticas dos excluídos ou dos “descartáveis” da sociedade (SKOVSMOSE, 2005),
dos analfabetos tecnológicos e culturais. São frutos do esgotamento que vive a realidade
escolar em todos os seus níveis –, onde uma nova cultura escolar precisa emergir,
trazendo com ela uma outra dinâmica de produção de conhecimento; de inclusão social;
de formação profissional num mundo sujeito às rápidas mudanças; de novas edificações
do saber docente; e também comprometida com a construção de um currículo
transformador e crítico. A diversidade presente em vários aspectos dentro da sociedade
é grande e a escola emersa de uma sociedade capitalista tem a difícil tarefa de
conseguir dialogar com as diferentes culturas; de tornar o aluno um sujeito crítico
59
perante a política neoliberal e o mundo globalizado; de tentar conduzi-lo, inclusive, à
busca pela sua verdadeira identidade social.
As mudanças acontecem no meio social, nas ruas, nas indústrias, enfim, no
cotidiano em que vivemos, numa forma rápida e impetuosa, sem questionamentos a
respeito da forma como ocorrem ou até mesmo de como surgiram. É uma grande
universalização de experiências e aprendizagens, uma imensa rede de influências
tecnológicas, uma globalização de conjunturas. É notório que os “descartáveis”,
principalmente aqueles que compõem as classes menos favorecidas, são os que m
maior dificuldade e que enfrentam os maiores obstáculos para a compreensão da
Matemática cotidiana e para a interpretação de informações estatísticas, fundamentais
no mundo capitalista como item de inclusão social.
O processo atual de globalização movimenta-se velozmente e sua aceleração com
o passar do tempo é evidente; assim, a Matemática pode ser considerada como um dos
maiores auxílios para entender, acompanhar e participar de tal realização em prol do
desenvolvimento pessoal e econômico e das novas atividades industriais, como a
reengenharia e o controle estatístico do processo.
Como forma de enfrentar essa escalada da globalização que é tanto de inclusão
quanto de exclusão social – uma Educação Matemática Crítica faz-se necessária.
A respeito de globalização, Skovsmose (2005, p. 116) afirma:
Globalização tem a ver com política, indústria, mercados e negócios.
Ela tem a ver com culturas e conflitos. Também tem a ver com a
construção, a codificação e a distribuição do conhecimento que se
transforma em uma mercadoria. Globalização tem a ver com
educação, bem como com educação matemática.
Ser alfabetizado matematicamente não significa somente alfabetizar-se pela
Matemática usual, mas principalmente pela Matemática das possibilidades; na
sociedade da informação o maior privilegiado é aquele que sabe lidar com a incerteza, e
a reflexão do profissional de educação a esse respeito é fundamental, pois permite a
60
superação em termos de senso crítico e de decisão, além de solidificar o verdadeiro
significado de cidadania. A capacidade do cidadão para reconhecer a função da
Matemática no mundo em que vive e ter condições de fazer reflexões bem
argumentadas, de forma a otimizar sua qualidade de vida e daqueles que estão ao seu
redor, certamente o transforma num indivíduo atualizado, crítico e responsável.
Segundo SKOVSMOSE (2001, p.127):
Resultados matemáticos e dados estatísticos são uma referência
constante durante debates na sociedade. Eles fazem parte da estrutura
da argumentação. Dessa forma, a matemática é usada para dar suporte
ao debate político. Mas não apenas isso. Ela se torna parte da
linguagem com a qual sugestões políticas, tecnológicas e
administrativas são apresentadas. A matemática torna-se parte da
linguagem do poder.
Ao abordar a questão do progresso a partir da globalização, nós nos deparamos
com a existência e a presença da Matemática – e do passivo ensino da Estatística
contemplado dentro da disciplina – e também com o papel da Educação Matemática nos
diferentes grupos de pessoas envolvidas nesse processo. Segundo SKOVSMOSE (2005,
p. 127):
A educação matemática poderia, portanto acionar processos com
implicações sociais bem diferentes. Naturalmente, essas observações
significam um desafio para a prática da educação matemática, bem
como para a educação matemática como uma disciplina científica.
O autor classifica os diferentes grupos de pessoas que são ou podem ser afetadas
pela Educação Matemática: os “construtores”, os “operadores”, os “consumidores” e
os “descartáveis”(Ibidem).
Quanto aos “construtores” (engenheiros, economistas, cientistas da computação,
farmacêuticos, dentre outros), estão diretamente ligados ao aparato do conhecimento,
“às técnicas dos sistemas de informação, tecnologia e cultura; às fontes econômicas; às
prioridades de gerenciamento; aos meios pelos quais a tecnologia, na mais expressiva
interpretação do termo, é mantida e desenvolvida” (Ibidem, p. 128). Entendemos que
61
tanto as competências matemáticas como também as estatísticas são essenciais para se
lidar com todo esse aparato do conhecimento.
Os “operadores” referem-se àquelas pessoas que utilizam a Matemática de forma
incorporada a sua rotina de trabalho, muitas vezes de forma implícita. Pode-se dizer que
são aquelas pessoas que se utilizam dos pacotes estatísticos, com os quais conseguem
operar, mas sem conhecer como funcionam e quais são seus significados. Como afirma
Skovsmose (2005, p. 129), “qualquer uso da matemática, seja explícito ou implícito,
deve ser acompanhado pela dúvida e pela incerteza”; acreditamos que o mesmo possa
ser aplicado à Estatística.
Os “consumidores” o aqueles que consomem as informações veiculadas pela
mídia, em que as informações estatísticas se fazem mais presentes ainda do que as
informações matemáticas. O desafio que se coloca é como preparar esse grupo de
pessoas para se tornarem cidadãos críticos diante dessas informações.
Os “descartáveis” são aqueles que não participam da economia informacional. Se
a Educação Matemática, como afirma Skovsmose (2005), pode preparar pessoas para se
tornarem descartáveis nessa sociedade, a Educação Estatística também o pode;
principalmente se não houver a preocupação de levar para a sala de aula contextos que
possibilitem análise, reflexão e transformação de pontos de vista; se não se propiciar
ambientes de aprendizagem nos quais o aluno possa aprender os conceitos estatísticos e
tornar-se um consumidor crítico das informações veiculadas. Como afirma Lopes
(2004, p. 189):
Os conhecimentos fundamentais a serem adquiridos referem-se à
capacidade para analisar índices de custo de vida, para realizar
sondagens, escolher amostras e outras situações do cotidiano. Não
basta ao cidadão entender as porcentagens expostas em índices
estatísticos como o crescimento populacional, taxas de inflação,
desemprego etc. O cidadão precisa, muitas vezes, realizar análise
minuciosa dos dados, o que requer a habilidade de relacionar
criticamente os dados apresentados, questionando e ponderando até
mesmo sua veracidade. Dessa forma, não é suficiente que a pessoa
62
desenvolva capacidades de organização e representação de uma
coleção de dados apenas: faz-se necessário interpretar e comparar
esses dados para tirar conclusões.
Se a Estatística passa a ser um tópico no currículo de Matemática na Educação
Básica, então que se pensar nas relações existentes entre esses campos do
conhecimento e a Educação Matemática Crítica. Esta muda a própria natureza da
Matemática e pode ser pensada como prática pedagógica que tanto atenda à formação
do cidadão quanto à ideologia do sistema, da guetorizacão e da globalização. Assim, “se
virmos a Educação Matemática como parte de processos universais de globalização,
então deveremos vê-la também como parte de processos universais de geração de
exclusões” (SKOVSMOSE, 2005, p.133). Uma Educação Estatística poderá ser
inclusiva se romper com a forma tradicional como tem sido trabalhada, “como um
conjunto de técnicas em vez de uma forma de pensar sobre o mundo” (LOPES, 2004, p.
191). E a autora complementa:
Incorporar estatística nas aulas de matemática, focalizando uma
formação mais crítica parece exigir uma abordagem dos
conhecimentos estatísticos na perspectiva da análise de dados
que sejam coletados a partir de uma problemática que seja
relevante e significativa para o estudante. (Ibidem, p. 192)
A Educação Estatística assume papel cada vez mais importante na vida das
pessoas, na sua relação com os outros e na relação com diferentes situações que
permitem não apenas uma ação ou uma informação probabilística mas também a
compreensão da sua interdisciplinaridade com as demais áreas e com um mundo
globalizado que exige inúmeras coisas, dentre elas o conhecimento. Assim, compete à
escola uma formação competente em Estatística; segundo Shaughnessy (1992), essa
competência é fundamental nas sociedades atuais “para ser crítico em relação à
informação disponível na sociedade, para entender e comunicar com base nessa
informação, mas, também, para tomar decisões, atentando para o fato de que grande
63
parte da organização dessas mesmas sociedades é feita com base nesses conhecimentos”
(apud LOPES, 2004, p. 193).
Nesse sentido, tanto a Educação Matemática quanto a Educação Estatística
precisam dialogar, com vistas à formação crítica dos alunos da Educação Básica. Assim,
compartilhamos das seguintes idéias de Lopes (2004, p. 193):
O trabalho crítico e reflexivo com a estatística pode auxiliar o
estudante a repensar seu modo de ver a vida, o que contribuirá para a
formação de um cidadão mais liberto das armadilhas do consumo.
Permite que o sujeito adquira domínio da linguagem estatística o qual
lhe forneça compreensão ampla das informações sociais, políticas e
econômicas, e o torne capaz de utilizar técnicas estatísticas para
correlacionar dados e, a partir destes, tirar conclusões e tomar
decisões.
Como o professor irá lidar com esse diálogo entre a Educação Matemática Crítica
e a Educação Estatística? Essas questões fazem-se presentes nos cursos de licenciatura
em Matemática? Quais são os desafios postos ao formador do futuro professor de
Matemática? No próximo capítulo, trazemos alguns desses aspectos para a nossa
reflexão.
64
4. A FORMAÇÃO DOCENTE E O PROFESSOR FORMADOR
A importância da formação docente vem se fazendo presente na pesquisa, pois a
cada dia o número de trabalhos produzidos vem crescendo consideravelmente, apesar de
o número de pesquisas que tratam da formação do formador ser muito insipiente ainda,
tanto em termos de Brasil como em trabalhos internacionais. Tal intensificação ocorreu
principalmente a partir da década de 1990 e diferentes focos de investigação passaram a
ser valorizados, deixando de lado a pesquisa com teor discriminatório e de
desvalorização do professor, para enfatizar o reconhecimento desse profissional como
um produtor de saberes e um agente de transformação; muito se vem discutindo sobre
tal formação profissional e muitas são as orientações e sugestões de estratégias, de
modalidades ou até mesmo de abordagens para essa formação tanto a inicial quanto a
continuada.
Mais amplo que o conceito de formação docente está o de formação profissional,
que não se limita à graduação, mas abrange também a formação contínua pela qual o
professor passa ou deveria passar.
Um processo de formação docente com o objetivo de consolidar o ensino de uma
Estatística de inclusão e diferenciada nas salas de aula deve ser um processo amplo,
principalmente pelo fato de estarmos trabalhando numa sociedade globalizada e do
conhecimento que exige um novo papel da escola e, conseqüentemente, do professor. E,
em decorrência das transformações aceleradas pelas quais passa a sociedade, essa
formação não pode ser restrita à graduação.
Discutimos anteriormente a constituição do campo da Educação Estatística como
forma de inclusão, o que exige analisarmos as questões relacionadas à formação docente
e, em especial, à pessoa do formador, pelo fato de este atuar no processo de formação de
novos profissionais.
65
Desta forma, o presente capítulo traz uma discussão do papel do professor frente à
sociedade do conhecimento; dos saberes necessários ao exercício da profissão docente;
e do perfil do professor universitário e formador.
4.1. O professor frente à sociedade globalizada e do conhecimento
Se o contexto atual exige novas formas de ensino para crianças e jovens, isso
implica pensar nas formas de aprendizagem e de formação docentes na sociedade do
conhecimento e da informação. Essa sociedade obriga-nos a estar em constante
aprendizado, pois as respostas são cobradas de forma rápida e cabe ao professor o
domínio não somente do conhecimento como também da tecnologia.
Mas qual seria essa formação frente à sociedade da informação e globalizada?
Como afirma Gimeno Sacristán (2003, p.50), a globalização é
um conceito utilizado para caracterizar a peculiaridade do tempo
presente, reconhecido como a segunda modernidade, que começou a
se forjar nas duas últimas décadas do século XX. A globalização é
uma forma de nos representar e de explicar em que consiste essa nova
condição; um termo que se entrelaça com outros conceitos e
expressões igualmente manejados em profusão: o neoliberalismo, as
novas tecnologias da comunicação e o mundo da informação.
Ainda, segundo o autor Gimeno Sacristán (2003,p.65), “os processos de
globalização afetam a educação porque incidem sobre os sujeitos, os conteúdos do
currículo e as formas de aprender”. Nesse sentido, a educação pode intervir nessa
sociedade globalizada por meio da:
Importância das atitudes críticas para navegar em um mundo de
informação dispersa e variada, sem “hierarquizar”. Capacidade para se
orientar, analisar e optar. [...] Fomentar a aprendizagem
interdisciplinar necessária para fundamentar a “inteligência geral”
capaz de compreender e atuar no mundo complexo. (GIMENO
SACRISTÁN, 2003, p. 77)
66
Nessa sociedade globalizada, em que a informação é gerada rapidamente, a
educação precisa ser repensada. Castells (apud HARGREAVES, 2001, p.7) defende que
“a educação é a qualidade chave do trabalho; os novos produtores do capitalismo
informacional são aqueles geradores do conhecimento e processadores da informação
cuja contribuição é mais valiosa para a empresa, a região e a economia nacional”.
Como discutido anteriormente, a Educação Estatística constitui-se em
ferramenta fundamental nesse processo. Para isso, que se colocar a escola como
essencial e o professor como figura central das mudanças curriculares e educacionais
nessa sociedade globalizada denominada “sociedade da informação” e/ou “sociedade
do conhecimento”. Além disso, o professor de Matemática que ensina Estatística nas
suas aulas necessita de conhecimentos específicos e pedagógicos sobre a disciplina,
além de uma proposta adequada aos conteúdos a serem desenvolvidos.
O professor, sem dúvida, será o responsável pelo bom, ou não tão bom,
desempenho de seus alunos. Como afirma Hargreaves (2001, p. 1): “Importância sem
paralelo está agora sendo atribuída à docência como uma profissão que pode trazer
prosperidade econômica e progresso, ao mesmo tempo em que também pode reduzir a
diferença de rendimento escolar entre as crianças de famílias pobres e ricas”. Talvez,
por isso, a formação docente esteja tão presente nas pautas de reformas educacionais.
No entanto, esse mesmo autor considera que, nessa sociedade, a profissão
docente vive um momento paradoxal e que o professor se encontra preso em um
triângulo de interesses competitivos. De um lado, espera-se que ele seja o catalisador
dessa sociedade do conhecimento, ensinando de forma que não aprendeu,
automonitorando sua própria aprendizagem e seu desenvolvimento profissional; que
saiba trabalhar em grupo, resolver problemas e assumir riscos; ou seja, “professores na
sociedade do conhecimento devem desenvolver capacidade para assumirem riscos,
67
lidarem com mudanças, e conduzirem investigações quando novas demandas e novos
problemas são confrontados a eles” (p.9).
No entanto, espera-se também desse professor que ele seja capaz de amenizar os
efeitos perversos da globalização, ou seja, espera-se que ele seja o contraponto dessa
sociedade do conhecimento.
Ser um professor que é um contraponto à sociedade do conhecimento
significa estar preocupado com a aprendizagem social e emocional
assim como com a aprendizagem cognitiva, desenvolvimento pessoal
e profissional bem como aprendizagem profissional, vida grupal como
também trabalho de grupo, cuidado assim como cognição e
preservando continuidade e segurança e ao mesmo tempo promovendo
risco e mudança. (Ibidem, p. 13)
Mas como ser um catalisador e um contraponto dessa sociedade do
conhecimento, se o professor tem sido uma vítima dessa mesma sociedade?
Embora professores e escolas sejam os catalisadores e contrapontos
para mudança na sociedade informacional, eles são também vítimas
vítimas do enfraquecimento da rede do bem estar da sociedade, do
gasto reduzido para o bem público, de famílias dos estudantes estarem
em reviravolta social e do descomprometimento geral para a vida
pública. (Ibidem, p. 13).
Assim, levando em consideração esse triângulo em que o professor se encontra
preso – catalisador, contraponto e vítima –, é necessário que se repensem os modelos de
formação docente propostos pelas atuais políticas públicas.
Os cursos de licenciatura em Matemática vêm sendo reformulados nos últimos
anos, mas, em decorrência da fixação da carga horária de 2.800 horas, a maioria vem se
organizando em três anos tempo, no nosso entender, insuficiente para proporcionar ao
professor uma formação adequada para o enfrentamento das complexidades postas pela
prática docente nessa sociedade do conhecimento.
Outro aspecto que vem sendo destacado com certa ênfase pelas pesquisas diz
respeito ao repertório de saberes que o professor precisa mobilizar no contexto de sala
de aula. Esse repertório é constituído ao longo de toda a formação e inclui: saberes
68
específicos do conteúdo, saberes pedagógicos do conteúdo, saberes curriculares, saberes
das ciências da educação, saberes da tradição pedagógica, saberes da ação pedagógica e
saberes da experiência. Embora o seja nosso objetivo estender-nos nas diferentes
tipologias (BORGES, 2001) envolvidas nessa discussão teórica, nosso propósito é
destacar a compreensão que temos desses diferentes saberes.
4.2. Repertório de saberes que os professores constituem ao longo da formação
profissional
Lee Shulman (1986) é apontado por vários estudos como o pesquisador que
trouxe grandes contribuições à área, mesmo fora do contexto norte-americano
(BORGES, 2001), por discutir a “compreensão cognitiva dos conteúdos das matérias
ensinadas e das relações entre estes conteúdos e o ensino (instruction) propriamente dito
que os docentes fornecem aos alunos” (Ibidem, p.13). Assim, o autor aponta três tipos
de conhecimento que os docentes possuem:
- o conhecimento da matéria ou conhecimento da disciplina específica. Trata-se do
conhecimento que o professor adquire em sua formação inicial e que será seu objeto de
ensino;
- o conhecimento pedagógico da matéria. Trata-se do conhecimento necessário ao
professor para que este possa atuar nas salas de aula, no que diz respeito tanto à
formação de conceitos matemáticos quanto às questões epistemológicas relativas a esses
conteúdos;
- o conhecimento curricular, ou seja, quais conteúdos devem ser trabalhados em cada
série, os materiais disponíveis e os recursos didáticos a serem utilizados.
69
No caso da Estatística, pressupõe-se que o professor tenha um domínio
conceitual do conteúdo a ser ensinado, bem como saiba como trabalhar esse conteúdo
na sala de aula.
Essa tipologia criada por Shulman (1986) influenciou e tem influenciado as
pesquisas brasileiras sobre os saberes docentes. No entanto, novas tipologias foram
desenvolvidas e possibilitaram novas análises. Tardif, Lessard e Lahaye (1991), por
exemplo, trouxeram a contribuição dos “saberes da experiência”, ou seja, saberes
oriundos da formação profissional que estruturam e dão significado aos demais saberes
– que são plurais e heterogêneos. No que diz respeito aos saberes da experiência,
destacam:
Surgem com o núcleo vital do saber docente, a partir do qual o(s)s
professor(a)s tentam transformar suas relações de exterioridade com
os saberes em relações de interioridade com sua própria prática. Nesse
sentido os saberes da experiência não são saberes como os demais,
eles são, ao contrário, formados de todos os demais, porém
retraduzidos, “polidos” e submetidos às certezas construídas na prática
e no vivido. (p.234)
Se esses saberes acabam por validar aquilo que o professor faz em sala de aula,
sua constituição durante a prática profissional é fundamental. Assim, a prática do ensino
de Estatística é que possibilitará ao professor a retradução dos conhecimentos
adquiridos durante a graduação.
No entanto, muitas vezes, a prática do professor é pautada nos saberes que
Gauthier et al. (1998) denominam “saberes da tradição pedagógica”. Referem-se aos
modos de fazer do professor que, na maioria das vezes, começa a apropriar-se deles
desde os tempos de estudante, ao observar os próprios professores, suas formas ensinar
e de relacionar-se com os alunos. Nesse sentido, é possível entender determinadas
práticas de aula de Matemática que vêm permanecendo ao longo de décadas. Esse
modelo acaba sendo validado pelo professor, desde o início da carreira, como o ideal
70
para as aulas de Matemática. O desafio que se coloca é conseguir romper com essa
tradição do ensino de Matemática, o qual, conseqüentemente, acabará por afetar o
próprio ensino de Estatística, impedindo o desenvolvimento do pensamento estatístico –
como discutido anteriormente.
Num curso de licenciatura, geralmente o aluno tem contato com os chamados
“saberes das ciências da educação”, com disciplinas como Psicologia, Didática,
Sociologia. Além desses saberes, Gauthier et al. (1998) destacam ainda os saberes da
“Ação Pedagógica”. Segundo eles, os saberes da experiência são de jurisprudência
particular do professor, mas podem tornar-se públicos, testados e validados pelos seus
pares. Ao tornarem-se públicos, eles se transformam em saberes da ação pedagógica e a
sua divulgação pode contribuir para intervenções em processos de formação inicial ou
continuada.
Em síntese, como afirma Nunes (2001, p. 6):
O saber é considerado como resultado de uma produção social, sujeito
a revisões e reavaliações, fruto de uma interação entre sujeitos, fruto
de uma interação lingüística inserida num contexto e que terá valor na
medida em que permite manter aberto o processo de questionamento.
Ao se pensar um modelo de professor, deve-se levar em conta o
contexto no qual se constroem e se aplicam os saberes docentes, isto é,
as condições históricas e sociais nas quais se exerce a profissão;
condições que servem de base para a prática docente. Este professor
possui, em virtude da sua experiência de vida pessoal, saberes
próprios que são influenciados por questões culturais e pessoais.
Vê-se, assim, que a discussão sobre os saberes docentes remete a uma nova
dimensão na formação do professor. Como garantir a constituição desse repertório de
saberes? Contrariamente ao que se pensava anteriormente, não basta ao futuro professor
apenas o domínio do conteúdo específico; há que se propiciar a ele, ainda na graduação,
outros tipos de saberes, principalmente os pedagógicos, os curriculares e os das ciências
da educação.
71
Desta forma, nos cursos de licenciatura, em particular de Matemática, as
disciplinas consideradas de conhecimentos específicos apresentam muita dificuldade
para dialogar com os conhecimentos matemáticos adquiridos no processo de formação e
também com os da prática docente. Isso acarreta aos professores grande resistência
pessoal e profissional para a formação continuada e para orientação aos alunos no que
diz respeito ao acesso à informação e faz com que deixem de fazer o papel de
“catalisadores das sociedades informacionais, capazes de construir um tipo especial de
profissionalismo” (HARGREAVES, 2001, p. 15).
O essencial é promover um ensino em Estocástica dentro da disciplina de
Matemática, de forma que os alunos possam interagir com os diferentes contextos e
desenvolver, ainda no ensino básico, o pensamento científico e crítico, assim como a
habilidade de resolução de problemas.
Para isso também é necessário que os professores, ao lidar com as Estocásticas
calculadoras e computadores, por exemplo –, extrapolem os materiais a serem utilizados
em sala de aula, em busca de um maior desenvolvimento profissional e de uma maior
apropriação de conteúdos por parte dos envolvidos. É importante que esse processo
ocorra de forma rápida, uma vez que “o cidadão é constantemente bombardeado por
informações e afirmações que exigem conhecimentos de Estatística, gráficos, noções
básicas de Matemática para avaliar riscos e tomar decisões” (CARVALHO, 2000, p.
103). Isso requer que o professor tenha contato com a sala de aula não como “um
laboratório de pesquisa”, mas sim como um “ambiente sociocultural” em
desenvolvimento. Desta forma, que investir na formação docente, tanto inicial como
continuada.
Ainda em relação à extrapolação de materiais por parte dos professores, não
podemos perder o foco do aprofundamento, em sala de aula, das tomadas de decisão,
72
utilizando para tanto materiais e exemplos tangíveis; afinal, as estatísticas que
descrevem nosso mundo probabilístico estão por toda a parte e as tomadas de decisões
estão diretamente ligadas às incertezas e, conseqüentemente, aos riscos explicados
pelas probabilidades e com diferentes conotações (econômicas, sociais, etc.).
Os PCN recomendam que os alunos sejam estimulados a fazer perguntas,
estabelecer relações, construir justificativas e desenvolver a postura de investigação. É
nesse contexto que entra a contribuição da Estocástica, quando o aluno é direcionado a
saber utilizar diferentes recursos de informação para adquirir e construir conhecimentos.
Mas em que medida esse e outros materiais vêm sendo tomados como objeto de análise
nos cursos de licenciatura, de forma a tornar os futuros professores capazes de ler e
interpretar as orientações ali contidas e se transformarem em consumidores críticos?
Como a graduação vem contribuindo para esse repertório de saberes pedagógicos e
curriculares?
Utilizar adequadamente os diferentes recursos de informação implica inclusive
ser conhecedor da descrição dos dados, ou seja, ser capaz de fazer o tratamento da
informação. Esse tratamento é composto por diversos instrumentos estatísticos,
principalmente de representações, que são de manipulação razoavelmente fácil e
possibilitam uma avaliação por parte daquele que faz o levantamento, atendendo às
necessidades acerca da informação desejada.
Para que o professor desenvolva todas essas competências em seus alunos, é
necessário que em sua formação as vivencie, como futuro professor.
Os alunos da graduação, em grande parte, possuem pouco e algumas vezes
nenhum – conhecimento anterior dos conteúdos de Estatística e acreditam que terão que
trabalhar e aprender vários conceitos e medidas estatísticas que não serão utilizados na
prática; também têm dificuldade para associar o conhecimento e os itens da metodologia
73
estatística, dos conteúdos organizados para estudo dentro do curso com aplicações na
sua prática e na sua área profissional.
Essa dificuldade na graduação reflete-se no ensino da Estatística em sala de aula.
A visualização prática da Estatística acaba por não acontecer, assim como o tratamento
de questões da realidade, que deveria ocorrer como forma de provocar os alunos para a
compreensão das medidas e para o pensamento estatístico. Integrar os conteúdos de
Estatística com as demais disciplinas talvez fosse uma ótima alternativa, demonstrando
a interligação entre os conteúdos, apresentando uma explicação interdisciplinar para
diversos fenômenos que ocorrem diariamente em nossas vidas e nas vidas dos alunos.
Tal proposta somente será vivenciada pelo futuro professor, se o professor formador
responsável pela disciplina de Estatística se predispuser a trabalhá-la. Exigiria, tal
como postulam Moreira e David (2005, p.5), uma nova concepção de formação:
Entre as propostas e concepções em debate destaca-se a perspectiva
segundo a qual o processo de formação do professor deveria se
desenvolver de maneira mais integrada, em que o conhecimento
disciplinar específico não constituísse mais o fundamento único ao
qual se devessem agregar métodos apropriados de “transmissão”.
Assim, a questão que se coloca é olhar para os cursos de licenciatura em
Matemática e verificar como a disciplina de Estatística vem sendo inserida. Para isso
nos reportamos às Diretrizes Curriculares para o curso de Matemática (Parecer
CNE/CES 1.302/2001). De imediato identificamos que as diretrizes não
contemplaram a inclusão da Estatística nos cursos de licenciatura em Matemática.
O Parecer CNE/CES 1.302/2001, que trata dos objetivos e das diretrizes dos
cursos de formação dos professores de Matemática, assim como das habilidades e das
competências a serem adquiridas ao longo da formação do profissional matemático, não
incluiu o estudo de Probabilidade e Estatística no curso de licenciatura; faz referência a
74
ele somente na parte comum dentro dos conteúdos curriculares do bacharelado. O item
4.2 do documento apresenta os conteúdos para os cursos de licenciatura:
4.2 Licenciatura
Os conteúdos descritos a seguir, comuns a todos os cursos de
Licenciatura, podem ser distribuídos ao longo do curso de acordo
com o currículo proposto pela IES:
Cálculo Diferencial e Integral
Álgebra Linear
Fundamentos de Análise
Fundamentos de Álgebra
Fundamentos de Geometria
Geometria Analítica
A parte comum deve ainda incluir:
a) conteúdos matemáticos presentes na educação básica nas áreas de
Álgebra, Geometria e Análise;
b) conteúdos de áreas afins à Matemática, que são fontes originadoras
de problemas e campos de aplicação de suas teorias;
c) conteúdos da Ciência da Educação, da História e Filosofia das
Ciências e da Matemática.
Para a licenciatura serão incluídos, no conjunto dos conteúdos
profissionais, os conteúdos da Educação Básica, consideradas as
Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores em
nível superior, bem como as Diretrizes Nacionais para a Educação
Básica e para o Ensino Médio. (BRASIL, 2001, p. 6)
Vê-se, assim, que fica a critério de cada curso de licenciatura incluir ou não a
disciplina de Estatística em sua grade curricular. E, no caso da inclusão, há uma
iminente necessidade de repensar a Estatística a ser trabalhada nos cursos, para
estruturar os conteúdos dessa disciplina de forma pedagógica, e não técnica. Nesse
contexto, sem dúvida, tem um papel fundamental o formador do professor de
Matemática que terá a responsabilidade de trabalhar com os alunos de a série o
bloco Tratamento da Informação, composto particularmente por conteúdos ligados à
Estocástica. .
Desta forma, acreditamos que o professor formador passa a ter papel central
nesses cursos de licenciatura, pois é ele quem poderá desenvolver nos licenciandos uma
postura crítica frente aos conteúdos a serem trabalhados na Educação Básica. Além
75
disso, vale ressaltar que os professores estão sendo formados pelas universidades
privadas, e não pelas universidades públicas.
4.3. O professor universitário e o professor formador
Nossa discussão sobre o professor universitário seguirá por duas direções: o
professor da universidade pública e o professor da universidade privada; não nos
prenderemos na discussão sobre as diferenças entre as universidades, pois seria
certamente uma discussão muito complexa. Nosso objetivo é discutir a formação dos
professores que ensinam Estocástica e, para isso, buscamos uma reflexão sobre a
atuação dos professores formadores em termos gerais.
O professor que atua na universidade pública vive o conflito entre a pesquisa e a
docência, deixando na maior parte das vezes a docência para o segundo plano. Zabalza
(2004; p.154), com relação ao dilema entre a formação para a docência e a formação
para a pesquisa, afirma:
Isso faz com que, embora possa soar contraditório, a docência
transforme-se em uma atividade marginal dos docentes. Na realidade,
são muitos, e de muito poder no organograma das universidades, os
que defendem que, para ser um bom professor universitário, o mais
importante é ser um bom pesquisador. Eles entendem que “pesquisar”
constitui um nível de desenvolvimento intelectual superior, uma
capacidade para ver as coisas de forma mais rigorosa e sistemática,
um maior conhecimento dos assuntos que transitam nesse campo
científico, etc.
Nossa própria experiência
12
nos aponta que a licenciatura em algumas
universidades públicas é tida como um apêndice do bacharelado; os professores que
nela atuam, muitas vezes, são pouco reconhecidos pelos próprios colegas pesquisadores.
A disciplina de Estatística dentro dos diversos cursos de graduação é ministrada por um
12
Vale relembrar que estudamos numa universidade pública – a Unicamp.
76
Estatístico, justamente por haver tal departamento dentro da Universidade.
Desconsidera-se a possibilidade de a pesquisa também ser integrada aos cursos de
licenciatura. Essa postura acabou sendo reforçada nas diretrizes curriculares para o
curso de Matemática, que prevêem a pesquisa apenas para o bacharelado, relegando à
licenciatura “visões” sobre os conteúdos do curso. Como destacado no documento
(BRASIL, 2001, p. 3):
Nesse contexto um Curso de Bacharelado deve garantir que seus
egressos tenham:
uma sólida formação de conteúdos de Matemática
uma formação que lhes prepare para enfrentar os desafios das
rápidas transformações da sociedade, do mercado de trabalho e das
condições de exercício profissional.
Por outro lado, desejam-se as seguintes características para o
Licenciado em Matemática:
visão de seu papel social de educador e capacidade de se inserir em
diversas realidades com sensibilidade para interpretar as ações dos
educandos.
visão da contribuição que a aprendizagem da Matemática pode
oferecer à formação dos indivíduos para o exercício de sua cidadania.
visão de que o conhecimento matemático pode e deve ser acessível
a todos, e consciência de seu papel na superação dos preconceitos,
traduzidos pela angústia, inércia ou rejeição, que muitas vezes ainda
estão presentes no ensino-aprendizagem da disciplina.
Mesmo quando esses pesquisadores se dispõem a trabalhar com as licenciaturas,
muitas vezes, acabam imprimindo um caráter acadêmico às disciplinas que ministram,
tal como analisam Moreira e David (2005; p. 103):
a formação matemática na licenciatura, ao adotar a perspectiva e os
valores da Matemática Acadêmica, desconsidera importantes questões
da prática docente escolar que não se ajustam a essa perspectiva e a
esses valores. As formas do conhecimento matemático associado ao
tratamento escolar dessas questões não se identificam – algumas vezes
chegam a se opor à forma com que se estrutura o conhecimento
matemático no processo de formação. Diante disso, coloca-se
claramente a necessidade de um redimensionamento da formação
matemática na licenciatura, de modo a equacionar melhor os papéis da
Matemática Cientifica e da Matemática Escolar nesse processo.
Quanto ao professor da universidade privada, pelas condições de trabalho, pode
ser considerado um “dador de aulas” e, sem tempo para a pesquisa, deixa de inserir o
77
futuro professor no universo da pesquisa, embora essa inserção esteja prevista nas
diretrizes curriculares para a formação do professor da Educação Básica. Muitas vezes,
o professor em formação necessitará assumir uma série de disciplinas para as quais não
detém o saber específico. Prevalece, segundo Zabalza (2004, p. 147), “a antiga idéia de
que se aprende a ensinar ensinando’”. Para esse autor, as duas funções, docência e
pesquisa, necessitam de formação. Enquanto a incorporação ao mundo da pesquisa é
mais regulada pelos programas de pós, pelas agências de fomento, pelos grupos de
pesquisa , “a incorporação à docência é um processo muito mais desacompanhado e
irregular. Enfrentamos sozinhos, apenas com as nossas forças, um grupo de alunos,
muitas vezes, pouco antes de acabar o curso, sem nenhuma preparação específica para
fazê-lo” (Ibidem, p. 155).
O autor considera ainda que o existe, no interior das universidades, a
preocupação com a formação dos professores universitários. A tarefa passa a ser de
exclusividade do próprio professor. Muitos deles estão muito distantes das questões
educacionais, das discussões sobre práticas docentes e sobre processos de avaliação,
dentre outras.
Poucos professores universitários assumem seu compromisso
profissional como docentes de fazer (propiciar, facilitar, acompanhar)
com que os alunos aprendam. Eles não desejam assumir essa
responsabilidade, nem se sentem preparados para fazê-lo. Como
resultado disso, esse dilema concentra sua energia no pólo do ensino,
ou seja, assume-se que ser bom professor é saber ensinar bem:
dominar os conteúdos e saber explicá-los claramente. Se os alunos
aprendem ou não, depende de outras variáveis (motivação,
capacidade, tempo dedicado ao estudo, estratégias de aprendizagem)
que ficam fora do controle dos docentes. (ZABALZA, 2004, p.123)
Em se tratando de cursos de licenciatura, a questão fica mais grave ainda, visto
que esse professor universitário será formador e, portanto, precisa estar preocupado não
apenas com a aprendizagem dos seus licenciandos, mas também em possibilitar a
78
análise e a reflexão sobre modelos de práticas docentes que lhes propiciem a
apropriação de saberes para o exercício da profissão.
Embora nosso foco não seja a constituição do professor formador, entendemos
que este também deva possuir um repertório de saberes, incluindo principalmente os
saberes pedagógicos do conteúdo e os saberes curriculares. Somente de posse desses
saberes conseguirá contribuir para a formação do futuro professor de Matemática e, no
caso deste estudo, daquele que irá ensinar Estatística. Esse formador também precisará
deter conhecimentos sobre a formação do pensamento estatístico, de forma que os
licenciandos, futuros professores, vivenciem experiências que lhes sejam ricas e,
conseqüentemente, lhes dêem segurança para que possam trabalhar nessa perspectiva
com seus alunos da Educação Básica.
Com os pressupostos teóricos discutidos até aqui, realizamos a nossa pesquisa de
campo com professores da Escola Básica e com professores formadores. Assim, a partir
do próximo capítulo apresentaremos a pesquisa em seus procedimentos de coleta de
dados, a constituição da documentação das informações e sua análise.
79
5. CONSTITUIÇÃO DO OBJETO DE INVESTIGAÇÃO E
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Neste capítulo pretendemos apresentar o caminho metodológico da pesquisa, as
dificuldades encontradas no decorrer da coleta de informações e as conseqüentes
mudanças quanto aos sujeitos participantes da mesma.
5.1. Definindo o objeto de investigação
Esta pesquisa, desde o seu início, teve como foco central a inserção da Educação
Estatística nos currículos da Educação Básica, até em conseqüência de nossa formação e
atuação profissional nos cursos técnicos e tecnológicos, que recebem alunos cada vez
mais despreparados em termos de conhecimentos estatísticos e matemáticos.
Como destacado anteriormente, partimos da hipótese inicial de que a formação
que o professor de Matemática vem recebendo tanto a inicial quanto a continuada –,
no que tange ao campo da Estocástica, não tem sido adequada no sentido de contribuir
para que ele trabalhe com os conteúdos exigidos pelos atuais currículos da Educação
Básica; provavelmente, frente a esse despreparo, a Estocástica raramente vem sendo
desenvolvida em salas de aula de 5
a
a 8
a
série e, quando isso ocorre, é bastante provável
que seja de forma mais mecânica e não voltada para uma análise mais crítica dos dados
ou mesmo com apresentação de exemplos ligados a situações cotidianas dos alunos.
Desta forma, ao definirmos a Estocástica como campo de estudo, mergulhamos na
revisão da literatura com vistas a identificar prováveis problemas de investigação. No
entanto, desde o início, havia o desejo de olhar mais diretamente para a sala de aula e
analisar como o professor lida com as questões dessa área do conhecimento. Para isso,
elaboramos um questionário (modelo anexo) a ser aplicado a professores de Matemática
80
de a série que atuassem nas escolas públicas e privadas da região de Jundiaí
tomada como recorte para a presente pesquisa. A partir dos respondentes, nossa
intenção era selecionar alguns docentes para uma entrevista e, posteriormente, para
observarem as aulas de um ou dois deles. Distribuímos aproximadamente 50 (cinqüenta)
questionários, porém tivemos o retorno de 30 (trinta) respondidos. Os professores que
responderam ao questionário, na sua grande maioria, consideraram que, apesar de terem
acesso ao conteúdo de Estatística, não receberam formação adequada para ensiná-la.
Importante também destacar a falta de “cuidado” nas respostas dadas, sem detalhes e
com frases lacônicas que pouco contribuíram para uma análise da situação; acrescente-
se a isso o fato de que poucos professores dispuseram-se a continuar participando da
pesquisa, por meio de uma entrevista e posterior observação em sala de aula e, dentre
estes, poucos indicaram a forma como trabalhavam esses conteúdos. Essa constatação
levou-nos a rever alguns rumos da pesquisa.
Em razão das dificuldades encontradas nessa primeira fase e do fato de os
docentes, na maioria, afirmarem que não se sentem preparados para trabalhar com
Estatística, decidimos mudar o foco de nossa pesquisa: passamos à análise das
percepções de professores formadores sobre a inserção desse campo nos currículos de
Matemática da Escola Básica e de como eles vêm atuando nos cursos de licenciatura.
Temos a crença de que o professor, de fato, não ensina aquilo para o qual não foi
preparado. E qual seria a razão de tal formação e tal preparação estarem ausentes dos
cursos de licenciatura? Seria a Estocástica ali trabalhada tão distante do conteúdo que o
futuro professor precisará dominar para ensinar em sala de aula? Assim, optamos por
trabalhar com os professores formadores, buscando elementos que nos permitissem
compreender essa realidade, ou seja, de um lado, a Estocástica cada vez se impondo
81
mais como um conteúdo a ser trabalhado; de outro lado, o professor sem a formação
necessária para explorá-la de forma mais crítica e aprofundada em sala de aula.
Partimos, então, para a realização de entrevistas com professores formadores,
cujas instituições foram selecionadas a partir daquelas indicadas pelos professores
respondentes dos questionários. No entanto, outras dificuldades surgiram,
principalmente pela falta de tempo dos professores formadores para a entrevista. De
imediato, conseguimos duas entrevistas presenciais Professor Paulo, da Universidade
São Francisco, e a Professora Clayde, da PUC-Campinas e uma online: Professora
Cileda, da PUC-SP. Os demais formadores que pretendíamos entrevistar não
conseguiram disponibilidade para nos atender.
Com essas entrevistas transcritas, submetemo-nos ao Exame de Qualificação,
quando a banca de avaliação sugeriu que retomássemos uma entrevista presencial com a
Professora Cileda e agendássemos uma com a Professora Irene da UESC/Bahia que,
por estar fazendo estágio de pós-doutoramento na PUC-SP, facilitaria o nosso trabalho.
Ao optar por essas formadoras, estaríamos contemplando as lideranças do Grupo de
Trabalho da Sociedade Brasileira de Educação Matemática GT12 de Educação
Estatística. Optamos, ainda, por manter a entrevista com o Prof. Paulo.
Redefinimos assim o foco da pesquisa e as questões norteadoras passaram a ser:
“Como os professores da Escola Básica percebem a inserção da Educação
Estatística nos currículos escolares? Como os professores formadores percebem o
ensino de Estocástica na formação do futuro professor de Matemática?”
Os objetivos para a investigação foram (eram):
1. Analisar as percepções que os professores da Escola Básica têm sobre a inserção da
Educação Estatística no currículo.
82
2. Analisar alguns indícios de inserção da Educação Estatística na sala de aula da
Educação Básica.
3. Identificar as percepções dos professores formadores sobre a inclusão da Estocástica
nos currículos escolares e analisar como eles vêm abordando seus conteúdos na
formação de futuros professores.
A pesquisa caracteriza-se como um estudo de caso numa abordagem qualitativa.
Vários são os autores que discutem a pesquisa qualitativa em educação (BOGDAN e
BIKLEN, 1994; LÜDKE e ANDRÉ, 1986; GOLDENBERG, 1997). Dentre estes,
destacamos Lüdke e André (1986, p. 13), que consideram que “a pesquisa qualitativa ou
naturalística envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos no contato direto do
pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto e se
preocupa em retratar a perspectiva dos participantes”.
Segundo Goldenberg (1997, p.71), o primeiro passo para formular um problema
específico, de forma que ele possa ser pesquisado por processos científicos, é torná-lo
concreto e explícito através da imersão sistemática no assunto; do estudo da literatura
existente; e também da discussão com pessoas que acumularam experiência prática no
campo de estudo.
Dentre as várias formas que pode assumir uma pesquisa qualitativa, uma é o
estudo de caso que foi a característica do nosso trabalho –, uma vez que focaliza
professores da Escola Básica que lecionam Matemática de a série e formadores de
professores.
No que diz respeito ao estudo de caso, Goldenberg (1997, p.33) afirma:
O estudo de caso não é uma técnica específica, mas uma análise
holística, a mais completa possível, que considera a unidade social
estudada com um todo, seja um indivíduo, uma família, uma
instituição ou uma comunidade, com o objetivo de compreendê-los em
seus próprios termos.
83
Para apreender essa realidade, em sua totalidade, a autora defende que o estudo de
caso deve valer-se de diferentes técnicas de pesquisa, bem como da descrição detalhada
desta. “Através de um mergulho profundo e exaustivo em um objeto delimitado, o
estudo de caso possibilita a penetração na realidade social, não conseguida pela análise
Estatística” (GOLDENBERG, 1997, p. 34). De acordo com Lüdke e André (1986,
p.17), o “estudo de caso pode ser similar a outros, mas é ao mesmo tempo distinto, pois
tem um interesse próprio, singular”. No entanto,
O pesquisador deve estar preparado para lidar com uma grande
variedade de problemas teóricos e com descobertas inesperadas e,
também, para reorientar seu estudo. É muito freqüente que surjam
novos problemas que não foram previstos no início da pesquisa e que
se tornam mais relevantes do que as questões iniciais.
(GOLDENBERG, 1997, p. 35)
Sem dúvida, o primeiro problema surgido diz respeito ao fato de termos obtido
retorno de poucos questionários, o que nos levou a abandonar nosso propósito inicial.
Bogdan e Biklen (1994), ao analisarem as características do estudo de caso,
utilizam a metáfora do funil, ou seja, o plano geral de estudo do pesquisador envolve
uma problemática inicial, delineada a partir de seus estudos teóricos e de sua
experiência profissional. Com esse delineamento, o pesquisador parte para a pesquisa de
campo. Esse início do plano seria a extremidade mais larga do funil. No entanto, à
medida que o estudo se inicia, algumas idéias e planos iniciais podem ser postos de lado
e outros podem ser desenvolvidos.
À medida que vão conhecendo melhor o tema em estudo, os planos
são modificados e as estratégias seleccionadas. Com o tempo acabarão
por tomar decisões no que diz respeito aos aspectos específicos do
contexto, indivíduos ou fonte de dados que irão estudar. A área de
trabalho é delimitada. A recolha de dados e as actividades de pesquisa
são canalizadas para terrenos, sujeitos, materiais, assuntos e temas. De
uma fase de exploração alargada passam para uma área mais restrita
de análise dos dados coligidos. (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p. 89-
90)
84
Essa característica evidenciou-se em nosso trabalho, pois, à medida que o
trabalho de campo se iniciou, muitas foram as dificuldades encontradas que nos levaram
de uma pretensão inicial mais ampla para um afunilamento no foco da pesquisa. No
entanto, não perdemos de vista nosso propósito inicial de discutir a inserção da
Educação Estatística na prática e na formação do professor.
5.2. Instrumentos de coleta de dados
5.2.1. Aplicação de questionário
Como destacado, o primeiro instrumento utilizado foi um questionário
aplicado a professores que atuam na Educação Básica, lecionando Matemática de 5ª a
série. As questões que fizeram parte desse questionário encontram-se no Anexo 1.
A escolha desses professores foi aleatória, ou seja, um número maior de
questionários foi distribuído a professores das cidades de Jundiaí, Louveira, Itatiba e
Bragança Paulista; porém, a análise aconteceu com base nos questionários que nos
retornaram. Aqueles que, apesar da insistência pela devolução dos mesmos e a
constante conscientização sobre a importância da pesquisa, não retornaram, foram
desconsiderados.
O critério de escolha dos professores para responder a tal questionário baseou-se
na disponibilidade e no interesse destes em colaborar com a pesquisa, assim como no
perfil exigido para o objetivo da pesquisa: professores de Matemática das séries finais
do Ensino Fundamental.
De posse desses questionários, realizamos a primeira análise, com vistas a
identificar as instituições de origem desses professores. Identificamos, a partir da
questão de número 4, as seguintes instituições: PUC-Campinas (12,9% dos
questionários respondidos, que correspondem a quatro questionários); PUC-SP (3,22%
85
dos questionários, que correspondem a um); USP (3,22% dos questionários, que
correspondem a um); Unicamp(16,13% dos questionários, que correspondem a cinco);
USF (35,50% dos questionários, que correspondem a onze); e Centro Universitário
Padre Anchieta (9,70% dos questionários, que correspondem a três); a soma dos demais
questionários não apresenta instituição de origem (total de 6).
5.2.2. Entrevistas com professores formadores
A entrevista, cujas questões se encontram no Anexo 2, contou com a participação
de quatro professores formadores. Do tipo semi-estruturada, suas perguntas centrais
foram elaboradas tomando como referência as respostas obtidas nos questionários
anteriormente aplicados aos professores que atuam na disciplina de Matemática de a
série. Para o cumprimento dos princípios éticos da pesquisa, discutidos
anteriormente, essas entrevistas foram transcritas e devolvidas aos entrevistados para as
modificações que julgaram pertinentes. . Além disso, como afirma SZYMANSKI
(2004, p. 52), nesse momento da devolutiva, o entrevistado poderia apresentar
modificações geradas por um processo reflexivo — elemento também importante para o
pesquisador —, após a realização da entrevista.
A entrevista face a face é uma situação de interação humana fundamental num
processo de investigação qualitativa. Szymanski (2004, p. 12) considera que nessa
interação
estão em jogo as percepções do outro e de si, expectativas,
sentimentos, preconceitos e interpretações para os protagonistas:
entrevistador e entrevistado. Quem entrevista tem informações e
procura outras, assim como aquele que é entrevistado também
processa um conjunto de conhecimentos e pré-conceitos sobre o
entrevistador, organizando suas respostas para aquela situação. A
intencionalidade do pesquisador vai além da mera busca de
informações; pretende criar uma situação de confiabilidade para que o
entrevistado se abra. Deseja instaurar credibilidade e quer que o
interlocutor colabore, trazendo dados relevantes para o seu trabalho. A
86
concordância do entrevistado em colaborar na pesquisa denota sua
intencionalidade pelo menos a de ser ouvido e considerado
verdadeiro no que diz –, o que caracteriza o caráter ativo de sua
participação, levando-se em conta que também desenvolve atitudes de
modo a influenciar o entrevistador.
5.3. Professores formadores participantes da pesquisa
Apresentamos a seguir uma caracterização dos quatro professores formadores que
participaram da entrevista:
Formador Paulo: graduou-se, em 1995, em Ciências com habilitação plena em
Matemática, pela Universidade São Francisco (USF); fez um curso de Especialização na
área de Modelagem Matemática na PUC-Campinas. Posteriormente cursou o mestrado
em Educação, na USF, na linha de pesquisa Matemática, cultura e práticas pedagógicas,
concluindo em 2005. Atua na Escola Básica desde 1993 antes mesmo de se formar
na rede pública do município de Itatiba/SP, como professor de Matemática de a
série. Atuou vários anos como instrutor da USF, na área de Matemática. Atualmente é
também professor da Universidade São Francisco, em diferentes cursos de graduação,
dentre eles o de Licenciatura em Matemática – por essa razão, é um professor formador.
Formadora Irene: tem nacionalidade peruana, com graduação concluída em 1983, em
Estatística, pela Universidade São Marcos (localizada no Peru). Cursou Mestrado em
Estatística na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) de 1984 a 1986 e
doutorado em Educação de 1998 a 2002. Em 1987 foi trabalhar na Bahia como
assessora em Estatística e, em 1990, através de concurso, tornou-se professora de
Estatística na Universidade Estadual de Santa Cruz. É vice-coordenadora do GT12:
Educação Estatística, da SBEM. Na época da entrevista estava em fase de estudos de
pós-doutoramento na PUC-SP.
Formadora Clayde: cursou Licenciatura em Matemática na Pontifícia Universidade
Católica de Campinas (PUCC), concluindo o curso em 1976. Fez vários cursos na
87
UNICAMP, dentre eles o Mestrado em Matemática, que iniciou no ano de 1977,
seguindo posteriormente para o Doutorado em Educação na mesma universidade. Atua
como professora desde a sua formação; é docente da PUC-Campinas. É coordenadora
do GT12: Educação Estatística, da SBEM.
Formadora Cileda
: formou-se em Licenciatura Plena e Bacharelado em Matemática,
pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), no ano de 1979. Fez o
curso de Doutorado na França. Atua como professora desde a sua formação e como
professora universitária desde o ano de 1986, na PUC-SP; no curso de Licenciatura em
Matemática atua desde 1994. Ministra cursos de Estatística desde o ano de 1987. Foi
vice-coordenadora do GT12: Educação Estatística, da SBEM. Sua atuação, hoje, na
PUC-SP restringe-se à Pós-Graduação em Educação Matemática.
5.4. Análise
Durante o processo de coleta de dados através da aplicação do questionário e
também da entrevista, nossa atenção esteve totalmente voltada para a tentativa de
conseguir o maior número possível de informações com vistas à análise. Esta centrou-se
no conteúdo tanto dos questionários quanto das entrevistas e optamos por dividi-la em
dois capítulos.
No capítulo 6 apresentaremos a análise dos 30 (trinta) questionários aplicados a
professores que atuam na Educação Básica, lecionando Matemática de a série. Os
professores respondentes foram designados por P
1
, P
2
, ..., P
30
. A análise foi realizada a
partir dos seguintes itens: perfil dos professores participantes da pesquisa; formação em
Estatística dos professores participantes da pesquisa; percepções dos professores
88
participantes da pesquisa quanto à inserção da Estocástica no currículo e na sala de aula
da Escola Básica.
No capítulo 7 traremos a análise do conteúdo das entrevistas com os quatro
professores formadores, centrada em duas categorias: a percepção dos formadores
quanto à Educação Estatística do professor de Matemática e a percepção dos formadores
quanto à inserção da Educação Estatística na Educação Básica.
89
6. O ENSINO DE ESTOCÁSTICA NA CONCEPÇÃO DE
PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA
Neste capítulo realizaremos a análise dos questionários respondidos por 30
professores que atuam de 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental.
Num primeiro momento traçaremos o perfil desses professores, obtido pelas
questões fechadas do questionário; em seguida, analisaremos as questões abertas,
buscando identificar o tipo de formação que esses professores tiveram, bem como
analisar as percepções que eles têm sobre a inserção da Estocástica no currículo e na
sala de aula da Escola Básica.
Estamos nos apropriando da definição de percepção dada por Polettini (1996, p.
32):as percepções “podem ser vistas como indicações (introspecções) que os professores
têm atualmente via reflexão sobre suas experiências presentes e passadas”. Entendemos
que os professores, ao responderem o questionário, explicitaram ou o suas
experiências sobre a aprendizagem de Estocástica quando estudantes e sobre o seu
ensino quando profissionais.
6.1. Perfil dos professores participantes da pesquisa
Para iniciar a análise acerca das experiências dos professores sobre a
aprendizagem de Estocástica quando estudantes e sobre o seu ensino quando passaram a
atuar como profissionais e também para conhecer algumas características principais
sobre os sujeitos investigados, tentamos nos aproximar do perfil dos participantes que
responderam aos questionários com dados tanto pessoais e profissionais.
Lembramos que a fonte de todo o levantamento são as respostas dos 30
questionários aplicados e respondidos pelos professores e, por conta disso, omitiremos
90
na parte inferior das tabelas que serão apresentadas a seguir a informação sobre a
origem dos resultados.
A primeira característica quantificada foi a faixa etária dos investigados,
apresentada na Tabela 1 abaixo. A média de idade do grupo investigado foi de 36 anos,
destacando-se que 80% das idades dos sujeitos (24 pessoas) localizam-se numa
amplitude de 20 anos, ou seja, com professores de idades entre 25 a 45 anos. Apenas
dois docentes apresentam-se com idade inferior a 25 anos.
Tabela 1 - Apresentação da faixa etária dos professores investigados
Faixa Etária Freq %
20 - 25 2 6,67
25 - 30 6 20,00
30 - 35 6 20,00
35 - 40 6 20,00
40 - 45 6 20,00
45 - 50 3 10,00
50 - 55 1 3,33
Total 30 100,00
Acreditamos ser de grande importância avaliar também qual o tempo de atuação
profissional no magistério; com base nos questionários respondidos tivemos uma
amplitude de 27 anos de atuação, sendo que o professor investigado que revelou ter
menos tempo de atuação profissional mencionou três anos e o professor que declarou
possuir mais tempo de atuação profissional mencionou 30 anos. Infelizmente cinco
professores não responderam tal questão, deixando-a em branco. Cerca de 60% (15
professores) dos sujeitos investigados que responderam à questão revelaram tempo de
atuação menor que dez anos; 28% (sete professores) declararam tempo de magistério
entre 10 e 20 anos e os demais 12% (três professores) afirmaram ter atuação profissional
há 20 anos ou mais.
91
Além da caracterização do tempo de atuação profissional do professor,
indagamos também o tipo de escola em que esse professor atua e classificamos em
atuação em escola pública estadual, pública municipal ou particular. Certamente o
mesmo professor pode exercer-se profissionalmente em escolas públicas e particulares
conjuntamente. Do total investigado, 22 professores atuam em escolas blicas
estaduais, nove atuam em escolas públicas municipais e 12 atuam em escolas
particulares. Dos respondentes, sete atuam conjuntamente em escola públicas
municipais e estaduais; cinco, em escolas públicas estaduais e particulares e somente
um atua em escola pública municipal e particular.
Uma das características identificadas no questionário foi quanto à cidade de
residência dos professores que atuam em escolas públicas e privadas; a região de recorte
para a presente pesquisa é a de Jundiaí e, conforme a Tabela 2, 46,67% (14 pessoas) dos
professores residem em Jundiaí; 13;33% (quatro pessoas) residem em Itatiba e 10%
(três pessoas) residem em Campinas; assim sendo, 21 professores investigados 70% -
residem nessa região.
As demais cidades de residência estão apresentadas abaixo:
Tabela 2 - Distribuição dos professores segundo cidade de residência.
Cidade de Origem Freq %
Jundiaí 14 46,67
Itatiba 4 13,33
Campinas 3 10,00
Francisco Morato 2 6,67
Braganca Paulista 2 6,67
Pedreira 1 3,33
Jarinu 1 3,33
Cabreúva 1 3,33
Atibaia 1 3,33
Campo Limpo Paulista 1 3,33
Total 30 100,00
92
Outra caracterização importante foi quanto ao curso de graduação do professor
investigado: ele deveria responder se a sua graduação foi de Licenciatura em Ciências,
Licenciatura Curta em Matemática ou Licenciatura Plena em Matemática; caso
nenhuma das opções apresentadas pudesse ser a de sua formação, o professor tinha
ainda a opção de apresentar qual o seu curso de graduação, quantificado dentro da
categoria outros cursos.
Como o professor poderia ter mais de uma formação ou graduação, essa questão,
em algumas respostas, apresenta duas alternativas.
Tabela 3 - Caracterização dos professores segundo curso de graduação.
Curso de Graduação Freq %
Licenciatura Plena em Matemática 21 70,00
Licenciatura Curta em Matemática 7 23,33
Outro 4 13,33
Licenciatura em Ciências 2 6,67
Observando a Tabela 3 podemos verificar que a maior parte dos professores
investigados possui Licenciatura Plena ou Curta em Matemática 93,33%. Dentro da
categoria "outros cursos”, identificamos três professores com bacharelado, além de
outra modalidade de licenciatura: uma pessoa é formada em Engenharia Civil com
complementação pela Resolução 02/97; além disso, identificamos também professores
que possuem mais de um tipo de licenciatura.
Na Tabela 2 apresentamos a distribuição segundo a cidade de residência do
professor; outra caracterização que também julgamos de grande importância é a da
instituição onde o professor fez a graduação apresentada na Tabela 4 a seguir –, visto
que nossa hipótese inicial é de que a formação que o professor vem recebendo com
relação à Estocástica não tem sido adequada no sentido de contribuir para que ele
trabalhe com conteúdos relacionados a essa área e, avaliando a instituição de origem
93
podemos, talvez, levantar indícios sobre o comportamento de acordo com a hipótese
acima citada.
Tabela 4 - Distribuição dos professores segundo instituição de graduação e cidade de
residência do professor.
Instituição de Graduação Cidade de Residência do Professor Freq %
USF
Jundiaí (4), Atibaia (2), Bragança Paulista (2),
Itatiba (1), Pedreira (1)
10 33,33
PUCC
Campinas (2), Jundiaí (2)
4 13,33
UNICAMP
Jundiaí (2), Campo Limpo Paulista (1), Campinas
(1)
4 13,33
UniAnchieta
Jundiaí (3)
3 10,00
UNESP
Itatiba (1), Jundiaí (1)
2 6,67
PUC-SP
Jundiaí (1)
1 3,33
Faculdade Teresa Martin
Jarinu (1)
1 3,33
UNIBAN
Cabreúva (1)
1 3,33
Faculdade Osvaldo Cruz
Francisco Morato (1)
1 3,33
USP
Jundiaí (1)
1 3,33
Fac.Paulistana de Ciências e
Letras
Itatiba (1)
1 3,33
Faculdade de Guarulhos
Francisco Morato (1)
1 3,33
Total
30 100,00
Avaliando as repostas dos professores com relação ao ano de conclusão do curso
de graduação, notamos que a maior parte deles tem uma formação que pode ser
considerada recente, entre os anos de 1985 e 2005, ou seja, numa amplitude de 20 anos,
86,67% dos professores investigados tiveram a sua formação. Entre os sujeitos
analisados, um professor manteve em branco a resposta para essa questão.
94
Tabela 5 - Ano de conclusão do curso de graduação.
Ano de Conclusão Freq %
1975 - 1980 1 3,33
1980 - 1985 1 3,33
1985 - 1990 5 16,67
1990 - 1995 4 13,33
1995 - 2000 10 33,33
2000 - 2005 7 23,33
2005 - 2010 1 3,33
Em branco 1 3,33
Total 30 100,00
Ao avaliarmos os questionários respondidos, após o ano de 1990, identificamos
um total de 23 profissionais formados. Com base na Tabela 4, temos a informação de
que, do total de professores consultados, dez tiveram sua formação na USF de Itatiba;
50% deles formaram-se após 1990 e fazem parte, assim, de uma geração de professores
que concluíram seu curso de graduação após a publicação, em 1996, dos PCN, que têm
a proposta de aproximar o aluno das informações para que ele se sinta incentivado a
avaliá-las, a estabelecer relações e a interpretá-las.
Acreditamos ser de grande importância avaliar também o fato de o professor
possuir ou não outro curso superior e, no caso de possuí-lo, pedimos que indicasse a
modalidade do curso se graduação ou pós-graduação. Chamou-nos a atenção o
número significativo de docentes com curso de especialização.
Abaixo apresentamos um relato quantitativo, lembrando que alguns professores
podem ter mais de um curso, seja de graduação ou pós-graduação.
95
Tabela 6 - Apresentação de outros cursos de formação dos professores e a sua
modalidade.
Modalidade do
Curso Superior
Detalhamento Freq
Pós-Graduação Esp. para professores de Ens.Fundamental e Ens.Médio -
UNICAMP
5
Modelagem e Etno - PUCC/USF 3
Mestrado PUC-SP 2
Pós-Graduação em Docência - METROCAMP 1
Especialização em Saúde Pública 1
Educação PUCC 1
Mestrado PUCC 1
Mestrado USF 1
Especialização em Matemática para Ed. Infantil e Ensino
Fundamental Ciclos I e II
1
Especialização em Geociências - UNICAMP 1
Especialização em História da Matemática 1
Educação Especial – PUCC 1
Educação para habilitação de surdos - UNICAMP 1
Outra Graduação Informática com ênfase em Gestão de Negócios - FATEC 1
Biologia 1
Engenharia Civil 1
Química 1
Além de cursos superiores ou outras graduações como forma de
enriquecimento profissional, também indagamos as formas com que os
professores buscam por atualização profissional. Embora duas pessoas tenham
deixado em branco a resposta da questão sobre atualização profissional, a grande
maioria mencionou que se atualiza através de:
cursos oferecidos pela Prefeitura ou pelo Estado (onze respostas);
vários outros cursos não especificados (doze respostas);
leituras (dez respostas);
curso de mestrado (quatro respostas);
troca de experiências com outros professores (duas respostas);
96
participação em grupos de pesquisa ou mesmo em pesquisas (duas respostas);
participação em palestras ou congressos (seis respostas);
capacitações na própria escola (uma resposta).
Dentre as dez respostas sobre atualização profissional através de leituras, foram
citadas duas fontes: a RPM (Revista do Professor de Matemática) e boletins da SBEM.
6.2. Formação em Estatística dos professores participantes da pesquisa
Para conhecer algumas características sobre a formação em Estatística dos
professores que participam da pesquisa, achamos ser de grande importância avaliar o
perfil profissional no sentido de tal formação.
A primeira questão nesse sentido foi a respeito da lembrança do professor sobre
algumas características e também sobre o conteúdo de Estatística e Probabilidade no seu
curso de graduação. Dos 30 questionários respondidos, 25 (83,33%) dos professores
afirmam que tiveram o conteúdo de Estatística na graduação, mas o termo Probabilidade
foi pouquíssimo mencionado nas respostas três (10%) professores - com formação na
Faculdade de Guarulhos, Faculdade Paulistana de Ciências e Letras e Faculdade Teresa
Martin - afirmaram que não tiveram tal conteúdo na graduação; dois (6,67%) dos
professores com formação na UNICAMP e UniAnchieta deixaram tal resposta em
branco.
Dentro dessa questão ainda, perguntamos aos professores se tinham alguma
lembrança da disciplina, em termos de número de semestres em que ela foi oferecida ou
mesmo de conteúdo ou de abordagem. Abaixo apresentamos as respostas:
dez professores lembraram-se de que era dividida em duasdisciplinas;
um professor recordou-se de que era dividida em três disciplinas;
97
um professor recordou-se de que era em uma disciplina.;
treze professores não explicitaram quantas disciplinas ou mesmo quantos
semestres tiveram com o conteúdo de Estatística e Probabilidade. Esses,
via de regra, são aqueles que mencionaram em suas respostas que não trazem
boas lembranças do conteúdo e da experiência dessa disciplina. Com relação
a esses treze professores, destacamos algumas considerações apresentadas
(alguns professores usaram mais de um argumento):
o dois professores comentaram que o professor da disciplina era muito
fraco e aparentemente não apresentava domínio do conteúdo.
o quatro professores não especificaram os conteúdos aprendidos, mas
trouxeram as abordagens metodológicas baseadas na decoração de
fórmulas. Essa constatação corrobora a análise de Shaughnessy
(1992) de que a maioria dos cursos em Probabilidade e Estatística
oferecidos no nível universitário continua a pautar-se em regras e
cálculos estatísticos do tipo “receita de bolo” ou introduções muito
matematizadas da Probabilidade e Estatística, que eram a norma de
uma década atrás. Assim, estudantes do nível universitário, com
todas as suas crenças anteriores e compreensão conceitual sobre
Estocástica, raramente têm a oportunidade de melhorar as intuições
estatísticas ou de ver a aplicabilidade do assunto como graduados.
o oito professores explicitaram alguns tópicos dos conteúdos
estudados, por exemplo: gráficos, medidas de tendência central,
medidas de dispersão, probabilidade, distribuição de freqüência,
análise de hipóteses, análise de regressão, ajuste de curvas, inferência
estatística e algumas distribuições de probabilidade.
98
o três professores comentaram que o curso trabalhou com conteúdos
voltados para projetos e para o Ensino Fundamental e Médio e
consideraram o curso válido.
Dentre os que citaram os conteúdos, um deles mencionou o livro de Pedro A.
Morettin; um dos sujeitos investigados disse que a metodologia se resumia a cópia de
livros; um dos investigados disse que, por ser ano eleitoral, o professor trabalhou com
um projeto de pesquisa.
Como citado nesta análise anteriormente, grande parte dos professores
investigados tem tempo de formação menor que dez anos; esse fato chama-nos a
atenção por haver um mero significativo de professores que não se lembram dos
conteúdos trabalhados nas disciplinas de Estatística.
As respostas que nós obtivemos nessa questão reforçam a nossa hipótese inicial
de que a Estatística, quando abordada num curso de licenciatura, ocorre de forma
fragmentada visto que a maioria dos professores citou a Estatística como disciplina
da graduação ou colocou na seqüência primeiramente Estatística e depois Probabilidade
ou sem propiciar ao futuro professor a oportunidade de experimentar situações e
contextos em que a Estocástica se faz presente.
Shaughnessy (1992, p. 466) estabelece uma aproximação
13
da Estocástica com a
resolução de problemas, ou seja:
o ensino e a aprendizagem de Estocástica envolvem a construção de
modelos de fenômenos físicos, desenvolvimento e uso de estratégias
(tais como estratégias de simulação e estratégias de contagem),
comparação e avaliação de uma série de diferentes abordagens de
problemas, a fim de monitorar possíveis concepções equivocadas e
13
The teaching and learning of stochastics involves building models of physical phenomena,
development and use of strategies (such as simulation strategies and counting strategies), and
comparison and evaluation of several different approaches to problems in order to monitor possible
misconceptions or misrepresentations. In these respects, teaching stochastics is teaching problem solving,
alteit in a particular content domain. In addition, teachers backgronds are weak or nonexistent in both
stochastics and in problem solving. This is not their fault, as historically our teacher preparation
programs have not systematically included either stochastics or problem solving for prospective
mathematics teachers”.
99
representações deturpadas. Nesses aspectos ensinar Estocástica é
ensinar resolução de problemas, embora em um domínio de conteúdo
particular. Além disso, a formação básica dos professores é fraca ou
inexistente, tanto em Estocástica quanto em resolução de problemas.
Isto não é falha deles, como historicamente os nossos programas de
formação de professores não têm incluído sistematicamente tanto
Estocástica como resolução de problemas para futuros professores de
Matemática.
Dessa forma, se o futuro professor não experimentar essa abordagem para a
Estocástica, provavelmente terá grande dificuldade em também propiciar aos seus
alunos um ambiente de aprendizagem pautado em temas relacionados a essa área do
conhecimento.
Com relação à investigação sobre as experiências dos professores consultados;
sobre as suas experiências de formação continuada; e também sobre como os
professores vêm obtendo formação para ensinar Estatística e Probabilidade para a
Educação Básica, algumas considerações nos chamaram a atenção:
quatro professores não responderam a essa questão, deixando o espaço
da resposta em branco.
nove professores consultados disseram que ainda não receberam nenhum
tipo de formação continuada voltado ao ensino de Estatística e dois deles
informaram que nunca se interessaram por essa temática.
o Desses professores que não receberam nenhum tipo de formação
continuada, apenas dois disseram que se sentem preparados para
trabalhar com conteúdos de Estatística; um deles afirma ter
adquirido esse preparo dando aulas para alunos particulares e o
outro afirma ser difícil encontrar caminhos alternativos para o
livro didático, o que nos leva a supor que o livro didático é
justamente sua fonte de apoio.
100
nove professores informaram que vêm obtendo formação continuada
para ensinar Estatística através de cursos de capacitação ou de
especialização. Desses professores apenas um informou que esse tipo de
formação tem contribuído para sua forma de ensinar.
o Todos os professores que têm formação continuada afirmaram
sentir-se preparados para trabalhar com esses conteúdos, embora
com algumas restrições:
Acho que preciso, sim, melhorar (P21);
Sinto preparada para o Ensino Fundamental, mas no Ensino
Médio a parte de probabilidade ainda encontro dificuldades
(P13);
Relativamente, pois dependendo do conteúdo a ser abordado
tenho algumas dificuldades com a maneira de ensinar (P17);
o Um desses professores comentou sobre a necessidade de haver
maior ênfase nos conteúdos de Estocástica do Ensino Médio,
quando foi questionado se se sente preparado para trabalhar os
conteúdos:
Sim, dentro do Ensino Médio os conteúdos são bem tranqüilos
quanto ao aprofundamento e não exigem muito do professor. Acho
até que deveriam ser trabalhadas mais questões referentes a
Estatística no Ensino Médio; o que normalmente ocorre é o trabalho
com análise combinatória
(P9).
oito professores informaram que vêm se formando pela própria
experiência e consultam livros, revistas, jornais ou mesmo propostas
curriculares ou internet.
o Desses professores que se formam pela própria experiência,
cinco consideraram-se preparados para trabalhar com os
conteúdos de Estatística, embora dois tivessem afirmado que
desde que seja o básico. A questão é saber o que eles chamam de
“básico”.
101
o dois professores revelaram não se considerar preparados e um
deles afirmou que os professores precisam sempre buscar novos
métodos e estar sempre em contato com isso (P11) e concluiu
que não se considera totalmente preparado, pois não é o
professor dessa matéria na escola em que atua.
sete professores disseram que o se sentem preparados para trabalhar
com os conteúdos de Estatística e Probabilidade.
É importante destacar que, mesmo os que informaram que estão recebendo
algum tipo de formação continuada, não especificaram a abordagem que vem sendo
dada com relação a esse conteúdo.
Podemos dizer também que alguns professores vêm aprendendo com a
experiência e com os cursos que vêm realizando, apesar da importância dada aos livros
didáticos.
6.3. Percepções dos professores participantes da pesquisa quanto à inserção da
Estocástica no currículo e na sala de aula da Escola Básica
Para investigar algumas características importantes sobre a inserção da
Estocástica no currículo e na sala de aula da Escola Básica, fizemos alguns
questionamentos sobre a prática pedagógica dos professores. Uma das questões foi se o
professor tem trabalhado com conteúdos de Estatística e Probabilidade em suas salas de
aula; também pedimos que comentasse a forma como conduz as atividades:
três professores deixaram em branco a resposta a essa questão;
quatro professores responderam que não trabalham com os conteúdos de
Estatística e Probabilidade;
102
o Um dos professores afirmou que no ano em que respondeu o
questionário não estava trabalhando o conteúdo, mas quando
trabalha utiliza livro didático como meio para exercícios extras,
pois tenho minha própria lista de exercícios (P9).
sete professores revelaram ter poucas experiências em sala de aula para
trabalhar conteúdos estatísticos e probabilidade e dois deles disseram não
se sentir preparados para tal ensino; um deles trabalha esse conteúdo
em plantões de dúvidas e, nesse caso, usa o material do curso; um deles
trabalhou tais conteúdos num curso de Biologia; outro já trabalhou em
aulas de substituição e utilizou os livros didáticos existentes nas escolas;
um deles disse trabalhar apenas com Probabilidade, com exemplo de
jogos de dados e moedas.
dezesseis professores afirmaram trabalhar conteúdos de Estatística e
Probabilidade em suas salas de aula. Os materiais mais utilizados são: o
livro didático (nove respostas), pesquisa com os alunos (quatro
respostas), jornais e revistas (seis respostas), apostilas (duas respostas),
atividades contextualizadas e projetos (uma resposta), PEC-Editora
Brasil (uma resposta), livros paradidáticos (uma resposta) e atividades
próprias (uma resposta).
Como alguns professores apresentaram resposta positiva quanto ao fato de
trabalhar os conteúdos de Estatística em sala de aula, apresentamos a complementação
prevista esse caso: questionamos sobre as dificuldades que encontram para explorar esse
conteúdo com os alunos e solicitamos comentários a respeito. As respostas foram:
103
um professor comentou que a maior dificuldade que encontra é sobre a
prática de como ensinar, ou seja, com relação à metodologia.
quatro professores disseram o encontrar dificuldades, pois o assunto é
superficial.
três professores comentaram que a dificuldade está localizada nos alunos
(processo de contagem, falta de pré-requisitos, em especial, no Ensino
Médio, sem noções básicas de Probabilidade).
Destacamos alguns comentários que partiram dos professores sobre os conteúdos
de Estatística trabalhados em sala de aula e as dificuldades que disseram encontrar:
-
A parte trabalhada restringe-se a gráficos (P28)
- O tempo disponível nas aulas, sabendo que há uma necessidade de
cumprir todo o conteúdo (P11)
- A probabilidade deveria estar presente desde as séries iniciais (P2)
Uma professora, inclusive, destacou que, em 1987, a Rede Municipal onde
trabalha realizou uma “macropesquisa” sobre os bairros e os professores envolvidos
realizaram um trabalho com conta de água e luz. Uma outra professora fez comentários
interessantes:
Hoje os livros didáticos trazem Estatística desde a série, mas
percebo que muitos apresentam o tema apenas no final do livro.
Então, como Estatística é muito enfatizada no SARESP e ENEM,
procuro criar atividades contextualizadas para abordá-la. Por
exemplo, gráficos sobre a Copa do Mundo, pesquisa sobre eleições.
(P22)
As respostas dadas pelos professores a esses itens do questionário revelam que,
apesar da pouca formação que obtiveram no curso de graduação e até mesmo da pouca
oferta de formação continuada, eles vêm tentando inserir a Estatística e a Probabilidade
em suas salas de aula. Evidentemente, as respostas dadas aos questionários não nos
permitem inferir a forma como essa inserção vem acontecendo.
104
Percebe-se, no entanto, que eles vêm tentando fazer uso de recursos didáticos
variados, não se limitando apenas ao livro didático. Constata-se o uso de livros
paradidáticos, revistas e jornais.
No que se refere ao livro didático ponto de apoio para a maioria deles –,
destacamos a necessidade de que ele passe por uma avaliação criteriosa por parte do
Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), pois, se o livro se constitui em fonte de
consulta aos professores, é fundamental que receba correção conceitual e abordagens
metodológicas atualizadas.
Chamou-nos a atenção um professor (P18) que explicitou no seu questionário
que a sua escola trabalha com Estatística apenas na série e no ano do Ensino
Médio, contrariando as indicações curriculares de que estes conteúdos estejam presentes
em todas as séries do Ensino Fundamental e Ensino Médio.
Mesmo não tendo sido explicitadas pelos professores concepções sobre o ensino
da Estatística voltado a uma formação mais ampla e crítica sobre cidadania, o fato de
alguns deles procurarem ampliar as atividades de sala de aula com o uso de revistas ou
jornais já pode ser um indício de que existe tal preocupação; além disso, existe a
esperança de que a escola seja um local também de aprendizagem da Estatística.
A análise desse material reforça nossa crença sobre a importância da inserção da
Estocástica nos cursos de licenciatura e do papel dos professores formadores na
constituição de um repertório de saberes disciplinares, pedagógicos e curriculares sobre
o ensino desses conteúdos, contribuindo para que o futuro professor se sinta seguro para
o exercício profissional.
105
7. O ENSINO DE ESTATÍSTICA NA PERCEPÇÃO DOS
PROFESSORES FORMADORES
Neste capítulo faremos uma análise interpretativa das entrevistas realizadas com
quatro professores formadores: formador Paulo (USF-Itatiba), formadora Cileda (PUC-
SP), formadora Irene (UESC/Ba) e formadora Clayde (PUC-Campinas). As entrevistas,
a partir do contato direto e interativo com o professor formador entrevistado, foram
gravadas em áudio e posteriormente devolvidas aos entrevistados para que estes
fizessem as alterações que julgassem necessárias, embora nem todos tivessem dado o
retorno.
A partir de um roteiro de perguntas, essas entrevistas tiveram como objetivo
principal identificar as percepções que os professores formadores possuem sobre a
Estocástica, sobre seu ensino na formação do professor de Matemática e sobre sua
inserção na Escola Básica.
O momento da realização das entrevistas foi muito importante para a
pesquisadora — cuja formação é em Estatística —, uma vez que serviu como uma troca
de experiências sobre o ensino da Estatística dentro dos cursos de Licenciatura em
Matemática. Na ocasião da realização das entrevistas, como profissional pesquisadora,
procuramos observar o envolvimento do formador com o conteúdo de Estatística
aplicado aos cursos de licenciatura, bem como a forma como concebe as atividades
educacionais por ele desenvolvidas.
A fim de fazer uma análise mais aprofundada das entrevistas, apesar de estas se
mostrarem interdependentes, optamos por organizar sua análise em duas categorias: (1)
a percepção dos formadores quanto à Educação Estatística na formação do professor de
106
Matemática e (2) a percepção dos formadores quanto à Educação Estatística na
Educação Básica.
Na primeira delas levaremos em consideração os seguintes aspectos que
emergiram das falas dos formadores: a diferenciação de abordagens para o bacharelado
e a licenciatura; a ementa dos cursos nos quais esses formadores atuam; o trabalho com
projetos como possibilidade formativa e a elaboração de seqüências didáticas; a relação
dos conteúdos do Ensino Superior com a Educação Básica e a relação dos formadores
com projetos de formação continuada.
Na segunda categoria consideraremos os seguintes aspectos: a relação da
Educação Estatística com a Educação Matemática e o papel do livro didático e dos PCN
para a inserção da Estocástica na Educação Básica.
7.1. A percepção dos formadores quanto à Educação Estatística na formação do
professor de Matemática
Conforme destacado anteriormente, as Diretrizes Curriculares para o curso de
Matemática não incluem o estudo de Probabilidade e Estatística no curso de
licenciatura, ficando à mercê da instituição optar por incluir ou não essa área do
conhecimento na grade curricular, bem como decidir sobre os enfoques teórico-
metodológicos que serão dados aos seus conteúdos.
Se, conforme analisado no capítulo anterior, os professores reconhecem que não
tiveram formação para trabalhar com Estatística, o quadro tende a piorar, segundo
avaliação da formadora Cileda:
Porque como nas diretrizes curriculares, se você olhar na formação
do bacharel, apesar de listar os conteúdos e não ter Estatística,
embaixo ele fala alguma coisa que o bacharel tem que ter
conhecimento de Probabilidade estatística. Quando você a parte de
licenciatura, nem cita. Então o que está acontecendo? As
107
universidades e as faculdades estão tirando do seu currículo ou
abaixando a grade para um semestre de duas aulas semanais. O quê
que você faz com um semestre de duas aulas semanais com quem
nunca viu? Porque pensar que eles estão trazendo este conhecimento
da Escola Básica, não estão porque o professor nunca viu. Então vai
virar ciclo vicioso: o professor o na Escola Básica porque não
sabe e quando ele está na faculdade ele o aprende, então ele não
sabe e ele vai ser professor. Quer dizer, virou um ciclo vicioso. São
poucas as instituições que estão efetivamente trabalhando com
Estatística
.
Esse ciclo acabará perpetuando as dificuldades do professor em trabalhar com
os conteúdos estatísticos de forma conceitual e não apenas técnica. Como destaca a
formadora Cileda, essa compreensão da Estocástica é fundamental para ajudar o aluno
na construção do pensamento estatístico, que difere do pensamento matemático:
Você resolve uma equação você tem uma resposta possível, ou
quando você sabe que tem infinitas respostas, você sabe que a
resposta é infinitas respostas”. Na Estatística você tem toda uma
interpretação, quando você vai para a área de interpretação, fica
subjetivo; então eu falar que um desvio padrão é grande, para mim
pode ser grande e para você o. Depende do teu parâmetro, do teu
objetivo. E isso para o professor, a hora em que o aluno começa a
questionar é muito complicado. Se ele usa uma fórmula de desvio
padrão que é ligada à definição, ele vai ter erro de aproximação por
causa da média, se a média for um valor aproximado, se ele usa a
outra fórmula, aquela fórmula reduzida ele não vai ter o erro de
aproximação, vai dar diferença entre os dois. Os dois estão certos e
ele não sabe explicar isso para o aluno.[...] Porque está dentro de um
contexto de aula de Matemática. Do tudo exato. O próprio professor,
na aula de Matemática não sabe trabalhar com exercícios de várias
respostas.
Devemos destacar a necessidade urgente de um enfoque para o ensino em
particular da Estatística diferenciado entre o bacharelado e a licenciatura em
Matemática.
A formadora Irene também explicitou a necessidade de se fazer essa diferença:
Porque o bacharel o esta nem aí, aliás o bacharel ele acredita que
ele nunca vai ser professor de Matemática. Então ele nem quer saber
como vai ensinar, então o bacharel ele quer, e eu acho certo, ele quer
saber a teoria da probabilidade, ele quer todo o rigor teórico. Está
certíssimo porque ele tem teoria, ele não está preocupado e não vai
ensinar Matemática para jovens e crianças. Então ele vai fazer a
pesquisa na Matemática pura, maravilha, então ele vai para lá, mas
não venha depois querer ensinar Matemática para crianças e jovens.
108
Porque o que a gente vê, no ensino, a gente vê só repetição de
fórmulas.
Os formadores Clayde e Paulo não expressaram essa preocupação, porque as
instituições em que atuam não oferecem bacharelado em Matemática.
Vê-se, assim, que, nas instituições em que são oferecidos os dois cursos:
bacharelado e licenciatura em Matemática, o problema da dicotomia continua
prevalecendo e o futuro professor continuará bastante distante dos objetivos propostos
por Gal e Garfield (1999), discutidos no capítulo 2 deste trabalho.
Evidencia-se o papel central que o formador passou a ter na formação do futuro
professor. Mas estariam os formadores preparados para essa tarefa? Qual a formação
que tiveram? São especialistas? No caso das instituições públicas, via de regra, quem
ministra os cursos de Estatística são profissionais com formação específica, mas que
colocam a ênfase no seu papel de pesquisador dentro da universidade, ficando a
docência e, principalmente, a docência em cursos de licenciatura em segundo plano.
No caso das instituições privadas, o professor nem sempre atua como pesquisador,
geralmente é contratado pelo número de aulas que ministra e nem sempre tem a
formação específica para as disciplinas sob sua responsabilidade. Assim, o professor vai
se constituindo formador a partir da prática, no exercício das atividades relativas às
disciplinas que ministra e, provavelmente, passando por fases de insegurança, como
relata o formador Paulo:
A primeira vez que eu dei essa disciplina de Estatística Aplicada não
trabalhei muito com exemplos na área de educação. Na auto-
avaliação que fiz após o curso, achei que não foi satisfatório
pensando na contribuição para formar professores. Na segunda vez
consegui avançar um pouco mais.
A ênfase, segundo ele, foi posta na Estatística Descritiva. Seria essa postura
decorrente da falta de experiência do professor na disciplina? Parece que essa
109
insegurança do formador no início de carreira frente aos conteúdos a serem trabalhados
é comum ocorrer com qualquer professor. A formadora Clayde também a explicitou:
Aquela Estatística que eu trabalhava no início de minha carreira,
aquela eu tenho dúvidas se contribuiu para alguma coisa. A de hoje
eu acredito que sim, porque se eu não acreditar que ela contribua
para formação do meu professor e para construção de novos saberes
eu vou repensar o meu curso.
Desta forma, pode-se inferir que o formador Paulo, ainda em início de carreira
no Ensino Superior e com pouca experiência nos cursos de licenciatura, não se sentia
confortável com a disciplina ministrada: É realmente, mas ali eu até sentia assim, acho
que pela minha pouca experiência, eu achei que a minha contribuição naquele
momento talvez pudesse ser melhor, isso na minha avaliação, na minha auto-avaliação.
No entanto, constata-se a sua preocupação com a formação do professor. No exercício
da profissão ele vai construindo seu repertório de saberes para ser formador,
caminhando com insegurança nas primeiras experiências, mas tendo uma postura
reflexiva que, com certeza, lhe possibilitará mudanças na forma de abordar a disciplina.
Esses dias eu estive pensando, quando a Iara comentou da
possibilidade de eu estar assumindo essa disciplina no semestre que
vem. Pensei: o que eu vou fazer além? Como vou contribuir melhor
em relação às últimas duas oportunidades que eu tive? Na primeira, a
minha auto-avaliação não foi legal, não consegui trabalhar com a
parte de inferência. Na segunda, eu consegui chegar um pouco nas
inferências, eu falei um pouco de testes, dos testes de hipóteses, mas
de uma forma também muito superficial, pelo menos para o aluno
saber que existem testes e quais testes existem. Nessa eu estive
pensando, apelas leituras que eu fiz a partir das referências que a
Cileda e a Irene passaram no mini-curso: o que eu vou fazer para
esse curso agora? A gente também está buscando uma formação do
professor formador, que é algo que vai se formar na prática,
buscando recursos dos colegas que tem produzido material, com essas
novas idéias da Estocástica, que certamente é uma palavra que, para
nós os professores da rede básica, é uma palavra novíssima.
O formador Paulo revela, assim, a consciência da incompletude do ser humano,
como dizia Paulo Freire. Não se acomoda à situação e busca novas aprendizagens e
novas abordagens que possam tornar suas aulas mais interessantes aos alunos.
110
As demais formadoras revelaram maior segurança para com a disciplina voltada
à formação docente, embora a formadora Cileda não esteja mais com disciplinas na
graduação, apenas na pós-graduação.
Se o professor avalia que a condução da sua disciplina não foi satisfatória, qual a
margem de autonomia que tem para mudar a sua ementa? Pelos depoimentos dos
formadores, essa não é uma questão muito tranqüila. casos em que as ementas não
podem ser mudadas, embora o próprio formador entrevistado a tenha elaborado, como é
o caso das formadoras Clayde e Irene. No caso da formadora Clayde, ela afirmou:
a ementa que eu ajudei a produzir, mas que passou assim por “n”
avaliações e eu posso mudar o meu conteúdo programático mas eu
não tenho o poder de mudar a ementa, não dos cursos de
licenciatura como de nenhum curso que eu leciono com Estatística.
Em cima da ementa eu organizo os objetivos da minha disciplina que
depois eu posso até passar para você, porque eu posso passar meu
programa.
A formadora Irene colaborou na elaboração da ementa que foi encaminhada e
aprovada pelo colegiado de curso – no caso da licenciatura:
você obedece a uma ementa que está lá, que você tem uma grade, tem
uma ementa, tem um programa. [...] Autonomia, digamos você tem
uma autonomia relativa porque o que eu fiz foi para o colegiado e eu
falei, na licenciatura em Matemática eu vou ensinar assim, através de
projetos, através de conseqüências de ensino. E a coordenadora
adorou a história, aliás, estamos indo para o ENEM com quatro
trabalhos dessas experiências. Agora, quando você vai fazer isso no
bacharelado, isso já não dá certo.
casos como o do formador Paulo, em que o docente não tem autonomia para
alterar a ementa, a qual já recebeu pronta:
Ela vem de outros anos e essa última questão quanto à autonomia a
gente não tem para modificar a ementa. O que a gente procura fazer
[...], a gente não modifica a ementa, mas procura adequar um pouco
essa ementa para uma realidade de formação de professor. Talvez a
ementa em si, ela tenha como objetivo uma pessoa aplicadora da
Estatística, mesmo isso entre aspas. Precisamos ter jogo de cintura e
fazer as modificações possíveis no programa da disciplina para
realmente adequar para a formação de professores.
111
Ele acrescentou, ainda, que a mesma ementa da licenciatura em Matemática é
válida para outros cursos da instituição que possuem essa disciplina.
No caso da formadora Cileda, como dissemos, sua atuação na instituição está
mais restrita à pós-graduação. Relata que na época em que atuava na graduação
quando voltou de seu doutorado na França, em 2001 tinha a preocupação com a
Educação Estatística. Quanto à pós-graduação, ela fez referência à forma como aborda
tal disciplina, a partir de uma ementa também pré-estabelecida:
Atualmente no mestrado tem aqui uma disciplina que chama tópicos
de Matemática discreta. que a ementa dela quando eu cheguei
era Probabilidade estatística, quer dizer, não era Matemática
discreta. Então eu dou enfoque de Estatística, seja a parte que eles
vão trabalhar na Escola Básica, da Estatística descritiva e focando
análise exploratória, via análise exploratória de dados. eles
trabalham a parte de Probabilidade combinatória em forma de
seminários; depois a gente passa para um módulo de Estatística que
seria para a formação do pesquisador.
Constata-se, assim, que talvez por trabalhar em um curso de pós-graduação e por
sua experiência profissional, a formadora Cileda não se prende a uma ementa pré-
estabelecida.
Quanto à graduação, a ementa do curso da PUC-SP elaborada pelo grupo de
docentes que atuam na disciplina de Estatística — não pode ser alterada:
A da graduação você não pode mexer na ementa. Mas as ementas são
elaboradas, por exemplo, a da licenciatura, a Estatística está no
grupo de Matemática Aplicada; então o grupo de Matemática
Aplicada fez a ementa. Então quem é o grupo: Eu, a Maria Ines e a
Zezé. Então nós fizemos a ementa com o que a gente achava e
acreditava que eles precisariam saber.
Quanto à disciplina de Estatística na graduação, apesar de as diretrizes
curriculares da licenciatura não fazerem menção à sua inclusão, constatamos que os
cursos das instituições onde esses formadores atuam incluíram-na em sua grade
curricular. Geralmente duas disciplinas: uma de Estatística Descritiva e outra de
Probabilidade, cujos nomes podem variar de uma instituição para outra.
112
No caso da USF, segundo o formador Paulo:
No curso de Matemática são dois semestres, um é a Estatística que
trata basicamente a parte Descritiva (que é o primeiro semestre).
Aliás, metade Estatística Descritiva e uma segunda parte com
Probabilidade. O segundo semestre de Estatística é a Estatística
Aplicada e um pouco sobre análise combinatória, volta a falar
sobre o conceito de probabilidade e a parte inferencial da Estatística,
como os testes de hipótese.
No caso da PUC-Campinas, a Estatística I e II. Na Estatística I, os
licenciandos têm os conteúdos de Estatística Descritiva e Probabilidade; em Estatística
II eles têm distribuição de probabilidade e, segundo a formadora Clayde:
a gente escolhe, como são poucas aulas - eu tenho duas aulas teóricas
e duas práticas, tanto em Estatística I quanto II - das distribuições de
probabilidade nós trabalhamos mais a normal e a binomial, que é o
que eles mais utilizam depois e trabalhamos com enfoque inferencial
com noções de testes de hipóteses e trabalhamos alguns testes de
hipóteses, mais a parte de aplicação, mais a parte conceitual do teste,
o que é um teste de hipótese, quando você aplica, quais as diferenças,
do que a parte formal propriamente dita, que é justamente o porquê
da Estatística, vamos dizer assim. Tanto em Estatística I quanto II,
eles têm suporte computacional, não nas aulas teóricas, eles têm
aulas expositivas, trabalhos em grupos, exercícios em sala de aula
convencional. Em Estatística I nas aulas práticas eles trabalham com
planilhas, eles usam o Excel, que é o que a gente tem na universidade,
e depois em Estatística II, também, eles têm aulas teóricas, que são
expositivas, e eles começam a usar o SPSS
14
. Então eles sentem
assim muita dificuldade; a primeira barreira é a língua porque o
SPSS está em inglês. Aí eu montei uma apostilinha básica para a
utilização do SPSS, e tem dado certo, apesar das dificuldades tem
dado certo, confesso assim que não é muito fácil não.
Na UESC/Ba, há também duas disciplinas: uma de 45 horas voltada à Estatística
sob responsabilidade da formadora Irene e outra voltada à Probabilidade sob
responsabilidade de outro professor. Segundo a formadora Irene, quanto à sua
disciplina:
eu tenho trabalhado em termos de variáveis quantitativas, tenho
trabalhado regressão, correlação, histograma [...] das variáveis
quânticas, depois todas as medidas de tendências centrais, as medidas
de dispersão, eu não chego aqui com esses professores, eu não
14
SPSS significa Statistical Package for the Social Sciences e é um software de análise estatística
amplamente utilizado por pesquisadores de mercado, em pesquisas relacionadas com a saúde, no governo,
educação, ciências sociais e outros setores.
113
consegui chegar, por exemplo, para um teste, até porque aqui no
curso de licenciatura em Matemática eu tinha uma disciplina de 45
horas, então ninguém faz milagres
Quanto à disciplina de Probabilidade, embora não seja ministrada pela
formadora Irene, esta atua de forma cooperativa com seu colega, dando-lhe sugestões de
como trabalhar. Ele se utiliza de um material que ela publicou para trabalhar com
distribuição binomial: trata-se da seqüência “Os passeios aleatórios da Mônica”
15
. Pelo
depoimento dessa formadora, a partir desse material, o professor de sua instituição
construiu um aparelho semelhante ao utilizado por Galton para uma demonstração da
distribuição normal – denominado quincunx, o qual pode ser baixado da internet:
Ele é maravilhoso, a gente faz com preguinhos. Parece um geoplano e
você joga aqui bolas de gude. Então elas vão tocar um prego e aí
elas podem ir para esquerda ou para a direita, novamente toca um
prego ela vai para esquerda ou para a direita. Então pela teoria você
vai ter mais no centro e menos [...]
A formadora Cileda, embora não atue na graduação desde 2006, falou sobre a
forma como trabalhava tal disciplina em anos anteriores:
eu trabalho bem a parte da descritiva, nesse enfoque de análise
exploratória e quando a gente começa tentar a preparar para fazer
inferência entra com a Probabilidade, mas mostrando para eles
que a Estatística seria assim equivalente à Geometria, você tem o
domínio dentro da realidade, que eu chamo, onde está a Estatística
Descritiva, ela descreve uma coisa que efetivamente acontece. E você
tem o cálculo de probabilidades que é um modelo teórico, que vai
interpretar, é um modelo dessa realidade então são dois campos
paralelos de teoria e realidade que vão andando, e a gente vai indo
nesse enfoque. Então, por exemplo, quando eu vou falar o que é
média, quando eu vou chegar na hora da Probabilidade e vou falar
esperança, gente vocês lembram da média, vamos fazer a ponte.
Então isso aqui está estimando, este parâmetro aqui.
Ela acredita que sempre conseguiu cativar seus alunos para o curso, inclusive
recebe retornos positivos de ex-alunos:
Vários deles ahoje, que foram meus alunos algum tempo até
hoje me procuram estou incomodado do jeito que estou dando
15
Publicado em: CAZORLA, Irene M.; SANTANA, Eurivalda R.dos S. Tratamento da Informação
para o Ensino Fundamental e Médio. Itabuna/Ilhéus: Via Litterarum, 2006.
114
essa aula, preciso começar essa aula, você pode me ajudar. Eles não
conseguem muita autonomia, não.
Reconhece também que não consegue avançar muito no conteúdo, pela
deficiência conceitual dos alunos:
Não dá para ir a fundo porque eles vêm tão crus, que não dá para ir a
fundo. Então por exemplo se você vai trabalhar uma variável
aleatória contínua para fazer toda a parte que você trabalhou com
variável quantitativa contínua você vai trabalhar na probabilidade,
pane, porque eles não conseguem fazer uma integral. Então eles
falam: não, mas integral é de cálculo como é que você quer fazer aqui
nessa aula? Você não está brincando assim, você não está
entendendo, não estamos na aula de cálculo. Então fica difícil, mas
eles são cativados.
No entanto, mesmo com a existência dessa ementa nos cursos de graduação,
constatamos que os formadores buscam formas mais interessantes de abordar a
disciplina. Tal fato foi destacado explicitamente pela formadora Cileda em sua primeira
entrevista:
Se você olhar apenas a ementa, quase nada vai distinguir de uma ementa de
enfoque clássico, porque para mim, é a forma de abordagem do conteúdo que faz a
diferença. Se você aborda via conceitos, a perspectiva toda muda.
Nas práticas dos três formadores que atuam na graduação, identificamos três
abordagens diferentes para as disciplinas relacionadas à Estatística: o trabalho com
projetos, a elaboração de seqüências didáticas ou uma abordagem interdisciplinar.
Segundo a formadora Irene os formadores de professores que se formam em
Estatística e Probabilidade, não sabem ensinar e, talvez, o fato de trabalhar com
projetos permita que o professor em formação consiga compreender a Estatística como
uma disciplina que interage com as demais, permitindo diferentes aprendizados e a
observação da existência de hipóteses, facilitando algumas conexões com conteúdos que
fazem parte da Matemática.
A formadora Clayde, por exemplo, trabalha com projetos no aprendizado e na
formação estatística do professor, facilitando o acesso do então aluno às metodologias
de pesquisa e à orientação quanto aos conhecimentos de Estatística:
115
Às vezes tempo de eles coletarem os dados no primeiro semestre e
às vezes não, aí fazem em Estatística II. E o trabalho ocorre em
paralelo com as aulas onde eles aprendem a organizar tabelas.
eles já têm uma base de dados para fazerem as tabelas, eles aprendem
que tipo de gráfico eles podem usar e eles sabem quais o as
variáveis deles e que gráficos eles podem usar.
Através da execução de projetos relacionados aos assuntos que devem ser
abordados dentro da disciplina, o professor conseguirá entender melhor todo o processo,
por exemplo, de amostragem, que envolve uma pesquisa, desde o levantamento dos
dados amostrais até a análise e a crítica dos resultados.
Ainda com relação ao trabalho com projetos na formação estatística do professor
de Matemática, a formadora Clayde comenta que os futuros professores:
vão fazer a coleta de dados, vão organizar a base e eles vão fazer
de fato, o trabalho final, o relatório final do projeto de pesquisa.
Então eles vão verificar, eles vêem nas aulas teóricas quais testes eles
podem utilizar, aí eles vão aplicar os testes estatísticos na sua base de
dados. Muitas vezes eles trabalham com variáveis qualitativas, o
que a gente mais é o “qui quadrado” sendo aplicado. E eles fazem
os gráficos.. Como é um projeto de pesquisa eu quero avaliar a parte
estatística também, a formatação de gráficos, a formatação de
tabelas, eles têm várias duplicatas, vamos dizer assim, o que a gente
não teria numa monografia.
Além da utilização de projetos que procuram envolver grande parte do conteúdo
de Estatística II, os formadores entrevistados utilizam-se também de seqüências
didáticas desenvolvidas junto aos professores em formação para criar condições para a
compreensão dos conceitos. Segundo a formadora Irene que elabora situações
didáticas para a sala de aula uma coisa é eu ter o conceito de correlação e regressão,
outra coisa é eu conseguir que meu aluno compreenda o conceito e para que meu aluno
consiga compreender o conceito eu preciso primeiro compreender tudo que se passa e,
então, ela se utiliza de seqüências de ensino para os professores ensinarem Estatística e
Probabilidade na escola. Ela exemplifica algumas dessas seqüências:
Trabalhamos a conta de luz, de energia na verdade. A conta de
energia a gente trabalhou, com todos os alunos, todos os alunos
trouxeram a conta então nós nhamos medidas, tínhamos o consumo
116
anual de 28 alunos e foi maravilhoso porque vo tinha coisas
interessantes, por exemplo, a questão da homogeneidade, a questão
da variabilidade, o consumo alto, o consumo médio. Então você está
trabalhando aqui média, mediana, moda, trabalhando variação,
coeficiente de variação, o CV, a gente trabalhou além das medidas de
dispersão o coeficiente de variação. Trabalhamos também com água.
[...] E toda a estatística básica de gráficos de barras de setores, tem
uma seqüência didática que a gente chama além dos dados da mídia.
todo mundo pega os diversos tipos de gráficos e tal, leituras de
gráficos. Então essa é uma questão muito mais geral que você
conta do básico, né? Mas com essas seqüências a gente trabalha
todas as medidas de tendência central, nós trabalhamos um pouco o
diagrama de ramos e folhas. Então a gente conta desses conceitos
todos para a formação dos conceitos na Educação Básica.
Quanto às seqüências didáticas, a formadora Cileda as pontuais demais para
alcançar o professor em exercício: Você fez uma seqüência didática, por que ela não
chega (ao professor)? Porque você fez em condições especiais para uma classe
especial, com material especial, isso não leva para a formação, nem continuada, nem
inicial.
Nessa reflexão da formadora Cileda está implícita a concepção de formação de
professores que rompe com a racionalidade técnica, ou seja, o professor precisa sentir-se
protagonista daquilo que prepara para a sua sala de aula, e não um mero aplicador de
atividades elaboradas por alguém de fora de sua sala de aula. Se, por um lado, este
modelo de formação pouco tem contribuído para reflexões e mudanças na prática
docente, por outro, o professor, pelas lacunas que traz em sua formação, necessita de
materiais que lhe dêem subsídios para o trabalho em sala de aula.
A formadora Clayde também trabalha com seqüências didáticas e, no nosso
entender, numa concepção de racionalidade técnica, pautada na elaboração dessas
seqüências por alunos de Iniciação Científica:
Primeiro eu comecei trabalhando com projetos enquanto eu tinha
professores parceiros, porque meu aluno acompanhava inclusive o
professor parceiro. Quando eu deixei de ter professor parceiro eu
propus um plano de trabalho para os alunos de Iniciação Científica
diferenciado onde ele tivesse um trabalho com seqüências didáticas.
Então, eu tenho um aluno que está organizando seqüências didáticas.
Para os conteúdos de Estatística Descritiva, ele toma temas da
117
atualidade e em cima desses temas ele organiza as seqüências
didáticas, nós temos várias organizadas. Até o ano passado nós
trabalhávamos com seqüências didáticas que não usavam
computador, tivemos pouca coisa usando computador. Este ano eu
inseri no plano de trabalho, este ano que eu digo foi a partir de
agosto do ano passado, porque os nossos alunos começam em agosto
de um ano e vão ajulho do ano seguinte, da Iniciação Científica.
Então, a partir de agosto, nós estamos com seqüências didáticas
para conteúdos de Estatística que podem ser levados para qualquer
nível de ensino, porque as atividades são feitas tanto usando papel
milimetrado, quadriculado, como planilha eletrônica. Então o meu
aluno organiza os passos que subsidiam o professor em sala de
aula e o aluno também. Então nós temos o material para isso, que
não foi testado por nós não termos professores parceiros, mas foi
apresentado em congresso, então está inclusive publicado. Eu
também tento desde o início do ano passado algumas seqüências
didáticas feitas para explorar probabilidade e raciocínio
combinatório que podem também possam também ser levadas para os
mais diferenciados níveis. Então essa parte de probabilidade e
raciocínio combinatório está caminhando pouco mais lentamente, até
porque a gente percebe que tem sido dada muito mais ênfase à parte
descritiva, vamos dizer assim, da Estatística interpretação de
gráficos e tabelas - do que a parte de probabilidade.
Vê-se, assim, que a ênfase é posta na pesquisa, mas não na pesquisa realizada
pelo professor com seus alunos em formação, mas uma pesquisa externa à sala de aula
da licenciatura, cujos resultados são oferecidos ao professor para aplicação em suas
turmas. Entendemos que essa modalidade de pesquisa está muito distante daquela
proposta por Shaughnessy (1992) e Gal e Garfield (1997), que poderia ser desenvolvida
colaborativamente entre os diferentes atores envolvidos com o ensino de Estatística
pesquisadores, formadores, professores e futuros professores.
Nesse sentido, o formador Paulo, mesmo com sua pouca experiência na
disciplina, revela ter a concepção de desenvolver uma postura investigativa no futuro
professor. O fragmento da entrevista apresentado a seguir ilustra suas tentativas de fazer
um trabalho mais investigativo com os alunos, embora de forma ainda bastante tímida.
É importante destacar que Adair, a professora orientadora desta orientação. participou
desta entrevista.
118
Adriana Uma curiosidade minha; dentro do segundo semestre que
é a Estatística Aplicada que você dá - Probabilidade - você procura
dar alguns exemplos alguns exercícios da área de educação ou não?
Paulo – A primeira vez que eu dei essa disciplina de Estatística
Aplicada não trabalhei muito com exemplos na área de educação. Na
auto-avaliação que fiz após o curso, achei que não foi satisfatório
pensando na contribuição para formar professores. Na segunda vez
consegui avançar um pouco mais. Trabalhamos com uma pesquisa
que os alunos estavam fazendo na disciplina de Estágio. Eles faziam
uma pesquisa sobre o perfil do aluno, trabalhando com dados
basicamente para aplicação da Estatística Descritiva que ele havia
estudado no primeiro semestre. Em relação à Estatística Inferencial
não houve nenhuma aplicação direta na área assim de educação.
Adair s trabalhamos juntos! [aqui a orientadora está
lembrando de um trabalho em parceria entre os dois].
Paulo É verdade, eu ia mencionar isso. Foi na primeira vez que eu
dei a disciplina. Fizemos um trabalho que envolveu as disciplinas de
Estágio, Tendências e a Estatística. É, realmente! Mas, ali eu até
sentia assim, acho que pela minha pouca experiência eu achei que a
minha contribuição naquele momento talvez pudesse ser melhor, isso
na minha avaliação, na minha auto avaliação.
Adair para a Adriana entender: ele é professor de Estatística e
eu sou de Tendências; então, como a gente ... era uma das coisas que
a gente discutia, era a questão dos currículos atuais, a coisa da
interdisciplinaridade. a Iara sugeriu se a gente não poderia fazer
alguma coisa juntos. Como ele dava Estatística, então o que a gente
combinou: que as aulas de regência deles no estágio seria a das
aulas em cima da Estatística, não é Paulo? Alguns grupos outros não
conseguiram e criaram o projeto. Então eles tinham que criar um
projeto de Estatística para a sala de aula, trazendo as questões
aprendidas em estatística e as questões da interdisciplinaridade,
mostrando como é que a Estatística poderia ser esse elo entre a
Matemática.
Paulo Inclusive até usando a Matemática Crítica como uma
tendência de aplicação na sala de aula.
Esse tipo de abordagem pode contribuir para que os alunos atribuam significados
aos conteúdos trabalhados, principalmente em se tratando de futuros professores, cuja
expectativa no campo profissional é que saibam trabalhar com inovações na sala de
aula, inclusive com o desenvolvimento de projetos interdisciplinares. Se o futuro
professor não vivenciar, em sua formação inicial, situações que lhe sejam significativas,
encontrará dificuldades em oferecer o mesmo a seus alunos o que impedirá que suas
aulas de Matemática se transformem em espaço para aprendizagens, desenvolvimento
119
de autonomia intelectual e busca de soluções para os problemas propostos. Esta é a
forma que propõe Lopes (2006, p. 10):
Para que o ensino da Matemática possa contribuir para uma
formação significativa dos estudantes, ampliando suas possibilidades
no exercício de uma cidadania crítica e suas habilidades para o
desenvolvimento do pensamento científico talvez seja preciso
promover uma apropriação do conhecimento matemático através de
atividades de ensino investigativas, nas quais eles possam responder a
questões pertinentes e solucionar problemas reais e/ou hipotéticos. É
importante que os alunos durante a Educação Básica se defrontem
com problemas variados do mundo real e que tenham possibilidades
de escolher suas próprias estratégias para solucioná-los Acreditamos
que dessa forma, o conhecimento escolar adquira significado e faça
diferença em suas vidas, possibilitando, em particular, que
desenvolvam atitudes positivas em relação à Matemática e Estatística
.
O envolvimento do futuro professor com a pesquisa também foi evidenciado
enfaticamente na fala da formadora Irene:
eu definiria para mim que os cursos de licenciaturas em Matemática
eles não formam o pesquisador. Eles tinham que ter, eu não falaria
menos Matemática, mas eles tinham que ter mais pesquisa em
Educação Matemática e mais pesquisa trabalhando a educação dos
conceitos, que é o mais importante, porque o professor tem que
dominar o conceito. Mas não adianta dominar o conceito se você não
sabe ensinar; então você tem que ver outras teorias que te ajudem a
ensinar, então, por exemplo, mais uma coisa, quando você está
trabalhando Estatística você está passando de números, de dados,
você os arruma em tabelas, você os transforma em gráficos, então
você tem que compreender como se dá essa passagem desses registros
de representação. Então é preciso vocompreender, por exemplo,
uma teoria de Douady para você compreender como se isso. E a
gente não está fazendo isso; s não vamos mudar o ensino e essa
formação dos professores enquanto a pesquisa em Educação
Matemática não der conta disso e enquanto o próprio curso de
licenciatura o se der conta de que o licenciado precisa
compreender isso.
Embora nos depoimentos anteriores desses formadores estivessem implícitas
suas concepções de como os conteúdos de Estatística no curso de licenciatura precisam
se articular com os conteúdos da Educação Básica, destacamos mais alguns desses
depoimentos.
A formadora Irene, por exemplo, destaca o quanto esse saber do conteúdo
específico precisar estar articulado com o saber disciplinar pedagógico:
120
uma coisa é eu ter o conceito de correlação e regressão, outra coisa é
eu conseguir que meu aluno compreenda o conceito e, para que meu
aluno consiga compreender o conceito, eu preciso primeiro
compreender tudo que se passa. Com esse processo de ensino de
aprendizagem eu preciso compreender o conceito em si, o conceito de
variação e de variabilidade, por exemplo. Todo mundo consegue
calcular um desvio padrão, todo mundo consegue fazer uma
variância, mas são poucas as pessoas que compreendem o que que é
variação.
O professor necessita vivenciar experiências diferentes em sua formação para
que se sinta com segurança para a prática docente. Nesse sentido, a formadora Irene
complementa: A gente teve uma preocupação muito grande de que todo o ensino
pegasse os conceitos, mas que esses conceitos fossem contextualizados para poder dar
sentido e para que os professores pudessem replicar isso na escola.
O formador Paulo também revelou sua preocupação com a relação à articulação
entre esses saberes:
Eu sempre tive comigo uma idéia de que inicialmente o professor vai
ensinar aquilo que aprendeu e da forma como aprendeu. E no tema
da Estatística ele vai, certamente, ensinar para o aluno que, por
exemplo: “para se calcular a média soma os números e divide pela
quantidade de valores que você tem”, fica para eles aquela fórmula,
que resulta em um mero certo ou errado, mas a discussão ou o
significado daquele valor, daquele número no contexto em que está se
trabalhando é que vai ficar falho. Isso porque na própria formação
foi assim que o ensinaram. Então, quer dizer, voltando ao
questionamento “se os conteúdos têm contribuído para a produção de
saberes” [referindo à questão formulada pela entrevistadora sobre as
contribuições que os conteúdos que trabalha em sala de aula trazem
para o futuro professor], eu falei que até contribui para a formação
do saber, mas realmente falhas nessa questão de contribuir para o
professor fazer essa transposição didática ou transposição
pedagógica – para a sala de aula.
Essa sua preocupação se fez presente, ainda, quando a orientadora desta pesquisa
fez uma intervenção na entrevista, conforme fragmento a seguir:
Adair Deixa eu fazer duas intervenções: veja você, Paulo: você é
professor formador, você a disciplina de Estatística e você está
na Escola Básica. A gente sabe que quando você é professor de uma
disciplina, você de certa forma tem um domínio maior de conceitos,
porque você estuda muito mais, porque você prepara a aula para ir
lá, as perguntas que os alunos fazem vão fazendo com que você
121
construindo um repertório mais amplo de saberes sobre aquele
conteúdo específico. Então você vivendo tudo isso como professor de
Educação Básica, você sente que a coisa não é tão legal, não é?
Então, imagine o aluno que fez o curso de 120 horas de Estatística e
depois vai para a Escola sica; quer dizer, será que ele até lembra
os conceitos de Estatística? Então, quando se diz assim
“contribuição para o saber a gente teve”, mas será que foi um saber
que ficou mesmo? Ou ele depois vai se apoiar nos livros didáticos? E
a outra intervenção é a seguinte: talvez uma coisa legal que pudesse
fazer, Paulo, é trazer livros didáticos para a sala de aula, fazê-los
olhar como é que a Estocástica está inserida, entrar em contato
com a própria Celi ou Cileda, quais são os livros que elas
consideram ter uma boa abordagem de Estocástica. Vosabe que
tem muito material publicado de educação estatística, literacia
estatística, talvez até trazer essa discussão para a sala de aula.
Paulo Com relação ao que você falou primeiramente, esses
depoimentos que a Adriana trouxe devem refletir muito bem isso.
Fica até aquela questão: será que ele aprendeu o conceito? Porque
até aplicar uma fórmula, até usar, substituir uma letra por um
número não é uma garantia de ter aprendido o conceito. Eu acho que
essa sugestão veio um pouco ao encontro dessa questão com relação
a ementa, porque a gente fica preso na ementa, e essa autonomia que
não temos, buscamos nessas idéias que mencionamos desse trabalho
em conjunto com uma outra disciplina ou buscando esses outros
recursos a partir das experiências dos alunos.
Esse momento da entrevista revela seu potencial quanto a promover momentos
reflexivos no entrevistado. Como afirma Szymanski (2004, p.14), no ato da entrevista
uma grande interação entre entrevistador e entrevistado, o que possibilita a produção
de significados para ambos:
Essas idéias estão de acordo com a concepção de que o significado é
construído na interação. algo que o entrevistador está querendo
conhecer, utilizando-se de um tipo de interação com quem é
entrevistado, possuidor de um conhecimento, mas que irá dispô-lo de
uma forma única, naquele momento, para aquele interlocutor. Muitas
vezes, esse conhecimento nunca foi exposto numa narrativa, nunca foi
tematizado. O movimento reflexivo que a narração exige acaba por
colocar o entrevistado diante de um pensamento organizado de uma
forma inédita até para ele mesmo.
Consideramos que o formador Paulo durante toda a entrevista teve essa postura
reflexiva; as perguntas e as intervenções que lhe foram feitas foram respondidas de
forma bastante reflexiva, como se alguns significados estivessem sendo apropriados
naquele momento, promovendo uma reestruturação de idéias”, mas que não pode ser
122
considerada “como algo definitivo, mas sim como um instantâneo que congela um
momento, mas que traz em seu interior a possibilidade de transformação” (Ibidem, p.
57-58).
Ainda com relação às articulações entre os conteúdos trabalhados no Ensino
Superior e os que devem ser desenvolvidos na Educação Básica, a formadora Clayde
destacou que nem sempre consegue fazê-las:
o semestre de Probabilidade foi na base assim de fórmulas e você
vê que não serve para nada e se foi aquele semestre de Probabilidade
dado como para um curso de matemática de bacharelado, aí não
serve para nada mesmo, a ponte para fazer a ligação do que você
viu na licenciatura e do que você deve fazer em sala de aula não
existe. Isso é bastante complicado. E o professor que está em
exercício é esse professor, na maioria das vezes, aquele que não teve
esse vínculo do que você aprende com o que você deve ensinar.[...]
Tenho também conhecimento da inserção da Estocástica na Escola
Básica, tanto que para isso eu procuro não só municiar os meus
licenciandos como trabalhar com os alunos de Iniciação Científica.
Até o momento, referimo-nos à formação inicial do professor. No entanto, os
entrevistados também fizeram referências à formação continuada.
O formador Paulo, embora não esteja envolvido como formador em projetos
de formação continuada, deu depoimentos do ponto de vista muito mais do professor de
Escola Básica do que de professor de Ensino Superior, como alguém que vive, no
cotidiano do seu trabalho, muitos dos problemas destacados pelos professores que
responderam ao questionário da presente pesquisa: a falta de políticas públicas voltadas
à formação que o professor gostaria de receber.
seria fundamental para o professor que está em exercício, se ele
tivesse tempo de fazer leituras sobre temas que vêm sendo publicadas.
Entretanto, esse livro da Irene M Cazorla e Eurivalda R. S. Santana
que eu mencionei, é um exemplo de publicações que são acessíveis
apenas em encontros e congressos os quais, muitas vezes, o professor
não se dispõe ou não tem oportunidade de participar. Um ponto
fundamental seria esse: o próprio professor sentir a necessidade de
buscar essa complementação. Eu acho que as universidades poderiam
oferecer para esses professores oficinas, encontros (mini-cursos) de 5
ou 10 horas para discutir especificamente a Estocástica. É o tipo de
complementação que eu não acredito como acho possível de ser
123
feito. a briga é outra: fazer esses professores virem até nós ou,
talvez, pensar como nós irmos até eles na própria escola, de repente,
num grupo ou numa região onde agrupem 4 ou 5 escolas. Talvez
irmos ao encontro deles. Isso é uma alternativa de complementação
para esse professor ficar mais a par desses conceitos.
A formadora Irene tem uma atuação mais presente em projetos de formação
continuada:
nós temos feito oficinas e nessas oficinas nós temos feito exatamente
isso. Porque, veja só, ele sabe calcular a média, ele sabe mais ou
menos, se lembra de como calcular a variância, o que ele não sabe é
como fazer para ensinar. Então a gente tem feito essas seqüências, a
gente tem ministrado oficinas exatamente nessa filosofia. Nós
também, além disso, nós temos feito um ciclo de palestras aonde a
gente tem feito leituras, essas leituras dos teóricos para poder
compreender um pouco melhor. Então temos um grupo de trabalho,
somos um grupo de professores trabalhando nisso, então de alguma
forma temos tentado e essas experiências que a gente está tendo, a
gente está tentando registrar, estamos tentando publicar, então
estamos sistematizando para publicação em revistas.
A produção de materiais voltados ao professor da Escola Básica, sem dúvida, é
de extrema importância, pois dentre os professores participantes desta pesquisa, é
importante ressaltar que oito destacaram que vêm se atualizando por meio de leituras e
da própria experiência. Assim, a existência de materiais trabalhados em sala de aula,
com sugestões didático-pedagógicas, é sempre bem-vinda aos professores. No entanto,
ainda é muito pouco, dada a grande dificuldade que os professores têm para trabalhar
com Estocástica e a necessidade de que essa formação não seja apenas passar
“receitas”, mas seja problematizadora, como destacado pela formadora Cileda:
Precisa dar para um professor o ferramental para ele aprender a
adaptar uma situação que ele leu para aquela realidade em sala de
aula dele. O professor está acostumado a receber tudo pronto.
Quando ele vem para a formação, ele quer assim: você vai me ensinar
como dar aula disso? eu sempre respondo: não, vou te ensinar a
pensar para você planejar a sua aula com a sua realidade, com o seu
livro didático que vorecebeu na sua escola, o que você pode fazer
para completar esse livro, o que que falta nele, o que que ele explora.
Mas falta material. [...] exemplo, na minha área de Probabilidade que
foi, a minha área de mestrado e doutorado, embora agora eu esteja
mais com a Estatística, embora eu acredite na Estocástica, mas o furo
é tão grande em tudo, que votem que começar por alguma coisa,
124
não é? Então eu tenho trabalhado mais com a parte básica da
Estatística Descritiva. que na Probabilidade as pesquisas da
Psicologia da Educação mostram, desde a década de 80, que se
você trabalhar com eqüiprobabilidade no começo, você está criando
um obstáculo que esse aluno dali para frente tem uma grande chance
de achar que tudo na vida é eqüiprovável, quando na realidade não é.
Então, quer jogar dado, tá, transforme, em vez de olhar a face que
saiu o dado some os valores, pronto acabou a eqüiprobabilidade,
sabe, tem coisas que você... E é esse tipo de raciocínio que a gente
está querendo levar nas formações, que eu acredito que seja
importante levar na formação. O professor saber perceber essa coisa.
Como indicado no capítulo anterior, pautando-nos em Shaughnessy (1992), a
Estocástica precisa entrar no currículo da formação do professor na forma de situações
de resolução de problemas. Por outro lado, como as pesquisas têm apontado
(FIORENTINI et al, 2002), tomar a prática do professor como ponto de partida e
problematizá-la é o caminho mais viável para garantir a aprendizagem docente, as
mudanças de concepções e de idéias equivocadas. Tal concepção é compartilhada pela
formadora Cileda:
Tem que ser um acompanhamento direto, ele tem que participar de
uma formação, de um grupo de formação, mas não adianta ser aquela
aula que você vem um curso para ele, um atestado, um certificado
de conclusão e vai embora. Ele tem que ser acompanhado em sala de
aula porque as dúvidas mesmo, a insegurança de um professor de
matemática, qual é?
Defendemos que esse tipo de formação é que possibilitará ao professor um outro
olhar para a Estocástica, numa visão mais abrangente, como declarou a formadora
Cileda:
Porque além de convencer os professores que é importante eles
saberem isso, e saberem isso não de uma forma tecnicista, mas olhar
para a Estatística como ciência humana, como algo subjetivo,
passível de interpretação, você tem que convencer também as
políticas públicas. Então tem que existir o trabalho qualitativo, tem,
mas tem que existir o quantitativo que vai guiar políticas públicas,
porque essa incoerência nos programas dados pelo PCN, diretrizes
curriculares que você enxerga, essa incoerência não pode continuar,
isso não é sério, isso não é sério, é não levar a educação das crianças
a sério. E todas as pesquisas têm mostrado que para criança não é
problema aprender Estatística e Probabilidade, não é problema. Elas
125
aprendem, elas interpretam, elas fazem umas análises bonitinhas, o
problema está sendo para o adulto, o problema está sendo no adulto.
A formadora Clayde declarou que sua preocupação tem se centrado na formação
inicial do professor de Matemática e pouco tem acompanhado as discussões sobre
formação docente:
Nós temos na universidade uma coordenadoria especial de
licenciatura que acompanha todas as discussões sobre formação de
professores. E quando se refere à formação de professores de
Matemática, elas são repassadas para nós que trabalhamos nos
cursos de licenciatura em Matemática. Então, meu curso acompanha
estas discussões através dessa coordenadoria, nem sempre nós
acompanhamos diretamente as discussões. Eu acompanho mais as
discussões sobre a questão de como o futuro professor de Matemática
deve ter sua formação de Estatística, até por coordenar o GT 12 e por
participar dessas questões mais diretamente.
Considerando que, dos formadores entrevistados, três estiveram ou estão à
frente do GT12 de Educação Estatística, isso nos leva a crer que muito a ser feito
quanto à formação docente – tanto a inicial quanto a continuada. Os desafios são
grandes e, como destacado anteriormente pela formadora Cileda, se a comunidade de
Educação Matemática não se impuser como associação que subsidia políticas públicas,
não será por reformas curriculares que a Estocástica será inserida na formação do
professor. Talvez seja esse um dos grandes desafios do GT12.
126
7.2. A percepção dos formadores quanto à inserção da Educação Estatística na
Educação Básica
Em momentos anteriores discutimos a inserção da Estatística no currículo de
Matemática na Educação Básica. Partilhamos das idéias, principalmente de Lopes
(2006, p. 10), quando esta defende que tanto o ensino da Matemática quanto o de
Combinatória, Probabilidade e Estatística sejam realizados de forma problematizada e
investigativa.
É importante que os alunos durante a Educação Básica se defrontem
com problemas variados do mundo real e que tenham possibilidades
de escolher suas próprias estratégias para solucioná-los. Acreditamos
que dessa forma, o conhecimento escolar adquira significado e faça
diferença em suas vidas, possibilitando, em particular, que
desenvolvam atitudes positivas em relação à matemática e estatística.
[...] recomendamos que o trabalho com Estocástica, em sala de aula,
deva levar a discussões e reflexões para a solução de uma situação-
problema levantada pela classe ou instigada pelo professor, e que este
deva promover, a todo momento, o debate, mantendo aberto o “canal
de diálogo” com os alunos.
Mas como os formadores percebem essa inserção? Quais as possíveis relações
entre Estatística e Matemática na Educação Básica?
Para o formador Paulo, uma das deficiências no ensino da Estatística, tanto na
graduação quanto na formação continuada, é justamente quanto à interpretação de
resultados, quanto à ausência de discussão sobre interpretações e ao enfoque maior na
obtenção de resultados a partir da aplicação de fórmulas justamente o que acontece
muitas vezes no ensino da Matemática. O duplo papel – de professor formador e
professor da Escola Básica –exercido pelo formador Paulo favorece sua reflexão sobre
como esse processo de inserção vem ocorrendo:
falando como formador e estando em sala de aula, eu acho que falta
um pouco para esses saberes, conteúdos e conceitos vistos na
formação estarem na prática da sala de aula. Eu acredito que seja
pouco, eu não sei se o conteúdo, mas talvez a forma, a maneira como
se apresentam as possibilidades aos alunos de como trabalhar a
Estatística na sala de aula, talvez seja um ponto falho. Porque ele
aprende assim: observa, decora fórmulas, aplica uma fórmula ou
127
outra. Mas transpor esse saber, para um saber pedagógico, eu acho
que isso é uma falha na formação que nós estamos dando.
A linguagem da Matemática deve estar presente na introdução dos conceitos
estatísticos em sala de aula e na aplicação de técnicas para o tratamento da informação
através das variáveis, uma vez que possibilitará aos alunos uma compreensão sobre a
organização de dados estatísticos, o que talvez possa facilitar, no futuro, para o aluno, a
utilização de ferramentas para análise de dados, ou seja, sua capacidade de manipulação
das variáveis. Permitirá, também, um melhor desenvolvimento do pensamento
estatístico, orientando o aluno com relação à utilização dos conhecimentos e atitudes
estatísticas. Segundo a formadora Irene:
não adianta eu ter uma didática da Estatística,
uma didática da Matemática, se eu não compreender que o conhecimento matemático
se forma nas suas linguagens, nas suas representações. Porque uma coisa é eu fazer
uma tabela, outra coisa é eu fazer um gráfico.
Os métodos estatísticos estão diretamente ligados à resolução de problemas e sua
linguagem é trabalhada, de forma inicial, totalmente como quantitativa, ou seja, cada
nível numérico irá se direcionar a determinado atributo, fato esse que facilita ao
professor uma explicação do vínculo e do trânsito com as representações da
Matemática. Para a formadora Irene:
não adianta querer ensinar gráfico de barras se
você não sabe a construção do conceito de número. Não adianta você falar quem tem
mais, qual é o ponto máximo, qual é o ponto mínimo se você não compreende, por
exemplo, as estruturas aditivas.
Constata-se, assim, que tanto para o formador Paulo quanto para a formadora
Irene, a Estatística a ser ensinada na Escola Básica está fortemente relacionada ao
ensino da Matemática.
Entendemos que o ensino da Estatística, por estar ligado a algumas
representações da Matemática, não apenas deva ocorrer de forma diferenciada das
práticas atuais, mas também precisa atender às especificidades da área. O ensino da
Probabilidade, presente na disciplina de Matemática, é separado e desvinculado do
ensino de representações estatísticas (gráficos ou tabelas), por exemplo, o que dificulta
128
o entendimento da interdisciplinaridade e também o entendimento da complementação
que um assunto faz ao outro, de acordo com a formadora Cileda:
Se você começa Probabilidade usando freqüentista mais a clássica,
para fazer a freqüentista ele tem que ter noções de Estatística e de
análise, senão ele não vai saber interpretar. Então as coisas meio que
caminham juntas. Para você fazer uma boa análise você tem que ter
noções de Probabilidade senão você o faz inferência. Eu não vejo
como separar isso.
No entendimento dessa formadora, o ensino de Probabilidade deve contemplar
simultaneamente os dois enfoques: enquanto a Probabilidade clássica trabalha com
fenômenos que, embora sejam aleatórios, têm as suas variáveis – e as relações entre elas
conhecidas, a Probabilidade freqüentista tem seu valor proveniente do processo de
experimentação, ou seja, a partir de repetidos experimentos chegamos ao cálculo das
freqüências de ocorrências.
A formadora Cileda, em sua experiência acadêmica, constatou ainda ser possível
em sala de aula, mesmo em séries do Ensino Fundamental, um trabalho integrando os
dois enfoques:
Então meu mestrado foi isso, o uso do enfoque freqüentista. Quer
dizer, vo banir, entre aspas, a Combinatória do ensino de
Probabilidade para não traumatizar tanto os alunos. Deram
resultados super legais, eu consegui aplicar com alunos de sexta série
as atividades. Foi muito interessante, que algumas dificuldades
eram bastante resistentes e a gente foi notar isso depois do estudo do
doutorado que eu continuei o tema, perceber que freqüentista não
dava conta, votem que trabalhar os dois e articulando-os. Para o
aluno, um valida o outro, então ele faz o cálculo a priori e faz a
estimação experimentalmente e um checa o outro.
No entanto, muitas vezes essa articulação entre as duas áreas do conhecimento
não ocorre pela própria forma como o trabalho de Matemática acontece em sala de aula.
Segundo ela:
Isso para o aluno a gente passa a impressão que a gente não sabe.
Porque se você fala “os dois estão certos”, eles dizem “como que os
dois estão certos, isso é Matemática, como que tem dois resultados
diferentes e os dois estão certos?” [...] “é dúvida do professor”. Que
as diferentes respostas, é porque aquele professor não sabe a matéria.
Porque está dentro de um contexto de aula de Matemática, do tudo
129
exato. O próprio professor, na aula de Matemática o sabe
trabalhar com exercícios de várias respostas.
Como já discutido anteriormente, se a formação do professor – seja a inicial ou a
continuada é deficitária, resta-lhe o apoio nos materiais disponíveis para consulta,
como os PCN e livros didáticos.
Com relação aos conteúdos de Estatística, os PCN são bastante claros quanto à
importância do seu ensino na Educação Básica para uma formação sólida do
pensamento estatístico desde os anos escolares iniciais, assim como é necessária a
apresentação de sua importância, pela possibilidade de resolução de problemas nas mais
diversas áreas do conhecimento. Os PCN inserem a Estatística no bloco de Tratamento
da Informação, constante na disciplina de Matemática. Trabalhar a Estatística desde as
séries iniciais significa concentrar-se no estudo das probabilidades ou mesmo nas
análises combinatórias e nos problemas de contagem, uma vez que se fazem necessárias
a compreensão de informações que são vinculadas a cada minuto e a capacidade de
estabelecer relações entre resultados. É preciso, também, promover o desenvolvimento
de senso crítico no aluno possibilitando-lhe uma análise quantitativa e qualitativa das
situações cotidianas e a capacitação para a tomada de decisão, num trabalho que deve
ser voltado principalmente ao ensino de conceitos, da aplicação e da crítica, e não
somente à aplicação de fórmulas, como acontece no ensino da Matemática onde se
desenvolvem regras de repetição e memorização. A esse respeito a formadora Irene faz
considerações acerca da Estatística presente no PCN:
Porque, veja só: a Estatística não é só como o PCN fala, o PCN fala a
Estatística como meramente tratamento de dados, a Estatística faz
parte do pensamento científico [...] a Estatística na verdade ela é
uma ferramenta, mas é a ferramenta que acompanha o raciocínio da
pesquisa científica.
Porém, isso depende da presença em sala de aula de profissionais devidamente
preparados e capazes de compreender e apresentar aos seus alunos a “chance” de
130
ocorrência não apenas de fenômenos, mas também de resultados e considerações entre
o “sim” e o “não”, utilizando-se para isso do suporte e da contribuição de uma
Matemática que vai além do “verdadeiro ou falso”. Avaliamos que, tal como apontado
pela formadora Cileda, a forma como a temática vem contemplada no documento não
possibilita ao professor a compreensão desses dois enfoques necessários. Fica, assim,
sob responsabilidade do professor essa inter-relação, e a fala do formador Paulo
realmente nos direciona a pensar numa discussão maior sobre os PCN, além de uma
melhor estratégia de implantação desta como forma de colocar o professor num contato
maior com a temática:
Mas eu acho que ainda os PCN, eu não tenho plena certeza ou
convicção de que eles dão conta do que se espera do ensino da
Estocástica, faz muito tempo que eu li e de uns anos para acabei
não revendo mais. Como um ponto de partida pelos menos para saber
o que os documentos esperam de s, é fundamental que a gente leia.
As pesquisas que os grupos, principalmente o que a PUC-SP tem
publicado sobre Estocástica, acho que é um ponto que nós temos, ou
melhor, temos que buscar mais...
Segundo a formadora Clayde, grande importância no fato de trabalhar com os
PCN, principalmente no sentido de orientação, ou seja, para conhecer o que eles
propõem para cada uma das séries. Ela acredita que a palavra “Estocástica” não seja
compreendida pelos professores de Ensino Fundamental e Médio por não ser muito
divulgada na nossa língua e as palavras “Estatística” e “Probabilidade” sejam as mais
utilizadas.
Comento com os meus alunos, até porque os nossos alunos de
licenciatura eles têm algumas disciplinas que o da área
pedagógica onde eles discutem os PCN, eu procuro mostrar na
minha aula que conteúdos eles precisam de Estatística para trabalhar
com os PCN, evidentemente nem sempre eu sei de cor se ele vai
ensinar média na quinta ou na sexta-série, do currículo antigo, então
eu sempre recorro aos PCN para tirar as minhas dúvidas e mesmo
quando o meu aluno pergunta se eu não souber responder na hora eu
vou consultar os meus PCN para isso. Mas tenho também
conhecimento da inserção da Estocástica na Escola Básica, tanto que
para isso eu procuro não municiar os meus licenciandos como
trabalhar com os alunos de Iniciação Científica. Procurando suprir
131
essas deficiências que os professores em exercício têm. Evidentemente
é um trabalho de formiguinha.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais acabam por orientar uma abordagem da
Estatística e Probabilidade dentro da disciplina de Matemática, como se fossem mais
um conteúdo de sala de aula. No entanto, defendemos que ele necessita de uma leitura
crítica por parte do professor. O professor formador precisa estar atento às concepções e
às proposições que norteiam os documentos oficiais na formação dos futuros
professores, ajudando-os a se constituírem em consumidores críticos dos materiais
disponibilizados para uso nas escolas sejam eles resultantes de políticas públicas,
sejam produções de pesquisadores. Essa posição é assumida pela formadora Cileda:
São questões políticas! São questões políticas, o grupo que fez o PCN
não conversa com o grupo que monta as diretrizes curriculares. O
grupo que fez o Fundamental do PCN, não conversa com o grupo que
fez Ensino Médio. É tudo desencontrado. Então você vê aí o tremendo
descuido das próprias políticas educacionais em relação ao que você
ensina. É o que você espera que um aluno saia da escola sabendo. E
você olha para isso está refletido no próprio exame ENEM e
ENADE pega o ENADE de licenciatura. Quantas questões de
Estatística tiveram? Não existiu.
Essas questões políticas, com certeza, interferem na própria formação docente.
Se o ENADE, que é destinado aos cursos de licenciatura, não cobra conteúdos de
Estatística, qual o interesse das instituições de Ensino Superior em colocar essa
disciplina em seu currículo? Como pode, então, haver um currículo nacional que, de
certa forma, acaba sendo obrigatório em decorrência das avaliações externas, se
conteúdos contemplados nesse currículo não são objeto de estudo na formação inicial do
professor?
Resta então, ao professor, buscar os caminhos da formação continuada ou contar
com o apoio de materiais que possam subsidiar sua prática, de forma a dar conta de
formar alunos para o atual contexto.
132
A facilidade oferecida pela informática acentua a necessidade de um ensino
interdisciplinar voltado para a compreensão global e para o entendimento das relações
críticas entre as diferentes disciplinas que compõem o currículo. No caso da Matemática
e a sua relação com o mundo, espera-se que deixe de ser algo isolado, para tornar-se
instrumento e ferramenta fundamental na vida do aluno, futuro cidadão. Constatamos
que muitas vezes esse contato com os conteúdos da Matemática e com os conteúdos de
Estatística acaba ocorrendo através do livro didático.
O enfoque principal que se faz tanto nos livros didáticos como na formação do
professor, quando se trabalha Estatística, é justamente a parte de Probabilidade, que não
tem origem definida, ou seja, ela é a base para a Inferência Estatística, largamente
utilizada pelos pesquisadores para aplicação e validação de testes e, dessa forma,
pertence à Estatística. Por outro lado, ela se apresenta como conteúdo de Matemática
em grande parte da literatura, principalmente quando nos referimos ao Ensino
Fundamental – e, dessa forma, pertence à Matemática.
Mas como os formadores analisam as contribuições que o livro didático traz para
o professor da Educação Básica?
Segundo a formadora Clayde, o livro didático necessitaria ter uma avaliação
mais crítica por parte dos professores usuários:
eu tive possibilidade, sim, de analisar os livros didáticos, afinal
como eu dou aula na licenciatura eu tenho obrigação de ver o livro
didático, que na maioria das vezes é o único material que o professor
que está em exercício usa em sala de aula. Em alguns livros vo
que está melhor delineado que outro e eu não gostaria de citar
autores aqui até por uma questão de ética. Em outros livros você
verifica que existem erros conceituais, como por exemplo, essa
questão de gráfico de colunas onde cada coluna é pintada de uma
cor, ou que não tem espaço entre as colunas. Essa é uma questão que
pode parecer assim muito pequena para a gente trabalhar, mas
quando voanalisa na totalidade não é, porque você vai ver que se
você traça um gráfico de colunas você está trabalhando com variáveis
discretas que precisam ter espaço entre colunas, como a variável
qualitativa, e se você junta todas as colunas você está dando a
idéia de continuidade. Então esse erro, apesar de parecer assim
purismo da parte do professor em dizer olha isso está errado, ele
133
precisa ser discutido com os alunos, porque senão, você acaba
perdendo o sentido do que é uma variável e aí você vê que se você tem
para cada variável o melhor tipo de gráfico a ser feito, ou os
melhores, o aluno precisa entender que não para fazer cada
coluna... pode até ficar muito bonito, esteticamente pode ser mais
bonito, tal, mas é um erro conceitual, então esses erros conceituais
precisam ser minimizados.
Os conteúdos de Estatística presentes na disciplina de Matemática e
apresentados nos livros didáticos tornaram-se um grande desafio, que exige do professor
um maior aprofundamento, principalmente em termos de contextualização, como forma
de motivar os alunos para o aprendizado e a compreensão de algumas ferramentas
estatísticas. A formadora Irene identifica a contextualização nos livros didáticos a partir
de temas recentes, utilizando para isso principalmente os gráficos estatísticos:
O que eu observo é que os autores têm tido muito cuidado. Então você
que cada vez mais eles tentam contextualizar, pegar recortes de
temas da questão em pauta e colocar com gráficos; eles têm tido
um cuidado muito grande nisso. Eu ainda observo alguns erros
conceituais, a gente observa, a gente tem pontuado alguns erros
conceituais e principalmente, por exemplo, quando faz o gráfico de
barras ou colunas: é para uma variável qualitativa e não para uma
variável quantitativa, então o que que acontece, o pessoal junta tudo.
Dessa forma tanto a formadora Irene como a formadora Clayde concordam que
ocorrem alguns erros conceituais e de apresentação nos conteúdos estatísticos dentro
dos livros didáticos, o que certamente compromete o entendimento tanto por parte do
aluno como também por parte do professor. Muitas vezes, este último acaba aprendendo
ou estudando os conteúdos no decorrer das aulas, pela falta de tais complementos em
sua formação.
Entendemos e observamos que grande parte dos autores de livros didáticos não
vem tendo cuidado em suas publicações com relação a erros conceituais, principalmente
no que se refere à apresentação de gráficos estatísticos. necessidade urgente de que
os autores tenham uma atenção maior na produção de suas obras por se tratar de uma
134
ferramenta de trabalho fundamental para o professor que atua nas salas de aula -, pois
ainda hoje erros conceituais chegam às salas de aula através dos livros didáticos.
Segundo a formadora Cileda, o professor acaba levando a sua dificuldade para
os alunos, pois o livro didático não consegue saná-la. Essa formadora, até pela sua
atuação no PNLD, tem uma visão bastante crítica quanto ao livro didático:
Como o nome do bloco de conteúdo é Tratamento da Informação,
qualquer texto que o aluno vai tirar informação do texto eles
interpretam como parte, faz tratamento da informação. Os buracos
que têm na formação, na seqüência do livro são enormes, erros
conceituais, dizer que uma freqüência relativa é a probabilidade é
café pequeno, que são erros cometidos por quase todos os livros.
Então vonão pode dizer assim no livro didático o quê que eu tenho
que fazer, adianta eliminar esse livro? Não. Porque esse erro está
muito difundido. Qual é o trabalho que tem que fazer? É trabalhar
corpo a corpo mesmo, é tentar atingir os autores. [...] os resultados
tem sido assim desanimadores, têm sido desanimadores em termos de
falta de associação, a média existe por si só. Pra que relação com
alguma coisa? A confusão normal de média com moda não tem nada
no livro que leve o aluno a sair dessa confusão porque isso é um
obstáculo epistemológico. Aquilo é muito natural do aluno ter, mas
não tem nada no livro que minimize isso.
Como se não bastassem esses erros e confusões conceituais, a formadora Cileda
aponta ainda a insuficiência de conteúdos ligados à temática, bem como o reducionismo
na abordagem dada a ela:
Então a proporção das questões ligadas ao tratamento de informação
não chega a dez por cento do livro. Tenho tido em torno de seis a sete
por cento. Em torno de seis, sete por cento da composição da
coleção, em termos de proporção. É muito pouco, é muito pouco. A
gente está junto com grandezas e medidas, que também é trabalhado
seis, sete por cento. A proporção é muito pouca e quando tem
então, não tem esse enfoque não tecnicista. É uma coisa mesmo... Se
tem um gráfico para o aluno interpretar ele vai ensinar a fazer a
leitura do gráfico pura e simples, vai ler etiqueta.
necessidade da presença, nos livros didáticos, de uma Estatística que auxilie
na preparação de alunos acerca dessa disciplina em termos de sua interdisciplinaridade,
ou seja, que esse conteúdo não seja tratado somente como uma particularidade dentro da
Matemática, mas que exista uma exploração da sua aplicação e da sua existência dentro
135
das outras disciplinas que compõem a grade curricular. Grande parte dos livros,
conforme citado, apresenta erros conceituais; além disso, os conteúdos relacionados
à Estatística não são expostos de forma didática, limitando-se, na grande maioria das
vezes, a uma exploração da Estatística como aplicação de fórmulas. A disciplina não é
apresentada como uma ciência de vasta e importante aplicação, que não se limita
somente à possibilidade de aplicação de fórmulas de obtenção de um resultado por ele
próprio; que estuda os fenômenos aleatórios presentes no seu dia-a-dia e na sua
realidade; que lhes permite analisar e interpretar dados, gerando e compreendendo suas
respostas. Esse grau de dificuldade, porém, está ainda no nível de formação do
professor que levará essa “boa nova” para as suas salas de aula.
O formador Paulo analisa esse reducionismo:
Eu acho que ensinar Estatística requer ter um bom material para não
ficar preso apenas nas fórmulas e só fazer cálculos de média ou
construir gráficos de barra, por exemplo. Isso faz parte do trabalho
com Estatística, mas a parte que eu acho que falta muito, tanto em
nível de Ensino Fundamental quanto na graduação e na formação é a
parte da interpretação dos valores que se obtêm quando se usa
aquelas fórmulas. Eu me lembro quando eu assumi disciplina de
Estatística pela primeira vez, no meio do semestre, tinha aquelas
fórmulas de calcular a mediana, calcular aquelas separatrizes usadas
pela fórmula e simplesmente fazia o cálculo, chegava num valor
numérico do resultado, mas não envolvia muita discussão quanto à
interpretação daqueles valores (isso é um ponto que eu acho falho).
A formadora Irene traz algumas reflexões sobre os próprios limites do livro
didático:
uma coisa que me chamou atenção no livro didático é o seguinte: o
cara nem fala o que é população, o que é amostra, não define o que é
uma variável quali. [...] Então é o que eu observo nos livros didáticos,
embora eu acho também que os livros o podem dar conta de tudo.
Eu observo exatamente isso, que não essa discussão dos conceitos.
Eu não sei também se podemos cobrar do livro didático que ele faça
isso, eu realmente não sei se podemos cobrar isso, que um livro
didático tenha esse nível de, digamos assim, detalhamento, da
formação dos conceitos. Então eu poderia dizer assim do que eu tenho
observado um cuidado maior dos autores, mas ainda, os livros
didáticos ainda não conseguem dar o real destaque que a Estatística
tem.
136
Talvez pela própria relação existente entre Matemática e Estatística, a formadora
Irene defenda que um estatístico, sem envolvimento com Educação Matemática,
também não daria conta de escrever materiais didáticos para a Educação Básica:
Na verdade então, com isso agora eu percebo que o negócio é muito
mais complexo, porque então ele não consegue fazer direito essa
separação e para nós estatísticos isso é uma questão sica. Você vai
definir quais são os procedimentos, os gráficos, as medidas, segundo
a natureza do dado. Então a primeira coisa que a gente tem que saber
se é uma variável quantitativa ou qualitativa e aí vem um outro
conceito, por exemplo, que é o de variável, que é um conceito
extremamente complexo e que cada um chama de um jeito ou de
outro, não é? [...] eu estou aprendendo, eu estou lendo a teoria do
Piaget da formação do conceito de números. Foi a melhor coisa que
eu fiz vindo para cá, vindo para São Paulo. Porque veja só: você tem
as grandezas, você tem as medidas e depois você tem as variáveis e eu
não vejo esse cuidado que se tem. Porque o tempo todo você está, e eu
preciso saber o que que é uma variável, porque para um estatístico a
variável é tudo, é um conceito básico, chave. para um matemático
é um coisa, ora é um número, aí se você for para um equação, se você
chama de variável o que é incógnita, você não sabe mais se é
incógnita, se é variável, você não sabe se é x e vonão sabe se
esse x é da multiplicação. E então você percebe como é importante
você ter uma visão muito mais global. Então eu vejo assim, se vo
deixasse para o estatístico puro tentar, ele então dizer como que
podemos ensinar na Educação Básica, vai ser um terror. Porque ele
tem que conhecer tudo isso aqui primeiro para poder fazer o gancho,
para poder você ajudar ao professor a ensinar esses conceitos.
O grande obstáculo é que os conteúdos acabam se desviando de seu principal
objetivo, ou seja, ao invés de uma aprendizagem realmente significativa para o aluno,
conduzem a uma aprendizagem de aplicação de fórmulas apresentadas nos livros
através de exercícios propostos e de fixação; apresentam noções de Estatística nos
mesmos moldes do ensino da Matemática praticado em muitas escolas atualmente, o
que leva a prática docente a distanciar-se cada vez mais de um ensino capaz de formar
cidadãos ativos e críticos.
Nesse sentido, acreditamos que o GT12 de Educação Estatística da SBEM tem
um grande desafio pela frente: como interferir em documentos curriculares e em
projetos de formação inicial e continuada, bem como na produção de materiais para o
137
professor da Escola Básica. A esse respeito, tanto a formadora Cileda quanto Irene, pela
própria atuação no GT12, trazem essas preocupações. A primeira destaca:
Nós temos muitos planos, nós vamos, por exemplo, pelo GT e aqui
pela PUC, nós vamos fazer oficinas no segundo semestre todo de
softwares estatísticos, para ver se a gente dá uma alavancada na
pesquisa quantitativa. Começar a confirmar esses trabalhos que tem
sido feitos na quali. Com enfoque sempre assim: será que isso dá para
fazer alguma coisa, tem alguma atividade que para sair daí que dá
para eu trabalhar na Escola Básica?
A formadora Irene, até pelo fato de estar na atual coordenação do GT, também
sinaliza algumas propostas:
Então você percebe que ainda não estamos preparados para que o
nosso aprendiz aprenda o conceito, são desafios que acho que o jeito
é o GT 12 vai ter que pensar melhor, a organizar melhor. Eu acho que
está crescendo muito porque é uma coisa que está na moda,
Estatística está na moda.[...] tem pouco, ainda tem pouco. Porque na
verdade é muito mais fácil, por exemplo, você viu que tem trabalhos
no Ensino Superior, é muito mais fácil você trabalhar com quem
tem teoricamente uma estrutura completamente desenvolvida, porque
você não tem esses problemas que você vai enfrentar aqui, e mesmo
assim você tem, ainda tem, mas de qualquer maneira a pesquisa no
Ensino Superior é muito mais tranqüila do que na Educação Básica e
na Educação Infantil é mais complexa ainda.
Embora essas iniciativas ainda sejam modestas, diante do contingente de
professores do país, sem dúvida, elas representam o início de um trabalho consistente e
sistemático.
138
7.3. Em busca de uma síntese
O desenvolvimento da capacidade crítica de compreensão estatística dos alunos
é facilitado pela orientação dos professores e, para isso, é necessário que estes, em sala
de aula, tenham plena consciência da importância, em particular, dos conteúdos de
Estatística nessa formação crítica do aluno e de sua capacidade de lidar com incertezas e
aproximações. Além disso, é fundamental que o professor tenha um repertório de
saberes docentes disciplinares, pedagógicos da disciplina e curriculares para trabalhar os
principais conceitos ligados à Probabilidade e à Estatística.
Entretanto, a análise do presente capítulo revelou que a situação ainda é ideal,
pois raramente vem acontecendo em sala de aula, devido, principalmente, às defasagens
da formação docente e ao fato de o professor ter como principal referência o livro
didático, o qual ainda traz muitas lacunas.
A valorização do ensino de Estatística e o diálogo com a Matemática parecem
ainda não ocorrer na nossa realidade escolar e nos cursos de formação de professores,
em que os mesmos chegam ao final da licenciatura, na grande maioria das vezes, sem
condições para trabalhar a Estatística em sala de aula.
O ensino da Estatística, nos cursos de licenciatura, fica atrelado ao formador,
que muitas vezes tem dificuldade em lidar com esses conteúdos que devem estar
presentes na licenciatura e no bacharelado; a Estatística apresentada na licenciatura
muitas vezes não é capaz de dar subsídios aos professores para atuar nas salas de aula,
exigindo que busquem em cursos de formação continuada a capacitação para
desenvolver os conteúdos da Estatística em sala de aula. No entanto, como declararam
os professores que responderam ao questionário, os cursos de formação continuada
raramente têm abordado a Estocástica.
139
Os conteúdos de Estatística, desenvolvidos nos cursos de licenciatura a partir das
ementas pensadas, muitas vezes, para todos os cursos de graduação —, não
contemplam o movimento do pensamento crítico e o desenvolvimento da pesquisa ou da
investigação, tornando o aprendizado estanque e não transformador, ao contrário do que
se desejava. Acrescente-se a isso o fato de o professor formador não ter autonomia para
alterar essa ementa. Assim, o curso a ser ministrado na licenciatura fica à mercê do
professor formador que, por sua vez, depende da ementa anteriormente determinada. No
caso da presente pesquisa, envolvemos formadores privilegiados em termos de pesquisa
e participação na comunidade acadêmica. No entanto, sabemos que essa o é a
realidade brasileira, principalmente no Estado de São Paulo, em que a maioria dos
professores é formada em instituições privadas, com professores contratados para
ministrar aulas, sem vínculo com a pesquisa. Mesmo nas universidades públicas, em
que os docentes estão vinculados à pesquisa, entendemos que o futuro professor não se
deva envolver em qualquer pesquisa, mas somente naquelas que poderão contribuir para
que ele promova o desenvolvimento do pensamento estatístico no seu aluno, tal como
foi apontado no capítulo 2, nas concepções de Lopes (1998; 1999; 2002; 2005; 2006),
de Shaughnessy (1992) e de Gal e Garfield (1997).
O material à disposição em sala de aula para que o professor do Ensino
Fundamental e Médio possa trabalhar os conteúdos de Estatística, na maioria das vezes,
restringe-se ao livro didático de Matemática, que contempla em seu interior alguns
tópicos para desenvolvimento de tal disciplina. De acordo com os formadores que
participaram de nossa pesquisa, existem erros conceituais em tais livros, além de uma
abordagem reduzida do assunto. Como pode, então, aquele professor que atua em sala
de aula constituir uma prática pedagógica ou mesmo definir uma possibilidade de
atuação junto aos alunos, se o material ao qual ele tem acesso não apresenta
140
informações corretas? Fica também à mercê do professor do Ensino Fundamental inserir
ou não a Estocástica na sua prática, bem como escolher a abordagem que dará à mesma.
Nesse sentido, pelas respostas obtidas nos questionários, constatamos que alguns
professores buscam tal inserção.
Assim, confirma-se a nossa hipótese inicial de que “a formação que o professor
de Matemática vem recebendo tanto a inicial quanto a continuada –, no que tange ao
campo da Estocástica, não tem sido adequada no sentido de contribuir para que ele
trabalhe com os conteúdos que, atualmente, são exigidos pelos atuais currículos de
Educação Básica; provavelmente, frente a esse despreparo, a Estocástica raramente vem
sendo desenvolvida em salas de aula de a série e, quando isso ocorre, é bastante
provável que seja de forma mais mecânica e não voltada para uma análise mais crítica
dos dados”.
Assim, os pesquisadores do GT 12 da SBEM, de Educação Estatística, têm uma
responsabilidade muito grande, no sentido de que suas pesquisas subsidiem o debate
sobre a inserção dessa temática nos currículos de Matemática; interfiram nos sistema de
avaliação do livro didático; e subsidiem o próprio professor com materiais que possam
contribuir para um trabalho que busque o diálogo necessário entre Educação
Matemática Crítica e Educação Estatística.
141
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta pesquisa propôs-se a investigar a inserção da Educação Estatística na
Educação Básica, a partir da percepção de professores de Matemática e de professores
formadores. Ela foi norteada pelas seguintes questões: “Como os professores da Escola
Básica percebem a inserção da Educação Estatística nos currículos escolares? Como os
professores formadores percebem o ensino de Estocástica na formação do futuro
professor de Matemática?”
Desde o início, pela nossa própria experiência, partimos da hipótese de que o
ensino de Estatística presente nos cursos de Licenciatura em Matemática pouco
contribui para a formação do futuro professor que irá trabalhar com esses conteúdos na
Educação Básica. Ao término deste trabalho, ratificamos nossa convicção de que ainda
há muito por fazer na Educação Estatística.
Com a análise dos questionários pudemos constatar que, mesmo a maioria dos
professores tendo sido formada após a publicação dos PCN e a inserção da Estocástica
no bloco Tratamento da Informação, a formação recebida não contribuiu para a
constituição de um repertório de saberes voltado para o exercício da prática profissional.
A esse dado, devemos acrescentar que, do universo de 30 professores
respondentes do questionário, 23 formaram-se em instituições privadas e, como foi
discutido no capítulo 4, o formador da instituição privada nem sempre tem a formação
específica para ministrar o curso de Estatística. Acrescente-se a isso o fato de que não
diferença entre os conteúdos de Estocástica e a abordagem dada a eles na
licenciatura, por um lado, e, por outro, nos demais cursos; a própria entrevista com o
formador Paulo revelou tal fato.
142
Essa análise mostrou também que na formação desses professores houve uma
fragmentação entre Estatística Descritiva e Probabilidade; ou seja, pouco mudou a
forma como os cursos de formação do futuro professor vêm sendo ministrados, se
comparada com a de outras épocas mais remotas a entrevista com os formadores
reforça essa fragmentação das disciplinas na licenciatura.
No entanto, constatamos ainda que, mesmo sem ter recebido a formação
necessária, 23 dos professores participantes da pesquisa vêm tentando inserir a
Estatística em suas aulas de Matemática. Para isso, buscam cursos de formação
continuada, materiais em revistas e livros ou apóiam-se nos livros didáticos. Desta
forma, acreditamos que atingimos o nosso segundo objetivo da pesquisa, que visava
analisar alguns indícios de inserção da Educação Estatística na sala de aula da Educação
Básica. No entanto, como não tivemos acesso às aulas desses professores, nada
podemos afirmar sobre a abordagem que vem sendo dada a esses conteúdos.
Entendemos que esta pesquisa ainda deixa em aberto a questão da abordagem
dada à Educação Estatística por esses professores. Como destacamos no capítulo 6, o
fato de alguns desses professores lançarem mão de recursos como livros paradidáticos e
o uso de jornais e revistas na sala de aula pode ser um indício de que existam tentativas
de um ensino mais crítico. Mas isso requer um estudo mais focalizado nessa
perspectiva.
Julgamos, assim, que atingimos parcialmente nosso primeiro objetivo da
pesquisa, que visava analisar as percepções que os professores da Escola Básica têm
sobre a inserção da Educação Estatística no currículo.
Podemos, então, inferir para a nossa primeira questão de investigação que os
professores, mesmo sem a formação adequada, buscam inserir em suas salas de aula os
143
conteúdos prescritos nos documentos curriculares. Nenhum deles se colocou contrário a
essa inserção nem questionou sua necessidade no atual contexto.
Hoje as palavras Estatística e Probabilidade são comumente encontradas nos
meios de comunicação; não mais como ignorar a sua importância e a necessidade de
intensificar e enriquecer o ensino desde as bases com tais assuntos. Mas quais
procedimentos metodológicos seriam os mais indicados para que os professores em
formação pudessem desenvolver o pensamento estatístico e ter condições de aplicar
uma educação estatística em sala de aula?
O estudo da Estocástica contempla todo um vasto aparato — formado por
atalhos e fórmulas complexas para obtenção de medidas, estruturas e gráficos que
contribui para dotar aquele que detém tal conhecimento de uma maior gama de linhas de
argumentação ou, até mesmo, de certa facilidade e desenvoltura na formulação ou na
estruturação de críticas.
Dessa forma, a Estocástica transforma-se em ferramenta facilitadora e
enriquecedora da educação para a sociedade atual, proporcionando maior facilidade na
utilização e na combinação de métodos e técnicas para resolver problemas diários e
profissionais nas mais diversas e variadas áreas. Vista dessa forma, ela torna possível a
qualquer pessoa fazer diferentes leituras e interpretações da realidade que a cerca. A
possibilidade de análise e o desenvolvimento do raciocínio são muito importantes e
devem estar presentes na Educação Básica.
Analisamos os Parâmetros Curriculares, em particular o bloco Tratamento da
Informação e pudemos observar que este documento deixa clara a importância de
formar um expert em técnicas, deixando distante a importância da formação para a
transformação, possibilitando compreensão, senso crítico e conseqüentemente a
mudança. um destaque nos PCN com relação à importância do ensino da Estatística
144
e da Probabilidade - em particular de a série –; entretanto, os professores
responsáveis pela transmissão desses conteúdos não estão preparados para essa
responsabilidade, pois desconhecem a forma como ensinar tais conteúdos. Quando os
professores não receberam a formação adequada e precisam inserir os conteúdos de
Estocástica em sala de aula, muitas vezes têm — como já apontamos anteriormente — o
livro didático como o principal ponto de apoio.
Nesse sentido, a entrevista com os professores formadores reforçou a
necessidade de um maior cuidado na avaliação dos conteúdos de Estocástica nos livros
didáticos. Se estes se constituem em ferramenta essencial ao trabalho do professor,
precisam estar isentos de erros conceituais e contribuir para a formação do pensamento
estatístico dos alunos.
No que diz respeito aos professores formadores, esta pesquisa privilegiou
pesquisadores de destaque no cenário da Educação Estatística e que vêm se constituindo
em referência nesse campo do conhecimento quer pelas publicações, quer pela
atuação no GT 12 de Educação Estatística da SBEM. O próprio formador Paulo destaca
as contribuições que tem recebido dessas pesquisadoras pelas suas publicações ou por
minicursos que m ofertado em eventos de Educação Matemática. Nesse sentido, as
entrevistas concedidas foram bastante contributivas para a compreensão da constituição
dessa comunidade de pesquisadores em Educação Estatística; da forma como percebem
a formação do pensamento estatístico; e de suas contribuições para a formação de um
cidadão crítico.
Ficou evidente também nas entrevistas das três formadoras atuantes no GT12, o
quanto são comprometidas com a disciplina nos cursos de graduação ou pós-graduação
em que atuam. Provavelmente, em decorrência de suas pesquisas, conseguem trazer
para a prática profissional as concepções e as abordagens discutidas no campo da
145
Educação Estatística de forma mais próxima de uma Educação Matemática Crítica ou
ainda pautada na racionalidade técnica. Essas concepções ainda coexistem na formação
docente.
Precisamos que a comunidade acadêmica intensifique a divulgação de trabalhos
e experiências na área de Educação Estatística e que uma discussão mais aprofundada
seja lançada.
Talvez uma reformulação na ementa das instituições de Ensino Superior,
intensificando-se a utilização da tecnologia, direcione para um melhor preparo na
formação do futuro professor que será responsável pela Educação Estatística do aluno.
Some-se a necessidade de elaborar ementas as quais sejam realmente cumpridas
preocupadas com as práticas pedagógicas e também com abordagens mais significativas
de ensino, através das quais os conceitos estatísticos sejam trabalhados de forma mais
articulada e mais próxima do mundo em que vive o aluno. Que o aluno descubra que a
Estatística, na verdade, pode fazer parte da sua vida.
Desta forma, entendemos que respondemos também nossa segunda questão de
investigação. Assim como os professores da Escola Básica, também os formadores
defendem a inserção da Estocástica na Educação Básica e na formação do professor
e essa inserção não pode ser descuidada. Ficou implícito também em suas falas o quanto
se faz necessário manter o diálogo entre Estatística, Educação Matemática e Educação
Matemática Crítica.
Em razão do pouco tempo de existência não apenas do GT12, mas até mesmo da
comunidade de pesquisadores nesse campo, muita pesquisa ainda espor fazer. Assim,
ao término deste trabalho, questionamo-nos:
146
Se na nossa região, com todas as suas instituições privilegiadas, deparamo-nos
com essa problemática, como estará então o ensino de Estatística no país como
um todo?
Como os professores vêm abordando a Estatística na sala de aula?
Os sistemas de avaliações externas (SAEB, ENEM. Saresp) têm cobrado
questões de Estatística em suas provas? E, se têm, como os alunos da Educação
Básica vêm se saindo nas questões sobre Estatística e Probabilidade presentes
nas provas externas?
No que se refere às contribuições desta pesquisa para nossa formação como
pesquisadora - e como profissional formada em Estatística e que atua como professora
- os resultados possibilitaram reflexões enriquecedoras. A princípio olhamos de forma
pessimista quando notamos o volume de trabalho e de modificações que se fazem
necessários; porém, em seguida, sentimo-nos na obrigação de contribuir com a melhoria
do ensino da Estatística. Nesse sentido, pensamos que, de alguma forma, um primeiro
passo seja auxiliar os nossos colegas que atuam nas séries iniciais. Dessa forma,
estaremos contribuindo para a formação do professor, pois esse é o ponto onde tudo
começa.
147
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
APM: ASSOCIAÇÃO DE PROFESSORES DE MATEMÁTICA; IE: INSTITUTO DE
INOVAÇÃO EDUCACIONAL. Normas para o currículo e avaliação em
matemática escolar. Tradução Portuguesa dos Standards do Nacional Council of
Teachers of Mathematics. Portugal, 1991.
BATANERO, Carmen. Didáctica de la Probabilidad y Estadística. Granada:
Departamento de Didáctica de la Matemática,1999.
BATANERO, Carmen. Veinte años de conferencias internacionales de educación
estadística. 27 CONGRESO NACIONAL DE ESTADÍSTICA E INVESTIGACIÓN
OPERATIVA. Lleida, 2003
BOGDAN, Robert C. & BIKLEN, Sari K. Investigação qualitativa em Educação.
Porto: Porto Editora, 1994.
BORBA M.; PENTEADO, M.G. Pesquisa em Informática e Educação Matematica.
Educação em Revista. Belo Horizonte, UFMG, n. 36, 2002, p. 239-251.
BORGES,
Cecília. Saberes docentes: diferentes tipologias e classificações de um campo
de pesquisa. Educação & Sociedade, v. 22, n. 74, Campinas, abr. 2001. Disponível em:
<http://www.scielo.br>. Acesso em 28 de agosto de 2007.
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio. Brasília: Ministério da
Educação (MEC)/ Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC, 1998.
________. Parecer CNE/CES 1.302/2001. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares
Nacionais para os Cursos de Matemática, Bacharelado e Licenciatura.
CARVALHO, João Bosco Pitombeira. As propostas curriculares de Matemática. In:
BARRETO, E.S.S. (Org). Os currículos do ensino fundamental para as escolas
brasileiras. Campinas/SP: Autores Associados; São Prof. Carlos: Fundação Carlos
Chagas, 2000.
CARVALHO, Dione L. de. O ensino de Estatística na Educação de Jovens e Adultos e
o resgate da identidade do migrante. Caracas, Colômbia: II CIBEM (CONGRESSO
IBEROAMERICANO DE EDUCAÇÃO MATEMÁTICA),1998.
CAZORLA, Irene Maurício; SANTANA, Eurivalda R. dos Santos. Tratamento da
informação para o ensino fundamental e médio. Itabuna: Via Literarum, 2006.
COUTINHO, Cileda de Queiroz e Silva. Introdução ao conceito de probabilidade:
uma visão freqüentista: estudo epistemológico e didático. São Paulo: EDUC, 1996.
FIORENTINI, Dario. Alguns modos de ver e conceber o ensino da Matemática.
Zetetiké, v. 3, n. 4, p. 1-37. FE/Unicamp/Cempem, 1995.
FIORENTINI D.; NACARATO, A.M.; FERREIRA, A.C.; LOPES, C.S. ; FREITAS,
M.T.M.; MISKULIN, R.G.S.. Formação de professores que ensinam Matemática: um
balanço de 25 anos da pesquisa brasileira. Educação em Revista. Belo Horizonte,
UFMG, n. 36, 2002, p. 137-160.
FIORENTINI, Dario; LORENZATO, Sérgio. Investigação em educação matemática:
percursos teóricos e metodológicos. Campinas, SP: Autores Associados, 2006.
FONSECA, Maria da Conceição F.R. A educação matemática e a ampliação das
demandas de leitura e escrita da população brasileira. In FONSECA, Maria da
148
Conceição F.R. (org.) Letramento no Brasil: habilidades matemáticas. São Paulo:
Global: Ação Educativa Assessoria, Pesquisa e Informação: Instituto Paulo
Montenegro, 2004, p. 11-28.
GAL, I. & GARFIELD, J.B. The assessment Challenge in Statistics Education.
Netherland: IOS Press, 1997.
GAUTHIER, C. et al. Por uma teoria da Pedagogia: pesquisas contemporâneas sobre
o saber docente. Trad. Francisco Pereira. Ijuí: Unijuí, 1998.
GIMENO SACRISTÁN, José. O significado e a função da educação na sociedade e na
cultura globalizada. In GARCIA, Regina Leite; MOREIRA, Antonio Flavio B.
Currículo na contemporaneidade: incertezas e desafios. São Prof. Carlos: Cortez,
2003, p. 41-80.
GOLDENBERG, Miriam. A arte de pesquisar. Como fazer pesquisa qualitativa em
Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1997.
HARGREAVES, A. Teaching as a Paradoxical Profession. In: ICET - 46
TH
WORLD
ASSEMBLY: TEACHER EDUCATION (CD-ROM). Santiago – Chile, 2001, 22p.
INAF 4. 4o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional. Instituto Paulo
Montenegro e Ação Educativa. São Paulo: 2004. Disponível em
<http://www.acaoeducativa.org.br>. Acesso em 23 de julho de 2007.
LOPES, Celi A. E. A probabilidade e a Estatística no ensino fundamental: uma
análise curricular. 1998. Dissertação (Mestrado em Educação: Educação Matemática).
Campinas, SP: FE/UNICAMP. 1998.
LOPES, Celi A. E. A probabilidade e a estatística no currículo de matemática do ensino
fundamental brasileiro. CONFERÊNCIA INTERNACIONAL: EXPERIÊNCIAS E
PERSPECTIVAS DO ENSINO DA ESTATÍSTICA Desafios para o século XXI
(Anais). Florianópolis, 1999, p. 167-174.
LOPES, Celi A. E. O conhecimento profissional dos professores e suas relações com
Estatística e probabilidade na educação infantil. 2003. 281p. Tese (Doutorado em
Educação: Educação Matemática). Campinas, SP: FE/UNICAMP. 2003.
LOPES, Celi A. E. Literacia Estatística e INAF 2002. In FONSECA, Maria da
Conceição Ferreira Reis (org.) Letramento no Brasil: habilidades matemáticas:
reflexões a partir do INAF 2002. São Prof. Carlos: Global: Instituto Prof. Carlos
Montenegro, 2004, p. 187-197.
LOPES, Celi A. E.; CARVALHO, Carolina. Literacia Estatística na Educação Básica.
In NACARATO, Adair M.; LOPES, Celi A. E. Escritas e leituras na educação
matemática. Belo Horizonte: Autêntica, 2005, p. 77-92.
LOPES, Celi A. E. Educação Matemática e Educação Estatística: intersecções na
produção científica. In: ARAÚJO JR., C.F; AMARAL, L. H.. (Org.). Ensino de Ciências e
Matemática: Tópicos em Ensino e Pesquisa. São Paulo: ANDROSS, 2006, v. , p. 177-196.
LÜDKE, Menga; ANDRÉ, Marli E.D. A. Pesquisa em educação: abordagens
qualitativas. São Prof. Carlos:EPU, 1986.
MOREIRA, Plínio C.; DAVID, Maria Manuela. A formação matemática do
professor: licenciatura e prática docente escolar. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
149
NUNES, Célia M.Fernandes. Saberes docentes e formação de professores: um breve
panorama da pesquisa brasileira. Educação & Sociedade, v. 22, n. 74, Campinas, abr.
2001. Disponível em: <http://www.scielo.br
>. Acesso em 28 de agosto de 2007.
POLETTINI, Altair F. F. História de vida relacionada ao ensino da Matemática no
estudo dos processos de mudança e desenvolvimento de professores. Zetetiké.
Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação. Campinas, SP:
CEMPEM, vol. 4, no. 5, 1996, p. 29 –48.
SHAUGHNESSY, J. Michael. Research in probability and statistics: reflections and
directions. In GROUWS, D.A. (ed.). Handbook of Research on Mathematics
Teaching and Learning. USA: NCTM, 1992, p. 465-494.
SHULMAN, Lee. Those who understand: the knowledge growths in teaching.
Educational Researcher, fev. 1986, p. 4-14.
SKOVSMOSE, Ole. Educação Matemática Crítica: a questão da democracia.
Campinas/SP: Papirus, 2001.
SKOVSMOSE, Ole. Guetorização e globalização: um desafio para a Educação
Matemática. Zetetiké. Cempem/FE/Unicamp, v.13, n.24, jul./dez.2005, p. 113-142.
SNEE , R. D. (1993), What's Missing in Statistical Education? The American
Statistician, 47, 149-154. Disponível em <www.amstat.org>. Acesso em julho de 2007.
SZYMANSKI, Heloisa. Entrevista reflexiva: um olhar psicológico sobre a entrevista em
pesquisa. In SZYMANSKI, Heloisa (Org.). A entrevista em pesquisa em Educação: a
prática reflexiva. Brasília: Liber Livro Editora, 2004. p. 9-61. (Série Pesquisa em
Educação).
TARDIF, Maurice; LESSARD, C. e LAHAYE, L. Os professores face ao saber: esboço
de uma problemática do saber docente. Revista Teoria e Educação, Porto Alegre, n º 4,
1991, p. 215-233.
VENDRAMINI, Claudette M. Medeiros. Contribuições da Educação Estatística para a
Educação Matemática. In BRITO, Márcia Regina Ferreira de. Solução de problemas e
a Matemática escolar. Campinas/SP. Editora Alínea, 2006, p. 237-252.
ZABALZA, Miguel A. O ensino universitário: seu cenário e seus protagonistas.
Miguel A. Zabalza; trad. Ernani Rosa. Porto Alegre: Artmed, 2004.
150
ANEXOS
151
ANEXO 1
QUESTIONÁRIO
Prezado(a) professor(a):
Este questionário está sendo aplicado a professores de Matemática, como parte da coleta de
dados de uma pesquisa desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em
Educação, Universidade São Francisco (Itatiba/SP), intitulada “Estocástica na formação e na
prática pedagógica dos professores de Matemática”. Tal pesquisa tem interesse em investigar
como o professor vem lidando com a inserção da Estatística e da Probabilidade (Estocástica) na
Escola Básica. Ressaltamos que o anonimato será garantido. Agradecemos desde já a sua
colaboração.
Adriana Costa
I. Caracterização pessoal e profissional:
1. Idade:____________
2. Cidade onde reside: _______________________________________________
3. Curso de Gradução:
( ) Licenciatura Curta em Matemática ( ) Licenciatura Plena em Matemática
( ) Licenciatura em Ciências ( ) Outro: ______________________
4. Instituição onde fez a graduação: _________________________________________
Cidade / Estado: ___________________________________________________________
Ano de Conclusão:_____________
5. Possui outro curso superior: ( ) Sim ( ) Não
Modalidade:
( ) Graduação – Especificar (nome do curso, instituição e ano de conclusão):
_________________________________________________________________________
( ) Pós-Graduação – Especificar (nome do curso, instituição e ano de conclusão):
_________________________________________________________________________
6. Formas que vem buscando para se atualizar profissionalmente:
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
7. Tempo de atuação profissional (Magistério): ____________________________________
8. Tipo de escola em que atua:
( ) Pública Estadual. Cidade / Estado: __________________________________________
( ) Pública Municipal. Cidade / Estado: _________________________________________
( ) Particular. Cidade / Estado: ________________________________________________
9. Nível de ensino em que atua (especificar séries em que atua):
( ) Ensino Fundamental (5ª a 8ª série) ______ ( ) Ensino Médio _____________
( ) Ensino Médio / Técnico ________ ( ) Educação de Jovens e Adultos (EJA)
( ) Ensino Superior. Curso: _______________________________________________
152
II. Formação estatística
1. Você teve Estatística e Probabilidade em seu curso de Graduação? Que lembranças você tem
dessa disciplina (quantos semestres, conteúdos trabalhados, abordagens)?
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
2. Nas suas experiências de formação continuada (cursos, projetos de formação....), como vem
obtendo sua formação para ensinar Estatística e Probabilidade na Educação Básica?
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
3. Você se sente preparado para trabalhar com esses conteúdos? Comente
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
III. Prática pedagógica em Estatística:
1. Você tem trabalhado com conteúdos de Estatística e Probabilidade em suas salas de aula?
Comente de que forma o faz (utiliza apenas o que está no livro didático, cria suas próprias
atividades, pesquisa em materiais disponíveis no mercado —quais ?, etc).
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
2. Se você trabalha, encontra dificuldades para explorar esse assunto com os alunos? Comente.
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
3. Se você não trabalha, o que considera que lhe falta para incorporar esses conteúdos em seu
programa em sala de aula?
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
Você aceita continuar participando desta pesquisa, concedendo-me uma entrevista? __________
Em caso afirmativo, deixe seus dados para contato (nome, telefone e e-mail).
NOME: .............................................................................. TELEFONE: (....).............................
E-MAIL:.........
153
ANEXO 2
ENTREVISTA - FORMADORES
1. Comente sobre a sua formação
a. Qual é a sua formação?
b. Onde concluiu o seu curso superior?
c. Quando concluiu o curso superior?
2. Fale sobre a sua atuação profissional
a. Há quanto tempo atua como professor? E no Ensino Superior?
b. Há quanto tempo ministra cursos de Estatística? E na Licenciatura em
Matemática?
3. Você já ouviu falar em Estocástica? Você trabalha nessa perspectiva na licenciatura?
a. Qual o conteúdo de Estocástica que normalmente você trabalha no curso de
licenciatura?
b. O que você toma como referência para ensinar os conteúdos específicos de
Estocástica?
c. Você acredita que os conteúdos de Estocástica/Estatística trabalhados nas suas
salas de aula contribuem para a produção de saberes dos futuros professores?
d. De que tipo de complementação você acredita que o professor em exercício
necessite?
e. Como é a ementa do curso que você ministra? Essa ementa foi elaborada por
você? Você tem autonomia para modificá-la?
4. Você acompanha as discussões nacionais sobre formação de professores? Seu curso
acompanha tais discussões?
a. Você tem conhecimento dos PCN e da inserção da Estocástica na Escola Básica?
b. Você já teve possibilidade de analisar a inserção dos conteúdos de
Estocástica/Estatística nos livros didáticos? Como você a vê?
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo