A educação do futuro, cuja construção é uma tarefa que se inicia no presente, deverá estar
consciente da possibilidade do erro nos processos do conhecimento e trabalhar para a elaboração
de saberes capazes da crítica e da autocrítica, abertos, reflexivos e auto-reflexivos, eis o antídoto
que permitirá a detecção e correção dos erros e das ilusões do conhecimento, que possibilitará a
busca da verdade, em toda a sua complexidade, nos libertando do ceticismo imobilizador, e que
nos ensinará a conviver com as idéias e não ser por elas possuídos. A educação do futuro nos
preparará para enfrentarmos as incertezas e as cegueiras do conhecimento.
2. Os princípios do conhecimento pertinente. Em face da imensa massa de informações que nos
chega pelos mais diversos canais de comunicação neste mundo globalizado, como sermos capazes
de discernir quais são os problemas-chave, as informações-chave, os conceitos-mestres para que o
conhecimento seja pertinente, ou seja, capaz de promover uma relação dialógica entre o particular
e o geral, a parte e o todo? Hoje somos portadores e reprodutores de saberes desunidos e
compartimentadores, fragmentados e fragmentadores, divididos e divisores que obedecem a um
paradigma disjuntor e excludente que determina uma dupla visão do mundo falsamente antagônica
em todos os seus aspectos: sujeito/objeto, corpo/alma, matéria/espírito, quantidade/qualidade,
finalidade/causalidade, certeza/incerteza; razão/ilusão, determinismo/liberdade, real/imaginário,
neguentropia/entropia, história/mito, racional/fé, profano/religioso, forma/substância,
permanência/mudança, contínuo/descontínuo, sintético/analítico, analógico/digital,
prosaico/poético, determinismo/acaso, verdadeiro/falso, concreto/abstrato, unidade/pluralidade,
permanência/essência, autoritarismo/democracia, trabalho/lazer (faber/ludens),
economia/desperdício, consciente/inconsciente, virtude/vício, fato/valor, bem/mal,
particular/público, físico/psicológico, positivo/negativo, humanidade/animalidade,
natureza/cultura, normal/patológico, sapiens/demens, regulado/descomedidos, civilizado/primitivo,
ordem/desordem, ocidente/oriente, objetivo/subjetivo, significado/significante, Thánatos/Eros,
enfim, ciência/filosofia e cultura científica/cultura das humanidades.
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Essas divisões estanques e
não comunicáveis geradas por uma lógica binária - lógica que por sua vez é também gerada por
essas divisões que gera - criam e sedimentam as esquizofrenias que se impõem como marcas da
nossa civilização neste início de século. Contribuem para esse mal-estar coletivo. Mesmo a mais
radical dessas cisões - me refiro a da vida/morte - não é verdadeira. Vivemos morrendo; morremos
vivendo. Neste instante milhões de células estão se degenerando e outras milhares se multiplicando
em nosso invólucro corpóreo. Neste instante, idéias que pareciam absolutas e incontestáveis estão
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Para uma reflexão mais profunda sobre “O grande paradigma (aristotélico e cartesiano) do Ocidente” ver: MORIN,
Edgar. “O pensamento dissimulado (paradigmatologia)” In: O método 4. As idéias. P. 258-295. E uma leitura
instigante sobre a origem do Sapiens-Demens, a primeira das grandes cisões, ver: MORIN, Edgar. “Sapiens-
Demens” In: O enigma do homem. P. 101-118.