Download PDF
ads:
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
A EDUCAÇÃO E O
MUNICÍPIO
SUA NOVA ORGANIZAÇÃO
ads:
PRESIDENTE DA REPUBLICA
Itamar Augusto Cautiero Franco
MINISTRO DE ESTADO DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO
Murílio de Avellar Hingel
SECRETÁRIO EXECUTIVO INTERINO
Rodolfo Joaquim Pinto da Luz
SECRETÁRIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL
Maria Aglaê de Medeiros Machado
COMITÊ TÉCNICO DE PUBLICAÇÕES
Célio da Cunha, José Parente Filho, Helena Maria Sandoval de Miranda,
Walter Garcia.
APOIO TÉCNICO EDITORIAL - DPE - CODEF
Nabiha Gebrim de Souza, Anna Lamberti,
Solange Maria de Fátina G. P. Castro, Maria Maura Mattos.
CADERNOS EDUCAÇÃO BÁSICA
SÉRIE
Inovações
3
JOSÉ EUSTÁQUIO ROMÃO
MOACIR GADOTTI
A EDUCAÇÃO E 0
MUNICÍPIO
SUA NOVA ORGANIZAÇÃO
1993
© 1993, Ministério da Educação e do Desporto
Esta publicação foi realizada dentro do acordo MEC/UNESCO
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, guardada pelo Sistema
retrieval, transmitida ou reproduzida por qualquer outro meio, seja ele, eletrônico,
mecânico, fotocópia, gravação ou outros sem prévia autorização, por escrito das
editoras.
AUTORES
José Eustáquio Romão e Moacir Gadotti
ILUSTRAÇÃO CAPA
Riva Bernstein
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Art Laser Comunicação Visual Ltda
IMPRESSÃO
Gráfica & Editora OCB
Ficha Catalográfica
Romão, José Eutáquio
A educação e o município: sua nova organização / José
Eutáquio Romão, Moacir Gadotti. —Brasília : MEC, 1993.
32p. (Série Inovação)
1. Inovação educacional. 2. Educação - município. 3.
Cascavel (PR) - Colatina (ES) - Icapuí (CE) - Londrina (PR)
- Maringá (PR). I Gadotti, Moacir. II. Título.
CDU: 37.013
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO 7
INTRODUÇÃO 9
I - CASCAVEL E A FUNDAÇÃO EDUCACIONAL 11
1. Aspectos Gerais do Município 11
2. Situação Educacional 11
3. A Experiência Inovadora e Exitosa 13
II - COLATINA EA ADMINISTRAÇÃO UNIFICADA 15
1. Aspectos Gerais do Município 15
2. Situação Educacional 15
3. A Experiência Inovadora 17
III - LONDRINA E A GESTÃO DEMOCRÁTICA 20
1. Aspectos Gerais do Município 20
2. Situação Educacional 22
3. As Experiências Exitosas 22
IV - MARINGÁ: A ESCOLA COOPERATIVA 26
1. Aspectos Gerais do Município 26
2. Situação Educacional 26
3. A Experiência Cooperativa 26
V - ICAPUÍ: ESCOLA PARA TODOS 28
1. Aspectos Gerais do Município 28
2. Situação Educacional 28
3. As Experiências de Icapuí 28
CONCLUSÕES GERAIS 30
BIBLIOGRAFIA 32
APRESENTAÇÃO
A partir da Constituição de 1988, o Município brasileiro passou a ter mais
liberdade e autonomia na formulação e execução de políticas de educação básica,
condição que tem contribuído fortemente para o surgimento de inúmeras iniciativas.
O trabalho de José Eustáquio Romão da UFJF e Moacyr Gadotti da USP relata
experiências importantes de inovações educacionais que estão sendo concebidas e
executadas pelos sistemas municipais de educação. Estas e outras experiências
procuram respostas alternativas para alguns dos problemas crônicos da educação
brasileira, como repetência e evasão, valorização do magistério, relação entre a escola
e a comunidade, criança fora da escola, entre outros.
Os relatos das experiências de Cascavel, Colatina, Londrina, Maringá e Icapuí
mostram que, a partir de uma vontade política expressa do Município é possível
introduzir inovações de indiscutível repercussão no desempenho do sistema escolar.
Mostram, também, o papel decisivo que o Município começa a ter na recuperação da
educação básica do País.
A Secretaria de Educação Fundamental do MEC, através da coleção Cadernos
de Educação Básica, ao publicar o relato dessas experiências tem o objetivo de
colocá-las ao alcance de todos os municípios brasileiros, seja para facilitar o debate
em torno das inovações introduzidas, seja para divulgar dimensões novas da política
educacional, seja, por último, para estimular novas iniciativas que ampliem e
fortaleçam o processo de renovação educacional que está em curso no Brasil, em
movimento inverso da periferia para o centro.
INTRODUÇÃO
Ninguém hoje desconhece o papel significativo desempenhado pelos municípios
brasileiros na cobertura do ensino fundamental: cerca de 1/3 de toda matricula.
Ninguém desconhece também as dificuldades e as distorções que ocorrem nesse grau
de escolaridade nessa rede: qualificação do pessoal do magistério, condições de trabalho
e salariais, jornada de trabalho, currículos, relação escola-comunidade. etc. com sérios
reflexos na eficiência e eficácia do subsistema.
Porém,o parece haver consenso quanto aos indicadores de qualidade,
certamente por falta de levantamentos e pesquisas, com base em dados concretos e em
análises consistentes, que permitam tirar conclusões cientificamente consolidadas.
Urge, portanto, levantar experiências bem sucedidas, com vistas a detectar
variáveis resultantes de políticas inovadoras e, a partir da medida de seu impacto no
rendimento escolar dos alunos, construir parâmetros, a serem verificados em pesquisas
complementares mais abrangentes, de modo a identificar indicadores de qualidade, a
serem colocados à disposição dos formuladores e executores de politicas educacionais
no ensino fundamental.
O objetivo geral desse levantamento é apresentar alguns exemplos
comprovados de experimentos de cobertura e eficácia de politicas municipais de ensino
fundamental, isto é, experimentos de impacto positivo no rendimento escolar nesse grau
de ensino, através da coleta, in loco, de dados sobre cobertura e aprovação, bem como
de dados sobre as iniciativas tomadas como hipóteses inovadoras. Foram feitas
entrevistas com formuladores e executores de politicas educacionais nos municípios
escolhidos, para medir a relação que estabelecem entre as medidas inovadoras e o
impacto no rendimento escolar e no desempenho dos diversos atores envolvidos no
rendimento do subsistema, bem como com professores e discentes, para verificar o grau
de convergência das opiniões com as dos previstos no objetivo anterior.
Com isso, pode-se medir o grau de convergência entre os dados da pesquisa de
opinião com os detectados na análise dos dados coletados na realidade. Como o
significado objetivo de um fato nem sempre coincide com a intenção subjetiva dos
agentes e como, por mais exitosa que seja uma iniciativa, ela surtirá mais ou menos
efeitos dependendo do grau de sua incorporação pelos diversos atores educacionais.
cabe examinar a congruência entre os dados coletados na realidade e sua aceitação ou
rejeição pelas partes intervenientes no processo.
Os dados sobre cobertura e rendimento escolar no ensino fundamental dos
municípios escolhidos foram coletados a partir de relatórios fornecidos pelas Secretarias
Municipais de Educação respectivas, referentes sobretudo aos quatro últimos anos
(1989 -1992) e do último censo do IBGE, sobre população escolarizável nesse grau.
A tentativa de fixar os indicadores hipotéticos previamente demonstrou-se
inconveniente: primeiro, porque limitaria as iniciativas a serem trabalhadas: segundo
porque, em cada município escolhido, o sucesso é atribuído a indicadores diferentes.
Vejamos alguns exemplos. Em Colatina, a melhoria salarial e as constantes capacitações
de pessoal docenteo consideradas como medidas responsáveis pelo sucesso no
rendimento escolar e destacam ainda a municipalização, isto é, a coordenação unificada
da Secretaria Municipal de Educação sobre toda a rede de ensino fundamental. Em
Londrina, destacam-se como responsáveis pelo sucesso da politica municipal de
educação, as duas primeiras e o entrosamento com a comunidade. Já em Maringá, o
sucesso da experiência das escolas cooperativas apontam para a variável da gestão.
Utilizando esses critérios, foram selecionados cinco municípios: Cascavel(PR).
Colatina(ES). lcapuí(CE), Londrina(PR) e Maringá(PR). O relato da experiência
inovadora do município segue a seguinte ordem: dados gerais do município e de sua
situação educacional, análise da proposta inovadora(às vezes, com mais de uma
variável), especialmente no que diz respeito ao impacto de sua aplicação na realidade
educacional do município.
I
CASCAVEL E A
FUNDAÇÃO EDUCACIONAL
1 - Aspectos Gerais do Município
No final da segunda década deste século, nasceu o povoado de Encruzilhada,
localizado no entroncamento de varias trilhas abertas por ervateiros e militares no
município de Foz do Iguaçu. Nas décadas seguintes, já no final do ciclo da erva-mate,
houve forte migração de colonos sulistas para a localidade, dando grande impulso à
economia do lugar, com a exploração madeireira c. sobretudo, com sua substituição
pelo desenvolvimento da agricultura(cereais) e pela suinocultura.
Em 1938, com o nome Cascavel - segundo as narrativas populares colonos
acampados na região foram surpreendidos por essas serpentes - o povoado torna-se
distrito, para emancipar-se. definitivamente, em 14 de dezembro de 1952, a despeito
das resistências de Foz do Iguaçu, tanto por causa do nome quanto pelas pretensões
emancipadoras de seus pioneiros.
No auge da atividade madeireira e das empresas colonizadoras. Cascavel
emancipada torna-se uma das cidades mais importantes do Estado, a ponto de ser
alcunhada Capital do Oeste do Paraná
Polarizando hoje cerca de 36 municípios, Cascavel é responsável por cerca de
26% de toda a produção de grãos do Estado, além de se destacar no setor primário e
terciário da economia da região , tendo diversificado sua produção agrícola, após
libertar-se da monocultura da soja.
Com uma área de 2.016 km2, 75 dos quais constituem o perímetro urbano, e
situada 800m de altitude. Cascavel caracteriza-se por um relevo sem grandes acidentes,
por um clima temperado mesotérmico e superúmido, por um latossolo roxo associado
à terra roxa, o que explica a notável produtividade de sua agricultura, especialmente
quando implementada por uma tecnologia avançada.
2 - Situação Educacional
Os governos municipal e estadual dividem a responsabilidade pelo sistema de
ensino de Cascavel;o 190 unidades escolares, com cursos em todos os graus de
ensino. Além desses, o SENAI, o SENAC, o SESC e a iniciativa privada oferecem, uma
série de cursos regulares eo formais, académicos e profissionalizantes.
Os quadros, a seguir,o uma melhor idéia da situação educacional do
município.
Quadro I
Número de EscoIas(1991)
GRAU DE
ENSINO
Pré
1º Grau
2º Grau
Superior
TOTAL
REDE
MUNICIPAL
29
94
123
REDE
ESTADUAL
04
25
08
01
38
REDE
PARTICULAR
11
11
07
29
TOTAL
45
130
15
01
191
Fonte: SMEC de Cascavel
Embora com um número de escolas muito superior ao da rede estadual a
municipal apresenta quase a mesma quantidade de alunos (18.510) que aquela (18.719).
É que, como nas demais regiões do pais, o município responsabiliza-se pela maioria
das pequenas escolas espalhadas pelo meio rural.
Com 940 professores, só no Ensino Fundamental, a rede municipal de escolas
de Cascavel tem uma média de 10 professores por unidade e uma média aproximada
de 20 alunos por professor.
O Quadro II dá uma idéia da cobertura educacional na cidade de Cascavel, sem
nele estarem computados os alunos matriculados em outros cursoso regulares.
Quadro II
N° de Alunos Matriculados( 1991)
Grau
Pré-Escolar
1º Grau
2º Grau
Superior
Total
Municipal
1.064
18.510
19.570
Estadual
192
18.719
6.225
1.750
26.886
Particular Total
1.400
5.051
1.499
7.900
2.656
42.280
7.674
1.750
54.360
A cidade apresenta uma ótima situação educacional se comparada a outras
cidades de mesmo porte no país, apresentando excelente cobertura, com uma rede física
escolar em ótimas condições e recursos humanos qualificados, praticamenteo
existindo o chamado professor leigo., no entanto, uma forte mobilização de sua
população para a criação de uma Universidade, embora o atendimento no Ensino
Superior seja razoável e seja mantido pelo Governo Estadual.
3 - A Experiência Inovadora e Exitosa
o é novidade no Brasil o conhecimento sobre os obstáculos da administração
pública direta, tanto pelo cipoal de leis e normas, quanto pela rigidez das estruturas
hierarquizadas, que diluem as responsabilidades e tolhem a iniciativas e a criatividade
do servidor. No setor educacional, a lentidão das soluções decorrente dos vícios
acumulados nas operações administrativas provocam prejuízos incalculáveis. Para dar
um exemplo, uma telha quebrada numa escola, para ser consertada e evitar maiores
danos, gera uma infinidade de papéis e movimenta verdadeiros batalhões de servidores,
elevando o custo de uma medida que poderia ser tomada pela própria escola que, se
tivesse autonomia e recursos financeiros descentralizados, contrataria os serviços de
um pedreiro no próprio bairro, dando uma solução imediata (e mais barata). Porém, sem
uma série de requisições, papeletas, memorando, licitações, empenhos e liquidações, a
telhao pode ser consertada.
As administrações municipais de Cascavel, especialmente a de 1989/92
conseguiram escapar desta armadilha, criando a Fundação Educacional de Cascavel
(FUNDEVEL), com a finalidade mais geral de "promover o desenvolvimento
educacional e cultural do Município", através de objetivos mais específicos, tais como:
"I promover a educação dee 2
o
graus;
III criar, manter e/ou incorporar estabelecimentos de ensino de l° e 2
o
graus;
IV incentivar a formação, a especialização e o aperfeiçoamento de recursos
humanos para diversas atividades e empreendimentos públicos e
privados;
V destinar recursos para estudos e pesquisas nos domínios da ciência e da
educação".
A FUNDEVEL é uma pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos,
constituindo-se numa instituição de caráter"técnico-educativo-cultural e filantrópico"
e com uma estrutura que incorpora no seu Conselho de Curadores a representação de
entidades públicas (Prefeitura, órgãos estaduais com sede na cidade, clubes de serviço,
associações de categorias profissionais e Ministério Público). O Secretário Municipal
de Educação é membro nato do Conselho de Curadores e Presidente nato da Fundação,
devendo, como os demais membros indicados pela administração municipal, colocar
seu cargo à disposição, por época da mudança de governo.
Por seus objetivos, estrutura, composição e funcionamento, a FUNDEVEL deu
notável agilidade, produtividade e qualidade ao sistema municipal de educação, pois
entre suas iniciativas pudemos constatar in loco:
a) excelente manutenção da rede física escolar, com notável racionalização
de recursos;
b) frequentes programas de capacitação de professores e demais servidores
do sistema, com maior facilidade em buscar recursos humanos e técnicos
fora da cidade e do Estado;
c) aquisições de equipamentos e material de consumo para as escolas com
maior racionalidade, porque realizadas com negociação direta e com
pagamentos à vista;
d) contratação de pessoal docente e administrativo nas emergências
(especialmente nos interticios entre o esgotamento das reservas de
classificados em concursos públicos e realização de novos concursos).
Envolvendo as forças vivas da sociedade, numa região do pais de forte tradição
comunitária, a Fundação, que sobrevive de doações e de subvenções do poder público,
o tem tido problemas financeiros maiores e tem sido a grande salvadora das
emergências e da expansão quantitativa c qualitativa do sistema municipal de educação
de Cascavel, sem falar nas constantes promoções culturais por ela planejadas,
implementadas e executadas.
Durante muito tempo, as fundações de direito público foram estimuladas como
instrumentos de flexibilização, agilização e captação de recursos para a administração.
Nos últimos anos, e mais acirradamente no Governo Collor, estas instituições viraram
os vilões das tentativas de enxugamento da máquina pública. Felizmente, parece que
esse equívoco tende a ser superado, até mesmo porque, no caso das Universidades
Federais, as agências de fomento c as fontes financiadoras de pesquisam estimulado
a criação de fundações de apoio às Instituições de Ensino Superior públicas. No período
de caça às bruxas, uma saída procurada foi a das fundações de direito privado, voltadas
para o apoio à superação das insanidades da administração estatal.
Cascavel descobrira o caminho bem antes (já em 31 de outubro de 1986 ela sofria
sua primeira alteração), criando um instrumento de atendimento a um setor cujas
emergênciaso podem esperar a morosidade das soluções burocráticas e
burocratizantes. Os reflexos dessa ação conjugada (poder público e sociedade civil
irmanados numa mesma instituição)o claros na qualidade do ensino e das promoções
culturais de Cascavel, hoje, sem dúvida nenhuma, uma das referências nacionais da
educação municipal.
II
COLATINA E A
ADMÍNISTRAÇÃO UNIFICADA
1. Aspectos Gerais do Município
Localizada no Espirito Santo e banhada pelo rio Doce, Colatina passou a lembrar
em seu nome o da esposa do primeiro governador do Estado, quando de sua
emancipação em 1922. O surgimento do povoado resultou do choque dos primeiros
desbravadores do país com os botocudos, uma vez que penetraram mais para o interior,
contrariando as palavras de Frei Vicente do Salvador que comparara os portugueses a
caranguejos "que viviam arranhando as praias".
Após ter sido um município que ocupava 1/4 da área total do Estado (10.410
km ). Colatina conta hoje com 2.197 km c, com seus 160.000 habitantes, constitui-se
em centro polarizador de todo o norte do Espirito Santo, oeste de Minas Gerais e sul da
Bahia.
Ainda com uma agricultura e pecuária significativas, apresenta sinais evidentes
de um desenvolvimento acelerado dos outros setores da economia, especialmente nas
indústrias de confecção, de móveis e beneficiamento de carne e de leite.
2. Situação Educacional
Como todas as escolas públicas de Colatina ficaram sob a administração
municipal, através da acumulação pela Secretária Municipal de Educação da chefia da
Secretaria e do Subnúcleo Regional de Educação,o tem sentido separar a rede
municipal da estadual. Assim, em março de 1992. o quadro da clientela estudantil das
escolas públicas do município apresentava os seguintes dados:
I Frei Vicente de Salvador foi um dos pioneiros da Historiografia Brasileira. ao escrever a obra História
do Brasil, que narra os latos de nossa evolução entre 1500 e a data de sua redação (1827)
15
Quadro I
Clientela Estudantil das Escolas Públicas
Grau
Creche
Pré-Escola
1º Grau
2º Grau
Total
Número de alunos
1.359
2.771
20.706
3.501
28.337
Fonte: SMEC Colatína
Além desses, as redes públicas atendiam ainda 710 alunos em cursos supletivos,
e vários outros, em cooperativas e escolas pré-profissionalizantes (cerca de 450 crianças
c adolescentes). Nestas, os alunos desenvolvem, além dos estudos regulares, atividades
de fabricação de picolé, costura, bordado, pintura cm tecido, artefatos de madeira e
criação de pequenos animais. Os produtos destas atividadeso comercializados, sendo
metade do resultado financeiro aplicada na cooperativa e metade repassada às crianças.
Colatina apresenta hoje um dos mais baixos índices de analfabetismo do país
(menos de 15%), certamente porque a ampliação da cobertura da Educação Básica com
qualidade foi permitida por vários fatores:
a) aplicação de recursos financeiros sempre acima do mínimo estabelecido
pela Constituição:
b) racionalização na aplicação dos recursos, a partir da realização do Censo
Escolar - verdadeira Carta Escolar do Município -, que passou a nortear
todas prioridades a serem atacadas no setor:
c) unificação do comando da rede pública, evitando a duplicidade de meios
para os mesmos fins e as inconvenientes disputas entre as redes municipal
c a estadual de educação;
d) consistente política salarial ";
e) intenso programa de capacitação de professores, especialistas e
servidores de todas as escolas.
Aqui os colatinenses tivera, alguns problemas, especialmente porque os professores da rede municipal
começaram a ganhar mais que os do estado. Consequentemente, estes, mantendo-se na mesma
situação funcional (funcionários do serviço público estadual), ainda que sob a coordenação da
Secretaria Municipal de Educação, recusavam-.se. muitas vezes. ao mesmo desempenho.
3. A Experiência Inovadora
Através do termo de convênio firmado entre o Governo do Estado e o do
Município (31 de janeiro de 1991), objetivando, principalmente,"contribuir para a
expansão e melhoria do ensino público (pré-escola e ensino fundamental) e propiciar a
todas as crianças condições reais de acesso à escola, assim como garantir sua
permanência e progressão", a Secretaria Municipal de Educação de Colatina assumiu
também a administração do Sub-Núcleo Regional de Educação (sub-circunscrição
administrativa da rede estadual de ensino) e, consequentemente, unificou a coordenação
de todas as escolas públicas desses graus situadas no município.
Pelo mesmo termo, municipalizaram-se as unidades escolares estaduais situadas
na zona rural da Colatina, nelas permanecendo o pessoal docente e técnico-
administrativo vinculado funcionalmente e remunerado pelo estado.
Como era de se esperar,o demoraram muito os conflitos, especialmente por
causa das diferenças nas politicas de pessoal dos dois convenentes: durante toda
administração municipal, por exemplo, sua remuneração foi bem superior à do Estado.
Numa das visitas ao Município, pudemos presenciar uma greve do pessoal do Estado,
enquanto os docentes municipais dedicavam-se a um intenso programa de capacitação.
Aliás, as atividades promovidas pela Secretaria Municipal de Educação, abertas a todos
os professores, acabaram por esvaziar o movimento grevista, dado o interesse dos
professores estaduais em também participarem do programa.
Em muitas oportunidades, as autoridades municipais de Colatina narraram-nos
as dificuldades enfrentadas: atraso nos repasses estaduais previstos no termo de
convênio, assumpção de encargos que seriam da alçada do Estado, maior dificuldade
de obtenção do cumprimento das obrigações respectivas pelos servidores vinculados
ao Estado , etc. Mesmo assim, em nenhum momento, negaram as vantagens da
unificação administrativa, uma vez que obtiveram uma série de resultados interpretados
como extremamente positivos:
a) maior racionalidade na distribuição das matriculas e, consequentemente.
maior cobertura, sem necessidade de grandes investimentos na ampliação
da rede física;
b) unificação de programas de capacitação docente e, como corolário
3 Registraram que. mesmo por períodos em que os vencimentos de ambos corpos docentes estavam
próximos, havia sempre uma maior resistência dos estaduais, acostumados que estavam á ausência de
uma fiscalização e controles mais próximos, segundo a expressão de algumas das autoridades
municipais.
imediato, maior unidade nas diretrizes, planos, programas e
procedimentos das escolas públicas;
c) eliminação da duplicação de meios para fins idênticos na rede pública de
educação infantil e de Ensino Fundamental;
d) nítida melhoria nos índices da aprovação e diminuição da evasão escolar.
Evidentemente porém, todas as cobranças da população, relativamente a esses
graus de ensino, passaram a recair sobre a Prefeitura, independentemente de os
problemas estarem sendo gerados sob a responsabilidade do Município ou não. E, na
maioria das vezes, as dificuldades eram geradas pela omissão do Estado, no sentido de
o responder adequadamente aos compromissos assumidos no convênio antes
mencionado. Narrou-nos o Prefeito, Dilo Binda. que o Município estava sendo muito
onerado com as complementações salariais, substituição de professores e de servidores
em unidades escolares municipalizadas e estaduais, solução de problemas de rede física
(reparos, ampliações e até construções) e programas de apoio (merenda e transporte
escolares) mantidos às expensas exclusivas do orçamento municipal.
Entretanto, como pudemos constatar no estudo do caso de Colatina, ocorreu uma
verdadeira ironia: os maiores problemas foram gerados porque o Município passou a
ter uma consistente politica salarial e um Estatuto da Carreira do Magistério. De fato.
tradicionalmente no Brasil, os docentes das redes municipais ganham menos que os da
rede estadual. Poucos eram, até recentemente, os municípios que apresentavam uma
política salarial mais atraente, quando comparados com os quadros de carreira dos
Estados. E especificamente em Colatina. no momento em que se abrigaram as
administrações educacionais públicas sob um único comando, as comparações puderam
ser feitas com mais nitidez e, embora os professores da rede estadual identificassem o
alvo para o qual deveriam assestar suas baterias reivindicativas (Governo do Estado),
sua paralisação levava a população a reivindicar da Prefeitura uma solução. Se, por um
lado, tal fusão administrativa criava dificuldades para a Administração Municipal
(impotente para administrar a variável "politica salarial" independente do seu controle),
por outro, permitia à população maior visibilidade da responsabilidade estatal sobre a
questão, independentemente da instância governamental. Consequentemente,
permitia-lhe ainda uma maior força de intervenção, dada a proximidade e acessibilidade
maior da Administração Municipal.
Além disso, as próprias categorias docente e de servidores
técnico-administrativos passaram a ter também maior visibilidade da diferença de
tratamento que recebiam das administrações públicas, para desempenho das mesmas
funções, ao mesmo tempo que desenvolveram uma solidariedade de classe nunca antes
esboçada, por pertenceram a redes diferentes. Portanto, outro ponto positivo da
experiência, certamenteo antes vislumbrada pelos convenentes, foi a unificação de
propósitos e a consciência de terem um mesmo grau de responsabilidade com a equidade
no tratamento para com os servidores públicos, a preocupação com a qualidade do
ensino, independentemente das jurisdições.
O demonstrativo da incidência de transferência, evasão, aprovação e repetência
é suficiente, em si, para explicitar os avanços do ensino público em Colatina (anexo).
III
LONDRINA E A
GESTÃO DEMOCRÁTICA
1. Aspectos Gerais do Município
Localizada no norte do Paraná, num planalto de altitude média de 576m, o
Município de Londrina ocupa uma área de cerca de 1% do território do Estado (2.119
km"), caracterizado pelas famosas terras roxas, resultantes da decomposição de rochas
basálticas, cortadas por abundantes cursos d'água.
Entre 1904 e 1908 iniciou-se processo de colonização espontânea do norte
paranaense, por levas de migrantes paulistas e mineiros, que ganhou maior impulso com
a criação, em Londres, da Parana Plantations e de sua subsidiária brasileira, a
Companhia de Terras do Norte do Paraná O curioso processo de oferecer terras aos
trabalhadores queo as possuíam, em condições de pagamento acessíveis, propiciou
a expansão da cultura cafeeira. o surgimento de núcleos urbanos e o aparecimento de
pequenos e médios proprietários.
O ritmo acelerado do crescimento demográfico se deveu ao boom da cafeicultura
brasileira (principal produto de nossa economia à época), ao modus operandi do
processo de colonização e às condições naturais extremamente favoráveis da região.
Foi assim que brasileiros oriundos do nordeste, do sudeste e do sul somaram-se aos
inúmeros imigrantes, egressos da Europa Ocidental, Oriente Médio e Japão.
A evolução da população residente no Município de Londrina é bastante
ilustrativa de seu desenvolvimento, conforme se pode observar no quadro a seguir:
Quadro I
Evolução demográfica
ANO
1950
1960
1970
1980
1990*
URBANA
34.230
77.382
163.528
266.940
388.089
% RURAL %
47,93
57,40
72.69
88,48
92.53
37.182
57.439
64.573
34.771
31.325
52,07
42.60
28.31
11.52
7.47
TOTAL
71.412
134.821
228.101
301.711
419.414
Estimativa (IPARDES) - Fontes: IBGE
Percebe-se em Londrina Fenômeno semelhante ocorrente em outras regiões do
país: a forte urbanização, com a inversão acelerada das proporções entre populações
urbanas e rurais: e ai, com exacerbação do fenômeno, certamente por causa das
profundas transformações ocorridas na estrutura fundiária, em decorrência da
erradicação dos cafezais (geadas, mecanização agrícola, concentração fundiária e
incentivo do próprio governo), expansão da pecuária e introdução da soja e do trigo nas
lavouras. Por outro lado, a expansão dos setores secundário e terciário da economia
(inicialmente vinculados ao setor primário: beneficiamento e distribuição),
diversificando-se intensivamente, a partir da década de 1970, atraiu ainda mais as
populações agrícolas, gerando a espantosa concentração demográfica de Londrina em
o pouco tempo.
A acelerada densificação populacional gerou elevada demanda por prestação de
serviços públicos, hoje razoavelmente resolvidos, exceto no setor de coleta e tratamento
de esgotos e no abastecimentos de água.
Embora apresente uma razoável equidade na distribuição de renda, se comparada
com outras cidades brasileiras, a rápida urbanização provocou o fenômeno da
"favelização" (cerca de 17 favelas, concentrando mais de 12.000 pessoas, numa cidade
de porte médio!). A convivência dos dois aspectos (razoável distribuição de renda e
existência de favelas), conforme se pode observar no Quadro 2, é um fenômeno típico
de Londrina e, certamente resultante de um processo histórico de povoamento marcado
pelos médios e pequenos empreendimentos, culminado por uma brutal mudança na
estrutura fundiária, nos últimos anos.
Quadro 2
Rendimento Médio Mensal Família (1980 c 1990)
FAIXA 0E RENDA (SAL. MÍN.)
até
1/2
+
de 1/2 a
1
+
de
1
a
2
+
de 2 a 5
+
de 5 a 10
+
de 10 a
20
+ de 20
sem rendimento
sem declaração
total
Nº DE FAMÍLIAS
1.532
4.669
15.304
26.869
12.016
6.029
2.986
625
412
70.442
N
9
DE FAMÍLIAS
2.068
6.320
20.713
36.355
16.262
8.160
4.042
848
553
95.321
Fonte: IBGE (média de pessoas por família: 4.4)
Londrina, por sua economia diversificada, por sua infra-estrutura urbana e pela
prestação de serviços, constitui-se, indubitavelmente numa das mais importantes
cidades do Estado e num verdadeiro pólo regional, agravando as demandas da
população expulsa do campo e dos municípios vizinhos, por serviços de saúde e de
educação.
2. Situação Educacional
Observando-se o total de 176 escolas municipais, das quais 49 localizam-se na
zona urbana e 127 na zona rural, sem falar nas creches, nas 35 turmas de pré-escola,
nas 12 de alfabetização de adultos e nas 5 de Ensino Supletivo, pode-se dizer que
Londrina apresenta uma das melhores redes escolares do país, quando comparada com
outras cidades brasileiras.
Atendendo a um total de 26.898 alunos , a rede municipal londrinense apresenta
a particularidade de abrigar alunos do segundo segmento do 1 ° Grau apenas nas escolas
da zona rural, o que nos obriga à conclusão de que todos seus egressos da 4
a
série
continuam seus estudos, na zona urbana, nas escolas das redes estadual e privada. Para
um total de 4.660 alunos de 1ª à 4
a
série na zona rural,o oferecidas mais de 2.200
vagas no segundo segmento (5ª à 8
a
série), o que demonstra cobertura total, se
imaginarmos que do primeiro número apenas uma parcela encontra-se na 4
a
série. De
fato, constatamos que, no mesmo ano (1992), 1.096 estavam matriculados na 4
a
série e
1.031 na 5
a
série do 1
o
Grau nas escolas da zona rural.
Os elevados índices de aprovação, os baixos índices de evasão e repetência
(excetuados as altas taxas de retenção na 5
a
e 6
a
séries) devem-se a uma série de fatores
conjugados, que serão destacados no próximo item desta parte do relatório .
3. As Experiências Exitosas
Londrina apresentou no conjunto das administrações municipais de 1989/92
uma novidade: a eleição do Secretário Municipal de Educação, por voto direto dos
servidores envolvidos no sistema educacional. Inicialmente, no jogo das composições
e alianças, o Prefeito Municipal, Antônio Belinati, escolheu o titular da pasta de
Educação. No entanto, destacava-se na Secretaria uma equipe de educadores e técnicos,
do mais alto nivel, todos pertencentes ao quadro permanente do Magistério e com uma
longa tradição de trabalho na rede escolar municipal.
4 Os dadoso referentes ao ano de 1992.
5 Nilo incluímos aqui os dados sobre número de escolas, matriculas etc., das demais redes.
primeiramente porque o objetivo da pesquisa era verificar o desempenho da rede municipal: e. em
segundo lugar, porque as experiências exitosas de Maringáo apresentavam, em destaque, o
entrosamento com aqueles.
Com a renúncia do Secretário, Sr. Cleber Toffoli, o Chefe do Executivo
Municipal abriu o cargo a um processo eleitoral, para o qual se apresentaram cinco
candidatos, saindo vitoriosa a Professora Leda Lúcia Cordeiro, que dirigia
anteriormente o Departamento de Educação da Secretaria
É evidente, que muitos das iniciativas e experiências tiveram continuidade. até
porque, conforme frisado anteriormente, as equipes de pedagogos e técnicos do Órgão
Municipal de Educação já vinham trabalhando há longo tempo na mesma Secretaria.
Na realidade, antes da eleição, tais equipes já vinham trabalhando sob a coordenação
firme e tecnicamente competente da futura Secretária. Assim, embora disputando com
educadores de prestigio na cidade, a Professora Leda apenas confirmou sua liderança
inconteste, mas, ao mesmo tempo, beneficiou-se de um fortalecimento junto á
Administração e de um compromisso mais profundo de trabalho de toda a equipe, ao
lado de uma espécie de atestado de aprovação ao modo como vinha conduzindo os
assuntos educacionais do Município.
Dentre as ações que. no nosso modo de entender, mais colaboraram para o
sucesso da Administração no setor educacional de Londrina, destacamos:
I efetivo compromisso com a educação, por parte do Prefeito, o que pode
ser comprovado com os percentuais do orçamento municipal aplicado na
função (nunca menos de 30%. em média, ao ano);
II consistente política salarial para o pessoal do magistério, conforme
pudemos observar no levantamento realizado em maio de 1992 e que
pode ser comprovado no quadro abaixo, resultante de um universo de 53
municípios, inclusive capitais, de 12 diferentes unidade de Federação:
Quadro 3
Demonstrativo de Salários Municipais de Docentes
(maio, 1992) - Cr$ 1,00
MUNICÍPIO
Ponta Grossa
Cornélio Pro.
Porto Alegre
Uruguaiana
Itumbiara
UF
PR
PR
RS
RS
GO
SALÁRIO INICIAL
303.852.00
575.000,00
441.475.76
752.727,58
250.240.00
SALÁRIO FINAL
1.011.619,20
1.032.618,00
1.069,475,10
1.083.467.70
1.148.601,00
SALÁRIO MÉDIO
657.735,60
803.809.00
755.475.40
918.097.60
699.420.50
MUNICÍPIO
Pres. Prudente
Araucária
Campinas
Rib. Preto
Tab. da Serra
P. de Caldas
Londrina
Contagem
Limeira
Santo André
UF
SP
PR
SP
SP
SP
MG
PR
MG
SP
SP
SALÁRIO INICIAL
587.208,94
420.256,91
524.073,60
649.926,25
720.378,03
345.883.61
410.798,18
772.535,00
607.470,00
758.338,00
SALÁRIO FINAL
1.162.635,50
1.181.289,06
1.253.234,40
1.440.013,81
1.497.612,90
1.531.567,36
1.609.033,49
1.715.546,00
1.941.619,80
1.916.201,20
SALÁRIO MÉDIO
874.922,20
800.772,95
888.654,00
1.044.970,00
1.108.995,00
938.725,45
1.009.915,70
1.244.040,50
1.274.544,00
1.337.269,80
Fontes: Prefeituras Municipais
Observações:
1a
) Os salários correspondem a 20 horas semanais de trabalho.
2
a
) Os dados se referem aos salários básicos,o sendo considerados
quaisquer gratificações ou outros benefícios.
III. Constantes capacitações de professores e demais servidores da
Secretaria Municipal de Educação;
IV. Democratização do processo pedagógico em todos os níveis.
Merecem um destaque especial a realização das "Semanas Pedagógicas", com
envolvimento de professores das demais redes de ensino e com a participação de
pedagogos de renome nacional. Impressionantes também eram as "Cerimônias
Cívicas", realizadas semanalmente, com envolvimento de todos os alunos, todos os
professores e servidores da Prefeitura, com participação intensa de instituições públicas
(polícia, exército, corpo de bombeiros etc.) e grupos da comunidade (bandas de
música, conjuntos musicais, grupos folclóricos etc). Essas cerimónias (duas das quais
tivemos oportunidade de presenciar) constituíam verdadeiros acontecimentos na cidade,
envolvendo muitos milhares de pessoas. Na realidade, entendemo-las,o só como
recuperação do verdadeiros e necessário espirito de brasilidade, mas também como
momentos de confraternização e de integração entre os poderes públicos e a sociedade
civil. Nesses eventos as escolas públicas e particulares se encarregavam, cada dia, de
coordenarem a cerimônia e mostrarem orgulhosamente o que elas tinham desenvolvido
nas suas atividades curriculares e co-curriculares.
Finalmente, todo esse processo educativo, ultrapassando as fronteiras da escola
e das atividades regulares de ensino, isto é, recapturando a educação em seu sentido
mais amplo, certamente tem a ver com o alto índice de aprovação, pela população, da
proposta governamental municipal, especialmente a do setor de Educação, capitaneada
por uma Secretária escolhida pela comunidade.
o é de surpreender, por isso mesmo, os excelentes resultados obtidos também
no desenvolvimento específico regular fundamental, como se pode observar nos
gráficos demonstrativos da evolução do desempenho do Sistema Municipal de
Educação de Londrina, no documento de Londrina anexado a este Relatório.
IV
MARINGÁ:
A ESCOLA COOPERATIVA
1. Aspectos Gerais do Município
Localizada no norte do Estado do Paraná, a 400 km de Curitiba, Maringá foi
fundada em 1947 como Distrito do Município de Mandaguari e passou à categoria de
Município em 1951. O Censo de 1991 registrou 239.000 habitantes. É o terceiro maior
município do Paraná em população e força econômica.
As atividades econômicas predominantes da região de Maringá são: agricultura
(soja e trigo), pecuária (agro-indústria), comércio atacadista e varejista.
2. Situação Educacional
A rede municipal conta com 37 creches, 4 pré-escolas, 23 escolas de 1
o
grau, 1
escola de 2
o
grau e 1 escola de educação especial, com 10.301 alunos de pré, 1
o
e 2
o
graus e 6.090 crianças atendidas pelas creches.
3. A Experiência Cooperativa
O objetivo básico da proposta de Maringá é entregar a administração de cada
unidade escolar à cooperativas de trabalhadores desvinculadas do poder público mas a
ele prestando serviço e recebendo por produtividade. Com interesse direto nos
resultados, os trabalhadores passam a se preocupar com a produtividade, o desempenho,
a pontualidade, a assiduidade e o atendimento à comunidade.
Em 1991, 3 unidades começaram a funcionar experimentalmente através desse
sistema e em 1992 todas as creches e as escolas da zona urbana foram transformadas
em escolas cooperativas.
Essa proposta pressupõe a contratação de empresa (cooperativa), através de
licitação, constituída especificamente para esse fim. Essa empresa obriga-se a cumprir
uma série de requisitos, entre eles, garantir o cumprimento de princípios metodológicos
ditados pela Prefeitura; garantir a criação de um Conselho de Pais e Mestres para
avaliação, controle e deliberação sobre as despesas de manutenção da escola; garantir
a merenda escolar para todos os alunos no padrão nutritivo estabelecido pela Prefeitura;
garantir o número máximo de 35 alunos por sala de aula e ao extinção de turmas
durante o ano letivo.
Em contrapartida, a Prefeitura cede o prédio da unidade escolar equipado e
mobiliado, inclusive com todos os equipamentos básicos de cozinha, repassa os gêneros
alimentícios para merenda, fornece um biblioteca básica e faz o pagamento por aluno
matriculado.
Para estipular o valor médio pago por aluno levou-se em conta as despesas com
material de expediente, limpeza, esporte, farmácia, merenda, cozinha, água, luz, gaz e
manutenção da biblioteca, salários e encargos sociais do corpo docente e funcionários
e uma taxa de administração de 10%. Em 1991 esse valor era de US$ 17,32 por
aluno/mês.
Segundo o Prefeito de Maringá, a proposta - que nasceu de alguns professores
- objetivava enfrentar concretamente o problema do inchaço do quadro de funcionários,
a fim de otimizar recursos e aumentar a eficiência da administração municipal.
A proposta foi imposta de cima para baixo, mas foi bem aceita pela comunidade.
Pela proposta inicial deveria haver uma valorização do professor via aumento salarial,
mas issoo ocorreu, pois a experiência foi totalmente extinguida com a nova
administração municipal do inicio de 1993.
A relação da escola com a comunidade foi muito intensa. Durante a campanha
eleitoral de 1992, os pais se mobilizaram para que a futura administração continuasse
0 projeto. Em 1992 a proposta gerou grande polêmica alimentada sobretudo pelas
atitudes agressivas do prefeito em relação principalmente aos seus opositores do Fórum
Maringaense em Defesa do Patrimônio Público que sustentava que as escolas
cooperativas, de maneira como foram implantadas, marginalizaram a sociedade da
participação do processo. Além disso, o Fórum alegava que a experiência era
inconstitucional, pois repassava verbas públicas para entidades privadas com fins
lucrativos.
O principal problemas constatado na visita e entrevistas que os autores desse
relatório fizeram, refere-se a questão da autonomia financeira e administrativa. I louve
muita dificuldade em se estabelecer o valor exato do custo-aluno que era reajustado
mensalmente. A base de cálculo era muito imprecisa e a margem de manobra dos
recursos recebidos era muito pouca.
Apesar disso a inovação conseguiu, mesmo no curto espaço de tempo de
implantação, uma melhora do padrão de gestão da escola. Constatamos efetivamente
que os técnicos e professores acreditavam na proposta e estavam muito motivados para
o trabalho nessa nova forma de gestão. A experiência de Maringá, era uma grande
esperança para pensarmos uma gestão da escola cidadã, autónoma. Poderia ter sido
modificada e melhorada se a atual administraçãoo tivesse tomado a decisão - ainda
na campanha eleitoral - de extinguí-la sem prévia avaliação e sem consultar os
responsáveis pelas cooperativas. Poderia ter sido uma inovação que experimentasse
aprofundar a relação entre escola e comunidade. A experiência das escolas cooperativas
de Maringá poderia trazer uma grande contribuição prática à superação da dicotomia
entre o público e o privado, um dos maiores problemas da educação brasileira.
V
ICAPUÍ:
ESCOLA PARA TODOS
1. Aspectos Gerais do Município
Emancipado em 1985 e situado no litoral do Estado do Ceará, na divisa com
o Rio Grande do Norte, o Município de Icapuí tem 13.656 habitantes e dista 208 km
de Fortaleza. A população do município está distribuída em 22 comunidades, sendo a
sua atividade econômica principal, a pesca da lagosta. Destaque-se também a produção
de côco, caju e a agricultura de subsistência, além da extração do sal e petróleo.
2. Situação Educacional
Qualquer criança que viva no município tem hoje matrícula garantida até o
término do 2
o
grau. Em 1992 havia 4.197 alunos matriculados - 1.500 na zona urbana
e 2.697 na zona rural - na rede municipal de ensino, em 3 escolas da zona urbana e
29 na zona rural e um total de 187 professores.
3. As Experiências de Icapuí
O processo de universalização do ensino em Icapuí iniciou-e em 1985 com
reuniões em todas as comunidades. Muitos problemas foram constatados: falta de
escolas, falta de professores, falta de recursos humanos, físicos e financeiros e uma
grande taxa de analfabetismo, que alcançava cerca de 50%.
O ano de 1986 foi iniciado com apenas 16 salas de aula e terminado com 38
salas. Em 1987 já estava em funcionamento 51 salas de aula e em 1991, 70 salas de
aula. Hoje o ensino está totalmente universalizado da pré-escola ao 2
o
grau (cursos
científico e de formação para o magistério). O município de Icapuí conta hoje com
conselhos de escola em todas as escolas, eleitos em assembléia e continuam
intensamente participativas.
Um dos principais problemas da evasão e da repetência era a distância entre a
escola e a residência dos alunos. Os núcleos populacionais do município, 22 ao todo,
estão localizados em 14 praias existentes ao longo dos 64 km de litoral. O problema
da distância foi resolvido implantando-se o transporte escolar gratuito.
A principal diretriz da proposta consistia na concepção da educação como
instrumento para uma organização da comunidade na luta contra as desigualdades
sócio-econômicas. O envolvimento da comunidade visa à relação mais direta entre
governo e povo na democratização do ensino. A comunidade inclusive contribui com
recursos adicionais, através de campanhas e mutirões para a melhoria da escola e a
valorização do professor.
Além da participação popular, destaque-se a transparência na gestão dos parcos
recursos do município: um painel pintado cm uma das paredes da sede do município
presta contass as das receitas e despesas efetudas por todas as secretarias, de
onde vem o dinheiros da prefeitura e como é empregado pelas secretarias e câmara
municipal. A prefeitura de Icapui investiu, em 1991. em educação, cultura e desportos
27,58% do total das receitas arrecadadas.
Outro ponto é a descentralização administrativa implantada em 1991 através dos
Fundos Municipais de Educação e de Saúde. Os Fundos Municipais possibilitam o
repasse direto de recursos financeiros à Secretaria de Saúde Pública e Saneamento. Para
Educaçãoo destinados 25% da receita total da Prefeitura de Icapui, à Saúde 13% e
ao Saneamento 20% dos royalties do petróleo.
Hoje já é uma tradição reunir todas as comunidades para discutir a importância
da escola e para definir prioridades. Para issoo utilizados os espaços da comunidade,
entre eles, as igrejas, os salões paroquiais e as casas com salas de visita mais amplas.
Os professoreso contratados por concurso público com a participação da
comunidade. Existe um estatuto do professor e plano de cargos e salários, capacitação
com reuniões quinzenais com coordenadores de cada escola, reuniões mensais com
professores alfabetizadores.
O desafio de universalizar o ensino é hoje um fato em Icapui. Todo ensino é
público, gratuito e universalizado. Toda criança em idade escolar tem sua vaga
assegurada. Tal conquista só foi possível graças a uma administração popular e
democrática e a continuidade de uma proposta assegurada pelo controle popular sobre
o governo municipal.
CONCLUSÕES GERAIS
o é muito fácil generalizar conclusões a respeito de experiênciaso
diversificadas co genuínas, embora todas tenham enfrentando problemaso
semelhantes (evasão, repetência, falta de cobertura escolar etc.) e tenham chegado a
resultadoso próximos, (permanência da criança na escola e melhoria dos índices de
aproveitamento escolar).
Ainda que, felizmente hoje, face à crise por que passa o Sistema Educacional
Brasileiro, haja uma preocupação generalizada com a qualidade do ensino, pela
universalização do acesso e do sucesso da criança na escola, falta-nos clareza quanto
aos verdadeiros indicadores de qualidade. Certamente, o levantamento, o estudo e a
pesquisa dos casos de sucesso permitirão a identificação das variáveis ou desses
indicadores, bem como de sua feliz combinação para cada realidade específica. Afinal,
o processo de ensino-aprendizagemo se dá no ar, descontextualizado, desencarnado
da realidade humana, cuja trajetória se processa cm um espaço social, num tempo
histórico, com todas as condicionantes e relativizações necessárias aos limites e
potencialidade das comunidades em que ocorre.
De todos os casos estudados e descritos neste Relatório, ressaltam-se algumas
constantes:
) Há que se descentralizar, cada vez mais a gestão do Sistema de Ensino
pois quanto mais localizada a operação, mais se ganha em eficiência,
eficácia, racionalidade na aplicação dos recursos c adequação às
necessidades da clientela.
2
a
) Há que se socializar, cada vez mais, o processo decisório, poiso os
próprios participantes dos serviços educativos os mais competentes para
definirem em que e como eles deve ser prestados, para serem úteis aos
seus ideais, interesses, projeções, enfim, ao seu projeto de vida.
3
a
)o se trata de inventar a roda de novo, mas de resgatar procedimentos
simples, alguns já testados na História da Educação Brasileira e que se
perderam na amnésia de um país cujas autoridades se especializaram nas
soluções de continuidade, pois se agarraram à memória de uma
concepção patrimonialista do Estado, instalado entre nó desde os
primórdios da colonização.
4
a
)o há saída fora da gestão democrática da escola; e o bom senso da
maioria tem forçado a prioridade dos investimentos dos recursos
humanos, tanto na sua capacitação, quanto na sua remuneração.
5
a
) À irracionalidade da administração pública de uma lado, com todos seus
corolários do desperdício, do clientelismo (outra face do
patrimonialismo), da ineficácia e da ineficiência, e aos riscos do elitismo
da administração privada da educação, as experiências aqui elencadas
apontam, para a primeira, os remédios da competência gerencial, da
transparência e, para os segundos, o caminho das soluções participativas
e democráticas.
6
a
) Mais especificamente, os casos elencados demonstraram também a
viabilidade de um sistema escolar público único, sem ser uniforme, de
uma escola pública voltada para os interesses, ritmos e padrões sociais
da clientela a que se dirige, sem sacrifícios na qualidade do que ministra,
poiso perde o horizonte de estar preparando homens para o milênio
que se avizinha.
E porque, nem este Relatório nem suas conclusões geraiso conta da riqueza
de detalhes e da variedade de soluções encontradas no enfrentamento cotidiano dos
problemas educacionais desses municípios, acrescentamos em anexo, documentos que,
por si, dispensam as "traduções" dos autores.
Juiz de Fora/São Paulo, junho de 1993.
José Eustáquio Romão
Moacir Gadotti.
BIBLIOGRAFIA
ANDERSON, Mary B. Education for AII: What are we waiting for? New York,
Unicef, 1992.
Revista Escola Cooperativa. Prefeitura Municipal de Icapuí. Junho de 1992.
PNUD - SENEB/MEC. Encontro sobre melhoria da gestão e da qualidade da
educação básica no Brasil. Fortaleza, 7 a 10 de outubro de 1991.
Prefeitura Municipal de Icapuí. Universalização do Ensino em Icapuí:
sistematização da experiência. Icapuí, 1992 (31 págs).
Prefeitura Municipal de Maringá. Ensino Público e Gratuito com Microgestão
Privada. 1992 (33 págs).
Prefeitura Municipal de Maringá. Projeto de Implantação do Sistema de
Microgestão Escolar Privada. Maringá, 1991 (112 págs).
Prefeitura do Município de Londrina. Sistema de Educação Integral. 1991.
Prefeitura de Londrina. A Educação na Rede Municipal de Londrina - Atividades
Desenvolvidas- 1989-1992. 1992.
Associação Educacional do Oeste do Paraná (ASSOESTE). Levantamento de Dados
Sócio-Educacionais dos Municípios. Cascavel. 1992.
Prefeitura Municipal de Colatina.Colatina: Uma Princesa na Terra do Sol Nascente
1990 (publicação bilíngue, para divulgação).
Prefeitura Municipal de Cascavel. Cascavel. 1991 (revista bilíngue, para divulgação).
. Cascavel - Capital do Oeste. S/d {folder bilíngue para divulgação).
CENPEC. A Democratização do Ensino em 15 Municípios Brasileiros.o Paulo,
1993.
UNICEF. Todos pela educação no Brasil: um desafio para dirigentes. Brasília, 1993.
TEXTOS BÁSICOS
PARA UMA REFORMA EDUCACIONAL
Com o objetivo maior de sistematizar a divulgação
de textos sobre questões atuais da Educação Básica,
tendo em vista disseminar conhecimentos e
informações, ampliando a visão crítica e melhorando o
padrão de desempenho dos profissionais que atuam
nos diferentes níveis e campos educacionais, o
Ministério da Educação e Desporto, através da
Secretaria de Educação Fundamental, propõe a
publicação de textos, contendo três séries assim
discriminadas:
SÉRIE ATUAL1DADES PEDAGÓGICAS —visa
dar tratamento e orientações às tendências que já se
manifestam em muitos estados na área educacional,
propiciando às escolas uma maior e melhor atuação
enquanto centros produtores de conhecimentos em
questões atuais da área educacional (autonomia da
escola, gestão, avaliação adequação curricular,
formação e capacitação de professores etc).
SÉRIE INOVAÇÕES com a qual se pretende
difundir e estimular o intercâmbio de experiências
reconhecidas como avanços significativos na busca da
melhoria da qualidade e da produtividade do sistema
educacional.
SÉRIE INSTITUCIONAL destinada à publicação
de textos oficiais com vistas à divulgação de políticas,
diretrizes e demais produções de órgãos gestores
nacionais e internacionais.
Ministério da Educação e do Desporto
Secretaria de Educação Fundamental
Departamento de Políticas Educacionais
Coordenação de Organização e Desenvolvimento do
Ensino Fundamental
Esplanada dos Ministérios Bloco L - 6
o
andar
Brasília, DF
Imagine um país
onde todas as crianças
vão à escola.
Imagine um país
onde estas crianças aprendem e
são bem-sucedidas na escola.
Imagine um país
onde todos, autoridades, pais,
professores, empresários,
empenham-se em construir uma
escola pública de qualidade e
atingem seu objetivo.
Este país...
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo