71
Roupa, a do corpo. Mantimentos, os que junta aos cantos da sórdida
arribana. O luxo do toucinho, pendente de um gancho, à cumeeira.
À parede, o pica-pau, o polvarinho de chifre, o rabo de tatu, e em pára-
raio, as palmas bentas. Se a cabana racha, está de “janelinhas abertas
para o resto da vida”. Quando o colmo do teto, aluído pelo tempo,
escorre para dentro a chuva, não se veda o rombo; basta aparar-lhe a
água num gamelo. Desaprumando-se os barrotes da casa, um santo de
mascate, grudado à parede, lhe vale de contraforte, embora, quando
ronca a trovoada, não deixe o dono de se julgar mais um em seguro no
oco de uma árvore vizinha. O mato vem beirar com o terreirinho nu da
palhoça. Nem flores, nem frutas, nem legumes. Da terra, só a mandioca,
o milho e a cana, porque não exige cultura, nem colheita. A
mandioca,“sem-vergonha”, não teme formiga. A cana dá a rapadura, dá
a garapa, e açucara, de um rolete espremido a pulso, a cuia do café.
Para Jeca Tatu, “o ato mais importante da sua vida é votar no
Governo”. “Vota. Não sabe em quem, mas vota”. “Jeca por dentro
rivaliza com Jeca por fora. O mobiliário cerebral vale o do casebre”.
Não tem o sentimento da pátria, nem, sequer, a noção do país. De
“guerra, defesa nacional ou governo”, tudo quanto sabe se reduz ao
pavor do recrutamento. Mas, para todas as doenças, dispõe de
meizinhas prodigiosas como as idéias dos nossos estadistas. Não há
bronquite que resista ao cuspir do doente na boca do peixe, solto, em
seguida, água abaixo. Para brotoeja, cozimento de beiço de pote. Dor de
peito? “O porrete é jasmim-de-cachorro”. Parto difícil? Engula a
cachopa três caroços de feijão mouro e “vista pelo avesso a camisa do
marido”. Um fatalismo cego o acorrenta à inércia. Nem um laivo de
imaginação ou mais longínquo rudimento d’arte, na sua imbecilidade.
Mazorra e soturna, apenas rouqueja lúgubres toadas. “Triste como o
curiango, nem sequer assobia”.No meio da natureza brasileira, das suas
catadupas de vida, sons e colorido, “é o sombrio urupê de pau podre, a
modorrar silenciosono recesso das grotas. Não fala, não canta, não ri,
não ama, não vive”.
Não sei bem, senhores, se, no tracejar deste quadro, teve o autor só em
mente debuxar o piraquara do Paraíba e a degenerescência inata da sua
raça. Mas a impressão do leitor é que, neste símbolo de preguiça e
fatalismo, de sonolência e imprevisão, de esterilidade e de tristeza, de
subserviência e hebetamento, o gênio do artista, refletindo alguma cousa
do seu meio, nos pincelou, consciente, ou inconscientemente, a síntese da
concepção, que têm, da nossa nacionalidade, os homens que a exploram.
Se os manda-chuvas deste sertão mal roçado, que se chama Brasil, o
considerassem habitado, realmente, de uma raça de homens,
evidentemente não teriam a petulância de o governar por meio de
farsanterias, como a com que acabam de arrostar a opinião nacional e a
opinião internacional, atirando à cara da primeira o ato de mais