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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS
(Des)legitimação: ações discursivo-cognitivas para o processo
de categorização social
Karina Falcone de Azevedo
Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação
em Letras da Universidade Federal de Pernambuco
como requisito parcial para obtenção do Grau de
Doutora em Lingüística.
Orientadores: Judith Hoffnagel
Luiz Antônio Marcuschi
Co-Orientador no Exterior: Teun A. van Dijk
Recife, fevereiro de 2008
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS
(Des)legitimação: ações discursivo-cognitivas para o processo de
categorização social
Karina Falcone de Azevedo
Banca Examinadora:
Elizabeth Marcuschi
__________________________
Isaltina de Azevedo Mello Gomes
__________________________
Jan Edson Rodrigues Leite
___________________________
Judith C. Hoffnagel (Orientadora)
___________________________
Kazue Saito Monteiro de Barros
__________________________
Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação
em Letras da Universidade Federal de Pernambuco
como requisito parcial para obtenção do Grau de
Doutora em Lingüística.
.
Recife, fevereiro de 2008
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Este trabalho é dedicado a Luiz Antônio Marcuschi. Entre o tanto
que me ensina, me move uma lição: o desejo de conhecer. E para
isso é preciso perceber o mundo para além de uma coisa, mas
como uma integração de todas as coisas. Entender que a
construção do conhecimento não tem limites. E daí o desejo da
busca, a inquietação das perguntas. Com esse aprendizado, me
movo no mundo, em grande parte, pela trilha do seu caminhar.
E, assim, posso dizer: vejo o mundo pelos ombros de um gigante.
iv
AGRADECIMENTOS
A Luiz Antônio Marcuschi. Primeiro: por me ‘ver’. Por acreditar no que sou capaz,
quando nem eu mesma, muitas vezes, acredito. E me fazer trilhar caminhos que nunca
imaginei ir. Segundo: porque tudo é possível, porque ele existe.
A Judith Hoffnagel. Pela acolhida e pelas orientações mais que competentes. Pelo prumo
que me fez tomar. Pelo companheirismo, pela amizade, pela confiança. Por trazer,
também, o que faltava a este trabalho: o olhar de uma mulher.
A Teun A. van Dijk, com quem entrelacei discursos e fiz disso uma tese. Com quem
compartilho idéias e sentimentos. Com quem divido inquietações e desejos de um mundo
mais justo. Meu amigo, meu orientador, com quem compartilho, também, as mais belas
canções. A Fantasia de Chico Buarque também é nossa.
A Abuêndia Padilha e a Kazue Saito pelas valorosas contribuições na qualificação,
fazendo deste trabalho algo bem melhor.
Ao Movimento dos Trabalhado Rurais Sem Terra (MST): seus ensinamentos, moto-
contínuo da minha crença na justiça social.
Ao ex-deputado federal e advogado, Luiz Eduardo Greenhalgh, meu agradecimento pelas
orientações jurídicas e minha admiração na sua luta junto ao MST.
A Capes, pelos auxílios concedidos para esta pesquisa no Brasil e no exterior, com a
bolsa de doutorado sanduíche.
Ao CNPq, pela bolsa que financiou os últimos meses deste trabalho.
A Angela Paiva Dionisio. Minha professora, minha partner, minha coordenadora, minha
amiga. Não importa a ‘vestimenta’, ela está sempre ao meu lado.
Aos meus pais, Kleber e Magaly. Pela sustentação material e espiritual em tudo o que
faço. Aos meus irmãos, Bruno e Alfredo, presenças que não precisam ser cotidianas para
estarem sempre em mim. Em especial, a Alfredo, que me guarda sem saber, a quem devo
meu suporte técnico-emocional. E a minha avó, Margarida, pelo apoio e crença no meu
trabalho.
v
Ao meu marido, Eduardo de Albuquerque Melo. O amor que impulsiona minha vida e
carrega de leveza estas e outras páginas. Com ele, o prazer é o cotidiano. Meu
companheiro, minha família.
A Flávia Peres. O meu lado, a minha sustentação. A minha criatividade e a minha
crença. O meu elemento de integração entre o caos e a ordem. Um dos encantamentos
que guia este trabalho.
A Francisco Eduardo Vieira da Silva, a quem entrego minhas dúvidas e angústias. E,
com carinho e competência, me acolhe e me orienta.
A Leonardo Mozdzenski. Meu amigo, minha inspiração. Quem me ajuda a ser melhor.
As minhas queridas e poderosas: Beth Marcuschi, Cristina Teixeira, Dóris de Arruda
Cunha, Isaltina Melo, rcia Mendonça e Kazue Saito. Com as quais compartilho
gargalhadas e angustias, sempre de forma deliciosa.
Aqui, em especial, a Beth Marcuschi. Aproximação recente, mas intensa: um ponto de
equilíbrio.
Aos amigos/colegas de Pós-graduação. Porque é também da interação com eles que se
constitui este trabalho e esta autora: Adriana Rosa, Ana Regina Viera, Anny Querubina,
Francisco Eduardo Vieira da Silva, Cláudio Rodrigues Costa, Herimatéia Pontes,
Leonardo Mozdzenski, Normanda Bezerra e Roberta Ramos Marques.
A cidade de Barcelona, pela acolhida e pela mudança de perspectiva. Por me ensinar a
ver o mundo como um belo mosaico.
E sem os quais eu não seria possível: Eduardo Albuquerque, Fabíola Mendonça, Fábio
Lucas, Flávia Peres, Isabel Maia, Janaína Maia, João Melo, Leonardo Cavalcanti,
Leonardo Mozdzenski, Márcia Costa, Philio Terzakis, Roberta Aureliano e Valéria Luna.
Por fim, a Sofia Mendonça Amaral, com as boas-vindas.
vi
“Quando ocupamos aquela terra, paramos de morrer...”
(Domício, do Assentamento Ireno Alves,
Paraná, Brasil)
vii
RESUMO
Palavras-chave: (des)legitimação; discurso; sociocognição, jornalismo; Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Este trabalho é movido por duas questões heurísticas: como concepções
específicas assumem a condição de verdade? Por que os discursos de determinados
atores/grupos sociais têm o poder de transformar ‘versões’ em ‘fatos’? Tais questões, em
linhas gerais, definem a forma como entendemos o mundo e agimos nele (Marcuschi,
2007b). Assim como estão atreladas a um fenômeno pouco explorado nas investigações
lingüísticas: o da (des)legitimação. Trata-se de uma construção coletiva, que envolve
distintas práticas sociais, que tem no discurso uma das suas forças propulsoras (Habermas
1999 [1973]; Rojo e van Dijk, 1997). Buscamos, ainda, dar conta de um outro problema:
grupos/atores sociais, em situação de exclusão social, sofrem as mais distintas formas de
discriminação e de preconceito, sendo a exclusão discursiva uma das práticas mais sutis
por isso mais eficientes no processo de deslegitimação desses grupos. Pelo seu poder
simbólico, o domínio jornalístico opera fortemente nesse processo, daí a relevância da
sua investigação. Grupos e atores sociais não são (des)legitimados a priori. A
(des)legitimação é uma atribuição, um ato social de categorização, por isso não é
estanque e sempre situada. É uma atividade que envolve operações mentais, em um
intenso processo de negociação social. Esta investigação está focada no processo de
construção de (des)legitimação de um movimento social que tem resistido à força dos
grupos poderosos e conseguido mudar um dos conceitos caros à elite brasileira: o da
propriedade. Trata-se do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Como
caso específico, investigamos a cobertura do jornal Folha de S. Paulo (FSP), entre os
anos de 1996 a 2006, sobre o massacre em Eldorado de Carajás, ocorrido em abril de
1996. Ao analisarmos as distintas orientações da cobertura, percebemos que o processo
de categorização do ‘fato’ como algo (i)legítimo se por ações contínuas, que, se em
determinados momentos históricos, sofreu um maior controle discursivo, por parte dos
grupos do poder, em outros a pressão de vários movimentos e grupos sociais interfere e
atua nesse processo, democratizando o espaço discursivo do jornal, abrindo espaço para
outras versões e construindo modelos cognitivos diferenciados. Entretanto, o controle
discursivo opera fortemente no processo de categorização do MST e a elite se utiliza do
jornal para estabelecer seu discurso como um ‘fato jornalístico’, deslegitimando o
movimento. Nesta pesquisa, analisamos a cobertura da FSP tomando seis
macrocategorias de análise, denominadas frames de cobertura’: 1) A Circulação das
Versões; 2) A Mobilização da Sociedade; 3) A Legalização de uma Versão: a cobertura
dos trâmites judiciais; 4) A Criminalização do MST; 5) A Partidarização do MST e 6) O
Reframing: a não-ocorrência. Assim, investigamos o texto jornalístico a partir das
distintas estratégias de construção de sentido, dos modelos contextuais variados e das
ações situadas dos elementos lingüístico-discursivos.
viii
RESUMEN
Palabras-clave: (des)legitimación; discurso; socio-cognición, periodismo; Movimiento
de los Trabajadores Rurales Sin Tierra (MST).
Este trabajo es movido por dos cuestiones heurísticas: ¿Cómo concepciones
específicas asumen la condición de verdad? ¿Por qué los discursos de determinados
actores/grupos sociales tiene el poder de transformar ‘versiones’ en ‘hechos’? Tales
cuestiones, en neas generales, definen la forma como entendemos el mundo y actuamos
en él (Marcuschi, 2007b). Así como están enganchadas a un fenómeno poco explotado en
las investigaciones lingüísticas: el de la (des)legitimación. Se trata de una construcción
colectiva, que involucra distintas prácticas sociales, que tiene en el discurso una de sus
fuerzas propulsoras (Habermas 1999 [1973]; Rojo y van Dijk, 1997). Buscamos, aún,
darse cuenta de un otro problema: grupos/actores sociales, en situación de exclusión
social, sufren las más distintas formas de discriminación y de prejuicio, siendo la
exclusión discursiva una de las prácticas más sutiles– por eso más eficientes en el
proceso de deslegitimación de esos grupos. Por su poder simbólico, el dominio
periodístico opera fuertemente en ese proceso, de ahí la relevancia de su investigación.
Grupos y actores sociales no son (des)legitimados a priori. La (des)legitimación es una
atribución, un acto social de categorización, por eso no es estanque y siempre ubicada. Es
una actividad que involucra operaciones mentales, en un intenso proceso de negociación
social. Esta investigación está enfocada en el proceso de construcción de
(des)legitimación de un movimiento social que tiene resistido a la fuerza de los grupos
poderosos y conseguido cambiar uno de los conceptos caros a la elite brasileña: lo de la
propiedad. Se trata del Movimiento de los Trabajadores Rurales Sin Tierra (MST). Como
caso específico, investigamos la cobertura del periódico Folha de S. Paulo (FSP), entre
los os de 1996 a 2006, sobre la masacre en Eldorado de Carajás, ocurrido en abril de
1996. Al analizarse las distintas orientaciones de la cobertura, nos damos cuenta que el
proceso de categorización del ‘hecho’ como algo (i)legítimo se da por acciones
continuas, que, si en determinados momentos históricos, ha sufrido un mayor control
discursivo, por parte de los grupos del poder, en otros la presión de varios movimientos y
grupos sociales interfiere y actúa en ese proceso, democratizando el espacio discursivo
del periódico, abriendo espacio para otras versiones y construyendo modelos cognitivos
diferenciados. Sin embargo, el control discursivo opera fuertemente en el proceso de
categorización del MST y la elite se utiliza del periódico para establecer su discurso
como un ‘hecho periodístico’, deslegitimando el movimiento. En esta investigación,
analizamos la cobertura de la FSP tomando seis macro-categorías de análisis,
denominadas frames de cobertura’: 1) La Circulación de las Versiones; 2) La
Movilización de la Sociedad; 3) La Legalización de una Versión: la cobertura de los
trámites judiciales; 4) La Criminalización del MST; 5) La Partidarización del MST y 6)
El Reframing: la no-ocurrencia. Así, investigamos el texto periodístico a partir de las
distintas estrategias de construcción de sentido, de los modelos contextuales variados y
de las acciones ubicadas de los elementos lingüístico-discursivos.
ix
ABSTRACT
Key-words: (des)legitimization; discourse; social cognition; journalism; Movimento dos
Trabalhadors Rurais Sem Terra (MST) [Landless Rural Workers Movement].
Two heuristic questions underlie this study: how specific conceptions assume the
condition of truth? Why the discourses of certain actors/social groups have the power to
transform “versions” into “facts”? Such questions, in general terms, define the way we
understand the world and act in it (Marcuschi 2007b), and they are also linked to a little
explored phenomenon in linguistic investigations: that of (des)legitimization. This is a
collective construction that involves distinct social practices that have in discourse one of
their principal forces (Habermas 1999 [1973]; Rojo e van Dijk 1997). We seek, as well
to explain another problem: social groups/actors, in situations of social exclusion, suffer
many distinct forms of discrimination and prejudice, with discursive exclusion being one
of the more subtle practices—therefore more efficient—in the process of the
deslegitimazation of these groups. Through its symbolic power, the journalistic domain
operates strongly in this process, and therefore makes its investigation relevant. Social
groups and actors are not deslegitimatized a priori. The (des)legitimization is an
attribution, a social act of categorization, and for this reason it is not static, but always
situated. It is an activity that involves metal operations within an intensive process of
social negotiation. The investigation focuses on the process of the construction of the
(des)legitimization of a social movement that has resisted the force of powerful groups
and managed to change one of the concepts dear to the Brazilian elite: that of property.
The social movement in question is the Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST) [Landless Rural Workers Movement]. As a specific case, we investigate the
journalistic coverage in the newspaper Folha de S. Paulo (FSP), during the years of 1996
to 2006, of the massacre in Eldorado de Carajás that occurred in April of 1996. Through
the analysis of the distinct perspectives taken by the newspaper coverage, we perceive
that the process of categorization of the ‘fact’ as something (il)legitimate is made through
continuous actions, that, if in certain historical moments, it dsuffered a greater discursive
control by the groups in power, in other moments the pressure of various social
movements and groups interfered and acted in this process, turning the discursive space
of the newspaper more democratic, opening up space for other versions and constructing
differentiated cognitive models. However, the discursive control operates strongly in the
process of categorization of the MST and the elite make use of the newspaper to establish
its discourse as a ‘journalistic fact’, deslegitimizing the movement. The study
investigates the coverage of the Folha de S. Paulo using six macro-categories of analysis,
called ‘coverage frames’: 1) The Circulation of the Versions; 2) The Mobilization of
Society; 3) The Legalization of one Version: the coverage of the judicial processes; 4)
The Criminalization of the MST; 5) The MST as a Political Party; 6) The Reframing: the
non-occurrence. Thus, we investigate the journalistic text from the perspectives of the
distinct strategies of meaning construction, the various contextual models and the situated
actions of the linguistic-discursive elements.
x
SUMÁRIO
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS ............................................................................................................... 1
1.1 A ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO: PRECEITOS BÁSICOS DO MARCO TEÓRICO.................................... 12
1.2 17 DE ABRIL DE 1996: MASSACRE X LEGÍTIMA DEFESA ....................................................................... 15
1.3 JORNALISMO E MOVIMENTOS SOCIAIS: PODER E CONTRA-PODER NA LUTA PELA (DES)LEGITIMAÇÃO 16
2. A ANÁLISE COGNITIVA DO DISCURSO........................................................................................ 20
2.1 O TRIDIMENSIONALISMO DE FAIRCLOUGH E A TRÍADE DE VAN DIJK: A MEDIAÇÃO DISCURSIVA E A
COGNIÇÃO NA ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO ....................................................................................... 22
2.2 A FORMAÇÃO DO QUADRO TEÓRICO DE NORMAN FAIRCLOUGH: OS FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS
DA LINGÜÍSTICA SISTÊMICO-FUNCIONAL E A TEORIA CRÍTICA ................................................................ 26
2.2.1 O Contexto e as Representações Sociais.................................................................................... 33
2.2.2 As Noções de Língua e Ideologia da Teoria Marxista em Fairclough e o Estancamento da
Mudança Social .................................................................................................................................. 44
2.2.3 O reframing como Proposta de Mudança Discursivo-cognitiva ............................................... 46
2.3 SOCIOCOGNIÇÃO E DISCURSO............................................................................................................. 48
2.4 A PROPOSTA SOCIOCOGNITIVA DE TEUN VAN DIJK............................................................................ 52
2.4.1 Discurso Sociedade em Três Aspectos de Interface .............................................................. 54
2.4.2 Os Gêneros Textuais, sua Relevância na Interface e outras Críticas à AD Cognitiva .............. 61
2.5 DA SOCIOCOGNIÇÃO AO DISCURSO (DES)LEGITIMADOR..................................................................... 68
3. (DES)LEGITIMAÇÃO: UMA PRÁTICA SOCIAL, DISCURSIVA E COGNITIVA .................... 78
3.1 (DES)LEGITIMAÇÃO: LEITURAS SOCIAIS, AÇÕES DE CATEGORIZAÇÃO................................................. 78
3.2 A LEGITIMAÇÃO SEGUNDO HABERMAS .............................................................................................. 81
3.3 A LEGITIMAÇÃO E O DISCURSO .......................................................................................................... 86
3.4 A LEGITIMAÇÃO E A TEORIA SOCIAL.................................................................................................. 89
3.5 A LEGITIMAÇÃO COMO UMA MACROCATEGORIZAÇÃO SOCIAL.......................................................... 93
3.5.1 Categorização: uma atividade corporificada na mente e no discurso....................................... 94
3.5.2 Entre Protótipos e Estereótipos: a categorização de atores/grupos sociais como um continuum
.......................................................................................................................................................... 100
3.5.3 A Análise do Continuum Protótipo – Estereótipo no Discurso Jornalístico............................ 105
4. A FABRICAÇÃO DA REALIDADE I: DAS CATEGORIAS DE ANÁLISE................................ 111
4.1. O ESQUEMA DE ANÁLISE E SUAS CATEGORIAS................................................................................ 114
4.2 DESENVOLVENDO AS CATEGORIAS DE ANÁLISE............................................................................... 116
5. A FABRICAÇÃO DA REALIDADE II : ENTRE ‘ATOS’ E ‘FATOS’, A (DES)LEGITIMAÇÃO
DE ELDORADO DO CARAJÁS............................................................................................................ 136
5.1 A ANÁLISE DOS FRAMES .................................................................................................................. 136
Frame I – A Circulação das Versões ................................................................................................ 136
Frame II – A Mobilização da Sociedade........................................................................................... 149
Frame III – A Legalização de uma Versão: a cobertura dos trâmites jurídicos............................... 172
Frame IV – A Criminalização do MST ............................................................................................. 192
Frame V – A Partidarização do MST ............................................................................................... 206
Frame VI - o reframing: a não-ocorrência....................................................................................... 219
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................................... 221
6.1 A REALIDADE FABRICADA: ALGUMAS CONCLUSÕES SOBRE A (DES)LEGITIMAÇÃO DE ELDORADO DE
CARAJÁS ................................................................................................................................................ 225
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................................................... 231
ANEXO I................................................................................................................................................... 239
ANEXO II ..................................................................................................................................................277
1
1. Considerações Iniciais
Começamos a apresentar este trabalho o fenômeno investigado, objetivos,
problemas de pesquisa, hipóteses e proposta teórica – partindo da análise do texto abaixo:
Exemplo 1:
MST quer manter 'guerra permanente', diz governo (FSP, 30/12/1996)
1 Relatório interno do governo diz que o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
2 Sem Terra) definiu que vai ''manter uma verdadeira guerra permanente'' contra o
3 Executivo.
4 Assessores do presidente Fernando Henrique Cardoso consideram o MST o principal
5 foco de ''tensão social'' do atual governo.
6 Chegam a avaliar que os líderes do movimento podem perder o controle sobre a
7 organização, com conseqüências imprevisíveis.
8 Essa avaliação fez com que o Palácio do Planalto determinasse um acompanhamento
9 sistemático das ações do grupo, principalmente depois do incidente de Eldorado do
10Carajás (PA). Na época _abril de 96_, 19 sem-terra morreram durante conflito com a
11 Polícia Militar. O governo avaliou que foi pego de surpresa por esse e outros episódios
12 envolvendo sem-terra.
Essa foi a última notícia publicada no jornal Folha de S. Paulo em 1996, ano em
que pelo menos 19 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST) foram assassinados em Eldorado dos Carajás, município do Pará. Dos vários
aspectos que podem ser analisados nesse texto, ressaltamos por agora um: como o jornal
categoriza o que ocorreu em Eldorado dos Carajás, em 17 de Abril de 1996. A seleção
lexical é um elemento relevante para investigar essa questão. Observemos nas linhas 9:
incidente de Eldorado dos Carajás”; 10: “durante conflito com a Polícia Militar”; 11 e
12: “outros episódios envolvendo sem-terra”. Os itens lexicais incidente, conflito e
episódios operam como neutralizadores de agência, ou ainda ‘naturalizadores’: o que
aconteceu em Eldorado dos Carajás não é situado como resultante de um contexto
político-social específico, mas como uma casualidade. E mais: tampouco existem agentes
responsáveis, que incidentes e episódios são aleatórios, ou não podem ser controlados
pela ação humana. Se pessoas morreram em um conflito, os responsáveis por essas
mortes não podem ser identificados e, conseqüentemente, não culpados. Como
2
observamos nas linhas 10, 11 e 12: são construções sintáticas que neutralizam a ação,
pois não há um ator causal, alguém que tenha cometido as mortes.
Também é interessante perceber qual ‘modelo de contexto
1
encapsula a
referência a Eldorado dos Carajás. O ‘tópico discursivo’
2
, desenvolvido principalmente a
partir do título e do lead (primeiro parágrafo) da notícia, trata de um relatório em que o
então Governo Federal criminaliza as supostas ações do MST. As análises do ‘acesso
discursivo’ e da representação’ dos sem-terra nessa notícia podem esclarecer melhor tal
aspecto. Apesar de todo o texto ser sustentado pelo discurso do Governo, já que nenhum
integrante do MST foi entrevistado, observamos um ‘efeito de interdiscursividade’ entre
o Governo e o MST. Isso se a partir de uma estratégia de atribuição discursiva. Ou
seja: um relatório elaborado pelo governo diz como serão as ações do MST; assessores do
então presidente consideram o movimento como um ‘problema social’ e avaliam
catastroficamente o futuro dos sem-terra. Primeiramente, pela seleção dos verbos,
observamos a legitimidade dada pelo jornal ao relatório. A partir desse aspecto, podemos
identificar o que estamos chamando de atribuição discursiva: o governo fala pelos sem-
terra e tem legitimidade para isso. O discurso do governo sobre o MST passa a ser
tomado como o próprio discurso do movimento (“o MST definiu que vai ‘manter uma
verdadeira guerra permanente’ contra o Executivo”). No trecho “manter uma verdadeira
guerra permanente”, o uso das aspas não é suficiente para clarificar que se trata de como
o governo está categorizando as ações do MST e não como o próprio MST definiria seu
planejamento político. As aspas funcionam apenas como uma marca do discurso
reportado, mas não ressaltam tal aspecto cognitivo. Outros elementos reforçam o
processo de atribuição discursiva, como, por exemplo, a metáfora “guerra permanente”,
precedida do adjetivo “verdadeira”. Também é relevante pensar no próprio uso da
metáfora ‘guerra’ e ao que ela está associada: violência, conflito, transtornos.
Do discurso do jornal aos atuais problemas políticos e jurídicos do MST: i) não há
condenados pelas mortes em Eldorado dos Carajás e o massacre está legalizado; ii) os
1
O conceito de modelo de contexto é discutido mais sistematicamente no capítulo 2, assim como ao longo
de todo o trabalho, mas por enquanto o definimos resumidamente: são representações subjetivas de
situações comunicativas e está armazenado na nossa memória episódica (van Dijk, 2000b).
2
Tópicos discursivos são entendidos como uma macro-ação discursivo-cognitiva, que organiza os aspectos
centrais tratados em um texto (van Dijk, 2003). Esta e as demais categorias de análise estão desenvolvidas
no quarto capítulo.
3
integrantes do movimento apontam a mídia como uma das instituições que mais atuam no
processo de criminalização do movimento, devido a uma cobertura estereotipada e
antidemocrática. Não se trata aqui de estabelecer uma ‘relação direta’ entre o discurso da
mídia e a situação do MST, pois há uma complexidade de práticas sociais – que não só as
discursivas e aspectos históricos que atuam nesse processo. Buscamos investigar, a
partir dos textos jornalísticos, a ‘relação constitutiva’ entre uma prática discursiva
específica e uma prática social. Se o preconceito e a marginalização do MST, isso não
pode ser aceito como ‘a verdade’ sobre o movimento, uma atribuição natural. Mas sim
como ‘uma verdade’ construída por grupos e atores sociais específicos, agindo
discursivamente.
Assim, chegamos ao aspecto central deste trabalho: discursos constituem
sociedades e têm força para (des)legitimar atores, ações e grupos sociais. Tal afirmação
tem como base os trabalhos desenvolvidos na Análise Crítica do Discurso (ACD), norte
teórico desta pesquisa. Seguindo essa perspectiva, propomos analisar a ação discursiva do
jornalismo no processo de (des)legitimação do massacre de Eldorado dos Carajás.
A nossa proposta é desenvolver o estudo da (des)legitimação a partir de duas
perspectivas: i) de forma mais ampla, entendemos que se trata de um fenômeno resultante
de distintas práticas sociais, por isso precisa ser investigado multidisciplinarmente; ii) e,
especificamente, como uma prática discursiva que age na elaboração cognitivo-discursiva
de categorização de atores/grupos sociais. Distinguir tais aspectos requer uma análise
mais complexa dos processos de construção da (des)legitimação e possibilita investigar o
fenômeno a partir dos seus distintos aspectos constitutivos: social, cognitivo, político e
discursivo.
Isso porque, ao situar a (des)legitimação como um fenômeno atrelado à prática
social, entendemos que ele extrapola os limites de um domínio específico e resulta das
amplas relações que se estabelecem em uma sociedade. Assim, podemos compreender a
constituição da (des)legitimação não apenas como algo relacionado às instituições de
poder, ou a amplas disputas ideológicas, mas também como um fenômeno que se cria a
partir de práticas cotidianas, quando, por exemplo, aceitamos, silenciosamente, o racismo
e o preconceito. E, ao propor um estudo discursivo para a legitimação, buscamos
4
investigar sistematicamente a ação dessa prática na complexa rede social que envolve tal
processo.
Alguns trabalhos m sendo desenvolvidos nas Ciências Sociais e na Filosofia,
a partir de uma concepção de legitimação como ‘ações comunicativas objetivando o
acordo’ (Habermas, 1999 [1973]), mas são poucos os que se detêm ao aspecto
especificamente discursivo (Rojo e van Dijk, 1997; van Leeuwen, 2007). Por isso, o
objetivo desta pesquisa é investigar a (des)legitimação tanto sob a perspectiva social e
cognitiva, quanto lingüística-discursiva, a partir da construção de um quadro teórico
multidisciplinar que dê conta desses aspectos. Assim, partindo das considerações de
Habermas (1999 [1973]) e Rojo & van Dijk (1997), defendemos que a legitimação não é
apenas um ato ilocucionário, definido nos termos e condições convencionalmente
apropriados (eleições, decretos, leis etc.), mas resultante de teias de relações sociais,
tendo os gêneros discursivos como uma importante força propulsora. Isso quer dizer
tomar os processos de (des)legitimação como resultantes de práticas sociais, que
envolvem não apenas ações discursivas, mas macro-ações sociocognitivas constituídas (e
constituindo) contextos históricos.
Resumidamente, assumimos a seguinte perspectiva para (des)legitimação: uma
ação social de aceitabilidade atribuída a atores e grupos sociais (domínios) e promovida
discursivamente através de tipos relativamente estáveis de enunciados (gêneros). Tal ação
se estabelece, principalmente, por discursos de grupos ligados às instituições de poder
(controle discursivo); e é consolidada socialmente a partir de processos de categorização
que resultam na construção de modelos cognitivos dominantes (estereótipos/protótipos).
Noções teóricas bastante complexas foram introduzidas, neste capítulo, mas
apenas com o objetivo de situá-las no quadro desta investigação
3
. Esses conceitos,
entretanto, estão aprofundados ao longo do trabalho de forma mais sistemática. Por
enquanto, é preciso definir pontualmente algumas noções fundamentais que dão
sustentação a este estudo: uma concepção de sujeito crítico/cognitivo, ativo e reflexivo
3
É importante esclarecer duas questões sobre este trabalho: i) não adotamos um capítulo específico para a
fundamentação teórica, sendo a teoria desenvolvida a partir das especificidades da investigação; ii)
optamos por uma apresentação não restritamente cronológica deste trabalho, mas norteada pela discussão
de seus conceitos fundadores.
5
(Giddens, 2003; Billig, 1991); uma noção sócio-interacionista de língua, situando-a como
uma atividade resultante de relações sociais e instaurada pelos interlocutores mediante os
recursos lingüísticos para a construção das versões públicas do mundo (Marcuschi,
2005a); decorrendo, daí, um conceito de discurso como uma forma de ação social
(Fairclough, 2001), irremediavelmente atrelado à prática social e ao contexto, sendo este
entendido como modelos mentais, em contínua atualização entre os nossos constructos
sociocognitivos e o texto (van Dijk, 2006a). A cognição é a propriedade base para a
constituição de todos esses elementos, pois organiza a nossa capacidade de conhecer e de
dar a conhecer, sendo que essa capacidade, ainda que individual, é socialmente
compartilhada, por isso sociocognitiva. Esses pressupostos nos habilitam a situar a
(des)legitimação como um fenômeno que emerge nas práticas públicas, constituída no
âmbito social, resultante da ão de sujeitos reflexivos. Se estabelecer a (des)legitimação
é uma ação humana (individual e coletiva), esta ação resulta de operações de natureza
sociocognitivas; portanto o processo de categorização é um dos aspectos centrais para
esta pesquisa (ver capítulo 3).
A justificativa para este trabalho é a possibilidade de investigar, a partir de
práticas discursivas, como autoridade e legitimidade são criadas, reforçadas e
questionadas no próprio discurso; como também elas são negociadas e disputadas
socialmente. Sendo a (des)legitimação uma das mais importantes forças de sustentação da
hegemonia liberal, é urgente a necessidade de discutir as suas complexas formas de
estabelecimento. A escolha pela análise do discurso (des)legitimador da imprensa em
relação ao caso de Eldorado dos Carajás se deve à sua relevância social. O massacre
mobilizou vários setores da sociedade, no Brasil e no exterior, e, mesmo após uma
década, continua tendo cobertura nos jornais e vários desdobramentos jurídicos.
As reflexões aqui apresentadas nos levam a considerar alguns problemas de
pesquisa. Tomamos como central para este trabalho a seguinte questão: quais as ações
lingüístico-cognitivas envolvidas no processo de elaboração do discurso
(des)legitimador? Como essas ações resultam em discursos distintos sobre um mesmo
episódio? Essas indagações levam a outro problema de natureza heurística: Como
‘versões’ se consolidam como um ‘fato’, algo dado, concreto, objetivo, quase que
naturalmente constituído e legitimado?
6
Ao analisar os textos publicados sobre o caso de Eldorado de Carajás,
identificamos no discurso jornalístico duas possibilidades de categorização do episódio:
massacre x legítima defesa. Militantes do MST, organizações não-governamentais,
entidades de direitos humanos etc. categorizam a morte dos militantes dos sem-terra
como um massacre. Para a Polícia, a Justiça e para os Governos Estadual e Federal,
tratou-se de uma ação de legítima defesa. O que pretendemos investigar é a natureza das
categorizações e suas ações discursivas que resultam em versões tão distintas. Nosso
propósito é analisar os esforços cognitivo-discursivos desempenhados pelos atores/grupos
sociais para construir um ‘fato’, pois entendemos que são os discursos que transformam
um evento em um ‘fato’. Um ‘fato’ é um trabalho discursivo, não um dado a priori.
Os objetivos aqui apresentados são, portanto, tanto de ordem teórica quanto
social, pois pretendemos investigar o funcionamento da sociedade (Giddens, 2003), a
partir da análise discursiva. Sistematicamente, tomamos tais pontos para estudo:
Objetivo Geral:
Investigar a constituição da versão predominante (ou da ‘verdade’) sobre o
massacre em Eldorado dos Carajás, a partir das ações discursivas dos distintos
grupos e atores sociais envolvidos no caso.
Objetivos Específicos:
Investigar a ação do domínio jornalístico na construção da (des)legitimação do
massacre de Eldorado de Carajás.
Analisar as ações discursivas de categorização do jornalismo sobre Eldorado de
Carajás, a partir das suas atividades de articulação e re-elaboração de outros
discursos.
Analisar as relações estabelecidas pela imprensa entre as demais ações do MST e
o caso de Eldorado dos Carajás.
Para elaborar essas questões, tomamos como hipótese de trabalho que a
legitimação serve, em última conseqüência, para consolidar grupos e ideologias
7
dominantes, controlar o poder social e excluir grupos dissidentes, contrários ao status
quo. Entendemos que estabelecer a legitimidade é fazer com que uma verdade (a do
grupo dominante) se consolide como a verdade, ou ainda como um modelo cognitivo
predominante. Como toda hipótese, trata-se de uma pressuposição, um posicionamento
assumido neste trabalho e que nos propomos, ao longo da investigação, analisar sua
validade.
Entretanto, é importante ressaltar que tais pressupostos são elaborados a partir da
nossa perspectiva sobre o caso investigado. Mais: eles são posicionamentos críticos,
assim como ideologicamente orientado. Negar esses aspectos seria negar não nossas
referências teóricas, mas o nosso esforço em desenvolver uma investigação fora do
paradigma positivista. Assim como não aceitamos a imparcialidade e neutralidade no
discurso jornalístico, também não podemos fazê-lo no domínio acadêmico. Na essência
de tudo está o processo de construção de significações – ou de semiotização. Enfim, tudo
são discursos e perspectivas de observação. Assim, o mito da objetividade não mais se
sustenta em um paradigma de ciência no qual o princípio básico é o de que a produção do
conhecimento se dá entre sujeito-sujeito, não entre sujeito-objeto (Santos, 2003).
Assim, desenvolvemos esta investigação a partir das seguintes perspectivas:
1) Na disputa discursiva travada no caso de Eldorado dos Carajás, predominou o discurso
das instituições do poder (Justiça, Governo), estabelecendo como legítimos os
assassinatos. Isso aconteceu independentemente da condenação judicial, pois legalização
e legitimação são processos de naturezas distintas. Nessa linha, o jornalismo categoriza
Eldorado de Carajás a partir da versão de ‘legítima defesa’.
2) A legitimação dos assassinatos em Eldorado dos Carajás teve como sustentação a
deslegitimação pela imprensa do MST como grupo social: suas ideologias, suas
reivindicações e suas lutas. Isso se dá a partir de uma cobertura estereotipada e
preconceituosa sobre as práticas do MST.
É importante esclarecer, entretanto, que essas perspectivas não são certezas
absolutas, mas são posturas políticas. E elas são elaboradas a partir de concepções
político-ideológicas, fundamentadas por diversos trabalhos já realizados sobre o domínio
8
jornalístico e suas relações com o poder (ver Chomsky, 1999; Halloran et al 1970; van
Dijk, 1991). E, justamente por não estar estagnados em certezas, propomos esta pesquisa.
Assim, o ‘risco da dúvida’ se mostrou bastante positivo, ao longo desta investigação, ao
descobrirmos peculiaridades sobre a prática jornalística não exploradas em trabalhos
anteriores. Especificamente, podemos citar um aspecto desenvolvido no terceiro capítulo
sobre as representações sociais, a partir de uma linha contínua entre protótipos e
estereótipos, sendo essas representações de natureza instável e sujeita a interferência da
sociedade na cobertura jornalística.
Sobre os aspectos metodológicos, desenvolvemos um estudo privilegiando a
investigação da constituição de um fenômeno o da legitimação e não apenas a sua
interpretação. Assim, situamos este estudo como de natureza mais heurística do que
hermenêutica. No tratamento dos dados, pretendemos observar as diferentes ações
discursivas, tomando uma macro-categoria como guia para a análise das demais
categorias analíticas. Essa distinção não trata de uma ‘hierarquização’ dos dados, mas sim
de uma observação mais aprofundada das ações discursivas. Como macro-categoria de
análise, propomos os frames de cobertura’. Estes frames são os distintos enfoques
identificados no corpus, durante os dez anos de cobertura sobre o massacre de Eldorado
dos Carajás (1996 a 2006). É a partir desses frames que pretendemos observar o
funcionamento dos demais aspectos lingüístico-discursivos. Essa macro-categoria resulta
de recortes observacionais do corpus e conta de como ocorreram os processos de
interação entre imprensa e sociedade, enfatizando o aspecto cognitivo do discurso.
É importante esclarecer, desde agora, que o termo frame é adotado seguindo dois
desdobramentos: i) como categoria analítica, na qual não remetemos a uma referência
teórica específica, mas seguindo uma noção-base sobre frames: elementos cognitivos que
guiam a compreensão e a própria interação social; ii) entretanto, também tratamos frame
como um conceito, mas sem aprofundar a discussão sobre as suas distintas linhas. Nesse
caso, usamos o frame como um contraponto para uma outra noção que apresentamos ao
longo do trabalho, a de reframing. Essa noção também é utilizada como uma categoria
analítica. Ao investigar as variações de enfoque na cobertura jornalística sobre Eldorado
de Carajás, estamos investigando o contínuo processo de frame-reframing sobre o
9
episódio e, conseqüentemente, as atividades de categorização e (des)legitimação do
massacre. Esses aspectos são desenvolvidos nos capítulos 4 e 5.
A discussão teórica sobre frame-reframing tem como base a proposta de Lakoff
(2004:xv), que situa frames como “estruturas mentais que moldam a forma como vemos
o mundo”. Neste sentido, frames são unidades conceituais. Em uma análise da mídia, o
autor identifica que ocorrem várias mudanças de cobertura sobre um mesmo tema, a
partir da re-conceitualização, ou reframing. Na sua proposta, é o processo de reframing
que propicia a mudança social, e isso ocorre a partir de um amplo esforço cognitivo dos
distintos grupos sociais para a mudança de modelos cognitivos. Esta discussão é
aprofundada no terceiro capítulo.
Tomamos como corpus ampliado de pesquisa todos os textos dos gêneros
‘notícia’, ‘nota de opinião’, ‘artigo de opinião’ e ‘reportagem’ publicados no jornal Folha
de S. Paulo (FSP), durante a primeira década de cobertura sobre Eldorado dos Carajás.
Primeiro é preciso esclarecer a necessidade de delimitar a pesquisa em apenas um jornal
e, depois, justificar a escolha dos gêneros textuais. A opção por um jornal se deve,
principalmente, ao objetivo desta investigação: buscamos uma análise que conta da
construção histórica de uma versão contada sobre o massacre dos sem-terra. Para isso,
precisamos de um corpus que não se caracterize pela diversidade de variáveis
ideológicas, mas de um material que possibilite uma pesquisa profunda sobre os
desdobramentos da história. Também, devido ao vasto período analisado, percebemos
que é possível identificar a ‘diversidade discursiva’ que poderia ser identificada na
análise de outros jornais. Isso porque, ao longo dos dez anos, mudanças ocorreram na
direção da FSP, no quadro de reportagem e, conseqüentemente, nos direcionamentos das
coberturas.
A opção pelo jornal Folha de S. Paulo foi feita a partir de dois critérios: 1) seu
alto índice de circulação no país, sendo o que melhor se caracteriza como um ‘jornal
nacional impresso’, daí seu poder discursivo; 2) a FSP foi um dos poucos jornais que fez
a cobertura in loco sobre o massacre. A grande maioria utilizou-se de textos fornecidos
por agências de notícias, inclusive sendo uma delas a própria Folha. Fazem parte do
corpus ampliado de pesquisa todos os textos publicados durante os dez anos de cobertura
sobre Eldorado dos Carajás. A delimitação do corpus restrito, como em toda pesquisa,
10
são de ordem subjetiva, pois é estabelecida por critérios do pesquisador, não por algo que
está nos dados ou mesmo seja inerente a eles. Assim, os textos são selecionados a partir
das suas distintas características, o que proporciona debates mais diversificados sobre as
peculiaridades dos frames de cobertura. A delimitação também é necessária devido ao
vasto número de textos que compõem o corpus ampliado mais de trezentos. Por isso, a
seleção do corpus restrito é uma tentativa de incluir nas análises as distintas
características apresentadas em cada frame.
A partir da categorização por frames, também é possível analisar o discurso da
imprensa não pelo aspecto quantitativo ou cronológico da cobertura, mas sim pelo
desenvolvimento dos enquadres discursivos. Isso significa compreender que a atividade
jornalística não é uma reprodução de fatos, mas uma ação constitutiva desse tal ‘fato’. A
macro-categoria também serve para analisar as ações dos gêneros textuais nos diferentes
frames.
A escolha dos gêneros textuais se deve às suas distintas características de
organização e estratégias argumentativas. Nos gêneros ‘notícia’ e reportagem’, é
possível analisar o discurso da imprensa a partir do efeito de sentido da objetividade.
no gênero ‘nota de opinião’ e ‘artigo de opinião’, a estratégia argumentativa é
diferenciada, pois se supõe um texto jornalístico ‘abertamente’ opinativo. Entretanto, em
nossas análises, identificamos outras estratégias retóricas de construção de sentido. No
artigo de opinião, por exemplo, uma das estratégias se a partir de um efeito
opinativo’, ou seja, o discurso do colunista deveria ser a sua opinião sobre o assunto
tratado. Entretanto, em vários casos, ele está reverberando o discurso do poder, a partir de
elementos implícitos. O efeito de sentido é: a opinião do jornal opera como uma ação
legitimadora do discurso das instituições do poder. Trazemos esse aspecto apenas para
exemplificar a diversidade de construções de sentido, nas diferentes ações dos gêneros
textuais. Desenvolvemos essas questões nos capítulos 4 e 5.
Analisamos o discurso da imprensa a partir de uma dinâmica que busca identificar
os elementos cognitivos e lingüístico-discursivos que operam no processo de interface
entre os macro-aspectos (contexto social) e o ‘mundo textual’. Assim, desenvolvemos
uma análise que engloba elementos discursivo-cognitivos, textuais e semânticos. E, a
partir desses aspectos, observamos a macro-ação da imprensa na interferência dos
11
processos jurídicos, dos posicionamentos de governos e nas mobilizações sociais, ou seja,
nos aspectos de ordem social e política. É importante ressaltar que compreendemos esse
processo também em sentido contrário, ou seja, os grupos sociais e políticos interferem
na construção do discurso da imprensa. E isso é mais um ponto de investigação em
nossas análises.
Outro aspecto relevante a ser esclarecido sobre nosso esquema de trabalho é que
as categorias não são entendidas como unidades isoladas e estanques na construção do
discurso (des)legitimador. Pelo contrário. Elas se inter-relacionam e operam
conjuntamente na elaboração textual. Especificar tais elementos é mais uma necessidade
metodológica, pois nos possibilita detalhar a natureza de cada uma delas. Também é
importante ressaltar que a construção do texto está irremediavelmente atrelada aos
‘modelos de contexto’, sendo que estes operam em distintos momentos da elaboração
textual, inclusive são anteriores à fala ou à escrita. No caso dos textos jornalísticos, isso
pode ser construído nas entrevistas, nas leituras dos releases (textos informativos
fornecidos por assessorias de imprensa), nas conversas com outros jornalistas etc. Esses
elementos vão operar no momento em que o escritor elabora o seu próprio modelo para a
construção textual.
Observemos esses aspectos no esquema seguinte:
Frames de
Cobertura
Unidades de Ações
Legitimadoras
Sociais
Gêneros
Textuais
Tópicos
Discursivos
Esquema 1: Dinâmica da construção do texto jornalístico
12
1.1 A Análise Crítica do Discurso: preceitos básicos do marco teórico
Os pesquisadores da Análise Crítica do Discurso (ACD) se alinham em um
projeto de estudo básico: uma investigação discursiva não pode ser desenvolvida sem dar
conta de aspectos históricos, ideológicos e de relações de poder (Wodak, 2003). Outro
ponto convergente entre os analistas críticos do discurso é a investigação da constituição
de fenômenos, e não apenas da sua interpretação ou explicação. Na ACD, desenvolvem-
se pesquisas que buscam caminhos mais heurísticos que hermenêuticos, ou como definiu
Wodak (2003:30): “não se trata de descrever, explicar, mas de arrancar a raiz do
problema”. Assim, racismo, discriminação, marginalização de grupos sociais são
estudados a partir de sua constituição discursiva, e não apenas como fenômenos
resultantes de estruturas sociais definidas. Podemos dizer também, com as palavras de
Marcuschi (2005b), que se trata de ‘escutar’ o problema que se está investigando, de
dialogar com ele. E, a partir desse ‘diálogo’, entender as ‘entranhas’ dos problemas e
agir, criticando e denunciando as formas de dominação e poder que tendem a ser
naturalizadas em sociedade; ser uma forma de resistência criativa, pois, ao conceber o
poder e a dominação como fenômenos resultantes de complexas práticas sociais, entre
elas a discursiva, situa-se também no discurso as possibilidades de mudança ou de
acomodação. O projeto comum da ACD é, fundamentalmente, uma postura
epistemológica sobre o ‘fazer científico’, propondo a ruptura com uma série de conceitos
que ainda estão estabilizados sob o paradigma da ciência moderna, tais como
‘objetividade’ e ‘neutralidade’ (Santos, 2003; Kuhn, 1992), defendendo o engajamento da
prática acadêmica e a busca do diálogo com a sociedade para a construção do saber e para
a mudança social.
O desenvolvimento dos trabalhos da ACD, entretanto, persegue caminhos
distintos. As duas linhas teóricas que trataremos mais aprofundadamente são as propostas
por N. Fairclough e T. van Dijk, não apenas pela relevância dos trabalhos desses dois
autores, mas também pela possibilidade de explorarmos, a partir das suas propostas de
pesquisa, algumas questões epistemológicas fundamentais na ACD
4
. Não pretendemos
4
É importante ressaltar que, ao delimitar esta discussão nos trabalhos de T. van Dijk e N. Fairclough, não
estamos desconsiderando a importância dos demais pesquisadores da Análise Crítica do Discurso. A
13
fazer um apanhado detalhado dessas abordagens, mas buscar os fundamentos das duas
perspectivas, a partir de alguns aspectos principais, entre eles o da relação discurso
sociedade, assim como os conceitos de ideologia, contexto, representação social e
modelos mentais. A opção por tal enfoque se deve, em primeiro lugar, por esses conceitos
serem definidores na distinção das duas linhas de pesquisa e, em segundo, pela relevância
dessas noções para a abordagem cognitiva que buscamos desenvolver neste trabalho.
Assumimos como base teórica para esta investigação a linha sociocognitivista
desenvolvida por Teun van Dijk, dentro do marco teórico da Análise Crítica do Discurso.
De acordo com van Dijk (2006a, 2000a), uma análise discursiva só dará conta das
complexas relações entre prática discursiva e prática social se o aspecto sócio-cognitivo
for tomado como uma interface entre essas duas práticas. Essas considerações são
desenvolvidas no segundo capítulo, no qual tratamos da ‘Análise Cognitiva do Discurso
(AD Cognitiva)’. Não se trata de propor mais uma vertente para as várias análises do
discurso, nem mesmo algo que se opõe à ACD. A preocupação de van Dijk não é
delimitar seu trabalho em uma linha fechada de investigação ou criar uma nova ‘escola’
para os estudos do discurso. Pelo contrário: o autor ocupa-se em ampliar o quadro teórico
da ACD, levantando problemas e questões teóricas de natureza cognitiva, ainda deixadas
de lado por boa parte dos analistas críticos do discurso, mesmo que várias pesquisas em
outras áreas do conhecimento venham, cada vez mais, ressaltando a relação irremediável
entre a cognição e as práticas lingüísticas.
A própria investigação empírica do discurso vem exigindo respostas que têm sido
ignoradas por muitos pesquisadores tais como os distintos processos de compreensão e
escrita de textos e o problema do contexto para a elaboração textual. Essa necessidade
resulta da própria complexidade da prática discursiva, que envolve performances
cognitivas e conhecimentos lingüísticos de escritores/falantes socialmente situados, em
um contínuo processo histórico de formação. Essas questões são discutidas, no primeiro
capítulo, em contraponto à proposta da teoria sistêmico-funcional que fundamenta a
maior parte dos estudos da ACD.
questão é que, de acordo com as reflexões que propomos desenvolver neste capítulo, esses autores
apresentam marcos teóricos fundadores distintos para a ACD.
14
O terceiro capítulo tem como objetivo desenvolver a nossa proposta para o estudo
do processo de (des)legitimação. É fundamental para esta investigação situar a
(des)legitimação como uma atividade resultante das relações sociais, norteada por
modelos cognitivos, sendo o discurso uma das práticas que (des)estabiliza tal processo.
Para dar sustentação a essa perspectiva, faz-se necessário um apanhado de distintas
referências teóricas. Ao defendermos, primeiramente, que o discurso é constituído pela
tríade sociedade-linguagem-cognição, e ao situarmos a (des)legitimação como um
processo resultante dessa constituição, necessitamos desenvolver uma abordagem
essencialmente interdisciplinar, estabelecendo um diálogo entre teorias sociais,
discursivas, lingüísticas e cognitivas.
No que diz respeito ao aspecto cognitivista, de forma ampla, assumimos a
perspectiva sociocognitivista. Isso significa entender a cognição como uma propriedade
que se desenvolve para as (e nas) relações sociais (Tomasello, 2003). Para o
desenvolvimento desta investigação, temos como norte alguns aspectos das teorias de
Lakoff (1987) quando defende a natureza corporificada da mente e de van Dijk
(2006a, 2006b), que situa a mente a partir da sua constituição discursiva. Na construção
do nosso quadro teórico, também é de extrema relevância situar qual noção de língua
fundamenta toda esta discussão: uma atividade humana para a organização do mundo,
resultando em processos contínuos de categorização (Marcuschi, 2007b, 2003a;
Mondada, 2000, 1997).
A teoria de Habermas (1996; 1999 [1973]) sobre legitimação é o ponto de partida
para as nossas reflexões. Seguindo o autor, situamos a construção da (des)legitimação na
‘esfera pública’, nas ações do discurso, e não apenas como uma ação atrelada às
instituições do poder (Governos e Justiça). A nossa investigação requer ainda uma teoria
social, ou uma forma de compreender a constituição da sociedade. Assumimos esse
processo a partir da proposta de Giddens (2003), pela afinidade com a perspectiva aqui
assumida sobre práticas lingüísticas e performances cognitivas: fenômenos que se
constituem em um contínuo processo de estruturação, em uma relação de estabilidade-
instabilidade, resultante da ação de ‘sujeitos reflexivos’.
No quarto capítulo apresentamos as categorias teóricas, as justificativas para a
composição de tal quadro teórico-analítico, e como tais categorias operam na construção
15
discursiva do fenômeno da (des)legitimação. O quinto capítulo é destinado às análises
sistemáticas dos textos jornalísticos, a partir da macro-categoria frames de cobertura. Os
objetivos dessas análises são identificar os elementos discursivo-cognitivos e lingüísticos
que operam na interface discurso sociedade e, a partir daí, investigar o processo de
(des)legitimação do massacre de Eldorado dos Carajás.
O objetivo do quinto capítulo é apresentar uma análise global das análises
desenvolvidas nos frames, sistematizando as considerações, e, assim, apresentar
propostas interpretativas sobre o fenômeno investigado, a partir do discurso jornalístico.
O sexto capítulo traz considerações finais deste trabalho, bem como reflexões sobre a
(des)legitimação e perspectivas para os estudos discursivos.
1.2 17 de abril de 1996: massacre x legítima defesa
Para compreender os problemas teóricos levantados, faz-se necessário
contextualizar o caso em estudo: o massacre de Eldorado dos Carajás. No dia 17 de Abril
de 1996, pelo menos três mil trabalhadores sem-terra participaram de uma manifestação,
ocupando uma rodovia no Pará. Eles reivindicavam a desapropriação de um latifúndio
improdutivo onde o MST montou o ‘Acampamento Macaxeira’. A reação do Governo
do Estado foi imediata, mas não em busca da negociação. O então governador do Pará,
Almir Gabriel (PSDB), deu a ordem para a Polícia Militar desmobilizar o protesto e
liberar a rodovia. 155 policiais irregularmente armados de acordo com o relatório do
Ministério Público foram acionados para cumprir a ordem. Resultado: pelo menos 19
integrantes do MST foram assassinados e nenhum policial ficou gravemente ferido.
Nesses dez anos, três julgamentos foram realizados, com várias irregularidades jurídicas.
Foram condenados apenas os dois comandantes responsáveis pela operação: o coronel
Mário Pantoja e o major Oliveira. Nenhum policial foi condenado. Em outubro de 2005,
o Supremo Tribunal Federal (STF) concedeu habeas corpus para os dois comandantes,
que estão atualmente em liberdade. O dia 17 de abril foi declarado pela Via Campesina
como ‘Dia Internacional da Luta Camponesa’. No Brasil, desde 2002 passou a ser
oficialmente o ‘Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária’.
16
As categorizações massacre x legítima defesa dão conta das duas versões
predominantes sobre as mortes em Eldorado de Carajás. Os discursos dos Governos
Federal, Estadual e da Polícia Militar (PM) seguem a mesma linha argumentativa: os
sem-terra são os culpados pelas próprias mortes, pois estas resultaram de uma ação
‘necessária’ e em legítima defesa dos policiais militares para conter a ‘manifestação’ e as
agressões do MST. No discurso dos sem-terra, houve um massacre de trabalhadores
rurais. Segundo o MST, a ação da PM foi premeditada e as mortes de alguns sem-terra
planejadas entre os assassinados durante o massacre, muitos eram líderes do
movimento. Na versão do MST, a agressão foi iniciada pela polícia. Nosso objetivo, é
analisar o tratamento da mídia diante dessas duas categorizações e investigar as
estratégias de (des)legitimação desses discursos.
1.3 Jornalismo e Movimentos Sociais: poder e contra-poder na luta pela (des)legitimação
Nesta investigação tratamos basicamente de duas forças sociais. Uma que se
estabelece em relação de sustentação com as forças do status quo: o Jornalismo; outra
que, em seus fundamentos, se posiciona contrariamente a tais forças, historicamente em
situação de conflito com o poder: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST). Entretanto, nesta pesquisa eles estão colocados em relação de interação, para fins
de nossos estudos. Daí a necessidade de tratarmos das suas especificidades, ainda que não
de forma aprofundada, pois isso iria requerer um trabalho de natureza Sociológica, o que
não é nosso objetivo. Situamos apenas as características dessas duas distintas práticas
sociais para, assim, melhor entender como se estabelecem as suas forças e as suas
relações em sociedade.
Primeiro tratemos do Jornalismo. Entendemos que sua característica básica é ser
um domínio articulador dos discursos dos demais domínios e grupos sociais. Sendo que,
ao articular esses discursos, o jornalismo os re-elabora e constrói o seu próprio discurso,
operando fortemente na construção das ‘versões de mundo’. Seguimos as considerações
de Hallloran et al (1970). De acordo com os autores, é de extrema relevância a
investigação deste domínio. Entretanto, os jornalistas têm uma postura pouco
colaborativa quando se trata de tal investigação e resistem em refletir sobre as críticas
17
trazidas por outras áreas do conhecimento Lingüística, Sociologia, História, Ciência
Política etc. Para Halloran et al (1970), devido às condições de suas práticas cotidianas,
os jornalistas estão em envolvimento e identificação com o status quo, por isso eles
consideram que não vale a pena perder tempo, esforço e dinheiro para ‘identificar o
óbvio’. Os jornalistas o se dão conta de que, para a maioria das pessoas, a forma como
as noticias são selecionadas e apresentadas são tudo menos o óbvio, e que várias
explicações deveriam ser dadas sobre essa prática. Tampouco eles aceitam o fato de que
seus próprios conhecimentos e compreensão sobre a produção da notícia podem não ser
completos. O fato de o jornalismo ser um domínio que critica a todos os outros, mas não
se deixa criticar, que controla os discursos que circulam nos veículos de comunicação,
coloca-o em situação privilegiada em relação às demais instituições, mesmo as que fazem
parte do poder.
Para Habermas (2002:218), a estruturação como empresas, e, portanto, com
interesse comercial, fez com que os meios de comunicação se tornassem “pórtico de
entrada de privilegiados interesses privados na esfera blica”. Ao invés de dar
publicidade às questões que efetivamente teriam interesse público para que pudessem ser
trazidas e submetidas a um debate racional, a imprensa passa a dar publicidade à posição
de alguns grupos (os patrocinadores), que, assim, buscam criar um clima de opinião, o
que é qualificado pelo autor como manipulação.
Na via contrária dessas relações de força estão os movimentos sociais (MS): são
organizações não-formais, com amplo envolvimento dos seus integrantes, agindo
sistematicamente contra o abuso de poder e a desigualdade social e reivindicando
mudança política. São movimentos ideologicamente orientados e estão envolvidos com a
solidariedade e o compartilhamento de crenças entre os participantes (Oberschall, 1993).
Segundo Della Porta & Diani (1999), a identidade coletiva é um aspecto crucial para a
caracterização dos movimentos sociais. Não são colisões, pois estas têm caráter
específico e não envolvem compartilhamento de identidades
Dessa definição, chegamos ao que caracteriza o MST. Trata-se de um movimento
social, e não de um grupo, como tende a ser tratado pela mídia. E nisso reside uma
diferença conceitual: grupos (ou comportamentos coletivos) não são organizados
ideologicamente e suas ações têm objetivos bastante específicos e situados, tais como
18
movimentos de bairro, protestos contra violência, reivindicações de infra-estrutura para a
cidade. Ou seja, os grupos se organizam para manifestações coletivas de cidadãos,
exercendo seus direitos constitucionais, reivindicando algo. Não o freqüentes e usuais.
Já os movimentos sociais são em larga-escala, coletivamente financiados para promover a
resistência ou a mudança de questões que afetam a vida de muitos. São construções
históricas da articulação de atores sociais em situação de exclusão ou discriminação
social (movimento feminista, movimentos étnicos etc.).
Assim, podemos resumir, a partir de Della Porta & Diani (1999), o que define, em
essência, a diferença entre os movimentos sociais e os comportamentos coletivos, ou
grupos. Apesar de serem formas de ações coletivas, eles são de naturezas distintas: os
comportamentos coletivos resultam de interações. Não são a soma de várias ações
individuais, mas sim o produto de interações, percepções mútuas e expectativas
chamadas ‘interações estratégicas’; os movimentos sociais surgem como uma reação
para a mudança ou para uma política que negativamente afeta os interesses e a forma de
vida de muitas pessoas.
Após essas delimitações entre as práticas do Jornalismo e dos movimentos
sociais, parece-nos relevante o estudo da estereotipização dos MS, a partir do caso
específico do MST, e da ação da imprensa nesse processo. Entendemos, entretanto, que
distintos grupos da elite agem na deslegitimação das lutas e das reivindicações desses
movimentos, que não só o jornalístico. Dessa relação, talvez seja possível explicar porque
o discurso desses grupos é preferencialmente legitimado pelo Jornalismo, enquanto que
os integrantes do MST estão em constante luta pela legitimação dos seus discursos.
Em sua trajetória de luta, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST) surge da reunião de vários movimentos populares de luta pela terra e vem
reivindicando reforma agrária no Brasil desde janeiro de 1984, quando define a
necessidade de ocupação como uma ferramenta legítima de luta. A partir da Constituinte
de 1988, os sem-terra reafirmam sua autonomia, definem seus mbolos, bandeira e hino.
Com esse aparato simbólico, o movimento passa a ter mais inserção social,
principalmente após o II Congresso do MST, em Brasília, que resulta da expansão do
movimento nacionalmente. Após o massacre de Eldorado de Carajás, a sociedade se
mobiliza ainda a favor do MST. Essa movimentação não passa desapercebida e resulta,
19
conforme analisamos no nosso corpus, em uma resposta sintomática da elite brasileira em
um processo de criminalização do movimento. A imprensa, como uma das instituições da
elite, opera fortemente nesse processo, a partir de uma cobertura estereotipada e
preconceituosa (ver capítulo 5).
Por fim, é importante enfatizar algumas questões de ordem teórica e política que
norteiam esta investigação. Ao defendermos que, em grande parte, é pelo discurso que
crenças e atitudes se estabelecem em sociedade, a análise do discurso pode servir como
uma desconstrução do que se tem como estabelecido. Analisar discursos é desfazer ‘a’
realidade e propor um mundo constituído por realidades distintas, sendo essas realidades
socialmente construídas e historicamente estabelecidas. Um mundo que construímos pela
força da palavra. Analisar discursos é prescindir do conforto de um lugar estabilizado,
dado, concreto e assumir o trabalho cotidiano da (re)invenção, assumir a fluidez, o risco e
a responsabilidade por esse mundo. Assumir a nossa condição de sujeitos reflexivos
(Giddens, 2003), de agentes críticos. Analisar discurso é uma forma de trazer para o
campo do social o que tende a ser naturalizado. É mostrar que verdades são crenças. E
que estas são construídas em relações de forças e, assim, desnaturalizar poderes. Com
essa consciência, fazemos desta investigação um ato de solidariedade com os que são
sistematicamente excluídos do processo de construção social.
20
2. A Análise Cognitiva do Discurso
A proposta de uma Análise Cognitiva do Discurso (AD Cognitiva) tem um
princípio fundamental: a cognição opera na interface da relação entre discurso e
sociedade (van Dijk, 2006a, 2006b, 2000a). O objetivo deste capítulo é desenvolver as
questões teóricas que envolvem essa abordagem, assim como situar os aspectos
fundamentais que distinguem esse projeto dos que vêm sendo desenvolvidos dentro da
Análise Crítica do Discurso (ACD), como o proposto por N. Fairclough (2001, 1995,
1992), com base no modelo da Lingüística Sistêmico-Funcional (LSF). É importante
ressaltar, desde o início, que a proposta de uma AD Cognitiva não resulta simplesmente
de uma articulação entre as teorias discursivas e cognitivas, nem tampouco se trata de
uma abordagem psicológica do discurso. Mas antes, consiste em uma mudança de
perspectiva acerca da natureza de como se percebe a relação discurso sociedade. o
consenso entre os teóricos sobre esse processo de intermediação, pois se em algumas
linhas de pesquisa o discurso é entendido como o elemento mediador entre texto e prática
social (Fairclough 2001b); em outras, como na perspectiva cognitivista, a intermediação é
compreendida a partir de uma interface cognitiva. A relevância de discutir os aspectos
teóricos da LSF deve-se à forte influência desse modelo no desenvolvimento dos estudos
discursivos da ACD.
Não tratamos aqui de toda a complexidade das questões que envolvem a
lingüística sistêmico-funcional, que já vem sendo aplicada há mais de 30 anos, ou mesmo
esgotamos a diversidade e a vastidão teóricas que hoje compõem o quadro das ciências
cognitivas. Vários trabalhos foram realizados com esses propósitos (Gardner, [1985]
1995; Eggins, 1994; Kress, 1976). A nossa preocupação consiste em tratar de aspectos
específicos que servem para o desenvolvimento desta investigação. Pois, ao situarmos
que o processo de (des)legitimação se estabelece a partir de estruturas conceituais
complexas sendo estas estruturas elaborações cognitivas que emergem das distintas
práticas públicas, e constituem essas práticas –, necessitamos de uma análise discursiva
que leve em conta aspectos sociocognitivos.
A base para as reflexões aqui apresentadas são os trabalhos de T. van Dijk, mais
especificamente quando tratamos da AD cognitiva e das críticas à LSF na linha de
21
Halliday (1978) e, de forma mais ampla, os estudos desenvolvidos a partir do que se
estabeleceu como o ‘compromisso cognitivista’, de natureza essencialmente
sociocognitivista, tal qual proposto por Tomasello (2003), bem como os trabalhos de
Lakoff & Johnson (1999) e de Lakoff (2004, 1990). Essas referências, apresentadas de
forma introdutória, compõem o marco teórico deste capítulo. É importante, contudo,
ressaltar uma questão. Decidimos desenvolver mais detalhadamente inclusive a partir
das suas bases epistemológicas a proposta de Fairclough. Isso se justifica por dois
aspectos: i) buscamos uma discussão sobre a obra desse autor que, até agora, não
encontramos nos estudos da ACD. Ou seja, as pesquisas, em geral, tomam como
fundamento a proposta de Fairclough, mas não reflexões críticas sobre tal proposta; ii)
em diferentes aspectos, todos os demais capítulos tratam da base teórico-analítica deste
trabalho: a linha de pesquisa desenvolvida por van Dijk. Por isso, o enfoque da discussão
sobre a obra de Fairclough neste capítulo. Inclusive, nas próprias considerações sobre a
teoria de Fairclough, já são apresentados alguns contrapontos a partir da perspectiva de
van Dijk – como na discussão sobre a noção de contexto, por exemplo.
Assim, a discussão sobre Fairclough está desenvolvida em tópicos, de forma
pontual. Já a teoria de van Dijk permeia todo este trabalho, como também constitui nosso
olhar sobre os textos analisados. Por isso, torna-se redundante nos determos mais
longamente em itens. Assim, desenvolvemos, neste capítulo, noções específicas tais
como contexto, ideologia e representações mentais pelo seu diferencial em relação às
noções clássicas. Como contribuição e posicionamento crítico acerca do trabalho de van
Dijk, propomos uma discussão sobre a importância da abordagem dos gêneros textuais
como um dos elementos da interface cognitiva. Tal perspectiva se diferencia da proposta
do autor, que situa os gêneros como elementos da organização textual. Também
articulamos esta discussão com outras referências teóricas, o que nos ajuda a aprofundar a
investigação do fenômeno da legitimação discursiva.
22
2.1 O Tridimensionalismo de Fairclough e a Tríade de van Dijk: a mediação discursiva e
a cognição na Análise Crítica do Discurso
Fairclough (2001a, 1995, 1992) entende que a ação discursiva na construção dos
significados do mundo dá-se a partir de uma relação dialética entre o social e o simbólico,
entre os indivíduos organizados em grupos (sociedades) e os símbolos organizados em
significados ideológicos (linguagens). Para Fairclough (2001a), essa relação se constitui e
é constituída (como um caminho de via dupla) tridimensionalmente pelo texto, pela
prática discursiva e pela prática social (ver figura 1). Fairclough (2001a, 1995, 1992)
desenvolveu seu modelo influenciado pela perspectiva sistêmico-funcionalista de
Halliday, articulado ao conceito foucaultiano de ‘ordens do discurso’ e, embora sem
aprofundar sistematicamente, com uma base marxista. No que diz respeito às
considerações que pretendemos aqui desenvolver, o objetivo é aprofundar o debate sobre
a influência da LSF na proposta de Fairclough, especificamente quando se trata do
aspecto sociocognitivo, que para Halliday (1978) o que existe é uma externalidade
absoluta, sendo o social colocado em relação dicotômica com o mental. Essa questão é
relevante para discutir o conceito de ‘representações sociais’ em Fairclough, que estas
não são entendidas pelo autor como elaborações cognitivas. É importante ressaltar, desde
agora, que não se trata de criticar Fairclough por não desenvolver uma análise cognitiva
do discurso, o que, de fato, não é sua proposta de trabalho, mas sim por desconsiderar a
dimensão cognitiva da prática discursiva.
23
Outro aspecto que buscamos discutir é a influência da teoria clássica marxista na
obra de Fairclough. De acordo com a perspectiva marxista, a ideologia está atrelada à
classe dominante e serve à imobilidade social, à opressão. Língua e ideologia fazem parte
da superestrutura social e não estão em relação recíproca com a infra-estrutura, pois
ambas são categorias gidas, de difícil mobilidade. Sobre essa questão, tomamos como
fundamento principal as críticas propostas por Bakhtin (2002 [1979]), desenvolvidas no
item 2.2. Parece-nos relevante discutir esses aspectos no trabalho de Fairclough, pois o
autor tem como proposta fundamental a noção de “discurso como mudança social”
(Fairclough, 2001a), o que pode apontar possíveis contradições nos fundamentos
epistemológicos dessa proposta.
Van Dijk (2006a, 2006b, 2000a) propõe uma linha sócio-cognitivista na Análise
Crítica do Discurso, com base na tríade discurso, cognição e sociedade. Para o autor, é
impensável uma teorização social sem os aspectos cognitivos, assim como uma teoria
cognitiva sem uma teoria social. Van Dijk (2006a) defende que uma análise cognitiva
não exclui uma análise social, pois sociedade e cognição estão em relação constitutiva.
Essa compreensão pressupõe dois conceitos fundamentais: i) a cognição é uma
propriedade desenvolvida individual e socialmente, pois é adquirida, aprendida, formada
e transformada tanto em processos de interações sociais, como em processos individuais
Prática social
Prática Discursiva
(produção, distribuição, consumo)
Texto
Figura 1
:
Concepção tridimensional do discurso (Fairclough, 2001:101)
.
24
de percepção, inferenciação etc.; ii) a sociedade é uma construção humana e resulta de
interações coordenadas e negociadas entre atores sociais. Essas interações podem ser
realizadas a partir de crenças, conhecimentos, normas e valores compartilhados. Isso
requer atores cognitivos, capazes de desenvolver tais elaborações (sobre si mesmos) e
atribuí-las aos outros (outros grupos sociais). Se essas elaborações o de natureza
cognitiva, sua função, entretanto, é de ordem social: elas possibilitam a interação. Isso
quer dizer que interagimos porque compartilhamos os mesmos sistemas de crenças, que
são os nossos conhecimentos. E esses conhecimentos não são totalmente sociais, que
alguns estão relacionados às nossas experiências individuais e biográficas, mesmo que
esse processo de construção seja intrinsecamente social. Desses conceitos, podemos
chegar a um outro: a noção de sujeito – ator social – em van Dijk. Mesmo que essa noção
não seja desenvolvida em sua obra, como se ocuparam autores da linha francesa da AD,
ela não é ignorada. É que o ator social se constitui na relação intrínseca entre a sociedade,
a cognição e a prática social (entre ela, a prática discursiva). Dessa forma, podemos falar
de uma noção de ‘sujeito cognitivo’: um agente reflexivo, crítico, que se forma (e é
formado) nas interações sociais.
Assim, passamos a tratar mais especificamente do que van Dijk (2006b) denomina
como interface: por um lado, os atores implicados no discurso o usam exclusivamente
suas experiências e estratégias individuais; por outro lado, os discursos não são formados
em uma externalidade absoluta denominada ‘social’, mas são construídos a partir de
marcos coletivos de percepção o que o estudioso define como representações sociais.
Essas percepções socialmente compartilhadas constituem o vínculo entre o sistema social
e o sistema cognitivo individual, coordenando as exigências externas das ações
interativas com a experiência subjetiva. É disso que trata a relação constitutiva: uma
compreensão de cognição e de discurso como propriedades de natureza social, que se
formam a partir de elaborações de atores cognitivos, críticos e reflexivos. Desse modo,
faz-se necessária uma AD que opere a partir dessa compreensão e, assim, possa dar conta
de vários aspectos das estruturas discursivas que uma perspectiva não-cognitivista não
consegue (por exemplo, a construção de textos distintos partindo de um mesmo tema, as
distintas inferências que leitores/ouvintes realizam no processo de compreensão de um
texto etc.).
25
COGNIÇÃO SOCIAL
Interpretação
Atitudes
Ideologia
DISCURSO ---------------------------- SOCIEDADE
Figura 2: A Tríade da Análise Cognitiva do Discurso
Pela proposta de van Dijk (2000b), os três vértices desse triângulo (figura 2) estão
vinculados, por isso não é possível dar conta dos aspectos cognitivos sem compreender
que os conhecimentos e crenças são adquiridos e repassados discursivamente, em
contextos sociais. Segundo o autor, qualquer tentativa de excluir uma das partes da figura
resulta em uma análise reducionista, pois esses três elementos não são independentes.
Trata-se de uma perspectiva teórica que busca, primeiramente, superar a
dicotomia externo x interno, como também desenvolver uma análise discursiva que não
estabeleça o social como a ‘causa’ para todas as coisas, em uma relação determinística.
Se estamos sob um paradigma de ciência em que não cabe mais um subjetivismo
absoluto, também há uma tentativa de superação do enfoque totalmente externalista das
ditas ‘teorias sociais’ e ‘funcionalistas’. Como definiu Sanders (2005), trata-se de buscar
perspectivas alternativas para as teorias ‘neo-behavioristas’, que pressupõem uma total
externalidade no fundamento do comportamento humano, e analisam esse
comportamento como ocorrências com base institucional/social
5
.
5
Para Sanders (2005), a proposta de Goffman (1967) tem sido a base fundamental para essas teorias neo-
behavioristas.
26
2.2 A Formação do Quadro Teórico de Norman Fairclough: os fundamentos
epistemológicos da Lingüística Sistêmico-Funcional e a Teoria Crítica
O trabalho de Fairclough (2001a, 1995, 1992), como discutimos anteriormente,
é desenvolvido a partir de articulação do conceito de discurso foucaultiano, com o
modelo sistêmico-funcional da escola de Halliday, assim como estudos sociológicos,
principalmente os desenvolvidos na tradição da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt.
Podemos afirmar que Fairclough adota uma postura dialética na construção do seu
próprio quadro teórico, ao articular distintas perspectivas inclusive agregando
diferentes vertentes das AD’s. Essa postura de Fairclough, além de ser dotada de um
senso mais colaborativo na construção do conhecimento, resulta em uma linha de
investigação com mais possibilidades de proposições, tendo em vista que a sua
preocupação principal não é, necessariamente, a ruptura com teorias estabelecidas.
Diferentemente do início dos estudos discursivos, nos quais a construção das propostas
teóricas se deu a partir de rupturas com conceitos predominantes na Lingüística, ou
mesmo com investigações desenvolvidas em outras áreas, como a Sociologia e a sua
análise de conteúdo (Possenti, 2004).
Para se inserir como uma linha de pesquisa, a Análise do Discurso precisou
romper com noções estabelecidas na Lingüística sobre língua, sujeito, texto e, assim,
propor a necessidade de articular os estudos do discurso com abordagens históricas,
sociais e psicanalíticas. Em suma, a AD tinha esta proposta: “uma língua polissêmica e
opaca, com características ainda mais notáveis em textos: a de um autor que dizia sempre
mais, menos ou outra coisa em relação ao que queria dizer (em virtude dos efeitos da
ideologia, do inconsciente); e a das condições de produção com ingredientes
contraditórios (Possenti, 2004).” Essa movimentação de ruptura, contudo, deve ser
entendida em uma perspectiva histórica. O início do movimento da Lingüística para os
estudos discursivos iniciou na década de 1970, com a proposta de uma ‘lingüística
crítica’, desenvolvida por um grupo de estudiosos na Grã-Bretenha (Fowler et al, 1979).
Assim, se passou a articular os estudos lingüísticos a elementos das teorias sobre
ideologia; aos estudos funcionalistas de Halliday (1978) e Halliday & Hasan (1989), no
quais a língua é entendida como uma potencialidade para significar, não como um
27
sistema de regras; e à noção de sujeito, construída a partir de forte influência da
Psicanálise, a partir das discussões sobre o inconsciente e, afastando-se assim, da
concepção do ‘sujeito autônomo’ proposta pelos primeiros estudos da Pragmática. Foi
nesse quadro que se iniciaram as ramificações nos estudos do discurso e as rupturas as
quais se refere Possenti (2004). Trouxemos essas breves considerações sobre os estudos
discursivos e a Lingüística para situar melhor o surgimento da ACD, de forma geral, e,
especificamente, a discussão que estamos propondo sobre a obra de Fairclough.
A ACD, mesmo com forte influência da linística crítica, sistematiza suas
propostas em meados da década de 1980, quando a Lingüística se inspirava em outros
pressupostos teóricos, e assim as noções estruturalistas não eram mais o paradigma, pelo
menos no que se refere aos estudos textuais, e, principalmente, às concepções de língua e
de sujeito. D a possibilidade de construir um quadro teórico articulando várias
concepções – vindas da própria Lingüística, da Sociologia e das teorias sobre ideologia –
e, assim, ao invés de promover rupturas, propor caminhos diferenciados para os estudos
que estavam sendo desenvolvidos. A busca dos teóricos da ACD era por um equilíbrio
entre os enfoques demasiadamente lingüísticos, como no trabalho de Zellig Harris, e os
que davam grande ênfase aos estudos ideológicos, como em Althusser (apud Fairclough,
2001a), sem grandes preocupações com o estudo do texto. A busca por um quadro teórico
no qual questões de ordem lingüística, discursiva, social, histórica e ideológica tivessem
não só a mesma ênfase, mas fossem trabalhados de forma articulada, foi a motivação para
o desenvolvimento do que veio a se estabelecer como a Análise Crítica do Discurso.
Segundo Fairclough (2001a), havia um outro ponto também crucial para esse
empreendimento: as duas principais linhas que se formaram na Análise do Discurso
(denominadas: anglo-saxônica e francesa) tinham uma visão estática de sociedade, “com
ênfase exagerada no papel desempenhado pelo amoldamento ideológico dos textos
lingüísticos na reprodução das relações de poder existentes” (Fairclough, 2001a:20). Para
a ACD, a importância da análise discursiva deve ser a investigação (como um método) da
mudança social e a reivindicação dessa mudança.
A formação do ‘quadro teórico’ da ACD tem uma forte influência dos estudos de
Foucault, assim como aconteceu com boa parte das Ciências Sociais. O conceito de
discurso se popularizou e passou a fazer parte do norte investigativo dos trabalhos
28
desenvolvidos na área das humanidades por causa dos estudos foucaultianos. Sua
contribuição na teoria social do discurso está relacionada a questões tais como discurso e
poder; a construção discursiva de sujeitos sociais e do conhecimento; e do funcionamento
do discurso na mudança social (Fairclough, 2001a). Se essas o questões fundadoras na
ACD e trazem a acepção sociológica para os estudos discursivos, elas não contemplam o
projeto de estudo almejado por Fairclough (2001a) e outros teóricos da ACD. Para
Fairclough (2001a), faltava à proposta foucaultiana uma perspectiva de análise textual, o
que o autor definiu como uma ‘abordagem abstrata do discurso’. Daí o autor seguir a
proposta de Courtine (apud Fairclough, 2001a:62): “pôr a perspectiva de Foucault para
funcionar”. Isso implica uma base teórico-metodológica que leve em conta não os
aspectos sociais (ideologia, sociedade), mas também o modo como tais aspectos
encontram-se manifestos em um texto e como podem ser analisados a partir das escolhas
lingüísticas, sejam estas de ordem sintática ou semântica. Tomando por base essa busca
por uma ‘funcionalidade’ na teoria sociológica do discurso, Fairclough (2001a, 1989)
fundamenta sua proposta na linha hallidayana. Alguns conceitos da LSF e um breve
histórico são fundamentais para o entendimento dessa relação.
Ao desenvolver alguns aspectos da sua proposta sistêmico-funcionalista, Halliday
(1978) parte de duas principais influências: o lingüista (e seu professor) JR. Firth e o
antropólogo B. Malinowski, sendo este último a base dos dois lingüistas para tratar sobre
contexto em suas teorias. A história sobre os fundamentos e o desenvolvimento da LSF já
foi bastante contada (Eggins, 1994; Kress, 1976), não sendo nosso objetivo recontá-la
aqui. O ponto que gostaríamos de discutir diz respeito ao que Halliday estipulou, em
linhas gerais, como a sua ‘delimitação teórica’. Assim, as reflexões ora desenvolvidas são
de ordem epistemológica, centrada em conceitos fundadores, não fazendo parte deste
trabalho se deter na gramática sistêmico-funcionalista proposta por Halliday e seus
seguidores. Kress (1976) e Miguel (1998), em seus trabalhos sobre a história da LSF,
apontam que Halliday assume uma postura ‘radicalmente social’, como um dos seus
princípios fundadores. Essa postura, em parte, é uma tentativa de balancear os estudos da
época, desenvolvidos sob forte influência do modelo mentalista de Noam Chomsky. Para
se opor ao mentalismo, Halliday prefere deixar em segundo plano a investigação da
mente, ou mesmo das propriedades cognitivas do indivíduo, optando por uma teoria que
29
dê conta apenas do ‘observável’. Segundo o autor, “a língua é parte de um sistema social,
e não necessidade de se interpor um nível psicológico de interpretação (Halliday,
1978:39)”. É sob esse preceito que Halliday situa a Lingüística como uma espécie de
subdisciplina da Sociologia e da Semiótica (Halliday & Hasan, 1989), sem aceitar a
relevância da Psicologia nos estudos lingüísticos.
É importante trazer para esta discussão o contexto histórico que tratamos: no
período em que emerge o modelo teórico sistêmico-funcionalista (década de 1970), o
grande embate era travado entre mentalistas e behavioristas. Nesse cenário, as
exposições de Chomsky (Gardner, [1985] 1987) sobre a teoria gerativista foram
determinantes para que o projeto do behaviorismo ficasse de lado. Em linhas gerais, a
tradição behaviorista era estratégica: ao invés de analisar a consciência e os estados
mentais, os behavioristas acreditavam que fariam mais progresso na psicologia
concentrando-se nos atos de homens e mulheres (inicialmente, essa observação era feita
com outros animais), bem como nos estados observáveis dos indivíduos e seus ambientes,
aos quais os atos podiam ser legitimamente relacionados (Homans, 1999). Dessa maneira,
os estudos deveriam ser direcionados à observação e descrição do comportamento
humano, a partir de meios controlados.
Como acontece na maioria das propostas teóricas, o behaviorismo se desenvolveu
em distintas correntes, com reformulações, inclusive, que atualmente orientam linhas de
pesquisas denominadas de ‘pós-behaviorismo’ (Homans, 1999), ou o que alguns autores
chamam de ‘neo-behaviorismo’ (Sanders, 2005; Flower, 2004). Entretanto, a discussão
que propomos está centrada na tradição behaviorista, que trata dos primórdios dessa
escola, iniciada por J.B. Watson, aperfeiçoada em seguida por Skinner. De acordo com
Homans (1999), ao estudar uns poucos impulsos característicos, aos quais grandes
números de operantes específicos podiam ser associados pelo condicionamento, “Skinner
deu inconscientemente a visão de tábula rasa do comportamento (1999:99)”. Segundo
essa metáfora, a psique dos animais é uma página em branco na qual o condicionamento
escreve todo tipo de conhecimento.
os teóricos das ciências cognitivistas defendem que os seres humanos contam
com certos dispositivos cognitivos desde o nascimento, ou seja, características inatas da
espécie humana. Essa teoria inatista de Chomsky para a aquisição da língua é elaborada
30
como uma alternativa ao modelo behaviorista de comportamento condicionado (estímulo-
resposta) da tradição behaviorista. Entretanto, conforme observa Edwards (1997), esse
caminho contrário proposto pelos mentalistas – ao invés do estudo do comportamento, do
exterior, estuda o interior, a mente reproduz o mesmo conceito mecânico de mente
(como o input-output) do behaviorismo. Assim, se para Skinner mente é comportamento,
por isso observável apenas nos estudos comportamentais, Chomsky entende o
comportamento (a performance, a fala etc.) como opaco e incoerente, o que leva à
proposta chomskyana de que as regras e as representações mentais é que são possíveis de
serem analisadas, e não o comportamento, ou muito menos o discurso.
A resposta ao predomínio do empreendimento gerativista resulta em teorias neo-
behavioristas. De acordo com Sanders (2005), esse novo tipo de behaviorismo não supera
o empirismo radical dos seus antecessores, uma vez que continua a ignorar a natureza
cognitiva dos sujeitos, e não passa de uma observação microssociológica do
comportamento humano. Tal perspectiva se assemelha bastante às teorias radicalmente
funcionalistas, pois, ao se situar como ‘social’, desconsidera que o uso
6
da língua não
pode ser dissociado das habilidades cognitivas dos seus falantes. Para esses
funcionalistas, não a possibilidade de entender os aspectos mentais a partir de sua
natureza social (Condor e Antaki, 2000), preferindo-se supor a possibilidade de estudar
‘sujeitos sem mentes’, como já observou van Dijk (2006a).
Em sua ‘opção pelo social’, por exemplo, Halliday dicotomiza as relações
indivíduo x social; exterior x interior, tratando-as como níveis diferenciados. Desse
modo, o lingüista situa seus estudos na ‘exterioridade’ ou, como prefere definir, na
‘funcionalidade’. Essa distinção está demarcada nos termos através dos quais Halliday
designou as duas perspectivas concernentes a uma abordagem sócio-funcional de língua:
a intra-orgânica (relação indivíduo/língua) e a interorgânica (relação língua/sociedade).
Na primeira, a língua é entendida como “o meio pelo qual um ser humano adquire uma
personalidade, como conseqüência de pertencer a uma sociedade e de ocupar
determinados papéis sociais” (Halliday, 1978:14). Essa perspectiva está baseada nas
relações internas, de estados psicológicos. a segunda, na qual o autor prefere centrar
6
Tomamos o termo uso da língua, tão difundida entre os funcionalistas, com restrições. Marcuschi (2004b)
alertou sobre os problemas de adotar esse termo, pois remete a um conceito instrumentalista de língua.
Em uma perspectiva sócio-interacionista, por exemplo, dá-se preferência à noção de práticas lingüísticas.
31
sua atenção, está voltada para as relações funcionais e contextuais, priorizando a relação
entre língua e a sociedade que a utiliza.
Além de questionar a natureza dicotômica aspecto bastante aprofundado por
autores que buscam investigações integradas e holísticas (Maturana, 1995 e Morin, 1995)
também podemos discutir a proposta do modelo hallidayano a partir de um outro
aspecto: não a preocupação em desenvolver aspectos de uma ‘teoria social’ na
chamada ‘proposta social’ de Halliday. Podemos questionar, junto com van Dijk (no
prelo), sobre o que realmente a LSF conceitua como ‘social’, pois entre os teóricos
sistêmico-funcionalistas não reflexões mais aprofundadas sobre essa questão. Como
observou van Dijk (no prelo), “Halliday é apenas marginalmente influenciado pelas
Ciências Sociais”, e, mesmo situando a Lingüística como uma disciplina dependente da
Sociologia, não traz contribuições desta área para os estudos lingüísticos, desenvolvendo,
por fim, apenas “um projeto monodisciplinar”. Entendemos que deveria ser crucial para
uma teoria funcionalista, por exemplo, abordar aspectos sobre a constituição da sociedade
(organização, estruturação, rotinização, entre outros conceitos) e a relação intrínseca
desses aspectos com as propriedades lingüísticas (ver Habermas, 1999 [1973]; 1984 e
Giddens, 2003).
Nas delimitações dos objetivos de trabalho e do quadro teórico que pretendem
desenvolver, Halliday & Hasan (1989) definem que entendem o ‘social’ a partir de duas
concepções: a) de forma ampla, como um sinônimo de cultura; b) particularmente, no que
diz respeito às relações entre linguagem e estrutura social. Entretanto, não é aprofundado
pelos autores em que se baseia essa distinção; como definem ‘estrutura social’ (já que
essa noção tem distintas ramificações nas Ciências Sociais); e, principalmente, como
entendem a relação linguagem e social. Ou ainda: quão social é a língua para esses
autores? Em suas considerações teóricas, Halliday & Hasan (1989:4) afirmam que
realidades anteriores e posteriores a língua, “as quais a linguagem serve para expressar”.
E que devemos nos mover para fora da língua para explicar o que a língua diz. Nessas
considerações, destacamos o posicionamento dos autores para questões básicas para a
discussão que propomos: a) a realidade (que pode ser entendida também como o social)
não está na língua, o que caracterizaria uma noção constitutiva, mas é algo que se busca
fora da língua para explicá-la; b) nesse movimento ‘para fora da língua para explicar o
32
que a língua diz’ está a essência do conceito de contexto proposto por Halliday & Hasan
(1989): o que precisa ser resgatado para a compreensão do texto; e c) toma-se o social (ou
o ‘para fora’) como uma categoria que definiria a ação lingüística, desconsiderando que o
social, e a própria língua, existem porque existem sujeitos. A vagueza dessas duas
noções, partindo de uma reflexão epistemológica, é problemática para a construção de
uma teoria que se define funcionalista.
A precária concepção do social em Halliday (1978) acaba por construir um estudo
centrado na língua, no signo, resultando, como definiu Marcuschi (2004c), em uma
‘lingüística do significante’, na qual o social é tido como algo relevante, mas considerado
como algo externo à língua. Essa mesma crítica faz van Dijk (no prelo), apontando como
um dos equívocos dos estudos sistêmico-funcionalistas o enfoque excessivo nos aspectos
léxico-sintáticos, sem uma preocupação em desenvolver elementos discursivos, tais quais
topicalização; entendida como uma relação sintática e não como uma ação discursivo-
cognitiva (para esta questão, ver capítulo 4); estratégias retóricas, entre outros. Em
caminho contrário a essa ‘lingüística do significante’, podemos situar a ‘lingüística da
enunciação’, na qual a língua não é o foco do estudo, mas sim a interação social. Nesse
quadro teórico (fortemente marcado pelas obras de Bakhtin, Leontiev e Vygotsky), o
‘social’ não é entendido como um mero adjetivo conceitual, mas sim como elemento
constitutivo da língua e da cognição
7
. Assim, reforçamos a conclusão de van Dijk (no
prelo): “apesar de se propor a elaborar uma teoria funcional de linguagem, a limitada
teoria social da LSF e a ausência de uma teoria cognitiva apenas fornece uma teoria
funcional explicativa do uso da língua e do discurso”. Esse caráter explicativo,
juntamente com estudos centrados no léxico e na sintaxe, poderia justificar a utilização
7
Não desconsideramos a influência da teoria de gênero discursivo de Bakhtin 2000 [1979] nos estudos da
Escola de Sidney, formada por Halliday e seus seguidores. Entretanto, é relevante discutir tal questão a
partir da crítica de Marcuschi (2004b) sobre a apropriação da teoria bakhtiniana por esses estudiosos, que
têm desenvolvido trabalhos de natureza muito mais ‘prescritivista’ do que cio-interacionista: “A crítica
feita à escola de Sidney, no entanto, é que eles são prescritivistas, isto é, levam a escola a ensinar como
produzir e dominar os gêneros, sem se posicionarem contra aspectos da dominação produzida pelos gêneros
ensinados. Isso quer dizer que eles julgam que a função maior na teoria dos gêneros está em seu domínio na
sociedade e não especificamente na subversão de sua potencialidade. Não se trata de um estudo crítico para
a mudança e sim de um estudo para o domínio do gênero enquanto estratégia textual” (Marcuschi,
2004b:15).
33
do modelo sistêmico-funcionalista em empreendimentos tão distintos à própria proposta
da LSF, como o da inteligência artificial (Miguel, 1998).
2.2.1 O Contexto e as Representações Sociais
Nos tópicos anteriores tecemos algumas considerações sobre a noção de
contexto desenvolvida por Halliday (1978) e Halliday & Hasan, (1989). Neste ponto,
tratamos esse aspecto de forma sistemática, relacionando com as propostas de Fairclough
(2001a, 1995, 1992) sobre contexto e representação social. A noção de contexto proposta
por Halliday (1978) e Halliday & Hasan (1989) é fortemente influenciada pelas obras do
antropólogo Bronislaw Malinowski (apud Halliday & Hasan, 1989). Segundo os autores,
essa teoria de contexto precede a própria teoria do texto, daí talvez o fundamento dos
autores para entender contexto como algo que direciona a explicação do texto.
Como discutimos antes, Halliday (1978) desenvolveu uma proposta de estudo
da língua seguindo uma concepção de contexto que não extrapola os limites da chamada
‘situação social’, repetindo o que foi proposto por Malinowski. Nosso objetivo é tratar
esse aspecto em contraponto com algumas teorias cognitivas recentes e tecer
considerações sobre a assimilação do modelo sistêmico-funcional na teoria
tridimensional de Fairclough (1995, 2001a). O tradicional e bastante repetido modelo
proposto por Halliday (1978) para o contexto é composto por três dimensões:
1 – Campo (Field): ação social
2 – Relação (Tenor): relação entre os participantes
3 – Modo (Mode): a organização simbólica
Essas dimensões, de acordo com a perspectiva LSF (Eggins e Martin, 2000),
dariam conta de como o contexto se expressa no texto. Isso significa dizer que o contexto
é algo que está no texto, enrijecido, pronto e acabado, e deve ser recuperado pelo
leitor/ouvinte para a compreensão. Há diferenças conceituais radicais entre a noção de
que ‘contexto se expressa no texto’ e de que contexto se constitui em uma relação entre
34
leitor/ouvinte e o texto’. E é justamente essa distinção que queremos discutir. Para tanto,
tomamos como referência principal a teoria de contexto elaborada por van Dijk (2006a,
no prelo), assim como o seu trabalho teórico-investigativo de revisão crítica e proposição
de uma investigação multidisciplinar sobre contexto. A abordagem cognitiva de
Marcuschi (2005a) também suporte para nossa proposta. Vários estudos sobre a LSF
(Eggins e Martin, 2000; Eggins, 1994; Kress, 1976; Miguel, 1998), assim como,
obviamente, as próprias obras de Halliday (1978) e Halliday & Hasan (1989)
fundamentam as nossas considerações sobre a teoria sistêmico-funcionalista.
Para van Dijk (no prelo), as categorias propostas por Halliday (1978) para
contexto são ‘obscuras e arbitrárias’, que não dão conta de muitos aspectos das
situações sociais. Segundo o autor, não distinções entre as organizações (settings)
espaço-temporais e institucionais, ou mesmo entre os assuntos tratados e as atividades
envolvidas. Como observa van Dijk (no prelo), fala-se das ‘relações entre os
participantes’, mas não dos participantes em si, ou da propriedade das suas participações.
As dimensões de contexto são propostas por Halliday como se fosse possível separar a
‘relação’ entre as pessoas e o seu ‘campo de ação’, situando esses dois aspectos em
categorias distintas. As organizações simbólicas, sejam faladas ou escritas, são tidas
como um meio (ou modo) e estariam em combinação com ‘o papel da linguagem em uma
situação’, noção excessivamente vaga, em certa medida sustentando as noções
tradicionais de língua como mediadora da comunicação, não como uma construção
social, e que não conta de uma série de questões interacionais (emoções, crenças,
legitimação de grupos etc.).
Um dos principais problemas da imprecisão teórica do modelo da LSF é negar a
relevância dos estudos cognitivos e utilizar, ao mesmo tempo, conceitos de natureza
essencialmente cognitiva, tais quais aprendizagem e ação. Para Halliday (1978), por
exemplo, contextos são aprendidos como tipos de situação gerais e abstratos. Negar os
aspectos cognitivos do contexto resulta em uma compreensão determinística do
fenômeno: “sem crenças individuais, representações mentais e processos e,
conseqüentemente, sem variações e decisões, todas as teorias generalizadas, abstratas e
sociais de contexto são determinísticas por definição, no sentido de que a condição social
X causa ou necessariamente leva a uma estrutura textual Y” (van Dijk, no prelo). Além
35
do aspecto determinista dessa relação causa efeito, também podemos pensar que ela
nega a intersubjetividade das interações sociais, pois não leva em conta a atuação
coordenada (individual e social) dos atores sociais. Se estes não são capazes de elaborar
representações sociais das distintas situações de uma forma particular, adaptando-as a
partir das suas vontades, o que significa seguir algumas normas ou rompê-las, seria
possível imaginar que todos os usuários de uma língua falassem exatamente da mesma
forma, quando compartilhassem as mesmas características e situações sociais.
Também é relevante pensar que a relação prevista pela LSF entre contexto e texto
tem como fundamento não uma perspectiva limitada de contexto, como também o
próprio entendimento sobre a natureza da relação entre linguagem e situação social.
Observemos o modelo abaixo:
Figura 2: Modelo proposto por Halliday e Martin (1993:23)
Primeiramente, podemos questionar o reducionismo desse diagrama pois resume a
‘contexto social’ uma série de aspectos e categorias que são de ordens distintas, tais como
as instituições, os sistemas de dominação etc. Para entendermos por que se produzem
textos racistas em uma determinada sociedade, por exemplo, precisamos entender a
relação entre contexto e texto a partir de conceitos mais complexos. Esse modelo
hallidayano também não leva em conta que pessoas operam nessa relação, ou seja, não há
qualquer menção ao papel do sujeito que age discursivamente. Da forma como está
representada, contexto e linguagem são categorias autônomas. E essa é uma questão que
mereceria ser discutida mais profundamente: qual o conceito de sujeito (ou a ausência
desse conceito) na LSF? Se a linguagem tem a função de organizar as relações sociais,
Contexto
Social
Linguagem
36
interpessoais e discursivas, qual o papel dos interlocutores nesse processo? Se uma
compreensão entre os teóricos do modelo sistêmico-funcionalista de que a língua serve às
relações sociais, pouco se pensa sobre a ação do sujeito, em sua atividade lingüística, ao
usar o que ele sabe sobre uma língua e o que ele sabe sobre uma sociedade, uma cultura.
Cria-se, assim, uma lacuna no modelo proposto pela LSF: de um lado, a linguagem e o
seu potencial de significação; de outro, a linguagem funcionando em sociedade. Falta dar
conta da realização desse processo, ou seja, das operações lingüístico-cognitivas dos
atores sociais. Sem uma noção de sistemas de interfaces constituindo essa relação, o que
temos é um vazio teórico a ser preenchido.
Outra questão problemática na figura proposta por Halliday (1993:23) é a idéia de
que contexto social e linguagem estão em uma relação de co-determinação. Não fica
clara a natureza dessa relação, se ela se estabelece, por exemplo, de forma direta, de
forma reflexiva, ou como seja. O empirismo social do modelo sistêmico-funcional ignora
o problema da constituição social das práticas lingüísticas, sem se preocupar em
investigar questões cruciais para uma teoria funcionalista, como, por exemplo, a relação
entre elementos da situação social e a produção/compreensão do discurso. A importância
dos conhecimentos compartilhados para os processos de interação social, por exemplo, é
desconsiderada na LSF.
Assim remetemos essas reflexões para a noção de contexto que embasa a proposta
teórica de N. Fairclough (2001a, 1995, 1992) para a Análise Crítica do Discurso. O
quadro elaborado por Fairclough (ver figura 1) para a sua teoria tridimensional carrega
alguns elementos das dimensões de contexto do modelo de Halliday:
37
Figura 3: As Dimensões de Contexto da LSF e o Tridimensionalismo de Fairclough
Essas dimensões estão atreladas ao que Halliday (1978) definiu como as
‘multifunções da linguagem’: simultaneamente, a linguagem organiza a realidade do
mundo (função ideacional) e as interações (função interpessoal), organizando também
esses significados ideativos e interpessoais de forma simbólica em textos coerentes e
relevantes em relação ao seu contexto (função textual). Segundo Halliday (1978), um
modelo de linguagem como esse se relaciona quase que ‘naturalmente’ com a
organização do contexto. Para uma teoria que se propõe social, é bastante questionável
essa relação ‘naturalizadora’ entre situação social e linguagem. Isso se daria desta forma:
a função ideacional é utilizada para construir o campo (a ão social); a função
interpessoal é usada para negociar o tenor (os papéis dos interlocutores) e a função
textual é empregada para desenvolver o modo (a organização simbólica). Existe, de
acordo com essa concepção, uma ‘ressonância’ entre a organização funcional do
significado da língua e o modelo de contexto. De acordo com Eggins e Martin
(2000:347), “o contextualismo britânico é a única tradição que sugere esse tipo de
correlação direta entre a organização funcional da linguagem e a organização do
contexto”. Essa tradição, entretanto, vem sendo cada vez mais posta a prova com o
Halliday
Campo (Função Ideacional)
Tenor (Função Interpessoal)
Modo (Função Textual)
Fairclough
Prática Social
Prática Discursiva
Texto
38
desenvolvimento das investigações sócio-cognitivistas aspecto que discutiremos mais
adiante.
Na teoria de Fairclough (1995), a perspectiva multifuncional da LSF está atrelada
à concepção de que representações, relações e identidades estão sempre presentes em um
texto. Para o estudioso, a relação é a seguinte: a função ideacional da linguagem é a
função que gera’ as representações do mundo; a função interpessoal inclui a função da
linguagem na constituição de relações e identidades; e a função textual está relacionada à
constituição do discurso (textos que vão além de sentenças individuais). A importância
dessa noção de texto é que “facilita conectar a análise da linguagem com elementos
fundamentais da análise social: questões de conhecimento, crença e ideologia
(representações: função ideacional), questões de relações sociais e poder, e questões de
identidade (relações e identidades: função interpessoal) (Fairclough, 1995:17). É
exatamente esse o ponto de conexão que o autor busca estabelecer entre uma análise
social e uma análise lingüístico-discursiva.
Mesmo seguindo a proposta da lingüística sistêmico-funcionalista, Fairclough
(2001a, 1995) avança em uma questão ignorada por Halliday e seus seguidores: a relação
constitutiva entre linguagem e sociedade. Fairclough (2001b:32) assume a “concepção
pragmática de que linguagem é ação, nos termos propostos por Austin e Levinson”.
Entretanto, tal concepção é ampliada pelo autor, que leva em conta os termos históricos e
as relações dialéticas com as outras práticas sociais. A prática discursiva seria, segundo o
autor, o elemento de mediação entre texto e prática social. O discurso é entendido como
um elemento de conexão: “de um lado, os processos de produção e interpretação são
formados pela natureza da prática social, ajudando também a formá-la e, por outro, o
processo de produção forma (e deixa vestígios) no texto (Fairclough, 2001b:36)”. Isso
significa afirmar que a língua constitui a sociedade, assim como também é constituída por
ela. É nesse sentido que para Fairclough (2001a, 1995) discurso é uma prática social. A
perspectiva tridimensional de análise, de acordo com o lingüista, serve para explorar as
ligações entre sociedade e linguagem, em eventos discursivos particulares. De acordo
com a teoria de Fairclough (2001b), cada evento discursivo tem três dimensões, uma vez
que se realiza em um texto (falado ou escrito), é uma instância da prática discursiva,
envolvendo a produção e a interpretação do texto, e é uma amostra da prática social.
39
Algumas reflexões podem ser desenvolvidas a partir dessa proposta. Por exemplo:
ao definir que sociedade e língua estão em relação constitutiva, o autor não conta de
explicar como se o processo de constituição, pois tomar o discurso como o elemento
‘mediador’ não explica todo o processo de constituição social, mas apenas uma da
realizações da prática social. Quer dizer, o autor diz trabalhar com a noção constitutiva e
define que essa relação se dá na relação entre os aspectos propostos na sua tríade. Tratar
esses aspectos (prática social, prática discursiva e texto) sem explorar as especificidades
de cada um é, de certa forma, tratá-los como iguais e não explica como um interfere (ou
constitui) o outro. A escrita de um texto, por exemplo, é uma realização individual,
ainda que intrinsecamente atrelada ao social daí a relevância dos estudos cognitivos em
uma análise do discurso.
Desconsiderar tal abordagem torna a investigação da mudança social mais difícil,
pois se estabelece um círculo fechado. Ou seja: a sociedade muda porque muda o
discurso ou o discurso muda porque muda a sociedade? E as ações individuais, como
interferem nesse processo? Poderíamos considerar, então, que tal relação se dá em uma
ordem de causa e efeito, o que não propicia a idéia de integração e interação. Um
fenômeno interessante para refletir sobre essa questão é o caso do ‘politicamente correto’:
práticas discursivas passam a ser estabelecidas (por exemplo, para tratar grupos étnicos
discriminados) com o objetivo de mudar os preconceitos e os estereótipos, mas tais
mudanças, muitas vezes, não constituem novos conceitos e modelos mentais. Sem a
pretensão de resolver tal problema – pois acreditamos que nele está a essência de como se
dão as mudanças sociais, questão bastante complexa que exigiria um outro trabalho
iremos seguir a proposta de Lakoff (2004), que define tal processo a partir da necessidade
de uma mudança cognitiva. Este aspecto está desenvolvido no item 2.2.5.
Após essas considerações, levantamos algumas perguntas sobre a proposta de
Fairclough (2001a; 2001b): i) como a prática discursiva opera no processo constitutivo da
prática social?; ii) qual o papel dos atores sociais na constituição desse processo?; iii)
quais os elementos que operam na interface dessa constituição?
A resposta de Fairclough (2001b) a essas perguntas deixa bem clara a tradição da
lingüística hallidayana em sua teoria: há uma relação de causalidade e determinação
entre as práticas discursivas, os eventos e os textos. Assim como Halliday estabelece uma
40
relação determinística entre contexto e texto, Fairclough adota essa concepção para
investigar como as estruturas sociais e culturais ‘opacamente’ determinam os discursos. É
importante ressaltar que, na proposta de Fairclough, a relação de causalidade e
determinação diz respeito à constituição discursiva e não a um tipo de imobilidade social.
Isso quer dizer que, de acordo com o autor, a prática discursiva também pode servir à
mudança social, mas esta prática sempre resultará de um efeito causal entre discurso e
estruturas sociais, podendo resultar em discursos que reproduzem o status quo, ou que se
opõem a ele. Por outro lado, em uma perspectiva sócio-cognitiva, essa relação sempre
será entendida a partir de atividades situadas. Isso significa que discurso e prática social
não estão em relação causal, mas interacional, assim como também não estão
determinadas, ou preestabelecidas, mas sim negociadas entre os atores sociais, que detêm
o poder instituído diferenciadamente.
Ainda sobre o enlace da proposta de Fairclough com o modelo da LSF, outros
problemas que se repetem. Assim como os lingüistas sistêmico-funcionalistas, Fairclough
não trata de aspectos cognitivos em sua teoria, ainda que usando conceitos de natureza
cognitiva. Representação, ação, crenças, produção/distribuição/recepção de textos: para
Fairclough, tudo se no âmbito das ‘práticas sociais’, sem se preocupar em buscar
noções teóricas mais específicas para tais aspectos. As questões que o autor situa no
âmbito da sociocognição são as relacionadas à produção e ao consumo textual – mas com
restrições, que para o estudioso esses aspectos são de natureza parcialmente sócio-
cognitiva” (Fairclough, 2001a:99). Isso ocorre porque o autor não considera que as
estruturas e as convenções sociais envolvidas na produção e no consumo de um texto
possam ser tanto de ordem social quanto cognitiva, repetindo a perspectiva dicotômica da
LSF. Se Fairclough (2001a), por um lado, reconhece as dimensões sócio-cognitivas
existentes nos processos de produção e interpretação textual, por outro não desenvolve
uma perspectiva sociocognitiva. Em suas críticas, o pesquisador toma a abordagem
sociocognitiva de forma monolítica (ignorando as distintas linhas teóricas
8
), sem
especificar exatamente o que entende por sociocognição: “A perspectiva sociocognitiva
geralmente é posta em termos universais, como se, por exemplo, o efeito do contexto no
sentido e a redução da ambivalência fossem sempre os mesmos” (Fairclough,
8
Sobre as distintas perspectivas sócio-cognitivas ver Condor e Antaki (2000).
41
2001a:110). As discussões que estamos desenvolvendo sobre o conceito de contexto
apontam para uma direção exatamente contrária a essa compreensão, o que mostra um
desconhecimento do autor sobre os distintos trabalhos que estão sendo desenvolvidos na
sociocognição.
O outro aspecto a ser abordado, neste pico, é o conceito de representação na
teoria de Fairclough, mais sistematicamente tratado nas obras de 2003 e 2001b. O próprio
conceito de representação é complexo, desenvolvido em diferentes áreas sob perspectivas
distintas e tem gerado um amplo debate, críticas e divergências teóricas (ver Shanon,
1993; Potter, 1996). Por isso, faz-se necessário desenvolvermos breve introdução sobre a
gênese desse conceito, apenas para situá-lo historicamente e, assim, partir para as
especificidades deste trabalho.
Serge Moscovici (1978) foi o primeiro a introduzir o conceito de Representações
Sociais (RS) nas Ciências Sociais. O filósofo foi motivado a desenvolver tal estudo,
dentro dos parâmetros científicos, como uma crítica aos pressupostos positivistas e
funcionalistas que não davam conta da realidade em outras dimensões, principalmente a
histórica. Em linhas gerais, as RS são ‘teorias’ sobre os saberes populares e sobre o senso
comum, elaboradas e compartilhadas coletivamente, com a finalidade de construir e
interpretar o real. Da forma como conceituou Moscovici (1978), as RS são dinâmicas e
levam os indivíduos a produzirem comportamentos e interações com o meio, ações essas
que modificam ambos.
Resumidamente, podemos afirmar, junto com Oliveira e Werba (1998:107), que
“estudar as representações sociais é buscar conhecer o modo como o grupo humano
constrói um conjunto de saberes que expressam a identidade de um grupo social”. A
noção de RS, entretanto, não foi propositadamente delimitada e definida pelo autor,
deixando espaço para diferentes interpretações, para distintos propósitos investigativos.
Além da complexidade do conceito, esse também seria um dos fatores que levou ao
desenvolvimento de debates tão amplos e diferenciados, como mencionamos acima.
Bons exemplos para as distintas ramificações da noção de RS são as desenvolvidas por
Fairclough (2003 e 2001b), assim como por van Dijk (2006a, 2000b), do qual tratamos
no ponto 2.4.1.
42
Está claro em seus trabalhos que Fairclough (2003,2001b) não entende
representação a partir da ‘metáfora do espelho’ (Potter, 1996), noção atualmente bastante
criticada. Pela metáfora do espelho, as coisas no mundo são refletidas através de uma
superfície suave, e, nesse caso, tal superfície não é um vidro, mas a linguagem. Essa
metáfora situa a descrição e a categorização das coisas mundanas como algo passivo: elas
apenas ‘espelham o mundo’. Os equívocos dessa perspectiva são muitos, fazendo com
que o próprio conceito de representação esteja sendo bastante questionado (Shanon,
1993). As noções de ‘língua’ (como algo transparente, um reflexo da realidade) e de
‘mundo’ (como algo estabelecido, dado) não se sustentam mais, após os estudos e
investigações sob as perspectivas sócio-interacionista e cognitivistas.
Em Fairclough (2003,2001b) as representações sociais são conceituadas a partir
das relações com a prática social. Por isso, o autor elabora sua própria formulação,
definindo como “representações de eventos sociais” (2003:134). Como entende
Fairclough (2001b), os atores sociais, envolvidos em qualquer que seja a prática,
produzem representações dos outros participantes, assim como produzem representações
(reflexivas) das suas próprias práticas, no decorrer das práticas sociais, por isso se trata de
uma representação de eventos sociais. Assim como nos demais conceitos que
desenvolveu para a sua teoria, Fairclough (2003) também usa elementos do modelo
sistêmico-funcional para desenvolver seu próprio conceito de representações, sendo eles
os tipos gerais de significações: Ação, Representação, e Identificação. Por isso, o autor
faz a distinção das representações elaboradas a partir de aspectos do “mundo físico”
(processos, objetos, relações e parâmetros espaço-temporais); do “mundo mental”
(pensamentos, sentimentos e sensações) e do “mundo social” (no qual está a
representação abstrata), sendo neste último que desenvolve seu estudo.
Ao fazer essa distinção, Fairclough (2003) trata das representações dos eventos
sociais em níveis distintos, que, a nosso ver, leva a algumas questões problemáticas.
Primeiro, dicotomiza o mundo mental do mundo social, como se ambos não fossem
elaborados a partir de trabalhos de semiotização. Ou seja, fica implícito a idéia de um
‘mundo real’ e um ‘mundo imaginário’. Segundo, concebe o processo de construção de
representações como estanque, que se diferentemente, em diferentes níveis, e não
como uma habilidade cognitiva humana de uma mesma natureza: não carregamos o
43
mundo em nossas mentes tal qual ele é, mas sim como o discursivisamos e o organizamos
em modelos mentais (ou representações). Fairclough (2003) chega a conceituar
representações como recontextualizações, o que é uma perspectiva interessante, pois
poderia tratar de ações cognitivas situadas de elaborações de representações. Entretanto,
o autor restringe essa idéia a uma relação apenas texto texto. Ou seja, não amplia e
articula o processo de recontextualização com os distintos modelos de contexto que
constituem nossa performance cognitiva, estabelecendo esse processo de forma estanque.
A partir do conceito de ‘representações do mundo imaginário’, como delimitou
Fairclough (2003), poderíamos retomar a discussão sobre a ausência de uma abordagem
cognitiva para tratar de certas habilidades, o que pode levar a alguns incongruências
teóricas. Por exemplo, para o autor as representações imaginárias dariam conta de como
as coisas deveriam ou poderiam ser, no sentido que projetam ‘mundos possíveis’. Se
entendermos que a elaboração das representações sociais se a partir de operações
mentais e discursivas, e que essas operações vão estar sempre apoiadas em modelos que
construímos continuamente a partir das nossas experiências, ou do nosso ‘repertório
discursivo’, isso significa dizer que as representações não dão conta do ‘mundo em si’,
mas sempre, de certa forma, de mundos possíveis, ou imaginados, pois estão impregnadas
das crenças, das ideologias e até mesmo do preconceito de uma sociedade. O racismo,
por exemplo, não existe porque negros e latinos são naturalmente inferiores, mas porque
alguns grupos sociais (os grupos poderosos) assim os imaginam, ou os representam.
Dessa forma, tomando as representações sociais como elaborações coletivas, resultante
de complexos sistemas de crenças e conhecimentos, é possível ir um pouco mais adiante
nas nossas reflexões sobre a teoria de Fairclough (2003,2001a), no que diz respeito à sua
proposta de “discurso como mudança social” (2001a). Não se trata de negar o potencial
das práticas discursivas no que diz respeito à constituição da sociedade, mas sim, de
discutir a relevância das propriedades cognitivas nesse processo, aspecto que o autor não
leva em conta. A necessidade do aspecto cognitivo no trato da mudança social está
desenvolvida no item 2.2.5, a partir dos estudos de Lakoff (2004). No tópico a seguir,
desenvolvemos algumas reflexões sobre a mudança social’ na obra de Fairclough,
partindo de suas referências nas bases conceituais do marxismo clássico.
44
2.2.2 As Noções de Língua e Ideologia da Teoria Marxista em Fairclough e o
Estancamento da Mudança Social
A relação de causalidade e determinação entre discurso e sociedade também pode
ser discutida a partir da influência marxista na teoria de Fairclough. Em artigo publicado
em co-autoria com Phil Graham (2002), o autor defende a importância da obra de Karl
Marx para a análise do discurso, e vai mais além: sugere que Marx foi o primeiro analista
crítico do discurso da história. “Nesse trabalho identificamos alguns dos elementos dos
escritos políticos e econômicos de Marx que são relevantes para a Análise Crítica do
Discurso (ACD) contemporânea. Nós argumentamos que Marx poderia estar
praticando um tipo de análise do discurso. Identificamos elementos no método do
materialismo histórico que apóiam tal interpretação (Fairclough & Graham, 2002)”.
Não é nosso objetivo aprofundar uma discussão sobre a teoria marxista, tendo em
vista a sua complexidade e seus vários desdobramentos, e também por fugir do propósito
deste trabalho, mas algumas críticas feitas por Bakhtin 2002 [1979] ao marxismo são
relevantes para as nossas considerações, uma vez que essas ressalvas tratam da noção de
língua e, assim, podem ser associadas à proposta de Fairclough. Para Bakhtin (2002
[1979]), um dos problemas fundamentais do marxismo deveria ser desenvolver uma
reflexão, a partir da filosofia da linguagem, sobre as relações entre a infra-estrutura e as
superestruturas. Segundo o pensador russo, o marxismo teria a ganhar com o
tratamento dessas questões.
Dois aspectos específicos nos interessam nesta discussão: i) para Bakhtin (2002
[1979]), não está claro, na teoria marxista, como a infra-estrutura determina a língua e a
ideologia. Uma das respostas é ‘pela causalidade’, sendo que para Bakhtin isso não
resolve o problema, pois a resposta é demasiadamente vaga. O que o autor reivindica é
um aprofundamento teórico e uma mudança de perspectiva nessa relação. Segundo
Bakhtin, superestrutura infra-estrutura estão em relação recíproca. “O problema da
relação recíproca entre a infra-estrutura e as superestruturas, problema dos mais
complexos e que exige, para sua resolução fecunda, um volume enorme de materiais
preliminares, pode justamente ser esclarecido, em larga escala, pelo estudo do material
45
verbal” (Bakhtin 2002 [1979]: 41); ii) outro aspecto relevante consiste em observar em
que categoria os dois filósofos situam a língua.
Na teoria marxista, o simbólico como a ideologia faz parte da superestrutura
que é determinada ou controlada pela infra-estrutura. Isto atribui um caráter de
imobilidade e rigidez tanto à língua como à própria constituição da sociedade. De acordo
com a proposta de Bakhtin (2002 [1979]), elementos sígnicos tanto na infra-estrutura
quanto na superestrutura, por isso essas duas categorias deveriam ser entendidas a partir
de uma relação de reciprocidade. Observemos o esquema abaixo:
Esquema 3: Perspectivas Relacionais e Sígnicas em Marx e em Bakhtin
Com essa distinção, Bakhtin (2002 [1979]:41) pretende chegar à “essência do
problema”, que seria “a questão de saber como a realidade (a infra-estrutura) determina o
signo, e como o signo reflete e refrata a realidade em transformação”. E é justamente na
idéia de que o signo reflete e refrata a realidade que estão os conceitos de reciprocidade e
dinamicidade que faltam à concepção marxista (grifos do autor). Fairclough (2001b) trata
desse aspecto em sua perspectiva constitutiva. No entanto, sem abandonar sua tradição
marxista, nem dar a devida atenção à preocupação de Bakhtin (2002 [1979]:41) sobre
como se essa relação, o lingüista britânico acaba por recair na relação de causalidade
entre prática social e prática discursiva, como discutimos nos tópicos anteriores. O
Marxismo
Infra-estrutura (forças produtivas;
indústria; organização do trabalho)
Relação estanque e causal
Bakhtin
Infra-estrutura (signos; realidade social)
Superestrutura (ideologia, significação)
Relação dialética, recíproca
Superestrutura(simbólico; ideologia)
46
conceito marxista de língua (ou simbólico) não está explicitamente atrelado à obra de
Fairclough, diferentemente da noção de ideologia, fortemente marcada pela tradição
marxista. Por isso, entendemos que há um resquício de imobilidade no
tridimensionalismo de Fairclough (2001a), entre as outras questões discutidas, que dão
uma conotação de estancamento na sua proposta de mudança social. Assim, chegamos ao
aspecto que gostaríamos de introduzir para tal conceito: o reframing.
2.2.3 O reframing como Proposta de Mudança Discursivo-cognitiva
A proposta de Lakoff (2004) sobre reframing parece-nos pertinente para a
discussão sobre mudança social, pois traz a perspectiva cognitivista para a sua
fundamentação. É preciso esclarecer, desde o início, que essa noção ainda não foi
aprofundada pelo próprio Lakoff, que apenas a introduziu ‘despretensiosamente’ no livro
em que o autor analisa a disputa eleitoral entre os candidatos norte-americanos à
presidência: George W. Bush e John Kerry, em 2004. Entretanto, entendemos que na
idéia de reframing pode estar um princípio para o estudo sobre mudança social e a sua
investigação poderia dar conta das lacunas que discutimos na proposta de Fairclough
(2001a). Por isso, mesmo correndo o risco de apresentar um conceito ainda não
estabelecido ou mesmo bem fundamentado decidimos trazer tal discussão para este
trabalho, ainda que sirva como proposta para uma pesquisa futura.
Contextualizando a discussão tratada por Lakoff (2004): o principal motivo do
fracasso eleitoral de Kerry foi a sua incapacidade de propor frames alternativos aos de
Bush, durante a campanha. Isso deveria ser feito, segundo o lingüista, a partir da proposta
de uma nova agenda de debates, o que levaria o eleitorado a ter necessidades de
programas de governos alternativos, que não atendessem simplesmente às questões de
família, nacionalidade, segurança nacional, combate ao terrorismo, entre outros frames
elaborados pelos assessores de Bush no desenrolar dos debates. O aspecto que queremos
abordar diz respeito ao que Lakoff (2004) propõe, a partir dessa investigação: os nossos
sistemas de crenças são profundamente elaborados cognitiva e emocionalmente, e
também com fortes raízes históricas. Isso quer dizer que uma mudança social requer, não
47
uma mudança discursiva, mas uma mudança cognitiva. O que se daria, conforme o
autor, apenas com a mudança de frames – o que seria mais que uma mudança na
linguagem e, por isso mesmo, muito mais difícil. A mudança de crenças racistas e
machistas, por exemplo, ocorreria a partir de algum tipo de insight social profundo, capaz
de substituir certos modelos mentais e de eventos armazenados na memória de longo
prazo. Como adiantamos, a discussão apresentada por Lakoff (2004) não traz uma
forte base teórica, pois seu objetivo foi mais de análise de conjuntura eleitoral americana,
do que elaborar uma teorização cognitiva. Entretanto, se articularmos tal discussão com
as suas propostas sobre corporificação da mente e categorização apresentadas em Lakoff
(1990) e Lakoff e Johnson (1999), é possível desenvolver reflexões pertinentes para este
capítulo. Essas propostas estão desenvolvidas no terceiro capítulo, mas trazemos aqui
alguns aspectos para melhor respaldar a noção de reframing.
Para Lakoff (2004), frames são estruturas mentais que orientam a nossa
concepção de mundo. Segundo o autor, as palavras são definidas, em grande medida, por
frames conceituais. Isso quer dizer que, quando ouvimos uma palavra, um frame ou
uma coleção deles é ativado em nosso cérebro. Esses frames, ordenadores de nossas
performances cognitivas, são historicamente construídos e têm forte orientação
ideológica. O que Lakoff (2004) argumenta é que na sociedade norte-americana,
situadamente, palavras como ‘moral’, ‘família’ e ‘segurança’ estão atreladas a conceitos
com grande força da ideologia Republicana. Ou seja, são frames. E para que um
democrata consiga tratar desses conceitos, a partir da sua perspectiva ideológica, seria
necessário um profundo processo de reframing, ou seja, de reconceitualização dessas
palavras. assim o discurso dos democratas se diferenciaria do discurso dos
republicanos. Dessa forma, reframing são ações cognitivas que propiciam operações
lingüísticas, partindo de enquadres elaborados por pontos de vista diferenciados.
Essa discussão trata do que Lakoff (2004) defende por ‘mudança cognitiva’. Tal
proposição fica mais consistente se compreendermos a concepção do autor sobre a
natureza corporificada da mente. Para Lakoff (1990), a constituição do individual se a
partir da interação com o social e a nossa mente ou os sistemas que organizam o nosso
conhecimento, como os frames. Assim, o nosso pensamento e a nossa razão concernem,
essencialmente, à natureza do organismo fazendo coisas e pensando incluindo a
48
natureza do seu corpo, sua interação em seu ambiente e suas características sociais. Dessa
forma, seguindo as reflexões do autor, podemos pensar que a mudança social exige uma
mudança dessa constituição do individual em interação com o social, que construiria a
reconceitualização dos objetos do discurso. Ou ainda: reframings. Na proposta de Lakoff
(2004), esse processo está atrelado ao frame, delimitado por ele aos itens lexicais.
Entretanto, vislumbrando trabalhos futuros, poderíamos pensar sob essa perspectiva para
o estudo de outros elementos lingüísticos e de outras organizações cognitivas mais
complexas, como os modelos mentais, memória, entre outros.
Assim, é importante esclarecer que tratamos do conceito de frame a partir das
considerações de Lakoff (2004) por esse estar atrelado à noção de reframing, que
propomos para esta investigação. Entretanto, temos consciência da complexidade dos
estudos sobre frames e da trajetória histórica pela qual esse conceito tem passado, em
distintas áreas do conhecimento, com diferentes ramificações de pesquisa. Entre esses
estudos, citamos os de Minsky (1979); Tannen (1985) e Schiffrin (1977) pela suas
importâncias nas diversificadas investigações desse conceito. Também é importante
esclarecer, para a finalização deste tópico, que operamos com os conceitos de frame e
reframing com dois propósitos: 1) neste ponto e no terceiro capítulo sob a perspectiva
teórica, para a construção da proposta da Análise Cognitiva do Discurso; 2) como
categorias analíticas. Citamos a macrocategoria frames de cobertura no primeiro capítulo,
mas o uso dessas noções para as análises está desenvolvido nos capítulos 4 e 5,
juntamente com as demais categorias que compõem a investigação da legitimação como
um fenômeno discursivo-cognitivo.
2.3 Sociocognição e Discurso
Cognição e discurso foram conceitos que pertenceram a campos
epistemológicos distintos, tratados como incompatíveis, sendo cognição uma noção que
unanimemente os analistas do discurso entendiam como algo que o lhes dizia respeito.
Essa postura é ainda bastante forte entre alguns teóricos da AD, principalmente os da
linha francesa, na qual a reação anti-cognitivista foi tomada quase como uma ‘opção
política’, sustentada pelos equívocos de uma perspectiva mentalista, que, ao situar a
49
cognição como uma propriedade inata, desconsiderava qualquer relevância do social em
suas pesquisas. É nesse sentido que Flower (1994:32) discorre sobre a dificuldade em
construir uma teoria social cognitiva, pois se trata de um projeto que, além de abarcar
toda uma complexidade teórica, também está relacionado a um problema de “política
intelectual”. Desenvolver uma teoria sociocognitiva resulta em uma tentativa de conciliar
pesquisas tradicionalmente desenvolvidas em perspectivas diferenciadas o que nada
mais é do que o nosso hábito secular em opor social x individual. A ‘visão
sociocognitivista’, mesmo que desenvolvida a partir de linhas de trabalho distintas,
assume o compromisso de incorporar aspectos sociais e culturais à compreensão que se
tem do processamento cognitivo, sustentando que existem muitos processos cognitivos
que acontecem na sociedade, e não exclusivamente nos indivíduos. “Neste caso, o
interesse se concentra no modo como as pessoas, enquanto membros de culturas ou
grupos particulares, percebem e descrevem o mundo social” (Condor e Antaki, 2000:
454).
Marcuschi (2004b) vai mais além e defende que, com o enfoque sociocognitivista,
passa-se a analisar atividades de construção, e não mais de processamentos, conceito
carregado por uma noção mecanicista da mente, como iremos discutir mais adiante.
Compreender que as propriedades cognitivas são construídas na prática social “possibilita
perceber com mais clareza como emergem nas práticas públicas as propriedades da
cognição e, assim, a possibilidade de captar o dinamismo dos processos que dão origem a
estruturas conceituais complexas” (Marcuschi, 2004b:13). Isso significa que a nossa
forma de perceber, compreender, categorizar e, por fim, construir os ‘objetos do discurso’
resulta de atividades contínuas e situadas, que se dão na interação social. Assim, trata-se
de perceber como as pessoas agem sobre o mundo, no mundo, com o mundo.
A falência das polaridades social x individual foi reivindicada por vários
autores, em distintas áreas do conhecimento (Santos, 2004; 2003). Os estudos discursivos
têm se mostrado cada vez mais relevantes no trato dessa questão. Isso porque o
empreendimento de usar uma língua encontra-se sempre em relação dialética entre os
conhecimentos individuais e sociais. Ao mesmo tempo em que a formulação de textos é
uma realização individual, sempre será socialmente construída e compartilhada. É nesses
termos que Beaugrande (1997) propõe a noção de língua como um sistema virtual
50
sendo esse sistema atualizado no texto, entendido como um sistema real. Assim, a língua
é um ‘sistema adaptado’, sintonizado com os usos possíveis e os usos correntes. Dessa
forma, a relação entre o sistema virtual da língua e o sistema real de texto é uma dialética
onde cada lado controla o outro, enquanto eles funcionam conjuntamente” (Beaugrande,
1997:12).
Situar a língua como um sistema virtual tem como fundamento quatro propostas
relevantes para a nossa discussão: i) a língua es integrada com a cognição e com a
sociedade, encontrando-se no discurso a sua possibilidade de realização; ii) a língua está
em evolução contínua, assim como todas as práticas sociais; iii) existem várias ‘versões
de língua’ (ou usos), pois sua realização resulta de diferentes situações, entre diferentes
interlocutores; iv) esta perspectiva reconsidera o equilíbrio entre a liberdade do uso da
língua versus as convenções da língua de uma comunidade. É dessa forma que, ao usar
uma língua, as pessoas nunca usam toda a língua, nem mesmo todo o seu conhecimento
dessa língua, mas sempre uma versão ativada no fluxo do uso da língua’, o que
suporte ao discurso. Nessa perspectiva, não cabe mais a noção de língua como um
sistema fechado e bem ordenado. Como também não cabe mais a relação dicotômica
entre língua e discurso, que nada mais é do que a repetição da dicotomia individual x
social.
Beaugrande (1997:12) se opõe radicalmente às dicotomias:
“Vamos encarar isso: a língua é sustentada pelas práticas
discursivas e tomar esse fato seriamente pode nos levar a novos
insights importantes para toda a série de pares estabelecidos em
inadequadas dicotomias: teoria x prática, sistema x dados, geral x
específico, saber x fazer, ordem x caos”.
O grande equívoco dessas oposições, já tão cristalizadas no nosso cotidiano, é nos
fazer crer que podemos compreender um aspecto desarticulado do outro. A proposta do
autor consiste em entender a relação das coisas a partir de uma compreensão dialética e
contínua. Assim como a ordem não é o oposto do caos, mas sim algo construído a partir
da relação com ele, não a possibilidade de fazer algo sem um saber, ou seja, não
uma prática que não esteja fundamentada por uma teoria. Romper com os antagonismos
51
é fundamental para que se compreenda o que significa uma relação constitutiva entre
discurso cognição sociedade, com a cognição operando nessa interface. assim
pode-se concluir que o processo de produção textual requer uma interação complexa
entre os ‘delimitadores padrões da língua’ (como as relações sintáticas, por exemplo) e os
‘delimitadores emergentes’ que um contexto envolve. Ou como afirma Beaugrande
(1997:11): “as pessoas usam e compartilham a língua precisamente porque ela é um
sistema continuado de interação com os seus conhecimentos sobre o seu mundo e sua
sociedade”.
Na concepção de que a língua é um sistema virtual e o texto é a sua possibilidade
de atualização, dá-se espaço para a ação de um sujeito, mais especificamente um sujeito
cognitivo, operando com o seu conhecimento social/individual para a prática lingüística.
Nessa perspectiva, cabem os conceitos de interação, negociação, entre outros, porque a
atividade de atualização da língua é entendida a partir da sua propriedade social e
cognitiva. É interessante refletir sobre essas questões, remetendo a algumas
considerações que já fizemos sobre o modelo SFL de Halliday (1978), no qual as
chamadas ‘funções da linguagem’ parecem operar autonomamente, sem a ão de um
sujeito, deixando um vácuo na relação língua-sociedade. Como concebe Beaugrande
(1997), faz-se necessário um modelo de linguagem em interface com as delimitações
lingüísticas, cognitivas e sociais, delimitações estas construídas a partir do conhecimento
compartilhado em sociedade. Esse modelo daria conta de explorar as interfaces
sistemáticas entre o movimento discursivo (quando se realiza um enunciado), o
movimento cognitivo (quando se acessa e usa o conhecimento) e o movimento social
(quando interação entre os indivíduos). Todos esses movimentos estão em co-
sustentabilidade, ou seja, o discurso, a cognição e o social perpassam todos os
movimentos. Assim, a idéia é de dinamicidade e interação e destacar esses movimentos
tem apenas a função analítica.
Ao assumir a natureza inerentemente social da cognição, rejeitamos a perspectiva
mentalista, que, ao situar a cognição como uma propriedade privada, preocupa-se em
explicar como os conhecimentos de um indivíduo estão estruturados e representados em
sua mente e como eles são acionados para resolver os problemas postos pelo ambiente
(Shanon, 1993). Rejeitar o individualismo da proposta mentalista, entretanto, não deve
52
ser entendido como negar que existem indivíduos, e que indivíduos têm mentes. que,
tanto os indivíduos (atores sociais) como suas mentes (sua capacidade cognitiva) se
constituem socialmente, e tal constituição propicia a interação entre sujeitos cognitivos.
Isso nos faz entender que operamos discursivamente porque somos dotados de
propriedades cognitivas que nos propiciam produzir/compreender textos. Nossa
habilidade lingüística não pode ser tomada como algo que precede o nosso aparato
cognitivo. É importante ressaltar, ou reiterar, se isso já ficou claro em algum momento do
trabalho, que não entendemos mente apenas como algo interno, mas sim um aparato que
se constrói na interação, interação esta que se entre sujeitos situados sociocultural e
historicamente.
De forma ampla, a inserção da perspectiva sócio-cognitiva na Lingüística tem
resultado em abordagens completamente diferenciadas e bastante produtivas, em várias
linhas de investigação: no ensino da escrita (Flower, 1994), na Lingüística de Texto
(Beaugrande, 1997; Koch, 2004, Marcuschi, 2001), nos estudos de referenciação
(Marcuschi, 2003a; Mondada, 2000; 1997), na reelaboração das noções de metáfora
(Lakoff e Johnson, 2002) e contexto (van Dijk, no prelo; 2006), citando apenas alguns.
Em um apanhado sobre os (des)encontros entre a Lingüística e as Ciências Cognitivas,
Morato e Koch (2003:85) defendem que essa relação é uma “empreitada pragmático-
discursiva para se compreender melhor a natureza do processamento de certos aspectos
da cognição humana”. Para as autoras, o estudo não das nguas como também do
funcionamento da linguagem tem lugar garantido nas ciências da cognição. A entrada da
Cognição na Lingüística foi considerada por Marcuschi (2005a) como ‘uma espécie de
cognitive turn’, em comparação à guinada Pragmática, datada de meados do séc. XX.
Para o pesquisador, a preocupação da Lingüística com as atividades cognitivas é de
extrema pertinência, pois num certo sentido a linguagem caracteriza-se como uma forma
de cognição (Marcuschi, 2005a).
2.4 A Proposta Sociocognitiva de Teun van Dijk
A Análise Cognitiva do Discurso trata de dar conta da ação coletiva/individual no
processo de (re)construção do conhecimento, das ideologias, das crenças e das atitudes.
53
Nessa linha de investigação, a mente não é compreendida como algo externo ao discurso,
algo invisível, para a qual cabem especulações, mas sim como de natureza discursiva.
(van Dijk, 2000b). Para isso, é preciso considerar as propriedades cognitivas como
resultantes de ações intersubjetivas, sendo construídas na interação social. E se, por um
lado, a cognição se constitui na interação, por outro também a propicia, pois é através dos
nossos conhecimentos compartilhados, entre eles o lingüístico que nos entendemos,
ou buscamos o entendimento pela negociação. Assim, a atividade discursiva está atrelada
a elementos socialmente constituídos, contextualmente situados, e cognitivamente
elaborados. Conversar, escrever ou ler textos, participar de um debate, assistir a
conferências e aulas ou escutar uma música: são práticas discursivamente realizadas, que
resultam de processos constantes de compreensão, interpretação, inferências, atribuições
de sentidos e de valores, ou seja, das nossas ‘performances cognitivas’. Assim é que
discursocogniçãointeração estão em relação constitutiva, ressaltando-se que a
cognição tem a propriedade de operar na interface entre o que construímos socialmente e
o que praticamos individualmente, ou seja, nossa fala ou escrita, assim como em outras
práticas sociais.
Perceber a propriedade de interface da cognição é buscar uma investigação
aprofundada e complexa para uma questão ainda não totalmente resolvida na Análise
Crítica do Discurso: como se a relação discurso sociedade? Se os analistas críticos
do discurso concordam que a inter-relação entre discurso e sociedade não pode ser
investigada adequadamente sem a combinação de teorias lingüísticas e sociológicas,
muitos ainda desconsideram (ou mesmo rejeitam) a abordagem sociocognitiva. Esse
problema também é apontado por Wodak (2006) que, ao fazer uma revisão teórica do
próprio trabalho, argumenta sobre a importância das teorias cognitivas na Análise Crítica
do Discurso, principalmente para dar conta do link entre discurso e sociedade. O objetivo
de uma análise sociocognitiva do discurso deve ser, fundamentalmente, o de investigar as
práticas discursivas como ações públicas que podem desempenhar uma variedade de
funções sociais, tais como a (re)produção da discriminação étnica, social e sexista.
Neste ponto do capítulo, pretendemos abordar os conceitos fundamentais da AD
Cognitiva de forma mais sistemática, assim como enfocar a relevância dessa proposta
54
para o nosso estudo sobre (des)legitimação, e, por fim, trazer algumas reflexões críticas
sobre esta abordagem.
2.4.1 Discurso Sociedade em Três Aspectos de Interface
A interface entre discurso e sociedade é complexa e qualquer ênfase em alguns
dos múltiplos fenômenos que envolvem essa relação sempre será reducionista. Dessa
forma, como não é possível esgotar todas as questões, parece-nos mais interessante focar
em alguns aspectos fundamentais e mais relevantes para o quadro teórico desta
investigação. Se a cognição é a propriedade que opera na interface entre a sociedade e as
realizações discursivas, precisamos desenvolver noções que dêem conta de explicar
teoricamente esse processo. Assim, tomaremos os conceitos de contexto, modelos
mentais e ideologia para tratar a questão da interface, sem desconsiderar que várias outras
propriedades atuam nessa relação.
Esses aspectos são também os que mais têm sido aprofundados na proposta de
van Dijk para uma AD cognitiva. A noção de modelos mentais, desenvolvida por van
Dijk e Kintch (1983) e adotada na Psicologia Cognitiva e na Lingüística, pouco é
explorada em análises discursivas, enquanto que os conceitos de contexto e ideologia
ainda são tratados tendo como base as teorias tradicionais, como discutiremos mais
adiante. Todas as considerações a seguir são fundamentadas a partir dos diversos estudos
de van Dijk citados neste trabalho.
Contexto
A principal distinção entre as teorias cognitivas e a teoria clássica sobre contexto
reside no fato de que aquelas não aceitam que o discurso seja diretamente determinado
por aspectos regularmente tratados como contextuais: instituições, cultura, gênero, idade,
classe social etc. Se, por um lado, esses aspectos são relevantes para a elaboração de
discursos, por outros eles não podem ser entendidos como determinantes. Na proposta de
van Dijk (2006a), contextos são interpretações subjetivas desses elementos, em um
55
processo de interação situado. Assim, contextos são construções interacionais elaboradas
a partir dos distintos elementos em uma situação social específica que os interlocutores
tomam como relevantes para a sua produção discursiva. Não uma relação objetiva
entre o discurso e os aspectos contextuais, mas sim interpretações que atores sociais
engajados em alguma prática elaboram sobre esses aspectos. Por isso, para evitar esse
determinismo social, é preciso levar em conta não apenas as condições de variações
sociais, mas também as variações individuais através das interfaces sob as quais operam
os interlocutores quando falam ou escutam: eles compreendem, interpretam, constroem
etc. Ou seja, contextos são subjetivos por definição sem desconsiderar suas
propriedades sociais e intersubjetivas, que possibilitam, por exemplo, a compreensão
discursiva.
Os contextos são co-construções situadas e dinâmicas, cujas ações dos
interlocutores continuamente as reconfiguram. É nesse sentido que os contextos operam
na interface entre a prática social e a discursiva. O processo de elaboração ou
compreensão de um texto não é diretamente controlado pelos papéis dos interlocutores,
sua classe social, ou sua idade, ou mesmo um determinado evento social, esses elementos
vão constituir subjetivamente a fala e a escrita, pois dependerá, primeiramente, de como
as pessoas compreendem e interpretam os elementos contextuais relevantes para a
elaboração desses textos, assim como os conhecimentos por elas compartilhados. A partir
de uma perspectiva cognitivista, podemos afirmar que os contextos são as construções
mentais (com base na experiência social) com as quais operamos no momento de
elaboração de um texto (falado ou escrito), daí a afirmação de que texto e contexto estão
intrinsecamente vinculados, sendo que o contexto não se constitui apenas pelas estruturas
externas ao discurso, mas também pelas representações subjetivas elaboradas pela nossa
cognição. É apenas com essa compreensão que podemos dar conta de como os atores
sociais são diferentemente influenciados e atuam distintamente em uma mesma situação
social.
Outro aspecto importante da teoria de van Dijk (2006) sobre contexto são os
elementos que dão conta da relevância. Ou seja, o que é socialmente construído e
individualmente assumido como relevante, em eventos comunicativos específicos e, em
outra situação, com outros indivíduos, mas em um mesmo evento comunicativo, as
56
relevâncias passam a ser outras. Essa questão é particularmente importante para
refletirmos porque alguns gêneros, mesmo que tendam a ser ritualizados, nunca são
exatamente reproduzidos. Por exemplo, dar uma aula, mesmo quando tratamos dos
mesmos assuntos, são ocorrências distintas nas diferentes turmas. Isso porque é no
momento da interação com um grupo de alunos específicos ou seja, uma ação situada,
que os elementos contextuais são construídos e, assim, o que é tomado como relevante
para aquele evento. Assim, as relevâncias dos contextos podem ser definidas se elas
forem entendidas como ‘relevâncias-para-os-participantes’: sem abstrações e
generalizações determinadas pelos altos níveis das estruturas sociais. Assim, o aspecto da
relevância do contexto é importante para dar conta do processo interacional dos
participantes em um evento e, conseqüentemente, como eles se constroem a partir da
influência dos outros participantes, das suas próprias definições, assim como as da
própria interação.
Modelos Mentais
Os modelos mentais são construções subjetivas ou definições que atribuímos a
situações comunicativas específicas, daí a relevância de seu estudo nas práticas
discursivas. Eles são constantemente reformulados, atualizados e elaborados na memória
episódica (parte da memória de longo prazo que conta das nossas estruturas mentais
mais imediatas). Por isso, os modelos mentais não podem ser entendidos como elementos
de natureza rígida e homogênea. A sua atualização se a partir do nosso contínuo
processo de atividade social. Os modelos mentais estão relacionados ao processo de
produção e compreensão textual ou de eventos, pois operam na construção das
representações sobre tais eventos ou das situações tratadas em um texto. Os modelos
mentais são de natureza social
9
, pois têm fortes características de ‘pertença’ de grupos,
mas são também intrinsecamente individuais, resultando das nossas experiências, da
nossa biografia, armazenadas na nossa memória. Eles também são
9
A perspectiva da constituição social dos modelos mentais é um dos pontos principais para distinguir essa
noção de uma perspectiva mentalista. o é por eles serem entendidos como elaborações mentais que
devem ser tomados como algo inato. Eles compõem o nosso aparato cognitivo e são constituídos a partir
das nossas relações sociais.
57
situacionais/interacionais, pois são diferenciados em cada ação comunicativa: toda prática
discursiva envolve a articulação de modelos mentais específicos, por isso eles são
representações subjetivas dos eventos ou situações sobre as quais um discurso trata.
Os modelos mentais são estruturas cognitivas que podem ser entendidas como as
nossas ‘representações da realidade’, por isso operam nas avaliações e valorações
(opiniões) sobre eventos específicos, grupos e atores sociais. Os modelos mentais estão
em relação intrínseca com o contexto, pois são as estruturas com as quais operamos nos
diversos eventos comunicativos. Por isso, no processo discursivo, os modelos mentais
relacionados às situações que estamos tratando têm várias funções. Primeiro, eles servem
como ponto de partida do discurso: nós sabemos alguma coisa nova sobre um evento ou
uma situação e essas representações servem como orientações momentâneas para contar
uma história, escrever uma notícia jornalística, uma carta etc. De forma inversa, os
modelos mentais também têm a função instrucional, ou seja, servem aos nossos processos
de compreensão discursiva: entendemos os discursos quando somos capazes de construir
modelos mentais sobre eles. Assim, o próprio processo de construção de sentido de um
texto envolve a produção e atualização de um modelo mental.
É da natureza dos modelos mentais as organizações esquemáticas construídas
culturalmente. Por isso, eles são variáveis e muitas das suas propriedades são gerais. Isso
quer dizer que as pessoas não entendem os discursos e os eventos, nem mesmo de formas
infinitamente variáveis. Mas elas se utilizam de esquemas, movimentos e estratégias
cognitivamente acessíveis para facilitar sua tarefa de compreender as mais distintas
variações discursivas e situacionais. Dessa forma, chegamos a um aspecto fundamental
sobre os modelos de contexto: como se tratam de organizações cognitivas para a
produção e compreensão discursivas, eles são essenciais para o próprio processo
interacional. Por isso, os modelos mentais não podem ser apenas atrelados à articulação
de elementos lingüístico-discursivos para a construção discursiva. Eles também acionam
a articulação de elementos complexos, tais como a memória e os conhecimentos
compartilhados. Resumidamente, seguindo as palavras de van Dijk (2006): os modelos
metais são construções muito poderosas e algumas investigações têm mostrado que eles
‘existem’ independentemente de estarem envolvidos em situações discursivas.
58
Ideologia
Ao situar a ideologia como um dos aspectos que opera na interface entre discurso
e sociedade, van Dijk (2000c, 1998) elabora esse conceito a partir do enfoque
sociocognitivo. Essa perspectiva se diferencia bastante das tradicionais, principalmente as
desenvolvidas com base na linha marxista. Na proposta de van Dijk (2000c, 1998), a
ideologia não tem a conotação negativista e opressora ou como foi definida na
perspectiva marxista de ‘a falsa consciência’ –, pois não está atrelada a um instrumento
da classe dominante para manter o poder. Essa mudança na noção de ideologia se deve,
em princípio, às referências adotadas por van Dijk para investigar tal fenômeno. Se,
tradicionalmente, o conceito de a ideologia foi desenvolvido pela Sociologia e pela
Filosofia, situando-a a partir das relações de poder, com os estudos da Psicologia e da
sociocognição, passou-se a tratar dessa noção como sistemas de crenças compartilhados
por grupos, ou como elaborações cognitivas compartilhadas por pessoas que fazem parte
do mesmo grupo social. Assim, as ideologias não são falsas nem verdadeiras, mas
elementos de coesão e coordenação de práticas sociais. Essa mudança de enfoque não
mais situa a ideologia como um instrumento de opressão, mas como um aspecto que pode
propiciar, inclusive, a mudança social. Por um lado, existe o predomínio das ideologias
das classes dominantes, que contam com vários artifícios para a sua imposição, entre eles
o domínio discursivo, mas por outro também existem as ideologias revolucionárias e
libertadoras. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, por exemplo, é regido por
ideologias que defendem a reforma agrária e um sistema igualitário de distribuição de
renda. E, dessa forma, poderíamos citar outros grupos ideológicos que lutam contra o
status quo, tais como o movimento feminista e o movimento negro.
Como concebe van Dijk (1998:21), as ideologias são “as bases das representações
sociais compartilhadas por membros de um grupo”, permitindo-os se organizar em torno
de crenças sociais específicas, o que os unem e os permitem agir coordenadamente. Por
isso, as ideologias são entendidas como elementos que operam na interface entre
sociedade e cognição. Da diversidade de valores e conceitos construídos em uma
sociedade, os grupos se articulam em torno de afinidades, e assim compartilham e re-
elaboram suas crenças. Assim, podemos afirmar que a ideologia é uma categoria
59
axiomática, pois define outros elementos cognitivos (como os modelos mentais), sendo
socialmente construída e compartilhada, pois diz respeito necessariamente a grupos (não
ideologias individuais), sendo discursivamente reproduzida. Isso quer dizer que as
ideologias se constituem a partir de três aspectos: cognitivo, social e discursivo.
Entretanto, se várias práticas se organizam em torno da ideologia, é a partir do discurso
que ela mais se propaga. Dessa mesma forma, é pela análise discursiva que podemos
identificar suas manifestações e combatê-las, no caso de ideologias que propagam o
racismo, o preconceito e discriminação, por exemplo.
Sendo as ideologias crenças compartidas por grupos sociais, elas definem a
identidade, os interesses e as ações desses grupos. As ideologias são as organizações
cognitivas responsáveis, por exemplo, pela polarização Nós x Eles, e operam fortemente
no processo de compreensão de mundo e na ação social. A polarização Nós x Eles é
fortemente marcada nos discursos ideológicos e, necessariamente, tem a função
valorativa (bem x mal); (certo x errado). Dessa forma, é importante ressaltar que “as
ideologias não são apenas ‘uma visão de mundo’ de um determinado grupo, mas
fundamentalmente os princípios que formam a base dessas crenças (van Dijk, 1998:21)”.
Assim como também as ideologias não servem apenas para ‘dar sentido’ às ações sociais,
mas são as reguladoras e propulsoras dessas ações. Em outras palavras, as ideologias
consistem em representações sociais que definem a identidade social de um grupo.
Assim, as diferentes ideologias são definidas pelo tipo do grupo que ‘tem’ uma ideologia.
Por isso, o MST é tão distinto da União Democrata dos Ruralistas (UDR), assim como
são distintas as ideologias das mais variadas igrejas, partidos políticos etc.
Como o fundamento sociocognitivo de grupos sociais, as ideologias são
gradualmente adquiridas pelos seus membros e, em determinados momentos históricos,
mudadas. Por isso, elas são de natureza relativamente estável. Isso quer dizer que
ninguém se transforma em um socialista, por exemplo, a partir de uma decisão pontual.
Várias experiências, interações e discursos são precisos para adquirir uma ideologia ou
modificá-la. O contrário também pode ser analisado dessa forma. Se as ideologias são
gradualmente adquiridas, elas também podem ser gradualmente ‘desintegradas’ e, assim,
membros de grupos deixam de acreditar no que antes o identificava como daquele grupo.
Assim, podemos afirmar, seguindo van Dijk (2006c), que as ideologias têm várias
60
funções sociais e cognitivas: i) elas organizam e consolidam as representações sociais dos
grupos; ii) são as bases principais para a elaboração dos discursos dos membros dos
grupos como membros dos grupos; iii) elas possibilitam que membros de grupos
organizem e coordenem suas ações e interações em propósito dos interesses coletivos.
Por fim, as ideologias funcionam como parte da interface sociocognitiva entre as
estruturas sociais dos grupos, de um lado, assim como seus discursos e suas outras
práticas sociais, de outro.
Na teoria de van Dijk, as ações de ‘representações sociais’ são intrínsecas aos três
elementos pontuados acima. Entretanto, o autor ressalta que as representações sociais não
podem ser reduzidas a modelos mentais. Se estes dão conta das singularidades
discursivas construídas ideológica e socialmente, essas singularidades não podem ser
explicadas apenas pelas circunstâncias. Elas precisam ser elaboradas a partir de estruturas
mentais mais permanentes, trocadas com os outros, e que componham a memória social.
O conhecimento social, as atitudes e as ideologias precisam de mais estabilidade,
permanência e continuidade, em relação às distintas situações, para que sejamos capazes
de agir em ações comunicativas. Por isso, é preciso levar em conta que nós precisamos
ter conhecimentos, crenças, valores e normas de âmbito geral que sejam socialmente
compartilhados. E as representações sociais dariam conta exatamente desses aspectos.
Assim, elas não são ‘espelhos’ do mundo em que vivemos, mas construções coletivas da
forma que vemos o mundo. Elas são, enfim, a nossa cognição compartilhada.
Essas considerações poderiam fundamentar um dos aspectos que iremos tratar no
próximo pico: a ação dos gêneros textuais na constituição social e como eles operam
como ‘guias’ para as interações. Obviamente, trata-se de uma interpretação da obra de
van Dijk, que o próprio autor não se faz essa co-relação, trabalhando com uma noção
de gênero, inclusive, diferenciada da que propomos, conforme discutimos a seguir.
Entretanto, o elemento sociocognitivo que fundamenta o estudo de van Dijk daria
possibilidade para explorar esse aspecto, questão que poderia ser desenvolvida em outros
trabalhos.
61
2.4.2 Os Gêneros Textuais, sua Relevância na Interface e outras Críticas à AD Cognitiva
As críticas mais sistemáticas sobre a perspectiva cognitivista na Análise Crítica
do Discurso foram trazidas por Chouliaraki e Fairclough (1999) e Fairclough (1995). O
problema central apresentado por esses autores consiste na inacessibilidade dos processos
cognitivos, ou seja, na impossibilidade de as estruturas cognitivas serem estudadas
diretamente. Essa questão é recorrente nas críticas apresentadas aos estudos cognitivos,
de uma forma geral, e tem como base a nossa forte tradição empirista. Entretanto, quando
trazido à tona por analistas do discurso, esse questionamento parece ainda mais
incoerente, pois nos remete a uma questão básica quando se trata de estudos do discurso:
o que, de fato, pode ser estudado diretamente, que se trata de investigar, inclusive, o
que não está dito em um texto tais como as pressuposições, as implicações, as
inferências etc.? A inconsistência dessa crítica torna-se ainda mais evidente quando
trazida em uma linha de trabalho que adota noções como ideologia e representações
sociais como fazem os autores da ACD –, pois essas noções são o ‘diretamente’
inacessíveis, ideologicamente revestidas, cognitivamente elaboradas e discursivamente
construídas quanto os conceitos de modelos mentais, frames, ou qualquer outra estrutura
cognitiva.
Podemos ampliar o debate e questionar sobre o que, de fato, pode ser analisado
diretamente, independentemente da área do conhecimento, isso se tomarmos as coisas
mundanas’ como construções sociais, estabelecidas historicamente, a partir de processos
interacionais, ou seja, como ‘objetos do discurso’ (ver capítulos 3 e 4). Algumas
reflexões críticas sobre a doutrina empirista’
10
, ainda tão arraigada às investigações
acadêmicas (os ‘fatos’ são produzidos pela observação), ajudam nessa discussão. Para
Potter (1996) não há possibilidade de observação direta, mesmo nas ciências naturais,
10
Potter (1996) traz considerações bastante esclarecedoras sobre a ‘doutrina do empirismo’ e como essa
noção é tão presente nas pesquisas acadêmicas que chega a ser tomada como ‘evidente’. O autor
exemplifica essa questão a partir do que denominou de as “metáforas visuais do empirismo”, usadas nos
textos científicos: ‘vendo esse aspecto’, ‘observando esse conceito’, ‘como podemos observar’, entre
outras.
62
pois “seja qual for a imagem captada pela retina do cientista, a observação vai circular em
termos de enunciados, em alguma forma de discurso escrito ou falado. E mesmo os
enunciados mais simples envolvem formas de categorização; não é apenas ver o que está
ante aos olhos, mas ver como alguma coisa(Potter, 1996:22, grifos nossos). Maturana
(1995:158) aborda essa questão de forma ainda mais contundente: “Nós, cientistas,
fazemos ciência como observadores que explicam o que observam. Como observadores
somos seres humanos. (...) O observador se faz na observação e, quando o ser humano
que é o observador morre, o observador e a observação chegam ao seu fim”.
Voltando às críticas apresentadas à proposta sociocognitiva de van Dijk,
Fairclough (1995) as elabora a partir de alguns conceitos específicos. O que o autor
questiona é ausência de certas noções teóricas, como a de ‘intertextualidade’, bem como
a pouca atenção ao aspecto interpessoal da linguagem. No que diz respeito à primeira
questão, Fairclough (1995:30) argumenta que os textos são analisados lingüisticamente,
mas não intertextualmente, nos termos da sua constituição através das configurações do
discurso e dos gêneros”. Sobre o segundo aspecto, o autor questiona o foco de van Dijk
na representação social: os seus estudos privilegiariam as relações sociais e as identidades
no discurso dos jornais, mas a função interpessoal da língua receberia pouca atenção.
Entendemos essas críticas como conceituais, porque se referem a concepções distintas no
processo de investigação de aspectos da mesma natureza. Ou seja, quando Fairclough
(1995) questiona a ausência do conceito de intertextualidade, podemos argumentar que,
em uma abordagem sociocognitiva do texto, a natureza intertextual é constitutiva, assim
como a sua análise, pois tanto a elaboração, quanto a compreensão dos textos resultam de
estruturas ideológicas, de sistemas de conhecimento, de estereótipos, de atitudes, entre
outros, que se formam, irremediavelmente no âmbito social, a partir de operações
cognitivas. Assim, os textos não se constituem apenas individualmente, mas são relações
com vários outros textos (nosso conhecimento social), que articulamos em modelos
mentais. Se, por um lado, van Dijk não se detém no aspecto intertextual, nem mesmo
quanto ao uso dessa terminologia, por outro lado não nega a constituição coletiva dos
textos, que partindo de outros pressupostos teóricos que não apenas o proposto por
Julia Kristeva, com base nos estudos de Bakhtin 2000 [1979], para dar conta desse
aspecto, como o faz Fairclough (2003) e boa parte dos estudiosos do
63
intertexto/interdiscurso. É preciso entender que um fenômeno não pode ser tomado como
uma propriedade de uma nomenclatura.
Podemos usar o mesmo argumento para o aspecto da função interpessoal da
linguagem, que para Fairclough (1995) não seria tratado na abordagem sociocognitiva.
Nesse sentido, se entendermos que as propriedades cognitivas têm como função principal
propiciar a interação, concluiremos que a questão das relações interpessoais é intrínseca à
perspectiva sociocognitivista. Daí que as primeiras investigações na análise do discurso
de van Dijk (1986) tiveram enfoque na reprodução do racismo a partir da interação
cotidiana, ou seja, como o racismo é reforçado e sustentado nas conversas entre vizinhos,
colegas de trabalho etc.
Um aspecto que nos parece mais interessante para ser discutido sobre os trabalhos
de van Dijk é a ausência de uma elaboração teórica aprofundada sobre gêneros textuais
e como eles operam na relação de interface. As suas investigações dão conta,
basicamente, da análise de gêneros textuais do domínio jornalístico (com mais ênfase na
notícia, mas também em artigos de opinião e editoriais), daí a importância de uma
atenção maior a uma ênfase nos estudos dos gêneros. Mesmo que apresente algumas
questões sobre esse aspecto, como quando discute se os tópicos discursivos são
elementos semânticos ou se são definidos pelos gêneros (van Dijk 2006a), isso não
resulta em um estudo mais sistemático nos trabalhos do autor sobre gêneros. Ainda que
seu critério central ao desenvolver uma tipologia dos gêneros seja o aspecto
sociocognitivo, esse aspecto não é aprofundado na relação da constituição gênero-
discurso. Para van Dijk, os temas têm pouco a ver com os neros e estão atrelados a
aspectos formais do texto como a superestrutura e a macroestrtura. Isso engessa a
potencialidade de análise da ação dos gêneros no processo de interface cognitiva, ou
mesmo a sua força pragmática. Por isso, entendemos que a perspectiva de van Dijk (no
prelo) sobre gêneros é desenvolvida ainda sob uma concepção estruturalista.
Outros autores (Bazerman, 2006; Berkenkotter e Huckin, 1995; Marcuschi,
2003b; Miller, 2004) têm proposto reflexões diferentes para a investigação dos neros:
como elementos que operam na organização da sociedade, com ênfase em uma
perspectiva pragmático-cognitiva. Um estudo que enfatize a ação dos gêneros,
articulando o dinamismo entre as suas formas e funções, pode dar conta da investigação
64
sobre as mudanças na organicidade dos gêneros, e em que sentido isso está relacionado às
mudanças cultural e social, de forma mais ampla. As modificações nos gêneros
jornalísticos, por exemplo, são indícios fortes dessa relação, pois são gêneros com forte
inserção cultural, devido ao seu poder de circulação. Essa questão evidencia-se bastante
em trabalhos que buscam os links entre práticas sociais e discursivas. Como propõem
Berkenkotter e Huckin (1995), o gênero textual é um elemento que possibilita a
interpretação do processo entre a comunicação e o sistema social. Os dois autores têm
combinado os seus conhecimentos nos campos da análise do discurso, com base
cognitiva, a alguns fundamentos da pesquisa retórica, para elaborar o que chamam de
‘teoria sociocognitiva do gênero’: o estudo do micronível de ações situadas,
freqüentemente analisadas como um processo individual, mas que também podem ser
interpretadas (no macronível) como atos comunicativos num sistema discursivo.
A necessidade de uma abordagem social para os gêneros origina-se do seu caráter
organizador das práticas mundanas. De acordo com Berkenkotter e Huckin (1995), no
nosso uso organizacional ou disciplinador de neros, nós constituímos estruturas sociais
(em seus domínios profissionais, institucionais e organizacionais) e simultaneamente
reproduzimos essas estruturas. Com inspiração na teoria da dualidade de estrutura,
desenvolvida por Giddens (2003), os autores tentam se distanciar das concepções
sociológicas tradicionais que propõem uma clara separação entre a estrutura social e a
ação humana. Giddens (2003) observa que, de acordo com essa visão, a ‘estrutura’ é vista
como ‘uma ação externa humana, como um tipo de delimitação da iniciativa livre’. Esta
discussão é relevante, pois nos propicia desenvolver reflexões sobre como a linguagem
opera nesse processo de estruturação social, partindo da noção de gêneros textuais, já que
estes se estabilizam (e não se estruturam) em relação constitutiva com a
estabilidade/instabilidade social.
De acordo com Giddens (2003:35): “o que é especialmente útil para a orientação
de pesquisa é o estudo, primeiro, das interseções rotinizadas de práticas que constituem
‘os pontos de transformação’ nas relações estruturais; e, segundo, dos modos como as
práticas institucionalizadas estabelecem a conexão entre a integração social e a integração
do sistema”. Sobre esse aspecto, propomos considerar os gêneros textuais como
elementos da prática social que transitam, tanto entre os ‘pontos de transformação’,
65
quanto nas práticas localizadas que atuam na reprodução do sistema, daí seu poder de
restringir/transformar a sociedade. No terceiro capítulo, desenvolvemos uma discussão
mais ampla sobre a teoria da estruturação de Giddens (2003).
Por agora, trazemos apenas alguns aspectos para fundamentar a discussão sobre o
conceito de gêneros textuais que aqui assumimos e propomos: uma perspectiva anti-
estruturalista e não-formal, acentuando as ações de transformação/reprodução sociais e
cognitivas que os gêneros possibilitam. Assim, seguimos as proposições de Marcuschi
(2005c), que percebe os gêneros como um macro-modelo cognitivo, ou “um sistema de
enquadres cio-histórico”. Nessa mesma linha, Bazerman (2006) entende os gêneros
como frames que orientam nossa movimentação no mundo. Isso quer dizer que, se a
interação se irremediavelmente a partir dos gêneros, são eles que orientam os
elementos cognitivo-discursivos necessários para a nossa inserção em qualquer evento
interativo. Resumidamente, os gêneros são enquadres sócio-interacionistas que
construímos, ao longo da história, para facilitar nossas relações e torná-las mais
dinâmicas e fluidas. Por isso, remetendo à clássica definição de Bakhtin 2000 [1979], eles
não podem ser entendidos como estruturas rígidas, mas de natureza relativamente
instável, pois estão em contínuo processo de constituição, em uma movimentação de via
dupla, interferindo nas práticas sociais e sendo interferidos por elas. As palavras de
Marcuschi (2005c:25) sintetizam o ponto fundamental dessa discussão:
“a circulação dos gêneros textuais na sociedade é fascinante, pois mostra
como a própria sociedade se organiza em todos os seus aspectos. E os
gêneros são as manifestações mais visíveis desse funcionamento que
eles ajudam a constituir, envolvendo crucialmente a linguagem, as
atividades enunciativas, as intenções e outros aspectos”. (grifos do
autor).
De acordo com a perspectiva da Escola Norte-Americana, na linha da Nova
Retórica, a inserção social das nossas ações é reconhecida como legítima a partir do
gênero. Ou seja, as ações sociais são legitimadas e aceitas a partir do gênero no qual elas
estão sendo inseridas ou veiculadas. Dessa maneira, podemos entender os gêneros não
apenas como entidades formais, mas como elementos pragmáticos. Os gêneros são,
fundamentalmente, formas de ação social. Esse é o princípio da teoria de Miller
66
(1994:71): o que eu quero propor é que se veja gênero como um constituinte específico
e importante da sociedade, um aspecto maior da sua estrutura comunicativa, uma das
estruturas de poder que as instituições controlam”. Nessa mesma linha, Bazerman (1994)
entende que as pessoas criam instâncias individuais de significados e valores em campos
de estruturas discursivas, e por causa disso agem em elevados sistemas sociais
articulados, sendo os gêneros um dos componentes desses sistemas.
Os autores da Escola Norte-Americana tomam como inspiração a teoria de
Bakhtin (2000[1979]) sobre os gêneros discursivos referência básica também para este
estudo. Nas considerações de Bakhtin, gêneros não são realizações lingüísticas
individuais, mas sociais. E, por isso, são resultantes dos processos históricos vividos
pelos grupos que os constroem. O autor também frisa que os gêneros são padrões
comunicativos socialmente utilizados, que funcionam como uma espécie de modelo
comunicativo global de um conhecimento social situado. Nesse ponto, podemos remeter
outra vez às considerações de Berkenkotter e Huckin (1995:7): “nosso conhecimento de
gênero é derivado de (e embebido em) nossa participação nas atividades comunicativas
do cotidiano. O conhecimento do gênero é uma forma de ‘cognição situada’ que continua
a se desenvolver enquanto nós participamos de atividades culturais”.
A perspectiva pragmático-social desenvolvida por Miller (1994) e Bazerman
(2004), assim como a perspectiva sociocognitiva, são importantes para este estudo, pois
situam os gêneros como elementos que não organizam as relações sociais, mas com
poderes para legitimar ações discursivas, agindo na interface entre as interações e as
práticas sociais, ou ainda, entre os aspectos macro e microssociais. Assim, é relevante
para a nossa análise, por exemplo, a natureza dos gêneros que estamos investigando
(aspecto tratado nos capítulos 1, 4 e 5), a partir da sua ocorrência na cobertura sobre
Eldorado de Carajás. Essa relação está longe de ser objetiva ou casual, mas sim
constitutiva da prática discursiva jornalística. Não é irrelevante o que foi identificado no
estudo do corpus desta pesquisa: a grande maioria dos gêneros que veiculam informações
sobre o massacre dos sem-terra são notícias. E isso é importante por uma questão básica:
esse é o gênero, em geral, o qual os jornais possuem maior controle sobre as
possibilidades de inserção discursiva. Poderíamos até dizer que há, por parte dos
jornalistas, um certo nível de consciência da potencialidade desse gênero em dois
67
aspectos: i) legitimar os discursos nele veiculado; ii) controlar a forma como esses
discursos são veiculados, devido ser esse gênero o que tem uma organização mais rígida.
Como observou Miller (2007), é justamente ‘corrompendo’ a natureza instável
dos gêneros que as instituições conseguem manter o controle discursivo. Assim, segundo
a autora, poderíamos falar que alguns gêneros estão sob forte vigilância’ das instituições
e, dessa forma, tendem a se enrijecer. O controle formal da notícia, por exemplo, que vem
se estabelecendo desde meados do século XIX, quando o gênero passou a seguir a
organização canônica: título, lead e sublead, o que foi denominado como ‘estrutura de
relevância’. Tal estrutura foi desenvolvida em textos de telégrafos, enviados pelos
jornalistas correspondentes da Guerra da Secessão nos Estados Unidos. Por causa do
limite de tempo e das restrições tecnológicas, os repórteres optaram por enviar
primeiramente as informações ‘mais importantes’, ou seja, a iniciar o texto de forma
‘mais objetiva’. Antes, as notícias iniciavam com um comentário ou uma análise sobre o
assunto tratado. De acordo com os cânones do jornalismo, o novo formato foi adotado
como regra porque servia para agilizar e facilitar a leitura dos textos. Sob a perspectiva
dos estudos do discurso jornalístico, tal organização é ideologicamente orientada e
interfere fortemente no processo de compreensão, conforme discutimos no quinto
capítulo.
Entretanto, é importante ressaltar que esse controle formal não é tão determinante
a ponto de impossibilitar interferências discursivas. Assim como os neros, os jornais
são instituições que se organizam em um sistema de via dupla (interferindo na sociedade
e sendo interferido por ela), daí que as relações nos tratos discursivos podem sofrer
interferência da sociedade – conforme identificamos em nossas análises o que reforça a
nossa idéia de gêneros como um elemento de interface cognitiva entre o social e o
individual. Entretanto, também não podemos negar, ainda de acordo com os nossos
estudos, assim como tantos outros realizados sobre o discurso jornalístico, que alguns
grupos definem linhas ideológicas e construções discursivas.
68
2.5 Da Sociocognição ao Discurso (des)legitimador
O processo de elaboração discursiva envolve a ação reflexiva e crítica dos atores
envolvidos em um evento comunicativo. O ato de (re)contar um evento, por exemplo,
requer uma complexidade de elaborações sócio-cognitivas, em um processo constante de
atualização de modelos mentais. Estes modelos, conforme discutimos anteriormente, são
de natureza social pois têm fortes características de membros de grupos , mas são
intrinsecamente intersubjetivos, uma vez que são construídos nas interações, e se
realizam situacionalmente. Por isso, são diferenciados em cada ação comunicativa. Toda
ação discursiva de contar uma história, conseqüentemente, resulta de uma forma de
observar/compreender esse evento, ou seja, de uma elaboração cognitiva
individual/social. Esse processo não está restrito a domínios, tampouco aos seus gêneros.
A elaboração desta tese, por exemplo, é uma ação discursiva, por isso um posicionamento
meu, como pesquisadora, sobre o fenômeno que estou investigando.
E é uma ‘ação discursiva’ porque irá operar no processo de construção dos
modelos mentais do interlocutor e interferir nas suas crenças e nos seus conhecimentos
daí o uso de estratégias retóricas de persuasão e, em alguns casos, de manipulação. Uma
análise cognitiva do discurso trata desses complexos processos de produção discursiva.
Se a retomada de todas as etapas desse processo é impossível, isso não deve fazer com
que ignoremos o seu potencial constitutivo no discurso. assim, por exemplo,
poderemos dar conta de algumas questões, tais quais um mesmo evento nunca ser
relatado da mesma forma (as pessoas diferenciam os tópicos, os elementos relevantes, ou
mesmo a cronologia), ou ainda o modo como podemos compreender inclusive o que não
está no texto (pressuposições, implicações e outros aspectos que se realizam por
inferências). Para investigarmos o processo de produção discursiva mais profundamente,
precisamos compreender e conceituar as distintas operações sócio-cognitivas que o
envolve. É importante enfatizar que não se trata de nivelar, hierarquizar ou qualquer outra
atribuição acumulativa ou valorativa para essas operações, mas sim de analisar as
distintas relações e processos de interação que envolve a elaboração do discurso.
Tomemos essas considerações para analisar a primeira notícia publicada na Folha
de S. Paulo, em 18 de abril de 1996, sobre as mortes em Eldorado de Carajás:
69
Exemplo 2:
Confronto mata pelo menos 19 no Pará (FSP, 18/04/1996)
Um confronto entre a Polícia Militar e sem-terra, por volta das 17h de ontem, no município de
Eldorado de Carajás (oeste do Pará), deixou pelo menos 19 mortos e vários feridos, segundo a
Secretaria de Segurança Pública do Pará.
Segundo informações do Hospital Elcione Barbalho, da cidade vizinha de Curionópolis, haviam
chegado 18 corpos de trabalhadores sem terra até as 21h45.
A direção estadual do MST (Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem Terra) diz que o
número de mortos é de cerca de 60.
"Os corpos têm várias perfurações de bala, inclusive na cabeça. É provável que o número de
cadáveres aumente'', disse o médico Faisal Saemem, do hospital.
O secretário de Segurança Pública do Pará, Paulo Sette Câmara, afirmou que, pelas informações
que obteve da delegacia de Curionópolis, "o quadro é assustador''.
Até disse que até as 22h15 não havia conseguido falar com o comandante da operação no local
para saber mais detalhes sobre o confronto e para saber se houve excesso da polícia.
Vítimas fatais
"Ainda não temos uma avaliação precisa, mas um companheiro que esteve no local afirmou que
as vítimas fatais foram muitas'', afirmou Charles Trocati, da direção estadual do MST no Pará.
Câmara afirmou que os primeiros socorros foram prestados em Eldorado de Carajás. Os policiais
e sem-terra feridos estavam sendo transferidos para Marabá _distante 80 quilômetros de onde
ocorreu o conflito.
O confronto ocorreu no instante em que cerca de 200 policiais militares tentavam desimpedir a
rodovia PA-150. A estrada tinha sido interditada por cerca de 3.500 sem-terra no início da tarde
de ontem, segundo o MST.
Segundo o secretário de Segurança, os policiais foram recebidos a tiros, pauladas e pedradas
pelos sem-terra. O MST afirma que os policiais começaram o tiroteio e que os sem-terra usavam
apenas enxadas e foices.
Câmara afirmou que os policiais foram obrigados a reagir para se defender. "É lamentável que os
sem-terra tenham tomado essa atitude de confronto após tanta negociação para resolver o
problema de terra no Estado'', afirmou.
Caminhada
Os sem-terra estavam em caminhada para Marabá. Eles saíram há dois dias do município de
Curionópolis, onde reivindicam a desapropriação da fazenda Macaxeira.
Hoje, eles teriam em Marabá encontro com o superintendente estadual do Incra, Valter Cardoso,
que daria uma posição sobre o processo de desapropriação da fazenda Macaxeira.
A interdição da estrada começou anteontem. Os sem-terra pararam no km 100, a oito quilômetros
de Eldorado do Carajás. Após negociação com a PM, eles acamparam no acostamento.
No início da tarde de ontem, voltaram a ocupar a rodovia e reivindicar 50 ônibus para transportá-
los até Marabá. Pediam, segundo a polícia, dez toneladas de alimentos.
Câmara afirmou que o governo não podia tolerar o bloqueio da PA-150, que é a principal ligação
do sul do Estado com Belém.
Câmara afirmou que o processo de desapropriação da fazenda Macaxeira já dura um ano e quatro
meses e que está em fase final de aprovação no Incra, em Brasília, para desapropriação da área.
70
Primeiramente analisemos como os distintos atores entrevistados percebem o
evento e o relatam para o jornalista. O ‘fato’, como percebemos pela análise textual, são
vários e distintos. Isso quer dizer que ele não existe a priori, não é algo que está definido,
estabelecido, mas é algo que será construído a partir das distintas versões, ou dos
distintos ‘modelos cognitivos’. Observemos nas citações indiretas: “Segundo o secretário
de Segurança, os policiais foram recebidos a tiros, pauladas e pedradas pelos sem-terra. O
MST afirma que os policiais começaram o tiroteio e que os sem-terra usavam apenas
enxadas e foices”.
São versões distintas. Entre as questões que analisaremos adiante, mas que cabem
ser mencionadas desde já, podemos destacar: as estratégias de persuasão ou manipulação
nesses discursos, bem como o processo de retextualização da fala dos entrevistados para
o texto escrito do jornal, carregando todos os aspectos discursivos/ideológicos que
envolvem essa atividade, entre outros. Por ora, tratemos de um aspecto fundamental
desses discursos: ambos são elaborações cognitivas diferenciadas de um mesmo episódio.
Ou seja, representantes do governo e dos sem-terra, antes de produzir qualquer discurso,
tinham conhecimentos e crenças distintos sobre o ‘evento’. Mesmo sem testemunhar as
mortes, as fontes entrevistadas são capazes de narrar, descrever e argumentar, a partir de
uma representação mental. Isso porque as estruturas cognitivas são construídas
discursivamente, em grande medida, e não estão atrelados à experiência. Somos capazes
de elaborar representações mentais e, assim, produzir textos sobre coisas que nunca
vimos ou lugares em que nunca estivemos. E essas elaborações cognitivas são fortemente
constituídas pelas nossas categorias axiomáticas, tais como ideologias, conhecimentos e
crenças. Estas categorias são socialmente partilhadas, resultantes de processos históricos,
e operam na elaboração das nossas performances cognitivas, sejam elas discursivas ou
não. Tais performances, mesmo carregadas de complexos componentes sociais,
consistem em ações individuais. Os integrantes dos distintos grupos (polícia, sem-terra,
jornalistas) constroem distintos ‘modelos de evento’. Esse modelo é pessoal, mas com
forte característica de grupo, pois é elaborado a partir de conhecimentos e crenças
compartilhados, em articulação com os conhecimentos individuais. Trata-se de uma
construção cognitiva que conta da macrocategorização de um evento específico, como
no caso em estudo: massacre x legítima defesa.
71
Os ‘modelos de evento’ elaboram o que, potencialmente, será falado/escrito sobre
um evento, não são de natureza rígida, fixa; antes, são ad hoc e situados. Por isso, os
discursos dos militantes do MST têm elementos recorrentes (topicalizações e seleções
lexicais semelhantes), revelando mais aspectos similares entre si do que os discursos dos
policiais, por exemplo, que terão outras características. Entretanto, nenhuma produção ou
leitura de um texto que sejam realizadas por integrantes de um mesmo grupo serão
idênticas. Isso porque a produção textual requer um modelo cognitivo de natureza
situacional, pois é elaborado no momento específico da interação, seja em uma entrevista,
seja na redação do texto: os ‘modelos de contexto’. Eles estão atrelados à situação da
comunicação em andamento, ou seja, o que envolve a produção textual em si ou ainda o
setting discursivo: com quem/para quem se fala/escreve, quais os interlocutores
envolvidos no evento comunicativo, entre vários outros aspectos.
Os ‘modelos de contexto’ são representações das situações comunicativas. Como
todos os outros modelos, eles estão armazenados na nossa memória episódica, ou seja,
juntamente com outras experiências pessoais. Cognitivamente falando, não somos
capazes de lembrar todas as experiências vivenciadas em um evento, daí construirmos
modelos de contextos sobre eles, o que facilita as nossas ações. Por isso, eles são as
nossas experiências representadas como modelos episódicos. Dessa forma, os modelos de
contexto são tipos especiais de modelos porque interferem mais estrategicamente no
processo discursivo, ou seja, sobre o que entendemos como ‘apropriado’ em situações
comunicativas específicas. Assim, esses modelos são organizações cognitivas mais
simples e não dão conta de aspectos globais de natureza social ou cultural. A prática e a
rotina dos grupos sociais também são aspectos relacionados ao modelo de contexto’ e
também atuam no processo de elaboração discursiva. O quadro abaixo traz de forma
esquemática as noções teóricas que estamos desenvolvendo:
72
Figura 4: Sistematização das relações cognitivas entre práticas social e discursiva
Todos esses elementos estão relacionados à produção textual jornalística e vão
interferir, de várias formas, no momento final da sua redação: para qual jornal se escreve
(qual a sua orientação político-ideológica), quais as condições de tempo para a escrita da
notícia, qual o espaço disponível no jornal, em que editoria o texto será publicado
(Economia, Política, Cidades etc.) e qual o gênero textual (notícia, reportagem, nota). A
prática jornalística se numa rotina na qual o a relação com as instituições de
poder é intrínseca, como também o próprio processo de produção textual é automatizado,
pois as limitações de tempo para a apuração e escrita da notícia restringem a
possibilidade de melhor conhecimento sobre o assunto tratado, por parte do repórter,
assim como a ampliação do acesso discursivo. Essas questões são cruciais para que o
jornalismo se estabeleça como um domínio que reproduz valores estabilizados por
preconceitos e estereótipos. Fazemos uma discussão sobre a prática jornalística de forma
mais sistemática no primeiro capítulo. Por agora, vamos tratar apenas de alguns aspectos
relevantes para nossa análise.
No caso da notícia da Folha de S. Paulo, algumas questões relacionadas à rotina
jornalística são relevantes para compreendermos a falta de informações mais precisas
sobre o número de mortos, ou ainda a ausência de entrevistas com as pessoas que
TEXTO/DISCURSO
Modelo de Contexto
Setting:
(produção do texto)
Modelo do Evento:
massacre x legítima defesa
Cognição Social
(Ideologias, Conhecimentos)
73
estavam in loco (testemunhas, militantes do MST, policiais envolvidos na operação etc.).
Nenhum dos entrevistados foi testemunha do evento, ou seja, não presenciaram as
mortes. Isso se deu por várias questões: o lugar ficava distante da sucursal do jornal,
dificultando o acesso; o horário em que a polícia chegou e iniciou o tiroteio foi no final
da tarde, horário em que vários cadernos estão finalizados, o que limitou o tempo de
redação do texto; entre outros problemas. Apenas no dia seguinte os jornalistas estavam
em Eldorado de Carajás para a cobertura, e então entrevistaram as testemunhas e os
envolvidos no massacre. Esses são importantes elementos contextuais que vão operar na
constituição do texto.
A relação entre modelo de contexto e texto é de extrema relevância para esta
investigação, pois é nesse processo que se inicia a construção do discurso
(des)legitimador. Ao selecionar tópicos, itens lexicais, citações, entre outros elementos, o
repórter está atuando no processo de construção das representações mentais dos leitores
sobre o assunto tratado. Observemos o funcionamento das topicalizações na notícia da
FSP. Os tópicos (ou temas) não são estruturas textuais, mas sim elaborações discursivo-
cognitivas que, em geral, orientam a construção das estruturas de relevância do texto. No
caso dos textos jornalísticos, os tópicos geralmente são identificados nos títulos ou no
lead (primeiro parágrafo) da notícia. A seleção dos aspectos mais relevantes para a
redação de um texto envolve toda a complexidade de elementos contextuais de que
estávamos tratando. Daí ser essa uma categoria que opera na transição da estratégia
global do discurso para as estratégias mais específicas da produção textual, como a
organização sintática, por exemplo. Observemos o título da notícia que estamos
analisando: “Confronto mata pelo menos 19 no Pará”. O tópico, ou seja, o assunto
principal de que trata a notícia, é sobre as mortes em Eldorado dos Carajás. A imprecisão
das informações de que o jornal dispunha sobre o número de mortos levou ao uso de
elementos lingüísticos generalizadores (‘confronto’; ‘pelo menos’). A opção por uma
construção sem sujeito sintático neutraliza a agência e funciona como uma estratégia de
desenfatização da ação dos policiais responsáveis pelas mortes dos sem-terra. Isso que
não está dito no título aparece apenas nas linhas 4 e 5 do lead: “Haviam chegado 18
corpos de trabalhadores sem-terra até as 21h45”. A informação de que todas as pessoas
mortas no ‘confronto’ eram militantes do MST não foi tomada como relevante pelos
74
redatores da notícia. Se assim fosse, a seleção lexical para a elaboração do título poderia
ser outra, passando de confronto para massacre. Também é relevante observar que o
mesmo léxico foi retomado na primeira linha do lead e, nas referências às pessoas
assassinadas, é mantida a estratégia de generalização: ‘mortos’e ‘feridos’.
Outro aspecto relacionado ao modelo de contexto e à produção textual é a seleção
de discursos ou o acesso discursivo (Falcone, 2005; van Dijk, 1991). Para escrever a
notícia, o repórter entrevistou várias pessoas, que nos termos jornalísticos são chamadas
de ‘fontes’ da notícia. De forma geral, essas pessoas são autoridades (representantes de
governos, justiça, líderes de entidades), os chamados especialistas (médicos, cientistas
políticos, advogados etc.), testemunhas do episódio tratado ou mesmo os protagonistas,
ou seja, os sujeitos envolvidos na ação. Essas entrevistas são realizadas em uma etapa
anterior à escrita do texto, porém a seleção dos discursos que irão compor o texto (e o
grau de importância que terão) é um processo relacionado à produção textual. Das
entrevistas, o repórter dispõe de vários discursos e, ao priorizar alguns especificamente
(em geral os dos representantes dos grupos do poder) em detrimento de outros, está
operando na construção da versão do episódio, ou construindo uma representação desse
episódio. Analisemos essa questão no primeiro parágrafo da notícia:
Um confronto entre a Polícia Militar e sem-terra, por volta das 17h de ontem, no município de
Eldorado de Carajás (oeste do Pará), deixou pelo menos 19 mortos e vários feridos, segundo a
Secretaria de Segurança Pública do Pará.
Segundo informações do Hospital Elcione Barbalho, da cidade vizinha de Curionópolis, haviam
chegado 18 corpos de trabalhadores sem terra até as 21h45.
A direção estadual do MST (Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem Terra) diz que o
número de mortos é de cerca de 60.
"Os corpos têm várias perfurações de bala, inclusive na cabeça. É provável que o número de
cadáveres aumente'', disse o médico Faisal Saemem, do hospital.
O secretário de Segurança Pública do Pará, Paulo Sette Câmara, afirmou que, pelas informações
que obteve da delegacia de Curionópolis, "o quadro é assustador''.
Até disse que até as 22h15 não havia conseguido falar com o comandante da operação no local
para saber mais detalhes sobre o confronto e para saber se houve excesso da polícia.
(FSP, 18/04/96)
O primeiro entrevistado citado no texto é o Secretário de Segurança Pública do
Pará. Pelo critério de relevância, seu discurso é tomado como o mais importante pelo
jornal, com mais autoridade e legitimidade para fornecer as informações sobre as mortes
em Eldorado dos Carajás. A segunda instituição é o hospital, que confirma o número
75
aproximado de mortos fornecidos pelo secretário. Apenas após essas duas autoridades é
que a voz do MST aparece no texto para contra-argumentar sobre o número de mortos.
Entretanto, a informação dada pela direção dos sem-terra é respaldada não por uma
citação de algum integrante do movimento, mas de um médico: (“[...] “Os corpos têm
várias perfurações de bala, inclusive na cabeça. É provável que o número de cadáveres
aumente’, disse o médico Faisal Saemem”[...])”. Nessa relação contextual, o MST não
está situado como um grupo legitimado para fornecer informações, o que resulta também
numa deslegitimação discursiva. Coube ao Secretário de Segurança Pública, por
exemplo, descrever o episódio, e não ao dirigente dos sem-terra, representante das
vítimas. Na descrição (“o quadro é assustador”), identificamos a mesma estratégia de
generalização adotada pelo jornal. Na última linha do lead, o uso de um eufemismo (se
houve excesso da polícia) também serve para desenfatizar a violência policial, pois
poderia ter sido dito se houve abuso de poder, por exemplo. Quando os discursos dos
representantes das instituições do poder não são priorizados nas citações, eles são
assumidos implicitamente no discurso do jornalista:
O confronto ocorreu no instante em que cerca de 200 policiais militares tentavam desimpedir a
rodovia PA-150. A estrada tinha sido interditada por cerca de 3.500 sem-terra no início da tarde
de ontem, segundo o MST.
O primeiro enunciado é construído a partir da versão da Secretaria de Segurança
Pública e da polícia do Pará, mas não qualquer referência a alguma dessas fontes. A
perspectiva do repórter para narrar e descrever a história é a mesma que a da polícia: o
‘confronto’ ocorreu por causa da tentativa de desimpedir a rodovia onde o MST fazia um
protesto. A perspectiva do MST sobre essa ação é diferente e não é assumida em nenhum
momento pelo discurso do jornalista. Não efetivamente a versão dos sem-terra sobre o
que aconteceu em Eldorado dos Carajás. O acesso discursivo do MST é fortemente
controlado e dá conta apenas, em alguns movimentos do texto, de respaldar a informação
que o jornalista traz, como acontece no enunciado seguinte, ou então funciona
ilustrativamente. Observemos esses aspectos nas citações retiradas da notícia:
"Ainda não temos uma avaliação precisa, mas um companheiro que esteve no local afirmou que
as vítimas fatais foram muitas'', afirmou Charles Trocati, da direção estadual do MST no Pará.
76
Câmara afirmou que os policiais foram obrigados a reagir para se defender. "É lamentável que os
sem-terra tenham tomado essa atitude de confronto após tanta negociação para resolver o
problema de terra no Estado'', afirmou.
Na primeira citação, o discurso reportado do dirigente do MST é marcado pelo
‘desconhecimento’, como um sujeito passivo. Ele não participa em elaboração de
análises, críticas, ou mesmo descrevendo a cena. Já o discurso do secretário é valorativo,
com o poder de criticar ação dos sem-terra e atribuir conotações negativas (“É
lamentável”; “atitude de confronto”), assim como também de acusar o movimento como
o responsável pelas mortes: “tenham tomado essa atitude de confronto após tanta
negociação para resolver o problema de terra no Estado”.
Vários outros aspectos importantes ainda poderiam ser investigados nessa
primeira notícia sobre Eldorado dos Carajás. Além disso, ainda outras categorias que
nos permitiriam analisar a relação entre os modelos cognitivos e a produção textual e,
assim, observar como elementos globais operam na constituição de um texto específico.
Por ora, entretanto, tecemos algumas considerações que nos possibilitam tratar mais
concretamente das questões teóricas desenvolvidas neste capítulo. O estudo sistemático e
aprofundado dos textos é realizado no capítulo 5, destinado às analises.
Nesta parte do trabalho, tratamos das noções teóricas que fundamentam esta
investigação: a proposta sócio-cognitiva para investigações em Análise do Discurso. Van
Dijk (2000a, 2006a, 2006b) é o autor que sustentação a esta pesquisa, a partir da sua
proposta desenvolvida com base na tríade discurso, cognição, sociedade. Esta
perspectiva envolve uma complexa articulação de teorias, daí a necessidade de buscarmos
suportes em distintos campos de conhecimento, o que nos faz assumir uma postura
interdisciplinar por essência, pois, sem dar conta dos vários aspectos que envolvem a
prática discursiva em sua realização social e concepção individual –, corremos o risco
de desenvolver um estudo reducionista.
Tal empreendimento, entretanto, exige um grande esforço teórico, pois,
primeiramente, aponta críticas a algumas perspectivas consolidadas na Lingüística, assim
como tenta desenvolver um quadro teórico que rompe com dicotomias também
estabelecidas, tal qual social x cognição; interno x externo. Por isso, este capítulo teve
como objetivo não situar teoricamente nossa investigação, mas caminhar por uma
trilha epistemológica que já vem sendo traçada em distintas linhas do conhecimento
77
Sociologia, Psicologia, Antropologia em busca de um ‘fazer científico’ que rompa com
as dicotomias, o objetivismo e o empirismo inerentes à ciência moderna, que esses
ainda são os paradigmas predominantes em nossas produções acadêmicas.
Também é importante salientar que a interdisciplinaridade nos leva a
compreensões mais amplas não só do fenômeno pesquisado, mas do nosso próprio campo
disciplinar, pois nos ajuda a perceber as nossas teorias e as nossas investigações com a
ajuda do olhar do outro. Daí a sua extrema relevância. Entretanto, é sempre um risco
enveredar por linhas teóricas sobre as quais seria impossível, para um único pesquisador,
dar conta em toda a sua complexidade. Por isso, a multidisciplinaridade também exige de
nós não a tolerância – pois esta é apenas uma forma dissimulada de acolher o discurso do
outro –, mas a compreensão de que o saber se constrói coletivamente, desenvolvido em
distintas especificidades. E assim compreender que teorias não são verdades, mas sim a
nossa forma de ver e atuar no mundo sistematicamente (Marcuschi, 2005c).
78
3. (Des)legitimação: uma prática social, discursiva e cognitiva
O objetivo deste capítulo é desenvolver a nossa proposta para o estudo do
processo de (des)legitimação, a partir da perspectiva da Análise Cognitiva do Discurso.
Isso implica construir um aparato teórico-metodológico que conta de aspectos cio-
cognitivos, interacionais e discursivos. Entendemos a (des)legitimação de atores e grupos
sociais como uma atividade resultante de complexas relações sociais, norteada por
modelos cognitivos, sendo o discurso uma importante força propulsora para tal processo.
Essa perspectiva pode ser sustentada se entendermos a natureza corporificada e
discursiva da mente (Lakoff, 1987; van Dijk, 2006a); se assumirmos a língua, em sua
prática discursiva, como uma atividade humana para a organização do mundo, a partir do
processo de categorização (Marcuschi, 2007b; 2003a; Mondada, 2000, 1997); se
situarmos a construção da (des)legitimação na ‘esfera pública’, nas ações do discurso, e
não apenas atrelada a instituições privilegiadas (Habermas 1996; 1999 [1973]); e, por
fim, se tomarmos como referência uma perspectiva de sociedade como algo que se
constitui em um contínuo processo de estruturação, em uma relação de estabilidade-
instabilidade, resultante da ação de sujeitos reflexivos (Giddens, 2003).
3.1 (Des)legitimação: leituras sociais, ações de categorização
A (des)legitimação é um processo que se realiza a partir de distintas práticas
sociais, sejam elas as mais cotidianas, tais quais as conversas entre vizinhos; nas relações
familiares, quando a mulher assume papéis tradicionalmente machistas; em notícias
publicadas em jornais; em uma sentença judicial; ou em um pronunciamento do
Presidente da República. Isso quer dizer que a legitimação não é ditada por uma
instituição única, mas resulta de uma complexa rede de relações sociocognitivas: esse é
um dos pressupostos básicos deste trabalho. Situar legitimação como um processo
também implica assumir uma perspectiva teórica específica sobre esse fenômeno: ele não
é homogêneo, é de natureza instável, é construído historicamente e é socialmente
contextualizado. O processo de (des)legitimação resulta de atividades sociocognitivas,
nas quais grupos e atores sociais são categorizados, a partir de efeitos prototípicos ou
79
estereotipados de representações sociais, que se alinham em um continnum
11
. Por isso,
nenhum grupo pode ser definitivamente estabelecido como legitimado ou deslegitimado,
pois tal condição resulta da ação intersubjetiva de sujeitos, em processos históricos.
Governos, grupos sociais e domínios discursivos em geral estão em constante tensão no
processo de legitimação x deslegitimação. Para se chegar a essa compreensão, foi
relevante a diferenciação estabelecida por Habermas (1996; 1999 [1973]) entre as noções
de legitimação e legitimidade: enquanto o primeiro é uma construção dinâmica, a
segunda prevê uma relação estagnada entre os distintos grupos sociais e a sociedade.
Entendendo a legitimação como um processo, poderíamos, em uma relação
analógica, explicá-la como uma ‘leitura’ da sociedade sobre a ação de governos,
movimentos sociais, grupos étnicos etc., em um momento histórico específico. Essas
ações seriam o ‘texto’ e a categorização como (des)legitimado uma atividade resultante
dos diversos modelos cognitivos construídos a partir da leitura desse texto. Para melhor
explicar a analogia, é preciso situar o texto como um processo, que se concretiza apenas
na interação autor-leitor, em uma relação sócio-interativa, onde ambos são sujeitos na
construção dos sentidos que emergem do ‘mundo textual’, diferentemente da idéia de
texto como um produto, uma estrutura definida, pronta e acabada, cabendo ao leitor-
passivo apenas decodificá-lo. Situar texto como um processo significa assumir que a sua
compreensão nunca é a mesma para todos os leitores, pois é exatamente na atividade de
leitura que os sentidos serão construídos.
Mas é importante ressaltar que existem elementos delimitadores no texto que
restringem as possibilidades de sentido. Isso quer dizer que, se a interpretação de um
texto sempre resulta de uma relação única entre autor-leitor, essa relação não é
descorporificada de elementos sociocognitivos e históricos. Por isso, o processo de
compreensão está sempre atrelado aos conhecimentos compartilhados, às ideologias e às
relações sociais previamente construídas entre os interlocutores. A partir dessa analogia,
podemos dizer que o processo de (des)legitimação se dá a partir de elementos que
11
As noções de protótipos e estereótipos serão discutidas mais adiante, pois exigem um melhor
detalhamento teórico. Tratam-se de conceitos complexos e controversos. Mas, é importante ressaltar, desde
já, que entendemos protótipos e estereótipos como efeitos de sentido, ou seja, são categorizações
discursivas e situacionais, e não devem ser tomados como atribuições naturais ou estanques. Assim, mesmo
utilizando as noções de protótipos e estereótipos, não seguimos a noção de Rosch (1978), primeira autora a
tratar as categorias partindo de tais noções.
80
compõem as nossas performances cognitivas: categorizar, atribuir valores, inferir,
elaborar modelos mentais, entre outros. É nesse sentido que queremos defender a noção
de legitimação: uma ação resultante das ‘leituras de mundo’, compartilhada e construída
por atores críticos, que, a partir das suas habilidades sócio-cognitivas, interagem em um
complexo ‘texto social’, elaborado continuamente, por uma vastidão de autores/leitores,
sendo que estes papéis também estão em constante alternância.
Não podemos ignorar, entretanto, que nesse processo de ‘elaboração textual’,
discursos que se impõem, oprimindo outros. A construção desse texto é, antes de tudo,
um processo de conflito e negociação entre os distintos grupos (instituições de poder,
grupos de excluídos) e atores sociais. A relação que se estabelece no constante processo
de (des)legitimação não segue um movimento único: de cima para baixo, ou seja, das
instituições de poder para o povo. Também se faz necessário uma resposta de baixo para
cima, do povo para as instituições, seja em uma ação de resistência ou de acomodação. Se
entendermos a legitimação como resultante da ‘leitura’ de um momento específico de
uma sociedade, essa leitura necessariamente se numa complexa articulação entre os
diversos elementos que constroem esse ‘texto’, ou seja, a ação de atores e grupos sociais
que são, ao mesmo tempo, autores/leitores no processo de composição da história.
Além da diferenciação estabelecida por Habermas (1996; 1999 [1973]) entre as
noções de legitimação e legitimidade, outra importante contribuição dos seus estudos
para esta investigação foi deslocar o enfoque da legitimação do domínio jurídico (onde
estava reduzido apenas às decisões legais) e o situar no âmbito discursivo: para o autor, é
nas práticas discursivas onde se a construção do (i)legítimo (Habermas, 1996; 1999
[1973]). Isso resulta de uma forte crítica à tradição do positivismo jurídico. Ainda
persiste neste domínio a concepção que atrela o legal ao legítimo, sem distinguir o que é
apenas uma prática institucional (por mais poderosa que seja), das complexas relações
sociais, que não podem ser reduzidas a apenas um grupo discursivo. Sendo assim,
Habermas (1996), propõe a ‘função integrada da lei’, concepção na qual as leis apenas
são legitimadas a partir do acordo de todos os cidadãos, em um processo discursivo
amplo e igualitário. O autor defende que o conceito de legitimação discursiva está na
tensão entre a facticidade do positivismo (fatos) e a validade racionalista (normas)
(Habermas, 1996). Várias críticas são feitas a essa perspectiva: seja por ser uma acepção
81
idealista de mundo; ou por tratar de relações para as quais muitas sociedades ainda não
estão preparadas, devido aos altos níveis de desigualdade social. Um dos autores que
mais sistematicamente tem travado um diálogo crítico com Habermas sobre a teoria da
legitimação é N. Luhmann. Esse embate é apresentado pelo próprio Habermas (1999
[1973]). Luhmann é radical em sua crítica, ao definir a concepção habermasiana como
“fora do compasso social” (Luhmann apud Habermas, 1999 [1973]:163).
Não nos interessa, entretanto, enveredar por tais problemáticas sociológicas. O
que pretendemos aqui é investigar uma proposta de Habermas (1999 [1973]): a
legitimação está irrevogavelmente atrelada à prática discursiva e serve à organização
social. Entendemos que para um trabalho como este, em que o objetivo é analisar
discursos, o enfoque nessa concepção já nos possibilita desenvolver um vasto trabalho.
Entretanto, ao buscar outras problematizações para o fenômeno da legitimação,
temos como objetivo situá-lo a partir de uma abordagem sociocognitiva. Tal proposta
está em consonância com a nossa investigação, na qual defendemos o estudo do discurso
e da sociedade a partir da interface cognitiva (segundo capítulo). Sendo assim, se os
estudos de Habermas (1996; 1999 [1973]) dão conta da perspectiva discursiva,
precisamos articulá-los com outros referenciais teóricos (Lakoff & Johnson, 1999,
Lakoff, 1987; Marcuschi, 2005a; Mondada, 1997, van Dijk, 1998, 2006a), para assim
chegar a um conceito de legitimação que possa ser investigado a partir da tríade discurso,
cognição, sociedade. Antes, porém, precisamos compreender um pouco mais da teoria de
Habermas (1996; 1999 [1973]) e assim melhor estabelecer esse link com o cognitivo. Por
ora, trouxemos apenas algumas questões introdutórias sobre as teorias que propomos
discutir e desenvolver ao longo deste capítulo.
3.2 A Legitimação segundo Habermas
Os estudos de Habermas sobre legitimação (1996; 1999 [1973]) estão
substancialmente fundamentados na importância que o autor atribui à linguagem para a
organização da sociedade. É com esse mesmo referencial que o autor desenvolveu sua
Teoria do Agir Comunicativo (1989). A importância da linguagem é assumida por
Habermas (1999 [1973]; 1989) pressupondo três aspectos: i) ela seria a nossa principal
82
característica, o que nos faz humanos; ii) a linguagem é um meio privilegiado de acesso à
razão humana – o que ficou marcado na teoria habermasiana como a sua ‘guinada
lingüística’; iii) é pela linguagem que agimos coordenadamente em busca do consenso,
noção fundamental para os postulados da teoria da legitimação. Esses conceitos foram
desenvolvidos a partir das descobertas de Habermas em seus estudos sobre a filosofia
hermenêutica e a análise lingüística da obra de Wittgenstein. O autor também se inspira
na Pragmática searleana e austiniana, assumindo, inclusive, alguns conceitos que destoam
dos que aqui postulamos. Como exemplo, tomamos o conceito de ngua, pois para o
autor a língua é definida como um ‘veículo’ e situada como um elemento de ordem mais
individual do que social.
Por isso, antes de tratarmos sobre o conceito de legitimação aspecto principal
deste trabalho fazem-se necessárias algumas reflexões críticas sobre esses pressupostos
norteadores da obra de Habermas, centrando-nos, por enquanto, no conceito de ngua. A
partir dos três picos apresentados, percebe-se que é subjacente à teoria habermasiana
uma concepção representacionalista de língua, pois esta seria apenas uma forma de
acesso à razão. Diferentemente é a perspectiva sócio-interacionista aqui adotada, como a
proposta por Marcuschi (2000:81), que situa a língua como “um trabalho cognitivo e uma
atividade social”. Também, ao nos definir fundamentalmente como ‘seres lingüísticos’, o
autor dicotomiza esse aspecto com os demais que constituem a natureza humana, como o
cognitivo, por exemplo. E, por fim, ao assumir a perspectiva pragmática, o autor
compreende a língua como um empreendimento individual, ainda que ela sirva à ação
coletiva. Essa questão é resumida por Honnet (1999:539) da seguinte forma: “para
Habermas a comunicação lingüística é o veículo graças ao qual os indivíduos garantem
aquela reciprocidade em atos e concepções de valor tão necessária para que as tarefas de
reprodução material possam ser socialmente regidas”. Mais adiante, além de retomar a
discussão sobre o conceito de língua, também questionamos a idéia de ‘ações de
indivíduos como reproduções sociais’. Assim, delimitamos esses aspectos com a nossa
principal restrição à proposta de Habermas (1999 [1973]; 1989). Sobre essas questões, a
teoria de Giddens (2003), discutida no item 3.4, traz algumas alternativas.
Das tais restrições apresentadas sobre a obra de Habermas (1999 [1973]; 1989)
vem a necessidade de desenvolvermos o conceito de legitimação a partir de perspectivas
83
que superem esses aspectos, buscando outras referências teóricas – como as linhas sócio-
interacionista, discursiva e sociocognitiva e assim agregar fundamentos para a
investigação do fenômeno para além do conceito habermasiano. Entretanto, tais restrições
não inviabilizam assumirmos a essência do conceito de legitimação desenvolvido por
Habermas (1999 [1973]), principalmente pela sua importância para a ruptura com a
perspectiva clássica do paradigma do Direito Positivista. É com esse objetivo que vamos
desenvolver nossas considerações, reconhecendo que foi a partir de Habermas (1999
[1973]) que a noção de legitimação chegou à prática discursiva. Assim como é também
relevante ressaltar a importância da sua obra para a própria Lingüística. Como aponta
Honnet (1999), Habermas assume uma posição às teorias clássicas sociológicas, como as
de linha marxista, que delimitavam a reprodução social a uma única dimensão a força
do trabalho e situa a prática da interação lingüística como uma dimensão igualmente
fundamental do desenvolvimento histórico, além de ser uma prática transformadora da
natureza.
As acepções para o verbete legitimarapresentadas por J. Náufel (2002:597), no
Novo Dicionário Jurídico Brasileiro, são exemplos da distinta compreensão do fenômeno
na perspectiva clássica do Direito: 1- “Justificar ou provar a legitimidade de um direito de
um ato ou de uma coisa”; 2- “Habilitar para certos atos, ou para o gozo de certos direitos
preenchendo os requisitos legais”. Habermas (1999 [1973]) defende que a legitimação de
valores e poderes não se dá em condições meramente normativas, como pregam os
cânones positivistas. Segundo Habermas (1999 [1973]:129), o equívoco fundamental da
teoria decisionista legal (ou o Direito Positivista) é se colocar na condição de não
ideológica, afirmando que a validade das normas legais pode fundamentar-se apenas em
decisões: “as ingênuas pretensões de validade de normas de ação referem-se, em cada
caso (pelo menos implicitamente), à possibilidade de fundamentação discursiva”. Nessa
perspectiva, entende-se que a legitimação é uma conseqüência de uma interpretação que
admite consenso e que tem uma função definida. Por outras palavras, “uma visão do
mundo que legitime a autoridade (1999 [1973]:129)”.
Essa visão de mundo da qual trata Habermas é exatamente o consenso resultante
das ações comunicativas em uma sociedade. Segundo o autor, o componente legítimo das
normas não é limitado ao conteúdo proposicional das expectativas normatizadas de
84
comportamento. Ou seja, uma lei não é obedecida simplesmente porque o seu conteúdo
assim determina. “Mas a pretensão de validade normativa é em si cognitiva, no sentido da
suposição (embora contra os fatos), que poderia ser redimida discursivamente, isto é,
fundamentada no consenso dos participantes através da argumentação
(1999[1973]:133)”.
Assim podemos dizer, juntamente com o autor, que a legitimação é construída
discursivamente, a partir de atividades retóricas/argumentativas, e consolidada no âmbito
sociocognitivo. Inclusive, Habermas (1999[1973]) ressalta que a sua teoria está
intimamente ligada à prática da argumentação, pois esta implica a não-coercitividade,
princípio norteador também do agir comunicativo. A prática argumentativa seria
essencial para se chegar ao acordo, noção também desenvolvida pelo autor, que tratamos
a seguir.
Habermas distingue as normas justificáveis das normas que estabilizam relações
de força. Na medida em que as normas expressam interesses generalizáveis, elas são
justificáveis, baseiam-se no consenso racional e são resultantes de acordos. Mas, quando
as normas não regulam interesses generalizáveis (como as relações de poder), elas se
estabelecem a partir da força, o que o autor define como poder normativo
(1999[1973]:141). Segundo o autor, em sociedades liberais capitalistas, o que ocorre é
uma forma ideológica de identificação, ou uma capacidade de generalização de interesses
dominantes. Nessa conjuntura, as legitimações podem consistir em explicações estreitas,
como as apresentadas pelo Direito Positivista, ou em explicações sistematizadas por
cadeias de argumentos. Estas têm a dupla função de provar a validade legítima das
pretensões do sistema normativo e evitar questionamentos da sua validade discursiva. O
que nos leva a observar, junto com Fairclough (1997), porque, nesses modelos de
sociedade, a comunicação é sistematicamente limitada, ou mesmo sutilmente controlada,
tendo como principal exemplo o fenômeno da tecnologização discursiva.
Os conceitos de consenso e acordo são fundamentais na teoria de Habermas: as
possibilidades de legitimação estão em constante tensão, sendo a ação discursiva
determinante no estabelecimento ou quebra de hegemonias. Segundo o autor, a validade
das normas não se baseia em atos irracionais das partes em acordo, mas sim em ações
racionais, fazendo com que o seu questionamento possa ser realizado em qualquer tempo.
85
A compreensão de consenso como algo socialmente construído para o estabelecimento do
acordo é de extrema relevância, pois concebe a sociedade organizada a partir de modelos
dinâmicos, abrindo precedentes para as mudanças. Nesse ponto a teoria de Habermas é
definidora no quadro teórico da ACD, influenciando os estudos de Fairclough (2003,
2001a) e os conceitos de ideologia e legitimação propostos por van Dijk (2000c).
De acordo com Habermas, o modelo de organização social mais apropriado seria
o da comunidade de comunicação, onde os participantes de um ‘discurso prático’ testam
as pretensões de validade das normas e, conforme as aceite com razões, chegam à
convicção que, em dadas circunstâncias, as normas propostas são ‘válidas’ ou ‘inválidas’.
Isso é o que o autor chamou de o “reconhecimento motivado racionalmente da pretensão
da validade de uma norma de ação (Habermas, 1999[1973]:136)”. Controlar esse
reconhecimento é o principal ponto de sustentação da hegemonia liberal, e significa
controlar as motivações de aceitabilidade das normas. É assim, segundo o autor, que se
constitui o que chamamos na ACD de ‘controle discursivo’. Entretanto, Habermas (1989)
defende que o discurso é parte do esforço que os interlocutores fazem para chegar a uma
‘comunicação não-distorcida’. Nos termos habermasianos, isso quer dizer uma ação em
prol do bem social, ou seja, contrária às hegemonias.
Neste ponto, recorro aos argumentos de Alexander (1999) para discutir tal aspecto
da teoria de Habermas (recorrentemente criticado na Sociologia). Como aponta
Alexander (1999), se por um lado o autor subestima as qualidades irracionais da
comunicação, quando não da ação, a concepção desse modelo racional é bem
desenvolvida em sua teoria. Podemos identificar esse aspecto em Habermas (1989), onde
o autor trabalha sistematicamente na tentativa de identificar tipos de argumentações e
critérios capazes de exemplificar os empreendimentos racionais humanos e sua
capacidade de agir coletivamente. Assim, concluímos com as reflexões de Alexander
(1999:39) sobre as teorias habermasianas: “entre o discurso racionalizante de Habermas e
o discurso arbitrário de Foucault está o verdadeiro campo discursivo da ciência social”.
Esta discussão é retomada no item 3.4, quando tratamos sobre a teoria da estruturação de
Giddens (2003), apontada como uma tentativa de superar essas polaridades nas Ciências
Sociais.
86
3.3 A Legitimação e o Discurso
Tema central nos estudos das Ciências Sociais, e mesmo na Psicologia, o
fenômeno da legitimação não tem sido sistematicamente tratado na Lingüística. Se os
estudos de Habermas (1999 [1973]) enfocaram no discurso o processo de construção
da (des)legitimação, pouco foi feito nas análises do discurso em busca da natureza e das
categorias da ocorrência desse fenômeno nos distintos domínios. Este é um dos objetivos
deste trabalho, aspecto que desenvolvemos nos capítulos 4 e 5. Na Análise Crítica do
Discurso, os estudiosos que vêm se ocupando sobre a legitimação discursiva de forma
mais sistemática são van Leeuwen (2007), van Dijk (2000c) e Rojo & van Dijk (1997),
sendo os seus trabalhos as principais referências adotadas para esta pesquisa.
Van Dijk (2000c) define a legitimação como um ato social (e político), que se
concretiza, especificamente, na prática discursiva. Mas também destaca a dimensão
sócio-interativa da legitimação, pois tais discursos são, em geral, atitudes responsivas a
questionamentos sobre a legitimidade de grupos e atores sociais. Daí o caráter dinâmico
do processo de legitimação, resultando em uma “prática discursiva complexa, contínua,
que envolve um conjunto de discursos inter-relacionados (van Dijk, 2000c: 319)”. O
processo de construção da (des)legitimação envolve uma complexidade de categorias de
ordem lingüística, discursiva, cognitiva e social. Irremediavelmente, a legitimação está
atrelada a um processo de afirmação de Uns e, em movimento contrário, a negação ou
estereotipização de Outros. Isso quer dizer que a (des)legitimação é um processo de forte
conotação de construção de representações sociais, ideologicamente orientado, e está, em
geral, atrelado a conflitos entre movimentos sociais e instituições do poder. Os
movimentos e grupos sociais conquistam espaço e se estabelecem não através do
poder ou das idéias, mas também pela legitimidade que a sociedade os atribui. No
primeiro capítulo, discutimos como o processo de deslegitimação está fortemente
atrelado a grupos contrários ao status quo, como os movimentos sociais, pois essa é a
estratégia principal das instituições do poder para enfraquecer esses movimentos como
acontece com o MST, com os movimentos sindicais, étnicos etc. Assim, esses grupos
estão em constante luta pela sua legitimação. Entretanto, assim como Rojo e van Dijk
(1997), também defendemos a partir das reflexões desenvolvidas neste estudo que
87
essa relação não é estanque, nem determinística. Ou seja, historicamente instituições do
poder também têm passado por ‘crises de legitimação’.
Tal qual concebem Rojo e van Dijk (1997), existe uma complexa relação entre as
dimensões discursivas e sociopolíticas de legitimação. O discurso apenas terá uma função
legitimadora se um número de fatores contextuais for satisfatório, tais quais o poder e a
autoridade do falante, assim como a instituição a qual ele faz parte. Por outro lado, a
legitimação sociopolítica poderá se perder nos conflitos do domínio político, então os
discursos de re-legitimação são necessários para restabelecer a autoridade ameaçada.
Nessa complexa relação dialética, as duas dimensões resultam no que o autor conceituou
como “legitimação sociopolítica realizada pelo discurso”, ou, de forma resumida, “o
discurso da legitimação (1997:2)”.
As ações das atividades de legitimação se dão em dois movimentos.
Primeiramente, a legitimação pode ser analisada como um ato social de atribuição de
aceitabilidade de atores sociais, ações e relações sociais em uma ordem normativa.
Segundo Rojo e van Dijk (1997), esse seria o movimento top-down, envolvendo
estratégias que visam estabelecer, manter ou restaurar uma posição social e uma
autoridade aceitável de um grupo ou uma instituição, usualmente o Estado. O bottom-up,
que seria a forma complementar de legitimação, a ação de grupos dominados (cidadãos,
minorias etc.) para aceitar passivamente ou ativamente tal hierarquia ou autoridade dos
grupos dominantes ou instituições (elites, governos, parlamentos). Essas movimentações
se dão simultaneamente, ou seja, os grupos ou as instituições dominantes buscam se
legitimar através da aprovação dos dominados, e os grupos dominados legitimam os
grupos ou as instituições dominantes através de várias atividades de mais ou menos
concordância, aceitação, submissão ou, no mínimo, tácito consentimento.
Dentro dessa dinâmica, quando acontece de o movimento bottom-up não se
realizar de forma satisfatória aos interesses da elite, gera o que Habermas (1999 [1973])
conceituou como ‘crise de legitimação’, fenômeno recorrente nas sociedades
contemporâneas. Nessa conjuntura, governos e instituições vêm os seus poderes sendo
questionados, colocados em dúvida. A principal motivação para tais crises são as
controvérsias geradas sobre papéis e obrigações sociais, o que pode resultar em ‘erosões’
na legitimidade dos grupos dominantes. É nessa situação de crise que o discurso da
88
legitimação tem função decisiva para o restabelecimento dos poderes, e também é quando
as instituições utilizam estratégias ainda mais persuasivas em seu discurso. Essa definição
do processo de legitimação como uma movimentação social em dois sentidos (top-down
bottom-up) nos parece interessante por dois aspectos: i) assume uma perspectiva na
qual a legitimação não está atrelada apenas às instituições do poder, pois leva em conta
também a força popular para que esse fenômeno se realize, concebendo tal dinâmica a
partir da complexa relação: poder povo; povo povo; povo poder; ii) parte de
uma estratégia semelhante a uma prática de leitura, retomando a analogia que fizemos no
início do capítulo.
O fato de que legitimação não é permanentemente estável, mas objeto de conflito
social e político, explica porque ela não pode ser preservada em condições de livre
produção e circulação de discursos. Esse ponto é fundamentalmente relevante para este
trabalho, pois tratamos de um caso que bem caracteriza a crise de legitimação, que os
poderes Executivo e Legislativo do Brasil foram questionados por grupos nacionais e
internacionais de defesa dos direitos humanos, exigindo punição para os responsáveis
pelos assassinatos dos sem-terra em Eldorado de Carajás. Nessa conjuntura, a
necessidade de convencimento é ainda mais incisiva. Isso significa que a formulação do
discurso da legitimação opera a partir dos seus efeitos persuasivos ou manipuladores
na construção de modelos mentais preferidos, e, mais amplamente, pode resultar em
atitudes favoráveis às instituições de poder. Mas isso pode ser subvertido, quando a
possibilidade de romper com o controle discursivo, e outros novos modelos de eventos
podem ser elaborados. Esses aspectos podem ser observados no quinto capítulo, a partir
das análises sobre a cobertura do massacre dos sem-terra em Eldorado de Carajás.
Identificamos, em alguns momentos da cobertura, uma inversão de poderes entre os
grupos tradicionalmente legitimados (governos, polícias) e os deslegitimados, como o
MST.
O primeiro autor a tratar sobre a legitimação na Análise Crítica do Discurso foi
van Leeuwen, em um artigo primeiramente intitulado “A Gramática da Legitimação”,
mas que não chegou a ser publicado nessa versão. Esse trabalho foi ampliado e publicado
com o título “Legitimação e Discurso”, na revista Discourse & Communication, em
2007. Nesse artigo, van Leeuwen investiga categorias do discurso da (des)legitimação em
89
eventos conversacionais e em comunicações públicas como os discursos de
parlamentares em assembléias e etc. Assim como este estudo e o de Rojo e van Dijk
(1997), van Leeuwen (2007) também toma como principal fundamentação a obra de
Habermas (1999 [1973]), além de outros sociólogos. Em seu artigo, van Leeuwen (2007)
discute o processo de (des)legitimação a partir de quatro categorias básicas: a)
autorização: baseada na autoridade da tradição, no costume, na lei ou nas pessoas com
autoridade; b) racionalização: é a utilidade de uma ação institucional e sua validade
cognitiva no conhecimento aceito; c) avaliação moral: baseada em normas, ou pelo
menos no que está estabelecido socialmente como tal, trata-se de uma ação sócio-
contextual; d) mytho-poiesis: legitimação convencionada por narrativas. Como enfatizou
o autor, essas categorias são de natureza macro e mais aplicáveis aos estudos da
conversação, o que se caracteriza como um estudo de natureza distinta ao que propomos.
Entretanto, esses aspectos inspiram as nossas categorias de análise.
A perspectiva de que o processo de legitimação está atrelado às relações
interpessoais também está presente em outros trabalhos de teóricos da análise do
discurso, como Charaudeau e Maingueneau (2004:295) que a definem como uma noção
que pode ser utilizada para significar que “o sujeito falante entra em um processo que
deve conduzir a que se reconheça que tem direito à palavra e legitimidade para dizer o
que diz”. Essa legitimidade, segundo os autores, pode derivar tanto de relações
interpessoais quanto dos lugares institucionais que ocupam os falantes. Tal abordagem,
conforme ressaltamos, não se alinha à investigação que desenvolvemos, pois
estudamos a constituição da (des)legitimação a partir de suas complexas relações sociais,
cognitivas e interacionistas, buscando construir um quadro teórico multidisciplinar para
dar conta desses elementos.
3.4 A Legitimação e a Teoria Social
Investigar a legitimação envolve, como foi dito, uma complexa articulação de
distintas áreas do conhecimento e, assim, de diferentes perspectivas sobre a organização
social. Para desenvolver tal investigação, assumindo o fenômeno da legitimação como de
natureza discursiva e sócio-cognitiva, faz-se necessário uma concepção de sociedade e
90
relações sociais que embase tal perspectiva. Assim, assumimos como referência base
para essa discussão a teoria da estruturação proposta por Giddens (2003), assim como os
conceitos de sujeito reflexivo e de agência propostos pelo autor.
O aspecto central da teoria de Giddens (2003) que interessa a este trabalho é a
perspectiva estruturante da sociedade e de todos os elementos que nela se constituem,
entre eles a linguagem. Isso significa entender as relações sociais como construções
histórica e socialmente situadas, o que possibilita a compreensão do mundo em uma
perspectiva dinâmica, em constante re-organização, onde as estruturas não estão
estabelecidas a priori. Desenvolver uma perspectiva social a partir desses preceitos é
fundamental para este trabalho, pois investigamos um fenômeno social a legitimação
sob essa perspectiva de instabilidade, ou seja, um processo em contínua (re)elaboração
nas práticas sociais – entre elas a discursiva.
Para Giddens (2003), as estruturas são de uma ordem virtual de relações
transformadoras. Isso significa dizer que os sistemas sociais não têm estruturas, mas
exibem propriedades estruturais e que as estruturas existem, como presença espaço-
temporal, para orientar a conduta de agentes humanos dotados de capacidade
cognoscitiva. A teoria da estruturação de Giddens é uma tentativa de superar as
limitações do Funcionalismo, do Estruturalismo e da Sociologia Interpretativa
(hermenêutica). No paradigma do estruturalismo, as estruturas compõem os sistemas
sociais. De acordo com o autor, o estruturalismo e o funcionalismo têm semelhanças
‘notáveis’, apesar de suas tantas diferenças: os dois tendem a expressar um ponto de vista
naturalístico e se inclinam ao objetivismo. Outro aspecto de convergência é que ambos
enfatizam fortemente a proeminência do todo social sobre suas partes individuais (isto é,
seus atores constituintes, sujeitos humanos). Tanto para o estruturalismo quanto para o
funcionalismo, a estrutura (nos sentidos divergentes atribuídos ao conceito) tem primazia
sobre a ação e suas qualidades restritivas são fortemente acentuadas.
Dessa análise, Giddens (2003:3) propõe: “se as sociologias interpretativas se
assentam num ‘imperialismo do sujeito’, o estruturalismo e o funcionalismo propõem um
‘imperialismo do objeto social’. Uma das minhas principais ambições na formulação da
teoria da estruturação é pôr um fim a cada um desses esforços de estabelecimento de
impérios”. Este aspecto da teoria da estruturação é de extrema relevância para esta
91
pesquisa, pois retira a organização social tanto da dita ‘totalidade social’, quanto das
experiências individuais, e a situa nas práticas sociais ordenadas a partir da recursividade.
O autor estabelece uma diferença entre reprodução (onde não há a interferência crítica do
sujeito, como nas teorias estruturalistas) e recursividade (conceito que não supõe
autonomia de criação, mas capacidade de re-criação). Essas considerações nos fazem
remeter às críticas elaboradas no segundo capítulo sobre a proposta sistêmico-
funcionalista de Halliday (1978), pois estão em consonância teórica.
Em sua teoria, Giddens (2003) defende que as propriedades da coletividade e os
procedimentos de ação pressupõem-se, de certo modo, um ao outro na realidade da vida
social. Assim, a constituição da sociedade não pode ter como prioridade nem a estrutura,
nem a ação, já que as duas estão entrelaçadas na construção da história humana. Partindo
desses princípios, o autor desenvolve a concepção de sujeito reflexivo ou agente
bastante semelhante à perspectiva aqui assumida: a do sujeito cognitivo. Para Giddens
(2003), a reflexividade deve ser entendida não meramente como uma ‘autoconsciência’,
mas como o caráter de monitoramento do fluxo contínuo da vida social. “Ser um ser
humano é ser um agente intencional, que tem razões para as suas atividades e também
está apto, se solicitado, a elaborar discursivamente essas razões (Giddens, 2003:4)”. O
monitoramento reflexivo o autor define como uma característica crônica da ação
cotidiana, ou seja, uma atividade que envolve a conduta não apenas do individuo, mas
também de outros. Isso quer dizer que os atores não controlam e regulam
continuamente o fluxo de suas atividades, mas esperam que os outros façam o mesmo por
sua própria conta: monitorem rotineiramente aspectos sociais e físicos dos contextos em
que se movem.
Entretanto, o autor alerta para o cuidado ao se tratar conceitos tais como:
‘propósito’, ‘intenção’, ‘razão’, ‘motivos’etc. com bastante cautela, pois são,
freqüentemente, associados a um voluntarismo hermenêutico, como também retiram a
ação humana da contextualidade espaço-tempo. Ou seja, não é por tratar de noções
geralmente associadas à noção de ‘sujeito autônomo’, como nos termos da Pragmática,
que se deve entender o conceito de reflexividade proposto por Giddens (2003) a partir
desses preceitos, ou mesmo a partir de uma subjetividade absoluta. Segundo o autor, a
ação intencional não se compõe de um agregado ou série de intenções, razões, motivos
92
isolados. Os agentes ou atores humanos (o autor utiliza os dois termos indistintamente)
têm como aspecto inerente do que fazem a capacidade para entender o que fazem
enquanto o fazem. Ou seja, as capacidades reflexivas do ator humano estão
caracteristicamente envolvidas, de um modo contínuo, nos contextos da atividade social.
Assim, a ação humana ocorre como um fluxo contínuo de conduta, à semelhança da
cognição. Daí a reflexividade ser entendida como algo assentado na monitoração
contínua da ão que os seres humanos exibem, esperando o mesmo uns dos outros. A
monitoração reflexiva da ação depende da racionalização, entendida mais como um
processo do que como um estado, e como inerentemente envolvida na competência dos
agentes. Por isso, para Giddens, as noções de consciência e de prática são de extrema
relevância, pois propiciam a agência humana. Sendo que esta agência é de natureza tanto
individual na racionalização quanto social, no processo de monitoração reflexiva da
ação. Associamos esses pressupostos com o conceito de sujeito cognitivo, ativo, capaz de
interferir socialmente.
Essa concepção de sujeito ou reflexividade em Giddens é bastante
significativa na elaboração da sua proposta teórica para a constituição da sociedade, pois
o autor toma a conversação e a negociação de significados como elaboradores das
práticas sociais. Assim, “sua concepção da ação humana transfere a atenção para um
aspecto mais característico de toda conduta humana: o poder de intervir no curso dos
acontecimentos ou do estado das coisas” (Cohen, 1999). Entendemos que essa noção de
sujeito permeia e orienta a teoria da estruturação, pois é a ação dos sujeitos e sua
capacidade de fazer coisas que move as estruturas sociais. Ou seja, instituições,
governos, empresas etc., não devem ser percebidas a priori, pois elas existem porque
agentes atuam mutuamente para o seu funcionamento. Assim, a concepção de ação na
teoria da estruturação resiste às polaridades entre o determinismo totalizante e a liberdade
incondicional, ao mesmo tempo em que preserva as possibilidades entre esses extremos.
Essa é a preocupação de Giddens (2003), quando o autor diz querer se distanciar de
teorias estruturalistas, nas quais as estruturas definem o sujeito, ou de um subjetivismo
absoluto, no qual os sujeitos não operam interativamente, ou seja, na qual não
intersubjetividade nas ações. No que diz respeito a nossa investigação, esses preceitos
fundamentam o quadro teórico que buscamos para o estudo da legitimação: um fenômeno
93
que se constitui nas práticas sociais, de natureza instável, sendo a prática discursiva um
dos seus princípios de sustentabilidade discursos esses constituídos pela ão de
sujeitos reflexivos.
3.5 A Legitimação como uma Macrocategorização Social
Ao situar a legitimação no âmbito discursivo e social, é preciso discutir como
atores e grupos sociais agem na constituição desse fenômeno. Se é uma ação humana
(individual e coletiva) estabelecer o (i)legítimo, esta se dá a partir de operações de
naturezas sociais e cognitivas. Defendemos que essas operações resultam em atividades
de categorizações de atores e grupos sociais, tendo como sustentação os modelos mentais
e as representações sociais construídas coletivamente sobre esses grupos e seus
participantes. Neste sentido, seguimos um rumo diferenciado do proposto por Habermas
(1996; 1999 [1973]) para investigar a legitimação, ainda que os seus estudos sejam um
norte referencial para o desdobramento de tal investigação. Concordamos com Habermas
(1999 [1973]) quando ele argumenta que a força propulsora da constituição do (i)legítimo
está no discurso e na esfera pública, mas também buscamos tratar tal fenômeno a partir
da natureza constitutiva entre discurso e cognição, de acordo com a linha teórica que
estamos desenvolvendo nesta investigação. Acreditamos que os estudos elaborados
apenas na perspectiva discursiva não dão conta da complexa ão de (des)legitimar, pois
tal atividade envolve operações mentais; um intenso processo de negociação entre atores
sociais; e se estabiliza nas práticas públicas.
Grupos e atores sociais não são legítimos ou ilegítimos a priori. (I)legítimo é uma
atribuição, um ato social de categorização, sendo que tal atribuição não é estanque, mas
sempre situada. Para exemplificar essa proposta, recorremos ao nosso corpus, no qual
analisamos, a partir dos frames de cobertura, as variações da categorização do caso de
Eldorado dos Carajás, ao longo dos dez anos de cobertura jornalística 1996 a 2006.
Observemos os frames identificados na Folha de S. Paulo nesse período:
Frame I - A Circulação das Versões
Frame II - A Mobilização da Sociedade
94
Frame III - A Legalização de uma Versão: a cobertura dos trâmites jurídicos
Frame IV - A Criminalização do MST
Frame V - A Partidarização do MST
Frame VI - Reframing: a não-ocorrência
Ao analisarmos as distintas orientações da cobertura, percebemos que o processo
de categorização do massacre como um ‘fato’ (i)legítimo passa por uma ação contínua,
que, se em determinados momentos históricos sofreu um maior controle discursivo por
parte dos grupos do poder, em outros a pressão de vários movimentos sociais, Igreja,
artistas, intelectuais, interfere e atua nesse processo, democratizando o espaço discursivo
do jornal, e, assim, abrindo espaço para outras versões sobre o ‘episódio’, construindo
modelos cognitivos diferenciados, contribuindo para a categorização do episódio como
massacre, e deslegitimando as instituições do poder envolvidas (Governo do Estado do
Pará, Secretaria de Segurança Pública do Pará e Tribunal de Justiça do Pará).
Partindo desses exemplos, pretendemos agora aprofundar a discussão sobre
categorização, e assim situar as perspectivas teóricas que assumimos.
3.5.1 Categorização: uma atividade corporificada na mente e no discurso
O principal objetivo de tecermos considerações sobre categorias é a compreensão
de que o jornalismo atua discursivamente no processo de categorização de atores e
grupos sociais. E isso se na construção de modelos cognitivos dominantes, a partir do
forte controle dos grupos sociais que têm acesso ao discurso da imprensa. Tal perspectiva
tem que ser defendida tomando como base o questionamento duas linhas
epistemológicas: i) a da tradição objetivista; ii) a perspectiva discursiva descorporificada
de processos mentais. Para isso, precisamos articular aspectos teóricos de natureza
cognitiva, discursiva e cio-interacionista. Entendemos que uma investigação sobre o
fenômeno da legitimação que não conta desses aspectos é redutora e ignora a
complexidade de tal processo. A categorização de grupos/atores sociais como
(des)legitimados é de extrema relevância para as pesquisas sociais, pois dela resulta
95
várias outras ações, tais quais descriminação, preconceito, estereotipização e
naturalização de poderes.
Trataremos o conceito de categorização de forma bastante direcionada aos
propósitos de nossa investigação, não sendo nosso objetivo desenvolver um amplo
apanhado teórico sobre essa noção
12
. Vários são os trabalhos desenvolvidos onde o
problema das categorias é exaustivamente discutido, desde sua primeira aparição nas
discussões filosóficas, trazida por Aristóteles, que restringiu o processo de categorização
às condições necessárias e suficientes, até as de base sócio-interacionista, na linha
proposta por Mondada (2000, 1997), que vêm ganhando mais força atualmente. A
proposta de Eleanor Rosch (1978) significou uma ruptura na noção de categorias, em
relação à proposta clássica aristotélica, e recolocou a questão em uma perspectiva mais
heterogênea e atrelada a um contexto cultural. A noção de Rosch (1978) sobre categorias,
entretanto, sofre hoje fortes críticas pela sua natureza ‘laboratorial’, ou seja, distante das
práticas discursivas, embasada por uma noção de língua na qual não cabe o agir
lingüístico dos falantes na construção do mundo, mas apenas como um sistema de
‘etiquetas do mundo’ (Marcuschi, 2005a; Mondada, 2000, 1997).
Para esta investigação, a tese defendida por Lakoff (1990) e Lakoff & Johnson
(1999) é relevante por dois aspectos principais: i) a crítica ao paradigma objetivista; ii) a
tese da corporificação da mente, e como essa característica atua no processo de
categorização. E é sobre esses aspectos que vamos traçar nossas considerações. Na visão
tradicional, ou objetivista, a razão é abstrata e descorporificada, ou seja, é norteada pela
visão dicotômica mente x corpo. Na visão cognitiva, a razão tem uma base corporal. Nós
pensamos, nos relacionamos e nos movimentamos no mundo, a partir da relação que a
nossa mente estabelece com a nossa estrutura corpórea. Romper com essa dicotomia é
uma postura radical contra a tradição filosófica ocidental. Ou ainda mais importante: é
uma forma diferenciada de perceber e estabelecer o que nos faz humanos. Enquanto a
visão tradicionalista defende que a capacidade de pensar e a razão são abstratas, ou seja,
transcendentais, no sentido que vão além das limitações físicas do organismo, a proposta
12
É vasto o número de obras sobre o conceito de categorização, tendo em vista sua extrema relevância para
as ciências cognitivas e para a filosofia. Para um maior aprofundamento nessa questão, indicamos Rosch
(1978), Lakoff (1990) Lakoff & Johnson (1999), Mondada (1997), Marcuschi (2004), Marcuschi (2005a),
só para citar alguns.
96
de Lakoff (1990) prevê que a natureza do organismo pensante e a forma como ele
funciona em seu ambiente são aspectos centrais para o estudo da razão. Sendo assim,
questões antes tratadas como periféricas ou adornos da linguagem, passam a ser temas
constitutivos para a compreensão do funcionamento da mente humana. São elas: a
metáfora e a metonímia, que dão conta dos aspectos imaginativos da razão.
A proposta de Lakoff (1990), conhecida como o realismo experencialista (ou
experencialismo) é uma articulação entre a visão objetivista e o experencialismo e, em
linhas gerais, propõe: a) um comprometimento com a existência do mundo real; b) um
reconhecimento de que a realidade delimita os conceitos; c) uma concepção de verdade
que vai além de uma mera coerência interna; d) um comprometimento com a existência
de um conhecimento estabilizado no mundo. Nessa concepção, experiência é entendida
em sentido amplo: inclui todo o aparato utilizado na construção das nossas experiências
reais ou potenciais, tanto dos organismos individuais ou comunidades de organismos
não apenas percepção, movimento motor etc., mas especialmente a aquisição genética
interna de um organismo, e a natureza de suas interações tanto em seus ambientes físicos
ou culturais.
Neste ponto, chamamos a atenção para dois aspectos da teoria de Lakoff (1990):
um que assumimos e outro que rejeitamos. A perspectiva experiencialista prevê a
constituição do individual a partir da interação com o social, daí a idéia de que a
corporificação da mente é constituída pela nossa estrutura corpórea e nossas ações
motoras no mundo. O pensamento e a razão concernem, essencialmente, à natureza do
organismo fazendo coisas e pensando incluindo a natureza do seu corpo, sua interação
em seu ambiente e suas características sociais. Além de uma ruptura entre a dicotomia
mente x corpo, o autor também prevê organismos individuais e organismos sociais em
relações interacionais. Tal compreensão é de extrema relevância para a construção do
quadro teórico desta investigação, pois estamos defendendo a natureza constitutiva dos
processos mentais e das práticas sociais.
É a partir do estudo das categorias que Lakoff (1990) e Lakoff & Johnson, (1999)
vão apresentar evidências empíricas para a sua teoria da natureza corporificada da razão e
da imaginação. Para os autores, os sistemas conceituais são organizados em termos de
categorias, e boa parte, senão todos os nossos pensamentos, envolvem essas categorias.
97
Lakoff (1990) e Lakoff & Johnson (1999) defendem que a ação de categorizar é
irremediável a qualquer sistema neuronal: até uma ameba categoriza o que é comida ou
não. Na escala evolutiva, o ser humano opera com elementos mais complexos e
elaborados ao categorizar: “Toda vez que nós vimos alguma coisa como um tipo de
coisa, estamos categorizando” (Lakoff, 1990:6). Para o autor, não nada mais básico do
que a categorização para os nossos pensamentos, ações e discurso. Essa compreensão é
especialmente relevante para o nosso estudo sobre Eldorado dos Carajás e a ação da
imprensa no processo de (des)legitimação do caso. Os atores sociais que tiveram suas
versões veiculadas nos textos jornalísticos, assim como os próprios jornalistas, viram o
episódio de formas distintas, ou seja, categorizaram como um tipo de coisa (conforme
analisamos no capítulo 2). Isso quer dizer que raciocinamos não apenas sobre coisas
individuais ou pessoas, mas sobre categorias de coisas e pessoas, por isso a
categorização é crucial para cada perspectiva de raciocínio. Daí a importância de
trazermos essas considerações sobre atividades de categorização para os nossos estudos.
Cada perspectiva de raciocínio deve estar associada a uma categoria. A perspectiva de
raciocínio como uma manipulação descorporificada de símbolos abstratos vem com uma
perspectiva implícita de categorização: é uma versão da teoria clássica de categorias.
O que a concepção de categorias desenvolvida por Lakoff (1990) traz de relevante
para os estudos lingüísticos é exatamente a ruptura com a visão clássica
representacionalista, na qual o significado é entendido a partir de uma relação direta entre
o mundo (as coisas do mundo) e as palavras – significado por correspondência. Ao
discutir as categorias como conceituais, ou seja, elaboradas a partir de Modelos
Cognitivos Idealizados (MCI), Lakoff (1990) rompe com o objetivismo e abre
possibilidades para teorizações mais complexas de como a mente humana funciona no
processo e de organização e, conseqüentemente, sobre a nossa ação no mundo. O
conceito de MCI é o que constitui a tese central de Lakoff (1990), pois seria por essas
estruturas de significados que organizamos nosso conhecimento. Nós usamos os modelos
cognitivos na tentativa de entender o mundo. Em particular, nós os usamos para teorizar
sobre o mundo, tanto na construção de teorias científicas quanto na construção das teorias
que elaboramos cotidianamente. Dessa forma, a sistematização das categorias, assim
como dos seus efeitos prototípicos, são produzidos a partir desses modelos. O conceito de
98
protótipos vem, em seu princípio, da teoria de Rosch (1978) e tem sido questionado e
reformulado por vários autores. No próximo ponto, trataremos mais sistematicamente
dessa noção.
Um aspecto discordante entre a proposta de Lakoff (1990) e a que defendemos
nesta investigação é a distinção estabelecida pelo autor entre categorias de coisas e
categorias de entidades abstratas (eventos, ações, emoções, relações espaciais, relações
sociais, governos etc.). Esta parece ser uma questão problemática, pois prescinde de uma
perspectiva discursiva. Ao distinguir categorias de coisas que experenciamos de coisas
abstratas que imaginamos, percebe-se que não um entendimento do processo
constitutivo de semiotização (e conseqüentemente de categorização) das coisas
mundanas, sejam elas abstratas ou concretas. Ambas as categorias resultam de processos
de semiotização, conforme discutiremos mais adiante, d sua natureza discursiva.
Concordamos com Marcuschi, E. (2004), quando a autora critica Lakoff (1990) e Lakoff
e Johnson (1999) por nos situar mais como indivíduos experenciais/corpóreos, do que
semióticos: “O que esses autores parecem ignorar é a capacidade da cognição humana de
operar simbolicamente, o que lhe permite acionar as diferentes semioses na construção
dos conceitos e das categorias e, assim, dizer o mundo mesmo na ausência dos
fenômenos (Marcuschi, 2004:54)”.
Mesmo com tais restrições, assumimos a posição de Lakoff (1990), no que diz
respeito à sua superação da dicotomia mente x corpo, assim como pela sua ruptura com o
conceito clássico de significado por correspondência, a partir da proposta dos MCI’s. O
que buscamos, a partir desse entendimento, é uma compreensão discursiva dos processos
mentais, e não apenas corpóreos e experienciais, pois, como já ressaltou Marcuschi
(2005a:2), “o mundo da experiência sensorial simplesmente não tem uma face externa
diretamente palpável, seja aos nossos sentidos ou às nossas teorias. Tudo que dizemos é
mediado pelo conceito que se expressa discursivamente”.
A teoria de Lakoff (1990) também é relevante para o empreendimento de
desenvolver uma análise do discurso diferenciada das linhas predominantes, as quais
desconsideram a natureza cognitiva da prática discursiva. Se Lakoff (1990) não conta
dos processos de semiotização, sua compreensão de mente como algo constitutivo da
nossa forma de organizar o mundo nos parece pertinente para a investigação na qual
99
trabalhamos. É mais um fundamento para a concepção de sujeitos ‘agentes-cognitivos’
sob a qual operamos. Entretanto, ressaltamos a importância da proposta de van Dijk
(2006) para esta investigação, pois o autor pressupõe a natureza discursiva da mente (ver
capítulo 2). No que diz respeito à concepção discursiva de categorias, iremos explorar as
considerações de Marcuschi (2005a) e Mondada (2000, 1997) para melhor expor a
proposta que aqui assumimos.
O passo dado por Lakoff (1990), deixando para trás a perspectiva
representacionalista, é de extrema relevância para pontuar a questão da situacionalidade
das habilidades cognitivas, e assim trazer a questão das categorias para as práticas social
e discursiva. A guinada dá rumo a uma noção de construção social da realidade em que o
sujeito e os processos interativos se tornam central. Com isto surge, como frisa Mondada
(1997:297), “o reconhecimento da natureza discursiva das categorias”. E, se
compreendemos que o ato de categorizar resulta do processo da interação sujeito-mundo,
não se pode tratar esses objetos categorizados como uma extensão da realidade, ou
mesmo fenômenos pré-existentes às relações humanas. É imprescindível assumir que
operamos com ‘objetos do discurso’ (Marcuschi, 2005a) sejam eles concretos,
abstratos, imaginários , que eles são elaborações humanas, construídos ao longo do
processo histórico, e culturalmente arraigados. Assim, as categorias o, ao mesmo
tempo, uma organização do mundo, e uma forma de atuarmos nesse mundo.
Mondada (1997), buscando uma perspectiva que mude o foco dos contextos
experimentais para a elaboração das categorias, postula que elas são operações de
natureza cio-discursivas e resultam em nossas formas de ‘saber o mundo’. Marcuschi
(2000) chama a atenção para um problema essencial, ao se tratar de categorias: a
importância de delimitar sob que perspectiva de língua essa noção é desenvolvida. Para
entendermos categorias como uma atividade de organização cognitiva do mundo, em
constante processo de re-elaboração, e que ocorre em um processo de mão dupla ao
mesmo tempo em que é uma ação intersubjetiva de atores sociais para organizar o
mundo, também situa a forma que esses atores percebem e atuam sobre as coisas
mundanas não se pode operar sob uma perspectiva representacionalista de língua, a
qual a postula como um ‘sistema de etiquetas’. Assim, adotamos os pressupostos que
Marcuschi (2000) apresenta como delineadores para um novo olhar sobre a linguagem, o
100
mundo e o discurso. Esse pressuposto, basicamente, é sobre a indeterminação lingüística
que apresenta a língua como atividade. A língua, portanto,
“não é um sistema autônomo que se esgota no código, é heterogênea, opaca,
histórica, variável e socialmente constituída, não servindo como mero
instrumento de espelhamento da realidade.” [...] a determinação se no uso
efetivo. A língua não é o limite da realidade, nem o inverso. Língua é trabalho
cognitivo e atividade social (Marcuschi, 2000:81).”
A partir dessa noção de língua, podemos afirmar que as categorias também
apresentam uma instabilidade constitutiva. Por isso, a própria organização das categorias,
assim como a atividade de atribuição de características aos seus componentes, também
são instáveis, algo que não pode ser entendido como uma organização natural, ou sequer
definida apenas no limite das nossas experiências. Trata-se de uma atividade que envolve
sujeitos interagindo discursivamente em situações sociais específicas, culturalmente
situadas e historicamente constituídas. Daí a afirmação de Marcuschi (2005a:10): “as
categorias não podem ser tomadas como estruturas invariantes, capazes de
realisticamente agruparem a realidade extra-mente de modo culturalmente insensível,
sem uma nítida inserção contextual. Categorias não são entidades naturais e realistas”.
Esta perspectiva é importante para a discussão sobre os conceitos de protótipo e de
estereótipo desenvolvida no próximo tópico.
3.5.2 Entre Protótipos e Estereótipos: a categorização de atores/grupos sociais como um
continuum
O conceito de protótipo tem sido um ponto crucial nas investigações sobre
categorias. A primeira a apresentar a idéia da organização das categorias a partir de
elementos prototípicos foi E. Rosch (1978), o que ficou conhecida como a teoria dos
protótipos. A autora percebeu que, até então, os estudos realizados sobre categorias
tinham uma tendência a generalizar casos particulares. Após estudos empíricos,
realizados a partir de realidades culturais distintas, Rosch (1978) propôs que o
101
pensamento, em geral, é organizado em termos de estruturas prototípicas e de nível
básico. As categorias humanas são tipicamente conceitualizadas em mais de uma
forma, nos termos chamados de protótipos: esses elementos são os que melhor
caracterizam uma categoria.
Antes do trabalho de Rosch e seus associados, os conceitos clássicos de categorias
eram tomados como um truísmo, não na Psicologia, como também na Antropologia,
Filosofia e outras disciplinas. Se a teoria dos protótipos de Rosch (1978) foi decisiva
para a reconceitualização de categorias, também se deve às suas pesquisas que o
conceito de categorias seja atualmente um dos pontos principais para as pesquisas
cognitivas. Como aponta Lakoff (1990), as investigações de Rosch e seus associados
estabeleceram novos paradigmas nos trabalhos desenvolvidos na Psicologia Cognitiva
sobre categorização, por demonstrar centralidade, semelhanças de família,
categorização de nível-básico, assim como certos tipos de corporificação.
Como foi dito anteriormente, a proposta de Rosch (1978) vem sofrendo várias
críticas, principalmente por parte de autores que seguem a linha sócio-interacionista de
investigação, apontando o conceito de língua subjacente às pesquisas de Rosch como
um dos pontos mais problemáticos. Marcuschi (2007b, 2005a) e Mondada (2000, 1997)
tratam desse aspecto mais sistematicamente, ressaltando que a teoria dos protótipos
‘escamoteia’ uma concepção de língua como um sistema de etiquetagem do mundo,
desenvolvida de forma descontextualizada usando apenas ‘palavras-etiquetas’ –, o
que não propicia entender a construção de categorias como resultante das práticas
discursivas.
Lakoff (1990) parte em defesa de Rosch (1978), afirmando que uma
incompreensão da tese da autora, pois muitos não teriam acompanhado as mudanças que
a própria Rosch faz sobre seus trabalhos. É relevante a observação de Lakoff (1990),
quando o autor ressalta que a proposta sobre os efeitos prototípicos, em si, fornece uma
teoria alternativa específica sobre representações mentais: são experimentos de como
elaboramos as categorias. Isso quer dizer que não uma relação direta e
representacionalista na noção de protótipos, ou seja, “não uma correspondência um-
por-um entre os efeitos prototípicos e a representação mental” (Lakoff, 1990:43).
Segundo o autor, não é amplamente conhecido que Rosch abandonou a idéia de que os
102
efeitos prototípicos espelham diretamente a estrutura da categoria e que os protótipos
constituem as representações das categorias. As considerações em Rosch (1978:40)
apontavam, de certa forma, para essa compreensão: “Para as categorias da linguagem
natural, falar de uma única entidade que é o protótipo é ou uma grande incompreensão
dos dados empíricos ou uma teoria encoberta de representação mental”. Ressaltamos esse
aspecto porque assumimos a idéia de protótipos como uma característica categorial,
mesmo que com ressalvas à proposta de Rosch (1978), pois pretendemos acrescentar
outras visões conceituais sobre o fenômeno.
O que está em questão em torno de todo esse debate é a possibilidade de se
estabelecer elementos prototípicos para as categorias. Se a teoria dos protótipos provocou
uma ruptura nos estudos de categorias, não se pode ignorar, como apontou Marcuschi
(2005c) que essa visão, mesmo tendo trazido suas contribuições, constitui o ponto fraco
das classificações categoriais, pois os prototípicos são instáveis e empiricamente
complicados. Segundo as considerações de Marcuschi (2005c: 15), “não temos protótipos
categoriais rígidos, que as categorias são culturalmente sensíveis e a prototipicidade é
muito mais um efeito do que um universal metafísico (como as categorias aristotélicas)
com propriedades necessárias e suficientes”. Essas considerações nos levam a um
caminho que não, necessariamente, descarta a possibilidade de se operar com o conceito
de protótipos, mas sim a impossibilidade de assumir que existam ‘entidades prototípicas’,
num sentido rígido ou determinado. Devemos entender “a prototipicidade como um efeito
da tipicidade e não um estado de uma determinada entidade” (Marcuschi, 2005c:16),
assim ainda de acordo com o autor: “não devemos ser ingênuos a ponto de ignorar que as
representações de um grupo social têm uma estabilidade bastante grande, que se costuma
designar como propriedades típicas de um dado fenômeno e que constroem sua tipicidade
ou prototipicidade (Marcuschi, 2005c:16)”.
Isso requer operar com análises de protótipos categoriais em contextos de uso,
sempre atrelados a uma situacionalidade e a relações interacionais específicas. Essa é a
nossa proposta para investigar a categorização de fontes prototípicas ou estereotipadas na
cobertura jornalística do caso de Eldorado de Carajás. A partir da ocorrência desse
fenômeno nos frames que carregam o caráter contextualizador observamos os
diferentes papéis que os atores sociais assumiram durante a cobertura, ora como
103
entrevistados prototípicos, ora de forma estereotipada. Entendemos que a mudança nesses
papéis resulta do constante processo de negociação entre os representantes dos governos,
instituições (entre elas a própria imprensa), movimentos sociais e a sociedade em geral,
no processo dinâmico de (des)legitimação de massacre de Eldorado de Carajás.
É importante, ainda, trazer as considerações de Lakoff (1990) e Lakoff e Johnson
(1999) sobre os conceitos de protótipos e estereótipos para melhor fundamentar nossos
pressupostos teóricos. Lakoff (1990) trabalha com o conceito de estereótipos sociais, mas
não como uma mera oposição à noção de protótipo. Nas considerações do autor, os
estereótipos são sociais porque podem ser usados para padronizar uma categoria como o
todo, por isso são elaborações mais complexas e mais consolidadas cognitivamente.
Lakoff e Johnson (1999) ressaltam que o estereótipo é uma categorização negativa de um
membro de um grupo. É usado para que façamos julgamentos negativos sobre as pessoas.
Os estereótipos sociais são usualmente conscientes e freqüentemente são objetos de
discussões públicas.
Lakoff (1990) e Lakoff e Johnson (1999) também concebem os protótipos como
efeitos de tipicidade, sendo que tal efeito resulta da natureza dos modelos cognitivos, os
quais devem ser vistos como as ‘teorias’ que desenvolvemos sobre os variados assuntos.
Esse é um ponto extremamente importante para Lakoff (1990:45): “a estrutura da
categoria desempenha um papel importante no raciocínio. Em vários casos, os protótipos
atuam como pontos de referência cognitiva de vários tipos e formam a base das
inferências”. Por isso, para Lakoff e Johnson (1999), raciocinar com protótipos é tão
comum que é inconcebível que possamos funcionar sem eles. Entretanto, os autores
fazem uma ressalva, que remete, em parte, às críticas apontadas por Marcuschi (2005a) e
Mondada (1997). Em suas conclusões sobre a teoria dos protótipos, Lakoff e Johnson
(1999) alertam que parte do problema que deve ser encarado sobre essa questão é que ela
não conta e está aquém da compreensão popular sobre categorização. Daí,
possivelmente, estar arraigado ao conceito de protótipos a sua natureza arbitrária.
Assim, delimitadas as restrições teóricas e os aspectos que agregamos sobre a
noção de estereótipos para nossa investigação, o que nos interessa agora é analisar o
processo contínuo de negociação entre mídia e sociedade na construção das
características de atores e grupos sociais, cambiantes entre prototípicas e estereotipadas, e
104
como as relações de poder sejam elas institucionais ou sociais, oriundas da pressão
popular, por exemplo – operam nesse processo.
Uma leitura mais atenta dos jornais nos faz perceber que o discurso de alguns
atores sociais tem acesso privilegiado entre as distintas vozes que compõem um texto
jornalístico. E isso em seus variados gêneros: notícias, reportagens, notas etc. Esses
atores, freqüentemente, são representantes das instituições de poder e são tidos pelos
jornalistas como ‘fontes confiáveis’ para tratar as questões da ordem do dia. Os critérios
para se qualificar alguém como ‘fonte’ no jornalismo são os mais variados
13
e tendem a
atribuir um caráter de objetividade ou ‘naturalização’ desse processo: ou seja, algumas
pessoas pelo cargo que exerce, pela instituição a qual faz parte, pela sua
‘imparcialidade’ sobre a questão etc. devem ser, naturalmente, as fontes preferenciais
dos jornalistas. Entretanto, o caso do acesso ao discurso jornalístico envolve vários
aspectos de natureza ideológica, a partir de complexas redes de controle discursivo
(Falcone, 2004; van Dijk, 1997). Estabelecer as ‘vozes’ que estão legitimadas para
circular nos distintos veículos de comunicação em muito se distancia de uma relação
objetiva ou natural. Trata-se de uma ação ideológica, discursivamente manifesta.
Tampouco é uma atribuição gida e fixada em critérios estanques, e esse é exatamente o
aspecto que buscamos investigar agora, ao analisar a recorrência do acesso dos atores
sociais na mídia, a partir do continuum de representações prototípicas estereotipadas.
A proposta da análise das representações prototípicas e estereotipadas, a partir o
continuum, leva em consideração não apenas os frames de cobertura (macrocategoria de
análise discutida no capítulo 4), como também a relação com os gêneros textuais, pois
não consideramos irrelevante a função pragmática dos gêneros nos quais os discursos
estão veiculados. Alguns gêneros jornalísticos são mais fortemente controlados, no que
diz respeito ao acesso discursivo, pelo seu poder discursivo-cognitivo de legitimar
discursos. Como exemplo desses gêneros, citamos o artigo de opinião, a reportagem, a
entrevista ping-pong (pergunta-resposta) e a notícia. Situamos como os menos
controlados, inclusive pelo critério de ‘menos lidos’, as cartas do leitor e as notas de
reportagens. Esses aspectos também são discutidos no segundo capítulo, a partir das
considerações de Miller (2007). Vejamos a esquematização dessa proposta abaixo:
13
Sobre o controle discursivo dos manuais de redação, ver as considerações no capítulo 5.
105
Grupos/ Gêneros
Atores Sociais Textuais
PROTÓTIPOS __________________________________________ ESTEREÓTIPOS
__________________________________________
Frame x Frame y Frame z
3.5.3 A Análise do Continuum Protótipo – Estereótipo no Discurso Jornalístico
Observemos, na análise das notícias abaixo, o funcionamento do continuum das
representações prototípicas estereotipadas dos atores/grupos sociais, a partir da relação
do domínio jornalístico com as demandas da sociedade e a instabilidade do processo de
(des)legitimação.
Exemplo 3:
Ministro culpa trabalhadores (FSP, 19/04/1996)
O ministro da Agricultura, José Eduardo de Andrade Vieira, culpou ontem os sem-terra
pelo confronto no Pará. Ele se disse ''surpreso'' com o incidente.
''Os sem-terra estavam na estrada, cercando o trânsito. De modo que a polícia do governo do
Estado agiu para liberar a estrada'', afirmou à saída de um encontro com o ex-presidente Itamar
Franco.
Andrade Vieira disse que o confronto no Pará não é um conflito por terra. ''Não tem nada
que ver. Eles (os sem-terra) estavam acampados na estrada.''
Vieira disse que determinou ao presidente do Incra, Raul do Valle, que viajasse para o Pará e, se
fosse necessário, até o local do conflito. Mas afirmou que não se envolverá na investigação das
mortes.''A questão é de natureza policial e afeta ao Ministério da Justiça e não ao Ministério da
Agricultura.''
Andrade Vieira afirmou que as pessoas que estavam na estrada eram um ''aglomerado que
surgiu recentemente''. Segundo ele, ''nem era um acampamento''.
O ministro disse que o Incra já deu solução para uma situação antiga que existia na
região. ''Cada vez que o Incra resolve o problema de um acampamento, surge outro'', acrescentou.
Segundo ele, existe um acordo do Incra com o MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) do local do conflito, que estaria sendo cumprido ''na íntegra'' pelo governo.
Exemplo 4:
106
MST quer a demissão de Jobim (FSP, 22/04/1996)
O presidente do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra), João Pedro
Stedile, vai pedir hoje, em audiência com o presidente Fernando Henrique Cardoso, em Brasília,
intervenção federal no Pará e a demissão do ministro Nélson Jobim (Justiça).
Para o MST, Jobim é ''co-responsável'' pelo confronto entre sem-terra e a polícia do Pará,
ocorrido na quarta-feira passada, quando 19 sem-terra morreram.
Na opinião dos sem-terra, o ministro Jobim também é responsável porque, após o
massacre de Corumbiara (RO), não encaminhou, conforme era de sua responsabilidade, diversos
projetos de lei contra a violência no campo e os responsáveis estão impunes até hoje.
Conclusões
De volta, ontem, de uma visita de dois dias à região de Eldorado de Carajás, Stedile disse
que o MST chegou a três conclusões:
1) O massacre foi planejado; 2) o governador Almir Gabriel é responsável direto, porque
autorizou por telefone o coronel da PM, Mário Pantoja, a atacar os sem-terra, e 3) há necessidade
imediata de que todos os oficiais e soldados sejam presos para garantir que o inquérito prossiga
dentro da lei.
Denúncias
O advogado do MST, Luiz Eduardo Greenhalgh, disse que, do ponto de vista jurídico, o
movimento adotará três providências internacionais.
Vai fazer denúncias do massacre junto ao alto comissariado das Nações Unidas e na Comissão
das Nações Unidas que trata das execuções sumárias e na comissão de direitos humanos da OEA
(Organização dos Estados Americanos).
Greenhalgh disse que o MST vai iniciar um trabalho jurídico no país com a entrada nos
tribunais de uma ação de responsabilidade civil contra o governo do Pará.
Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, presidente da CUT, disse que o massacre mostra que a
reforma agrária é a prioridade absoluta.
Dos muitos aspectos que podem ser analisados e contrastados nesses dois textos,
vamos nos deter nas topicalizações, a princípio, e em seguida nas representações
discursivas, para analisarmos a caracterização prototípica estereotipada dos atores e
grupos sociais, a partir da perspectiva do continuum. A primeira observação que nos
parece relevante é sobre a distância cronológica entre a publicação das duas notícias.
Embora elas estejam em uma relação dialógica, pois se no texto do Exemplo 3 o governo
acusa o MST pelas mortes em Eldorado de Carajás, no Exemplo 4 há uma reação do
movimento em argumentar na direção contrária, culpando o governo em sua mais alta
instância, a Federal – pelo massacre.
A cronologia é relevante na análise da topicalização, pois o discurso do Governo
(e conseqüentemente a sua versão) foi publicado dois dias depois dos assassinatos em
107
Eldorado. a notícia na qual o tópico é o discurso dos sem-terra foi publicada três dias
depois. Observamos no corpus outras notícias, nesse período, onde predominava o
discurso dos sem-terra, mas não em caráter institucional como a que apresentamos no
Exemplo 4. E, tendo em vista que a acusação do governo contra os sem-terra foi feita
institucionalmente, por um ministro do Governo, assim o diálogo poderia ser
estabelecido de forma mais igualitária entre instituições. Partindo para a análise da
relação protótipo estereótipo nas duas notícias, no Exemplo 3 observamos que o ator
social prototípico e a única representação discursiva da notícia é o então ministro da
Agricultura, José Eduardo de Andrade Vieira. Sendo o representante de uma instituição
superior de poder, o discurso do ministro não precisa de nenhum outro ‘apoio’, ou seja,
um interdiscurso, para trazer as graves críticas contra o MST. Isso é legitimado pelo
cargo que ocupa, e que lhe atribui, a princípio, uma característica de fonte prototípica.
Entretanto, defendemos que, se um forte controle de poder para esse acesso
discursivo privilegiado, essa relação não é monolítica e pode ser ‘quebrada’, a partir das
distintas reivindicações e mobilizações sociais. Observemos esse aspecto no Exemplo 4,
no qual o texto é composto pelos discursos dos então principais representantes dos sem-
terra: o presidente do MST, João Pedro Stedile e o advogado do movimento, Luiz
Eduardo Greenhalgh, que tem forte influência no processo, pois traz o discurso jurídico
em defesa do MST. Todo o texto é composto por discursos dissonantes ao
governamental, em um caso em que as instituições de poder não tiveram acesso ao
discurso da imprensa. Neste sentido, observamos que uma estereotipização do
discurso do governo, excluído da composição textual.
Esse processo de estereotipização do discurso governamental também vai ser uma
característica do Frame II: A Mobilização da Sociedade. Observemos alguns aspectos na
notícia a seguir:
Exemplo 5:
Igreja registra 33 mortes no campo (FSP, 18/07/1996)
A violência no campo fez 33 vítimas neste primeiro semestre. A maioria das mortes (28)
ocorreu no Pará. Três foram registradas em Mato Grosso. Goiás e Maranhão tiveram uma morte
cada.
Os dados divulgados, em Brasília, fazem parte de relatório da CPT (Comissão Pastoral da
Terra), órgão da Igreja Católica.
108
Das 29 mortes ocorridas no Pará, 19 foram cometidas por policiais militares no massacre
de Eldorado do Carajás, em 17 de abril.Segundo a CPT, desde a posse do presidente Fernando
Henrique Cardoso, há 18 meses, já houve 74 mortes de sem-terra.
A violência contra trabalhadores rurais "está se tornando marca do governo de Fernando
Henrique Cardoso'', diz o relatório.
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) disse que não podia fazer nenhum
comentário sobre o assunto porque não havia recebido o relatório.
Ontem, o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) também divulgou
nota para, mais uma vez, questionar os números divulgados pelo governo federal sobre
assentamentos.
O governo pretendia, segundo o MST, assentar 60 mil famílias em 96. Relatório do Incra
afirma que apenas 18.037 famílias foram assentadas, o que caracteriza, para o MST, a
impossibilidade de se atingir a meta até o final do ano.
Para o ministro Jungmann, as críticas não procedem. Segundo sua assessoria, até 15 de
julho foram assentadas 19,6 mil famílias. De acordo com Jungmann, o ritmo só foi acelerado após
abril porque a reforma agrária, como todos os projetos do governo, dependia da aprovação do
Orçamento.
Nesta notícia, a predominância discursiva é da Comissão da Pastoral da Terra
(CPT), ligada à Igreja Católica, que teve forte influência na articulação e fundação do
MST. O tópico trata de um relatório apresentado pela CPT, denunciando as mortes dos
trabalhadores rurais, com grande ênfase no caso de Eldorado dos Carajás. Notícias
desenvolvidas a partir de picos denunciando a violência no campo não são recorrentes
nas coberturas jornalísticas, de forma geral, o que nos leva a acreditar que a principal
razão para que essa tenha sido publicada é a relação com as mortes em Eldorado dos
Carajás. Percebemos que, neste texto, o discurso do ministro da Política Fundiária, Raul
Jungmann, mesmo que respaldado pelo poder institucional, é o menos prototípico, pois só
aparece nos últimos parágrafos – de acordo com as normas dos cânones jornalísticos, esse
espaço é para os discursos ‘menos relevantes’. Além da condição desprivilegiada, o
discurso do ministro é colocado em uma relação responsiva ao do MST, causando um
efeito de sentido que enfraquece ainda mais sua ‘autoridade’.
Se nos frames I e II encontramos espaços de democratização discursiva, e, em
alguns casos, até a quebra dos padrões dos discursos tomados como prototípicos e
estereotipados, no Frame IV (A Criminalização do MST), o controle das instituições de
poder se de forma mais hegemônica, o que resulta em uma relação mais estagnada
entre as representações discursivas prototípicas estereotipadas. Esse frame assinala
para uma possível ação discursiva da imprensa no processo de deslegitimação do MST.
Tomamos esse aspecto como uma questão central a ser explorada no capítulo destinado à
109
análise sistemática do corpus, pois, caso essa característica se consolide, a partir da
análise mais aprofundada dos textos, poderemos confirmar uma das nossas hipóteses: a
deslegitimação de Eldorado de Carajás se deu não em uma ação discursiva direta sobre a
cobertura do massacre, mas em um processo paralelo e mais amplo – de deslegitimação
do próprio movimento. Observemos algumas questões no texto a seguir:
Exemplo 6:
Sem-terra saqueiam caminhão no RN (FSP, 22/08/1998)
Um grupo de cerca de cem pessoas organizadas pelo MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) saqueou anteontem um caminhão no km 40 da rodovia BR-405,
no município de Apodi (RN), levando cerca de cinco toneladas de alimentos.
O saque ocorreu por volta das 9h. Os sem-terra montaram uma barreira na estrada e
obrigaram o motorista Edmildo Dias Dutra a entregar o carregamento de lingüiça e mortadela. A
carga era da empresa São Mateus, de Recife.
Foi o terceiro saque organizado pelo MST desde o início do ano na região de Mossoró e
Apodi. No mês de maio, ocorreram saques nos municípios de João Câmara e Bento Fernandes. A
região é uma das mais atingidas pela seca no Rio Grande do Norte. Os saqueadores fazem parte
de um grupo de 105 famílias que está acampado há dois meses na fazenda Mororó, pertencente à
família Rosado, de Mossoró.
Atropelamento
O trabalhador rural Miguel de Souza, 42, coordenador do assentamento 17 de abril, em
Eldorado de Carajás (PA), foi atropelado e morreu anteontem durante uma marcha do MST. A
marcha reuniu cerca de 800 trabalhadores.
Segundo Gilmer de Oliveira, da direção estadual do MST no Pará, o trabalhador foi
atropelado por um carro por volta das 22h, quando a marcha estava na rodovia PA-275, próxima a
Curionópolis.
Um carro em alta velocidade teria investido contra o trabalhador, que foi atingido pelas
costas. O motorista fugiu em seguida. Testemunhas disseram que tratava-se de uma camionete
Saveiro. Um carro da Polícia Militar teria tentado seguir o carro.
Miguel de Souza morreu no local. A Agência Folha não conseguiu no final da tarde de
ontem contatar a polícia de Curionópolis para saber se o suspeito havia sido identificado ou
detido.
Miguel de Souza saiu anteontem de Parauapebas, por volta das 17h30, em um grupo de
cerca de 800 trabalhadores rurais que formam uma coluna.
A coluna vai marchar até Belém. Os integrantes vão participar do "Grito dos Excluídos", que
ocorre no dia 7 de setembro próximo.
O corpo do trabalhador estava sendo velado ontem no assentamento 17 de abril, antiga
fazenda Macaxeira, em Eldorado do Carajás. No local ocorreu o massacre de 19 sem-terra em
1996. Uma segunda coluna de trabalhadores rurais ligados ao MST, que saiu de São João do
Araguaia, deve chegar a Belém no dia 30.
Os dois trechos acima são partes de uma mesma notícia: a primeira parte é o
início do texto (título, lead e sublead) e a segunda é o seu desdobramento final, destacado
110
no texto por um intertítulo (“Atropelamento”). No primeiro trecho, a topicalização enfoca
os saques, enquanto a informação sobre a morte de um integrante do MST por
atropelamento, durante a marcha até Brasília, é publicada nos últimos parágrafos. As
informações principais, apresentadas no lead e sublead da notícia, tratam a ação dos sem-
terra como um crime, sem contextualizar os aspectos sociais e políticos que acarretam
tais ações: a falta de uma política governamental para os assentamentos, sem repasse de
verba ou infra-estrutura para o plantio, o que leva a uma situação de miséria e fome.
É interessante analisar a primeira linha do texto: “Um grupo de cerca de cem
pessoas organizadas pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
saqueou anteontem um caminhão no km 40 da rodovia BR-405”. O sujeito do enunciado
é indefinido, o que deixa ambíguo se as pessoas que participaram do saque são sem-terra,
ou apenas foram organizadas pelo MST’ para participar da atividade. Essa estratégia
pode levar à compreensão de que os saques são realizados como práticas criminosas, pois
não define que os sujeitos que praticam a ação são integrantes de um movimento social e
que essa é uma prática utilizada em casos de extrema necessidade de sobrevivência.
Desconsiderar este aspecto, através de efeitos discursivos, por relações sintáticas e
semânticas, é uma ação de criminalização do MST.
Também é importante ressaltar que não há discurso reportado nesses dois
primeiros parágrafos, o que não explicita qual perspectiva o jornalista assume para
elaborar a descrição do evento, que não testemunhou por si mesmo o saque. A análise
do discurso, entretanto, nos pistas sobre o discurso implícito no discurso do jornalista.
O verbo “obrigar”, neste enunciado: “Os sem-terra montaram uma barreira na estrada e
obrigaram o motorista Edmildo Dias Dutra a entregar o carregamento de lingüiça e
mortadela”, leva-nos a inferir que o narrador tomado como ‘fonte’ para descrever a ação
não era um dos participantes do movimento, mas sim alguém que se sentiu vítima.
Assim, ficou excluído o discurso do MST em um evento onde o movimento foi o
protagonista.
Ao centrar nossa análise na relação dinâmica e contextualizada da caracterização
dos atores e grupos sociais no continuum protótipo estereótipo pretendemos
exemplificar os seguintes aspectos centrais da atividade de (des)legitimação
desenvolvidos neste capítulo: i) trata-se de uma ação discursiva e sócio-cognitiva, que se
111
dá a partir de uma complexa articulação entre os mais distintos domínios discursivos; ii) a
(des)legitimação é um processo, daí seu caráter dinâmico e instável, estando sempre
atrelado a contextos sócio-históricos; iii) são sujeitos reflexivos, ou atores sociais, que
atuam nesse processo, em ações intersubjetivas, daí seu caráter sócio-cognitivo; iv) como
resultante dessas práticas, identificamos as distintas categorizações de atores e grupos
sociais, a partir da atribuição coletiva de características prototípicas ou estereotipadas.
4. A Fabricação da Realidade I: das categorias de análise
A ‘fabricação da realidade’, nos termos de Blikstein (2003), é um trabalho
coletivo, negociado, irremediavelmente social, sendo os discursos uma das práticas que
se revelam como responsáveis pelo modo como concebemos o mundo e agimos sobre ele.
112
Esses são alguns dos pressupostos teóricos norteadores desta investigação, que agora
passa para a sistematização de tais conceitos no processo de análise do corpus. Antes,
entretanto, é preciso desenvolver algumas considerações sobre as categorias utilizadas
para este estudo e, assim, justificar a formação do quadro teórico-analítico proposto. Os
aspectos abordados na análise dão conta das características discursivo-textuais
identificadas no corpus, constituindo o fenômeno investigado: o discurso
(des)legitimador do massacre de Eldorado do Carajás. Assim, a análise investiga como as
categorias operam nesse processo.
Tomamos como macrocategoria os frames de cobertura’. Toda a análise é
desenvolvida a partir das características particulares desses frames, que orientam o estudo
dos elementos de natureza cognitiva, discursiva e lingüística. Entendemos como frames
de cobertura’ os distintos direcionamentos, ou enfoques, desenvolvidos no jornal Folha
de S. Paulo (FSP), entre 18 de setembro de 1996 e 18 de setembro de 2006, período da
primeira década do massacre de Eldorado do Carajás.
Frames de Cobertura’ é uma categoria de natureza discursivo-cognitiva e foi
proposta a partir do estudo da prática jornalística. Defendemos que os frames operam na
organização e no desenvolvimento dos demais aspectos tomados para a análise, daí sua
característica macro. A partir do estudo dos frames de cobertura’ sobre Eldorado do
Carajás, é possível observar as mudanças discursivo-cognitivas no tratamento do caso, ao
longo dos anos, e como essas mudanças foram se constituindo no processo de negociação
social. Os frames tanto podem resultar de um amplo processo de negociação e articulação
entre distintos atores e grupos sociais; como também de uma prática mais restrita, a partir
de conversas e troca de informações entre os próprios jornalistas. Assim, essa
macrocategoria é relevante por duas questões básicas:
i) compreende o jornalismo como uma prática socialmente construída e
negociada, não como um mero registro linear e cronológico do desenrolar dos ‘fatos’;
ii) dá conta de aspectos da prática jornalística tanto de ordem individual quanto de
grupo.
É importante ressaltar, entretanto, que não é interesse desta pesquisa desenvolver
uma teoria sobre frames, ou mesmo fazer um apanhado das distintas propostas para esse
conceito. Isso pode ser encontrado nas obras de vários autores da Ciência Cognitiva
113
(Gardner [1985] 1987), na Lingüística de Texto (Beaugrande & Dressler, 1981; Koch,
2004), na Lingüística Cognitiva (Barsalou, 1992; Minsky, 1980; Lakoff, 2004) ou na
Análise da Conversação (Tannen, 1993).Tomamos aqui a idéia de frames de forma
genérica e ampla como um enquadramento, um enfoque no desenvolvimento de temas
para denominar uma categoria analítica, o que significa dizer que o termo frames de
cobertura’ foi desenvolvido a partir da nossa investigação e análise empírica do corpus.
Ou ainda: são elaborações deste estudo e não algo que está na cobertura do jornal, ou
mesmo pretende-se uma nova abordagem teórica sobre frames. Reforçando o que foi
dito: não tomamos os frames como uma noção teórica, mas um termo utilizado para o
desenvolvimento de uma análise. Assim, a idéia de frame, neste trabalho, não está
atrelada a alguma linha teórica. Trata-se, portanto, de um uso específico de tal noção,
com o objetivo de dar conta de uma proposta de análise.
No entanto, é importante esclarecer que tal categoria analítica não independe do
próprio conceito de frames. De forma ampla, ela está atrelada aos estudos desenvolvidos
sobre essa noção, nas linhas sociocognitiva e cio-interacionista que embasam a idéia
aqui proposta. Por isso, ao categorizar a cobertura jornalística a partir dessas abordagens,
assumimos também um posicionamento sobre as práticas discursivas, de forma geral,
assim como sobre a prática jornalística, especificamente. Ou seja: defendemos que os
jornais não apenas contam histórias, mas ajudam a criar essas histórias. Ou ainda, como
diferenciou Silva (2004), com base nos postulados de Marcuschi, o jornalismo não é um
mero retrato da realidade, mas sim um trato dessa realidade (2005c). Assumir tal
distinção é se distanciar de qualquer perspectiva teórica de natureza representacionalista,
objetivista ou mentalista. É assumir a atividade discursiva como um trabalho cognitivo
entre atores sociais, sendo essa atividade uma das forças mais poderosas de constituição
de uma sociedade.
Após essas breves delimitações terminológicas/teóricas, passamos a tratar de
forma sistemática o esquema elaborado para a análise discursiva, assim como das
questões teórico-metodológicos que envolvem as delimitações das categorias analíticas,
justificando-os e exemplificando-os.
114
4.1. O Esquema de Análise e suas Categorias
O esquema de análise conta da sistematização dos elementos constitutivos do
corpus investigado, delimitados a partir da nossa observação, tendo como base as
perspectivas teóricas defendidas sobre práticas social e discursiva, sendo a cognição o
elemento de interface entre essas duas práticas. Esses aspectos, a partir de suas
respectivas naturezas, articulam os estudos de elementos cognitivos, discursivos, textuais
e semânticos. Também é relevante para esta pesquisa a complexa inter-relação entre esses
aspectos e a dimensão sociopolítica do processo de (des)legitimação. Buscamos, assim,
uma investigação que dê conta das relações dessas dimensões, partindo de aspectos
textuais, sempre atrelados a contextos situados e sociais. Desse modo, o esquema/quadro
para a análise foi elaborado levando em conta uma dupla movimentação de setas:
textualcognitivo-discursivosócio-político. É a partir dessa dupla movimentação que
a prática lingüística constitui (e é constituída) pelo processo de (des)legitimação. Isso
significa dizer que vários aspectos envolvem a constituição da (des)legitimação, sendo
todos esses relevantes para a nossa compreensão epistemológica do fenômeno.
Entretanto, é no âmbito discursivo-cognitivo que se centra esta investigação. Os aspectos
macro-sociais do processo de (des)legitimação são discutido nos capítulos 1, 2 e 3.
Propomos o seguinte esquema de trabalho:
115
FRAMES DE COBERTURA
(Macrocategoria Analítica)
GÊNEROS TEXTUAIS
(Aspecto Cognitivo-pragmático)
TÓPICOS DISCURSIVOS
(Organização global do texto jornalístico; estrutura de relevância; desenfatização de
agência; eufemismo – deseufemismo; dualidade Nós x Eles)
UNIDADES DE AÇÕES LEGITIMADORAS
(Rede lexical; referenciação; atributos e valores; verbos introdutores de opinião)
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
(Acesso discursivo; protótipos - estereótipos; intertextualidade; interdiscursividade;
delimitação Nós x Eles)
ASPECTOS SÓCIO-POLÍTICOS
(Macrossocial)
116
As categorias sistematizadas nesse quadro são amplas e agregam outras mais
restritas, com o objetivo de proporcionar uma investigação detalhada dos aspectos que
operam na construção do discurso (des)legitimador. Tratamos, juntamente com as
considerações teóricas de cada categoria, mais detalhadamente sobre essa interligação. É
importante ressaltar, entretanto, que não iremos aprofundar essas considerações, pois
cada aspecto analisado envolve complexas discussões já amplamente desenvolvidas tanto
na Lingüística Lingüística Cognitiva, Semântica, Análise do Discurso como também
na Psicologia, na Sociologia e nas Ciências Cognitivas. Sendo assim, mesmo um trabalho
apenas de síntese dessas pesquisas seria exaustivo e fora do escopo desta investigação.
Por isso, desenvolvemos considerações pontuais, no sentido de esclarecer os objetivos de
análise e como eles se justificam para esta investigação.
4.2 Desenvolvendo as Categorias de Análise
Tomamos como categorias de análise elementos de naturezas cognitivo-
discursivas e lingüísticas, observando suas relevâncias no processo de construção do
fenômeno de legitimação. Percebemos que as categorias operam diferentemente na
construção do discurso legitimador, a partir das características cognitivo-discursivas de
cada frame investigado. Tal relação é importante para este estudo por dois aspectos: i)
nos possibilita investigar as distintas estratégias de elaboração discursivo-textual, a partir
de modelos contextuais situados. Assim, é possível analisar os discursos em sua
constituição intrinsecamente social e cognitiva; ii) reforça a importância da categorização
da cobertura jornalística a partir de frames, pois caracteriza como esse domínio opera
discursivamente na articulação das distintas demandas sociais; ao mesmo tempo em que
age na construção dessas demandas, a partir de suas próprias ideologias.
Frames de Cobertura
(A) Frame I: A Circulação das Versões
117
Este frame é constituído, prioritariamente, por textos relacionados aos primeiros
meses de cobertura, após o massacre de Eldorado do Carajás. Esta característica pode
estar relacionada a uma estratégia do jornal, em busca de uma caracterização democrática
da sua cobertura, ampliando a circulação de versões e opiniões sobre o massacre,
possibilitando o acesso a distintos atores/grupos sociais. Essa característica foi mais
recorrente no início da cobertura, entretanto também identificamos textos dessa natureza
ao longo de todo o período investigado. Nesta categoria, o jornal articula as distintas
versões sobre o episódio: governos, polícia, MST, movimentos sociais, igreja etc. A
investigação a partir desse frame é relevante para a identificação de possíveis discursos
‘privilegiados’ pela imprensa e, assim, como se foi construindo a versão tida como
‘verdadeira’ ou legítima sobre o massacre. A partir dos títulos abaixo, vejamos alguns
exemplos desses aspectos. É importante ressaltar que todos esses títulos são de uma
mesma edição da Folha de S. Paulo (19 de abril de 1996), dois dias após o massacre,
quando a equipe do jornal pôde chegar a Eldorado de Carajás e fazer uma cobertura mais
detalhada do que a do dia anterior.
Exemplos:
Polícia iniciou tiroteio, dizem os feridos (FSP, 19/04/1996)
MST diz que há "política de extermínio" (FSP, 19/04/1996)
Incra acusa "política" do MST (FSP, 19/04/1996)
Ministro culpa trabalhadores (FSP, 19/04/1996)
(B) Frame II – A Mobilização da Sociedade
O enfoque está nas diversas manifestações e atos políticos reivindicando justiça
em Eldorado dos Carajás. Identificamos uma forte participação da ala progressista da
Igreja Católica, politizando o discurso sobre o massacre criticando a falta de uma
política de reforma agrária, pedindo o fim dos latifúndios etc. –, além de exigir punição
para os culpados pelas mortes dos sem-terra. A mobilização de grupos internacionais
também foi fundamental para a caracterização desse frame. Essas mobilizações geraram
uma crise de legitimação no Governo Federal, provocando a manifestação discursiva do
118
então presidente, Fernando Henrique Cardoso (FHC), sobre o massacre, sendo esses
discursos construídos a partir de algumas estratégias retóricas, com o objetivo de
amenizar as críticas sofridas pelo Governo. Essas observações estão desenvolvidas nas
análises, no quinto capítulo. Também há ocorrências de manifestações contrárias ao
MST, por parte de segmentos conservadores da sociedade principalmente da União
Democrática Ruralista (UDR).
Exemplos:
Cardeal pede reforma agrária "urgente" (FSP, 19/02/1997)
Paris acende velas em ato (FSP, 18/04/1997)
Ato lembra morte de 19 sem-terra (FSP, 17/04/1999)
FHC critica resultado do julgamento (FSP, 20/11/1999)
Fazendeiros fazem reunião (FSP, 16/01/1997)
(C) Frame III – A Legalização de uma Versão: a cobertura dos trâmites jurídicos
Esse frame está centrado na cobertura jornalística sobre os desdobramentos
jurídicos do massacre. É de extrema relevância tal análise, pois o encaminhamento do
caso sofreu várias criticas, com denúncias do Ministério Público e de organizações não-
governamentais, apontando irregularidades, corrupção e abuso do Poder Judiciário.
Investigar como o jornal tratou tal questão nos permite observar se há uma relação crítica
entre os domínios jurídico e jornalístico, ou uma relação de sustentação de forças entre os
dois poderes.
Exemplos:
Júri do massacre no PA causa polêmica (FSP, 23//10/1998)
Julgamento dos PMs deve ser reiniciado na próxima semana (FSP, 27/08/1999)
Testemunhas complicam acusados (FSP, 19/08/1999)
Promotor teme absolvição dos 147 PMs do massacre (FSP, 20/08/1999)
119
TJ anula 1º julgamento de Carajás (FSP, 31/10/2000)
(D) Frame IV – A Criminalização do MST
Esse frame é de natureza estereotipada, pois as topicalizações das notícias estão
atreladas à ilegalidade, tais quais ‘invasões’, saques e protestos, mesmo quando essas
questões eram secundárias, diante das reivindicações dos sem-terra. Isso foi utilizado
pelos grupos contrários ao MST (ruralistas, latifundiários, governos) para a construção do
discurso de que os sem-terra representam ‘perigo’ para a sociedade, discursos esses que
operaram na construção de modelos mentais estereotipados sobre o movimento.
Exemplos:
Sem-terra bloqueiam BR-116 no Ceará (FSP, 24/01/1997)
MST já está em 23 Estados (FSP, 07/05/1998)
MST vai incentivar saques no Nordeste (FSP, 25/04/1998)
Exército cerca prédio em Recife (FSP, 18/04/1998)
Jungmann não negociará com invasores (FSP, 08/01/1997)
(E) Frame V – A Partidarização do MST
Trata-se da associação do MST a questões político-partidárias, desvinculando-o
da sua natureza de movimento social, que se organiza a partir de práticas e reivindicações
próprias. Essa associação é entendida como um aspecto de deslegitimação do movimento,
já que o enfoque do tratamento também é estereotipado, pois, além de desvirtuar a
discussão sobre a reforma agrária e o direito ao trabalho no campo, principais causas de
luta dos sem-terra, constrói uma representação estereotipada do movimento, situando
seus atores sociais como meros figurantes’ na disputa política entre o Partido dos
Trabalhadores (PT) então oposição e o Partido Social Democrata do Brasil (PSDB)
então governo.
120
Exemplos:
Alianças atrapalham FHC, afirma Rainha (FSP, 18/02/1997)
Prefeituras do PSDB e PTB dão apoio à marcha dos sem-terra (FSP, 20/02/1997)
Sem-terra lidera ato contra FHC (FSP, 18/04/1997)
Acusador é primo de prefeito petista (FSP, 26/08/1999)
Boné substituiu chapéu de palha (FSP, 06/07/2003)
(F) Frame VI - o reframing: a não-ocorrência
A justificativa para tomarmos como uma categoria de análise uma ação discursiva
que não chegou a acontecer é o nosso entendimento sobre o ato do silenciar, ou do não-
dito, como um gesto discursivo. Vários são os estudos sobre esta perspectiva,
desenvolvidos nas distintas análises do discurso, na pragmática e na psicologia. Contudo,
não temos como objetivo nos aprofundar nesses estudos. Tomamos essa perspectiva para
tratar do aspecto que propomos: o reframing. Esta noção foi desenvolvida por Lakoff
(2004) e conta da mudança social a partir da relação: cognição discurso
mudança social.
A idéia de reframing foi tratada no segundo capítulo, mas como uma contribuição
para a construção de um quadro teórico. Agora, trazemos essa discussão para desenvolver
uma categoria analítica, a qual, obviamente, fundamenta-se na proposta teórica na qual
foi elaborada. Para melhor entender a proposta dessa categoria, retomamos brevemente a
noção apresentada por Lakoff (2004) e, assim, justificamos nossa proposta. Segundo o
autor, operamos a partir de conceitos que integram o nosso sistema cognitivo, construídos
a partir de processos discursivos e sócio-históricos. Framing é uma ação cognitiva
conceitual que orienta nossa forma de ver o mundo. Por isso, para Lakoff (2004), é
possível ocorrer mudança social se houver uma reconceitualização desse enquadre,
acionadas por palavras-discursos.
Partindo desses pressupostos, defendemos que, devido ao forte controle dos
grupos do poder discurso da Folha de S. Paulo, não houve essa movimentação e,
conseqüentemente, também não houve mudanças conceituais e ideológicas. Ou seja, não
121
identificamos um frame de cobertura’ que tenha sido norteado pela perspectiva do MST.
Assim, a FSP tratou o massacre dos sem-terra a partir de um único modelo conceitual,
ainda que vários discursos tenham circulado no jornal durante os dez anos analisados no
corpus desta investigação.
Isso porque a maior parte dos atores sociais que tiveram acesso aos vários
desdobramentos da cobertura opera sob a mesma perspectiva conceitual, pois estas são
elaborações mentais sociais, com forte característica de pertença de grupo e,
conseqüentemente, com orientações ideológicas semelhantes. Apenas com um reframing,
ou seja, a partir da construção e de uma ampla circulação de discursos elaborados a partir
de distintas estruturas conceituais de grupos diferenciados aos do poder seria possível
iniciar um processo de mudança dos modelos mentais sobre os sem-terra e, assim,
promover uma mudança social. Por isso, Lakoff (2004) cita a quebra de estereótipos e de
preconceitos como ações difíceis de serem atingidas, o que seriam processos de
reframing.
Gêneros Textuais
Os gêneros não são tomados como uma categoria de análise, pois os entendemos
como intrínsecos a qualquer prática comunicativa, agindo na constituição recíproca da
produção textual e das práticas sociais. Trabalhamos com a noção de gênero como
elementos pragmáticos, que operam na prática discursiva, e não como elementos formais
ou estruturas gidas. Gêneros são elementos pragmáticos e cognitivos, pois orientam e
interferem na produção/compreensão de textos, como também são sensíveis e maleáveis
aos processos de mudança sociocomunicativa. Daí sua força legitimadora e sua
propriedade estruturante do discurso. Por isso, mostra-se relevante para o estudo do
fenômeno da (des)legitimação pesquisar a ação dos gêneros textuais, a partir das
especificidades dos frames de cobertura, e sua relação constitutiva com as práticas
sociais.
Esse aspecto será levado em conta na macroanálise dos frames, levando em conta
como ele opera na estruturação das especificidades dessas categorias, assim como as
diferentes ações discursivas do jornal, ao longo de toda cobertura sobre o massacre de
122
Eldorado do Carajás. Para desenvolvermos essa análise sobre gêneros, precisamos de
trabalhos que os investiguem a partir de perspectivas sócio-histórica, cognitiva e retórica.
Assim, seguimos os postulados teóricos de Bazerman (2006, 2005, 1994), Marcuschi
(2003b) e Miller (1994). Os dados apresentados a seguir exemplificam a reflexão que
propomos nesta investigação, ao articular a ocorrência dos gêneros e as relações sócio-
discursivas que constituem cada macrocategoria de análise.
Observemos que os discursos e os gêneros mudam significativamente, devido à
natureza de cada enfoque de cobertura do jornal. No frame I, como tratamos, o efeito
de sentido principal é o da ‘pluralidade de discursos’, da ocorrência maior dos gêneros
ditos ‘opinativos’: artigos de opinião (09); artigos de opinião de articulistas (04);
enquanto no frame III, que trata da cobertura dos trâmites jurídicos, identificamos um
maior controle discursivo e a pouca ocorrência do gênero artigos de opinião (03), que
caracteriza esse controle. No próximo capítulo, essa questão é tratada mais
detalhadamente. Apresentamos os exemplos desses dois frames, por agora, por serem
significativos para a discussão que propomos. É importante ressaltar que a análise
sistemática desta investigação é restrita aos gêneros notícia e notas jornalística e
opinativa, conforme justificamos no primeiro capítulo. Entretanto, agregamos ao estudo
considerações sobre as ocorrências dos gêneros identificadas no corpus por serem
relevantes para este trabalho.
Abaixo, seguem os dados sistematizados sobre a ocorrência dos gêneros e seus
respectivos frames de cobertura:
Frame I – A circulação das versões (ocorrências em 1996):
Notícias – 69
Artigos de Opinião – 09
Notas Jornalísticas – 09
Artigos de Opinião (Articulistas/FSP) – 04
Frame III A Legalização de uma Versão: a cobertura dos trâmites judiciais
(ocorrências em 1999):
123
Notícias – 60
Artigos de Opinião – 03
Notas de Opinião – 01
Entrevista ping-pong – 01
Observemos o destaque para a ocorrência de gêneros ‘opinativos’ (artigos de opinião e
notas de opinião) em relação aos frames:
Frame I: 13
Frame III: 04
Partindo desses exemplos, gostaríamos de retomar um aspecto discutido no
segundo capítulo, a partir das considerações de Miller (1997) sobre a relação dos gêneros
textuais e as instituições que aqui exemplificamos com a instituição jornalística.
Segundo a autora, os jornais forçam o enrijecimento dos gêneros o que vai de encontro
à natureza dos mesmos com o objetivo de garantir o controle discursivo. Para Miller
(2007), os gêneros jornalísticos tendem a ser institucionalizados, atrelados a uma forma
fixa, o que opera no próprio controle discursivo. Ressaltamos essa discussão, pois nos
parece relevante para uma melhor compreensão dos exemplos apresentados: os jornais
não controlam os gêneros que veiculam, como também atrelam sua circulação a um
formato institucionalmente definido. Isso resulta, em parte, nos controles discursivos e
cognitivos: sobre o que se lê nos jornais e como os gêneros orientam tal leitura.
Tópico Discursivo
O significado do discurso não pode ser limitado à significação das suas palavras e
das suas sentenças. O discurso também tem significados globais, os quais van Dijk
(2003) denomina de ‘tópicos’ ou ‘temas’. Eles representam a informação mais importante
de um discurso e nos diz sobre o que ele trata, daí sua natureza ideológica de orientação
de leitura. Essa noção de tópicos discursivos é de natureza semântico-cognitiva,
124
diferentemente de outras linhas de estudo, nas quais os tópicos estão atrelados apenas a
relações sintáticas (Halliday, 1978).
Nesta investigação, os tópicos são entendidos como uma macro-ação discursivo-
cognitiva e organizam os aspectos centrais tratados em um texto. Assim, eles dão conta
da organização global discursiva: como e quais atores/grupos sociais estão representados;
ou ainda como e quais os eventos sociais são narrados e descritos. A topicalização não
pode ser atrelada a uma estrutura lingüística específica, pois resulta de um trabalho de
inferência do leitor. No nosso estudo, investigamos o tópico a partir da análise da
‘estrutura de relevância’ do texto jornalístico, que é composta por: titulo, lead, sublead.
(A) Estrutura de Relevância
A estrutura de relevância articula aspectos de ordem cognitiva, discursiva e
textual, constituindo o que nomeamos de topicalização discursiva. Também está atrelada
aos modelos de contexto construídos pelos repórteres no processo de apuração/escrita do
texto. Assim, é a partir dessa análise que investigamos, de forma global, a macroestrutura
do texto jornalístico (van Dijk, 1988). Mesmo fazendo parte do modelo canônico dessa
macroestrutura textual, a estrutura de relevância é elaborada, efetivamente, no momento
da escrita, a partir da influência dos distintos modelos de contexto que constituem a
perspectiva do jornalista sobre o que irá escrever. Por isso, sua natureza envolve
elementos ideológicos, cognitivos, interacionais e da própria rotina da prática jornalística.
E assim retomamos uma discussão iniciada no segundo capítulo sobre a escrita
jornalística: ela é irremediavelmente social e individual, pois resulta das experiências
vividas pelo repórter no processo de apuração da história; da convivência com as pessoas
as quais teve acesso para essa apuração; da orientação ideológica do próprio repórter e
como a orientação ideológica do jornal para o qual trabalha interfere em sua escrita; do
tempo disponível para aprofundar a apuração do caso; e até mesmo do tempo disponível
para escrita do texto. Na construção do tópico discursivo, todos esses aspectos são
articulados e operam na decisão do jornalista de como iniciar sua escrita: quais os
atores/grupos sociais que terão acesso discursivo, ou seja, irão orientar a perspectiva do
assunto tratado, os dados privilegiados, as citações destacadas etc. D a força da
125
topicalização na construção do discurso do jornal e seu efeito cognitivo, que opera na
construção dos modelos mentais dos leitores sobre o evento social tratado.
A partir da estrutura de relevância do texto jornalístico, é possível investigar a
estratégia semântica da polarização Nós x Eles: como se a apresentação negativa ou
positiva dos distintos grupos sociais, ou seja, como o jornal os (des)legitima, e em que
parte do texto. Isso está atrelado à análise da construção de atores e grupos sociais
prototípicos ou estereotipados, a partir de modelos de contextos situados. Segundo van
Dijk (2006a), poucas estratégias são tão recorrentes em ‘debates’ sobre Outros quanto as
expressões polarizadas e a categorização de pessoas como Nós e Eles.
Essa relação também é construída a partir do processo de ‘desenfatização de
agência’, pois se trata de uma estratégia que opera na construção dessas representações.
Para melhor explicar a polarização Nós x Eles, remetemos aos estudos de van Dijk
(2006a) sobre o tratamento da mídia européia em relação aos imigrantes. Esses discursos
delimitam os grupos que detêm o poder (Nós), seja esse poder de ordem social,
econômica, de gênero ou étnica, e os grupos desprivilegiados (Eles), ou como os estudos
sociológicos brasileiros conceituam como ‘excluídos’: são os atores sociais que estão à
margem da participação institucional e são desprovidos de qualquer poder, seja de
natureza social, política ou discursiva.
De acordo com van Dijk (2006a), a auto-representação do Nós tende a ser atrelada
a aspectos positivos são grupos democráticos, tolerantes, éticos etc.; enquanto a
representação do Eles é tratada a partir de aspectos estereotipados – são violentos,
baderneiros, oportunistas, transgressores da lei etc. Como dentre os recursos que detêm o
grupo do Nós é o poder ao acesso discursivo, essas representações tendem a influenciar
na construção da memória social sobre os grupos excluídos. Conforme discutimos
teoricamente no primeiro capítulo; e a partir da análise do discurso da Folha de S. Paulo,
no quinto capítulo, situamos o jornalismo como um domínio atrelado às instituições do
poder. Isso significa que a construção do seu discurso é constituída a partir da sua auto-
representação no grupo Nós, o que pode variar em contextos sociais específicos, em
resposta a uma demanda da sociedade. Esse aspecto é de extrema relevância para esta
investigação, pois opera na construção do discurso deslegitimador do MST. Daí a
importância do seu estudo no nosso quadro analítico.
126
(B) Eufemismo – Deseufemismo
O estudo do eufemismo e do deseufemismo a partir de uma escala gradativa ou
um continnum é proposto por Johnstone (2002). Para a autora, a construção da
desenfatização/enfatização dos sentidos em um texto se a partir dessa relação em
escala e está relacionada a escolhas dos autores, ou seja, a assumir posições na elaboração
de um texto. Essa perspectiva também é interessante para este estudo porque toma a
elaboração dessas significações a partir das relações léxicas – ou rede lexical, como
conceituou Marcuschi (2004b). Assim, enquanto o eufemismo opera na generalização
semântica, o deseufemismo estaria no outro extremo dessa escala, enfatizando sentidos.
A relação se estabelece, então, a partir da força significativa das palavras, dentro de uma
elaboração discursiva. Neste caso em estudo, um exemplo de eufemismo para o caso de
Eldorado do Carajás seria o item lexical ‘conflito’. Operando com outra carga semântica,
o item lexical ‘massacre’ enfatiza a linha ideológica do discurso. Para Johnstone (2002),
palavras como ‘genocídio’ e ‘extermínio’ também têm esse efeito, em outros contextos.
(C) Título, Lead e Sub-lead
A importância da investigação dessas categorias textuais está nas suas
potencialidades de orientações de leituras. Os títulos funcionam como guias para a
compreensão. Como ressaltou Marcuschi (1986), eles são a primeira entrada
lingüística/cognitiva do texto e, por isso, é também o seu primeiro elemento de coesão.
Por isso, eles operam como organizadores textuais, tanto do ponto de vista proposicional
como cognitivo (Marcuschi, 1986). Van Dijk (1988) destaca que pelas suas localizações
na estrutura da notícia, o título, sempre precedido do lead, tem a função clara de trazer o
assunto principal tratado na notícia. Em uma relação associativa às organizações
canônicas das narrativas, essas duas categorias operam como a categoria ‘sumário’. O
lead é o primeiro parágrafo da notícia e, geralmente, tem como principal característica
responder às questões `quem?; quando?; onde?; como?; por que?´. De acordo com os
manuais de redação jornalística, essas respostas teriam a função da ‘objetividade’, pois
127
trariam logo no início do texto as questões ‘mais relevantes’, o que tornaria a leitura da
notícia mais ágil. O sub-lead é o segundo parágrafo da notícia e tanto pode ser composto
por tais respostas, divididas entre o lead e o sub-lead, como pode trazer aspectos mais
amplos da história.
Dentre os gêneros jornalísticos, a notícia é o mais controlado por essa organização
canônica: título - lead - sublead. Retomando as considerações de Miller (2007), é a partir
dessa formulação rígida que os jornais tentam institucionalizar o gênero e, assim, ter
maior controle sobre o discurso. Esse formato foi desenvolvido a partir de textos de
telégrafos enviados pelos jornalistas correspondentes da Guerra da Secessão nos Estados
Unidos. Devido aos problemas técnicos e limite de tempo, os jornalistas optaram por
enviar primeiramente as informações mais importantes, ou ainda, mais ‘objetivas’. Antes,
as notícias tinham como abertura um comentário ou uma análise. De acordo com os
cânones do jornalismo, o novo formato tornava mais rápido o envio das notícias, como
também facilitava a leitura. Em uma perspectiva discursivo-cognitiva, entretanto, é
importante discutir essa organização da notícia como uma estratégia de orientação para a
compreensão do tópico tratado, daí seu forte caráter ideológico.
Unidades de Ações Legitimadoras
São basicamente de ordem semântico-cognitiva e dão conta dos movimentos
discursivos, pois estão atreladas à construção de significação dos textos. Analisamos as
ações legitimadoras a partir das categorias ‘redes lexicais’, ‘conceitos’, ‘atributos’,
‘valores’ e ‘nominalizações’. A delimitação da análise em alguns elementos semânticos –
que uma única análise nunca esgota as várias possibilidades de observação e
significação de um texto se a partir da relevância desses aspectos na construção do
discurso (des)legitimador. Pois, se um texto-discurso se constitui a partir de uma teia de
significações, a observação mais detalhada desses elementos traz à tona algumas
especificidades de ação para a construção de fenômenos específicos. Assim,
identificamos que algumas categorias semânticas operam mais sistematicamente na
constituição do discurso (des)legitimador, agindo no processo de interface entre os
aspectos macro (decisões governamentais, contextos sociais, posicionamento ideológico
128
dos jornais etc.), as significações textuais e a constituição dos discursos. Discorremos,
agora, sobre as categorias investigadas nesse processo de elaboração discursiva.
(A) Rede Lexical
Este trabalho aborda o estudo do léxico seguindo a perspectiva defendida por
Marcuschi (2004b), que compreende a relação entre os itens lexicais em um texto a partir
de uma relação em ‘rede’. Para o autor, observar o léxico sob tal perspectiva significa
perceber as ações discursivas e cognitivas que se dão nos eventos lingüísticos. Isso
significa investigar esse aspecto a partir de uma abordagem cognitiva, assumindo que o
mesmo opera a partir de uma dinâmica articulação conceitual e semântica, e não como
um sistema de listas, em uma delimitação estabelecida e fechada por campos semânticos.
Seguindo Marcuschi (2004b), defendemos que as conexões léxicas em um texto se dão a
partir de estratégias textuais e não são relações imanentes, estabelecidas por relações
estruturais prévias, mas construções que se dão no ‘mundo textual’. Daí sua força na
construção do discurso e dos seus efeitos de sentido.
Na perspectiva da Análise Crítica do Discurso (van Dijk 1997; Fairclough 1989),
a lexicalização é tratada como um aspecto importante para a investigação das relações
ideológicas manifestas em um texto. A dimensão ideológica do léxico também é
ressaltada por Toolan (1989). Segundo o autor, mesmo quando a imprensa se posiciona
favorável às causas dos excluídos, os textos sobre esses temas são construídos a partir de
redes lexicais fortemente marcadas por itens que remetem à violência e à agressão. Este
aspecto pode estar atrelado a modelos mentais consolidados nas ideologias dos jornais,
daí o aspecto cognitivo que propomos da conexão lexical articuladas em redes. No caso
do discurso da Folha de S. Paulo sobre o MST, identificamos essa relação em várias
ocorrências no corpus de pesquisa. Isso nos possibilita, inclusive, situar a lexicalização
como uma ação discursiva que opera na construção do discurso da deslegitimação do
movimento.
129
Observemos, no texto abaixo
14
, que toda a construção textual se dá a partir do
item lexical invasão, ou por outros itens que estão em relação semântico-cognitiva com
ele. Essa rede lexical opera na descrição do massacre de Eldorado do Carajás e está
predominantemente marcado pelo discurso dos grupos do poder. É importante ressaltar
que esse quadro-resumo foi publicado no segundo dias após o massacre. Os trechos em
itálico foram marcados por nós para melhor exemplificar o fenômeno tratado.
Exemplo 7:
Cronologia da invasão (FSP, 19/04/1996)
- maio.94 _ Um grupo de trabalhadores ligados ao MST invade a fazenda Rio Branco, em
Parauapebas. Eles querem a desapropriação da Rio Branco e da Macaxeira, fazenda vizinha
- outubro.95 _ Depois de um ano e meio, o Incra compra a fazenda Rio Branco e começa a
assentar 850 famílias. No mesmo mês, as lideranças do MST no Pará começam a cadastrar
trabalhadores para participar do movimento e das invasões.
- 8.nov.95 _ Cerca de 3.500 sem-terra invadem o Centro Agropastoril da Prefeitura de
Curionópolis
- 29.dez.95 _ Cerca de mil trabalhadores ocupam a pista da PA-275. Depois de oito horas de
interdição, eles liberam a estrada
- 1.mar.96 _ Aproximadamente 500 integrantes do MST ameaçam invadir o complexo
Macaxeira. A Polícia Militar informa que a situação está cada vez mais tensa
- 3.mar.96 _ O governo do Pará define um prazo até junho para resolver o problema da
Macaxeira
- 5.mar.96 _ Às 5h, os sem-terra iniciam a invasão da Macaxeira. Muitos se instalam no km 18
da rodovia PA-275
- 6.mar.96 _ É firmada uma trégua de 30 dias entre o governo do Estado e os invasores. O
governo se compromete a negociar junto ao Incra o assentamento dos sem-terra
- 11.mar.96 _ O governo envia ao acampamento dos sem-terra na Macaxeira 12 toneladas de
alimentos e 70 caixas de remédios
- 15.mar.96 _ A Human Rights Watch, uma das mais importantes organizações não-
governamentais de defesa dos direitos humanos, solicita ao governo do Pará providências para
evitar o conflito armado na Macaxeira
- 28.mar.96 _ Mais de 40 fazendeiros de Marabá e região vão a Belém para pedir ao governo
providências contra as invasões
- 8.abr.96 _ Começa caminhada dos sem-terra de Curionópolis rumo a Belém.
- 11.abr.96 _ Cerca de 1.200 sem-terra interditam a PA-275 ainda em Curionópolis e saqueiam
um caminhão com 16 toneladas de alimentos
- 15.abr.96 _ Marcha dos sem-terra completa 40 km e chega a Eldorado de Carajás
- 16.abr.96 _ Os sem-terra caminham rumo a Marabá e interditam a PA-150 (principal rodovia de
ligação do sul do Estado a Belém). São enviados cerca de 200 PMs para o local
- 17.abr.96 _ Governo do Estado ordena que a PM retire os sem-terra da estrada. Os dois grupos
entram em confronto. Pelo menos 23 pessoas morrem no tiroteio
14
Este gênero textual é bastante usado pelo jornal Folha de S. Paulo. Trata-se de um quadro-resumo da
notícia que está sendo veiculada na mesma página. o é o mesmo que infográfico, também recorrente na
editoração da FSP, mas também é constituído por elementos multimodais.
130
(B) Expressões Nominais Referenciais (Nominalizações)
A referenciação é uma atividade criativa e não um simples ato de designação
(Marcuschi, 2005a). Diante disso, a construção referencial deve ser tida como central a
todas as ações lingüísticas. Tomando os postulados de Marcuschi (2005a) sobre a ão
referencial, a partir da atividade de nominalização, juntamente com suas reflexões sobre
construção de sentido e funcionamento do léxico, chegaremos aos objetivos desta
investigação ao analisar como a referenciação opera na construção do discurso
(des)legitimador. Fundamentando esses princípios, é preciso entender como o autor
entende a relação entre língua, significado e interação. Para Marcuschi (2005a:14), “a
língua em si mesma não providencia a determinação semântica para as palavras e as
palavras isoladas também não nos dão sua dimensão semântica, somente uma rede lexical
situada num sistema sócio-interativo permite a produção de sentidos”. Assim, dizer que
todo sentido é situado equivale a postular que nada se isoladamente, daí a relação
referencial ser uma das operações que constroem o sentido em um texto, e que esse
sentido está sempre atrelado a uma atividade cognitiva imanente, e não a algo
determinado.
As nominalizações operam no processo de referenciação textual (Koch, 2004) e
por terem a propriedade de sumarizar as informações-suporte contidas em segmentos
precedentes do texto, têm uma natureza fortemente ideológica e a capacidade de
transformar essas informações em ‘objetos do discurso’, como formulou Mondada
(1995). Segundo a autora, estamos sempre nos referindo a fenômenos sócio-
culturalmente construídos, e não a fenômenos da natureza. Assim, as nominalizações
atuam no processo de categorização de grupos e atores sociais, pois são essas expressões
que nomeiam ‘as coisas’ em ‘alguma coisa’. Observemos essa construção no processo de
referenciação no artigo de opinião abaixo:
Exemplo 8:
Sem Terra, com TV (FSP, 19/04/1997)
131
Nos dois momentos em que o presidente Fernando Henrique Cardoso se referiu ontem
publicamente ao MST, não conseguiu entender-se com ele próprio. Ficou entre o conciliador e o
acusador, entre menosprezar e valorizar a força do movimento.
Do encontro fechado com a liderança do grupo, não havia informações até o momento de
escrever.
Enquanto o presidente não se decide, o que espanta é a mudança no tratamento dispensado ao
MST pelos telejornais. Até faz pouco, o grupo era tratado como um bando de radicais.
Agora, viraram queridinhos da pátria. ''Efeito Rei do Gado'', palpita Gustavo Franco, o diretor da
Área Externa do Banco Central, aludindo à novela da Rede Globo que introduziu os sem-terra no
horário nobre.
(C) Verbos Introdutores de Opinião
Marcuschi (2007) defende a importância do estudo dos verbos selecionados pelos
jornalistas para introduzir a opinião dos entrevistados por entender essa ação como de
caráter essencialmente ideológico. Isso porque os verbos introdutores operam na
construção do conteúdo ao que se atribui como sendo a declaração de alguém, daí a
potencialidade desses verbos na orientação das interpretações de leitura, agindo, por fim,
na categorização do discurso do outro. A investigação dessa relação semântico-discursiva
trata de analisar como o jornalista age na construção de sentido, a partir do que não está
dito no texto. Ou seja, a seleção de verbos introdutores é um instrumento lingüístico que
nos propicia identificar qual a opinião não explicitada do jornalista sobre o discurso
do entrevistado, assim como a representação social a ele atribuída. Segundo Marcuschi
(2007:146), “apresentar ou citar o pensamento de alguém implica, além de uma oferta de
informações, também uma certa tomada de posição diante do exposto”.
Em seu estudo, Marcuschi (2007) identificou recorrências no uso de alguns
verbos, quando se trata de introduzir a opinião dos discursos que ele definiu como
‘poderosos’ e ‘populares’. Segundo o autor, quando se trata do ‘discurso dos populares’,
a opinião do entrevistado é introduzida no texto corrido e não vem acompanhada de
qualquer comentário do jornalista. Assim, esses discursos são tratados de forma mais
trivial, sem o uso de qualquer verbo que lhes atribua valores. Quando se trata do
‘discurso dos poderosos’, entretanto, eles sempre são acompanhados por comentários, o
que além de ressaltar a ação de introduzir tal discurso, também exige o uso do verbo que
vai categorizá-lo. Segundo Marcuschi (2007), quando a ocorrência dos verbos
132
introdutores para os dois discursos uma diferenciação de usos de verbos que levam a
distintos efeitos de sentido. Segundo o autor, “tudo se resume no seguinte: qual a
diferença entre se relatar que alguém ‘disse’ algo que alguém ‘declarou’, ‘enfatizou’,
‘confirmou’, ‘reiterou’, ‘revelou’, ‘advertiu’, ‘contou’, condenou’, ‘elogiou’,
‘confessou’, ‘achou’ isso ou aquilo com seu discurso? (Marcuschi, 2007:158)”. A
resposta dada pelo autor, e que assumimos em nossas análises, é que a ação desses verbos
hierarquiza, reforça, discrimina e categoriza os autores das respectivas ações relatadas.
São vários os exemplos apresentados nas análises dos textos jornalísticos que sustentam
essas considerações: enquanto um ministro “culpa” os sem-terra pelo massacre de
Eldorado de Carajás, o MST se “defende” das acusações do governo. Estes são trechos do
corpus investigado que reforçam a discussão proposta por Marcuschi (2007).
(D) Atributos e Valores
Estas duas categorias são desenvolvidas com base no trabalho de Barsalou (1992)
sobre o processo de categorização e construção de frames. Para o autor, os frames
fornecem a representação fundamental do conhecimento na cognição humana. Em seu
estudo, Barsalou (1992) identifica que os frames representam os atributos e os valores
que compõem o conhecimento. O autor desenvolve um trabalho complexo sobre a
constituição dos frames, com o enfoque nos aspectos semântico-cognitivos desses
elementos, no processo de organização e elaboração do conhecimento. Entendemos que
as noções de ‘atributo’, ‘valor’ e ‘conceito’ propostos pelo autor, mesmo que dentro de
um quadro teórico diferenciado, são de extrema relevância para o processo de construção
de sentido e, conseqüentemente, para analisar discursos. Por isso, operamos com esses
conceitos nesta investigação com o objetivo de observar o funcionamento desses aspectos
na construção discursiva.
Discutimos a teoria de Barsalou (1992) de forma bastante pontual, ressaltando as
questões que podem contribuir para a análise discursiva. Para o autor, ‘atributo’ é um
conceito que descreve pelo menos um aspecto de um membro de uma categoria. Em seu
exemplo, cor pode descrever um aspecto de um pássaro e lugar pode descrever um
aspecto de férias. Assim, um ‘conceito’ apenas se torna um ‘atributo’ quando descreve
133
pelo menos um membro de uma categoria. Por exemplo, quando uma cor descreve um
aspecto de um pássaro. Quando as pessoas consideram cor de forma isolada (sua cor
favorita, por exemplo) é apenas um conceito, não um atributo. Trazendo para o nosso
trabalho, podemos exemplificar: trabalhador (conceito); trabalhador rural (atributo).
Assim, um conceito se torna um aspecto e um atributo de uma categoria quando
relacionado a um conjunto de outros aspectos, e não isoladamente. Por isso, como
observou Marcuschi (2004c), o que em um caso é um atributo pode não ser em outro, e
nesse caso seria apenas um conceito. Outra vez, exemplificando: se tomarmos como uma
categoria ‘trabalhador rural sem-terra’ os aspectos ‘rural’ e sem-terra’ estão operando
como conceitos, não como atributos e valores, o que poderia acontecer em outra relação
de categorização.
Para Barsalou (1992), o conceito é a informação descritiva que as pessoas
representam cognitivamente uma categoria, incluindo informações definicional,
prototípicas e funcionais. Nesse caso, como ressaltou o autor, o seu uso da noção de
conceito assemelha-se vagamente a sentido e intensão. Já a noção de ‘valor’ está atrelada
à de atributo, ou ainda, “a definição de valor segue a definição de atributo (Barsalou
1992:31)”. Os valores são conceitos subordinados a um atributo, por isso eles herdam
informações dos conceitos de seus respectivos atributos.
Uma questão levantada por Barsalou (1992:31) nos parece bastante interessante,
no que diz respeito à discussão sobre categorização e suas relações atributivas. O autor
pergunta: “Que aspectos de uma categoria podem ser atributos”? Pensar nessa questão é
pensar a própria noção de categoria e como se o seu processo de constituição. A
resposta de Barsalou (1992:31) é fluída, como pedem essas noções: “claramente, isso
depende significativamente do domínio ontológico da categoria”. Em nossas análises, por
exemplo, identificamos a fluidez do atributo ‘militante’, em relação às distintas
categorizações dos sem-terra: para atores/grupos sociais atrelados ao poder, militante tem
uma conotação valorativa. para representantes de movimentos sociais ou partidos de
esquerda, militante é um atributo. É com base nessas reflexões que trouxemos de forma
bastante modesta as complexas considerações de Barsalou (1992) para a análise do nosso
corpus.
134
Representações Sociais
O conceito de representação social, atualmente, envolve uma variedade de
ramificações, nas diferentes áreas do conhecimento. Tomamos como referência para a
nossa discussão teórica, desenvolvida no segundo capítulo, as perspectivas de Billig
(1991) Mondada (2000), Marcuschi (2005a) e Shanon (1993) e van Dijk (2005). Ainda
que esses autores se distanciem em alguns momentos, no fundamente das suas reflexões,
isso não os coloca em conflito epistemológico. Por isso, seguimos um pouco das
considerações de cada um. O elemento coesivo é não mais aceitar a noção de
representação como um sistema codificado e estruturado na mente. Ou ainda, uma
‘fotografia da realidade’. Mesmo que argumentando por bases teóricas diversas, os
autores entendem as representações como atividades cognitivas, situadas socialmente,
construídas a partir de interações. Entendemos essa noção como fundamental para a
análise discursiva, por isso também embasa outras categorias a ela atreladas.
A categoria ‘acesso’ é uma das especificações para a investigação da construção
das representações sociais. A partir dela, analisamos quais são os grupos/atores sociais
legitimados/deslegitimados pelos jornalistas ao elaborar o texto jornalístico e assim o
discurso do jornal. Por exemplo, se identificamos mais citações positivas de A, menos
citações positivas de B e se tais citações compõem a estrutura de relevância, essa passa a
ser uma questão importante para a análise do fenômeno da (des)legitimação. É
importante ressaltar que a categoria acesso envolve uma complexidade de fatores sobre a
prática jornalística, desde a sua gênese, e não diz respeito apenas a citações (Falcone,
2005), ainda que aqui o estudo esteja mais centrado nessa manifestação.
As representações sociais também estão relacionadas ao aspecto da
intertextualidade/interdiscursividade e como este opera na demarcação discursiva Nós x
Eles. Podemos estudar esse caso a partir da observação de como o jornal mescla o seu
discurso com o discurso de representantes do poder, enquanto se distancia do discurso
dos sem-terra. Por outro lado, é importante investigar o processo de (des)legitimação não
sob os aspectos relacionados aos discursos de instituições, mas também como ações
concretas de membros das instituições. Mesmo que identifiquemos, por exemplo, que os
jornais tendem a dar mais suporte ao discurso da Secretaria de Segurança
135
conseqüentemente da polícia é possível que algumas notícias sejam críticas e tragam
denúncias sobre a ação dos policiais em relação à morte dos sem-terra. Isso quer dizer
que o processo de (des)legitimação está atrelado a várias instâncias sociais e não se
independentemente da sociedade.
Aspectos Sociais e Políticos
Esses aspectos dizem respeito a questões macro-sociais, tais quais ações
governamentais, decisões jurídicas, eleições e mobilizações de grupos sociais. Eles são
discutidos nos capítulos 1, 2 e 3 deste trabalho, quando tratamos das teorias de Habermas
(1996) sobre a legitimação social e o positivismo jurídico; de Giddens (2003), discutindo
os elementos estruturantes da sociedade a partir da teoria da constituição da sociedade;
como também sobre a natureza dos movimentos sociais e sua relação de conflito com o
domínio jornalístico. Todas essas questões embasam a análise discursiva e fundamentam
esta investigação na construção do discurso (des)legitimador.
136
5. A Fabricação da Realidade II : entre ‘atos’ e ‘fatos’, a (des)legitimação de
Eldorado do Carajás
Este capítulo é destinado às análises do discurso (des)legitimador do massacre em
Eldorado do Carajás, a partir da investigação de seis frames de cobertura, macro-
categoria proposta para tal estudo. No início de cada frame, uma breve introdução situa
do que trata cada enfoque, as ações discursivas principais dos domínios envolvidos, assim
como as categorias que operam na construção dessas ações. Dessa forma, observamos as
distintas estratégias de construção de sentido, a partir de modelos contextuais variados,
assim como analisamos o funcionamento situado dos elementos linísticos, discursivos
e cognitivos com os quais operamos nesta investigação.
5.1 A Análise dos Frames
Frame I – A Circulação das Versões
Esse frame está relacionado, predominantemente, aos primeiros meses de
cobertura (Abril/Maio/Junho de 1996), quando a preocupação com o efeito de sentido de
circulação de versões e opiniões sobre o massacre era mais recorrente nos jornais,
característica que também é identificada em outros momentos da cobertura. Essa
categoria articula as distintas versões sobre o episódio, ou seja, os mais diversos
discursos: governos, polícia, MST, movimentos sociais, igreja etc. A investigação a partir
desse frame é relevante, principalmente, para identificarmos os possíveis discursos
‘privilegiados’ pela imprensa, sendo este estudo desenvolvido predominantemente a
partir da categoria acesso. Entretanto, no que diz respeito às demais categorias, é
importante primeiro ressaltar algumas peculiaridades de forma geral, para depois
passarmos à análise sistemática de como elas operam na construção discursiva.
Um ponto relevante é que ainda não é possível identificar marcadamente alguns
dos aspectos semânticos que nos propomos a investigar neste trabalho, tais quais:
‘conceitos’, ‘atributos’ e ‘valores’. Entendemos que isso se deve à natureza do frame,
137
pois tais aspectos estão intrinsecamente atrelados a ações sistemáticas de categorização, o
que tende a não se estabelecer neste momento. A ação básica no frame I é a construção
do ‘fato’ Eldorado de Carajás, daí ser o acesso a principal categoria a ser investigada
especificamente no caso da intertextualidade/interdiscursividade (Bazerman, 2005).
Entendemos que esse processo de construção, entretanto, é contínuo e por isso se
ao longo de toda a cobertura jornalística, não estando restrito a essa categoria. O que
investigamos, nesse frame, é como se deu o início de tal construção, analisando o
tratamento dado pelo jornal aos domínios discursivos envolvidos no assassinato dos sem-
terra. Outra categoria relevante para esta análise é a topicalização a partir das
estratégias de desenfatização de agência, assim como de algumas questões semânticas
específicas, como, por exemplo, a escala ‘eufemismo deseufemismo’ (Johnstone,
2002) agindo no processo de (des)enfatizar tópicos.
Mesmo compreendendo que cada frame é construído a partir de estratégias
cognitivo-discursivas, textuais e lingüísticas que mais o caracterizam, um aspecto que
precisa ser destacado desde o início, pois norteia o desenvolvimento de toda a análise.
Identificamos que a topicalização é a macro-ação discursivo-cognitiva que opera de
forma global na construção de sentido dos textos jornalísticos. Assim, defendemos que
esse aspecto constitui em alguns momentos de forma mais direta, em outros mais
indireta as demais categorias e estratégias identificadas, pois entendemos que a
topicalização orienta o desenvolvimento de compreensão do texto. Resumidamente: é um
gesto cognitivo-discursivo que transforma um evento em um fato.
Nesta investigação, focamos a análise da topicalização de forma diversificada,
pois entendemos que essa categoria depende da natureza do frame e de como as
especificidades das demais categorias são relevantes nos distintos contextos. O que é
importante clarificar, desde o início das análises, é que a topicalização é uma categoria
intrínseca a qualquer prática discursiva, pois o seu efeito cognitivo fundamenta os
movimentos lingüístico-discursivos e, conseqüentemente, as escolhas de ordem
pragmática, semântica e sintática, orientando a construção global do sentido textual. No
que diz respeito à prática jornalística, de forma ampla, a topicalização parece ser
norteadora da própria construção do discurso deste domínio.
138
Outros aspectos semânticos importantes neste frame que operam na construção
dos sentidos são as redes lexicais e a nominalização. Isso nos leva a inferir que esses
aspectos, aqui tomados como unidades de ações legitimadoras, estão na gênese da ação
discursiva, e, conseqüentemente, no processo de categorização do (i)legítimo. Todos os
elementos descritos têm como efeito de sentido macro o início da demarcação da relação
Nós x Eles: como o jornal começa a construir seu próprio discurso sobre Eldorado de
Carajás e quais os discursos que assume para tal elaboração.
Entretanto, é inegável que o processo de categorização se estabelece desde o
início da cobertura, pois ações discursivas e ações de categorização são interligadas. O
que acontece é que as categorias, neste frame, ainda estão em construção e são bem
menos estáveis do que em outros como no frame IV, por exemplo. Ressaltamos o bem
menos estável para que fique claro que entendemos conforme discutido no capítulo 3
a categorização como um fenômeno de natureza essencialmente instável, sendo que isso
se em um contínuo, no qual o grau de instabilidade varia de acordo com práticas
situadas. Observemos essas questões nas análises desenvolvidas abaixo:
Exemplo 9:
Médico diz que há indícios de assassinato; PM nega (FSP, 19/04/1996)
Os corpos dos 19 sem-terras mortos anteontem em conflito com a Polícia Militar em Eldorado de
Carajás, no Pará, apresentam indícios de assassinato. A afirmação foi feita à Folha pelo cirurgião
Orlando de Medeiros, um dos primeiros médicos do hospital municipal de Curionópolis (Pará) a
ver os corpos entregues pela PM envoltos em lona. ''Vários deles tinham tiros pelas costas e um
teve a frente da testa sacada por um tiro disparado à altura da nuca'', disse o médico.
O médico Vinicius Tassis disse que os 19 corpos tinham uma média de três a quatro tiros. O
comandante da PM que participou da operação, major José Maria Oliveira, 41, negou o
assassinato e afirmou que ''houve fogo cruzado e correria''. Segundo ele, ''os sem-terra receberam
balas de seus próprios companheiros''.
A PM afirma que apreendeu 63 armas, algumas de fabricação caseira, após o confronto.
Uma menina, de idade o revelada, foi encontrada ontem morta em um riacho próximo ao local
do confronto. A PM diz que a menina morreu afogada e que o caso não teria conexão com a
batalha. Os sem-terra, porém, afirmam que ela estava no local do confronto e se afogou durante a
fuga.
139
O título do texto já aponta para o que vai constituir o tópico da notícia: a
especulação sobre como ocorreram as mortes em Eldorado dos Carajás. O efeito de
sentido norteador é a ‘apuração de versões’, da contraposição entre as declarações do
médico e as da polícia militar, por exemplo. No título, a relação sintática de tal
contraposição, em uma análise primeira, poderia nos levar a entender que o foco do
enunciado está no discurso do médico, já que é a primeira oração do título. Entretanto, se
observarmos algumas questões de ordem semântica, é possível remeter a outras
possibilidades de significação. Primeiro, observando a rede que se estabelece entre os
verbos introdutores de opinião: enquanto o médico ‘diz’, ou seja, apenas conta uma
versão da história, o ato de fala da PM tem valor de negação de tal versão (“PM nega”). É
relevante também que a contraposição é realizada em dois níveis distintos de
representação social: o individual e o institucional, pois é o discurso do médico-sujeito
contra o da polícia militar-instituição. O que está implícito nessa relação reforça o efeito
de sentido dos verbos, pois uma pessoa apenas pode contar versões de histórias, enquanto
uma instituição tem o poder de definir a ‘verdade’ da história.
Outra estratégia para desenfatizar o discurso do médico é o uso do eufemismo
(“indícios de assassinatos”), que opera como modalizador para o que vai ser introduzido
no primeiro enunciado do lead: “Os corpos dos 19 sem-terras mortos anteontem em
conflito com a Polícia Militar em Eldorado de Carajás, no Pará, apresentam indícios de
assassinato”. Percebendo essa relação, podemos pensar no próprio título como uma
categoria desenfatizadora de agência. Essa estratégia de construção de sentido tem a ver
com a força cognitiva dos títulos no processo de orientação da compreensão do texto (ver
Cap. 4). O enunciado: “Os corpos dos 19 sem-terras mortos”, em termos gramaticais
estritos, poderia ser entendido como redundante, mas do ponto de vista cognitivo-
discursivo aponta para uma questão relevante. Primeiro, pelo item lexical ‘corpos’, que,
com o efeito de generalização, não apresenta sujeito sintático ou agente (ator social) para
ação de matar: a palavra ‘corpos’ não identifica as pessoas mortas e, conseqüentemente,
não necessidade de identificar os responsáveis pelos crimes. Provavelmente, é essa
ausência de sujeitos que leva à dupla marcação semântica observada nos itens lexicais
‘mortos’ e ‘corpos’. É possível inferir que, para o autor do texto, uma necessidade de
resolver cognitivamente a ausência de sujeito/agente estabelecida pela sintaxe.
140
A atividade de nominalização também opera neste processo de categorização. Isso
porque, em linhas gerais, é com essa ação que damos nomes a eventos, grupos e atores
sociais, a partir das relações de referenciação, sinonímia etc. Como a notícia que estamos
analisando está em relação contextual com outras notícias – tanto as veiculadas na mesma
página desta edição, como com os demais textos publicados anteriormente na cobertura
sobre Eldorado de Carajás –, podemos afirmar que o item lexical ‘conflito’, mesmo
ocorrendo no primeiro enunciado do lead, estabelece uma relação sinonímica que aponta
para fora deste texto, pois está relacionado a textos anteriores. Essa relação se a partir
de modelos cognitivos construídos a partir das leituras prévias, tendo as representações
textuais como base para esse processo. Tal relação sinonímica extra-textual constrói uma
rede lexical que reforça o discurso da instituição do poder: a ação da polícia foi
necessária e foi uma reação à ação dos sem-terra (o protesto). O resultado dessa ação foi
um ‘conflito’: e é nesse processo de referenciação que toda a história de Eldorado de
Carajás é retomada nesta notícia, seguido de outro eufemismo usado do tulo “indícios
de assassinatos”. Assim, o enunciado não só recupera o discurso da polícia como o
reitera, ou seja, o legitima. É importante observar, ainda, que a contraposição de
discursos efeito norteador desse texto não se dá, no início, entre os dois principais
protagonistas da ação: MST x PM, mas sim entre a polícia e o médico, que tem seu
discurso reportado direta e indiretamente. Tirando os sem-terra da cena discursiva, se
estabelece, também, quais atores e grupos sociais têm autoridade para ‘falar’ sobre o
assunto.
Essa questão é consolidada no terceiro parágrafo da notícia, no qual o discurso da
PM predomina, agindo fortemente na construção de sua versão. nesta parte do texto,
começamos a observar a delimitação das vozes discursivas que irão compor o Nós (as das
instituições do poder), em contraposição ao discurso dos grupos excluídos: Eles. Nos
enunciados “A PM afirma que apreendeu 63 armas, algumas de fabricação caseira, após o
confronto” e “A PM diz que a menina morreu afogada e que o caso não teria conexão
com a batalha”, temos duas ações discursivas assumidas pelo jornalista. Podemos apontar
alguns elementos lingüístico-discursivos que remetem a isso: a seleção dos verbos
introdutores de opinião (‘afirma’, ‘diz’); a nominalização (‘a batalha’, que tem o mesmo
efeito de sentido de ‘conflito’); e o caso do acesso (o discurso do MST aparece no
141
final do parágrafo, e ainda assim como uma ‘resposta’ à PM (“[...] Os sem-terra, porém,
[...]”), o que diminui sua força persuasiva, pois os sem-terra não estão contando sua
história, mas negando versão que é tomada como ‘oficial’. Na análise deste texto, as
questões acima apontadas nos pareceram operar de forma mais enfática na constituição
do discurso da (des)legitimação. Como dissemos anteriormente, algumas categorias de
análise são mais recorrentes neste frame e irão permear também os demais textos.
Entretanto, também observamos algumas peculiaridades, dependendo, principalmente, da
topicalização discursiva.
A notícia seguinte, publicada no mesmo dia da analisada anteriormente, teria a
função de trazer a versão dos sem-terra sobre o massacre em Eldorado dos Carajás.
Sendo assim, o discurso do MST deveria ser o elemento constitutivo do texto. A leitura
apenas no nível da superficialidade textual pode levar a essa compreensão. Entretanto,
analisando algumas estratégias desenvolvidas a partir de aspectos discursivo-cognitivos,
podemos sugerir outras possibilidades de sentidos.
Exemplo 10:
Polícia iniciou tiroteio, dizem os feridos (FSP, 19/04/1996)
Os trabalhadores sem-terra feridos no conflito com a Polícia Militar negam a versão oficial de
que teriam feito o primeiro disparo, e acusam os policiais de terem feito tiros de metralhadora e
revólver à queima-roupa.
A Agência Folha ouviu quatro dos dez feridos que foram levados ontem à Unidade Mista de
Saúde de Marabá. José Carlos Moreira Santos, 17, um dos feridos mais graves, perdeu a visão do
olho direito por um dos disparos. "Eu estava brincando com meus amigos, de repente, eles (os
policiais) chegaram atirando. Quando caí, um amigo tentou me ajudar e os PMs nos humilharam",
relatou o sem-terra ferido.
Segundo Moreira Santos, os policiais "pediram que deitássemos no chão para não vê-los. Depois,
deram três minutos para a gente sair de lá correndo. Minha mãe e eu corremos mais de dois
quilômetros pela beira da estrada". Jurandir Gomes dos Santos, 30, o primeiro a ter sido baleado,
mostrou a radiografia que mostrava os 11 tiros em suas pernas, "feitos numa rajada só", segundo
suas declarações. Raimundo José da Conceição, 20, que teve a perna direita fraturada por tiros,
disse que "depois do massacre, os policiais atiravam para cima e pediam para que aparecêssemos.
Estávamos escondidos no mato".
A construção do título exemplifica nosso argumento: (“Polícia iniciou tiroteio,
dizem os feridos”). Observando a construção sintática, percebemos que a topicalização
se a partir do discurso da polícia, pois a voz dos sem-terra é discursivamente
142
subordinada. Para além da sintaxe, a seleção lexical é um aspecto que opera mais
efetivamente na constituição discursiva. Analisemos a rede que se constitui no enunciado:
enquanto um dos grupos que compõe o discurso da notícia é citado institucionalmente
‘polícia’, o outro os sem-terra – é citado indiretamente e de forma generalizada, a partir
da nominalização ‘os feridos’. Também, ao ressaltar a autoria da declaração (dizem os
feridos”), o jornal estabelece um distanciamento entre o seu próprio discurso e o discurso
do MST, o que nos faz remeter, novamente, à delimitação da relação Nós x Eles. Nesse
mesmo enunciado, ainda podemos ressaltar outro aspecto da seleção lexical, observando
o verbo introdutor de opinião: ‘dizer’. Como analisou Marcuschi (2007), esse verbo é
preferencialmente utilizado nos jornais para introduzir o discurso de atores sociais que
não fazem parte dos grupos do poder. Em contraposição, o autor observa que os discursos
dos poderosos são introduzidos por verbos tais como afirma’, ‘declara’, atesta’ etc. A
natureza de tais escolhas é ideológica, pois estabelece quais os grupos que têm força
discursiva.
Os trabalhadores sem-terra feridos no conflito com a Polícia Militar negam a versão oficial de
que teriam feito o primeiro disparo, e acusam os policiais de terem feito tiros de metralhadora e
revólver à queima-roupa.
Apenas no primeiro enunciado do leada referência aos sem-terra. Entretanto, a
ação discursiva é a da defesa, pois cabe a eles, primeiramente, negar a “versão oficial”.
Essa relação também aponta para um tipo de subordinação, que não apenas de ordem
sintática, como no título, mas de categorização de grupos e atores sociais. A PM é a
instituição tida como legítima, por isso tem o poder de trazer a “versão oficial”. Na
construção da ‘cena discursiva’, o jornal estabelece qual o grupo prototípico o de
melhor representação social e o estereotipado, ou o deslegitimado, o que não tem poder
de trazer o seu discurso como o principal na notícia, mas apenas responder, em relação de
interdiscursividade, à versão da polícia.
A Agência Folha ouviu quatro dos dez feridos que foram levados ontem à Unidade Mista de
Saúde de Marabá. José Carlos Moreira Santos, 17, um dos feridos mais graves, perdeu a visão do
olho direito por um dos disparos. "Eu estava brincando com meus amigos, de repente, eles (os
policiais) chegaram atirando. Quando caí, um amigo tentou me ajudar e os PMs nos humilharam",
relatou o sem-terra ferido.
143
Segundo Moreira Santos, os policiais "pediram que deitássemos no chão para não vê-los. Depois,
deram três minutos para a gente sair de lá correndo. Minha mãe e eu corremos mais de dois
quilômetros pela beira da estrada". Jurandir Gomes dos Santos, 30, o primeiro a ter sido baleado,
mostrou a radiografia que mostrava os 11 tiros em suas pernas, "feitos numa rajada só", segundo
suas declarações. Raimundo José da Conceição, 20, que teve a perna direita fraturada por tiros,
disse que "depois do massacre, os policiais atiravam para cima e pediam para que aparecêssemos.
Estávamos escondidos no mato".
Nestes dois parágrafos, a categoria acesso continua sendo a que mais fortemente opera na
construção discursiva. A condição de subordinação continua sendo a marca da
representação dos sem-terra. Se no lead o grupo social (e seus atores) prototípico é a
Polícia Militar, no sublead o próprio jornal assume o comando discursivo. Podemos
observar isso na sua auto-representação, no primeiro enunciado do sublead. A sua ação é
descrita como uma espécie de ‘tomada de depoimento’ (“A Agência Folha ouviu quatro
dos dez feridos que foram levados ontem à Unidade Mista de Saúde de Marabá”),
indicando o poder da instituição, não no tratamento discursivo para a construção do
‘fato’, mas se colocando, inclusive, como um órgão com poderes e atribuições para julgar
culpados/inocentes.
A subordinação do discurso dos sem-terra em relação aos demais discursos que
constituem esta notícia (Ministério da Justiça e FSP) opera de forma mais complexa na
deslegitimação do MST do que a exclusão discursiva propriamente dita, o que tornaria
mais explícita a discriminação. Pois, quando a dominação se a partir de estratégias
discursivas implícitas, como a aparente contraposição igualitária entre atores e grupos
sociais, exige-se mais criticidade do leitor para identificar tal discriminação. Por fim, o
que se estabelece nesta composição discursiva é qual grupo social tem legitimidade para
nortear o desenvolvimento do texto. Assim, esse grupo terá o poder de orientar a
performance discursiva dos demais grupos que estão em relação de interdiscursividade na
notícia.
Exemplo 11:
Ministério diz que sem-terra atacaram (FSP, 26/04/1996)
Os sem-terra teriam comprado armas com dinheiro dado pelo Incra para comprar comida. A
informação está em um relatório do Ministério da Justiça sobre o massacre do dia 17.
144
O relatório diz também que os sem-terra foram os responsáveis pela agressão inicial aos PMs que,
na linha de frente do confronto, não estariam armados.
O autor do texto é o coordenador-geral do CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa
Humana), Humberto Espínola. ''Não estou acusando ninguém, apenas relatando o que ouvi'',
afirmou Espínola à Folha, que passou quatro dias no local do conflito. Disse ter ouvido do
executor do Incra em Marabá (PA), José Líbio de Matos, e de outras duas pessoas _não revelou
nomes_ que pagamentos de créditos de alimentação e fomento aos sem-terra foram desviados
para a compra de armas.
A Folha apurou que a Polícia Federal também detectou, há dois meses, a compra das armas.
O Incra distribuiu em fevereiro e março uma ajuda de R$ 800 para cada família da região.
Com 16 páginas, o relatório considera as reivindicações dos sem-terra legítimas, mas faz críticas
à ação do grupo. Sobre a PM, condena a violência e os assassinatos citados por testemunhas.
Segundo o relatório, o coronel Mário Pantoja, comandante da operação, ''tem bom conceito na
região''. O documento diz ainda que na linha de frente do contingente de Marabá havia apenas
soldados com cassetetes e bombas de gás lacrimogênio.
Espínola cita, "em favor da PM'', "a reação agressiva inicial dos sem-terra partindo para cima" da
polícia. O relatório critica o MST por ter ''indivíduos com atividades diversas da agrícola", como
professores de dança, de canto e funcionários públicos. O coordenador-geral afirmou que
considera mais grave o fato de os sem-terra estarem armados _foram apreendidas 37 armas_ e de
terem colocado mulheres e crianças na barreira na estrada.
Francisco Dalchazon, da coordenação nacional do MST, disse que "o Ministério da Justiça não
tem resposta para o que houve e que está partindo para a estratégia de que o ataque é a melhor
defesa''.
Segundo ele, os sem-terra de Eldorado do Carajás não foram assentados ainda e por isso não
receberam dinheiro do Incra. ''Todos têm o direito de mudar de profissão'', disse sobre o fato de
nem todos serem lavradores. Para a posse de armas, alegou defesa pessoal.
Analisando o uso dos tempos verbais nos dois primeiros enunciados do lead,
observamos uma contradição nas modalizações, o que nos parece um aspecto importante
no processo de construção do discurso do jornal para contar sua versão sobre Eldorado de
Carajás, e quais as vozes selecionadas para constituir tal discurso. No primeiro
enunciado, o verbo ‘ter’ é usado no futuro do pretérito, tempo que opera como um
condicional para a ação, formando o sintagma “teria comprado”, indicando que o jornal
não assume o discurso do Ministério da Justiça. Entretanto, no enunciado seguinte, o que
seria uma versão da história passa a ser tratada como a informação oficial sobre a
mesma, do uso do verbo ‘estar’ no presente e com efeito afirmativo: “A informação
está em um relatório”, seguido do complemento “do Ministério da Justiça [...]”. Assim, a
dita “informação” é respaldada e legitimada pelo poder da instituição que a fornece. No
145
enunciado seguinte, observamos que a metáfora “o relatório diz” também opera na
legitimação da versão governamental, atribuindo ao documento, inclusive, a força
pragmática de atos locutórios. Na construção metafórica, a estratégia é respaldar o
discurso do Ministério, sem que essa ação seja explicitada, pois a relação que se
estabelece é com as informações contidas no relatório, como se esse gênero fosse uma
elemento neutro e não algo produzido por uma instituição, resultante da prática de um
grupo político. Podemos observar esse mesmo movimento no enunciado seguinte: “O
relatório diz também que os sem-terra foram os responsáveis pela agressão inicial aos
PM’s que, na linha de frente do confronto, o estariam armados”. Apenas no sublead o
relatório passa a ser tratado como um gênero produzido por alguém, sendo que a ênfase
na autoria do texto tende a dar mais legitimidade ao documento. Observemos: “O autor
do texto é o coordenador-geral do CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa
Humana), Humberto Espínola”. O poder da autoria (e do autor) do texto é sustentado pelo
discurso reportado, que segue o primeiro enunciado: (''Não estou acusando ninguém,
apenas relatando o que ouvi'', afirmou Espínola à Folha, que passou quatro dias no local
do conflito.). Neste trecho, dentre os elementos que operam na legitimação do discurso
governamental, ressaltamos dois: i) o efeito de objetividade no discurso do representante
do Ministério da Justiça; ii) e como o jornal demarca o seu discurso, a partir do discurso
do Governo. Primeiro observemos o discurso direto: (“Não estou acusando ninguém,
apenas relatando o que ouvi”). A primeira declaração, “Não estou acusando ninguém...”,
está em contradição com o próprio tópico discursivo, que culpa os sem-terra pelas mortes
em Eldorado de Carajás. Para melhor observar essa questão, basta retomar o título e o
lead do texto. Na declaração seguinte (“...apenas relatando o que vi”...), pode-se remeter
ao feito de objetividade que havíamos apontado. O sentido de imparcialidade que se
pretende atribuir ao discurso do representante do governo é construído a partir da rede
lexical: ‘apenas’ (opera como um deseufemismo da ação); o verbo ‘relatar’ (tem a
conotação de neutralidade e objetividade, e não o efeito de acusação); e o verbo ‘ver’
(com toda a sua carga empirista, sustentado pela idéia comum de que o que se não se
contesta).
O segundo aspecto que queremos discutir nesta análise é o posicionamento do
jornal em relação às instituições do poder. Em alguns movimentos discursivos, percebe-
146
se como o texto vai sendo construído com elementos que legitimam a versão apresentada
pelo Governo Federal, ou seja, que o próprio jornal assume tal versão. Observemos que o
discurso do autor do relatório é sustentado por dois movimentos: i) a escolha do verbo
‘afirmar’, com sua carga enfática; ii) a oração subordinada, ressaltando que Humberto
Espínola teria passado “quatro dias no local do conflito”, o que lhe atribuiria autoridade
para tecer tais afirmações. O jornal também não questiona o fato de o relator ter
construído sua acusação contra os sem-terra apenas com o depoimento de pessoas ligadas
ao órgão governamental. Pelo contrário, segue a mesma prática quando traz a voz da
Polícia Federal para compor o quadro já iniciado. Observemos no início do terceiro
parágrafo da notícia: “A Folha apurou que a Polícia Federal também detectou, dois
meses, a compra das armas”. As teias que formam o discurso Nós (governos e jornal) x
Eles (sem-terra) vão se firmando e as instituições do poder vão dando mais suporte umas
às outras. Essa relação está mais explícita no fim deste parágrafo e no início do seguinte.
Observemos nos seguintes enunciados: “[...] Segundo o relatório, o coronel Mário
Pantoja, comandante da operação, ''tem bom conceito na região''. O documento diz ainda
que na linha de frente do contingente de Marabá havia apenas soldados com cassetetes e
bombas de gás lacrimogêneo. [...]”; “[...] “Espínola cita, "em favor da PM'', "a reação
agressiva inicial dos sem-terra partindo para cima" da polícia [...]”. A voz do MST
aparece no final da notícia, e, como observamos em outros textos, apenas em atitude
defensiva. A notícia que traz a ‘resposta’ dos sem-terra a essas acusações é publicada três
dias depois, em espaço inferior ao dado para o texto sobre o relatório do Ministério da
Justiça. A demora na publicação se fosse para estabelecer um diálogo, a resposta do
MST deveria vir na mesma edição ou, no mínimo, na edição seguinte –, assim como o
destaque dado a essas publicações, são aspectos cognitivos importantes no que diz
respeito à elaboração de modelos mentais, mais restritamente falando, como também na
construção da versão dominante (legitimada) sobre Eldorado de Carajás. Vejamos a
notícia a seguir:
Exemplo 12:
MST contesta o relatório do governo (FSP, 29/04/1996)
147
Líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) questionaram ontem em
Belém o relatório do CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), do
Ministério da Justiça.
Eles negaram a versão do relatório, que diz que os sem-terra atacaram primeiro no confronto com
os PMs em Eldorado do Carajás. Jorge Neri, 30, e Gustavo Filho, 26, afirmaram que a PM
chegou jogando bombas de efeito moral e abriu fogo contra os sem-terra, que bloqueavam a
rodovia PA-150.
Nery e Filho também disseram que há mais trabalhadores desaparecidos, além dos cinco já
apontados pelo MST. Segundo eles, nesta semana o MST divulgará os nomes dos desaparecidos.
"Também há crianças mortas, cujos corpos a polícia escondeu. Os pais não apareceram para
reclamar seus filhos porque foram mortos também'', disse Filho.
Neri afirmou que o fato de um grande número de trabalhadores ter se juntado ao movimento nos
dias anteriores ao massacre está dificultando o levantamento dos nomes de desaparecidos. O MST
disse que suas lideranças na área estão sendo ameaçadas.
O primeiro aspecto a ser discutido é como os sem-terra são posicionados na cena
discursiva pelo jornal nas duas notícias. Isso já foi tratado anteriormente, mas nos parece
importante ser retomado, devido à recorrência da estratégia. Outra vez, o MST está no
lugar da defesa negando, contestando, questionando acusações do governo. Está
pressuposto que aos sem-terra cabe a culpa, pois quem tem legitimidade para fazer
acusações e afirmar são as instituições do poder. Assim, o pressuposto que norteia o
discurso do jornal sobre o MST é o da culpa, o da acusação. E é para essa ação discursiva
específica – a da defesa que o jornal abre espaço para os sem-terra. A notícia acima é o
exemplo mais característico desse aspecto. Trata-se da ‘resposta’ à notícia analisada
anteriormente. A relação de interdiscursividade entre as duas notícias, mesmo existindo,
não é igualitária. Questões relacionadas à macro-estrutura textual, à cena discursiva sob
que perspectiva o jornal trata as duas estórias e às representações sociais, entre outras,
estabelecem tal desigualdade. Sobre a cena discursiva fizemos algumas considerações.
As representações sociais e a macro-estrutura do texto nos parecem, entretanto, aspectos
que merecem ser observados mais atentamente. Como é a interdiscursividade que norteia
a notícia acima, a análise da mesma inevitavelmente remete a alguns elementos da notícia
anterior.
Se compararmos a construção do lead e do sublead das duas notícias, percebemos
que no Exemplo 11 uma atribuição valorativa ao discurso do Ministério da Justiça
(MJ), pois as acusações contra o MST são tomadas como o aspecto mais relevante do
148
texto por isso inicia o lead –, e o MJ a instituição com autoridade para realizar tal ação.
No Exemplo 12, o que é tomado como mais relevante pelo repórter é o questionamento
dos sem-terra ao documento do Governo Federal, e não as acusações do movimento
contra a Polícia Militar do Pará, que aparecem no parágrafo seguinte. Sobre as
representações sociais, percebemos duas ocorrências distintas. O representante do
governo é citado pelo nome e pela função que ocupa sendo um cargo de chefia, atribui
mais autoridade ao seu discurso como também foi destacado que é dele a autoria do
documento apresentado pelo jornal. Na notícia sobre o MST, a referência aos
entrevistados é feita de forma genérica (“Líderes do MST [...]”), sem especificar as suas
funções no movimento, ou mesmo os seus nomes. Tal construção não atribui autoridade
aos entrevistados, o que enfraquece o poder dos seus discursos. Essa relação também se
estabelece com o próprio MST, que não um trato institucional. No sublead, por
exemplo, o pronome pessoal (eles) em referência anafórica a ‘líderes do MST’ é
usado antes mesmo do nome dos entrevistados. Um traço lingüístico-cognitivo que
exemplifica como a representação dos sem-terra está sendo construída no texto: não são
tratados como atores legítimos, com autoridade para atos de fala tais quais: ‘acusar’,
‘informar’ etc. A eles cabe ‘questionar’, negar’, ‘contestar’, ou seja, não são sujeitos da
própria ação discursiva.
Neste frame, centramos a investigação no acesso discursivo dos domínios e
grupos sociais envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás e, também a partir de
alguns elementos sintáticos e semânticos, procuramos identificar a ação do jornal, ao
trazer para a cena discursiva esses grupos. A estratégia que adotamos para a conclusão de
cada frame é a de traçar considerações em âmbitos gerais, pois entendemos que a
perspectiva global da ação de todas as macrocategorias nos possibilita elaborar
considerações categóricas sobre o fenômeno da (des)legitimação.
Dentre os aspectos possíveis de serem considerados, enfatizamos a desigualdade
no trato discursivo, por isso nos centramos na categoria acesso: possibilita investigar não
apenas as vozes que circulam em um texto, mas o seu efeito discursivo-cognitivo. O que
identificamos, neste momento da análise, é um quadro que desfavorece e enfraquece o
MST discursivamente, o que pode construir modelos mentais sobre as mortes dos sem-
terra que consolidem a categorização do ‘evento’ como legítima defesa. A análise dos
149
demais frames, entretanto, nos subsídios para uma conclusão mais elaborada, que a
investigação do discurso (des)legitimador deve estar atrelada a distintos fatores, de ordem
social, discursivo-cognitiva, textual e lingüística. Daí a complexidade do seu estudo e a
necessidade de tantos desdobramentos de análise.
Frame II – A Mobilização da Sociedade
Esta parte da cobertura tem como enfoque as manifestações contrárias e
favoráveis ao MST, tendo como base principal a repercussão do massacre de Eldorado
dos Carajás. Foram várias as mobilizações e os atos públicos reivindicando justiça para a
morte dos sem-terra. Identificamos uma forte participação da ala progressista da Igreja
Católica, assim como de movimentos sociais e organizações não-governamentais
(ONG’s) do país e do exterior. Segmentos conservadores da sociedade entre eles a
União Democrática Ruralista (UDR) também se articularam e promoveram atos, como
respostas às ações favoráveis ao MST. A preocupação desses grupos conservadores
como seus próprios integrantes afirmaram era a possibilidade de se iniciar um processo
de legitimação do MST, já que instituições com representatividade histórica e força
política passaram a questionar a inoperância das principais esferas do poder nacional
(governos e polícias) em relação às mortes dos sem-terra, gerando uma movimentação de
deslegitimação desses poderes. O que acontece nesse frame é que o grupo Eles passa a ter
mais força discursiva e o grupo que tende a ser estereotipado é o do poder, ou seja, o Nós.
A forte repercussão na mídia internacional sobre Eldorado dos Carajás é um dos aspectos
que opera nessa inversão, levando até a própria FSP a desenvolver outra relação
discursiva, se posicionando, em alguns casos, no grupo Eles.
O Governo Federal inclusive com declarações do então presidente Fernando
Henrique Cardoso também passa a se posicionar mais sistematicamente sobre o caso,
mesmo que de forma contraditória. Isso porque o governo precisou dar uma resposta à
mobilização mundial sobre o massacre dos sem-terra, o que resultou em algumas
declarações contra o poder judiciário, mas não necessariamente em uma prática política
do governo sobre questões fundamentais, como violência no campo e reforma agrária. E
150
isso leva à contradição sobre a qual nos referíamos, identificada em alguns discursos do
presidente sobre as ações do MST. A relação de inversão de poderes entre Nós x Eles
repercute na deslegitimação do massacre e, conseqüentemente, questiona as principais
instituições do poder brasileiro. Isso nos remete à investigação de um aspecto: a
construção da representação social do governo. Por se tratar de um momento de crise, é
importante ressaltar o que discutimos sobre o processo de (des)legitimação: ele é de
natureza essencialmente instável e categoriza atores e grupos sociais em contextos
situados, em uma construção contínua. Neste frame, identificamos um embate discursivo
entre os grupos (Nós x Eles) na tentativa de estabilização de um discurso. Por isso, a
investigação das representações sociais é o foco principal de nossa análise.
A peculiaridade aqui é a ‘aparente’ democratização do espaço discursivo do
jornal. Chamamos de ‘aparente’ porque essa abertura se a partir de algumas restrições
ideológicas e continua atrelada a mecanismos de controle discursivo. Afirmamos isso
com base em dois aspectos: i) uma das vozes predominantes na repercussão do massacre
é a da mídia, que, neste caso, da mídia internacional. Assim, o efeito de sentido é o de
que outra instituição estaria tratando do caso, que com mais sustentação do mito da
imparcialidade por serem instituições internacionais do que a imprensa nacional.
Sendo que a mídia continua sendo o domínio norteador dos discursos. Outro problema
dessa ênfase na mídia internacional é que esta tende a assumir uma postura ‘humanista’,
ao tratar dos problemas do ‘terceiro mundo’. Entretanto, estudos sobre o discurso da
mídia européia sobre imigração (van Dijk, 1997), por exemplo, apontam posturas
conservadoras, preconceituosas e discriminatórias dessa instituição. Ou seja, a
perspectiva ‘humanitária’ está atrelada a problemas que não dizem respeito aos
problemas políticos dos países ditos do ‘primeiro mundo’. A postura progressista desses
veículos de comunicação se no trato dos problemas dos Outros. Assim, as ideologias
que constituem o discurso desses jornais também é sob a perspectiva do Nós ; ii) mesmo
considerando a abertura discursiva como característica deste frame com espaço para as
alas progressistas da Igreja Católica, organizações não-governamentais e topicalizações
favoráveis às ações do MST –, não identificamos um acesso direto dos sem-terra ao
espaço do jornal.
151
A representação do movimento se dá, em grande medida, por intermédios de
instituições tidas como legítimas (Igreja Católica, Comissão Pastoral da Terra, Anistia
Internacional etc.) e ao MST é dada a possibilidade de ter seu discurso reverberando
indiretamente no discurso desses grupos sociais. Este aspecto também é identificado em
outros momentos de cobertura, mas neste frame é mais proeminente. Uma justificativa
para tal ocorrência é que o jornal estaria buscando outros discursos sobre o massacre,
para trazer perspectivas diferenciadas. Entretanto, a recorrência desse mesmo aspecto em
outros frames nos faz pensar que essa seria uma análise ingênua sobre o fenômeno e nos
remete a questões mais complexas, como o controle ideológico e, conseqüentemente,
discursivo do acesso. Por fim, afirmamos que isso se trata de uma postura
antidemocrática do jornal, que tem como efeito principal a construção da memória social,
elaborada a partir do discurso das elites.
Exemplo 13:
Ato lembra morte de 19 sem-terra (FSP, 17/04/1999)
O MST começou ontem uma série de mobilizações em 23 Estados para lembrar os três anos do
massacre de 19 sem-terra, em Eldorado do Carajás (PA), ocorrido em 17 de abril de 1996. Em
pelo menos dez Estados, marchas de sem-terra chegaram ontem pela manhã às capitais.
Cerca de 15 mil trabalhadores participaram das marchas em todo o país, segundo estimativa do
MST. Em Porto Alegre (RS), no final da tarde de ontem, cerca de 500 integrantes do movimento
começaram uma "vigília'' na frente do prédio do Incra, prevendo um jejum que duraria todo o dia
de hoje. Em Eldorado do Carajás, um monumento utilizando 19 castanheiras mortas será
inaugurado hoje para relembrar o conflito.
Esta nota informativa exemplifica um aspecto discutido na introdução do frame: a
topicalização não estereotipada de uma ação do MST, caso peculiar em relação à maioria
das demais ocorrências dessa macro-ação discursiva. No título e no corpo do texto, a
mobilização organizada pelos sem-terra é atrelada às mortes em Eldorados dos Carajás.
Ou seja, o motivo propulsor da mobilização é trazido para a estrutura de relevância.
Observemos no título: “Ato lembra morte de 19 sem-terra”. Em outras notícias,
identificamos uma estrutura inversa de topicalização, ou seja, primeiramente são feitas
referências a ‘invasões’, a ‘protestos’, a ‘saques’ e depois essas ações são associadas,
no texto, a protestos do MST pelas mortes em Eldorado dos Carajás. No primeiro
enunciado, o ato’ dos sem-terra é tratado como uma ação de um movimento social
152
legítimo, marcado pelo item lexical ‘mobilização’. Outra marca lingüística que reforça o
efeito de sentido da não-estereotipização é o uso do verbo ‘lembrar’, remetendo a ação
para um contexto político e social. Analisemos o trecho: [...]“para lembrar os três anos do
massacre de 19 sem-terra, em Eldorado do Carajás (PA), ocorrido em 17 de abril de
1996”. Enfatizamos em itálico o uso do item lexical ‘massacre’, que está interligado à
rede lexical tecida no texto e opera na construção do sentido que discutimos.
Também é relevante observar como a nominalização opera no processo de
referenciação aos sem-terra: a retomada é feita a partir do item lexical ‘trabalhadores’:
“Cerca de 15 mil trabalhadores participaram das marchas em todo o país [...]”. Neste
caso, identificamos uma categorização legítima dos atores sociais do MST, uma
ocorrência também diferenciada em relação aos demais frames, nos quais essa
categorização costuma se dar de forma estereotipada, a partir de nominalizações como:
‘manifestantes’; ‘invasores’, entre outras. Outro elemento que reforça a construção de
sentido que estamos discutindo é a informação trazida no enunciado final do texto,
enfocando uma ação ‘pacífica’ do MST (“Em Eldorado do Carajás, um monumento
utilizando 19 castanheiras mortas será inaugurado hoje para relembrar o conflito.”). o
identificamos, nessa nota, ações discursivas de estereotipização do movimento,
sustentado pelo discurso da deslegitimação do massacre em Eldorado do Carajás.
Tal observação nos leva a considerar um aspecto que vem sendo pouco
desenvolvido, até agora, em nossa análise: os gêneros textuais. A ausência de
considerações sistemáticas sobre esse fenômeno pode ser justificada por dois aspectos: i)
primeiro porque não estamos tomando os gêneros como uma categoria de análise o que
não faria sentido, pois os entendemos como elementos irremediáveis à prática discursiva,
ou seja, como elementos cognitivo-pragmáticos que operam na organização global do
discurso; ii) segundo porque nossa análise está centrada no gênero notícia, conforme
justificamos na Introdução deste trabalho. As notas (opinativas e informativas) são os
outros gêneros que buscamos dar conta, por serem elaborados a partir de ações retóricas
mais simples. Conforme foi discutido, o vasto mero de textos que fazem parte deste
corpus exigiu tal delimitação. Como essas questões foram tratadas anteriormente, o
que queremos ressaltar neste momento é a relação entre o gênero que estamos analisando
(nota informativa) e o controle discursivo.
153
Afirmamos que os gêneros textuais atuam constitutivamente na organização
discursiva. Daí, o tratamento diferenciado dos elementos que operam na construção do
sentido, nesta nota, em relação às notícias. Entendemos que o gênero nota informativa é
menos controlado que os demais inclusive em comparação à nota opinativa, conforme
discutiremos no frame V e mais liberdade discursiva para a sua escrita. Isto pode
estar relacionado ao efeito cognitivo do nero, que não é tido pelos leitores e pelo
jornal – com o mesmo efeito legitimador de discursos como a notícia e, assim, não teriam
a mesma força cognitiva na elaboração dos modelos mentais. Esta questão, entretanto,
exige uma pesquisa específica, por isso a tratamos aqui de forma intuitiva, como uma
possibilidade de investigação.
Exemplo 14:
Comissão estrangeira vê descaso do governo (FSP, 21/07/1996)
Representantes de igrejas e do Parlamento europeus, em visita a Eldorado dos Carajás (PA),
declararam que há um descaso das autoridades brasileiras sobre os 19 sem-terra mortos no
confronto com a Polícia Militar em abril. Um relatório será enviado ao presidente e ao
governador do Pará.
Ressaltamos, nesse exemplo, a ocorrência de outra nota informativa. Continuando
a discussão iniciada no exemplo anterior, destacamos a questão do acesso. O texto foi
construído apenas a partir do discurso dos representantes de igrejas e parlamentos
europeus. O jornal toma esses atores sociais como legítimos para tratar sobre as mortes
em Eldorado dos Carajás e ainda os atribui autoridade para criticar os Governos Federal e
Estadual pelo massacre (“[...] declararam que um descaso das autoridades brasileiras
sobre os 19 sem-terra mortos no confronto com a Polícia Militar em abril. [...]”). Além da
autoridade, ainda o efeito pragmático do discurso a partir do uso do verbo ‘declarar’.
Observemos que as autoridades brasileiras citadas não foram procuradas pelo jornal para
responder aos questionamentos, caracterizando como um não-acesso dos representantes
do poder nacional. Como foi dito, esse aspecto pode estar atrelado à natureza do
gênero, que é discursivamente menos controlado. No caso de uma notícia, isso seria mais
difícil de ocorrer.
154
Essa nota informativa é também o primeiro exemplo, dentre os demais que iremos
analisar neste frame, no qual a preocupação do jornal é repercutir o discurso de órgãos
internacionais sobre as mortes dos sem-terra. O macro-efeito dessa ação já foi discutido
e, agora, pretendemos investigar esse aspecto de forma mais sistemática. Um elemento a
ser analisado, no início do texto, é a atividade de referenciação aos atores sociais
representados no texto. Observemos no primeiro enunciado o caso da autoridade a eles
atribuída: nenhum é citado pelo nome, ou mesmo as funções específicas que ocupam nas
instituições citadas. Ao jornal basta o item lexical vago ‘representantes’. No final do
texto, é ressaltada outra vez a autoridade desses atores, que, de acordo com o jornal, têm
o poder de interagir diretamente com o presidente da república e o governador do Pará:
(“Um relatório será enviado ao presidente e ao governador do Pará”.). Analisemos, em
outros exemplos, como o jornal constrói a representação social dos órgãos internacionais
e como essa relação de interdiscursividade opera na (des)legitimação de Eldorado do
Carajás.
Exemplo 15:
País só age sob pressão, afirmam ativistas (FSP, 20/05/2001)
Liliana Tojo, diretora do Cejil no Brasil, diz que, não fosse a pressão internacional, processos
como o do massacre de Eldorado do Carajás, no Pará, estariam engavetados.
O Cejil é uma instituição jurídica sem fins lucrativos que acompanha processos que tramitam em
cortes internacionais.
Por determinação da Comissão Interamericana, o governo informa o estágio de tramitação do
processo de Eldorado do Carajás uma vez a cada 45 dias.
O massacre ocorreu em abril de 96, quando a Polícia Militar do Pará matou 19 trabalhadores do
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), durante uma desocupação.
O governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), foi uma das testemunhas de defesa dos policiais,
durante o primeiro julgamento, em 99, que absolveu os comandantes da operação. Houve pressão
e o júri foi anulado.
Trazemos um trecho dessa notícia para analisar outros aspectos que tratam da
representação das instituições do poder brasileiro, por parte de órgãos internacionais, e
como essa ão irá interferir na prática discursiva do governo. Com a repercussão do
massacre dos sem-terra, a hegemonia dos poderes nacionais passa por uma crise, o que
Habermas (1999 [1973]) conceituou como ‘crise de legitimação’. A necessidade de
155
‘resposta’ a tais críticas atua na elaboração de estratégias retóricas de legitimação no
discurso do então presidente Fernando Henrique Cardoso, o que iremos analisar adiante.
O título e o lead dessa notícia operam na construção do discurso, deslegitimando
os poderes jurídico e executivo do Brasil. O título (“País age sob pressão, afirmam
ativistas”) tem o efeito menos enfático, pois não especifica quais ações são
negligenciadas pelas instituições brasileiras. A apresentação dos atores sociais em uma
construção subordinada também desenfatiza o discurso. O uso do verbo ‘afirmar’, para
introduzir a voz dos ativistas, é mais um efeito modalizador, que no enunciado a ação
poderia ter sido tratada como uma ‘denúncia’ e não apenas uma ‘afirmação’. O lead,
entretanto, é marcado desde o primeiro enunciado pelo discurso deslegitimador e o efeito
de denúncia é construído a partir da declaração da entrevistada (“Liliana Tojo, diretora do
Cejil no Brasil, diz que, não fosse a pressão internacional, processos como o do massacre
de Eldorado do Carajás, no Pará, estariam engavetados. [...]”). É interessante ressaltar
que o massacre dos sem-terra é tomado apenas como um exemplo para a construção de
modelos mentais sobre o Brasil remetendo à inoperância, incompetência e descaso
quando se trata dos menos favorecidos.
Outro aspecto importante para ser investigado, nessa notícia, é a construção da
interdiscursividade, principalmente no que diz respeito aos modelos de contexto
operando nessa relação. Na referência ao ‘caso’ Eldorado de Carajás, identificamos que o
repórter assume o discurso da entrevistada e a descrição é feita a partir da versão dos
sem-terra. Analisemos este trecho: “[...] O massacre ocorreu em abril de 96, quando a
Polícia Militar do Pará matou 19 trabalhadores do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem-Terra), durante uma desocupação. [...]”. Trata-se de uma elaboração
discursiva bastante diferenciada de todo o corpus analisado. a ocorrência, em outros
textos, da categorização das mortes dos sem-terra como ‘massacre’. Entretanto, conforme
analisamos, a elaboração dos enunciados, em sua grande maioria, não remete aos sujeitos
da ação, construindo um efeito de desenfatizador de agência, ou, como dissemos,
um ‘vazio semântico’: existe uma ação, mas não sujeitos que realizem tal ação. No
exemplo acima, entretanto, a oração subordinada traz para a cena discursiva os
responsáveis pelas mortes dos sem-terra, sem qualquer recurso de modalização: “[...]
quando a Polícia Militar do Pará matou 19 trabalhadores do MST (Movimento dos
156
Trabalhadores Rurais Sem-Terra) [...]”. Dessa construção, percebemos a ação do discurso
da entrevistada na construção do discurso do próprio jornal, num caso de
interdiscursividade.
Exemplo 16:
Anistia condena "complacência" (FSP, 20/08/1999)
A organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional divulgou nota na qual
condena a absolvição, na madrugada de ontem, de três oficiais da Polícia Militar do Pará que
participaram da operação que resultou no massacre de Eldorado do Carajás."Parece que, no
Brasil, quando há violações dos direitos humanos, ninguém é responsável por nada'', afirma a
entidade."Se essa absolvição não for contestada, ela estará endossando um pacto de silêncio entre
os policiais envolvidos no massacre."
Segundo a Anistia, "é inacreditável que nesse caso não tenha sido possível estabelecer uma cadeia
de responsabilidades pela matança e subseqüente acobertamento". Para a entidade, a absolvição
"reforça a desconcertante complacência das autoridades com respeito a graves violações
cometidas sob sua autoridade".A Anistia diz ainda ser um "princípio fundamental de proteção aos
direitos humanos que aqueles que dão ordens e estão no comando sejam também os
responsáveis".
A topicalização dessa notícia segue a mesma ação do texto anterior, ressaltando a
mobilização de organizações internacionais contra os encaminhamentos jurídico e
político sobre o massacre em Eldorado do Carajás. Entretanto, a construção discursiva
segue outras estratégias, principalmente por se tratar de um gênero diferenciado.
Observamos que mais resistência, por parte do repórter, em mesclar o seu discurso
com o do entrevistado, o que justifica uma maior ocorrência de citações
intertextualidade demarcando as vozes que constituem o texto. Cognitivamente, essa
demarcação discursiva tem o efeito de distanciar ideologicamente o discurso reportado do
discurso do jornal. Ainda assim, entendemos que o espaço a um discurso diferenciado do
que vem predominando na cobertura do jornal, e ainda sem qualquer voz contra-
argumentando, opera favoravelmente no processo de deslegitimação do massacre. Só
ressaltamos, outra vez, a restrição ao discurso do próprio MST, o que vem caracterizando
boa parte das notícias analisadas, e é uma questão que merece ser retomada e analisada
em todos os frames, pois pode ser uma estratégia de deslegitimação do movimento.
157
Exemplo 17:
Exterior destaca veredicto (FSP, 20/08/1999)
O canal de notícias 24 horas da emissora de TV britânica BBC destacou ontem, em seu noticiário
internacional, a absolvição dos três oficiais que estavam no comando da operação em Eldorado
do Carajás.
A rede disse que a decisão desagradou a grupos de defesa de direitos humanos em todo o mundo.
A reportagem disse também que, durante o julgamento, foi exibido um vídeo mostrando a polícia
atirando contra a multidão, mas que a defesa logrou argumentar que os policiais tentavam conter
a manifestação que havia saído de seu controle. "As imagens foram veiculadas pela televisão
brasileira e causaram um escândalo nacional", dizia a reportagem da BBC.
O "New York Times", em seu site na Internet, também relatou a absolvição dos três oficiais de
maior patente envolvidos no "massacre de 19 agricultores que chocou o Brasil e chamou a
atenção internacional para os direitos humanos no país".O jornal norte-americano, um dos mais
importantes do mundo, em sua seção de últimas notícias, destacou que "na origem do massacre
está a distribuição de terra no Brasil, onde os 40% mais pobres da população detêm apenas 1% da
terra".
O líder do MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) João Pedro Stedile também
aparece no relato do site do jornal, declarando que o julgamento dos oficiais foi "uma manobra
para ficar bem com a elite do Estado".
Nessa notícia, observamos um caso interessante, a partir da análise da
topicalização e da interdiscursividade. O tópico é o discurso da mídia internacional sobre
a absolvição dos comandantes das tropas que assassinaram os sem-terra. Nos textos
anteriores, a repercussão das mobilizações internacionais se dava a partir dos discursos de
movimentos e entidades não-governamentais. Nesse exemplo, é dada à mídia
internacional poderes para avaliar os contextos sócio-políticos de outro país, assim como
criticar suas políticas e seus governantes. Observemos no trecho destacado: “[...] O jornal
norte-americano, um dos mais importantes do mundo, em sua seção de últimas notícias,
destacou que "na origem do massacre está a distribuição de terra no Brasil, onde os 40%
mais pobres da população detêm apenas 1% da terra". [...]”.
Um primeiro aspecto a ser discutido, pois é de natureza ideológica, é o da co-
sustentação de forças. Ao atribuir poderes ao discurso da mídia internacional, a mídia
brasileira pois essa repercussão foi noticiada nos principais veículos de comunicação
implicitamente estabelece uma condição de legitimidade e de poder para si própria.
Trazer o discurso da mídia internacional criticando os problemas do país tem o efeito de
legitimar a imprensa nacional como uma instituição também capacitada para tais ações.
158
Outro aspecto relevante é a busca por um ‘discurso de autoridade’, nesse caso, o da
imprensa internacional. Ou seja, quando uma ‘voz’ não basta para sustentar um discurso,
a interdiscursividade opera no seu processo de legitimação.
Assim, antes de qualquer aspecto relacionado ao assassinato dos sem-terra –
tópico da notícia –, identificamos o jornal atuando em seu próprio processo de
legitimação. Como exemplo dessas considerações, tomamos o trecho [...] A rede disse
que a decisão desagradou a grupos de defesa de direitos humanos em todo o mundo [...]”,
no qual a FSP trata a BBC com um tipo de força pragmática’ de trazer legitimamente os
discursos da imprensa mundial. Outra questão a ser tratada, ainda a partir do trecho
analisado, é como a FSP atribui autoridade ao New York Times marcada no aposto um
dos mais importantes do mundo” para tratar de um problema que o MST e outras
organizações não-governamentais do Brasil denunciam décadas: a concentração de
terra em latifúndios e a necessidade de reforma agrária. Inclusive, esses são os problemas
propulsores que, historicamente, levaram à organização dos sem-terra em um movimento
social, mas que, em geral, são tratados pela FSP como questões periféricas. Conforme
temos analisado em outras notícias sobre o MST, os tópicos são construídos a partir de
elementos estereotipados, enfatizando saques, ocupações e protestos. Ou seja, o jornal
não atribui legitimidade aos sem-terra para tratar dos problemas “que originam” a própria
existência do movimento. Para essa ação discursiva, a FSP dá o acesso a um outro jornal,
caracterizando uma co-sustentação de poderes.
Exemplo 18:
FHC critica resultado do julgamento (FSP, 20/11/1999)
O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a impunidade prejudica a democracia, ao
comentar o julgamento dos oficiais da Polícia Militar do Pará acusados pelo Ministério Público
de serem responsáveis pelo massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás, em abril de 1996.
"Como cidadão, eu lamento que o Brasil não tenha ainda, o conjunto da sociedade, tomado
consciência de que a impunidade, a sensação de impunidade é o que impede a consolidação da
democracia", disse ele.
No julgamento, foram inocentados o comandante da operação, o coronel Mário Colares Pantoja, o
major José Maria Oliveira e o capitão Raimundo José Almendra. De acordo com os jurados, as
provas contra eles eram insuficientes.
FHC disse que "esperava algum grau de condenação, em vários níveis, uma reprimenda moral
que seja". "Se há algo que revoltou o país e a mim, foi o massacre de Eldorado do Carajás."
"Isso (o massacre) é inaceitável. O Brasil não pode mais conviver com esses fatos", afirmou FHC.
159
O presidente disse esperar que "nas próximas decisões o país se sinta mais seguro de que não
haverá impunidade".
Questionado sobre a repercussão internacional da decisão, FHC declarou que "o Brasil, e lá fora a
mesma coisa, espera que haja apuração de responsabilidades". "Eu não posso dizer "fulano foi
responsável, beltrano não foi". Mas não pode ser que ninguém foi. Alguém foi (responsável)".
O secretário de Estado de Direitos Humanos, José Gregori, defendeu ontem a anulação do
julgamento que absolveu os oficiais.
"Decisão judicial que não faz justiça não é para ser lamentada, é para ser anulada por um novo
julgamento", afirmou ele, segundo nota oficial distribuída por sua assessoria de imprensa.
"É difícil entender que os chefes de uma expedição policial que resulte em 19 mortes, com seis
execuções a frio, não mereçam determinado tipo de punição", diz a nota do secretário.
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) disse estar envergonhado com o resultado do
julgamento do massacre de Eldorado do Carajás.
"Respeito a Justiça de meu país e confio que esse resultado adiante possa ser revertido. Lamento
profundamente a decisão e hoje me sinto envergonhado", afirmou Jungmann. Emocionado,
chegou a interromper diversas vezes seu discurso.
"O Brasil não pode carregar na consciência os 19 mortos de Eldorado do Carajás sem a punição
exemplar de quem cometeu isso. Senão, todos nós, brasileiros, somos culpados", disse o ministro.
Nessa noticia, o discurso do então presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC),
assim como dos demais representantes das instâncias do poder, é uma ação que busca a
re-estabilização da legitimação do governo federal, pois este poder vem enfrentando
pressões que ameaçam a sua hegemonia. Interessa, para a nossa análise, as estratégias
discursivas e retóricas elaboradas por esses atores sociais para o re-estabelecimento do
poder hegemônico do governo. O discurso do presidente tem como principal marca o
efeito ‘responsivo’ às críticas vindas de vários segmentos da sociedade do Brasil e do
mundo devido à impunidade nas mortes dos sem-terra. A estratégia norteadora do
discurso de FHC é tratar do assunto como um espectador do episódio, e não como o
governante do país, o que lhe atribuiria, no mínimo, uma co-responsabilidade pelo
massacre e pelo encaminhamento jurídico do caso. Ao se colocar na cena discursiva
como um espectador, o presidente pode construir o seu próprio discurso a partir do
discurso dos Outros (MST, ONG’s, Anistia Internacional, ONU etc.). Daí o ‘tom’ de
indignação e de revolta assumido por Fernando Henrique, que analisaremos com mais
detalhes adiante. Assim, o presidente forja uma auto-representação social pois, pelo
cargo que ocupa, necessariamente ele está entre os grupos da elite política –, e exime o
seu governo da responsabilidade pelo massacre. Esse aspecto pode ser exemplificado a
partir de um dos discursos reportado de FHC: “[...] “Como cidadão, eu lamento que o
Brasil não tenha ainda, o conjunto da sociedade, tomado consciência de que a
160
impunidade, a sensação de impunidade é o que impede a consolidação da democracia”
[...]”. Já no inicio do enunciado, Fernando Henrique estabelece sua auto-representação
‘como cidadão’. Essa marca discursiva o deixa livre para falar do Brasil criticamente,
sem envolver a prática política do seu governo nas questões que ele mesmo formula.
Observemos, em outros trechos da notícia, os demais elementos lingüístico-
discursivos que operam na construção desse quadro. no título da notícia (“FHC critica
resultado do julgamento”) o efeito de sentido inicia a composição da estratégia que
discutíamos: o presidente age como um ‘crítico’ sobre os problemas do país que governa.
O argumento que poderia embasar tal postura é o de que os poderes executivo e jurídico
são instâncias independentes. Entretanto, o embate entre esses dois poderes é recorrente,
principalmente quando se trata de questões que interessam ao governo (aprovações de
medidas provisórias etc.). Também é importante ressaltar que, no contexto político
brasileiro, é o poder executivo ou seja, o presidente da república que indica os
ministros das altas instâncias jurídicas. Assim, não é legítimo argumentar que os dois
poderes não têm relação de dependência. Na análise da notícia, observamos que o jornal
atua na construção retórica elaborada pelo presidente, colaborando, dessa forma, com a
cena discursiva criada por FHC. O verbo introdutor de opinião utilizado no primeiro
enunciado do lead (“O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a impunidade
prejudica a democracia [...]”) é um elemento lingüístico-discursivo que reforça a
estratégia de FHC. Sua força semântica atribui autoridade ao falante, sendo tal escolha
ideologicamente orientada, pois tem efeito axiomático. Assim, identificamos o discurso
do jornal sendo norteado pelo discurso do presidente.
Outra categoria a ser analisada é o acesso. Observemos que o texto é basicamente
construído a partir do discurso direto e indireto do presidente, sendo sua voz a que
predomina em toda a notícia. A inserção discursiva do repórter, ao longo do texto,
restringe-se à articulação das falas do presidente. Isso não pode ser entendido, entretanto,
como um não posicionamento discursivo do jornalista, pois a escolha das vozes que
compõem o texto é também um gesto discursivo. Analisar todas as citações seria um
trabalho exaustivo e traria elementos para a nossa investigação apenas sobre os aspectos
de natureza micro-discursiva.
161
O que se mostra mais relevante, neste caso, é discutir a macro-estratégia das ações
discursivas de FHC e do jornal: ele é tratado na notícia não pelo cargo político que ocupa,
mas como um sociólogo – sua formação acadêmica –, daí a justificativa para uma postura
analítica do país e o seu questionamento’ sobre a impunidade nas mortes dos sem-terra.
O ‘deslocamento de papéis sociais’ e, conseqüentemente, de discursos, pode ser melhor
analisado se contrapormos a notícia acima (com um discurso crítico do ‘Fernando
Henrique-sociólogo’ sobre o julgamento de Eldorado do Carajás) com o exemplo abaixo,
na qual a representação assumida é a do Fernando Henrique-presidente’. Observemos o
funcionamento dessa dupla representação e como essa estratégia ‘protege’ FHC de
críticas ao seu governo.
Exemplo 19:
FHC critica invasões a terras produtivas (FSP, 14/04/1999)
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse que os governadores "não devem se acanhar'' e,
"havendo a ocupação de terra produtiva por provocação'', devem "tirar'' os invasores."Eu nunca
fui nem sou partidário desses atos de violência, mas eu percebo que existe hoje no Brasil uma
disposição que não é a de fazer reforma agrária, mas uma atuação que é perigosa.
(...) (Ela desafia) aquilo pelo qual nós lutamos sempre, que é o Estado de Direito, que é o respeito
à lei. E isso não é aceitável'', disse ontem, diante de uma platéia de 11 governadores, no Palácio
do Planalto. "Diga-se de passagem, também, que os governadores não devem se acanhar. (...) E as
instituições têm que utilizar os recursos legais de que dispõem para que a lei seja respeitada'',
continuou o presidente.
Em outro momento, FHC disse que é importante que os governadores tenham "meios para
enfrentar as ocupações" para que possam usar recursos que não sejam "só o pior, que é o uso da
polícia''.Sem citar nomes de entidades que vêm promovendo invasões, como o MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na
Agricultura), o presidente disse que se tratam de "movimentos que dizem que querem terra, mas
querem é bagunça''."Nada justifica que se veja esse movimento espetacular de num mesmo dia,
em todo o Brasil, ocupar não sei quantas terras produtivas e não produtivas. Isso é 'show off', para
mostrar na imprensa estrangeira, para fazer de conta que aqui está havendo um caos social que
não está havendo'', afirmou.
Temos, nessa notícia, a auto-representação do FHC-presidente. O posicionamento
na cena discursiva é diferenciado em relação ao exemplo anterior e, conseqüentemente, o
discurso também segue outra linha ideológica. Enquanto na outra notícia quem falava era
o FHC-sociólogo, a ação discursiva norteadora era a construção da representação de um
ator social ‘isento’ e ‘habilitado’ para tratar das questões do país e responder às críticas
das organizações internacionais. Nessa notícia, o ator social que aparece na cena
162
discursiva é o FHC-presidente e isso está marcado pela linha argumentativa do texto. No
outro exemplo, as críticas eram conceituais, tratando de elementos vagos, tais como
‘sociedade’, ‘país’, ‘democracia’ etc. Nesta notícia que analisamos, as críticas são
direcionadas a grupos sociais específicos o movimento sem-terra, ainda que não haja
uma referência direta. Outro elemento que marca a auto-representação de FHC como
presidente é o direcionamento do seu discurso. Se no exemplo anterior seus interlocutores
eram ‘a sociedade’, neste texto ele não fala diretamente para um grupo específico os
governadores –, como ainda assume a condição de chefe de estado, determinando a
postura que os governadores devem assumir em relação às ocupações de terras.
Observemos no trecho “O presidente Fernando Henrique Cardoso disse que os
governadores "não devem se acanhar'' e, "havendo a ocupação de terra produtiva por
provocação'', devem "tirar'' os “invasores” [...]”.
Analisando o trecho em questão, identificamos a co-relação entre as auto-
representações do personagem sociólogo e do personagem presidente da república na
constituição discursiva. Enquanto o sociólogo tratava a violência no campo como ‘uma
vergonha nacional’, a ideologia que sustenta o discurso do presidente está explicitada no
efeito retórico do enunciado – um comando aos governadores para o trato dos sem-terra –
assim como na rede lexical estabelecida no texto: ‘ocupação’, ‘provocação’, ‘tirar’,
‘invasores’, analisando apenas o trecho destacado. A generalização das críticas do
presidente é a estratégia argumentativa que queremos discutir detalhadamente, pois o seu
efeito, por operar na implicitude textual, influencia na construção dos modelos mentais.
Observemos que o presidente faz questão de enfatizar que a sua crítica é direcionada a
‘invasões de terras produtivas’, sendo este, inclusive, o enunciado que compõe o título.
Entretanto, ele não deixa claro qual a política do seu governo em relação à reforma
agrária e, ao tratar das causas que levariam a tais invasões, utiliza-se de imprecisão e
vagueza, pois não especifica quais ‘invasões’ escriticando, nem tampouco os atores ou
grupos sociais responsáveis por elas. Ao não definir suas críticas, FHC direciona,
implicitamente, a interpretação do seu discurso. Isso porque o efeito cognitivo, entre os
leitores, tende a ser a associação ao MST, movimento que tem mais destaque na mídia
quando se trata de questões agrárias. Assim, o presidente acusa, nas entrelinhas do não-
dito, o MST de ser um grupo perigoso’ e de promover ‘ações ilícitas’. Exemplificamos
163
tais questões no trecho a seguir: “[...]“eu percebo que existe hoje no Brasil uma
disposição que não é a de fazer reforma agrária, mas uma atuação que é perigosa. (...)
(Ela desafia) aquilo pelo qual nós lutamos sempre, que é o Estado de Direito, que é o
respeito à lei. E isso não é aceitável''[...]”.
Exemplificando melhor as considerações feitas sobre a notícia anterior, analisamos
um aspecto identificado no último parágrafo desta notícia: já havia a preocupação de
Fernando Henrique com a repercussão da questão agrária do Brasil na mídia
internacional, mas com outra característica. O outro texto, publicado em 20/11/1999, é
totalmente responsivo à repercussão da mídia estrangeira, inclusive concordando com as
críticas trazidas por esses veículos de comunicação. Esta notícia, entretanto, foi publicada
em 14/04/1999, ou seja, sete meses antes de o massacre e dos sem-terra assumirem um
destaque incisivo na mídia internacional.
Nesse momento, a preocupação do presidente não era ‘aliar’ o seu discurso ao das
organizações internacionais como identificamos no exemplo anterior –, pois a
mobilização das mesmas ainda não caracterizava uma ameaça à hegemonia do governo.
Daí, as ações dos sem-terra serem tratadas pelo presidente como um espetáculo para
conseguir espaço nos jornais internacionais. Isso é dito claramente: “[...] Nada justifica
que se veja esse movimento espetacular de num mesmo dia, em todo o Brasil, ocupar não
sei quantas terras produtivas e não produtivas. Isso é 'show off', para mostrar na imprensa
estrangeira, para fazer de conta que aqui está havendo um caos social que não está
havendo'', afirmou [...]”. As nominalizações utilizadas pelo presidente (‘movimento
espetacular’; ‘show off’) para construir o processo de referenciação sobre as ocupações
são ações de categorização ideologicamente estabelecidas e operam na construção da
deslegitimação dos sem-terra. E todo esse processo se dá, fundamentalmente, nas
entrelinhas discursivas, pois, ainda que as críticas sejam ideologicamente marcadas, elas
não são explicitamente direcionadas, cabendo ao leitor atribuí-las aos atores sociais que
mais recorrentemente são citados na mídia: os trabalhadores rurais sem-terra. Esse jogo
argumentativo é prejudicial aos que estão atrelados implicitamente ao texto, pois, se a
referência não é direta, o direito à resposta que raramente ocorre é ainda mais
difícil.
164
Exemplo 20:
Papa condena massacre dos sem-terra no Pará (FSP, 25/04/1996)
O papa João Paulo 2º, por meio do Conselho Pontifício de Justiça e Paz, condenou o massacre de
19 trabalhadores sem terra acorrido na semana passada no Pará.
A condenação foi transmitida ao Brasil por carta do cardeal francês Roger Etchegaray, presidente
da comissão no Vaticano.
A carta chegou ontem à 34ª Assembléia-Geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil), que acontece até o dia 26 em Indaiatuba (110 km a noroeste de São Paulo).
O documento afirma que ''o problema da distribuição da terra e suas graves conseqüências só
poderá ser resolvido na perspectiva ética e política, garantida por uma reforma agrária corajosa e
de longo alcance''.
Na carta, o cardeal fala em ''massacre de 20 camponeses sem terra'' e transmite aos bispos
brasileiros seus ''sentimentos de profunda angústia por tanta violência e desprezo pelo homem''.
Em seguida, o cardeal afirma que seu conselho pontifício se ''une ao pedido feito pela CNBB para
todo o país: que rezem pelos camponeses assassinados e façam um empenho excepcional pela
instauração da justiça social''.
Exemplo 21:
Igreja apóia invasão do MST, diz d. Paulo (FSP, 19/02/1997)
O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, afirmou que a Igreja Católica apóia as
invasões promovidas pelos sem-terra. Disse também que é preciso fazer reforma agrária ''urgente''
no Brasil.
''É legítima a ocupação de uma terra que não está sendo trabalhada'', disse o cardeal.
D. Paulo criticou o ritmo da reforma agrária no país, mas defendeu o presidente Fernando
Henrique Cardoso. ''FHC precisa do apoio do povo, senão os partidos que o apóiam vão
dificultar.''
As declarações foram dadas ontem na reunião anual dos bispos da Arquidiocese de São Paulo, no
Centro Santa Fé.
O local também foi ponto de parada da caminhada de 1.000 km dos sem-terra, que saíram
anteontem de São Paulo rumo a Brasília, onde chegarão no dia 17 de abril.
A marcha é um protesto contra a política agrária do governo e pede a punição dos responsáveis
pela morte de 19 sem-terra, em Eldorado dos Carajás, no Pará.
O cardeal afirmou que a igreja ''está ao lado dos sem-terra''. Disse que a reforma agrária está
atrasada 500 anos. ''O Brasil não pode esperar mais.''
Exemplo 22:
Bispos defendem invasões do MST (FSP, 17/04/2002)
O bispo de Duque de Caxias (RJ), d. Mauro Morelli, afirmou ontem que aprova as invasões que
estão sendo realizadas pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) pelo país.
D. Mauro, 66, fez a declaração em Indaiatuba (interior de SP), onde participa da 40ª Assembléia
da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
165
Celebrações em homenagem aos 19 sem-terra mortos em Eldorado do Carajás (PA), em
confronto com a Polícia Militar, em abril de 1996, devem acontecer hoje em vários pontos do
país.
De acordo com d. Mauro, "a ocupação é uma forma extremada que o povo encontrou para a
solução dos seus problemas, que, no caso da divisão de terras, não tem a atitude correspondente
dos governos".
"A Igreja apóia a ocupação, pois ela cria uma tensão social que faz com que o governo negocie
com os sem-terra. E, daí, podem surgir os assentamentos", declarou.
Como estamos centrando o estudo deste frame na construção das representações
sociais, faremos uma macro-análise dos exemplos 20, 21 e 22, pois tratam de ações de
uma mesma instituição, a Igreja Católica, e o seu posicionamento sobre o massacre de
Eldorado do Carajás, assim como da prática política do MST. Nas três notícias
analisadas, identificamos um discurso marcadamente ideológico dos representantes da
Igreja contra a situação agrária brasileira. O caráter humanitário das questões criticadas
as mortes dos sem-terra, a fome dos agricultores etc. não opera como o argumento
propulsor, mas sim a prática política dos governantes e a ausência histórica de um
planejamento de reforma agrária no país. Esse apoio, inclusive, está atrelado à própria
constituição do MST, que teve sua origem a partir de uma ala da Igreja Católica, a
Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Observemos, primeiramente, a notícia do exemplo 20, que trata do
posicionamento do então Papa João Paulo II sobre o massacre de Eldorado do Carajás.
Podemos analisar a severidade das críticas e a politização do massacre a partir de
algumas marcas lingüístico-discursivas. A construção do título carrega não apenas a
autoridade do ator social envolvido, mas também sofre interferência do próprio discurso
desenvolvido no texto: “Papa condena massacre dos sem-terra no Pará”. Dois aspectos
relacionados aos itens lexicais exemplificam a análise que estamos propondo: ‘condena’;
‘massacre’. O primeiro está atrelado à autoridade do ator social representado
discursivamente e o segundo está em relação constitutiva com os modelos de contexto
que operam na construção do texto, ou seja: o teor do discurso do Papa, assim como as
fontes entrevistadas para a elaboração da notícia. Trazendo algumas questões teóricas
discutidas anteriormente, a construção textual parte de vários aspectos, sendo que os
modelos de contexto que estão operando mais especificamente no momento da
escrita/fala são os elementos que irão constituir o discurso. Por isso, identificamos
166
categorizações diferenciadas sobre Eldorado do Carajás, devido às experiências pessoais
dos repórteres com o caso, assim como a influência dos distintos atores sociais
entrevistados.
Podemos também analisar a politização (ou ideologização) do discurso do Papa
sobre o massacre dos sem-terra a partir de um trecho retirado da notícia: “[...] O
documento afirma que ''o problema da distribuição da terra e suas graves conseqüências
poderá ser resolvido na perspectiva ética e política, garantida por uma reforma agrária
corajosa e de longo alcance.” [....]”. Na citação ao documento do Papa, observamos que o
jornal estabelece a mesma estratégia de distanciamento discursivo com uso do duplo
aspeamento, ou seja, já havia a referência ao texto do Outro (O documento afirma que”),
pois esta construção já opera como introdutor de discursos. Entretanto, ainda a
demarcação por aspas, que ocorre justamente na parte do texto que traz críticas à política
agrária brasileira.
No exemplo 21, a ação discursiva do cardeal opera na legitimação do MST como
movimento social e, conseqüentemente, das suas práticas políticas. O efeito principal
dessa ação é a construção de uma representação social dos sem-terra, diferenciada da que
vem predominando no discurso do jornal: um movimento estereotipado e criminoso.
Observemos que, na declaração do cardeal, assim como a do Papa, a associação das
práticas de ocupação de terras à ausência de uma política de reforma agrária. No
exemplo: “[...] “É legítima a ocupação de uma terra que não está sendo trabalhada'', disse
o cardeal. D. Paulo criticou o ritmo da reforma agrária no país, mas defendeu o presidente
Fernando Henrique Cardoso. ''FHC precisa do apoio do povo, senão os partidos que o
apóiam vão dificultar”. [...]”. Interessante analisar, nesse trecho, a ação discursiva do
jornal ao tratar as críticas do cardeal D. Paulo sobre a reforma agrária. É contraditório o
discurso do cardeal (“criticou o ritmo da reforma agrária no país”) com a construção
adversativa introduzida pelo repórter (“mas defendeu o presidente Fernando Henrique
Cardoso”), principalmente se analisarmos o discurso reportado do cardeal que vem na
seqüência: (“'FHC precisa do apoio do povo, senão os partidos que o apóiam vão
dificultar”). O efeito pragmático do discurso opera mais como um ‘alerta’ ao presidente –
sobre o que ele deveria fazer e não está fazendo – do que uma ação de defesa. Nesse caso,
167
observamos a intervenção do jornal, ao desenfatizar o discurso reportado que legitimiza o
MST, modalizando as críticas contra o presidente.
A notícia do Exemplo 22 foi publicada seis anos após a analisada no Exemplo 20,
ano em que ocorreu o massacre em Eldorado do Carajás. Essa perspectiva cronológica é
relevante, pois podemos refletir sobre dois aspectos: i) a linha discursiva da Igreja ao
tratar sobre o MST é a mesma, enfatizando o apoio às ocupações e enfatizando que essa
prática resulta da ausência de uma política de reforma agrária do governo. Observemos
no trecho destacado: “[...] De acordo com d. Mauro, “a ocupação é uma forma extremada
que o povo encontrou para a solução dos seus problemas, que, no caso da divisão de
terras, não tem a atitude correspondente dos governos”. “A Igreja apóia a ocupação, pois
ela cria uma tensão social que faz com que o governo negocie com os sem-terra. E, daí,
podem surgir os assentamentos, declarou” [....])”.
No discurso do bispo, a mesma marca de construção de representação legítima
dos sem-terra. Essa continuidade na linha discursiva por um segmento da sociedade na
luta pela legitimação do movimento nos leva a refletir sobre tais perspectivas: i) ainda
uma forte mobilização das elites contra o MST. O que nos leva ao segundo aspecto a ser
discutido: ii) passados oito anos das mortes dos sem-terra, o movimento de
deslegitimação do MST, por parte dos grupos conservadores, não sofre interferências das
distintas vozes que passam a agir na tentativa de construir modelos mentais não
estereotipados sobre o MST. Ou seja, os discursos dos movimentos sociais, ONG’s,
Igreja, Anistia Internacional, OAB etc., construídos a partir de outra linha ideológica
sobre os sem-terra, não têm poder para subverter a delimitação Nós x Eles. Daí,
identificarmos a recorrência da mesma linha argumentativa no discurso da ala
progressista da Igreja Católica, detendo-nos especificamente nos exemplos que estamos
analisando, que vem desde o início da repercussão do massacre até datas mais recentes.
Exemplo 23:
Fazendeiros fazem reunião (FSP, 16/01/1997)
Proprietários rurais de 14 municípios do sudeste do Pará promovem reunião neste sábado em
Marabá (500 km ao sul de Belém) para montar uma estratégia contra invasões de terra.
A reunião, patrocinada pela Faepa (Federação da Agricultura no Estado do Pará), tem o objetivo
de definir uma estratégia contra a ameaça de mais 30 invasões de fazendas na região pelo MST
168
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
O presidente da Faepa, Carlos Xavier, distribuiu nota convocando os fazendeiros com a
informação de que cerca de 6.000 famílias estão sendo organizadas pelo MST para executar as
invasões.
Xavier enviou fax ao ministro Raul Jungmann (Política Fundiária), para protestar contra Petrus
Abi-Abib, superintendente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em
Marabá. Segundo Xavier, Abi-Abib teria apontado os fazendeiros da região como responsáveis
pelo massacre de 19 sem-terra pela PM do Pará, em abril do ano passado, em Eldorado do
Carajás. Abib negou a declaração.
Exemplo 24:
Fazendeiros 'terceirizam' segurança (FSP, 17/04/2002)
Os fazendeiros da região do Pontal do Paranapanema irão contratar empresas terceirizadas de
segurança e reativaram, nesta semana, um pacto de solidariedade para impedir novas invasões de
propriedades.
A atitude dos fazendeiros seria uma resposta ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra), que anunciou, para até o final deste mês, três "grandes invasões" na região.
Abril é o mês em que tradicionalmente há uma intensificação das ações do MST devido à morte
de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA) em 17 de abril de 96.
Na última segunda-feira, reunidos em torno da UDR (União Democrática Ruralista), os
fazendeiros decidiram contratar empresas de segurança para proteger suas propriedades.
"Estamos reunidos em cerca de cem proprietários, que não irão permitir novas invasões'', afirmou
Luiz Antônio Nabhan Garcia, presidente nacional da UDR.
Segundo Garcia, o "pacto de solidariedade" que funcionou no Pontal em 1995 foi reativado em
razão das "ameaças de invasões e pelo fato de o governo parecer incentivar a desordem no
Pontal''.
Rainha
Garcia "desafiou" o líder do MST, José Rainha Jr., a comandar as anunciadas invasões na região.
"Ele [Rainha] aposta no surgimento de um mártir. Ele vai ter o mártir que está querendo."
De acordo com ele, o líder do MST "nunca aparece na frente das invasões''. José Rainha Jr. disse
ontem que não iria comentar as declarações de Garcia.
Sobre as acusações do líder dos sem-terra de que fazendeiros estariam montando milícias
paramilitares e pessoas deslocadas do narcotráfico para a segurança das propriedades, Nabhan
afirmou que são "palavras absurdas".
"Quem tem vínculo com as Farc [Forças Revolucionárias da Colômbia] é o MST, não a UDR.
José Rainha não tem moral para acusar ninguém", afirmou.
Partiremos dos exemplos 23 e 24 para dar continuidade à discussão que iniciamos
nas análises anteriores e, também, desenvolver outras questões sobre as ações das elites
brasileiras contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O primeiro aspecto
que ressaltamos é a radicalização das práticas sociais e discursivas dessas instituições
contra o movimento. As primeiras mobilizações sistemáticas dos fazendeiros se dão no
169
ano seguinte ao massacre de Eldorado dos Carajás, provavelmente em resposta à
articulação de grupos favoráveis aos sem-terra. Essas movimentações dos fazendeiros
que passam a ter caráter institucional, e não mais por ações isoladas, que já ocorriam – se
dão em torno de ‘definições de estratégias contra as ocupações do MST’, conforme
observamos no Exemplo 23. Neste caso, a discussão ocorreu em uma reunião, o que
inclusive foi o tópico da notícia, identificado na elaboração do título (“Fazendeiros fazem
reunião”) e no desenvolvimento do lead. Poderíamos dizer que se trata do início da
organização em grupo, por parte dos fazendeiros, sendo que esse caráter institucional está
marcado pelo órgão articulador do encontro, a Feapa (Federação da Agricultura no
Estado do Pará). Entendemos que essa organização institucionalizada é uma ação
responsiva ao início da construção da representação social legítima do MST, assim como
da própria inserção do movimento na sociedade, que passa a agir mais sistematicamente e
com mais força política.
Entretanto, é importante ressaltar que, mesmo se tratando das primeiras
mobilizações dos fazendeiros, podemos identificar, com a análise da notícia, o poder que
esse grupo se auto-atribui e que, provavelmente, deve ser legitimado pelo governo.
Observemos no trecho destacado: “[...] Xavier enviou fax ao ministro Raul Jungmann
(Política Fundiária), para protestar contra Petrus Abi-Abib, superintendente do Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em Marabá. Segundo Xavier,
Abi-Abib teria apontado os fazendeiros da região como responsáveis pelo massacre de 19
sem-terra pela PM do Pará, em abril do ano passado, em Eldorado do Carajás. Abib
negou a declaração”. O fato do presidente da Feapa (Xavier) enviar um fax ao ministro
Raul Jungamann não necessariamente o caracteriza como um ator social com poderes
para interagir diretamente com o ministro. Mas é a resposta do representante do Incra ao
‘protesto’ do fazendeiro que nos possibilita inferir que o governo reconhece e atribui
poderes a esse ator social.
Na notícia seguinte, publicada cinco anos após a do Exemplo 23, identificamos
uma radicalização, por parte dos fazendeiros, no trato com o MST. As práticas sociais e
discursivas passam a ter conotações mais agressivas, conforme analisaremos a partir das
declarações dos fazendeiros. A polarização dos grupos Nós x Eles já está bem delimitada
nesse período. Por parte dos fazendeiros, identificamos o engajamento mais sistemático
170
de instituições conservadoras e historicamente ligadas à elite brasileira. Ou seja, enquanto
na notícia anterior a articulação do grupo era realizada pela Federação da Agricultura no
Estado do Pará uma instituição estadual –, no Exemplo 24 a principal responsável pela
mobilização dos fazendeiros contra os sem-terra é a UDR (União Democrática Ruralista).
Essa relação com instituições poderosas, além de caracterizar uma maior organização dos
latifundiários, também está atrelada à questão da representação social dos dois grupos:
por um lado, o MST conquistando mais espaço na sociedade – apesar da natureza
estereotipada –; por outro, obriga os fazendeiros a agirem não nas altas esferas do
poder, como historicamente caracteriza a sua prática, mas também buscando o apoio da
sociedade, daí a necessidade de ações discursivas.
A partir da topicalização, identificamos o efeito de sentido norteador da notícia:
situar os fazendeiros como o grupo que está sob a ‘ameaça’ constante do MST, o que
justificaria a necessidade de contratar seguranças. Essa relação pode ser exemplificada
no título (“Fazendeiros 'terceirizam' segurança”). O jornal também opera na construção
dessa representação, legitimando a ação dos fazendeiros, ao atrelar os protestos dos sem-
terra contra a impunidade do massacre em Eldorado do Carajás apenas a ocupações.
Observemos no trecho destacado: “[...] A atitude dos fazendeiros seria uma resposta ao
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que anunciou, para até o final
deste mês, três "grandes invasões" na região. Abril é o mês em que tradicionalmente
uma intensificação das ações do MST devido à morte de 19 sem-terra em Eldorado do
Carajás (PA) em 17 de abril de 96”. Desmembrando esse período, identificamos que os
discursos dos fazendeiros e do jornal estão em relação de interdiscursividade, desde o
início do enunciado, mas que a partir do trecho “[...] Abril é o mês em que
tradicionalmente uma intensificação das ações do MST devido à morte de 19 sem-
terra em Eldorado do Carajás (PA) em 17 de abril de 96” a voz predominante é a do
jornal, ainda que seja para reverberar o discurso dos fazendeiros.
Para concluir nossa análise sobre a construção das representações sociais neste
frame, uma citação do representante da UDR é bastante significativa e caracteriza a
prática discursiva dessa entidade em relação ao MST: a criminalização do movimento.
Essa estratégia é analisada detalhadamente no próximo frame, mas a ocorrência neste
texto merece ser discutida. É importante ressaltar que a notícia trata, sem qualquer
171
posicionamento crítico por parte do jornal, do armamento legalizado de um grupo social
(os fazendeiros) para agir contra outro grupo (os sem-terra). Esta questão é naturalizada
na notícia e ainda tida como “uma resposta” a possíveis ocupações do MST. Entretanto,
no fim do texto, e a partir do discurso de José Rainha, é que algum questionamento é
feito ao armamento dos fazendeiros. O jornal traz a declaração de Rainha em apenas um
enunciado, e em discurso indireto (“[...] Sobre as acusações do líder dos sem-terra de que
fazendeiros estariam montando milícias paramilitares e pessoas deslocadas do
narcotráfico para a segurança das propriedades [...]”). O discurso de Rainha é
categorizado como ‘acusação’, quando a ação pragmática está mais relacionada a
‘denúncias’. Mas o jornal não atribui tal poder a sua fala. a resposta do presidente da
UDR vem logo em seguida, no mesmo trecho. Ele tem o poder discursivo de categorizar
as declarações de Rainha (“palavras absurdas”), tem acesso direto ao espaço do jornal,
com citações entre aspas, e o seu discurso traz acusações graves sobre o MST: “[...]
"Quem tem vínculo com as Farc [Forças Revolucionárias da Colômbia] é o MST, não a
UDR. José Rainha não tem moral para acusar ninguém", afirmou. [...]”. No fim da
notícia, o grupo que efetivamente está se armando mantém sua representação legitimada
pelo jornal. Já o outro grupo, vítima desse armamento, é tratado como ilegítimo.
Esse frame tem uma peculiaridade que é a crise da legitimação nas altas esferas
do poder brasileiro, o que também constitui mudanças no continnun protótipo/estereótipo
dos atores/grupos sociais envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás. As críticas
sofridas pelo governo federal levaram o presidente a atuar discursivamente, a partir de
estratégias retóricas que o situavam como expectador do evento, não como responsável.
A mobilização da sociedade, em ações favoráveis ao MST e em reivindicações de justiça
pela morte dos sem-terra, também demandou uma postura discursiva diferenciada da
própria Folha de S. Paulo, se compararmos com o frame anterior. A partir de simulações
de representações, o jornal construiu seu discurso com o efeito de sentido o situando no
grupo Eles. A intertextualidade e a interdiscursividade foram as categorias predominantes
para a elaboração desse efeito. Pela complexidade de grupos de todo o mundo envolvidos
em ações pró-MST, a elite teve que traçar estratégias diferenciadas de discurso, operando
a partir de construções constituídas fortemente no âmbito implícito, o que torna a
identificação das representações sociais uma leitura mais critica e minuciosa. Em
172
uma primeira análise, a crise de legitimação do governo e a instabilidade entre os
atores/grupos sociais prototípicos poderiam remeter a um processo de legitimação do
movimento e uma deslegitimação do massacre. Entretanto, é importante retomar o que
foi observado nas análises: a reação das elites também é forte e teve amplo acesso no
jornal – qualitativamente falando o que pode ter um efeito neutralizador no processo de
legitimação dos sem-terra. Outro aspecto importante a ser enfatizado, principalmente pela
sua recorrência, é a ausência discursiva do MST na construção desse processo já que a
sua voz continua sob o controle do jornal. Assim, se por um lado identificamos ações
sociais e discursivas importantes para a construção de uma memória social não
estereotipada sobre os sem-terra, também é possível observar uma forte resistência das
elites, a partir dos seus recursos discursivos, em permitir que essas outras vozes
reverberem.
Frame III – A Legalização de uma Versão: a cobertura dos trâmites jurídicos
Esse frame está centrado na cobertura jornalística sobre os vários desdobramentos
jurídicos do massacre de Eldorado dos Carajás. É um dos momentos importantes da
cobertura, pois trata das definições legais sobre o caso, como também de denúncias feitas
pelo Ministério Público e por organizações não-governamentais contra o poder judiciário
apontando irregularidades, corrupção e abuso de poder. Investigar como o jornal tratou
tal questão nos permite observar se uma relação crítica entre a prática jurídica e a
prática jornalística, ou uma sustentação de forças entre esses dois poderes. O objetivo é
estudar a relação entre tais domínios discursivos, a partir da construção da tessitura
textual. Por isso, a análise desse frame prioriza o aspecto do interdiscurso, tanto em sua
forma manifesta no intertexto quanto em sua forma mais intrínseca, já que a
interdiscursividade opera na própria constituição do discurso (Bazerman, 2003; Koch
2004). Outras categorias, como as de natureza semântica, também compõem o quadro de
análise, tendo em vista a necessidade de aprofundar as estratégias de movimentação
discursiva e a corporificação dos seus significados.
173
Como foi dito, a topicalização é a macro-ação discursiva que opera na
organização global do texto e age fortemente nos aspectos cognitivos de compreensão
textual, na elaboração de modelos mentais, na construção de estereótipos etc. Por isso, é
uma categoria que norteia toda a análise, ainda quando não tratada sistematicamente.
Como estamos estudando o discurso de dois domínios da elite sobre um movimento
social, é relevante observar como foi estabelecida a distinção Nós x Eles. O estudo da
interdiscursividade também conta desse aspecto, a partir da investigação do espaço
dado a instituições contrárias ao status quo e suas possibilidades de inserção no discurso
do jornal.
Na análise deste frame, identificamos algumas ações discursivas que podem ter
operado no processo de (des)legitimação do MST. A primeira questão a ser ressaltada é
como o jornal, a partir de 1998, passa a categorizar o ‘fato’ Eldorado dos Carajás: o uso
do item lexical ‘massacre’ é mais marcado, diferentemente de outros frames (como o I e
o III, principalmente), nos quais os itens lexicais usados reverberam tanto os discursos
das instituições do poder (‘confronto’, ‘incidente’ e ‘legítima defesa’), quanto do MST e
de outros movimentos sociais (‘massacre’, ‘chacina’), em uma relação instável, mas
ainda assim com o predomínio do discurso do poder. Na cobertura jurídica, entretanto,
identificamos a categorização ‘massacre’ mais estabilizada. Entretanto, não podemos
afirmar que isso resulta em uma ação favorável aos sem-terra, pois existe uma ‘lacuna
semântica’, como iremos observar na análise dos textos: a categorização ‘massacre’,
ou seja, uma ação; mas não há o sujeito – atores ou grupos sociais – que tenham
praticando tal ação. Isso pode ser justificado pelo menos de duas formas: i) trata-se da
cobertura do julgamento dos possíveis culpados, então é compreensível que o próprio
jornal seja cuidadoso em definir tal sujeito (o que seria definir um culpado, algo que a
própria Justiça ainda não definiu); ii) essa lacuna semântica pode resultar também de uma
opção do jornal em assumir (e sustentar) o discurso da polícia e, como iremos observar,
do próprio domínio jurídico, que resiste até as suas últimas instâncias em julgar os
culpados pelas mortes em Eldorado dos Carajás.
Dessas análises, identificamos outro problema de estudo: a categorização de
Eldorado dos Carajás como ‘massacre’ pode não resultar, necessariamente, na
legitimação do MST como movimento social. Isso porque o caso é tratado como ‘uma
174
questão atípica’, ou mesmo uma ‘tragédia’, e não como uma ação resultante de uma
política governamental específica a favor dos latifundiários, que é contra a reforma
agrária, e utilizando a violência institucional (polícias, exército etc.) contra os sem-terra.
Iremos investigar esse problema relacionando a análise das notícias deste frame com os
demais e, assim, ter subsídios para fundamentar as considerações que pretendemos
discutir no final deste trabalho.
Exemplo 25:
Começa o julgamento dos policiais militares envolvidos no massacre de Eldorado do
Carajás (FSP, 16/08/1999)
São poucas as chances de condenação em massa dos 150 policiais militares indiciados pela
operação que resultou na morte de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA), em 17 de abril de
1996. Pela fragilidade do inquérito, se o júri se detiver somente nos aspectos técnicos, poderá
haver poucas condenações.
O julgamento, que será o mais longo do país, começa hoje na capital do Estado, Belém, e deve
durar até dezembro. Saiba o que pode acontecer.
AS AUTORIDADES
Movimentos de direitos humanos pediram a inclusão do governador do Estado, Almir Gabriel
(PSDB), do secretário da Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, e do comandante-geral da PM
do Pará à época, coronel Fabiano Diniz Lopes, na lista dos réus. Contra eles pesavam os seguintes
fatos:
1. o comandante da operação, coronel Mário Colares Pantoja, de Marabá, disse que obedeceu
ordens do governador, por intermédio do secretário e do comandante da PM, para desobstruir a
rodovia PA-150 de qualquer modo;
2. a desobstrução da rodovia foi feita sem autorização judicial;
3. no dia do massacre, foram feitas 26 ligações entre o batalhão da PM em Marabá e a sede do
governo do Estado, a Secretaria da Segurança e o comando da PM. Metade delas foi feita após as
mortes;
4. as autoridades se defenderam afirmando que os comandantes da operação agiram com
violência por conta própria. Disseram também que, nos telefonemas, apenas pediam informações
sobre a ação. As autoridades não foram denunciadas.
OS COMANDANTES
As maiores chances de condenação recaem sobre os dois comandantes da operação: o coronel
Pantoja, que liderou 85 PMs de Marabá, e o major José Maria Oliveira, que comandou 68
policiais de Parauapebas. Se forem condenados por homicídio doloso (intencional), podem pegar
de 12 a 30 anos de prisão.
O coronel Pantoja foi quem planejou cercar os sem-terra na estrada. Cenas gravadas por uma TV
mostram que seus homens foram os primeiros a atirar.
175
Pedro Alípio, o motorista do ônibus que transportou os PMs de Marabá para Eldorado do Carajás,
afirmou ter ouvido o coronel dizer aos policiais: "Missão cumprida, ninguém viu nada", após o
massacre, na volta.
Exames nos corpos indicam que os PMs agiram com intenção de matar e, em alguns casos,
executaram suas vítimas.
Pantoja tinha um oficial (capitão Figueiredo) infiltrado no acampamento dos sem-terra, conforme
descobriu a Polícia Federal. Relatório da PF diz que a Polícia Militar, com as informações do
infiltrado, "tinha completo conhecimento da situação, inclusive da disposição de enfrentamento
por parte dos integrantes do MST".
Isso dificulta a defesa do coronel, que alega que a PM foi surpreendida com a reação dos sem-
terra. Várias testemunhas -inclusive independentes dos sem-terra- disseram que os PMs usavam
fardas sem a biriba (identificação do nome e posto que é afixada no bolso da camisa). Isso pode
indicar premeditação.
O major Oliveira distribuiu as armas para seus comandados sem respeitar a regra de identificar -
por meio de um documento chamado cautela- quem as estava recebendo. A acusação vai alegar
premeditação e a intenção de dificultar a identificação
Esta é a notícia do início do julgamento de Eldorado dos Carajás. Identificamos,
já no tulo, um dos aspectos ressaltados anteriormente: as mortes dos sem-terra passam a
ser categorizadas mais recorrentemente como ‘massacre’ (“Começa o julgamento dos
policiais militares envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás”). Entretanto, o
atributo relacional à categoria ‘polícia’ se a partir do item lexical envolvidos, que
opera na valoração dessa categoria. Assim, apesar de as mortes terem sido conceituadas
como ‘massacre’, os policiais não são tratados como sujeitos responsáveis pela ação, pois
o léxico ‘envolvido’ é semanticamente vago e não define quem provocou tais mortes.
Dessa forma, reconhece-se que houve assassinato em massa, mas não os culpados.
Essa mesma relação de vagueza semântica pode ser observada no lead, no trecho
destacado: “[...] pela operação que resultou na morte de 19 sem-terra em Eldorado do
Carajás (PA) [...]”. Há, neste enunciado, marcas do discurso das instituições do poder (do
Governo Estadual e da polícia), identificadas no atributo dado à ação policial (“operação
que resultou”), onde, novamente, não a identificação dos sujeitos que agiram nas
mortes dos sem-terra. O massacre continua sendo tratado como uma casualidade, ou uma
tragédia. Também no lead é possível identificar um dos aspectos que apontamos como
fundamental para a caracterização deste frame: a interdiscursividade. O discurso jurídico,
neste exemplo, é assumido pelo jornal passivamente, sem qualquer relação de criticidade,
como notamos neste período: “Pela fragilidade do inquérito, se o júri se detiver somente
176
nos aspectos técnicos, poderá haver poucas condenações”. Não um questionamento,
ou mesmo uma explicação, do que seria essa “fragilidade do inquérito”. É apenas a voz
da Justiça assumida no discurso do jornal. Antes mesmo deste período citado,
observamos que o início do lead é construído a partir da voz do poder judiciário, pois a
notícia começa com uma avaliação fundamentada em um argumento jurídico: “São
poucas as chances de condenação em massa dos 150 policiais militares [...]”.
O segundo parágrafo do texto traz questões relevantes sobre as relações de
poderes entre os domínios jornalístico e judiciário. Enquanto nas principais estruturas de
relevância da notícia identificamos a subserviência do jornal em relação ao discurso
judiciário, o desenvolvimento do texto segue outro caminho. O discurso assumido pelo
jornal é o de um poder paralelo ao jurídico, com força para levantar questionamentos e
análises críticas incluindo também o poder executivo. Observemos o último enunciado
do parágrafo, que serve como um introdutor aos textos-resumos que virão a partir de
intertítulos: “O julgamento, que será o mais longo do país, começa hoje na capital do
Estado, Belém, e deve durar até dezembro. Saiba o que pode acontecer”. O enunciado
destacado por nós em itálico aciona a mudança discursiva do jornal.
Os textos-resumos operam como um ‘passo a passosobre o julgamento. Apenas
como estratégia de elaboração textual, poderia ser tido como uma ‘simplificação’ do
desenvolvimento do caso para facilitar a compreensão do leitor. O efeito de sentido dessa
estratégia, entretanto, opera em uma construção discursiva do jornal sobre o que é ‘o
caso’, assim como em uma avaliação de como atores e grupos sociais específicos atuaram
e estão atuando no mesmo. Entendemos que essa estratégia discursivo-cognitiva é de
forte caráter ideológico e opera na elaboração dos modelos mentais, pois tem um efeito
enciclopédico no tratamento do caso, que vai atuar mais especificamente na construção
da memória episódica e na representação mental sobre Eldorado de Carajás.
Analisemos alguns dos elementos que exemplificam nossas considerações. Sob as
formas de pressuposições e implicitudes, alguns elementos operam na construção do
quadro que o jornal pretende montar. No primeiro intertítulo (“As Autoridades”), o
pressuposto de todos os argumentos elencados é uma reivindicação dos “movimentos de
direitos humanos”. Nessa teia discursiva, a voz de tais movimentos passa a ser assumida
como a voz do próprio jornal, que se auto-atribui legitimidade para fazer tais críticas e
177
reivindicações. No item dois, por exemplo, “a desobstrução da rodovia foi feita sem
autorização judicial”, apesar de o enunciado se fundamentar numa ação de outro domínio
– o jurídico –, o efeito de sentido principal é que é o jornal que tem o poder de trazer esse
discurso para a opinião pública, e assim respaldá-lo. No item três, identificamos outra vez
a categorização do ‘episódio’ como massacre e a relação contextual dessa categorização
parece-nos relevante, pois esse texto foi escrito sob a fundamentação do discurso de
movimentos de direitos humanos. No final do item três, identificamos outra vez o jornal
como a instituição ‘julgadora’ do caso. No enunciado “As autoridades não foram
denunciadas.”, fica implícita a inoperância das demais instituições citadas no texto o
batalhão da PM em Marabá; a sede do governo do Estado; a Secretaria da Segurança e o
comando da PM – e a autoridade do jornal em questionar tais instituições.
No segundo texto-resumo observamos uma hibridização do discurso do jornal
com a dos movimentos sociais. Entretanto, é importante ressaltar duas questões sobre
esse aspecto: i) a interface contextual, como apontamos anteriormente, pois esse texto
foi produzido a partir de textos-fontes dos movimentos sociais (como foi citado desde o
inicio); ii) e o mais relevante para nossa investigação: ainda que mesclando o seu
discurso ao discurso de grupos que não fazem parte das instituições do poder, ou seja, se
posicionando contrário a tais instituições, não é exatamente o discurso do MST que é
trazido para compor esse quadro. Então, retoma-se uma questão que discutíamos
anteriormente: o jornal passa a agir discursivamente pela deslegitimação do massacre de
Eldorado de Carajás. Entretanto, tal ação está relacionada a esse caso específico, e, pelo
que temos analisado até aqui, não pode ser atrelada à legitimação do próprio MST como
movimento social. O jornal utiliza diferentes estratégias para estabelecer esse ‘limite’.
Nesta notícia específica, essa questão pode ser identificada a partir dos distintos discursos
reportados para a reconstituição do massacre, sem que os sem-terra sejam citados sequer
uma vez. Observemos nos exemplos retirados do texto, no intertítulo “As Autoridades”.
1- “Movimentos de direitos humanos pediram a inclusão do governador do Estado, Almir
Gabriel (PSDB), do secretário da Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, e do
comandante-geral da PM do Pará à época, coronel Fabiano Diniz Lopes, na lista dos
réus”.
178
2- Cenas gravadas por uma TV mostram que seus homens foram os primeiros a atirar”.
3 rias testemunhas -inclusive independentes dos sem-terra- disseram que os PMs
usavam fardas sem a biriba (identificação do nome e posto que é afixada no bolso da
camisa). Isso pode indicar premeditação [...]”
4 “Pantoja tinha um oficial (capitão Figueiredo) infiltrado no acampamento dos sem-
terra, conforme descobriu a Polícia Federal.”
Vários outros aspectos ainda poderiam ser destacados nessa notícia, que inicia a
cobertura do jornal sobre o julgamento de Eldorado de Carajás. Entretanto, deixamos
para explorar mais elementos em outros textos, relembrando que nosso objetivo principal,
nesse frame, é investigar como a intertextualidade e a interdiscursividade foram utilizadas
pelo jornal para a construção do seu próprio discurso; que efeito teve esse processo na
construção da (des)legitimação do massacre de Eldorado de Carajás; e se isso tem relação
com o processo de (des)legitimação do MST.
Exemplo 26:
MP do Pará autoriza a retomada do processo
Julgamento dos PMs deve ser reiniciado na próxima semana (FSP, 27/08/1999)
O Ministério Público do Pará voltou atrás e vai permitir que seja reiniciado o julgamento dos PMs
que atuaram na operação que resultou na morte de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás, em abril
de 96.O TJ (Tribunal de Justiça) do Estado, que pressionou pela retomada do julgamento, tentará
reinstalar ainda hoje o tribunal do júri.
Entretanto, os trabalhos só devem começar na próxima semana devido à impossibilidade de
convocar todos os réus, testemunhas, advogados e funcionários públicos que participam do
julgamento.Três réus julgados na semana passada foram absolvidos _o coronel Mário Colares
Pantoja, o major José Maria Oliveira e o capitão Raimundo Almendra Lameira. Restam outros
147 acusados. Depois de abandonar o tribunal do júri em protesto contra a conduta do juiz
Ronaldo Valle, o promotor Marco Aurélio Nascimento, responsável pela acusação, voltou
atrás."Estarei de volta ao tribunal do júri até por respeito à instituição", disse o promotor. Sua
ausência impedia os trabalhos, já que o tribunal do júri não pode funcionar sem a presença do
acusador. Ele reconheceu, no entanto, que o julgamento dos próximos réus pode ser
"contaminado" pela sistemática do júri anterior.
179
O lead da notícia tem como aspecto predominante a interdiscursividade tecida
entre duas instâncias do domínio jurídico o Ministério Público (MP) e o Tribunal de
Justiça (TJ), sendo que a topicalização discursiva se dá a partir de uma ação do MP. Esses
são os dois discursos manifestos. Entretanto, outra interdiscursividade não manifesta
constituindo o discurso do jornal que está operando na descrição e conseqüentemente
na categorização do ‘caso’ Eldorado dos Carajás. Analisemos este trecho do primeiro
enunciado do lead: [...] “o julgamento dos PMs que atuaram na operação que resultou na
morte de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás, em abril de 96.” É importante discutir
como a ação ‘julgamento’ é ideologicamente marcada, pois isso justificaria a
necessidade de conceitos e atributos vagos para o grupo social que está sofrendo tal ação:
polícia militar. Primeiro, os policiais são conceituados como ‘atuantes de uma operação’,
o que não explica qual a acusação que os levou a julgamento. Os atributos ligados a esse
conceito, por sua vez, têm o mesmo efeito de vagueza semântica, tomando como
fundamento o verbo usado para a descrição do evento (‘resultar’), que tem um efeito de
sentido ‘naturalizador’, ou seja, algo que acontece ‘naturalmente’ sob o qual não há
agente responsável. Dessa teia de construção textual, inferimos que o discurso que
permeia o discurso do jornal, mesmo que não explicitado, é o da própria polícia (em sua
instância superior, a Secretaria de Segurança do Pará). Essa relação de
interdiscursividade é bastante relevante para uma possível legitimação do massacre, pois
o discurso que está sustentando o discurso do jornal é o do próprio grupo que está sendo
acusado pelas mortes. É importante observar em outras notícias a recorrência desse caso.
Já o sublead da notícia é elaborado a partir de outra relação interdiscursiva.
Identificamos o discurso jurídico como o propulsor dessa constituição, assumido
irrestritamente pelo jornal. Para exemplificar tal análise, destaquemos o trecho sobre a
absolvição dos comandantes dos policiais, principais réus do julgamento: [...]“Três réus
julgados na semana passada foram absolvidos _o coronel Mário Colares Pantoja, o major
José Maria Oliveira e o capitão Raimundo Almendra Lameira. Restam outros 147
acusados[...]”. Pelo cargo de comando das tropas, esses três réus são acusados pelos
advogados do MST como os principais culpados pelas mortes em Eldorado de Carajás.
Entretanto, em uma relação cognitivo-textual de paralelismo, eles são tratados como réus
comuns. Observemos no enunciado “Restam outros 147 acusados”. Além de o jornal não
180
questionar a absolvição – ou ao menos repercutir o questionamento da promotoria pública
–, também minimiza a responsabilidade dos três comandantes.
Exemplo 27:
Júri do massacre no PA causa polêmica (FSP, 23/10/1998)
A Justiça do Pará realizou anteontem o sorteio dos 21 jurados que poderão fazer parte da tribuna
que decidirá o destino dos policiais militares envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás.
Dos 21 titulares sorteados, 6 são bancários; 2, empregados da Telepará; 7, funcionários públicos e
6, empresários.
Eles foram sorteados entre 340 pessoas selecionadas pela comarca de Marabá. Segundo o
advogado da SPDDH (Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos) e assistente de
acusação, Hernandes Espinosa Margalho, os seis empresários são ligados a fazendeiros, o que
comprometeria a imparcialidade do júri.
No dia do julgamento, marcado inicialmente para 23 de novembro, o juiz deverá sortear dez
nomes para compor a banca de sete jurados. Tanto a defesa quanto a acusação poderão recusar até
três nomes.
Recurso
O Ministério Público estuda ainda a possibilidade de recorrer à mudança do local do julgamento.
A promotoria havia pedido a mudança para Belém, alegando ''falta de segurança e imparcialidade
do júri na região''.
A Justiça, no entanto, decidiu transferir de Curionópolis para Marabá, embasada no Código
Penal, que prioriza o desaforamento (mudança de local de julgamento) para a comarca mais
próxima. O MST é contra o julgamento em Marabá e promete se mobilizar para um protesto de
repúdio à decisão.
O juiz responsável pelo caso, Otávio Marcelino Maciel, foi procurado pela Agência Folha ontem,
mas não foi encontrado.
O massacre dos sem-terra foi um dos mais graves incidentes fundiários da história do país.
Sua repercussão internacional levou entidades como a Anistia Internacional a condenar a atuação
do governo no caso
Na campanha eleitoral deste ano, o governador-candidato Almir Gabriel (PSDB) foi
bombardeado com críticas ao desempenho de sua polícia no incidente. Ele é candidato à
reeleição.
Partindo da estrutura de relevância dessa notícia (título, lead e sublead),
destacamos outros elementos para a análise da interdiscursividade, o que também
poderíamos classificar como um tipo de ‘hibridização de discursos’, pois entendemos que
distintos elementos contextuais estão interferindo na elaboração do texto e na própria
181
constituição do discurso do jornal. Entre esses elementos contextuais, poderíamos citar a
cobertura in loco do julgamento, o que possibilita ao jornalista vivenciar as mobilizações
favoráveis ao MST; a construção histórica sobre o ‘caso’ Eldorado de Carajás, pois o
julgamento ocorre dois anos após o massacre, daí haver uma memória de longo prazo
construída, modelos mentais mais elaborados etc.; por outro lado, trata-se da cobertura de
um julgamento, daí a força constitutiva do discurso jurídico no discurso jornalístico, entre
outros. Assim, percebemos, por exemplo, a categorização como ‘massacre’, no título,
além do questionamento sobre o encaminhamento do processo (“Júri do massacre no PA
causa polêmica”), e, no entanto, no lead permanece a estratégia de neutralização de
sujeitos, a partir da construção [...] policiais militares envolvidos no massacre [...]”, com
grifo nosso.
Outro aspecto relevante para a análise das relações interdiscursivas é a ausência
do discurso do MST em toda a estrutura de relevância textual (caso identificado em
outras notícias). O poder discursivo de criticar a Justiça do Pará é dado a uma
organização do domínio jurídico (Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos) e
o ator social representado é um advogado. Isso nos remete a uma questão que aparece
fortemente neste frame: as possibilidades de representações discursivas, e assim a
construção do diálogo, ou do interdiscurso, são mais controladas e são prioritárias a
instituições poderosas ou com legitimidade social. Parece-nos que, por se tratar de uma
cobertura específica das ações jurídicas, o poder desse domínio passa a ter mais controle
sobre o discurso do jornal. Assim, o acesso dos sem-terra (enquanto atores sociais e não
através dos seus representantes legais) fica mais comprometido, o que reforça nossa
observação inicial: a relação discursiva neste frame se dá, basicamente, entre o jornal e o
domínio jurídico. Como não tomamos a (des)legitimação como um fenômeno restrito aos
aspectos legais, não acreditamos que tal restrição discursiva aos sem-terra seja definidora
no processo de construção da deslegitimação do movimento. Entendemos que uma
análise dos diversos aspectos identificados nos demais frames nos possibilita tal
conclusão, o que ainda não temos elementos para realizar até aqui. Entretanto, é
importante enfatizar, por agora, o estreitamento de forças e poderes discursivos, neste
frame, e levar esse problema para uma reflexão futura.
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A continuidade do texto, marcado pelo intertítulo “Recurso”, exemplifica nossa
discussão, assim como traz outros elementos relevantes para a investigação. Observemos
que os dois primeiros parágrafos, após o intertítulo, são construídos a partir de
argumentos do domínio jurídico: Ministério Público (MP) e Justiça. O argumento do MP
é introduzido com o verbo ‘estudar’, que tem uma função axiomática. O verbo que
introduz a ação da Justiça tem um efeito perlocutório ainda mais forte: ‘decidir’,
deixando claro à qual instituição cabe o poder definidor. O enunciado que traz a
representação discursiva dos sem-terra vem logo em seguida e é construído com
contrapontos marcantes aos que estamos analisando no discurso dos demais domínios.
Observemos no exemplo: “[...] O MST é contra o julgamento em Marabá e promete se
mobilizar para um protesto de repúdio à decisão. [...]”. Definir a avaliação do MST sobre
tal questão como “contra” é estabelecer que o movimento não tem poderes discursivos
para avaliar ou para decidir, mas apenas ‘tomar um lado’. No mesmo enunciado, é
relevante também o verbo selecionado pelo jornal para descrever a ação dos sem-terra:
‘prometer’, o que reforça o efeito de sentido que discutimos.
Chamamos a atenção para o penúltimo parágrafo da notícia para melhor
exemplificar as considerações sobre o ‘posicionamento brido’ do jornal e a falta de
representatividade discursiva dos sem-terra. Outra vez, identificamos a categorização das
mortes em Eldorado de Carajás como ‘massacre’, mas a valoração do massacre
incidente carrega marcas do discurso desenfatizador, estratégia discutida. Na
construção da argumentação sobre o massacre, identificamos que o jornal recorre ao
discurso da Anistia Internacional, em detrimento ao discurso do próprio MST.
O uso do item lexical ‘massacre’ é recorrente na construção dos textos
jornalísticos neste frame e nos parece relevante refletir sobre esse aspecto. De acordo
com Johnstone (2002), essa palavra poderia ser conceituada como um ‘deseufemismo’.
Segundo a autora, a relação semântica entre o eufemismo e o deseufemismo se dá a partir
de uma escala, ou um continnum. Enquanto o eufemismo opera na construção do sentido
da generalização ou como estamos tratando, de desenfatização , na outra ponta da
escala o deseufemismo opera na enfatização do sentido. Para Johnstone (2002), palavras
como ‘genocídio’ e ‘extermínio’ têm esse efeito. Usamos essas considerações para
analisar o sentido do uso de ‘massacre’ nos textos do jornal. Ainda que esse item lexical
183
possibilite manter a estrutura sintática de não revelar a agência da ação, ele opera na
construção do sentido que reforça o discurso do MST.
Exemplo 28:
Testemunhas complicam acusados (FSP, 19/08/1999)
Testemunhas do julgamento do massacre de Eldorado do Carajás (sul do Pará) complicaram a
situação dos principais oficiais da Polícia Militar que atuaram na operação que resultou na morte
de 19 sem-terra em abril de 1996.
O júri daria seu veredicto no final da noite de ontem ou na madrugada de hoje. Até dezembro,
outros 147 policiais serão julgados. Todos respondem à acusação de homicídio doloso
(intencional), que prevê penas de 12 a 30 anos de prisão, que podem ser multiplicadas pelo
número de vítimas fatais.
Apesar de terem sido arroladas pela defesa, duas testemunhas acabaram prejudicando o coronel
Mário Colares Pantoja, o major José Maria Oliveira e o capitão Raimundo José Almendra, que
lideraram os outros 152 policiais militares envolvidos na ação.Pantoja teria comandado a
desocupação da rodovia PA-150, tomada pelos sem-terra, sem obedecer à ordem da cúpula da PM
de negociar com os manifestantes.
A afirmação foi feita pelo comandante da PM à época do massacre, coronel Fabiano
Lopes.Segundo ele, Pantoja recebeu ordem de negociar porque, na semana seguinte, os sem-terra
teriam sua reivindicação atendida _a desapropriação da fazenda Macaxeira para reforma agrária.
O ex-comandante da PM criticou Pantoja pela falta de planejamento da ação. A declaração
também atinge o capitão Almendra, encarregado de operacionalizar as ordens do coronel."O
depoimento ajudou muito a acusação", disse o promotor Marco Aurélio Nascimento.
Falando aos jurados, Roberto Lauria, um dos advogados de assistência dos policiais, argumentou
que a PM agiu em legítima defesa no confronto. "Aquilo foi uma batalha, foi uma guerra."Ele
argumentou que a promotoria não conseguiu individualizar a participação dos oficiais nas mortes
e acabou protegendo o governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), que ordenou a desobstrução
da PA-150. "Condenar esses homens será dar poder à desordem. Depois, nenhuma milícia poderá
deter o MST."
A partir dessa notícia, o foco da nossa análise não será apenas no funcionamento
da interdiscursividade, ao observar a ão discursiva dos domínios jurídico e jornalístico,
mas também nas estratégias argumentativas que levaram à absolvição dos três principais
réus do caso de Eldorado dos Carajás: os comandantes das tropas que atacaram os sem-
terra. Esta decisão foi anulada no ano seguinte pelo TJ do Pará, que levou o julgamento a
outras instâncias. Entretanto, é importante investigar o início do processo na primeira
instância do julgamento, e o possível comprometimento dessa instituição com os
184
latifundiários do Estado. Observar o tratamento do jornal sobre tal aspecto também é
importante para nosso trabalho, pois é nesse julgamento que inicia uma possível
legalização do massacre. Para essa análise, acompanharemos a ordem cronológica do
desenvolvimento do processo.
O título da notícia (“Testemunhas complicam acusados”) e o primeiro enunciado
do lead são construídos a partir de alguns pressupostos: i) a absolvição dos comandantes
da PM responsáveis pelo massacre era tida como inevitável; ii) e também era a esperada.
A ação das testemunhas descrita com o uso do verbo ‘complicar’ traz esses pressupostos.
Ressaltamos que o lead, além de reforçar esse movimento semântico, traz uma marca
identificada no discurso de outras notícias: o controle ideológico no trato do evento
‘julgamento’. Observemos no trecho [...] “oficiais da Polícia Militar que atuaram na
operação que resultou na morte de 19 sem-terra [...]” a necessidade de atributos
(“oficiais”; “que atuaram”) para a categoria ‘polícia’ e de valorar a ão praticada por
esses atores sociais “na operação que resultou na morte”. Tais categorias semânticas
operam na construção de um efeito de sentido desenfatizador, em um enunciado onde a
agência está omitida. Essa estratégia, discutida anteriormente, é denominada por
Fairclough (2001a) como overwording’: quando uma referência está atrelada a uma
questão com forte poder ideológico, tende-se a operar a partir de várias relações
sinonímicas, assim o sentido se dissemina e não fica explícita a postura do autor do texto
sobre o assunto tratado.
Essas mesmas elaborações analisadas no título e no lead são retomadas no
terceiro parágrafo, quando são apresentados os argumentos contra os réus. Observemos
que uma ênfase na estrutura de relevância para as possíveis conseqüências da
participação das testemunhas para a absolvição dos oficiais. Entretanto, não é ressaltado
que os testemunhos são dos comandantes superiores da PM, o que é relevante para se
questionar a prática da própria instituição diante do protesto dos sem-terra. A estratégia
retórica dos comandantes é responsabilizar os oficiais por uma ação na qual a instituição
PM deveria ser também responsabilizada que os policiais estavam agindo
institucionalmente. Mas, ao individualizar os culpados, não como condenar
instituições. Essa mesma estratégia foi utilizada em escala de instâncias de poderes:
iniciando com o comandante da PM, passando para o Secretário de Segurança Pública e
185
chegando até o Governador do Estado do Pará como iremos analisar no Exemplo 32.
Cada um deles foi sendo inocentando institucionalmente, e o julgamento se deu entre as
pessoas (não as instituições) que estavam presentes no dia do massacre.
Essa é uma questão importante para o estudo da (des)legitimação de Eldorado dos
Carajás, pois mostra que as mortes dos sem-terra não foram tratadas como uma prática
política, mas ações específicas. A estratégia de individualizar uma violência que é social
como também acontece na violência contra a mulher, por exemplo, que é tratada como
violência doméstica é uma das formas de despolitizar esse problema, o que significa
tratá-lo sem a importância ideológica e a gravidade social intrínsecas a sua constituição.
Exemplo 29:
Promotor teme absolvição dos 147 PMs do massacre (FSP, 20/08/1999)
Os 147 policiais militares que participaram da operação que resultou na morte de 19 sem-terra em
abril de 96 também podem ser absolvidos, como foram ontem de madrugada três oficiais da PM
do Pará.
A avaliação é do promotor Marco Aurélio Nascimento, responsável pela acusação contra os PMs.
A chance de que todos os réus sejam inocentados existe, na opinião de Nascimento, se o mesmo
argumento que absolveu os comandantes da ação for usado nos julgamentos dos demais PMs.
Os 150 acusados pelo massacre vão a júri em blocos de três a seis policiais, cada qual com um
corpo de jurados diferente. Em todas as fases do julgamento, o corpo de jurados será questionado
se há insuficiência de provas para condenar os réus. A promotoria pública se queixa da existência
dessa pergunta porque a classifica de subjetiva. Um júri deve se manifestar sobre fatos concretos.
Na madrugada de ontem, o coronel Mário Colares Pantoja, o major José Maria Oliveira,
respectivamente comandantes das tropas de Marabá e Parauapebas à época do massacre, e o
capitão Raimundo Almendra Lameira foram absolvidos porque a maioria dos jurados entendeu
que havia insuficiência de provas, respondendo à questão proposta pelo juiz Ronaldo Valle.
Hoje começa a segunda fase do julgamento dos policiais que participaram da desobstrução da
rodovia PA-150 em 17 de abril de 1996, em Eldorado de Carajás (sul do Pará).
O verbo usado no título (‘temer’) para categorizar a ação do promotor tem um
efeito de sentido desenfatizador, pois não ressalta o poder desse ator social, como o
representante de uma instituição jurídica, com capacidade para elaborar argumentos, teses
etc. A escolha desse item lexical exatamente no título uma das principais estruturas de
orientação de sentido do texto é importante de ser analisada, como também a rede
lexical construída ao longo do texto operando na referenciação às ações do promotor. No
sublead, a nominalização ‘a avaliação’ compõe o quadro semântico iniciado no título,
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pois não atribui força retórica ao argumento do promotor. Este aspecto fica mais nítido se
contrapormos o item lexical ‘avaliação’ com a categorização deste ator social na oração
subordinada (“[...] responsável pela acusação contra os PMs.”). A rede lexical construída
nas relações de significação sobre o promotor é contraditória à sua autoridade
institucional no caso. Esta seria, no nosso entendimento, mais uma estratégia de
desenfatização. Neste caso, operando em relação à denúncia feita pela promotoria contra
o encaminhamento jurídico do processo e as conseqüências que isso pode trazer: a
absolvição de todos os policiais que participaram do massacre, não os comandantes
das tropas.
No lead e no parágrafo final da notícia, identificamos o fenômeno discutido
overwording –, sendo importante ressaltar que o discurso assumido pelo jornal continua
sendo o da polícia, o que podemos identificar a partir da análise de qual perspectiva é
descrita a cena: os policiais participando de uma operação de desobstrução da rodovia
onde o MST fazia um protesto, o que resultou na morte de 19 sem-terra. A versão do
MST é outra e ainda não a identificamos na constituição discursiva do jornal.
Exemplo 30:
'Acabei com o julgamento', diz jurado (FSP, 21/08/1999)
O contador e empresário Sílvio Queiroz Mendonça acha que descobriu a pólvora. "Eu observei
uma coisa que o mundo inteiro não viu durante três anos'', diz. A pólvora estava na fumaça que
saía da arma de um sem-terra no conflito que resultou em 19 mortes em Eldorado de Carajás (PA)
em 17 de abril de 1996.
Mendonça, um dos jurados do julgamento, diz que sua descoberta derrubou a principal tese da
promotoria, segundo a qual os sem-terra não estavam armados no início do confronto. "O lance
de eu ver a bala foi cruel, não foi?'', pergunta a um amigo delegado. "Detonou o promotor. A
única certeza em todo esse julgamento foi o tiro que eu vi.''
O promotor Marco Aurélio Nascimento não concorda, mas acha que a intervenção de Mendonça
mudou os rumos do maior julgamento da história do país em número de réus _150 policiais.
A partir dessa notícia, queremos dar continuidade à análise da representação que o
jornal está construindo do promotor público. Junto à discussão iniciada no exemplo
anterior, acrescentaremos outros aspectos identificados neste texto para investigar uma
questão: deslegitimar o ator social responsável pela defesa do MST pode ser uma
estratégia para legitimar o próprio massacre? Um aspecto que se sobressai, em relação
aos demais textos deste frame, é o acesso dado com a ocorrência do discurso direto no
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título a uma pessoa que não está atrelada a uma instância jurídica ou mesmo a uma
instituição. Como discutimos antes, o controle discurso, restringindo o acesso a
representantes das instituições do poder, é uma das características mais proeminentes
desta parte da cobertura. Daí o inusitado de uma citação de um jurado no título. O fato de
um jurado ter espaço em um julgamento para trazer um argumento também é inusitado,
ou ainda irregular, como denunciou a promotoria. Entretanto, essa ação foi autorizada
pelo juiz. Não é irrelevante, para o estudo da legitimação do massacre, que tantas
concessões aconteceram para um argumento acusando o MST de ter iniciado os tiros, o
que reforça a versão da polícia.
Ainda investigando o acesso discursivo e a representação do promotor público,
temos outros elementos que exemplificam a análise que estamos desenvolvendo. Além do
discurso direto reportado no título e no lead, o jurado também tem acesso pelo discurso
indireto no sublead, com efeito retórico mais proeminente, pois tem a força para avaliar a
sua própria performance no caso (positivamente), e a tese da promotoria (negativamente).
Observemos no trecho destacado: “Mendonça, um dos jurados do julgamento, diz que sua
descoberta derrubou a principal tese da promotoria, segundo a qual os sem-terra não
estavam armados no início do confronto”.
Sobre o aspecto da representação do promotor público, outra ocorrência de acesso
reforça o efeito deslegitimador desse ator social. Analisemos o discurso reportado do
jurado (“O lance de eu ver a bala foi cruel, não foi?”, pergunta a um amigo delegado.
“Detonou o promotor. A única certeza em todo esse julgamento foi o tiro que eu vi.”).
Esta citação tem um duplo efeito de sentido: se por um lado a construção dos enunciados
ressalta marcas coloquiais e traz itens lexicais (‘detonou’; ‘o lance’) inapropriados para
um ator social que protagonizou um evento tão formal quanto um julgamento; por outro
lado essas marcas discursivas operam tanto no questionamento da legitimidade do jurado,
quanto na legitimidade do próprio promotor público, que teve sua tese derrubada por um
adversário ‘desqualificado’. Entendemos que, a partir dessa estratégia argumentativa, o
ator social que tem sua representação mais deslegitimada é o promotor, pois é dele que se
espera maior preparo para defender uma tese diante dos jurados.
A partir dos aspectos abordados na análise, é importante tratar de uma questão
básica para a Análise do Discurso Crítica: como práticas sociais constituem práticas
188
discursivas. Observemos que foi a possibilidade de o jurado intervir no encaminhamento
do julgamento que proporcionou o acesso ao espaço discursivo do jornal. Assim, os
domínios jurídico e jornalístico não estão apenas em relação de interdiscursividade, mas
também de práticas sociais. A participação de forma não convencional de um ator social
em um evento ritualizado como um julgamento interferiu na característica da cobertura
do jornal sobre esse mesmo evento. O controle discursivo que leva a institucionalização
do acesso, predominante neste frame, foi quebrado, fazendo com que um ‘personagem’
fosse notícia. Essa relação, obviamente, não é direta, ou mesmo uma questão de ‘causa e
efeito’. Remetendo à discussão teórica do segundo capítulo, defendemos que esse
processo se dá a partir de uma interface, que é o elemento cognitivo operando na
constituição da sociedade e dos discursos. Neste caso específico, entendemos que, ao se
tratar de uma prática enrijecida, como a jurídica, a quebra dos modelos contextuais, a
partir da interferência de um ator social, modificou a linha que vinha sendo adotada pelo
jornal para a cobertura do caso. Houve uma quebra dos modelos mentais sobre uma
prática específica e essa ação não modificou a relação de interdiscursividade entre os
dois domínios, mas a própria prática jornalística, modificando a categoria de acesso,
quebrando, em parte, o forte controle discursivo identificado nesta cobertura.
Exemplo 31:
TJ anula 1º julgamento de Carajás (FSP, 31/10/2000)
Desembargadores das Câmaras Criminais Reunidas do TJE (Tribunal de Justiça do Estado)
decidiram ontem, por 6 votos a 1, manter a anulação da primeira sessão do julgamento do
massacre de Eldorado do Carajás (PA), quando os três principais comandantes das tropas da
Polícia Militar foram absolvidos. Mesmo que haja recurso, o julgamento agora não precisa mais
ficar parado.
O julgamento dos 150 policiais militares envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás será
feito em apenas um bloco e recomeçará em fevereiro de 2001, disse ontem o juiz José Maria
Teixeira do Rosário, responsável pelo caso. "O bloco único visa dinamizar o processo", declarou.
A decisão do juiz de julgar todos os réus num bloco único, no entanto, já está causando polêmica
com os advogados de defesa.
"É um absurdo, porque vai cercear o nosso direito de defesa", disse Eloísa Segtowick Sovano,
que defende 33 soldados e cabos.
Demora
Para o advogado dos oficiais, Roberto Lauria, o julgamento dessa forma pode demorar mais de 30
dias, o que "seria impraticável". O promotor Marco Aurélio do Nascimento, por sua vez,
considera adequada a forma encontrada por Rosário.
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"Nossa tese é única para todos. Pode-se aumentar o tempo da defesa para não haver reclamações",
declarou Nascimento.
No julgamento anterior, em agosto de 1999, o então presidente do júri, Ronaldo Valle, dividiu o
processo em 27 sessões. Apenas a primeira, que durou mais de três dias, foi realizada. Na
ocasião, o Ministério Público Estadual recorreu da decisão e pediu a anulação das outras sessões
até o julgamento dos recursos.
Recurso
Os advogados de defesa disseram que irão recorrer ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) e ao
STF (Supremo Tribunal Federal) contra a decisão dos desembargadores.
"Isso é um desrespeito à posição dos jurados que, ao absolverem os policiais, expressaram a
vontade de todo o povo paraense", disse Lauria.
Para Rosário, os recursos da defesa não têm efeito suspensivo e, por isso, o coronel Mário
Colares Pantoja (ex-comandante das tropas de Marabá), o major José Maria Oliveira (ex-
comandante das tropas de Parauapebas) e o capitão Raimundo Almendra Lameira voltarão ao
banco dos réus em fevereiro.
Os oficiais e 146 PMs são acusados de envolvimento nas mortes de 19 sem-terra, ocorridas em 17
de abril de 1996, durante a desobstrução da rodovia PA-150, em Eldorado do Carajás (sul do
Pará).
Os desembargadores votaram pela anulação baseados nos argumentos da relatora Raimunda
Gomes do Carmo.
Ela considera que houve contradição na formulação dos quesitos, o que teria induzido os jurados
a cometerem erros durante a votação secreta.
Para o promotor Nascimento, a decisão dos juízes já era esperada.
Esta notícia trata da anulação do primeiro julgamento do massacre em Eldorado
dos Carajás, realizado no Tribunal de Justiça do Pará, quando os três principais
comandantes das tropas da Polícia Militar foram absolvidos. Vários aspectos do texto
seriam interessantes para o nosso estudo, mas queremos destacar apenas um: o argumento
que levou à decisão dos desembargadores aparece nos últimos parágrafos
(apresentamos aqui um recorte da notícia) e é fortemente marcado pelo discurso jurídico,
inclusive em sua forma mais técnica, denominada ‘juridiquês’. Nem mesmo o discurso
reportado da promotoria instância responsável pelo pedido de anulação foi trazido no
sentido de esclarecer quais as questões que levaram à conclusão de que os jurados
‘cometeram erros durante a votação’.
Está implícito que o argumento da relatora (“[...] que houve contradição na
formulação dos quesitos [...]”) pode ter tido como base a participação irregular de um
jurado a favor da polícia militar, mas não é dito. O espaço discursivo dado ao promotor
não acrescenta sentido ao texto (“Para o promotor Nascimento, a decisão dos juízes já era
190
esperada”). Dessa forma, concluímos que o discurso do jornal sustentação ao discurso
jurídico, pois prioriza, na construção da notícia, os trâmites processuais. Uma abordagem
crítica, por outro lado, desse mesmo assunto seria a topicalização a partir dos elementos
que levaram à anulação do primeiro julgamento, assim inevitavelmente se chegaria às
irregularidades do caso.
Exemplo 32:
STJ arquiva inquérito contra governador (FSP, 30/09/1997)
O STJ (Superior Tribunal de Justiça) arquivou inquérito aberto para apurar a responsabilidade do
governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), no massacre de Eldorado do Carajás (leste do
Estado).
Em 17 de abril do ano passado, 19 sem-terra foram mortos por policiais militares durante
operação de desocupação de uma estrada próxima ao complexo da fazenda Macaxeira, cuja
desapropriação era pleiteada pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
O ministro José Dantas, relator do caso, acatou parecer da Procuradoria Geral da República
segundo o qual o governador não pode ser responsabilizado pela ''incompetência e
desorganização'' da Polícia Militar.
O parecer foi solicitado pelo STJ, que enviou junto com o pedido a defesa prévia do governador.
Conforme o parecer, a PM não planejou a operação de desocupação, ''como era seu dever''. O
governador, segundo a subprocuradora-geral, apenas determinou a desocupação da estrada, sem
autorizar o uso da força.
Diz ainda o parecer que o governador não poderia prever nenhuma conduta criminosa, por ato ou
omissão, por parte da PM.
Da notícia acima, recortamos alguns trechos para analisar uma questão
discutida no Exemplo 28: a personalização da responsabilidade pelo assassinato dos
trabalhadores sem-terra. Na outra notícia, analisamos os argumentos que levaram a
instituição Polícia Militar a se isentar de ser levada a julgamento. Os comandantes gerais
das tropas não foram atrelados ao processo sob o argumento de não poderem ser
responsabilizados pelas ações dos policiais no momento do confronto com os sem-terra.
Como dissemos, esse mesmo argumento foi utilizado pelas distintas esferas do poder,
chegando ao Governador do Estado: ele não poderia ser responsabilizado pela
incompetência e desorganização da polícia militar”. É uma inversão de valores: o
Governador alega não ter responsabilidade por uma instituição que é subordinada ao
Governo.
191
Nesta mesma linha argumentativa, a instituição PM sob a representação dos
comandantes superiores alega que não pode ser responsabilizada por ações de policiais
militares, que são subordinados a tais comandantes. Dessa forma, nenhuma esfera do
poder foi ao menos acusada pelas mortes em Eldorado do Carajás e o massacre não foi
tratado juridicamente como uma prática política específica em relação à questão agrária,
tampouco como uma questão social. Apenas indivíduos foram acusados por crimes que,
em sua natureza, são conseqüências de ideologias e sistemas de governo. Dessa forma, o
poder judiciário, neste aspecto, atuou na despolitização e desideologização dos
assassinatos dos sem-terra em Eldorado dos Carajás. Assim, ainda que as decisões legais
sejam tomadas pela condenação das pessoas atreladas ao caso, defendemos que a justiça
participou dessa forma no processo de legitimação do massacre.
Esta parte da cobertura sobre o massacre de Eldorado do Carajás é caracterizada,
basicamente, pela relação de forças entre os domínios jornalístico e jurídico. Se esses
poderes, em algumas situações, necessitam do apoio mútuo para dar suporte às suas
ações, também ocorre uma disputa entre qual dos dois têm mais legitimidade social.
Analisamos essas questões a partir da análise da interdiscursividade nos textos
jornalísticos: em algumas situações, essa elaboração discursiva serve para dar sustentação
ao discurso jurídico, em outros para questioná-lo, e, assim, o jornal constrói sua auto-
representação como o domínio questionador de todos os demais. Tal ão discursiva é
importante de ser discutida, pois pode ter como efeito a construção de um domínio com
poder absoluto, já que, preservado pelo mito da imparcialidade e da neutralidade, se auto-
atribui legitimidade para fazer questionamentos a todas as instituições, sendo que, apenas
em casos raros, é publicamente (e amplamente) questionado pela sociedade. Assim, trata-
se de um caso que vai além do poder de um domínio, mas do abuso desse poder, o que é
grave e mereceria outras pesquisas para investigar esse aspecto.
Por se tratar de uma cobertura direcionada por duas instituições poderosas,
observamos a predominância da institucionalização discursiva os diálogos foram
travados entre representantes das altas esferas do poder, o que não significa que as
instituições estavam efetivamente envolvidas no caso. Conforme analisamos, o que
ocorre é uma simulação do trato institucional na apuração das mortes dos sem-terra, pois
em fato isso se deu de forma personalizada, já que nenhuma instituição foi atrelada ao
192
processo. Essa estratégia também tem um caráter discriminatório, pois exclui o próprio
MST – principal grupo interessado no julgamento – da cena discursiva, pois a maior parte
das notícias é constituída a partir dos discursos da elite. Esse tratamento também pode ser
entendido como uma ação da FSP na deslegitimação dos sem-terra e, conseqüentemente,
na legitimação do massacre.
Frame IV – A Criminalização do MST
Este frame é de natureza estereotipada, enfatizando ocupações, saques e protestos
realizados pelo MST. Algumas das notícias analisadas estão relacionadas às
reivindicações dos sem-terra, e de diversos segmentos da sociedade, por justiça pelas
mortes em Eldorado dos Carajás. Outras, mesmo não estando diretamente relacionadas ao
massacre, interessam ao nosso estudo, pois possibilitam investigar a (des)legitimação do
MST como movimento social, mesmo que esse processo não tenha se dado em relação a
Eldorado dos Carajás. Assim, desenvolvemos um estudo paralelo da (des)legitimação:
como esse fenômeno é construído em um caso específico e, de forma geral, se esse caso
reverbera na (des)legitimação do movimento.
Neste frame, observamos que o discurso de grupos tradicionalmente contrários ao
MST (ruralistas, latifundiários e governos de partidos conservadores) sustenta e direciona
boa parte do processo de deslegitimação dos sem-terra. A principal ação discursiva
desses grupos é ‘alertar’ a sociedade sobre os ‘perigos’ que representa o MST.
Entretanto, nesta cobertura, identificamos outros grupos atuando na estereotipização e
deslegitimação do movimento. A própria FSP, no trato dado as notícias, operou nesse
processo, ao dar sustentação e atrelar o discurso das instituições do poder ao seu próprio
discurso. Outros domínios (jurídico, policial e militar) também se alinharam aos
discursos dos demais grupos do poder, colaborando no quadro construído para
categorizar o MST como um grupo de criminosos, e não como um movimento social.
Na análise deste frame, identificamos em alguns textos aspectos de natureza
semântica – rede lexical, nominalização, conceitos, atributos e valores –, pois esses
elementos são relevantes para o estudo dos movimentos discursivos que operam no
193
processo de categorização de atores e grupos sociais, que esse processo está
intrinsecamente ligado ao ato de nomear, atribuir valores e conceitos. A observação
dessas ações deve ser desenvolvida dentro de um quadro textual, ou ainda nas palavras de
Beaugrande (1997) ‘no mundo textual’. Isso quer dizer que categorias como topicalização
e acesso, por exemplo, mesmo não sendo o enfoque da análise neste frame, de forma
mais específica, como em outros, são definidoras nas demais operações semânticas e
retóricas, por exemplo, como já discutimos anteriormente.
Para observar mais sistematicamente o discurso da criminalização, entretanto,
entendemos que a análise dos movimentos semânticos possibilita especificar mais
detalhadamente o processo de categorização. Assim, assumimos que a topicalização
discursiva sustenta toda a nossa análise, sendo que a investigação de como se constitui
discursivamente a criminalização do MST se dá, preferencialmente, a partir de aspectos
semânticos. Por fim, é importante ressaltar que, neste frame, o gênero mais recorrente
identificado no nosso corpus é a notícia, daí a sua predominância nestas análises. Este
aspecto é relevante, pois nos dá pistas para refletir sobre a questão do controle discursivo
do jornal: a tendência que percebemos é que quanto mais ideológica a cobertura, menos
democrático o acesso. Não se trata, entretanto, de uma relação causa-efeito, mas de um
conglomerado de forças sociais que operam nesse processo (governos, partidos políticos,
mídia etc.)
Exemplo 33:
Exército cerca prédio em Recife (FSP, 18/04/1998)
Cerca de 50 homens do Exército cercaram ontem a Sudene em Recife (PE) para impedir uma
eventual invasão do prédio por trabalhadores rurais sem terra, que acabou não acontecendo.
Os sem terra encerraram diante da Sudene a "Marcha do Nordeste", iniciada no último dia 4. Em
discursos e faixas, lembraram o conflito ocorrido há dois anos em Eldorado do Carajás. Cerca de
2.000 pessoas participaram da manifestação, segundo o MST.
Antes de marchar em direção à Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), os
manifestantes se concentraram na praça do Carmo, centro de Recife. Na Sudene, uma comissão
formada pelo MST entregou ao superintendente Nilton Rodrigues documento reivindicando
reforma agrária e programas emergenciais contra a seca.
194
Entre os vários aspectos que poderiam ser tratados na análise dessa notícia,
apontamos, por enquanto, apenas por um: a topicalização. Destacamos esse aspecto pela
sua relevância na construção do sentido do texto, assim como na própria criminalização
do MST, conforme discutimos anteriormente. O desenvolvimento desse frame se dá, em
grande medida, a partir de uma cobertura jornalística estereotipada, na qual predominam
tópicos discursivos elaborados a partir do enfoque da deslegitimidade, violência,
desordem e contravenção. Ressaltamos que a topicalização é uma atividade discursivo-
cognitiva, ou seja, é uma forma de contar uma história, pois a natureza de um evento não
está atrelada ao evento em si, mas ao que é construído sobre ele.
Algumas questões podem ser trazidas para fundamentar nossa análise. Primeiro, é
importante observar que, na notícia acima, o tópico discursivo é elaborado a partir de
uma ação que sequer chegou a acontecer, mas que é trazida para as estruturas de
relevância do texto como um ‘fato’. Analisemos o tulo e os primeiros enunciados do
lead. No título (“Exército cerca prédio em Recife”), o sujeito sintático remete a modelos
cognitivos associados a ações de distúrbio da ordem. Ou seja, sugere interpretações
negativas, reforçadas com o uso do verbo ‘cercar’, tipicamente associado a práticas
militares. Assim, o enunciado tem como efeito de sentido principal o alerta para o que
estaria acontecendo no Recife, algo que se associe a uma ‘guerra’. O início do lead
auxilia tal interpretação, pois dimensiona a participação do Exército, ao trazer como
relevante o número de militares envolvidos (“Cerca de 50 homens do Exército cercaram
ontem a Sudene em Recife [...]”).
Essas construções, entretanto, são contraditórias em relação ao propósito principal
da ação militar. Observemos o trecho, com itálico nosso: “[...] para impedir uma eventual
invasão do prédio por trabalhadores rurais sem terra, que acabou não acontecendo. [...]”.
Neste caso, eventual invasão funciona como um eufemismo para justificar toda uma
operação militar em torno de algo que não se configurava como uma ameaça à sociedade.
Não é irrelevante ressaltar que a instituição exército apenas é acionada em situações de
extrema gravidade ao menos esse é o conceito predominante no senso comum. Então,
atrelar um protesto dos sem-terra a uma ação militar, tendo o respaldo do jornal, pois isso
foi tratado nas estruturas de relevância do texto, nos fazem classificar essa notícia como
um exemplo prototípico para discutir a criminalização dos sem-terra. E, quanto mais
195
prototípico os textos trazidos como exemplo para esse frame, mais será a natureza
estereotipada do seu discurso.
Nesta notícia específica, o jornal atribui ao MST uma ação que ele não realizou,
associando sem qualquer elemento factual o movimento a práticas de violência e de
distúrbio. Dessa forma, ocorre que um anti-fato (porque não chegou a se efetivar) passe a
ser tomado como fato. Apenas no final do terceiro parágrafo o leitor fica sabendo qual o
objetivo específico dos sem-terra irem à Sudene: “[...] Na Sudene, uma comissão formada
pelo MST entregou ao superintendente Nilton Rodrigues documento reivindicando
reforma agrária e programas emergenciais contra a seca. [...]”. Mais do que uma ação
discursiva de construção de uma história, podemos afirmar que existe, neste exemplo,
uma prática manipuladora, pois não se trata apenas de topicalizar possíveis aspectos em
um evento, mas de modificar e, implicitamente, estabelecer como um fato algo que não
ocorreu. Vejamos no próximo exemplo outras estratégias no que diz respeito ao processo
de topicalização e seus efeitos discursivo-cognitivos. Mais adiante, trataremos dos
aspectos semânticos, de forma mais específica.
Exemplo 34:
MST vai incentivar saques no Nordeste (FSP, 25/04/1998)
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem terra) vai incentivar os saques a depósitos de
alimentos e a supermercados no Nordeste do país.
Os dirigentes do movimento entregaram à Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do
Nordeste) uma pauta de reivindicações com propostas para o combate à seca e dizem que, se os
pedidos não forem atendidos até o dia 30 deste mês, vão partir para saques generalizados na
região.
Observamos na macro-estrutura desta notícia uma estratégia diferenciada de
construção de um ‘fato’, a partir do processo de topicalização. Só que, no exemplo acima,
não se trata de um caso de manipulação como na notícia anterior –, mas de persuasão,
no sentido de direcionar a compreensão de um texto, a partir dos elementos que são
trazidos para a estrutura de relevância. Analisemos a construção do título e do lead, para
em seguida relacionarmos com os parágrafos subseqüentes. Neste caso, a construção do
tópico discursivo segue critérios de natureza essencialmente ideológicos. É uma escolha
196
topicalizar as ações que o MST poderia realizar, caso as suas reivindicações não sejam
atendidas, e trazer tais ações para estrutura de relevância como práticas que estariam
encaminhadas, ou ainda de forma mais grave, como ‘ameaças’.
Outra possibilidade de construção discursiva seria, em princípio, ressaltar as
necessidades e reivindicações do movimento, para apenas nos parágrafos seguintes
menos relevantes, porque menos lidos reportar as possíveis ações do MST como forma
de luta às suas reivindicações não contempladas pelas políticas governamentais. O que
observamos de forma bastante clara é uma inversão de tópicos e, assim, um
posicionamento e uma ão do jornal na construção do que será tomado como ‘fato’.
É assim que a topicalização opera: um ator social constrói um fato, a partir do discurso de
outro ator social.
O efeito cognitivo dessa inversão é de extrema relevância não para a
compreensão deste texto, mas para a construção de modelos mentais prejudiciais ao
movimento. É dessa prática discursiva, entre outras práticas sociais, que se estabelece o
preconceito, a estereotipização e a deslegitimação do MST. No exemplo seguinte, um
breve trecho retirado de outra notícia, como mais uma ilustração da análise que estamos
desenvolvendo, pois se trata exatamente da mesma estratégia descrita. Não iremos
retomar as considerações anteriores, para evitar repetições argumentativas.
Exemplo 35:
Sem terra bloqueiam BR-116 no Ceará (FSP, 24/01/1997)
Um grupo de cerca de 300 integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra)
bloqueou das 5h às 17h de ontem o trânsito na BR-116, perto da entrada de Chorozinho (64 km
ao sul de Fortaleza).
Segundo a Polícia Militar, o bloqueio provocou um congestionamento de quatro quilômetros. Não
houve registro de conflitos durante o ato. O trânsito era bloqueado alternadamente nas duas
pistas.
Durante a manifestação, os sem terra pediam aos motoristas para assinarem um abaixo-assinado
de apoio às suas reivindicações. Eles exigem uma definição do governo federal sobre o
assentamento de 180 mil trabalhadores rurais no Ceará e uma solução sobre 57 áreas de conflitos
no Estado.
Os manifestantes distribuíram um panfleto no qual pedem punição para os responsáveis pela
morte de trabalhadores rurais em Corumbiara (RO), Eldorado dos Carajás (PA), Ourilândia (PA)
e Rio Bonito (PR).
197
Para a análise desta notícia, gostaríamos de ressaltar aspectos de natureza
semântico-cognitiva. Isso porque se a topicalização opera na macro-construção do
discurso, os movimentos semânticos têm um forte efeito, em todo desenvolvimento
textual, no processo de categorização (estereotipada) e, conseqüentemente, na construção
de significados. Entretanto, não deixamos de ressaltar que um aspecto está
intrinsecamente atrelado ao outro. Ou seja: topicalização e movimentos semânticos
resultam de uma mesma prática discursiva e seguem a mesma linha ideológica.
No início do texto, é possível identificar o processo de categorização dos sem-
terra e assim do próprio MST. Podemos analisar esse aspecto a partir das relações
semânticas estabelecidas nas atividades de conceitualização e atribuição de valores.
Primeiramente, os atores sociais tratados na notícia são categorizados no lead como ‘um
grupo’. O artigo indefinido ‘um’, juntamente com o item lexical ‘grupo’, formam o
sintagma nominal (SN) genérico, vazio de conotação ideológica. O efeito de sentido
dessa construção pode ser a desenfatização da importância política do MST, que não é
tratado como um movimento social, ou mesmo uma entidade de representação legítima
dos sem-terra. As ações de referenciação, ao longo do texto, nos dão mais elementos para
tal análise. Por exemplo, o SN é retomado no mesmo enunciado pela nominalização, a
partir do item lexical integrantes. Neste processo de referenciação, ele opera como um
atributo à categoria ‘grupo de pessoas’. O item lexical funciona como desenfatizador de
agência na valoração dos sem-terra, que não são classificados como atores engajados em
um movimento social. Integrantesressalta o efeito de sentido construído a partir do
SN que retoma, pois também tem significação genérica, podendo ser utilizado para
pessoas que fazem parte de qualquer grupo (musical, teatral etc.). Sendo o MST um
movimento organizado por atores sociais com objetivos políticos e ideológicos
específicos (reforma agrária, por exemplo), tais atores também têm atributos prototípicos:
eles são agricultores, ou trabalhadores rurais. O uso desse item lexical teria um efeito
legitimador no processo discursivo de categorização dos sem-terra, pois ressaltaria a
auto-representação do grupo e trataria como legítimas as ocupações e a reforma agrária.
Entretanto, como foi analisado em alguns manuais de redação dos principais
jornais do país (Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e O Globo), o uso de alguns itens
lexicais são bastante controlados, remetendo, outra vez, a estratégia denominada por
198
Fairclough (2001a) como overwording’. No caso dos sem-terra, há um forte controle
ideológico quando ao uso do léxico que irá nomear esses atores sociais. Ao os definir
como agricultores ou trabalhadores rurais, por exemplo, a grande imprensa se
posicionaria, discursivamente, pela legitimidade do MST, e, conseqüentemente, suas
reivindicações e práticas políticas – tais quais reforma agrária e ocupações de latifúndios.
As escolhas lexicais e as relações semântico-discursivas que elas constroem em um texto,
conforme discutimos no quarto capítulo, m um forte efeito ideológico e operam no
processo cognitivo de categorização. E isso é tão relevante que não passa despercebido
entre os que têm poder para controlar o discurso jornalístico. No caso de alguns jornais
invariavelmente os de maior circulação, nos quais a necessidade de controle ideológico é
ainda mais grave o discurso está sob a vigilância dos manuais de redação (Falcone,
2004). No Manual de Redação de O Globo (2001), por exemplo, esta questão é tratada
explicitamente nas orientações sobre a seleção do léxico. No trecho abaixo, o jornal
demarca seu posicionamento ideológico sobre as ações dos sem-terra e determina que o
item lexical colono “não pode” ser usados pelos repórteres:
Colono
“É o agricultor que cultiva terra alheia com permissão do dono. Não pode ser
usada em relação a invasores de terra” (O Globo, 2001:139).
Ainda sobre os movimentos semânticos para o processo de categorização, é
importante ressaltar a nominalização no processo de referenciação ao retomar a ação do
MST. No terceiro parágrafo, o que foi primeiramente categorizado como bloqueio’ é
retomado pelo substantivo ‘manifestação’. Ele opera como uma nominalização, pois está
em relação anafórica ao item lexical utilizado no inicio do texto. Trata-se de um nome
com uma carga ideologicamente estereotipada – pois está atrelado a protestos, transtornos
etc., e, em uma análise mais aprofundada do texto, contrasta com a ação dos sem-terra
descrita pelo próprio jornal: “pediam aos motoristas para assinarem um abaixo-assinado
de apoio às suas reivindicações”. No parágrafo seguinte, a nominalização é realizada sob
a mesma carga ideológica, com o uso do mesmo item lexical, em sua variação ‘os
manifestantes’. Dentro desse quadro semântico, podemos afirmar que esse texto opera,
em todo o seu desenvolvimento, no processo de categorização iniciado desde o início da
notícia. É importante ressaltar, mais uma vez pois se trata de uma estratégia que se
199
repete em vários textos, classificados nos distintos frames –, que os problemas
enfrentados pelos sem-terra apenas são apresentadas no último parágrafo da notícia
lugar tido como o menos relevante nos cânones jornalísticos e ainda assim trazido com
uma dupla marca de discurso reportado (DR). Observemos: “[...] No panfleto, os
manifestantes denunciam que o MST está sofrendo ''uma ofensiva econômica, política,
ideológica e assassina'' e pedem apoio da população contra a inoperância e incompetência
do governo frente à reforma agrária. [...]”. A construção (os manifestantes denunciam
que) já traz a marca que um discurso indireto será introduzido. Ressaltar esse discurso
com outra marca, no caso as aspas (''uma ofensiva econômica, política, ideológica e
assassina'') é propositadamente estabelecer uma nítida fronteira e assim um
distanciamento – entre o discurso do jornal e o discurso dos sem-terra.
Exemplo 36:
Diretora é indiciada por expor 'Terra' (FSP, 18/06/1998)
A diretora de escola Elza Maria da Silva está sendo acusada de fazer "lavagem cerebral e
pregar a legalidade da ilegalidade''. Isso porque ela expôs a mostra "Terra'', de Sebastião Salgado,
que traz fotos de sem terra e do massacre de Eldorado do Carajás (PA), em escola de Sandovalina
(SP).
O delegado Marco Antônio Fogolin abriu o inquérito e disse que a mostra infringiu artigos
do Estatuto da Criança e do Adolescente. Os artigos tratam de restrições ao acesso a publicações
que possam ferir os "valores éticos e sociais'' da família. Ele se decidiu após ouvir Wesley
Gouveia, 8, que teria ficado "com medo'' das fotos.
Segundo Elza, não houve queixa. "A mãe de Wesley foi chamada na delegacia porque seu
filho estava lá e reclamou espontaneamente das fotos. Não foi reclamar''.
"Tudo não passa de perseguição. O delegado sabe que sou ligada ao MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem terra), e ele é o maior inimigo do MST'', disse Elza. Ela diz que foi
autorizada pela delegacia de Ensino.
Nessa notícia, identificamos outra estratégia na criminalização dos sem-terra.
Entretanto, trata-se de um processo mais sutil e requer uma leitura mais atenta no que diz
respeito às operações cognitivas que embasam tanto a macroestrutura textual quanto os
movimentos semânticos. Logo de início, identificamos um posicionamento crítico do
jornal sobre a censura à obra do fotógrafo Sebastião Salgado que fez um ensaio sobre
Eldorado de Carajás. Entretanto, é importante perceber que essa crítica, necessariamente,
não se caracteriza como um discurso favorável ao MST, mas a uma postura específica em
relação à proibição da exposição fotográfica. O segundo aspecto que se mostra relevante
200
nesta notícia, para a nossa investigação, é a criminalização dos sem-terra por duas
instituições agindo concomitantemente: escola e polícia.
Não fica claro na notícia quem realmente fez a denúncia contra a diretora de
escola, e, ao longo do texto, também não referência sobre qualquer reação a essa
denúncia por parte de outros professores da escola, alunos ou pai de alunos. Ou seja, toda
a ‘culpa’ recai sob a diretora, sustentada pela instituição polícia, com base no discurso
jurídico. Tanto que a ‘acusação’ é embasada no argumento de que a diretora estaria
“pregando a legalidade da ilegalidade”. Observemos que, primeiramente, é o discurso
jurídico em sua vertente mais positivista que é usado para fundamentar a
argumentação. Entretanto, em uma análise mais específica sobre a estratégia subjacente
ao argumento, identificamos uma estratégia retórica categorizada como pressuposição.
Ou seja, o que está implícito nesse argumento (o elemento dado, porém não explicitado) é
que o MST é um movimento ilegal, que levar qualquer trabalho no caso as
fotografias de Sebastião Salgado – para uma escola é tomado como um ato ilícito.
Observemos no trecho retirado do lead da notícia: “A diretora de escola Elza Maria da
Silva está sendo acusada de fazer "lavagem cerebral e pregar a legalidade da ilegalidade''.
Isso porque ela expôs a mostra "Terra'', de Sebastião Salgado, que traz fotos de sem terra
e do massacre de Eldorado do Carajás (PA), em escola de Sandovalina (SP)”.
No desenvolvimento do texto, o jornal se posiciona criticamente em relação à
acusação contra a diretora da escola, o que podemos identificar a partir de algumas
estratégias discursivo-cognitivas. Por exemplo, a dupla ênfase no discurso reportado no
primeiro enunciado do lead: na construção do enunciado o sentido de que outro
discurso será reportado (“A diretora de escola Elza Maria da Silva está sendo acusada de
[...]”). Neste caso, a acusação que será trazida na complementação do enunciado é
exatamente o discurso da polícia. Entretanto, esse discurso ainda é marcado com o uso
das aspas. O efeito discursivo-cognitivo dessa dupla marcação, como discutimos, é a
necessidade de o jornal se distanciar (e assim se posicionar) das acusações, enfatizando
que o discurso ali reportado é do delegado, não do jornal. A frase seguinte estabelece
uma relação anafórica com a movimentação discursiva discutida, a partir do uso da
locução explicativa “isso porque” (“Isso porque ela expôs a mostra "Terra'', de Sebastião
Salgado [...]”). O pronome demonstrativo “isso” retoma a acusação feita à diretora da
201
escola, sendo que o efeito de sentido é que o motivo para uma ação policial não é tomado
como satisfatório pelo jornal. Outro elemento lingüístico possível de ser analisado como
um questionamento do jornal é o fundamento apresentado pelo delegado para indiciar a
diretora (“Ele se decidiu após ouvir Wesley Gouveia, 8, que teria ficado “com medo” das
fotos”.). A responsabilidade é atribuída a um aluno da escola e esse aspecto está bem
marcado pela relação causal estabelecida no complemento verbal: “após ouvir Wesley
Gouveia, 8, que teria ficado “com medo” das fotos”.
Entretanto, é importante ressaltar uma discussão que foi iniciada: a crítica do
jornal é pela censura à exposição fotográfica de “Terra”, de Sebastião Salgado, e não ao
MST, especificamente. A topicalização é construída a partir da ação da censura, e não
sobre o massacre de Eldorado de Carajás. Não se pode ignorar, no entanto, que mesmo
não sendo uma postura diretamente favorável ao MST, algum aspecto de legitimidade
resvala para o movimento, já que há uma mobilização de intelectuais e professores
contrária ao massacre. Entretanto, esse aspecto está no implícito das entrelinhas do texto,
e não em sua superfície. Um elemento que pode melhor exemplificar nossas
considerações é a análise do último parágrafo da notícia. Apenas nessa parte do texto é
feita, pelo repórter, a associação entre a punição da diretora da escola e a sua ligação com
o MST, e ainda assim tratada de forma superficial e com o recurso do discurso reportado
da diretora, ou seja, é ela quem traz à tona o fato de que é a perseguição não é contra
Sebastião Salgado, mas contra ela e contra o MST. (“Tudo não passa de perseguição. O
delegado sabe que sou ligada ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem terra),
e ele é o maior inimigo do MST”, disse Elza.). É inegável que se trata de uma postura
ideológica categorizar tais questões políticas como o aspecto menos relevante da notícia.
Exemplo 37:
Sem terra são recebidos à bala no Pontal (FSP, 28/01/1997)
O proprietário da fazenda Concórdia, em Tarabai (610 km a oeste de São Paulo),
Guilherme Prata, recebeu à bala na madrugada de ontem 400 famílias ligadas ao MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que tentaram invadir sua propriedade. ''A
próxima tentativa de invasão vai ter morte. Eles querem cadáver, vão ter'', afirmou Prata, vice-
presidente da UDR (União Democrática Ruralista).
A segurança na fazenda Concórdia, de 500 alqueires, estava sendo feita por Prata, seu pai,
dois tios, três primos, uma irmã, o gerente, o capataz e o motorista. Prata disse que atirará para
acertar se houver nova tentativa de invasão.
202
A Polícia Civil de Tarabai apreendeu quatro rifles calibres 44 e 38 e cinco revólveres
calibre 38 em poder das pessoas que defendiam a fazenda. As armas foram devolvidas aos
proprietários depois de apresentados os registros.
O fazendeiro, seus familiares e empregados fizeram cerca de 200 disparos na presença de
dois policiais civis e cinco militares, segundo a PM. Os disparos duraram cerca de dez minutos.
Os sem terra se deitaram e recuaram. Havia crianças e mulheres. Ninguém se feriu.
O presidente da UDR, Roosevelt Roque dos Santos, disse que os tiros são manifestação pessoal
de Prata. ''Quem está com o problema na pele age emocionalmente.''
Foi a 11ª invasão e o segundo tiroteio envolvendo fazendeiros e sem terra no Pontal este ano.
Há duas semanas, 350 sem terra foram recebidos a tiros ao tentar invadir a fazenda Santa Rita.
O líder dos sem terra José Rainha Jr. disse que, se não forem tomadas providências como
desarmamento dos fazendeiros, a região vai se transformar em um Eldorado dos Carajás (PA).
''Estamos caminhando para isso, e falta pouco.'' O MST disse que a fazenda é improdutiva. O
Incra não confirma. Prata afirmou ter uma fábrica de ração, confinamento e 3.000 cabeças de boi.
A relevância de trazer essa notícia para a análise do processo de criminalização
dos sem-terra se deve à macro-estratégia que rege sua organização discursiva: as vítimas
passam a ser culpadas pela agressão que sofrem. Essa estratégia é recorrente quando se
trata de violências com minorias (étnicas, econômicas, sexistas) e as narrativas tendem a
ser organizadas de tal forma que o efeito cognitivo final – como a compreensão é
orientada é a de que as vítimas, de alguma forma, mereceram a agressão. Enfim,
legitima-se o ‘direito’ do agressor em geral de grupos poderosos e, assim, legitima-se
a violência. Observemos essa estratégia na construção do discurso da notícia.
Iniciemos a análise com a relação entre o título e o lead da notícia. A construção
do título (“Sem terra são recebidos à bala no Pontal”) é bastante enfática quanto à
violência contra os sem-terra. Entretanto, esse enunciado é dúbio sobre as possíveis
inferências para tal violência. Ou seja, como o processo de compreensão se dá a partir de
modelos mentais que são distintos, por sua natureza intrinsecamente social e individual
– alguns leitores podem entender, desde o tulo, que o fato de os sem-terra serem
“recebidos à bala” é totalmente justificável, que eles ‘praticam ações ilegais’. Como
ação retórica, isso se trata de uma operação discursiva a partir de pressuposições. De
forma mais clara: os sem-terra receberam o que realmente ‘mereceriam’. Outros leitores,
por outro lado, podem se indignar com a violência e buscarem explicações, no decorrer
do texto, para a ação descrita no título. O lead, entretanto, opera como um legitimador da
agressão sofrida pelos sem-terra, e alguns aspectos cognitivo-discursivos e semânticos
podem exemplificar nossa análise. Já no primeiro enunciado o sujeito-agente da violência
é categorizado como “O proprietário da fazenda Concórdia [...]”. O atributo proprietário,
203
nessa relação de sentido, respaldo legítimo para que o fazendeiro defenda as suas
terras mesmo que com o uso de armamentos contra o grupo de ‘invasores’. Assim,
pode-se justificar que os sem-terra sejam baleados. Eis a estratégia que discutíamos no
início: de vítimas da violência, os sem-terra são tratados como culpados. Ainda no lead, o
período subordinado age explicativamente para a ação do fazendeiro “[...]que tentaram
invadir sua propriedade[...]”. A rede lexical que se forma nesse enunciado é mais um
aspecto legitimador da violência. Os itens lexicais invadir e propriedade operam na
construção do sentido de legalidade e posse do fazendeiro e conseqüentemente seu
direito de defesa –, situando os sem-terra, dentro dessa teia discursiva, em uma condição
diametralmente oposta: invasores, ilegítimo e vândalos.
O desfecho do lead é o discurso reportado do fazendeiro, ameaçando os sem-terra
de morte e, novamente, atribuindo ao movimento a responsabilidade por essas mortes
([...] “A próxima tentativa de invasão vai ter morte. Eles querem cadáver, vão ter'',
afirmou Prata, vice-presidente da UDR (União Democrática Ruralista) [...]). Sobre este
aspecto, observemos o posicionamento favorável do jornal em relação ao fazendeiro, a
partir de dois movimentos discursivos: i) o fazendeiro é citado não apenas como
‘proprietário’ das terras, mas também como “vice-presidente da UDR”, o que atribui mais
força retórica e legitimidade institucional ao seu discurso; ii) o caso do acesso: no lead e
no sub-lead (“Prata disse que atirará para acertar se houver nova tentativa de invasão”.), o
jornal traz o discurso do vice-presidente da UDR. No penúltimo parágrafo, a voz é dada
ao presidente da UDR (“Quem está com o problema na pele age emocionalmente”).
Observemos no discurso do presidente da UDR como o uso do eufemismo tem o efeito
legitimador para uma ação ilegal cometida pelo vice-presidente da instituição. Apenas no
último parágrafo da notícia o jornal acesso discursivo ao MST, reportando o discurso
direto e indireto do líder dos sem-terra José Rainha Jr. Entretanto, a voz que dá o
desfecho da notícia continua sendo o do vice-presidente da UDR: Prata afirmou ter uma
fábrica de ração, confinamento e 3.000 cabeças de boi”. No processo de construção
textual, tem-se o efeito cognitivo de que cabe à UDR a conclusão da história e,
conseqüentemente, o discurso da instituição passa a ser tomado como o mais legítimo,
com poderes de encerrar a narrativa. O texto, então, é construído dentro de um quadro
204
tendencioso e anti-democrático, no qual violências são legitimadas e vítimas são
culpadas.
Exemplo 38:
Jungmann não negociará com invasores (FSP, 08/01/1997)
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) não irá negociar com invasores de fazendas
em São Paulo e vai se empenhar pela aprovação de lei que veda desapropriação de imóveis
invadidos.
Segundo a assessoria do ministro, o governo de São Paulo também não vai dialogar com os
líderes das 1.200 famílias que invadiram, no último domingo, cinco fazendas no Pontal do
Paranapanema (extremo oeste do Estado).
O presidente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), Nestor Fetter,
disse que não vai liberar o pagamento de indenizações de terras invadidas no Pontal.
Jungmann mandou seu gabinete devolver fax enviado por José Rainha Jr., 36, líder do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem terra), sobre novas invasões.
No fax, Rainha diz que as invasões visaram pressionar fazendeiros da região a aceitar o
acordo de indenização proposto pelo Incra.
Segundo a assessoria de Jungmann, o projeto que veda desapropriação de áreas invadidas
deverá ser votado na próxima semana.
Para tentar acertar a data da votação, o ministro ligou ontem para os deputados Luís Eduardo
Magalhães (PFL-BA), presidente da Câmara, e Benito Gama (PFL-BA), líder do governo.
Jungmann pediu ao ministro da Justiça, Nelson Jobim, que autorize a Polícia Federal a
levantar informações sobre o assassinato, no sábado, de dois sem terra em Eldorado do Carajás,
onde 19 foram mortos em abril passado.
Novas invasões
O líder dos sem terra José Rainha Jr. afirmou que cerca de 1.900 famílias ligadas MST estão ''de
prontidão'', perto das fazendas Santa Rita e Taquaruçu, para novas invasões no Pontal.
Ele disse que novas invasões de terra podem acontecer a qualquer momento, ''se os fazendeiros
radicalizarem''. ''Vamos cumprir a lei, mas não vamos aceitar a arrogância dos fazendeiros'',
afirmou.
Ele acusa a UDR (União Democrática Ruralista) de armar pistoleiros em áreas invadidas pelo
movimento e de atrapalhar acordos de desapropriação de terras.
O presidente da entidade ruralista em Presidente Prudente, Roosevelt Roque dos Santos, 49,
estava viajando ontem no interior do Mato Grosso.
A direção da entidade afirmou que quer aguardar seu retorno para se manifestar.
Esta notícia se mostra relevante por nos possibilitar analisar a criminalização dos
sem-terra a partir de outro âmbito: o governamental. Em nosso contexto político –
fundamentado na idéia de que as representações democráticas são as instituições dos
poderes Legislativo, Executivo e Judiciário – um órgão do Governo Federal se posicionar
205
enfaticamente no jornal contra o MST, inclusive categorizando ilegalmente o movimento,
como no título (“Jungmann não negociará com invasores”), resulta em uma poderosa
ação discursiva de criminalização do movimento. Também é relevante analisar o discurso
do governo conjuntamente com ação do jornal, que, conforme analisamos no texto, o
discurso do Ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, não é contestado por nenhuma
outra voz, ou nenhuma outra versão sobre o caso. Observemos esse aspecto na
composição textual. Toda a estrutura de relevância é composta por uma única voz, a do
ministro, com variáveis movimentações semânticas. Observemos: 1- No título:
“Jungmann não negociará com invasores”; 2- No lead: “O ministro Raul Jungmann
(Política Fundiária) não irá negociar com invasores de fazendas [...]” e no sublead:
“Segundo a assessoria do ministro [...]”.
Dessa forma, o jornal assegura total legitimidade ao órgão governamental, dando
sustentação ao seu discurso. O representante do MST é citado na notícia em dois
momentos: no primeiro, sua participação é passiva, pois se restringe ao envio de um fax –
que sequer foi lido pelo ministro e, no último parágrafo, quando o discurso dos sem-
terra é trazido para o texto (com o intertítulo “Novas Invasões”, que introduz a entrevista
feita com José Rainha), não tem a função de trazer a versão dos sem-terra sobre as
acusações do governo, pois as seleções feitas pelo repórter das citações de José Rainha
trazidas para o texto operam como um argumento a mais em favor do posicionamento
radical do governo contra o MST.
Observemos neste trecho: “O líder dos sem terra José Rainha Jr. afirmou que
cerca de 1.900 famílias ligadas ao MST estão ''de prontidão'', perto das fazendas Santa
Rita e Taquaruçu, para novas invasões no Pontal”. Nessa citação, é importante destacar
alguns aspectos para melhor analisar como o repórter age discursivamente no processo de
reportagem. Primeiro podemos ressaltar o aspeamento funcionando como uma
enfatização para a metáfora “de prontidão” e assim respaldando o discurso do ministro
que sustenta todo texto: os sem-terra estão prontos para ‘atacar’. Outro aspecto relevante
é de ordem semântico-discursiva. Observemos que no discurso indireto reportado está
atrelado à fala de JoRainha o item lexical invasão, sendo que, politicamente, os sem-
terra assumem a postura de não usar essa palavra, por terem consciência da conotação
ideológica que ela carrega. O que acontece, nesse caso, é uma hibridização do discurso
206
do representante do MST com o discurso do próprio repórter, o que nos possibilita
questionar a qualidade (crítica, ativa) do acesso discursivo.
Traçando algumas considerações conclusivas sobre essas análises, podemos
afirmar que, entre todos os frames, este é o que tem uma caracterização mais gida, pois
o tratamento sobre o MST tem como base um discurso: a estereotipização do
movimento. Ainda que distintas estratégias tenham sido utilizadas para isso; assim como
diferentes vozes foram trazidas para tal construção discursiva, a natureza da cobertura é
fixa e tem propósitos bem definidos. Essa natureza é tão estabelecida que até limita as
possibilidades analíticas desse frame, pois as considerações tornam-se redundantes. O
que se mostra relevante, neste caso, é investigar, juntamente com o estudo dos demais
frames, como isso operou no processo de legitimação do massacre, ou seja, se é possível
desassociar a ação discursiva de criminalização do MST, do processo de (des)legitimação
de Eldorado do Carajás. Deixaremos essas considerações para o capítulo seguinte, o qual
tem por objetivo desenvolver tanto as considerações finais como as análises globais sobre
a cobertura da Folha de S. Paulo.
Frame V – A Partidarização do MST
A partidarização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra se a
partir de um processo sutil e implícito que opera na deslegitimação do movimento.
Diferentemente dos aspectos que identificamos no frame IV, por exemplo, no qual a
estereotipização e a criminalização do movimento seguem uma linha estratégica definida,
a partidarização do MST envolve elementos mais complexos, de natureza marcadamente
ideológica, e está atrelado a forças político-partidárias. O efeito mais prejudicial para os
sem-terra desse processo é que as reais necessidades políticas e sociais do movimento
passam a ser tratadas perifericamente pelo jornal. O enfoque do discurso é restringir as
práticas do MST às ações do Partido dos Trabalhadores (PT), principal força política de
oposição ao então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Tal questão tende a
ser naturalizada pelo jornal como se o MST fosse um ‘braço’ político do PT. Assim, o
MST não é tratado como um movimento social que se organiza a partir de ideologias e
207
reivindicações próprias, mas que apenas serve a um ‘jogo’ político entre governo e
oposição. Entendemos que essa associação resulta de uma construção de grupos
específicos e com propósitos definidos. Assim, não se trata de algo ‘natural’, mas que
envolve questões ideológicas complexas, que precisam ser discutidas para se entender
como a associação de um movimento social a um partido político pode ter um efeito
deslegitimador, principalmente para esse movimento.
As investigações de problemas de natureza político-partidária não fazem parte
deste estudo. Pretendemos tecer algumas considerações sobre a questão, para assim
justificar a proposta de análise. Lembramos que, apesar desta pesquisa tratar de
problemas de natureza social, ela não é sociológica ou política. Discutimos esses
elementos porque entendemos que eles são indissociáveis do estudo da linguagem.
Entretanto, ressaltamos, este trabalho se propõe a analisar discursos, buscando dar conta
dessa tarefa com toda a complexidade que ela exige.
Um aspecto interessante a ser investigado é como se construiu, na história política
do Brasil, a estereotipização do envolvimento com partidos políticos. Ou seja, por que, no
Brasil, é tido como um elemento negativo que grupos e movimentos sociais tenham
ligações político-partidárias? E por que tal associação apenas é ressaltada quando se trata
de partidos historicamente de esquerda? Sem a menor pretensão de responder a essas
perguntas, apenas tecemos algumas reflexões sobre o assunto. Primeiro, os partidos
políticos são organizações legítimas e legais e são construídos a partir de um projeto
político específico. Por isso, o fato de os partidos agregarem à sua prática grupos que
compartilhem do mesmo projeto, em um trabalho em conjunto, parece uma característica
constitutiva do sistema democrático. Segundo, é importante refletir porque essa
associação estereotipada entre partidos políticos e movimentos/grupos sociais se dá,
basicamente, entre partidos de esquerda e movimentos/grupos contrários ao status quo.
Exemplificando: conforme apresentado neste frame, identificamos no corpus do trabalho
várias notícias tratando o MST como um movimento ligado ao PT. Entretanto, não
encontramos nenhuma referência, em todo corpus, à ligação historicamente estabelecida
entre a União Democrata Ruralista (UDR) e o então Partido da Frente Liberal (PFL),
fundado em janeiro de 1985, e desde março de 2007 reestruturado sob a legenda
‘Democratas’ (DEM). São organizações atreladas às forças políticas conservadoras.
208
Sobre o aspecto histórico dessas entidades, é importante ressaltar que o PFL foi formado
por políticos dos extintos partidos da Aliança Renovadora Nacional (Arena) e do Partido
Democrático Social (PDS), que deram sustentação ao golpe militar de 1964. a UDR é
a principal organização dos latifundiários, inclusive com forte representação política no
Congresso Nacional, em grande parte eleitos pela legenda do PFL.
Como dissemos, as relações político-ideológicas e históricas que envolvem essas
questões são complexas e exigiriam outros estudos, não o que propomos. Entretanto, tais
reflexões nos interessam quando identificamos que elas estão na constituição do discurso
que analisamos, como também na própria construção do fenômeno investigado: o
processo de (des)legitimação. Assim, trazendo o problema para este trabalho, observamos
que alguns aspectos de natureza discursivo-cognitivo dão conta da análise de algumas
questões levantadas, sendo nosso objetivo observá-las no funcionamento textual. O
estudo das representações é o ponto central deste frame, pois é a ação discursiva que
opera na categorização dos atores/grupos sociais. Tal análise dá conta de identificarmos a
delimitação Nós x Eles, o que caracteriza o discurso do jornal ideologicamente. Também
interessa, para esta investigação, o processo de topicalização das notícias,
especificamente no tratamento dos atores/grupos sociais do PT e do MST, a partir da
perspectiva da relação contínua entre protótipo e estereótipo. Sobre o aspecto pragmático-
discursivo, destacamos a análise de outro gênero, além da notícia: o artigo de opinião. O
artigo foi escrito por um colunista da FSP, daí a suposição de que esse gênero traz mais
marcadamente o discurso do jornal sobre o massacre em Eldorado do Carajás e o MST. A
constatação desse aspecto, entretanto, pode se dar com a análise do texto, o que será
feito mais adiante.
Exemplo 39:
Acusador é primo de prefeito petista (FSP, 26/08/1999)
O funcionário público Fernando Brito, que depôs no Ministério Público sobre a suposta tentativa
de suborno do júri do caso de Eldorado do Carajás, é primo do prefeito de Belém, Edmilson
Rodrigues (PT). Brito foi levado a depor pela vice-prefeita Ana Júlia Carepa (PT).Colegas de
trabalho de Brito disseram à Folha que ele costuma usar broche do PT em períodos de campanha
eleitoral e alardeia o parentesco com o prefeito.A vice-prefeita foi a primeira a fazer a denúncia.
Ela disse que um dos jurados teria afirmado a ela que outro membro do júri teria lhe oferecido R$
3.000 para absolver o coronel Mário Colares Pantoja, que comandou a operação da PM que
resultou na morte de 19 sem-terra, em abril de 1996.Brito disse ontem que divulgaria uma nota,
209
mas depois desistiu. O prefeito afirmou, pela sua assessoria, que o fato de Brito ser seu primo é
"irrelevante''.No domingo passado, Ana Júlia disse à Folha que conhecia Brito, mas não sabia o
nome dele. "Foi uma pessoa do povo que me contou a história (do suposto suborno) no último dia
do julgamento'', afirmou.
Essa notícia está atrelada à cobertura do primeiro julgamento do massacre dos
sem-terra, no Tribunal de Justiça do Pará. Entretanto, o tópico discursivo orienta a
categorização neste frame, não no jurídico. O título e os primeiros enunciados do lead são
exemplos da estereotipização de atores/grupos sociais por terem relação com o PT,
principal partido de oposição nesse contexto histórico. Observemos, a partir do título,
dois aspectos: i) o elemento que é tomado como ‘mais relevante’ não é a natureza da
acusação feita, mas a relação do ator social com o PT; ii) esta dita relação sequer é
político-partidária, pois ao ‘acusador’ coube a atribuição ‘primo de prefeito petista’. A
elaboração do enunciado se dá a partir do pressuposto: ter ‘relações’ com o PT – qualquer
que seja categoriza como ‘suspeito’ suas ações e seus agentes (“Acusador é primo de
prefeito petista”). Entretanto, essa categorização está implícita e o não-dito exige um
trabalho de inferências do leitor. Para atribuir sentido ao enunciado, o leitor terá que
operar a partir de modelos mentais estereotipados e assim chegar à significação: PT =
ilegítimo. Dessa estratégia discursivo-cognitiva, identificamos a orientação ideológica do
jornal, assim como um nível de consciência, por parte do autor do texto, de que tal
orientação ideológica já é reconhecida nas elaborações mentais dos leitores, pois o
enunciado estabelece a construção de inferências a partir do pressuposto. Ou seja,
um nível de certeza, por parte do jornal, da sua ação na construção da memória social.
No primeiro enunciado do lead, são dadas algumas informações sobre o ator
social sua profissão e o teor da sua acusação: “O funcionário público Fernando Brito,
que depôs no Ministério Público sobre a suposta tentativa de suborno do júri do caso de
Eldorado do Carajás, é primo do prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues (PT). [...]”. A
construção sintática opera na desenfatização da denúncia, que é trazida em uma relação
subordinada, sendo o parentesco do acusador tratado como o tópico principal. É mais
uma ação do jornal no processo de deslegitimação do ator social e, conseqüentemente, do
que ele denuncia. A construção da representação estereotipada continua, ainda analisando
o mesmo parágrafo, a partir de algumas marcas discursivas. Observemos neste trecho:
210
(“[...] Colegas de trabalho de Brito disseram à Folha que ele costuma usar broche do PT
em períodos de campanha eleitoral e alardeia o parentesco com o prefeito. [...]”). O
discurso é construído a partir de um efeito de sentido ‘investigativo’. O sujeito sintático
genérico ‘colegas de trabalho’ opera nessa estratégia, pois tem o tom de proteção’ das
pessoas entrevistadas. A continuação do enunciado sustenta tal efeito, pois o jornal se
auto-representa como a instituição legítima para apurar a relação do ator social com o PT.
O trecho “disseram à Folha” é um exemplo dessa auto-representação.
Na análise dessa notícia, identificamos algumas estratégias elaboradas a partir dos
processos de pressuposição e de inferências. A construção de significação textual se a
partir de elementos implícitos, o que é característico do gênero, e seu efeito de sentido
principal é o da neutralidade discursiva. o próximo exemplo é um artigo de opinião, e
se caracteriza por outras estratégias de construção de significados. O gênero possibilitaria
a ‘liberdade’ opinativa, por isso tomamos esse exemplo como o que deveria carregar mais
explicitamente o discurso do jornal e sua ação no processo de legitimação do massacre.
Entretanto, observamos outros elementos que caracterizam esse gênero. Observemos no
Exemplo 40.
Exemplo 40:
Bom mesmo de massacre é usineiro (FSP, 20/08/1999)
Colunista da Folha
Ninguém aqui pretende desrespeitar a dor das 19 famílias que perderam entes queridos no
confronto entre sem-terra e policiais, em Eldorado do Carajás, no Pará, em 1996.Mas, vem cá:
não sei o que o pessoal da CUT, do PT e do próprio MST entendem por "massacre", mas o que vi
na TV na época e revi com mais detalhe na última quarta, durante o julgamento dos três oficiais
que comandaram a operação, não pode ser classificado de massacre.Uma tropa capenga de
policiais sem treinamento para enfrentar uma situação daquela gravidade é chamada para conter
um grupo de desesperados dispostos a matar e morrer e armados até os dentes com foices,
pedaços de pau, facões e _como a fita apresentada no julgamento evidencia_ com armas de fogo,
que foram disparadas antes que os policiais dessem o primeiro tiro.Quem autorizou os policiais a
usar metralhadoras para enfrentar os invasores? O governador deu ou não ordem para conter a
invasão a todo custo?A certa altura daquele vídeo que a gente já viu tantas vezes na TV, os sem-
terra partem com tudo para cima dos policiais, que recuam. O primeiro tiro é dado naquele
instante. Por alguém que está do lado dos sem-terra, como foi demonstrado ao longo do
julgamento de quarta-feira.E, agora, vem o Stedile e o pessoal da CUT e do PT falar em
impunidade. Será que a gente é obrigada a engolir, só porque a lamentável figura do coronel
Pantoja, um dos líderes da operação, parece saída de alguma novela de Dias Gomes?Quando é
que a America's Watch e a Anistia Internacional vão começar a tratar como vítimas pobres
211
coitados feito os policiais que foram enviados sem preparo para enfrentar os sem-terra em
Eldorado do Carajás? E o governador do Pará, Almir Gabriel? Quando vai assumir publicamente
o quinhão de responsabilidade que lhe cabe no suposto "massacre"?Se houve irregularidades no
julgamento, que se faça uma nova audiência. Mas, em nome da justiça, que ninguém se esqueça
de que existem vítimas de ambos os lados.*Usineiro, sim, entende de massacre. Pega dinheiro
emprestado do governo para investir na terra e depois gasta tudo na ampliação do novo haras e
levando a patroa para passear na Europa. E ainda pretende ter as dívidas anistiadas. Isso é que é
massacrar a lei e a ordem de um país.
Dos vários aspectos que podem ser tratados neste texto, vamos focar a análise,
primeiramente, no posicionamento assumido pelo colunista ao descrever o ‘episódio’
Eldorado do Carajás e, assim, investigar como tal descrição opera na categorização
massacre x legítima defesa. Ao analisar a perspectiva assumida pelo jornal,
representado pela voz do colunista identificamos o discurso deslegitimador dessa
instituição sobre o massacre. Esta análise também tem como objetivo investigar a
construção das representações sociais, no que diz respeito à partidarização do MST, e
como essa relação opera no processo de deslegitimação do movimento. Como se trata de
um gênero opinativo, também nos interessa observar a auto-representação do jornal na
delimitação discursiva dos grupos Nós x Eles.
O uso do pronome na primeira pessoa do singular atua fortemente nos aspectos
abordados e opera, desde o início do texto, na demarcação da perspectiva do jornal para a
categorização do ‘episódio’, assim como no posicionamento contrário em relação ao
grupo Eles (MST, CUT e PT). A auto-representação do jornal no grupo Nós, entretanto, é
mais sutil e trataremos desse aspecto mais adiante. Iniciamos a discussão sobre a
perspectiva do narrador ao descrever o ‘episódio’. O discurso que constitui o texto do
colunista é marcadamente o da Polícia Militar. A versão assumida pelo autor é a que
categorizamos como legítima defesa. A característica argumentativa do gênero explicita
esse posicionamento. Observemos a partir dos seguintes trechos: “[...] mas o que vi na
TV na época e revi com mais detalhe na última quarta, durante o julgamento dos três
oficiais que comandaram a operação, não pode ser classificado de massacre. [...]”. Na
parte grifada por nós, em itálico, a categorização é enfática e respaldada por argumentos
que o autor traz da sua própria experiência uma estratégia canônica da argumentação,
pois torna mais difícil o contra-argumento.
212
No trecho que discutiremos a seguir, o discurso do colunista é construído
fundamentalmente pelo discurso da polícia, o que aponta para uma relação que se
tanto pela interdiscursividade, pois há no texto a voz do autor e da Polícia Militar.
Entretanto, também observamos uma outra característica dessa constituição discursiva:
trata-se de uma construção quase monológica, pois uma sobreposição do discurso da
PM. Essa observação pode parecer contraditória, pois estamos tratando de interdiscurso,
mas, se analisarmos com mais profundidade a construção de sentido do texto, é possível
perceber uma estratégia no posicionamento discursivo do colunista, a partir de um efeito
de sentido analítico sobre o ‘episódio’. Enfatizamos que se trata de um efeito de sentido
pois, se o autor estivesse se propondo a desenvolver uma ‘análise’ sobre Eldorado do
Carajás, deveria haver uma polifonia constitutiva na formulação do texto. Entretanto,
identificamos que uma voz predominante e é a que opera na construção do discurso:
voz da Polícia Militar. Então, percebemos, neste caso, que a interdiscursividade opera
como uma estratégia de simulação de dialogismo – nos termos bakhtinianos –, mas o que
ocorre é a predominância do discurso do poder.
Observemos o exemplo: “[...] Uma tropa capenga de policiais sem treinamento
para enfrentar uma situação daquela gravidade é chamada para conter um grupo de
desesperados dispostos a matar e morrer e armados até os dentes com foices, pedaços de
pau, facões e _como a fita apresentada no julgamento evidencia_ com armas de fogo, que
foram disparadas antes que os policiais dessem o primeiro tiro. [...]”. No início do
enunciado, o efeito do discurso é avaliativo, ou seja, o colunista estaria elaborando uma
análise sobre a situação da PM. Entretanto, os argumentos de que havia um ‘despreparo
da tropa’; assim como uma ‘falta de armamentos para enfrentar o grande número de
manifestantes’; e de que ‘os sem-terra iniciaram o tiroteio e estavam mais bem armados’
são os mesmos que sustentam a defesa dos policiais, tanto no domínio jurídico quanto no
jornalístico.
Um posicionamento discursivo contrário a essa versão seria o de questionar, por
exemplo, como, diante de todo esse ‘quadro desfavorável à PM’, nenhum policial foi
morto, enquanto pelo menos 19 sem-terra foram assassinados e muitos outros sofreram
ferimentos que carregam até hoje. Trazemos esse contraponto, que não foi apresentado no
artigo, para exemplificar como o colunista simula a ação analítica em seu discurso: toda
213
suposta análise tem como fundamento apenas uma voz discursiva e, conseqüentemente,
uma linha ideológica demarcada a das instituições do poder –, o que caracteriza o
fenômeno do controle discursivo.
Essa estratégia de simulação dialógica também opera na identificação de como o
jornal se posiciona na polarização Nós x Eles. Se o grupo que está sendo criticado pelo
colunista está explicitamente marcado, a delimitação do outro grupo, por sua vez, é mais
complexa. Isso porque uma questão implícita que opera na demarcação ideológica das
críticas do colunista: enquanto todos os grupos são questionados e analisados sob a
perspectiva institucional CUT, PT, MST, Polícia Militar , a instituição Governo o é
trazida para o texto, mas a sua individualização – a partir da figura do governador. Assim,
a delimitação do Nós não é explícita e como o Governo não está atrelado
institucionalmente à Polícia Militar – pois o colunista atribui a responsabilidade pela ação
dos policiais a Almir Gabriel também não fica explícito que, ao assumir o discurso da
PM, o colunista está também assumindo o discurso do Governo. Dessa forma, a inserção
da FSP no grupo Nós se no nível mais profundo da realização discursiva. Assim, o
texto que é construído sob o efeito de uma ‘análise de conjuntura’, cabendo ao seu autor a
‘autoridade’ para fazer críticas, pois estas estariam sustentadas pela ‘autonomia de
opinião’, pode ser tomado como um texto ideologicamente marcado. O efeito cognitivo
dessa estratégia de simulação, por fim, é orientar ideologicamente a compreensão sobre o
caso Eldorado de Carajás, sendo que essa orientação opera implicitamente na construção
dos modelos mentais.
O título do artigo tem um efeito catafórico e seu sentido é possível de ser
construído na leitura do último parágrafo. Trata-se de uma estratégia narrativa que Eco
(1994) chama de flashforwards. Ela opera no sentido oposto ao flashback, trazendo para
a cena uma antecipação da história. Assim, deixaremos as considerações sobre esse
enunciado para o final da análise. O texto é construído a partir de marcas da oralidade,
tais quais: ‘ninguém aqui’; ‘vem cá’, com o uso de dêiticos que operam no efeito de
aproximação entre autor-leitor, como se tratasse de uma conversação. Neste caso,
funciona como uma estratégia argumentativa e sua força persuasiva é a simulação de uma
relação de intimidade entre o autor e os seus leitores. Essa é uma das características do
fenômeno da ‘tecnologização discursiva’ discutido por Fairclough (2001a). No que diz
214
respeito à construção da representação do Eles, identificamos o uso do item lexical
‘pessoal’, que tem um efeito pejorativo para o grupo ao qual se refere: os participantes
desse grupo não são tratados como atores sociais, mas em uma generalização banalizada.
Esse mesmo item lexical é usado em outro momento do texto, também no processo de
referenciação aos integrantes da CUT, do MST e do PT. O efeito dessa ação referencial,
tratando três entidades diferentes como um ‘conjunto’, opera na construção da
partidarização do MST e, ao tratar tais grupos pejorativamente, também constrói o efeito
deslegitimador de seus discursos e das suas práticas.
Retomando as considerações sobre o título do artigo (“Bom mesmo de massacre é
usineiro”), que está em relação catafórica com o último parágrafo. Nessas duas estruturas
textuais é introduzido para a ‘cena discursiva’ um novo ator social – o usineiro. Como ele
não tem relação direta com o tópico discursivo, ou mesmo com os atores/grupos sociais
envolvidos no artigo, tomamos essa inserção como mais um exemplo da
interdiscursividade enquanto estratégia de simulação de dialogismo. Observemos, no
trecho destacado, como o autor articula a discussão sobre a prática dos usineiros com o
tópico discursivo e, assim, estabelece o efeito analítico-crítico em seu discurso:
“[...]*Usineiro, sim, entende de massacre. Pega dinheiro emprestado do governo para
investir na terra e depois gasta tudo na ampliação do novo haras e levando a patroa para
passear na Europa. E ainda pretende ter as dívidas anistiadas. Isso é que é massacrar a lei
e a ordem de um país”. Neste parágrafo, além de reforçar o efeito de sentido construído
no texto, o discurso do colunista também opera na deslegitimação do massacre de
Eldorado do Carajás, pois, ao ser enfático na crítica aos usineiros categorizando suas
práticas como um tipo de ‘massacre’ desenfatiza a importância do massacre dos sem-
terra. Para o articulista da FSP, é mais grave o desvio de verbas dos usineiros sem
questionar a conivência do então governo com tal prática do que as mortes dos sem-
terra.
Exemplo 41:
Grupo entrega abaixo-assinado (FSP, 18/04/1997)
Um grupo denominado Friends of the MST (Amigos do MST) entregou ontem um abaixo-
assinado na Embaixada do Brasil em Londres pedindo a agilização da reforma agrária no país.
A organização é ligada à representação do Partido dos Trabalhadores em Londres.
215
No documento, com 110 assinaturas, o grupo também reclama da lentidão do julgamento dos
policiais militares acusados pelo massacre de Eldorado do Carajás, onde 19 sem-terra morreram
há um ano. O grupo foi recebido pelo embaixador do Brasil em Londres, Rubens Barbosa.
À noite, o diplomata participou de um debate na abertura da exposição fotográfica "Terra", de
Sebastião Salgado, em uma igreja no centro da capital britânica. A exposição é sobre
trabalhadores rurais.
A chegada da passeata dos sem-terra a Brasília foi mencionada no noticiário da rede de TV a
cabo Sky News, que transmite notícias 24 horas por dia.
Esta notícia traz um aspecto pontual para a nossa análise e apresenta mais um
elemento que exemplifica a construção da representação do MST atrelada ao PT. Esse
discurso não é o tópico, mas está presente na estrutura de relevância, observada no último
enunciado do lead. O tópico discursivo trata da entrega do abaixo-assinado de um grupo,
em Londres, com reivindicações pró-MST. Se essa macro-ação discursiva pode ser
considerada favorável ao MST, a construção elaborada no lead opera, por sua vez, na
estereotipização do grupo responsável pela ação (“Amigos do MST”), pois o qualifica a
partir da sua afinidade político-partidária, não pelas suas práticas ou reivindicações.
Observemos no trecho destacado: “[...] A organização é ligada à representação do Partido
dos Trabalhadores em Londres. [...]”. Não é irrelevante, para esta investigação, que
dentre os vários aspectos que poderiam ser predicados ao grupo, o jornal destacou a sua
relação com o PT. Também é importante discutir a natureza dessa relação. O item lexical
que opera em tal especificação (‘ligação’) é vago. Por isso, possibilita leituras que associa
tal ‘ligação’ a aspectos negativos e até ilegais.
Exemplo 42:
Palestra é proibida por Justiça do MS (FSP, 22/08/1998)
O juiz de Mundo Novo (462 km ao sul de Campo Grande), Cléber Corsato Barboza, proibiu o
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) de realizar palestras em escolas públicas
da rede estadual no município.
O juiz disse à Agência Folha que as palestras poderiam ter influência político-partidária, e a
campanha eleitoral em prédios públicos é vedada por lei.
Barboza também levou em conta um "clima de adversidade" entre produtores rurais e MST no
município, por causa do abate de 30 cabeças de gado na fazenda Savana, há duas semanas.
As palestras acabaram sendo realizadas em locais públicos e nas escolas da rede municipal. A
prefeita local, a ex-sem-terra Dorcelina Folador (PT), autorizou os eventos. As palestras fazem
parte da marcha organizada pelo MST no Estado.
216
A partir da análise da estrutura de relevância dessa notícia, apresentamos outros
exemplos para a questão tratada neste frame. O título não é formulado a partir do tópico
que norteia o discurso desse texto. Apesar da importância dessa estrutura textual,
identificamos que a topicalização é desenvolvida apenas no lead. Nesse caso, o título
funciona como um introdutor do que vai ser tratado no primeiro parágrafo. Ou seja, sua
potencialidade em orientar toda a interpretação do texto não é explorada. É no lead que
identificamos sobre o que aborda a notícia, que a proibição da palestra serve apenas
como pano de fundo para as questões depois introduzidas. O que está topicalizado na
notícia é o fato de que o grupo proibido por um juiz – de realizar palestras em escolas é
o MST e a ‘justificativa’ para tal proibição seria a possibilidade dessas palestras
influenciarem partidariamente os alunos. O trecho destacado traz os argumentos
jurídicos: “[...] O juiz disse à Agência Folha que as palestras poderiam ter influência
político-partidária, e a campanha eleitoral em prédios públicos é vedada por lei. [...]”.
Essa ação, que poderia ser tratada pelo jornal como discriminação ou censura, é
passivamente aceita e a ‘justificativa’ dada não é questionada. Inclusive, outros
argumentos são apresentados, no sentido de legitimar a proibição do juiz. No trecho a
seguir: “[...] Barboza também levou em conta um "clima de adversidade" entre
produtores rurais e MST no município, por causa do abate de 30 cabeças de gado na
fazenda Savana, há duas semanas. [...]”, só é possível traçar uma linha argumentativa
entre a proibição da palestra para a qual o juiz alega questões político-partidárias e o
argumento apresentado logo em seguida se entendermos a ação jurídica a partir da sua
natureza ideológica.
O posicionamento passivo do jornal em relação à prática jurídica é possível de ser
explicado se entendermos a sustentação de forças entre esses dois domínios e,
principalmente, suas afinidades ideológicas. O domínio jurídico e o domínio jornalístico
operam discursivamente sob os mesmos pressupostos: o MST é um movimento que serve
aos interesses político-partidários do PT. Assim, qualquer ação do MST implicará em
uma ação partidária pró-PT, o que não interessa à elite do município em questão. Essa
redução do MST como uma ‘ala’ petista, conforme analisamos, é mais um elemento,
entre outros identificados nos demais frames, de deslegitimação do movimento. No
último exemplo destacado, identificamos como a associação é estabelecida de forma tão
217
direta, que é basicamente ‘naturalizada’: “[...] A prefeita local, a ex-sem-terra Dorcelina
Folador (PT), autorizou os eventos. [...]”. Essa naturalização resulta em uma prática
discursiva determinística, levando à elaboração de modelos mentais fortemente
constituídos por essas ideologias.
Exemplo 43:
Boné substituiu chapéu de palha (FSP, 06/07/2003)
Até chegar à cabeça do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e virar motivo de polêmica nacional
na semana passada, o boné do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) percorreu
marchas pelo Brasil afora e disputou espaço com o tradicional chapéu de palha.
No MST, as informações a respeito da origem do boné são desencontradas. Mas há uma
unanimidade: ele substituiu como símbolo o chapéu de palha típico dos sem-terra na caminhada
que o movimento fez até Brasília, em 1997, para marcar o primeiro ano das mortes de Eldorado
do Carajás. Na época, o MST foi recebido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, também
ele presenteado com o boné. FHC, porém, não o vestiu, pelo menos em público.
Trazemos como último exemplo, para a análise deste frame, uma notícia mais
recente. O então candidato do PT, na época do massacre de Eldorado do Carajás, Luiz
Inácio Lula da Silva, está em seu primeiro ano de mandato como Presidente da República
do Brasil. O episódio que trata a notícia repercutiu em todos os veículos de comunicação
do País e gerou uma ampla discussão. Trata-se de um gesto feito por Lula que, ao receber
de presente um boné do MST, dado por representantes do movimento no gabinete
presidencial, colocou o boné. A notícia que estamos analisando é um desdobramento da
principal, pois tenta trazer a questão por outro ‘ângulo’, discutindo a ‘origem’ do boné. O
gesto de Lula foi tratado na mídia como uma expressão ideológica em favor do MST o
que não caberia a um presidente da República.
Essa questão é relevante para a nossa pesquisa por revelar a consolidação da
ideologia da relação partidária entre MST e PT, e como a mídia se coloca em ‘vigília’
para ‘denunciar’ essa relação, principalmente quando o PT passa a ser o partido do poder.
Ou seja, qualquer gesto do Presidente seja em práticas discursivas ou não em relação
aos sem-terra tem ampla repercussão e gera um ‘posicionamento crítico’ dos meios de
comunicação sobre um suposto ‘privilégio’ dado ao movimento nas ações do governo.
Na leitura que fazemos dessa questão, a demarcação discursiva de tal relação se
218
manifesta, nessa notícia, em um trecho que aparece no fim da notícia. Aparentemente
deslocado, pois não está estabelecida uma relação explícita com o assunto tratado, o
enunciado opera com forte conotação ideológica, pois seu efeito de sentido é contrapor o
posicionamento político do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), com o do
então presidente Lula. Observemos no trecho: “[...] Na época, o MST foi recebido pelo
presidente Fernando Henrique Cardoso, também ele presenteado com o boné. FHC,
porém, não o vestiu, pelo menos em público. [...]”. Ao estabelecer esse ‘contraponto’, o
discurso do jornal opera na reafirmação do estereótipo construído sobre a relação entre o
MST e o PT, demarcando que FHC e, conseqüentemente, o seu partido (PSDB), não m
vínculos ideológicos com movimentos contrários aos grupos do poder. Por sua ação se
dar a partir de um discurso estereotipado, a FSP opera, nesta notícia, não apenas na
deslegitimação do MST, mas, pela relação de associação, pretende deslegitimar também
o governo petista.
Para as considerações finais sobre a análise desta macro-categoria é importante
fazer o contra-ponto com o frame anterior, no qual a ação de deslegitimação do MST está
tão definida, que chega a enrijecer as possibilidades discursivas. Neste frame, pelo
contrário, o jornal opera a partir de estratégias menos aparentes, que não estão na
superfície textual, e, mesmo que o identifiquemos como um gesto de deslegitimação do
movimento, ele não é explicito. Isso, ao mesmo tempo em que nos fornece mais
possibilidades de investigação, também opera de forma sutil na construção dos modelos
mentais dos leitores e, assim, na memória social. que, neste caso, a construção dos
estereótipos envolve não apenas os sem-terra, mas um partido político, o PT, principal
força política de oposição ao PSDB, partido do então presidente da República, Fernando
Henrique Cardoso. Assim, os objetivos políticos do jornal são mais complexos e
marcadamente ideológicos: legitimar o sistema neoliberal que representa o PSDB. Para
desenvolver tal análise é preciso articular processos inferenciais (implícitos,
pressuposições) que operam na construção discursiva dessas notícias com os aspectos
sócio-políticos que destacamos no nosso esquema de análise proposto. Ou seja, faz-se
necessária uma ‘leitura global’ de vários elementos contextuais relações de forças
políticas; orientação ideológica do jornal; estereotipização histórica dos movimentos
sociais, entre outros para se chegar ao significado deste frame. Daí a relevância de
219
trazermos para o quadro de análise aspectos macrossocial, articulando-os com outros de
natureza sócio-cognitiva, discursiva e lingüística.
Frame VI - o reframing: a não-ocorrência
A natureza desta categoria está em sua não-ocorrência. Para entender tal
característica é preciso, primeiro, entender o não-dito (ou o silenciamento) como um
gesto discursivo. Isso quer dizer que a não ocorrência desta categoria é uma postura
ideológica do jornal. São vários os estudos que situam o silenciamento como uma ação de
dizer algo aspecto principalmente estudado na Análise do Discurso francesa. Esses
estudos têm sido desenvolvidos em áreas de conhecimento distintas, além da Lingüística:
como na Psicologia e nas Ciências Sociais. Assumimos tal questão como base para as
reflexões que buscamos sobre cognição discurso mudança social. Para isso,
tomamos o estudo de Lakoff (2004) que propõe essa relação a partir do movimento que
ele chama de reframing.
O reframing, nos termos de Lakoff (2004) parte de uma reformulação de como as
pessoas vêem o mundo
15
. Para o autor, a mudança social ocorre quando ocorrem
mudanças nos nossos sistemas neuronais. Isso quer dizer que tudo o que sabemos está no
nosso cérebro
16
, por isso ele tem que mudar. Para Lakoff (2004, vx), “os frames são
estruturas mentais que encapsulam a forma como nós vemos o mundo”. Eles são
constructos teóricos e fazem parte do que a ciência cognitiva define como nosso
‘inconsciente cognitivo’. Para o autor, cada palavra articulada ou não em um discurso
aciona um sistema de frames. Por isso, usar palavras é trazer para o consciente do seu
interlocutor conceitos que, a partir de uma construção sócio-histórica, estão atrelados a
elas. Assim, framing é uma ação de enquadre de significados. Essa discussão é
importante para esta investigação pela noção a qual ela se contrapõe: o reframing. Ou
seja, possibilidades de reconceitualizar enquadres. Por isso, para Lakoff (2004),
15
Desenvolvemos esse conceito no segundo capítulo, mas retomamos alguns dos seus aspectos para
fundamentar o uso desse termo também como uma categoria de análise.
16
O debate sobre a relação mente/cérebro que tanto inspira a Filosofia, a Psicologia e as Ciências
Cognitivas resvala por vários caminhos, exigindo um estudo específico. Assim, nos atemos à terminologia
de Lakoff (2004).
220
reframing é mudança social: é uma ação discursivo-cognitiva para mudar a forma como
as pessoas vêem o mundo. Assim, é preciso articular mudanças discursivas com
mudanças cognitivas para que conceitos estabelecidos (tais como os estereótipos e
preconceitos) possam ser modificados. O autor argumenta que, para isso, faz-se
necessário um complexo trabalho de elaboração de discursos. Ou seja, se um grupo
pretende inserir uma nova perspectiva sobre alguma questão, é preciso estar atento para
não usar as palavras-discursos que estejam estabilizadas em sistemas conceituais de
outras ideologias.
Trazendo tal perspectiva para esta investigação, observamos que os frames de
cobertura seguiram os discursos estabelecidos pelas instituições do poder, ou por outras
organizações e movimentos sociais, que não o MST. Isso se deve, conforme analisamos,
ao forte controle discursivo dos jornais, que exclui discursivamente grupos contrários ao
status quo. o houve, na cobertura do massacre de Eldorado do Carajás, um frame que
tenha sido desenvolvido a partir da perspectiva dos sem-terra. Assim, todos os frames
categorizados seguem os mesmos discursos, ou seja, a mesma forma de ver o mundo,
ainda que desenvolvidos a partir de outras vozes. Isso quer dizer que a relação ‘cognição
discurso mudança social’ não ocorreu e, provavelmente, o discurso do poder deve
ser o que organiza as estruturas mentais dos leitores.
221
6. Considerações Finais
Este capítulo tem por objetivo sistematizar as questões levantadas sobre o
processo de (des)legitimação de Eldorado de Carajás, apontar caminhos que indiquem
como se deu a categorização desse fenômeno e quais aspectos podem ter operado nesse
processo. Antes, é importante ressaltar duas questões: i) trata-se de uma leitura que
fazemos e de possíveis respostas que apresentamos para os problemas teóricos levantados
ao longo deste trabalho. Não trazemos resoluções, mas uma perspectiva heurística para
esta investigação. E isso se deve a nossa própria concepção do ‘fazer científico’; ii)
operamos com ações e fenômenos de natureza intrinsecamente instável: ‘legitimação’,
‘categorização’, ‘construção discursiva’ e ‘elaborações cognitivas’. Seria contraditório
chegar a definições e respostas para ações que estão em constante processo de
construção.
Entretanto, isso não nos leva a um relativismo absoluto, não se trata de assumir tal
perspectiva. Mas de assumir que, assim como os demais domínios sociais, também no
domínio acadêmico estamos construindo discursos sobre algo, e não observando algo
diretamente. Não se trata de um subjetivismo ou de um relativismo porque entendemos
que tal construção discursiva se a partir da intersubjetividade, o que pressupõe
interações e ações sociais, coletivas. Na essência está o processo de construção de
significações ou de semiotização. Enfim, tudo são discursos e perspectivas de
observação. Assim, o mito da objetividade não mais se sustenta no paradigma de ciência
que assumimos, no qual o princípio básico é o de que a produção do conhecimento se dá
entre sujeitos, não entre sujeitos e objetos (Santos, 2003).
Também, quando afirmamos que trabalhamos com uma perspectiva heurística,
situamos esta pesquisa como um esforço investigativo, desenvolvido a partir de um
amplo diálogo teórico, com o objetivo de estudar a constituição de um fenômeno, não
apenas interpretá-lo, ou mesmo resolvê-lo. Para dar conta desse objetivo, faz-se
necessário um aparato teórico que o sustente, assim como a identificação de categorias
analíticas que operem nesse processo. E assim desenvolvemos nossas considerações e
222
análises sobre a (des)legitimação de Eldorado de Carajás: partindo de pressupostos, de
posturas ideológicas, políticas e pelo desejo de descobrir algo. Ou seja, como qualquer
ação humana.
Norteou o desenvolvimento deste trabalho uma hipótese central: as ações de
legitimação servem para consolidar grupos e ideologias dominantes, categorizar
atore/grupos sociais e controlar o poder. Para isso, grupos dissidentes, contrários ao
status quo, precisam ser estereotipados e criminalizados. Os caminhos teóricos traçados,
assim como a investigação discursiva, levam-nos à conclusão de que nossa hipótese está
correta. A construção da legitimação está intrinsecamente relacionada ao controle
discursivo dos grupos do poder, sendo o jornal uma das instituições que operam mais
fortemente nessa construção. Entretanto, mesmo afirmando a comprovação da hipótese
inicial, é importante ressaltar que não se trata de uma resposta estanque, mas em contínua
elaboração. Por isso, assumimos a comprovação da hipótese neste momento histórico.
Provavelmente, outra investigação, em outro momento sócio-político, chegue a reflexões
diferenciadas.
O desejo de estudar o fenômeno da legitimação foi impulsionado por algumas
questões, que tomamos como problemas de pesquisa. Retomando a apresentação deste
trabalho, pontuamos esses problemas: 1) Quais as ações lingüístico-cognitivas envolvidas
no processo de elaboração do discurso (des)legitimador? 2) Como essas ações resultam
em discursos distintos sobre um mesmo episódio? E, por fim, a pergunta que está
relacionada à ‘perspectiva heurística’ que mencionamos: Como ‘versões’ se consolidam
como um ‘fato’, algo dado, concreto, objetivo, quase que naturalmente constituído e
legitimado?
Essas perguntas nos fizeram desenvolver uma investigação a partir de três
perspectivas: primeiro, de forma mais ampla, estudando o fenômeno da (des)legitimação
como uma construção que se dá em relações constitutivas entre aspectos cognitivos,
sociais e discursivos. Daí o definirmos também como uma ‘ação de categorização social’;
segundo, observando como o jornalismo enquanto prática discursiva agiu
especificamente na cobertura de Eldorado de Carajás; terceiro, analisando como a
construção de sentido do discurso jornalístico operou na construção da ‘verdade’ sobre o
massacre e, assim, na sua (des)legitimação.
223
Primeiro, é preciso ressaltar que para dar conta desta investigação foi necessário a
construção de um quadro teórico multidisciplinar. Isso porque defendemos que a
Lingüística (como qualquer outro campo de estudo) não é suficientemente autônoma para
dar conta dos complexos fenômenos sociais. Assim, optamos pela multidisciplinariedade,
trazendo para a Análise Crítica do Discurso marco teórico deste trabalho discussões
desenvolvidas nas Ciências Jurídicas, nas Ciências Cognitivas, na Sociologia e na
Filosofia. A inserção em outras áreas do conhecimento requer um grande esforço, devido
à amplidão das leituras necessárias, mas nos ajuda a perceber as nossas próprias
limitações no trato de algumas questões. Os estudos cognitivos, por exemplo, têm sido de
grande importância para a Lingüística e têm ajudado a reformular noções estabilizadas
nessas pesquisas, tais quais as de contexto, metáfora e referenciação. Entretanto, como já
discutimos, a multidisciplinariedade também requer ações colaborativas entre os atores
sociais do domínio acadêmico, que um único pesquisador não pode dar conta de todos
os campos do conhecimento.
De volta às considerações sobre as nossas perguntas iniciais, propomos algumas
reflexões e conclusões desenvolvidas ao longo desta investigação. Entendemos que
identificar os elementos lingüístico-discursivos que operam na construção do discurso
(des)legitimador é justamente investigar como se a interface entre as práticas sociais e
a elaboração textual. Ou seja, os elementos que operam na transição dos aspectos de
ordem macro (sociedade, domínios discursivos, ideologias) e passam a constituir um
texto.
Com base em nossas análises, identificamos a topicalização como uma macro-
ação que opera nesse processo, assim como na construção de sentido dos textos
jornalísticos. Ao topicalizar uma notícia, constrói-se a ação principal de desenvolvimento
discursivo e suas delimitações, daí o desenvolvimento de distintos textos sobre um
mesmo assunto. Também identificamos que as categorias semânticas analisadas são de
extrema relevância para a construção diferenciada de sentidos. Sobre a última pergunta,
atrelamos tal processo à categoria acesso discursivo: as instituições de poder controlam a
prática jornalística, sendo essa prática uma das que operam na construção das ‘verdades’
ou das ‘crenças’ sociais. As demais questões relacionadas às conclusões das análises
discursivas estão desenvolvidas no item 6.1.
224
O estudo da (des)legitimação nos trouxe necessidades de discutir de forma
sistemática e aprofundada pontos que são tratados de forma ampla, ou mesmo vaga, na
Análise Crítica do Discurso. Tomamos como exemplo a noção de ‘mudança social’. Não
uma preocupação em definir de forma elaborada essa noção e, conseqüentemente, em
aprofundar como esse processo se constitui. Não nos parece suficiente atrelar a mudança
social à mudança discursiva. Dito assim, parece-nos mais uma relação causal (causa-
efeito), mecânica, do que uma construção social. Entendemos que faltam elementos
teórico-analíticos que dêem conta desse complexo processo. Defendemos, ao longo do
trabalho, que a ausência de uma inserção profunda nas Ciências Cognitivas, de forma
geral, e mesmo na Lingüística Cognitiva, especificamente, é onde está o gap dos estudos
críticos discursivos.
É importante enfatizar que, ao defender a necessidade da inserção nos estudos
cognitivos, não significa propor uma outra Análise Crítica do Discurso, ou mesmo uma
nova linha de pesquisa dentro desse marco teórico, mas sim de uma ampliação do seu
escopo. Também é importante salientar que pesquisas com distintos caminhos
investigativos estão sendo desenvolvida na ACD, portanto não estamos lidando com
um campo monolítico, muito pelo contrário. Está na essência da sua proposta os mais
distintos diálogos teóricos. O único norte traçado na ACD é o político: os trabalhos
acadêmicos devem assumir uma postura contrária às desigualdades sociais, colocando-se
ao lado da luta dos excluídos. Por isso, a ACD é explicitamente ideológica, ao contrário
de outras linhas de pesquisa, que ainda insistem em se esconder por trás do mito da
imparcialidade ou objetividade.
A proposta que trazemos para o estudo da mudança social é a idéia de reframing
desenvolvida por Lakoff (2004). Como foi dito, trata-se de uma noção ainda pouco
desenvolvida pelo autor, o que repercute neste trabalho, pois falta um aparato teórico para
aprofundar esse conceito o que também não faz parte dos nossos objetivos e, assim,
temos consciência das limitações do tratamento dessa questão, trazida de uma forma até
certo ponto ‘abstrata’. Entretanto, resolvemos assumir esse risco. Primeiro porque
percebemos, com a idéia de reframing, possibilidades de discutir a mudança social a
partir da perspectiva cognitiva e, assim, articular com a análise discursiva. O segundo
225
ponto: é um caminho de estudo que se abre e, se ele não é satisfatoriamente trilhado aqui,
pode ser realizado em trabalhos futuros.
Essas reflexões, como dissemos, vêm da própria investigação da (des)legitimação.
Quanto mais o analisamos, mais percebemos quantas questões estão atreladas a ele:
categorizações, mudança social, produção discursiva. E, assim, entendemos que ainda
cabem desdobramentos no estudo desse fenômeno. Pois, mesmo que tenhamos articulado
distintas e amplas referências teóricas, esse esforço não foi suficiente para esgotar a
questão, ou mesmo chegar a conclusões categóricas. Não relações sociais que não
dependam da legitimidade, daí sua amplitude. E, como já foi dito, trata-se de um processo
instável, situado em práticas e momentos históricos específicos. Assim: a
(des)legitimação é um fenômeno aberto a distintas perspectivas teóricas e as mais
diferenciadas pesquisas e análises .
6.1 A Realidade Fabricada: algumas conclusões sobre a (des)legitimação de Eldorado de
Carajás
Neste ponto, fazemos um apanhado sistemático das análises sobre a ação do
discurso jornalístico no processo de (des)legitimação de Eldorado de Carajás. A
macrocategorização da cobertura da Folha de S. Paulo (FSP) em frames foi importante
para a observação do fenômeno e serviu como um guia para estudar os aspectos macro-
sociais nessa cobertura, assim como na análise dos elementos lingüístico-discursivos no
processo de categorização do massacre. Na nossa leitura do corpus, observamos que em
alguns momentos o discurso do jornal foi constituído por um forte controle das principais
esferas do poder (Executivo, Legislativo e Judiciário). Isso se deu, principalmente, nos
primeiros anos de cobertura e nas matérias que tratavam especificamente dos trâmites
jurídicos: julgamentos, denúncias do Ministério Público, preparação do corpo de jurados
etc. Nesses períodos, o jornal assume, em seu discurso, os discursos do poder e, assim,
atua no processo de construção do ‘fato jornalístico’ sobre Eldorado de Carajás.
Entretanto, como foi discutido, o processo de (des)legitimação é instável, assim
como a própria produção de discursos (dependem de uma série de modelos contextuais) e
226
a característica apontada acima sofreu modificações. Mesmo trabalhando com um corpus
que conta de dez anos de cobertura sobre o massacre, temos consciência que não é o
suficiente para falarmos em ‘modificações históricas’ do discurso da FSP. Nesse período,
porém, é possível identificar algumas mobilidades nas ações discursivas, principalmente
por se tratar do domínio jornalístico, que, mesmo operando sob um determinado controle,
não se pode definir como um controle absoluto, sem a interferência mais ampla da
sociedade. Assim, identificamos algumas mudanças em sua constituição, principalmente
pelas mobilizações de alguns segmentos sociais (organizações não-governamentais,
movimentos sociais, Igreja Católica, intelectuais e artistas), o que iniciou um processo de
conscientização contra a violência policial em Eldorado de Carajás, durante o protesto
dos sem-terra, e contra a impunidade pelo massacre. O jornal, como um domínio
articulador de discursos, também sofre influência dessa mobilização e passa a construir
um discurso mais polifônico (nos termos bakhtinianos). Assim, a perspectiva sobre as
mortes dos sem-terra, que pelo menos durante os primeiros anos de cobertura era
predominantemente a do poder, passou a ter um desdobramento discursivamente híbrido.
Também com as campanhas constantes do MST (por exemplo, a “Jornada de
Luta”) o massacre de Eldorado de Carajás passa a ser questionado em vários âmbitos,
principalmente no tratamento jurídico do caso. Assim, após uma detalhada investigação e
análise do corpus do jornal, entendemos que, socialmente, as mortes dos sem-terra são
deslegitimadas. Ou seja: a sociedade não aceita o massacre, nem a impunidade jurídica,
que os acusados pela justiça (Coronel Mário Pantoja e o Major José Maria Oliveira)
respondem ao crime em liberdade. Isso exemplifica, de forma bastante pontual, a
distinção feita por Habermas (1999 [1973], 1996) entre as noções de legitimidade e
ilegalidade. A primeira é uma construção discursiva e social; a segunda, uma ação
atrelada ao domínio jurídico e fundamentada pelo Direito Positivista. Essa reação social é
‘acatada’ pela mídia, conforme discutimos anteriormente. Entretanto, uma análise
detalhada das distintas estratégias de inserir esse discurso no jornal nos leva a uma
consideração: a deslegitimação social do massacre foi assumida pela FSP como uma
espécie de ‘concessão’. Várias estratégias de ordem discursivo-cognitiva e lingüística
foram utilizadas para a construção do efeito de sentido no qual o jornal ‘reverbera’ as
reivindicações da sociedade, em uma simulação de abertura para as reivindicações
227
sociais. Esses aspectos estão discutidos ao longo das análises, mais especificamente no
Frame II: A Mobilização da Sociedade.
Algumas outras questões merecem ser retomadas neste capítulo. Primeiro, pela
sua importância na constituição do fenômeno; segundo por se tratar de um dos objetivos
desta investigação: a (des)legitimação de Eldorado de Carajás e a do MST estão
atreladas? A conclusão que chegamos é que esses dois processos se deram em paralelo e
são de naturezas distintas. Ou seja: as mortes dos sem-terra foram deslegitimadas, mas o
MST não foi legitimado como movimento social, ao menos na cobertura da FSP. E isso
se deu a partir de uma cobertura estereotipada sobre as demais ações dos sem-terra, o que
categorizamos como a criminalização e a partidarização do movimento. Entendemos
esse processo como uma macro-estratégia do jornal para estabelecer uma linha divisória
entre o massacre e o MST: o primeiro ‘pode’ ser criticado, pois é tratado a partir da
perspectiva humanitária; o segundo é um movimento social que ‘ameaça’ as elites e suas
ações não podem ser tomadas como legítimas, tampouco as suas reivindicações.
Dessa forma, ocorre um processo de ‘desideologização’ na cobertura do massacre
de Eldorado de Carajás, já que ele é tratado como um caso isolado, como uma exceção, e
não sob uma perspectiva política. E isso se dá, fundamentalmente, por dois aspectos: i)
não há questionamentos, por parte do jornal, da falta de um projeto político para a
reforma agrária no Brasil, ou mesmo sobre os freqüentes assassinatos de trabalhadores
rurais nos campos brasileiros
17
. Esta seria uma discussão política sobre o MST e suas
ações; ii) conforme discutimos em nossas análises, o massacre foi tratado fora de
domínios institucionais, personalizando os culpados. E isso foi feito tanto pelo jornal
quanto pela Justiça, que não atrelou ao processo os representantes das principais
instâncias políticas naquele momento histórico: o então governador do Pará, Almir
Gabriel (PSDB) e o Secretário de Segurança, por exemplo. Assim, esses discursos e as
outras práticas sociais não constituem uma mudança profunda de conceitos ou
reframing sobre a questão agrária no Brasil e não legitimam a luta dos sem-terra.
Portanto, apesar de a sociedade deslegitimar as mortes dos sem-terra, essa atitude não é
ideológica, mas apenas uma visão pontual. A questão principal que moveu o protesto dos
sem-terra, naquele 17 de abril de 1996, foi a luta pela reforma agrária e foi por isso que
17
Para esses dados, ver os relatórios anuais da Comissão da Pastoral da Terra (CPT)
228
os trabalhadores rurais morreram. Entretanto, essa questão é tratada subliminarmente e
não constitui o discurso do jornal.
Assim, chegamos à questão do controle discursivo-cognitivo. As mobilizações
contra o massacre tiveram ampla cobertura, a discussão se deu em vários âmbitos da
sociedade e o envolvimento social foi (e continua) amplo. Dessa forma, a
possibilidade de construir conceitos, de categorizar o ‘evento’ como ‘massacre’ e
deslegitimá-lo. Entretanto, a cobertura do jornal se desenvolveu por caminhos que o
‘massacre’ passou a ser tratado como um evento’, pois, conforme analisamos,
dificilmente havia a relação com os sujeitos responsáveis pelo ato das mortes. E isso
chega à categoria que gostaríamos de discutir aqui: o acesso discursivo.
Em todos os frames de cobertura, os textos jornalísticos foram construídos a partir
da exclusão do discurso dos sem-terra. Mesmo no Frame II, que tem uma característica
mais polifônica e democrática, o discurso dos sem-terra não constitui os textos. O acesso
discursivo é dado a organizações diversas, que não estão atreladas às instituições do
poder. Por isso dizemos que se trata de uma ‘aparente democratização’. O efeito de
sentido é que o jornal é democrático e está ampliando a discussão para toda a sociedade.
Entretanto, os atores sociais protagonistas da história não têm o direito de contar a sua
própria história. Por isso, enfatizamos nossas considerações e conclusões sobre o aspecto
da desigualdade do trato discursivo, ou seja, o acesso. Ele nos possibilita investigar não
apenas as vozes que circulam em um texto, mas o seu efeito cognitivo. Assim,
identificamos um quadro discursivo, ao longo dessa cobertura, que desfavorece e
enfraquece o MST.
Nestas considerações gerais sobre as análises, outro aspecto importante a ser
ressaltado é a forte estereotipização dos sem-terra e como isso opera na deslegitimação
do movimento. As ações discursivas do jornal foram incisivas e se desenvolveram,
basicamente, por dois enfoques de cobertura: um que categorizamos como
criminalização, no Frame IV; e outro a partir da partidarização, no Frame V. Um é de
natureza mais agressiva e as estratégias retóricas se dão de forma explícita, ou ainda na
‘superfície textual’. A outra se a partir de um processo sutil e implícito, envolvendo
complexas questões sócio-políticas e históricas do país. Enquanto no Frame IV a linha
argumentativa é definida e se constitui, basicamente, a partir da topicalização,
229
enfatizando as ações negativas do MST; no Frame V se ‘sugere’ uma subserviência do
MST ao Partido dos Trabalhadores (PT), então oposição ao Governo Federal. Perceber
esse processo requer um conhecimento da história política brasileira, das relações de
força entre os partidos, e do preconceito histórico com partidos de ‘esquerda’. Por isso,
provavelmente, a leitura de matérias dessa natureza constroem conceitualizações
profundas no processo de deslegitimação do MST e devem se desenvolver em níveis
mais complexos da memória dos leitores, que não apenas a memória de curto prazo. Daí
a sua mudança (ou o seu reframing) ser mais difícil. No caso da categorização construída
a partir de leitura de textos do Frame IV, provavelmente sua subversão seja mais possível
e possa ser modificada a partir de práticas discursivas e de mobilizações de órgãos
representativos da sociedade.
Um exemplo dessa possível mudança na categorização do Frame IV é a que
identificamos, de certo modo, no Frame II. Mesmo que o controle ao discurso dos sem-
terra tenha sido mantido, a repercussão negativa sobre as altas esferas do poder brasileiro
(também no exterior) desestabilizou, de certo modo, o Governo Federal e o próprio
discurso da FSP. No Frame II, há uma espécie de ‘crise de legitimação’ de poderes, o que
também constitui mudanças no continuum protótipo/estereótipo dos atores/grupos sociais
envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás, pois a mobilização da sociedade
demandou uma postura discursiva diferenciada do jornal.
Esses aspectos foram discutidos no capítulo anterior. O objetivo em retomá-los
é reforçar a nossa idéia de que, enquanto os conceitos construídos a partir da cobertura
estereotipada do Frame IV estão mais susceptíveis a mudanças, outros processos de
construção discursivo-cognitiva são mais complexos e exigem um esforço social maior
para a sua mudança. Entretanto, os dois casos são processos de categorização e, conforme
defendemos, eles são de natureza intrinsecamente instável, flexível e situacional. Assim,
ambos estão sujeitos a mudanças. Entretanto, mesmo que pareça redundante, é preciso
reafirmar a falta de acesso dos sem-terra ao discurso do jornal e as fortes conseqüências
desse processo. Trata-se de uma postura antidemocrática, que tem como efeito principal
a construção de modelos cognitivos ‘predominantes’, elaborados a partir do discurso das
elites. Quando dizemos que os modelos cognitivos são ‘predominantes’ estamos também
insistindo no ponto de que não se trata de elementos rígidos e estanques.
230
No que diz respeito às categorias de ordem semântica, situamos os processos de
construções de ‘redes lexicais’ e de ‘nominalização’ como inerentes às produções
discursivas, o que nos leva a inferir que esses aspectos, tomados como unidades de ações
legitimadoras, estão na gênese da ão discursiva. Ou seja, não há produção de discursos
sem a ação de nomear. Outras categorias semânticas tais como ‘atributos e valores’ e
‘verbos introdutores de opinião’ foram mais proeminentes em alguns frames que em
outros. Entendemos esse processo a partir da própria natureza desses elementos. Eles
estão atrelados a processos mais ‘deliberados’ de categorização, como acontece no Frame
IV. Diferentemente do que observamos na análise do Frame I (A Circulação das
Versões), por exemplo, no qual o ‘cuidado’ com o efeito discursivo da imparcialidade é
mais predominante que nos demais. Nesse frame, o jornal, mesmo já assumindo o
discurso do poder, ainda está elaborando o seu próprio discurso sobre o massacre. Assim,
a polarização Nós x Eles também não é tão fortemente marcada no Frame I.
Por fim, reafirmamos a importância de estudar o fenômeno da (des)legitimação
nos estudos discursivos. A análise aprofundada desse fenômeno nos permite perceber
como se constituem estereótipos e preconceitos sobre atores/grupos sociais e quais as
estratégias que operam na construção dessa exclusão social a partir dos discursos. Assim,
se uma ‘conscientização’ relativa que existe a discriminação, é preciso discuti-la nos
vários domínios que atuam na sua constituição, mostrar como isso ocorre, como operam
em sociedade e quais as instituições que a sustenta. Nesta investigação, tratamos do
domínio jornalístico especificamente. Entretanto, o domínio acadêmico precisa
transformar a sua prática, cada vez mais, em ações socialmente engajadas,
comprometidas com a igualdade e solidárias aos grupos excluídos. assim a produção
científica não corre o risco de ser mais um discurso reverberando a desigualdade social.
231
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239
ANEXO I
Corpus Restrito (Folha de S. Paulo)
Exemplo 1:
MST quer manter 'guerra permanente', diz governo (FSP, 30/12/1996)
Relatório interno do governo diz que o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) definiu que vai '' manter uma verdadeira guerra permanente'' contra o Executivo.
Assessores do presidente Fernando Henrique Cardoso consideram o MST o principal
foco de ''tensão social'' do atual governo.
Chegam a avaliar que os líderes do movimento podem perder o controle sobre a
organização, com consequências imprevisíveis.
Essa avaliação fez com que o Palácio do Planalto determinasse um acompanhamento
sistemático das ações do grupo, principalmente depois do incidente de Eldorado do
Carajás (PA).
Na época _abril de 96_, 19 sem-terra morreram durante conflito com a Polícia Militar. O
governo avaliou que foi pego de surpresa por esse e outros episódios envolvendo sem-
terra.
Atualmente, relatórios quase diários são produzidos sobre o MST. A Folha teve acesso a
alguns desses documentos. Todos trazem a identificação de relatório confidencial. Suas
folhas são carimbadas com códigos para tentar evitar vazamento de informações.
Um deles, do final deste ano, traz o seguinte título: ''Avaliação da conjuntura agrária faz
MST reorientar linhas de ação''. O documento tem sete páginas e, em sua abertura, traz
uma síntese das informações nele contidas.
O texto informa que, após ''avaliação da conjuntura agrária, a Secretaria Nacional do
MST enviou circular às suas direções estaduais para comunicar a adoção de novas linhas
de ação, a manutenção de uma verdadeira guerra permanente contra o governo e a
decisão de trabalhar melhor as alianças com trabalhadores urbanos''.
Guerra popular
No tópico ''linhas políticas gerais'', o relatório menciona que os líderes do MST avaliam
que a guerra permanente contra o governo será uma ''verdadeira guerra popular
prolongada''.
No mesmo item, o documento traz a seguinte informação, atribuída aos líderes dos sem-
terra: ''Embora estejamos numa verdadeira guerra, devemos cuidar para não expormos
nossos contingentes. Evitar confrontos desnecessários e buscar acúmulo orgânico''.
O tópico ''definições práticas/encaminhamentos'' relata que o MST vai organizar no
próximo ano uma marcha sobre Brasília, saindo de cinco regiões do país. A marcha deve
ter ''em torno de mil quilômetros'', com chegada prevista na capital no dia 17 de abril.
O texto produzido pelo governo relata ainda que o MST considera que os latifundiários
tiveram uma derrota política com a nova proposta de rito sumário _que reduz o prazo
240
para o Incra tomar posse de terra desapropriada.
A proposta é classificada como um avanço, ''embora na prática tenha pouca eficácia''.
Reeleição
Até a emenda da reeleição está presente no documento. Ela aparece no item ''as táticas do
governo'' para a reforma agrária.
Segundo o relatório confidencial, os sem-terra analisam que a estratégia oficial é ''ganhar
tempo'' para elaborar uma ''proposta mais consistente, pensando num período maior que
compreenderia a reeleição de FHC''.
Para ganhar tempo, a tática do governo seria confundir a opinião pública. ''A cada
semana, (o governo) anuncia uma nova medida de pouca eficácia''.
O documento relata algumas dessas medidas, como a compra de terras dos bancos
Econômico e Nacional, a mudança do ITR e o empréstimo de US$ 150 milhões do Banco
Mundial.
Guerrilheiros
Outro relatório ao qual a Folha teve acesso fala de um contato entre líderes do MST e
guerrilheiros da Colômbia.
O movimento teria tentado obter informações sobre a situação dos engenheiros da
empreiteira Andrade Gutierrez sequestrados pela Farc (Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia).
O documento do governo ressalta que o contato não teve nenhum objetivo de troca de
táticas de atuação, mas destaca que é um sinal de que o MST pode estar se aproximando
de movimentos de guerrilha da América Latina.
Exemplo 2:
Confronto mata pelo menos 19 no Pará (FSP, 18/04/1996)
Um confronto entre a Polícia Militar e sem-terra, por volta das 17h de ontem, no
município de Eldorado de Carajás (oeste do Pará), deixou pelo menos 19 mortos e vários
feridos, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Pará.
Segundo informações do Hospital Elcione Barbalho, da cidade vizinha de Curionópolis,
haviam chegado 18 corpos de trabalhadores sem terra até as 21h45.
A direção estadual do MST (Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem Terra) diz que
o número de mortos é de cerca de 60.
"Os corpos têm várias perfurações de bala, inclusive na cabeça. É provável que o número
de cadáveres aumente'', disse o médico Faisal Saemem, do hospital.
O secretário de Segurança Pública do Pará, Paulo Sette Câmara, afirmou que, pelas
informações que obteve da delegacia de Curionópolis, "o quadro é assustador''.
Até disse que até as 22h15 não havia conseguido falar com o comandante da operação no
local para saber mais detalhes sobre o confronto e para saber se houve excesso da polícia.
Vítimas fatais
"Ainda não temos uma avaliação precisa, mas um companheiro que esteve no local
afirmou que as vítimas fatais foram muitas'', afirmou Charles Trocati, da direção estadual
241
do MST no Pará.
Câmara afirmou que os primeiros socorros foram prestados em Eldorado de Carajás. Os
policiais e sem-terra feridos estavam sendo transferidos para Marabá _distante 80
quilômetros de onde ocorreu o conflito.
O confronto ocorreu no instante em que cerca de 200 policiais militares tentavam
desimpedir a rodovia PA-150. A estrada tinha sido interditada por cerca de 3.500 sem-
terra no início da tarde de ontem, segundo o MST.
Segundo o secretário de Segurança, os policiais foram recebidos a tiros, pauladas e
pedradas pelos sem-terra. O MST afirma que os policiais começaram o tiroteio e que os
sem-terra usavam apenas enxadas e foices.
Câmara afirmou que os policiais foram obrigados a reagir para se defender. "É
lamentável que os sem-terra tenham tomado essa atitude de confronto após tanta
negociação para resolver o problema de terra no Estado'', afirmou.
Caminhada
Os sem-terra estavam em caminhada para Marabá. Eles saíram há dois dias do município
de Curionópolis, onde reivindicam a desapropriação da fazenda Macaxeira.
Hoje, eles teriam em Marabá encontro com o superintendente estadual do Incra, Valter
Cardoso, que daria uma posição sobre o processo de desapropriação da fazenda
Macaxeira.
A interdição da estrada começou anteontem. Os sem-terra pararam no km 100, a oito
quilômetros de Eldorado do Carajás. Após negociação com a PM, eles acamparam no
acostamento.
No início da tarde de ontem, voltaram a ocupar a rodovia e reivindicar 50 ônibus para
transportá-los até Marabá. Pediam, segundo a polícia, dez toneladas de alimentos.
Câmara afirmou que o governo não podia tolerar o bloqueio da PA-150, que é a principal
ligação do sul do Estado com Belém.
Câmara afirmou que o processo de desapropriação da fazenda Macaxeira já dura um ano
e quatro meses e que está em fase final de aprovação no Incra, em Brasília, para
desapropriação da área.
Exemplo 3:
Ministro culpa trabalhadores (FSP, 19/04/1996)
O ministro da Agricultura, José Eduardo de Andrade Vieira, culpou ontem os sem-terra
pelo confronto no Pará. Ele se disse ''surpreso'' com o incidente.
''Os sem-terra estavam na estrada, cercando o trânsito. De modo que a polícia do governo
do Estado agiu para liberar a estrada'', afirmou à saída de um encontro com o ex-
presidente Itamar Franco.
Andrade Vieira disse que o confronto no Pará não é um conflito por terra. ''Não tem nada
que ver. Eles (os sem-terra) estavam acampados na estrada.''
Vieira disse que determinou ao presidente do Incra, Raul do Valle, que viajasse para o
Pará e, se fosse necessário, até o local do conflito. Mas afirmou que não se envolverá na
investigação das mortes.
''A questão de natureza policial é afeta ao Ministério da Justiça e não ao Ministério da
Agricultura.''
Andrade Vieira afirmou que as pessoas que estavam na estrada eram um ''aglomerado que
242
surgiu recentemente''. Segundo ele, ''nem era um acampamento''.
O ministro disse que o Incra já deu solução para uma situação antiga que existia na
região.
''Cada vez que o Incra resolve o problema de um acampamento, surge outro'',
acrescentou.
Segundo ele, existe um acordo do Incra com o MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) do local do conflito, que estaria sendo cumprido ''na íntegra'' pelo
governo.
Exemplo 4:
MST quer a demissão de Jobim (FSP, 22/04/1996)
O presidente do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra), João Pedro
Stedile, vai pedir hoje, em audiência com o presidente Fernando Henrique Cardoso, em
Brasília, intervenção federal no Pará e a demissão do ministro Nélson Jobim (Justiça).
Para o MST, Jobim é ''co-responsável'' pelo confronto entre sem-terra e a polícia do Pará,
ocorrido na quarta-feira passada, quando 19 sem-terra morreram.
Na opinião dos sem-terra, o ministro Jobim também é responsável porque, após o
massacre de Corumbiara (RO), não encaminhou, conforme era de sua responsabilidade,
diversos projetos de lei contra a violência no campo e os responsáveis estão impunes até
hoje.
Conclusões
De volta, ontem, de uma visita de dois dias à região de Eldorado de Carajás, Stedile disse
que o MST chegou a três conclusões:
1) O massacre foi planejado; 2) o governador Almir Gabriel é responsável direto, porque
autorizou por telefone o coronel da PM, Mário Pantoja, a atacar os sem-terra, e 3) há
necessidade imediata de que todos os oficiais e soldados sejam presos para garantir que o
inquérito prossiga dentro da lei.
Denúncias
O advogado do MST, Luiz Eduardo Greenhalgh, disse que, do ponto de vista jurídico, o
movimento adotará três providências internacionais.
Vai fazer denúncias do massacre junto ao alto comissariado das Nações Unidas e na
Comissão das Nações Unidas que trata das execuções sumárias e na comissão de direitos
humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos).
Greenhalgh disse que o MST vai iniciar um trabalho jurídico no país com a entrada nos
tribunais de uma ação de responsabilidade civil contra o governo do Pará.
Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, presidente da CUT, disse que o massacre mostra
que a reforma agrária é a prioridade absoluta.
Exemplo 5:
Igreja registra 33 mortes no campo (FSP, 18/07/1996)
243
A violência no campo fez 33 vítimas neste primeiro semestre. A maioria das mortes (28)
ocorreu no Pará. Três foram registradas em Mato Grosso. Goiás e Maranhão tiveram uma
morte cada.
Os dados divulgados, em Brasília, fazem parte de relatório da CPT (Comissão Pastoral da
Terra), órgão da Igreja Católica.
Das 29 mortes ocorridas no Pará, 19 foram cometidas por policiais militares no massacre
de Eldorado do Carajás, em 17 de abril.
Segundo a CPT, desde a posse do presidente Fernando Henrique Cardoso, há 18 meses,
já houve 74 mortes de sem-terra.
A violência contra trabalhadores rurais "está se tornando marca do governo de Fernando
Henrique Cardoso'', diz o relatório.
O ministro Raul Jungman (Política Fundiária) disse que não podia fazer nenhum
comentário sobre o assunto porque não havia recebido o relatório.
Ontem, o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) também divulgou
nota para, mais uma vez, questionar os números divulgados pelo governo federal sobre
assentamentos.
O governo pretendia, segundo o MST, assentar 60 mil famílias em 96. Relatório do Incra
afirma que apenas 18.037 famílias foram assentadas, o que caracteriza, para o MST, a
impossibilidade de se atingir a meta até o final do ano.
Para o ministro Jungman, as críticas não procedem. Segundo sua assessoria, até 15 de
julho foram assentadas 19,6 mil famílias. De acordo com Jungman, o ritmo só foi
acelerado após abril porque a reforma agrária, como todos os projetos do governo,
dependia da aprovação do Orçamento.
Exemplo 6:
Sem-terra saqueiam caminhão no RN (FSP, 22/08/1998)
Um grupo de cerca de cem pessoas organizadas pelo MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) saqueou anteontem um caminhão no km 40 da rodovia
BR-405, no município de Apodi (RN), levando cerca de cinco toneladas de alimentos.
O saque ocorreu por volta das 9h. Os sem-terra montaram uma barreira na estrada e
obrigaram o motorista Edmildo Dias Dutra a entregar o carregamento de linguiça e
mortadela. A carga era da empresa São Mateus, de Recife.
Foi o terceiro saque organizado pelo MST desde o início do ano na região de Mossoró e
Apodi.
No mês de maio, ocorreram saques nos municípios de João Câmara e Bento Fernandes. A
região é uma das mais atingidas pela seca no Rio Grande do Norte.
Os saqueadores fazem parte de um grupo de 105 famílias que está acampado há dois
meses na fazenda Mororó, pertencente à família Rosado, de Mossoró.
Desapropriação
A fazenda tem uma área de cerca de 3.000 hectares e está em processo de desapropriação
pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
244
Dulcinéia Gomes, da coordenação estadual do MST, disse que os sem-terra da fazenda
Mororó não recebem cestas básicas e não estão alistados no programa de frentes
produtivas do governo federal. "Estamos passando fome", diz.
Gomes afirmou que os sem-terra estavam na beira da estrada desde a quarta-feira passada
pedindo donativos a quem passava.
Anteontem, decidiram fazer o saque. Ficaram desde as 5h esperando passar algum
caminhão com carga de alimentos. Às 9h, atacaram o caminhão da empresa São Mateus.
Ninguém foi preso.
Os sem-terra reivindicam aceleração do processo de desapropriação da fazenda,
distribuição de cestas básicas e abertura de 60 vagas nas frentes de serviço.
Gomes disse que os sem-terra voltarão à estrada caso o governo não atenda às suas
reivindicações. Ontem, a prefeitura de Apodi doou 80 cestas básicas a eles.
Atropelamento
O trabalhador rural Miguel de Souza, 42, coordenador do assentamento 17 de abril, em
Eldorado de Carajás (PA), foi atropelado e morreu anteontem durante uma marcha do
MST. A marcha reuniu cerca de 800 trabalhadores.
Segundo Gilmer de Oliveira, da direção estadual do MST no Pará, o trabalhador foi
atropelado por um carro por volta das 22h, quando a marcha estava na rodovia PA-275,
próxima a Curionópolis.
Um carro em alta velocidade teria investido contra o trabalhador, que foi atingido pelas
costas.
O motorista fugiu em seguida. Testemunhas disseram que tratava-se de uma camionete
Saveiro. Um carro da Polícia Militar teria tentado seguir o carro.
Miguel de Souza morreu no local. A Agência Folha não conseguiu no final da tarde de
ontem contatar a polícia de Curionópolis para saber se o suspeito havia sido identificado
ou detido.
Miguel de Souza saiu anteontem de Parauapebas, por volta das 17h30, em um grupo de
cerca de 800 trabalhadores rurais que formam uma coluna.
A coluna vai marchar até Belém. Os integrantes vão participar do "Grito dos Excluídos",
que ocorre no dia 7 de setembro próximo.
O corpo do trabalhador estava sendo velado ontem no assentamento 17 de abril, antiga
fazenda Macaxeira, em Eldorado do Carajás. No local ocorreu o massacre de 19 sem-
terra em 1996.
Uma segunda coluna de trabalhadores rurais ligados ao MST, que saiu de São João do
Araguaia, deve chegar a Belém no dia 30.
Exemplo 7:
Cronologia da invasão (FSP, 19/04/1996)
Cronologia da invasão
- maio.94 _ Um grupo de trabalhadores ligados ao MST invade a fazenda Rio Branco, em
Parauapebas. Eles querem a desapropriação da Rio Branco e da Macaxeira, fazenda
vizinha
- outubro.95 _ Depois de um ano e meio, o Incra compra a fazenda Rio Branco e começa
a assentar 850 famílias. No mesmo mês, as lideranças do MST no Pará começam a
245
cadastrar trabalhadores para participar do movimento e das invasões.
- 8.nov.95 _ Cerca de 3.500 sem-terra invadem o Centro Agropastoril da Prefeitura de
Curionópolis
- 29.dez.95 _ Cerca de mil trabalhadores ocupam a pista da PA-275. Depois de oito horas
de interdição, eles liberam a estrada
- 1.mar.96 _ Aproximadamente 500 integrantes do MST ameaçam invadir o complexo
Macaxeira. A Polícia Militar informa que a situação está cada vez mais tensa
- 3.mar.96 _ O governo do Pará define um prazo até junho para resolver o problema da
Macaxeira
- 5.mar.96 _ Às 5h, os sem-terra iniciam a invasão da Macaxeira. Muitos se instalam no
km 18 da rodovia PA-275
- 6.mar.96 _ É firmada uma trégua de 30 dias entre o governo do Estado e os invasores. O
governo se compromete a negociar junto ao Incra o assentamento dos sem-terra
- 11.mar.96 _ O governo envia ao acampamento dos sem-terra na Macaxeira 12 toneladas
de alimentos e 70 caixas de remédios
- 15.mar.96 _ A Human Rights Watch, uma das mais importantes organizações não-
governamentais de defesa dos direitos humanos, solicita ao governo do Pará providências
para evitar o conflito armado na Macaxeira
- 28.mar.96 _ Mais de 40 fazendeiros de Marabá e região vão a Belém para pedir ao
governo providências contra as invasões
- 8.abr.96 _ Começa caminhada dos sem-terra de Curionópolis rumo a Belém.
- 11.abr.96 _ Cerca de 1.200 sem-terra interditam a PA-275 ainda em Curionópolis e
saqueiam um caminhão com 16 toneladas de alimentos
- 15.abr.96 _ Marcha dos sem-terra completa 40 km e chega a Eldorado de Carajás
- 16.abr.96 _ Os sem-terra caminham rumo a Marabá e interditam a PA-150 (principal
rodovia de ligação do sul do Estado a Belém). São enviados cerca de 200 PMs para o
local
- 17.abr.96 _ Governo do Estado ordena que a PM retire os sem-terra da estrada. Os dois
grupos entram em confronto. Pelo menos 23 pessoas morrem no tiroteio
Exemplo 8:
Sem Terra, com TV (FSP, 19/04/1997)
Nos dois momentos em que o presidente Fernando Henrique Cardoso se referiu ontem
publicamente ao MST, não conseguiu entender-se com ele próprio. Ficou entre o
conciliador e o acusador, entre menosprezar e valorizar a força do movimento.
Do encontro fechado com a liderança do grupo, não havia informações até o momento de
escrever.
Enquanto o presidente não se decide, o que espanta é a mudança no tratamento
dispensado ao MST pelos telejornais. Até faz pouco, o grupo era tratado como um bando
de radicais.
Agora, viraram queridinhos da pátria. ''Efeito Rei do Gado'', palpita Gustavo Franco, o
diretor da Área Externa do Banco Central, aludindo à novela da Rede Globo que
introduziu os sem-terra no horário nobre.
246
Do ponto de vista dos desdobramentos políticos, é importante saber quanto tempo dura
tal efeito, se é que ele de fato existe. O MST parece disposto a manter por mais algum
tempo o acampamento armado na Esplanada dos Ministérios.
Será politicamente relevante enquanto permanecer sob o foco das câmeras de TV.
Quando voltarem para os ''eldorados do carajás'' espalhados pelo país, no entanto, só
retornarão às telas se houver alguma outra matança coletiva.
Afinal, foram 57 os mortos de 1996, mas só os 19 de Eldorado do Carajás subiram ao
horário nobre.
E a marcha durou dois meses, mas apenas a sua aproximação do coração do poder
mereceu o destaque (e a simpatia) que agora se vêem.
Nada impede que, em pouco tempo, os sem-terra sejam devolvidos ao anonimato. Ou por
motivos extrajornalísticos ou, pura e simplesmente, pela velocidade com que, hoje, um
fato novo atropela o imediatamente anterior.
Parte do impacto político do movimento se diluirá, então, ao se apagarem os holofotes da
TV sobre ele. A menos que o MST tenha uma estratégia para mantê-los acesos sem que
seja preciso iluminar também o sangue.
Exemplo 9:
Médico diz que há indícios de assassinato; PM nega (FSP, 19/04/1996)
Os corpos dos 19 sem-terras mortos anteontem em conflito com a Polícia Militar em
Eldorado de Carajás, no Pará, apresentam indícios de assassinato.
A afirmação foi feita à Folha pelo cirurgião Orlando de Medeiros, um dos primeiros
médicos do hospital municipal de Curionópolis (Pará) a ver os corpos entregues pela PM
envoltos em lona.
''Vários deles tinham tiros pelas costas e um teve a frente da testa sacada por um tiro
disparado à altura da nuca'', disse o médico.
O médico Vinicius Tassis disse que os 19 corpos tinham uma média de três a quatro tiros.
O comandante da PM que participou da operação, major José Maria Oliveira, 41, negou o
assassinato e afirmou que ''houve fogo cruzado e correria''. Segundo ele, ''os sem-terra
receberam balas de seus próprios companheiros''.
A PM afirma que apreendeu 63 armas, algumas de fabricação caseira, após o confronto.
Uma menina, de idade não revelada, foi encontrada ontem morta em um riacho próximo
ao local do confronto. A PM diz que a menina morreu afogada e que o caso não teria
conexão com a batalha.
Os sem-terra, porém, afirmam que ela estava no local do confronto e se afogou durante a
fuga.
Mortos
O número oficial das vítimas entre os sem-terra é de 19 mortos e 45 feridos (41 sem-terra
e 4 policiais). Onze feridos foram transportados para Belém para retirada de balas, três
deles em estado grave. Entre eles, Rubenita Silva, que levou três balas no corpo.
Um dos policiais feridos seria um sargento que está em estado grave, segundo o major
Oliveira.
Na terça-feira, os sem-terra interditaram a rodovia PA-150, que liga Eldorado de Carajás
a Belém. Segundo o MST, havia 2.500 pessoas. A PM aponta 800 sem-terra.
247
Eles queriam uma negociação direta com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária) para desapropriação da Fazenda Macaxeira, que fica a 12 km de
Eldorado de Carajás, onde parte do grupo estava acampada.
Na negociação, os sem-terra aceitaram retirar a barreira, dando prazo até 11h de
anteontem.
Eles exigiam dez toneladas de alimentos, 50 ônibus para levá-los até Marabá e outros
cinco ônibus que seguiriam até Belém, onde tentariam falar com representantes do Incra e
do governo estadual.
Às 12h, o grupo voltou a interditar a rodovia, depois de receber recado de que as
exigências não seriam cumpridas. Por volta das 16h, um grupo de cerca de 160 policiais
militares chegou ao local.
Pela primeira apuração da Polícia Federal, a PM foi enviada ao local sem qualquer plano
prévio.
Direitos humanos
Dois membros do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Humberto
Espínola e Percílio Neto, encontraram os corpos dos mortos jogados em três salas no
porão do prédio do Instituto Médico Legal de Marabá.
O massacre mudou a agenda de Alison Sutton, da Anistia Internacional, que chegou ao
Brasil ontem. Alison cancelou todos os seus compromissos e embarcou à noite para
Marabá.
Exemplo 10:
Polícia iniciou tiroteio, dizem os feridos (FSP, 19/04/1996)
Os trabalhadores sem-terra feridos no conflito Polícia Militar negam a versão oficial de
que teriam feito o primeiro disparo, e acusam os policiais de terem feito tiros de
metralhadora e revólver à queima-roupa.
A Agência Folha ouviu quatro dos dez feridos que foram levados ontem à Unidade Mista
de Saúde de Marabá.
José Carlos Moreira Santos, 17, um dos feridos mais graves, perdeu a visão do olho
direito por um dos disparos.
"Eu estava brincando com meus amigos, de repente, eles (os policiais) chegaram
atirando. Quando caí, um amigo tentou me ajudar e os PMs nos humilharam", relatou o
sem-terra ferido.
Segundo Moreira Santos, os policiais "pediram que deitássemos no chão para não vê-los.
Depois, deram três minutos para a gente sair de lá correndo. Minha mãe e eu corremos
mais de dois quilômetros pela beira da estrada".
Jurandir Gomes dos Santos, 30, o primeiro a ter sido baleado, mostrou a radiografia que
mostrava os 11 tiros em suas pernas, "feitos numa rajada só", segundo suas declarações.
Raimundo José da Conceição, 20, que teve a perna direita fraturada por tiros, disse que
"depois do massacre, os policiais atiravam para cima e pediam para que aparecêssemos.
Estávamos escondidos no mato".
Sete dos dez feridos da Unidade Mista de Saúde de Marabá aguardavam transferência
para hospitais de Belém.
248
Outros seis sem-terra feridos foram levados para o Hospital Celina Gonçalves, que tinha
também dois policiais internados.
Exemplo 11:
Ministério diz que sem-terra atacaram (FSP, 26/04/1996)
Os sem-terra teriam comprado armas com dinheiro dado pelo Incra para comprar comida.
A informação está em um relatório do Ministério da Justiça sobre o massacre do dia 17.
O relatório diz também que os sem-terra foram os responsáveis pela agressão inicial aos
PMs que, na linha de frente do confronto, não estariam armados.
O autor do texto é o coordenador-geral do CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da
Pessoa Humana), Humberto Espínola.
''Não estou acusando ninguém, apenas relatando o que ouvi'', afirmou Espínola à Folha,
que passou quatro dias no local do conflito.
Disse ter ouvido do executor do Incra em Marabá (PA), José Líbio de Matos, e de outras
duas pessoas _não revelou nomes_ que pagamentos de créditos de alimentação e fomento
aos sem-terra foram desviados para a compra de armas.
A Folha apurou que a Polícia Federal também detectou, há dois meses, a compra das
armas.
O Incra distribuiu em fevereiro e março uma ajuda de R$ 800 para cada família da região.
Com 16 páginas, o relatório considera as reivindicações dos sem-terra legítimas, mas faz
críticas à ação do grupo. Sobre a PM, condena a violência e os assassinatos citados por
testemunhas.
Segundo o relatório, o coronel Mário Pantoja, comandante da operação, ''tem bom
conceito na região''. O documento diz ainda que na linha de frente do contingente de
Marabá havia apenas soldados com cassetetes e bombas de gás lacrimogênio.
Espínola cita, "em favor da PM'', "a reação agressiva inicial dos sem-terra partindo para
cima" da polícia. O relatório critica o MST por ter ''indivíduos com atividades diversas da
agrícola", como professores de dança, de de canto e funcionários públicos.
O coordenador-geral afirmou que considera mais grave o fato de os sem-terra estarem
armados _foram apreendidas 37 armas_ e de terem colocado mulheres e crianças na
barreira na estrada.
Francisco Dalchazon, da coordenação nacional do MST, disse que "o Ministério da
Justiça não tem resposta para o que houve e que está partindo para a estratégia de que o
ataque é a melhor defesa''.
Segundo ele, os sem-terra de Eldorado do Carajás não foram assentados ainda e por isso
não receberam dinheiro do Incra. ''Todos têm o direito de mudar de profissão'', disse
sobre o fato de nem todos serem lavradores. Para a posse de armas, alegou defesa
pessoal.
249
Exemplo 12:
MST contesta o relatório do governo (FSP, 29/04/1996)
Líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) questionaram ontem
em Belém o relatório do CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana),
do Ministério da Justiça.
Eles negaram a versão do relatório, que diz que os sem-terra atacaram primeiro no
confronto com os PMs em Eldorado do Carajás.
Jorge Neri, 30, e Gustavo Filho, 26, afirmaram que a PM chegou jogando bombas de
efeito moral e abriu fogo contra os sem-terra, que bloqueavam a rodovia PA-150.
Nery e Filho também disseram que há mais trabalhadores desaparecidos, além dos cinco
já apontados pelo MST. Segundo eles, nesta semana o MST divulgará os nomes dos
desaparecidos.
"Também há crianças mortas, cujos corpos a polícia escondeu. Os pais não apareceram
para reclamar seus filhos porque foram mortos também'', disse Filho.
Neri afirmou que o fato de um grande número de trabalhadores ter se juntado ao
movimento nos dias anteriores ao massacre está dificultando o levantamento dos nomes
de desaparecidos. O MST disse que suas lideranças na área estão sendo ameaçadas.
Exemplo 13:
Ato lembra morte de 19 sem-terra (FSP, 17/04/1999)
O MST começou ontem uma série de mobilizações em 23 Estados para lembrar os três
anos do massacre de 19 sem-terra, em Eldorado do Carajás (PA), ocorrido em 17 de abril
de 1996.
Em pelo menos dez Estados, marchas de sem-terra chegaram ontem pela manhã às
capitais. Cerca de 15 mil trabalhadores participaram das marchas em todo o país, segundo
estimativa do MST.
Em Porto Alegre (RS), no final da tarde de ontem, cerca de 500 integrantes do
movimento começaram uma "vigília" na frente do prédio do Incra, prevendo um jejum
que duraria todo o dia de hoje.
Em Eldorado do Carajás, um monumento utilizando 19 castanheiras mortas será
inaugurado hoje para relembrar o conflito,
Exemplo 14:
Comissão estrangeira vê descaso do governo (FSP, 21/07/1996)
Representantes de igrejas e do Parlamento europeus, em visita a Eldorado dos Carajás
(PA), declararam que há um descaso das autoridades brasileiras sobre os 19 sem-terra
mortos no confronto com a Polícia Militar em abril. Um relatório será enviado ao
presidente e ao governador do Pará.
250
Exemplo 15:
País só age sob pressão, afirmam ativistas (FSP, 20/05/2001)
Há uma espécie de consenso entre os ativistas de direitos humanos no país: o Brasil só
investiga denúncias de tortura se pressionado pela comunidade internacional. Semana
passada, a Comissão contra Tortura da ONU (Organização das Nações Unidas)
recomendou ao Brasil que puna "com severidade" os responsáveis por crimes de tortura.
Solicitou ainda ao governo que garanta assistência jurídica aos presos e que acabe com a
superlotação das cadeias. As solicitações das Nações Unidas -as mesmas feitas por
movimentos de direitos humanos brasileiros- têm prazo para serem cumpridas: um ano.
O presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização
dos Estados Americanos), Hélio Bicudo -que também é o vice-prefeito de São Paulo- diz
que o poder público só atua "sob pressão" na área do combate à tortura.
Ele cita como exemplo um fato, ocorrido em 2000, em Sorocaba, interior paulista. Um
grupo de presos denunciou ao Ministério Público que policiais responsáveis pela
segurança externa da cadeia usavam métodos de tortura.
Os promotores que fizeram a denúncia foram ameaçados de morte. O mesmo ocorreu
com os familiares dos presos. A situação só foi resolvida quando um advogado apelou
para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, sediada em Washington.
Pressionado, o governo transferiu os policiais e garantiu a segurança dos promotores.
Liliana Tojo, diretora do Cejil no Brasil, diz que, não fosse a pressão internacional,
processos como o do massacre de Eldorado do Carajás, no Pará, estariam engavetados.
O Cejil é uma instituição jurídica sem fins lucrativos que acompanha processos que
tramitam em cortes internacionais.
Por determinação da Comissão Interamericana, o governo informa o estágio de
tramitação do processo de Eldorado do Carajás uma vez a cada 45 dias.
O massacre ocorreu em abril de 96, quando a Polícia Militar do Pará matou 19
trabalhadores do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), durante uma
desocupação. O governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), foi testemunha de defesa
dos policiais, durante o primeiro julgamento, em 99, que absolveu os comandantes da
operação. Houve pressão e o júri foi anulado.
Oscar Vilhena, do Ilanud (órgão das Nações Unidas que estuda violência) admite que o
governo vive uma situação difícil nessa área pelo fato de a maioria dos crimes ocorrer e
ser julgada sob a jurisdição dos Estados.
O governo federal assina os acordos internacionais e responde pela sua eventual violação
apenas no exterior. Para Vilhena, desfavorece ainda o país a constante troca de ministro
da Justiça -só nessa gestão, foram três. É o titular da pasta, e sua equipe, que responde às
interpelações internacionais na fase de tramitação.
Em outubro de 1998, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos enviou ao
Ministério das Relações Exteriores um pedido oficial de informação para saber porque o
economista Marco Antônio Heredia Viveiros, condenado por dois Tribunais do Júri, em
Fortaleza, continuava livre.
Em 1983, Heredia teria tentado assassinar a ex-mulher, Maria da Penha Maia Fernandes.
Ela ficou paraplégica e ele vem recorrendo das condenações em liberdade.
A comissão aguardou durante 250 dias uma resposta do governo brasileiro e acabou
condenando o país, no dia 30 passado, por omissão no caso de violência contra mulher,
251
baseado nesse caso.
Exemplo 16:
Anistia condena "complacência" (FSP, 20/08/1999)
A organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional divulgou nota na
qual condena a absolvição, na madrugada de ontem, de três oficiais da Polícia Militar do
Pará que participaram da operação que resultou no massacre de Eldorado do
Carajás."Parece que, no Brasil, quando há violações dos direitos humanos, ninguém é
responsável por nada'', afirma a entidade."Se essa absolvição não for contestada, ela
estará endossando um pacto de silêncio entre os policiais envolvidos no massacre."
Segundo a Anistia, "é inacreditável que nesse caso não tenha sido possível estabelecer
uma cadeia de responsabilidades pela matança e subseqüente acobertamento". Para a
entidade, a absolvição "reforça a desconcertante complacência das autoridades com
respeito a graves violações cometidas sob sua autoridade".A Anistia diz ainda ser um
"princípio fundamental de proteção aos direitos humanos que aqueles que dão ordens e
estão no comando sejam também os responsáveis".
Exemplo 17:
Exterior destaca veredicto (FSP, 20/08/1999)
O canal de notícias 24 horas da emissora de TV britânica BBC destacou ontem, em seu
noticiário internacional, a absolvição dos três oficiais que estavam no comando da
operação em Eldorado do Carajás.
A rede disse que a decisão desagradou a grupos de defesa de direitos humanos em todo o
mundo.
A reportagem disse também que, durante o julgamento, foi exibido um vídeo mostrando a
polícia atirando contra a multidão, mas que a defesa logrou argumentar que os policiais
tentavam conter a manifestação que havia saído de seu controle. "As imagens foram
veiculadas pela televisão brasileira e causaram um escândalo nacional", dizia a
reportagem da BBC.
O "New York Times", em seu site na Internet, também relatou a absolvição dos três
oficiais de maior patente envolvidos no "massacre de 19 agricultores que chocou o Brasil
e chamou a atenção internacional para os direitos humanos no país".
O jornal norte-americano, um dos mais importantes do mundo, em sua seção de últimas
notícias, destacou que "na origem do massacre está a distribuição de terra no Brasil, onde
os 40% mais pobres da população detêm apenas 1% da terra".
O líder do MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) João Pedro Stedile
também aparece no relato do site do jornal, declarando que o julgamento dos oficiais foi
"uma manobra para ficar bem com a elite do Estado".
Exemplo 18:
FHC critica resultado do julgamento (FSP, 20/08/1999)
252
presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a impunidade prejudica a
democracia, ao comentar o julgamento dos oficiais da Polícia Militar do Pará acusados
pelo Ministério Público de serem responsáveis pelo massacre de 19 sem-terra em
Eldorado do Carajás, em abril de 1996.
"Como cidadão, eu lamento que o Brasil não tenha ainda, o conjunto da sociedade,
tomado consciência de que a impunidade, a sensação de impunidade é o que impede a
consolidação da democracia", disse ele.
No julgamento, foram inocentados o comandante da operação, o coronel Mário Colares
Pantoja, o major José Maria Oliveira e o capitão Raimundo José Almendra. De acordo
com os jurados, as provas contra eles eram insuficientes.
FHC disse que "esperava algum grau de condenação, em vários níveis, uma reprimenda
moral que seja". "Se há algo que revoltou o país e a mim, foi o massacre de Eldorado do
Carajás."
"Isso (o massacre) é inaceitável. O Brasil não pode mais conviver com esses fatos",
afirmou FHC. O presidente disse esperar que "nas próximas decisões o país se sinta mais
seguro de que não haverá impunidade".
Questionado sobre a repercussão internacional da decisão, FHC declarou que "o Brasil, e
lá fora a mesma coisa, espera que haja apuração de responsabilidades". "Eu não posso
dizer "fulano foi responsável, beltrano não foi". Mas não pode ser que ninguém foi.
Alguém foi (responsável)".
O secretário de Estado de Direitos Humanos, José Gregori, defendeu ontem a anulação
do julgamento que absolveu os oficiais.
"Decisão judicial que não faz justiça não é para ser lamentada, é para ser anulada por um
novo julgamento", afirmou ele, segundo nota oficial distribuída por sua assessoria de
imprensa.
"É difícil entender que os chefes de uma expedição policial que resulte em 19 mortes,
com seis execuções a frio, não mereçam determinado tipo de punição", diz a nota do
secretário.
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) disse estar envergonhado com o resultado
do julgamento do massacre de Eldorado do Carajás.
"Respeito a Justiça de meu país e confio que esse resultado adiante possa ser revertido.
Lamento profundamente a decisão e hoje me sinto envergonhado", afirmou Jungmann.
Emocionado, chegou a interromper diversas vezes seu discurso.
"O Brasil não pode carregar na consciência os 19 mortos de Eldorado do Carajás sem a
punição exemplar de quem cometeu isso. Senão, todos nós, brasileiros, somos culpados",
disse o ministro.
"A decisão do júri foi um fracasso, uma decepção, um escândalo e reforça a impunidade",
declarou d. Tomás Balduíno, presidente da CPT (Comissão Pastoral da Terra), entidade
ligada à Igreja Católica que monitora a violência no campo e assessora movimentos de
sem-terra.
O presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), d. Jayme Chemello,
disse que não conhece o processo sobre a chacina, mas achou estranho que os policiais
militares acusados tenham alegado que agiram em legítima defesa.
"É muito estranho o uso de metralhadoras em ações de legítima defesa", afirmou
Chemello. "É um caso muito complicado porque não houve mortes entre os militares para
sustentar a alegação de legítima defesa", afirmou ele.
253
O ministro José Carlos Dias (Justiça) evitou comentar a absolvição dos oficiais da Polícia
Militar do Pará. Disse que adotou essa posição para não cometer "uma ingerência
absurda" nas atividades do Poder Judiciário.
"Como ministro que representa o Poder Executivo, eu não posso dizer se foi justo ou
injusto o resultado do julgamento", afirmou ele. "Não há reparos a fazer quanto aos
aspectos formais do julgamento", acrescentou.
Exemplo 19:
FHC critica invasões a terras produtivas (FSP, 14/04/1999)
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse que os governadores "não devem se
acanhar" e, "havendo a ocupação de terra produtiva por provocação", devem "tirar" os
invasores.
"Eu nunca fui nem sou partidário desses atos de violência, mas eu percebo que existe
hoje no Brasil uma disposição que não é a de fazer reforma agrária, mas uma atuação que
é perigosa. (...) (Ela desafia) aquilo pelo qual nós lutamos sempre, que é o Estado de
Direito, que é o respeito à lei. E isso não é aceitável", disse ontem, diante de uma platéia
de 11 governadores, no Palácio do Planalto.
"Diga-se de passagem, também, que os governadores não devem se acanhar. (...) E as
instituições têm que utilizar os recursos legais de que dispõem para que a lei seja
respeitada", continuou o presidente.
Em outro momento, FHC disse que é importante que os governadores tenham "meios
para enfrentar as ocupações" para que possam usar recursos que não sejam "só o pior, que
é o uso da polícia".
Sem citar nomes de entidades que vêm promovendo invasões, como o MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e a Contag (Confederação Nacional dos
Trabalhadores na Agricultura), o presidente disse que se tratam de "movimentos que
dizem que querem terra, mas querem é bagunça".
"Nada justifica que se veja esse movimento espetacular de num mesmo dia, em todo o
Brasil, ocupar não sei quantas terras produtivas e não produtivas. Isso é "show off", para
mostrar na imprensa estrangeira, para fazer de conta que aqui está havendo um caos
social que não está havendo", afirmou.
Eldorado dos Carajás
Ontem, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) determinou a transferência de Marabá para
Belém, ambas cidades do Pará, do julgamento dos 154 policiais militares e dos 3 policiais
civis acusados de terem participado do assassinato de 19 sem-terra em Eldorado do
Carajás, em 19 de abril de 1996.
A decisão era o último entrave para a realização do julgamento, que pode ocorrer em
maio.
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) disse que vai assistir pessoalmente ao
julgamento.
Ele elogiou a decisão do STJ. "Louvo a decisão do STJ, que decidiu no sentido da
254
Justiça. Espero que a impunidade de Eldorado de Carajás seja enfim erradicada e que
sejam presos os responsáveis por essa barbárie."
Exemplo 20:
Papa condena massacre dos sem-terra no Pará (FSP, 25/04/1996)
O papa João Paulo 2º, por meio do Conselho Pontifício de Justiça e Paz, condenou o
massacre de 19 trabalhadores sem terra acorrido na semana passada no Pará.
A condenação foi transmitida ao Brasil por carta do cardeal francês Roger Etchegaray,
presidente da comissão no Vaticano.
A carta chegou ontem à 34ª Assembléia-Geral da CNBB (Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil), que acontece até o dia 26 em Indaiatuba (110 km a noroeste de São
Paulo).
O documento afirma que ''o problema da distribuição da terra e suas graves
consequências só poderá ser resolvido na perspectiva ética e política, garantida por uma
reforma agrária corajosa e de longo alcance''.
Na carta, o cardeal fala em ''massacre de 20 camponeses sem terra'' e transmite aos bispos
brasileiros seus ''sentimentos de profunda angústia por tanta violência e desprezo pelo
homem''.
Em seguida, o cardeal afirma que seu conselho pontifício se ''une ao pedido feito pela
CNBB para todo o país: que rezem pelos camponeses assassinados e façam um empenho
excepcional pela instauração da justiça social''.
A carta lembra ainda que o Vaticano conhece os problemas do campo brasileiro, que foi
levado pelos bispos em suas visitas ''ad limina'' _visitas que os bispos de cada região do
país fazem ao papa para relatar sua atuação.
''O cardeal Etchegaray fala em nome do papa e ocupa um dos postos mais importantes do
Vaticano'', disse ontem o bispo de Paulo Afonso (BA), d. Mario Zanetta, que falou pela
CNBB sobre a carta.
O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, se disse ''impressionado'' com
a carta do Vaticano. ''Ele soube interpretar muito bem o que estamos sentindo no Brasil
em razão do massacre. E ainda lembrou a importância da reforma agrária para o país'',
disse.
Para Arns, a carta demonstra como um ''ato de violência no Brasil toca o mundo inteiro''.
Para o cardeal-arcebispo da Paraíba, d. Marcelo Carvalheira, a carta representa ''uma
pressão justa pela reforma agrária no país''.
Os bispos usaram ontem uma tarja preta durante a missa de sétimo dia pela morte dos
sem-terra. Eles pediram durante a missa o assentamento imediato de todas as famílias de
sem-terra.
Corumbiara
O presidente do PT, José Dirceu, voltou a responsabilizar ontem o presidente Fernando
Henrique Cardoso pelo massacre, ''porque não puniu os responsáveis por Corumbiara e
reduziu a verba do Incra'' (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
Dirceu falou durante manifestação na praça da Sé (região central de São Paulo) em
repúdio à chacina. Organizada pelo MST, com o apoio de 40 sindicatos ligados à CUT, a
255
manifestação teve a presença de cerca de cem pessoas.
Exemplo 21:
Igreja apóia invasão do MST, diz d. Paulo (FSP, 19/02/1997)
O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, afirmou que a Igreja Católica
apóia as invasões promovidas pelos sem-terra. Disse também que é preciso fazer reforma
agrária ``urgente'' no Brasil.
``É legítima a ocupação de uma terra que não está sendo trabalhada'', disse o cardeal.
D. Paulo criticou o ritmo da reforma agrária no país, mas defendeu o presidente Fernando
Henrique Cardoso. ``FHC precisa do apoio do povo, senão os partidos que o apóiam vão
dificultar.''
As declarações foram dadas ontem na reunião anual dos bispos da Arquidiocese de São
Paulo, no Centro Santa Fé.
O local também foi ponto de parada da caminhada de 1.000 km dos sem-terra, que saíram
anteontem de São Paulo rumo a Brasília, onde chegarão no dia 17 de abril.
A marcha é um protesto contra a política agrária do governo e pede a punição dos
responsáveis pela morte de 19 sem-terra, em Eldorado dos Carajás, no Pará.
O cardeal afirmou que a igreja ``está ao lado dos sem-terra''. Disse que a reforma agrária
está atrasada 500 anos. ``O Brasil não pode esperar mais.''
Para ele, a marcha é ``histórica''. ``Coragem, estamos como o papa, dizendo à FHC que
está na hora da reforma agrária'', disse. D. Paulo que recebeu do sem-terra Luís Castro,
89, uma camiseta do MST. Os seis bispos que participaram da reunião assinaram uma
carta em apoio aos trabalhadores rurais.
Exemplo 22:
Igreja: Bispos defendem invasões do MST (FSP, 17/04/2002)
O bispo de Duque de Caxias (RJ), d. Mauro Morelli, afirmou ontem que aprova as
invasões que estão sendo realizadas pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) pelo país.
D. Mauro, 66, fez a declaração em Indaiatuba (interior de SP), onde participa da 40ª
Assembléia da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
Celebrações em homenagem aos 19 sem-terra mortos em Eldorado do Carajás (PA), em
confronto com a Polícia Militar, em abril de 1996, devem acontecer hoje em vários
pontos do país.
De acordo com d. Mauro, "a ocupação é uma forma extremada que o povo encontrou
para a solução dos seus problemas, que, no caso da divisão de terras, não tem a atitude
correspondente dos governos".
O bispo de Duque de Caxias é ligado a movimentos populares. Ele foi fundador do
Movimento pela Ética na Política (1992) e da Campanha contra a Fome (1993). Além
disso, foi membro do Movimento Nacional Constituinte (1985). Também foi presidente
do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar) e hoje preside o Consea de
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Minas Gerais.
"A Igreja apóia a ocupação, pois ela cria uma tensão social que faz com que o governo
negocie com os sem-terra. E, daí, podem surgir os assentamentos", declarou.
A Igreja Católica e o MST desenvolvem um trabalho em conjunto desde a formação do
CPT (Comissão Pastoral da Terra), em 1975, de conscientização para as ocupações de
terra.
"A Igreja apóia a ocupação, mas não determina que as famílias devam ocupar. O trabalho
que é feito em conjunto com o MST é de conscientização para a formação de pessoas que
descubram um caminho de acesso à terra", declarou d. Tomás Balduíno, bispo emérito do
Estado de Goiás.
D. Erwin Kräutler, bispo prelado de Xingu (PA), também disse apoiar as ocupações.
"Mas não podem acontecer com violência, e as atitudes devem estar dentro da
legalidade", disse em Indaiatuba.
Fome
A Campanha da Fraternidade de 2004 da CNBB deverá ter como assunto a fome,
divulgou d. Tomás Balduíno. "Nas discussões de hoje [ontem" a respeito do tema, houve
uma manifestação unânime favorável a isso."
Segundo d. Tomás, a expectativa da CNBB é que o tema cause profundas alterações na
realidade brasileira.
Segundo estimativas da entidade, pelo menos 55 milhões de pessoas estão excluídas no
país.
A campanha de 2004 deve ser confirmada em julho deste ano. Os bispos escolhem os
temas dois anos antes do período de realização da campanha.
O tema escolhido em julho do ano passado foi a terceira idade: "A fraternidade e as
pessoas idosas". O lema será "Dignidade, Vida e Esperança".
O texto-base para essa campanha está sendo discutido. Segundo d. Tomás, serão
abordadas as questões da qualidade de vida, inclusão social, ética e espiritualidade. "No
novo regimento da CNBB, que foi aprovado hoje [ontem], foi falado também na inclusão
do bispo idoso", disse.
Um dos assuntos sob discussão para futuramente se tornar tema da campanha da CNBB é
o uso da água.
Exemplo 23:
Fazendeiros fazem reunião (FSP, 16/01/1997)
Proprietários rurais de 14 municípios do sudeste do Pará promovem reunião neste sábado
em Marabá (500 km ao sul de Belém) para montar uma estratégia contra invasões de
terra.
A reunião, patrocinada pela Faepa (Federação da Agricultura no Estado do Pará), tem o
objetivo de definir uma estratégia contra a ameaça de mais 30 invasões de fazendas na
região pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
O presidente da Faepa, Carlos Xavier, distribuiu nota convocando os fazendeiros com a
informação de que cerca de 6.000 famílias estão sendo organizadas pelo MST para
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executar as invasões.
Xavier enviou fax ao ministro Raul Jungmann (Política Fundiária), para protestar contra
Petrus Abi-Abib, superintendente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária) em Marabá. Segundo Xavier, Abi-Abib teria apontado os fazendeiros da região
como responsáveis pelo massacre de 19 sem-terra pela PM do Pará, em abril do ano
passado, em Eldorado do Carajás. Abib negou a declaração.
Exemplo 24:
Fazendeiros 'terceirizam' segurança (FSP, 17/04/2002)
Os fazendeiros da região do Pontal do Paranapanema irão contratar empresas
terceirizadas de segurança e reativaram, nesta semana, um pacto de solidariedade para
impedir novas invasões de propriedades.
A atitude dos fazendeiros seria uma resposta ao MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra), que anunciou, para até o final deste mês, três "grandes invasões" na
região.
Abril é o mês em que tradicionalmente há uma intensificação das ações do MST devido à
morte de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA) em 17 de abril de 96.
Na última segunda-feira, reunidos em torno da UDR (União Democrática Ruralista), os
fazendeiros decidiram contratar empresas de segurança para proteger suas propriedades.
"Estamos reunidos em cerca de cem proprietários, que não irão permitir novas invasões",
afirmou Luiz Antônio Nabhan Garcia, presidente nacional da UDR.
Segundo Garcia, o "pacto de solidariedade" que funcionou no Pontal em 1995 foi
reativado em razão das "ameaças de invasões e pelo fato de o governo parecer incentivar
a desordem no Pontal".
O presidente da UDR afirmou que a entidade tem orientado os proprietários a contratar
segurança "legalizada". Segundo ele, vários proprietários estão se unindo para, em
conjunto, contratar empresas de segurança.
"O custo de um segurança hoje é de pelo menos R$ 1 mil por mês, por isso estamos nos
unindo para baratear os custos e ter uma ação integrada de proteção à propriedade",
declarou.
O presidente da UDR responsabilizou "as autoridades constituídas" por possíveis
confrontos na região. "O Pontal hoje é uma terra sem lei, uma terra de ninguém, onde
falta vontade política para acabar com as incertezas dos produtores", disse.
Rainha
Garcia "desafiou" o líder do MST José Rainha Jr. a comandar as anunciadas invasões na
região. "Ele [Rainha" aposta no surgimento de um mártir. Ele vai ter o mártir que está
querendo."
De acordo com ele, o líder do MST "nunca aparece na frente das invasões". José Rainha
Jr. disse ontem que não iria comentar as declarações de Garcia.
Sobre as acusações do líder dos sem-terra de que fazendeiros estariam montando milícias
paramilitares e pessoas deslocadas do narcotráfico para a segurança das propriedades,
Nabhan afirmou que são "palavras absurdas".
258
"Quem tem vínculo com as Farc [Forças Revolucionárias da Colômbia" é o MST, não a
UDR. José Rainha não tem moral para acusar ninguém", afirmou.
Exemplo 25:
Começa o julgamento dos policiais militares envolvidos no massacre de Eldorado do
Carajás (FSP, 16/08/1999)
São poucas as chances de condenação em massa dos 150 policiais militares indiciados
pela operação que resultou na morte de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA), em 17
de abril de 1996. Pela fragilidade do inquérito, se o júri se detiver somente nos aspectos
técnicos, poderá haver poucas condenações.
O julgamento, que será o mais longo do país, começa hoje na capital do Estado, Belém, e
deve durar até dezembro. Saiba o que pode acontecer:
AS AUTORIDADES -
Movimentos de direitos humanos pediram a inclusão do governador do Estado, Almir
Gabriel (PSDB), do secretário da Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, e do
comandante-geral da PM do Pará à época, coronel Fabiano Diniz Lopes, na lista dos réus.
Contra eles pesavam os seguintes fatos:
1. o comandante da operação, coronel Mário Colares Pantoja, de Marabá, disse que
obedeceu ordens do governador, por intermédio do secretário e do comandante da PM,
para desobstruir a rodovia PA-150 de qualquer modo;
2. a desobstrução da rodovia foi feita sem autorização judicial;
3. no dia do massacre, foram feitas 26 ligações entre o batalhão da PM em Marabá e a
sede do governo do Estado, a Secretaria da Segurança e o comando da PM. Metade delas
foi feita após as mortes;
4. as autoridades se defenderam afirmando que os comandantes da operação agiram com
violência por conta própria. Disseram também que, nos telefonemas, apenas pediam
informações sobre a ação. As autoridades não foram denunciadas.
OS COMANDANTES -
As maiores chances de condenação recaem sobre os dois comandantes da operação: o
coronel Pantoja, que liderou 85 PMs de Marabá, e o major José Maria Oliveira, que
comandou 68 policiais de Parauapebas. Se forem condenados por homicídio doloso
(intencional), podem pegar de 12 a 30 anos de prisão.
O coronel Pantoja foi quem planejou cercar os sem-terra na estrada. Cenas gravadas por
uma TV mostram que seus homens foram os primeiros a atirar.
Pedro Alípio, o motorista do ônibus que transportou os PMs de Marabá para Eldorado do
Carajás, afirmou ter ouvido o coronel dizer aos policiais: "Missão cumprida, ninguém viu
nada", após o massacre, na volta.
Exames nos corpos indicam que os PMs agiram com intenção de matar e, em alguns
casos, executaram suas vítimas.
Pantoja tinha um oficial (capitão Figueiredo) infiltrado no acampamento dos sem-terra,
259
conforme descobriu a Polícia Federal. Relatório da PF diz que a Polícia Militar, com as
informações do infiltrado, "tinha completo conhecimento da situação, inclusive da
disposição de enfrentamento por parte dos integrantes do MST".
Isso dificulta a defesa do coronel, que alega que a PM foi surpreendida com a reação dos
sem-terra. Várias testemunhas -inclusive independentes dos sem-terra- disseram que os
PMs usavam fardas sem a biriba (identificação do nome e posto que é afixada no bolso da
camisa). Isso pode indicar premeditação.
O major Oliveira distribuiu as armas para seus comandados sem respeitar a regra de
identificar -por meio de um documento chamado cautela- quem as estava recebendo. A
acusação vai alegar premeditação e a intenção de dificultar a identificação.
SARGENTO GETÚLIO -
Uma menina sem-terra que tinha 13 anos à época acusou o sargento Getúlio Marques, de
Marabá, de ter executado o líder do MST Oziel Alves Pereira. Ela contou em depoimento
que o sargento teria deixado cair o boné que usava, após atirar em Oziel.
Embaixo do boné, guardado pela menina, estava escrita a sigla AL.CAS.95 e o nome
Getúlio. O sargento reconheceu que o boné era dele, mas argumentou que foi ferido com
uma pedrada no olho e não participou da operação no momento do massacre.
SOLDADOS E CABOS -
Uma série de problemas no inquérito tornam frágeis as provas contra os 147 soldados e
cabos que participaram da operação:
1. as cautelas das armas entregues aos policiais de Parauapebas não foram feitas. As de
Marabá foram extraviadas e depois reapareceram, mas podem ter sido violadas ou serem
consideradas nulas como prova no processo. Assim, só é possível identificar que arma foi
usada para matar cada sem-terra, mas não o policial que a portava;
2. o Ministério Público não pediu exames para identificar pólvora nas mãos dos policiais;
3. o Ministério Público e a Polícia Civil não fizeram acareações entre testemunhas do
massacre e os PMs envolvidos na operação. As testemunhas também não tiveram acesso
a prontuário com fotos dos policiais para identificar possíveis agressores. Com isso, a
defesa pode alegar que as testemunhas podem ter se enganado ao acusar os soldados e
cabos;
4. os soldados Carlos César Pinho e Raimundo Pargas dos Santos foram identificados
pela sem-terra Maria Áurea Rocha como os policiais que teriam detido Oziel Alves
Pereira antes de ele ser morto.
Exemplo 26:
MP do Pará autoriza a retomada do processo
Julgamento dos PMs deve ser reiniciado na próxima semana (FSP, 27/08/1999)
O Ministério Público do Pará voltou atrás e vai permitir que seja reiniciado o julgamento
dos PMs que atuaram na operação que resultou na morte de 19 sem-terra em Eldorado do
Carajás, em abril de 96.
260
O TJ (Tribunal de Justiça) do Estado, que pressionou pela retomada do julgamento,
tentará reinstalar ainda hoje o tribunal do júri. Entretanto, os trabalhos só devem começar
na próxima semana devido à impossibilidade de convocar todos os réus, testemunhas,
advogados e funcionários públicos que participam do julgamento.
Três réus julgados na semana passada foram absolvidos -o coronel Mário Colares
Pantoja, o major José Maria Oliveira e o capitão Raimundo Almendra Lameira. Restam
outros 147 acusados.
Depois de abandonar o tribunal do júri em protesto contra a conduta do juiz Ronaldo
Valle, o promotor Marco Aurélio Nascimento, responsável pela acusação, voltou atrás.
"Estarei de volta ao tribunal do júri até por respeito à instituição", disse o promotor. Sua
ausência impedia os trabalhos, já que o tribunal do júri não pode funcionar sem a
presença do acusador.
Ele reconheceu, no entanto, que o julgamento dos próximos réus pode ser "contaminado"
pela sistemática do júri anterior.
O promotor ainda faz uma última tentativa de manter o julgamento paralisado. Ontem, às
16h20, ele protocolou no TJ um pedido de suspensão do tribunal do júri até que se decida
pelo pedido de anulação da primeira sessão do julgamento. Mas é difícil que o TJ decida
a questão ainda hoje.
Para Nascimento, a primeira sessão do julgamento deve ser anulada por uma série de
problemas que teriam acontecido. Entre eles, o fato de um dos jurados ter emitido opinião
durante o julgamento. O promotor também questiona a legalidade de um dos quesitos
(perguntas feitas aos jurados que definem o veredicto) do julgamento, que acabou
decidindo a absolvição dos réus.
Os jurados foram questionados se haveria "insuficiência de provas" para condenar os
réus. Para Nascimento, esse quesito é irregular porque trata de juízo de valor e não de
fato concreto.
Durante a última semana, o TJ pressionou o Ministério Público a obrigar o promotor a
voltar ao tribunal do júri, o que permitiria a retomada do julgamento.
Chegou a pedir que fosse designado um promotor substituto e ameaçou, caso não fosse
atendido, indicar um promotor à revelia do Ministério Público.
Ainda não está certo quais serão os próximos PMs a serem julgados. Para o promotor, o
próximo bloco do julgamento deve apreciar os casos dos sargentos Roberto Nazareno
Moraes, Everaldo Lins, Ruy Rodrigues dos Santos, Antonio Wilson Reis dos Santos,
Antonio Carlos Gomes dos Santos e Carlos Alberto Alves dos Santos.
Exemplo 27:
Júri do massacre no PA causa polêmica (FSP, 23/10/1998)
A Justiça do Pará realizou anteontem o sorteio dos 21 jurados que poderão fazer parte da
tribuna que decidirá o destino dos policiais militares envolvidos no massacre de Eldorado
do Carajás.
Dos 21 titulares sorteados, 6 são bancários; 2, empregados da Telepará; 7, funcionários
públicos e 6, empresários.
Eles foram sorteados entre 340 pessoas selecionadas pela comarca de Marabá. Segundo o
advogado da SPDDH (Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos) e assistente
261
de acusação, Hernandes Espinosa Margalho, os seis empresários são ligados a
fazendeiros, o que comprometeria a imparcialidade do júri.
No dia do julgamento, marcado inicialmente para 23 de novembro, o juiz deverá sortear
dez nomes para compor a banca de sete jurados. Tanto a defesa quanto a acusação
poderão recusar até três nomes.
Os jurados deverão julgar 143 dos 155 policiais militares acusados de envolvimento na
morte de 19 sem-terra no dia 17 de abril de 1996, no sul do Pará.
Além de 19 sem-terra, cerca de 60 pessoas, incluindo militares, ficaram feridas durante o
confronto entre integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e
a PM, na "Curva do S", em Eldorado do Carajás.
Seis oficiais recorreram ao STF (Supremo Tribunal Federal) e aguardam decisão. Três
sem-terra envolvidos também esperam decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e
não deverão ser julgados na mesma data.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de Marabá, André Barbosa de Souza,
foi um dos sorteados. Souza é filho de fazendeiro e dono de uma rede de supermercados
na região.
O empresário contou à Agência Folha que dias antes do massacre o governo estadual, por
meio do coronel Mário Colares Pantoja, comprou mantimentos para os sem-terra em uma
de suas lojas.
Souza disse não ter opinião formada sobre o assunto e lamentou ser um dos escolhidos.
"Estou numa situação difícil."
Segundo a advogada Simone Oliveira, um posicionamento antecipado do jurado pode
provocar a impugnação do seu nome.
Recurso
O Ministério Público estuda ainda a possibilidade de recorrer à mudança do local do
julgamento. A promotoria havia pedido a mudança para Belém, alegando "falta de
segurança e imparcialidade do júri na região".
A Justiça, no entanto, decidiu transferir de Curionópolis para Marabá, embasada no
Código Penal, que prioriza o desaforamento (mudança de local de julgamento) para a
comarca mais próxima.
O MST é contra o julgamento em Marabá e promete se mobilizar para um protesto de
repúdio à decisão.
O juiz responsável pelo caso, Otávio Marcelino Maciel, foi procurado pela Agência Folha
ontem, mas não foi encontrado.
O massacre dos sem-terra foi um dos mais graves incidentes fundiários da história do
país.
Sua repercussão internacional levou entidades como a Anistia Internacional a condenar a
atuação do governo no caso.
Na campanha eleitoral deste ano, o governador-candidato Almir Gabriel (PSDB) foi
bombardeado com críticas ao desempenho de sua polícia no incidente. Ele é candidato à
reeleição.
262
Exemplo 28:
Testemunhas complicam acusados (FSP, 19/08/1999)
Testemunhas do julgamento do massacre de Eldorado do Carajás (sul do Pará)
complicaram a situação dos principais oficiais da Polícia Militar que atuaram na operação
que resultou na morte de 19 sem-terra em abril de 1996.O júri daria seu veredicto no final
da noite de ontem ou na madrugada de hoje. Até dezembro, outros 147 policiais serão
julgados. Todos respondem à acusação de homicídio doloso (intencional), que prevê
penas de 12 a 30 anos de prisão, que podem ser multiplicadas pelo número de vítimas
fatais.Apesar de terem sido arroladas pela defesa, duas testemunhas acabaram
prejudicando o coronel Mário Colares Pantoja, o major José Maria Oliveira e o capitão
Raimundo José Almendra, que lideraram os outros 152 policiais militares envolvidos na
ação.
Pantoja teria comandado a desocupação da rodovia PA-150, tomada pelos sem-terra, sem
obedecer à ordem da cúpula da PM de negociar com os manifestantes. A afirmação foi
feita pelo comandante da PM à época do massacre, coronel Fabiano Lopes.Segundo ele,
Pantoja recebeu ordem de negociar porque, na semana seguinte, os sem-terra teriam sua
reivindicação atendida _a desapropriação da fazenda Macaxeira para reforma agrária.O
ex-comandante da PM criticou Pantoja pela falta de planejamento da ação. A declaração
também atinge o capitão Almendra, encarregado de operacionalizar as ordens do
coronel."O depoimento ajudou muito a acusação", disse o promotor Marco Aurélio
Nascimento.O jornalista Edvaldo Mendes, que acompanhou diversas negociações de PMs
e sem-terra na região do massacre, declarou que o major Oliveira e policiais comandados
por ele mantinham um relacionamento hostil com Oziel Alves Pereira, um dos
manifestantes mortos.
Mendes, que foi arrolado pelo advogado de defesa do próprio Oliveira, disse que assistiu
Oziel xingar o major de "safado" e "corno" durante tentativas de negociação ocorridas
anteriormente.A acusação tentou mostrar aos sete jurados que o fato comprova que
Oliveira e seus 68 subordinados tinham motivos para matar o sem-terra, morto com
quatro tiros no peito, na nuca, na testa e no pescoço, de acordo com a perícia.No terceiro
dia de julgamento, o promotor Marco Aurélio Nascimento, responsável dos cadáveres e
exibiu cenas gravadas por uma TV no momento do conflito.O ex-governador do Rio Nilo
Batista, assistente da acusação, rogou aos jurados que não tivessem preconceito contra os
sem-terra, "prejudicados pelas sucessivas políticas econômicas do governo federal".A
acusação apelou ainda para que se pensasse nos pais de uma das vítimas, tentando
sensibilizar os sete jurados _todos homens, seis deles pais.
Falando aos jurados, Roberto Lauria, um dos advogados de assistência dos policiais,
argumentou que a PM agiu em legítima defesa no confronto. "Aquilo foi uma batalha, foi
uma guerra."Ele argumentou que a promotoria não conseguiu individualizar a
participação dos oficiais nas mortes e acabou protegendo o governador do Pará, Almir
Gabriel (PSDB), que ordenou a desobstrução da PA-150. "Condenar esses homens será
dar poder à desordem. Depois, nenhuma milícia poderá deter o MST."
263
Exemplo 29:
Promotor teme absolvição dos 147 PMs do massacre (FSP, 20/08/1999)
Os 147 policiais militares que participaram da operação que resultou na morte de 19 sem-
terra em abril de 96 também podem ser absolvidos, como foram ontem de madrugada três
oficiais da PM do Pará.
A avaliação é do promotor Marco Aurélio Nascimento, responsável pela acusação contra
os PMs. A chance de que todos os réus sejam inocentados existe, na opinião de
Nascimento, se o mesmo argumento que absolveu os comandantes da ação for usado nos
julgamentos dos demais PMs.
Os 150 acusados pelo massacre vão a júri em blocos de três a seis policiais, cada qual
com um corpo de jurados diferente.
Em todas as fases do julgamento, o corpo de jurados será questionado se há insuficiência
de provas para condenar os réus.
A promotoria pública se queixa da existência dessa pergunta porque a classifica de
subjetiva. Um júri deve se manifestar sobre fatos concretos.
Na madrugada de ontem, o coronel Mário Colares Pantoja, o major José Maria Oliveira,
respectivamente comandantes das tropas de Marabá e Parauapebas à época do massacre,
e o capitão Raimundo Almendra Lameira foram absolvidos porque a maioria dos jurados
entendeu que havia insuficiência de provas, respondendo à questão proposta pelo juiz
Ronaldo Valle.
Hoje começa a segunda fase do julgamento dos policiais que participaram da
desobstrução da rodovia PA-150 em 17 de abril de 1996, em Eldorado de Carajás (sul do
Pará). Nessa fase, serão julgados o capitão Raimundo de Souza Oliveira e os tenentes
Jorge Nazaré Araújo dos Santos, Natanael Guerreiro Rodrigues e Mauro Sérgio Marques
da Silva.
Até dezembro, outros 143 PMs (sargentos, soldados e cabos) serão levados ao banco de
réus.
O advogado dos quatro oficiais, Luiz Abdoral Lopes, adiantou que seu principal
argumento perante o júri será o mesmo que acabou inocentando os comandantes da
operação, ou seja, a insuficiência de provas para culpar individualmente cada um dos
acusados.
Carlos Guedes, que representa o MST no julgamento, como assistente de acusação, disse
que ele e os outros advogados dos sem-terra (entre eles, Nilo Batista, ex-governador do
Rio) irão abandonar o caso como protesto pela decisão do juiz de perguntar se existem
provas suficientes.
"Não podemos compactuar com esse absurdo. O quesito imposto pelo juiz é subjetivo,
enquanto que os jurados só podem decidir em cima de perguntas sobre questões
concretas", declarou Guedes. Daqui em diante, somente o Ministério Público ficará
encarregado da acusação.
"O MST tem todo o direito de considerar indigno o resultado e sair do processo. Eu não
represento somente os sem-terra, represento sim a sociedade", afirmou o promotor.
Marco Aurélio Nascimento não concorda com a pergunta e irá pedir a anulação do
julgamento dos comandantes absolvidos (leia texto na pág. 1-5).
Na última fase do julgamento, o juiz elabora para os jurados uma série de questões a
partir das teses da defesa e da acusação. Anteontem, quando o juiz informou aos
264
advogados as perguntas que seriam feitas aos jurados, a acusação registrou seu protesto
contra a questão sobre a insuficiência de provas. Para o advogado Américo Leal, que
representou os oficiais absolvidos, a questão não influenciou os jurados e não provocará
um novo julgamento.
Exemplo 30:
'Acabei com o julgamento', diz jurado (FSP, 21/08/1999)
O contador e empresário Sílvio Queiroz Mendonça acha que descobriu a pólvora. "Eu
observei uma coisa que o mundo inteiro não viu durante três anos", diz. A pólvora estava
na fumaça que saía da arma de um sem-terra no conflito que resultou em 19 mortes em
Eldorado de Carajás (PA) em 17 de abril de 1996. Mendonça, um dos jurados do
julgamento, diz que sua descoberta derrubou a principal tese da promotoria, segundo a
qual os sem-terra não estavam armados no início do confronto. "O lance de eu ver a bala
foi cruel, não foi?", pergunta a um amigo delegado. "Detonou o promotor. A única
certeza em todo esse julgamento foi o tiro que eu vi."
O promotor Marco Aurélio Nascimento não concorda, mas acha que a intervenção de
Mendonça mudou os rumos do maior julgamento da história do país em número de réus -
150 policiais. Os três primeiros, os oficiais da Polícia Militar que comandavam a
operação, foram absolvidos na última quarta-feira. Com uma caneta luminosa, Mendonça
apontou para o vídeo que registrou o incidente e falou: "Agora fica comprovado que
havia sem-terra armado no começo do conflito".
O promotor entende que Mendonça fez um prejulgamento, o que teria influenciado o
corpo de jurados, e está pedindo a anulação do resultado. Mendonça discorda. Diz que
não há juízo de valor na fala, mas deixa escapar uma nesga de vaidade: "Acabei com o
julgamento no momento em que vi um sem-terra com arma de fogo".
"Tu foi macho!"
A descoberta transformou Mendonça em celebridade em Belém (PA). Aos 31 anos, o pai
solteiro (tem um filho de 6 anos) é contador do Tribunal de Contas do Estado há 13 anos,
tem uma academia de ginástica, um salão de beleza chamado Batom Lilás e uma agência
de modelos, que organiza o concurso Miss Belém.
Na última sexta-feira, enquanto almoçava no Iate Clube do Pará, frequentado pela elite
local, mal conseguia dar uma garfada no frango com bacon e queijo sem ser
interrompido.
"Tu foi muito macho!", diz um advogado. "Até que enfim alguém peitou essa gente",
elogia outro conhecido. "Essa gente" são os sem-terra que atuam no sul do Pará, a região
de conflitos rurais mais violenta do país.
Mendonça diz não ter nada contra o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra), mas discorda do que classifica de "métodos violentos".
"Quanto tu levou na parada?", pergunta um investigador conhecido do jurado, repetindo a
pergunta que circula pelo MST em tom conspiratório.
Mendonça diz que não levou nada e que nem foi teleguiado. Credita a descoberta a sua
convivência com armas. Mas como só ele viu o tiro, quando mais de uma dezena de
peritos e policiais dissecaram o vídeo? "É fácil explicar. Comprei minha primeira arma
265
com 13 anos, uma pistola 635. Hoje, tenho pistola (380), revólver (calibre 38, cano
curto), rifle (calibre 38), tudo com porte. Atiro todo final de semana em estande. Sempre
adorei arma. Por isso vi o a fumaça, o que é quase impossível quando se atira com a luz
do sol, como aconteceu nesse caso. Tenho olho treinado."
O detalhista
Olho treinado e tino para detalhes. Mendonça diz, orgulhoso, que foi o único jurado a
anotar todos os pronunciamentos da defesa e da acusação durante o julgamento. Tanto
que foi o jurado que mais perguntas fez nos três primeiros dias de trabalho.
Sua obsessão por detalhes levou-o a notar que o major José Maria Oliveira caíra em
contradição ao afirmar que havia feito em menos de uma hora o trajeto de ida e volta
entre Marabá e Eldorado de Carajás. "É uma estrada cheia de buracos. Demora de 40
minutos a uma hora só para ir", corrigiu, apontando um detalhe que passara despercebido
ao promotor.
O advogado e ex-governador do Rio Nilo Batista, que auxiliava o promotor, até elogiou
suas perguntas e de outros jurados, três deles com curso superior, como Mendonça, dois
com 2º grau e um com 1º grau. "Esse corpo de jurados faz a diferença", afirmou então
Batista.
Logo em seguida, foi a vez de Mendonça pegar Batista em uma contradição. Batista
argumentava que os sem-terra mortos estavam com pólvora nas mãos não porque
portassem revólveres, mas porque colocaram a mão na frente do rosto para se defender
dos tiros dos policiais.
Se os sem-terra colocaram as mãos para proteger o rosto, deveria haver balas nas mãos
deles, raciocinou Mendonça. Foi consultar os laudos e notou que só um sem-terra fora
ferido na mão -e não era por bala. Derrubou o argumento de Nilo Batista.
Sonho político
Católico, frequentador de uma novena toda terça-feira na igreja Nossa Senhora do
Perpétuo Socorro, Mendonça tem dois sonhos: ser delegado e eleger-se vereador. Diz
querer ser delegado para tentar fazer inquéritos melhores do que os dois que foram feitos
sobre as 19 mortes em Eldorado de Carajás, cheio de falhas, segundo ele.
No ano que vem, ele já diz ter decidido, será candidato a vereador. Eleitor de Fernando
Henrique Cardoso nas duas últimas eleições, anulou o voto na disputa em que o PT
ganhou a disputa para a Prefeitura de Belém. Diz não saber se é de direita, de centro ou
de esquerda.
Nem sabe direito o que vai defender na campanha ("vou me inteirar no ano que vem").
Nega que esteja aproveitando a súbita fama de jurado do maior julgamento do país.
Diz que tomou a decisão antes, convidado por André Lobato, o Caveira, um vereador
folclórico de Belém cuja campanha foi animada por meninas vestidas em trajes
sadomasoquistas. "Ele parece louco, mas é sério. Gosto de gente assim", define.
Exemplo 31:
TJ anula 1º julgamento de Carajás (FSP, 31/10/2000)
266
Desembargadores das Câmaras Criminais Reunidas do TJE (Tribunal de Justiça do
Estado) decidiram ontem, por 6 votos a 1, manter a anulação da primeira sessão do
julgamento do massacre de Eldorado do Carajás (PA), quando os três principais
comandantes das tropas da Polícia Militar foram absolvidos. Mesmo que haja recurso, o
julgamento agora não precisa mais ficar parado.
O julgamento dos 150 policiais militares envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás
será feito em apenas um bloco e recomeçará em fevereiro de 2001, disse ontem o juiz
José Maria Teixeira do Rosário, responsável pelo caso. "O bloco único visa dinamizar o
processo", declarou.
A decisão do juiz de julgar todos os réus num bloco único, no entanto, já está causando
polêmica com os advogados de defesa.
"É um absurdo, porque vai cercear o nosso direito de defesa", disse Eloísa Segtowick
Sovano, que defende 33 soldados e cabos.
Demora
Para o advogado dos oficiais, Roberto Lauria, o julgamento dessa forma pode demorar
mais de 30 dias, o que "seria impraticável". O promotor Marco Aurélio do Nascimento,
por sua vez, considera adequada a forma encontrada por Rosário.
"Nossa tese é única para todos. Pode-se aumentar o tempo da defesa para não haver
reclamações", declarou Nascimento.
No julgamento anterior, em agosto de 1999, o então presidente do júri, Ronaldo Valle,
dividiu o processo em 27 sessões. Apenas a primeira, que durou mais de três dias, foi
realizada. Na ocasião, o Ministério Público Estadual recorreu da decisão e pediu a
anulação das outras sessões até o julgamento dos recursos.
Recurso
Os advogados de defesa disseram que irão recorrer ao STJ (Superior Tribunal de Justiça)
e ao STF (Supremo Tribunal Federal) contra a decisão dos desembargadores.
"Isso é um desrespeito à posição dos jurados que, ao absolverem os policiais,
expressaram a vontade de todo o povo paraense", disse Lauria.
Para Rosário, os recursos da defesa não têm efeito suspensivo e, por isso, o coronel Mário
Colares Pantoja (ex-comandante das tropas de Marabá), o major José Maria Oliveira (ex-
comandante das tropas de Parauapebas) e o capitão Raimundo Almendra Lameira
voltarão ao banco dos réus em fevereiro.
Os oficiais e 146 PMs são acusados de envolvimento nas mortes de 19 sem-terra,
ocorridas em 17 de abril de 1996, durante a desobstrução da rodovia PA-150, em
Eldorado do Carajás (sul do Pará).
Os desembargadores votaram pela anulação baseados nos argumentos da relatora
Raimunda Gomes do Carmo.
Ela considera que houve contradição na formulação dos quesitos, o que teria induzido os
jurados a cometerem erros durante a votação secreta.
Para o promotor Nascimento, a decisão dos juízes já era esperada.
"Juiz parcial"
Além da polêmica sobre o bloco único, Rosário deve enfrentar a oposição do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). O advogado Carlos Guedes anunciou
267
que irá pedir a suspeição do juiz por considerá-lo parcial.
Guedes afirmou que Rosário foi autor do pedido de uso da Polícia Militar para a retirada
de 180 famílias que invadiram a fazenda Taba, em Belém.
"Ele fez o pedido quando a Prefeitura de Belém já havia iniciado um processo de
desapropriação de parte da área", disse.
O juiz não comentou a decisão do MST. "Só o Tribunal de Justiça pode decidir se sou
apto a julgar."
Exemplo 32:
STJ arquiva inquérito contra governador (FSP, 30/09/1997)
O STJ (Superior Tribunal de Justiça) arquivou inquérito aberto para apurar a
responsabilidade do governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), no massacre de
Eldorado do Carajás (leste do Estado).
Em 17 de abril do ano passado, 19 sem-terra foram mortos por policiais militares durante
operação de desocupação de uma estrada próxima ao complexo da fazenda Macaxeira,
cuja desapropriação era pleiteada pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra).
O ministro José Dantas, relator do caso, acatou parecer da Procuradoria Geral da
República segundo o qual o governador não pode ser responsabilizado pela
"incompetência e desorganização" da Polícia Militar.
Não há possibilidade de recurso, já que o inquérito foi solicitado pelo Ministério Público
Federal, que, agora, concluiu pela inocência do governador. Se tivesse prosseguimento, o
inquérito daria origem a uma ação penal contra o governador do Pará.
A abertura do inquérito foi solicitada ao STJ em maio do ano passado pelo procurador-
geral da República, Geraldo Brindeiro. Ele apontou indícios de omissão do governador
no episódio.
O Ministério Público do Pará havia isentado o governador de responsabilidade sobre as
mortes.
O órgão apresentou denúncia contra 155 policiais militares, entre soldados e oficiais, e
líderes dos sem-terra, acusados de ferir policiais.
O atual parecer da Procuradoria Geral da República é assinado pela subprocuradora-geral
Delza Curvello Rocha.
O parecer foi solicitado pelo STJ, que enviou junto com o pedido a defesa prévia do
governador.
Conforme o parecer, a PM não planejou a operação de desocupação, "como era seu
dever". O governador, segundo a subprocuradora-geral, apenas determinou a
desocupação da estrada, sem autorizar o uso da força.
Diz ainda o parecer que o governador não poderia prever nenhuma conduta criminosa,
por ato ou omissão, por parte da PM.
Exames realizados por médicos legistas indicaram que os sem-terra foram mortos de
forma cruel.
Alguns foram retalhados com golpes de faca, outros tiveram o crânio destruído por objeto
contundente. Um dos líderes, Oziel Pereira, foi encontrado morto depois de ter sido
268
preso.
Parte do complexo Macaxeira foi desapropriado este ano pelo governo, e parte dos sem-
terra já foi assentada.
Exemplo 33:
Exército cerca prédio em Recife (FSP, 18/04/1998)
Cerca de 50 homens do Exército cercaram ontem a Sudene em Recife (PE) para impedir
uma eventual invasão do prédio por trabalhadores rurais sem terra, que acabou não
acontecendo.
Os sem-terra encerraram diante da Sudene a "Marcha do Nordeste", iniciada no último
dia 4.
Em discursos e faixas, lembraram o conflito ocorrido há dois anos em Eldorado do
Carajás. Cerca de 2.000 pessoas participaram da manifestação, segundo o MST.
Antes de marchar em direção à Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do
Nordeste), os manifestantes se concentraram na praça do Carmo, centro de Recife.
Na Sudene, uma comissão formada pelo MST entregou ao superintendente Nílton
Rodrigues documento reivindicando reforma agrária e programas emergenciais contra a
seca.
Caminhada
No Rio, o protesto foi uma caminhada pelas ruas do centro do Rio, que se estendeu por
toda a tarde.
De acordo com os organizadores da manifestação, vinculados ao MST, cerca de mil
pessoas participaram da caminhada. Para a Polícia Militar, havia 600 pessoas.
Os manifestantes concentraram-se na escadaria do prédio da Assembléia Legislativa do
Rio. De lá saíram para a Bolsa de Valores, a cerca de 200 m. À frente da caminhada,
representantes do MST carregavam caixões representando as 19 vítimas da chacina.
Exemplo 34:
MST vai incentivar saques no Nordeste (FSP, 25/04/1998)
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) vai incentivar os saques a
depósitos de alimentos e a supermercados no Nordeste do país.
Os dirigentes do movimento entregaram à Sudene (Superintendência do
Desenvolvimento do Nordeste) uma pauta de reivindicações com propostas para o
combate à seca e dizem que, se os pedidos não forem atendidos até o dia 30 deste mês,
vão partir para saques generalizados na região.
A participação em saques foi decidida em uma reunião da direção nacional do MST em
São Paulo, no dia 17 de abril, data do aniversário de dois anos do massacre de Eldorado
de Carajás.
"Saquear para matar a fome não é pecado. No Nordeste, onde a situação está crítica, o
269
MST tem apoiado a luta dos agricultores", disse José Rainha Júnior, líder do movimento
na região do Pontal do Paranapanema (oeste de SP).
²"A situação está insustentável, é a miséria que está em jogo. As pessoas que estão
saqueando querem trabalho. Nós defendemos que os trabalhadores façam vigília em
frente aos supermercados do país", afirma Diolinda Alves de Souza, mulher de Rainha.
Segundo Jaime Amorim, representante da direção nacional do MST em Pernambuco,
entre as reivindicações apresentadas à Sudene está a abertura de crédito especial para
pequenos agricultores prejudicados pela seca.
²A lista tem outros dois itens: o fornecimento de alimentação e água para as comunidades
do sertão nordestino e a desapropriação de áreas férteis como as do cacau, na Bahia, de
cana-de-açúcar, em Alagoas e Pernambuco, e as das margens do rio São Francisco.
Desde março, o MST tem dado suporte aos agricultores do sertão do Ceará nas ações de
saque aos depósitos de merenda escolar e de cestas básicas. "Por enquanto, os saques
estão localizados, mas, se o governo não fizer nada, vamos partir com tudo. É um
absurdo as pessoas estarem morrendo de fome em pleno final do século 20", afirma Jaime
Amorim.
Preocupado com a repercussão negativa dessas investidas, o governador do Ceará, Tasso
Jereissati (PSDB), tem orientado os prefeitos das cidades castigadas pela seca a não
entrar em confronto com os agricultores e com os integrantes do MST. Em alguns casos,
a Polícia Federal é acionada para monitorar a movimentação.
Nesses dois últimos meses, ocorreram saques em 13 cidades do sertão do Ceará. Os
agricultores, em algumas áreas do Estado, perderam até 90% da produção de grãos. No
município de Aurora, localizado na região do Cariri (sul do Ceará), 500 trabalhadores
rurais saquearam o depósito de merenda escolar no final de março.
Segundo a prefeita Maria Leonor Macedo (PSDB), quase todo o estoque se perdeu e o
prejuízo foi de R$ 8 mil. "Não reagimos porque sabemos que o problema é grave. Mas
acho que, antes, eles poderiam ter negociado com a gente. Saque é caso de polícia."
Para evitar o acirramento dos ânimos, Tasso se reuniu há duas semanas em Brasília com
o ministro da Reforma Agrária, Raul Jungmann, e expôs o problema. Disse a Jungmann
temer que o MST use a seca e a fome dos agricultores eleitoralmente.
O governo do Estado pediu a liberação de R$ 13 milhões pelo Incra para obras de infra-
estrutura em 200 assentamentos do MST no Ceará. Com essa medida, o governador
espera que haja uma trégua. A construção de casas, poços e armazéns nos assentamentos
vai ser feita em mutirão.
"Há uma tensão política que precisa ser desfeita. Sabemos que existe a crise, que houve
perda de grãos. Mas o MST está se aproveitando disso para faturar", afirma o secretário
de desenvolvimento rural do Estado, Pedro Sisnando.
Exemplo 35:
Sem terra bloqueiam BR-116 no Ceara (FSP, 24/01/1997)
Um grupo de cerca de 300 integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem
Terra) bloqueou das 5h às 17h de ontem o trânsito na BR-116, perto da entrada de
Chorozinho (64 km ao sul de Fortaleza).
Segundo a Polícia Militar, o bloqueio provocou um congestionamento de quatro
270
quilômetros. Não houve registro de conflitos durante o ato. O trânsito era bloqueado
alternadamente nas duas pistas.
Durante a manifestação, os sem-terra pediam aos motoristas para assinarem um abaixo-
assinado de apoio às suas reivindicações.
Eles exigem uma definição do governo federal sobre o assentamento de 180 mil
trabalhadores rurais no Ceará e uma solução sobre 57 áreas de conflitos no Estado.
Os manifestantes distribuíram um panfleto no qual pedem punição para os responsáveis
pela morte de trabalhadores rurais em Corumbiara (RO), Eldorado dos Carajás (PA),
Ourilândia (PA) e Rio Bonito (PR).
No panfleto, os manifestantes denunciam que o MST está sofrendo ''uma ofensiva
econômica, política, ideológica e assassina'' e pedem apoio da população contra a
inoperância e incompetência do governo frente à reforma agrária.
Curitiba
Cerca de quatrocentos sem-terra, de 70 assentamentos irregulares do Paraná, ocuparam
ontem a sede da superintendência regional do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio do
Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) em Curitiba.
Eles pretendiam invadir o prédio do Incra, mas como o órgão havia solicitado reforço à
PM, os sem-terra decidiram ir ao Ibama.
No início da tarde, líderes do movimento reuniram-se com representantes do Ibama, Incra
e da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e exigiram a desapropriação imediata dos 83
mil hectares da fazenda Pinhal Ralo, em Rio Bonito do Iguaçu (PR).
Por volta das 15 horas, os sem-terra deixaram a sede do Ibama e fizeram um ato de
protesto pela morte dos agricultores Vanderlei da Neves e José Alves dos Santos, semana
passada, em Rio Bonito do Iguaçu. Eles acusam três seguranças da fazenda Pinhal Ralo
de terem feito uma emboscada.
Outra reivindicação do movimento é o assentamento imediato das 8 mil famílias que
estão em ocupações irregulares no Paraná.
Exemplo 36:
Diretora é indiciada por expor 'Terra' (FSP, 18/06/1998)
A diretora de escola Elza Maria da Silva está sendo acusada de fazer "lavagem cerebral e
pregar a legalidade da ilegalidade". Isso porque ela expôs a mostra "Terra", de Sebastião
Salgado, que traz fotos de sem-terra e do massacre de Eldorado do Carajás (PA), em
escola de Sandovalina (SP).
O delegado Marco Antônio Fogolin abriu o inquérito e disse que a mostra infringiu
artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Os artigos tratam de restrições ao acesso
a publicações que possam ferir os "valores éticos e sociais" da família. Ele se decidiu
após ouvir Wesley Gouveia, 8, que teria ficado "com medo" das fotos.
Segundo Elza, não houve queixa. "A mãe de Wesley foi chamada na delegacia porque
seu filho estava lá e reclamou espontaneamente das fotos. Não foi reclamar."
"Tudo não passa de perseguição. O delegado sabe que sou ligada ao MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), e ele é o maior inimigo do MST", disse Elza. Ela
diz que foi autorizada pela delegacia de ensino.
271
Exemplo 37:
Sem terra são recebidos à bala no Pontal (FSP, 28/01/1997)
O proprietário da fazenda Concórdia, em Tabarai (610 km a oeste de São Paulo),
Guilherme Prata, recebeu à bala na madrugada de ontem 400 famílias ligadas ao MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que tentaram invadir sua propriedade.
``A próxima tentativa de invasão vai ter morte. Eles querem cadáver, vão ter'', afirmou
Prata, vice-presidente da UDR (União Democrática Ruralista).
A segurança na fazenda Concórdia, de 12 mil hectares, estava sendo feita por Prata, seu
pai, dois tios, três primos, uma irmã, o gerente, o capataz e o motorista. Prata disse que
atirará para acertar se houver nova tentativa de invasão.
A Polícia Civil de Tabarai apreendeu quatro rifles calibres 44 e 38 e cinco revólveres
calibre 38 em poder das pessoas que defendiam a fazenda. As armas foram devolvidas
aos proprietários depois de apresentados os registros.
O fazendeiro, seus familiares e empregados fizeram cerca de 200 disparos na presença de
dois policiais civis e cinco militares, segundo a PM. Os disparos duraram cerca de dez
minutos. Os sem-terra se deitaram e recuaram. Havia crianças e mulheres. Ninguém se
feriu.
O presidente da UDR, Roosevelt Roque dos Santos, disse que os tiros são manifestação
pessoal de Prata. ``Quem está com o problema na pele age emocionalmente.''
Segundo o MST, a área é improdutiva. O Incra não confirma. Prata disse ter fábrica de
ração, confinamento e 3.000 cabeças de boi.
Foi a 11¦ invasão e o segundo tiroteio envolvendo fazendeiros e sem-terra no Pontal este
ano. Há duas semanas, 350 sem-terra foram recebidos a tiros ao tentar invadir a fazenda
Santa Rita.
O líder dos sem-terra José Rainha Jr. disse que, se os fazendeiros não forem desarmados,
a região se transformará em um novo Eldorado dos Carajás (PA). ``Estamos caminhando
para isso, e falta pouco'', afirmou.
Em Itapetininga (170 km a oeste de São Paulo), cerca de 500 famílias ocupam desde
sábado a escola técnica estadual agrícola Edson Galvão, após terem sido despejadas da
fazenda Santa Cecília.
No Pará, um grupo sem ligação com o MST invadiu, na noite de sexta-feira, a fazenda
Volta do Rio, em Curionópolis (630 km ao sul de Belém). Não houve confronto.
Exemplo 38:
Jungmann não negociará com invasores (FSP, 08/01/1997)
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) não irá negociar com invasores de
fazendas em São Paulo e vai se empenhar pela aprovação de lei que veda desapropriação
de imóveis invadidos.
Segundo a assessoria do ministro, o governo de São Paulo também não vai dialogar com
os líderes das 1.200 famílias que invadiram, no último domingo, cinco fazendas no Pontal
do Paranapanema (extremo oeste do Estado).
O presidente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), Nestor
272
Fetter, disse que não vai liberar o pagamento de indenizações de terras invadidas no
Pontal.
Jungmann mandou seu gabinete devolver fax enviado por José Rainha Jr., 36, líder do
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), sobre novas invasões.
No fax, Rainha diz que as invasões visaram pressionar fazendeiros da região a aceitar o
acordo de indenização proposto pelo Incra.
Segundo a assessoria de Jungmann, o projeto que veda desapropriação de áreas invadidas
deverá ser votado na próxima semana.
Para tentar acertar a data da votação, o ministro ligou ontem para os deputados Luís
Eduardo Magalhães (PFL-BA), presidente da Câmara, e Benito Gama (PFL-BA), líder do
governo.
Jungmann pediu ao ministro da Justiça, Nelson Jobim, que autorize a Polícia Federal a
levantar informações sobre o assassinato, no sábado, de dois sem-terra em Eldorado do
Carajás, onde 19 foram mortos em abril passado.
Novas invasões
O líder dos sem-terra José Rainha Jr. afirmou que cerca de 1.900 famílias ligadas MST
estão ''de prontidão'', perto das fazendas Santa Rita e Taquaruçu, para novas invasões no
Pontal.
Ele disse que novas invasões de terra podem acontecer a qualquer momento, ''se os
fazendeiros radicalizarem''. ''Vamos cumprir a lei, mas não vamos aceitar a arrogância
dos fazendeiros'', afirmou.
Ele acusa a UDR (União Democrática Ruralista) de armar pistoleiros em áreas invadidas
pelo movimento e de atrapalhar acordos de desapropriação de terras.
O presidente da entidade ruralista em Presidente Prudente, Roosevelt Roque dos Santos,
49, estava viajando ontem no interior do Mato Grosso.
A direção da entidade afirmou que quer aguardar seu retorno para se manifestar.
Exemplo 39:
Acusador é primo de prefeito petista (FSP, 26/08/1999)
O funcionário público Fernando Brito, que depôs no Ministério Público sobre a suposta
tentativa de suborno do júri do caso de Eldorado do Carajás, é primo do prefeito de
Belém, Edmilson Rodrigues (PT). Brito foi levado a depor pela vice-prefeita Ana Júlia
Carepa (PT).
Colegas de trabalho de Brito disseram à Folha que ele costuma usar broche do PT em
períodos de campanha eleitoral e alardeia o parentesco com o prefeito.
A vice-prefeita foi a primeira a fazer a denúncia. Ela disse que um dos jurados teria
afirmado a ela que outro membro do júri teria lhe oferecido R$ 3.000 para absolver o
coronel Mário Colares Pantoja, que comandou a operação da PM que resultou na morte
de 19 sem-terra, em abril de 1996.
Brito disse ontem que divulgaria uma nota, mas depois desistiu. O prefeito afirmou, pela
sua assessoria, que o fato de Brito ser seu primo é "irrelevante".
No domingo passado, Ana Júlia disse à Folha que conhecia Brito, mas não sabia o nome
dele. "Foi uma pessoa do povo que me contou a história (do suposto suborno) no último
dia do julgamento", afirmou. No dia seguinte, apresentou Brito -que é funcionário da
273
Defesa Civil Municipal- ao Ministério Público.
No depoimento, constatou-se que a versão da vice-prefeita tinha contradições. Brito fez
parte dos 31 pré-selecionados para o júri, mas não foi sorteado, ficando fora do grupo de
sete jurados.
Ele disse que não podia afirmar que recebeu uma proposta de suborno. Contou que, cinco
dias antes do julgamento, o jurado Sílvio Queiroz Mendonça perguntou a ele, em "tom de
brincadeira": "R$ 3.000 "morre" (é o bastante) para salvar o coronel (Pantoja)?".
Mendonça nega.
O jurado Cláudio Ozela confirmou que ouviu Mendonça fazer a "brincadeira". Pedro
Muniz, outro jurado, disse não ter escutado.
Está praticamente parada a apuração do caso. O delegado Vicente Costa, responsável
pelo inquérito, não conseguiu pegar cópias dos depoimentos e intimou Ana Júlia.
Promotores que colheram os depoimentos se recusaram a entregar as cópias porque o
delegado não tinha registrado o inquérito com um número de protocolo.
O promotor que acompanhará o inquérito, Armando Brasil, não tinha sido comunicado
oficialmente até ontem. Também não tinha tido acesso aos depoimentos.
O promotor Marco Aurélio Nascimento, responsável pela acusação dos 150 réus, disse
ontem que "existe a possibilidade" de o julgamento ser retomado amanhã. "Comigo ou
com outro promotor", afirmou.
Por discordar da conduta do juiz Ronaldo Valle, Nascimento abandonou o tribunal do júri
após a absolvição de Pantoja, do major José Maria Oliveira e do capitão Raimundo
Almendra.
A atitude do promotor provocou a suspensão do julgamento, já que o tribunal não pode
funcionar sem o acusador.
Almir Gabriel
O governador Almir Gabriel (PSDB) criticou o projeto do governo federal que
transferiria os crimes contra os direitos humanos para a esfera federal. "O fato de
concentrar exageradamente em Brasília imobiliza o país."
Gabriel evitou falar sobre o resultado da primeira sessão do julgamento. "Eu não vou
responder pelo simples fato de que, como testemunha, eu não posso emitir opinião."
Exemplo 40:
Bom mesmo de massacre é usineiro (FSP, 20/08/1999)
Ninguém aqui pretende desrespeitar a dor das 19 famílias que perderam entes queridos no
confronto entre sem-terra e policiais, em Eldorado do Carajás, no Pará, em 1996.
Mas, vem cá: não sei o que o pessoal da CUT, do PT e do próprio MST entendem por
"massacre", mas o que vi na TV na época e revi com mais detalhe na última quarta,
durante o julgamento dos três oficiais que comandaram a operação, não pode ser
classificado de massacre.
Uma tropa capenga de policiais sem treinamento para enfrentar uma situação daquela
gravidade é chamada para conter um grupo de desesperados dispostos a matar e morrer e
armados até os dentes com foices, pedaços de pau, facões e -como a fita apresentada no
274
julgamento evidencia- com armas de fogo, que foram disparadas antes que os policiais
dessem o primeiro tiro.
Quem autorizou os policiais a usar metralhadoras para enfrentar os invasores? O
governador deu ou não ordem para conter a invasão a todo custo?
A certa altura daquele vídeo que a gente já viu tantas vezes na TV, os sem-terra partem
com tudo para cima dos policiais, que recuam. O primeiro tiro é dado naquele instante.
Por alguém que está do lado dos sem-terra, como foi demonstrado ao longo do
julgamento de quarta-feira.
E, agora, vem o Stedile e o pessoal da CUT e do PT falar em impunidade. Será que a
gente é obrigada a engolir, só porque a lamentável figura do coronel Pantoja, um dos
líderes da operação, parece saída de alguma novela de Dias Gomes?
Quando é que a America"s Watch e a Anistia Internacional vão começar a tratar como
vítimas pobres coitados feito os policiais que foram enviados sem preparo para enfrentar
os sem-terra em Eldorado do Carajás?
E o governador do Pará, Almir Gabriel? Quando vai assumir publicamente o quinhão de
responsabilidade que lhe cabe no suposto "massacre"?
Se houve irregularidades no julgamento, que se faça uma nova audiência. Mas, em nome
da justiça, que ninguém se esqueça de que existem vítimas de ambos os lados.
Usineiro, sim, entende de massacre. Pega dinheiro emprestado do governo para investir
na terra e depois gasta tudo na ampliação do novo haras e levando a patroa para passear
na Europa. E ainda pretende ter as dívidas anistiadas. Isso é que é massacrar a lei e a
ordem de um país.
Exemplo 41:
Grupo entrega abaixo-assinado (FSP, 18/04/1997)
Um grupo denominado Friends of the MST (Amigos do MST) entregou ontem um
abaixo-assinado na Embaixada do Brasil em Londres pedindo a agilização da reforma
agrária no país.
A organização é ligada à representação do Partido dos Trabalhadores em Londres.
No documento, com 110 assinaturas, o grupo também reclama da lentidão do julgamento
dos policiais militares acusados pelo massacre de Eldorado do Carajás, onde 19 sem-terra
morreram há um ano. O grupo foi recebido pelo embaixador do Brasil em Londres,
Rubens Barbosa.
À noite, o diplomata participou de um debate na abertura da exposição fotográfica
"Terra", de Sebastião Salgado, em uma igreja no centro da capital britânica. A exposição
é sobre trabalhadores rurais.
A chegada da passeata dos sem-terra a Brasília foi mencionada no noticiário da rede de
TV a cabo Sky News, que transmite notícias 24 horas por dia.
275
Exemplo 42:
Palestra é proibida por Justiça do MS (FSP, 22/08/1998)
O juiz de Mundo Novo (462 km ao sul de Campo Grande), Cléber Corsato Barboza,
proibiu o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) de realizar palestras
em escolas públicas da rede estadual no município.
O juiz disse à Agência Folha que as palestras poderiam ter influência político-partidária,
e a campanha eleitoral em prédios públicos é vedada por lei.
Barboza também levou em conta um "clima de adversidade" entre produtores rurais e
MST no município, por causa do abate de 30 cabeças de gado na fazenda Savana, há duas
semanas.
As palestras acabaram sendo realizadas em locais públicos e nas escolas da rede
municipal. A prefeita local, a ex-sem-terra Dorcelina Folador (PT), autorizou os eventos.
As palestras fazem parte da marcha organizada pelo MST no Estado.
Três colunas, com 50 integrantes cada, deverão se encontrar no dia 7 de setembro em
Campo Grande, onde haverá a manifestação "Grito dos Excluídos".
Nas cidades por onde passam, as colunas promovem debates em escolas e encontros com
dirigentes sindicais.
Egídio Brunetto, da coordenação nacional do MST, disse que "de modo algum seria
permitida a participação de políticos nas palestras e eventos organizados durante a
marcha".
O próprio candidato do MST a deputado estadual, Toninho Borborema, não participa da
marcha.
Segundo Brunetto, também não são pedidos votos ao candidato do PT à Presidência da
República, Luiz Inácio Lula da Silva.
Em junho último, a diretora de escola Elza Maria da Silva, de Presidente Prudente (SP),
foi indiciada em inquérito policial por ter exposto a mostra "Terra", de Sebastião Salgado,
que traz fotos de sem-terra e do massacre de Eldorado do Carajás (PA), em escola de
Sandovalina (SP).
O delegado Marco Antônio Fogolin disse que a mostra infringiu artigos do Estatuto da
Criança e do Adolescente. Os artigos tratam de restrições ao acesso a publicações que
possam ferir os "valores éticos e sociais" da família.
Exemplo 43:
Boné substituiu chapéu de palha (FSP, 06/07/2003)
Até chegar à cabeça do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e virar motivo de polêmica
nacional na semana passada, o boné do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) percorreu marchas pelo Brasil afora e disputou espaço com o tradicional chapéu de
palha.
No MST, as informações a respeito da origem do boné são desencontradas. Mas há uma
unanimidade: ele substituiu como símbolo o chapéu de palha típico dos sem-terra na
caminhada que o movimento fez até Brasília, em 1997, para marcar o primeiro ano das
mortes de Eldorado do Carajás. Na época, o MST foi recebido pelo presidente Fernando
276
Henrique Cardoso, também ele presenteado com o boné. FHC, porém, não o vestiu, pelo
menos em público.
O boné é feito em mais de uma fábrica. Nos últimos dois anos, o MST gaúcho tem
encomendado a peça à fábrica Bonelli, de Apucarana (PR), a "capital nacional do boné".
Quantias: dois lotes de 500 bonés/ano. Valores? Há os serigrafados e os bordados.
O varejo informa que compra da fábrica por R$ 1,84 o serigrafado e R$ 3,24 o bordado.
"Vendemos uns dez por dia. Nossos clientes são estudantes e camponeses", diz Lademir
Debona, que vende os bonés no Mercado Público de Porto Alegre por um preço entre R$
3 e R$ 5. Na cidade, há outra loja e duas feiras que vendem o produto.
Pelo site do MST, é possível comprá-los. O de serigrafia custa R$ 5, o bordado, R$ 7.
São vendidos ainda nas secretarias do MST, sindicatos, assentamentos e universidades.
O coordenador do MST gaúcho Mário Lill estima em mais de 1 milhão os bonés
vendidos -uma arrecadação, até hoje, de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões.
Se a popularização do boné tem como marco a marcha a Brasília em 97, há controvérsias
quanto à sua origem. O frei Sérgio Görgen, hoje um deputado estadual que mantém
ligações com o MST, afirma que a primeira aparição ocorreu na caminhada até a fazenda
Anonni, no Rio Grande do Sul, em 86 -para muitos, essa foi a marca de nascença do
próprio MST.
Mário Lill diz que foi depois, entre 87 e 88. O certo é que, até então, o chapéu de palha
predominava. Até hoje é o preferido do líder João Pedro Stedile.
No site do MST, há os significados das cores da bandeira -a mesma simbologia do boné.
Diz o MST: a cor vermelha representa "o sangue que corre em nossas veias e a
disposição de lutar pela reforma agrária e pela transformação da sociedade". O branco, "a
paz pela qual lutamos e que somente será conquistada quando houver justiça social para
todos".
A cor verde representa "a esperança de vitória a cada latifúndio que conquistamos".
O preto representa "o nosso luto e homenagem a todos os trabalhadores e trabalhadoras
que tombaram, lutando pela nova sociedade". O mapa do Brasil é a representação de "que
a luta deve chegar a todo o país".
O trabalhador e trabalhadora são "a necessidade de a luta ser feita por mulheres e
homens, por famílias inteiras", e o facão, "nossas ferramentas de trabalho, de luta e de
resistência".
277
ANEXO II
Corpus Ampliado (Folha de S. Paulo)
Governo do PA paga pensão a familiares
26/12/96
Origem do texto: Da Agência Folha, em São Luís
Editoria: BRASIL Página: 1-7
Edição: Nacional Dec 26, 1996
Vinheta/Chapéu: MASSACRE NO CAMPO
Governo do PA paga pensão a familiares
da Agência Folha, em São Luís
O governo do Pará vai começar a pagar em janeiro pensão a parentes de dez sem-terra
mortos no massacre de Eldorado do Carajás , em abril. Cada família receberá R$
300,00 mensais, retroativos a abril.
Mas Gilmar de Oliveira, MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem terra) em
Marabá (PA), insiste que o governo puna os culpados pelo massacre .
MST anuncia recorde em invasões
17/12/96
Autor: WILSON TOSTA
Origem do texto: Da Sucursal do Rio
Editoria: BRASIL Página: 1-12
Edição: Nacional Dec 17, 1996
Primeira: Chamada
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: REFORMA AGRÁRIA
Assuntos Principais: MST ; TERRA; INVASÃO; RECORDE
Foram 167 neste ano, contra a média anterior de 50 ocupações
MST anuncia recorde em invasões
WILSON TOSTA
da Sucursal do Rio
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) bateu neste ano seu
recorde, com 167 invasões de terra. A média anterior era de 50 invasões por ano, segundo
o coordenador nacional da entidade, João Pedro Stédile.
No ano que vem, anunciou Stédile, a estratégia será mantida.
278
''Atenção, latifundiários: nos aguardem, 1997 será também um ano de muitas ocupações'',
disse.
Caminhada
Uma das ações previstas pelo MST será uma marcha de 1.500 militantes que sairão de
cinco pontos do país, em 17 de fevereiro próximo, em direção a Brasília.
As caminhadas, de mil quilômetros, têm chegada prevista para 17 de abril, quando o
massacre de Eldorado do Carajás (PA) completará um ano.
''Vamos caminhar para dizer ao presidente Fernando Henrique Cardoso que faça a
reforma agrária e outras coisas'', disse ele, esclarecendo que os participantes da marcha
não farão ocupações de terra durante o trajeto.
Stédile contestou os números de assentamentos anunciados pelo governo federal.
Para o MST , apenas 25 mil famílias foram assentadas.
''De acordo com dados tirados no último dia 5 do computador do Incra (Instituto Nacional
de Colonização e Reforma Agrária), até então tinham sido assentadas 51.136 famílias'',
disse Stédile.
Segundo os mesmos dados, afirmou, 18.187 famílias foram fixadas em assentamentos
criados até 1995 e pelo menos 7.000 em projetos de colonização e não em áreas de
reforma agrária.
''Cada família assentada recebe do governo R$ 12 mil para começar a morar e a produzir,
mas o Incra gastou nisso apenas R$ 161 milhões'', afirmou. ''Se fossem 60 mil famílias
assentadas, teriam sido gastos R$ 720 milhões.''
Stédile disse que o governo não cumpriu as promessas feitas por Fernando Henrique em
audiência com dirigentes do MST , em 2 de maio: priorizar o assentamento de
acampados, entre as 60 mil famílias então previstas; verbas para a reforma agrária; apoio
parlamentar a quatro projetos de interesse do movimento; e punição aos responsáveis
pelo massacre de Eldorado do Carajás .
Dos cerca de 2 milhões de hectares desapropriados pelo governo em 1996, houve imissão
de posse em apenas 500 mil _o resto ainda está preso por problemas burocráticos e de
pagamento.
Do orçamento do Incra, de R$ 1,5 bilhão, parte (cerca de R$ 250 milhões) foi
contingenciada (não repassada).
PM admite ter errado
30/09/96
Autor: ANDRÉ MUGGIATI
Origem do texto: Da Agência Folha
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Sep 30, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: OUTRO LADO
Assuntos Principais: MASSACRE ; EM-TERRA; ELDORADO DO CARAJÁS
/PA/
279
PM admite ter errado
da Agência Folha
''As características do crime mostram abusos e erros da PM na operação'', disse ontem o
chefe do departamento de Comunicação Social da Polícia Militar de Rondônia, major
Márcio José da Silva.
Ele disse que a PM vai esperar a divulgação do inquérito civil para manifestar sua
opinião contra as acusações de 20 PMs.
Silva declarou também que, ''por parte dos sem-terra, a coisa não foi tão angelical, apesar
de não justificar a nossa ação''. Segundo ele, ''houve um ataque inicial dos sem-terra'', que
foi então seguido da investida da PM.
Para Jaime Amorim, 36, da direção nacional do MST , a decisão de incriminar líderes
sem-terra é ''política''.
''A Justiça não tem coragem de enfrentar a PM e, por isso, joga a culpa em alguns
trabalhadores para fazer uma compensação.''
Já o líder do MST em Rondônia, Juvenil Augusto, afirmou que os quatro líderes sem-
terra acusados são ''dissidentes'' do MST . Por isso, segundo ele, o MST não vai
defendê-los.
(AM)
Monumento é destruído
24/09/96
Autor: ESTANISLAU MARIA
Origem do texto: da Agência Folha, em Belém
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Sep 24, 1996
Vinheta/Chapéu: QUESTÃO AGRÁRIA
Assuntos Principais: SEM-TERRA; MASSACRE ; ELDORADO DO
CARAJÁS /PA/
Monumento é destruído
da Agência Folha, em Belém
O monumento em homenagem aos mortos no massacre de Eldorado do Carajás
(PA), feito e doado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, foi parcialmente destruído na
madrugada de anteontem em Marabá (500 km ao sul de Belém).
O monumento foi inaugurado no último dia 7. Segundo o coordenador do MST em
Marabá, Gilmar de Oliveira, testemunhas disseram que um grupo de oito pessoas
depredaram o monumento, que fica no entroncamento das rodovias Transamazônica e
PA-150 (onde aconteceu o massacre ).
Desocupação Os cerca de 900 integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) que ocuparam na última terça-feira a sede do Incra em Marabá
deixaram o prédio anteontem à tarde.
Após negociar com o administrador de Marabá, Ronaldo Giusti, os sem-terra acamparam
em frente à sede do Incra.
A desocupação do prédio invadido era a condição do Ministério da Reforma Agrária para
280
negociar a pauta de reivindicação do movimento dos sem-terra.
(ESTANISLAU MARIA)
'É uma provocação', acusa MST
19/09/96
Autor: GEORGE ALONSO
Origem do texto: Da Reportagem Local
Editoria: BRASIL Página: 1-11
Edição: Nacional Sep 19, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: TERRA; INVASÃO; MST ; PONTAL DO PARANAPANEMA
/SP/
'É uma provocação', acusa MST
da Reportagem Local
A direção nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
considera ''uma provocação'' do ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, a
demissão de Miguel Abeche, superintendente do Incra (Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária) em São Paulo.
Para o MST , o ministro quis ''dar uma demonstração de força'' em uma espécie de
''braço-de-ferro'' que trava com a entidade com o objetivo de desmoralizá-la diante da
opinião pública, ao tentar passar imagem de intransigência por parte dos sem-terra.
O comando do MST alega que só uma das sedes do Incra no país permanece ocupada
por sem-terra (a de Marabá, em função da impunidade para os responsáveis pelo
massacre de Eldorado dos Carajás ) e que a entidade sempre negociou com
dirigentes do Incra, ''cobrando compromissos assumidos''.
A demissão de Abeche, segundo os sem-terra, é uma tentativa de culpar o MST pelo
fracasso da meta do governo, de assentar 60 mil famílias neste ano.
Em nota oficial, a direção estadual da entidade diz que Jungmann demonstra ''não querer
a reforma agrária''.
Segundo o MST , que invadiu fazendas na região, a tensão no Pontal resulta do
armamento dos fazendeiros, ''com conivência da polícia'', e que o MST procurou
Abeche com a intenção de ''buscar uma solução pacífica''.
A nota diz ainda que a demissão de Abeche revela ''a truculência e o despreparo do
ministro para o cargo''. Para o MST , ''o ministro precisa parar de tagarelar e começar a
trabalhar.''
(GEORGE ALONSO)
FHC reedita medida provisória para liberar verba para o Incra
31/08/96
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília; Da Agência Folha, em Belém
281
Editoria: BRASIL Página: 1-12
Edição: Nacional Aug 31, 1996
Vinheta/Chapéu: REFORMA AGRÁRIA
Assuntos Principais: REFORMA AGRÁRIA; VERBA PÚBLICA; INCRA; MEDIDA
PROVISÓRIA
Presidente atende reivindicação dos sem-terra
FHC reedita medida provisória para liberar verba para o Incra
da Sucursal de Brasília e da Agência Folha, em Belém
O governo reeditou, com modificações, a MP (medida provisória) que autoriza crédito
extraordinário de R$ 800 milhões ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária).
As alterações no texto da MP referem-se à discriminação da destinação das verbas.
Os valores foram assim distribuídos: R$ 400 milhões para indenizações de terra ''nua'', R$
254 milhões para créditos para a reforma agrária, R$ 90 milhões para projetos de reforma
agrária, R$ 40 milhões para indenizar benfeitorias e R$ 16 milhões para cooperações
entre instituições.
A modificação remaneja recursos de R$ 1 milhão da cooperação entre instituições para
projetos de reforma agrária e colonização. Segundo a MP, eles serão aplicados no Rio
Grande do Sul.
Os R$ 254 milhões referentes ao crédito para reforma agrária fazem parte de uma antiga
reivindicação do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
O presidente Fernando Henrique Cardoso assinou ainda a desapropriação de quatro
fazendas localizadas em Santa Cruz Cabrália (BA) _8.329 hectares_, onde devem ser
assentadas 350 famílias.
Pará
O juiz de Curionópolis (PA), Laércio Larêdo, só vai poder analisar os processos do
conflito da fazenda São Francisco e do massacre dos 19 sem-terra em Eldorado do
Carajás depois de 10 de setembro.
''Estou me dedicando ao processo eleitoral. Antes do dia 10 será quase impossível fazer
qualquer outra coisa'', disse Larêdo, por telefone, à Agência Folha.
MST culpa o Incra pela venda de lotes; Colonos bloqueiam agência do
BB em SP; Promotores fazem balanço do massacre ; Comissão investiga
denúncias em Goiás
22/08/96
Editoria: BRASIL Página: 1-7
Edição: Nacional Aug 22, 1996
Seção: COLUNÃO
MST culpa o Incra pela venda de lotes
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) responsabiliza o Incra
282
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) pela venda de lotes pelos colonos
assentados em projetos de reforma agrária. A venda dos lotes é um dos principais
problemas dos assentamentos em pesquisa do Instituto Vox Populi para a Confederação
Nacional da Agricultura.
Colonos bloqueiam agência do BB em SP
A agência do Banco do Brasil em Teodoro Sampaio (SP) foi bloqueada ontem por
colonos assentados em projetos de reforma agrária no Pontal do Paranapanema. Eles
exigem a liberação de recursos financeiros do Pronaf, programa que financia a produção
de assentados. O bloqueio é coordenado pelo MST e pela Coocamp, cooperativa
criada pelo MST .
Promotores fazem balanço do massacre
Os promotores públicos do Pará que atuam no processo do massacre dos sem-terra em
Eldorado dos Carajás reuniram-se ontem em Brasília com integrantes da Comissão
de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, do Ministério da Justiça. Eles foram
apresentar um balanço e discutir as investigações sobre o conflito de 17 de abril.
Comissão investiga denúncias em Goiás
Uma comissão criada na terça-feira pelo Incra começou a investigar, em Goiás, denúncias
de irregularidades em vistoria realizada pela Superintendência Regional do instituto na
fazenda Santa Rosa, em Itaberaí (GO). A investigação foi solicitada pelo procurador da
República em Goiás, Marco Túlio de Oliveira e Silva.
Eleições atrasam processos no Pará
19/08/96
Autor: ESTANISLAU MARIA
Origem do texto: Da Agência Folha, em Belém
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Aug 19, 1996
Vinheta/Chapéu: CURIONÓPOLIS
Assuntos Principais: CONFLITO; GARIMPO; COMPANHIA VALE DO RIO DOCE;
SERRA PELADA /PA/
Decisão sobre a Vale está parada
Eleições atrasam processos no Pará
ESTANISLAU MARIA
da Agência Folha, em Belém
Com apenas um juiz e obrigada a cuidar da preparação das eleições, a comarca de
Curionópolis (630 km ao sul de Belém) está atrasando a análise de processos, como o da
disputa entre garimpeiros e Companhia Vale do Rio Doce em Serra Pelada, e de pedidos
de reintegração de posse, como o da fazenda São Francisco.
Sem um quadro próprio de magistrados, a Justiça Eleitoral ''toma emprestado'' da Justiça
283
comum seus juízes.
Segundo a lei, o processo eleitoral tem prioridade. No Fórum de Curionópolis estão 174
pedidos de candidaturas e duas impugnações.
''Estou me desdobrando para acompanhar os casos do massacre e do garimpo mas,
dedicação exclusiva, só mesmo depois de 3 de outubro'', disse o juiz local, Laércio de
Almeida Larêdo.
Na última quinta-feira, ele aceitou a denúncia do Inquérito Policial Civil do massacre
que resultou na morte de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás , em abril.
Serão processados 155 policiais militares acusados de abuso de autoridade; um civil,
acusado de co-autoria de homicídio e lesões corporais; e três sem-terra, acusados de porte
ilegal de arma, lesões corporais e resistência a ordem judicial.
A reintegração de posse da fazenda São Francisco, em Eldorado do Carajás ,
aguarda uma decisão desde o dia 9 de julho.
Segundo os proprietários, que moram em Bebedouro (SP), a fazenda foi invadida por
homens armados em 19 de junho.
A direção do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) informou não
ter ligações com o grupo.
Larêdo disse que pediu ao Tribunal de Justiça a indicação de um juiz auxiliar entre os 23
aprovados em concurso, ainda não nomeados, mas não foi atendido.
''Falta verba para nomearmos os aprovados nos concursos'', disse o presidente do
Tribunal de Justiça, Manoel de Christo Alves.
''Espero um repasse da arrecadação do Estado para poder empossar os novos juízes.''
MST invade três fazendas no sul do PA
16/08/96
Origem do texto: da Agência Folha, em Belém (PA)
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Aug 16, 1996
Vinheta/Chapéu: TERRA
Assuntos Principais: MST ; SEM-TERRA; INVASÃO; ELDORADO DO
CARAJÁS /PA/
MST invade três fazendas no sul do PA
da Agência Folha, em Belém (PA)
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) invadiu mais três fazendas
no final da tarde de anteontem na região de Eldorado do Carajás , sul do Pará.
Foi em Eldorado do Carajás que aconteceu a morte de 19 sem-terra em conflito
com a Polícia Militar. Amanhã, o massacre completa quatro meses.
Os sem-terra anunciaram ontem a ocupação das fazendas Mucuripe e Ponta Grossa, no
complexo Macaxeira, que reúne 13 fazendas em Curionópolis (630 km ao sul de Belém),
e da fazenda Três Voltas, em Parauapebas (630 km ao sul de Belém). Não houve
confrontos.
As fazendas Mucuripe e Ponta Grossa foram ocupadas por sem-terra que viviam na
284
fazenda Macaxeira.
O coordenador estadual do MST Gilmar de Oliveira disse que cerca de 1.400 famílias
devem ser divididas nas três áreas.
Bloqueio
Integrantes do MST que moram no assentamento Palmares, em Parauapebas (630 km
ao sul de Belém), estão obstruindo estrada de acesso à área do projeto Serra Leste da
Companhia Vale do Rio Doce. O MST quer que a Vale pague em benfeitorias a área
ocupada dentro do Palmares.
Sem-terra "ocupam" DF para agilizar assentamento
13/08/96
Autor: DANIELA FALCÃO
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-4
Edição: Nacional Aug 13, 1996
Legenda Foto: Manifestantes ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
( MST ) montam barracas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília
Crédito Foto: Lula Marques/Folha Imagem
Vinheta/Chapéu: REFORMA AGRÁRIA
Selo: CAMPO MINADO
Assuntos Principais: SEM-TERRA; INVASÃO; ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS;
BRASÍLIA /DF/
Para STJ, falta prova para indiciar responsáveis por massacres
Sem-terra "ocupam" DF para agilizar assentamento
DANIELA FALCÃO
da Sucursal de Brasília
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) decidiu "ocupar" com suas
barracas a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para pressionar pela reforma agrária.
Desde ontem, cerca de 350 sem-terra vindos de 157 acampamentos coordenados pelo
MST em todo o país estão instalados no gramado do Gran Circular _área da Esplanada
dos Ministérios.
Segundo a entidade, os manifestantes ficarão acampados até que todas as 44 mil famílias
que estão em propriedades invadidas pelo país sejam assentadas.
Cada acampamento enviou dois ou três representantes. Foram montadas barracas de lona
que servirão de dormitório, reproduzindo a estrutura dos acampamentos em terras
invadidas.
Os alimentos foram enviados pelos acampados no país. Uma cozinha coletiva foi
montada no local.
Segundo Valmir de Oliveira, do MST , o governo do Distrito Federal autorizou a
instalação dos sem-terra na Esplanada dos Ministérios. Também permitiu a utilização de
banheiros de área do governo vizinha ao acampamento.
Violência no campo
285
Ontem, 200 mulheres sem-terra participaram em Brasília de manifestação pelo Dia
Nacional de Luta Contra a Violência no Campo.
Pela manhã, elas entregaram manifesto reivindicando a punição dos responsáveis pelos
massacres de Eldorado do Carajás (PA) e Corumbiara (RO) ao secretário-executivo
do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Humberto Spínola.
Spínola representou o ministro Nelson Jobim (Justiça), que estava em Belo Horizonte
(MG).
O manifesto também exige o assentamento ''urgente'' de 44 mil famílias acampadas e a
aprovação pelo Congresso dos projetos ligados à reforma agrária.
Documento semelhante foi entregue à representação da ONU (Organização das Nações
Unidas) no Brasil e ao ministro interino de Política Fundiária, Marcos Lins.
Ele disse concordar com o argumento das sem-terra de que a violência no campo só
diminuirá com a aceleração da reforma agrária.
À tarde, as trabalhadoras rurais se encontraram com o presidente do STJ (Supremo
Tribunal de Justiça), Romildo Bueno de Souza.
Segundo ele, ainda faltam provas para indiciar os responsáveis pela morte dos 30 sem-
terra em Eldorado do Carajás e Corumbiara.
Em seguida, elas foram recebidas por Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), presidente da
Câmara. O pefelista prometeu abrir as galerias da Casa para que as sem-terra
acompanhem a votação do projeto do rito sumário de desapropriação de terras, marcada
para hoje.
Mulheres mártires
Entre as manifestantes, estavam presentes as chamadas "mulheres mártires", como Hebe
de Bonafini e Marta Badillo, principais líderes da Associação das Mães da Praça de
Maio, da Argentina.
Outras mulheres que participaram dos protestos de ontem foram Olinda Tavares, 55, mãe
do padre Josimo (assassinado há dez anos no Maranhão), Maria Gorete Abreu e Maria
Elizabete Santos _sobreviventes do massacre de trabalhadores rurais em Eldorado
do Carajás (PA).
Devassa à vista; Mensagem cifrada; Garantia prévia; Juiz nacional;
Ataque sulista; Fora de foco; Ato falho; Ajuda externa; Temor no campo;
Para a platéia; Só para lembrar; Dança dos números; Sem esperanças;
Sem muito esforço; Justiça tardia; Visita à Folha
10/08/96
Editoria: BRASIL Página: 1-4
Edição: Nacional Aug 10, 1996
Seção: PAINEL TIROTEIO
Arte: ILUSTRAÇÃO: ADOLAR
Devassa à vista
Fernando Gonçalves (TCU) informou Sérgio Motta (Comunicações) que a partir de
segunda o tribunal faz ampla auditoria no sistema Telebrás. A começar pelos editais de
286
licitação da banda B da telefonia celular.
Mensagem cifrada
Na reunião ministerial, ontem, Luiz Carlos Santos (Assuntos Políticos) mandou um
recado a seus colegas de governo: os investimentos externos se devem também à
estabilidade política. Tradução: atendam o telefone.
Garantia prévia
Informada de que Nelson Jobim (Justiça) iria a Santiago, a chancelaria chilena se
ofereceu para reservar o hotel. Pediu a data da chegada, o vôo e o número do cartão de
crédito do ministro. Ele preferiu dispensar a ajuda.
Juiz nacional
O Diretório Nacional do PT discute neste fim-de-semana a reforma administrativa de
Vitor Buaiz (ES). Ele enfrenta oposição de setores do PT ao pacote que tenta equilibrar o
Estado.
Ataque sulista
O governador Paulo Afonso (PMDB-SC) encontra FHC na terça para protestar contra a
MP que prevê um regime automotivo especial para o Nordeste.
Fora de foco
A redução nos prazos de pagamento das importações de leite, determinada sem consulta
prévia pela Indústria e Comércio, foi uma das decisões que mais irritaram a Fazenda.
Hora errada: é de entressafra do produto.
Ato falho
O Fórum Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente condenou o veto de Maluf
ao projeto que proibia empresas que utilizam mão-de-obra infantil de participar de
concorrências da prefeitura paulistana.
Ajuda externa
Duas sobreviventes do massacre de Eldorado dos Carajás entregam segunda ao
representante da ONU no Brasil, Cesar Mikuel, um pedido para que a entidade pressione
o governo a apressar a reforma agrária.
Temor no campo
O MST acha que passa fácil o rito sumário para a reforma agrária semana que vem no
Congresso. Mas teme pelo projeto que proíbe os juízes de concederem liminares de
reintegração de posse sem antes ouvir as partes.
Para a platéia
A campanha de Rossi (PDT) avalia que a proposta de tirar as crianças abandonadas da
rua em 180 dias já cumpriu o resultado esperado. Causou polêmica.
Só para lembrar
287
O programa de TV de Erundina (PT) rebaterá a proposta de ''bilhete único para o
transporte coletivo'' de Pitta (PPB). Dirá que Maluf vetou projeto de lei do PT, aprovado
na Câmara Municipal de São Paulo em 95.
Dança dos números
Pesquisa Ibope divulgada ontem sobre a eleição paulistana: Pitta lidera (26%), seguido de
Erundina (23%), Rossi (16%), Serra (12%) e Pinotti (2%). Pelo instituto, os votos
indecisos, brancos e nulos somam 21%.
Sem esperanças
A campanha de Leiva (PMDB) avalia que a candidatura em São Paulo morreu com a
decisão de primeira instância da Justiça que favoreceu Pinotti. ''É muito difícil que o TRE
reforme a decisão do juiz'', diz um cacique.
Sem muito esforço
Quércia não consegue reverter o mal-estar que causou entre seus aliados no PMDB a
forma como tratou a campanha de Leiva. Dizem que até Itamar Franco se empenhou mais
por seu candidato em Juiz de Fora (MG).
Justiça tardia
Os acusados pela morte de Nativo da Natividade, que presidiu o Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Carmo do Rio Verde (GO), serão julgados no dia 19. Entre eles,
o então prefeito, Roberto Pascoal. A morte foi em 85.
Visita à Folha
O embaixador da Argentina no Brasil, Diego Ramiro Guelar, visitou ontem a Folha.
Estava acompanhado do cônsul-geral da Argentina em São Paulo, Carlos Onis Vigil, e do
cônsul-adjunto, Eduardo Gómez.
TIROTEIO
De Wagner Salustiano (PPB), coordenador político em São Paulo da Igreja Universal do
Reino de Deus, sobre Rossi (PDT):
_ O Rossi é um mentiroso. Um falso convertido. Um falso cristão. Ele odeia a Universal
porque nós apoiamos o Covas em 94 e o derrotamos.
Eixo de mudança; Primeiro passo; Ver para crer; O que o PFL quer;
Seara inimiga; A vida como ela é; Pólos em 98; Bolsa de apostas; PMDB
apaziguado; Beiço remunerado; Pele de cordeiro; Desgaste externo; Data
nacional; Ocupação em Brasília; Anti-homenagem; Amigo urso
21/07/96
Editoria: BRASIL Página: 1-4
Edição: Nacional Jul 21, 1996
288
Seção: PAINEL; TIROTEIO
Arte: ILUSTRAÇÃO: OSVALDO
Eixo de mudança
No xadrez de FHC, montado para definir um pacotaço político para os dois últimos anos
do que o tucano ambiciona ser seu primeiro mandato, elegeu-se um ''vice-rei'': Luís
Eduardo Magalhães, presidente da Câmara.
Primeiro passo
Ao futuro de Luís Eduardo Magalhães estão atadas reeleição, reforma ministerial e
sucessão na Câmara e no Senado. Ele pode ir para o Ministério das Minas e Energia, com
poder no processo de privatizações.
Ver para crer
Malan (Fazenda) tem enfatizado, em conversas reservadas, que a agroindústria e a
exportação serão as bases do que julga ser uma fase de ''desenvolvimento sustentado'' em
1997.
O que o PFL quer
Um cacique pefelista avalia que o Ministério da Justiça tem ''pepinos demais e dividendos
de menos''. A pasta das Minas e Energia, com poder ampliado, daria facilmente a Luís
Eduardo Magalhães o governo baiano.
Seara inimiga
A reeleição para a presidência da Câmara, além de ser manobra complicada, seria
arriscada. O baixo clero da Casa, que ungiu Luís Eduardo Magalhães presidente, hoje
julga sua gestão autoritária e amarrada ao Planalto.
A vida como ela é
Serjão (Comunicações) está bem dentro do pacotaço político. Mas o PSDB bem na
beirada. À própria sorte O Planalto já não dá à eleição de Serra em São Paulo a
importância que lhe foi conferida em um primeiro momento. Se ganhar, ganham todos.
Se perder, perde o ex-ministro.
Pólos em 98
No Planalto, faz-se uma pergunta sobre reeleição, caso ocorra uma vitória malufista em
São Paulo: ''Quem é melhor do que FHC para enfrentar o Maluf?''. O PT não é mais líder
da oposição.
Bolsa de apostas
Michel Temer (PMDB-SP) é o nome mais citado por caciques governistas para presidir a
Câmara. Luiz Carlos Santos ficaria onde está, com menos destaque, ou ganharia outro
ministério.
PMDB apaziguado
José Sarney entraria no pacotaço facilitando a eleição de ACM para a presidência do
289
Senado. Desde que fosse garantida a reeleição para Roseana e os meios para que sua filha
faça um ''bom'' governo no Maranhão.
Beiço remunerado
Convocados e bem pagos (R$ 24 mil) por um mês, os deputados só trabalham até o dia
24. Ganharam uma semana de descanso da presidência da Câmara.
Pele de cordeiro
Candidato à presidência do Senado, ACM (PFL) mudou da água para o vinho. ''Está que
é uma seda'', atesta o paraibano Ney Suassuna (PMDB), um dos sete senadores que já
sentiram a garra do ''Leão da Bahia''.
Desgaste externo
Discretamente, as embaixadas da Grã-Bretanha, EUA e França têm questionado o
governo sobre a demora em aprovar o rito sumário na reforma agrária e sobre o projeto
que pune trabalho escravo (em especial, o infantil).
Data nacional
Uma caravana dos sem-terra atravessará o país levando o monumento em homenagem
aos 19 trabalhadores mortos pela PM do Pará. A obra, de Nyemeyer, sai do Rio e chega a
Eldorado dos Carajás em 7 de setembro.
Ocupação em Brasília
Em sua viagem, o memorial aos 19 sem-terra mortos passa por Brasília em 12 de agosto,
o Dia Nacional da Mulher Trabalhadora Rural. MST e Pastoral da Terra preparam
manifestações.
Anti-homenagem
No memorial para os 19 sem-terra mortos, há uma inscrição lembrando que, no dia do
massacre , 17 de abril, FHC era presidente. E Almir Gabriel, governador do Pará.
Amigo urso
A aprovação do estatuto da microempresa no Senado tirou Malan (Fazenda) do sério.
Queixa-se de Sarney, que acompanhou sua articulação contra o projeto, mas não o avisou
de que o jogo já estava decidido.
TIROTEIO
De Miro Teixeira, candidato a prefeito do Rio pelo PDT, sobre Sérgio Cabral Filho, do
PSDB:
_ O Sérgio é robotizado pelo governador Marcello Alencar. Do jeito que o Pitta é
manipulado pelo Maluf em São Paulo.
Igreja registra 33 mortes no campo
18/07/96
290
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília; Da Reportagem Local
Editoria: BRASIL Página: 1-11
Edição: Nacional Jul 18, 1996
Vinheta/Chapéu: REFORMA AGRÁRIA
Assuntos Principais: CONFLITO DE TERRA; VIOLÊNCIA; VÍTIMA; RELATÓRIO;
CPT /COMISSÃO PASTORAL DA TERRA/
CPT divulga relatório
Igreja registra 33 mortes no campo
da Sucursal de Brasília
da Reportagem Local
A violência no campo fez 33 vítimas neste primeiro semestre. A maioria das mortes (28)
ocorreu no Pará. Três foram registradas em Mato Grosso. Goiás e Maranhão tiveram uma
morte cada.
Os dados divulgados, em Brasília, fazem parte de relatório da CPT (Comissão Pastoral da
Terra), órgão da Igreja Católica.
Das 29 mortes ocorridas no Pará, 19 foram cometidas por policiais militares no
massacre de Eldorado do Carajás , em 17 de abril.
Segundo a CPT, desde a posse do presidente Fernando Henrique Cardoso, há 18 meses,
já houve 74 mortes de sem-terra.
A violência contra trabalhadores rurais "está se tornando marca do governo de Fernando
Henrique Cardoso'', diz o relatório.
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) disse que não podia fazer nenhum
comentário sobre o assunto porque não havia recebido o relatório.
Ontem, o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ( MST ) tamm divulgou
nota para, mais uma vez, questionar os números divulgados pelo governo federal sobre
assentamentos.
O governo pretendia, segundo o MST , assentar 60 mil famílias em 96. Relatório do
Incra afirma que apenas 18.037 famílias foram assentadas, o que caracteriza, para o
MST , a impossibilidade de se atingir a meta até o final do ano.
Para o ministro Jungmann, as críticas não procedem. Segundo sua assessoria, até 15 de
julho foram assentadas 19,6 mil famílias. De acordo com Jungmann, o ritmo só foi
acelerado após abril porque a reforma agrária, como todos os projetos do governo,
dependia da aprovação do Orçamento.
Governo se diz preocupado com ações violentas
30/06/96
Autor: JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
Origem do texto: Da Reportagem Local
Editoria: CADERNO ESPECIAL Página: Especial -8
Edição: Nacional Jun 30, 1996
Observações: SEM-TERRA
291
Vinheta/Chapéu: O QUE PLANEJAM
Assuntos Principais: SEM-TERRA; VIOLÊNCIA
Governo se diz preocupado com ações violentas
da Reportagem Local
Para o governo federal, as tragédias de Eldorado do Carajás (PA) e de Buriticupu
(MA) são um marco na questão agrária. Juntas, somaram 23 mortes. Na primeira, 19
sem-terra foram trucidados. Na outra, eles são acusados de três assassinatos.
''Os episódios do Pará e do Maranhão deixaram terríveis lições. Mas sou otimista em
achar que as pessoas (governo, sem-terra, clero e fazendeiros) não serão insensíveis'', diz
o chefe de gabinete do Ministério da Justiça, José Gregori.
Incumbido pelo presidente de manter abertos os canais de negociação com as lideranças
sem-terra, a igreja e os partidos, Gregori complementa, nos bastidores, a missão pública
de negociação do ministro Raul Jungmann (Política Fundiária).
Segundo ele, o governo está especialmente preocupado com os rumos dos movimentos de
sem-terra depois da morte de três funcionários da fazenda Cikel, no Maranhão.
Violência
Até agora, os movimentos de invasão de terra criavam situações de embaraço para o
governo, mas nunca tinham tido a iniciativa da violência.
''O assassinato dos funcionários aumentou muito a preocupação do governo'', afirma
Gregori. ''Porque de duas, uma: ou as lideranças mudaram de procedimento e passaram a
adotar táticas violentas, ou foram superadas por novas lideranças, ainda não
identificadas'', diz.
Para o chefe de gabinete do Ministério da Justiça, ainda não é possível chegar a uma
conclusão sobre qual das duas hipóteses é a correta.
''Por ora é cedo. O próprio Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ( MST )
não é uma unidade. É um arquipélago de tendências. Aquela que tinha mais nitidez é a
que tinha raiz na Igreja Católica e que, portanto, era adepta da não-violência.''
Segundo o Datafolha, o maior índice de sem-terra que defendem a luta armada pela posse
da terra está no acampamento do sul do Pará, no acampamento Macaxeira. Próximo ao
local onde ocorreu o massacre de Eldorado do Carajás , o acampamento tem o
maior percentual de sem-terra que já enfrentaram a polícia.
Na opinião de Gregori, isso é localizado. ''Lá, a coisa foi vivida em cores de tragédia, e é
natural que as pessoas tenham uma visão mais quente do problema'', avalia.
Toda a argumentação do auxiliar de FHC visa acalmar os ânimos. ''O slogan 'na lei ou na
marra' é o melhor jeito de inviabilizar tudo. O caso do Maranhão é um prenúncio de
ressurgimento da 'marra', da violência'', diz.
Ele têm dito às lideranças sem-terra que as categorias que mais conseguiram avanços
foram as que não apelaram à ''marra''.
''No Brasil, se consegue muito mais por negociação do que por violência. Sempre quem
recorreu à 'marra' inviabilizou sua reivindicação'', afirma Gregori.
(JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO)
Grupo invade 2 fazendas
25/06/96
292
Origem do texto: Da Agência Folha; Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: São Paulo Jun 25, 1996
Assuntos Principais: SEM-TERRA; INVASÃO DE TERRAS; ASSENTAMENTO
RURAL; REFORMA AGRÁRIA; MASSACRE ; PARÁ
Grupo invade 2 fazendas
da Agência Folha e da Sucursal de Brasília
Duas fazendas foram invadidas no final da última semana por cerca de 270 pessoas em
João Lisboa (637 km a sudoeste de São Luís-MA).
Segundo a Polícia Federal, pelo menos 80 invasores estariam ''fortemente armados''.
Não houve confronto com funcionários das fazendas. O MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) disse desconhecer as invasões.
Segundo o superintendente da PF do Maranhão, Sidney Lemos, a situação na área é
tensa, e fazendeiros estariam se armando com medo de novas invasões. ''Se não houver
uma providência do governo, a situação pode se complicar'', afirmou Lemos.
A PF suspeita que homicidas foragidos da polícia estejam liderando os invasores. A
polícia não esteve no local até ontem.
As fazendas invadidas, Pingo de Ouro e Cavalcante, ficam a cerca de 50 km da cidade. A
área é considerada produtiva.
Massacre
O STJ (Superior Tribunal de Justiça) recebeu ontem cópia da denúncia em que o
Ministério Público do Pará responsabiliza o coronel da PM Mário Pantoja e 144 policiais
pelo massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA).
O documento foi apresentado inicialmente à Justiça Militar do Estado. O Ministério
Público isentou o governador Almir Gabriel de responsabilidade sobre as mortes.
Desapropriações
O presidente interino, Marco Maciel, assinou ontem cinco decretos de desapropriação de
terras para fins de reforma agrária. As áreas, no total de 9.359 hectares, ficam em Minas
Gerais, Goiás e Mato Grosso.
Segundo dados do Incra, as terras servirão para assentar 280 famílias.
Itamaraty
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) criou ontem duas comissões técnicas para
avaliar a fazenda Itamaraty (MT), do empresário Olacyr de Moraes.
A venda da fazenda foi oferecida pelo empresário para o assentamento de 10 mil
famílias.
Julgamento pode ser adiado para 2003
23/06/96
Origem do texto: Do enviado especial a Marabá e Belém
Editoria: BRASIL Página: 1-8
Edição: Nacional Jun 23, 1996
293
Legenda Foto: O juiz Flávio Roberto Soares de Oliveira, no plenário da Justiça Militar do
Pará, com materiais recolhidos após o conflito em Eldorado de Carajás ; Perito do
Instituto de Criminalística de Belém pega fuzil usado por policial militar no massacre
de Eldorado de Carajás , ocorrido em abril
Crédito Foto: Juca Varella/Folha Imagem
Primeira: Chamada
Vinheta/Chapéu: MASSACRE
Selo: TEMPO REAL IMPUNIDADE
Assuntos Principais: JUSTIÇA; IRREGULARIDADE; INVESTIGAÇÃO;
MASSACRE ; SEM-TERRA; ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
Inquéritos sobre responsáveis pelas mortes de sem-terra no Pará têm falhas que
comprometem apuração
Julgamento pode ser adiado para 2003
LUCAS FIGUEIREDO
enviado especial a Marabá e Belém
Apuração realizada pela Folha detectou vários tropeços nos inquéritos _militar e civil_
abertos para apurar o massacre de Eldorado do Carajás (leste do Pará). As falhas
comprometem a apuração das mortes de 19 sem-terra.
O massacre ocorreu em 17 de abril, há dois meses e cinco dias, durante confronto
entre os sem-terra e 155 policiais militares do Pará.
Autoridades das esferas federal e estadual prometeram empenho nas apurações. O
presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a dizer, enfático: ''Que ponham na cadeia,
e já, o responsável, ou ninguém mais vai acreditar neste país.''
São cada vez menores as perspectivas de punição.Responsável pelo caso, o juiz Flávio
Roberto Soares de Oliveira disse considerar ''razoável'' a hipótese de que o julgamento só
ocorra no ano 2003.
Samir Tadeu Dahás, um dos promotores, reconhece a dificuldade de punição: ''A situação
não é fácil. Crimes coletivos são de difícil solução''.
Para elaborar esta reportagem, a Folha teve acesso a documentos dos inquéritos civil e
militar, além de relatório confidencial com os resultados de investigação feita pela Polícia
Federal.
Veja a seguir relação de 12 tropeços e manobras que prejudicam a elucidação do caso:
1 - A pressa da PM
O IPM (inquérito policial militar) dispôs de estrutura precária. Apenas um computador,
um escrivão e um coordenador. A investigação deveria durar pelo menos um mês, prazo
prorrogável por lei. Mas só durou 20 dias. Apenas 51 dos 155 PMs envolvidos na
operação foram ouvidos no IPM. Nenhum dos policiais que prestaram depoimento foi
chamado a depor novamente, embora fatos novos tenham sido descobertos durante as
investigações.
2 - Fora da cartilha
Não foram feitos exames para detectar resíduos de pólvora nas mãos dos PMs. Os
resultados poderiam indicar quais policiais atiraram, eliminando-se a necessidade de
aprofundar as investigações em relação àqueles que não o fizeram. Também não foram
realizados exames nas roupas dos PMs, para identificar possíveis resíduos de sangue. O
294
tipo de sangue poderia ser comparado com o dos sem-terra mortos. Tais procedimentos
compõem o bê-a-bá de uma investigação policial.
3 - Balas perdidas
É rudimentar a infra-estrutura à disposição dos peritos da Polícia Civil encarregados de
fazer exames nas armas utilizadas na operação. O exame consiste em disparar as armas
novamente e comparar os projéteis com as balas encontradas nos corpos dos sem-terra
mortos. A perícia iniciou os testes atirando em uma piscina pouco profunda. As balas
acabaram batendo no fundo da piscina, comprometendo o resultado. O trabalho só foi
concluído quando foram utilizadas caixas apropriadas para receber os tiros sem danificar
as balas. Agora, as balas estão sendo examinadas em um único microcomparador,
fabricado em 1963, na Alemanha. O microcomparador é um aparelho usado nos exames
de balística. Trata-se de uma espécie de microscópio, utilizado para comparar duas balas,
definindo se saíram de uma mesma arma. Há aparelhos muito mais modernos, entre eles
o microcomparador da marca Wild Litz, fabricado no início da década de 90 e usado pelo
Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília. Por tudo isso, os advogados de defesa
podem arguir a fragilidade dos exames. Há, de resto, um problema adicional. Antes da
operação, a PM de Parauapebas não preencheu os documentos utilizados para identificar
os usuários das armas. Portanto, mesmo que se descubra que uma determinada arma da
PM foi utilizada para matar algum sem-terra, será impossível dizer quem puxou o gatilho.
4 - Informação ignorada
A Polícia Federal recebeu denúncia, em carta manuscrita, sobre suposta participação no
episódio de um soldado chamado França. A carta não trazia o nome completo do soldado,
mas anotava o seu endereço. Não se tratava de denúncia anônima. O documento estava
assinado e seu autor devidamente identificado. A Folha deixa de mencionar seu nome
para não expô-lo a riscos. De acordo com a denúncia, o soldado França teria
''transportado cadáveres de crianças, mulheres e homens e escondido em local
determinado pelo comandante da PM de Parauapebas'', coronel José Maria Oliveira. A
denúncia diz mais: ''Algumas pessoas estavam ainda agonizando e foram mortas''. A carta
anotava que França mandou lavar a camionete que transportou os corpos em ''lavatório do
bairro Rio Verde'' e que o veículo tinha resíduos de ''sangue e miolos humanos''. Ouvido
pela PF, funcionário do posto confirmou que havia lavado camionete da PM suja de
sangue. Contactado, França negou ter presenciado execuções, mas confirmou ter
transportado mortos. As informações foram ignoradas nas investigações, conduzidas pelo
Ministério Público e pelas polícias Civil e Militar. A apuração feita pela PF não serve de
subsídio para o processo. Trata-se de apuração paralela, chamada oficialmente de IPP
(Investigação Policial Preliminar).
5 -De braços cruzados
Em suas investigações preliminares, a PF chegou a avançar mais do que o Ministério
Público e a Polícia Civil em alguns pontos. No entanto, seu envolvimento definitivo no
caso só faria sentido se fosse para apurar o grau de participação na operação do
governador do Pará, Almir Gabriel, do secretário de Segurança do Pará, Paulo Sette
Câmara, e do comandante-geral da PM, Fabiano Diniz Lopes. Se acionada, a PF abriria
inquérito formal. O Superior Tribunal de Justiça, porém, até hoje não se pronunciou sobre
pedido feito há um mês pela Procuradoria Geral da República para abertura de inquérito
na PF.
6 - Vistas grossas
295
A sem-terra Maria Áurea Rocha, 29, afirmou em depoimento ter visto quatro soldados
prenderem durante o conflito o sem-terra Oziel Alves Pereira, que depois apareceu morto.
Ela identifica dois dos quatro PMs: Carlos Cesar Pinho e Raimundo Pargas dos Santos. E
afirma que, tendo trabalhado em uma pensão utilizada por PMs da região, tem condições
de reconhecer outro policial ''baixinho e gordinho'', que também teria participado da
prisão de Oziel.Não houve acareações nem reconhecimento por meio de fotos. Os PMs
também não foram questionados sobre o fato no IPM.
7 - Espionagem inútil
Relatório confidencial da Polícia Federal, ao qual a Folha teve acesso, informa que a PM
infiltrou dois militares entre os sem-terra. Diz ainda que um dos oficiais, identificado
apenas como capitão Figueiredo, estava responsável pelo serviço de inteligência na área
desde setembro do ano passado. Os militares não foram chamados a depor sobre os
objetivos e as consequências dos trabalhos de informação.
8 - Corpos removidos
Tecnicamente, só é possível apontar as armas que foram usadas para atirar contra 7 dos
19 sem-terra mortos. Isso porque outros 12 sem-terra, embora mortos por armas de fogo,
não traziam balas alojadas no corpo. Ou seja, as balas atingiram seus corpos e saíram.
Para saber quais as armas que os atingiram, seria preciso fazer exame de balística, o que
só teria sido possível tendo como base a posição dos corpos em relação às balas
encontradas no local do massacre . Como os corpos foram removidos antes da chegada
da perícia, desrespeitando a conduta legal, não se pode determinar que armas atingiram
12 dos 19 sem-terra. Além disso, torna-se impossível a reconstituição fiel da cena da
chacina.
9 - Ajudando a defesa
As testemunhas ouvidas não puderam fazer reconhecimento fotográfico dos PMs que
participaram da operação. Também não houve acareações entre sem-terra e policiais. O
fato abre brecha para, no julgamento, a defesa alegar que, com o passar do tempo, as
testemunhas podem não ter certeza sobre quais policiais atiraram.
10 - Testemunhas do medo
A Polícia Federal deixou de providenciar segurança para duas testemunhas importantes.
Uma delas é Pedro Alípio, 44, motorista do ônibus que transportou os militares após o
massacre e que disse ter ouvido o comandante da operação, coronel Mário Pantoja,
dizer ''missão cumprida, ninguém viu nada''. Alípio também afirmou que, após o
massacre , caminhão com os mortos seguiu em direção a Marabá, contrapondo versão da
PM de que os mortos foram levados diretamente para o hospital de Curionópolis, que fica
no sentido oposto. A Polícia Civil pediu à PF que fizesse a segurança de Alípio, dizendo
que ele havia feito ''graves denúncias''. Com medo, Alípio desapareceu. Outra testemunha
importante que não teve segurança foi a sem-terra Maria Áurea Rocha, 29. Ela diz
reconhecer PMs que prenderam o sem-terra Oziel Alves Pereira, que depois apareceu
morto. Maria Áurea foi tirada da região pelo MST , temendo represálias. A PF deu
segurança a uma única testemunha: Ricardo Marcondes de Oliveira, que denunciou
suposta ''caixinha'' de R$ 100 mil, feita por fazendeiros da região, para que a PM matasse
os sem-terra. No entanto, a própria PF acredita que a testemunha possa estar mentindo.
11 - Bola dividida
O Ministério Público entrou ''rachado'' nas apurações. Por divergências internas, o
promotor Gilberto Valente se afastou do caso. Sua substituição, no meio das
296
investigações, acabou prejudicando os trabalhos, hoje entregues a duas pessoas: Samir
Tadeu Dahás e Sávio Rui Brabo.
12 -Denúncia vazia
O Ministério Público ofereceu denúncia genérica contra os 155 PMs que participaram da
operação, dizendo-se impossibilitado até agora de ''individualizar a conduta de cada um''.
O fato foi comemorado pelos advogados dos militares, já que a lei determina que o réu
seja inocentado quando há dúvidas sobre a autoria do crime.
'Inteligência' da PM agia desde setembro
23/06/96
Autor: LUCAS FIGUEIREDO
Origem do texto: Do Enviado Especial
Editoria: BRASIL Página: 1-9
Edição: Nacional Jun 23, 1996
Legenda Foto: Sem-terra participam do enterro dos mortos em Eldorado de Carajás
durante conflito com a Polícia Militar
Crédito Foto: Jorge Araújo - 26.abr.96/Folha Imagem
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: JUSTIÇA; IRREGULARIDADE; INVESTIGAÇÃO; VIOLÊNCIA
POLICIAL; MASSACRE ; SEM-TERRA; ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
'Inteligência' da PM agia desde setembro
do enviado especial
A Polícia Militar do Pará tinha total conhecimento dos planos dos sem-terra antes do
massacre de Eldorado de Carajás . Havia agentes da polícia infiltrados entre os
sem-terra acampados na fazenda Macaxeira, localizada a 11 km de Curionópolis, leste do
Estado.
Com a ajuda da prefeitura local, um oficial comandava o ''serviço de inteligência'' da PM
na região desde setembro do ano passado.
As informações constam de um relatório reservado da PF (Polícia Federal), de 136
páginas, sobre o massacre de Eldorado do Carajás . A Folha teve acesso a esse
documento.
O relatório anota que, com a função de acompanhar o movimento dos sem-terra, ''o
capitão Figueiredo estava em Curionópolis em operação de informações desde setembro
de 95''. O oficial é identificado apenas pelo sobrenome.
Secretário
Ainda de acordo com o relatório, o militar tinha ''auxílio da prefeitura da cidade, na
pessoa do secretário da Administração, sr. Aquino''_ o nome correto do secretário,
segundo apurou a Folha é Aquilino Sanches.
Aquilino diz: ''De fato aqui esteve um capitão Figueiredo. Ele procurava a prefeitura
como qualquer outro cidadão, para usar o telefone''. O secretário nega que tenha dado
assistência ao militar, cujo nome completo diz desconhecer.
''Consta que o capitão usava (sic) dos militares infiltrados no acampamento do MST '',
descreve a PF. De acordo com o relatório, o capitão Figueiredo teria ''saído de
297
Curionópolis após o conflito''.
O documento conclui que o comando da PM tinha ''completo conhecimento da situação,
inclusive da disposição de enfrentamento por parte de integrantes do MST ''.
(LF)
Desapropriada área de conflito no PA
22/06/96
Autor: ABNOR GONDIM
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-4
Edição: São Paulo Jun 22, 1996
Primeira: Chamada
Vinheta/Chapéu: REFORMA AGRÁRIA
Assuntos Principais: REFORMA AGRÁRIA; DESAPROPRIAÇÃO;
ASSENTAMENTO RURAL; SEM-TERRA; DECRETO; PRESIDENTE
Fazenda incluída em decretos de FHC originou massacre de sem-terra
Desapropriada área de conflito no PA
ABNOR GONDIM
da Sucursal de Brasília
O presidente Fernando Henrique Cardoso assinou decreto de desapropriação da fazenda
Macaxeira (PA). A área foi reivindicada pelos sem-terra mortos em abril pela PM em
Eldorado do Carajás .
Com 5.921 hectares, a fazenda Macaxeira foi considerada improdutiva por um novo
laudo técnico.
Os funcionários responsáveis pelo laudo anterior poderão ser demitidos. Eles são
acusados de aumentar a pastagem da fazenda e omitir informações sobre reservas
florestais.
Outras seis fazendas foram também desapropriadas ontem pelo presidente. Elas integram
a lista de 21 decretos enviados anteontem pelo ministro Raul Jungmann (Política
Fundiária) ao presidente.
Ao todo, o pacote de desapropriações enviado por Jungmann envolve 21 áreas, com
31.680 hectares. Nelas é previsto o assentamento de 1.293 famílias.
MST e Contag
O novo pacote de desapropriações inclui áreas reivindicadas na Bahia e em Minas Gerais
pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e a Contag
(Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura).
As desapropriações na Bahia foram negociadas com o MST depois da ocupação do
Incra em Salvador, onde servidores viraram reféns.
Na Bahia, serão consideradas como áreas de interesse social para fins de reforma agrária
seis fazendas _Congresso, Arco-Íris e Horizonte 1, 2, 3 e 4.
No caso de Minas Gerais, três áreas beneficiam agricultores organizados por sindicatos
ligados à Contag na fazenda Frei Leopoldo.
298
Outra área de conflito encaminhada por Jungmann foi a fazenda Cigano, no município de
Água Fria (GO), a 40 km de Brasília.
Nessa área, a disputa do controle do acampamento por sindicalistas e militantes do
MST redundou na morte de um agricultor na semana passada.
Meta
O presidente da Contag, Francisco Urbano, afirmou que o governo já atendeu a 43 das 84
áreas apresentadas ao governo como prioritárias para desapropriação.
Mas ele prevê que o novo ministério não terá condições de atingir a meta prevista para
este ano, com o assentamento de 60 mil famílias.
''O governo poderá, no máximo, atingir essa meta em termos de áreas desapropriadas,
mas sem o assentamento concluído'', disse.
Desde a posse de Raul Jungmann, no dia 30 de junho, o governo já desapropriou 427.937
hectares para assentar 11.340 famílias.
MST faz ato contra massacre em Belém; Ex-presidente do BB pode ser
denunciado; Cresce a participação do governo no banco; Ministro promete rigor
nas novas concessões; Banco de Brasília quer comprar Bemat; Índios invadem posto
da Funai em Rondônia
18/06/96
Editoria: BRASIL Página: 1-11
Edição: São Paulo Jun 18, 1996
Seção: COLUNÃO
MST faz ato contra massacre em Belém
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) realizou às 20h de ontem
uma passeata em Belém em protesto pelos dois meses do massacre de Eldorado do
Carajás . Cerca de 500 manifestantes, segundo os organizadores, caminharam da
Basílica de Nazaré até a praça da República, onde foi feito um ato ecumênico.
Ex-presidente do BB pode ser denunciado
A assembléia de acionistas do Banco do Brasil aprovou ontem proposta de envio ao
Ministério Público de denúncia contra Lafaiete Coutinho, que presidiu o BB no governo
Collor. Coutinho teria autorizado empréstimo de R$ 16,7 milhões, com garantias
insuficientes. Procurado na casa e no escritório, Coutinho não foi localizado.
Cresce a participação do governo no banco
A participação do governo federal no capital do Banco do Brasil passou de 29,7% para
76,1%, segundo números divulgados ontem pelo BB. O capital do banco é de R$ 16,3
bilhões. O Tesouro Nacional passou a controlar 72,7% das ações _o percentual anterior
era 29%. Já o BNDES aumentou sua participação de 0,7% para 3,4%.
Ministro promete rigor nas novas concessões
O ministro Raimundo Brito (Minas e Energia) disse que será rigoroso com as 61
299
concessionárias de energia elétrica, caso queiram renovar as concessões por um novo
período de 20 anos. Será exigido o redesenho de toda área de concessões onde atuam. O
prazo termina em 8 de julho.
Banco de Brasília quer comprar Bemat
O BRB (Banco de Brasília S/A) pretende comprar o Bemat (Banco do Estado do Mato
Grosso) e criar uma instituição financeira para gerenciar os recursos da região Centro-
Oeste. O presidente do BRB, Luiz Fernando Victor, disse que vai solicitar recursos do
Proer para comprar o Bemat.
Índios invadem posto da Funai em Rondônia
Cerca de 150 índios invadiram a sede da Funai em Vilhena (RO), na quinta-feira. Os
índios, que protestavam contra o descaso da Funai em relação a suas aldeias, deixaram a
fundação sábado à tarde.
Governo do PA e Incra acusam MST por massacre
22/05/96
Autor: ARI CIPOLA
Origem do texto: Da Agência Folha, em Belém
Editoria: BRASIL Página: 1-9
Edição: Nacional May 22, 1996
Observações: COM SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: ELDORADO DO CARAJÁS
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; ASSASSINATO; SEM-TERRA; ELDORADO
DO CARAJÁS /PA/; INCRA; GOVERNO ESTADUAL; PARÁ /ESTADO/; MST
Governo do PA e Incra acusam MST por massacre
ARI CIPOLA
da Agência Folha, em Belém
Depois de 34 dias sendo responsabilizados pelo massacre de Eldorado do
Carajás (PA), o Incra e o governo do Pará partiram para o contra-ataque e acusam o
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) pelas 19 mortes.
O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e o governo paraense
defendem a tese de que o massacre poderia ter sido evitado caso o MST não fosse
''intransigente'' e tivesse aceito, três meses antes do conflito, seus programas conjuntos de
assentamento de 1.780 famílias, no leste do Pará, até o final do ano.
Pelo programa oficial, obtido pela Agência Folha, o governo prometia assentar 1.030
famílias até julho deste ano.
Parte dessas famílias seria assentada na Tuerê, em Novo Repartimento (280 km de
Parauapebas), uma fazenda de 200 mil hectares do governo federal com terras
agricultáveis, segundo o Incra.
Foram quatro rodadas de negociações do governo com o MST , sempre lideradas pelo
ex-presidente do Incra Francisco Graziano. Em todas elas, as lideranças do MST
alegavam que não iriam para a fazenda Tuerê porque lá havia foco de malária e só se
300
chega na fazenda a pé ou de avião.
O documento previa a reconstrução de 80 quilômetros de estradas para viabilizar o acesso
das famílias e o escoamento da produção. As famílias estão acampadas em Curionópolis,
município que de janeiro a março deste ano registrou 586 casos de malária, contra 374
casos em Novo Repartimento, onde fica a fazenda Tuerê, segundo a Secretaria de Saúde
do Pará.
''Nós não podemos mais ficar calados. O MST queria o confronto e necessitava ter
uma vítima. Teve 19 vítimas por sua intransigência e objetivos ideológicos'', disse
Ronaldo Barata, presidente do Iterpa (Instituto de Terras do Pará).
Outro lado
O principal líder dos sem-terra da região, Onacílio Barros, disse que o governo federal
queria ''acabar'' com a organização do MST ao propor a transferência das famílias.
Segundo ele, a intenção era ''esconder os sem-terra organizados da sociedade'' em uma
fazenda distante -a Tuerê.
Eldorado da impunidade
21/05/96
Autor: LUIZ EDUARDO GREENHALGH; ATON FON FILHO
Editoria: OPINIÃO Página: 1-3
Edição: Nacional May 21, 1996
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Arte: ILUSTRAÇÃO: ORLANDO
Observações: PÉ BIOGRÁFICO
Eldorado da impunidade
Autoridades policiais e promotores deixaram de realizar diligências essenciais para a
apuração da verdade
LUIZ EDUARDO GREENHALGH
e ATON FON FILHO
O desempenho das autoridades na investigação do massacre de Eldorado do
Carajás mostra que o caso tende a se somar à lista de impunidades que acoberta os
crimes contra os sem-terra.
Mais uma vez a investigação ficou a cargo de colegas de corporação dos policiais
militares criminosos _resultado da lei que determina que crimes cometidos por policiais
militares sejam investigados e julgados pela Justiça Militar.
A Justiça Militar do Pará negou a prisão preventiva do coronel Mário Pantoja,
comandante do destacamento de Marabá, requerida por um promotor. Após ser
desautorizado pelo procurador-geral da Justiça do Pará, que ainda pediu à Justiça que
negasse a preventiva, o promotor foi afastado.
O governador do Pará, Almir Gabriel, ordenou a prisão domiciliar de Pantoja. Explorado
como indicativo da disposição de punir, esse fato, na verdade, fez com que o IPM tivesse
prazo de 20 dias para ser concluído, como manda a lei penal militar, ''se o indiciado
estiver preso''.
Não fosse a intervenção do legista Nelson Massini, enviado pela Comissão de Direitos
301
Humanos da Câmara, até os autos de exames periciais teriam sido distorcidos, dando os
sem-terra como mortos em situação de conflito. O laudo de Massini indicou com exatidão
os ferimentos sofridos pelos lavradores, caracterizando o fato como execução de pessoas
já subjugadas e submetidas à autoridade policial.
Antes do massacre , o major José Maria Oliveira, comandante de Parauapebas, tomou
o cuidado de determinar que as armas fossem fornecidas sem qualquer registro. Embora o
armamento saído de Marabá tenha sido relacionado (feitas as cautelas, na linguagem
militar), esse registro não foi enviado, junto com as armas, a Parauapebas. O advogado do
MST , Carlos Amaral Júnior, localizou as cautelas ''desaparecidas'' entre papéis do
coronel Vieira, que presidiu o IPM. As cautelas permitiriam relacionar as armas com os
policiais criminosos.
As autoridades policiais e os promotores deixaram de realizar diligências essenciais para
a apuração da verdade e a identificação dos autores. Não se fez colheita de material para
o necessário exame de verificação de resíduos de pólvora nas mãos dos policiais.
Isso, somado à inexistência das cautelas de Parauapebas, impede, pela prova técnica,
determinar quem atirou, fato que se agrava quando o próprio IML do Pará afirma que
cerca de 4% das armas apresentadas para exame não teriam sido utilizadas.
Os laudos permitem avaliar que muitos lavradores foram mortos com golpes de foice,
enxada e facão, mas não foram recolhidos os fardamentos dos policiais para que se
apurasse a existência de vestígios de sangue, indicando os possíveis autores dos crimes
pelo exame do tipo sanguíneo.
Se a perícia do local do crime foi recusada, sob pretexto de que já teria sido
descaracterizado pelo socorro prestado aos feridos e pela remoção dos mortos
_providenciada, aliás, pelos próprios policiais_, a reconstituição do crime foi negada pelo
presidente do IPM porque ''redundaria em gastos excessivos''.
Os peritos judiciais, que não fizeram exames de comprovação de resíduos de pólvora nas
mãos dos assassinos, produziram laudos de que as vítimas realizaram disparos de arma de
fogo. Embora seja evidente a possibilidade de que os resíduos de pólvora tenham
aparecido nas mãos das vítimas posteriormente. Daqui a pouco, é capaz que a culpa da
chacina recaia sobre os próprios mortos.
Mais: embora os policiais militares não portassem identificação nas fardas, poderiam ser
facilmente reconhecidos. Os advogados do MST lutaram pela requisição dos
prontuários dos policiais para a elaboração de álbum fotográfico que possibilitasse o
reconhecimento. Em vão. Nem acareações, nem reconhecimento.
Fica claro que, permanecendo em mãos da PM a condução das investigações e da Justiça
Militar paraense a competência para julgamento dos envolvidos no massacre de
Eldorado , fatalmente permanecerão impunes os criminosos e se aprofundará a
descrença na Justiça e na possibilidade de solução democrática dos conflitos.
Luiz Eduardo Greenhalgh, 48, é coordenador jurídico do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) e membro do diretório nacional do PT. Foi vice-
prefeito de São Paulo (administração Luiza Erundina).
Aton Fon Filho, 48, é advogado do MST .
Sem-terra invadem fazendas no Pará, Mato Grosso e Bahia
302
14/05/96
Origem do texto: da Agência Folha, em Parauapebas e Salvador
Editoria: BRASIL Página: 1-8
Edição: Nacional May 14, 1996
Vinheta/Chapéu: QUESTÃO AGRÁRIA
Assuntos Principais: SEM-TERRA; INVASÃO; PARÁ; MATO GROSSO; BAHIA
Trabalhadores ocupam terras em Parauapebas
Sem-terra invadem fazendas no Pará, Mato Grosso e Bahia
da Agência Folha, em Parauapebas e Salvador
Cinquenta sem-terra iniciaram ontem invasão da fazenda Três Voltas (a 50 km de
Parauapebas, PA). O objetivo do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) era reunir, até a noite de ontem, 400 famílias.
As famílias seriam transportadas em caminhões, por estradas vicinais, para evitar o
confronto com a Polícia Militar.
As famílias que invadiriam a Três Voltas estão acampadas na fazenda Palmares, ocupada
por 850 famílias desde o dia 15 de maio de 95. Até o final da tarde, as PMs de
Parauapebas e Marabá ainda não sabiam da invasão.
A invasão faz parte de um conjunto de ações que os sem-terra programaram para esta
semana na região. O massacre de Eldorado do Carajás fará 30 dias na sexta-
feira.
Mato Grosso e Bahia
Cerca de 200 sem-terra invadiram ontem a fazenda Carimã, em Rondonópolis (MT). Os
invasores são integrantes do Movimento dos Sem-terra da Região Sul do Mato Grosso,
grupo dissidente do MST .
O diretor-adjunto do Incra-MT, Orimar Ferreira de Souza, afirmou que a fazenda Carimã,
de 6.000 hectares, está em processo de desapropriação.
Na Bahia, cerca de 300 famílias ocuparam a fazenda Capianga, em Entre Rios (134 km
de Salvador).
Essa foi a segunda ocupação em menos de um mês da fazenda Capianga pelos sem-terra.
Sem-terra invadem fazendas no Pará, Mato Grosso e Bahia
14/05/96
Origem do texto: da Agência Folha, em Parauapebas e Salvador
Editoria: BRASIL Página: 1-8
Edição: São Paulo May 14, 1996
Vinheta/Chapéu: QUESTÃO AGRÁRIA
Selo: MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: SEM-TERRA; INVASÃO; PARÁ; MATO GORSSO; BAHIA
303
Trabalhadores ocupam terras em Parauapebas
Sem-terra invadem fazendas no Pará, Mato Grosso e Bahia
da Agência Folha, em Parauapebas e Salvador
Cinquenta sem-terra iniciaram ontem invasão da fazenda Três Voltas (a 50 km de
Parauapebas, PA). O objetivo do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) era reunir, até a noite de ontem, 400 famílias.
As famílias seriam transportadas em caminhões, por estradas vicinais, para evitar o
confronto com a Polícia Militar.
As famílias que invadiriam a Três Voltas estão acampadas na fazenda Palmares, ocupada
por 850 famílias desde o dia 15 de maio de 95. Até o final da tarde, as PMs de
Parauapebas e Marabá ainda não sabiam da invasão.
A invasão faz parte de um conjunto de ações que os sem-terra programaram para esta
semana na região. O massacre de Eldorado do Carajás fará 30 dias na sexta-
feira.
Mato Grosso e Bahia
Cerca de 200 sem-terra invadiram ontem a fazenda Carimã, em Rondonópolis (MT). Os
invasores são integrantes do Movimento dos Sem-terra da Região Sul do Mato Grosso,
grupo dissidente do MST .
Na Bahia, cerca de 300 famílias ocuparam a fazenda Capianga, em Entre Rios (134 km
de Salvador).
Garimpeiros
Agentes da Polícia Federal do Pará vão hoje para Serra Pelada, em Curionópolis, com a
missão de fazer com que 15 sondas da Companhia Vale do Rio Doce voltem a funcionar.
Garimpeiros estão obstruindo o trabalho da empresa.
Laudo aponta uso de arma por sem-terra
10/05/96
Autor: ESTANISLAU MARIA; IRINEU MACHADO
Origem do texto: Da Agência Folha, em Belém; Da Agência Folha, em Marabá
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: São Paulo May 10, 1996
Primeira: Chamada
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: CHACINA
Selo: MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; CONFLITO; SEM-TERRA; ASSASSINATO;
ELDORADO DO CARAJÁS /PA/; LAUDO; NECROPSIA; ARMA
Exames revelam resíduos de pólvora em 5 dos 19 trabalhadores assassinados em
Eldorado do Carajás em abril
Laudo aponta uso de arma por sem-terra
ESTANISLAU MARIA
304
da Agência Folha, em Belém
Os laudos das necropsias nos 19 sem-terra mortos no massacre de Eldorado do
Carajás (PA) apontam que cinco dos mortos dispararam armas de fogo.
O teste de resíduo de pólvora por disparo de revólver na mão deu positivo inclusive para
Oziel Alves Pereira, 18, líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra morto
com quatro tiros.
''Não contestamos os laudos, mas as condições do massacre '', disse à Agência Folha
Gustavo Filho, líder do MST .
''Há testemunhas que viram o Oziel ser arrastado do barraco e morto pelos policiais. Eles
(os policiais) podem ter disparado uma arma na mão dele depois de morto'', disse
Gustavo Filho.
Pescoço e cabeça, com 12 tiros, foram os alvos principais dos PMs. Com 11 tiros, tórax e
abdômen vêm em seguida. Dos 37 tiros que os 19 mortos receberam, apenas 3 foram nas
pernas.
''É claro. Legítima defesa não tem mira. Você vai se defender como der, e foi o que os
policiais fizeram depois de atacados por aqueles desordeiros'', disse Abdoral Lopes,
advogado dos PMs.
O advogado e o líder dos sem-terra preferiram não comentar mais detalhadamente os
laudos, que ainda não tinham visto.
As necropsias seriam divulgadas ontem às 10h, mas, às 23h de anteontem, o coronel João
Paulo Vieira, presidente do IPM (Inquérito Policial Militar), mandou buscar os laudos na
Polícia Técnica.
Havia cópias para o secretário de Segurança, Paulo Sette Câmara, e para o Ministério
Público, mas até as 19h de ontem, segundo suas assessorias, as cópias não tinham sido
enviadas.
Os laudos, aos quais a Agência Folha teve acesso, mostram que houve três tiros à
queima-roupa. Um deles atravessou a cabeça de José Ribamar Alves de Souza, 22.
''Os sem-terra atacaram, e os policiais apenas reagiram. Alguns sem-terra talvez tomaram
tiros pelas costas quando fugiram da reação'', disse o advogado Lopes.
Róbson Vítor Sobrinho, 25, tomou outros dois tiros à queima-roupa e pelas costas.
Quatro mortes foram causadas por armas brancas. Dois sem-terra morreram com cortes
profundos no pulmão e coração, um teve esmagamento de crânio, e outro teve a artéria
femural cortada.
Dois sem-terra levaram quatro tiros _o máximo encontrado_, e três morreram com um
tiro, sendo dois no coração e um de fuzil à longa distância na testa.
Vieira disse que entregaria ontem às 23h30 o relatório final do inquérito ao comandante-
geral da PM, coronel Fabiano Lopes.
Criança
Uma fita cassete com o depoimento de uma mulher que diz ter visto uma criança de três
anos morta no conflito foi entregue anteontem pelo padre Luiz Muraro, 57, ao promotor
público José Luiz Furtado, 40.
Colaborou IRINEU MACHADO, da Agência Folha, em Marabá
Polícia retira 1.800 famílias de sem-teto
305
08/05/96
Autor: CLAUDIA VARELLA
Origem do texto: Da Agência Folha, no ABCD
Editoria: COTIDIANO Página: 3-5
Edição: São Paulo May 8, 1996
Legenda Foto: A moradora Bernardina da Silva ateia fogo em barraco que, segundo ela,
havia acabado de construir, em área na região do ABCD (Grande SP)
Crédito Foto: Rogério Assis/Folha Imagem
Primeira: Chamada
Vinheta/Chapéu: HABITAÇÃO
Assuntos Principais: JUSTIÇA; TERRENO; DESOCUPAÇÃO; SANTO ANDRÉ /SP/;
PROTESTO
Capitão diz que PMs só usavam cassetetes para não repetir massacre no Pará; morador
põe fogo em barraco
Polícia retira 1.800 famílias de sem-teto
CLAUDIA VARELLA
da Agência Folha, no ABCD
Cerca de 250 PMs, acompanhados de dez oficiais de Justiça, iniciaram ontem a maior
operação deste ano de desocupação de uma área na região do ABCD (Grande SP).
Estavam no local, antes do início da desocupação, 1.800 famílias (cerca de 7.200
pessoas). Foram retiradas ontem 22 famílias.
O comandante da operação, capitão José Farina Quessada, disse que os PMs só estavam
armados com cassetetes ''para não acontecer em Santo André o mesmo que aconteceu no
Pará'', referindo-se ao massacre de 19 sem-terra em conflito com a PM em
Eldorado do Carajás . Segundo ele, só 46 sargentos e oficiais tinham revólver.
A área fica num terreno na avenida do Estado, no Jardim Alzira Franco. O Núcleo
Residencial Guaratinguetá é uma área particular com 209 mil metros quadrados. A área
foi ocupada há oito meses.
Na retirada, não houve confrontos com a PM. Alguns moradores chegaram a pôr fogo nos
próprios barracos como forma de protesto. Além da PM, estavam presentes duas equipes
médicas, dez carros do Corpo de Bombeiros, 120 funcionários da prefeitura e 30
caminhões da prefeitura, para remoção dos móveis. Tratores foram usados para derrubar
os barracos.
A reintegração de posse foi concedida pelo juiz da 5ª Vara Cível de Santo André, João
Antunes dos Santos Neto. A operação de retirada das famílias começou antes das 7h e foi
interrompida às 18h. O reinício da operação está previsto para hoje, às 6h. A desocupação
da área deve demorar cinco dias.
Passeata
Uma comissão dos moradores, acompanhada de 200 pessoas, saiu em passeata às 14h de
ontem até o Paço Municipal de Santo André.
A caminhada _um percurso de 6 km_ causou um congestionamento de 8 km na avenida
do Estado. Carlinhos Barbosa, 32, um dos líderes da comunidade, disse que pretendia
renegociar com o prefeito a suspensão do despejo e a renegociação com os proprietários.
306
No final da tarde de ontem, o prefeito Newton da Costa Brandão (PTB) se reuniu com
uma comissão dos moradores, mas se recusou a receber a imprensa.
Ademar Luís Machado, 38, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem
Terra) de Santo André, que esteve com o prefeito, disse que Brandão ofereceu 600 lotes
em uma outra área da cidade.
A área particular foi desapropriada pelo ex-prefeito Celso Daniel (PT). Alegando não ter
dinheiro para a desapropriação, Brandão decidiu devolver a área aos proprietários.
Hoje, às 16h, o prefeito deverá se reunir com os proprietários da área e uma comissão de
moradores para discutir a reintegração de posse.
Deixemos de retórica e passemos à ação
07/05/96
Autor: MARIO SIMAS
Editoria: OPINIÃO Página: 1-3
Edição: Nacional May 7, 1996
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Observações: PÉ BIOGRÁFICO
Deixemos de retórica e passemos à ação
Bons brasileiros têm sido brutalizados e seviciados até a morte porque ousaram fazer
produzir um pedaço de chão
MARIO SIMAS
O exmo. presidente da República reiteradamente afirma que é necessário deixar a retórica
e passar à ação. Após o massacre de camponeses no sul do Pará, reuniu-se com os
representantes dos Poderes Legislativo e Judiciário para uma tomada de posição,
apregoando que, a persistir a violência no campo, ''este país'' ficaria estigmatizado perante
a opinião pública mundial.
Melhor seria que, ao referir-se ao Brasil, por ser presidente de todos os brasileiros, sua
excelência se valesse do possessivo ''nosso'' e não do demonstrativo ''este'', porque a
pátria são todos.
Estamos envergonhados como homem, como cidadão, como cristão e como defensor dos
direitos humanos. E mais aviltados nos sentimos porque o condenável episódio de
Eldorado do Carajás , assim como outros, não teria acontecido se a tão decantada
reforma agrária, que a sociedade civil como um todo exige, já tivesse sido levada a cabo.
O tema é antiquíssimo: Licurgo procedeu a uma divisão de terra em Esparta; Tibério
Graco, em Roma, e Henrique 7º, na Inglaterra. Joaquim Nabuco, o estadista do Império,
para que os brasileiros pudessem ser proprietários da terra, preconizava a reforma agrária.
No início da década de 60, as ligas camponesas, no Nordeste, ganharam expressão, e o
espírito messiânico se fazia presente naquele movimento popular. O governo Goulart
tentou dar um começo de solução ao problema fundiário, determinando a desapropriação
de faixas de terra às margens das hidrovias, ferrovias e rodovias. Veio o golpe de 1º de
abril de 1964, e nada foi feito. A questão passou a compor a segurança nacional.
Os tempos agora são outros. Nada existe de subversivo. Levar-se à prática a tão
decantada reforma agrária é uma exigência da política liberal: cada trabalhador rural há
307
que ser transformado em consumidor.
Os camponeses estão organizados. Sabem o que querem e, como se vê, depois de ocupar
terra improdutiva, passam a produzir. Paralelamente, o ''dono da terra'', que muitas vezes
não possui qualquer título aquisitivo, contrata jagunços a pretexto de defender a
propriedade que não lhe pertence, contando com a colaboração, não raro, de policiais
militares.
Bons brasileiros, pobres e humildes, esses sim lavradores, têm sido brutalizados e
seviciados até a morte porque ousaram arar e fazer produzir um pedaço de chão.
Estamos convictos que as Forças Armadas, sensíveis à realidade do que vai pelo campo,
estejam sumamente preocupadas, cientes de que é preciso evitar que a tragédia do sul do
Pará se estenda pelo território nacional.
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não se apresenta como um grupo
armado, mas sim como entidade destinada a pressionar as autoridades a considerar a
relevância de uma reforma agrária. Esse há de ser também o pensamento do Exército,
pois é inadmissível, no limiar do século 21, que a maior parte das terras pertença a uma
privilegiada minoria.
O cerne do problema não é exatamente o MST , mas sim a sangrenta revolta que
poderá ocorrer pela falta de solução ao problema agrário. A nação disso tem consciência.
Sabidamente, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, exmo. presidente da República,
não ignora o que se vem de declarar. Conta com o apoio da sociedade civil, da igreja dos
mais variados credos, da intelectualidade, do operariado e, sobretudo, tem o consenso e o
respaldo das nossas Forças Armadas.
Se pretende ser reconhecido historicamente como um estadista, deverá abertamente, sem
tergiversar, enfrentar o problema, pensando nas próximas gerações e não na próxima
eleição. Deixemos a retórica e passemos à ação.
Mario Simas, 61, advogado, é membro da Comissão Justiça e Paz de São Paulo e autor
do livro ''Gritos de Justiça''. Foi presidente do Centro Santo Dias de Direitos Humanos.
Agricultores levam denúncia a Jobim
06/05/96
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília; Da Agência Folha, em Belo Horizonte; Da
Reportagem Local
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: São Paulo May 6, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; ASSASSINATO; ELDORADO DO
CARAJÁS /PA/; INVESTIGAÇÃO; DENÚNCIA; ALMIR GABRIEL
Agricultores levam denúncia a Jobim
da Sucursal de Brasília
Representantes da Contag vão entregar hoje ao ministro da Justiça, Nélson Jobim, e ao
procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, cópia de uma fita de vídeo que
308
registra uma reunião entre o governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB) e fazendeiros da
região de Eldorado do Carajás .
Segundo a direção da Confederação Geral dos Trabalhadores na Agricultura, a fita
demonstra que Gabriel tinha consciência da tensão na região, onde a polícia matou 19
sem-terra no último dia 17.
Para a Contag, a fita reforça suspeita de que havia uma lista de trabalhadores a serem
exterminados.
A reunião, pública, ocorreu no início de abril, duas semanas antes do massacre . A
Folha teve acesso a 45 minutos de gravação que será entregue ao ministro. Alguns
trechos estão editados.
No vídeo, parece o presidente da Federação da Agricultura do Pará, Carlos Xavier,
entregando um papel ao secretário de Segurança do Pará, Paulo Sette Câmara.
''Tem um pessoal que anda excitando. Se tirassem essas pessoas, com certeza iria
melhorar'', diz Xavier para Câmara. Xavier afirma ainda que ''as ações desse movimento
são depredatórias''.
Durante a reunião, os representantes dos produtores rurais cobram uma solução para as
''invasões'' promovidas pelo MST .
Estavam no encontro, além de 30 fazendeiros, os secretários Aldir Viana e Hildegardo
Nunes, o prefeito de Redenção, Vagner Fontes, e o presidente do Sindicato Rural de
Marabá, Geraldo Capota.
Em Belo Horizonte, anteontem, Câmara afirmou que o único papel que recebeu ''foi a
cópia do mandado de reintegração de posse de um dos fazendeiros, que queria o
cumprimento do mandado''.
Ontem, o PT defendeu a intervenção do governo federal no Pará. Para José Dirceu,
presidente do partido, Gabriel ''não governa nada''. ''É só ver na fita o jeito com que os
fazendeiros falam com ele.''
O PT vai pedir que Gabriel seja ouvido de novo pela Comissão de Defesa dos Direitos da
Pessoa Humana do Ministério da Justiça.
Colaboraram Agência Folha em Belo Horizonte e Reportagem Local
Testemunha apontou trama no massacre
05/05/96
Autor: RUI NOGUEIRA
Origem do texto: Secretário de Redação; da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional May 5, 1996
Seção: RESUMO
Legenda Foto: Na quarta-feira, o ministro Raul Jungmann deixa reunião pela porta de
emergência para evitar jornalistas
Crédito Foto: Jefferson Rudy - 1º.mai.96/Folha Imagem
Assuntos Principais: MASSACRE ; SEM-TERRA; ELDORADO DE
CARAJÁS /PA/
309
RESUMO
Testemunha apontou trama no massacre
RUI NOGUEIRA
Secretário de Redação
da Sucursal de Brasília
O ministro do recém-criado Ministério Extraordinário de Política Fundiária, Raul
Jungamnn, viu a sua posse definhar ante o depoimento de uma nova testemunha do
massacre dos sem-terra em Eldorado do Carajás (PA).
Em depoimento prestado na sexta-feira, na Polícia Federal, em Brasília, o gerente de uma
fazenda da região do conflito disse que o massacre foi tramado por cerca de 20
fazendeiros.
Eles teriam arrecadado R$ 85 mil com o objetivo de financiar a operação da PM e a
morte de pelo menos dez lideranças dos sem-terra.
''É evidente que dá outras luzes e amplia o leque das investigações'', disse o ministro da
Justiça, Nelson Jobim, sobre o depoimento que a direção da Polícia Federal considerou
consistente.
As revelações da testemunha, que tem o nome mantido sob sigilo e está sob proteção da
PF, obrigaram Jungmann a suspender a compra da fazenda Macaxeira.
O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) negociava a área com o
fazendeiro Plínio Pinheiro Neto.
Neto é um dos donos da Macaxeira e procurador dos demais fazendeiros. Foi a disputa
pela fazenda que levou os sem-terra a enfrentar a PM no dia 17 de abril _19 deles
morreram.
O gerente que depôs na PF acusa Neto de ser um dos fazendeiros que articularam a
reunião para juntar o dinheiro e tramar a morte dos líderes de sem-terra. O fazendeiro
nega a acusação.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) apoiou a suspensão da
compra da Macaxeira e propôs que o governo confisque as terra do complexo Macaxeira,
que somam 42 mil hectares.
Sem a definição da compra da fazenda, a primeira semana de Jungmann como homem
forte da reforma agrária é um conjunto de promessas.
Prometeu avaliar todo mês os 27 superintendentes do Incra, prometeu que não faltará
dinheiro para a reforma agrária, prometeu combater a corrupção, prometeu assentar 37
mil famílias do MST acampadas, prometeu estudar a situação dos funcionários do
instituto, em greve desde o dia 16 de abril.
Suspensa compra de fazenda no Pará
04/05/96
Editoria: PRIMEIRA PÁGINA Página: 1-1
Edição: Nacional May 4, 1996
Suspensa compra de fazenda no Pará
O Incra suspendeu a compra da fazenda Macaxeira, em Curionópolis (PA), devido às
310
acusações contra um dos donos pela morte de 19 sem-terra.
Plínio Neto é suspeito de ter liderado coleta de dinheiro para que a PM matasse líderes
sem-terra, no massacre de Eldorado do Carajás (PA), dia 17.
A Polícia Federal tem nomes de cerca de 20 fazendeiros acusados de participar da coleta,
com base em depoimento de gerente de fazenda da região.
''Essa denúncia de propina é armação do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra)'', disse o advogado dos policiais.
Págs. 1-10 e 1-11
O Riocentro de FHC
04/05/96
Autor: CLÓVIS ROSSI
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2
Edição: Nacional May 4, 1996
Seção: SÃO PAULO
O Riocentro de FHC
CLÓVIS ROSSI
São Paulo _ O governo está diante de um desses momentos agudos de definição, uma
espécie de Riocentro da democracia.
Refiro-me às denúncias de que fazendeiros financiaram a Polícia Militar do Pará para
eliminar lideranças do MST (Movimento dos Sem Terra) e até forneceram pistoleiros
para integrar o contingente responsável pelo massacre de Eldorado do Carajás .
É claro que compete, antes de mais nada, apurar se a denúncia é ou não verdadeira. Mas
não pode ser uma daquelas ''apurações rigorosas'' sempre prometidas pelas autoridades de
turno, em momentos como esse, e que acabam dando em nada.
Se houver indícios que corroborem a denúncia, ou o governo age com todo o peso da lei
sobre os quadrilheiros responsáveis pela infame operação ou sairá tão desmoralizado
quanto o governo Figueiredo da farsa da apuração do Riocentro.
Em qualquer administração, seria uma situação definitória. Neste governo, muito mais
ainda.
Afinal, o presidente da República enche a boca, a todo momento, para dizer-se o
representante da modernidade ante um Brasil supostamente arcaico que resiste às
mudanças que ele quer promover.
Pois bem. Nada pode haver de mais primitivo do que a aceitação da lei da selva, imposta
no Pará, se verdadeiras as denúncias.
Por algo infinitamente menos grave (invasão de terras em São Paulo), prenderam-se
líderes do MST , acusados de formação de quadrilha. Agora, se está diante da hipótese
não só de formação de quadrilha, mas de ocupação por ela de uma fatia do poder do
Estado.
Já basta a incapacidade da máquina pública de recuperar pleno controle do Rio de
Janeiro, sitiado pelo crime organizado. O governo não pode render-se à essa nova versão
de crime organizado.
311
Advogado diz haver "armação"
04/05/96
Origem do texto: Da Agência Folha, em Belém
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional May 4, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Advogado diz haver "armação"
da Agência Folha, em Belém
''Essa denúncia de propina paga ao coronel Pantoja pelos fazendeiros é armação do
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)'', disse ontem o advogado
Abdoral Lopes.
Lopes, junto com Américo Leal, é responsável pela defesa do coronel Pantoja e dos PMs
envolvidos no massacre dos 19 sem-terra em Eldorado do Carajás .
''Isso é tática velha desses criminosos desclassificados para criar um fato novo'', afirmou
Lopes, referindo-se aos sem-terra.
Pantoja está afastado do cargo.
Promotor estuda pedir quebra de sigilo de Pantoja
04/05/96
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: São Paulo May 4, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Promotor estuda pedir quebra de sigilo de Pantoja
da Sucursal de Brasília
O Ministério Público do Pará estuda pedir a quebra do sigilo bancário do coronel Mário
Pantoja, comandante da operação que resultou no massacre de 19 sem-terra em
Eldorado do Carajás (PA).
O objetivo é checar se o militar movimentou recursos acima do normal, tendo em vista
seu salário.
O coronel foi acusado anteontem por um gerente de uma fazenda da região de ter exigido
R$ 100 mil de fazendeiros para retirar os sem-terra da rodovia PA-150.
O promotor de Curionópolis, Marco Aurélio Nascimento, disse ontem que um dos donos
da fazenda Macaxeira, Plínio Pinheiro Neto _acusado de ser o responsável pela coleta do
dinheiro para Pantoja_, será chamado a depor. O fazendeiro nega a acusação.
O advogado de Pantoja, Luiz Alberto Abdoral, disse que é ''absurda'' a intenção de pedir a
quebra de sigilo do militar. ''O ônus da prova cabe a quem alega'', afirmou.
Sobre a acusação de que Pantoja teria recebido propina, o advogado disse: ''Essa
312
denúncia de propina paga ao coronel Pantoja pelos fazendeiros é armação do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)''.
Assentados não querem o MST
30/04/96
Autor: ESTANISLAU MARIA
Origem do texto: Da Agência Folha, em Belém (PA)
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Apr 30, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: SEM-TERRA; PARÁ; ASSENTAMENTO RURAL
Assentados não querem o MST
da Agência Folha, em Belém (PA)
Os agricultores de Novo Repartimento, onde ficam as glebas Tuerê e Rio Gelado, para
onde o governo pretende levar parte dos sem-terra da fazenda Macaxeira, em
Curionópolis, não querem receber os ''primos pobres''.
''As culturas de ocupação da terra são diferentes. O pessoal que está lá (em Novo
Repartimento) vem fazendo um manejo florestal comunitário, um trabalho de
preservação de longo prazo'', disse o pastor luterano André Nufer, que trabalha com os
colonos em Novo Repartimento.
''Mil famílias do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), cuja
ocupação é diferente, chegando de uma só vez, vão causar um impacto muito grande'',
completou.
Segundo ele, já existem em Tuerê e Rio Gelado 850 famílias esperando assentamento.
''O acesso é bastante difícil. Há pelo menos 150 pistoleiros na região, e parte da área _60
mil hectares_ está em disputa com uma madeireira. Em Rio Gelado, lideranças já foram
emboscadas. Tiroteios são constantes'', disse.
Logo após o massacre de Eldorado do Carajás , essas áreas foram indicadas pelo
Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e pelo Iterpa (Instituto de
Terras do Pará) como alternativa para assentar as famílias que sobrarem na fazenda
Macaxeira.
(ESTANISLAU MARIA)
MST contesta o relatório do governo
29/04/96
Origem do texto: Da Agência Folha, em Belém (PA)
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Apr 29, 1996
Observações: COM SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: MASSACRE
313
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; ASSASSINATO; SEM-TERRA; ELDORADO
DE CARAJÁS /PA/; MST ; RELATÓRIO
MST contesta o relatório do governo
da Agência Folha, em Belém (PA)
Líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) questionaram
ontem em Belém o relatório do CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa
Humana), do Ministério da Justiça.
Eles negaram a versão do relatório, que diz que os sem-terra atacaram primeiro no
confronto com os PMs em Eldorado do Carajás .
Jorge Neri, 30, e Gustavo Filho, 26, afirmaram que a PM chegou jogando bombas de
efeito moral e abriu fogo contra os sem-terra, que bloqueavam a rodovia PA-150.
Nery e Filho também disseram que há mais trabalhadores desaparecidos, além dos cinco
já apontados pelo MST . Segundo eles, nesta semana o MST divulgará os nomes
dos desaparecidos.
"Também há crianças mortas, cujos corpos a polícia escondeu. Os pais não apareceram
para reclamar seus filhos porque foram mortos também'', disse Filho.
Neri afirmou que o fato de um grande número de trabalhadores ter se juntado ao
movimento nos dias anteriores ao massacre está dificultando o levantamento dos
nomes de desaparecidos. O MST disse que suas lideranças na área estão sendo
ameaçadas.
Comandante da PM é afastado
29/04/96
Origem do texto: Do enviado especial a Curionópolis
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Apr 29, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; ASSASSINATO; SEM-TERRA; ELDORADO
DE CARAJÁS /PA/; POLÍCIA MILITAR
Comandante da PM é afastado
do enviado especial a Curionópolis
O major José Maria Oliveira foi afastado do cargo de comandante da Polícia Militar em
Parauapebas. Oliveira, um dos oficiais que comandaram a PM durante o massacre em
Eldorado do Carajás , será transferido hoje para Belém.
Os sem-terra envolvidos no conflito no dia 17 em Eldorado do Carajás (PA) podem
ser indiciados por tentativa de homicídio. A vítima seria o motorista do caminhão usado
para interditar a rodovia PA-150. O motorista disse que um sem-terra atirou contra ele.
O MST acusa um empregado da fazenda Macaxeira, Ailton Bispo dos Santos, de ter
participado do massacre . Ele negou a acusação.
Coronel atirou em preso, diz sem-terra
314
29/04/96
Autor: IRINEU MACHADO; LUCAS FIGUEIREDO
Origem do texto: Da Agência Folha, em Marabá; Enviado especial a Curionópolis
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: São Paulo Apr 29, 1996
Observações: COM SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: MASSACRE
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; ASSASSINATO; SEM-TERRA; ELDORADO
DE CARAJÁS /PA/; INQUÉRITO
Coronel atirou em preso, diz sem-terra
IRINEU MACHADO
da Agência Folha, em Marabá
Um sem-terra disse ontem, em depoimento no inquérito policial militar sobre o
massacre no Pará, que viu o major José Maria Oliveira disparar dois tiros contra um
sem-terra algemado, diante do hospital de Curionópolis (PA).
O fato teria ocorrido depois que os policiais voltaram de Eldorado do Carajás . O
nome do sem-terra não foi revelado.
O major José Maria Oliveira, que comandou o destacamento da PM de Parauapebas que
participou do confronto, foi afastado do cargo de comandante. Ele será transferido hoje
para Belém. O governo não divulgou a razão da medida.
Os relatos do trabalhador sem terra preencheram mais de 10 páginas. Foi o mais longo do
inquérito até agora. Segundo promotores que acompanharam o depoimento, ele disse que
o major Oliveira, antes de atirar, pediu ao sem-terra algemado que gritasse seu lema _''
MST , a luta é pra valer''.
O ministro da Justiça, Nelson Jobim, chega hoje a Marabá para acompanhar o andamento
dos inquéritos civil e militar.
Colaborou LUCAS FIGUEIREDO, enviado especial a Curionópolis
Uma MP para se fazer justiça no campo
28/04/96
Autor: DIOLINDA ALVES DE SOUZA
Editoria: OPINIÃO Página: 1-3
Edição: Nacional Apr 28, 1996
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Observações: PÉ BIOGRÁFICO
Uma MP para se fazer justiça no campo
Nós do MST estamos lutando para trabalhar nas terras improdutivas deste país, que
totalizam 140 milhões de hectares
DIOLINDA ALVES DE SOUZA
A reforma agrária é uma necessidade para o trabalhador. Tanto para o do campo como
315
para o da cidade. Queiram ou não admitir os latifundiários, gerará empregos para quem
sonha poder trabalhar na terra e aquecerá o comércio nas cidades.
Os prefeitos costumam apoiar as nossas ocupações por causa disso. Lá no Pontal o
assentamento feito na fazenda Santa Clara foi sentido na cidade de Mirante do
Paranapanema: arrecadou mais ICMS para a prefeitura e levou mais gente a ter condições
de consumir no comércio local.
Acusam o MST de colocar as mulheres e crianças na frente nos conflitos. Mas na
maior parte das vezes, como aconteceu na minha família, são as mães que decidem ir
para um acampamento do MST porque enxergam nessa luta um futuro melhor para
seus filhos.
Nós do MST estamos lutando para trabalhar nas terras improdutivas deste país, que
totalizam 140 milhões de hectares. Por isso nos acusam de bandidos, mandam nos
prender e nos matam.
Agora estão nos acusando de ter provocado o massacre em Eldorado de Carajás .
Isso não é verdade. Várias reportagens publicadas, neste e em outros jornais, mostraram
testemunhas, como a jornalista Marisa Romão, falando que quem chegou atirando e para
matar foram os policiais.
O que eles querem, nos acusando dessa forma, é deixar mais esse massacre impune.
Desde 1981 foram cometidas 32 chacinas no campo, sem contar com a do Pará. Até hoje
nenhum culpado está na cadeia. Ao todo, 1.634 trabalhadores rurais foram mortos na luta
pela terra nos últimos 15 anos. Somente 25 suspeitos foram julgados, quatro foram
condenados e só os envolvidos em dois episódios continuam presos. Até os assassinos de
Chico Mendes estão soltos.
Seria fácil o presidente evitar que mais essa chacina viesse a manchar sua reputação no
Primeiro Mundo, para onde ele declara querer levar o Brasil com seu governo.
Basta ele editar uma medida provisória em favor dos pobres. Ele já editou essas tais MPs
para ajudar os banqueiros, que estão a léguas de distância de passar fome.
Nós não. A gente batalha duro para poder ter trabalho e não passar fome. Se a gente for
para a cidade, passa mais fome e fica mais miserável ainda, porque lá o sem-terra perde a
raiz.
Uma MP para os pobres significa o presidente Fernando Henrique decretar as leis do rito
sumário e a que impede o juiz de dar liminar de despejo sem escutar a nossa parte, sem
saber por que a gente ocupou aquela área. E os sem-terra só ocupam uma área para
pressionar o governo a cumprir suas promessas. Ter trabalho e ter futuro em algum lugar
é urgente para nós.
Os fazendeiros não querem que o rito sumário, que dá posse da terra ao Incra em 48
horas, seja aprovado. Dizem que não vão ter como se defender.
Isso é uma mentira. Eles vão poder discutir na Justiça o valor da área, mas não a
desapropriação. Quando uma área chega a ser desapropriada é porque o Incra já vistoriou
e constatou que ela é um latifúndio.
Ou seja, é muita terra sem produção alguma. Além disso, esses latifundiários são muito
poucos. Segundo a ONU, o Brasil é o segundo país com maior concentração da
propriedade de terra no mundo: 1% dos proprietários detêm 46% das terras. Não é à toa
que nós somos o primeiro país em desigualdade social.
A gente quer justiça social, que é garantir trabalho e cidadania para os trabalhadores do
campo. Para isso basta o governo ter vontade de verdade. Criar um Ministério da
316
Reforma Agrária não significa nada se o Incra continuar do jeito que está.
O governo Collor o desmantelou. De 10 mil passou para 6.000 funcionários e muitos dos
que são experientes estão se aposentando. Outros, em vez de trabalhar para a reforma
agrária, orientam os proprietários a evitar a desapropriação de suas terras. Por que vocês
acham que o laudo da Macaxeira, fazenda com mais de 40 mil hectares, deu que é uma
área produtiva?
Isso quando eles não se metem em maracutaias para garantir indenizações altíssimas por
terras que os fazendeiros não pagaram um centavo para adquirir. E o Incra não pode
continuar a ter suas superintendências transformadas em cabide de emprego para
apadrinhados políticos do governo.
Diolinda Alves de Souza, 26, agricultora, é integrante do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra ( MST ).
Governo quer terras de devedores do BB
28/04/96
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-11
Edição: Paulistana Apr 28, 1996
Vinheta/Chapéu: REFORMA AGRÁRIA
Assuntos Principais: REFORMA AGRÁRIA; ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
Novo ministro disse que área do Pará onde houve massacre de sem-terra terá
"atendimento imediato"
Governo quer terras de devedores do BB
Da Sucursal de Brasília
O ministro extraordinário da Reforma Agrária, Raul Jungmann, disse ontem que o
governo vai apertar o cerco em torno dos devedores do Banco do Brasil que possuem
terras para apressar a reforma agrária.
Jungmann deve reunir-se no início desta semana com o secretário-geral do Ministério da
Fazenda, Pedro Parente, e a diretoria do Banco do Brasil para encontrar uma fórmula
jurídica que permita a liberação das terras de devedores para o assentamento de sem-
terra.
O ministro afirmou que vai fazer "mudanças radicais'' no Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária) para o torná-lo mais eficiente.
Jungmann não confirmou a permanência do atual presidente do Incra, Raul do Valle.
"Ainda vou discutir isso com o presidente Fernando Henrique Cardoso'', disse.
Ele se reuniu ontem de manhã com FHC, o ministro Nelson Jobim (Justiça), general
Alberto Cardoso (Gabinete Militar) e Eduardo Jorge (Secretaria Geral da Presidência), no
Palácio da Alvorada.
O ministro disse que a região leste do Pará, onde houve o massacre de 19 sem-terra no
último dia 17, é considerada prioridade do governo. A idéia é dar "atendimento imediato''
317
à região.
Ele disse que o presidente está de acordo com a criação da "agenda terra e paz'', que tem
como objetivo reduzir os conflitos no campo e acelerar a reforma agrária.
Após a reunião no Alvorada, Jungmann foi para Salvador, onde iria discutir a "agenda
terra e paz'' com o presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), D.
Lucas Moreira Neves.
Ele se encontra amanhã com o presidente do STF, Sepúlveda Pertence. Na quinta-feira,
líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) estarão discutindo
com Jungmann.
PT pretende denunciar o massacre à ONU; Sem-terra em greve de fome são
internados; Saída de promotor atrasa investigações
27/04/96
Editoria: BRASIL Página: 1-8
Edição: Nacional Apr 27, 1996
Seção: COLUNÃO
PT pretende denunciar o massacre à ONU
O presidente do PT, José Dirceu, disse ontem em Fortaleza (CE) que o partido vai
denunciar à ONU (Organização das Nações Unidas) a ''farsa que está sendo montada'' na
apuração do massacre dos sem-terra no Pará. Segundo Dirceu, o IPM visa encobrir os
responsáveis pelas mortes.
Sem-terra em greve de fome são internados
Quatro dos 14 trabalhadores rurais sem terra em greve de fome há dez dias em Recife
(PE) foram hospitalizados ontem, depois de apresentar sintomas de problemas cardíacos.
''Se acontecer alguma coisa com eles, vai ter revolta'', ameaçou José Aglailson da Silva,
22, da direção estadual do MST .
Saída de promotor atrasa investigações
A saída do promotor militar Gilberto Martins do caso do massacre de Eldorado do
Carajás (PA) atrasou as investigações. O promotor Samir Jorge, que substituiu
Martins, teve de refazer anteontem à Justiça Militar do Pará pedido de produção
antecipada de provas para ouvir oito sem-terra.
Ministério diz que sem-terra atacaram
26/04/96
Autor: PAULO SILVA PINTO; RUI NOGUEIRA
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Apr 26, 1996
318
Legenda Foto: O ministro da Justiça, Nelson Jobim, durante reunião do Conselho de
Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, realizada ontem em Brasília
Crédito Foto: Jefferson Rudy/Folha Imagem
Observações: COM SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: NOVA VERSÃO
Selo: MASSACR NO CAMPO
Assuntos Principais: POLÍCIA MILITAR; MASSACRE ; EM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
Relatório afirma que trabalhadores rurais teriam comprado arma com verba do Incra e
iniciado agressão
Ministério diz que sem-terra atacaram
PAULO SILVA PINTO
da Sucursal de Brasília
Os sem-terra teriam comprado armas com dinheiro dado pelo Incra para comprar comida.
A informação está em um relatório do Ministério da Justiça sobre o massacre do dia
17.
O relatório diz também que os sem-terra foram os responsáveis pela agressão inicial aos
PMs que, na linha de frente do confronto, não estariam armados.
O autor do texto é o coordenador-geral do CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da
Pessoa Humana), Humberto Espínola.
''Não estou acusando ninguém, apenas relatando o que ouvi'', afirmou Espínola à Folha,
que passou quatro dias no local do conflito.
Disse ter ouvido do executor do Incra em Marabá (PA), José Líbio de Matos, e de outras
duas pessoas _não revelou nomes_ que pagamentos de créditos de alimentação e fomento
aos sem-terra foram desviados para a compra de armas.
A Folha apurou que a Polícia Federal também detectou, há dois meses, a compra das
armas.
O Incra distribuiu em fevereiro e março uma ajuda de R$ 800 para cada família da região.
Com 16 páginas, o relatório considera as reivindicações dos sem-terra legítimas, mas faz
críticas à ação do grupo. Sobre a PM, condena a violência e os assassinatos citados por
testemunhas.
Segundo o relatório, o coronel Mário Pantoja, comandante da operação, ''tem bom
conceito na região''. O documento diz ainda que na linha de frente do contingente de
Marabá havia apenas soldados com cassetetes e bombas de gás lacrimogênio.
Espínola cita, "em favor da PM'', "a reação agressiva inicial dos sem-terra partindo para
cima" da polícia. O relatório critica o MST por ter ''indivíduos com atividades diversas
da agrícola", como professores de dança, de de canto e funcionários públicos.
O coordenador-geral afirmou que considera mais grave o fato de os sem-terra estarem
armados _foram apreendidas 37 armas_ e de terem colocado mulheres e crianças na
barreira na estrada.
Francisco Dalchazon, da coordenação nacional do MST , disse que "o Ministério da
Justiça não tem resposta para o que houve e que está partindo para a estratégia de que o
ataque é a melhor defesa''.
Segundo ele, os sem-terra de Eldorado do Carajás não foram assentados ainda e
319
por isso não receberam dinheiro do Incra. ''Todos têm o direito de mudar de profissão'',
disse sobre o fato de nem todos serem lavradores. Para a posse de armas, alegou defesa
pessoal.
Colaborou Rui Nogueira, da Sucursal de Brasília
Sem-terra têm lista com 7 desaparecidos
26/04/96
Autor: LUCAS FIGUEIREDO ABNOR GONDIM
Origem do texto: enviados especiais a Curionópolis
Editoria: BRASIL Página: 1-11
Edição: Nacional Apr 26, 1996
Legenda Foto: Policial civil toma depoimentos dos sem-terra dentro do acampamento da
fazenda Macaxeira, no Pará
Crédito Foto: Jorge Araújo/Folha Imagem
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: INVESTIGAÇÕES
Selo: MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: POLÍCIA MILITAR; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/; INVESTIGAÇÃO
Cerca de 30 testemunhas já foram ouvidas no inquérito da polícia civil para apurar mortes
no Pará
Sem-terra têm lista com 7 desaparecidos
LUCAS FIGUEIREDO
ABNOR GONDIM
enviados especiais a Curionópolis
Os sem-terra sobreviventes do massacre de Eldorado do Carajás apresentaram
ontem uma relação com nomes de sete homens adultos que participaram do confronto no
último dia 17 e ainda estão desaparecidos.
Parentes dos sete acusaram o desaparecimento a promotores envolvidos na apuração do
caso e a líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
São eles Raimundo Nonato da Rosa, Genivaldo dos Santos, Edvaldo Moura Souza,
Aldenor da Costa, José da Silva Gomes, Laílson Barbosa da Silva e Pedro Veracildo
Matias.
Também começa a ficar claro para os investigadores as circunstâncias da morte do líder
sem-terra Oziel Alves Pereira, morto com tiro na cabeça.
''Não se tem dúvida de que o Oziel estava dentro do barracão e foi tirado de lá por um
policial militar e puxado pelos cabelos'', afirmou a promotora Regina Taveira.
PM não negocia
Apesar dos investigadores estarem colhendo pistas para revelar as circunstâncias do
massacre , o resultado do inquérito civil e os depoimentos dados aos promotores poderão
ser desconsiderados pela Justiça Militar, na qual são julgados os PMs que praticam
320
crimes em serviço.
Cerca de 30 testemunhas tinham sido ouvidas até ontem pelos promotores do MP e pelo
delegado responsável pelo inquérito civil, Vicente Costa.
''O inquérito civil serve como informação para o IPM (Inquérito Policial Militar), mas
não como prova'', afirmou a promotora Regine Taveira, do MP (Ministério Público) do
Pará.
O advogado dos PMs, Luís Abdoral Lopes, pediu a anulação do inquérito civil por
considerá-lo inócuo, pois o IPM já contempla todas as investigações necessárias.
Abdoral Lopes afirma que os PMs apenas reagiram à ação supostamente armada dos
sem-terra. ''Foram aprendidas armas com os sem-terra e 16 PMs saíram feridos'',
declarou.
Os sem-terra que participaram do confronto com a PM dizem estar sofrendo ameaças
para que não prestem depoimento.
''Alguns chegaram a receber cartas com ameaças, mas não podemos mostrar para
preservar as pessoas'', afirmou Fabiano da Silva, da direção estadual do MST .
O procurador-geral de Justiça do Pará, Manoel Santino, disse ontem que as testemunhas
do massacre dos sem-terra que pedirem proteção policial serão protegidas pela Polícia
Federal.
MST e o '' massacre '' de Eldorado
25/04/96
Autor: LAMARTINE NAVARRO JR.
Editoria: OPINIÃO Página: 1-3
Edição: Nacional Apr 25, 1996
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Observações: PÉ BIOGRÁFICO
MST e o '' massacre '' de Eldorado
O cheiro da morte persiste há sete meses no Vale do Cantú e os assassinos, infiltrados no
MST , estão impunes
LAMARTINE NAVARRO JR.
Toda perda de vidas humanas é lamentável, e muito especialmente quando ocorre de
forma violenta e desnecessária, como aconteceu no Pará.
É importante, porém, que a emoção consequente da violência das cenas levadas ao ar pela
televisão não perturbe o julgamento correto do que vem realmente acontecendo na área
rural.
Não se pode deixar que o '' massacre '' de Eldorado , incidente provocado pela
atuação da PM ao tentar reestabelecer o trânsito em uma importante estrada do Pará, se
transforme em uma espécie de salvo-conduto para as ações do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra ( MST ) que se configurem como ilegais.
É preciso ter em mente que a nossa Constituição garante o direito de propriedade e assim,
no caso de invasões, os mandados de reintegração de posse devem ser cumpridos em
tempo hábil, de forma a resguardar os direitos dos proprietários.
É mister que as ações policiais devam ser planejadas de forma a evitar violência, mas
321
postergar indefinidamente as reintegrações porque os invasores estão armados e resistirão
à lei e à ordem significa ignorar o Estado de Direito e provocar o recrudescimento dos
conflitos no campo.
Vejamos o reverso da medalha no caso da fazenda Vale do Cantú, de nossa propriedade,
situada nos municípios de Laranjal e Altamira (PR).
A propriedade foi invadida por 150 famílias do MST em 1º/10/95. No dia 5/10 a juíza
da comarca de Campina da Lagôa expediu o mandado de reintegração de posse. O Incra-
PR solicitou à Secretaria da Segurança postergar a reintegração de posse, pois estaria em
andamento o processo de desapropriação da propriedade.
O secretário da Segurança atendeu a solicitação do Incra, a desapropriação não se
concretizou e, em 20/12, a juíza expediu novo mandado que, até hoje, também não foi
cumprido.
No entretempo, ocorreram na propriedade os seguintes delitos:
_ Os invasores ocuparam 2/3 da fazenda, cortaram as cercas, misturaram o gado que
estava em regime de seleção, queimaram e saquearam as casas dos funcionários e
roubaram um trator Massey Ferguson com implemento.
_ Provocaram vários tiroteios com os empregados da fazenda e não permitem trânsito na
área ocupada.
_ Roubaram 60 cabeças de gado e, ao distribuir o resultado da venda, se desentenderam e
três sem-terra foram assassinados pelos seus pares.
_ Semanalmente matam três cabeças de gado.
_ Na sexta-feira, 5/4, ao realizar avaliação após entendimentos do Incra, que propôs a
compra da propriedade, o signatário e os avaliadores foram atacados a tiros e obrigados a
fugir usando os cavalos como escudo.
Todas as ocorrências foram objeto de queixa policial e reportadas à juíza de direito e ao
secretário da Segurança.
A PM de Guarapuava mantém policiais na sede da fazenda exclusivamente para garantia
das famílias dos funcionários que, expulsos das suas casas, lá se encontram abrigados.
Todas as atividades da propriedade estão paralisadas, o gado se encontra confinado em
um terço da fazenda e as pastagens existentes não podem ser utilizadas.
Verifica-se assim que o cheiro da morte não exala somente de Carajás .
Ele persiste há sete meses no Vale do Cantú e os assassinos, por estarem infiltrados no
MST , apesar de conhecidos, estão impunes.
Não é só o deputado José Dirceu que está com a alma vazia e amargurada.
Trago na boca o travo amargo da decepção, da frustração, do desencanto com este pobre
país, onde hoje a lei tem dois pesos e duas medidas e onde a demagogia política chega ao
ponto de transformar um movimento social legítimo, como o MST , em alavanca de
desestruturação social e econômica.
Lamartine Navarro Jr., 63, pecuarista, é proprietário da Fazenda Vale do Cantú (PR) e
vice-presidente da Sopral (Sociedade Produtora de Açúcar e Álcool do Estado de São
Paulo).
Peritos põem armas em dúvida
25/04/96
322
Autor: ESTANISLAU MARIA
Origem do texto: da Agência Folha, em Belém (PA)
Editoria: BRASIL Página: 1-8
Edição: Nacional Apr 25, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: INVESTIGAÇÕES
Assuntos Principais: POLÍCIA MILITAR; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/; INVESTIGAÇÃO
Peritos põem armas em dúvida
ESTANISLAU MARIA
da Agência Folha, em Belém (PA)
Peritos da Polícia Técnica de Belém põem em dúvida se todas as armas usadas pela
Polícia Militar durante massacre dos sem-terra foram enviadas para perícia.
Segundo os peritos, há balas retiradas dos corpos dos mortos cujo calibre não equivale a
nenhuma das armas analisadas.
A informação reforça a hipótese de que PMs usaram armas particulares e não as enviaram
à perícia.
Também há dificuldade em identificar qual policial usava as armas trazidas de
Parauapebas, por falta de registros.
As armas começaram a ser analisadas ontem, mas só três fuzis foram testados.
As roupas dos sem-terra chegaram a Belém na tarde de anteontem. Ontem começou a
perícia.
Desaparecidos
O depoimento de uma ''testemunha-chave'' feito ontem ao promotor público titular de
Marabá, José Luiz Furtado, 40, pode mudar os rumos do inquérito.
Pela primeira vez os promotores passaram a acreditar na hipótese de que houve prisão de
manifestantes pela PM e que pode haver corpos desaparecidos.
O MST informou que há 32 pessoas desaparecidas após o confronto com a PM, no dia
17.
Até ontem, essas pessoas não haviam retornado à fazenda Macaxeira. "Ainda é cedo para
dizer se foram mortas ou se não puderam voltar'', disse Elias Araújo, membro da
coordenação do MST .
Outras cinco testemunhas reforçaram a hipótese de que haja mais corpos desaparecidos.
A Polícia Militar teria transportado pelo menos dois trabalhadores sem-terra algemados
no ônibus que levou a tropa de volta a Marabá, depois do conflito.
Furtado ouviu um motorista de ônibus da empresa Transbrasiliana, que levou policiais de
Marabá.
O motorista, que está sob a custódia da Justiça e cujo nome está sob sigilo, disse que dois
trabalhadores sem-terra, algemados, foram colocados no ônibus por policiais militares e
levados para o Batalhão da PM em Marabá.
O promotor revelou ainda que estudos da posição em que os corpos foram encontrados
indicam que a maioria dos mortos foi atingida por balas vindas do grupo de policiais de
Parauapebas, que estava ao sul da rodovia.
Colaborou Irineu Machado, da Agência Folha, em Marabá
323
Papa condena massacre dos sem-terra no Pará
25/04/96
Autor: LUIS HENRIQUE AMARAL
Origem do texto: enviado especial a Indaiatuba (SP); da Folha Sudeste e a Reportagem
Local
Editoria: BRASIL Página: 1-8
Edição: Nacional Apr 25, 1996
Primeira: Chamada
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: PAPA JOÃO PAULO 2º; POLÍCIA MILITAR; MASSACRE ;
SEM-TERRA; ELDORADO DE CARAJÁS /PA/; PROTESTO
Papa condena massacre dos sem-terra no Pará
LUIS HENRIQUE AMARAL
enviado especial a Indaiatuba (SP)
O papa João Paulo 2º, por meio do Conselho Pontifício de Justiça e Paz, condenou o
massacre de 19 trabalhadores sem terra acorrido na semana passada no Pará.
A condenação foi transmitida ao Brasil por carta do cardeal francês Roger Etchegaray,
presidente da comissão no Vaticano.
A carta chegou ontem à 34ª Assembléia-Geral da CNBB (Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil), que acontece até o dia 26 em Indaiatuba (110 km a noroeste de São
Paulo).
O documento afirma que ''o problema da distribuição da terra e suas graves
consequências só poderá ser resolvido na perspectiva ética e política, garantida por uma
reforma agrária corajosa e de longo alcance''.
Na carta, o cardeal fala em '' massacre de 20 camponeses sem terra'' e transmite aos
bispos brasileiros seus ''sentimentos de profunda angústia por tanta violência e desprezo
pelo homem''.
Em seguida, o cardeal afirma que seu conselho pontifício se ''une ao pedido feito pela
CNBB para todo o país: que rezem pelos camponeses assassinados e façam um empenho
excepcional pela instauração da justiça social''.
A carta lembra ainda que o Vaticano conhece os problemas do campo brasileiro, que foi
levado pelos bispos em suas visitas ''ad limina'' _visitas que os bispos de cada região do
país fazem ao papa para relatar sua atuação.
''O cardeal Etchegaray fala em nome do papa e ocupa um dos postos mais importantes do
Vaticano'', disse ontem o bispo de Paulo Afonso (BA), d. Mario Zanetta, que falou pela
CNBB sobre a carta.
O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, se disse ''impressionado'' com
a carta do Vaticano. ''Ele soube interpretar muito bem o que estamos sentindo no Brasil
em razão do massacre . E ainda lembrou a importância da reforma agrária para o país'',
disse.
Para Arns, a carta demonstra como um ''ato de violência no Brasil toca o mundo inteiro''.
Para o cardeal-arcebispo da Paraíba, d. Marcelo Carvalheira, a carta representa ''uma
pressão justa pela reforma agrária no país''.
324
Os bispos usaram ontem uma tarja preta durante a missa de sétimo dia pela morte dos
sem-terra. Eles pediram durante a missa o assentamento imediato de todas as famílias de
sem-terra.
Corumbiara
O presidente do PT, José Dirceu, voltou a responsabilizar ontem o presidente Fernando
Henrique Cardoso pelo massacre , ''porque não puniu os responsáveis por Corumbiara
e reduziu a verba do Incra'' (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
Dirceu falou durante manifestação na praça da Sé (região central de São Paulo) em
repúdio à chacina. Organizada pelo MST , com o apoio de 40 sindicatos ligados à
CUT, a manifestação teve a presença de cerca de cem pessoas.
Colaboraram a Folha Sudeste e a Reportagem Local
Um obscuro teatro baiano
24/04/96
Autor: CLÓVIS ROSSI
Editoria: OPINIÃO Página: 1-2
Edição: Nacional Apr 24, 1996
Seção: SÃO PAULO
Assuntos Principais: MANIFESTAÇÃO PÚBLICA; PORTO SEGURO /BA/;
GOVERNO FHC
Um obscuro teatro baiano
CLÓVIS ROSSI
São Paulo _ De duas, uma: ou o presidente Fernando Henrique Cardoso entrou em um
processo perigoso de total alheamento da realidade ou está fazendo algum obscuro tipo
de teatro.
Refiro-me aos episódios de anteontem em Porto Seguro (BA). Fatos:
1 - O governador da Bahia, Paulo Souto, admitiu ontem, em entrevista divulgada no
''Jornal da CBN'', a emissora especializada em notícias, que, a prevalecer a sua
orientação, os manifestantes (do Movimento dos Sem Terra) que vaiaram o presidente
não teriam se aproximado do palanque.
Souto diz que preferia ''ante a situação emocional do momento'' uma atitude mais
''prudente''. Especificamente: que uma comissão pequena do MST se reunisse
posteriormente com as autoridades presentes.
''Não foi essa a orientação que prevaleceu'', diz o governador, deixando claro que ''nas
tratativas para a visita presidencial, ficou mais ou menos acertado que não haveria
restrições'' (para a aproximação dos manifestantes).
2 - Ora, tais ''tratativas'' são feitas por delegados da Presidência. Logo, só se pode
concluir que alguém poderoso quis, deliberadamente, que as bandeiras vermelhas do
movimento fossem vistas em torno do presidente da República e que as vaias fossem
ouvidas e registradas pelas câmeras de TV de todas as redes.
3 - O próprio governador admitiu à CBN que era ''previsível'' que houvesse vaias. Claro.
Depois do massacre de Eldorado de Carajás , só um lunático poderia imaginar
325
que militantes do MST se aproximariam de um palanque ocupado por autoridades
(fossem quais fossem) para aplaudi-las.
A menos que o poder tenha embriagado tanto o presidente que ele supôs que o
aplaudiriam, só se pode deduzir que FHC quis aparecer na situação em que foi retratado
em Porto Seguro. Por quê?
Eldorado , terra sem justiça
24/04/96
Autor: JOSÉ DIRCEU
Editoria: OPINIÃO Página: 1-3
Edição: Nacional Apr 24, 1996
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Arte: ILUSTRAÇÃO: ORLANDO
Observações: PÉ BIOGRÁFICO
Eldorado , terra sem justiça
A luta pela reforma agrária revela que nossa polícia e nossa Justiça estão subordinadas o
latifúndio
JOSÉ DIRCEU
Venho de Eldorado de Carajás com o cheiro da morte. Com a alma vazia e
amargurada. Nunca vi tanto terror, desespero e angústia. Mas, para meu espanto, não
encontrei ódio. Apenas a revolta de trabalhadores querendo o atendimento de seu direito
à terra.
A impunidade é onipresente e onipotente. Revela-se por meio do poder de vida e morte
da Polícia Militar do Pará e do latifúndio.
Não existe Justiça, governo ou Parlamento. Muito menos presidente da República.
Apenas a pistolagem bandida e a oficial. O latifúndio manda na polícia, na Justiça e no
governo.
O pior é que o Brasil é apenas uma versão ampliada de Eldorado . Com Vigário Geral,
Carandiru e Candelária. Todos massacres igualmente impunes, como Corumbiara, que
não resultaram em reforma agrária ou punição dos assassinos fardados e do latifúndio.
Pelo contrário, serviu para que se tentasse a incriminação do MST , sua deslegitimação
e para que o governo FHC fizesse propaganda de que estava fazendo reforma agrária.
A responsabilidade política e social, ética e humana dos Poderes Executivo, Judiciário e
Legislativo é incontestável. E o primeiro responsável é o presidente da República, que se
elegeu prometendo colocar a justiça social e a questão da reforma agrária como
prioridades em seu governo.
A reforma agrária depende do governo federal e de sua maioria no Congresso Nacional,
pau para toda obra, menos para fazer justiça social.
Desde setembro do ano passado, após o massacre de Corumbiara, o Fórum da
Reforma Agrária vem exigindo do governo FHC medidas simples e objetivas para
realizar a reforma agrária: recursos, desapropriações, assentamentos e apoio técnico e
financeiro.
Os meios legais já estão no Congresso. São os projetos de lei sobre ''rito sumário'' e
326
despejo, além das leis visando acabar com a impunidade das PMs.
Os recursos para a reforma agrária também foram previstos para o orçamento de 96. Mas
o governo FHC não apoiou a tramitação desses projetos de lei, seu ministro da Justiça
não priorizou a punição dos responsáveis pelo massacre de Corumbiara e, pior, os
recursos orçamentários para a reforma agrária foram cortados de R$ 6 bilhões para R$
1,2 bilhão.
O descaso do governo FHC não parou aí. Após a demissão de Francisco Graziano, no
também impune episódio da escuta telefônica do chefe do cerimonial do presidente FHC,
o Incra ficou seis meses sem presidente. Com todo esse desleixo, FHC não pode deixar
de ser responsabilizado.
A luta pela reforma agrária revela que nossa polícia e nossa Justiça representam classes,
estão subordinadas ao latifúndio. Que a bancada parlamentar ruralista-latifundiária
domina e chantageia não só o governo e o Congresso, mas o país.
Revela que as Polícias Militares não podem continuar existindo com seu poder ilimitado,
inconstitucional, sua violência desmedida, sua impunidade, agindo como polícia política,
fazendo espionagem, infiltrando-se nos movimentos políticos e sociais, como fez o
Serviço Reservado da PM do Pará. Espionou, identificou e ordenou a execução dos
líderes dos sem-terra.
Além de acabar com os serviços reservados da PM é preciso iniciar uma mudança
constitucional para estadualizar, desmilitarizar e unificar as polícias no Brasil, pondo fim
ao fórum privilegiado de que gozam e acabando com essa herança maldita da época
ditatorial.
Não há meio-termo. Ou se faz a reforma agrária ou não se faz. Ela é um processo social,
cultural e político.
Não é uma operação econômica, não cabe nas análises dos nossos tecnoburocratas, dos
nossos cientistas políticos e economistas. Milhões de homens e mulheres querem a terra
para produzir alimentos, vida. Querem emprego para produzir riquezas sociais. Têm a
esperança e o sonho de justiça e de dignidade que constroem as grandes nações.
Ela, e tão-somente a reforma agrária, pode começar a mudar nosso Brasil, autoritário,
elitista e injusto.
Na viagem de volta de Eldorado para São Paulo pensei com dor e angústia que a
reforma agrária é nossa única oportunidade de evitar no Brasil conflitos como os da
Bósnia, do Líbano e da Tchetchênia.
Nossa única saída, portanto, é organizar fóruns de apoio à reforma agrária, promover atos
e manifestações em todo o país. Cabe à sociedade exigir do Congresso e do governo a
formulação e desencadeamento imediato de um amplo plano de ação e assentamentos
visando a reforma agrária em nosso país.
A palavra de ordem é uma só: todo apoio ao MST e terra para quem quer trabalhar e
produzir vida.
José Dirceu, 49, advogado, é presidente nacional do PT. Foi deputado federal pelo PT de
São Paulo (1990-94).
Crianças foram vistas na pista
24/04/96
327
Autor: ESTANISLAU MARIA
Origem do texto: Da Agência Folha, em Belém (PA)
Editoria: BRASIL Página: 1-4
Edição: Nacional Apr 24, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: INVESTIGAÇÃO; VIOLÊNCIA POLICIAL; MASSACRE ;
SEM-TERRA; ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
Crianças foram vistas na pista
da Agência Folha, em Belém (PA)
Duas professoras que viram o massacre dos sem-terra em Eldorado de Carajás
dizem que os policiais atiraram também contra mulheres e crianças que, depois de
baleadas, ficaram caídas na pista, inertes e ensanguentadas.
As professoras Ana Azevedo e Conceição Holanda afirmam ter visto depois do tiroteio
pelo menos sete crianças, um adolescente e uma senhora caídos na estrada como se
estivessem mortos.
As professoras, que não têm ligação com o MST , viajavam de Belém para Xinguara
em um ônibus que ficou parado na barreira feita pelos sem-terra. Elas iriam participar de
encontro sobre educação.
As professoras disseram que assim que o ônibus foi parado, elas desceram e foram ao
bloqueio dos sem-terra. Com a aproximação da PM, elas foram aconselhadas pelos sem-
terra a voltar para o ônibus. O tiroteio teria começado assim que chegaram ao ônibus.
Ana e Conceição disseram que havia homens, mulheres e crianças na frente da polícia e
que a PM atirou contra todos.
Segundo as professoras, o ônibus ficou parado em um local de onde puderam ver todo o
tiroteio, que durou cerca de 20 minutos.
Conceição disse que a polícia de Marabá chegou em dois ônibus e uma camionete. Mal
desceu, começou a atirar. Com a reação dos sem-terra, a polícia de Parauapebas também
abriu fogo.
Ana afirma ter visto mulheres e crianças caindo baleadas. ''Mesmo depois de ter
dispersado o pessoal, a polícia continuou atirando.'' No tiroteio, os sem-terra que não
reagiram fugiram para o mato. Alguns teriam sido perseguidos pela polícia, segundo elas.
Depois do tumulto, a polícia teria aberto a pista, e os carros começaram a passar
lentamente.
Ana diz ter visto seis crianças que avalia terem de 4 a 8 anos caídas, ensanguentadas e
inertes. Conceição diz que viu uma mulher, um adolescente de uns 14 anos e uma criança
de cerca de 7 anos. ''Pareciam mortos.''
Elas disseram que a polícia não socorreu nenhum dos sem-terra.
O ônibus, com mais de 40 passageiros, seguiu viagem. Até as 18h de ontem, elas foram
as únicas a relatar o massacre . Nenhum outro passageiro foi localizado.
Ana e Conceição são as primeiras testemunhas fora do MST . Elas moram em Belém e
estão recebendo proteção de petistas e membros do sindicato dos servidores na educação.
(ESTANISLAU MARIA)
A TFP apresenta reflexões serenas e ponderadas
328
24/04/96
Editoria: BRASIL Página: 1-7
Edição: Nacional Apr 24, 1996
Observações: INFORME PUBLICITÁRIO
Assuntos Principais: MASSACRE ; SEM-TERRA; ELDORADO DE
CARAJÁS /PA/
Em face da tragédia de Eldorado de Carajás
A TFP apresenta reflexões serenas e ponderadas
No texto, a TFP (Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade)
manifesta sua posição sobre o massacre de trabalhadores sem-terra ocorrido em
Eldorado de Carajás (PA).
Destaca o "caráter guerrilheiro" do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra),
condena as invasões de terras e alerta que "uma Reforma Agrária feita às cegas e com
prejuízo do direito de propriedade poderá ter como desfecho o agravamento da atual
situação do trabalhador rural e a intensificação da violência."
Maior parte saiu de outros Estados
23/04/96
Origem do texto: Do enviado especial a Curionópolis
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Apr 23, 1996
Legenda Foto: Valdir Ferreira e a irmã Francisca brincam no acampamento de sem-terra
em Eldorado de Carajás ; ao fundo, líderes do MST fazem reunião
Crédito Foto: Juca Varella/Folha Imagem
Observações: SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: OS SOBREVIVENTES
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; SEM-TERRA; ÓBITO; ELDORADO DE
CARAJÁS /PA/; DEPOIMENTO
Maior parte saiu de outros Estados
Trabalhadores sem terra buscam a sorte no Pará; sobreviventes relatam massacre
do enviado especial a Curionópolis
Os sem-terra do Pará são na verdade sem-terra de todo o Brasil. A Folha ouviu quatro
relatos de sobreviventes do massacre de Eldorado de Carajás que deixaram seus
Estados para tentar a sorte no sul sul e leste do Pará.
Cláudia Regina Rodrigues, 26, nasceu no Maranhão.
''Saí de São Luis em 1982. Meu pai e minha mãe trabalhavam em um restaurante, mas a
situação lá estava muito precária para cuidar de cinco filhos. Viemos para o Pará porque a
329
gente tem que cair em um lugar que dê ao menos para a gente viver", conta.
"Ficamos perambulando por aí, até que seis meses atrás fui para a fazenda Macaxeiras
(em Curionópolis), com meus marido e sete filhos.''
Sobre o confronto com a polícia, ela diz: "Deus é bom porque, pelo tanto de tiro que eles
deram, até que escapou muita gente".
''Quando eu tinha 13 anos, saí do Ceará para morar na casa de um tio, que estava em
Marabá", conta João Arruda Faria, 45.
"Eu só tinha trabalhado na roça, porque eu não tenho leitura e tenho que pegar no pesado.
No dia 8 de janeiro de 1966, vim para Eldorado de Carajás . Eu não tinha nada,
vivia jogado.'' Ele não lembra quando entrou no MST .
''Na hora da batalha, a gente foi cercado. Eles atiravam dos dois lados e a gente começou
a correr para o mato para escapar. Os que não correram foram tombando. Eu pensei que
não ia conseguir a minha vida, mas Deus é grande e eu consegui'', afirma.
''Tem três anos que estou em Eldorado de Carajás ", relata João Pereira de Souza,
25, natural de Goiás.
Guerra
"O que aconteceu aqui parecia uma guerra. Ninguém esperava que eles atirassem de
verdade. Por pouco, quase que a gente se lascava. Mas muitos não tiveram a mesma sorte
e acabaram morrendo cheios de bala. É muito triste ver morrer um companheiro que
estava com você agorinha. Não desejo isso para ninguém.''
Luis Gonzaga Rocha de Souza, 32, do Piauí, diz que viu "uma guerra" em Eldorado de
Carajás . "O que eu assisti aqui parecia uma guerra. Vi os soldados lutando que parecia
uma guerra com outro país."
"Uma bala passou raspando na minha cabeça. Olhe o rasgão que deu. Se eu fosse um
pouquinho mais alto, tinha morrido. E mesmo assim, eles dizem que atiraram só na perna
da gente. Até agora está doendo. Mas, tem nada não. Ainda estou vivo, graças a Deus.''
Polícia divulga lista oficial dos mortos
23/04/96
Autor: GEORGE ALONSO
Origem do texto: Do enviado especial a Marabá (PA)
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Apr 23, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; SEM-TERRA; ÓBITO; ELDORADO DE
CARAJÁS /PA/; POLÍCIA CIVIL; LISTA OFICIAL
Polícia divulga lista oficial dos mortos
do enviado especial a Marabá (PA)
Cinco dias depois do massacre de Eldorado de Carajás (PA), a Polícia Civil do
Pará divulgou a lista oficial dos mortos _ao todo 19_ no conflito
Até ontem, eles eram apenas corpos sem identificação.
Os laudos oficiais sobre a causa das mortes ainda estão sendo elaborados.
Depois de prontos, os documentos deverão ser encaminhados a Belém, capital do Estado,
330
para conhecimento do governador Almir Gabriel (PSDB).
Precariedade
As fichas de identificação divulgadas são precárias. Faltam dados precisos sobre cada um
dos sem-terra mortos.
Em três casos, as informações são bastante sumárias (em um deles, só se sabe o primeiro
nome, "Antonio'', e apelido, ''Irmão'').
Segundo o levantamento feito pela polícia, a maioria das vítimas (sete) nasceu no
Maranhão.
Entre os mortos, 15 eram trabalhadores rurais. Há um ''borracheiro'' e um ''fotógrafo''
(veja o quadro ao lado).
Além disso, a maior parte tinha residência conhecida em municípios da região, como
Paraopebas e Curionópolis. Um deles, Antonio Costa Dias (antes identificado apenas por
''corpo 2''), era o único que morava em uma fazenda, denominada Chega com Jeito.
Líder único
Oziel Alves Pereira, 18, foi o único militante do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) que morreu no episódio.
Todos líderes realmente escaparam, entre eles, Onalício Araújo (''Fusquinha''), Eurival
Carvalho (''Totó'') e Clenon Ferraz.
Nos dias que antecederam o conflito, eles foram os principais negociadores do MST
com a Polícia Militar de Paraopebas, especificamente o major José Maria Oliveira, que
comandou um dos grupos de policiais que entraram em confronto com os sem-terra.
Às vésperas do conflito, o governo não enviou qualquer representante na área para
negociar uma saída, embora mantivesse contatos telefônicos com ''Fusquinha'',
principalmente. A polícia queria pegar especialmente esses líderes.
A direção estadual do MST tem nove integrantes. A coordenação estadual é um
colegiado mais amplo: tem 21 membros. O acampamento da fazenda Macaxeira era
coordenado por 27 pessoas.
Mosaico
O sul do Pará, um das regiões mais conflagradas do país, é um mosaico de grandes
latifúndios e terras cuja posse sofrem contestações.
O fim dos castanhais, do garimpo de Serra Pelada e o surgimento de grandes fazendas
gerou aumento do desemprego na região.
Esse quadro facilitou o trabalho do MST de arregimentar grande número de famílias
em cidades e vilarejos da região.
Segundo o MST , havia no acampamento de Macaxeira cerca de 4.900 pessoas, das
quais 1.800 participaram do bloqueio da rodovia PA-150, que deu origem ao conflito.
(GERGE ALONSO)
Sem-terra recrutarão favelados
23/04/96
Autor: ABNOR GONDIM
Origem do texto: Enviado especial a Curionopólis
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Apr 23, 1996
331
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; SEM-TERRA; ÓBITO; ELDORADO DE
CARAJÁS /PA/; MST ; RECRUTAMENTO; PARÁ /ESTADO/
Sem-terra recrutarão favelados
enviado especial a Curionopólis
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) pretende recrutar
favelados, principalmente de Marabá, para engrossar a ocupação na fazenda Macaxeira
(600 km ao sul de Belém).
A informação é de Izabel Rodrigues, da coordenação estadual do MST . A tarefa,
depois, diz ela, é ''ocupar a sede da fazenda e tornar a desapropriação irreversível''.
O recrutamento de novos sem-terra vai marcar hoje as manifestações religiosas do sétimo
dia do massacre de 19 sem-terra na rodovia PA-150 pela Polícia Militar do Pará. A
meta é colocar no acampamento 2.000 famílias.
Estão programadas missas no local do massacre , em Curionópolis, Marabá, Imperatriz
(MA) e São Luís (MA). A maioria dos assassinados é imigrante do Maranhão.
Em Belém, foi organizada uma vigília em repúdio ao massacre .
Desapropriação
A Folha apurou que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) está
negociando a desapropriação de 5.000 hectares remanescentes da fazenda Macaxeira. A
fazendeira Otília Pinheiro quer R$ 1,8 milhão. O preço é considerado alto pelo Incra.
A negociação estaria esbarrando em questões jurídicas, já que a fazendeira não seria
proprietária da área _ela é detentora de título provisório para explorar castanha.
O MST reivindica a desapropriação integral da Macaxeira, estimada originalmente em
cerca de 40 mil hectares.
(ABNOR GONDIM)
Igreja faz missas de 7º dia por sem-terra
23/04/96
Autor: JOSÉ ALBERTO BOMBIG; LUIS HENRIQUE AMARAL
Origem do texto: Da Folha Sudeste; Enviado especial a Indaiatuba (SP)
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Apr 23, 1996
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: CNBB
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; SEM-TERRA; ÓBITO; ELDORADO DE
CARAJÁS /PA/; IGREJA CATÓLICA; CNBB; MISSA
Bispo chora ao falar sobre sua viagem à região do conflito e diz que PM fez ' massacre
seletivo' dos trabalhadores
Igreja faz missas de 7º dia por sem-terra
JOSÉ ALBERTO BOMBIG
da Folha Sudeste
332
LUIS HENRIQUE AMARAL
enviado especial a Indaiatuba (SP)
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) decidiu solicitar a todas as igrejas
do país a realização, amanhã, de missas de sétimo dia pela morte dos sem-terra em
Eldorado dos Carajás (PA).
Ontem, a Arquidiocese de São Paulo anunciou que realizará sua missa, na catedral da Sé,
às 18h desta quarta-feira.
Na manhã de ontem, um dos líderes do MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra), João Pedro Stedile, esteve em Itaici, distrito de Indaiatuba (110 km a
noroeste de São Paulo), onde a CNBB realiza sua 34ª Assembléia Geral. Stedile foi
discutir estratégias de ação conjunta entre sua entidade e a CNBB.
O arcebispo de Campinas, d. Gilberto Pereira Lopes, colocou ontem a catedral da cidade
à disposição da CNBB para a celebração de uma missa com a presença dos cerca de 280
bispos que participam da assembléia.
Campinas (99 km a noroeste de São Paulo) fica a apenas 27 quilômetros de Indaiatuba.
Segundo d. Gilberto, a diocese campineira deverá realizar atos de protesto contra o
massacre .
O arcebispo de Campinas deverá oficializar hoje no plenário da assembléia a proposta.
' Massacre seletivo'
O bispo Luiz Demétrio Valentini, responsável pelo setor de ação social da CNBB, chorou
ontem ao falar sobre sua viagem ao local do massacre dos sem-terra.
Valentini voltou anteontem para Indaiatuba. Ele foi ao Pará para representar a entidade.
Segundo o bispo, a PM do Pará realizou um '' massacre seletivo'' dos sem-terra. ''Os
policiais mandavam as mulheres e crianças se abaixarem e escolhiam os homens para
atirar. Os líderes foram os mais visados'', diz.
Para o bispo, se a polícia pôde evitar a morte das mulheres e crianças, poderia também
evitar o assassinato dos homens.
Ele começou a chorar quando ia descrever sua chegada ao local do massacre . Após
alguns segundos em silêncio, com os olhos cheios de lágrimas, disse: ''Os sem-terra
estavam famintos, são um povo simples, pobre e ingênuo, não dá para entender como a
polícia agiu com tanta violência''.
MST protesta no Pontal
23/04/96
Autor: LUIZ MALAVOLTA; ROBERTO SAMORA
Origem do texto: Da Agência Folha, em Bauru
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Apr 23, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA; SEM-TERRA; ÓBITO; ELDORADO DE
CARAJÁS /PA/; MST ; MANIFESTAÇÃO; PROTESTO
MST protesta no Pontal
LUIZ MALAVOLTA
333
da Agência Folha, em Bauru
O MST fez ontem, em Andradina (680 km a noroeste de São Paulo), um ato público
contra o massacre de sem-terra no Pará.
A manifestação reuniu, segundo o MST , 650 sem-terra. Conforme a PM, 450.
Segundo a PM, não houve incidentes no protesto, realizado entre 11h30 e 13h30.
Os sem-terra saíram em passeata pelas ruas de Andradina e se concentraram na praça
Moura Andrade, no centro da cidade.
A manifestação teve também o objetivo de protestar contra a decisão do STF (Supremo
Tribunal Federal) que suspendeu o processo de assentamento dos sem-terra na fazenda
Timboré, de 3.000 hectares, entre Andradina e Castilho.
A fazenda havia sido desapropriada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso em
agosto do ano passado para assentamentos.
Bahia e Santa Catarina
O MST da Bahia deve realizar hoje uma manifestação no centro de Itabuna (429 km
ao sul de Salvador) para protestar contra o massacre e reivindicar que o governo
regularize a situação das famílias acampadas por todo o Estado.
Em Santa Catarina, os sem-terra devem bloquear por uma hora hoje, às 14h30, a rodovia
SC 467, que liga Abelardo Luz a Xanxerê.
O MST quer reunir cerca de 500 manifestantes. Os sem-terra devem caminhar da
Prefeitura de Abelardo Luz (a 700 km de Florianópolis) até entrada da cidade, onde deve
acontecer o bloqueio.
Colaborou Roberto Samora, da Agência Folha
O Brasil arcaico contra o Brasil moderno
22/04/96
Autor: JOSÉ DE SOUZA MARTINS
Editoria: OPINIÃO Página: 1-3
Edição: Nacional Apr 22, 1996
Seção: TENDÊNCIAS/DEBATES
Arte: ILUSTRAÇÃO: ORLANDO
Observações: PÉ BIOGRÁFICO
O Brasil arcaico contra o Brasil moderno
Os sem-terra são os principais agentes de modernização do direito de propriedade e do
sistema político
JOSÉ DE SOUZA MARTINS
O massacre de trabalhadores rurais sem-terra no sul do Pará, pela PM daquele Estado,
apenas confirma que a questão fundiária é mais do que uma questão social. É sobretudo
uma questão política. Muito provavelmente ela é o cadinho de síntese da questão política
do governo Fernando Henrique.
Enquanto altos funcionários da República punham a culpa nas vítimas, o presidente da
República foi o único que fez um sumário e preciso diagnóstico: esse tipo de conflito não
é próprio de um Brasil moderno, mas de um Brasil arcaico. O buraco, porém, é um pouco
334
mais embaixo: esse é o conflito do Brasil arcaico contra o Brasil moderno.
E é também o conflito que mostra, de modo sangrento, ações dentro do próprio Estado no
sentido de frear os propósitos modernizadores do atual governo: o que está em jogo é a
viabilidade e continuidade de sua política e, no limite, a durabilidade do seu projeto.
Com o fim da ditadura militar e a desmilitarização da questão agrária, a reforma agrária
foi, num certo sentido, excluída da agenda política do Estado, ali presente, antes,
equivocadamente, como questão de segurança nacional.
A restauração da Federação e o revigoramento político dos Estados e do poder local
devolveram às oligarquias _modernizadas e enriquecidas pelo regime de exceção_ o
poder que haviam perdido parcialmente com a ditadura. As oligarquias locais, no Brasil,
estão intimamente ligadas à propriedade da terra. É também da tradição oligárquica o uso
das PMs na defesa de seus interesses privados.
É significativo que nos conflitos dos últimos anos, com trabalhadores rurais mortos e/ou
feridos, no Rio Grande do Sul, no Paraná, em Rondônia (Corumbiara) e no próprio Pará
(não só neste caso de Eldorado de Carajás ), os confrontos tenham tido nas PMs os
agentes principais da violência e das mortes.
O Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ( MST ), que se organizou
em 1984, nasce da consciência do lugar secundário da reforma agrária nos governos civis
da chamada Nova República.
Nos primeiros momentos, as ações dos sem-terra tinham nítidas características de
movimento social, inspirado por princípios da não-violência que lhes chegavam por
membros da Igreja ligados à Comissão Pastoral da Terra.
Com o fim da ditadura, em 84, o movimento se tornou uma organização. Pode-se dizer
que hoje tem características de organização partidária, embora não se reconheça como tal.
As ações dos sem-terra foram profundamente marcadas pelo desencontro entre a retórica
reformista do governo Sarney e o óbvio boicote do mesmo governo, do seu próprio
gabinete civil, à reforma agrária: não só decretos de desapropriação já assinados não
chegavam ao Diário Oficial, como outros tantos eram engavetados antes da sanção
presidencial.
A reação dos grandes proprietários de terra com a fundação da UDR (União Democrática
Ruralista), paramilitar e de nítida orientação antidemocrática, transferiu claramente o
conflito fundiário do Estado para os particulares e desmoralizou e desestabilizou a ainda
que modesta ação do governo no sentido da reforma agrária.
Nesse esquema de debilitamento do Estado e de transferência da questão agrária para o
âmbito privado, do confronto direto entre grupos sociais opostos, a questão deixou de ser
social para se tornar uma questão policial. E assim vem sendo tratada.
Os incidentes envolvendo PMs e sem-terra nos últimos anos indicam que os
trabalhadores rurais vitimados pelas políticas de modernização econômica foram
deixados não só sem alternativas econômicas, como também sem alternativas sociais e
políticas.
A radicalização é produto desse quadro. Indicam também que há um desencontro entre o
governo e o Estado. As lealdades clientelistas ao poder local e às oligarquias
transformam-se em deslealdades a diretrizes de governo.
É evidente que o coronel que comandou o massacre agiu por conta própria, depois,
aliás, de ter ido almoçar com os proprietários da fazenda cuja ocupação os sem-terra
pedem.
335
O próprio ministro da Agricultura resignatário denunciou, no ano passado, sabotagem no
Incra, concretamente a destruição de arquivos com listagens de candidatos a
assentamentos.
O presidente do Supremo Tribunal Federal fala em favor da reforma agrária, mas os
magistrados de província, muitas vezes capturados por lealdades ao poder local, dão
liminares contra desapropriações baseadas na lei. E até determinam a ação da PM para
fazer violenta reintegração de posse, como ocorreu no massacre de Corumbiara.
Todos nos esquecemos da enorme margem de decisão pessoal de que dispõem, em nosso
sistema político, juízes e policiais. Portanto, de certo modo, o governo tenta governar um
Estado que está ocupado por agentes de interesses opostos aos seus propósitos.
Os sem-terra são, sem dúvida, os principais agentes de modernização do direito de
propriedade e, por suas implicações, do nosso sistema político.
Eles retornam às grandes tradições políticas que criaram o mundo moderno, a partir do
século 18, opondo a legitimidade de seus direitos sociais à legalidade iníqua que
sustentam os interesses econômicos especulativos das oligarquias políticas.
E aí se constata que o governo modernizador não tem como aliados os próprios agentes
da modernização do país.
José de Souza Martins, é professor associado de sociologia na USP, Fellow de Trinity
Hall e professor titular da cátedra Simón Bolivar da Universidade de Cambridge,
Inglaterra (1993-94). É autor de vários livros sobre a questão agrária no Brasil. O mais
recente é ''O Poder do Atraso'', editora Hucitec, São Paulo, 1994.
MST quer a demissão de Jobim
22/04/96
Autor: ANTONIO CARLOS SEIDL
Origem do texto: Da Reportagem Local
Editoria: BRASIL Página: 1-5
Edição: Nacional Apr 22, 1996
Assuntos Principais: MST /MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM
TERRA/; FERNANDO HENRIQUE CARDOSO; INTERVENÇÃO FEDERAL;
MASSACRE ; ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
MST quer a demissão de Jobim
ANTONIO CARLOS SEIDL
da Reportagem Local
O presidente do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra), João Pedro
Stedile, vai pedir hoje, em audiência com o presidente Fernando Henrique Cardoso, em
Brasília, intervenção federal no Pará e a demissão do ministro Nélson Jobim (Justiça).
Para o MST , Jobim é ''co-responsável'' pelo confronto entre sem-terra e a polícia do
Pará, ocorrido na quarta-feira passada, quando 19 sem-terra morreram.
Na opinião dos sem-terra, o ministro Jobim também é responsável porque, após o
massacre de Corumbiara (RO), não encaminhou, conforme era de sua responsabilidade,
diversos projetos de lei contra a violência no campo e os responsáveis estão impunes até
336
hoje.
Conclusões
De volta, ontem, de uma visita de dois dias à região de Eldorado de Carajás ,
Stedile disse que o MST chegou a três conclusões:
1) O massacre foi planejado; 2) o governador Almir Gabriel é responsável direto,
porque autorizou por telefone o coronel da PM, Mário Pantoja, a atacar os sem-terra, e 3)
há necessidade imediata de que todos os oficiais e soldados sejam presos para garantir
que o inquérito prossiga dentro da lei.
Denúncias
O advogado do MST , Luiz Eduardo Greenhalgh, disse que, do ponto de vista jurídico,
o movimento adotará três providências internacionais.
Vai fazer denúncias do massacre junto ao alto comissariado das Nações Unidas e na
Comissão das Nações Unidas que trata das execuções sumárias e na comissão de direitos
humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos).
Greenhalgh disse que o MST vai iniciar um trabalho jurídico no país com a entrada
nos tribunais de uma ação de responsabilidade civil contra o governo do Pará.
Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, presidente da CUT, disse que o massacre mostra
que a reforma agrária é a prioridade absoluta.
Exército retira 280 soldados
22/04/96
Autor: IRINEU MACHADO; ESTANISLAU MARIA
Origem do texto: da Agência Folha, em Eldorado de Carajás e Belém
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Apr 22, 1996
Primeira: Chamada
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: POLÍCIA MILITAR; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
Exército retira 280 soldados
da Agência Folha, em Eldorado de Carajás e Belém
O 52º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército de Marabá retirou na manhã de ontem
280 dos 360 soldados que haviam sido mandados para buscas e garantia de segurança na
região do conflito com os sem-terra.
Os soldados voltaram a Marabá às 9h. Apenas um grupo permaneceu, com 80 homens.
Segundo o tenente Simão (não quis dar o nome completo), um dos responsáveis, os
outros soldados voltaram depois que as buscas concluíram que não havia mais corpos na
região. Os soldados teriam vasculhado um raio de 20 km, entre as 8h e as 17h de sábado.
O tenente disse que seu grupo permaneceria em Eldorado de Carajás "por tempo
indeterminado", para fazer novas buscas conforme novas informações chegassem da
Polícia Civil ou do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra ( MST ).
Visita
Os oito sem-terra feridos se queixaram ontem ao governador Almir Gabriel (PSDB) que
337
estão sem contato com seus parentes.
Gabriel visitou os sem-terra pela manhã e determinou à área social do governo que
localize as famílias.
A visita durou uma hora. Alguns relataram o conflito, outros pediram agilidade no
processo de reforma agrária. Apesar de não ter havido hostilidades nem discussões, os
sem-terra não gostaram da visita.
(IM e EM)
Líder morto aos 17 estudou e foi ator
22/04/96
Autor: FÁBIO ZANINI; IRINEU MACHADO
Origem do texto: Da Agência Folha; da Agência Folha, em Marabá
Editoria: BRASIL Página: 1-7
Edição: Nacional Apr 22, 1996
Legenda Foto: Cortejo de trabalhadores sem terra em Curionópolis carrega os caixões dos
mortos no conflito com a PM
Crédito Foto: Juca Varella - 20.abr.96/Folha Imagem
Arte: QUADRO: QUEM É SEM-TERRA, SEGUNDO O MST
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: HISTÓRIAS DO PARÁ
Selo: MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: POLÍCIA MILITAR; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
Trajetórias dos envolvidos são parecidas
Líder morto aos 17 estudou e foi ator
da Agência Folha
Oziel Alves Pereira, 17, um dos 19 mortos no conflito com a Polícia Militar na última
quarta-feira em Eldorado dos Carajás (PA), chegou à coordenação estadual do
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em menos de dois anos.
''Perdemos uma das nossas mais promissoras lideranças'', disse à Folha José Orlando
Galvino, 30, outro líder do acampamento.
O MST acusa a polícia, com base em depoimento de sem-terra envolvidos no
confronto, de ter matado Pereira depois de ele já estar algemado.
Pereira tinha 15 anos quando se integrou ao movimento. A primeira invasão em que
tomou parte ocorreu em junho de 1994, quando um grupo de trabalhadores sem-terra
entrou numa área conhecida como Cinturão Verde, pertencente à Companhia Vale do Rio
Doce, em Paraopebas (PA).
Pereira foi um dos organizadores da marcha que os sem-terra faziam a Marabá e era um
dos líderes do acampamento na rodovia PA-150.
Posições firmes
''Ele era uma pessoa ponderada, mas de posições firmes. Juntou-se ao movimento por
idealismo e conhecia bem os problemas da região'', afirma Galvino.
338
Pereira nasceu no Mato Grosso e tinha três irmãs e dois irmãos. Chegou a Paraopebas em
1983, quando seus pais compraram uma casa na cidade.
Cursou até a quarta série do primeiro grau num colégio estadual da cidade, mas teve de
largar os estudos para trabalhar na lavoura.
Em agosto do ano passado, Pereira foi enviado pelo MST ao assentamento de Vila
Diamante, em Vitória do Mearim (MA).
Com material escolar doado pelo governo do Estado e professores pagos pelos próprios
assentados, fez um curso supletivo de seis meses, conseguindo certificado de conclusão
do primeiro grau.
Ao retornar ao Pará, em dezembro, ganhou posição de destaque na direção do MST .
Passou a participar de reuniões onde era definida a estratégia do movimento e o
calendário de ocupações.
No final de 95, Pereira participou de uma montagem teatral feita no acampamento dos
sem-terra em homenagem aos 300 anos da morte do líder negro Zumbi.
Protagonizou o personagem-título e passou a ser chamado de Zumbi pelos companheiros.
Sonho
Além de Oziel Pereira, identificado por um irmão, mais cinco sem-terra mortos foram
reconhecidos por parentes. A maioria veio de Estados do Nordeste e migrou para o leste
do Pará no final do ano passado, atraída pela possibilidade de receber um lote de terras.
Raimundo Lopes, 20, conhecido por ''Raimundo Parazinho'', militava no MST desde
novembro.
Ele nasceu em Imperatriz (MA) e foi para a região do conflito quando houve a invasão da
fazenda Macaxeira, em novembro. Era solteiro e trabalhava como borracheiro antes de se
mudar para o acampamento sem-terra.
Também militante desde novembro de 95, José Alves da Silva, 25, de Açailândia (MA),
era solteiro e trabalhava como lavrador.
Três dos identificados eram casados: Abílio Alves Rabelo, 45, Graciano de Souza, 46, e
Joaquim Pereira Zera, 31.
Zera, casado havia nove anos, tinha três filhos. Nasceu em Alto João de Paiva (PI) e
chegou a Curionópolis em 1969. Militava no MST havia cinco meses.
Graciano Olímpio de Souza, 46, era garimpeiro e, segundo sua família, juntou-se aos
trabalhadores sem-terra há cinco meses, deixando a mulher e sete filhos.
Sua mãe, Bernarda Simplício da Silva, 81, diz que ele era de Marabá e trabalhou durante
dois anos com garimpo de ouro em Altamira.
(FÁBIO ZANINI)
Colaborou IRINEU MACHADO, da Agência Folha, em Marabá
FHC faz ''intervenção branca'' no Pará
21/04/96
Autor: RUI NOGUEIRA; REINALDO AZEVEDO
Origem do texto: Secretário de Redação da Sucursal de Brasília; Coordenador de Política
da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-10
339
Edição: Nacional Apr 21, 1996
Legenda Foto: Caixões com corpos dos lavradores mortos no Pará, cobertos com a
bandeira do Movimento dos Sem-Terra
Crédito Foto: Jorge Araujo/Folha Imagem
Arte: MAPA: CONHEÇA AS CIDADES COM ACAMPAMENTOS DO MST ;
QUADRO: CHACINAS OCORRIDAS NO PARÁ; CONFLITOS SOB FHC
Primeira: Chamada
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: INVESTIGAÇÃO
Selo: TEMPO REAL MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: POLÍCIA MILITAR; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
Governo federal assume controle sobre as autópsias e envia tropas do Exército para
procurar corpos
FHC faz ''intervenção branca'' no Pará
RUI NOGUEIRA
Secretário de Redação da Sucursal de Brasília
REINALDO AZEVEDO
Coordenador de Política da Sucursal de Brasília
O governo federal, por intermédio do Ministério da Justiça e do Exército, está
promovendo uma ''intervenção branca'' na investigação do massacre dos trabalhadores
sem terra em Eldorado de Carajás (PA).
A intervenção federal é consentida _o próprio governador do Estado, Almir Gabriel
(PSDB), está pedindo a ajuda da União.
A ausência do poder público estadual e municipal no traslado dos corpos de Eldorado
para Marabá e a forma como eles foram amontoados no porão do IML (Instituto Médico
Legal) levaram o Ministério da Justiça a assumir os trabalhos de autópsia dos corpos.
Para apressar os trabalhos, José Gregori, chefe de Gabinete do ministro da Justiça, Nelson
Jobim, ''arrebanhou'' em Belém um perito e dois auxiliares que foram se juntar aos outros
nove _três titulares e seis auxiliares_ que já trabalhavam em Marabá.
Os três foram colocados em um avião do governo federal e levados para Marabá. Eles
tiveram de enfrentar a resistência dos legistas do Estado.
Autópsia
Para evitar que laudos da autópsia contenham erros de descrição e de análise, o
Ministério da Justiça impôs a supervisão do perito Nelson Massini, da Unicamp
(Universidade Estadual de Campinas).
O Palácio do Planalto teme que os erros nos laudos médicos possam ser posteriormente
usados na defesa dos policiais responsabilizados pelo massacre .
O envio das tropas do Exército é outro ponto de intervenção federal. O governo estadual
não consegue controlar a Polícia Militar, que, em sua maioria, trabalha nas horas de folga
prestando serviços de segurança para os fazendeiros e madeireiros da região.
Os policiais agem nas operações a serviço do Estado como se estivessem apenas fazendo
um ''bico'': eles não têm responsabilidade pública.
Militares
340
Foi esse perfil da Polícia Militar que levou o presidente Fernando Henrique Cardoso a
mobilizar os militares para fazer a varredura na região à procura de novos corpos, que as
lideranças dos trabalhadores sem terra afirmam estar espalhados pela mata. Os sem-terra
acusam ainda a PM de ter ocultado os corpos de crianças mortas.
Extra-oficialmente, os membros do CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa
Humana) afirmam que a maioria dos sem-terra foi morta com tiros de armas calibre 38.
Já há dois casos confirmados de mortos atingidos pelas costas. Pelo menos um
trabalhador foi morto a golpes de foice.
A iniciativa de Fernando Henrique de se reunir com os chefes dos dois outros Poderes da
República, na segunda-feira, às 17h, é outra demonstração de que o governo busca
centralizar na esfera federal a resolução dos conflitos de terra.
O Ministério da Justiça convocará as lideranças dos trabalhadores sem terra para dizer
que o ritmo da reforma agrária e da investigação dos conflitos têm de seguir o que
Gregori chama de ''farmacopéia democrática''. Isso significa que o processo não depende
só da vontade do Executivo.
José Gregori afirma ainda que, em conflitos como o que explodiu no Pará, na quarta-
feira, ''ninguém é anjo''.
3.000 participam do enterro no Pará
21/04/96
Autor: IRINEU MACHADO
Origem do texto: Da Agência Folha, em Eldorado de Carajás
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Paulistana Apr 21, 1996
Legenda Foto: Vicentinho ajuda a baixar um dos caixões dos sem-terra no cemitério de
Curionópolis, onde participantes cantaram o Hino Nacional
Crédito Foto: Jorge Araújo/Folha Imagem
Observações: SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: O SEPULTAMENTO
Assuntos Principais: POLÍCIA MILITAR; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
3.000 participam do enterro no Pará
Vicentinho ajuda na cerimônia
Da Agência Folha, em Eldorado de Carajás
Os corpos de 14 dos 19 sem-terra mortos foram enterrados ontem às 10h no cemitério
Recanto da Paz, em Curionópolis (PA). Cerca de 3.000 pessoas acompanharam o
transporte dos caixões do centro da cidade até o cemitério.
Os caixões foram levados em caminhada por parentes dos sem-terra, integrantes do
MST e políticos.
Um dos diretores do MST anunciou o nome de cada uma das vítimas e a cada nome
anunciado as pessoas no local gritavam "presente''.
Entre os que acompanharam o enterro estavam o presidente da CUT, Vicente Paulo da
Silva, o Vicentinho, e o presidente nacional do PT, José Dirceu.
341
Manifestantes levaram faixas ao local, acusando o Estado e a Polícia Militar de
"assassinos''. Várias pessoas pediam justiça. Parentes das vítimas evitaram dar
declarações.
Minutos antes do enterro foi cantando o Hino Nacional. Dirceu disse que o PT vai exigir
que os responsáveis pelo massacre "sejam colocados imediatamente na cadeia''. Ele
disse que o partido vai formalizar um pedido de desarmamento da PM do Pará.
"Eles misturaram política à pistologia. Tem que desarmar essa PM daqui. A polícia local
tem uma política assassina. Se não houver mudanças na legislação isso vai continuar
acontecendo'', afirmou.
Dirceu disse que ouviu vários comerciantes locais dando exemplos de corrupção na PM.
Disse ainda que ouviu várias pessoas dizerem ter testemunhado o assassinato de Oziel
Alves Pereira, 17, mas que têm medo de falar. Oziel foi enterrado em Paraopebas.
(IM)
MST faz lista de desaparecidos
21/04/96
Autor: GEORGE ALONSO; ESTANISLAU MARIA
Origem do texto: Do enviado especial a Belém (PA); da Agência Folha em Belém
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Paulistana Apr 21, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: POLÍCIA MILITAR; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
MST faz lista de desaparecidos
GEORGE ALONSO
enviado especial a Belém (PA)
Apesar da "varredura'' que o Exército deve fazer na área do conflito, os sem-terra
decidiram fazer, a partir de amanhã, um levantamento dos desaparecidos. Há absoluta
desconfiança em relação às apurações do massacre .
O MST tem, segundo o dirigente Orlando Galvino, um cadastro com 2.996 pessoas
que estavam no acampamento de Curionópolis.
Desse total, cerca de 1.800 estavam na "encruzilhada da morte'' na rodovia. "Esse
trabalho será rápido. Deve demorar três dias. Só não começamos hoje (ontem) porque o
pessoal está envolvido com o ato de sepultamento'', disse.
Armas usadas pela PM no confronto estão no Instituto de Criminalística de Belém para
serem periciadas. Repete-se o procedimento tomado no massacre de Corumbiara
(RO), em 9 de agosto de 95, e que resultou em nada.
Vieram 28 fuzis, quatro metralhadoras, quatro submetralhadoras, quatro revólveres
calibre 38 e um 32, além de dezenas de cartuchos deflagrados.
Pantoja
O advogado do coronel Mário Pantoja, Luciel Caxiado, disse ontem que o governo do
Pará sabia do risco da operação. "Momentos antes da operação, Pantoja comunicou ao
comando que aquilo era um barril de pólvora'', disse. "Mesmo assim o comandante Lopes
342
insistiu na operação.''
Colaborou ESTANISLAU MARIA, da Agência Folha, em Belém
FHC diz que governo não pode fazer tudo
20/04/96
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-4
Edição: São Paulo Apr 20, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: GOVERNO FHC; REFORMA AGRÁRIA; ELDORADO DE
CARAJÁS /PA/; CONFLITO DE TERRA; SEM-TERRA; MASSACRE
FHC diz que governo não pode fazer tudo
da Sucursal de Brasília
O presidente Fernando Henrique Cardoso disse a um grupo de parlamentares que ''é
preciso repartir as tarefas, não só da reforma agrária quanto da apuração dos delitos.''
A afirmação foi feita pelo porta-voz da Presidência, Sergio Amaral, depois do encontro,
realizado no Palácio do Planalto.
Durante a reunião, o líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), defendeu a formação
de uma comissão suprapartidária para defender o assunto. Os parlamentares se
dispuseram a criar uma ''força tarefa'' para acelerar a votação de projetos.
FHC disse ainda que ''o Executivo não pode resolver tudo sozinho e que é preciso que
haja um entendimento sincero entre os partidos'' para resolver a questão.
Segundo Sergio Amaral, o presidente afirmou que ''está disposto a fazer tudo o que
estiver ao seu alcance para pôr fim a essa situação de violência e impunidade''.
Ele disse ainda que, se preciso, o governo vai repassar mais verbas, além da dotação
orçamentária de R$ 1,7 bilhão do Incra, para garantir o processo de reforma agrária e o
assentamento de 60 mil famílias neste ano.
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP), porta-voz da comissão, disse que ''está para ver que
ele (FHC) faça isso com o mesmo vigor e rapidez com que tratou a questão do socorro
aos bancos''.
A comissão levou ao presidente seis fotos tiradas por um fotógrafo que teve acesso ao
IML (Instituto Médico Legal) de Marabá, mostrando cadáveres de sem-terra.
FHC espalhou as fotos em sua mesa e ficou alguns instantes parado, observando-as. Ao
final, exclamou: ''Inaceitável!''.
Ministro
O presidente afirmou aos parlamentares que ''não tem compromisso com nome ou
partido'' para suceder Andrade Vieira no Ministério da Agricultura.
Suplicy sugeriu que o presidente acolhesse sugestões do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) para o ministério, pois, segundo ele, tem de ser um
nome ''com sensibilidade para a reforma agrária''.
343
O senador elogiou o nome do ex-presidente do Incra, Francisco Graziano, para ocupar o
cargo.
Exército vai apurar assassinatos no Pará
20/04/96
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília; Do enviado especial a Curionópolis e
Eldorado de Carajás
Editoria: BRASIL Página: 1-5
Edição: Nacional Apr 20, 1996
Primeira: Chamada
Vinheta/Chapéu: INVESTIGAÇÃO
Selo: MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: CONFLITO DE TERRA; ELDORADO DE CARAJÁS /PA/;
MASSACRE ; SEM -TERRA; INVESTIGAÇÃO
Sem-terra dizem que mais três mortos foram achados e que PM teria desaparecido com
corpos de crianças
Exército vai apurar assassinatos no Pará
da Sucursal de Brasília e
do enviado especial a Curionópolis e Eldorado de Carajás
O Exército vai controlar todo o leste do Pará e investigar o confronto dos entre sem-terra
e policiais militares. A decisão foi tomada ontem em uma reunião do presidente Fernando
Henrique Cardoso com os ministros Zenildo de Lucena (Exército) e Nelson Jobim
(Justiça).
Cerca de 700 soldados, da 23ª Brigada de Infantaria de Selva, sediada em Marabá, vão
patrulhar a área com a missão imediata de não permitir qualquer novo tipo de confronto.
"A ordem é pacificar'', disse a assessoria do Ccomsex (Centro de Comunicação Social do
Exército).
O porta-voz da Presidência, Sergio Amaral, afirmou que o Exército também vai fazer
uma ''varredura'' na região do massacre em Marabá (PA).
Segundo ele, a tropa vai auxiliar no levantamento de informações, na procura e
localização de possíveis novas vítimas e no "esclarecimento do episódio''.
A Folha apurou que o CIE (Centro de Informação do Exército) vai investigar o
massacre e fazer um relatório apontando quem exatamente começou o confronto.
Segundo o porta-voz, o trabalho do Exército foi acertado com o governador Almir
Gabriel (PA). ''Cabe ao governo federal tomar medidas que possam auxiliar na
identificação dos fatos e das vítimas'', disse Amaral.
PM sem autoridade
O governo decidiu usar as Forças Armadas por dois motivos. Primeiro: na avaliação do
Ministério da Justiça, a PM paraense perdeu a autoridade junto à população, e não apenas
aos sem-terra, e reforçou com o confronto e as mortes a fama de que só defende os
fazendeiros.
344
Segundo motivo: o CIE acompanha há vários anos o conflito agrário no área do Bico do
Papagaio e é quem vem abastecendo a Presidência com informações.
Na manhã de anteontem, quando o governo se deu conta da gravidade do confronto entre
a PM e os sem-terra, a primeira providência do Planalto foi enviar o chefe da Casa
Militar, o general Alberto Cardoso, para a área.
Os comandos militares do Sudeste (sede em São Paulo) e do Sul (sede em Porto Alegre)
também estão em alerta para uma mobilização eventual para conter os movimentos dos
sem-terra nos Estados de São Paulo e Paraná.
Sobreviventes
Ontem, sobreviventes do massacre de Eldorado de Carajás afirmaram ter
encontrado mais três corpos de homens perto da rodovia PA-150, que liga Eldorado de
Carajás a Marabá, no leste do Pará.
Na conta do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), os corpos
encontrados chegam a 26.
A PM (Polícia Militar) e o hospital de Curionópolis não confirmaram a informação.
Continuam a divulgar o número oficial, que é 19.
Em assembléia realizada pela manhã, os sem-terra decidiram montar grupos de busca
para tentar encontrar outros supostos feridos e mortos que estariam na mata próxima à
rodovia. Foram criados dez grupos de cinco pessoas.
Mulheres e crianças
''Tem muita gente morta que ainda não foi encontrada, inclusive mulheres e crianças. É
impossível que tiros de metralhadoras só tenha atingido os homens'', afirma Maurílio da
Silva Soares, 24, uma das lideranças do movimento.
A sem-terra Rita de Cássia afirma que viu policiais militares levar corpos de cinco
crianças em uma camionete roxa, logo após o confronto, na última quarta-feira.
"Os PMs invadiram meu barraco, tiraram a lona preta e usaram para enrolar os corpos'',
disse.
A Folha não conseguiu localizar ontem o major José Maria Pereira de Oliveira, o único
autorizado a falar sobre a operação.
Até o fechamento desta edição, um grupo de cerca de mil sem-terra aguardavam em
Curionópolis a chegada dos 19 corpos, vindos de Marabá, a 150 km de distância, onde foi
feita a necrópsia.
O clima no local do massacre ainda era tenso ontem. Vários feridos que haviam fugido
correndo pelo mato voltaram ao local do confronto.
O sem-terra José Francisco de Souza encontrou ontem de manhã sua filha Tieles de
Souza, 10, a uma distância de 10 km do local.
Ele disse, chorando, que pensou que a filha estivesse morta. A menina estava exausta e
assustada.
Perfil dos mortos
20/04/96
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Apr 20, 1996
345
Arte: QUADRO: PERFIL DOS MORTOS
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: CONFLITO DE TERRA; ELDORADO DE CARAJÁS /PA/;
VIOLÊNCIA; MASSACRE ; SEM -TERRA
Perfil dos mortos*
- Oziel Alves Pereira, 17, o ''Zumbi'', solteiro, mato-grossense. Era um dos líderes da
marcha e integrava a coordenação estadual do MST . Militava no movimento desde
junho de 1994. Os pais, três irmãs e dois irmãos moram em Paraopebas (PA)
- Raimundo Lopes, 20, o ''Raimundo Parazinho'', solteiro, natural de Imperatriz (MA).
Borracheiro. Integrou-se ao MST no acampamento da fazenda Macaxeira, em
novembro
- José Alves da Silva, 25, casado, natural de Açailândia (MA). Lavrador. Integrou-se ao
MST no acampamento da fazenda Macaxeira, em novembro
- Graciliano de Souza, 46, casado, seis filhos, natural de Marabá (PA). Lavrador. Militava
no MST havia cinco meses.
- Abílio Alves Rabelo, 45, casado, lavrador.
- Joaquim Pereira Zera, 31, casado há nove anos, três filhos. Natural de Alto João de
Paiva (PI). Lavrador. Chegou a Curionópolis em 1969 e militava no MST havia cinco
meses.
Advogado responsabiliza União
20/04/96
Origem do texto: Do enviado especial a Curionópolis
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Apr 20, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: ELDORADO DE CARAJÁS /PA/; CONFLITO DE TERRA;
SEM-TERRA; MASSACRE ; MST
ERRAMOS: 22/04/96
O nome do advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Luiz Eduardo
Greenhalgh, foi grafado incorretamente à pág. 1-10 (Brasil) de 20/4. ERRAMOS
Advogado responsabiliza União
do enviado especial a Curionópolis
O advogado do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), José
Eduardo Greenhalgh, disse ontem que irá entrar com uma ação de responsabilidade civil
contra a União e governo do Pará.
346
''A responsabilidade é partilhada entre os governos federal e estadual'', afirmou o
advogado, após visita ao local do massacre . Emocionado, Greenhalgh ouviu relatos
das mortes feitos pelos sem-terra.
O presidente nacional do PT, José Dirceu, que também esteve ontem em Eldorado de
Carajás , acusou o governo FHC pelo massacre . ''Isso é pistolagem oficial do
governo federal'', disse.
Acompanhado de uma comitiva de cinco senadores e oito deputados federais e estaduais,
Dirceu discursou pela manhã para um grupo de sem-terra que permanecia junto à rodovia
PA-150, onde aconteceu o confronto com a PM.
''Vocês queriam terra, olhe o que o governo deu a vocês'', disse ele, mostrando cartuchos
recolhidos junto às margens da estrada.
Dirceu disse que o PT não está usando o conflito para se promover. ''Não tem exploração
política, tem solidariedade.'' Segundo ele, ''onde tiver uma bandeira do MST , vai ter
um petista''.
Dirceu afirmou que ''é uma ilusão pensar que o movimento pela terra vai se abalar pelo
massacre ''.
Ele desafiou o governo a apoiar mudança na legislação. ''Já que o governo tem maioria no
Congresso, por que não trabalha para mudar as leis e favorecer quem quer de fato
trabalhar na terra?''
Sem terra do RS param via
20/04/96
Origem do texto: Da Agência Folha em Porto Alegre
Editoria: BRASIL Página: 1-10
Edição: Nacional Apr 20, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: CONFLITO DE TERRA; SEM-TERRA; MASSACRE ;
PROTESTO; RIO GRANDE DO SUL; MANIFESTAÇÃO PÚBLICA
Sem-terra do RS param via
da Agência Folha, em Porto Alegre Agricultores sem-terra do Rio Grande do Sul
bloquearam ontem duas rodovias no Estado. Os bloqueios foram em protesto ao
massacre dos sem-terra em Eldorado de Carajás (PA).
Cerca de mil sem-terra, segundo o MST , bloquearam a BR-158, das 16h às 17h30, em
Júlio de Castilhos (394 km a noroeste de Porto Alegre). A Polícia Rodoviária não
estimou o número de participantes.
A BR-116, em Camaquã (126 km ao sul de Porto Alegre), foi bloqueada por cerca de 800
sem-terra, das 16h30 às 17h30, conforme a Polícia Rodoviária Federal.
Nos dois locais formaram-se filas de carros de mais de 5 km.
Médico diz que há indícios de assassinato; PM nega
19/04/96
347
Autor: LUCAS FIGUEIREDO; ABNOR GONDIM
Origem do texto: Enviados especiais a Eldorado de Carajás (PA)
Editoria: BRASIL Página: 1-4
Edição: Nacional Apr 19, 1996
Legenda Foto: Corpos dos trabalhadores rurais sem terra mortos no confronto com a
Polícia Militar no interior do Instituto Médico Legal de Marabá (PA)
Crédito Foto: Jorge Araujo/Folha Imagem
Primeira: Chamada
Observações: COM SUB-RETRANCA
Vinheta/Chapéu: AUTÓPSIA
Selo: MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA POLICIAL; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
'Vários deles tinham tiros pelas costas', diz cirurgião de Curionópolis
Médico diz que há indícios de assassinato; PM nega
LUCAS FIGUEIREDO
ABNOR GONDIM
enviados especiais a Eldorado de Carajás (PA)
Os corpos dos 19 sem-terras mortos anteontem em conflito com a Polícia Militar em
Eldorado de Carajás , no Pará, apresentam indícios de assassinato.
A afirmação foi feita à Folha pelo cirurgião Orlando de Medeiros, um dos primeiros
médicos do hospital municipal de Curionópolis (Pará) a ver os corpos entregues pela PM
envoltos em lona.
''Vários deles tinham tiros pelas costas e um teve a frente da testa sacada por um tiro
disparado à altura da nuca'', disse o médico.
O médico Vinicius Tassis disse que os 19 corpos tinham uma média de três a quatro tiros.
O comandante da PM que participou da operação, major José Maria Oliveira, 41, negou o
assassinato e afirmou que ''houve fogo cruzado e correria''. Segundo ele, ''os sem-terra
receberam balas de seus próprios companheiros''.
A PM afirma que apreendeu 63 armas, algumas de fabricação caseira, após o confronto.
Uma menina, de idade não revelada, foi encontrada ontem morta em um riacho próximo
ao local do confronto. A PM diz que a menina morreu afogada e que o caso não teria
conexão com a batalha.
Os sem-terra, porém, afirmam que ela estava no local do confronto e se afogou durante a
fuga.
Mortos
O número oficial das vítimas entre os sem-terra é de 19 mortos e 45 feridos (41 sem-terra
e 4 policiais). Onze feridos foram transportados para Belém para retirada de balas, três
deles em estado grave. Entre eles, Rubenita Silva, que levou três balas no corpo.
Um dos policiais feridos seria um sargento que está em estado grave, segundo o major
Oliveira.
Na terça-feira, os sem-terra interditaram a rodovia PA-150, que liga Eldorado de
Carajás a Belém. Segundo o MST , havia 2.500 pessoas. A PM aponta 800 sem-terra.
Eles queriam uma negociação direta com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e
348
Reforma Agrária) para desapropriação da Fazenda Macaxeira, que fica a 12 km de
Eldorado de Carajás , onde parte do grupo estava acampada.
Na negociação, os sem-terra aceitaram retirar a barreira, dando prazo até 11h de
anteontem.
Eles exigiam dez toneladas de alimentos, 50 ônibus para levá-los até Marabá e outros
cinco ônibus que seguiriam até Belém, onde tentariam falar com representantes do Incra e
do governo estadual.
Às 12h, o grupo voltou a interditar a rodovia, depois de receber recado de que as
exigências não seriam cumpridas. Por volta das 16h, um grupo de cerca de 160 policiais
militares chegou ao local.
Pela primeira apuração da Polícia Federal, a PM foi enviada ao local sem qualquer plano
prévio.
Direitos humanos
Dois membros do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Humberto
Espínola e Percílio Neto, encontraram os corpos dos mortos jogados em três salas no
porão do prédio do Instituto Médico Legal de Marabá.
O massacre mudou a agenda de Alison Sutton, da Anistia Internacional, que chegou
ao Brasil ontem. Alison cancelou todos os seus compromissos e embarcou à noite para
Marabá.
Mortos têm deformações e várias perfurações a bala
19/04/96
Autor: IRINEU MACHADO
Origem do texto: Da Agência Folha, em Marabá
Editoria: BRASIL Página: 1-5
Edição: Nacional Apr 19, 1996
Legenda Foto: José Carlos Moreira dos Santos, 17, que levou um tiro no olho direito
durante a batalha campal e diz ter sido humilhado pelos policiais militares
Crédito Foto: Jorge Araújo/Folha Imagem
Arte: ILUSTRAÇÃO: O PALCO DA BATALHA
Primeira: Chamada
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: VÍTIMAS FATAIS
Selo: MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA POLICIAL; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
Exposição de corpos no IML atrai curiosos em Marabá
Mortos têm deformações e várias perfurações a bala
IRINEU MACHADO
da Agência Folha, em Marabá
Os corpos das vítimas do confronto entre sem-terra e a polícia do Pará apresentam
deformações e várias perfurações de bala. A Agência Folha teve acesso às duas salas do
349
Instituto Médico Legal de Marabá, para onde os sem-terra mortos foram levados.
Uma das vítimas estava com a parte de cima da cabeça totalmente deformada, como se
tivesse sido esmagada.
Entre os outros corpos, espalhados pelo chão das duas salas que estavam fechadas com
uma grade de ferro, podiam-se ver perfurações de balas no meio da testa, na barriga e na
boca de alguns deles.
Um dos corpos estava com o certificado de reservista aberto sobre o peito. O documento
estava em nome de Lourival Costa.
A maioria das vítimas aparentava ter mais de 30 anos. Pelo menos dois aparentavam ter
mais de 50 anos.
Os corpos ficaram expostos nas salas por mais de duas horas. Filas de curiosos, inclusive
crianças, se formaram para vê-los.
A maioria dos curiosos era de moradores das vizinhanças do bairro de onde fica o IML, o
Nova Marabá.
Transferência
Integrantes da Polícia Técnica também estiveram no local para averiguar os corpos.
Depois da averiguação, os corpos seriam colocados em caixões e transferidos para o
município vizinho de Curionópolis.
O conflito foi o comentário de ontem na cidade. Membros de associação de bairro,
reunidos no pátio do IML, clamavam por pedidos de Justiça e punição aos autores
responsáveis pelo massacre .
''Os sem-terra são seres humanos como nós, os culpados por isso devem pagar'', gritava
uma mulher.
Ao seu lado, outra dizia que as pessoas no local tinham medo de dar informações porque
temiam represálias da polícia.
Apoio ao MST
Nenhuma das duas quis se identificar e afirmaram que não participavam do Movimento
dos Trabalhadores Sem Terra, mas o apoiavam.
''Isso é o que recebem os trabalhadores que querem lutar pelos seus direitos'', afirmou
Maria da Luz Pereira, 38, moradora de um bairro da periferia de Marabá.
Polícia iniciou tiroteio, dizem os feridos
19/04/96
Autor: IRINEU MACHADO
Origem do texto: Da Agência Folha, em Marabá
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Apr 19, 1996
Arte: QUADRO: QUEM É SEM-TERRA, SEGUNDO O MST
Primeira: Chamada
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: AS VÍTIMAS
Selo: MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA POLICIAL; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
350
Segundo os sem-terra, para não serem identificados, PMs os forçavam a ficar com rostos
virados para o chão
Polícia iniciou tiroteio, dizem os feridos
IRINEU MACHADO
da Agência Folha, em Marabá
Os trabalhadores sem-terra feridos no conflito Polícia Militar negam a versão oficial de
que teriam feito o primeiro disparo, e acusam os policiais de terem feito tiros de
metralhadora e revólver à queima-roupa.
A Agência Folha ouviu quatro dos dez feridos que foram levados ontem à Unidade Mista
de Saúde de Marabá.
José Carlos Moreira Santos, 17, um dos feridos mais graves, perdeu a visão do olho
direito por um dos disparos.
"Eu estava brincando com meus amigos, de repente, eles (os policiais) chegaram
atirando. Quando caí, um amigo tentou me ajudar e os PMs nos humilharam", relatou o
sem-terra ferido.
Segundo Moreira Santos, os policiais "pediram que deitássemos no chão para não vê-los.
Depois, deram três minutos para a gente sair de lá correndo. Minha mãe e eu corremos
mais de dois quilômetros pela beira da estrada".
Jurandir Gomes dos Santos, 30, o primeiro a ter sido baleado, mostrou a radiografia que
mostrava os 11 tiros em suas pernas, "feitos numa rajada só", segundo suas declarações.
Raimundo José da Conceição, 20, que teve a perna direita fraturada por tiros, disse que
"depois do massacre , os policiais atiravam para cima e pediam para que
aparecêssemos. Estávamos escondidos no mato".
Sete dos dez feridos da Unidade Mista de Saúde de Marabá aguardavam transferência
para hospitais de Belém.
Outros seis sem-terra feridos foram levados para o Hospital Celina Gonçalves, que tinha
também dois policiais internados.
Cronologia da invasão
19/04/96
Editoria: BRASIL Página: 1-6
Edição: Nacional Apr 19, 1996
Arte: QUADRO: CRONOLOGIA DA INVASÃO
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA POLICIAL; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/; HISTÓRICO
Cronologia da invasão
- maio.94 _ Um grupo de trabalhadores ligados ao MST invade a fazenda Rio Branco,
em Parauapebas. Eles querem a desapropriação da Rio Branco e da Macaxeira, fazenda
vizinha
- outubro.95 _ Depois de um ano e meio, o Incra compra a fazenda Rio Branco e começa
351
a assentar 850 famílias. No mesmo mês, as lideranças do MST no Pará começam a
cadastrar trabalhadores para participar do movimento e das invasões.
- 8.nov.95 _ Cerca de 3.500 sem-terra invadem o Centro Agropastoril da Prefeitura de
Curionópolis
- 29.dez.95 _ Cerca de mil trabalhadores ocupam a pista da PA-275. Depois de oito horas
de interdição, eles liberam a estrada
- 1.mar.96 _ Aproximadamente 500 integrantes do MST ameaçam invadir o complexo
Macaxeira. A Polícia Militar informa que a situação está cada vez mais tensa
- 3.mar.96 _ O governo do Pará define um prazo até junho para resolver o problema da
Macaxeira
- 5.mar.96 _ Às 5h, os sem-terra iniciam a invasão da Macaxeira. Muitos se instalam no
km 18 da rodovia PA-275
- 6.mar.96 _ É firmada uma trégua de 30 dias entre o governo do Estado e os invasores. O
governo se compromete a negociar junto ao Incra o assentamento dos sem-terra
- 11.mar.96 _ O governo envia ao acampamento dos sem-terra na Macaxeira 12 toneladas
de alimentos e 70 caixas de remédios
- 15.mar.96 _ A Human Rights Watch, uma das mais importantes organizações não-
governamentais de defesa dos direitos humanos, solicita ao governo do Pará providências
para evitar o conflito armado na Macaxeira
- 28.mar.96 _ Mais de 40 fazendeiros de Marabá e região vão a Belém para pedir ao
governo providências contra as invasões
- 8.abr.96 _ Começa caminhada dos sem-terra de Curionópolis rumo a Belém.
- 11.abr.96 _ Cerca de 1.200 sem-terra interditam a PA-275 ainda em Curionópolis e
saqueiam um caminhão com 16 toneladas de alimentos
- 15.abr.96 _ Marcha dos sem-terra completa 40 km e chega a Eldorado de Carajás
- 16.abr.96 _ Os sem-terra caminham rumo a Marabá e interditam a PA-150 (principal
rodovia de ligação do sul do Estado a Belém). São enviados cerca de 200 PMs para o
local
- 17.abr.96 _ Governo do Estado ordena que a PM retire os sem-terra da estrada. Os dois
grupos entram em confronto. Pelo menos 23 pessoas morrem no tiroteio
Pará é recordista em crimes no campo
19/04/96
Autor: ARI CIPOLA
Origem do texto: Da Agência Folha, em Maceió
Editoria: BRASIL Página: 1-8
Edição: Nacional Apr 19, 1996
Legenda Foto: Grupo de trabalhadores sem terra no local em que houve o confronto com
a Polícia Militar, no Pará
Crédito Foto: Juca Varella/Folha Imagem
Arte: MAPA: CONHEÇA AS CIDADES COM ÁREAS OCUPADAS PELO MST
Primeira: Chamada
Observações: COM SUB-RETRANCAS
Vinheta/Chapéu: VIOLÊNCIA
352
Selo: MASSACRE NO CAMPO
Assuntos Principais: MASSACRE ; SEM-TERRA; CONFLITO DE TERRA; PARÁ
Relatório da Comissão Pastoral da Terra afirma que 87 pessoas morreram no Estado em
chacinas desde 79
Pará é recordista em crimes no campo
ARI CIPOLA
da Agência Folha, em Maceió
As mortes ocorridas anteontem no sul do Pará consolidam o Estado na condição de
recordista brasileiro em assassinatos no campo, segundo relatório da CPT (Comissão
Pastoral da Terra), ligada à ala progressista da Igreja Católica.
O Pará contabiliza ainda as maiores chacinas do campo na história do país em número de
mortos num único confronto.
Em 29 dezembro de 1987, 30 pessoas foram mortas, segundo a CPT, em Serra Pelada, no
município de Paraopebas. O relatório da CPT diz ainda que 133 pessoas são consideradas
desaparecidas em consequência do conflito.
O conflito em Serra Pelada aconteceu depois que o então governador do Pará Hélio
Gueiros determinou que 360 policiais militares cercassem os dois lados da ponte sobre o
rio Tocantins, bloqueada por 1.500 garimpeiros.
Depois de cercar os garimpeiros, a polícia começou a disparar.
A chacina de anteontem foi a 12ª ocorrida no Pará, segundo a CPT, que catalogou 32
chacinas no país de 1979 a agosto do ano passado.
A CPT considera chacina o assassinato de três ou mais pessoas que estejam no mesmo
local e hora.
Morreram 197 pessoas nas 32 chacinas no país anteriores à de anteontem. Só no Pará,
foram 68 _número que sobe para 87 com o conflito de Eldorado .
Poder paralelo
Pelo balanço feito pela CPT, o Estado que mais se aproxima do Pará em assassinatos no
campo é o Mato Grosso. De 79 a agosto de 95, foram registradas no Estado seis chacinas,
com 24 mortos.
O secretário-executivo da CPT, Írio Luiz Conti, afirmou à Agência Folha, ao analisar os
motivos do conflito de anteontem, que, além da origem histórica de concentração de
terras, o governo do Pará enfrenta problemas para comandar a Polícia Militar.
''A PM do Pará é um poder paralelo no Estado que está sempre contra os interesses dos
trabalhadores rurais'', afirmou Conti.
Em nota divulgada ontem, a CPT ''repudia o massacre de Eldorado de Carajás '' e
responsabiliza o comando da PM, o governador Almir Gabriel (PSDB) e o governo
federal pelas mortes.
''A CPT entende que o governo federal também é responsável pelo massacre , porque
criou expectativas não realizadas em relação à reforma agrária'', diz a nota.
Ainda na nota o ministro da Agricultura, José Eduardo de Andrade Vieira, é acusado de
ter ''sucateado'' o Incra (Instituto Nacional de Colonização de Reforma Agrária).
MST diz que há "política de extermínio"
353
19/04/96
Autor: GEORGE ALONSO
Origem do texto: Da Reportagem Local
Editoria: BRASIL Página: 1-8
Edição: Nacional Apr 19, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: MST ; MASSACRE ; SEM-TERRA; PARÁ; GOVERNO
ESTADUAL; GOVERNO FHC; DEMISSÃO; MINISTRO
MST diz que há "política de extermínio"
GEORGE ALONSO
da Reportagem Local
A direção nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
considera que está ocorrendo ''uma política oficial de extermínio'' e responsabiliza o
governo do Pará, Almir Gabriel (PSDB), e o presidente da República, Fernando Henrique
Cardoso, pela tragédia no Pará.
A entidade pediu ontem, em nota oficial, a demissão dos ministros da Agricultura,
Andrade Vieira, e da Justiça, Nelson Jobim.
''Jobim se comprometeu a agilizar no Congresso a lei do rito sumário de desapropriação e
a lei que impede que dadas liminares de despejo em 24 horas, mas nada fez. É um
incompetente'', disse João Pedro Stedile, líder e maior estrategista do MST .
Em relação à Vieira, a irritação é ainda maior. Ele é considerado o inimigo nº 1 da
reforma agrária.
Os sem-terra atacaram dois outros governos estaduais do PSDB, citando os confrontos
com a PM em Belo Horizonte e em Fortaleza durante a marchas às capitais, realizada em
8 de abril em 17 Estados.
"Há mais mortos"
Para o MST , a Polícia Militar escondeu cadáveres do massacre . Segundo os sem-
terra, houve um blecaute em Eldorado de Carajás após o massacre . Nesse
instante, segundo o MST , duas camionetes D-20, carregadas com corpos, foram vistas
deixando a rodovia.
''A polícia chegou em dois grupos, um de cada lado, com metralhadoras e prensaram as
famílias. É claro que houve reação. Ninguém é sapo para morrer em pata de boi. Uma
polícia que chega com metralhadora não quer desobstruir estrada'', afirmou Stedile.
Gilmar Mauro, dirigente do MST , afirmou que um líder da entidade (Osiel Alves
Pereira, 18), foi sequestrado no hospital de Marabá e morto com dois tiros.
Os números da tragédia, segundo o MST , são os seguintes: 25 mortos (19 no IML de
Marabá e seis em Curionópolis), três presos e 500 desaparecidos.
Segundo o MST , hoje há 37.573 famílias em 168 acampamentos em todo o país. Em
39 desses acampamentos, há risco de conflito, segundo a entidade. Documento do próprio
Incra aponta que no fim de 1995 existiam 22.089 famílias acampadas e que agora há
31.049.
Incra acusa "política" do MST
354
19/04/96
Autor: HELCIO ZOLINI
Origem do texto: Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-9
Edição: Nacional Apr 19, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA POLICIAL; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
Incra acusa "política" do MST
da Sucursal de Brasília
O presidente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), Raul do
Valle, acusou o MST de se aproveitar da luta pela terra para fazer política.
Disse que o massacre de colonos ocorrido na quarta-feira no Pará não é um caso
isolado.
Segundo ele, existem outras áreas de conflitos, que podem explodir a qualquer momento.
Ele citou os Estados do Mato Grosso, Paraná, Sergipe e Pernambuco.
Valle disse que o Incra não pode ser responsabilizado pelas mortes.
Segundo ele, houve um ''excesso de zelo'' da PM e uma ''precipitação'' dos colonos, ''que
usam a luta pela terra para fazer política''.
''Lamento, deploro profundamente que essa tragédia tenha ocorrido no transcurso de um
processo que vem sendo negociado. O Incra está isento de responsabilidade porque
estava cumprindo um cronograma que está em andamento'', disse.
A prova
Segundo Valle, a ''prova'' do andamento do programa é a reunião que ocorreria ontem, em
Marabá, entre o Incra e os líderes do MST .
Valle disse que não houve lentidão por parte do Incra em tentar solucionar o problema na
região.
Afirmou que o Incra está desenvolvendo o processo de aquisição da fazenda Macaxeira,
que os sem-terra passaram a reivindicar depois que o órgão comprou, no mês passado,
outra fazenda, a Rio Branco (também na região de Marabá).
(HELCIO ZOLINI)
Ministro culpa trabalhadores
19/04/96
Autor: ANA MARIA MANDIM; HELCIO ZOLINI
Origem do texto: Da enviada especial a Brasília; Da Sucursal de Brasília
Editoria: BRASIL Página: 1-9
Edição: Nacional Apr 19, 1996
Observações: SUB-RETRANCA
Assuntos Principais: VIOLÊNCIA POLICIAL; MASSACRE ; SEM-TERRA;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
355
Ministro culpa trabalhadores
da enviada especial a Brasília e da Sucursal de Brasília
O ministro da Agricultura, José Eduardo de Andrade Vieira, culpou ontem os sem-terra
pelo confronto no Pará. Ele se disse ''surpreso'' com o incidente.
''Os sem-terra estavam na estrada, cercando o trânsito. De modo que a polícia do governo
do Estado agiu para liberar a estrada'', afirmou à saída de um encontro com o ex-
presidente Itamar Franco.
Andrade Vieira disse que o confronto no Pará não é um conflito por terra. ''Não tem nada
que ver. Eles (os sem-terra) estavam acampados na estrada.''
Vieira disse que determinou ao presidente do Incra, Raul do Valle, que viajasse para o
Pará e, se fosse necessário, até o local do conflito. Mas afirmou que não se envolverá na
investigação das mortes.
''A questão de natureza policial é afeta ao Ministério da Justiça e não ao Ministério da
Agricultura.''
Andrade Vieira afirmou que as pessoas que estavam na estrada eram um ''aglomerado que
surgiu recentemente''. Segundo ele, ''nem era um acampamento''.
O ministro disse que o Incra já deu solução para uma situação antiga que existia na
região.
''Cada vez que o Incra resolve o problema de um acampamento, surge outro'',
acrescentou.
Segundo ele, existe um acordo do Incra com o MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) do local do conflito, que estaria sendo cumprido ''na íntegra'' pelo
governo.
(Ana Maria Mandim e Helcio Zolini)
Confronto mata pelo menos 19 no Pará
18/04/96
Autor: WAGNER OLIVEIRA; FÁBIO ZANINI
Origem do texto: Da Agência Folha
Editoria: BRASIL Página: 1-8
Edição: São Paulo Apr 18, 1996
Arte: MAPA: ONDE FOI
Primeira: Chamada
Vinheta/Chapéu: SEM-TERRA
Assuntos Principais: POLÍCIA MILITAR; SEM-TERRA; MASSACRE ;
ELDORADO DE CARAJÁS /PA/
ERRAMOS: 19/04/96
Diferentemente do que foi informado em parte dos exemplares de ontem na Primeira
Página e na pág. 1-8 (Brasil), Eldorado de Carajás fica no leste do Pará.
ERRAMOS
Conflito aconteceu quando policiais militares tentavam liberar rodovia ocupada por
trabalhadores
356
Confronto mata pelo menos 19 no Pará
WAGNER OLIVEIRA
FÁBIO ZANINI
Da Agência Folha
Um confronto entre a Polícia Militar e sem-terra, por volta das 17h de ontem, no
município de Eldorado de Carajás (oeste do Pará), deixou pelo menos 19 mortos e
vários feridos, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Pará.
Segundo informações do Hospital Elcione Barbalho, da cidade vizinha de Curionópolis,
haviam chegado 18 corpos de trabalhadores sem terra até as 21h45.
A direção estadual do MST (Movimento Nacional dos Trabalhadores Sem Terra) diz
que o número de mortos é de cerca de 60.
"Os corpos têm várias perfurações de bala, inclusive na cabeça. É provável que o número
de cadáveres aumente'', disse o médico Faisal Saemem, do hospital.
O secretário de Segurança Pública do Pará, Paulo Sette Câmara, afirmou que, pelas
informações que obteve da delegacia de Curionópolis, "o quadro é assustador''.
Até disse que até as 22h15 não havia conseguido falar com o comandante da operação no
local para saber mais detalhes sobre o confronto e para saber se houve excesso da polícia.
Vítimas fatais
"Ainda não temos uma avaliação precisa, mas um companheiro que esteve no local
afirmou que as vítimas fatais foram muitas'', afirmou Charles Trocati, da direção estadual
do MST no Pará.
Câmara afirmou que os primeiros socorros foram prestados em Eldorado de
Carajás . Os policiais e sem-terra feridos estavam sendo transferidos para Marabá
_distante 80 quilômetros de onde ocorreu o conflito.
O confronto ocorreu no instante em que cerca de 200 policiais militares tentavam
desimpedir a rodovia PA-150. A estrada tinha sido interditada por cerca de 3.500 sem-
terra no início da tarde de ontem, segundo o MST .
Segundo o secretário de Segurança, os policiais foram recebidos a tiros, pauladas e
pedradas pelos sem-terra. O MST afirma que os policiais começaram o tiroteio e que
os sem-terra usavam apenas enxadas e foices.
Câmara afirmou que os policiais foram obrigados a reagir para se defender. "É
lamentável que os sem-terra tenham tomado essa atitude de confronto após tanta
negociação para resolver o problema de terra no Estado'', afirmou.
Caminhada
Os sem-terra estavam em caminhada para Marabá. Eles saíram há dois dias do município
de Curionópolis, onde reivindicam a desapropriação da fazenda Macaxeira.
Hoje, eles teriam em Marabá encontro com o superintendente estadual do Incra, Valter
Cardoso, que daria uma posição sobre o processo de desapropriação da fazenda
Macaxeira.
A interdição da estrada começou anteontem. Os sem-terra pararam no km 100, a oito
quilômetros de Eldorado do Carajás . Após negociação com a PM, eles acamparam
no acostamento.
No início da tarde de ontem, voltaram a ocupar a rodovia e reivindicar 50 ônibus para
transportá-los até Marabá. Pediam, segundo a polícia, dez toneladas de alimentos.
Câmara afirmou que o governo não podia tolerar o bloqueio da PA-150, que é a principal
ligação do sul do Estado com Belém.
357
Câmara afirmou que o processo de desapropriação da fazenda Macaxeira já dura um ano
e quatro meses e que está em fase final de aprovação no Incra, em Brasília, para
desapropriação da área.
São Paulo, segunda, 3 de fevereiro de 1997.
Texto Anterior | Índice
Marcha do MST irá a Brasília
no Pontal do Paranapanema
Além das invasões, o MST programa marcar presença neste
ano com uma marcha que deve durar dois meses, em direção
a Brasília.
A marcha terá por objetivo protestar, entre outros pontos,
contra a emenda que concede ao presidente da República o
direito de disputar a reeleição.
A caminhada deve sair de diversos pontos dos Estados do
Pará, Bahia, Goiás e Roraima e do Pontal do Paranapanema
(SP). Espera-se que cerca de mil pessoas iniciem a marcha
de cada ponto.
Aos sem-terra do Pontal devem se juntar outros do Rio
Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.
A idéia é reunir 100 mil pessoas em um ato em frente ao
Palácio do Planalto, para pedir reforma agrária e protestar
contra a violência no campo, as privatizações e a reeleição
para presidente.
O programa prevê chegada a Brasília em 17 de abril, data em
que se celebra o primeiro aniversário do massacre de 19
posseiros em Eldorado dos Carajás (PA).
Uma das coordenadoras da caminhada, Diolinda Alves de
Souza, diz que o protesto não vai interferir no processo de
invasões.
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São Paulo, quinta, 20 de fevereiro de 1997.
358
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QUESTÃO AGRÁRIA
Trabalhadores rurais recebem alimentos e abrigo
Prefeituras do PSDB e PTB dão apoio
à marcha dos sem-terra
FRANCISCO CÂMPERA
free-lance para Folha
Prefeitos do PSDB e PTB estão dando apoio à marcha de
1.000 km dos sem-terra, de São Paulo e Brasília, organizada
pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra).
Cerca de 600 sem-terra saíram de São Paulo no dia 17 de
fevereiro. A marcha vai durar dois meses, em protesto contra
a política de reforma agrária do governo.
Os sem-terra também querem a punição dos responsáveis
pelo massacre de 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás, no
Pará.
Apesar de ser do partido do presidente Fernando Henrique,
Miguel Haddad (PSDB), prefeito de Jundiaí (60 km a
noroeste de São Paulo), uma das cidades do trajeto, disse que
a política agrária do governo ``é insatisfatória'' e
responsabiliza os ``200 deputados da bancada ruralista no
Congresso''.
Haddad cedeu, ontem, o paço municipal da cidade para os
sem-terra dormirem e doou alimentos. Anteontem, os sem-
terra dormiram no ginásio municipal de Cajamar, a 25 km de
São Paulo.
O prefeito de Cajamar, Antonio Ribas (PTB), defende a
reforma agrária com ``bom senso''.
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São Paulo, sexta, 21 de fevereiro de 1997.
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Motorista investe contra grupo
LUIS HENRIQUE AMARAL
359
enviado especial a Vinhedo
Aconteceu ontem o primeiro incidente na caminhada de 600
integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) de São Paulo a Brasília.
Um motorista que passava ao lado dos manifestantes jogou o
carro contra a fila e quase atropelou uma pessoa. O motorista
fugiu em alta velocidade.
Os dois carros da Polícia Rodoviária Estadual que
acompanham a marcha foram até o local com as sirenes
ligadas, mas não encontraram o carro. Não foram anotadas
as
placas ou o modelo.
Ontem, os sem-terra foram de Jundiaí a Vinhedo, distantes
cerca de 25 km. Em média, eles estão caminhando 5 km por
hora. Param a cada duas horas para descansar.
O incidente aconteceu na entrada de Vinhedo, às 14h30. Os
dois carros de som da manifestação foram usados para pedir
calma aos sem-terra, mas boa parte deles deixou a fila e
correu para o local pelo meio da estrada.
A manifestação causou ontem de manhã um
congestionamento de 7 km na rodovia Anhanguera. Ela tem
apenas duas faixas por sentido, e os sem-terra ocupavam
uma faixa e o acostamento. Apesar do transtorno, poucos
motoristas xingavam os manifestantes.
A caminhada começou dia 17, em São Paulo, e deverá
chegar a Brasília em dois meses. O objetivo é protestar
contra a demora na reforma agrária e a impunidade dos
responsáveis pelo massacre de Eldorado dos Carajás, no
Pará.
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São Paulo, sexta, 28 de fevereiro de 1997.
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QUESTÃO AGRÁRIA
CNBB reforça apoio a trabalhadores rurais e prepara
recepção à marcha dos sem-terra em Brasília
D. Lucas rebate críticas de FHC a
padres
ABNOR GONDIM
360
da Sucursal de Brasília
A Igreja Católica irá mobilizar cerca de 500 pessoas de
entidades e escolas religiosas de Brasília para receber os
sem-terra que participam da Marcha Nacional pela Reforma
Agrária, Emprego e Justiça.
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)
decidiu nesta semana reforçar o apoio aos sem-terra e rebater
crítica feita pelo presidente Fernando Henrique Cardoso à
atuação dos padres que apóiam a luta pela reforma agrária.
Líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) visitaram ontem o presidente da CNBB, d. Lucas
Moreira Mendes, para agradecer o apoio da igreja à entidade.
A marcha dos sem-terra deve chegar a Brasília no próximo
dia 17 de abril, quando será completado um ano do massacre
de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (leste do Pará) pela
Polícia Militar.
Entidades católicas estão programando uma vigília religiosa
com os sem-terra. Alunos das escolas religiosas da cidade
serão convidados para conhecer a situação das crianças dos
acampamentos.
A resposta à crítica de FHC foi defendida pelo arcebispo-
auxiliar de São Paulo, d. Angélico Bernardino, em reunião
dos 12 arcebispos da Comissão Episcopal de Pastoral da
entidade.
Em entrevista à Rede Bandeirantes, no dia 14, FHC disse
que se queixou durante a visita ao papa João Paulo 2º da
atuação de padres que defendem a reforma agrária.
"Eles (os padres) podem ter boa-fé, mas se excedem e não
sabem ver a diferença entre um governo que quer melhorar e
outro que é fechado ao clamor social'', disse então o
presidente.
Segundo d. Lucas Moreira Neves, "a CNBB não pode aceitar
esse tipo de crítica''.
``Pareceu-me inconveniente que a crítica tenha surgido no
contexto de um relato sobre sua visita ao papa. Ficou
parecendo que a crítica partiu do papa, e isso eu tenho a
certeza moral de que não houve'', disse d. Lucas.
O porta-voz da Presidência, Sergio Amaral, disse ontem que
FHC não não fez crítica a qualquer padre. "Ele disse que um
ou outro membro da igreja, diante da indignação, possa ter
exagerado nas ações'', disse Amaral.
A CNBB quer a participação do MST no fórum de debates
sobre a reforma agrária articulado pelo ministro Raul
Jungmann junto a entidades não-governamentais.
361
Mas o líder do MST João Pedro Stédile disse que não quer
participar. ``Se o presidente e o ministro fossem católicos,
deixariam de dizer tantas mentiras sobre a reforma agrária'',
afirmou.
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São Paulo,bado, 1 de março de 1
997.
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QUESTÃO AGRÁRIA
Porta-voz afirma que presidente não condena apoio da
CNBB à marcha dos trabalhadores rurais
FHC critica violência da UDR e de
sem-terra
da Sucursal de Brasília
O porta-voz da Presidência, Sergio Amaral, afirmou ontem
que o governo não condena o apoio da CNBB (Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil) à marcha dos sem-terra a
Brasília.
Segundo Amaral, esse apoio é um assunto do ``órgão''
católico. "O governo não tem nada contra os sem-terra, tem
sim contra a violência'', disse Sergio Amaral.
O porta-voz disse que o MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra), a UDR (União
Democrática Ruralista) e fazendeiros têm desrespeitado a lei
e praticado violência.
Afirmou que FHC quer o desarmamento e a reforma agrária
dentro da lei, "o que significa o respeito ao direito de
propriedade''.
Amaral também comentou a declaração do líder do MST
João Pedro Stédile de que, se o presidente fosse católico,
deixaria de dizer mentiras sobre a reforma agrária.
``Isso não tem qualquer relação com a reforma agrária'',
afirmou ele, que disse não saber a ``filiação religiosa'' do
presidente. Fernando Henrique é católico.
A Igreja Católica vai mobilizar cerca de 500 pessoas de
entidades e escolas religiosas de Brasília para receber os
sem-terra que participam da Marcha Nacional pela Reforma
362
Agrária, Emprego e Justiça.
A marcha dos sem-terra deve chegar a Brasília em 17 de
abril, quando será completado um ano do massacre de 19
sem-terra em Eldorado do Carajás (PA).
Manifestações
Os 600 sem-terra que saíram de São Paulo não devem
respeitar a possível proibição de manifestações em frente ao
Congresso, pedida pelo presidente do Senado, Antonio
Carlos Magalhães (PFL-BA), ao governo do Distrito Federal.
"Ainda não avaliamos a questão, mas também é proibido
invadir latifúndio e a gente invade. É proibido invadir as
sedes do Incra e a gente invade. Acho difícil a gente aceitar
essa ordem'', disse ontem Daniel Costa, 26, um dos
coordenadores da marcha.
No dia da chegada a Brasília, o MST quer reunir 30 mil
pessoas para protestar contra o governo.
O prefeito de Pirassununga, Antônio Carlos Bueno Barbosa
(PFL), proibiu ontem os sem-terra de realizarem
manifestação na praça central da cidade.
``É preciso ficar entendido que a cidade tem comando'',
afirmou Barbosa à Folha.
Os sem-terra chegaram ontem à cidade, depois de andarem
25 km desde Leme. Eles disseram que vão obedecer à
decisão, mas farão hoje um protesto hoje contra a medida.
Colaborou Luiz Henrique Amaral, enviado especial a Pirassununga
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São Paulo, segunda, 3 de março de 1997.
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QUESTÃO AGRÁRIA
Presidente do Senado diz estar disposto a chamar a
polícia para garantir que a `ordem seja mantida'
ACM proíbe MST de acampar no
Congresso
RAQUEL ULHÔA
da Sucursal de Brasília
363
O presidente do Senado e do Congresso Nacional, senador
Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), afirmou que não vai
permitir que o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) acampe em frente ao Congresso no encerramento
da marcha que o movimento está fazendo em direção à
Brasília.
ACM disse estar disposto a acionar a polícia para retirar
barracas dos sem-terra, se o MST insistir em promover o
acampamento.
``Pessoas poderão vir, mas barracas e coisas semelhantes não
serão feitas. Se fizerem, vou pedir às autoridades do governo
federal e do Distrito Federal que cumpram a decisão do
Senado. Quando o Distrito Federal e o governo federal não
puderem manter a ordem, o Estado acabou'', disse.
Cerca de 600 trabalhadores sem-terra saíram da cidade de
São Paulo, com destino a Brasília, num protesto pela demora
na realização da reforma agrária. Outras duas caravanas
partiram de Minas Gerais e Mato Grosso.
A Marcha Nacional pela Reforma Agrária, Emprego e
Justiça deve chegar a Brasília no dia 17 de abril, um ano
após o massacre de 19 sem-terra pela Polícia Militar do
Estado do Pará, em Eldorado do Carajás (PA).
Conflito
Indagado se não teme um confronto entre os sem-terra e a
polícia, o presidente do Congresso Nacional fez um desafio:
``Não temo nada. Acho até que se tiver, não é mal. Por quê?
Porque isso se define. Não pode ficar a vida inteira um país
indefinido em relação a posições''.
O senador defendeu a realização da reforma agrária no país,
mas desde que a ``ordem seja mantida, porque, caso
contrário, não vai haver nem reforma agrária nem governo''.
Antes da gestão de ACM, o gramado em frente ao Congresso
sempre foi utilizado para manifestações, inclusive dos sem-
terra.
O senador encaminhou na semana passada carta ao
governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque (PT),
comunicando a nova orientação de proibir manifestações em
frente ao Congresso que interfiram na atividade legislativa.
ACM inclui, entre as manifestações indesejadas, a
Micarecandanga -carnaval fora de época de Brasília- e
qualquer tipo de acampamento, barracas, carro de som e atos
públicos que possam tumultuar os trabalhos do Congresso
Nacional.
Segundo o presidente do Senado, a sua determinação é de
364
permitir apenas ``manifestações pacíficas e ordeiras''.
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São Paulo, sábado, 29 de março de 1997.
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REFORMA AGRÁRIA
Região é uma das poucas sem influência do MST no país
o que provoca ocupações à moda antiga
Sul do Pará tem invasões sem
ideologia
ESTANISLAU MARIA
em Ourilândia do Norte (PA)
A inexistência do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) no sul do Pará faz com que as invasões de
fazendas na região sejam marcadas por improviso e falta de
ideologia política.
Em Ourilândia do Norte (1020 km ao sul de Belém) onde, só
neste ano, três sem-terra foram mortos em conflito, os
invasores são menos organizados, não armam barracos e não
levam as famílias para as invasões.
A maioria deles faz ``bicos'' como diaristas em fazendas ou
madeireiras e moram em casas humildes nas cidades
próximas. Eles invadem a área; marcam lotes e plantam. Só
quando a terra já está produzindo levam as famílias.
Era os caso dos três mortos a tiros no conflito de Ourilândia.
Todos eles trabalhavam na roça e suas mulheres, na cidade.
Uma delas é servente no fórum, outra é empregada
doméstica e a outra é professora primária em uma escola
estadual na cidade.
Formação política
Os invasores na região têm pouca formação política. Em sua
maioria, não têm ligação com partidos políticos nem com os
sindicatos de trabalhadores locais.
A rotatividade nas áreas é muito grande. Eles não se fixam
nas invasões. Segundo o Incra, em média, 60% dos invasores
365
iniciais vendem o lote invadido a novos donos. Ainda
segundo o Incra, esses novos donos é que ficam.
Os líderes dessas chamadas invasões independentes são
escolhidos após a terra estar ocupada. Apenas coordenam
reuniões e são porta-vozes junto ao Incra.
Em comum com as invasões do MST há a pobreza dos
invasores, cujas rendas familiares não passam de um salário
mínino e os constantes conflitos com pistoleiros, fazendeiros,
polícia e até outros invasores.
Um exemplo desse tipo de ocupação é a fazenda Campos
Altos, em Ourilândia, de de 8.711 hectares. A Campos Altos
foi invadida em abril de 96, época do massacre de 19 sem-
terra em Eldorado dos Carajás, e é disputada por
trabalhadores e pelo fazendeiro do Maranhão Dimas Luis
Silva.
Segundo José Ribamar da Silva, 34, um dos primeiros
invasores, em três dias havia 150 pessoas cortando mata e
abrindo picadas. Não há uma vila comum com barracos.
Cada posseiro (na região, eles não são chamados de sem-
terra para diferenciá-los dos militantes do MST) demarca um
lote de 50 hectares e faz isoladamente sua roça e seu barraco.
Reúnem-se sem periodicidade para discutir suas
reivindicações.
A ocupação nasce com boatos na cidade sobre uma área tida
como improdutiva ou com documentação irregular. Grupos
isolados e pequenos vão entrando. E à medida em que vão
ficando, novos invasores entram para ver a situação e
acabam ficando.
Era essa, segundo as viúvas, a intenção dos três
trabalhadores que morreram na fazenda Santa Clara, em
Ourilândia. Eles ouviram falar que havia invasão e foram
verificar. Acabaram mortos por seguranças do imóvel.
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São Paulo, segunda, 31 de março de 1997.
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sem-terra
Marchando em busca de outro Brasil
PATRICIA ZORZAN
enviada especial a Sales Oliveira
366
Dos 11 coordenadores que lideram a Marcha Nacional pela
Reforma Agrária, Emprego e Justiça promovida pelo MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), três têm
menos de 22 anos.
Huli Marcos Zang, 19, Edvar Lavratti, 21, e Carlos Alberto
Souza, 21, fazem parte da equipe que comanda cerca de 550
trabalhadores em uma caminhada de São Paulo até Brasília.
O objetivo da viagem -que começou no dia 17 de fevereiro e
deve acabar em 17 de abril, quando o massacre de 19 sem-
terra em Eldorado do Carajás (PA) completa um ano- é
chamar a atenção do governo para a reforma agrária.
Em comum, além da defesa fanática do movimento, os três
têm a responsabilidade de terem se tornado líderes quando
jovens dessa idade costumam dedicar seu tempo aos estudos
e às namoradas.
"Sinto falta da família, de não ter uma casa. Mas isso são
pequenas coisas que você acaba esquecendo diante do que
recebe da luta", declara Huli, que veio do Rio Grande do Sul
para participar da marcha.
"A maioria dos jovens acaba se apaixonando pelo
movimento porque ele não nos impede de fazer nada e
acrescenta um monte de idéias. Você consegue participar das
decisões políticas do país, opinar pelo que você acha certo",
explica Edvar.
O discurso uniforme eles herdaram dos dias que passaram na
escola de lideranças do movimento e da disciplina rígida do
MST.
"Aprendemos a conhecer a realidade para poder transformar
as coisas, para que esse país consiga ser melhor", afirma
Edvar.
Eleitores do PT, ex-cara-pintadas e com críticas contra
Fernando Henrique Cardoso na ponta da língua,
abandonaram os estudos convencionais, mas prometem
voltar para a escola.
Huli e Edvar chegaram a entrar na faculdade. Carlos, o único
casado entre os três, estudou só até a 6¦ série.
Segundo eles, 70% dos membros da marcha são jovens com
uma média de idade entre 24 e 25 anos. "É coisa de jovem
enfrentar o desafio de caminhar mais de 1.000 km por uma
causa", diz Huli.
Os coordenadores afirmam ainda que nunca pensaram na
possibilidade de morrer durante um conflito. Todos já
participaram de ocupações de terras.
"Hoje a maioria dos jovens morre por drogas, por estarem
assaltando, em batidas de carro. Pelo menos estou lutando
por um ideal", declara Carlos.
367
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São Paulo, terça, 15 de abril de 1997.
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Jungmann não viaja ao Pará
do enviado especial a Marabá
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) suspendeu
viagem que faria a Marabá (PA) ontem para assinar a criação
do projeto de assentamento 17 de abril, data do massacre de
19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA). O nome do
projeto é uma homenagem aos sem-terra mortos.
A assessoria do ministro informou que a viagem foi suspensa
por causa do clima de comoção social em Marabá provocado
pelas enchentes dos rios Tocantins e Itacaiúnas. A Folha
apurou que a visita foi suspensa pelo governo também para
evitar protestos dos militantes do MST. (AG)
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São Paulo, quinta, 17 de abril de 1997.
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"Deus nos livre da impunidade do
massacre"
da Agência Folha, em Eldorado do Carajás
Esperançosos por justiça, os sem-terra sobreviventes do
massacre repetiam, no último domingo, no assentamento, o
refrão do canto final da missa: ``Deus nos livre, Deus nos
livre da impunidade do massacre do Pará''.
Um ano após o confronto em Eldorado do Carajás (PA),
aqueles que sobreviveram voltam para o município. Dessa
vez, para assumir definitivamente a terra.
Aos poucos, as 690 famílias, cerca de 3.000 pessoas, vão se
368
mudando do primeiro acampamento, na fazenda Macaxeira,
em Curionópolis, para o acampamento definitivo, na vizinha
fazenda Mucuripe, em Eldorado do Carajás.
Os sem-terra de Eldorado rebatizaram a área de
assentamento 17 de Abril, o dia do massacre.
Junto com os protestos desse primeiro ano, os sem-terra
fazem a primeira colheita de milho, arroz, feijão e abóbora.
Foram 340 hectares plantados.
A área agricultável ainda é pequena, mas a comida produzida
alimenta os assentados e começa a sobrar. Eles têm doado
sacos de grãos à população carente nos dois municípios.
``Passamos as fases de ocupar e resistir e começamos a fase
de produzir'', afirmou o líder Neuton Conceição Silva,
referindo-se ao lema do MST, ``ocupar, resistir, produzir''.
Na prática, a situação não é tão fácil. Os sem-terra não têm
caminhões, e o transporte em camionetes alugadas é caro. Os
atravessadores pagam pouco pelos produtos. Assim, eles têm
grãos e abóbora, mas falta dinheiro para outros gêneros
como açúcar, leite, carne, óleo, raridades no acampamento.
Sob o ponto de vista fundiário, ainda são invasores. A
penas a
Macaxeira foi desapropriada, mas o projeto de assentamento
do Incra ainda não saiu do papel.
Além disso, ainda mantêm sentinelas, temem policiais e
fazendeiros, enfrentam a pé 14 km de estrada de terra da vila
à rodovia que leva a Eldorado (2 km) ou Curionópolis (30
km), convivem com a subnutrição e a falta de remédios.
O projeto 17 de Abril abrange 18.089 hectares de cinco
fazendas do complexo Macaxeira, em Curionópolis e
Eldorado.
Duas começam a ser desapropriadas, entre elas a Mucuripe.
Outras duas serão compradas.
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São Paulo, quinta, 17 de abril de 1997.
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MASSACRE, TERRA E LEI
Está prevista para hoje a manifestação que encerra os dois
meses da marcha dos sem-terra. O objetivo declarado do
protesto é condenar a política agrária do governo e lembrar o
369
massacre de 19 trabalhadores rurais pela Polícia Militar do
Pará, ocorrido há um ano. O MST quer a lei para os
c
riminosos de Eldorado de Carajás e negociar com o governo
uma política mais ampla de assentamentos.
Lei e negociação são, de fato, as palavras fundamentais na
crise agrária do país. Merece firme apoio a atitude do MST
de cobrar Justiça. No caso de Eldorado de Carajás, é
preocupante o andamento do processo. A deficiência técnica
dos inquéritos pode comprometer a justeza do julgamento,
quando ele chegar aos tribunais. Ademais, a sentença pode
levar entre dois e seis anos para sair, o que é muito grave.
Julgamentos que tardam em demasia estimulam a
impunidade, vício nacional.
É elogiável também a intenção do MST de negociar. Mas o
diálogo democrático tem certos pressupostos que não vêm
sendo observados pelos sem-terra. Um deles é a lei. Não há
negociação possível quando uma das partes já decidiu
arbitrariamente e de antemão que o Estado de Direito pode
ser violado, como ocorre nas invasões de propriedade
chamadas eufemisticamente de ``ocupações''.
Outro dos pressupostos que os sem-terra devem levar em
conta é o da realidade econômica. Como o presidente
Fernando Henrique Cardoso observou, é preciso definir
como vai ser paga a dívida social, da qual os lavradores sem
propriedade também são credores, mas não os únicos. Será
necessária uma dura negociação nacional para estabelecer
quais são as prioridades do investimento público. Se os
assentamentos devem ser multiplicados por cinco em 97,
como quer o MST, alguém vai perder -cumprir tal meta
custaria R$ 20 bilhões, segundo FHC.
É auspicioso que o governo federal e os sem-terra venham
anunciando a intenção de negociar. Mas é preciso que
tenham em mente que o diálogo deve ser pautado pela
racionalidade e pelo firme compromisso de cumprir a lei. A
alternativa é o prolongamento da crise e mais violência.
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São Paulo, sexta, 18 de abril de 1997.
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Grupo entrega abaixo-assinado
370
de Londres
Um grupo denominado Friends of the MST (Amigos do
MST) entregou ontem um abaixo-assinado na Embaixada do
Brasil em Londres pedindo a agilização da reforma agrária
no país.
A organização é ligada à representação do Partido dos
Trabalhadores em Londres.
No documento, com 110 assinaturas, o grupo também
reclama da lentidão do julgamento dos policiais militares
acusados pelo massacre de Eldorado do Carajás, onde 19
sem-terra morreram há um ano. O grupo foi recebido pelo
embaixador do Brasil em Londres, Rubens Barbosa.
À noite, o diplomata participou de um debate na abertura da
exposição fotográfica "Terra", de Sebastião Salgado, em uma
igreja no centro da capital britânica. A exposição é sobre
trabalhadores rurais.
A chegada da passeata dos sem-terra a Brasília foi
mencionada no noticiário da rede de TV a cabo Sky News,
que transmite notícias 24 horas por dia.
(PAULO HENRIQUE BRAGA)
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São Paulo, sexta, 18 de abril de 1997.
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Segurança de ato exclui a PM
da Agência Folha, em Belém
A Polícia Militar foi excluída do trabalho de segurança nos
protestos do MST ontem na região de Eldorado do Carajás,
onde foram mortos, pela PM os 19 sem-terra durante um
massacre em 96.
A segurança foi feita, à distância, por policiais civis e
federais. Os atos públicos foram tranquilos e não atraíram
metade dos manifestantes esperados pelo MST.
Eram esperadas 3.000 pessoas na missa na curva do ``S'', na
rodovia PA-150, onde houve o confronto do ano passado.
Segundo o diretor do MST, Onalício Barros, 31,
participaram cerca de 1.200 pessoas, a maioria assentados
371
em Parauapebas (630 km ao sul de Belém), Curionópolis
(630 km ao sul de Belém) e Eldorado (600 km ao sul de
Belém).
``Para evitar qualquer confronto ou provocação, não
colocamos nossos homens nos protestos'', disse o
comandante de Marabá, Coronel Raimundo Gama.
Após a missa na curva do ``S'', foram depositadas velas nas
cruzes cravadas na beira da estrada para lembrar os 19
mortos.
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São Paulo, quarta, 9 de julho de 1997.
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Estrada foi local de morte
em São Luís
A rodovia estadual PA-150, onde ocorreu o acidente com a
explosão dos caminhões, começa a ganhar a fama de "estrada
da morte". É a mesma onde aconteceu em 17 de abril do ano
passado o massacre de 19 trabalhadores rurais sem terra. Os
sem-terra, organizados pelo MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra), estavam bloqueando a
rodovia em Eldorado do Carajás (cerca de 100 km ao norte
do local da explosão anteontem).
Um grupo de 155 policiais militares com ordem de
desbloquear a rodovia entrou em conflito com os sem-terra.
O saldo foi de 19 mortos e mais de 60 feridos.
O acidente teria se originado, na versão da empresa Granero,
proprietária da carreta com carga de nitrato de amônia,
devido à má conservação da rodovia. (IRINEU MACHADO)
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São Paulo, sexta, 18 de abril de 1
997.
372
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Ato é realizado em silêncio
da Agência Folha, em Curitiba
Cerca de 500 manifestantes, segundo o MST e a Polícia
Militar, participaram, em Curitiba (PR), de ato em defesa da
reforma agrária, emprego, salários e cidadania.
O ato aconteceu na Boca Maldita, no centro. Dezenove
manifestantes, carregando cruzes, fizeram uma caminhada
silenciosa até a sede da Auditoria da Justiça Militar para
lembrar o massacre de Eldorado do Carajás e outros
confrontos entre polícia e sem-terra.
No interior do Estado, segundo o MST, as manifestações
reuniram 350 pessoas em Lindoeste e mil pessoas em
Paranavaí.
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São Paulo, quarta, 30 de julho de 1997.
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Mortos em Eldorado não eram sem-
terra
da Agência Folha, em Belém
Os cerca de 20 trabalhadores da fazenda Volta do Rio -no
sudeste do Pará-, onde dois funcionários foram emboscados
e mortos a tiros no último domingo, abandonaram a área,
temendo novos ataques de invasores.
A informação foi dada ontem à Agência Folha pelo
empresário Evandro Mutran, 54, irmão do dono da fazenda,
Délio Mutran, 52, que estava viajando. Segundo relato dos
funcionários à polícia, cerca de 15 homens armados
invadiram a fazenda no último domingo e dispararam contra
funcionários que limpavam os pastos.
Dois trabalhadores morreram no local. Um outro, baleado,
foi atendido no hospital de Marabá e recebeu alta ontem.
373
Seus nomes não foram divulgados.
A fazenda Volta do Rio fica em Eldorado do Carajás (600
km ao sul de Belém) e é vizinha da fazenda Macaxeira,
ocupada pelo MST. No ano passado, Eldorado do Carajás foi
também palco do massacre de 19 sem-terra mortos pela
Polícia Militar.
No caso da fazenda, a polícia investiga a ação de grileiros
(invasores de terra) e descarta envolvimento do MST. A
direção do movimento nega ligação com os invasores da
fazenda.
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São Paulo, sexta, 29 de agosto de 1997.
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INVESTIGAÇÃO
Comerciantes seriam financiadores
Polícia suspeita de invasões
interligadas
ESTANISLAU MARIA
em Eldorado do Carajás
A equipe da Delegacia Regional de Marabá, sudeste do Pará,
investiga o envolvimento de comerciantes, agricultores e
madeireiros de Eldorado do Carajás e Xinguara em invasões
de terra no sul e sudeste do Pará.
A informação foi dada ontem pelo delegado regional de
Marabá (500 km ao sul de Belém), Vicente de Paulo Costa,
um dos comandantes da operação da PM e da Polícia Civil
para retirar cerca de 80 invasores das fazendas Baguá e Volta
do Rio, em Eldorado do Carajás (600 km ao sul de Belém).
Xinguara (800 km ao sul de Belém) é um foco antigo de
conflitos. Em Eldorado, um confronto entre PM e MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) resultou
no massacre de 19 sem terra, no ano passado.
Costa declarou que as invasões na região podem estar
374
interligadas e teriam o financiamento de madeireiros,
comerciantes e até outros fazendeiros.
O MST também está sob investigação. Anteontem, policiais
civis estiveram na fazenda Macaxeira, assentamento dos
sem-terra vizinho à fazenda Volta do Rio. O MST nega
ligação com essas invasões.
Os cerca de 300 PMs que participam da operação na Baguá e
na Volta do Rio, iniciada na terça-feira, continuaram ontem
as patrulhas à procura dos invasores. Ninguém foi preso.
A Polícia Civil tem mandado de prisão para sete homens
acusados de homicídio. Segundo os policiais, os invasores
podem estar escondidos na mata. A operação continua hoje.
Dois funcionários da fazenda Baguá confirmaram ontem que
viram os seguranças da fazenda deter dois homens no último
sábado.
"Eles prenderam os dois, que estavam dentro da fazenda, e
levaram para as baias dos cavalos", disse Antônio Dias Silva,
18.
"Os dois estavam desarmados e diziam não ser invasores",
disse o funcionários Marcos Antônio Martins, 20.
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São Paulo, terça, 30 de setembro de 1997.
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ELDORADO DO CARAJÁS
Para Procuradoria, governador do PA não pode ser
responsabilizado
TJ arquiva inquérito contra Almir
Gabriel
da Sucursal de Brasília
O STJ (Superior Tribunal de Justiça) arquivou inquérito
aberto para apurar a responsabilidade do governador do Pará,
Almir Gabriel (PSDB), no massacre de Eldorado do Carajás
(leste do Estado).
375
Em 17 de abril do ano passado, 19 sem-terra foram mortos
por policiais militares durante operação de desocupação de
uma estrada próxima ao complexo da fazenda Macaxeira,
cuja desapropriação era pleiteada pelo MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra).
O ministro José Dantas, relator do caso, acatou parecer da
Procuradoria Geral da República segundo o qual o
governador não pode ser responsabilizado pela
"incompetência e desorganização" da Polícia Militar.
Não há possibilidade de recurso, já que o inquérito foi
solicitado pelo Ministério Público Federal, que, agora,
concluiu pela inocência do governador. Se tivesse
prosseguimento, o inquérito daria origem a uma ação penal
contra o governador do Pará.
A abertura do inquérito foi solicitada ao STJ em maio do ano
passado pelo procurador-geral da República, Geraldo
Brindeiro. Ele
apontou indícios de omissão do governador no
episódio.
O Ministério Público do Pará havia isentado o governador de
responsabilidade sobre as mortes.
O órgão apresentou denúncia contra 155 policiais militares,
entre soldados e oficiais, e líderes dos sem-terra, acusados de
ferir policiais.
O atual parecer da Procuradoria Geral da República é
assinado pela subprocuradora-geral Delza Curvello Rocha.
O parecer foi solicitado pelo STJ, que enviou junto com o
pedido a defesa prévia do governador.
Conforme o parecer, a PM não planejou a operação de
desocupação, "como era seu dever". O governador, segundo
a subprocuradora-geral, apenas determinou a desocupação da
estrada, sem autorizar o uso da força.
Diz ainda o parecer que o governador não poderia prever
nenhuma conduta criminosa, por ato ou omissão, por parte
da PM.
Exames realizados por médicos legistas indicaram que os
sem-terra foram mortos de forma cruel.
Alguns foram retalhados com golpes de faca, outros tiveram
o crânio destruído por objeto contundente. Um dos líderes,
Oziel Pereira, foi encontrado morto depois de ter sido preso.
Parte do complexo Macaxeira foi desapropriado este ano
pelo governo, e parte dos sem-terra já foi assentada.
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376
São Paulo, terça, 11 de novembro de 1997.
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ELDORADO DO CARAJÁS
Juiz define réus no caso do massacre
da Agência Folha, em Belém
O juiz do processo do massacre dos sem-terra de Eldorado
do Carajás, no Pará, Otávio Marcelino Maciel, fará amanhã a
pronúncia dos réus que irão a júri popular.
O anúncio será feito às 11h (horário de Brasília) no fórum de
Curionópolis (630 km ao sul de Belém), comarca
responsável por Eldorado do Carajás.
O confronto entre a PM do Pará e cerca de mil sem-terra que
obstruíam a rodovia PA-150 aconteceu em 17 de abril de
1996. No processo, são acusados de homicídio doloso
(intencional) 155 PMs e um suposto pistoleiro infiltrado
entre os policiais. Três sem-terra são acusados de lesão
corporal.
Já foram ouvidos 156 acusados, oito testemunhas de
acusação e 52 de defesa -entre elas, o governador Almir
Gabriel (PSDB).
Ainda cabem recursos da defesa e da acusação. Segundo
Maciel, o julgamento acontece até agosto de 98. O MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) planeja
manifestação na cidade.
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São Paulo, quinta, 13 de novembro de 1997.
377
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QUESTÃO AGRÁRIA
Ação se refere à morte de 19 sem-terra Eldorado do
Carajás
Juiz manda a júri popular 153 PMs
por massacre no PA
ESTANISLAU MARIA
da Agência Folha, em Belém
Os comandantes da operação policial que resultou no
massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA), em
abril do ano passado, irão a julgamento por júri popular.
O coronel Mário Colares Pantoja, na época comandante da
Polícia Militar em Marabá, e o major José Maria Oliveira,
comandante da corporação em Parauapebas, deverão ser
submetidos a júri popular, conforme definiu o juiz Otávio
Marcelino Maciel.
Outros 151 PMs também deverão ser julgados. A acusação é
de homicídio doloso qualificado (intencional). A pena para
esse crime vai de 12 a 30 anos de prisão.
O juiz também decidiu que devem ser julgados três sem-
terra, acusados de lesões corporais leves contra PMs. A pena
varia de três meses a um ano de prisão.
O governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), e o secretário
da Segurança, Paulo Sette Câmara, que deram a ordem para
a ação da PM, não foram responsabilizados.
Originalmente, eram 155 os PMs acusados. Um está
foragido, e outro alegou insanidade mental.
Os advogados dos PMs já anunciaram que vão recorrer. Os
recursos devem ser julgados apenas no próximo ano pelo
Tribunal de Justiça do Estado. Após essa decisão, será
marcado o julgamento, que, segundo Maciel, deve acontecer
em agosto de 1998.
Os advogados da SPDDH (Sociedade Paraense de Defesa
dos Direitos Humanos) elogiaram a decisão do juiz e a
rapidez do processo, mas anunciaram que vão recorrer das
acusações contra os sem-terra.
Em Brasília, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) arquivou o
processo contra Gabriel, entendendo que o governador não
podia ser responsabilizado pela atuação do comandante da
378
operação.
No processo estadual, Gabriel, Câmara e o comandante-geral
da PM, coronel Fabiano Diniz Lopes não foram acusados,
mas apenas ouvidos como testemunhas.
Em seu depoimento, Gabriel confirmou que havia ordenado
a retirada dos sem-terra da rodovia PA-150, mas "sem
violência".
Não foi o que aconteceu, porém, por volta das 17h de 17 de
abril de 1996, quando cerca de 1.100 militantes do MST
(Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
interditavam a rodovia PA-150.
Eles exigiam a desapropriação da fazenda Macaxeira, em
Curionópolis (630 km ao sul de Belém), invadida havia seis
meses, e pretendiam fazer uma marcha até Belém.
Depois de uma semana e 30 km de caminhada, em Eldorado
do Carajás, eles saquearam um caminhão e interditaram a
rodovia.
A PM foi chamada para desobstruir a estrada. Pantoja e
Oliveira comandaram a ação, na qual foram mortos 19 sem-
terra. Outros 68 ficaram feridos.
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São Paulo, terça, 24 de fevereiro de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
Grupos como o MLT e o MLST disputam liderança de
sem-terra em regiões como o sudeste do PA
Rivais ameaçam a hegemoni
a do MST
BERNARDINO FURTADO
da Reportagem Local
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
começa a ter a hegemonia ameaçada em regiões com larga
tradição de conflito de terras. A novidade é o perfil dos
concorrentes, não mais sindicatos, federações de
trabalhadores rurais ou grupos isolados de sem-terra
controlados por políticos locais.
Os novos rivais são o MLT (Movimento de Luta pela Terra)
379
e o MLST (Movimento de Libertação dos Sem-Terra),
grupos de esquerda organizados em vários Estados, com uma
coordenação central, símbolos próprios e um discurso
recheado de críticas e de rivalidade com o MST.
O episódio mais recente dessa disputa foi a invasão, na
quarta-feira passada, de uma fazenda nas imediações de
Curionópolis (PA) por sem-terra liderados pelo MLT.
Segundo Lourival Gusmão, um ex-agrônomo do Incra que se
tornou coordenador nacional do MLT, a invasão foi a
primeira de uma série que o movimento pretende fazer no
sudeste do Pará.
Para isso, o MLT montou escritório com fax e telefone em
Curionópolis e deslocou para lá seus líderes mais
experientes, como Gusmão, que atuava na Bahia.
Se o MLT cumprir a promessa, estará se enraizando numa
região vital para o MST. Lá foram assentadas
aproximadamente 15% (12.320) das 80 mil famílias que o
governo Fernando Henrique Cardoso afirma ter assentado
em 97.
Além disso, o sudeste paraense foi palco de um episódio
trágico que acabou fortalecendo politicamente o MST: o
massacre de 19 trabalhadores sem-terra em Eldorado de
Carajás, em 17 de abril de 96 pela Polícia Militar do Estado.
Segundo Gusmão, 1.200 trabalhadores sem terra
participaram da invasão de quarta-feira marchando com
bandeiras do MLT de uma praça de Curionópolis até a
fazenda de 2.000 hectares, de propriedade do prefeito local,
Osmar Ribeiro (PMN). A Folha não conseguiu falar com
Ribeiro. Segundo funcionários da prefeitura, o prefeito
estava viajando e só voltaria depois do Carnaval.
"Boa parte dos sem-terra que participaram da invasão
conosco eram do MST e presenciaram o massacre de
Eldorado de Carajás. Eles estão desiludidos com o MST",
disse Gusmão.
"Estamos ocupando o espaço aberto pelo fracasso político do
MST na organização de assentamentos, especialmente no sul
da Bahia", afirma Edson Pimenta, coordenador nacional do
MLT e presidente da Federação dos Trabalhadores na
Agricultura da Bahia. Segundo Pimenta, o MLT está
organizado e ativo também em Sergipe.
Pimenta diz que, apesar de ter chegado depois que o MST no
sul da Bahia, o MLT já tem hegemonia na região. Segundo
ele, o MLT fez oito invasões de terra em 98 na região,
controla 56 assentamentos e tem nove equipes de assistência
técnica aos assentados pagas pelo projeto Lumiar, do Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
380
"É mais que o MST tem na região, com certeza", diz.
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São Paulo, domingo, 8 de março de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
Crime foi perto de delegacia
Líder sem-terra é assassinado em MT
Cuiabá, Belém e Campo Grande
Um dos principais líderes de trabalhadores rurais sem terra
do Norte de Mato Grosso, Teodomiro Ferreira dos Santos,
62, foi assassinado com três tiros, na última quarta, em Terra
Nova do Norte (530 km ao norte de Cuiabá -MT).
A informação foi divulgada pela Federação dos
Trabalhadores na Agricultura. Santos foi assassinato por
volta das 21h, a 100 metros da Delegacia de Terra Nova do
Norte.
Segundo o presidente da Fetagri, Miguel Francisco dos
Santos, 62, que esteve sexta-feira em Terra Nova do Norte,
Santos levou três tiros -dois pelas costas e um na cabeça-,
quando caminhava sozinho pelo centro da cidade.
Desde 1991, quando Incra deu início ao assentamento de
sem-terra na região, com a implantação da Gleba HIJ, seis
sem-terra já foram assassinados.
Santos estava em Terra Nova preparando uma viagem que
faria a Cuiabá para denunciar o espancamento que seu filho
sofreu na última segunda-feira. A Agência Folha tentou
localizar o delegado Fábio João Silveira ontem à tarde, por
telefone, mas ninguém atendeu na delegacia de Terra Nova.
Santos foi um dos fundadores do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de Terra Nova do Norte e da
Associação de Pequenos Produtores Rurais do município.
O superintendente do Incra em Mato Grosso, Elarmim
Miranda, 49, admite que a morte de Teodomiro está ligada às
inúmeras denúncias que ele vinha fazendo contra pistoleiros.
Pará
Cerca de 800 agricultores do assentamento 17 de Abril,
antiga fazenda Macaxeira, acamparam quinta em frente à
381
Prefeitura de Eldorado de Carajás (Pará).
Segundo o coordenador do MST na região, Glaydson
Barbosa de Souza, eles reivindicavam a construção de uma
escola prometida pela prefeitura e governo estadual no
assentamento. "O último prazo que eles deram foi 3 de
março e até agora nada aconteceu", disse.
O assentamento foi criado depois do massacre ocorrido em
17 de abril de 1996, quando morreram 19 sem-terra. Os
filhos dos assentados estariam tendo aulas em barracões
improvisados.
O clima se tornou tenso depois que a prefeitura disse que os
manifestantes estavam exigindo mais infra-estrutura para os
assentados do que tem a população local.
A PM esteve no local, mas não houve conflitos. Os
manifestantes permaneceram acampados por um dia. Souza
espera marcar uma reunião amanhã com o governo estadual
e municipal para resolver o impasse.
Mato Grosso do Sul
A Polícia Civil de Ivinhema (324 km de Campo Grande -
MS) prendeu quatro trabalhadores rurais sem terra acusados
de saquear um caminhão com 12 toneladas de arroz. A prisão
foi feita na última quarta e os sem-terra continuavam presos
até o início da noite de ontem. O delegado de Polícia Civil
Edésio Silva autuou os acusados, supostos líderes do
acampamento, por roubo. (JOANICE PIERINI, LUÍS
INDRIUNAS, RUBENS VALENTE)
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São Paulo, sábado, 28 de março de 1998
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MST culpa a impunidade
da Reportagem Local
A direção nacional do MST responsabiliza o presidente
Fernando Henrique Cardoso e o Poder Judiciário pelos novos
assassinatos ocorridos no Pará.
Segundo o MST, a impunidade dos policiais que
participaram do massacre de Eldorado dos Carajás e a
382
existência de latifúndios improdutivos propiciaram os
crimes.
"FHC está assassinando o Brasil. Novos crimes vão
continuar ocorrendo. A única pergunta é: Onde vai ser o
local da próxima morte", afirmou ontem, em São Paulo,
Gilmar Mauro, dirigente da coordenação nacional do MST.
Segundo o deputado federal Luis Eduardo Greenhalgh (PT),
advogado do MST, o governo e o Judiciário foram
coniventes porque a fazenda em questão seria um terreno
público, que teria sido grilada pelo fazendeiro assassinado.
"A fazenda Goiás 2 foi demarcada para reforma agrária no
final da ditadura militar. O fazendeiro se apropriou da área e
ninguém tomou atitude nenhuma", afirmou.
Ontem, o MST entrou em contato com entidades
internacionais de defesa dos direitos humanos pedindo ajuda.
"Só nos resta gritar para o mundo e pedir socorro", disse
Mauro.
Jorge Neri, dirigente do MST no Pará, disse que a situação
na região é de profunda tensão. Segundo ele, é impr
evisível a
forma como os trabalhadores vão "expressar a sua raiva".
"Há sentimento de indignação, revolta, nojo e asco da elite
brasileira, em especial do Judiciário e do governo", diz
Mauro.
Hoje, Greenhalgh, o deputado Geraldo Pestana, Mauro e
Neri vão ao Pará.
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São Paulo, sábado, 28 de março de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
Secretaria da Segurança detém nove policiais militares
acusados de participação no confronto
Líderes sem terra são assassinados no
PA
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Belém
383
Dois líderes rurais sem terra, ligados ao MST, foram
assassinados anteontem a tiros na agrovila Cedere 1 (Centro
de Desenvolvimento Regional) no município de
Parauapebas, sul do Pará.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
acusa fazendeiros e funcionários da fazenda Goiás 2 pela
morte dos sem-terra.
Segundo o MST, os dois assassinados são sobreviventes do
massacre de Eldorado do Carajás, ocorrido em abril de 1996.
O secretário da Segurança Pública do Pará, Paulo Sette
Câmara, informou ontem que nove policiais militares foram
detidos para explicar por que estavam no local do confronto.
Segundo o secretário, os policiais não teriam sido enviados
oficialmente pela PM. Ele disse que a secretaria está
investigando a possibilidade de eles terem sido contratados
pelos fazendeiros.
O MST diz que policiais fardados, com tarjas pretas sobre as
suas identificações, participaram da ação.
Desocupação
Cerca 520 famílias sem terra começaram na manhã de
anteontem a desocupação da fazenda Goiás 2 e estavam se
transferindo para a agrovila. A Justiça do Pará tinha
determinado a reintegração de posse da área.
Na noite de anteontem, segundo o MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra), um grupo de fazendeiros e
funcionários da fazenda Goiás 2 teria se aproximado do
coordenador do MST na região, Valentin Serra, conhecido
como "Doutor", e disparado dois tiros em seu tórax.
O líder sem terra Onalício Araújo Barros, conhecido como
"Fusquinha", teria tentado ajudar o colega, mas uma bala o
acertou nas costas.
Os corpos dos dois líderes só foram localizados ontem pelos
próprios sem-terra.
Barros foi encontrado no início da manhã na agrovila Cedere
1. Serra foi achado no início da tarde à beira do rio Verde,
afluente do rio Parauapebas.
A agrovila Cedere 1, que fica a cinco quilômetros da fazenda
Goiás 2, é um assentamento do Incra (Instituto de
Colonização e Reforma Agrária) na região.
A fazenda Goiás 2 pertence a Carlos Antonio da Costa, que,
segundo o Incra, comprou cerca de 20 títulos de assentados
no local e constituiu uma propriedade de 1.500 hectares. O
deputado federal Luis Eduardo Greenhalgh (PT), advogado
do MST, diz que Costa era grileiro.
As lideranças do MST acusam Costa de ter sido um dos
384
autores dos disparos. A Agência Folha não conseguiu
localizar o fazendeiro durante todo o dia de ontem.
Depois do conflito, as famílias foram levadas de caminhão
para o assentamento na fazenda Palmares, a 45 km de Goiás
2, onde devem permanecer este fim-de-semana.
Uma comissão da Secretaria da Segurança Pública do Pará,
composta de dois médicos legistas, um auxiliar de
necrologia, um perito criminal e do diretor da Divisão de
Operações Especiais da Polícia Civil do Pará, Lauriston
Goes, foi enviada para o local na tarde de ontem para
investigar o caso.
Representantes do Ministério Público, da Sociedade
Paraense de Direitos Humanos e do MST acompanham a
comissão.
Um grupo de deputados estaduais do Pará também viajou a
Parauapebas e deve se encontrar hoje com o governador
Almir Gabriel (PSDB), que tem agendadas inaugurações em
Marabá, município próximo a Parauapebas.
O município de Parauapebas fica próximo a Eldorado do
Carajás, onde, em abril de 96, 19 sem-terra morreram em
conflito com a PM.
Os partidos de esquerda e sindicalistas programaram para a
noite de ontem uma vigília em frente à Basílica de Nazaré,
em Belém. O MST da região sul do Pará programou para
hoje uma manifestação no centro de Parauapebas.
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São Paulo, domingo, 29 de março de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
Acusados de matar sem-terra estão presos
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Parauapebas (PA)
Dez dos onze policiais militares suspeitos de envolvimento
na morte de dois líderes sem-terra em Parauapebas, sul do
Pará, na última quinta, participaram do massacre de
385
Eldorado dos Carajás, em 17 de abril de 1996, segundo o
Ministério Público de Parauapebas.
O promotor de Justiça Godofredo Santos disse que os
policiais, do Batalhão de Parauapebas, foram identificados
por testemunhas que estavam no local.
O comando da Polícia Militar de Parauapebas prendeu os dez
policiais, sob a acusação de indisciplina. Eles teriam
acompanhado, na quinta, a retirada dos sem-terra que
estavam na fazenda Goiás 2 sem ter recebido ordem
superior.
Segundo o secretário de Segurança Pública do Pará, Paulo
Sette Câmara, os policiais estariam de folga naquele dia. O
comando da corporação enviou-os ao quartel de Xinguara, a
200 km de Parauapebas, para evitar conflitos. O MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) acusa
fazendeiros, funcionários da fazenda Goiás 2 e policiais
pelas mortes.
O procurador-geral de Defensoria Pública Ítalo de Almeida
Mácula Jr. diz que há muita semelhança entre os fatos
ocorridos na quinta e a morte dos 19 sem-terra em Eldorado
do Carajás. "É possível que haja um movimento clandestino
orquestrado por fazendeiros para combater os sem-terra."
A juíza Maria Vitória Torres do Carmo pediu ontem a prisão
provisória do fazendeiro José Marques Ferreira e mais oito
pessoas, todos foragidos. A polícia também procura o
fazendeiro Carlos Antônio da Silva, dono da Goiás 2.
Cerca de mil sem-terra, segundo o MST, participaram ontem
do enterro do líder Onalício Araújo Barros, o "Fusquinha". O
corpo do outro sem-terra, Valentin Serra, o "Doutor", seguiu
para São Luís (MA). De acordo com o MST, os dois estavam
entre os sobreviventes da chacina de Eldorado.
Foram ao enterro o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), os
deputados federais Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) e
Geraldo Pastana (PT-PA) e políticos locais.
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São Paulo, segunda, 30 de março de 1998
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Ação é "recado ao governo'
386
em São José do Rio Preto
O líder do MST José Rainha Jr. disse ontem que abril será o
mês de "ações de massa" do movimento, como resposta ao
assassinato de dois líderes dos sem-terra no sul do Pará na
última quinta-feira.
Abril passou a ser o principal mês de mobilização no
calendário do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra), em razão do aniversário do massacre, pela PM,
de 19 trabalhadores rurais em Eldorado do Carajás, em abril
de 96.
Os assassinatos dos líderes Valentin Serra e Onalício Araújo
Barros no município de Parauapebas (PA), na semana
passada, vão tornar essas mobilizações mais intensas este
ano, segundo Rainha.
"Não vamos ficar parados, vendo morrer gente. Vamos lutar,
ocupar terras, prédios públicos, quando for necessário, fazer
passeatas, atos públicos em frente a fóruns, como resposta à
impunidade, à lentidão da Justiça e à burocracia do governo
em fazer reforma agrária", disse.
Para Rainha, as ações do MST serão também "um recado ao
governo", a quem responsabiliza pela violência no campo.
"Na medida em que deixa impunes os assassinos, o governo
abre caminho para novos crimes. A lentidão na reforma
agrária cria um vácuo que permite crimes como esses."
Na opinião do dirigente nacional do MST, o governo "age
como quem acredita que não existe mais violência no
campo". "Os assassinos de Eldorado do Carajás estão soltos.
Essa é a oportunidade de colocar todos esses bandidos na
cadeia."
Rainha interpretou o episódio de Parauapebas como um
"recado" dos fazendeiros para ele, depois que divulgou seus
planos de passar a atuar naquela região ainda este ano.
O coordenador nacional do sem-terra Gilmar Mauro disse
ontem, em assembléia no assentamento Vila Palmares, em
Parauapebas, que o MST fará protestos em todo o país no dia
17 de abril, em memória dos dois anos do massacre de
Eldorado do Carajás.
Mauro afirmou que o MST também está organizando
manifestações em Eldorado do Carajás e em Belém.
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387
São Paulo, segunda, 30 de março de 1998
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Fazenda é reinvadida
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Parauapebas (PA)
Cerca de 400 famílias de sem-terra ligados ao MST voltaram
a invadir, às 18h de ontem, a fazenda Goiás 2, em
Parauapebas (sul do Pará). A invasão foi pacífica. A decisão
foi tomada em assembléia, às 13h.
À tarde, sem-terra e assentados da Vila Palmares, onde
ocorreu a assembléia, se preparavam para ir para a Goiás 2
com tratores e caminhões.
Na quinta, depois da retirada de 520 famílias, Onalício
Araújo Barros, 32, o "Fusquinha", e Valentin Serra, 36, o
"Doutor", foram mortos a tiros a 5 km do local, próximo à
vila Cedere 1.
A Justiça do Pará decretou a prisão temporária de dez
fazendeiros, suspeitos de participar dos assassinatos -entre
eles, Carlos Antônio da Costa, dono da Goiás 2, e José
Ferreira da Silva, o "Donizete", que teria atirado em Serra.
O coordenador nacional do MST Gilmar Mauro e líderes
regionais coordenaram a assembléia. "Vamos ocupar a
fazenda, não para revidar, mas porque é nosso direito."
A assembléia reuniu cerca de 500 pessoas em clima tenso. A
maioria dos sem-terra estava a favor da nova invasão.
Ontem pela manhã, o delegado Lauriston Goes esteve na
Goiás 2 e na Vila Cedere para investigar e ouvir
testemunhas. Goes disse não ter encontrado nenhuma nova
prova.
O MST decidiu que deve entrar em contato com a
superintendência nacional do Incra hoje para resolver a
situação da Goiás 2, com 1.800 hectares.
Eles querem invadir nesta semana três outras áreas próximas
ao assentamento 17 de Abril, onde estão os sobreviventes de
Eldorado do Carajás. Eles anunciaram a invasão da Rio
Branco, vizinha à Goiás 2.
Dez dos onze PMs que teriam acompanhado dois oficiais de
Justiça na reintegração de posse da Goiás 2 são réus do caso
de Eldorado do Carajás, segundo o Ministério Público. Eles
estão presos no quartel de Xinguara por indisciplina.
388
Onalício Barros era um dos fundadores do MST no Pará e
um dos sobreviventes do massacre de Eldorado. Iniciou sua
militância em 1989. Ele vivia com sua mulher, Maurícia da
Silva Gomes, e dois filhos.
Valentin Serra havia sido eleito contador da Associação do
Assentamento da Vila de Palmares no início deste ano.
Ele entrou para o MST na invasão da Rio Branco, em maio
de 1995, e cuidava da documentação e compra de material.
Veio do Maranhão com sua mulher e a filha.
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São Paulo, terça, 31 de março de 1998
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MST vai à Justiça contra fazendeiros
da Agência Folha, em Presidente Prudente
O MST está reunindo documentos para entrar com ações na
Justiça contra fazendeiros e policiais do Pará, disse o líder
dos sem-terra Gilmar Mauro, 30, que deixou Parauapebas
(PA) ontem à tarde.
"É preciso que haja uma intervenção do governo federal
aqui. Os fazendeiros e policiais formaram um grupo
paramilitar em Parauapebas", afirmou. Mauro avalia que há
risco de mais violência.
Segundo ele, os sem-terra estão revoltados e o clima é tenso
nas cidades do sul do Pará. "A Justiça não chegou aqui. A
impunidade é um estímulo para o assassino. Os crimes vão
continuar", disse.
Só a desapropriação das fazendas invadidas pelos sem-terra,
segundo a avaliação de Mauro, pode evitar novos confrontos.
O assassinato dos líderes do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra), de acordo com Mauro,
provocou revolta entre os trabalhadores rurais sem terra, mas
não vão acontecer retaliações por parte dos trabalhadores.
"O pessoal vai ocupar fazendas disposto a ficar nelas de
qualquer jeito." Segundo ele, os sem-terra estão se
organizando para tentar evitar novas mortes no Pará.
O líder do MST voltaria a São Paulo ontem para organizar os
389
protestos pelos dois anos do massacre de Eldorado do
Carajás, no próximo dia 17.
Nesse dia, devem acontecer manifestações pela reforma
agrária e contra a violência no campo em todo o país, na
Europa e na Índia.
Amanhã, o MST se reúne com o Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária) para discutir a liberação de
verbas para os assentados.
Duas testemunhas dos assassinatos de Valentin Serra e
Onalício Barros, líderes do MST mortos na semana passada,
devem ir hoje a Brasília (DF). A pedido do deputado Luiz
Eduardo Greenhalgh (PT-
SP), as testemunhas vão falar sobre
os crimes na Câmara.
(JOSÉ ERNESTO CREDENDIO)
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São Paulo, quarta, 1 de abril de 1998
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ARTIGO
Desemprego urbano e emprego rural
JOÃO CLAUDIO TODOROV
A reforma agrária tem sido objeto de disputas maniqueístas e
simplificadoras. Não havia, até recentemente, uma base de
informações segura e confiável. Quantas famílias foram
assentadas? O Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra) tinha um número, a Confederação dos
Trabalhadores na Agricultura (Contag) tinha um número
menor e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), outro menor ainda.
Outro exemplo de confusão na área de informações é o
conflito entre dados do Censo Agropecuário do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 1985, e os
diversos cadastramentos fundiários feitos pelo Incra. Bases
precárias de informações são como areia movediça: quanto
mais firme você se apóia nelas, mais afunda.
Até a nomeação do ministro extraordinário de Política
Fundiária, decisão do presidente Fernando Henrique
Cardoso, reagindo ao massacre de Eldorado dos Carajás, a
390
base de dados sobre reforma agrária era isso: areia movediça.
Parecia terreno firme. Mas não era.
Com o esforço atual do Incra, podemos afirmar que até
recentemente não tínhamos como determinar a real extensão
das terras improdutivas. Hoje, com as fotografias tiradas por
satélite, é possível saber até quem está queimando mata na
Amazônia.
Mas ainda não sabemos o número efetivo de trabalhadores
rurais sem terra, e o que é pior, sem emprego. Não há
trabalhos sistemáticos, por exemplo, sobre o
desenvolvimento capitalista-empresarial da agricultura em
determinadas regiões, contrastando com a natureza fundiária
de propriedade e de posse de terras.
A falta de informações, por decorrência, também alimenta
um maniqueísmo primário, que ainda vê na posse privada de
pequenos lotes de terra um antídoto ao latifúndio tradicional.
Essa posição não leva em conta que a sociedade brasileira -
especialmente nas últimas três décadas- tem sofrido enorme
transformação. Grande parte da produção agropecuária se
submete aos ditames da indústria, excetuando-se as regiões
de fronteira (Norte e Centro-Oeste) e o Nordeste tradicional
(onde impera o latifúndio clássico).
Esse novo ambiente, que deixou de ser caipira e passou a ser
"country", nos coloca a necessidade de reconhecer um novo
mercado de trabalho rural. Barretos (SP) está a dez anos-luz
de Paragominas. A proteção e o apoio à agricultura familiar
têm que levar essas diferenças regionais em consideração.
No Sul e no Sudeste, vale a expectativa de que a renda do
pequeno produtor rural será aumentada pela prestação de
serviços a grandes produtores vizinhos. Ela vale também
para áreas específicas do Nordeste, como as margens do São
Francisco e o sul do Maranhão. Essas exceções são ilhas
num mar de oportunidades.
Os investimentos na agricultura familiar, dos com-terra ou
dos sem-terra, como agora estão sendo feitos, geram
empregos no campo. Retiram famílias da miséria. Aumentam
a produção nacional de alimentos. E, "last but not least",
diminuem as estatísticas futuras de desemprego urbano.
João Claudio Todorov, 56, é coordenador do Pronera (Programa
Nacional de Educação na Reforma Agrária), do Ministério Extraordinário
de Política Fundiária. Foi reitor da UnB (Universidade de Brasília).
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391
São Paulo, quarta, 1 de abril de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
Presença de soldados na região é criticada por sem-terra
Governo envia 500 homens do
Exército ao sul do Pará
ABNOR GONDIM
da Sucursal de Brasília
ARI CIPOLA
da Agência Folha, em Mara
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Parauapebas
O governo federal acertou ontem com o governador
paraense, Almir Gabriel (PSDB), a intervenção do Exército e
da Polícia Federal em Parauapebas (sul do Pará), local de
conflito entre fazendeiros e sem-terra. Cerca de 500 soldados
foram destacados para a área para evitar novos confrontos.
O general Edson Sá Rocha, comandante 23ª Brigada de
Infantaria da Selva de Marabá (PA), disse já ter enviado duas
companhias, cada uma com 150 homens. "Somos uma força
de paz. Ocupamos posições para a pacificação."
"Não houve intervenção porque fui eu quem pediu a
presença do Exército", afirmou Gabriel. Em abril de 96,
houve uma "intervenção branca", após o massacre de 19
sem-terra em Eldorado do Carajás, a 130 km de Parauapebas.
"Queremos juntar as forças da Polícia Militar e do Exército
para evitar o confronto. A gente sabe que os fazendeiros
estão se armando e que a disposição dos líderes do MST é o
confronto", disse Gabriel.
A Polícia Federal também foi acionada para investigar o
assassinato de dois líderes do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) na fazenda Goiás 2 (PA),
na última quinta, e para capturar os responsáveis.
O ministro Raul Jungmann (Política Fundiária) disse que o
presidente Fernando Henrique Cardoso decidiu acionar a PF
para investigar tanto o assassinato quanto a criação de
milícia nacional por fazendeiros de nove Estados. "Foi o
392
presidente quem decidiu convocar a PF", disse Jungmann.
Gabriel oficializou o pedido de apoio do governo federal
para reforçar a segurança. Anteontem à noite, ele já havia
pedido o deslocamento de tropas do Exército ao ministro-
chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso.
Gabriel anunciou que irá expulsar os 11 PMs que
participaram da operação de despejo que resultou no
assassinato dos líderes do MST.
Eles estão presos e serão expulsos, segundo Gabriel, porque
não tinham autorização do comando da PM em Parauapebas
para acompanhar a operação de despejo. "Serão expulsos por
desobediência", disse o governador.
Dos PMs envolvidos no despejo na Goiás 2, nove haviam
participado do massacre de Eldorado do Carajás. Eles fazem
parte do grupo de 153 PMs pronunciados pelas mortes. Os
PMs não foram expulsos na época porque obedeceram a
ordens do comandante em Marabá, coronel Mário Pantoja.
A presença do Exército, que circulou entre os sem-terra com
dez caminhões, com 20 homens cada um, e dez jipes,
provocou tensão entre os assentados. "O Exército foi vítima
de um boato e acabou nos assustando", disse um dos
coordenadores, Jorge Neri.
Com-terra
Gabriel e Jungmann acusaram o MST de incitar a violência
na região. Segundo eles, a maioria dos participantes da
invasão na fazenda Goiás 2 é formada por "com-crédito" e
"com-terra" assentados em projetos próximos, como o
Palmares, onde os líderes assassinados tinham lotes.
"Nada justifica a violência, mas é bom que se diga que o
governo está assentando 9.000 famílias na região", disse
Jungmann, que divulgou lista com os créditos dados a líderes
do MST em nove Estados.
Invasão
O MST invadiu ontem as fazendas Aldeia Velha e Volta do
Rio, em Eldorado do Carajás. As invasões foram pacíficas. O
MST disse que 600 famílias foram distribuídas entre as duas
fazendas.
O superintendente do Incra em Marabá (PA), Vitor Hugo
Paixão Melo, afirmou que a fazenda Volta do Rio, uma das
invadidas. recebeu cadastro de propriedade produtiva em 97.
Sobre a fazenda Aldeia Velha, o superintendente disse não
dispor de informações sem consulta.
393
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São Paulo, sexta, 3 de abril de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
Sem-terra levou tiro já morto, diz
laudo
FABIANA PEREIRA
da Agência Folha
O laudo necroscópico sobre as mortes dos dois líderes sem-
terra concluiu que o trabalhador rural Onalício Araújo
Barros, o "Fusquinha", levou cinco tiros, sendo o último no
chão, à queima roupa, quando ele já estava morto.
O laudo concluiu também que o sem-terra Valentin Serra, o
"Doutor", morreu com um único tiro no coração.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
acusa funcionários e fazendeiros pela morte dos líderes no
assentamento Cedere1, em Parauapebas, sul do Pará, na
quinta-feira da semana passada.
Os fazendeiros dizem que os líderes foram mortos pelos
próprios sem-terra.
O diretor-geral da Polícia Científica do Instituto Médico
Legal de Belém (PA), Luiz Malcher, que preparou o laudo,
disse que Barros levou quatro tiros à distância (a mais de
meio metro), dos quais três o atingiram de raspão no braço e
antebraço.
O quarto tiro, segundo Malcher, foi o que matou o sem-terra.
Esse tiro o atingiu na axila e atravessou seu corpo, rompendo
artérias, parando nas costas. Ele estaria com braços
levantados, em movimento de defesa.
Segundo o laudo, o projétil encontrado era de um revólver
calibre 38. O quinto tiro, quando Barros estava no chão, foi
dado no coração.
O outro sem-terra morto, Valentin Serra, foi atingido com
um tiro à distância. A bala o atingiu seu coração e atravessou
seu corpo.
"O cadáver de Valentin estava coberto de lama e a pele
enrugada como se o corpo tivesse ficado embaixo da lama
394
por muito tempo. Pode-se concluir que pode ter havido uma
tentativa de ocultação de cadáver".
O laudo será apresentado na próxima segunda-feira à
Delegacia do Interior, em Belém, que então o enviará a
Parauapebas, onde está o inquérito policial. O laudo também
será enviado ao Ministério Público.
"Na verdade, já concluímos. Só é preciso anexarmos as
fotos. Estamos somente montando o laudo para
apresentarmos na segunda", afirmou Malcher.
Segundo ele, nenhum dos dois sem-terra apresentou sinais de
espancamento ou de violência física.
O Instituto de Criminalística de Belém também divulga na
próxima segunda-feira o laudo de vestígios que analisa as
roupas das vítimas, manchas de sangue e cápsulas e projéteis
encontrados no local das mortes.
Esse laudo também será anexado ao inquérito policial.
Prisões
A juíza de Parauapebas (PA), Maria Vitória Torres do
Carmo, decretou ontem a prisão provisória dos fazendeiros
Rafael Saldanha do Camargo e Geraldo Teotônio Jota, o
"Capota", acusados de cúmplices nos assassinatos dos dois
líderes do MST.
A Polícia Civil do Pará colocou oito equipes a procura dos
fazendeiros em Parauapebas, onde mora Carmargo, e em
Marabá (PA), onde Geraldo Jota é vice-presidente do
Sindicato dos Produtores Rurais. Até o fechamento desta
edição nenhum fazendeiro havia sido preso.
Com os dois decretos de prisão de ontem, subiu para 11 o
número de fazendeiros da região que têm pedidos de prisão
preventiva decretados acusados de envolvimento nos
assassinato. Todos estão foragidos.
Geraldo Jota era presidente do sindicato na época do
"massacre de Eldorado dos Carajás", ocorrido há quase dois
anos.
Maria Vargas, irmã do fazendeiro Geraldo Jota, um dos
principais líderes dos fazendeiros no sul do Pará, afirmou
que os fazendeiros envolvidos no caso vão se pronunciar na
próxima semana sobre o assunto.
Colaboraram Ari Cipola e Luís Indriunas, da Agência Folha
em
Parauapebas (PA)
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395
São Paulo, terça, 31 de março de 1998
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Sem-Terra ameaçam invadir mais
três fazendas no sul do PA
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Parauapebas
O MST decidiu ontem invadir mais três fazendas no sul do
Pará, próximas ao assentamento 17 de Abril, local do
massacre de Eldorado do Carajás, onde 19 sem-terra foram
mortos em abril de 96.
No assentamento, que fica no caminho das fazendas, os sem-
terra diziam ontem se preparar para a invasão ainda na
madrugada de hoje.
Atualmente vivem no assentamento (antiga fazenda
Macaxeira) 690 famílias, em 18.089 hectares.
Segundo o MST, caminhões com trabalhadores rurais sem
terra teriam saído do assentamento Palmares, a 80 km do 17
de Abril. Até as 17h30, nenhuma caminhão havia chegado.
As três fazendas que podem ser invadidas -Volta do Rio,
Aldeia Velha e São José- têm cerca de 8.000 hectares.
O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária), os sem-
terra e os proprietários já haviam se reunido
para tentar negociar as áreas, mas não houve acordo.
Anteontem, às 18h, o MST voltou a invadir a fazenda Goiás
2. Na última quinta-feira, os líderes Onalício Barros e
Valentin Serra foram mortos a tiros após a desocupação da
área.
Ontem à tarde, cerca de 250 pessoas ocupavam as duas casas
de madeira da Goiás 2. O clima era calmo.
Alguns esperavam os parentes que vinham de outros
assentamentos. Nenhum representante da fazenda havia
aparecido no local durante todo o dia.
A decisão de invadir mais três fazendas foi tomada ontem
com a presença do coordenador nacional do MST, Gilmar
Mauro. "Vamos tomar o que é de nosso direito", afirmou
Mauro.
Investigações
A polícia continua investigando o assassinato dos dois
líderes. Segundo o delegado Lauriston Goes, da Divisão de
396
Operações Especiais, uma bala foi encontrada no corpo de
Serra, mas ainda não foi feito o exame de balística, já que a
arma está desaparecida.
Ontem, o delegado enviou sua equipe para o quartel de
Xinguara, onde estão presos, por indisciplina, 11 policiais.
Eles teriam acompanhado os oficiais de Justiça que levaram
a determinação de reintegração de posse da fazenda Goiás 2.
Segundo a PM, os policiais não tinham ordem do Comando
Geral da PM.
Hoje, Goes deve interrogar os oficiais de Justiça José
Eduardo Ferreira do Vale e Edson Rodrigues Guimarães.
Nove fazendeiros, com prisão temporária decretada, estão
sendo procurados pela polícia, mas continuam foragidos.
Ontem, os sem-terra fizeram uma manifestação acendendo
velas em frente ao fórum de Parauapebas. Eles também
rezaram pela morte dos dois líderes.
Os sem-terra entregaram também ao promotor de Justiça
Godofredo Santos as chaves de dois caminhões, que
pertencem ao fazendeiro Carlos Antonio da Silva,
proprietário da fazenda Goiás 2.
Os caminhões haviam sido apreendidos pelo MST , depois
da morte a tiros dos líderes.
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São Paulo, domingo, 5 de abril de 1998
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Líderes surgem depois do massacre
de
96
da Agência Folha, em Parauapebas
O MST do sul do Pará está acéfalo, consequência do
assassinato há 12 dias de seus dois líderes Onalício Araújo
Barros, o "Fusquinha", e Valentin Serra, o "Doutor".
Barros e Serra tornaram-se líderes depois do massacre de
Eldorado do Carajás, em 1996, quando 19 sem-terra foram
mortos em confronto com a Polícia Militar.
Depois do massacre, eles lideraram a resistência na fazenda
Macaxeira, vivendo meses com mais de 500 pessoas em um
397
acampamento. Já na época do massacre, o MST tinha
lideranças pouco articuladas na região.
Sem "Fusquinha" e "Doutor", o movimento agora não está
conseguindo arregimentar novas famílias e tem praticado
invasões com pessoas já assentadas.
Mesmos personagens
Além de "Fusquinha" e "Doutor", outros personagens da
atual crise participaram, de uma forma ou de outra, do
massacre ocorrido há dois anos.
O advogado do proprietário da Goiás 2, Américo Leal, é o
mesmo que defende o ex-comandante da PM de Marabá
(PA), coronel Mário Colares Pantoja, que liderou os policiais
acusados de homicídio doloso pela morte dos 19 sem-terra
em Eldorado do Carajás.
A acusação de que os fazendeiros deram uma "caixinha"
com o objetivo de financiar a PM para retirar os sem-terra da
rodovia há dois anos também está presente no caso das
mortes de "Doutor" e "Fusquinha".
O fazendeiro Geraldo Teotônio Jota, 1 dos 11 fazendeiros
com prisão preventiva decretada pela Justiça acusados de
participar do assassinato dos líderes, também foi figura
presente no massacre.
À época, como presidente do Sindicato dos Produtores
Rurais de Marabá, Geraldo Capota, como é conhecido,
exerceu o papel de porta-voz dos fazendeiros.
Apesar de não ter participado do assassinato dos dois líderes,
10 dos 11 policiais militares que foram recrutados, seg
undo a
polícia, pelos fazendeiros para ajudar na desocupação da
fazenda Goiás 2 respondem a processo pelas mortes em
Eldorado do Carajás.
Em novembro, foram pronunciados 153 PMs pelo massacre.
Ainda não há data para o julgamento. (ARI CIPOLA)
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São Paulo, domingo, 5 de abril de 1998
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SUCESSÃO
Definição eleitoral deve ampliar manifestações
Governo prevê mais protestos até
398
junho
WILLIAM FRANÇA
da Sucursal de Brasília
O Palácio do Planalto trabalha com a previsão de que nos
próximos 60 dias haverá ampliação dos protestos,
manifestações e greves. O período coincide com a definição
de candidaturas e, em maio, com o reajuste do salário
mínimo.
Nesse período, o governo prevê que serão intensificadas as
invasões em áreas de reforma agrária, mais prédios públicos
federais deverão ser ocupados em protestos e haverá o
aumento da articulação dos sem-
teto, ocupando novas áreas e
imóveis abandonados.
O agravamento dos conflitos sociais só será amenizado em
junho e julho, período da Copa do Mundo. A ordem do
Planalto para os assessores de todos os níveis, e a
recomendação especial aos governos estaduais, apurou a
Folha, é "não produzir cadáveres".
O mês de agosto foi classificado como "muito preocupante"
na escala dos cenários possíveis para o ano. Nessa época,
assim como no ano passado, poderá haver novas
manifestações de policiais militares por melhores condições
de trabalho e de salário.
Em 1997, em vários Estados, como Ceará e Minas Gerais, as
PMs entraram em greve.
FHC ao telefone
O presidente vai interferir diretamente, sempre que
necessário, para fugir de novas acusações de que seu
governo esteja contribuindo para reforçar a impunidade.
No episódio da morte de dois líderes do MST em
Parauapebas, sudeste do Pará, na semana retrasada, FHC
pegou no telefone e, na frente do governador Almir Gabriel
(PSDB), ligou para o superintendente da Polícia Federal no
Estado, Geraldo Araújo.
Ele cobrou da PF a captura dos fazendeiros responsáveis
pelas mortes dos sem-terra Onacílio Araújo Barros e
Valentin Serra.
A pressa em mobilizar a PF e o Exército faz parte da
estratégia do governo de evitar, a todo o custo, que sejam
feitos cadáveres que possam ser usados como mártires das
causas sociais.
A missão das duas forças federais no Pará foi impedir a
repetição do massacre de Eldorado do Carajás, há dois anos,
399
quando foram mortos 19 sem-terra.
O governo está usando toda a sua rede de informações para
repassar aos governadores dados em primeiro mão sobre o
deslocamento dos movimentos sociais no país, a fim de
evitar surpresas.
Em contrapartida, o Planalto quer que os governos estaduais
mantenham suas polícias preparadas para agir nos conflitos
sem partir para o confronto.
A expectativa do governo é que, à medida que for crescendo
o favoritismo do candidato FHC nas eleições de outubro,
cresçam também as manifestações sociais contrárias ao
presidente.
No caso dos movimentos políticos, como o de centrais
sindicais, eles trarão uma espécie de "síntese dos últimos três
anos".
O governo acha que esses movimentos não serviriam para
legitimar causas, mas para tirar proveito político-eleitoral em
favor do candidato de oposição.
Pelo levantamento do Planalto, as áreas com maior
possibilidade de conflito são: sul do Rio Grande do Sul;
fronteira do país com Paraná; Mato Grosso e Mato Grosso
do Sul; entorno de Brasília; sul da Bahia; Norte do Espírito
Santo; Norte do Rio de Janeiro; a região canavieira do
Nordeste e o Pontal do Paranapanema, em São Paulo.
Colaborou Abnor Gondim, da Sucursal de Brasília
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São Paulo, terça, 14 de abril de 1998
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MST inicia invasões no Pontal
JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
em Presidente Prudente
O MST iniciou ontem, no Pontal do Paranapanema, a série
de invasões de terras e protestos programados para esta
semana no país, marcando a passagem dos dois anos do
massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA).
Cerca de 450 sem-terra invadiram na madrugada de ontem as
400
fazendas Ipiranga e Santa Izabel, entre Mirante do
Paranapanema, Presidente Bernardes e Santo Anastácio. Não
houve conflito.
O advogado dos proprietários, Fernando Vendramini, 32,
negou que as fazendas sejam improdutivas ou devolutas
(pertencentes ao Estado).
Para quinta-feira, o MST planeja manifestações contra a
violência no campo e pela reforma agrária em pelo menos 13
Estados.
Segundo Cledson Mendes, 25, coordenador do movimento,
vão ser retomadas invasões no Pontal (extremo oeste de São
Paulo).
A fazenda Lagoinha, desapropriada pelo Incra (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária), foi invadida
ontem por cerca de 150 sem-terra ligados ao Movimento
Terra Brasil.
Segundo o líder do grupo, Richard Sorigotti, foi iniciada
demarcação dos lotes em protesto contra o atraso no
assentamento das famílias. A assessoria do Incra informou
que o processo de assentamento está parado por
determinação da Justiça, devido a suspeita de
superfaturamento na indenização paga ao ex-proprietário.
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São Paulo, terça, 14 de abril de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
Suspeito da morte de líderes sem terra presta
depoimento; dez agricultores ainda estão foragidos
Fazendeiro se entrega à polícia no PA
Moacyr Lopes Jr. 05.abril.98/Folha Imagem
Sem-terra em
acampamento
na fazenda
Goiás 2, em
Paraupebas
(PA)
401
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Belém
O fazendeiro Carlos Antonio da Costa, acusado de
envolvimento no assassinato de dois líderes sem terra em
Parauapebas (PA), entregou-se à polícia ontem.
Seus advogados pediram garantias de segurança para que ele
pudesse se apresentar. Outros dez fazendeiros, que têm
prisão temporária decretada, estão foragidos.
Costa estava no Paraguai e chegou a Parauapebas em um
avião. Ele estava protegido com um colete à prova de balas.
Depois de se apresentar à polícia, ele viajou até Marabá para
prestar depoimento.
Apesar de não ter curso superior, seus advogados
conseguiram cela especial, alegando que Costa participou
como presidente de mesa em duas eleições. A prisão
temporária tem prazo de 30 dias.
O fazendeiro prestou depoimento durante cerca de quatro
horas acompanhado do advogado Manoel Dornelles Barreto.
Ele negou que estivesse no local do crime.
Onalício Araújo Barros, o "Fusquinha", e Valentin Serra, o
"Doutor", foram mortos a tiros no dia 26 de março na
agrovila Cedere 1, após a retirada de um grupo de sem-terra
da fazenda Goiás 2, propriedade de Costa.
O fazendeiro disse no depoimento que teria ficado em sua
propriedade para dar ordens aos funcionários e terminar de
despachar com os oficiais de Justiça que fizeram a
reintegração de posse.
Cerca de um hora depois dos assassinatos, Costa diz ter
402
recebido a notícia de um tiroteio na agrovila.
Mais de 30 pessoas foram à fazenda naquele dia e almoçaram
na casa principal, enquanto a fazenda estava invadida. Ele
disse que não viu ninguém "ostensivamente armado", mas
não afirmava que não houvesse armas escondidas.
Costa disse que viu os dois líderes alguns dias antes do
assassinato para negociar a retirada dos invasores, mas não
os teria visto no dia 26. Ele fez afirmou que o clima com os
sem-terra era pacífico.
A Goiás 2 foi reinvadida três dias depois dos assassinatos.
Costa pretende exigir seus direitos e pedir a manutenção de
posse. Segundo o Incra (Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária), a propriedade é produtiva.
Cerca de mil sem-terra devem sair em carreata de Marabá
hoje à tarde em direção a Belém, em manifestações até o dia
17 de abril para lembrar os dois anos do Massacre de
Eldorado dos Carajás, quando 19 sem-terra foram mortos em
conflito com a polícia.
Na quarta-feira, o MST deve entrar com uma ação na Justiça
alegando negligência do Estado do Pará em relação às
vítimas sobreviventes do massacre.
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São Paulo, quinta, 16 de abril de 1998
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SEM-TERRA
Massacre será lembrado amanhã
Situação é tensa no PA antes de
protestos
ESTANISLAU MARIA
da Agência Folha, em Parauapebas
É tensa a situação na região de Parauapebas e Eldorado do
Carajás, no sul do Pará, devido à aproximação do Dia
Nacional de Protestos pelos dois anos do massacre de 19
sem-terra em Eldorado do Carajás, amanhã.
O assassinato de dois líderes do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra), há 21 dias, em
403
Parauapebas (630 km ao sul de Belém), só fez aumentar o
clima de conflito às vésperas das manifestações.
O Exército enviou anteontem mais 300 soldados para a
região. A Polícia Civil enviou ontem mais 30 policiais.
Os sem-terra organizam um grande ato público na curva do
"S" da rodovia PA-150, onde 19 trabalhadores foram mortos
pela Polícia Militar do Estado, em 17 de abril de 1996. A
Justiça pronunciou 153 policiais pelas mortes.
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São Paulo, sexta, 17 de abril de 1998
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Sem-terra sobrevive a massacre e a
atentado
Antônio Gaudério - 15.abr.98/Folha
Imagem
O sem-terra Waldimar
Gomes da Silva (à frente), o
"Piauí", em acampamento
em Parauapebas, no Pará
da Agência Folha, em Parauapebas
"Sobrevivi ao massacre e ao atentado na Goiás 2. Posso
correr de tiro cem vezes que eu não desisto da terra." E em
correr de tiro, o sem-terra Waldimar Gomes da Silva, 33, tem
experiência.
"Piauí", como é conhecido na invasão da fazenda Goiás 2,
404
estava na rodovia PA-150 há dois anos e sobreviveu ao
massacre de Eldorado do Carajás.
Ele também estava ao lado do líder sem terra Onalício de
Araújo Barros, o "Fusquinha", quando este foi morto na
desocupação da Goiás 2 há três semanas.
"Quando atiraram contra o "Doutor' (Valentin Serra, líder
sem terra também morto), eu e o "Fusquinha' corremos, mas
ele também foi baleado. Me atirei no primeiro mato que vi e
escapei dos tiros", disse "Piauí".
"No dia do massacre, foi a mesma coisa. Quando vi os
companheiros caindo lá na frente, saí correndo feito louco
para fora da estrada em direção ao mato".
Apesar do apelido, "Piauí" é pernambucano de Araripina.
Saiu de casa aos 14 anos e desde então tem passado por
vários Estados das regiões Norte e Nordeste do país.
Após o massacre, ele ficou com medo e abandonou o MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Depois
de sair do movimento acabou indo para Serra Pelada. Como
já não há mais ouro na região, ficou fazendo vários serviços
para a CVRD (Companhia Vale do Rio Doce).
"Mas lá não tinha futuro. E voltei para o movimento no ano
passado", afirmou.
Justiça
Ele disse ter ainda "um resto de esperança na Justiça, mas
acredita pouco que haja punição para os 21 assassinatos que
testemunhou.
"Piauí" disse que espera a desapropriação da Goiás 2 para
poder ter uma plantação e criar gado. "Quero plantar arroz,
feijão e milho e também criar umas vaquinhas. Por enquanto
ainda passamos fome aqui, mas vamos nos aguentando."
Incluído no rodízio da alimentação, feito pela coordenação
do acampamento, "Piauí" era um dos adultos que havia
almoçado na última quinta-feira, mas sabia que não poderia
jantar porque a comida não seria suficiente para os outros
acampados. (EM)
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São Paulo, sexta, 17 de abril de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
405
Data depende da análise de recursos
Julgamento no Pará ainda está
indefinido
ESTANISLAU MARIA
da Agência Folha, em Belém
O TJ (Tribunal de Justiça) do Pará tem de tomar este ano a
mais importante decisão de sua história.
Os desembargadores vão resolver se mantêm a decisão do
juiz Otávio Marcelino Maciel ou aceitam os recursos dos
advogados dos acusados do massacre dos 19 sem-terra em
Eldorado do Carajás. Pela decisão de Maciel, os acusados
irão a júri popular.
No último dia 12 de novembro, Maciel pronunciou 153 PMs,
acusados de homicídio doloso qualificado (intencional), cuja
pena varia de 12 a 30 anos de prisão.
Também foram pronunciados três sem-terra, acusados de
lesões corporais leves contra os PMs. A pena prevista varia
de três meses a um ano de prisão.
A defesa dos PMs pediu a anulação do processo no TJ
alegando diversas irregularidades.
A principal contestação é que o processo não individualiza as
condutas. Como as identificações das armas da PM foram
arrancadas antes do confronto, não há como apontar,
precisamente, entre os 153 acusados, os autores dos 37 tiros
encontrados nos 19 sem-terra.
Além disso, os advogados dos policiais entraram com um
recurso no STF (Supremo Tribunal Federal), pedindo o
afastamento de Maciel do processo, afirmando que ele não é
o juiz da comarca de Curionópolis.
Maciel foi indicado exclusivamente para o caso, depois do
pedido de transferência do então juiz de Curionópolis,
Laércio Larêdo.
Os advogados dos PMs também ajuizaram pedido de habeas
corpus no STF, alegando cerceamento de defesa.
Para eles, Maciel chegou a fazer audiências em quatro
municípios no mesmo dia, quando a defesa não tinha como
acompanhar.
Os advogados dos sem-terra foram ao STJ (Superior
Tribunal de Justiça) solicitar a retirada de seus clientes do
processo penal. Os recursos ainda não foram julgados.
Caso algum dos recursos dos advogados seja acatado na
íntegra, existe a possibilidade de haver uma substituição do
406
juiz e uma nova apuração das provas.
A previsão mais otimista, tanto dos advogados de defesa dos
PMs e dos sem-terra quanto do juiz Maciel, é que o
julgamento ocorra no segundo semestre deste ano.
"O caso terá prioridade absoluta na pauta de 1998", disse,
por meio da assessoria de imprensa, o presidente do TJ,
desembargador Romão Amoêdo Neto.
Sem responsabilidade
O governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), e o secretário
da Segurança, Paulo Sette Câmara, que deram a ordem para
a ação da PM, não foram responsabilizados pela Justiça. Eles
foram apenas ouvidos como testemunhas.
Mesmo livre de responsabilidades no caso, Gabriel,
candidato à reeleição, será acusado pela oposição durante a
campanha.
Em seu depoimento, o governador confirmou que ordenara
que a PM retirasse os sem-terra da rodovia PA-150, mas
"sem violência".
Não foi o que aconteceu por volta das 17h de 17 de abril de
1996, quando cerca de 1.100 militantes do MST
(Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
interditavam a rodovia PA-150, em Eldorado do Carajás.
O resultado da operação policial foi o maior massacre da
história fundiária do país: 19 sem-terra mortos e 70 feridos,
entre sem-terra e PMs.
Colaborou Luís Indriunas, da Agência Folha em Belém
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São Paulo, sexta, 17 de abril de 1998
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Invasão da Goiás 2 repete passos de
96
da Agência Folha, em Eldorado do Carajás A situação da
fazenda Goiás 2 -invadida pelo MST em Parauapebas há um
mês, desocupada e reinvadida há 15 dias- repete o início do
atual assentamento 17 de abril, que, em 1996, era a invasão
407
da fazenda Macaxeira, no município de Curionópolis (PA) .
O acampamento na fazenda foi o pivô do conflito de
Eldorado do Carajás, vizinha a Curionópolis, há dois anos.
Somente após a morte de 19 pessoas no conflito com PM é
que a Macaxeira e mais quatro fazendas foram
desapropriadas e transformadas em assentamento.
Ainda há problemas de saúde, transporte e de financiamento
para os assentados -que já produzem, têm escola e não
contam mortos por desnutrição infantil.
A "terra prometida", alcançada pelos vizinhos de Eldorado
do Carajás, é apenas uma promessa e uma esperança para os
invasores da Goiás 2.
Péssimas condições
A alimentação e as condições do acampamento são precárias.
Cerca de mil pessoas dividem seis ou sete barracos cobertos
de plástico, mais a casa-sede e o curral coberto ao lado da
sede.
Em meio às redes amarradas nos cercados para boi, crianças
descalças caminham sobre o esterco no chão do curral. Não
há remédios nem transporte.
A falta de comida obriga os líderes de grupos a organizar um
rodízio: o adulto que almoça não janta e o que janta não
almoça. Nos últimos dois dias, só havia arroz e abóbora para
comer.
Carne? Só de caça, mas ninguém deixa o acampamento, com
medo de ataques de pistoleiros ou ações da polícia. Eles
dependem de doações dos assentamentos.
Na desocupação da Goiás 2, no último dia 26 de março, os
líderes Onalício de Araújo Barros, o "Fusquinha", e Valentin
Serra, o "Doutor", foram assassinados.
Acusados de envolvimento, 11 PMs foram presos, dez
fazendeiros ainda estão foragidos e o dono da fazenda se
apresentou à polícia nesta semana. Detalhe: dez dos PMs são
acusados também no processo do massacre de Eldorado do
Carajás.
Como em 96, o Exército ocupou a região e espalhou
barreiras pelas estradas. Como em 96, depois das mortes, os
sem-terra voltaram a invadir a área e dizem que não saem
mais, "nem à força".
Como em 96, o clima é tenso. Fazendeiros se armam para
proteger suas terras, mais policiais são mandados para a
região e o MST ameaça novas invasões.
Nascer de novo
"Posso dizer que nasci de novo. Valeu a pena." O desabafo
408
foi feito pelo sem-terra Orlando Rodrigues de Souza,
sobrevivente do massacre de 96. Ontem, ele colhia arroz em
uma das áreas do assentamento 17 de Abril.
"No tiroteio, me joguei em um buraco de lama até o pescoço
e ali fiquei", diz ele como sobreviveu.
Nesses dois anos, Souza ficou no acampamento -depois
assentamento-, casou-se, vai comemorar o primeiro
aniversário da filha no próximo mês, construiu casa de
alvenaria e espera vender mandioca e arroz.
Aquele amontoado de barracos cobertos com plástico preto,
típico de acampamentos do M
ST, que se instalou em 1996 na
fazenda Macaxeira já não existe mais.
Passados dois anos do massacre, o que se vê são casas de
alvenaria distribuídas em 18 ruas. Os antigos invasores já
não são sem-teto, mas, apesar de estarem produzindo,
continuam sem terra.
É que o Incra desapropriou 18 mil hectares, metade do que o
MST reivindica para assentar as 690 famílias. O MST não
aceita reduzir o tamanho dos lotes nem assentar apenas parte
das pessoas. Assim, existe a vila, mas nenhum lote foi
demarcado.
Eles moram na vila erguida com os créditos federais, criam
gado em pastos comuns e cultivam áreas divididas por
família ao redor da vila.
(ESTANISLAU MARIA)
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São Paulo, sábado, 18 de abril de 1998
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PM é afastada no Pará para evitar
confronto
ESTANISLAU MARIA
em Eldorado do Carajás
A Secretaria da Segurança do Pará evitou acionar a Polícia
Militar ontem e mandou policiais civis à rodovia PA-150
para acompanhar as manifestações dos sem-terra de
Eldorado do Carajás.
A medida foi tomada para impedir provocações e um novo
confronto entre PMs e militantes do MST (Movimento dos
409
Trabalhadores Rurais Sem Terra), dois anos após o
massacre.
Além disso, há três semanas, dois líderes sem terra foram
assassinados durante a desocupação da fazenda Goiás 2, na
região. Onze PMs -dez deles envolvidos no massacre- foram
punidos administrativamente por participar da desocupação.
Trinta policiais participaram da operação. A estrada não foi
bloqueada e não houve confrontos.
Segundo a polícia, cerca de 500 pessoas participaram da
missa, entre agricultores dos quatro assentamentos e das três
invasões na região, sindicalistas, religiosos e estudantes. O
MST calculou em 600 o número de manifestantes.
Na capital Belém, 3.000 pessoas (segundo a PM)
protestaram em frente à Basílica de Nazaré, no centro da
cidade.
O delegado Lauriston Góes, da Delegacia de Conflitos
Agrários do Pará, pediu ontem a prisão preventiva dos 11
fazendeiros acusados pelos assassinatos de dois líderes sem
terra durante a desocupação da fazenda Goiás 2. Os
fazendeiros tinham prisão temporária decretada. Os 11 PMs
que atuaram no caso foram inocentados.
O delegado concluiu ontem o inquérito e indiciou os 11
fazendeiros por homicídio culposo (sem a intenção de
matar), cuja pena varia de 12 a 30 anos. O crime ocorreu em
26 de março, quando, ao final da desocupação negociada, os
líderes sem terra Valentin Serra e Onalício de Araújo Barros
foram mortos a tiros.
O inquérito foi entregue à juíza de Parauapebas, Maria
Vitória Torres do Carmo, que decidirá sobre os pedidos de
prisão. Por enquanto está em prisão temporária Carlos
Antônio da Costa, dono da Goiás 2, que se apresentou esta
semana, negando atuação no crime.
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São Paulo, sábado, 18 de abril de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
No geral, ato é pacífico
MST realiza protestos em 20 Estados
410
Rosane Marinho/Folha Imagem
Caixões são
depositados
por
manifestantes
em protesto,
em frente à
Assembléia
Legislativa,
no Rio
da Agência Folha
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra reuniu
ontem mais de 34 mil pessoas, segundo os organizadores, em
20 Estados do país e no Distrito Federal para lembrar os dois
anos do massacre de Eldorado do Carajás (sul do Pará).
A Polícia Militar calculou o número de manifestantes -18
mil- em nove locais. Os protestos foram pacíficos, à exceção
de São Paulo, onde policiais entraram em choque com
manifestantes no centro da cidade (veja página 1-9).
Em alguns Estados, engrossaram as manifestações lideranças
sindicais, professores e estudantes.
No dia 17 de abril de 1996, 19 sem-terra morreram e 70
pessoas ficaram feridas durante um confronto com a PM do
Pará.
Os atos pacíficos não evitaram que a PM e o Exército fossem
acionados para manter a segurança de prédios públicos.
Em Porto Alegre (RS), a polícia isolou a praça em frente ao
Palácio Piratini, sede do governo do Estado. Em Recife, o
Exército foi chamado para dar proteção à Sudene.
João Pedro Stédile, um dos líderes nacionais do MST, disse
em Porto Alegre que a intenção do MST é "barrar a violência
do governo contra os sem-terra". Em Brasília, o ministro
Raul Jungmann (Política Fundiária) divulgou dados de
fazendeiros e seus empregados vítimas de violência no
campo.
411
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São Paulo, segunda, 20 de abril de 1998
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Rainha diz que não dá "voto de
confiança' a FHC
JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
em Presidente Prudente
O líder do MST José Rainha Jr. afirmou ontem que considera
esgotadas as chances de um novo diálogo com o governo de
Fernando Henrique Cardoso.
Para Rainha, o governo não ficou sensibilizado com as
manifestações realizadas pelo MST na sexta-feira para
lembrar os dois anos do massacre de Eldorado do Carajás
(PA). "Não damos mais voto de confiança ao governo. As
ocupações vão voltar, com mais intensidade", disse Rainha,
que considera ter havido relativa trégua entre o MST e o
governo em 97.
Desde a semana passada, o MST invadiu quatro fazendas no
Pontal do Paranapanema (extremo oeste de São Paulo), onde
mora Rainha.
Ao mesmo tempo em que critica o governo FHC, Rainha
poupa o governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), que
estaria realizando a reforma agrária no Pontal do
Paranapanema.
"O presidente FHC nega os R$ 26 milhões que o Estado quer
para comprar fazendas no Pontal. Por que ele não libera o
dinheiro ao Estado, que está fazendo alguma coisa?",
perguntou.
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São Paulo, segunda, 20 de abril de 1998
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412
QUESTÃO AGRÁRIA
Movimento de Luta pela Terra foi criado na Bahia, já
atua em 17 Estados e formou acampamentos no sul e no
sudeste do Pará
MLT condena invasões e atrai
dissidentes do MST
ESTANISLAU MARIA
da Agência Folha, em Curionópolis
"Radicalmente contrário a invasões", como definem seus
líderes, o MLT (Movimento de Luta pela Terra) já formou
acampamentos no sul e sudeste do Pará e, aos poucos, vem
atraindo dissidentes do MST (Movimentos dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra).
"Não fazemos oposição ao MST, nem pretendemos disputar
a adesão dos sem-terra. Também queremos a reforma
agrária, mas divergimos nos métodos", disse João Nonato
Pereira de Matos, 33, um dos coordenadores estaduais do
MLT. O próprio Matos militou no MST e sobreviveu ao
massacre de Eldorado do Carajás (1996).
Criado há dez anos na Bahia, o MLT, segundo Matos, já atua
em 17 Estados e montou acampamentos em Rio Maria (920
km ao sul de Belém) e Curionópolis (630 km ao sul de
Belém), vizinha a Eldorado.
Em Curionópolis, estão acampadas 4.500 famílias, entre
desempregados da cidade, do campo e ex-garimpeiros de
Serra Pelada.
Na aparência, o acampamento é igual aos do MST: barracos
de madeira cobertos de palha ou plástico, miséria e falta
generalizada de infra-estrutura.
"Mas somos contra invasões até de áreas improdutivas",
disse Matos. Segundo ele, o MLT prefere negociar antes.
Atualmente, estão acampados em áreas públicas mediante
acordos com as prefeituras.
Nos futuros assentamentos, o movimento pretende criar
agrovilas para os assentados morarem. Eles trabalhariam nos
lotes ao redor, divididos por família.
Segundo as lideranças, o movimento trabalha em conjunto
com a Fetagri (Federação dos Trabalhadores na Agricultura)
e com os sindicatos de trabalhadores rurais -e é ligado ao PC
do B.
Os ex-militantes do MST que estão hoje no MLT preferem
evitar dizer os motivos da saída e se limitam à questão das
invasões. É o caso do coordenador de grupo Hernani
413
Querino, 27.
"Somos filhos do MST. Não há porque criar polêmicas",
disse Querino, ex-garimpeiro e também sobrevivente do
massacre.
Na condição de não serem identificados, outros militantes
reclamaram de desrespeito às regras internas do MST pelas
próprias lideranças, radicalismo e violência nas invasões. O
maior desrespeito seria o consumo de álcool.
"Sair é uma opção dos companheiros. Mas não há violência.
Violenta é situação econômica e fundiária do país", declarou
o coordenador do MST em Marabá, Gilmar de Oliveira. "A
bebida é proibida nos acampamentos. Mas nos
assentamentos pode, desde que o companheiro não se exceda
e não crie confusão", afirmou o líder do assentamento 17 de
Abril (do MST), Márcio Lima.
As regras internas do MLT proíbem, entre outras coisas,
álcool, drogas, criticas públicas ao movimento e "ter atitudes
imorais", sob pena de expulsão. Os líderes não souberam
definir as "atitudes imorais", mas responderam que uma
militante poderia ser expulsa caso posasse nua, como a ex-
sem-terra Débora Rodrigues.
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São Paulo, quarta, 22 de abril de 1998
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Ato reúne 7.000 pessoas, segundo a organização; para a
PM, 4.000
Protesto marca comemoração de
Tiradentes em Ouro Preto
FÁBIA PRATES
da Agência Folha, em Ouro Preto
A solenidade de entrega da Medalha da Inconfidência, que
ocorreu ontem em Ouro Preto, Minas Gerais, atraiu mais
manifestantes contra o governo do que público.
O protesto, organizado pela CUT (Central Única dos
Trabalhadores), reuniu 7.000 pessoas, segundo os
organizadores, e 4.000, segundo a Polícia Militar.
414
Além dos manifestantes, cerca de 2.000 pessoas, segundo a
PM, assistiram à solenidade que homenageou 290
personalidades.
Professores de universidades federais, estudantes e outros
funcionários públicos começaram a ocupar o prédio da
Escola de Engenharia de Minas no início da manhã. Mas
foram impedidos de entrar na praça Tiradentes, onde
aconteceu a cerimônia, por um cordão de isolamento feito
por PMs.
Por volta das 11h, cerca de 120 sem-terra, acompanhados de
representantes de partidos políticos, coordenadores do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e outros
manifestantes, chegaram à praça em passeata.
Os sem-terra, que participaram do protesto que marcou o
segundo ano do massacre de Eldorado do Carajás, dia 17, em
Belo Horizonte, foram em marcha até Ouro Preto no sábado.
A segurança do evento neste ano foi reforçada. Cerca de 600
PMs, o dobro do efetivo de 97, participaram da operação.
Não houve confronto, mas muitos policiais carregavam
cacetetes e bombas de gás lacrimogêneo.
Durante a cerimônia -entre 11h e 12h30-, os manifestantes
gritaram palavras de ordem e xingaram o governador
Eduardo Azeredo e o presidente Fernando Henrique Cardoso
de "ladrão". Eles carregavam bandeiras e faixas com
mensagens denunciando o caos na educação e contrárias a
FHC.
A entrega das medalhas foi presidida pelo governador
Eduardo Azeredo e teve como orador oficial o ministro do
Planejamento, Paulo Paiva.
O som do cerimonial tentou abafar o barulho dos
manifestantes. Antes da solenidade, seis caixas de som,
instaladas em frente à Escola de Engenharia, tocavam
músicas baianas em volume alto. Por volta das 13h, quando
as autoridades já tinham deixado o palanque, os
manifestantes invadiram a praça, fizeram discursos e
abraçaram a estátua de Tiradentes. Houve empurra-empurra
entre policiais e manifestantes.
O governador Azeredo ficou irritado. Seu discurso ressaltou
a necessidade de haver divergência sem radicalismo. Em
entrevista, chamou os manifestantes de "minorias radicais e
trogloditas". "É uma união de corruptos e demagogos. São
pessoas que vieram em ônibus pago pela CUT, e esse
dinheiro veio do imposto sindical. Não é a população que
está aqui. São ativistas políticos que realmente insistem em
não entender a democracia", disse.
415
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São Paulo, sábado, 25 de abril de 1998
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SECA
Direção do movimento diz que ataques a depósitos e
supermercados serão generalizados se governo não
resolver a situação
MST vai incentivar saques no
Nordeste
Pedro Luís/Jornal do Commercio
Maria do Carmo e família
lavam folha de palmeira
que vão comer no
município de Tabira,
sertão do Pajeú (PE)
PATRÍCIA ANDRADE
da Reportagem Local
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
vai incentivar os saques a depósitos de alimentos e a
supermercados no Nordeste do país.
Os dirigentes do movimento entregaram à Sudene
(Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) uma
pauta de reivindicações com propostas para o combate à seca
e dizem que, se os pedidos não forem atendidos até o dia 30
deste mês, vão partir para saques generalizados na região.
416
A participação em saques foi decidida em uma reunião da
direção nacional do MST em São Paulo, no dia 17 de abril,
data do aniversário de dois anos do massacre de Eldorado de
Carajás.
"Saquear para matar a fome não é pecado. No Nordeste, onde
a situação está crítica, o MST tem apoiado a luta dos
agricultores", disse José Rainha Júnior, líder do movimento
na região do Pontal do Paranapanema (oeste de SP).
²"A situação está insustentável, é a miséria que está em jogo.
As pessoas que estão saqueando querem trabalho. Nós
defendemos que os trabalhadores façam vigília em frente aos
supermercados do país", afirma Diolinda Alves de Souza,
mulher de Rainha.
Segundo Jaime Amorim, representante da direção nacional
do MST em Pernambuco, entre as reivindicações
apresentadas à Sudene está a abe
rtura de crédito especial para
pequenos agricultores prejudicados pela seca.
²A lista tem outros dois itens: o fornecimento de alimentação
e água para as comunidades do sertão nordestino e a
desapropriação de áreas férteis como as do cacau, na Bahia,
de cana-de-açúcar, em Alagoas e Pernambuco, e as das
margens do rio São Francisco.
Desde março, o MST tem dado suporte aos agricultores do
sertão do Ceará nas ações de saque aos depósitos de merenda
escolar e de cestas básicas. "Por enquanto, os saques estão
localizados, mas, se o governo não fizer nada, vamos partir
com tudo. É um absurdo as pessoas estarem morrendo de
fome em pleno final do século 20", afirma Jaime Amorim.
Preocupado com a repercussão negativa dessas investidas, o
governador do Ceará, Tasso Jereissati (PSDB), tem orientado
os prefeitos das cidades castigadas pela seca a não entrar em
confronto com os agricultores e com os integrantes do MST.
Em alguns casos, a Polícia Federal é acionada para monitorar
a movimentação.
Nesses dois últimos meses, ocorreram saques em 13 cidades
do sertão do Ceará. Os agricultores, em algumas áreas do
Estado, perderam até 90% da produção de grãos. No
município de Aurora, localizado na região do Cariri (sul do
Ceará), 500 trabalhadores rurais saquearam o depósito de
merenda escolar no final de março.
Segundo a prefeita Maria Leonor Macedo (PSDB), quase
todo o estoque se perdeu e o prejuízo foi de R$ 8 mil. "Não
reagimos porque sabemos que o problema é grave. Mas acho
que, antes, eles poderiam ter negociado com a gente. Saque é
caso de polícia."
Para evitar o acirramento dos ânimos, Tasso se reuniu há
417
duas semanas em Brasília com o ministro da Reforma
Agrária, Raul Jungmann, e expôs o problema. Disse a
Jungmann temer que o MST use a seca e a fome dos
agricultores eleitoralmente.
O governo do Estado pediu a liberação de R$ 13 milhões
pelo Incra para obras de infra-estrutura em 200
assentamentos do MST no Ceará. Com essa medida, o
governador espera que haja uma trégua. A construção de
casas, poços e armazéns nos assentamentos vai ser feita em
mutirão.
"Há uma tensão política que precisa ser desfeita. Sabemos
que existe a crise, que houve perda de grãos. Mas o MST está
se aproveitando disso para faturar", afirma o secretário de
desenvolvimento rural do Estado, Pedro Sisnando.
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São Paulo, segunda, 27 de abril de 1998
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Bailarino se apresentou para o MST
da Agência Folha, em Belo Horizonte
A primeira apresentação pública de "Um Solo com a
Sombra" aconteceu no protesto do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) para lembrar os dois anos
do massacre de Eldorado do Carajás (sul do Pará), na última
sexta, em Belo Horizonte.
Marcelo Gabriel mostrou sua coreografia e improvisou
diante de 130 trabalhadores sem terra que saíram de
assentamentos no Vale do Rio Doce e no Triângulo Mineiro
e foram a Belo Horizonte.
Os manifestantes carregavam 22 caixões, representando os
19 mortos no massacre há dois anos, dois líderes sem terra
assassinados em Parauapebas (PA) e o índio pataxó Galdino,
queimado por adolescentes em Brasília.
Durante o protesto, Gabriel dançou entre os caixões
enquanto segurava fotos de Sebastião Salgado sobre o
movimento dos sem-terra. A manifestação foi gravada em
vídeo, que será usado nas próximas apresentações.
418
A passeata teve a participação também de índios da tribo
pataxó e representantes dos outros povos indígenas de Minas
Gerais.
Marilda Quintino, do Cimi (Conselho Indigenista
Missionário), uma das organizadores do protesto, disse que a
apresentação de Marcelo Gabriel não estava prevista, mas,
mesmo assim, atraiu as pessoas que passavam pelo local.
"Ele fez a intervenção e ajudou a chamar a atenção da
questão da terra, tanto dos trabalhadores sem terra quanto
dos índios", disse. (CHS)
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São Paulo, quinta, 7 de maio de 1998
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MST já está em 23 Estados
PATRÍCIA ANDRADE
da Reportagem Local
Aos 14 anos de idade, o MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) se transformou na principal
força de oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso.
Representado em 23 Estados, o movimento toma suas
decisões em forma de colegiado. Uma de suas filosofias é
não pregar o "culto à personalidade". Apesar disso, João
Pedro Stedile, um dos ideólogos do MST, e José Rainha
Júnior, principal líder na região do Pontal do Paranapanema
(oeste de São Paulo), são considerados estrelas do
movimento.
O embrião do MST surgiu em 1979, quando as primeiras
invasões de terra aconteceram no Sul do país. Hoje, o
movimento ocupa o vácuo deixado pelos partidos
tradicionais de esquerda, que não têm conseguido mobilizar
a população contra o governo FHC.
Seguidores de uma disciplina quase militar e com uma
grande capacidade de criar fatos, os trabalhadores rurais sem
terra ganharam apoio de boa parte da população brasileira.
Em 97, uma pesquisa encomendada pelo PFL ao instituto
Vox Populi revelou que 80% dos entrevistados apoiavam os
métodos dos sem-terra.
A marcha do MST -que invadiu as ruas de Brasília, em abril
419
de 1997, para lembrar um ano do massacre de Eldorado de
Carajás- foi uma das principais manifestações contra o
governo FHC.
Pesquisa recente encomendada pelo governo mostrou,
porém, que a popularidade do MST estava em queda,
principalmente por causa das invasões de prédios públicos
organizadas pelo movimento.
"O MST estava perdendo o fôlego e decidiu pegar carona na
seca para reaglutinar seus seguidores", diz o diretor do Incra,
Gilmar Viana.
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São Paulo, quinta, 18 de junho de 1998
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ACUSAÇÃO
Exposição de Salgado é criticada
Diretora é indiciada por expor
"Terra'
em Presidente Prudente
A diretora de escola Elza Maria da Silva está sendo acusada
de fazer "lavagem cerebral e pregar a legalidade da
ilegalidade". Isso porque ela expôs a mostra "Terra", de
Sebastião Salgado, que traz fotos de sem-terra e do massacre
de Eldorado do Carajás (PA), em escola de Sandovalina
(SP).
O delegado Marco Antônio Fogolin abriu o inquérito e disse
que a mostra infringiu artigos do Estatuto da Criança e do
Adolescente. Os artigos tratam de restrições ao acesso a
publicações que possam ferir os "valores éticos e sociais" da
família. Ele se decidiu após ouvir Wesley Gouveia, 8, que
teria ficado "com medo" das fotos.
Segundo Elza, não houve queixa. "A mãe de Wesley foi
chamada na delegacia porque seu filho estava lá e reclamou
espontaneamente das fotos. Não foi reclamar."
"Tudo não passa de perseguição. O delegado sabe que sou
ligada ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra), e ele é o maior inimigo do MST", disse Elza. Ela diz
420
que foi autorizada pela delegacia de ensino.
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São Paulo,bado, 22 de agosto de 1998
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Palestra é proibida por Justiça do MS
da Agência Folha, em Campo Grande
O juiz de Mundo Novo (462 km ao sul de Campo Grande),
Cléber Corsato Barboza, proibiu o MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) de realizar palestras em
escolas públicas da rede estadual no município.
O juiz disse à Agência Folha que as palestras poderiam ter
influência político-partidária, e a campanha eleitoral em
prédios públicos é vedada por lei.
Barboza também levou em conta um "clima de adversidade"
entre produtores rurais e MST no município, por causa do
abate de 30 cabeças de gado na fazenda Savana, há duas
semanas.
As palestras acabaram sendo realizadas em locais públicos e
nas escolas da rede municipal. A prefeita local, a ex-sem-
terra Dorcelina Folador (PT), autorizou os eventos. As
palestras fazem parte da marcha organizada pelo MST no
Estado.
Três colunas, com 50 integrantes cada, deverão se encontrar
no dia 7 de setembro em Campo Grande, onde haverá a
manifestação "Grito dos Excluídos".
Nas cidades por onde passam, as colunas promovem debates
em escolas e encontros com dirigentes sindicais.
Egídio Brunetto, da coordenação nacional do MST, disse que
"de modo algum seria permitida a participação de políticos
nas palestras e eventos organizados durante a marcha".
O próprio candidato do MST a deputado estadual, Toninho
Borborema, não participa da marcha.
Segundo Brunetto, também não são pedidos votos ao
candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio
Lula da Silva.
421
Em junho último, a diretora de escola Elza Maria da Silva,
de Presidente Prudente (SP), foi indiciada em inquérito
policial por ter exposto a mostra "Terra", de Sebastião
Salgado, que traz fotos de sem-terra e do massacre de
Eldorado do Carajás (PA), em escola de Sandovalina (SP).
O delegado Marco Antônio Fogolin disse que a mostra
infringiu
artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Os
artigos tratam de restrições ao acesso a publicações que
possam ferir os "valores éticos e sociais" da família.
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São Paulo,bado, 22 de agosto de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
Grupo de cerca de cem pessoas organizadas pelo MST
toma cinco toneladas de alimentos em Apodi
Sem-terra saqueiam caminhão no RN
da Agência Folha
Um grupo de cerca de cem pessoas organizadas pelo MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) saqueou
anteontem um caminhão no km 40 da rodovia BR-405, no
município de Apodi (RN), levando cerca de cinco toneladas
de alimentos.
O saque ocorreu por volta das 9h. Os sem-terra montaram
uma barreira na estrada e obrigaram o motorista Edmildo
Dias Dutra a entregar o carregamento de linguiça e
mortadela. A carga era da empresa São Mateus, de Recife.
Foi o terceiro saque organizado pelo MST desde o início do
ano na região de Mossoró e Apodi.
No mês de maio, ocorreram saques nos municípios de João
Câmara e Bento Fernandes. A região é uma das mais
atingidas pela seca no Rio Grande do Norte.
Os saqueadores fazem parte de um grupo de 105 famílias
que está acampado há dois meses na fazenda Mororó,
pertencente à família Rosado, de Mossoró.
Desapropriação
A fazenda tem uma área de cerca de 3.000 hectares e está em
422
processo de desapropriação pelo Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária).
Dulcinéia Gomes, da coordenação estadual do MST, disse
que os sem-terra da fazenda Mororó não recebem cestas
básicas e não estão alistados no programa de frentes
produtivas do governo federal. "Estamos passando fome",
diz.
Gomes afirmou que os sem-terra estavam na beira da estrada
desde a quarta-feira passada pedindo donativos a quem
passava.
Anteontem, decidiram fazer o saque. Ficaram desde as 5h
esperando passar algum caminhão com carga de alimentos.
Às 9h, atacaram o caminhão da empresa São Mateus.
Ninguém foi preso.
Os sem-terra reivindicam aceleração do processo de
desapropriação da fazenda, distribuição de cestas básicas e
abertura de 60 vagas nas frentes de serviço.
Gomes disse que os sem-terra voltarão à estrada caso o
governo não atenda às suas reivindicações. Ontem, a
prefeitura de Apodi doou 80 cestas básicas a eles.
Atropelamento
O trabalhador rural Miguel de Souza, 42, coordenador do
assentamento 17 de abril, em Eldorado de Carajás (PA), foi
atropelado e morreu anteontem durante uma marcha do
MST. A marcha reuniu cerca de 800 trabalhadores.
Segundo Gilmer de Oliveira, da direção estadual do MST no
Pará, o trabalhador foi atropelado por um carro por volta das
22h, quando a marcha estava na rodovia PA-275, próxima a
Curionópolis.
Um carro em alta velocidade teria investido contra o
trabalhador, que foi atingido pelas costas.
O motorista fugiu em seguida. Testemunhas disseram que
tratava-se de uma camionete Saveiro. Um carro da Polícia
Militar teria tentado seguir o carro.
Miguel de Souza morreu no local. A Agência Folha não
conseguiu no final da tarde de ontem contatar a polícia de
Curionópolis para saber se o suspeito havia sido identificado
ou detido.
Miguel de Souza saiu anteontem de Parauapebas, por volta
das 17h30, em um grupo de cerca de 800 trabalhadores rurais
que formam uma coluna.
A coluna vai marchar até Belém. Os integrantes vão
participar do "Grito dos Excluídos", que ocorre no dia 7 de
setembro próximo.
O corpo do trabalhador estava sendo velado ontem no
assentamento 17 de abril, antiga fazenda Macaxeira, em
423
Eldorado do Carajás. No local ocorreu o massacre de 19
sem-terra em 1996.
Uma segunda coluna de trabalhadores rurais ligados ao
MST, que saiu de São João do Araguaia, deve chegar a
Belém no dia 30.
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São Paulo, sexta, 23 de outubro de 1998
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QUESTÃO AGRÁRIA
Justiça escolhe 21 jurados e advogado ligado à acusação
afirma que 6 deles são imparciais sobre o caso
Júri do massacre no PA causa
polêmica
Jorge Araújo - 23.abr.96/Folha Imagem
Caixões de
sem-terra
mortos em
Eldorado
do Carajás
em abril
de 96
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Belém
A Justiça do Pará realizou anteontem o sorteio dos 21 jurados
que poderão fazer parte da tribuna que decidirá o destino dos
policiais militares envolvidos no massacre de Eldorado do
Carajás.
Dos 21 titulares sorteados, 6 são bancários; 2, empregados da
Telepará; 7, funcionários públicos e 6, empresários.
Eles foram sorteados entre 340 pessoas selecionadas pela
comarca de Marabá. Segundo o advogado da SPDDH
(Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos) e
424
assistente de acusação, Hernandes Espinosa Margalho, os
seis empresários são ligados a fazendeiros, o que
comprometeria a imparcialidade do júri.
No dia do julgamento, marcado inicialmente para 23 de
novembro, o juiz deverá sortear dez nomes para compor a
banca de sete jurados. Tanto a defesa quanto a acusação
poderão recusar até três nomes.
Os jurados deverão julgar 143 dos 155 policiais militares
acusados de envolvimento na morte de 19 sem-terra no dia
17 de abril de 1996, no sul do Pará.
Além de 19 sem-terra, cerca de 60 pessoas, incluindo
militares, ficaram feridas durante o confronto entre
integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) e a PM, na "Curva do S", em Eldorado do
Carajás.
Seis oficiais recorreram ao STF (Supremo Tribunal Federal)
e aguardam decisão. Três sem-terra envolvidos também
esperam decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e não
deverão ser julgados na mesma data.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de
Marabá, André Barbosa de Souza, foi um dos sorteados.
Souza é filho de fazendeiro e dono de uma rede de
supermercados na região.
O empresário contou à Agência Folha que dias antes do
massacre o governo estadual, por meio do coronel Mário
Colares Pantoja, comprou mantimentos para os sem-terra em
uma de suas lojas.
Souza disse não ter opinião formada sobre o assunto e
lamentou ser um dos escolhidos. "Estou numa situação
difícil."
Segundo a advogada Simone Oliveira, um posicionamento
antecipado do jurado pode provocar a impugnação do seu
nome.
Recurso
O Ministério Público estuda ainda a possibilidade de recorrer
à mudança do local do julgamento. A promotoria havia
pedido a mudança para Belém, alegando "falta de segurança
e imparcialidade do júri na região".
A Justiça, no entanto, decidiu transferir de Curionópolis para
Marabá, embasada no Código Penal, que prioriza o
desaforamento (mudança de local de julgamento) para a
comarca mais próxima.
O MST é contra o julgamento em Marabá e promete se
mobilizar para um protesto de repúdio à decisão.
O juiz responsável pelo caso, Otávio Marcelino Maciel, foi
procurado pela Agência Folha ontem, mas não foi
425
encontrado.
O massacre dos sem-terra foi um dos mais graves incidentes
fundiários da história do país.
Sua repercussão internacional levou entidades como a
Anistia Internacional a condenar a atuação do governo no
caso.
Na campanha eleitoral deste ano, o governador-candidato
Almir Gabriel (PSDB) foi bombardeado com críticas ao
desempenho de sua polícia no incidente. Ele é candidato à
reeleição.
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São Paulo, quarta, 11 de novembro de 1998
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Ligações de jurados podem
comprometer julgamento do massacre
de sem-terra
MÁRIO MAGALHÃES
enviado especial a Marabá (PA)
A imparcialidade e a independência do julgamento do
massacre de Eldorado do Carajás, um dos maiores crimes
fundiários da história do Brasil, estão ameaçadas. Se for
realizado em Marabá (Pará), 657 km ao sul de Belém, o
julgamento poderá favorecer a maioria dos 154 policiais
militares acusados de matar 19 trabalhadores rurais sem terra
no dia 17 de abril de 1996.
Os policiais militares réus no processo de Eldorado do
Carajás (PA) não apenas continuam trabalhando
normalmente, mas vários deles fazem a segurança do fórum
de Marabá e de autoridades influentes, como o prefeito da
cidade.
O juiz Otávio Marcelino Maciel, 67, adiou anteontem o
julgamento, previsto para o dia 23.
Para marcar nova data para o julgamento, vai esperar que o
STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal
de Justiça) se pronunciem sobre o pedido de transferência do
julgamento para Belém.
426
Investigação da Folha em três cidades paraenses revela que,
dos 21 jurados pré-selecionados, muitos têm ligações ou são
fazendeiros, categoria cujos laços com a Polícia Militar são
fortes na região. Numa área conflagrada por disputas
agrárias, há também jurados alinhados com o MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
Sete jurados são de famílias de fazendeiros, um se aproxima
desse grupo por vinculação de parentesco, cinco mantêm
ligações comerciais em níveis diferentes com proprietários
rurais, três são aliados do PT e um tem cargo de confiança no
governo de Marabá, cujo prefeito trabalhou na PM.
Serão sorteados sete membros para o júri. Defesa e acusação
têm direito de vetar três nomes cada. Nada assegura que um
jurado vote considerando apenas as suas conexões com
fazendeiros ou trabalhadores sem-terra. Mas as ligações
ameaçam o princípio de imparcialidade do júri.
A Justiça do Pará recusou pedido para transferir o
julgamento para Belém. O Ministério Público pede a
mudança de local alegando falta de segurança em Marabá e
parcialidade dos jurados.
Otávio Maciel disse que, mesmo com adiamento, manterá a
lista dos 21 jurados, caso o julgamento permaneça em
Marabá, como ele quer. "Não vou tirar ninguém, seja
fazendeiro, filiado a partido político ou quem tem medo. Se
todo mundo disser que tem medo, eu não terei jurado."
Acusados guardam fórum
Quem quer encontrar um PM réu no processo do massacre
de Eldorado não precisa ir ao quartel da corporação em
Marabá: basta ir ao fórum.
O fórum de Marabá é o prédio público civil mais bem
protegido da cidade. Entre os até seis policiais militares que
fazem a sua segurança, em dias considerados tranquilos, há
quase sempre réus do processo criminal 786/96, o da chacina
de Eldorado.
No último dia 5, o soldado postado à entrada do fórum era
Sebastião Lopes da Silva Neto, réu no caso Eldorado. "Acho
que o julgamento não vai dar em nada, não há como provar
nada", disse o soldado à Folha.
Neto se apóia em dois argumentos: 1) desapareceram os
livros com o registro das armas e da munição que cada
militar levou de seu quartel em 1996; 2) os policiais
retiraram a tira de pano, presa com velcro à altura do peito,
que os identificava. Assim, torna-se mais difícil saber quem
atirou contra os sem-terra (alguns PMs portavam escudo e
cassetete).
427
Hoje, o soldado que faz a segurança da juíza Margui Gaspar
Bittencourt não pode ser identificado: um colete cobre
permanentemente a tira com seu nome.
Até poucos meses atrás, o segurança da juíza Margui era o
soldado José Augusto Alves de Souza, também acusado de
matar os sem-terra.
O juiz Otávio Maciel, afirma não considerar inconveniente a
presença de PMs réus no serviço de segurança do fórum.
O julgamento está previsto para ser realizado num ginásio
esportivo. Maciel disse que requisitará para a segurança seis
agentes da Polícia Federal.
²
PMs réus são segurança do prefeito
O prefeito de Marabá, o médico Geraldo Veloso, integra o
PSDB, mesmo partido do governador do Pará, Almir
Gabriel. Em abril de 1996, Gabriel autorizou a operação
policial para retirar os sem-terra da PA-150.
O governador não é réu no processo -comparecerá ao
julgamento como testemunha.
Os seguranças do prefeito Veloso são o sargento Everaldo
Lins Gondin e o soldado Gilson Bezerra, ambos cedidos pelo
4º BPM (Batalhão de Polícia Militar) do Pará, sediado em
Marabá.
Gondin e Bezerra também são réus no processo de Eldorado.
O prefeito tem boas relações com vários jurados. Os quatro
integrantes da diretoria da Acim (Associação Comercial e
Industrial de Marabá) pré-selecionados para o júri participam
regularmente de reuniões para discutir parcerias com a
prefeitura.
Geraldo Veloso trabalhou como médico, por 14 anos, no 4º
BPM. Com "autoridade de quem fez mais de 20 mil partos
em Marabá", ele afirma que o júri "está mais para a
absolvição".
Para o prefeito, crimes na região não ocorrem devido a
disputas pela terra. "Em todo lugar se mata. Não foi Marabá
que inventou o Ricardão. Quando, aqui, se mata o Ricardão,
dizem logo que é questão fundiária."
²
Sete jurados são de famílias de fazendeiros
Sete jurados são de famílias que têm ou tiveram até há pouco
tempo propriedades rurais:
1 e 2) Os irmãos André e Eduardo Barbosa de Souza, donos
de uma rede de 15 supermercados, nove butiques, uma
transportadora e uma distribuidora de cerveja, são filhos de
Orlando Barbosa, fazendeiro com 10 mil ha de terras (9.259
gramados do Maracanã) em Tucuruí (PA).
428
André Barbosa, presidente da Acim e filiado ao PTB, tem
uma chácara em Marabá. Seu irmão, segundo ele, é
proprietário de uma "fazendinha" em São Domingos do
Araguaia (PA).
A carne vendida pela rede Alvorada de supermercados é
comprada no frigorífico central de Marabá, abastecido por
fazendeiros da região, que também entregam mensalmente
20 toneladas de hortigranjeiros aos irmãos Barbosa.
3) O bancário Domingos Carvalho Gomes tinha, até dois
anos atrás, uma fazenda de 450 ha em Eldorado do Carajás.
Lá, ele criava "cento e poucas" cabeças de gado e mantinha
produção agrícola comercial.
4) A comerciante Rogéria Costa de Oliveira é dona de um
açougue. Seu marido tem gado "de meia" -coloca seu
rebanho em terras alheias, repartindo o faturamento. Um
irmão de Rogéria Oliveira é proprietário rural.
5) Como a professora Jesuína Cavalcante tem enfrentado
problemas na convalescença de uma cirurgia, passa a
integrar a lista dos 21 jurados o primeiro suplente, Hamilton
Antônio de Araújo.
Ele era dono da fazenda Oito Barracas, em São Domingos do
Araguaia. A fazenda foi desapropriada em 1998 pelo Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
6 e 7) A auxiliar de fiscalização da Secretaria Estadual da
Fazenda Maria de Jesus Martins Ferreira e a professora
Ivonete Alves Martins também são de família proprietária de
terras.
Oriundas de São João do Araguaia (PA), elas têm uma
ligação que distancia dos sem-terra mais um jurado.
²
Invasão une jurados contra sem-terra
A funcionária da secretaria da Fazenda é filha do fazendeiro
José Ferreira, já morto. "Zé Ferreira foi o maior latifundiário
da história de São João", diz o prefeito de Marabá, Geraldo
Veloso.
Maria de Jesus divide com sete irmãos a herança do pai. Ela
vendeu o seu rebanho, mas mantém a plantação de arroz,
mandioca e outros itens, num negócio administrado por sua
irmã Aniuza Ferreira, ex-prefeita de São João.
O atual prefeito da cidade é Mário Martins Sobral Ferreira,
reconhecido como filho pelo fazendeiro José Ferreira.
O prefeito de São João do Araguaia é produtor rural e primo
da professora Ivonete Alves Martins, também jurada.
Outra jurada pertence ao núcleo de São João: a assistente
administrativa da Telepará Valdecy Alves Mestres, tia por
429
parte de mãe da professora Ivonete.
Há pouco mais de um mês, sem-terra invadiram a Prefeitura
de São João do Araguaia. A atitude foi deplorada
pelo núcleo
Alves-Martins-Ferreira.
²
Comércio aproxima jurados e ruralistas
Há cinco jurados que, mesmo sem pertencer a famílias
produtoras rurais, mantêm com elas, por força do seu
trabalho, ligações que variam em intensidade:
1) O empresário Sérgio Lemos Nunes da Silva, vice-
presidente da Acim e filiado ao PSDB, é dono da Poolife,
uma loja cujo maior negócio é a venda de produtos químicos
para piscinas.
A maioria das piscinas da região está instalada em chácaras e
fazendas. Seus proprietários são os principais clientes da
Poolife.
O empresário trabalhou 20 anos na agência do Banco do
Brasil de Marabá, onde cuidou da carteira rural, negociando
com pecuaristas e produtores agrícolas.
2) O empresário Delmar Ronildo Ritter é o segundo diretor
para Assuntos Industriais da Acim.
Dono da Retrumar, uma oficina de manutenção de carretas e
caminhões que emprega 21 funcionários, Ritter tem clientes
madeireiros e fazendeiros.
3) O segundo-tesoureiro da Acim, Hudson Ferreira da Silva,
tem uma rede de cinco lojas em Marabá, a Chic's.
Ele vende os produtos mais sofisticados do comércio
marabaense. Muitos fazendeiros compram na Chic's
Presentes, na Chic's Lazer e nas outras lojas.
4) O bancário Lino Alberto Pinto Pacheco é fiscal rural do
Basa (Banco da Amazônia). Sua função é visitar
propriedades no campo acompanhar como pequenos
proprietários de terra aplicam financiamentos concedidos
pelo banco para a agricultura.
5) A bancária Fabiana Andréa de Souza atende pequenos,
médios e grandes proprietários rurais numa agência do
HSBC Bamerindus na Cidade Nova.
Legalmente, a família da bancária não tem terras, apesar de
"um parente distante" do seu marido ser dono de uma
"fazendinha".
Fabiana e o marido "ainda", segundo ela, não aceitaram o
convite para ingressar numa das três lojas maçônicas de
Marabá. Pelo menos quatro dos 21 jurados e 10 suplentes são
maçons.
²
PT é referência de três jurados
430
Inferior à "bancada ruralista" na relação de 21 jurados, o
MST tem três aliados:
1) A professora Verondília Gomes de Almeida foi uma das
fundadoras do PT em Marabá.
Até hoje é filiada ao partido. A professora declarou à Folha
seu voto pela absolvição dos três sem-terra réus.
2) O professor Elizione Bento da Silva é irmão do petista
Demerval Bento da Silva, diretor em Marabá do Sindicato
dos Trabalhadores em Saúde Pública do Estado do Pará. O
professor votou em Lula para presidente.
3) A professora Carminda Bezerra Pereira é simpatizante do
PT. Ela já participou de uma passeata que reuniu professores
da rede pública e militantes do MST.
Nada assegura, porém, que ela acompanhará no julgamento
as posições dos sem-terra: Carminda Pereira é um dos cinco
jurados que dizem ter medo das consequências dos seus
votos.
²
Jurados dizem ter medo
Os PMs são acusados do crime de homicídio duplamente
qualificado, com pena de 20 a 30 anos. Mesmo condenados,
terão direito a um segundo julgamento, porque a pena
alcançará 20 anos.
A maioria dos eventuais condenados, réus primários,
continuará em liberdade, exercendo o dever de garantir a
segurança dos cidadãos, inclusive os jurados.
Para cinco jurados, definir o embate que politicamente opõe
o MST à coligação PM-fazendeiros é uma missão de risco:
1) Carminda Pereira, professora: "Tenho medo. Não me sinto
à vontade."
2) Teresinha Martins de Jesus, assistente administrativa da
Telepará: "Morro de medo dessas coisas. Claro que não
estou tranquila, é uma questão delicada."
3) Manoel Tancredo Neves Lustosa, gerente de contas do
banco Itaú: "Temor sempre se tem, temor de retaliação. O
julgamento não deveria ser em Marabá, onde não há
segurança, não só para os jurados, mas para todo mundo."
4) Nilton Primo Ribeiro, auxiliar de processamento de dados
do Basa: "Aqui é uma área muito perigosa, com muita
pressão em cima dos jurados. No sul do Pará, a gente diz que
não, mas existe medo."
5) Um quinto jurado, citado anteriormente, afirmou, depois
de pedir para que o repórter desligasse o gravador, que tem
medo de retaliações do MST no caso de um voto pela
absolvição da maioria dos PMs.
²
431
Jurados criticam MST
Os 21 jurados e os 10 suplentes foram sorteados de uma
lista-base da comarca de Marabá, com 344 cidadãos
considerados idôneos.
Na véspera do julgamento, será feito o sorteio para definir os
sete membros do júri. Os irmãos e a tia e sobrinha se
excluem, por lei.
Otávio Maciel planeja desmembrar o julgamento em blocos,
de um a 25 réus. Numa decisão juridicamente polêmica, ele
afirmou que, em cada bloco, fará um sorteio diferente para o
júri.
Mesmo afirmando considerar legítima a aspiração do MST
pela reforma agrária, muitos jurados manifestaram críticas:
1) Ivonete Martins: "Há muita gente necessitada, mas muitos
vão lá só para avacalhar. O MST apóia políticos corruptos,
que usam a massa popular."
2) Domingos Gomes: "Todo mundo tem uma causa, mas não
concordo com baderna."
3) Rogéria Oliveira: "Há pessoas sofredoras incentivadas por
políticos que se aproveitam da sua pouca sabedoria."
4) André Barbosa: "É delicado fechar estradas, saquear
caminhões. Ninguém tem direito de tirar nada de ninguém."
5) Sérgio Nunes da Silva: "Reconheço como válido , mas
vejo pessoas que se aproveitam das situações."
6) Delmar Ritter: "A ideologia tem lógica, mas grande parte
da sociedade repudia atitudes como invasão de terra
produtiva."
7) Maria de Jesus Ferreira: "Não gosto desse negócio de
sem-terra, gente que pega o que é dos outros, toma a terra e
logo já quer outra."
8) Nilton Ribeiro: " é um partido radical, com invasão de
terras. A coisa não é por aí."
A interdição da rodovia PA-150 em abril de 1996 foi feita
por sem-terra que haviam invadido a fazenda Macaxeira, em
Curionópolis. Eles faziam uma caminhada rumo a Marabá e
Belém.
²
PM "doente mental" escapa de julgamento
O juiz afirma que desmembrará o julgamento em vários
grupos, como: A) Os três sem-terra. B) O sargento Getúlio
Marques, que é réu e vítima (perdeu a visão de um olho). D)
Os PMs que estavam só de cassetete e escudo. E) Oficiais. F)
PMs que portavam diferentes tipos de armas de fogo.
Um dos problemas do método escolhido por Maciel é que ele
dividiu os policiais com base no depoimento de cada um. "E
quem disse que estava com arma afirmou que atirou para
432
cima".
Outra polêmica: 12 dos 19 corpos mostravam cortes
profundos, provavelmente feitos por facões e foices que os
militares teriam retirado dos sem-terra. Ou seja: mesmo sem
arma de fogo, um PM pode ter sido o responsável por
alguma morte.
Dos 159 envolvidos no caso que Maciel pretendia levar a
julgamento, um tenente foi excluído pelo Tribunal de Justiça
do Pará, que aceitou sua versão de que se afastou do conflito
ao ser ferido.
O soldado Edson Soares não será julgado porque foi
considerado doente mental pela PM. O juiz não solicitou
parecer de uma junta médica independente.
As sessões para cada bloco de acusados estão marcadas para
começar às segundas e quintas. O juiz acredita que o
julgamento terá duração de dois meses.
²
Violência marca cidade
Marabá é o centro de uma região marcada pela violência. No
dia 26 de março, 11 PMs de folga teriam, acompanhados de
pistoleiros, assassinado dois sem-terra na fazenda Goiás 2,
em Parauapebas, propriedade do empresário Carlos Antônio
Costa.
Oito policiais, réus no processo de Eldorado, foram expulsos
da corporação. O empresário foi preso. A Acim coordenou a
campanha para a sua libertação.
Nos anos 70, Marabá foi quartel do Exército no combate à
guerrilha do Araguaia. Hoje o Exército tem 2.000 homens na
área.
Depois, a cidade foi vítima da corrida do ouro em Serra
Pelada (a menos de 150 km).
Marabá tem cerca de 200 mil habitantes, num território de 15
mil metros quadrados, 150% maior do que o do mun
icípio do
Rio.
Nas últimas duas semanas, quatro bancos da região foram
assaltados. A Acim (quatro diretores jurados) pode repetir o
gesto de doar carros para a PM.
Para o julgamento, o MST prepara uma manifestação com
pelo menos 3.000 sem-terra.
O soldado José Ivanildo da Silva, presidente do Grêmio de
Cabos e Soldados da PM e dos Bombeiros em Marabá,
promete número igual: "O MST não pega as crianças, as
mulheres e os leva para a rua? É bom que o julgamento seja
mesmo aqui, porque nós vamos fazer o mesmo com a família
dos PMs."
O coronel Faustino Neto, comandante do 4º BPM, disse que
433
espera pedido do juiz para fazer a segurança dos
manifestantes.
Dos cerca de 243 PMs de Marabá, aproximadamente 70 são
réus no processo de Eldorado.
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São Paulo, segunda, 16 de novembro de 1998
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MASSACRE NO PA
Presidente da Câmara solicitará ao Ministério da Justiça
proteção para jornalista ameaçada de morte
Temer pedirá proteção para
testemunha
MÁRIO MAGALHÃES
da Sucursal do Rio
O presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), pedirá
nesta semana ao Ministério da Justiça proteção para que a
jornalista Marisa Romão possa depor como testemunha no
julgamento do massacre de Eldorado do Carajás (PA).
A interferência de Temer foi solicitada pelos deputados Luiz
Eduardo Greenhalgh (PT-SP) e Paulo Rocha (PT-PA).
Em dezembro de 1997, Romão foi embora de Marabá (PA),
local onde está prevista a realização do julgamento, depois
de registrar na Polícia Civil ameaças de morte recebidas por
telefone. Nos últimos dias na cidade, teve proteção da Polícia
Federal.
Marisa Romão é uma das poucas testemunhas do confronto
entre policiais militares e trabalhadores rurais que não
pertence a nenhuma das duas partes.
O incidente ocorreu em 17 de abril de 1996, quando 19 sem-
terra foram mortos numa operação da Polícia Militar para
desobstruir a rodovia PA-150, na altura de Eldorado do
Carajás (PA), 754 km a sudoeste da capital, Belém.
A jornalista estava no local cobrindo manifestação do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) para a TV
Liberal, afiliada da TV Globo no Pará.
Em março de 98, pediu garantia de vida à Secretaria
434
Nacional dos Direitos Humanos. De dezembro de 97 a março
deste ano, morou na casa do governador do Distrito Federal,
Cristovam Buarque (PT).
O julgamento não tem data marcada. O juiz responsável pelo
caso, Otávio Marcelino Maciel, vai esperar que o Superior
Tribunal de Justiça se pronuncie sobre pedido do Ministério
Público para transferir o julgamento de Marabá (a 100 km de
Eldorado) para Belém.
Serão julgados PMs (acusados de homicídio duplamente
qualificado) e sem-terra (lesões corporais).
"Eu não tenho posição nenhuma a favor ou contra qualquer
lado da história", disse ela à Folha. "Como jornalista, tenho
a obrigação ética de ser imparcial. Mantive a imparcialidade
em todos os depoimentos." Ela comandava a equipe da TV
Liberal que gravou imagens do massacre exibidas em todo o
mundo. Seu testemunho, em tese, pode ajudar e prejudicar
tanto os PMs como os sem-terra.
A jornalista conta que, antes do início do tiroteio, ouviu um
conselho do major José Maria Pereira de Oliveira, que
comandou o batalhão de Parauapebas (PA) -o coronel Mário
Colares Pantoja, do batalhão de Marabá, dirigiu a operação.
"Oliveira me disse: "Só te dou um conselho. Sai daqui que eu
não te dou garantia de vida"', teria dito o oficial, segundo
relato dela.
Oliveira negou ter feito essa afirmação. Se verdadeira, ela
indicaria que as mortes foram consequência de um confronto
planejado.
Por outro lado, a jornalista disse que não viu nenhum sem-
terra morto antes de os manifestantes partirem em direção a
policiais, jogando paus e pedras.
Os PMs disseram ter atirado para se defender. Os sem-terra
dizem que agrediram para buscar o corpo do agricultor
Amâncio dos Santos Rodrigues, que teria sido atingido.
Ao abandonar Marabá, onde viveu 15 anos, a mineira Marisa
Romão deixou o emprego de jornalista e uma casa de chá, da
qual era sócia. "A pessoa que fazia as ameaças falava em
colegas de farda", contou a testemunha.
Dias depois, a casa de chá foi assaltada por cinco homens.
Logo viria a fechar. "A voz anônima ao telefone era
masculina", conta a jornalista. "Dizia: "Se você denunciar,
você está ferrada. Eles acham que você falou demais'."
Mesmo com proteção, Marisa Romão não sabe se irá ao
julgamento, seja em Belém ou Marabá.
"Já perdi muito, estou tentando refazer a minha vida, fora do
que eu mais gosto de fazer, que é jornalismo." Com medo,
parentes têm pedido que ela não compareça ao tribunal. Na
435
cidade onde vive, Romão, temerosa, evita sair à noite.
"Estou há um ano exilada no meu próprio país, tudo é muito
difícil. Não há lei de proteção a testemunhas, nem orçamento
para dar a elas condições de vida."
A Folha, embora saiba, decide não publicar em que lugar
Romão hoje mora e onde trabalha. Segundo o "Novo Manual
da Redação", "em regra, a Folha publica tudo o que sabe.
Mas pode decidir omitir informação cuja divulgação coloque
em risco a segurança pública, de pessoa ou de empresa".
Em Marabá, o coronel Faustino Neto, comandante do 4º
Batalhão da PM, disse que a corporação pode garantir a
segurança do julgamento, inclusive das testemunhas.
Alegando medo de perseguição de fazendeiros, militantes do
MST da região usam codinomes, como "Miguel", agricultor
que presenciou o massacre de Eldorado, vai depor no
julgamento, mas não disse seu nome verdadeiro à Folha.
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São Paulo, Sábado, 17 de Abril de 1999
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MST
Ato lembra morte de 19 sem-terra
da Agência Folha
O MST começou ontem uma série de mobilizações em 23
Estados para lembrar os três anos do massacre de 19 sem-
terra, em Eldorado do Carajás (PA), ocorrido em 17 de abril
de 1996.
Em pelo menos dez Estados, marchas de sem-terra chegaram
ontem pela manhã às capitais. Cerca de 15 mil trabalhadores
participaram das marchas em todo o país, segundo estimativa
do MST.
Em Porto Alegre (RS), no final da tarde de ontem, cerca de
500 integrantes do movimento começaram uma "vigília" na
frente do prédio do Incra, prevendo um jejum que duraria
todo o dia de hoje.
Em Eldorado do Carajás, um monumento utilizando 19
castanheiras mortas será inaugurado hoje para relembrar o
conflito,
436
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São Paulo, Sábado, 26 de Junho de 1999
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ELDORADO DO CARAJÁS
Julgamento é marcado para agosto
da Agência Folha, em Belém
O julgamento dos 150 policiais militares acusados de
envolvimento no massacre de Eldorado do Carajás, no sul do
Pará, começará no dia 16 de agosto e deverá acabar em 3 de
dezembro.
O juiz Ronaldo Valle dividiu o julgamento em 27 seções que
ocorrerão sempre às segundas-feiras e às sextas-feiras.
Os primeiros a ser julgados serão os oficiais. No primeiro dia
irá para o Tribunal do Júri o coronel Mário Colares Pantoja,
comandante das tropas. A partir da terceira sessão, serão
julgados os sargentos, cabos e soldados.
Em 17 de abril de 1996, policiais militares e sem-terra
entraram em conflito durante a obstrução de estrada em
Eldorado do Carajás. Dezenove integrantes do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) morreram
na ocasião e cerca de 60 sem-terra e policiais ficaram
feridos.
Na avaliação do juiz, o primeiro dia de julgamento será o
mais longo, já que estão sendo chamadas 18 testemunhas.
Entre elas, o governador Almir Gabriel (PSDB) e o então
secretário da Segurança Pública e atual secretário da Defesa
Social, Paulo Sette Câmara.
Para o julgamento foi reservado um auditório da Unama
(Universidade da Amazônia) com capacidade para 320
pessoas. Um esquema de segurança também está sendo
preparado pela Polícia Militar.
Dos 155 policiais denunciados pelo Ministério Público no
início do processo, cinco estão fora do julgamento. Um
oficial recorreu e conseguiu ser despronunciado. Um soldado
deve ser processado separadamente -alegou ter problemas
mentais. Dois soldados morreram enquanto trabalhavam. Um
outro soldado está foragido.
437
O MST promete vários protestos durante o julgamento.
Segundo o coordenador estadual, Raimundo Nonato Souza,
estão sendo chamados 40 advogados ligados a movimentos
sociais de vários Estados para acompanhar o julgamento.
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EUA
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São Paulo, Domingo, 08 de Agosto de 1999
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QUESTÃO AGRÁRIA
Governador falará sobre Carajás massacre
Gabriel vai depor em foro especial
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Belém
O governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), intimado a
testemunhar no julgamento dos 150 policiais militares
envolvidos no massacre Eldorado do Carajás, fará seu
depoimento na Granja do Icuí, residência oficial do governo,
foro especial designado pelo juiz Ronaldo Valle.
Terá o mesmo benefício o atual secretário de Gestão Social
do Pará, Paulo Sette Câmara, então secretário da Segurança -
logo, autoridade responsável pela atuação da Polícia Militar
no Estado.
Cinco advogados de defesa dos PMs pediram o testemunho
de Gabriel e de Câmara. A tática dos advogados é tentar
jogar a responsabilidade pela morte dos 19 sem-terra,
ocorrida em abril de 1996, para os superiores.
"Queremos saber a versão exata dos fatos e como eles
ordenaram a desobstrução da estrada", disse o advogado
Luiz Lopes, que defende cinco oficiais da polícia paraense
envolvidos no incidente.
Gabriel prestará depoimento após as testemunhas de
acusação e os membros do júri poderão fazer perguntas
normalmente.
Em 17 de abril de 1996, 19 sem-terra foram mortos em
conflito com policiais militares na chamada ""curva do S",
em Eldorado do Carajás (PA).
Os policiais militares teriam recebido a ordem de desobstruir
438
a estrada bloqueada por cerca de 2.000 sem-terra, que eram
ligados ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra).
Mesmo Américo Leal, o único advogado de defesa dos
policiais a não arrolar Gabriel e Câmara como testemunhas,
pretende responsabilizar o governador.
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capachos
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ACM quer roubar meu pobre!
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São Paulo, Domingo, 15 de Agosto de 1999
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JUSTIÇA
Remanescentes do massacre de Eldorado do Carajás na
região somam 690 famílias
Acampamento virou vila carente
LUCAS FIGUEIREDO
enviado especial a Eldorado do Carajás
Ao passarem de sem-terra para colonos, os remanescentes do
massacre de Eldorado do Carajás (sul do Pará) conheceram
também a violência entre eles. E, depois de terem sido
vítimas da PM local, sofrem com a falta de policiamento
onde vivem.
O acampamento de sem-terra na fazenda Macaxeira não
existe mais. Deu lugar à vila 17 de Abril (data do massacre).
Nela vivem 690 famílias, que receberam 25 hectares para
plantio e mais um terreno na vila de 20 por 30 metros para
construírem suas casas.
Acabou a invasão, que deu lugar à vila. Acabou também a
disciplina rígida que o MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) mantinha na área.
Agora não existem mais restrições a bebidas alcoólicas e à
livre entrada de visitantes. O movimento também deixou de
promover segurança armada no local.
A vila não tem asfalto, luz elétrica, tratamento de esgoto,
água encanada. Nem as ruas têm nome. O posto de saúde
existe, mas falta médico.
A liberalização só fez aflorar os problemas sociais comuns
439
em comunidades carentes.
Quatro ex-sem-terra foram mortos por ex-sem-terra desde
que o assentamento foi criado, ainda em 96.
Um dos casos é o de Francisco Alves do Nascimento, 32,
morto pelo irmão, Raimundo Alves do Nascimento, 35, no
último dia 2. Eles se desentenderam por causa de R$ 10 que
haviam ganho vendendo farinha. O assassino está foragido.
Abimael Pereira foi morto pela mulher, e Alboíno Filho
Silva, assassinado por um colega. Mais dois enredos que
envolvem brigas passionais e muita cachaça.
"Hoje não podemos proibir a entrada das pessoas, como
fazíamos no acampamento. Esse tipo de violência acontece
em todo lugar", argumenta Raimundo dos Santos Gouveia,
44, um dos líderes o MST na vila.
"Mas é triste", afirma, lembrando que, para receber a terra
onde vive, teve de se esconder atrás de uma mangueira para
não ser morto no dia do massacre.
A Polícia Militar não faz ronda ostensiva na área porque
avalia que ainda não há clima para convivência pacífica entre
os remanescentes do massacre e os policiais envolvidos
naquela operação. A Folha apurou que a Polícia Militar faz
somente trabalho de inteligência na vila, com homens
disfarçados.
Ouvidos pela reportagem, assistentes sociais que atendem a
população carente da região contaram que alguns moradores
da vila se envolveram no tráfico de drogas (principalmente
maconha e crack). A Polícia Civil tenta apurar onde está o
foco.
"Nós éramos muito unidos. Mas acabou a luta, e hoje não
somos mais", disse o colono Francisco de Souza, 45.
Venda de lotes
Pelo menos 15 dos 690 beneficiados com os lotes na antiga
fazenda Macaxeira já venderam suas terras, contrariando as
regras do Incra. Os preços variam entre R$ 2.000 e R$ 3.000.
A Folha conversou com um comprador, que não quis se
identificar, que disse ter adquirido o terreno de um colono de
apelido Maraca.
A coordenação do MST na vila está levantando os casos de
venda de lotes para apresentar uma queixa no Incra, exigindo
que as terras sejam tomadas dos compradores e sejam doadas
a outros sem-terra.
O corte ilegal de madeira também acontece livremente na
vila. Colonos cedem madeira de suas áreas em troca de
abertura de estradas e alimentos.
A coordenação do MST na vila diz conhecer o fato, mas
440
afirma que a sobrevivência às vezes fala mais alto que a
preocupação ambiental.
Outro desvio nos princípios do movimento é a aparição do
"falso colono".
"É gente que ganhou terra, mas que só aparece aqui quando
vão sair os créditos (recursos da reforma agrária destinados
diretamente às famílias)", afirma o colono Josimar Ferreira.
Os ex-sem-terra da Macaxeira são hoje mais de 7% da
população de Eldorado do Carajás (48 mil habitantes).
Os comerciantes, que antes tinham medo, agora vão até a
vila vender mercadorias e comprar produtos feitos por eles.
Força econômica
Numa região miserável, os ex-sem-terra se tornaram força
econômica, com os créditos que recebem regulamente do
Incra (valores que variam de R$ 1 mil a R$ 2 mil).
""Antes os comerciantes davam carne para nós só para a
gente ir embora; pegamos fama de ruins. Agora são os
comerciantes que vêm para cá para comprar o que é nosso",
afirma o colono Josimar. Neste ano ele já vendeu, a R$ 15
cada, 15 sacas de arroz de 60 kg plantado e colhido por ele.
A dona do supermercado Real, Marlene Vieira de Morais,
agradece a preferência dos ex-sem-terra. ""Eles pagam
direitinho e compram muito." Só a associação dos novos
colonos (que já tem quatro tratores, equipamentos para
beneficiar arroz e torrar farinha, laticínio, sede própria
provisória e aviário) compra cerca de R$ 2 mil no
supermercado a cada mês.
A Prefeitura de Eldorado do Carajás também festeja o
dinheiro dos ex-sem-terra, que ajuda a movimentar a
economia da região. "O comércio evoluiu muito. Isso ajudou
a melhorar o município, porque eles aplicam aqui o que
ganham", afirma o secretário de Administração, Levi
Aparecido de Freitas.
A vida melhorou
Depois de passar fome e vagar pelo Brasil à procura de
emprego e terra para morar, os maranhenses Maria do
Rosário de Oliveira, 34, e Josimar Ferreira, 35, conseguiram
se aprumar na vida com os 25 hectares de terra que
receberam do Incra na antiga fazenda Macaxeira.
Eles eram dois dos cerca de 1.200 sem-terra que estavam na
curva do S quando aconteceu o massacre. Ao ver os
primeiros feridos, correram cerca de 3 km para escaparem da
morte.
"Quando voltei para a estrada ainda vi o sangue dos meus
441
companheiros. A gente sabia que podia morrer ali, mas não
tinha nada a perder", relembra Josimar.
Mudança de vida
Da pobreza absoluta (""eu não tinha nem uma caixa de
fósforos, doutor", diz o colono), hoje o casal têm casa e 25
hectares de terra, plantam arroz, milho, feijão, mandioca e
abóbora e tem uma vaca.
Mas Josimar pensa em cultivar produtos com mais valor no
mercado: coco e cupuaçu.
Depois da mudança de vida, o casal adotou uma criança de 6
meses, o Josué. ""Agora posso até ajudar os outros", diz
Maria do Rosário, que tem outros dois filhos no Maranhão,
mas não pode mais engravidar.
Josimar faz questão de mostrar as conquistas do casal depois
que receberam a terra: fogão, TV, mesa com cadeiras, cama,
duas bicicletas, roupas, calçados e um pequeno aparelho de
som. ""E moro em casa rebocada sim, mas é minha."
Maria do Rosário conta que o mais importante é não passar
mais fome. ""Aqui nunca faltou o pão de cada dia. E não é
comprado não, é da minha lavoura."
Mas eles querem mais. ""Agora temos até sonho: ter 30
vacas e uma Pampa (camionete) velha. Aí eu vou para a
cidade todo dia vender o leite na minha Pampa." Para
Josimar, isso é a felicidade.
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Fria
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São Paulo, Segunda-feira, 16 de Agosto de 1999
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MST promove manifestação
da Agência Folha, em Belém
Cerca de 700 sem-terra estão acampados em Belém
preparados para uma manifestação que marcará o primeiro
dia de julgamento dos 150 policiais militares acusados de
envolvimento no massacre de Eldorado do Carajás.
Dos assentamentos e acampamentos do MST no sul do Pará,
442
dez ônibus chegaram a Belém entre sexta-feira e ontem.
Sem-terra de outras invasões do norte do Estado estão se
juntando a eles.
Duas manifestações estavam sendo preparadas para hoje.
Parte dos manifestantes se reunirá em frente ao local do
julgamento na Unama (Universidade da Amazônia), onde
cerca de 100 famílias já estavam acampadas ontem.
Outra parte, acompanhada de manifestantes ligados a
movimentos sociais, virá em passeata da Basílica de Nazaré
até o local do julgamento, distante cerca de um quilômetro.
A coordenação espera reunir 2.000 pessoas.
A Apomi (Associação dos Policiais Militares e Bombeiros
do Pará) também pretende fazer uma manifestação na porta
do local do julgamento, mas não estimou o número de
participantes.
Uma das principais testemunhas de acusação do massacre de
Eldorado do Carajás, a jornalista Mariza Romão, não deve
comparecer ao primeiro dia do julgamento. Ela era repórter
da TV Liberal na ocasião e presenciou os primeiros minutos
do confronto.
Segundo a advogada de Mariza, Damares Alves, até ontem
não havia sido depositada nenhuma ajuda de custo para o
transporte da jornalista de Brasília, onde atualmente mora,
para Belém.
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improvável
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Brasília
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São Paulo, Segunda-feira, 16 de Agosto de 1999
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QUESTÃO AGRÁRIA
Começa o julgamento dos policiais militares envolvidos
no massacre de Eldorado do Carajás
Condenação em massa é improvável
LUCAS FIGUEIREDO
enviado especial a Eldorado do Carajás (PA)
São poucas as chances de condenação em massa dos 150
policiais militares indiciados pela operação que resultou na
443
morte de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA), em 17
de abril de 1996. Pela fragilidade do inquérito, se o júri se
detiver somente nos aspectos técnicos, poderá haver poucas
condenações.
O julgamento, que será o mais longo do país, começa hoje na
capital do Estado, Belém, e deve durar até dezembro. Saiba o
que pode acontecer:
AS AUTORIDADES -
Movimentos de direitos humanos pediram a inclusão do
governador do Estado, Almir Gabriel (PSDB), do secretário
da Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, e do
comandante-geral da PM do Pará à época, coronel Fabiano
Diniz Lopes, na lista dos réus. Contra eles pesavam os
seguintes fatos:
1. o comandante da operação, coronel Mário Colares
Pantoja, de Marabá, disse que obedeceu ordens do
governador, por intermédio do secretário e do comandante da
PM, para desobstruir a rodovia PA-150 de qualquer modo;
2. a desobstrução da rodovia foi feita sem autorização
judicial;
3. no dia do massacre, foram feitas 26 ligações entre o
batalhão da PM em Marabá e a sede do governo do Estado, a
Secretaria da Segurança e o comando da PM. Metade delas
foi feita após as mortes;
4. as autoridades se defenderam afirmando que os
comandantes da operação agiram com violência por conta
própria. Disseram também que, nos telefonemas, apenas
pediam informações sobre a ação. As autoridades não foram
denunciadas.
OS COMANDANTES -
As maiores chances de condenação recaem sobre os dois
comandantes da operação: o coronel Pantoja, que liderou 85
PMs de Marabá, e o major José Maria Oliveira, que
comandou 68 policiais de Parauapebas. Se forem
condenados por homicídio doloso (intencional), podem pegar
de 12 a 30 anos de prisão.
O coronel Pantoja foi quem planejou cercar os sem-terra na
estrada. Cenas gravadas por uma TV mostram que seus
homens foram os primeiros a atirar.
Pedro Alípio, o motorista do ônibus que transportou os PMs
de Marabá para Eldorado do Carajás, afirmou ter ouvido o
coronel dizer aos policiais: "Missão cumprida, ninguém viu
nada", após o massacre, na volta.
Exames nos corpos indicam que os PMs agiram com
444
intenção de matar e, em alguns casos, executaram suas
vítimas.
Pantoja tinha um oficial (capitão Figueiredo) infiltrado no
acampamento dos sem-terra, conforme descobriu a Polícia
Federal. Relatório da PF diz que a Polícia Militar, com as
informações do infiltrado, "tinha completo conhecimento da
situação, inclusive da disposição de enfrentamento por parte
dos integrantes do MST".
Isso dificulta a defesa do coronel, que alega que a PM foi
surpreendida com a reação dos sem-terra. Várias
testemunhas -inclusive independentes dos sem-terra-
disseram que os PMs usavam fardas sem a biriba
(identificação do nome e posto que é afixada no bolso da
camisa). Isso pode indicar premeditação.
O major Oliveira distribuiu as armas para seus comandados
sem respeitar a regra de identificar -por meio de um
documento chamado cautela- quem as estava recebendo. A
acusação vai alegar premeditação e a intenção de dificultar a
identificação.
SARGENTO GETÚLIO -
Uma menina sem-terra que tinha 13 anos à época acusou o
sargento Getúlio Marques, de Marabá, de ter executado o
líder do MST Oziel Alves Pereira. Ela contou em
depoimento que o sargento teria deixado cair o boné que
usava, após atirar em Oziel.
Embaixo do boné, guardado pela menina, estava escrita a
sigla AL.CAS.95 e o nome Getúlio. O sargento reconheceu
que o boné era dele, mas argumentou que foi ferido com uma
pedrada no olho e não participou da operação no momento
do massacre.
SOLDADOS E CABOS -
Uma série de problemas no inquérito tornam frágeis as
provas contra os 147 soldados e cabos que participaram da
operação:
1. as cautelas das armas entregues aos policiais de
Parauapebas não foram feitas. As de Marabá foram
extraviadas e depois reapareceram, mas podem ter sido
violadas ou serem consideradas nulas como prova no
processo. Assim, só é possível identificar que arma foi usada
para matar cada sem-terra, mas não o policial que a portava;
2. o Ministério Público não pediu exames para identificar
pólvora nas mãos dos policiais;
3. o Ministério Público e a Polícia Civil não fizeram
acareações entre testemunhas do massacre e os PMs
445
envolvidos na operação. As testemunhas também não
tiveram acesso a prontuário com fotos dos policiais para
identificar possíveis agressores. Com isso, a defesa pode
alegar que as testemunhas podem ter se enganado ao acusar
os soldados e cabos;
4. os soldados Carlos César Pinho e Raimundo Pargas dos
Santos foram identificados pela sem-terra Maria Áurea
Rocha como os policiais que teriam detido Oziel Alves
Pereira antes de ele ser morto.
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São Paulo, Quinta-feira, 19 de Agosto de 1999
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Mobilização de entidades e
autoridades é pequena
da Agência Folha
e do enviado especial
Foi pequena a mobilização de sem-terra, autoridades do
governo federal, parlamentares, organizações ligadas aos
direitos humanos e imprensa internacional na primeira parte
do julgamento do massacre de Eldorado do Carajás, no Pará.
Líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) anunciaram que 2.000 manifestantes acompanhariam
o julgamento dos comandantes da operação que resultou na
morte de 19 sem-terra.
No primeiro dia, segundo a PM, não passou de mil o número
de manifestantes em frente ao auditório da Universidade da
Amazônia, onde acontece o julgamento. Nos dois dias
seguintes, a quantidade de manifestantes havia se reduzido
ainda mais.
Ontem à tarde, aproximadamente cem manifestantes
assistiam ao julgamento pelo telão montado na rua.
Dos quatro deputados federais petistas que foram até Belém,
apenas João Batista Babá (PT-PA) acompanhou o
julgamento dos três oficiais até o final.
O TJE (Tribunal de Justiça do Estado) recebeu a
446
confirmação da presença dos ministros Raul Jungmann
(Política Fundiária) e José Carlos Dias (Justiça) e do
secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori.
Nenhum deles, no entanto, compareceu.
Jungmann informou estar com a agenda comprometida. Dias
mudou sua posição, porque sua presença poderia ser
entendida como uma pressão. Gregori disse que poderá
assistir outras sessões "quando o espetáculo de rua acabar",
referindo-se à mobilização do MST.
Grandes organizações não-governamentais, como Anistia
Internacional e Americas Watch, não mandaram
representantes. "Nós é que passaremos os informes pela
Internet", disse João Pedro Stedile, líder do MST.
Da imprensa internacional, apenas a Associated Press e a
australiana ORF (rádio e TV) mandaram correspondentes.
A platéia de 280 lugares, no entanto, permaneceu cheia
durante os três dias de julgamento. Ontem, praticamente
todos os lugares estavam ocupados.
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são absolvidos
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mínima
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São Paulo, Quinta-feira, 19 de Agosto de 1999
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ELDORADO DO CARAJÁS
Jurados consideraram as provas insuficientes; anulação
de julgamento pode ser pedida
Oficiais de massacre são absolvidos
LUCAS FIGUEIREDO
enviado especial a Belém
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Belém
Foram absolvidos os três mais graduados oficiais da
operação da Polícia Militar que resultou na morte de 19 sem-
terra em Eldorado do Carajás (sul do Pará) em abril de 1996.
447
A acusação vai recorrer.
Após 43 horas de julgamento, o comandante da operação,
coronel Mário Colares Pantoja, foi absolvido por 4 votos a 3.
O major José Maria Oliveira e o capitão Raimundo José
Almendra também foram inocentados, ambos por 5 votos a
2. Os jurados consideraram que as provas contra os três eram
insuficientes.
Após a leitura da sentença, à 0h30 de hoje, cerca de 300
sem-terra, em princípio, ficaram em silêncio e, em seguida,
começaram a gritar: "Assassinos, assassinos". Depois
ameaçaram invadir o auditório da Universidade da
Amazônia, onde foi o julgamento.
Houve tumulto quando manifestantes se aproximaram do
cerco do Batalhão de Choque da Polícia Militar e começaram
a atirar velas. A PM avançou, e três manifestante foram
presos. A polícia previa tumultos na madrugada.
Anulação
Um dos sete jurados emitiu opinião antes do final do
julgamento, contrariando determinação do Código de
Processo Penal. Com base nesse fato, a acusação irá pedir a
anulação do julgamento.
Após os debates da acusação e da defesa, o juiz Ronaldo
Valle perguntou aos jurados se eles queriam tirar alguma
dúvida antes de se reunirem para votar pela absolvição ou
condenação.
O jurado Sílvio Queiroz Mendonça pediu para ver
novamente a fita de vídeo que mostra cenas do confronto
entre policiais e sem-terra. Depois apontou, com uma caneta
de luz, fumaça saindo do lado dos sem-terra.
"Agora fica comprovado que havia sem-terra armado no
começo do conflito", opinou. "O senhor não pode emitir
opinião", advertiu o juiz.
O promotor pediu que outra afirmação do jurado, sobre a
presença de pólvora nas mãos de uma das vítimas, fosse
registrada nos autos.
"O jurado emitiu opinião e pode ter influenciado seus
colegas. Se os réus forem absolvidos, esse fato pode ser
usado para pedirmos a anulação do julgamento", disse Nilo
Batista, assistente de acusação e ex-governador do Rio, antes
da divulgação do veredicto.
Considerações finais
Durante o julgamento, nas alegações finais, o promotor
Marco Aurélio Nascimento projetou fotos dos cadáveres e
exibiu cenas gravadas por uma equipe de TV no momento do
448
conflito.
Nilo Batista comparou os réus aos líderes do nazismo, que
deixaram seus subordinados perseguirem judeus na Segunda
Guerra.
Representando a defesa, o advogado Américo Leal afirmou
que os sem-terra são um "bando de forasteiro", mas estão
sendo considerados "vacas sagradas".
O líder no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) João Pedro Stedile se mostrou indignado com a
decisão: "É mais uma vergonha nacional."
Até dezembro, serão julgados por homicídio doloso
(intencional) outros 147 policiais que participaram, como
subordinados, da ação comandada pelos réus absolvidos na
madrugada de hoje.
Começa hoje o julgamento de mais quatro oficias, os
tenentes Jorge Nazaré dos Santos, Natanael Guerreiro
Rodrigues, Sérgio Marques da Silva e Raimundo de Souza
Oliveira.
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pequena
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São Paulo, Sexta-feira, 20 de Agosto de 1999
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Bom mesmo de massacre é usineiro
BARBARA GANCIA
Colunista da Folha
Ninguém aqui pretende desrespeitar a dor das 19 famílias
que perderam entes queridos no confronto entre sem-terra e
policiais, em Eldorado do Carajás, no Pará, em 1996.
Mas, vem cá: não sei o que o pessoal da CUT, do PT e do
próprio MST entendem por "massacre", mas o que vi na TV
na época e revi com mais detalhe na última quarta, durante o
julgamento dos três oficiais que comandaram a operação,
não pode ser classificado de massacre.
Uma tropa capenga de policiais sem treinamento para
enfrentar uma situação daquela gravidade é chamada para
conter um grupo de desesperados dispostos a matar e morrer
449
e armados até os dentes com foices, pedaços de pau, facões e
-como a fita apresentada no julgamento evidencia- com
armas de fogo, que foram disparadas antes que os policiais
dessem o primeiro tiro.
Quem autorizou os policiais a usar metralhadoras para
enfrentar os invasores? O governador deu ou não ordem para
conter a invasão a todo custo?
A certa altura daquele vídeo que a gente já viu tantas vezes
na TV, os sem-terra partem com tudo para cima dos
policiais, que recuam. O primeiro tiro é dado naquele
instante. Por alguém que está do lado dos sem-terra, como
foi demonstrado ao longo do julgamento de quarta-feira.
E, agora, vem o Stedile e o pessoal da CUT e do PT falar em
impunidade. Será que a gente é obrigada a engolir, só porque
a lamentável figura do coronel Pantoja, um dos líderes da
operação, parece saída de alguma novela de Dias Gomes?
Quando é que a America"s Watch e a Anistia Internacional
vão começar a tratar como vítimas pobres coitados feito os
policiais que foram enviados sem preparo para enfrentar os
sem-terra em Eldorado do Carajás?
E o governador do Pará, Almir Gabriel? Quando vai assumir
publicamente o quinhão de responsabilidade que lhe cabe no
suposto "massacre"?
Se houve irregularidades no julgamento, que se faça uma
nova audiência. Mas, em nome da justiça, que ninguém se
esqueça de que existem vítimas de ambos os lados.
Usineiro, sim, entende de massacre. Pega dinheiro
emprestado do governo para investir na terra e depois gasta
tudo na ampliação do novo haras e levando a patroa para
passear na Europa. E ainda pretende ter as dívidas anistiadas.
Isso é que é massacrar a lei e a ordem de um país.
QUALQUER NOTA
Loiras nada geladas
Acabo de falar com a Ana Maria Braga, que está no Paraguai
pescando. Diz ela que seu desfile de roupas íntimas causou
tamanho alvoroço que ela resolveu sumir. Pois quer saber?
Quisera eu chegar na idade da Ana e da Hebe tão enxuta.
Criativo
Adivinhe o que o Luciano Huck deu de presente de
aniversário para a Sasha? Sabe aquelas máquinas de fazer
minifotos para documento? Pois não é que ele descolou para
a princesinha um modelo que faz minifotos adesivas?
450
Melhor ao vivo
Kenny G, o Richard Clayderman do sax , deu uma canja no
Bareto. Quem ouviu diz que, ao vivo, ele impressiona.
E-mail: barbara@uol.com.br
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4 h no Acre
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São Paulo, Sexta-feira, 20 de Agosto de 1999
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Oposição critica o julgamento;
tucanos defendem governador
Reuters
Parlamentares
e integrantes
do MST fazem
protesto em
frente ao
Congresso
contra o
resultado
da Sucursal de Brasília
O resultado do julgamento dos acusados pelo massacre dos
sem-terra em Eldorado do Carajás provocou indignação de
deputados da oposição e silêncio de líderes governistas.
A oposição lamentou a falta de empenho do governo federal
no caso e líderes governistas evitaram declarações.
"O governo ficou omisso. Lamento que o secretário de
Direitos Humanos, José Gregori, e o ministro da Justiça, José
Carlos Dias, não tenham ido lá (no julgamento)", afirmou o
líder do PT na Câmara, José Genoino (SP).
"Foi uma decisão da Justiça. Não vou entrar na análise do
resultado", afirmou o líder do PSDB na Câmara, Aécio
451
Neves (MG).
O líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (PSDB-SP),
resumiu: "Esperávamos outra decisão da Justiça".
O líder do governo no Congresso, Arthur Virgílio (PSDB-
AM), defendeu o governador Almir Gabriel. "Quanto a ele
(Gabriel), fizeram Justiça. Não sei quanto aos outros",
afirmou Virgílio.
Segundo o líder, o massacre foi "uma barbárie à revelia do
governo". "Cada vez que aparecem aquelas imagens é uma
chicotada no coração da gente", completou Virgílio.
A comissão de Direitos Humanos da Câmara divulgou nota
oficial condenando o resultado que "não corresponde às
evidências factuais daquele trágico episódio".
"A ausência de punição dos agentes policiais autores de
crimes contra pessoas pobres e contra movimentos sociais
consagra a tradição brasileira de impunidade, responsável
pela condenação do Brasil pela Corte Interamericana de
Direitos Humanos e pela reiterada citação negativa do país
nos relatórios de outras instituições internacionais", afirma a
nota divulgada pela comissão.
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São Paulo, Sexta-feira, 20 de Agosto de 1999
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MST fará protesto na próxima quinta
do enviado especial
e da Agência Folha, em Belém
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
promete fazer, no próximo dia 26, manifestações em frente a
todos os tribunais de Justiça dos Estados protestando contra
o resultado do julgamento que absolveu os comandantes da
operação que resultou na morte de 19 sem-terra em Eldorado
do Carajás.
Mas, depois dessa data, o movimento irá desmobilizar o
grupo que foi a Belém acompanhar o julgamento dos
envolvidos no massacre de abril de 1996. O julgamento
deverá acabar somente no início de dezembro.
452
Cerca de mil sem-terra estão acampados em uma praça
próxima ao auditório da Universidade da Amazônia, onde
são realizadas as sessões do júri. O movimento chegou a
prever o dobro de manifestantes, mas não conseguiu atingir a
meta.
Invasões
De acordo com João Pedro Stedile, um dos líderes nacionais
do movimento, o MST não pretende intensificar as invasões
de terra por causa da decisão do júri de absolver o coronel
Mário Colares Pantoja, o major José Maria Oliveira e o
capitão Raimundo Almendra Lameira.
"Estamos confiantes na anulação desse julgamento. Quem
pensa que essa luta acabou está enganado", afirmou Stedile.
Entidades ligadas à Igreja Católica divulgaram carta de
protesto contra o resultado do julgamento.
O MST pedirá que entidades internacionais de direitos
humanos enviem faxes para o Tribunal de Justiça do Pará
protestando contra a absolvição dos réus.
Tumulto
Na madrugada de ontem, após a leitura da sentença, cerca de
300 sem-terra passaram a gritar: "Assassinos, assassinos".
Depois ameaçaram invadir o auditório da Universidade da
Amazônia, onde acontece o julgamento.
Quando manifestantes se aproximaram do cerco do Batalhão
de Choque da Polícia Militar, houve tumulto. Os sem-terra
passaram a atirar velas. A PM avançou, e três manifestantes
foram presos.
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São Paulo, Sexta-feira, 20 de Agosto de 1999
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ELDORADO DO CARAJÁS
Acusação alega que questão feita a jurados foi irregular
Promotor pedirá novo julgamento de
oficiais
453
da Agência Folha, em Belém
e do enviado especial a Belém
O promotor responsável pela acusação dos 150 policiais
militares envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás
(sul do Pará), Marco Aurélio Nascimento, vai pedir ao TJ
(Tribunal de Justiça) do Pará a anulação do julgamento que
absolveu os comandantes das tropas ontem de madrugada.
Para Nascimento, houve quatro fatos durante o julgamento
do coronel Mário Colares Pantoja, do major José Maria
Oliveira e do capitão Raimundo Almendra Lameira que
podem anulá-lo.
As duas principais são a questão feita aos jurados sobre a
insuficiência de provas e as afirmações do jurado Sílvio
Queiroz Mendonça nas últimas perguntas antes da votação.
No final do julgamento, o jurado pediu para ver novamente a
fita de vídeo que mostra cenas do confronto entre os policiais
e os sem-terra, em 1996.
Com uma caneta de luz, Mendonça apontou a fumaça saindo
do lado dos sem-terra e afirmou: "Agora fica comprovado
que havia sem-terra armados no começo do conflito". Pelo
Código Penal, os jurados não podem emitir opinião durante o
julgamento, já que o voto é secreto.
Quanto à questão sobre insuficiência de provas, que acabou
absolvendo os réus, Nascimento disse que a pergunta não
poderia ser feita por dois motivos. Primeiro, porque já estava
implícita nas duas primeiras perguntas feitas aos jurados.
Eles responderem se as lesões foram produzidas e se elas
causaram a morte dos 19 sem-terra no dia 17 de abril de
1996, em Eldorado do Carajás.
Segundo porque a questão era subjetiva e os jurados devem
se deter aos fatos.
Além disso, Nascimento afirmou que o juiz Ronaldo Valle
não aceitou documentos levados aos autos dentro do prazo
legal.
Entre os documentos estavam fitas com reportagens sobre as
viúvas das vítimas e o trabalho feito na vila 17 de Abril,
antiga fazenda Macaxeira, desapropriada após o massacre.
O quarto argumento para o pedido de nulidade do
julgamento seria a irregularidade na documentação da
defesa.
Uma carta do padre Luigi Muraro criticando o MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) foi usada
pela defesa dos policiais militares. Segundo o promotor, essa
carta não tinha sido autenticada.
454
Para Nascimento, os argumentos da acusação foram mais
convincentes que os da defesa, mas esses problemas teriam
impedido a condenação. "Ganhamos, mas não levamos."
(LUÍS INDRIUNAS e LUCAS FIGUEIREDO)
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São Paulo, Sexta-feira, 20 de Agosto de 1999
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ELDORADO DO CARAJÁS
Três oficiais foram inocentados ontem de madrugada
Promotor teme absolvição dos 147
PMs do massacre
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Belém
LUCAS FIGUEIREDO
enviado especial a Belém
Os 147 policiais militares que participaram da operação que
resultou na morte de 19 sem-terra em abril de 96 também
podem ser absolvidos, como foram ontem de madrugada três
oficiais da PM do Pará.
A avaliação é do promotor Marco Aurélio Nascimento,
responsável pela acusação contra os PMs. A chance de que
todos os réus sejam inocentados existe, na opinião de
Nascimento, se o mesmo argumento que absolveu os
comandantes da ação for usado nos julgamentos dos demais
PMs.
Os 150 acusados pelo massacre vão a júri e
m blocos de três a
seis policiais, cada qual com um corpo de jurados diferente.
Em todas as fases do julgamento, o corpo de jurados será
questionado se há insuficiência de provas para condenar os
réus.
A promotoria pública se queixa da existência dessa pergunta
porque a classifica de subjetiva. Um júri deve se manifestar
sobre fatos concretos.
Na madrugada de ontem, o coronel Mário Colares Pantoja, o
major José Maria Oliveira, respectivamente comandantes das
455
tropas de Marabá e Parauapebas à época do massacre, e o
capitão Raimundo Almendra Lameira foram absolvidos
porque a maioria dos jurados entendeu que havia
insuficiência de provas, respondendo à questão proposta pelo
juiz Ronaldo Valle.
Hoje começa a segunda fase do julgamento dos policiais que
participaram da desobstrução da rodovia PA-150 em 17 de
abril de 1996, em Eldorado de Carajás (sul do Pará). Nessa
fase, serão julgados o capitão Raimundo de Souza Oliveira e
os tenentes Jorge Nazaré Araújo dos Santos, Natanael
Guerreiro Rodrigues e Mauro Sérgio Marques da Silva.
Até dezembro, outros 143 PMs (sargentos, soldados e cabos)
serão levados ao banco de réus.
O advogado dos quatro oficiais, Luiz Abdoral Lopes,
adiantou que seu principal argumento perante o júri será o
mesmo que acabou inocentando os comandantes da
operação, ou seja, a insuficiência de provas para culpar
individualmente cada um dos acusados.
Carlos Guedes, que representa o MST no julgamento, como
assistente de acusação, disse que ele e os outros advogados
dos sem-terra (entre eles, Nilo Batista, ex-governador do
Rio) irão abandonar o caso como protesto pela decisão do
juiz de perguntar se existem provas suficientes.
"Não podemos compactuar com esse absurdo. O quesito
imposto pelo juiz é subjetivo, enquanto que os jurados só
podem decidir em cima de perguntas sobre questões
concretas", declarou Guedes. Daqui em diante, somente o
Ministério Público ficará encarregado da acusação.
"O MST tem todo o direito de considerar indigno o resultado
e sair do processo. Eu não represento somente os sem-terra,
represento sim a sociedade", afirmou o promotor. Marco
Aurélio Nascimento não concorda com a pergunta e irá pedir
a anulação do julgamento dos comandantes absolvidos (leia
texto na pág. 1-5).
Na última fase do julgamento, o juiz elabora para os jurados
uma série de questões a partir das teses da defesa e da
acusação. Anteontem, quando o juiz informou aos advogados
as perguntas que seriam feitas aos jurados, a acusação
registrou seu protesto contra a questão sobre a insuficiência
de provas. Para o advogado Américo Leal, que representou
os oficiais absolvidos, a questão não influenciou os jurados e
não provocará um novo julgamento.
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456
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São Paulo, Segunda-feira, 23 de Agosto de 1999
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Comemoração dos 20 anos da lei
começa hoje com ato em SP
da Reportagem Local
As comemorações dos 20 anos da Lei da Anistia começam
hoje, em São Paulo, com um ato no teatro Tuca, na PUC
(Pontifícia Universidade Católica), mesmo local onde foi
realizado o primeiro Congresso Nacional pela Anistia, em
novembro de 1978.
Estão programados depoimentos de participantes da
resistência ao movimento militar de 64, protestos pelo não-
esclarecimento sobre mortes e desaparecimentos entre
representantes da esquerda e homenagens aos trabalhadores
rurais sem terra.
""Vamos fazer um gancho com o MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) e dizer que na democracia
ainda há perseguidos políticos, em uma homenagem aos
sem-terra", disse o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-
presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA) e um
dos organizadores do evento.
Segundo os responsáveis pelo ato na PUC, 1.800 pessoas
foram assassinadas no campo nos últimos 20 anos enquanto
defendiam a reforma agrária.
A absolvição, na semana passada, de três acusados pelo
massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA) será
um dos temas abordados durante o ato, que ainda incluirá
protestos pela condenação a 26 anos e meio de prisão do
líder do MST José Rainha Júnior pelo assassinato de um
fazendeiro e de um policial militar em junho de 89.
Greenhalgh é advogado de Rainha no caso.
João Pedro Stedile, outro líder sem-terra, é um dos
convidados para o evento, patrocinado também pelo
Movimento Feminino pela Anistia e pelo Grupo Tortura
Nunca Mais de São Paulo.
Caminhada
No domingo, dia 29, o governo do Estado promoverá uma
caminhada do Portal do presídio Tiradentes até o antigo
457
prédio do Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e
Social), onde militantes presos denunciaram a prática de
torturas.
No local de chegada da marcha haverá uma exposição com
jornais da época e uma cerimônia promovida por diversas
religiões para a ""purificação" do prédio.
Na ocasião, o governador Mário Covas (PSDB) assinará
projeto de lei que prevê indenização a torturados em
dependências do Estado e convênios para a proteção de
testemunhas.
O projeto para as indenizações, já aprovado em Estados
como o Paraná e Rio Grande do Sul, deverá ser submetido à
Assembléia Legislativa paulista.
O governo planeja a transformação do prédio do Dops em
um espaço destinado à arte.
No mês de setembro, haverá a apresentação de uma peça
teatral sobre a resistência aos militares e um show com a
presença do cantor João Bosco.
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poder
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anistia
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São Paulo, Segunda-feira, 23 de Agosto de 1999
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INOCENTE ÚTIL
Defesa de policiais militares usou carta de Luigi Muraro
com crítica aos sem-terra
Padre lamenta ter "ajudado" defesa
Moacyr Lopes Jr./Folha Imagem
O padre Luigi
Muraro, que afirma
que mais de 19 sem-
terra foram mortos
por policiais em
Eldorado do Carajás
458
LUÍS INDRIUNAS
da Agência Folha, em Mara
Há cinco anos trabalhando com os sem-terra no sul do Pará, o
padre Luigi Muraro, 60, foi surpreendido com a notícia de
que uma carta sua, criticando atitudes do MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), foi usada pela defesa
dos policiais no julgamento do massacre de Eldorado do
Carajás. "Estou embaraçado", afirmou.
Muraro fez uma investigação paralela após o massacre, tendo
vários depoimentos anônimos e, por isso, critica o andamento
do julgamento dos 150 PMs acusados de matar 19 sem-terra
no dia 17 de abril de 1996.
Agência Folha - O senhor sabia que sua carta estava sendo
usada pela defesa dos PMs? Padre Luigi Muraro - Durante
esta última semana, eu estava em retiro. Soube apenas no
sábado e me assustei. Estou embaraçado, não sei como vazou
esta carta. Ela era sigilosa e destinada a alguns padres e ao
MST. Não como sei os sem-terra vão reagir, se vão me
aceitar.
Agência Folha - Qual o conteúdo da carta?
Muraro - Eu falava sobre desvio de dinheiro nos
assentamentos, mas citei apenas um valor de R$ 2.500.
Escrevi também alertando sobre o uso de armas pelos sem-
terra.
Agência Folha - Qual sua principal crítica ao MST?
Muraro - Falta de democracia dentro dos assentamentos.
Temos que distinguir os sem-terra das lideranças do MST.
Muitas vezes, as famílias não querem fazer o que o MST
exige.
459
Agência Folha - O sr. se arrepende de ter escrito a carta?
Muraro - Não é questão de arrependimento. Eu demorei mais
de um mês para escrevê-la e hesitei muito em mandá-la.
Cheguei a usar termos como "roubalheira", mas para alertar
os interessados. Ela não poderia ter vazado.
Agência Folha - Como o senhor avalia o julgamento?
Muraro - Infelizmente, o julgamento que era para
se julgar os
policiais virou um julgamento sobre o MST.
Agência Folha - Na época do massacre, o senhor disse que
havia mais de 19 mortos.
Muraro - Havia muito mais. Há relatos de pessoas que viram
cerca de 30 corpos. Mulheres e crianças também morreram.
Há um outro crime pelo qual os policiais não estão
respondendo: ocultação de cadáver.
Agência Folha - A atitude da polícia na região mudou
depois do massacre?
Muraro - A polícia de Marabá está envergonhada, mas a
atitude dos policiais não mudou quase nada. Continuam
violentos e agindo clandestinamente.
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suposto suborno
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descarta ação na Colômbia contra guerrilha
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São Paulo, Segunda-feira, 23 de Agosto de 1999
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ELDORADO DO CARAJÁS
Vice-prefeita de Belém, Ana Júlia (PT), diz que jurado
mencionou quantia para absolver réus
Promotor quer apurar suposto
suborno
LUCAS FIGUEIREDO
enviado especial a Belém
460
O promotor Marco Aurélio Nascimento, responsável pela
acusação dos 150 policiais militares envolvidos no caso do
massacre de Eldorado do Carajás (sul do Pará), pedirá ao
procurador-geral interino de Justiça do Pará, Francisco
Barbosa de Oliveira, que investigue rumores de que jurados
podem ter sido subornados para absolver os réus.
A acusação, sem provas, foi feita pela vice-prefeita de
Belém, Ana Júlia Carepa (PT), à revista "Época". Ela disse
ontem à Folha que, antes de começar o julgamento, o jurado
Sílvio Queiroz Mendonça teria perguntado a outro pré-
selecionado para compor o júri, "em tom de brincadeira",
segundo ela, "se ele não aceitaria absolver os PMs em troca
de R$ 3.000".
A vice-prefeita afirmou que soube disso pela própria pessoa
que ouviu a suposta proposta de Mendonça. Mas Ana Júlia
disse não saber o nome da pessoa que relatou o caso a ela,
que não teria sido sorteada para compor o júri.
A vice-prefeita também contou à Folha que a empregada da
sua casa atendeu um telefonema anônimo dizendo que o
mesmo jurado que teria feito a proposta já havia ganho R$
3.000 para votar pela absolvição dos PMs e ainda receberia
mais R$ 130 mil.
A Folha tentou ontem achar Mendonça na sua casa e no
telefone celular, das 16h às 19h, mas não teve sucesso.
"Eu não disse que o cara recebeu ou deixou de receber
dinheiro. Eu apenas relatei à revista "Época" o que eu vi.
Agora, que se investigue", disse a vice-prefeita.
Ana Júlia chegou a contar o caso logo depois da absolvição
dos comandantes da operação, para João Pedro Stedile, líder
nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra).
Stedile, no entanto, não mencionou o fato na entrevista que
deu um dia após o julgamento.
Américo Leal, advogado dos PMs absolvidos, classificou a
acusação de falsa. "Podem quebrar o sigilo bancário dos
meus clientes se quiserem", afirmou.
Mendonça tornou-se o jurado mais polêmico do júri por ter
manifestado sua opinião pouco antes do fim do julgamento
dos comandantes da operação (coronel Mário Colares
Pantoja, major José Maria Oliveira e o capitão Raimundo
Almendra Lameira), absolvidos na semana passada.
O jurado pediu para ver cenas do início do conflito, gravadas
por uma TV, e apontou um sem-terra atirando na direção dos
PMs. "Agora fica comprovado que havia sem-terra armados
no começo do conflito", disse, no microfone, após ver a cena
diante dos outros seis jurados.
461
O promotor está pedindo a anulação do julgamento, entre
outras coisas, pela atitude de Mendonça, que teria
comprometido a regra que determina a incomunicabilidade
entre os jurados, estabelecida pelo Código de Processo
Penal.
O jornalista Nielsen Martins, da TV Record, disse ontem que
foi ameaçado por Mendonça. Segundo Martins, o jurado deu
uma entrevista a ele, com o revólver no bolso, e afirmou que,
se as imagens fossem ao ar, o repórter e sua família iriam
sofrer as consequências. Martins não registrou queixa na
delegacia de polícia, por, segundo ele, não ter provas do fato.
O Tribunal de Justiça do Pará começa a apreciar hoje o
pedido de anulação do julgamento que absolveu os
comandantes.
Não há prazo para uma decisão final sobre a questão, mas se
calcula que será no período máximo de seis meses, podendo
ser antecipado. Até lá, o início do julgamento dos outros 147
réus ficará suspenso.
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defesa
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São Paulo, Quarta-feira, 25 de Agosto de 1999
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ELDORADO DO CARAJÁS
Para Gregori, se Congresso aprovar federalização de
crimes, foro dos PMs pode mudar
Projeto traz caso para a Justiça
Federal
ABNOR GONDIM
da Sucursal de Brasília
Se for aprovado pelo Congresso, o projeto que federaliza os
crimes contra os direitos humanos irá transferir para a Justiça
Federal o julgamento de 147 PMs envolvidos no massacre de
19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA).
A avaliação é do secretário de Estado de Direitos Humanos,
José Gregori. Segundo ele, a aprovação do projeto poderá
462
atingir até os três oficiais da Polícia Militar já absolvidos,
desde que o julgamento deles seja anulado.
"Diante da reação da opinião pública, espero que os
deputados e senadores se convençam da necessidade de
aprovar logo essa emenda num prazo, digamos, de 30 dias.
Aí o julgamento de Carajás será transferido para a Justiça
Federal", disse Gregori.
Amanhã, o secretário de Direitos Humanos e o ministro Raul
Jungmann (Política Fundiária) irão pedir ao presidente da
Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), a criação imediata de
uma comissão especial para apreciar a proposta de emenda
constitucional.
A investida do governo para apressar a tramitação do projeto
será feita no mesmo dia em que acontece em Brasília a
"Marcha dos 100 Mil", protesto organizado pela oposição e
por movimentos como o MST.
De acordo com o secretário de Direitos Humanos, a
aprovação da emenda não significa a criação de lei com
efeito retroativo para prejudicar os réus, o que iria ferir
dispositivos em vigor.
Na sua avaliação, a proposta não amplia penas porque trata
apenas de matéria processual, como ocorreu com o mesmo
caso em 1996, alguns meses após o massacre de Carajás.
Na época, o Congresso aprovou emenda que transferiu da
Justiça Militar para a Justiça Civil estadual o julgamento de
crimes praticados por PMs contra civis.
Se o pedido de anulação do julgamento dos três oficiais for
anulado, o secretário acredita que o caso passaria a ser
apreciado por um juiz federal e não mais por um novo júri
popular.
A possível transferência do caso para a Justiça Federal foi
desaprovada pelo presidente da OAB (Ordem dos
Advogados do Brasil), Reginaldo de Castro. "A princípio, eu
entendo que a proposta é inconstitucional", disse.
Castro afirmou que o fato de o processo ter saído da Justiça
Militar não pode ser usado para justificar uma nova
transferência.
Há três anos e três meses, o governo enviou ao Congresso
projeto que transfere o julgamento de crimes praticados
contra os direitos humanos para a Justiça Federal. O projeto
ainda não foi votado.
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463
São Paulo, Domingo, 29 de Agosto de 1999
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Questão antiga, vontade reiterada
Federalizar determinados crimes
contra os direitos humanos não é
idéia nova
JAMES LOUIS CAVALLARO
A recente absolvição dos comandantes da operação que
resultou na morte de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás
em 1996 tem provocado a reabertura de velhos debates sobre
meios de reformar a Justiça brasileira. Recente editorial
publicado pela Folha (pág. 1-2, Opinião, 25/8) aconselha
cautela nesse debate: "Parece imprudente a tentativa de
aprovar de um fôlego proposta de emenda constitucional (...)
com o propósito específico de lidar com um caso
momentoso".
Concordamos com a Folha que é necessário proceder com
cautela e não aprovar medidas maldesenhadas só para dar
uma aparente satisfação aos reclamos legítimos formulados
em face do resultado absurdo do primeiro julgamento no
caso Eldorado. A federalização de determinados crimes traz
consigo uma série de possíveis problemas que devem ser
resolvidos, entre eles a possibilidade de competência
redundante, a de conflitos jurisdicio
nais e a de uma excessiva
competência federal, dado o quadro limitado dos
funcionários nos sistemas policial e judicial federais. No
entanto, a questão da federalização vem sendo discutida há
muitos anos, tendo, inclusive, projetos em andamento no
Congresso que permitiriam ao Ministério Público Federal ou
"órgão federal de proteção dos direitos humanos" avocar
casos de abusos dos direitos humanos ao fórum federal (PEC
368-A/96), uma vez que eles determinam a necessidade de
tal avocação. Outra proposta, estudada pela Secretaria
Nacional dos Direitos Humanos, incluiria na Constituição
uma lista de determinados crimes que passariam
464
automaticamente à competência federal.
A Human Rights Watch denuncia as violações aos direitos
humanos em vários órgãos internacionais. No caso do Brasil,
o governo federal, representado pelo Ministério das Relações
Exteriores, fica frequentemente na posição constrangedora de
ter de defender as ações do Estado brasileiro sem contar com
os meios necessários para responder às acusações. Quer
dizer, apesar de o governo federal assumir a obrigação
internacional de respeitar os direitos humanos e garantir o
julgamento e a punição de quem os viola, ele não tem
competência na esmagadora maioria dos casos para cumprir
tal missão e se conforma, perante as instâncias
internacionais, com o papel de mero relator, informando
sobre o andamento de processos no Pará, no Rio de Janeiro,
em São Paulo ou em qualquer outra repartição do Brasil,
como se fossem países independentes e autônomos.
Não foi só agora que os grupos de direitos humanos
reconheceram a incompetência dos órgãos estaduais de lidar
com crimes violentos cometidos por policiais dos próprios
Estados. Nas semanas após a chacina de Eldorado, em 1996,
nós, junto do Cejil (ONG latino-americana) e do MST,
denunciamos, inclusive à Comissão Interamericana de
Direitos Humanos da OEA, graves falhas no inquérito, como
a falta de registro de armas, de provas balísticas, de exames
de resíduos de pólvora nas mãos dos policiais ou de sangue
das vítimas nas fardas por eles usadas, o que, por não
individualizar a autoria e as responsabilidades dos policiais
envolvidos, acarretaria a absolvição posterior dos acusados.
Federalizar determinados crimes contra os direitos humanos
não é idéia nova e sim uma reiteração da vontade popular
que surge sempre que a Justiça falha, como no caso
Eldorado. O importante, aqui, é não perder o potencial deste
momento. Cabe lembrar que a pressão da sociedade civil
organizada e da imprensa costuma ser o incentivo mais
eficaz para fazer com que o Legislativo e o Executivo
aprovem medidas em matéria dos direitos humanos, como
demonstra a história recente. Foi, por exemplo, menos de um
mês após o massacre de Carajás (17/4/1996) que o governo
lançou o Programa Nacional de Direitos Humanos (13/5/
1996). E bastou apenas uma semana após a veiculação das
imagens vergonhosas da brutalidade policial na favela Naval,
em Diadema (31/3/1997), para que o Congresso aprovasse e
o presidente sancionasse a lei 9.455/97, tipificando o crime
de tortura (7/4/ 1997). Nós da Human Rights Watch
poderíamos ver os governos federal e estaduais
implementarem programas abrangentes e eficazes para
465
impedir as diversas violações dos direitos humanos e julgar e
punir os responsáveis por elas de forma pronta e justa. Mas,
na falta disso, e sendo pragmáticos, nos conformamos com
medidas pontuais, provocadas, pelo menos em parte, por
momentos de reação a abusos específicos.
James Louis Cavallaro, 36, advogado norte-americano formado pelas
universidades de Berkeley e Harvard, nos Estados Unidos, é diretor no
Brasil da Human Rights Watch.
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Clóvis Carvalho: Temos pressa
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São Paulo, Quarta-feira, 01 de Setembro de 1999
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O engodo da federalização
O processo mental que levou os
leigos a absolver os PMs poderia ser
abraçado por um juiz federal
ALBERTO ZACHARIAS TORON
Quem assistiu ao filme "Mississipi em Chamas" nunca vai
esquecer: após o covarde e cruel assassinato de jovens
negros, do qual haviam participado civis e autoridades locais
de um determinado condado, todos membros da famigerada
organização racista Ku Klux Klan, o julgamento dos algozes
pelo júri local foi uma farsa e redundou numa inaceitável
absolvição dos acusados. Posteriormente, quando pelos
mesmos fatos os autores dos homicídios foram submetidos a
julgamento perante uma corte federal, as condenações foram
impostas por infrações que atinavam com os direitos civis.
A lembrança da solução para a impunidade nos Estados
466
sulistas da América do Norte tem levado alguns defensores
dos direitos humanos no Brasil a sustentar a idéia de que o
desfecho para o massacre de Eldorado do Carajás seria outro
caso o julgamento fosse realizado por um tribunal federal.
Posta com tal simplicidade, a proposta não deixa de ser
sedutora, mas é enganosa. Primeiramente porque o júri que
se realizou em Belém não foi uma farsa. Ao contrário, foi
acompanhado por toda a imprensa e, além de um aguerrido
promotor de Justiça, contou com a participação na assistência
de acusação de uma das figuras mais destacadas da
advocacia brasileira, o jurista e ex-governador do Rio de
Janeiro Nilo Batista. Depois porque, embora o resultado
possa ser qualificado como injusto, a transferência do
julgamento para a capital do Estado, em Belém, com a
aplicação do instituto do desaforamento que o direito
processual penal brasileiro prevê para casos em que se possa
duvidar da imparcialidade dos jurados da localidade,
permitiu a escolha de um conselho de sentença insuscetível a
pressões. Só para lembrar, o líder do MST José Rainha
deverá ser julgado em Vitória (ES) justamente para evitar as
possíveis influências dos proprietários de terra de onde se
deu o crime pelo qual se vê acusado.
É enganoso pensar que o resultado verificado na votação
expressou um comprometimento dos jurados devido a
pressões e, consequentemente, proclamar a ineficácia do júri
popular, que, via de regra, se insere no âmbito da Justiça
estadual. Basta ver que a absolvição se deu por escassa
maioria (4x3). Além disso, tudo indica que o julgamento
esteja nulo, em razão da indevida manifestação de um jurado
momentos antes da votação, expressando claramente sua
opinião sobre quem começou a atirar, e, mais grave, por erro
técnico do juiz-presidente, um magistrado concursado e
revestido de todas as garantias constitucionais, o qual
submeteu aos jurados uma questão técnica relativa à
"suficiência de provas para condenar", resposta que,
evidentemente, já estava dada quando os juízes do fato já
haviam afirmado a participação dos oficiais.
Enfim, abstraído o problema relativo às nulidades, teríamos
um veredicto condenatório para o caso de Carajás. Todavia a
questão que se põe é a de saber se é válido, democrático e
legítimo "federalizar determinados crimes" (melhor seria
dizer atribuir competência à Justiça federal para o processo,
porque, entre nós, por força da Constituição, todos os crimes
e contravenções sempre representam uma emanação da
Federação) quando não gostamos do resultado do
julgamento. A resposta, francamente, há de ser negativa. Do
467
contrário, permitiríamos que os assassinos de Chico Mendes
pudessem reclamar a "federalização" sob a alegação de que
os jurados de Xapuri sucumbiram às pressões da mídia.
Não são apenas as garantias do devido processo legal e do
juiz natural que se devem invocar para refutar propostas
desse tipo. É forçoso perceber que o mesmo processo mental
que levou os juízes leigos a absolver os oficiais da PM
poderia igualmente ser abraçado por um juiz federal
concursado. Se este ou aqueles empolgaram a idéia de que os
agentes "da lei e da ordem" deveriam repelir os invasores de
terra que os atacavam, o resultado só poderia ser a
absolvição. Há uma questão ideológica que não pode ser
transposta com o simples deslocamento da competência para
julgar. Se não se discute a independência dos jurados que
integraram o conselho de sentença, a crença de que o
julgamento por um juiz federal possa ser diferente revela um
antigo e reiterado preconceito contra as decisões do júri
popular.
A proposta de federalização faz lembrar a história do sujeito
que, ao flagrar a mulher em plena prática de adultério,
resolveu o problema vendendo o sofá da sala... É um engodo.
Alberto Zacharias Toron, 40, advogado criminalista, é professor de
direito penal da PUC-
SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).
Foi presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes (1995-97) e do
Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (1995-96). É autor de "Crimes
Hediondos: o Mito da Repressão Penal".
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São Paulo, sexta-feira, 18 de fevereiro de 2000
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da Folha
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PARÁ
468
Policiais são acusados de homicídio
Justiça reintegra PMs de Parauapeba
da Agência Folha, em Belém
A Justiça do Pará decidiu reintegrar dez ex-PMs, expulsos da
corporação por terem participado -sem autorização do
Comando da Polícia Militar- da reintegração de posse da
fazenda Goiás 2, em Parauapebas (sul do Pará), no dia 26 de
março de 1998.
Após a retirada das 520 famílias que ocupavam o local, os
dirigentes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) Onalício Araújo Barros, o "Fusquinha", e
Valentin Serra, o "Doutor", foram mortos a tiros.
Onze fazendeiros da cidade foram denunciados pelos crimes.
Os policiais, que durante a operação cobriram as
identificações em seus uniformes com tarjas pretas, foram
acusados de cumplicidade.
Depois de responder a processo administrativo, foram
expulsos da corporação, em maio de 1998. A medida foi
determinada pelo então secretário de Segurança Pública do
Pará, Paulo Sette Câmara, atual secretário de Gestão Social.
Os policiais também passaram 30 dias presos no quartel da
Polícia Militar de Xinguara.
A juíza Maria Helena Sarag, da 17ª Vara Criminal do
Estado, decidiu pela reintegração porque os policiais não
teriam tido "direito de ampla defesa". A liminar define ainda
que os ex-policiais devem trabalhar em Belém.
"Eles foram ouvidos apenas em processo disciplinar e sem a
presença de advogados. Essa atitude tinha que ser revista",
disse a advogada dos acusados, Teuly Souza Fonseca Rocha.
O Comando da PM informou que vai recorrer da sentença e
negou que tenha havido cerceamento do direito de defesa.
Os dois oficiais de Justiça que acompanharam a reintegração
de posse na fazenda Goiás 2 eram temporários do Fórum de
Parauapebas e foram demitidos durante a investigação das
mortes.
Os fazendeiros acusados respondem o processo em
liberdade. Na época, Carlos Antônio da Costa, proprietário
da fazenda, foi preso, mas solto depois de algumas semanas.
Posteriormente, a Goiás 2 foi desapropriada pelo Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para
o assentamento de cerca de 200 famílias.
O MST repudiou a decisão de ontem. "Mais uma vez a
Justiça parece mostrar que está brincando", disse o
coordenador do MST Raimundo Nonato Souza.
469
Sete dos dez PMs reintegrados são réus no caso do massacre
de Eldorado do Carajás, em 1996, quando 19 sem-terra
foram mortos durante a desobstrução da rodovia PA-150.
Apenas três oficiais dos 150 policiais réus no caso foram
julgados e absolvidos durante a única sessão do julgamento,
em agosto de 1999. O Ministério Público recorreu e todos os
policiais esperam nova convocação.
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de FHC
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1,58 bi
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São Paulo, terça-feira, 28 de março de 2000
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ELDORADO DO CARAJÁS
TJ nega terceiro recurso
Negado pedido de afastamento de juiz
da Agência Folha, em Belém
Os desembargadores do TJ (Tribunal de Justiça) do Pará
negaram ontem, por unanimidade, o pedido do MP
(Ministério Público) de afastamento do juiz Ronaldo Valle,
responsável pelo julgamento que absolveu três oficiais da
PM envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás.
Esse é o terceiro recurso da acusação negado pelo TJ.
Os dois primeiros, um do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) e outro do MP, pediam a
anulação das 26 próximas sessões do Tribunal do Júri sobre
o caso.
O MP solicitou o afastamento alegando que Valle estaria
sendo parcial, já que ele havia discutido em uma reunião no
TJ com deputados petistas ligados ao MST. O juiz negou
parcialidade.
Os oficiais e mais 147 outros policiais participaram do
470
confronto na rodovia PA-150, em Eldorado do Carajás, no
dia 17 de abril de 1996, quando 19 sem-terra foram mortos e
mais de 60 pessoas ficaram feridas.
Para retomar o julgamento, no entanto, os desembargadores
do TJ ainda têm de votar o pedido de anulação da sentença, o
que deve ser feito até o final de abril.
As sessões estão paralisadas desde o dia 27 de agosto de 99,
quando o promotor Marco Aurélio Nascimento abandonou o
tribunal em sinal de protesto.
Tribunal internacional
Os poderes públicos da União e dos Estados do Pará e de
Rondônia chegaram a ser condenados pelos jurados de um
tribunal internacional simbólico que julgou os massacres de
sem-terra em Eldorado do Carajás (PA) e Corumbiara (RO).
Após sete horas de julgamento, os jurados condenaram o
comportamento dos poderes públicos, que permitiram a
atuação da PM no conflito.
À época, a assessoria do governo paraense informou à
Comissão de Direitos Humanos da Câmara, organizadora do
evento, que a ação estava sendo apurada.
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orçamentário
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São Paulo, quarta-feira, 29 de março de 2000
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ELDORADO DO CARAJÁS
Juiz anuncia afastamento do caso
da Agência Folha, em Belém
O juiz Ronaldo Valle, que presidiu a primeira sessão do
471
julgamento dos acusados pelo massacre de Eldorado do
Carajás (PA), anunciou ontem a decisão de se afastar do
caso.
O julgamento tem como réus 150 policiais militares,
acusados de matar 19 sem-terra durante desobstrução da
rodovia PA-150, no dia 17 de abril de 1996.
Valle absolveu os três principais comandantes da operação: o
coronel Mário Colares Pantoja, o major José Maria Oliveira
e o capitão Raimundo Almendra Lameira.
O juiz atribuiu sua saída às "acusações levianas, desprovidas
de qualquer fundamento e imensuravelmente desrespeitosas"
feitas pelo promotor Marco Aurélio Nascimento, que o
acusou de ser "parcial".
Ele disse também que não concorda com as pressões
internacionais pela "condenação de qualquer maneira" dos
envolvidos no caso. "Absolvição também é justiça",
declarou.
O afastamento foi anunciado um dia depois de o TJ
(Tribunal de Justiça) negar pedido do Ministério Público
para tirá-lo do processo. "Decidi sair depois para que não
dissessem que eu estava me esquivando do julgamento".
O MP havia pedido a saída acusando-o de parcialidade, já
que Valle discutiu com parlamentares petistas ligados ao
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
durante uma reunião.
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de votação
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São Paulo, segunda-feira, 03 de abril de 2000
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Juíza assume Eldorado do Carajás
da Agência Folha, em Belém
472
A juíza Edinéia Oliveira Tavares é a nova responsável pelo
julgamento dos envolvidos no massacre de Eldorado do
Carajás (PA).
Seu nome foi sorteado na semana passada pelo presidente do
TJ (Tribunal de Justiça) do Pará, José Alberto Maia, depois
que o juiz Ronaldo Valle decidiu se afastar do caso, na
última terça-feira.
Valle presidiu a primeira das 27 sessões previstas para o
julgamento dos 150 policiais militares envolvidos no
massacre.
Naquela sessão, foram absolvidos os três oficiais da PM que
comandaram a operação, ocorrida em 17 abril de 1996 e que
deixou 19 sem-terra mortos e mais de 60 pessoas feridas
durante a desobstrução da rodovia PA-150.
Com 16 anos de experiência na magistratura, Edinéia
Tavares é responsável também pelo julgamento do
fazendeiro Jerônimo Alves Amorim, acusado de mandar
matar, em 1991, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Rio Maria, Expedito Ribeiro de Souza. A juíza não
quis comentar seu novo trabalho.
Saída
Valle decidiu deixar o caso um dia após os desembargadores
do TJ negarem seu afastamento, pedido pelo Ministério
Público.
O juiz disse, na última terça, que "acusações levianas,
desprovidas de qualquer fundamento e imensuravelmente
desrespeitosas" haviam sido feitas pelo promotor Marco
Aurélio Nascimento, que o acusou de ser "parcial" no
julgamento que absolveu o coronel Mário Colares Pantoja,
do major José Maria Oliveira e do capitão Raimundo
Almendra Lameira.
Valle afirmou ainda que não concorda com pressões
internacionais pela "condenação de qualquer maneira" dos
policiais.
Segundo a argumentação do Ministério Público, o juiz Valle
teria sido parcial porque discutiu com parlamentares petistas
ligados ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) durante uma reunião.
Além disso, havia dito publicamente que voltaria a usar o
quesito de insuficiência de provas, que acabou absolvendo os
oficiais.
Anulação
O promotor Marco Aurélio Nascimento disse não ter críticas
473
sobre a juíza Ednéia Tavares.
O coordenador estadual do MST no Pará, Lindomar Silva,
afirmou, por sua vez, que o importante agora é a anulação da
primeira sessão, pedida em um recurso apresentado pelo
Ministério Público.
O julgamento do massacre está parado desde 26 de agosto
passado, quando Nascimento abandonou a sessão em
protesto.
Para que o caso seja retomado, o TJ terá de julgar o recurso.
A decisão está prevista para este mês.
Texto Anterior: "MST vai dar troco", afirma líder
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deputados no RS
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São Paulo, sábado, 15 de abril de 2000
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500 ANOS
Barreira policial parou viagem do MST a Porto Seguro;
entre os 11 presos, há dois turistas da Espanha
Sem-terra e PMs entram em choque
LUIZ FRANCISCO
da Agência Folha, em Salvador
Uma barreira da Polícia Militar na BR-101, em Itabuna
(BA), interrompeu ontem a viagem de 400 membros do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) até Porto
Seguro, onde haverá comemoração dos 500 anos do Brasil.
No confronto, três policiais foram feridos com pedradas e 11
pessoas foram presas, entre elas dois turistas espanhóis que
acompanhavam os sem-terra. Os espanhóis foram
encaminhados à Polícia Federal de Ilhéus (462 km ao sul de
Salvador).
O conflito ocorreu às 10h, no posto da Polícia Rodoviária
Federal de Itabuna (429 km ao sul de Salvador), onde foram
474
retidos nove ônibus e três caminhões com mantimentos dos
sem-terra.
"Nós verificamos a documentação e constatamos que os
ônibus tinham licença para viajar", disse o inspetor Carlos
Luede.
O clima só ficou tenso com a chegada da PM ao local. Os
policiais obrigaram todos os 400 passageiros a descer dos
ônibus.
O comandante do 15º Batalhão da PM de Itabuna disse que a
polícia tem ordens para revistar todos os veículos com
destino a Porto Seguro.
Revoltados, os sem-terra resolveram bloquear a rodovia,
usando os próprios ônibus e barricadas feitas com paus e
pedras. Em seguida, segundo a polícia, começaram a
apedrejar os soldados.
"Só atiramos pedras depois que a PM investiu contra a
gente", disse Rosa Oliveira, 19, coordenadora do MST no sul
da Bahia. Para a PM, houve "agressão mútua".
O integrante da caravana Jéferson Santos Souza, 23, disse
que os sem-terra querem protestar em Porto Seguro na
segunda-feira, para lembrar o massacre de Eldorado do
Carajás (PA), quando 19 trabalhadores rurais foram mortos
em confronto com a PM.
"Assim como o governo quer comemorar os 500 anos do
Brasil, também temos o direito de protestar contra as
injustiças sociais, o desemprego e a corrupção."
O comando da PM afirmou que os ônibus foram liberados no
início da tarde. "Ninguém vai impedir o direito de ir e vir das
pessoas. Os sem-terra querem tirar dividendos políticos de
uma ação correta que foi executada pela PM."
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Delfim
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anos depois
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São Paulo, segunda-feira, 17 de abril de 2000
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475
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500 ANOS
Coordenador do MST diz que estuda ficar mais tempo em
Porto Seguro, ao contrário do combinado
Sem-terra ameaçam descumprir
acordo
Ormuzd Alves/Folha Imagem
Sem-terra caminham em direção a
Porto Seguro, na Bahia
LUIZ FRANCISCO
da Agência Folha, em Porto Seguro
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
ameaça não cumprir o acordo feito com governo da Bahia
que permitiu o fim das barreiras policiais para que os sem-
terra chegassem a Porto Seguro (705 km ao sul de Salvador).
O acerto foi intermediado pelo presidente do Senado,
Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), e pelo deputado
federal Aloízio Mercadante (PT-SP).
Ontem de manhã, durante a marcha dos agricultores de
Eunápolis (BA) à cidade, o coordenador regional do MST,
Ademar Bogo, disse que o trato será reavaliado. "O acordo
foi feito em Brasília. Amanhã (hoje) nós decidiremos aqui se
vamos cumpri-lo ou não", afirmou.
Pelo acordo, os sem-terra foram liberados para fazer uma
manifestação hoje de manhã no centro de Porto Seguro para
lembrar o massacre de Eldorado do Carajás (PA), onde, há
exatamente quatro anos, 19 trabalhadores rurais foram mortos
em um confronto com policiais militares.
Em contrapartida, os manifestantes sairiam ainda hoje da
476
cidade, que, no próximo dia 22, será palco das comemorações
oficiais dos 500 anos do Brasil.
A negociação do MST com o governo foi realizada
anteontem, um dia depois que nove sem-terra foram presos
pela polícia de Itabuna (429 km ao sul de Salvador). Na
ocasião, os policiais barraram a passagem dos manifestantes
na BR-101. No tumulto, três policiais militares ficaram
feridos.
Turistas, ricos e governantes
Ademar Bogo disse também que os sem-terra vão aproveitar
a manifestação de hoje para denunciar a violência contra os
trabalhadores rurais.
"Nós queremos dizer que o Brasil, com seus 500 anos de
história, ainda não aprendeu a fazer festa para o povo. O
presidente Fernando Henrique Cardoso precisa entender que
não existem apenas turistas, ricos e governantes no Brasil",
afirmou Bogo.
Anteontem, o coordenador estadual do MST Walmir
Assumpção já havia dito que os manifestantes pretendiam
voltar a Porto Seguro no dia 22.
Diante disso, o governador da Bahia, César Borges (PFL),
afirmou que isso seria "quebra de acordo" e acenou com a
possibilidade de a Polícia Militar voltar a apertar o cerco.
"Não há espaço físico em Porto Seguro para comportar uma
quantidade muito grande de gente para todos os eventos. Se
algum grupo já tiver anunciado a intenção de fazer protestos
e constranger autoridades, nós temos a obrigação de tomar
todas as precauções", declarou o governador.
A marcha dos sem-terra de Eunápolis a Porto Seguro foi
tranquila. Cerca de 2.500 integrantes do MST, segundo a
diretoria regional, participaram da caminhada. A PM estima
que 1.200 sem-terra fizeram o percurso. No total, os sem-
terra caminharam ontem 25 quilômetros. Dois carros da PM
acompanharam os manifestantes no trajeto. Parte da pista que
liga as duas cidades foi bloqueada em alguns trechos para
facilitar a caminhada.
No final da manhã de ontem, os sem-terra chegaram ao
acampamento montado pela diretoria regional do MST. O
acampamento fica a 15 quilômetros de Porto Seguro. "Nós só
vamos sair daqui amanhã (hoje). Primeiro, vamos esperar os
índios que também estarão na manifestação contra o governo
federal", disse Bogo.
Colaborou Marcos Vita, da Agência Folha
477
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Ribeirão Preto, Terça-feira, 18 de Abril de 2000
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CAMPO MINADO
Áreas em Serra Azul e Barretos recebem 150 famílias
cada em ação do movimento sem-terra
MST ocupa duas fazendas na região
do enviado especial a Serra Azul
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
invadiu ontem pela manhã duas áreas na região de Ribeirão
Preto.
Um grupo de 150 famílias invadiu uma parte da fazenda da
Usina Martinópolis, em Serra Azul (45 km de Ribeirão
Preto), e outro, com o mesmo número de famílias, invadiu a
fazenda Queixada, em Barretos (127 km de Ribeirão Preto).
Essa foi a segunda ação do movimento na região de Ribeirão
Preto e fez parte de uma ocupação simultânea, que contou
com mais de 300 invasões em todo território nacional,
segundo o MST.
A primeira invasão da série de ações do MST na região
ocorreu em dezembro do ano passado, quando 500 famílias
ocuparam a fazenda Bocaina, em Matão.
Eles permaneceram no local até o mês passado, quando
foram transferidos para uma área desapropriada da fazenda
Santa Avóia, em Barretos.
"As invasões de hoje (ontem) ocorreram em todo o país em
forma de protesto aos quatro anos de impunidade do
massacre ocorrido em Eldorado do Carajás (PA). Além
disso, a região é considerada estratégica pelo movimento",
disse Gilmar Mauro, coordenador regional do MST.
De acordo com ele, a fazenda de Serra Azul foi escolhida
478
como ponto de invasão porque os proprietários possuem
dívidas com o Banco do Brasil e com a União.
A justificativa foi a mesma utilizada pelo movimento após a
invasão da área em Matão.
"Estamos procurando ocupar essas propriedades como forma
de pressionar as autoridades a cobrarem esses valores ou
desapropriar as terras em troca da dívida", disse Mauro.
Os líderes do movimento estão levantando o atual valor das
dívidas da Usina Martinópolis com o governo federal.
"Fomos informados de que o valor está próximo de R$ 1
bilhão", disse Mauro à Folha.
A previsão da coordenação do movimento é que até a
próxima semana, a fazenda está sendo ocupada por 500
famílias.
Os diretores da usina não comentaram a invasão, mas devem
recorrer à Justiça para tirar os invasores do MST.
Crise da cana
O acampamento em Serra Azul é formado por trabalhadores
de nove cidades da região (Jaboticabal, Rincão, Gavião
Peixoto, Araraquara, Franca, Cajuru, Serrana, Cravinhos e
Ribeirão Preto) e de São Paulo.
De acordo com a coordenação do MST, a maioria dos
invasores é desempregado que atuava no corte de cana.
O trabalhador rural Valdemir da Silva Martins, 37, de
Rincão, afirmou que se juntou ao MST após seis meses de
desemprego.
"Com a cana só temos trabalho durante cinco meses no ano,
por isso, decidi lutar por um pedacinho de terra", diz
Martins.
Outro membro do MST, que preferiu se identificar apenas
como Altair, afirmou que participa do movimento há sete
meses. Antes ele trabalhava como fiscal de apontamento de
uma usina.
"A modernização dos maquinários acabou com o emprego."
(ANGELO SASTRE)
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São Paulo, terça-feira, 18 de abril de 2000
479
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Secretaria no Pará é depredada
da Agência Folha, em Belém
Cerca de 80 sem-terra invadiram e depredaram ontem a sede
da Secretaria da Segurança Pública do Pará (Segup) durante
a manifestação contra a "impunidade" dos responsáveis pelo
massacre de Eldorado do Carajás, que ontem completou
quatro anos.
Os integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) jogaram paus e pedras em dez carros
estacionados na secretaria. Dois veículos eram do órgão, um
da Polícia Militar e o restante de servidores públicos.
O carro da PM foi derrubado. Segundo a assessoria de
imprensa da Segup, o cabo da PM Edivaldo Santos, que
trabalhava na portaria, teve um braço quebrado. Uma equipe
da Rede Globo também foi agredida pelos sem-terra.
O conflito ocorreu depois que o grupo se separou da
manifestação -com 3.000 pessoas, segundo o MST e 500,
para a PM.
Segundo o deputado federal João Batista "Baba" (PT-PA),
que participava do protesto, os organizadores do ato não
puderam ter controle sobre todo o grupo.
Após o incidente, o grupo marchou até o Tribunal de Justiça
(TJ) do Pará. Cerca de 200 homens da PM soltaram bombas
de efeito moral para dispersar a manifestação e houve outro
quebra-quebra.
Foram presos os sem-terra Luiz José de Jesus Abreu, 37, e
Adiel Dourado Rodrigues, além do frei Francineto Alves
Pinheiro, 41. Eles foram indiciados pela Polícia Civil por
formação de quadrilha e danos ao patrimônio público.
Segundo o MST, 15 pessoas ficaram feridas com hematomas
de cassetete. Três teriam sido atingidas por balas de
borracha. O capitão da PM Rui Santos nega que tenham sido
usadas armas durante a repressão à manifestação.
O TJ deve definir amanhã o juiz que irá presidir o
julgamento dos 150 policiais militares envolvidos no
massacre. Até agora, 16 juízes desistiram do caso.
480
O juiz Ronaldo Valle, que presidiu a sessão que absolveu os
três principais oficiais da tropa, pediu afastamento do caso
há 20 dias por achar a atitude do promotor desrespeitosa e
"não aceitar pressões internacionais que querem condenação
a qualquer preço".
Três juízes criminais de Belém-José Maria Teixeira do
Rosário, Eva do Amaral Coelho e Raimundo Holanda- se
dispuseram a presidir o caso.
O presidente do TJ, José Alberto Maia, pode indicar um dos
nomes ou submetê-los a sorteio amanhã.
Na semana passada, o tribunal anulou o julgamento que
absolveu o coronel Mário Colares Pantoja, o major José
Maria Oliveira e o capitão Raimundo Almendra Lameira.
Eles comandaram a desobstrução da rodovia PA-150, em 17
de abril de 96, quando 19 sem-terra foram mortos e mais de
60 pessoas ficaram feridas.
Texto Anterior: Questão agrária: MST anuncia 65 invasões
em 5 Estados
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São Paulo, terça-feira, 18 de abril de 2000
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QUESTÃO AGRÁRIA
Ministério do Desenvolvimento Agrário diz registrar
apenas 12 ações do movimento pelo país
MST anuncia 65 invasões em 5
Estados
da Agência Folha
e da Sucursal de Brasília
A prometida onda de invasões do MST na semana das
comemorações dos 500 anos do Descobrimento ganhou
481
impulso ontem, dia do quarto aniversário do massacre de 19
sem-terra em Eldorado do Carajás (PA). O movimento
contabilizou 65 invasões em cinco Estados -55 só em
Pernambuco.
A assessoria de imprensa do Ministério do Desenvolvimento
Agrário informou ontem que o órgão tinha o registro de
apenas 12 invasões nos cinco Estados.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
havia anunciado em março que faria 500 invasões pelo país.
O MST invadiu ainda o prédio da superintendência do Incra
em Salvador.
A data marcou ainda o retorno do dirigente José Rainha
Júnior ao comando de ações de massa. Após quase dois anos
na retaguarda e menos de duas semanas depois de ser
absolvido em um julgamento por homicídio, ele liderou a
invasão da fazenda São João, em Teodoro Sampaio (710 km
a oeste de São Paulo), no Pontal do Paranapanema.
Segundo Rainha, cerca de 800 famílias estão na área e "não
pretendem sair". A Polícia Militar diz que são 300 famílias.
A propriedade, de 714 hectares, pertence a Ricardo Pedrosa
Peretti, filiado à UDR (União Democrática Ruralista).
O clima de tensão, por enquanto, é notado na guerra verbal
entre dirigentes da UDR e do MST. Rainha avalia que pode
haver confronto. "O conflito está anunciado, não tem
conversa. Os fazendeiros estão armados."
Tânia Tenório de Faria, presidente da UDR, rebate: "Eles
pretendem fazer 500 invasões. Vamos ver se a gente
consegue fazer 500 reações. Eles vão ter problemas, com
certeza".
Outras quatro áreas foram invadidas dentro do Estado -
municípios de Galha, Jacareí, Barretos e Serra Azul.
O Ministério do Desenvolvimento Agrário registrou apenas
duas invasões em São Paulo, em Teodoro Sampaio e Jacareí.
A direção do MST em Pernambuco anunciou ter invadido
pelo menos 55 propriedades em todas as regiões do Estado.
O maior número de invasões teria ocorrido na Zona da Mata
sul. O MST afirma que 23 propriedades foram tomadas por
sem-terra na região, grande produtora de cana-de-açúcar.
Das 55 áreas, três teriam sido desocupadas ainda ontem, duas
delas por seguranças das propriedades e uma por policiais.
Em Barreiros, a Polícia Civil despejou os invasores do
engenho Una. Segundo o policial Valderez Leite, o sem-terra
Almir Xavier foi detido durante a invasão por desacato à
autoridade. Ele foi interrogado e liberado.
O superintendente interino do Incra no Estado, Roosevelt
Gonçalves, classificou as invasões realizadas ontem de "atos
482
políticos".
"O MST sabe que não temos como vistoriar tudo", disse.
"Não há pessoal nem dinheiro para o que eles querem",
afirmou.
A sede do Incra em Salvador, na Bahia, foi invadida por 100
sem-terra pela manhã.
Armados com facões, eles reivindicavam uma audiência com
o ministro da Raul Jungmann (Desenvolvimento Agrário)
para discutir a liberação de recursos para a reforma agrária
na Bahia e a nomeação de um novo superintendente para o
Incra do Estado.
Os sem-terra passaram toda a tarde em audiência com o
superintendente-adjunto do Incra, Luiz Gugé, e continuavam
no órgão até a conclusão desta edição.
Em Minas Gerais, 150 famílias invadiram a fazenda Horto
da Liberdade, em Mateus Leme, região metropolitana de
Belo Horizonte.
Duas fazendas foram invadidas por cerca de 145 famílias de
sem-terra no norte do Espírito Santo.
Na Paraíba, o Comando da Polícia Militar informou que 80
famílias invadiram, nas tardes de anteontem e ontem, as
fazendas Curtume e Jacuri.
Para o ministério, só ocorreram invasões no Espírito Santo (2
fazendas), em Minas Gerais (uma fazenda), em Pernambuco
(7 fazendas) e em Mato Grosso do Sul.
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São Paulo, quinta-feira, 20 de abril de 2000
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ELDORADO DO CARAJÁS
TJ-PA define juiz de caso, e MST
protesta
483
da Agência Folha, em Belém
Os desembargadores do Tribunal de Justiça do Pará
indicaram ontem o juiz José Maria Teixeira do Rosário para
presidir o julgamento dos 150 policiais militares envolvidos
no massacre de Eldorado do Carajás.
A nomeação desagradou ao MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra), pois o juiz determinou, há
cerca de dois meses, a reintegração de posse da fazenda
Taba, com a possibilidade do uso de força policial. A área foi
invadida cinco vezes em um ano.
Segundo Nonato Souza, coordenador estadual do MST, os
advogados do movimento que auxiliam a acusação no caso
podem deixar o caso se a nomeação for mantida.
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festas
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São Paulo, sábado, 29 de abril de 2000
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MST pede ação do governo
da Agência Folha
O dirigente do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) José Rainha Júnior disse ontem que só os
governos de São Paulo e federal podem impedir um conflito
com fazendeiros no Pontal do Paranapanema.
Ele disse buscar audiências com o ministro Raul Jungmann
(Desenvolvimento Agrário) e com o governador Mário
Covas (PSDB), para tratar do assunto.
"Queria que o governador Mário Covas se pronunciasse, não
esperasse acontecer. Não queria que ele deixasse o governo
ser manchado, como foi manchado no Pará", disse,
referindo-se ao massacre de 19 sem-terra em Eldorado do
484
Carajás, em 1996.
Rainha disse que o movimento vai continuar as invasões se
os governos não intervierem. "A responsabilidade está com o
governador Mário Covas e com o ministro Jungmann."
Para Rainha, o MST não vai se intimidar com ameaças de
fazendeiros armados, mas vai respeitar medidas da Justiça,
como reintegração de posse de área invadida. "O que não
vamos respeitar é a arrogância da UDR."
O MST, segundo Rainha, estuda medidas jurídicas para
contestar a reintegração de posse concedida pela Justiça para
a fazenda São João, invadida no dia 17 por 500 famílias de
sem-terra em Teodoro Sampaio (710 km a oeste de SP).
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São Paulo, domingo, 30 de abril de 2000
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+ 3 questões Sobre reforma agrária
1. Em que situação está a reforma agrária no Brasil?
2. O que a diferencia do desenvolvimento agrário?
3. Qual o sentido da campanha das "500 invasões"?
Egídio Bruneto responde
1.
Reforma agrária significa essencialmente um processo amplo
de democratização da propriedade da terra. Esse processo foi
executado em diversos países do mundo pelo Estado, em
nome da sociedade, e teve como objetivo principal criar as
bases para uma sociedade mais democrática, gerar um
processo de desenvolvimento da produção industrial e
agrícola voltada para as necessidades do país (mercado
interno), gerar trabalho e renda para milhões de pessoas que
viviam no meio rural e combater a pobreza e as
485
desigualdades sociais. No Brasil, o que estamos assistindo há
500 anos, dentro dos vários modelos econômicos adotados
pelas elites, é uma política contrária a esse processo.
Continua havendo concentração da propriedade da terra,
aumentam os níveis de desigualdade social e a pobreza no
meio rural. Há em curso apenas uma política de
assentamentos rurais que não consegue alterar a
concentração da propriedade e da renda. E, mesmo assim, só
são feitos pelo governo quando os pobres do campo se
organizam e lutam.
2.
O principal a ser compreendido é que está sendo implantado
no Brasil, a partir da década de 90, um novo modelo
econômico que subordina totalmente a economia brasileira
aos interesses do capital internacional financeiro. E, nesse
modelo, a classe dominante brasileira abriu mão de construir
um modelo nacional independente, em que a prioridade da
economia seja organizar a produção para resolver os
problemas básicos da população. Passados esses dez anos,
todos os indicadores econômicos e sociais pioraram.
Aumentou o desemprego, a miséria, o êxodo rural. Somente
os bancos e as multinacionais aumentaram seus lucros. A
prioridade desse modelo para a agricultura continua sendo o
estímulo às exportações agrícolas e o controle de nosso
mercado por grandes empresas multinacionais. O governo
FHC é um mero capataz desses interesses.
3.
O modelo econômico e agrícola que o governo FHC vem
implantando no país aumentou em muito a pobreza no meio
rural, o desemprego e a concentração da propriedade da
terra. O resultado é o crescimento fantástico do número de
pobres. Na época do modelo de industrialização, os pobres
do campo ainda tinham como alternativa o emprego na
indústria e a migração nas fronteiras agrícolas, com os
programas de colonização. Agora, essas saídas não existem.
Então aumenta a adesão ao MST e a disposição desses
pobres de se organizar e lutar para sobreviver. O aumento
das ocupações de terras é apenas resultado da política
econômica. O governo FHC precisa reconhecer que nossos
problemas sociais só se resolverão com mudança no modelo
econômico e não apenas com propaganda, tentando enganar
a opinião pública. Um dia a história e o povo vão cobrar.
Raul Jungmann responde
486
1.
Em 618 mil famílias assentadas, sendo 400 mil no atual
governo e mais de 14 milhões de hectares já reformados, de
95 a 99. Até 2002 serão cerca de 850 mil famílias assentadas,
ou seja, 4,3 milhões brasileiros, antes excluídos, estarão no
programa nacional de reforma agrária. Em paralelo,
diminuem os conflitos e a impunidade no campo. Em 88,
mais de 180 mortes foram relacionadas à questão da terra.
Em 96, ano do massacre de Eldorado do Carajás, foram 54,
e, em 98, foram registradas 26 mortes. Quanto ao poder
remanescente do latifúndio, foram cancelados registros de
mais de 93 milhões de hectares, área superior à América
Central. Em contrapartida, está em audiência um Sistema
Público de Terras que pela primeira vez articula os registros
cartorários, institutos estaduais de terra, Incra e Receita
Federal por meio de um cadastro único que irá requerer a
falência definitiva da fraude e da grilagem. Como
complemento à reforma agrária clássica, foi criado o Banco a
Terra, na verdade um crédito fundiário para quem não tem
nenhuma ou pouca terra, a ser financiado em até 20 anos,
com 3 de carência e juros de até 2% ao ano. O Pronaf Planta
Brasil, de um montante de R$ 3,4 bilhões para crédito, infra-
estrutura, pesquisa e orientação tecnológica dos agricultores,
destina 550 milhões para os assentados. Estes, desde que
mantenham seus filhos na escola dos 7 aos 14 anos, terão
abatimento de 50% nos juros. Aliás, o programa de educação
da reforma agrária, Pronera, alcançou no ano passado 70 mil
alunos atendidos por mais de 20 entidades de ensino
superior. O Lumiar, de assistência técnica, programa
descentralizado e cujos profissionais são diretamente
contratados pelos assentados, atende mais de 120 mil
famílias. Portanto vamos indo bem, em que pese o muito que
há por fazer.
2.
Reforma agrária é a intervenção na estrutura fundiária de um
país ou região com o objetivo de promover a sua
redistribuição para os que não têm ou têm pouca terra,
juntamente com o acesso ao crédito, infra-estrutura e
assistência técnica de modo a tornar o sem-terra ou
minifundista de ontem no agricultor familiar de amanhã.
Desenvolvimento agrário é mais amplo, por envolver a
agricultura familiar, além da reforma agrária e do crédito
fundiário, bem como, na concepção do programa Avança
Brasil, todos os demais aspectos -educação, saúde, meio
487
ambiente- que atingem o rural brasileiro.
3.
Invadir terras para ocupar manchetes. O MST é midiático-
dependente. E o espaço, a atenção, é função do conflito, real
ou virtual. As invasões têm caído nos últimos 12 meses. Por
que este espasmo agora, senão para voltar ao noticiário?
Em suma, é o que nos meus tempos de militância
chamávamos de niilismo pequeno-burguês.
QUEM SÃO
Egídio Bruneto
É membro da coordenação nacional e atual responsável pelo
setor de Relações Internacionais do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra).
Raul Jungmann
É ministro do Desenvolvimento Agrário (antigo Ministério
da Reforma Agrária).
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Tela/Pele
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São Paulo, quinta-feira, 04 de maio de 2000
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PARANÁ
Secretário de Segurança diz que policiais não atiraram
no sem-terra; Lerner determina investigação
MST culpa PM por morte; Estado
nega
CARLOS ALBERTO DE SOUZA
488
WAGNER OLIVEIRA
da Agência Folha, em Curitiba
A autoria do disparo que matou o agricultor Antônio Tavares
Pereira, 38, supostamente em conflito com a PM na BR-277,
provocou troca de acusações ontem entre o governo do
Paraná e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
De manhã, após tomar conhecimento da morte de Pereira, no
Hospital do Trabalhador, o secretário de Segurança Pública
do Paraná, José Tavares de Miranda, afirmou que Pereira não
podia estar no conflito, pois deu entrada no hospital às 9h09
-antes, portanto, do conflito na rodovia (10h45,
aproximadamente).
O MST reagiu à tarde, dizendo que Pereira foi baleado às 8h,
em confronto anterior ao registrado pela imprensa. Luaureci
Leal, 29, uma testemunha apresentada pelo movimento, disse
que, nesse horário, quatro carros da PM interceptaram dois
ônibus que vinham de Candói (350 km de Curitiba), onde
morava Pereira.
Segundo Leal, os policiais obrigaram os dois ônibus a
retornar. Quando voltavam ao interior do Estado, os dois
veículos cruzaram com parte do comboio de sem-terra que se
dirigia a Curitiba.
Os sem-terra estacionaram os dois ônibus no acostamento e
um grupo de 30 pessoas desceu, quando teria sido rechaçado
por quatro PMs. Nesse instante, por volta das 8h de
anteontem, os policiais teriam disparado com revólveres
calibre 38 a quatro metros dos manifestantes.
Sérgio Adelmo Turco, 29, a outra testemunha, disse que
ajudou a colocar a vítima em um Chevette, que ficou retido
no congestionamento devido ao tumulto. Dali, segundo ele,
Pereira foi levado com vida para o Hospital do Trabalhador,
em Curitiba. As duas testemunhas afirmaram ter condições
de reconhecer os policiais.
A Secretaria de Segurança Pública e o Comando da PM
negam que esse conflito tenha existido. "O único confronto
ocorreu por volta das 10h, e a Polícia Militar utilizou apenas
balas de borracha", disse o secretário Tavares de Miranda. O
major José Paulo Betis, assessor de comunicação da PM,
afirmou que o comando da corporação não tinha
conhecimento do confronto anterior.
O atestado de óbito divulgado ontem pelo Instituto Médico
Legal (IML) de Curitiba afirma que Pereira foi morto devido
a uma hemorragia profunda provocada por um projétil de
chumbo.
489
Segundo o delegado Fause Salmem, titular da Delegacia de
Homicídio, o artefato foi encontrado amassado, indicando
que a bala ricocheteou antes de penetrar o corpo da vítima. O
corpo do agricultor será enterrado hoje em Candói, com a
presença de deputados federais e integrantes da direção
estadual e nacional do MST.
Essa foi a primeira morte de sem-terra em choques com PMs
desde 26 de março de 1998, quando dois líderes dos MST
foram assassinados a tiros em Parauapebas (PA). Onze
policiais foram acusados pelas mortes. Os dois sem-terra
eram sobreviventes do massacre de Eldorado do Carajás
(PA), em 17 de abril de 1996, em que 19 sem-terra foram
mortos.
Mais acusações
O local de onde o sem-terra foi ferido também gerou
controvérsia. No início da manhã, a assessoria da Secretaria
de Segurança Pública informava que a vítima havia sido
localizada na BR-116, distante 30 quilômetros de onde
ocorreu o confronto na BR-277.
Pereira foi socorrido na companhia de Aparecido Peixoto
Alves, que deixou sua identificação, seu endereço e telefone
na ficha do Hospital do Trabalhador. Ele é militante do MST
e morador do mesmo assentamento Ilhéus, em Candói.
Ontem, o MST estava tentando localizar Alves.
"Não ficou claro até agora e estamos investigando as razões
que levaram o acompanhante de Pereira a simplesmente
deixá-lo no hospital sem prestar nenhuma informação", disse
o secretário.
Em seguida, Tavares de Miranda informou que foi
apreendido um revólver calibre 38, que teria dado três tiros.
A apreensão é objeto de inquérito de delegacia de Campo
Largo (PR). O sem-terra que portava a arma, Ismair
Trindade, está preso e, segundo Tavares Miranda, responde
na Justiça a dois processo por homicídio.
De seu lado, o MST afirmou que ainda existe um sem-terra
desaparecido, que teria sido visto por testemunhas sendo
baleado na cabeça. Os sem-terra, contudo, não souberam
informar quais seriam essas testemunhas. O secretário
afirmou que a denúncia será investigada, mas que, por ora,
não há nada de concreto.
Nota oficial
O governo do Paraná divulgou no início da noite de ontem
nota oficial sobre o confronto entre policiais militares e
integrantes do MST. Segundo o texto da nota, a orientação
490
dada pelo governador Jaime Lerner (PFL-PR) era a de se
fazer respeitar a ordem e evitar a transformação de uma ação
política dos sem terra num conflito de proporções
indesejáveis.
O conflito, "não-desejado" pelo governo, segundo o
documento, "ocorreu pela determinação do MST em buscar
um enfrentamento fazendo uso de armas, radicalização essa
que resultou em feridos de ambos os lados". O governador
determinou à Ouvidoria-Geral de Polícia "rigorosa e urgente
apuração" dos fatos.
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com foice
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São Paulo, terça-feira, 09 de maio de 2000
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MARILENE FELINTO
Governo não mata caminhoneiro, só
mata sem-terra
Quer conseguir diminuição de impostos? Quer deixar de
pagar pedágio, IPTU, CPMF etc.? É só virar caminhoneiro.
Ser caminhoneiro é bom: só precisa ficar parado para obter
direitos junto ao covarde governo de Fernando Henrique
Cardoso, que enquadra sem-
terras desarmados na defunta Lei
de Segurança Nacional. Por que não enquadra todos os
políticos corruptos que infestam os governos de norte a sul?
Quem é mais perigoso, quem é a verdadeira ameaça ao
arremedo de "democracia" brasileira, um sem-terra portando
paus e pedras ou um vereador corrupto, um deputado safado,
um senador homicida, um governador criminoso? No
governo FHC só tem hipócritas.
O negócio é comprar um caminhão. Caminhoneiro é
poderoso, é autônomo, não tem patrão -não tem que ouvir
humilhação de patrão e abaixar a cabeça-, só precisa ficar
parado, cruzar os braços e encostar seu Scania na beira da
491
estrada. Basta isso para derrubar governos, paralisar o
abastecimento de feijão, gasolina e remédios no país todo.
Diante dos caminhoneiros, o governo FHC se acovarda,
abaixa a crista, apressa-se a anunciar pela TV o andamento
das "negociações", abre as pernas e os cofres públicos: os
caminhoneiros não vão mais pagar os extorsivos pedágios,
receberão vale-pedágio dos donos das transportadoras. E o
prejuízo desses dias de suspensão de pagamento -até 11 de
maio-
será pago às concessionárias das estradas com dinheiro
público (R$ 4 milhões).
O negócio é comprar um caminhão: porque a polícia não é
nem besta para sair atirando em caminhoneiro como faz com
os sem-terra -entre os quais estava, na semana passada, o
agricultor Antônio Tavares Pereira, 38, desarmado, barrado
no seu direito de ir e vir, e morto com um tiro na barriga pela
polícia do Paraná. A tropa de truculentos cassetetes e
metralhadoras, liderados pelo governador Jaime Lerner,
deixou 50 feridos entre os sem-terra só naquele dia.
Mas o que é um sem-terra morto? Nada, não é nada em
comparação com o massacre de Eldorado dos Carajás, no
Pará, em 1996, no qual 19 sem-terra foram assassinados pela
PM do governador Almir Gabriel. Parabéns, polícia do
Paraná, por ter matado apenas um, não é mesmo?!
Caminhão para todos: porque o governo Fernando Henrique
não é nem besta de pôr para negociar com caminhoneiros um
ministro da ineficiência -ou reforma agrária, que eles
chamam de "Desenvolvimento Agrário"- como Raul
Jungmann.
Jungmann não vai nunca perder o cargo. Ele só faz o que o
governo quer: nada, coisa nenhuma. No máx
imo ele vai à TV
fazer profecias nefastas: "ou então eles querem cadáveres",
disse na semana passada, referindo-se às investidas do MST
de invadir prédios públicos para pressionar o governo a
agilizar a reforma agrária.
É por isso que a secretária de Estado dos EUA, Madeleine
Albright, sai por aí se intrometendo nas coisas daqui. Ela
disse recentemente que a pobreza e a ineficácia dos governos
da América Latina no combate às desigualdades sociais e aos
altos índices de pobreza ameaçam a democracia. Dizem que
o alvo da crítica era o Brasil. O governo FHC teve que
engolir. Vai dizer o quê? Caminhão e terra para todos!
E-mail: [email protected]m.br
492
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caso Top Vida
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São Paulo, terça-feira, 09 de maio de 2000
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Polícia indicia 28 por vandalismo
JOSÉ MASCHIO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
O delegado Vicente de Paulo Costa, 27, diretor do
Departamento de Polícia Especializada de Belém, disse
ontem que já identificou e vai indiciar mais 15 envolvidos na
depredação do prédio da Secretaria Executiva da Segurança
Pública do Pará, em 17 de abril.
Com outros 13 indiciados anteriormente, a polícia processa
no mesmo inquérito 28 pessoas por dano ao patrimônio
público, vandalismo e formação de quadrilha. A ação teve a
participação de cerca de 80 pessoas, inicialmente
identificadas como membros do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra).
O delegado também pretende instaurar, ainda nesta semana,
outro inquérito para apurar responsabilidades dos invasores
pelo aborto sofrido pela funcionária pública Fátima Segura
Rodrigues, 40, dois dias após a depredação.
Fátima estava trabalhando no local durante a manifestação.
Segundo o delegado, "o aborto foi consequência dos atos de
vandal
ismo". A funcionária estava com uma gravidez de dois
meses.
Os manifestantes que depredaram o prédio protestavam
contra "quatro anos de impunidade" no massacre de
Eldorado do Carajás, quando 19 sem-terra foram mortos pela
Polícia Militar do Pará.
Dos 13 já indiciados, apenas um, Jorge Luís Rodrigues Nery,
faz parte do MST. Ele é dirigente estadual do movimento. Os
outros 12 envolvidos no inquérito são funcionários públicos
municipais e membros de outras organizações políticas de
esquerda.
Para o delegado, existem indícios "mais que fortes, com
493
fotos de jornais e imagens de TV", mostrando que os
acusados participaram do quebra-quebra no prédio.
O advogado do MST em Belém, Walmir Brelaz, disse que o
governo do Pará iniciou "uma caça às bruxas em Belém". Ele
ironizou o fato de a polícia ter "agilidade e pressa para
identificar, indiciar e punir trabalhadores, enquanto o
massacre de Eldorado do Carajás continua impune".
A depredação da secretaria ocorreu quando um grupo de 80
pessoas separou-se da manifestação principal. Segundo o
MST, havia 3.000 presentes. A PM contava 500
participantes. Depois de invadir a secretaria, o grupo foi até
o Tribunal de Justiça do Pará, onde cerca de 200 policiais
dispersaram a manifestação.
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São Paulo,bado, 20 de maio de 2000
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REFORMA AGRÁRIA
Senador Antonio Carlos Magalhães liberou R$ 12 mil a
uma cooperativa para custear protesto em 97
Governo repassou R$ 8,8 milhões ao
MST
ABNOR GONDIM
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O MST foi fortalecido nos últimos cinco anos com o repasse
de R$ 8,8 milhões em recursos públicos às duas principais
entidades do movimento, a Concrab e a Anca, e já contou
com a ajuda financeira até do presidente do Senado, Antonio
Carlos Magalhães (PFL).
Em abril de 1997, ACM autorizou a liberação de R$ 12 mil à
Anca (Associação Nacional de Cooperação Agrícola) para
494
despesas com iluminação, montagem de um palco e dois
palanques durante a marcha organizada pelo MST para
marcar o primeiro ano do massacre de 19 sem-terra em
Eldorado do Carajás (PA).
Os dados dos convênios firmados com a Anca e a Concrab
(Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do
Brasil) e da ajuda do Senado estão no Siafi (sistema
informatizado de acompanhamento de gastos públicos do
governo federal).
Os convênios envolvem cursos de formação profissional, de
alfabetização para assentados e de meio ambiente para a
coordenação do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra). Há também oficinas de músicas de protesto
contra o governo bancadas pelo Ministério da Cultura.
As entidades são a face legal do MST. O movimento não
existe juridicamente, apesar de movimentar valores não
divulgados sobre os 3% cobrados dos financiamentos
concedidos aos assentados em projetos de reforma agrária.
As cooperativas contam também com dinheiro de convênios
firmados com prefeituras e com organismos internacionais,
como a União Européia.
Anteontem, o presidente do Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária), Orlando Muniz,
determinou a abertura de investigações sobre os contratos
firmados com 1.300 profissionais para afastar os técnicos
que estejam envolvidos com a cobrança do "pedágio
financeiro".
A maioria dos convênios firmados pelo Incra com a Concrab
e a Anca é relativa à prestação de serviços de assistência
jurídica e social aos assentados do MST. Não há denúncias
de desvios de recursos dos convênios. "Se houver desvios
para financiar manifestações do MST, os responsáveis e as
entidades serão punidos", afirmou Muniz: "O governo faz
convênios com os movimentos sociais e não se vai agora
satanizá-los só porque houve denúncias de desvios
envolvendo o MST".
O jornalista Fernando César Mesquita, assessor de ACM,
disse que não foi uma doação voluntária do Senado o
pagamento das despesas do palanque montado em 97, na
Esplanada dos Ministérios, na marcha dos sem-terra.
Segundo ele, o presidente do Senado decidiu bancar as
despesas para atender apelos de parlamentares de oposição,
como o senador Eduardo Suplicy (PT-SP).
Mesquita disse que ACM decidiu pagar as despesas para
colocar o palanque do MST mais distante do Congresso. Os
líderes do movimento queriam montar o palanque na área
495
frontal ao Congresso, afirmou Mesquita. Ele disse que ACM
não admitiu a proposta em razão de tumultos e ameaças de
invasões do Congresso que haviam ocorrido em outras
manifestações.
"A Anca e a Concrab só não fazem convênio nem recebem
doações da UDR", disse Roberto Baggio, um dos 23
coordenadores nacionais do MST. Ele disse que as entidades
têm plena identificação com o movimento e são responsáveis
pelo desenvolvimento de atividades não cumpridas pelo
governo na área social.
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São Paulo, domingo, 04 de junho de 2000
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QUESTÃO AGRÁRIA
Dinheiro é arrecadado por meio de contribuições e
bazares e financia projetos do movimento
ONGs européias mandam ao MST
US$ 1 mi por ano
DE LONDRES
O comércio que mais cresce em Londres são pequenas lojas,
quase sem decoração, com roupas usadas penduradas em
cabides e cartazes colados na vitrine anunciando as ofertas.
Para os ativistas brasileiros do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra), essa é uma ótima notícia.
Foi com o dinheiro arrecadado nesses bazares que se pagou
os honorários dos advogados que tiraram da prisão cem
integrantes do movimento, em Pernambuco.
Em toda a Europa, religiosos, consumidores e, mesmo sem
saber, todos aqueles que pagam impostos estão ajudando a
bancar os sem-terra brasileiros. O MST é um dos
496
movimentos mais populares entre as organizações não-
governamentais (ONGs) européias que realizam projetos
sociais em países pobres.
Mais de dez ONGs européias financiam o MST. Um
levantamento parcial indica que o valor dos contratos chega
a quase US$ 1 milhão por ano. Em geral, o dinheiro vem de
recolhimento de contribuições em igrejas, venda de roupas
usadas ou campanhas de solidariedade social. Mas boa parte
dos recursos sai diretamente dos cofres de governos
europeus.
Em três anos, a União Européia está investindo US$ 900 mil
na criação da escola de técnicos agrícolas Florestan
Fernandes, em São Paulo. Outros US$ 900 mil serão
divididos entre a Caritas alemã, a Terre des Hommes
francesa e o próprio MST.
"Financiamos projetos de 200 ONGs no Brasil, entre elas o
MST. Mas só participamos de projetos que claramente não
tenham conotação política", diz Maria Helena Neves,
responsável por projetos da União Européia no Brasil.
Grife
Para muitas ONGs européias e norte-americanas, o MST é
uma grife das lutas sociais, assim como os zapatistas
mexicanos. O Movimento dos Sem Terra está na capa da
última revista Nacla (North-American Congress on Latin
American) dedicada a movimentos sociais. Financiar
projetos de assentamento agrícola, escolas ou advogados
para os sem-terra é uma causa amplamente reconhecida pelo
público europeu.
"O MST não é nossa prioridade, mas contribuímos com a
organização em casos nítidos de defesa de direitos humanos
e porque ajudar o movimento é um sinal de nossa
preocupação com a injustiça social", disse à Folha Marlu
Dresens, da organização católica holandesa Cordaid, que deu
US$ 210 mil, por três anos, para publicação de material
sobre o Massacre de Eldorado de Carajás e sobre o
julgamento de José Rainha.
Financiamento
As ONGs européias financiam várias atividades dos sem-
terra brasileiros, da impressão de cartilhas à compra de
maquinários para os agricultores. Dos bazares mantidos pela
Foxham, ONG britânica sem bandeira política nem religiosa,
saem US$ 50 mil por ano para pagar os advogados do MST
em Pernambuco e para formar cooperativas de trabalhadores
no Maranhão.
497
"Financiamos o MST porque o padrão de vida de quem faz
parte de um assentamento é cinco vezes melhor do que o de
quem trabalha a terra por conta própria", diz Jessica Pelham,
da Foxham.
A Trocaire, organização católica irlandesa, dá cerca de US$
30 mil por ano para o MST fazer campanha pela reforma
agrária e treinar agricultores.
Já a britânica Action Aid financia diretamente 13
assentamentos de terra em Pindaré, Mearim e Itapecuru, no
interior do Maranhão.
Polêmicas
Se os assentamentos atraem os recursos de algumas ONGs
européias, também criam dificuldades para obter ajuda de
outras instituições. Como muitas ONGs recebem dinheiro de
governos, não podem se envolver em problemas políticos de
outros países nem defender causas polêmicas.
"Não financiamos ocupações porque isso é ilegal e é
problemático para nós. Queremos financiar projetos do MST
que defendam a igualdade das mulheres ou que estejam
ligados à educação, à ecologia e à saúde", diz Claudio
Moser, da alemã Misereor.
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São Paulo, terça-feira, 01 de agosto de 2000
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Militantes concorrem em locais de
conflito
LUÍS INDRIUNAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
Integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) vão concorrer às eleições municipais em cidades
onde ocorreram conflitos e mortes de sem-terra.
Em Eldorado do Carajás e Parauapebas, no Pará, são seis
candidatos.
Já em Corumbiara, em Rondônia, os sem-terra preferiram
498
não ter um candidato próprio, mas vão apoiar o PT.
É a primeira vez que o MST lança candidatos no sul do Pará.
Em Eldorado, quatro líderes do assentamento 17 de Abril
disputam vagas na Câmara Municipal do município pelo PT
local.
Manoel Saraiva, Antonio Leite, Manoel Moura e Aparecida
são sobreviventes do massacre de Eldorado do Carajás.
Eles estavam entre os 2 mil sem-terra que entraram em
conflito com 150 policiais militares durante a desobstrução
da rodovia PA-150, no dia 17 de abril de 1996.
Na ocasião, 19 sem-terra foram mortos.
Coordenadores
O coordenador estadual do MST no Pará Eurival Martins,
que também participou do conflito, disputa uma vaga na
Câmara Municipal de Parauapebas.
Já outro coordenador, Vadeilson Carneiro, o Parazinho, que
chegou alguns meses depois do massacre na região, disputa a
vaga de vice-prefeito de Parauapebas na chapa encabeçada
pelo líder comunitário Darcy Lermam (PT).
Próximo a vila Cedere 2, em Parauapebas, foram mortos os
deres do MST Onalício Barros, conhecido como Fusquinha,
e Valentin Serra, o Doutor, em 26 de março de 1998.
Eles foram assassinados durante uma discussão com donos
de terra, enquanto desocupavam a fazenda Goiás 2.
Martins lembra que as eleições não são o principal objetivo
do MST.
"É apenas uma chance de sermos ouvidos, já que não há
trabalhadores rurais nessas câmaras".
A disputa será acirrada. Em Parauapebas, são 200 candidatos
para 13 vagas. Em Eldorado, 88 para 9 vagas.
Rondônia
Em Corumbiara (RO), o MST decidiu apoiar o professor
José Nunes (PT), que concorre à Prefeitura de Corumbiara.
Os candidatos não têm dinheiro para fazer showmícios,
outdoor e outros recursos usados pelo adversário, o prefeito
Leidson Ferreira de Souza (PMDB), que tenta a reeleição.
A campanha política segue nos cinco assentamentos
existentes, onde vivem cerca de 3.000 famílias. Em
Corumbiara, a 840 quilômetros ao sul de Porto Velho (RO),
nove sem-terra foram mortos, no dia 9 de agosto de 95,
quando 187 policiais militares invadiram a Fazenda Santa
Elina, para desalojar 600 famílias. Dois policiais também
morreram no conflito.
499
Colaborou Kátia Brasil, da Agência Folha, em Manaus
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São Paulo, terça-feira, 29 de agosto de 2000
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PONTAL
MST recua e evita confronto com a
polícia
DA AGÊNCIA FOLHA
O MST começou a retirar ontem 422 famílias acampadas em
uma estrada no Pontal do Paranapanema, oeste de São Paulo,
para evitar o despejo pela Polícia Militar e um eventual
confronto.
A operação da PM, com 435 homens, já estava montada e
começaria amanhã, último prazo para cumprir a ordem
judicial.
"Poderíamos ter optado pelo outro caminho, que era não ter
saído. Você coloca 300 policiais num acampamento para
fazer um despejo, com alguém determinado a não sair. O que
vai acontecer? Violência, mortes, prisões", disse José Rainha
Júnior, líder do MST.
Os sem-terra estão desde maio em uma estrada entre as
fazendas Santa Maria, da família do ex-governador Abreu
Sodré, e Santa Ida, em Teodoro Sampaio.
Uma liminar do juiz Atis de Oliveira Araújo determinou que
os sem-terra se afastem a uma distância de dez quilômetros.
Rainha considera a ordem "ilegal", apesar de cumpri-la. Para
ele, o juiz "quis criar um outro Eldorado do Carajás", com
sua decisão.
Procurado pela reportagem, o juiz não quis comentar as
500
declarações de Rainha.
As famílias estão se deslocando, em caminhões, para uma
área de reserva do assentamento Água Sumida, vizinho da
Santa Maria. Um oficial de Justiça deve ir à área amanhã
verificar se a ordem foi cumprida.
Texto Anterior: Massacre em Corumbiara: PM considera
pena de sem-terra pequena
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São Paulo: Maluf refaz promessa que não cumpriu
São Paulo, quinta-feira, 28 de setembro de 2000
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Badan Palhares critica laudo de
Molina sobre Eldorado do Carajás
ANA PAULA MARGARIDO
FREE-LANCE PARA A FOLHA CAMPINAS
O médico-legista da Unicamp (Universidade Estadual de
Campinas) Fortunado Badan Palhares contestou o laudo
emitido pelo foneticista Ricardo Molina de Figueiredo, de
sua mesma universidade, sobre a morte dos 19 sem-terra em
Eldorado do Carajás (PA), em 17 de abril de 1996.
Segundo Badan Palhares, a análise da fita não permite
concluir se foi a polícia quem atirou primeiro no conflito
com os integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra).
O laudo de Molina mostra que a PM atirou primeiro e, dois
segundos depois, um sem-terra atirou.
O laudo do foneticista se refere à cena enfocada pela defesa
da Polícia Militar durante o julgamento que absolveu três
policiais.
O laudo de Molina, feito a pedido do Ministério Público
paraense, contesta o parecer de Badan Palhares sobre o caso,
solicitado pela Secretaria de Segurança Pública do Pará à
Unicamp.
No parecer realizado com base em fotos dos sem-terras
mortos, Badan Palhares afirma que, dos 19 mortos, 11
apresentam ferimentos de bala, 7 foram baleados e feridos
com fações e foice e um foi morto por arma branca.
Para o médico-legista, como o conflito começou antes do
501
trecho mostrado pela Polícia Militar paraense no julgamento,
não dá para afirmar quem atirou primeiro.
Além dos 19 mortos, o massacre de Eldorado do Carajás
deixou 35 feridos, entre sem-terra e policiais militares.
"Na fita não dá para ver se os tiros ouvidos no início da
gravação foram disparados pelos policiais ou pelos sem-
terra", disse.
Badan Palhares afirmou que Molina não é um perito e
questionou o posicionamento ético dele ao fazer um novo
laudo.
"Ele (Molina) não poderia ter feito este laudo, porque não
tinha o aval da Unicamp e não é credenciado pela Sociedade
Brasileira de Criminalística", afirmou.
Porém, de acordo com o presidente da Associação Brasileira
de Criminalística, Celito Cordili, nenhum dos dois
professores da Unicamp poderia ter feito o laudo. "Eles não
são peritos oficiais e nem "ad hoc" (nomeado para o caso na
falta de um perito oficial)", afirmou Cordili.
Ricardo Molina, por sua vez, disse que em nenhum momento
do laudo fez afirmações subjetivas. "Eu não interpreto nada.
Meu laudo é descritivo. As minhas opiniões como cidadão
não estão no laudo. O que vai interessar para a Justiça é o
que está descrito no trabalho", disse o foneticista.
Com relação à autorização da reitoria, Molina disse acreditar
que não precisava de autorização, uma vez que a fita estava
na Unicamp desde 1996.
"Badan não teve acesso ao meu laudo, então, não pode
contestá-lo", afirmou Molina.
O foneticista disse que já assinou mais de 400 laudos na
universidade e que vários deles também contêm a assinatura
de Badan Palhares, que na época era chefe do extinto DML
(Departamento de Medicina Legal).
"Eu não conheço o laudo do Badan. Só posso dizer sobre o
que eu vi na fita", disse Molina.
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apelos
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agricultor para preparo do solo
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São Paulo, terça-feira, 31 de outubro de 2000
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502
QUESTÃO AGRÁRIA
Os 150 PMs envolvidos serão julgados em um único bloco
TJ anula 1º julgamento de Carajás
LUÍS INDRIUNAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
Desembargadores das Câmaras Criminais Reunidas do TJE
(Tribunal de Justiça do Estado) decidiram ontem, por 6 votos
a 1, manter a anulação da primeira sessão do julgamento do
massacre de Eldorado do Carajás (PA), quando os três
principais comandantes das tropas da Polícia Militar foram
absolvidos. Mesmo que haja recurso, o julgamento agora não
precisa mais ficar parado.
O julgamento dos 150 policiais militares envolvidos no
massacre de Eldorado do Carajás será feito em apenas um
bloco e recomeçará em fevereiro de 2001, disse ontem o juiz
José Maria Teixeira do Rosário, responsável pelo caso. "O
bloco único visa dinamizar o processo", declarou.
A decisão do juiz de julgar todos os réus num bloco único,
no entanto, já está causando polêmica com os advogados de
defesa.
"É um absurdo, porque vai cercear o nosso direito de
defesa", disse Eloísa Segtowick Sovano, que defende 33
soldados e cabos.
Demora
Para o advogado dos oficiais, Roberto Lauria, o julgamento
dessa forma pode demorar mais de 30 dias, o que "seria
impraticável". O promotor Marco Aurélio do Nascimento,
por sua vez, considera adequada a forma encontrada por
Rosário.
"Nossa tese é única para todos. Pode-se aumentar o tempo da
defesa para não haver reclamações", declarou Nascimento.
No julgamento anterior, em agosto de 1999, o então
presidente do júri, Ronaldo Valle, dividiu o processo em 27
sessões. Apenas a primeira, que durou mais de três dias, foi
realizada. Na ocasião, o Ministério Público Estadual recorreu
da decisão e pediu a anulação das outras sessões até o
julgamento dos recursos.
Recurso
Os advogados de defesa disseram que irão recorrer ao STJ
(Superior Tribunal de Justiça) e ao STF (Supremo Tribunal
Federal) contra a decisão dos desembargadores.
"Isso é um desrespeito à posição dos jurados que, ao
503
absolverem os policiais, expressaram a vontade de todo o
povo paraense", disse Lauria.
Para Rosário, os recursos da defesa não têm efeito
suspensivo e, por isso, o coronel Mário Colares Pantoja (ex-
comandante das tropas de Marabá), o major José Maria
Oliveira (ex-comandante das tropas de Parauapebas) e o
capitão Raimundo Almendra Lameira voltarão ao banco dos
réus em fevereiro.
Os oficiais e 146 PMs são acusados de envolvimento nas
mortes de 19 sem-terra, ocorridas em 17 de abril de 1996,
durante a desobstrução da rodovia PA-150, em Eldorado do
Carajás (sul do Pará).
Os desembargadores votaram pela anulação baseados nos
argumentos da relatora Raimunda Gomes do Carmo.
Ela considera que houve contradição na formulação dos
quesitos, o que teria induzido os jurados a cometerem erros
durante a votação secreta.
Para o promotor Nascimento, a decisão dos juízes já era
esperada.
"Juiz parcial"
Além da polêmica sobre o bloco único, Rosário deve
enfrentar a oposição do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra). O advogado Carlos Guedes anunciou que
irá pedir a suspeição do juiz por considerá-lo parcial.
Guedes afirmou que Rosário foi autor do pedido de uso da
Polícia Militar para a retirada de 180 famílias que invadiram
a fazenda Taba, em Belém.
"Ele fez o pedido quando a Prefeitura de Belém já havia
iniciado um processo de desapropriação de parte da área",
disse.
O juiz não comentou a decisão do MST. "Só o Tribunal de
Justiça pode decidir se sou apto a julgar."
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São Paulo, sábado, 02 de dezembro de 2000
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QUESTÃO AGRÁRIA
Contratante de seguranças é suspeito de morte de sem-
504
terra
Juíza do PR decreta prisão de
suspeito
DA AGÊNCIA FOLHA, EM LONDRINA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
A juíza Elisabeth Khater, de Loanda (noroeste do Paraná),
decretou a prisão preventiva de José Ivo Lopes Furquin, 50,
acusado de contratar seguranças para fazendeiros no noroeste
do Paraná.
Furquin, além de contratante, é considerado pela Polícia
Civil do Paraná como um dos principais suspeitos pela morte
do líder sem-terra Sebastião de Maia, 38, em 21 de
novembro último.
Maia foi morto na fazenda Água da Prata, em Querência do
Norte (noroeste do PR), com um tiro de escopeta calibre 12.
Maia e outros três sem-terra foram surpreendidos. A polícia
não trabalha mais com a hipótese de morte em confronto
durante a invasão da fazenda, como chegou a ser divulgado
pela Polícia Militar no dia do assassinato.
Conhecido no noroeste do Paraná como contratante de
seguranças para fazendeiros, Furquin é suspeito de
envolvimento também na morte do sem-terra Eduardo
Anghinone, em 29 de março de 1999. Eduardo foi morto
aparentemente ao ser confundido com o irmão, Celso, líder
do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
em Querência do Norte.
Decretada em 26 de novembro, a prisão preventiva de
Furquin, que está foragido, vinha sido mantida em sigilo, em
uma tentativa da Polícia Civil de prendê-lo.
Carajás
O MST irá contestar o parecer da Procuradoria do Pará que
indica pagamento de indenização para apenas três de 20 sem-
terra feridos durante o massacre de Eldorado do Carajás.
Segundo parecer da procuradoria, "apenas quatro apresentam
restrição para o trabalho, sendo que, destes, um encontra-se
incapacitado por motivo em nada relacionado com o que
atesta o laudo elaborado pelo IML (Instituto Médico Legal)
após o ocorrido em Eldorado do Carajás".
No dia 17 de abril de 1996, 19 sem-terra foram mortos e
mais de 60 pessoas ficaram feridas durante um confronto
entre manifestantes e policiais militares, ocorrido na rodovia
PA-150, em Eldorado do Carajás (sul do Pará).
A procuradoria indica o pagamento de um salário mínimo
505
para Rubenita Justiniano da Silva, Eliosmar Pereira da Silva
e Germano Pereira da Costa.
O MST pretende fazer uma manifestação em frente ao
Tribunal de Justiça no dia 7, quando o advogado entrará com
recurso.
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"pedágio"
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mais chances ao Planalto, mas corrige frase
São Paulo, segunda-feira, 29 de janeiro de 2001
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"Gostaria muito de ser processado"
DO ENVIADO ESPECIAL A NOVA SANTA RITA
Dois dias depois de ter participado de protesto que arrasou os
campos de soja transgênica da Monsanto no interior gaúcho,
o líder dos agricultores franceses, José Bové, disse que
"gostaria" de ser processado pela multinacional. Leia trechos
da entrevista.
Folha - O sr. sabe que provavelmente será processado por
ter participado do protesto na Monsanto?
José Bové - Eu gostaria muito de ser processado pela
Monsanto, porque isso me daria a oportunidade de voltar ao
Brasil e dizer nos tribunais como é importante lutar contra os
transgênicos.
Folha - O sr. vai participar dos protestos da organização
Via Campesina contra as empresas de biotecnologia no dia
17 de abril?
Bové - Pode contar com isso. Há três anos as entidades de
agricultores protestam em todo o mundo no dia 17 de abril,
data que lembra o massacre em Eldorado do Carajás (PA).
Neste ano, o alvo serão os transgênicos.
Folha - Não é uma contradição que o sr. na França
defenda barreiras comerciais contra exportações de
produtos agrícolas e, no Brasil, apóie entidades de
agricultores, como o MST?
Bové - Eu luto na Europa contra a política agrícola européia
506
que subvenciona as exportações de cereais, leite e carne para
o Terceiro Mundo. É uma política de dumping. Ao mesmo
tempo lutamos contra as regras da OMC (Organização
Mundial do Comércio), que impõe um mínimo de
importação de 5% para produtos agrícolas. Porque essa regra
não favorece os pequenos agricultores do Terceiro Mundo,
mas umas poucas empresas transnacionais que controlam
esse comércio.
Folha - Mas não é contraditório?
Bové -
Não. A política brasileira de exportação de soja para a
Europa a qualquer custo não traz ganhos para o país. O
comércio exterior brasileiro não pode ser feito em detrimento
de 60 milhões de pessoas do próprio Brasil que passam
fome. A prioridade deve ser a de alimentar o seu povo.
Folha - O sr. se sente um símbolo da antiglobalização?
Bové - O que faço não é simbólico, é prático. Aqui, ao lado
do MST, eu me sinto como um peixe em um campo de arroz
(forma de produzir arroz irrigado sem agrotóxico). É o meu
meio. A minha luta e a do MST é a mesma. Usamos as
mesmas táticas, temos os mesmos objetivos de conquista da
terra e da produção de alimentos saudáveis.
Folha - O sr. será candidato nas próximas eleições
francesas?
Bové - O trabalho de organizar os camponeses contra a
globalização me toma dia e noite, portanto não tenho
nenhuma pretensão de me candidatar. A não ser, é claro, se
tivesse garantia de ser eleito presidente no logo primeiro
turno. (TT)
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São Paulo, terça-feira, 06 de fevereiro de 2001
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Polícia pede prisão preventiva de
quatro líderes sem-terra no Pará
507
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
A Polícia Civil do Pará pediu à Justiça a prisão preventiva de
quatro líderes do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) que teriam provocado o quebra-quebra na
sede da Segup (Secretaria de Segurança Pública do Pará) no
dia 17 de abril do ano passado.
Outras 16 pessoas, todos integrantes de movimentos sociais
ou partidos de esquerda, também foram indiciadas por danos
ao patrimônio público, formação de quadrilha e lesões
corporais graves. O quebra-quebra começou durante uma
passeata que lembrava os quatro anos do massacre de
Eldorado do Carajás, quando 19 sem-terra foram mortos em
confronto com a PM.
Na ocasião, o frei Fancineto Alves, Ariel Dourado Rodrigues
e José de Jesus Abreu foram presos. Os três, soltos dias
depois, estão entre os indiciados.
O delegado da Dioe (Divisão de Investigações e Operações
Especiais), Aurélio Paiva, pediu a prisão dos coordenadores
do MST Jorge Neri, Vandeilson Carneiro Salazar, Cleonice
Alves dos Santos e Willian Carneiro Salazar, porque eles
estariam foragidos.
A juíza Maria de Nazaré Saavedra deve receber em 15 dias o
parecer do Ministério Público e depois toma a decisão sobre
a decretação das prisões.
O advogado do MST, Walmir Brelaz, disse que eles não
receberam intimação e que irá apresentar uma notificação à
juíza hoje dizendo que os quatro estão à disposição da
Justiça.
Brelaz criticou a forma "politiqueira" como está sendo usado
o caso. Paiva disse que as críticas não procedem. "Eles que
fizeram aquela bagunça toda."
Entre os 16 indiciados estão também os vereadores Sueli
Oliveira e Luiz Carlos Aragão, que negam envolvimento na
confusão. (LUÍS INDRIUNAS)
Texto Anterior: Questão agrária: Incra corta verba de quem
toma "pedágio"
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audiência
São Paulo, domingo, 11 de fevereiro de 2001
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508
+ livros
Ensaios do sociólogo José de Souza Martins criticam o
MST por sua postura que deslegitimiza o Estado
Reforma agrária reduzida
Marco Antonio Villa
especial para a Folha
O sociólogo José de Souza Martins, autor de vasta obra,
acaba de lançar "Reforma Agrária - O Impossível Diálogo",
uma coletânea de quatro ensaios acompanhados de uma
longa introdução que ocupa mais de um terço do livro,
desproporcional à harmonia do conjunto. Dos ensaios, o
quarto não se justifica em um livro que trata da reforma
agrária, pois é um texto voltado à discussão do que, para
Martins, permanece na crítica socialista ao capitalismo. Mas
vamos ao livro. Lembra o autor que a questão agrária "nos
divide como povo, nos separa e nos confronta no terreno da
intolerância, ou no terreno da indiferença, ou no terreno dos
oportunismos e instrumentalizações extemporâneos e
descabidos". Assim, logo de início, Martins polemiza com o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e
com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), mas sobretudo
com o primeiro, acusado de rejeitar a legitimidade do Estado,
o que termina por impossibilitar negociações com o governo
federal que poderiam resultar no aprofundamento da reforma
agrária. Segundo o autor, o MST tem uma retórica
antagonística e deslegitimadora; em seu livro, utopia dos
sem-terra é transformada em uma ideologia partidária e
reducionista, que só nega, mas não transforma a estrutura
fundiária. Continuando no terreno das críticas ao MST,
Martins considera que o movimento não compreende o
funcionamento de uma sociedade moderna e democrática
nem a sua própria existência. Pressiona o governo e, quando
este atende a demanda, logo em seguida condena-o por
atendê-los, pois o governo, supostamente, age somente sob
pressão. Martins também ataca o movimento por considerar
que a reforma agrária é decisão exclusiva do presidente da
República, sem compreender os meandros do funcionamento
do poder. Muitos dos intelectuais do MST, segundo o autor,
desconhecem a obra de Marx e só repetem chavões de
manuais, sendo produtores de "um materialismo
mambembe". Em suma, tanto o MST quanto a CPT não
"oferecem perspectivas de saída política para elas no marco
509
da lei e da ordem. Pois para isso é preciso ganhar eleições e,
não as ganhando, é preciso estar disponível para a
negociação política de questões como essa, que são questões
sociais e nacionais, suprapartidárias".
Pacto nacional
Para Martins, a reforma agrária -que só será alcançada por
um pacto nacional- é o meio de incorporar ao capitalismo os
camponeses sem terra e de democratizar o Estado brasileiro,
e não, como imagina o MST, um caminho para o socialismo.
Lembra ainda que, entre os maiores adversários da reforma
agrária, está o grande capital, que se tornou grande
proprietário de terras durante a ditadura militar graças aos
incentivos fiscais. E chega a mais uma conclusão polêmica:
"A efetiva demanda por reforma agrária é constituída pelos
60 mil sem-terra acampados nas ocupações". Segundo o
autor, os outros 4,5 milhões de famílias de sem-terra não
assumem essa identidade e "isso é o que conta
politicamente".
As teses de Martins são polêmicas e, algumas delas, de
difícil sustentação. É evidente que a demanda por terra não é
representada por somente 60 mil famílias que estão
acampadas, pois seria a mesma coisa que dizer que a
demanda dos operários só é representada por aqueles que
estão em greve. Por outro lado, a crítica aos intelectuais que
assessoram o MST e a CPT tem um tom rancoroso, dando a
entender que o sociólogo da USP não é mais ouvido pela
liderança como era nos anos 70 e 80.
Mas isso não causa estranheza, pois, ao desqualificar a ação
do MST, ao ignorar o massacre de camponeses -Eldorado do
Carajás não foi citado uma vez sequer- e ao afirmar que o
Partido dos Trabalhadores estabeleceu alianças no Congresso
com a União Democrática Ruralista, o autor acabou
assumindo o papel de um sociólogo complacente com o
poder, muito distante daquele José de Souza Martins de "O
Cativeiro da Terra" (ed. Hucitec) ou de "A Militarização da
Questão Agrária no Brasil" (ed. Vozes), livros que marcaram
época na sociologia agrária brasileira.
Deve ser lembrado também que o livro padece, por um lado,
da excessiva citação dos seus próprios trabalhos, e, de outro,
do esquecimento (proposital?) de sociólogos que não rezam
pela cartilha da sociologia uspiana (por exemplo, os
pesquisadores das universidades cariocas são ignorados).
Agora resta esperar o desenrolar dessa polêmica -
extremamente saudável para os rumos da reforma agrária,
pois, certamente, o autor receberá a devida resposta do MST
510
e da CPT- para que possamos ter um verdadeiro diálogo que
esclareça os atores políticos e, por conseguinte, estenda a
cidadania -com propriedade da terra- aos milhões de
camponeses sem terra, como defendido há mais de um
século por Joaquim Nabuco e André Rebouças.
Marco Antonio Villa é professor de história da Universidade Federal de
São Carlos e autor, entre outros, de "Vida e Morte no Sertão - História
das Secas do Nordeste nos Séculos 19 e 20" (Ed. Ática).
Reforma Agrária - O Impossível Diálogo
176 págs., R$ 21,00
de José de Souza Martins. Edusp (av. prof. Luciano Gualberto,
374,travessa J / 6º andar, São Paulo, SP. tel. 0/ xx/11/ 3818-4006).
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São Paulo, quinta-feira, 15 de fevereiro de 2001
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Sem-terra preparam manifestações
para abril
DA REPORTAGEM LOCAL
As principais mobilizações do MST estão marcadas para
abril. No dia 17, quinto aniversário do massacre de 19 sem-
terra em Eldorado do Carajás (PA), estão programadas
marchas e protestos em todo o país.
O tema principal das manifestações será os transgênicos.
Empresas de biotecnologia temem a tentativa de invasão de
propriedades e a destruição de lavouras de transgênicos.
O MST ainda não definiu quais serão as suas atividades.
Além de ações contra transgênicos, devem ser organizados
atos contra a importação de alimentos.
É provável que a Monsanto, empresa mais avançada nas
pesquisas de alimentos geneticamente modificados no Brasil,
seja um dos alvos.
No mês passado, durante a destruição da lavoura de soja da
511
multinacional no interior do Rio Grande do Sul, João Pedro
Stedile incitou ações contra a instalação de uma fábrica de
fertilizantes da Monsanto na Bahia.
Paraná
Outro possível centro das manifestações será o Paraná. Os
sem-terra responsabilizam o governador Jaime Lerner por 14
mortes de militantes desde 1995. O MST tem divulgado
vídeo acusando Lerner de patrocinar uma "política de terror"
no Estado.
O governo nega o número de mortes e diz ter assentado 24
mil famílias.
Na região metropolitana de Curitiba, estão previstas
passeatas e a inauguração de um memorial desenhado pelo
arquiteto Oscar Niemeyer pelo assassinato do sem-terra
Antonio Tavares Pereira por um policial militar, em maio do
ano passado.
Em abril também devem ocorrer novos protestos contra o
cadastramento do Incra nos Correios. O MST deverá reunir
famílias cadastradas em manifestações contra o governo
federal.
Bové
Durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre,
lideranças do MST combinaram que os protestos de abril
também ocorrerão em outros 25 países ligados à Via
Campesina, organização internacional de pequenos
agricultores. Na França, os agricultores ligados ao ativista
José Bové preparam protestos contra as multinacionais de
biotecnologia.
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São Paulo, quinta-feira, 15 de fevereiro de 2001
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Sem-terra preparam manifestações
para abril
DA REPORTAGEM LOCAL
As principais mobilizações do MST estão marcadas para
abril. No dia 17, quinto aniversário do massacre de 19 sem-
512
terra em Eldorado do Carajás (PA), estão programadas
marchas e protestos em todo o país.
O tema principal das manifestações será os transgênicos.
Empresas de biotecnologia temem a tentativa de invasão de
propriedades e a destruição de lavouras de transgênicos.
O MST ainda não definiu quais serão as suas atividades.
Além de ações contra transgênicos, devem ser organizados
atos contra a importação de alimentos.
É provável que a Monsanto, empresa mais avançada nas
pesquisas de alimentos geneticamente modificados no Brasil,
seja um dos alvos.
No mês passado, durante a destruição da lavoura de soja da
multinacional no interior do Rio Grande do Sul, João Pedro
Stedile incitou ações contra a instalação de uma fábrica de
fertilizantes da Monsanto na Bahia.
Paraná
Outro possível centro das manifestações será o Paraná. Os
sem-terra responsabilizam o governador Jaime Lerner por 14
mortes de militantes desde 1995. O MST tem divulgado
vídeo acusando Lerner de patrocinar uma "política de terror"
no Estado.
O governo nega o número de mortes e diz ter assentado 24
mil famílias.
Na região metropolitana de Curitiba, estão previstas
passeatas e a inauguração de um memorial desenhado pelo
arquiteto Oscar Niemeyer pelo assassinato do sem-terra
Antonio Tavares Pereira por um policial militar, em maio do
ano passado.
Em abril também devem ocorrer novos protestos contra o
cadastramento do Incra nos Correios. O MST deverá reunir
famílias cadastradas em manifestações contra o governo
federal.
Bové
Durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre,
lideranças do MST combinaram que os protestos de abril
também ocorrerão em outros 25 países ligados à Via
Campesina, organização internacional de pequenos
agricultores. Na França, os agricultores ligados ao ativista
José Bové preparam protestos contra as multinacionais de
biotecnologia.
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513
São Paulo, domingo, 25 de fevereiro de 2001
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+ réplica
O sociólogo José de Souza Martins contesta resenha do
historiador Marco Villa
Dilemas de interpretação
José de Souza Martins
especial para a Folha
Na edição do Mais! de 11 de fevereiro, Marco Antonio Villa
apresenta como resenha de meu livro "Reforma Agrária - O
Impossível Diálogo" (Edusp) uma crônica tendenciosa que
pede resposta. Ele desperdiçou uma boa oportunidade de dar
uma demonstração de competência teórica, perdendo-se num
emaranhado de considerações simplistas sobre o livro, o
autor e o MST, fazendo ilações descabidas e julgamentos
pessoais temerários.
As dificuldades de leitura de Villa são compreensíveis. Ele
se sentiu alcançado pela crítica que no livro faço à
interpretação maniqueísta e fundamentalista dos fatos
relativos à reforma agrária, o que fica evidente no método de
sua crônica: para ele, o mundo do conhecimento sobre essa
sociedade está pobremente dividido entre os que optam pelo
MST e os que optam pelo governo. Ele recorta
arbitrariamente os temas, seleciona o que lhe interessa, junta
o que não está junto e monta um discurso ideológico sobre
aquilo que lhe convém dizer. Villa não entendeu que meu
livro não é um livro sobre reforma agrária. É um livro, no
campo da sociologia do conhecimento, que trata do
impossível diálogo sobre a reforma agrária. É uma proposta
de compreensão sociológica da incompreensão. É uma
análise, portanto, do modo de conhecer a questão agrária por
parte de seus diferentes protagonistas.
Villa leu o livro ansioso por encontrar nele a contestação da
legitimidade da ação do MST e da CPT (Comissão Pastoral
da Terra). Como não a encontrou, tratou de produzi-la
recortando e suprimindo aspectos importantes do livro,
suprimindo até mesmo a sua tese fundamental. O que está
em discussão no livro é a situação e o destino dos
trabalhadores rurais e sua contradição mais aguda no
514
contexto da militância e da ação política: o campesinato,
especialmente os acampados e os assentados dos programas
de reforma agrária, dirigidos ou não pelo MST, age em
defesa de valores do conservadorismo clássico: terra,
trabalho, família, religião e comunidade. É o que constitui o
cerne de sua utopia e justifica sua luta pela terra de trabalho.
A decorrente crítica ao MST e à CPT é justamente esta:
como conciliar esses valores da tradição conservadora com a
ideologia e a retórica das agências de mediação, baseadas nas
concepções leninistas do papel revolucionário da classe
operária, que indevidamente atribuem ao campesinato?
Justamente, por isso, um tema essencial do livro é o
desencontro entre a luta pela terra de trabalho (a utopia), que
é a luta dos trabalhadores, e a luta por uma
reforma agrária (e
a ideologia em que ela se apóia), que é a luta das agências de
mediação. Portanto, se há um desencontro entre essas
agências e o governo, no que à reforma agrária se refere, é
um desencontro sobre a forma da reforma e não quanto a
estar ou não o governo fazendo reforma agrária ou se
omitindo quanto à necessidade e à urgência dessa reforma.
Esse desencontro esconde outro: o desencontro entre o
projeto revolucionário dos militantes das agências de
mediação política da reforma e o projeto conservador
implícito na efetiva luta e na esperança utópica dos
trabalhadores rurais nela envolvidos.
Longe de polemizar com o MST e com a CPT (à qual dedico
um capítulo), meu livro é uma proposta de compreensão
sociológica da importância histórica que essas duas agências
de mediação têm na história contemporânea do Brasil.
Sobretudo na afirmação da identidade e do lugar histórico
dos trabalhadores rurais e pobres da terra diante de um
modelo de capitalismo e de um sistema de dominação que se
nutrem de sua miséria e de sua humilhação. As lutas sociais
que têm como eixo hoje o MST e a CPT (e também a
Contag, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na
Agricultura) representam um ganho histórico e o
levantamento de uma poderosa barreira ética a um modelo de
reprodução ampliada do capital que desconhece limites
morais e a precedência do homem e da sociedade na
produção e no destino da riqueza socialmente produzida. No
redutivismo da retórica supostamente revolucionária esse
ganho se perde no desconhecimento da própria ação.
Aplauso gratuito
Recuso-me ao aplauso gratuito, oportunista e demagógico ao
MST e à CPT, que preconiza o professor de São Carlos.
515
Aliás, com amigos cúmplices o MST e a CPT não precisam
de inimigos. O que as agências de mediação precisam com
urgência é aprofundar o conhecimento crítico sobre sua
própria ação, único modo de efetivamente prestarem aos
pobres da terra o serviço generoso a que se propõem. Villa,
numa manifestação de atrevimento e desrespeito, diz que
procuro desqualificar o MST e que ignoro o massacre de
camponeses, em particular o de Eldorado de Carajás. Villa
não tem o menor direito de fazer uma insinuação maldosa e
irresponsável como essa. Em primeiro lugar porque o
massacre nada tem a ver com os temas do livro. A tragédia
das mortes camponesas, e não só a de Eldorado de Carajás,
que parece ser a única que ele conhece, dos assassinatos
impunes, da facilidade com que se dispõe da vida de pessoas
simples e inocentes, pais de família, vítimas já de uma
pobreza injusta e insultante, não pode ser objeto de um ato
de arrogância política como o seu. Perdi muitos amigos e
conhecidos nos conflitos fundiários do último quarto de
século para tolerar um atrevimento desses, uma leviandade
dessas. Estou entre os que há muito têm denunciado
sistematicamente e procurado compreender o sentido dessa
tragédia de todo o povo brasileiro e não admito que Villa
ignore esse fato.
Domínio do território Na tentativa de atingir-me, Villa diz
que sou um sociólogo complacente com o poder,
simplesmente porque em minhas análises assinalo o
indispensável papel do Estado na recuperação do domínio do
território, perdido com a Lei de Terras, que é base para
concretização da função social da propriedade e da reforma
agrária que está sendo feita. Ele, funcionário público federal,
é complacente com o quê? Infelizmente, ainda há
acadêmicos que confundem a necessária militância do
cidadão com a transformação do conhecimento crítico em
conhecimento conivente e panfletário.
José de Souza Martins é professor titular de sociologia na USP, fellow de
Trinity Hall e professor titular da cátedra Simón Bolivar da Universidade
de Cambridge (Inglaterra, 1993/94), autor de, entre outros, "Fronteira - A
Degradação do Outro nos Confins do Humano" e "A Sociabilidade do
Homem Simples" (Hucitec).
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516
São Paulo, quinta-feira, 15 de março de 2001
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ELDORADO DO CARAJÁS
Advogado dos sem-terra diz que escolhida havia se
declarado suspeita em outro processo
Quinto juiz assume caso sobre
massacre
LUÍS INDRIUNAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
A Justiça do Pará mudou pela quinta vez o juiz responsável
pelo caso dos 150 policiais militares envolvidos no massacre
de Eldorado do Carajás. A juíza Eva do Amaral Coelho, que
já estava trabalhando como auxiliar no caso, foi a escolhida
pelo Tribunal de Justiça do Estado.
Segundo o coordenador de Divulgação e Legislação,
desembargador Otávio Marcelino Maciel, o último juiz, José
Maria Teixeira do Rosário, não poderia mais julgar porque
foi transferido para a 9ª Vara Cível.
Rosário vinha também recebendo críticas de movimentos
agrários por suposta demora na tramitação do processo.
A Agência Folha apurou que a decisão também teria
acontecido para evitar novos protestos no próximo dia 17 de
abril, quando completará cinco anos que 19 sem-terra foram
mortos durante a desobstrução da rodovia PA-150, em
Eldorado do Carajás (sul do Pará).
Maciel, que já foi responsável pelo caso e saiu depois de
nomeado desembargador, viaja hoje para Brasília onde se
reunirá com diretores da Secretaria Nacional de Direitos
Humanos do Ministério da Justiça para discutir o andamento
do caso. O TJ também tem que apresentar um relatório sobre
o caso à Corte Interamericana de Justiça da OEA
(Organização dos Estados Americanos).
O caso está parado, mas a mudança do juiz não prejudica seu
andamento. Segundo Maciel, a idéia é acelerar o processo.
Há dois recursos parados. Eles são dos advogados dos três
principais comandantes da tropa, o coronel Mário Pantoja, o
major José Maria de Oliveira e o capitão Raimundo Lameira.
Em agosto de 1999, eles foram absolvidos no primeiro
517
julgamento do caso -os outros 147 policiais seriam julgados
em bloco, depois. O tribunal decidiu anular a sentença, o que
levou os advogados dos acusados a pedir a manutenção da
absolvição.
Para o advogado do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra), Carlos Guedes, a nova juíza é suspeita
para julgar o caso já que ela havia desistido de casos
polêmicos envolvendo questões de terra.
Eva anunciou-se suspeita para julgar o fazendeiro Jerônimo
Alves Amorim em abril de 2000, 48 horas antes do início do
julgamento. Amorim foi julgado dois meses depois e
condenado a 19 anos como mandante da morte do
sindicalista Expedito Ribeiro.
A Agência Folha tentou entrar em contato com Rosário e
Eva, sem sucesso, até a conclusão desta edição.
Cancelamentos
Com a presença do ministro do Desenvolvimento Agrário,
Raul Jungmann, o Tribunal de Justiça do Amazonas
cancelou ontem, em Manaus, títulos de imóveis rurais
referentes a 5,4 milhões de hectares, situadas nos municípios
de Lábrea e Pauini.
As áreas eram da União e foram, segundo o TJ, griladas.
Desse total, 577.986 hectares pertencem ao comerciante Falb
Saraiva de Farias, apontado como sendo um megagrileiro.
"Ele (Farias) e os outros vão parar na cadeia, não tenham
dúvida", disse Jungmann.
Colaborou a Agência Folha, em Manaus
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QUESTÃO AGRÁRIA
Nova juíza foi designada para acompanhar o caso da morte de 19 sem-terra em
Eldorado do Carajás
Julgamento de massacre será em maio
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Os acusados no massacre de Eldorado do Carajás (PA), em que 19 integrantes do MST
518
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) foram assassinados, serão levados a
julgamento em maio.
Segundo o desembargador Otávio Marcelino Maciel, do Tribunal de Justiça do Pará, a
juíza Eva do Amaral Coelho, que já trabalhava como juíza-auxiliar no caso, foi designada
para dar continuidade aos julgamentos.
Maciel participou ontem de uma reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa
Humana, no Ministério da Justiça. Um dos assuntos tratados na reunião foi justamente a
lentidão do processo de Eldorado do Carajás.
A chacina aconteceu em abril de 1997 na cidade de Eldorado, sul do Pará. A Polícia
Militar do Estado foi chamada para tirar os sem-terra da estrada que eles ocupavam. O
resultado da operação foi a morte de 19 agricultores.
O inquérito policial indiciou 154 militares, mas, até agora, ninguém foi condenado. O
primeiro julgamento foi marcado para agosto de 1999, e três oficiais foram considerados
inocentes. No entanto, o julgamento foi anulado por suspeitas de irregularidades na
composição do júri.
Desistências
Desde então, o processo não foi adiante. Dois juízes foram designados, mas desistiram do
caso antes de marcar o novo julgamento.
O desembargador Maciel afirma que agora o processo andará. "Estou conversando com a
juíza e vamos estabelecer os grupos para os novos julgamentos", disse.
Como são muitos réus, a Justiça irá separá-los por grupos, de acordo com o grau de
envolvimento na chacina. Não há prazo, porém, para que os oficiais inocentados no
primeiro julgamento voltem a ser julgados.
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São Paulo, domingo, 25 de março de 2001
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PANORÂMICA
QUESTÃO AGRÁRIA
Para Jungmann, não haverá onda de invasões, devido ao "desgaste" do
MST
O ministro Raul Jungmann (Desenvolvimento Agrário) disse ontem não
acreditar que o MST reedite em abril, conforme promete, a onda de invasões
de terras promovidas no ano passado, porque, segundo ele, o movimento
vive um ""processo de isolamento".
Para o ministro, o MST sofreu um ""desgaste muito grande", ao promover
519
"ações violentas" no ano passado, e perdeu ""um conjunto de aliados". Cita o
PT, parte da Igreja Católica e a Contag, entre outros, como desertores. ""O
MST não consegue hoje fazer mais nenhuma programação conjunta com
ninguém", disse.
Na sua avaliação, a medida provisória que impede por dois anos a vistoria de
terra invadida é outro instrumento que inibe as invasões. Segundo ele, em
2000 houve 226 invasões, praticamente a metade do ano anterior, que
registrou 454 casos.
Jungmann reconhece que abril é historicamente o mês de mobilização sem-
terra, devido principalmente à data do massacre de Eldorado do Carajás. Por
isso espera ""atos políticos", que podem ser traduzidos em invasões de
prédios públicos.
Para combater a ofensiva, disse ter acertado com o ministro José Gregori
(Justiça) medidas rápidas de despejo, reintegração de posse e interrupção de
negociação. ""E quem invade prédio público fica fora do programa de
reforma agrária." (DA AGÊNCIA FOLHA, EM SÃO JOSÉ DO RIO PRETO)
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índios ao cumprir ordem judicial
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PERNAMBUCO
Movimento tem nova estratégia
contra governo
FÁBIO GUIBU
DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE
Lavradores ligados ao MST inauguraram no fim-de-semana
uma nova estratégia para pressionar o governo. Em vez de
invadir, os agricultores estão acampando nos limites das
propriedades, gerando tensão entre os fazendeiros de áreas
vizinhas.
Em Pernambuco, nove propriedades rurais no sertão, agreste
e Zona da Mata foram cercadas entre a manhã de domingo e
a tarde de ontem. A meta, segundo o movimento, é sitiar
pelo menos mais 20 fazendas até o fim da semana,
adiantando o calendário da ""jornada de lutas" do MST, que
sempre começa no aniversário do massacre de Eldorado do
Carajás, em 17 de abril.
520
Segundo o líder do MST no Estado, Jaime Amorim, o
objetivo da ação é pressionar o governo a revogar a medida
provisória 2.109, que impede a realização de vistorias para
fins de reforma agrária nas áreas invadidas.
"Podemos ocupar, sem dúvida nenhuma, qualquer fazenda
próxima aos acampamentos", declarou Amorim. "O governo
é que não pode querer fazer reforma agrária no Brasil por
medida provisória", disse.
De acordo com Amorim, 30 mil trabalhadores rurais
acampados em Pernambuco podem ser mobilizados a
qualquer instante para aumentar a pressão sobre os
fazendeiros. "Vamos mostrar que as idéias do governo só
servem para gerar violência", declarou.
O superintendente do Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária) em Recife, José Geraldo
Eugênio de França, confirmou a estratégia do MST e disse
ter conhecimento dos acampamentos montados nos arredores
das fazendas.
"O movimento quer acabar com a medida provisória porque
ela deu um freio pesado nas invasões", afirmou. "O MST
usava as invasões para dar visibilidade às suas
reivindicações", disse.
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federal
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São Paulo, quarta-feira, 28 de março de 2001
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Sem-terra intensificam invasões
DA AGÊNCIA FOLHA
A onda de invasões do MST pelo país recrudesceu ontem.
Houve duas áreas invadidas no Rio Grande do Sul e em
Alagoas e Pernambuco o número de ações subiu de 4 para 8
e de 9 para 11, respectivamente.
Já havia terras invadidas em Mato Grosso e Goiás, além da
ação junto à fazenda do embaixador Paulo Tarso Flecha de
Lima em Minas.
As ações não são coordenadas, segundo apurou a Agência
Folha, mas obedecem a uma lógica. Desde 1997, em todos os
anos há uma onda de ações no mês que antecede o 17 de
521
abril, data do massacre de 19 sem-terra em Eldorado do
Carajás (PA).
Os Estados estão liberados para montar diferentes estratégias
de pressão, dependendo da realidade local. Os
denominadores comuns são os pedidos por mais
assentamentos, mais créditos e uma novidade: os sem-terra
querem o fim da medida provisória que impede a
desapropriação de terras invadidas -estratégia do governo
federal que engessou a ação do MST no ano passado.
Oficialmente, a direção do MST não confirma uma data de
início para a jornada. Valdir Misnerovic, dirigente nacional
que atua em Goiás, diz que o movimento age pela
necessidade e não por datas. No início desta semana, ele
comandou uma invasão de 250 famílias à fazenda Palmeiras,
em Guapó.
No ano passado, o MST organizou duas grandes jornadas de
protesto, em maio e setembro, com invasões coordenadas de
prédios públicos e fazendas. No Rio Grande do Sul, a ação
ocorreu ontem em duas cidades.
No interior de Alagoas, o MST invadiu quatro fazendas
ontem, elevando para oito o número de propriedades
atingidas desde segunda-feira no Estado.
A situação é tensa em duas propriedades. Em Atalaia, as 80
famílias invasoras afirmam que foram recebidas a tiros na
fazenda São Macário. Há suspeita de presença de pistoleiros
em Pão de Açúcar, município do sertão. Lá, 250 famílias de
sem-terra invadiram anteontem a fazenda Pacu.
Tanto o Incra quanto a PM informaram no final da tarde de
ontem que nenhum incidente havia sido registrado.
Em Pernambuco, subiu de 9 para 11 o número de
propriedades cercadas por integrantes do MST entre a noite
de anteontem e o final da tarde de ontem. Foram sitiados
engenhos em Catende e Palmares. Segundo o líder local
Jaime Amorim, pelo menos 20 propriedades deverão ser
sitiadas até o próximo sábado.
A estratégia dos sem-terra é fazer com que o governo
negocie para amenizar a pressão sobre os agricultores, que
estão tensos com a possibilidade de invasões.
Texto Anterior: Portaria do Incra reforça punições a
invasores
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Sul
São Paulo, quinta-feira, 29 de março de 2001
522
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QUESTÃO AGRÁRIA
Para presidente do Incra, militantes só serão recebidos se
acampamento em Minas for desmontado
Governo aceita receber líderes do
MST
PAULO PEIXOTO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM URUANA DE MINAS
O governo federal aceitou receber hoje uma comissão de
líderes dos sem-terra que, desde domingo, estão acampados
na divisa entre Uruana de Minas e Arinos (a 693 km de Belo
Horizonte).
Há divergências sobre o acerto do encontro, que está
marcado para as 18h. Segundo a assessoria do Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), o
presidente do órgão, Sebastião Azevedo, só recebe os
militantes do MST caso eles desmontem o acampamento
onde estão.
Já a comissão que negocia a situação em nome do governo
mineiro não anunciou aos sem-terra nenhuma condição para
que o encontro aconteça. Mais: o MST diz que permanecerá
acampado.
Os sem-terra tentaram invadir a fazenda do embaixador
Paulo Tarso Flecha de Lima, mas foram barrados pela PM de
Minas a 25 km da sede da propriedade. Houve confronto e
16 trabalhadores rurais ficaram feridos.
O anúncio foi feito às 19h30 de ontem em uma assembléia
no acampamento do MST, da qual participaram o
representante do governo mineiro na negociação com o
governo federal, Marcelo Resende (Instituto de Terras), e o
prefeito de Uruana de Minas, Sebastião Oliveira (PSDB).
Pela manhã, os líderes do MST haviam anunciado que não
vão mais ceder às pressões de Jungmann. "Dessa vez, vamos
continuar mobilizados até obtermos um resultado concreto.
Não dá para ficarmos mais a reboque do Jungmann", disse
Gilmar de Oliveira, um dos líderes do MST.
Anteontem, o ministério baixou portaria regulamentando a
medida provisória que proíbe por dois anos as avaliações e
vistorias em terras invadidas, exclui do programa de reforma
523
agrária os assentados que participarem de invasões e
suspende todos os processos em tramitação durante as
invasões.
Em Brasília, os sem-terra vão se reunir, às 12h, com o
presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves (PSDB).
"Queremos o atendimento da pauta na íntegra", disse Jorge
Xavier de Almeida, outra liderança. São três os pontos
considerados básicos por ele: ampliação do crédito para
investimento de R$ 7.500 para R$ 17,6 mil, verba de custeio
agrícola de R$ 3.500 e demarcação dos lotes nas 14 áreas do
noroeste mineiro já desapropriadas.
Estão no acampamento cerca de 550 pessoas, segundo o
MST. Eles estão acampados à margem do rio São Miguel.
Do outro lado, está a PM. Uma ponte divide os dois grupos,
que estão ocupando áreas privadas, mas que se tornou lugar
de lazer para 3.039 uruanenses -nos fins-de-semana,
moradores se banham no rio.
Os cerca de 30 PMs que haviam se instalado dentro da sede
da fazenda do embaixador para protegê-la da invasão já
deixaram a propriedade rural.
O juiz João Ecyr Mota Ferreira, da comarca de Unaí,
concedeu liminar a um interdito proibitório impetrado pelo
embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, por meio dos seus
advogados. Trata-se de uma medida preventiva, que impõe
uma multa de R$ 300 mil ao MST caso haja invasão.
Alagoas O MST voltou a promover invasões de fazendas
ontem em Alagoas. Foram invadidas mais três propriedades,
elevando para 11 o número de áreas atacadas desde a
segunda-feira.
No total, o MST mobilizou quase 2.000 famílias para invadir
as 11 fazendas. Os coordenadores estaduais do movimento
afirmam que novas propriedades serão invadidas hoje.
O superintendente do Incra no Estado, José Quixabeira Neto,
afirmou que nenhuma das áreas invadidas será vistoriada
pelo instituto -ficando, sob as regras da medida provisória do
governo sobre o assunto, fora de eventuais processos de
desapropriação pelos próximos dois anos.
Segundo a Polícia Militar, o clima é tranquilo nas fazendas
invadidas, que estão localizadas na Zona da Mata, Agreste e
Sertão, as três macrorregiões do Estado.
Em Pernambuco, manteve-
se inalterada a situação no interior
do Estado, onde também há 11 áreas de ação do MST. Lá, a
estratégia consiste em cercar áreas passíveis de invasão, para
estimular as autoridades a negociar e fugir dos mandados
judiciais.
Em todos os Estados, as invasões fazem partes do calendário
524
de ações do MST, que culminam em 17 de abril, aniversário
do massacre de Eldorado do Carajás (PA), ocorrido em 1996.
Colaborou a Sucursal de Brasília
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argentino
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São Paulo, sábado, 31 de março de 2001
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Sem-terra preparam "dia de lutas"
ELIANE SILVA
DA AGÊNCIA FOLHA EM RIBEIRÃO PRETO
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
está preparando seu ""dia de lutas" para o próximo dia 17,
quando o massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás
(PA) completa cinco anos.
O plano é promover vigílias, marchas e atos de protesto nas
23 capitais dos Estados em que o movimento está
organizado.
O 17 de abril, uma terça-feira, deve marcar o ápice da
jornada iniciada este mês com invasões de fazendas em
Alagoas, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, cerco a
propriedades em Pernambuco e vigília perto da fazenda do
embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima em Minas Gerais.
Em maio do ano passado, a jornada de protesto do MST
resultou em invasões de prédios públicos nas capitais, de
fazendas no interior, duas mortes de sem-terra e o
enquadramento de líderes do movimento na Lei de
Segurança Nacional -fato revisto depois pelo governo.
Itelvina Masioli, dirigente nacional que atua no Mato
Grosso, diz que todos os Estados estão convocados para
realizar mobilizações crescentes a partir deste mês a fim de
exercer pressão para que o governo mude sua política
agrária. Cada Estado define o tipo de protesto que vai
realizar.
No Pará, além de Belém, haverá manifestações em Marabá,
cidade próxima a Eldorado. ""Vamos passar um bom tempo
na cidade. A tendência aqui é pipocar muitas ocupações de
525
terras e prédios públicos para denunciar os cinco anos de
impunidade e essa política agrária nefasta do governo", diz
Nonato de Souza, da direção estadual do movimento.
No Mato Grosso, onde o MST invadiu duas fazendas e
acampou na sede do Incra no último dia 19, duas marchas
vão sair de diferentes pontos do Estado no dia 7 para chegar
à capital, Cuiabá, no dia 17. No Paraná, além de protestos em
Curitiba, os sem-terra fazem um ato público na fazenda de
Rio Bonito do Iguaçu, invadida por 3.000 famílias de sem-
terra há cinco anos. Atualmente, o local abriga o maior
assentamento do país.
Ponto comum
O ponto comum nos Estados, além das reivindicações de
reforma agrária e o combate aos alimentos transgênicos, é a
articulação para atrair os trabalhadores urbanos para as
manifestações.
Daí a escolha das capitais como alvo e a ampliação política
da pauta que, neste ano, inclui luta pela criação da CPI da
corrupção e protestos contra a participação brasileira na Alca
(Área de Livre Comércio das Américas).
Texto Anterior: Governo e MST não têm acordo após
reunião
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é suspeito de matar índio
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São Paulo, quarta-feira, 04 de abril de 2001
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7.000 famílias invadiram 25 áreas em 8 Estados
nos últimos 15 dias
ELIANE SILVA
DA AGÊNCIA FOLHA EM RIBEIRÃO PRETO
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) comandou mais
uma invasão em Minas Gerais na madrugada de ontem, enquanto as atenções
da Polícia Militar e do governo estavam voltadas para o conflito na fazenda
Renascença. Foi a 25ª ação do MST nos últimos 15 dias.
O alvo escolhido por cerca de 130 famílias foi a fazenda Brena, na cidade de
Pequi (a 120 km de Belo Horizonte). A área de 900 hectares pertence a
526
Roberto Lambertucci. Não houve confronto.
No sábado, outras 250 famílias de sem-terra entraram na fazenda Três
Corações, no município de Novo Oriente de Minas, região sudeste do
Estado. Essa ocupação, no entanto, teve caráter diferente. Segundo a PM,
uma parte da propriedade foi alugada pelo proprietário, Homiro Ramos
Paiva, aos militantes do MST.
No domingo, foi a vez de o MST do Pará iniciar sua campanha de invasões.
Cerca de 400 famílias invadiram a fazenda Ideal, que fica entre os
municípios de São Domingos do Araguaia e São João, no sul do Estado.
O dono da propriedade é o ex-deputado federal Olávio Rocha, do PSDB.
Segundo Carlos Guedes, advogado do MST, a fazenda de 2.000 hectares
vinha sendo usada para treinamentos do Exército. Rocha entrou com um
pedido de reintegração de posse.
Ainda no Pará, a Polícia Civil prendeu anteontem 29 sem-terra que
invadiram a fazenda Alvorada, em Curionópolis. Eles são independentes de
movimentos e estariam armados ilegalmente.
No total, cerca de 7.000 famílias estão envolvidas nas 25 invasões realizadas
em oito Estados desde 19 de março. Além de Minas e Pará, o MST invadiu
fazendas em Alagoas (11), Bahia (4), Ceará (1), Goiás (2), Mato Grosso (2)
e Rio Grande do Sul (2). Em Pernambuco, terra do líder Jaime Amorim, a
opção desta vez foi cercar as terras em vez de entrar nelas. Lá,
aproximadamente 2.600 famílias se mantêm acampadas nas fronteiras de 14
engenhos.
Novas invasões de terras devem ocorrer em todo o país até o dia 17, quando
o massacre de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA) completa cinco
anos.
"A ocupação da fazenda Ideal com certeza não será a única no Pará", disse
ontem Nonato de Souza, da direção estadual do MST. No dia 17, o
movimento planeja realizar marchas e atos de protestos nas 23 capitais dos
Estados em que está organizado.
Colaborou LUÍS INDRIUNAS, da Agência Folha, em Belém
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Juíza sorteia jurados de Carajás no
dia 16
LUÍS INDRIUNAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
527
A juíza Eva do Amaral Coelho marcou para a próxima
segunda-feira, 16 de abril, o sorteio dos jurados que irão
participar do novo julgamento dos 150 policiais militares
envolvidos no massacre de Eldorado do Carajás (Pará).
O sorteio acontecerá na véspera do dia em que o massacre
completa cinco anos. O MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) programa uma manifestação com cerca de
3.000 sem-terra na próxima terça-feira.
Segundo o advogado do MST, Carlos Guedes, o sorteio não
garante que o julgamento acontecerá rapidamente. "Já é
tradição no Tribunal de Justiça do Pará os juízes
apresentarem alguma coisa para sociedade e para a mídia
antes do dia 17", afirmou.
Em 17 de abril de 1996, 19 sem-terra foram m
ortos e mais de
60 pessoas ficaram feridas durante a desobstrução feita por
duas tropas da Polícia Militar da rodovia PA-150, em
Eldorado do Carajás.
Segundo o coordenador de comunicação do tribunal,
desembargador Otávio Marcelino Maciel, é possível que o
julgamento aconteça ainda em maio. A dúvida, no entanto, é
saber se os líderes das tropas, que foram absolvidos em
agosto de 1999, vão entrar nesse grupo.
A sentença foi anulada pelos desembargadores em 2000, mas
os advogados do coronel Mário Colares Pantoja, do major
José Maria de Oliveira e do capitão Raimundo Almendra
Lameira entraram com recursos no STF (Supremo Tribunal
Federal) e no STJ (Superior Tribunal de Justiça).
Segundo Maciel, os recursos não têm efeito suspensivo e
eles poderão voltar para o banco dos réus ainda em maio.
O advogado dos militares, Jânio Siqueira, já anunciou, no
entanto, que entrará com um recurso suspensivo, dependendo
da decisão em Brasília.
Maciel disse ainda que o número de jurados que serão
escolhidos vai depender ainda de uma definição da juíza
sobre a quantidade de seções.
Eles serão escolhidos a partir de uma lista de 500
funcionários públicos.
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Pernambuco
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São Paulo, quinta-feira, 12 de abril de 2001
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528
QUESTÃO AGRÁRIA
Protestos devem aumentar no dia 17, aniversário de
Carajás
Ação do MST fecha comércio no NE
DA AGÊNCIA FOLHA
Duas marchas de sem-terra ligados ao MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) estão alterando a rotina de
cidades no Nordeste.
O comércio fechou nas duas cidades pernambucanas por
onde os militantes já passaram, apesar da vigilância de 186
policiais militares armados. Os sem-terra pretendem chegar a
Recife.
Em Alagoas, os 2.000 sem-terra em marcha prometem
"encrenca" ao chegar a Maceió, caso o Incra (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária) não dê
respostas concretas às reivindicações. As caminhadas
integram a jornada de lutas do MST iniciada em março. O
ápice dos protestos está previsto para a próxima terça-feira,
dia 17 de abril, quando se completam cinco anos da morte de
19 sem-terra no massacre de Eldorado do Carajás (PA).
O MST planeja realizar atos nos 23 Estados em que está
organizado. Os alvos principais são as capitais. Os sem-terra
pernambucanos estão caminhando em direção a Recife desde
anteontem, quando deixaram a usina Aliança, invadida no
domingo e depredada por eles. Ontem, realizaram um ato
público em Nazaré da Mata, sem incidentes. Eles
descansariam no ginásio de esportes da cidade e, hoje,
partiriam em direção a Tracunhaém.
"Temos disposição para a encrenca. Não deixaremos Maceió
enquanto o Incra não se manifestar sobre as áreas em litígio
no Estado", afirmou o coordenador da CPT (Comissão
Pastoral da Terra) em Alagoas, Carlos Lima, que marcha
junto com o MST no Estado. Na segunda-feira, 850
trabalhadores alagoanos fecharam a BR-101, principal
ligação rodoviária do Nordeste, durante a manhã. A pista só
foi liberada após o grupo ter saqueado um caminhão com
linguiça e mortadela.
"Não vamos negociar com pessoas que estão cometendo atos
bárbaros, pois não é assim que se faz a reforma agrária",
afirmou o superintendente do Incra em Alagoas, José
Quixabeira Neto.
529
Além de Pernambuco e Alagoas, os sem-terra realizam
marchas nos Estados do Mato Grosso e da Bahia. No Mato
Grosso, cerca de 400 sem-terra saíram de Rondonópolis e
Tangará da Serra em direção a Cuiabá. Os militantes devem
se reunir aos cerca de 300 que estão acampados há 20 dias
em frente ao prédio do Incra na capital. Na Bahia, a previsão
do MST é reunir cerca de 6.000 manifestantes em Salvador
de 17 a 20 deste mês.
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minérios
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invasões
São Paulo, domingo, 15 de abril de 2001
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Data de julgamento é contestada
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
Os advogados envolvidos no julgamento dos 150 policiais
militares do massacre de Eldorado do Carajás não acreditam
que o julgamento aconteça em maio, conforme tem
anunciado o TJ (Tribunal de Justiça) do Pará.
Para Roberto Lauria, que defende os líderes das tropas, seus
clientes não irão voltar tão cedo ao banco dos réus porque ele
irá pedir efeito suspensivo no recurso impetrado no STF
(Supremo Tribunal Federal).
O recurso é contra a decisão de anular o resultado do
primeiro julgamento, ocorrido em agosto de 99, que
absolveu o coronel Mário Colares Pantoja, o major José
Maria Oliveira e o capitão Raimundo Almendra Lameira.
O advogado do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra), Carlos Guedes, vê o sorteio dos jurados do caso,
marcado para amanhã, como apenas uma forma de satisfazer
a opinião pública. "Já é tradição eles inventarem algo às
véspera do aniversário do massacre."
"Tudo é possível"
O advogado dos sargentos e tenentes, Luiz Abdoral Lopes,
disse que não acredita mais em previsões. "No caso Eldorado
do Carajás, tudo é possível."
Os advogados dos militares reclamam que a demora no
530
julgamento impede seus clientes de receberem promoções. O
capitão Lameira, por exemplo, fez um curso de
aperfeiçoamento em São Paulo para se tornar major mas,
como está na lista de indiciados, não conseguiu a efetivação.
(LI)
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São Paulo, domingo, 15 de abril de 2001
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QUESTÃO AGRÁRIA
Seis mulheres de mortos no massacre no Pará ingressam
no MST e querem punição para PMs envolvidos
Viúvas de Eldorado encampam
invasões
Patrícia Santos/Folha Imagem
A sobrevivente do
massacre de
Eldorado do
Carajás Maria
Abadia visita
túmulo de sem-
terra em cemitério
de Curionópolis
(PA)
LUÍS INDRIUNAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM ELDORADO DO CARAJÁS
As viúvas do massacre de Eldorado do Carajás tomaram o
lugar dos maridos nas invasões e acampamentos do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no Pará.
Além disso, elas estão na linha de frente da marcha de 3.000
pessoas que deve percorrer a capital paraense, Belém, na
531
próxima terça-feira, dia 17, quando completam cinco anos do
massacre.
Os sem-terra vão fazer atos em todo o país, principalmente
nas capitais. Eles protestam contra o que chamam de "cinco
anos de impunidade". Os policiais militares que participaram
do confronto ainda não foram julgados. O júri está previsto
para maio (ler texto nesta página).
De acordo com a avaliação da Polícia Federal, as
manifestações de terça-feira serão bem mais tranquilas do
que nos anos anteriores. Não são previstas invasões de
prédios públicos. A PF mapeou planos para invasões de sete
áreas no Pontal do Paranapanema e pelo menos 20 áreas
selecionadas para invasão no Pará. Mas não aposta em
conflitos maiores.
No assentamento 17 de Abril, onde pelo menos um integran
te
de cada uma das 660 famílias é testemunha do massacre,
vivem atualmente seis viúvas de vítimas do confronto.
No dia 17 de abril de 1996, 19 sem-terra foram mortos e mais
de 60 pessoas ficaram feridas durante a desobstrução da
rodovia PA-150 por uma tropa de mais de 150 soldados da
Polícia Militar.
Ativistas
Entre os mortos estava o marido de Maria Alice da Silva
Machado, Joaquim Pereira Veras. Ela não estava no local no
dia do massacre, mas passou a participar das atividades do
MST. "A luta que era dele passou a ser minha", disse a
assentada de 36 anos, que perdeu a conta de quantas vezes já
esteve acampada próximo a fazendas e prédios públicos.
Raimunda Conceição de Almeida, 57, considera importante
lutar principalmente pela condenação dos PMs envolvidos.
Viúva de Leonardo Batista de Almeida, que morreu aos 46
anos com um tiro de fuzil na cabeça, Raimunda está com a
saúde debilitada, mas pretende participar pelo menos da
missa pelos cinco anos do massacre. "Vou rezar por Justiça."
Júlia Pereira da Silva, 62, procura defender seus direitos.
Viúva de Francisco Divino da Silva, que morreu aos 51 anos,
Júlia nunca recebeu indenização pela morte do marido. As
outras viúvas têm direito a dois salários mínimos mensais do
governo paraense.
Francisco pode ser considerado a 20ª vítima fatal do
massacre de Eldorado do Carajás. Atingido por uma bala na
cabeça, ele morreu nove meses depois.
A determinação também é forte em outro grupo de
sobreviventes do massacre: os feridos. Segundo o MST e o
Ministério Público Estadual, 69 sem-terra foram atingidos
532
por balas e cassetetes. Alguns, como Maria Abadia Barbosa,
62, sentem até hoje as sequelas. Com duas balas na coxa
esquerda, Maria Abadia reclama de inchaço e dor nos nervos.
Ela e outras 68 pessoas buscam na Justiça o pagamento de
indenização pelo Estado e a continuação do tratamento
médico. A juíza Marta Inês Jadão, responsável pelo caso,
reconheceu o direito de indenização a apenas 12 feridos.
Os assentados do 17 de Abril não deixam de sentir medo.
Segundo Domingos dos Reis, muitas pessoas desistiram de
viver lá depois do massacre, entre elas, parentes dos mortos.
Mesmo entre as viúvas que participam do movimento, o
medo persiste. É o caso de Maria Alice, que sempre deixa
seus filhos Josivaldo, 9, e Jackson, 14, em casa quando sai
para os acampamentos. "A luta é só minha."
Mas no assentamento de Eldorado também não faltam os
dissidentes. Desde o ano passado, a Aspctra (Associação de
Produção e Comercialização dos Trabalhadores Rurais do
Assentamento 17 de Abril), que tem cerca de 500 famílias
associadas, divide espaço com a Aproab (Associação dos
Pequenos Produtores do Assentamento 17 de Abril), que tem
110 famílias associadas.
O presidente da Aproab é Júlio César Barbosa, filho de Maria
Abadia. Ele disse que decidiu abrir a
associação por discordar
dos métodos do MST. "Pra tudo tem reunião." Ele afirmou
que prefere lutar por créditos individuais para cada associado.
"Tem coisa que tá enferrujando aí porque não está sendo
usada."
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cinco anos depois de massacre
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São Paulo, domingo, 15 de abril de 2001
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QUESTÃO AGRÁRIA
Após invasão de prédios públicos, movimento enfrenta
desgaste de imagem e críticas de aliados
MST vive estado de penúria cinco
anos depois de massacre
533
MALU GASPAR
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O aniversário do massacre de 19 sem-terra em Eldorado do
Carajás (PA) será diferente desta vez: o MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) vive penúria
financeira, desgaste de imagem e está distanciado de seus
tradicionais aliados no movimento social. Há quatro anos, o
dia 17 de abril serve a manifestações de força do MST.
"O movimento vive um impasse que ele mesmo criou",
resume o sociólogo Zander Navarro, que já participou de
invasões na década de 80 e hoje dirige a pós-graduação em
desenvolvimento agrário da UFRGS (Universidade Federal
do Rio Grande do Sul). Para ele, o momento é o pior para o
MST desde a década de 90, quando despontou como raro
movimento social em atividade.
O maior problema dos sem-terra é a falta de dinheiro. Pela
primeira vez na década, as entidades ligadas ao MST
pararam de receber o dinheiro de convênios com o governo
federal. Por meio desses convênios, destinados à capacitação
profissional ou à saúde nos assentamentos, por exemplo, o
governo calcula que já chegou a repassar ao MST de R$ 10
milhões a R$ 15 milhões por ano.
Por determinação do presidente Fernando Henrique Cardoso,
estão cortados desde o ano passado convênios dos
ministérios com entidades ligadas ao movimento. A
justificativa é a de que não podem receber dinheiro público
entidades que invadem prédios públicos ou terras cultivadas.
Os já existentes foram mantidos. Cooperativas dos
assentamentos que são alvos de investigação pelo Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária)
também perderam repasses.
"O governo está numa ofensiva contra nós", afirma o
dirigente nacional do MST Jaime Amorim. Segundo ele, o
movimento sobrevive de "doações e da ajuda dos amigos" e
continua tendo a mesma capacidade de mobilização.
A cúpula do movimento já previa dificuldades. No início do
ano, seus dirigentes se reuniram com o presidente do PT,
José Dirceu, e previram um endurecimento do governo. A
alternativa seria intensificar negociações com os Estados e as
ações locais. "O governo federal tem de negociar e não ficar
tentando criminalizar o MST", afirmou Dirceu.
"O governo negocia todos os dias, mas não pode tolerar as
invasões", diz o ministro Raul Jungmann (Desenvolvimento
Agrário). As invasões de prédios públicos e os saques, que o
534
MST começou a fazer a partir de 97, criaram um impasse
político para o movimento. Concebidas como estratégia para
pressionar o governo, as ações indispuseram a opinião
pública com os sem-terra e iniciaram o afastamento de
antigos aliados, como a CUT e a Contag (Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Agricultura).
O distanciamento começou após a marcha a Brasília em abril
de 97. "Eles começaram a planejar atividades em separado e
até mesmo antes da gente, nos mesmos locais. Também
discordamos da invasão e depredação de prédios públicos",
diz Manoel dos Santos, presidente da Contag, um dos raros a
fazer críticas públicas ao MST. O maior motivo do racha é a
ocupação pelo MST de 36 áreas já invadidas pela Contag.
"Temos estratégias diferentes de luta, mas nos respeitamos.
Não vou fazer nenhuma declaração desabonadora ao MST",
afirma João Felício, presidente da CUT.
Reservadamente, a cúpula do PT critica o MST pelas ações
violentas, apontadas como um risco para a imagem do
partido nas eleições de 2002.
A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) parou
de intermediar as negociações entre o governo e o
movimento. Mas o presidente da CNBB, d. Jayme Chemello,
disse recentemente que a igreja aceita a invasão de terra se
ela for uma estratégia adotada eventualmente.
O governo reagiu à radicalização do MST. Além do corte
dos convênios, uma medida provisória proibiu que terras
invadidas fossem avaliadas para reforma agrária por dois
anos.Com uma nova invasão, esse prazo dobra.
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São Paulo, segunda-feira, 16 de abril de 2001
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QUESTÃO AGRÁRIA
Marchas dos sem-terra devem chegar a 23 capitais até
amanhã; MLST invade propriedade em Franca
MST vai invadir capitais a partir de
hoje
535
ELIANE SILVA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM RIBEIRÃO PRETO
Milhares de sem-terra devem invadir as capitais de 23
Estados a partir de hoje em protestos organizados pelo MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) contra a
política agrária do governo federal. Estão previstas marchas,
vigílias e concentrações.
A invasão de prédios públicos não está descartada. "Cada
Estado vai construir o modelo de luta conforme a sua
realidade e necessidade", diz Roberto Baggio, da direção
nacional do movimento.
A "jornada de lutas" do MST tem como pano de fundo a data
de 17 de abril (amanhã), que marca os cinco anos do
massacre de Eldorado do Carajás (PA). Na ocasião, 19 sem-
terra morreram em confronto com a Polícia Militar. Até
agora, ninguém foi condenado pelo episódio.
Neste final de semana, os militantes promoveram invasões
em fazendas no Pará e em São Paulo. Na semana passada,
eles invadiram e depredaram um engenho em Pernambuco e
bloquearam uma rodovia em Alagoas.
"A tendência é pipocar muitas ocupações para denunciar os
cinco anos de impunidade de Eldorado do Carajás e essa
política do governo que só privilegia os ricos do campo", diz
Nonato de Souza, da coordenação estadual do MST no Pará.
"O caldo certamente vai engrossar esta semana", diz Itelvina
Masioli, da direção nacional.
Entre hoje e amanhã devem estar chegando às capitais
marchas de sem-terra que partiram do interior do
Pernambuco, Mato Grosso, Alagoas e Bahia.
Na capital paulista, o protesto do MST será conduzido por
cerca de mil camponesas ligadas à Articulação Nacional das
Mulheres Trabalhadoras Rurais. Elas devem ficar acampadas
na cidade dos dias 17 a 19. Na pauta de reivindicações, além
de mais verbas para assentados e mais terras para reforma
agrária, estão as lutas contra os transgênicos e a Alca.
Franca
Um grupo de cerca de 700 pessoas de 250 famílias ligadas ao
MLST (Movimento de Libertação dos Sem-
Terra) invadiu na
madrugada de anteontem a fazenda Santana do Guaraciaba,
em Franca. Foi a primeira invasão organizada pelo
movimento no Estado.
Os invasores, que começaram a chegar ao local à 1h, estão
convocando todos os interessados da região a se dirigirem ao
536
local.
"Já temos umas 200 famílias e queremos chegar a 400",
afirmou Vilmar da Silva, um dos coordenadores da invasão.
A PM confirmou ontem a presença de 250 famílias. Silva
disse ainda que a fazenda é improdutiva e que eles não vão
sair do local. "Só tem 70 cabeças de gado aqui e o resto está
abandonado há mais de dois anos. Se o proprietário quiser
negociar com o Incra, tudo bem. Caso contrário, não vamos
desistir."
O dono da área, Milton Jacinto Guimarães, disse que vai
pedir hoje a reintegração de posse da área. Ele disse que a
fazenda é produtiva e que não há chance de negociação com
os invasores.
Jacareí
O advogado da Fazenda Santana do Rio Abaixo, invadida na
última sexta-feira por 180 sem-terra, Jairo dos Santos Rocha,
vai entrar com o pedido de reintegração de posse hoje pela
manhã.
A fazenda, de 840 alqueires, situada em Jacareí (SP), foi
invadida pelas famílias, que montaram um acampamento na
propriedade. A invasão foi coordenada pelo MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
Colaboraram a Folha Ribeirão e a Folha Vale
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São Paulo, terça-
feira, 17 de abril de 2001
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TENDÊNCIAS/DEBATES
A Oziel e aos meninos do Brasil
LUIZ EDUARDO GREENHALGH
Oziel Alves Pereira não chegou a ser menino um de rua. Não
sofreu torturas dentro das Febems. Enfrentando problemas
familiares, vagou durante um tempo pelo bairro da Paz, lá no
537
sul do Pará, até conhecer, aos 17 anos, o movimento que iria
lhe dar a ideologia necessária, como dizia Cazuza, para
viver. E viveu Oziel mais dois anos de sua curta vida, ceifada
aos 19, entre os 19 trabalhadores sem-terra assassinados em
17 de abril de 1996, no massacre de Eldorado do Carajás
(PA).
Naqueles dois anos, tornou-se um dos mais queridos e
conhecidos militantes do MST. Como dizem os
companheiros que conviveram com ele, Oziel, detentor
apenas da quarta série do primeiro grau (como a grande
maioria dos jovens em nosso país), despontava como o mais
presente nos cursos de formação.
Sua maior virtude: a solidariedade, a vontade de contribuir
com os trabalhadores. Sua principal reivindicação: terra e
palavra. Seu maior sonho: estudar.
Essas qualidades, porém, eram mais do que suficientes para
despertar a ira daqueles que o assassinaram da forma mais
bárbara, há cinco anos.
Seus algozes o obrigaram a render-
se e, de joelhos, a gritar as
palavras de ordem do MST. Por que tamanha ira? Cinco
meses antes, em dezembro de 1995, Oziel e outros militantes
do MST lideraram uma manifestação de 5.000 pessoas em
Curionópolis, no conhecido Trinta (km 30 da rodovia PA-
150). Além de sua determinação na luta dos trabalhadores e
da influência que exercia no acampamento Macaxeira, Oziel
era considerado uma pessoa solidária. Magro, alto, tinha
características indígenas e mantinha os cabelos um pouco
mais longos do que os jovens de sua geração.
714 trabalhadores rurais foram
mortos no Pará desde 1980; só 4
réus foram condenados pelos crimes
-só um está preso
Homenageamos esse lutador e todos os outros 18 mortos de
Eldorado, em nome também dos meninos que enfrentam, na
vida urbana, as atrocidades da tortura e as prisões
decorrentes da falta de perspectivas de vida, de escola, de
emprego e de futuro. Oziel via futuro para a sua geração e
para as outras por vir. É importante que histórias como a dele
e a de outros brasileiros tornem-se conhecidas, porque ele
não morreu na solidão, morreu pela multidão de cidadãos
que lutam pela dignidade do povo brasileiro, à margem do
mercado, da propriedade e da solidariedade.
538
Um relatório recente da ONU apontou o Brasil como um dos
países em que a tortura é praticada de maneira sistemática e
disseminada. Diz o relatório: "A existência de uma lei que
tipifica o crime de tortura é um aspecto positivo. Mas essa lei
não é adotada pela maioria dos juízes e promotores".
Resultados do Censo 2000 mostram que o Brasil, no quesito
distribuição de renda, apresenta dados piores do que os de
Botsuana.
Oziel, torturado antes do tiro fatal, e seus companheiros
lutavam contra a injustiça social em todos os níveis,
simbolicamente fixada na luta pela terra.
De 1980 aos primeiros meses de 2001, 714 trabalhadores
rurais foram mortos no Pará, 534 deles nas regiões sul e
sudeste do Estado. Em meio a esse genocídio, praticado por
centenas de pistoleiros, intermediários, mandantes e
policiais, apenas quatro condenações -só um está preso,
apesar de ter conseguido uma transferência para Goiás, onde
goza de mais comodidade.
Cinco anos se passaram desde o dia 17 de abril de 1996, no
qual 19 trabalhadores morreram em conflito com a Polícia
Militar. No único julgamento do caso, em agosto de 1999,
presidido pelo juiz Ronaldo do Vale, três oficiais militares
foram absolvidos, num cenário de erros técnicos,
cerceamento da acusação e manobras oficiais para favorecer
a defesa dos envolvidos. De amplo conhecimento da
sociedade, esse cenário provocou a anulação, pelo Tribunal
de Justiça do Pará, desse único julgamento.
Nesses dois anos, mais de uma dezena de juízes não quis
assumir o processo criminal, por envolvimento em conflitos
possessórios ou, como disseram alguns, "por profundo
respeito à Polícia Militar". A história de nosso país está
permeada de julgamentos espúrios e pela raridade de justiça
na defesa dos menos favorecidos financeiramente.
A impunidade dos responsáveis pelo massacre de Eldorado,
mais do que em qualquer outra chacina, ultrapassa os limites
possíveis da imaginação, pois o conflito foi filmado e suas
imagens exibidas. É imprescindível que a sociedade exija e
cobre atitudes dignas do Judiciário. Como coloca em pema
um companheiro de Oziel no MST, Charles Trucate, hoje
com 23 anos (Oziel teria 25): "O poder não pode
encerrar/Aqueles meninos que marcham/ Suas infâncias!"
Luiz Eduardo Greenhalgh, 53, é deputado federal (PT-SP) e advogado do
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra).
539
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São José dos Campos, Quarta-feira, 18 de Abril de 2001
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QUESTÃO AGRÁRIA
Famílias que invadiram a propriedade querem um prazo
Justiça manda MST deixar fazenda
André Nieto/Folha Imagem
Oficiais de Justiça
notificam sem-
terra para
deixarem a
fazenda Santa
na
do Rio Abaixo, em
Jacareí
FREE-LANCE PARA A FOLHA VALE
O juiz da 2ª Vara Cível de Jacareí, Fernando César Carrari,
concedeu ontem a reintegração de posse aos proprietários da
fazenda Santana do Rio Abaixo, invadida na última sexta-
feira por 180 sem-terra ligados ao MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra).
O pedido havia sido protocolado pelo advogado dos donos da
área, Jairo dos Santos Rocha.
Na fazenda, de 840 alqueires, em Jacareí, havia ontem cerca
de cem sem-terra.
As mulheres do acampamento participaram de manifestações
que foram organizadas pelo MST, em São Paulo, em
memória das vítimas do massacre de Eldorado do Carajás.
Os invasores foram notificados no final da tarde de ontem por
oficiais de Justiça, que estavam acompanhados por seis
policiais militares.
540
Os líderes do acampamento afirmaram à Folha que vão
deixar a fazenda pacificamente, mas querem um prazo de
cinco dias.
O tenente-coronel da PM Milton José da Silva, que
acompanhou os oficiais de Justiça, disse que não será usada
força na operação de despejo.
Advogados do MST estão tentando negociar o prazo com a
Justiça, mas os sem-terra podem ser retirados a partir das 6h
de hoje. A operação não pode ser feita durante a noite.
A fazenda já havia sido invadida em abril do ano passado
pelo mesmo grupo que continua na propriedade. Eles só
deixaram o terreno 23 dias depois, sob ordem da Justiça.
A Prefeitura de Jacareí, que deu apoio aos sem-terra, se
comprometeu a conseguir caminhões para transportar as
famílias.
Os líderes do acampamento não descartam invadir outra
fazenda no Vale do Paraíba.
Anteontem, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária) informou que a fazenda Santana do Rio
Abaixo é produtiva.
Não existe previsão de que a fazenda seja inspecionada, de
acordo com o órgão.
O Incra informou ainda que já existe uma área de 447,7
hectares, a fazenda Santa Rita, em São José dos Campos,
destinada à reforma agrária no Vale do Paraíba.
Segundo o Incra, a União ainda não tem a posse definitiva da
Santa Rita.
A Santana do Rio Abaixo pertence aos herdeiros do senador
Severo Gomes, morto em um acidente aéreo, e está arrendada
para seis portos de areia.
Os arrendatários também produzem arroz e milho no local.
Entre os arrendatários está o "publisher" da Folha, Octavio
Frias de Oliveira, que cultiva milho para a Granja Itambi.
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270 milhões
Campinas, Quarta-feira, 18 de Abril de 2001
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PROTESTO
Ato provoca congestionamento de 1,5 km no centro;
organizadores esperavam 3.000
541
Manifestação reúne 400 em Campinas
Ricardo Lima/Folha Imagem
Moradores de
ocupações
irregulares
carregam cruzes
durante passeata
realizada no
centro de
Campinas, ontem
à tarde
FREE-LANCE PARA A FOLHA CAMPINAS
Pelo menos 400 sem-terra e sem-teto provocaram uma
lentidão de cerca de 1,5 quilômetro no trânsito da região
central de Campinas ontem, ao promoverem uma passeata em
memória dos 19 mortos em Eldorado do Carajás, no sul do
Pará, há cinco anos.
O número de manifestantes, estimado pela Polícia Militar,
frustrou as expectativas dos organizadores do ato, que
pretendiam reunir 3.000 pessoas ontem em Campinas.
Além de lembrar o massacre dos sem-terra, a manifestação
ocorrida em Campinas ontem também foi aproveitada pelo
MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) para pedir
a regularização de famílias em ocupações da região.
Os sem-teto de pelo menos dez ocupações de Campinas e
Hortolândia participaram do ato, que passou pelo 8º Batalhão
da PM, pelo fórum e pela Catedral, onde aconteceu um ato
ecumênico com a participação de todas as pastorais da
cidade.
"Estou há dois anos na ocupação do Parque dos Palmares, em
Hortolândia, e ainda não temos garantia da terra. São mais de
30 famílias lutando por uma casa naquela região", afirmou o
sem-teto Clemente Araújo Correia, 54.
O ato realizado em Campinas fez parte de uma manifestação
nacional promovida pelo MST (Movimento dos
trabalhadores Sem Terra) em lembrança do massacre
ocorrido no Pará. Segundo a secretária-geral da ocupação
Eldorado do Carajás de Campinas, que fica na região dos
542
DICs, Léa Oliveira Souza da Silva, o ato pediu por reformas
urbana e agrária na região.
"Percorremos o centro para pedir justiça e assentamento já
para os sem-teto de Campinas e de todo o país", afirmou Léa.
Durante a manifestação, foram distribuídos panfletos
produzidos pelo movimento, divulgando o dia 17 de abril
como "a data de luta nacional pela reforma agrária e moradia
popular".
"Nesse dia 17 queremos externar nossa indignação contra
todas as formas de injustiça social e conclamar a população
de Campinas a apoiar os movimentos de luta pela terra", diz
um dos panfletos.
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em um ano
São Paulo, quarta-feira, 18 de abril de 2001
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QUESTÃO AGRÁRIA
Cerca de 22 mil sem-terra participam das manifestações;
governo federal vê fracasso na mobilização
Sem-terra fazem protestos em 20
Estados
DA AGÊNCIA FOLHA
Marchas, invasões, concentrações, bloqueio de estradas e
atos ecumênicos marcaram ontem o protesto do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no país
em memória dos cinco anos do massacre de Eldorado do
Carajás. Cerca de 22 mil sem-terra, segundo avaliações da
PM e do MST, onde não havia polícia presente, participaram
dos atos que atingiram 20 Estados.
Houve menos violência do que na mesma data do ano
passado, quando 65 áreas foram invadidas e houve
depredações de prédios públicos. Ontem, o ato de maior
tensão ocorreu no Rio Grande do Sul, onde cerca de 1.500
militantes do MST e de outros movimentos do campo
bloquearam a ponte que liga o Brasil à Argentina.
543
O protesto teve como pano de fundo a lembrança dos cinco
anos do massacre de Eldorado do Carajás (PA). Em 17 de
abril de 1996, 19 sem-terra morreram em confronto com a
Polícia Militar. Até agora os réus não foram julgados.
Ontem, no local do massacre, cerca de 2.000 pessoas
fecharam a rodovia por três horas para
a realização de um ato
religioso. "Foi um fechamento pacífico. Os motoristas
entenderam nosso protesto e muitos se juntaram a nós", disse
Deusa Salles, do MST.
O número de mortos foi lembrado em várias marchas. Em
Maceió, 19 sem-terra participaram da caminhada com os
rostos cobertos por capuzes negros. Em Porto Alegre, os
militantes fecharam rodovias por 19 minutos. Em Cuiabá, os
manifestantes levaram 19 cruzes negras com os nomes das
vítimas de Eldorado.
Na capital paraense, Belém, cerca de 1.200 sem-terra
marcharam até o Tribunal de Justiça do Estado, onde deve
ocorrer o julgamento do massacre em maio. A Justiça
escolheu os candidatos a jurados anteontem.
Uma comissão foi recebida em audiência pelo
desembargador Olávio Marcelino. "Mostramos a ele que a
impunidade não é só do caso Eldorado. Desde 85 houve 9
massacres no Pará, com 49 mortos, e ninguém foi para o
banco dos réus", disse Nonato de Souza, da direção estadual.
"Nosso dia de protesto foi pacífico e cumpriu com o objetivo
principal de denunciar à sociedade a questão da
impunidade", disse Gilmar Mauro, da direção nacional do
MST.
A única invasão de terras registrada ontem foi no extremo
oeste de São Paulo, no Pontal do Paranapanema. Cerca de
600 famílias, segundo o MST, ou 800 pessoas, segundo a
PM, invadiram de madrugada a fazenda São João. O
proprietário, Ricardo Peretti, é filiado à UDR (União
Democrática Ruralista). A ação foi pacífica.
O principal dirigente do MST na região, José Rainha Jr.,
disse que a invasão e os demais protestos no país ontem
foram uma resposta às declarações do ministro Raul
Jungmann de que o movimento perdeu força e está isolado,
constatações feitas em uma pesquisa encomendada pelo
governo.
Governo
Até o final da tarde de ontem, o governo avaliou que
fracassou o dia nacional de protesto do MST. "O radicalismo
do MST assusta a sociedade brasileira", disse Francisco
Orlando Muniz, secretário de Reforma Agrária do Ministério
544
de Desenvolvimento Agrário.
"O MST, de vez em quando, passa a falsa idéia de que o
governo federal só resolve as coisas mediante a pressão",
disse Muniz. "Tocar fogo em McDonalds não resolve nada,
apenas queima uns hambúrgueres", acrescentou.
Colaborou LEILA SUWWAN, free-lance para a Folha
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horas
São Paulo, quinta-feira, 19 de abril de 2001
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QUESTÃO AGRÁRIA
MST volta a agir
MPF denuncia grileiro por estilionato
DA AGÊNCIA FOLHA
O Ministério Público Federal do Amazonas denunciou
ontem, por crime de estelionato, o comerciante Falb Saraiva
de Farias, apontado pelo Incra como proprietário de 12
milhões de hectares na região amazônica.
É a primeira denúncia ligando Falb com a grilagem de terras
públicas da União, tendo como base oito inquéritos, de um
total de 35, que a Polícia Federal abriu para apurar sua ação
em vendas de terras usando documentos falsos.
"Foi constatada fraude de falsificação de títulos,
superposição de áreas destinadas a reforma agrária e área
indígena, além de transferência a terceiros", disse o autor da
denúncia, o procurador-chefe Sérgio Lauria Ferreira.
Falb está preso desde 16 de março, em Manaus, e amanhã
presta seu primeiro testemunho em juízo. Falb deve ser
ouvido pelo juiz Marcelo Mota, da 2ª Vara da Justiça Federal
do Amazonas. O advogado Valcimar de Souza Oliveira disse
que ele só falará em juízo.
MST
Integrantes do MST fecharam ontem, por seis horas, a
545
principal via de acesso entre Santa Catarina e a Argentina. O
sem-terra impediram o tráfego na alfândega de Dionísio
Cerqueira na fronteira com a cidade argentina de Bernardo
Irigoyen. Anteontem, manifestantes bloquearam por 13h
uma ponte em Uruguaiana (RS).
De acordo com a PF, 600 pessoas impediram ontem o
tráfego de caminhões e carros que queriam atravessar a
fronteira. Cerca de cem policiais militares e 15 agentes
federais estavam no local para evitar a invasão de prédios
públicos. Uma reunião entre a polícia e os líderes dos sem-
terra pôs fim, às 17h, ao bloqueio.
Ontem, um grupo de 28 integrantes do MST feridos durante
o massacre de Eldorado do Carajás montaram acampamento
diante do Palácio dos Despachos, sede do governo do Pará,
em Belém. Segundo o advogado Walmir Brelaz, eles exigem
uma reunião com o governador Almir Gabriel (PSDB) para
reivindicar pagamento de indenizações.
Os manifestantes que invadiram a unidade da Parmalat em
Carazinho (RS), anteontem, se comprometeram, em
audiência na Justiça, a permitir a entrada de caminhões com
leite no local. O acesso estaria liberado a partir do início da
noite de ontem. Segundo a Parmalat, a perda de leite pode
chegar a 1,5 milhão de litros/dia.
Às 14h de hoje, representantes da empresa e dos
manifestantes, que são produtores de leite da região, vão se
reunir para discutir o preço do produto. Os produtores
querem receber R$ 0,40 por litro.
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Suplicy e já aceita a prévia
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Supremo
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São Paulo, quarta-feira, 25 de abril de 2001
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ROMBO AMAZÔNICO
Suposta ação de sem-terra teria ocorrido e acabado em
96; venda da propriedade foi em janeiro de 98
Jader comprou fazenda após fim de
546
invasão
LUÍS INDRIÚNAS
DA AGÊNCIA FOLHA, EM AURORA DO PARÁ
ARI CIPOLA
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
A invasão de terra informada pelo senador Jader Barbalho
(PMDB-PA) como motivo para ter pago um terço do valor
pago por seu ex-sócio José Osmar Borges por uma fazenda
no Pará estava resolvida um ano antes de o negócio ser
efetuado. A invasão teria ocorrido e acabado em 96, e a
venda foi em janeiro de 98.
A informação foi dada pelo gerente da fazenda do senador,
pelo Fórum de Aurora do Pará (onde está a propriedade),
pela Fetagri (Federação dos Trabalhadores na Agricultura) e
pelo líder da invasão -que atualmente trabalha para o próprio
Jader.
A fazenda foi comprada por Jader em 5 de janeiro de 1998.
Em maio de 1996, dois meses antes da invasão, usando o
nome de sua atual mulher, Márcia Cristina Zahluth Centeno,
Jader adquiriu a propriedade em sociedade com a empresa
Saint Germany.
A empresa é de Borges, preso e libertado na semana passada
acusado de desvios de recursos da Sudam (Superintendência
do Desenvolvimento da Amazônia). A Saint Germany
recebeu R$ 21 milhões, dos R$ 25 milhões que ganhou da
Sudam, no período em que Borges era associado a Jader.
Quando foi comprada, a fazenda custou R$ 1,7 milhão à
Saint Germany e R$ 207 à atual mulher de Jader, com a qual
ele ainda não estava casado na época.
No último dia 16, Jader afirmou que seu nome não apareceu
na sociedade devido ao fato de que ele estava se separando
judicialmente da deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA).
Segundo o senador, em 98 ele comprou a fazenda do ex-
sócio por R$ 600 mil -cerca de um terço do valor que Borges
havia pago. Esse valor equivale a 40% do que o Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária)
pagaria aos donos da fazenda no caso de desapropriação da
área, que tem 10 mil hectares.
O preço de mercado de uma fazenda como a Campo Maior,
com 70 km de estradas internas, 63,8 km de cerca de arame
liso, com 3.700 hectares de pasto cultivado, às margens da
pavimentada estrada Belém-Brasília, varia hoje entre R$ 4
milhões e R$ 10 milhões, segundo o presidente da Federação
547
da Agricultura no Pará, Carlos Xavier, que é amigo de Jader.
"A invasão foi logo após o massacre (de Eldorado do
Carajás, em 17 de abril de 1996) e foi tudo resolvido",
afirmou o gerente da fazenda, Ricardo José da Fonseca.
O líder da invasão, Antônio Leopoldino, 56, conta que as
157 famílias teriam entrado na fazenda em 3 de julho de
1996 e saído no final do mesmo ano, depois de receberem
indenização de cerca de R$ 300 por hectare invadido.
Desde o acordo, Leopoldino "presta serviços" à propriedade
de Jader, segundo confirmou o próprio senador paraense.
Quando falou com a reportagem, ele chefiava uma equipe
que plantava capim e trocava estacas da cerca.
"Fizemos uma política de paz com os invasores", afirmou
Jader, antes de ser questionado sobre polêmica das datas do
negócio.
Para justificar sua posição sobre a depreciação do valor da
fazenda, Jader enviou à Agênci
a Folha dados de vistoria feita
pelo Incra. Só que o documento é de outubro de 1996,
enquanto havia invasão, e a fazenda foi comprada de vez por
Jader em 98.
O relatório descreve uma situação de ameaça de vida aos 14
funcionários da fazenda e aos próprios funcionários federais,
situação definida por Jader como de uma "invasão brutal".
Na sexta-feira passada, Jader prometeu enviar cópia de um
pedido judicial de reintegração de posse da fazenda, o que
não havia feito até a noite de ontem.
Sem registro
No Fórum de Aurora do Pará (240 km ao sul de Belém) não
há registro de nenhuma ação envolvendo a fazenda Campo
Maior.
O coordenador da Fetagri no Pará, Antônio de Souza
Carvalho, disse que os invasores chegaram a procurar a
entidade em 1996. "Depois eles não nos procuraram mais,
porque resolveram com o Jader", afirmou Carvalho.
A "invasão brutal", como define Jader, não foi noticiada na
época. Os arquivos da CPT (Comissão Pastoral da Terra),
que têm informações sobre problemas fundiários de 1986 até
hoje, não registra nada sobre o caso. O único caso naquela
área é de uma invasão que ocorreu em setembro de 1988,
quando posseiros entraram na fazenda Chão Preto -hoje
incorporada à Campo Maior.
Texto Anterior: MST: Justiça revoga liminar concedida a
sem-terra
548
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de sua propriedade
São Paulo, quarta-feira, 16 de maio de 2001
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QUESTÃO AGRÁRIA
UDR quer MST a 10 km de área invadida
O advogado Coraldino Vendramini, pago pela UDR para
defender fazendeiros no Pontal do Paranapanema (oeste de
São Paulo), entrou ontem na Justiça com pedido para que os
sem-terra invasores da fazenda São João sejam deslocados
para no mínimo 10 km de distância da área.
Desde segunda-feira, os sem-terra estão desmontando o
maior acampamento do Estado. Os sem-terra saíram da
propriedade e invadiram um terreno da Prefeitura de
Teodoro Sampaio (SP) que faz divisa com os limites da
fazenda.
A propriedade é alvo permanente de invasões por sem-terra
ligados ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) por ser um símbolo da UDR (o proprietário é ligado à
entidade) e não ter definição dominial -sua posse está em
litígio e pode pertencer ao Esta
do, sendo, neste caso, passível
de desapropriação.
A última invasão ocorreu em 17 de abril, como parte dos
protestos pelos cinco anos do massacre de Eldorado do
Carajás (PA). O prefeito de Teodoro Sampaio, Paulo Alves
Pires (PSDB), estuda uma autorização provisória para os
sem-terra ficarem no local público até uma definição.
(DA AGÊNCIA FOLHA, EM SÃO JOSÉ DO RIO PRETO)
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possível CPI
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Presidência
São Paulo, domingo, 20 de maio de 2001
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País só age sob pressão, afirmam
ativistas
549
DA REPORTAGEM LOCAL
Há uma espécie de consenso entre os ativistas de direitos
humanos no país: o Brasil só investiga denúncias de tortura
se pressionado pela comunidade internacional. Semana
passada, a Comissão contra Tortura da ONU (Organização
das Nações Unidas) recomendou ao Brasil que puna "com
severidade" os responsáveis por crimes de tortura.
Solicitou ainda ao governo que garanta assistência jurídica
aos presos e que acabe com a superlotação das cadeias. As
solicitações das Nações Unidas -as mesmas feitas por
movimentos de direitos humanos brasileiros- têm prazo para
serem cumpridas: um ano.
O presidente da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos),
Hélio Bicudo -que também é o vice-prefeito de São Paulo-
diz que o poder público só atua "sob pressão" na área do
combate à tortura.
Ele cita como exemplo um fato, ocorrido em 2000, em
Sorocaba, interior paulista. Um grupo de presos denunciou
ao Ministério Público que policiais responsáveis pela
segurança externa da cadeia usavam métodos de tortura.
Os promotores que fizeram a denúncia foram ameaçados de
morte. O mesmo ocorreu com os familiares dos presos. A
situação só foi resolvida quando um advogado apelou para a
Comissão Interamericana de Direitos Humanos, sediada em
Washington.
Pressionado, o governo transferiu os policiais e garantiu a
segurança dos promotores. Liliana Tojo, diretora do Cejil no
Brasil, diz que, não fosse a pressão internacional, processos
como o do massacre de Eldorado do Carajás, no Pará,
estariam engavetados.
O Cejil é uma instituição jurídica sem fins lucrativos que
acompanha processos que tramitam em cortes internacionais.
Por determinação da Comissão Interamericana, o governo
informa o estágio de tramitação do processo de Eldorado do
Carajás uma vez a cada 45 dias.
O massacre ocorreu em abril de 96, quando a Polícia Militar
do Pará matou 19 trabalhadores do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-Terra), durante uma desocupação.
O governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), foi
testemunha de defesa dos policiais, durante o primeiro
julgamento, em 99, que absolveu os comandantes da
operação. Houve pressão e o júri foi anulado.
Oscar Vilhena, do Ilanud (órgão das Nações Unidas que
550
estuda violência) admite que o governo vive uma situação
difícil nessa área pelo fato de a maioria dos crimes ocorrer e
ser julgada sob a jurisdição dos Estados.
O governo federal assina os acordos internacionais e
responde pela sua eventual violação apenas no exterior. Para
Vilhena, desfavorece ainda o país a constante troca de
ministro da Justiça -só nessa gestão, foram três. É o titular da
pasta, e sua equipe, que responde às interpelações
internacionais na fase de tramitação.
Em outubro de 1998, a Comissão Interamericana de Direitos
Humanos enviou ao Ministério das Relações Exteriores um
pedido oficial de informação para saber porque o economista
Marco Antônio Heredia Viveiros, condenado por dois
Tribunais do Júri, em Fortaleza, continuava livre.
Em 1983, Heredia teria tentado assassinar a ex-mulher,
Maria da Penha Maia Fernandes. Ela ficou paraplégica e ele
vem recorrendo das condenações em liberdade.
A comissão aguardou durante 250 dias uma resposta do
governo brasileiro e acabou condenando o país, no dia 30
passado, por omissão no caso de violência contra mulher,
baseado nesse caso.
(GABRIELA ATHIAS)
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que há racismo"
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informações
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ENTENDA O CASO
19 sem-terra morreram ao enfrentar PM
DA REDAÇÃO
Em 17 de abril de 1996, cerca de 1.200 sem-terra bloquearam a rodovia PA-150, em
Eldorado do Carajás (sul do Pará). A Polícia Militar mandou 200 homens para o local.
Houve conflito, e a PM teve ordens para responder mais duramente.
Morreram 19 sem-terra.
Os policiais que lideraram a operação foram absolvidos por jurados em agosto de 1999,
mas o Tribunal de Justiça paraense anulou a decisão no ano passado.
A juíza Eva do Amaral Coelho, que julgará o caso, é a quinta a assumi-lo.
551
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São Paulo, terça-feira, 12 de junho de 2001
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PANORÂMICA
PARÁ
Juíza pede nova perícia em fita de vídeo de Eldorado do
Carajás e adia julgamento
A juíza Eva do Amaral Coelho determinou que seja feita
uma nova perícia na fita de vídeo que registrou parte do
massacre de Eldorado do Carajás. Com a decisão, o
julgamento dos 149 policiais militares, marcado para
começar no dia 18 deste mês, foi adiado por tempo
indeterminado. "Infelizmente", disse a juíza.
A decisão de fazer uma nova perícia na fita se deu depois
que o Ministério Público Estadual recorreu da decisão
anterior de Eva do Amaral de não aceitar o laudo feito pelo
perito da Unicamp Ricardo Molina.
O laudo, feito a partir da digitalização da imagem, aponta
que os policiais teriam atirado primeiro e que os sem-terra só
teriam avançado contra a tropa porque um corpo foi
identificado caído atrás dos policiais.
A juíza não aceitou o laudo de Molina, porque teria sido
feito unilateralmente (sem conhecimento da defesa) e
entregue em prazo irregular.
Para o novo laudo, Eva do Amaral determinou que dois
técnicos do Instituto de Criminalística Renato Chaves de
Belém façam a análise. Como não existe o equipamento em
Belém, os técnicos devem utilizar equipamentos das polícias
de Brasília ou São Paulo.
No dia 17 de abril de 1996, 19 sem-terra foram mortos
durante a operação de desobstrução da rodovia PA 150 em
Eldorado do Carajás.
Em agosto de 1999, os líderes da tropa -coronel Mário
Colares Pantoja, major José Maria de Oliveira e capitão
Raimundo Almendra Lameira - foram absolvidos, mas a
sentença acabou sendo anulada por causa de contradições
nas questões elaboradas pelo então juiz do caso, Ronaldo
Valle, aos jurados.
O advogado do coronel Pantoja, Américo Leal, disse que vai
552
pedir aos peritos responsáveis pelo novo laudo detalhes
sobre os tiros e a movimentação de determinados sem-terra
na cena.
O MST entrou com um pedido ao Tribunal de Justiça para
que seja anexado o laudo do Molina. "Com o parecer do
Molina e dos técnicos de Belém vamos ter duas provas que
reforçam a tese do massacre", disse o advogado do MST,
Carlos Guedes. (DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM)
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Rumo a 2002: Jobim assume cargo no TSE e
diz que amizade com FHC "não atrapalhará"
São Paulo, sexta-feira, 03 de agosto de 2001
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Oposição quer dados sobre planos
militares
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Partidos de oposição cobraram explicações do governo sobre
a política de inteligência do Exército. O PT vai apresentar
um requerimento de informações ao ministro Pedro Parente
(Casa Civil), e a Comissão de Direitos Humanos deverá
convocar o ministro Geraldo Quintão (Defesa) para
esclarecimentos sobre a máquina de espionagem mantida em
sigilo pelo Exército.
Documentos aos quais a Folha teve acesso, que tiveram
trechos publicados ontem, revelam que a política de
inteligência militar classifica os movimentos sociais como
"forças adversas" e admite "arranhar direitos dos cidadãos"
para manter a ordem pública.
Para disfarçar as operações de inteligência, o Exército utiliza
documentos falsos e cria firmas fantasmas. Unidades de
inteligência do Exército funcionam em casas
descaracterizadas.
"Isso revela que o governo não se distanciou da política de
patrulhamento dos adversários. E utiliza métodos piores que
o da ditadura. Naquela época, pelo menos, sabíamos quais os
instrumentos de repressão. Agora, eles são clandestinos",
afirmou o líder do PT na Câmara, Walter Pinheiro (BA).
Segundo o presidente da Comissão de Direitos Humanos,
553
Nelson Pellegrino (PT-BA), além da convocação do ministro
Quintão, também serão requisitadas cópias dos documentos
do Exército que foram apreendidos pelo Ministério Público
Federal em Marabá, sul do Pará.
"Esses documentos revelam profundo desrespeito à ordem
democrática, aos princípios constitucionais e a tratados
internacionais sobre direitos humanos assinados pelo Brasil",
afirmou Pellegrino.
Acusações
Os documentos apreendidos foram tema de discursos no
plenário. Advogado do MST (Movimentos dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra), o deputado Luiz Eduardo
Greenhalgh (PT-SP) disse que o massacre de sem-terra em
Eldorado do Carajás (PA), em que 19 sem-terra morreram
em abril de 1996, teria ocorrido conforme orientações do
esquema de inteligência do Exército.
O MST é citado em cartilhas da máquina de espionagem do
Exército apreendidas pelo Ministério Público. "Com que cara
leio documento do Exército que diz que os inimigos internos
têm de ser eliminados e, entre eles, o MST?", questionou
Greenhalgh.
"Não podemos aceitar que o aspecto democrático [das Forças
Armadas] fique subjacente", afirmou a deputada federal
Jandira Feghali (PC do B-RJ).
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adversa"
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militar sobre Araguaia
São Paulo,bado, 04 de agosto de 2001
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Juíza ainda aguarda novo laudo
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
A nova data para o julgamento dos 149 policiais militares
acusados de envolvimento no massacre de Eldorado do
Carajás (PA) só deve sair depois de concluído o novo laudo
técnico das imagens gravadas do confronto.
Em junho, a juíza Eva do Amaral Coelho determinou nova
554
perícia na fita depois que o Ministério Público Estadual
pediu a inclusão do laudo do perito da Unicamp Ricardo
Molina, o que foi negado.
Molina identificou um sem-terra caído atrás dos policiais, o
que explicaria o avanço dos integrantes do MST contra a
PM. O perito confirmou ainda que o primeiro tiro teria saído
do lado dos PMs.
A juíza considerou a prova "imprestável" porque não foi
dada oportunidade para os advogados dos PMs fazerem
perguntas ao técnico. A nova perícia está sendo feita por dois
técnicos do Instituto de Criminalística Renato Chaves, de
Belém. Eles podem concluir o trabalho até o final do mês.
Em 17 de abril de 1996, 19 sem-terra foram mortos
e mais de
60 pessoas ficaram feridas durante a desobstrução da rodovia
PA-150, em Eldorado do Carajás (PA).
A primeira sessão do julgamento ocorreu em agosto de 1999.
O coronel Mário Colares Pantoja, o major José Maria
Oliveira e o capitão Raimundo Almendra Lameira foram
absolvidos, mas a decisão foi anulada pelo Tribunal de
Justiça do Pará.
(LUÍS INDRIUNAS)
Texto Anterior: PT vai pedir depoimento de ministro e
general
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São Paulo,bado, 04 de agosto de 2001
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INTELIGÊNCIA MILITAR
Stedile diz que, com base em reportagem da Folha, MST
suspeita de participação do Exército no massacre
MST vai pedir reabertura do caso
Carajás
PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
vai pedir ao Ministério Público do Pará, com base em
555
reportagem publicada anteontem pela Folha
, a reabertura das
investigações sobre o massacre de Eldorado do Carajás (sul
do Estado).
O líder do MST João Pedro Stedile afirmou que o
movimento suspeita de que agentes do Exército tenham
participado do massacre, ocorrido em abril de 1996 e que
deixou 19 trabalhadores rurais mortos.
Documentos secretos do Exército obtidos pela Folha
mostram que o Exército compara os movimentos sociais,
entre eles o MST, ao narcotráfico, e admite até que poderiam
ser "eliminados", sem especificar as circunstâncias. O
documento admite ainda "arranhar direito dos cidadãos" para
garantir a ordem pública.
Stedile disse que a informação de que o Exército classifica
os movimentos sociais como "forças adversas" pode explicar
a presença de agentes da inteligência do Exército em Marabá
(PA), cidade próxima a Eldorado. "Sempre percebemos nos
acampamentos que havia infiltração. Só não sabíamos de
quem. Achávamos que era da Polícia Militar", disse,
justificando a possibilidade de que agentes do Exército
tenham espionado o MST durante o período de tensões em
Eldorado, que culminou com o massacre.
Segundo Stedile, o MST encaminhará na segunda-feira ao
Ministério Público do Pará solicitação para que a denúncia
seja apurada. E, se comprovada, para que o caso volte
novamente à Justiça.
"Se há lá [em Marabá" agentes [do Exército", o Ministério
Público tem de investigar até que ponto eles participaram [do
massacre" de Carajás. Vamos pedir para que seja apurado o
envolvimento de oficiais do Exército no caso, e as
responsabilidades do governo."
O líder do MST atacou a forma de ação do Exército,
explicitada nos documentos publicados. Para ele, os
movimentos sociais são nivelados aos criminosos.
"Simon Bolívar [líder de movimentos para independência da
América Latina, sob domínio espanhol" disse: "Ai do
Exército que tenha coragem de apontar uma arma ao seu
povo." O que eles [governo e Exército" temem é quando os
pobres começam a se organizar. O Brasil vive uma
democracia de mentira."
Para ele, o Exército teria atuado só na espionagem dos
acampamentos, enquanto a ação efetiva teria ficado a cargo
da PM. "Pode ser um resquício da ditadura militar", afirmou.
Stedile admitiu que o governo pode não ter tomado
conhecimento da orientação do Exército sobre os
movimentos sociais, mas distribuiu críticas a membros do
556
governo e ao presidente Fernando Henrique Cardoso.
Para ele, o chefe do Gabinete da Segurança Institucional,
general Alberto Cardoso, é o maior responsável pelas
supostas espionagens. Por coordenar a Abin (Agência
Brasileira de Inteligência), ele deveria ter total controle sobre
qualquer tipo de investigação feita pelo Estado.
"FHC deveria exigir, no mínimo, explicações do general
Cardoso, ou até demiti-lo. É responsabilidade dele todo o
trabalho de inteligência. Ele teria de saber [dos
documentos"."
O líder criticou FHC e o ministro Geraldo Quintão (Defesa):
"Na função de presidente da República, FHC foi conivente.
Ele pode até mesmo ter tido acesso às informações. Mas se
não soube é, pelo menos, conivente. E o Quintão também,
por comandar o Exército, também é responsável".
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governador é suspeito
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general
São Paulo, segunda-feira, 06 de
agosto de 2001
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RAYMUNDO COSTA
Anjos da guarda
BRASÍLIA - Aos 26 anos, o deputado José Genoino era um
dos guerrilheiros que o PC do B despachou para a morte nas
matas do Araguaia. Foi preso em 1972, torturado e passou
cinco anos no cárcere, mas sobreviveu. Aos 55, completados
em maio passado, Genoino teme que a esquerda abra um
contencioso político com as Forças Armadas.
O deputado, presidente interino do PT e eventual candidato
da sigla ao governo de São Paulo, condena manifestações
como a do líder do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra) João Pedro Stedile, que suspeita do
envolvimento de militares no massacre de Eldorado do
Carajás (PA), em 1996.
Stedile baseia sua suposição na atividade que o Exército
ainda hoje mantém na região para controlar seus
colaboradores da época da guerrilha. A chamada operação
557
"Anjo da Guarda", conforme revelou a Folha no dia 25 de
julho, trata movimentos sociais como o MST de Stedile
como "força adversa".
Ao contrário de Stedile, que deseja julgar os militares,
Genoino recomenda cuidado. Convém ouvi-lo: "Não
podemos politizar demais essa questão. Daqui a dois anos a
esquerda pode estar comandando as Forças Armadas".
Para o ex-guerrilheiro, é preciso separar os problemas. Um
deles é a questão dos 69 desaparecidos, "um problema
humanitário que deve ser circunscrito a esse aspecto. A
família tem o direito de enterrar os seus mortos. A esquerda
não pode politizar essa questão e dar uma conotação de
julgamento ou de revanchismo".
A outra questão, para o deputado, é a da atividade de
inteligência e contra-inteligência, que ainda não abandonou
antigos conceitos de guerra interna. "É um problema
residual, que não existe mais no comando das Forças
Armadas. Temos de defender um outro modelo em que eles
[militares] sejam uma força importante, dentro de regras e
com instrumentos de controle."
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olivais do crepúsculo
São Paulo, quarta-feira, 15 de agosto de 2001
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INTELIGÊNCIA MILITAR
Relatório secreto acusa o movimento de compor "brigada
paramilitar" junto com a CUT e o PT
Exército espiona sem-
terra desde 1998
JOSIAS DE SOUZA
DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O Exército deflagrou no final de 1998 um plano secreto para
espionar o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra). Chama-se "Operação Pescado". É financiada com
verbas públicas ocultas. Possui duração "indeterminada".
Continua em vigor.
558
Em troca de irrisórias contribuições em dinheiro e pequenos
favores -como consultas médicas-, uma "rede de
informantes" coleta para o Exército dados sobre o MST, suas
lideranças, políticos e partidos simpatizantes.
Informações como essa, registrada em documento secreto de
25 de abril de 2000: "[...] foi verificado que o MST,
juntamente com a CUT e o PT, vem montando uma brigada
formada para o ataque e defesa em suas operações".
O texto prossegue: "Conhecida como Brigada Cabanos, essa
parcela do movimento tem se revelado uma organização
paramilitar. É um dado que deve ser observado e confirmado
durante as missões". "Tendo em vista o ano corrente ser
eleitoral", anotou o serviço de inteligência do Exército no
mesmo texto, "os partidos de oposição com certeza apoiarão,
de forma direta e indireta, as ações de diversas entidades que
têm como objetivo a desordem".
"Tumultuar a ordem"
Num ponto, o "informe" do Exército se confirmou. Como
noticiavam todos os jornais do país, houve mesmo eleições
em 2000. Sob atmosfera pacífica, o pleito municipal ocorreu
em outubro, seis meses depois da produção do relatório da
arapongagem.
As legendas oposicionistas, de fato, produziram certa
desordem na seara governista. Não em ações armadas ou em
manifestações de rua, mas nas urnas.
Das 16 prefeituras disputadas no segundo turno, a oposição
amealhou 13. Arrematou 27 das 57 cidades com mais de 200
mil habitantes levadas ao voto no primeiro turno.
Os espiões vinculados à 23ª Brigada de Infantaria de Selva
produzem "informes" semanais sobre o MST. A brigada está
vinculada ao CMA (Comando Militar da Amazônia), que
cobre uma área correspondente a 9% do território nacional.
Os textos são redigidos num escritório de inteligência que
funciona numa casa em área residencial de Marabá (PA).
Seguem por uma escada hierárquica que vai do comando na
Amazônia até Brasília.
Muitas informações ganham a mesa do ministro Alberto
Cardoso (Segurança Institucional), no quarto andar do
Palácio do Planalto. Algumas, depois de filtradas, escalam a
escrivaninha do presidente Fernando Henrique Cardoso. Não
chegam caracterizadas como material proveniente do
Exército.
Em 25 de abril passado, o governo foi informado, por
exemplo, sobre protestos que o MST programava para o 1º
de Maio. Informou-se também sobre a vulnerabilidade de
559
uma estrada de ferro da Companhia Vale do Rio Doce, que
corta o assentamento Palmares, no Pará, "um possível local
para bloqueio" dos sem-terra.
Ao justificar a necessidade de "levantar e acompanhar as
diversas atividades dos movimentos sociais de luta pela
terra", o Exército traçou um perfil revolucionário do MST.
Classificou-
o como movimento que empreende ações "com o
objetivo definido de tumultuar a ordem vigente e
comprometer a confiança nas instituições e no regime atual
do governo".
"Força adversa"
A cada novo relatório, os agentes aconselham o
prosseguimento da operação. Em 30 de agosto de 2000, o
capitão André Luiz Guimarães Silva, de Marabá, anotou:
"A operação [Pescado" deve continuar, devido aos resultados
alcançados, às perspectivas de obter melhores resultados e à
importância de manter um constante acompanhamento do
alvo, que pode se tornar, a qualquer momento, força adversa
em operações de garantia da lei e da ordem".
"Força adversa", conforme revelou a Folha em sua edição de
2 de agosto, é definida assim nos papéis secretos do
escritório de espionagem de Marabá:
"São grupos, movimentos sociais, entidades e organizações
não-governamentais [...] que provocam reflexos negativos
para a segurança nacional. No momento atual, verificam-se
exemplos dessas entidades no crime organizado, no
narcotráfico e nos movimentos populares como o MST".
Embora seja a vedete da "Operação Pescado", o MST não é a
única sigla sob vigilância.
Monitora-se uma legião de consoantes: MLT (Movimento de
Luta pela Terra), MTRB (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Brasileiros), MNT (Movimento Nacional dos
Trabalhadores), MMBTRST (Movimento Muda Brasil dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) e CPT (Comissão Pastoral
da Terra), braço da Igreja Católica no campo.
"Dinheiro para informante"
Por razões de segurança, o Exército não infiltra seus próprios
agentes em acampamentos e reuniões do MST. Prefere obter
informações por meio de colaboradores. Chama-os por
pseudônimos aquáticos: Pirarucu, Dourado, Pintado,
Lambari, Poraquê etc. A Folha deixa de publicar nomes
reais de informantes do Exército, para não expô-los a risco.
Os arapongas cercam os seus "peixes" de atenções: "os
agentes têm obtido a confiança dos informantes e
560
colaboradores, procurando ajudá-los na solução de
problemas pessoais e profissionais", diz relatório secreto de
31 de agosto de 2000.
"Foi repassada uma quantia de R$ 100 em dinheiro para o
informante Lambari, que estava com dificuldades
financeiras", informa relatório de 30 de abril de 1999. "Foi
repassado, a título de empréstimo, o valor de R$ 100 para o
informante Pirarucu", anota documento de 30 de abril de
2000.
Em alguns casos, os afagos monetários surtem efeito :
"Pirarucu tem sido prestativo", diz documento de 22 de
dezembro de 2000. "Vem alimentando o OI [órgão de
informação] com dados de interesse para o sistema. Depois
que recebeu ajuda financeira, demonstrou-se muito
interessado em manter o órgão informado dos assuntos que
nos são de interesse."
"Ajuda de saúde"
Há também casos de insucesso. Como o registrado em
documento de 31 de agosto de 1999: "o informante Lambari
não foi procurado pelos agentes por demonstrar falta de
responsabilidade e ser uma pessoa que se esquiva do serviço.
Deve ser desligado".
Nem só de reais se alimentam os "peixes" do Exército.
Servem-se, por exemplo, de um inusitado plano de
assistência médica: "Quando os informantes necessitam de
alguma ajuda de saúde para si ou para os seus dependentes,
são encaminhados ao hospital da guarnição, onde são
atendidos prontamente", anota o relatório de 30 de abril de
1999. "Caso seja necessário ser efetuado algum exame
particular, dentro das possibilidades, o órgão de informação
auxilia no pagamento."
A Folha revelou no último dia 25 de julho que o Exército
vem distribuindo cestas de alimentos a ex-colaboradores dos
tempos da guerrilha do Araguaia. Em troca, pede que
guardem silêncio sobre o que se passou no sul do Pará entre
os anos de 1972 e 1974.
Descobre-se agora que, além de agir como força auxiliar do
programa Comunidade Solidária, há ocasiões em que o
Exército faz as vezes de Ministério da Saúde.
Em dois anos e meio de espionagem, o Exército produziu
cerca de cem relatórios sobre o MST só na Amazônia.
Nessa região, o responsável pela "Operação Pescado" é o
major Adriano de Souza Azevedo, comandante do escritório
de inteligência do Exército em Marabá.
O trabalho varre 37 municípios, entre eles Eldorado dos
561
Carajás e Parauapebas, notabilizados pelo episódio que
resultou no massacre de 19 sem-terra em 1996.
Utilizam-se equipamentos que vão da simples máquina
fotográfica a telefones celulares por satélite e sofisticados
sistemas de escuta eletrônica.
A publicação desta reportagem avilta um dos alicerces da
"Operação Pescado". Previa-se que o sigilo deveria permear
todas as fases da missão, do planejamento à execução.
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prioridade
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São Paulo, quinta-feira, 04 de abril de 2002
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CARAJÁS
Promotoria pede que jurada seja
excluída
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
O Ministério Público do Pará pedirá a exclusão de um dos 21
jurados selecionados para o julgamento de Eldorado do
Carajás, previsto para começar na próxima segunda-feira, em
Belém.
Serão julgados 149 policiais militares acusados da morte de
19 sem-terra no massacre de Carajás, em 17 de abril de 96.
A Promotoria apurou que uma jurada já respondeu processo
por crimes de estelionato e falsificação de documentos. Ela é
um dos oito funcionários da Assembléia Legislativa do Pará
selecionados para atuar no julgamento. O processo
prescreveu e foi arquivado.
A juíza Eva do Amaral Coelho, que irá presidir o
julgamento, admitiu que nenhum jurado teve a vida
investigada.
Anteontem, o MST pediu o afastamento da juíza. Ele a acusa
de ter "visíveis tendências políticas contrárias ao MST". Ela
nega e deve decidir hoje sobre sua própria suspeição.
562
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três Estados
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São Paulo, sábado, 06 de abril de 2002
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MST ameaçava não comparecer no
julgamento
FREE-LANCE PARA A FOLHA
Em entrevista no Rio, João Pedro Stedile, dirigente nacional
do MST, afirmou ontem que nem integrantes do movimento,
nem os advogados que assistem a acusação no caso de
Eldorado do Carajás - Nilo Batista, Aton Fon Filho e Luiz
Eduardo Greenhalgh - estariam presentes no tribunal, caso o
julgamento fosse iniciado nesta segunda-feira.
"Ao longo destes seis anos, fomos acompanhando indícios
de que não devemos acreditar na neutralidade da juíza [Eva
do Amaral Coelho". Ela não havia aceito que fosse incluído
o parecer técnico da Universidade de Campinas, que aponta
terem sido os policiais os primeiros a atirar. Isso é peça
fundamental no processo", disse ele.
Segundo Fon Filho, a composição do corpo de jurados e a
pequena quantidade de senhas distribuídas para familiares da
acusação foram outros motivos que incentivaram os
advogados a entrar com o mandado de segurança pedindo a
suspensão do julgamento.
Greenhalgh criticou declarações que a juíza teria feito após
saber do teor do mandado de segurança. "Ela falou que vai
processar o MST e os advogados. E acabou por dizer que a
assistência da acusação não tem direito de entrar com esse
pedido. Isso não é verdade."
Para o advogado Nilo Batista, a liminar podia ser
considerada "um ponto de partida de vitória e esperança"
para os integrantes do MST.
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julgamento suspenso pelo STJ
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563
São Paulo, sábado, 06 de abril de 2002
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QUESTÃO AGRÁRIA
Nova data só deve ser definida após decisão sobre
afastamento da juíza do caso, pedido pelo MST
Massacre de Carajás tem julgamento
suspenso pelo STJ
MAURÍCIO SIMIONATO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
O STJ (Superior Tribunal de Justiça) suspendeu ontem o
julgamento dos policiais acusados do massacre de Eldorado
do Carajás, que estava previsto para começar na segunda-
feira.
O relator do processo, ministro Jorge Scartezzini, da 5ª
Turma do STJ, concedeu o mandado de segurança pedido
pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra). Os sem-terra solicitaram a suspensão do julgamento
enquanto as Câmaras Criminais Reunidas do Tribunal de
Justiça do Pará não julgassem o pedido, também do MST, de
afastamento da juíza Eva do Amaral Coelho.
As Câmaras Reunidas são formadas por 14 desembargadores
e a reunião para decidir se a juíza permanece deve ocorrer na
segunda. A nova data do julgamento só pode ser definida
pela própria juíza, se mantida, ou por um novo juiz
designado para o caso.
A ação foi protocolada anteontem no STJ pelo assistente da
acusação Alderino Alves Pereira, pai de Oziel Alves Pereira,
militante do MST morto no confronto com a polícia em 17
de abril de 1996, na rodovia PA-150, no município de
Eldorado do Carajás (sul do Pará). São acusados pelo
massacre 149 policiais militares.
A semana que antecedeu a suspensão do julgamento foi
marcada pela batalha jurídica provocada pelo MST para
afastar a juíza que iria presidir o julgamento.
O MST havia pedido a suspeição da juíza na segunda-feira
na 1ª Vara da Justiça de Belém. Ontem a juíza decidiu
permanecer no caso. Ela mesma analisou o pedido para seu
afastamento porque ela é a juíza-presidente da 1ª Vara.
O MST também entrou com liminar no Tribunal de Justiça
564
para suspender o julgamento, mas o desembargador Wether
Benedito Coelho negou ontem o pedido.
De acordo com o advogado do MST e assistente da
acusação, Carlos Guedes do Amaral Júnior, "as atitudes da
juíza Eva do Amaral indicam parcialidade na condução do
julgamento".
Por esse motivo, o MST chegou a anunciar ontem à tarde
que não iria mais participar do julgamento como assistente
de acusação se a juíza permanecesse no caso.
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julgamento
São Paulo, terça-feira, 16 de abril de 2002
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TJ mantém juíza no caso Carajás
AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
Os desembargadores do TJ (Tribunal de Justiça) do Pará
decidiram ontem, por unanimidade, manter a juíza Eva do
Amaral Coelho no julgamento do massacre de Eldorado do
Carajás.
Eva do Amaral vai marcar até o final desta semana as novas
datas para as três sessões de julgamento dos 149 policiais
militares acusados pela morte de 19 sem-terra em 17 de abril
de 1996, no sul do Pará. Outras 69 pessoas ficaram feridas
no confronto entre PMs e trabalhadores rurais.
O julgamento estava marcado para começar no último dia 8,
mas foi suspenso pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça),
atendendo a pedido de liminar do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem-Terra).
O movimento havia pedido a suspensão do julgamento até
que a CCR (Câmaras Criminais Reunidas) do TJ do Pará
julgasse o afastamento da juíza Eva do Amaral, também
solicitado pelo MST.
O coordenador do MST no Pará, Raimundo Nonato, afirmou
ontem que os advogados do movimento vão se afastar do
julgamento em protesto contra manutenção da juíza.
"O MST recorrerá até a última instância. A decisão de
manter a juíza fortalece a impunidade e a cumplicidade da
Justiça com os crimes no campo", disse.
565
"Parcialidade"
Eva do Amaral é acusada pelo MST de agir com
"parcialidade" na preparação do julgamento, que já foi
adiado três vezes. A juíza nega a acusação e ameaça
processar o MST por danos morais.
No entanto, dirigentes do MST levantaram a possibilidade de
a própria juíza desistir do caso ainda nesta semana.
Neste caso, o juiz auxiliar do caso, Roberto Moura,
assumiria a presidência do julgamento do caso. A juíza
preferiu não comentar ontem a possibilidade de se afastar
espontaneamente do caso.
(MAURÍCIO SIMIONATO)
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São Paulo, terça-feira, 16 de abril de 2002
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QUESTÃO AGRÁRIA
MST organiza marchas e invasões em comemoração dos
seis anos do massacre de Eldorado do Carajás
Sem-terra intensificam protestos no
país
DA AGÊNCIA FOLHA
Sem-terra de pelo menos sete Estados, liderados pelo MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra),
intensificaram ontem seus protestos por meio de invasões e
marchas na antevéspera da Jornada Nacional de Luta pela
Reforma Agrária.
Amanhã, quando se comemora o Dia Internacional da Luta
Camponesa, data que marca os seis anos do massacre de
Eldorado do Carajás (PA), em 96, os sem-terra prometem
invadir outras propriedades e concentrar suas manifestações
em frente às sedes do Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária) e dos TJs (Tribunais de
Justiça) das principais capitais.
No fim de semana, o MST invadiu fazendas em Pernambuco,
566
Goiás e São Paulo.
Em Pernambuco, o MST invadiu 14 propriedades rurais em
dois dias. "Os trabalhadores estavam ansiosos para ocupar as
terras", disse o coordenador estadual do MST, Jaime
Amorim.
Não foram registrados confrontos, mas o clima é tenso no
Engenho Caxito de Fora, em Jaboatão dos Guararapes
(Grande Recife).
A área tomada pelo MST é reivindicada há sete anos por
outro grupo de trabalhadores rurais, ligados ao MTB
(Movimento dos Trabalhadores Brasileiros).
Segundo a coordenadora da entidade no Estado, Marta
Veloso, "faltou respeito" ao MST ao decidir invadir a
propriedade.
Ontem pela manhã, na Bahia, cerca de 1.500 sem-terra
ligados ao MST invadiram a fazenda Itapetinga, em Amélia
Rodrigues (70 km de Salvador), que pertence à família do
prefeito do município, Paulo Falcão (PHS).
A família do prefeito informou que as terras estavam
arrendadas à Usina Aliança e que advogados contratados
pelos proprietários da fazenda ingressaram na Justiça
pedindo a retirada dos invasores.
No Ceará, cerca de 350 integrantes do MST invadiram
ontem três fazendas no interior do Estado. Não houve
confrontos.
Saques
Em Alagoas, depois de terem bloqueado estradas e
promovido saques a caminhões no final de semana, cerca de
800 sem-terra devem chegar amanhã a Maceió.
Ontem pela manhã, a sede da superintendência do Incra de
Rondônia foi invadida por cerca de 300 integrantes do MCC
(Movimento Camponês Corumbiara), em Porto Velho. Eles
reivindicam a abertura de estradas e infra-estrutura (água, luz
e esgoto) nos assentamentos.
No Rio Grande do Sul, o MST invadiu ontem a fazenda Bom
Retiro, em Júlio de Castilhos. Foi a terceira invasão à
propriedade.
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567
São Paulo, quarta-feira, 17 de abril de 2002
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MST programa para hoje atos
públicos pelo país
DA AGÊNCIA FOLHA
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
pretende realizar hoje uma série de marchas e atos públicos
pelo país para lembrar o 6º ano do massacre de Eldorado do
Carajás.
Eles vão protestar contra o que consideram uma "permanente
impunidade" dos 149 policiais militares acusados de matar
19 trabalhadores rurais sem-terra, em 17 de abril de 1996, no
sul do Pará. O primeiro julgamento foi anulado e o segundo
ainda não tem data prevista para ocorrer.
Cerca de 2.000 manifestantes, entre eles sobreviventes do
massacre, vão se reunir hoje em frente ao Tribunal de Justiça
do Pará. O ato foi denominado Marcha por Reforma Agrária,
Justiça e Contra a Impunidade.
O movimento fez uma passeata ontem pela manhã e também
recrutou integrantes do MTST (Movimento dos
Trabalhadores Sem-Teto) de Ananindeua. O grupo do MTST
é o mesmo que reagiu a uma reintegração de posse da Polícia
Militar em fevereiro deste ano, deixando 84 feridos.
Em Recife, o MST pretende reunir pelo menos mil sem-terra
na marcha e no ato público de hoje. A manifestação deve
encerrar a "Jornada de Luta" do movimento em Pernambuco,
iniciada domingo com a invasão de 13 propriedades rurais.
Até ontem, 16 áreas haviam sido tomadas no Estado.
Em Alagoas, sem-terra realizaram novo saque na manhã de
ontem. Formado por cerca de 200 pessoas ligadas ao
Movimento de Trabalhadores e à Comissão Pastoral da
Terra, o grupo saqueou um caminhão da Perdigão. A ação
ocorreu na BR-101. No último final de semana, sem-terra
ligados aos MST haviam saqueado três caminhões na
rodovia.
Grupo de cerca de 500 integrantes do MST foi impedido na
manhã de ontem por em torno de 200 proprietários rurais de
realizar uma marcha de acampamento no município de
Hulha Negra até Bagé, no Rio Grande do Sul.
Os sem-terra estavam acampados às margens da BR-293 e
esperavam a desobstrução da via para começar a caminhada.
568
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São Paulo, quinta-feira, 18 de abril de 2002
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QUESTÃO AGRÁRIA
Manifestantes lembram os 6 anos do massacre de
Carajás com marchas, invasões e bloqueio de estradas
Sem-terra fazem protestos em 11
Estados
DA AGÊNCIA FOLHA
Sem-terra liderados pelo MST promoveram marchas,
invasões, bloqueios de estradas e atos públicos em 11
Estados para lembrar seis anos do massacre de Eldorado do
Carajás. Em Recife (PE) houve confronto de manifestantes
com policiais
A Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Ciudad
del Leste, permaneceu bloqueada por 45 minutos. Em MG,
sem-terra invadiram uma fazenda do governo do Estado.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
cobra das autoridades uma punição exemplar aos 149
policiais militares acusados pela morte 19 sem-terra, em 96,
no Pará.
Em Recife, as ações envolveram lavradores ligados ao MST
e ao MT (Movimento dos Trabalhadores), com apoio de
grupos de sem-teto e estudantes.
O conflito mais grave aconteceu em frente ao monumento
"Tortura Nunca Mais", no centro da cidade. Parte dos cerca
de 300 manifestantes ligados ao MST que estavam no local
trocaram socos e pontapés com quatro policiais militares que
acompanhavam a movimentação.
Em desvantagem, os policiais tentaram fugir, mas os
lavradores avançaram, jogando pedras e paus. Acuados, os
PMs sacaram as armas. Os manifestantes só foram contidos
quando outros integrantes do MST se colocaram entre os
grupos.
569
Em um carro de som, o coordenador do movimento no
Estado, Jaime Amorim, pedia: "vamos salvar a vida desses
policiais, mas só por hoje, só por hoje".
Enquanto a passeata acontecia no centro da cidade, na zona
oeste outro grupo de lavradores, ligados ao MT, fizeram
reféns por duas horas três funcionários do Incra (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária).
Os trabalhadores invadiram o prédio para reivindicar
agilidade no processo de reforma agrária. Com a chegada da
Polícia Federal, os sem-terra se retiraram do prédio e
ninguém foi preso.
Paraná e Minas
No Paraná, aproximadamente mil pessoas bloquearam, das
14h30 às 15h15, a ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu
a Ciudad del Este (Paraguai). O bloqueio foi coordenado
pelo MST e contou com o apoio de entidades de Foz do
Iguaçu.
Pela manhã, os manifestantes participaram de um ato público
em frente à Cúria Metropolitana de Foz do Iguaçu. O
protesto dos sem-terra contou com a presença de
representantes da comunidade árabe da região, que
carregavam bandeiras palestinas. Eles pediam o fim da
ocupação israelense.
Em Minas Gerais, o integrantes do MST invadiram três
fazendas, sendo uma delas experimental do governo mineiro,
em Carmo da Mata. A fazenda do Estado pertence à Epamig
(Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), um
órgão vinculado à Secretaria da Agricultura.
O MST recrutou cerca de 150 famílias para invadir o local,
alegando que a fazenda da Epamig está "sem atividades",
segundo Wagner Martins, dirigente do movimento estadual
dos sem-terra, versão contestada pelo governo. A assessoria
da Secretaria Estadual da Agricultura informou que são
desenvolvidos dois projetos na fazenda experimental.
Pará
Em Belém (PA), pelo menos 2.000 sem-terra, sindicalistas e
integrantes de movimentos populares fizeram uma passeata
até o Tribunal de Justiça do Pará para lembrar o 6º ano do
massacre de Eldorado do Carajás.
Entre os manifestantes estavam 35 dos 67 sobreviventes do
massacre. Ficaram feridos no confronto 69 trabalhadores
rurais, mas dois morreram nos últimos seis anos.
As principais avenidas da capital paraense foram interditadas
pelos manifestantes, que carregavam cartazes e faixas de
570
protesto. Eles voltaram a pedir o afastamento da juíza Eva do
Amaral Coelho do julgamento de Carajás.
Na última segunda-feira, o Tribunal de Justiça decidiu
manter a juíza no caso. Ela deve definir entre hoje e amanhã
as novas datas para o julgamento. A passeata começou às 7h
e acabou às 12h30. O ato foi pacífico.
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São Paulo, sexta-feira, 19 de abril de 2002
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PANORÂMICA
QUESTÃO AGRÁRIA
Integrantes do MST invadem Banco do Nordeste em
Alagoas pedindo crédito
Cerca de 200 integrantes do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) invadiram na manhã de
ontem uma agência do Banco do Nordeste, em Maceió (AL).
Os sem-terra -que exigiam a liberação de créditos- deixaram
o local no final da tarde, após terem recebido a promessa de
que o problema será solucionado na próxima semana.
A ação aconteceu um dia após o MST ter liderado em 11
Estados uma série de invasões, atos e bloqueios de estradas
para lembrar os seis anos do massacre de Eldorado do
Carajás (PA), em 96, quando 19 trabalhadores rurais
morreram durante confronto com policiais militares.
Ontem, por volta das 14h, a maioria dos sem-terra deixou o
prédio sob o argumento de que seriam recebidos por
autoridades locais. Apenas 30 sem-terra permaneceram na
agência para se reunir com membros do Ministério Público
Estadual e da Procuradoria da República em Alagoas,
diretores do Banco do Nordeste e do Banco do Brasil e
integrantes da Comissão de Direitos Humanos na PM. Os
sem-terra deixaram o banco às 17h. (DA AGÊNCIA FOLHA)
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Judiciário
571
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Usimar
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São Paulo, sábado, 27 de abril de 2002
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Julgamento de Carajás acontece em
maio e junho
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
A juíza Eva do Amaral Coelho marcou ontem as novas datas
do j
ulgamento dos policiais militares envolvidos no massacre
de Eldorado do Carajás para os dias 14 e 27 de maio e 10 de
junho.
A juíza vai presidir o julgamento em três sessões de júri
popular, que levará 149 policiais militares ao banco de réus.
Eles são acusados pela morte de 19 sem-terra, em 17 de abril
de 96, no município de Eldorado do Carajás, sul do Pará,
durante a desobstrução de uma estrada.
Na primeira sessão serão julgados o coronel Mário Colares
Pantoja, na época comandante da Polícia Militar, o major
José Maria Pereira de Oliveira e o capitão Raimundo José
Almendra Lameira. Os três comandavam a tropa no dia do
massacre.
A segunda sessão terá 17 policiais, sendo 12 sargentos,
quatro tenentes e um cabo da polícia. Na última sessão do
júri, marcada para 10 de junho, serão julgados 129 policiais.
O julgamento estava marcado para começar no último dia 8,
mas foi suspenso por decisão do STJ (Superior Tribunal de
Justiça), atendendo a pedido do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra).
O MST havia pedido a suspensão do julgamento até que a
CCR (Câmaras Criminais Reunidas) do TJ do Pará julgasse o
afastamento da juíza Eva do Amaral, também solicitado pelo
movimento. O TJ decidiu, no último dia 14, por
unanimidade, manter a juíza no caso.
Ela é acusada pelo MST de agir com "parcialidade" na
preparação do julgamento. A juíza nega a acusação e ameaça
processar o MST por danos morais. (MAURÍCIO
SIMIONATO)
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572
aceito e líder do MST fica detido
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São Paulo, sexta-feira, 10 de maio de 2002
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CASO CARAJÁS
Eva do Amaral diz querer evitar nova suspensão
Juíza se afasta de julgamento de
massacre; 6º magistrado assume
MAURÍCIO SIMIONATO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
A juíza da Eva do Amaral Coelho decidiu ontem se afastar
do julgamento do massacre de Eldorado do Carajás. O juiz
auxiliar Roberto Moura, 46, vai substituir Eva do Amaral.
Ele será o sexto magistrado a presidir o caso e assume a
missão faltando cinco dias para o início do júri.
As datas do julgamento estão mantidas, segundo o Tribunal
de Justiça. As três sessões de júri estão marcadas para os dias
14 e 27 deste mês e para o dia 10 de junho.
Serão julgados 149 policiais militares envolvidos na morte
de 19 sem-terra em 17 de abril de 1996, durante a
desobstrução da rodovia PA-150 no município de Eldorado
dos Carajás, no sul do Pará. Outros 60 ficaram feridos.
"Não renunciei por medo, pressão ou intimidação, e sim para
evitar que o julgamento fosse suspenso novamente. Esse
caso já virou praticamente uma novela", declarou ontem a
juíza.
Mesmo com a saída da juíza, os advogados do MST entram
hoje com uma ação no STJ pedindo a anulação do
julgamento, que já foi suspenso três vezes. A direção do
MST, que pedia a saída da juíza, quer levar o julgamento
para a Justiça Federal. Há um ano, o MST iniciou a batalha
judicial para afastar Eva do Amaral do caso, com a alegação
de que ela tinha uma conduta parcial na condução do
processo. Ela nega a acusação.
A renúncia da juíza foi motivada por uma nova ação do MST
protocolada anteontem no TJ-PA também pedindo o seu
573
afastamento. A ação tem nome jurídico de exceção de
suspeição.
O advogado do MST, Carlos Guedes, afirma na ação que a
juíza tem problemas pessoais contra os assistentes da
acusação. A juíza entrou com ação criminal contra Guedes
no ano passado por injúria, calúnia e difamação baseado num
artigo assinado pelo advogado em um jornal jurídico.
"Tenho consciência de que meus atos neste processo foram
pautados pela imparcialidade, livre convencimento,
probidade e aparo legal", disse a juíza.
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Supremo
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rapidez e a densidade da notícia
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São Paulo,bado, 11 de maio de 2002
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PANORÂMICA
QUESTÃO AGRÁRIA
Advogados do MST tentam adiar o julgamento de
Carajás pela segunda vez
Advogados do MST tentarão adiar pela segunda vez o
julgamento do massacre de Eldorado do Carajás. Uma ação
deve ser protocolada neste fim de semana no STJ (Superior
Tribunal de Justiça). O movimento havia previsto entrar com
a ação ontem, mas adiou, como parte de sua estratégia de
obter uma liminar que impeça o julgamento, marcado para a
próxima terça.
Anteontem, a juíza Eva do Amaral Coelho decidiu se afastar
do caso. Ela é acusada pelo MST de agir com parcialidade. O
juiz auxiliar no processo, Roberto Moura, será o sexto
magistrado a assumir a presidência do julgamento.
Em abril, o MST já havia conseguido a suspensão o
julgamento. O TJ-Pará informou que as datas do julgamento
estão mantidas para os dias 14 e 27 deste mês e para 10 de
junho. Serão julgados 149 PMs envolvidos na morte de 19
sem-terra em abril de 96. (DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM)
574
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Maluf
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São Paulo, terça-feira, 14 de maio de 2002
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QUESTÃO AGRÁRIA
Júri para os 149 policiais acusados já foi adiado três
vezes
Julgamento do massacre de Carajás
começa hoje no Pará
MAURÍCIO SIMIONATO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
Seis anos e 27 dias depois, vão a júri a partir de hoje, às 8h,
em Belém, os 149 policiais militares acusados pelo massacre
de Eldorado do Carajás, que deixou 19 sem-terra mortos e 60
feridos no dia 17 de abril de 1996, na rodovia PA-150, no sul
do Pará.
Este será o maior julgamento da história do Judiciário
brasileiro, em número de vítimas e de acusados, segundo o
TJ (Tribunal de Justiça) do Pará.
O julgamento foi adiado três vezes e o juiz Roberto Moura
será o sexto a presidir o júri. Ele substitui Eva do Amaral
Coelho, que se afastou na semana passada.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
tentou adiar, sem sucesso, o julgamento, em pedido ao STJ
(Superior Tribunal de Justiça). "Pedimos adiamento para que
nossos advogados possam se preparar e outros jurados sejam
sorteados", disse o coordenador do MST no Pará, Raimundo
Nonato.
O júri será composto por 21 funcionários públicos. Deles,
sete serão sorteados para decidir o caso.
Os promotores pedirão pena máxima para os acusados, que
varia de 12 a 30 anos para a condenação por homicídio. A
defesa sustentará que não há como acusar individualmente
575
todos os PMs envolvidos. Cada uma das três sessões do júri
deve durar de três a quatro dias, segundo Moura.
As pressões em torno do julgamento fizerem até com que o
Ministério Público contratasse uma psicóloga para auxiliar
os dois promotores do caso.
As principais armas da defesa e da acusação estão
sustentadas em laudos de dois peritos rivais: Ricardo Molina
e Fortunato Badan Palhares (leia texto nesta página).
Os últimos meses que antecederam o julgamento foram
marcados por uma batalha jurídica provocada pelo MST para
afastar Eva do Amaral. Ela se afastou do caso na semana
passada, depois de o movimento pedir pela segunda vez a
sua saída. Os sem-terra dizem que ela tinha "visíveis
tendências políticas contrárias ao MST". Ela nega as
acusações.
No primeiro julgamento d
os oficiais da PM, em 99, a cena de
um tiro disparada do lado dos sem-terra foi determinante
para a absolvição de três acusados. No entanto, o julgamento
foi anulado pelo TJ em 2000 porque os jurados teriam sido
induzidos ao erro.
O confronto aconteceu depois que cerca de 200 policiais,
obedecendo a instruções do governador Almir Gabriel
(PSDB-PA), foram enviados para o local para desobstruir a
rodovia PA-150, que havia sido bloqueada por 1.100 sem-
terra no dia anterior.
Originalmente, eram 155 PMs indiciados pelo massacre de
Eldorado dos Carajás, mas, nos seis últimos anos, cinco
foram excluídos do caso porque morreram, e o soldado
Edson Soares, alegando insanidade mental, foi retirado do
processo enquanto aguarda laudo pericial do Instituto Renato
Chaves, em Belém.
A Secretaria de Estado dos Direitos Humanos divulgou nota
em que diz esperar "que as providências tomadas pelas
autoridades do Pará garantam que o julgamento seja
conduzido de forma imparcial e dentro das normas que
asseguram a aplicação do devido processo legal em um
Estado democrático de Direito".
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no Pará
São Paulo, quinta-feira, 16 de maio de 2002
576
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QUESTÃO AGRÁRIA
"Não houve massacre", diz Badan; Molina acha tese
"meio estranha"
Disputa entre peritos marca
julgamento do caso Carajás
MAURÍCIO SIMIONATO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
O segundo dia do julgamento do caso Eldorado do Carajás
(PA) foi marcado pela batalha de laudos entre o médico-
legista Badan Palhares e o foneticista Ricardo Molina, ambos
da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
Badan afirmou que não houve massacre. "Não morreram
mulheres nem crianças. Em um massacre não se distingue
nada", disse ele sobre o confronto ocorrido em 17 de abril de
96, quando 19 sem-terra foram mortos e 84 pessoas ficaram
feridas.
"Não houve massacre. O que posso afirmar é que as 19
pessoas que morreram, no meu entender, foram escolhidas
para morrer. Houve intenção de matar, mas quem produziu
essas mortes?", perguntou. Segundo ele, oito dos 19 mortos
foram feridos com instrumentos cortantes, como foice.
Já Molina afirmou: "A conclusão do laudo dele [Badan" é
meio estranha. Ele diz que a maioria foi morta por armas
brancas e quem usa é o MST. Então só se pode concluir que
eles mataram uns aos outros ou se suicidaram".
Molina analisou há dois anos as imagens do confronto, e
Badan elaborou, em 1996, um parecer técnico sobre os
laudos necroscópicos dos 19 mortos.
Os advogados de defesa tentaram fazer uma acareação entre
Badan e Molina, mas o juiz Roberto Moura negou o pedido.
Eles são desafetos, tendo se contraposto em diversos outros
casos.
Molina depôs como testemunha da acusação dos policiais
militares, e Badan foi convidado pela defesa para explicar o
seu parecer. Nos bastidores, os dois trocaram farpas por meio
da imprensa.
Em seu depoimento, Molina reafirmou seu laudo feito em
setembro de 2000. A fita do confronto, com 9 minutos e 11
segundos, foi desmembrada em 33 quadros, dos quais pelo
577
menos sete mostram que a polícia atirou primeiro, para
acertar.
O laudo do foneticista revela que, antes do conflito, dois
sem-terra foram feridos e ao menos um foi morto pelas
costas depois que a rodovia PA-150 foi liberada. Para
Molina, o confronto começou antes do início das gravações.
A cena começa com sons de disparos. "Quando começou o
tiroteio, a câmera estava no acampamento, mas dá para ouvir
rajadas de metralhadora."
Jurados
Nesta primeira etapa, estão sendo julgados os oficiais que
comandaram a operação. Os sete jurados -quatro mulheres e
três homens- poderiam tomar sua decisão nesta madrugada.
O Ministério Público do Pará quer a pena máxima de
homicídio -30 anos- para o coron
el Mário Pantoja e o capitão
Raimundo Almendra Lameira.
O terceiro oficial no dia do confronto, major José Maria de
Oliveira, será julgado em separado na próxima terça-feira.
O advogado Roberto Lauria, que defende os oficiais, disse
que "a acusação não tem provas".
A segunda sessão de júri foi marcada o próximo dia 27.
Serão julgados 17 PMs: 12 sargentos, quatro tenentes e um
cabo da policia. Na terceira sessão, marcada para o dia 10 de
junho, serão julgados 129 policiais militares.
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imagem
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São Paulo, sexta-feira, 17 de maio de 2002
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Marco Aurélio lamenta a que ponto se
chegou
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O presidente interino da República, Marco Aurélio de Mello,
afirmou ontem, ao comentar o julgamento de Eldorado do
Carajás, que "é de lamentar que a questão agrária tenha
chegado a esse ponto" e que é preciso "dar uma atenção
578
maior a essa matéria".
Lembrado de que o presidente Fernando Henrique Cardoso
sempre cita a política agrária como um dos seus maiores
feitos, disse: "O que estamos notando é que se esperou muito
para se ter a reforma agrária". Segundo ele, por mais que se
faça ainda se terá a reforma como aquém da desejada. "Mas
vamos progredir, vamos buscar o afastamento do cenário
nacional do que podemos denominar como perversa
distribuição da riqueza."
Marco Aurélio previu uma grande controvérsia sobre a pena
de 228 anos recebida por Mário Pantoja. Segundo ele, a
questão é saber se cada morte é um crime autônomo ou se se
trata de uma "continuidade delitiva". Ele não opinou sobre o
resultado do julgamento porque o caso pode chegar ao
Supremo Tribunal Federal.
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massacre
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São Paulo, sexta-feira, 17 de maio de 2002
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Absolvição de capitão surpreende
MST
DA AGÊNCIA FOLHA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do MST,
disse que o movimento ficou surpreso com a absolvição do
capitão Raimundo Lameira. "Apesar de satisfeitos com a
condenação do coronel [Mário Pantoja", ficamos surpresos",
afirmou Rodrigues.
Segundo ele, os 228 anos de prisão para o coronel Mário
Pantoja satisfazem as famílias das vítimas. Ele voltou ontem
a afirmar que o MST queria, ""e ainda quer", que o júri
ocorresse em esfera federal, ""para que o julgamento fosse
isento e sem as pressões da oligarquia e do governo do Pará".
O advogado do MST no Pará, Carlos Guedes, também disse
estar frustrado com a absolvição.
"A absolvição manchou a condenação do coronel Pantoja. O
MST também está chocado com a decisão do juiz de permitir
579
que o coronel recorra em liberdade", afirmou. Sobre a
absolvição do capitão, ele completou: "Com isso, o
movimento teme que a tendência agora seja a absolvição dos
demais policiais julgados".
UDR
O presidente nacional da UDR (União Democrática
Ruralista), Luiz Antônio Nabhan Garcia, culpou o que
chamou de ""falta de coragem e determinação do governo
em fazer uma reforma agrária séria" por episódios como o de
Carajás. ""Ninguém faz nada sem ordens superiores. A PM
foi garantir o direito de ir e vir. Não cabe a mim julgar quem
atirou primeiro. Mas isso só ocorreu pela incompetência do
governo."
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chegou
São Paulo, sexta-feira, 17 de maio de 2002
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CARAJÁS
Juiz decide que coronel pode recorrer em liberdade;
Pantoja poderá passar até cinco anos livre antes de
decisão final
Oficial é condenado a 228 anos por
massacre
MAURÍCIO SIMIONATO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
A Justiça do Pará condenou ontem o comandante da tropa da
Polícia Militar no conflito que deixou 19 mortos em
Eldorado do Carajás (sul do Estado) -ocorrido em 17 de abril
de 1996- a 228 anos de prisão.
O coronel Mário Colares Pantoja, 56, não irá para a cadeia
agora. Como o juiz permitiu que ele recorresse da decisão
em liberdade, Pantoja poderá passar até cinco anos solto
antes de uma decisão de última instância.
O coronel foi condenado por homicídio por ter comandado
580
uma tropa de 89 PMs durante confronto na rodovia PA-150.
A sentença o condenou a 12 anos de prisão por cada uma das
19 mortes. Dos sete jurados, quatro foram favoráveis à
condenação.
O juiz do caso, Roberto Moura, decidiu que o coronel
responderá pelo crime em liberdade por não ter antecedentes
criminais e por ser réu primário.
Caso sejam esgotadas todas as etapas de sua defesa, Pantoja
poderá recorrer ao Tribunal de Justiça do Pará, ao STJ
(Superior Tribunal de Justiça) e ao STF (Superior Tribunal
Federal).
Se for condenado na última instância, Pantoja cumprirá a
prisão em regime fechado -por um período máximo de 30
anos, conforme prevê a lei.
O advogado de Pantoja, Roberto Lauria, anunciou que
entrará hoje com apelação no TJ para anular o julgamento. O
recurso será analisado por uma câmara de desembargadores.
Como a sentença foi dada em júri popular, a lei prevê que as
partes não podem recorrer da decisão. A apelação só pode
ser feita com um pedido de anulação do julgamento.
Ordem
Em seu depoimento, Pantoja afirmou ao juiz que cumpriu
ordens do governador Almir Gabriel (PSDB) e do Comando
Geral da PM para desocupar a estrada "de qualquer jeito".
O governador admitiu que deu a ordem, mas negou que
tenha autorizado o uso de força.
O outro oficial julgado ontem, o capitão Raimundo
Almendra Lameira, 30, foi absolvido pelo jurados por seis
votos a um.
Lameira é um dos policiais que aparecem nas imagens
gravadas do confronto disparando uma rajada de
metralhadora em direção aos sem-terra.
A sentença dos dois oficiais foi lida pelo juiz na madrugada
de ontem, às 4h15, no plenário do Tribunal de Justiça do
Pará, em Belém. Na próxima terça-feira, o major José Maria
Pereira Oliveira, comandante do Batalhão da PM em
Parauabepas (PA), na época do conflito, será julgado (veja
quadro à esquerda).
Haverá ainda outras duas sessões do caso, totalizando o
julgamento de 149 policiais.
Ministério Público
O Ministério Público do Estado recorrerá ainda nesta semana
da decisão dos jurados de absolver o capitão Lameira.
"Vamos manter a posição de que ele [Lameira] teve
581
participação direta na morte dos 19 sem-terra. Mas a
condenação do Pantoja foi uma vitória da sociedade",
afirmou o promotor Marco Aurélio Nascimento. Ele também
criticou a decisão do juiz de permitir que Pantoja recorra em
liberdade.
Segundo o advogado dos oficiais, Américo Leal, a defesa irá
recorrer da condenação do coronel por não concordar com a
decisão dos jurados. "Não há sequer uma prova que implique
Pantoja na autoria dos crimes", disse.
Antes da sentença dos jurados, acusação e defesa trocaram
provocações no plenário.
A defesa argumentou diante do júri que o "MST [Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, do qual os mortos eram
militantes] é um movimento criminoso" e que "a falta de
uma reforma agrária" por parte do governo federal seria a
raiz do confronto. "Os jurados levarão a culpa por legitimar
toda a conduta arbitrária dos sem-terra", disse Lauria.
Texto Anterior: Governo: "É mais fácil ser estilingue", diz
Marco Aurélio na Presidência
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São Paulo, sexta-feira, 17 de maio de 2002
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PAINEL DO LEITOR
Negócios
"Tomo a liberdade de sugerir que, a partir de agora, todo o
noticiário sobre Fórmula 1, Ferrari, Barrichello e que tais
seja publicado no caderno Dinheiro, e não mais no caderno
Esporte, já que vimos tratar-se muito mais de negócio do que
de esporte."
Sérgio D. Coutinho (Belo Horizonte, BH)
Carajás
"A reportagem sobre o julgamento dos acusados pelo
massacre dos sem-terra em Eldorado do Carajás ("Coronel
culpa governador pelas 19 mortes em Carajás", Brasil, pág.
A10, 15/5) revela o descaso do governo em relação à
punição dos envolvidos na tragédia. O confronto ocorreu em
582
1996, e só agora alguém é condenado. O jogo de empurra-
empurra é constante entre os acusados, e quem continua
sendo prejudicado nessa história são os sem-terra, que
sofrem a humilhação de não ter um pedaço de terra para
viver dignamente em um país de enormes dimensões. Até
quando essa impunidade prevalecerá nos tribunais
brasileiros? A nação brasileira aguarda essa resposta!"
Marcelo Godoy Rigobello (São José dos Campos, SP)
"Demorou, mas conseguiu. O MST, dos "sem-terra, sem-
casa e sem-banco", derrotou a Polícia Militar brasileira.
Infelizmente, a PM, na pessoa do coronel Pantoja, sem
antecedentes criminais e com uma vida toda dedicada ao
trabalho, vem a ser condenada pela própria sociedade que
defende. Como é possível que um júri composto por civis
que nada sabem das vicissitudes do dia-a-dia enfrentado pelo
soldado -que deixa mulher e filhos em casa sem saber se
voltará ao lar- possa ter conhecimento e isenção de ânimo
para tal mister? Como é possível a decisão se dois peritos
oficiais se contradisseram radicalmente no aprofundamento
das provas? Como é possível, se quem determinou a ação foi
o governador do Estado? É triste, muito triste."
José Celso Pereira Cardoso, coronel da reserva da Polícia
Militar de São Paulo (São João da Boa Vista, SP)
Oposição
"Chega a ser indecente a forma como Delfim Neto (PPB-SP)
se refere a questões da maior importância para o Brasil. De
forma mesquinha, ele nem se constrange em dizer (coluna de
Elio Gaspari, Brasil, pág. A14, 12/5) que irá se divertir muito
em fazer oposição ao PT, como se não estivesse em jogo o
destino de toda uma nação com 170 milhões de cidadãos. É
muita irresponsabilidade de uma pessoa de quem se espera
um mínimo de decência."
Rodrigo Borges de Campos Netto (Brasília, DF)
Casamento homossexual
"Vi com espanto nos jornais o sr. presidente da República
posar para fotógrafos com a bandeira do movimento gay.
Como se não bastasse, o sr. Fernando Henrique Cardoso
acrescenta a isso uma pressão sobre os nossos legisladores
para que aprovem o projeto da então deputada pelo PT Marta
Suplicy sobre a união civil dos homossexuais. Será que o sr.
presidente da República se esquece de que, favorecendo a
união contra a natureza criada por Deus, acaba criando outra
discriminação, isto é, a dos brasileiros honrados?"
583
João Carlos B. Luzitano (Rio de Janeiro, RJ)
Volta olímpica
"Assistindo pela TV à comemoração do elenco do
Corinthians em Brasília pela conquista da Copa do Brasil
sobre o Brasiliense, notei a falta do juiz do primeiro jogo das
finais na volta olímpica dos jogadores. Deve ser por causa da
suspensão que ele recebeu."
Benedito José Passarelli (São Paulo, SP)
Clareza e coerência
"O senhor Armínio Fraga foi infeliz em suas declarações à
Rede Globo. Ficou evidente o caráter eleitoreiro
(referendado pelo tratamento dado pela emissora, que repetiu
insistentemente a reportagem em seus telejornais) de suas
palavras. Se o "mercado" (leia-se especuladores
internacionais) está inseguro, pode ser devido ao retrocesso
experimentado pelo nosso país nestes últimos oito anos.
Éramos a oitava economia do mundo e caímos para abaixo
da décima. Éramos a maior economia da América Latina e
perdemos a posição para o México. O Produto Interno Bruto
cresceu abaixo das nossas necessidades mínimas. O PIB per
capita encolheu, a dívida quase triplicou. Vendemos
praticamente todos os nossos ativos. Apagão, tarifaço,
retrocesso nos investimentos em infra-estrutura, serviços
privatizados campeões em reclamações nos Procons.
Estamos vendendo (na surdina) o que sobrou de nossas
estatais, só que agora estamos vendendo em Nova York. Se
falta clareza ou coerência a alguém, esse alguém não é da
oposição."
Mario Lobato da Costa (Curitiba, PR)
Direitos humanos
"É de estranhar a preocupação de FHC em implantar o
Programa de Direitos Humanos 2, faltando oito meses para
terminar o governo -ainda assim, a maioria das propostas
serão para o próximo presidente efetuar. São reivindicações
antigas dos movimentos sociais e devemos nos perguntar por
que não foram implementadas antes. Aumentam mais as
minhas dúvidas sobre o real empenho do governo em relação
aos direitos humanos quando me lembro de que, há algumas
semanas, o mesmo FHC vetou um projeto de lei para a
implantação do programa de orientação sexual e prevenção
de drogas em todas as escolas públicas de 1º e de 2º graus do
país."
Dulce Xavier (São Bernardo do Campo, SP)
584
Pesquisas
"Gostaria de manifestar minha estranheza e insatisfação pelo
grande espaço editorial gasto para analisar pesquisas a
respeito de uma eleição que vai ocorrer daqui a quatro
meses. Tais "pesquisas" devem ter necessariamente aspas,
porque não refletem sequer uma tendência, já que são feitas
prematuramente. Tanto espaço até as eleições poderia ser
muito mais adequado e produtivo se fosse utilizado para
debater os problemas na
cionais, com entrevistas com pessoas
de alto nível e técnicos apolíticos, de forma a aumentar o
nível de exigência dos nossos eleitores e a aclarar as
inteligências a respeito dos grandes temas nacionais. Além
disso, essas "estatísticas" podem ser perniciosas na medida
em que podem precipitar -em muitas pessoas não
suficientemente esclarecidas- uma definição ainda imatura e
também induzir os candidatos a partir para posições
demagógicas."
Sergio Falconi (São Paulo, SP)
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solidário
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São Paulo, quinta-feira, 13 de junho de 2002
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QUESTÃO AGRÁRIA
Dos 145 réus, 3 serão julgados dia 20 e só 2 foram
condenados
124 PMs são absolvidos no
julgamento de Carajás
MAURÍCIO SIMIONATO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
O julgamento do massacre de Eldorado do Carajás (sul do
Pará), onde morreram 19 sem-terra durante confronto com a
Polícia Militar em 17 de abril de 1996, chegou praticamente
585
ao fim ontem com a absolvição do grosso da tropa envolvida
-124 PMs.
Outros três serão julgados em separado no dia 20 e devem ter
o mesmo veredicto. Com isso, só dois PMs receberam
sentenças.
Com 120 horas em cinco sessões separadas, o julgamento foi
o maior da história do Brasil em número de réus -145 ao
todo.
Em 10 mil páginas de processo e passados seis anos e 56
dias do dia do confronto, o Ministério Público do Pará não
conseguiu provas para individualizar as culpas. Defendeu
então a tese de co-autoria em todas as mortes.
A tese foi rechaçada pelos jurados. Ontem, a maioria do júri
absolveu os policiais por 5 votos a 2.
Dos 18 julgados nas quatro sessões anteriores, 16 foram
absolvidos. O coronel Mário Pantoja, que comandou a tropa
de Marabá, foi condenado a 228 anos de prisão. O major
José Maria Oliveira pegou 158 anos.
Pantoja e Oliveira estão recorrendo em liberdade por serem
réus primários. A legislação brasileira não permite que uma
pessoa permaneça mais de 30 anos presa.
Estava previsto para ontem o julgamento de 127 PMs, mas a
Justiça desmembrou o júri de três deles para o próximo dia
20. O nome de Jailton Oliveira da Silva foi
grafado errado no
processo, Lindon Johnson Lima está foragido e teve a prisão
decretada, e Genedir Chagas Freitas não compareceu,
alegando problemas de saúde.
Ao todo foram absolvidos 143 policiais e dois foram
condenados, somando 145 militares. No dia do confronto, as
duas tropas tinham 155 policiais. Dos 10 restantes, 6
morreram, 3 foram retirados do processo porque não estavam
no local do confronto e 1 alegou insanidade mental e
aguardará decisão judicial.
Dirigentes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) no Pará ameaçam iniciar uma onda de invasões
nas próximas semanas em represália.
Representantes de direitos humanos que acompanharam o
julgamento ficaram revoltados. "Como pode: morreram 19
pessoas, os mandantes foram condenados, mas os
executores, absolvidos?", questionou a subprocuradora da
República e procuradora federal dos Direitos do Cidadão,
Maria Eliane Menezes de Faria.
A procuradora encaminhará um relatório para a OEA
(Organização dos Estados Americanos), criticando o
julgamento.
O Ministério Público vai recorrer, pedindo a anulação do
586
julgamento. Os advogados de defesa sustentaram a tese de
que, sem provas concretas, não havia como imputar o crime
a todos.
Texto Anterior: Outro Lado: Advogado afirma que a
estratégia foi não recorrer
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São Paulo, domingo, 17 de novembro de 2002
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PAINEL
Balde de água fria
Lula avisou ao PT que o partido terá seis ou sete ministérios
em seu governo. Os demais cargos do primeiro escalão (entre
14 e 15) serão distribuídos entre os partidos aliados, a
sociedade civil e o empresariado.
Pelo loteamento
A pressão por cargos dentro do PT é grande. Há na sigla pelo
menos dois candidatos para cada ministério. Mas Lula avisou
que um ministério com maioria petista dificultaria seu
diálogo com partidos e sociedade.
Divisão de letras
Depois do PT, PL e PMDB deverão ser os partidos com mais
ministérios -dois para cada um. Aliado do primeiro turno, o
PC do B quer duas pastas, mas deve ficar com uma. PSB,
PDT, PPS, PTB e até o PV podem ocupar cadeiras na
Esplanada.
Primeiro passo
Lula já avisou a Palocci Filho e José Dirceu que eles ficarão
no Executivo. O presidente eleito só não definiu os cargos.
Força adversária
Anthony Garotinho (RJ) revelou ao PSB ter ficado irritado
com notícias de que a governadora Benedita (PT) e o
antropólogo Luiz Eduardo Soares poderão ter cargos de
destaque no governo Lula. Garotinho não quer ver crescer o
poder do seu grupo de desafetos no PT-RJ.
Acertos no varejo
587
A bancada do PL pressiona o PT para que pare de negociar
com o presidente do partido, Valdemar Costa Neto (SP), e
converse individualmente com deputados e senadores
liberais.
Vida e morte
Valdemar Costa Neto (SP) está à cata de filiações para
aumentar o poder de fogo da sigla na disputa por cargos no
governo Lula. A onda de filiações que o presidente do PL
esperava ainda não ocorreu. Pior que isso, há deputados
liberais sendo assediados pelo PMDB, como Luiz Antônio
de Medeiros (SP).
Prestígio reduzido
A hipótese de o vice-presidente eleito, José Alencar (MG),
aceitar um ministério no governo Lula reduz ainda mais o
capital político de Costa Neto para a negociação de cargos. O
vice estaria, assim, "lavando as mãos", para deixar com
Valdemar a tarefa de obter outros cargos.
Papagaio de pirata
Como FHC não aceita ficar no cargo além do prazo, a piada
no Congresso é que o senador Ramez Tebet (PMDB-MS)
insiste em mudar a data da posse do novo presidente para
ficar seis dias na Presidência e, assim, garantir lugar na foto
histórica da passagem da faixa presidencial.
Rastro de pólvora
A maior investigação sobre lavagem de dinheiro já feita no
país -R$ 14 bi foram enviados a 35 mil pessoas do exterior a
partir de Foz do Iguaçu (PR)- agora está atrás de diretores do
Banestado, do Banco Araucária e do Banco Central. Os
inquéritos serão enviados a Curitiba.
Prata da casa
A PF abriu cerca de 700 inquéritos para apurar a lavagem no
PR. Agora a Justiça Federal decidiu, acolhendo pedido do
Ministério Público Federal, que todos os casos devem ser
apurados em Curitiba, porque envolvem diretores dos
bancos. Será preciso alugar um caminhão para transportar
todo o material.
Paz temporária
O MST planeja uma grande mobilização para o mês de abril,
aniversário do massacre de Eldorado do Carajás (PA),
ocorrido em 96. Líderes do movimento evitam falar nas
588
tradicionais invasões desse período, mas dizem que a palavra
trégua está descartada no governo Lula.
Repeteco radical
O deputado eleito Lindberg Faria (RJ), que já passou pelo
PC do B e pelo PSTU, ameaça deixar o PT se o governo
Lula for "light demais". Por isso, já é chamado no Congresso
de "João Caldas da esquerda". Caldas, hoje no PL, trocou de
partido sete vezes nesta legislatura.
TIROTEIO
Do senador Romero Jucá (PSDB-RR), sobre a disputa de
partidos aliados de Lula por cargos no governo petista:
- É muita gente no deserto e todos querem beber água ao
mesmo tempo.
CONTRAPONTO
Geração de renda
Há duas semanas, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da
Silva (PT), despachou em Brasília até a tarde na sede do
governo de transição. De lá o petista foi para o hotel Naoum,
onde costuma se hospedar. O local estava lotado devido a
dois eventos: um encontro de revendedores de refrigerantes e
uma reunião da Frente Nacional de Prefeitos, que atraiu
centenas de pessoas.
Assim que chegou ao hotel, Lula foi cercado por prefeitos e
vendedores. O petista não teve como evitar os autógrafos e
as fotos ao lado dos hóspedes.
Um fotógrafo pernambucano que estava de plantão no hotel
começou a seguir o presidente eleito e a fotografar os
abraços de todos os prefeitos em Lula, para vender as fotos
depois.
Feliz com a oportunidade de faturar um bom dinheiro, o
fotógrafo gritou para Lula:
- Valeu, meu conterrâneo. É hoje que eu tiro o pé da lama!
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de Sarn
São Paulo, quinta-feira, 19 de dezembro de 2002
589
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MST
Estratégia de impedir desapropriações de terras
invadidas reduziu o número de invasões de 390 em 2000
para 194 em 2001; propaganda oficial inflou dados da
reforma agrária com terrenos vazios e assentados já
mortos
No campo, governo enfrentou o
radicalismo dos sem-terra
JOSÉ MASCHIO e EDUARDO SCOLESE
DA AGÊNCIA FOLHA
A questão agrária é uma das mais espinhosas da era FHC. A
ação do governo, que apregoa ter assentado mais gente do
que qualquer outro na história, fomentou o crescimento e a
radicalização do MST. Depois de incluir a reforma agrária
como uma das suas prioridades, Fernando Henrique Cardoso
teve seu primeiro governo marcado por dois massacres em
conflitos no campo: Corumbiara (RO), em 1995, e Eldorado
do Carajás (PA), em 1996.
No massacre de Corumbiara, em agosto de 1995, os exames
indicaram que alguns sem-terra foram mortos por policiais
com tiros na nuca e nas costas. Mas o caso de Eldorado do
Carajás foi ainda pior. Para um governo novo, em busca de
respeitabilidade no exterior, o massacre, em abril de 1996,
com 19 sem-terra mortos na desobstrução de uma rodovia
pela Polícia Militar do Pará, determinada pelo governador
Almir Gabriel (PSDB), representou um grande revés
diplomático, com o país sendo reiteradamente condenado por
organismos de defesa dos direitos humanos.
Carajás incentivou o recrudescimento das ações do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, que havia
surgido no Sul nos anos 80 e que mantinha uma atuação
relativamente discreta. Sob holofotes, o MST descobriu a
invasão de terra como arma de pressão política: de 146, em
1995, o número de áreas invadidas saltou para 599 em 1998.
Progressivamente, o MST diversificou suas ações,
organizando marchas, saques, invasões de prédios públicos.
Em 1997, o movimento liderou uma marcha contra o
governo FHC, que chegou a Brasília em 17 de abril.
A reação do governo federal veio em maio de 1998, quando
590
o então
ministro da Justiça, Renan Calheiros, determinou que
toda ação do MST encontraria uma reação judicial.
O economista João Pedro Stedile, um dos principais
ideólogos do MST, justifica a radicalização naquele
momento. "Se bastasse fazer audiências e reuniões, o MST
faria apenas reuniões."
O secretário de Reforma Agrária do Ministério do
Desenvolvimento Agrário, Edson Luiz Vismona, tem
opinião diferente. "A importância enquanto movimento
social do MST é indiscutível, mas começaram os abusos,
uma escalada na prática da violência à propriedade e ao
patrimônio público. O Estado precisava agir."
Criminalização
Na prática, o sinal verde de Renan Calheiros aos secretários
estaduais disparou um processo que o MST denomina de
"criminalização" dos movimentos sociais no país. O Paraná
foi o pioneiro nesse processo, com a Secretaria da Segurança
Pública organizando megaoperações de reintegração de
posse e promovendo escutas legais de membros-chaves do
movimento.
Já no começo do segundo governo FHC, o Paraná foi
pioneiro também ao infiltrar homens da P2 (a polícia secreta)
nos assentamentos dos sem-terra. Em monografia para o
curso de Política Estratégica da ESG (Escola Superior de
Guerra), em 1999, o major Waldir Copetti Neves explicitou
o método ao defender a tese de que o MST preparava uma
guerrilha rural no Brasil.
O temor se disseminou, com revelações posteriores de que o
Exército havia infiltrado agentes no MST. Ganharam corpo
especulações de que os sem-terra estariam se associando a
movimentos guerrilheiros como as Farc (Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia) e agentes cubanos.
Em um primeiro momento, a estratégia governamental não
impediu o MST de manter suas ações, fossem na zona rural
ou nas áreas urbanas -com invasão de prédios públicos e
saques de alimentos, especialmente no Nordeste. A partir de
2000, a Polícia Federal foi cada vez mais chamada a intervir
nas suas ações, com aberturas de inquéritos e prisões.
Nesse momento, diz o advogado da CPT (Comissão Pastoral
da Terra) Darci Frigo, começou a "judicialização dos
movimentos sociais", ou seja, com o Poder Executivo agindo
em consonância com o Judiciário no combate às ações do
MST.
Para Vismona, é o MST que levou a Justiça a agir com mais
rigor. "O MST ultrapassou a luta pela terra, hoje faz política
591
ideológica e suas formas de se manifestar ultrapassaram
também os limites da lei."
MP 2.027
Essa atuação, segundo ele, justificou a edição da MP
(medida provisória) 2.027, de 4 de abril de 2000, que impede
vistoria de áreas invadidas e decreta seu "congelamento" por
dois anos para desapropriação. Além disso, a portaria 62 do
ministério, de 27 de maio de 2001, estabelece a exclusão dos
beneficiários da reforma envolvidos em ações de invasões a
propriedades ou a prédios públicos.
Até meados deste ano, o ministério contabilizava 88 imóveis
rurais interditados por conta da portaria, e 25 beneficiários
da reforma agrária excluídos do processo, entre eles líderes
que participaram da invasão da fazenda dos filhos do
presidente FHC, em Buritis (MG), em março passado.
O resultado da ação foi incisivo: uma queda expressiva no
número de invasões para 390 em 2000 e 194 em 2001.
A situação conflituosa acabou por escamotear um grande
problema para a herança fernandista no campo. Para fins
publicitários, o governo inflou seus balanços anuais da
reforma agrária, ainda que os números corretos já fossem
suficientes para bater o desempenho de todos os seus
antecessores somados -diz ter assentado 588.173 famílias
entre 1995 e 2001, contra 218.033 assentadas entre 1964 e
1994.
Em abril e maio passados, uma série de reportagens da Folha
indicou que o governo maquiou os balanços, utilizando
terrenos vazios, áreas sem casas e infra-estrutura básica
(água, luz e esgoto). Além disso, o governo contou como
"assentados" trabalhadores rurais que já estavam mortos
havia anos. Uma auditoria do governo federal para mapear a
reforma agrária, concluída em junho, revelou que só 3% das
famílias oficialmente assentadas entre 1995 e 2001
receberam o título de posse definitiva das terras, último
estágio e objetivo final do programa.
"Com a diminuição das ocupações, também diminuiu o
número de assentamentos, por essa razão o governo teve que
maquiar os números", afirma o geógrafo Bernardo Mançano
Fernandes, da Unesp (Universidade Estadual Paulista). O
sociólogo Zander Navarro, outro especialista na área, diz,
porém, que em uma avaliação "honesta e criteriosa", se
concluirá que a política fundiária é um dos principais
destaques do governo Fernando Henrique Cardoso.
Aparentemente, a resposta só será possível nos próximos
anos.
592
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FHC
São Paulo, sexta-feira, 10 de janeiro de 2003
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MINISTÉRIO PÚBLICO
Três disputam vaga a ser preenchida em julho
Favoritos para lugar de Brindeiro são
críticos do estilo do procurador
JOSIAS DE SOUZA
DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Sob Luiz Inácio Lula da Silva, são três os favoritos à vaga de
procurador-geral da República, hoje ocupada por Geraldo
Brindeiro: Ela Wieco Volkmer de Castilho, Claudio Lemos
Fonteles e Wagner Gonçalves. Um deles passará a ocupar o
posto a partir de julho. Brindeiro sai no final de junho.
Castilho, Fonteles e Gonçalves têm dois pontos em comum:
1) são críticos do estilo de Brindeiro, cuja imagem ficou
associada ao apelido de "engavetador-
geral da República"; 2)
contam com a simpatia da maioria da corporação,
especialmente da chamada "ala jovem" do Ministério
Público.
Ainda às voltas com a composição dos cargos de escalões
intermediários do governo, Lula abriu espaço em sua agenda
para analisar o provimento do cargo de procurador-geral e,
mais importante, a escolha de nomes para três vagas que se
abrirão no STF (Supremo Tribunal Federal) entre abril e
maio. Sairão Ilmar Galvão, Moreira Alves e Sidney Sanches.
No ano que vem, Lula fará o seu quarto ministro no tribunal,
com a saída de Maurício Corrêa. Em 2006, último ano de
mandato, indicará o substituto de Carlos Veloso. Terá
indicado, então, cinco dos 11 ministros que compõem o STF.
Um recorde.
No caso do Supremo, a decisão quanto aos nomes ainda não
se consolidou. Havia duas opções que Lula considerava
593
"naturais": Fábio Konder Comparato e Celso Antônio
Bandeira de Mello. O presidente pediu, porém, que seja
verificado um fator que considera decisivo: a idade.
Lula gostaria, de resto, de indicar para o STF um ministro
negro e uma mulher. Pousou sobre sua mesa um primeiro
nome feminino: Carmem Lúcia Antunes Rocha. É
procuradora-geral de Minas. Respeitada nos meios jurídicos,
tem contra si um detalhe: é apadrinhada do ex-presidente
Itamar Franco. Conselheiros de Lula preferem nomes mais
identificados com o atual presidente.
Procuradoria
Entre os candidatos à vaga de Brindeiro, há ligeiro
favoritismo para Castilho e Fonteles. Wagner Gonçalves
seria a última opção.
Ela de Castilho tem especial apreço por duas áreas: a questão
indígena e os crimes relacionados ao mercado financeiro.
Coordena a sexta câmara da Procuradoria, voltada à defesa
de comunidades indígenas e de minorias, e presidiu a ANPR
(Associação Nacional dos Procuradores da República) no
biênio 97/98. Ganhou a simpatia da corporação.
Fonteles é professor de direito penal. É considerado pelos
seus próprios pares como um papa na matéria. Tem fama de
"brigão". Foi braço direito do ex-procurador-geral Aristides
Junqueira. Teve atuação destacada na investigação que
culminou com o afastamento do ex-presidente Fernando
Collor. Atua também na área de direitos humanos,
especialmente em casos de trabalho escravo. Católico, é
ligado à CNBB.
Gonçalves tem afinidade com as questões indígena e
fundiária. É simpático à causa do MST. Acompanhou o
desenrolar do caso que ficou conhecido como massacre de
Eldorado de Carajás. O ex-ministro da Justiça José Gregori
costumava referir-se a ele, em tom jocoso, como "procurador
do PT". Antecedeu Ela de Castilho na presidência da
Associação Nacional de Procuradores.
Lula chegou a considerar um quarto nome: José Roberto
Santoro. A alegada vinculação do procurador ao tucano José
Serra eliminou-o da lista.
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Lei Fiscal
São Paulo, quinta-feira, 13 de fevereiro de 2003
594
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Número de mortes por posse de terra
subiu 31%, diz CPT
EDUARDO SCOLESE
DA AGÊNCIA FOLHA
O número de assassinatos resultantes de conflitos fundiários
cresceu 31% no ano passado em relação a 2001, enquanto a
quantidade de trabalhadores flagrados em situação análoga à
escravidão avançou 126%, no mesmo período, de acordo
com a CPT (Comissão Pastoral da Terra).
A última vez em que o número de assassinatos no campo
superou os 38 casos registrados no ano passado foi em 1996,
quando 46 trabalhadores rurais foram mortos, sendo 19 deles
apenas no massacre de Eldorado do Carajás (PA). Se
comparado com 2000, o avanço chega a 81%, segundo o
levantamento anual da Pastoral.
O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária) informou ontem que vai manter a posição do
governo Fernando Henrique Cardoso de não utilizar
oficialmente os dados da CPT.
Até 1999, os dados da CPT integravam os balanços anuais da
reforma agrária do governo federal. No ano seguinte, o
levantamento passou a ser feito pela Ouvidoria Agrária
Nacional, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento
Agrário.
A CPT e a Ouvidoria, porém, disseram que vão conversar
para buscar um ajuste entre os números. Segundo a
Ouvidoria, em 2002 ocorreram 20 crimes no campo, pouco
mais da metade do verificado pela CPT.
O balanço da CPT, obtido pela Agência Folha, será
divulgado hoje, em Brasília, na sede da Confederação
Nacional dos Bispos do Brasil. Dom Tomás Balduíno e
Marcelo Resende, presidentes da CPT e do Incra,
respectivamente, participarão da coletiva, junto a
representantes de movimentos sociais.
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atende a MST
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positiva" ao Congresso
595
São Paulo, quarta-feira, 05 de março de 2003
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CAMPO MINADO
Para líder, ações são prova de que não há trégua ao
governo Lula
MST diz que intensificará invasões de
terra até abril
JOSÉ MASCHIO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM LONDRINA
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra),
começou, oficialmente, neste Carnaval a temporada de
invasões e mostra, na prática, que não existe uma trégua ao
governo Lula. João Paulo Rodrigues, da coordenação
nacional do MST, disse ontem que até abril serão
intensificadas as ações "de luta" do movimento.
Durante os feriado prolongado do Carnaval, sem-terra
ligados ao MST invadiram propriedades rurais em Alambari
(SP), Lindoeste (PR) e Araquari (SC).
Se depender da atitude da direção nacional, essas invasões
são apenas o início de uma ofensiva na luta pela reforma
agrária.
"Essas ocupações confirmam a teoria de que o MST não vai
dar trégua na luta pela reforma agrária. Essa história de
trégua ao governo Lula foi um teoria furada da imprensa",
disse Rodrigues. Segundo ele, o MST vai continuar na luta,
"que são negociações com o governo, caminhadas e também
ocupações".
O líder sem-terra disse que existe "grande possibilidade" de
ocorrer invasões em todo o país até o mês de abril, mês
simbólico do MST na luta pela reforma agrária. Em abril o
MST rememora o massacre de Eldorado do Carajás (PA),
onde 19 sem-terra foram mortos, em 17 de abril de 1996,
durante confronto com a Polícia Militar do Pará. "Nosso
enfrentamento não é com o governo Lula, mas sim com o
latifúndio. E será outro equívoco da imprensa se ela não
entender que o enfrentamento com o latifúndio passa pela
ocupação de áreas improdutivas", afirmou Rodrigues.
Autonomia
596
João Paulo Rodrigues disse que o MST continua com sua
autonomia com relação ao governo petista, "desde o primeiro
dia do governo Lula".
Ele afirmou que quadros do MST participam dos conselhos
de Desenvolvimento e de Segurança Alimentar, "mas isso
não significa participação no governo, pois os conselhos são
da sociedade civil, não do Executivo Federal".
Para Rodrigues, a autonomia do movimento em relação ao
governo Lula "desmente" o que vem sendo veiculado na
imprensa de que o MST teria indicado nomes para as
superintendências estaduais do Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária). "Houve indicações de
nomes consensuais nos Estados, não nomes do MST", disse.
Segundo Rodrigues, a maior "evidência" dessa autono
mia é a
retomada das invasões em todo o país "e as grandes
ocupações que devem acontecer até o mês de abril".
No início do mês passado, o líder do MST já havia
sinalizado que o movimento não pretendia atender aos apelos
de trégua do governo petista. Em entrevista à Folha, ele
cobrou agilidade do governo federal. "Não podemos esperar
mais, precisamos assentar essas famílias [que estão
acampadas] urgentemente", afirmou.
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vistoria de área invadida
São Paulo, sábado, 29 de março de 2003
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TENSÃO NO CAMPO
Movimento diz que plantio tem de começar agora devido
às chuvas
MST invade 3 fazendas em PE e diz
que ações vão aumentar
MAURO ALBANO
DA AGÊNCIA FOLHA
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
realizou ontem e anteontem suas primeiras invasões de terra
597
em Pernambuco desde o início do governo de Luiz Inácio
Lula da Silva. De acordo com o movimento, o número de
invasões irá "acelerar" no mês que vem.
Anteontem, cerca de 300 famílias invadiram a fazenda Barra
Verde, no município de Pedra, e outras 70 acamparam na
fazenda Mauricéia, em Passira. Ontem, a fazenda Feijão, em
Belmonte, foi invadida por 160 famílias.
O objetivo, diz o MST, é pressionar o Incra (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a vistoriar as
fazendas, que seriam improdutivas, e dar início ao processo
de desapropriação.
O movimento sustenta ainda que as invasões estão ocorrendo
por "necessidade", já que, com a chegada do período de
chuva na região, os agricultores precisam iniciar o plantio
imediatamente.
A desapropriação dessas fazendas estaria sendo reivindicada
pelo MST há mais de um ano, segundo o movimento. A
assessoria do Incra não foi localizada para comentar as
invasões.
Jaime Amorim, da direção nacional do MST, disse que as
invasões irão "acelerar" em abril. O motivo, afirmou ele, é o
aniversário de sete anos do massacre de Eldorado do Carajás
(PA), ocorrido em 17 de abril de 1996.
"Sempre fazemos mais manifestações nessa época", disse
Amorim. "Onde tiver latifúndio, vamos estar ocupando."
Apesar de essas serem as primeiras invasões do ano no
Estado, o MST já havia promovido uma manifestação para
reivindicar agilidade no processo de reforma agrária no
início de março.
Mulheres ligadas ao MST e à CPT (Comissão Pastoral da
Terra) invadiram a sede do Incra em Recife no dia 7 de
março, pedindo também mais assistência aos assentados.
Cerca de mil lavradoras, segundo as entidades, participaram
da manifestação, que durou seis horas e foi realizada no Dia
Internacional da Mulher.
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técnico
ganha aposta
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tributária na 2ª
São Paulo, segunda-feira, 31 de março de 2003
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598
TENSÃO NO CAMPO
No total, 9 propriedades estão ocupadas com 2.410
famílias do MST no Estado; movimento promete novas
ações
Sem-terra invadem mais 6 fazendas
em PE
DA AGÊNCIA FOLHA
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
ampliou o número de invasões em Pernambuco no final de
semana. Além de usarem a mesma reivindicação para
justificar as ações -agilidade nos processos de reforma
agrária-, os sem-terra alegam que as invasões fazem parte de
homenagem aos 19 mortos no massacre de Eldorado do
Carajás, ocorrido em 17 de abril de 1996.
Desde a noite de sexta, foram mais seis invasões. Ao todo,
desde a madrugada de quinta, já são nove fazendas
invadidas, totalizando 2.410 famílias, segundo o MST, que
ameaça fazer uma série de outras ações pelo Estado em abril.
Entre as propriedades invadidas pelos sem-
terra no Estado de
Pernambuco, estão a fazenda Barra Verde, em Pedra, a
fazenda Mauricéia, em Passira, e a fazenda Feijão, em São
José do Belmonte.
O movimento foi intensificado na noite de sexta-feira,
quando 50 famílias invadiram a fazenda Brejão, em Sairé
(135 km de Recife).
No sábado, as invasões aconteceram na fazenda Tapera (250
famílias), em Petrolina, divisa com o Estado da Bahia, na
fazenda Cajueiro (230), em Santa Maria da Boa Vista, na
fazenda São Joaquim (600), em Canhotinho, no engenho
Conceição (300), em Primavera, e no engenho Bananal
(450), em Jaqueira.
Segundo o coordenador estadual do MST, Jaime Amorim, a
principal razão das invasões é o Dia Internacional de Luta
pela Reforma Agrária. "Homenageamos os mortos no
massacre de Carajás ocupando latifúndios improdutivos.
Devemos fazer outras ações nos próximos dias."
Hoje, uma caravana de deputados estaduais e federais e o
ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho,
deverão vistoriar a usina Aliança, no litoral norte de
Pernambuco.
599
Marcha
A programação do MST no Estado inclui ainda uma marcha
dos trabalhadores pela cidade de Escada (a 57 km de Recife),
no próximo dia 13. As ações também visam agilizar os
processos de desapropriação de propriedades consideradas
improdutivas e que estão sendo negociados pelas
superintendências do Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária) de Petrolina e Recife.
Algumas dessas desapropriações estão sendo reivindicadas
pelo MST há mais de um ano, de acordo com o movimento.
O MST critica o fato de o Incra, até gora, não ter conseguido
montar uma equipe de trabalho em Recife nem sequer
nomeado o superintendente em Petrolina.
Os sem-terra são contra as indicações para a
superintendência do órgão em Petrolina feitas no final da
semana pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Em nota, o MST diz que os nomes têm "se pronunciado
política e ideologicamente contra a reforma agrária,
desconhecendo o processo e sendo favoráveis à produção de
produtos transgênicos, além de trazer para o Incra todo um
vício administrativo da antiga Emater (Empresa de
Assistência Técnica e Extensão Rural)".
Nenhum representante do Incra estadual foi localizado ontem
para comentar as ações e as críticas feitas pelo movimento.
Marabá
O presidente do Incra, Marcelo Resende, vai visitar a sede do
órgão em Marabá (sul do Pará) hoje para negociar a retirada
do grupo de sem-terra que invadiu o local no dia 17 de
março. A presença de Resende em Marabá era uma
exigência dos sem-terra para discutir a desocupação do
prédio.
Eles dizem que só aceitam sair do local se o Incra concordar
com sua pauta de reivindicações, que inclui a indicação do
cargo de superintendente em Marabá.
Os sem-terra se opõem à indicação da ex-vereadora do PT
Bernadete ten Caten -publicada na semana passada no
"Diário Oficial" da União- e querem que o cargo seja
ocupado pelo coordenador da CPT (Comissão Pastoral da
Terra) José Batista Gonçalves, também petista.
(ADRIANA CHAVES)
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Em MG, invasão de uma área pelo MST fere
2
600
São Paulo, segunda-feira, 14 de abril de 2003
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CAMPO MINADO
Atos do MST lembram o massacre de
Eldorado
DA AGÊNCIA FOLHA
Cerca de 280 famílias ligadas ao MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) invadiram na madrugada
de ontem uma fazenda em Estância, no interior de Sergipe.
Foi a primeira invasão de terra neste ano no Estado e faz
parte das ações programadas pelo MST em várias partes do
país, na chamada "Campanha de Luta Contra o Latifúndio".
A campanha consiste em promover manifestações em
homenagem às vítimas do massacre ocorrido em Eldorado
do Carajás (PA). Em 17 de abril de 1996, 19 sem-terra foram
mortos pela Polícia Militar do Pará durante operação para a
desobstrução de uma rodovia no sul do Estado.
O MST afirma que a campanha é um protesto contra a guerra
no Iraque e a Alca (Área de Livre Comércio das Américas).
Iniciados na semana passada, os protestos e manifestações
devem se intensificar. Além da invasão, o MST sergipano
montou acampamento com cerca de 700 famílias na beira da
rodovia SE-212, a 10 km de Nossa Senhora da Glória.
No Pará, o MST iniciou marcha que percorrerá cerca de cem
quilômetros até o dia 17. O grupo saiu de Castanhal e deverá
parar em nove cidades para atos públicos.
Sob o lema "Paz, Reforma Agrária e Justiça Social", o MST
organiza desde a semana passada três marchas em Goiás. As
colunas saíram de diferentes pontos com destino a Goiânia e
reúnem cerca de 1.700 pessoas.
No Paraná, o MST iniciou uma marcha de Ponta Grossa a
Curitiba. A previsão é que os sem-terra cheguem hoje à
capital, onde farão manifestações e debates na Universidade
Federal do Paraná.
São Paulo terá os principais atos na capital, com panfletagem
em estações do metrô, e em Campinas, com uma marcha,
marcada para começar amanhã, que vai do quilômetro 29 da
rodovia Anhanguera até o centro da cidade.
De acordo com a entidade, outras manifestações devem
ocorrer em mais nove Estados.
601
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São Paulo, quinta-feira, 17 de abril de 2003
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Sobreviventes têm sequelas e querem
ser indenizados
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
"Eu tenho certeza de que não foram só os 19 mortos oficiais
no massacre de Carajás. Eu mesmo vi uma criança morrer do
meu lado. Até hoje ainda tenho pesadelos com aquele dia".
A frase do agricultor Josimar Pereira de Freitas, 39, hoje
assentado em uma área na zona rural de Eldorado do Carajás,
reflete o trauma vivido por ele até hoje desde o dia 17 de
abril de 1996.
"Minha perna direita foi quebrada por um tiro que atravessou
na altura da canela. Só consegui me salvar porque me
arrastaram para um lugar mais seguro", afirma.
Pai de três filhos, Freitas continua membro do MST, mas
hoje não participa de manifestações e passeatas por causa das
dores que ainda sente na perna. "Tenho dificuldades para
trabalhar. Tomo remédios todos os dias para evitar as
câimbras", diz.
Freitas é um dos sobreviventes do massacre que aguardam há
cinco anos o resultado de uma ação por danos morais contra
o Estado. O grupo -que se intitula "mutilados de Carajás"-
pede uma indenização de R$ 300 mil para cada um dos 56
sobreviventes.
Assentada
Outra sobrevivente do massacre, Rubenita Justiniano da
Silva, 35, atualmente mora no assentamento 17 de abril, em
Eldorado do Carajás.
"Levei um tiro de revólver no pescoço e perdi sete dentes.
Não trabalho desde o massacre, preciso tomar remédios e me
alimento basicamente de líquidos por causa dos ferimentos",
afirma.
Rubenita também sustenta a tese de que aconteceram mais
602
mortes do que as 19 oficiais. "Muita gente foi morta no meio
do mato e enterrada por lá. Só não foi possível provar porque
o local do crime foi totalmente alterado e os corpos foram
removidos logo após o confronto", relata.
O trabalhador rural José da Natividade, 40, conta que até
hoje não pode se locomover nem trabalhar por causa de uma
fratura exposta na perna direita. "Já sofri duas cirurgias e
sinto fortes dores. Não tenho assistência nenhuma dos
poderes públicos." (MS)
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Brasil pelo massacre de Carajás
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São Paulo, quinta-feira, 17 de abril de 2003
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TENSÃO NO CAMPO
Os dois únicos condenados aguardam recurso em
liberdade; país deve ter de indenizar famílias das vítimas
OEA deve condenar Brasil pelo
massacre de Carajás
MAURÍCIO SIMIONATO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELÉM
A OEA (Organização dos Estados Americanos) deve obrigar
o Brasil a indenizar os familiares dos 19 sem-terra mortos
pela Polícia Militar no massacre de Eldorado do Carajás,
ocorrido em 17 de abril de 1996, no sul do Pará.
"O governo brasileiro será responsabilizado por não tomar
medidas para evitar ou minimizar a violência rural do Pará e
pelo fato de as violações de direitos humanos terem sido
cometidas diretamente por agentes do Estado no caso", disse
a subprocuradora-geral da República e procuradora Federal
dos Direitos do Cidadão, Maria Eliane Menezes de Farias.
Segundo a perícia, os sem-terra -que obstruíam uma rodovia-
foram mortos com tiros à queima-roupa e golpes de machado
e facão. Dos 142 policiais acusados, só os dois comandantes
da ação foram condenados, mas aguardam há um ano em
603
liberdade o julgamento de recursos.
Em março, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos
da OEA abriu processo sobre as supostas violações de
artigos da Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
Se condenado, o Brasil poderá sofrer sanções jurídicas,
sendo obrigado a indenizar as famílias das vítimas.
O coronel Mário Colares Pantoja e o major José Oliveira
foram condenados a 228 e 158 anos de prisão,
respectivamente, mas aguardam o julgamento da apelação
em liberdade.
Os promotores e a defesa entraram com recursos. Segundo o
juiz do caso, Roberto Moura, "essa fase de vista dos autos
deve demorar pelo menos mais três meses. Só depois os
recursos serão julgados pelas Câmaras Criminas do Tribunal
de Justiça". Tanto a defesa quanto a acusação ainda poderão
recorrer. "Os condenados poderão ficar em liberdade, no
mínimo, mais três ou quatros anos recorrendo", disse o
advogado Marco Apolo, que foi assistente da Promotoria no
julgamento.
Manifestações
Integrantes do MST fizeram manifestações ontem pelo país.
Em Belém, ao menos 700 acamparam em frente ao TJ. Em
Recife, mais de 3.000, segundo o MST, participaram de um
protesto.
No Rio Grande do Sul, quatro caminhadas, com mais de
2.500 integrantes, chegaram a Porto Alegre, Cruz Alta,
Pelotas e Santana do Livramento. Um grupo de cerca de
2.500 sem-terra chegou ontem a Maceió. Em Belo
Horizonte, cerca de 800 fizeram uma caminhada até a sede
do Incra.
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indenizados
São Paulo, domingo, 13 de julho de 2003
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REFORMA NO AR
Alencastro defende fim da aposentadoria integral de
servidor
604
Recuo de Lula "desmoraliza"
reforma, afirma historiador
JULIA DUAILIBI
DA REPORTAGEM LOCAL
O historiador Luiz Felipe de Alencastro, 57, ao analisar a
polêmica em torno das alterações na Previdência, avalia que
um recuo do governo neste momento pode "desmoralizar" a
reforma, além de prejudicar a aprovação de outros pontos da
pauta do Planalto.
"Acho que, nesse tipo de pauta, um recuo agora
comprometeria todo tipo de reforma que o governo fizer
daqui para a frente. Desmoraliza a reforma", afirmou o
historiador, que vive na França, país que também discute a
reforma no sistema previdenciário.
Para Alencastro, professor de história do Brasil na
Universidade de Paris 4, o fim da integralidade das
aposentadorias dos servidores é justo uma vez que o
funcionalismo conta com a estabilidade em um época de
desemprego.
"O funcionário público goza de estabilidade profissional, ao
contrário dos trabalhadores do setor privado, que vivem sob
a ameaça do desemprego. Não dá também para ele querer
ainda a aposentadoria integral", disse o autor de "O Trato dos
Viventes" (Companhia das Letras), obra em que examina
como o tráfico negreiro no século 19 desenvolveu entre o
Brasil, a África e regiões do Atlântico um sistema de
relações paralelo à influência portuguesa.
Além de destacar o MST como um movimento que "civiliza"
o campo, ele classificou como "chilique" e "histeria" a
"tromba" que se fez em torno do uso do boné dos sem-terra
pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Leia a entrevista dada de Paris, por telefone e e-mail, à
Folha.
Folha - O sr. acha legítima a proposta do original do
governo para a reforma da Previdência?
Luiz Felipe de Alencastro - A reforma dos regimes
previdenciários, ampliados após a Segunda Guerra, quando
havia um forte crescimento demográfico e pleno emprego,
está em pauta em quase todos os países, agora, com o
declínio da natalidade e o aumento do desemprego. Aqui na
605
França, os professores trabalham 38,5 anos para se
aposentarem e o governo está querendo aumentar o prazo
para 41 anos.
O problema no Brasil é que o regime previdenciário está
alquebrado por uma legislação fragmentada e corporativa,
que gera excessos.
O funcionário público goza de estabilidade profissional, ao
contrário dos trabalhadores do setor privado, que vivem sob
a ameaça do desemprego. Não dá também para ele querer
ainda a aposentadoria integral. Isto posto, creio que o
governo devia ter desdobrado mais a reforma, escalonando
no tempo e introduzindo regimes transitórios que
garantissem direitos adquiridos para os atuais funcionários.
Mas também entendo que uma reforma desse escopo,
importante, complexa e desgastante tinha de ser lançada logo
no início de governo.
Folha - Então não deveria haver recuo no fim da
integralidade?
Alencastro -Isso é de uma espécie de compensação na
Previdência, que raramente garante integralidade. Você tem
médias salariais e outras coisas. O ponto de partida na
questão do funcionalismo é que a garantia de emprego nos
dias de hoje é um grande trunfo. Então você tem de ceder em
uma outra parte.
Tem muita coisa encoberta no Brasil na questão da
Previdência e eu acho que um dos méritos da situação atual,
para ser minimamente realista, é ter provocado um debate
sobre o tema.
Folha - O governo acaba cedendo muito por querer
agradar a todos?
Alencastro - Se ele quisesse agradar a todo mundo, ele não
mexia na reforma da Previdência, que é o que todos
fizeram antes. Acho que, ao contrário, é uma coragem
política grande colocar o problema logo no começo do
governo. É um assunto que, aqui na França, já derrubou
vários primeiros-ministros.
Folha - Acha que o PT vai arcar com o ônus de contrariar
uma das principais bases, o funcionalismo?
Alencastro - Claro. Acho que já há um ônus. Por isso que a
reforma tem de ser feita logo no começo. Acho que, nesse
tipo de pauta, um recuo agora comprometeria todo tipo de
reforma que o governo fizer daqui para a frente. Desmoraliza
606
a reforma.
Folha - Como o sr. vê a forma como o governo lida com o
MST?
Alencastro - O Brasil é o único dos grandes países que não
fez reforma agrária, coisa que os EUA fizeram no seu
próprio território em 1862 e impuseram ao Japão, em 1945.
Por isso, acho que o MST continuará ocupando terras,
porque a forma de protesto dos sindicatos rurais, em todo o
mundo, inclusive aqui na França, é mais dura que a dos
trabalhadores urbanos. No nosso país, onde a exploração dos
trabalhadores rurais tem se caracterizado, através dos
séculos, pela brutalidade, o MST insere a revolta rural no
quadro das negociações. Concordo com o que disse Plínio de
Arruda Sampaio: "O MST civiliza o campo".
Folha - Vestir o boné do movimento não prejudica ainda
mais o entendimento?
Alencastro - Achei que há uma histeria em torno disso.
Aliás, periodicamente, o tucanato tinha uma certa histeria
com o MST como se fosse a vanguarda de uma insurreição
armada. Nos últimos anos, isso ocorria periodicamente. Se
tivesse havido metade da tromba que se criou agora em cima
do massacre dos sem-terra em Eldorado do Carajás, no
governo do tucano Almir Gabriel [em 1996], quando o
PSDB ficou quieto e o governo tucano também não foi
adiante, o Brasil suportaria melhor hoje em dia em vez de
ficar criando chilique porque o Lula pôs chapéu do MST. É
um movimento legalizado, que tem fachada pública, não é
racista e não está proibido. Por que o presidente não poderia
colocar o chapéu?
Folha - Acha que já é possível identificar neste governo um
significativo rearranjo de forças sociais?
Alencastro - Penso que é necessário um partido conservador
moderno no Brasil, coisa que o PFL não é. Mas o grande
rearranjo político partidário só vai ocorrer mais adiante,
quando FHC se lançar como o candidato anti-Lula nas
eleições presidenciais. Não tenho nenhuma informação sobre
isso, mas não vejo outra explicação para as críticas que ele
vem fazendo ao governo, dentro e fora do Brasil. Ele pode
estabelecer uma aliança, bem mais ampla que o PSDB,
contra Lula e o PT. Caso isso aconteça, haverá um novo
quadro político, muito mais tenso, porque o establishment
conservador brasileiro e internacional, que agora aceita Lula,
607
irá se bandear para o lado de FHC.
Folha - O PSDB parece estar ainda definindo seu papel
fora do poder.
Alencastro - O PSDB paga um preço por ser um partido com
uma proposta furada, do ponto de vista doutrinário, que foi o
parlamentarismo, desautorizado pelo eleitorado brasileiro.
Depois ficou pendurado no [ex] presidente da República, que
no final disse em entrevistas que o PSDB nunca deveria ser
chamado de social-democrata, porque não é social-
democrata. Ou seja, ele questiona a própria noção básica do
partido de modo que, evidentemente, o partido sofre uma
crise de identidade grande porque ele sempre se colocou
como a esquerda quando estava no governo e agora tem
outra coisa.
Evidentemente que os governadores [Geraldo] Alckmin [SP]
e Aécio [Neves, MG] são lideranças, mas eu realmente acho
que o pacto político que está se desenhando é uma
candidatura FHC em cima do Lula. Ele vai ter 75 anos. O De
Gaulle também foi eleito com essa idade aqui. Tem uma
questão de "timing" aí.
Folha - Enfim, o sr. acha que o governo terá condições de
promover alterações sociais e econômicas?
Alencastro - Espero que sim. O Brasil ainda paga o preço do
fiasco da campanha abolicionista que, no final do século 19,
não conseguiu engrenar a reforma agrária. Não dá para
registrar outro fiasco desse na nossa história. Se a
experiência do PT no governo federal fracassar, a esquerda
entrega a rapadura de vez.
Folha - A política externa do governo Lula tem sido
destacada como um dos pontos positivos do governo. Qual
a avaliação do sr.?
Alencastro - Concordo com essa apreciação. Acho que a
nossa atual diplomacia retoma os caminhos da "Política
Externa Independente" lançada pelo chanceler Afonso
Arinos em 1961 e abortada pela ditadura em 1964. Além de
assegurar a presença brasileira nas grandes negociações
internacionais, o Itamaraty capitalizou o interesse
internacional gerado pela eleição de Lula e pelas redes de
simpatizantes que o PT dispunha na Europa e nos Estados
Unidos.
Folha - O sr. entendeu como um recuo o fato de o
presidente Lula ter concord
ado, em Washington, com a
608
data de 2005 para o ingresso do país na Alca?
Alencastro - Foi uma declaração de princípio, sem prejuízo
das negociações presentes e futuras. O procedimento é
habitual no encontro de chefes de Estado. O governo tem de
estar preparado para negociar.
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São Paulo, terça-feira, 28 de outubro de 2003
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CAMPO MINADO
Tucanos sofrem "punição moral" por
mortes no PA
DA AGÊNCIA FOLHA
Com uma marcha de sem-terra pelas ruas de Belém (PA),
começaram ontem as atividades do Tribunal Internacional
dos Crimes do Latifúndio, que julgará simbolicamente o ex-
presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador do
Pará Almir Gabriel por crimes praticados contra
trabalhadores rurais no Estado.
O PSDB, partido ao qual os dois são filiados, disse que não
iria se manifestar sobre o assunto.
Organizado pela CPT (Comissão Pastoral da Terra), pelo
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e
por outras entidades, o tribunal será presidido pelo advogado
Hélio Bicudo (PT), vice-prefeito de São Paulo e ex-
presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
da OEA (Organização dos Estados Americanos).
Os tucanos serão acusados, amanhã e no dia 30, por crimes
ocorridos de 1995 e 2002: 113 assassinatos, 76 tentativas de
homicídio, 454 prisões "arbitrárias" e a destruição de bens e
plantações de 3.980 famílias removidas de área invadidas. O
caso de maior repercussão é o massacre de Eldorado do
Carajás: a morte de 19 sem-terra em abril de 1996.
(MAURO ALBANO)
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609
contas de ex-governadores
São Paulo, segunda-feira, 22 de dezembro de 2003
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CARAJÁS
Justiça condena Pará a indenizar 20
sem-terra
DA AGÊNCIA FOLHA
A Justiça do Pará condenou o governo paraense na sexta-
feira a pagar indenizações entre R$ 50 mil e R$ 300 mil a 20
integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) feridos no massacre em Eldorado do Carajás,
ocorrido em abril de 96.
No episódio, 19 sem-terra morreram em confronto com a
Polícia Militar e outras 91 pessoas -69 agricultores e 12
policiais militares- ficaram feridas.
A condenação por danos físicos e morais foi determinada
pelo juiz José Torquato de Alencar, da 14ª Vara Cível de
Belém, em em primeira instância. Cabe recurso.
Na sentença, o juiz diz ter ficado provado "o nexo causal
entre as condutas dos agentes [policiais] e os fatos lesivos".
As vítimas foram submetidas a exames periciais que
comprovaram os ferimentos.
Alencar afirma ainda que o conflito foi uma das "maiores
violações de direitos humanos ocorridas no país e no mundo"
e que o pagamento das indenizações seria uma maneira de
"compensar cada vítima pela angústia, dor e sofrimento
pelos quais passou".
Rubenita Justiniana da Silva, que na época tinha 19 anos, é
uma das indenizadas. Está impossibilitada de trabalhar por
uma bala que ficou alojada em seu pescoço.
Silva foi a única com indenização por danos morais fixada
em R$ 300 mil e pensão de dois salários mínimos desde o
ocorrido.
Nove pessoas receberão R$ 200 mil, sendo que sete delas
terão ainda direito a pensão mensal no valor de um salário
mínimo como indenização por danos materiais.
Outros seis receberão R$ 100 mil e quatro, R$ 50 mil por
danos morais. Nesses casos, o pedido de indenização por
danos materiais foi julgada improcedente.
610
As vítimas entraram com a ação em 1998. O advogado dos
sem-terra, Walmir Brelaz, pedia que o Estado fizesse o
pagamento por danos materiais no valor de cinco salários
mínimos mensais. Brelaz também requereu indenizações por
danos morais e tutela antecipada para que as vítimas
recebessem assistência médica do Estado. O pedido de tutela
antecipada foi autorizado de imediato pela então juíza titular
da Vara, a desembargadora Marta Inês Lima.
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balanço de 2003
São Paulo, segunda-feira, 19 de janeiro de 2004
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CAMPO MINADO
Pesquisa da Unesp revela que movimento, que faz 20
anos amanhã, está presente em 45% dos assentamentos
MST lidera quase metade dos sem-
terra
EDUARDO SCOLESE
DA AGÊNCIA FOLHA
Sem existir juridicamente, mas monopolizando as atenções
dos governos quando o assunto é reforma agrária, o MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) completa
20 anos amanhã com seus militantes controlando pouco
menos da metade dos assentamentos de todo o país.
Segundo pesquisa feita pela Unesp (Universidade Estadual
Paulista), em 5.223 assentamentos em 20 Estados, em 45%
(2.350) há famílias de trabalhadores rurais que participam ao
menos de um setor de atividade do MST, como produção,
saúde, educação, cultura e ambiente.
Os 2.873 assentamentos restantes são divididos entre
dezenas de outros movimentos sociais e sindicais, com
destaque para a Contag (Confederação Nacional dos
Trabalhadores na Agricultura) e suas federações estaduais,
que, segundo o coordenador da pesquisa, o geógrafo
611
Bernardo Mançano Fernandes, agrupam 30% dos projetos
desvinculados ao MST.
O maior índice de vinculação ao MST, segundo o Dataluta
(banco de dados da luta pela terra da Unesp), está no Rio
Grande do Sul. Lá, dos 294 assentamentos, só 3 não têm
ligação com o MST.
Foi no Rio Grande do Sul que, em setembro de 1979,
ocorreu a invasão que deu origem à fase de "gestação" do
movimento. O MST seria criado seis anos depois, entre os
dias 20 e 22 de janeiro de 1984, em Cascavel (PR), num
encontro que reuniu sem-terra de 12 Estados (RS, SC, PR,
SP, MS, ES, BA, PA, GO, RO, AC e RR).
Na região Sul, 94% dos 966 assentamentos pesquisados têm
o MST como base. Na seqüência vêm Sudeste (49,25%, de
571), Nordeste (40,37%, de 2.365), Norte (21,5%, de 582) e
Centro-Oeste (17%, de 739). Após o RS, o ranking dos
Estados tem SC (95%), PR (90%), ES (80%) e SP (62%).
Os pesquisadores da Unesp não colheram dados no Distrito
Federal e em outros seis Estados (AC, AM, RR, TO, AP e
BA). Além dos 5.223 assentamentos pesquisados, existem
outros 893 no país.
Estados que lideram, respectivamente, o número de famílias
acampadas e de mortes causadas por conflitos agrários,
Pernambuco e Pará têm, nesta ordem, 56% e 17% de seus
assentamentos (305 e 456) vinculados ao MST.
Influência política
Mesmo representando quase metade das famílias assentadas
no país, o MST, sobretudo a partir do governo Fernando
Henrique Cardoso (1995-2002), protagonizou uma série de
crises políticas.
O primeiro fato marcante ocorreu em 1996, quando 19 sem-
terra ligados ao MST foram mortos a tiros por policiais
militares durante a desobstrução de uma estrada em Eldorado
do Carajás (PA). O massacre teve repercussão negativa para
o Palácio do Planalto tanto no Brasil como no exterior.
No ano seguinte, uma marcha do movimento levou cerca de
50 mil sem-terra a Brasília. Líderes petistas receberam os
trabalhadores rurais na Esplanada dos Ministérios e juntos
cobraram do governo FHC mais investimentos na política de
reforma agrária.
No segundo mandato, em razão do crescimento do número
de invasões, FHC editou, em maio de 2000, uma medida
provisória que freou as ações do MST. A MP, mantida pela
gestão Lula, proíbe por dois anos vistorias em áreas
invadidas e exclui da reforma agrária os sem-terra que
612
participam de tais ações. O movimento recuou, as invasões
diminuíram.
Mesmo assim, dois anos depois, uma única invasão chamaria
a atenção do país. Em março de 2002, cerca de 500
integrantes do MST invadiram, no interior de Minas Gerais,
uma fazenda de familiares de FHC. Às vésperas da eleição, o
ato causou uma crise política, com o PSDB acusando o PT
de conivência, e os petistas condenando publicamente a
invasão, com medo de que o fato respingasse na candidatura
Lula.
Eleito com o apoio do MST, Lula passou a receber críticas
do movimento no primeiro mês de governo. O MST, aliás,
seria mais tarde o centro de uma crise entre o governo e a
oposição. Em julho, em audiência com o MST, Lula colocou
o boné do movimento, o que foi encarado pelo PFL como
um incentivo à violência no campo. A crise do boné rendeu a
instalação da CPI da Terra no Congresso, que começa em
fevereiro. Outra polêmica surgiu quando João Pedro Stedile
classificou os sem-terra de "um exército de 23 milhões de
pessoas" que não podem "dormir enquanto não acabarem
com eles [latifundiários]".
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Congresso começa hoje
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São Paulo, sábado, 27 de março de 2004
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CAMPO MINADO
Movimento batiza série de ações pelo país de "jornada de
luta", para lembrar o massacre de Eldorado do Carajás
MST anuncia onda de invasões até 17
de abril
TIAGO ORNAGHI
DA AGÊNCIA FOLHA
FÁBIO GUIBU
DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE
613
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
dá início neste fim de semana a uma onda de invasões pelo
Brasil batizada de "jornada de luta". A ação se estenderá até
17 de abril, quando o movimento lembrará os 19 sem-terra
mortos em confronto com a PM em Eldorado do Carajás, no
sul do Pará, em 1996.
João Paulo Rodrigues, dirigente nacional do MST, disse que
"há uma orientação em todo o país para que neste período
aconteçam mobilizações mais intensas". "Caberá aos Estados
definir os calendários das ações", afirmou.
Em Pernambuco, o MST pretende invadir, até a próxima
quinta-feira, 23 propriedades rurais.
Cerca de 7.000 lavradores foram acionados nos últimos dois
meses para participar das ações. A mobilização começaria na
madrugada de hoje. A Agência Folha apurou que pelo menos
quatro fazendas serão tomadas até amanhã. A maior parte
das invasões ocorrerá entre segunda e terça-feira.
Além de entrar em novas áreas, os sem-terra planejam
também invadir novamente fazendas que foram desocupadas
nos últimos meses por decisão da Justiça.
Assentados
João Paulo afirmou que a onda de invasões não deve ser
vista como um ataque direto do movimento ao governo
federal.
"Nós não queremos que essa jornada de luta se transforme
em uma jornada contra o governo. Uma determinação da
coordenação nacional é de não invadir prédios públicos, por
exemplo."
O líder do MST em Pernambuco, Jaime Amorim, foi na
mesma linha. "Nossa pressão é contra o latifúndio", disse. "A
tarefa do governo é fazer a reforma agrária, e a nossa é
organizar o povo para brigar contra o latifúndio." Amorim
considera, entretanto, que a reforma agrária avança de forma
lenta.
Em Pernambuco, para lembrar Eldorado do Carajás, o MST
programou uma passeata seguida de ato público em Recife.
Cerca de 1.500 trabalhadores rurais estão sendo esperados.
Megainvasões
Na Bahia, a coordenação estadual planeja realizar o que
chamou de "maior invasão do Brasil". Cerca de 3.000
famílias estão sendo mobilizadas no Estado para invadir uma
fazenda nos primeiros dias de abril.
O coordenador estadual do movimento, Valmir Assunção,
614
afirmou que o local e a data da ação não são informados pela
coordenação para que os objetivos do movimento não sejam
frustrados por uma mobilização policial.
Em Pernambuco, os agricultores participarão de uma
megainvasão na usina Aliança, no município de mesmo
nome, a 75 km da capital. A propriedade, composta por 22
engenhos, tem 7.500 ha e é reivindicada pelo MST desde 98.
A megainvasão está prevista para acontecer às vésperas de
uma audiência pública sobre o problema. Após o evento, os
manifestantes vão desocupar a área e seguir em caminhada
até Recife.
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Força Aérea
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programa de TV no Rio
São Paulo, domingo, 28 de março de 2004
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CAMPO MINADO
Sem-terra lembram massacre de Eldorado do Carajás,
em 96
MST dá início em 2 Estados a onda de
invasões pelo país
Marlene Bergamo/Folha Imagem
Trabalhadores sem
terra de Ava
(interior de São
Paulo) seguem em
ônibus para invadir a
fazenda do
empresário Ricardo
Mansur
LAURA CAPRIGLIONE
ENVIADA ESPECIAL A AVARÉ (SP)
615
Cento e cinqüenta sem-terra invadiram ontem a fazenda São
Gonçalo, na cidade de Avaré (a 260 km de São Paulo). O
MST também entrou em uma propriedade em Ribeirão Preto
e em outras três fazendas em Pernambuco (leia texto abaixo),
iniciando nova onda de invasões pelo país.
A ação, que se estenderá até o dia 17 de abril, foi anunciada
para lembrar o massacre de Eldorado do Carajás, em 1996,
quando 19 sem-terra foram mortos em confronto com a
Polícia Militar.
A fazenda São Gonçalo pertence ao empresário Ricardo
Mansur, ex-dono do Mappin, da Mesbla e do banco Crefisul,
entre outros empreendimentos.
Moradores da periferia de Avaré, os sem-terra chegaram à
fazenda às 5h -a Folha acompanhou a invasão.
Desembarcaram silenciosamente dos quatro ônibus, cinco
caminhões e 15 automóveis que os levaram até a propriedade.
Na escuridão, homens, mulheres, crianças e até uma jovem
mãe de 14 anos, com um bebê de nove dias no colo,
esgueiravam-se pela propriedade, enquanto uma comissão de
frente do MST, composta por cinco homens e um facão,
dirigiu-se à casa do administrador da fazenda, Adilson
Bonifácio de Oliveira, 30.
Dez minutos depois, o militante Marcelo Netto Rodrigues,
30, retornou: "Vamos descer, pessoal! Já sabem que esta
fazenda está sob o controle do MST".
A invasão começou a ser preparada há quatro meses, quando
desembarcaram em Avaré quatro militantes vindos de outros
assentamentos. Vinham se juntar a Marcelo Netto e a
Marcelo Antonio Grego, 34, que se mudaram para a cidade
há dois anos com o propósito de iniciar a doutrinação da
população pobre. Nos quatro meses, os ativistas bateram de
porta em porta, explicando o que é o MST e convidando os
moradores a comparecer às reuniões preparatórias da invasão.
Destino incerto
"Terra Prometida", "Terra sem Males" ou terra, apenas, sem
adjetivos. A promessa do MST aos pobres exige deles uma
confiança cega. Um exemplo: até o momento em que os
ônibus transpuseram a porteira da São Gonçalo, nenhum dos
sem-terra sabia qual era seu destino. Questão de segurança. O
vazamento dessa informação colocaria de sobreaviso o
fazendeiro e seus capatazes. Os homens nos ônibus
especulavam sobre o alvo: "E se for fazenda de areia?",
perguntava um deles. O medo era que a aventura
desembocasse em terras inférteis.
Se a polícia resolvesse aparecer perguntando para onde se
616
dirigia aquele comboio, a resposta-padrão seria: "Estamos
indo em excursão para Ribeirão Preto". E a polícia apareceu.
E perguntou. Também pudera. O comboio era mais do que
suspeito. Caminhões de mudança numa excursão? E a frota
bizarra de automóveis fora de linha? Tinha um Ford Belina,
Chevrolet Caravan, Volkswagen Brasília, Variants, Opalas.
Todos cheio de gente, fogareiros, alimentos para muitos dias.
O militante do MST conhecido por Barney deu a resposta-
padrão, os PMs ouviram e, céticos, disseram que torciam para
que os sem-terra fossem felizes na sua nova vida.
Alvo fácil
As terras de Mansur foram escolhidas como alvo por sua
situação anômala: o dono deve R$ 200 milhões à União. A
dívida total supera a casa de R$ 1,2 bilhão. Em razão da
dívida, a Justiça decretou a indisponibilidade dos bens de
Mansur. A fazenda, no entanto, foi passada para o nome das
duas filhas do empresário. A São Gonçalo emprega nove
funcionários, todos ganhando R$ 250. Nenhum tem registro
em carteira.
Na sexta-feira, os militantes do MST percorreram toda a
periferia de Avaré. Iam atrás dos 750 cidadãos que haviam
comparecido a pelo menos uma das cinco reuniões
preparatórias e que haviam se inscrito para fazer a invasão.
Foram muitas defecções. Cerca de 600 desistências de última
hora, coisa explicável pela natureza desta invasão:
diferentemente de outros acampamentos que têm por base
populações sem-teto, este seria feito com trabalhadores muito
pobres, a maioria desempregada, mas que moram em casas,
conseguem trabalhos temporários em fazendas da região, têm
filhos na escola. Por maior que seja a penúria, é difícil largar
tudo para se aventurar num acampamento que pode acabar
em bangue-bangue com os seguranças das fazendas. Muitos
têm medo.
Os 150 renitentes começaram sua jornada às 17h de sexta-
feira, quando entregaram enxadas, pás, cestas básicas, roupas,
fogões, colchões e o plástico preto que lhes servirá de teto
enquanto durar o acampamento aos caminhões de mudança
contratados pelo MST.
Após a invasão, os integrantes do MST organizavam a
primeira assembléia. Didáticos, explicavam para os
acampados que o correto é levantar o braço esquerdo, e que
não vale se confundir, enquanto se grita a plenos pulmões:
"MST, a luta é pra valer!". "Vamos repetir três vezes: ocupar,
resistir, produzir!"
A Folha não encontrou Mansur ontem. Deixou um recado no
617
telefone do advogado Fábio Coutinho Kurtz, que o
representou em uma ação, mas não teve resposta.
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Pernambuco
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São Paulo, terça-feira, 30 de março de 2004
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Reforma agrária é uma vergonha,
afirma Stedile
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Principal ideólogo do MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra), o economista João Pedro Stedile, 50,
afirmou que a política de reforma agrária do governo Luiz
Inácio Lula da Silva é uma "vergonha". Segundo ele, o
governo ainda não transformou a questão em "prioridade".
Stedile, um dos fundadores do MST, em 1984, disse que a
"paralisia" governamental gera "grande tensão" entre as
famílias sem terra acampadas. Segundo o Incra (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária), há 200 mil
delas no país.
"A reforma agrária está paralisada. [...] Nós temos Estados,
como Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e São Paulo,
nos quais o governo Lula não assentou em 15 meses
nenhuma família. Isso não só é lento, é uma vergonha", disse
à Folha por e-mail. "O MST fez um acordo com o governo e
acredita que o governo tenha vontade política de assentar
400 mil famílias acampadas nesses três anos [até o fim de
2006]. Nós aceitamos essa meta. Mas, por incrível que
pareça, não está havendo mudanças. Ninguém consegue
explicar", disse.
Integrante da coordenação nacional do MST, o economista
gaúcho declara que o governo ainda precisa se "convencer"
de que a reforma agrária é uma forma de "enfrentar o
desemprego e a pobreza no meio rural". "E transformar isso
numa prioridade de governo, coisa que até agora não
aconteceu."
618
No final de semana o MST iniciou uma onda de invasões no
país, batizada de "jornada de luta", para lembrar o massacre
de Eldorado do Carajás (PA), em 1996, quando 19
trabalhadores rurais foram assassinados por policiais
militares.
"O próprio governo sabe que, sem mobilizações de massa,
não terá forças suficientes para implementar mudanças.
Portanto, as mobilizações de massa podem até ajudar o
governo a ter força para fazer mudanças reais na política
econômica e recolocar as prioridades sociais no centro da
política", afirmou Stedile.
O MST promete não invadir prédios públicos durante a
"jornada", o que, segundo Stedile, não significa uma
ausência de pressão ao Incra e ao Ministério do
Desenvolvimento Agrário.
(EDUARDO SCOLESE)
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Alencar vê "bravata"
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lei
São Paulo, domingo, 04 de abril de 2004
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CAMPO MINADO
Líder do MST diz que declaração do presidente, que
afirmou que reforma não será "no grito", foi para
latifúndio
Stedile ignora recado dado por Lula
ao MST
DIMITRI DO VALLE
FREE-LANCE PARA AGÊNCIA FOLHA,
EM CURITIBA
O coordenador nacional do MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) João Pedro Stedile, 50,
disse ontem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao
declarar que não faria a reforma agrária "no grito", mandou
um recado para os latifundiários, e não para ele.
Anteontem, Lula afirmou, durante inauguração em Três
619
Lagoas (MS), que "a reforma agrária não vai ser feita no
grito dos trabalhadores ou no grito dos que são contra. Ela
vai ser feita respeitando a legislação vigente e no clima de
harmonia que norteia o comportamento de meu governo". A
declaração do presidente foi uma resposta indireta às últimas
afirmações de Stedile, que chegou a dizer que o MST iria
"infernizar" o governo federal.
"Nós do MST não vestimos a carapuça. Eu acho que o
recado dele foi para os latifúndios improdutivos. A nossa
leitura é que o governo disse: "Nós vamos fazer a reforma
agrária'", afirmou Stedile, que participou de um encontro
regional de lideranças de movimentos sociais em Curitiba.
O coordenador disse há uma semana que iria "infernizar" o
governo, com diversas invasões de terra pelo país, para pedir
pressa na reforma agrária. Em depoimento à CPI da Terra no
Congresso, porém, recuou da declaração e classificou a
expressão de "infeliz", negando ter planejado prejudicar o
governo. Afirmou que, em vez de "infernizar", as palavras
"azucrinar e pressionar" seriam as mais corretas.
Entretanto, anteontem, apesar de não citar Stedile, Lula
afirmou que "palavras, mesmo tiradas de contexto, seja de
trabalhador, seja de empresário, radicalizando o processo,
não ajudam, porque está cheio de gente que ainda não se
acostumou com democracia e com justiça social".
Em entrevista após sua palestra, que não foi aberta à
imprensa, Stedile disse que a programação do MST,
incluindo as ações de invasões de terra, não será modificada
por causa da polêmica. "Temos uma jornada de
manifestações em curso e elas vão continuar até o dia 17 de
abril [data do massacre de Eldorado do Carajás, no Pará,
quando 19 sem-terra foram mortos durante confronto com
policias militares]."
Stedile negou que o ato de fechar a palestra à imprensa tenha
sido motivado pela repercussão de suas declarações e
justificou: "Você já viu algum dirigente de movimento social
acompanhar reunião de sindicato dos proprietários de
jornais? Nós temos o direito de preservar o nosso ambiente.
As coisas que a gente diz entre nós não são públicas".
O líder disse que a reforma agrária "foi muito lenta nos 15
meses de governo Lula", que o governo precisa
"desburocratizar o crédito" e "resgatar a assistência técnica",
sucateada" no era FHC.
Ao depor na CPI da Terra, Stedile já havia dito que tinha
"certeza de que o governo não tem condições de aplicar [o
orçamento de R$ 3,1 bilhão do Ministério do
Desenvolvimento Agrário]." Para ele, "o governo está
620
engessado como se fosse um fantasma. Não consegue
avançar. Falta coragem e mais transparência para chamar o
povo para ajudá-lo".
Novas invasões
Integrantes do MST invadiram ontem a fazenda Dan, de
1.200 ha, em Petrolina (a 770 km de Recife). De acordo com
o MST, 430 famílias participam da invasão da fazenda, que,
segundo o movimento, é improdutiva. A reportagem não
conseguiu confirmar a informação com o Incra. Com essa
ação, já são 15 as fazendas invadidas no Estado na "jornada
de luta", iniciada em março.
Também ontem, cerca de cem famílias ligadas ao MST
invadiram a fazenda Vista Alegre, em Novo Horizonte do
Sul (a 336 km de Campo Grande), segundo informações da
Polícia Civil.
Colaborou a Agência Folha
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tucana
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São Paulo, quinta-feira, 08 de abril de 2004
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CAMPO MINADO
Foram 40 as ações no mês passado, que só perdem para
as 101 no mesmo período de 99; no trimestre, número
cresceu 19%
Março tem maior nº de invasões em 5
anos
EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
No momento em que o governo enfrenta ações do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em todo o
país, os números oficiais revelam que as invasões de terra
aumentaram no primeiro trimestre do ano em relação ao
621
mesmo período de 2003. Entre janeiro e março deste ano
foram 56 casos, contra 47 no mesmo intervalo no ano
passado, um crescimento de 19%.
Só em março foram 40 invasões, o maior número no mês
desde 1999, quando ocorreram 101 casos. A maioria dos
casos até 31 de março deste ano ocorreu no Nordeste (25),
seguido das regiões Sudeste (19), Centro-Oeste (10), Norte e
Sul (1 cada).
Em 2003, em relação a 2002, último ano do governo FHC, o
número de invasões de terra já havia avançado 115% -
passando de 103 para 222 casos, segundo o Ministério do
Desenvolvimento Agrário. Em 2002, o MST deu uma trégua
nas invasões por conta das eleições presidenciais -apoiou a
candidatura de Lula.
Os dados da administração Lula contradizem seu discurso de
campanha. Em 2002, às vésperas das eleições, ele chegou a
afirmar que era o "único capaz de fazer uma reforma agrária
tranqüila".
Em 2003, 42 pessoas foram assassinadas em conflitos no
campo -um aumento de 110% sobre os 20 casos de 2002.
Entre janeiro e março deste ano, segundo o ministério, foram
duas mortes.
Há duas semanas, o MST deflagrou o que eles chamam de
"jornada de luta", com invasões em todo o país, para
pressionar o governo a acelerar o processo de reforma
agrária e lembrar, como faz todos os anos, os 19
trabalhadores rurais sem terra assassinados pela Polícia
Militar em 1996, na desobstrução de uma estrada em
Eldorado do Carajás (PA). Não há ninguém preso pelo
massacre.
A ouvidora agrária nacional substituta, Maria de Oliveira,
que falou em nome do governo, reconheceu que o número de
ações dos sem-terra neste ano "superou as expectativas". Isso
preocupa, segundo ela, pois "toda ação gera uma reação",
numa referência a possíveis conflitos entre trabalhadores
rurais e fazendeiros.
"O governo precisa ter a habilidade necessária para abreviar
as etapas de desapropriação e acelerar o processo de reforma
agrária. Hoje, há duas linhas entre os sem-terra: invadir para
combater o latifúndio e acampar na porta das fazendas para
pressionar o governo", disse a ouvidora.
Recorde
Os números deste ano superam todos os registrados desde a
edição da medida provisória antiinvasão, em maio de 2000.
A MP, que na prática ainda não foi cumprida pelo atual
622
governo, proíbe por dois anos as avaliações e vistorias em
terras invadidas e exclui do programa de reforma agrária os
assentados que participarem de invasões.
Segundo o Incra (Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária), não existe hoje no país nenhuma área
impedida de vistoria por causa da MP.
Após a medida, houve uma diminuição nas invasões. Em
1999, por exemplo, antes de sua edição, ocorreram 101
invasões em março, 199 no primeiro trimestre e 502 em todo
o ano. Sob Lula, nem a metade do número foi atingida.
Para Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST, "há
uma situação grave no campo que justifica" o avanço dos
números. "Até agora não houve uma resposta adequada do
governo. Existem as promessas, mas as ações não estão
ocorrendo. A culpa não é apenas do Lula, mas ele é o
presidente", disse.
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Incra
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critica vítima do MST
São Paulo, domingo, 18 de abril de 2004
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CAMPO MINADO
Ação marca 8 anos da morte de 19 sem-terra em
Eldorado do Carajás
MST reúne 5 mil em ato no PA e
avança contra fazendas
JOSÉ MASCHIO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM ELDORADO
DOCARAJÁS (PA)
Em memória dos 19 sem terra mortos há oito anos em
confronto com a Polícia Militar em Eldorado do Carajás
(PA), o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) realizou um ato público com 5.000 pessoas na cidade
e tomou uma fazenda da região. Segundo lideranças do MST
no Pará, a invasão foi uma "vingança" pelo massacre de
623
1996.
Outras três fazendas foram invadidas pelos sem-terra ontem
e uma quarta, que havia sido desocupada, foi tomada
novamente.
No total, desde 10 de março, quando o MST iniciou nova
onda de ações pelo país, houve 86 propriedades invadidas.
Ontem também, em um acampamento da Contag
(Confederação Nacional dos Trabalhadores em Agricultura)
em Minas Gerais, três crianças morreram em um incêndio.
O ato do MST, que precedeu a invasão na fazenda Peruano,
no Pará, ocorreu pela manhã na curva do "S" -trecho da
rodovia PA-150 em que os sem-terra foram mortos em 96 e
onde hoje há um memorial. Da curva do "S", cerca de 2.500
sem-terra percorreram 14 km até a Peruano. A PM
acompanhou a invasão, à distância, e não houve confronto.
O MST disse que invadiu a fazenda por ela ser um
"latifúndio", mesmo que produtivo. O dono, Evandro
Mutran, disse que cria 11 mil cabeças de gado.
Segundo Charles Trocate, 26, da direção nacional do MST e
que coordenou a invasão, "a luta contra o latifúndio é uma
forma de ajudar o presidente Lula a enfrentar a reação da
direita".
Das 2.500 pessoas que invadiram ontem a fazenda, grande
parte era de assentamentos do MST na região. Na fazenda,
ficariam 900 famílias cadastradas pelo MST, segundo
Trocate.
No Pará, o MST também invadiu ontem, com 450 famílias, a
Fazenda Reunidas, do grupo Janasa, em Mãe do Rio (221 km
a leste de Belém). De acordo com o MST, a propriedade é
improdutiva e tem aproximadamente 5.000 hectares.
Em Sergipe, 350 famílias ocuparam ontem de manhã a
fazenda Carolina, em Canindé de São Francisco (198 km ao
noroeste de Aracaju). Em Alagoas, 180 famílias invadiram
anteontem a fazenda Raio do Sol, em Traipu (174 km a
sudoeste de Maceió).
Em Mirandópolis (607 km de São Paulo), de 100 a 150
integrantes do MST invadiram ontem a fazenda Primavera,
de Rubens Franco de Melo. A fazenda havia sido
desocupada pelo MST.
Os pais das três crianças que morreram num incêndio em
Minas Gerais -Luiz Carlos Dionísio Antero, 41, e Eliane
Dionísio Antero, 23, foram presos em flagrante por
negligência, segundo a PM.
O incêndio ocorreu na invasão da usina de álcool
Ariadinópolis, em Campo do Meio (328 km de Belo
Horizonte). Dois filhos sobreviveram. Segundo a polícia, que
624
foi avisada pelo tio das crianças, o casal deixou o
acampamento às 17h para ir a um bar.
A fabricante de papel Klabin divulgou nota informando que
sua fazenda Faxinal do Paulista, em São Cristóvão do Sul
(SC), foi invadida na madrugada de ontem por 420 famílias
do MST. A Folha não conseguiu localizar representantes do
MST local até a conclusão desta edição.
Colaboraram DAYANNE MIKEVIS, EDUARDO DE OLIVEIRA e
LÉO GERCHMANN, da Agência Folha
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São Paulo, sexta-feira, 23 de abril de 2004
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CAMPO MINADO
Líder do movimento diz que "abril vermelho" foi
impressionante e que governo sabe que, sem pressão, não
há mudanças
Stedile afirma que há "impaciência"
no MST
EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Idealizador do "abril vermelho", rotulado por ele como uma
mobilização "impressionante", o economista João Pedro
Stedile, 50, da coordenação nacional do MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), afirmou ontem que o
movimento vai prosseguir "impacientemente" com as suas
ações pelo país.
"Não muda nada [após o "abril vermelho']. Nossa missão
como movimento social é seguir impacientemente para
conscientizar os pobres do campo, organizá-los e mobilizá-
los para ter força social suficiente para que haja mudanças de
forma mais rápida."
No início da semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
aproveitou seu programa quinzenal de rádio para cobrar
responsabilidade dos movimentos sociais e pedir que evitem
a radicalização das manifestações.
"Quem quiser fazer suas manifestações, este é um país
625
democrático, é um país livre, as pessoas podem fazer. O que
as pessoas não podem é perder o senso de responsabilidade",
disse Lula.
Stedile fez um balanço da atuação do movimento, ocorrida
entre a última semana de março e o dia 19 deste mês, data
em que completou oito anos do massacre de Eldorado do
Carajás (PA), quando 19 sem-terra foram mortos por
policiais militares durante a desobstrução de uma estrada. A
maioria das ações ocorreu por meio de invasões de terra.
"A mobilização social que houve durante todo mês de abril
[...] foi impressionante e refletiu o que nós já vínhamos
sentindo na base havia algum tempo", afirmou o líder sem-
terra. Segundo Stedile, a "herança" do governo Fernando
Henrique Cardoso (1995-2002) e a continuidade do modelo
econômico na gestão Lula obrigam os movimentos a se
"mexer".
"Nós recebemos uma herança perversa de acúmulo de
problemas sociais durante oito anos e, agora, com a
continuidade da política econômica, os trabalhadores e os
pobres estão percebendo que, se não se mexerem, não haverá
mudanças." As invasões de propriedades rurais, segundo ele,
não são para exigir determinada área de "qualquer maneira",
e sim para que "o governo se mexa e faça as
desapropriações".
Há um acordo com o Planalto, disse Stedile: o governo
assenta 400 mil famílias até 2006, e o MST organiza essa
quantidade de pessoas nos acampamentos. "Sem os pobres
do campo organizados, não há nenhuma possibilidade de se
fazer a reforma agrária."
Até dezembro o governo promete assentar 115 mil famílias,
sendo 47 mil delas até junho. No primeiro trimestre, o
Ministério do Desenvolvimento Agrário afirma ter assentado
cerca de 11 mil famílias. No ano passado, Lula prometeu 60
mil, mas só assentou 36 mil, de acordo com a pasta.
Stedile afirma que o governo tem ciência de que, sem as
mobilizações, "não terá força" para promover as mudanças.
"Será sempre refém da vontade das elites." Para ele, a "classe
dominante" e a imprensa em geral utilizaram a "jornada de
lutas" para "criminalizar" os movimentos sociais.
Texto Anterior: Outro lado: Governo diz que está
investigando suposto problema
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invasão
626
São Paulo, domingo, 11 de julho de 2004
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CAMPO MINADO
Reintegração de área perto do local do massacre de 96,
ocupada por 1.200 famílias do MST, ainda não foi
cumprida
Eldorado do Carajás teme nova
tragédia
ELVIRA LOBATO
ENVIADA ESPECIAL A ELDORADO DO CARAJÁS
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)
ergueu um acampamento gigante -com 1.200 famílias, escola
e duas igrejas evangélicas- a apenas 12 km do local no sul do
Pará onde 19 sem-terra foram mortos pela Polícia Militar do
Estado, em 17 de abril de 1996, no massacre de Eldorado do
Carajás.
As famílias estão acampadas dentro da fazenda Peruano, na
margem da rodovia em que aconteceram as mortes, a PA-
150, a cerca de 80 km de Marabá.
A invasão se deu no último dia 17 de abril, quando se
completaram oito anos do massacre, e recebeu o nome de
Lourival Santana, um dos mortos no episódio.
O proprietário da fazenda Peruano, Evandro Mutran, obteve
uma liminar judicial para a reintegração de posse dois dias
depois da invasão, mas a decisão ainda não foi cumprida. As
autoridades temem repetir o confronto de 1996, que deixou
ainda 81 feridos (69 sem-terra e 12 policiais).
De acordo com a advogada do proprietário da fazenda, Marli
Tronchetti, a Polícia Militar de Marabá alega que só agirá
com ordem do governador Simão Jatene (PSDB), em razão
do grande número de acampados. Em 1996, o massacre
ocorreu após determinação do então governador Almir
Gabriel (PSDB) para a desobstrução da estrada (leia abaixo).
A advogada afirma que entrará na Justiça com um pedido de
intervenção federal no Estado, pois seu cliente tem três
fazendas que estão ocupadas pelo MST e, em nenhuma
delas, a liminar de reintegração de posse foi cumprida.
O governo do Pará informou, por intermédio de sua
assessoria de imprensa, que a ordem de desocupação da
627
fazenda Peruano não foi cumprida a pedido da CPI
(Comissão Parlamentar de Inquérito) da Terra, formada pela
Câmara e pelo Senado, que investiga os conflitos agrários. E
também por causa de um acordo com o Incra (Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária.
Ocupação simbólica
De acordo com Charles Troca- tte, que é membro do
diretório nacional do MST e está baseado em Marabá, o
acampamento da fazenda Peruano foi planejado para ter
visibilidade e é o maior do Estado do Pará. Nos três meses
que antecederam a invasão, parte das famílias ficou alojada
próximo de Eldorado do Carajás, para o que ele chamou de
""processo de acumulação de forças".
Segundo Trocatte, trata-se da ação de maior impacto do
MST no Sul do Estado nos últimos oito anos, por causa da
localização simbólica -próxima ao memorial do massacre- e
das características da propriedade ocupada.
A fazenda Peruano, de acordo com seu proprietário, tem
7.500 hectares de extensão, 16.500 cabeças de gado e é
especializada em transferência de embriões e inseminação
artificial para a melhoria genética de espécies das raças
guzerá, nelore e girolanda. A sede da propriedade tem sete
suítes.
Suposto trabalho escravo
O Ministério do Trabalho autuou, em 2001, duas
propriedades rurais de Evandro Mutran por utilização de
mão-de-obra em condição análoga à escravidão: a própria
Peruano e a fazenda Cabaceiras. Ambas ficam entre os
municípios de Eldorado do Carajás e Marabá. Também
invadida, A Cabaceiras já está ocupada por famílias do MST
há cinco anos.
Em entrevista à Folha, por telefone, Mutran refutou a
acusação de trabalho escravo e afirmou que vem sendo
vítima de perseguição por parte do MST e dos fiscais do
Ministério do Trabalho. Além das fazendas, onde cria cerca
de 50 mil cabeças de gado, Mutran é exportador de castanha
do Pará.
O empresário disse que a fazenda Cabaceiras foi autuada
duas vezes pelo Ministério do Trabalho, em 2001 e em 2002,
por utilização de trabalho escravo e que um dos motivos da
autuação foi a falta de água potável e de alojamentos
adequados para os trabalhadores. Segundo ele, a caixa d'água
e os alojamentos haviam sido destruídos pelos sem-terra.
""É como autuar um hotel de luxo no Iraque por falta de
628
alojamentos adequados. Minha fazenda está pior do que o
Iraque", acrescentou o empresário.
Suspeita de grilagem
A Superintendência Regional do Incra em Marabá afirmou
que recomendou a suspensão do despejo dos acampados na
fazenda Peruano até que seja realizada uma medição das
terras.
De acordo com Gilson Souza Mendes, que é chefe da divisão
técnica da superintendência, há suspeita de que parte das
terras seja da União. A suspeita foi levantada pela CPT
(Comissão Pastoral da Terra) e pelo MST.
Segundo a CPT de Marabá, a Peruano ocuparia uma área
total de 10.800 hectares, dos quais cerca de 6.000 seriam da
União.
O proprietário da fazendo contesta o dado. Mutran afirma
que comprou a propriedade em 1982 e que ela tem 2.300
hectares a menos do que o total informado pela CPT. O
empresário alega ainda que possui a titularidade das terras
registrada em cartório.
Texto Anterior: Saiba mais: Propriedade está em uma área
que pertence à União
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desobstrução de estrada pela PM
São Paulo, terça-feira, 09 de novembro de 2004
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Tensão entre MST e proprietários
volta a Eldorado
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CAMPO GRANDE
A tensão entre fazendeiros e o MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) voltou a Eldorado do
Carajás (768 km de Belém-PA), local do massacre de 19
sem-terra, mortos em confronto com a polícia em 96.
Nelson Ferreira Santos, 61, administrador da fazenda
Peruano, acusa os sem-terra de terem matado ao menos 50
cabeças de gado desde que invadiram a área em abril deste
ano. O MST, que mantém 1.200 famílias na fazenda, nega.
Os sem-terra dizem que parte da área é da União -os donos
629
negam.
Texto Anterior: Campo minado: Sem-
terra invadem fazendas
no Pará
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em Brasília
São Paulo, sexta-feira, 19 de novembro de 2004
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CAMPO MINADO
Dois PMs já foram condenados por ação de 1996
Justiça do Pará inicia 3º julgamento
sobre mortes de sem-
terra em Carajás
TIAGO ORNAGHI
DA AGÊNCIA FOLHA
EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Oito anos após o episódio conhecido como massacre de
Eldorado do Carajás, a Justiça do Pará inicia hoje o terceiro
julgamento sobre a ação da Polícia Militar que deixou 19
sem-terra mortos em um desbloqueio de rodovia em 1996.
Os sem-terra eram ligados ao MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra).
Nos dois julgamento anteriores, apenas os comandantes da
operação, o coronel Mário Colares Pantoja e o major José
Maria Pereira de Oliveira, foram condenados -receberam
pena de 228 e 158 anos, respectivamente. Eles estão em
liberdade, esperando o julgamento de recursos.
O julgamento de hoje foi motivado por recursos de ambas as
partes. Os advogados do MST e o Ministério Público querem
que os 145 policiais que participaram da ação sejam
condenados. Os dois já condenados querem que as penas
sejam revistas. Segundo os advogados deles, não haviam
sido dadas ordens para matar.
"Se o Tribunal [de Justiça] mantiver a impunidade,
aumentará a impressão entre os pobres deste país que o
Poder Judiciário só funciona para ricos", disse João Pedro
630
Stedile, dirigente do MST.
O massacre aconteceu no dia 17 de abril de 1996, quando o
então governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), ordenou
que dois batalhões da PM realizassem uma ação para
desobstruir trecho da rodovia PA-150. O local havia sido
tomado no dia anterior por cerca de 1.100 sem-terra, que
marchariam até Belém (distante 768 km).
Os dois grupos entraram em confronto e o saldo foi a morte
de 19 sem-terra. Outros 69 sem-terra e 12 policiais ficaram
feridos. Exames nos corpos mostraram que eles haviam sido
mortos com tiros à queima-roupa ou com golpes de machado
e facão.
A defesa dos soldados acusados de participar das mortes
alega que os tiros foram disparados para o alto. Segundo a
defesa, é impossível apontar quais soldados teriam matado os
19 sem-terra.
Com a aprovação da reforma do Judiciário no Congresso,
crimes contra os direitos humanos poderão ser transferidos
da Justiça comum para a Justiça Federal.
Abaixo-assinado
Deputados que integram uma ala esquerdista do Parlamento
Europeu enviaram ao TJ do Pará um abaixo-assinado no qual
pedem o "fim da impunidade" ao massacre de Eldorado do
Carajás. O documento é assinado por 18 parlamentares de
dez países.
"Os deputados do Grupo da Esquerda Unitária
Européia/Esquerda Verde Nórdica do Parlamento Europeu
(...) manifestam o seu mais profundo desejo de que haja
justiça e que se ponha fim à impunidade relativamente aos
responsáveis pelo bárbaro assassinato de 19 trabalhadores
rurais sem terra pela ação da Policia Militar do Estado do
Pará."
A Anistia Internacional divulgou ontem o comunicado
"Brasil: O Mundo não Esqueceu", em que pede a punição
pelo massacre.
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gravadas por Cachoeira
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acusados em Roraima
São Paulo, sábado, 20 de novembro de 2004
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631
MASSACRE EM CARAJÁS
Comandantes da PM são considerados responsáveis pela
morte de sem-terra; advogado vai recorrer
Justiça confirma condenação de
oficiais
SÍLVIA FREIRE
DA AGÊNCIA FOLHA
O Tribunal de Justiça do Pará determinou ontem a prisão dos
dois comandantes da Polícia Militar considerados
responsáveis pela morte de 19 sem-terra ligados ao MST no
episódio conhecido como massacre de Eldorado do Carajás,
em abril de 1996.
Por unanimidade, a Segunda Câmara Criminal do TJ
confirmou a condenação do coronel Mário Pantoja e do
major José Maria de Oliveira ao julgar recurso apresentado
pela defesa. Em 2002, Pantoja e Oliveira haviam sido
condenados pelo tribunal do júri a 228 anos e 158 anos de
reclusão, respectivamente, mas aguardava
m o julgamento em
liberdade.
O agricultor Francisco Moura, um dos coordenadores do
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) no
Pará, disse que a prisão dos dois oficiais ainda "é muito
pouco" para o movimento. "Nosso pessoal vai recorrer de
novo para que os outros policiais militares que participaram
da operação sejam condenados", disse Moura.
Em abril de 1996, o agricultor era um dos coordenadores da
marcha de sem-terra que fechou a estrada PA-150 e que,
durante a ação de desocupação, entrou em confronto com a
PM. Além dos 19 mortos, 69 ficaram feridos.
A Segunda Câmara Criminal do TJ também julgou ontem o
recurso apresentado pelo Ministério Público do Estado e
pelos advogados do MST que pedia a anulação do júri que
absolveu 145 policiais -entre soldados, sargentos e cabos-
que também participaram da operação.
O advogado Américo Leal, que representa Pantoja, disse
ontem à tarde que ainda não sabia do resultado do
julgamento do recurso. O advogado de Oliveira, Jânio
Siqueira, disse que seu cliente se apresentará ao TJ na
segunda-feira, se estiver recuperado de uma crise
hipertensiva, que também acometeu Pantoja, causada pela
632
notícia do resultado do julgamento. Eles estão internados em
Belém.
Os advogados pedirão habeas corpus na próxima semana e
recorrerão ao Superior Tribunal de Justiça, em Brasília,
assim que for publicada a decisão.
A Segunda Câmara julgou ontem um total de nove recursos
referentes ao massacre, que haviam sido apresentados tanto
pelo Ministério Público Estadual e pelos advogados do MST
(pedindo a extensão da pena aos outros 145 policiais) quanto
pelos defensores dos policiais condenados (pedindo
absolvição).
Do lado de fora do tribunal, cerca de 600 pessoas
aguardavam o resultado com cartazes, faixas e palavras de
ordem. A prisão foi comemorada.
Segundo o coronel Antônio Araújo, comandante do
Comando de Policiamento Metropolitano, um contingente do
batalhão de choque ficou de prontidão num local próximo ao
tribunal, mas não houve problemas.
Trinta lideranças do MST foram credenciadas e
acompanham a sessão, bem como três observadores da
Secretaria Nacional de Direitos Humanos.
"O resultado do julgamento aponta para dois fatos: o fato
alvissareiro da condenação, que quebra o sentimento de
impunidade, mas aponta, em relação à absolvição dos cabos
e dos soldados, a necessidade de reforma na segurança
pública", disse o observador Pedro Montenegro.
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São Paulo, terça-feira, 23 de novembro de 2004
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Major condenado pelas mortes de
Carajás é preso
DA AGÊNCIA FOLHA
O major José Maria Pereira de Oliveira, condenado a 158
anos de prisão pelo massacre de Eldorado do Carajás, foi
detido ontem ao se apresentar ao comando da Polícia Militar,
633
em Belém (PA).
Na sexta-feira, o Tribunal de Justiça do Pará expediu o
mandado de prisão de Oliveira e do coronel Mário Colares
Pantoja, condenado a 228 anos de prisão pelo massacre, e
decidiu manter suas condenações. Eles haviam sido julgados
pelo tribunal do júri em 2002 e aguardavam o julgamento
dos recursos em liberdade.
Pantoja e Oliveira comandavam as tropas responsáveis pela
liberação de uma estrada fechada por agricultores do MST,
em 96. Houve confronto e 19 sem-terra morreram. Os
soldados que estavam na operação foram absolvidos.
Até a tarde de ontem Pantoja estava internado no Hospital
Sírio Libanês, da PM, em Belém. Segundo seu advogado,
Américo Leal, ele teve uma crise de pressão alta ao saber do
resultado do julgamento. Oliveira também foi hospitalizado,
mas foi liberado no mesmo dia. A PM diz que Pantoja já está
sob responsabilidade da Justiça, mas à disposição dos
médicos. Os advogados dos condenados disseram que vão
recorrer.
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investigação
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São Paulo, quarta-
feira, 06 de abril de 2005
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ABRIL SEM ORDEM
Novas invasões ocorridas no último fim de semana
marcaram o início de mais um famigerado "Abril
Vermelho", nome adotado para o mês em que se intens
ificam
as mobilizações e protestos capitaneados pelo Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). As ações fazem
parte do que o movimento chama de "Jornada de Luta", na
verdade uma genuína jornada de abusos, realizada
anualmente pelo MST, a pretexto de lembrar o massacre de
Eldorado do Carajás, ocorrido em abril de 1996.
Até agora, ao todo, o MST, juntamente com a Organização
da Luta no Campo (OLC), invadiu 12 fazendas no interior de
Pernambuco. As ações não devem parar por aí. Segundo a
direção do movimento, até o final desta semana deverão ser
634
realizadas mais 40 invasões só naquele Estado.
O MST tem, certamente, o direito de defender a população
rural despossuída e de lutar contra as evidentes assimetrias
da estrutura fundiária brasileira. Isso, porém, não pode se
confundir com a sistemática agressão à ordem.
Paralelamente à irresponsabilidade das lideranças do
movimento, é preciso reconhecer que a extraordinária
inoperância da administração petista na condução da reforma
agrária tem contribuído para estimular esse tipo de
mobilizações e para açular os conflitos.
Até agora nenhuma das metas da reforma agrária foi
cumprida pelo governo petista. Em 2004, atingiu-se apenas
59% do objetivo estipulado. Diante desse quadro, é preciso
muito otimismo para acreditar no assentamento de 400 mil
famílias até 2006, conforme o prometido.
Além disso, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva tem se mostrado sempre leniente quando se trata de
mobilizações claramente ilegais -não cumprindo, por
exemplo, a norma, criada pelo governo anterior, que afasta
da reforma agrária as terras invadidas.
Já passa da hora de repensar o modelo de reorganização
fundiária que se pretende implantar no país, de modo a
conferir-lhe mais eficiência e adequá-lo à realidade
econômica contemporânea. Até agora o PT fez muito pouco
para quem anunciava, à época das eleições, uma "reforma
agrária do século 21".
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São Paulo, quarta-feira, 06 de abril de 2005
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CAMPO MINADO
Um dos acusados é tenente-coronel da Polícia Militar; há,
no grupo preso, quatro oficiais reformados da PM
PF prende acusados de criar milícia
anti-MST
Jonas Silveira/Folha Imagem
Acusado de fazer parte de milícia é
escoltado por policiais no PR
635
MARI TORTATO
JOSÉ MASCHIO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM CURITIBA
A Polícia Federal prendeu na manhã de ontem no Paraná o
tenente-coronel da Polícia Militar Waldir Copetti Neves e
mais sete pessoas -quatro oficiais da PM reformados, um
expulso e um homem e uma mulher civis-, sob acusação de
formarem uma organização criminosa armada que dava
segurança ilegal a fazendeiros e intimidava grupos de sem-
terra do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra) sem respaldo da Justiça.
Neves foi preso na casa dele, em Curitiba, e levado para a
sede da PF. Ele é apontado como o chefe da organização.
Sobre ele também pesa a acusação de tráfico internacional de
armas.
A operação batizada de "Março Branco" realizou outras seis
prisões em Ponta Grossa -a 110 Km de Curitiba- e uma em
Cascavel -500 km a oeste da capital. Entre os presos, há dois
supostos sem-terra que teriam sido infiltrados em
acampamentos do MST para vazar informações ao grupo.
O presidente do Sindicato Rural de Ponta Grossa, Marcos
Degraf, também foi chamado para depor em Curitiba. O
delegado federal que comandou a operação, Fernando
Francischini, disse que Degraf também pode ser indiciado. A
entidade distribuiu nota negando as acusações.
No material apreendido no cumprimento de 13 mandados de
busca e apreensão da Justiça, a PF encontrou recibos de
"cotas mensais" pagas por fazendeiros ao grupo de Neves.
636
Esses recibos têm anotados preços variados, mas são, em
maior número, de R$ 700 e R$ 800, segundo Francischini.
O superintendente da PF no Paraná, Jaber Makul Hanna
Saadi, disse que, na documentação apreendida, há provas da
existência de um "consórcio" de fazendeiros para inibir
invasões de áreas no Estado mediante o pagamento ao grupo.
"Agimos para prevenir uma nova Eldorado do Carajás",
afirmou Saadi. Em 1996, numa rodovia de Eldorado do
Carajás (PA), 19 sem-terra foram mortos num confronto com
a PM do Estado.
Saadi disse que a operação estava preparada para março, daí
o nome "Março Branco", mas que precisou de adiamento.
"Março Branco" é uma contraposição à onda de invasões
batizada de "Abril Vermelho", que o MST desencadeou no
ano passado e promete repetir neste ano no país, por mais
atenção do governo à reforma agrária.
A operação de ontem foi autorizada pela juíza substituta da 1ª
Vara Federal de Ponta Grossa Karla Grando. A partir de hoje,
o caso será conduzido por Silvia Brollo, que volta de férias.
Os cerca de 60 policiais mobilizados encontraram 16 armas
de fogo, entre elas pistolas Glock, e, segundo Francischini,
"muita munição". "Ainda vamos demorar para levantar tudo",
afirmou ele ontem à Folha, antes de ouvir os detidos.
Por encomenda
Escutas telefônicas usadas na investigação indicaram,
segundo a PF, que as armas eram encomendadas no Paraguai
por Neves para a intimidação dos sem-terra. "Ainda não
temos nada que também aponte para o comércio delas", disse
o superintendente.
Ele e o chefe da operação afirmaram que a investigação sobre
as atividades paralelas de Neves começou há quatro anos na
PF, mas que foi intensificada há dez meses, depois de um
pedido de formação de uma força-tarefa conjunta pelo
governador Roberto Requião (PMDB) ao ministro da Justiça,
Márcio Thomaz Bastos. O secretário da Segurança Pública,
Luiz Fernando Delazari, participou da divulgação do caso
ontem na sede da PF em Curitiba.
O tenente-coronel preso, que tem 29 anos de corporação,
chegou a chefiar o grupo Águia da PM do Paraná, o serviço
reservado que se especializou em despejos legais das
fazendas. Há algum tempo, Neves teria sido colocado "na
geladeira". Ele estava respondendo pela chefia da área
logística da corporação, uma função burocrática do Estado
Maior da instituição. Por ser oficial da PM, ele ficará preso
em um quartel.
637
No Rio, PMs são suspeitos de ter provocado a morte de 30
pessoas na semana passada na Baixada Fluminense -maior
chacina contra comunidades carentes do Estado desde o
massacre de Vigário Geral em 1993, quando 21 foram mortos
por PMs.
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Dorothy não falam durante acareação no Pará
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São Paulo, sexta-feira, 15 de abril de 2005
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QUESTÃO AGRÁRIA
Movimento invadiu 377 áreas, de um total de 571 em 26
meses de governo; para sem-terra, é preciso pressionar
MST concentra 66% das invasões sob
Lula
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Apesar dos seguidos diálogos com o governo petista e da
fama de aliados históricos, o MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra) concentra 66% das 571
invasões de terra feitas no país nos primeiros 26 meses da
gestão Luiz Inácio Lula da Silva.
De janeiro de 2003 a fevereiro de 2005, segundo a Ouvidoria
Agrária Nacional, o movimento participou de 377 invasões
de propriedades rurais em todo o país. Para João Pedro
Stedile, da coordenação nacional do MST, "governos só
funcionam na pressão".
Membros do governo, como Miguel Rossetto
(Desenvolvimento Agrário), vêem as ações como algo
democrático, uma forma de pressão que deve ser respeitada
pelo Executivo. Mas há outros setores, liderados por Roberto
Rodrigues (Agricultura), que enxergam os movimentos como
focos de desestabilização.
No Planalto, o tema das invasões é tratado com extrema
preocupação, principalmente pelo desgaste político que tais
ações podem proporcionar. Na semana passada, por
638
exemplo, o presidente convocou duas reuniões sobre o tema
em seu gabinete, além de ter liberado R$ 400 milhões para a
desapropriação de fazendas.
Para Stedile, o movimento não age com a preocupação de
agradar ou não a determinado governo. Isso, segundo ele,
significaria o fracasso da entidade.
"Pela natureza de nosso movimento, sempre somos
autônomos. Autônomos de partidos políticos, do governo e
das igrejas. Os movimentos que não respeitarem esse
principio e se vincularem a partidos ou governos estão
fadados historicamente ao fracasso, pois ficam dependentes."
Segundo o líder dos sem-terra, a gestão Lula precisa se
lembrar das promessas antigas do PT. "De parte do governo,
se eles ainda se lembrarem do que defendiam no Partido dos
Trabalhadores, eles sabem que, a rigor, as mobilizações
sociais, as ocupações de terra e as lutas sociais ajudam a
reforma agrária. Ajuda o governo a se mexer. Como
sabemos, os governos só funcionam na pressão."
Liderança tranqüila
A liderança do MST no ranking de invasões é folgada. Atrás
dele, na segunda colocação, com 50 invasões no período (8%
dos casos), aparece a OLC (Organização de Luta no Campo),
uma dissidência da Contag (Confederação Nacional dos
Trabalhadores Rurais na Agricultura) que concentra suas
ações em Pernambuco.
A Contag e suas federações regionais aparecem no terceiro
posto da tabela da ouvidoria, com 44 invasões (7%) em 26
meses de governo Lula. A seguir, com 14 casos (2%), está o
Mast (Movimento de Agricultores Sem Terra), com suas
ações principalmente no Pontal do Paranapanema (SP).
Segundo dados da ouvidoria, 29 entidades e movimentos,
além das federações regionais da Contag, participaram de
invasões de terra no governo Lula. Muitos desses
movimentos são dissidências do MST e da Contag.
Massacre
Desde 16 de abril de 1996, quando 19 sem-terra foram
assassinados em Eldorado do Carajás (PA), os meses de abril
passaram a concentrar a maioria das ações dos sem-terra no
país. Entre 2000 e 2004, abril concentrou 266 das 1.046
invasões no período, ou seja, 25% das ações.
No dia do massacre, policiais militares entraram em
confronto com integrantes do MST para desobstruir uma
estrada da região. (EDUARDO SCOLESE)
639
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retido
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Belém
São Paulo, sexta-feira, 15 de abril de 2005
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Sem-terra invadem a sede do Incra
em Belém
SILVIO NAVARRO
DA AGÊNCIA FOLHA
Um grupo de 300 famílias de sem-terra invadiu ontem a sede
do Incra, em Belém (PA), para protestar contra a morosidade
no processo de reforma agrária.
Os sem-terra são ligados à Conlutas (Coordenação Nacional
de Lutas), formada por sindicatos dissidentes da CUT
(Central Única dos Trabalhadores).
O grupo que encabeçava o protesto estava acampado na
porta do Incra havia dois dias. Eles reivindicavam uma
reunião com a direção do órgão e se irritaram com o
cancelamento do encontro.
Ao ser informada do adiamento da reunião, a liderança do
grupo decidiu impedir a entrada e saída dos funcionários. O
bloqueio gerou tensão e terminou numa briga entre
servidores e sem-terra.
Após a confusão, a direção do Incra recebeu os
manifestantes. No encontro, que durou cinco horas, o Incra
prometeu intensificar as perícias das fazendas a partir de
maio e realizar uma nova reunião com o grupo em 45 dias.
Os sem-terra se comprometeram a deixar a sede do Incra
hoje pela manhã.
Anteontem, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) fez a sua 19ª invasão em Pernambuco neste mês.
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invasões sob Lula
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produção agora
São Paulo, quarta-feira, 18 de maio de 2005
640
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SAIBA MAIS
Pacotes surgem após protestos ou
assassinatos
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Pacotes recheados de promessas para a reforma agrária têm
vindo, nos últimos anos, sempre a reboque de pressões, por
meio de marchas e invasões de terra e prédios públicos, ou
de assassinatos de trabalhadores rurais sem terra.
Um caso emblemático ocorreu em 1996, quando 19 sem-
terra foram assassinados em confronto com policiais
militares em Eldorado do Carajás (PA). Duas semanas após
o massacre, sob pressões vindas até do exterior, o governo
Fernando Henrique Cardoso criou o Ministério
Extraordinário de Política Fundiária, mais tarde convertido
no atual Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Para conter as críticas dos sem-terra, o governo FHC
também inflou os seus balanços de reforma agrária. No lugar
dos supostos assentados, para cumprir suas metas, havia
terrenos baldios e camponeses sem casa e estrutura básica.
Já no governo Lula, além do pacote ambiental na Amazônia
lançado somente após o assassinato da missionária Dorothy
Stang, há outros dois casos que indicam o trabalho do
Planalto a reboque das reivindicações do MST e outras
entidades.
Em novembro de 2003, em menos de uma semana, o
governo ampliou sua meta de 355 mil para 400 mil famílias
assentadas porque, em meio a uma marcha de 4.000 sem-
terra a Brasília, o primeiro anúncio foi chamado de ridículo
pelo MST e de mesquinho pela CPT.
Já no início do ano passado, às vésperas do "abril vermelho",
Lula prometeu suplementar em R$ 1,7 bilhão o Orçamento
do Desenvolvimento Agrário, numa tentativa de acalmar os
sem-terra. (EDS)
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Celulose
São Paulo, segunda-feira, 09 de janeiro de 2006
641
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PAINEL
Serviços prestados 1
A administração do fator Duda Mendonça é a maior
responsável pelas boas palavras que saem da boca de Lula
quando alguém se refere ao presidente da Petrobras, José
Sergio Gabrielli.
Serviços prestados 2
Foi enorme a pressão dentro da empresa pela dispensa da
agência de Duda, que por sua vez ameaçava se lembrar de
novos detalhes da campanha de 2002 caso lhe tirassem sua
melhor conta no governo. Gabrielli matou no peito, e o
marqueteiro continua firme na Petrobras.
Senha
Representantes da oposição na CPI dos Correios julgam que
a recém-revelada segunda conta de Duda no exterior tornou
inevitável um novo depoimento do ex-marqueteiro de Lula.
Habeas corpus
Outros na CPI recomendam menos entusiasmo. Apostam que
Duda, enrolado como está, pode até ir à comissão, mas
jamais dará um espetáculo como o de seu primeiro
depoimento, em agosto passado.
Brincando...
O Orçamento de 2006, ainda à espera de aprovação pelo
Congresso, estabelece R$ 2 mi para prevenção de conflitos
no campo, mesmo valor anotado na peça do ano passado.
Nem a inflação do período foi corrigida.
...com fogo
O MST já mandou avisar que o ano será quente. Insatisfeito
com o ritmo dos assentamentos, o movimento liderado por
João Pedro Stedile pretende marcar os dez anos do massacre
de Eldorado do Carajás, em abril, com uma onda de
invasões.
Carcará mais magro
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ganhou hino,
bandeira e uma nova ave-símbolo, mas, no Orçamento, perde
3,6%. Terá, em tese, R$ 179 mi para gastar em 2006.
642
Casa de esquina
Quando se pensa que Nelson Jobim está inclinado a tentar a
cabeça-de-chapa no PMDB, lá vai o presidente do Supremo
Tribunal Federal, de novo, tricotar com os governistas para
ver se emplaca como vice de Lula.
Assim não
Em privado, o PFL admite que dificilmente lançará nome
para o governo de São Paulo se o candidato tucano ao
Planalto for José Serra e Geraldo Alckmin permanecer no
Palácio dos Bandeirantes até o final do mandato.
Assim sim
Nesse cenário, o PFL se daria por satisfeito em indicar o vice
do postulante tucano. Mas, se Alckmin sair para disputar a
Presidência da República ou outro cargo, como disse ontem
que irá fazer, deixando na cadeira o pefelista Claudio
Lembo, o partido insistirá em ter candidato próprio na
eleição estadual.
Entrou areia 1
A disputa Serra x Alckmin contaminou a escolha do novo
líder tucano na Câmara. Jutahy Júnior, que tinha a vaga
assegurada, ganhou a sombra de João Almeida, baiano como
o colega.
Entrou areia 2
Ao estimular uma candidatura alternativa, os simpatizantes
de Alckmin procuram conter a influência majoritária de
Serra sobre a bancada federal. Jutahy Júnior é um dos
principais escudeiros do prefeito na Câmara.
Grampolândia
Mesmo antes da chegada de 2006, as escutas ilegais voltaram
com tudo à Bahia, terra conhecida pelo uso desse expediente
como forma de intimidar adversários em campanhas
eleitorais.
Tiro único
O PSOL avalia ter chances de conquistar o governo do Pará,
onde seu candidato será o ex-prefeito de Belém Edmilson
Rodrigues. Nos demais pleitos estaduais, a sigla está
conformada em fazer apenas figuração.
TIROTEIO
643
Do deputado federal Silvio Torres (PSDB-SP) sobre a
previsão do presidente Lula de que seu partido ainda terá de
"sangrar muito":
-É só chamar o Marcos Valério que ele monta um novo
banco de sangue para o PT.
CONTRAPONTO
Oferta e procura
Em sua campanha vitoriosa ao governo de Minas Gerais, em
1982, Tancredo Neves encerrou um longo dia de comícios e
apertos de mão num pequeno município, tarde da noite.
A comitiva de Tancredo, que morreria em 1985 antes de
tomar posse na Presidência, estava verde de fome. Seus
integrantes saíram à procura de um restaurante ainda em
funcionamento naquele horário. Encontraram apenas um
pequeno bar.
Assim que o grupo entrou no local, o dono foi logo avisando:
-Estou fechando a casa.
Um assessor insistiu, e o homem aceitou preparar o único
prato a seu ver possível àquela altura: sanduíche de ovo.
Terminada a refeição, chegou uma conta salgada, o que
levou Tancredo a comentar:
-Ovo deve ser raro aqui!
O dono do bar foi rápido:
-Ovo tem muito, doutor. Raro é candidato a governador!
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São Paulo, segunda-feira, 16 de janeiro de 2006
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PAINEL
Campo aberto
Nem Executiva, "conselho de notáveis" ou colégio eleitoral
tucano. Feitas as contas, o grupo pró-Geraldo Alckmin avalia
que a única instância dentro do PSDB em que o governador
paulista pode ter alguma chance de vencer José Serra é
mesmo a convenção do partido.
644
Não é comigo
A recente onda de ataques a postos policiais e os conflitos de
terra no Pontal engrossaram o coro dos tucanos que
defendem a desincompatibilização imediata de Geraldo
Alckmin.
Até o fim
A tese do grupo é que o desgaste das crises enfraquece
Alckmin na disputa com José Serra pela vaga de candidato
tucano a presidente. Mas o governador tem dito que, se tudo
sair como planejado por ele, só deixará o cargo em março.
Reforço
Presidente do PSDB gaúcho e pré-candidata ao governo do
Estado, a deputada Yeda Crusius passará a engrossar as
fileiras pró-candidatura Alckmin no Congresso, território
onde o governador está em desvantagem no embate com
Serra.
A última que morre
Os olhos dos petistas brilham só de pensar no mês de abril.
Esperam uma maré de boas notícias: fim da CPI dos
Correios, retomada da economia, resultados da operação
tapa-buracos e auto-suficiência da Petrobras.
Fora ianques
A auto-suficiência e o rompimento amigável com o FMI
serão os dois pilares de um forte discurso de conquista da
soberania nacional na campanha de Lula. "São símbolos
potentes", diz José Eduardo Dutra, ex-presidente da
Petrobras.
Decolagem autorizada
A Infraero terá R$ 1,5 bi para investir em 2006, o dobro do
que nos últimos três anos. No ano eleitoral, estão
programadas obras em dez aeroportos.
Lista alternativa
Se não conseguir ficar com o Ministério dos Transportes
após a saída de Alfredo Nascimento em abril, o PMDB
governista já escolheu um prêmio de consolação para pedir a
Lula: retomar o controle do porto de Santos.
Malas prontas
O atual presidente do porto, José Carlos Rego, é uma
indicação de Nascimento (PL-AM), pré-candidato ao
645
Senado, e do ex-deputado Valdemar Costa (PL-SP). Ele
deverá deixar o cargo, ocupado pelo PMDB nos anos FHC,
em abril.
Pé na estrada
Entre as atividades programadas pelo MST para marcar os
dez anos do massacre de Eldorado do Carajás (PA), em abril,
estão 23 marchas a capitais e vigílias em frente aos TJs.
Semestre vermelho
O movimento promete um primeiro semestre "quente" no
campo e vai se definir quanto ao apoio a Lula somente em
julho. "O presidente vai ter trabalho para nos convencer", diz
o líder João Paulo Rodrigues.
Última fronteira 1
O Brasil nomeou na semana passada um embaixador para o
Iraque, posto vago desde a Guerra do Golfo, em 1991. É
Bernardo Brito, hoje o representante na Palestina.
Última fronteira 2
Por enquanto, Brito fica em Amã (Jordânia), aguardando
condições de segurança para reabrir a embaixada em Bagdá.
O Itamaraty espera que isso ocorra até o final do ano.
Empurrãozinho
Temendo morosidade por parte do corregedor da Câmara,
Ciro Nogueira (PP-PI), integrantes da CPI dos Correios já
preparam representação contra o deputado João Hermann, o
mais novo "mensaleiro", no Conselho de Ética.
TIROTEIO
Do líder do PT na Assembléia paulista, Renato Simões,
sobre a disputa entre José Serra e Geraldo Alckmin para ser
o candidato tucano a presidente:
-Eles transformaram um evento interno do partido na briga
de duas enormes máquinas públicas, a da prefeitura e a do
governo de São Paulo.
CONTRAPONTO
Aula prática
Nos anos 70, Edson Gradia era líder do prefeito de Londrina,
646
José Richa, também cirurgião dentista e preparava um
seminário internacional de odontologia na cidade
paranaense.
Junto do professor Sebastião Simões, da Faculdade de
Odontologia local, ele foi certa vez até o prefeito, morto em
2003, pedir patrocínio à iniciativa.
-Do que vocês precisam?- , quis saber o prefeito, e Simões
expôs os custos do projeto.
Diante da proposta de Richa, o professor se levantou, pegou
o vereador e ex-aluno Gradia pelo braço e o arrastou para
fora. Minutos depois, a dupla se apresentou novamente à
secretária. O prefeito, então no extinto MDB, como seu líder,
mandou que eles entrassem.
Como se nada tivesse acontecido, o professor repetiu tudo, e
o prefeito dobrou o valor do patrocínio. Só então Simões se
levantou, agradeceu e foi embora.
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dados de investigados
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São Paulo, segunda-feira, 06 de março de 2006
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CAMPO MINADO
Comparação é com últimos três anos de FHC, com dados
oficiais
Invasões de terra crescem 55% com
Lula no Planalto
Jean Pimentel/Zero Hora
BATALHA Conflito entre o MST e a polícia na fazenda "Guerra", em
Coqueiros do Sul (RS), invadida na última quarta-feira por 2.000
acampados; notificados para deixar o local até as 15h de ontem, os sem-
647
terra rasgaram a ordem de reintegração de posse e resistem a sair
EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O número de invasões de terra nos três primeiros anos do
governo Luiz Inácio Lula da Silva superou em 55% o
registrado nos 36 últimos meses da gestão tucana de
Fernando Henrique Cardoso. No mesmo intervalo, a
quantidade de assassinatos por conta de conflitos agrários
avançou 63%.
Segundo balanço da Ouvidoria Agrária Nacional, o governo
petista acumulou 770 invasões a imóveis rurais em todo o
país entre janeiro de 2003 e dezembro de 2005. Nos três
últimos anos de FHC (2000 a 2002), a ouvidoria registrou
497 ações desse tipo.
Sob Lula, que em campanha eleitoral dizia ser o único
candidato capaz de conter os sem-terra, ocorre uma média de
21 invasões a cada mês. Entre 2000 e 2002, a média ficou um
pouco abaixo de 14 casos a cada 30 dias. Criada em 1999
pelo governo para prevenir e controlar os conflitos no campo,
a ouvidoria passou no ano seguinte a quantificar invasões e
mortes no campo -logo, não há dados anteriores para
comparação.
Há dois fatores que devem ser considerados para explicar o
aumento. Primeiro, em 2000 o governo FHC baixou uma
medida provisória segundo a qual quem invadia terra perdia
direito a assentamentos. Lula deixou de aplicá-la na prática.
Além disso, o MST deu uma trégua em 2002 para evitar que
suas práticas fossem associadas ao então candidato Lula, que
tinha seu apoio.
Outro dos motivos para o atual aumento das invasões de terra
está no fato de o governo Lula ter priorizado seus
assentamentos nos Estados da chamada Amazônia Legal (os
do Norte, além de MT e MA), onde não atua o MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). O
movimento teve então de partir para as invasões como a
única forma de pressionar o governo. Das 770 invasões na
gestão Lula, 67% (516) foram organizadas pelo MST.
Quando Lula venceu as eleições, no final de 2002, houve
uma corrida de sem-terra aos acampamentos, com a
expectativa de que o governo petista, enfim, fizesse a reforma
agrária. Em seis meses, a quantidade de famílias acampadas
saltou de 60 mil para 200 mil, sendo a maioria delas do MST.
Segundo dados da ouvidoria, assim como o MST, as invasões
estão distantes do Norte do país. No governo Lula, a
liderança do ranking está com o Nordeste, com 37% (287)
648
das ações. A seguir, aparecem Sudeste (204), Centro-Oeste
(133), Sul (113) e Norte (33).
Pernambuco, com carência de terras para desapropriação e
diante de quase uma dezena de movimentos camponeses, está
à frente entre os Estados, com 23% (177) das invasões do
país entre janeiro de 2003 e dezembro de 2005. São Paulo
(107), Paraná (76), Minas Gerais (65) e Distrito Federal (49)
vêm logo atrás.
Em 2005, de acordo com a ouvidoria, que é ligada ao
Ministério do Desenvolvimento Agrário, ocorreram 221
invasões em todo o país, próximo das 222 de 2003 e abaixo
do recorde de 327 em 2004. Neste ano, porém, a tendência é
que as ações se intensifiquem. O MST promete invadir terras
para homenagear os dez anos do massacre de 19 sem-terra
em Eldorado do Carajás (PA).
Mortes no campo
Mesmo com as invasões em alta, são as mortes no campo que
têm trazido as maiores dores de cabeça ao governo petista.
Não somente pelos números, que passaram de 44 (de 2000 a
2002) para 72 (de 2003 a 2005) mas também pelo
simbolismo e pela repercussão internacional dos crimes,
como a chacina de Felisburgo (na qual morreram cinco sem-
terra) e o assassinato da religiosa norte-americana Dorothy
Stang.
No governo Lula, a cada mês duas pessoas morrem por conta
de conflitos fundiários. Das 72 mortes de 2003 a 2005, 63%
(46) ocorreram na região Norte.
Entre os Estados, o Pará lidera com 27 assassinatos, incluindo
o caso de Stang, seguido por Rondônia, com 15 mortes.
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São Paulo, sexta-
feira, 17 de março de 2006
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TENDÊNCIAS/DEBATES
Carta ao MST
EDUARDO MATARAZZO SUPLICY
Meu caro João Pedro Stédile, da Coordenação Nacional do
649
MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra):
Com o sentimento de quem tem sido solidário ao MST desde
a sua fundação, como amigo da causa da reforma agrária e da
realização de maior justiça em nosso país, gostaria de
externar minha sincera opinião sobre os últimos
acontecimentos em Porto Alegre (RS). Acredito que o MST
consegue obter muito mais apoio do povo brasileiro para sua
causa sempre que utiliza meios pacíficos, não-violentos, e de
respeito aos seres humanos e ao que tiver sido construído
honestamente por outros.
Acredito que o MST obtém muito
mais apoio do povo brasileiro para
sua causa sempre que utiliza meios
pacíficos, não-violentos
Falo isso por causa do episódio ocorrido na semana passada,
quando as companheiras do Movimento de Mulheres
Camponesas e da Via Campesina destruíram as mudas de
eucaliptos e as instalações do laboratório da Aracruz
Celulose, no Rio Grande do Sul.
Bem sei que elas desejavam protestar contra um modelo de
agronegócio que o MST tem criticado, uma vez que florestas
homogêneas de eucaliptos para a produção de celulose
podem prejudicar a biodiversidade. Também sei que essa
atitude foi uma reação à destruição da aldeia indígena dos
guaranis por tratores da Aracruz no Espírito Santo. Ou seja,
agiram em solidariedade aos índios guaranis.
Reitero, entretanto, a recomendação que fiz quando,
convidado pelo MST, em 10 de julho de 1999, administrei
uma aula na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)
para mais de mil jovens -de quase todos os Estados
brasileiros- pertencentes ao movimento.
Dei de presente àqueles jovens a tradução que eu mesmo fiz
de uma das mais belas orações da história da humanidade:
"Eu tenho um sonho", de Martin Luther King Jr., feita em 28
de agosto de 1963, em Washington, no dia em que foram
comemorados os cem anos da abolição da escravidão nos
EUA.
Naquela época, Luther King Jr. se preocupava com a
necessidade premente da aprovação da Lei dos Direitos Civis
e da Lei dos Direitos Iguais de Votação. Em muitos Estados
650
do Sul dos EUA, não era permitido aos negros freqüentar os
mesmos hotéis, restaurantes, escolas e banheiros ou usar os
mesmos ônibus e calçadas que os brancos. Os negros nem
sequer eram considerados cidadãos americanos, pois, em
diversos Estados, não tinham o direito de votar, o que gerou
movimentos de revolta, quebra-quebras e incêndios em
inúmeras cidades.
Foi então que Martin Luther King Jr. conclamou seus
compatriotas a seguirem os exemplos históricos de Mahatma
Gandhi e outros, que realizaram movimentos assertivos não-
violentos para alcançar objetivos importantes e difíceis,
como o da independência da Índia, em 1947.
Naquele dia, perante mais de 200 mil pessoas, disse Martin
Luther King Jr.:
"Esse não é o tempo de nos darmos ao luxo de nos
acalmarmos ou de tomar a droga tranqüilizadora do
gradualismo. Agora é a hora de tornar reais as promessas da
democracia (...) agora é o momento de fazer da justiça uma
realidade para todas as crianças de Deus. Seria fatal para a
nação não perceber a urgência do momento".
E, adiante, disse: "Não vamos satisfazer nossa sede de
liberdade bebendo do cálice da amargura e do ódio.
Precisamos sempre conduzir nossa luta no plano alto da
dignidade e da disciplina. Nós não podemos deixar nosso
protesto criativo degenerar em violência física. Todas as
vezes -e a cada vez-, precisamos alcançar as alturas
majestosas de confrontar a força física com a força da alma".
Pouco tempo depois desse discurso, o Congresso norte-
americano aprovou -e o presidente Lyndon Johnson
sancionou-
as Leis dos Direitos Civis e dos Direitos Iguais de
Votação.
O MST tem sido muitas vezes criativo. E, assim, granjeou
forte apoio do povo para a justa causa da reforma agrária -
quando, por exemplo, organizou as marchas para Brasília em
memória das vítimas do massacre de Eldorado do Carajás ou
em memória da irmã Dorothy Stang, morta no ano passado
pelos interesses do latifúndio.
Para mostrar sua solidariedade aos índios guaranis, tenho a
convicção de que as mulheres da Via Campesina poderiam -e
podem ainda- escolher uma forma pacífica, criativa,
utilizando muito mais a força da alma do que a força física.
De outra forma, daremos razão aos que, em pleno século 21,
preferem utilizar os instrumentos bélicos em vez dos
instrumentos civilizatórios do bom senso e da inteligência.
651
Eduardo Matarazzo Suplicy, 64, doutor em economia pela
Universidade Estadual de Michigan (EUA), professor da Eaesp-FGV, é
senador da República pelo PT-SP. É autor do livro "Renda de Cidadania -
A Saída é pela Porta" (Cortez Editora e Fundação Perseu Abramo).
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"vovô viu a uva"
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São Paulo, terça-feira, 04 de abril de 2006
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CAMPO MINADO
Três fazendas são invadidas em
Pernambuco
DA AGÊNCIA FOLHA
Três fazendas foram invadidas por militantes de movimentos
agrários no último domingo, em Pernambuco. Duas invasões
foram promovidas pela Fetraf (Federação dos Trabalhadores
na Agricultura Familiar) e outra pelo MST (Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra).
Agricultores ligados à Fetraf invadiram as fazendas Pontal,
em Panelas (179 km de Recife), e Rio Feijão, em Quipapá
(165 km de Recife). Participaram cerca de 240 famílias. A
fazenda Colônia, em Gravatá (88 km de Recife), foi invadida
por cem famílias do MST.
O promotor agrário Edson Guerra disse que os donos das
terras ainda não entraram com pedido de reintegração de
posse. Já foram invadidas 47 propriedades no Estado desde o
dia 5 de março -20 pela Fetraf e 27 pelo MST.
O presidente da Fetraf-PE, João Santos da Silva, disse que a
meta do movimento é chegar ao fim de abril com 40
propriedades invadidas. Jaime Amorim, da coordenação
nacional do MST, afirmou que a invasão realizada no último
domingo ainda não faz parte das programações para o "Abril
Vermelho" -quando o MST intensifica as ações para lembrar
o assassinato de 19 sem-terra em Eldorado do Carajás (PA),
ocorrido em 1996. "Estamos planejando muitas atividades,
652
sobretudo para o dia 17, quando completa-se dez anos da
ocorrência do massacre."
Integrantes do MST foram acusados ontem de atear fogo em
dois hectares de soja da Fazenda Coqueiros, em Coqueiros
do Sul (RS). O fogo foi contido pelos bombeiros.
Anteontem, os sem-terra já haviam sido acusados de queimar
60 hectares de soja na mesma fazenda. O MST nega que
tenha vínculo com a queimada.
Em Cuiabá (MT), cerca de 250 sem-terra do MST invadiram
ontem pela manhã o prédio do Incra (Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária). Segundo o MST, o grupo
quer a demarcação de cinco assentamentos. (RENATA
BAPTISTA, LÉO GERCHMANN E HUDSON CORRÊA)
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interior
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de policiais civis no MS
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São Paulo, quarta-feira, 12 de abril de 2006
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CAMPO MINADO
MST retoma onda de invasões para
lembrar massacre
DA AGÊNCIA FOLHA, EM RECIFE
O MST retoma hoje a onda de invasões e protestos pelo país,
iniciada em março, para lembrar os dez anos do massacre de
Eldorado do Carajás (PA). Segundo o coordenador do
movimento Jaime Amorim, as manifestações irão se
intensificar no dia 17, data do conflito entre policiais e sem-
terra que resultou na morte de 19 lavradores paraenses, em
1996.
Segundo o movimento, pelo menos dez fazendas deverão ser
invadidas até segunda-feira, em Pernambuco. Em março,
foram tomadas 28 propriedades no Estado. Na terça, o MST
iniciará uma caminhada de dois dias, do interior do Estado
para Recife, com previsão de 3.000 pessoas.
O MST também prepara uma greve de fome para reivindicar
653
a vistoria dos engenhos Bonito e São Gregório, na Zona da
Mata, reivindicadas pelo movimento desde 1996. Na Bahia,
ontem, cerca de 2.000 militantes sem-terra iniciaram uma
caminhada na BR-324, uma das mais movimentadas do
Estado. (FÁBIO GUIBU)
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consegue votar Orçamento
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São Paulo, domingo, 16 de abril de 2006
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TERRA SEM LEI
Dez anos depois do massacre, lavradores com balas
alojadas em seus corpos ainda tomam remédios para
aliviar dores
Sobreviventes de Carajás carregam
seqüelas
Jorge Araújo/Folha Imagem
Rondinele Nero Lima, hoje com 20
anos, na época ajudava a mãe a lavar
roupas num igarapé
EDUARDO SCOLESE
JORGE ARAÚJO
ENVIADOS ESPECIAIS A ELDORADO DO CARAJÁS
654
Além de 19 sem-terra mortos, o massacre de Eldorado do
Carajás completa dez anos amanhã com um saldo de dezenas
de vítimas que ainda sofrem com as seqüelas daquele 17 de
abril de 1996. A rotina de algumas delas é mantida a doses de
remédios e visitas a hospitais para aliviar as dores causadas
por balas alojadas na cabeça, no pescoço, no peito e nas
pernas.
Na semana passada, a Folha localizou algumas delas. A
maioria vive no assentamento 17 de Abril, em Eldorado do
Carajás (PA). A área, a antiga fazenda Macaxeira, foi
desapropriada pela União depois que 19 sem-terra morreram
e outros 69 ficaram feridos numa operação da Polícia Militar
para desobstruir a rodovia PA-150, bloqueada na curva do
"S" por uma marcha d
o Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra.
Hoje ninguém está preso por conta do massacre. Dos 155
PMs que participaram da ação, só dois foram condenados
pela Justiça do Pará. Mas, por conta de uma decisão do
Supremo Tribunal Federal, o coronel Mário C
olares Pantoja e
o major José Maria de Oliveira aguardam em liberdade até
que se esgotem todas as opções de recursos, o que deve durar
dois anos.
Rubenita Justiniano da Silva, 36, é uma das sobreviventes.
Ela vive com a mãe e uma irmã numa pequena ilha da
periferia de Belém e até hoje carrega no pescoço uma bala
que, dez anos atrás, entrou por sua boca, fraturou a
mandíbula, rasgou a língua e quebrou seis dentes. "Não
consigo trabalhar. Meu olho fica vermelho e dói o pescoço.
Tenho de ficar correndo atrás de médico e remédio."
Ela conta que entrou por acaso no MST. Cansada da vida de
doméstica e de entregadora de marmitex na capital, partiu ao
sul do Pará em 1992. "Aí descobri que um irmão meu estava
na coordenação do movimento. Comecei a me engajar,
ajudando nas reuniões e nos acampamentos."
Sobre o dia do conflito, ela diz: "Foi terrível, não tem nem
como descrever. Depois que levei o tiro, consegui me apoiar
num companheiro, mas não conseguia nem respirar. E só
depois de dois dias é que me levaram para Belém".
Garimpeiro
Piauiense de Luzilândia, Antonio Alves de Oliveira, o Índio,
45, carrega três balas do conflito. "Tem uma na perna
esquerda, uma no joelho direito e mais uma no calcanhar
direito, que é a pior de todas. Não consigo nem andar direito
que já começa a doer."
Em 1982, Oliveira deixou oito filhos para trabalhar em Serra
655
Pelada (PA). Passada a febre do garimpo, virou sem-terra e
passou a viver nos acampamentos do MST. Hoje cuida da
burocracia do assentamento 17 de Abril. "Nunca mais tive a
chance de exercer meus trabalhos normais."
Assim como Oliveira, José Carlos dos Santos, 26, é uma das
20 vítimas que recebe desde 2000 uma pensão de um salário
mínimo e meio do governo do Pará. No conflito, levou um
tiro no olho direito. Perdeu essa visão e tem fortes dores de
cabeça por conta do projétil alojado em sua cabeça.
"Não tem como tirar a bala. Se tentar, o médico disse que eu
morro ou fico doido", afirma José Carlos, que vive no 17 de
Abril com os pais, José Maria, 62, e Maria Raimunda, 52.
"Nosso dia-a-dia é muito triste. Uma mãe ver um filho assim,
sofrendo e sem condições de trabalhar, é uma tristeza só",
afirma a mãe.
No assentamento, cada família cuida de seu próprio lote.
Plantam arroz, feijão, milho, banana e mandioca. Numa área
de 19 mil hectares, vivem hoje 6.000 pessoas, mais do dobro
das 2.500 que chegaram por lá no final de 1996.
Josimar Pereira de Freitas, 41, é um dos coordenadores do
assentamento. Dez anos atrás, ele levou um tiro de fuzil na
perna direita de homens da tropa do coronel Pantoja. Teve
fratura exposta. "Me levaram para o meio do mato, uns 500
metros da rodovia, onde tinha um monte de gente
agonizando." Natural de Ananás (TO), casado e pai de três
filhos, passou oito meses com a perna engessada. "Eu estou
aqui conversando e sempre tem uma dor que incomoda. Eu
sofro de cãibras quase todos os dias."
Outro caso de fratura exposta é de Domingos da Conceição,
30. Por conta das fraturas, sua perna direita encurtou 2,5 cm:
"Eu nunca pensei que eles [PMs] fossem atirar para matar",
diz. "Em dias de frio, a perna dói muito."
Ao lado de Domingos, outro maranhense, João Rodrigues,
31, conta sua história. "O sonho do meu pai sempre foi ter um
pedaço de terra. Por isso eu entrei no movimento. Hoje, ele
[pai] está feliz por eu estar vivo e triste por ver um filho com
dificuldades para trabalhar." Natural de Vitorino Freire (MA),
Rodrigues carrega até hoje uma bala no peito. "Eu até tento
trabalhar na roça, mas o peito começa a doer e o braço fica
adormecido. Tenho que tomar sempre um antiinflamatório."
Rubenita, Oliveira, Domingos e Rodrigues trabalham agora
para vender exemplares do recém-lançado "Os sobreviventes
do Massacre de Eldorado do Carajás", livro de produção
independente do advogado Walmir Brelaz. "Tudo o que for
arrecadado virá para pagar os custos que temos com remédios
e hospitais", diz Rubenita.
656
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São Paulo, domingo, 16 de abril de 2006
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TERRA SEM LEI
Segundo a Comissão Pastoral da Terra, apenas 7% dos
casos chegaram a julgamento entre 1985 e 2004; no
período houve 1.399 assassinatos
Para Igreja, 93% dos crimes no
campo não são julgados
DO ENVIADO A ELDORADO DO CARAJÁS
Pelo número de mortes e pela ampla repercussão tanto no
Brasil quanto no exterior, o massacre de Eldorado do
Carajás, que completa dez anos em 2006, tornou-se um
símbolo de impunidade. Esse caso, porém, é apenas mais um
exemplo do que ocorre sistematicamente no país.
Segundo dados da Igreja Católica, apenas 7% dos crimes
ocorridos no campo entre 1985 e 2004 foram a julgamento.
Nesse período, ocorreram 1.043 crimes motivados por
conflitos fundiários, com um saldo de 1.399 assassinatos -a
maioria deles de trabalhadores rurais. De acordo com um
levantamento da CPT (Comissão Pastoral da Terra), apenas
77 desses casos foram julgados até hoje.
"O que temos, principalmente no Pará, é a constatação de
que a impunidade tem sido a regra. A área de segurança
pública no Pará tem uma ligação muito próxima com setores
ligados ao latifúndio. Por isso, nunca teve interesse de
investigar e muitas vezes atua só por pressão", afirma José
Batista Afonso, da coordenação nacional da CPT no Pará.
Segundo ele, a atuação do Poder Judiciário fica ainda mais
prejudicada pela falta de investigação da polícia. "Um
levantamento que fizemos mostrou que apenas 28% dos
assassinatos no campo no Pará tiveram algum tipo de
investigação policial", afirma Batista Afonso.
O estudo da CPT, braço agrário da Igreja Católica, mostra
657
também que, nesses 77 julgamentos, 15 pessoas apontadas
como mandantes foram condenadas, enquanto outras seis
foram absolvidas. O balanço mostra ainda 65 executores que
receberam condenação pela Justiça e outros 45 que
receberam absolvição.
Eldorado dos Carajás
No caso de Eldorado do Carajás, por exemplo, dos 155
policiais militares que participaram da ação, apenas dois
deles (coronel Mário Pantoja e major José Maria de Oliveira)
foram condenados. Por decisão do STF (Supremo Tribunal
Federal), porém, ambos permanecem em liberdade.
"Toda a montagem do processo [de Eldorado dos Carajás] e
as idas e vindas nos tribunais demonstraram nesse caso como
o Poder Judiciário e o Estado brasileiro estão permeados pelo
poder e pelas influências do latifúndio, que usa a Polícia
Militar como mera defensora de seus interesses econômicos.
São os capitães-do-
mato modernos, no caso do Pará", declara
João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST
(Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).
De acordo com o líder dos trabalhadores sem-terra, a lei no
Brasil foi feita para proteger os ricos e condenar os pobres.
"A impunidade dos policiais e dos verdadeiros mandantes do
caso de Eldorado dos Carajás é assombrosa e comprova mais
uma vez que, no Brasil, a lei protege os ricos. Apenas os
pobres, pretos e sem-terra vão pra cadeia."
(Eduardo Scolese)
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conflitos
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declaram inocência no caso
São Paulo, segunda-feira, 17 de abril de 2006
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TERRA SEM LEI
Para lembrar 10 anos do massacre de Eldorado do
Carajás, grupo organiza bloqueio de rodovia, ato
multirreligioso e exposição
MST promove homenagens aos 19
658
mortos
EDUARDO SCOLESE
ENVIADO ESPECIAL A ELDORADO DO CARAJÁS (PA)
Para homenagear os 19 trabalhadores rurais sem terra mortos
dez anos atrás, o MST organizou um acampamento em
Eldorado do Carajás (PA) no exato local onde ocorreu o
confronto com a Polícia Militar. Na chamada curva do "S"
da rodovia PA-150, além de barracos de lona preta, há uma
exposição de Sebastião Salgado, o mais famoso fotógrafo
brasileiro.
O massacre do sudeste paraense completa hoje dez anos. Em
17 de abril de 1996, além dos mortos, 69 sem-terra e 12
policiais militares ficaram feridos numa ação oficial para
desobstruir a rodovia. Apesar de condenados, os dois
policiais que comandaram a operação, coronel Mário Pantoja
e o major José Maria de Oliveira, continuam soltos à espera
da avaliação de seus recursos.
O acampamento na curva do "S" foi montado no primeiro dia
de abril. Desde então, todos os dias por volta das 17h45
(horário do confronto), os sem-terra, cerca de 200 jovens de
diferentes Estados, bloqueiam por 19 minutos a rodovia,
ligação de Belém com o sul do Estado. A estrada não possui
acostamento, tem buracos por toda a parte, e placas de
trânsito e policiais rodoviários são raridade.
Hoje, último e principal dia de protestos, os sem-terra
prometem reunir 5.000 pessoas no acampamento. Haverá um
ato multirreligioso seguido de uma pequena marcha na
rodovia. Em todo o país também estão previstas
manifestações por conta do décimo aniversário do massacre.
Para quem passa pela PA-150, o que mais chama a atenção é
a exposição de Salgado organizada pelos sem-terra. São 15
fotos expostas à beira da rodovia. O material pertence ao
MST, e a maioria das imagens faz parte do livro "Terra", que
denuncia a exclusão dos trabalhadores rurais do Brasil. A
exposição passou antes por Parauapebas, Marabá e Belém.
No acampamento, foram erguidos 19 barracos de lona, para
representar cada um dos sem-terra mortos em 1996.
Pela manhã, organizam seminários, teatros e oficinas de
dança. À tarde, reservam o tempo para estudos e protestos.
Marcos Souza, 32, que levou a mulher e a filha ao
acampamento, diz que vale a pena deixar o assentamento em
São João do Araguaia (PA) para passar duas semanas no
local. "Onde eu moro tem água, energia e esgoto, mas eu
venho aqui por vontade própria, para ajudar o MST."
659
A filha de Souza, Pamala, 4, ficou três dias com febre
debaixo de um barraco. Agora já está curada. "Eu gosto de
correr e de brincar", diz a menina. Já Antonia Maria, 41,
mulher de Souza e mãe de Pamala, cuida da cozinha do
acampamento. "A gente vem aqui para ajudar o movimento",
afirma, enquanto ajuda a preparar arroz, feijão, carne assada
e salada para o almoço dos sem-terra.
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"correria", diz Alckmin
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dobrou nos últimos anos
São Paulo, terça-feira, 18 de abril de 2006
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TODA MÍDIA
Nelson de Sá
Uma homenagem
A certa altura, a apresentadora Fátima Bernardes descrevia o
fechamento de uma estrada, ontem por sem-terra, como "uma
homenagem aos 19 mortos no massacre de Eldorado do
Carajás".
Mas o dia não foi assim tão fácil para os sem-terra, na
cobertura eletrônica. A começar da Globo, que destacou
"denúncias graves contra o MST" num acampamento gaúcho.
De acordo com um sem-terra que "foi ameaçado de morte
porque não queria participar de uma invasão", no
acampamento "há violência sexual, além de drogas". Dele:
- As crianças lá de dez anos para cima eu duvido que sejam
inteiras, conforme nasceram. Ali dentro rola maconha.
Surge "o delegado responsável pelo inquérito":
- O depoimento vem confirmar indícios que a polícia já tinha,
a respeito de vários fatos que estavam ocorrendo dentro do
acampamento.
O SBT foi na mesma linha. E outras emissoras mantiveram o
tom costumeiro, como na escalada da Record:
- Ocupações, saques e estradas fechadas em todo o país.
Para contraste, a mesma Globo ouviu o coronel Mário
Pantoja, condenado pelo massacre, mas em liberdade "até o
660
fim do processo". Dele:
- A ordem para desobstruir a rodovia partiu do governador
Almir Gabriel e foi recebida através do comandante Fabiano
Lopes. Por que pararam só em mim? Por que não foram até
Lopes? Por que não foram até o secretário de Segurança? Por
que não foram até o governador Almir Gabriel? Querem dizer
que eu sou o culpado por tudo o que aconteceu? Não.
Para contraste maior, porém, só a cobertura dos sites ligados
aos movimentos sociais. Sintomaticamente, todos se
autodenominam "agências".
Na Agência Carta Maior, a manchete era "Protestos em todo
o Brasil marcam os dez anos do massacre".
Na católica Adital, Agência de Informação Frei Tito para a
América Latina, "Dez anos de impunidade". Na Agência
Brasil de Fato, "Carajás, dez anos de impunidade".
A mais próxima do MST, a Agência Notícias do Planalto, fez
a mais ampla cobertura -com podcasts de Frei Betto a d.
Tomás Balduíno, de João Pedro Stedile ao "latifundiário
Jorge Mutran Neto", mais foto de Sebastião Salgado.
E crítica de sobra, em títulos como "Para MST, governo Lula
faz contra-reforma agrária". Ou ainda, "para Stedile, o
modelo em prática é conseqüência do benefício que o país
concede ao agronegócio".
Início da noite e outro coordenador do MST, João Paulo
Rodrigues, dizia à Folha Online que, "se o governo não
aumentar o ritmo, a tendência é intensificar a luta no segundo
semestre", pré-eleitoral:
- O governo Lula é amigo do MST, mas infelizmente
avançou pouco no assentamento de novas famílias e na
diminuição da violência no campo.
Globo/Reprodução
Aqui e ali, no 17 de abril da TV, também cenas épicas dos sem-terra em
meio aos "bloqueios" e "até saques" repisados nas manchetes
Atores
661
Estreou ontem, sob louvores de toda a blogosfera, de Mário
Kertész e Ricardo Noblat até o coletivo Insanus, a revista
online Terra Magazine, com entrevista de Tasso Jereissati,
blog de Bob Fernandes etc.
A repercussão foi por conta de longa entrevista do ministro
Eros Grau, do Supremo, com coisas como:
- Todos, sem exceção, membros do Judiciário, Legislativo,
Executivo, são impressionados excessivamente pela mídia.
Não no sentido de que ela faça pressão, mas o sujeito quer
também aparecer.
E "isso em todos os palcos, todos os atores".
Emotividade
Sobrou para o "palco", no fim da entrevista:
- Nesta coisa de a imprensa atuar com certa emotividade -
e eu
estou medindo muito as palavras- e com o intuito de
partidarização, ela deixa de cumprir seu papel fundamental
para a democracia.
Erosão
A BBC Brasil destacou dossiê do "International Herald
Tribune" sobre a "erosão dos direitos civis" na Europa.
Em entrevista, Gareth Peirce, advogada do brasileiro Jean
Charles de Menezes, confundido com terrorista e assassinado
em Londres, vaticinou:
- Algo fundamental está acontecendo. Os países têm tentado
se esquivar de obrigações relacionadas a detenções arbitrárias
e tortura.
Cardeal
Juan Arias, correspondente do "El País" e célebre vaticanista,
escreveu ontem sobre "um ano" de papa Bento 16. Arias,
sobre tema ainda não encarado pelos otimistas católicos
brasileiros em seus sites:
- Alguns otimistas pensaram que, como papa, ele reservaria
surpresas. Não o fez... Manteve a linha de rigor de quando era
o cardeal Ratzinger.
@ - nelsondesa@folhasp.com.br
Texto Anterior: Sob chuva: Eduardo Suplicy na praça da Sé
(SP) em homenagem aos 19 sem-terra mortos há dez anos no
Pará
São Paulo, terça-feira, 18 de abril de 2006
662
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Ministro afirma que MST é "mal
compreendido"
DO ENVIADO A ELDORADO DO CARAJÁS
Integrantes do governo federal que estiveram ontem em
Eldorado do Carajás saíram em defesa das ações dos
movimentos de trabalhadores rurais sem terra em todo o país
como forma de homenagear os 19 mortos do massacre
ocorrido há dez anos.
Representando o Palácio do Planalto no ato, no sudeste do
Pará, o ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) disse
que o MST é "mal compreendido". "O MST é mal
compreendido. É um movimento que tem compromisso com
as leis e com as regras da democracia. Ele evita o que ocorre,
por exemplo, em outros países, como uma guerra civil."
Para o ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho,
desde que dentro da lei, todas as manifestações do MST e
dos demais movimentos sociais são "bem-vindas" pelo
governo federal. "Mobilizações pelo acesso à terra são bem-
vindas. Agora, a gente não pode aceitar, e devem ser punidas
no rigor da lei, ações como depredações de propriedades,
matança de gado. É preciso sempre respeitar o Estado
Democrático", afirmou.
Para o responsável pela Ouvidoria Agrária Nacional, criada
em 1999 pelo governo federal para prevenir e controlar os
conflitos no campo, bloqueios de rodovia, seqüestros e os
saques de alimentos nas manifestações devem ser
condenados.
Procurados ontem pela reportagem, tanto o Ministério do
Desenvolvimento Agrário como o Ministério da Justiça não
quiseram comentar as ações do MST. O Desenvolvimento
Agrário disse que os representantes do governo que
comentariam o caso seriam os enviados pelo Planalto ao
sudeste paraense. (EDUARDO SCOLESE)
Texto Anterior: Terra sem lei: MST lembra massacre com
saque e invasões
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ameaças
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663
São Paulo, terça-feira, 18 de abril de 2006
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TERRA SEM LEI
Sem-terra bloqueiam rodovia em Eldorado do Carajás
para homenagear vítimas e promovem ações em 13
Estados
MST lembra massacre com saque e
invasões
DA AGÊNCIA FOLHA
DO ENVIADO ESPECIAL A ELDORADO DO CARAJÁS
Os dez anos do massacre de Eldorado do Carajás (PA) foram
lembrados em pelo menos 13 Estados do país com um saque,
13 invasões, diversos bloqueios de rodovias e caminhadas.
Em nenhuma manifestação houve confronto com a polícia.
Em Eldorado do Carajás (PA), no mesmo horário do
massacre, cerca de 2.000 integrantes do MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) bloquearam ontem por
meia hora a rodovia PA-150, na curva do "S".
No Pontal do Paranapanema, oeste do Estado de São Paulo,
dez fazendas foram invadidas pelo MST para marcar a
passagem da data e protestar contra a "lentidão" da reforma
agrária. "Estamos fazendo no Pontal, com essas dez
ocupações, um protesto contra os dez anos de impunidade
por uma das maiores vergonhas desse país que foi o
massacre de Carajás", disse José Rainha.
O presidente nacional da UDR (União Democrática
Ruralista), Luiz Antônio Nabhan Garcia, disse que as ações
"não se justificam". "Há Justiça no nosso país para decidir
sobre o que ocorreu no Pará, mas não se justifica lembrar a
data fazendo pressão, invadindo e agindo na ilegalidade."
Em Pernambuco, agricultores do MST saquearam dois
caminhões com massas e biscoitos, em São Lourenço da
Mata, na região da Grande Recife. Sete rodovias do Estado
foram bloqueadas.
Em Minas Gerais, o MST invadiu na madrugada de ontem
duas fazendas consideradas improdutivas pelo Incra na
região norte do Estado. Cerca de 540 sem-terra participaram
das duas ações.
664
Na fazenda Bom Sucesso, em Capitão Enéas (MG), o MST
disse que o caseiro atirou balas de borracha contra os sem-
terra, atingindo um integrante do movimento, sem feri-lo. A
PM não confirmou.
No Rio Grande do Sul, o MST bloqueou por 19 minutos
(números de mortos no massacre), cinco trechos de estradas
federais. As manifestações ocorreram nas BRs 386, em Nova
Santa Rita; 293, em Hulha Negra; 116, em Arroio Grande;
158, em Livramento; e BR-285, em Santo Antônio das
Missões. O MST informou que foram mobilizadas 2.000
pessoas.
Na Bahia, além de invadir uma fazenda da indústria Suzano
Papel e Celulose, em Teixeira de Freitas (BA), um grupo de
cerca de 2.000 sem-terra terminou ontem uma caminhada de
cinco dias e 108 km entre Feira de Santana e Salvador. Na
capital baiana, fizeram uma manifestação em frente ao
Fórum Ruy Barbosa para exigir rapidez na reforma.
Na Paraíba e no Rio Grande do Norte, manifestantes
bloquearam trechos de rodovias federais. A BR-304, rodovia
que liga Natal a Mossoró, ficou fechada por duas horas e
meia por 200 militantes.
Em João Pessoa (PB), cerca de 200 integrantes do MST
montaram acampamento na praça em frente ao Tribunal de
Justiça. Em Maceió (AL) e Fortaleza (CE), os sem-terra
também fizeram caminhadas e atos públicos.
Em Eldorado do Carajás (PA), a barricada que bloqueou a
rodovia PA-150 com pedaços de paus e pedras, ocorreu entre
17h30 e 18h diante de três representantes do governo federal.
João Pedro Stedile, da coordenação do MST, defendeu as
ações do movimento: "A inoperância do governo federal vai
criando um clima de tensão nos assentamentos. Como
estamos perto das eleições, o clima vai ficando pior. O
momento de pressionar é esse. E é uma obrigação nossa
fazer essas manifestações pelo país", afirmou.
Em discurso aos sem-terra, o ministro Paulo Vannuchi
(Direitos Humanos) defendeu a punição daqueles que
ordenaram a ação. "Que vá para a cadeia não apenas os
oficiais condenados, mas também os seus subordinados [155
policiais]. E que vá para a cadeia não apenas os oficiais mas
também os comandantes desses oficiais", afirmou o ministro.
Os oficiais afirmam que só cumpriram ordens do então
governador do Estado, Almir Gabriel (PSDB).
Texto Anterior: Maluf agora quer concorrer à Câmara, onde
teria direito a foro privilegiado
665
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compreendido"
São Paulo, quarta-
feira, 19 de abril de 2006
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PÉS PELAS MÃOS
Há dez anos, o que deveria ser uma ação para liberar uma
rodovia obstruída pelos trabalhadores sem-terra em Eldorado
do Carajás, no Pará, transformou-se num episódio de
brutalidade policial que resultou em 19 mortos. Ao ato cruel
sobrepôs-se a impunidade. Dos 155 PMs envolvidos na ação,
dois foram condenados pela Justiça: o coronel Mário Colares
Pantoja e o major José Maria de Oliveira. Ambos estão em
liberdade, à espera de que se esgotem as opções de recursos.
Mas isso não vale como álibi para as ações criminosas que o
MST insiste em perpetrar pelo país. Em lembrança aos dez
anos do massacre, os líderes do movimento organizaram
anteontem saques, invasões e bloqueios em 13 Estados. No
Pontal do Paranapanema, dez fazendas foram invadidas. Em
Pernambuco, dois caminhões foram pilhados e sete rodovias,
bloqueadas.
Poucas estratégias poderiam ser mais eficientes para
deslegitimar o protesto. Em vez de instar a Justiça a agir com
presteza, o ato chama a atenção para a capacidade de um
grupo que nem sequer existe juridicamente de articular e
organizar manifestações pelo país, transformando ilícitos em
ação programática.
A margem de manobra do MST para "protestar" e delinqüir
cresce na mesma medida da incúria e da leniência do
governo Lula. Não surpreende, nesse cenário, que
associações ligadas ao MST sejam financiadas pelos cofres
públicos: em 2003, receberam cerca de R$ 10 milhões.
É inaceitável o apoio governamental a organizações
estruturadas para desestabilizar o Estado de Direito.
Suspender os repasses é uma atitude imediata a se tomar.
Outra, reintroduzir o dispositivo que pune as invasões,
interrompendo por dois anos as ações de desapropriação.
Um abuso não justifica o outro. Não é com violações que se
poderá reparar a chacina cometida por policiais paraenses.
666
Texto Anterior: Editoriais: SEM MOTIVO PARA
LENTIDÃO
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São Paulo, quarta-feira, 19 de abril de 2006
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PANORÂMICA
TERRA SEM LEI
Sem-terra iniciam marchas de protesto para cobrar
agilidade do governo
Após um dia de ações e protestos para lembrar os dez anos
do massacre de Eldorado do Carajás (PA), sem-terra
iniciaram marchas para marcar a data, cobrar do governo
agilidade na reforma agrária e pedir punição por mortes no
campo.
Em Alagoas, sem-terra ligados ao MST, ao MTL
(Movimento Terra, Trabalho e Liberdade), ao MLST
(Movimento de Libertação dos Sem-Terra) e à CPT
(Comissão Pastoral da Terra) deixaram o acampamento em
Maceió rumo a Atalaia (65 km de Maceió). Em Goiás, o
MST iniciou duas marchas no interior rumo à capital.
Em Ponta Grossa (PR), cerca de 200 sem-terra bloquearam o
acesso à fazenda experimental da Embrapa para apressar a
desapropriação de parte da área, invadida há três anos pelo
MST. O chefe da área jurídica da Embrapa, Antonio Nilson
Rocha, disse que a empresa concordou em vender ao Incra
600 dos 2.000 hectares da fazenda.
Texto Anterior: Parlamentares criticam medida do governo
federal
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jornalismo esportivo
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São Paulo, quinta-feira, 20 de abril de 2006
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CAMPO MINADO
667
Fazenda da Suzano Papel e Celulose foi invadida no
domingo pelo MST
Justiça determina retirada de sem-
terra de área na Bahia
DA AGÊNCIA FOLHA, EM SALVADOR
O juiz Roney Jorge Cunha Moreira, de Teixeira de Freitas
(BA), concedeu no final da tarde de ontem um mandado de
reintegração de posse de uma fazenda da Suzano Papel e
Celulose, invadida no último domingo por cerca de 3.000
integrantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra).
A propriedade tinha 625 hectares (de um total de 975) com
plantações recentes de eucalipto, material utilizado na
fabricação de celulose. Pelo menos 300 hectares foram
destruídos para a instalação de barracos para os sem-terra.
Ontem à noite, o MST informou que não havia recebido
nenhuma notificação da Justiça, mas seus dirigentes
disseram que pretendem ficar na área.
Informalmente, um acordo feito entre representantes da
empresa com a Justiça estabelece um prazo de 48 horas, a
partir de hoje, para os sem-terra deixarem a empresa. Caso
contrário, será solicitada força policial. Na Bahia, 25 mil
famílias de sem-terra estão acampadas à espera de um lote
em 116 áreas.
Pernambuco
O MST invadiu 33 propriedades rurais em Pernambuco
desde março, quando o movimento iniciou em todo o país a
"jornada de luta" para lembrar os dez anos do massacre de
Eldorado do Carajás (PA). A marca foi anunciada ontem,
véspera da marcha que reunirá 2.000 sem-terra em Recife.
Os lavradores percorrerão parte da BR-101 para marcar a
participação do MST no 2º Fórum Social Brasileiro e depois
seguirão para o centro da cidade.
As ações do MST espalham-se por todo o país. Invasões,
bloqueios de rodovias e saques já foram registrados, mas até
agora não há notícia de punições.
Em Pernambuco, onde dois caminhões foram saqueados na
segunda-feira, ninguém ainda foi acusado. As seis toneladas
de massas e biscoitos saqueadas não foram recuperadas.
Os sem-terra alegam fome e morosidade do governo para
668
justificar seus atos. As invasões são consideradas por eles
"simbólicas", por envolver áreas pertencentes a donos de
supermercados, como ocorreu em Santa Catarina, ou que são
reivindicadas "há anos", como ocorre em Pernambuco e
Alagoas.
Com o fim dos protestos de 17 de abril, data do conflito entre
policiais e agricultores que resultou na morte de 19
trabalhadores rurais no Pará, o MST passou a concentrar
suas ações em grandes manifestações coletivas.
Mar
chas reunindo cerca de 3.550 pessoas foram iniciadas em
Alagoas, Ponta Grossa (PR) e Goiás. A intenção, segundo o
movimento, é cobrar do governo agilidade na reforma
agrária e pedir a punição dos responsáveis pelas mortes no
campo.
Alagoas
Em Alagoas, 5.000 sem-terra ligados ao MST, ao MTL
(Movimento Terra, Trabalho e Liberdade), ao MLST
(Movimento de Libertação dos Sem-Terra) e à CPT
(Comissão Pastoral da Terra) seguiram em direção a Atalaia
(65 km de Maceió).
"É uma marcha contra a violência e a impunidade nos
assassinatos de sem-terra em Alagoas", disse Carlos Lima,
coordenador da CPT no Estado. Segundo a entidade, nos
últimos 12 anos, 39 lideranças foram mortas em Alagoas.
Para o presidente nacional da UDR (União Democrática
Ruralista), Luiz Antônio Nabhan Garcia, as ações dos sem-
terra "não se justificam". "Há Justiça no país para decidir
sobre o que ocorreu no Pará, mas não se justifica lembrar a
data fazendo pressão, invadindo e agindo na ilegalidade",
declarou.
Texto Anterior: Encontro do PMDB reforça divergências
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São Paulo, sábado, 29 de abril de 2006
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CAMPO MINADO
Ações somam metade do total de 2005, aponta Ouvidoria
Agrária
669
Invasões de terra aumentam 75% no
1º trimestre
PEDRO DIAS LEITE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O número de invasões de terra no campo aumentou 75% no
primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo
período de 2005. Em relação aos últimos três meses do ano
passado, a ampliação foi de 233%.
De janeiro a março deste ano, houve 110 invasões de terras -
69 delas, só em março, segunda maior marca atingida no
governo Luiz Inácio Lula da Silva. No primeiro trimestre de
2005, foram 63 e, no último, 33 invasões.
Os sem-terra argumentam que invasões são o meio mais
eficaz de pressionar o governo para acelerar a reforma
agrária. Neste mês, convencidos de que a reforma só sairá
quando a população das cidades considerá-la "urgente e
necessária", o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem Terra) anunciou que investirá em ações urbanas. A
declaração, radicalização verbal em forma de ameaça no ano
eleitoral, é termômetro da insatisfação dos sem-terra com a
gestão petista.
Os números de abril, mês em que o MST historicamente atua
mais ativamente -marca o aniversário do massacre de
Eldorado do Carajás, em 1996-
, ainda não estão fechados. As
69 invasões de março são mais que o triplo da média de
ações mensais dos sem-terra. De janeiro de 2003 a dezembro
de 2005, houve, em média, 21 invasões por mês.
Com apenas três meses decorridos este ano, o número de
invasões, 110, chegou à metade de todo o total do ano
passado (220 casos). Os números integram o balanço da
Ouvidoria Agrária Nacional, órgão do governo criado em
1999 para prevenir e controlar os conflitos no campo.
Se a escalada de invasões chegou a um dos picos no governo
Lula, aparentemente as mortes no campo vão na direção
contrária. Até agora, não houve morte comprovadamente
ligada a confrontos agrários -ainda há 22 casos em
investigação.
Segundo a ouvidoria, o governo de Lula -que, em campanha,
disse ser o único candidato capaz de conter a violência no
campo- registrou 880 invasões a imóveis rurais em todo o
país.
No segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999-
2002), foram 999 invasões.
670
Desocupação
As cerca de 200 famílias ligadas ao MST desocuparam
ontem, de forma pacífica, a fazenda Agril, no norte do
Espírito Santo, invadida na quarta-feira. Dois líderes foram
detidos e, segundo a Polícia Militar, seriam liberados até
ontem à noite, após assinarem termo circunstanciado por
desobediência à ordem judicial -o decreto de reintegração de
posse da área.
A fazenda fica entre os municípios de Linhares e Aracruz
(80 km de Vitória) e pertence à Aracruz Celulose. A área já
havia sido invadida no ano passado. A coordenação estadual
do MST argumenta que parte das terras é devoluta (do
Estado), e que pretende forçar o poder público a confiscar a
área. A empresa diz que possui a documentação da posse.
Segundo a empresa, a propriedade no Espírito Santo tem
8.700 hectares e 78% da sua extensão é coberta por áreas
passíveis de preservação ambiental. O restante é usado para
plantio de eucaliptos.
Colaborou a Agência Folha
Texto Anterior: Isto é Ellen
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PFL para oficializar chapa é "bobagem"
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São Paulo, segunda-feira, 22 de maio de 2006
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Perfil
Ministro atuou em sindicato de
metalúrgicos
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Mestre em ciência política pela USP e ex-preso político,
Paulo de Tarso Vannuchi, 56, assumiu a Secretaria Especial
dos Direitos Humanos no mesmo dia em que o governo
anunciou a transferência de centenas de milhares de
documentos dos órgãos de investigação do regime militar
671
que estavam na sede da Abin (Agência Brasileira de
Inteligência) para o Arquivo Nacional de Brasília. Ele
substituiu o interino Mário Mamede em 21 de dezembro do
ano passado.
Amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ex-
presidente do Instituto Cidadania, ONG ligada ao PT,
Vannuchi recebeu a incumbência de reorganizar a secretaria,
que chegou a perder o status de ministério, retomado após
pressão de entidades ligadas ao setor.
O hoje ministro atuou nas campanhas de Lula a presidente e
foi assessor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo
do Campo (SP).
Secretário-executivo do comitê central da campanha
presidencial de Lula em 2002, Vannuchi também participou
dos projetos elaborados pelo Instituto Cidadania nas áreas de
segurança pública, energia elétrica, Amazônia, semi-árido e
segurança alimentar.
No mês passado, durante ato que marcava os dez anos do
massacre de trabalhadores rurais em Eldorado do Carajás
(PA), o ministro defendeu os movimentos sociais e disse que
o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) é
"mal compreendido".
"O MST é mal compreendido. É um movimento que tem
compromisso com as leis e com as regras da democracia. Ele
evita o que ocorre, por exemplo, em outros países, como uma
guerra civil", afirmou ele, à época.
Texto Anterior: Chacinas podem levar à aparição de novos
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