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BR6004043
C00/B/WV
Luz Filho, F.
Ministério da Agricultura, Rio de Janeiro, GB.
(Brasil). Serviço de Economia Rural
Cooperativas escolares & (&Origem: organização;
Educação cooperativa: Função social&) &
5. ed.
Rio de Janeiro, GB ( Brazil )
1960 405 p. (Pt)
Educação; Educação agrícola: Cooperativa; Coo-
perativa escolar
$$
408
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FÁBIO LUZ FILHO
COOPERATIVAS ESCOLARES
5.° edição aumentada e atualizada
Brasil
Rio de Janeiro
Ministério da Agricultura
Serviço da Economia Rural
1960
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INDICE
Págs.
Nota explicativa......................................................................................... 7
Antelóquio da 3ª edição............................................................................. 9
CAPITULO I
O auxilio mútuo na natureza. — A solidariedade............................... 13
CAPITULO II
O cooperativismo — Suas origens, seus precursores, sua dou
trina, sua prática.................................................................................... 23
O pensamento de Carlos Gide................................................................. 25
Definição de princípios............................................................................ 35
Os princípios rochdalianos...................................................................... 36
O principio da neutralidade..................................................................... 37
Ainda os princípios rochdalianos............................................................ 45
O pensamento de Hans Mülltr e o de Fauquet....................................... 53
O cooperativismo é poder....................................................................... 59
Classificação de cooperativas — O direito cooperativo.................... 60
O direito cooperativo............................................................................... 61
O caráter civil das cooperativas............................................................ 66
Ainda o direito cooperativo..................................................................... 88
CAPÍTULO III
O valor pedagógico das cooperativas escolares.................................... 70
O cooperativismo escolar, a educação vocacional, a democracia...... 84
Novos métodos de ensino....................................................................... 85
Educação agropecuária........................................................................... 88
Democracia........................................................................................... 88
Educação industrial................................................................................. 87
CAPITULO IV
O cooperativismo nos currículos escolares......................................... 94
Quadro das cooperativas escolares brasileiras.................................... 95
As cooperativas escolares no Brasil, Argentina e Chile..................... 99
A escola organizada................................................................................ 100
Cooperativas escolares existentes no mundo em 1958......................... 103
CAPITULO V
A organização das cooperativas escolares............................................ 104
Lídimas cooperativas em miniatura...................................................... 111
Educação nova — Pequenas repúblicas............................................. 114
Federações.............................................................................................. 118
Ainda as federações............................................................................... 119
4 COOPERATIVAS ESCOLARES
CAPÍTULO VI
Págs.
Ainda a escola renovada e as cooperativas escolares......................... 124
O Dr. Fábio Luz, um precursor............................................................. 125
Disciplina baseada na. Liberdade.......................................................... 129
Ainda a escola........................................................................................ 131
O “slojd” escolar.................................................................................... 132
O trabalho dos educadores.................................................................... 140
As caixas escolares................................................................................ 140
Regulamento da Caixa escolar do sétimo distrito (Rio).................... 142
A educação na Suécia........................................................................... 147
A cooperativa escolar, uma Imagem da vida...................................... 148
O poema ‘ “Andorinhas” ·.................................................................... 149
A primeira lei municipal sobre cooperativismo escolar no Brasil
Ainda o valor moral e a função educativa.......................................... 153
Função educativa, capacidade técnica. Os clubes de estudo............. 156
Círculos ou clubes de estudo................................................................ 160
A Escola Cooperativa de Freidorf...................................................... 162
CAPÍTULO VII
Conceitos de Repetto — As cooperativas escolares como centro
de Interêsse. Pestalozzi, Froêbel, Montessori — Ainda Profit..... 164
Pestalozzi, Froëbel, Fallenberg.......................................................... 167
Ainda a ação de Profit.......................................................................... 167
A declaração dos direitos do homem e o cooperativismo escolar
na Argentina, México e Cuba.......................................................... 169
Argentina, México, Cuba, Costa Rica, etc.......................................... 170
Democracia social e cooperativismo escolar...................................... 174
CAPITULO VIII
Ainda o cooperativismo escolar no Brasil e no mundo..................... 178
As árvores no seu simbolismo e a terra brasileira.............................. 178
O cooperativismo escolar em Pernambuco — Outros Estados........... 180
A atuação do autor em São Paulo.......................................................... 181
Na Escola Industrial de Araraquara....................................................... 184
Noção de Pátria....................................................................................... 187
Ruralismo................................................................................................... 188
A paisagem brasileira no Sul................................................................. 190
As árvores, seu simbolismo — A natureza brasileira — O sim-
bolo do cooperativismo....................................................................... 193
“Salino da vila e das flores”, de Fábio Luz........................................ 194
Visita à Bahia......................................................................................... 196
“O diabo pelado”, de Fábio Luz........................................................... 198
“Os céus do Brasil”............................................................................. 200
“Chloé”, de Fábto Luz........................................................................... 200
“Andorinhas”......................................................................................... 203
Ainda Salvador...................................................................................... 204
O Nordeste — Recife............................................................................ 205
A paisagem no brejo e no agreste......................................................... 207
Os mandacarus....................................................................................... 207
Campina Grande.................................................................................... 209
6 COOPERATIVAS ESCOLARES
Educação e formação cooperativas na França (Office Central
de la Coopération à l’Ecole).................................................................. 298
O exemplo da Formiga 301
A cooperativa escolar (“Cooperativas” da União Pan-Ame-
ricana) 303
Definição, caráter e valor das cooperativas escolares (H. Char-
lot do Office Central de la Coopération à l’Ecole, França) 304
Cooperativa escolar e formação moral (Calve, inspetor escolar
francês em Nancy) 308
A cooperativa escolar (Mercedes Amália Marchand, de Pôrto
Rico) 311
Plano para uma cooperativa escolar (Costa Rica) 314
O cooperativismo escolar na Grécia (Potini Th. Tzortzaki) 316
A conferência da União Cooperativa Bolivariana 319
sexta Conferência dos Estados Americanos 321
O cooperativismo e a mulher (Aida Perez de Guevara, de Ve-
nezuela) 323
Vivências de valor e valências de valor (Luisa Maria Simões
Raposo Ribeiro, Portugal) 324
ANEXOS
Como define a lei brasIleira as cooperativas escolares 325
Estatutos de uma cooperativa escolar 325
Cooperativas juvenis ou cooperativas extra-escolares e o coope-
rativismo escolar no México 336
Ata de constituição de uma cooperativa escolar 336
Lista nominativa 339
Normas para uma cooperativa escolar rural 340
Setor produção 340
Setor de economia 340
Cooperativas estudantis ou universitárlas 340
Requerimento para registro 341
cooperativas escolares agrícolas 341
Uma cooperativa escolar de trabalho em São Paulo 342
Ainda as cooperativas pós-escolares 343
Nomes de pessoas, professor-orientador, gerente 344
Pedido de admissão 344
Apêlo aos professores, pais, alunos e estudantes 345
Campanha do barateamento de material escolar 348
Projeto de lei para cooperativas escolares (Fábio Lua Filho).. 350
O livro na opinião dos grandes homens 360
Contabilidade nas cooperativas escolares (J. F. Gandra) 361
Organização e sistema de operações das cooperativas escolares
(João do Prado Flores) 384
Diploma do mérito cooperativo a cooperativistas brasileiros 394
A Universidade de Buenos Aires e o cooperativismo escolar 395
Modelos para contabilidade usados em Pernambuco para co-
operativas escolares 397
A FAO e o autor 401
“Crédito agricola e problema agrário” 402
Obras do autor 403
NOTA EXPLICATIVA
Êste livro, editado pela primeira vez em 1933, já represen-
tava na época a conjugação de imensos esforços do seu autor,
Dr. Fábio Luz, que desde 1931, vinha pregando os postulados
cooperativistas através de propaganda orientadora nos esta-
belecimentos educacionais, visando prècipuamente à organi-
zação de cooperativas escolares.
Tem, ainda, o seu autor, com esta quinta edição, que
tenho o prazer de prefaciar, não só as honras de ser o pioneiro
da idéia lançada em 1931, no país, como também o mérito da
sua firme coerência doutrinária, procurando sempre alicerçar
os sãos princípios do cooperativismo na formação intelectual
das novas gerações.
Está, pois, o presente trabalho, aumentado e atualizado,
destinado a produzir os seus salutares objetivos em setor ainda
não suficientemente considerado pelo movimento cooperati-
vista brasileiro. É um manual sobretudo para professores.
Rio de Janeiro, 1960.
JOSÉ SMITH BRAZ
Diretor
ANTELÓQUIO DA 3ª EDIÇÃO
“Con este título acaba de publicar el erudito
cooperativista brasileño y gran amigo nuestro, Dr. Fábio
Luz Filho, un interesante libro.
Trata en él su autor, con la autoridad adquirida en
muchos años dedicados al estudio de este sistema
económico, en forma brillantísima y de gran competencia,
el tema que sierve de título a su selecto
trabajo: “Cooperativas escolares”.
Contiene también esta nueva producción um modelo
de estatutos de dichas cooperativas y el texto de uma
nueva ley que las regirá, recientemente dictada por el
Poder Ejecutivo del Brasil.
Con este nuevo libro acredita una vez más el Dr. Luz
Filho sus vastíssimos conocimíentos del cooperativismo,
desarrollando con la mayor nitidez y fuerza de convicción,
los distintos puntos de vista abordados, citando
frecuentemente opiniones y conceptos de personalidades
de nuestro movimiento, tales como Leiserson, Bórea,
Amadeo, Justo, etc, demonstrando asi este gran estudioso
el conocimiento que tiene de los hombres que aqui fueran
maestros y precursores.
Mucho y muy bueno lleva ya producido este laborioso
cooperador, que tan gentilmente nos va obsequiando con
cada una de sus obras, siendo un verdadero exponente,
pero elevadísimo desde luego, de los propulsores de
nuestros ideates, no solo de eu patria, sino de Sud
América.
Al felicitarle por su nuevo brillante trabajo,
agradeccemos al gran amigo su obséquio y retribuimos su
saludo.
(De “La Coopèración”, órgão da “Federación de
Cooperativas Argentinas ” 30-3-933 - Rosário).
10 COOPERATIVAS ESCOLARES
“Outro novo colaborador, que temos o prazer de
apresentar a nossos leitores. O Brasil inteiro conhece
Fábio Luz Filho, herdeiro de nome brilhante, ao qual
soube acrescentar grande lustre. E tido, justamente, como
o maior divulgador no país dos princípios cooperativistas,
autor, que é, de mais de uma dezena de livros e de algumas
centenas de trabalhos sâbre o Cooperativismo. É,
outrossim, o pioneiro do cooperativismo escolar.”
(Luiz Amaral em “Economia” - de abril de 1940.)
“Senhoras de si mesmas, as crianças sê-lo-ão também
da sua pequenina república. Eleitoras e eleitas, terão a
consciência de seu papel.
Eleitas, adquirem um sentido experimental da
responsabilidade social, que se lhes torna um forte
estimulo moral.”
Ferrière
“A educação tem, em nosso tempo, um sentido
profundamente social. E a educação para a vida social,
como outra qualquer, exige processos ativos.”
Lourenço Filho
“A escola é a continuação do lar. Quando no lar não
há” o confôrto espiritual e carinhoso e a iniciação primordial
nos percalços da vida e do mundo, que a ignorância agrava e
torna insuperáveis, supre-os a escola, onde os mestres têm
a tríplice e elevada representação de pais, educadores e
guias.”
Fábio Luz
“A juventude, que assim significa, na alma dos
indivíduos e das gerações, luz, amor e energia, significa,
também, o processo evolutivo das sociedades.”
José Enrique Rodó
CAPÍTULO I
O AUXÍLIO MÚTUO NA NATUREZA
SOLIDARIEDADE
Manifestações do instinto de ajuda mútua, temo-las, pro-
fusas, até mesmo nos últimos degraus da escala vasta dos
sêres, dizemos em “Teoria e prática das sociedades coopera-
tivas”.
Subindo gradativamente essa escala até atingirmos os
animais superiores, provas inconcussas dêsse instinto, dêsses
hábitos de solidariedade e apoio recíproco vamos
encontrando.
São clássicos os exemplos da formiga precavida e
laboriosa e da abelha ativa, símbolo do espírito de associação,
da tenacidade, do trabalho incessante e da inteligência ao
serviço de uma causa comum, e os das térmitas.
São conhecidas as suas admiráveis organizações de
defesa comum e apoio mútuo, tanto na paz como na guerra.
Entre os pássaros, são freqüentes, como frisam
naturalistas, êsse espírito de coesão, de cooperação na luta da
subsistência. Unem-se os pássaros até para os folguedos.
As próprias aves de rapina, antipáticas em seu Instinto
cruento, têm pendores acentuados para a vida em comum.
São conhecidos os hábitos dessas aves, fazendo longos vôos
para se reunirem a outras, em pontos distantes, sôbre
árvores ramalhantes, afagosas e amigas.
Entre os pinguins é tão profundo êsse sentimento de soli-
dariedade, que tratam êles com efusivo desvêlo os seus
doentes, vigiando-os e alimentando-os com carinho. São de
uma índole tão comunicativa, que se aproximam, confiantes,
do próprio homem.
Os lôbos caçam em grupos. Os macacos (principalmente
os cinocéfalos) defendem, em grupos ameaçantes e
agressivos, as suas greis, e brincam mesmo em comum.
14 COOPERATIVAS ESCOLARES
Animais existem, (guanacos) que, em suas migrações, colocam
os mais débeis no centro dos grupos, destacam sentinelas
avançadas para a defesa dêsses grupos nas jornadas longas, e
iniciam a caminhada para regiões onde melhores se lhes
apresentem as condições de vida. Aves há que procedem de
maneira Idêntica.
Kropotkine, o grande escritor e filósofo russo, desfiou lon-go
rosário de fatos comprobatórios da imanência dêsse nobre
sentimento entre os irracionais e na espécie humana. Leclerc
du Sablon, idênticamente.
Diz Emerson, em “Society and Solitude”, que a ciência
mostra os grandes ciclos nos quais a natureza trabalha, a
maneira pela qual as plantas marinhas preenchem as neces-
sidades dos animais marinhos, como as plantas terrestres for-
necem o oxigênio que os animais consomem, e, os animais, o
carbono que as plantas absorvem. Essas operações são inces-
santes. A natureza trabalha segundo êste principio: “todos
por um, um por todos”. A pressão exercida sôbre um ponto
repercute em cada uma das arcadas e em cada um dos funda-
mentos do edifício. Há, nela, solidariedade perfeita.
Aquêle princípio, essa solidariedade, dizemos nós, que
existem na ordem da natureza, têm por instrumento especifico
a cooperação na ordem social, na ordem econômica, no univer-
so moral, na órbita da Inteligência, na esfera profissional.
O cooperativismo cria valores morais, sociais e econômi-cos,
já dissemos.
Em “Teoria e prática das sociedades cooperativas” damos
ainda outros exemplos de atos ou organizações com traços
cooperativos: a refeição em comum dos povos do Mediterrâneo
(dórios); as associações do Egito antigo para a construção de
sepulcros; os “compagnons” da Idade Média, etc.
Proudhon em “Solution du problème social” disse: “La
reciprocité, dans la création, est principe de l’existence. Dans
l’ordre social, la reciprocité est le principe de la réalité sociale,
la formule de la justice. Elle a pour base l’antagonisme éter-
nel des idées, des opinions, des passions, des capacités, des
tempéraments, des interêts. Elle est ia condition de l’amour
méme. . . Or, le mal qui nous dévore, provenient de ce que la
loi de reciprocité est méconnue, violée. Le remède est tout
entjer dans la promulgation de nos rapports mutuels ei réci-
proques, voilá toute la science sociale”.
FÁBIO LUZ FILHO 15
Maurício Bobenco, em “El niño primero. . . .”, recorda,
que o Universo é modêlo de ordem, pontualidade, ritmo, re-
gularidade e cooperação; que cooperam entre si o sol, a chuva e
a terra para produzirem alimentos para os sêres vivos. Os
córregos descem das montanhas para regar os campos e vales,
fertilizando-os, e se unem aos rios, que alimentam mares, de
cujas águas se formam nuvens, as quais, pelos ventos, são
conduzidas e se desfazem sob a forma de chuva, que fecunda.
Assim, desde o infinitamente pequeno até ao infinitamente
grande, tudo é ordem, exatidão, harmonia e absoluta coopera-
ção no Universo.
E Amaral Fontoura frisa que, durante tôda a nossa exis-
tência, precisamos dos outros. Com a divisão do trabalho, que
é uma das características da civilização, “cada um de nós,
neste mundo, faz uma coisa só, e, em troca dêsse único serviço
que presta à comunidade, usa o trabalho de milhões de indivi-
duos. Basta atentar para os alimentos de que nos servimos,
as roupas que usamos, a casa onde moramos, os veículos em
que viajamos: quantos milhões de pessoas não trabalharam
nêles, para nosso prazer e gôzo?”
O nosso caboclo diz com muita acuidade: “Gado desma-
nado é comida de onça”...
E Rodino frisa como surgiram as sociedades civis agríco-
las para o cultivo em comum e para a comunhão dos lucros
(sociedades universais), constituindo-se entre os servos da gle-
ba, os colonos livres, ora tàcitamente, ora por convenção
expressa, mais numerosas e conhecidas as sociedades tácitas.
Tomaram enorme incremento no centro e no norte da França.
Existia, potente, nas sociedades dos servos medievos, o
vinculum fraternitatis, o sanctum e inviolabile socii nomen...
Em “Crédito agrícola e problema agrário” assinalamos que
já Jean Meun (1720) dizia que o primeiro sentimento do
homem para com seus semelhantes era a fraternidade. A
sociedade humana primitiva representava um estado de
harmonia natural. Os homens viviam em paz, praticando a
comunidade dos bens, livres e iguais. Mas, aos poucos foram
repontando os vícios, a Inveja, o orgulho e a avareza, trazendo
para os homens a pobreza e destruindo a ordem natural.
Desapareceu então a organização comunitária da vida. Divi-
diram-se as terras; levantaram-se diferenças, surgiram lutas,
as quais fizeram nascer o Estado como elemento disciplina-
16 COOPERATIVAS ESCOLARES
dor, Estado que, no transcurso dos tempos, se hipertrofiou,
flamispirante, como nos é estadeado pela acutilante realidade
de nossos dias...
OS INCAS
Um fato histórico que cala fundo em nossas consciências,
e que documenta a extensão e a profundeza dêsse fecundo es-
pírito, é o que nos apresenta um ilustre escritor argentino.
Diante do quadro que nos debuxa, ficamos a pensar nos cri-
mes de lesa-civilização cometidos pelos civilizados europeus
nas suas conquistas no Novo Mundo.
Mormontel já mostrou o grau de pervesidade a que che-
gara o fome de ouro dos Espanhóis destruidores da civilização
incásica.
Del Castillo, citando a Lopez, diz que a conquista espa-
nhola surpreendeu a civilização incásica, orginária do Peru,
em uma missão essencialmente cultural. Difundia ela nada
menos que os sentimentos da cooperação. Sabedores os Incas
de que, por detrás dos Andes, nesta parte do continente, exis-
tiam bandos de tribos nómadas de índios que viviam de uma
maneira essencialmente primitiva, resolveram conduzi-los à
sua adiantada cultura, relativa, certamente, comparada à civi-
lização européia daquele tempo.
“Com êsse objetivo, disse o Dr. Vicente Fidel Lopez, duas
alas civilizadoras transpuseram os altos cumes de nossa cor-
dilheira, a chamada do nascente e a do poente. Compunha-se
êsse núcleo civilizador de pouquíssimos guerreiros incásicos,
pois a missão dêles não era uma missão de conquista. Fácil foi
conquistar as tribos nómadas, às quais ministraram ensina-
mentos práticos de agricultura e o manejo dos instrumentos
de lavragem, radicando-as em pequenas colônias, mais tarde
denominadas colônias de índios. Estas tribos, algumas das
quais habitaram as regiões correspondentes às províncias de
Salta e de Córdoba, reclamaram para si e reclamam ainda
direitos de posse sôbre as terras que ocupam. As comunas,
ensinadas pelos Incas, praticavam a semeadura em comum e
da mesma forma faziam a colheita. Repartiam logo,
paulatinamente, a colheita e reservavam a semente que lhes
parecia necessária para a nova semeadura”.
Guardavam os índios seus arados de forma e construção
primitivas e, juntamente com os arados, outros instrumentos
aratórlos que os Incas lhes ensinaram a construir, e êstes ins-
FÁBIO LUZ FILHO 17
trumentos eram emprestados durante dias e semanas aos
membros da comuna que os solicitavam. Era a cooperação, a
ajuda-mútua embrionária praticada nas plagas virgens da
América imensa. “E não só os conquistadores fizeram pouco
caso dela; mais tarde, governos notadamente crioulos destruí-
ram, sem procurar estudá-las, aquelas embrionárias civiliza-
ções, que deveriam ter investigado”...
O mundo caminha assim por ciclos, já o disse em “Rumo
à Terra”.
O. Cedrón, referindo-se ao comunalismo Incásico, diz que
o Inca (in — luz e ka — ser luminoso) criou o império
incásico e deu vida ao “ayllus”, base da economia e da organi-
zação militar do Império do Incas.
O “ayllus” era uma espécie de “ejido” ou “callpulli” me-
xicano, “instituição politico-social”, e dos “momos” egípcios,
de base cooperativa.
“Mana ccella” significava, entre os Incas, que ninguém
devia ser preguiçoso: “Mana Ilulla”, que se não devia ser
mentiroso; “Mana súa”, que se não devia roubar.
Nos “ayllus”, a que também se refere A. Herr no “Year
Book of Agricultural cooperation” — 1939, o trabalho era em
comum, uma espécie de cooperativa integral moderna, e seu
precursor. Eram sociedades agrícolas nas quais se dividiam
os produtos segundo o trabalho prestado e as necessidades de
cada um. Expandindo-se pelo continente os Incas levavam ou
estimulavam essa forma de trabalho cooperativo, dividindo o
trabalho e fazendo a exploração de numerosas indústrias
sôbre um plano cooperativo.
O Estado apoiava sobretudo as cooperativas de produção.
Era um sistema de govêrno cooperativo, embora com um
cunho de economia dirigida.
Os “ayllus” representaram na civilização incásica papel
relevante como elemento de equilíbrio de fôrças orgânicas no
campo da produção.
Os “ayllus” federavam-se em “Kuris”, semelhantes aos
distritos atuais.
Eram dirigidos por “Curakas”, que tinham um papel de
coordenação, direção e racionalização agrária e industrial,
além do papel politico. A estrutura econômica e administrati-
va do “Kuris” baseava-se na cooperação social, como idéia
-força.
2 — 27 454
18 COOPERATIVAS ESCOLARES
Os “Kuris” reuniam-se para constituir o “Waman”, ou
província, e a cooperação dos “Wamans” constituía ciclópicas
regiões ou “Suyos”. As regiões constituíam o “Império do
Tawantinsuyo”, possuidor de enormes tesouros sòlidamente
organizados sob o signo da ordem, do trabalho e da
cooperação.
“Os conquistadores representam a civilização do ferro e
da pólvora; o Inca, a civilização do ouro e da pedra”,
asseguradora da paz entre os homens. Foram conquistados
justamente pela “superioridade de sua civilização”.
“O espírito que impera na obra incásica, nas gigantescas
obras de metrópole “cuzqueña”, é o espírito da pedra.
“A pedra é símbolo e testemunho do gênio da raça, de
sua habilidade especializada nas artes e de seu poder de
organizacão cooperativo.
“O Peru foi vencido e conquistado não porque fôsse um
povo bárbaro, mas porque era raça civilizada e próspera”.
E eis uma notícia recente de Lima (1953) sôbre êsse espí-
rito da pedra, essa admirável civilazação do ouro e da pedra:
“A mais importante descoberta, sem dúvida, foi a das
ruínas da antiqüíssima cidade incáica de Lacta-Pato, a cêrca
de 88 Km. de Cuzco. As ruínas exploradas contribuíram va-
liosamente para esclarecer o desenvolvimento da antiga civili-
zação aborígene. Sua arquitetura, sua organização comunal,
as artes, as leis, os sistemas de aproveitamento do solo, a de-
fensiva estratégica, o culto dos mortos e dos deuses se acham
representados em formidáveis obras de engenharia, para exe-
cução das quais foram necessárias centenas de milhares de to-
neladas de pedra e o trabalho de milhões de homens.
“Para abastecer a cidade de água, por exemplo, os arqui-
tetos dos Incas foram os primeiros a abrir grandes canais,
cujas paredes eram recobertas de um material de fórmula
desconhecida, que evitou as infiltrações, através dos séculos.
“Como tôdas as cidades antigas do Peru, Lacta-Pato tem
uma necrópole e locais destinados aos holocaustos. Os túmulos
encontrados medem 70 centímetros por 1,05 e têm forma de
meia lua - Nas escavações preliminares, não foram encontradas
amostras valiosas de cerâmica ou tecidos.
“Na opinião dos arqueólogos, trata-se do conjunto mais
formidável de arte e arquitetura conhecida até agora na
região de Cuzco”.
Afonso Várzea, em “O Estado Socialista do Pacífico”, no
qual, entre muitas coisas, descreve a “civilização do milho”,
FÁBIO LUZ FILHO 19
cita a Ana Barwell e a Brehm. A primeira frisou que a civiliza-
ção incásica se antecipou, séculos atrás, aos sonhos dos moder-
nos reformadores. Havia o sentido socializante nessa grande
civilização, na qual a indolência, a pobreza e os crimes graves
eram desconhecidos, onde cada um vivia para o bem geral e
tudo era paz e felicidade...
Brehm diz que planícies e vales eram como pomares bem
cuidados. E um telegrama publicado pelo“Correio da Manhã”
em dezembro de 1954, acentua que o império incásico, em sua
época de apogeu, se estendeu até ao sul do Chile. E que os
incas guardavam culto religioso às grandes elevações andinas,
afirmou-o o dr. Richard Schaedel, conhecido arqueólogo nor-
te-amerlcano e catedrático de Arqueologia em Universidades
dos Estados Unidos e do Chile.
“Schaedel concedeu uma interessante entrevista à im-
prensa sôbre a múmia de um jovem índio inca, que havia sido
descoberta no cume de El Plomo, um pico quase inacessível
que se ergue perto de Santiago.
“Como resultado de seu exame, não só estabeleceu a
cabal autenticidade do cadáver, conservado em estado de
saponificação pelo gêlo, pertencente a um menino de alta
linhagem social do antigo império incaico, senão que extraiu
dêsse estudo valiosas conclusões científicas daquele povo.
“Segundo Schaedel, o descobrimento evidencia que os
incas rendiam culto e adoração às cumiadas andinas, às quais
ascendiam para realizar cerimônias funerárias, ritos e sacrifí-
cios de invocação ao sol.
“Acrescentou o cientista que o achado é uma prova a
mais de que a dominação dos incas, que chegou até o rio
Maule, teve um de seus centros povoados no que é hoje a
capital chilena, em um raio de vários quilômetros de extensão,
pois junto à múmia se encontraram oferendas evidentemente
procedentes de Cuzco, como seja uma figurinha
antropomórfica de prata e uma lâmina de ouro.
“Acredita Schaedel que não há lugar nos Andes aonde
não houvessem chegado os incas, porquanto até no
Yuhuarcaco, a 6.400 metros de altura, foram encontrados
vestígios de sua presença, assim como nas montanhas do Chile
e Argentina, que estavam dentro da jurisdição dos incas.
“Disse, finalmente, que no momento a múmia está sendo
objeto de exames médicos, para estabelecer, mediante o estudo
dos órgãos internos, o que nunca foi possível com outras
20 COOPERATIVAS ESCOLARES
múmias, a espécie de alimentação dos antigos peruanos, ante-
riores à conquista espanhola, e certas irregularidades de suas
impressões digitais”.
Os trabalhadores dos “ayllus”, continuamos, após as fai-
nas agrícolas, aproveitados todos segundo suas aptidões físicas
e psíquicas, eram destinados a trabalhos de utilidade pública.
Numerosos “ayllus” ainda perduram no Peru, apesar da
obra criminosa doa conquistadores espanhóis, que, na desco-
medida ambição do ouro, reduziram uma população vigorosa,
pacífica, operosa, organizada, rica e culta de 12 milhões de
habitantes a um milhão e 300 mil habitantes insulados e po
bres. Um crime de lesa-humanidade que ficou impune e brada
aos céus!
Faz-nos isso lembrar os conceitos ferinos de Anatole
France ao se referir à obra devastadora dos brancos quando
em contacto com as raças vermelha e negra...
“Mana Pache” entre os Incas era “terra produtiva”. No
“ayllus”, a Terra significava “mãe”. À mesma ofereciam os
frutos produzidos nos “ejidos” e decoravam-nos com um
vocabulário opulento.
O “aine kesh ta”, atualmente “faena-pública” no Peru,
fazia-se sôbre uma base de cooperação, e tem certa semelhan-
ça com o “mutirão” de nosso caboclo, o que lembra o ajuri dos
tupis.
G. A. Comes viu em tudo isso uma “dictadura de los
Incas”, mui semelhante, diz êle, à da Rússia atual.
Reminiscências, acrescento eu, dessas organizações in-
cásicas ainda temos na Argentina, entre o nativo ou “criolo”
das comarcas “norteñas” dessa república vizinha. Os povos
que as habitam são originárias dos Diaguitas, cujos traços se
encontram nas províncias de Jujuí, Salta, Tucumán, Santiago
del Estero, La Rioja e Catamarca. Os Diaguitas possuíam o
Kullpi, habitação patriarcal na qual o índio era o chefe supre-
mo, repartindo, com os seus, o produto da terra. Não havia
propriedade privada, que pertencia ao ayllus, ou comunidade.
Era o ayllus governado por um conselho de velhos, tirado do
seio dos melhores agricultores e com critério bastante para
distribuir a terra em consonância com as necessidades de
cada família. Havia a mesma federação do ayllus em Kuris,
govêrno central. Cultivavam o milho, o algodão, etc. Não
conheciam a moeda. O produto do trabalho pertencia à
comunidade. Era o tipo da economia fechada, de
abastecimento.
FÁBIO LUZ FILHO 21
“A religião, que tinha os ritos e mitos de tôdas as
religiões do presente, servia, entanto, para realçar o
trabalhho agrícola, de que se fazia um verdadeiro culto,
e a tal ponto, que alguns templos se transformaram em
grandes exposições de produtos agrícolas”.
Entre os povos ameríndios, dí-lo Roy Nash citado
por Luiz Amaral em seu brilhante “Evolução do direito
social”, havia a propriedade pessoal sôbre as armas,
animais ou ornamentos e, às vêzes, sôbre as safras,
permanecendo a terra, porém, como propriedade
coletiva.
Como disse, a faena-púbilca lembra o mutirão de
nosso caboclo, a que já me referi em “Rumo à Terra”
(5.a edição), Costa Rego, com o brilho de sempre, assim
o descreveu no “Correio da Manhã” de 18-1-941:
“Mutirão — como dizem uns, e a mutirem, mutirum,
muxirão e muxiro n, como pretendem outros,
interpretando a derivação tupi da palavra — é o auxílio
coletivo que muitos pequenos agricultores prestam,
reunidos, a outro pequeno agricultor no tempo das
plantações e colheitas.
“Essa pobre gente, sabe-se, lavra ela própria a
terra; não tem auxiliares, nem empregados, nem
recursos para contratá-los. O homem ganha de
madrugada o campo e a mulher dedica-se aos arranjos
domésticos, se também não é chamada, inclusive com os
filhos, a colaborar no trabalho da foice ou da enxada,
na semeadura, na limpeza da vegetação danosa, no
combate às formigas e lagartas, no afugentamento dos
roedo-res, na defesa contra as aves vorazes.
“Tal espécie de agricultura familiar é muito comum
nos pontos interiores do Brasil, onde o trabalhador
proprietário, e não o proprietário trabalhador, cultiva a terra.
Lavoura de poucos para poucos, vem ela
santificada pelo sacrifício; serve à subsistência do
lavrador, com sua família, e deixa ainda sobras
abençoadas para algum negócio nas feiras, quando o
homem da foice e da enxada se transmuda em
almocreve percorrendo caminhos difíceis em busca dos
centros de consumo.
“Acontece que em certas épocas a plantação ou a
colheita exige esfôrço pronto, sob pena de perder-se nas
intempéries. Não podendo realizá-lo, o pequeno
agricultor convoca os amigos da redondeza, os quais,
sendo pessoas da mesma condição, que fazem hoje o
favor para amanhã recebê-lo, presto acodem e trazem
ao amigo o adjutório dum dia de trabalho inteiramente
gratuito. Salva-se dêsse modo a plantação ou a colheita.
22 COOPERATIVAS ESCOLARES
“Recebendo na propriedade os colegas, o pequeno agri-
cultor beneficiário trata-os à maneira de convidados que fôs-
sem a uma festa, e aquêle dia torna-se realmente festivo e de
bródio.
“É isto o mutirão, Para melhor compreendê-lo seria ne-
cessário talvez que o descrevesse um Coelho Neto ou Afonso
Arinos - e não direi que êstes não tenham aproveitado o
assunto em sua extensa obra de motivos sertanistas”.
E Clóvis Caldeira, em “Mutirão”, oferece-nos excelentes
páginas.
CAPÍTULO II
O COOPERATIVISMO - SUAS ORIGENS, SEUS PRE-
CURSORES, SUA DOUTRINA, SUA PRÁTICA
Fiz sentir em “Teoria e prática das sociedades cooperati-
vas”, que o cooperativismo mergulha raízes na noite dos tem-
pos. Em tôdas as épocas da vida da humanidade se
encontram formas de economias coletivas que se aproximam
mais ou me-nos da forma cooperativa. Sinais dêle tivemos no
regime da comunidade da família, na exploração do manoir
medieval, nas comunas, nas corporações, nas guildas, nas
hansas. Expressões cooperativas encontram-se ainda no
império dos faraós e no império babilônico.
Juan Gascón Hernández, ilustre professor da
Universidade de Madri, ao enviar-me, recentemente, o
trabalho de seu ilustre pai, Antonio Gascón Miranón, que
publicou vários livros sôbre cooperativismo, dentre êles “La
cooperaclón y ias cooperativas”, ofertou-me gentilmente
erudito trabalho seu — “Que es una cooperativa?”. Neste
trabalho diz Juan Gascón que Santamaria de Paredes
acentua que na raiz sânscrita de socie-dade entra o conceito
do que é próximo e do amor, e acrescenta que Gierke se
referia mais às cooperativas do que às simples associações
quando falava das Genossenschaften.
Na Grécia de beleza imperecível, vemos êsse sentimento
de mútuo auxílio agrupar a todos aquêles que, prêsas das
agruras da vida, premidos pelas contingências da luta pela
manutencão material da vida, aspiravam a um melhor
padrão de vida, a uma parcela de bem-estar, a um lugar
justo e condigno ao sol.
Na Grécia antiga, quase tôdas as pessoas das classes mé-
dia e baixa faziam parte de associações, que apresentavam
traços cooperativos. Das associações denominadas orglonas e
tiasas, que se formavam para garantir aos seus membros enter-
ros e sepulturas decentes, nasceram as associações de fins pro-
fissionais e econômicos. Nelas figuravam cidadãos livres, es-
cravos e até estrangeiros. A parte executiva da administração
cabia a um indivíduo denominado “arquinarista”. Constituí
24 COOPERATIVAS ESCOLARES
ram o núcleo em tôrno do qual se formaram as comunidades
cristãs.
Os “colégios” romanos eram associações de operários de um
cunho cooperativo, na Roma antiga, atribuindo-se a
NUMA POMPILIO a fundação de oito dessas organizações entre
sapateiros carpinteiros serralheiros etc. Nos “colégios’
ingressavam os estrangeiros, os escravos alforriados e até os
não-alforriados, numa bela manifestação de ajuda mútua, de
solidariedade humana, que não estabelece distinções nem tem
preconceitos de qualquer espécie -
Diz Bórea que o exemplo mais remoto conhecido de
associações mútuas cooperativas é encontrado na Palestina.
O tratado BAVA CAMA, parte do Talmud bibilônico, é a
descrição da vida do povo hebreu entre os anos 356 a 425 da
nossa era. Por êle se verifica a existência de associações de
mutualidade entre as caravanas de mercadores para o seguro de
gado asinino.
Mladenatz diz que, no domínio da vida agrícola, a coopera-
ção é uma forma que existiu e preponderou desde os tempos
primitivos. Assim aconteceu entre os alemães (donde Otto
Gierke dizer que a cooperação é pré-alemã) e os romanos
(pastagens comunais, irrigação, etc.). Desde os primeiros tempos
da Idade média existiram agrupamentos de camponeses para a
transformação do leite (Alpes suíços, italianos e franceses e
mesmo na Inglaterra). Na França temos as fruitières (de que
trato em “Sociedades Cooperativas”); na Rússia, o artel, etc.
Na Ásia, nos tempos antigos, como frisei em “Rumo à
Terra” (5.ª edição), existiam as associações para irrigação de
terrenos cultivados; na Alemanha, as “Deichgenossenschaf-
tem” eram destinadas à feitura de barragens; na França, as
“communautés” eram constituídas de 29 a 100 chefes de
famílias que agricultavam sob a direção de um chefe eleito. No
México primitivo, associações firmadas no principio da soli-
dariedade surgiram.
“Mas, antes de tudo, todos os economistas alemães acen-
tuaram sempre, de pontos de vista práticos, que justamente a
Selbshülfe (“ajuda de si mesmo”) se liga de modo mais fre-
qüente ao senso comum e ao sentimento da eqüidade. Os pri-
meiros que expuseram essa idéia mais
exatamente foram Schutz e Knies” (F. Nicolai — “A Biologia da
Guerra”).
Assim, como vêdes, as manifestações do auxilio mútuo são
a expressão de uma lei geral, imperativa e eterna. Suas práti-
FÁBIO LUZ FILHO 25
cas aí estão patentes, não só entre sêres humanos, possuidores
de uma razão reflexiva, como entre animais e vegetais, como
vimos, entre um reino e outro.
Entre os vegetais apresenta o auxilio-mútuo um
profundo interêsse. O simbiotismo é uma de suas mais altas
expressões. E sabeis o papel de grande relêvo que preenchem
as legumino-sas na fecundidade das terras pelo azôto
atmosférica que fixam pelo mecanismo de suas nodosidades
radicais, onde se localizam bactérias (simbiose bacteriana). A
simbiose miceliana é a das micorizas, que residem nas
raízes das árvores florestais.
Para qualquer lado que o biologista moderno encaminhe
as suas vistas de cientista que tem na experimentação uma
arma de precisão, não pode êle deixar de reconhecer a
existência dêsse desparzido espírito de solidariedade.
“Na natureza existem muitos exemplos de cooperação,
diz um escritor, e com dificuldade haverá um bilólogo que
negue, na atualidade, a enorme importância que desempenha
a simbiose na evolução dos vários modos de viver”.
Segundo Merechkowsky, os gránulos dos núcleos das
células seriam bactérias simbióticas e o próprio núcleo nada
mais seria que uma colônia de bactérias.
“Pourtant, au point de vue chimique qui est la base
même de la vie, l’Homme ne peut se suffire à lui-même: i1
périrait infailliblement s’il n’était Inséré dans une vaste et
unversel1e symbiose” (Friedel).
Sábios como Hertwig, Kraepelin, Deegener, Kammer, etc.,
demonstraram à saciedade que o principio do auxílio mútuo
está muito mais difundido na natureza do que se imagina.
Boelsche diz que o mundo das plantas e dos animais é
um tecido de simbioses e que os homens dependem de
simbioses entre animais e plantas.
Simbiose é uma associação de organismos em que há
reciprocidade de benefícios. (Ver a “Teoria e prática de
sociedades cooperativas” e “Rumo à Terra”)
O PENSAMENTO DE CARLOS GIDE
Carlos Gide, em se referindo ao auxilio mútuo, acentuou,
com aquela lucidez de inteligência e clareza de raciocínio que
sempre o caracterizaram, que embora entre os romanos se
falasse às vêzes da luta dos sexos, evidentemente esta diferen-
26 COOPERATIVAS ESCOLARES
ça criou mais uma tendêncIa para a aproximação do que para a
luta! Se é verdade que a luta pela vida pode ser
erigida em lei biológica que se impõe a todos os sêres vivos,
há também um outro princípio que pode ser considerado
como uma lei biológica: é a ajuda mútua, a solidariedade.
E, referindo-se ao príncipe Kropotkine, diz que o mesmo
fêz um belo livro intitulado Mutual Aid, traduzido em
francês com o título de L’Entr’aide (Ajuda Mútua), no qual
demonstra, por numerosos exemplos tomados na zoologia,
que esta ajuda que se prestam os sêres vivos uns aos outros,
mesmo no reino vegetal, foi uma causa de progresso
decisiva e mesmo superior ao struggle for life, que é a luta
pela vida. Acrescenta que não nos devemos apressar em
concluir, do fato da separação das classes, pela necessidade
da luta de classes, mòrmente não se tratando, de forma
alguma, duma lei biológica que remonte às origens da vida
sôbre a terra, mas que representa uma evolução econômica,
que data de alguns séculos apenas, e ao acordar de uma
“consciência de classe”, que data de ontem.
“Entretanto, ainda aqui, não queremos negar, mesmo
na Escola de Nimes, que não haja um antagonismo de
interêsses, uma luta, se desejardes, sob a forma mui geral
de hostilidade entre ricos e pobres, e há três séculos, depois
da criação do salariado, sob a forma mais precisa da
disputa entre operários e patrões. Mas esta hostilidade não
se tem acentuado; é ela menos desumana que outrora.
Aristóteles, com efeito, conta que, na cidade de Milet, os
ricos prestavam o seguinte juramento: “Juro que sempre
serei inimigo do povo e lhe farei todo o mal que possa”.
Para Gide a luta toma a forma, por assim dizer, de
duelo entre o operário e o patrão, entre o arrendatário e o
proprietário, entre o credor e o devedor, entre o vendedor e
o comprador. Poderia ser expressa por essa fórmula
eloqüente de Fourier. “A hierarquia social está construída
sôbre uma escala dupla: escala ascendente de ódios, escala
descendente de desprêzo”.
E a luta entre o produtor e o consumidor, continua Gide,
esquecê-la-emos, quando, na hora atual, se tornou ela tão aguda
em virtude da depreciação da moeda e da alta dos préços? Ora,
precisamente aqui tocamos na verdadeira razão pela qual a
Escola cooperativa não pode entrar na luta de classes, A luta de
classes, tal como a definem os marxistas e os sócialistas,é a luta
entre patrão e operário, já o disse, entre o capital
FÁBIO LUZ FILHO 27
e o trabalho. Ora, não é sôbre êste plano que se coloca o
cooperativismo de consumo; não é a esta luta que êle
corresponde. Êle olha a exploração do consumidor pelo
produtor, seja o comerciante, seja o fabricante. E o
consumidor que êle quer libertar. E se se quiser falar em luta,
a luta que o preocupa é a luta do consumidor contra o
produtor.
E como ao cooperativismo poderia associar-se a idéia de
luta de classe, se a palavra consumidor exclui tôdas as
características de classe, tôdas as diferenciações de idade,
sexo, profissão e fortuna?
O desenvolvimento do cooperativismo no mundo atesta
as excelências dêsses princípios de ação coletiva. Erigindo leis
econômicas que levam à organização da produção e distribui-
ção das riquezas sôbre bases eqüitativas e racionais, o
cooperativismo conduz a um conceito mais elevado da vida, o
que é condição de uma nova ordem de coisas em que as
relações sociais (econômicas, políticas, jurídicas, morais), de
individuo para indivíduo, de grupo para grupo e de nação
para nação, repousarão sôbre princípios de entendimento
mútuo, afastado de seu âmbito o espírito de lucro e o
egoísmo sem freio, e colimada apenas a satisfação de
necessidades humanas, tendo sempre em vista as exigências
do consumo.
A ação solidária nas organizações cooperativas de
produtores e consumidores para a defesa de interêsses vitais,
institui novos moldes para a produção, a distribuição, a
circulação e o consumo das riquezas, assumidas funções de
distribuição den- tro de novos métodos, organizada a
indústrIa ao influxo do mesmo espírito e dignificadas as
relações financeiras, erguidas sôbre a mesma base de ajuda
mútua, humanidade e justiça.
Os povos cultos do mundo moderno de há muito que se
organizaram cooperativamente, afirmando, assim, a
existência de uma mentalidade aberta à exata compreensão
das grandes virtudes da união, que é fôrça.
Libertando o produtor da entrosagem comercial que lhe
absorve o melhor lucro que deveria auferir, concorre o coopera-
tivismo para o aumento da produção, e a disciplina do consu-
mo, pelos princípios de organização técnica que estabelece, e
promove o aperfeiçoamento dos produtos, padronizando-os e
assegurando-lhes mercados compensadores. Exerce, ademais, o
cooperativismo, o contrôle dêsses mercados, impossível ao
produtor insulado. Assume um papel semelhante ao dos
agoránomos, na velha Atenas... Liga o produtor diretamente ao
consumidor. Os lucros que distribui são simples restituições
28 COOPERATIVAS ESCOLARES
do que foi cobrado a mais para as necessárias despesas da co-
operativa. Chamam-se, com propriedade, sobras. Têm o cará-
ter de um retôrno, de reembôlso de uma economia feita. A co-
operativa não distribui seus benefícios ao capital invertido na
emprêsa, mas, sim, proporcionalmente ao esfôrço de cada co-
perador em benefício da instituição que lhe presta os serviços
de que necessita, valorizando-lhe a produção e barateando-lhe- o
consumo. Facilita, racionaliza e amplia, o cooperativismo, as
condições de produção e trabalho e as possibilidades de
consumo. Dá ao consumidor a sua verdadeira posição na es fera
do consumo, alvo último de tôda a atividade econômica. Um
ilustre escritor, já o dissemos, para dar uma idéia do poder da
união, ilustrou suas palavras com um exemplo sugestivo.
Qualquer pessoa conseguirá despedaçar, fàcilmente, um fio
tênue de juta, insulado êste na sua fragilidade. Se multi-
licarmos, porém, êsse fio de juta algumas vêzes, será menos
fácil dilacerá-lo, até que será totalmente impossível fazê-lo
quando os fios, multiplicados multas vêzes, constituírem
umacorda grossa e forte. A fôrça da união fêz, de fios insulados
e tênues, uma corda potente contra a qual nada poderão mus-
culos possantes que se atrevam a forçá-la. A união faz a fôrça.
A fôrça pacífica e serena, inteligente e raciocinada, decidida e
enérgica é origem de respeito e torna mais fácil a defesa de
interêsses morais e materiais comuns. Há, ainda, o clásico
apólogo do feixe de varas.
Sendo o cooperativismo uma democracia econômica, tem
a fôrça de um admirável aparelho de defesa e conquista de
direitos legítimos, impondo deveres, disciplinado, racionali-
zando atividades úteis. E êle, pois, um meio eficiente de me-
lhoramento das condições econômicas e sociais de produtores
e consumidores livremente associados. “Les organes de trans-
mission, diz Charles Gide, doivent être réduits au minimum,
car, par le frotternent, ils absorbent inutilement, la force vive.
C’est un principe de mécanique; c’est également un principe
d’économie politique”.
A resenha do desenvolvimento do cooperativismo no mun-
do é disso um atestado concludente e empolgante.
__________
Nota — Os dois primeiros capítulos, constantes da presente edição,
agora ampliados são reprodução da conferência que realizei, em l0 de
setembro de l932, no “Circulo de Pais e Professores da Escola Professor
Visitação”, no DistrIto Federal.
FÁBIO LUZ FILHO 29
Disse Manuel F. López, ilustre ex-gerente da grande coope-
rativa argentina “El Hogar Obrero”, frisando a diferença entre a
sociedade cooperativa e a capitalística:
“O truste maneja valores de troca; a cooperativa, valores
de uso.
“A cooperativa educa ao fazer do consumidor seu próprio
produtor e elimina o antagonismo que existe entre o vendedor e
o comprador.
“Moraliza, uma vez que não pode enganar.
“Torna altruistas os seus componentes, pois que terão in-
terêsse em aumentar o número dos cooperadores para que
gozem dos mesmos benefícios.
“Emancipa, ao fomentar a economia, devolvendo os lucros,
ou o excedente do preço cobrado, e ao exigir de cada
cooperador sua parte para a contribuição social, tornando-o dono
dos produtos que lhe são necessários.
“Capacita, ao dar intervenção no manejo da Sociedade
aos cooperadores e ao selecionar para a direção os melhores.
“Democratiza, ao dar a todos os associados iguais direitos
e deveres, e ao fazer compreender que o interêsse da cooperati-
va é o mesmo que o dos consumidores e com êle se confunde,
contràriamente às sociedades ou entidades comerciais, cujos
interêsses são opostos aos dos consumidores.
“Estabelece a igualdade, ao dar um só voto ao associado e
não em proporção ao seu capital.
“Defende a saúde, ao zelar a qualidade e pureza dos
produtos.
“Defende o consumidor contra a especulação, a fraude, os
preços, a sugestão dos vendedores, etc.
“Defende o produtor, contra os baixos preços que a
concorrência estabelece, contra o açambarcador, etc.
“Faz da organização uma função social e econômica ao
zelar os interêsses de todos e de cada um dos produtores e con-
sumidores, ao suprimir todos os intermediários e atravessado-
res que o comércio utiliza com o seu sistema de corretores, co-
missários, representantes, órgãos de reclamo, etc., e ao regula-
rizar a produção com relação ao consumo, evitando as crises
periódicas por excesso ou escassez de produção, evitando as
rivalidades comerciais, origem de tantas guerras, unificando e
centralizando a administração, simplificando as compras,
uniformizando tipos e qualidades, etc., etc.
30 COOPERATIVAS ESCOLARES
“Finalmente, controla as industrias, impedindo o desen-
volvimento das que, dedicadas a produtos do vicio e da
fraude, malbaratam energias humanas e propagam o
alcoolismo e outras misérias sociais”.
Há obrigações, mas há, também, direitos. Vivante concede
a cada associado o caráter de órgãos extraordinários prepostos a
preencher as deficiências que existirem nos órgãos adminis-
trativos e de fiscalização.
Diz Leiserson, o brilhante causídico argentino, que a
“relación juridico-cooperatista excluye el animus speculandi, el
lucrum, y de conseguiente no es comercial...............sostene-
mos que la cooperativa es una sociedad“sui-generis”...
Leiserson exaustivamente tratou dêsse assunto com uma
formidável erudição, mostrando que é ainda êsse assunto con-
trovertido no domínio jurídico, citando a opinião de
escritores, entre os quais Rodino, que diz que as cooperativas
não são nem civis nem comerciais, opinião perfeitamente
consentânea com a natureza dessas instituições de bem
público, as quais trarão uma época de justiça social e
liberdade econômica, estabelecendo normas sãs de ética nas
relações sociais, fazendo com que o intercâmbio das riquezas
seja presidido por princípios de solidariedade em vez de ser
regido pelo egoísmo grosseiro. Em “Teoria prática das
sociedades cooperativas” desenvolvo êsse tema.
O ideal dos Rochdalianos já apresenta ao mundo os
lineamentos de uma economia nova. E admirável sistema
social-
-econômico que estabelece novas formas de produção e distri-
buição sôbre uma base de solidariedade social, moral e eco-
nômica.
O princípio vital do cooperativismo é o esfôrço que se
recompensa... Dai a distribuição dos benefícios na proporção
do esfôrço, do trabalho. Daí o retôrno.
Nas cooperativas de adultos, isto é, nas cooperativas
econômicas, Marcel Brot julga necessário o retôrno:
1.º — Porque marca, de maneira tangível, a diferença
en- tre a cooperativa, que restitui o que cobrou a mais, e a
emprêsa comercial, que destina os lucros ao capital.
2.º — Porque, se o suprimirmos, o cooperador é
colocado na mesma condição do cliente passageiro, e seria,
então, Impossível justificar, honestamente, o apêlo, que se
lhe faz, de fornecer capital.
FÁBIO LUZ FILHO 31
3.º - Porque o retôrno é o meio de restabelecer o justo
preço.
4.° — Porque leva o cooperador a uma fidelidade que
torna vãos e inoperantes os artifícios usados pelo comércio
para combater a cooperativa: batalha de preços, publicidade
e algumas calúnias.
E isso se verifica nas próprias cooperativas de venda e
trabalho do tipo integral, da escola de Prampolini, na Itália,
Bel- gica e Argentina.
Assim sendo, não é concebível a “revenda” na doutrina
cooperativista. “Revenda” dá impressão de mercantilismo.
Dai não se aplicar a uma cooperativa a designação de
mercantil.
A cooperativa é um simples órgão de distribuição das ri-
quezas. Não vende, distribui. Vender tem, nela, a acepção de
distribuir. A idéia central é que a riqueza não se deve
produzir para a troca e, sim, para a satisfação de
necessidades.
Já disse Ernest Poisson que distribuição e venda são atos
fundamentalmente diferentes.
Diz Ghino Valenti que no cooperativismo não há venda e,
sim, distribuição da riqueza produzida para estabelecimento
do equilíbrio distributivo.
As cooperativas de consumo compram para distribuir.
Na Inglaterra chamam-lhes “sociedades distributivas”.
As de compras em comum não procedem de maneira di-
versa.
Não há, nas cooperativas, renda, que é o ganho líquido do
capital; há apenas, economias. Os benefícios impròpriamente
denominados lucros são simples adiantamentos para fins de
despesas gerais, etc., restituíveis pelos retornos anuais. O
associado é reembolsado do que adiantou.
A cooperativa opera por conta do associado. Não se arma
em casa comercial. É um simples agente de distribuição, não
visando ao lucro, que deseja, pelo contrário, abolir. Presta ela
apenas serviços.
Leiserson pergunta, com razão, se os Governos visam ao
lucro quando estabelecem taxas para os serviços públicos que
prestam. Vivante refere-se muito bem a essa questão.
Suas vantagens ético-civis podem assim resumir-se: sujei-
cão de uns e outros por vínculos de interêsse material, os quais
fortalecem os do dever, os do direito e os da fraternidade,
afirmando-se, no dizer de Toniolo, um meio de consistência
social.
Diz Justo, o grande cooperativista argentino já falecido, que
as cooperativas se formam “para prover a seus associados
32 COOPERATIVAS ESCOLARES
de artigos de consumo ou de uso,ou para serví-los em trabalhos
técnicos concretos. Para êstes fins necessitam e têm instala-
ções para depositar, classificar, elaborar, conservar e distribuir
produtos (armazéns, elevadores, frigorificos, fábricas, etc.).
Estas instalações técnicas substituem e tiram tôda razão de ser às
pequenas instalações de produção individuais. A grande usina
cooperativa de panificação paralisa a maior parte dos fornos
disseminados pela cidade. A leitaria cooperativa deixa sem
emprego muitas desnatadeiras instaladas nos campos e livra os
novos criadores da necessidade de adquirir, cada um, uma dessas
máquinas”.
“A cooperação econômica genuína propriamente dita im-
plica, sempre, descentralização. Desde o campo de
cultura até à distribuição para o consumo, em todos e em
alguns momen-tos do largo processo, os esforços e emprêsas
individuals são substituidos pela emprêsa cooperativa,
manifestação e, ao mesmo tempo, fator de progresso
técnico-econômico”.
“Formadas, principalmente, por trabalhadores assalariados
ou por produtores autônomos que tomam conta
de suas emprêsas e reunem suas fôrças em certos momentos
da produção, as cooperativas nascem para lutar contra as
formas técnico-econômicas rotineiras, e, às vézes, contra a
centralização monopolizadora dos trusts”.
“Nas verdadeiras cooperativas todos os associados
operam com a sociedade nos mesmos sentidos, levam seus
produtos, tomam dela suas provisões”.
“Estas diferenças se sintetizam no traço fundamental
que distingue a cooperação do capitalismo: êste colima o
lucro, o dinheiro, o valor de troca, A cooperação busca a
coisa, o serviço técnico, o valor de uso”.
“Na associação econômica sem fins de lucro que se
propõe agrupar a produtores e consumidores para a comum
satisfação de suas necessidades, reside a única possibilidade
de organizar a economia internacional, de orientar a
produção e facilitar o consumo da riqueza, de maneira que
esta não constitua um motivo de inquietação, senão de
regozijo para os homens”.
Leôncio Correia, o brilhante prosador e o inspirado vate
paranaense cuja frescura de inspiração, como a de Fáblo Luz,
os anos não toldaram, ao comentar, com imensa bondade, o
presente livro — “Cooperativas escolares”, — disse com justeza,
lapidarmente, que a fórmula de cooperação recíproca, formando
as “pequenas repúblicas” na esfera da ação de cada
FÁBIO LUZ FILHO 33
classe, é tão salutar e humana, que deveria ter já sido instituí-
da por forma universal de administração pública, porque o
regime cooperativista, eliminando o intermediário parasita,
harmoniza admiràvelmente as conveniências recíprocas da
produção e do consumo, numa ajuda mútua entre seus
associados, reconhecendo que todo produtor é ao mesmo
tempo consumidor.
“Da troca de interêsses entre um e outro, surge o bem-es-
tar coletivo, a melhoria das condições econômicas com que
as cooperativas permitem ao homem ampliar as suas
possibilidades produtoras e criadoras, incentivadas pelas
facilidades de financiamento e barateza de custo das
utilidades, que elas proporcionam, facilitando, assim, o
desdobramento da riqueza e o surto de todos os progressos, a
que a inteligência e as atividades humanas fazem jus, mas
as imperfeitas organizações sociais cerceiam,
“Inventem-se quantos partidos políticos as ideologias
sectaristas queiram inventar, sejam comunistas, socialistas,
integralistas ou sejam quaisquer outras que se firmem nos
princípios obsoletos das velhas democracias mascaradas por
qualquer forma, nenhum dêles se fará um Sansão capaz de
derrotar as colunas mestras do cooperativismo, que, em sua
simplicidade prática, gira em t8rno da energia econômica por
uma forma coletiva construtora, enquanto os partidos se
atêm a interêsses de facções.
“Em sua latitude ampla, a fórmula cooperativa pode ser
aplicada a qualquer esfera de atividade humana, porque en-
carna o ideal da criatura que trabalha e luta”.
Francisco Frola, com a autoridade de sua cultura e expe-
riência, disse muito bem: “A cooperação não é tão sòmente a
fórmula de uma economia nova, e sim, também, a base de uma
nova civilização”. E as bases dessa nova civilização,
estadeiamnas já as cooperativas disseminadas aos milhares
pelo mundo.
“Uno de los fines más necesarios a cumplirse por los
cooperadores, decia William King, es la creación de escuelas
para sus hijos, con el propósito de prepararlos para las
comunidades (cooperativas) en una edad temprana. La
cooperación da a la educación un caráter nuevo...
“Esta educación, que se propone despertar y arraigar los
más nobles sentimientos humanos, ha sido uno de los fines
perseguidos pos los precursores de la cooperación y por el
movimiento pre-cooperativo”. (Leiserson).
3 - 27 454
34 COOPERATIVAS ESCOLARES
O “Código de Educação” elaborado em abril de 1933
para São Paulo dizia, em seu artigo 238, referindo-Se ao
ensino primário:
“O ensino terá come base essencial a observação
e a experiência pessoal do aluno, e dará a êste largas
oportunidades para o trabalho em comum, a ativida-
de manual, os jogos educativos e as excursões
escolares”.
É o que fazem as cooperativas escolares, perfeitamente
integradas na orientação de Sanderson, o grande educador
inglês do Colégio de Oundle, que foi um dos precursores da
escola nova. Dizia Sanderson que em Oundle todos estavam
certos de que as escolas deviam tornar-se, cada vez mais,
microcosmos representativos do mundo novo. Microscosmos
experimentais onde fôssem postos à prova os critérios, os
imperativos, a lei e o julgamento, as organizações, as idéias
e os fins de um novo mundo.
“Porque em Oundle é nosso fim agir. . . É preciso, para
nascer verdadeiramente para a vida, um incessante labor
espiritual, um fim elevado, um ardente desejo de conhecer as
coi- sas novas que aparecem no horizonte de nosso mundo”...
Os valores morais na humanização da moderna
técnica...
E, num país que tem suas fôrças vivas estruturadas na
agricultura, mentalidades práticas e produtivas evitarão “los
efectos centrifugos de la existencia campesina”, no dizer de
Wygodzinski.
Já frisamos que Locke acentuou que a felicidade e a
desgraça do homem são, em grande parte, sua própria obra...
Reconhece que alguns homens têm uma constituição corporal
e espiritual tão vigorosa e tão bem modelada pela natureza,
que mal necessitam do auxilio dos demais... Mas, os exemplos
dêsse gênero são mui poucos, e pensa que se pode afirmar
que todos os homens com que tropeçamos, nove décimas
partes, são bons ou maus, úteis ou inúteis, pela educação que
receberam. “Esta é a causa da grande diferença entre os
homens. As me-nores e mais insensíveis impressões que
recebemos em nossa infância, têm conseqüências mui
importantes e duradouras”. E Richter frisou que um homem que
dê a volta ao mundo sofre menos a influência das
nações que visitou do que a de sua ama de leite... Dai o
valor da educação.
FÁBIO LUZ FILHO 35
DEFINIÇAO DE PRINCÍPIOS
Recentemente o Conselho Superior do Cooperativismo do
Canadá estabeleceu a distinção entre cooperação em seu senti-
do lato e cooperativismo em seu sentido estrito.
Tomando em seu sentido amplo a palavra — cooperação —
significa colaboração, ou ato pelo qual várias pessoas unem
seus esforços e seus recursos no sentido da mesma finalidade,
disse êle. Entanto, quando esta palavra se emprega no mo-
vimento cooperativo, encerra uma acepção mais exata e bem
particular. Significa, então, uma forma democrática de cola-
boração que colima diretamente fins econômicos e indireta-
mente fins sociais.
As quatro palavras maiúsculas expressando os caracteres
essenciais do cooperativismo exigem algumas explicações:
a) Colaboração, embora essencial, êste traço não lhe é es-
pecífico. Encontra-se igualmente no sistema capitalista.
b) Democrático — segundo o costume, no sentir da ra-
zão, que se dá a tudo o que se chama democrático, quer signi-
ficar aqui que a colaboração se realiza pelo povo e para o
povo, mas acentuando a expressão pelo povo, porque temos
visto o caráter que especifica o cooperativismo e o diferencia
das outras formas de organização econômica.
— O contrôle democrático, como lhe chamam os coopera-
dores, em palavras breves, pertence a todos. Na colaboração
capitalista, ao contrário, o contrôle é reservado a uma oligar-
quia ou a um pequeno grupo de acionistas.
Por outro lado, a expressão — para o povo — deve, como
tôda fórmula de ação econômica, servir ao povo.
c) Objetivando diretamente fins econômicos: o coopera-
tivismo é pròpriamente e, antes de tudo, negócio econômico.
Seu fim imediato é a propriedade do povo.
d) Objetivando indiretamente fins sociais: com efeito,
só pelo fato de trabalhar pela prosperidade do povo em sua
parte econômica, constitui uma contribuição social de maior
importância.
“O cooperativismo, ademais, faz nascer hábitos de com-
preensão, de ajuda mútua, de ação concertada, proporcionan-
do, assim, um remédio dos mais eficazes contra as enfermida-
des sociais chamadas: individualismo, descontentamento,
egoísmo, etc. Enfim, os verdadeiros cooperadores, sabendo per-
feitamente que a ordem econômica está simplesmente unida à
ordem social, não podem deixar de sentir obrigação de tra-
36 COOPERATIVAS ESCOLARES
balhar pela ordem social, com obras de educação, de ajuda
mútua, etc.
“Em suma, no Cooperativismo é ao povo que se pede que
colabore para assegurar, por si mesmo, sua independência
econômica e social, ou se propõe um meio de organizar esta
cooperação: a emprêsa cooperativa, fórmula institucional
que necessita apenas de que se concretizem em obras os
princípios fundamentais expostos acima com tôda a clareza”.
Concluindo esta definição de princípios o Conselho define
o que seja cooperativa e suas normas doutrinárias fun-
damentais:
1.º — Uma associação livre não imposta por leis ou de-
cretos ou por nenhuma forma de violência, como acontece
nos regimes totalitários.
2.º — Uma emprêsa — isto é, cada cooperador se con-
verte em co-proprietário da emprêsa e é neste titulo que se
fundam seus direitos como seus deveres de dirigir e controlar
a emprêsa.
PRINCÍPIOS ROCHDALIANOS
1.º — Um homem, um voto.
2.º — Liberdade de entrada e saída, o que não quer dizer
que se admitam pessoas nocivas aos interêsses da
cooperativa.
3.º Neutralidade religiosa, política e étnica.
4.º — Educação dos cooperadores.
Tornar os associados capazes de dirigir e controlar
eficientemente a emprêsa, como para propagar o ideal
cooperativo e
recrutar membros conscientes da missão das cooperativas.
5.º — Distribuição a cada associado dos excedentes ou
sobras anuais — à prorrata das operações realizadas.
6.º — Limitaçao das taxas de juros sôbre o capital, pois a
cooperativa deve servir aos homens e não aos capitais.
MÉTODOS
a) — Venda ao preço corrente.
a) — Compra e venda a dinheiro à vista.
e) — Não admitir voto por procuração.
d) — Fundos para obras sociais.
“É o cooperativismo, assim, um sistema baseado na idéia
de cooperação e edificação com instituições cooperativas que
FÁBIO LUZ FILHO 37
organizam a produção, a distribuição e o consumo segundo a
fórmula cooperativa.
Confirmam-se, assim, os conceitos de Fauquet:
“Trabalhemos para que o Cooperativismo cresça; mas
velemos por que não se altere.
“Fato social, fato humano, seu futuro não está fatalmen-
te determinado: o que o determinará é a fé dos cooperadores.
“Vós outros mesmos, jovens!”
Nascido o cooperativismo, como já foi acentuado, de impe-
rativos históricos: o desequilíbrio entre o processo da produ-
ção e as exigências do consumo, constitui êle, precisamente por
isso, um dos capítulos mais vastos e empolgantes da economia
social moderna, cujos postulados cimentam uma nova con-
cepção da criação e distribuição das riquezas, feitas para a
satisfação de necessidades e não para o lucro, princípio ético-
social de alcance enorme: a riqueza consumida pelo seu justo
preço; o lucro pertencendo ao que legitimamente o criou: o
esfôrço criador como base fecunda da recompensa; o elemento
pessoal como fator de dinamismo; o capital servindo ao
trabalho; a humanização dos meios de produzir.
O PRINCÍPIO DA NEUTRALIDADE
Luzzatti sempre considerou o princípio da neutralidade
política e religiosa como uma das bases graníticas do
cooperativismo.
Em 1914, Luzzatti, várias vêzes ministro, filósofo, sociólo-
go, alto financista, parlamentar brilhante, homem simples e
boníssimo, disse ao se referir à propaganda que iniciara em
1864 em Milão, que então fixara alguns princípios, certos mé-
todos para a propaganda cooperativa. Um princípio era fun-
damental, acentuou: a neutralidade religiosa e política do
cooperativismo. Êste, para êle, devia oferecer-se a por
completo a todos os homens de boa vontade, aos tristes no
silêncio e aos fortes na dor, que quisessem elevar-se pela
solidariedade das previsões individuais, multiplicados pela
fôrça da associação. “Qualquer que fôsse seu credo religioso e
seu programa políti- co, qualquer que fôsse seu Deus ou sua
filosofia, seu símbolo, monárquico ou republicano, a
neutralidade a todos reunia e abraçava no ideal puro
comum”. A condição essencial para entrar na associação era
a busca do bem individual na unidade coletiva, o egoísmo
temperado com o altruísmo.
38 COOPERATIVAS ESCOLARES
Ao Congresso de Bolonha de 1878 compareceram dois
grandes fundadores do cooperativismo inglês: Holyoake e
Wansittart-Neale, sendo Holyoake (amigo de Mazzini) racio-
nalista e republicano, e Wansittart-Neale, conservador e rígido
anglicano o que não os impediu de trabalhar juntos no sentido
de “aumentar o grandioso edifício do mutualismo inglês, à
cuja sombra se amparam falanges inúmeras do proletariado
inglês”.
E. W P Watkins recentemente disse
“De plus, les règles régissant l’adhésion, libre et volontaire,
ainsi que la neutralité politique et religieuse, montrent l’adhé-
sion des Pionniers au principe de liberté, qu’ils ne restreig-
naient que dans la mesure ou il était nécessaire pour réaliser
l’objectif économique de leur société”.
Donde segundo êle ser aconselhável definir o Cooperati-
vismo como um sistema de organização social e econômica
baseado no respeito de certos princípios, dentre os quais se
devem pôr em relêvo êstes: a Unidade, a Economia, a Demo-
cracia e a Liberdade.
“Toutes les formes coopératives pures et véritables,
acceptent et appliquent universellement ces principes, selon,
bien entendu, des degrés variables de perfection et succès et
compte tenue des circunstances et des qualités (compréhen-
sion, courage, fidelité), des coopérateurs eux-mêmes”.
A Sociedade das Nações já acentuou que há uma espécie
de afinidade natural entre as necessidades que fazem nascer a
ação cooperativa e a necessidade da educação, ambas, aliás,
associadas à crença no progresso e no progresso pelo esfôrço.
Não sòmente a decisão de criar uma organização coopera-
tiva ou de à mesma aderir supõem conhecimentos e um certo
nível de qualidades intelectuais e morais; direta ou indireta-
mente, a ação cooperativa contribui de maneira eficaz para a
educação econômica, para o desenvolvimento de qualidades
pessoais. Nesse sentido disse eminente cooperador inglês, que é
também um educador:
Diz se com razão que o cooperativismo é um movimen-
to econômico que serve à educação Entretanto, esta afirma-
ção não deixa de ser verdadeira se a invertemos: o cooperati-
vismo é um movimento educativo que se serve da ação eco-
nômica .
É o Dr. Laszlo Valko ilustre professor e chefe do Departa-
mento de Economia Agrícola do State College de Washington..
Os trechos que reproduzo abaixo, pertencem a um de seus mais
40 COOPERATIVAS ESCOLARES
trário, em numerosos países europeus, nos quais ainda
sobrevive o ideal sistema parlamentar, pode-se observar que
os deputados de partidos politicos diferentes, simpatizantes
do cooperativismo, não se encontram sòmente para discutir
problemas do movimento cooperativo; mas, apesar de seus
pontos de vista políticos divergentes, fazem declarações
comuns sôbre quêstões cooperativas e, quando é o caso, se
apóiam mùtuamente nos debates parlamentares para a
defesa das idéias cooperativas.
“Se esta colaboração é possível na vida política e na
atividade parlamentar dos diversos países, deve ela permitir
ainda mais aos simples cooperadores poderem viver juntos
em paz sôbre uma base comum. Esta “neutralidade”
política não envolve uniformidade negativa dos indivíduos.
A verdadeira neutralidade política não é a indiferença pelos
negócios públicos, e é ocioso dizer que todo cooperador tem
suas próprias idéias políticas conforme, em grandes linhas,
as idéias cooperativas... Nesses casos os cooperadores são
também elementos ativos da vida política, mas suas
atividades não interferem nas sociedades cooperativas, e
estas não se tornam nunca simples instrumentos de fins
políticos”.
Já em livro fazemos sentir que Domingos Bórea
acentuou que o cooperativismo deve ser livre, neutral, isto é,
não-vinculado a credo político ou religioso algum. A lógica
assim o impõe e a exclusão das questões políticas e religiosas
de todos os atos de uma sociedade cooperativa representa o
desiderato a que devem aspirar os cooperativistas puros e
o grau mais perfeito de que é suscetível o cooperativismo.
“O cooperativismo “genuíno” é o que se não confunde
com idéias políticas e com paixões e só afirma e consagra
princípios simples, aceitos por todos os homens honestos
pertencentes a qualquer nacionalidade, partido político e
religiaso, e adota estritamente o “princípio de Howarth”.
A lei Argentina n.° 11 .388 estabelece, que as
cooperativas “não poderão ter por fim principal nem
acessório a propaganda de idéias políticas, religiosas, de
nacionalidades ou regiões determinadas, nem impõe como
condição de admissão a vinculação dos associados a
organizações religiosas, partidos políticos ou agrupações de
nacionalidades ou regionais”.
“Para a política estão os comitês; para a religião os tem-
plos e para a cooperação as cooperativas”.
FÁBIO LUZ FILHO 41
Não devem existir cooperativas burguesas, socialistas,
etc., pois, a cooperação não tem programa “máximo” nem
programa “mínimo”, mas um só: o programa “cooperativo”.
“Que se adote êsse principio fundamentalíssimo se se
quiser o desenvolvimento intenso e livre da cooperação. O
ideal cooperativo se opõe em absoluto a que em suas insti-
tuições cooperativas e de mutualidade intervenham a
política, a religião, a nacionalidade dos sócios. Nelas os sócios
se unem para fins exclusivamente econômicos e instrutivos.
Que tem que ver com isto o credo religioso, politico ou a
nacionalidade? Como explicar que em uma cooperativa se
exija dos sócios que pertençam a um partido conservador,
radical, socialista, ou a uma religião católica, judaica,
protestante, maometana, ou a uma nacionalidade, argentina,
hespanhola, italiana, russa?... Por que colimar um fim
político, religioso ou nacionalista por meio das
cooperativas? Não sabemos nós acaso que as rivalidades de
nacionalidades, de religião e de política mantêm divididos e
em contínuas lutas não só às nações senão também a todos os
habitantes de uma mesma nação?
“O supremo ideal da cooperação e da mutualidade é
unir os homens para fins econômicos e instrutivos tendentes
a beneficiar a produção e o consumo, a moralizar o comércio,
o crédito e os seguros, a fomentar a previdência, isto é, a
economia e o seguro”.
“Fàcilmente contestaremos que a neutralidade é de
importância prática fundamental, pois permite alcançar o
ideal supremo da cooperação, isto é, o intercâmbio
internacional de produtos entre as cooperativas; fazer dos
produtores e consumidores uma só e grande família, o que se
não alcançará se tivermos cooperativas socialistas,
burguesas, sindicalistas, católicas, judaicas, etc., uma vez que
o ódio existe intenso entre as diversas coletividades políticas
e religiosas.
“As grande vitórias da cooperação inglesa, disse Hans
Muller, realizaram-se sôbre o princípio básico da neutralidade
cooperativa”.
Carlos Howarth, Juan Bent, Santiago Smithies e outros,
afirmamos em “Teoria e prática das sociedades cooperativas”
e em “Crédito Agrícola e problema agrário”, reuniram em
Rochdale todos os tecelões de tendências políticas e religiosas
diferentes. Nasceu, pois, a. cooperação com um absoluto ca-
ráter de neutralidade em questões políticas, religiosas e de
nacionalidade.
42 COOPERATIVAS ESCOLARES
Rivas Moreno na Espanha diz que nas sociedades coope-
rativas não se pergunta, aos que nela ingressam, em que reli-
gião comungam nem em que partido militam.
A lei argentina 11.388 é taxativa: “No puederán tener por
fin principal ni accessorio la propaganda de ideas políticas,
religiosas, de nacionalidades o regiones determinadas, ne
imponer como condición de admisión la vinculaclón de los
socios con organizaciones religiosas, partidos políticos o
agrupaciones de nacionalidades o regionales.
Já dissemos que São Francisco de Assis (tão diferente dos
Jesuítas Brâmanes, que aos párias ofertavam a hóstia na ponta
de uma bengala para evitar-lhes o contacto profano e humilde, e
tão diferente daqueles estigmatizados pelo próprio Pio II..,), S.
Francisco de Assis que, com Joachim de Floro, era tolerado
quase com asco pelos seus contemporâneos cardinalicios, S.
Francisco de Assis era natural de Umbria, filho de mercador, e
diz a lenda que veio à luz em uma estrebaria, circunstância que
ainda mais o aproxima de Cristo, seu excelso paradigma.
Prezando como virtude cardeal a pobreza, surgiu em uma
época em que a dissolução de costumes atingiria um grau de
inconcebível intensidade. Possuindo um entranhado amor das
coisas da natureza, pregava a volta ao seu seio úbere e
purificador, e fazia da alegria de viver uma necessidade
orgânica. “Gaudentes in domino”...
Emile Gebhart, em “Italie Mystique”, diz, reportando-se a
S. Francisco de Assis:
“Não pregava o ascetismo desesperado dos monges e
eremitas, não ameaçava os homens com uma crise de
consciência; viram nêle, desde os primeiros atos de sua
vocação, um meridional, um italiano, um poeta, amigo do
movimento e da luz, não conhecendo a tristeza, nunca
inquietado por pensamentos amargos”.
E Fabio Lua, comentando o trabalho de Gustavo
Macedo sôbre S. Francisco de Assis, diz: “A volta à
natureza, que despontava em Gioachinj, iluminado pelos
raios solares, no momento em que doutrinava, e saindo
para contemplar o campo, acompanhado dos fiéis entoando
canticos, se acentua em S. Francisco, com suas prédicas
ao ar livre, em pleno campo, assistido pelas andorinhas
chilreantes, que obedeciam à sua intimativa e se
conservavam silenciosas durante o resto da prédica, como
as cobras se deixam hipnotizar pelos fluidos despedidos dos
olhos magnetizadores dos lamas e dos faquirs”.
FÁBIO LUZ FILHO 43
S. Francisco de Assis, combatendo o faquirismo
dominante na época pela reclusão e espirito contemplativo
dos monges, acossados pelas lutas armadas de então,
proclamava que o Senhor preferia as obras de caridade à
observancia exterior de preceitos religiosos. Ao fausto e à
dissolução opunha a pobreza e a caridade aforada em
virtude teologal, a volta à vida simples, ao contacto da
natureza munífica. Modelava as almas no sentido do
Cristianismo primitivo, religião dos humildes...
“Deus quer a misericórdia e não o sacrifício”...
E Leão XIII, em sua encíclica Praeclara gratulationes,
dizia: “Vera conjunctio inter christianos est, quam autor
Ecclesiae Jesus Christus instituit voluitque, in fidei et regimi-
nis unitate consistens”. Essa unidade de fé e de regime, fé nas
virtudes morais e sociais de cada um e regime de igualdade,
eis o grande escopo a colimar nas cooperativas.
Assim sendo, é inadmissível que continuem a surgir no
Brasil cooperativas que insistem em se fecharem em discrimi-
nações confessionais em seus estatutos e em suas denomina-
ções, ou estadeiam nomes de santos, etc. Ora são católicas,
ora evangélicas, e ùltlmamente espíritas, só faltando que
apareçam as judaicas, muçulmanas, etc., numa melancólica e
contraproducente atomização.
Tudo isso temos combatido em livros e em artigos, e há
a respeito lúcida jurisprudência firmada pelo ex-consultor
do Ministério da Agricultura, Dr. Luciano Pereira, aliás
apoiando tese que levantamos face à legislação específica e
o de-jure-constituendo. Tudo Isso subverte o clássico
princípio doutrinário neutral. Em “Teoria e prática das
sociedades cooperativas” temos a respeito longo capitulo, e
agora aduzi-mos novos argumentos em “Crédito agrícola e
problema agrário”
Ora, permitindo-se nomes de santos, etc., ou restrições
estatutárias, ter-se-á de permitir tôda e qualquer pertinência
a vultos, próceres ou princípios de quaisquer outras religiões,
credos políticos, privanças raciais ou de nacionalidade. A
própria alegação, verdadeira, de que a imensa maioria do
povo brasileiro é católica, não deve colhêr, de vez que seria,
constitucional e doutrinàriamente, condenável essa atitude.
A imensa maioria de um dos povos mais avançados em
matéria cooperatlva, o inglês, é protestante, e não admite dis-
criminações religiosas nem mesmo nos títulos de suas coopera-
tivas. Entrará um católico para uma cooperativa que estadeie
44 COOPERATIVAS ESCOLARES
em sua denominação a flâmula luterana ou calvinista, para
uma cooperativa espírita e vice-versa?...
O próprio espiritismo não pertence mais, hoje, segundo
seus adeptos e doutrinadores, ao campo da demonologia me-
dieval, integrante da fenomenologia da magia negra ou puro
fenomenismo de hipnomagnetologia, epifenomenalismo, fôrça
ódica, etc., na terminologia específica. Allan Kardec (Hipólito
Rivail) deu-lhe foros de religião; é êle considerado pelos seus
epígonos e adeptos como um corpo de doutrinas já
estratificadas. Sua teoria neo-espiritualista se resume no cânon
de que o plano de existência cósmica se situa em três etapas: a
material, a astral e a psíquica. E considerado uma reminiscência
das velhas práticas religiosas da Humanidade.
Ilustre comentador afirma até que o espiritismo é a
nova revelação do Sinai, é a primeira etapa dum sistema
teogônico que se desdobrou através do cristianismo,
findando na Integralização do espiritismo. “A essência das
afirmações de Allan Kardec, por mais que custe a espíritos
modernos, reduz-se, basilarmente, a esta conseqüência
concreta: O espiritismo é o sucedâneo do Cristianismo,
como êste o foi do judaísmo”.
Outros assinalam que Hipólito Rivail (Allan Kardec)
teorizou uma nova religião. Esta religião Kardequista,
segundo êles, repousa no Cristianismo, firma raízes nas
religiões iniciáticas e no ritualismo das filosofias antigas.
O espiritismo hoje, segundo a abundante teorização do
seu pontífice máximo e a de seus modernos exegetas,
unívocos, apresenta visos de uma religião revelada. E
considerado, por êles, no plano espiritualista, como um
ramo do Cristianismo, bojante de noções existentes nas
velhas filosofias.
Assim, pois, como admitir também cooperativas
espíritas? E um dos pioneiros e precursores brasileiros,
Teixeira Duarte, disse muito bem que a política e a
religião não devem entrar como pensamento inspirador na
formação e funcionamento de nenhuma cooperativa. “A
cooperação, mesmo em si, num sentido amplo e filosófico,
é uma religião, mas isenta de sectarismos dispersivos,
porque uma religião pelo dever, pelo amor, pelo trabalho
comum e para todos”. Luzzatti mais de uma vez afirmou
que o cooperativismo não deve nem pode ser o monopólio
de nenhuma escola, de nenhuma seita, de nenhum partido
político; mas, como a luz fecundante do sol,
Na sua esplendecência, deve banhar a cabeça de todos os
mortais.
FÁBIO LUZ FILHO 45
AINDA OS PRINCÍPIOS ROCHDALIANOS
Foi iniciado o movimento cooperativo, en suas
caracterís-ticas vitais, em 1844, por 28 pobres tecelões
inglêses de Rochdale (os Probos Pioneiros de Rochdale), no
Lancashire, com a sua modesta cooperativa de consumo, sem
outra preocupação que não fôsse a obtenção de um melhor
padrão de vida, premidos pelas contingências de uma vida de
asperezas e sacrifícios. E já destinavam 2,5% das sobras
anuais a fins de educação. Essa modesta cooperativa foi a
célula-mater das atuais organizações que arrancaram a Mac
Donald expressões de admiração, considerando-as as únicas
capazes de soerguer moral, social e econômicamente o
mundo.
Contam-se por milhões, hoje, as famílias que se abrigam
sob a bandeira de emancipação que o cooperativismo
desfralda sôbre o mundo em irisados panejamentos de
fraternidade e paz, lançando os fundamentos de uma
economia nova, afasta- do o espírito de lucro sem peias e
colimada a satisfação das necessidades humanas, procurando
organizar a produção para o consumo.
Repetto acentuou que os cooperadores de Rochdale não
eram doutores, nem advogados, nem médicos, nem engenhei-
ros, nem sequer procuradores, profissões que nos tempos que
correm adquiriram uma importância bastante sensível; eram
operários tecelões que, impulsionados pela necessidade, tive-
ram que estudar o problema de como se podia conseguir,
com a mesma quantidade de dinheiro, que recebiam como
salários, uma maior quantidade de coisas, isto é, como
poderiam aumentar o poder aquisitivo de seus salários. E
êsses modestos tecelões, frisa êle, que não sabiam economia
política, que não tinham estudado, como nós outros, ciências
sociais, mas que tinham, em contraposição, um sentido
profundo da realidade, e que experimentavam, sobretudo,
a imperiosa necessidade de viver um pouco melhor com o
mesmo salários, chegaram a esta conclusão: “que, para
realizar êsse desejo, tinham que renunciar ao velho sistema
de comprar cada um isoladamente e fundar uma sociedade
que, agrupando o poder aquisitivo de cada um dêles, lhes
permitisse realizar as compras em conjunto, beneficiando-
se dêsse modo com as bonificações correntes nos preços de
venda em grosso”.
E Holyoake cita palavras de James Smithies, um dos
gloriosos de Rochdale:
46 COOPERATIVAS ESCOLARES
“L’amélioration du sort de nos membres est visible dans
leur continence, dans leur liberté de parole. Vous vous imagi-
neriez difficilement combien les change leur affilation à une
société coopérative”.
A cooperativa de consumo nasceu, pois, na Inglaterra.
Sumariando o que dizemos em Teoria e prática das socie-
dades cooperativas acentuamos que a cooperativa de consumo
dá ao consumidor, têrmo dialético, na proporção de suas
compras, princípio cooperativo fundamental, os benefícios ou
proventos que o intermediário iria receber, excedentes ou sobras
estas distribuídas no fim do exercício social. Visa ao justo
preço. Ganha o consumidor na qualidade, na sanidade, no peso
exato, nos fundos sociais, sendo os excedentes do preço do custo
devolvidos no fim do ano, constituindo os retornos. Há quem
pense seja preferível, em vez de repartir êsse excesso de
percepção no fim do ano, que se venda a mercadoria a preço
baixo. Mas, há nisso inconvenientes, entre êles o do associado
não ser levado à economia. Além disso, os inconvenientes da
venda a preço baixo seriam grandes. A prática cooperativa
demonstra que, com isso, se travaria luta com o comércio, o
que se deve evitar no interêsse da consolidação do
movimento. Podem-se também calcular mal as despesas
gerais indispensáveis, fixar preços de venda abaixo dos de
custo; existe ainda o risco de ficar a sociedade sem fundos
disponíveis, não permitindo compras em condições
vantajosas, etc. O critério é o justo preço.
A cooperativa de consumo é, em primeiro lugar, um
órgão regulador de preços de um mercado. Assim, quando
se estabelece uma cooperativa em qualquer região ou
bairro, põe ela fim a todo lucro exagerado, a todos os abusos
dos intermediários, que se vêem obrigados a minorar o
preço.
O justo preço é representado pelas despesas gerais, etc.,
acrescidos ao preço de custo, numa medida razoável e justa,
dentro do qual sempre podem as cooperativas ter um
benefício normal e legítimo. A cooperativa, assim, não só
oferece vantagens a seus associados exclusivamente, mas a
todos os habitantes da localidade onde exerce a sua
influência, saneando os preços.
Das cooperativas de consumo devem tomar parte tôdas
as classes sem discriminações, pois são organizações abertas,
são economias coletivas públicas.
Assim, já se disse, as duas instituições, — a da liberdade e a da
associação — se integram na realidade da vida — sendo
FÁBIO LUZ FILHO 47
a associação o amparo da individualidade emancipada, dema-
siado vacilante no seu próprio insulamento.
As cooperativas de consumo, tendo tido por berço a
Inglaterra, estão naturalmente indicadas como o instrumento
coletivo melhor ajustado aos interêsses das classes médias e
pobres, para todos aquêles que vivem de salários, pequenos
ordenados, poucas rendas e têm família ou prole de que
cuidar; aquêles cuja vida terra-a-terra não pode consentir
orçamentos folgados e cujo equilíbrio deve ser buscado
justamente no justo preço que a cooperativa de consumo
pode fornecer, oferecendo-lhe, ademais, artigos sãos e de pêso
exato, e conduzindo a obras sociais.
A atual legislação brasileira sôbre cooperativas define
perfeitamente essas organizações de bem público.
* * *
Já temos acentuado que a cooperativa leva produtores e
consumidores a uma situação de solidariedade moral e econô-
mica de benéficos resultados. O cooperativismo, reunindo sob
sua bandeira, no mundo, a milhões de sêres, faz que se exerça,
de uma maneira completa e eficiente, como já foi acentuado,
a ação social e econômica das classes que produzem e conso-
mem, assegurando-lhes a interferência, consciente e racional,
na produção e repartição das riquezas.
As cooperativas solidarizam interêsses individuais no
interêsse da coletividade; ligam diretamente produtores e
consumidores, fechando o ciclo do processo econômico. Nelas,
o lucro que deveria ir para o intermediário, é restituído a
êsses produtores e consumidores livremente associados. O
cooperativismo constitui um sistema econômico que
estabelece novos moldes para a produção, o consumo, o
crédito, o intercâmbio, modificando o atual regime do
comércio intermediário ou especulativo e dando ao produtor
o seu verdadeiro lugar no fenômeno da produção econômica,
e aos consumidores a sua verdadeira posição na esfera do
consumo, têrmo último do mecanismo econômico. Dá ao
produtor uma maior capacidade de produção e um maior
poder de venda. Não é necessário apenas saber produzir; é
necessário e urgente saber vender, empregar novas diretrizes na
comercialização da riqueza produzida em moldes solidários.
Os chamados “lucros” das cooperativas são excedentes
ou sobras, de vez que elas assumem a feição de mandatárias; res-
tituem ao associado o que cobraram a mais para as suas des-
48 COOPERATIVAS ESCOLARES
pesas imprescindíveis. Não há nelas o animus lucri, que cons-
titui a essência da comercialidade. As cooperativas são so-
ciedades sui-generis, estabelecendo uma relação jurídica
ob personam. Não visam ao lucro, e, sim, à satisfação de
necessidades, de vez que o fim econômico da sociedade
humana é a satisfação dessas necessidades. Antepõe a
economia do serviço à economia do lucro, dinamizando
valores humanos. Como sociedade de pessoas e não de
capitais têm um sentido democrático: um homem, um voto.
O seu princípio-chave é êste: as sobras anuais são repre-
sentadas pela que sobrou das taxas cobradas para as
despesas de administração ou pela diferença entre o preço
do custo e o da venda nas de consumo, computados, claro,
nisto, os elementos essenciais ao funcionamento normal de
uma emprêsa econômica.
As sobras, depois de pagos os juros, quando existirem, e
tiradas as percentagens para os fundos sociais indivisíveis, é
que são restituídas aos associados na proporção do
consumo, dos juros pagos, da produção entregue ou do
trabalho fornecido, conforme a forma de cooperativa
adotada. É o retôrno. Foi Carlos Howarth, ovenista, pobre
operário de uma fábrica de algodão, o inspirador dêsse
princípio-chave, que Gide classificou de “golpe de gênio”: a
norma do retôrno, a distribuição das sobras do exercício
social na proporção das operações realizadas pelo associado
que não do capital. Nelas vale o esfôrço, que se recompensa.
Em Teoria e prática das sociedades cooperativas acentua-
mos que o cooperativismo é uma fôrça de conquista, uma
forma superior de evolução econômica e social. Nêle
consumidores e produtores terão o instrumento específico
do govêrno econômico, organizando, planificando a
economia a economia, porquanto o velho postulado de
acôrdo espontâneo dos egoísmos não tem mais, nesta época
de idéias coletivas, razão de ser.
Acentuamos também que o cooperativismo cria uma
nova situação em que os consumidores e os produtores são
colocados à frente dos seus próprios destinos, à testa da
administração das coisas. Estabelece êle o justo equilíbrio
entre o processo econômico e o processo social, regulando a
produção na conformidade das necessidades previstas,
evitando, tanto quanto possível, os desníveis clássicos entre a
produção descontrolada e o consumo desorganizado,
disciplinando a ambos. E êste objetivo será melhor
alcançado quando as cooperativas, num movimento de
integração vertical, formarem seus órgãos de segundo grau:
as federações.
FÁBIO LUZ FILHO 49
Colimando o valor de uso, a satisfação de necessidades, o
“justo preço”, que é a abolição do lucro, tira, pois, o
cooperativismo ao principio da concorrência aquele
irrevocável valor que lhe emprestavam os economistas
clássicos. Sempre viram êles, nessa “concorrência de
rendimento ou funcional”, a mola vital do livre câmbio, a
segurança da expansão Indefinida da vida econômica.
Sombart adverte contra as supostas virtudes dessa “livre
rivalidade”, tal a fôrça imanente do capitalismo moderno, no
seu poder econômico proteiforme, tão afastado daquele
espírito da economia pré-capitalista, e do da economia do
próprio capitalismo nascente, que ouvia, contrito, a adver-
tência evangélica de Malperger: não desvies em teu beneficio
a clientela do outro e não faças a outros o que não queres
que te façam...
Bernhard Jaeggi difiniu muito bem a substancial diferen-
ça que existe entre uma Cooperativa e uma emprêsa capi-
talista.
Diz êle que as cooperativas não são emprêsas capitalistas.
Entre uma organização cooperativa e uma emprêsa privada,
especialmente uma sociedade por ações, há uma grande dife-
rença, porque:
1.º - Na cooperativa é a pessoa humana que está em
jôgo e que prepondera, enquanto na emprêsa capitalista é o
capital;
2.° - Quando uma cooperativa devolve aos associados as
sobras excedentes do exercício, ou quando emprega êstes últi-
mos em formar um capital, e quando combate a venda a crê-
dito, não se tem o direito de compará-la a uma sociedade que
realiza grandes lucros capitalizando-os ou distribuindo-os
como dividendos, os quais fazem subir o valor das ações,
criando, dessa maneira, renda sem trabalho;
3.º - As cooperativas não são emprêsas capitalistas, mas
emprêsas do povo, administradas pelo povo;
4.º - Se se tivesse tido cuidado, nos tempos passados, de
construir o mundo na base dos princípios cooperativos, a
situa- ção atual seria mui diferente;
5.º - Se as cooperativas não existissem, seria necessário
criá-las, a fim de que elas possam exercer seu papel de regula-
doras dos preços no interêsse dos consumidores.
Hoje, mais do que nunca, já o disse, os postulados
cooperativos devem ser como clarinadas de alerta num mundo
conturbado, pululante de germes de dissídios, gerados, na sua
grande parte, de profundos desajustamentos econômicos, cada
vez mais comprimentes da dignidade da pessoa humana, a qual
50 COOPERATIVAS ESCOLARES
a filosofia cooperativa coloca no primeiro plano de suas cogi-
tações.
Sendo, como bem o classificou Lavergne, um socialismo
econômico que não subverte as liberdades públicas e
privadas, seus 106 anos de experiências pelo mundo
reafirmam os conceitos de Fauquet, ao frisar que a coação
estatal tem limites, e que, precisamente quando ela falha, o
cooperativismo vence, trazendo consigo valores humanos,
valores morais...
São êstes valores que o cooperativismo simboliza, lábaro
de arco-íris sôbre um panorama de desenfreios e descomedi-
mentos, a que duas guerras voraginosas deram uma acuidade
lacerante.
Cultuar êsses valores na ordem econômica, eis a mira
alpina do cooperativismo mundial, na sua brônzea estrutura
doutrinária, no esplendor de seus inflexíveis princípios dire-
tivos, os quais saíram sublimados do turbilhão dessas duas
terríveis guerras e da compressão dos próprios regimes
políti-cos de fôrça.
Para magnificar a grandiloqüência de seus postulados é
que os cooperativistas se reunem anualmente em tertúlias
votivas.
Há tempos, como presidente do “Centro Nacional de
Estudos Cooperativos”, tive oportunidade de lançar, a todos
os que vêem no livre movimento cooperativo universal um
instrumento de renovação humana, veemente apêlo no
sentido de que, mais do que nunca, em face das negras
nuvens prenunciató- rias que, sombriamente, acogulam os
céus, fixem na retentiva, para maior coesão do movimento
cooperativo, as luminosas palavras de Rui Barbosa, ao
referir-se ao sentimento pátrio, palavras aplicáveis ao
sentimento cooperativo, naquela impertérrita mística da
liberdade que admiràvelmente o singularizou, dando-nos
as maravilhas de uma eloqüência multíssona e as jóias
ignescentes de um estilo rutilante ainda não supera- dos na
língua portuguêsa, e cortados dos acentos proféticos que só
os grandes iluminados possuem:
“É uma harmonia instintiva de vontade, uma
desajustada permuta de obrigações, um tecido vivente de
almas entrelaçadas”.
“Multiplicai a célula, e tendes o organismo. Multiplicai a
família, e tendes a pátria”.
“Dilatai a fraternidade cristã e chegareis das afeições
individuais às solidariedades coletivas, da família à nação, da
nação à humanidade”.
FÁBIO LUZ FILHO 51
Que a humanidade, entanguida de angústias, ouça as cla-
rinadas de esperança em uma nova ordem econômica funda-
mentada nas normas éticas que a doutrina rochdaliana encar-
na e dinamiza!
Antônio Sérgio, um dos mais brilhantes intelectuais portu-
guêses da atualidade, é, em Portugal, o mais estrênuo paladino
da idéia cooperativa, procurando difundí-la e realizá-la, não
obstante os conhecidos tropeços.
Todos conhecem a acuidade de sua pena humanista e a
combatividade de sua cultura multiforme, servidas de uma
linguagem tersa e de estilo cristalino, na boa tradição
literária lusa, ao serviço da causa democrática.
Para que se aquilate do valor da pregação doutrinária
de Antônio Sérgio, numa nova facêta dêsse ilustre professor
e conhecido escritor, reproduziremos trechos de um dos
capítulos de primeira série de seu recente livro “Cartas do
Terceiro Homem”, cujo título, como vemos, é bem
indicativo da sólida substância do livro em face dos atuais
problemas sócio-econômicos da humanidade, sendo um
breviário da democracia cooperativa.
Eis o trecho:
“Meu caro Amigo: O cooperativismo, para mim,
constitui elemento de um plano geral pedagógico de
educação autonomística do nosso povo. Como lhe disse em
outra carta, o padre Didon definiu a educação como sendo
a arte de emancipar os homens. Ora, a boa política, no meu
modo de ver, é também uma arte de emancipar os homens;
e estou na crença de que o grande político — como o
grande pedagogo — é aquêle que com a máxima
simplicidade e humildade trabalha constantemente por se
tornar dispensável; que é o que treina o povo para se
governar a si mesmo, com o mínimo de intervenção de
quaisquer políticos.
“As “pedras vivas” da população adulta, em
cooperativismo integral (de que os povos escandinavos se
têm aproxima- do não pouco, e também Israel) realizam a
sua própria governação econômica, associativamente, — e
também a sua própria educação moral, por isto que o
cooperativismo é o regime econômico em que o bem de
cada homem coincide enfim com o dos outros, em que
trabalhar para os demais é trabalhar para si mesmo,
abolidos por completo todos os antagonismos de interêsses,
tôdas as lutas de classes.
“Cada associado, na cooperativa de consumo, — é
comprador a si próprio e vendedor a si próprio; na cooperativa
de habitação,— o senhorio de si próprio é de si próprio inquilino;
52 COOPERATIVAS ESCOLARES
na cooperativa de crédito, — prestamista de si próprio e a si
próprio prestatário. O cooperativismo é o regime em que se
não engana viv’alma, em que ninguém tem interêsse em
burlar o próximo. É o que verdadeiramente corta o mal
pela raiz, ou que o impede de nascer.
“O cooperativismo de consumo, por êsse mesmo motivo,
dispensa por completo as fiscalizações pelo Estado, pelo
“país nominal”. Ali, ninguém lucraria com roubar no pêso; nin-
guém ganharia com falsificar os gêneros, com elevar os
preços. Ninguém, portanto, pratica êsses crimes, e não são
necessárias fiscalizações contra êles.
“Como ninguém, na cooperativa de consumo, recebe
lucros de fonte alguma resulta que a prática de qualquer
sorte de fraude é uma hipótese absurda em cooperativismo,
já que se faz fraude no sistema lucrativista ùnicamente
como causa de maiores lucros. Os excedentes que se cobram
na cooperativa de consumo, no momento em que o sócio lá
vai comprar, não são para os empregados ou
administradores da sociedade, se- não que regressam no fim
do ano ao próprio associado que os desembolsou. Nestas
condições, o dolo é impossível. Ora, o total desaparecimento
da possibilidade de embuste não favorece sòmente o
cooperador de consumo na sua qualidade de consumidor de
bens, senão que além disso lhe traz poupança enquanto
cidadão que paga impostos. Como assim? E que faz
desaparecer as fiscalizações, — tôda a vasta farragem, de le-
gislação, de regulamentação, de “país nominal”, em suma,
com que o Estado se propõe reprimir as fraudes e essa série
de delitos a que se chama “crimes anti-econômicos”.
“Ora, em todos os domínios em que o cooperativismo se
instala, deixa de existir, de maneira completa, a necessidade
de fiscalizar e de reprimir. E melhor do que castigar é evitar
o crime, ou torná-lo impossível.
“Na Suíça, no dia em que a União das Cooperativas de
Consumo conseguiu triunfar sôbre o truste das carnes, que
dominava o mercado naquele país, logo se tornou absoluta-
mente inútil, e foi abolida por quem de direito, tôda a estrutu-
ra policial e jurídica que tinha por objeto combater
as carnes.
“Pretende-se de fato suprimir tais crimes? Deseja-se aca-
bar com as especulações nocivas, com a prática do açambar-
camento para elevação dos preços, com a venda de gêneros
avariados ou falsos, com a fraude freqüentíssima que é a má
pesagem? Só há um remédio radical para tudo: o de auxiliar, no
maior grau possível, o desenvolvimento das cooperativas de
FÁBIO LUZ FILHO 53
consumo, pondo-as em ligação com os produtores das coisas e
fazendo-se elas produtoras também.
“Porém, a autonomia econômica das “pedras vivas” do povo
deveria ser preparada desde a instrução primária pela autonomia
cívica dos escolares na escola. A meu ver, nada mais retrógrado,
prejudicial e abafante do que o figurino para-militar para a
educação dos moços, como na Juventude Hitleriana. O modelo
da educação patriótica para os jovens não convirá buscá-lo nas
tradições guerreiras, na disciplina militar, na heteronomia da
tropa, mas na vida civil dos nossos concelhos antigos, dos
nossos municípios modernos, e na organização democrática das
cooperativas de hoje. A disciplina dos alunos na sua vida
escolar cumpriria confiá-la à sua iniciativa própria,
elegendo êles mesmos os seus juizes-alunos, os seus chefes
de equipe, os seus vigilantes e guardas, e mantendo êles
próprios a gerência efetiva da cooperativa escolar que os
abastecesse. Percebamos que a liberdade é que é o sol das
almas”,
O PENSAMENTO DE HANS MULLER
E O DE FAUQUET
E, tendo base moral, fica patente, segundo Hans Müller,
êsse vínculo entre o cooperativismo e a moral quando se
recorda que o cooperativismo nada mais é, em substância, que o
princípio da solidariedade encarnado, solidariedade que parte da
idéia de que todos os homens são irmãos e têm interesses
comuns. O cooperativismo é a imagem da grande verdade que
constitui a essência da doutrina moral do cristianismo, doutrina
que objetiva, em uma só grande família, abolir ou conciliar as
contradições dos interêsses de classe, de vocação e de povos,
deixando a cada indivíduo os seus direitos e impondo-lhe
deveres, cuja execução recíproca permitirá ao homem o livre
gôzo da vida na paz e no bem-estar.
“O cooperativismo é a paz”! — eis o famoso princípio
proclamado pela organização das cooperativas de consumo
alemãs.
“Todavia, não se deve confundir a liberdade com o arbí-
trio, com o domínio ilimitado dos interêsses egoístas. Esta
liberdade o cooperativismo não dá; ao contrário, ele disciplina
os seus membros, impondo-lhes deveres, limitando-lhes uma
linha determinada de conduta. São êsses obstáculos justamen-te,
essas limitações à vontade individual que conduzem à ver-
54 COOPERATIVAS ESCOLARES
dadeira liberdade, de vez que esta consiste precisamente em
cada um submeter-se de bom grado à lei comum, aos imperati-
vos do direito e da moral; conseqüentemente, não
há liberdade onde reinar o arbítrio, a cupidez e as paixões
da natureza humana”.
Para Hans Müller a liberdade não consiste em se fazer
tudo o que se quer, mas em saber o que se deve fazer e
estar-se pronto a obedecer a êste dever sem nenhuma
coerção externa.
E Fauquet pensa da mesma forma. Eis, em resumo, seu
pensamento social:
1.º - As instituições cooperativas, filhas da necessidade e
do espírito de associação das classes populares, podem re-
ceber, e têm efetivamente recebido, um impulso das
doutrinas que, nascidas ao seu lado e construídas sôbre
elas, entusiasmaram os cooperadores com a visão de uma
transformação social integra1 por meio da cooperação, o
homem considerado como “capital biológico com valor de
uso”.
2.º - Então, uma visão positiva da realidade impõe a
conclusão de que nem as cooperativas de consumo sòmente,
nem o conjunto das formas da cooperação, unidas
moralmente e econômicamente entre si, poderão dominar
tôda a economia.
3.º - Mas, o valor do setor cooperativo só depende, par-
cialmente, de sua importância econômica; depende êle
grande-mente dos elementos qualitativos que Introduz (ou
reintroduz) na civilização.
4.º - Não se tem memória histórica, e não se tem, nos
dias de hoje, notícia de um só exemplo de sociedade que
compreenda uma só das formas que os economistas
distinguem em abstrato.
Atualmente, em cada país do globo, inclusive a Rússia,
vemos economias mistas, e a economia internacional, de
que participa a própria Rússia, é, evidentemente, uma
economia mista.
5.º - Em tôdas as economias mistas que se podem
obser-var presentemente, ou das quais se pode ter uma
visão prospetiva, através da transformação da técnica, da
evolução econômica e dos desenfreios políticos, persistem as
pequenas unidades e atividades econômicas, deixadas à sua
vontade autônoma: as propriedades campesinas e as
emprêsas artesenais.
É sôbre a base destas pequenas unidades e atividades
econômicas, e para seu serviço, que se elevam as construções
cooperativas, o cooperativismo é por isso, uma construção de
baixo para cima, de caráter federalista.
FÁBIO LUZ FILHO 55
6.° — As unidades de base da construção cooperativa,
são unidades econômicas e, no sentido sociológico da
palavra, sociais. Têm um caráter pessoal ou familiar,
identificam-se com o homem; seu agrupamento é, no sentido
próprio da palavra, uma associação.
Disso resulta que, às relações que ligam
econômicamente as unidades de base às emprêsas
cooperativas, correspondem relações sociais e morais entre
os associados.
Ora, como a empresa cooperativa não absorve inteira-
mente as próprias unidades econômicas de base, mas põe à
sua disposição os meios coletivos para reforçarem a sua
independência, a associação cooperativa apela para os
esforços pessoais ao mesmo tempo que para a união dos
esforços, união que conjuga a individual e o social.
7.º — O fato cooperativo, pois, não é um fato puramente
econômico. Pelas fôrças morais que desenvolve, a associação
cooperativa pertence inteiramente aos sociólogos, e, sòmente
em abstrato e por algum de seus caracteres, aos economistas.
A economia mercantil e o capitalismo a pouco e pouco
separaram o econômico do social, dando, assim, origem às
áridas e duras realidades que serviram de modêlo às
abstrações dos economistas.
Inversamente, as instituições cooperativas reintegram o
econômico no social. É o esfôrço que lhes cabe na economia
mista dos dias de hoje. Que elas cresçam e tomem um pôsto
predominante na economia mista de amanhã; que elas cons-
tituam o coração dela, para, então, têrmos uma escala de
valores diversa daquela constituída pelo predomínio das
formas capitalistas.
Leva, pois, o cooperativismo a uma economia
planificada, de conteúdo social, afastada a legião dos
intermediários inúteis.
Já em “Teoria e prática das sociedades cooperativas”
fizemos sentir, desenvolvidamente, que o cooperativismo,
no seu largo conceito filosófico-econômico, visa ao amparo
da pessoa humana nos torvelinhos da atual ordem
econômica, oferecendo-lhe os instrumentos pacíficos para
enfrentá-los, superá-los e independentizar-se, sem perecer
sob o guante da exploração capitalista sem norte humano e
sem freio nos seus arroubos de lucro.
Nesse livro dizemos mais que, em cooperativismo, as so-
bras (que não implicam o ânimo de especular, exprimindo o
que é pago a menos ao produtor e impôsto a mais ao consumi-
dor pelo intermediário) são restituídas aos produtores e con-
FÁBIO LUZ FILHO 57
o regime econômico atual não passa de um regime transitório,
de uma fase do “industrialismo belicoso”, que não durará
muito tempo”. (GIDE).
Como órgão de ação social, a organização cooperativa
atende, pois, a tôdas as faces do problema social. Não resol-
verá ela sòmente, nos campos, o problema de maior
rendimento, o da comercialização, o de melhor distribuição,
o da conquista dos mercados; mas, também, o da
higienização, o da alfabetização, o da assistência hospitalar,
o da responsabilidade, e quejandos. Resolve e encaminha,
se não a todos, pelos menos o maior número possível dos
problemas da felicidade humana. Dela efluirá um elevado
bem-estar coletivo, uma outra ordem de coisas, mais
luminosa, mais alta, mais digna.
Erigindo leis econômicas que levam à organização da
produção e distribuição das riquezas sôbre bases
eqüitativas e racionais, já dissemos, o cooperativismo
conduz a um conceito mais elevado da vida, o que é
condição de uma nova ordem de coisas em que as relações
sociais (econômicas, políticas, jurídicas e morais) de
individuo para indivíduo, de grupo para grupo e de nação
para nação repousarão sôbre princípios de entendimento
mútuo, afastado de seu âmbito o espírito de lucro e o
egoísmo sem freio, e colimada apenas a satisfação de
necessidades humanas, tendo sempre em vista as exigências
do consumo.
A ação solidária nas organizações cooperativas de pro-
dutores e consumidores para a defesa de Interêsses vitais, ins-
titui novos moldes para a produção e circulação das riquezas,
assumidas funções de distribuição dentro de novos métodos,
organizada a indústria ao influxo do mesmo espírito e
dignificadas as relações financeiras, erguidas sôbre a mesma
base de ajuda-mútua, humanidade e justiça.
Os povos cultos do mundo moderno de há muito que se
organizam cooperativamente, afirmando, assim, a
existência de uma mentalidade aberta à exata compreensão
das grandes virtudes da união, que é fôrça.
Libertando o produtor da entrosagem comercial que lhe
absorve o melhor do lucro que deveria auferir, concorre o
cooperativismo para o aumento da produção, pelos princípios
de organização técnica que estabelece, e promove o aperfeiçoa-
mento dos produtos, padronizando-os e assegurando-lhes
mercados compensadores. Exerce, ademais, o cooperativismo o
contrôle dêsses mercados, impossível ao produtor insulado.
Assume um papel semelhante ao dos agoránomos na velha
Atenas... Liga o produtor diretamente ao consumidor. Os
58 COOPERATIVAS ESCOLARES
lucros que distribui são simples restituições do que foi cobrado
a mais para as necessárias despesas da cooperativa. Chamam-
se, com propriedade, “sobras”. Tem o caráter de um retôrno, de
reembôlso de uma economia feita. A cooperativa não distribui
seus benefícios ao capital investido na emprêsa, mas, sim,
proporcionalmente ao esfôrço de cada cooperador em beneficio
da instituição que lhes presta os serviços de que necessita,
valorizando-lhe a produção e barateando-lhe o consumo.
Facilita, racionaliza e amplia, o cooperativismo, as condições de
produção e trabalho e as possibilidades de consumo. Dá ao
consumidor a sua verdadeira posição na esfera do consumo,
alvo último de tôda a atividade econômica, da riqueza final.
Isto tudo, dizemo-lo em “Teoria e prática”.
Diz E. Poisson que as relações sociais são, certamente,
econômicas, mas, igualmente, jurídicas, políticas, morais e
éticas. Como tôdas as relações dos homens e das coisas, é
impossível imaginar-se que fiquem isoladas umas da outras, e
que as diferentes categorias de relações sociais não se penetrem,
influenciem, equilibrem ou subordinem. Grande êrro tem sido,
por exemplo, tomar em si o homem econômico ou a Sociedade
econômica e isolá-los das outras manifestações da atividade
material e mental da humanidade.
“Temos, por conseguinte, como base essencial da
cooperativa, a distribuição proporcional às compras
realizadas (para as de consumo) e ao interêsse do consumidor,
não sendo esta uma afirmação feita a priori nem um principio
enunciado, mas o resultado da experiência. A segunda regra de
existência do Cooperativismo é de ordem jurídica e nela se
determina a forma de atuação e o direito dos associados.
“O Cooperativismo é de essência democrática ou, mais
exatamente, de self-self administração (administrar-se a si
mesmo), como dizem os inglêses. Esta consiste na igualdade
de direitos dos associados para a sua atuação. E uma regra
de direito que se resume numa fórmula inglêsa,
singelamente expressiva: one man, one vote (um homem, um
voto).
E acentua que o cooperativismo é um modêlo de
administração própria, um exemplo de república, república
concebida como os bens de todos administrados por todos...
A soberania da assembléia para a direção de uma emprêsa,
constitui a fórmula de atuação de tôdas as organizações
coletivas.
Essa questão do regime de votação, é, pois, nas sociedades
cooperativas, um ponto pacífico.
E Georges Lasserre caracteriza a sociedade cooperativa de
consumo como uma verdadeira emprêsa repousando sôbre o
FÁBIO LUZ FILHO 59
interêsse pessoal de seus membros, os consumidores
associados, que são plenamente responsáveis pelos seus
reultados financeiros. Eles formam, a êste respeito, um corpo
homogêneo, e o diretor tem atrás de si não delegados de
interêsses opostos como nas emprêsas nacionalizadas de
gestão tripartida, mas uma equipe de administradores que
representa o ponto-de-vis- ta dos consumidores.
O cooperativismo socializa o lucro, devolvendo-o aos
consumidores sob a forma de retôrno. Deste modo faz mais
do que trocar a sua distribuição; ela modifica
profundamente a sua natureza. O lucro deixa de ser uma
renda, no senso econômico ou fiscal da palavra; o retôrno é
um simples reembôlso de um adiantamento, uma economia
sôbre o preço de compra. O capital não dá direito senão ao
juro.
Melhor que outra qualquer, a solução cooperativa assegu-
ra a predominância do interêsse geral. As cooperativas são
também pequenas repúblicas econômicas autônomas de
consumidores.
O COOPERATIVISMO E PODER
“O Cooperativismo é poder, já o disse um escritor
argenti-no. Poder construtivo cuja ação evolutiva cria,
dentro das relações normativas do Estado, uma ordem
democrática de fôrça defensiva.
“Sua livre função criadora está condicionada ao clima
libérrimo que outorga a liberdade integral, graças à qual o
indivíduo, como ente jurídico-social, há-de conservar o
domínio absoluto de sua personalidade psico-biológica.
“A associação volitiva de livre acesso e adesão voluntária
que configura, entre outros princípios diretivos, a origem do
cooperativismo, resume, implicitamente, a autodeterminação
pessoal-jurídica da massa humana e, por isto, a essência po-
lítico-social do Estado. Mas, quando por aberrações de con-
cepção, o poder estatal legisla sôbre a personalidade
individual do ente societário e sôbre a massa “dirigida”,
exerce mero papel mecânico dentro da entrosagem estatal,
o cooperativis- mo livre asfixia-se, como tôda a concepção
espiritual do artista quando é acorrentada a expressão
criadora da liberdade.
“Na ação fecunda do cooperativismo livre, o bem e a jus-
tiça que emanam de seu profundo conteúdo social, são poder.
Sumo poder defensivo. Poder dinâmico e coletivo, cujo exercí-
cio e apostolado favorece, estimula, e envolve a superacão mo-
ral e intelectual da sociedade humana. No plano econômico,
60 COOPERATIVAS ESCOLARES
filosófico e moral, nenhum sistema econômico ensaiado até
esta data tem, como o cooperativismo livre, maior alcance social
nem nenhum se identifica mais harmônicamente com os
princípios básicos da democracia integral”.
CLASSIFICAÇAO DE COOPERATIVAS — O DIREITO
COOPERATIVO
Seria longo enumerar vários esquemas de classificação
e quase impossível chegar-se a uma classificação natural
das cooperativas, como já foi acentuado,
Há classificações de Lavergne, Cauwès, Smith Gordon
y C. O’Brien, do Instituto Internacional de Agricultura de
Roma (ver “Teoria e Prática das Sociedades
Cooperativas”), de Gide, de Fay, de Hans Müller, Bórea,
Kaufmann, Lewis Cecil Gray, de Valenti, Liefmann,
Krüger, Wollemborg, Totomianz, e outras, como veremos
adiante, sem falar nas definições que várias leis dão,
inclusive a brasileira, 22.239, de dezembro de 1932.
Poderemos resumí-las como se segue, frisando que
Juan Gascón disse bem: “No ha de perderse de vista que
toda definición estricta y muy detallada tiene el riesgo de
dejar fuera entidades verdaderamente cooperativas; como,
inversamente, las definiciones muy amplias y sintéticas
tienen el grave mal de dar cabida a sociedades de muy
distinto carácter”. Ao nosso ver, a lei brasileira 22,239,
apesar de suas falhas e deficiências, guardou um justo meio
na sua classificação e definiu-as mui bem como sociedades
de pessoas naturais de caráter jurídico sui-generis. A
prática brasileira também vem provando o acêrto do
raciocínio do professor Gascón.
Eis as formas fundamentais das cooperativas
econômicas:
1.º— São cooperativas de consumidores as que têm por
fim a distribuição de coisas ou a prestação de serviços para
o
consumo, o uso, pessoal ou doméstico, dos seus associados e
suas famílias.
2.º — São cooperativas de produtores em geral aquelas
cujos membros, de profissões idênticas ou afins e de
irterêsses homogêneos, se associam como o objetivo de
trabalhar em comum na produção de serviços ao público.
3.° As cooperativas de crédito (as de seguros poderiam
enquadrar-se aqui), ou as seções desta espécie, têm por objeti-
vo receber depósitos, fazer adiantamentos, empréstimos e
descontos, cobranças e pagamentos por conta dos associados,
FÁBIO LUZ FILHO 61
assim como prestar-lhes os serviços bancários de que neces-
sitem, e realizar quaisquer operações que sejam complemen-
tares ou sirvam para sua melhor efetivação.
Os empréstimos ou créditos se farão ùnicamente aos
associados, tendo em consideração as suas necessidades, sua
capacidade, garantias oferecidas; nas de crédito agrícola, sem-
pre para fins reprodutivos.
4.º — As cooperativas de seguros operarão com seus
associados em regime de mutualidade. No caso de estabe-
lecerem prêmios fixos, o retôrno será na proporção dos
prêmios pagos.
5.º — Cooperativas de serviços (de eletricidade telefôni-
cas, etc.).
6.°— Não se exclui a possibilidade da criação de
cooperativas de outras modalidades não incluídas na
enumeração acima, as quais serão consideradas de
categoria indeterminada e assemelhadas àquelas que
oferecerem mais aproximada analogia, entre elas as
cooperativas de funções múltiplas, que serão classificadas
pela atividade central, quando esta tiver predominância;
não o tendo serão classificadas de mistas. (Ver “Teoria e
prática das sociedades cooperativas” e “Crédito agrícola e
problema agrário”, do autor).
O DIREITO COOPERATIVO
As leis, segundo os juristas, já o dissemos, atravessam
três fases sucessivas, três formas evolutivas: costumes,
jurisprudência, legislação. São reflexos de costumes, que a
jurisprudência sanciona, costumes que, por fôrça de uma
prática diuturna, assumem afinal uma feição de
obrigatoriedade que as leis, após a jurisprudência,
consubstanciam. Mas é preciso notar, com Ihering, que
nem sempre as leis espelham costumes, nem sempre são o
reflexo objetivo de determinados sentimentos populares, de
determinados sentimentos jurídicos, como outros
sentimentos podem não ter sua objetivação em formas
jurídicas. Ihering mostrou que haveria engano se fôssemos
aquilatar das relações reais que em Roma havia entre pai e
filho pela sua expressão jurídica...
Palante diz que Max Nordau mostrou a distância
muitas vêzes existente entre as nossas instituições e as
nossas verdadeiras crenças, entre a nossa prática social e o
nosso pensamento íntimo. A nossa vida é, em parte,
símbolo, simulacro, mentira...
62 COOPERATIVAS ESCOLARES
Paulhan, em “La morale de l’ironie”, frisa também êsse
antagonismo perene entre a consciência social e a consciência
do indivíduo, sempre desejoso de se despear de coerções de
qualquer espécie, para dar ampla expansão ao seu direito na-
tural de viver...
Logo é evidente que as leis têm, muitas vez, um caráter
fictício; são, muita vez, falhas e mancas, mòrmente_quando
apriorísticas e emanadas da casuística bizantina . . .São
muita vez formas coercitivas do Estado, quando sua
interferência muito se estende por determinados domínios
sociais, notada-mente no campo da atividade econômico-
social. O Estado com atividades pioneiras ou supletivas,
compreende-se, mòrmente em países subdesenvolvidos.
Na esfera de certas manifestações sociais essa interferên-
cia deve fazer-se, a nosso ver, dentro de uma medida prudente
e discreta.
Já dissemos que nasceu o cooperativismo, como assina1a
Gide, das entranhas mesmas do povo. Não saiu êle dos flancos
de um cenáculo de sapientes, como frisa Luzzatti, nem do ceio
do capitalismo. Surgiu humildemente sôbre uma base de
completa solidariedade humana, de integral reciprocidade de
direi-tos e deveres. Promanou de uma fonte modesta e
obscura.
Em 1844, 28 pobres tecelões inglêses, premidos pelo
guante de uma organização social geradora dessa hipertrofia
capitalística centralizadora que encruece e aniquila,
lançaram, co- mo vimos, em Toad Lane as bases de uma
organização econômica genial, com um “admirável instinto
da evolução histórica e incomparável gênio prático”.
Alicerçaram essa obra de gigantes em princípios de bronze,
os quais lhe constituem a essência imutável através dos
tempos, princípios antes os quais os próprios corifeus da
economia clássica capitularam.
E temos acentuado mais: com o cooperativismo, na
pureza clássica rochdaliana, se exerce de uma maneira
completa, eficiente e empolgante, a ação social e econômica
das classes que produzem e consomem, as quais terão
assegurada definitivamente a sua interferência, “consciente e
intencional”, na produção e distribuição coletivas e
racionalizadas das riquezas não com fins de lucro, mas para
que sejam essas riquezas con-sumidas, satisfazendo
necessidades humanas, potencializados esses elementos de
fôrça laboriosa, que se congregam, sôbre um plano
associativo, na defesa de interêsses comuns.
Como asinala Brentano, desenvolvem, as cooperativas,
notadamente as de produção, pela soma de fôrça moral e de inte-
FÁBIO LUZ FILHO 63
ligência que exigem, as faculdades morais e intelectuais dos
que se reunem sob o seu lábaro de emancipação.
“Em um mundo de liberdade caótica, tenta criar uma nova
ordem econômica, e utiliza o poder de uma idéia fazendo-a
servir de base a novas relações econômicas”,
Traça, assim, o cooperativismo os lineamentos de um
mundo novo, que se caracterizará por uma fisionomia
econômica nova, por uma modalidade nova de vida
econômica e social. E êle um elemento educacional de
inestimável valor ideológico, um ponderoso fator de
desenvolvimento do sentido da solidariedade humana, da
consciência social e moral nas relações entre indivíduos e
nações, modificando fundamentalmente o embasamento
econômico-social vigente, cujos quadros se tornam, dia a
dia, mais angustiantes.
Visando o cooperativismo a dispensar o intermediário,
a abolição do lucro no sentido de ganho ilícito, sem abolir o
capital na sua justa compreensão de capital-economia, produto-
res e consumidores livremente associados, por
meio dêsse instituto eqüanime e dinâmico, na estrita
observância de seus princípios morais, sociais e econômicos
fundamentais, já vão dispensando o intermediário em
países de civilização secular e em países novos americanos.
Afastado o intermediário desnecessário, individualista
e oneroso, repetimos, cristalização, exponência de um
regime econômico de embuste, sem peias na sua incontida,
inacogulável ambição, as fôrças que produzem e
consomem, “desproletarizando-se”, terão uma “intervenção
direta na produção e distribuição”, adquirindo, no cadinho
do altruísmo, aptidões que as habilitam a “uma ação
econômica bem superior à da economia capitalista”, cujo
crepúsculo, prenhe de sombras, tudo indica estar
começando com essa enervante atmosphera de apreensões
que pesa sôbre o mundo, no presente momento, como uma
tremenda cúpula de chumbo, levando, certo, à derrocada
inevitável, formas econômicas em declínio... É o estertor do
velho direito quiritário, como já vaticinou Gide...
É, assim, o cooperativismo “uma forma de atividade
econômica conscientemente, livremente, deliberadamente
empreendida pelos homens”, em contraposição à
“produção autoritária”, como diz Brouchère.
Já vimos como o cooperativismo cria valores morais, so-
ciais e econômicos, constituindo a fórmula de emancipação
econômica, moral e social que lançará as bases da vida econô-
mico-social do amanhã. Sob sua bandeira irisada já se abri-
gam milhões de pessoas, a prova mais alta de seu grande espi-
64 COOPERATIVAS ESCOLARES
rito e a maior realização de concórdia entre os homens, imenso
facho de luz colocado diante de um mundo convulso e
expectante.
Já frisamos que Bastiat dissera que a sociedade inteira
não é mais do que um conjunto de interêsses que se cruzam. .
. E Patten faz referência à economia da alegria e do prazer,
saudáveis, fecundos, fraternizadores...
Diz Sombart (“O apogeu do capitalismo”), que as coope-
rativas econômicas representam, pelo seu “criterium” subs-
tancial, construções auxiliares destinadas a manter e a re-
forçar não só formas econômicas pré e extra-capitalistas,
que são artesanato e a economia campesina, serão também
a economia de consumo privado. Sob a forma de cooperati-
vas de consumo trazem os germes de uma organização eco-
nômica supracapitalista.
É um movimento que faz do consumo a base do sistema
de distribuição organizando a produção pelo consumo.
Bernard Shaw já teve a antevisão dêsse fenômeno quan-
do disse que aquêles que acreditam como fixo o atual sistema
de distribuição se fossilizam...
O cooperativismo coloca em seu devido plano a
dignidade da pessoa humana.
O cooperativismo é, em substância, um movimento de
idéias econômico-sociais que visa ao interêsse do consumidor
pela fixação do justo preço para as riquezas de uso e as
riquezas de consumo, afastada a intermediação
desnecessária e inútil e ajudengada.
De Cossa e Valenti a, modernamente, Cassel, etc., a con-
ceituação de bens econômicos continua a mesma.
As características essenciais dos bens econômicos são a
exterioridade, a acessibilidade e a transferência ou “transfe-
ribilidade”. Há bens de consumo e bens duradouros.
Os economistas frisam que os bens de consumo são os
bens materiais que, pelo seu emprêgo, se consomem, isto é,
cessam de existir como tais. O consumo final está na natu-
reza do emprêgo dos alimentos.Coisas existem que
participam dos dois caracteres dos bens de consumo e dos
bens duradouros. No entanto, não se deve considerar como
consumação sòmente o consumo ou a combustão; todo
emprêgo mediante o qual o bem deixa de existir como bem
da mesma espécie, é consumo. O ferro de uma locomotiva é
consumido, deixando, assim, de ser bem duradouro para ser
bem de consumo, que é a satisfação de uma necessidade.
FÁBIO LUZ FILHO 65
Há riqueza de uso (uma máquina, uma casa, uma carroça,
um livro) e riqueza de consumo (os alimentos).
No plano cooperativo há classificações que definem como
cooperativas de consumidores as que fornecem aos seus
associados os gêneros, produtos ou mercadorias necessárias às
suas atividades de produção: sementes, adubos, inseticidas,
máquinas agrícolas, etc., e matérias- primas para o artesanato,
etc.
Tratadistas há que consideram como cooperativas de con-
sumo as que vendem ou alugam casas, fornecem eletricidade,
fôrça motriz, gás, água, transportes, crédito, assistência, ou se
dedicam à conservação ou à venda de produtos agrícolas ou
para o artesanato, no sentido de atender a certas fases do
trabalho.
Há quem coloque o próprio crédito na esfera do consumo
de serviços, como o são também o seguro, os serviços
domésticos (casa), a eletricidade, o telefone, a lavandaria,
assistência médica e farmacêutica, o entêrro, o ensino, o
concurso e o registro para o gado, etc.
Lavergne considera cooperativas de consumidores tôdas as
sociedades de produção, de venda e seguros constituídas entre
consumidores para satisfazer, ao mais baixo preço possível,
suas necessidades pessoais ou familiares.
Valenti classifica as cooperativas de consumidores em: “per
la sussistenza”, “d’assiscurazione”. As “rurais” “per l’acquisto
di materie e strumenti, di credito, d’assicurazione”.
A atual lei brasileira, considerando a cooperativa como
revestindo uma forma jurídica sui-generis, define as coope-
rativas de consumo com justeza, caracterizando-as como
aquelas que têm por escopo ajudar a economia doméstica,
adquirindo, o mais diretamente possível ao produtor, ou a
outras cooperativas, os gêneros de alimentação, vestuários e
outros artigos de uso e consumo pessoal e doméstico, da
família ou do lar, distribuindo-os nas melhores condições de
qualidade e preço aos consumidores associados, no interesse
dos quais pode ainda prover a outros serviços afins, e conver-
tendo em economia, a favor dos mesmos consumidores, os
eventuais resultados líquidos verificados pelo balanço.
Nesse final está contido um dos princípios basilares, re-
volucionários e estelares, do movimento cooperativo no mun-
do: o retôrno, um dos pilares de sua filosofia embasada na justiça
distributiva, humanando as relações entre as gentes.
66 COOPERATIVAS ESCOLARES
O CARÁTER CIVIL
Acentuamos em “Teoria e prática das sociedades coope-
rativas” que os tratadistas se reportam a dois critérios para a
diferenciação entre sociedades comerciais e sociedades civis: o
objeto e a forma. A forma, pela legislação brasileira, está
fora de cogitação, de vez que a lei as considera como
sociedades de pessoas e não de capitais, de forma jurídica
sui-generis. Resta o objeto.
As sociedades são civis ou comerciais segundo seu
objeto. É a natureza das operações que define a sociedade:
atos civis ou atos comerciais, que muitos consideram um
ato de circulação — a compra seguida da venda.
Frisam ainda os tratadistas que todos os atos
realizados na circulação dos bens devem ser comerciais,
excetuado o ato do produtor inicial que coloca o produto
em circulação e o ato do consumidor final, que o absorve
ou usa pessoalmente, retirando-a da circulação.
A essa definição material outros juntam o elemento
intelectual e o da finalidade, o animus lucri.
Na órbita do direito cooperativo, o caráter civil das
cooperativas em geral tem o apoio de grandes nomes, de
luminosos e consagrados nomes. Colocando o
cooperativismo na base de sua estruturação o princípio
democrático, o “respeito profundo pela pessoa humana”, e
a norma do retôrno, isto é, a distribuição das sobras na
proporção do volume das operações efetuadas com a
cooperativa pelos associados, realiza êle uma fórmula feliz
de harmonia entre os homens, estabelece uma nova
distribuição da riqueza, eliminando a renda sem trabalho e,
conseqüentemente, o lucro no sentido de ganho ilícito; erige
um principio econômico novo, principio plasma-dor
daquela economia nova acima referida, lei fisiológica do-
minadora. Colocando os seus interêsses em comum,
dirigidos pela ação solidária, uma admirável fôrça de
defesa e propulsão, produtores e consumidores levantam os
alicerces de uma nova ordem econômica de coisas, os
fundamentos de uma economia organizada, planificada.
Não vendendo ao público as cooperativas de consumo são
civis, isto é, conservam-se dentro da concepção econômica
doutrinária e da definição jurídica. Vendendo ao público não
estão mais no estágio final do processo distributivo; daí serem
consideradas mercantis por algumas legislações, inclusive a
brasileira.
FÁBIO LUZ FILHO 67
Outros acentuam que o elemento intelectual existe nas
cooperativas de consumo mesmo quando vendem ao público,
de vez que nunca existe a “intenção do lucro”.
Nas agrícolas de venda, e mesmo nas de transformação,
não existe o elemento de base da comercialidade, como não
existe nas de crédito, mesmo com operações acessórias, e o uso
de simples instrumentos ou efeitos comerciais (utilizam também
os Juros fixos, sem que isto lhe dê o animus lucri).
Coutant frisa que os atos de venda e os de compra do
agricultor, e os de compra do consumidor, são atos civis,
no que acompanha uma tese pacífica, de que Ramadier, na
França, foi um dos paladinos, renovando conceitos que
Rodino já emitira ao considerar que as cooperativas não
são comerciais nem civis e, sim, sui-generis, o que é
também o ponto de vista de Leiserson.
O mandato corresponde a um ato que o associado faria por
sua própria conta. A cooperativa representa o associado.
Charles Gide, aludindo ao Sermão da Montanha, frisou
que o cooperativismo traduz, em têrmos econômicos atuais,
a beleza dos ditames morais célebres que constituem a
essência do cristianismo. “Fazei aos homens tudo quanto
quereis que êles vos façam”...
Acha Hans Müller que o cooperativismo trabalha não
para erguer uma tôrre de Babel, mas, sim, para lançar os
fundamentos de uma “civilização humanizada”,
“A cooperativa de consumo ajuda a criar os fundamentos
econômicos de uma civilização social da humanidade isenta da
exploração indigna do homem pelo homem”.
Como vemos, é alcandorado o ideal colimado, e
constitui a base da Escola de Nimes.
Mafeo Pantaleoni, o grande autor de “Princípios de Eco-
nomia Pura”, ilustre professor, que foi, da Universidade de Roma
e que de maneira tão lúcida e incisiva expôs os teoremas
hedônicos, disse que a idéia cooperativa é uma idéia viril; é
idéia dos que não querem ficar nas condições de salário, dos
que não querem sujeitar-se aos preços impostos pelos
comerciantes: é uma idéia de emancipação e de rebelião,
alicerçada, social e moralmente, no sentimento da solidariedade
humana, “num viril esfôrço de autodefesa dos mais fracos, que
buscam a fôrça na união”, simbolizada no clássico feixe de
varas, visando, como já o disse, a uma economia de serviço e
não de lucro.
68 COOPERATIVAS ESCOLARES
AINDA O DIREITO COOPERATIVO
Acabo de receber do ilustre professor da Universidade de
Madri, o dr. Juan Gascón Hernandez, seu último trabalho
“Derecho Cooperativo”.
Nêle assinala Juan Gascón que já existe, pode dizer-se
um “Direito Cooperativo” o qual “no es uma rama del De-
recho público, ni tampouco del Derecho privado, sino que
se trata de un Derecho económico social... vestidura jurídica
de un fenómeno económico social. El estudio de las defini-
ciones analizadas por Gascón y Miranión (autor da excelente
lei espanhola de 1931, com Fabra Ribas e Ventosa Roig
e ilustre publicista espanhol especializado, já falecido, pai do
professor Juan Gascón) en 1932 puede ampliarse hoy con los
trabajos notables de Leiserson, Fábio Luz Filho, Coutant
Digby, Surridge, Salinas Puente, Fabra Ribas, Laszlo Valko e
demais autores que se han ocupado del régimen jurídico de
las cooperativas. . .”
Vai-se corporificando, assim, no mundo, um Direito
Cooperativo, dentro da concepção de Merkel, de que a norma
jurídica corresponde a sentimentos e idéias dominantes em
determinado período histórico, do que deflui a fôrça
obrigatória do Direito, com os seus elementos subjetivos.
Leiserson. acentua, com raciocínio preciso, que “la
cooperación como un complejo de vinculaciones económicas
pro- duto de la vida social, da nacimiento también
necesariamen- te, a relaciones jurídicas y a um derecho que
le es propio”.
Lucien Coutant, recentemente, disse, com acêrto, que no
domínio cooperativo, “les échecs contribuèrent autant que les
succès à modeler peu a peu cette coutume qui prit ensuite
figure de droit pour pénéter enfin dans la légisiation”.
E Salinas Puente, o ilustrado causídico mexicano, em
“Derecho Cooperativo” diz que o direito não tem, na
concepção moderna, um caráter puramente repressivo ou
estático; pelo contrário, tende a ser, cada vez mais, um fator de
progresso coletivo. Os interêsses isolados dos indivíduos e das
minorias privilegiadas se vão deslocando ante o imperativo dos
setores majoritários da população; desta maneira, afirma-se a
idéia do interesse social em cuja função se resolvem os grandes
problemas contemporâneos. E o novo direito existe por si e para
FABIO LUZ FILHO 69
si; não é uma enteléquia, senão um meio para obter o equilí-
brio e o bem-estar das sociedades humanas.
“Parte integrante dêste grande movimento criador, o Direito
Cooperativo repousa sua estrutura sôbre alicerces novos de
profundo conteúdo humano”.
CAPÍTULO III
O VALOR PEDAGÓGICO DAS COOPERATIVAS ESCOLARES
AS COOPERATIVAS NA EDUCAÇÃO DE BASE
O estágio do “pensamento conceitual” vai dos 7 aos 9
anos; daí em diante é o do “pensamento relacional”, o “appel
de l’ainé”, o “la règle oblige”.
A idade da razão, segundo J. Hermeut, começa aos sete
anos. São idéias de causa, de fim, de duração, do justo, do bem
e da identidade, isto é, as noções e os princípios chamados
primários que não têm para a criança, até aos sete anos,
precisão e nitidez, e são mais sentidos do que compreendidos.
A posse dos primeiros princípios e das verdades primárias
inicia a criança na vida ativa do raciocínio. A criança entra no
uso da razão por efeito de esforços constantes de uma educação
bem conduzida pela qual a inteligência e a razão hão-de atingir
um alto grau de fôrça e de clareza.
“A aprendizagem infantil, dí-lo Gonçalves Viana, deve
começar a fazer-se na vida e acabar pelo livro. A ordem inver-
sa é antinatural e parece contra-indicada”.
M. Colombain em “Les coopératives et l’éducation de
base”, acentua que, reproduzindo em miniatura a forma de
cooperativas de compras, ou de crédito, ou de venda, ou de
produção, ou de cultura, ou de criação, exercendo, muitas
vêzes, várias dessas funções a um só tempo, as cooperativas
escolares têm atividades que variam segundo os países, as
necessidades, e os recursos utilizáveis: compra em comum de
artigos de papelaria e manuais escolares, algumas vezes objetos
de enfeite e matérias-primas para trabalhos manuais,
organização de restaurantes cooperativos; tipografias;
incentivo à economia; empréstimos; fabricação de objetos
diversos em madeira, metal, etc; trabalhos de agulha,
tecelagem, etc; produção agrícola ou hortícola; criação de
animais e venda de produtos; florestamento e reflorestamento;
constituição de blbl1otecas; organização de conferências e
festas de juventude; corais e sociedades dramáticas; educação
física e desportos; embelezamento da escola; criação de museus
escolares e constituição
FÁBIO LUZ FILHO 71
do material didático, etc. “Dans la plupart des cas une
même société embrasse plusieurs de ces activités à la fois”.
O objetivo econômico das cooperativas escolares é, de um
lado, o escolar, o aluno (procurando-lhe recursos ou
aliviando-lhe os encargos financeiros do período da
escolaridade) e o outro, a própria escola.
“D’autre part, de l’avis des éducateurs qui ont fait
l’expérience, elle est elle-même, dans son fonctionnement,
un instrument, une méthode et un milieu de formation
intellectuelle et morale”.
Juan Gascón acentuou que não será possível separar a
tarefa de fundar cooperativas da de desenvolvimento e
penetração do espírito cooperativo. Julga, por isso, que o
impulso que se desejar dar às cooperativas escolares será
totalmente inútil se não fôr realizado, concomitantemente,
um programa de ensinamentos e difusão.
“As cooperativas escolares têm de ser consideradas
como um processo educacional e como uma forma de
despertar o interêsse pelo cooperativismo”.
A cooperativa escolar é, assim, o veículo adequado
para essa meta ideal. Aplicam-se à mesma os mesmos
princípios que norteiam qualquer cooperativa. Nas
cooperativas escola-res, o objetivo educativo é, como se vê,
o fim e o econômico é o meio, um instrumento de educação
ativa. Visam a despertar e a manter vivo o sentimento de
solidariedade moral e social. São elas consideradas pelos
educadores como instrumentos preciosos de educação
geral, de educação econômica e de educação cívica. Cabem,
pelas suas altas finalidades, dentro da concepção dessa
escola nova e ativa.
As cooperativas escolares têm um duplo caráter de
utilidade e de educação, como processo econômico de
aquisição e de distribuição de material didático nas
melhores condições de qualidade e preço.
São os alunos assessorados pelos professôres e têm liber-
dade de ação, naturalmente com as limitações naturais, de
vez que a cooperativa funciona dentro da escola e é um órgão
educativo. As práticas agrícolas entram também em sua órbita
de ação, por conta própria ou em consonância com os clubes
agrícolas, que podem integrar seus objetivos. Agindo, atuando,
fazendo, a criança adquire qualidades de receptividade, de
discernimento, de iniciativa e de disciplina. A cooperativa
escolar modela futuros cidadãos, conscientes e ativos,
convictos de que a pessoa humana deve merecer acatamento e
mover-se num clima democrático, de mútua compreensão, de
72 COOPERATIVAS ESCOLARES
disciplina social livremente consentida, de ação livre, mas li-
mitada pelo direito dos outros. Aprende que as necessidades
devem ser satisfeitas de modo justo, com a distribuição das
utilidades e a prestação de serviços nas melhores condições
de qualidade e preço. Trabalhando sem fito de lucro,
formam uma mentalidade nova, que suavizará ou
humanizará os contactos na vida cotidiana. É, assim, o
cooperativismo escolar aplicação dos métodos da escola
vital. Complementa o âmbito da escola ativa, movimento
de reação no sentido de colocar a criança, desde a escola,
dentro da vida, aproveitando a atividade espontânea,
pessoal e produtiva dessa criança.
O cooperativismo escolar contribui, como veremos, para:
1.º — A educação vocacional, além de dar à criança a
noção e a intimidade dos temas sociais e morais;
2º — Dar maior experiência e acuidade para a solução
dos problemas concretos da vida moderna, do ângulo econô-
mico. Possibilita, ademais, aos professôres, o emprêgo de
técnicas educativas novas, como sejam as reuniões em
assembléias gerais e conselhos de administração, diretorias
executivas, conselhos fiscais, comissões várias, dirigidos
êsses órgãos pe-los próprios alunos, discretamente
assessorados pelos professores; excursões, festas, trabalhos
agrícolas, trabalhos manuais, etc.
3.° — Criar ambiente para novos modos de atividade,
novas motivações. No domínio rural, é fácil de apreender o
alcance da aplicação de métodos técnicos nas hortas, nos po-
mares, na agricultura de subsistência, isto é, agricultura
para fornecer produtos essenciais à alimentação humana.
Como vêem, está perfeitamente caracterizada a
cooperati-va escolar. É uma instituição educativa, parte
integrante da escola renovada, instrumento pedagógico de
grande relevância, viga-mestra do moderno edifício
educativo.
Diz mui judiciosamente Alice Joueene, em se referindo à
orientação cooperativa seguida na França sôbre a educação
da criança em todos os sentidos (lá estão as belas colônias de
férias cooperativas com o seu “aerium” de Montplaisir, os
estabelecimentos de Boyardville, Coulommiers, etc).
“Ne faisons point de tendances en éducation. Habituons
l’enfant à raisonner juste, à avoir confiance en lui et c’est lui
qui plus tard, s’orientera selon ce qui lui parait juste et vrai..
São, assim, centros-de-interêsse, pequenos laboratórios de
intensa vida social, organismos que passam à imediata e dis-
creta responsabilidade dos mestres, embora dirigidos pelas
FÁBIO LUZ FILHO 73
crianças. A dependência dos mesmos em relação aos mestres
é uma necessidade de principio na educação do sentimento de
responsabilidade.As crianças individualmente podem respon-
der, por si mesmas, a uma organização de disciplina perante
a coletividade infantil; mas, coletivamente, não respondem
perante terceiros, por sua qualidade de menores. A escola é
uma comunidade. “Como scuola viva é constituita da alumni,
le cui attività per la maggior parte sono attività di gruppo, o
sociali. Quelle che educano più particolarmente alla socia1ità
sono: la cooperativa, la società, il teatro, l’aiuto reciproco, la
corrispondenza, i lavori utili e le attivitá. pratiche”.
É o trinômio do Cardijn — “Voir, Juger, Agir”.
Aplicam-se à escola os princípios normativos antes
expostos.
Maurice Colombain frisou, mais, com muita lucidez, em
“Les coopératives et l’éducation de base”, que é um fato de
observação que, entre as populações pouco evoluídas, as
cooperativas, por seu funcionamento mesmo, e independente-
mente de seus resultados econômicos, contribuíram para a
formação intelectual, moral e cívica de seus associados.
“Trabalhar, comprar, vender, criar em comum, e pensar
em comum, é formar conceitos comunicáveis, isto é,
racionais”.
“Observar escrupulosamente os estatutos que contribuí-
ram para organizar, ou que, pelo menos, foram discutidos,
aceitos e cumpridos, é criar-se uma nova moralidade, é, não
somente iniciar-se nas virtudes da disciplina voluntária e
viva, mas, também, descobrir em si os fundamentos da
responsabi-lidade, o verdadeiro senso da liberdade e da
dignidade”.
A cooperativa não emancipa sòmente seus associados do
usurário e do comerciante; ela os livra de si mesmos, de seus
maus hábitos; ela lhes ensina as virtudes que não estão sempre
em sua natureza, como a ordem, a previdência, a pontualidade,
o respeito estrito aos compromissos tomados. Enfim, dando-lhes
ocasião de modelar, como agentes conscientes, sua vida
econômica, criando um novo sistema de compromissos
livremente elaborados e aceitos, que os livrem de sujeições
sociais vazias de sentido ou odiosas, colocando-se, sem
distinção de casta ou de sexo, dentro de um quadro simples de
self-government, dentro do qual se iniciam nas práticas
democráticas, a cooperativa os exercita nas funções de
cidadãos, e reconstitui um novo tecido social, prolongando ou
substituindo as formas anteriores de vida coletiva em
decadência: e, sem nada destruir daquilo que havia de original
e de fecundo em
74 COOPERATIVAS ESCOLARES
sua cultura nacional, a cooperativa tende a estabelecer uma
ligação, natural e livre, entre esta e o mundo moderno.
“Assim, na confluência de sua ação com a de educação
de base e da educação de adultos, o movimento cooperativo
aparece com seu verdadeiro caráter, principalmente quando se
considera seu funcionamento nos agrupamentos humanos
pouco evoluídos, ou econômicamente e socialmente atrasados.
Embora sua importância no domínio econômico seja de
grande utilidade, merece ser considerado também, e, talvez,
principalmente, como um movimento de educação”.
Como o disse Fauquet, o fim do cooperativismo é fazer
homens responsáveis e solidários, para que cada um se eleve
a uma vida de completa personalidade e, todos juntos, a
uma completa vida social.
“Sobretudo quando as atividades cooperativas e as
atividades educacionais se desenvolvem em regiões ou meios
de evolução retardada, as relações de parentesco que os
unem por seus móveis, objetivos e métodos, são tão evidentes
e tão estreitos, que reclamam entre si uma colaboração tão
fácil quanto necessária”.
Na Índia, a preocupação da educação tem raízes
rochdalianas, tanto que os cooperadores indianos se
comprometem a enviar seus filhos à escola ou a manter
escolas, ou a contratar educadores. Na África, constróem
escolas.
“O movimento cooperativo pode ser encarado como um
aliado forte na luta contra a ignorância e a inércia”.
D. F. Strickland, apoiado em sua fecunda experiência,
assinalou Colombain, da Índia, China, Oriente Médio e da
África, disse muito bem: “Co-operation is adult education in
the business of life”.
Henry Wolff disse que o cooperativismo deve ser o edu-
cador do pobre; e Père Huss, na União Sul-Africana,
caracterizava como “escolas populares” as cooperativas de
crédito que ajudava a fundar, de vez que seu principal
objetivo não era fazer dinheiro, mas fazer homens.
E o célebre Dr. M. Coady, da Universidade de São
Francisco Xavier, em Antigonish, no Canadá, chegou a
dizer: “Recorremos ao cooperativismo no domínio
econômico mais como instrumento da educação do que
como instrumento econô-mico”.
Os primeiros estatutos sôbre cooperativas escolares foram
lançados oficialmente em 1931, por mim elaborados. Êstes
estatutos já davam às cooperativas escolares todo o seu
inconfundível valor pedagógico, e não o de meros armazéns de
FÁBIO LUZ FILHO 75
compra e venda de material didático, o que tem servido de pre-
texto, no Brasil, para a dissolução de cooperativas escolares.
Alegam que os alunos são pobres, como se não existissem
meios de o aluno produzir, uma das marcantes características do
cooperativismo escolar, notadamente do francês, de índole mais
alcandorada. E como se a assistência não coubesse no âmbito
do cooperativismo escolar, sem aviltações ou humilhações,
retribuindo o aluno com pequenos serviços ou produtos de seu
esfôrço pessoal. Prevendo isso, os estatutos oficiais que elaborei
permitem o pagamento das quotas-partes em serviços, como
veremos.
E, além do mais, deve sempre ser considerado o aspecto
de entidade periescolar que possui, fundamentalmente, a
cooperativa, com seu sentido puramente educativo, na
própria definição legal.
E da letra e do espírito da lei brasileira que não seja “a
finalidade econômica a exclusiva e predominante para dar
valor à escola”.
“Lo esencial es que la actividad del niño lleve a un resul-
tado efectivo y útil, para su propria formación y para la co-
lectividad de que forma parte”.
E Colombain, (de quem mereci a honra de uma
referência a “Cooperativa escolares”) em seu “La valeur
éducative des coopératives scolaires”, disse com justeza:
“La coopération scolaire, c’est l’école nouvelle des
pauvres:
plus précisément, elle apporte l’école nouvelle aux pauvres,
c’est-à-dirc aux classes pauvres, aux pays qui sent pas encore
riches (no caso, o Brasil), à ceux qui ne le sont plus”, no ponto
de vista de Victor Voguel: “. . . la réalisation populaire des
écoles nouvelles. . .
Na coexistência da mutualidade e da cooperativa escolar,
que aquela fique com o seu estático mealheiro, e esta com o
socorro aos necessitados como um de seus serviços. Nos esta-
tutos que elaborei estão em perfeita e discreta
interpenetração e equilíbrio as virtudes de ambas.
Já se disse que o agrupar as escolas em comunidade é
fazer da classe uma sociedade em miniatura e da escola uma
federação de pequenas repúblicas mais ou menos autônomas,
segundo a idade dos alunos e o grau de responsabilidade que
se lhes possa confiar.
O primeiro livro surgido em língua portuguêsa foi o pre-
sente — “Cooperativas escolares” (cuja l.ª edição foi lançada
em janeiro de 1933, pela “Civilização Brasileira”, quando ainda
não existia um só departamento estadual de cooperativismo
76 COOPERATIVAS ESCOLARES
no Brasil), filho, que sou, de médico, escritor e pedagogo.
Tais questões me são, pois, familiares desde a infância, tendo
sido meu saudoso pai o introdutor (1895) das caixas
escolares no Distrito Federal, além de precursor do romance
social no Brasil e da escola ativa, slojd escolar, isto é,
trabalhos manuais, excursões, cinema educativo, método
montessoriano, festa da primavera, etc., etc.), e escritor com
livros que durante longos anos foram adotados pelas escolas
primárias do Distrito Federal e de diversos Estados do
Brasil. A Prefeitura do Distrito Federal, ainda vivo meu pai,
deu o nome dêle a uma de suas ruas.
A primeira cooperativa escolar fundada no Brasil, já
dentro da orientação geral traçada nos estatutos oficiais de
1931, embora modificados, foi, como veremos, a de Cruzeiro,
em São Paulo, em julho de 1933, através da propaganda que
no Norte do Estado fiz desde 1931, quando em viagens de
propaganda de cooperativas de lacticínios, tendo realizado, a
pedido do inspetor Eboli, várias palestras a professôras, no
1.° Grupo Escolar do Cruzeiro, no Grupo de Itagaçaba e na
Escola Normal de Guaratinguetá. A Cooperativa de
Lacticínios de Cruzeiro, fundada ao influxo dessa minha
propaganda em 1931, foi o centro irradiador do
cooperativismo escolar aí e em Itagaçaba e do movimento
de lacticínios do chamado Norte do Estado.
Quase tôdas as cooperativas escolares do Brasil seguem
a orientação contida nos estatutos do fim dêste livro,
sobretudo
Pernambuco, dinamizadas neste Estado, inlcialmente, por
M. Barbosa, e, depois, pela dedicação ímpar de Nair de
Andrade.
Procurei nêles ficar em consonância com o espírito da
moderna pedagogia, que tem sua grande expressão nos
cânones da escola ativa.
Dentro, pois, dêsses princípios pedagógicos, dos cânones
da escola vital, ou do método biótico, se situa a cooperativa
escolar, nela tendo o professor sua ação imprescindível e
fecunda de assessor e orientador nato.
Lorenzo Luzuriaga disse que os dois conceitos
fundamentais da educação do tempo presente são: “escola
ativa” e “escola única”. Aquela se refere ao conteúdo, a vida
interna das instituições educativas. Esta diz respeito à
forma, à organização exterior dessas instituições. A “escola
ativa” é sobretudo uma concepção psico-pedagógica; a
“escola única” é fundamentalmente uma aspiração
pedagógico-social.
E Ferrière assim caracterizou a escola ativa:
FÁBIO LUZ FILHO 77
“Trata-se então dum movimento de reação contra o seu
formalismo, contra o seu hábito de se colocar fora do vida,
contra à sua incompreensão do que constitui o fundo e a
natureza da criança. A Escola Ativa não é anti-intelectual,
mas anti-intelectualista, querendo nós exprimir com isto
que ela é contrária àquela propensão que leva a dar à
inteligência um lugar preponderante, em prejuízo do
sentimento, e da ativi- dade. É que êstes dois últimos
elementos fazem parte integrante do que se chama caráter.
Não basta apenas refletir; é preciso viver. Se a vida sem a
reflexão é pouca coisa, a reflexão sem a vida não é nada.
“A atividade espontânea, pessoal e produtiva, tal é o ideal
da Escola Ativa. Este ideal não é novo. E o de Montaigne, de
Locke e de J. J. Rousseau e Pestalozzi. E Fichte e Froebel fize-
ram dêle o centro dos seus sistemas educativos. E, em suma, o
ideal de todos os pedagogos intuitivos e geniais do passado, —
o dos grandes precursores. Mas, se a intuição foi a sua prin-
cipal fôrça, ela foi também a sua maior fraqueza, se encarar-
mos a difusão da sua obra e o progresso da ciência. Advinha-
ram a infância, mas não a conheceram no sentido que o
século atual dá a êste têrmo. Antes das conclusões a que
chegou a psicologia experimental, apenas se podia pressentir
a infân- cia; hoje, ela é conhecida; amanhã será ela melhor
conhecida ainda”.
Dai entrar o cooperativismo escolar no domínio da pedo-
tecnia.
Payot, no seu dogmatismo pedagógico, acha que o
caráter não é um dom da natureza (como o frisa a escola de
que Ribot foi o centro), podendo ser um produto secundário
lentamente adquirido.
Guyau concorda em que, no ordem moral, a educação é
soberana. A moralidade como filha da inteligência, do pen-
samento moral como dever.
E eis Rousseau:
“A ilha do gênero humano é a terra; o objetivo mais inte-
ressante para os nossos olhos é o sol. Tão depressa comecemos
a fastar-nos de nós, as nossas observações deverão cair sôbre
um e outro. Nenhum outro livro além do mundo, nenhuma outra
instrução além dos fatos. A criança que lê não pensa; lê apenas;
não se instrui, aprende palavras. Tornai o vosso discípulo atento
aos fenômenos da natureza e bem depressa o vereis curioso, mas
nunca vos apresseis em satisfazer essa curiosidade. Colocai as
questões ao seu alcance e deixai que
78 COOPERATIVAS ESCOLARES
êles as resolva. Que êle não aprenda a ciência, mas que a
invente.
“Se nunca substituirdes no seu espírito a autoridade pela
razão, êle nunca raciocinará; será apenas o joguete da
opinião dos outros”.
E Emile Durkheim acentua que a educação nas cidades
gregas e latinas, conduzia o individuo a subordinar-se cega-
mente à coletividade, a tornar-se uma coisa da sociedade.
Hoje, esforça-se por fazer dêle personalidade autônoma e
consciente.
Dei ao diretor da escola, nos citados estatutos, a
representação ativa e passiva, de vez que têm elas que se
amoldar à lei no que lhes fôr aplicável e imprescindível.
Influi para a inclusão das cooperativas escolares na lei 22.239
(1932), e fiz com que, na lei 581, se retificasse o lapso da
22.239, que dava personalidade jurídica às cooperativas
escolares nos moldes das dos adultos, num absurdo.
Não é a cooperativa escolar uma pseudocooperativa,
como pensa muita gente. Pseudo significa falso, e as
cooperativas escolares (refiro-me às de crianças), não são
falsas cooperativas, e, sim, verdadeiras cooperativas em
miniatura, viva expressão da “firme vontade de viver
solidâriamente”, que é a essência do fenômeno cooperativo
em todo o mundo. O próprio Profit, em visível contradição
com o cunho que deu ao cooperativismo escolar francês,
definiu-as, inicialmente, como cooperativas econômicas,
visando à minoração de preços, na estrutura das de adultos,
falseamento que êle próprio não cometeu na prática do
cooperativismo escolar francês, visceralmente educativo.
Nas cooperativas escolares são observadas (não teriam
função educativa se não o fizessem...) tôdas as normas dou-
trinárias que caracterizam as cooperativas comuns, inclusive
a finalidade coletiva das sobras anuais, num escopo de aper-
feiçoamento material da escola, e moral, espiritual e social do
aluno.
É a consubstanciação da pestalozziana pedagogia
realista, que Claperède assinalou como próprio de uma
didática que deve transformar os fins futuros a que aspiram
os programas escolares em interêsses presentes para o
educando. Educação para a comunidade, no postulado de
Fichte. A criança tem na cooperativa escolar o meio capaz de
capacitá-la para preencher as tarefas de sua vida no sentido
do dever do futuro “homem social”, a que se refere Rousseau,
um ser atuante e pensante,
amante e emotivo. A livre expansão da personalidade da
criança como fim.
Lourenço Filho assinala que Sanderson conseguiu levar
a vida para dentro da escola. “Não devemos estabelecer
uma barreira entre a vida da escola e a vida cotidiana da
coletividade, O trabalho escolar carece de estar em relação
com a vida da criança no lar, como carece tornar-se parte
integrante da vida da coletividade”. E, isto, realiza-o
cooperativa escolar. Anísio Teixeira reconhece-o em sua
inconteste autoridade. E conduz ao que aponta Lourenço
Filho para a escola nova: o desenvolvimento individual
dentro do maior equilíbrio social, democracia, paz e
trabalho, humanidade melhor. Cita ainda Tolstoi como
precursor da renovação escolar atual. E acentua que nas
“public-schools” inglêsas surgiram os primeiros sistemas
empíricos da educação renovada.
Democracia e escola nova, diz Lourenço Filho, visam,
portanto, uma e mesma coisa. São idéias complementares.
O Estado democrático carece de formar-se de homens de
iniciativa e espírito esclarecido, capazes de se governarem
a si mesmos. A escola nova deseja que a personalidade da
criança venha a formar-se pela prática efetiva dêsse
espírito de iniciativa. A cooperativa escolar a isso conduz.
Foi a França, pois, o berço das cooperativas escolares.
Possuía ela, em 58, umas 28.000 cooperativas escolares em
7.500 escolas, com um total de 1.200.000 alunos-
cooperadores. Em alguns departamentos, agrupa o
cooperativismo francês escolar a 95% da população
escolar.
O Congresso Nacional do Departamento Central de
Educação realizado em Tours em 1948, visando ao valor
social da criança, e da mulher educadora e mãe, dá a
seguinte definição ao cooperativismo escolar:
“No ensino público, as Cooperativas escolares são
sociedades de alunos, dirigidas por êstes com o concurso dos
professôres, tendo em vista atividades comuns. Inspirada por
um ideal de progresso humano, tem por objetivo a
educação moral, cívica e intelectual dos cooperadores, com
a gestão da sociedade e o trabalho de seus associados. Os
frutos comuns do trabalho são destinados ao equipamento
da escola e ao melhoramento das condições de trabalho, à
organização da cultura artística e ao divertimento dos
associados, ao desenvolvimento das obras escolares e pós-
escolares de ajuda mútua e de solidariedade”.
Está aí bem frisado o cunho educativo do cooperativismo
escolar.
É o trabalho coletivo como base de educação, através da
aquisição de livros, cinemas educativos, discotecas,
excursões, proteção aos pássaros, trabalhos hortícolas,
combate a insetos daninhos, festas, teatrinhos, bibliotecas,
fabricação e venda de objetos artísticos; feitura e aquisição
de material de ensino; compra e distribuição de livros e
instrumentos para trabalhos manuais; decoração e
embelezamento da escola; colheita e venda de plantas
medicinais; pequenas farmácias e pelotões firmes de saúde;
jogos esportivos; cultivo de jardins, de viveiros, hortas e
pomares; organização de pequenos jornais escolares; criação
de coelhos, bichos de sêda, animais de laboratórios:
tômbolas; correspondência intercooperativa, etc.
Desde 1931 foi esta a orientação que imprimi à
propaganda, consubstanciada em folhetos, livros,
comunicados e nos estatutos já referidos. E citemos a Delom.
Já fêz sentir que Francisco Ravard acentuou como a
realidade histórica ultrapassa hoje os limites infinitos,
criados especulativamente, pelo homem, e procura buscar, às
vêzes torrencialmente, seu próprio curso. A escola não pode
permanecer inerte ante o impulso avassalador dêsse
movimento renovador. Não pode, tampouco, com suicida
teimosia, contribuir para a formação de mentalidades que
entrem em choque agudo com a realidade circunjacente e
sejam como organismos de destruição ou de perturbação.
Há-de ir ao encontro delas, criando mentalidades robustas e
serenas, inclinadas a atuar retamente na hora que lhes
corresponda dentro do processo histórico.
“Na Cooperativa apresentam-se, aos olhos do aluno, em
síntese harmônica, valores individuais. O princípio
cooperati- vo baseia-se, com efeito, no reconhecimento da
personalidade, sem menosprêzo da coletividade, e do valor
desta, sem menosprêzo daquela”.
“Nem o individualismo absoluto, que supõe desprêzo dos
interêsses gerais e coletivos, áspera luta pelo predomínio pes-
soal e competição brutal frente às pretensões igualmente uni-
laterais de outras personalidades, nem absoluto coletivismo,
que significaria a anulação do individuo, o sacrifício de
personalidade humana e, até certo ponto, a escravidão.
Frisa Ravard ainda que eminentes educadores como
Cousinel, Ferrière e Decroly se mostraram fervorosos partidá-
rios do cooperativismo escolar como elemento pedagógico de
primeira ordem. Concordam com Profit num dos maiores efeitos
do cooperativismo escolar; o aperfeiçoamento moral dos
alunos, como Charles Gide o assinala.
FÁBIO LUZ FILHO 81
“Realiza admiràvelmente um postulado essencial da escola
moderna; educação mediante a colaboração ativa do discipulo,
de preferência à imposição coativa do mestre. Ação
sobrepondo-se a normas abstratas. Hdbitos e sentimentos
preferiveis a profundas e incompreensíveis dissertações. Ao
aprender a subordinar seus interêsses ao bem-estar geral,
como requisito essencial para a marcha do organismo
cooperativo, recebe o aluno uma lição social da maior
transcendência que a mais bela exposição que pudesse
ouvir dos lábios de seu professor.
“Ao separar suas pequenas moedas para a
contribuição mensal, adquire o aluno belíssimo hábito de
economia. E, quando no encerramento do exercício anual, a
cooperativa lhe devolve sua parte nos benefícios obtidos, e a
escola inaugura seus novos laboratórios, fruto do trabalho
comum, será o aluno capaz de aquilatar devidamente do
valor do esfôrço de todos para consecução de um fim útil.
“Estará disposto o aluno a ser, na situação que lhes
corresponde na vida, um membro útil do conglomerado social”
A cooperativa escolar canalizará, ademais, vocações, dando
sentido de responsabilidade às crianças.
Abeberado do cooperativismo escolar francês, acentua
o mesmo autor que os administradores e fiscais são os
próprios alunos, desempenhando os professores um papel
mais de conselheiros do que de gerentes ativos. São os
próprios alunos que fazem os regulamentos, nomeiam
comissões, criam seções, sugerem planos e facilitam os
recursos financeiros. Verificam, além do mais, as compras,
determinam a aplicação dos fundos, estabelecem sanções
contra as possíveis transgressões das normas estabelecidas
pela comunidade. É um perfeito autogovêrno infantil, que
não encerra nenhum perigo, de vez que robustece a
confiança da criança em si mesma, faz que se sinta
realmente responsável por um trabalho sério, pela
aplicação diária dos princípios da eqüidade e da justiça.
A cooperativa escolar, em síntese, prepara o aluno para
desempenhar no futuro altas funções, dignas e úteis.
“Mas, a finalidade econômica não deve, tampouco, ser
subestimada, sem se chegar ao exagêro materialista que su-
bordina todo o processo social às realidades econômicas;
mas, reconhece sua influência poderosa sôbre tôdas as
atividades da vida e, sobretudo, no campo específico da
organização interna da escola”.
82 COOPERATIVAS ESCOLARES
É o cadinho de uma nova mentalidade, realista e não ver-
balista, preparadora de bases culturais e humanas que a vida de
hoje exige, com o primado do fenomenismo econômico.
“As cooperativas escolares são instituições circum-escola-
res formados pelos alunos de um determinado centro docente
que se propõem iniciar seus associados na prática, em pequena
escala, de tôdas ou de algumas formas de cooperativas
econômicas, com tendência a que as escolas se bastem a si
mesmas, centralizando em tôrno das cooperativas escolares tôda
as demais obras escolares anexas, e fazendo da escola uma
verdadeira comunidade de trabalho, uma organização viva de
educa-cão social, eficiente e prática”.
Ana Muzzio, a ilustre educadora, acentua que as coopera-
tivas escolares são consideradas como instrumentos de
formação intelectual e moral. Descobrem elas e desenvolvem
nos alunos qualidades de caráter, a iniciativa, a decisão, a auto-
confiança e o respeito a si próprios e aos demais. Contribuem
para a formação da personalidade física, moral e intelectual da
juventude, criando o hábito da reflexão, e do julgamento.
Também habituam ao uso da palavra para fazer valer os
próprios argumentos e também ensinam a calar no momento
oportuno.
Estimulam as iniciativas privadas, harmonizando-as com
esfôrço comum; ensinam a verdadeira disciplina, que é o
espeito à lei; permitem a expansão da individualidade, mas
nspirando-se, principalmente, no sentimento de solidariedade
de ajuda mútua.
Ensinam, finalmente, a viver a verdadeira liberdade, que é
responsabilidade.
Maurice Colombain, ex-chefe do Serviço de Cooperativis-
mo, da Oficina Internacional do Trabalho, em seu livro “La
valeur éducative des coopératives scolaires” já citado, define
magistralmente essas “pequenas repúblicas” como
combinando as vantagens dos dois modos de ensino: o
ensino em comum e o ensino individualizado ao máximo.
O ensino em comum em classes compostas de elementos
heterogêneos é tido como fator de retardamento dos espíritos
mais vivos, sem permitir a eclosão dos mais lentos.
Pela variedade de tarefas que impõem aos seus alunos-as-
sociados, a cooperativa, atividade lúdica, oferece a cada um
possibilidades de se consagrar mais particularmente àquelas que
correspondem a seus gostos ou aptidões, e, por isso, como o faz o
ensino individualizado, lhes fornece oportunidade para um
desenvolvimento incontido de suas faculdades naturais.
FÁBIO LUZ FILHO 83
O ensino individualizado é acoimado de fazer desaparecer
o gôsto e o estimulante do emulação, de afastar fatôres de
formação que envolvem as relações diretas entre semelhantes,
de impedir o nascimento de sentimentos coletivos.
“La coopérative scolaire comble cette lacune”.
Cada atividade que nela se exerce depende das outras na
medida em que delas se distingue, só adquire seu completo
valor quando ocupa seu lugar na obra comum. “Resulta que,
neste caso, a especialização das tarefas, longe de criar o
isolamento e a dissociação, é fator eficaz de solidariedade
orgânica”.
“Certes, dans les cas particulièrement difficiles, les
jeunes coopérateurs demandent conseil à leurs maitres.
Quelques fois, les status donnent à ceux-ci certains pouvoirs
de contrôle, voire um veto qul suspend dans leurs effets ou
annule les décisions librement prises par les écoliers
associés. En fait, ce droit de veto est, le plus souvent, le signe
d’une grande autonomie de gestion, car c’en est le
contrepois. C’est dans la mesure où ils se sont tenus à
l’écart de la gestion proprement dite que les adultes se
sentent obligés et justifiés à s’assurer de sa sagesse”. Êste
final justifica a intenção educativa que não
intervencionista.
Charles Henri Barbier assinala, como necessárias ao
pleno desabrochar da criança, a educação para a
autonomia e a harmonização de esforços individuais com os
do grupo.
Eis o duplo sentido essencial da ação cooperativa e o
“self-help” e a ajuda mútua: formar homens capazes de
praticar plenamente o “self-help” e de o compreender, e, ao
mesmo tempo, praticar o auxílio mútuo. É isto criar um
tipo de cidadãos educados não só para a autonomia, senão
também para a solidariedade, para o individualismo e o
altruísmo, para a vida social. Será um tipo de homem que
terá o gôsto da liberdade por si mesmo e pelos outros, a
vontade de agir por contra própria, e uma vontade igual de
harmonizar sua ação com a de seus semelhantes, a
necessidade de ser verdadeiramente êle próprio e a de
compreender os outros.
“É no coração das crianças que se prepara essencialmente
a guerra ou a paz de amanhã... Paralelamente à sociedade
de seus pais, as crianças têm direito à sua própria sociedade,
com os seus iguais, com a natureza, com os animais, com as artes
e os livros.
“Entretanto, o respeito devido à criança não pode ir até à
abstenção pura e simples em matéria educativa. A criança
84 COOPERATIVAS ESCOLARES
continua cada dia a nascer de nós... Os métodos criadores
da passividade na criança, atrofiam, para sempre, a vida do
espírito e dão, perigosamente, o gôsto das soluções já
elaboradas, recebidas do exterior”.
Assim, outros métodos educativos existem que
adquiriram por tôda a parte uma importância que não é
para desdenhar:
o trabalho escolar de equipe, de autogovêrno, e as
cooperativas escolares.
“O problema educativo essencial situa-se, hoje, para os
cooperadores, em têrmos novos. É êle, antes de mais nada,
fazer homens”.
O COOPERATIVISMO ESCOLAR, A EDUCAÇÃO
VOCACIONAL, A DEMOCRACIA
“Cooperativas”, órgão de publicidade da União
Panamericana, de Washington, em seu número de junho de
1953, publicou longo e brilhante trabalho da autoria de
ilustre técnico da Seção de Cooperativas da Divisão de
Trabalho e Assuntos Sociais dessa mesma entidade, Julio
Mejia Scarneo. Neste trabalho o autor faz referência a
autores especializados sul-americanos, entre êles os
brasileiros Fáblo Luz Filho e J. Monserrat, e tem conceitos
de muita justeza e oportunidade sôbre o cooperativismo
escolar, encarado sobretudo do ângulo do ensino e da
educação vocacional. Júlio Mejia encontra-se agora no
Peru, depois de ter estado em Pátzcuaro, no México.
HISTÓRICO
Fazendo um histórico do cooperativismo escolar na
Europa, diz êle que, na Europa, a partir da terceira década,
se utiliza a organização cooperativa escolar para despertar
habilidades natas para determinadas atividades técnicas, e
também realizando trabalho dêste caráter, que não só tem
beneficiado o aluno, senão também a escola e acomunidade,
indo desde a leitura do material escolar até ao
reflorestamento da zona onde está situada a escola; em
outros casos, desde a conservação e melhoria das condições
da escola até ao cultivo de produtos alimentícios e criação de
aves. Passa, assim, por tôdas as fases conhecidas como
conhecimentos básicos da educação agropecuária e da
educação industrial.
FÁBIO LUZ FILHO 85
NOVOS MÉTODOS DE ENSINO
Esta forma de ensino, moderna e dinâmica, o distingue
perfeitamente do método tradicional de ensino intelectual e
teórico, que imperava antes da primeira guerra mundial.
Esta mudança de métodos de ensino deve-se, em grande
parte, a uma necessidade, a de cooperação, frente à
desordem material e moral que resultou dêsse conflito. Foi
a França a iniciadora dêste movimento de cooperativismo
escolar, no qual a criança, desde seus primeiros anos de
estudos, aprende a interessar-se pela vida da comunidade e
a ser socialmente útil, e também um cidadão consciente.
Dado o êxito das cooperativas escolares francesas,
estendeu-se, ràpidamente, pelos países anglo-saxões e
atualmente se usa também a cooperativa escolar como um
meio muito eficiente de educação nas colônias francesas da
África, onde existem problemas econômicos e sociais bas-
tante sérios.
Frisa mais o citado técnico que se deve definir e
proclamar que a cooperativa escolar representa um método
de ensino, dadas a sua natureza e atividade, já que ensina a
prática cooperativa, mediante o estímulo ao espírito de
cooperação da criança, tornando menos agressivo o espírito
egoísta que existe também nela e que, atualmente, pela
falta de uma orientação adequada, muitas vêzes a
transforma num elemento anti-social e perigoso no futuro.
“Apesar dêstes fatôres psicopedagógicos, tem também
o método cooperativo um valor muito importante como
complemento do interêsse do aluno em aprender e é neste
ponto que descobrimos seu valor potencial para um
eficiente ensino da educação vocacional em suas várias
formas.
“O método de ensino cooperativo é ideal para a
aprendizagem por grupo de alunos, seja para as atividades
agrícolas, industriais, comerciais, ou para a vida comum.
Isto se deve a que, ao aplicar-se êste método, através da
cooperativa escolar, se deve tomar em consideração que
esta instituição compreende dois aspectos: o aspecto de
associação de alunos e o de emprêsa de alunos. Quando se
trabalha mediante a organização cooperativa escolar, os
mestres dão com maior eficiência os cursos teóricos, que
podem tornar-se práticos mediante a emprêsa dos alunos.
Assim mesmo, cursos teóricos relacionados com a educação
cívica, adquirem vitalidade, realismo na associação de
alunos, que, como dizíamos antes, forma dois aspectos da
cooperativa escolar. Daqui também nasce sua
86 COOPERATIVAS ESCOLARES
vantagem sôbre outras Instituições associadas com a escola,
que não reunem tôdas as possibilidades duma entidade que é,
em si, uma escola do vida e atividade, um pequeno mundo, e
dará bons resultados mais tarde, quando o aluno se converter
em cidadão, e comprove que não é indiferente ao mundo, mas
que forma parte dêle, porque já viveu essa mesma vida em
criança, na sua escola, e foi educado por um método que
servirá também para construir seu futuro”.
EDUCAÇÃO AGROPECUARIA
Adiante ressalta, com a mesma convicção e calor, que a
cooperativa escolar, como método de ensino cooperativo na
educação agropecuária, representa um valioso fator na moti-
vação do ensino e, assim, crê que tem mais importância que
as organizações de jovens conhecidos como clubes “4-H” e
Futuros Agricultores da América, que são organizações
estudantis típicas norte-americanas que colaboram no
ensino técnico e que estão sob os auspícios de órgãos
estaduais, fora do contrôle das autoridades educadoras.
“Uma cooperativa escolar, que funcione numa escola
agropecuária e que pode chamar-se granja cooperativa
escolar, deve ficar sob a direção e a supervisão dos mestres
da mesma escola. Deve esta granja cooperativa escolar, em
seu aspecto de emprêsa, dar lugar a trabalhos de campo
que permitam ao mestre explicar o processo da produção.
Posteriormente, dará lugar a que os estudantes realizem
operações de venda dos produtos da granja cooperativa, o
que daria oportunidade para explicar o mecanismo dos
preços e do mercado, além dos processos para a conservação
e o acondicionamento dos produtos agrícolas. O processo
administrativo da granja, levado à prática pelos próprios
estudantes, dá lugar ao ensino aos processos
administrativos no campo da agricultura, com noções
fundamentais sôbre o contrôle contábil e a matemática co-
mercial, além da documentação mercantil”.
DEMOCRACIA
“O aspecto da associação cooperativa dos estudantes dará
oportunidade para fazer sentir ao aluno sua responsabilidade
moral e social com respeito a seus colegas de estudos e a obra
que se está realizando. As reuniões dos conselhos de adminis-
FÁBIO LUZ FILHO 87
tração e das assembléias gerais dos associados, contribuirão
para arraigar, no educando, os princípios democráticos. Ade-
mais, dará oportunidade para que o professor avalie, com
mais objetividade, o interêsse e a aptidão do aluno,
principalmente a fim de orientá-lo na sua verdadeira
especialidade dentro do campo da educação apropecuária”.
EDUCAÇÃO INDUSTRIAL
E adiante acentua como o estabelecimento da
cooperativa escolar pode denominar-se: oficina-cooperativa
escolar. Nela se conseguirá que os alunos utilizem, com o
máximo proveito, o material de trabalho. Ademais,
considerando-se que o fator mais forte de motivação, na
educação industrial, é o interêsse do aluno pelo trabalho do
oficio, que tem seu complemento na vantagem econômica,
por pequena que seja, a qual representa o fruto do trabalho
pessoal, não pelo trabalho em si mesmo, mas pelas
repercussões que dêle derivam por meio do método
cooperativo. A finalidade da educação industrial não é só
produzir bons trabalhadores, senão pessoas com um senso de
responsabilidade social adquirido na oficina-cooperativa es-
colar.
“A oficina-cooperativa escolar, em seu aspecto de
emprêsa, dará lugar a trabalhos de oficina que permitirão ao
mestre explicar o processo da produção industrial, desde o valor
da matéria-prima, a mão-de-obra, até à necessidade de capital de
trabalho e capital em maquinaria. Posteriormente dará lugar a
que os estudantes realizem prática de equipe mediante um
trabalho coletivo sob a direção e supervisão do professor ou
professôres, o que permitirá fazer cálculos básicos do custo da
produção industrial, considerando seus diversos fatôres, assim
como o cálculo do desgaste da maquinaria, etc. Se realizarem
trabalhos reprodutivos — do lucro produzido pela venda destes
artigos manufaturados, repartir-se-á uma parte entre os alunos
— associados em proporção ao trabalho realizado. Explicar-se-á,
com um exemplo prático, o processo administrativo de uma
fábrica para uma industria pequena, tão indispensável nos paises
da América Latina”.
Já foi definida a democracia como consentimento dos
governados e participação dêstes no governo, baseada em uma
compreensão comum obtida pela livre discussão, do que décor-
re o senso de uma responsabilidade comum. E já se disse que só
a educação em seu sentido lato poderá aprimorar êsse senso
88 COOPERATIVAS ESCOLARES
de responsabilidade e dar à democracia tôda a sua fôrça de
renovação, com a participação de interêsses dentro dos gru-
pos e entre êsses grupos, o que levará à direção social
consentânea ARISTÓTELES frisou que principio
fundamental do govêrno democrático é a liberdade, com
raízes em valores morais, só o dissemos.
Lasserre frisa que a democracia cooperativa é
responsável, no sentido de que na cooperativa não se pode
nem se deve decidir sob influências de paixões, de fantasias e
de mesquinhos interêsses, sem que isso tudo tenha imediatas
conseqüências ruinosas sôbre a economia de todos os
associados; solidária, pois na democracia cooperativa os
interêsses de todos são práticamente os mesmos, são
homogêneos; combatente, pois mantém uma batalha
constante pela produção, a luta contra os preços abusivos,
contra a concorrência agressiva, contra os inimigos do
movimento cooperativo; militante, pois tem uma vontade de
conquista, além de ser um movimento social com a
grande ambição de transformar a ordem social vigente, am-
bição de substituir a economia capitalista por uma economia
cooperativa tão completa quanto possível.
Repetimos que não é sem uma base educativa que se
aprimoram os quadros cooperativos para que tão elevados
objetivos sejam alcançados. E Pernambuco cedo isto
compreendeu, quando deu ênfase ao cooperativismo escolar
pela atuação ímpar de Nair de Andrade, pelo que merece
louvores.
Antônio Sérgio, o ilustrado professor e escritor luso, a
que já nos referimos, enviou-nos recentemente seu último
livro —“Cartas do terceiro homem”, bela profissão de fé
cooperativis-ta, no qual tem conceitos justos sôbre o
cooperativismo esco- lar, roborativos do que vimos dizendo
há anos em livros, folhetos, comunicados e artigos. Frisa êle
que os verdadeiros instrumentos de educação da juventude
devem ser buscados na vida civil dos nossos concelhos
antigos, dos nossos municípios modernos, e na
organização democrática das cooperativas de hoje. E acena,
em seguida, para o cooperativismo escolar pelas intrínsecas
virtudes educativas que todos lhe reconhe- cem.
“Percebamos que a liberdade é que é o sol das almas”, diz
êle, como só vimos.
Já fizemos sentir em livro que o cooperativismo tem seus
brônzeos alicerces fundamentados na igualdade, na espontânea
ação comum, no aperfeiçoamento dos laços de solidariedade, no
mútuo consentimento, na fraternização do convívio freqüente,
na solidariedade vicinal. Defende os atributos essenciais da
dignidade da pessoa humana. É almo instru-
FÁBIO LUZ FILHO 89
mento de educação econômica, moral e social. Fora disto, se-
rão as cooperativas simples casas de consignação, corpo sem
alma ou idealidade, falhando na construtura da nova ordem
sócio-econômico-moral para a qual caminha o mundo...
Proudhon em “Solution du probleme social” disse que a
reciprocidade, na criação, é o principio da existência. Na
ordem social, a reciprocidade é o princípio da realidade
social, a fórmula da justiça. Tem por base o antagonismo
eterno das idéias, das opiniões, das paixões, das capacidades,
temperamentos, interêsses. “Elle est la condition de l’amour
méme. .
E Proudhon ferreteia: o mal que nos aniquila provém de
que a lei da reciprocidade é desconhecida, violada pelos
egoísmos obdurados. “Le reméde est tout entier dans la
promulgation de nos rapports mutuels et réciproques, voilá
toute Ia science sociale”...
Já temos exaustivamente dado ênfase, em nossos livros,
ao papel que representarão as cooperativas no quadro rural
brasileiro, tecla que continuamos a percutir cada vez mais
incisivamente, por sermos um país com problema agudos
cujas nascentes se situam na conjuntura da produção da
terra, com a massa da população rural precisando de
alforria social e econômica, o que lhe trará sua integração
permanente na vida econômica, social e cultural da Nação.
Continuemos, pois, a focar êsse assunto como numa
enfadonha monódia, que sua magnitude o justifica e continua
sendo posta em constante ressalto mesmo em países que já
ultrapassaram o infortúnio do triste estádio de subdesenvol-
vimento crônico.
Não considerem, pois, os caros leitores, essa insistência
como uma coisa torpente, uma melancólica zangurriana . . .
É um imperativo das circunstâncias, realmente cheio de acer-
bidades, árido, sem as suavidades melódicas de um Sibélius
ou um Schumann conduzindo-nos a repousantes
intermúndios miríficos... Mas, as paisagens humanas nem
sempre nos po-dem transportar a êsses deliciosos páramos...
Dizemos em “Teoria e prática das sociedades
cooperativas” que o homem, como acentuou o PROF.
ENDRES, faz repousar seus princípios morais sôbre ações
práticas, partindo de uma profissão de fé teórica.
O PROF. FRAUCHIGER acentuou que o principal
objetivo da educação é tornar possível ao homem a vida em so-
ciedade.
90 COOPERATIVAS ESCOLARES
O PROF J. LORENZ frisou que se deveria tomar uma
como atitude religiosa em favor da idéia cooperativa, em
face da transcendência econômico-moral de seus postulados.
O Dr. MIVILLE estudou a educação do ângulo
cooperativo, achando que o Estado não deverá limitar-se, no
futuro, à formação prática e especializada dos Jovens; mas
também, deverá prepará-los para que encarem com firmeza
seus direitos e deveres de homens e de cidadãos.
O Dr. WARENWEILER afirmou ser a Suíça um país
de homens lúcidos e operosos. A organização econômica
cooperativa terá, a seu ver, papel de excepcional relêvo nesse
particular.
O Dr. HILFIKAR partiu do principio pestalozziano da
“chambre de famille”, salientando a necessidade de se apri-
morar o sentido da comunidade no seio da família.
Comunidade e cooperação são conceitos aproximados e
quase equivalentes.
MAURICE COLOMBAIN diz que há entre o esfôrço
cooperativo e o de educação em geral uma relação
constante, que se verifica em volta de nós, através do tempo
e do mundo. Como pôr em dúvida a necessidade da
educação cooperativa para a ação cooperativa? Verificamos,
ao contrário, continua êle, o vigor e a fecundidade das
cooperativas que a educação fêz nascer e crescer. Vemos
mesmo que todos os governos que reconheceram os
benefícios da ação cooperativa, também reconheceram a
necessidade da educação cooperativa; que certas
províncias do Canadá tomaram a seu cargo as despesas com
essa educação; que grandes administrações dos E. Unidos
publicam em abundância não sòmente trabalhos estatísticos,
monografias sôbre o cooperativismo, mas também
verdadeiros manuais que ensinam a arte de construir e
utilizar o instrumento cooperativo; que o govêrno polonês e
o tchecoslovaco, dentre outros, subvencionavam e que o
govêrno finlandês subvenciona ainda a educação dos
associados, dos dirigentes e dos empregados das
organizações cooperativas; que a lei grega de 1938 sôbre
cooperativismo previa a criação duma escola coo-perativa
cujo diploma seria obrigatório para o pessoal encarregado
do controle das cooperativas e também sabemos o que as
instituições cooperativas dos países da África e da Ásia
deviam aos “Regístrars of Cooperatives Societies”, que não
eram sòmente controladores, senão também educadores,
cuja obra foi sempre sólida tôda vez que se apoiou mais
fortemente na educação. Hoje, essa tarefa continua, mas
com elementos indianos.
FÁBIO LUZ FILHO 91
BÓREA aconselha a multiplicação das assembléias gerais,
como meio educativo.
E WATKINS, dentro da concepção subjetiva do Estado,
acha que êste, por natureza, se preocupa apenas com a esta-
bilidade, a estática social, e que a livre associação está inte-
ressada no movimento, na dinâmica, no progresso, na evolu-
ção social. Um ponto usual de partida (para a educação
cooperativa) é a idéia de que os princípios essenciais do
Cooperativismo não são sòmente princípios de organização
social, senão também princípios de conduta individual.
Tomado o principio de eqüidade, não podemos deixar de
considerar que a justiça social é sempre possível de ser
realizada em uma sociedade cujos membros procuram
praticar a justiça individualmente. O problema fundamental
da educação cooperativa, WATKINS o vê como visando a um
correto conglomerado social, que deve estimular o pensamento
original, a aguda, mas justa crítica, a boa camaradagem, o
desejo de executar uma boa parte de tôdas as tarefas comuns e o
orgulho de uma realização conjunta, o senso do bem comum e a
capacidade de alcançá-lo pela solidariedade econômica e social,
bem compreendida e melhor aplicada.
No Congresso canadense dos cooperadores de língua
fran- cesa que se realizou na Universidade de Ottawa em
agôsto de 1950, Robert Gauthier, diretor do ensino francês
em Ontario, desenvolveu brilhantemente o tema “A fôrça da
coordenação”, frisando como a educação é fator importante
de coordenação, e apelou para que as escolas primárias e
secundárias do país dessem maior atenção ao
cooperativismo em seus currículos, quando do ensino das outras
matérias.
A educação cooperativa dará, pois, ao movimento coope-
rativo brasileiro substrato mais sólido, dias menos empacha-
dos de vacilações e dissídios internos, e os lineamento
definitivos de uma contagiante consciência cooperativa.
Todos reconhecem que essa atitude envolve um
indurado esfôrço para o nosso meio: mas, justamente por
isso, devemos perservar nêle, como acicate para uma cruzada
sem repouso...
Já tivemos oportunidade de frisar que Rui Barbosa disse,
em uma de suas lapidares e lentejoulantes orações, que o mal é
inexorável pela consciência de ser caduco; o bem, paciente e
compassivo, pelo certeza de sua eternidade.
Aos quadros de nossos cooperadores no geral falece o
necessário substrato de conhecimentos específicos. Os que di-
rigem, os que não devem dar ao movimento distorções que o
deslegitimem, os que labutam no campo da gestão técnica,
92 COOPERATIVAS ESCOLARES
a massa dos cooperadores ainda, em muitos meios, amorfa e
vacilante, devem, todos, em uníssono, conclamar militantes
para uma ação comum de educação cooperativa, nas suas vá-
rias formas, para que o caminho do bem cooperativo, que é
eterno, se desatravanque dos empeços que o avergam e re-
tardam um andamento mais rápido e um tono mais adequa-
do para que alcance o seu verdadeiro sentido ético-
econômico. E para que não esperem tudo do paternalismo
estatal.
Também já fiz sentir em livro que o cooperativismo tem
seus brônzeos alicerces fundamentados na igualdade, na es-
pontânea ação comum, no aperfeiçoamento dos laços de soli-
dariedade, no mútuo consentimento, na fraternização do
convívio freqüente, na solidariedade vicinal. Defende os
atributos essenciais da dignidade da pessoa humana. É almo
instrumen-to da educação econômica, moral e social. Fora
disto, serão as cooperativas simples casas de consignação,
corpo sem alma ou idealidade, falhando na construtura da
nova ordem sócio-econômico-moral para a qual caminha o
mundo...
Já foi definida a democracia como o consentimento dos
governados e participação dêstes no govêrno, baseada em
uma compreensão comum obtida pela livre discussão, do que
decorre o senso de uma responsabilidade comum.
Renomados publicistas já frisaram que só a educação em
sentido lato poderá aprimorar êsse senso da
responsabilidade e dar à democracia tôda a sua fôrça de
renovação, como a participação de interêsses dentro dos
grupos e entre êsses grupos, o que levará à direção social
consentânea, como vimos.
A cooperativa é a democracia em ação.
O movimento cooperativo apela para técnicas
educativas novas, e considera a cooperativa em si mesma, em
sua própria essência, como um pacífico processo
democrático, balestreiro para defesa do interêsse econômico
do povo, com um profun-do sentido reformador. Educa para
o autogoverno, a auto-suficiência, para aquela noção de
liberdade organizada a que já me referi em livro.
Diz Eugen Relgis que “el verdadero egoísmo consiste en
el libre, en el voluntario perfeccionamento de la
personalidad en beneficio de la humanidad. El altrúismo
significa: solidaridad consciente del individuo que,
consagrándose a la humanidad, sabe que siempre recibe de
ella mucho más de lo que él le da”. E refere-se, em seguida,
ao egoaltruísmo, que resume as duas atitudes e se aproxima
da conceituação cooperativa do “eu coletivo”.
FÁBIO LUZ FILHO 93
Ao saudar ilustre técnico argentino em visita ao Brasil,
M. Babenco, tivemos oportunidade de dizer que os homens,
efetiva e desgraçadamente, se têm alheado dêsses sãos, evi-
ternos princípios de ajuda mútua e recíproca compreensão,
que embasam o movimento cooperativo mundial. E o corolá-
rio melancólico disso é êsse generalizado e contristante espe-
táculo de “psicose de destruição”, que habita as mentes; êsse
ódio que, como garruncho, peia as almas dos homens tresan-
dados; êsses conhecidos desajustamentos, cujas principais
fontes se podem encontrar nas convulsões de duas guerras
hediondas.Daí a premente necessidade de um roteiro de
evan-gelização, de uma cruzada universal para amparo e
salvação da criança, microscosmo de maravilhas, cadinho de
virtualidades enobrecedoras, dessa criança que é a principal
vitima das incompreensões que lavram entre os homens, dos
rudes entrechoques de suas paixões, do fel de suas
discriminações, do ácido de seus egoísmos obnubilantes, de
tôdas as suas erronias desagregadoras, dos desníveis
econômicos estabelecidos pelo atual sistema econômico.
As cooperativas criarão (e muitos já o estão fazendo)
uma nova mentalidade ou uma “neu Sachlichkeit” nos meios
rurais tipicamente brasileiros, em que o cabloco ou matuto,
como o disse Oliveira Viana nunca havia sentido com
acuidade a necessidade efetiva da “aldeia” ou da “tribo”, não
“sentindo”, como o cidadão da “cidade” grega ou o burguês
da “comuna” medieval, a sua pequena comunidade local.
Acentuemos que Mac Iver disse bem que assim como
cada um de nós faz a sua sociedade, esta, por sua vez, nos faz
a cada um de nós. Se nossa individualidade é poderosa, forta-
lece ela a nossa sociedade e vice-versa.
Artur Rios frisou que a comunidade é uma trama de
relações e contactos íntimos.
CAPÍTULO IV
O COOPERATIVISMO NOS CURRICULOS ESCOLARES
Possuía o Brasil, em 1958, registradas no Serviço de
Economia Rural, do Ministério da Agricultura, 883
cooperativas escolares, achando-se em Curitiba, embora,
infelizmente, estacionária, a maior federação dêsse tipo da
América do Sul, como vimos, filiando a 90 cooperativas
escolares, ex-caixas escolares. No Estado da Paraíba
encontrava-se a segunda federação do mesmo tipo do Brasil.
Pernambuco, que visitamos mais uma vez em setembro
de 1958 (quando participamos, como delegado do Brasil, do
Centro Sul-Americano de Crédito Agrícola, seminário interna-
cional, de 1 a 21 de setembro de 1958), tinha 121 cooperativas
escolares em funcionamento, com cêrca de 42.000 alunos-as-
sociados.
Fundada em 1954, a Cooperativa Escolar Fábio Luz (no-
me de meu saudoso pai), do Grupo Escolar de Jaboatão, em
Pernambuco, possuía 637 alunos-associados em 1958, com
um capital realizado de 1.274 cruzeiros e um movimento de
vendas de mais de 21.000 cruzeiros. Seu Conselho de Admi-
nistração era composto de nove meninas e três meninos, cha-
mando-se Loide Amorim a presidenta. Um dos conselheiros
chamava-se Severino Ramos da Luz.
A Cooperativa funciona às terças e quintas-feiras, de 12
e meia horas às treze e meia (2.° turno): e de 8 às 9 horas no
1º turno, às quartas e sextas.
As reuniões do Conselho de Administração se realizam
às sextas-feiras às 9 horas.
Os trabalhos são, como é natural, realizados pelas pró-
prias crianças, com orientação da professôra responsável.
Quando do Seminário acima aludido, fomos surpreendidos
por uma comovedora visita de todo o Conselho de
Administração dessa Cooperativa, que, acompanhado de sua
dedicada professôra-orientadora, e dessa distinta educadora que é
Nair de Andrade, se dignaram ofertar-me lindo ramo de flores, o
FÁBIO LUZ FILHO 95
que, sensibilizando-me profundamente, veio suavizar a
aridez dos temas que vinhamos, exaustiva e
ininterruptamente, debatendo de manhã à tarde, às vêzes até
entrando pela noite. Gentis crianças e belos cooperadores
futuros!
Na preocupação constante de levar o movimento
cooperativo às escolas, e elevá-lo, o Serviço especializado do
DAC pernambucano, em colaboração com o Departamento
Cultural e Informativo dos Estados Unidos, Instituto
Nacional de Cinema Educativo e de acôrdo com a
Secretaria de Educação e Cultura, realiza, com pleno êxito,
como verificamos com prazer, projeções cinematográficas
semanais nas diversas cooperativas escolares sediadas em
Recife.
Eis o quadro do cooperativismo escolar brasileiro, em
dezembro de 1958:
ALAGOAS.................................................... 45
AMAZONAS................................................. 6
BAHIA.......................................................... 153
CEARÁ.......................................................... 28
D. FEDERAL............................................... 8
ESP. SANTO................................................ 1
GOIÁS............................................................ 4
MARANHAO............................................... 7
MINAS GERAIS........................................ 9
PARÁ........................................................... 42
PARAÍBA.................................................... 54
PARANÁ....................................................... 98
PERNAMBUCO......................................... 121
PIAUÍ........................................................... 5
RIO GRANDE DO NORTE..................... 10
RIO GRANDE DO SUL........................... 38
ESTADO DO RIO...................................... 35
SANTA CATARINA................................. 50
SÃO PAULO............................................... 165
SERGIPE...................................................... 1
TERRITÓRIO AMAPÁ............................. 2
“ ACRE.................................... 1
TOTAL......................... 883
São 89. 336 crianças associadas.
Quando se fala em cooperativismo escolar em Pernambuco,
fala-se em Nair de Andrade, culta, delicada e dinâmica.
96 COOPERATIVAS ESCOLARES
Foi com emoção que visitei em sua companhia a Cooperativa
Escolar Pereira da Costa, em Caxangá, e outras. Vi como
suas pequenas diretorias compenetradas, sob a ação discreta
de professôras integradas na idéia, cônscias de seu valor
educativo, se reuniam, o presidente abrindo a sessão, a
secretariazinha lendo a ata, o exame e a prestação de contas,
etc. Uma escola viva de autodeterminação e de mútuo
entendimento, cadinho de solidariedade, futuros e capazes
cidadãos e cooperadores. Os filmes pedagógicos são por
Nair de Andrade utilizados com freqüência como preciosos
instrumentos educativos audiovisuais. Os demais Estados
deveriam enviar professôras a Recife, ao Departamento de
Assistência às Cooperativas, onde atua essa ilustre
educadora. Nelas é que está o caminho e a salvação.
Parafrasearia a Jesus: “Nelas está o caminho, a verdade, a
vida , . .“ Os americanos consideram-nas “núcleos de divul-
gación doctrinaria”, e sólida base para a formação de outros
tipos de cooperativas,
Por tôda a América do Sul se vai reconhecendo o
alcance dessas organizações. Em setembro de 1943, realizou-
se em Bogotá, República da Colômbia, o primeiro congresso
das cooperativas dêsse país. Dêle participaram figuras
intelectuais de alto valor.
Entre as numerosas e brilhantes conclusões
apresentadas, uma se destaca pela sua transcendência: é a
referente à educação cooperativa.
Ei-la:
“Primeiro: O Congresso afirma: a) O principio, tão fre-
qüentemente olvidado, segundo o qual, antes de organizar
uma cooperativa, é indispensável proceder à formação
técnica e espiritual dos cooperadores: b) O corolário daquele
princípio assim formulado: “a solidez e a fôrça de tôda
cooperativa está na razão direta, de uma parte, das
condições favoráveis que oferece o meio na qual funciona, e,
de outra, da preparação cooperativista que tenham os
associados que a companham”; c) Que o cooperativismo já
fêz provas em tôdas as partes do globo e que as Américas em
geral, e a Colômbia, em particular, reunem excelentes
condições para que o cooperativismo possa nelas florescer e
frutificar e d) Que, por conseguinte, o êxito ou fracasso das
emprêsas cooperativas dependerá, sempre, não do sistema
cooperativo em si, mas do uso que se faça do mesmo.
Segundo: Para o incremento do sistema cooperativo na
Colômbia é indispensável organizar a educação cooperativa de
forma tal, que compreenda tôda a estrutura docente nacional,
FÁBIO LUZ FILHO 97
da Universidade à escola primária, sem que seja esquecido o
ramo secundário, normalista, industrial e extra-escolar:
1.° — A inclusão obrigatória, nos planos de estudos uni-
versitários, de cursos especializados de cooperativismo;
2.° — Ensino cooperativo obrigatório nas escolas normais
para preparar os mestres que possam desenvolver a
campanha cooperativa na escola primária;
3.° Revisão dos programas de estudo do bacharelato
para nêles incluir o ensino cooperativo, e o estabelecimento de
cooperativas de estudantes;
4° — Adoção, nos programas de ensino vocacional, agrí-
cola e industrial, de cursos obrigatórios para o operário da
cidade e do campo para uma ação cooperativa eficaz.
5.° Organização sistemática de educação cooperativa
por meio do rádio, do cinema, da imprensa periódica e
demais meios eficazes de propaganda;
6° — Solicitar dos arcebispos e bispos do pais que esta-
beleçam cursos de ensino cooperativo nos seminários.
Terceiro: “Que se constitua: a) — um Conselho Nacional
de Educação Cooperativa dependente da Federação Nacional
de Cooperativas, o quaL terá um representante do Ministério
da Educação e outro das cooperativas estudantis, para
dirigir, orientar, desenvolver e planificar;
b) — Que se destinem obrigatoriamente à educação
cooperativa 2,5% das sobras das cooperativas (norma
rochdaliana) que funcionem no país, e solicitar do Estado
uma contribuição não superior a essa percentagem;
C) — Que se estabeleça, com a contribuição acima, o
fun-do de educação cooperativa, que será manejado pelo
Conselho Nacional de Educação Cooperativa e pelo Estado;
d) — Que se criem os instrumentos legais necessários
para tornar exeqüíveis as cooperativas de serviços escolares e
estudantis, que dentro do atual estatuto jurídico colombiano
são impraticáveis;
e) — Apelar para as autoridades educacionais e o pessoal
docente de todo o país, não só para desenvolver este programa,
como para organizar o funcionamento das cooperativas de
professôres;
f) — O serviço de restaurantes escolares em forma
cooperativa entre os pais, o Estado e os amigos da escola;
j) — Que se solicite às emprêsas industriais e agrícolas
que uma percentagem de seus recursos para assistência social
se destine à educação cooperativa;
98 COOPERATIVAS ESCOLARES
h) — O intercâmbio dos estudantes de cooperativismo
entre os diferentes centros de ensino não só do país, senão
também do estrangeiro, e o envio de pessoas já formadas
(becados) àqueles pontos da Colômbia e de fora dela onde
funcionem emprêsas cooperativas de técnica aperfeiçoada.
Além disso, que se solicite das autoridades competentes que
facilitem que as férias se efetuem em tempo diferente nas
capitais e no Interior;
i) — Que regulamente o Estado o exercício de cargos re-
munerados nas cooperativas de maneira que, antes de três
anos, todos comprovem haver seguido cursos cooperativos
em institutos oficialmente reconhecidos;
j) — Que se não dêem auxílios ou subvenções nacio-
nais, departamentais ou municipais a cooperativas que não
cumpram o disposto nos pontos e e j.
Quarto: Que o Congresso designe uma comissão perma-
nente de três membros encarregados de desenvolver estas
recomendações;
Quinto: Que, em vista da situação atual do mundo, se
façam todos os esforços possíveis para que a organização do
ensino cooperativo termine e tenha seu pleno rendimento
antes do fim da guerra;
Sexto: Que o Conselho Nacional de Educação
Cooperativa, de que se fala na letra a do ponto terceiro,
elabore a cartilha cooperativista, reunindo, ordenada e
sintèticamente, os princípios básicos do cooperativismo e os
benefícios que traz ao cooperador, e as indicações essenciais
para fundar uma cooperativa; e recomendar aos Secretários
Departamentais de Educação que se disponham a fazer
copiosas edições da tal cartilha a fim de que sejam
difundidos êsses princípios e ensinamentos em tôdas as
escolas primárias e rurais da República”.
É também muito expressivo o exemplo da Polônia no
setor cooperativo, pois o ensino teórico e prático da doutrina
foi um dos fatôres decisivos para o rápido desenvolvimento
das sociedades cooperativas naquele país.
Segue o exemplo de outros países.
Afora as cooperativas escolares, cujo número, em 1958,
ascendia a 4.700, o movimento cooperativo no setor do
ensino pode dividir-se em três categorias:
a) — As escolas cooperativas fundadas e controladas
pelo Estado, com estreita colaboração por parte da União
Cooperativa Polonesa, que fornece programas, nomeia
professôres, etc.
Tais escolas se destinam principalmente aos empregados
e associados das cooperativas agrícolas. Durante o ano de
FÁBIO LUZ FILHO 99
1946-47, existiam 67 delas, sendo freqüentadas por mais de
4.000 estudantes; 296 professôres residentes nas escolas e 182
professôres externos. Ministram os ensinamentos teóricos, e
práticos, do sistema.
b) — Os cursos de treinamento rápido, organizados pela
União Cooperativa, com duração de uma ou duas semanas,
atingiram a cifra de 390, freqüentados por mais de 7.600
alunos. Dedicam-se às questões gerais do cooperativismo.
c) —Finalmente, os cursos por correspondência, cujo
número de alunos inscritos subiu a 25.722, sendo que em
1946, já haviam sido expedidos por êsses cursos diplomas em
número de 235.864.
A inscrição pode ser individual, ou por grupos, devendo,
entanto, o aluno responder individualmente ao questionário
que lhe é remetido, para que passe nos exames. A maioria das
inscrições por grupos compõe-se de alunos de cooperativas es-
colares, que são auxiliados por professôres da própria escola.
A Câmara dos Deputados da Província de Buenos Aires
acaba de aprovar um projeto de lei tornando obrigatório o
ensino do cooperativismo nas escolas de ambos os sexos,
oficiais ou particulares dessa Província. Foi autor do projeto
o deputado Dr. Alberto Vega.
For essa lei a Dirección General de Escuelas, através
de seus organismos técnicos, traçará o respectivo plano de es-
tudos e terá podêres para a indicação e seleção do pessoal
docente preposto ao ensino da matéria.
O ensino será teórico-prático e compreenderá, além do
estudo dos assuntos que sejam julgados de interêsse, a neces-
sária explicação e interpretação da lei orgânica de cooperati-
vismo da Argentina.
NO BRASIL, AINDA NA ARGENTINA E NO CHILE
Foi o Chile o primeiro país sul-americano a referir-se,
em lei, às cooperativas escolares (1927).
No Brasil vem de 1931 o início da propaganda das
cooperativas escolares pelo Ministério da Agricultura. Livros
e folhetos têm sido divulgados a respeito, oficial e
particularmente.
Existindo 883 cooperativas escolares registadas no
Serviço de Economia Rural até dezembro de 1958, nunca será
dema- siado insistir nas virtudes edutivas que possuem.
A Argentina possui também técnicos, como o Brasil, que se
não cansam de pregar as excelências do sistema cooperativo.
100 COOPERATIVAS ESCOLARES
aplicado à escola nova. Veja-se o Congresso de Córdoba
em 1945.
Assim é que o Sr. Carlos Pazzi, quando secretário
interino de Divisão de Cooperativas da Seção de Indústria e
Comércio da Argentina, acentuou, com grande justeza, que,
na cooperativa escolar, a criança aprende que à margem de
suas necessidades estão as necessidades dos demais; aprende
a desprezar egoísmo e a ter a doçura infinita de dar, dar
sempre, em afeição, em ajuda, em trabalho, em esfôrço, em
sacrifício; compreende que da colaboração de todos surgirá
um imenso esfôrço, irredutível, íntegro e perdurável.
Cada criança, acentua, leva em si, por obra inegável da
herança e do ambiente, uma série de fatôres psíquicos, que
constituem sua personalidade. Outra seria a vida, na idade
em que a ductilidade tudo permite, se se ensinasse também à
criança e ao adolescente a doutrina e a prática do cooperati-
vismo, isto é, a teoria do esfôrço comum, do trabalho de cada
um em bem de todos e do valor do êxito compartido.
Inculcando às crianças, desde a escola, órbita natural, a
prática e a doutrina profundamente moral do
cooperativismo, teremos amanhã homens aptos ao manejo de
uma seção de economia, capazes de criar uma propriedade
coletiva, de despertar costumes sadios e sentimentos ativos
de solidariedade.
Sob a égide dêsses princípios, devemos ensinar o
cooperativismo na escola, para proporcionar-lhe a base
firme da cultu-ra popular.
Deve-se, pois, ao Ministério da Agricultura a difusão do
cooperativismo escolar no Brasil, Antes havia apenas a
louvável tentativa de Fernando Azevedo (1928), no âmbito
das escolas municipais do Rio.
A ex-Seção de Crédito Agrícola do Fomento Agrícola
Federal, que eu dirigia em 1926, iniciou a sua propaganda
em 1931. intensificando-a em 1939, já com a denominação de
Serviço de Economia Rural.
A ESCOLA ORGANIZADA
Além da plêiade de pedagogos e escritores especializados,
estrangeiros e brasileiros, que caracterizam amplamente o
cooperativismo escolar e levantam o lábaro da proteção à
criança, tais como Cide, Ravard, Profit, Buisson, Grumont,
Brussière, Thomas, Caitier, Ruiz, Repetto, Baflasteros, Dewey,
Paulsen .Jouenne, M. Babenco, B. Delom, Fabra Ribas, Fabio
FÁBIO LUZ FILHO 101
Luz (pai), Fernando Azevedo, Valdiki Moura, Anísio Teixeira,
Roberto de Menezes, Lula Amaral, M. Barbosa, Monserrat,
Samuel Gonçalves, etc., para só citar os que têm publicações
autônomas ou em revistas especializadas; as publicações dos
departamentos estaduais de cooperativismo da Bahia, de São
Paulo, Rio Grande do Sul e outros; os artigos e comunicados
oficiais; as leis espanhola, mexicana, venezuelana, chilena,
colombiana, brasileira, os trabalhos de Basevi na Itália, etc.,
reproduzamos a magnífica síntese que faz Tirado Benedi.
Ei-la:
“Imagine-se uma escola organizada cooperativamente.
Nela a vida da comunidade escolar passa a ser o centro de
tôdas as preocupações. O menino vive ali em contacto íntimo
com a realidade social mais completa e tem ocasião de ver e
compreender (isto é essencial) que o homem multiplica e
aumenta suas fôrças de uma maneira prodigiosa por efeito
da ação coletiva e da ajuda mútua. Organizar em moldes
coope rativos a escola é o meio e o instrumento mais eficaz
para ini-ciar os educandos na prática da vida social. Quando
os meninos se reunem para celebrar suas assembléias,
eleger dirigen- tes e assumir a responsabilidade da direção
da obra comum; quando expõem suas iniciativas, quando
procuram meios de realizar seus acordos, calculam faturas,
fazem contas, escrevem cartas, formulam estatísticas,
fazem cálculos de receitas e despesas, esboçam planos e
redigem projetos; verificam compras; fazem coletas, traçam
programas para saraus e festas escolares; passeios, viagens e
excursões; trabalhos na horta, na granja, na oficina, no
laboratório; organização do museu escolar; utilização da
biblioteca, do cinema escolar, do rádio, quantas lições
práticas recebem, quantos conhecimentos vivos e hábitos
úteis acumulam!” Dai o seu alcance educativo.
Ballesteros classificou a cooperativa escolar como uma
associação livre de alunos, regida por uma administração de
alunos nomeados por êle próprios, e que se propõe reunir,
por meios diversos, os fundos precisos para ampliar os
recursos educativos e o material didático, criar instituições
protetoras de escola, etc., com o fim de tornar mais
interessante, ativo e educativo o ensino.
É um dos meios, quiçá o principal, de ampliar os fundos
da Cooperativa, é o trabalho dos próprios alunos.
Podem prestar grandes serviços como laboratórios de
experimentação pedagógica e de orientação profissional e
como centros de Instrução pós-escolar.
102 COOPERATIVAS ESCOLARES
Só o fato de intervir na marcha da cooperativa, de
administrá-la, além de despertar nas crianças um alto
sentido de seu valor e de sua responsabilidade, dar-lhes-á
lições indeléveis para uma vida sã, de atividade e cultura.
Em uma cooperativa escolar bem compreendida,
acrescenta Ballesteros, os meninos aprenderão as idéias
fundamentais de justiça, pátria, religião, liberdade, etc., pela
prática dessas virtudes sociais, e não por uma explicação
verbal, que só poderá dirigir-se à sua inteligência, mas que
jamais influenciará sua conduta.
O Dr. Erico Emir Panzoni assim se referiu às
cooperativas escolares:
“Las cooperativas escolares tienen dos objetivos: un eco-
nómico, otro educativo, siendo este último el verdadero pro-
pósito de estas organizaciones. En opinión de pedagogos
experimentados, la cooperativa es en si un instrumento, un
método y un medio de formación mental y moral.
“Reproducen generalmente en pequeña escala la
organización adoptada por las cooperativas de consumo,
produción, comercializoción, realizando una o varias de
estas tareas”.
E Madame Chenon-Thivet, educadora francesa, acentua
que o cooperativismo escolar pode responder à tríplice preo-
cupação de todo trabalho pedagógico eficaz:
1.°) Dar ao ensino um conteúdo valioso, isto é, no qua-
dro das disciplinas convencionais e dos programas oficiais,
fornecer matéria rica, viva, a um tempo prática e cultural.
2.°) Ministrar êsse ensino por um método ajustado à
psicologia do escolar, em seus diversos níveis de idade, ofere-
cendo-lhe condições de atividade reais, necessárias, para
conduzí-lo, do estado de dependência à autonomia, por meios
ajustados às suas necessidades e gestos;
3.°) Proporcionar à escola um espírito novo, um sôpro
animador, capaz de dar um sentido à vida escolar,
despertan- do no aluno a faculdade de desejar seu próprio
desenvolvimento e provocar sua própria educação e
instrução;
A Cooperativa escolar, pois, como um fator de “motiva-,
ção” para o trabalho escolar, ao mesmo tempo que uma
fôrça de unidade que se opõe à dispersão do esfôrço.
É suscetível, assim, o Cooperativismo Escolar, ainda na
opinião de Mme. Chenon, por seu espírito, suas práticas, seus
resultados, de assenhorear-se de uma pedagogia que permita
à escola tradicional evolver para uma escola especificamente
ativa, de estrutura e métodos favoráveis a uma educação
moderna.
FÁBIO LUZ FILHO
103
“La Revista della Cooperazione” e “Movimento
Cooperativo”, na Itália, tem em seu corpo de colaboradores
técnicos especializados de renome.
Cooperativas escolares existentes no mundo em 1958.
Eis o quadro das cooperativas escolares existentes em
vários países em 1958:
1.° — Rússia 150.000
2.° — França 28.000 (com 1.200.000
associados).
3.° — México 17.197
4.° — América do Norte 15.000
5.° — Polônia 4.700
6° — China Nacionalista 1.349
7.° — Índia 1.270
8.° — Finlândia 1.200
9.º — Suécia 1 .103
10.° — Tunísia 953
11.° — Brasil 883
12.° — Bélgica 750
13.° — União Sul-Africana 600
14.° — Dinamarca 548
15.° — Argentina 450
16.° — Iugoslávia 133
17.° — Canadá 117
18.° — Itália 100
19.° — Marrocos 92
20.° — Camerum 17
21.° — Grécia 10
Em várias escolas de Formosa foram em 1955 criadas as
acima citadas cooperativas escolares de consumo, os quais
também prestam serviços, concedem créditos, abrem contas
de economia, etc. As 1.349 cooperativas escolares de
consumo, agrupadas em 13 federações, possuem 400.000
associados-alunos. Fazem-se “semanas de cooperativismo”
nas escolas.
Em Trinidad há cooperativas escolares de crédito, e na
Guiana ing1esa existem cooperativos escolares “de
economia”.
CAPÍTULO V
A ORGANIZAÇÃO DAS COOPERATIVAS ESCOLARES
O sistema cooperativo, que vem apresentando ao mundo
tão promissoras perspectivas de trabalho e concórdia, não
poderia deixar de calar fundo no espírito daqueles que têm a
nobre e árdua missão de guiar êsses pequenos sêres, cidadãos
de amanhã, cujas almas, no esplendor de luminosa eclosão, se
abrem para o grande e multifário espetáculo da vida.
Ao espírito novo da pedagogia moderna, em que, como se
viu, o self-government é o princípio em que se esteia tôda a
renovação pedagógica, como fator de formação moral, cons-
tituindo a escola “o meio vital da criança”, ao espírito novo
da pedagogia moderna não poderia fugir o alcance educativo
dos princípios do cooperativismo puro aplicados à escola.
Êsse espírito novo torna a escola um núcleo de dinamismo e
de aperfeiçoamento de aptidões que se revelam no trato esco-
lar quotidiano, aptidões físicas, morais e de inteligência. O
ensino moderno, tendo por centro a criança autônoma e ao
mesmo tempo solidária com os seus pares, tem por dever
criar o ambiente propício à polarização, ao desenvolvimento
e aperfeiçoamento daquelas aptidões. Ferri já o frisara e
Fábio Luz, meu saudoso pai, isto acentuou sempre.
As sociedades cooperativas escolares, apoiadas, até certo
ponto, por mais dinâmicas, naquele mesmo espírito que
presi-de às “Caixas Escolares” que o Dr. Fábio Luz, quando
inspetor escolar, introduziu no Distrito Federal, como
introduziu outras práticas que, mais tarde, reapareceram
com outras designa-ções, as cooperativas levarão a êsse
espírito de colaboração e de autonomia que colimam os
pedagogos de hoje. Pela sua estrutura democrática, nivela a
todos, nela atuando, em um mesmo pé de igualdade, tanto o
aluno que tem progenitores pecuniosos, como o aluno
pobrezinho que integraliza suas quotas em trabalhos ou
serviços. (O caráter de assistência tem-se acentuado nos
meios rurais pobres, como acontece na Bahia.)
FÁBIO LUZ FILHO 105
Diz Poisson que o cooperativismo é de essência
democrática ou, mais exatamente, de self-self administração,
como di-zem os ingleses. Esta consiste na igualdade dos
associados e em idênticos direitos de atuação. É uma regra
de direito. Esta se resume em uma fórmula Inglêsa,
singelamente expressiva:
um cooperador, um voto, como vimos.
Na cooperativa vale a capacidade de trabalho e
inteligência, o esfôrço sincero, a dedicação incessante de cada
um para o engrandecimento de uma obra coletiva feita do
mais elevado altruísmo.
O cooperativismo, reafirmo, é uma obra de
congraçamento em um pensamento digno de melhoria
econômica, social e moral. É um órgão de elevada política
social que assenta na associação de todos os necessitados de
mútuo apoio, dignos e trabalhadores.
A cooperativa é uma obra de natureza coletiva de
alevantadas miras que não pode confundir-se com
associações mercantis de fins especulativos. É uma obra de
solidariedade benéfica, de apoio mútuo, erigida sôbre uma
ampla base unitária e igualitária, e só tem que ver com as
qualidades de honradez, de trabalho produtivo, de
proficiência, etc., de seus associados dignos, virtudes essas
sôbre as quais repousará a vida mesma da associação
cooperativa. A sociedade cooperativa é uma sociedade de
pessoas e não de capitais.
Desenvolveu-se em França, como vimos, o
cooperativismo escolar ao influxo da ação de M. Profit, no
pós-guerra, contando-se hoje nesse país milhares de
cooperativas escolares. Esse movimento se irradiou por
outros países, contando-se hoje cooperativas escolares na
Bélgica, Suíça, Polônia, Itália, Inglaterra, Alemanha,
Hungria, Bulgária, Tchecoslováquia, Romênia, Dinamarca,
Lituânia, Rússia, México, Argentina, etc. (Como veremos
adiante, há quem fixe em 1906 e 1908 os
movimentos na Polônia e da Romênia, mas com ou- tras
origens, sem, a meu ver, aquêle cunho que às mesmas
imprimiu a França). No Uruguai o ilustre educador César
Marote é um paladino vibrante e culto da implantação das
cooperativas escolares.
No Distrito Federal, procurou aplicar o decreto
municipal, devido a Fernando Azevedo, a distinta inspetora
escolar, D. Loreto Machado, que fundou uma cooperativa
de consumo escolar no “Grupo Escolar Nilo Peçanha” em
cujo “Círculo de Pais e Professôres” tive o prazer de fazer
uma conferência. Este movimento não conseguiu até hoje
infelizmente interes-sar devidamente os demais distritos
escolares, mui apegadas,
106 COOPERATIVAS ESCOLARES
as professôras, às caixas escolares, ajoujadas em seus cur-
rículos por várias disciplinas, etc.
Um escritor francês frisa, mais uma vez, as vantagens de
vária ordem que dimanam da cooperativa escolar: de ordem
econômica, higiênica e artística; de natureza moral; de edu-
cação social, de índole didática, como vimos.
Econômicamente, a cooperativa agrupa indivíduos para
a realização de fins econômicos imediatos e mediatos;
infunde hábitos de economia e sentimentos claros de
previdência, lições de boa vontade e tenacidade, levando o
aluno a comprar e distribuir com critério e espírito de justiça
distributiva, (A venda na cooperativa de consumo é um
simples ato de distribuição, pois não visa ao lucro. É um dos
traços fundamentais da cooperativa e que a distingue
frisantemente das sociedades de especulação).
Obrigados, pelas contingências da administração (para
produção de todos os seus efeitos a cooperativa escolar deve,
tanto quanto possível, ser administrada pelos alunos dos anos
superiores, orientados e controlados pelos professôres e dire-
tores, membros natos da cooperativa escolar), a entrar em
contacto com o comércio privado, a procurar, pela compra
em grosso, preços compensadoras para a sua cooperativa
(justo preço, qualidade boa e pêso exato), fixarão a diferença
que há entre os processos de uma cooperativa e os métodos
do comércio privado, que visa unicamente ao lucro
individual.
Profit acha que os administradores devem ter, no mínimo,
10 anos de idade e que só devem tomar parte nas eleições os
de mais de 9 anos. Pensa também não haver inconveniente
em que das cooperativas escolares possam participar os
alunos e antigos alunos de 6 a 20 anos, considerada a
cooperativa como um maravilhoso laboratório de auto-
educação que conduzirá até ao artesanato rural. Assim agiu
ao fundar, em 1923, a primeira cooperativa escolar em Saint-
Jean d’Angély, denominada “As abelhas”, que, como
veremos, no fim do primeiro ano, já possuía 2.100 francos.
Em 1926 existiam nessa circunscrição 20 círculos
cooperativos, 237 museus 200 instalações sanitárias, 60
aparelhos cinematográficos, oficinas para trabalhos manuais,
bibliotecas, etc., etc.
Ballesteros fêz sentir que o conceito usual da palavra
cooperativa redú-la a uma reunião de pessoas para o
preenchimento de fins econômicos, Acha que, tal como é
concebida dentro do movimento renovador da educação, êsse
aspecto econômico não é, porém, o único nem o principal de
seus fins, assinalando ser possível que na prática se possa
indicar, mais
FÁBIO LUZ FILHO 107
do que como propósito, como pretexto essencial da
cooperação escolar, a consecução de recursos para o trabalho
da escola, “Na realidade, no fundo do movimento cooperativo
há um afã de lograr, mediante êsse recurso fecundo, que a
escola possa alcançar seu ideal de autonomia, de
colaboração, de atividade, de educação da família e pela
família.... Com os processos de cooperação e de associação que
se inspiram nas sociedades cooperativas comuns, a escola quer
chegar à realização de seus mais altos ideais educativos”.
Acentua êle ainda como a cooperação dos meninos
permitirá a existência de comunidades escolares em que
adquirirão êles um sentido da responsabilidade e a prática
das virtudes da associação, chegando à formação de grupos
de meninos para o cumprimento de tarefas concretas dentro da
atividade geral da cooperativa. Chegar-se-á, igualmente, a
criar, na escola, um ambiente de autonomia e
de colaboração, uma vez que serão os próprios meninos que
irão regulamentar a existência da cooperativa e fixar o papel
de cada aluno dentro dela, fomentando-se a sã atividade de
todos para trazer elementos de trabalho e recursos
econômicos com que adquirir novos meios de tornar
objetivo o ensino.
“A cooperação dos pais interessará a êstes na obra da
escola, fazendo-os conviver com os mestres, conhecer os
problemas da escola e sentir as suas necessidades. Ao mesmo
tempo, recebem a influência educadora dêsse ambiente,
geralmente ignorado por êles, recebendo inspirações para o
trato e a di- reção de seus filhos”.
As cooperativas escolares não deixaram nem deixam de
preocupar os educadores, argentinos. (Ver a mensagem de
1959 do professorado buenairense.)
Abrangiam, no geral, as cooperativas escolares argenti-
nas, várias escolas de um mesmo “Consejo Escolar”, as quais
limitavam 100 ou 200 o número de associados que poderiam
continuar a mantê-la, no caso da maioria desejar dissolvê-la.
Não se enquadravam nos moldes da nossa legislação, que dá
ao aspecto econômico valor subsidiário apenas, no que andou
acertada, e não admite professôres nem tutôres.
Diziam os estatutos da “Sociedade Cooperativa Escolar
Florêncio Varela”, Consejo Escolar XV:
“Pueden ser sodas los alumnos de las escuelas primarias
dependientes del Consejo Escolar XV, los padres, tutores o
encargados, personal directivo, docente y administrativo, las
escuelas, el Consejo y las Sociedades cooperativas de las
escuelas”.
108 COOPERATIVAS ESCOLARES
Os sócios poderão eleger “los delegados titulares y
suplentes dei grado a que pertenecen. Solamente elegirán
delegados de acuerdo al inciso anterior, los alumnos le 5.° y
.° grados”. Os alumnos do 1.°, 2.°, 3.° e 4.° graus são
representados pelos pais, tutores ou encarregados. O
representante de cada escola será o diretor e, o do Conselho
Escolar, o seu presidente.
“La Sociedad será dirigida por un Directorio
compuesto por lumnos, otros siete serán directores o
maestros, presididos por el Presidente del Consejo
Escolar”.
Dizem os estatutos elaborados por César Marote:
“Pueden ser socios los alumnos de las escuelas
primarias y de adultos pertenecientes a la zona, los padres,
tutores e encargados, y el personal docente y administrativo
de las escuelas de la zona”;
“Los socios tienen voz y voto en las Asambleas, a
excepción de los alumnos de 1.°, 2.°, 3.° e 4.° años;
“Los padres, tutores o encargados de los socios
alumnos de dichas classes, tendrán voz y voto em
representación de aquellos”;
“Los alumnos socios de cada escuela designarán de
entre ellos un delegado ante el Directorio de la Cooperativa
a que pertenecen. Será por lo menos de 5.° año y tendrá
voz, pero no voto”.
Eis os objetivos da “Sociedade Cooperativa Escolar
Fiorêncio Varela”: — “Proveer de material escolar a sus
asociados: textos, ilustraciones, útiles y todo aquellos
articulas que fueran necesarios a la escuela.
Contribuir a la difusión y realización del ahorro y el
mutualismo, pudiendo establecer cajas especiales, o el
ahorro postal, asi como también la previsión en suas
diversas formas”.
Em reunião, há tempos, o “Consejo Nacional de
Educación” resolvera desenvolver ação intensa no sentido
da difusão do cooperativismo escolar na Argentina, tendo-
se processado movimento idêntico em Rosário.
A organização dessas cooperativas, afastando
pràticamente os alunos da gestão e da administração, e
visando mais ao aspecto econômico (a cooperação econômica
deve ser um meio, apenas), tem um caráter de certa
complexidade e é diferente da organização dada às
cooperativas européias, que são de um cunho mais simples
e, no ver de escritores, de um alcance educativo muito
maior, como é compreensível, restritas como estão a uma só
escola e dirigidas por alunos, orientados solícitamente,
pelos seus diretores e professôres. O decreto municipal
brasileiro n° 2.490, de 22 de novembro de 1928, em seu
FÁBIO LUZ FILHO 109
Capítulo III, foi clarividente e lógico. Dispôs que aa
cooperativas se organizassem em cada escola, só
admitissem alunos e fôssem administradas por alunos do
4.° ou 5.° anos escolhidos e orientados pelos professôres da
escola. Deveriam ser organizadas por iniciativa do diretor e
ficariam sob sua superintendência.
Fernand Cattier, diretor da “École Normale
d’Instituteurs du Vosges”, em se referindo à França, diz:
“M. Boularron, directeur de l’école de Mirecourt (Vosges)
m’a autorisé à citer les statuts que ses éléves ont rediges
eux-mêmes. Cet éducateur laissait ses jeunes disciples se
reunir en assemblées générales autant qu’ils désiraient et il
se bornait à être, le cas échéant, leur avocat conseil.
4.° — De prendre eux-mêmes soin de leur classe, de la
rendre propre et agréable à habiter, de façon à l’aimer et à
la faire aimer autour d’eux;
5.° — De rechercher des distractions saines et de
contracter des bonnes habitudes l’ordre et de propreté;
6.° — De connaitre à fond leur petite patrie pour
l’aimer mieux en apprenant à almer la grande.
En consequence, ils ont formé avec approbation du
maitre une societé denominée: “L’Abeille scolaire
stéphanoise”, dont le but exclusif est l’éducatlon
intellectuelle, morale et pratique de soi-même par soi-même:
elle est un jeu”.
Diz o artigo 3 da “Section de Gouvernement
Autonome”:
“Les éléves de la première classe se gouvernent eux-mêmes
afin d’assurér l’ordre et la discipline, le travail et la bonne
marche de Ia classe, de donner à chacun le sentiment de
l’intérêt collectif et une certaine initiation à la vie civique.
J’ai constaté par expérience que les coopératives
scolaires ne vivent que se les enfants sont seuls appelès à les
créer et à les faire prospérer. Si l’on s’occupe trop de leurs
affaires, ils finissent par ne plus aimer autant à “jouer à la
coopérative” et leur petite société meurt d’inanition, faute de
soins”.
Diz o artigo primeiro dessa interessante cooperativa:
“Les élèves de la premiere classe de garçons de Saint-
Etienne-les
-Remiremont ont décidé:
1.° — D’apprendre à se governer eux-mêmes, sous la di-
rection et avec conseils de leur maître, afin de savoir faire
usage de leur liberté et de devenir plus tard dez citoyens
conscients et éclairés;
2.° — De chercher à commencer leur éducation
d’hommes en apprenant, dês l’école, à s’entraider et à
s’aimer;
110 COOPERATIVAS ESCOLARES
3. ° — De s’intruire eux-mêmes par l’observation directe
des phénomènes qui leur sont famlliers ou des objets que la
communauté aura pu se procurer;
Art. 4.° — La section est administrée par un comité de 6
membres: le chef de salle, nommé par le maitre; le sécrétaire,
le trésorier, le bibliothécaire, l’officier sanitaire, le conser-
vateur, élus par leurs camarades”.
Eis como é organizada a “Section Coopérative”.
Article premier. — Font partie de la section coopérative:
a) des membres actifs, ágés de 6 a 20 ans, élèves ou anciens
éléves de l’école, qui versent une cotisation mensuelle de 0 fr.
50; b) des membres d’honneur, qui par leur apport matériel
ou moral, ont aidé l’école”.
São eleitos todos os alunos maiores de 10 anos e elegíveis
os alunos dos cursos superiores. Os mandatos duram um
mês.
“Les écoliers, étant égaux et n’ayant pour but que leur
éducation, doivent s’aider mutuellement, ils sont les pro-
tecteurs naturels des petits, ils doivent donner en tout le bon
exemple, étre polis dans la rue et à l’école”. São cooperativas
por classe, o que a lei brasileira não admite.
Cattier achava que ainda não estava determinada a fór-
mula definitiva das cooperativas escolares. As mais generali-
zadas constituíam, como diz Oberdorfer, “formas
primordiais de cooperação”. O que, porém, ressalta de tôdas,
seja nas formas primitivas de cooperação, seja nas
verdadeiras cooperativas escolares, enquadradas na grande e
fecunda modura típica das cooperativas de adultos, o que
ressalta de tôdas é o pedagógico “princípio da liberdade”.
A cooperativa acima citada, como outras (de Charmes —
sur-Moselle, etc.), não têm pròpriamente a organização típica
das cooperativas em geral, no que se refere, principalmente,
à organização do capital: estipulam, como vimos, o
pagamento de pequenas mensalidades ou anuidades fixas,
não restituíveis, em vez de pequenas quotas-partes, de
pequeno valor, e restituíveis, quando o associado se retira (é
o princípio da porta aberta). Há nelas ausência de dividendo,
o que é, aliás, acertado, e ausência do princípio básico do
cooperativismo que Charles Gide classificou de “golpe de
gênio” dos Pioneiros de Rochdale: o principio de Howarth,
isto é, a distribuição dos lucros (excedentes ou sobras obtidas
pelas diferenças que proporcionam as compras em grosso,
tanto quanto possível diretamente ao produtor, e a dinheiro à
vista, a quem contribuir para formá-los, o que pode ser
também dispensado nas cooperativas escolares), baseada a
ação cooperativa na pessoa de
111 FÁBIO LUZ FILHO
cada associado, no sou poder de consumo, nas suas
faculdades de trabalho e produção, relegado o capital ao seu
verdadeiro papel de auxiliar do trabalho, que o formou, e ao
trabalho subordinado.
LÍDIMAS COOPERATIVAS EM MINIATURA
Existem, porém, cooperativas escolares européias
amoldadas à organização cooperativa corrente no mundo e
que, por efeito de sua organização mesma, produzem os
admiráveis efeitos econômicos, morais, sociais e educativos
do verdadeiro e são cooperativismo.
É um como processo eurístico de fecundos resultados.
Mme. Alice Jouenne, membro da “Commission
Nationale de l’Enseignement de la Coopération”, de França,
criou em sua escola uma cooperativa nos moldes das
sociedades de adultos, pois “n’a paz eu peur de caricaturer
une chose sérieuse pour la bonne raison que les méthodes de
jeu et les leçons de choses sont encore les meilleurs moyens à
employer pour se faire comprendre des enfants.
“Chaque sociétaire, doit au moins posséder une action
de 5 francs, Comme à la coopérative, l’enfant peut ne verser
que le 1/10 de l’action, soit Ofr.50. Il fera preuve d’energie,
de bonne volonté, de pérséverance pour payer le reste. Le
trésorier reçoit les cotisations, tient la comptabilité; ainsi
qu’à la coopérative scolaire ordinaire, chacun peut contrôler
et veiller aux erreurs. Il y a un conseil d’administration
nommé par l’assemblée génerale et une commission de
contrôle.
“Enfin, il existe des marchandises, du dentrifice, des
savons, des objets de toilette, des jouets, des cartes postales et
autres menues choses. Il y a un magasin et un élève-gérant
qui doit rendre compte une fois par mois de sa gestion.
Comme la société d’adultes, la petite coopérative a des
réserves qu’elle destine au développement das oeuvres
sociales, c’est-à-dire aux excursions intéressantes, aux visites
des musées, à l’enrichissement de la bibllothèque..., et aussi
aux oeuvres charitables en tous points semblables à celles
dont nous par- lons plus haut”.
“La petite société a des membres honoraires, c’est-à-dire
des gens qui généreusemente versent à la caisse de la
coopérative, mais qui, par le fait qu’ils ne consomment pas,
ne pren- nent part ni à la gestion, ni à l’administration. Il
n’est pas difficile de montrer que, selon le principe rochdalien,
on n’est
112 COOPERATIVAS ESCOLARES
paz coopérateur en achetant de actions, mais en consommant
à la coopérative”. (M. Jounne não preconiza os associados
honorários em um de seus livros. Quando existem, não votam
nem são votados. A nossa lei não os permite, no que andou
bem).
É, assim, uma cooperativa em tois moldes uma fecunda e
admirável miniatura das cooperativas de adultos (tirante a
disposição sôbre sócios honorários, só admissível, assim
mesmo com restrições, em cooperativas escolares, mas que a
lei brasileira não permite, e com razão), que se espalham hoje
pelo mundo lançando os lineamentos do mundo de amanhã.
E um cadinho de altruísmo, um laboratório de experiências
sãs onde apreenderá a criança aspectos relevantes da vida
econômica e terá desenvolvidas aptidões salutares e a prática
de virtudes sociais para o combate que a aguardará cá fora,
no grande mundo, no entrechoque de duras competições.
Nela adquirirá a criança, para todo o curso de sua
existência, uma grande capacidade de ação social
construtiva. Depois, como diz Egger, o ilustre professor da
Universidade de Zurich “le principe de la coopération est un
príncipe moral. L’histoire du mouvement coopératif fait
partie de celle du développement de Ia pensée humaine”.
Na Espanha, Antônio Baliesteros, um dos escritores que
desenvolvidamente têm tratado do assunto e autoridade em
assuntos pedagógicos, diz mais que a mutualidade escolar
“tiene esencialmente el propósito de despertar en los niños
un espiritu de previsión, de economia y el lejano de
asegurarles recursos económicos en época critica de su vida.
“La cooperativa, por el contrario, tiene en la escuela no
sólo su medio unico de desenvolvimiento y de acción, sino su
ultima finalidad, siendo unicamente los niños, guiados y acon-
sejados por su maestro, los que ejercen la dirección y la admi-
nistración de la sociedad infantil. Ademais, sus propósitos son
todos inmediatos y directos, benefician a la totalidad de los
niños y no permiten la intervención direta de personas ajenas
a la escuela. Y, sobre todo, responde a los intereses más per-
manentes y profundos de Ia infancia que son los gregarios de
cualquier orden”.
Num século essencialmente dinâmico, o espírito de ação
pragmática na luta da vida não deixa de ser um elemento
realístico de êxito, aliado aos nobres sentimentos de solidarie-
dade humana.
Os norte-americanos, no sentido de despertar nas
crianças o espírito de previdência e hábitos de economia,
instituíram as
FÁBIO LUZ FILHO 113
interessantes organizações denominadas — “School Savings
Bank” — (caixas econômicas escolares), nas quais os serviços
de recebimentos, de retiradas de depósitos do pequena
economia de meninos, etc. e os serviços de contabilidade
correspondentes são feitos pelos alunos mais adiantados.
Constituem a Saving Bank Division da American Bankers
Association (. . . and to induct the pupils into some of
the “mysteries” of banking, by arranging for o definite
“savings bank” organization among pupils in higher grades
or in connection with the work in high school commercial
department, or otherwise”).
Deu seu entusiástico testemunho do alcance dêsse
sistema, entre outros, o Dr T. N. Carver, o ilustrado professor
de Economia Política da “Universidade de Harvard”; “We are
engaged in persuading people to change their ways, to reform
their habits, to live more wisely have lived before”.
Smiles já dizia que o costume de ensinar às crianças
hábitos de previdência foi adotado pelas escolas nacionais da
Bélgica, O Conselho Escolar de Gand convenceu-se
completamente da influência favorável que o Economia
exerce sôbre o bem-estar moral e material das classes
operárias. Capacitou-se de que o melhor meio de fazer
penetrar o espírito de economia é o de ensiná-lo às crianças e
fazer que elas o pratiquem.
Visitando a Caixa Rural de Guaratinguetá, no E. de São
Paulo, numa de minhas viagens de proppaganda, tive
oportunidade de verificar uma inteligente aplicação dêsses
princípios norte-americancos. Então dirigida pelo ilustrado
Prof. Lamar-tine Delamare, a “Escola de Comércio” dessa
localidade interessava os seus alunos em todos os sentiços da
“Caixa Rural”, que funcionava numa das dependências da
Escola, dirigidos os alunos por êsse professor e pelo gerente
da Caixa. E os resultados obtidos eram ótimos. Alunos de1a
saíam não só com o conhecimento prático da contabilidade
de tais organizações, senão também com o conhecimento do
mecanismo e do espírito das caixas rurais Raiffeisen,
instituições de auxílio mútuo para o crédito agrícola a
pequenos lavradores.
Nessa localidade e em Aparecida, Itagaçaba e Cruzeiro
deixei então (1931 a 1934) lançadas bases para as
cooperativas escolares.
As cooperativas escolares francesas levaram os alunos a
uma noção nítida da honra, que se resume no “respeito às
decisões tomadas em comum, à fidelidade aos compromissos
de solidariedade e de ajuda mútua, obediência voluntária ao
regulamento livremente aceito. “Ter honra cooperativa é
sentir
8 – 27 454
114 COOPERATIVAS ESCOLARES
tôdas as vantagens materiais e morais que oferece o grupo e
tudo fazer para que não seja ela diminuída, tudo tentar para
dela ser digna”.
É, assim, o poder de milagre da fórmula cooperativa —
“um por todos, todos por um”, afervorando-se cada um no
culto da solidariedade humana, dilucidados os espíritos,
arrancada a criança ao terra-a-terra ramerraneiro de uma
educação que devia “abrir o espírito infantil à compreensão
das necessidades, das idéias e do espírito de seu tempo,
condicionando-o para um viver harmônico no concêrto
social”.
Cooperativas escolares francesas existem em que o senso
da justiça social é tão pronunciado, que constitui para os
seus pequenos associados um padrão de orgulho. Crianças
atiradas ao desamparo pelas insídias de uma organização
social de tipo individualista, recebem o apoio da cooperativa,
que as encaminha para as colônias de férias, que mantém.
A educação social se faz pelos hábitos de mútuo entendi-
mento, pela troca constante de idéias nas reuniões freqüentes
para deliberar sôbre assuntos sociais nos conselhos de
administração, nos conselhos fiscais ou nas assembléias
gerai, reuniões que estreitam, mais e mais, vínculos de
solidariedade e de mútua confiança, mostram a relevância
dos fenômenos econômicos e evidenciam o luminoso alcance
da solidariedade humana.
Colaborador de seu mestre, o aluno habituar-se-á a
“sortir de leur moi pour s’intéresser à une collectivité; ils
mettent en pratique la morale de la solidarité sociale”, no
dizer de Paul Lapie.
No fim de um ano, o cooperativismo escolar havia
dotado o departamento de Sainjt-Jean d’Angély, na França,
de 181 museus, em vez de 8; de um pôsto meteorológico e de
7 instalações cinematográficas.
EDUCAÇAO NOVA. PEQUENAS REPÚBLICAS
Cesar Marote, o ilustre educador uruguaio, expressando-
se sôbre as preclaras virtudes da associação cooperativa
escolar, diz que está perfeitamente enquadrado nos limites
pedagógi- cos da escola primária o estabelecimento das
cooperativas, não sòmente por motivos de ordem
econômica, senão também, e principalmente, por motivos
de ordem moral; e muito mais enquadrado, todavia, que
certos pontos dos programas vigen- tes, como trabalhos
manuais, por exemplo, que terão, de certos
FABIO LUZ FILHO 115
pontos-de-vista, algumas virtudes e valores educativos de
relativa importância, como as que têm qualquer ação
humana; mas, valores a que se há concedido tal dignidade e
tanta transcendência, que, parece, quiseram convertê-los
nas colunas sus-tentadoras da ciência educativa.
Acha êle que é um verdadeiro exagêro pedagógico o
que com tal se comete, exagêro tanto mais condenável
quanto é sabido que desvirtua o verdadeiro espírito da
verdadeira educação e pretende empalmar a chave, o
segrêdo e a solução do problema da existência de cada
individualidade, pretendendo capacitar as crianças e
habilitá-las em manualidades, em artes e ofícios, quando é
prematuro que então brilhem as primeiras luzes da
vocação...
“E se é com isto que se pretende dar solução ao
problema econômico da existência do aluno, as
cooperativas escolares realizam esta obra de forma prática
e de modo imediato, tendo, além do mais, virtudes
pedagógicas e educacionais de valor eminentemente social..
Desperta ela a idéia e cultiva a convicção da necessidade da
economia e da previdência; não da economia individual e
isolada, a qual cultiva, simultâneamente, o egoísmo e a
avareza, sentimentos anti-sociais, mas, sim, a previdência
sob a forma coletiva, despertando e cultivando os
sentimentos de solidariedade, de apoio e confiança mútuos,
de boa-fé nos semelhantes e o da própria responsabIlidade,
sentimentos que tanta falta fazem e que deveriam arraigar-
se profundamente no coração da sociedade”.
Torna-se, assim, a cooperativa, no dizer de outro
educador, a forma mais fácil da aplicação dos princípios da
educação nova, sobretudo porque permite à criança
descobrir e satisfa-zer seus lnterêsses juvenis comumente
suplantados pelo que o homem impõe. Justamente por isso,
não só consente como fomenta a necessidade do movimento
da criança, que faz de sua vida um puro dinamismo, ao lhe
dar meios de trabalho e de iniciativa constantes. “Esses
benefícios se completam ao lhe oferecer ocasiões de resolver,
por si mesma, problemas de índole social e moral como
membro de um turno ou da assembléia geral de associados.”
“A escola cooperativa é uma pequena república em que
a criança faz a aprendizagem da vida social e da
autonomia.”
As assembléias gerais, as reuniões do conselho de
administração, a parte material da direção, levam a criança
a um agudo senso da responsabilidade, como vimos, é à
consciência plena de seu valor como parte integrante e
dinâmica de um todo que está em função de seu critério, de
seu bom-senso, de
116 COOPRATIVAS ESCOLARES
sua honra cooperativa, de suas capacidades de trabalho e es-
fôrço para levá-la ao cumprimento estrito de sua finalidade
de educação moral, intelectual, social e econômica.
Dará à criança, também, conhecimento do pensamento
contido na fórmula de Theodore Roosevelt: “If you would be
sure that you are beginning right, begin to save”...
Colombain afirma que nos Estados Unidos da América
do Norte, o “Club Work” responde perfeitamente às
definições mais rígidas da sociedade cooperativa e do
cooperativismo escolar em particular.
Os Boys’ and Girls Club realizam o trabalho coletivo, o
que os coloca em face dos problemas que realmente existem,
instruindo os rapazes e as moças pela ação. Há a lição
preciosa do esfôrço coletivo, da cooperação, levando ao
desenvolvimento pleno dos instintos sociais.
E que dizer das instituições periescolares que
promanarão da cooperativa escolar? Quem não pode
aquilatar do alcance das colônias de férias, campos de
experiências agrícolas, teatrinhos, festas escolares, cruz
vermelha, copos-de-leite, pratos-de-
-sopa, etc.?
E o reflexo dêsse espírito que domina a cooperativa
escolar na órbita do lar? “Ainsi donc, diz Brouckére, pour se
développer largement, pour atteindre son idéal et
l’universaliser, il est indispensable que la coopération
concentre ses efforts dans une action sur le monde
économique dans lequel elle vit”.
Profit na França dá a seguinte relação de algumas das
múltiplas atividades que as cooperativas poderão
empreender, nos diferentes meses do curso:
Outubro: limpeza e embelezamento do local.
Novembro: mobiliário escolar e cozinha cooperativa.
Dezembro: enriquecimento da biblioteca.
Janeiro: limpeza corporal e cuidado da bôca.
Fevereiro: trabalhos manuais e pequenas reparações de
que necessite a escola.
Março: instalação de pequeno jardim e plantação de
árvores.
Abril: proteção aos ninhos.
Maio: destruição de insetos daninhos.
Junho: organização de uma liga de bondade e uma
secção da Cruz Vermelha da juventude.
Ao lado da Cruz Vermelha, uma instituição que
conviria adotar seria o “Clube da Juventude Agrária”, para
incitamen- to aos trabalhos nos campos de experiências
agrícolas, instru-
FABIO LUZ FILHO 117
cão agrícola em geral, agrografia, espírito de organização sô-
bre bases agrárias (a escola-granja de Elslander), etc.
Os fins primordiais de uma cooperativa escolar nos
moldes europeus poderão resumidamente ser assim
discriminados:
prover a escola de material didático e de instituições circum-
escolares que possibilitem o estudo da natureza, a
objetivação da instrução, o desenvolvimento das
possibilidades de ação de cada aluno, etc., despertando, do
mesmo passo, nas crianças, sentimentos de auxilio mútuo
pelas práticas do trabalho em comum e pela comunidade de
esforços. Procurará, a cooperativa, além disso, despertar nas
crianças sentimentos de humanidade e altruísmo e de defesa
da saúde, baseando a sua ação em princípios sociais de
combate às tendências puramente individualistas, dando a
idéia da solidariedade humana, o gôsto da economia e da
previdência coletivas, a boa-fé e a confiança em seus
companheiros e mestres, formando, enfim, o espírito coletivo
e o sentido da comunidade.
Como vêdes, o objetivo montessoriano é atingido em
cheio:
“A criança constrói por si mesma o edifício de sua própria
personalidade pensante e atuante”.
É o admirável axioma da escola ativa.
Ao pequeno presidente de uma cooperativa escolar se
ajustam perfeitamente as palavras de Dugas, citado por
Profit, quando diz que o presidente deve ser franco, leal, sem
“parti pris”, consciente do valor moral de suas intenções e de
seus atos, com o sentimento nítido do cargo, do valor objetivo
de seu dizer e da necessidade de sua intervenção, tendo a
cooperativa como uma escola de coragem cívica e cônscio de
que a disciplina não é incompatível com a liberdade.
Mantendo a disciplina geral, o menino ou a menina, leva-
dos aos cargos eltivos, tirarão de seu espírito de justiça e de
seu valor moral a fôrça para se fazerem obedecer e
adquirirão qualidades que os seguirão na vida.
Os demais associados sentirão que o regulamento vai
além dos indivíduos que o fazem aplicar e é o melhor meio de
os prepararmos para realizarem, lealmente, mais tarde, seu
papel social.
“Il n’est pas nécessaire que les hommes soient reduits,
moralement et physiquement, à la condition de parties inertes
d’un tout mécanique pour qu’ils collaborent utilement à une
oeuvre commune”.
E a escola “est un Temple aussi! Apportez donc des roses!”
As sementes desabrocharão em esplendores, clarinando
alvoradas, esparzindo aleluias.
118 COOPERATIVAS ESCOLARES
Numa cooperativa acentua-se a sensação da interdepen-
dência na vida social, o prazer da dedicação a uma idéia.
FEDERAÇÕES
Profit, referindo-se à federação de cooperativas por
departamento, preconiza as seguintes questões como dignas
de uma federação: propaganda, melhor organização das
festas esco-lares e exposições; efetivação de compras em
maior escala e agrupamentos das cooperativas por cinemas,
biblioteca inter-distrital ou por várias circunscrições; visitas
a fazendas, usi-nas, feitura de quadros murais, círculos de
estudos, etc., etc.; criação de uma cinemoteca e discoteca por
departamento ou circunscrição; contribuições coletivas para
salas de leitura, etc., criação de obras pós-escolares.
“A cooperativa escolar é a escola organizada socialmente”.
Os diretores serão os delegados da cooperativa escolar junto
à federação e o inspetor escolar é o presidente de direito, di-
lo Profit.
Profit entusiasmou-se com êste espetáculo que oferecerão
as reuniões mensais numa federação: um auditório conscien-
cioso, disciplinado, entusiasta para os professôres de faculda-
des e administradores, estabelecendo-se ligação entre as di-
versas ordens do ensino, numa forma particular de escola
única.
A contribuição poderá ser fixada de acôrdo com o
número de associados de cada uma: tantas quotas-partes de
10 a 20, tantas quotas para as que tiverem menos de 10
associados; tantas para as que possuírem de 10 a 20; tantas
para. as que tiverem de 20 a 30, ou tantas para cada
associado.
As normas gerais de administração pouco diferem das
que regem as cooperativas escolares individualmente
consideradas, ou as de adultos.
As federações de cooperativas escolares coordenarão as
atividades das cooperativas escolares filiadas e objetivarão
prècipuamente:
a) — a aquisição de material de consumo escolar;
b) — a montagem de tipografias;
c) — a publicação e distribuição de livros didáticos, re-
vistas, impressos e aquisição do necessário material
pedagógico e científico;
d) – a uniformidade contábil;
FABIO LUZ FILHO 119
f) a propaganda das cooperativas escolares e pós-es-
colares, notadamente as de artesanato rural; granjas-
modelos;
g) — promover conferências, excursões, concertos,
festas escolares, concursos, viagens, visitas a fábricas,
cooperativas, propriedades agrícolas, museus, etc.;
h) — organizar bibliotecas, discotecas e cinemas educa-
tivos;
I) — fomentar as relações entre a escola e a família;
j) — apoiar a ação dos diretores dos grupos ou escolas
junto a entidades e autoridades oficiais ou particulares no
sentido do crescente aperfeiçoamento do ensino.
Deverão recair, como disse, as delegações, para
integração da assembléia geral das federações de
cooperativas escolares, nos diretores das escolas ou em
professôres, de vez que se trata de um órgão de segundo
grau, de estrutura complexa. O máximo de tolerância, a
meu ver, será a permissão, nas delegações, de alunos das
duas últimas séries ao lado dos diretores ou professôres, ou
alunos dessas séries sistemàticamente assisti-dos pelos
diretores ou professores Profit indica os diretores, como
vimos. É assunto ainda controverso, face à nossa lei. Mas não
vejo outro caminho.
AINDA AS FEDERAÇÕES
Antes de frisar, mais uma vez, o que são as federações
de cooperativas escolares, quero esclarecer:
1.°— A federação de cooperativas escolares do Paraná
foi fundada com absoluto critério, mediante delegações de
professôres, e começou sob os melhores auspícios, com o
apoio entusiástico do então Secretário da Educação.
Infelizmente, sobrevieram ciumadas de ascendência ou de
jurisdição, e estabeleceu-se uma situação de
incompatibilidade. Fracassou dadas essas ciumadas e
incompreensões (as mesmas que existiram e existem em
outros Estados peando o livre surto do cooperativismo
escolar) entre a Secretaria de Educação e a Secretaria de
Agricultura, não obstante todos os meus esforços no sen-tido
de contornar tão lamentável situação, que perdura há anos,
sem nenhuma providência adequada.
Eram 90 cooperativas escolares, antigas caixas
escolares, filiadas a uma federação com 400.000 cruzeiros de
capital inicial.
2.°— Existiu em João Pessoa uma federação de
cooperativas escolares, integrada por professôres-delegados.
120 COOPERATIVAS ESCOLARES
3.° — São os professôres admitidos por todos os
tratadistas como conselheiros ou assessôres, de ação discreta,
verdadeiros custódios, e, por outros, até como agentes ativos
no seio das cooperativas escolares (Hernández, Colombain,
Ballesteros, etc.), por imperativos de ordem pedagógica.
E que dizer das cooperativas escolares de
reflorestamento, pastoris e de omares, existentes no
departamento francês de Ain, como no-lo assinala
Colombian?
“En outre les jeunes coopérateurs ont rapidement
réussi à grouper autour d’eux, pour l’effort commun, les
habitants de leurs communes, les cotisations des uns
permettent de financer des travaux importants
(défoncemens, charrois, arrachage des arbres) que les
prestations gratuites des autres ne peuvent accomplir”.
Cada cooperativa dessas é colocada sob o contrôle de
urn comité (aceno, como no México, adiante, para o Conselho
de Assessôres, que contornará o caso da personalidade civil),
composto do inspetor primário, do inspetor de águas e de
florestas e do “maire” da comuna.
A federação dessas cooperativas agrupava, há tempos,
57 cooperativas escolares florestais, com 2.600 membros
(incluin-do adultos). Esta federação dá assistência técnica,
faz obra de proselitismo, faz adiantamentos, obtém
subvenções, centraliza as vendas e as compras, tem campos
experimentais, etc.
Em 1931 haviam elas conquistado 1.550 hectares para
a plantação de milhões de essências resinosas, melhoraram
85 hectares para pastoreio; plantaram macieiras, parreiras,
árvo- res ornamentais; reconstituíram prados, combateram
insetos nocivos, protegeram pássaros úteis, etc.
Nos estatutos oficiais que organizei e que já aludi, o
diretor é o representante legal da escola e, por conseguinte,
seu delegado nato, e os professôres, seus orientadores natos.
Po-derão representá-las também, como aconteceu com o
Paraná e, depois, com a Paraíba, nos órgãos de segundo grau,
assunto ainda controverso.
A meu ver, nada impede que possam ser delegados em
uma federação, ao lado de alunos das séries mais elevadas, se
o quiserem, dado o caráter educativo e cultural básico que as
federações devem ter, paralelo a objetivos econômicos de
muita amplitude, como o fiz no projeto de lei apenso.
Já disse que os estatutos-modelos oficiais consideram o
professor como “delegado nato” da classe.
Profit considera o professor como representante, de fato
e de direito, da cooperativa, “porquanto esta não é mais do que
FABIO LUZ FILHO 121
sua escola, na qual é êle, a um tempo, delegado do Estado e
mandatário dos pais”.
M. Colombain acha que, sendo a cooperativa,
pedagàgicamente, “centro-de-interêsses”, poderá haver, para
certas deliberações, até o veto do professor quando estas não
se ajusta-rem a determinadas exigências da lei, da disciplina
escolar, do interêsse escolar ou da própria cooperativa (o que
me parece excessivo). Nisto está com Santiago Hernández,
Hedler e Dewey (a escola como ampliação da família).
A lei brasileira caracteriza a cooperativa escolar no seu
artigo 34, frisando que deverão organizar-se “entre os
respectivos alunos, por si ou com o concurso de seus
professôres etc.”, orientação que temos seguido no Brasil. O
mesmo não acontece no México e Argentina, naquele contra
o espírito da lei, aliás. Suas cooperativas tinham e têm
participação dos professôres, que podem integrar os órgãos
de administração e fiscalização, possibilitando, assim, a
formação de federações, órgãos de segundo grau de grande
amplitude econômica, como vimos, os quais não podem ser
dirigidos por alunos sem capacidade civil.
Até agora só se admitiu a participação de professôres no
Conselho Fiscal, como vimos, embora no Rio Grande do Sul
delas participem professôres.
Estamos, assim, diante da mesma questão levantada no
México e comentada pela Secretaria de Educação desta
Nação, como já o frisei.
Afirmou ela que, com a participação exclusiva dos
mestres nas cooperativas escolares mexicanas (cujo
regulamento data de 1937), foi subvertido o artigo 36 da lei
de cooperativas, a qual determina que os cargos eletivos
sejam ocupados por alunos, tendo criado, ademais, o
Conselho de Assessôres, com um presidente nato: o diretor
da escola. Entanto, na prática, as cooperativas foram
manejadas, não pelos alunos, nem pelos Conselhos de
Assessôres (do qual poderão sair os delegados, conciliando
tudo), mas por uma só pessoa, a quem o Diretor
comissionado dava plenos podêres; “Los alumnos no
practicaron ni conocieron de los trabajos necesarios para dar
un mejor servicio, para actuar honestamente en el mercado,
etc.”.
Entanto, eram os alunos, legalmente, os responsáveis
pela administração, e os professôres comissionados, o
Conselho de Assessôres, etc., podiam fugir à responsabilidade
legal, de vez que, pela lei mexicana, suas funções se limitam a
aconselhar, assessorar (tal como na lei brasileira em se
tratando de cooperativas escolares de primeiro grau, de
crianças).
122 COOPERATIVAS ESCOLARES
Os alunos, como menores de idade, não tinham
capacidade civil e os professôres, etc., não tinham
responsabilidade legal, que a lei lhes não outorgava. No
silêncio da lei brasileira, contornei esta dando ao diretor essa
responsabilidade.
Foi esta a situação, em que o professor aparecia como um
protegido e um centralizador, um tabu, com desastroso efeito
educativo, nas cooperativas de primeiro grau, que envolveu
de certo desprestígio o movimento cooperativo escolar
mexicano, o que está sendo removido.
No entanto, é preciso considerar o caso das Federações,
que não poderão deixar de ter a participação dos professôres,
como já o frisei. Totomianz, aludindo a essa questão da
responsabilidade, acha que a escola mesma deve tomá-la, ou
o comité de pais, com a condição de que nunca essa
intervenção seja para coartação da liberdade dos jovens
cooperadores, que devem ter seu autogovêrno.
Embora “a cooperativa escolar não tenha por que delegar
podêres, de vez que não é sociedade mercantil e “não contrata
como entidade”, nas federações muda o caráter das coisas, de
vez que se acentua, como disse, seu alcance pedagógico e sua
finalidade econômica como órgão independente da escola, não
sendo, pròpriamente, “uma atividade parcial da escola”, um
órgão circum-escolar.
Para dar às cooperativas escolares capacidade jurídica,
Cattier imaginou a criação de associações de adultos, coisa
que procurei resolver dando ao diretor da escola a
capacidade legal de representante nato da cooperativa
escolar, como vimos. O Conselho de Assesôres resolverá
também o caso, já o assinalei.
O Conselho de Assessôres está perfeitamente dentro do
espírito da escola renovada, que é uma comunidade composta
de alunos, professôres e pais, “três elementos que devem
estar em relação espiritual tão íntima quanto possível”.
Lasuriaga compendiou as virtudes da escola renovada, tô-
das perfeitamente enquadráveis na moldura das cooperativas
escolares: reunião em grupos, e co-educação dos sexos;
trabalhos manuais e trabalhos de oficina e de campo; o
trabalho livre executado por grupos; excursões,
acampamentos e colônias escolares; cultura geral dos alunos;
observação e experimentação; trabalho pessoal como
complemento do trabalho coletivo; educação social pelo
espírito de comunidade desen-volvido: os interêsses
espontâneos e o trabalho coletivo; for-talecimento da
solidariedade e da emulação; meio de beleza e de-
senvolvimento da consciência moral; abolição da “pedagogia
FABIO LUZ FILHO 123
de classe” e conseqüente integração no sentimento cívico e
no senso da humanidade.
Uma federação, estruturada da maneira por que o está no
fim dêste livro, constitui um dos meios idôneos, como órgão
de cúpula, para se atingir meta tão bela, elevada e necessária.
O próprio Santiago Hernandez, que não possui muitas
simpatias pelas federações, diz:
“Si se constituyra federación, mas que la federación prò-
priamente dicha como unidade superior y que, sea cualquiera
su forma, estimamos convenientísimo el contacto entre las
cooperativas escolares, como lo estimamos entre los maestros
para toda clase de fines educativos.
“Que esse contacto se realizará mediante federación de
cooperativas ou mediante congressos”, ou, como o assinala
Roig, “mediante el acuerdo de varias cooperativas escolares”,
para as compras em comum.
Cattier define a federação escolar como um centro de in-
formação, um laboratório de experiências, um lugar onde
cada cooperativa apanhará luzes e conselhos para melhor
utilizar seus recursos e dirigir racionalmente seus esforços.
Profit, o verdadeiro criador do cooperativismo escolar, co-
mo vimos, tece entusiásticas considerações em tôrno da
federacão.
Colombain diz que a cooperativa escolar se constituirá em
meio educativo ótimo quando êsse meio corresponder à
capacidade de interêsse e de atenção da criança, perfilhando
até a atomização das cooperativas escolares por classes,
impossível ou irrealizável em nossos meios escolares,
notadamente rurais, por enquanto. “C’est pourquoi la
constituition de petits groupes par classe eat assez fréquent,
la coopérative des coopératives de classe”,
Profit disse bem: “De même que, dans chaque école, le
conseil des maitres régle les autres actes de la vie scolaire, de
même ce Conseil, ou l’instituteur s’il est seul, constitue le co-
mité ou l’agent directeur, et le délégué des cooperateurs”.
É, pois, acrescenta, em derredor dos professôres da escola
que deverão ser agrupadas as cooperativas escolares.
O “Office Central de la Coopération à l’Ecole”, da França,
pela palavra de Paul Juif, frisa que a federação das
cooperativas escolares pode fazer conhecer, intuitivamente,
que cada grupo depende, econômica e moralmente, de todos
os outros.
Tirado Benedi, com sua autoridade de didata, preconiza a
federação, porque o “que al alumno individual es para la
coope
124 COOPERATIVAS ESCOLARES
rativa escolar debe ser para ias escuelas la federaclón de
cooperativas y para esta la confederación”.
Dentro desta orientação elaborei o projeto de lei que
consta do fim do presente livro, o que traduz o orientação
oficial no assunto.
Referindo-se a Profit, quando êste alude ao Conselho de
professôres como delegados natos dos cooperadores para a
organização de órgãos de segundo grau, Benedi aduz:
“Sin embargo, nosotros opinamos que no hay inconve-
niente que las Federaciones surjan del seno mismo de las
cooperativas escolares y que sus juntas e comités de dirección
estén formados de manera análoga a los de las proprias organi-
zaciones basicas.. las Federaciones y las Confederaciones, una
vez establecidas las organizaciones que han de serviles de
base, no sólo son convenientes, sino necesarias”. Acha ainda
que, com elas, ganham a extensão da obra, a eficácia do
trabalho, a coordenação dos esforços, a unificação das
energias, enfim, o entendimento mútuo.
É, digo eu, a transcendente finalidade contida na gnoma
socrática: só é útil o conhecimento que nos faz melhores . . .
A obra educativa amplia-se, assim, consideràvelmente e os
recursos técnicos e econômicos também se dilatam.
E com enderêço a exegetas, êste trecho de ouro de
Carlos Maximiliano;
“O hermeneuta de hoje não procura, nem deduz, o que
o legislador de anos anteriores quis estabelecer, e, sim, o que
é de presumir que ordenaria, se vivesse no ambiente social
hodierno.
“Sem esbarrar de frente com os textos, ante a menor
dúvida possível o intérprete concilia os dizeres da norma com
as exigências sociais;.., e assim exerce, em certa medida
função creadora: comunica espírito novo à lei velha”.
Mais - ou menos dentro daquela “new jurisprudence
school”, tao em uso nos Estados Unidos da América do Norte,
e a que se refere Oliveira Viana.
A lei atual tem seu espírito novo, dentro dos cânones da
moderna psicopedagogia.
CAPITULO VI
AINDA A ESCOLA RENOVADA E AS COOPERATIVAS
ESCOLARES
Já fiz sentir que as cooperativas escolares, que se
organizaram até nas escolas profissionais femininas no
México, admitiam quando necessário, para um Conselho de
Administra-cão de seis membros, dois professôres.
Mas, só admitir professôres, pais ou tutôres, é deformar,
até certo ponto, uma organização altamente educativa, que
procurei, pela primeira vez, caracterizar em livro no Brasil.
Entretanto, como vimos, é preciso considerar o caso das fe-
derações.
Sempre fui de parecer que as cooperativas escolares,
sendo organizações exclusivamente de crianças, não
deveriam estar sujeitas a nenhuma formalidade legal,
maravilhosos instrumentos que são do aparelhamento
educativo da escola moderna, dela fazendo parte integrante
para o verdadeiro e alto conceito dessa escola renovada,
plena de sentido objetivo.
Criou-se aqui um absurdo, com a exigência de
personalidade jurídica para as cooperativas escolares na lei
22.239.
No México, onde devem, entre outras coisas, visar ao
“trabajo productivo y socialmente útil”, registam-se
simplesmente na Secretaria de Educação. O mesmo que
obrigar as atuais Caixas Escolares, no Distrito Federal,
introduzidas por Fábio Luz, ao caráter legal das
mutualidades... No decreto-lei 581, de 1 de agôsto de 1938,
procurei sanar êsses inconvenientes, livrando-as da
necessidade de arquivar documentos na “Junta Comercial”,
etc.
Disse muito bem Fábio Luz, um dos precursores, no
Brasil, como vimos, da escola renovada (que teve seus livros
escolares adotados durante anos nas escolas primárias do
Distrito Federal): “A escola é um pequeno mundo com sua
humanida-de minúscula, tendo em germe todos os amores e
ódios, tôdas as simpatias e inimizades, tôdas as grandes
virtudes e os grandes vícios da humanidade adulta... E tôda
uma complicada
126 COOPERATIVAS ESCOLARES
cosmogonia intelectual e moral, obscurecida por noites hiber-
nais, às vêzes outras vêzes iluminada de eternas primaveras.
“A escola é a continuação do lar. Quando no lar não há
o confôrto espiritual e carinhoso e a iniciação primordial nos
percalços da vida e do mundo, que a ignorância agrava e
torna insuperáveis, supre-os a escola, onde os mestres têm a
tríplice e elevada representação de pais, educadores e guias”.
O cooperativismo escolar irá atuar nesse pequeno
mundo.
O cooperativismo escolar é aquêle que já defini. Para
amparar, se isso ainda for necessário, o que tenho afirmado,
bastará citar a lei espanhola (1931), mais uma vez a J. Profit,
e ao Dr. Fernando Azevedo, o Ilustre pedagogo sob cuja admi-
nistração em São Paulo vi aprovados os estatutos de
“Cooperativas escolares”. Realiza a cooperativa escolar a
instituição social, real e viva, a que se refere Dewey, quando
diz que os hábitos escolares, para que sejam animados de um
sôpro moral, deverão interessar a criança na prosperidade de
uma comunidade, interêsse prático, intelectual e emocional,
arcabouçando ela mesma até os pormenores de sua vida
comum.
E o brilhante educador que é Anísio Teixeira disse, com
justeza, que é na escola que “a criança vai viver socialmente,
aprendendo a participar da moderna organização democrática,
assumindo as suas responsabilidades e extraindo dessa vida
coletiva sentido e prazer”. E acrescenta que o educador deve
“de ânimo deliberado formar o individuo que se dirige a si
mesmo, que sabe esclarecer e indagar dos motivos, das causas.
que não se choca nem se confunde com a vida em contínua
formação que o espera. .
O mesmo diz o não menos brilhante pedagogo Amaral
Fontoura, dentre outros.
DR. FABIO LUZ, UM PRECURSOR
Sob a bandeira arco-irisada o criança verá abrir-se,
diante de suas almas sensíveis e ávidas, o espetáculo multivio
da vida que a aguarda cá fora, estuante.
Meu saudoso pai, Fábio Luz, médico, romancista, intro-
dutor do romance social no Brasil, como vimos, novelista,
contista, crítico literário, pedagogo que fundou a primeira
caixa escolar no Distrito Federal em 1895, meu saudoso pai
(que deixou 23 obras publicadas, entre contos, novelas,
romances, crítica literária, pedagogia, além de vários livros
de crítica inéditos), dizia:
FÁBIO LUZ FILHO 127
“De acôrdo com os destinos da escola primária devem os
programas dar ao ensino feição prática e orientação utilitária,
sem abstrações, visando como ponto de convergência as ne-
cessidades humanas na vida cotidiana. Tôdas as noções devem
ser fornecidas como meios certos de aperfeiçoamento moral e
intelectual, tido sempre em vista um proveito material ime-
diato ou remoto e objetivo, sem preocupações subjetivas”.
Fábio Luz, espírito de sólida cultura, seguia, assim, os
ensinamentos de vultos universais como Spencer, Horácio
Mann e Bain, que já frisavam como o ideal da educação con-
sistia em obter uma preparação completa do homem para a
vida, colocado o fator econômico no primeiro plano da luta da
existência, colimado o ensino integral e o método científico,
erguidos sôbre uma sólida base de humanismo.
A educação moderna, no elevado conceito dêsses grandes
homens, deveria levar o povo à emancipação intelectual e
moral, possibilitando à. criança o desenvolvimento completo
de suas faculdades.
E a plêiade brilhante de nossos modernos pedagogos
assim também pensa.
Como prova inconcussa do direito que tem Fábio Luz a
ser considerado um dos grandes precursores da escola ativa no
Brasil, reproduzo trechos da conferência que realizou em 29
de agôsto de 1912 na “Escola Riachuelo”, do Distrito Federal.
Ei-los:
“A escola é um pequeno mundo com sua humanidade mi-
núscula, tendo em germe todos os amôres, ódios, tôdas as sim-
patias e inimizades, tôdas as grandes virtudes e os grandes
vícios da humanidade adulta,
“Ocuparei vossas benévolas atenções dizendo coisas a
respeito da escola em globo, da parte material dêste
mundozinho tão cheio de encantos, de contrariedades e
interessante, repleto de surprêsas agradáveis e de consôlo
para os crentes na inata bondade do homem e no futuro de
regeneração, solidariedade, amor e felicidade na terra.
“É um sistema planetário inteiro, a escola.
“Nêle é preciso estudar as leis da gravitação e da gravida-
de, os centros de atração e as fôrças de repulsão; os eclipses,
as parábolas descritas nas suas trajetórias pelos cometas
errantes, as fases de periélio e de afélio dêsses planetazinhos
que não têm ainda luz própria, mas ninguém sabe que mila-
gre farão a natureza e a instrução para transformá-los em cen-
tros de sistemas. Nêles será necessário estabelecer as zodíacos,
com seus signos e sua influência nas estações da inteligência,
128 COOPERATIVAS ESCOLARES
resumidas as etapas do progresso humano no evolver e desa-
brochar do espírito da criança.
“É tôda uma complicada cosmogonia intelectual e moral,
obscurecida por noites hibernais, às vêzes, outras vêzes ilumi-
nada por eternas primaveras”.
E prossegue aludindo à necessidade de se comporem as
classes primárias de trinta crianças para darem freqüência
de doze, de modo a ser o ensino ministrado quase individual-
mente, aproveitando até ao aluno retardado; a conveniência
da iluminação unilateral nas salas de aulas pela abundância
da luz natural, que dá de 40 a 50 lux, segundo H. Truc e
P. Charvenac, os perigos da escoliose, etc., etc., etc.
“As classes compor-se-ão no máximo de trinta crianças
de matrícula, para conseguir-se que cada uma tenha 5 metros
cúbicos de bom ar respirável e puro.
“Incidentemente direi que a classe de mais de trinta alu-
nos, a cargo de um só professor, pouco poderá progredir.
“Apenas o curso complementar poderá nessas condições
ser dirigido com algum proveito por um único professor, por-
que, sendo formado por alunos em idade púbere, receberá
com aproveitamento lições orais e coletivas.
“Ainda assim o mestre ficará sobrecarregado de
trabalhos escritos, cuja correção só será feita com justeza e
critério fora da hora do expediente”.
E mais tarde disse:
“Quando exercia eu o cargo de inspetor Escolar (aposen-
tou-se em fins de 1916) estabeleci no meu distrito escolar o
hábito das aulas-passeias pelos arredores campesinos, pelos
morros e pelas serras de Jacarepaguá, dos Prêtos Forros. Êsses
passeios ficavam sujeitos a lições práticas, em que o mestre não
prelecionava catedràticamente, mas seguia a curiosidade do
aluno procurando explicar-lhe os fenômenos naturais —
quedas d’água, desabrochar das flores, classificação vegetal,
vida dos insetos, etc.
“Tendo eu dado início ao ensino do “slojd” escolar nas
escolas que me eram subordinadas, aproveitando o aptidão e o
preparo de um distinto professor, ex-aluno da antiga Escola
Normal, o saudoso professor Teófilo Moreira da Costa, êste
profissional conseguiu dar novo interêsse ao estudo da Física,
por meios “amusantes”, ensinando o próprio aluno a construir
pequenos aparelhos de madeira para demonstração de fenôme-
nos físicos elementares, tais como níveis, fio-a-prumo,
equilíbrio dos líquidos, corpos mais leves ou mais pesados que
a água, gêneros de alavancas, balanças, etc.
FABIO LUZ FILHO 129
“Festas ao ar livre se vão realizando em alguns distritos,
e a festa da Primavera parece tender a implantar-se nos
nossos costumes escolares. Iniciada modestamente, no 9.°
distrito, com o plantio da árvore distrital, na Escola Visitação
(Engenho Novo), propagou-se e se vai firmando.
“Nós não temos pròpriamente uma delimitada estação
da primavera, pois que é uma eterna primavera a que canta
nos nossos bosques, pelos campos, pelos céus, por nossos
mares, perenalmente; mas serve para educar o sentimento,
para ensinar o amor à terra, êsse período do ano em que é
mais verde a côr das nossas árvores, mais loução o esmalte
dos campos, mais floridos os vergéis, mais leve a vida, mais
perfumada a atmosfera. A terra nos dá a lição de energia, de
capacidade de trabalho contínuo e profícuo, sem repouso e
sem desfalecimentos. Aproveitemos o pretexto educativo.
E cita adiante a José Pedro Varela, ilustre técnico uru-
guaio, o qual acentua que estamos perante a nova orientação
impressa a nossos programas escolares no que se refere à
cultura moral, porque, mesmo no campo da teoria, do
abstração, do verbalismo didático, significa o passo avançado
de nossa pedagogia democrática, que aspira a que a educação
deixe de ser o castelo clássico, senhorial, frio e fechado, para
ofere-cer ao espírito da criança, inquieta de natural avidez, a
vantagem e os miradouros de onde possa ela contemplar o rio
da vida que torcicola a seu pés, multiforme e sonoro.
DISCIPLINA BASEADA NA LIBERDADE
Em 1916, Fábio Luz, dissertando em conferência sôbre
Maria Montessori, disse que não somos honestos por causa do
Código Penal; não roubamos nem matamos porque amamos
o trabalho e a paz. O delinqüente quando se lembra do
Código, antes de praticar o crime, é com o fim de iludí-lo e de
evitar a penalidade. O Código não evita o crime. Os honestos,
que são a maioria, não conhecem os artigos do Código
Criminal e Penal. O verdadeiro castigo para o homem
normal é perder a consciência de sua própria fôrça e da
grandeza que forma sua humanidade interior.
“O método de observação tem por base fundamental a
liberdade dos alunos em suas manifestações espontâneas:
liberdade e atividade.
“Como obter a disciplina em uma classe de crianças em
liberdade? Se a disciplina é baseada na liberdade, esta deve
ser
9 – 27 454
130 COOPERATIVAS ESCOLARES
ativa. Não se dirá que é disciplinado um indivíduo que se con-
serva silencioso como se fôra mudo, e permanece imóvel
como se fôra paralítico. Será um manietado, nunca um
disciplinado. Disciplinado é o individuo senhor de si
mesmo, dispondo de si, segundo uma regra de vida que tenha
adotado.
“O conceito de disciplina ativa não é fácil de se compre-
ender nem de se obter, mas é um alto princípio educativo. A
idéia central do sistema é que nenhum ser humano pode rece-
ber educação de um outro ser. Este autodidatismo é que dá
cunho especial à disciplina da liberdade, que se limita na con-
veniência da coletividade.
“O interêsse nos exercícios sistemàticamente adequados
às necessidades fisiológicas e psíquicas das crianças,
conserva-as concentradas nos respectivos trabalhos, e o
hábito de fixar a atenção em ocupações adaptadas aos seus
gestos, e de resistir a tentações de mudar para outras coisas,
produz com o tempo o self-control. As energias estão
ocupadas no que instintiva-mente procuram, e, tendo plena
liberdade para se expandirem, estão calmas; não há
irritações nem rabugices; não há birras nem implicâncias”.
(Luiza Sérgio),
“Quando uma criança não se adapta bem a êsse domínio
de si mesma e se torna prejudicial à disciplina da classe, pela
sua inquietação e turbulência, não há outro castigo para ela
mais do que isolá-la do convívio das outras e considerá-la
como um ser doente, diferente dos outros, ao qual se fala
como a um convalescente de quem todos têm pena. Êste
modo de considerá-la inferior aos outros estimula-lhe o amor
próprio e a faz em pouco tempo entrar no regime da
liberdade respeitadora da liberdade alheia. Conta a doutora
Montessori que um dia recebeu uma aluna rebelde a todos os
carinhos, infensa a todos os ensinamentos, não querendo nem
penetrar na sala da clas- se, conservando-se na ante-sala.
“Deixaram-na ficar envolta em sua capa e com o chapéu
de que se não queria desfazer. Um dia, quando um outro
discípulo, cansado do trabalho de arrumar cubos pelo tama-
nhos, abandonou, no chão, o exercício e foi em busca de
outro,
a pequena, sùtilmente e como se fôsse cometer uma ação má,
o substituiu, e em pouco tempo, desfazendo-se da capa e do
chapéu estorvantes, se pôs à obra, adaptando-se lentamente
ao regime.
“A liberdade da criança deve ter como limite o interêsse
coletivo; como forma, o que costumamos chamar educação
das maneiras e dos atos. Devemos impedir que o menino
pratique tudo quanto possa prejudicar os outros, ou quanto
redunde em
FABIO LUZ FILHO 131
ato indecoroso ou censurável. Mas tudo o mais, tôdas as
manifestações com fim útil, qualquer que seja, debaixo de
qualquer forma, deve-lhe ser permitido, mas sob a
observação constante da mestra: eis o ponto essencial”.
(Montessori — pg. 61).
“A habilidade especial do mestre está em intervir
pacientemente, para, com absoluto rigor, impedir e pouco a
pouco sufocar todos os maus atos e más tendências, de modo
que o menino chegue ao claro conhecimento do que é bom e
do que é mau. Este é ponto de partida necessário à disciplina;
é o trabalho mais fastidioso da mestra. A primeira noção que as
crianças devem adquirir para serem ativamente disciplinadas é
a do bem e do mal. O fim educativo a atingir está em impedir
que o menino confunda o bem com a imobilidade e o mal com
a atividade, como acontecia com a forma disciplinar anti- ga.
Pois nosso fim é disciplinar a atividade, o trabalho, o bem, e
não a imobilidade, a passividade, a obediência. Uma sala onde
tôdas as crianças se movem ùtilmente, inteligentemente, vo-
luntàriamente, sem embaraço algum, parece-me muito bem
disciplinada.. .“
AINDA A ESCOLA
E, em 1904, já dizia Fábio Luz:
“De programas organizados com orientação igual e uni-
forme, com desenvolvimento equilibrado de disciplinas, pó-
der-se-á chegar com amenidade e com certa facilidade a com-
pletar um curso de noções generalizadas e bastantes para o
comêço da luta pela existência.
“Cubagem de ar insuficiente, material impróprio, ilumi-
nação defeituosa das salas de classe, tudo põe o aluno subur-
bano em inferioridade patente relativamente ao aluno urba-
no, além da falta de adjuntos que possam dirigir as classes
em que se acham divididas as escolas, encarregado um
professor só de dirigir, às vêzes, três classes com suas turmas,
e às vêzes a escola tôda.
“Quanto à distribuição da luz nas salas de classe, muitas
anomalias há a notar nos pequenos prédios aproveitados
para tais serviços: ora abundante e perturbadora à entrada
franca da luz por todos os lados das salas; ora os cômodos
aproveitados têm insuficiente claridade velada através de
uma janela mal disposta no aposento, impedindo a
arrumação das cartei-ras de modo a aproveitar a luz e dispô-
la à esquerda do aluno.
132 COOPERATIVAS ESCOLARES
“Entretanto, custam aluguéis elevados os prédios que a
Municipalidade ocupa”.
Numa de suas conferência, elaborada em 1918, e
Intitulada “Case dei Bambini, Fábio Luz, estudando a obra
da Dra. Maria Montessori, diz mais:
“O método de observação tem por base fundamental a
liberdade dos alunos em suas manifestações espontâneas. Li-
berdade e atividade.
“Se a disciplina é baseada na liberdade, esta deve ser
ativa.
“A primeira noção que as crianças devem adquirir para
serem ativamente disciplinadas é a do bem e do mal”.
“Baseado no respeito à individualidade da criança e no
desenvolvimento dela, dando-lhe a maior independência pos-
sível, firmado na concepção muito mais alta da liberdade do
aluno do que os outros sistemas; radicado na educação dos
sentidos, como coisa da maior importância, o sistema Montes-
sori é a aplicação, científica e moderna, do pensar de J. J.
Rousseau no “Emile”.
“O desejo de vencer dificuldades educa o caráter e afirma,
orientando, as energias naturais”.
O SLOJD ESCOLAR E AS CLASSES ELEMENTARES
Eis o programa de slojd escolar elaborado por Fábio
Luz e pelo professor Teófilo Moreira, publicado em agôsto de
1915, e fielmente executado na “Escola Cairu”, no Méier:
— Slojd escolar.
Esbôço de programa para alunos do curso
complementar:
1 — Estudo do instrumental e dos diversos modos de
sua utilização: faca, serra, pontas de metal, verruma,
esquadros, TT, lixa, etc.
2 — Preceder todos os trabalhos do desenho do objeto
que se quiser fabricar, tomadas as dimensões exatas, com o
auxílio do desenho geométrico.
3 — Estudo da resistência da madeira e do melhor
modo de aproveitar sua conformação e a direção das fibras
vegetais.
4 — Primeiros cortes. Posição da mão direita; a mão es-
querda sustentado a tábua; modo de pegar da faca, firmando
o dedo polegar da mão esquerda no dorso dela, próximo à
extermidade, de modo a dar firmeza aos cortes de
desbastamento em linha reta. Procurar a “veia” da madeira
para evitá-la, sendo preferível seccionar fibras a seguir-lhes
as sinuosidades.
FABIO LUZ FILHO 133
No caso de maior resistência da madeira, apoiar a tábua na
extremidade da mesa.
5 — Nos cortes circulares dar movimento em curvas ao
punho e à lâmina da faca, acompanhando o desenho e, lenta-
mente, por cortes sucessivos, aproximar-se do traçado.
6 — Fabricar (sempre precedendo o desenho do objeto)
facas de cortar papel, tabuinhas para chaves, tabuinhas com
entalhes para enrolar linha, cordão, lã, etc.
7 — Descansos para canetas, recortados à serra e
ajustados com pontas de metal ou colados.
B — Caixinhas com diversas formas geométricas, de ca-
pacidade prèviamente estabelecida, com as faces ou superfí-
cies ajustadas por meio de cola ou pontas de metal,
9 — Cadeirinhas sem encôsto (tamboretes), mesas, ca-
bides.
10 — Aparadores, consolos, com recortes nos espaldos,
e gavetinhas.
11 — Cadeiras de encôsto recortado.
12 — Armário de portas e pés recortados e ornatos
superiores, rendilhados à faca ou à serra. (Em tudo deve ser
observado o desenho prèviamente traçado, bem como o plano
anteriormente combinado).
13 — Animais domésticos. Polichinelos, articuladas as
diversas partes do corpo por meio de arames finos ou pontas
de metal. Esses últimos trabalhos poderão ser depois colori-
dos e pintados à vontade do aluno.
14 — Carrinhos de mão, montados em madeira e sôbre
dois descansos. Carretas de duas rodas, sem raios, firmada
em um eixo pregado ao lastro dos carrinhos com pontas
metálicas.
15 — Cataventos ou moinhos de vento, de quatro pás —
seis e oito.
16 — Carros de quatro rodas e guarnições.
17 — Armações para diversas formas de papagaios —
trapézios, paralelepípedos, aeroplanos, etc.
Eis trechos de uma conferência realizada em 1912, na
“Escola Riachuelo”, por Fábio Luz:
“As classes elementares deveriam compor-se de vinte
crianças de matrícula, para darem freqüência de doze, de
modo a ser o ensino ministrado quase individualmente. Se
assim fôsse, o aluno, ainda mesmo retardado, lucraria tripli-
cadamente e faria o curso primário em menos da metade do
tempo que consome atualmente em classe numerosa.
134 COOPERATIVAS ESCOLARES
“As salas para que permitam boa arrumação serão
retangulares; as carteiras alinhar-se-ão de sorte que o aluno
receba o luz pela esquerda. A exigência higiênica da
iluminação pela esquerda, todos vós sabeis melhor do que eu,
deve ser religiosamente respeitada por causa da escrita
principalmente, pois que, vindo a luz do lado direito, a mão
que escrever projetará sombra sôbre o papel, e até à leitura
feita em livro repousado na tampa da carteira essa
iluminação trará sérios inconvenientes, prejudicando o
perfeito funcionamento dos órgãos visuais, ocasionando
vícios de acomodação que persistirão por tôda a vida do
escolástico.
“A iluminação unilateral esquerda nem sempre ou
quase nunca é possível conseguir-se regularmente higiênica,
em prédios construídos para outros fins, e nem a obtemos
perfeita nos edificados com intuitos escolares pela Prefeitura.
Pode-se corrigir êsse inconveniente de luz excessiva e
esfuzilante, apro- veitando outras aberturas, janelas ou
portas, para o arejamen- to das salas, velando-as com estores
ou cortinas de tecido bastante compacto, mas permitindo a
transparência uniforme. O vidro despolido ou facetado é
prejudicial, pois refrata a luz em muitas direções; seria
preferível utilizar-se o vidro opaco até certa altura da
vidraça. As janelas do lado direito, se de menores dimensões,
prestarão serviços, pois que em certas condições é
indispensável aproveitar a luz da direita, como refôrço de
iluminação, estabelecendo um arremêdo do que se conven-
cionou chamar — luz bilateral equivalente. É difícil estabele-
cer o mínimo e o máximo de iluminação escolar em velas
decimais ou lux. Uma sala bem iluminada por luz natural
dará de 40 o 50 lux, enquanto fartamente iluminada
artificialmen- te à noite dará de 12 a 30 lux (“Higiene
ocular e inspeção das escolas”. H. Truc e P. Chavernac.) Os
fotômetros já deviam estar em uso nas nossas escolas. Esses
aparelhos são de fácil manejo; têm por fim achar a medida e
o grau de iluminação dos diversos lugares da escola: quadros
negros e lugares ocupados pelos alunos e professôres, mapas
e estampas. O fotômetro de True compõe-se de textos cuja
legibilidade para um mesmo indivíduo, colocado em distância
fixa, varia com a iluminação. É êle formado por um quadro
medindo 0m,23 de comprimento por 0m,17 de largura. O
texto se repete cinco vêzes no quadro coberto por uma, duas,
três, quatro e cincos lâminas de vidro ou gelatina, igualmente
espêssa e da mesma côr. Conforme o numero de lâminas — a
quantidade de luz.
FÁBIO LUZ FILHO 135
“Um cordel fixado na apófise orbitária externa ao
observador e prêso ao aparelho regula a distância. Deve
medir 0m,33.
Ao texto coberto com uma só lâmina correspondem 2
velas.
Ao segundo — 2 lâminas — 3 velas.
Ao terceiro — 3 lâmInas — 6 velas.
Ao quarto — 4 lâminas — 12 velas.
Ao quinto — 5 lâminas — 24 velas.
“Quando não se conseguir arrumar a classe de modo
que a iluminação se faça pela esquerda do aluno, arrumem-se
as carteiras de frente para a parte de onde vier a luz mais
inten- sa. Tem êsse modo de iluminação, especialmente no
nosso clima, o inconveniente de deslumbradoramente ferir a
retina do discípulo.
“Há meios de atenuar a intensidade luminosa: cortinas,
estores, venezianas, etc. Tôdas essas coisas, já muito sediças,
estais cansados de saber e não vos venho dá-las como
novidade; apenas as menciono para concatenação desta
despretensiosa palestra.
“A dificuldade maior nesta questão está na iluminação
das escolas noturnas.
“A luz elétrica aproveitada e utilizada nas escolas
urbanas, é, sem dúvida, a que mais se aproxima da luz
natural; é, portanto, a mais higiênica.
“Ainda assim tem o inconveniente de ser abundante em
raios ultra-violetas que produzem queratites e irites.
“Esses inconvenientes podem ser obviados pelo emprego
de vidros amarelos, amarelecidos ou esverdinhados, nas
lâmpadas, embora diminuam a intensidade luminosa.
“O gás corrente de iluminação, onde não haja luz
elétrica, prefere-se ao acetileno e ao álcool, que são mais ricos
de raios ultravioletas; a êstes últimos também é preferível a
luz de petróleo ou querosene, onde não haja canalização de
gás corrente.
“O gás comum tem contra si a grande produção de calor
irradiante dos focos de combustão, calor que se atenua com
os aparelhos incandescentes Auer.
“O melhor meio de distribuir a luz artificial nas classes,
será o que se basear na instalação de lâmpadas nas cornijas,
ou guarnições do teto, ou que, projetando-a diretamente
sôbre as tábuas do fôrro, a reflita em tôda a sala, utilizados
refleto- res de metal branco ou niquelado.
136 COOPERATIVAS ESCOLARES
“O problema da iluminação da escola é de
extraordinária importância.
“Muita bem diz o professor Dr. Linneu Silva que a idéia
de filiar à escola as perturbações visuais, dependentes da
miopia, remonta a uma época relativamente bem afastada
para a ignorância e o descuido em que ainda é envolvido pro-
blema de tão grande relevância social, de tão grande
destaque econômico.
“Depois de horas seguidas de exercícios em classe, em
que a visão aproximada dos objetos fatiga o órgão visual pelo
esfôrço de acomodação convergente, tornam-se necessários a
perspectiva ao longe, a vista de grande praças movimentadas,
vastos horizontes, verdes montanhas, que repousam admirà-
velmente a retina e refrescam a imaginação. Por isso a escola
localizar-se-á bem nas proximidades dos pontos de maior
con. densação da população, mas em tal situação que a
mudança de cenário se faça para o aluno apenas saia da
classe, se aproxime de uma janela ou chegue ao pátio de
recreio.
“As salas de classe devem ser pintadas a óleo para
serem lavadas com panos ou esponjas sem prejuízo das
decorações.
“Uniformemente pintadas ficarão em melhores
condições, sendo a côr acinzentada a que melhormente
satisfaz. No caso de serem as paredes forradas de papel, que
seja êle de desenhos poucos vivos e de tais matizes, que
aproveite razoàvelmente ou atenue os excessos da luz solar.
“O assoalho, calafetado, fácil de ser levado, bem unidas
as tábuas, não oferecerá fendas onde se acumulem detritos e
o pó das ruas e das estradas, levados nos pés dos alunos, dos
mestres e dos visitantes.
“Tanto quanto fôr possível as arestas das paredes e dos
portais serão substituídas por superfícies arredondadas, côn-
covas e convexas. Esta medida visa a impedir. nos casos fre-
qüentes de quedas, que as crianças se contundam muito ou se
firam ou escoriem a pele.
“As reservadas, em número de três para centena de
discípulos, ficarão nos pátios de recreio, serão de fácil acesso,
bem arejadas e vigiadas, e em tal situação, que os ventos
reinantes não atirem para dentro da escola emanações
mefíticas, ou pe-los tubos de ventilação ou desprendendo-se
das bacias e mictórios. As paredes das privadas revestir-se-ão
de substâncias impermeáveis — cimento, azulejo, etc., de
fácil limpeza, com água abundante, pura ou misturada com
alguma substância desinfetante.
FABIO LUZ FILHO 137
“Haverá o máximo cuidado em conservar desobstruídos os
sifões e bem estanques as junturas das canalizações dos raios
de águas servidas e pluviais, em comunicação com a rêde
geral de esgôto, onde haja esgôto. Nas localidades onde ainda
não houver chegado êsse melhoramento, maior deverá ser o
cuidado prestado à limpeza das valas e sarjetas de
escoamento de águas servidas, estabelecido serviço regular,
real, efetivo, de desinfetação periódica das fossas fixas.
“A filtração da água potável seria melhor se fôsse feita nos
depósitos de abastecimento ou nas caixas domiciliárias; mas
onde a esterilização não se possa obter por êsse meio, pode-se
recorrer ao processo da ebulição, principalmente nos
distritos escolares longínquos, nos subúrbios distantes, nas
ilhas sem abastecimento regular de água.
“As portas de entrada e saída das escolas serão amplas pa-
ra facilitarem retiradas rápidas em casos de perigo incêndio,
desabamento, raio ou qualquer outro acidente.
“No vestíbulo ficarão os cabides de chapéus e o vestiário;
nunca nas classes.
“As escadas terão largos degraus para evitar quedas;
terão corrimão sólido e patamares espaçosos para descanso.
“Nas proximidades das classes haverá lavatórios com água
corrente em abundância, onde os alunos limpem as mãos fre-
qüentemente, não só das impurezas das poeiras das ruas,
como das máculas que a tinta de escrever, o giz e os outros
utensílios da escola lhes tenham pôsto. Em tôdas as escolas
exigir-se-á a instalação de bebedouros, onde as crianças se
desalterem sem se utilizarem de canecas ou copos de uso
comum.
“Os recreios convém que sejam ajardinados ou cortados
de tabuleiros de relva bem cuidada onde possam rolar os
meninos, sem risco de se machucarem. Que melhor seria
também um trecho arborizado!
“Um belo jardim elegantemente desenhado e florido, man-
dando para o azul do céu oblatas de perfumes à Natureza fe-
cunda e inspiradora de bons pensamenbs, é também educativo
dos sentidos e do sentimento estético das crianças.
“Amar esta nossa terra, acarinhar-lhe os seios túmidos de
vida, de tudo aquilo de que se faz a felicidade e abençoar-lhe a
fecundidade e a liberdade com que nos nutre; amar nossa terra
— delícia dos nossos olhos, celeiro inesgotável, túmulo dos
nossos ancestrais, laboratório de nossa descendência; terra
luminosa, florida e perfumada como outra não há no mundo;
amá-la e ensinar a amá-la é também educar. E o homem vive
138 COOPERATIVAS ESCOLARES
tão prêso à terra que não amá-la, não lhe ser agradecido, é um
crime; não adorá-la, uma perversão moral.
“Os bancos-carteiras para um aluno são os preferidos,
quando as salas os comportam.
“Dentre êles excelem os que têm assentos móveis, facili-
tam os movimentos dos alunos e dão francas entradas e
saídas. Pelas suas dimensões é indispensável que estejam em
relação direta com as estaturas dos alunos. Nem é preciso
muito insis-tir na gênese da escoliose escolar e das
deformações provenientes das posições forçadas em carteiras
sem as medidas e dimensões higiênicas exigidas.
“Os bancos-carteiras devem ser arrumados fronteiros à
mesa do professor, distando dela dois metros e afastados cin-
qüenta centímetros da parede, nas filas, quer laterais, quer
extremas. Ficarão a dez centímetros das da frente,
excetuadas as de modêlo americano, cujos bancos estão nas
carteiras posteriores e as mesas nas anteriores. Essas
carteiras americanas, que foram fabricadas no intuito de
iludir a solução do proble-ma da distância positiva ou
negativa entre o banco e a mesa, feitas com pés de ferro
fundido e bastante pesadas, deverão ser fixadas ao solo a fim
de que os alunos não afastem os ban- cos a seu talante ou os
oproximem, fazendo variar a distância que deve ser sempre e
medidamente fixa.
“O mobiliário mau e defeituoso e a iluminação
insuficiente ou mal dirigida, são causas eficientes da escoliose
e da miopia escolares. As carteiras sem as dimensões
correspondentes às estaturas das crianças forçam-lhes as
posições, contrafazem os gestos, dificultam e embaraçam os
movimentos do tórax e da respiração, perturbam, portanto,
as funções circulatórias.
“As posições contrafeitas permanentes produzem
desvios da coluna vertebral: isto constitui a escoliose. Além
do dano causado ocasiona graves perturbações de saúde. Da
carteira não correlativa ao tamanho do discípulo vêm
também males de adaptação ocular, pois os livros, os
cadernos e os outros utensílios de trabalho escolar muito se
aproximam ou muito se afastam dos olhos do discípulo.
“O trabalho no quadro negro faz repousar o órgão
visual, e convém que seja de aplicação freqüente em ardósia
ou tela ardosiada, sempre lavada para conservar-se negra.
“Os mapas de fundo branco ou amarelado ficarão em
posição tal nas paredes, que possam ser vistos pela classe
tôda; os caracteres dêles bem impressos devem ser legíveis
para olhos normais a 10 metros de distância.
FÁBIO LUZ FILHO 139
“Devem êles ser preferidos aos atlas, cujos dizeres são
sempre minúsculos e fatigam a vista. Os livros em uso na
classe deverão ser impressos em papel opaco, para que os
caracteres tipográficos de uma página não sejam visíveis no
verso, O pa- pel couchê e os papéis muito brancos e lustrosos
ou acinzentados, repudiem-se.
“A escola é a continuação do lar; quando no lar não há o
confôrto espiritual e carinhoso e a iniciação primordial nos
percalços da vida e do mundo, que a ignorância agrava e torna
insuperáveis, supre-os a escola, onde os mestres têm a tríplice e
elevada representação de pais, educadores e guias.
“Na escola a criança aprenderá com a ginástica e os cân-
ticos o ritmo da vida e a harmonia dos movimentos, a beleza
das formas no conjunto estético do corpo humano bem con-
formado, ágil e vigoroso.
“Com a história aprenderá a tirar dos fatos e das crônicas
do passado as ilações do futuro. Aprenderá na suavidade de
nosso idioma a amar solidàriamente todos aquêles que se ser-
vem dêle para exprimir pensamentos e sentimentos.
“Da geografia tirará ensinamentos para muito querer êste
imenso e dourado pais de sol perene nas alturas, de sol eterno
nas entranhas auríferas, com seus caudais inexauríveis, sua
produtividade exuberante, que dá mil por um sem que lhe
amanhem sequer as entranhas fecundas. Aprenderá rudimen-
tos de ciências que lhe explicarão os mistérios do Universo e da
Natureza; ensinar-lhe-ão a ser homem.
“Uma boa parte da instrução educativa que vos é cometi-
da pelo Estado, tem sido um tanto descurada nos últimos
tempos, em que tôdas as atenções se voltaram quase
exclusivamente para a educação da inteligência, relegando-se
para um plano inferior a educação do sentimento. Ambas,
para se completarem, exigem desenvolvimentos
correspondentes.
“Nos que tenham tendências a degenerações e taras psico-
páticas, melhor será apurar a educação do sentimento.
“A escola municipal é a escola do proletário. O ensino in-
tegral que lhe devemos deve ser fornecido no menor espaço
de tempo possível, pois não temos o direito de retardar-lhe a
entrada na vida de labuta, de caça ao pão nosso de cada dia.
“O problema geral da educação intelectual, disse A.
Comte. consiste em fazer chegar, em poucos anos, um
entendimento muitas vêzes medíocre ao mesmo ponto de
desenvolvimento que atingiu, em longa série de séculos, um
grande número de gênios superiores, aplicando durante uma
vida inteira, sucessivamente, tôdas as fôrças ao estudo do
mesmo assunto”,
140 COOPERATIVAS ESCOLARES
O TRABALHO DOS EDUCADORES
Em 1936, aventando assuntos depagógicos, disse Fábio
Luz que não seria sem propósito transcrever alguns trechos
de Momela Nievenheus: “Deve-se dar ao menino o
ensinamento quando êle o queira. Qualquer programa
escolar igual para todos os meninos de um país é ridículo. O
mestre deve ter a liberdade de dispor o ensino de acôrdo com
seus desejos e com o desejo dos alunos. A mesma porção para
todos os estômagos, a mesma quantidade para todos os
desenvolvimentos: para tôdas as capacidades, as mesmas
ocupações e os mesmos trabalhos... Não. Melhor será
adaptarmo-nos à natureza. Certamente serão cometidos
erros menores. Elhen Key desejava que um dilúvio afogasse
todos os pedagogos, salvando-se apenas Montaigne, Rousseau
e Spencer, para que se progredisse um pouco... Proteger,
defender, incitar e impulsionar, é o trabalho dos
educadores”.
E acrescentou que não sabiam muitos que, ao tempo
dêle, como inspetor escolar, guiado por Omer Buise, se fêz
alguma coisa para dar à educação da infância certa
orientação utilitária e não simplesmente livresca. “O nosso
distrito, reunido em Associação de Professores, estabeleceu o
ensino de slojd escolar, à moda sueca, adquirindo o material
necessário para os trabalhos manuais em madeira,
precedidos do desenho dos objetos a fabricar. O professor
Teófilo Moreira da Costa deixou um belo exemplo de escola
primária (Escola Cairu), preparatória de escola profissional,
facilitando o ensino técnico,”
AS CAIXAS ESCOLARES
A ação da caixa escolar em certo sentido precede a da
cooperativa escolar, não há dúvida, de vez que vai buscar a
criança fora da escola, enquanto a cooperativa já a apanha
dentro dela, como aluno. Podem coexistir e podem
interpenetrar-se, ou a própria cooperativa substituí-la,
como se vem tentando na Bahia, não obstante a cooperativa
escolar não deva trilhar tal caminho de beneficência, dada
seu dinamismo orgânico; considerado seu cunho de um
movimento educacional e viril, de auto-suficiência, de
emancipação, de renovação de métodos. Mas, não se pode
negar que as caixas escolares, tanto no Distrito Federal, como
em São Paulo, Paraná, etc., vêm prestando serviços
relevantes como elementos de combate ao analfabetismo, pela
distribuição de sapatos, fardamentos, pratos-
FABIO LUZ FILHO 141
-de-sopa, e de leite (inaugurados por Fábio Luz no Distrito
Federal), etc., e até invadindo o domínio da higienização,
pelos gabinetes dentários, etc. Mas, sua ação tem sido
fecunda, mas limitada, sem o alcance educativo da
cooperativa escolar moderna, que dá ao aluno o aprazimento
e as virtudes da autodidaxia.
Eis a mensagem de Fábio Luz, em 1895, ao fundar a pri-
meira caixa escolar:
“A incumbência estabelecida por lei ao Inspetor Escolar
refere-se, pois, especialmente, às crianças pobres.
“Se é encargo do Inspetor Escolar estimular a
freqüência às escolas, igual incumbência tem o professor pela
necessidade natural de um meio maior de ação.
É tanto mais útil um foco luminoso quanto maior é seu
poder iluminativo; quanto maior é a zona por êle iluminada,
quanto mais poderosa a sua irradiação.
“Sendo o professor foco de luz intelectual, tanto mais
útiI se tornará o seu esfôrço, tanto mais digno será de
benemerência, de veneração e de gratidão pública, tanto mais
credor dos aplausos, da consideração e do aprêço de uma
população, quanto maior fôr o número de inteligências
esclarecidas pela sua benéfica influência de educador.
“Portanto a vós, tanto como ao Inspetor Escolar, ocorre
o dever de criar a eficaz propaganda da disseminação do
ensino pelo povo, pela infância pobre, onde reside o futuro
brilhante das instituições republicanas e da Pátria.
“Nenhum meio é de efeitos mais prontos para
chegarmos ao fim do que aquêle que tiver como resultado
dar ao aluno pobre, ao filho do proletário o necessário para
freqüentar a escola, fornecendo a veste decente, que o não
envergonhe junto aos seus companheiros mais favorecidos da
fortuna, com o fim de facultar-lhe as luzes intelectuais
capazes de torná-lo útil à Pátria, à Família e à Sociedade.
“Creio, pois, senhores, que não é uma utopia tentar
organizar neste distrito uma caixa escolar, dando execução
ao disposto no art. 64 da lei, que diz:
“Ficam constituídas caixas escolares para obtenção de
donativos, a fim de fornecer aos alunos reconhecidamente
pobres o indispensável de que careçam para freqüentar a
escola”.
Este artigo de lei, lançado assim sem uma ampliação se-
quer, indicando a quem incumbe a organização destas caixas,
dá-nos o direito de organizá-la no nosso distrito como nos
aprouver.
142 COOPERATIVAS ESCOLARES
“Exposto, assim, o fim desta reunião, pergunto: Está o
professorado do 7.° distrito disposto a cooperar com todo
esfôrco nesta obra de filantropia ou de caridade, trabalhando
para fornecer aos pobres, aos necessitados os meios práticos
de obter o pão intelectual sem os espetáculos, os rótulos das
sociedades beneficientes, mas com a dedicação de que tem
dado sobejas provas no exercício de sua benemérito
profissão? Sim.
“Então tratemos de dar uma organização séria e útil à
caixa escolar do 7° distrito, que fica criada nesta data”.
Nesa época, nada existia sôbre cooperativismo no Brasil
e muito menos sôbre cooperativismo escolar.
Eis o regulamento da primeira Caixa Escolar fundada,
no Distrito Federal, em 1895, por Fábio Luz, como disse:
REGULAMENTO DA CAIXA ESCOLAR
DO SÉTIMO DISTRITO
CAPÍTULO I
Organização e fins da Caixa
Art. 1.° — Fica nesta data instalada a Caixa Escolar do
7.° distrito, de conformidade com o art. 64 do decreto nº 38
de 9 de maio de 1893.
Art. 2.° — Serão considerados membros desta Caixa,
não só todos os professôres catedráticos, adjuntos,
subvencionados e subsidiados, pertencentes ao 7.° distrito
escolar por ocasião da aprovação dêste Regulamento, como
os que vierem à mesma pertencer posteriormente, de que
declarem aceitar as condições do art. 3°
Art. 3.° Para a manutenção da Caixa o inspetor esco-
lar concorrerá mensalmente com a quantia de 5$, o professor
catedrático com 2$, e o adjunto, subvencionado ou
subsidiado, com 1$000.
Art. 4.° — Esta Caixa não poderá contrair divida algu-
ma, nem fazer junção com outra de qualquer distrito e o seu
patrimônio será formado:
1.° Pela contribuição de que trata o art. 3,0,
2.°Pelo produto dos meios estatuídos no art. 13.
3° Pelo rendimento de qualquer quantia excedente ao
orçamento das despesas anuais, que deverão ser depositadas
pelo tesoureiro em conta-corrente em um Banco ou na Caixa
Econômica.
FÁBIO LUZ FILHO 143
Art, 5.° — Esta Caixa tem por fim fornecer aos alunos
reconhecidamente pobres do 7.º distrito escolar o
indispensável de que careçam para freqüentar a escola,
segundo dispõe o art. 84 da Lei do Ensino Público
Municipal.
Parágrafo único — Os meios de que trata o artigo ante-
cedente serão fornecidos não sòmente às crianças pobres de
ambos os sexos, que por falta dêles não freqüentam escolas,
como também às que, freqüentando qualquer escola pública,
subvencionada ou subsidiada do distrito, necessitem dos
meios para poderem continuar.
CAPITULO II
Deveres e direitos dos membros da Caixa
Art. 6.° — São deveres dos membros da Caixa, além do
que estatui no art. 3.º dêste Regulamento.
1.° Cumprir e fazer cumprir o presente Regulamento.
2.° Ser pontual no pagamento de suas mensalidades.
3.° Exercer, com todo zêlo e dignidade, as comissões e
cargos de que se incumbirem, não podendo recusá-los sem
motivos justos.
4.° Concorrer com sua pessoa, influência e meios
disponíveis para manutenção da Caixa.
6.° Fornecer à Diretoria as informações que lhe forem
pedidas.
Art. 7.° — Todo membro da Caixa terá o direito:
1.º De votar e ser votado.
2.° De dirigir-se por escrito à Diretoria no caso de qual-
quer dúvida na interpretação dêste Regulamento.
CAPÍTULO III
Da Diretoria, escolha de seus membros e atribuições
de cada um
Art. 8.° — A Diretoria compor-se-á de um diretor, que
será o inspetor escolar do distrito, de um vice-diretor, um te-
soureiro e um almoxarife, eleitos anualmente dentre os pro-
fessôres, por maioria de votos, sendo considerados suplentes
os imediatos em votação, que os substituirão em seus impedi-
mentos.
§ 1.° Os membros da Diretoria podem ser reeleitos.
144 COOPERATIVAS ESCOLARES
§ 2.° O almoxarife será sempre uma professôra catedrá-
tica.
Art. 9.º — Ao diretor incumbe:
1.º Promover todos os meios de aumento da renda da
Caixa.
2.º Convocar e presidir às Assembléias Gerais
ordinárias e extraordinárias, expedindo convites a todos os
professôres do distrito, determinando dia, hora e local.
3.° Nomear dois professôres presentes para 1.º e 2.° se-
cretários das Assembléias Gerais.
4.º Fiscalizar a distribuição dos benefícios.
5.º Rubricar os livros das operações da Caixa.
8.° Visar os pedidos, autorizando as despesas.
7.º Apresentar um balanço semestral à Diretoria e um
relatório anual à Assembléia Geral, do movimento da Caixa,
com todos os anexos fornecidos pela Tesouraria.
8.° Suspender a sessão das Assembléias Gerais, caso se
torne tumultuosa, ou por qualquer outro motivo incon-
veniente.
Art. 10 — Ao vice-diretor compete substituir o diretor
em seus impedimentos.
Art. 11 — São encargos do tesoureiro:
1.º Arrecadar as rendas da Caixa.
2.º Ter em ordem a escrituração a seu cargo e em livros
apropriados.
3.° Encarregar-se da correspondência.
4.° Fornecer ao almoxarife o necessário para as dês-
pesas.
5.º Apresentar à diretoria reunida um boletim
trimestral, demonstrativo da receita e despesa.
6.° Expedir aos professôres os recibos de suas
mensalidades.
7.º Ter sob sua guarda a Caixa, pela qual é o único res-
ponsável.
Art, 12 — Ao almoxarife compete:
1.º Fazer aquisição do necessário para satisfação dos pe-
didos.
2.° Receber e aviar os pedidos feitos e assinados pelos
professôres e rubricados pelo diretor.
3.º Passar recibo ao tesoureiro das quantias recebidas.
4.º Prestar contas ao tesoureiro das despesas feitas, jun-
tando as faturas com os competentes recibos.
5.º Exigir do professor recibo dos fornecimento feitos.
FABIO LUZ FILHO 145
6.º Requisitar do tesoureiro a quantia suficiente para ter
em depósito o material imprescindível para atender pronta-
mente aos pedidos.
CAPITULO IV
Obtenção de donativos e modo de distribuição
Art. 13 — A renda da Caixa será aumentada por meio
de benefícios, quermesses, bandos precatórios, concertos,
car- tões numerados, e legados ou donativos.
§ 1.º Os cartões numerados, terão o valor de Cr$ 5,00 e
serão fornecidos pela Diretoria aos professôres que os
pedirem e quiserem responsabilizar-se por êles, confiá-los a
pessoas de seu conhecimento.
§ 2.° Os outros meios de que trata o art. 13 serão reali
zados em lugar e tempo convenientes, a juízo da Diretoria.
Art. 14 — Os fornecimentos aos alunos necessitados se-
rão feitos mediante requisição do professor ao Diretor, na
qual deverão ser mencionados os nomes dos alunos, com
explicação tão detalhada quanto possível do que cada um
necessita.
§ 1.° Êstes fornecimentos nunca serão em dinheiro, mas
sim em objetos de vestuário.
§ 3.° No auxílio prestado serão usadas tôdas as precau-
ções a fim de que se ignore entre os alunos qual o socorrido.
§ 4.° O aluno não poderá ser beneficiado mais de duas
vêzes por trimestre no verão e mais de uma no inverno.
§ 5.° Para o aluno obter um novo auxílio, o professor
verificará se o material recebido está imprestável, salvo no
caso de inundação, incêndio, etc.
§ 6.° Tendo de beneficiar o aluno que venha de outra
escola do mesmo distrito, o professor sindicará da Diretoria o
que houver a seu respeito.
§ 7.º 0 aluno que fôr beneficiado e faltor trintas dias por
qualquer motivo, não poderá ser provido novamente senão
no trimestre seguinte.
§ 8.° Durante as férias cessará completamente a distri-
buição dos benefÍcios,
§ 9.º No caso de não poder a Caixa atender de pronto a
todos os pedidos de um mesmo professor, êste informará,
caso possa reconhecer, quais os alunos mais necessitados,
decidindo, no caso de igualdade de circunstâncias, em favor
dos que melhor souberem cumprir seus deveres escolares.
10 — 27 454
146 COOPERATIVAS ESCOLARES
CAPÍTULO V
Das Assembléias Gerais
Art. 15 — As Assembléias Ordinárias reunir-se-ão duas
vêzes anualmente: uma em princípios de junho e outra em 1
de agôsto.
Art. 16 — A primeira das Assembléias Ordinárias terá
por fim receber os dados que lhe fornecer a Diretoria em
relação à receita e despesa da Caixa e nomear uma comissão
de tomada de contas e a segunda aprovar as contas que lhe
apresentar a Diretoria e fazer a eleição da mesma.
Art. 17 — Também serão consideradas legais as delibe-
rações das Assembléias Gerais extraordinárias convocadas,
com declaração do fim, pela maioria do professorado.
Art. 18 — As reuniões das Assembléias Gerais efetuar-
-se-ão em dias feriados e em local designado no convite para
êste fim, exceto a segunda Assembléia Geral Ordinária, que
se reunirá em 30 de junho, segundo estabelece o art. 15 dêste
Regulamento.
.... ..............................................................................................
.... ...........................................................................................
Art. 26 — No caso de mudança na numeração do distri-
to ou de anexação de outras freguezias, ficará êste Regula-
mento sujeito às alterações reclamadas pelas circunstâncias.
Art. 27 — Os desvios de dinheiro da Caixa serão puni-
dos de acôrdo com as penas de lei.
Art. 28 — O membro da Caixa, que tornar público o be-
nefício feito, será passível de uma censura por parte da Dire-
toria, e, no caso de reincidência provada, de um voto de cen-
sura na ata da primeira Assembléia Geral.
Art. 29 — As consultas e dúvidas sôbre a interpretação
deste Regulamento serão resolvidas pela Diretoria, desde que
não lhe afetem os artigos básicos, caso êste em que serão
sujeitas à Assembléia Geral.
Capital Federal, 30 de junho de 1895.
Dr. Fábio Lopes dos Santos Luz, inspetor escolar
Maria do Nascimento Rei Santos
Augusto de Miranda
Eugênio Manoel Nunes
Aristides Drumond de Lemos
Nicolau Figueira.
FÁBIO LUZ FILHO 147
NOTA — Nos originais que possuo, Fábio Luz colocou a
seguinte nota: — “Poderão ser sócios da Caixa,
contribuintes, ou não, todos os que assim o entenderem, não
sendo permitido a estranhos ao magistério a ingerência na
administração da mesma”.
Perdeu-se a parte dos estatutos que ia do artigo 18 ao
26; mas, o que ficou linhas acima vale, eloqüentemente, por
um documento histórico irrespondível.
A Escola Afonso Pena, na 5.ª circunscrição do Distrito
Federal, como vimos, deu à sua Caixa Escolar o nome de
Fábio Luz, Era seu inspetor escolar o Dr. Batista Pereira, que,
desta sorte, prestou uma justa homenagem ao criador das
Caixas Escolares no Distrito Federal.
Outras aí estão também com seus ótimos gabinetes
dentários, etc., etc.
(Substituir os “mil réis” por cruzeiros, nos estatutos).
A EDUCAÇÃO NA SUÉCIA
E vejamos o que se se faz na Suécia, nesse domínio, ideal
a que aspirava Fábio Luz.
Emil Lustig, o ilustre representante da Förbundet,
honrou-nos com sua visita em julho de 1949. Na conferência
que realizou sob os auspícios do Centro Nacional de Estudos
Cooperativos, de que sou presidente (conferência já editada
em folheto pelo mesmo Centro, como também o foram as dez
conferências que promoveu, enfeixadas em livro intitulado
Temas Cooperativos), reafirma tudo o que ficou acima dito.
Nesta conferência, entre outras coisas, disse que na Suécia
amplamente se faz a semeadura das idéias cooperativas.
Estas idéias propagadas em todo o mundo, constituem uma
sagrada teoria e prática de centenas de milhares de homens e
mulheres, convencidos de que a herança dos imortais tecelões
de Rochdale forma uma base para a economia socialmente
Justa em fa-vor da humanidade.
“E êsse regime na política exterior verifica-se, também,
na política interna. Sob o regime da política democrática e
social-mente justa, o desenvolvimento da economia sueca,
interno e externo, mostra resultados dignos de consideração.
“A escola pública, obrigatória para todos (não há
analfabetismo) é inteiramente gratuita. Cada aluno, sem
distinção de que os pais sejam ricos ou pobres, recebe
gratuitamente todo o necessário para a educação e tôdas as
crianças também
148 COOPERATIVAS ESCOLARES
recebem, gratuitamente, a merenda escolar constituída de
lei- te, fruta, pão, manteiga e várias salsichas. O regime
escolar é democrático, com influência obrigatória das juntas
escolares, formadas pelos pais de alunos. As crianças
recebem assistên-cia médica gratuita, especialmente
dentária. Os pais recebem 300 coroas suecas como auxílio
infantil para cada filho e também uma redução do imposto
sôbre a renda. Cuida-se muito da saúde pública. Por
exemplo, tôda a população de Estocol-mo, de cêrca de
750.000 habitantes, teve oportunidade de freqüentar,
gratuitamente, o instituto de combate à tuberculose, onde
cada cidadão foi bem atendido, tirando radiografia dos
pulmões para assim combater a enfermidade, com o objetivo
de destruir o vírus já em seu nascimento, mandando-se os
enfermos aos hospitais especiais das regiões florestais”.
A COOPERATIVA ESCOLAR, UMA IMAGEM DA VIDA
Alice Jouenne disse bem: “Une coopérative scolaire est
pour les enfants une petite image de la vie”.
É esta uma proposição feliz, e Fábio Luz como uma ima-
gem da vida sempre considerou a escola, e sempre teve em
alta conta a colaboração escolar.
Wells, estudando a vida e a obra de precursor do grande
educador inglês, que foi F. W. Sanderson, diretor do “Colégio
de Oundle”, que teve a fôrça de um símbolo, reproduz os se-
guintes e justos conceitos dêsse educador, espírito agudo que
teve a antevisão e a prioridade de processos que a moderna
pedagogia tem como axiomáticos.
“Em Oundle, diz Sanderson, cremos que as escolas
devem tornar-se, cada vez mais, um microcosmo que representa
o mundo novo. Deve ser um microcosmo experimental no qual
sejam postos à prova os critérios, os imperativos, as leis e os
julgamentos, as organizações, as idéias e os fins de um mundo
novo.
“Porque, aqui em Oundle, nosso fim supremo não é
adqui-rir únicamente conhecimentos, mas agir”. (H. G. Wells-
Un grand éducateur moderne — Sanderson). Isso já acentuei.
Assim, Sanderson, como ainda assinala Wells,
considerava a escola como o centro de uma completa
reorganização da vida civilizada E não é outro o pensamento
renovador do cooperativismo escolar, como ficou patente em
capítulos anteriores.
E Fábio Luz compreendeu muito bem êsse papel da
escola. Faltou-lhe, para continuação de sua obra, ambiente e
estímu-
FÁBIO LUZ FILHO 149
los. Desistiu mesmo de aventar, em face de um meio rigida-
mente preconceituoso, a própria questão da educação sexual
nas escolas, como me afirmou várias vêzes, referindo-se, com
laivos de tristeza, aos tropeços que o avanço de suas idéias e a
independência de seu adamantino caráter encontravam a
cada passo, e aos acúleos que feriam seu coração
amantíssimo.
Amado por seus discípulos, recebeu homenagens como
esta:
ANDORINHAS
Poema extraído do conto Andorinhas, das “Leituras de
Ilka e Alba” (Edição Francisco Alves):
Ao brilhante escritor Dr. Fábio Luz
Oferece
o humilde autor
Moacir G. Almeida
I
Verão. Rutila o sol. Nos verdejantes mares
Dos bosques, que se enrolam nas douradas gazas
Ao fecundo clarão das radiações solares,
Decantam as cigarras de setíneas asas...
Cintilante manhã. Dos leques dos palmares
Alçam vôos gentis, abrindo as leves asas
As ágeis andorinhas, nômades dos ares,
Em busca dos beirais dos templos e das casas...
E além, um par gentil vinha alegre cantando
Por sôbre os verdes campos, sôbre os descalvados,
Por sôbre a limpidez do céu azul plainando
Ora além nos extensos, aromais valados,
Ora o azúleo cristal do córrego cortando,
Procurando sutil as beiras dos telhados...
150 COOPERATIVAS ESCOLARES
II
Lá, no meio do vale, atufado em verdores,
À beira do carreiro longo e tortuoso,
Por entre os laranjais cobertos d’alvas flores,
Erguia um templozinho o vulto gracioso...
Tangendo um sinozinho agudo e sonoroso
Cujos sons musicais perdiam-se em rumores,
De quebrada em quebrada, em murmúrio queixoso,
Gemendo na amplidão dos prados multicores.
Na cornija da linda e pálida capela,
O namorado par trançou o pobre ninho
De palinha em palinha, próximo à janela.
Tudo era calma ali; sòmente o velho sino,
De quebrada em quebrada e caminho em caminho,
Soava, erguendo o som do cântico divino.
III
O altivo campanário. . . o piso sossegado
Do velho sacristão . . . da lamparina o lume. . .
O brando tilintar do lustre embalançado
Pela brisa, soltando um trémulo queixume.
Era um ninho d’amor, de paz, abençoado,
O templo de Jesus que tôda luz resume,
E à beira da cornija, o tálamo entrançado
Era todo d’amor, de sonhos, de perfume.
Mas, às vêzes, a igreja enchia-se de gente.
Cantava lá na tôrre o sino impertinente
Um murmúrio de preces . . . de rouquenhos cantos.
E o padre em pé no altar, em voz pausada e grave,
Entre as nuvens de incenso, na pequena nave,
Sereno repetia: — Sanctus... Sanctus.,. Sanctus...
FÁBIO LUZ FILHO 151
IV
Certa vez, a manhã tingia em seus rubores
O frontal da capela e o níveo campanário.
E a luz, atravessando entre os vitrais de côres,
Coloria os cristais do branco alampadário.
Um grande movimento, envolto em mil rumores,
Soou pela capela, brusco, extraordinário.
Várias moças ornavam de festões de flores
O lustre, a sacristia, o altar, o santuário...
E quando ao meio dia os sons do sino ecoaram,
Rumores, mil rumores, vozes, marteladas,
Pela tôrre, no altar, no côro ressoaram.
E no entanto, nascidos mais dois passarinhos,
Implumes e gentis, nas palhas entrançadas,
Do ninho, pipilando, erguiam os biquinhos.
V
Noite clara e serena... O céu azul cortado
Por fulgentes clarões... Girândolas de côres...
Tudo em festa na Igreja... odor d’incenso e flores
E o órgão a soltar um som entrecortado.
Bandeiras de papel e panos de mil côres
Dispostos em cordão, nos lados, na fachada.
O padre a murmurar em voz desafinada...
O altar resplandecente... profusão de flores.
E as pobres andorinhas, rápidas, cansadas,
Co’os biquinhos abertos, fracas, vacilantes,
Iam... vinham, sutis, voando amedrontadas.
E implorando alimento os filhos suplicantes
Erguiam as cabeças meigas, depenadas
Para as mães que chegavam leves, arquejantes.
VI
Os foguetes, velozes, que em rubente traço
Subiam pelos céus, as aves espantavam.
152 COOPERATIVAS ESCOLARES
E elas cair deixavam no ruidoso espaço
A gota de alimento que aos filhos levavam.
As coitadas, às vêzes, na capela entravam;
Mas o padre de pé, falando, erguendo o braço,
Parecia as enxotar. E as aves pipilavam
Fugindo para o ninho com o corpo lasso...
Veio a noite. As lanternas de papel brilharam.
A festa continuava. Os cânticos soaram.
Ergueu o lampadário o vacilante lume
E o inditoso casal — as vítimas insontes —
Escondiam-se nas asas as pequenas frontes
Pipilava faminta a débil prole implume.
VII
Nos píncaros altivos, nos azúleos cumes,
Ergueu o sol deslumbrante a loura cabeleira,
Num primoroso cortejo d’aves e perfumes,
Ao fagueiro cantar da brisa alvissareira
E lá na alva igrejinha, da cornija à beira,
Não mais se ouviam aquêles límpidos queixumes.
Apenas sôbre a fria cal, sôbre a madeira
Jaziam os filhotes, álgidos, impulmes.
Mal sorria a formosa, a deslumbrante aurora
No cavo céu azul, aquêle par insonte,
Erguera o brando vôo pelo azul em fora.
E enquanto chilreavam outras pelo monte,
Elas, cheias d’angústias e dor, foram-se embora
Sumindo-se no azul do límpido horizonte...
20 de outubro de 1916
Moacir Gomes Almeida
NOTA — O grande poeta, tão cedo roubado à vida, era
em 1916, quando, compôs o poema acima, aluno de uma
escola primária. Seu gênio poético desabrochava então,
pujante.
FÁBlO LUZ FILHO 153
A PRIMEIRA LEI MUNICIPAL SOBRE COOPERATIVISMO
ESCOLAR NO BRASIL — AINDA O VALOR MORAL E A
FUNÇAO EDUCATIVA
Fernando Azevedo disse que a escola primária, que se
converte em verdadeira comunidade de vida e de trabalho,
permi-te o estudo e a aplicação de tôda uma série orgânica de
experiências e processos sugeridos pela experiência direta da
vida. “A associação cooperativa é um dêsses processos
normais de formação na escola renovada segundo o método
experimental e o espírito de finalidade social; e, de tôdas as
instituições que podem contribuir para o desenvolvimento do
espírito de cooperação é, por certo, uma das mais eficazes
pela sua própria natureza e pela possibilidade de interessar
à. totalidade dos alunos. Só a experiência e o trabalho, sob as
formas mais expressivas da vida cívica, econômica e social
podem dar à educação um, fundamento sólido, moderno e
prático. Na escola nova, que é, por sua essência, um
laboratório prático de pedagogia, as cooperativas escolares,
como aliás tôdas as instituições, com que se manifesta e
afirma a vitalidade social da escola, assumem um papel
preponderante”.
“É por isso que a lei determina a organização, em cada
escola primária (art. 585 do Reg. do Ensino), de uma associa-
cão cooperativa de consumo de que fazem parte todos os alu-
nos. As cooperativas escolares são instituídas, principalmente,
como meio educativo de cooperação e, acessòriamente, para
auxiliar a aquisição de material didático. Cada cooperativa,
que terá um capital constituído, de acôrdo com a lei, de ações
de cada sócio, é administrada por uma diretoria, de que
fazem parte os alunos.
“A cooperativa manterá (art. 58’?), para venda com
abatimento aos alunos, um pequeno depósito de material
didático, em que poderá empregar até metade do seu capital,
destinado a outra parte à aquisição de jogos, brinquedos,
material para trabalhos e alimentação. É, como se vê, uma
instituição de caráter educativo, que deve funcionar com
capital dos alunos em benefício dêles, e sob sua direção
controlada pelas autoridades escolares. A organização das
cooperativas, quer nos detalhes, quer na linha e no espírito
geral, integra-se, desta maneira, no plano da reforma, não
como instituição suplemen- tar, mas como expressão viva
das suas idéias diretrizes”.
Vê-se, pois, o cunho eminentemente educativo que dava
à cooperativa escolar o ilustre pedagogo.
154 COOPERATIVAS ESCOLARES
VALOR MORAL. AÇÃO EDUCATIVA
Por tudo que existe sôbre cooperativismo escolar na
literatura mundial, pela prática universal se vê que são
organizações fundadas, dirigidas e controladas por crianças,
sob as vistas dos mestres.
Tivemos oportunidade de dizer em livro que,
materializan-do um ideal de harmonia, de igualdade nas
relações concretas da vida, de justiça moral, reconhecendo no
ser humano um mérito espiritual, o cooperativismo assenta
em valores morais sua fórmula de ação, sua fôrça de
conquista, seu caráter de renovação. É um propulsor de
fôrças vivas,
Nas escolas cariocas já existem exemplos flagrantes de
cooperação na distribuição de pratos-de-sopa, nos copos-de-
leite, etc., iniciados por meu saudoso pai, tudo fruto dos
esforços conjugados de todos para conseguirem um fim
elevado e nobre, que, sòzinhas, não poderiam as crianças
atingir. Isso já acentuamos,
Uma ilustre educadora já disse que o criança “tem
possibilidade infinitas e que, à sua chegada ao mundo, é ela,
para a sociedade, um capital em potência”.
Por que, pois não fazer com que se desenvolva em seus
corações êsse dignificante sentimento inato de solidariedade
para com todos os sêres que a circundam e do mesmo passo
incessantemente a deslumbram?...
Por que não estabelecer desde já entre essas pequenas
almas em formação e os demais sêres êsse vínculo fecundo de
solidariedade?
Elslander mostra a afeição inato da criança pelos sêres e
coisas primitivas. A criança gosta das plantas e dos animais;
as flores encantam-na com os seus perfumes e o variegado de
suas côres. A terra, as pedras, a água, são os primeiros ele-
mentos formais de seus folguedos,
Aconselha êle, adepto da escola nova, a escola-granja,
dissemos, Para completá-la aconselharíamos a cooperativa-
gran-ja, isto é, uma cooperativa de trabalho escolar no
campo, à semelhança do que se pratica em outros paises.
Nos centros urbanos, como vimos, as cooperativas
escolares, mais dinâmicas e viris, ampliariam o alcance das
atuais caixas escolares introduzidas no Distrito Federal por
iniciativa de Fábio Luz, meu saudoso pai, como vimos.
Supérfluo será encarecer as vantagens das cooperativas
escolares rurais, mòrmente em face do urbanismo que se
acentua em tôda o parte do mundo atual. Na América do
Norte,
FÁBIO LUZ FILHO 155
disse alguém, a escola rural chamou a si o estudo da natureza
como etapa necessária para a formação de hábitos de obser-
vação e o estabelecimento de laços de atração entre a criança
e a natureza fulgente e farta.
Elsiander diz que uma criança criada no ar sadio dos
campos é de uma constituição física, intelectual e moral mais
harmoniosa e mais sólida que uma criança da cidade, que só
tem impressões falsas ou insuficientes em um mundo que não
é o seu, onde tudo é contrário às suas necessidades, a seus de-
sejos, a seus instintos de ser primitivo.
Como bem diz Julio Barcos, o vibrante escritor argentino,
não é, pois, “ùnicamente em sua face técnica que há necessi-
dade de transformar a educação, senão também em seu con-
ceito filosófico e em sua finalidade humana. O problema não
é acadêmico, mas sociológico. O primeiro têrmo do problema
não é “como educar”, mas “para que fim queremos educar o
homem”...
E proclama a necessidade de um organismo novo, plásti-
co, dinâmico.
Não será a cooperativa êsse organismo plástico e
dinâmico?
Luzzatti, um dos maiores financistas da Itália, criador dos
bancos populares cooperativos que tomaram o seu nome e
que podem ser considerados escolas elementares de
previdência ou caixas econômicas aperfeiçoadas, Luzzatti
disse que a cooperação é uma escola de previdência que
ensina a utilidade de bem trabalhar. A honestidade é a sua
melhor política e o seu me-lhor símbolo. Escolas superiores
possuem cátedras de coopera-ção.
Existiam, e, certo, ainda existem, na Europa, cooperativas
de trabalho agrícola organizadas por meninos e rapazes,
cujas atividades eram até solicitadas pelos camponeses
adultos. Formaram-se até cooperativas de crianças para
proteção aos pássaros.
No Uruguai já existe um acentuado movimento na direção
da “pedagogia democrática”, no dizer de Cesar Marote,
ilustre educador uruguaio, “para abrir ao espírito da
criança, inquie- to de natural avidez, as janelas e os mirantes
de onde possa contemplar, embora à distância, o rio da vida
que serpenteia a seus pés.
“Praticar a cooperação ou cooperativismo em nossas esco-
las será, continua Cesar Marote, ao mesmo tempo que
completar uma enunciação teórica com sua realização
eficiente, ampliar, vivificar, modernizar ainda mais nossa
pedagogia, não
156 COOPERATIVAS ESCOLARES
por simples afã esnobista e simples desejo modernizador,
mas pelas vantagens de tôda ordem que proporciona,
fazendo com que a criança se incorpore à vida mesma e
comece a sentir-lhe as vibrações.
“A educação, dêsse nosso ponto de vista, deve abrir o es-
pírito infantil à compreensão das necessidades, das idéias e
do esprírito de seu tempo, condicionando-o a um viver
harmônico no concêrto social, não como um elemento de
monotonia tradicional e rotineira, mas, sim, como uma fôrça
nova e de aperfeiçoamento”.
Cesar Marote preconiza as cooperativas por escola, por
bairros ou por zonas que compreendam várias escolas, cujo
conjunto poderá constituir a Federação das Cooperativas.
(Do ponto de vista educativo, são preferíveis as cooperativas
por escolas ou grupos escolares, e a lei brasileira nisso é
clara)
Exemplifica êle a ação benéfica das cooperativas de
compra de material escolar suprindo enormemente as
deficiências orçamentárias, coadjuvando os governos, desta
sorte, na alfabetização infantil, constituindo núcleos
irradiantes de solidariedade humana.
Isso tudo acima, já o dizíamos em 1926. E em 1930 já,
em livro, havíamos tocado nesse assunto.
A primeira edição do presente livro saiu em Janeiro de
1933 do prelo da Civilização Brasileira.
FUNÇÃO EDUCATIVA, CAPACIDADE TÉCNICA —
OS CLUBES DE ESTUDO
Como “centro-de-interêsse”, desenvolverá a cooperativa
faculdades latentes nas almas infantis; corrigirá tendências;
educará inclinações; coordenará vontades; cepilhará
instintos inferiores, imprimindo à criança uma
“personalidade equilibrada, harmoniosa e forte”.
“O homem, diz Fábio Luz, animal social e sociável,
sòmente se desenvolve à custa desta qualidade: só progride
com o auxilio de seus semelhantes. Voltar aos seus começos
de vida é a imperfeição primeva, em que era lupus, não é
tender à perfeição...
“O fim, o destino do homem, é a busca da felicidade. A
felicidade perfeita sem o amor, que é a solidariedade, não nos
pode ser garantida sòmente pela Justiça, como lei suprema.
O amor é a solidariedade absoluta; é a perfeição real e reali-
zada; é a igualdade e o supremo bem; é a energia, a vida, o
FÁBIO LUZ FILHO 157
estímulo, a emulação, o incitamento, a arte, a lei formal da
existência e do progresso da humanidade. É, portanto, a feli-
cidade”.
O cooperativismo escolar é veículo, pois, de formação
moral, instrumento de ação fecunda, levando também à.
educação física e artística.
“En Estados Unidos se reputa que la enseñanza moral
no es lo bastante activa y positiva. Ciertamente la atmósfera
de la escuela debe ser favorable a esa educación; pero los
ejemplos de los educadores y de los grandes hombres no son
suficientes; un bueno espiritu general y un elevado ideal no
alcanzan tampoco. El niño, ser esencialmente activo, se
desenvuelve por la acción y toda su actividad debe ser dirigida
de modo a obtener de él una persona moral, consciente,
responsable. La tendencia actual de la educación europea
continental nos conduce, creo yo, a concebir la educación
moral de la misma manera (por ejemplo, en la escuela activa,
en las “Schulgemeinschaften”, de Alemania y Austria, etc.).
“Empleamos especialistas para enseñar a los niños toda
classe de cosas. Por que no dos emplearemos también. para
enseñarlas a leer la escala de valores de la vida humana?”
Em “Aspectos agro-econômicos do Rio Grande do Sul” e
em “Teoria e prática das sociedades cooperativas”, estudando
o intenso movimento cooperativista dêsse grande Estado, ao
lado do grande desenvolvimento que se opera no domínio
agropastoril das terras gaúchas, ressalto a função altamente
educativa da já famosa “Cooperativa dos Empregados da
Viação Férrea do Rio Grande do Sul”, em Santa Maria, que
teve Manoel Ribas e Augusto Ribas como dinâmicos diretores,
que deixaram uma escola de capacidade realizadora.
Em tôda a parte ao movimento cooperativo cabe essa
função educativa, não como objetivo final, mas como
imprescidível ação subsidiária. Gide, dentre outros mestres,
frisou o alcance dêsse objetivo. Lavergne diz que na
instituição cooperativa é a pessoa humana que está em jôgo,
o homem social ligado ao homo oecomomicus, explicando-se,
assim, a regra da igualdade dos associados, a devolução
desinteressada, a prática de consagrar uma parte dos
excedentes anuais a obras de educação e de solidariedade
humana.
As cooperativas escolares, por mim caracterizadas em
livro, como disse, desde começos de 1933 (e às quais já
aludira largamente na segunda edição de “Cooperativismo e
crédito agrícola”, em 1930, e na primeira edição de
“Sociedades cooperativas” em 1928), são o instrumento
específico para a forma-
158 COOPERATIVAS ESCOLARES
ção de uma nova mentalidade, uma nova ótica para as ques-
tões sociais e econômicas, embasamento da civilização futura
que se está esboçando.
Quero pôr em relêvo a ação educativa do cooperativismo
livre como meio de expansão do movimento e alteamento do
nível moral e mental dos cooperadores. Hutchinson acaba de
se referir discussões em grupo como método de educação
cooperativa. Vários países europeus possuem líderes
cooperativis- tas preocupados com a organização de centros
de estudos, preparo de associados para as funções diretivas, e
de técnicos; cursos sôbre a doutrina e a prática do
cooperativismo.
São Paulo, com Octacílio Tomanik, está dando passos
acertados e o Pará com Bruno de Menezes, além do
Amazonas e do Paraná, com Waldemar L. Campos, e outros,
através de seus departamentos especializados, como a
Paraíba e Pernambuco, êste com Nair de Andrade; o Rio
Grande do Sul com Paulo Onófrio, Rui Estêves e J.
Monserrat, dentre outros; Minas, com Zózimo de Barros; o
Serviço de Economia Rural com o curso intensivo para
administradores que inaugurou em fins de 1954 e que, certo,
prosseguirá, abrem caminhos novos.
“El primero de esos objetivos es de permanente
preocupación en todas las cooperativas del mundo, a tal
punto que en Alemania, país de alta densidad cooperativa,
ese aspecto de la acción moviliza a centenares de miles de
personas, como lo indica el siguiente resumen del año 1930
(movimento que continua em Munster, etc.):
373 reuniones públicas de consumidores;
942 reuniones cooperativas para sindicatos;
5.254 reuniones de asociados cooperadores;
945 reuniones femeninas;
912 fiestas sociales;
181 reuniones de conscripción de socios;
2.472 proyecciones cinematográficas;
123 desfiles de propaganda;
2.472 visitas a establecimientos cooperativos;
97 exposiciones.
Cifros semejantes puedan darse para la mayoria de los
paises europeus en los que autoridades comunales,
provinciales y centrales se vinculan con su aporte material a
la propaganda dei ideal cooperativo.
“Asi es como se explica la potencia del movimiento y la
fidelidad de los asociados a cada institución. Cada uno de
ellos
FABIO LUZ FILHO 159
es un verdadero defensor del presente y del futuro de la
cooperación, porque sabe valorar toda la importancia de la
obra cooperativa en su papel de organizadora de la economia
colectiva”.
Adiante darei novos elementos.
Se no domínio capitalístico, com tôdas as suas possibili-
dades a indústria ainda se ressente da falta de técnicos
especializados, muitas vez mesmo de mão-de-obra
qualificada, não admira que os meios cooperativos envidem
todos os seus esforços para sanar essas e outras falhas. O
conselheiro de turno das cooperativas italianas é uma
inteligente medida nesse sentido, como o rodízio na
administracão geral e na gestão técnica.
Cornellissen, o grande economista, diz que ainda hoje,
mesmo em países como a Alemanha, Inglaterra, Estados Uni-
dos, etc., em 100 engenheiros dificilmente se encontrarão 20
com capacidade para dirigir uma fábrica de 200 operários.
De 30 engenheiros capazes de dirigir uma emprêsa de
mediana envergadura, não haverá três capazes de dirigir
uma emprêsa de 20.000 operários. E não haverá um só capaz
de dirigir um “trust” moderno que tenha cem
estabelecimentos. Não porque não tenham a necessária
capacidade técnica como engenheiros; mas porque a
produção moderna é de grande complexidade e as questões
comerciais exigem largo, longo tirocínio.
No mundo cooperativo isto já foi, de há muito, com-
preendido com lucidez.
Estamos no século da grande indústria e, parece-nos,
assume caráter utópico a esperança de que se possa voltar às
pequenas indústrias como sistema normal e generalizado (o
que, entretanto, nenhum mal, a meu ver, traria à humani-
dade). Poisson. e Russel pregam a concentração cooperativa
como elemento substancial de êxito.
Ademais, é preciso considerar que a atividade social e
educativa é necessária a tôda sociedade cooperativa, não
sòmente para a realização de seus fins sociais, senão,
também, como condição de seu desenvolvimento econômico.
Além da aplicação do fundo de reserva, para os fins
reprodutivos a que se referem Durand e Noguer, dois
conceituados mestres de fama universal, destinam várias
legislações, para fins de educação, percentagens obrigatórias,
estando, nesse caso, nos Estados Unidos da América do
Norte, os Estados de New York, Minnesota, Alaska,
Montana, South Carolina, South Dakota, Virgínia, Iowa,
Wisconsin, North Carolina, Pensilvania.
160 COOPERATIVAS ESCOLARES
CÍRCULOS OU CLUBES DE ESTUDOS
Segundo Hutchinson e o testemunho do Sr. Naboth
Hedin, em “A Nation at School”, os “círculos de estudo” na
Suécia deram surpreendentes resultados na educação do
povo. As cooperativas nesse país, livres como em tôda parte
têm seus próprios cursos de conferências, cursos por
correspondência, círculos de estudos e escolas primária
superiores. Calcula-se que estejam em funcionamento un
10.000 grupos de estudo, com uns 200.000 estudantes
manuseando livros fornecidos na sua maioria pela União
Cooperativa.
“São testemunhos da importância de um bom sistema
de educação cooperativa a rapidez com que progrediram a
cooperativas e os magníficos resultados obtidos na educação
do adulto por meio do método das discussões em grupo”.
Eis como Valdiki Moura descreveu os clubes de estudo
que de perto conheceu nos Estados Unidos e na Suécia:
“A Suécia mantém anualmente 10 mil clubes de estudo
para educação de jovens e adultos. No Canadá, o Serviço d
Extensão da Universidade de São Francisco Xavier, realiza
uma campanha verdadeiramente maravilhosa, de
regeneração de adultos ociosos, pela educação econômica
Foi assim que os homens paupérrimos das Província
Marítimas transforma- ram-se, sùbitamente, nos maiore
exportadores de lagostas pa- ra Boston. Também nos Estado
Unidos êstes clubes multiplicam-se por iniciativa dos podêre
públicos, — das universidades, das ligas cooperativas, do
conselhos cooperativos e das próprias sociedades. Resultaria
ineficiente todo esfôrço que tentasse prmover um movimento
cooperativo em massa organizando, de improviso, sociedade
sem base econômica e educativa. As estatísticas de povo
mais evoluídos que o nosso, revelam conclusões que no
animam a conduzir a campanha cooperativa, na Bahia, em
base estritamente educacional. Temos visto o resultado d
algumas sociedades que vivem en-tre nós. Faz-se um grand
movimento impressionista externo para fins de atração e
chamariz. Mas o capital é débil, as operações são ineficientes
desconhece-se quase sempre a contabilidade. São êstes ponto
que o clube de estudo se propõe esclarecer, educando os seu
associados. Aqui damos algumas proposições para serem
debatidas nos clubes de estudo a fim de ilustrarmos
claramente, êste assunto:
1º — Que é cooperação? Explicai com as vossa
próprias palavras
FABIO LUZ FILHO 161
2.º — Por que devem os produtores reunir-se em uma
cooperativa? Há vantagens para êles?
3.º — Quais são os passos iniciais para a instalação de
uma cooperativa?
4.º — Quais são os princípios básicos da doutrina coope-
rativa?
5º — Vossa localidade tem problemas econômicos ainda
sem solução? Seria possível solucioná-lo pela cooperação?
6.° — Como funcionaria vossa cooperativa? Onde? Com
quais recursos financeiros, materiais e pessoais?
“Estas proposições, e outras, creadas pelos próprios mem-
bros de um clube de estudo, pelo período de alguns meses,
estabeleceriam condições ideais de organização cooperativa.
Do curso dos debates outras questões são ventiladas, e durante
as discussões, vão sendo selecionados os futuros diretores da
cooperativa. Este ponto é de uma importância fundamental
porque é conhecido o fracasso de sociedades entregues a dire-
tores deseducados que confundem as normas específicas do
cooperativismo com as práticas vulgares do mercantilismo
que especula.
“A Seção de Assistência ao Cooperativismo (hoje é um
departamento) da Secretaria da Agricultura, da Bahia, dará
início, dentro de breves dias, a essa campanha educativa,
procurando disseminar o maior número de clubes de estudo,
por várias zonas do Estado. A Seção oferecerá os temas de
discussão e se interessará para que cada Prefeitura Municipal
ofereça ao clube local uma salinha, onde se possam reunir
as pessoas interessadas no debate das suas questões
econômicas. Ao Cooperativismo já tem sido atribuída a
função de utilidade pública e, por isso, certamente, as
Prefeituras Municipais estarão de pleno acôrdo com nossa
campanha educativa, que preparará o desenvolvimento das
fôrças econômicas locais ou regionais.
“O clube de estudo é a célula que há de preparar a vitali-
dade das cooperativas do futuro, melhor baseadas em conheci-
mentos doutrinários indispensáveis ao seu desenvolvimento”.
Sòmente em Ohio, nos Estados Unidos da América do
Norte, existiam em 1947 mais de 1 .000 círculos de estudos.
O Departamento de Assistência ao Cooperativismo, da
Bahia, editou Interessante trabalho a respeito dêsses clubes de
estudo. Os interessados poderão vê-lo reproduzido nas “Ins-
truções para organização de sociedades cooperativas”, já em
quinta edição, por mim elaboradas para o Serviço de
Economia Rural.
162 COOPERATIVAS ESCOLARES
A ESCOLA COOPERATIVA DE FREIDORF
A Escola Cooperativa de Freidorf, ou Seminário Coopera-
tivo, na Suíça, pequeno pais de um elevado grau de
civilização cooperativa, foi fundada por um grande teórico
do movimento cooperativa suíço: Bernhard Jaeggi,
estritamente dentro da orientação pedagógica de Pestalozzi, o
grande educador suíço.
Visa a Escola dar à mocidade uma educação profissional
completa e uma educação teórica e prática dentro do espírito
cooperativo.
Foi em 1933 reconhecida a Escola pelo governo suíço.
Mantém ela cursos diversos. Há um curso de dois anos para
formação de vendedores para cooperativas; cursos teóricos e
práticos de três meses para o pessoal encarregado das
vendas; cursos de aperfeiçoamento de 10 dias. Merece-lhe
grande atenção também o curso de preparação, em caráter
especial, para os círculos de estudos cooperativos, já tão
divulgados nos Estados Unidos.
Os cursos sôbre cooperativismo para associados de
cooperativas, merecem também particular atenção. Entram
no programa desses cursos a história e a doutrina
cooperativa, a contabilidade, as ciências comerciais, o direito
constitucional, a pedagogia, as ciências sociais e políticas, a
arte doméstica, a decoração de montras, etc. O francês e o
alemão são as línguas obrigatórias, dadas, como é sabido, as
origens étnicas da população suíça. Terminado o curso de
dois anos, são submetidos os candidatos a um exame, para
entrega de um certificado de vendedor de armazém, que é
aceito em tôda a Suíça. O ensino é gratuito, como o
alojamento e a alimentação. Além disso, os orientadores do
movimento cooperativo suíço fazem conferências sôbre
vários temas, desde os cooperativos até os filosóficos e
artísticos.
Exige-se certo grau de preparo e um concurso daqueles
que desejam freqüentar o curso de dois anos.
O ensino prático é dado na Cooperativa de Consumo de
de Freidorf, onde os alunos têm a seu cargo todo o serviço de
venda.
B. Jaeggi fêz à Escola um donativo inicial de 50.000
francos suíços; hoje êsse capital está acrescido de donativos
partidos das cooperativas suíças, tendo atingido em 1939 a
993 .058,80 francos.
De 1926 a 1939 haviam freqüentado os cursos nada
menos de 4.882 pessoas, sendo 3.527 mulheres, o que frisa
como é
FÁBIO LUZ FILHO 163
elevado a mentalidade cooperativa dêsse grande pais e o
papel que a mu1her nêle exerce.
Vê-se, pois, como os assuntos cooperativos já entraram a
órbita das cogitações de pedagogos e educadores estrangeiros
e como o govêrno suíço dá à educação uma importância e um
relêvo que devem constituir exemplo e estímulo,
A Escola da “Kooperativa Förbundet”, em Estocolmo, é
conhecida em todo o mundo, como vimos e veremos adiante.
CAPÍTULO VII
CONCEITOS DE REPETTO — AS COOPERATIVAS
ESCOLARES COMO “CENTROS-DE-INTERESSE”
—PESTALOZZI, FROËBEL, MONTESSORI. AINDA
PROFIT
Vimos, em capítulos anteriores, os ensinamentos e as
observações de mestres ilustres e educadores de vulto e valor
inconteste. Todos unânimes em considerar a cooperativa es-
colar um admirável instrumento para a consecução dos
elevados e nobres objetivos da escola renovada. Os estatutos
de “Cooperativas escolares”, vimo-los, com desvanecimento,
como disse, aprovados pela Diretoria Geral do Ensino do
Estado de São Paulo, o grande Estado líder, o que vale por
uma consagração infinitamente acima de nossos apoucados
méritos, quando dirigia êsse departamento o Dr. Fernando
Azevedo, o ilustrado pedagogo a quem se deve a primeira
lei municipal brasileira sôbre cooperativos escolares.
Cooperativismo escolar é o que obedece às normas que
procurei traçar, e o dinâmico e culto Estado (seguido, por
outros Estados) aprovou. Fazer coisa diversa disso, é fazer
amalgamento esdrúxulo, é desvirtuar, é falsear as caracterís-
ticas inconfundíveis de uma instituição visceralmente educa-
tiva, dando-lhe os contornos, a essência, a caranchona de
uma sociedade de adultos travestida de cooperativa escolar,
capaz de embarricar sòmente aquêles que nenhuma noção
tenham de cooperativismo escolar ou nenhuma intuição de
assuntos pedagógicos. É tirar à criança a grande
oportunidade de se ajustar a um maravilhoso aparelho de
educação construtiva. Mas, como nem sempre a voz
brasileira repercute, peço licença para aduzir, ao que
exaustivamente já assinalei, convincentes palavras de mestres
estrangeiros que vêm corroborar literalmente os pontos-de-
vista em que me coloquei.
Reproduzo palavras de Nicolás Repetto, uma das
grandes autoridades em matéria de ciências econômicas e
sociais da Argentina, deputado de relêvo e um dos seus
acatados cooperativistas. Amparado em Profit, o criador do
cooperativismo
FÁBIO LUZ FILHO 165
escolar, cujo livro “La Coopération à l’Ecole primaire”, traz
na capa a sua consagração: “ouvrage couronné par
l’Académie Française”, diz Repetto:
“As cooperativas escolares são formadas por alunos de
uma mesma escola, primárias ou secundárias, e funcionam
(rogo-lhes que atentem neste ponto, que há-de interessar es-
pecialmente aos educadores) com absoluta autonomia: pode
haver um contrôle mais ou menos discreto da parte dos pro-
fessôres, mas as crianças devem ter a sensação de estar em
uma cooperativa em miniatura, na mesma situação em que se
encontram os adultos dentro de sua própria cooperativa.
Estas cooperativas escolares se organizam para se proverem
em comum de objetos escolares ou para prestarem certos
serviços à escola ou a sim mesmas”.
Alcançaram, em alguns países, antes da última guerra,
como vimos, um desenvolvimento notável. Acentua Repetto
que essas cooperativas escolares representam em miniatura
tôdas as formas de cooperação que praticam os adultos: de
economia, venda, produção, cultura, criação, etc.; há ainda
as cooperativas para a compra em comum de objetos e livros
escolares, às vêzes também artigos para limpeza ou de mate-
rias-primas para trabalhos manuais: existem restaurantes,
merendas e copos-de-leite cooperativos; existem cooperativos
escolares para economia e empréstimos; há cooperativas
também para fabricação de objetos diversos em madeiras,
cartão, metal, argila, bordados, tecidos, etc., e de produção
agrícola ou hortícola. Há cooperativas escolares para
replantio de árvores e criação de animais; há cooperativas
também para formação de bibliotecas, organização de
conferências, festas, passeios, excursões, etc . . .. Há
cooperativas também de educação físi-ca, desportos,
sociedades dramáticas e corais; de embelezamento da escola;
criação de museus escolares e fornecimento de material
didático.
“O objetivo econômico destas cooperativas escolares
pode ser de efeitos distintos: ou interessa diretamente aos
alunos ou se refere aos interêsses do escola. Porque muitas
dessas cooperativas escolares não têm sòmente por objetivo o
custo da escolaridade fazendo com que os alunos possam
comprar os objetivos de uso escolar a melhor preço, não
têm sòmente isso por objetivo: muitas delas dotam as escolas
do que necessitam em elementos de ensino. De sorte que a
cooperativa escolar ajuda o equipamento material e pedagógico
da escola.
Frisa ainda Repetto que o que têm essas sociedades de
comum entre si, o que as distingue das outras sociedades de
166 COOPERATIVAS ESCOLARES
crianças, e de onde deriva o seu interêsse pedagógico próprio
é sua constituição e seu funcionamento. São verdadeiras pe-
quenas unidades econômicas cuja gestão se encontra a cargo
das crianças agrupadas de acôrdo com uma forma de organi-
zação que seus próprios estatutos estabelecem. Em nada se
parecem com as mutualidades escolares, cujo presidente, vi-
ce-presidente, etc., procedem do pessoal docente; nelas, o di-
retor, o presidente, o secretário, saem dos próprios alunos, e
êste governo surge da decisão espontânea e livre dêles, de-
vendo o contrôle dos mestres e das mestras exercer-se de ma-
neira mui discreta.
Além das vantagens econômicas que representam para
seus associados, e que também beneficiam a escola, as coope-
rativas escolares colaboram também como preciosos
auxiliares da escola.
Repetto afirma que não emite uma opinião pessoal. Em
tudo o que diz traduz a opinião pessoal de alguns pedagogos
que viram de perto o funcionamento dessas cooperativas es-
colares e puderam extrair desta observação e contacto as se-
guintes conclusões: são preciosos auxiliares da escola, consti-
tuem a realização popular da escola nova. São um tratado de
pedologia. De um lado contribuem para dotar a escola de
meios materiais necessários à aplicação de métodos ativos e
construtivos, e, de outro lado, segundo a opinião de
numerosos educadores, a cooperação escolar seria um
método e um meio de formação intelectual e moral. “Não
sòmente, dizem, constitui um centro-de-interêsse em tôrno do
qual vêm agrupar-se, desenvolver-se e tornar-se mais
flexíveis os conhecimentos adquiridos em classe, oferecendo
um meio direto, baseado em exercícios reais, de adquirir
êstes conhecimentos e outros que não figuram geralmente nos
programas do ensino primário”. “O cooperativismo apela
para a personalidade total das crianças, descobre e põe em
ação faculdades que os exercícios escolares não são capazes de
revelar nem criar, como o juízo, a reflexão concreta, a
imaginação, o espírito de ordem, etc.; algumas faculdades, e
certas qualidades de caráter, como a iniciativa, o domínio de si
mesmo, a aprendizagem da liberdade e o despertar da
responsabilidade.
Também ganham a faculdade de pensar, a disciplina e o
respeito pelas regras morais”.
Pensamos não ser possível uma síntese mais perfeita e
luminosa do alcance das cooperativas escolares.
FÁBIO LUZ FILHO 167
PESTALOZZI, FROËBEL, FALLENBERG
Pestalozzi, o grande educador de Nenhorf e Iverdon, im-
buído de Rousseau, manteve estreitas relações com os
maiores nomes do movimento cooperativo mundial de sua
época —King, Roberto Owen, Mazzini, etc. E bem sabeis que
os princípios pestalozzianos básicos repousam na confiança
em si mesmo, na ajuda mútua, nas relações com o vizinho, na
organização familiar da comunidade. Com Fallenberg, deu à
pedago-gia um caráter social, indicando para base de seu
sistema educativo a família, considerada como a célula
natural de tôda a evolução social.
Segundo Mladenatz, todos os dirigentes do movimento
cooperativo suíço sofreram a influência de Pestalozzi e
Fallen-berg, a começar por Schär. A “Province
Pédagogique”, de Fallenberg (1799) teve por alunos
cooperativistas de renome de outros países, e Huber, Craig,
King, Owen e alguns discípulos de Fourier se corresponderam
com Fallenberg, discípulo de Pestalozzi.
Froëbel fazia da alegria a base da educação infantil e
queria para a criança a ação e o trabalho atraentes.
Aconselhava que ao lado da escola existisse um jardim, que é
a verdadeira fonte de felicidade para a criança, constituindo,
com o estudo da natureza, o melhor instrumento para a
inteligência que desperta, na curiosidade viva do que a cerca.
A professôra Montessori trouxe aperfeiçoamentos ao método
froebeliano, dando à criança o máximo de liberdade e de
ação e ao material didático verdadeira fôrça auto-
educativa.
E lembremo-nos das belas palavras de Maurício
Babenco em “Los niños primero. . .”
AINDA A AÇÃO DE PROFIT
Foi M. Profit na França, como vimos, quem tomou a ini-
ciativa de urna intensa propaganda no sentido das cooperati-
vas escolares, com o pensamento nas luminosas palavras de
Michelet: “Oui, l’éducation de l’homme se fera par les fêtes
encore”. “A sociabilidade tem um sentido eterno, que res-
surgirá”.
E M. Profit disse, com justeza, que antigamente se apren-
dia pelos ouvidos e que hoje se aprende pelos olhos e pelas
mãos
168 COOPERATIVAS ESCOLARES
e, acrescentaremos, pelo coração, que deve aninhar nobres
sentimentos de solidariedade sem jaça.
Profit descreve como nasceu o cooperativismo escolar na
França, acentuando que o mesmo derivou de um alto pensa-
mento de patriotismo.
No período de angústias, ruínas e desalentos do pós-
guerra, diante de pais reunidos para assistir à distribuição de
prêmios na circunscrição de Saint-Jean-d’Angély, fêz-lhe
sentir quais os deveres que a todos competiam depois
daquela tormenta de ferro, fogo e sangue (1919). Era
necessário refazer sua gloriosa pátria, desenvolvendo na
escola o espírito científico, o gôsto dos trabalhos manuais, o
resguardo da saúde física da criança. Havia necessidade de
apoiar essas nobres inten-ções em recursos materiais. Profit
apelou para aquêles que, a seu ver, possuem êsse tesouro
precioso que é um entusiasmo fácil de despertar e capaz de
surtos admiráveis, no sentido da escola risonha, cívica e
prática. Obtido isso, difundiu-se a idéia pelos Vosges, por
Charente, pela França inteira e colônias. “La guerre a révélé
la puissance financière de l’école”, disse Paul Lapie, diretor
do ensino primário na França.
O departamento de Côte d’Or, por exemplo, possuía
690;
o de Vosges, 619; Charente, 500; Charente-Inférieure, 430;
Ardennes, 416, Alpes-Marítimos, 308. Os associados iam a
250.000.
Logo no primeiro ano, após sua fundação, a
circunscrição de Saint-Jean-d’Angély dispôs de 100.000
francos graças a 172 cooperativas escolares, na maioria
rurais. Dêsse 100.000, foram 54.000 destinados a
melhoramentos nas escolas e 46.000 encaixados para a
realização do programa escolar do ano seguinte. E um
dinheiro obtido e aplicado sem as complicações dos trámites
burocráticos oficiais e aplicados logo com eficiência a fins
reprodutivos de interêsse escolar.
Assim Profit orientou o cooperativismo escolar francês
no sentido de uma educação nova, manejando a cooperação
econômica como simples meio.
Não resta dúvida de que preparam elas, as cooperativas
escolares, os futuros associados das cooperativas de consumo,
fato êsse que não deve, porém, causar receio, tal o número in-
findável de intermediários comerciais.
Profit acentuou sempre que a cooperaçao escolar
francesa visa sempre, antes de tudo, à formação, de almas, isto
é, à educação.
“Mais ni la recherche du juste prix pour chacun, ni
même l’emploi des trop perçus en améliorations matérielles,
ne sont
FÁBIO LUZ FILHO 169
en matiére d’éducation suffisantes comme idéal ou comme
méthode. Il y faut joindre autre chose”. Deve a escola levar à
organização de um grupo social organizado e permanente,
acentua Profit ainda, grupo que deve estar sempre presente
ao espírito da criança, que será, em seu seio, esclarecida e
disciplinada, “groupe de transition entre la famille et la société
humaine”, no qual a criança alarga seus sentimentos de afei-
ção no trabalho e nos jogos, desenvolvendo sua razão
nascente, formando sua jovem liberdade nas ocasiões
quotidianas de ação prática e fecunda.
A DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM E O
COOPERATIVISMO ESCOLAR NA ARGENTINA,
NO MEXICO E EM CUBA
Jaime Tôrres, o ilustre diretor geral da U.N. E. S. C .0.,
no Boletim desta entidade de 10 de fevereiro de 1953,
acentuou, com propriedade, que, na escola primária, durante
o primeiro período escolar, tôda atividade deve ter por fim:
1 — fazer com que a criança compreenda, progressiva-
mente, que a escola é uma comunidade, ajudando-
a a integrar-se neste grupo social;
2 — desenvolver na criança, fazendo com que torne
parte cada vez mais ativa na vida da escola, estas
virtudes cívicas fundamentais: o respeito aos
direitos alheios; o senso da solidariedade, da
disciplina e da responsabilidade; a tendência para
sacrificar seus próprios interêsses ao bem comum,
e o sentimento da dignidade humana;
3 — levar a criança a fazer a aprendizagem da vida em
democracia.
Aos doze anos, o espírito da criança ainda não está ama-
durecido para o pensamento abstrato, e certas atividades são
próprias para favorecer a formação de atitudes e hábitos
ajustados aos princípios da Declaração dos Direitos do
Homem.
E Jaime Tôrres indica, para êsse primeiro período
escolar, as seguintes atividades: atividades que revelem a
personali-dade da criança; serviços da criança à escola
(manutenção da biblioteca, etc.), para despertar o sentido da
responsabilidade; serviços da criança fora da escola (ajuda
aos velhos, aos enfermos, às escolas pobres, etc.); clubes de
discussão e trabalhos de
170 COOPERATIVAS ESCOLARES
equipe; estudo do meio, paulatinamente dilatado de maneira
a fazer com que a criança tenha consciência da interdepen-
dência das nações e dos povos, e, finalmente, o cooperativismo
escolar, dentro do qual cabe, dizemos, tudo o que foi
anteriormente citado.
“O ensino relativo aos princípios dos Direitos do
Homem deve apoiar-se em uma organização democrática da
vida escolar. Sem isto, não se poderão preparar crianças
para porem em prática, na vida cotidiana, as idéias de
liberdade, de igualdade e de justiça, de fraternidade e de
solidariedade, ou os deveres para com a coletividade”.
Tudo o que acima fica dito, como vimos frisando desde
1931, cabe no âmbito do cooperativismo escolar.
E Antônio Sérgio, o brilhante intelectual português,
disse, como vimos, com muita acuidade e de maneira incisiva,
estrênuo e sincero cooperativista que é, vexilário da
democracia cooperativa:
“Porém, a autonomia econômica das “pedras vivas” do
povo deveria ser preparada desde a instrução primária pela
autonomia cívica dos escolares na escola”.
“A meu ver, nada mais retrógado, prejudicial e abafante
do que o figurino paramilitar para a educação dos moços,
como no Juventude Hitleriana. O modelo da educação
patriótica para os jovens não convirá buscá-lo nas tradições
guerreiras, na disciplina militar, na heteronomia da tropa,
mas na vida civil dos nossos concelhos antigos, dos nossos
municípios modernos, e na organização democrática das
cooperativas de hoje.
“A disciplina dos alunos na sua vida escolar cumpriria
confiá-la à sua iniciativa própria, elegendo êles mesmos os
seus juízes-alunos, os seus chefes de equipo, os seus vigilantes
e guardas, e mantendo êles próprios a gerência efetiva da
cooperativa escolar que os abastecesse. Percebamos que a li-
berdade é que é o sol das almas”.
ARGENTINA, MEXICO, CUBA, COSTA RICA, ETC.
Pelo decreto 2.314, de outubro de 1950, foi criada a “Di-
rección de Educación Cooperativista” no “Ministério de
Educación” da Província de Buenos Aires, na Argentina.
Tem ela por finalidade o ensino teórico e prático do
Cooperativismo nas escolas primárias, facilitando aos
professôres o material necessário para êste elevado objetivo.
O programa teórico
FÁBIO LUZ FILHO 171
abarca os ternas da economia, da solidariedade e do coopera-
tivismo. As aulas serão semanais para essas disciplinas. A
citada entidade oficial enfeixou, em folhetos, leis, trabalhos,
conferências, etc., assim como determinou que a parte prática
se efetuasse através da fundação de cooperativas escolares den-
tro das escolas, integradas por professôres e alunos.
O Dr. Erico Emir Panzoni, ao comentar o decreto acima,
frisou, com justeza, que a cooperativa escolar deverá formar
uma nova consciência social, na qual tudo girará em tôrno do
homem, de suas necessidades e da maneira de satisfazê-las
mediante a ajuda mútua. Os alunos adquirirão uma noção
exata do funcionamento orgânico da sociedade cooperativa,
tomando parte em tôdas as atividades que vão, da constituição
e tramitação para o registro respectivo, até às econômicas e
sociais, como a aquisição de material escolar e os trabalhos em
comum, e, conforme a localização da escola, os trabalhos agrí-
colas, as práticas hortícolas, florestais, etc.
As atividades sociais residem nas assembléias gerais, reu-
niões de estudo, conferências, excursões recreativas, etc. Isto
tudo desde 1931 que preconizamos no Brasil, em artigos, livros
e folhetos. As 883 cooperativas escolares brasileiras, com algu-
mas exceções, já tudo isso fazem há anos.
Os estatutos-modelos que a citada entidade argentina dis-
tribui assim definem os objetivos de uma cooperativa escolar.
a) Adquirir ou produzir, e distribuir, entre os alunos
associados, o material necessário para seus estudos.
b) Fomentar e estimular entre os alunos associados, o
espírito de economia, de cooperação e de mutualidade, e a
formação de uma consciência cooperativista.
O Segundo Plano Qüinqüenal argentino dispunha que a
“depuração dos princípios do Cooperativismo e a constituição
de cooperativas escolares e estudantis, terão o apoio do Esta-
do, a fim de contribuir para a formação da consciência na-
cional cooperativista e prestar serviços aos alunos”
E agora o México:
Juan Ventosa Roig, ao comentar a lei mexicana, disse, re-
centemente, que o inciso b do artigo 30 do regulamento de
“parcelas escolares” se refere ao “fomento de pequenas indús-
trias agropecuárias, E frisa (o que é roborativo do que, desde
1931, vimos predicando no Brasil), que não só na Europa
(França, Rússia, Polônia, Tchecoslováquia) e na América do
Norte, é uma prática, sumamente difundida entre as coopera-
tivas escolares, a exploração dessas industrias, mas também
em países de nível cultural e econômico inferior, como o são as
172 COOPERATIVAS ESCOLARES
colônias francesas da África Equatorial. Nestas, as cooperati-
vos escolares ensinam aos indígenas o exercício de tais indús-
trias e aperfeiçoam a produção nativa. Em algumas provín-
cias da Índia, acrescenta, os funcionários inglêses chegavam
a organizar o trabalho escolar de forma tal, que o tempo em-
pregado na educação, ao invés de ser um pêso, representava
uma fonte de renda para as famílias.
“Sejamos, entanto, mais modestos em nessas aspirações, e
contentemo-nos com que o cooperativismo escolar em nosso
país (México) seja um centro de difusão de pequenas indús-
trias como a apicultura, a avicultura, a criação de coelhos, a
fabricação doméstica de conservas de frutos naturais, a fa-
bricação de cestos, etc. O que se faz entre os indígenas da
África equatorial e entre populações semi-selvagens da Índia e
da Indonésia, com maior razão poderá fazer-se no México”.
E, como já o fizemos sentir, um outro objetivo: a coleta de
plantas medicinais e aromáticas (França), de frutos silvestres
como goiabas, etc., que se podem transformar fàcilmente em
doces. E mais: o aproveitamento dos cactos como forragem nas
regiões áridas mexicanas, a prática do plantio de árvores
florestais, etc., etc. “Na França, as cooperativas escolares
reflorestaram cêrca de dois mil hectares em terrenos áridos;
e com a difusão do cultivo de fruteiras, contribuíram, pode-
rosamente, para melhorar as condições econômicas de alguns
departamentos. Uma maneira prática e simples de desen-
volver o amor pela árvore, consiste em estabelecer o costume
de celebrar, na cooperativa escolar, os acontecimentos da es-
cola com o plantio de árvores”.
(Fábio Luz, meu saudoso pai, como já o acentuamos, in-
troduziu, ao tempo em que era inspetor escolar no Distrito
Federal, a festa da primavera precedida do plantio de uma
árvore).
E Roig conclui, corroborando, mais uma vez, o que vimos
assinalando desde 1931:
1.º — As cooperativas escolares se consideram, em todos os
países do mundo, como elementos importantes de educação
cívica e econômica;
2.º — As cooperativas escolares podem contribuir para o
fortalecimento da economia campesina, iniciando os escolares
na cooperação e na prática de indústrias agropecuárias, como
se dá em outros países;
3.º — As cooperativas escolares constituem um meio, de
máxima eficácia, para dar à infância, e, por irradiação, aos
adultos, o amor da árvore;
FÁBIO LUZ FILHO 173
4.° — Pela similitude de muitas de suas finalidades com a
“parcela escolar” (no México), e conjugando muitas das ativi-
dades de ambas, poderão ser as cooperativas escolares elemen-
tos importantes para a difusão de novas culturas, melhoria das
antigas, e para despertar entre “ejidatários” (camponeses me-
xicanos) o interêsse pelas duas instituições;
5.º — Para que possam ser realidade as vantagens enu-
meradas nas conclusões anteriores, é absolutamente indispen-
sável estabelecer o ensino sistemático do cooperativismo, a fim
de formar quadros dirigentes com capacidade moral, intelec-
tual e técnica. Sem isto, sejam quais forem os esforços que se
realizarem para fomentar às cooperativas, edificar-se-á sô-bre
areia. Os Estados poderão contribuir para esta tarefa ca-pital
estabelecendo o citado ensino em suas escolas e fundan-do
cooperativas-modelos nos lugares adequados (como também já
assinalamos);
6.° — Enquanto se organizar o ensino metódico do
cooperativismo, é indispensável que a “Direção Geral de Ação
Social” edite folhetos, tendo em consideração a realidade mexi-
cana, folhetos que, distribuídos em profusão pelas escolas, sir-
vam de iniciação aos professôres e alunos”. É o de que precisa-
mos também no Brasil.
Roig, espanhol, está atualmente no México, integrando a
plêiade de ilustres doutrinadores, a que também pertence êsse
jovem e brilhante tratadista (que recentemente nos visitou,
vindo do Chile e com passagem pela Argentina) que é Rosendo
Rojas Corla. Roberto Lira Leyva é outro ilustre técnico, e ou-
tros. Dinamizaram, com outros batalhadores, o cenário coope-
rativista mexicano com o poder dos seus esforços construtivos,
banhados de idealismo renovador e servidos de sólida cultura.
Segundo “El movimiento cooperativo escolar en Mexico”,
publicação feita em 1944 pela Universidad Autónoma de Me-
xico, Instituto de Investigaciones Económicas junto à Escuela
Nacional de Economia, cujo ilustre diretor era o Lic. Hugo
Rangel Couto, a primeira cooperativa escolar foi fundada no
México em 1926 pelo Prof. Isidro Becerril, na Escola Rafael
Angel de la Peña. Êste professor acentuou, com muita justeza,
que sua iniciativa foi uma manifestação da chamada escola
ativa, do trabalho ou da ação, em que a base do interêsse pró-
prio das crianças mexicanas, em relação com o interêsse social,
também mexicano, se afastou da idéia de que a escola, por ser
oficial, deveria obter tudo do Estado, ensinando-lhes que, antes
de empreender qualquer trabalho, era preciso financiá-lo, dan-
do-lhes uma idéia exata de sua responsabilidade pela partici-
114 COOPERATIVAS ESCOLARES
pação na marcha da instituição e, também, a oportunidade de,
mediante a prática dos diversos trabalhos da cooperativa esco-
lar, desenvolver atividades cívicas e de organização.
E o Sr. Rangel Couto coloca-se, como também o faço desde
a primeira edição de cooperativas escolares em 1933, dentro de
um critério educativo:
“El problema de la cooperativa escolar es de un carácter
essencialmente pedagógico, pero hemos de abordarlo, dentro de
este Instituto de Estudios Económicos, como ya se dijo, por
estimarlo un antecedente importante para el éxito de las orga-
nizaciones económicas del futuro. Puede también la cooperati-
va escolar desempeñar un papel importante dentro de las acti-
vidades económicas; sin embargo de lo cual no dejaremos de
reconecer que esta entidad debe mantenerse dentro de su papel
de instrumento educativo, el cual no debe ser dervirtuado a
través de la persecución de un fin preponderantemente eco-
nómico”.
Essa salutar preocupação já vem de anos, tanto que já
D. Manuel Mesa, diretor do Departamento de Ensino Agrícola
insistia no sentido de serem dadas bases estáveis e pedagógicas
às cooperativas de produção das escolas mexicanas. Sua cir-
cular de então, aos diretores das escolas rurais, recomendava
unificação dos estatutos das cooperativas escolares de produ-
cão. Sua organização deveria subordinar-se aos programas de
ensino agrícola, pecuário e industrial do artesanato rural.
DEMOCRACIA SOCIAL E COOPERATIVISMO
ESCOLAR
O Sr. Salvador Marban Santos, do Centro de Orientación
Cooperativa, de Cuba, teceu, recentemente, justos conceitos
sôbre o cooperativismo escolar, os quais, por abonarem o que
vimos, há anos, reiterando no Brasil, merecem divulgação, pelo
seu brilho.
Ei-los:
O elemento pedagógico
Acentua êle que a cooperativa escolar é um manancial de
valores formativos, tanto mais completos quanto maior fôr o
tato do professor em guiar, em orientar os alunos, sem substi-
tuí-los, não só em suas atividades sociais (elaboração de cri-
térios e de normas diretivas na Assembléia), mas também em
FÁBIO LUZ FILHO 175
suas atividades econômico-sociais (gestão social e econômica no
Conselho de Administração e no Conselho Fiscal) e em suas
atividades puramente econômicas ao comprar, vender,
produzir e trabalhar individualmente ou em equipes.
Associação e emprêsa
“A Cooperativa Escolar é, como tôdas as cooperativas, uma
instituição na qual coexistem dois elementos: a Associação, ou
elemento humano, que é o dirigente e o responsável, e que
aufere benefícios ou é prejudicado segundo sua capacidade e
comportamento, e a Empresa, ou elemento econômico compos-
to de coisas, que as pessoas reunem para satisfazerem neces-
sidades comumente sentidas. A Cooperativa Escolar têm por
centro a Escola e é, dentro do estabelecimento escolar em que
se situa, uma classe a mais, na qual poderão praticar-se lições
de govêrno em relação às pessoas e lições de administração em
relação às coisas materiais. Lições de govêrno para aprender a
dirigir a Cooperativa segundo os desejos de seus associados,
mediante critérios que a associação fixará por unanimidade
ou por maioria no quadro particular dos estatutos, êstes, por
sua vez, enquadrados nas leis gerais do País. Lições de admi-
nistração para aprenderem a precisar os elementos econômi-
cos do funcionamento da instituição, e a reunir e utilizar êsses
elementos para o melhor serviço dos associados e de todos os
alunos e professôres que desejarem colaborar com a coopera-
tiva. E também para se habituarem a cuidar dêsses elementos e
conservá-los e incrementá-los com o fim de serem cada vez
melhor utilizados, melhor equipados, melhor dotados de re-
cursos”.
Ensino e Educação Rural
A cooperativa escolar pode administrar os implementos de
jogos; pode promover a distribuição de artigos escolares e de
consumo e uso; pode instalar também pequenas explorações
agrícolas, semeando, colhendo e distribuindo os produtos do
trabalho da terra, os produtos obtidos da terra mercê do
trabalho e dos meios de produção comumente conhecidos com
o nome de Capital.
Trabalho produtivo
Também poderão reunir-se na cooperativa escolar, sobre-
tudo na de tipo rural, as produções individuais dos associados,
176 COOPERATIVAS ESCOLARES
com o fim de serem colocados no mercado nas melhores con-
dições tanto para o produtor como para o consumidor, me-
diante a eliminação de intermediários inúteis, de parasitas que
entorpecem a circulação dos produtos e aumentam o custo dos
mesmos.
O plano industrial
E com o fim de evitar que os pais, por egoísmo, capricho
ou imprudência, inutilizem os esforços construtivos do aluno
dirigido por seu professor, no plano industrial, do mesmo
modo que no agrícola, a cooperativa escolar pode fabricar
jogos e roupas e colocar o que cada associado produzir por sua
conta e risco.
Obras sociais e embelezamento da escola
“Deve destinar uns 30%, ou mais, a obras sociais de soli-
dariedade, educacionais e de recreio. E é uma necessidade indi-
vidual, social, material e moral que os cooperadores escolares
se preocupem com o embelezamento da sua Escola, que é o
centro em que se precisam e depuram os valores formativos
das personalidades.
Fator de democracia
“A Cooperativa Escolar, quando alcança funcionamento
normal, como associação e como emprêsa, é igual a tôdas as
outras cooperativas, isto é, o organismo social mais apto para
fazer com que a pessoa humana, habituando-se a utilizar inte-
ligentemente as liberdades públicas, as possibilidades de ação,
inerentes à democracia política, se encontre em condições de
preparar hoje, para estabelecer sòlidamente amanhã, uma de-
mocracia mais rica, mais poderosa, mais completa em profun-
didade, uma democracia social caracterizada pelo fato de que,
nela, as pessoas valem pelas suas capacidades e recebam se-
gundo suas necessidades”.
Costa Rica possui “centros de educação cooperativa” na
Grécia, Naranjo e San Pedro de Poas, tendo recentemente sido
fundada em Alajuela uma cooperativa escolar com a participa-
ção de professôres e alunos pertencentes aos “círculos” primei-
ro, segundo e terceiro dessa província. Visam “desarrolar
hábitos de buen comportamiento social, mediante el cultivo de
las naturales cualidades humanas de fraternidad, solidariedad,
FÁBIO LUZ FILHO 177
caridad, etc. etc. Mantener la esencia y fortalecer los vinculos
de la familia, como célula fundamental de la comunidad
humana. Eliminar ei afán de lucro de las relaciones sociales,
y sustituyéndo-lo por la idea altruista de prestación de servi-
cios, etc., etc.”. A cooperativa escolar como “un compendio
práctico de la doctrina cooperativa”.
E disse bem Luisa Maria Simões Raposo Ribeiro que é
necessário fazer surgirem vivências de valor, assim como va-
lências ou qualidades de valor, na personalidade do educando
ou na coletividade dos escolares.
CAPITULO VIII
AINDA O COOPERATIVISMO ESCOLAR NO BRASIL E
NO
MUNDO — RURALISMO — AS ÁRVORES NO SEU
SIMBOLISMO E A TERRA BRASILEIRA
EM PERNAMBUCO
Já me referi à atuação de José Arruda de Albuquerque e à
de Nair de Andrade, esta dinâmica animadora, em Pernam-
buco.
Eis como Telha de Freitas, no “Diário da Noite” de Recife,
se referiu ao cooperativismo escolar pernambucano:
“Noventa e seis cooperativas escolares, com um total de
28.395 associados — garotos de 7 a 14 anos de idade — indi-
cam a expansão do cooperativismo escolar em Pernambuco,
mostrando que há clima, em nosso Estado, para desenvolvi-
mento das boas iniciativas.
(Em 1958. Pernambuco possuía 121 cooperativas escolares,
como vimos).
O MOVIMENTO
“O movimento teve início em 1938, quando então era in-
terventor federal o professor Agamenon Magalhães, tendo a
finalidade de extinguir o individualismo nocivo para trocá-lo
pela mentalidade da cooperação e do bom entendimento. E as
próprias crianças, que aprendem gramática e ciências natu-
rais nas escolas públicas, participam do programa cooperati-
vista, integrando-se no movimento. Presidentes, gerentes, te-
soureiros, meninos de pouca idade, livremente eleitos pelos
seus companheiros, em Assembléias Gerais, dirigem a socieda-
de, reunindo-se semanalmente para normalizar os seus servi-
ços. Os resultados obtidos são os mais animadores, pôsto que
os garotos se adaptam a essa mentalidade de cooperação, ti-
rando frutos comuns do cooperativismo sadio. Em cada uma
FÁBIO LUZ FILHO 179
das cooperativas escolares, os mestres colaboram, orientando
os meninos a resolver os problemas que se lhes apresentam
mais difícies à sua mentalidade.
ECONOMIA
“Graças ao sistema das cooperativas escolares, o material
escolar, que custa os olhos da cara, geralmente, em qualquer
casa comercial, é adquirido pelos garotos por menor preço, isto
porque êles compram diretamente, no sul do pals, por,
intermédio da Divisão de Cooperativismo Escolar, do DAC, de
quo é chefe a Sra. Nair de Andrade, uma entusiasta do
movimento. Para que os leitores tenham uma idéia da
vitalidade do cooperativismo escolar, assinale-se que, no ano
passado (1954), segundo o relatório da repartição, o
fornecimento dêsse material atingiu a Cr$ 367 .306,60. Neste
ano, porém, já foi atingida, até 30 de agôsto, a cifra de Cr$
502 .703,90, representada pela venda, nos cooperativas, de
material escolar e tecidos.
Apesar de não ser aquêle o principal objetivo do coopera-
tivismo escolar, mas um meio de mostrar a utilidade do em-
preendimento, a vendagem do material representa uma con-
tribuição considerável aos pais de família, que muitas vêzes
não podem dispor de quantias avultadas para aquisição do
material que, comprado isoladamente, nas casas comerciais,
tem o seu preço muito elevado.
(Em 1958, digo, o estoque no D.A.C. era de 2 milhões de
cruzeiros).
CINEMA
“Dentro do programa de orientação adotado pelo Depar-
tamento de Assistência às Cooperativas, consta a exibição diá-
ria de um filme dedicado aos escolares, notadamente sõbre
cooperação, bem entendido. Ora em uma escola, ora em outra,
de acôrdo com o plano pré-estabelecido, as projeções
cinematográficas despertam interêsses na gurizada, isto por-
que se faz incluir, entre os filmes, alguns desenhos animados,
que divertem os meninos. O DAC não tem verbas para tal fim,
de sorte que os complementos são fornecidos graças à colabo-
ração de um industrial, o Sr. Manuel de Brito.
180 COOPERATIVAS ESCOLARES
MECANISMO
“Os livros das cooperativas escolares, de associados, de
conta-corrente, caixa, são escriturados pelos próprios dirigen-
tes — os garotos. E apesar de se registrarem algumas incor-
reções, o que é muito natural, é espantoso como aquelas crian-
ças têm noção da sua responsabilidade. Registe-se, neste par-
ticular, o devotamento à causa que empresta a Sra. Nair de
Andrade o mesmo se dizendo da receptividade e ao movimento,
sempre demonstrada pelos secretários de Agricultura e atual
diretor do DAC, Sr. Petronilo Santa Cruz.
“Os associados são admitidos às cooperativas escolares
mediante o pagamento de, no mínimo, uma quota-parte, a qual
subscreve e integraliza imediatamente. E uma quota-parte,
geralmente, tem o valor de Cr$ 2,00.
“Mais uma vez, de maneira positiva, o cooperativismo es-
colar mostra, com os seus resultados, quão importante é a po-
lítica do feixe de varas . . .“
Existiam no Brasil, até dezembro de 1958, nada menos de
883 cooperativas escolares. Dessas, cinco trazem o nome de meu
saudoso pai: a Cooperativa Escolar Fábio Luz, do Grupo
Escolar Silveira de Souza, de Florianópolis; a Cooperativa
Escolar Fábio Luz, da Escola de São Bento das Lages, no mu-
nicípio de São Francisco do Conde, na Bahia; a Cooperativa
Escolar Fábio Luz, em Parnaguá, Estado do Piauí, na Escola
Particular de Amparo; a Escola da Cooperativa Agrícola de
Tomé Açú, no Pará; a fundada em março de 1955 no Recife;
na Escola de Especialização Murilo Braga, e a Cooperativa
Esco- lar do Grupo Escolar de Jaboatão, em Pernambuco, de
1955.
Na Escola n.° 29, de Nilópolis, no Estado do Rio, um
Clube Agrícola tem o meu nome, homenagem que muito me
sensibiliza.
A Cooperativa Escolar Fábio Luz Filho localizava-se no
Grupo Escolar Sete de Setembro, em Maceió, Estado de Ala-
goas, fundada em 1943, homenagem que me conforta e estimu-
la, não obstante me pareça excessiva, notadamente quando se
dirige a pessoa viva, tendo o Serviço de Economia Rural, em
meados de 1949, provocado uma interpretação da lei nesse sen-
tido, parecendo-lhe que as homenagens a pessoas mortas, dis-
FÁBIO LUZ FILHO 181
so dignas, não padecem discussão; apenas, as feitas a pessoas
ainda vivas, nem sempre poderão incidir em que as mereça...
Depois de ter dado, ainda em vida, o nome de lábio Luz a
uma das ruas do Distrito Federal, deu-lhe recentemente, a
Prefeitura, o nome a uma escola de Bangu (escola 10-23, na sua
Fábrica), grande centro populoso do mesmo Distrito, aten-
dendo a uma sugestão partida da Câmara dos Vereadores ca-
riocas. Fêz-se justiça depois de 10 anos de sua morte...
SAO PAULO
Como funcionário do Ministério da Agricultura, difun-
dindo idéias cooperativas, vêzes sucessivas, de 1930 a 1934,
percorremos o grande Estado de São Paulo, notadamente
Limeira, Campinas, Monte-Mor, Bauru, Tatuí, Mogi das
Cruzes, Cruzeiro, Itagaçaba, Guaratinguetá e Aparecida.
Dêsse trabalho resultou a fundação da primeira cooperativa
escolar do Estado de São Paulo, e do Brasil, dentro dos
verdadeiros moldes, com a coadjuvação da “Cooperativa de
Lacticínios Cruzeirense”, na pessoa do professor Mário
Bittencourt e do professor J. Eboli, operoso inspetor de ensino e
representante da Diretoria Geral do Ensino, como vimos.
A Cooperativa Escolar de Cruzeiro era administrada por
alunos do quarto ano. O conselho fiscal era composto de pro-
fessôres. Antes já tinha tido a honra de participar, justamen-
te com o Dr. Adolfo Gredilha, do Congresso Algodoeiro de
Tatuí (1931) e do estudo das cooperativas regionais de café e
respectiva federação e da fundação da Cooperativa de
Lacticínios Cruzeirense, “Cooperativa Avícola”, cooperativas
de venda de japonêses, em entendimento com o Consulado
japonês, etc. Eis o ofício dirigido ao Ministério de Agricultura
pelo delegado do ensino em Guaratinguetá:
CARTA DA DIRETORIA GERAL DO ENSINO
“Diretoria Geral do Ensino — Delegacia Regional do
Ensino de Guaratinguetá — Em 18 de outubro de 1933.
Sr. diretor da Diretoria de Organização e Defesa da Pro-
dução. — Ministério da Agricultura — Rio de Janeiro.
“Cumpro o gratíssimo dever de apresentar a V. Excia. e
ao Exmo. Sr. Fábio Luz Filho, os meus sinceros agradeci-
mentos pela valiosa colaboração que nos tem sido dispensada
182 COOPERATIVAS ESCOLARES
na constituição de cooperativas escolares nesta Região, as
quais, além das finalidades econômicas, visam também à for-
mação da consciência cooperativista do nosso povo.
“Já se acha funcionando com a máxima regularidade a
Cooperativa de Consumo do primeiro grupo Escolar de
Cruzeiro e em organização a do 2.° grupo da mesma cidade e a
do distrito de Itagaçaba.
“As palestras bem como os magníficos livros do Dr. Fábio
Luz Filho têm-nos auxiliado eficientemente, pelo que felicito
êsse Ministério por possuir um técnico tão ilustrado quanto
dedicado à nobre campanha que apaixonadamente estamos
desenvolvendo.
“Aproveito o ensejo para apresentar a V. Excia. os meus
elevados protestos de consideração e estima. — (a) Anísio
Novais, delegado do Ensino”.
A Cooperativa Escolar de Consumo de Itagaçaba enviou-
me o seguinte oficio:
“Exmo. Sr. Dr. Fábio Luz Filho, assistente-chefe da Dire-
toria de Organização e Defesa da Produção — Rio de Janeiro.
“Com vivo entusiasmo e inteira confiança na vitória do
cooperativismo, levo ao conhecimento de V. Excia. que, hoje,
grande dia da nossa bandeira, além de se comemorar festiva-
mente a gloriosa data, teve lugar a posse da primeira diretoria
da “Cooperativa Escolar de Produção e Consumo do Grupo
Escolar de Itagaçaba”, de cuja sociedade fazem parte todos os
alunos e professôres do referido Grupo, dirigido pelo professor
Rui Monteiro.
“Atenciosas saudações. — (a.) Luisa Ramalho Garcez,
presidente da Cooperativa, aluna do 3.º ano”. — 19/11/33.
(Ainda se não firmara jurisprudência sôbre professôres).
Com a fundação de mais essa cooperativa, e com as que se
seguiram, pela atuação eficiente do D . A. C., ficou vitorioso
êsse movimento, seguindo, tôdas, a orientação consubstancia-
da no presente livro. A tão gentil oficio assim respondemos:
“Rio de Janeiro, 27 de novembro de 1933.
“A gentil menina Luiza Ramalho Garcez, presidente da
Cooperativa Escolar de Produção e Consumo do Grupo Esco-
lar de Itagaçaba.
“Foi com imenso júbilo que recebi, como propagandista
humilde que vê as idéias que propaga brilhantemente concre-
tizadas, a notícia, contida em vosso delicado oficio, da posse da
diretoria da Cooperativa para que fôstes eleita presidente,
pôsto de confiança que os vossos méritos saberão honrar.
FÁBlO LUZ FILHO 183
“As vossas palavras, gentil presidente, puseram-me a alma
em festa. O espírito de solidariedade quando assim penetra o
coração puríssimo e a fácil compreensão das crianças, é um
índice que conforta, é a garantia de um futuro de paz e feli-
cidade, a realização do ideal de redenção e concórdia que o
Cooperativismo encarna, empunhando como emblema a ban-
deira feita de tôdas as côres do arco-iris, símbolo de união, que
é fôrça.
“É esta mais uma prova de capacidade de realização dêsse
grande e heróico povo paulista, dínamo do Brasil e o seu maior
orgulho. Apresento-vos os meus calorosos aplausos e peço os
transmitais aos vossos coleguinhas, assim como ao digno pro-
fessorado dêsse Grupo, tão bem dirigido pelo professor Rui
Monteiro, o qual assim se colocou na vanguarda de um dos
mais belos movimentos sociais de que São Paulo ainda há-de se
orgulhar, como justamente se orgulha dêsse vibrante espírito
de iniciativa que o caracteriza de modo tão brilhante.
“As Cooperativas Escolares constituem os marcos de uma
nova civilização, maravilhosos instrumentos que são da escola
renovada.
“E dois dêsses marcos já estão firmados nesse próspero Es-
tado: a vossa Cooperativa e a do 1.° Grupo de Cruzeiro.
“Assim, pois, deveis prestigiar, onde quer que estejais, a
vossa Cooperativa, a bela colmeia, os vossos dignos mestres, o
vosso inspetor de ensino, prof. J. Eboli, e a “Cooperativa de
Lacticínios Cruzeirense”, cuja tenacidade, personificada no
prof. Mario Bittencourt, vos serviu de exemplo e luzeiro. A
obra de benemerência de que todos são paladinos é digna dos
maiores encômios. — (a.) Fábio Luz Filho”.
O “Departamento de Assistência ao Cooperativismo” pros-
segue na sua esclarecida campanha no sentido das cooperati-
vas escolares.
A “Cooperativa Escolar do Grupo de Vila Prudente”, re-
cuado bairro paulista de gente pobre, é considerada a melhor
cooperativa, no gênero, dêsse dinâmico Estado. Possuía 600
associados.
No pequeno prelo que adquiriu faz todos os seus impres-
sos e dêle sai um jornaizinho intitulado “12 de Abril”. Para
completá-lo, acaba de adquirir uma guilhotina (máquina de
cortar papel muito usada nas tipografias) por preço módico.
Seus pequenos ex-associados têm conseguido, ao sair da
escola, obter colocação em tipografias particulares. Possui
ainda essa interessante cooperativa serviço dentário a cargo de
profissional idôneo.
184 COOPERATIVAS ESCOLARES
O número de agôsto de 1954, de “Cooperativismo”, a pres-
tigiosa publicação do Departamento de Assistência ao Coope-
rativismo de São Paulo inseriu interessante artigo do profes-
sor Ormar Sales Figueiredo, diretor efetivo da Escola
Industrial de Casa Branca e substituto da Escola Industrial de
Araraquara, também de São Paulo.
É uma concludente experiência de “self-service”, digna do
espírito bandeirante.
Eis o artigo:
“Chama a atenção imediata de todos os visitantes da Es-
cola Industrial de Casa Branca, a existência de uma pratelei-
ra cheia de artigos escolares, tendo em cima os seguintes dize-
res: “Faça você mesmo sua compra e trôco”.
“Como Diretor do Estabelecimento, desde o início de seu
funcionamento em 1949, até à. formatura de sua primeira tur-
ma em 1952, era-me extremamente grato explicar ao visitante
como se havia orginado e como funcionava a “Cooperativa Es-
colar da Escola Industrial de Casa Branca”.
“Acompanhando o ritmo progressivo da instalação de
cooperativas diversas, — de produção, consumo, distribuição,
etc. — estimuladas pela D . A. C. (Departamento de Assistên-
cia ao Cooperativismo) e visando atender aos reclamos impe-
riosos do incremento da Educação Moral e Cívica nos Estabe-
lecimentos de Ensino, resolvemos criar uma Cooperatica Es-
colar.
“Apelamos para o D . A. C. e de lá recebemos as instruções
fundamentais. Reunimos os funcionários e alunos, expondo
o plano. Cada aluno contribuiria com uma quota, variável de
2 a 5 cruzeiros. Os funcionários entrariam com uma quota de
10 cruzeiros, ou mais, se o desejassem, e todos seriam associa-
dos da Cooperativa, gozando de tôdas as suas vantagens.
“Com o capital levantado e contando com a boa vontade de
firmas atacadistas, compramos, com facilidades e descontos, o
material escolar necessário: livros, cadernos, lápis, borrachas,
fitas métricas, agulhas, papel manilha, meias, tecidos para
uniformes, aquarelas, etc., etc... Verificamos imediatamente
que, acrescendo um lucro máximo de 10% aos preços de custo,
poderíamos vender êstes artigos a preços tais, que a compra de
um simples caderno de 100 fôlhas importaria num lucro ou
economia de mais de 2 cruzeiros, para o associado, em relação
aos preços vigentes na praça, o que viria compensar, na
primeira compra, o pagamento da cota de admissão como
associado.
FÁBIO LUZ FILHO 185
“A Marcenaria, em horas extras dos mestres e alunos, con-
feccionou a prateleira, onde foram colocados os artigos, todos
com os preços marcados individualmente. Ao lado foi colocada
uma caixinha, com algum dinheiro trocado. A secção de De-
senho providenciou a feitura do cartaz: “Faça você mesmo sua
compra e trôco”.
“Estava lançada a experiência educativa, talvez única em
todo o País. Os pessimistas auguravam prejuízos e fracasso
completo. Os otimistas, entre os quais nos encontrávamos,
juntamente com o prof. José Pelegrini, Orientador Educacio-
nal do Estabelecimento, grande colaborador e concretizador
da iniciativa, esperavamos confiantes.
“Dois alunos foram encarregados de colocar a mercadoria
nas prateleiras, com os respectivos preços, logo de manhã, e de
fazer a conferição do material vendido e quantias arrecadadas
no final do dia.
“Num ambiente de intensa expectativa terminou o primeiro
dia da experiência. Diretoria, funcionários e alunos agrupa-
param-se ao redor dos dois encarregados, enquanto faziam a
conferição. Resulta: — havia uma diferença de 50 centavos... a
favor da Cooperativa. Por dificuldade de trôco, talvez, os alu-
nos preferiam deixar a mais, do que a menos.
“Os pessimistas não se deram por vencidos — “era apenas
o primeiro dia. .
“O 2.° e o 3.º dias correram dentro dos planos, com peque-
nas diferenças... a favor da Cooperativa. Os pessimistas es-
tavam derrotados. Nós exultávamos, com muita razão.
“Mas... veio o quarto dia. A conferição acusou uma dife-
rença de cinco cruzeiros.. desta vez CONTRA a Cooperativa.
Sentimo-nos completamente derrotados. Os pessimistas da-
vam largas à confirmação de suas opiniões.
“No dia seguinte, logo de manhã, vendo ameaçado todo o
plano, visitamos tôdas as classes, em companhia do Orienta-
dor Educacional, explicando o acontecido e apelando para que
compreendessem bem as vantagens econômicas da Cooperati-
va e o espírito de responsabilidade e honestidade que deveriam
nortear a vida dos estudantes. Qual não foi nosso surprêsa,
no entanto, quando um dos alunos nos interrompeu para
dizer:
186 COOPERATIVAS ESCOLARES
— “Prof. Osmar, fui eu que tirei um caderno de que esta-
va precisando. Como não tinha dinheiro ontem, pensei que
pudesse trazer hoje. Já coloquei os cinco cruzeiros na Cai-
xinha”
“Com risadas e sob um alivio geral, a Cooperativa passou
a contar com um novo melhoramento: — foram confecciona-
dos vales, dos quais constavam a Mercadoria, o seu Valor, a
data e a assinatura do retirante. Assim, quanto precisassem de
determinado artigo e não possuíssem o dinheiro, faziam a
retirada e colocavam um Vale na Caixinha, que seria
resgatado posteriormente, não importando quanto tempo
decorresse.
“Estava completamente vitoriosa uma experiência educa-
tiva única talvez em todo o Brasil. A Cooperativa Escolar da
Escola Industrial de Casa Branca dava sua contribuição ativa
para a educação moral de seus alunos.
“A experiência (já agora rotina) continuou regularmen-
te até o fim do ano, acusando, raríssimas vêzes pequena dife-
rença contra, de que não podemos verificar a causa exata: êrro
de cálculo, trôco errado, ou . . . o que não acreditamos jamais.
“Em 1953 assumi a direção da Escola Industrial de
Araraquara. Aí, novamente, aplicamos a experiência, já com
os ensinamentos anteriores. Evitamos, no entanto, desta vez, a
doutrinação dos alunos, para melhor observar os resultados.
“Novamente a Cooperativa funcionou regularmente,
acusando ao fim do ano um movimento bruto de mais de vinte
e cinco mil cruzeiros (Cr$ 25.000,00), tendo havido apenas o
prejuizo de 16 cruzeiros.
“De Casa Branca, através de seu Orientador Educacional,
recebemos notícias de que tudo continua regularmente, au-
mentando-se progressivamente o capital inicial, bem como o
estoque de mercadorias, o que possibilita, cada vez mais, a
venda a melhores preços.
“Em ambas as Escolas a Cooperativa é um patrimônio de
que com justo orgulho se ufanam alunos e professôres, cuja
colaboração foi inestimável no êxito desta realização.
“Indiscutivelmente, o Cooperativa Escolar, além de seus
objetivos específicos de oferecer a seus associados artigos es-
colares bons e a preços acessíveis, pode e deve ser colocada ao
serviço da Educação Moral, num momento em que a
subversão dos valores morais representa um dos maiores
problemas da educação de nossa sociedade”.
FÁBIO LUZ FILHO 187
NOÇÃO DA PÁTRIA - RURALISMO
Já foi dito que a pátria não é sòmente a nossa planície,
a majestade das nossas montanhas, a tôrre das nossas igrejas
ou a fumaça que das chaminés de nossas casas se eleva para os
ares, ou a copa espêssa das árvores, ou a canção monótona dos
nossos pastores; a pátria é o nosso idioma; é tudo quanto faz
bater os nossos corações; é a unidade do nosso território; é a
nossa independência; é a glória dos nossos antepassados; é a
grandeza da liberdade. A pátria é o azul do nosso céu, é o doce
sol que nos ilumina, a beleza dos rios que serpenteiam pelo
nosso solo, a espessura das florestas que nos dão sombra e a
fertilidade das terras que se estendem aos nossos pés; a pátria
é o conjunto de nossos concidadãos, grandes ou pequenos, ricos
ou pobres...
A pátria é, segundo Bordeau, “o país dos nossos pais, o
laço das gerações sôbre o solo natal. A pátria nasceu do
instinto social, do sentimento, que tem o homem insulado, de
sua fraqueza, da necessidade inelutável da união, do apoio
mútuo na luta da vida, para defesa e conquista da terra
nutridora, da invencível necessidade de se proteger e de
aumentar inerente a todos os sêres.
“A pátria é também o patrimônio moral, o conjunto das
tradições, costumes, leis, serviços comuns. Os túmulos e os
altares constituíram os seus primeiros símbolos”.
Já acentuamos que o patriotismo é o sentimento profundo
e forte que faz que nos apeguemos ao torrão onde nascemos; é,
no dizer de Fábio Luz, “êste sentimento de solidariedade que se
forma e robustece no canto tépido da lareira”, não-agressivo.
Patriotismo é principalmente isto: dedicar tôdas as fôrças
afetivas e intelectuais à formação de almas boas e inteligências
equilibradas e lúcidas. Estudar o país onde se vive, em sua
grandeza, nas suas montanhas, em seus rios, nas suas
possibilidades, na sua educação; tornar-se, cada um, fator de
uma grande civilização luminosa e tranqüila à cuja sombra
possamos viver como homens dignos e nela acolher todos os
que dela se mostrarem merecedores, sem ódios, sem distinção
de nacionalidades e castas.
Patriotismo é trabalhar no sentido de, sôbre bases seguras
e amplas, erguer um pátria maior, de horizontes vastos, ma-
jestosa e eterna. Patriotismo é também aprimorar a educação
da mocidade, cerebralizá-la, dar-lhe celsos sentimentos.
188 COOPERATIVAS ESCOLARES
RURALISMO
Patriotismo é, por meio de organizações cooperativas esco-
lares e pós-escolares, ir criando uma mentalidade capaz de,
transformando nossas condições de meio, tornar possível a
atuação da mocidade no meio rural do país.
Essa deve ser a palavra de ordem, para estruturação de
uma mentalidade ruralista.
A cooperativa escolar levará até ao artesanato rural, pa-
ládio de renovação.
Admira a potencialidade da terra, criança! Como é dife-
rente, aí, a vida! Deves traçar-te, quando em férias, um pro-
grama de vida livre, de movimento saudável pelos campos e
pelas matas, para que possas apreender todo o seu valor. Pe-
la manhã, bem cedo, deves ir ver o capataz mugir as vacas
pacíficas no retiro, na cumiada do morro, do qual se descorti-
na um panorama belo e empolgante: campos ondulantes que se
perdem nos longes da paisagem, barrado o horizonte lon-
gínquo por montanhas azuladas, que se recortam no céu lím-
pido, iluminados, campos verdejantes e montanhas azulinas,
de um sol fecundante. As pastagens ricas pontilham-se de gado
sadio. Em baixo, o serpejar manso de um rio...
Em trechos cercados, plantações de milho; nas vargens
cresce o arroz côr de ouro; nos declives dos morros, a mandio-
ca; além, o pomar convida-te a deliciar-te com laranjas ma-
duras e saborosas, avergados os galhos ao pêso de sacarinos
frutos vitaminosos e de delicioso paladar. Mais adiante, a cria-
ção no revêzo...
Durante o dia, já tostado do sol fúlgido dêsse torrão mag-
nífico, o ideal seria que todos nós pudéssemos acompanhar os
trabalhos de lavragem das terras por tôda a parte, vendo os
arados puxarem enormes e amestrados bois, que arrancassem
do solo colheitas abundantes; mas, verás a campeação do gado,
ou contemplarás o trabalho hercúleo de nossa gente, no eito, a
enxada percutindo a terra, na ânsia do ganha-pão
enobrecedor, na elação de sentimentos dignos. O fazendeiro na
epopéia de seu esfôrço...
À noite, seria para desejar que voltasses satisfeito e re-
feito, metendo-te na cama muito cedo, para acordares no dia
seguinte pela madrugada referta de passaredo gárrulo, a beber
leite forte e renovar observações, enchendo teus olhos de
aquarelas lindas, e teus pulmões de ar puro e teu coração de
grande entusiasmo pelo teu país e de admiração pelo nosso
FÁBIO LUZ FILHO 189
homem rural, gigante de tenacidade em face dos tropeços que
o salteiam, dos percalços que lhe dificultam o caminho a cada
passo, nessa ambiência de fecundidade e maravilha, humildoso
em seu labor, abnegado em seu ingente e rude labutar
diuturno, apesar de tudo,
A “onda verde dos cafèzais” revela-te um dos maiores
cometimentos agrícolas do mundo; os algodoais branquejan-
tes, os canaviais sem fim, são outras tantas lídimas expressões
da ação do brasileiro, dentre outras.
Os pampas infindos e os gaúchos galhardos; o Nordeste, o
Norte, a Amazônia, o Centro lidimamente brasileiros, são
outras tantas manifestações sinérgicas.
Já acentuamos em um dos nossos livros que Tolstoi, o
Imortal autor de “Anna Karenine”, o insulado de Iásnaia-Po-
liana, amava o silêncio da natureza-máter, a quietude empol-
gante dos campos. Amava êsse silêncio em que, na frase de
Maeterlinck, “les àmes se pesent comme l’or et l’argent se
pesent dans l’eau pure”... Silêncio inspirador e fecundo,
“silêncio, no dizer de Fábio Luz, augusto e solene... guia e
roteiro para a busca da fonte perene de verdades que a razão e
o raciocínio desvendam e que estão latentes na Natureza e em
nós mesmos”. Amava tanto, Tolstoi, o recolhimento, que disse:
“O verdadeiro pensador é planta que cresce entre as rochas
selvagens. Nutre-se de si mesmo e é o produto da sua própria
substância. Epicteto, Socrates e Platão não viajavam em
caminho de ferro. Spinoza vivia no seu tugúrio; Descartes,
junto do seu brazeiro; Kant era um solitário. O pensamento é a
obra suprema do trabalho e o trabalho não é possível nem
fecundo senão no silêncio ou no isolamento”.
Amava êle profundamente o contacto da terra nutridora, a
sua fôrça de purificação e de vitalidade, como amava o
comércio com a gente sofredora e rude vinculada à terra pelo
labor nobre e fecundo. Entre essa gente humilde desenvolvia,
com simplicidade e clareza, as suas idéias de redenção
humana, místico idealista. Ao seio reconfortante da natureza
entregava-se, o formidável romancista e o grande apóstolo do
vida em moldes simples e puros, a longas e profundas
meditações. Como parte do programa que se traçou, e como
condição de saúde, e exemplo sugestivo às gerações
porvindouras, figurava o labor da terra, os trabalhos no
campo, fundamento de prosperidade.
Tolstoi, tão grande como Hugo, empunhava com firmeza a
rabiça, mantendo o arado fertilizante no sulco retilíneo.
E assim laborava com carinho as suas terras, com o mesmo
190 COOPERATIVAS ESCOLARES
fervor com que laborava as almas no sentido de seu transcen-
dente ideal, no fundo o mesmo grande e luminoso ideal que
descansa naqueles mesmos princípios, naquela mesma grande
“lei eterna” que se vislumbra em todos os sistemas de filoso- fia
moral.
As gerações de hoje, encantoadas nas capitais altimura-
das, nelas se esterilizam, perdendo-se na voragem atividades
utilizáveis que, ao contacto da terra revigorante, se poderiam
transformar em fatôres de relativa felicidade individual e
coletiva.
Julio Lemaitre exalta êsse poder transfigurador da vida
simples quando diz: “Le peu que j’ai de sagesse, de douceur
d’âme e de modération, je le dois à ceci, qu’avant d’être un
homme de letre (hélas) que exerce son métier à Paris, je suis un
paysan que a son clocher, sa maison et sa prairie”...
Que formidável exemplo o de Tolstoi!...
Acentuamos mais que a nossa mocidade deve cultivar a
convicção da grandeza excelsa do labor da terra, dessa tarefa
patriótica e humana, cujo caráter de intelectualidade, pelos
processos modernos de técnica agrícola, é incontestável, habi-
tuando as suas mentalidades a essa noção.
Diz Emerson que se deve olhar o agricultor com prazer e
respeito quando se pensa nas fôrças e nos serviços que tão
modestamente representa. Êle conhece todos os segredos do
trabalho e muda a fisionomia das paisagens.
“A fazenda é um capital de riquezas, e é do agricultor que,
do ponto-de-vista moral e intelectual, dimanam a saúde e a força
das cidades”.
A PAISAGEM SULINA
Nas vilas e povoações de origem teuta do sul do Brasil, já
o disse em Rumo a Terra (5.ª), a igrejinha é um obrigatório
ponto branco de refereência quiescente no fundo verde da
mataria, a torrezinha aguda como querendo galgar os céus;
os vitrais bíblicos; o cruzeiro em frente a estender seus lon-
gos braços misericordiosos, nêle gravadas sentenças, em lín-
gua alemã, a concitar os crentes à salvação de suas almas para
a bemaventurança (“Rette deine Seele”). E na vida insulada e
rude, mas produtiva e saudável, que levam, como os seus
irmãos de origem italiana, mergulhados naquela paz imensa e
bendita dos campos e das serras, tendo diante dos olhos e da
alma a vastidão de horizontes recuados na dis-
FÁBIO LUZ FILHO 191
tância inalcançável, o sentimento religioso dêles deve acrisolar-
se e a cruz, no seu admirável e evocador simbolismo, deve
constituir um grande confôrto e uma grande esperança, um
bálsamo para agruras e desilusões...
São José e Boa Vista do Herval são lugares que convi-
dam ao repouso do espírito e à meditação, no silêncio profundo
cortado apenas do escachoar longínquo de águas vivas. A
queda do Herval é majestosa.
Neu Wuerttemberg é um recanto de fertilidade, de terras
vermelhas numa apojadura de colheitas fartas, que encan-
deiam a alma dos que têm o sentimento da terra. Há trabalho e
há pitoresco, surgindo a vila risonha quase inopinadamente da
campanha undante e onímoda. É uma cidadezinha tipicamente
de cunho alemão no casario, na língua, nos costumes. É mais
uma prova inconcussa do triunfo da pequena propriedade.
Casas e hotéis de madeira num estilo típico que muito se
aproxima daquele do município de Blumenau. Mesa
sadiamente característica, com o mel e o delicioso “schmüre”.
Como em Santa Cruz, Montenegro, etc., as toalhas alvas pen-
dem das salas e dos quartos das casas particulares e dos hotéis
com dizeres em língua alemã contendo sentenças de pondera-
ção. “Louva a Deus e vem comigo. Minha sorte traze contigo”,
etc., são proposições que se encontram a cada passo nas
colônias de origem alemã do Sul.
O Paraná é a bela terra dos pinheirais em taça aberta pa-
ra o azul, como a beber tôda a poesia da paisagem rutilante em
tôrno. Em Santa Catarina, intensas colmeias humanas
poetizam-na e criam riquezas, quais pinturescas e pequenas
Suíças, nos variegados e empolgantes panoramas montesinhos.
Os colonos de origem Italiana povoam as serras gaúchas
de vinhedos; os lídimos gaúchos enriquecem os pampas, num
trabalho contínuo de aperfeiçoamento. Nos “tambos” do
Guaíba o gado holandês põe um colorido pinturesco na paisa-
gem, notas vivas e pacíficas nos potreiros verdes, e nas cam-
panhas povoadas de gado de estirpe, cortadas de sangas e
pontilhadas de açudes, há também a nota alegre dos quero-
queros e das emas erradias.
Aprende, pois, criança, que de homens com conhecimen-
tos técnicos carece o Brasil para se tornar maior, como de
homens integrados no amor à. nossa terra e ao nosso idioma, e
que as populações rurais brasileiras muito esperam de ti para
a solução dos problemas que a angustiam e que já co-
192 COOPERATIVAS ESCOLARES
meçam a ser encarados em tôda a sua extensão e profundida-
de, felizmente.
Há necessidade da cooperativa escolar, criança, e disso
deves convencer teus pais e teus juvenis colegas, como cadi-
nho de civismo nivelador e humanismo confortante.
Atenta, ademais, no exemplo da Dinamarca.
Santiago Hernández Ruiz cita a Hertel, o historiador do
cooperativismo dinamarquês:
“Estas escolas despertam nos jovens de ambos os sexos
verdadeiro anelo de saber e desejos de trabalhar; fortalecem
o caráter dos alunos e ampliam as prespectivas da vida. Pa-
ra satisfazer êsse desejo de saber, estabelecem-se correntes
entre as escolas de agricultura e as populares de adultos, e
quando das Folkenhöjskolen passam diretamente à vida, já
levam formado um forte sentimento de fraternidade e um
fervente desejo de trabalhar pelo progresso comum. A juven-
tude nelas aquire algumas das qualidades necessárias ao de-
senvolvimento do movimento cooperativo”.
Hernández acrescenta que o movimento cooperativo, que
se desenvolveu tão intensamente entre os agricultores dina-
marqueses, que se apresentam, assim, ao mundo em seu
exato valor, foi dirigido principalmente pelos alunos das
escolas acima citados.
Enfim, um exemplo digno de ser seguido.
AS ARVORES E SEU SIMBOLISMO — A NATUREZA
BRASILEIRA — O SÍMBOLO DO COOPERATIVISMO
Permiti, à guisa de repouso, que abra colunas ao elogio
da árvore e ao esplendor das paisagens.
É sabido que o símbolo do cooperativismo adotado nos
Estados Unidos e em tôdas as Américas de língua
espanhola, com tendência para se universalizar, é aquêle
representado por dois pinheiros verdes geminados, dentro
de um círculo verde sôbre fundo dourado. Os pinheiros
simbolizam a perenidade da vida, alcançada pela
conjugação de esforços para a sobrevivência. O círculo, de
sabor pitagórico, representa o mundo, na amplidão de seu
âmbito, que abarca a plenitude das coisas. O verde
representa o princípio vital que rege os sêres; o fundo áureo
traz à lembrança a luz solar com todo o seu poder
fecundante, fonte precípua de energia para o mundo. Dêsse
belo símbolo há uma efluência imperativa, a que não pode-
FÁBIO LUZ FILHO 193
mos fugir. É êle uma espécie de signo-samão, sob cujos influxos
desejamos que o Brasil continue.
Na 5.ª edição de Rumo à Terra refiro-me, em longas pá-
ginas, a tôda essa simbologia, sobretudo nas várias religiões.
Meus tios-avós, Júlio Furtado, médico e dinâmico arbori-
zador e embelezador do Rio de Janeiro, e Frei Santo Catarina
Furtado (o émulo de Mont’Alverne que, de 1858 a 1896, foi um
dos oradores sacros de maior brilho do Brasil, cuja parenética
encheria cinco volumes), possuíam, como meu pai, Fábio Luz, o
culto das árvores. Esse culto da natureza e o amor dos animais
e das crianças, possuia-os Fábio Luz, baiano como meus avós,
tios e tios-avós, precursor do romance social no Brasil e da
escola ativa, como vimos, médico, romancista, novelista, crítico
literário, polígrafo, educador e sociólogo. Aos três, todos
baianos, rendo aqui, mais uma vez, meu preito de saudade e de
admiração, como à minha querida mãe, avós e tios, todos
também baianos.
Júlio Furtado e Fábio Luz e meu tio, o cônego Zacarias
Luz, várias vêzes me fizeram sentir que viam nas árvores
símbolos da cooperação, âmbulas perenalmente abertas para o
azul, na glória multicor da floração bendita e no fecundo
sazonamento dos polposos frutos, altas expressões de trans-
cendentes funções de harmonia para consecução de elevado
escopo de vida perfeita.
ÁRVORES...
Eis um trecho de Fábio Luz, num de seus belos livros para
crianças (Leituras de Ilka e Alba — Livraria Alves — Rio):
“Das florestas verdes e gigantes, dos campos esmeraldi-
nos, dos vales silenciosos, das suaves alfombras de relva, dos
declives ribeirinhos, das águas cristalinas, das campânulas
multicores, das corolas aromáticas, das palmas agitadas, evo-
lam-se perfumes, sobem para o azul do céu nuvens de arôma-
tas, turbilhões de vidas, nas asas dos insetos dourados, nas
chamas das auroras róseas, nas penas finas e coloridas do
passaredo gárrulo. É a Primavera que chega com cortejo ino-
minável de luminosidades e crepúsculos transparentes, de in-
finitas riquezas de matizes, de sonoridades olímpicas, que
andam alvorotadas pelo ar, no ziziar das cigarras, no chilrear
travêsso das irrequietas andorinhas.
“Tudo canta, tudo rejuvenesce, tudo revive, tudo ama, ao
tépido encantamento da Primavera, sempre moça, sempre
194 COOPERATIVAS ESCOLARES
vivaz, luminosa e fecunda. As árvores se cobrem de flores
majestosas, engalanam-se de folhagem nova, prometendo far-
ta frutificação; há hinos nupciais nas frondes, no ar, nos
alcantis das cordilheiras, no rosicler das manhãs”.
SALMO DA VIDA E DAS FLORES
Eis outros trechos de Fábio Luz:
I
“As promessas de um arrebol de côres matizadas, que se
contêm nos botões, fanam-se, estiolam-se, caem ao sôpro frio
da geada.
II
“Brotam das flexíveis hastes flores mimosas que esmaltam
e perfumam os campos. O Sol as cresta.
III
“Cheias de viço, douradas de fino pólen fecundante, ex-
pandem-se em pleno desenvolvimento; abrem as multicores
corolas; deixam evolar-se, para o azul sereno do céu, perfu-
mes embriagadores; percorrem todo o ciclo da existência ou-
tras flores, cujas pétalas o vento leva.
Iv
“As primeiras não chegam a viver.
V
“As segundas viçam e desaparecem sem deixar traço.
VI
“Sòmente as terceiras vivem a vida completa; perpe-
tuam-se, levados os germes pelo espaço em fora, na tênue
escumilha das asas transparentes ou nos tumultuosos re-
moinhos das tempestades.
VII
“Vivem no turbilhão da vida que se renova e transmite.
FÁBIO LUZ FILHO 195
VIII
“Assim as almas humanas.
IX
“Umas não deixam sequer o casulo; não chegam a olhar
a deslumbrante luz do saber.
X
“Outras aparecem para firmar-se inglòriamente, tendo
brilhado um dia, sem ter sofrido.
XI
“As outras que receberam o banho sacrossanto da luz de
um ideal, que passam no turbilhão do sonho, semeando cren-
ças, agitando consciências, só elas se perpetuam, vivem a vida
intensa, santificadas pelo sofrimento, enobrecidas pelo sacri-
fício, em bem da espécie.
XII
“Compara-se a sociedade humana com uma planta.
XIII
“As raízes buscam o alimento nas fundas trevas das en-
tranhas da terra, na limpidez das águas, nas oscilações do ar;
são a base e o sustentáculo da árvore. Representam o vulgo, a
turba ignara, a plebe trabalhadora, buscando nas minas, nos
fundos dos mares, na eletricidade ambiente a riqueza e o
sustento.
XIV
“As flores viçosas, vistosas e ornamentais, respirando o ar
puro e o oxigênio vivificador, aproveitando o carbono nutrien-
te, e da luz solar fazendo reativos químicos, tomam formas
múltiplas e elegantes, deixam-se acariciar pelas brisas, vestem
as plantas e lhes dão os tons de garridice e elegância. Repre-
sentam a classe média que faz sàbiamente a distribuição da
seiva e goza.
196 COOPERATIVAS ESCOLARES
XV
“As flores viçosas e os frutos saborosos, ornamentais, em
busca da luz, em busca do azul, simbolizam o escol da inteli-
gência, da beleza, da perfeição, da arte, da representação da
raça, da perpetuidade dos instintos refinados, dos estigmas
da espécie elevados ao seu maior grau potencial”. (De Lei-turas
de Ilka e Alba).
Temos aí belos símiles para o cooperativismo: árvore de
harmonia enguirlandando fecundas primaveras, por que
anseia o mundo...
VISITA À BAHIA
Trabalhos absorventes nesta árdua campanha cooperati-
vista de trinta e três anos, motivos de saúde e outras razões
igualmente ponderosas, sempre constituíam obstáculo à minha
ida à Bahia. Era um desejo longamente acariciado, um dever
de sentimento e de patriotismo. Sou filho de baianos, neto de
baianos e possuo tios e primos baianos, como o disse. Meu pai
deixou 23 obras editadas, entre contos, novelas, romances,
crítica literária e livros didáticos. Como disse, Zacarias Luz,
meu tio, foi orador sacro de renome na Bahia e Frei Sta.
Catarina Furtado, tio de minha mãe, foi considerado um émulo
de Monte Alverne ao tempo do império, tendo tido por palco
de seus admiráveis sermões a cidade do Rio de Janeiro. Júlio
Furtado foi o enérgico e dinâmico companheiro de Passos no
Rio de Janeiro, pertencendo-lhes as galas de ter sido o
arborizador desta cidade, como disse. Assim sendo, foi com
grande emoção que pisei terras baianas, no seu poder suges-
tivo.
Convém frisar que aquela “civilização de tipo estático”,
tôda voltada para o passado (com seus pregões dolentes, seus
gritantes coloridos, suas ladeiras, sua arquitetura colonial de
grande beleza, principalmente no barroco de suas igrejas tra-
dicionais e majestosas; os rituais negros, a beleza de suas ma-
rinhas movediças e da baía ampla e bela, tudo de um azul ní.
tido que corre parelhas com o do céu; as noites profundas
cheias do deslumbramento das profusas cintilações estelares;
seus lugares inspiradores), vai cedendo lugar aos poucos a uma
fase de dinamismo construtivo, seja nos campos petrolíferos de
Candeias, que visitei, seja em Cruz das Almas, onde estive e
visitei sua modelar Escola Superior de Agronomia, seja no
FÁBIO LUZ FILHO 197
vale de São Francisco, etc. Já se constroem na Bahia
arranha-céus com os mesmos requintes de luxo e a esmerada
técnica dos do Rio e São Paulo. Aliás, na cidade baixa, já se
erguem êles, imponentes, e outros vão surgindo na zona nova
da cidade, notadamente nos bairros mais ricos e modernos,
Graça, Barra, Amaralina, etc., todos ligados ao centro, de um
comércio moderno, por bom serviço de bondes e um razoável
de ônibus.
O edifício de propriedade de um cacauicultor, tem 8 an-
dares e está situado na histórica Praça 2 de julho. O último
andar, com deslumbrante vista para a baía, revela o bom gôsto
do dono nas minúcias e no confôrto, com mármores vindos da
Europa. E a residência de um cacauicultor, moço fino e
viajado, também advogado.
A quadrissecular e majestosa cidade do Salvador é reli-
cário de um grande passado, e guarda, de um lado, como disse,
a tradição nas igrejas, interiormente fabulosas, como a de
S. Francisco, embora de aspecto externo vetusto, enegrecidas
pela ação multívola do tempo, e no casario e nas ladeiras das
éras coloniais; e avança, de outro lado, mercê de uma urbani-
zação com tôdas as características modernas. Salvador está
com 410 mli habitantes e absorve parte dos sertanejos que fo-
gem à inclemência do clima, e às acritudes das terras calcina-
das pelo sol queimante, aumentando a miséria na cidade ainda
não industrializada, vetusta e moderna ao mesmo tempo, en-
volta em auras genetlíacas...
Descem êles do interior do próprio Estado e dos Estados
de Sergipe e Alagôas, principalmente.
A rodovia Rio-Bahia está contribuindo, paradoxalmente,
para êsse êxodo. No caminho da Feira de Sant’Ana vi cami-
nhões pejados de retirantes, cada um com levas de 60 pessoas,
comprimidos como animais, homens, mulheres e crianças, a
600 cruzeiros por cabeça, rumo ao Sul do Brasil, terra de pro-
missão, o Eldorado para essa pobre gente!. . . Os “paus-
de-arara”,,.
Ao visitar o majestoso Forum Rui Barbo8a, cuja impo-
nente cripta já recolheu o corpo do gênio excelso, meu espíri-
to caiu em genuflexão, e penetrei nas razões de tôda a vibra-
cão oratória dos baianos.
Com deslumbramento percorri várias vêzes a cidade
constantemente batida de ventos frescos. Itapoã é empolgante
pe- la beleza da praia recurva, tapizada de coqueiros álacres.
O perfil dos coqueirais na distância! . . . As velhas fortalezas, o
casario, as ladeiras, as igrejas, os conventos, são páginas sem-
198 COOPERATIVAS ESCOLARES
pre vivas e escancaradamente abertas, nas quais se lêem os
episódios viris de um povo que se afirmava, nos vaivens da
colonização.
As muralhas de suetentação da cidade alcandorada,
erguidas pela vontade férrea do luso e do holandês com mãos
de gigantes, estarrecem pela solidez quatro vêzes secular, cons-
tituindo o sustentáculo de tôda a cidade alta, servida pelo mo-
derno e conhecidíssimo elevador Lacerda e planos inclinados.
Se por acaso um dia ruírem estas muralhas ciclópicas, aquela
cidade será lançada ao mar...
A Baixa do Sapateiro possui características inconfundí-
veis na gente, nos costumes, no comércio popular intenso.
Amaralina, debruçada sôbre o oceano azul, é um bairro mo.
derníssimo, habitado por gente fina. Cabula, arredores bucó-
licos, de onde, infelizmente, a laranja clássica e célebre vai
desaparecendo.
Empolgou-me grande emoção ao aproximar-me, na nave
da grande Basílica, do púlpito de que Vieira lançou seus ful-
míneos e tonitroantes sermões. A cela do jesuíta indômito é
outra coisa que induz ao recolhimento e à evocação. Trouxe-
me à lembrança também a figura serena de meu tio, Zacarias
Luz, que nessa Basílica também desfiou seu brilhante ser-
monário, como exímio latinista que era. Terra de meus pais,
também perpassaram pe1a minha memória as descrições que
faz meu saudoso pai, Fábio Luz, em seus livros, notadamente
em Manuscrito de Helena, recentemente lançado em segunda
edição, novela de doce fabulação cheia de reminiscências da
Bahia, ao qual acrescentei a conferência Bahia renovada, im-
pressões da última visita que fêz à sua terra natal. Também
dêle consta longo estudo sôbre um aspecto novo da vida de
Castro Alves no que tange às suas relações com a Consuelo,
aspecto inteiramente desconhecido de todos os seus biógrafos.
Nessa novela póstuma (1952), assim descreve êle a lenda
baiana do “diabo pelado”, em páginas de grande beleza des-
critiva, dignas de antologias:
O DIABO PELADO
“Ainda conservo na retina aquêle maravilhoso espetáculo
das noites cálidas de verão: a fosforescência daqueles mares
tropicais, nas costas da Ilha Tinharé, sôbre as brancas areias
FÁBIO LUZ FILHO 199
das praias, longas, intermináveis e macias, fôfas e aveludadas
como alfombras,
“A abundância de infusórios luminosos, protozoários e
noctículos, produz fantástica iluminação nas águas, conten-
do, em cada gôta, um mundo de sêres vivos brilhantes como
os fogos-fátuos dos cemitérios. O santelmo não é menos
divertido. Quando a onda se quebra, espumante, na praia,
parece que se fragmentam montanhas de diamantes, e pelas
areias se espalham estrêlas multicores, chuveiros, fogos de
bengala. Os remos das canoas e as próprias canoas aparecem
bordadas pela luz verde-azul das vagas. As rêdes de pescar
são verdadeiras filigranas de ouro, cravejadas de pedrarias
raras. Cada vaga, que rola, cada agitação do mar, produzem
a movimentacão de um mundo estelar. É, talvez, o fogo
pantomórfico. Fogo que não queima, luz que não deslumbra,
chamas impalpáveis e frias, que mudam de forma e se agitam
ao sabor do movimento incessante das águas do mar. Belo
espetáculo!!
“Como me divertia a mergulhar as mãos na água do mar,
deixando-as pender da borda da canoa, e trazendo-as cheias
de gemas: esmeraldas, topázios, ametistas, brilhantes... que
sei eu?
“Os golfinhos ou botos, nas contínuas e inumeráveis evo-
luções, nas cambalhotas e nas acrobacias, aos magotes, põem
fora d’água os dorsos roliços e negros, bordados da luz etérea
tios infusórios. A crendice dos pescadores os fazia ver como
diabos pelados, de cabeças enormes, aos bandos, aos
cardumes, cumprindo fadários desconhecidos.
“Como são deliciosas as narrativas ingênuas dos praieiros!
O espetáculo, nunca assaz admirado, é empolgante, naquele
mar de luz, infindável jorrar de riqueza, caindo de alguma
cornucópia de fadas, em incalculável jato de pedras
preciosas, que, ao contacto com a areia fina e branca, se
desfaz em pó, em sombra, volta ao nada donde saiu, para o
esplendor da pirotécnica maravilhosa, como relâmpagos.
“Os diabos pelados saltam, pulam, debatem-se, cabrio-
lam, cobertos de algas por véus, donde gotejam as
cambiantes guirlandas de flores luminosas, coroando-lhes as
cabeças calvas e as peles negras, roliças, bombeadas e lisas”.
Também os céus da Bahia lembram esta página de Diora-
mas, também de meu pai:
200 COOPERATIVAS ESCOLARES
OS CÉUS DO BRASIL
“Os céus do Brasil, esta incomparável abóbada azul, de
límpido e transparente azul; os céus do Brasil, que até mes-
mo nas noites crepusculares dos trópicos conservam a
deliciosa côr azul-turqueza, embaciada de cinza e polvilhada
de estrelas; os céus do Brasil, que viram os bergantins dos
descobridores, as velas gloriosas dos navegantes singrando
“os verdes mares bravios”; os céus do Brasil, que, luminosos
e claros, ouviram as primeiras litanias cristãs entoadas
durante a primeira missa celebrada por Frei Henrique de
Coimbra; os céus do Brasil, que ensinaram a Santos Dumont
o caminho da Glória, vão-se abrir carinhosamente para
receber o grande poeta andino — a voz altissonante dos
versos magníficos de Silva Lobato, que inspiradamente soube
desenvolver o tema acima esboçado e nos faz acompanhar,
deslumbrados, todo o movimento histórico-social que o céu
do Brasil viu, apreciou, registrou e o poeta comentou em
cânticos admiràvelmente harmoniosos, em tentativa
grandemente louvável de arte nova, que não é essa chula
baboseira de gaguices e solecismos, que anda por aí a
proteger as tipografias e a azucrinar os tipógrafos.
“Santos Chocano, o grande e pan-americano cantor, deve
sentir-se honrado e lisonjeado, por mais afeito que esteja às
grandes homenagens, como essa homenagem da
espiritualidade brasileira, que Silva Lobato, tão
entusiàsticamente e com tão grande e surpreendente talento,
soube condensar nesse punhado de versos verdadeira chuva
de esmeraldas, reverberantes à luz irisada dos céus
brasileiros”.
E estas, de grande fôrça pictórica (Virgem-Mãe e Elias
Barrão, edições de Garnier, hoje Breguiet, e Livraria Alves,
respectivamente):
CHLOÉ
“No fundo pardacento do céu os cabeços das serras dis-
tantes, recortados em tela negra, e a copa ondeante das árvo-
res mais altas da floresta se destacavam.
“Da terra subia a tépida emanação dos cálices das flores e
do humo fertilizador, como de inumeráveis caçoulas.
“O perfume acre e entontecedor das plantas atraía os in-
setos; a paz serena e tônica da noite e dos campos convidava
ao amor.
FÁBIO LUZ FILHO 201
“O silêncio fecundo da Natureza elaborando, paciente e
rítmica, a vida múltipla, era inspecionado pela tíbia luz trê-
mula e discreta das estrêlas; interrompiam-no o pipilo tênue
das avezinhas, o grito pertinaz do grilo e as carícias modula-
das da brisa, que o prolongavam, tornando-o mais profundo
e impenetrável, mais imponente e augusto, mais palpável e
misterioso.
“O mistério daquela escuridão, a grandeza das sombras
projetando-se no vale, a ramagem igualmente negra e múr-
mura do bosque sagrado, excitavam a fantasia febril do
pastor e requeimavam-no no fogo lento de uma saudade.
“A madrugada rósea dourava os altos píncaros, abrindo
escuros abismos no vale sombrio. A princípio um nimbo ape-
nas, como uma faixa tênuemente luminosa, bordava os re-
cortes ásperos das montanhas e das serras, em reentrâncias e
saliências agudas; depois, riscando o horizonte em listas pa-
ralelas, a luz tênue da aurora ia destacando as montanhas e
os rochedos, os prados e os areiais, fazendo brilhar como aço
as águas correntes, espelhando a superfície dos lagos.
“Êsse primeiro despertar da Natureza, em ruídos e cânti-
cos, em luz e sombras, em mugidos e gritos, encontrava já o
zagal junto à porteira do curral, pronto a tocar sua grei para
os bebedouros fartos e límpidos, e para as campinas férteis e
macias, às quais a orvalhada gotejante atirara aljôfares às
mãos cheias, como se sôbre aveludados e fofos tapêtes se
tivessem desatado colares de pérolas em noite de orgia.
“Quando o sol levantava no horizonte sua cabeça fulva de
Deus Onipotente, a fralda do morro estava determinada, ou a
riba recamada de fresca ervagem onde pasceria o gado.
“O sino da igrejinha da aldeia soou longe o toque plan-
gente do Angelus, repercutido e desdobrado pelo éco das
montanhas; a paz triste e sonolenta dos campos espreguiçou-
se nas asas cinzentas do crepúsculo vespertino; algumas
estrêlas despertaram no céu, e as novilhas foram com seu
hálito quente varrer o pó em tôrno do pastor, cheirando-lhe
as roupas. E êle dormia em lânguido torpor, em um meio-
sono, meio-virgília, em que a verdade e o sonho, a realidade e
a fantasia se casavam, dançavam, formavam lindas coroas de
ninfas, nixes, coribantes, guiadas pelo Deus Pan, corego e
agonóteta”.
E em “Elias Barrão”.
“A primavera tépida plainava sôbre a vegetação e sôbre
minh’alma. Espumas alvas flutuavam como nenúfares à luz
do sol, abrindo-se em festões quando as águas eram cortadas
e
202 COOPERATIVAS ESCOLARES
enrugadas pela asa leve de algumas garça real ou pelo remo
rápido impelindo alguma piroga.
“Marginavam as estreitas sendas do jardim renques in-
findos de papoulas, e as violetas humildes enchiam o ar com
seu perfume sutil.
“Lá na sombra de jasmineiro em flor, sôbre a herma
branca e solene, mantinha-se, sobranceiro, o busto de um Deus
a que estavam talvez consagrados o rio e o jardim.
“Festões de rosas e jasmins circundando-lhe a cabeça
caíam até à fina areia, arrastando-se pelos degraus de már-
more.
“No soco do monumento sentei-me a teu lado. Mansas e
arrulhantes pombas vieram, confiantes, brincar com a púrpu-
ra dos cadarços que atavam tuas sandálias e beliscavam-te a
pele branca com seus bicos côr de rosa. Mas, no jardim, mais
viçoso que os acantos, mais luminoso do que os crisântemos,
mais puro e mais inocente do que a setinosa alvura das camé-
lias, estava teu olhar plácido, úmido e carinhoso, absorvendo
tudo, tudo iluminando”.
“A mata virgem e emaranhada do Cubatão, onde as co-
pas movediças e altaneiras aparecem entrelaçadas de flores
multicores, é diferente da da Serra dos Órgãos, cuja vegeta-
ção é menos pujante, deixando ver, a intervalos, a ossatura
vulcânica da montanha, e aqui e ali, mostrando os blocos in-
formes de granito, grés ou cantaria, patinados de negro pela
oxidação do tempo. Na margem da linha as quebradas som-
brias da serra, os recantos silenciosos, atapetados de liquens;
as frinchas dos rochedos rociadas pela névoa e pelos jorros
d’água, nas alvas espumas das corrediças, enlevavam-lhe o
olhar. Dos socalcos e suaves declives, donde se debruçavam
cachos de vistosas orquídeas preciosas ou que eram bordadas
das franjas verdes das avencas ou do rendilhado dos ásperos
fetos, subiam perfumes de lírios e narcisos. Por vêzes não sa-
bia distinguir as sensações e as confundia numa só: o perfu-
me suave ou acre das resinas era ao mesmo tempo murmúrio
cantante das águas ou silêncio augusto das selvas. Cansada a
visão e saturada a retina pelo verde esplendente das fôlhas,
pelo roxo das flores da quaresma e o amarelo dos ipês, do lim-
bo branco das palmas das imbaúbas.. . »
Eis um dos trechos de “Leituras de Ilka e Alba” (Livraria
Alves), objeto do belo poema de Moacir de Almeida:
FÁBIO LUZ FILHO 203
ANDORINHAS
“As cigarras cantavam nos troncos, e na limpidez do céu
azul um par gentil plainando sôbre as ervas dos campos, su-
bindo e girando em tôrno aos alcantis descalvados da serra,
procurando a beirada de um casal ou a cornija de alguma
igrejinha campestre para construir o ninho, ia e vinha em
giros contínuos, numa alegria festiva e inocente.
“Lá no vale, no meio do verde escuro da mata, junto ao
carreiro arenoso e em curvas que, como fita amarela e
desbotada, serpeando por entre laranjais em flor e cêrcas de
espinheiros, se perdia nos socalcos da serra, grimpando para
as altu- ras, surgia a flecha de um templo simples e branco,
bimbaIhando um sinozinho agudo, cujos sons iam de quebrada
em quebrada, de grota em grota, abalar o silêncio tépido da
floresta.
“O silêncio da nave, a vago perfume de incenso, a solidão
branca e nua do recinto, com suas toalhas rendadas, as poei-
rentas cornijas entalhadas em grandes rendilhados, o ador-
mecedor tilintar dos pingentes de cristal do grande lustre que o
vento agitava tênuemente, como se dedilhasse a mêdo e
experimentasse cada nota, e a luz do sol brilhante e mati-
nal, refratando-se no mesmo lustre e fazendo arabescos mati-
zados no ladrilho do pavimento, onde loucamente rodopiava,
às vêzes, uma fôlha sêca, convidavam a construir o ligeiro ni-
nho, donde sairia gárrula e bulhenta para as festas da natu-
reza a prole pipilante e álacre que no verão vindouro enche-
ria também de gritinhos agudos o velho campanário da igre-
jinha campestre”.
Ao fazer a crítica de “Manuscrito de Helena”, o grande
ensaísta baiano, Carlos Chiacchio, teve para com a personali-
dade literária de Fábio Luz as seguintes palavras, que desta-
camos de longo trabalho: “O conto, o romance, a história, a
crítica, a polêmica, a poesia, enfim, tôda a gama da criação
artística exercitou com brilho nunca desmentido. Foi, sem tirar
nem pôr, o tipo brasileiro do polígrafo, vivendo intensamente o
mundo das idéias, das imagens e dos sentimentos. Desde os
verdes anos, em Valença, cidade baiana, ensaiou a pena na
imprensa local, adestrando-a, depois, em prélios memoráveis,
no jornalismo da côrte, onde não houve gênero literário em
que não demonstrasse, exuberantemente, os seus altos recursos
de inteligência culta e forte”.
204 COOPERATIVAS ESCOLARES
AINDA SALVADOR
Mas, voltemos à Bahia.
A igreja do convento de São Bento trouxe-me recordações
de minha infância no Rio, pois fiz meu curso ginasial de seis
anos no Ginásio de São Bento com mestres como Fausto e
Mário Barreto, Carlos de Laet e tantos outros. Gratuito era o
ensino na época, dado pela equanimidade dos frades benediti-
nos, a cuja grei pertenceu o tio de minha querida mãe, pelo
lado materno, Frei de Santa Catarina Furtado, orador esca-
choante, também baiano, que no Rio, ao tempo do império,
deslumbrou pelo talento e pelo poder verbal, que o tornaram,
no consenso unânime, um émulo de Mont-Alverne, como disse.
O reverendo Vicar era, ao tempo em que visitei a Basílica
com seu fino trato e minudente e evangélica paciência, o guia
culto e o guardião zeloso de precioso, variado e riquíssimo mu-
seu de avoengueiras relíquias veneráveis.
Neste museu, todo êle devido à dedicação impar do reve-
rendo Vicar, vi a imagem de Nossa Senhora das Maravilhas,
envolta em belo manto de prata. Diz-se que, diante dessa ima-
gem, após fervoroso apêlo, o padre Vieira teve o legendário es-
talo que o transformou em gênio da oratória, só superado por
Rui Barbosa.
E que admiráveis painéis exornam a várias vêzes secular,
ampla e tranqüila sacristia conventual, servida de vasto mo-
biliário de jacarandá com embutiduras de marfim!
Os copos, taças, etc., fabricados por Fratelli Vita com lí-
dimo e magnífico cristal de rocha baiano, emparelham, na
perfeição e na sonoridade, com os da Boêmia, coisa que pouca
gente sabe no Brasil. Quantos dêles não andarão por aí como
cristais da Boêmia!...
Boas estradas de rodagem tornam as longas viagens su-
portáveis, não obstante o sol inclemente. As baianas com seus
acarajés saborosos e típicos, mas arrasantes para os noviços...
São feitos no geral com feijão fradinho, cozido com azeite de
dendê.
O espetáculo do pôr do sol a esbrasear a baía azulina e
ampla! As mãos de fadas das rendeiras, no milagre e na ma-
ravilha das delicadas tessituras!... O evocativo túmulo de
Labatut em Pirajá...
A igreja do Senhor do Bonfim, o Mercado, o Parque de
Ondina...
FÁBlO LUZ FILHO 205
E seria longo o desfilar do rosário das impressões indelé-
veis, o que com o tempo, logo que os quefazeres me permitam
calmas horas evocativas de introversão, farei, com prazer;
mas não sei quando isto me será permitido...
O NORDESTE
O RECIFE
Demorei-me em Pernambuco em 1954 e em 1958.
O Recife, na grandeza de suas mais caras tradições histó-
ricas, sempre me seduziu. O mesmo eu diria de Olinda, onde
me demorei na contemplação de seu passado heróico, berço
dos estudos jurídicos, pindorama que nos traz à mente, vindos
dos pródromos da nacionalidade, os vultos que ergueram as
igrejas-relíquias: a de Nossa Senhora do Monte (1535) e a de
Guadalupe, como ergueram a mais antiga do Brasil: a de
Iguaraçu. Por isso, tenho da terra pernambucana, e de sua
gente, a mais viva das impressões. Admirei o dinamismo do
Recife com seu surto de prosperidade, com a beleza de seus
aspectos venezianos, na mansuetude do Capibaribe; suas lar-
gas avenidas de arranha-céus, bairros como o Dérbi e os Afli-
tos, etc., que são ridentes bairros residenciais, de elite. Os ve-
lhos e decantados sobrados senhoris, reminiscências coloniais,
ainda existem esmaltando o casario antigo, resistindo aos im-
pactos do tempo inexorável, como os de Olinda. Esta venera
ainda, com justas razões, não só os seus sobrados, senão tam-
bém os seus balcões fidalgos, os seus admiráveis relicários.
E como em tôdas as cidades que avançam tentacular-
mente, tem o Recife também seus lados sombrios, como o Rio
de Janeiro, no qual, encravados até entre a majestade graní-
tica das edifícios de Copacabana, surgem as favelas deprimen-
tes, couto de tôda a gente, inclusive dos míseros nordestinos
trazidos pelos “paus-de-arara”. Procurei ver os mocambos do
Recife, que perduram, não obstante o meritório esfôrço inicial
de Agamenon Magalhães. (O burocratismo é um dos flagelos
administrativos brasi1eiros, devorando verbas e tornando in-
frutíferas as melhores intenções. . .). Não vi os piores, que não
estão pròpriamente em Encruzilhada; mas, os que vi, sobretu-
do os do tipo coletivo, vamos dizer, tipo cortiço, em seqüência,
com lugar apenas para uma pessoa poder deitar-se num girau
sórdido, à razão de 70 e 80 cruzeiros mensais, êstes bastaram
para uma impressão de profundo pesar, quase de horror. Fin-
206 COOPERATIVAS ESCOLARES
cados dentro da fetidez de pauis inundáveis com as marés
montantes, que os invadem a quase um metro de altura, têm
os ruas enlameadas, os porcos fossando espurcícias em der-
redor, que a incidência de sol forte torna nauseantes!... Con-
dição de vida infra-humana! Isto dentro de uma cidade ine-
gàvelmente bela, que se moderniza cèleremente, justamente
cognominada a “Veneza americana”, a “Cidade Maurícia”.
Dolorosos contraste, como no Rio... Caldos-de-cultura de re-
voltas justas, compreensíveis. Problemas sociais que se avo-
lumam... Acredito, fielmente, que Paulo Afonso seja, para
êsse grande Estado, alentadora esperança. Talvez faça retor-
nar aos campos (se a industrialização, que já se esboça, não
acentuar o êxodo...) tôda essa pobre gente desajustada e
subnutrida que zaranza pelas ruas do Recife, cidade de vida
cara, esmolando para poder sobreviver, lançando mão de
expedientes de tôda sorte, num como mercado-persa
pinturesco e multicolorido, no qual se encontram as
saborosas frutas nativas, preciosas coisas de cunho regional,
ao lado de bugigangas e do que as indústrias do Sul para lá
remetem a rôdo.
As jangadas singram um mar de cambiantes soberbas,
nas praias de Boa Viagem e de Pina, como em Tambau (esta,
praia de deslumbramento, em João Pessoa), irisações magní-
ficas que nos extasiam e lembram as praias que vão de Ita-
curuçá a Angra dos Reis, no Estado do Rio, e as de Salvador,
na Bahia, entre elas Itapoã. Os coqueirais colocam as notas
farfalhantes de seus portes esguios e belos, nessas praias nor-
destinas.
Suas igrejas estão ungidas de recordações priscas. Os la-
vôres da Capela Dourada, em proporções menores, lembram
os esplendores da Igreja de São Francisco em Salvador, na
Bahia... Outras faces, de acentuada côr local: os seus ven-
dedores de guaiamus e de cocos nas calçadas das ruas; os de-
liciosos sorvetes de mangaba e de cajá, e os refrescos de ma-
racujá... Os seus cantadores, como os que vi e ouvi em
Campina Grande, glosando na rua os motes dados no
momento, traços marcantes dessa inteligência viva e verve
ensolarada do nordestino bravo. Sua imprensa moderna e
brilhante honra os foros de cultura do grande Estado.
Com fervor patriótico atinge-se o tôpo da tôrre da igreja
de Nossa Senhora dos Prazeres (erguida em 1696), marco que
assinala a batalha dos Guararapes, pois é no acume dêsse
morro célebre que ela se ergue na vetustez de suas sólidas
paredes medievas, conservadas tôdas as suas características
originárias. E fato curioso: em tôrno ao morro, em cómoros,
FABIO LUZ FILHO 207
o “capim santo” só floresce no dia da batalha dos Guararapes!
Daí a romaria anual da multidão crente, nesse dia, o capim
florente nas mãos, subindo, genuflexa, até a igreja histórica.
Dois Irmãos é belo centro de pesquisas agronômicas.
Com o mesmo ímpeto com que plantou os fundamentos da
nacionalidade, saberá Pernambuco contornar os problemas
que surgem e surgirão.
A PAISAGEM NO BREJO E NO AGRESTE
Pernambuco possui boas rodovias. VI animação e entu-
siasmo no brejo e no agreste da Paraíba e de Pernambuco, pe-
lo inverno chovido. Sobretudo o brejo paraibano oferecia as-
pectos de trabalho intenso e festivo.
O brejo paraibano é uma zona fitogeográfica, de água
aflorante, da Serra da Borborema, possuidora de solos pro-
fundos, embora pobres em azôto e fósforo e deficientes em
matéria orgânica. Seus vales, no entanto, são em geral fér-
teis. A criação de gado se faz em escala ínfima, havendo po-
breza de plantas forrageiras. O leite constitui aí artigo de luxo,
quadro extensivo ao Estado de Pernambuco e, pràticamente, a
todo o Nordeste, como é sabido, o que, somado à ausência ou
escassez de verduras, caracteriza a dieta da “gens” rural
dessas regiões. O arrendamento é pouco usado. Dois polos aí se
defrontam, como no resto do Nordeste: abastados ou
remediados, ou zânganos, e pauperismo (êste, cada vez mais
avassalante, ao acicate das sêcas e conseqüente êxodo), e uma
classe média pequena e que se está proletarizando aos poucos,
ao ajoujo da atual conjuntura econômica, mas com
perspectivas de superação, sendo a Hidrelétrica uma grande
esperança.
A quase 80% de arrecadação do impôsto de consumo nos
Estados do Sul, opõem, o Norte, o Nordeste e o Brasil Central,
juntos, uma percentagem que não chega a 6%, o que eviden-
cia a pouquidade do índice econômico.
OS MANDACARUS
Nas distâncias perlongadas, nas caatingas escalvadas e
nos agrestes, os mandacarus, sobrelevando-se às demais xeró-
filas,embora já tocados dos dedos mágicos do inverno pluvioso
(maio de 1954), lembram sentinelas de gestos agressivos, a
208 COOPERATIVAS ESCOLARES
bracejar para o azul, em atitudes de súplica ou advertência,
como símbolos, sobranceiros na adustão em tôrno, já ameni-
zada, como disse, pelos primeiros fustigos da invernada, na
futuração de boas colheitas, sobretudo de cereais e algodão.
O almo poder das águas, no espetáculo da resurreição...
Êles, os mandacarus e os avelos, realmente tipificam a
paisagem nordestina. Os avelos (ou “aveloz”, como na lingua-
gem popular é denominada a euforbiácea, que o gado te-
me) quadriculam a paisagem, dividem as propriedades, que se
vão fragmentando, emoldurando plantações de palmas, aga-
ves, macaxeiras, palmas em meio de algodoais. Na sua re-
sistência à inclemência do clima, como o bode e o jerico, bem
caracterizam, êles, os avelos e os mandacarus, as regiões nor-
destinas, de longes bravios. Os avelos atingem às vêzes a altura
de verdadeiras árvores.
Regiões vi onde, pràticamente, havia quatro anos não
chovia. Pude avaliar, de visu, como as acerbidades teluricas
enrijaram a fibra do nordestino. Nesses cenários desertos e
adustos, teima o sertanejo em viver, ou sobreviver, caldeando a
alma forte aos embates das adversidades climáticas e outras,
alma forte que rejubilava, então, às primeiras lufadas do in-
verno chovido. Os que não querem os “paus-de-arara”, tei-
mam em continuar nos seus eitos, nas suas “casas de farinha”,
apelando nas sêcas para o próprio fruto da palma com farinha
e, de quando em vez, carne de bode. Continuam nas suas casas
colmadas e revestidas de fôlhas de catolé, quando não de
argila, peça indissociável do fadário do homem rural
brasileiro...
Eis a situação de duas das áreas ecológicas pernambuca-
nas: a mata (que, pràticamente, envolve o litoral) tem uma
densidade demográfica de 140 pessoas por quilômetro quadra-
do, enquanto o agreste e a caatinga apresentam uma densi-
dade de 50 habitantes por quilômetro quadrado. No sertão mal
chega a 8 por quilômetro quadrado...
A contribuição de Pernambuco para a renda nacional é
de 3,57%, a da Paraíba, de 1,39%; a dos demais Estados do
Nordeste reunidos não ultrapassa a percentagem de 3%. Tudo
isto assinala um desnível econômico de estarrecer, em relação
ao Sul do país.
A flagelação das sêcas, os “cariris” chocantes... Quando
os açudes com fins de irrigação, os nucleamentos de base
cooperativa, os fios de ressurreição de Paulo Afonso?...
FÁBIO LUZ FILHO 209
CAMPINA GRANDE
Campina Grande é uma bela e próspera cidade paraibana
para a qual afluem várias zonas fitogeográficas (brejo, agres-
te, etc.). É considerada, com razão a maior cidade interior de
todo o Nordeste, como Caruaru é a capital do agreste per-
nambucano. É ela sede de um município que arrecadou, em
1953, mais de 26.000.000 de cruzeiros, situada em plena Serra
da Borborema, como uma média de pluviosidade de 1.220 mm,
e temperatura máxima de 28 graus e mínima de 14. Nela en-
contrei em maio de 1954, no átrio da Prefeitura, uma família
nordestina que ali dormira para ter oportunidade de solicitar,
do Prefeito, uma passagem de volta ao torrão dela, no sertão
paraibano, pois o brejo, disse-me o chefe, sertanejo moço, alto
e forte, quase em andrajos, de olhos úmidos, no brejo tôda a
família, mulher e sete filhos, havia apanhado “sezões”...
Preferia voltar para o seu pedaço de terra e plantar algodão;
mas, a miséria e a fome só lhe permitiam mendigar. A mulher,
quase esquálida, com os sete filhos deitados nos ladrilhos frios,
era bem a imagem de sofrimento: olhos baixos, de profunda
resignação, amamentando linda criança, clara e louro. Que
formidável material humano ali estava! O drama sombrio do
Nordeste estava naquele quadro estereotipado: esperanças
nunca perdidas, andejar contínuo em busca de novos
horizontes de trabalho e fartura, regresso ao primeiro
tamborilar cantante das chuvas promissoras, à primeira
clarinada de dias melhores, intenso apego à terra natal, aquêle
inapagável anseio que Euclides da Cunha focou
magistralmente, e José Américo de Almeida fixou em
“Bagaceira”, imanizando o sertanejo heróico...
Reafirmou, recentemente, o professor Moisés Poblete
Troncoso, que a estrutura econômica de tôda a América Lati-
na é fundamentalmente agrária, constituindo o binômio terra-
trabalho o ponto de partida da sua economia rural. Ainda tem
configuração nítida aquela situação mui aproximada da das
célebres “encomiendas” e da do colonialismo sesmeiro...
Mas, encerremos essas páginas de repouso, saudades e
retrospeção...
CAPÍTULO IX
AINDA O COOPERATIVISMO ESCOLAR NA FRANÇA
E OUTROS PAÍSES
Totomianz, o grande propagandista russo exilado por
questões políticas, acentuou que as cooperativas escolares euro
péias incluíam em sua finalidades as mais variadas operações:
a venda de livros escolares ou objetos para desportos, a preços
reduzidos; a compra de livros para a biblioteca escolar; a
organização de conferências sôbre temas referentes ao
cooperativismo; a aquisição de artigos alimentícios, como o
pão e o leite para os alunos, a produção em comum de objetos
variados, como sejam encadernações, brinquedos, jogos,
artigos de carpintaria; o estabelecimento de uma caixa de
economia e de empréstimos, que poderá funcionar junto à
cooperativa de consumo ou formar parte dela; investigações
botânicas e o cultivo de árvores frutíferas, legumes, criação de
abelhas, etc. Incluem-se nesses objetivos a visita a outras
cooperativas escolares e a cooperativas de adultos. Acha
Totomianz que a constituição e a gestão de uma cooperativa
escolar defrontam alguns obstáculos de ordem jurídica, e
que a melhor ma- neira de contorná-los é fazer que a
responsabilidade de todos os compromissos da cooperativa
escolar seja tomada pela pró- pria escola ou por um “comitê”
de pais, com a condição, porém, de nunca, dessa intervenção,
decorrer a coartação da liberdade dos jovens cooperadores
escolares, que devem diri-gir suas pequenas cooperativas.
Diz Totomianz que, antes de Profit, houve uma tentativa
em 1881, na França, partida de um Sr. Cauvet, que organizou
em Paris uma associação escolar de auxílio mútuo (não é
cooperativismo escolar).
Acham outros que houve também em 1889 uma tentativa
no sentido da associalização escolar, tendo-se então constituí-
do uma associação escolar florestal no departamento de Jura,
onde, três anos depois, já se contavam cinqüenta associações
desse gênero.
FABIO LUZ FILHO 211
Em 1909 surgiu a Federação das Mútuas Escolares Flores-
tais, em Ain, a qual em 1931 filiava 57 sociedades com 2.600
associados. Em 1912, uma mútua escolar em Carcassone.
Em 1929 existiam, no departamento francês de Gard,
oitenta cooperativas escolares com 3.500 associados, havendo
sido fundada a primeira em 1924. São cooperativas escolares
de consumo e produção. Os alunos, para conseguir numerá-
rio, colhem ervas medicinais, criam bichos de seda, cosem,
tecem, organizam excursões. Os lucros ou benefícios são
utilizados na aquisição de cinemas escolares, no enriqueci-
mento das bibliotecas escolares, etc.
Cattier refere-se às cooperativas escolares na Tchecos-
lováquia reerguendo cidades da miséria com a indústria de
madeira e louças.
Existiam na Polônia cooperativas escolares de crédito e
consumo fundadas pelas cooperativas de adultos (o movi-
mento francês, como já assinalei, difere dêste, pois teve início
nos meios escolares e por iniciativa de um inspetor de ensino).
A União das Cooperativas de Consumo polonesa chegou a
instituir uma comissão especial para atender ao desenvol-
vimento das cooperativas escolares. Há quem dê o movimento
polonês como iniciado em 1906.
A obra social, empreendida, mantida e desenvolvida pelo
cooperativismo escolar na Polônia, segundo afirmava To-
tomianz em 1935, é de grande importância, compreendendo a
ajuda material aos seus pequenos associados, por intermé-
dio dos armazéns cooperativos, e a ajuda intelectual para a
organização de cursos, oficinas para colocação dos alunos que
se virem na dura contingência de procurar, por seus próprios
esforços, seus meios de subsistência, assim como auxílios para
a instalação condigna de museus escolares, etc.
As cooperativas escolares romenas nasceram do hábito que
possuíam os professôres romenos de se cotizarem para o
fornecimento de livros aos seus alunos, no comêço de cada ano
letivo.
O Diretor da Instrução Pública Sr. Spirit Haret, estimulou a
fundação dessas organizações mediante um trabalho de per-
suação ininterrupto. Parece ter o movimento começado em
1908.
A “Oficina Nacional Romena” e o “Ministério da Instrucão
Pública” fundaram em 1935 a União das Cooperativas Es-
colares.
212 COOPERATIVAS ESCOLARES
A lei mexicana sôbre cooperativas data de 11 de janeiro
de 1938, e inclui em seus dispositivos as cooperativas escolares,
subordinadas à Secretaria de Educação dessa república. Como
disse, a Colômbia já elaborou seu projeto de lei, e o Dr.
Alvarino Herr, ilustre advogado peruano e presidente do
Instituto Cooperativo do Peru, acaba de me comunicar que irá
utilizar meu livro “Cooperativas escolares” na grande
campanha cooperativista que aquêle Instituto, integrado por
um grupo de brilhantes técnicos e intelectuais, está
desenvolvendo nesse país, de tão belas tradições.
Victor Serwy, o ilustrado cooperativista belga, diz que, de-
pois da guerra, os dirigentes do movimento cooperativo
mundial foram levados a pensar mais particularmente nas
mulheres e crianças, as eternas e maiores vítimas da insânia
dos imperialismos e dos lamentáveis desentendimentos entre
povos. Quiseram que orientassem seus lazeres de um modo
proveitoso para a saúde do corpo e do espírito, insuflando
alegria reconfortante e comunicativa aos seus generosos
corações. E relata como já se disseminam pelos países
europeus (Alemanha, Inglaterra, França, Austria, Bélgica,
etc.) mantidas por grandes federações de cooperativas,
sobretudo de consumo, as colônias cooperativas de férias, com
seus sanatórios, etc. Constituem uma das grandes e meritórias
obras que o cooperativismo vem prestando ao mundo como
iniciativa particular coberta pelos planejamentos da flâmula
arco-irisada do cooperativismo, símbolo de luz e harmonia
entre os homens.
Um outro exemplo, no mundo, frisante do poder educati-
vo dos agrupamentos cooperativos de estudos, é o dos cursos
de extensão da St. Francis Xavier University, na América do
Norte.
“The study club is the fulcrum used by the operators of
this educational lever to raise the general status of the people”,
são palavras do Rev. Malcom Mac. Lellan, ao se referir ao
departamento de extensão da universidade acima referida no
seu alto objetivo de preparar as gerações moças para a ação.
E veremos a atuação do reverendo Coady.
COOPERATIVAS ESCOLARES AGRÍCOLAS
Cooperativas agrícolas de compra e venda existem nas es-
colas superiores de agricultura, dos Estados Unjdos da Ame-
rica do Norte. Não têm elas, nesse país, a obrigação de se re-
FÁBIO LUZ FILHO 213
gistrarem, mas seus estatutos contêm as disposições comuns às
organizações de adultos, com um fim altamente educativo
perfeitamente compreensível.
São fins dessas associações:
a) criar uma organização cooperativa de venda e de
compra graças à qual os alunos das escolas superiores de agri-
cultura poderão chegar a adquirir, pelo método direto, a expe-
riência cooperativa, os princípios da cooperação e sua aplica-
ção prática, as normas de organização e a direção a dar às
operações sôbre uma base sã;
b) incentivar, animar e empreender a produção, a expo-
sição, a classificação, a expedição, o financiamento, a arma-
zenagem, a publicidade, a venda e tôdas as outras operações de
manipulação dos produtos agrícolas, e proporcionar aos
associados tôdas as facilidades e serviços graças aos quais pos-
sam êles exercer essas atividades ou outra qualquer sôbre uma
base cooperativa;
c) fazer a venda dos artigos produzidos por seus mem-
bros; comprar e vender todos os artigos de conformidade com
os regulamentos estabelecidos pelo Conselho de Administra-
ção;
d) colaborar com as sociedades cooperativas de adultos ou
outras sociedades de jovens;
e) operar conforme as leis sôbre as sociedades coopera-
tivas em vigor no Estado onde se fundarem.
Assim, nos estatutos constantes do presente livro, com
ligeiras modificações (um diretor-gerente com funções mais
altas, um conselho fiscal, integrado por alunos exclusivamen-
te e modificação dos objetivos, etc.), poderão enquadrar-se
mais duas formas: crédito e venda.
Na Polônia, algumas escolas agrícolas tinham, antes da
guerra de 1939, tôda a sua organização interna (alojamentos e
alimentação) sob a égide de uma cooperativa escolar.
Que se realize, pois, no Brasil, o que Profit vaticinou para
a França, apoiado em Izoulet:
“La coopération scolaire française est en mesure de tour-
nir à la société des “associés loyaux”, les citoyens et les
hommes nouveaux dont le monde a besoin”.
Estou, humildemente, com Profit, em face dos frutos que
já vamos colhendo no Brasil, como educação econômica, mo-
ral, cívica e social dos homens e das mulheres de amanhã.
E A. Carneiro Leão tem a êsse respeito admiráveis concei-
tos em “Sociedade Rural — Seus problemas e sua educação”:
214 COOPERATIVAS ESCOLARES
“Muito mais do que “alfabetização”, generalização de es-
cola primária comum, impõe-se no interior do Brasil uma edu-
cação capaz de prender o homem a seu ambiente físico e social,
de torná-lo um fator consciente de bem-estar de sua comuni-
dade, Muito mais do que escolas para ensinar a ler, escrever e
contar pelos mesmos livros, pelos mesmos mestres das cida-
des, a zona rural necessita de preparar seus filhos para resol-
verem os problemas regionais, para integrarem-se em seu
mundo, fazendo-o progredir”.
Com todo o meu veemente apoio ao brilhante pedagogo,
acrescento que o cooperativismo é o veículo naturalmente in-
dicado para essa integração, o que, aliás, reconheceu ao
referir-se, bondosamente, naquele seu belo e profundo livro, à
minha humilde atuação.
FRANÇA
Disse Valdiki Moura em seu livro “Dez faces do mundo”
(1954):
“A falta dos contactos premeditados, procurei estender-
me com o “Office Central de Ia Coopération ã l’Ecole”,
instalado no Museu Pedagógico da Universidade de Paris, à
Rua d’Ulm, 29.
“Esta organização tem a configuração jurídica de associa-
cão civil, definida em lei de 1.º de julho de 1901, que dispõe
sôbre o seu contrato e legalização.
“Há em França vários agrupamentos de caráter coopera-
tivo, constituídos no regime desta lei. Não dependem de auto-
rização governamental e podem receber cotizações dos associa-
dos, que não excedam, individualmente, de 500 francos, e
adquirir os imóveis estritamente necessários ao cumprimento
dos seus objetivos. Podem, ainda, ser reconhecidos como de
utilidade pública e praticar todos os atos da vida civil, que não
sejam proibidos em seu estatuto.
“Antes havia sido fundado (maio de 1928) com a
designação de Office Central des Coopératives Scolaires,
passando a usar o título atual em data de 22 de dezembro de
1929, embora o registro se verificasse a 22 de fevereiro do ano
seguinte.
O OCCE compreende as Secções Departamentais ou pro-
vinciais, administradas por um conselho de administração, que
propõe, cada uma, um mandatário, ao qual o Conselho da
Administração Nacional envia os podêres legais para gerir a
Secção; e as Secções Locais, que são as próprias cooperativas.
FÁBIO LUZ FILHO 215
escolares. Neste caso, o mandatário departamental substa-
belece os seus podêres a um mandatário local, designado pelo
Conselho de Administração Departamental.
“A cooperativa escolar, investida de tais podêres, natu-
ralmente age como uma associação independente, administra-
da pelos alunos, sob a tutela do diretor ou do mandatário.
“O Conselho de Administração do OCCE é constituído de
24 membros, dentre os quais um é o presidente (o inspertor
-geral de Instrução Pública, Sr. Prévot); dois são vice-presi-
dentes (o diretor adjunto do Ensino de Primeiro Grau do Mi-
nistério de Educação Nacional e o secretário da Secção De-
partamental de Côte-d’Or); um secretário-geral e outro adjun-
to, que são, respectivamente, um inspetor do Ensino Primária
e um assistente do Ensino Técnico; o tesoureiro-geral e outro
adjunto, ambos técnicos em educação, sendo um dêles o Sr
Jean Gaumont, autor da famosa “Histoire Générale de lo
Coopération en France”. Os demais membros são pessoas de
tirocínio e projeção nos meios educacionais e cooperativos,
pertencentes aos quadros da Liga do Ensino, da Federação
Nacional das Cooperativas de Consumo, do Ministério da
Agricultura, da Confederação Geral das Sociedades
Cooperativas de Produção, da Federação Nacional de
Cooperação Agrícola, do Sindicato Nacional de Instrutores e
de várias Secções Departamentais.
“Isso não quer dizer que a composição tenha de ser sem-
pre a mesma, e que a escolha deva invariàvelmente incidir em
tais grupos. Refiro-me à composição do quadro atual, apenas
para indicar a sua complexidade e a participação ampla que
têm os diversos setores nacionais na organização do coopera-
tivismo escolar. Permito-me, também, particularizar o nome
de Maurice Colombain, antigo chefe do serviço de Cooperação
do Bureau Internacional do Trabalho, como um dos membros
do Conselho do OCCE, pela projeção excepcional que tem,
como publicista e realizador do sistema.
“Além da publicação da Revue de la Coopération Scolaire
e do Bulletin d’Information, e de textos contendo doutrinação
de base, foram distribuídos, no último, ano, 75 mil exemplares
de publicações orientadoras, inclusive sôbre a colheita,
secagem e expedição de plantas medicinais, atividade a que se
entregam muitas cooperativas do interior. Todo êste material
foi encaminhado às secções departamentais, que o
distribuíram aos cursos complementares, aos centros de
formação profissional e aos liceus.
216 COOPERATIVAS ESCOLARES
“Outra atividade a que se tem entregue, é a realização de
conferências nas assembléias gerais dos departamentos e
secções e nas escolas normais (especialmente para profes-
sorandas) quase sempre complementadas com visitas a coope-
rativas de consumo.
“Uma atividade recentemente estimulada é aquela do
Serviço Filatélico do OCCE, tendo sobretudo em vista o seu
caráter pedagógico, como veículo de conhecimentos de história
e geografia. O Serviço se encarrega da compra, venda e per-
muta de timbres postais, com a bonificação oficial de 50%,
publicando ainda, na revista do Office, artigos especializados
de orientação filatélica.
“Realizou um concurso nacional de pintura, com distri-
buição de prêmios do valor total de cem mil francos, visando
estimular a aptidão artística dos alunos. Dessa montra, fo-
ram retirados alguns quadros mais interessantes, que consti-
tuem uma exposição ambulante posta à disposição das secções
departamentais, sem qualquer ônus. Visando, por outro lado, a
estimular os animadores do Movimento, o OCCE instituiu
os diplomas de honra da Cooperação Escolar, distribuídos até
o máximo de oito por Secção Departamental, segundo a im-
portância dos seus quadros. O julgamento é processado por
uma comissão de que fazem parte os inspetores de liceus e os
conselhos de administração das secções departamentais.
“Estava cogitando o Office do estabelecimento de um
grande depósito para suprimento às cooperativas escolares,
conforme constantes recomendações feitas pelos órgãos de-
partamentais, embora uma corrente achasse que as possibili-
dades atuais do mercado, quanto ao suprimento de mate-
rias-primas e artigos escolares, eram de tal maneira favorá-
veis, que as cooperativas poderiam abastecer-se diretamente,
sem necessidade de tal organismo central. Mas é possível que a
idéia vá se desenvolvendo de futuro, não sòmente para criar,
em beneficio da coletividade escolar, condições ainda mais
favoráveis de compra, como também para prevenir abusos
eventuais, conseqüentes da escassez de mercadorias ou de
situações econômicas anormais.
“Para ir suprindo a lacuna, as secções departamentais
costumam combinar os pedidos das cooperativas locais, com o
fim de obterem condições mais satisfatórias dos fornecedo-
res. Mas, no íntimo, o Office receia a denúncia do comércio
privado, sob a alegação de concorrência desleal, o que poderia
redundar em complicações para o movimento.
FÁBIO LUZ FILHO 217
“Pela mesma razão, recusou-se a organizar o mercado
nacional distribuidor de plantas medicinais, produzidas e
acondicionadas pelas Cooperativas escolares. Quer ser, apenas,
um órgão de estímulo moral e cultural, fugindo a qualquer
cará- ter mercantil, que a lei de 1.º de julho de 1901 veda em
parte.
“Na época, o Office contava com 84 secções departamen-
tais, tendo sob o seu contrôle 12.808 cooperativas, das quais
12. 564 do ensino de primeiro grau, com 383.509 associados,
123 do segundo grau (escolas secundárias) com 12.621, en-
quanto 121 eram constituídas de alunos do ensino técnico,
com 20.170 filiados, agrupando o total de 416.300.
“Sendo inteiramente lastreado na livre adesão, o recru-
tamento a todo preço jamais tem estado em suas cogitações
E afirma, ainda, o relatório do Office: “Nós preferimos muitas
cooperativas escolares verdadeiramente dignas dêste nome,
a admitir classes aderentes que acreditem que tudo que te-
nham a fazer, seja, sòmente, pagar as cotizações.
“As Secções Departamentais tomaram a si a publicação
de boletins informativos; a organização de conferências, ex-
posições, concursos, viagens instrutivas, visitas às instalações
de cooperativas e fichários de viagens; a estocagem e venda de
plantas medicinais; levaram a têrmo a organização dos cha-
mados centros de acolhimento e recepção aos cooperadores, os
serviços de compra e empréstimos e também a edição de
alguns livretos didáticos, especialmente de cunho histórico.
“Tem-se feito a observação de que as cotizações e as sub-
venções concedidas às cooperativas, estão diminuindo na mes-
ma proporção em que a sua receita é dinamizada pela orga-
nização de festivais; manutenção de jornais periódicos; fa-
brico manual e venda de tecidos, jogos e artigos de madeira,
couro e papelão; encadernações artísticas e distribuição de
produtos hortícolas e de criação — tudo confeccionado ou
produzido pelos próprios alunos, em áreas anexas às escolas.
“No ano de 1950, sòmente 63 Secções Departamentais
realizaram, por esta via, uma receita superior a 120 milhões de
francos, que deixou o saldo líquido de 20 milhões.
“Outra fonte de suprimento de capital é a contribuição
anual per-capita, geralmente fixada em cinco francos, dos quais
2 frs. são reservados à Secção Departamental, destinando-se o
restante ao Office Central. Há também a renda subsidiária das
subvenções concedidas pelos organismos oficiais de ensino,
cooperativas de consumo e de produção agrícola e industrial, e
também pelos sindicatos.
218 COOPERATIVAS ESCOLARES
No exercido, a receita atingiu a 2.333.833 francos de co-
tizações pagas por cêrca de 300 mil cooperadores escolares,
enquanto todos os esforços estavam sendo feitos para que o
número de contribuintes se elevasse, imediatamente, ao mí-
nimo de 500 mil.
“Outros objetivos imediatos que o OCCE está
perseguindo podem ser resumidos nos seguintes pontos: 1)
intensificar um intercâmbio permanente com as Secções
Departamentais, através de conferências, exposições
ambulantes e preparo de tôda documentação necessária à
propaganda; 2) fazer com que tôdas as Escolas Normais
recebam por ano, ao menos, uma visita de um dos
conferencistas do OCCE, contato que será extensivo aos
inspetores do ensino primário; 3) com o concurso das
organizações cooperativas de adultos, promover uma
distribuição, em maior escala, de bôlsas de viagem e concursos
entre os alunos dos liceus, escolas normais e estabelecimentos
técnicos; 4) desenvolver maiores esforços junto às autoridades
do ensino secundário, para que haja maior penetração da
doutrina cooperativa nos estabelecimentos técnicos; 4)
desenvolver maiores esforços junto às autoridades do ensino
secundário, para que haja maior penetração da doutrina
cooperativa nos estabelecimentos desta categoria, e,
conseqüentemente, o aumento da rêde de cooperativas; 5) rea-
lização de novo Concurso Nacional, com o fim de ilustrar, de
maneira precisa, a identidade e intimidade dos métodos coope-
rativos com as atividades pròpriamentes escolares; 8) dar seu
apoio a tôdas as manifestações organizadas pelas grandes
associações, em defesa dos interêsses da Escola Laica, visando
à formação do senso social e cívico das atividades intelectuais e
manuais”.
O COOPERATIVISMO ESCOLAR NA AMERICA
DO NORTE
o cooperativismo escolar, iniciado entre os estudantes dos
Estados Unidos durante a crise de 1932 e 1933, permitiu a mi-
lhares de jovens receberem uma instrução superior. Foram os
estudantes da “Texas Agricultura Mechanical College” os
primeiros a recorrer ao cooperativismo. Já se assinalou que,
forçados pela crise a deixar o colégio, doze dentre êles resolve-
ram criar um grupo cooperativo. Alugaram uma velha casa,
cujo proprietário lhe forneceu o material necessário para os
reparos. Mobiliaram a nova residência, arranjando móveis
aqui
FÁBIO LUZ FILHO 219
e ali. Tomaram uma empregada para cozinhar e dirigir a casa,
aceitando esta como remuneração a quantia de um dólar men-
sal, por estudante, além de casa e comida. Os estudantes en-
carregaram-se de fazer as camas, limpar a casa, lavar a louça
e preparar os alimentos para cozinhar. Os gastos eram repar-
tidos igualmente, sendo que alguns saldavam sua parte com
carnes e legumes recebidos das fazendas de seus pais. Desde o
início, êsse sistema trouxe completo sucesso, e, em 1934, perto
de 250 estudantes viviam em 20 casas organizadas dessa
forma.
Em 1936, contavam-se 700 estudantes organizados coope-
rativamente. O colégio reuniu então uma soma de 100.000
dólares para construir 14 casas modernas, cada uma podendo
agasalhar 32 estudantes e sendo dirigida por um dêsses.
Do Texas Agricultural and Mechanical College o sistema
passou à Universidade do Texas, onde 300 jovens, dos dois
sexos, chegaram a possuir 15 casas cooperativas, o que lhes
permitiu economizar 25.000 dólares entre os gastos de mora-
dia e de alimentação.
“Na Universidade de Washington, há seis anos, inúme-
ros estudantes viviam em quartos paupérrimos e comiam nos
restaurantes mais miseráveis. Na primavera de 1937, 37 Jo-
vens que haviam ouvido falar das casas cooperativas, incumbi-
ram-se de reunir, cada um, a soma de 10 dólares, e, no comêço
do novo ano escolar, alugaram uma casa por módico preço.
Com o capital de 370 dólares, compraram tintas, material de
limpeza, cadeiras e mesas. Quando seus colegas verificaram
que êsse grupo podia assegurar residência e alimentação con-
fortável e cada um de seus membros por, apenas, 16 dólares
por mês, resolveram seguir o exemplo.
“Em 1939, as cooperativas da Universidade de Washing-
ton possuíam 20.000 dólares em instalação e um número de
negócios de mais de 100.000 dólares.
“Uma organização Central foi criada, confiada à gestão
de diretores eleitos pelas diversas cooperativas. As cozinhas
individuais foram substituídas por uma cozinha central mo-
derna, possuindo uma carreta para a distribuição dos alimen-
tos quentes em diversos refeitórios. A instalação de uma co-
zinha central permitiu a preparação de refeições melhores por
menor preço, tomar um cozinheiro e fazer as compras o mais
econômicamente possível. Em 1938, a Central foi dotada de
uma instalação frigorífica, a qual permitia a compra de
legumes, em grande proporção, diretamente dos produtores.
“O rápido êxito dessas cooperativas criou naturalmente
alguns problemas. Urgia, notadamente, saber como ocupar o
220 COOPERATIVAS ESCOLARES
descanso dos estudantes. Resolveram êsse problema como
haviam resolvido as questões econômicas, sôbre bases coope-
rativas.
“Asseguraram os serviços de alguns professôres de dan-
ça, de música, etc.
“Os esportes em pleno ar foram organizados cooperativa-
mente. Os estudantes alugaram cortes de tênis, o que permi-
tiu reduzir ao mínimo o preço a pagar.
“Na Universidade de Oregon, alguns jovens que viviam
em miseráveis quartos e se alimentavam de arroz cozido e de
leite, criaram uma organização, a qual dirige, atualmente, 4
casas.
“Na Universidade da Califórnia, existem 4 construções
modernas e bem instaladas, que fornecem agasalho e alimen-
tação a 510 estudantes, pelo preço médio de 18 dólares por
mês. Essa organização é devida à iniciativa de 14 estudantes
reduzidos à miséria que, na primavera de 1933, puderam reu-
nir, cada um, 10 dólares e se dispuseram a trabalhar.
“Encontra-se, agora, um grupo de pioneiros em quase to-
dos os Estados da Califórnia ao Massachussets, onde a Uni-
versidade de Harvard organizou êste ano uma cozinha coope-
rativa.
“Aos alojamentos e cozinhas cooperativas, os estudantes
juntam agora cooperativas de limpeza e lavandarias. Tôdas
aplicam uma taxa, devendo assegurar as despesas, e os even-
tuais excedentes voltam aos cooperadores. Uma cooperativa do
Minesota abriu um restaurante onde os próprios fregueses se
servem.
“As cooperativas dos estudantes grupam desde agora
mais de 100.000 membros. O número de negócios anual se
eleva a milhões de dólares, e o que importa particularmente
revelar é o ensinamento, novo e vivo, que elas trazem a seus
membros sôbre os problemas econômicos.
“Pode-se dizer que, na hora atual, milhões de estudantes
puderam abandonar os miseráveis quartos que eram forçados
a alugar nos quarteirões mais pobres da cidade, onde se en-
contravam seus colégios, e instalados em casas modernas,
construídas nos parques das universidades, êles se beneficiam
de uma alimentação sã, organizam suas horas de descanso, e
fazem aproveitáveis experiências nos domínios intelectual,
social e econômico”.
Fazendo o registro dêsses dados pretendo apresentar um
exemplo digno de ser seguido pelos estudantes brasileiros.
FÁBIO LUZ FILHO 221
PANORAMA DO COOPERATIVISMO NA NOVA
ESCOLA DE EDUCAÇÃO COOPERATIVA
“Informations Coopératives” há tempos assinalaram que
parece que uma verdadeira revolução social se operou nas pro-
víncias marítimas do Canadá, onde vilas de pescadores e de
mineiros, que se achavam num estado desesperador de mi-
séria, foram, ràpidamente, transformadas em comunidades
florescentes logo em seguida ao estabelecimento de coopera-
tivas de crédito e do desenvolvimento gradual das cooperati-
vas de venda, cooperativas de pescadores, fábricas cooperati-
vas de conservas de lagostas e sociedades cooperativas de
habitação.
“O êxito do movimento nas províncias marítimas, que
congrega, agora, 40.000 homens e mulheres de diversas raças
e profissões, começou há uns 7 anos, sob o impulso do Serviço
da Universidade de São Francisco Xavier, encarregado da ati-
vidade exterior desse estabelecimento, esse êxito apresenta um
interêsse particular. Com efeito, não se trata simplesmente do
desenvolvimento de uma emprêsa cooperativa, embora notável
seja a rapidez atual dêsse desenvolvimento. O que chama a
atenção, sobretudo, é que as instituições cooperativas acharam
base sólida no fato de ter a população visão clara dos
problemas econômicos e sociais que devem resolver a boa
compreensão dos métodos aos quais é preciso recorrer.
“Antes de empreenderem uma ação, quiseram educar a
população, e nisso reside todo o segrêdo do sucesso dêsse mo-
vimento, sucesso, aliás, tão marcante, que chamou a atenção
de muitos países. Muitos especialistas, especialmente de di-
versas regiões dos Estados Unidos, do Canadá e do Alaska, têm
ido até àquela região para verificarem e estudarem, in-loco, os
resultados práticos do sistema, sem falar em milhares de turis-
tas de tôdas as regiões do mundo.
“A educação dos adultos, cumpre ressaltar, é que pro-
duziu o êxito da atividade cooperativa de Nova Escócia.
“O serviço especial da Universidade de São Francisco Xa-
vier, em sua ação metódica de educação, fêz grande uso das
brochuras e dos livros e particularmente do sistema de peque-
nos grupos de estudos das “Universidades dos Pobres”, como
lhes chamavam muitas vêzes, onde cada qual se pode apresen-
tar uma vez por semana, discutir problemas de interêsse co-
mum e procurar sua solução. Todos os meses, os
representantes dos diversos grupos das comunidades se
reunem em assembléia
222 COOPERATIVAS ESCOLARES
a fim de examinar os problemas da comunidade. Cada 3
meses, delegados são enviados a uma reunião distrital, e, uma
vez por ano, examinam-se os problemas que se impõem à
provín-cia inteira, durante uma “conferência industrial e
rural”. Os professôres da Universidade se limitam a orientar
os interessados, os quais se encarregam de tôda a atividade
prática.
“Contam-se atualmente, sòmente na província de Nova
Escócia, uns 3.300 círculos de estudos e êsse sistema se espalha,
rapidamente, nas regiões vizinhas. Esses grupos se apro-
fundam em questões econômicas, de câmbio e moeda, estudam
os sistemas cooperativos de compra e venda, examinam os
métodos cooperativos de produção e distribuição.
“São êles assistidos em suas averiguações pelo eclesiástico
do distrito ou por outra pessoa que tenha algum conhecimento
da causa a tratar. Os estudantes da Universidade participam
desta obra de educação percorrendo os distritos durante os
meses de verão”.
A FILOSOFIA DO MOVIMENTO DE ANTIGONISH,
A EDUCAÇÃO DE ADULTOS E OS CÍRCULOS
DE ESTUDOS
O padre Humberto Muñoz caracterizou, recentemente,
essa filosofia. (Ver “Instruções para organização de sociedades
cooperativas”, do Serviço de Economia Rural, do Ministério da
Agricultura do Brasil, no qual há longo capítulo sôbre círculos
de estudos)
Diz êle que a filosofia do Movimento de Antigonish está
contida em duas obras do Pe. Coady: “Senhores de seu pró-
prio destino” e “O significado social do movimento de coope-
rativas”. E resume, de sua êxedra:
1) “Princípios básicos — 1) PrimazIa da pessoa. Nem
subordinação ao Estado, como o totalitarismo de qualquer
espécie, nem subordinação ao dinheiro, como no capitalismo. A
pessoa humana, criada à imagem de Deus, emerge por cima de
ambos. Esta primazia da pessoa humana é também a base da
democracia.
2) A educação deve começar com a economia — Na
educação deve-se levar mais em conta aquele que aprende do
que o que o professor dá, e a diferença entre o que o aluno
recebe e um saldo perdido. A aprendizagem tem uma relação
direta com o interêsse do aluno, especialmente do adulto.
Nestes tempos de aguda crise econômica não há nenhum outro
tema
FÁBIO LUZ FILHO 223
tão urgente como a solução do problema econômico. Numa
escala absoluta de valores, pode ser que êste seja o menos im-
portante; porém é o primeiro degrau por onde se há de co-
meçar.
3) Reforma social à base da educação — Em uma
democracia, o progresso social deve proceder da ação livre dos
cidadãos. Todo o progresso supõe uma melhora na natureza
dos indivíduos. Essa melhora só alcançamos pela educação.
4) Educação de base de ação coletiva — A ação coletiva
é algo natural, porque o homem é um ser social. Não só o
homem se organiza comumente em grupos, como também seus
problemas coincidem com os do grupo. E no mundo moderno
não se pode ter êxito senão atuando através dos organizadores.
Uma educação de adultos, que não prepara para esta ação
coletiva, é absolutamente inadequada.
5) Uma efetiva reforma social inclui mudanças fundo-
mentais nas instituições sociais e econômicas. Não se trata
apenas de aplicar paliativos, mas, sim, de mudar a estrutura
social.
6) 0 último objetivo do movimento é uma vida plena e
abundante para todos. A cooperação econômica é o primeiro
passo; mas, só o primeiro para a sociedade que permita a ca-
da indivíduo desenvolver o máximo de sua capacidade.
Filosofia da educação de adultos — É um complemento
dos princípios básicos e a preparação próxima para a ação.
Começa por uma crítica da educação atual.
E o padre Muñoz frisa mais que Coady não aceita que as
escolas primárias e secundárias se orientem sòmente para a
Universidade, para as carreiras liberais. Querem que os títu-
los universitários dêem acesso aos primeiros postos na sacie-
dade, e a educação obrigue a escalar os postos privilegiados.
A educação tem seu êxito mais completo quando consegue que
o filho de um homem obscuro e analfabeto chegue a ser Chefe
de Estado, “Não só os educadores como também os pais de fa-
mília se regem por esta concepção e fazem esforços para edu-
car seus filhos a fim de que êste cheguem mais alto que seus
pais. Esta filosofia da educação tem vários inconvenientes. Os
postos privilegiados são limitados, o que causa uma luta, nem
sempre limpa, para alcançá-los. Muitos devem ficar abaixo e
amargurados. Quantos profissionais ganham às vêzes menos
que um operário! Mas, talvez, a pior conseqüência do sistema é
privar as classes trabalhadoras e campesinas de seus melhores
elementos mandando-os ocupar um pôsto em outra
224 COOPERATIVAS ESCOLARES
classe mais alta, pondo muitas vêzes o seu trabalho profissional
ao serviço daqueles que exploram seus pais”,
E, para Antigonish, uma nova filosofia da educação não
deve tender à elevação de uns poucos enquanto os outros des-
cem, mas, sim, deve olhar o melhoramento de todos. Ainda que
do ponto-de-vista mais materialista, tem que aceitar esta nova
orientação. É a era da educação em massa. E o correlativo
desta, é o poder de consumo das massas. O povo deve ter um
alto standard de vida para que o industrialismo funcione com
êxito.
“As cooperativas são essa técnica, que permitirá ao adulto
mudar e melhorar a sociedade atual”.
Prática do educação de adultos — Acentua o padre Muñoz
que, quando os homens de Antigonish decidem levar seu
programa a uma comunidade, buscam nela os líderes naturais
mais destacados e procuram conquistá-los para sua causa.
Valendo-se dêles, reunem o povo numa grande assembléia
(mass meeting.) Os oradores destas assembléias são sempre de
primeira classe e se propõem um duplo objetivo: destruir os
preconceitos do auditório e mostrar-lhe a ilusão de algumas
possibilidades. Teremos que lhes despertar a inquetação e a
ambição de fazer as coisas por si sós.
“Segundo o Pe. Coady, essas reuniões devem ser como
bombas de estalido intelectual. Quando o visitante pergunta
em qualquer lugar como começaram as cooperativas, evoca
imediatamente em seus ouvintes aqueles grandes dias em que o
Pe. Coady percorria tôda a Nova Escócia, emocionando-a com
o calor e o vigor de sua palavra. Com lógica inigualável
criticava desde os abusos do capitalismo até os próprios cató-
licos que orientavam o ensino para os ricos. Era impossível não
acreditar na sinceridade de sua palavra. Falou-lhes de suas
faltas e de suas possibilidades, mostrou-lhes como o mundo
poderia ser se êles quisessem fazê-lo assim. O Pe. Coady não
era de maneira alguma um demagogo, e depois de ter do-
minado o auditório dizia-lhe a verdade. Para chegar a êsse
mundo novo só havia um caminho: a educação. Deviam orga-
nizar-se círculos de estudos e estudar. Não era fácil conseguir
isso de rudes camponeses e pescadores; mas o resultado
prático de cada uma dessas grandes assembléias, era organizar
círculos de estudos. Centenas e milhares germinaram em tôda
a Nova Escócia. Cada grupo se compunha de seis a doze
pessoas. Reuniam-se em casa de algum vizinho, geralmente na
cozinha, que é o salão dos pobres. Por isso eram chamadas
reuniões de cozinha. Todavia, estão em atividade nas longas
FÁBIO LUZ FILHO 225
noites de inverno; passam-se como um nada duas horas em
amável discussão, não faltando uma xícara de café acompa-
nhada de música ou pastéis. E o que é que estudam ali? —
Que lhes interessa mais? Os homens de Antigonish não im-
põem um programa rígido, mas sim em cada lugar pergun-
tam: “Que é que faz mais falta agora? No que é que podemos
ajudá-los? Se não têm dinheiro, estudem então a organização
de uma união de crédito. A vida está mais cara? Estudem as
cooperativas de consumo. As colheitas se vendem demasiado
baratas? Estudem as cooperattivas de vendas. Se o peixe se
estraga muito depresa, devem pensar nos frigoríficos ou, me-
lhor ainda, numa fábrica de conservas. Nossas casas são muito
ruins? Pensem nas cooperativas para fazer outras novas.
Qualquer um compreende que com êstes temas o interêsse se
mantenha vivo.
Entre êles elegem um que seja o cabeça e o estudo se faz
de uma forma muito simples e familiar. O Departamento de
Extensão distribui folhetos para cada estudo em particular.
Lê-se um parágrafo, que é comentado. Trata-se de discutir as
perguntas que aparecem sempre no fim de cada capítulo.
Ninguém se se sente tolhido. Se ninguém acerta algum pro-
blema, anota-se e deixa-se o mesmo para consulta. Outras
vêzes ouvem as transmissões especiais do rádio e em seguida
fazem comentários na forma costumada. Uma vez por mês
reunem-se todos em grupos geralmente em casa paroquial.
Consulta-se tudo o que antes não ficou entendido e procura-se
unificar as opiniões. No fim de cinco ou seis meses de estudo, é
chegado normalmente o momento de passar do estudo à prá..
tica. Elege-se uma diretoria, nomeia-se um gerente e a coope-
rativa começa a funcionar. Porém de maneira nenhuma sus-
pendem-se os círculos de estudo. Sempre há novos proble- mas
para resolver, novas necessidodes que atender. Assim se
entende a educação de adultos no movimento de Antigonish”.
O Prof. Lourenço Filho teve a moção seguinte afirmada
no 2.º Congresso NacionaJ de Educação de Adultos (1958):
1. “A educação de adultos surge como um imperativo da
mudança social.
2. A mudança se caracteriza por uma ruptura dos qua-
dros tradicionais, políticos, religiosos, estéticos,
econômicos e jurídicos, decorrente da aceleração do
processo de mobilidade social, com crescente
participacão de maiores grupos de pessoas e nas
decisões da vida coletiva.
228 COOPERATIVAS ESCOLARES
3. No caso particular do Brasil, há a considerar, no mo-
mento, dois grandes e graves aspectos: a) o do des-
preparo de pràticamente metade dos grupos da po-
pulação adulta, os quais, nas idades devidas, não re-
cebem a educação elementar, ou “educação de base”,
no sentido que a esta expressão dá a UNESCO, isto é,
a aquisição daqueles elementos mínimos da cultura, de
conhecimentos e de hábitos b) o de maior ou menor
deficiência.
4. Quanto ao primeiro aspecto, é principalmente ao Es-
tado e a instituições privadas de regime de colabora-
ção com o Estado que deve caber mais intenso e ex-
tenso trabalho para recuperação de grupos “margi-
nais” no sentido da evolução econômica, política e
cultural do País.
5. A questão do educação de base deverá ser reexami-
nada.
6. Instituição de uma associação de caráter nacional,
que, de modo permanente, vele pelo problema, difun-
das idéias, e procure congregar esforços.
7. Já Rui Barbosa escrevia, há oitenta anos, que a mi-
séria cria a ignorância, e que a Ignorância eterniza a
miséria.
8. Assim considerando os princípios gerais, no atual
momento, o II Congresso reafirma os seus ideais ba-
seados na educação extensa do povo para a produti-
vidade, sem, no entanto, o esquecimento dos valores
morais e espirituais que a devem sempre inspirar.
9. Os educadores que firmam êste documento têm a
certeza de que a Nação brasileira saberá escolher”.
CAPITULO X
AINDA AS COOPERATIVAS ESCOLARES, SUA ÁREA
DE AÇÃO, SUA FORÇA EDUCATIVA. O ENSINO
COOPERATIVO
Sendo vasto o tema, nada se perde com as reiterações, as
adunações, e as recapitulações.
A lei atual é clara, acentuando que nos estabelecimentos de
ensino é que poderão fundar-se as cooperativas escolares, e
refere-se ao “diretor do instituto de ensino”. Não há, pois,
dúvida quanto à área de ação das cooperativas escolares,
quando fundadas nas escolas.
Foram as cooperativas escolares introduzidas na lei, que
lhe dá um caráter econômico acessório, acentuando-lhe a face
educativa, em conseqüência, digo-o sem falsa modéstia, e des-
vanecimento, da propaganda que iniciei no Brasil com
“Cooperativas escolares”, que foi o primeiro livro em língua
portuguêsa sôbre o assunto, tendo merecido da imprensa es-
pecializada argentina, no Brasil, em Londres e Washington, os
mais francos elogios.
Os estatutos dêsse livro, o Dr. Fernando Azevedo, tm 1933,
quando diretor do ensino em São Paulo, ia adotá-los nas
escolas primárias paulistas, como já disse.
Não há um só tratadista, como vimos, que não se refira a
êsse cunho educativo, à cooperativa escolar como “centro-de-
lnterêsse” dentro da escola, “a escola organizada socialmente”,
admirável instrumento da escola ativa.
Já citei aos maiores tratadistas e pedagogos do estrangei-
ro e do Brasil sôbre o assunto: Profit, o criador do coopera-
tivismo escolar; Cattier, Jouenne, Ballesteros, Cesar Marote,
Nicolas Repetto, Fernando Azevedo, Fábio Luz, Lourenço Filho,
etc., todos unânimes em lhes acentuar o caráter educa- tivo e
em considerá-las como organizações integradas na escola,
formas sociais complementares da escola.
M. Papie diz que o fim das cooperativas escolares é, prè-
cipuamente, o de “developper la pratique de l’association, c’est
de grouper les individus et de coordener leurs efforts”. Cattier
228 COOPERATIVAS ESCOLARES
refere-se freqüentemente às cooperativas escolares nas esco-
las francesas.
Profit dá como primeiro mandamento do cooperador es-
colar: “Le coopérateur aime son Ecole qui est sa maison, la
Maison des enfants: il la veut toujours mieux outillée, toujours
plus propre, toujours plus belle”.
Não deixando de ser o cooperativismo escolar uma mani-
festação do pensamento pestalozziano e dos ensinamentos de
Montessori, não pode deixar de ter essa significação.
A lei geral mexicana sôbre cooperativas data de 11 de ja-
neiro de 1938 (modificadora da de 1933) e assim dispunha
sôbre as cooperativas escolares:
“Las cooperativas escolares integradas por maestros y
alumnos, con fines exclusivamente docentes, se sujetarán al
Reglamento que expida la Secretaria de Educación Pública, asi
como a la autorización y vigilancia de la misma, observando,
en todo caso, los principios generales de la presente Ley”.
O regulamento foi baixado a 2 de agôsto de 1938, pos-
suindo 84 longos artigos. Seu artigo 1.° diz: “En todas las
escuelas que dependen de la Secretaria de Educación Pública y
en las particulares incorporadas, deberán establecerse coope-
rativas escolares que compreenderán todas las modalidades
necesarias dentro, del medio en que tengan que atuar”.
Tirado Benedi disse, brilhantemente:
“En el campo educativo, la cooperación aparece bajo los
seguientes aspectos que vamos a definir y estudiar:
a) — Como principio de escolanomia o de organización
interna de la escuela. En este sentido se habla de la comunidad
de la clase escolar (Schulgemeinde), de la cooperativa escolar,
como institución auxiliar de la actividad y docente, de la
escuela cooperativa, como modalidad del sistema escolar
concebido como sínteisis de la aplicación de los principios de
trabajo y de solidaridad: aspecto agonómico o de organización
interna del processo educativo”. A êste se pode juntar o prin-
cípio ergagógico ou de educação por e para o trabalho social,
que é o princípio da escola ativa (Tatschule), da escola vital,
etc.
Os estatutos dêste meu livro forom adotados pelo S. E. R.,
como modelos oficiais, e incorporados às quatro edições ante-
riores, lançadas por emprêsas editôras do Rio de Janeiro, e
logo esgotadas.
FÁBIO LUZ FILHO 229
Totomianz diz que “as sociedades cooperativas escolares
são associações integradas nas escolas; assim, as próprias es-
colas se convertem em cooperativas.
“Sua existência se justifica nas escolas modernas”.
Se uma área de ação vasta já é condenável em determi-
nadas cooperativas de adultos, imagine-se o absurdo de uma
cooperativa escolar com área de ação tentacular. Será com-
pleto dervirtuamento e contrassenso pedagógico!
O próprio Hernandez Ruiz, com seu espírito crítico, que
chega a condenar as federações de cooperativas escolares, diz:
“Lo que interessa es cada cooperativa en cada escuela”.
“Federadas o no, las cooperativas escolares deban orga-
nizarse conforme aconseje el médio, y el ámbito de la ación de
cada una será siempre la propria escuela”.
Segue, desta sorte, o sensato e autorizado critério de
Profit.
No México e na Colômbia, visam a “fines docentes”, como
vimos.
Conseqüentemente, em face da doutrina dos maiores mes-
tres universais e do que dispõem os decretos 22.239 e 581, a
área de ação é a escola, o “instituto de ensino”, na expressão do
decreto-lei 581, de cuja elaboração participei, procurando
amparar as cooperativas escolares.
A jurisprudência oficial admite, como máximo de tole-
rância, que escolas do mesmo grau do lugar possam formar
uma cooperativa escolar.
M. Profit diz que a cooperativa escolar é uma obra de
educação, é a escola socialmente organizada. A cooperativa é a
escola; não acarreta ao professor mais responsabilidades do
que as que emanam do exercício de suas funções.
O professor representa, de fato, e de direito, a cooperati-
va, porquanto esta não é mais do que sua escola, na qual é êle,
a um tempo, delegado do Estado e mandatário dos pais. Eis a
grande responsabilidade do mestre.
Como instrumento de educação, a cooperativa escolar
serve, assim, aos altos desígnios da escola objetiva, da escola
renovada, da própria instrução cívica, perfeitamente ajusta-
da aos modernos conceitos educativos, que pregam a livre ati-
vidade criadora da criança.
Em face dos imperativos econômicos do mundo atual, não
há como desatender aos ditames de uma educação nova, que
encaminhe a mocidade para a formação de uma têmpera e
uma mentalidade compatíveis com as prementes contingên-
230 COOPERATIVAS ESCOLARES
cias de um mundo que pisa o limiar de uma outra era, de for-
mação de valores novos e afirmação e maior consolidação dos
valores fundamentais que nos legaram as gerações anteriores
na fôrça de seu idealismo construtivo, vinculando-nos àquele
passado esplendor a que se refere Bourgeois e de que vivere-
mos durante séculos.
Eduquemos, pois, as crianças na solidariedade desde os
verdes anos; forjemos os fundamentos de uma sólida educa-
ção moral, social e econômica dirigida no sentido de formar
homens sadios e de realístico espírito de emprêsa, valor su-
premo, espiritualidades abertas aos esplendores e às virtudes
morais de uma educação integral, plasmadora de indivíduos
equilibrados, empreendedores, úteis e audazes, capazes de con-
duzir o Brasil, sem atitudes de contemplação, aos seus gran-
des e luminosos destinos, mobilizando suas grandes rique-
zas potenciais.
Preparemos homens fortemente instruídos, ativos e enér-
gicos, de educação humanística, aptos para buscar na terra e
nas profissões práticas o caminho da prosperidade individual e
coletiva, a valorização econômica do homem brasileiro.
COOPERATIVAS PÓS-ESCOLARES E COOPERATIVAS
JUVENIS
A lei brasileira, no entanto, não proíbe um tipo, que cha-
marei de cooperativas juvenis, como, aliás, já o fazem os por-
torriquenhos, e que poderiam funcionar fora da escola, a meu
ver, como exceção.
Profit assim definiu a cooperativa escolar:
“Elle es.. donc une association d’enfants, qui sous l’égide
de personnes amies travaillent eux-mêmes à ameliorer le milieu
materiel et le milieu moral que conditionnent leur éducation”.
E, assim, por diante, como vimos.
Como veremos adiante, é também sabido que Profit pre-
conizou, e elas existem na Europa, as cooperativas pós-escolares
ou extra-escolares (a outra será intra-escolar), de vez que são
as que permitem “aux élèves sortis de l’école de continuer à
s’intéresser à l’oeuvre et même beneficier de qualques-uns de
ses exercices, travaux manuels, excursions, etc”. Podem ser de
artesanato rural ou de aprendizagem técnica, etc., visando à
educação geral e prática dos seus associados, não lhes sendo
indiferentes o trabalho agrícola e as atividades pastoris, ou
trabalho de orientação profissional, Podem as-
FÁBIO LUZ FILHO 231
sociar todos os jovens que terminaram o curso, assim como
os operários que queiram completar seus conhecimentos. E
os franceses admitem que possam dela participar adultos,
como associados honorários, o que a nossa lei (no que fez bem)
não permite, permitindo, entanto, o assessoramento dos pais e
professôres.
Será que poderá êsse tipo de cooperativa, por uma inter-
pretação rígida, ser proibido, tipo de tão elevado alcance eco-
nômico-social, como o é a modalidade que surgiu e existe em
outros países? Se não fôr rigorosamente escolar, poderá ser
de escolares, se o quiserem, mas de finalidade igualmente edu-
cativa e com enquadramento nas assemelhadas.
Cesar Marote, ilustre educador uruguaio, um dos primei-
ros na América do Sul a aventar o tema pedagógico das insti-
tuições circum-escolares, já em 1927 preconizou cooperativas
escolares por zona, bairro ou localidade, da qual poderiam ser
associados “los alumnos de las escuelas primarias y de adul-
tos pertenecientes a la zona, los padres, tutores o encargados,
y el personal docente y administrativo de las escuelas de la
zona”.
Nada vejo na lei brasileira, repito, face ao seu artigo 21
(decreto 22.239), e ao que vimos nos capítulos anteriores, que
impeça existam essas cooperativas fora da escola, desde que
resolvida, como assinalei, a questão da capacidade civil:
um pai de aluno ou responsável, uma assistente social, um ex-
aluno que tenha atingido a maioridade, etc., finalmente, quem,
em face da lei civil, tenha capacidade para contratar, quando
isto fôr preciso. Esta, outra fórmula, de vez que se trata de
cooperativa que denominarei extra-escolar. As de dentro da
escola serão uma transição entre a macro-sociologia, vamos
dizer, que representam as cooperativas de adultos, e a micro-
sociologia, que são as escolares. Uma espécie de processo de
integração intracooperativa.
O ilustre consultor jurídico do Ministério da Agricultura,
Dr. Tertuliano de Menezes Mitchell, foi contrário a essa minha
tese, achando que atual legislação cooperativa é taxativa
quanto às cooperativas escolares dentro da escola, embora re-
conhecendo que a modalidade possa existir com outra lei.
Uma cooperativa de fato, dêsse gênero, já existiu em Cas-
catinha, município de Petrópolis, no Estado do Rio, assistida
pela dedicação e inteligência da assistente social Maria Te-
reza Teixeira Mendes, que já havia fundado aí uma de costu-
reiras e outra de crédito
232 COOPERATIVAS ESCOLARES
O COOPERATIVISMO — A DEMOCRACIA E AS
ESCOLAS DO POVO NA DINAMARCA — O ENSINO
COOPERATIVO
EM OUTROS PAÍSES
Em substancioso trabalho intitulado “The Future of Edu-
cation” (Cambridge University Press) Richard Livingstone
traça o mecanismo das Escolas do Povo dinamarquesas.
Constituíram elas admiráveis instrumentos que transforma-
ram a Dinamarca, de um país aniquilado pela miséria e amo-
dernado na inércia (primeira metade do século XIX), em uma
nação de economia organizada, de unidade espiritual, “talvez a
única democracia educada de todo o mundo”.
Foram os criadores das Escolas do Povo o clérigo
Grundtvig, culto professor de literatura, e o sapateiro Kold,
filho de sapateiro. Duas curiosas aproximações...
A primeira Escola foi fundada para combater a propa-
ganda alemã em Schleswig-Hosltein, em 1844.
A derrota que sofreu a Dinamarca em 1864, na guerra
com a Alemanha, os dinamarqueses responderam com a fun-
dação de mais escolas, transformando-se na “democracia mais
próspera e progressista da Europa”, modêlo dos métodos agrí-
colas.
De acôrdo com o ponto-de-vista de Gundtvig, essas escolas
populares, constituídas por particulares, só aceitavam e
aceitam alunos de mais de 18 anos. A vida nelas é em comum,
durante três ou quatro meses: uma espécie de escola de verão
com maior período letivo. É uma escola residencial colocada
fora das cidades, com a vantagem da sugestão do ambiente.
Possui belos jardins, edifícios agradáveis, quadros murais,
música, a vida em comum; uma família, naquela acepção em
que a emprega Munding: uma pequena célula social, a famí-
lia, como fator educativo, a verdadeira e ideal cooperação de-
vendo ser limitada nas dimensões; as organizações pouco
extensas como os melhores climas para a união. A coesão e a
verdadeira democracia dos pequenos grupos.
A educação considerada “uma fôrça moral e espiritual
que, mediante a visão de grandes ideais, eleva a mente e refor-
ça a vontade”. Nascida do desejo de fortificar o país, afir-
ma-o Livingstone, contra a opressão alemã, através da insis-
tência na cultura, história e ideais dinamarqueses, tornou-se o
fator fecundo da transformação da Dinamarca, formando,
através de um ideal, a visão e a personalidade do estudante.
FÁBIO LUZ FILHO 233
A insistência numa filosofia espiritual adaptada às ne-
cessidades e à capacidade do homem comum, fêz o milagre que
todos conhecem, estabelecendo o “reino da razão”, que é a
Dinamarca.
Têm os alunos nas Escolas do Povo urna outra visão da
vida, através da história, literatura, biologia e matemática.
Kold teve essa intuição genial: provar que “o homem pode
abrigar nobres sentimentos mesmo que ordenhe vacas e amontoe
estrume”.
Acha êle que existe uma diferença substancial entre a de-
mocracia corrente, que busca a conquista da cultura em meras
coisas materiais, e a democracia das Escolas do Povo, que pro-
curam criar costumes simples, a vida frugal e uma genuína
cultura do espírito e do coração.
Homens e mulheres saem dessas Escolas com o desejo de
aprender e de trabalhar: “Saem como homens novos, excita-
dos mental e emocionalmente, práticos na arte de ouvir, ver,
pensar e empregar suas aptidões. Saem como o caráter re-
forçado e uma visão mais ampla da vida”. É comum passarem
das Escolas do Povo para as agrícolas, como já acentuei, vol-
vendo à vida com um forte sentimento de solidariedade, e o
acrisolado desejo de cooperar para o bem da coletividade.
“A mocidade aquire, assim, alguns dos requisitos neces-
sários ao êxito do movimento cooperativo”.
“A revolução individual, econômica e política foi, com
isso, incomensurável. De um país pobre, a Dinamarca con-
verteu-se no melhor pais agrícola da Europa. O campônio di-
namarquês, em princípios do século XIX, era uma classe es-
crava. Dependente de senhores de terra e de burocratas, pas-
sava a vida em mórbida resignação. Em menos de um século
converteu-se em uma classe média que, política e socialmente,
é a que dirige hoje a vida da nação. Em fins do século passado,
esta classe já constituía o partido progressista da Dinamarca.
“As Escolas do Povo Dinamarquesas, unindo o povo
através de uma vida cooperativa desenvolvida no sentido da
igualdade social, administrando-lhe a inspiração e o sentimento
de um alto ideal humano, tornaram possível que as
transformações sociais se produzissem não como uma luta de
classes econômicas do tipo materialista, mas como um
movimento deliberação para uma vida melhor para o homem”.
Já acentuei que Hertel, o historiador do cooperativismo
dinamarquês, já assinalava que essas Escolas do Povo desper-
tam nos jovens de ambos os sexos verdadeiro anelo de saber e
234 COOPERATIVAS ESCOLARES
desejos de trabalhar, fortalecem o caráter dos alunos e am-
pliam as perspectivas de vida sã e útil.
Para satisfazer êsse desejo de saber, estabeleceu-se, como
já ficou evidenciado, elos entre as Escolas do Povo e as
escolas de agricultura. Hertel acentua que, quando das
Folkenhöjskolem os alunos passam diretamente à vida, já
levam formado um forte sentimento de fraternidade e um
fervente desejo de trabalhar pelo progresso comum. "A
sociedade nelas adquire algumas das qualidades necessárias
ao desenvolvimento cooperativo".
Em "Teoria e prática das sociedades cooperativas", friso
as razões por que a Dinamarca se intitula, a justo título, o
"reino da razão", na admirável lucidez de uma mentalidade
vibrante e arejada, e numa alta, sincera e fecunda percepção
democrática, milagre esplendoroso do sentimento pátrio e da
solidariedade humana.
Em recente trabalho, Fabra Ribas, frisou a relevância do
setor educativo. Demorou-se êle na caracterização, sob êsse
ângulo, do movimento sueco, confirmando o que já disse.
Dão tanta importância, os suecos, a êsse setor, que assim
o estruturaram:
1.º - Escolas por correspondência (Brevskolan), fundadas
em 1919, as quais em 1946 tiveram uma freqüência de 66.918
alunos em seus grupos ou círculos de estudos, de repercussão
mundial e copiados pelo Canadá e pela América do Norte
com os mesmos resultados educativos, como já foi acentuado.
Além dêsses alunos, 24.158 estudantes fizeram cursos
especiais.
2.º - Grupos ou círculos de estudos - Têm por objetivo o
conhecimento da doutrina e da prática cooperativas, a
organização da família (célula econômico-social básica na
teoria cooperativa), os problemas relativos à mocidade, etc.
Em 1946 funcionaram 3.390 círculos com uma freqüência de
54.997 alunos.
3.° - A Escola de Cooperação - denominada "Var Gard"
(Nosso Lar). Fica ela na península de Seltsjobaten, perto de
Estocolmo. Seus cursos visam ao preparo de empregados e à
educação cooperativa dos associados. São cursos intensivos
de quatro a cinco semanas. Há também cursos de dois anos
para alunos de maior nível de aproveitamento e de cultura
geral.
Teve essa Escola em 1946 para mais de 1.200 alunos, dos
quais mais de 900 eram empregados de cooperativas.
FÁBIO LUZ FILHO 235
Há, ainda, o “Var Tidning” (“Nosso periódico”), publi-
cação mensal.
4.º — Publicidade — É do domínio do órgão federativo
supremo do movimento sueco, fundado em 1889 — a
Kooperativa Förbundet. Constitui o setor de publicidade
mais importante da Suécia em assuntos econômicos. Possui
também edições especiais de livros para crianças.
Mantém uma grande revista denominada “Vi" (que
quer dizer “Nós outros”). É uma revista de assuntos
familiares com uma tiragem de 600 .000 exemplares,
superando todos os demais órgãos publicitários da Suécia.
Há, ainda, o Kooperatoren, jornal oficial da citada
federação, de saída mensal.
O ensino nas Escolas
Baseia-se o ensino nas supracitadas Escolas em uma
preparação técnica elementar ministrada através da escola
por correspondência e dos famosos círculos ou clubes de
estudos, tão bem descritos por Richardson e Warbasse. A
experiência prática adquirida pelos alunos é outro elemento
de que lançam mão essas Escolas.
Em 1938 os cursos por correspondência foram
destacados e constituíram setor autônomo.
Os cursos
Os principais cursos são três:
a) — Curso para empregados jovens de 25 anos, curso
êste de uma semana;
b) — Curso destinado a empregados de 25 a 27 anos,
para certos gerentes, com duração de um mês;
a) — Curso para empregados de 27 a 30 anos,
destinados a cargos de gerentes e outros que impliquem
maior responsabilidade.
Condições exigidas para os cursos
Para admissão no primeiro curso é necessário ter
freqüentado um curso por correspondência sôbre estatutos-
modelos e sôbre trabalhos de armazém em cooperação.
236 COOPERATIVAS ESCOLARES
A admissão ao Segundo curso está subordinada ao
estudo por correspondência de contabilidade, cálculo,
caligrafia, economia política e cooperativismo.
O terceiro curso exige que o aluno tenha estudado por
correspondência direito comercial e tenha estudos mais
complexos sôbre economia política, contabilidade, etc., além
de ter seguido o segundo curso e possuir qualidades do
chefia.
Há, ainda, outros cursos especializados, tais como:
1.º — Cursos especializados de uma semana, para os
empregados de cada um dos diferentes ramos: comestíveis,
fiambres, calçados, etc;
2.° — Cursos de quatro a cinco semanas, cursos
complementares de igual duração, e cursos de revisão de
duas semanas para gerentes;
3.º — Cursos para empregados de oficina, de uma
semana, para operários, e de uma semana para contratados;
4.° — Uma semana de conferências com os verificadores
do distrito da União Cooperativa Sueca;
5.º — Cursos de uma semana para os comités de direção,
para os comités de distrito, para os diretores de círculos de
estudos cooperativos, para os círculos femininos, etc.;
6.° — Permanência durante dois anos na Escola para um
número limitado de estudantes, através de rigorosa seleção,
estudantes que se destinam a cargos de importâncias, tais
como: diretores de grandes sociedades, diretores de
propaganda, etc. São êsses estudantes também preparados
aos poucos para professôres adjuntos, visitam cooperativas
de consumo, celebram reuniões com o pessoal, fazem
palestras e conferências, etc.
Geralmente êsses estudantes são gerentes de armazéns e
precisam ter freqüentado os três cursos básicos já referidos
acima, e devem provar que possuem qualidades práticas e de
direção, com o respectivo senso de responsabilidade.
Durante a permanência na Escola recebem, os alunos, os
mesmo salários que recebiam anteriormente.
Tôdas as despesas são pagas pela União Cooperativa
Sueca, ou pela cooperativa de que seja empregado o
estudante.
AINDA A EDUCAÇÃO EM OUTROS PAÍSES
O Departamento de Educação da “Sociedade
Cooperativa de Londres”, que, com mais de 792.000
associados, realiza cursos, conferências e exerce outras
atividades culturais, defi-
FÁBIO LUZ FILHO 237
niu o que se deve entender por educação cooperativa, frisando
que o objetivo da educação cooperativa é, primeiramente, a
formação de um caráter e uma opinião cooperativa por meio
do ensino da história, teoria e pródromos do movimento, com
a história econômica, industrial e constitucional no que se
refere ao cooperativismo; em Segundo lugar, ainda que nem
sempre de menor importância, o treinamento de homens e
mulheres para tomarem parte nas reformas industriais e so-
ciais e na vida cívica em geral.
Deve-se também observar que as atividades educativas
do movimento cooperativo freqüentemente se encontram
associa- das ou suplementadas com planos recreativos de
diversas clãs-ses, projetados para promoverem relações de
amizade e mútuo conhecimento.
“A educação cooperativa de concebe, pois, num sentido
amplo e profundo, isto é, além de sua função dentro ou além
dos limites do terreno estritamente cooperativo, é uma educa-
ção no sentido da responsabilidade e das relações humanas”.
“Não podem existir sociedades verdadeiramente
coopera-tivas enquanto os indivíduos que as compõem não só
se te- nham educado nos princípios e métodos cooperativos,
senão que tenham convertido o cooperativismo não só num
meio, não ùnicamente de ajuda para o associado
indivìdualmente, mas também de ajuda para a comunidade".
O mais importante não é a êxito cooperativo no campo
econômico, mas a filosofia e a ética cooperativas, que encer-
ram uma fé na perfectibilidade da conduta humana e uma
nova concepção das relações humanas.
“Nenhuma emprêsa humana será merecedora de nosso
esfôrço a não ser que o seu processo contribua de alguma for-
ma para a contínua evolução do homem... Em nossa prática
cooperativista a humanidade nos apresenta um processo de
civilizar-se a si mesma”.
E Maurice Colombain acentua, com muita justeza, que
a primeira tarefa da educação cooperativa é dar aos homens
livres fé e consciência, criar e fortalecer-lhes o sentimento da
liberdade e da igualdade por meio do conhecimento viril de
suas responsabilidades. Obra necessária, mas ainda insufi-
ciente.
Walter Scott conta que, um dia, utilizando-se êle dos ser-
viços de um barqueiro, percebeu que num dos remos do barco
estava inscrita a palavra “Fé” e, no outro, a palavra Traba-
lho". Perguntando ao barqueiro o motivo daquilo, êste, em
resposta, manobrou com vigor o remo a que chamava “Fé”,
238 COOPERATIVAS ESCOLARES
e o barco começou a rodar sôbre si mesmo, sem rumo. Mano-
brando o remo “Trabalho”, disse a Walter Scott o barqueiro
que o bote então caminhava direito porque empregava “Tra-
balho" juntamente com “Fé”. Assim sucede com o barco
cooperativo. Não há possibilidade de navegar se não for im-
pulsionado pela fé e, tampouco, poderá navegar com seguran-
ça e bem orientado se não fôr movido, também, e ao mesmo
tempo, pelo trabalho, isto é, pela colaboração de todos os que
lhe confiaram seus interêsses e suas esperanças. Necessita-
mos, pois, de aprender a trabalhar juntos, a pensar e sentir
juntos. Temos que aprender a solidariedade. Devemos edu-
car-nos.
Já houve quem dissesse que o cooperativismo é um
movimento de natureza econômica que se vale, com
inteligência e propriedade, da educação ou um processo
educativo que tem por instrumento a ação econômica, como já
vimos.
Tão necessária é essa educação que, na Suécia, Índia,
Inglaterra, Canadá, Estados Unidos, etc., existem cátedras
nas escolas superiores, inclusive de agricultura, para o ensino e
a prática do sistema cooperativo, que em muitas constitui
uma disciplina autônoma.
Na Inglaterra, por exemplo, o “Cooperative College”,
em Manchester, teve a seguinte freqüência em seus cursos em
ple-na guerra: jovens, 1.200 cursos com 35.000 alunos; adultos:
335 cursos, com 7.000 alunos; cursos pora dependentes e em-
pregados de cooperativas: 1.338 com 23.871 alunos. Êsse
estabelecimento de ensino terá brevemente a sua alta escola de
cooperativismo, com trabalhos de laboratório e investigação.
Os “comitês” de educação cooperativa são reconhecidos
pelo govêrno inglês e têm representação no “National Educa-
tion Council”.
O govêrno provisório austríaco foi presidido pelo Dr.
Kart Renner, o qual dirigia, ao mesmo tempo, a pasta das
Relações Exteriores. Conhecido nos meios cooperativistas
mundiais, pertencia êle ao Comité Central da Aliança
Cooperativa Internacional, órgão centralizador e coordenador
do movimento cooperativo internacional com sede em Londres.
Era ainda presidente da Uniào Central de Consumo das
Cooperativas de Consumo da Áustria.
O Sr. Andreas Korp foi um dos diretores gerais da
Cooperativa Central de Abastecimento. O Sr. Duchinger, que
foi ministro da Agricultura, era lider de destaque da União das
Cooperativas Agrícolas da Áustria.
FÁBIO LUZ FILHO 239
Vários países da América do Sul (Argentina,
Colômbia, Venezuela, Peru, etc.) possuem Centros e Institutos
de Estu- dos Cooperativos. No Peru a “Escola de
Cooperativismo” ti- nha pessoal idôneo e especializado, e o
Congresso de Estudan-tes aprovou uma moção sugerindo a
criação de uma cátedra de cooperativismo na Faculdade de
Direito e Ciências Políti- cas e Sociais. O Brasil fundou em
1949 o “Centro Nacional de Estudos Cooperativos”, de que sou
presidente, e Valdiki Moura, secretário-geral.
A Universidade Operária da Colômbia em Bogotá,
incluiu em seu currículo um curso de cooperativismo. Acabo de
acentuar em meu último livro — “Teoria e prática das
sociedades cooperativas” — como o Bureau International du
Travail traçou o quadro do ensino cooperativo em vários
países, entre êles a Índia, país agrícola e subdesenvolvido, onde
pelo menos dez universidades dão cursos de extensão sôbre a
história e a teoria cooperativas. E já o mundo conhece os
efeitos de seu plano qüinqüenal, e o lugar do relêvo que tem o
cooperativis- mo agrícola na reforma agrária dêsse grande
país.
NA ÁFRICA
Como bem o assinalou “Informactions Coopératives",
antes da segunda guerra mundial, as cooperativas, tais quais
são encaradas hoje, eram pouco conhecidas das populações da
África Oriental, com exceção de um ou dois exemplos, que não
podem ser considerados, dada a sua estrutura especial, como
a União Cooperativa indígena de Quilimandjaro.
Apesar da grande evolução do movimento depois de
1946, muito especialmente o das cooperativas de compra e
venda — apesar do desenvolvimento muito rápido e poderoso
do movimento cooperativo africano em cada um dos três
territórios da África Oriental (Quênia, Tanganica e Ougardo),
o analfa-betismo, a ignorância dos princípios e das técnicas da
coope-rativa, a falta de conhecimentos elementares dos
negócios da cooperativa, mesmo entre os próprios associados,
retardaram qualquer progresso real.
Foi a urgente necessidade de difundir a educação e a
formação cooperativas que levaram os departamentos
especiali-zados dos três governos a instituir a escola de
cooperativismo da África Oriental com a finalidade de
formar, antes de tudo, inspetores africanos dos departamentos.
Trabalhando em con-junto estão encarregados não sòmente de
encorajar a consti-
240 COOPERATIVAS ESCOLARES
tuição dos cooperativas, mas, ainda, de dar orientação, ensinar
contabilidade, Os princípios e métodos cooperativos assim co-
mo verificar as contas, realizando trabalho de inspeção.
Êsses inspetores visitam diàriamente as cidades, e
perma-necem em contacto direto com associados e dirigentes
das cooperativas. É sobre êles que se deve apoiar o
Departamento de Cooperativas, para difundir os únicos
conhecimentos em matéria cooperativa de que dispõem até
hoje. É por esta razão que se considera sua formação como
medida inicial e final-mente à qual está condicionado o
progresso do movimento, aindo tão novo.
A Escola de Cooperativas da África Oriental constitui um
estabelecimento especial dentro do vasto quadro de um orga-
nismo situado a quinze quilômetros de Nairobi, a “Jeannes
School”.
Esta última é centro de desenvolvimento das comunida-
des cuja função é formar os dirigentes africanos. Os cursos
realizados na escola constituem a base e o estímulo necessá-
rios à Escola de Cooperativismo, porquento é indiscutível que
a base do desenvolvimento de uma comunidade reside no seu
progresso econômico. O centro e os distritos organizam, jun-
tos, programas que visam ao desenvolvimento das comunida-
des, cursos para professóres, inspetores do Serviço de Saúde,
delegados de "liberdade controlada", mulheres, ou outras ca-
tegorias de alunos e cursos mais rápidos para chefes, conse-
lheiros, fazendeiros e monitores, etc.
Os três Departamentos de cooperativismo interessados,
dividem os gastos da remuneração de pessoal, papelaria, almô-
ço de estudantes, conducão, etc.; não se pede aos estudantes
nada mais que comprar seus manuais.
Abaixo vêm descritos a categoria de estudantes escolhi-
dos, programa dos cursos, métodos de ensino e formação pra-
tica que oferecem, trabalho que trará contribuição de real va-
lor ao progresso e ao desenvolvimento das cooperativas na
África Oriental.
PROGRAMAS E MÉTODOS DE ENSINO
O ensino do cooperativismo se estende por 2 períodos
dos cursos da “Jeannes School”, 20 semanas
aproximadamente.
Os cursos compreendem as matérias seguintes, classifica-
das na ordem da prioridade:
Prática do cooperativismo e funções de inspeção
Contabilidade cooperativa
FÁBIO LUZ FILHO 241
Legislação cooperativa
Economia cooperativa
Estudo de cooperativismo no estrangeiro
Métodos comerciais.
Êstes assuntos foram especialmente escolhidos para
satisfazerem necessidades educativas.
Seria interessante mencionar ainda os meios que a
“Jeannes School” oferece no domínio da "instrução cívica”,
que constitui uma parte fundamental do programa de
formação traçado pela Escola; sua finalidade é encorajar o
estudo, e compreende noções de geografia econômica e
humana, história da África Oriental, assim como elementos
de economia política ilustrados com exemplos referentes à
situação do país. De outra parte, os estudantes têm à sua
disposição uma biblioteca especializada em questões
cooperativas.
Fora do programa normal de estudos, introduziram-se
diversos projetos que visam a reforçar as atividades escolares
cooperativas, dos estudantes. Algumas delas são assim resu-
midas:
Conferências — O método de base escolhido foi o do
ensino individual para adultos, seguido de discussão. Graças à
importância que tem para cada estudante em particular e pa-
ra suas necessidades próprias, êste método demonstrou gran-
de eficiência, particularmente em trabalhos escritos. Per-
mitia-se ao estudante escolher o assunto que quisesse e for-
mulam-se a todos questões abarcando três temas por semana
sem contar importantes trabalhos práticos.
Debates — Foram recebidos com grande entusiasmo. O
ambiente de camaradagem do grupo dava experiência e se-
gurança de se expressarem. A escolha do tema era dado aos
alunos, mas sempre versou sôbre assuntos ligados ao coopera-
tivismo.
Grupos de estudo — O funcionamento dêstes grupos re-
pousa sôbre uma “caixa pedagógica” para o cooperativismo
agrícola, fornecida pelo Conselho Britânico. A caixa contém
um guia para o monitor, folhetos sôbre trabalho em grupo,
escolha de livros e diversos elementos pedagógicos como
gráficos, filmes, e o registro das questões feitas por um
estudante sôbre o cooperativismo agrícola.
Êste material demonstrou sua utilidade para o ensino
das técnicas da discussão em grupo.
“Brains Trust” — Constituiu-se um Centro de
estudantes, os mais brilhantes, que respondiam às questões
feitas pelos es-tudantes que freqüentavam os cursos.
16—27 454
242 COOPERATIVAS ESCOLARES
Educação visual — Desempenha um papel importante
no ensino na África. A escola dispõe de uma sala de educação
visual equipada de projetores de 16 mm. Organizou-se, todas
as semanas, um programa sôbre cooperativas, O mais possível
ligado aos assuntos da semana.
Visita de estudos — Foram realizadas visitas de ordem
cooperativa, agrícola, comercial e cívica e a lugares de interês-
se particular, como: Escola Técnica Profissional de Kebete,
Conselho Legislativo Municipal de Quênia, fazenda da “Jean-
nes School” e Departamento Feminino de Artes Domésticas,
assim como a fazendas africanas ou européias, etc.
Exames — No final do curso foram realizados exames.
As cópias dêstes exames foram enviadas ao Departamento de
Cooperativas.
Categoria de estudantes admitidos ao curso — O nível
mínimo de admissão aos cursos foi de 10 anos de estudos.
"O cooperativismo, segundo opinião de alguns, não pode
desenvolver-se em populações primitivas e analfabetas; mas a
tentativa realizada na África Oriental confirma os ensinamen-
tos da experiência dinamarquesa: a organização e o ensino
cooperativos podem progredir em qualquer meio. A
experiência e os conhecimentos adquiridos pela gente simples,
através da criação e do funcionamento de suas próprias
cooperativas, constituem um método pedagógico de
importância vital, precioso não sòmente para os interessados e
a sociedade ela mesma, mas ainda para a comunidade no seu
conjunto; êste método deve ser, entretanto, utilizado
conscienciosamente, e contribuir, assim, substancialmente,
para implantação da liberdade econômica,
“A Escola de Cooperativismo na África Oriental
constitui, portanto, enorme progresso neste sentido, e a glória
retornará àqueles que tiveram a lucidez e a energia necessárias
á sua realização.
“A escola crê firmemente que a formação profissional e
a educação dos inspetores africanos farão sentir sua influência
e contribuirão para encorajar e fortalecer o movimento coope-
rativo na África, quando o centro tiver maiores desenvolvi-
mentos, e houver, assim, pessoal técnico suficiente. Espera-se
fazer obra útil, preparando cursos por correspondência em
língua indígena para empregados de cooperativa.
CAPÍTULO XI
AS COOPERATIVAS PÓS-ESCOLARES E OS GRUPOS
SOCIAIS DE TRANSIÇÃO, A COMUNIDADE RURAL,
A AÇÃO DO ESTADO, A EDUCAÇÃO
As Cooperativas pós-escolares, como o nome a indica, são
cooperativas que se poderão formar depois de terminar o alu-
no o curso escolar, como já o frisei.
Têm por finalidade, essas cooperativas, dar aos ex-alunos
e também a filhos de operários pobres, meios de continuar sua
educação geral e proporcionar-lhes meios de adquirir ensino
técnico, preparando-os para os ofícios manuais, o artesanato
rural, a agricultura e a criação, desenvolvendo-lhes aptidões
úteis para os vários misteres, num sentido objetivo. A coope-
rativa também poderá adquirir material didático e instru-
mentos de trabalho, distribuindo socorros e adquirindo, para
uso de seus associados, as ferramentas necessárias e até mes-
mo instrumental agrícola. Dar-lhes-á orientação profissiona
auxiliando-os na procura de emprêgo, principalmente aos
órfãos de famílias numerosas.
Profit, acompanhando a Munding, insiste em que se deve
tomar o princípio da família para exemplo e para guia, e, pela
prática, iniciar as crianças na concepção do Estado, procuran-
do realizar na escola um grupo social de transição. No grupo
assim constituído, as alunos devem encontrar uma imagem
do Estado, todo um microcosmo, ao mesmo tempo que uma
família mais ampla, família essa que ensina o amor desinte-
ressado, a abnegação, o devotamento, tôdas as virtudes que
cimentam a grande sociedade dos homens, a afeição, na fa-
mília, apoiando-se na comunidade de origem, do trabalho e de
destino, constituindo o tipo mesmo da sociedade cooperativa.
Payot, em “A moral na escola”, frisando como o trabalho
criou o pão, como o próprio egoísmo coopera e como o traba
lhador cria a felicidade, acentua que só a família com as seus
deveres nos põe em face das realidades da vida, desenvolvendo
em nós todos as energias da inteligência, do coração e da
vontade.
244 COOPERATIVAS ESCOLARES
Como na família, acentua ainda Profit, há na coperativa
escolar um capital comum, uma caixa alimentala e gerida pelo
esfôrço comum, aparelhos e instalações que estão à disposição
de todos e sob a guarda de todos É fortalecida a afeição pelas
relações mais estreitas e freqüentes que se estabelecem e que
fazem nascer um desejo coletivo de melhoria e o sentimento
de colaborar para o progresso comum.
“Para evitar os afãs lucrativos, diz ainda Hernandez
Ruiz, o melhor, nas cooperativas escolares, é a fixação
regulamentar de um limite máximo de fundos a possuir em
dinheiro e a subseqüente obrigação de inverter em obras
escolares ou de assistência social interescolar todo o excedente
que se obtenha. Êsse excedente pode ser, para a maioria das
cooperativas escolares, de 500 a 1000 pesetas, dentro,
assim, dos limites da modéstia e simplicidade que
recomendamos.
“Na cooperativa escolar não há distribuição de excesso
de percepção". (Outros não pensam assim).
“El aprovechamiento individual dependerá de las necesi-
dades respectivas de los cooperadores, que la colectividade de-
terminará y valorará”.
Refere-se, também, apoiado freqüentemente em Profit e
Cattier, às associações de antigos alunos e as cooperativas pós-
escolares (notadamente as de artesanato rural, como assinala
Profit).
O projeto de lei do Colômbia sôbre cooperativas
escolares tem 81 (oitenta e um) longos artigos nos quais se
acentua que as cooperativas escolares são organizações
essencialmente Educativas. O mesmo ressaltam as realizações e a
doutrinação do Office Central de la Coopération à l’École,
fundado em Paris por Fernando Buisson, o grande
pedagogo francês, Charles Gide, o grande economista, e Albert
Thomas, o conhecido cooperativista, e de que foi presidente G.
Prache, da Fédération Nationale des Coopératives de
Consommation. Aquela organização está sob o patrocínio do
Ministro da Educação Nacional da França. Acabo de receber
The Year Book of Agricultural Cooperation — 1940 — de
Londres, com a co-laboração que lhe enviava anualmente. Nêle
encontrei referéncia à República do Peru: “The Peruvian
Governement has embraced these ideals and established rural
schools as a first step toward the spreading of the principles of
co-operation”.
FÁBIO LUZ FILHO 245
Francisco Alvarino Herr acentua a influência, no Peru
primitivo, do ayllus, forma interessante de mutualidade seme-
lhante ao clã, na população indígena dêsse país, como já
vimos.
OS MANDAMENTOS DO COOPERADOR ESCOLAR
I— O cooperador ama a sua escola, que é a sua casa, a
casa dos meninos: deseja-a sempre melhor instalada, mas
limpa, mais bela.
II— Para chegar a ser um bom cooperador é preciso pri-
meiramente ser assíduo e pontual, limpo e ordenado, enérgico
e disciplinado.
III— É necessário, sobretudo, saber sacrificar, em caso
de necessidade, uma parte do próprio direito para o bem de
todos ou mesmo de um só, e esforçar-se por tornar-se cada vez
mais apto para o sacrifício, flor suprema da vida.
IV— O cooperador tem consciência de seus deveres em
relação aos seus companheiros, mestres e pais.
V— Olha os seus companheiros como irmãos. Só lhes
dar bons exemplos é seu primeiro dever para com os mesmos.
Ama, sobretudo, os infelizes, os fracos, os pequenos, os novos, e
esforça-se por que a escola lhes seja agradável.
VI— É sincero e leal, amável e cortês, complacente e
serviçal. Não pensa que a camaradagem e a familiaridade pó-
dem excluir a cortesia.
VII— O cooperador compreende que a disciplina é uma
necessidade de interêsse geral. Sabe obedecer àqueles que seu
grupo elegeu para dirigentes; se êle mesmo designado, não
esquece que o melhor meio de ser obedecido é dar exemplo de
fidelidade à lei comum. Saberá, mais tarde, traçar-se normas
e seguí-las. Em tôdas as situações há a responsabilidade de
seu atos.
VIII— Antes de formar uma opinião e antes de decidir,
o cooperador tratará de se informar o melhor possível. Esfor-
çar-se-á por pensar honradamente e falar corretamente, pois
sua palavra é sagrada.
IX— Depois de refletir e decidir, sabe atuar
enèrgicamen-te, com coragem e bom humor.
X— O cooperador será sempre um homem justo e bom,
generoso e valente; um homem de iniciativa e progresso”. —
Profit.
246 COOPERATIVAS ESCOLARES
O COOPERATIVISMO, A COMUNIDADE RURAL,
A EDUCAÇÃO E A AÇÃO DO ESTADO
(Conferência realizada por Fábio Luz Filho na II Reunião
de Consulta as Cooperativas, realizada em Recife em
maio de 1954)
Não há muito, ilustre técnico da ECAFE (Comissão Eco-
nômica das Nações Unidas para a Ásia e o Extremo Oriente),
Sunitro Djohadikusomo, comentou, com acuidade e justeza,
a contribuição do economista para a política econômica ajus-
tável às áreas econômicamente subdesenvolvidas. Nas condi-
ções sociais destas regiões, diz êle, merece tôda a atenção a
falta de tecnologia e um espírito organizado e com capacidade
administrativa. Não obstante seja conseqüência da estrutura
social, repercuti mal no setor econômico. O processo econô-
mico, é ,atualmente, baseado no aproveitamento da inteli-
gência em tôdas as suas formas, podendo mesmo a capacidade
de organização ou administrativa ser considerada como o
quarto elemento da produção.
Assim sendo, a conservação de instituições e de costumes
obsoletos pode impedir a modernização, o desenvolvimento
econômico e o progresso social. Os fatôres econômico-sociais
são também as causas precípuas do estado de atraso em que se
encontraram as populações rurais. Nas regiões em que há
grande concentração da propriedade nas mãos de uma parte
relativamente pequena da sociedade, a insolvabilidade do ren-
deiro em relação ao proprietário da terra tende a se perpetuar.
Onde não há concentração da propriedade, a situaçäo da
população rural não é, na realidade, mui diferente. Neste caso,
os camponeses são pequenos proprietários e contraem dívi-
das com os comerciantes e os banqueiros que vivem nas cida-
des. A colheita ou a terra, e algumas vêzes ambas, são hipo-
tecadas em garantia do pagamento de dividas, pela ausência
de organização econômica ao serviço dêles.
“Como os credores controlam o preço da colheita, o
deve-dor geralmente não pode resgatar a sua dívida. A
insolvabilidade prolongada provoca a execução da hipoteca e
o camponês se torna rendeiro na sua própria terra, cujo
domínio êle ainda conserva nominalmente”. (Não tem sido
outra, dizemos, a linguagem dos que, aqui e alhures, pugnam
pelo advento de uma reforma agrária de base).
FÁBIO LUZ FILHO 247
“As instituições e os costumes, continua, existentes na
economia agrária das regiões subdesenvolvidas, representam,
muitas vêzes, obstáculos ao desenvolvimento econômico e ao
progresso social. Dificultam a mobilidade do capital e do
trabalho e a formação de espíritos novos, fatôres indispensá-
veis para encontrar a solução dos problemas da atual econo-
mia mundial”. (Como que estamos vendo a imagem, neste
campo, do Nordeste brasileiro).
E conclui, o ilustre técnico:
“Ja se focalizou a estreita correlação existente entre o
desenvolvimento econômico e a social. Conseqüentemente, em-
bora a educação tenha uma função social própria, seus princí-
pios, sua natureza e seus fins devem ser condicionados pelas
exigências do desenvolvimento econômico e do progresso so-
cial. Os aspectos educacionais da sociedade devem ser organi-
zados a fim de contribuírem para diminuir as dificuldades
criadas pelas transformações sociais. O desenvolvimento eco-
nômico e social e a educação são, pois, fatôres correlatos que
convergem para a criação de condições que vão permitir a rea-
lização do progresso dinâmico das transformações sociais, ba-
seada na cooperação ativa e voluntária das populações rurais”.
Será a volta ao princípio filosófico do “gotongroyon” indoné-
sico (ajuda mútua).
Temos, assim, nas linhas acima, sensatos conceitos que
se aplicam perfeitamente às condições sócio-econômicas do
Brasil, nos seus contrastes, donde sua escolha para a citação.
O MOVIMENTO COOPERATIVO
E O ESTADO
Falta ao movimento cooperativo sul-americano, sobretu-
do ao de natureza agrícola, aquela base educativa, por moti-
vos óbvios, educação que deu estabilidade ao movimento euro-
peu, como nô-lo descreve Valdiki Moura em seu brilhante “Dez
faces do Mundo”. Deu-lhe ela a necessária fibra para receber,
impertérrito, os ominosos embates de duas guerras hediondas,
que trouxeram a subversão de valores materiais e espirituais,
das quais, no entanto, se reergueu, dinâmico, altivo e fecundo,
cada vez mais animado de seus altos propósitos de renovação
humana.
Há tempos aludimos a um trabalho da Oficina Interna-
cional do Trabalho, de Genebra, e às relações que essa Oficina
manteve com os serviços oficiais de numerosos países, tendo
248 COOPERATIVAS ESCOLARES
nós mesmos tido oportunidade de responder, em língua fran-
cesa, a longo questionário nesse sentido, no qual ressaltamos
o que há anos se faz no Brasil e os óbices defrontados, pró-
prios de países subdesenvolvidos.
É êsse trabalho da lavra de Campbell e reporta-se a êsses
países subdesenvolvidos, dos quais tem longa experiência,
achando êle que a participação dos governos no fomento e de-
senvolvimento cooperativos, nos países dêsse tipo, é necessária
e indispensável. Frisa que, em uma coletividade evoluída, o
govêrno, na pessoa de seus técnicos, nada tem que fazer, o que
se não dá com as comunidades insuficientemente desen-
volvidas, nas quais os cooperadores são pouco instruídos, pó-
bres, ignorantes por completo dos métodos e processos comer-
ciais, o que os obriga a uma assistência maior.
Assinala êle, como já o frisamos, que há, nessas comuni-
dades, necessidade de se encorajar, dirigir e controlar as ope-
rações das cooperativas, ate atingirem elas certo estágio da
maturidade. Mas, ao seu ver (do que temos nós, no Brasil,
experiência bastante), isto é tarefa que exige competência e
conhecimento do que se tem feito em outros países de situa-
ções análogas (claro que não vamos comparar os países
sul-americanos à Suécia, Dinamarca, Suiça, Inglaterra, etc.), os
métodos que nêles deram resultados e os que fracassaram.
Tudo isto é aceitável, se guardados os devidos limites,
pois a interferência do Estado deve ser dirigida num sentido de
orientação e assistência, como vimos fazendo no Brasil. De
uma maneira extremamente hábil, o funcionário competente
nunca deve perder de vista que o objetivo da ajuda não é o de
fazer o trabalho dos associados, mas ensiná-los a agir por si
mesmos. “A insuficiência da fiscalização pode levar as coope-
rativas a serem muito pródigas, a se lançarem em emprêsas
ambiciosas, além de suas capacidades e não previstas pelos
estatutos, ficando aberta a porta é deslealdade, à negligência
nas contas e à retirada de fundos, devido à ignorância e à
má fé”. E, contràriamente, um excesso de fiscalização e a in-
gerência podem diluir-lhe o senso de responsabilidade, dimi-
nuir-lhe a vitalidade e fazer crer aos associados (com isto é
comum no Brasill) que o “Govêrno” irá gerí-las por êles, acen-
tuando-lhes a idéia do Estado carismático, etc. “Une telle
attitude est l' antithèse même de la cooperation”.
No comêço, acentua ainda, é necessário que o Govêrno
dê ás cooperativas certo apoio financeiro direto, visando a
dar-lhes possibilidades de atingir um estágio no qual poderão or-
ganizar e controlar seus próprios serviços financeiros, em au-
FÁBIO LUZ FILHO 249
to-suficiência. Não deve, em conseqüência, emprestar-lhes a
Juros de favor, ou sem juros, ou a juros inferiores àqueles que
exigem uma sã economia, mas a juros que suas próprias insti-
tuições deverão exigir um dia. “Se êsses juros parecerem mui-
to elevados, uma fração dêles poderá ser utilizada para ajudar
as sociedades em sua obra educativa, ou em seu trabalho de
contrôle.
No Brasil, a ação do Estado deverá fazer-se e vem sendo
feita nos têrmos indicados, sem se tolher a liberdade de inicia-
tiva, a liberdade de organização econômica por meios coerciti-
vos. Orienta-se e aconselha-se; não se pode nem se deve impor.
Não nos parece desejável vivamos em regime de paternalismo
indefinido, já o dissemos. As cooperativas são organizações de
natureza privada com autonomia garantida por lei, e defluindo
de princípios doutrinários universais.
Margaret Digby disse, em “The world movement”, que
onde o movimento cooperativo é olhado como uma forma de
serviço social, é amparado por privilégios legais e fiscais; o
crédito nacional é pôsto à sua disposição; as relações entre o
movimento e os departamentos oficiais especializados devem
ser levados a elevado grau de eficiência e o princípio social
deve ser mantido. “Co-operative law like the cooperative
move- ment, is the product of growth, experience and the
flexible mind”.
Warbasse mesmo, defensor caloroso da auto-suficiência
cooperativa, concorda em que à não-intervenção do Estado só
existe única exceção: as emprêsas cooperativas fundadas por
pessoas excepcionalmente pobres, casos em que as governos
têm tido interferência no sentido do financiamento e do asses-
soramento iniciais. Isto sucedeu com as cooperativas de crê-
dito cooperativo da Índia; com as “Federal Farm Belief””;
com as “Cooperativas de ajuda mútua" entre desocupados na
América do Norte; com as cooperativas de habitações na Ale-
manha, Dinamarca e Suécia; com as cooperativas de campo-
neses de vários países e com a Liga Cooperativa da China;
com as cooperativas de pescadores de Cuba e as agrícolas de-
nominadas Martí.
Acha Warbasse, com razão, que essa ação governamental
representa, no fundo, uma economia para o próprio govêrno,
de vez que substitui o socorro aos necessitados, pois a filantro-
pia não é mais do que um simples paliativo. O método coope-
rativo põe os necessitados em condições de se ajudarem a si
próprios, sem humilhações ou recalques. Os resultados se
fazem sentir profundamente quando as cooperativas, por
250 COOPERATIVAS ESCOLARES
mais precárias que sejam seus começos, conseguem devolver
ao govêrno os empréstimos que do mesmo receberam.
“O grande movimento mundial foi criado, geralmente,
por pessoas que se achavam pouco acima do mais baixo nível
econômico”.
“Dispondo de escassos recursos, souberam combinar a
iniciativa e a fé no próprio esfôrco com a necessidade da econo-
mia. Fundaram as cooperativas com o fim de aumentar sua
capacidade aquisitiva e, como conseqüência derivada de tal
propósito, criaram valores sociais de importância mui supe-
rior ao fato concreto da economia".
Daí serem sempre lembrados os bravos “Tecelões de
Rochdale”, daí serem sempre evocados com emoção.
0 ilustre Fabra Ribas, infelizmente falecido, em carta
aberta com que em 1950 nos honrou disse, numa reafirmação
de princípios:
1 — Não convém que as Cooperativas atuem debaixo da
tutela do Estado e muito menos que se identifiquem com o
Estado. Razões: porque o regime do Estado pode mudar, em-
quanto que o Cooperativismo necessita conseguir a maior es-
tabilidade possível. Sua natureza, já se disse, é como a de
certos cristais: se se mexe muito com o vaso em que se estão
formando, tem-se que recomeçar a operação.
2 — O verdadeiro progresso do Cooperativismo não de-
pende do número de seus associados, nem do volume de suas
operações, nem da ajuda que possa receber do exterior, mas
principalmente do que forem capazes de fazer os membros
das Cooperativas;
3 — A educação cooperativa é, por conseguinte, o que
mais influi no êxito do Movimento.
Para organizar boas cooperativas é necessário formar
bons cooperadores. E a educação cooperativa deve estender-se
aos simples associados, aos administradores das cooperativas
e aos representantes dos podêres públicos encarregados de co-
laborar com os cooperadores.
Os representantes dos podéres públicos que desconhece-
rem o espírito e a prática do Cooperativismo, constituem um
verdadeiro perigo social, porque tratarão fatalmente de su-
prir sua falta de preparo com a aplicação de planos absurdos
e de medidas arbitrárias.
4 — As Cooperativas são sociedades privadas de utilida-
de pública, cujo objetivo principal não é o lucro mas a pres-
tação de serviços a seus associados particularmente e em geral
à comunidade inteira. Por isso devem tratar de atuar sob tôda
FÁBIO LUZ FILHO 251
classe de regimes e acatar a legislação vigente. Seus processos
excluem tôda classe de violência e até de intemperança. Seu
principal instrumento de defesa, de propaganda, de ação (eco-
nômica, social e moral) consiste sempre na retidão de condu-
ta que observam e no constante melhoramento dos serviços
que prestam.
5 — As Cooperativas bem organizadas constituem insu-
perável instrumento regulador da economia nacional e um
centro modêlo de educação cidadã, de vez que se afastam
cuidadosamente de mero terreno polêmico e crítico, para com-
centrar suas atividades em obras construtivas, que interessam
a todos e não prejudicam a ninguém. Daí a convêniencia de
uma colaboração constante entre as cooperativas e os podêres
públicos, colaboração que, em benefício mútuo, deve ressalvar
a autonomia própria dos que dela participam. O melhor re-
sultado que se pode obter dessa colaboração é a introdução do
ensino cooperativo em todos os centros de educação e no esta-
belecimento de escolas e colégios nos quais se possa aprender o
cooperativismo teórico e prático, isto é, nos quais se atenda
à formação integral de cooperativistas e à preparação elemen-
tar de propagandistas de cooperativismo e;
6 — O Cooperativismo cultiva um alto ideal e trata de
compreender o real. Por isso, dirige a todos os homens e
mulheres de boa vontade, quaisquer que sejam sua raça, suas
opiniões, e sua crença, a mensagem que expressam estas belas
palavras do professor Edgard Milhaud:
“Existe uma correspondência perfeita entre o Credo dos
Pioneiros de Rochdale (fundadores do moderno Movimento
Cooperativo) e o Credo do Povo de hoje, já que os princípios
de nossa cooperação são os mesmos do Sermão da Montanha,
traduzindo a linguagem dos fatos econômicos da época em
que vivemos”.
AINDA A EDUCAÇÃO NO PLANO COOPERATIVO
“Education before action” é a apotegma da
Universidade de Antigonish, do Canadá, como vimos.
Da conferência de Nuwara Eliza, patrocinada pela Ofici-
na Internacional do Trabalho, em 1951, na Ásia, há conclusões
que se aproximam dessa sentença e que devem merecer nossa
atenção. Uma delas refere-se à ação governamental, que achou
dever ser intensificada não só com a formação adequada de
equipes de funcionários especializados nos serviços cooperati-
252 COOPERATIVAS ESCOLARES
vos oficias, viagens de estudos, cooperativas-pilotos, etc., co-
mo pelos auxílios ou empréstimos do Estado, ou garantias do
Estado quanto a empréstimos para equipamento, a outorga
de certos privilégios fiscais, e a concessão de certas prioridades
para a compra e o fornecimento de produtos essenciais.
Achou imprescindível a inversão de capitais no equipa-
mento e desenvolvimento das cooperativas. Outrossim, con-
cluiu que os adiantamentos feitos a título de empréstimos de-
verão ser concedidos sob condições favoráveis.
Os delegados presentes a essa Conferência afirmaram,
ainda, que os departamentos de cooperativismo governamen-
tais, sendo normalmente os responsáveis, nos países subde-
senvolvidos, pela criação e o desenvolvimento das cooperati-
vas, deveriam ser os primeiros a receber uma estrutura con-
veniente, devendo ser reforçado o respectivo pessoal técnico,
a fim de ser possível, de uma maneira eficiente, o contrôle, a
inspeção e a verificação contábil das cooperativas, sociedades
de bem público. Também insistiram em que, na formação pro-
fissional dos empregados das cooperativas, há necessidade de
umo seleção judiciosa de pessoas, incluindo nisto o conheci-
mento dos princípios cooperativos, tecla que vimos percutin-
do há anos, no Brasil. Os administradores deverão receber
uma formação profissional completa, escolhidos entre pes-
soas qualificadas, o que representa um ideal, a ser atingido
por etapas, no Brasil.
O domínio do educação cooperativa, nas conclusões da-
queles delegados, é imprescindível para o esclarecimento das
massas, o que precisamos compreender no Brasil. Tudo isto
temos predicado, num afã interativo, há anos.
Compreendendo o alcance da educação, a Dinamarca,
dentre outros, tratou, com sabedoria, de dar alicerce educati-
vo ao seu movimento cooperativo. Como é sabido, é ela justa-
mente considerada como uma “comunidade cooperativa diri-
gida por agricultores”, o “reino da razão", no qual a govêrno
tudo fêz no sentido de educar o povo para o cooperativismo.
Dois terços dos habitantes freqüentam os cursos oficiais.
É
considerada a mais exemplar das nações democráticas do no-
roeste da Europa. Miss Rothery disse que, na Dinamarca, não
sòmente o povo é alimentado e vestido, mas sorri... Não há
habitações insalubres nem aglomerações em suas cidades lim-
pas; todos estão praticamente protegidos contra o desem-
prêgo, a enfermidade e a velhice. O sistema cooperativo ar-
ranca explosões de entusiasmo e demonstra que não há tanto
que modificar no regime democrático para fazer um povo
FÁBIO LUZ FILHO 253
feliz. Com uma distribuição eqüitativa da renda, assegura um
mínimo, que é um alto mínimo, de padrão de vida; mas isto
não impede o espírito individual, capaz e empreendedor, de
amealhar.
Já foi dito, com muita justeza, que o capitalismo opõe o
interêsse particular ao interêsse geral; o estadismo submete,
pela fôrca, os interêsses particulares ao interêsse geral; o
cooperativismo associa os interêsses particulares segundo for-
mulas tão essencialmente justas, que a união cooperativa se
indentifica com o interêsse geral. É por isto que é êle um pe-
nhor de justiça social e também de paz internacional.
Repetimos que não é sem uma base educativa que se
apri-moram os quadros cooperativos para que tão elevados
obje- tivos sejam alcançados. E Pernambuco cedo isto
compreendeu, quando deu ênfase ao cooperativismo escolar,
pelo que mere- ce louvores.
Antonio Sérgio, o ilustrado professor e escritor luso, em-
viou-nos recentemente seu último livro — “Cartas do terceiro
homem", bela profissão fé cooperativista, no qual tem con-
ceitos justos sôbre o cooperativismo escolar, roborativos do
que vimos dizendo há anos em livros, folhetos comunidades e
ar-tigos. Frisa êle que os verdadeiros instrumentos de educação
da juventude devem ser buscados na vida civil dos nossos
concelhos antigos, dos nossos municípios modernos, e na orga-
nização democrática das cooperativas de hoje. E acena, em
seguida, para a cooperativismo escolar pelas intrínsecas virtu-
des educativas que todos lhe reconhecem. (Conselho era a
circunscrição administrativa, abaixo do distrito, dizemos).
“Percebamos que a liberdade é que é o sol das almas”,
diz Antônio Sérgio.
Ao nos referirmos, em um de nossos livros, ao cooperati-
vismos escolar, frisamos que o cooperativismo é um movimen-
to de natureza econômica que se vale da educação e um pro-
cesso educativo que se vale da ação econômica. Daí ‘sua in-
fluência no campo específico da organização interna da
escola”.
Claparède alude à lei da autonomia funcional em educa-
ção considerando a criança como uma "unidade funcional”.
A educação não é apenas uma preparação para a vida, mas a
própria vida, diz êle. Daí a escola renovada, de que meu sal-
doso pai, Fábio Luz, foi um precursor no Brasil, como foi do
romance social, e, dentro dessa escola, a cooperativa escolar.
254 COOPERATIVAS ESCOLARES
O PANORAMA COOPERATIVO EUROPEU EM
FUNÇÃO DA EDUCAÇÃO
Já vimos a Dinamarca, e é conhecido o panorama coope-
rativo sueco do ponto-de-vista do ensino cooperativo.
Na Inglaterra, o movimento cooperativo tem, no
domínio do ensino, seu ponto alto no Colégio Cooperativo, de
Man-chester. Foram dispendidas, em 1947, cêrca de 400.000
libras, nesse setor.
"The Co-operative College” foi fundado em Manchester,
no ano de 1919, e destinado a altos estudos (‘as the apex of
educational provisions of the Co-operative Movement”), para
homens e mulheres de mais de 18 anos, sem discriminações
de espécie alguma, tanto que a freqüentam alunos de côr
prêta. Comporta em seus internatos a 110 alunos, e possui
biblioteca de 10.000 volumes, escalonados seus cursos pelo
outono, pela primavera e pelo verão, havendo um curso espe-
cial do cooperativismo para as colónias, de acôrdo com o Co-
lonial Office”.
Na França, Lavergne, a grande autor de “Révolution
Coo-pérative”, foi substituído por Georges Lasserre na
Faculdade de Direito de Paris, na qual atualmente ensina a
doutrina co-operativa, continuando a brilhante tradição
deixada por Gide no Colégio de França.
Na Alemanha Ocidental surgiu, depois do impacto da
última guerra, o “Instituto da Cooperação", na Universidade
de Munster. Na Suiça, o ensino cooperativo tem seu acume
no mundialmente conhecido Seminário de Freidorf. A Rússia
atual destinou, não há muito, uma dotação de cérca de 180 mi-
lhões de rublos para o ensino em mais de 70 escolas de co-
mércio.
E a Índia, Colômbia (esta com seus centros de estudos
cooperativos e seu instituto de Estudos Cooperativos, etc.),
Argentina, etc., como já o temos frisado em livros e artigos,
vão dando a devido relêvo ao ensino do cooperativismo em
todos os seus aspectos. No Brasil, bem conheceis os esfôrços do
Serviço de Economia Rural, do Centro Nacional de Estudos
Cooperativos e dos Serviços e Departamentos estaduais de
cooperativismo nesse sentido, e os da Universidade Rural e
da Escola de Agronomia do Paraná, etc.
O Canadá, entanto, deve merecer uma referência espe-
cial, pelo que se faz nas Universidades de São Francisco Xá-
FÁBIO LUZ FILHO 255
vier. Laval e Voncouver, duros que foram os ensinamentos
oriundos de fracassos cujas raízes se situavam, na opinião de
técnicos e doutrinadores, na ignorância.
E êsse lastro educativo será, inegàvelmente, uma base
granítica.
O NOSSO HOMEM RURAL
O nosso homem rural, como já o frisamos em mais de
um livro, sobretudo em “Rumo à terra” e agora em “Crédito
Agrícola e problema agrário", aí está no seu triste insulamen-
to. A sêca aí está com seus ciclos inclementes, apocalípticos,
trazendo-nos à retentiva aquelas mesmas hórridas cenas e
aquelas mesmas figuras de coragem, estoicismo e apêgo à
terra que Rodolfo Teófilo já nos descrevia, magistralmente,
em “A Fome”, ao descrever a sêca de 1877. E outros quadros
aí estão no Nordeste com as mesmas cores de há anos, com
os mesmos traços pictóricos.
Continua o homem rural brasileiro, notadamente o nor-
destino, envolto em circunstâncias que revestem o caráter de
elementos causativos dessa posição de desencanto, desespe-
rança e introversão, mergulhado num fadário que parece não
ter fim. Lapidemo-lo, educando-o na ação solidária, cepilhan-
do-lhe aos poucos as acerbidades, frutos que são de uma cons-
telação de fatôres adversos, que o conduzem a um nível de
vida infra-humano. Levemo-lhes a arco-irisada bandeira do
cooperativismo renovador. Demos ao mesmo o ensino adequa-
do; mas, como o assinalou Jorge del Rio, o ilustrado advoga-
do, publicista e militante cooperativo argentino que nos desva-
neco com sua amizade, não ensinar o cooperativismo de angu-
los frios e objetivos, como num curso sôbre sociedades ano-
nimas, como uma pura disciplina econômico-comercial. Te-
mos que lhe dar alma, entusiasmo, mística, apostolado, e a
fé acrisolada que remove montanhas. É preciso frisar o relevo
ou o acento ético que põe nas relações econômicas, ante as
deformações do capitalismo moderno. “La cooperación no se
hace con una materia inérte, sino con hombres, entonces, co-
mo toda educación, debe dirigirse al hombre" para que êste
se torne o missionário de uma doutrina sócio-econômico-mo-
ral que conduz à justiça, à paz, à harmonia e à elevação dos
povos, pelo seu conteúdo de nobre sentido humano.
O multívolo Estado moderno, nas suas proteiformes e
multiformes incursões no domínio sócio-econômico, recebe até
256 COOPERATIVAS ESCOLARES
as veneras de um inglês como Waltkins, o qual acha que o pó-
der de legislação e de compulsão do Estado cria problemas no-
vos e abre perspectivas que lhe permitem chegar a soluções
mais rápidas e mais radicais, naquele domínio citado, do que
a iniciativa privada. Mas, dizemos nós, é preciso que atente-
mos na experiência sul-americana, notadamente no Brasil,
para o necessário justo meio, sem arrebatamentos estadistas,
certos do mal das generalizações, quando não há clima, re-
ceptividade, mentalidade, etc., e quando há primarismos e
vezos de ordem social, política e administrativa, e outros, que
erradicar.
Se o Estado se despe de sua pele de gendarme no mundo
de hoje o procura, sinceramente, dinamizar, com sua presença
direta ou indireta, a economia geral de um país, deve o mo-
vimento cooperativo aceitá-lo em têrmos de assistência e co-
laboração leal e sadia, sem o colorido de estadismos ou inter-
vencionismos que imponham avenças político-partidárias com
visos absorventes ou interferências avessadas ao regime de
liberdade em que devem viver as cooperativas, embretando-as
ou emordaçando-as. As cooperativas devem ficar com a sua
autonomia, a sua auto-suficiência, a sua “self discipline”,
sem quebrantamento ou diluição de seus brônzeos e eternos
fundamentos doutrinários.
Essa tese, temo-la defendido sempre em livros e perante
a Comissão de Indústria e Comércio da Câmara dos
Deputados em 1948, a agora, novamente, perante a Comissão
de Economia, gentilmente convocado pelo ilustre deputado
Daniel araco para debater, mais uma vez, o projeto 159-47,
que revoga a atual legislação (o qual, aliás, já comentamos
pela impren- sa). E é esta a posição da Aliança Cooperativa
Internacional.
Em dezembro de 1951 realizou-se o Congresso de Cope-
nhague. O relato do Comité Central da Aliança Cooperativa
Internacional abrangeu os resultados de um inquérito sôbre as
relações entre as cooperativas de consumo e as agrícolas, isto é,
as tão necessárias ralações intercooperativas, como as rela-
ções entre a Movimento Cooperativo e os podêres públicos.
Eis as conclusões a que chegou:
1.º — As cooperativas devem ser completamente livres e
independentes. Por esta razão não é possível que vivam em
países nos quais não exista a liberdade de associação.
2.º — O movimento cooperativo deve gozar de tôdas as
possibilidades para estender sua esfera de ação e intensificar a
sua influência, não só do ponto-de-vista econômico, mas,
FÁBIO LUZ FILHO 257
sobretudo, no sentido de influenciar a política econômica e
social do Estado.
3.º - O desenvolvimento econômico e social dos países
de economia dita mista, é possível com a aplicação crescente
dos princípios cooperativos, desprovidos que são do espírito de
lucro, e com a participação ativa do Movimento Cooperativo
na elaboração da política econômica e social do Estado.
4.º — O movimento cooperativo está em condições de in-
fluenciar a política econômica e social do Estado de diversas
maneiras:
a) colaborando nas Comissões que se ocupam de modo
permanente dos problemas econômicos e sociais, assegurando,
assim, um contacto contínuo, o qual é de uma importância e
de um valor maiores que a apresentação de declarações escri-
tas e a colaboração de Comissões especiais;
b) procurando ser ouvido pelas autoridades públicas no
que tange à elaboração e aplicação da legislação econômica e
social. (O projeto 159 transita pela Câmara dos Deputados
desde 1947. O movimento cooperativo brasileiro pròpriamen-
te não foi ouvido nem por êle até hoje se interessou, revelan-
do, com isto, lamentável falta de maturidade).
5.º — A verdadeira influência do Movimento
Cooperativo sôbre providências econômicas e sociais não
depende da forma que assume a sua colaboração, mas, acima
de tudo, da sua economia nacional.
6.º — Para o Estado democrático é do mais alto interes-
se assegurar a liberdade de ação e de desenvolvimento do Mo-
vimento Cooperativo, quaisquer que sejam as mudanças da
fôrca real no país (sôbre o que devemos meditar).
7.º — As cooperativas estão em condições de participar e
devem participar da obra preciosa que as Nações Unidas e os
órgãos especiais, particularmente o B . I . T .. a F. A .O. e a
U. N . E .S . C .O., obtiveram nos países subdesenvolvidos.
Estas conclusões foram adotadas pelo 18.° Congresso da
A. C .I ., que as recomendou a tôdas as filiadas.
E concluamos com a recente Resolução de Caracas (mar-
ço de 1954). “Na época atual, o sistema cooperativo é ainda
uma das formas de associação que melhor corresponde aos
postulados da solidariedade humana.
“A fórmula cooperativa, especialmente nos países que se
encontram em desenvolvimento, contribui para orientar e le-
var à solução dos problemas locais de interêsse coletivo”. A
mesma, os nossos aplausos. E que encontre ressonância nas
17 — 27 454
258 COOPERATIVAS ESCOLARES
esferas dirigentes responsáveis. São as cooperativas escolas
profissionais práticas.
“Através do homem econômico, é a personalidade
inteira do homem, seu caráter, sua atitude em face de vida e
em relação à comunidade que a ação cooperativa
transforma”.
Já se acentuou que as cooperativas em geral, e notada-
mente as agrícolas, não se apresentam apenas como fatôres
de progresso técnico e de bem-estar, instrumenttos de organi-
zação econômica, de formação e disciplina profissionais, senão
também como centros de vida moral e de educação geral,
“células de um novo tecido social que reconstitui e prolonga a
sólida e viva coesão, os sistemas de proteção coletiva que os
laços de família, as relações de vizinhança e as tradições do
auxílio mútuo mantinham nas antigas comunidades rurais”.
A humanidade caminha por ciclos, já a acentuamos em
“Rumo à Terra”.
NOTA
O Dr. Antônio de Arruda Câmara, então ilustre diretor
do Serviço de Economia Rural, ao apresentar o orador à seleta
e numerosa assistência presente ao Gabinete Português, de
Recife, quando da conferência acima, pronunciou as seguintes
palavras:
“Fábio Luz Filho é conhecido e acatado nos meios
cooperativistas. Nasceu a 18 de abril de 1894, no Distrito
Federal, tendo feito, no antigo Ginásio de S. Bento, todo O
curso secundário e, na Escola Agrícola de Pinhelro, o curso de
agronomia, diplomando-se em 1914.
“Dedicou-se ao magistério ensinando ciências naturais,
português e francês. Trabalhou no comércio, na imprensa e na
lavoura. Ingressou no Ministério da Agricultura em 1926,
datando dêsse ano a sua ininterrupata, dedicada e profícua
atividade cooperativista.
“Membro de associações profissionais, técnicas e
culturais, presidente do Centro Nacional de Estudos
cooperativos desde sua fundação. É correspondente e membro
honorário de sociedades estrangeiras.
“É marcante a sua atividade como escritor especializado.
Os seus livros Rumo à Terra e Teoria e Prática das Sociedades
Cooperativas, entre os dezesseis que publicou, já estão em
quinta e quarta edição, respectivamente. "Cooperativas
escolares” está em terceira edição.
FÁBIO LUZ FILHO 259
“Seu nome figura entre os incluídos nos índices interna-
cionais de bibliografia sôbre cooperativismo e, ainda agora,
especialmente convidado, está colaborando na “Coletànea”, a
ser publicada, sob a direção do Dr. Alberto Basevi, do Minis-
tério do Trabalho italiano.
“Traço marcante na vida de Fábio Luz Filho é o devota-
mento à memória de seu ilustre progenitor, o Dr. Fábio Luz —
médico, sociólogo, pedagogo, crítico literário dos mais acata-
dos e que foi o precursor do romance social e da escola ativa
no Brasil”.
HOMENAGEM SENSIBILIZADORA
Ficou para sempre gravada em meu coração a comovida
impressão das sensibilizadoras homenagens de que fui alvo
durante a Reunião acima, partidas do plenário e de oradores
cheios de vibração e bondade, e desta figura fidalga que é
Petrolino Santa Cruz, digno diretor do Departamento de Assis-
tência às Cooperativas do Estado de Pernambuco. O rama-
lhete, com belas flores, que me foi ofertado em plenário, na
fôrça de seu simbolismo, pelas mãos gentis da digna espôsa do
deputado Iris Meinberg, como homenagem das delegações pré-
sentes de sete Estados nordestinos, na pessoa de vinte e oito
delegados, através da palavra brilhante de Samuel Gonçalves;
o meu retrato, como o de Arruda Câmara, colocado no D . A .C.
de Recife; as referências da imprensa, entre elas as do brilhan-
te Costa Pôrto, ficaram indelèvelmente, na minha gratidão
genuflexa, como os maiores galardões de minha existência de
propagandista que já caminha para o resvaladouro outoniço,
encanecido nas árduas porfias de cêrca de 33 anos...
PROJETOS-PILOTOS PARA COOPERATIVAS RURAIS
Tivemos oportunidade, ao traçar, em “Teoria e Prática
das Sociedades Cooperativas” (lançado em fevereiro de 1953),
um plano de ordem geral para o movimento cooperativo bra-
sileiro, de aludir à necessidade das cooperativas-pilotos, um-
nicipais, intermunicipais ou regionais para culturas típicas,
ou não, de funções múltiplas (mistas ou cíclicas), com assis-
tência oficial, se necessária, incluindo, na sua órbita, até as
regiões de menor índice cultural.
Com prazer, acabo de receber da União Pan-Americana,
editado em maio de 1953, magnífico trabalho alusivo a proje-
260 COOPERATIVAS ESCOLARES
tos-pilotos para o desenvolvimento rural. Trata-se do “Do-
cumento ESSE-3/53 aumentado e corrigido de acôrdo com a
Resolução da Terceira Sessão Extraordinária do Conselho In-
teramericano Econômico e Social (C I . E . S.), em fevereiro
de 1953.
Contém êle projeto-pilôto para cooperativas rurais, que
reputo de grande alcance sócio-econômico para nosso meio,
careceste, ainda, dado o caráter incipiente de nosso movimen-
to, de verdadeiros centros vivos de treinamento cooperativo,
um escol maior de verdadeiros líderes.
Eis as linhas mestras dos projetos-pilotos:
PARTE GERAL
São vários os tipos de projetos-pilotos: uns com raio de
ação multiforme, e, outros, de raio de ação específica.
São objetivos dêsses projetos-pilotos:
a) — Aplicar as técnicas demonstrativas da maneira de
se organizarem, eficientemente, cooperativas agrícolas;
b) — Provar como podem as cooperativas contribuir pa-
ra o melhoramento econômico, social e cultural das sociedades
rurais;
c) — Demonstrar que as cooperativas agrícolas são insti-
tuições dinâmicas através das quais se podem levar a cabo não
só programas de caráter econômico, senão também de caráter
social e cultural;
d) — Experimentar sistemas por meio dos quais se possa
estimular na população rural o sentido da cooperação e da
ajuda mútua;
e) — Descobrir e preparar pessoal para a organização e
a administração das cooperativas agrícolas;
f) — Servir de meio de irradiação para outras comuni-
dades rurais semelhantes que desejarem estabelecer socieda-
des cooperativas.
PLANO DE AÇÃO
O projeto sugere o estabelecimento, em cada país-sede,
de três cooperativas em três zonas diferentes, como, por
exemplo:
zonas agrícolas, zonas pastorís ou zonas pesqueiras. (No Bra-
sil, deve ser mais flexível o critério).
Devem, entanto, considerar-se, para êsse efeito, uns tan-
tos fatôres. Ei-los:
FÁBIO LUZ FILHO 261
A escolha da comunidade rural
1.º — Deve constituir ponto fundamental a escolha de
comunidade rural, escolha que deve, considerar a existência
do espírito de progresso e do desejo de fazer uma obra de equi-
pe, visando ao melhoramento das condições de vida de seus
habitantes.
2.º Essa comunidade será selecionada na base da exis-
tência de um problema particular de caráter econômico co-
nhecido, cuja solução, mesmo parcial, pessoa ser veiculada
através do determinado tipo de coperativa.
Área de ação
Será determinada pela natureza da cooperativa proje-
tada.
Tendo o projeto-pilôto dado muita elasticidade ao com-
ceito de cooperativa agrícola, de vez que classifica como rural
"qualquer classe de cooperativa localizada ou que possa esta-
belecer-se em uma comunidade rural”, nêle se enquadram as
cooperativas de consumo, que deverão agrupar as pessoas de
certo casario rural ou de vilas rurais. (Considerar aqui, tam-
bém, as condições do Brasil).
As cooperativas de natureza agrícola deverão ter seus
associados com residência ou domicílio em um raio de ação
mais amplo, porém acessível, como seja em distrito ou em
município (nas condições brasileiras até zonas geo-econômi-
cas, dizemos).
Como guia melhor: a divisão territorial própria de cada
país escolhido para sede do projeto-pilôto.
INVESTIGAÇÕES PRÉVIAS DE CARÁTER
ECONOMICO-SOCIAL
a) — Sociais
Tradições, hábitos, costumes, laços familiares, institui-
ções características, formas de recreação, analfabetismo, ati-
tude em relação às formas de trabalho em comum, etc.
b)— Demográficas
Composição familiar, número médio de pessoas por
familia, idade, sexo, população ativa, fatôres que determinam
o
262 COOPERATIVAS ESCOLARES
aumento ou a diminuição da população, origens das correntes
migratórias, etc.
c) — Geográficas
Descrição geográfica da região, com estudo acurado das
vias de comunicação existentes, produção, etc.
d ) — Comerciais
Volume anual de vendas das emprêsas comerciais na
zona estabelecida e causas do descontentamento local em
relação as mesmas, se as houver; território comercial que a
cooperativa pretende abarcar; sistema predominante de
vendas e per centagens; dinheiro à vista e a crédito; fontes de
abasteci- mento, possibilidades de aquisição no local, etc.
e) — Econômicas
Rendas familiares e distribuição das mesmas, ofícios e
atividades a que se dedicam essas famílias; indicação das em-
prêsas públicas ou privadas onde trabalhem algumas dessas
famílias; número aproximado das famílias que poderão entrar
para a cooperativa; habilidades econômicas e técnicas dos em-
presários locais.
f) — Financeiras
Capital mínimo da cooperativa, custo aproximado das
despesas em salários, aluguéis, impostos e outras obrigações
administrativas; estimativa do volume anual de operações que
deve realizar; capacidade de pagamento dos associados; pro-
cessos apropriados de financiamento e estudo do crédito pés-
soal e coletivo.
LÍDERES LOCAIS
A escolha dos líderes locais, que deverão auxiliar os tra-
balhos, antes e depois da fundação de uma cooperativa, de-
verá ser feita entre os que mereçam a simpatia e o respeito
dos integrantes da comunidade rural escolhida, devendo re-
cair em pessoas que, realmente, queiram trabalhar desinte-
ressadamente em favor dessa comunidade. Para êsse efeito,
deverão adotar-se os seguintes meios: entrevistas individuais
e grupos de discussão ou círculos ou clubes de estudos, com
FÁBIO LUZ FILHO 263
plementados com sociogramas que objetivem avaliar o grau
de unidade ou antagonismo que possam existir entre os inte-
grantes do grupo de líderes selecionados, dando oportunidade
aos membros que tenham as condições requeridas.
Entre os líderes selecionados deve reinar a maior harmo-
nia, comunidade de interêsses e sincero desejo de trabalhar
em equipe.
EDUCAÇÃO E FUNÇÃO DOS LÍDERES
Em “Teoria e Prática das Sociedades Cooperativas”
sugeri, no plano a que já me referi, à criação de "censores
agropecuários" ou “instrutores itinerantes”, com peão na sede
de regiões geo-econômicas brasileiras, preferencialmente, o
que, em certo sentido, encontra símile nesse projeto-pilôto, e já
vai sendo realizado por alguns departamentos de assistência
ao cooperativismo no Brasil, naturalmente dentro das defi-
ciências a que me tenho reportado inúmeras vêzes.
O projeto-pilôto, aludindo necessária campanha educa-
tiva prévia, que deve ajustar-se ao nível cultural da comuni-
dade rural escolhida, acha que a mesma deverá ter por objeti-
vos precípuos:
a)— Levar os integrantes da comunidade rural ao espí-
rito de cooperação, de ajuda mútua;
b)— Ensinar por meios simples e práticos os fundamen-
tos da doutrina cooperativa;
c)— Utilizar os líderes locais nesta campanha educati-
va prévia, determinando e explicando suas funções, respon-
sabiliddes, métodos de trabalho e sistema de coordenar seu
trabalho;
d)— Avaliar os conhecimentos adquiridos pelos mem-
bros da comunidade rural, especialmente das pessoas que te-
nham mostrado interêsse em formar uma cooperativa, acerca
da natureza, objetivos e princípios que embasam a mesma;
e)— Decidir claramente se a comunidade aceita e apóia
o estabelecimento da cooperativa.
AS COOPERATIVAS FUNDADAS E SUAS ATIVIDADES
a)— Educativas
Devem versar sôbre cooperativismo, adaptadas por as-
sociados, funcionários ou não-associados; sôbre problemas so-
264 COOPERATIVAS ESCOLARES
ciais e econômicos de interêsse imediato para a respectiva
comunidade rural (erosão de solos, práticas modernas de
agricultura, dieta, alcoolismo, etc.).
b)— Econômicas
Variando de acôrdo com a espécie ou tipo de
cooperativa. A cooperativa mesma será um meio prático de
demonstrar, objetivamente, vantagens econômicas, tais como:
1) Eliminação do intermediário; 2) divisão das sobras
sociais na proporção das operações que tenham realizado com
a cooperativa; e 3) aumento das receitas individuais por uma
distribuição mais justa das emprêsas cooperativas.
c)— Técnica
Consistirão em demonstração simples e objetiva sôbre a
maneira de se manter a cooperativa em um nível administra-
tivo eficiente, e as atividades técnicas que se poderão realizar
por seu intermédio, tais como, para as cooperativas agrícolas:
demonstrações práticas sôbre o melhoramento e a rotação das
culturas, aplicação de adubos, introdução de novas culturas,
utilização de maquinaria agrícola, armazenamento,
conservação de produtos, etc.
d)— Sociais
Estabelecimento paulatino de serviços sociais de vanta-
gens diretas para a saúde dos membros da comunidade rural,
tais como: saneamento de zonas insalubres, meios preventivos
contra moléstias (vacinação, etc.), melhoramento das con-
dições higiênicas das habitações, etc., etc.
AINDA OS LÍDERES LOCAIS
Para êsse projeto-pilôto, considera-se de grande relevân-
cia a formação de líderes locais e de pessoal para as sociedades
cooperativas do país da sede, o que poderá fazer-se de duas
maneiras: mediante a participação direta nas diferentes fases
de organização e funcionamento das sociedades cooperativas, e
por meio de palestras, seminários, grupos de discussão ou
clubes de estudo, etc.
O plano, pois, acentuo, será executado seguindo-se o cri-
tério aconselhável: a escolha dos campos de aplicação e de
FÁBIO LUZ FILHO 265
interêsse, delimitados o domínio das pesquisas ou os meios de
ação adequados, a necessária estruturação de centros de for-
mação. Dar-se-á, assim, no campo cooperativo, aplicação ana-
lógica ao princípio e ao método norteadores de uma ação es-
pecífica, dentre êles os meios de ação ou a técnica que se deve
utilizar no plano educativo, observadas tendências e reações,
o que comandará a orientação futura.
E reconhecem esta verdade:
“Esta formação se faz necessária devido a que o
movimento cooperativo na América Latina sofre grande
escassez de líderes e de pessoal especializado. Ademais, no que
tange ao projeto-pilôto, esta formação dará lugar a serviços
mais efetivos e duradouros na comunidade em que se
encontra radicado, como também no país da sede’.
DIFUSÃO
Aconselha o projeto-pilôto que, para maior difusão de
seus objetivos, não só na comunidade em que se tenha esta-
belecido, como em tôdas as regiões do país-sede, se faça uma
sólida campanha de difusão do mesmo pelo rádio, pelo cine-
ma, pelos jornais, conferências, grupos de discussão, e outros
meios modernos e efetivos de publicidade, o que, prazeirosa-
mente, vejo estar em consonância com o que digo no plano
que tracei no livro acima aludido.
ORGANIZAÇÃO DO PROJETO-PILOTO
“Deve estar a cargo de uma entidade nacional autôno-
ma, que possua experiência ou interêsse pelo cooperativismo,
e cujos recursos financeiros possam levá-lo a bom têrmo”.
Sugere, por exemplo, que poderão dêle encarregar-se as insti-
tuições bancárias que atualmente dão assistência técnica e
financeira as sociedades cooperativas, ou uma entidade dedi-
cada à realização de programas de bem-estar econômico e so-
cial, como são as corporações de fomento, os conselhos de pro-
dução agrícola e outras organizações semelhantes.
No Brasil, poderão ser indicados, dizermos nós, as
entidades oficiais prepostas a isto (sanadas suas conhecidas
deficiências): o Serviço de Economia Rural e o Banco Nacional
de Crédito Cooperativo; nos Estados: os departamentos de
cooperativismo. A questão é tirá-los da precariedade de ele
266 COOPERATIVAS ESCOLARES
mentos de ação em que vivem, com verbas e material humano
escassos.
A ainda pequena coorte de vexilários do ideal
cooperativo no Brazil tem ainda ingente labor que enfrentar,
no gladiar do bom combate, longa cruzada incruenta contra a
incompreensão, o indiferentismo, a mentalidade e as
idiossincrasias de nossa gente...
A própria ............ das elites em autófaga omissão, eis uma
meta... , ....... sunt oculi...
BASES DE UMA POLÍTICA OFICIAL DE FOMENTO
AO COOPERATIVISMO COMO PARTE DO PROCESSO
ECONÔMICO NACIONAL — Os SERVIÇOS OFICIAIS
Como se trata de assunto de grande interêsse para todo
o movimento cooperativo sul-americano e sobretudo para o
Brazil, reproduzimos longo trecho de um trabalho recentemen-
to lançado à publicidade, da União Pan-Americana, denomi-
nado “Desenvolvimento, do movimento cooperativo na Amé-
rica” — (“Desarrollo del movimiento cooperativo en Améri-
ca”). Ei-lo:
Bases da política oficial
“Antes de entrar em cheio no estudo das bases de uma
política governamental em favor da constituição de socieda-
des cooperativas, é conveniente delinear a posição do Estado
frente ao movimento cooperativo neste Hemisferio e precisar
seu campo de ação.
O papel que se atribui ao Estado no desenvolvimento do
movimento cooperativo, tem sofrido diversas interpretações,
mas são notórias as tendências opostas: a primeira sustenta-
da por estudiosos dirigentes cooperativistas, que vêem com
desconfiança a intervenção estatal na vida interna das coope-
rativas e que trazem consigo um marcado paternalismo e,
por conseguinte, estão decididos a manter a independência
absoluta em relação ao Estado, isto ocorrendo com os movi-
mentos cooperativistas dos países anglo-saxões. O segundo
grupo considera a intervenção estatal não só necessária, senão
indispensável e, com êste motivo, a principal atividade dêstes
dirigentes cooperativistas consiste em recomendar, mediante
uma legislação extremamente regulamentada, a fomento e o
contrôle das cooperativas pelo Estado. Os líderes cooperativis-
FÁBIO LUZ FILHO 267
tas latino-americanos, com algumas exceções, são partidários
desta última posição.
Se se fizer um exame do movimento cooperativo na
America partindo dêste pontos-de-vista, observa-se que as
resultados obtidos são diferentes. Nos Estados Unidos da
América, por exemplo, o movimento alcançou um notável
desenvolvimento e é parte do processo econômico nacional. Na
América Latina os líderes cooperativistas de ambas as
tendências não lograram, ainda, impor seus pontos-de-vista.
Os patrocinadores da intervenção estatal no movimento
cooperativo, com exceção de alguns países, não lograram,
ainda, interessar os funcionários do govêrno quanto à
vantagem do sistema e técnica cooperativas. Os
patrocinadores de um movimento popular espontâneo,
entanto, realizam uma obra silenciosa de educação e
aglutinação cooperativas de consumidores e produtores,
logrando desenvolvimento muito lento.
Os problemas que na América Latina encaram ambos os
grupos, podem sintetizar-se no seguinte: os patrocinadores da
intervenção e ação estatal direta, defrontam o problema de
escassez de funcionários tècnicamente preparados, não só em
administração pública, mas também em assuntos específicos
do cooperativismo, muitos dos quais se tem esboçado nos capí-
tulos anteriores.
Os patrocinadores da cooperação autônoma têm que
lutar contra a tremendo problema que é a falta de cultura
econômica do povo e em virtude de que sua atividade está
reduzida e constitui um movimento sem significação nem
transcendência no processo cujas causas também foram
esboçadas em capítulos anteriores.
Em face dessas duas tendências consideraram mais acer-
tada a opinião dos especialistas que se batem por uma posição
intermediária do Estado entre ambas as que não produzem
nenhum benefício às economias dos respectivos países.
Apoio de Economistas e Sociólogos
Esta opinião tem o apoio de economistas, sociólogos e
educadores, que vêem no movimento cooperativo na América,
como em outros continentes, uma esperança de bem-estar so-
cial, mediante uma coordenação da ação estatal e individual.
Assim mesmo, muitos órgãos técnicos internacionais, coinci-
dentes com esta idéia, recomendam, como dissemos em pági-
nas anteriores, para as países pouco desenvolvidos, uma in-
tensa campanha cooperativista.
268 COOPERATIVAS ESCOLARES
A opinião do Secretariado Técnico da Organização dos
Estados Americanos e também partidário da última posição,
e, assim, tomou a iniciativa para a formação de pessoal diri-
gente especializado em cooperativas, dentro do Programa de
Cooperação Técnica da Organização dos Estados Americanos.
O Centro Interamericano de Treinamento para Dirigentes do
Movimento Cooperativo foi o primeiro passo de coordenação
cooperativista americana. A fase seguinte corresponderá aos
governos, para estabelecimento de centros permanentes com
o mesmo objetivo. Sôbre êste particular, chama-se a atenção
do leitor que desejar informação mais detalhada dos resulta-
dos dêste primeiro ensaio na América para o Projeto n.° 16
do Programa de Cooperação Técnica, que forma parte da
Informação do Secretário Executivo do Comité Coordenador
de Assistência Técnica à X Conferência interamericana.
Bases gerais e ação oficial
As bases gerais para uma sólida e efetiva ação estatal
podem ser reduzidas a três: — 1) formação de uma lei geral
de cooperativas; 2) a criação ou maior estímulo dos órgãos go-
vernamentais de fomento cooperativo, mediante crédito e fi-
nanciamento; 3) criação de órgãos governamentais adminis-
trativos para serviços de registro, contrôle, etc., e aparelha--
mento técnico a cooperativas.
Sôbre o primeiro ponto podemos dizer que todos os
países da America têm legislação vigente sôbre cooperativas,
umas consignadas em suas cartas magnas, outras vinculadas a
leis sociais, de trabalho, etc., e muito poucos tem leis especiais.
É recomendável um novo estudo da legislação cooperativa na
América para torná-la mais praticável e eficiente. Sôbre êste
particular, poderíamos recomendar a promulgação de uma lei
geral abrangendo todo o movimento, deixando a regulamen-
tação e tôda a parte administrativa ao Executivo, de acôrdo
com a realidade interna de cada país. Note-se que algumas leis
incluem disposições regulamentares que dão rigidez excessiva
a estas.
Apoio do Estado
Sôbre o segundo ponto podemos afirmar que é um dos
elementos básicos da política estatal para o fomento das coope-
rativas. É necessário que a ajuda financeira seja distribuída
entre todos as tipos de organização cooperativa e não limitá-la
sòmente às agrícolas, como acontece em alguns países. Uti
FÁBIO LUZ FILHO 269
lizaríamos também o sistema de reembôlso do capital inicial-
mente investido pelo Estado, pelas cooperativas que se benefi-
ciam com êle, tal como sucede com os bancos de fomento geral.
Sôbre o terceiro ponto recomendaríamos a centralização
administrativa. Muitos países da Ásia têm feito esta centra-
lização até com a criação de um Ministério de Cooperativas para
ocupar-se dos múltiplos aspectos técnicos, administrativos e
sociais que a atividade cooperativa comporta ,em países de
escasso desenvolvimento econômico, no sentido de superar uma
forma de economia colonial por uma economia nacional, ao
adquirirem, recentemente, a independência política.
Centralização administrativa, tecnificação e bem-estar social
A centralização administrativa, seja uma
Superintendência ou outro tipo de órgão do govêrno, semi-
autônomo, serviria para melhorar o rendimento estatal quanto
à eficiência, orientação e resultados. Desejamos a preparação
de bons funcionários oficiais na técnica cooperativa, para
transformar a atitude passiva, que é a característica geral dos
órgãos do governo encarregadas do fomento e contrôle de
cooperativas, numa atitude dinâmica, que é verdadeiramente o
papel que devem desempenhar. A tecnificação do pessoal
especializado dêsses órgãos do govêrno, terá um grande efeito
nos projetos de bem-estar social que estão a cargo de outros
órgãos oficiais.
Revisão de métodos
A coordenação dêsses três elementos produzirá resulta-
dos satisfatórios em tôda política governamental de fomento
às cooperativas. Tais resultados são de alcance imediato se
os Estados fizerem uma revisão da assistência que são atual-
mente às cooperativas, produzindo, assim, o clima apropriado
para que estas se desenvolvam. Naqueles outros países onde
não existe esta coordenação, é urgente que ela se estabeleça,
para evitar a perda de esforços da iniciativa individual ou as
inversões que o Estado possa ter realizado. Nos outros onde a
indiferença estatal seja notória, podemos afirmar que a expe-
riência americana pode servir-lhe de exemplo e recentemente
são dignos de elogio os esforços da Bolívia e Haiti para o fo-
mento de cooperativas.
Êste último país enviou um grupo de dez pessoas por vá-
rios países da América para que adquirissem a experiência e
270 COOPERATIVAS ESCOLARES
o treinamento adequados no desempenho de suas futuras ati-
vidades como funcionários de cooperativas.
Se os governos dos países membros da Organização
dos Estados Americanos, que não o tenham feito, todavia,
derem séria e favorável consideração à adoção das três
políticas básicas sugeridas, cremos, firmemente, que o
movimento cooperativo neste Hemisfério se robustecerá,
continuará desenvolvendo-se sôbre sólidas bases, que
redundarão num benefício positivo para os povos da
América".
Aqui encerro o brilhante trecho do relato norte-ameri-
cano.
A AÇÃO GOVERNAMENTAL
Um grupo de doze técnicos (“peritos” em cooperativis-
mo) pertencentes a países da América Latina, Ásia, Europa
e Próximo Oriente e Oriente-Médio, reuniu-se recentemente
em Genebra sob os auspícios da Repartição Internacional do
Trabalho. Discutiram os problemas relativos à legislação
cooperativa, à organização e ao funcionamento dos serviços
governamentais de assistência ao cooperativismo. As relações
intercooperativas constituíram também um dos temas das
discussões.
A atuação da R. I. T. no que tange ao movimento
cooperativo universal foi também alvo de debates prolongados.
Foram, dentre outras, feitas as seguintes
recomendações:
Assistência técnica
1.º — A assistência técnica as cooperativas deve acen-
tuar-se.
2.º — Deve-se participar mais ativamente dêsse tipo de
assistência, aconselhando os governos na feitura de progra-
mas.
3.º — São necessidades imperiosas: formação de diri-
gentes cooperativos, criação de cooperativas de diferentes ti-
pos, conselhos sôbre problemas específicos de organização
cooperativa.
4.º — As associações cooperativas, inclusive aquelas de
países subdesenvolvidos, devem estudar a maneira de colocar
à disposição da Repartição Internacional do Trabalho maior
número de técnicos (“experts”) qualificados, para sua utili-
zação dentro do programa de assistência técnica.
FÁBIO LUZ FILHO 271
5.º — As campanhas de orientação do público devem ser
ativadas, a fim de mobilizar a opinião pública em favor do
movimento cooperativo.
Legislação específica
1.º— O movimento cooperativo precisa de uma legisla-
ção especial, independente das disposições gerais de direito
civil e comercial.
2.º — Alguns peritos (técnicos) se pronunciaram a favor
de uma lei geral relativa ao estatuto cooperativo, lei que esta-
beleça regulamentação particular para cada tipo de coopera-
tiva (êste ponto deve merecer a atenção dos legisladores bra-
sileiros).
Outros propuseram o estabelecimento de um "código
cooperativo”, que compreenda uma lei geral e seções separa-
das (mais uma vez chamamos a atenção dos legisladores bra-
sileiros) correspondentes a cada tipo de cooperativas.
Finalmente, um terceiro setor de “experts” opinou por
uma lei geral sem seções particulares.
3.º — Recomendou-se (novamente chamamos a atenção
dos legisladores brasileiros) uma certa supervisão ou super-
vigilância do Estado nos casos em que as cooperativas não
possuam experiência suficiente (o caso do Brasil, sobretudo
no Centro, Norte e Nordeste).
Serviços oficiais
1.º — Os governos tem o dever de estimular a formação
de administradores e membros de organizações cooperativas
(mas uma vez chamamos a atenção de certos legisladores bra-
sileiros que querem negar ao cooperativismo no Brasil a assis-
tência técnica através de órgãos oficiais específicos).
2.º — Devem ajudar as cooperativas para que assumam
gradualmente diversas funções de contrôle, que na atualidade
são da alçada das autoridades.
3.º — Em numerosos campos de atividade — a eletrifi-
cação rural, por exemplo — a ação governamental poderia
também abrir novos campos de atividade ao movimento coope-
rativo.
Relações intercooperativas
São os seguintes os meios de ação direta para incremen-
tá-las: estabelecimento de um guia internacional sôbre a ca-
pacidade de produção das cooperativas, suas necessidades de
272 COOPERATIVAS ESCOLARES
abastecimento, condições dos mercados nacionais, etc.; esta-
belecimento de uma feira internacional, etc.
Última recomendação
Os técnicos, finalmente, recomendaram que a B.I.T. reali-
ze um amplo estudo dos organismos nos quais a administração e
o funcionamento se realizam conjuntamente por cooperativas
de tipos diversos.
O grupo de técnicos acima referido esteve sob a presidên-
cia do Sr. A. A. Drejer, da Dinamarca, e sob a vice-presidência do
Sr. Carlos Valderrama Ordonez, da Colômbia.
CAPITULO XIII
EXCERTOS SOBRE COOPERATIVAS ESCOLARES
Eis excertos de Domingo Bórea em “Tratado de Coopera-
ción" (1927):
"O Primeiro Congresso Argentina de Cooperação", por
unanimidade, resolveu dirigir-se ao Presidente do Conselho
Nacional de Educação, aos Diretores das Escolas da Provín-
cia e Bibliotecas Populares pedindo-lhes que tratem de pro-
mover os meios para que em tôdas as escolas da República se
instruam os alunos nos princípios básicos da mutualidade e
da cooperação.
“Êsse Congresso sancionou outra resolução, recomendan-
do ao Ministério de Instrução Pública, Conselho Nacional de
Educação e aos Diretores de Escolas de Províncias a criação, nos
estabelecimentos educacionais de sua dependência, de cursos de
cooperação e economia, postal, ao mesmo tempo que livrarias
cooperativas constituídas por pais, pessoal docente e alunos, a fim
de dar um ensino prático do cooperativismo, contribuindo, ao
mesmo tempo, para o barateamento do material de ensino,
atualmente tão custoso em virtude do intermediário.
“Mas quem deu notável impulso as cooperativas
escolares foi a Conselho Nacional de Educação, que criou um
serviço especial, dependente diretamente da Presidência do
mesmo Conselho, chamado “Inspeção de cooperativas”,
dirigido pelo Dr. Carlos J. Gatti. Folhetos e impressos vários
são distribuí- dos gratuitamente por êste serviço, publicações
que ensinam como se pode organizar e fazer funcionar uma
cooperativa escolar, que colima dois objetivos: um imediato
como a aquisição de material a preços eqüitativos, reduzindo,
assim, os gástos nessa parte dos estudos; o outro se refere à
face educativa, o conhecimento preciso de princípios que, no
correr dos anos, hão-de operar uma modificação fundamental
na organização econômica do país".
18 — 27 454
274 COOPERATIVAS ESCOLARES
“A prática do cooperativismo não educará sòmente os
alunos: a organização virá da aula até ao lar com seu método
nas compras, adquirindo o necessário, evitando o supérfluo,
criando uma consciência do gasto que efetuar, para que seja
imitada a prática sã da economia, que se transformará em
hábito".
“Em todos os países se difundiu o ensino e a prática da
cooperação nas escolas primárias e secundárias.
“Na Itália, por exemplo, a “Unione italiana
dell’educazio-ne popolare”, com sede em Milão, publicou um
ótimo opus- culo, intitulado “Manualleto per le cooperative
scolastiche”, escrito pelo professor Aldo Oberdorfer.
"O autor põe de manifesto, antes de tudo, que não se
devem confundir as pseudocooperativas escolares, formas pri-
mordiais de cooperação, com as verdadeiras cooperativas. Res-
ponde logo pergunta: “Que é uma verdadeira cooperativa
escolar”?, da seguinte forma: “Mas há uma forma segundo a
qual se pode organizar uma pequena “comunidade de consu-
midores de material escolar”, a qual, ao mesmo tempo que
concede os mesmos benefícios na compra de material tomado
no armazém de compras, explica aos alunos o porquê das eco-
nomias conseguidas, ensinando-lhes a maneira de obter outras
maiores. Impõe uma participação direta no movimento de
compras e vendas, isto é, na administração; aconselha a estudar
o melhor emprêgo que se pode dar aos lucros que uma em-prêsa,
tão modesta como esta, pode também dar. Refiro-me às
cooperativas escolares.
Para os jovens leitores que até aqui me tem seguido, será
fácil compreender o que é uma cooperativa escolar se lhes
disser que se trata, nem mais nem menos, de uma “Coopera-
tiva de consumo para aquisição de objetos de uso escolar”.
“Quem a constitui? Naturalmente os interessados, isto é,
os alunos.
“Quem é chamado a gozar de suas vantagens? Natural-
mente só os sócios, isto é, aquêles dentre os alunos que senti-
ram o dever de se unir no ato de solidariedade com seus com-
panheiros.
"O Estado, que não pode ajudá-la diretamente, recomenda
a instituição e aconselha os mestres a dar em classe noções sôbre a
mutualidade e a cooperação. A Municipalidade a favorece
amiúde, concedendo-lhe um lugarzinho dentro do edifício escolar,
e às vêzes armários onde se possa guardar o material adquirido, ou
por outros meios.
FÁBIO LUZ FILHO 273
“Os mestres dedicam-lhe sua formosa atividade,
iluminada de fé na bondade educadora da cooperação e da
consciência da utilidade prática que adquirem os alunos
com o exercê-la. Em suma, há uma corrente favorável às
cooperativas escolares; só resta soltar as velas e afrontar os
riscos do mar alto.
“Amigos, valor! Fundemos nossa cooperativa escolar!
“Bem! Muito bem! Mas... como se faz?
“Antes de tudo é preciso estabelecer-se se a cooperativa
há-de servir à escola tôda ou sòmente a uma classe. No meu
entender, embora as dificuldades sejam maiores, a pequena
cooperativa deve servir sempre à escola inteira.
“As cooperativas microscópicas de cada classe em parti-
cular, não só por sua pequenez, mas também por outros mo-
tivos, falham função de ensinar aos jovens sócios os princí-
pios elementares da administração de um pequeno organismo
econômico e perdem, portanto, parte de seu valor educativo.
Pelo excessivo fracionamento, nunca adquirem a capacidade
suficiente para realizar uma ação tal, que possa ser empre-
gada para fins superiores de assistência e previsão que devem,
como veremos, estar no cume de uma bem meditada e ordena-
da obra do cooperação escolar. As pequenas administrações
abraçam, portanto, em sua atividade, a escola inteira.
“Em segundo lugar, há necessidade de determinar quem
terá o direito de fazer compras na cooperativa escolar. Con-
tràriamente ao que se costuma fazer nas pequenas adminis-
trações dêste gênero já existentes, aconselho muito a estabe-
lecimento desta norma: que a venda se faça sòmente aos
sócios. E sabes por quê? Porque quero que os alunos coopera-
dores aprendam a considerar sua cooperativa não como um
armazém qualquer, onde qualquer pessoa pode ir buscar os
melhores artigos aos melhores preços sem se sentir a êle vin-
culado de modo algum, mas como uma instituição na qual
cada um está ligado, individualmente, pelo pequeno sacrifício
que fêz aderindo a ela, pelo pequeno esfôrço que realiza em
ajudá-la no desenvolvimento de sua atividade, pelo prazer que
lhe dará a verificação de certo resultado obtido no fim do ano
graças às fadigas comuns e, enfim, também pela real vanta-
gem econômica que lhe trará.
“Mas, perguntarão: que mal há em se permitir que se
venda também aos não-sócios? Não darão êstes, comprando
à sociedade, um lucro de que mais tarde gozarão os sócios?
Talvez por que também as grandes cooperativas não vendem
ao público?
276 COOPERATIVAS ESCOLARES
“Certamente na Itália as grandes cooperativas de consu-
mo, e também as pequenas, vendem aos não-sócios; mas pre-
cisamente agora se começa a combater sèriamente este cos-
tume, que tem uma única vantagem, entre tantos perigos e
defeitos: aumentar as cifras de vendas, aumentando, assim, o
lucro da administração. Mas nós outros devemos recordar
sempre que a finalidade das cooperativas escolares não pode
ser sòmente o lucro, mas principalmente a de educar os alu-
nos na solidariedade e fazer com que efetuem alguma econo-
mia nos gastos, e é evidente que a eficácia educativa será tan-
to maior quanto melhor os alunos compreendam que só por
meio da solidariedade, inscrevendo-se como sócios e colabo-
rando, começam a gozar das vantagens materiais da economia
nas despesas.
“Aconselha sempre, para evitar qualquer intento de espe-
culação por parte do aluno aderente à cooperativa, que se di-
vidam os lucros entre os consumidores. O princípio da divisão
dos lucros, pôsto muito em vigência por tôdas as cooperativas
de consumo, irrefutável do ponto de vista econômico, tem,
não obstante, o inconveniente de exercer uma função negati-
va na educação cooperativa do associado, porque, enquanto
se faz tudo para ensinar-lhe que a cooperação significa, antes
de tudo, renúncia ao direito de lucro individual por um lucro
coletivo, — a pequena soma destinada a cada um como quota
de participação no lucro, — desperta o espírito individualista
e não solidário. Melhor, portanto, conservar indivisíveis os
lucros da administração e utilizá-los para fins de interêsse geral
dos associados, de modo que sejam a urn mesmo tempo os frutos
do trabalho realizado em comum e a oportunidade de gozá-los
ainda em comum.
“Mas ainda:deve-se deixar aos meninos cooperadores a
maior liberdade nas deliberações referentes a essa ação coope-
rativa.
“O mestre e o diretor deverão estar sempre, vigilantes, e
isto compreensível, para que as deliberações sejam honestas,
úteis e concordes com as boas normas da cooperação, para que
o que se fizer seja fiel expressão do que se decidiu; mas essa
vigilância será tanto mais eficaz quanto menos se fizer sentir. A
cooperativa escolar, tem com efeito, além do fim mais
diretamente utilitário da economia nas compras, também um
fim prático mais remoto: acostumar os meninos a decidir e exe-
cutar, não por obediência a outros, e por isso passivamente,
mas pela consciência do dever e, conseguintemente, arcando,
com tôda a responsabilidade do que estão decidindo e fazendo.
FÁBIO LUZ FILHO 277
Estas pequenas administrações querem, pois, habilitar moral-
mente os meninos a deliberarem por si mesmos, ponderosamen-
te, e a executar as resoluções com adequada preparação técnica.
“Para isso, o maior número de meninos deve participar
das operações materiais das vendas, e dos registos de contabi-
lidade e números deve participar também o Conselho de Admi-
nistração. Para vender e para controlar, devem suceder-se por
turnos de quinze dias (pois menos tempo seria muito pouco
para aprender alguma coisa), grupos de dez alunos, e no fun-
cionamento do conselho de administração não haverá perigo
de que seus membros sejam muitos, se o mestre, que preside
à discussão e a regula, tiver habilidade para fazer falar e ca-
lar sem que sua ação se faça mui notável, For outro lado, é
muito útil que a maior quantidade possível de cooperadores
conheça as boas normas cooperativas, que o mestre exporá,
indicando as questões a discutir ou julgando, de vez em quan-
do, o que se fêz no período precedente de atividade da coope-
rativa.
“Se fôr realmente afadigosa para mestres e alunos a tarefa
do preparar à tarde o material para o dia seguinte, nada impedirá
que se encarregue disso uma pessoa prática,
assalariada, talvez o próprio porteiro da escola. Em tal caso se
resolverá outra dificuldade: a da venda do material durante as
horas de aula. Não se pode evitar, com efeito, que, eventual-
mente, um aluno necessite de tal ou qual objeto, e não seria
justo que o cooperador se visse obrigado, não podendo com-
prar em sua cooperativa, a correr até à livraria da esquina.
Por outro lado deve-se proibir de um modo absoluto que du-
rante as horas de aula os alunos administradores atendam a
outra coisa que não sejam suas obrigações escolares, nem é
aconselhável empregá-los nos dez minutos de recreios, porque,
passando de um trabalho a outro durante quatro ou cinco
horas consecutivas, sem um instante de repouso, se cansariam
com prejuízo da atenção e da instrução.
“Lembrem-se sempre de que a cooperativa deve ser um
complemento da obra educadora da escola e não causa para
obstar à eficácia dela ou diminuí-la".
E, acrescento eu, Rivas Moreno diz que “el mejor
auxiliar de gestionar la creación de una catedra en las
normales para la enseñanza de la Cooperación.
“Importa mucho educar la mujer en las práticas de la
Cooperación... Interessa a la Cooperación ganar, para el
desarrollo de las instituciones, al magistério femenino".
278 COOPERATIVAS ESCOLARES
Mazzini disse que a mulher é força, inspiração, potência
multiplicadora das faculdades morais e intelectuais.
A cooperativa levará ao que Sombart caracterizou como
Weltanschanung, melhor concepção da vida, e Stimmung,
sentido do fôro interior...
Totomianz considera as cooperativas escolares como as-
sociações integradas nas escolas, sendo, assim, a própria es-
cola convertida em cooperativa, o que reveste um profundo
sentido para a doutrina cooperativa, que vê na mulher um de
seus maiores esteios.
PAPEL DO PROFESSOR NAS COOPERATIVAS
ESCOLARES
A COOPERATIVA ESCOLAR COMO CENTRO
ATIVO DA ESCOLA
Prof. J. VENTOSA ROIG (México)
O Professor, D. Tirado Benedí, em seu excelente livro
“Cooperativas, Oficinas, Hortas e Granjas Escolares”, faz dis-
tinção entre Cooperativa Escolar e Escola Cooperativa. A pri-
meira, como organismo complementar da escola, tanto pelo
seu aspecto econômico como pelo educativo — evidentemente
o mais importante — ainda que ambos sejam inseparáveis,
pois é também definida como "instrumento educativo, que
realiza sua ação através de uma emprêsa econômica". A Es-
cola Cooperativa, para o citado autor “representa a síntese,
isto é, a organização total da escola na qual se articulam de
maneira harmônica e perfeita as diversas instituições de ação e
de irradiação do dito centro educativo”.
Poderíamos dizer, pois, que a Cooperativa Escolar é o
princípio, a iniciação da Escola Cooperativa, tal como a con-
cebe Tirado Benedí, como síntese das realizações mais efi-
cientes da ciência e da técnica da educação.
As Cooperativas Escolares não se propõem formar car-
pinteiros, agricultores, eletricistas, etc., mas em suas ativida-
des produtivas iniciam os alunos, desde as Escolas Primárias
as Superiores, nos rudimentos de muitas profissões, ao mesmo
(Este trabalho foi especialmente escrito pelo émérito
educador espanhol, radicado no México, para a Divisão de
Assistência ao Cooperativismo do Estado do Rio. Traduzido
por Ruth Moura).
FÁBIO LUZ FILHO 279
tempo em que desenvolvem nos mesmos a base de tôda pro-
fissão, além das atividades mais elementares que praticamos
todos as dias: a habilidade manual.
É verdade que se tem procurado desenvolver esta habili-
dade em todos os sistemas pedagógicos modernos, iniciando-se
logo nos Jardins de Infância e ampliando-se mediante o tra-
balho manual nos diferentes graus, mas na Coperativa Esco-
lar procura-se e consegue-se tornar o trabalho manual inte-
ressante para o aluno, de forma a não ser considerada como
uma obrigação imposta, mas que a veja como uma fonte de
utilidade, não apenas no sentido material ou pecuniário, mas
em outro mais elevado e moral. Os trabalhos manuais para o
cooperador escolar, desde os mais elementares, como o recor-
tar bonecos de papel, adornos para decorar o salão de festas
para uma quermesse, ou representação dramática, até a fabri-
cação de objetos simples ou a colheita de frutas, hortaliças e
legumes na Horta Escolar, representam a obtenção de fundos
para a aquisição de um aparelhamento de projeções, de rádio,
uma discoteca, livros interessantes para a Biblioteca Escolar;
o meio de amparar um companheiro atacado por qualquer
enfermidade ou que sofreu um acidente e também a aspiração
bem legítima de obter, com parte do produto de seu trabalho e
de seu excesso de percepção, a importância suficiente para
adquirir algum objeto de uso pessoal, luxo que muitas vêzes
não pode permitir-se, sem a Cooperativa, o aluno filho de fa-
mília muito modesta.
Como já disse alhures, longe de considerar a
distribuição de uma parte do excesso de percepção aos alunos
associados como um estímulo ao egoísmo dos mesmos, estando
o professor à altura de sua missão a renúncia voluntária de
uma parte dêste excesso, em favor de um condiscípulo que
dêle necessite, ou de algo que seja do interésse coletivo, serve
para cul-tivar o sentimento de solidariedade e de ajuda mútua.
Na formação de hábitos sociais, dêstes sentimentos de so-
lidariedade entre as alunos e entre êstes e os mestres, consti-
tuindo uma unidade social, a Escola, nenhuma outra institui-
ção nem disciplina escolar, pode comparar-se com a Coopera-
tiva Escolar. Claro que estas não devem limitar as suas ativi-
dades à simples distribuição de material escolar e de outros
artigos que as crianças solicitam. O consumo ou distribuição,
por muito interessante, não representa mais que o primeiro
passo, mas ainda neste aspecto se impõe o trabalho em comum
ou em equipe, na preparação do local de vendas, na ordenação
das mercadorias, no contrôle dos artigos distribuídos.
280 COOPERATIVAS ESCOLARES
Nas reuniões dos Conselhos e Assembléias Gerais, sempre
que uns e outras se realizem com a freqüência precisa, o aluno
acostuma-se logo a sujeitar-se à vontade da maioria, a disci-
plinar-se. E todos êstes resultados aumentam em intensidade,
quando se inicia a cooperação de produção em qualquer de
suas formas.
Mas a Cooperativa Escolar é muito mais que isto. Quan-
do atinge a seu pleno desenvolvimento, a Cooperativa consti-
tui a alma da Escola, e ao seu redor se realizam tôdas as ati-
vidades escolares. É a Cooperativa a instituição que organiza
as festas, formando quadros dramáticos, fundando um orfeão
ou côro escolar; equipes esportivas; pequenas excursões du-
rante as quais se colecionam insetos, plantas ou minerais pa-
ra o Museu Escolar. A Cooperativa é a entidade que cuida do
embelezamento da Escola e da sua higiene e limpeza; a que
atende à conservação das árvores e flores do jardim público
próximo; em uma palavra, a que desenvolve um sem-fim de
atividades que variam em cada escola, mas que têm de comum
o habituar os alunos à vida social, ao esfôrço coletivo, a desen-
volver os entendimentos de solidariedade e de responsabili-
dade.
É certo que muitas destas coisas podem fazer-se, e em par-
te se fazem sem a Cooperativa, mas a diferença essencial de
seu valor educativo estriba em que através da Cooperativa
tudo se faz por iniciativa dos alunos, a qual o professor pro-
cura despertar e orientar, e tudo isto é considerado pelos esco-
lares como coisa própria, desde a local da Escola, de que
cuidam com carinho, até ao material escolar, para cuja aqui-
sição contribuíram, bem como as festas esportivas e artísticas.
"O segrêdo do êxito das Cooperativas Escolares depende
de que o mestre saiba orientar as atividades infantis, do bem
ao belo".
“A intervenção do professor no funcionamento das Coope-
rativas Escolares é decididamente o problema mais delicado
que se apresenta no desenvolvimento dêstes admiráveis ins-
trumentos de cultura geral e que são ao mesma tempo a me-
lhor escola de cooperativismo. Se nas cooperativas de adultos,
em suas distintas modalidades, já se chegou a uma perfeita
identificação nos fundamentos, e sendo os Princípios de Roch-
dale — pode afirmar-se — universalmente aceitos, com a ex-
ceção única de uns poucos países totalittários, nas escolares
encontramos acentuadas divergências em pontos tão essen-
ciais como o que vamos tratar, e estas diferenças se manis-
festam tanto no terreno da prática, como no das legislações.
FÁBIO LUZ FILHO 281
Não obstante, como adiante veremos, uma considerável parte
das mesmas obedece mais a circunstâncias ambientes que a
diferenças de caráter doutrinário e pedagógico.
Por isto, deixando de parte os argumentos que abonam
a criação das Cooperativas Escolares, os quais são perfeita-
mente conhecidos pelos leitores de “Divulgação Cooperativis-
ta”, não apenas pelos excelentes artigos publicados nestas pá-
ginas, explanando a matéria, mas também por dispor a lite-
ratura cooperativista brasileira de abundantes e bem orienta-
dos livros, nascidos de penas tão autorizadas como as do Dr.
Fábio Luz Filho, Dr. Valdiki Moura, Prof. J. Monserrat e Dr.
Luiz Amaral, dedicaremos umas linhas ao papel que o
mestre desempenha nestas cooperativas.
Em primeiro lugar, os autores de maior autoridade
são acordes em que só excepcionalmente e nos meios de grande
densidade cooperativa a iniciativa parte dos alunos para a
fundação de uma cooperativa escolar. Geralmente é o pro-
fessor que toma essa iniciativa, pelo menos nas escolas prima-
rias. E se queremos que a Cooperativa Escolar nasça robusta,
não degenerando em simples rotina ou em mero cumprimen-
to de um dispositivo legal — isto, onde por ventura sua cons-
tituição for obrigatória — precisamos despertar, antes de tu-
do, o interêsse dos alunos. Nem nestas, nem em nenhuma ou-
tra classe de cooperativas, podemos esperar um desenvolvi-
mento satisfatório, se não preencherem uma necessidade real-
mente sentida por seus associados. Que necessidades podem
sentir intensamente as crianças, em seus primeiros anos esco-
lares? Naturalmente que as mesmas da demais crianças, da-
quelas outras que não tiveram oportunidade de freqüentar
uma escola. For verdadeira necessidade — ainda que às vêzes
tenha a aparência de um simples capricho — a criança gosta
de guloseimas. A constante atividade física de uma criança
sadia exige alimentos de rápida combustão orgânica, que lhe
forneçam a energia calorífera suficiente e nenhum alimento
melhor que o diverso açucares — a sacarose da cana ou be-
terraba; a glucose e a frutose dos frutos, etc., preenchem esta
imposição.
Outra exigência de tôda criança normal e com saúde,
são os brinquedos, perfeita válvula de escape, onde consomem
suas exuberantes energias. Menos espontâneo, mais fácil de
dês-pertar na criança, é o gôsto pelos passeios, não os passeios
tranqüilo e sossegados próprios de adultos, mas as caminha-
das buliçosas, acidentadas, que proprcionam um campo ili-
mitado à fantasia infantil, capaz de transformar um pequeno
282 COOPERATIVAS ESCOLARES
grupo de árvores em mata virgem; uma colina insignificante
em enorme montanha; um riacho tranqüilo num Amazonas
opulento; e, ante êsse mundo tão sem limites como a sua fan-
tasia, se sente logo explorador de terras ignotas, caçador lu-
tando contra selvagens e feras, ou herói nas lutas libertárias
da pátria.
Se o professor expõe a idéia da fundação da entidade
como um meio de ganhar dinheiro para a compra de gulosei-
mas e de material esportivo, para a realização de excursões e
passeios campestres, pode considerar ganha a partida. A aqui-
sição de livros e material escolar em bases mais econômicas,
suaves, objetivo de grande interêsse para os país, importa
pouco ou nada aos alunos dos primeiros anos escolares, inca-
pazes que são ainda de compreender as apuros financeiros
de um lar modesto; mas os adquirirão na cooperativa, se estão
convencidos que com isto contribuem para a formação dos re-
cursos indispensáveis à realização de excursões, compras de
material esportivo, das cobiçadas guloseimas ou o que é ainda
melhor: dos elementos necessários para fabricar, êles mesmos,
sob a direção dos professôres e, especialmente, das professôras,
saborosos confeitos e dôces que serão divididos para o con -
sumo — parte na escola mesmo e 0 restante em suas casas,
onde exibirão orgulhosos a seus pais e irmãozinhos as boas
coisas que fazem em sua Cooperativa. E estas modestas eco-
nomias poderão ser reforçadas com o produto de representa-
ções teatrais e de festas organizadas pela Cooperativa.
Acreditamos que esta é uma das melhores formas de ini-
ciar os trabalhos de uma Cooperativa Escolar, porque pode ser
realizada em qualquer escola, Nos meios rurais, onde é fácil
dispor de uma pequena parcela de terreno, o cultivo de uma
horta pelos alunos, distribuídos em grupos — cada um com
sua parte — a criação de umas galinhas ou coelhos ou duas
colmeias, que só cuidarão acompanhados por uma pessoa prá-
tica, completarão os meios de iniciação cooperativa.
Durante êste período preparatório, que deve ser repetido
anualmente para os novos alunos, o problema não oferece
complicação alguma para o professor. Êle é a inspirador e o
orientador das atividades dos alunos, ainda que procure esti-
mular a iniciativa dos mesmos, deixando-os resolver as peque-
nas dificuldades que se lhes apresentam, intervindo apenas
para auxiliar a solução dos mais sérios.
Passada essa fase de preparação, os escolares além de
continuar desenvolvendo em maior escala as atividades iniciais,
devem aprender, na prática, a manejar em forma cooperativa,
FÁBIO LUZ FILHO 283
sua pequena república, exercendo os direitos e cumprindo os
deveres que estas associações impõem aos seus componentes,
com maior intensidade, que qualquer outra organização co-
letiva. É a hora das assembléias gerais, dos conselhos de admi-
nistração e fiscais; das comissões eleitas para objetivos práti-
cos, e através dêstes órgãos administrativos e de govêrnos, os
pequenos cidadãos da nossa pequena República Cooperativa
adquirem o hábito da honradez e da escrupulosidade no ma-
nejo dos bens comuns, o sentido da responsabilidade pessoal
na seleção dos dirigentes e no exercício dos cargos, o da sólida-
riedade ou ajuda mútua adquirida mediante o trabalho em
grupos ou equipes; a tolerância e o respeito para com as opi-
niões alheias, ainda que lhes pareçam equivocadas, a par da
coragem e decisão de expor as opiniões próprias, mesmo cho-
cantes com as da maioria, mas sem jactância nem preten-
sões de ridícula superioridade; a confiança no esfôrço próprio
conjugado com o alheio; enfim a soma de condições que hão de
convertê-los em bons cooperadores e, portanto, em cida-
dãos conscientes.
Na realidade, a Cooperativa Escolar, além de suas fina-
lidades econômicas, sempre secundárias, trata de fazer homens
ou, de preferência, cidadãos cônscios de seus direitos e de-
veres — o que não se conseguirá empregando como único ins-
trumento os discursos e as explanações, com os velhos proce-
dimentos verbalísticos que pretendiam fazer crianças sábias,
enchendo-lhes a cabeça com eloqüentes citações orais ou escri-
tas, acompanhadas de algum cocorote de vez em quando.
Como realização prática da Escola Nova ou Ativa, a Coopera-
tiva Escolar ensina, não por palavras, mas pela ação, fazendo,
o isto significa simplesmente que o professor, como em qual-
quer outro processo de educação, deve ensinar corn os alunos
mesmos trabalhando na matéria que procuram aprender.
Não cumpre esta missão essencial o mestre que
açambar-ca a direção e a administração da Cooperativa
Escolar, con-vertendo os Conselhos, Comissões e Assembléias
em pura ficção, em organismos que existem apenas
aparentemente, limitando-se êsses indispenáveis organismos à
simples função de executores da vontade onímoda do
professor. A sua intervenção é preciosa, como nas demais
atividades docentes da escola, mas deve limitar-se ao mínimo
indispensável.
Qual é êste mínimo? Não é possível precisar-se um limite
geral. Na França, Bélgica e outros países onde existe verda-
deiro ambiente cooperativo, em que as crianças são família-
rizadas com a Cooperação, presenciando manifestações e des-
284 COOPERATIVAS ESCOLARES
files, contemplando os imponentes edifícios-sedes de próspe-
ras sociedades, o mestre encontra já preparada a metade da
sua tarefa e o pai do aluno, cooperador militante muitas
vézes, completa sua missão ao satisfazer a curiosidade do
filho. Por esta razão em tais países a intervenção direta do
professorado é muito pequena desde os primeiros momentos,
mas copiar literalmente êstes métodos — excelentes em seu
país de origem — em ambiente onde é raro encontrarem-
se pessoas que saibam exatamente o que é uma cooperativa e
como funciona, onde as crianças e uma grande parte dos
adultos não conhecem siquer a sua existência, cremos
sinceramente que é um êrro e um primeiro passo ao fracasso
certo. Não importa para nosso escopo que existam algumas
excelentes cooperativas no país: o principal é que haja a
ambiente propício. Se na própria França, as vêzes, não é
possível limitar a intervenção do professor aos estritos
limites impostos pelo grande mestre
B.Profit, fundador e apóstolo da Cooperação Escolar, como
vai ser possível limitá-la onde falta êsse ambiente de maneira
quase absoluta?
Por isto na prática e às vêzes apesar das leis e
regula-mentos, a intervenção do professor é maior e até se
admite, como no México e em Salvador, que ocupe êle cargos
diretivos, princípio que condicionalmente pode ser aceito,
desde que restrito a período inicial, mas que viciaria e
desnaturalizaria o sistema se tivesse caráter permanente. No
México, quando a Cooperativa Escolar maneja a interêsses
importantes, usufruindo bens do Estado — oficinas ou
explorações agrícolas — há o cargo de Gerente,
desempenhado por um professor ou por um técnico
responsável, o qual deve agir de acôrdo com o Conselho de
Administação. Tal como recomendamos em nos- so folheto
“Utilidade e Missão das Cooperativas Escolares”, que
“Divulgação Cooperativista” e “Arco Iris” tiveram a ama-
bilidade de traduzir e publicar em suas colunas, e que o Ser-
viço de Economia Rural do Ministério da Agricultura me faz
a honra do publicar, junto com um interessante trabalho do
Dr. Fábio Luz Filho (*), quando um mestre ocupa êstes car-
gos diretivos, deve fazer com que os alunos o substituam
quantas vêzes seja possível, a fim de capacitá-los para o
exercício em forma definitiva, de todos os cargos de direção
e fiscais, limitando o professor sua atuação à vigilância,
orientação e conselho dos alunos, procurando não apenas
respeitar suas iniciativas, mas também despertá-las.
A prática exige, pois, uma intervenção constante do
professor; porém, a eficiência da Cooperativa Escolar, como ins-
FÁBIO LUZ FILHO 285
trumento de educação e cultura, exige igualmente que esta
intervenção se reduza ao estritamento indispensável, atenden-
do-se às condições locais, bem como a idade e à capacidade dos
alunos.
EDUCAÇÃO COOPERATIVA
Fernando Chaves Nuñez, o ilustre técnico da União Pan-
Americana, disse bem:
"O ensino e a correta interpretação dos princípios e pra-
ticas do cooperativismo, constituem por si uma etapa no pro-
cesso educativo integral que seus dirigentes devem cumprir.
Em conseqüência, o cooperativismo, para sua correta e cabal
compreensão, deve ser explicado como um movimento orgâni-
co, sem restringir seu significado a uma das muitas fases que
possa apresentar. Esta árdua tarefa educativa é necessária
para que se chegue certeza de que êste movimento, com seus
objetivos altruístas, econômicos, sociais e culturais, busca uma
nova sociedade cimentada em sólidos fundamentos democráti-
cos, na qual o homem, não importa a que raça, religião ou crê-
do político pertença, tenha a oportunidade de participar do
engrandecimento do seu país, e também da criação de uma
fraternidade de nações, isenta das causas que determinam os
destrutivos conflitos bélicos internacionais.
“Na América Latina, devido a escassez de recursos finan-
ceiros e à falta de pessoal especializado, o movimento coopera-
tivista não pôde desenvolver um plano integral de educação,
embora se deva confessar que, para tais fins, se tem feito lou-
váveis esfôrcos. Em geral, em vários países, criaram- se centros e
institutos para preparar dirigentes e pessoal administrativo para as
cooperativas, já que se tem êste como o principal problema a
resolver. Estabeleceu-se também o ensino do cooperativismo em
alguns colégios públicos e universidades. Na Colômbia, a êsse
respeito se fêz um magnífico trabalho, e especialmente, se deve
citar o Instituto de Estudos Cooperati- vos da Universidade de
Cauca, que é o único centro cooperativista na América, com
caráter universitário. Em um plano internacional, a Liga
Cooperativa Bolivariana, formada pelos centros e institutos
cooperativos da Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Panamá e
Bolívia, nas três conferências celebradas, discutiu o problema
educativo do movimento cooperativista nesses países, como no
resto da América Latina. Estas conferências foram precursoras da
primeira Conferência Inte-
286 COOPERATIVAS ESCOLARES
ramericana de Cooperativas, que se efetuou em Bogotá, em
junho de 1946. Discutiu-se, nessa oportunidade, o financia-mento
e possível estrutura administrativa da Escola Interamericana de
Orientação Cooperativa; cujo objetivo é a preparação técnica
dos cooperadores. Esta escola estabeleceu-se na Universidade de
Kansas City e seu primeiro curso experimental iniciou-se no
verão de 1947, com um total de 19 alunos, em sua maioria
colombianos.
“No continente americano não existem dados estatísticos
para precisar que setores da população integram, o movimen-
to cooperativista. Não obstante, supondo-se que seja constituído
de operários, trabalhadores do campo e membros da classe
média, convém perguntar que tipo de educação lhes foi oferecido.
A resposta parece ser a de que esta atividade se reduziu a
esporádicas conferências ou palestras, não, porém, a um método
educativo sistematizado e acorde com o nível cultural das classes
populares. Pode-se aduzir ainda, em prol desta limitada ação,
que não existem suficientes elementos capacitados. É certo. O
cooperativismo na América, em geral, recruta seus dirigentes em
um limitado grupo da classe intelectual. Deixou, ademais, de
atrair um elemento muito valioso que existe dentro dessas classe:
o mestre, o professor. Êste abnegado servidor, pelos
conhecimentos pedagógicos que possui, é o mais indicado para
desenvolver uma campanha efetiva no sentido da educação
cooperativista. A participação do professor não só lhe daria a
oportunidade para apreciar o que significam as cooperativas
para melhorar sua situação economica, senão também de
divulgar entre os seus educandos os princípios altruísticos que
elas contêm”.
AINDA A EDUCAÇÃO
Eis conceitos de Antônio Sérgio:
“Como definiremos uma cooperativa? Como uma emprê-
sa que e ao mesmo uma associação de pessoas (e não uma
mera associação de capitais, ao modo das emprêsas capitalistas),
e, além disso um lar de convivência fraterna e um foco
de aperfeiçoamento intelectual e moral, tendo por objetivo o
criar um novo sistema de relações sociais e fazer terminar
(em grau maior ou menor) as divergências de interêsses e os
antagonismos. Por isso, o primeiro desvêlo dos cooperativistas é
uma obra de educação; por isso, a primeira fase da funda-
ção de uma cooperativa deve ser um trabalho de esclarecimen-
FÁBIO LUZ FILHO 287
to e de ação moral; por isso, as comissões culturais devem ter
nas cooperativas importância como os seus cargos administra-
vos; por isso será êrro enorme o encarar qualquer cooperador
a sua cooperativa como um simples armazém onde compra
coisas (a “comprativa”, como dizem os mais rudes em Por-
tugal) e não como um centro de convivência, como o seu clu-
be preferido, como a forja onde se vão forjando os mais enér-
gicos militantes da reformação da vida, o verdadeiro “sal da
Terra”. O cooperativismo é ao mesmo tempo um movimento
de reforma econômica que se baseia essencialmente na educa-
ção e um movimento de educação das massas que se serve das
necessidades econômicas dos indivíduos. Pretende criar uma
Humanidade nova, outorgar uma nova civilização ao Mundo.
Só através do cooperativismo será possível um dia uma civi-
lização cristã, de acôrdo com as normas morais do Evangelho.
Bem vistas as coisas, a movimento deverá ser essencialmente
moral, ou, se assim preferirem, a movimento deverá ser
essencialmente religioso (no sentido larguíssimo, humanístico,
filosófico, nada ritualista, transcendalista ou sectário, de tal
palavra) de uma extremidade a outra de seu percurso”.
“Nada mais perigoso, pelo meu modo de ver, do que em-
cararmos as sociedades cooperativas de consumo como meros
armazéns de distribuição das coisas, semelhança das lojas dos
retalhistas, e não como centros de convivência humana
(a grifo é nosso), de amizade calorosa, de “fraternidade ope-
rária”, onde se efetue a distribuição dos gêneros, claríssimo
está, mas sem prejuízo de sua função social e de sua ação
moral. No princípio do cooperativismo deve estar o humanis-
mo, deve estar a generosidade, a boa vontade, o amor. Ou
muito me engano, ou não há êrro de piores conseqüências do
que a ilusão de esperar que instituições sociais, pelo seu pró-
prio funcionamento de teor mecânico, produzam automàti-
camente a justiça e o bem. A justiça, antes de existir nas
instituições econômicas, há-de viver no espírito de cada um
dos indivíduos, no sentimento e na inteligência das “pedras
vivas”, como idéia atuante de união entre os homens. “Está
no pensamento como idéia", para lhes aplicar um verso de
nosso Luis Camões. Nada de bom se poderá conseguir se
não fôr por efeito do amor racional, ao calor humano das cons-
ciências fraternas, da bondade ativa.
"O verdadeiro caminho (como tem sido a nossa pregação
no Brasil, há decênios), por conseguinte, está na federação de
unidades pequenas, centros morais de convivências e de
cultura... . . e não na criação de unidades graúdas, onde se
288 COOPERATIVAS ESCOLARES
perdem o espírito de amor ao próximo e o sentido de solidarie-
dade e de convívio".
“Creio que o setor de economia cooperativa se deverá
manter fortemente social, convivente e humaníssimo... Por isso
as comissões culturais e as comissões femininas deveriam ser
órgãos de importância máxima, tendo por função, aquelas
primeiras, a de manter a caráter moral-social e o objetivo re-
volucionário, e, estas segundas, o de infundir às nossas coope-
rativas de consumo essa feição de lares de todos os seus
associados."
(“Cartas do terceiro homem”.)
COOPERATIVAS ESCOLARES
Eis trecho de uma tese apresentada por Valdiki Moura
ao II Congresso Nacional de Educação de Adultos (em 1958,
no Rio): “Devo também assinalar que, enquanto as cooperati-
vas escolares constituem, na França, organismos subsidiários
da Escola, sob a duplo aspecto pedagógico e econômico, entre
nós têm tido finalidade limitada, porquanto, pràticamente,
se restringem a manter uma cantina para abastecimento de
artigos escolares e merendas. Na França, ao contrário, são
instrumentos vivos de educação, autênticos organismos de
trabalho, que se dedicam a serviços de reflorestamento, ao
plantio, colheita, secagem e venda de plantas medicinais, a
atividade recreativas e culturais (excursões educativas, co-
lônias de férias, clubes filatélicos, conjuntos teatrais, esta-
ções de radiotelegrafia etc.), enfim a um conjunto de ativi-
dades que estimulam a desenvolvimento da personalidade,
preparando os alunos para as tarefas pós-escolares.
“Essas cooperativas são subsidiárias da Escola, porque
servem como microlaboratórios vocacionais para o desenvol-
vimento da personalidade (atenção, iniciativa, solidariedade,
aplicação de conhecimentos, práticas de negócios, mecânica
administrativa, senso econômico etc.) e também como fontes
complementares de recursos para o seu aparelhamento. Assim
é que tem contribuido com meios financeiros para obras de
restauração de dependências da escola (recentemente se coti-
zaram para reconstruir, inteiramente, uma escola pública
bombardeada no norte do país) e para também aparelhá-la
com museus e laboratórios destinados à prática do ensino.
“Parece-me, porisso, surpreendente, que a professorado
de formação, no Brasil, se tenha descurado de tão eficiente
FÁBIO LUZ FILHO 289
instrumento educativo, preferindo fomentar a organização
de caixas escolares. Não nego a utilidade destas, porém tam-
bém reconheço que são entidades de objetivos mais limitados
de cunho paternalista, e que, em vez de desenvolver, nos alu-
nos, as faculdades e aptidões apoiadas no jôgo espontâneo da
personalidade, cria-lhes o hábito da passividade, da espera de
proteção e arrimo, como se fôssem sêres incapacitados ou
irrecuperáveis.
“Enquanto as cooperativas escolares se afirmam como
organismos vivos e atuantes, em cujo seio os associados exer-
citam o uso de tais faculdades e aptidões, as caixas escolares
são organismos de estruturação vertical, dirigidas de cima
para baixo, segundo uma hierarquia de funções que não os
abrange nem contempla Na cooperativa escolar os associados
são autênticos empresários potenciais, possuem e dirigem uma
coisa comum a todos, são as senhores de uma propriedade co-
letiva que funciona para o bem-estar geral. Na caixa escolar,
os participantes são meros usuários de uma ação beneficente
que se processa em camadas mais altas, constituidas por pés-
soas estranhas à escola.
“Não tenho conhecimento da ação educadora das caixas
escolares, sendo sabido que a sua atuação é paternalista, sem
a preocupação de preparar o futuro cidadão para as lutas co-
tidianas. Bem sei, também, que no Brasil, as cooperativas es-
colares não estão tendo essa ação educadora em profundidade
quanto aos efeitos futuros. Os alunos que saem das escolas
servidas por cooperativas, encaminham-se a outros misteres,
vão lidar com atividades que não aproveitam a sua expe-
riência. É isso, porém, uma contingência da falta de comple-
xidade do nosso Movimento. Êle ainda é novo, pouco desen-
volvido, extremamente rarefeito em um país de tamanha
extensão territorial. Entretanto, quando atingir a um grau
ponderável do desenvolvimento, estou certo de que os alunos
egressos das cooperativas escolares encontrarão muitas opor-
tunidades nas cooperativas de adultos, qualquer que seja a
sua especialidade.
Assim acontece na França, e na Dinamarca (embora não
haja neste país tantas cooperativas escolares) é sabido que as
escolas primárias e secundárias rurais (sistema Grundtvig)
ensinam a doutrina cooperativa, fornecendo apreciáveis con-
tingentes de gerentes e diretores para as cooperativas de adul-
tos. Há países que adotam a doutrina cooperativista no
curriculum escolar, bastando referir a sua generalização no
sistema educativo norte-americano.”
10 - 27 454
200 COOPERATIVAS ESCOLARES
O COOPERATIVISMO ESCOLAR — SEU ALCANCE
E SIGNIFICAÇÃO
RUTH MOURA
Estudando os problemas que envolvem o movimento
cooperativo em nossa terra, com sociedades perfeitamente
organizadas e com apreciável aproveitamento nos negócios,
mas divorciadas do espírito rochdaleano, sempre às voltas com
questiúnculas internas e com suas assembléias realizadas em
terceira convocação, apenas a uma conclusão podemos che-
gar — falta de educação cooperativa.
Desde que nos iniciamos nas lides cooperativas, temos
na desvalia de nosso mérito, porém com o coração norteando
nossas modestas atividades nesse setor, clamado pelo desen-
volvimento dos trabalhos educacionais, pedindo uma fórmula
que force as entidades a incluir em suas cartas estatutárias a
obrigação de uma porcentagem destinada ao fomento ao em-
sino, isto em conformidade mesmo com a genialidade daque-
les intemeratos tecelões inglêses que deixaram um rastro de
luz e de esperança, mostrando-nos o caminho limpo de sarças
ou de emboscadas sangrentas para a conquista de uma vida
melhor e mais justa.
Mas a realidade tem sido, infelizmente, outra. Vemos so-
ciedades que se constituem, homens entusiasmados reuni-
rem-se em grêmios cooperativos, observando minúcias esta-
tutárias, sem que ao menos uma voz se levante para sugerir
melhor preparação dos cooperados, com a prática dos métodos
e técnicas da educação cooperativa, pouco se importando que
a sua Cooperativa tenha a existência de um meteoro ou so-
breviva, apesar das incompreensões e do desconhecimento qua-
se total dos princípios que devem sustentá-la.
E porque temos de curvar-nos ante a realidade dos fatos,
é que nos voltamos para o Cooperativismo Escolar, como única
esperança, talvez, de que o nosso movimento cooperativista
alcance, no futuro, o estado ideal do entendimento e da ver-
dadeira ajuda mútua, sem quizilias e os arroubos de lucros
imediatos que observamos amiudadamente em nossas coopera-
tivas.
O ensino da cooperação representou sempre uma aspira-
ção dos cooperativistas e dos educadores de todo o mundo e já
o ilustre e saudoso mestre Carlos Gide disse que “trabalhar em
FÁBIO LUZ FILHO 291
comum é uma arte que só se aprende por uma educação
constante”.
“Para êsse ensino nunca será cedo demais e é justamente
por isso que as escolas, dando às crianças os conhecimentos e
os sentimentos da cooperação, estarão realizando obra de ines-
timável valor, por torná-las aptas ao associativismo, à vida
em comum sob o pátio sagrado da solidariedade e do bem
querer”.
E não será tarefa difícil para o professorado, pelo
contra-rio, uma Cooperativa é uma escola — razão por que só
a compreendemos quando fiel cumpridora dos postulados luzen-
tes que inspiram e norteiam o movimento.
As crianças gostam de aprender fazendo . È as cooperati-
vas escolares não lhes dão essa oportunidade esplêndida de
fazer uso de sua iniciativa e de seu espírito criador? ! Através
das cooperativas escolares não alcança a escola moderna uma
das suas finalidades basilares — a educação mediante a par-
ticipação direta e ativa dos alunos?! Não criam sadios hábi-
tos de fraternidade, espírito de responsabilidade e de ajuda
recíproca, além de robustecer na criança a confiança em si
mesma, em suas responsabilidades?!
Procuremos, pois, dinamizar o movimento cooperativo
nas escolas, contribuindo da melhor maneira para a
purificação das nossas futuras sociedades cooperativas e
oferecendo às abnegadas e nunca demasiadamente elogiadas
mestras, um método prático para a aquilatação da capacidade
e da mudança de atitudes da criança, desde que nessas
agremiações o aluno depara sempre com problemas
verdadeiros, reias. A maneira pela qual as resolve, representa
um meio bem mais eficiente do que um exame sôbre
determinada matéria.
Também as atividades exercidas pela criança na Coope-
rativa colaboram no descobrimento de sua verdadeira
vocação; e se fôsse esta a única vantagem oferecida pelas
cooperativas escolares, justificada estaria a sua criação.
Tôda professôra sabe que a motivação é um dos Proces-
sos mais importantes na aprendizagem. Primeiro, tem-se que
despertar o interêsse para, em seguida, ensinar. Na atividade
cooperativa o interesse inicial é de tal importância que
dele
depende grande parte do êxito que se poderá alcançar.
Motivo por que se deve começar pela realização de uma
assembléia geral, presentes todos os alunos interessados na
fundação de uma Cooperativa, e, nesta primeira reunião, se-
ria mais eficiente e prático que fôsse convidada uma pessoa
mais conhecedora e experimentada no assunto para discorrer
292 COOPERATIVAS ESCOLARES
sôbre as cooperativas em geral, dando uma idéia ampla e clara
do que persegue e colima o sistema cooperativista. Nessa oca-
sião seria muito interessante a distribuição de folhetos ou ma-
terial escrito ou a apresentação de cartazes ou fotografias
alusivas ao tema.
Depois, o grupo deve seguir reunindo-se periòdicamente
para a discussão dos problemas comuns, o que poderá obede-
cer à técnica vitoriosa dos grupos pequenos ou grupos gran-
des, ou em círculos de estudo, em mesa redonda, etc., sendo
importante, entretanto, que dessas discussões participem to-
dos os futuros associados, dando-se-lhes sempre o ensejo de
assumir a liderança. Aproveitar-se-á, então, uma dessas réu-
niões para a escolha do tipo de cooperativa a organizar-se.
Conhecendo já o grupo de alunos os princípios funda-
mentais do cooperativismo, a filosofia do movimento e esco-
lhida também a modalidade preferida, designa-se um comitê
organizador, que se encarregará de tôdas as atividades de
orientação e de organização até à fundação da Cooperativa.
Os componentes dêsse comitê deverão estar sempre muito bem
informados e assistidos, para que possam levar a bom têrmo
suas tarefas. Com a assistência cuidadosa da mestra — que
deve ser apenas a assessôra, a conselheira, não realizando,
nunca, a tarefa da competência dos cooperados — prepararão
um programa educativo, isto, bem se vê, conforme às condi-
ções ambientes, podendo, por exemplo, apresentar dramatiza-
ções ou palestras sôbre assunto cooperativo, assim como lei-
turas em conjunto de livros cooperativos, seguidos de explica-
ções, concursos de composição e cartazes preparados nas aulas
de português ou de trabalhos manuais e de outras maneiras
que a imaginação fértil da criança e a agudeza profissional da
professôra saberão sugerir.
Quando o grupo conhecer bem o assunto, já suficiente-
mente interessado, poderão ser estabelecidos planos para a
fundação da Sociedade. Durante êste período, o trabalho de
educação dos associados e dos futuros associados, não será
interrompido, pois êste deverá acompanhar sempre tôdas as
atividades da Cooperativa. Não podemos esquecer que nas
cooperativas a educação tem que ser constante, antes, durante
e depois de fundadas.
Como a cooperativa necessitará de capital para suas
operações, o associado admitido deverá pagar uma jóia de
admissão a ser fixada pela assembléia geral dos associados
fundado-res, sendo ideal a subscrição de quotas-partes na base
de Cr$ 10,00 cada uma. Estas quotas-partes poderão ser
integra-
FÁBIO LUZ FILHO 293
lizadas de uma só vez ou em prestações mensais nunca infe-
riores a Cr$ 2,00. O aluno-cooperador poderá, no entanto,
subscrever quantas quotas-partes desejar, desde que o seu va-
lor não ultrapasse um terço do capital da Sociedade, fixan-
do-se o mínimo na subscrição de uma quota-parte.
A medida que forem integralizando suas quotas-partes,
o tesoureiro irá anotando nos Títulos Nominativos dos associa-
dos; integralização que poderá ser feita assim que se tenha
decidido sôbre o tipo de cooperativa a ser fundada, podendo
começar — se recomendável —, mesmo no período da orga-
nização.
Pode-se também como meio de levantamento dos
recursos iniciais necessários, aceitar donativos, como, por
exemplo, das cooperativas de adultos ou de pessoas amigas ou
interessadas no movimento cooperativo, bem como
promovendo festividades escolares, teatrinhos, etc., etc.
Para despertar e conservar vivo o entusiasmo dos peque-
nos seria conveniente a confecção de cartazes demonstrando
o progresso da campanha, assinalando o aumento numérico
dos associados ou a importância do capital por êles subscrito,
bem como cartazes outros que evidenciassem o êxito de enti-
dades congêneres — o que, sem dúvida, despertaria o desejo
de amistosa competição.
As cooperativas escolares funcionam da mesma forma
que as de adultos, obedecendo a leis e normas, registro nos
órgãos competentes, fiscalização do Poder Público, etc. Para
o registro terão — como as cooperativas em geral — de re-
querer, fazendo o requerimento ou os requerimentos (porque
a documentação será sempre em duas vias, em virtude de se-
rem registradas no Serviço de Economia Rural do Ministério
da Agricultura e na Divisão de Assistência ao Cooperativismo
da Secretaria de Agricultura), acompanhados de cópias dos
atos constitutivos, dos estatutos, das listas nominativas ou re-
lação dos associados, estas com declaração de idade, nacio-
nalidade e número de quotas-partes que cada um subscreve;
todos os documentos autenticados pela diretoria do estabeleci-
mento de ensino.
Têm as cooperativas escolares a sua diretoria, geralmen-
te composta de cinco membros, eleitos de acôrdo com o que
determinam os Estatutos da Sociedade: presidente, secreta-
rio, tesoureiro; primeiro e segundo gerentes, que deverão estar
sempre sob a orientação da professôra designada para esse
fim. Possuem, também, o seu Conselho Fiscal com respecti-
vos suplentes, todos eleitos pela Assembléia Geral dos associa-
294 COOPERATIVAS ESCOLARES
dos, eleição que poderá ser realizada por escrutínio secreto ou
pelo sistema da aclamação.
As cooperativas escolares, entretanto, não teem persona-
lidade jurídica, desde que a seu objetivo primordial é a de in-
culcar nos estudantes, na geração nova, a idéia do cooperati-
vismo, educando-os e ministrando-lhes os conhecimentos pra-
ticos da organização e do funcionamento de determinada
modalidade cooperativa, agindo acessòriamente quanto às
vanta-gens econômicas advindas da associação.
Professôras, concorrendo para que se organizem coope-
rativas em suas unidades escolares, vós tôdas que formais
essa grande e nobre classe, que é o professorado fluminense,
estareis colaborando, de maneira a mais eficiente e patriótica,
para o progresso do movimento cooperativo do nosso Estado e
da nossa Pátria.
Estareis colaborando para que, no futuro, melhor sejam
organizadas nossas fôrças econômicas e para que os postula-
dos de Rochdale não sejam postergados pelas improvisações
de sociedades cooperativas, pois os vossos pequenos alunos de
hoje serão amanhã, pelos ensinamentos recebidos, defenso-
res da sua pureza e da sua intangibilidade.”
COOPERATIVISMO ESCOLAR
Eis mais alguns conceitos de Profit:
“Não pode haver melhor base para a educação moral do
que a educação intelectual, compreendida desta maneira: a
ação pessoal como treinamento para a reflexão. Uma coope-
rativa escolar pode fazer melhor ainda, realizando a união,
para a educação coletiva de seus aderentes. Entre alunos su-
bordinados e um mestre que tudo dirige e sempre comanda,
existe, muitas vêzes, sob uma ordem aparente, um profundo
desacôrdo. Os melhores mestres conhecem as dificuldades
que os jovens alunos, mantidos sob rédeas, durante muito
tempo, encontram ao se emanciparem, ao saírem da escola. A
preocupação de associar os meninos à disciplina, por vêzes
aconselha a designar, dentre êles, um fiscal geral e a dividir
os serviços por ordem de rodízio. Não é isso, ainda, que poderá
melhorar a situação. A disciplina deve ser interior mais do que
exterior. Com seus funcionários eleitos e pelo seu próprio es-
pírito, a cooperativa escolar revelou-se, pelo seu uso, como a
melhor organização. Na cooperativa nasce e cresce uma cons-
ciência coletiva em que, melhor do que todos os discursos dos
FÁBIO LUZ FILHO 295
mestres, melhor do que tôdas as injunções de seus delegados
ou dos delegados designados por rodízio, a criança encontrará
os esclarecimentos e os impulsos de que necessita, as recom-
pensas e as punições que sua conduta tenha merecido. Aliás,
esta consciência coletiva poderá formular sua lei; os coopera-
dores podem estabelecer regulamentos, criar tradições. Êsses
regulamentos e essas tradições terão muito mais possibilida-
des de ser respeitados e seguidos do que se fôssem impostos,
pois que são deliberados e aceitos, e, na sua execução, todos
se sentem solidários e pessoalmente interessados pelo bem
aspirado pelo grupo e responsáveis diante dos associados.
........ ..................... ...................... ............... .............................
........ ..................... ...................... ............... ............................
"O presidente havia simplesmente transportado para a
comunidade os hábitos de ordem, de atividades, de devotamen-
to, criados pela prática dos princípios cooperativistas.
“Parece, então, que a cooperativa escolar, a princípio
simples agrupamento criado para proporcionar recursos à
escola, se tenha tornado, em seguida, uma organização seletiva
para a educação solidarista da criança. A Cooperativa pode
transformar o ambiente da escola e renovar a concepção da
propriedade, do trabalho, da disciplina; ali, onde só havia in-
dividualismos isolados, barulhentos e hostis, a cooperativa
criou um meio social onde as dificuldades se atenuam diante
da necessidade, enfim compreendida, de se ajudarem uns aos
outros, um meio onde uma disciplina liberal e espontânea se
instaure sôbre a base da solidariedade e do bem comum”.
Eis alguns dispositivos de estatutos preconizados por
Profit:
“Art. 2—A Cooperativa escolar tem como fins
principais:
1.º — Difundir entre seus membros, e em volta dela, o
gôsto da instrução prática, do trabalho inteligente, sadias dis-
trações, a ajuda e a concórdia social;
2.º — Orientar seus associados no sentido de uma ins-
trução que, pelo emprêgo de métodos de observação direta,
vise menos à aquisição duma bagagem de conhecimentos do
que à criação de bons hábitos espirituais, a descoberta do
interêsse que proporcionam as coisas próximas ao despertar
a iniciativa individual e a desenvolvimento duma atividade
consciente e livre;
3.º — Fazer conhecer e amar o meio onde se vive, a pe-
quena pátria que é a comuna, pela observação e o estudo em
296 COOPERATIVAS ESCOLARES
comum de seus diversos aspectos, de sua história, de seus
recursos e de suas possibilidades;
4.º — Desenvolver entre os associados os sentimentos de
estima recíproca, a idéia de solidariedade e a prática da
cooperação, instituindo a vida coletiva da Escola;
5.º — Fazer conhecer e amar a Escola, instituir os seus
patronos e os dos alunos, pelo concurso de todos aquêles, pa-
rentes e amigos, que sejam capazes de se interessar pelo pro-
gresso da instrução popular e pelo futuro das crianças.
“Para atingir a êsses fins, a cooperativa se proporá:
“A) Colocar disposição da Escola importância regular
para a aquisição e instalação de aparelhamento necessário
ao ensino racional de noções elementares de ciência, e, em geral,
ao ensino concreto de tôdas as matérias (Museu Escolar,
material experimental, coleção de objetos, imagens, desenhos,
documentos, lanternas de projeção fixa, cinema, utensílios,
aparelhos e instalações diversas).
“b) — Familiarizar as alunos com a prática da cooperação
aplicada ao enriquecimento do material escolar, donativos,
coletas, fabricação de aparelhos simples, o estabelecimento de
trabalhos documentários (monografia comunal, lista perió-
dica do preço das coisas e dos produtos agrícolas, imagens
aumentadas, silhuetas e croquis explicativos em grande esca-
la, apresentação coletiva das coisas observadas, etc.), organi-
zação de passeios escolares (visitas as fazendas, granjas, re- giões
agrícolas e monumentos interessantes, etc.), exposições de
trabalhos manuais e domésticos, cursos, palestras conferências,
saraus recretativos, etc. Objetiva também a manutenção da boa
ordem da escola, com consentimento do mestre e sob sua direção,
através de certos serviços e cuidados que interessam a todos os
alunos (freqüência escolar, exatidão, ordem e asseio na classe,
nos pátios, no interior, limpeza corporal, bom comportamento na
rua, sala arejada, etc.) e pela redação dum regulamento geral
e de regulamento especiais, se fôr o caso.
“c) — Aplicar praticamente as noções adquiridas, prin-
cipalmente de higiene, no lar, na agricultura, no estudo pro-
fissional e nos trabalhos manuais (instalação e manutenção
de um pôsto de saúde, criação de um lugar próprio para vivei-
ros, cuidar do jardim, arborização da escola, cultivo de horta-
liças, legumes, flores, plantas medicinais, etc.) e fazê-los servir à
prosperidade da comuna: proteção das árvores, dos pássaros,
dos animais úteis; destruição dos animais nocivos, besouros,
(pragas); distribuição de sementes ou de mudas de
FÁBIO LUZ FILHO 297
plantas pouco conhecidas, embora úteis; divulgação de recei-
tas agrícolas ou caseiras, distribuição de trabalhos sôbre higie-
ne, anti-alcoolismo, etc.
d) — Ajudar seus associados a continuarem a se instruir,
ensinando-os a falar, a manter uma palestra elevada, a sus-
tentar uma discussão, a defender sua opinião ou, ao contrário,
a se dobrar diante do fatos consumados, a ler um trabalho, um
jornal agrícola, revistas domésticas, trabalhos de ciência apli-
cada, etc.).
e) — Organizar em seu proveito, anualmente, sempre
que possível, e da maneira que mais agradar aos associados
(concursos de tiro, quermesses esportivas, vesperais ou saraus
teatrais, etc.) a festa da Infância e da Mocidade.
Outros fins a seguir poderiam ser propostos à atividade
dos associados.
(Tradução de Maria Isabel Veloso Nóbrega de Siqueira).
EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO COOPERATIVAS NA FRANÇA
—
AS COOPERATIVAS ESCOLARES
O desenvolvimento do cooperativismo escolar na França
atingiu um nível particularmente elevado.
Assim é que, em fins de 1955, existiam mais de 19. 192
cooperativas escolares filiadas ao Escritório Central da Coope-
ração na Escola. Essas cooperativas são integradas por 722.948
alunos, pertencentes ao ensino primário 23.195, no ensino se-
cundário, e 26.051, ao ensino técnico. Considerando-se que
nem tôdas as cooperativas escolares são associadas do Escri-
tório em questão, pode-se estimar em, aproximadamente,
900.000 o número total dos pequenos cooperadores. Esse
número demonstra, pela quantidade considerável dos escola-
res inscritos nas cooperativas, a esperança que os mestres e os
professôres depositam nesse método de ensino.
(Em 1958, dizemos, o quadro já era outro, como vimos).
HISTÓRICO
As cooperativas escolares nasceram como um imperativo
das preocupações pecuniárias e das preocupações educacio-
nais, estas superando as primeiras. Podem ser encontradas
suas raízes nas sociedades mutualistas escolares. Para os alu-
nos necessitados poderem pagar as cotas devidas a essas so-
298 COOPERATIVAS ESCOLARES
ciedades, os diretores tiveram a idéia do pagamento ser feito
por meio de trabalhos em comum (criação de animais domes-
ticos, reflorestamento, plantação, etc.), que êles executavam
grupados em pequenas associações. Assim foram criadas, so-
bretudo no leste da França, pequenas cooperativas de produ-
ção escolar.
As verdadeiras cooperativas escolares, na sua forma
atual, são de origem mais recente. Datam dos anos que se
seguiram à primeira guerra mundial, no momento em que a
reconstituição e a modernização do equipamento escolar se
constituíram num grave problema a que as municipalidades
estavam impôssibilitadas de resolver. Alguns professôres
imaginaram, então, para obterem recursos necessários —
utilizar o trabalho dos alunos grupados em pequenas
sociedades, chamadas “cooperativas escolares” e dirigidas por
êles próprios.
Logo, porém, a simples procura de proveitos materiais,
por legitima que fôsse, em vista das condições para os quais
êsses proveitos eram realizados e utilizados, deixou de ser o
objetivo essencial das sociedades. O interêsse educativo que
apresentava o desenvolvimento das atividades e o espírito
cooperativo nos meios das crianças, passou para o primeiro
plano e transformou a organização cooperativista escolar num
método de educação moral, social e cívica dos alunos.”
NATUREZA E ESTATUTO JURÍDICO
(Escritório Central da Cooperação na Escola)
“As cooperativas escolares são sociedades de alunos,
dirigidas por êles mesmos, com o concurso dos professôres,
visando-se a atividades comuns”. Esta definição, estabelecida
pelo Congresso Anual do Escritório Central da Cooperação na
Escola, realizada em Tours, no ano de 1948, separa de
maneira clara os dois caracteres essenciais das cooperativas
escolares: o agrupamento dos alunos numa sociedade e o
trabalho em comum.
Do mesmo modo que o agrupamento de menores, consti-
tuído sob a regimento da lei de 1.° de julho de 1901, as coope-
rativas escolares não possuem personalidade jurídica. Elas se
constituem sem autorização prévia. Cada uma delas existe
como secção local, filiada ao Escritório Central da Cooperação
na Escola, que é uma associação que possui personalidade ju-
rídica.
FÁBIO LUZ FILHO 299
Essa instituição, criada em 1928, reune membros dos
cor-pos docente e discente das escolas públicas. É uma organi-
zação autônoma e privada, mas desfruta do apoio do Minis-
tério da Educação.
Albert Thomas, o 1.° diretor da B.I.T., foi, com Charles
Gide e Ferdinand Buisson, o fundador.
O Escritório se subdivide em seções departamentais (em
número de 80 mais ou menos) e em seções locais (cooperati-
vas escolares) às quais o Escritório confere a capacidade legal
de que êle mesmo goza.
FUNCIONAMENTO E ATIVIDADES
As cooperativas escolares nada têm de comum com as
numerosas associações escolares que funcionam, na França,
com finalidades de ajuda mútua e de solidariedade. Nestas
últimas modalidades, a criança participa ùnicamente pelo pa-
gamento regular de suas cotas-partes, enquanto que, nas
cooperativas escolares, ela toma parte ativa na administração.
Os alunos decidem da constituição de sua cooperativa e
elaboram o regulamento interno, inspirando-se nos estatutos
modelos fornecidos pelo Escritório Central. Procedem à elei-
ção da Diretoria da Cooperativa, que se compõe, em geral, de
um presidente, um secretário e um tesoureiro. Os alunos se
reunem periòdicamente (cada semana, todos as meses ou 2
vêzes por mês, conforme as necessidades) para discutirem os
relátórios das atividades e a contabilidade da sociedade e to-
mar em comum as decisões que se fizerem necessárias. Êsses
relatórios lhes são apresentados, regularmente, pelo presiden-
te e pelo tesoureiro da cooperativa.
A administração da cooperativa escolar recai, pois, essen-
cialmente, nos alunos. Êles têm a responsabilidade e, conforme a
sua idade, sua formação e sua evolução, essa responsabilidade
pode ser total. Os mestres, os professôres ou aos diretores dos
estabelecimentos são, bem entendido, os conselheiros e os guias
naturais dos jovens cooperadores.
As cooperativas escolares exercem as mais diversas ati-
vidades. Algumas dentre elas têm a escola como objetivo dire-
to: decorações dos muros, disposição das flores e das plantas
trepadeiras; enriquecimento do museu escolar; construção de
material didático simples; pesquisas, documentário, monogra-
fias locais, etc.
300 COOPERATIVAS ESCOLARES
Outras atividades devem produzir as receitas: pequena
criação (coelhos, abelhas), venda de legumes ou de flores
cultivadas em comum, plantas medicinais, frutas silvestres,
papel e ferro velho, trapos, objetos fabricados (brinquedinhos,
jogos de madeira recortada, trabalhos de emolduramento, ar-
tigos em vime, rafia ou em lã, artigos para recem-nascidos,
bordados) organização de festas pagas, etc.
Enfim, uma atividade típica, que merece menção parti-
cular, é a redação e impressão do jornal da cooperativa: esco-
lha de artigos, postos a limpo; ilustração; composição e tira-
gem produzidas por equipes; distribuição e remessa com a
participação de todos.
No fim do ano escolar 1952-1953, as cooperativas escola-
res francesas conseguiram uma receita no total de 254.493.000
francos contra 133 milhões em 1951-1952.
Eis alguns exemplos dessas receitas:
Colheitas de plantas medicinais .......... 3,816.000 francos
Jardinagem ................... .... ........ .... 2.895.000 “
Edição do Jornal da Cooperativa ......... 3.929.000 “
Atividades dramáticas ................... .... 19.000.000 “
Essas receitas nunca são divididas entre os
cooperadores.
Segundo o objetivo estabelecido pelo Congresso de
Tours, realizado em 1948 (de que já falamos) foi determinado
às cooperativas escolares: “os frutos dos trabalhos em comum
são empregados no embelezamento da escola, melhoramento
das condições de trabalho, organização da cultura artística e
das férias dos associados, ao desenvolvimento das obras esco-
lares e pós-escolares de ajuda-mútua e de solidariedade”.
Não há, pois, jamais, proveitos individuais diretos, quer
dizer, de retôrno, ou mesmo simplesmente um salário cor-
respondente ao trabalho realizado.
O total das despesas para o referido ano elevou-se a 220
milhões de francos, cujos 50,5 milhões foram consagrados à
compra de aparelhos de projeção, de material de imprimir e
material de ensino; 75 milhões para viagens e excursões edu-
cativas, 23 milhões para obras de ajuda-mútua e de sólida-
riedade, seja três vêzes as somas dispendidas nesse mesmo
pôsto o ano passado.
(De “Informations coopératives” — Tradução de
Maria Isabel V. Nóbrega de Siqueira)
FÁBIO LUZ FILHO 301
O EXEMPLO DA FORMIGA
Já alguma vez reparaste em um grupo de formigas, car-
regando um inseto muito grande? Estou certo de que sim,
porque és um menino observador. E quantas vêzes perguntas-
te a ti mesmo como insetos tão pequenos podem carregar
carga tão pesada? É que as formigas conhecem um segrêdo:
o segrêdo da cooperação. E que é a cooperação? E trabalhar-
mos em comum para realizarmos tarefa em proveito de todos.
Terás ouvido dizer que a união faz a fôrça. Isto é uma grande
verdade. Tu e teus companheiros podem realizar grandes coi-
sas pela conjugação dos esforços. Organizando uma coopera-
tiva escolar, poderão resolver muitos problemas e aprender
coisas úteis.
Se as formigas, as abelhas e outros animais resolvem
seus problemas cooperativamente, por que não segues tu o exem-
plo?
E que é uma cooperativa? É uma sociedade formada por
um grupo de pessoas — adultos ou crianças — com a finalida-
de de facilitarem a si mesmos certos serviços necessários à
vida. Se a cooperativa é organizada por crianças, chama-se
uma cooperativa escolar.
Quais são os grupos de crianças que podem organizar
uma cooperativa escolar?
As cooperativas podem ser estabelecidas com êxito por
escolares que tenham bastante interêsse nesta atividade.
Que serviços presta uma cooperativa organizada por
crianças?
— CONSUMO: loja para vender artigos escolares, refres-
cos, doces, presentes, artigos de armarinho. As próprias
crianças devem selecionar os artigos para vender de acordo
com suas necessidades.
B — RECREAÇÃO: com finalidade de planejar
passeios, jogos de salão ao ar livre, excursões e outras
atividades.
C — PRODUÇÃO: Associação para a produção de arti-
gos para a venda. Todo o benefício de cooperativa será em-
pregado na compra de qualquer coisa de interêsse geral: uma
máquina de cinema, material de esporte, etc.
Como se organiza uma cooperativa escolar?
Três fatôres asseguram o êxito de uma cooperativa: edu-
cação, educação e educação. Se o grupo está interessado e
302 COOPERATIVAS ESCOLARES
bem orientado, a cooperativa terá êxito. Deve-se realizar uma
reunião geral de tôdas as crianças interessadas. Nessa reunião
será exposto, de maneira acessível, o que é uma cooperativa,
que vantagens oferece e como funciona; se possível, exibir-se-á
um filme sôbre cooperativismo, mostrar-se-ão cartazes e dis-
tribuir-se-ão folhetos de informação. É importantissimo que
cada menino tenha a oportunidade de fazer perguntas e
comentários e esclarecer assim suas dúvidas.
Estas reuniões devem ser periódicas, realizando desta
forma uma preparação do meio.
Nestas reuniões ficará decidido o tipo de cooperativa que
desejam fundar, e o valor das quotas-partes. É eleita uma co-
missão organizadora, que se encarregará de levar a bom ter-
mo o trabalho de organização de estatutos, etc. Êstes do-
cumentos devem ser submetidos à apreciação dos associados,
para aprovação final.
Como se levanta o capital necessário?
Todo negócio necessita de capital para funcionar. Uma
cooperativa é um negócio embora sem fins de lucros; logo ne-
cessita de capital, que deve ser formado pelos próprios associa-
dos. Cada criança fará a entrega ao tesoureiro de pequenas
quantias, de 1 cruzeiro para cima. Assim, economia sôbre
economia, cruzeiros sôbre cruzeiros, a cooperativa terá capital
suficiente para iniciar o negócio.
Quem dirige a cooperativa escolar?
A cooperativa é dos associados. São êles que decidem co-
mo ela vai funcionar. Esta direção é feita através do voto —
cada associado tem direito a um voto, não importa o capital
que tenha na cooperativa.
Como nem todos os associados podem dirigir uma coope-
rativa, êles mesmo nomeiam um Conselho de
Administração, que representa a entidade e dirige os seus
negócios. Ao fim de cada ano, êste órgão prestará contas de
seus atos.
(Adaptação de um folheto do Serviço de Extensão Agrí-
cola de Pôrto Rico, por Maria Tereza Teixeira Mendes Lan-
glois).
N.B. — Vejam-se também os trabalhos de Nair de Andra-
de, Isabel de Camargo Schützer, Cécilia Cunha, Nair
Ortiz, Flor González Padrino (Venezuela), etc. (Ver nota final).
FÁBIO LUZ FILHO 303
A COOPERATIVA ESCOLAR
“A Cooperativa escolar passa a ser um centro ao redor
do qual se ordenam, se desenvolvem e condensam os conhe-
cimentos adquiridos em classe. É também uma aplicação e
um recapitulação do já aprendido.
A cooperativa observa todos os aspectos dos métodos ati-
vos. Requer uma atenção permanente, graças à qual a criança
chega a constituir — para o professor — um colaborador
ativo.
A Cooperativa não se apóia em fatos imaginários, mas
vivos, e reais: relatórios, prestação de contas verbais, apre-
sentação de balanços e balancetes, desenhos e trabalhos ma-
nuais que têm uma finalidade prática, contabilidade, etc.
A Cooperativa objetiva a personalidade integral do esco-
lar e pode alcançar êxito ao pôr em evidência e em ação, na
alma da criança, fôrças que sem ela permaneceriam ignoradas
e ensimesmadas.
Ainda pode revelar aos interessados, a seus companhei-
ros, a seus professôres: entusiasmo, reservas, devoção e habi-
lidades que as atividades puramente escolares não fariam
nem despertar nem conhecer, as quais, uma vez expostas, pó-
dem servir de ponto de apoio para o instrutor.
A administração de seu pequeno grupo representa, para
as crianças, a oportunidade de se instituírem sôbre muitas ma-
térias que não constam dos programas escolares. Freqüente-
mente sôbre as relações epistolares com os fornecedores e os
fregueses da cooperativa. Familiarizam-se com os efeitos co-
merciais e aprendem pequenas operações de contabilidade
elementar. Habituam-se a falar perante seus companheiros, e
nas dicussões, a argumentar, fazendo valer suas opiniões, a
saberem calar-se e escutar.
A Cooperativa estabelece uma solidariedade manifesta
entre os alunos e os ex-alunos, fazendo nascer entre os jovens
— que colhem o que seu antecessores semearam — um sen-
timento de gratidão e uma forma de espírito de emulação
para deixar, por sua vez, sinais de sua passagem pela escola.
Entre esta e as famílias, que são freqüentemente convidadas
para que tomem conhecimento da obra realizada pela crian-
ças. Por suas contínuas visitas e por sua participação nos atos
da cooperativa, os pais se aproximam e se vinculam à grande
família da escola laica, cujo círculo ampliam estreitamente
sem laços entre si.
— Por que se funda uma Cooperativa Escolar?
304 COOPERATIVAS ESCOLARES
— Por que se deseja que a escola seja mais bela, acolhe-
dora e alegre, se enriqueça com um material de ensino mais
abundante e sempre renovado; viva um ambiente feliz; che-
gue a ser um modêlo de limpeza e conservação. Porque se de-
seja desenvolver entre os alunos: seu espírito de observação;
sua responsabilidade como dirigentes e organizadores; seu
sem-tido da disciplina e do trabalho em equipe; as relações
entre a escola e os habitantes da comunidade; as relações da
escola com as outras escolas.
— Como se cria o interêsse pelo cooperativismo na
escola?
Cria-se no espírito das famílias e da população, explican-
do a todos o que se pretende fazer: as aulas mais agradáveis,
o ensino mais eficiente. Cria-se no espírito das crianças, es-
forçando-se por despertar nestas o desejo e a necessidade de
uma cooperativa."
(De “Cooperativas". , da União Pan-Americana).
DEFINIÇÃO, CARÁTER E VALOR DAS COOPERATIVAS
ESCOLARES
Dentro das diretrizes pedagógicas do cooperativismo es-
colar francês, H. Charlot, vice-presidente do Office Central de
la Coopération à l'Ecole, de Paris, acentuou, em outubro
de 1957, em (“Revue de la cooperátion scolaire”) que o Com-
gresso de Tours, em 1948, assim definiu o cooperativismo es-
colar:
“No ensino público, as cooperativas escolares são socie-
dades de alunos dirigidas por êles mesmos com o concurso
dos professôres, tendo em vista atividades comuns. (É a de-
finição justa da lei brasileira).
“Inspiradas por um ideal de progresso humano, tem elas
por fim a educação moral, cívica, intelectual dos cooperado-
res, pela gestão de sociedades e o trabalho de seus membros.
“Os frutos do trabalho comum são destinados ao
embelezamento da Escola, ao melhoramento das condições de
trabalho, à organização da cultura artística, a jogos dos
associados, ao desenvolvimento de obras escolares, e pós-
escolares de ajuda mútua e de solidariedade”.
FÁBIO LUZ FILHO 305
Vê-se, acrescenta Charlot, que a Cooperativa Escolar é
um agrupamento de iniciação à vida prática e social, cujos
benefícios são sempre utilizados para fins coletivos.
É um agrupamento no qual os associados são,
incessante-mente, chamados a pequenos sacrifícios em favor da
obra e em favor de seus co-associados.
É um agrupamento no qual os associados são, incessan-
temente, convidados a ação e ao trabalho.
É um grupo de crianças que, sob a égide de seu
professor, trabalham êles mesmos no sentido de melhorar o
meio moral e o meio material que condicionou a sua ação.
CARÁTER
“E, a cooperativa escolar, um método de educação ativa
capaz de:
a) — formar a vontade da criança;
b) — dirigir seus hábitos;
c) — ensiná-la a usar sua liberdade;
d) — criar a vontade coletiva.
VALOR
1.º — Valor material.
Pela Cooperativa escolar a Escola se transforma
progres-sivamente: não é mais a casa triste, sombria, poenta e,
às vêzes, feia, na qual a criança entra apreensiva, com uma
fi-sionomia carrancuda e aborrecida. Graças à Cooperativa
Es- colar, ela se torna alegre, clara, limpa e bonita. Nela a
criança entra espontâneamente, nela se encontra à vontade.
Nela to- dos o acolhem sorridentes, nela tudo o atrai com
insistência.
2.º — Valor moral.
Entre os cooperadores aparecem qualidades morais que,
sem a Cooperative, nunca teriam sido solicitadas nem desen-
volvidas, pois:
a) seu espírito de pesquisador, de observador e de cria-
dor se aguça na ocasião da aplicação e do cuidado que põe na
feitura de pequenos aparelhos destinados à venda, à tômbo-
las ou ao ensino concreto;
20 — 27 454
306 COOPERATIVAS ESCOLARES
b) seu pendor para o trabalho bem feito se manifesta
mediante realizações bem sucedidas e muitas vêzes, graciosas,
dos quais conservará a impressão quando, mais tarde, fôr ope-
rário ou artífice;
c) seu sentido do trabalho em equipe se consegue auto-
màticamente, porque a criança não trabalha só em seu canto.
Fazendo parte dum grupo ativo, compreenderá ràpidamente
que a ajuda mútua, na execução duma tarefa determinada,
leva sempre à perfeição e à rapidez na realização dessa tarefa;
d) sua responsabilidade de dirigente e de organizador é
vivamente solicitada porque, tornado chefe de grupo, saberá
assumir responsabilidades disso decorrentes, e saberá tomar
decisões, que fará em seguida executar com autoridade o
bom-humor;
e) sua vontade se afirma, porque, para levar a bom ter-
mo uma tarefa as vêzes penosa, e difícil, que lhe foi confiada,
deve a criança apelar para tôda a sua energia, coragem e fir-
meza de coração;
f) seu amor das belas coisas se acrisola, pois o quadro
bem ordenado de uma classe bem posta e bem decorada terá,
para seu futuro interior familiar, uma repercussão feliz: or-
dem, limpeza, bom gôsto;
g) seu sentimento de honra toma alento, porque o
cooperador possui uma consciência integra e um amor-próprio
extraordinário para bem preencher as funções que lhes são
confiadas;
h) sua compreensão do bem comum ganho no seio da
Cooperativa, torna-se nêle um hábito profundo, que dêle fará,
mais tarde, em cidadão probo, honesto e reto;
i) seu amor ao próximo se manifesta largamente pela
amplitude e diversidade dos socorros que distribui generosa-
mente àqueles que estão na necessidade e sofrem.
Valor pedagógico
a ) A Cooperativa Escolar torna-se um centro em torno
do qual se agrupam, se desenvolvem e se suavizam os conhe-
cimentos adquiridos em aula. É ela também uma aplicação
e recapitulação práticas.
b) A Cooperativa utiliza todos os aspectos dos métodos
ativos, Exige uma atenção permanente graças à qual a crian-
ça se torna, para a professor, um colaborador zeloso.
FÁBIO LUZ FILHO 307
c) A Cooperativa se apóia, não em exercícios imagina-
dos, mas exercícios bem reais e bem vivos: relatórios, atas,
prestação de contas, desenhos, trabalhos manuais de uma dês-
tinação prática, contabilidade, etc.
Valor psicológico
As Cooperativas solicitam a personalidade total do aluno,
e pode conseguir, na sua alma de criança, revelar e pôr em
ação fôrças que, sem ela, teriam ficado inaplicadas e retraídas.
A Cooperativa escolar pode revelar aos interessados, aos
camaradas, aos professôres, faculdades de entusiasmo, reser-
vas de devotamento e aptidões que os exercícios escolares não
poderiam fazer surgir, nem tornar conhecidos, e que, uma vez
revelados, podem servir de ponto de apoio à ação do professor.
Valor prático
A administração de seu pequeno grupo é, para as
crianças, uma ocasião para se instruírem sôbre numerosas
questões não previstas pelos pequenos escolares:
a) relações postais com os fornecedores e os clientes
da cooperativa; b) familiarizarem-se as crianças, com ordens
de pagamento, cheques, operações de contabilidade elemen-
tar; costume de falar perante seus camaradas e, nas discussões
sérias, procurar argumentos, fazê-los prevalecer, calar-se
quando conveniente, escutar.
Valor social
A Cooperativa estabelece uma solidariedade manifesta:
a) entre os alunos presentes e os antigos alunos, fazendo,
eclodir entre os jovens que colhem o que os seus antecessores
semearam, um sentimento de reconhecimento e também uma
espécie de emulação, para deixar, por sua vez, alguns benefí-
cios de sua passagem pela escola;
b) entre a escola e as famílias, porque estas são, muitas
vêzes, chamadas obra empreendida pela criança. Por suas
visitas freqüentes à Escola, pela sua participação nas mani-
festações da Cooperativa, os pais se apegam e ligam à grande
família da Escola laica, da qual alargam o círculo apertan-
do-lhe os laços.
(Trad. de F. L. F.).
308 COOPERATIVAS ESCOLARES
COOPERATIVA ESCOLAR E FORMAÇÃO MORAL
por Calvée (Inspetor escolar francês em Nancy)
........ ..................... ...................... ............... .............................
........ ..................... ...................... ............... .............................
Terceira parte
Que é uma cooperativa escolar?
Se tomarmos a definição de M. Colombain, a
cooperativa escolar é uma associação. Falei muito até aqui da
coletividade escolar, do grupo de classe, dessa sociologia
escolar, para que não pareça indispensável fazer uma
transição.
Do ponto-de-vista psicológico a cooperativa escolar é:
um agrupamento de indivíduos, logo organização.
É muito fácil inculcar, intelectualmente, aos alunos essa
idéia de agrupamento organizado. Mas é sobretudo pela ação,
na ação em comum que a criança compreenderá o que signifi-
ca essa associação, que é:
—negativamente, a ruptura do isolamento; positivamen-
te, adição de fôrças individuais, de iniciativas pessoais, de von-
tades singulares, de inteligências particulares, isto é, a soma
das liberdades individuais nascentes. Nada como essa associa-
ção cooperativa para reduzir a egocentrismo infantil. Real-
mente, a criança, no seio do grupo e na ação, verifica que:
—Duma parte, como indivíduo: compreende que ela tem
um voto nas eleições, nas decisões que se seguem às delibera-
ções; que ela tem o direito de dar suas opiniões nas discussões;
que ela tem um lugar para seus objetos pessoais, assim como
tem um papel que desempenhar. Aprendizagem pragmática
de igualdade e de justiça, que é a recíproca da igualdade.
—Doutra parte, como associado: sente, compreende que
não está só na organização; sua opiniões se chocam com as
dos outros; melhor; aprende a ter opiniões e a formulá-las;
o contacto com outros espíritos e com outras vontades facilita
a eclosão de seu pensamento; o grupo, a êsse respeito, é exci-
tador e estimulante; mas, em contrapartida, o grupo se reser-
va o direito de submeter o seu pensamento ao contrôle e à cri-
tica coletivos; suas iniciativas, submetidas também à dis-
cussão crítica, deverão ajustar-se a outras iniciativas, igual-
mente respeitáveis, uns e outros finalmente fundidos em uma
iniciativa coletiva.
FÁBIO LUZ FILHO 309
É a melhor educação da solidariedade, duma solidarieda-
de inteiramente nova, aliás, não mais baseada, como o é na
família, na qual é forte, ou na classe, mas fundada, ao con-
trário, sôbre razões de fato, de experiência, vividas e diária-
mente praticadas.
E, da mesma forma, se elabora uma nova noção de san-
ção, não mais baseada na idéia de expiação, mas apoiada na
noção de reciprocidade, e que comporta, no fundo, o sentido
da responsabilidade pessoal, com êstes dois aspectos:
a) responsabilidade em relação ao grupo inteiro;
b) responsabilidade através da responsabilidade global
do grupo.
Sem insistir muito — e apenas do ponto-de-vista psico-
lógico, é evidente que a cooperativa escolar constitui um meio
particularmante favorável á formação moral das crianças:
da razão prática o aluno se eleva até ao conceito das realida-
des morais mais elevadas; adquire essa autonomia moral, que
é geradora de atos livres, cuja prática é para êle cotidiana:
a ) julgamento de fato ou de valor;
b) raciocínio;
c) decisão;
d) execução.
Associação voluntária.
Não se cria sob a influência de uma necessidade exterior,
duma pressão estranha de programas ou de pais, quando mui-
to uma sugestão do professor. Porque é seu caráter voluntá-
rio, de se constituir por livre adesão, o penhor indispensável
de sinceridade, de eficácia.
Aberta — Associa professôres, pais, amigos da escola,
natigos alunos, ou autoridades locais. (Ver a exegesse da Assis-
tência Jurídica do Serviço de Economia Rural, segundo a qual
só as alunos podem participar de cooperativas escolares,
caben- do aos professôres o papel de assessôres apenas, no
que estão mais certos, como já vimos).
Assim concebida, a cooperativa escolar se torna
indispensável etapa intermediária entre a escola, de um lado,
e, do outro, a família, o grupo social elementar, e a sociedade
local, infinitamente mais vasta; e, assim, tem ela o mérito de
abrir largamente a escola à vida.
310 COOPERATIVAS ESCOLARES
Democracia — É democrática pela eleição (períodica)
dos dignitários da cooperativa escolar e pelo seu funciona-
mento. A eleição, as deliberações, as decisões, não são um si-
mulacro, não são um jôgo, são atos verdadeiros, que mobili-
zam o julgamento, que forjam energias e o senso das respon-
sabilidades, e operam, as vêzes, na classe, uma reclassifica-
ção mais em função do caráter que do mérito pròpriamente
escolar. E do ponto-de-vista educativo, isso é extremamente
importante: é tôda a filosofia do “Contrato social” que é pos-
ta em ação duma parte, um duplo e prévio acôrdo coletivo,
para que se realize a vontade da maioria, e para que à mesma
se submeta a minoria; doutra parte, a aceitação voluntária
do mecanismo democrático, que faz com que a criança seja, a
um mesmo tempo, soberano (elege e vota), principe (função
de dignitário) e súdito (deveres de societário). Dito doutra
forma: a criança aprende a obedecer aos outros, a respeitar
as decisões, regras e estatutos que ela mesma votou; habi-
tua-se a controlar suas próprias ações e a de seus semelhantes.
Pode-se-á exigir melhor atmosfera para a educação do
senso cívico? Pode-se-á conceber melhor ordem para a eclosão
dos líderes e a discriminação de elites?
CONCLUSÃO
Tais são as considerações que me pareceram formuláveis
a propósito do problema que nos reuniu.
Certamente, apresentei as coisas sob um ângulo ideal.
Mas, faço-o porque estou convicto, com Charles Gide, de que
“la coopération, c’est une étoile”, logo a um só tempo um
guia seguro e um fim elevado. Mas junto êste corretivo:
“Para que a criança se interêsse pelo cooperativismo es-
colar, é preciso que ela se interêsse pela escola”, e por ela só se
poderá interessar se a educação intelectual que receber
fôr uma educação realmente ativa. Neste caso, a criança se
sente firme quando passa da atividade do conhecimento à da
cooperação; não se sente deslocada; conserva sua coerência
mental neste microcosmo social e moral que é a classe, na
qual aprende, pela ação e na ação, a estima de si mesma ao
mesmo tempo que a dos outros, e na qual se faz aprendizagem
pragmática dessa “virtude” tão necessária ao desenvolvimen-
to do espírito democrático.
O cooperativismo escolar, certamente, não é uma pana-
céia universal; mas tôda vez em que falo do cooperativismo
FÁBIO LUZ FILHO 311
escolar ou que nêle penso, mais convicto estou de que “ o futu-
ro da Sociedade é a Escola".
“C'est dire qu'à tout moment de la croissance, les fins
personnelles de l’enfant, au nombre desquelles ou compte
heuresement le besoin naturel do socialité, devront toujours
s’articuler harmonieusement avec fins collectives du groupe
social dans lequel il se développe”.
(“Revue de la coopérations scolaire" — mai - juin —
juillet 1958) — Paris — France — Trad. de F. L. F.).
A COOPERATIVA ESCOLAR
D. Mercedes Amália Marchand é supervisora geral do
Departamento de Instrução do Pôrto Rico. Em trabalho pu-
blicado em “Cooperativas” da União Pan-Americana, de ju-
nho p. p., assinala, com propriedade, dentro da mesma linha
de orientação pedagógica dos técnicos brasileiros, que as
cooperativas escolares servirão de laboratórios práticos, que
oferecem a oportunidade de uma aprendizagem funcional,
opinando que seis áreas de vida são enriquecidas com o ensi-
no do cooperativismo, a saber:
Área I: Elevação do nível de vida do homem em têrmos de
proficiência econômica (educação vocacional, matemáticas,
estudos socias e outras matérias), com as seguintes con-
sequências: os estudantes se familiazarão com o movimento
sócio-econômico mais importante da época moderna, o coope-
rativismo. Iniciando-se no estudo de temas de economia:
oferta e demanda, mercados e preços, empréstimos e juros,
etc... Aprendem a localizar, a usar, a aumentar e a conser-
var os recursos de que dispõem, desenvolvendo o hábito da
economia, para a necessidade e para a ação comum.
Associando-se para oferecer serviços individuais: consu-
mo, produção, crédito, venda, recreação, etc..., aprendem
também a selecionar produtos, apresentá-los de forma atraen-
te e a calcular preços.
Distribuem os alunos, na sua cooperativa escolar, as so-
bras entre os associados na proporção de seu consumo, con-
forme a regra clássica, aumentando, assim a renda da fa-
mília.
Preparam orçamentos, horários de trabalho, e
requisições, que envolvem economia de dinheiro, de tempo, de
materiais.
312 COOPERATIVAS ESCOLARES
Estabelecem relações comerciais e desenvolvem capacidade
administrativa.
Área 2 — Desenvolvimento de habilidades para a comu-
nicação e para a solução de problemas.
Dentro dessa área, aparecem ao educando temas sôbre
os quais falar e escrever. Enriquecem seu vocabulário durante
leituras, palestras, etc. Preparam regulamentos, cláusulas
estatutárias; planos, programas, relatórios, informações, no-
tas, telegramas, cartas, requerimentos, atas, minutas, editais
de convocação, etc.
Ademais, usam técnicas educativas recomendadas, tais
como: palestras curtas ilustradas, excursões, círculos de estu-
dos, planos para discussões, sóciogramas, entrevistas, confe-
rências, foros, demonstrações e outras. Apresentam proble-
mas, discutem-nos e sugerem meios para resolvê-los. Aceitam
e modificam idéias e aplicam-nas. Outra técnica educativa são
as assembléias, concursos, votações, campanhas cívicas e
outras atividades educativas.
Aprendem a fazer contas em seus livros e no banco ou
no correio, a pagar faturas, a fazer pedidos acompanhados de
letras ou cheques, como a comprovar contas, a dar e a con-
servar recibos, a fazer compras, a elaborar balancetes, a fazer
inventários.
Adquirem, enfim, os conhecimentos básicos que os ca-
pacitam para serem cidadãos socialmente úteis.
Área 3: Compreensão de que na vida criadora está o
máximo prazer da pessoa humana.
Uma vez agrupados, os alunos capacitam-se para
produzir os recursos com que melhorar o meio em que vivem.
Sentem o desejo de fazer coisas belas e úteis. Preparam locais
para instalar suas tendas e oficinais: arrumam-nos, pintam-
nos e os dotam de armários e outras facilidades. Escrevem
poemas, canções, acrósticos, décimas, dramas, composições e
outros trabalhos originais.
Preparam programas, repertórios e adornos para suas
assembélias e festas. Oferecem presentes simbólicos.
Área 4: Melhoramento do teor da convivência social.
Os alunos iniciam-se na idéia dominante da história: a
vida do progresso do homem. Associam-se disciplina da es-
cola, ajudando a mantê-la, convertendo-se em preciosos auxi-
liares do professor. Adquirem o hábito e o gôsto da ação co-
mum, gozam de liberdade de ação, conhecem e praticam os
princípios democráticos.
FÁBIO LUZ FILHO 313
Aprendem, além disso, a dirigir, a delegar e a dar exem-
plo, investindo-se em funções de acôrdo com as habilidades,
as aptidões e as condições dos associados.
Interessando-se pela prosperidade da escola e da
comunidade, realizam esforços individuais para o benefício do
grupo.
Aprendem a tratar com as pessoas. Respeitam as opi-
niões individuais, as decisões do grupo e os regulamentos apro-
vados. Adquirindo um sentido de solidariedade, mostram res-
peito pelos trabalhadores. Aconselham e ajudam os compa-
nheiros que se encontram em dificuldades. Exercem influên-
cia saudável sôbre os pais. Ajudam as cooperativas nascentes.
Separam parte de seus fundos para ajudar as campanhas cí-
vicas, tais como Cruz Vermelha, Liga contra o câncer, a cam-
panha para evitar a tuberculose e outras. Melhoram as rela-
ções entre alunos, clientes e fornecedores. Eliminam das re-
lações sociais a idéia de lucro e a substituem pela idéia de ser-
viço. Vivem mais livres de preconceitos.
Área 5: Desenvolvimento e fomento de uma estimativa de
valores.
Os alunos, na cooperativa escolar, praticam, com entu-
siasmo, a ordem, a economia das coisas e o bom uso do tem-
po, ocupam o tempo vago em uma obra útil. Avaliam seu
progresso e seus fracassos. Adquirem confiança em suas for-
ças e um desejo sincero de melhorar. Desfrutam com alegria
dos serviços que se prestam em comum. Vêem recompensa
no prazer de haver trabalhado juntos para um fim comum.
Ademais, os alunos se sentem felizes em serem úteis ao movi-
mento com sua modesta participação. Estabelecem tradições
saudáveis de trabalho e concórdia.
Dão sentido educativo às festas escolares. Consideram a
exercício da autoridade como uma função e não como um
privilégio. Compreendem o valor da experiência. Aprendem a
amar o seu povo. Mostram-se fiéis à palavra dada.
Área 6: Melhoramento da saúde física, mental e espi-
ritual.
Os alunos adquirem, ainda, o hábito da limpeza, da or-
dem, da boa saúde e da atividade. Enriquecem o ambiente
escolar, tornando-o mais agradável e harmônico. Oferecem à
venda produtos sãos e nutritivos. Abstêm-se de comer muitas
guloseimas e de consumí-las entre as refeições. Aprendem a
tomar medidas de segurança durante as atividades de que
participam, viagens, excursões, experiências, trabalhos etc...
314 COOPERATIVAS ESCOLARES
Finalmente, conclui O. Mercedes Amália Marchand,
investem parte de suas economias em roupa, calçado,
alimentos, medicamentos, artigos de uso individual.
Pelo exposto, como dissemos no início, os técnicos brasi-
leiros, dentre os quais o Sr. Fábio Luz Filho, como a pregação
do Serviço de Economia Rural, trilharam os atalhos pedagó-
gicos acertados, plenamente confirmados pela ilustre educa-
dora portorriquenha, que merecidamente teve seu trabalho
pôsto em relêvo pela União-Pan-Americana, em
“Cooperativas”.
(Do S. E. R.).
PLANO PARA UMA COOPERATIVA ESCOLAR
Eis o plano de educação cooperativa adotado por uma
escola de Costa Rica:
Propósitos:
1 — Preparar um ambiente propício ao nascimento e de-
senvolvimento das idéias cooperativas.
2 — Aplicar à vida escolar a filosofia que encerra o me-
todo cooperativo (fraternidade, prestação e intercâmbio de
serviços, atenuação de tendências egoístas, fortalecimento de
impulsos sociais, desenvolvimento da capacidade de contri-
buir para o bem comum).
3 — Acostumar os membros da comunidade a trabalhar
juntos, a participar das discussões, expressar, livre e franca-
mente, suas idéias, a dizer com clareza o de que necessitam e
o que querem, a reclamar seus direitos e a cumprir seus deve-
res. Ao participar dos debates nas Assembléias e comités em-
carregados de redigir os regulamentos, o programa cooperati-
vo e suas normas, assim como ao calcular receitas e despesas
e ao votar nas eleições, os alunos “aprendem praticando” os
princípios fundamentais da Democracia e, conseguintemente,
se vão educando para serem cidadãos úteis e conscientes.
4 — Aplicar o princípio de “aprender fazendo coisas pra-
ticas”, isto é, aprender o cooperativismo praticando-o e in-
culcar nos membros o orgulho de pertencer à Cooperativa e
de serem membros úteis à sua comunidade.
5 — Adaptar o programa de matemáticas, dentro do pos-
sível, à vida da Cooperativa Escolar, sobretudo em pontos como:
aplicação simples de faturas, orçamentos, inventários,
FÁBIO LUZ FILHO 315
mecânica das operações, percentagens, noções de contabili-
dade, etc.
6 — Dar oportunidade aos alunos para a defesa e
conser-vação da vida nos aspectos fisiológico e econômico:
ATIVIDADES:
1 — Participação direta na organização e funcionamen-
to da Cooperativa Escolar.
2 — Dar conhecimento das regras econômico-sociais do
Cooperativismo.
3 — Usar o método de projetos, e organizar grupos dis-
tintos, que se responsabilizarão por atividades como: venda
de utilidades, venda de livros, serviços aos associados, cuida-
dos com práticas agrícolas, trabalhos de costura e trabalhos
manuais, preparação de festas, assembléias, excursões, expo-
sições, etc.; embelezamento da escola, periódico mural.
4 — Procurar a participação dos pais de família e vizi-
nhos nas atividades acima mencionadas, assim como a de
outros organismos ao serviço do povo.
PROGRAMA DE CONHECIMENTOS A
MINISTRAR:
1 — O que é e como funciona uma Cooperativa Escolar
Juvenil. Atividades que pode desenvolver. Experiências em
Pôrto Rico e outros países.
2 — Tôda Cooperativa tem seus estatutos e seu Regula-
mento. Estudo e discussão dos Estatutos para essa Associa-
ção juvenil.
3 — História do Cooperativismo. Os pioneiros de Roch-
dale. (Usar texto ilustrado. Material do Departamento de
Cooperativas).
4 — Os sete princípios cooperativos.
5—A Cooperativa Vitoria na região, sua história, de-
senvolvimento, atividades e efeitos de seu funcionamento.
6 — Dar algumas noções de contabilidade nas coopera-
tivas.
A COOPERATIVA ESCOLAR NA GRECIA
Em comunicado anterior o Serviço de Economia Rural
divulgou justos conceitos do Sr. H. Charlot, vice-presidente
do “Office Central de la Coopération a l’Ecole”, de Paris.
Divulga agora um trabalho que está sendo distribuído pela
316 COOPERATIVAS ESCOLARES
Confederação das Uniões das Cooperativas Agrícolas da Grécia.
É êle da autoria de Potini Th. Tzortzaki, e refere-se ao movi-
mento cooperativo escolar na Grécia, a partir de 1954. É tra-
balho editado pelo Serviço de Educação Cooperativa da citada
Confederação.
Diz Tzortzaki que, antes da última guerra, vários pro-
fessôres tinham tido a iniciativa de organizar em suas esco-
las a atividade e a vida escolar sob forma de cooperativas
mui simples. Essas cooperativas tinham sobretudo por fim
fornecer aos alunos material escolar e medicamentos a preços
baixos, Mas, ao mesmo tempo, se propunham auxiliar a escola
mesma (enriquecimento a biblioteca escolar, fornecimento de
material didático, etc.) e organizar uma vida social ele-
mentar (socorro aos escolares órfãos ou indigentes). Além
disso, porfiavam em cultivar o espírito de colaboração e o sen-
tido da solidariedade, iniciando os pequenos camponeses no
ideal da cooperação, preparando-os para se tornarem
membros ativos da cooperativa agrícola de sua comunidade.
Essas primeiras cooperativas escolares hauriam recursos
de cotizações benévolas de seus membros, contribuições da
caixa econômica escolar fundada pela cooperativa, de produ-
tos do jardim da escola e de benefícios realizados pelos arma-
zéns de venda escolares. Mas, a guerra tudo fêz desaparecer,
tendo o movimento ressurgido em 1954, quando o Serviço de
Educação Cooperativa da Confederação tornou a iniciativa de
trabalhar assìduamente pelo desenvolvimento das cooperati-
vas escolares na Grécia.
A Confederação contou com o apoio do Banco Agrícola,
da Confederação dos Professôres, e dos Ministérios da Agri-
cultura, da Coordenação e da Educação Nacional, tendo êste
último recomendado a aplicação do sistema a título de ensaio
através de circulares dirigidas aos inspetores do Ensino Pri-
mário. (O mesmo fêz Lourenço Filho no Brasil, com relação
a “Cooperativas escolares” de Fábio Luz Filho).
O Ministério da Agricultura e o Banco Agrícola, por sua
vez, recomendaram a seus respectivos serviços que se interes-
sassem pelo progresso das cooperativas escolares e prestassem
assistência às escolas, nas quais tais cooperativas pudessem
ser fundadas.
“On peut aujaurd’hui considerer avec optimisme le
mou-vement des Cooperatives scolaires”.
Os alunos-associados das atuais cooperativas gregas têm
cultivado o campo e o jardim, têm feito sementeiras de árvo-
FÁBIO LUZ FILHO 317
res frutíferas e plantas ornamentais e vendido arbustos; têm
criado animais domésticos e aves; colhido ervas medicinais
(sobretudo a camomila); colhido frutos de árvores nos jardins
da vila, sendo metade em proveito da cooperativa; têm orga-
nizado exposições e vendas de delicados bordados populares,
assim como festas e coros; instalaram um salão de cabeleirei-
ro para os escolares; prestaram diferentes serviços no sentido
de aumentar os recursos pecuniários da sua escola.
E Tzortzaki acrescenta que, ao lado dêsses trabalhos,
que melhoram as finanças de sua cooperativa, os jovens
associados aplicaram-se também em pôr em prática precei-
tos fundados numa cultura sistemática do espírito social.
Êles notadamente:
a) Zelaram pela limpeza e embelezamento de sua escola;
b) Plantaram árvores e outras plantas de interêsse ge-
ral; criaram jardins de flores com fins puramente decorativos;
c) Enxertaram e podaram as árvores do lugar;
d) Vacinaram as aves dos camponeses e organizaram
a proteção aos pássaros úteis;
e) Cuidaram da saúde dos alunos, e em geral da popu-
lação do lugar (limpeza das ruas, da fonte pública e do
aqueduto, dessecamento de pântanos, etc.).
f) Ofereceram cotizações para fundos da cooperativa
escolar a fim de enriquecer a escola em material didático;
fundaram um museu escolar;
g) Instalaram uma farmácia e formaram equipes em-
carregadas de velar pela saúde dos alunos.
“Les jeunes coopérateurs ont falt prouve d’un touchant
esprit de solidarité: ils ont prêté leur assistance aux membres
indigents de leurs cooperatives en leur fournissant des livres
et des articles de papeterie, et même aux pauvres du village
en leur offrant des vivres aux grandes fêtes".
E mais ainda: ofereceram-se para substituir no seu tra-
balho as crianças pobres, a fim de lhes permitir que seguissem
ao menos os cursos da noite para analfabetos. Ofereceram
trabalho por equipe a famílias demasiado pobres. Distribuíram
grãos e arbustos aos camponeses ou escolas vizinhas.
Organizaram visitas com programas de recreação e de peque-
nos presentes aos hospitais, orfanatos e postos avançados do
Exército.
318 COOPERATIVAS ESCOLARES
Há ainda, na Grécia, alguns exemplos de cooperativas
escolares cujos membros se dedicaram a pesquisas sôbre o
meio e o gênero de vida de sua comunidade, coma uma ma-
neira feliz de estreitar os laços que ligam a criança à terra
e às tradições, de conservar os costumes e as festas locais,
e às vêzes salvá-las do esquecimento.
Algumas cooperativas, além da assistência do Serviço de
Inspeção das Cooperativas do Banco Agrícola, tiveram a dos
Serviços de Aplicação Agrícola do Ministério da Agricultura
e das Cooperativas em geral.
A Igreja, as autoridades comunais, os comités de admi-
nistração das escolas, os médicos das comunas e os pais de
alunos têm sido auxiliares prestimosos na ajuda às coope-
rativas escolares. Outros têm colaborado com organizações
da juventude como a Cruz Vermelha, associações educacionais,
uniões de jovens rurais, cooperativas similares de outras es-
colas.
A maioria das cooperativas escolares foram fundadas
em pequenos lugares (vilas, cidadezinhas), em escolas que pos-
suíam pequenos núcleos de crianças com um ou dois pro-
fessôres. Os alunos das duas ou das quatro classes superiores,
agrupados em cooperativas, dividiam entre si os trabalhos e
as responsabilidades, admitidos, às vêzes, os mais jovens das
classes inferiores para seguirem as trabalhos das cooperativas,
a título de aprendizes. Houve mesmo escolas que fundaram
duas cooperativas, uma para a classe atrasada outra para a
mais adiantada. Em cinco casos, uma mesma cooperativa
agremiava os alunos de duas escolas, a um só tempo.
A administração e a gestão das cooperativas escolares
são feitos pelos alunos-associados com a assistência dos profes-
sôres.
“L’espirit dominant dans les coopératives scolaires est
un espirit éducatif et social, comme en temoignent leur acti-
vités et les occupations de leurs membres”.
E, na Grécia, “as cooperativas escolares puderam, assim,
organizar entre as alunos um gênero de vida fundada sôbre
sentimento do dever e sôbre a espírito de fraternidade e ajuda
mútua, graças às atividades variadas das coperativas, que
permitem aos jovens associados preencher, recìprocamente,
suas lacunas e testemunhar, por atos, o interêsse que dedicam
a seu próximo, à escola e à comuna”. (Do S. E. R.).
FÁBIO LUZ FILHO 319
A conferência da União Cooperativa Bolivariana
Realizou-se em Caracas, em dezembro de 1945 a
Segunda Conferência da União Cooperativa Bolivariana. Eis
uma de suas resoluções:
I — Afirmar de maneira categórica:
a) Que o bom funcionamento de tôda Cooperativa re-
quer elementos devidamente preparados para dirigí-la, para
administrá-la e para fornecer aos associados e ao público em
geral, as informações necessárias sôbre o caráter econômico,
moral e social do movimento cooperativo;
b) Que a solidez, a fôrça e o prestígio de tôda coopera-
tiva estão sempre na razão direta: de um lado, das condições
favoráveis que ofereça o meio no qual atua a associação; de
outro, do espírito cooperativo dos associados que a compo-
nham, e, por último, da idoneidade de seus dirigentes e admi-
nistradores para o desempenho das suas funções;
c) Que o êxito e o fracasso das emprêsas cooperativas
dependem sempre, não de sistema em si, mais do uso próprio
ou impróprio que se faça do mesmo.
II— Que, em vista da urgente necessidade de dar à
educação cooperativa a amplitude necessária, não só para as-
tisfazer as necessidades dos dirigentes, administradores e as-
sociados das Cooperativas pròpriamente ditas, senão também
para proporcionar ao público em geral, e às novas gerações
em particular, os conhecimentos que requer a estrutura eco-
nômica das sociedades modernas, conhecimentos que se estão
divulgando entre as populações dos países adiantados, espe-
cialmente nos Estados Unidos e Canadá, os membros da União
Cooperativa Bolivariana deverão:
a) Intensificar o trabalho que já está sendo realizado,
que consiste: na publicação de periódicos, folhetos, boletins
de informação, livros, etc.; na celebração de atos de propagan-
da, quer por meio de reuniões públicas, quer por palestras,
conferências, emissões radiofônicas, excursões, festas despor-
tivas e familiares, etc.; no assessoramento das cooperativas
que o solicitem, tanto as existentes como as que se queiram
constituir; na redação de informações de caráter científico,
técnico e administrativo e, sobretudo, na comemoração do
Dia Cooperativo Internacional (primeiro sábado de julho de
cada ano), do natalício e da morte de Simon Bolívar (24 de
320 COOPERATIVAS ESCOLARES
julho e 17 de dezembro respectivamente) e da abertura do
armazém dos cooperadores de Rochdale (21 de dezembro);
b) Prestar a máxima atenção às atividades educativas
que podem, as cooperativas, desenvolver por seus próprios
meios, aperfeiçoando o ensino técnico e prático para as que já
o tenham estabelecido, e procurando, as que ainda não o te-
nham feito, dispor, quando menos, dos meios precisos que lhes
permitam preencher esta função fundamental: facilitar aos
novos cooperadores as conhecimentos indispensáveis para que
as emprêsas que constituam não sejam, em caso algum, tèc-
nicamente inferiores às emprêsas privadas de caráter análogo
estabelecidas no lugar ou região respectiva;
c) Instar no sentido de que as cooperativas realizem,
por si mesmas, alguma atividade educativa, seja convocando
reuniões ad hoc, em colaboração com centros pedagógicos que
tenham estabelecido o ensino do Cooperativismo, seja pro-
curando por si próprias cursos em que se ministre dito ensino;
d) Atuar de um modo constante, enérgico e decidido
para conseguir que as autoridades competentes introduzam,
segundo o exemplo das universidades e dos governos de vários
países, especialmente dos Estados de Wisconsin, Minnesota e
Norte Dakota (América do Norte), o estudo do cooperativismo:
1 — Nas escolas primárias, por meio de cooperativas es-
colares, como as que Profit fundou na França, e que tanto êxi-
to alcançaram nos principais países do mundo, tendo todo o
cuidado em que os professôres conheçam bem a espírito do
Cooperativismo e tratem de inculcá-lo às crianças, não com
lições teóricas, mas adestrando-as no manejo de uma associa-
ção escolar constituida sob a forma cooperativa;
2 — Nas universidades, ou escolas de Agricultura, de
Comércio, de Engenharia e Arquitetura, como disciplina à par-
te, sem prejuízo de que se o ensine também o Cooperativismo
nos cursos de História, Geografia, Pedagogia, Filosofia, Moral,
Economia Política, Direito Administrativo, Filosofia do Direi-
to,etc.,etc., .............. ...................... ............... ................ ..........
........ ..................... ...................... ............... .............................
........ ..................... ...................... ............... .............................
e) Tratar de incorporar-se a algum centro de educação
e, quando isto não seja possível, articular suas próprias ativi-
dades com as das universidades e escolas acima mencionadas,
sobretudo com aquelas que disponham de laboratórios de Físi-
ca, e de Química e, de Institutos de Estatística e Investigações
Sociais e Econômicas, etc. Assim conseguirão, de um lado,
FÁBIO LUZ FILHO 321
estarem sempre ao par dos últimos progressos técnicos e cientí-
ficos, e por outro que os profissionais da ciência possam ter
nas cooperativas excelentes campos de investigações, de expe-
rimentação e de aplicação;
f) Estudar com o maior cuidado os procedimentos téc-
nico-administrativos empregados pela U.N.R.R.A., (hoje
desparecida e substituida pela C. A . R . E., que presta serviços
análogos) com o fim de que as cooperativas com as quais te-
nham relações possam colaborar com a máxima eficácia valio-
sa de auxílio e reabilitação que aquela organização realiza;
g) Prestar a máxima atenção aos planos de pós-guerra
(tratar de colaborar na sua execução), que estão elaborando
os países latino-americanos com objetivo de desenvolver as
riquezas naturais, elevar o nível de vida das populações, esta-
belecer novas indústrias e abordar ou desenvolver, segundo
os casos, a reforma agrária.
Sexta Conferência dos Estados Americanos membros da
Organização Internacional do Trabalho
A Conferência acima reuniu-se em Havana, em
setembro de 1956.
Eis algumas de suas conclusões:
“Deveriam tomar-se tôdas as medidas possíveis para de-
senvolver programas de formação e instrução cooperativas, e
ditos programas deveriam corresponder as necessidades e in-
terêsses:
a) dos associados das cooperativas;
b) dos organizadores e das pessoas que ocupam postos
administrativos, de contrôle ou executivos nos organismos
ou organizações diretamente interessadas nas cooperativas;
c) das diferentes categorias de trabalhadores (por exem-
plo: trabalhadores industriais, trabalhadores agrícolas, arte-
sãos e outros pequenos produtores);
d) grupos especiais da população (crianças, mulheres,
populações indígenas, etc.), como também deveriam ser toma
das medidas para informar o público em geral sôbre os prin-
cípios e práticas cooperativas.
“Deverão ser estudados atentamente a escolha e a
adapta-ção, às necessidades de cada país, de métodos e técnicas
apropriadas. Noutros deveriam ser considerados: os cursos nor-
21 — 27 454
322 COOPERATIVAS ESCOLARES
mais de formação, os seminários e reuniões de estudo intensi-
vo, os círculos de estudo, os cursos por correspondência, a
formação no local de trabalho, as viagens de estudo dentro
do próprio país e ao estrangeiro, assim como o intercâmbio
bilateral de pessoas. Sempre que for conveniente, dever-se-ia
intensificar o uso de métodos audiovisuais, tais como cinema,
rádio, televisão, teatro, cartazes e folhetos.
“A formação e a instrução deverão constituir uma parte
importante das atividades auspiciadoras e consultivas sôbre
cooperativas realizadas pelos governos. A êste respeito deve-
ria estudar-se a possibilidade de empregar assessôres am-
bulantes (acrescentamos que, há anos, preconizamos, no Bra-
sil, a necessidade de inspetores ou técnicos itinerantes, o que
no Brasil alguns departamentos estaduais de cooperativismo
já vão tentando fazer, como o do Rio Grande do Sul, que
possui inspetores regionais, alguns dêles tendo sob suas vistas
70 e mais cooperativas) encarregados da formação e instrução
cooperativa em escala suficientemente ampla, especialmente
nas zonas rurais.
“Deveriam ser estimuladas as cooperativas que prestam
especial atenção à formação de seus diretores e empregados,
à instrução de seus associados e à informação do público. Pa-
ra êstes efeitos, e sempre que possível, deveriam estabelecer-se
caixas especiais consagradas ao fomento da instrução, e as
organizações centrais, quando existirem, deveriam dar assis-
tência às sociedades primárias.
“Deveriam tomar-se tôdas as medidas necessárias para
estimular as instituições docentes e culturais, os sindicatos,
as associações rurais e outras organizações sociais e de outro
gênero para que intensifiquem ou ampliem suas atividades de
instrução e formação cooperativa.
“Dentro das instituições públicas e privadas:
a) dever-se-á dar especial atenção à criação e desenvol-
vimento de “cooperativas escolares", a fim de aumentar os
conhecimento e o interêsse das crianças e dos pais sôbre os
princípios e a prática das cooperativas;
b) deveria examinar-se a conveniência de incluir o ensi-
no sistemático da doutrina cooperativa nos programas das
escolas primárias, elementares e secundárias e nas escolas
normais de professôres nas diversas instituições especiais de
formação superior, assim como a criação de cátedras em insti-
tutos permanentes de cooperativismo nas universidades.
FÁBIO LUZ FILHO 323
O COOPERATIVISMO E A MULHER
Há tempos, Aída Perez de Guevara, da Associação Vene-
zuelana de mulheres frisou, com muita justeza, o papel da
mulher em face do movimento cooperativo. Acentuou ela
que a mulher deve por êle interessar-se:
1.º — porque é a mulher quem, geralmente, maneja o
dinheiro da família e tem a seu cargo a compra dos alimentos
e do vestuário da mesma.
2.º — Porque o movimento cooperativo, substituindo,
paulatinamente, o comércio ordinário, lhe assegura mercado-
rias boas, baratas e alimentos sãos.
3.º — Porque a certeza do que ficou acima dito evitará
que seja ela obrigada a percorrer os armazéns comparando
preços e qualidades, o que lhe economizará tempo e esforços.
4.º — Porque a cooperativa, que não necessita gastar
em anúncios e instalações luxuosas, poderá oferecer-lhe arti-
gos melhores que os armazens e negócios em constante liqui-
dação.
5.º — Porque a cooperativa exclui o fiado e o crédito
excessivo; obriga a dona de casa a ter ordem nas despesas e a
manter equilíbrio entre êstes e as receitas da família e faz a
família viver num ambiente de maior veracidade.
E não é só. A mulher deve ir além:
1.º — Conhecendo a organização da Cooperativa, seu
desenvolvimento;
2.º — Divulgando êsses conhecimentos entre suas ami-
gas e fazendo-as associadas;
3.º — Tratando de melhorar os serviços da cooperativa,
utilizando-os contìnuamente, fazendo conhecer os defeitos que
tiverem ou nêles introduzindo as melhorias convenientes ao
maior número.
Desta forma, com a realização dêste trabalho, que é uma
obra de alcance social — o trabalho doméstico e a direção
da família, terá a mulher a satisfação de tomar parte em um
movimento de imenso valor como o movimento cooperativo.
1.º — Porque está êle destinado a substituir o atual sis-
tema de comércio, pela supressão dos intermediários inúteis,
por preparar o povo para que seja o diretor econômico de seu
próprio esfôrço criador.
2.° — Porque o movimento cooperativo é inspirado por
uma profunda simpatia humana, a que o faz associar-se ás
mais altas manifestações de concórdia e progresso.
324 COOPERATIVAS ESCOLARES
3.º — Porque, nascido do esforço de um grupo de pobres
tecelões sem emprêgo, e espalhado pelo mundo, é a clara de-
monstração da energia imensa que possui a associação inteli-
gente e consciente dos homens, encerrando, assim, a promessa
de um mundo melhor.
Há, assim, necessidade de que não sòmente os homens,
senão também as mulheres, administradoras do lar, célula
da pátria, se interessem pelo movimento cooperativo, conclui
Aída Guevara.
ANEXOS
COMO DEFINE A LEI AS COOPERATIVAS ESCOLARES
“As cooperativas escolares poderão constituir-se nos es-
tabelecimentos públicos ou particulares de ensino primário,
secundário, superior, técnico ou profissional, entre os respecti-
vos alunos, por si ou com o concurso de seus professôres, pais,
tutôres ou pessoas que os representem, com o objetivo pri-
mordial de inculcar aos estudantes a idéia do cooperativismo e
ministrar-lhes os conhecimentos práticos da organização e
funcionamento de determinada modalidade cooperativa e
acessòriamente proporcionar-lhes as vantagens econômicas
peculiares à modalidade preferida”.
ESTATUTOS DA COOPERATIVA ESCOLAR DE ............ ........
CAPÍTULO PRIMEIRO
Da sede, área de ação, duração e fins da cooperativa
Art. 1.º — Sob a denominação de “Cooperativa Escolar
do Grupo Escolar .................. ., cidade de ................ ........ ....
fica
constituída entre os alunos abaixo-assinados e os que
futuramente forem admitidos, devidamente assistidos por seus
pais, tutôres ou responsáveis, uma sociedade cooperativa es-
colar que, como órgão educativo, visa despertar entre os alu-
nos só princípios de solidariedade humana, o espírito associa-
tivo e cooperador, soerguer as tendências para a economia e
previdência coletivas, a noção do apoio mútuo, a confiança
recíproca, o senso da responsabilidade, contribuindo para a
formação de gerações educadas no regime cooperativo, enti-
dade que se regerá pela legislação em vigor.
Parágrafo único — A área de ação e a sede da
cooperativa ficam limitadas ao edifício escolar.
ART. 2.° — A duração da cooperativa é ilimitada.
322 COOPERATIVAS ESCOLARES
ART. 3.º — No cumprimento do seu programa de ação,
a cooperativa se propõe: prover seus associados de material
didático indispensável ao uso escolar, material para trabalhos
e o aparelhamento pedagógico do Grupo Escolar ........................
assim como de jogos instrutivos, brinquedos, etc.
Parágrafo único — A cooperativa procurará ainda, na
medida do possível e por ordem de importância, preencher os
seguintes e elevados fins:
a) — contribuir para a difusão do espírito de economia,
de previdência, e do cooperativismo escolar e pós-escolar;
b) — promover a formação de uma biblioteca aberta a
todos os associados, constituída de obras literárias, artísticas,
científicas, pedagógicas, econômicas, agrícolas e sociológicas
a juízo da Diretoria da Escola;
c) — prover o Grupo Escolar ....... ..................... do
neces-
sário material científico e de instituições que possibilitem o
estudo da Natureza, a objetivação da instrução, o desenvolvi-
mento das capacidades mentais e orgânicas dos alunos e apli-
cação de métodos intuitivos, concretos e ativos, tais como:
1.º — promover a organização e manutenção de um um-
seu escolar e de oficinas para trabalhos manuais;
2.° — criar um campo de experiências agrícolas ou uma
granja e os cursos correspondentes, interessando o aluno no
reflorestamento;
3.º — instalar postos ou pelotões de saúde, copos-de-lei-
te, pratos-de-sopa e fornecimento de pão, roupa e calçado, se
possível em colaboração com a Caixa Escolar;
4.º — promover festas, certames e conferências, estas
preferencialmente vasadas na doutrina cooperativa;
5.º — promover a fundação de outras instituições e to-
mar iniciativas de cunho instrutivo, educacional e humanitá-
rio, tais como passeios, lista periódica de preços de coisas e
dos produtos agrícolas, palestras, concursos esportivos, casas
de saúde para as alunos pobres, colônias de férias, assim como
iniciativas sugeridas pelo Diretor e professôres, capazes de
aperfeiçoar a instrução e a educação, contribuindo para o de-
senvolvimento normal do aluno e destinadas a tornar a esco-
la mais atraente, bela e útil;
6.º — estabelecer um serviço de ficha antropométrica es-
colar, de modo a facilitar a observação do clínico, no tocante
ao desenvolvimento dos educandos.
7.° — Vender a produção oriunda do trabalho
individual ou coletivo de seus associados.
FÁBIO LUZ FILHO 327
CAPÍTULO SEGUNDO
Do Capital Social
ART. 4.º — O capital da cooperativa é ilimitado, quan-
to ao máximo,—não podendo, porém, ser inferior a ......................
..
Art. 5.º — As quotas-partes para a constituição do capi-
tal terão o valor de ............... ... cada uma e serão pagas de uma
só vez ou em prestações mensais de ........................ % dentro da
primeira quinzena de cada mês, devendo cada associado subs-
crever no mínimo, uma, e no máximo, ......................... quotas-par-
tes. (1)
(Nota — O valor de cada quota vai de 1 a 100 cruzeiros).
ART. 6.° — As quotas-partes só serão transferidas a
outro associado depois de integradas e mediante autorização
da Assembléia Geral.
ART. 7.º — Cada associado pagará uma jóia de ................
para as primeiras despesas de instalação, organização e pro-
paganda.
Parágrafo único — Cobertas essas despesas, as joias irão
para o fundo de reserva.
ART. 8.° — No caso de qualquer associado deixar de
pagar as suas quotas, sem motivos justificáveis, durante os
três meses que decorrerem da data do vencimento das respec-
tivas prestações, o Conselho de Administração reserva-se o
direito de advertir o aluno, tomando as medidas que possam
conduzí-lo ao cumprimento do seu dever social.
ART. 9.º — O aluno demissionário ou excluído recebe-
rá a saldo ou o valor de sua quota de capital.
ART. 10 — Se as condições da Cooperativa o permiti-
rem, a reembôlso da quota do associado demissionário ou ex-
cluído se fará dentro de trinta dias da data da sua saída da
Cooperativa, ou a aluno esperará a balanço anual.
ART. 11 — O capital realizado e demais recursos da
Cooperativa serão recolhidos a um estabelecimento bancário,
a juizo da Diretoria do Grupo, de onde serão retirados na me-
dida das necessidades.
ART. 12 — Será permitida aos alunos a integralização
das quotas-parte em natureza ou em serviços.
(1) — Até 1/3 do capital. Poderá haver fixação de um mínimo que cada
um deverá subscrever. Poderá haver ausência do capital e de sobras,
cobrando-se a jóia apenas.
328 COOPERATIVAS ESCOLARES
CAPÍTULO TERCEIRO
Dos associados, seus direitos e deveres
ART. 13 — Poderão fazer parte da Cooperativa todos os
alunos do Grupo Escolar ..................... ...... devendo cada um:
a)—provar que se acha autorizado por seu pai, tutor ou res-
ponsável a fazer parte da Cooperativa e ser proposto
por dois outros que não sejam administradores, e as-
sinar o livro de matrícula ou a ficha de inscrição; (2)
b)—ter autorização especial, paterna ou de quem de direito,
para assistir e tomar parte em tôdas as sessões e exer-
cícios que se fizerem fora das horas de aulas;
c)—observar as disposições estabelecidas nos estatutos e
regulamentos sociais;
d)—efetuar o pagamento de suas quotas-partes, de confor-
midade com os presentes estatutos honrando os com-
promissos assumidos perante a Cooperativa;
e)—freqüentar as assembléias;
f)—contribuir pelo seu exemplo e dedicação para que a
Cooperativa cumpra estritamente os elevados objetivos
para que foi criada, prestigiando-a;
g)—não fazer comércio com os artigos adquiridos na Coo-
perativa.
§ 1.º — Será excluído todo aluno que sair da escola, dei-
xar de cumprir seus deveres de associado ou tiver proceder
censurável, a juízo do Conselho de Administração, com re-
curso para a Assembléia Geral.
§ 2.º — Será facultado aos associados assistirem, sem voz
deliberativa, às reuniões do conselho de administração.
ART. 14 — Ao ser admitido, o associado receberá um
título nominativo em forma de caderneta, em cuja conta-cor-
rente serão anotados o valor de suas quotas-partes e respecti-
vas prestações, e os retornos, se existirem, entrando no gozo
pleno de todos os direitos e obrigações sociais.
§ 1.º — Essa caderneta constituirá o título-nominativo
do associado e terá um número de ordem, a designação
do Grupo e do ano a que pertence o aluno, e as firmas do presi-
dente, do secretário, do tesoureiro e do pai, tutor ou respon-
(2) — O livro de matrícula poderá ser desdobrado ou substituído por fichas
de inscrição.
FÁBIO LUZ FILHO 329
sávi. Dela poderão constar também, o nome, a idade, nacio-
nalidade e residência do aluno.
§ 2.º — Os associados não responderão subsidiàriamente
pelas obrigações sociais.
ART. 15 — O Diretor e Os professôres do Grupo ..............
.
e o inspetor escolar consideram-se como orientadores natos
da Cooperativa e terão o direito de assistir a tôdas as reuniões.
CAPÍTULO QUARTO
As operações sociais
ART. 16 — As mercadorias de que a Cooperativa ne-
cessitar serão adquiridas, de preferência, aos produtores, di-
retamente, ou aos atacadistas, ou às cooperativas de produ-
ção ou trabalho especializadas, ou, ainda, às Escolas Domés-
ticas e Profissionais.
ART. 17 — As vendas ou distribuições de mercadorias
serão feitas exclusivamente aos associados, a dinheiro, to-
mando-se por base o justo preço.
ART. 18 — A seção de vendas só funcionará durante as
folgas ou pausas, devendo o associado, que desejar adquirir
os artigos de que tiver necessidade, fazer a encomenda à hora
de entrada no Grupo e retirá-la na ocasião do recreio.
ART. 19 — As entradas de mercadorias serão exara-
das, pelos alunos disso encarregados, em livro próprio, guar-
dadas as mercadorias em compartimentos ou armários segu-
ros, dentro do próprio Grupo.
§ 1.º — As compras deverão ser feitas, sempre que pos-
sível, por concorrência privada, salvo em casos de justificada
urgência;
§ 2.0 — Tôdas as compras serão feitas a dinheiro vis-
ta. (1)
CAPÍTULO QUINTO
Das sobras e do fundo de reserva
ART. 20 — As sobras líquidas que resultarem do balan-
ço anual serão assim distribuídas:
1.º - 10% para fundo de reserva (taxa obrigatória);
(1) — O pagamento é feito no ato da compra. Não se devem
permitir as compras a prazo ou crédito, a não ser em casos
excepcionais.
330 COOPERATIVAS ESCOLARES
2.º — 90% para constituir O fundo de desenvolvimento,
destinado aos fins constantes do parágrafo único do art. 3.º e
suas letras.
Parágrafo único — Os proventos acaso obtidos com fes-
tas, certames, conferências, trabalhos manuais, etc., serão a
critério da assembléia, destinados a reforçar o fundo de desen-
volvimento ou fundo de reserva, aos quais serão também
incorporados os donativos acaso especialmente feitos a Coope-
rativa.
ART . 21 — O Fundo de Reserva será constituído:
1.º pelas jóias de admissão de cada associado, de con-
formidade com o que dispõe o artigo 7.º, pelos donativos ou
proventos eventuais.
2.º — pela percentagem a que se refere a primeira parte
do art. 20.
ART. 22 — O fundo de reserva destina-se às perdas
eventuais da Cooperativa.
Parágrafo único — Parte do fundo de reserva poderá ser
aplicada, quando necessário ou urgente, a critério dos Conse-
lhos de Administração e Fiscal, assistidos pelo professorado, a
fins imediatamente reprodutivos, desde que atinja o dôbro do
capital social.
ART. 23 — O fundo de reserva, destinado a reparar as
perdas eventuais da Cooperativa, é indivisível, mesmo no caso
de dissolução da sociedade e obedecerá as prescrições da lei,
no que lhe fôr aplicável.
(NOTA — É preciso considerar que a lei não pode ser apli-
cada rìgidamente a uma cooperativa escolar, e que os 10%
do fundo de reserva são o mínimo).
CAPÍTULO SEXTO
Dos órgãos de administração e fiscalização
ART 24 — A Cooperativa será administrada e fiscaliza-
da pelos seguintes órgãos:
a) — Assembléia geral;
b) — Conselho de Administração; e
C) — Conselho Fiscal.
FABIO LUZ FILHO 331
a)— Da Assembléia Geral:
ART. 25 — As assembléias gerais realizar-se-ão em ju-
nho e dezembro de cada ano. Nesta última, serão apresenta-
das as contas do ano e eleger-se-ão as Conselhos de
Administração e Fiscal, e estabelecer-se-á o programa de ação
do exercício seguinte. As de junho serão um motivo para troca
de idéias sôbre assuntos escolares, sôbre economia interna da
Cooperativa e outros que interessem à vida da instituição.
ART. 26 — As assembléias gerais se reunirão por con-
vocação do Conselho de Administração do Conselho Fiscal ou
de dois têrços de associados, neste último caso quando houver
recusa ou desídia por parte dos Conselhos, feitas as convoca-
ções com oito (8) dias de antecedência.
ART. 27 — As assembléias gerais tratarão ùnicamente
dos assuntos constantes da ordem do dia, nelas podendo-se
sòmente discutir assuntos de interêsse geral, e suas convoca-
ções serão motivadas. O processo de votação será determinado
pela assembléia,
ART. 28 — Para “quorum” das assembléias será neces-
sária a presença de metade e mais um do número total dos
associados, em primeira convocação um têrco, na segunda,
e qualquer número na terceira, devendo as deliberações ser
aprovadas por maioria de votos, tendo o presidente voto de
desempate.
ART. 29 — As assembléias extraordinárias realizar-se-
ão tantas vêzes quantas forem necessárias.
ART. 30 — Cada associado terá um só voto, qualquer
que seja o número de quotas-partes que possuir.
ART. 31 — Tôdas as deliberações serão submetidas à
apreciação do Diretor do Grupo Escolar, como orientador ou
assessor apenas.
(N0TA — Poderá admitir-se uma segunda convocação
uma hora depois).
b) — Do Conselho de Administração
ART 32 — O Conselho de Administração terá cinco
membros e dois suplentes, escolhidos pela Assembléia Geral
entre os alunos mais distintos do terceiro e quarto anos, de
preferência, de ambos os sexos, podendo ser reeleitos.
332 COOPERATIVAS ESCOLARES
Parágrafo único — O Conselho de Administração no-
meará, dentre os seus componentes, um presidente, um vi-
ce-presidente, um secretário e um tesoureiro.
ART. 33 — O Conselho de Administração terá o man-
data de um ano, podendo ser reeleito.
ART. 34 — O Conselho deliberará sempre por maioria
de votos, desde que reuna pelo menos a metade e mais de seus
membros. Reunir-se-á tantas vêzes quantas julgue necessárias
para a boa marcha da Cooperativa.
ART. 35 — Compete ao Conselho de Administração:
a)— regulamentar os serviços gerais da Cooperativa;
b)—reunir-se freqüentemente para a direção executiva da
Cooperativa;
c)—distribuir as sobras anuais, quando fôr o caso, segundo
o balanço aprovado pela Assembléia Geral;
d)—apresentar relatórios anuais;
e)—admitir e excluir as associados e dar-lhes a demissão;
f)—praticar todos os atos necessários ao estrito preenchimen-
to dos fins sociais.
Parágrafo único — O Conselho de Administração indi-
cará os alunos que, por grupos integrados par um número
de ..................... ..alunos, em turnos sucessivos, devam
participar assiduamente das operações de compras, vendas e
contrôle sociais, semanal, quinzenal ou mensalmente,
interessando-os, assim, nos aspectos concretos da atividade da
Cooperativa.
ART. 36 — O presidente da Cooperativa, sob a autori-
dade e vigilância do diretor ou professôres do Grupo, aconse-
lha e dirige, controlando as receitas, donativos e subvenções;
verificando, mensalmente, as contas do tesoureiro; fiscali-
zando os encargos do secretário e demais serviços da Coopera-
tiva; preparando o instrumental necessário às aulas práticas
e organizando exposições, vendas, coletas, excursões, confe-
rências, lições práticas, etc.; assinando, com o secretário e o
tesoureiro, os títulos-nominativos, a livro de matrícula ou a
ficha da inscrição; convocando as assembléias e os conselhos,
quando necessário; regulando a ordem do dia das sessões do
Conselho e das assembléias gerais, dirigindo as discussões;
mantendo a boa ordem, a polidez, o decôro e o silêncio nas
reuniões; verificando as atas das reuniões dos Conselhos e das
assembléias gerais.
ART. 37 — O vice-presidente acompanhará o presiden-
te como seu auxiliar imediato, competindo-lhe substituí-lo em
FÁBIO LUZ FILHO 333
seus impedimentos cuidará da biblioteca, do museu, dos ar-
quivos, depósito e coleções.
ART. 38 — O Secretário terá a seu cargo lavrar e ler
as atas da Assembléia Geral e do Conselho de Administração,
fazer e assinar a correspondência e assinar, com o presidente
e tesoureiro, as cadernetas ou títulos nominativos dos associa-
dos e o livro de matrícula ou ficha de inscrição.
Parágrafo único — O Conselho de Administração
poderá designar dois alunos dos 3.º e 4.º anos, para exercerem fun-
ções de bibliotecários-adjuntos.
ART 39 — Ao tesoureiro compete escriturar os livros co-
merciais, ter sob sua direção os alunos que exercerem as fun-
ções de “caixas”, apresentar balancetes mensais ao Conse-
lho Fiscal, ter sob sua guarda os valores da Cooperativa, efe-
tuar pagamentos e recebimentos, e exercer as demais funções
próprias de um tesoureiro.
Parágrafo único — O tesoureiro assinará com o presiden-
tete e o secretário os títulos nominativos e o livro de
matri- cula ou a ficha de inscrição.
ART. 40 — Os “caixas”, a que se refere o artigo ante-
rior, serão em número de dois, um de cada turno, e fiscali-
zarão as entradas das mercadorias, as vendas das mesmas, re-
cebendo e registrando as respectivas importâncias e substi-
tuindo os vendedores, quando necessário.
ART. 41 — As vagas definitivas que se derem no Con-
selho de Administração serão preenchidas pelos suplentes, por
designação do próprio Conselho, até à primeira Assembléia
Geral ou, na falta dêstes, por membros do C. Fiscal.
Parágrafo único - O Diretor do Grupo Escolar, em tôdas
as deliberações do Conselho de Administração, terá, como os
professôres, voz consultiva apenas. (1)
c) — Do Conselho Fiscal:
ART. 42 — O Conselho Fiscal compor-se-á de três alu-
nos eleitos pela Assembléia Geral, e terá por missão fiscalizar
e acompanhar a marcha econômica e financeira da Coopera-
tiva, verificando semanalmente as contas, estoques e nume-
rário e mensalmente o balancete do tesoureiro. Dará a pare-
cer sôbre as contas e o relatório do Conselho de Administra-
ção. O Diretor do Grupo Escolar poderá presidir ao Conselho
(1) — Poderá o Conselho de Administração, quando necessário, nomear, promo-
ver e demitir empregados, distribuindo-lhes funções e vencimentos. As secções da
cooperativa poderão visar à proteção dos pássaros, a socorros imediatos, etc. Poderá
também designar secretários de organização e propaganda, de ação social, etc.
334 COOPERATIVAS ESCOLARES
Fiscal, que durará um ano no mandato, não podendo se reelei-
to para o ano seguinte, sendo sempre assistido por um ou
mais professôres. O balanço anual deverá ser apresentado ao
Conselho Fiscal com uma semana de antecipação pelos menos.
Quando necessário ou urgente, convocará o Conselho de
Administração ou a Assembléia Geral.
§ 1.º) — A Assembléia também designará três suplen-
tes, que substituirão os efetivos nos seus impedimentos.
§ 2.º — O Conselho Fiscal e o de Administração se reuni-
rão pelo menos uma vez por mês em sessão conjunta para tra-
tar de assuntos conexos.
ART. 43 — As vagas que se derem no Conselho Fiscal
serão preenchidas pelos suplentes, convocados pelo Conselho
de Administração.
(N. B.) — O Conselho Fiscal deverá ser escolhido de
preferência entre os mais votados depois dos eleitos para o
Conselho de Administração, e poderá ter secretários, e esta-
belecer turnos individuais de fiscalização.
CAPÍTULO SÉTIMO
Das disposições gerais
ART. 44 — Cada professor será o delegado nato de sua
classe e poderá indicar, para efeitos do sufrágio livre, os alu-
nos mais aptos e distintos para ocupar os cargos sociais.
ART. 45 — O Diretor do Grupo (ou o professor orienta-
dor) terá os fundos sociais sob sua guarda, os quais estarão
à disposição do Conselho de Administração, e será responsável
pelas importâncias depositadas em estabelecimentos banca-
rios e pelas operações que se realizarem, sendo-lhe facultado:
1.º — recolher as cadernetas dos associados que deseja-
rem fazer compras na Cooperativa, o que cada um deverá to-
mar como obrigação moral;
2.° — fornecer as cadernetas para anotações dos pedidos
de compras;
3.º — inventariar os bens na Cooperativa, com o auxílio
da Administração da mesma;
4.º — organizar os serviços da Cooperativa, de acôrdo
com o que dispuser o Conselho de Administração.
Parágrafo único — Ao Diretor do Grupo Escolar (ou ao
professor orientador) cabe a representação ativa e passiva da
Cooperativa.
FÁBIO LUZ FILHO 335
ART. 46 — Os professôres interrogarão diàriamente os
alunos associados que desejarem fazer compras, recolhendo
as respectivas cadernetas, que serão entregues ao Diretor do
Grupo para as encaminhar ao presidente da Cooperativa.
ART. 47 — Para modificação dos presentes estatutos ou
dissolução da Cooperativa, exigir-se-á uma assembléia que
reuna dois terços dos associados e delibere com dois terços da
totalidade dos associados presentes em primeira convocação,
ou por metade e mais um, em segunda, ou com qualquer núme-
ro, em terceira, sempre assistidos pelo Diretor do Grupo ou
professôres (ou o professor orientador).
§ 1.º — A cooperativa se dissolverá:
a)— por fechamento ou fusão do Grupo ou Escola;
b)—por mudança de organização ou plano de estudos que
que impeça seu funcionamento;
c)—quando o número de associados for inferior a sete por
mais de três meses;
d)— pelo consenso unânime dos associados.
ART. 48 — No caso da dissolução prevalecer o acervo
social líquido, depois de restituídas as quotas-partes de cada
associado, será destinado à Caixa Escolar ou a qualquer outra
entidade de fins de utilidade escolar, ou assistência social in-
terescolar, a juízo da Assembléia Geral.
NOTA — Os presentes estatutos, pelo autor elaborados
e que Julio Mejia Scarneo adotou em seu livro — Manual de
Cooperativas — Lima — 1956, são meramente exemplificati-
vos, embora adotados oficialmente pelo Serviço de Economia
Rural. Pode, pois, sofrer as necessárias modificações ou sim-
plificações, de acôrdo com o meio, a modalidade escolhida, etc.,
inclusive a distribuição de retornos, gerência, etc.
CONSELHO DE ASSESSORES
Poderá a cooperativa escolar possuir um Conselho de
Assessôres, sob a presidência do Diretor da escola, e composto
de professôres que lecionem matérias afins com as atividades
da cooperativa, e de pais de alunos, escolhidos pela Assembléia
ou designados pelo Diretor
336 COOPERATIVAS ESCOLARES
Pessoas estranhas aos pais e professôres poderão inte-
grá-lo, quando possuidores de conhecimentos técnicos úteis à
escola. Terá por fim zelar pela boa marcha da cooperativa,
com voz consultiva nas Assembléias; acompanhar a aplicação
dos fundos, orientar e assistir. Durará um ano.
COOPERATIVAS JUVENIS OU COOPERATIVAS
EXTRA-ESCOLARES
Como o fiz sentir em capítulo próprio, poderiam organi-
zar-se cooperativas juvenis, ou de escolares (à semelhanca das
pós-escolares), cooperativas extra-escolares, vamos dizer, so-
bretudo de artesanato, fora dos estabelecimentos de ensino.
Tendo sido êsse assunto, por mim levantado, submetido ao
ilustre Consultor Jurídico do Ministério da Agricultura,
Dr. Tertuliano de Menezes Mitchell, como vimos, êste opinou
contra a minha tese, alegando que, em face das leis brasilei-
ras específicas de cooperativas, a sede só pode ser o estabele-
cimento de ensino. Mais um ponto que modificar na atual
regislação, definida a capacidade civil dos assessôres, ou do
aluno, como o fez a Guatemala, que realizou em maio de 1954
o primeiro congresso de “cooperativas juvenis” da América
Latina.
NOTA FINAL:
O COOPERATIVISMO ESCOLAR NO MÉXICO
Existiam, até outubro de 1954, no México,1.428 coopera-
tivas escolares. Dão retornos.
ATA DE CONSTITUIÇÃO PARA COOPERATIVAS
ESCOLARES:
Aos ....... ... dias do mês de .................... ...do ano de mil
novecentos e ........ .............. .., na cidade de ............ ................
do Estado de ........... ..................... ... às .......... ..horas, em uma
das salas do Grupo Escola ....................... ................ , reuniram-
se de sua livre e espontânea vontade, em assembléia geral, para
constituir e instalar uma Sociedade Cooperativa escolar no ter-
FÁBIO LUZ FILHO 337
mos da legislação em vigor, os escolares (seguem-se os nomes
por extenso, idade, nacionalidade, residência, não podendo ser
o número de associados inferior a sete) ........................................
........ ..................... ...................... ............... .............................
........ ..................... ...................... ............... ................... ........
Foi aclamado para presidir à reunião o professor .....................
......................... ..... (ou professôra) que convidou a mim ..........
................... ...para secretariar a sessão, ficando assim
constituída a mesa. A seguir o Sr. Presidente declarou aberta a
sessão, expondo os fins da reunião que eram constituir e insta-
lar uma cooperativa escolar, nos têrmos da lei em vigor, deno-
minada “Cooperativa Escolar ........... ....... “ do Grupo ...............
.
......................... , com sede nesta cidade de .................................
do Estado de .................... ........ ......... ,deliberar sôbre seus
esta-
tutos, eleger sua primeira administração e proceder à sua ins-
talação.
Lidos e discutidos os estatutos que devem reger a vida da
Sociedade, foram os mesmos submetidos à votação e aprova-
dos, como expressão da vontade de formar a cooperativa.
(Poderão os estatutos ser aqui transcritos. Quando êstes não
figurem no corpo da ata, ambos devem trazer a mesma data e
as mesmas assinaturas).
Em seguida, o Sr. Presidente declarou definitivamente
constituída a Cooperativa Escolar ................................ com sede
no
edifício escolar, com o objetivo educativo e econômico indicado
pela lei, sendo seus fundadores os alunos cujos nomes constam
inicialmente por extenso do texto desta ata, todos residentes
em .......................... ......
O Sr. Presidente convidou os presentes a proceder à elei-
ção dos membros dos Conselhos de Administração e Fiscal,
bem como de seus suplentes. Procedida à eleição verificou-se o
seguinte resultado: para presidente, o Sr ............... .......... ...........
Para .............. .............................. ... , etc.
O Presidente, a seguir, proclamou-os eleitos, dando-os
co-mo empossados nos respectivos cargos e, como nada mais
houvesse a trata, declarou encerrada a sessão, mandan-
do que eu ............................. ....... ..... , como secretário, la-
vrasse a presente ata, a qual, lida e julgada confor-
22 — 27 454
338 COOPERATIVAS ESCOLARES
me , é por todos assinada (ou por uma comissão eleita)
em ..................... ...de ......................... de ...... ................ ...
(a) ........ ................ ...... Secretário. (Seguem-se as assinaturas).
........ ..................... ...................... ............... ........................
........ ..................... ...................... ............... ........................
(Todos os documentos: ata, estatutos, lista nominativa,
devem ser autenticados pelo Diretor, ou Diretora, do estabele-
cimento e rubricados pelo Presidente eleito, aluno, que de-
clarará estarem de acôrdo com os originais).
NOTA
A cooperativa escolar é órgão educativo, como se viu, A própria lei, cocren-
temente, não lhe exige nem mesmo personalidade jurídica e dispensa-a de outras
formalidades próprias das cooperativas de adultos. Daí não se aplicarem à mesma
com rigor certas disposições da lei. No espírito da lei, na intenção do legislador
está claro que a lei deverá ser seguida no que fôr aplicável a êsse tipo de
cooperativa, tão delicado e de tanto alcance. Uma das muitas disposições ina-
plicáveis é a da responsabilidade, pela ausência de capacidade civil, nas coopera-
tivas do crianças.
Os estatutos acima, já constantes da 1.ª edição (dada à
publicidade em janeiro de 1933), foram ligeiramente por mum
modificados e oficializados pelo “Serviço de Economia Rural”
do Ministério da Agricultura, como o tinham sido, em 1931,
pelo ex-Fomento Agrícola Federal.
As cooperativas escolares estão isentas de selos e de
todos os impostos e deverão requerer seu registro no “Serviço
de Economia Rural”, do Ministério da Agricultura, através dos
Departamentos estaduais de cooperativismo, juntando ape-
nas: uma cópia do ato constitutivo (ata de constituição), um
exemplar dos estatutos e uma relação dos associados, do-
cumentos êsse com a assinatura de sete ou mais fundadores
a autenticados pelo diretor do instituto de ensino. Não pré-
cisam arquivar os documentos em cartório, etc.
Os presentes estatutos podem ser alterados na parte
que se refere ao diretor do Grupo, podendo-se dizer diretor ou di-
retora. O mesmo para a parte que se reporta a professor ou
professôra.
Ainda na categoria da Escola, que poderá ser rural, nor-
mal, profissional, ginásio, grupo escolar, etc.
As cadernetas de compras nada têm que ver com as ca-
dernetas-títulos nominativos, êstes simplificados tanto quan-
to possível.
FÁBIO LUZ FILHO 339
Lar-se-á à Cooperativa um nome delicado e sugestivo,
uma bela divisa: “Para a escola! Pela Escola!". “Solidarieda-
de”, etc.
As deliberações da Assembléia Geral, do Conselho de
Administração, avisos úteis, etc., deverão ser afixados pelo
tempo necessário em lugar a todos acessível, e recolhidos, de-
pois, aos respectivos arquivos. É esta uma salutar prática
que acentua o caráter democrático da cooperativa, que deverá
ser como um templo de cristal, sem recessos ou refolhos que a
subtraiam à vista dos associados. É ela uma pequena repúbli-
ca, “uma pequena imagem da vida”, como acentuou Jouenne,
uma miniatura do corpo social. É um exemplo de organização
da sociedade, levando admiràvelmente ao espírito de iniciativa
e eqüidade.
Aos pais ou tutôres dos associados, poderá ser permitido
assistir às reuniões da Cooperativa, com voz consultiva, a juízo
do diretor da escola.
Cooperativas européias há que admitem, como vimos,
alunos e antigos alunos de 6, 18 e 20 anos de idade, só
admitindo nos Conselhos de Administração alunos maiores de
10 anos.
LISTA NOMINATIVA DOS ASSOCIADOS FUNDADORES
DA COOPERATIVA ESCOLAR .............. ..... ...
340 COOPERATIVAS ESCOLARES
NORMAS PARA UMA COOPERATIVA ESCOLAR
RURAL (ADAPTÁVEL ÀS URBANAS)
1.° — aquisição de livros e material escolar;
2.º — produção e compra de artigos de primeira necessidade;
3.º — produção de material de ensino;
4.º — desenvolver o espírito e solidariedade e o de economia,
o senso da responsabilidade e o espírito de equipe;
5.º — será um “centro-de-interêsse” para a escola;
6.º — desenvolvimento do espírito de economia e noção da
distribuição eqüitativa do dinheiro; senso de direção e
auto-suficiência;
7.º — criação de cooperativas pós-escolares.
SETOR PRODUÇÃO
A Cooperativa Escolar distribuirá, pelo trabalho dos alu-
nos, individual ou em equipe, objetos ou produtos diversos,
seja entre os alunos associados, seja ao público, sempre con-
siderados os aspectos educativos dessas atividades.
Os alunos receberão, pelo seu trabalho, uma remuneração
determinada pela assembléia.
SECÇÃO DE ECONOMIA
Nada impede que a Cooperativa escolar tenha uma peque-
na secção dêste gênero, na qual os alunos depositarão suas
economias, só podendo retirá-las em casos de moléstia dêles ou
na família, ou quando se demitam ou forem excluídos.
O Conselho Fiscal e o Conselho de Administração
resolverão os casos excepcionais.
COOPERATIVAS ESTUDANTÍS E UNIVERSITÁRIAS
Das estudantis e universitárias, de caráter econômico,
integradas por maiores de 16 anos, poderão participar, como
associados, os professôres e demais pessoas que sirvam nos
estabelecimentos de ensino, e enquadrar-se-ão nos moldes das
demais cooperativas de adultos, com personalidade jurídi-
ca, etc.
FÁBIO LUZ FILHO 341
REQUERIMENTO
Sr. Diretor do Serviço de Economia Rural
A Cooperativa ................. ....................... .......... ...., por seu pré-
sidente infra-assinado, vem, de acôrdo com a lei, requerer seu
registo nesse Serviço, juntando os documentos exigidos por
lei, que declara serem autênticos e verídicos.
Nêstes têrmos
P.deferimento.
(Assinar o nome por extenso).
Documentos anexos:
a) — cópia da ata de constituição;
b) — exemplar dos estatutos, se não se acharem inclusos
no texto da ata;
c) — lista dos associados com as indicações legais.
(Todos êsses documentos serão enviados em uma via,
com suas fôlhas rubricadas pelo Presidente, e autenticados pelo
diretor do estabelecimento do ensino. As cooperativas esco-
lares estão isentas de selos e de impostos).
N0TA — Uma outra via deverá ficar com os serviços ou
departamentos de cooperativismo, em cada Estado.
COOPERATIVAS ESCOLARES AGRÍCOLAS
São fins dessas associações:
a) — criar uma organização cooperativa de venda e de
compra, graças à qual os alunos das escolas poderão chegar a
adquirir, pelo método direto, a experiência cooperativa, os
princípios do cooperativismo e sua aplicação prática, as nor-
mas de organização e a direção a dar às operações sôbre uma
base sã;
b) — incentivar, animar e empreender a produção, a
exposição, a classificação, a expedição, o financiamento, a
armazenagem, a publicidade, a venda e tôdas as outras opera-
ções de manipulação dos produtos agrícolas, e proporcionar
aos associados tôdas as facilidades e serviços, graças aos quais
342 COOPERATIVAS ESCOLARES
possam êles exercer essas atividades ou outra qualquer sôbre
uma base cooperativa;
c)— fazer a comercialização dos artigos produzidos por
seus membros; comprar e vender todos os artigos de conformi-
dade com os regulamentos estabelecidos pelo Conselho de
Administração;
d)— colaborar com as sociedades cooperativas de adul-
tos ou outras sociedades de jovens.
COOPERATIVA ESCOLAR DE TRABALHO EM SÃO PAULO
DO OBJETO DA SOCIEDADE E SUAS OPERAÇÕES:
ART. 12 — A sociedade tem por objeto, unindo os inter-
nados do “Instituto Agrícola de Menores de Batatais”, edu-
cá-los dentro dos princípios do sistema cooperativo, da soli-
dariedade e do auxilio mútuo, dando-lhes ao mesmo tempo
uma profissão e inculcando-lhes hábitos de economia e pré-
visão.
ART. 13 — No cumprimento de seu programa de ação
a Cooperativa se propõe: — I - NA SEÇÃO DE TRABALHO.
a)— Produzir, para vender, trabalhos manuais e pro-
dutos de indústria artesanal e agropecuária.
b)— Aceitar encomendas e empreitadas de trabalhos a
serem realizadas dentro e fora do Estabelecimento, a juízo da
Diretoria do Instituto e do orientador da Cooperativa.
C)— Organizar os serviços de modo e aproveitar a ca-
pacidade dos associados, distribuindo-lhes os trabalhos de
acôrdo com suas aptidões.
d)— Fornecer aos associados material e quaisquer meios
de que a sociedade disponha, destinados a facilitar e assegurar
a boa execução dos trabalhos que lhes confiar, podendo insta-
lar depósitos, oficinas e outras dependências necessárias.
e)— Fazer aos associados, por conta dos trabalhos exe-
cutados, adiantamentos mensais, a critério da Diretoria.
f)— Procurar mercado para a colocação dos produtos
manufaturados.
PARÁGRAFO ÚNICO — Os associados que prestam
serviços internos que as impeçam de produzir na seção de
traba-lho, receberão uma mensalidade correspondente à média
alcançada individualmente pelos associados que produzirem
na referida seção.
FÁBIO LUZ FILHO 343
II— NA SEÇÃO DE CULTURA E DIVERSÕES:
a) — Organizar uma biblioteca e assinar jornais e re-
vistas educativas, especialmente os que tratem de assuntos
relacionados com os trabalhos a serem executados pelos as-
sociados e ao cooperativismo em geral, além de jornais espor-
tivos.
b) — Organizar uma discoteca.
c) — Instalar nas dependências do Instiuto Agrícola
de Menores de Batatais, aparelhos de projeção cinematográfi-
ca, com a organização de programas educativos e recreativos.
d) — Promover, mediante prévio entendimento com a
Diretoria do Instituto e sob a apreciação da Diretoria do Ser-
Social dos Menores, excursões de caráter instrutivo e recrea-
tivo.
e) — Aumentar o Parque Esportivo do Instituto.
f) — Promover competições esportivas e culturais.
g) — Adquirir prêmios de caráter coletivo, que consti-
tuirão patrimônio da Cooperativa e servirão aos associados
enquanto internados no Instituto Agrícola de Menores de
Batatais.
h) — Manter, de acôrdo com a Diretoria do Instituto,
cursos julgados necessários à instrução e desenvolvimento pro-
fissional dos associados.
AS COOPERATIVAS PÓS-ESCOLARES
As cooperativas pós-escolares, como o nome indica, são,
como vimos, cooperativas que se poderão formar depois de ter-
minar o aluno o curso escolar.
Tem por finalidade dar aos ex-alunos, e também a filhos
de operários pobres, meios de continuar sua educação geral
e proporcionar-lhes meios de adquirir ensino técnico, prepa-
rando-os para os ofícios manuais, o artesanato rural, a agri-
cultura e a criação, desenvolvendo-lhes aptidões úteis para os
vários misteres, num sentido objetivo. A cooperativa também
poderá adquirir material didático e instrumentos de trabalho,
distribuindo socorros, e adquirindo para uso de seus associa-
dos, as ferramentas necessárias e até mesmo instrumental
344 COOPERATIVAS ESCOLARES
agrícola. Dar-lhes-á orientação profissional, auxiliando-os na
procura de emprêgo, principalmente aos órfãos e filhos de fa-
mílias numerosas.
Nada vejo na lei brasileira que as proíba, não obstante a
exegese rígida.
NOMES DE PESSOAS
As cooperativas escolares não deverão em face da lei co-
locar nome ou nomes de pessoas vivas em sua denominação, a
não ser como indicação geográfica ou no caso do nome ou no-
mes fazerem parte da denominação do estabelecimento do em-
sino. Devem adotar, de preferência, nomes simbólicos e su-
gestivos.
PROFESSOR ORIENTADOR
O diretor do estabelecimento de ensino poderá designar
um professor ou uma professôra com funções de orientação,
a qual, quando fôr o caso, poderá dar quitação ou levantar di-
nheiro, como o diretor.
GERENTE
Poderá o tesoureiro ser substituído por um gerente, ou
elegerem, além do tesoureiro, um gerente, ou o Conselho de
Administração designar um aluno (mais simples) para geren-
te (art. 35, § único dos estatutos).
COOPERATIVA ESCOLAR
(PEDIDO DE INSCRIÇÃO)
.................. ................ ....... ....... ................. abaixo assinado
aluno do .................... .......... ............. ...., filho de ....................
......................... ............... ........... nascido em de ....................
de 19 ................ ............... ....... , natural de.. ................ ..........
Estado ................ ......... e domiciliado em ............ , devidamente
Autorizado ................................................ ............... ,pede a sua
inscrição no quadro social desta Cooperativa Escolar, cujos
Estatutos e Regulamento internos se compromete a respeitar,
FÁBIO LUZ FILHO 345
subscrevendo ................. ............. (.....) quotas-parte no valor de
Cr$ . . ......... ............... ............. ,cujo importe de Cr$ .................
declara pagar em .......................... prestações ............ ................ .
(Data)
................... ..................... ...................... ..
(Assinatura)
......................... ............................................. ................ ..............
......................... ............................................. ................ ..............
......................... ............................................. ............
Inscrito em: ............ ................................. ...
Matrícula n.º .............. .............................. ...
......................................... ................ .......
(Presidente)
COOPERATIVISMO ESCOLAR
(Apêlo aos professôres, aos pais de alunos, aos estudantes em geral)
"Os consumidores sofrem as conseqüências do encareci-
mento progressivo das utilidades em tôda a parte onde não
estejam organizados para resistir e vencer.
A tarefa de minorar as dificuldades coletivas, mòrmente
no que diz respeito à subsistência em tôdas as modalidades, é,
assim, um dever de tôda coletividade consciente.
Em poucas palavras e sintetizando conceitos, que exigi-
riam longa dissertação, apresentaremos algumas idéias, que
devem merecer a atenção do professorado, dos pais e dos estu-
dantes em geral.
PORQUE OS PREÇOS SOBEM
São complexas as causas da subida dos preços: mas limi-
tar-nos-emos a frisar, dentro da concisão que êste apêlo re-
quer, que um dos fatôres do encarecimento da vida é a exces-
siva intermediação que existe entre as fontes produtoras e os
consumidores.
NOTA — O aluno deve provar haver sido autorizado pelo pai ou responsável.
346 COOPERATIVAS ESCOLARES
O que verificamos diàriamente na aquisição dos gêneros
de subsistência alimentar, vestuário, etc., também ocorre em
outros setores, como o do consumo de material didático.
No dia em que eliminarmos ou reduzirmos os intermédia-
rios que encarecem os artigos escolares, passando a abastecer-nos
diretamente nas fontes produtoras, ou produzindo, nós mesmos,
tudo aquilo de que venhamos a precisar para as tarefas do ensino,
o problema estará em grande parte resolvido ou, pelo menos,
encaminhado.
A conseqüência imediata será a ampliação do nosso
poder aquisitivo. E, então, não só passaremos a gastar menos
na compra do material imprescindível, como também
poderemos adquirir outros artigos, que, antes, não nos eram
acessíveis, quer como pais de alunos, quer como professôres e
estudantes.
O SISTEMA COOPERATIVO
O sistema cooperativo é hoje adotado em todos os países,
qualquer que seja sua organização política e social.
Com êle pode-se minorar o preço das utilidades de vez
que permite sejamos nós os donos dos nossos próprios nego-
cios; nossos serão o capital, os estoques, as instalações, a admi-
nistração, os lucros, o contrôle, enfim. Seremos simultânea-
mente os nossos próprios patrões e clientes, porque todos par-
ticiparemos, com igual responsabilidade, dos encargos sociais.
A cooperativa é, ademais, um instrumento de educação,
um meio de evolução social; porque não é só uma forma de
emprêsa econômica. Não deve ser olhada apenas por êste la-
do imediatista. É ela também uma associação de pessoas, um
instrumento de educação da juventude, e mesmo dos adultos.
Já se disse que a cooperativa de consumo ou de compras,
em comum, além dos benefícios econômicos tangíveis, como são
os produtos de boa qualidade, pêso exato e preços justos, leva a
economizar não só pelo preço justo, como pela distribuição dos
lucros ou sobras anuais aos próprios associados, na proporção de
suas compras.
Também já se acentuou que o movimento cooperativo
mundial acelerou o progresso social, levando o povo para uma
cidadania e orientação democrática, mediante a gestão pelo
próprio povo de emprêsas coletivas. O movimento cooperativo
pode trazer contribuição vital e original que ultrapassa as
FÁBIO LUZ FILHO 347
possibilidades, muita vez, da própria ação oficial, sobretudo
no campo prático do ensino da economia e da administração
democrática de emprêsas econômicas. Sai do terreno pura-
mente cultural e socialmente neutro e entra no campo da li-
vre associação e da evolução social. É, assim, precioso auxi-
liar do Estado no profundo e complexo problema da elevação
do nível de vida e da educação das massas, notadamente em
países da natureza do Brasil.
SURGE UMA IDÉIA
Preocupado com as dificuldades que afligem sobretudo
os pais pobres, o Sr. Ministro da Educação e Saúde, Dr. Simões
Filho, deseja estimular a organização de grandes cooperati-
vas com participação do professorado, dos pais e responsáveis
em geral, bem como de estudantes maiores, com o objetivo
de conseguir preços mais baixos e material mais abundante
e melhor.
O plano inicial consiste na instalação de uma cooperati-
va nesta capital, em ponto tanto quanto possível central, com
seções em vários estabelecimentos de ensino, provida de sufi-
ciente estoque de artigos, adquiridos diretamente dos fabri-
cantes e editôres com sensível redução de prêço.
Será uma Cooperativa Distribuidora de Material Escolar,
controlada pelos próprios associados. O Govêrno, entretanto,
está disposto a auxiliar financeira e moralmente êsse em-
preendimento, esperando contar com a correspondência do
interêsse coletivo.
O plano prevê a instalação, quando possível, de oficinas
próprias para a publicação de livros e revistas, a manutenção
de bôlsas para os alunos de escassos recursos financeiros e de
comprovada aplicação escolar, a organização de clubes lite-
rários e recreativos, bibliotecas, discotecas e cinemas educa-
tivos; o contrato de edições especiais de obras didáticas exigi-
das no cumprimento dos programas, etc.
UM PRÓXIMO DEBATE
Convocamos, assim, o professorado, os pais de alunos e
estudantes em geral para um debate conjunto dessas idéias.
348 COOPERATIVAS ESCOLARES
Pedimos, por isso, que meditem sôbre estas considerações e
anotem suas dúvidas e sugestões para exame oportuno.
Rio de Janeiro, setembro de 1951.
A Comissão Organizadora: — Lúcia Magalhães, Fábio
Luz Filho e Valdiki Moura.
NOTA —Do apêlo acima nasceu a Cooperativa Cultural
e Distribuidora de Material Escolar, em funcionamento no
térreo do Ministério da Educação, e outras fundadas na
Bahia,
Minas, São Paulo, Estado do Rio pelo Dr. Valdiki Moura,
e outras que estão surgindo espontâneamente.
CAMPANHA DE BARATEAMENTO DO MATERIAL
ESCOLAR
“Senhor Ministro:
A Comissão, designada por Vossa Excelência na portaria
n.° 897, de 20 de outubro de 1954, apresenta, como conclusão
de seus trabalhos, as seguintes sugestões:
1 — O Ministério da Educação e Cultura, com a colabo-
ração do Ministério da Agricultura e dos órgãos estaduais
competentes, propugnará pela criação de cooperativas cultu-
rais e de distribuição de material escolar ou secção de livros e
material escolar em cooperativas de consumo.
§ 1.º — Nos grandes centros urbanos, as cooperativas
acima referidas poderão manter postos de venda
nos estabelecimentos de ensino ou na proximi-
dade, para distribuição de material escolar;
§ 2.º — Nos estabelecimentos de ensino onde não existi-
rem cooperativas escolares ou postos de venda,
promover-se-á a instalação, em caráter transi-
tório, de postos distribuidores para atender de
pronto à venda de livros e material escolar;
§ 3.º — Os postos referidos nos parágrafos anteriores
constituirão uma etapa preparatória para a
criação das cooperativas escolares.
2— Criar-se-ão cooperativas escolares nos
estabelecimentos de ensino, logo que possível, seja diretamente
organizadas, seja pela transformação dos postos mencionados
nas observações do item anterior.
FÁBIO LUZ FILHO 349
§ 1.º — As cooperativas escolares trabalharão em cola-
boração com as cooperativas referidas no item
anterior, podendo adquirir nesta o material de
que precisam ou vender por seu intermédio os
seus produtos, quando tiverem secção de pro-
dução;
§ 2.º — Para estimular a criação de cooperativas esco-
lares, dever-se-á:
1) Incluir uma unidade de estuda sôbre cooperativismo
escolar e geral nos programas da Cadeira de Admi-
nistração Escolar, das Faculdades de Filosofia, Ciên-
cia e Letras;
2) promover, com a colaboração de outros órgãos da
Administração Pública ou com o auxílio de institui-
ções particulares, cursos de férias para professôres;
3) solicitar aos Governos Estaduais que determinem a
inclusão de uma unidade de estudo sôbre o coopera-
tivismo escolar em geral no programa da Cadeira
de Educação das escolas normais.
3) para execução dêsse programa, o Ministério da Edu-
cação e Cultura procurará:
a) conseguir financiamento no Banco Nacional de Crê-
dito Cooperativo ou em outros estabelecimentos de
Crédito para as cooperativas referidas no item pri-
meiro;
b) obter dos editôres e dos produtores de material esco-
lar em geral as melhores condições de venda para as
organizações referidas nos itens ns. 1 e 2;
c) promover a Campanha do Barateamento do Material
Escolar.
Queira Vossa Excelência aceitar, com os votos de congra-
tulações pela feliz iniciativa e do êxito no seu
desempenho, os protestos de alta consideração dos signatários
dêste parecer.
Rio de Janeiro, 25 de novembro, 1954.
a) Celso Kelly, Fábio Luz Filho, Teodoro Henrique Mau-
rer Junior, Rui Saraiva Barbosa, Isabel de Camargo Schützer.
350 COOPERATIVAS ESCOLARES
PROJETO DE LEI PARA COOPERATIVAS ESCOLARES
(Elaborado par Fábio Luz Filho)
CAPÍTULO I
Da Introdução
Art. 1.º — A cooperativa escolar é uma sociedade cooperativa
sui-generis, distinguindo-se das demais pelas disposições dêste
decreto.
CAPÍTULO II
Das Finalidades e Características
Art. 2.º — As características especiais da cooperativa
escolar são as seguintes:
1.º — É a escola socialmente organizada, sendo consti-
tuída, nos estabelecimentos públicos ou particulares de ensi-
no primário, pelos corpos discentes assessorados pelos respec-
tivos diretores ou professôres.
3.º — Poderão revestir, as cooperativas escolares, tôdas
as modalidades necessárias dentro do meio em que tenham de
atuar.
4.º — Denominação precedida da expressão “cooperati-
va escolar” e terminada, de preferência, com o nome do esta-
belecimento de ensino ou de um dos estabelecimentos de em-
sino.
Art. 3.º — A cooperativa escolar tem fins educativos e
econômico-sociais, tais como:
a)— desenvolver entre os associados o espírito de auxí-
lio-mútuo, de iniciativa e de previdência ao serviço
da coletividade, assim como o gôsto do trabalho
produtivo e socialmente útil e a idéa da coopera-
ção, educando-os nas práticas da organização e do
regime cooperativo;
b)— fornecer aos associados material ou aparelhagem
para o estudo e o ensino educativo, concreto, expe-
rimental e prático, assim como artigos de consu-
mo e uso pessoais.
Art. 4.° — São proibidas homenagens políticas, religio-
sas, raciais e restrições da mesma espécie.
FÁBIO LUZ FILHO 351
CAPÍTULO III
Da Constituição, Registo e Representação
Art. 5.º — Poderão pertencer as cooperativas escolares
todos os alunos de ambos os sexos e, como assessôres, os pro-
fessôres dos estabelecimentos de ensino primário, normais,
secundários ou profissionais, oficiais ou particulares, desde que
autorizados os alunos por seus pais, tutores ou responsáveis,
quando for o caso.
Parágrafo único — Poderão continuar a pertencer às
cooperativas escolares os ex-associados na qualidade de
orientadores e como exemplo, estímulo e ajuda, não partici-
pando, porém, de suas operações nem das votações, mas po-
dendo ser eleitos para assessôres.
Art. 6.º — A constituição da cooperativa escolar far-se-á
em ata lavrada em livro próprio, assinada pelo menos por doze
fundadores.
§ 1.º — Quando lavrada em livro próprio, a ata trará
essa declaração expressa, subscrita pelo presidente, ao pé da
cópia a ser enviada ao Serviço de Economia Rural (ou Minis-
tério da Educação) para o competente registo.
§ 2.º — Êsse documento poderá conter a íntegra dos es-
tatutos, os quais, não constando do ato constitutivo, deverão
ser datados e assinados pelos mesmos associados que tiverem
subscrito aquêle ato, num mínimo de doze (12).
Art. 7.º — Da ata constarão:
1.º—declaração da vontade de formar a cooperativa;
2.º—sua denominação e sede;
3.º—seu objetivo;
4.º—nome, idade, nacionalidade, residência e série a
que pertence o associado, sendo facultado fazer
constar de lista nominativa, à parte, êstes requi-
sitos;
5.º—a declaração da leitura e aprovação dos estatutos;
6.º—o valor e o numero de quotas-partes subscritas,
quando fôr o caso;
7.º—a eleição do primeiro Conselho de Administração,
com cinco membros no mínimo, com as atribui-
ções que lhe forem aplicáveis, da lei em vigor;
8.º—eleição do primeiro Conselho Fiscal de três mem-
bros inelegíveis para o período imediato e com as
atribuições que lhe são própria.
352 COOPERATIVAS ESCOLARES
§ 1.º — O Conselho de Administração escolherá, de seu
seio,
uma diretoria executiva ou um gerente, e poderá designar
associados ou ex-associados para integrarem órgãos de asses-
soramento e consulta, quando necessários.
§ 2.º — O Conselho de Administração terá mandato de
um ano, podendo ser reeleito.
Art. 8.° — Os Conselhos de Administração e Fiscal se
reunirão pelo menos uma vez por mês, para tratar de assuntos
conexos, cabendo ao Conselho Fiscal o direito de veto a de-
terminações do Conselho de Administração, com recurso para
a Assembléia Geral ou para o Conselho de Assessôres, quando
existir, na hipótese de não chegarem a acôrdo ambos os Con-
selhos após discussão do assunto.
Art. 9.º — Todos os cargos sociais serão exercidos gra-
tuitamente.
Art. 10 — Terá o diretor ou um dos diretores ou profes-
sôres dos estabelecimentos de ensino a representação ativa e
passiva da cooperativa.
Art. 11 — Para o fim de obter seu registo, a Cooperati-
va Escolar remeterá ao Serviço do Economia Rural os seguin-
tes documentos, todos rubricados em sua fôlhas pelo presi-
dente e visados pelo Diretor do estabelecimento ou de um dos
estabelecimentos de ensino cujos alunos fizerem parte da ins-
tituição, ou pelo professor designado para seu orientador:
1.º — cópia da ata de fundação;
2.º — cópia dos estatutos, desde que não constem do
corpo da ata;
3.º — lista nominativa dos associados;
4.º — requerimento do presidente eleito, no qual se de-
clarará a autenticidade e a veracidade da do-
cumentação.
Parágrafo único — Nos Estados ou Territórios Federais,
os documentos serão entregues, mediante recibo, às reparti-
ções locais de Cooperativismo, ou, quando não as houver, às
Agências do Serviço de Economia Rural ou, na falta, à Secreta-
ria do Educação ou órgão correlato.
Art. 12 — Concedido o registo, o Serviço do Economia
Rural fornecerá à cooperativa o competente certificado, sen-
do que no período compreendido entre a entrega ou remessa
dos documentos e a concessão do registo a sociedade poderá
iniciar seu funcionamento.
FÁBIO LUZ FILHO 353
CAPÍTULO IV
Das Federações e da Confederação
Art. 13 — Poderão as cooperativas escolares, com apro-
vação das respectivas assembléias gerais, constituir federa-
ções.
Art. 14 — As federações, que serão estaduais ou interes-
taduais, por sua vez poderão integrar a Confederação Nacio-
nal das Cooperativas Escolares.
Art. 15 — A Assembléia Geral das Federações será cons-
tituída pelos delegados de cada cooperativa escolar, que se-
rão os diretores ou professôres dos estabelecimentos de ensino,
ou êstes e alunos de mais de 16 anos, cada um com um só
voto.
Art. 16 — A Confederação será formada pelos delegados
de cada federada, com o mesmo regime de voto.
Art. 17 — São funções das Federações:
a) — agrupar as cooperativas escolares e organizar em
comum seus serviços, prestando-lhes assistência;
b) — promover a utilização de serviços de uma coopera-
tiva por associados de outra;
c) — regular a transferência de associados entre as
cooperativas, quando necessário ou conveniente;
d) — a instalação de tipografias;
e) — a publicação e distribuição de livros didáticos e
científicos, revistas, impressos e do necessário ma-
terial pedagógico e científico;
f) — a uniformização contábil nas cooperativas e a pro-
paganda das cooperativas escolares e pós-escolares,
notadamente as agrícolas e as de artesanato;
g) — promover conferências, excursões, concertos, festas
escolares, concursos, viagens, visitas, etc.;
h) — organizar em sua sede e nas cooperativas filiadas
bibliotecas, museus, discotecas, cinemas, teatros
educativos, campos de experiência agrícola;
i) — fomentar as relações entre a escola e a família;
j) — apoiar a ação dos diretores dos estabelecimentos
de ensino primário, normal, secundário ou profis-
sional, oficiais ou particulares, no sentido do cres-
cente aperfeiçoamento do ensino;
23 — 27 454
354 COOPERATIVAS ESCOLARES
l) — representar as cooperativas, amparar e defender
seus direitos perante os órgãos da administração
pública.
Art. 18 — Para fins de registo, obedecerão as Federações
e a Confederação as normas e trâmites das cooperativas es-
colares, excluídas as exigências do número 4 do art. 7.º no
que as mesmas não se aplicar.
CAPÍTULO V
Dos Estatutos
Art. 19 — Os estatutos das cooperativas escolares, suas
federações e confederação deverão conter:
1.º — Sua denominação e objetivos;
2.º — sede e área de ação, circunscrita esta, para as
cooperativas escolares das escolas primárias, ao
edifício do estabelecimento de ensino e, excepcio-
nalmente, a estabelecimentos de ensino de um dis-
trito ou zona, atendendo sempre às possibilidades
de reunião, contrôle e operações;
3.º — não-limitação do número de associados, todos com
singularidade de voto nas deliberações e “quorum”
pessoal;
4.º — direitos e deveres dos associados;
5.º — modo de admissão, demissão e exclusão dos associa-
dos, sendo facultativa a demissão a qualquer
tempo;
6.° — atribuições das assembléias gerais e extraordiná-
rias e dos órgãos de administração, fiscalização e
assessoramento;
7.º — capital variável, quando estatuído, dividido em
quotas-partes de pequeno valor, restituíveis essas
quotas, quando realizadas, ou suas prestações, ao
associado que se retirar ou fôr excluído, desde que
não possua débitos para com a cooperativa;
8.º — fixação do mínimo e do máximo de quotas-partes
que cada associado poderá possuir, quando fôr o
caso;
9.º — capital social mínimo, quando fôr o caso, e modo
de integralização do capital subscrito;
FÁBIO LUZ FILHO 355
10 — determinação de uma jóia de entrada, que não po-
derá ser superior ao valor da quota-parte, desti-
nada as despesas de instalação e propaganda e ao
fundo de reserva;
11 — nas cooperativas sem capital, a jóia será obrigató-
ria, com um valor compatível com a natureza da
cooperativa;
12 — distribuição, ou não, como retôrno, das sobras lí-
quidas;
13 — data da assembléia geral ordinária, que se reunirá,
de preferência, trimestralmente e obrigatòriamen-
te no fim do ano letivo;
14 — modo de convocar as assembléias;
15 — modo de Constituição dos Conselhos de Adminis-
tração e Fiscal e demais órgãos acaso criados;
16 — modo de dissolução, liquidação, fusão e incorpora-
ção, decididas sempre em assembléia geral ex-
traordinária, com quorum especial.
§ 1.º — As cooperativas juvenis poderão ter sua sede
fora dos estabelecimentos de ensino, desde que
assessoradas por quem tenha capacidade civil e
fique responsável, agremiando escolares ou
ex-escolares, sobretudo para fins de artesanato.
§ 2.º — A dissolução processar-se-á:
1.º — por fechamento ou fusão do estabelecimento de
ensino;
2.º — por mudança de organização ou plano de estudos
que impeçam seu funcionamento;
3.º — quando o número de associados fôr inferior a doze
por mais de três meses;
4.º — terminação do prazo de duração, quando determi-
nado;
5.º — pelo consenso unânime dos associados.
Art. 20 — A cooperativa fornecerá ao associado:
a) — cópia dos estatutos;
b) — ficha de inscrição ou uma caderneta que o iden-
tifique.
356 COOPERATIVAS ESCOLARES
CAPÍTULO VI
Da Capital e da Responsabilidade
Art. 21 — O valor da quota-parte, será determinado pelas
condições econômico-sociais do meio, subscrevendo cada as-
sociado o número de quotas-partes que quiser.
§ 1.º — Serão as quotas-partes pagas de uma só vez ou
em prestações periódicas e transferíveis depois de integraliza-
das, sòmente a associados, mediante autorização do Conselho
de Administração, que poderá cobrar pequena taxa de trans-
ferência.
§ 2.º — Poderão as quotas-partes ser pagas em natureza
ou serviços.
Art. 22 — Poderão ser capitalizados os retornos para
integralização das quotas-partes.
Art. 23 — Poderão formar-se cooperativas com capital
e com distribuição de retornos; com capital e sem distribui-
ção de retornos; sem capital e com distribuição de retornos e
e sem distribuição de retornos.
Art. 24 — Não terão os associados das cooperativas es-
colares ou a juvenis nenhuma forma de responsabilidade.
Art. 25 — Terão os associados das Federações e da Con-
federação duas espécies de responsabilidade:
1.º — Responsabilidade, limitada ao valor de sua quota
no capital social;
2.° — Responsabilidade limitada suplementar, pela qual
os associados poderão constituir, além do valor
quotas-partes subscritas, uma garantia suplemen-
tar até um limite estatutário fixado.
CAPÍTULO VII
Dos Fundos Sociais
Art. 26 — Poderão as cooperativas escolares ou as juvenis
criar os fundos sociais que quiserem, retirados das sobras lí-
quidas, sendo obrigatórios:
1.º — O fundo de reserva, com 10% no mínimo das so-
bras líquidas, podendo cessar sua dedução desde
que atinja o montante estatutàriamente fixado,
podendo parte ser mobilizada e parte empregada
FÁBIO LUZ FILHO 357
de modo seguro e fàcilmente disponível. Atingido
aquêle limite, os 10% irão refôrçar o fundo de de-
senvolvimento, com 10% no mínimo das sobras
líquidas, destinado ao fomento de tôdas as ativida-
des educativas e aparelhamento material da coope-
rativa, a êle revertendo doações, donativos e pro-
ventos eventuais.
§ 1.º — O restante das sobras líquidas será, quando fôr
o caso, distribuído aos associados, a títulos de retôrno, na pro-
porção das operações efetuadas com a cooperativa ou do tra-
balho realizado.
§ 3 — Até 40% dos retornos serão depositados em com-
ta-corrente de cada aluno, se assim o desejarem, até que ter-
mine os cursos primários jornais, secundários ou profis-
sionais ou se retirarem da escola ou da cooperativa.
Art. 27 — Em caso de dissolução, os fundos sociais serão
destinados a uma cooperativa escolar ou fins de interêsse
escolar, depois de devolvidos aos associados o valor das quo-
tas-partes que tiverem realizado ou de suas prestações e os
retornos a que fizerem jus, quando fôr o caso.
CAPÍTULO VIII
Das Isenções
Art. 28 — Ficam as cooperativas escolares ou as juvenis
isentas, para todos as seus atos e documentos, do pagamento
de selos federais, municipais e estaduais, existentes ou por
existir, assim como de todos e quaisquer impostos e taxas fe-
derais, estaduais e municipais, criados ou a criar.
CAPÍTULO IX
Da Fiscalização
Art. 29 — A fiscalização das cooperativas escolares ca-
berá ao Serviço de Economia Rural, que deverá entrar em
entendimentos com o Ministério da Educação e as Secreta-
rias de Educação estaduais e do Distrito Federal no sentido de
uma ação conjunta, diretamente ou por intermédio dos dele-
gados do Serviço nos Estados.
358 COOPERATIVAS ESCOLARES
Parágrafo único — Poderá o Serviço de Economia Rural
fazer acordos diretos com os órgãos federais, estaduais e do
Distrito Federal acima enumerados.
Art. 30 — As cooperativas escolares ou as juvenis serão
obrigadas a enviar ao Serviço de Economia Rural, por inter-
médio de seus delegados nos Estados e diretamente no Distrito
Federal:
a) — no primeiro semestre, cópia de balancete das ope-
rações;
b) — anualmente, cópia da ata da aprovação de contas,
balanço e relatório da administração e parecer do
Conselho Fiscal.
Art. 31 — O Serviço de Economia Rural, por si ou por
seus delegados, e as Secretarias de Educação estaduais e do
Distrito Federal e os órgãos competentes do Ministério da
Educação, darão a necessária assistência técnica e financeira
possível, às cooporativas escolares ou juvenís e assemelhadas.
CAPÍTULO X
Disposições Gerais
Art. 32 — Nos casos omissos, terão aplicação analógica
as disposições da lei em vigor, considerada sempre a natureza
especialíssima da cooperativa escolar, suas federações e con-
federações.
Art. 33 — Os professôres designados como orientadores
das cooperativas escolares, poderão ser dispensados de seus
encargos normais, considerando-se serviço relevante, para efei-
tos de fôlha de serviços e promoção, suas atividades junto às
cooperativas escolares.
Art. 34 — Poderá possuir a cooperativa um Conselho de
Proibidade, ou de Justiça, para resolver sôbre os casos de ex-
clusão estatutàriamente fixados, composto de associados ou
ex-associados eleitos pela Assembléia, em número de cinco,
com um ano do mandato podendo ser reeleito.
Parágrafo único — Caberá recurso do associado excluído
para a Assembléia Geral dentro do prazo de trinta dias da data
da notificação da exclusão, para que a ratifique ou retifique.
Art. 35 — Poderá a cooperativa possuir uma Comissão
de Assessôres presidida pelo diretor ou um dos diretores do
estabelecimento de ensino, dela participando, além dos direto-
FÁBIO LUZ FILHO 359
res, professôres, pais ou responsáveis, ex-alunos e pessoas com
conhecimentos técnicos afins com as atividades da cooperati-
va, durando um ano em suas funções, podendo ser reeleitos.
Parágrafo único — São funções da Comissão de Asses-
sôres: orientar a marcha da cooperativa, podendo colhêr ele-
mentos junto aos Conselhos de Administração e Fiscal, to-
mar conhecimento do modo de aplicação dos fundos sociais e
dirigir-se aos órgãos oficiais de fiscalização já enumerados.
Art. 36 — Revogam-se as disposições em contrário.
Rio — 1944.
____
NOTA — O projeto acima foi elaborado na vigência da lei 5.893, de 1943.
Com a criação, que se impõe, do Departamento Nacional de Cooperativismo, para
o mesmo passarão as atribuições do projeto acima, ou o Ministério da Educação
e, Cultura ficará com a organização, registro e assistência das cooperativas esco-
lares. As cooperativas universitárias ou estudantís integradas por maiores de 16 anos,
caem no âmbito das cooperativas econômicas, de adultos.
NOTA FINAL — Acrescento aos nomes e entidades já citados em capítulos ante-
riores, brasileiros e estrangeiros, que trataram do cooperativismo escolar ou pelo
mesmo se interessaram, os seguintes, dentre outros que não me acodem à memória
no momento: M. Brot, Watkins, Juan Nigro, Ramón Viveros, Francisco Álvares,
Ernesto Cilesia, J. Amaral, L. Labouriau, Nobrega de Siqueira, a UNESCO, a
O.E.A., a F.A.O., a Federação Argentina das Cooperativas de Consumo, Isabel de
Camargo Schützer, Aley Vilela Bastos, Flor González Padrino (Venezuela) e outros.
O LIVRO NA OPINIÃO DOS GRANDES HOMENS
Gosto tanto dos livros, que às vêzes os imagino sêres
humanos, e a leitura dá-me a impressão real de uma conversa.
Swift
Um livro que não desperta em nós o desejo de lê-lo de
novo, é um livro infeliz.
D’Alembert
•
Quem mata um homem, mata um ser racional criado à
semelhança de Deus; mas quem destrói um livro destrói a ra-
zão mesma e a própria representação da divindade
Milton
•
Os livros são os verdadeiros niveladores. A todos que os
usam fielmente, dão o convívio e a presença espiritual dos
maiores e dos melhores da nossa espécie.
Channing
•
Os livros são para a Humanidade o que a memória é para o
indivíduo. Contém a história da raça, suas descobertas, a
sabedoria e a experiência acumuladas secularmente; são o
espelho das maravilhas e das belezas da Natureza; ampa-
ram-nos na desgraça, consolam-nos na tristeza e nos sofri-
mentos. Fazem de nossas horas de tédio horas de delícia;
enchem nossos espíritos de idéias, de pensamentos sábios e
benfazejos, fazem-nos sair de nós mesmo e das nossas misérias.
Lubbock
Contribuição da Seção de Registro e Fiscalização das
Sociedades Cooperativas, do Serviço de Economia Rural.
CONTABILIDADE DAS COOPERATIVAS ESCOLARES
J. F. Gandra
No intuito de tornar a contabilidade das coperativas es-
colares ao alcance das professôras e dos próprios alunos, ser-
vindo também, a êstes, como nova disciplina de grande utili-
dade na vida prática, suprimiu-se a escrituração do livro
“diário”, cuja exposição complicada de lançamentos por par-
tidas dobradas seria impossível à criança assimilar.
A ata da reunião semanal, entretanto, que regista tôdas
as operações de lançamentos de “caixa” (entrada e saída de
dinheiro) e outras extra-caixa, foi a solução com felicidade
encontrada para suprimir a lacuna que a inexistência do
"diário" deixaria na contabilidade da cooperativa escolar.
Esta solução foi encontrada, ao que sabemos, pelos De-
partamentos de Cooperativismo de Pernambuco e Rio Grande
do Norte, e já adotada em outros Estados.
Em se tratando de cooperativas de crianças, a forma em
questão é de plena eficiência, principalmente se levarmos em
consideração a existência do livro “caixa”, escriturado em
dia, do "registo geral de contas”, que é o Razão da cooperativa
escolar, escriturado em forma analítica, com base nos registos
feitos no livro “caixa” e no “livro de atas”, e, finalmente, do
“livro de estoque". Escriturado em dia, êste livro pode de-
monstrar, com clareza, além da entrada e saída dos artigos,
qualitativa e quantitativamente, o valor do custo dêsses arti-
gos, o valor das vendas e o do estoque, proporcionando sejam
conhecidas as sobras brutas (lucros) verificadas na venda dos
artigos.
Escusado se torna falar do “livro de matricula”, por ter
a forma usual do adotado nas cooperativas de adultos, com a
única diferença de não contar a c/corrente de “Juros, Re-
tornos e Perdas”.
362 COOPERATIVAS ESCOLARES
NORMAS ADMINISTRATIVAS PARA O FUNCIONAMENTO
DAS COOPERATIVAS ESCOLARES
1.º— A reunião semanal do Conselho de Administração
tem por objetivo a regularização dos serviços da
semana.
2.º — Nessa reunião o 1.º secretário apresenta as pro-
postas dos candidatos a associados, quando houver.
3.º — Os tesoureiros apresentam os canhotos dos recibos
extraídos na semana, para o conveniente lança-
mento no “caixa” da importância recebida.
4.º — Os gerentes apresentam o quadro ou resumo da
distribuição (vendas) de artigos escolares, efetua-
da na semana, que será lançado no “caixa” pelo
tesoureiro (vendas a dinheiro) e, pelo gerente, no
“livro de estoque".
5.º — O 1.° secretário se encarregará da escrituração do
“livro geral de contas”.
6.º — Todo o ocorrido durante a semana, de interêsse da
cooperativa, será dado a conhecer ao Conselho de
Administração pelo presidente. (Ver o modêlo que
se segue).
MODÊLO DE ATA DA REUNIÃO SEMANAL
Ata da 1.ª sessão ordinária do Conselho de Administração
da Cooperativa Escolar .................................. Ltda.
(As atas deverão ser numeradas, por exercício)
Aos ..................... dias do mês de .............................................
do
ano de mil novecentos e ........................... reuniu-se o Conselho de
de Administração da Cooperativa Escolar do Grupo Escolar...
...................... no salão .................................. em sessão ordinária,
sob a presidência do associado ............................................. , com-
parecendo os membros do Conselho de Administração e Con-
selho Fiscal, e achando-se presente a professôra ..................
................................ que acompanha os trabalhos. O presidente
abriu a sessão e ordenou ao 2.º secretário a leitura da ata da
sessão anterior que, lida e submetida a discussão, foi aprovada.
Em seguida o presidente ordenou ao 1.º secretário a leitura
do expediente, o que foi feito na ordem seguinte: COR-
RESPONDÊNCIA — Foram recebidos: 2 ofícios da Divisão de
FÁBIO LUZ FILHO 363
Cooperativismo, de ns .......................... , respectivamente datadas
de ............................. ; ........................ PROPOSTA DE SÓCIOS:
Foram presentes à mesa 10 propostas dos alunos ..............................
............................................................................................................
Postas em discussão, foram aprovadas, sendo admitidos os pro-
postos, que subscreveram ............................. quotas-partes no total
de Cr$ ..................................................
OPPERAÇÕES DA SEMANA:
Associados c/ Capital — Cr$ ............................... (DÉBITO):
pelas quotas-partes subscritas dos novos associados hoje admi-
tidos.
Associados c/ Capital — Cr$ ............................. (CRÉDITO):
O 1.º tesoureiro prestou contas da importância à margem, de
acôrdo com o canhoto de recibos.
Jóias de admissão: Cr$ .................... Pelo 2.º tesoureiro
foi apresentado o canhoto de recibos de jóias, extraídas na
semana, do total acima.
Compra de artigos escolares — Cr$ .......... Con-
forme faturas (ou notas) nos ............................ da Casa ........
........ , recebemos na semana, artigos escolares no valor
marginado, que foi pago pelo 1.º tesoureiro.
Distribuição de artigos escolares — Cr$ ............................... De
acôrdo com o quadro semanal de vendas, apresentado pelos
gerentes, e escriturado no Registo de Entradas e Saídas e no
“Caixa”, a distribuição do artigos aos associados (vendas)
soma a importância à margem.
Pagamento à Casa .......................... — Cr$ ...........................
:
Para pagamento da fatura n.° .................................... (ou nota n°) foi
emitido o cheque n.° ............................ contra a Caixa Econômica,
da importância à margem.
Regularização da escrita: O 1.º tesoureiro escriturou o
“Caixa”, o 1.º secretário, o “Registo Geral de Contas”, e o
1.º gerente, o “Registo de Entradas e Saídas".
Nada mais havendo a tratar, foi encerrada a sessão, ten-
do sido convocada para sábado, ............... do corrente, às ................
horas, a 2.ª sessão ordinária do Conselho de Administração.
E, para constar, eu, .......................................................................
,
2.º secretário, lavrei a presente ata que assino.
(Ass.) F ............................................... — 2.º Secretário.
(NOTA: As atas serão assinadas pelos demais membros
dos Conselhos na sessão posterior, após lidas, discutidas, etc.).
364 COOPERATIVAS ESCOLARES
ESCRITURAÇÃO DOS LIVROS
Em geral, os contadores afeitos aos problemas cooperati-
vistas, chegamos à conclusão de que muitas normas adotadas
na contabilidade comercial devem ser modificadas na coope-
rativa, a fim de melhores serviços prestarem à administração
desta, e principalmente à Fiscalização e Estatística oficiais.
Essa modificação poderá parecer estranha a muitos con-
tadores, afastados dêsses problemas, e daí a razão desta expli-
cação.
Por exemplo, a conta “Mercadorias” (nas Cooperativas de
Consumo, equivalente à “Artigos Escolares” na cooperativa
escolar), “Produtos” (nas cooperativas de vendas em comum
e de produção), etc., pela forma comercialmente usada, são
contas “bilaterais” (com movimento de débito e crédito).
Nas cooperativas aconselhamos sejam consideradas tais con-
tas “unilaterais" (com movimento só no débito, creditadas
apenas por estornos de lançamentos).
Na apuração de resultados, ao fim do exercício, contra-
riando as praxes adotadas na contabilidade comercial, ao in-
vés de levarmos a crédito de SOBRAS E PERDAS as sobras
verificadas nas vendas, fazemos lançamentos que esclarecem:
o total da conta Artigos Escolares (que é o caso) no exercício,
o total da Distribuição de Artigos (vendas) e o estoque exis-
tente.
Isto permite à administração e à fiscalização e estatísti-
ca, dados necessários para se conhecerem a taxa adicionada
ao custo da mercadoria para distribuição aos associados, o
montante dessa distribuição, etc., independentemente da re-
messa de outro elemento que não sejam o balanço e demons-
tração de Sobras e Perdas.
LIVROS NECESSÁRIOS:
Livro de Matrícula dos associados
Livro Caixa
Livro Registo Geral de Contas
Livro de Estoque.
Em geral, êstes livros e os de atas são rubricados pelo
Diretor do Estabelecimento de Ensino a que pertence a coope-
rativa, com a lavratura de têrmos de abertura e encerramento.
FÁBIO LUZ FILHO 365
Têrmo de Abertura
Contém êste livro ........ folhas, numeradas seguida-
mente de 1 ª ...................... , e servirá de "Caixa" n.º 1 à “Coope-
rativa Escolar ................... , com sede na Esco-
la ....................................... desta cidade, registada no Serviço de
Economia Rural sob número ................................ Tôdas as suas fo-
lhas vão por mim rubricadas.
................. , ............ de ............................... de 19 ................
(Assinatura)
Têrmo de encerramento
Contém êste livro folhas, numeradas segui-
damente de 1 a ........ e servirá à “Cooperativa Esco-
lar ............................ ” para o fim declarado no têrmo de aber-
tura.
............................ de ............................................ 19 ...............
(Assinatura)
QUADRO DAS CONTAS
366 COOPERATIVAS ESCOLARES
MONOGRAFIA
Vamos concretizar os seguintes casos:
1.º— Em 15-3-48, 1.000 associados regularmente admi-
tidos, subscreveram 1.000 quotas-partes de capi-
tal, de Cr$ 2,00 cada uma, no total de Cr$ 2.000,00.
2.º— Na mesma data, integralizaram Cr$ 500,00, isto é,
cada um integralizou Cr$ 0,50 de sua subscrição.
3.º — Pagaram jóias de admissão de Cr$ 200,00.
4.º— Em 20-3-48 — a cooperativa adquiriu Móveis e
Utensílios no valor de Cr$ 300,00; recebeu do Go-
vêrno, como auxílio, uma escrivaninha, no valor
de Cr$ 200,00, e material de expediente, no valor
de Cr$ 250,00.
5.º— Em 30-3-48 — recebeu do Govêrno, como financia-
mento, a importância de Cr$ 2.000,00, para res-
gate em 1949.
6.º— Adquiriu artigos escolares e os distribuiu aos alu-
nos, nos valores e meses adiante mencionados:
Meses Aquisição Distribuição
Abril .......... Cr$ 1.800,00 Cr$ 2.070,00
Maio ........... 2.000,00 2.070,00
Junho .......... 2.100,00 2.300,00
Agosto ....... 2.000,00 2.185,00
Setembro ..... 2.400,00 2.530,00
Outubro ....... 2.200,00 2.530,00
Novembro .... 2.500,00 2.875,00
Totais ....... 15.000,00 16.560,00
7.º — Em 30-11-48 depositou na Caixa Econômica
Cr$ 3.000,00.
8.º — Em 30-11-48 o estoque de artigos escolares, pelo va-
lor de custo, era de Cr$ 690,00.
9.º — Na mesma data, foram pagos servente Cr$ 150,00,
relativos limpeza da sede da cooperativa durante
o exercício.
10.º — Verificou-se haver sido gasto, no exercício, mate-
rial de expediente no valor de Cr$ 100,00.
FÁBIO LUZ FILHO 367
11.º — Os Estatutos da cooperativa dispõem:
a) — que as jóias de admissão e donativos se re-
vertem em favor do Fundo de Assistência
aos colegiais;
b) — que 10% das sobras líquidas, apuradas em
balanço anual, se destinam ao Fundo de
Reserva;
c) — que 90% das mesmas se destinam ao aludi- do Fundo
de Assistência.
ESCRITURAÇÃO DO LIVRO “ CAIXA
Para facilidade do contrôle da escrituração e confronto
do “Caixa” com o livro “Registo Geral de Contas”, as contas
serão numeradas.
Aquelas cujo saldo é sempre devedor tomarão números
ÍMPARES.
Aquelas cujo saldo é sempre credor tomarão números
PARES.
QUADRO DAS CONTAS CODIFICADAS
A seguir, damos um modêlo do livro “Caixa”, devidamente
escriturado, para ser adotado na Cooperativa.
Os documentos relativos a pagamentos (saídas de dinhei-
ro) deverão ser numerados por exercício, isto é, numeração se-
guida a partir da reabertura da Cooperativa até o fim do exer-
368 COOPERATIVAS ESCOLARES
cício, que coincide, nas escolares, com o início das férias anuais
em dezembro.
Os documentos de receita têm o número no canhoto dos
recibos, em se tratando de recebimentos de jóias ou de quo-
tas-partes do capital, ou ainda o contrôle no livro de Estoque
(entradas e saídas de artigos e valor das vendas), não sendo,
assim, necessária a sua renumeração.
MOVIMENTO DO MÊS DE MARÇO DE 1948 (*)
Nº
do
doc.
Nº
da
conta
HISTÓRICO
Entradas
de
dinheiro
Saídas
de
dinheiro
500,00
200,00
2.000,00
300,00
Rec. de divs. assoc. p/integr. de capital, conforme
talões de ns. 1 a ...............................................
Rec. de jóais de diversos, talões de ns. 1 a.......
Pago À Casa...............n/compra de 1 armário.......
Rec. do Depart. Cooperativismo, empréstimo do
Govêrno Estadoal p/pag. em 30/6/49..........................
SALDO QUE PASSA PARA ABRIL...
2.700,00 300,00
2.400,00
2.700,00
MOVIMENTO DO MÊS DE ABRIL DE 1948
Nº
do
doc.
Nº
da
conta
HISTÓRICO
Entradas
de
dinheiro
Saídas
de
dinheiro
2.400,00
2.070,00
1.800,00
4.470,00
----
1.800,00
2.670,00
2
-
00
12
SALDO QUE PASSA DO MÊS DE
MARÇO............................................................
Pago à Casa...............s/fatura do art. escolares.......
Rec. Venda de artigos, conf. O livro de “Entradas
E Saídas....................................................................
SALDO QUE PASSA PARA MAIO...
4.470,00 4.470,00
(*) OBSERVAÇÕES:
1 — O tamanho do livro “Caixa” pode ser de 33x22.
2 — A escrituração poderá ser semanal ou mensal, alterando-se, no último
caso, a ata de reunião semanal de que demos modêlo, de fórma a que
sómente a última ata do mês faça referência à atualização do livro
“Caixa” e à do "Registo Geral de Contas”.
3 — No caso de o Departamento Estadual de Cooperativismo querer
controlar a contabilidade da Cooperativa, com mais eficiência, adote-
se o livro “Caixa” com duas vias (uma picotada e outra fixa, mas
ambas devidamente pautadas), escriturando-se o livro com lápis tinta
e papel carbono e enviando-se as fôlhas destacadas ao mesmo
Departamento.
4 — Damos, como exemplo, apenas os dois meses acima para a
escrituração do “Caixa”.
5 — A despeito da claraza que procuramos imprimir nestas instruções,
sabemos que se torna imprescindível a conveniente orientação e
assistência às senhoras professôras pelos srs. inspetores de
cooperativas.
FÁBIO LUZ FILHO 369
Livro "Registo Geral de Contas”
Concretizemos, a seguir, todos os fatos dados em hipótese
no início desta monografia.
Escrituremos o “Registo Geral de Contas”:
01 — ASSOCIADOS CAPITAL
Datas HISTÓRICO Débito Crédito
D/C
Saldos
1948
Março .....
15
Valor de 1 000 quotas
subscritas, conf. L. do
Matrícula .............
Intgralização de quotas,
conforme o “Caixa”
.......................................
2.000,00
500,00
D
D
2.000,00
1.500,00
02 — CAPITAL A INTEGRALIZAR
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Março .....
15
Valor de 1 000 quotasde
capital a integralizar
................................
Capital Integralizado,
conforme transferência
p/Cta. 04 ...............
500,00
2.000,00
C
C
2.000,00
1.500,00
03 — CAIXA
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1048
Março.......
15 Rec. p/integralização de quotas....... 500,00
D
500,00
Rec. p/joias de admissão .................... 200,00 D 700,00
20 Pago p/compra do móveis................. 300,00 D 400,00
30 Rec. empréstimo do Govêrno ........... 2.000,00 D 2.400,00
Abril ......... 30 Pago p/artigos escolares .................... 1.800,00 D 600,00
Rec. p/venda de artigos ..................... 2.070,00 D 2.670,00
Maio .......... 31 Pago p/artigos escolares..................... 2.000,00 D 670,00
Rec. p/venda de artigos ..................... 2.070,00 D 2.740,00
Junho ........ 30 Pago p/ artigos escolares ................... 2.100,00 D 640,00
Rec. p/artigos vendidos ..................... 2.300,00 D 2.940,00
Agôsto ....... 31 Pago p/artigos escolares .................... 2.000,00 D 940,00
Rec. p/vendas do artigos ................... 2.185,00 D 3.255,00
Set. ............ 30 Pago p/artigos escolares .................... 2.400,00 D 725,00
Rec. p/vendas de artigos .................... 2.530,00 D 3.255,00
Out. ........... 31 Pago p/artigos escolares..................... 2.200,00 D 1.055,00
Rec. p/vendas de artigos .................... 2.530,00 D 3.585,00
Nov............. 30 Pago p/artigos escolares .................... 2.500,00 D 1.085,00
Rec. p/vendas de artigos ................... 2.875,00 D 3.960,00
Pago depósito na Caiza Econômica 3.000,00 D 960,00
Pago limeza da sede ........................... 150,00 D 810,00
24—27454
370 COOPERATIVAS ESCOLARES
04 — CAPITAL INTEGRALIZADO
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Março.....
15
Transferência da Cta. 02, pelo capi-tal
intgralizado.................................
500,00
C
500,00
05 — MÓVEIS E UTENSÍLIOS
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Março.....
20
Móveis adquiridos.............................
Móveis doados p/Govêrno ...............
300,00
200,00
D
D
300,00
500,00
06 — JÓIAS DE ADMISSÃO
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Março.....
15
Jóias recebidas de associados ...........
200,00
C
200,00
07 — MATERIAL DE EXPEDIENTE
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Março.....
20
Material doado p/Govêrno ...............
250,00
D
250,00
08 — AUXÍLIO DO GOVÊRNO
Datas HISTÓRICO Débito Crédito
D/C
Saldos
1948
Março.....
20
Doação de mat. exp. p/Govêrno .......
Idem de móveis idem ........................
250,00
200,00
C
C
250,00
450,00
09 — ARTIGOS ESCOLARES
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Abril ..........
Maio ..........
Junho ........
Agôsto .......
Set. ............
Out. ...........
Nov. ...........
30
31
30
31
30
31
30
Compra de artigos .............................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
1.800,00
2.00,00
2.100,00
2.000,00
2.400,00
2.200,00
2.500,00
D
D
D
D
D
D
D
1.800,00
3.800,00
5.900,00
7.900,00
10.300,00
12.500,00
15.00,00
FÁBIO LUZ FILHO 371
10 — FINANCIAMENTO DO GOVÊRNO
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Março.....
30
Empréstimo do Gov. p/pag em 30/6 de
1949 ...............................................
2.000,00
C 2.00,00
11 — CAIXA ECONÔMICA
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Nov........
30
Depositado nesta data .....................
3.000,00
D
3.000,00
12 — DISTRIBUIÇÃO DE ARTIGOS
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Abril ..........
Maio ..........
Junho ........
Agôsto .......
Set. ............
Out. ...........
Nov. ...........
30
31
30
31
30
31
30
Vendas de artigos escolares ................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
Idem idem ................................
2.070,00
2.070,00
2.300,00
2.185,00
2.530,00
2.530,00
2.875,00
C
C
C
C
C
C
C
2.070,00
4.140,00
6.440,00
8.625,00
11.155,00
13.085,00
16.560,00
13 — DESPESAS GERAIS
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
1948
Nov........
30
Limpeza da sede n/ecercício ...........
150,00
C
150,00
OBSERVAÇÕES:
1 — Mensalmente será extraído um balancete do livro “REGISTO
GERAL DE CONTAS" para remessa ao Departamento de
Cooperativismo, nos Estados que têm acôrdo com O S. E. R., ou para
remessa a êste onde não houver acôrdo
2 — Damos adiante o modêlo do balancete, extraído com base em 30 de
novembro de 1948, dos saldos devedores a credores apresentados pelo
“Registo Geral de Contas”. Êste balancete servirá também de base
para o levantamento do balanço, de vez que o início das férias será a
1.º de dezembro.
372 COOPERATIVAS ESCOLARES
COOPERATIVA ESCOLAR DO GRUPO ESCOLAR .....................
REGISTO NO S.E.R. N.° ...................
subscrito Cr$ 2.000,00
N.º de associados: 1.00 Capital realizado Cr$ 500,00
a realizar Cr$ 1.500,00
BALANCETE EM 30 DE NOVEMBRO DE 1948
CONTAS Devedoras Credoras
Associados c/Capital........................ 1.500,00
Caixa ................................................ 810,00
Móveis e Utensílios .......................... 500,00
Material do Expediente .................. 250,00
Artigos Escolares ............................ 15.000,00
Caixa Econômica ............................ 3.000,00
Despesas Gerais ............................... 150,00
Capital a Integralizar ..................... 1.500,00
Capital Integralizado ...................... 500,00
Jóias de Admissão ........................... 200,00
Auxílio do Govêrno ......................... 450,00
Financiamento do Govêrno ............ 2.000,00
Distribuição de Artigos ................... 16.560,00
TOTAIS .................................... 21.210,00 21.210,00
...................................... ............... de .............................. de 19 .....
.............................................. ...........................................
Presidente Gerente
Visto.
..........................................................................
Professôra Encarregada
OBSERVAÇÕES:
Como se vê, do balancete acima só constam as contas que tiveram movimento
na monografia que estamos desenvolvendo: mas deverão ser incluídas
quaisquer outras que constem do “Livro geral de Contas”.
ENCERRAMENTO DO EXERCÍCIO
Com os elementos constantes do balancete acima, e saben-
do que o estoque de artigos escolares em 30-11-48 é de
Cr$ 690,00, bem como de Cr$ 100,00 o consumo de material de
expediente, podemos encerrar o balanço econômico (Sobras e
Perdas) e o balanço geral do ativo e passivo da Cooperativa.
Como os estatutos digam que as Jóias e Donativos serão
levados ao Fundo de Assistência aos Colegiais, tais contas não
são divisionárias de Sobras e Perdas; mas faremos com que
as mesmas constem desta conta, sem afetá-la, para aparece-
rem na demonstração a ser enviada ao S . E . R. sem necessida-
de de outras demonstrações.
FÁBIO LUZ FILHO 373
Escrituremos a conta “SOBRAS E PERDAS” no “Registo
Geral de Contas”:....................................................................
11 — SOBRAS E PERDAS
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
15.000,00
100,00
150,00
50,00
195,00
1.755,00
650,00
16.560,00
600,00
200,00
450,00
16.560,00
17.250,00
2.250,00
2.150,00
2.000,00
1.950,00
1.755,00
—
200,00
650,00
—
1948
Nov........
30
Distribuição de artigos neste exercí-
cio .......................................................
Artigos escolares (estoque) que pas-
sam para o exercício seguinte............
Artigos escolares adquiridos neste
exercício...............................................
Material de expedieto consumido
exercício ..............................................
Despesas gerais no exercício .............
Creditado a Fundo do de Depreciação,
10% s/500,00, valor de Móveis e
Utensílios ..........................
Creditado a Fundo de Reserva, 10%
a/as sobras líquidas de Cr$................
1.950,00 ...............................................
Creditado a Fundo de Assistência,
90% idem, idem .................................
Joias de Admissão n/exercício...........
Auxílio do Govêrno, idem..................
Creditado a Fundo de Assistência,
imp. das joias e auxílio, conf. es-
tatutos .................................................
17.900,00
17.900,00
C
C
C
C
C
C
C
C
C
C
OBSERVAÇÕES:
1 — Duas Cópias desta conta serão enviadas, como demonstrações juntas
ao balanço, ao Departamento Estadual de Cooperativismo, que
enviará uma via ao S.E.R.
2 — Todo o serviço de escrituração das cooperativas escolares deve ter
assídua assistência do Inspetor contabilista do Departamento, o qual
fará os trabalhos de levantamento do balanço até que a professora
encarregada tenha podido assimilar o serviço.
3 — como se trata de uma monografia para servir de base orientação das
cooperativas escolares por funcionário contador (ou guarda-livros),
não desceremos ao detalhe do fechamento das contas no "Registo
Geral de Contas", pois estas se encerram como as do livro "Razão"
na escrita comercial, eviatando-se apenas expressões contábeis difíceis
de compreensão por leigos.
4 — Daremos, entretanto, um exemplo, encerrando as contas Distribuição
de Artigos" e “Artigos Escolares”, transportando para o fechamento
os créditos respectivos em 30/11/48, já assinalados linhas atrás.
5 — Poderá também ser adotado, ao invés do Fundo de Assistência,
FUNDO DE DESENVOLVIMENTO, por ter uma aplicação mais
ampla aos objetivos da cooperativa escolar, de conformidade com o
estatuto-modêlo constante dêste boletim.
12 — DISTRIBUIÇÃO DE ARTIGOS
Datas
X
HISTÓRICO
Débito Crédito D/C Saldos
1948
Nov.....
30
..........................................................
Creditado a “Sobras e Perdas” ....
16.560,00
16.560,00
C
16.560,00
—
374 COOPERATIVAS ESCOLARES
09 — ARTIGOS ESCOLARES
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
15.000,00
690,00
15.000,00
690,00
15.690,00 15.690,00
D
D
1948
Nov ..........
j
j
1949
Março ......
30
1
............................................................
Debitado a “Sobras e Perdas” ........
Creditado a “Sobras e Perdas” ......
Saldo a Balanço .......................
Estoque do exercício anteriror .......
690,00
D
15.000,00
—
690,00
—
690,00
OBSERVAÇÕES:
Assim se encerrarão as demais contas, evitando-se sempre expressões
contábeis difíceis de assimilar (a Artigos Escolares de Artigos Escolares
a Balanço, de Balanços, etc.).
............................................................................................................
Escrituremos, agora, no “Registo Geral de Contas”, Os tí-
tulos originários de “Sobras e Perdas” — Fundo de Reserva — Fundo de Assistência
— Fundo de Depreciação.
14 — FUNDO DE RESERVA
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
195,00
195,00
1948
Nov ........
1949
Março ...
30
1
10% das sobras líquidas em 1948.
Saldo a Balanço ...................
Saldo que passa de 1948 .........
195,00
C
C
195,00
—
195,00
16 — FUNDO DE ASSISTÊNCIA
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
2.405,00
1.755,00
650,00
2.405,00 2.405,00
1948
Nov ........
1949
Março ...
30
1
00% das sobras líquidas em 1949.
Joias de Admissão e Auxílio do
Govêrno em 1948 ............................
Saldo a Balanço .......................
Saldo que passa de 1948 .........
2.405,00
C
C
C
1755,00
2.405,00
—
2.405,00
FÁBIO LUZ FILHO 375
17 — FUNDO DE DEPRECIAÇÃO
Datas HISTÓRICO Débito Crédito D/C Saldos
50,00
50,00
1948
Nov .......
1949
Março ...
30
1
Depreciação de 10% s/Móveis e U-
tensílios .........................................
Saldo a Balanço .......................
Saldo que passa de 1948 .........
50,00
C
C
50,00
—
50,00
OBSERVAÇÕES:
Quando o Fundo de Depreciação atingir o valor do ativo depreciável,
compensando-o, não mais será debitada a conta “Sobras a Perdas" por
depreciações.
Estampamos, agora, a balanço do ativo e passivo baseado
nos elementos da monografia, com o modêlo que deve ser
adotado:
..................................................................................................
COOPERATIVA ESCOLAR DO GRUPO ESCOLAR ......................
Registo no S.E.R. nº .....................
376 COOPERATIVAS ESCOLARES
BALANÇO EM 30 DE NOVEMBRO DE 1940
VALORES
TÍTULOS
Parciais Totais
500,00
150,00
1.500,00
690,00
810,00
3.000,00
650,00
2.100,00
3.810,00
Cr$ 6.650,00
1.500,00
500,00
165,00
2.405,00
50,00
2.000,00
4.650,00
2.000,00
ATIVO IMBILIZADO
Móveis e Utensílios .................................
Material do Expediente .........................
ATIVO REALIZAVEL
Associados c/Capital ..............................
Artigos Escolares ....................................
ATIVO DISPONÍVEL
Caixa ........................................................
Caixa Econômica ....................................
TOTAL DO ATIVO .......................
PASSIVO INEXIGÍVEL
Capital a Integralizar ............................
Capital Integralizado .............................
Fundo de Reserva ...................................
Fundo de Assistência .............................
Funco de Depreciação ............................
PASSIVO EXIGÍVEL
Financiamento do Govêrno....................
TOTAL DO PASSIVO....................
Cr$ 6.650,00
................... ......................................... de .......................... de 19....
O presente balanço foi aprovado em assembléia de .......... / .. /19....
..................................... ................................................
(Presidente) (Gerente)
Visto;
....................................... .................................................
(Secretário) (Professôra Encarregada)
OBSERVAÇÕES:
Outras contas poderão ser adotadas de acôrdo com a necessidade de registo
dos fatos que ocorrerem se, por exemplo, a cooperativa adquirir a
crédito (o que não é aconselhável), debitará “Artigos Escolares" e
creditará "Fornecedoras" ou "C/Correntes". Se vender artigos a
crédito aos associados (também não aconselhável), debitará
“Associados c/ Fornecimentos" e creditará "Distribuição de Artigos".
Havendo alguma despesa caracterizada em assistência a colegiais no
exercício, debitar-se-á o titulo "Assistência a Colegiais" a crédito de
“Caixa”, e só no fim do exercício se fechará esta conta a débito do
"Fundo de Assistência". Tais despesas, todavia, devem estar
prèviamente autorizadas pelo Conselho de Administração.
CONCLUSÃO
Para maior clareza, damos a seguir uma súmula das ope-
rações da Cooperativa Escolar, apontando as operações nor-
mais e os lançamentos de débito ou crédito que devem ser
feitos no “Registro Geral de Contas”.
FÁBIO LUZ FILHO 377
OPERAÇÔES LANÇAMENTOS A FAZER
Subscrição de quotas-partes pelo sócio
admitido
..................................................................
Associados c/Capital ................................ DÉBITO
Capital a Integralizar .............................. Crédito
Recebimento do dinheiro p/conta das quoatas-partes
.......................................................................
...................................................................................
...................................................................................
Caixa ......................................................... DÉBITO
Associada c/Capital ................................. Crédito
Capital a Integralizar .............................. DÉBITO
Capita Integralizado ................................ Crédito
Recebimento do dinheiro em pagamento de jóias de
admissão .............................................................
Caixa .......................................................... DÉBITO
Jóias de Admissão ..................................... Crédito
Auxílio pelo Govêrno, em Artigos Escolares, Mó-
veis e Utensilios e Material de Expediente ............
...................................................................................
...................................................................................
Artigos Escolares ...................................... DÉBITO
Móveis e Utensílios ................................... DÉBITO
Material de Expediente ............................ DÉBITO
AUXÍLIO DO GOVÊRNO ...................... Crédito
Compra de Artigos Escolares a dinheiro ..............
...................................................................................
Artigos Escolares ...................................... DÉBITO
Caixa .......................................................... Crédito
● Compra de Artigos Escolares a crédito .............
...................................................................................
Artigos Escolares ...................................... DÉBITO
Fornecedores ............................................. Crédito
Pagamento a Fornecedores pelos artigos vendidos a
crédito ...................................................
Fornecedores ............................................. DÈBITO
Caixa .......................................................... Crédito
Venda de Artigos Escolares aos associados alunos
(a dinheiro) ..................................................
Caixa .......................................................... DÉBITO
Distribuição de Artigos ............................ Crédito
●● Venda de Artigos Escolares aos alunos (a cré-
dito) ..........................................................................
...................................................................................
Associados c/Fornecimento ...................... DÉBITO
Distribuição de Artigos ............................ Crédito
Distribuição de Artigos ............................ Crédito
Recebimento do dinheiro pelas vendas a crédito a
alunos ....................................................................
CAIXA ...................................................... DÉBITO
Associados c/Fornecimento ..................... Crédito
Recebimento do empréstimo feito pelo Govêrno..
...................................................................................
CAIXA ...................................................... DÉBITO
Financiamento do Govêrno ..................... Crédito
Pagamento do empréstimo feito pelo Govêrno ....
...................................................................................
Financiamento do Govêrno ..................... DÉBITO
Caixa .......................................................... Crédito
Depósito de dinheiro na Caixa Econômica ...........
...................................................................................
Caixa Econômica ..................................... DÉBITO
Caixa ......................................................... Crédito
Retirada de dinheiro da Caixa Econômica ...........
...................................................................................
CAIXA ...................................................... DÉBITO
Caixa Econômica ..................................... Crédito
Juros Creditados na caderneta da Caixa Econô-mica
..........................................................................
Caixa Econômica ..................................... DÉBITO
Juros do Depósitos ................................... Crédito
Recebimento de donativos em dinheiro ................
...................................................................................
CAIXA ...................................................... DÉBITO
Donativos .................................................. Crédito
Pagamento de despesas gerais ...............................
...................................................................................
Despesas Gerais ........................................ DÉBITO
Caixa .......................................................... Crédito
●●● Restituição da importância do Capital ao só
cio que saiu ..............................................................
Caixa Integralizado .................................. DÉBITO
Caixa .......................................................... Crédito
baixa na importência do capital ainda não reali-
zado, quando se demitiu o sócio ............................
Capital a Integralizar .............................. DÉBITO
Associados c/Capital ................................ Crédito
OBSERVAÇÕES:
• Como já dissemos, não é muito recomendável compra a crédito
pelas
Cooperativas Escolares
•• Igualmente, a venda a dinheiro aos alunos é a mais
preferível, além de
evitar fichas de c/correntes de associados, o que acarretaria
grande ser-
viço à Cooperativa.
••• No caso de demissão do associado, fazer também o
respoctivo
lançamento no Livro de Matrícula, encerrando-se a conta e
exigindo-se
a assinatura do demissionário no lugar competente.
378 COOPERATIVAS ESCOLARES
OPERAÇÕES LANÇAMENTOS A FAZER
Verificação das sobras (lucor) na venda de Artigos
Escolares
(Pelo valor da conta “Artigos Escolares” no úl-timo
balancete);
SOBRAS E PERDAS ................................ DÉBITO
Artigos Escolares ....................................... Crédito
(Pelo valor da conta “Distribuição de Artigos” no
último balancete);
DISTRIBUIÇÃO DE ARTIGOS ............. DÉBITO
Sobras e Perdas ......................................... Crédito
(Pelo valor do estoque verificado na ocasião do
fechamento do balanço);
ARTIGOS ESCOLARES ......................... DÉBITO
Sobras e Perdas ......................................... Crédito
Transferência para Sobras e Perdas dos juros de
depósitos ..................................................................
JUROS DE DEPÓSITOS ......................... DÉBITO
Sobras e Perdas ......................................... Crédito
Transferência das despesas gerais, consumo de
material de expediente, bem como depreciação do
Móveos e Utensílios para “Sobras e Perdas”
...................................................................................
SOBRAS E PERDAS ............................... DÉBITO
Despesas Gerais ........................................ Crédito
Material de expedimento ......................... Crédito
Fundo de Depreciação ............................. Crédito
Transferência dos 10% das sobras líquidas e dos
90% das mesmas, respectivamente, para Fun- do
de Reserva e Fundo da Assistência ..................
SOBRAS E PERDAS ............................... DÉBITO
Fundo de Reserva ..................................... Crédito
Fundo de Assistência ................................ Crédito
......................................................................................
● Transferência do Donativo, Auxílio do Gover-no
para o Fundo de Assistência (conforme os estatutos
....................................................................
...................................................................................
...................................................................................
DONATIVOS ............................................ DÉBITO
AUXÍLIO DO GOVÊRNO ...................... DÉBITO
Sobras e Perdas ......................................... Crédito
SOBRAS E PERDAS ................................ DÉBITO
Fundo de Assistência ................................. Crédito
OBSERVAÇÕES:
Também podem ser debitadas as contas "Donativos" e “Auxilio do Govêrno"
diretamente a crédito do FUNDO DE ASSISTÊNCIA, mas da forma
exposta acima há maior clareza no emprego das ditas contas.
“LIVRO DE ESTOQUE”
Damos, a seguir, um modêlo do livro de estoque.
Cada fôlha do livro deverá destinar-se a um artigo, de
preço de custo idêntico. Há, por exemplo, cadernos de Cr$ 2,00,
de Cr$ 2,40 etc. Neste caso, cada um terá sua fôlha.
Quanto à entrada do artigo no livro, deverá ser feita
quando efetivamente realizada, depois de conferido o material
pela nota ou fatura de compra, e à vista desta.
Quanto à escrituração de saída, aconselhamos seja feita
semanal, quinzenal ou mensalmente, à vista dos quadros ou
FÁBIO LUZ FILHO 379
resumos extraídos das NOTAS DE VENDAS que a Cooperati-
va deverá adotar,
Essas notas devem constar de um talão, com duas vias
(uma destacável e outra fixa como canhoto), devidamente
numeradas. Serão escrituradas a lápis tinta com papel car-
bono.
Pelo canhoto se fará o quadro ou resumo de artigos ven-
didos, que será apresentado à reunião semanal do Conselho
antes de ser lançado no Livro de Estoque.
O “Livro de Estoque”, como o Caixa e o Registo Geral de
Contas, pode ter o tamanho almaço (33x22) e conter 100 fô-
lhas, de vez que os artigos escolares não se elevam a mais de
30 tipos.
OBSERVAÇÕES:
1 — ConfIra-se sempre o estoque existente deduzindo-se da quantidade de ENTRADA a quantidade de SAÍDA.
2 — Para conhecer-se o valor de custo dos artigos vendidos, deduza-se do VALOR de ENTRADA o VALOR de ESTOQUE.
Exemplo: Valor de custo no quadro acima — Cr$ 550,00.
3 — Para conhecer-se a — sobra-bruta — (lucro) na distribuição de artigos, deduza-se do VALOR de SAÍDA o valor de
custo dos artigos vendidos.
Exemplo: Valor da SAÍDA no quadro acima ............................................................. Cr$ 632,50
Valor de CUSTO (veja nº 2) .................................................................. 550,00
Sobra bruta na distribuição constante do quadro acima ........................ 82,50
ENTRADA DE ARTIGOS SAÍDA DE ARTIGOS ESTOQUE DE ARTIGOS
Data
FORNECEDORES
Quan-
tidade
Preço
Unidade
Valor Data
Quan-
tidade
Preço
Unidade
Valor
Quan-
tidade
Valor (Custo)
50
50
40
30
100
50
100
100
80
60
200
100
00
00
00
00
00
00
10
70
10
30
50
60
15
30
23
161
23
69
115
138
34
69
00
00
00
00
00
00
50
00
40
20
10
20
40
25
45
80
40
20
40
80
50
90
00
00
00
00
00
00
00
1948
Março ....
Abril ......
Junho .....
Agosto ...
Set.º .......
Nov.º ......
1
5
10
5
1
1
2
Casa Matos Ltda.
Casa Cruz Ltda.....
Casa Crus Ltda.....
Casa Escolar Ltda.
Casa Crus Ltda.....
Casa S. Lima.........
SOMAS
320
2
2
2
2
2
2
00
00
00
00
00
00
640
00
Março .....
Abril .......
Maio .......
Junho ......
Ag ...........
Set. ..........
Outubro ..
Nov. ........
30
30
31
30
31
30
31
30
275
2
2
2
2
2
2
2
2
30
30
30
30
30
30
30
30
632
50
45 90 00
1949
Março….
1
Estoque de 1948
45
2
00
90
00
OBSERVAÇÕES:
Sendo semanal, quinzenal ou mensal a escrituração do “Livro de Estoque", adotar-se-ão estas fichas diárias para contrôle
das quantidades entradas e saídas e da existência estoque.
Os registos serão efetuados pelo canhoto das "Notas de Venda".
Estas fichas poderão ser feitas em papel comum para escrituração a lápis.
CADERNO
Custo Unit. 2,00
CADERNO
Custo Unit. 2,50
LAPIS
Custo Unit. 0,50
LAPIS
Custo Unit. 0,80
DIAS
HISTÓRICO
Ent. Saída Est. Ent. Saída Est. Ent. Saída Est. Ent. Saída Est.
Ent. Saída Est. Ent. Saída Est.
1
2
>
6
7
9
10
11
13
14
Est. de 1947
.......
Adquirindo
joje.
Vendido
hoje......
> > .
> > .
> > .
> > .
> > .
> > .
> > .
> > .
20
50
10
9
5
4
2
5
1
4
2
20
70
60
51
46
42
40
35
34
30
28
15
75
5
10
25
19
1
2
2
1
5
15
90
85
75
50
31
30
28
26
25
20
100
200
20
1
30
49
50
3
7
39
11
100
300
280
279
249
200
150
147
140
101
90
55
100
15
2
7
6
2
3
1
4
0
55
155
140
138
131
125
123
120
119
115
115
SOMAS .... 70 42 28 90 70 20 300 210 90 155 40 115
............................................................................................................................................................................................................................................
MATRÍCULA Nº ..............
NOME DO ASSOCIADO: Mauro José Gandra
DATA DO NASCIMENTO: 16/04/1939
Nacionalidade Brasileira
FILIAÇÃO: José F. Gandra e Amandina M. Gandra
ALUNO DA ESCOLA 7—9 — República do Peru — D.
Federal
RESIDÊNCIA: Rua Aristides Caire, 39, c. 10 Meier —
Rio
DATA DA ADMISSÃO: 15 deMarço de 1947.
..............................................................
(Assinatura do associado)
..............................................................
(Assinatura do Presidente)
DEMITIDO OU ESCLUÍDO EM ............ DE
..................... DE 19.......
............................................................
...........................................................
(Assinatura do Presidente) (Ass. do associado demitido)
AVERBAÇÕES
.............................................................................................................................
.......................................................................................................…...................
..............................................................................................................................
..............................................................................................................................
...............................................................................................................................
...............................................................................................................................
................................................................................................................................
................................................................................................................................
.................................................................................................................................
CAPITAL A INTEGRALIZAR CAPITAL INTEGRALIZADO
DATAS HISTÓRICO
Débito Crédito Saldo dev. Débito Crédito
Saldo
credor
10
00
10
8
5
4
—
00
00
00
00
—
10
30
2
2
2
4
00
00
00
00
1947
Março ...........
> ............
Abril .............
Maio .............
Junho ...........
Novembro ....
15
>
15
16
15
30
5 quotas subscritas ..........
Rec. integralização ..........
Idem idem ..............
Idem idem ..............
Idem idem ..............
Balanço de Saldo .........
10 00
2
2
2
2
4
10
00
00
00
00
00
00
— — 10 30 10 00
2
4
6
10
—
—
00
00
00
00
—
—
1948
Março ...........
Maio .............
1
5
Saldo credor ........................
pago por se ter demitido ....
10
00
10
00
10
—
00
—
ORGANIZAÇÃO E SISTEMA DE OPERAÇÕES DAS
COOPERATIVAS ESCOLARES (EXCERTO)
João do Prado Flôres
I — REGIME LEGAL
As cooperativas escolares são reguladas pela lei das coope-
rativas, Decreto-lei n.º 22.239, de 19 de dezembro de 1932.
O artigo 34 diz que “as cooperativas escolares poder-se-ão
constituir nos estabelecimentos, públicos ou particulares...
com o objetivo primordial de inculcar aos estudantes a idéia
do cooperativismo e ministrar-lhes os conhecimentos práti-
cos de organização e funcionamento de determinada modali-
dade cooperativa e, acessòriamente, proporcionar-lhes as van-
tagens econômicas peculiares à modalidade preferida”.
Segundo o artigo 5.º, § único, do Decreto-lei n.º 581, de
1.º de agôsto de 1938, as cooperativas escolares estão isentas
do pagamento de impostos e de selos.
II — DOCUMENTAÇÃO E REGISTRO
As cooperativas escolares precisam, como as demais, fazer
seu registro no Serviço de Economia Rural, do Ministério da
Agricultura, e na Secção de Assistência ao Cooperativismo, da
Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio.
0 pedido de registro, feito por intermédio da S. A. C.,
precisa ser instruído com uma cópia do ato constitutivo, um
exemplar dos estatutos e uma relação dos associados, do-
cumentos êstes com a assinatura de sete ou mais fundadores
e autenticados pelo diretor da escola.
1 — Estatutos
Apresentamos anexo um modêlo de estatutos para as
cooperativas escolares. Cada cooperativa deverá resolver
sôbre:
a) — Valor da quota-parte, que poderá ser desde Um
Cruzeiro até Cem;
FÁBIO LUZ FILHO 385
b) — Capital mínimo. A subscrição de quotas deverá ser
superior ao capital mínimo que constar nos esta-
tutos;
c) — Valor da Jóia de Admissão. Todos os associados são
obrigados a entrar com essa jóia Base: de Cr$ 2,00
a Cr$ 5,00;
d) — Divisão das sobras. As sobras são repartidas con-
forme o que resolverem os organizadores da coope-
rativa, 10% para o Fundo de Reserva é a obrigato-
riedade perante a lei. Se os associados quiserem
poderão estabelecer uma porcentagem para a Cai-
xa Escolar. Tiradas essas porcentagens o restante
constituirá o RETÔRNO que será repartido entre
os sócios na proporção de suas compras.
2 — Administração
A Assembléia Geral dos associados é o órgão máximo da
Cooperativa e lhe compete eleger a Diretoria que será cons-
tituída de:
Presidente, Diretor-Gerente,
Vice-Presidente, Diretor-Tesoureiro,
Diretor-Secretário, Dois suplentes.
As funções dessa diretoria e do cada um de seus membros
se encontram delineadas estatutos.
3 — Ato Constitutivo e Lista Nominativa
O ato constitutivo é representado pela ata dos trabalhos
da assembléia de constituição da cooperativa.
A Lista-Nominativa é a relação dos sócios fundadores, con-
tendo seus nomes, idades, nacionalidades, residências e quo-
tas subscritas.
III — CONDIÇÕES NECESSÁRIAS
Para constituir-se uma cooperativa escolar faz-se neces-
sário haver condições favoráveis, como as seguintes:
1 — Interêsse da direção do Grupo;
2 — Professôra-Orientadora para cuidar da coperativa;
3 — Trabalho de preparação e propaganda:
25—27 454
386 COOPERATIVAS ESCOLARES
a) — esclarecimentos às demais professôras,
b) — propaganda em tôdas as aulas: cartazes, etc.;
c) — estudo dos elementos que poderão exercer os
cargos da diretoria e conselho fiscal;
d) — distribuição de chapas para a votação.
IV — ASSEMBLÉIA DE CONSTITUIÇÃO
A assembléia de constituição será a solenidade que dará
vida legal à cooperativa. Além de ampla divulgação na Esco-
la deverão ser convidadas as autoridades, destacando-se:
a) — Diretora e Professôras do grupo;
b) — Serviço de Assistência ao Cooperativismo;
c) — Centro de Pesquisas Educacionais.
A ordem do dia para essa assembléia será a seguinte:
a) — Instalação dos trabalhos, pela Professôra
Conselheira.
b) — Formação da Mesa, convidando uma profes-
sôra para secretária e a Diretora do Grupo
e autoridades para fazerem parte da mesma.
c) — Apresentação das autoridades. Direção dos
trabalhos para a autoridade mais graduada.
d) — Estudo dos Estatutos, sob a direção de pessoa
prèviamento convidada.
e) — Eleição. Voto secreto. De preferência duas
chapas.
f) — Posse dos eleitos.
g) — Discursos.
h) — Encerramento e assinatura da ata.
V — LIVROS DE ESCRITURAÇÃO
A cooperativa precisará ter os livros necessários a uma
boa escrituração, os quais deverão ter têrmo de abertura e
encerramento feitos pelo presidente. Os registros poderão ser
feitos também em fichas, Teremos, então, o seguinte:
1 — Livros
a) — Caixa
b) — Razão
FÁBIO LUZ FILHO 387
c) — Livro de Atas das assembléias
d) — Livro de Matrícula dos Associados
e) — Livro de atas das reuniões da diretoria.
2 — Fichas
a) — Ficha de Matrícula dos associados
b) — Título Nominativo do associado
c) — Diário de Vendas
d) — Ficha de estoque
e) — Ficha de registro das compras dos associados
(anexo n.° 7).
f) — Notas para registrar as compras. Talão
comum.
VI — INSTALAÇÕES
A direção da cooperativa procurará desde logo tomar as
seguintes providências:
1 — Aparelhar-se no que diz respeito às instalações da
melhor forma possível;
2 — Conseguir, de preferência, uma sala para uso exclusi-
vo de seus serviços;
3 — Providenciar no sentido de que a Secretaria de Edu-
cação, por seus serviços especializados, confeccione os armá-
rios, prateleiras e balcões de que a cooperativa irá precisar;
4 — Adquirir, quando possível, pequenos arquivos, de ma-
deira ou de aço, para guardar as diversas fichas necessárias
a seu funcionamento.
Para atender a essas despesas com mobilizações conviria que
a cooperativa realizasse festinhas de cunho beneficiente para
conseguir o numerário necessário.
VII — TRANSAÇÕES
A Professôra-Orientadora procurará entrar em entendi-
mentos diretos com as companhias editôras afim de conseguir
os melhores descontos possíveis.
Tôdas as compras feitas deverão ser registradas nas fichas
de estoque. Uma ficha para cada artigo.
As notas ou faturas de compra serão registrada na Caixa pelo
seu total, com os dados que as identifiquem.
388 COOPERATIVAS ESCOLARES
A cooperativa deverá, de preferência, adquirir todos os
artigos a dinheiro.
De um modo geral a cooperativa deverá trabalhar com
um lucro de 10 a 15%. Nos livros adquiridos das editôras a
cooperativa poderá repartir com o associado o desconto com-
seguido.
As notas ou faturas deverão ser arquivadas em pasta es-
pecial.
Quando se fizerem compras a crédito as notas e faturas
serão arquivadas em uma pasta em que se indique “Contas a
Pagar”. Quando paga a conta a fatura será transferida
para a pasta de contas pagas.
De todos os recebimentos haverá sempre um documento
comprovante, quer para as vendas, quer para os recebimentos
de quotas.
As despesas de qualquer natureza serão também com-
provadas com as devidas notas.
A cooperativa adquirirá para fornecer a seus associados,
à medida do possível, os seguintes artigos:
a) Livros para tôdas as classes;
b) Cadernos, blocos, lápis, borrachas, etc.;
c) Todos os demais artigos de uso obrigatório nas aulas;
d) Sapatos para uso diário nas aulas e para a prática
de esportes;
e) Cretone para confeccionar guarda-pós dos alunos.
VIII — REGISTROS NOS LIVROS E NAS FICHAS
De um modo geral poderá ser adotado o seguinte siste-
ma de trabalho:
1 — A Professôra-Orientadora, que superintenderá tô-
das as atividades da cooperativa, se encarregará do registro
dos seguintes livros:
a) — Livro de atas das assembléias. Depois de re-
vistos os têrmos das atas o Secretário poderá
lavrá-las.
b) — Livro de Matrícula Geral. Os registros dêsse
livro combinarão com as fichas de matrículas,
feitas pelos membros da diretoria.
c) — Livro Caixa e Razão, ambos importantes na
escrita.
FÁBIO LUZ FILHO 389
2 — O Presidente supervisionará todos os serviços, cola-
borando diretamente com a Orientadora.
3 — O Diretor Gerente se encarregará das vendas no
balcão e dos assentamentos nas notas extraídas e entregues
aos associados.
4 — O tesoureiro receberá o produto das vendas, (soma
de tôdas as notas) e o entregará à Prof. Conselheira para o
devido registro no livro Caixa. Fará, outrossim, a grade que
servirá de base para os lançamentos no Diário de Vendas.
5 — O Vice-presidente se encarregará dos registros na
Ficha de estoque e no Diário de Vendas.
6 — Os suplentes terão os seguintes encargos:
a) — Registro das compras nas fichas individuais
dos associados;
b) — Registro nas Fichas de Matrícula e nos Títu-
los Nominativos dos associados.
IX — SISTEMA DE ESCRITURAÇÃO E PLANO DE CONTAS
A cooperativa adotará um sistema de escrituração espe-
cial, tendo coma base os livros Caixa e Razão. Não haverá,
como nas escritas das firmas comerciais, o livro Diário.
1 — Caixa
Usar-se-á um Caixa comum, do tipo em que há uma
página para o débito e outra para o crédito. Lançar-se-ão no
débito todos os recebimentos ou entradas e no crédito todos os
pagamentos ou saldos de dinheiro.
Cada recebimento ou pagamento correspoderá a um tí-
tulo ou conta
Para os recebimentos figurarão os seguintes títulos:
Capital Integralizado
recebimento das quotas dos associados;
Jóia de Admissão idem, de jóias;
Vendas
pelo recebimento das vendas de artigos escolares;
Contas a Receber,
recebimentos de dívidas de associados.
390 COOPERATIVAS ESCOLARES
Para os pagamentos ou saídas de Caixa vigorarão os se-
guintes títulos;
Artigos Escolares,
Pelas compras de material escolar;
Despesas Diversas,
Pagamento de despesas feitas;
Contas a Pagar,
Pelo pagamento das dívidas;
Móveis e Utensílios,
Pela compra de móveis.
2 — Razão
É o mesmo livro usado na escrituração mercantil. Rece-
berá o registro sintético das operações anotadas no Caixa.
Lançar-se-á primeiramente, quando fôr o caso, os dados
do balanço inicial da passagem de uma lojinha para coope-
rativa, conforme veremos em outro capítulo. Depois, então, o
movimento de cada mês. Suponhamos tenham sido as seguin-
tes entradas num mês, conforme apurado pelo Caixa:
Vendas .......................................... Cr$ 4.500,00
Cap. Integralizado ........................ 200,00
Jóia de Admissão .......................... 60,00
Contas a Receber .......................... 240,00
Total ...................... 5.000,00
Debitaremos o título Caixa do Razão pelo total da entra-
da, Cr$ 5.000,00, e creditaremos as contas relacionadas pelas
respectivas importâncias parceladas.
Do mesmo modo se processará em relação aos pagamentos.
Movimento de um mês, de pagamentos:
Artigos Escolares ............................ Cr$ 3.000,00
Móveis e Utensílios ......................... 500,00
Despesas Diversas ........................... 50,00
Contas a Pagar ................................. 450,00
Total ......................... 4.000,00
Creditaremos o título Caixa do Razão pelo total e debita-
remos os títulos relacionados pelo que corresponde a cada um.
FÁBIO LUZ FILHO 391
X — LOJINHA E COOPERATIVA
Ao organizar-se uma cooperativa em grupo escolar em que
já existia uma “lojinha”, dever-se-á, antes de iniciar-se a ativi-
dade da cooperativa, fazer-se um levantamento do que existia
na lojinha que passará para a cooperativa.
Será um balanço da situação e exigirá as seguintes provi-
dências:
a) Inventário dos artigos existentes pelo preço de custo.
Exemplo: 5 borrachas n.° 2, a Cr$ 1,20, total Cr$ 6,00. Assim
se procederá com todos os demais artigos chegando-se ao valor
total do estoque.
b) Contagem do dinheiro existente. Será o saldo que
passará para a cooperativa.
c) Verificação das dívidas da lojinha e o seu total.
d) Verificação do que devem para a lojinha, o total des-
se crédito
Dêsse levantamento chega-se, suponhamos, ao seguinte
resultado:
Artigos Escolares
Total inventariado ........ Cr$ 2.000,00
Caixa
Saldo que se transfere. 500,00
Contas a Receber
Total dos créditos ......... 500,00
Total ............... 3.000,00
Contas a Pagar
Total das dívidas Cr$ 1.000,00
Temos, então, que a cooperativa receberá em valores posi-
tivos, representando direitos, a importância de Três Mil Cru-
zeiros e obrigações ou valores negativos importando em Um
Mil Cruzeiros. Apresenta-se um saldo positivo de Cr$ 2.000,00.
Êsse saldo passará a constituir o Fundo de Reserva da coope-
rativa, seu patrimônio inicial. A situação será, pois:
392 COOPERATIVA ESCOLARES
Balanço inicial
ATIVO (conjunto das contas com saldo devedor)
Artigos Escolares
Estoque inicial ................ Cr$ 2.000,00
Caixa, saldo ..................... 500,00
Contas a Receber,
diversos devedores ........... 500,00
Total .................. 3.000,00
PASSIVO (conjunto das contas com saldo credor)
Contas a Pagar
Saldo de dívidas .................... Cr$ 1.000,00
Fundo de Reserva
Fundo inicial ........................ 2.000,00
Total ....................... 3 .000,00
XI — SOBRAS E RETÔRNO
As sobras líquidas (lucro líquido) apura-se como em qual-
quer sociedade comercial ou cooperativa.
Vejamos o seguinte caso: Sobras líquidas apuradas:
Cr$ 5.000,00. Distribuição: 20% Fundo de Desenvolvimento;
10% Fundo de Reserva. O restante, 70%, para retôrno aos
associados. Total das vendas aos associados Cr$ 35.000,00.
Teremos então:
Fundo de Desenvolvimento, 20% Cr$ 1.000,00
Fundo de Reserva , 10% 500,00
Retôrno , 70% 3.500,00
Total 5.000,00
FÁBIO LUZ FILHO 393
O retôrno representará 10% sôbre as vendas totais. Ve-
rificar-se-á, por sua vez, as compras individuais de cada as-
sociado para o respectivo cálculo. Exemplos
Compras Retôrno
João de Oliveira Cr$ 200,00 20,00
Pedro Fonseca 35,00 3,50
Lauro Coimbra 15,00 1,50
E assim, sucessivamente.
XII — BALANÇOS E BALANCETES
As cooperativas são obrigadas a remeter para a Secção de
Assistência ao Cooperativismo, mensalmente, cópia do balan-
cete e uma vez por ano duas cópias do Balanço Geral e do
Demonstrativo da conta Sobras e Perdas.”
NOTA
Segundo o firmado pela Assistência Jurídica do Serviço
de Economia Rural, digo eu, os professôres não podem partici-
par das cooperativas, face lei, a não ser como orientadores
ou assessôres.
Outrossim, não é imprescindível o registro dos livros para
as cooperativas escolares, órgãos educativos por excelência, aos
quais a própria lei dispensou do registro em cartório para efei-
to de personalidade jurídica.
As crianças devem participar ativamente de tôdas as ati-
vidades, inclusive de compras, distribuição, contábeis, no que
for possível, etc.
Nas cooperativas escolares pernambucanas, os alunos,
sempre discretamente assessorados pela professôra-orientadora,
fazem, êles próprios, as atas, lançam o caixa e o conta-cor-
rente, passam recibos, etc. (diário, razão, etc., ficam a cargo do
D.A.C.). Dirijam-se ao Dpto. de Assistência às Cooperativas,
situado na rua Ulhoa Cintra, 122, segundo andar, em Recife,
que Nair de Andrade, com seu espírito apostolar, e dinamismo
e sua larga . experiência, com imensa satisfação os receberá e
orientará.
26 — 27454
394 COOPERATIVAS ESCOLARES
Em matéria de contabilidade, ver também o livro de
Hilário Cesarino, contabilidade cooperativista, distribuição do
Serviço de Economia Rural.
O Dpto. de Assistência ao Cooperativismo da Bahia tam-
bém possui uma boa publicação sôbre o assunto como São
Paulo.
DIPLOMAS DO MÉRITO COOPERATIVO A
COOPERATIVISTAS BRASILEIROS
“Cooperación” a bem elaborada revista da Confederação
Nacional Cooperativa da República Mexicana (que agremia
a 1.191 cooperativas federadas e a 1.494 cooperativas de pri-
meiro grau) em seu número de setembro de 1957, publicou o
seguinte artigo:
"O Conselho Nacional de nossa Cofederação atendendo à
resolução aprovada em 1954 no sentido de outorgar Diplomas ao
Mérito aos doutores Valdiki Moura e Fábio Luz Filho, assim
como à doutora Ruth Moura, pelos serviços que tem prestado
ao movimento Cooperativo Internacional, à obra de aproxima-
ção e solidariedade do cooperativismo americano e a seu labor
em prol do ideal cooperativo no Brasil, confirmou mencionada
resolução (a qual, infelizmente, não pôde ser levada à prática
por causas alheias e difícies de explicar), e será a delegação
mexicana de cooperadores, que visitará o Rio de Janeiro pròxi-
mamente, quem, em nome de nossa Central, fará entrega sole-
ne dos ditos Diplomas em uma cerimônia especial.
“Não será demasiado dizer que os doutores Valdiki Moura
e Fábio Luz Filho tem contribuido, através de seus livros e
seus artigos, para a formação da doutrina cooperativa e para
a clarificacação de diversos conceitos sobre o que devemos
entender por sistema cooperativo. Seus trabalhos, que são
conhecidos em todo o Continente, têm sido vistos com profunda
simpatia não sòmente pelos cooperadores mexicanos, mas tam-
bém por todos os cooperadores do Hemisfério Ocidental.
“Quanto à doutora Ruth Moura devemos dizer que, em
nosso conceito, é uma das mulheres que mais se destacam hoje
em dia, pelos seus trabalhos em favor do cooperativismo. A
maior parte dos movimentos cooperativos na América, e espe-
cialmente no México, conhecem a infatigável obra levada a
efeito por tão distinta cooperadora.
“Através de nossa revista, estendemos nossas felicitações mais
calorosas aos distintos cooperadores brasileiros, e, destas
colunas, apelamos para que continuem , seu perseverante labor
FÁBIO LUZ FILHO 395
em, prol do ideal cooperativo, o qual redundará, sem dúvida
alguma, em benefício do grande país que é o Brasil e, em
geral, do cooperativismo mundial e do americano em par-
ticular”.
Em 1950, os Srs. Fábio Luz Filho e Valdiki Moura recebe-
ram identica manifestação de "Casa de Rochdale”, da Argenti-
na, dentre numerosas outras manifestações do Brasil e do es-
trangeiro. (Do “Diário de Noticias”, do Rio de Janeiro,
de 2-2-58).
Você sabia?
"Que cooperativismo é um sistema social e econômico vi-
sando a harmonia dos homens, na conjugação de esfôrços para
satisfação do bem comum?
“QUE o vulto de maior projeção no cooperativismo brasi-
leiro é o Dr. Fábio Luz Filho, chefe da Seção de Propaganda e
Organização das Sociedades Cooperativas do Serviço de Econo-
mia Rural do Ministério da Agricultura e Presidente do Centro
Nacional de Estudos Cooperativos? Sabia também que êle é
considerado o “pai do cooperativismo nacional" por ser o autor
brasileiro que publicou até hoje o maior número de livros sô-
bre a matéria, destacando-se sua volumosa obra; “Teoria e
prática das sociedades cooperativas”, citada em todo a mun-
do?”
(Do “Correio do Ceará", de 4/12/58).
UNIVERSIDADE DE BUENOS AIRES
Buenos Aires, 11 de noviembro de 1958.
Señor Director del Serviço de Economía Rural. Mlnistério
da Agricultura. Rio de Janeiro — Brasil.
Tengo el agrado de dirigir-me al señor Director para soli-
sitarle la colaboración de esa Institución en la acción de edu-
cación fundamental y desarrollo de la comunidad que ha
emprendido el Departamento de Extensión Universitaria de la
Universidad de Buenos Aires.
Este Departamento está realizando uma experiência-pilôto
de educación fundamental en una localidad suburbana de
Buenos Aires (Isla Maciel, Avellaneda). La educación coopera-
tiva constituye en esta tarea uno de los factores más impor-
tantes.
396 COOPERATIVAS ESCOLARES
Por esta razón nos permitimos solicitarles el libro "Coope-
rativas escolares” de Fábio Luz Filho, editado por ese Minis-
terio. Esta publicación y aquellas otras que dispusiera enviar-
nos serán destinadas al Centro de Documentación que está
organizando este Departamento.
Hago propicia esta oportunidad para saludar al señor Di-
rector con mi consideración más distinguida.
(As.) Noemí Fiorito
Directora
(N. B. — Outros educadores argentinos tem solicitado o
livro “Cooperativas escolares").
ALGUNS MODELOS USADOS PELAS COOPERATIVAS ESCOLARES DE
PERNAMBUCO
COOPERATIVA ESCOLAR
Recibo de Quotas-Partes
Recebemos do associado......
................................................ a
quantia de Cr$ .................., para
crédito de sua conta de quotas-
partes subscritas.
Em...de..............de 195....
...........................................
1.º Tesoureiro
COOPERATIVA ESCOLAR
RECIBO DE QUOTAS-PARTES
Recebemos do associado....................
......................... a quantia de .................
................................................. Cr$.........., para
crédito de sua conta de quotas-partes
subscritas.
Em....de..................... de 195.....
Isento do sêlo de acôrdo ..........................
com o Art. 40 do Doc. 1.º Tesoureuro
n.º 22239, de 10/12/1932 R.7808
COOPERATIVA ESCOLAR
Recibo de Joia de Admissão
Recebemos do associado.....
................................................. a
quantia de Cr$ .......... refe-rente à
sua joia de dmissão:
Em...de..............de 195....
...........................................
2.º Tesoureiro
COOPERATIVA ESCOLAR
RECIBO DE JOIA DE ADMISSÃO
Recebemos do associado....................
......................... a quantia de ................. Cr$......,
referente à sua joia de admissão.
Em....de..................... de 195.....
Isento do sêlo de acôrdo ..........................
com o Art. 40 do Doc. 2.º Tesoureuro
n.º 22239, de 10/12/1932 R.7882
RECEBIMENTO
DÉBITO de: .......................................................................
CRÉDITO de Caixa
CR$ .......................... ...........de......................de 19..........
.......................................... .................................................
Prof. Responsável Tesoureiro
RECEBIMENTO
DÉBITO de Caixa
CRÉDITO de: ................................ ............ ....….. ....….
CR$ .......................... ...........de......................de 19..........
.......................................... .................................................
Prof. Responsável Tesoureiro
Cooperativa Escolar...........................................................
Associado .................................................................... N....................
Idade...............Classe.................Nacianalidade..................................
Admitido em................................... Demitido em ...............................
Assinatura............................................................................................
R. 15600
D A T A HISTÓRICO
Quotas
Partes
DÉBITO CRÉDITO OBSERVAÇÕES
COOPERATIVA ESCOLAR
— DE —
.......................................................................................................................
DATA ...........................................................................................................
PREÇO
QUANT. ESPÉCIE
Unitário TOTAL
TOTAL Cr$
......................................................
GERENTE
COOPERATIVA ESCOLAR ....................................... DE ...........
RECEBIMENTOS
Mês de........................ 19.....
Professor responsável ................................................................
Tesoureiro ....................................................................................
COOPERATIVA ESCOLAR ....................................... DE ...........
PAGAMENTOS
Mês de........................ 19.....
D. A. C. pelos pagamentos da(s) n/ fatura(s) N.º(s)
DEPOSITADO no(a)
DESPESAS GERAIS, pelas verificadas n/ mês
ARTIGOS ESCOLARES, pelas despesas de frete, carrêto ou compra
CAPITAL, pelo débito que se leva a esta conta
IMPRESSOS E OBJ. DE ESCRITÓRIO, pagou a
Saldo para o mês de
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SOMA
CR$
FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION
OF THE UNITED NATIONS
Viale delle Terme di Caracalla
ROME. Nov. 27-1958
Estimado amigo:
Acabo de recibir la publicación que su Ministerio preparó
con motivo del Centro Sudamericano sabre Crédito Agrícola y
en el cual está incluído su excelente y bien documentado tra-
bajo sobre Crédito Agrícola Supervisado.
Al agradecerle el envio de esta valiosa publicación, apro-
vecho la oportunidad para reiterarle mis sinceras fecilitacio-
nes, tanto por su trabajo como por sus magníficas intervencio-
nes en favor de las cooperativas durante las sesiones del Cen-
tro en Recife.
Espero tener el gran placer de verlo en ocasión de la Pri-
mera Reunión Técnica sobre Cooperativas Agropecuarias, que
como usted sabe, la FAO está preparando en conjunto con la
OEA, para junio de 1959 en Buenos Aires. El Gobierno de Ar-
gentina ya ofreció patrocinar la Reunión y de dar todas las
falicidades para que la Reunion sea un éxito. Me encantaría,
personalmente, poder contar con su valiosa colaboración en
Buenos Aires también. Asimismo, le agradeceríamos preparar
un trabajo relacionado con uno de los temas incluídos en el
temario tentativo que usted ya tiene en su poder.
Muy cordialmente,
George St. Siegens
Especialista en Cooperativas y
Crédito Agrícola
Departamento de Bienestar Rural
Dirección de Agricultura
Dr. Fábio Luz Filho
Servicio de Economía Rural
Ministério de Agricultura
Rio de Janeiro
Brasil
UM LIVRO SÔBRE CRÉDITO AGRÍCOLA E PROBLEMA
AGRÁRIO, APRECIADO NO ESTRANGEIRO
O livro sôbre o tema acima, do Sr. Fábio Luz Filho, técni-
co brasileiro com várias obras especializadas, já vai como outros
de sua lavra, tendo repercussão no estrangeiro.
A União Pan-Americana, por exemplo, na pessoa de dois
de seus eminentes técnicos, F. Chaves Nuñes e Yuri Isquierdo,
da Divisão de Trabalho e Assuntos Sociais, acaba de acentuar
que o conteúdo do livro do técnico brasileiro é sumamente in-
teressante e muito útil para os estudiosos na matéria, que nêle
podem encontrar abundante material de consulta e orientação
sôbre temas que não são tratados, nos tempos que correm, com
a freqüência e a profundidade necessária.
Disse êle do último livro do técnico brasileiro:
"... Agradezco mucho su fineza y lo felicito por su nueva
obra que para la FAO será de particular utilidad, ya que en-
foca el crédito agrícola desde el punto de vista dela coopera-
ción en la agricultura a la cual, como usted sabe, nuestra
Organización atribuye transcendental importância conside-
rándola medio básico para desarrollar com éxito cualesquier
programa de bienestar rural. Su libro se caracteriza por la
abundancia de ideas y experiencias que es una prueba evi-
dente de sus amplios conocimientos. La obra “Crédito Agrí-
cola y Problema Agrário” ha enriquecido la literatura Latino-
mericana en esta especialidad”.
OBRAS DE FÁBIO LUZ FILHO:
1 — Pronomes oblíquos. O emprêgo do infinito — 3.ª edição —
Irmãos Pongetti — Rio.
2 — Noções de alimentação vegetal — 1 volume — Edição
Benedito de Sousa —. Rio de Janeiro,
3 — O verdadeiro e o falso cooperativismo — 1 volume — Edição
Benedito de Souza — Rio de Janeiro.
4 — Cooperativas agrícolas (Publicação do M. da Agricultura).
5 — Sociedades cooperativas (3.ª edição ilustrada e aumentada)
Irmãos Pongetti — (Os princípios doutrinários do
cooperativismo — Leis — Estatística mundial —
Estatutos de tôdas as formas de cooperativas,
notadamente agrícolas — Livro de 420 págs., em grande
formato) — Rio.
6 — Cooperativas escolares (5.ª edição) — 1 volume — Rio de Ja-
neiro.
7 — Cooperativismo e crédito agrícola (3.ª edição refundida e am-
pliada) — 1 grosso volume de 600 páginas em grande
formato (o crédito agrícola em suas verdadeiras
características, os princípios doutrinários do
cooperativismo livre, bancos populares, caixas rurais,
numerosas formas de cooperativas, contabilidade, texto
completo de leis, estrangeiras e brasileiras, etc.). Sarai-
va & Cia., São Paulo.
8 — Cooperativismo e sindicalismo agrários — 1 volume —
Publicação do ex-Fomento Agrícola.
9 — Rumo à terra (5.° edição refundida e ampliada) — Livro que,
com outros do autor, mereceu os mais francos elogios de
escritores e instituições nacionais e estrangeiras, entre
êles João Grave e a União Pan-Americana de
Washington. — 1 grosso volume, com quadros, etc. —
Aspectos do problema agrário. — 361 págs. — Editor
S. Coelho Branco Filho — Rio.
10 — O cooperativismo e a escola — Tese apresentada ao “1.°
Congresso de Proteção à Natureza”, realizado no Rio de
Janeiro.
11 — O crédito agrícola cooperativo — Tese apresentada “2.ª
Conferência Nacional de Pecuária” — Rio de Janeiro.
12 — Cooperation in Brazil — Trabalho publicado no Year book
of agricultural co-operation — 1938 — publicação de
repercussão mundial de The Horace Plunkett
Foundation, de Londres. (10 — Doughty Street —
London — W. C. I.), de que o autor é um dos
correspondentes no Brasil.
13 — As cooperativas agrícolas no Rio Grande do Sul —
Publicação da Pan American Union — Division of
Agricultural Cooperation — Washington, D. C. — U. S.
A. — Divulgada em português, inglês e espanhol. A
versão inglesa intitula-se “Agrícultural cooperatives in Rio
Grande do Sul, Brazil”.
404 COOPERATIVAS ESCOLARES
14 — Aspectos agro-econômicos do Rio Grande do Sul — 1
grosso volume de 425 páginas com 80 fotografias tiradas in — loco
— Saraiva & Cia. — São Paulo (Encerra o movimento cooperativo
do grande Estado e focaliza seu grande desenvolvimento agro-
pastoril).
15 — Cooperativismo, corporativismo, colonização — 2.ª edição
refundida e ampliada) — Encara o autor êsses três problemas de um
ponto de vista geral e do ponto de vista brasileiro, resumindo todas
as leis européia sobre pequena propriedade e as leis brasileiras, e a
situação do trabalhador brasileiro, etc., etc. — A. Coelho Branco
Filho — Rio (Dedicado à memória de Fábio Luz).
16 — As caixas Raiffeisen no Brasil — Tese apresentada ao
“Primeiro Congresso Internacional de Crédito Agrícola” realizado
em Nápoles. Vertida para o Italiano, e reproduzida no “Year Book
Agricultura Co-operation”, de Londres, ano 1939, sob o título. “The
Raiffeisen Banks in Brazil”.
17 — O cooperativismo no Brasil e a sua evolução — História e texto
completo e comentado de tôdas as leis sobre cooperativas e
sindicatos no Brasil. Crítica, estatutos, formulários práticos.
Doutrina e dados estatísticos
completos. O cooperativismo europeu. Livro de 300 páginas, em
grande formato — Edição de A. Coelho Branco Filho — Livraria
Editôra — Rio — Biblioteca Jurídica.
18 — “Cooperativismo, crédito agrícola e pequena pro priedade no
Brasil" — Tese apresentada ao Oitavo Congresso Científico
Americano (Maio 1940) — sob os auspícios do Govêrno dos
Estados Unidos — Departament of Agriculture — Washington,
D.C.
19 — Seguros agropecuários (2.ª edição) — Edição do Serviço de
Economia Rural — 1 volume.
20 — O critério das delegações nas cooperativas (estudos publicados
em revistas)
21 — Teoria e prática das sociedades cooperativas — 4.ª edição,
refundida e atualizada, de 800 páginas em grande
formato, Considerado pela União Panamericana, de
Washington, como o mais completo já editado na
América latina — Irmãos Pongetti — Rio.
22 — Evolução do Cooperativismo no Brasil (estudo enviado a pedido do
Bureau International du Travail, para irradiação pela W.R.U.L.).
23 — Regimentos internos para cooperativas (2.ª edição, do Serviço de
Economia Rural) — 1 volume.
24 — Teorias e escolas cooperativas (1 volume) —
Departamento A. Cooperativismo — Bahia.
25 — Considerações em tôrno do anteprojeto do Deputado Daniel Faraco
(publicados na revista “Cooperativismo” da “‘Caixa de Crédito
Cooperativo”, números de junho a outubro de 1948).
26 — El movimiento cooperativo en el Brasil (estudo publicado pelo
“Instituto de Estudos Cooperativos de la Universidad del Cauca”, na
Colômbia, pedido do Dr. Fabra Ribas, e distribuído por todos os
países de língua espanhola e pelos Estados Unidos).
FÁBIO LUZ FILHO 405
27 — Subsídios para regimentos internos de cooperativas
agrícolas (número de novembro de 1947 da revista
"Cooperativismo")
28 — Considerações em tôrno da Escola de Nimes — conferência
constante do livro “Temas cooperativos" — edição do
Centro Nacional de Estudos Cooperativos, de que é o autor
presidente.
29 — Considerações em tôrno de um projeto de lei — (publicadas
na revista “Cooperativismo" de abril a novembro de
1950).
30 — Cooperativismo, colonização, crédito agrícola — 1 volume
ilustrado — Edição do Serviço de Economia Rural, do M.
Agricultura.
31 — Numerosos artigos e comunicados publicados em revistas
especializadas e jornais do Brasil e do estrangeiro, e nos
“Boletins” do Serviço de Economia Rural, assim como os
folhetos de propaganda do mesmo Serviço impressos
nesses últimos anos, entre êles as “Instruções para
organização de sociedades cooperativas”, já em 5.ª edição.
— No volumoso trabalho intitulado “Bibliography on
Cooperation in Agriculture” (Library List n.º 41) — edição
do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da
America do Norte, tem o autor seis de seus livros citados e
resumidos. É trabalho de junho de 1948. O mesmo em
“Who’s who in Latin América", livro de Ronald Hilton, da
Universidade de Stanford. Sua bibliografia figura na
“Inter-American Bridge” — de 1951/52.
32 — “Princípios cooperativos”, livro que foi considerado pelo
“Curso para dirigentes do movimento cooperativo”, que se
realizou em 1953 em Santiago do Chile, sob os auspícios da
União Panamericana, de Washington, como excelente
manual, que foi distribuído entre os alunos de várias
nacionalidades, do curso. Edição da Divisão de Assistência
ao Cooperativismo — Secretaria Agricultura — E. do Rio.
33 — A evolução do cooperativismo, constante de “Hacia un
mundo mejor por la acción cooperativa”, da Federação
Argentina das Cooperativas de Consumo, publicação em
castelhano de 1958, coletânea de líderes internacionais.
34 — O crédito agrícola e seu conceito. O crédito agrícola
cooperativo — Edição do Serviço de Economia Rural. Tese
apresentada, como delegado do Brasil representando o
Ministério da Agricultura, ao Centro Sul-Americano de
Crédito Agrícola, realizado em Recife de 1 a 21 de setembro
de 1958.
35 — Crédito agrícola e problema agrário — 1958.. São Paulo —
O crédito agrícola em todos os seus aspectos e o crédito
agrícola cooperativo. A reforma agrária no Brasil e no
mundo, com quadros estatísticos, diagramas de
colonização, etc. Distribuidores no Rio de Janeiro: Irmãos
Pongetti. — Rio de Janeiro.
A sair:
“Teoria e prática das sociedades cooperativas”, em 5.ª edição
refundida, aumentada e atualizada — irmãos Pongetti. — Rua
Sacadura Cabral — 240-A — Rio.
"O crédito agrícola cooperativo e o Centro Sul-Americano de
Crédito Agrícola”, — Edição do Serviço de Economia Rural.
"O cooperativismo e o Estado”. Tese para a 1.ª Reunião
Técnica de Cooperativas Agropecuárias, realizada em Buenos
Aires em setembro de 1959. — S. E. Rural.
"Sinopse do movimento cooperativo brasileiro" — Edição do
Serviço de Informação Agrícola-Ministério da Agricultura.
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