Concluindo:
Conforme Congar, a eclesiologia do Povo de Deus vai se aprofundar na
direção de uma eclesiologia de comunhão e fraternidade
54
, como dito
anteriormente. Posteriormente, o Documento de Puebla propõe uma eclesiologia
de “comunhão e participação”. Refazendo a história da eclesiologia do século XX
descobrimos como ela, partindo de uma concepção de uniformidade, caminhou na
direção do pluralismo enriquecedor da diversidade a partir da qual se constrói a
comunhão eclesial, graças à presença do Espírito. Caminhou-se, pois, na direção
do “comunitário”. Essa dimensão catalisou todos os esforços renovadores até a
nossa experiência latino-americana das CEBs. Os pontos de maior evidência são:
os movimentos de jovens, a renovação litúrgica, a valorização da assembléia
litúrgica e a nova consciência comunitária, presente do próprio agir histórico da
Igreja, ou seja, na pastoral
55
.
54 Para essa visão leia-se CONGAR, Y. Uma teologia da Comunhão. In: FEINER-LOHRER,
Mysterium Salutis IV/3, Vozes, 1976, pp. 40-49.
55 Vejamos esses pontos de relevância eclesial: a) Os movimentos de jovens. Como reações ao
individualismo crescente da sociedade liberal capitalista, surgiram nas Igrejas em geral e de modo
específico dentro da Igreja católica, movimentos de juventude. Esses movimentos tinham como
objetivo a educação da fé e como cerne de atração o tema “comunidade”, a dimensão comunitária.
Esse pode ser considerado, sem receio, o acontecimento do século XX. Não se pode vê-lo, no
entanto, de uma forma ingênua. Esses movimentos não nasceram do nada. A mesma sociedade
civil, em reação ao exagerado individualismo da sociedade pequeno-burguesa, começou a
desenvolver formas de organização na direção da socialização e do socialismo. Todavia, o
fenômeno mais avassalador e problemático que se apresentou foi que, em alguns países, o
fenômeno foi manipulado e as energias da juventude foram canalizadas na direção do estado
totalitário. Trata-se da experiência da juventude nazista, na Alemanha de Hitler, e da juventude
fascista, na Itália de Mussolini. Da parte da Igreja católica tornou-se um imperativo da época
organizar, de maneira disciplinada, a Ação Católica, como resposta adequada da Igreja no contexto
do estado totalitário; b) A renovação litúrgica. Este é um outro dado importante para compreender
a renovação da eclesiologia. Ela recolocou no centro da própria ação litúrgica a dimensão
comunitária da Igreja, no esforço para superar o juridicismo e o casuísmo litúrgico que tomaram
conta da Igreja pós-tridentina. De fato, nos últimos séculos foi o que dominou o espírito da própria
instituição eclesial. Os fiéis se viram obrigados a apelar para devoções particulares para
satisfazerem sua piedade. A renovação litúrgica veio então promover a efetiva participação dos
fiéis, como pessoas e comunidade, na celebração, da qual haviam sido afastados na qualidade de
meros assistentes passivos da ação “produzida e administrada” pelo padre. Quando o Vaticano II
promulgou a Sacrossanctum Concilium, sobre a Liturgia, a parte maior do caminho já havia sido
percorrida. Esse documento havia sido precedido pela encíclica de Pio XII, Mediator Dei (1947).
Depois disso, o Vaticano II conseguiu avançar em três pontos decisivos: no princípio da
descentralização, no princípio da participação e no princípio da experimentação na liturgia; c) A
valorização da assembléia litúrgica. Hoje este constitui um ponto pacífico na visão dos próprios
fiéis. Essa valorização constitui um grande passo e uma grande conquista se for analisar o que era
a liturgia antes do Concílio. A assembléia tinha seu lugar próprio, fora do “presbitério”, calada ou
rezando o seu terço, enquanto o padre desenvolvia a ação litúrgica, toda ela rezada em latim.
Havia, pois, dissociação entre a comunidade ideal (aquela imaginada e projetada pelos textos e
reflexões teóricas) e a real (aquela concreta, do dia-a-dia). Mais: essa dissociação se expressava no