gela! Cada palavra é como um beijo e treme.
Sonambulando, o vento assusta as rosas. Geme,
lá fora, a alma dos velhos parques, soluçando.
Penso que, a esta hora, estás sorrindo e estás sonhando.
Sonha também, a um canto, o piano abandonado.
Vaga sobre o marfim dolente do teclado
onde um murmúrio de saudade se quebranta,
como a recordação das tuas mãos de Santa,
das tuas doces mãos que de um adeus divino
lembram ainda o longínquo aceno peregrino,
conservam ainda o encanto adolorado e doce!
Lê, sem vaidade o que aqui lês como se fosse
outra criatura a quem, distante e triste, escrevo.
Guarda esta carta, após, como se guarda um trevo
dentro de um livro, mas de um livro doce e triste
como o meu coração, como ainda não existe,
como um dia o farei, enfermo de alma e de arte,
um livro trêmulo e lilás, só por louvar-te,
sem outra idéia de beleza além da tua.
Guarda-o contigo! Névoa trêmula de lua,
enquanto escrevo, uma secreta claridade
invade a minha alcova. Oh! lúcida saudade!
Sobre o meu coração ao seu mortal reclamo!
Desejos de falar-te e de dizer que te amo!
Que te quero! Desmaia a noite erma e dolente.
Que te quero, mas loucamente, loucamente!
Não tarda a alva a nascer. Da minha dor obscura
tu nada sabes! Sabe-o, apenas, a tortura
do meu calado coração que ria outrora.
Falo-te agora, enfim, deste tormento antigo.
Que frio! Vais sabê-lo. . .
(ou talvez não! Se, agora
como sempre e apesar do que imagino e digo,
inútil, esta carta há de ficar comigo!)
5
Interiores à luz das lâmpadas! De quando
em quando, apraz-me contemplar-vos, caminhando.
Janelas, ao anoitecer, iluminadas!
Olho-vos com inveja, ao longo das calçadas,
quando agoniza o outono e quando, lento, o frio
faz do desejo um doce e mórbido arrepio!
Olho-vos longamente e, às vezes, paro e sonho.