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com elas. E Celina levava escondido seu vaso. Não quisera deixá-lo em casa,
exposto à cobiça de algum gatuno. E os rapazes diziam: "Aquela que ali vai é
Celina, que possui o mais belo vaso da aldeia..."
Por toda a manhã, por toda a tarde, a faina da colheita durou. E, quando a
noite desceu, cantando e rindo as raparigas desfilaram, de volta à aldeia. Celina,
sempre retraída, sempre afastada do convívio das outras, deixou-se ficar atrasada.
E, sozinha, pela noite escura e fechada, veio trazendo o seu vaso precioso...
Dizem na aldeia que aqueles caminhos são perigosos: há por ali, rodando nas
trevas, gênios maus que fazem mal às raparigas...
Não se sabe o que houve: sabe-se que Celina, chegando a casa, tinha os
olhos cheios de lágrimas, e queixava-se, soluçando, de que haviam roubado as
flores do seu vaso. E não houve consolação que lhe valesse, não houve carinho que
lhe acalmasse o desespero. E os dias correram, e correram as semanas, e correram
os meses, e Celina, desesperada, chorava e sofria: "Oh! As flores! as flores do meu
vaso que me roubaram!..."
Mas, no fim do nono mês, Celina consolou-se. Não tinha recuperado as flores
perdidas... mas tinha nos braços um pimpolho. E o João das Dornas, um rapagão
que era o terror dos pais e dos maridos, dizia à noite, na taverna, aos amigos, diante
dos canecos de vinho:
— Ninguém roubou as flores da rapariga, ó homens! eu é que lhes fiz uma
rega abundante, por que não admito flores que estejam toda a vida sem dar frutos...
CAPÍTULO XII
O DEFUNTO
O grave professor, aprumando sobre o nariz os óculos de ouro, começa a sua
lição. Grave, grave, o professor Mac-Leley! calvo, vermelho, possuindo nas
bochechas flácidas algumas falripas raras e grisalhas, o velho inglês é a
circunspeção em pessoa. Sempre trajado severamente — calças negras, colete
negro, rodaque de alpaca negra, gravata negra de três voltas... Grave, grave, o
professor Mac-Leley!
Levanta-se, tosse duas vezes, passeia pela sala um olhar minucioso, e
principia. Os meninos, em semicírculo, agitam-se, mexem-se, dispõe-se a ouvir a
palavra do mestre, que vai fazer a lição de cousas. Justamente um dos alunos faltou:
morrera-lhe um tio. E o circunspeto Mac-Leley aproveita a ocasião para ensinar à
classe o que é um defunto, o que é a morte, o que é a vida, o que é um cadáver...
— Quando cessa o funcionamento de um órgão, meninos, diz-se que este
órgão está morto. O corpo humano é um conjunto de órgãos... O funcionamento de
todos esses órgãos é a vida. Se os órgãos não funcionam mais, o homem morre, é
um defunto, é um cadáver...
(Mas... que é aquilo? Pelos bancos da classe passa, contínuo e mal
disfarçado, um risinho alegre. Toda classe ri, tomada de uma alegria irresistível...)
— Meninos! continua o grave Mac-Leley — quando o corpo morre, começa a
decomposição...
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