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proteção especial do Estado, mas, conforme propõe José Reginaldo
Santos Gonçalves, como ‘narrativas’, ou, como sugere Mariza Veloso
Motta Santos, tomando de empréstimo a formulação de Michel Foucault,
como uma ‘formação discursiva’, que permite ‘mapear’ conteúdos
simbólicos, visando a descrever a ‘formação da nação’; constituir uma
‘identidade cultural brasileira’. Em verdade, as políticas de patrimônio,
tal como estão estruturadas atualmente, com certeza estão longe de
cumprir esses objetivos, ainda mais numa sociedade que se queira
democrática” (FONSECA, 2003, p.64).
De certa forma, podemos pensar que as estratégias de preservação de materiais
audiovisuais seguem a mesma lógica que decide o que poderá ser criado. Para Pierre
Bourdieu, a indústria cultural é criadora de uma “arte média” que produz conforme o que
consegue disseminar com base no lucro:
“O sistema de indústria cultural, cuja submissão a uma demanda externa
se caracteriza, no próprio interior do campo de produção, pela posição
subordinada dos produtores culturais em relação aos detentores dos
instrumentos de produção e difusão, obedece, fundamentalmente, aos
imperativos da concorrência pela conquista do mercado, ao passo que a
estrutura do produto decorre das condições econômicas e sociais de sua
produção. [...] Com efeito, tal arte resulta da conjunção de vários
processos. De um lado, constitui o produto de um sistema de produção
dominado pela procura da rentabilidade dos investimentos e, em
conseqüência, da extensão máxima do público” (BOURDIEU, 1982,
p.136).
Luiz Costa Pereira Junior, tendo tido acesso aos acervos e arquivos de diferentes canais
de TV, percebe como a mentalidade dos produtores mudou na última década:
“Hoje, canais como a Globo e a Band mantêm arquivos amplos,
climatizados e informatizados. Todo esse movimento tem um porquê: o
mercado da conservação de imagens começa a ser visto como lucrativo.
Além da reexibição e da venda de programas para o exterior, as
emissoras chegam a cobrar U$400 por segundo de produtoras de
documentários e filmes” (JUNIOR, 2002, p. 231).
No caso da TV Globo especificamente, há uma gerência só para o projeto Memória
Globo, que produz entrevistas sobre a memória das produções televisivas com diferentes
cargos de funcionários (atores, diretores, jornalistas, produtores, roteiristas, entre outros)
e também cuida da digitalização do acervo. Cerca de 70% de toda a programação que é
produzida hoje na Globo já está em formato digital (JUNIOR, 2002, p. 236). Por isso,
quando inserimos a questão do patrimônio nesta lógica, ele também fica a cargo do
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