realizada entre os meses de abril a junho, quando as pinhas da Araucária estão maduras e há
fartura de milho na região (Oliveira, 1996).
Ao estudar os especialistas (curadores, feiticeiros e xamãs [Kujá]) Kaingáng, do
Oeste de Santa Catarina, Oliveira (1996) identificou nas práticas terapêuticas e preventivas
a importância do milho pururuca (milho branco tradicional dos Kaingáng) nas dietas do
nascimento e do luto. Na dieta do nascimento, o milho é utilizado na forma de farinha
(pishé), misturada a um composto de alimentos (água doce queimada, casca de laranja,
vassourinha [Cunila angustifolia], marcela [Achyrocline satureoides], e folha de guavirova
[Eugenia sp.], uma espécie de sopa, que deve ser ingerida pela parturiente, no período da
manhã. Na dieta do luto, a recém-viúva deve se alimentar também da sopa de pishé,
preparada pelo Péj
·).
A narrativa sobre a origem do milho entre os Kaingang, descrita por Schmidt
(1967), relata que os índios Kaingang do planalto meridional brasileiro receberam diversos
alimentos através de um velho chamado Nhara, que mandou que seus filhos e genros
fizessem uma roça e pusessem fogo. Em seguida, deveriam amarrá-lo em cipós grossos e
arrastá-lo até que morresse. Daí deveriam enterrá-lo no centro da mesma, ir para o mato,
onde deveriam permanecer durante 3 dias. Mesmo contra a sua vontade, assim o fizeram e,
ao voltarem, encontraram a roça coberta de uma planta com espigas. Era o milho, mas
também encontraram feijões grandes e morangas. Quando a lavoura amadureceu, foi logo
colhida e as sementes divididas. E é por isso que, segundo os próprios índios, após a
abertura da roça, tem-se o costume de sair para comer frutos e caçar por 3 ou 4 luas.
Segundo a versão de Metraux (1946, p.78), o mito foi assim descrito:
“(...) um cacique lhes disse que cultivassem um pedaço de terra com
uma trepadeira (cipó) amarrando-a em torno do seu pescoço e arrastando-o
pelo chão. Assim o fizeram e três meses após o pênis do cacique produziu
milho e seus testículos feijões e sua cabeça forneceu porongo”.
Borba (1908), apud Nötzold (2004, p.13), registrou o mito da seguinte forma:
“Meos antepassados alimentavam-se de fructos e mel; quando
voltavam, soffriam fome. Um velho de cabellos brancos, de nome Nhara,
ficou com dó delles; um dia disse a seos filhos e genros que, com cacetes,
fizessem uma roçada nos traquaraes e a queimasse. Feito isto, disse aos filhos
que o conduzissem ao meio da roçada; alli conduzido sentou-se e disse aos
filhos e genros: - Tragam cipós grossos. - E tendo estes lh’os trazido, disse o
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