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Presidente da República:
Fernando Henrique Cardoso
Ministro de Estado da Educação e do Desporto:
Paulo Renato Souza
Secretário Executivo:
Luciano Oliva Patrício
Secretária de Educação Fundamental:
Iara Glória Areias Prado
Diretora do Departamento de Política da Educação Fundamental:
Virgínia Zélia de Azevedo Rebeis Farha
Coordenadora Geral de Apoio às Escolas Indígenas:
Ivete Maria Barbosa Madeira Campos
Equipe Técnica:
Deuscreide Gonçalves Pereira, Deusalina Gomes Eirão, Andréa Patrícia Barbosa de
Carvalho, Cristiane de Souza Geraldo.
Comitê de Educação Escolar Indígena:
Iara Glória Areias Prado-Presidente, Susana Martelleti Grillo Guimarães, Meiriel de
Abreu Sousa, Luís Donisete Benzi Grupioni, Sílvio Coelho dos Santos, Aldir Santos de
Paula, Rosely Maria de Souza Lacerda, Jadir Neves da Silva, Darlene Yaminalo Taukane,
Alice Oliveira Machado, Valmir Jesi Cipriano, Algemiro da Silva, Nietta Lindemberg
Monte, Bruna Franchetto, Terezinha de Jesus Machado Maher, Nilmar Gavino Ruiz,
Marivânia Leonor Furtado Ferreira, Júlio Wiggers, Álvaro Barros da Silveira, Gersen
José dos Santos Luciano e Walderclace Batista dos Santos.
Publicação financiada pelo MEC - Ministério da Educação e do Desporto, dentro do
Programa de Promoção e divulgação de Materiais Didático-pedagógicos sobre as
Sociedades Indígenas, recomendada pelo Comitê de Educação Escolar Indígena.
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SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAÇÃO DE MINAS GERAIS
SECRETÁRIO: João Batista dos Mares Guia
PROGRAMA DE IMPLANTAÇÃO DAS ESCOLAS INDÍGENAS DE MINAS GERAIS
Convênio SEE MG, UFMG, FUNAI, IEF.
COORDENADORA: Márcia Maria Spyer Resende
COORDENAÇÃO EDITORIAL: Maria Inês de Almeida
ORGANIZAÇÃO E REVISÃO: Alenice Motta Baeta
PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO ELETRÔNICA:
Vitor Ribeiro
Mauricio Gontijo
PESQUISA, TEXTOS E ILUSTRAÇÕES: Professores Krenak em formação
no Parque Estadual do Rio Doce - MG - 1997
Mauricio Krenak
José Carlos Krenak
Marcos Krenak
Osmar Krenak
Itamar Krenak
REVISÃO FINAL:
Mauricio Krenak
José Carlos Krenak
É PRECISO CONHECER PARA AMAR CADA PÁGINA DESTE LIVRO. TEM
MARCA DE SAUDADE E SOFRIMENTO, DO ASSOPRO DO VENTO ENTRE AS ÁRVORES,
DO BRILHO DA LUA, DA NOITE FRIA, DO SOL ILUMINANDO O CÉU AZUL.
NA ALDEIA, CRIANÇAS QUE BRINCAM, QUE DESCOBREM MELHORIAS
NA ALDEIA, O MUNDO SONHA QUE CADA UM ESCREVA PENSAMENTOS E
SENTIMENTOS, POIS ACORDA A ALMA.
NAS ASAS DE MINHA IMAGINAÇÃO, ME FAÇO UM ÍNDIO
E BUSCO VIVER E PARTILHAR DO RESPEITO DE TODA ESSA GENTE, QUE ME
FAZ TRABALHAR FELIZ, QUERENDO CONSTRUIR UM MUNDO MELHOR ONDE
POSSAMOS CANTAR JUNTOS E REPARTIRMOS OS SONHOS.
MARCOS E MAURÍCIO
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO 6
NOSSA HISTÓRIA VEM DE LONGE 9
A CHEGADA DOS INVASORES 11
COMO SURGIU O NOME KRENAK 13
JONKION - DEUS DOS ÍNDIOS KRENAK 15
SOU ÍNDIO KRENAK 17
COMO ERA A VIDA KRENAK 19
O DESAPARECIMENTO DE ÍNDIO EM CUPARAQUE 20
O TEMPO QUE OS ÍNDIOS ESCONDIAM NA LOCA DE PEDRA 24
O MASSACRE NO PATRIMÔNIO DO EME 27
TARU RUNDHIO - DANÇA DO CÉU 29
A MORTE DOS ÍNDIOS NO BATATAL 31
O TEMPO QUE DEUS ANDAVA NO MUNDO 32
ALDEIA KRENAK 35
A MORTE DO CAPITÃO KRENAK 36
A CONSTRUÇÃO DA ESTRADA DE FERRO 39
AS RETIRADAS E O RETORNO DOS KRENAK 40
TERRA KRENAK 43
O SONHO CONTINUA
VOCABULÁRIO KRENAK
ALGUMAS PALAVRAS 48
ALGUMAS FRASES 63
ESTA HISTÓRIA NÃO ACABA 67
APRESENTAÇÃO
ÊSTE LIVRO APRESENTA A HISTÓRIA DE UM POVO QUE FOI, POR MUITO
TEMPO, OMITIDA.
OS BURÚM, HABITANTES DO VALE DO RIO DOCE, ATRAVÉS DO
PROGRAMA DE EDUCACÃO INDÍGENA DE MINAS GERAIS, ESTÃO COMEÇANDO A
ESCREVER A SUA PRÓPRIA HISTÓRIA - VIVIDA, SENTIDA.
É TAMBÉM O RESULTADO DE PESQUISAS ORAIS, ONDE OS PROFESSORES
KRENAK GRAVARAM E TRANSCREVERAM AS HISTÓRIAS CONTADAS POR SEUS
PARENTES MAIS VELHOS.
ÊSTE LIVRO É SOBRETUDO O RESULTADO DE UMA PRODUÇÃO ARTÍSTICA
COLETIVA, EXPRESSA ATRAVÉS DA HARMONIA DOS SEUS TEXTOS E ILUSTRAÇÕES.
ALENICE MOTTA BAETA
ORGANIZADORA
NOSSA HISTÓRIA VEM DE LONGE
— Antigamente, no tempo de nossos mais antigos parentes, não
existia o nome Brasil.
Também eram desconhecidos nomes com Tupã, civilizado,
cristão, navio, garimpeiro, madeireiro, soldado. Nem se conhecia
o dinheiro, a prostituição, a cachaça, os enlatados, o machado
de ferro, o poder do governo, do padre, do militar.
E as pessoas não morriam de doença infecciosa, contagiosa, ou
simplesmente com um tiro...
— Antigamente, contam os antigos parentes Krenak, habitavam
no céu uma enorme quantidade de espíritos chamados TOKÓN. Eles
receberam este nome dos homens comuns que podiam vê-los,
porém, não podiam entrar em contato com eles.
Essas pessoas chamam, os TOKÓN, de raça dos espíritos MARÉT.
Eles se parecem com os índios comuns, vivem no céu
em fartura e riqueza. Possuem tudo que os brasileiros têm,
sem nunca terem precisado trabalhar. Para os MARÉT não há
doença. Por isso, são muito bondosos para os Krenak.
Nunca ficam zangados com eles.
Nesse tempo, quando a terra era coberta de matas, os Krenak
não tinham necessidade de trabalhar, os MARÉT, seus prote-
tores, lhe davam tudo de que necessitavam.
Quando precisavam de alguma coisa, o índio recorria aos
MARÉT, e logo eles mandavam o que pedia. Nas caçadas, tam-
bém não era preciso muito esforço, faziam-se os pedidos nos
rituais, e as caças apareciam com facilidade. Os MARÉT tam-
bém faziam roçados e davam força para as plantas.
A CHEGADA DOS INVASORES
Por volta de 1500, começou a história triste,
quando navegadores europeus chegaram neste paraíso.
E esta gente estranha, vejam só tamanho engano:
a tantas nações tão diversas, deram nome único — "índios"
E a terra em equilíbrio, nunca mais foi o que era,
pois a gente que chegou não tinha intenção sincera,
mostrava-se amiga e com presentes adulava
para que os índios retribuíssem com as riquezas da terra.
E os estrangeiros chegaram, passando alí a reinar...
E o solo da terra fértil, marcaram com sua cruz
e rezaram sua missa pra donos da terra ficar.!
E dali foram levando Pau Brasil, ouro, animais,
indiferentes ao chorar da terra a lamentar...
Estes invasores precisavam de gente prá trabalhar
e não tiveram vergonha de os índios escravizar.
E assim, fizeram com os índios, também
o que fizeram com os negros. Se os escravos
queriam parar, com chicote faziam continuar...
E tiveram as missões religiosas que queriam amansar
com suas rezas, com seus cantos, fazer os índios trabalhar.
Mas os índios revoltados, resolveram se organizar,
se reuniram também aos negros com coragem foram guerrear.
Mas os brancos tinham arma de fogo e prendiam mulheres,
crianças, botavam fogo na aldeia.
Com covarde, não dá pra lutar.
DESENHO. MARCOS KRENAK.
COMO SURGIU O NOME KRENAK
Krenak é o nome tradicional que usamos, antes de cantar.
Significa cabeça na terra. Colocamos a cabeça sobre a terra por um
minuto, em seguida, dançamos.
Há muitos anos atrás, quando eu não existia, os mais velhos
contaram uma história para minha mãe, e minha mãe me contou.
Havia um casal de índios passando por um caminho, de
repente, a índia passou mal, para dar à luz uma criança. O índio
colocou a índia sobre o barranco deitada e saiu correndo desesperado,
pedindo ajuda aos "KRAÍ". Ele não sabia falar português.
Nesta época, havia uma porção de homens trabalhando na
companhia, construindo a estrada de ferro de Vitória a Minas, eles
vieram correndo e começaram a fazer o parto. De repente a
criança sai e bate a cabeça na terra. O índio desesperado grita:
— AGRÃNA TONDONE KREN NO NÁK! (O bebê bateu a
cabeça na terra!)
O homem mandou o índio repetir o que ele tinha falado, o
índio repete:
— AGRÃNA TONDONE KRÊN NO NÁK! (O bebê bateu a
cabeça na terra!)
O homem juntou as duas palavras e disse:
— Esta estação terá o nome Krenak.
E ficou para sempre o nome Krenak. Esta história foi contada
para os mais velhos, dos mais velhos contada para os mais novos,
dos mais novos contada para os mais jovens.
Assim ela é passada, por cada geração.
Esta história nunca morrerá.
História escrita por Marcos Krenak
JONKIÓN
DEUS DOS ÍNDIOS KRENAK
JONKIÓN sumiu, foi roubado. A gente não sabe onde está,
faz muito tempo, roubaram o nosso Deus! Por ele, nós tínhamos
uma religião forte, o nosso canto e tradição. Ele nos protegia
através dos MARÉT bons.
Aos poucos, nós vamos sobrevivendo e resistindo ao
sofrimento, porque nós temos um sangue forte.
Estamos com ele na mente, na cabeça. Sei que ele não está
aqui no meio do nosso povo, mas está longe, olhando por nós todos.
Sou índio Krenak
NHIM BURÚM KRENAK
Tenho orgulho de viver
NHIM CÓM MUIM CANJAM QUÁM
Sou tronco de uma árvore
THÉ THÍON ARERRÉ
Sou forte pra valer
THÉ ARERRÉ PRÃMO
COMO ERA A VIDA KRENAK
E COMO OS KRENAK COMEÇARAM
A ENXERGAR
Há milhares de anos atrás, surgiu no mundo um homem
sozinho. Caminhando de um lado para o outro, por muito tempo,
esse homem sozinho olhava sua sombra. Pensava se não existia
outra pessoa igual a ele. Por outros lugares, uma mulher andava
também sozinha, se via nas águas e pensava: será que não tem
ninguém igual a mim também?
Passaram a andar, a procurar alguém igual a eles. E assim
foi por muito tempo, até que um dia, depois de muitos anos
andando se encontraram, ficaram assustados, mas depois de tanto
tempo, ficaram juntos. E desse encontro tiveram quatro filhos.
BURÚM CRÃNA NÕ MATO MOGUNDÁ
BURÚM CRÃNA E'NHOC NO MATO KÃNTA
BURÚM CRÃNA UYRRÁ CRÃNA NE E'NHÕC, NHÁ
E'NHÕC, NHÁ NÕ MATO UYÁ AGRÃNA KINO
DHIAK HÉ FATA'ÕN, TEMBRANA DHIAK AGRÃNA NE,
FATA'ON UYRRA MOGUNDA KRAÍ, BURÚM APEC
UM BYP TE'KUEME BYP, TE'KUEME BYP AGRÃNA
BURÚM E' KUEME PERY NYN NHILMI GEK,
KRAÍ YARRA NE TAKRUK NÕ MATO NHÕC
DIÕNDATO, DIÕNDATO KRAÍ KRÃNA,
KRAÍ YARRA BURÚM, BURÚM KRÃNA KRAÍ
UYARRÁ PYPY NÚN MÓ NYN
DIÕNDATO KRAÍ CRÃNA DHIEME NHE KÃ,
NHE KÃ Ã'NHOC BÃNTA
RIÕNRA TERAN A'MANGUTO RUMUN
DIÕNDATO KRAÍ CRÃNA IYORÉ THÚ MU
KRAÍ PYPY, KRAÍ HÉ DHIOMDHIONE HÉ NHÕC
RIÕNRÁ DIÕNDATO PYPY RIÕNRÁ
THUPU NÃN RIÕNRÁ CRUC KATC
THUPU KRAÍ DIÕNDATO, KRAÍ MÉN HÉ
NUN MÉN HENURANANTA, DIUMDHIONO
PENO NO RATA, RATA NYN RUMU RÃ
O DESAPARECIMENTO DE ÍNDIO
EM CUPARAQUE
Antigamente, quando tinha muita mata, os índios saíam e
faziam acampamento. Faziam a sua caçada e depois voltavam, e
faltava um deles.
E todas as vezes que os índios caçavam, tinha que faltar um
deles. Aí o capitão YOKION descobriu que estava sumindo índio, e
falou para o chefe branco Xi Cristino.
Aí o meu avô, que é o pai da minha mãe, juntamente com
Zé Amato que é Krenak e hoje mora em São Paulo, em Vanuíre,
foram para Aimorés, porque na época, Resplendor era um
patrimônio e não tinha como comunicar-se com as autoridades.
Chegando em Aimorés, eles falaram com o sargento que estava
sumindo índio. Aí o sargento mandou a polícia para Cuparaque.
Chegando lá, o cacique com mais três índios mostraram a
mata, aí a polícia olhou e saiu perguntando a cada morador da
redondeza se tinha gente viajando, aí eles respondiam que não.
Chegando na última casa, eles respondiam a mesma coisa, que não
tinha ninguém viajando. Aí eles continuaram a andar. Chegando na
beirada da mata, eles viram uma roça e uma mulher.
Aí perguntaram para a mulher, aonde estava o marido dela.
Ela disse que ele estava viajando.
Eles voltaram e esconderam, ficaram vigiando a mulher até
tarde. Finalmente, ela saiu com um caldeirão de comida e foi
andando pela mata, até uma loca de pedra. Os policiais a seguiram,
e viram o marido dela. Eles o esperaram terminar de comer e o
prenderam. Eles descobriram um chucho na loca. Era o instrumento
que ele matava os índios desaparecidos. A polícia o levou.
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com este homem, se ele
está vivo ou morto.
História contada por Maria Sônia Krenak
Traduzida e escrita por Marcos Krenak
COINHOCO RIM HÜM NÃGRÃM BURÚM NUMAT KANTÃM
KRAÍ KÃM RIM HŨM NÃM BURÚM TÉMŨM JÃP TAKRUK
MAM HÍM MRÃNO KRAÍ CUKRÍM RIM HŨM BURÚM
MŨM JÃME RIM HŨM JÃME TAKRUK KANTÃM CUJUM
NUTIK BURÚM GRÃM NÃM GRÃM TONDÕM PUCHÁP
TÃUM TAKRUK MAM CATAM HÃMDIUK ÊRROK RUMEI
UE HÃMO CUTO TAKRUK HUPOK CATAM HACÓ TAKRUK
MÁ KATÃM NÃGRAM RUME RIM HÜM BURÚM ÊK TAKRUK
PÍ HÜM NAGRÃM NÉRI HÃMDIUK RUME UE TAKRUK MÁ
CATAM CÓM QUA, QUA HIÊP TAÍTÜM TÕM KRAÍ TÊ
RUÃN RUÃN TÍNÃT TAKRUK MÁ CATAM BURÚM
CRÃM TAKRUK MÁ CATAM RUOK QUA QUA DIEMÕ PÃUI
QUA QUA TARRA BURÚM RUME TÁHÜM QUA QUA CATAM
HÍEP CATAM CÓM TUÃM TIÕBEK KÃM KÃM Ê BRUM TÁHUM
TIÕBEK KÃM KÃM BOK JÊK TIM JEK BACANA JEK GUNDHIUM
JÊK CATAM NANGRÃM ANÜRA QUA QUA TÁRRÃ CÕM JEK
TÁHÜM BURÚM CRÃM TIODAT CUQUIN TARÜKRAI MÁ
CATAM RUOK RÍUM BURÚM Ê HÕM TÁHÜM MÜM KRAÍ Ê HÕM
TÊNÍM BURÚM PUTHIK NÍM RIM HÜM MINHARAT CATAM
BURÚM NUMAT MÜM MÜM MÜM TÁHUM TEMBRÃM AMBÍM
NIN KRAÍ Ê HÕM TÁHUM MINHA RAT CATAM DALLO
CRISTINO MÜM GUIÁK BURÚM GRÃM TIÕM MÜM ÊH
CRÃM NIMPARÉM
O TEMPO EM QUE OS ÍNDIOS
ESCONDIAM NA LOCA OE PEDRA
Antigamente, havia uma pedra que tinha um papagaio
encantado, que três índios descobriram. Esses índios eram o
capitão, o cacique e o pajé. Eles estavam procurando alimentos,
quando viram uma pedra alta, e foram lá vê-la.
Chegando lá, tinha um cipó dependurado na pedra. Eles
subiram pelo cipó e a pedra ficou "baixa". Então, eles alcançaram
a loca. Eles foram entrando, lá era muito grande, e no canto havia
um papagaio. Eles voltaram e chegaram no acampamento deles e
falaram para os seus parentes que eles haviam encontrado um local
mais seguro, que dava para esconder todo o povo do ataque dos
brancos.
Todos os índios foram para a loca de pedra. Nesta época,
não havia território indígena demarcado.
O local onde é hoje a aldeia Krenak, era antigamente
denominado MINHÃN RAT. O governo entrou por MINHÃN
RAT e nomeou "Dallo" Cristino para reunir os índios da região
neste local. Desde menino, "Dallo" Cristino sabia falar Krenak.
Ele saiu pela mata procurando os índios. Neste momento, os
índios já estavam fugindo dos brancos. Ele saiu pela mata e
encontrou um dos índios e perguntou onde estavam os outros. O
índio não disse nada, foi então até o capitão e contou que um
KRAI estava procurando o local onde os índios se escondiam. O
capitão mandou o índio conversar com o "Dallo" Cristino e mandá-
lo ir até o esconderijo para conversarem. Quando ele chegasse
perto da pedra, se ele tivesse com a polícia, era para ele assoviar;
caso o chefe estivesse sozinho, era para ele chamar na
língua indígena.
Como só foram o "Dallo" Cristino e o índio, o capitão foi ao
seu encontro. Aí o chefe falou para o capitão que o governo man-
dou demarcar a terra, que era para os índios ficarem sossegados.
Fez uma reunião com os índios de Panças e de Cuparaque para
todos irem para MINHÃN RAT. Os índios também queriam ir para
lá. Então o governo demarcou a terra que hoje se chama Krenak.
Depois de um tempo, "Dallo" Cristino queria conhecer o antigo
esconderijo dos índios. Eles contaram que se encontrava no local
da pedra e que lá tinha um papagaio. Lá também tinha ossos de
peixe, tatu, de muitas caças que provavelmente serviram de ali-
mento para o papagaio.
O capitão morreu e o seu irmão assumiu o seu lugar. "Dallo"
Cristino queria buscar o papagaio. Pegou uma gaiola e chamou
dois índios, e seguiram, mas o irmão do capitão disse que eles iam
perder a viagem. Mesmo assim, eles foram. Chegando lá, a loca da
pedra tinha "crescido". Aí o índio falou:
— TAKRUK! (A pedra cresceu!)
« KUPARAK UYÁ NA ALDEIA CONE RANRÁ
CONE INDHIAK UYÁ NA ALDEIA, KRAÍ CRANÃ
BURÚM CRÃNA PANDA ÂAMÃN ÕN THIN PÚCRIK
ABÃN BÚRUM CRÃNA KÕN THÍN ÔN BURÚM
CRÃNA PÃN CÚN RÚ'PRYNE BU RU'PRYNE
AKÃNTA ÕN THIEK KÃNTA, THIEK KÃNTA
KRAÍ CRÃNA NÉ CAPITÃO MUNRÁ KIYÁ PANDA
MUNRÁ RU'PRYNE BUMPY JOP UYÉ KUMO
CAPITÃO MUNRÁ, MUNRÁ, MUNRÁ, MUNRÁ
KIYADÃNDA MUNRÁ RU'PRYNE BUMPY JOP
UYÉ KRAÍ RYMPÁ RU'PRYNE PÚN JOP THIÁ
MUNRÁ KIYADÃNDA MUNRÁ MUNRÁ KIYADÃNDA
RU'PRYNE JOP UYÉ AGRÃNA TONDONE KATK
BURÚM PÃNDÃ THU'MURA KRAÍ THU'MUN
PORTÃO UYAPOK NÚN PHÓ KRAÍ CRÃNA
BURÚM KRÃNA PÃ RU'PRYNE BUM JOP
BURÚM KRÃNA RU'PRYNE BU JOP, JOP NÔ
RÕU BURÚM KRÃNA PHÃMPA KÚMU ÚMPU
BÃNTHA KRAÍ KIEMÁ BRATHA KRAÍ CRÃNA
NHAUYITO BÃN, BÃN BURÚM BURÚM UYE PÚN
BURÚM ATHOL BURÚM YPIM NHIN THIÕNE
KÍNTOL MÁ BURÚM UYÃN ÃMBIMY BURÚM
ABÃN BURÚM FAZENDO KÃNTÁ THIEK KÃNTÁ
BURÚM HÉ KUEME INHAUITO BURÚM
TONDONE BURÚM CAPITÃO ABÃNKA
IYÁNIM BÃNTHA BURÚM CRÃNA PÃNDÃ
AROMA KRAÍ CRÃNA, KRAÍ CRÃNA
BURÚM BÃNKA INHAUITO BURÚM PRÃNA
PÃNDÃ NO BÃNKA BURÚM GÃMA DHIOKU
MUNDEPY NHIKÃN ONY AGRÃNA TONDONE
KINO INHÉPA NO KIEME, KIEME KÃNTÁ
NHÕC MÕ BÃN DHIOC KUYÁN AGRÃNA
KUBÃNA NYN ÚM KRENAK KÃNTÁ.
O MASSACRE
NO PATRIMÔNIO DO ÊME
Longe da aldeia tinha um acampamento de brancos que
os índios freqüentavam. Os homens brancos os convidavam
para tomar garapa, matavam boi e os índios comiam carne. Ali,
os índios festejavam com alegria, cantavam e dançavam, até o
dia amanhecer.
Naquela época, o índio era bravo e os brancos, para
amansá-los, tentavam de tudo. Os índios não sabiam o risco
que estavam correndo. Eram inocentes e os homens brancos
trabalharam durante cinco meses para fazer um cercado para
pegar os índios. Em seis meses, o branco atacou os índios,
matando a tiros. Alguns índios tentaram correr, mas ficaram
presos dentro do cercado.
As mulheres grávidas e não grávidas, eles amarravam
no toco e depois cortavam com facão, mas alguns meninos
correram e escaparam do massacre.
Morreram muitos índios, principalmente o capitão que
os comandava.
Música Krenak
NYN PARE NON TARÚ RÚNDHIO, RÚNDHIO
NON TARÚ CÃNDE, CÃNDE
NÕN TARÚ RÚNDHIO, RÚNDHIO RERRÉ
ÕN NÊN GÃMA
NYN PARE NON TARÚ RÚNDHIO, RÚNDHIO
NON TARÚ CÃNDE, CÃNDE
NON TARÚ RÚNDHIO, RÚNDHIO RERRÉ
ÕN NÊN GAMA
NYN PARE NON TARÚ RÚNDHIO, RÚNDHIO
NÕN TARÚ CÃNDE, CÃNDE
NÕN TARÚ RÚNDHIO, RÚNDHIO RERRÉ
ÕN NÊN GAMA
TARÚ ABÃN RERRÉ
RAKARY, RUAN
Vem o céu vamos dançar
vamos dançar balanceio
vamos dançar direito
este aqui.
Céu, vamos dançar direito
vira, roda.
KRAÍ BATATA EMBIM, KRAÍ BATATA IMBIK
KRAÍ BURÚM BUKAKA, THLEK TUPIK
PANA BURÚM BUKAKA,
BURÚM TÃNY, MUN BURÚM MURY
THIEK CAKA TÃN, BATHA
BURÚM MURY, BURÚM KUE'TUMPUM
BURÚM ABÃNKA, NO BÃNKA BATHA
NAK UYÍN, BURÚM KÃNTA, BURÚM KÚEME
THINRROU NAK UYÍM, BURÚM KÚEME
THINRROU NAK UYÍM, BURÚM ANMA
PANDA, KRAÍ BÃN, BURÚM PANDA
ABÃNKA, BURÚM KÃNTA TETHIÕM
BURÚM TETHIÕM GAMA NHENHOC
KÃNTA, RYN BURÚM KÃNTA NHOC
BURÚM PANDA MONMOU
RYNRYN E'THIO MONMOU
PANDA E'KÚEME
KÚEME ARROUM, KRAÍ CRÃNA
KRAÍ CRÃNA KI Ẽ MA ARROUM
PUTHIK, PUTHIK, AKO E'THION
KRAÍ CRÃNA KÃNTA PYMO
AMÃNGUTO.
A MORTE DOS
ÍNDIOS NO BATATAL
Quando havia muitos índios, os brancos queriam matá-los.
Os brancos fizeram uma cerca de arame e plantaram muita
batata. Quando a batata estava boa, eles foram lá na aldeia e
chamaram os índios, dizendo que a batata estava na hora de arrancar.
Pegaram os índios e levaram para o batatal, alí eles já tinham
cercado toda área. Armaram um cerco quando os índios entraram e
começaram a arrancar batata. Entrou uma turma de homens brancos
armados, atirando. Mataram muitos índios.
Agora tem estes poucos índios que sobreviveram, que somos
nós, muitos se espalharam, fugiram. Foram morar com pessoas
diferentes que não eram índios, mas, longe daquele lugar, que houve
muita morte, com muita tristeza e sentimento. Uns poucos foram
morrendo. Os que eram pequenos, cresceram, foram vivendo o seu
dia-a-dia tentando não se lembrar daquele horrível acontecimento.
O TEMPO QUE DEUS ANDAVA
NO MUNDO
Quando Deus andava no mundo, para ver quem era bom e
quem era ruim, ele encontrou no meio da mata, uma aldeia e ficou
prá saber se os índios eram bons ou ruins. Então Deus virou taman-
duá que era manso, e eles o levaram pra casa. O tamanduá ficou lá.
Os índios falaram para o tamanduá olhar os meninos. O tamanduá
ficava e os índios iam caçar, pescar, e pegar raiz nativa, que se
chama Caratinga. Eles traziam, para o tamanduá, formigas. O
tamanduá olhava para as formigas e ficava quieto, os índios saíam
de novo. Ficavam só os meninos e o tamanduá. Só que o tamanduá
falou, na língua, que estava com fome. Os meninos ficaram assus-
tados de ver o tamanduá falar. Aí os meninos perguntaram:
— Você fala, tamanduá?— O tamanduá respondeu:
— Eu falo, mas não é pra vocês falarem com os outros não.
Quando eles chegarem, vocês falam que eu comi as formigas.
Eles chegaram com mais formigas para o tamanduá, o tamanduá
falou para os meninos:
— Eu quero mel, Caratinga e beiju.
Os meninos responderam ao tamanduá:
— Você não é gente igual a nós, você é tamanduá. Tem que comer
formigas.
O tamanduá falou:
— Eu não sou tamanduá.
Quando os índios iam dormir, os meninos pegavam um gomo de
bambu com mel e água, e caçavam Caratinga para o tamanduá.
Toda vez quando os índios chegavam com caça, os meninos
davam para o tamanduá, até que Deus foi embora. Aí Deus falou
para os meninos:
— Aqui tem gente boa e gente ruim.
Os meninos falaram que os outros índios não sabiam que ele
era Deus, mas sim tamanduá.
Aí Deus falou para os meninos:
— Não vai faltar nada para vocês, vocês vão ser índios bons e
sabidos. Eu vou ajudar vocês em tudo que vocês precisarem,
eu ajudo. E Deus foi embora.
ALDEIA KRENAK
Antigamente, meu pai contava que lá para o lado do Panças,
quando tudo era mata, os índios não conheciam branco.
Os índios estavam caminhando pela mata, quando um dos
índios disse que vieram os brancos — era o capitão da polícia e o
chefe do posto. Estavam caçando índios para matar.
Disseram que eles estavam medindo terra para índio. Vieram
para abrir mata para fazer casas para os índios. Eles disseram para
os índios, que iam protegê-los, que tinham dinheiro e que tinham
que fazer uma roça grande para ensiná-los a trabalhar.
Quando esses homems foram embora, os brancos
começaram a matar os índios e invadir as suas roças. Os índios,
para se defenderem, começam a matar os brancos.
O chefe de Posto voltou, e disse que era governo, e que os
índios não podiam matar branco. Por sua vez, os brancos também
não podiam matar índio.
Os índios pegaram o chefe e o colocaram dentro de uma casa,
dando uma surra nele, e disseram que ele era um matador de índios.
O Doutor Silva Lobo o soltou, e falou:
— Vocês vieram aqui para abrir a mata, para fazer casa para
o branco, para matar os índios. Você vai dar conta dos índios que
morreram!
Deram outra "coça" nele. O homem fugiu, desaparecendo.
Os índios disseram:
— O dia que voltar, te pegamos!
História contada pelo Cacique José Alfredo em 1996.
A MORTE DO CAPITÃO KRENAK
CAPITÃO MUIM OCUPA SEU LUGAR
Tudo parece sempre igual, a cada lua que passa. Novo
mesmo é o povo Krenak, se juntando, afirmando suas raízes.
Por isso, os rituais são sempre renovados e se prepara sempre
para o começo de uma nova festa!
Com sabedoria, o Capitão Krenak acompanhava seu povo.
Ele se deitava cedo e, à noite, os espíritos contavam-lhe sobre as
coisas ruins que aconteceriam nas aldeias. E sabiamente ele as
afastava. Dia seguinte, ele reunia o seu povo. Ele dizia:
— Vem muita doença ruim para vocês! Fui avisado pelos
MARÉT.
Mas, não tenham medo. Eu ja afastei tudo!
A aldeia inteira se alegrava e dançava os Krenak e junto do
velho Pajé acendiam fogueira para aquecê-lo, e durante horas
todos o acariciavam, passando a mão com ternura sobre seus
cabelos...Traziam-lhe carne assada para agradecer-lhe!
ERÊ-HÉ! ERÊ-HÉ!
E o tempo passou, sentimos o fim de suas energias.
Krenak chamou seu povo:
— Eu vou morrer, mas não quero que vocês me enterrem.
Faça um jirau e me coloque em cima dele. E acendam uma fogueira
para mim. Quero que vocês continuem gostando de mim. Se
lembrando de mim. Passando a mão pelo meu cabelo. Que eu
sempre vou olhar por vocês!
Veio outra lua e a alma principal do velho Krenak deixou
seu corpo. Todos se juntaram no seu kieme e acompanham
suas seis esposas no choro ritual. As mulheres cortaram o cabelo
em sinal de luto. Seu corpo foi colocado sobre um jirau, conforme
seu desejo, sentado olhando para a frente, para pedra do Krenak.
Acenderam a fogueira e fizeram roças! E dias e noites os Krenak
rezavam, mantendo o fogo aceso, acariciando-o eternamente,
conversando com ele. Sua carne foi secando, secando e seu rosto
murchou. Na face apenas os bonitos olhos continuavam vivos. Seu
corpo não se desfez! Para o povo Krenak, ele continua vivo,
mantendo sua promessa de olhar por seu povo. Daí sua força e
resistência.
Como é costume, seu filho Muim o substituiu. Sábia e
inteligentemente ele fora preparado para ocupar o lugar do velho
pajé. Muim passou a colocar os enfeites nos jovens. A comandar os
guerreiros na defesa da terra, a proteger o povo.
E passará para seus descendentes!
A CONTRUÇÂO DA ESTRADA DE FERRO
VITÓRIA-MINAS VALORIZOU AS TERRAS
E PROVOCOU MAIS INVASÕES
Na década de 30, a companhia do Vale Rio Doce
executa o projeto de construção da EFVM. A vale cortou o
território Krenak em 1905 sob protesto dos Burúm. Estes
nunca foram indenizados pelos prejuízos. A companhia
trouxe as fazendas de café, a exploração de minérios, a
poluição sonora para a região.
Várias vezes, à sua maneira, os Burúm reagiram,
bloqueando a estrada, colocando pedras e paus nas trilhas
para impedir a passagem.
A Companhia Vale do Rio Doce fez muitas promesas.
Durante muito tempo, os Burúm acreditaram que eles
poderiam usar a ferrovia sem pagar passagem...
O trem hoje passa milhares de vezes, dia e noite,
diante da aldeia Krenak.
Vários morreram ali atropelados. O último a morrer
foi Humberto, em 1984, quando voltava de um congresso
indígena realizado em B.H.
AS RETIRADAS
E OS RETORNOS DOS KRENAK
Nós fomos retirados do território Krenak em 1957 para a
aldeia Maxakali. Nesta época, eu estava com doze anos de idade.
Quando eles nos tiraram daqui, foi assim:
Eles jogaram duas bombas na casa do chefe que se chamava
Américo, quando ele estava para Resplendor. Aí veio o Capitão
Pinheiro com a polícia florestal, dizendo que ia descobrir quem
tinha jogado as bombas na casa do chefe. Eles pegaram os índios,
colocaram todos na balsa e, depois, no caminhão. Levou para a
cidade de Maxacali, quando chegou lá, eles nos despejaram e
voltaram. Nós ficamos três dias lá na cidade, depois veio o senhor
Juquinha, funcionário da FUNAI, e nos levou para a aldeia dos
Maxacali. Nos colocou numa casa grande de engenho de cana, e
ficamos ali algum tempo. Depois fomos morar numa casa, onde o
meu tio comprou ali dentro da aldeia. Mas meu pai desgostou,
porque tudo que nós plantávamos, os índios Maxacali comiam. Aí
nós nos mudamos para a fazenda, do Tarcílio Bahio. Onde meu pai
plantou um arrozal à meia, com ele. Quando estava quase "cachian-
do," ele pegou tudo e trocou numa tarrafa e num pouco de farinha,
e viemos para a beira do Rio Pampãm. Nós pescávamos e vendíamos
num lugar que se chamava São Pedro. Com o dinheiro, nós comprá-
vamos comida. Depois viemos para Carlos Chagas e fazíamos a
mesma coisa, depois viemos para Teófilo Otoni. Dali viemos para o
Suassuí. Depois, seguimos de viagem até Governador Valadares.
Ficamos na casa do tio Deco, nós não tínhamos roupas. Depois
fomos para a Ilha perto de Conselheiro Pena.
Depois viemos para o território Krenak, onde estava sendo vigiado
pelo Zico Bragança. Ele nos deixou ficar, mas, trabalhando à meia
com ele. Com pouco tempo, ele morreu. Ficou o Eraldo no lugar
dele, quando conseguimos trabalhar para nós mesmos. Veio o
Capitão Pinheiro para fazer aldeia, dizendo que era para prender
todos os índios de todos os lugares. Nós ficamos quatro anos,
depois nós ganhamos a terra na justiça, só que a gente não sabia, e
fomos obrigados a sair. Fomos para a Fazenda Guarani (município
de Carmésia). Alguns índios não queriam sair para outro lugar.
Eles foram obrigados a sair, amarrados e tirados daqui. Nós
moramos sete anos lá. Descobrimos que nós tínhamos ganhado a
terra, fizemos reunião durante um ano, planejando para vir embo-
ra para a terra Krenak. Somente duas famílias nos acompanharam:
a da Laurita e a da Eva Dora. Quando voltamos, éramos vinte pes-
soas, depois foram chegando mais Krenak, agora nós somos noven-
ta pessoas. Espero que sempre cheguem mais. E também espero
que agora, desta vez, nós ganhemos mesmo na justiça, de verdade,
a terra.
Esta história foi contada pelo Cacique José Alfredo em 1996.
TERRA KRENAK
Este mapa apresenta a área total do território Krenak, situada na
margem esquerda do Rio Doce, conforme o decreto de doação de
terras de 1920. A área que está delimitada representa a região que
os índios ocupavam até pouco tempo. O restante da área indígena
era ocupada pelos posseiros.
A FUNAI discutiu judicialmente a legitimidade da ocupação da área
indígena pelos brancos.
A FUNAI entrou na justiça pedindo anulação dos títulos de terras
doados aos fazendeiros pela Ruralminas.
Retornando do congresso indígena, os Krenak ocuparam uma das
fazendas tituladas pela Ruralminas. Por decisão do juiz da região,
eles foram despejados. Mas um juiz de Belo Horizonte, vendo que
a terra é da União, e reconhecidos os direitos dos Krenak, levou a
causa a ser julgada na capital do estado.
E assim os brancos foram reintegrados e receberam as fazendas de
volta.
Os Krenak continuaram ampliando seu sonho. Viajaram para as
áreas onde estão os seus parentes; tentando o seu retorno à terra.
Conseguiram finalmente a reintegração de posse do seu território.
Atualmente, estão reocupando as suas terras.
O SONHO CONTINUA
O exílio não acabou para muitos Krenak! Mas os filhos
dispersos estão se juntando sôbre a terra Mãe, às margens
sagradas do Watu.
Queremos sonhar livremente, sem cercas, sem solitárias,
sem policiais, descer e subir de bote pelo Watu, recolhendo os
peixes das armadilhas, sem medo de tocaias. Suas águas um dia
estarão limpas, porque os brasileiros também despertarão para
proteger nossa fonte comum de vida!
Hoje, os peixes se reproduzem. E sobre nossas cabeças, o
sol, a lua e as estrelas continuam fazendo seu caminho, dia e
noite, sempre! As crianças e adultos procuram reaprender nossa
linguagem e religião. E todos aqueles que morreram nesse
tempo de agonia e luta, sonham também descansar em paz.
Um dia, contaremos para nossos parentes, para os
brasileiros, para outros povos, porque lutamos tanto para
realizar este sonho!
Muitos brasileiros nos procurarão para saber onde está
nossa força.
E nós lhes explicaremos:
— Nós somos como o capinzinho que amarelou de tanto
ficar debaixo da pedra e agora se levanta. A vida não acabou
no passado de sofrimento. Vamos ter força no futuro, porque
lutamos, não nos entregamos, geração por geração. Muitos dos
que fizeram nosso povo sofrer estão vivos! Esperamos que
respeitem nosso jeito de viver. Somos cidadãos do mesmo país!
NÓS, PROFESSORES KRENAK, ESCREVEMOS ESTE LIVRO JUNTAMENTE
COM OS VELHOS BURÚM.
ANTIGAMENTE, FOMOS PROIBIDOS DE FALAR A NOSSA LÍNGUA
MATERNA. AOS POUCOS, ESTAMOS INICIANDO O SEU REGISTRO ESCRITO.
EIS AQUÍ ALGUMAS PALAVRAS E FRASES ESCRITAS EM KRENAK.
DESEJAMOS QUE VOCÊS GOSTEM E APRENDAM. NÓS VAMOS GOSTAR
MUITO DE SABER QUE VOCÊS APRENDERAM UM POUCO COM O NOSSO POVO.
AMBIM - Noite
ANGUI - Agulha
ÃNGRI - Cantar
AMANGÜTO - Comer
ARERRÊ - Bonito
ARAKYU - Porco doméstico
ÂM ÃM - Galinha
ÂM ÃM INGÚ - Ovo de galinha
ARERRÊ AMBIMBIM - Bom dia
ANDÚ - Andorinha
ATHIÚCO - Açúcar
AMITHIÁ - Abafado
AMAPÃ - Abanar
ÃMEREK - Abraçar
AMBÃ - Urubu
ÃMBIMO - Escuro
Mandioca
- Ele
- Perdiz
Aranha
Piolho
ÃMIGIK -
AGRÃNA
AM RAM
ANGURI
ANRAM -
AMÕN - Sanfona
AMBURÚ - Frio
ANQUI - Comida cheirosa
ARMRUNJAT - Mal-me-quer
ANGRÃNA INHAUITO - Muita gente
LGUMAS PALAVRAS
BURÚM - Índio
BURÚM INHAUITO - Muito índio
BUNTEINI - Lagosta
BRÕN - Estrada
BACANA RIM - Tico Tico
BACANA - Passarinho
BAKATÍ - Abacaxi
BOK - Peixe
BITÍM - Gato
BUTI KRAK - Casco de tartaruga
BATCHÓK - Vassoura
CÃ CÃ - Fumaça
CAUÃM - Cavalo
CÕNÉ BRAT - Abridor
CONÔ BRAT - Aberto
CONÔ ANGRACANA - Borracha de desmanchar
CONÔ PÚ ETO MIMO - Lápis de escrever
CRÃUM - Laranja
CRÕMO - Abacaxi
CONNAUÃN CONNA'KUIM - Flauta
CRENYTHA - Cocar
CHTOM - Árvore
CAPÉ IN - Pó de café
CURRÉ - Jacaré
CANO - Canoa
CUJUM - Cipó
CHTAOM - Salão
CACAK - Coco
CRUKRI - Joelho
CROT - Mamão
CÃM - Rosto
CHAPORT - Grilo
CAT ERNEK - Caneco
CHTOM EAT - Casca de pau
CAT NEK - Panela
DHIK NAN - Mulher
DHIÕN BRÉ - Você
DHIŨM DHIŨM - Gambá
DATEOM - Falar de novo
EHET ERNET - Cocota
E NÁ - Siriema
GIPET - Espelho
GAYAPA - Goiaba
GANÚT - Anu
GÕN - Cachorro
GUNDHIUM - Tatu
GRIMBÓ - Dois
GUTO - Tartaruga
GARARÃ - Calango
GATÁM - Lagartixa
GRAÃM - Cobra
GRI - Cantar
GICAM - Pai
GUÃ GUÃ - Guacho
GANÚT JIRUM - Anu-branco
GUTEKRAK - Casco de tartaruga
HA HA - Galinha
HOCOMÃ - Sobaco
HÕM HÕM - Gavião
HANYMI - Oi!
HÚ HÚ - Calor
IRMIN KRUK - Meu filho
INJAK - Irmão
IRMAC IRMIAM - Perna grossa
IRMAC - Perna fina
IUPI - Mono
IMRÃM - Grande
INHAUITO - Muito
INHAUT - Quatro
IRMINHAM - Água
IRMINHAM JIRUM - Água branca
IRMINHAM PÓ - Chuva
INDU INDU - Lagarta
IRMAK - Asa
IARÁ JOKE - Erva de bico
IRMINHAM-CROP - Pinga
IRMINHAM-NEK - Água doce
IRMINHAM-CHAK - Água salgada
IMPIM - Grávida
IUPU - Mãe
JAMUNIK - Preguiça
JIMBIANG - Urinar
JIRUM - Branco
JAM - Semente
JUQUINIK - Pica-pau
JAKÁ - Pelado
casa de Religião
KIÊME RÉJA
KRAK - Faca
KAÃN - Testa
KITÓM - Olho
KIUPÓ - Joelho
KRÉN - Cabeça
KRENGE - Cabelo
KRENGE JIRUM - Cabelo branco
KAONKE - Sombrancelha
KIPIKI - Boca
KUAN - Barriga
KRAÍ - Homem branco
KRAÍ KRENTÓNE - Homem doido
KRAÍ INHAUITO - Muito homem branco
KROWM - Laranja
KROTÓ - Mamão
KRUK - Criança
KIEME - Casa
KUEME - Morrer
KUM - Fumo
KUZAN - Tamanduá
KINGO - Sapo
KUPARAK - Onça
KYO - Vagina
KULHINO - Chocalho
KIÊNI - Nariz
KRẼNO WETO WETO - Bem-te-vi
MAIHÕPAK - Casca
MAKIÃM - Velho
MARANDINA - Melancia
MARÉT - Espírito protetor dos Krenak
MAROTO - Arroz
MARRÕNE - Abóbora
MẼK MẼK - Baixo
MẼM - Paca
MITIRIK - Mixirica
MŨM RÃRÁ - Vai
MUM - Foi
MANGUKÃ - Pereba
NAK - Terra
NIN - Vem
NATHIA - Sala
NÃN - Menino
NOMPI - Vamos trabalhar.
NAN NIK - Batata da perna
NÃN TON DONE - Menino pequeno
NANDHIÕN - Espírito mal
NAY - Ilha
NEK - Doce
NOMIAK - Lua
NÕN - Não
NẼNMA - Bodoque
NÃM - Ele
NYM - Nem
NAMBÃM - Banco
NAMETE - Mesa
NAK NE NUK - Morador da terra
Sala de Religião
NATHIÁ RÉJA
ONO-ONO - Caburé
Õ Õ - Gavião
PÃN WÃNNA - Abelha
PAUÍM - Alto
PAUÁ - Devagar
PAPEK - Papel
PANGOTA - Forró
PANDIOCO - Coco
PEINHÃO - Feijão
PITAK - Lagoa
PRIK - Formiga
PÓ DHIÁ - Pé
PÓ KRUK ITÁ - Anel
PÓGIRUM - Mão branca
POMBA - Pato
PUN - Espingarda
PUNGO NON - Não chora
PUKRI - Boi
PITAM - Mosquito
PUK - Chorar
PÃRAK - Peito
QUITOK - Língua
QUIUIM - Dente
QUIEM HÃ - Barba
QUIERMÁ - Porta
QUICROK - Bambu
RATHICAN - Caratinga
RAPÃNRANRÁ - Abandonar
RARANRATA - Arara
REBRÁ - Lembra
RICÃNRANNO - Espírito
RIÓNO - Beija-flor
RIN BÃM - Rosto
RIN GUK - Fezes
RINNUNI - Braço
RYNUNYTHAR - Braseiro
RINHAIK - Umbigo
RINUNIK - Músculo
RIRÉM - Macaco
ROTHIRI - Você
ROK ROK - Garça
RUIM RUIM - Amendoin
RUÃM - Gritar
RICARÉ - Virar
RUÃM RUÃM - Papagaio
RUMRIMI - Cama
RYN RYN - Ariri
RAQUE KIK - Borboleta
RUMBÃM - Garantir
RUM - Banho
RUME - Dormir
RINHÉP - Sentar
RIM - Preto
RÁ - Sapucaia
RIMBONO - Capivara
RIMBONO TONDONO - Capivara pequena
TAKRUK - Pedra
TAOMEETE - Vagalume
TARIMO - Cama
TERÃ - Boa tarde
THAPOROTO - Gafanhoto
THIAKUEQUETO - Borboleta
THIÕM CACA - João Graveto
TEPÓ - Sol
TETHUM - Coração
THIUMTHIUNO - Lança
THINGURANA - Estou com fome.
TRIK - Trigo
TYR - Vou
TARU - Céu
TUPÃ - Deus
THIÁ - Tanga
TONDON - Pequeno
THÍAC - Sal
Lança
THIUMTHIUNO
UET UET - Melancia
Flecha
WUAGIK
WATI - Milho
WUAGIK - Flecha
WATU - Rio grande
WATO - Trem de ferro
WHÉNO - Vento
WATI - Milho
WUAGIK PÓK - Arco
YUPI - Morro
LCILJMAS FRASES
KRAÍ YNHAK YNHANMO - Que homem bravo !
RYNHONRA DHUM NAN - Que mulher brava !
TÍHON DÃNTO MONTÕNO - Que polícia ruim !
NÁNBOK NHOKHEKI - Vamos pescar ?
AMÃ NHA MANRANMO - Não fale muito.
BOK KRUNCO NUNCO - Que peixe muito esperto !
NÃN AM MANRANO - Vamos falar juntos ?
THEA PRANMO - Vamos namorar.
TÉ AMANGRU UẼ - Assombrar
TÉ COMNẼ INHAM - Pisar
THÉ PÚ - Eu vou chorar.
TEPÓ RULTO YN - O sol está saindo.
TEPÓ TUMURA YN - O sol está entrando.
TÉCOMNNÊ RANIMUÉ - Encomendar
BURÚM JÃKÁ - O índio está pelado.
ÃNDHICO PANDA ARERRE - Você está muito bem.
CONÔ ÃMPÃM RÃNRÃM - Largue aquela coisa.
NIN PÓ ANGÕN - Já está amanhecendo.
NON RUMEM - Vamos dormir.
NORMIANCA TUPURAIM - A lua está entrando.
NYN NHARIA - Espera lá !
NYN THÉ KROCO NUCO - Eu gosto de você.
NYN THÉ KRUNCO NUNCO - Eu estou esperto.
PE PI NUK - Eu não vi.
PÓ RINHOK - Fica quieto.
AM GÕM AM GÕM - Balancear
CONÔ RERRE - Abençoar
IRMINHAM IAPÉ - Beber água.
THÉ KIHÉMI HÃNE - Eu vou casar.
THÉ RUME NE - Eu vou dormir.
THÉ ATHIANO - Eu sonhei.
THÉ MONRON DHI - Eu vou correr.
THÉ KIŨM NÉ - Eu vou tomar banho.
THÉ GRIM NÉ - Eu vou cantar.
THÉ RUIN YN - Aborrecer
THÉ RYIN - Abalar
THÉ MÕM MÕM - Eu estou doente.
THÉ MINHA PRANMO - Eu estou com sede.
THÉ DIM GUM RANNO - Eu estou com fome.
THÉ PUM AMBANTA - Nunca mais vou chorar.
THÉ PAW HA HOM - Fale baixo comigo, tá bom ?
THÉ HÃ PUCACA RIM RIM - Eu estou chamando.
THÉ RUHANNA KIHEMO CANTAN
- Eu estou muito longe de casa.
THÉ CURMANMO PRANMO
- Eu estou com vontade de fumar cigarro.
THÉ GANDIANO YN UPÚ GANDIANO
- Eu estou muito alegre com a minha família.
IRNOM EPI - Nós vamos trabalhar.
TARU MRE - Está relampiando.
TARU TE MRE MRE - Relampiou para chover.
RU KITÓM ARERRÉ - Seus olhos estão bonitos.
RIM AMÃNGUT - Eu vou comer.
RUÃM RUÃM TCHOM CATA NHÉP
- O papagaio está no pau.
ESTA HISTÓRIA NÃO ACABA
Só mudou um pouco a cara,
ainda hoje os índios lutam,
pra preservar sua aldeia.
Muita terra é tirada,
muita vida é roubada.
Hoje os índios são poucos,
por volta de duzentos mil,
gente forte que resiste.
Com sua fé, esperança,
tentando do jeito que dá,
celebrar a sua dança,
fortalecer seus costumes,
retomar a sua herança.
Ainda é preciso ser dito que
os índios guardam um segredo:
tem força que resiste por fora,
tem força que resiste por dentro,
pois tem muita gente que pensa
que os índios estão derrotados.
Isto é um grande engano,
senão teriam acabado!
Eles crescem dia-a-dia em gente,
alegria...em vida!
Impressão e acabamento:
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