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Wilma (profa.fund.I): Eu me identifico muito com os profissionais do nível II, Fundamental II.
Porque eles têm uma visão mais ampla, mais global do aluno, da educação. Tem mais
consciência, não é? Então, eu me sinto mais próxima dos professores do fundamental II.
Clara: Como é que acontece essa aproximação?
Wilma: Como é que acontece? Nas horas do projeto. Quando a gente está trabalhando junto ali é
que eu percebo este olhar já mais preocupado com o adolescente, com o papel das drogas, da
sexualidade, da consciência de ser cidadão, de não ser levado por esse ou por aquele. Então,
como eu tenho também essa visão, aí eu me identifico mais com eles nesses momentos.
Wilma: Distante? Eu até... diria que, propositadamente, eu me distancio do pessoal do nível I.
Não de todos, mas alguns. Porque eu não agüento a mentalidade deles, entendeu? Não agüento.
É muita... Às vezes, até mesmo na JEI, os momentos deles. Metade fala-se mesmo do profissional,
do pedagógico, e tal. Mas, o resto do tempo fica trocando receitinha, fazendo não sei o quê. Isso
me irrita profundamente. Não que eu não goste, até gosto diversas vezes, às vezes, vez por outra...
Faz parte. Mas, eu penso assim: eu estou na escola para trabalhar. Estou na escola para ser uma
profissional. Então, as receitinhas, deixa para a hora do lanche, uma outra oportunidade, por
telefone, e-mail, sei lá. Mas não na hora que eu estou tratando de um assunto sério, profissional,
pedagógico, e tal. Entendeu? Então, essa coisa me irrita. História de marido, filho, avô, avó, o
que aconteceu, quem fez, quem não fez, umas brincadeiras meio... umas brincadeiras... que não
combinam muito com o meu modo de ver as coisas. Não gosto. Eu tenho um outro tipo de... Eu
gosto mais de filosofar, mesmo. Essa coisa de filosofar, eu tenho um humor mais ativo, mais
farrista. E, aqui nessa escola, as pessoas não têm muito esse humor. Então, elas se irritam, não
é? Eu que estou sempre brincando, tirando sarro, e tal. Para eles seria até um descaso de minha
parte, vai, e elas não vêem muito com bons olhos isso. E eu também não as vejo com tão bons
olhos, assim, tão mal humoradas. As pessoas que trabalham com crianças e, às vezes, tão
amargas, tão frustradas. Sabe? Então, eu me afasto delas. Não faço questão nenhuma de
trabalhar profissionalmente com elas, nem nada. Mas, na sala de aula, quando cada uma entra
na minha sala, então eu me imponho como a professora naquele momento. Troco uma fala ou
outra com elas muito amigavelmente, cordialmente, eu diria. Para não fazer, não causar um
clima ruim. Eu me esforço para ser cordial com algumas colegas. Não todas. Porque tem muitas
colegas que são superbacanas, têm uma visão um pouco mais ampla e primam pelo
profissionalismo. Eu acho que o professor perde muito por não primar pela sua parte
profissional. Ele é um profissional e, às vezes, ele... Às vezes, esquece disso.
Clara: Em que momentos?
Wilma: Porque é assim... Quando você está em um ambiente público, você está em um ambiente
de trabalho, você tem que zelar por algumas coisas. Então, por exemplo, elas, por serem assim,
aqui nessa escola, me fizeram refletir muito. Então, eu mudei muito aqui nessa escola. De livre e
espontânea pressão. Eu mudei muito, e já desejei sair daqui várias vezes por causa disso. Mas
depois eu resolvi trabalhar isso em mim, entendeu? Trabalhar isso. ‘Não, se estou lá, e isso está
pegando, tenho que aprender alguma coisa. Quais as lições que eu posso ter, na minha vida, com
elas?’
Clara: O que, por exemplo?
Wilma: Com essa limitação delas, vai. Essa limitação delas que me irrita, e que não acontece
com o nível II, entendeu? No nível II, eles são mais abertos, mais descontraídos. As pessoas que
estão bem financeiramente, falando de vida, não esnobam. Ficam na delas. Já não acontece isso
com os professores do nível I. Se eles estão bem de vida, têm dinheiro, não perdem a
oportunidade para humilhar o colega. Não humilhar frontalmente. Mas, há outras maneiras de
humilhar, sutilmente, não é? E isso é... Traz, assim, um certo mal estar nos outros. Porém... Todo
mundo fica quieto. Ninguém fala nada. Afinal de contas, a pessoa tem dinheiro, isso e aquilo.
Como se isso fosse a maior riqueza que ela tem, ou que ele tem. E não é. Mas as pessoas estão
achando que o valor financeiro é muito importante. E por exemplo, uma coisa que eu não
concordo: ela aqui é uma profissional, igualzinha a mim, ou ele aqui é um profissional,
igualzinho a mim e, se está trabalhando aqui, ele também usufrui o dinheiro que ele recebe aqui,
então, ele não tem o direito, ou ela, não tem o direito de, sutilmente, querer humilhar os seus
colegas. Entende? Então, isso é uma forma também que a gente acaba se afastando de