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mostrares como és hábil na ciência de Homero” (Íon, 542a). É essa força
proteiforme
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, esse outro saber capaz de escapar à razão, que pretendo reter
do Íon.
E, então, é o rapsodo quem provoca Sócrates quando afirma o estado de
ficar fora de si ao declamar os poemas: “com efeito, quando recito um passo
patético, os meus olhos enchem-se de lágrimas; se é assustador e terrível, os
cabelos eriçam-se-me e o coração bate-me mais depressa” (Íon, 535c). A voz
mântica das Musas, do daimonion que se apodera e fala através de sua arte,
promove uma ampliação de sua natureza pessoal: ao mesmo tempo em que,
magnetizado pelas musas, saio de mim e este vazio de mim é preenchido com
parte que há pouco não era minha e, de novo cheio de mim, sou outro, alterei-
me, metamorfoseei-me. Quantos outros posso viver? Aqui, o transe
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é muito
mais do que estar fora de si – é o puro devir
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de um perder-se daquilo mesmo
que veio a ser, para ganhar no que o outro nunca foi, e que também de si
mesmo se perdeu, o ser que os envolve a ambos, num amplexo que ultrapassa
– e excede – a mera individuação.
Eis o grande perigo da poesia para Platão: o excesso capaz de romper
com o princípio básico de cada um seja apenas um, sempre o mesmo. O perigo
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Segundo Ferraz (1999, p.68), Proteu, figura presente na Odisséia, é uma divindade marítima
dotada do poder de se metamorfosear em todas as formas que quiser, podendo transformar-se
não apenas em animais, mas igualmente em vegetais ou em elementos como a água e o fogo,
dois dos elementos do devir e da mudança. Em La experiencia de la lectura (1996, p.76-77),
Larossa aborda o confronto mítico entre Menelau e Proteu para destacar que esta “es la historia
de la lucha por la posesión de ese saber adecuado para orientarse en el mundo acuático de la
inestabilidade, del devenir y del cambio. El mundo marino es incierto. No tiene caminos, es va-
riable, está plagado de trampas. En cualquier momento puede abrirse en una profundidad abis-
mal, sin fondo. Y al carácter metamórfico de ese mundo corresponde una inteligencia no solo
flexible, sino también metamórfica, una inteligencia que no rehuye la multiplicidad, la transforma-
ción. Por eso las divinidades marinas, al igual que el mar, también tienen el poder de la meta-
morfosis. Pero eso no significa en absoluto que Proteo sea mentiroso, alguien que finge, alguien
que disfraza su verdadera identidad. La identificación de la verdad com la identidad, la simplici-
dad, la definición, la determinación, etc., es ya platónica. Por eso Proteo puede ser también adi-
vino y, hablando en enigmas, es siempre veraz. Su poder no está en la dominación sino en la
seducción, en el encantamiento. Proteo encarna outro régimen de verdad y de poder en el que el
enigma, la adivinación, la fluidez, el encantamiento y la ambigüedad no están excluidas ”.
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Trânsito e transe estão etimologicamente ligados (trans-ire). Entrar em transe é ver-se no
trânsito, em transporte de si, em transformação (metamorfose).
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Deleuze, na Primeira Série de Paradoxos que formam sua teoria do sentido (em A Lógica do
Sentido, 1974, p.1-3), apresenta o puro devir, o ilimitado, como a matéria do simulacro. Para
Deleuze (idem, p.2), a dualidade platônica não é a do inteligível e a do sensível, da Idéia e da
matéria, das Idéias e dos corpos: “é uma dualidade mais profunda, mais secreta, oculta nos
próprios corpos sensíveis e materiais: dualidade subterrânea entre o que recebe a ação da Idéia
e o que se subtrai a esta ação. Não é a distinção do modelo e da cópia, mas a das cópias e dos
simulacros”. Deleuze (idem, p.2) observa que Platão mesmo, no Crátilo, interroga se este puro
devir não estaria numa relação muito particular com a linguagem.