
Não é desagradável para o aprendiz de
mecânica de automóvel compreender porque deve
retirar o radiador de um carro, se êste foi enviado à
oficina para reparação ou revisão geral; não ficará,
porém, satisfeito ao retirar o radiador, mudar os
pneumáticos ou reparar os freios do automóvel se
souber de antemão que seus esfôrços são inúteis,
porque ao carro faltam, por exemplo, motor, trans-
missão ou diferencial. Terá êle maior interêsse de
aprender quando verificar que seu trabalho
apresenta utilidade real e imediata. O método de se
executar operações isoladas ou de "exercícios",
apresenta os seguintes inconvenientes:
a) é difícil despertar e manter o interêsse do
aluno na execução de um trabalho de apa
rente inutilidade e que depois de con
cluído vai para o monte de sucata como
algo imprestável e sem uso. Há pouca ou
nenhuma vontade do aprendiz em construir um
objeto que êle sabe que nunca será utilizado por
ninguém;
b) adotando-se o método de exercícios sem
aplicação, é muito difícil fazer com que os
alunos realizem o trabalho visando a obtenção
dos padrões de qualidade fixados pela indústria.
É que os aprendizes não sentem a necessidade de
atingir tais padrões. Se uma junta soldada não
faz parte de uma máquina ou artigo que será
usado por outrem, e, portanto, a resistência e a
vedação da junta nunca serão testadas em
serviço, qual o incentivo para se produzir peças
dentro dos padrões requeridos? Por que tentar a
retificação de um motor de acôrdo com as folgas
especificadas se êle nunca irá funcionar?
c) o material usado no exercício é desperdiçado,
pelo menos quanto à possível utilização do
produto. Por que não executar uma peça útil,
que além de servir para a aprendizagem das
operações desejadas ainda tenha uma aplicação?
d) o método do exercício não permite que o aluno
se familiarize com as condições normais que
apresenta o trabalho em situação real. Suponha-
se, por exemplo, que num curso de fundaria ou
pintura de automóvel, os alunos aprendessem
operações isoladas utilizando pedaços de chapa.
Na vida profissional, os problemas seriam
diferentes porque surgiriam casos em que o ope-
rário teria que desamassar peças, remover graxa,
selecionar e preparar côres para retoques,
trabalhar, finalmente, em posições incômodas. É
óbvio dizer que se recebesse seu treinamento
mediante exercícios, a
adaptação ao trabalho seria difícil e demorada.
Em virtude das objeções mencionadas,
professôres progressistas procuram evitar, desde há
muito tempo, os exercícios sem utilidade,
substituindo-os por tarefas representadas por peças
ou serviços úteis ou reais. Uma tarefa real é
simplesmente uma peça industrial ou um serviço
que o aluno executa com o propósito de praticar e
conseguir eficiência nos hábitos motores que deseja
adquirir. Sendo um produto real, isto é, de
utilização normal, a tarefa apresenta todos os
problemas que o aluno irá encontrar na vida prática
quando fôr um trabalhador qualificado.
Como a peça que o aluno está executando será
utilizada, e por isso, deve atender aos padrões de
serviço ou de funcionamento, há motivos para que
os aprendizes procurem atingir os padrões
industriais de precisão e acabamento.
É possível desenvolver no aluno que executa
tal tipo de tarefa, o orgulho pelo trabalho bem feito,
o que não se poderá fazer quando se adota o
método de exercícios.
As tarefas reais ou de produção têm a
característica de despertar o interêsse do estudante.
Havendo tal interêsse, é natural haver maior
atenção e esfôrço do aluno e, conseqüentemente,
redução do tempo de aprendizagem e aumento de
sua eficiência.
A concentração da atenção implica na
diminuição do número de repetição necessário para
formar e fixar os hábitos motores referentes às
operações.
Muitos professôres considerados eficientes e
numerosas escolas industriais bem conhecidas,
confiam nas tarefas reais ou de produção,
considerando-as como meios capazes de assegurar
aos alunos a aprendizagem correspondente.
Existem, no entanto, certos perigos decorrentes do
uso dessas tarefas. O principal inconveniente é que
o professor, dominado pelo entusiasmo
proporcionado pelos aspectos utilitários do método,
dá muita ênfase à produção e aos processos
industriais de fabricação em prejuízo dos objetivos
visados pela formação profissional. Produção, com
um fim em si mesma, tende a suplantar alguns dos
princípios ou elementos da instrução, os quais,
representam no ensino industrial, os objetivos
últimos e de importância máxima.
Em certos casos, as tarefas reais são em-
pregadas ou porque se necessita delas urgentemente
ou porque são úteis, e não porque as operações
nelas envolvidas correspondam àquelas que se
deseja que o aluno aprenda.