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seus monopólios na costa Atlântica”.
Estes pontos comerciais tornaram-se armazéns de escravos, exportando milhares de
africanos para as Américas e ilhas do Caribe, sob a cumplicidade das aristocracias dos
reinados
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. Este contexto de crise em Senegambia que se manifestou tanto ao nível social,
material e espiritual, colocou em dúvida a eficiência da ideologia do poder tradicional,
sendo uma oportunidade para os ‘marabu
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’ de impor o Islã como modelo de estruturação
social: dando início a uma série de guerras santas no século 18. O objetivo principal deste
movimento de islamizacão, foi de destruir os reinados tradicionais pagãos, e substituir a
aristocracia aliada dos comerciantes de escravos. DIOUF (2001) argumenta que frente à
expansão muçulmana, a reorganização das lógicas sociais se diferenciou segundo os tipos
de sociedades. Nas sociedades hierarquizadas, a elite aristocrata, seus aliados os traficantes
de escravos e os ‘marabu’ disputam pelo controle dos recursos humanos e naturais. Em
contrapartida, as sociedades igualitárias
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se isolaram em locais inacessíveis, adaptando
suas estruturas sociais, econômicas e culturais num espírito de resistência, de irredentismo
e de etnocentrismo exacerbado. O autor persegue que tal diferenciação de respostas ao
tráfico negreiro e à expansão do islã, explica as modalidades distintas da conquista e da
pacificação colonial: o cooptação para as sociedades hierarquizadas e as rebeliões e
repressões repetidas às sociedades igualitárias.
No final do século 18, a revolução industrial modificou as prioridades dos europeus, e o
tráfico de escravos ficou negligenciado. Com a abolição da escravidão na França em 1848,
o centro da gravidade do capital passou do setor comercial para a indústria. Senegal como
outros países africanos, deixaram de fornecer mão de obra para entregar matérias primas
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Antes da ocupação européia, o atual território senegalês era dividido em reinados que eram
socialmente e politicamente estruturados. Estes reinados eram Joloff, Cayor, Baol, Walo, Siin,
Saloum. Ver a obra de Barry sobre a história do Senegal pré-colonial
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Chefes religiosos muçulmanos
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Nas sociedades igualitárias, a autoridade é relativamente difusa, ou seja, pouco centralizada. Não
existe uma estratificação social em castas. Elas se organizam segundo um modelo plural de
representações e de instituições políticas e jurídicas, e se baseiam no domínio de seu território, lugar
de inscrição de sua ideologia, de seu sistema de produção, de reprodução e de redistribuição (Diouf,
2001). Esta tendência à autonomia e liberdade individual poderia explicar porque as sociedades
igualitárias foram muitas refratárias ao islã, ao tráfico Atlântico e à colonização, que tentaram impor
novos poderes políticos.