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RITA APARECIDA OLIVEIRA MARTINS
A DEPRESSÃO MATERNA DO PÓS-PARTO: ALGUMAS
COMPREENSÕES E OUTROS NEVOEIROS
Dissertação apresentada à Banca Examinadora
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, como exigência parcial para obtenção
do título de MESTRE em Psicologia Clínica,
sob a orientação do Prof. Dr. Gilberto Safra.
SÃO PAULO
2006
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RITA APARECIDA OLIVEIRA MARTINS
A DEPRESSÃO MATERNA DO PÓS-PARTO: ALGUMAS COMPREENSÕES
E OUTROS NEVOEIROS
Banca Examinadora do Programa de Mestrado em Psicologia Clínica
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Dissertação para obtenção do Grau de Mestre
_______________________________________________
Prof. Dr. Gilberto Safra
Presidente e Orientador
__________________________________________________
Profa. Dra. Maria Valéria Pelosi Hossepian Salles Lima
Examinadora
__________________________________________________
Profa. Dra. Tânia Maria Aiello Vaisberg
Examinadora
São Paulo, / / 2006.
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À minha mãe Maria;
madrinha Olinda;
ama-de-leite Amélia;
e à Lara...
AGRADECIMENTOS
Ao longo dos quatro anos de mestrado, construímos uma história com a
participação de muitos personagens, que de várias maneiras contribuíram comigo: trocas de
conhecimento, confiança nas possibilidades, apoio, amizade e muito mais. Nesse sentido, sou
grata ao meu irmão Ivan, aos alunos e estagiários que acompanharam de perto o processo, e
aos meus amigos: Arnaldo, Verônica, Marcos, Nelson, Irene, Irma, Magali, Heloisa, Ciça,
Renata, Tales e Fabíola.
Agradeço à Vilma Helena Ferreira Milani e à Maria José de Faria Tsuchiya pela
revisão sensível e cuidadosa que realizaram do texto.
Também sou grata à banca examinadora, Profas. Dras. Maria Valéria Pelosi
Hossepian Salles Lima e Tânia Maria Aiello Vaisberg, por toda contribuição oferecida a este
trabalho, principalmente por me darem a oportunidade de compreender, profunda e
essencialmente, o valor da desconstrução para a criação.
Quanto ao meu orientador Prof. Dr. Gilberto Safra acho que não tenho recursos
suficientes para expressar a minha gratidão: ao procurar um mestrado, me surpreendi, também,
com o encontro de um Mestre: sou-lhe eternamente grata.
RESUMO
MARTINS, Rita Aparecida Oliveira. A depressão materna do pós-parto: algumas
compreensões e outros nevoeiros. 2006. 136 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) –
Pontifícia Universidade Católica, São Paulo.
As clínicas psicológica e médica têm constatado que uma parte significativa das mulheres
passa por alguma forma de depressão decorrente da maternidade. Pesquisas mostram que a
depressão puerperal afeta 10% a 15% das mulheres em geral; para 60% dessas mulheres
constitui-se como o primeiro episódio de depressão. O presente estudo pretende compreender
o psicodinamismo na depressão puerperal, sua etiologia e significação na história da mãe.
Buscamos realizar tal objetivo, através do estudo de um caso. O material clínico aqui
apresentado é oriundo de um processo de avaliação psicológica que teve continuidade com
um trabalho clínico psicanalítico. A articulação teórica se realizou com o levantamento
bibliográfico geral e com autores da psicanálise. Abordamos o diagnóstico da depressão
puerperal e sua etiologia. Discutimos sobre a participação do ambiente e das sociedades
(historicamente) nas intercorrências da maternidade, entre elas, a depressão. Também,
reconhecemos que a maneira como se constitui a história de vida de cada puérpera
influenciará sobremaneira nos desdobramentos do parto e puerpério. A maternidade reativa as
vivências da infância e, principalmente, dos primórdios da vida psíquica. A depressão
puerperal pode surgir como decorrência de falhas no desenvolvimento emocional primitivo da
puérpera, principalmente com aquelas relacionadas à vivência da posição depressiva, aos
desdobramentos do narcisismo primário e da constituição do superego, e, especialmente, à
experiência que teve no seu próprio nascimento. As pesquisas voltadas para o estudo da
depressão puerperal e da maternidade são importantes, porque podem contribuir com a prática
clínica, com os demais profissionais envolvidos com saúde mental e com as organizações que
buscam uma intervenção sobre a população em geral.
Palavras-chave: depressão materna; depressão puerperal; depressão pós-parto; saúde da
mulher; psicanálise.
ABSTRACT
MARTINS, Rita Aparecida Oliveira. The postpartum maternal depression: some
comprehensions and others fogs. 2006. 136 f. Dissertation (Masters in Clinical Psychology) –
Pontifícia Universidade Católica, São Paulo.
The psychological and medical clinics have evidenced that a significant part of the women go
through some form of depression after childbirth. Researches show that Puerperal depression
occurs in 10-15% of women in the general population; in 60% of these women it represents
the first severe form of depression. This case study intends to understand the
psychodynamism in the puerperal depression, its etiology and its significance in the mother’s
history. The clinical material presented is from a psychological evaluation process that had
continuity with a psychoanalytical clinical work. The theoretical work was based on general
bibliographical research and psychoanalysis authors. We researched about the diagnosis of the
puerperal depression and its etiology. We discussed about the environment and the societies
(historically) interference in the intercurrences of the maternity, such as depression. We also
recognized that the way each postpartum women history life constitutes would excessively
influence in the childbirth and in the puerperal. The maternity reactivates the infancy
experiences and, mainly, the primary of the psychic life. The puerperal depression can appear
as result of imperfections in the primitive emotional development of the postpartum women,
mainly with those related to the experience of the depressive position, to the primary
narcissism and the constitution of superego, and, especially, to the experience had in her birth.
The puerperal depression and maternity study are very important because it contributes with
the clinical practice, with all professionals involved with mental health, and with the
organizations that searches for general population intervention.
Key words: maternal depression; puerperal depression; postpartum depression; women’s
health; psychoanalyze.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 9
1 METODOLOGIA............................................................................................................. 21
2 O PRIMEIRO ENCONTRO COM LARA.................................................................... 30
3 DIAGNÓSTICO E ETIOLOGIA DA DEPRESSÃO PUERPERAL .......................... 34
4 RUPTURA DAS FORÇAS PROTETORAS E ASSEGURADORAS DO
AMBIENTE....................................................................................................................... 45
5 SEPARAÇÕES E PERDAS ORIUNDAS E/OU CONTÍGUAS AO
PUERPÉRIO..................................................................................................................... 60
6 MATERNIDADE: IDEAL E REALIDADE ATRAVÉS DOS TEMPOS................... 74
7 INTERJOGO DO EGO COM O IDEAL DO EGO E A AUTO-ESTIMA................. 94
8 AS TAREFAS E AS FALHAS DA MÃE........................................................................ 107
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................ 121
REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 125
APÊNDICE............................................................................................................................ 131
ANEXOS ................................................................................................................................ 134
9
INTRODUÇÃO
A depressão é um tema que vem me instigando desde longa data. Moro em
uma cidade – Franca-SP – que além de ser nacionalmente conhecida como “a capital do
calçado”, também o é por seus altos índices de suicídio.
Muitos se referem à depressão, ou às depressões, como querem alguns, como a
doença do século que acabou de findar-se – século XX. Outros rebatem tal assertiva, dizendo
que se trata apenas de uma questão estatística: proporcionalmente ao número total de
habitantes no planeta, não é possível falar em aumento da depressão, em relação a outras
épocas (séculos). No trabalho clínico que desenvolvo, tanto em uma clínica-escola, como em
consultório particular, queixas e sintomas relacionados com a depressão são cada vez mais
freqüentes e cotidianos. Birman (1999), também constata que o volume de trabalhos escritos e
publicados nas últimas décadas, que tratam deste tema, é bastante expressivo.
Várias podem ser as maneiras de olhar e compreender tais dados. Porém,
parece que o tema da depressão tem instigado e questionado tanto a psicanálise, quanto a
psiquiatria, talvez até se colocando como “o mais rico ponto de encontro e desencontro entre
esses dois campos de saber” (Peres, 1996, p. 12).
O termo depressão tem sido usado para se referir a diferentes manifestações do
psiquismo. Depressão e melancolia têm sido usados como sinônimos, mas podem também ser
abordados de maneira diferenciada. O termo melancolia tem sido, preferencialmente,
vinculado às manifestações psicóticas – de maior gravidade, portanto. Enquanto que a
depressão tem se associado às afecções de natureza neurótica. Encontramos também
referências à depressão psicótica e à depressão neurótica. Outras vezes, é referido como
10
psicose maníaco-depressiva: enquanto uma manifestação bipolar que se distingue da posição
monopolar. É, portanto, significativo o fato de que na própria terminologia observa-se
dificuldades a serem questionadas. Assim, é que
as diferentes maneiras de nominar, de definir limites, as tentativas de
compreensão dos mecanismos, dos fatores etiológicos e programas de
tratamento e cura nos dizem da dificuldade de poder responder às
fortes questões com as quais a melancolia nos interroga (Peres, 1996,
p. 13).
A manutenção deste estado de incerteza, sobreposição, abrangência e lugar
onde tudo cabe (“buraco negro”?) quanto à delimitação do conceito de depressão traz
repercussões significativas para o manejo da clínica psicanalítica.
Uma primeira questão refere-se à diferença que deve ser estabelecida entre
queixa e sintoma. Minha experiência clínica tem mostrado que muitos casos abordados como
fenômeno depressivo, referem-se a queixas de teor depressivo e não a sintomas (no sentido
psicanalítico) de depressão: é comum o paciente chegar para uma primeira entrevista dizendo
“estou com depressão...” Concordo com Coser Filho quando escreve que “A fala ‘tenho uma
depressão’ (e falas correlatas) deve ser tomada como um apelo, uma demanda, demanda que
como todas as outras deve ser suportada pelo analista e remetida ao seu justo endereçamento”
(1994, p. 50).
A primeira teorização de Freud sobre a melancolia encontra-se na
correspondência a Fliess, em 1892. Porém, foi Luto e melancolia (1917[1915]) que se tornou
um clássico sobre o tema. Neste trabalho, Freud relaciona a melancolia com o luto e a noção
de perda: o melancólico seria um “enlutado com a vida”. Tratou a melancolia como uma
neurose narcísica, na qual ocorre um conflito intrapsíquico entre as instâncias do ego e do
superego, enredando o psiquismo nas auto-recriminações e perda da auto-estima.
Mas, no campo psicanalítico, também se observa uma certa confusão na
delimitação dos conceitos de depressão e melancolia. Em Luto e melancolia (1917 [1915]),
11
Freud começa fazendo uma confissão com o intuito de advertir quanto aos cuidados
necessários no sentido de não superestimar o valor das conclusões a que chega neste trabalho:
[...] A melancolia, cuja definição varia inclusive na psiquiatria
descritiva, assume várias formas clínicas, cujo agrupamento numa
única unidade não parece ter sido estabelecido com certeza, sendo que
algumas dessas formas sugerem afecções antes somáticas do que
psicogênicas. Nosso material, independentemente de tais impressões
acessíveis a todo observador, limita-se a um pequeno número de casos
de natureza psicogênica indiscutível. (p. 275).
Moreira (2001) também observa que Freud, ao longo de sua obra, utiliza
melancolia, depressão, depressão melancólica, na maioria das vezes, como sinônimos. Esta
autora ressalta que, por dominar o alemão corrente, Freud tinha acesso aos dois vocábulos e
fazia uso de ambos em seus escritos. Depressão chega através do francês (a partir do latim) e
melancolia através dos textos gregos. Apesar do uso, muitas vezes indiscriminado dos termos,
Freud preferia o termo melancolia em suas teorizações metapsicológicas fundamentais sobre
o tema: “não se pode deixar de pensar que a ele interessava demarcar um campo propriamente
psicanalítico na psicopatologia” (p. 95).
Jackson (1985 apud Moreira, 2001) realizou um extenso estudo a respeito do
assunto e constatou que parece haver uma intencionalidade em se abandonar o termo
melancolia e utilizar depressão, que pode ter sido favorecido por Adolf Meyer.
Moreira (2001) continua, trazendo um questionamento de fundamental
importância, colocado aqui em suas próprias palavras
Talvez seja preciso perguntar-se que interesse realmente clínico pode
ter esta análise pelos meandros da história das idéias psicopatológicas.
Ora, se a melancolia é velha conhecida da humanidade, os
desenvolvimentos psiquiátricos e psicanalíticos posteriores a Freud,
debruçando-se sobre o problema, tenderam a substituir o termo
melancolia por depressão, no que resultou em se criar o que se pode
chamar de invisibilidade da melancolia. [...] Essa invisibilidade tem
resultado em fazer desaparecer traços distintivos da própria dinâmica
psíquica dessa patologia. Nesse sentido, como observa Fédida (1996),
a destrutividade e os sentimentos de culpa, que são tão evidentes na
clínica orientada pelo método psicanalítico, acabam por desempenhar
um papel menor no diagnóstico e, portanto, na elaboração das
estratégias terapêuticas (p. 96).
12
Ao percorrer as trilhas abertas pelos estudiosos da psicanálise, fui me
deparando com diversos estados mentais, dentre eles, indefinição e confusão que me mobiliza
a continuar o trajeto de busca do conhecimento. Coser Filho (1994)assim se expressa:
[...] Abordada como tema de investigação em diversos momentos de
sua obra, a melancolia é, no entanto, encarada com humildade por
Freud que perto do fim de sua vida dizia conhecer ‘quase nada’ de sua
causa e de seu mecanismo. Essa afirmação deve servir para nos alertar
da complexidade que ela representa... (p. 152).
Ao que parece, as reflexões sobre a melancolia têm se colocado como um
enígma que tem atravessado o mundo ocidental há dois mil e quinhentos anos: desde
Hipócrates, na medicina, e Aristóteles, na filosofia. E, se “o tema da depressão nos solicita
hoje, prevalece ainda, além da sensibilidade narcísica dos psicanalistas e de sua sobrevivência
em meio ao sucesso da psiquiatria e das drogas psicofarmacêuticas, a necessidade de
esclarecer a relevância da depressão para a psicanálise e sua prática” (Delouya, 2000, p. 22).
Também para mim o tema da depressão tem se colocado como um enígma a
ser decifrado.
Em um primeiro momento meus questionamentos se voltaram para a relação
existente entre depressão e pós-modernidade, haja vista que muitos autores têm se referido à
depressão como emblema psicopatológico da subjetividade contemporânea.
Birman tem trazido contribuições importantes sobre o tema. Entende que
[...] as depressões indicam o outro lado negro da cultura do
narcisismo. Elas revelam também as impossibilidades dos indivíduos
de realizarem o culto arrogante do eu. Pela depressão, a
individualidade narcísica lastima e se recrimina de não poder se alçar
ao esteticismo do eu, pois aqui a escultura do eu se rompe em
pedaços, pelas mágoas que se impõem permanentemente para as
individualidades na cultura do narcisismo (1997, p. 231).
Birman (1999) ressalta que, nesta cultura da exaltação exacerbada do eu, não
existe mais lugar para os deprimidos, com sua interiorização excessiva, marcada pelas
“cavilações suspirosas”: o estilo sofredor de ser, as infinitas lamentações pelas perdas vividas
13
e a angústia e sofrimentos, oriundos da experiência do luto, não estão mais na moda, como
ocorria com as gerações existencialistas e beat dos anos 40, 50 e 60 do século passado.
Paradoxalmente, muitos autores como Hobsbawn (2001), Agamben (2002), Bauman (1997) e
outros, mostram que vivemos um período marcado por catástrofes econômicas, sociais e
políticas, geradoras de perdas profundas e intensas em todos os âmbitos da vida humana,
confinando o homem a uma existência mais segregada e isolada: a vivência do desamparo
ganha dimensões insuportáveis.
O ser humano de hoje se debate na luta para conseguir sua própria realização, q
tendo como modelo compartilhado socialmente a fama e o sucesso – estreitamente vinculados
à capacidade de consumo. Surge, pois, o conflito pela impotência e a culpa pelo não-sucesso,
que desembocam em um processo de auto-recriminações: ponto central de um estado
depressivo. A sociedade atual coloca a liberdade de escolha e iniciativa individual como
sendo seu mais elevado valor. Porém cobra seu tributo: o peso da responsabilidade de cada
um por si próprio, incluindo seus fracassos. As oportunidades de realização não são,
obviamente, estendidas a todos os seres humanos, sendo possíveis apenas para uma minoria...
Existe, pois, uma distância entre o que é oferecido e o que é possível, entre “o que surge como
ideal e o que se corporifica como atingível” (Peres, 1999, p. 11).
Embora possamos generalizar e falar do homem contemporâneo, sabemos que
a nossa clínica é, sobretudo, uma clínica do particular. Ainda que o contexto histórico-social
participe intensamente na construção de um modo de subjetivação hegemônico, nossa atenção
se dirige para a singularidade de cada ser humano. Porém, não podemos considerar como
secundária, ou mesmo desnecessária, a compreensão aprofundada do percurso realizado pela
humanidade, principalmente no momento atual em que não somente cada singularidade se
insere, mas também, sua família e a nós mesmos, psicanalistas, envolvidos com uma clínica
que precisa a todo momento re-pensar o homem, o nosso lugar e a nossa prática.
Assim, é que, em um primeiro momento, minha atenção e indagações se
14
voltaram para a depressão na sua relação com a pós-modernidade. Porém, na medida em que
este caminho foi sendo percorrido, fui me dando conta do quão amplo e complexo o tema se
coloca para uma dissertação de mestrado: um recorte se fez necessário.
Há algum tempo tenho me interessado pelo estudo da maternidade, tanto do
ponto de vista da mãe, quanto do bebê: pela relação mãe-bebê, enfim. Tenho observado, em
minha prática clínica, que a maneira como tal relação ocorre traz repercussões fundamentais
para a constituição psíquica do ser humano. Alguns teóricos da psicanálise têm se dedicado ao
tema e reforçado a necessidade de se realizar pesquisas sobre o assunto.
O nascimento de um filho tem sido considerado, histórica e ideologicamente
falando, como um momento de realização e alegria para as mulheres. “Uma visão geral da
pintura e escultura, ao longo da história, nos mostra que a gravidez e o puerpério sempre
foram tratados com exaltação e júbilo, mesmo em diferentes culturas e épocas” (Cury, 1997b,
p. 206). Mas, com o advento da psicanálise foi possível, a diversos autores, realizar uma
compreensão profunda do assunto que permitiu abordá-lo de maneira menos estereotipada e
mais realista. As clínicas psicológica e médica (incluindo a psiquiátrica) têm constatado que
uma parte significativa das mulheres passa por alguma forma de depressão decorrente da
maternidade. Wender (2002) afirma que a depressão puerperal afeta de 10% a 15% das
mulheres em geral (havendo prevalências relatadas entre 3,5% e 33%). Para 60% destas
mulheres, constitui-se como o primeiro episódio de depressão. A prevalência para mães
adolescentes chega a 26%.
Silva et al. (1998) realizaram revisão da literatura e encontraram fortes
evidências que indicam uma vulnerabilidade da mulher a transtornos do humor no período
pós-parto: “O período puerperal aumenta o risco de ocorrência da depressão e esta condição é
preditiva de novos episódios. O conhecimento desses aspectos reveste-se de grande
importância no contexto dos fatores relacionados à saúde da mulher” (p. 107). As pesquisas
realizadas por Rocha (1991) desembocam em uma conclusão mais contundente: “o período
15
após o parto representa a etapa de maior vulnerabilidade a distúrbios psiquiátricos em toda a
vida da mulher” (p. 2).
Portanto, o tema da depressão puerperal, ou depressão pós-parto (como é
popularmente conhecida) é relevante como tema de pesquisa. Parte das mulheres afetadas pela
depressão puerperal não conseguem dar continuidade ao seu percurso profissional e
existencial: não conseguem retornar às atividades profissionais, tendem a se isolar,
aumentando o risco de separação do casal, e, sobre o recém-nascido, as repercussões tendem a
ser muito danosas para o seu desenvolvimento global. “Diversos trabalhos mostram
inadequado desenvolvimento físico e emocional dos filhos de mães com problemas
psicológicos. Do ponto de vista pessoal, a puérpera deprimida corre o risco de apresentar
somatizações e continuar deprimida anos após a instalação do quadro” (Cury, 1997b, p. 207).
É possível, então, integrar dois assuntos que muito têm me instigado e trazido
inquietações: depressão e maternidade. No mesmo movimento estabeleço meu objeto de
estudo: a depressão puerperal.
Buscando conhecer como este tema fora tratado e compreendido através da
história, encontramos relatos de distúrbios mentais relacionados com a maternidade, desde o
século IV a.C. (Hamilton, 1962 apud Minerbo, 1983). Em seu livro Epidemias III, Hipócrates
faz uma descrição minuciosa de um desses casos, estabelecendo uma relação direta entre o
parto e a doença: o leite produzido pelas mamas durante o período de lactação subseqüente ao
parto invade o cérebro e produz tal distúrbio (Gordon; Clayton, 1959 apud Minerbo, 1983).
“Hipócrates especulou que a supressão dos lóquios poderia ser dirigida à cabeça resultando
em agitação, delírio e ataques de mania, no que parece constituir a primeira alusão ao
problema da depressão puerperal” (Cury, 1997b, p. 206 ).
Em 1600, Sennert considerava que tais distúrbios deviam-se aos vapores que
atingiam o cérebro vindos do útero (Silva et al., 1998, p. 108). Boerhave, no século XVII,
continua com a hipótese etiológica da amamentação e busca estabelecer as formas diversas
16
pelas quais tal distúrbio se manifesta (Gordon; Clayton, 1959 apud Minerbo, 1983).
“No início do século XIX, Prichard defendia que os distúrbios mentais do
puerpério eram causados por um refluxo para o cérebro da circulação sanguínea do útero para
os seios nos primeiros dias pós-parto” (Silva et al., 1998, p. 108). Esquirol (apud Minerbo,
1983) rejeitou as hipóteses etiológicas relacionadas com a amamentação ao observar que 19
parturientes de sua amostra que desenvolveram psicose puerperal, não haviam amamentado
seus filhos. Foi o primeiro estudioso a sistematizar as características destas psicoses,
entendendo-as como entidades diversas. Em 1845, introduz em seu Tratado sobre a loucura
um capítulo sobre a doença mental no puerpério.
Em 1859, o psiquiatra francês Marcé produziu uma monografia minuciosa
onde “pela primeira vez a psicose puerperal é descrita em detalhes”. Estabelece que os
sintomas que ocorrem em tais distúrbios não diferem, significativamente, das psicoses não
relacionadas ao puerpério, porém as síndromes que se manifestam em tais circunstâncias
possuem diferenças importantes, constituindo-se como entidades distintas das já descritas.
“Afirmava que no puerpério tais síndromes eram típicas, apresentavam um curso peculiar e
suas variações estavam relacionadas a mudanças nos órgãos reprodutores” (apud Silva et al.,
1998, p. 109).
No final do século XIX, as idéias de Kraepelin passaram a influenciar a
maneira de pensar e diagnosticar a psicose puerperal. “Autores que até então agrupavam esses
quadros em síndromes específicas, passaram a enquadrá-los como doenças psiquiátricas, do
tipo esquizofrenia ou de psicose maníaco-depressiva”. No decorrer desse século, o
diagnóstico oscilou entre quadros afetivos e quadros esquizofrênicos. Até hoje, o diagnóstico
dos quadros afetivos predominam entre os distúrbios psiquiátricos do pós-parto (Silva et al.,
1998, p. 109).
É possível, então, observar que tanto Esquirol, quanto Marcé, estabeleceram o
quadro conceitual no âmbito das psicoses, entendendo que “as psicoses que ocorrem por
17
ocasião do parto apresentam a mesma sintomatologia e manifestações clínicas verificadas nas
doenças mentais não relacionadas ao parto, porém a observação de Marcé, de que as
síndromes se organizam distintamente, perdeu-se com o tempo” (Minerbo, 1983, p. 2).
Paulatinamente, fortaleceu-se a proposição de uma inespecificidade dos
transtornos mentais do puerpério no campo psiquiátrico. Protheroe (1969) e Foundeur et al.
(1957) realizaram estudos de seguimento a longo prazo no âmbito da psicose maníaco-
depressiva e da esquizofrenia, concluindo que as doenças puerperais não diferem daquelas de
outros períodos. Bratfos e Haug (1966) compartilham deste ponto de vista, destacando que os
episódios de depressão puerperal se diferenciam das crises maníaco-depressivas comuns
apenas pelo fator desencadeante: o puerpério. Da mesma forma, Paykel et al. (1980) e Tod
(1964) consideram que as depressões clínicas moderadas (não psicóticas), que ocorrem no
puerpério, parecem ser de natureza similar àquelas que afetam as mulheres em outras
circunstâncias da sua vida. Os Manuais de Classificação dos Transtornos Mentais da
Organização Mundial da Saúde, a cada nova edição, trata o tema de maneira cada vez mais
inespecífica, chegando a afirmar explicitamente, no DSM III (1987), não haver evidências de
que a psicose puerperal constitua uma entidade psiquiátrica distinta. Nos manuais, a menção
de depressão puerperal se faz apenas em nota de rodapé (apud Silva et al., 1998).
Cury (1997b) descreve que, apesar da longínqua data da primeira referência ao
tema, somente no século XX, mais precisamente nas últimas décadas, é que a depressão
puerperal é tratada com relevância. Silva et al. (1998, p. 110) entende que:
A história dos estudos sobre a depressão pós-parto tem uma trajetória
mais linear que a dos distúrbios psicóticos puerperais exposta acima.
A presença na literatura de estudos incluindo quadros moderados de
depressão com número significativo de puérperas começa apenas na
década de 50 e continua em alguns poucos estudos na década de 60
(Tod, 1964). O estudo considerado pioneiro sobre depressão pós-parto
foi realizado por Brice Pitt em 1968.
Neste estudo, Pitt considerou a depressão pós-parto integrante de uma
classificação mais ampla dos distúrbios depressivos, denominando-a como “depressão atípica
18
do puerpério”, considerando-a uma variante branda da depressão fisiológica e “atípica” pela
proeminência de sintomas neuróticos: ansiedade, irritabilidade e fobias encobrindo a
depressão (apud Silva et al., 1998).
Atualmente, os distúrbios mentais do puerpério têm sido estudados em muitos
países e, em termos acadêmicos, têm recebido “crescente atenção por parte dos pesquisadores
e profissionais envolvidos com saúde mental. Uma demonstração disto foi a criação, em 1982,
da Marcé Society, uma entidade internacional que tem como objetivo estimular a pesquisa e a
comunicação no campo dos distúrbios mentais do puerpério” (Silva et al., 1998, p. 108).
Várias organizações se formaram buscando uma intervenção sobre a população em geral:
editam folhetos com esclarecimentos a respeito do assunto, oferecem serviços telefônicos e
grupos de ajuda mútua voltados para puérperas afetadas por distúrbios psicológicos.
No Brasil, existe uma organização semelhante, de incentivo à amamentação –
Amigas do Peito –, como também existe acompanhamento de gestantes e puérperas em vários
Centros de Saúde e Maternidades. Apesar da revisão de literatura sobre a depressão em
puérperas brasileiras ter sido realizada por Silva et al., no ano de 1998, parece continuar
válida sua observação de que:
[...] ainda não dispomos de estudos conclusivos sobre prevalência e
incidência de distúrbios mentais em mulheres brasileiras. As
publicações em português são escassas ou se restringem a pequenos
capítulos no interior de livros sobre a gravidez ou preparação para a
maternidade. Dessa forma, os transtornos depressivos em puérperas
são raramente reconhecidos, muitas vezes considerados pelo
profissional de saúde estados de ânimo ‘normais’, haja vista a tensão e
as alteracões hormonais próprias do período puerperal (p. 108).
É importante ressaltar que as perturbações psíquicas associadas ao nascimento
de um filho se colocam em graus bastante distintos e amplos quanto à severidade, porém, nem
todos podem ser considerados como depressão pós-parto. Nesse sentido, Holmes (1997, p.
169) esclarece que
Em realidade, algum grau de depressão, ansiedade, irritabilidade,
perda de apetite, distúrbio de sono, tendência ao choro e instabilidade
emocional é normal e esperado após dar à luz. Estas respostas
19
ocorrem pelo desconforto físico e o estresse associados ao trabalho de
parto e ao parto, as mudanças hormonais que ocorrem com o
nascimento da criança, o início da lactação, os efeitos colaterais de
medicamentos e o ambiente hospitalar.
Além disto, existem aspectos objetivos na relação maternofilial inicial
marcados pelo novo e pelo desconhecido. Inicialmente, mãe e filho se conhecem muito
pouco, o que dificulta a comunicação entre ambos. A sintonia emocional precisa ser
aprimorada gradualmente, para que a mãe possa decifrar as diversas manifestações do bebê. É
uma relação bem pouco estruturada, ou seja, baseada numa comunicação não-verbal e,
portanto, intensamente emocional. Este fator dá margem a amplas possibilidades de
interpretações projetivas por parte da mãe, mobilizando um repertório imenso de sensações,
sentimentos, fantasias e expectativas em relação ao filho e a si própria. “Em suma, o bebê ao
nascer se constitui num enigma: representa esperança de auto-realização para os pais e, ao
mesmo tempo, ameaça de expor as dificuldades ou deficiências dos pais; implica, portanto,
numa promessa de aumentar a auto-estima dos pais e, ao mesmo tempo, de denunciá-los
como pais maus” (Maldonado, 1974, p. 59-60).
Através do levantamento bibliográfico, pudemos verificar que a literatura sobre
este tema é escassa, no campo da Psicologia e na Psicanálise, quase inexistente. A maior parte
do material teórico encontrado é oriunda da Medicina: no capítulo 3 será abordado. Alguns
passos já foram dados na investigação deste tema. Muitas interrogações permanecem em
aberto e clamam pela busca: O que vivencia a pessoa com depressão puerperal? Quais os
processos psíquicos envolvidos? Qual(s) a(s) relação(s) possível(s) de estabelecer com a
vivência que o sujeito teve com sua mãe, nos primeiros meses de vida? Como entender o
desenvolvimento emocional e a história de vida desse sujeito? Enfim, por que o nascimento
de um filho desencadeia um estado de depressão na mãe, e o que a depressão puerperal tem de
específico que a diferencia de outros momentos depressivos na vida da mulher? Assim, de
forma resumida, podemos dizer que o objetivo desta dissertação é compreender o
20
psicodinamismo da depressão puerperal, sua etiologia e significação na história da mãe.
21
1 METODOLOGIA
Tão logo definimos o objeto de estudo e construímos o projeto de pesquisa,
fiquei ávida pelo contato com pessoas que viveram ou estavam passando pela depressão pós-
parto. Já havia feito algumas leituras a respeito do tema da depressão e ansiava pela prática,
antes mesmo de me preparar com as teorias específicas (levantamento bibliográfico): queria
estar pouco imbuída de preconcepções sobre o tema e deixar-me penetrar pela singularidade
de cada caso.
O procedimento metodológico estava, então, estabelecido: pesquisa qualitativa
na forma de estudo de caso. Na pesquisa qualitativa, o foco é, muito mais, colocado no
processo, que no produto, uma vez que o sujeito tem um papel essencial nesse tipo de
investigação. Interessa o estudo do tema a partir do significado e da maneira como o sujeito o
vivencia (Lüdke; André, 1986). “O estudo de caso é caracterizado pelo estudo profundo e
exaustivo de um ou de poucos objetos, de maneira que permita o seu amplo e detalhado
conhecimento [...]” (Gil, 1991, p. 58). Compreende-se, dessa forma, que o estudo de caso,
parte do singular para tentar alcançar os aspectos possíveis de generalização.
No campo da Psicologia Clínica, a coleta de dados pode ser realizada através
de um processo de avaliação psicológica. Nessa perspectiva, a nossa busca principal estava,
muito mais, no estudo do psicodinamismo que na classificação diagnóstica do sujeito
abordado. Aliás, “a palavra diagnóstico origina-se do grego diagnõstikos e significa
discernimento, faculdade de conhecer, de ver através de” (Ancona-Lopes, 1984, p. l).
O processo diagnóstico compõe-se de uma seqüência de fases e passos
estruturados e orientados em função de determinado embasamento teórico e prático.
22
Adotamos a proposta do processo diagnóstico de tipo compreensivo, que, como sugere a
própria designação, pretende abarcar
multiplicidade de fatores em jogo na realização de estudos de casos,
tal como a encontramos hoje em nosso meio. O termo deriva de
compraehendere que, em latim, significa abraçar, tomar e apreender o
conjunto. Designa, presentemente, no diagnóstico psicológico, uma
série de situações que inclui, entre outros aspectos, o de encontrar um
sentido para o conjunto das informações disponíveis, tomar aquilo que
é relevante e significativo na personalidade, entrar empaticamente em
contato emocional e, também, conhecer os motivos profundos da vida
emocional de alguém (Trinca, 1984a, p. 15).
O processo compreensivo considera que as perturbações individuais são
resultantes das forças e conjuntos de forças em interação entre as dinâmicas intrapsíquicas,
intrafamiliares e sócio-culturais. Tem seus fatores estruturantes, que lhe atribuem
características e identidade próprias. Trinca (1984a), explicita-os:
1) objetivo de elucidar o significado das perturbações;
2) ênfase na dinâmica emocional inconsciente;
3) considerações de conjunto para o material clínico;
4) busca de compreensão psicológica globalizada do paciente;
5) seleção de aspectos centrais e nodais;
6) predomínio do julgamento clínico;
7) subordinação do processo diagnóstico ao pensamento clínico; e
8) prevalência do uso de métodos e técnicas de exames fundamentados na
associação livre.
Cabe destacar aqui um aspecto bastante importante (presente durante todo o
tempo) na realização da investigação psicológica aqui proposta: a instrumentação da relação
psicólogo-cliente.
Como já foi dito, o diagnóstico compreensivo busca uma compreensão
globalizante do ser humano. O entrevistado, então, não deve ser visto como um simples
“fornecedor de informações”, na medida em que o trabalho é realizado através do encontro
23
entre entrevistado e entrevistador. Nesse sentido, Tsu (1984, p. 40) afirma que “as questões
concernentes à relação entre o psicólogo e o cliente, vistos como sujeitos que possuem
interioridade psíquica e que se movem numa rede de inter-relações, têm um caráter central em
toda a práxis psicológica”. Assim, o aspecto relacional no campo da pesquisa e prática
psicológica pode ser instrumentado, ou seja, constitui-se como um meio através do qual se
pode conhecer, diagnosticar ou atuar terapeuticamente, uma vez que, “no caso do psicólogo
clínico, a ferramenta principal é a observação apurada de tudo quanto acontece, ou emerge, no
campo relacional” (Tsu, 1984, p. 4l).
Os conhecimentos assim obtidos serão epistemologicamente confiáveis quando
forem tomados os cuidados necessários, tanto em termos da técnica, quanto da ética. Porém, o
ponto mais fundamental refere-se ao preparo e ao aperfeiçoamento pessoal do psicólogo: ao
percurso que realizou na sua análise pessoal. “Isto posto, deparamo-nos com o fato de que
esse profissional precisa dispor, além de um marco referencial e de recursos intelectuais, de
suas próprias emoções. Com estes elementos o psicólogo pode observar, identificar e analisar
os fenômenos que ocorrem em si mesmo, no paciente e entre ambos” (Santiago, 1984, p. 69).
Isso, porque “cada vez mais o saber revela sua relatividade, sua natureza de projeção da mente
humana. Cada vez mais o estudioso aprende a considerar o que se passa no mundo e que se
passa com suas representações desse processo” (Silva, 1993, p. 15).
Assim, delimitamos o procedimento metodológico, em termos gerais,
submetemos o projeto de pesquisa à avaliação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da PUC/SP,
tendo sido aprovado com o Protocolo nº 058/2005 (Anexo B) e fomos a campo.
Trabalho como supervisora de estágios em uma clínica-escola de psicologia de
uma universidade do interior de São Paulo. Nessa clínica recebemos o nosso sujeito – aqui
denominado de Lara – que foi pedir ajuda psicológica. Inscreveu-se para o serviço de
avaliação psicológica, uma vez que era a porta de entrada possível, naquele momento em que
procurou atendimento. Combinamos que faríamos um trabalho de avaliação psicológica com
24
duração de 6 a 8 encontros, tendo assinado o termo de consentimento (Anexo A).
Realizamos em um primeiro momento a entrevista livre e, posteriormente,
semidirigida (Apêndice A). No final do processo, ocorreu a entrevista devolutiva.
A entrevista livre é geralmente utilizada, em um primeiro momento, para que o
entrevistado tenha oportunidade de falar livremente sobre o tema em questão. Esta técnica
pode favorecer a livre associação e, ao mesmo tempo, criar um melhor rapport entre a dupla,
na medida em que permite que o entrevistado aborde os conteúdos que queira ou possa
abordar, no momento. Ao mesmo tempo, vai oferecendo ao entrevistador conteúdos sobre o
tema e, enquanto fala, “fornece indícios e pistas no seu tom de voz, na sua modalidade de
construir as frases, nas suas pausas, na utilização de imagens, capazes de conduzir a
importantes atitudes, sentimentos e fantasias – de que diretamente não pode falar e a respeito
dos quais pode na verdade não ter consciência” (Nemiah, 1981, p. 45).
Na medida em que Lara foi esgotando a possibilidade de falar totalmente livre,
foi se introduzindo a entrevista semidirigida. Uma entrevista é semidirigida quando o
entrevistado tem liberdade para expor as questões bastante amplas, colocadas pelo
entrevistador, começando por onde preferir e incluindo o que desejar. Permite, assim, que o
campo psicológico configurado pelo entrevistador e o entrevistado se estruture em função de
vetores assinalados pelo último. Mas, difere da técnica de entrevista totalmente livre, porque
[...] o entrevistador intervêm a fim de:
a) assinalar alguns vetores quando o entrevistado não sabe como
começar ou continuar. Estas perguntas são feitas, é claro, da maneira
mais ampla possível; b) assinalar situações de bloqueio ou paralisação
por incremento da angústia para assegurar o cumprimento dos
objetivos da entrevista; c) indagar acerca de aspectos da conduta do
entrevistado, aos quais este não se referiu espontaneamente, acerca de
‘lacunas’ na informação que são consideradas de especial
importância, ou acerca de contradições, ambigüidades e verbalizações
‘obscuras’ (Ocampo; Arzeno; Piccolo, 1990, p. 23).
Tanto na entrevista totalmente livre, quanto na entrevista semidirigida, buscou-
se observar o “fluxo de pensamento” da entrevistada. O fluxo de pensamento é importante
25
porque permite a associação de idéias: considera-se que os pensamentos não aparecem na
consciência por acaso, pois sua aparição, seu conteúdo e sua seqüência são determinados por
conexões a um tema subjacente, a um motivo, a um sentimento ou impulso que podem, no
momento da fala, não estarem acessíveis. “Se, por conseguinte, se permite a uma pessoa que
associe livremente, isto é, que observe e comunique todas as idéias que fluem através da sua
consciência, pode-se eventualmente chegar a uma compreensão do fator central que determina
as idéias” (Ocampo; Arzeno; Piccolo, 1990, p. 46). Quando, porém, o entrevistador
interrompe o entrevistado com muita freqüência ou acrescenta suas próprias idéias, pode-se
contaminar e deformar o curso das associações e impossibilitar que os conteúdos subjacentes
se revelem. Os referidos autores chamam a atenção para a complexidade e dificuldade que
envolve o manejo deste instrumento: “devido à relutância normal que ocorre com todos os
nossos pensamentos e fantasias, a verdadeira associação livre é um ideal raramente atingido”
(p. 47). Entretanto, mesmo as associações que não se aproximam desse ideal de perfeição,
possibilitam ao entrevistador habilitado compreender mais profundamente o psiquismo do
entrevistado.
Assim sendo, foram realizadas oito entrevistas, para, então, se fazer uma
entrevista devolutiva. A maior parte do material utilizado nesta dissertação provém destes
encontros.
A entrevista devolutiva “é aquela na qual se transmite ao paciente [...] a
compreensão obtida durante o processo de psicodiagnóstico” (Santiago, 1984, p. 75).
Usualmente, é realizada no final do processo, o que não impede que um profissional
experiente e competente faça algumas devoluções no decorrer das demais entrevistas, na
medida em que pode ir oferecendo ao cliente algumas compreensões significativas. “As
informações diagnósticas transmitidas pelo psicólogo devem ser aquelas que podem ser
recebidas no momento pelo paciente” o que coloca a necessidade de se estimar os recursos
egóicos deste e respeitar os limites estabelecidos pelo seu sistema defensivo (Santiago, 1984,
26
p. 79).
Entretanto, no momento de se pensar o conteúdo da devolutiva, foi tornando-se
claro que não seria possível interromper o trabalho com essa mulher... Sujeito da minha
pesquisa... Colocou-se a necessidade de continuidade no tempo, com alguém que parecia ter a
subjetividade bastante marcada por rupturas significativas. Por isso, o enquadre metodológico
da pesquisa foi alterado: conversei com Lara sobre a possibilidade de prosseguirmos com um
atendimento psicológico que lhe propiciasse continuar o caminho, já que se sentia tão
“atolada” [sic]. Ela disse que queria isso mesmo, e, desde então, temos realizado um trabalho
psicanalítico.
Silva (1993) tece em seu estudo Pensar em psicanálise, considerações
esclarecedoras a respeito da pesquisa em psicanálise. Ao iniciar a investigação, o pesquisador
precisa renunciar aos conhecimentos prévios acerca do paciente ou da teoria, colocando-se
“numa posição de receptiva curiosidade” (p. 22). E, continua:
Para se contrapor ao medo de que nada de novo surja, ou à
necessidade imperiosa de mostrar eficiência, há que acreditar no
eterno movimento da vida, na natureza sempre pulsando em direção à
representação, e ficar tranqüilo de que um sentido sempre acabará por
ser fazer, porque é da ordem do humano que assim aconteça (p. 22).
Quando o sentido emerge da relação observador-observado, é necessário criar
uma representação que possa se referir àquilo que foi identificado, e, também, permita sua
comparação com eventos ainda não ocorridos. Então, faz-se a articulação com a teoria
psicanalítica. “A dupla articulação – com eventos e com teorias – corresponderia a um teste
de hipótese, conferindo um estatuto de cientificidade ao conhecimento assim adquirido, o que
não significa atribuir-lhe o qualificativo de verdade” (Silva, 1993, p. 23).
Assim, a pesquisa em psicanálise nasce da insatisfação com o já-sabido, que
pode ser dolorosa: a saída pode estar na atividade investigativa. Mezan (1993) entende que,
para que isso ocorra, é necessário que o psicanalista realize um investimento importante no
processo de pensamento, além de exigir “um grau razoável de tolerância à frustração, aqui
27
representada pela capacidade de reconhecer o fracasso e de suportar a incerteza até mesmo
quanto à existência de uma solução para o problema que o estimulou” (p. 88).
Diante do problema, o primeiro passo consiste em traçar um balanço dos meios
existentes para solucioná-lo. Com tal mapeamento, é possível ter alguma idéia daquilo que se
busca descobrir: poder-se-ia denominar de “hipóteses pré-teóricas”. Tem-se, então, o que
Kohut denominou de experimentação pelo pensamento: “é o momento em que o pesquisador
vê-se imerso em perplexidades, em impasses, até que alguma via apresente-se como capaz de
ordenar os problemas e as hipóteses em seqüências potencialmente férteis” (apud Mezan,
1993, p. 88). Dessa maneira, algo se esclarece e pode ser oferecido como contribuição, ainda
que modesta, à psicanálise. Ao mesmo tempo, pode se articular de maneira a ser aproveitável
por outros. Para Mezan (1993), esse é o modelo do que deveria ser um trabalho de dissertação
ou de tese em psicanálise.
Safra (1993) nos lembra que Freud construiu sua obra através de um
aprendizado contínuo de sua prática e das dificuldades encontradas ao longo do percurso. Isso
levou a manter seus constructos teóricos em permanente transformação e expansão. Assim ele
se expressa:
Temos na origem e na história do desenvolvimento psicanalítico o
modelo de pesquisa em psicanálise: o diálogo permanente entre a
teoria e a clínica. A articulação teórica sem referência à clínica corre o
risco de aproximar-se das manifestações do pensamento delirante. A
clínica sem a conceitualização teórica pode perder-se na indisciplina
de uma prática onipotente e sem rigor metodológico (p. 120).
É preciso lembrar, todavia, que o uso do material clínico, na pesquisa
psicanalítica, encontra algumas dificuldades que Safra (1993) busca elucidar.
Um primeiro ponto refere-se ao relato do material. Seria o relato uma
reprodução exata do que ocorreu na sessão? Se a resposta for negativa, teríamos aí um
impedimento na utilização do material para fins de pesquisa?
O relato não consegue alcançar, exatamente, o que ocorreu na sessão, dado que
28
há “uma dimensão infinita no encontro, que mesmo com o uso de aparelhos sofisticados, do
ponto de vista tecnológico, não conseguiríamos abranger [...]. Pretender que fosse exato seria
acreditarmos onipotentemente que captamos o absoluto” (p. 124). Somente através do
reconhecimento desse limite é que podemos manter nossa objetividade na investigação. Freud
inaugura uma nova disciplina e uma nova maneira de fazer pesquisa.
Silva (1993) considera que “o método da psicanálise caracteriza-se por
abertura, construção e participação” (p. 20). Isso porque:
A metodologia sofre uma mudança radical abandonando o modelo S-
O da ciência positivista, no qual um sujeito pensava um mundo
objetivo, externo, inerte, cujas leis de funcionamento distinguiam-se
substancialmente das leis do pensar que o examinava, e vai considerar
um relacionamento íntimo em que praticamente S e O criam-se
mutuamente (p. 16).
Safra (1993) destaca um outro aspecto bastante importante na utilização do
material clínico: o sigilo. Quando definimos pelo estudo de um caso, ficamos bastante
preocupados e cuidadosos com a não apresentação de elementos que pudessem favorecer a
identificação da paciente.
Assim sendo, atribuímos-lhe (e às demais pessoas nomeadas) um nome fictício
– Lara –, e procuramos trazer somente os conteúdos necessários para a compreensão da
problemática levantada neste trabalho. Como afirma Safra (1993), “mesmo que esse
procedimento traga algum prejuízo na compreensão de sutilezas do fenômeno clínico, ele é
pequeno quando o comparamos com a importância de preservar o sigilo profissional e a
privacidade do paciente” (p. 125).
Isso significa que o material clínico aqui apresentado, passou por um recorte
delimitado, tanto pelos cuidados com o sigilo, quanto pelos aspectos que estamos interessados
em pesquisar, e pelas concepções teóricas, aqui, utilizadas. Safra (1993) considera que “a
experiência clínica apresenta uma infinidade de variáveis e fenômenos impossíveis de serem
abarcados por um único vértice ou concepção teórica” (p. 129). Por isso, se faz necessário um
29
recorte da pesquisa.
Começaremos, então, pelo primeiro encontro com Lara.
30
2 O PRIMEIRO ENCONTRO COM LARA
Em nosso primeiro encontro, Lara estava com 33 anos de idade e tinha uma
aparência que sugeria ansiedade, cansaço e a necessidade de falar. Trajava roupas simples e
limpas, os cabelos soltos, os olhos avermelhados e com olheiras. Estava sentada na sala de
espera e quando me dirigi a ela me apresentando, não alterou praticamente em nada sua
expressão facial, exceto abrindo um pouco mais os olhos. O seu corpo e sua maneira de andar
e sentar-se me sugeriram muita tensão. Após as formalidades iniciais e esclarecimentos
referentes ao trabalho que realizaríamos, coloquei-me na condição de escuta para que ela se
manifestasse livremente.
Ela inicia dizendo que está com depressão. Sente-se triste, sem vontade de
fazer nada. Não consegue fazer o serviço de casa e a filha mais velha, com 11 anos, é quem a
ajuda... Faz tratamento com um psiquiatra, que foi quem disse que precisaria de tratamento
psicológico. Toma um remédio, porém, usa somente um comprimido por causa do estado que
ficava quando usava a dosagem prescrita (dois comprimidos ao dia): sentia muito sono,
quando saía de casa andava de maneira muito sonolenta e achava que as pessoas ficavam
olhando para ela.
Já fez tratamento com um psicólogo que trabalhava como voluntário em uma
instituição espírita, mas acabou desistindo porque ele viajava muito e quase não havia
atendimentos: ele faltava muito. Quando ele retornou e chamou para continuar o trabalho,
Lara disse que não continuaria o trabalho, mas que gostaria que sua irmã pudesse ocupar sua
vaga, já que, também estava com depressão. Assim, sua irmã continuou no seu lugar. Após
algum tempo, conseguiu vaga no Ambulatório de Saúde Mental de sua cidade para realizar
31
um tratamento psicológico em grupo. Fez isso por um tempo, mas parou porque não gostou:
por ser em grupo e porque a psicóloga do grupo falou que, para resolver seus problemas, a
solução seria separar-se de seu marido: Lara diz não ter gostado nada disso!
[Pausa]
Seu marido é uma pessoa boa, que procura ajudá-la: chama-a para passear em
bailes, festas, bares e churrascos com os colegas dele. Porém, Lara não vai porque não gosta
que o marido beba cerveja e fique embriagado: já tiveram muitas brigas por esse motivo. Seu
único defeito é gostar de tomar cerveja.
Sua irmã, “também tem depressão e está muito mal, e isso me prejudica,
porque ela fica falando coisas que me derrubam. As pessoas, também, ficam falando coisas
que me derrubam: quando estou levantando, vem um e puxa meu tapete...” [sic]. Tem tido
problemas para dormir: à noite costuma ficar muito agitada, muito ansiosa e sente muito frio.
Para sair e fazer coisas fora de casa (p. ex., levar a filha na escola), também tem “esses
excessos de ansiedade e, então, me sinto muito cansada. Às vezes, já acordo cansada e sem
vontade de fazer nada. Na rua, às vezes, fico tonta, perdida e fico achando que as pessoas
estão me olhando: fico olhando para ver se estão me olhando...”.
[Pausa]
Acha que é muito rígida com os filhos [repetiu isso algumas vezes, ao longo da
entrevista]: “tudo que vão fazer, têm que me pedir: até para comer alguma coisa, em casa...
Não consigo deixar eles irem para nenhum lugar que eu não esteja: tenho medo que aconteça
alguma coisa... Estou muito dura do coração, porque sou muito tensa e meus filhos têm muito
medo de mim... Não quero isso!” [Chora]
32
Tem medo que os filhos fiquem como ela. Quando fica nervosa, fala “coisas
absurdas para eles: minha filha mais velha até pede para eu não falar assim... Tenho muitos
problemas de saúde por causa do meu emocional: já tive ulceração nos olhos (parece que
está voltando...), problemas de pulmão, crises de alergia, desmaios, tonteiras...”. Lara se
questiona se os problemas de saúde que seus filhos têm, constantemente, não seriam
emocionais, também: “fico apavorada só de pensar nisso!”. Pede a Deus, todos os dias, para
que não morra agora, que espere seus filhos crescerem... [Chora]
[Pausa]
Gosta muito dos seus filhos e conversa muito com eles, explica tudo o que eles
querem (dentro daquilo que ela sabe). Diz que sua mãe não lhe ensinou nada: teve que
aprender tudo sozinha... Sua mãe também tem depressão e mesmo assim consegue cuidar dos
seus dois irmãos...Não sabe como sua “mãe consegue isso: deve ser muito forte!”. Lara quer
voltar a estudar para poder ajudar os filhos com as tarefas da escola e acompanhar o marido,
em termos de conhecimento (marido completou o 3º. Colegial, no ano anterior): “as pessoas
ficam falando que ele [marido] está indo e eu ficando para trás... e, que ele gosta de
velhas...” [sic]. O marido trabalha em um estabelecimento comercial bastante freqüentado por
mulheres e Lara “ficava louca de ciúmes: ele chegava tarde da escola e, às vezes, tomava
cerveja...”. Agora, está tentando “parar com estes ciúmes, porque preciso me concentrar em
melhorar a mim mesma”.
O tempo da entrevista estava terminando. Durante a entrevista, Lara falou de
maneira lenta e arrastada. Seus olhos estavam constantemente umedecidos pelas lágrimas. As
pausas pareciam trazer-lhe muita angústia: insuportável. Nesses momentos, tentei oferecer-lhe
acolhimento, reconhecimento dos seus sentimentos e suporte para que continuasse... Este
encontro ficou marcado por muita angústia e dor: quase desespero. Mas, também, pelo pedido
33
de ajuda e pela esperança de melhorar a si mesma (como ela mesma disse).
34
3 DIAGNÓSTICO E ETIOLOGIA DA DEPRESSÃO PUERPERAL
Lara estava imersa em um estado depressivo: sua aparência e sua fala
revelavam isso. Parecia estar extremamente decepcionada consigo mesma pela dureza e
agressividade que tratava seus filhos: uma mãe má. Ao mesmo tempo, sentia que sua mãe não
lhe ensinou nada porque também é doente. E, como foi se revelando nos demais encontros,
Lara localiza o início de sua depressão em um momento de vivência da maternidade: quando
nasceu sua segunda filha – Mariana ( com 7 anos no momento da investigação).
Tinha acabado de se mudar para a casa e o bairro em que mora atualmente, e
parado de trabalhar em uma indústria do setor calçadista. Gostava muito de trabalhar em tal
indústria, mas precisou se demitir devido à mudança de bairro: ficaria muito difícil conciliar a
distância entre trabalho e residência, mais o fato de ter de cuidar de uma filha com 4 anos
(Maria Luisa) e um bebê que logo iria nascer. Porém, sua nova casa ainda estava por terminar
e suas vizinhas ficavam dizendo que ela precisava trabalhar para contribuir com o término da
construção: “fui ficando muito nervosa com toda esta falação!” Depois do parto da Mariana,
tudo começou a piorar: o bebê teve problemas intestinais, com adaptação ao leite e outras
dificuldades que faziam com que tivesse que ir ao médico com muita freqüência. Começou a
sentir muito desânimo, cansaço, tristeza, chorar muito, ter tonteiras, queria ficar somente no
quarto e não ver ninguém, tudo a deixava nervosa e a assustava. E, após seis meses, ainda
precisou se submeter a uma cirurgia de hemorróidas. Mas, “sempre cuidei direitinho das
minhas filhas: do bebê e da mais velha”.
Aos poucos, foi recuperando-se desta primeira depressão, mas, “em 2000,
quando o José Victor nasceu, tive depressão pela segunda vez”. Então, muitas coisas
35
ocorreram: Mariana, que estava com quatro anos, “teve uma convulsão (o médico que a
atendeu falou que era para chamar atenção), ficou uma semana sem comer, teve pneumonia
duas vezes, alergia, vermes, febre muito alta, e não descobriram o porquê...”. Lara conta que
era “sozinha para tudo e a Maria Luisa é quem ajudava, porque a minha família não tinha
condições de ajudar: a minha mãe sempre foi muito doente e, também, tem depressão. Além
disso, tenho dois irmãos com deficiência mental e minha mãe tem que ficar por conta deles”.
Diz que uma irmã sua tentou ajudá-la nos momentos mais difíceis, mas ela, também, tinha
depressão e ficava falando coisas que acabavam fazendo com que Lara ficasse pior ainda. As
pessoas, em geral, também, “ficavam falando coisas que acabavam me derrubando e me
deixando fraca: ficavam falando do meu marido e que eu tinha que trabalhar, ajudar em casa
e ficar mais animada...”.
Também, desta “segunda depressão”, foi se recuperando. Mas, em julho de
2002, teve sua “terceira depressão”: quando participou de um encontro de casais realizado
pela paróquia do seu bairro. Ficaram reclusos por dois dias: “durante este tempo eu passei
mal, foi horrível e ninguém se deu conta disso. Isso porque foi tudo demais para mim: foi
muita emoção e eu não agüentei. O padre ia falando as coisas, a gente já era recebida com
música, já colocavam a gente sentada e traziam as melhores coisas para comer, já faziam
tudo por nós: era uma coisa muito além daquilo que é a minha realidade... e as coisas que
eram faladas... diziam que somos pessoas de luz, que a gente seria semente e teria que levar
tudo para as outras pessoas, espalhar esta semente para todos os lugares... Eu só fui
passando mal... e lá fechada... foi demais para mim! E, me deu de novo esta depressão: fiquei
ruim, mesmo!” [sic]. Antes desse encontro, Lara estava se sentindo “meio desorientada, mas
não estava deprimida”. Então, seu marido achou que participar de um evento deste tipo
poderia lhe fazer bem: “foi a pior coisa e eles não imaginam o quanto foi ruim e fez mal para
mim!”.
Nenhum dos dois episódios de depressão pós-parto foi diagnosticado,
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devidamente, quando ocorreram. Lara não se lembra, exatamente, quando foi diagnosticada
sua depressão, por um psiquiatra: acredita que tenha sido depois de um certo tempo do
nascimento de seu filho – José Vitor. A partir daí, começou a tomar antidepressivos e
ansiolíticos. Não se adaptou bem aos antidepressivos e os abandonou, daí três ou quatro
meses, após o início do nosso trabalho. Quanto aos ansiolíticos, tem realizado experiências
significativas, no intuito de separar-se deles.
Estamos atribuindo o diagnóstico de depressão pós-parto, partindo do relato
que Lara faz do fenômeno, mesmo que distante no tempo. Parece ter sido o início (ou o
desvelamento) de uma trajetória marcada pela depressão.
De acordo com o levantamento bibliográfico realizado, as alterações psíquicas
mais comuns vivenciadas pelas mulheres no puerpério são categorizadas levando-se em
consideração, principalmente, o grau de severidade da perturbação. Na literatura científica
encontramos três categorias: a Síndrome de Tristeza Pós-Parto, a Depressão Puerperal e a
Psicose Puerperal.
Muitas mulheres (26% a 85%) experimentam a Síndrome de Tristeza Pós-
Parto, também conhecida por vários outros nomes, dentre eles, o Blues Puerperal (“Baby
Blues”). Trata-se de um estado transitório de depressão do humor circunscrito às duas
primeiras semanas após o parto, em que ocorrem crises de choro e tristeza (sem razão
aparente); aumento da ansiedade, irritabilidade, sensibilidade e instabilidade emocional;
fadiga e dificuldades em relação ao sono. Remete a um estado da alma de grande nostalgia (e,
por que não, de beleza?), o que justifica a não tradução do termo blues:
Quem já se permitiu observar atentamente as puérperas... há de ter
percebido um clima de grandes oscilações. Há de ter escutado alguém
que lamenta uma perda e pede... que se rejubila por um ganho e
oferece... Há de ter ouvido uma sonoridade que pesa, às vezes rude,
mas que tem brandura, arredondamento, calor e humanidade... Ouviu
então as manifestações mais primitivas e profundas de uma emoção.
As mesmas emoções primitivas presentes nos cantos dos povos que
cantam pesarosamente a perda da terra natal... e louva acolhido na
nova terra [...]. Este é o blue: música folclórica da alma dos negros
37
norte-americanos. Música de raízes (Ferrari, 1992 apud Álvares,
2000).
Os estudos a respeito desta perturbação psíquica são raros e superficiais,
possivelmente em decorrência da sua brevidade e relativa benignidade; apesar de,
indubitavelmente, acarretar sofrimento e dificuldades no desempenho da maternidade e das
relações interpessoais. “Evidências sugerem que mulheres que têm tal experiência têm risco
aumentado para desenvolver depressão pós-parto posteriormente, especialmente se os
sintomas do ‘baby blues’ são graves” (Wender, 2002, p. 440-441).
No outro extremo de severidade, temos a Psicose Puerperal que ocorre em
0,2% da mulheres puérperas e aparece, geralmente, de maneira abrupta “após um período de
dois a três dias assintomáticos, freqüentemente nas três primeiras semanas após o parto”
(Oates,1986 apud Rocha, 1991, p. 14). Está incluída no grupo de perturbações psíquicas
severas por apresentar dificuldades, às vezes bem acentuadas, no contato com a realidade e
riscos de ferir-se e/ou ferir o bebê, levando, eventualmente, à morte. Soifer (1992, p. 83) faz
um resumo da sintomatologia do quadro:
Em sua expressão mais extrema, como dissemos, a mulher torna-se
ensimesmada, afastada, triste, rejeita o filho, em geral declara que não
pode vê-lo, sofre insônia, inapetência, descuida-se da própria
aparência, não se veste, não se banha nem se penteia. Muitas vezes faz
referência a alucinações, geralmente auditivas, ou exprime idéias
delirantes.[...] a ansiedade é de esvaziamento ou de castração. As
idéias delirantes são do tipo paranóide: alguém vem roubar a paciente,
matá-la, envenená-la.
Soifer (1992) inclui neste quadro algumas características melancólicas
envolvendo sentimentos de autodepreciação e autocensura em que a mãe se vê inútil,
imprestável e insegura sobre sua capacidade de criar o(s) filho(s). Os delírios e alucinações,
freqüentemente, podem envolver o bebê. “A mãe pode ter pensamentos que o bebê está
‘possuído pelo demônio’ ou que ele pode morrer. Também pode ter alucinações auditivas, em
que lhe dizem para matar o filho” (Wender, 2002, p. 441). Por isso, a psicose pós-parto é
38
considerada uma emergência médica, sendo a maioria das pacientes internadas em hospital
para serem tratadas com medicamentos e protegidas dos riscos descritos.
Na revisão da literatura realizada por Rocha (1991, p. l4), encontramos um
dado relevante sobre a incidência da psicose pós-parto que vem corroborar o que já foi
enfatizado, anteriormente, a respeito da vulnerabilidade que a mulher vivencia no puerpério:
“a incidência de psicose no puerpério, particularmente nos três primeiros meses após o parto,
é 10 a 20 vezes superior em relação a outros períodos de vida da mulher” (Paffenbarger, 1964
apud Rocha, 1991; Kendell et al., 1981 apud Rocha, 1991; Kendell, 1985 apud Rocha, 1991).
É um quadro grave e que merece estudos aprofundados. Tanto o blues puerperal, quanto a
psicose no puerpério, não são propriamente nosso objeto de estudo, porém faz-se necessário
discriminar tais quadros da depressão pós-parto, o que justifica estas breves considerações.
Então, chegamos na Depressão Puerperal, cuja prevalência já foi abordada
anteriormente. Instala-se nos primeiros meses após o parto e apresenta intensidade variável,
sendo que nos casos mais graves, difere da psicose puerperal pela ausência de delírios ou
alucinações. Caracteriza-se
[...] por uma experiência relativamente contínua de tristeza ou
diminuição na capacidade para experimentar prazer, estado este que
se acompanha freqüentemente de ansiedade e, por vezes, de sintomas
somáticos como alteração do apetite, do sono e fadiga. A puérpera
sente dificuldades no desempenho das tarefas domésticas, e em geral
percebe a alteração no humor, mas quase sempre reluta em relatá-las a
outros (Silva et al., 1998, p. 110).
No CID-10 da OMS (2000) consta uma categoria residual no código F53:
Transtornos mentais e de comportamento associados ao puerpério, não classificados em
outros locais, designando, em F53.0, a depressão pós-parto ou puerperal. Não caracteriza o
transtorno e não considera uma entidade psicopatológica distinta.
Rocha (1991, p. 10) aborda este assunto utilizando o termo Depressão
Neurótica Pós-Parto e descreve os principais sintomas:
39
[...] tristeza; choro fácil; desalento; abatimento; labilidade emocional;
anorexia; às vezes acompanhada de náuseas; distúrbios do
sono,principalmente insônia inicial e preocupações envolvendo o be
como, por exemplo, sentimento de não amá-lo o suficiente, medo de
prejudicá-lo, ansiedade com o sono e com a alimentação da criança,
sentimento de incapacidade para um cuidado adequado, podendo
haver também, nas multíparas, temor do ciúme dos filhos mais velhos
em relação ao bebê; fadiga, freqüentemente envolvendo os próprios
cuidados com a criança; hipocondria; irritabilidade; dificuldade de
concentração e memorização; perda do interesse sexual; idéias
suicidas e sentimentos negativos para com o marido.
O início dos sintomas é gradual (podendo se confundir com a Tristeza Pós-
Parto), não sendo “tão claramente delimitado no tempo como os quadros psicóticos, que
tendem a ocorrer muito precocemente” (Martins et al., 1989 apud Rocha, 1991). De acordo
com Pitt (1968), os sintomas iniciam-se quando a mulher retorna ao lar. Paykel et al. (1980)
consideram que “cerca de 88% começam após o parto, com pico na primeira semana, 8% têm
início duas semanas antes do parto e 4% fazem parte de um quadro crônico” (apud Rocha,
1991, p. 10).
E, qual(s) seria(m) a(s) causa(s) da depressão puerperal? A literatura científica
é enfática ao considerar que a etiologia é complexa e ainda não claramente compreendida,
uma vez que o período pós-parto “é acompanhado por profundas alterações neuroendócrinas e
psicossociais. A interação destes fatores é provavelmente responsável pela patogênese dos
distúrbios afetivos” (Wender et al., 2002, p. 439). Cury (1997b) compartilha com essa
perspectiva considerando que “as evidências sugerem que a DP seja, de fato, problema
multideterminado, concorrendo para seu surgimento, manutenção e gravidade, fatores
biológicos, psicológicos e socioculturais” (p. 209).
As teorias biológicas apontam as diferentes substâncias que apresentam
flutuações no ciclo gravídico-puerperal. Steiner (1979, apud Cury, 1997b) publicou revisão
sobre as principais alterações bioquímicas relacionadas com a depressão puerperal:
estrógenos, progesterona, prolactina, endorfinas, norepinefrina, cortisol e cálcio. Atualmente,
tem sido dada grande atenção à serotonina, ao hormônio de crescimento e tireoideano.
40
Portanto, “vários autores postulam uma etiologia preferencialmente biológica para as
depressões puerperais, embora reconhecendo que nenhuma base fisiológica específica tenha
sido demonstrada até o momento” (Rocha, 1991, p. 10). Entretanto, outros autores consideram
que outros fatores são mais fundamentais na etiologia destes quadros.
Jadresic et al. (1993, p. 71) foram os pioneiros na publicação de estudos sobre
a depressão puerperal no contexto da América Latina e afirmam: “Nossos resultados, se bem
que provêm de um estudo com a limitação de carecer de medições biológicas, respaldam a
idéia, hoje predominante, de que os fatores psicológicos e sociais constituem-se como
fundamentais na etiologia destes quadros [depressivos]”. Nesse sentido, atribuem grande
importância aos acontecimentos vitais, ou seja, ressaltam os fatos adicionais que as mulheres
podem experimentar na gestação e puerpério. A interação de eventos vitais com algumas
circunstâncias pode desestabilizar o equilíbrio psicológico materno. Tal efeito pode ocorrer na
gestação e no puerpério: o impacto se dará conforme for a natureza de tais acontecimentos, o
momento específico em que se dão e as características de personalidade da mulher puérpera.
Apesar de tais estudos não serem conclusivos, apontam alguns acontecimentos
que tendem a estar associado muito significativamente à depressão puerperal: separações de
pessoas significativas (marido, família ou de alguém próximo), dificuldades acentuadas na
relação com o marido e/ou com a mãe da puérpera e acontecimentos diretamente relacionados
ao parto (como, p. ex., dar à luz um filho de baixo peso) ou ao período pós-natal (como as
dificuldades na amamentação, p. ex.). Detectaram que a associação entre circunstâncias vitais
e depressão tem valor preditivo para a depressão pós-parto o que significa possibilidades de
intervenções preventivas que precisam ser criadas e implementadas na América Latina, como
já vêm fazendo outros países.
Wender et al. (2002) fazem um resumo bastante claro a respeito dos fatores
de risco da depressão puerperal, a partir da revisão atualizada que realizaram sobre o assunto:
41
História familiar ou pessoal de depressão, especialmente de depressão
pós-parto, aumenta significativamente o risco de episódio depressivo
no puerpério. Mulheres com episódios prévios da doença possuem
risco de 50% de recorrência nas próximas gestações, e cerca de 30%
das pacientes com depressão prévia à concepção desenvolverão o
distúrbio. Outros fatores de risco incluem a ansiedade e a depressão
durante a gravidez, suporte pós-natal deficiente, eventos estressores,
instabilidade conjugal e gravidez não desejada. Estudos demonstram
que a insatisfação com o casamento, o mau relacionamento com a
mãe, e a manutenção do papel social de forma não espontânea e, sim,
de aparências diante do cônjuge e das outras pessoas aumentam o
risco de depressão pós-parto. Grandes estudos não correlacionaram a
amamentação nem as variáveis obstétricas (tipo de parto, idade da
gestação, peso do recém-nascido) com mudanças no risco de
desenvolver a doença. Também não parece haver associação entre o
nível socioeconômico e o desenvolvimento da doença (p. 440).
Trad (1995) destaca um fator-chave que contribui para o início da depressão
pós-parto: as representações que a puérpera possui de suas experiências infantis com a própria
mãe. Quando tais representações são positivas, a mulher aparece psicologicamente equipada
“para transferir tais emoções para o filho e para assumir as tarefas maternas com entusiasmo.
Em contraste, mães cujas representações de suas experiências infantis são negativas são
apáticas na interação com o filho e hesitantes na aceitação do papel materno” (apud De Felice,
1999, p. 19).
Halberstadt-Freud (1993) também estabelece um vínculo entre depressão
puerperal e uma relação patológica entre a puérpera e sua própria mãe: denomina tal relação
de ilusão de simbiose. Neste caso, o que se coloca como fator central é a fantasia da mulher
puérpera de que irá “satisfazer todos os desejos que lhe foram negados na infância por sua
própria mãe. Para sustentar a ilusão de simbiose a mãe excinde seus sentimentos de frustração
e raiva projetando-os, freqüentemente, no pai (do seu filho), que se torna, então, objeto de
suas fantasias hostis”. Apprey (1987) estudou o caso de uma mulher de 34 anos e verificou
que a presença de uma mãe interna hostil foi um fator que solapou sua alegria pela
maternidade (apud De Felice, 1999, p. 19).
A depressão puerperal também pode estar associada à relação mesma da
puérpera com seu bebê. Barbosa et al. (2003) realizaram uma revisão de literatura e
42
encontraram relevância quanto a esse aspecto. Sinalizam as dificuldades no encontro da mãe
com seu filho desconhecido. No período inicial do pós-parto a labilidade emocional, fadiga e
fragilidade física e emocional se constituem como o padrão característico. Mas, devido às
características de personalidade da puérpera, tal processo pode ficar extremamente
dificultado, especialmente quando apresenta forte dependência em relação à sua própria mãe.
Kitzinger (1977) observa que “as mulheres podem facilmente gostar do filho enquanto ainda
está dentro delas e amar a imagem idealizada do bebê, mas não a realidade do recém-nascido
(bebê imaginário e bebê real)”. Isso equivale a dizer que, após o parto, surge o bebê real,
geralmente diferente do idealizado. Assim, torna-se necessário elaborar a perda do bebê
imaginário e da fantasia. Este autor (1977) acrescenta que o nascimento pode ser também
vivido como amputação nas situações em que, na gravidez, o filho é sentido como parte do
corpo da mãe (apud Barbosa et al., 2003, p. 74).
Maldonado (1989) considera que a depressão pós-parto “tende a ser mais
intensa quando há uma quebra muito grande na expectativa em relação ao bebê, a si própria
como mãe e ao tipo de vida que se estabelece com a presença do filho” (p. 66). Souza e
Rezende (2000) realizaram uma observação da relação mãe-bebê no âmbito familiar, durante
o período de um ano e oito meses após o parto. Consideram que no caso estudado a depressão
materna pode ser atribuída à impossibilidade da mãe “para lidar com o luto de um noivado e
casamento sonhados, um projeto profissional frustrado, e os restantes de sonhos e fantasias
que como sombras recaíam sobre o bebê” (p. 54).
Boukobza (2000) tem larga experiência de trabalho com mães e seus bebês.
Compreende que a depressão pós-parto está relacionada com uma renúncia muito forte que a
mãe precisa realizar com a vinda do bebê, que perturba intensamente a imagem narcísica viva
dela mesma. Com isso, sua imagem atual deixa de ser congruente com o que ela projeta num
Ideal de Eu, e a puérpera desmorona na depressão ou num estado maníaco reacional. A libido
se retira totalmente para o ego e o bebê não é falicamente investido, tornando-se “um
43
importuno, um perturbador que usurpa o espaço psíquico da mãe” (p. 17).
A influência dos fatores socioculturais mostra-se muito clara: Ster e Kruckman
(1983) se depararam com a pouca evidência de depressão puerperal em sociedades não
industrializadas. Atkinson e Rickel (1984) também constataram depressão puerperal em mães
adotivas e no pai, além de ressaltarem que as expectativas irreais do casal acerca do filho
contribuem muito para tal distúrbio, e Quadagno et al. (1986) mostraram que homens e
mulheres vivenciam, igualmente, a depressão puerperal (apud Cury, 1997b).
Harvey (2002) escreveu um guia dirigido ao público em geral, que trata da
depressão pós-parto. Entende que os fatores hormonais não bastam para explicar o aumento
crescente da depressão pós-parto na atualidade. Para a autora (2002) “o que mudou durante os
últimos 50 anos foi a situação social em que as mulheres estão se tornando mães” (p. 29).
Aponta alguns aspectos sociais que parecem exercer uma forte influência no desenvolvimento
da depressão puerperal:
- Falta de apoio: hoje em dia, as mulheres podem tornar-se muito isoladas o
que trará repercussões em termos de não ter com quem contar, após o nascimento do bebê.
“Acredita-se que esse isolamento seja um dos mais importantes fatores para a elevação da
taxa de incidência de depressão pós-parto” (p. 29).
- Falta de uma relação de confiança: refere-se à necessidade que a nova mãe
tem de ter alguém ao seu lado com quem compartilhar suas emoções, problemas,
expectativas, etc.; e a pessoa mais indicada seria o seu companheiro. “Não ter esse tipo de
confidente é outro fator de risco no desenvolvimento da depressão pós-parto – identificado em
mães solteiras e nos casais que enfrentam dificuldades no relacionamento” (p. 32).
- Dificuldades financeiras: as preocupações financeiras podem deprimir as
pessoas e “ter ainda um bebê para sustentar pode aumentar rapidamente as chances de
desenvolvimento da depressão pós-parto” (p. 34).
- Dificuldades de relacionamento: o companheiro da nova mãe tem um papel
44
fundamental para a realização das necessidades de apoio e confiança emocional desta. “É
evidente que fissuras existentes nesse relacionamento aumentarão a probabilidade da
depressão pós-parto. Elas também podem exacerbar sentimentos de baixa auto-estima, culpa e
raiva” (p. 35).
Na intersecção entre os aspectos sociais e os pessoais, Harvey (2002) cita um
fator de risco para a depressão pós-parto que diz respeito à mulher da sociedade
contemporânea: os problemas de adaptação que terá de enfrentar com a chegada do bebê. A
mulher da sociedade atual está tendendo a ser mãe em uma idade mais avançada, que era há
algumas décadas: entre 25 e 40 anos. Por volta dos 30 anos, a mulher costuma já estar com
sua vida profissional bem articulada e tendo controle geral sobre sua vida. Com a vinda do
bebê, fica difícil manter tal controle, podendo desequilibrar completamente o casal.
Os valores de cada cultura, certamente, influenciam significativamente quanto
à postura da puérpera diante das perturbações psíquicas por ela vivida:
Essas mães, por sua vez, embora angustiadas e oprimidas por sua
incapacidade materna e doméstica, raramente relatam seu humor
depressivo a seus clínicos gerais ou aos pediatras. A maioria tenta
continuar com suas tarefas domésticas e corresponder às exigências
do bebê, marido e sociedade, pois elas deveriam estar ‘culturalmente’
contentes e aptas (Rocha, 1991, p. 13).
Os fatores etiológicos e de risco para a depressão puerperal são, pois,
múltiplos. Urge, então, que passemos à singularidade que permeia o caso clínico aqui
abordado.
45
4 RUPTURA DAS FORÇAS PROTETORAS E ASSEGURADORAS DO AMBIENTE
Lara parece ter vivido dois episódios de depressão pós-parto. Em ambos
podemos observar um ambiente ao seu redor que não ofereceu um suporte suficientemente
bom para que pudesse realizar as condições necessárias e naturais para a maternidade. A
relação com seu marido era marcada pelo desencontro, pelo desentendimento e muitas brigas.
Ao se mudar para outra casa, em um bairro bastante depreciado socialmente, perde o suporte
egóico, proteção e segurança que teve, anteriormente (na ocasião do nascimento de sua
primeira filha), por parte de familiares (mãe e irmãs) e vizinhas. Após o nascimento da
segunda filha, ocorre uma ruptura das forças protetoras e asseguradoras do ambiente,
revelando e intensificando o estado de vulnerabilidade desta mãe.
Enquanto estava no hospital, Lara sentia-se relativamente protegida. Mas, ao
voltar para casa com um bebê nos braços, não encontrou pessoas que a acolhessem,
devidamente. Sentiu-se completamente sozinha para cuidar do bebê e da primeira filha, que
estava com quatro anos de idade. Também, tinha que realizar as tarefas da casa... Era demais
para ela!
Em relação à ida da parturiente para casa, Soifer (1992, p. 73) assim se
expressa:
De qualquer maneira e sem chegar aos limites alarmantes do estado
psicótico, acham-se presentes em todos os casos, em maior ou menor
grau, as idéias depressivas e persecutórias, o desejo de afastar-se, o
abandono. A sensação dominante é de haver perdido a própria
personalidade e ser uma mera escrava do bebê e do ambiente. Quando
a família e os amigos podem colaborar de modo eficiente, tais
sensações acabam por se transformar em carinho para com o filho, em
alegria pelo seu progresso e crescimento. Mas
, como já dissemos, se
essa colaboração não é suficiente ou se mostra inadequada, o estado
depressivo, mesmo sem chegar à psicose, pode prolongar-se.
46
No capítulo anterior, fizemos um apanhado do material teórico, encontrado,
sobre a depressão puerperal. As pesquisas realizadas, sobre os fatores que exercem forte
influência no desenvolvimento da depressão puerperal, apontam a falta de apoio social e de
uma relação de confiança, como os principais deles. A nova mãe necessita de um ambiente,
em torno de si, que lhe ofereça suporte. Precisa de alguém ao seu lado com quem possa
compartilhar seus sentimentos, expectativas, dificuldades, etc. A pessoa mais indicada para
ser tal confidente seria o seu companheiro. Fissuras existentes nesse relacionamento
aumentam as possibilidades de surgimento da depressão puerperal.
Winnicott (1960) entende que a proteção estendida em torno da mãe,
geralmente organizada pelo marido, é de fundamental importância. Vincula os distúrbios
puerperais vividos por certas mulheres, à ruptura das forças protetoras naturais do ambiente
que as envolve. Em tais casos, ele constata:
Não só o desenvolvimento da preocupação materna primária é difícil
de alcançar para certas mulheres mas também o processo de recobrar
uma atitude normal em relação à vida e ao self pode produzir
enfermidades clínicas. Tais enfermidades podem ser ocasionadas, em
certa medida, por um colapso daquilo que permite à mãe estar voltada
para dentro e esquecer todos os perigos externos enquanto dure sua
preocupação materna” (p. 23).
E, por que a proteção estendida em torno da mãe é de fundamental
importância?
Falamos, inicialmente, em condições necessárias e naturais para a
maternidade. Winnicott (1960) considera que, algumas enfermidades clínicas puerperais,
podem ser ocasionadas por um colapso daquilo que permite à mãe estar voltada para dentro e
desenvolver sua preocupação materna primária.
Preocupação materna primária é uma expressão criada por Winnicott para
descrever um estado especial e natural de ser, que ele observou nas mães, nos momentos
imediatamente antes e depois do nascimento de seus bebês. Trata-se de uma “condição
47
organizada (que seria uma doença no caso de não existir uma gravidez)”, sobre a qual
Winnicott (1956) relata o seguinte:
Gradualmente, esse estado passa a ser o de uma sensibilidade
exacerbada durante e principalmente ao final da gravidez.
Sua duração é de algumas semanas após o nascimento do bebê.
Dificilmente as mães o recordam depois que o ultrapassam.
Eu daria um passo a mais e diria que a memória das mães a esse
respeito tende a ser reprimida (p. 401).
É muito importante que a mãe alcance esse estado de sensibilidade exacerbada,
essa “doença normal”, para que possa realizar uma adaptação sensível e delicada às
necessidades do bebê, já nos momentos iniciais.
A mãe torna-se devotada e preocupada, em função de sua intensa identificação
com o bebê. Afinal, ela já foi um bebê e tem, em si, os registros inconscientes de tal
experiência.
A mãe grávida já estabelece uma identificação com seu filho, ao associá-lo à
idéia de “objeto interno”. Apesar dos elementos persecutórios presentes na situação, a mãe
instala o objeto imaginado e o mantém dentro de si. Assim, “o bebê tem outros significados
na fantasia inconsciente da mãe, mas é possível que o traço predominante nesta seja uma
vontade e uma capacidade de desviar o interesse do seu self para o bebê” (Winnicott, 1960, p.
21). Isto possibilita à mãe uma capacidade especial de fazer a coisa certa, conhecer as
vontades do seu bebê e o que ele está sentindo, oferecendo-lhe suporte egóico, proteção e
segurança. Neste mesmo texto, Winnicott ressalta que, neste estado, a mãe se torna uma
pessoa muito vulnerável. Em outro texto (1956), esclarece que utiliza a palavra “doença”,
referindo-se a esse estado, “porque a mulher deve ter saúde suficiente tanto para desenvolver
esse estado quanto para recuperar-se dele à medida que o bebê a libera” (p. 401).
Quanto à Lara, podemos considerar que não foi possível que desenvolvesse
adequadamente a preocupação materna primária em relação aos dois filhos, cujos puerpérios
foram marcados pelos episódios de depressão puerperal. Até bem pouco tempo atrás, Lara
48
tinha uma preocupação patológica com eles e os mimava em excesso. Parecia querer
compensar o que foi perdido... Muito diferente da sua relação com a primeira filha.
Além da preocupação materna primária, pensamos ser relevante abordar, aqui,
outros aspectos inerentes ao psicodinamismo da mulher, no parto e puerpério, para que
possamos compreender a importância fundamental do suporte propiciado pelo ambiente, em
relação à mãe.
Com o nascimento do seu filho, uma outra situação se coloca para a mãe (e para
o bebê, logicamente), pois, ocorre aí, a experiência objetiva de separação de seus corpos, o que
determina questões específicas em seu psiquismo. Entretanto, alguns processos psíquicos ainda
são desdobramentos de como ela viveu a gestação. Por isso, faremos algumas breves
considerações a respeito da psicodinâmica da gravidez, já que, algumas condições para o que
ocorre no puerpério, estão relacionadas com o desfecho daquilo que foi vivido na gestação.
O contexto emocional na gravidez está relacionado à influência dos fatores
hormonais, socioculturais e psíquicos. Segundo Colman e Colman (1973) ocorrem três
alterações hormonais significativas na gestação: a progesterona é amplamente produzida na
gravidez, traz um efeito depressivo sobre o sistema nervoso central e influencia no
comportamento da mulher, no sentido da introspecção e da regressão. O metabolismo das
catecolaminas, também, se encontra alterado e “parecem ter um papel regulador nas emoções,
em particular na depressão e euforia. Por fim, os corticosteróides, cujo metabolismo é alterado
na gravidez, são responsabilizados pelas variações emocionais do tipo depressivo, da euforia,
acompanhada de paranóia e de problemas de cognição” (apud Cury, 1997a, p. 79).
Por outro lado, a história, a antropologia e outras áreas do conhecimento
mostram que a gravidez representa mais que os eventos biológicos. A gravidez se constitui
como evento social, na medida em que é um estado intermediário entre o status de mulher e o
de mãe. Por se tratar de uma situação de indefinição, “considera-se que esteja em uma situação
ambígua, socialmente anormal e vulnerável aos perigos externos”. Vários autores (Mead,
49
1988; Harris, 1981; Cominsk, 1994; e outros) estudaram o fator cultural sobre a gravidez e
demonstraram a grande influência do condicionamento que cada cultura exerce não somente
em relação ao significado pessoal como também à experiência física da gravidez e da
parturição (apud Cury, 1997a, p. 79).
Os estudos atuais da psicodinâmica da gravidez têm abordado bastante o
conceito de crises evolutivas desenvolvido por Erikson (1976) e Caplan (1980). Segundo esse
conceito, é esperado que, em cada período da vida das pessoas, ocorram fatos naturais ou
acidentais desencadeantes de transtornos emocionais e intelectuais, e que exigem respostas
adaptativas para o desenvolvimento da personalidade do indivíduo e surgimento de novo
período de equilíbrio (apud Cury, 1997a). Em relação à crise gravídico-puerperal, ocorre a
reativação dos conflitos da mulher com suas figuras parentais. Deutsch (1947) e Racamier
(1961) ressaltam que “é do conjunto e da constelação de sentimentos hostis e amorosos da
mulher para com seus pais, e, em particular, para com sua mãe, que se pode prever o curso
psicológico da gestação atual” (apud Cury, 1997a, p. 79).
Baseado principalmente nos achados em psicanálise de gestantes, Della Nina
(1997) destaca três modificações psíquicas que parecem dominar durante a gestação: a
regressão psicoafetiva, a ambivalência e a crise de identidade.
A crise de identidade é possível de ser reconhecida, por envolver conflitos de
ordem psicossocial facilmente detectáveis, como por exemplo, no caso de primigestas que
vivem os problemas da passagem da sua condição exclusiva de filha, para a de mãe. Também
as rápidas alterações do esquema corporal, decorrentes do processo biológico gestacional,
teriam importante influência nessa crise de identidade.
A ambivalência remete à existência de impulsos opostos de amor e ódio em
relação à gestação, ao feto e à situação da gravidez. Costuma ser inconsciente e é pouco aceita
socialmente, mesmo pelos profissionais envolvidos com a gestante.
Por fim, temos a regressão psicoafetiva que traz repercussões sobre as fantasias
50
conscientes e inconscientes da gestante, e nenhuma alteração na capacidade intelectual. “Todas
as gestantes estariam sujeitas a esse fenômeno, o qual considerado necessário e fisiológico,
tornar-se-ia patológico quando em nível muito acentuado” (Della Nina, 1997, p. 94). Através
de teste psicológico projetivo, Cury (1997b) constatou, a acentuação do narcisismo e da
capacidade de fantasiar, devido ao fenômeno da regressão. Também, consignou alterações da
sexualidade e da ansiedade relacionadas aos inúmeros conflitos de ordem psicossocial e da
crise de identidade decorrente da gravidez. Della Nina (1997) expõe seu pensamento de que,
como mecanismo de defesa, a regressão gestacional decorreria da
ansiedade emergente na gestação, por causa de seus inúmeros
conflitos, mas, principalmente, devido ao envolvimento das
transformações corporais. Assim, ao lado da cultura ou meio social
em que se insere a gestante, natural modulador de seus conflitos
psicossociais, sempre poderia haver um ‘quantum’ de ‘angústia-sinal’
promovido pelas alterações corporais evocativas das angústias
primitivas (de nascimento e de separação da criança pequena) e que
desencadeariam a regressão...”(p. 95, grifo do autor).
Tal estado de regressão narcísica é de fundamental importância para que a mãe
exerça seu papel, pois permite maior suporte emocional para os enfrentamentos que realizará
após o parto. Porém, se os conflitos decorrentes da situação gestacional forem muito intensos
ou se os demais mecanismos de defesa forem pouco evoluídos, a ansiedade e a regressão
poderão ser excessivas, podendo chegar a níveis extremamente desorganizadores, semelhantes
à síndrome do pânico e outras vezes a modificações acentuadas na fisiologia da gravidez.
De Felice (1999), em uma revisão de literatura sobre a psicologia da gravidez,
também destaca as três modificações psíquicas acima referidas. Cita autores (Kestenberg,
1982; Tsu, 1980; Verthelyi; Rios, 1985) que têm se dedicado ao estudo da regressão que
ocorre durante a gestação, através de materiais clínicos e/ou aplicação de testes psicológicos
projetivos. Também enfoca autores (Langer, 1981; Soifer, 1986) que abordam a ambivalência
que a mulher grávida costuma expressar através dos vômitos, náuseas e desejos; e a crise de
identidade (Maldonado, 1984).
51
Em relação às ansiedades, De Felice (1999) utiliza-se dos estudos realizados
por Langer (1981) e Soifer (1986), que consideram que durante a gravidez são reativadas
fantasias inconscientes da gestante em relação à sua própria mãe, provocando uma
exacerbação das “vivências persecutórias como produto de sentimentos de culpa infantis, pelos
ataques fantasiados à própria mãe e pelos desejos de ocupar o seu lugar. A vivência
persecutória consiste em que alguém possa arrebatar o filho sonhado, ou ainda que a gravidez
tão desejada implique a perda da própria mãe, por se concretizar a fantasia infantil invejosa: ter
o filho pela destruição da mãe” (p. 8). Tal fantasia implica o perigo de castigo e de destruição.
Em contrapartida, tais temores “entram em conflito com o desejo reparatório de devolver à
mãe o roubado através de um filho sadio, de recuperar a mãe destruída através de sua própria
gravidez e parto feliz e de dar fé de sua bondade e tolerância e da bondade e integridade do
próprio corpo” (p. 7). Langer (1986) considera que tais vivências psicológicas “persistem
durante a gravidez, mas mãe e feto chegam a uma melhor adaptação à medida que este
prossegue e vai se intensificando sua união” (p. 215).
De maneira geral, os autores entendem que entre as vivências na gravidez
normal e na patológica, existem diferenças muito mais quantitativas do que qualitativas. No
entanto, Langer (1986, p. 191) considera que “um exame psicológico mais profundo revela-nos
que estes transtornos [da gravidez] provêm de conflitos psicológicos e de identificações com
outras mulheres já transtornadas em sua feminilidade”. Mais à frente, a referida autora (1986)
afirma que as causas de transtornos de gravidez podem ser múltiplas. “Mas sempre a aparição
dos transtornos significa uma rejeição da criança, rejeição provocada amiúde por
circunstâncias econômicas adversas, sociais, por desamor ao marido, etc.” (p. 193).
A gravidez tem sido encarada como um período de maior vulnerabilidade da
mulher. O parto, também, pode ser considerado como um momento crítico, delimitando o
início de uma série de mudanças significativas.
Do ponto de vista biológico, o parto significa a separação de dois organismos
52
que até então viveram juntos, em total dependência e contato íntimo permanente, intenso e de
profunda tranqüilidade. A partir da expulsão, o bebê passa a ter vida própria, encarregando-se
de várias funções que eram antes cumpridas por sua mãe. O nascimento reverte,
catastroficamente, esse estado de equilíbrio, e, o recém-nascido, ao ser lançado no mundo
externo, é invadido por um turbilhão de estímulos.
Sem dúvida, o nascimento tem características de trauma e cria um
protótipo de angústia, pela perda súbita do estado intra-uterino.
A evolução do ser humano fez com que o cérebro passasse a ter a
maior parte do seu crescimento fora do ventre materno, apresentando-o
ao nascer somente 25% do seu tamanho futuro, enquanto no chipanzé
essa proporção é de 65%. Isso resulta na grande inoperância e
dependência do ser humano desde seu nascimento até vários anos
depois (Rzezinski; Mac Cord, 1997, p. 54).
Para que o recém-nascido sobreviva é preciso que exista alguém que lhe
recomponha, mesmo que parcialmente, a condição perdida: “a mãe assume o papel de placenta
ao cuidar da nutrição e do bem-estar de seu filho” (Maldonado, 1989, p. 85). Esta, que já vem
de um processo complexo de adaptação da gravidez, onde incorporou o feto ao seu esquema
corporal, acostumou-se a todas as modificações metabólicas, hormonais e fisiológicas,
precisará passar, com o parto, por um novo processo de adaptação com a chegada de seu filho.
Todo esse processo reativa profundas ansiedades na parturiente. Langer (1986,
p. 215) considera que esse “temor ao parto parece não ter sofrido nenhuma diminuição, apesar
de toda a evolução da obstetrícia moderna, que depois de ter reduzido a um mínimo o perigo
físico para a parturiente, está atualmente eliminando a dor, tão temida, do parto”. Acontece que
a angústia diante do parto possui raízes muito profundas e inconscientes e faz renascer temores
irracionais que acompanham a mulher, principalmente nas primeiras semanas de gravidez. A
partir de Helene Deutsch (1947), os autores psicanalíticos têm concordado que “o parto é a
revivescência mais exata que podemos ter de nosso próprio trauma do nascimento” (apud
Langer, 1986, p. 216), ou seja, a parturiente “revive inconscientemente a angústia sofrida
durante sua própria passagem pelo canal do parto” (Soifer, 1992, p. 51).
53
De acordo com Langer (1986), angústia do parto/nascimento tem um caráter
invasor e desintegrador que ao invadir o ego, fragmenta-o. A vivência que se tem, quando
tomado por essa angústia, é de aniquilamento, dispersão e morte. Por ser uma angústia com
qualidade envolvedora, tende a se propagar a todo o meio, em maior ou menor intensidade, o
que pode gerar comportamentos hostis, às vezes sádicos, por parte de familiares e, também, de
profissionais e auxiliares.
Soifer (1992) considera que, sobre a armação da reativação da angústia do
nascimento, algumas ansiedades básicas se estruturam ao longo do processo do parto. São elas:
de perda e esvaziamento (perda de partes importantes de si mesma), de castração (segundo a
qual lhe arrancam algo valioso), de castigo pela sexualidade e de defrontação com um
desconhecido: o filho. O interjogo de tais ansiedades “produz o estado de confusão, com as
sensações concomitantes de estranheza, despersonalização e perda de identidade. As confusões
giram em torno da equiparação fezes-bebê-pênis (partes do próprio corpo); defecação-parto;
ato sexual-parto; sujeito-objeto (quem dá à luz e quem nasce, ou seja, vítima-vitimado)” (p.
61).
Vemo-nos, pois, remetidos à influência que o fator sócio-cultural exerce sobre
as vivências da parturiente: em relação às proibições sexuais e às inculcações, que ocorrem
durante toda a infância, de que o parto é algo sumamente doloroso e cheio de perigos. Segundo
a teoria de Grantly Dick Read, tais inculcações criam “uma espécie de reflexo condicionado
entre a percepção do começo do trabalho de parto e a aparição da dor [...]. Sustenta, pois, que o
medo causa tensão muscular e que esta, dificultando o trabalho de expulsão do útero, causa
dor” (apud Langer, 1986, p. 219-220). Por isso, é importante que o profissional envolvido
explique à mulher o que acontece com seu corpo durante a gravidez e parto. Em termos
psicanalíticos, quer dizer que é necessário contrapor à realidade psíquica (marcada por
angústias irracionais e representações sexuais infantis sobre a concepção, gravidez e parto)
uma realidade externa racional e tranqüilizadora. As explicações racionais do médico agem
54
como a voz da mãe boa que tranqüiliza seu filho angustiado, ao mostrar que o compreende. E,
para a parturiente, “sentir-se compreendida significa novamente sentir-se perdoada” (Langer,
1986, p. 222). Assim sendo, por todo o exposto, chegamos, juntamente com esta autora
[...] às seguintes conclusões: a gravidez e parto são acompanhados de
mal-estar, angústia e dor por fatores psicogênicos. Se conseguirmos
educar filhas sadias que tenham um mínimo de angústia e sentimento
de culpa e que possam aceitar prazerosamente sua feminilidade,
podemos esperar que a gravidez e o parto sejam novamente o que são
ainda em algumas sociedades ou para algumas mulheres felizes de
nossa sociedade: a conquista máxima de suas faculdades biológicas
acompanhada pela plena consciência de intervir na maior experiência
possível: ter concebido e alimentado dentro de si um novo ser e ter-lhe
dado a vida (Langer, 1986, p. 222).
O puerpério refere-se ao período após o parto em que o organismo materno fará
uma reconstituição das condições pré-gravídicas. Kitzinger (1977) entende o puerpério como o
“quarto trimestre” da gravidez, caracterizando-o como um período de transição com duração
aproximada de três meses após o parto (apud Maldonado, 1989). Em termos psicodinâmicos,
remete a uma “situação de delimitação entre o perdido – a gravidez – e o adquirido – o filho.
Também de delimitação entre devaneio, fantasia inconsciente e realidade” (Soifer, 1992, p.
63). Após o parto, a mulher se encontra pela primeira vez com seu filho, depois de ter passado
longos meses cultivando fantasias e devaneios a respeito dele. Kitzinger (1977), através de
seus estudos, observou que, após o parto, “a mulher se dá conta de que o bebê é outra pessoa:
torna-se necessário elaborar a perda do bebê da fantasia para entrar em contado com o bebê
real” (apud Maldonado, 1989, p. 66).
Domash (1988) também entende que no período pós-parto ocorrem mudanças
intensas na mulher: aumento da sensitividade, diminuição das defesas e maior disponibilidade
para o processo de pensamento primário. Tais alterações convertem este período em um
continuum que vai de uma capacidade aumentada de criatividade, até uma tendência elevada
para a depressão. Existem alguns fatores facilitadores para uma experiência positiva e criativa
no pós-parto: “a extensão da identificação positiva da mulher com a própria mãe; a capacidade
55
da nova mãe para regredir a serviço do ego ou para entrar no ‘espaço transicional’; a
capacidade de ser uma ‘mãe simbiótica’ em contraposição à posterior ‘mãe individuação’; a
quantidade de suporte emocional que ela recebe; e, por último, os fatores biológicos” (apud De
Felice, 1999, p. 14). A capacidade de regredir de forma adaptativa possibilita que a mãe capte
melhor, as necessidades de seu bebê. Tal experiência ocorre na “área transicional” descrita por
Winnicott: área intermediária entre o real e o imaginado constituindo-se de momentos em que
o interno e o externo se confundem e outros em que o outro é visto como separado. Por isso, “a
regressão adaptativa inclui a capacidade de fundir-se momentaneamente e de separar-se
quando necessário” (apud De Felice, 1999, p. 16).
Maldonado (1989) descreve os primeiros dias após o parto como sendo
carregados de emoções intensas e variadas:
As primeiras vinte e quatro horas constituem um período de
recuperação da fadiga do parto. A puérpera sente-se em geral
debilitada e confusa, principalmente quando o parto é feito sob
narcose. A sensação de desconforto físico devido a náuseas, dores e ao
sangramento pós-parto é particularmente intensa, lado a lado com a
excitação pelo nascimento do filho. A labilidade emocional é o padrão
mais característico da primeira semana após o parto: a euforia e a
depressão alternam-se rapidamente, esta última podendo atingir grande
intensidade (p. 65).
Os dias subseqüentes ao parto não são nada fáceis. Soifer (1992, p. 64)
considera que “os primeiros seis meses após o parto definem, em boa medida, o futuro mental
da mulher, assim como determinam e selam a relação com o filho, a família e a sociedade”.
Ocorre que, ao longo deste período, a mãe irá se deparar com diversas situações que envolvem
expectativas, fantasias e necessidades em relação a si mesma e ao ambiente circundante, que,
uma vez frustradas, podem exacerbar as ansiedades persecutórias e depressivas, reforçando os
estados e angústias relacionados ao parto e gestação.
Soifer (1992) observa que a remissão do estado de confusão e
despersonalização subsistente nos dias posteriores ao parto deve-se a um fator decisivo: o
gradual reconhecimento da criança que a mãe vai realizando com a ajuda do ambiente.
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É comum que o estado de confusão vivido no transcurso do parto se resolva
através dos mecanismos maníacos que buscam reverência e homenagens nas atitudes das
pessoas que a cercam. Além disso, “toda gestante primípara sonha com os belos dias em que
terá nos braços o bebê, e receberá visitas e presentes. A história dos três Reis Magos é um
claro exemplo das múltiplas versões dessa fantasia”. Em geral, o ambiente capta e satisfaz bem
essa necessidade, às vezes chegando ao exagero. Entretanto, “quando não se produz essa
situação de afago e festejo, a depressão é intensa”, pois frustra a fantasia referida e acentua as
ansiedades de esvaziamento e castração por colocar a mãe em uma situação de relativa solidão
com um bebê que somente chora e dorme a seu lado e se liga escassamente a ela. Além disso, a
própria situação de internamento, com todos os cuidados de assepsia, o estar em lugar
desconhecido e com pessoas estranhas, vão induzindo a um estado regressivo que se
acrescenta àquele determinado pelo parto (Soifer, 1992, p. 64).
Outras expectativas vão surgindo diante de cada situação nova que se coloca
para a dupla mãe-bebê: se terá ou não leite, se o bebê mama bem ou não, se é normal ou
anormal, sobre seu caráter, etc. No centro deste quadro estão as ansiedades da lactação. Langer
(1986) destaca a importância da amamentação natural e observa uma tendência da sociedade
atual a preferir a alimentação artificial. Além dos fatores sociais (o trabalho fora de casa da
mulher, falta de apoio dos estadistas para facilitar o exercício da maternidade, etc.), analisa os
fatores psicológicos que participam aí. Reconhece em nossa época uma tendência de
dessexualizar as funções procriativas e “convertê-las de um processo instintivo e espontâneo
em algo mecanizado e controlado. A defloração indolor pelo ginecologista, o parto induzido
que transcorre sob anestesia e a eliminação medicamentosa da produção do leite, substituída
pela alimentação artificial do lactente correspondem todos a esta tendência” (p. 224).
A amamentação é um processo fisiológico e psicológico por envolver um
padrão mais amplo de comunicação entre a mãe e o bebê, constituindo-se numa excelente
oportunidade de aprofundar o contato e amenizar o trauma da separação provocado pelo parto.
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Helene Deutsch crê que a lactância ajuda a mãe superar o trauma que lhe causa a separação
brusca de seu filho, além de servir ao seu filho para aliviar os efeitos de seu trauma de
nascimento (apud Langer, 1986).
Na interação mãe-bebê podem ocorrer diversas situações que levam à frustração
das expectativas e necessidades de ambos, estabelecendo círculos viciosos de angústia materna
e ansiedade do bebê, podendo culminar com a agalactia total e o estado depressivo da mãe.
“Nesse estado depressivo podem predominar as fantasias de esvaziamento ou de castração,
acordes com a personalidade da puérpera, das quais as mais extremas são as ansiedades de
carência materna e de autodepreciação” (Soifer, 1992, p. 66). Tais vivências inconscientes
põem em movimento diversos mecanismos de defesa, de acordo com as características
pessoais de cada mulher. Podem ocorrer mecanismos maníacos, acessos de choro,
aborrecimento, impaciência, despotismo, etc.; somatizações; mecanismos substitutivos dos
maníacos: ensimesmamento, abulia, ruminação obsessiva, mecanismos obsessivos francos,
temores agorafóbicos que podem desencadear a ansiedade claustrofóbica. “Nas situações mais
intensas, a paciente pode chegar a quadros paranóides francos com pseudo-alucinações, ou
ainda a profundos estados esquizóides, marcando ambos o início da psicose puerperal, com a
impossibilidade de se aproximar do bebê e recusa a atendê-lo” (Soifer, 1992, p. 67).
Enfim, chega o momento em que a puérpera recebe alta do hospital, e volta
para casa com o filho nos braços e todas as experiências bastante intensas vividas no hospital
– seu estado de depressão e suas ansiedades confusas. Também leva consigo várias
preocupações que surgiram em sua mente antes de ir para casa: “Como encontrará a casa?
Poderá manejá-la como antes? Como se arranjará para incluir, dentro das tarefas habituais, a
criação do bebê?” (Soifer, 1992, p. 72). Tal estado mental da mulher se intensifica com a
perda da proteção que significava o hospital para ela. Com a ida para casa, também,
diminuem os afagos e comemorações, sobressaindo as obrigações e responsabilidades.
No decorrer do primeiro mês, em condições psicológicas normais, a puérpera
58
vai saindo gradualmente do seu estado depressivo. Já na segunda semana os estados de
confusão e despersonalização tendem a desaparecer, e, na terceira semana é comum o ego ter
se reintegrado, adaptando-se ao novo contexto, apesar das ansiedades continuarem presentes.
Entre as ansiedades mais freqüentes estão as referentes ao corpo, uma vez que
a recuperação da sua forma habitual é tardia. Ainda permanecem as ansiedades relacionadas à
busca de carinho e proteção, derivadas do “terror de ser atacada por haver dado à luz um filho,
ou da sensação de perda de uma parte do corpo [...] No fundo, essas vivências exprimem a
ansiedade decorrente da culpa e o temor ao castigo pelas relações sexuais frutíferas”, que são
intensificadas pelas sensações sexuais oriundas do ato de amamentar (Soifer, 1992, p. 75).
Maldonado (1989) entende que
Na raiz de muitos casos de ambivalência em relação à amamentação
encontra-se uma dissociação profunda entre maternidade e sexo: a
mulher que não amamenta por considerar os seios como símbolos
sexuais e a amamentação como algo ‘puro’, destituído de sensualidade;
e a mulher que amamenta, mas deixa de utilizar os seios como fonte de
prazer erótico, empobrecendo sua sexualidade” (p. 82).
Com o término da “quarentena” coloca-se em pauta o reatamento das relações
sexuais. Surgem as fantasias e temores de estar prejudicada e rompida por dentro, ou de haver
perdido os órgãos genitais internos. O homem tende a assumir a fantasia de que sua mulher se
acha prejudicada. Também surge o medo de uma nova gravidez e as ansiedades pela ausência
da menstruação. No início, o reatamento das relações sexuais é, geralmente, insatisfatório e
frustrante, pois, em parte, subsistem ainda a regressão e suas correspondentes ansiedades, tanto
da parte da mulher, quanto do homem. Mas, gradativamente, o processo vai se realizando. “Em
geral, os inconvenientes desaparecem em poucos dias, mas em muitos casos, em vez de serem
superados, determinam o esfriamento sexual do par; a ocasiões, tal desavença pode conduzir à
separação” [sic] (Soifer, 1992, p. 79).
O reatamento das relações sexuais contribui sobremaneira para a melhora do
estado regressivo da mulher. Porém, continuam vigentes, em menor intensidade, as vivências
59
depressivas. “Já a partir do segundo mês, em condições normais, a mulher começa a se sentir
mais livre, menos dependente, absorvida e escravizada”, pois o bebê já repousa por períodos
mais longos e a mãe já se adaptou melhor ao manejo do recém-nascido e à situação global do
lar (Soifer, 1992, p. 79).
No período que vai do segundo ao sexto mês pós-parto, a principal ansiedade
refere-se à preocupação em torno do progresso da criança: se está ou não se realizando dentro
da normalidade. No sexto mês, é recomendado que seja introduzido o alimento sólido:
“aparece na mãe um novo episódio de depressão, pois ela sente esse alimento como uma
proibição de lactar, isto é, como uma sanção contra esta sua atividade” (Soifer, 1992, p. 80).
Outra situação impactante é o aparecimento do primeiro dente. As ansiedades do bebê durante
a dentição reativam fortes ansiedades na mãe e também no pai, que revivem suas próprias
situações infantis decorrentes desse processo.
Mas, um fato merece ser destacado: a característica peculiar da relação entre a
puérpera e a sua mãe:
Quando o bebê pertence ao sexo feminino [...] a fantasia inconsciente é
haver matado a própria mãe e ocupado o seu lugar.
Essa fantasia culposa faz surgir intensas vivências depressivas de
orfandade e carência materna, que coexistem com o temor persecutório
de ser despojada e aniquilada retaliativamente.
Quando o bebê pertence ao sexo masculino, a fantasia inconsciente é
de haver roubado à mãe o marido (filho) e os temores de retaliação se
plasmam na sensação de que ela irá apoderar-se da criança. Tais
ansiedades determinam, por sua vez, o medo de ficar sem mãe.
Ambas as fantasias influem de maneira particular na relação com a
mãe real (Soifer, 1992, p. 81).
Assim como a gravidez, o período do puerpério exerce grande impacto no
marido e nos outros filhos, quando já existem. Vários sentimentos e comportamentos são
mobilizados pela chegada do novo componente familiar e pela atenção e cuidados dispensados
a ele. As reações podem ser as mais diversas e tanto podem ser facilitadoras, como prejudiciais
à puérpera, devido a toda essa complexidade e vulnerabilidade psíquica. Ser mãe é natural e
complexo, ao mesmo tempo. Por isso, solicita tanto, a participação suficientemente boa do
ambiente.
60
5 SEPARAÇÕES E PERDAS ORIUNDAS E/OU CONTÍGUAS AO PUERPÉRIO
No capítulo anterior, observamos que a literatura ressalta as ansiedades e
temores de separação e perdas, comumente vividas (inconscientemente) pela parturiente.
No parto, ocorre, concretamente, a separação dos dois corpos. Kitzinger (1977)
considera que, “na gravidez, o filho é muitas vezes sentido como parte do corpo da mãe e, por
essa razão, o nascimento pode ser vivido como uma amputação. São comuns, na gestação, os
sonhos em que há perdas de partes de si própria (membros, dentes, cabelo, etc.)” (apud
Maldonado, 1989, p. 66). É preciso elaborar a perda do bebê fantasiado e entrar em contato
com o bebê real.
Ocorre também que, por estar identificada com seu filho, a parturiente “vive
através dele todo o temor de separar-se de sua mãe. Identifica-se com seu desamparo e sente
não poder continuar protegendo-a contra a vida. Sente que ele perde a mãe e vive o parto
como perda dele. Este temor à separação é a ansiedade maior do parto e a que devemos tomar
mais em conta se queremos atingir partos fáceis” (Langer, 1986, p. 216).
Então, podemos considerar que, além de tais ansiedades e temores por perdas e
separações, Lara viveu como perda a falta do asseguramento promovido pelo ambiente, uma
vez que, no seu primeiro parto, ela contou com tais forças protetoras naturais.
Mas, Lara, também, teve outras perdas nas proximidades da vivência do parto:
um trabalho, que era importante para ela, e uma casa em um bairro valorizado socialmente,
onde tinha poucas, mas boas amigas. Com isso, perde as reverências e bajulações que os
familiares ofereciam, devido ao prestígio social que aquilo lhe trazia.
Como já foi dito por Harvey (2002, p. 40), “a depressão pós-parto pode ser um
61
lamento pelo que foi perdido”. São muitos lutos a serem elaborados por Lara: mesmo que sem
consciência disso...
Freud (1917 [1915]) considera a noção de perda como um ponto central e
comum entre o luto e a melancolia. Isso porque ambas as situações têm como causa
precipitante uma perda. Assim, a melancolia é considerada como um estado patológico da
vivência do luto, em que ocorre a perda do interesse pelo mundo externo e a pessoa torna-se
enlutada com a vida. Mas, uma perda, também ocorre em relação a si próprio: a perda em sua
auto-estima, um esvaziamento do ego.
Após o parto, quando já estava em casa com seu bebê, Lara começou a
apresentar um estado que se aproxima muito daquele que Freud (1917 [1915]) descreve:
Os traços distintivos da melancolia são um desânimo profundamente
penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da
capacidade de amar, inibição de toda e qualquer atividade, e uma
diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar
expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando
numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um
pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única
exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da
auto-estima está ausente no luto; afora isso, porém, as características
são as mesmas (p. 276).
No capítulo 3, trouxemos algumas definições e descrições da depressão
puerperal. Elas se aproximam muito dessa que Freud oferece em Luto e Melancolia (1917
[1915]). Porém, neste momento, não estamos buscando estabelecer o quadro psicopatológico
de Lara. Nosso intuito é compreender as relações possíveis entre separações/perdas e a
depressão. Por isso, começamos com Freud.
As perdas geram a necessidade de um desinvestimento pulsional do objeto, por
parte do ego, o que faz com que a pessoa fique mais afastada do mundo externo e voltada para
si mesma.
É importante, então, que se faça a elaboração do luto. Durante esse processo, a
pessoa pode apresentar todas as características acima, descritas por Freud (1917[1915]), com
62
exceção da perda da auto-estima, que não ocorre no luto. A elaboração do luto é um processo
psíquico complexo e bastante penoso, que vai acontecendo inconscientemente. Para que
ocorra, é necessário que a pessoa evoque e hipercatexize cada uma das lembranças e
expectativas vinculadas àquilo que foi perdido, e faça a retirada gradual da libido de todas
elas. No final, o ego fica livre e desinibido novamente, para se relacionar com o mundo
externo.
Com Lara não ocorreu esse “final feliz”: ela continuou voltada para si mesma.
Provavelmente, não conseguiu renunciar àquilo que perdeu. Diante disso, Freud (1917[1915])
considera que o ego promove uma identificação com o que se perdeu, e a libido se retira para
o ego, agora, alterado pela identificação.
A capacidade de realizar renúncias pressupõe um ego, suficientemente,
fortalecido. Pelo que vimos até agora, o processo de gestação – parto e puerpério – promove e
requer uma certa regressão egóica, o que deixa o ego mais vulnerável. Então, podemos supor
que, perdas significativas, nesse momento da vida, tendem a ser mais difícieis de elaborar.
Freud (1917 [1915]) reconhece que Otto Rank ofereceu contribuições
importantes para a compreensão desse processo de identificação realizado pelo ego, ao
associá-lo ao tema do narcisismo: “a escolha objetal é efetuada numa base narcisista, de modo
que a catexia objetal, ao se defrontar com obstáculos, pode retroceder para o narcisismo. A
identificação narcisista com o objeto se torna, então, um substituto da catexia erótica, e, em
conseqüência, apesar do conflito com a pessoa amada, não é preciso renunciar à relação
amorosa” (p. 282). Tal processo remete à fase oral ou canibalista do desenvolvimento
libidinal, em que o ego deseja incorporar a si o objeto devorando-o. Entretanto, enfatiza que
ainda não é possível concluir que a tendência ou parte da tendência para adoecer de
melancolia está na predominância do tipo narcisista da escolha objetal, haja vista que o
material empírico em que se fundamentou seu estudo é insuficiente para tal. Porém, é possível
incluir na caracterização da melancolia essa regressão da catexia objetal para a fase oral –
63
narcisista – da libido, que se encontra “ausente no luto normal ou que, se estiver presente,
transforma este em luto patológico” (p. 283).
Logo mais, na Conferência XXVI – A Teoria da Libido e o Narcisismo (1917
[1916 – 1917]), Freud ressalta: “A hipótese de que a libido objetal se possa transformar em
libido do ego, parece-nos, pois ser a única que pode resolver o enigma daquilo que se
denomina de neuroses narcísicas [...]” (p. 490). A retirada da libido objetal para o ego não é
diretamente patogênica: somente o será quando sua retirada para o ego é forçada por um
processo muito intenso vivido pela pessoa. Aqui, haverá uma interferência na mobilidade da
libido que se tornou narcísica e não consegue retornar aos objetos, tornando-se patogênica,
pois é provável que haja uma intolerância à acumulação de libido narcísica acima de
determinado nível. Para que tais questões fiquem mais profundamente compreendidas, pensa
ser necessário avançar mais nas elaborações teóricas sobre o ego. Durante o desenvolvimento
humano, tem-se um primeiro estádio narcísico, o passo adiante se refere à escolha objetal que
pode realizar-se de duas maneiras: “um, segundo o tipo narcísico no qual o próprio ego da
pessoa é substituído por um outro, que lhe é tão semelhante quanto possível; o outro, segundo
o tipo ligação, no qual as pessoas que se tornaram valiosas, porque satisfizeram as outras
necessidades vitais, são, também, escolhidas como objeto pela libido” (p. 497).
Em O Ego e o Id (1923), Freud reconhece que a natureza do processo em que
ocorre uma instalação do objeto abandonado dentro do ego ainda é desconhecida; porém
supõe que “através dessa introjeção, que constitui uma espécie de regressão ao mecanismo da
fase oral, o ego torne mais fácil ao objeto ser abandonado ou torne possível esse processo.
Pode ser que essa identificação seja a única condição em que o id pode abandonar os seus
objetos” (p. 43).
Outro aspecto bastante relevante observado no psicodinamismo de Lara, e que
se manifesta, com certa força, nas situações de separação/perdas ou, também, de
desconsideração, desprezo e desapontamento é a ambivalência de sentimentos. É um outro
64
aspecto considerado por Freud em Luto e melancolia (1917 [1915]). Diz ele que as perdas
amorosas, também, constituem terreno propício para que a ambivalência se manifeste. A
ambivalência se coloca como uma complicação que não se encontra no luto normal. Inúmeras
lutas são travadas em torno do objeto, marcadas pelo conflito entre o amor e o ódio: o
primeiro tenta manter, e o segundo separar a libido do objeto perdido.
A ambivalência se coloca como um ponto de encontro entre a neurose
obsessiva e a melancolia, porque se constitui como um aspecto bastante relevante no
psicodinamismo de ambos os quadros clínicos. Freud (1917 [1915]) entende que “onde existe
uma disposição para a neurose obsessiva, o conflito devido à ambivalência empresta um
cunho patológico ao luto” que se expressa como estados (obsessivos) de depressão, marcados
por auto-recriminações “no sentido de que a própria pessoa enlutada é culpada pela perda do
objeto amado, isto é, que ela a desejou” (p. 283). Na melancolia, também, ocorre o conflito
devido à ambivalência, não somente em decorrência de uma perda por morte, como também
por situações de desconsideração, desprezo ou desapontamento. Tais circunstâncias podem
promover a irrupção da oposição amor-ódio ou reforçar uma ambivalência já existente.
Porém, diferentemente do que ocorre na neurose obsessiva, na melancolia há uma retração
regressiva da libido.
Diante da perda do objeto, a catexia erótica do melancólico realiza dois
caminhos: uma parte regride à identificação e a outra, por influência da ambivalência, volta à
etapa de sadismo, aderindo àquilo que em O Ego e o Id (1923), Freud denominou de
superego. O ego é, então, dominado pelo objeto. Freud (1917 [1915]) compara o “complexo
de melancolia” com uma ferida aberta que atrai a si as energias catexiais de todas as direções,
esvaziando e empobrecendo o ego.
A compreensão de tais movimentos psíquicos nos ajuda entender as auto-
acusações e o suicídio, na melancolia. Ocorre que o superego irá dirigir sua hostilidade ao
objeto, refugiado no ego pela identificação narcísica: “o ódio entra em ação nesse objeto
65
substitutivo, dele abusando, degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando satisfação sádica de seu
sofrimento” (Freud, 1917 [1915], p. 284), podendo chegar ao extremo de matar a si mesmo,
ao se tratar como um objeto: aquele perdido. Assim, também, a maioria das grandes auto-
acusações é, na realidade, queixas dirigidas ao outro: o que é dito de si está se referindo ao
objeto abandonado.
O trabalho de elaboração das perdas na melancolia é extremamente longo e
gradual. Na análise é possível observar que as lembranças vão sendo ativadas uma a uma,
constituindo-se como lamentos aparentemente repetitivos, maçantes e tediosos em sua
monotonia, mas que costumam proceder cada vez de uma fonte inconsciente diferente. Freud
(1917 [1915]) considera que “cada luta isolada da ambivalência distende a fixação da libido
ao objeto, depreciando-o, denegrindo-o e mesmo, por assim dizer, matando-o. É possível que
o processo no Ics. chegue ao fim, quer após a fúria ter-se dissipado, quer após o objeto ter
sido abandonado como destituído de valor” (p. 291).
Até aqui, podemos entender que dificuldades acentuadas para lidar com
separações/perdas podem impossibilitar a elaboração dos lutos, de maneira normal, tornando-
os patológicos: instala-se a depressão.
Em Luto e Melancolia (1917 [1915]), Freud diz que “onde existe uma
disposição para a neurose obsessiva [...]” (p. 283) o luto poderá ter um desdobramento
patológico (estados obsessivos de depressão). Também esclarece que algumas pessoas
produzem melancolia em vez de luto, e suspeita que “essas pessoas possuem uma disposição
patológica” (p. 275). Porém, não esclarece, de maneira direta, o que entende por disposição, e,
neste sentido, consideramos que Winnicott pode nos ajudar nesta caminhada.
Winnicott (1954-5) entende que a capacidade para sentir concernimento,
tristeza e elaborar bem as perdas remete ao estágio do desenvolvimento emocional
denominado de posição depressiva, que “ocorre gradualmente, sob certas condições definidas
de maternagem, durante o período entre os 5 e 12 meses de idade, e pode não se completar até
66
um momento muitíssimo posterior, sendo possível descobrir-se em análise que isto nunca
ocorreu” (p. 359-360). E, a maneira como as pessoas reagem às perdas, está profundamente
relacionada com as vivências da posição depressiva: “Quando a posição depressiva foi
alcançada e plenamente estabelecida num indivíduo, a reação à perda é a dor, ou tristeza. Se
ocorreu alguma falha na posição depressiva, a conseqüência da perda é a depressão” (p. 371).
Em outras palavras: quem não estabeleceu plenamente a posição depressiva
viverá, as perdas significativas, através da depressão (mesmo que não se manifeste claramente
devido à utilização de defesas). Nesses casos, o luto será patológico. Assim, a disposição a
qual Freud se refere seriam as falhas na vivência da posição depressiva.
O termo posição depressiva foi criado por Melanie Klein e refere-se a um
estágio do desenvolvimento emocional que ocorre, normalmente, com todos os seres
humanos. Entretanto, é importante enfatizar que não ocorre, inevitavelmente, na vida de cada
indivíduo humano, e sim, somente é possível considerar a “posição depressiva no
desenvolvimento normal enquanto uma conquista” (Winnicott, 1954-5, p. 353). Faz questão
de enfatizar que a expressão posição depressiva não indica que as crianças saudáveis
atravessem uma fase de depressão ou de uma doença de humor. Esclarece que:
No conceito da posição depressiva no desenvolvimento normal, não
há qualquer indicação de que a criança fica realmente deprimida. A
depressão, apesar de tão comum, é um sintoma de doença, indica um
humor e implica em conflitos inconscientes que poderiam tornar-se
conscientes. Os processos inconscientes têm a ver com sentimentos de
culpa, e os sentimentos de culpa pertencem ao elemento destrutivo
inerente ao amor. A depressão enquanto distúrbio da afetividade nem
é inanalisável nem é um fenômeno normal (p. 359).
Então, como é que Winnicott compreende a chamada posição depressiva?
Considera que a primeira forma de amor do ser humano é impiedosa. No início
da vida, o bebê estabelece um relacionamento objetal impiedoso e tem prazer na relação
impiedosa com a mãe. Ele “não dá ainda importância alguma às conseqüências de seu amor
instintivo. Esse amor é originalmente uma forma de impulso, gesto, contato, relacionamento,
67
que proporcionam ao bebê a satisfação de poder expressar-se e o alívio da tensão instintiva”
(Winnicott, 1954-5, p. 359).
Nesse primeiro estágio ocorre uma dissociação entre os estados instintivos de
tranqüilidade e os de excitação do bebê. Aí, Winnicott (1954-5) distingue “as funções da mãe,
conforme o bebê esteja calmo ou excitado. A mãe tem duas funções, que correspondem aos
estados de tranqüilidade e excitação do bebê” (p. 361). Se tudo vai bem e a mãe realiza uma
maternagem suficientemente boa, o bebê começa a entrar na posição depressiva: nesse
momento do desenvolvimento normal, as duas funções da mãe começam a se unir na mente
do bebê. É um momento delicado e complexo em que podem surgir enormes dificuldades. O
bebê se dá conta de que a mãe tão valorizada nas fases tranqüilas é a mesma pessoa que foi (e
será ainda) atacada impiedosamente nos estados de excitação por ele vividos: está ocorrendo a
percepção da identidade entre os dois objetos. Outra coisa está, também, ocorrendo: por ser
uma pessoa inteira, o bebê já é capaz de identificar-se com sua mãe, porém ainda não
consegue realizar uma distinção clara entre as suas intenções e o que ocorre de fato. “As
funções e sua elaboração imaginativa ainda não são muito claramente distinguidas em termos
de fato e fantasia”, porém já “é o início do reconhecimento de que existem idéias, fantasias,
elaboração imaginativa da função, idéias e fantasias relativas ao fato, mas que não devem ser
confundidas com o fato” (p. 361-362).
A experiência instintiva provoca no bebê dois tipos de ansiedade: uma em
relação à mãe e outra em relação ao interior próprio do bebê. Em relação à mãe, existe a
preocupação quanto aos efeitos do amor instintivo sobre a pessoa da mãe: culpa. Em relação a
si próprio, existe a “preocupação quanto às mudanças internas que decorrem das experiências
de excitação e das experiências matizadas pela raiva ou motivadas pelo ódio (ansiedade
hipocondríaca)” (Winnicott, 1990, p. 89).
Após a experiência da amamentação, vem um período de contemplação, onde
existe “uma suspensão do instinto e a necessidade de que haja um controle externo das
68
intrusões ambientais” (Winnicott, 1990, p. 97), por parte da mãe ou substituta. O bebê, “além
de sentir apreensivo quanto ao buraco por ele imaginado no corpo da mãe, vê-se tamm
intensamente às voltas com a contenda no interior do eu, e o que é sentido como mau, ou seja,
persecutório para o eu” (Winnicott, 1954-5, p. 364). Tanto a digestão física, quanto a sua
correspondente elaboração, tomam seu lugar na psique, por meio de um processo silencioso,
com velocidade própria em que ocorre uma espécie de classificação que não depende do
controle intelectual, e sim, realiza-se de acordo com padrões pessoais desenvolvidos
gradualmente: “[...] os elementos apoiadores e persecutórios mesclam-se uns aos outros, até
que é alcançado algum tipo de equilíbrio em decorrência do qual o bebê retém ou elimina
conforme a necessidade interna” (1954-5, p. 364).
Surge do âmago do mundo interno “uma espécie de padrão, uma ordem a partir
do caos” (Winnicott, 1990, p. 97). Durante o tempo necessário à elaboração, o bebê fica
entregue passivamente ao que se passa, aguardando os seus resultados.
Winnicott (1990) ressalta que o voltar-se para dentro dessa “fase hipocondríaca
acarreta uma certa vulnerabilidade, e isto significa que para que esta fase seja possível o bebê
deve ser cuidado de um modo suficientemente bom”, para que não ocorram intrusões
ambientais (p. 97).
Os resultados do trabalho interno possibilitam ao bebê saudável dar coisas boas
e coisas ruins que serão aceitas pela mãe: “Neste momento o bebê pela primeira vez dá algo, e
sem esse dar não haverá um verdadeiro receber” (Winnicott, 1954-5, p. 365).
Winnicott (1990) considera que “a resolução da dificuldade inerente ao estar
vivo nesta etapa provém da capacidade para fazer reparações desenvolvida pela criança”. O
bebê precisa ter tempo para “organizar as numerosas conseqüências imaginativas da
experiência instintiva e resgatar algo que seja sentido como ‘bom’, que apóia, que é aceitável,
que não machuca, e com isto reparar imaginativamente o dano causado à mãe” (p. 90).
Através da sobrevivência da mãe ao longo do tempo e de sua capacidade de
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reconhecer o gesto de doação quando este ocorre, o bebê se sente em condições de fazer algo
a respeito daquele buraco no seio ou no corpo da mãe, “criado imaginariamente no momento
instintivo original. Aqui entram em cena as palavras reparação e restituição [...]. O gesto de
doação pode vir a alcançar o buraco, se a mãe faz a sua parte” (1954-5, p. 365). A tarefa que o
bebê tem, diante de si, “exige de forma absoluta tanto tempo quanto um ambiente pessoal
contínuo” (1990, p. 89).
Ao descrever tal processo, Winnicott (1990) nos remete a um tipo de dialética
que se constitui como espiral. Vejamos como ele diz:
Como resultado do êxito das idéias e atos reparadores, o bebê torna-se
mais audacioso ao permitir-se novas experiências instintivas; a
inibição diminui e isto leva a conseqüências ainda mais ricas da
experiência instintiva; surge, assim, uma tarefa ainda maior para a
próxima fase de digestão ou contemplação, mas quando o bebê conta,
felizmente, com a existência de um cuidado materno contínuo e
pessoal, ele cria uma capacidade de reparação tamm maior, e a isto
se segue um novo patamar de liberdade na experiência instintiva (p.
92).
Assim é que se estabelece aquilo que Winnicott denominou de círculo benigno
da posição depressiva, cujo fortalecimento, dia após dia traz conseqüências importantíssimas:
[...] o bebê torna-se capaz de tolerar o buraco (resultado do amor
instintivo). Aqui estará, então, a origem do sentimento de culpa. Esta
é a única culpa verdadeira, visto que a culpa implantada é falsa para o
eu. A culpa surge através da junção das duas mães, e do amor
tranqüilo ao amor excitado, e do amor ao ódio, e este sentimento vem
compor, à medida que cresce, uma fonte normal e saudável de
atividade nos relacionamentos. Esta é uma das fontes da potência e da
construtividade sociais e também do desempenho artístico (mas não
da arte em si mesma, cuja origem é mais profunda) (1954-5, p. 365).
Através da operação do círculo benigno, a compaixão pode ser tolerável pelo
reconhecimento de que, “havendo tempo, algo pode ser feito a respeito do buraco e das várias
conseqüências dos impulsos do id sobre o corpo da mãe” (Winnicott, 1954-5, p. 366). Com o
passar do tempo, será capaz de constituir memórias de experiências sentidas como boas, de tal
maneira que a sustentação oferecida pela mãe é assimilada dentro do ego: torna-se parte do eu
e o indivíduo adquire um ambiente interno. A criança tem agora a possibilidade de encontrar
70
novas experiências de sustentação da situação, podendo com o tempo realizar tal função para
uma outra pessoa, sem ressentimento. Ela “passa a acreditar no esforço construtivo e a
suportar a culpa, e assim tornar-se livre para o amor instintivo” (Winnicott, 1990, p. 90),
como pessoa total. Poderá, então, direcionar-se para as vivências edípicas.
Quando o círculo benigno é quebrado, o processo passa a desfazer-se, tendo
como conseqüência:
(1) o instinto (ou capacidade de amar) terá que ser inibido;
(2) reaparece a dissociação entre o bebê excitado e a mesma pessoa
quando tranqüila;
(3) o sentimento de tranqüilidade não fica mais ao alcance, e
(4) a capacidade para brincar (e trabalhar) construtivamente é perdida
(1990, p. 94).
Em A Posição Depressiva no Desenvolvimento Normal (1954-5), Winnicott
vincula, pela primeira vez, o termo depressão ao conceito de posição depressiva. Entende que
a depressão é um fenômeno relacionado com quebras no círculo benigno da posição
depressiva: “se os fenômenos internos criam problemas, a criança (ou o adulto) abafa todo o
seu mundo interno passando a funcionar num baixo nível de vitalidade. O estado de espírito é
o da depressão” (p. 366-367). Aqui, não se incluem as depressões encontradas clinicamente
na psiquiatria: os indivíduos mais esquizóides. Por contraste, para todo o grupo de maníaco-
depressivos, que constitui a maioria das assim chamadas pessoas normais, a questão da
posição depressiva no desenvolvimento normal não pode ser deixada de lado” (p. 373).
Assim, finalmente, retornamos ao início deste capítulo: à maneira como os
indivíduos reagem às perdas.
Winnicott (1954-5) reconhece a importância dos trabalhos de Melanie Klein
que enriqueceram a compreensão que Freud nos ofereceu a respeito da reação à perda, e, trata
o assunto da sua maneira. Nas situações em que ocorreu alguma falha na posição depressiva,
o objeto perdido é magicamente introjetado na vivência do luto. Uma vez introjetado, está
71
sujeito ao ódio, tornando-se possível o contato com elementos persecutórios: o equilíbrio de
forças é perturbado de maneira que os elementos persecutórios aumentam, ao mesmo tempo
em que as forças benignas ou apoiadoras se enfraquecem. Esse processo se coloca como uma
situação de perigo: produz-se, então, um amortecimento generalizado, como mecanismo de
defesa, instalando, assim, um estado de depressão.
Neste ponto, Winnicott (1954-5) nos surpreende ao dizer que a depressão é um
mecanismo de cura. Vejamos como ele diz:
A depressão é um mecanismo de cura: o campo de batalha é como que
coberto por um nevoeiro, permitindo uma triagem num ritmo mais
lento, dando tempo para que todas as defesas possíveis possam
acontecer e possibilitando a elaboração, de modo que em algum
momento posterior ocorra o restabelecimento espontâneo.
Clinicamente, a depressão (desse tipo) tende a desaparecer, um
fenômeno bem conhecido pelos psiquiatras” (p. 371).
No indivíduo em que a posição depressiva foi solidamente estabelecida, ocorre
uma introjeção de memórias de boas experiências e de objetos amados, o que permite que,
diante de uma situação de perda, “o sujeito prossiga o seu caminho mesmo sem um apoio
ambiental. O amor à representação interna de objeto externo pode diminuir o ódio ao objeto
amado introjetado provocado pela perda. Desta e de outras maneiras, o luto pode ser vivido e
elaborado e a tristeza pode ser sentida enquanto tal” (Winnicott, 1954-5, p. 372).
Será que Lara conseguiu estabelecer a posição depressiva em seu
desenvolvimento emocional?
Na primeira sessão com ela, notamos o quanto a preocupação com a saúde dos
filhos é intensa, principalmente com a segunda e o terceiro filhos. A maior parte do seu tempo
era usada levando-os a médicos, fonoaudiólogos, dentistas, etc., ou pensando e conversando
sobre eles.
Através do trabalho que realizou em uma clínica num hospital pediátrico
ambulatorial, por trinta anos, Winnicott (1958) teve oportunidade de observar inúmeros casos
72
de depressão em mães e pais, que vinham à clínica trazendo seus filhos para serem atendidos.
Constatou nesses pais e mães uma constante oscilação entre a preocupação e o desespero com
seus filhos. Por trás desse desespero é comum encontrar dúvidas gerais que eles têm sobre a
vida e o seu sentido: “Muitas vezes a criança não está doente, mas é a mãe que, naquele dia,
está preocupada, noutro dia, talvez, ela não esteja preocupada quando deveria estar. Eu
aprendi cedo a imaginar minha clínica como uma seção de tratamento da hipocondria de mães
e pais” (p. 76).
Winnicott (1958) considera importante que eles possam levar os filhos ao
médico quando estão deprimidos, e é preciso que sejam bem acolhidos pelo profissional que
os atender, porque pode ser suficiente para afastar o desespero da vida desses indivíduos por
certo tempo: “A depressão que aflige uma mãe pode ser muitas vezes contornada pelo exame
e pelo tratamento da coisa que a está preocupando” (p. 78). Por outro lado, de nada adiantará
“dizer a esta mãe que ela está fazendo uma tempestade num copo de água, especialmente
quando ela de fato está!” (p. 79). Às vezes, uma ajuda de amigos também pode ser suficiente.
Entretanto, salienta que a família “é uma das estruturas que pode ser posta em risco pela
depressão da mãe ou do pai” (p. 77).
Por vezes, as pessoas conseguem ir contornando as dificuldades cotidianas.
Porém, em certas ocasiões, uma falha qualquer pode ser suficiente para ativar uma depressão
latente. Nestes casos, a ação profissional não pode se limitar ao apoio e acolhimento.
Winnicott (1958) entende que nas depressões mais severas – os casos de hospital psiquiátrico
– não há esperança; mas “existe esperança nos casos em que a depressão assume a forma de
uma preocupação com algo. Isso nos abre uma porta de entrada”: um processo psicanalítico
de vários anos. Quando isso não é possível, o que “podemos fazer é dar uma pequena ajuda,
ao longo de certo período de tempo e só em relação àquele ponto específico em que o
indivíduo parece ter fracassado; assim fazendo, comunicamos uma esperança” (p. 81).
Assim, em muitas situações, o que podemos fazer é lidar com a preocupação
73
ou confusão, que é manifestação de uma depressão materna. Tal método não elimina a
depressão, mas pode “quebrar um círculo vicioso em que a confusão ou uma negligência no
cuidado das crianças está realimentando e reforçando a depressão” (1958, p. 82). Neste
sentido, Winnicott (1958), pensa a nossa atuação profissional de maneira bastante mais
flexível e, portanto, criativa:
Afirmo que nosso trabalho torna-se inteligível e recompensador
quando conservamos em mente todo o peso da depressão que deve
resolver-se no interior da pessoa deprimida, enquanto tentamos ajudar
no tocante ao problema imediato apresentado, qualquer que seja ele.
Nosso trabalho é regulado por uma certa economia e nos saímos bem
quando conseguimos fazer a coisa certa na hora certa; quando
tentamos o impossível, porém, ficamos deprimidos nós mesmos e o
caso não se altera ao mínimo (p. 83).
Podemos considerar que a preocupação excessiva que Lara tem, com a saúde
dos filhos e com a possibilidade de estar lhes causando mal por seu nervosismo, expressa um
dos tipos de ansiedade da posição depressiva: preocupação com os efeitos que a agressividade
e destrutividade, contida em sua experiência instintiva, exerce sobre o objeto.
Além disso, Lara tem seu psiquismo bastante marcado pelo outro tipo de
ansiedade característica da posição depressiva, a que Winnicott se refere: a preocupação com
as contendas do seu mundo interno – ansiedade hipocondríaca. A sua ida a médicos, padres e
mesmo videntes era compulsória. Nas sessões comigo, as queixas sobre seu estado,
percepções e transtornos corporais eram cotidianas.
Assim, Lara parece, ainda, estar enredada nas contingências da posição
depressiva do desenvolvimento emocional.
74
6 MATERNIDADE: IDEAL E REALIDADE ATRAVÉS DOS TEMPOS
O parto traz consigo angústias de perda e esvaziamento. Ao mesmo tempo
coloca responsabilidades e expectativas bastante elevadas para esta parturiente que estava tão
sozinha.
A maternidade implica em mais responsabilidades e cria-se, em torno dela,
muitas expectativas elevadas, tanto sócio-culturais, quanto provenientes da própria mãe.
Alguns historiadores mostram que, a partir de determinado momento histórico, a maternidade
passa a ser vista e proclamada através de uma exaltação extremada da função materna.
Beauvoir compreende que
[...] a mistificação começa quando a religião da maternidade proclama
que toda mãe é exemplar. Porque o devotamento materno pode ser
vivido numa perfeita autenticidade; mas o caso é raro, na realidade.
De costume, maternidade é um estranho compromisso de narcisismo,
de altruísmo, de sonho, de sinceridade, de má-fé, dedicação e cinismo
(1980, p. 280).
Ao falarmos em maternidade, precisamos incluir as idéias de sexualidade e
fertilidade. A relação que cada sociedade estabelece com a maternidade não é exatamente a
mesma nos vários contextos históricos. A mudança dos padrões de comportamento feminino e
masculino dentro da relação de casal, de família e de comunidade, através dos tempos, pode
ser examinada com a ajuda da arqueologia, da mitologia, da sociologia, da história, da
antropologia e da psicanálise.
Através das produções do homem pré-histórico – objetos artísticos ou de culto
religioso, mitos, lendas, achados arqueológicos – podemos recompor nossos primórdios. Há
25 mil anos, já existia uma especificidade das funções feminina e masculina. À mulher
75
atribuía-se a função da coleta de frutos, castanhas, raízes e folhas comestíveis e o cuidado e
educação da prole. O homem pré-histórico incumbia-se da caça. Nesta época e por muito
tempo adiante não se conhecia o papel do homem na fecundação, sendo os filhos
considerados produtos exclusivos da mãe: ascendência feminina. “O caçador aparece em sua
grandiosidade, arriscando a vida diante da fera para proteger a comunidade ou dar-lhe
alimento. A mulher é enaltecida em seu papel procriador através de grande número de
estatuetas que a mostram no momento do parto, também se arriscando em prol da continuação
da vida” (Rzezinski; Mac Cord, 1997, p. 55).
Com o passar dos milênios, as cenas do herói caçador vão dando lugar ao
criador de animais, de menor prestígio mítico que o anterior, enquanto a figura da mulher
representada como Deusa-Mãe com enormes nádegas, quadris largos, seios volumosos à
mostra e sentada em um trono, ainda é encontrada por muito tempo: cinco mil anos antes de
nossa era. “A agricultura tinha começado a se desenvolver, e era, nesse princípio, atividade
feminina, enquanto o homem pastoreava. Nunca a valorização feminina parece ter sido tão
forte”. A fertilidade da terra e a fartura da colheita são associadas à fecundidade da mulher.
“Essa associação está ainda presente no imaginário dos homens de hoje e condensa todo o
fascínio e terror, ligados ao feminino. Nesse contexto, podemos afirmar que a gestante é a
portadora de um poder mítico, gerador de intensas fantasias e ansiedade nos que a rodeiam e
das quais nem ela mesma está isenta” (Rzezinski; Mac Cord, 1997, p. 56).
Há indícios de que esse quadro tenha se alterado há três mil anos antes de
nossa era: “O homem passa progressivamente a também participar do trabalho agrícola,
introduzindo técnicas que requerem maior força física. existe o conhecimento da
necessidade do sêmen do homem para a fecundação da mulher e a filiação matrilinear é
substituída pela filiação patrilinear”. Com o desenvolvimento da agricultura, instala-se a posse
da terra e a figura do guerreiro, que restaura a figura masculina do herói. Com o passar do
tempo, a filiação patrilinear dará origem a uma estrutura social baseada no poder do pai: o
76
patriarcado. Detentor do poder econômico, o homem passa a querer garantias sobre sua
paternidade, pois os filhos serão seus futuros herdeiros: “surge a necessidade de rígido
controle da sexualidade feminina, vista como um grande perigo” (Rzezinski; Mac Cord, 1997,
p. 56).
A lei de Atenas (séc. V a.C.), assim como a lei da maioria das comunidades
gregas, discriminavam bem os diferentes tipos de mulheres: livres e escravas, cidadãs e
metecas, da classe superior ou da inferior. Entretanto, havia algo em comum entre elas: “não
tinham direitos políticos de qualquer espécie. Eram controladas pelos homens em todas as
fases das suas vidas” (Massey, 1988, p. 17). A família, na Grécia Clássica, era controlada por
um homem – o kyrios, ou cabeça da família – que era geralmente o pai. Nos casos em que o
pai tivesse falecido, o kyrios poderia ser o tio. A ele era dado o poder de vida e de morte aos
seus descendentes: o kyrios decidiria sobre o abandono e morte do bebê que adoecia, tinha
algum defeito ou era ônus para a família.
Aos filhos homens cabiam trabalhar em ocupações rentáveis para a família;
enquanto as filhas aprendiam, com suas mães, as tarefas domésticas: cozinhar, tecer, fiar e
gerir o lar. Desta maneira, as filhas passavam o dia-a-dia com suas mães, se preparando para
tornarem-se noivas atraentes para seus futuros maridos. Por volta dos quinze anos, elas se
casavam com um noivo, freqüentemente, muito mais velho e escolhido pelo pai: não tinham
nenhum direito de escolha nesse sentido.
Na verdade, como constata Massey (1988, p. 20), no que se refere ao direito de
expressão, a mulher “não o tinha em nenhum assunto respeitante a si própria, em qualquer
período da sua vida. Era considerada propriedade do pai e depois do marido até morrer. Não
casar era difícil para as mulheres, porque as raparigas solteiras permaneciam sob o controle
dos pais, na sua casa, e considerava-se que tinham falhado, incorrendo assim em despesas
contínuas e desonra para a família”. Pinsky (1988, p. 111) reuniu um texto de Aristóteles onde
ele afirma que, se é verdade que a alma esteja presente em todos os seres, em cada um deles
77
ela aparece representada de maneira diferente: o escravo não possui a parte deliberativa da
alma; a mulher a possui, porém desprovida de autoridade; enquanto a criança a possui de
forma não desenvolvida. Dessa maneira, a virtude será proporcional à tarefa que é destinada a
cada um. Tratava-se, pois, de uma sociedade patriarcal: controlada pelos homens, onde as
mulheres não tinham quaisquer direitos políticos ou sociais.
Pelo casamento a filha se transformava em esposa, passando da tutela de um
homem para a de outro. As mulheres atenienses podiam se divorciar dos maridos, porém era
raro de acontecer. É nesse contexto, que se insere a maternidade: a principal tarefa de uma
esposa grega consistia em gerar filhos homens, para que, sobrevivendo ao pai, herdassem as
propriedades da família. Na sociedade grega clássica, somente os filhos herdavam as
propriedades do pai. Quando estes não existiam, as propriedades passavam para as mãos do
marido que o pai escolhia para a(s) filha(s), e, que geralmente era um parente bem próximo.
Por isso, era fundamental que o chefe da família tivesse certeza da sua paternidade: a
monogamia era exigida da mulher. Quando o marido suspeitava da infidelidade da esposa,
podia divorciar-se dela. Nesse caso, muitas sanções eram colocadas a ela: era excluída das
cerimônias públicas, proibida de usar jóias e considerada uma pária social, era condenada à
solidão e ao isolamento.
No mundo clássico, ser mãe era algo muito doloroso e extremamente perigoso.
De acordo com Massey (1988, p. 27) “as mães morriam freqüentemente ao dar à luz e muitos
bebês não sobreviviam. Não havia anestésicos para aliviar a dor ou medicamentos eficazes
para proteger a saúde da mãe e do bebê”. Por isso, as mulheres que sobreviviam a dez ou doze
partos ficavam tão desgastadas pela experiência da maternidade, que tinham uma vida média
de trinta e cinco anos; enquanto a dos homens era superior em dez anos ou mais. A
sobrevivência das crianças era limitada: emdia, de dez crianças que nasciam, apenas
quatro sobreviviam.
Na Roma Antiga (I a.C. e I d.C), a situação da mulher na sociedade
78
permaneceu semelhante à Grécia Clássica.
Entretanto, a partir do início do século I d.C., foi justamente a maternidade que
possibilitou uma liberação gradual das mulheres (mães) em relação à proteção masculina e
aumentou seus direitos e responsabilidades. Começaram a tomar decisões importantes sem
precisar consultar seu guardião masculino: “o seu grau de liberdade dependia do número de
filhos que tinha. As leis do Imperador Augusto (Imperador de 27 a.C. a 14 d.C.) proclamavam
que uma mulher livre com três filhos não precisava ter um guardião: devem ter pensado que
uma mulher livre com três filhos devia ser levada a sério!” (Massey, 1988, p. 69). A partir
desse momento, a mulher romana passou a ter, na procriação, não somente as desvantagens
representadas pela dor e perigo que envolvia gerar filhos, mas alguma possibilidade de
interferência no meio familiar e social em que vivia, mesmo que restritas ao âmbito das
funções maternas.
Havia na sociedade romana um ideal da maternidade, simbolizado por
Cornélia, a mãe dos Gracos, sobre a qual contava-se uma história. Massey (1988, p. 61, grifo
nosso) relata tal história:
Uma mulher de classe elevada da Campânia estava em casa de
Cornélia, mãe dos irmãos Gracos. Vangloriava-se constantemente
das suas jóias, que dizia serem as mais belas que alguém podia
observar então. Cornélia deixou-a falar até os filhos regressarem das
lições. Então disse à mulher: ‘Estas são as minhas
jóias’. Valério
Máximo (séc. I d.C.)
Tal história era repetida pelos romanos enquanto um instrumento ideológico
que mostrasse às mães romanas, como deveriam pensar e agir: sua vaidade deveria se
relacionar exclusivamente ao fato de seremes. E era de acordo com esse ideal maternal
que as mulheres deveriam se modelar e comportar. Demonstração de ambições ou inteligência
da mulher poderia significar a desconfiança e difamação do seu caráter, por parte dos homens.
Por outro lado, os homens romanos estavam convictos de que as mães representavam uma
força poderosa na educação dos filhos.
79
Outrossim, Massey (1988, p. 72) ressalta que “o parto não era mais fácil para
as romanas do que fora para as gregas, e muitas mulheres sofriam terrivelmente ou morriam
durante os trabalhos”. Contrariando ao ideal materno dos romanos, os filhos das classes
médias e altas eram entregues às amas de leite que os alimentavam e se incumbiam dos
cuidados gerais da criança. Pode-se perceber, nesse momento, críticas a esse costume, por
parte do historiador romano Tácito, que acreditava ser importante que as próprias mães se
dedicassem aos cuidados de seus filhos. Porém, parece que, na realidade, muitas crianças
morriam durante os primeiros anos de vida, em decorrência de doenças, má nutrição e falta de
cuidados médicos.
O casamento se constituía no único meio legal de se ter herdeiros livres,
portanto eram exigidas a fidelidade e castidade das esposas, para que pudessem ter certeza da
paternidade. Massey (1988, p. 68) observa que “algumas vezes, esses casamentos resultavam
em amor, mas os escritores romanos descrevem mais freqüentemente o amor entre jovens ou
entre homens casados e outras mulheres que não as suas esposas do que o amor entre marido e
mulher”. Isso significa uma divisão nítida de funções e um padrão dual da moral: à esposa
cabia gerar os herdeiros para o seu marido; e, às amantes, prostitutas e concubinas cabia
entreter, dar prazer e amor ao homem. De qualquer maneira, a todas cabiam servir ao homem.
Porém, tal modelo não se aplicava à maioria das esposas, mães e filhas
imperiais que estavam sempre envolvidas em escândalos de todo tipo: infidelidade, atividades
sexuais abertas, luta pelo poder do filho, etc.
A Idade Média tem início, a partir do século IV d.C., quando o Cristianismo se
torna a religião oficial dos romanos.
Muraro (1991, p. 12-13) buscou compreender a situação da mulher nesse
período histórico. Para esta autora, a condição das mulheres oscilou dentro desse período. Do
terceiro ao décimo séculos, percebe-se um período de conflito de valores, em que a situação
da mulher era muito confusa, por se tratar de um período onde o Cristianismo se sedimentava
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entre as tribos bárbaras da Europa. Por esse motivo, os homens se ausentavam muito e
morriam nos períodos de guerra, o que fazia com que as mulheres tendessem a ocupar lugar
de destaque no mundo das decisões. Como diz a autora: “as mulheres eram jogadas para o
domínio público quando havia escassez de homens e voltavam para o domínio privado
quando os homens reassumiam o seu lugar na cultura”. Sendo assim, o lugar ocupado pela
mulher, durante o período de sedimentação do cristianismo, oscilou de acordo com a presença
ou ausência do homem, no meio social em questão.
Na Alta Idade Média, as mulheres passaram a ocupar mais espaço e a se
expandir através do acesso às artes, às ciências, à literatura. Isso aconteceu durante as
cruzadas, período em que a Igreja detinha o maior poder temporal e em que foram gestadas as
grandes transformações que viriam com a Renascença.
Na relação com o homem, entretanto, não notamos mudanças significativas; ao
contrário do que ocorre em relação à imagem da mulher, durante o período medieval.
De acordo com Muraro (1991, p. 12), “a mulher é vista como a tentadora do
homem, aquela que perturba a sua relação com a transcendência e também aquela que
conflitua as relações entre os homens. Ela é ligada à natureza, à carne, ao sexo e ao prazer,
domínios que têm de ser rigorosamente normatizados”. A mulher era vista como a fonte de
todo o pecado e relacionada com o mau. Rzezinski e Mac Cord (1997) diz que o patriarcado,
no mundo ocidental, teve seu ápice na Idade Média,
[...] quando o clero recomendava que as mulheres fossem trancadas e
vigiadas para que não se dedicassem à promiscuidade desenfreada. A
crença na voracidade sexual da mulher ligava-se a de que um único
homem não poderia satisfazê-la, como se encontra explicitado em
muitos documentos. A mulher é representada como a fêmea
predadora, traiçoeira, aranha canibalista, bruxa. Sua única saída
honrosa seria realizar a maternidade identificada com a Virgem, isto
é, sem consciência de seus genitais (p. 57).
Ariès (1986a, p. 157) estudou os escritos de São Paulo, onde foi possível
perceber que a mulher era responsabilizada pelo sofrimento existente no mundo: “foi ela, em
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primeiro lugar, que introduziu o pecado no mundo – e não o homem. Adam nom est seductus
mutier autem seducta... todavia, observa ele, a maternidade a salva: sotvabitur autem per
fitiorum generationen... A concepção tradicional da fecundação também é novamente levada
em conta, mas por expediente indireto, como a compensação da inferioridade original do
sexo”. Temos, pois, que a mulher reunia em si os atributos do mau e da inferioridade – a culpa
–, mas que poderia ser redimida pela maternidade. Porém, a maternidade somente poderia
ocorrer dentro do casamento.
Em relação ao modelo proposto pela Igreja, Duby (1989, p. 17-18) destaca
seus principais traços. A tradição da Igreja cristã a predispunha a condenar o casamento, por
ser um mal na medida em que se constituía em mácula, perturbação da alma e um obstáculo à
contemplação. Todavia, o adotou, enquanto um mal menor, “já que os seres humanos,
infelizmente, não se reproduzem como as abelhas e que para isso eles devem copular, e já
que, dentre as armadilhas postas pelo demônio não há nenhuma pior do que o uso imoderado
dos órgãos sexuais, a Igreja admite o casamento como um mal menor [...], mas com a
condição de que sirva para disciplinar a sexualidade, para lutar eficazmente contra a
fornicação”. Para esse fim, a Igreja propôs uma moral que eliminasse tanto o prazer carnal,
quanto a paixão no casamento.
Ariès (1986b, p. 257) mostra bem que, na Idade Média, não se tinha, em
relação à família, a concepção do privado: a vida fluía no âmbito do espaço público, do
coletivo, envolvendo num mesmo movimento as idades e as condições sociais, não havendo
lugar para o setor privado: “A família cumpria uma função – assegurava a transmissão da
vida, dos bens e dos nomes – mas não penetrava muito longe na sensibilidade”. A falta de
afeição familiar dos medievais – nos moldes que a concebemos hoje – manifestava-se na
atitude em relação à criança.
A criança permanecia em casa até a idade de sete ou nove anos, pouco tempo
depois do desmame: aproximadamente aos sete anos de idade. A partir daí, tanto os meninos,
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quanto as meninas, eram colocados na casa de outras pessoas para realizarem “serviços
domésticos”. O termo é colocado entre aspas, por tratar-se de uma noção diferente daquela
que temos hoje. Na época, não havia diferenciação ou delimitação entre a profissão e a vida
particular: confundiam-se no movimento da vida coletiva. Assim, não havia limites entre
serviço doméstico e aprendizagem: “Era através do serviço doméstico que o mestre transmitia
a uma criança, não ao seu filho, mas ao filho de outro homem, a bagagem de conhecimentos,
a experiência prática e o valor humano que pudesse possuir” (Ariès, 1986b, p. 228). Assim se
fazia toda a educação, onde a transmissão de conhecimento de uma geração à outra acontecia
pela participação familiar das crianças na vida dos adultos. As cenas da vida quotidiana
mostravam crianças e adultos ocupados com seus ofícios.
Assim, a criança desde muito cedo se separava da família e nem sempre
voltava, depois de adulta. Ariès (1986b, p. 231) compreende que “a família não podia,
portanto, nessa época, alimentar um sentimento existencial profundo entre pais e filhos. Isso
não significava que os pais não amassem seus filhos: eles se ocupavam de suas crianças
menos por elas mesmas, pelo apego que lhes tinham, do que pela contribuição que essas
crianças podiam trazer à obra comum, ao estabelecimento da família”. A realidade da família
era moral e social, muito mais que sentimental. Moral no sentido de manter a honra do nome e
social, no sentido de dar manutenção à sua instalação material e propriedade do patrimônio.
A partir do século XV, ocorreram muitas transformações nas realidades e nos
sentimentos da família. Apesar de profunda e lenta, tal revolução não era possível de ser
percebida e reconhecida pelos contemporâneos e historiadores.
Ocorreu uma aproximação entre a família e a criança. Os laços entre a criança
e sua família se estreitaram, tal como o sentimento da família e o sentimento da infância. A
educação passou a ser fornecida, cada vez mais, pela escola, que não ficou mais restrita aos
clérigos e foi se construindo enquanto um espaço de iniciação social, de passagem da
condição de criança para a de adulto. De acordo com Ariès (1986b, p. 231),
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essa evolução correspondeu a uma necessidade nova de rigor moral da
parte dos educadores, a uma preocupação de isolar a juventude do
mundo sujo dos adultos para mantê-la na inocência primitiva, a um
desejo de treiná-la para melhor resistir às tentações dos adultos. Mas
ela correspondeu também a uma preocupação dos pais de vigiar seus
filhos mais de perto, de ficar mais perto deles e de não abandoná-los
mais, mesmo temporariamente, aos cuidados de outra família.
O clima sentimental entre os membros da família, se aproximava daquilo que
se conhece hoje, “como se a família moderna tivesse nascido ao mesmo tempo que a escola,
ou, ao menos, que o hábito geral de educar as crianças na escola” (Ariès, 1986b, p. 232).
Inicialmente, as escolas ficavam distantes das famílias. A criança, geralmente,
não era internada no colégio, mas ficava morando num pensionato ou na casa do mestre. As
visitas dos familiares foram ficando cada vez mais freqüentes. Com o decorrer do tempo, os
pais passaram a se empenhar cada vez mais para que as escolas se multiplicassem e ficassem,
portanto, mais próximas das famílias; satisfazendo assim ao desejo crescente dos pais de
manter seus filhos próximos, o maior tempo possível. O referido autor compreende que “esse
fenômeno comprova uma transformação considerável na família: esta se concentrou na
criança, e sua vida confundiu-se com as relações cada vez mais sentimentais dos pais e dos
filhos” (1986b, p. 233). É importante observar que tal fenômeno de escolarização não se fez
abruptamente: foi ocorrendo lentamente, através dos séculos, até chegar à amplitude dos
tempos atuais. Porém, em relação às meninas, foi muito mais lento que aos meninos. A
maioria das meninas permanecia sendo educada em casa ou na casa de outras pessoas – uma
parenta ou vizinha –, enquanto os meninos se dirigiam à escola. A escola substituiu as antigas
formas práticas de aprendizagem, pela necessidade de educação teórica. Dessa maneira,
enquanto os meninos eram educados por uma instrução mais teórica e especializada, as
meninas seriam educadas, durante muito tempo, pela prática e pelo costume e, muitas vezes,
em casas alheias.
O sentimento de família e seus problemas morais apareceram também na
transmissão da herança. Parece que, durante o século XIII, se difundiu o antigo costume que
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permitia beneficiar apenas um dos filhos, em detrimento dos demais: geralmente o
primogênito. Esse costume permeou a sociedade familiar do fim da Idade Média até o século
XVII, mas não mais a partir do século XVIII. Iniciou-se um sentimento que resultaria na
igualdade de direitos de herança dos filhos: na igualdade do código civil. Assistimos ao início
do respeito pela igualdade dos filhos de uma família; e, à tendência de “atribuir à afeição dos
pais e dos filhos, sem dúvida tão antiga quanto o próprio mundo, um valor novo: passou-se a
basear na afeição toda a realidade familiar” (Ariès, 1986b, p. 235).
É, pois, importante destacar que a afeição entre pais e filhos sempre existiu,
porém, a valoração desse sentimento, enquanto a base fundamental de toda a realidade
familiar, é historicamente bastante recente. A emersão da família moderna, marcada por essa
nova sensibilidade pode ser compreendida através da maneira como se estabelecem as
relações humanas. Quando a vida dos homens estava voltada para a rua, as festas, as orações,
as comunidades de trabalho, o seu tempo e o seu espírito eram monopolizados pela
coletividade; e o lugar da família em sua sensibilidade era bem restrito. Porém, quando as
relações de trabalho, de vizinhança e de parentesco pesam menos, abre-se um lugar maior
para o sentimento familiar, que, então, passa a substituir os outros sentimentos de fidelidade,
de serviço, tornando-se preponderante; e, muitas vezes, exclusivo. Assim é que Ariès (1986b,
p. 238) entende que “os progressos do sentimento da família seguem os progressos da vida
privada, da intimidade doméstica. O sentimento da família não se desenvolve quando a casa
está muito aberta para o exterior: ele exige um mínimo de segredo. Por muito tempo, as
condições da vida quotidiana não permitiram esse entrincheiramento necessário da família,
longe do mundo exterior”. Um dos motivos estava relacionado com a saída das crianças para
outras casas e a vinda de crianças estranhas que as substituíam. Mas não é suficiente. Outros
motivos precisam ser arrolados.
Até o século XVII as relações sociais se fundamentavam nas relações de
dependência entre os estratos e grupos sociais. Isso se traduzia por uma vida quotidiana
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marcada por inúmeras visitas, conversas, encontros e trocas. Não havia separação entre
atividades econômicas, sociais ou de divertimento. Tudo acontecia com e através das relações
sociais mantidas com o conjunto do grupo onde se havia nascido. Ter êxito na vida
significava ocupar uma posição honrosa em uma sociedade em que todos os seus membros se
relacionavam quotidianamente. Fazer sucesso envolvia a arte de se relacionar bem em
sociedade. O futuro de cada um dependia disso; daí a importância da conversação. Porém, os
assuntos domésticos, familiares ou muito pessoais deviam ser evitados, por serem
considerados inconvenientes.
Para se relacionar bem, portanto, dever-se-ia observar os tratados de civilidade.
Os tratados de civilidade foram descrições de boas maneiras, dirigidas tanto às crianças, como
aos adultos. Foram escritos a partir do renascimento, mas seguiam os modelos antigos da
Idade Média e explicavam como um homem, bem educado, deveria ser. Assim, temos que
“até o fim do século XVII, ninguém ficava sozinho. A densidade social proibia o isolamento e
aqueles que se conseguiam fechar num quarto por algum tempo eram vistos como figuras
excepcionais [...] Essa sociabilidade durante muito tempo se havia oposto à formação do
sentimento familiar, pois não havia intimidade” (Ariès, 1986b, p. 264).
A partir do século XVIII as famílias aristocráticas e burguesas começaram a se
distanciar da sociedade e a confinarem-se num espaço limitado. Surgiu uma nova
preocupação de defesa contra o mundo, concretizada na nova organização da casa. A casa
moderna passou a assegurar a independência dos cômodos. Os cômodos deixaram de
comunicar-se entre si e passaram a abrir para um corredor de acesso, evitando-se que as
pessoas fossem forçadas a atravessá-los para passar de um ao outro. Surgiu também, nesta
época, o conforto: nasceu justamente com a intimidade, a discrição, e o isolamento. As camas,
antes espalhadas por toda parte, passaram a ser reservadas ao quarto de dormir. De acordo
com Ariès (1986b, p. 265), “essa especialização dos cômodos da habitação, surgida
inicialmente entre a burguesia e a nobreza, foi certamente uma das maiores mudanças da vida
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quotidiana. Correspondeu a uma necessidade nova de isolamento. Nesses interiores mais
fechados, os criados não saíam mais das áreas separadas que lhes eram determinadas”. Os
criados passaram a ser mantidos à distância, assim como os intrusos.
No fim do século XVIII, as pessoas não mais iam à casa de um amigo ou
sócio, sem antes avisar, através de cartões enviados pelos criados ou pelo correio: “outrora,
vivia-se em público e em representação, e tudo era feito oralmente, através da conversação.
Agora, separava-se melhor a vida mundana, a vida profissional e a vida privada: a cada uma
era determinado um local apropriado como o quarto, o gabinete ou o salão” (Ariès, 1986b, p.
266).
Com a reorganização da casa e dos costumes abriu-se um espaço maior para a
intimidade, que foi preenchida por uma família composta somente pelos pais e pelas crianças:
os criados, os clientes e amigos foram excluídos. A família rompeu com o silêncio e passou a
ocupar grande parte da correspondência, das conversas e das preocupações das pessoas. A
partir daí, a saúde e a educação passam a ser as principais preocupações dos pais; assim como
a preocupação com a igualdade entre os filhos: “a criança tornou-se um elemento
indispensável da vida quotidiana, e os adultos passaram a se preocupar com sua educação,
carreira e futuro [...]. A família moderna [...] separa-se do mundo e opõe à sociedade o grupo
solitário dos pais e filhos. Toda a energia do grupo é consumida na promoção das crianças,
cada uma em particular, e sem nenhuma ambição coletiva: as crianças, mais do que a família”
(Ariès, 1986b, p. 270-271). Daí em diante, as antigas relações entre senhores e criados,
grandes e pequenos, amigos ou clientes foram destruídas; reforçando-se mais o sentimento de
intimidade em detrimento das relações de vizinhança, de amizade ou de tradições.
O sentimento de família se estendeu, na medida em que a sociabilidade retraiu.
Junto com ele o significado e valorização de ser mãe também se transformaram. Os cuidados
da mãe, dispensados aos filhos, se estenderam intensificando-se os laços afetivos entre mãe e
filho. Muito mais que a sobrevivência e desenvolvimento físico dos primeiros sete anos de
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vida iniciais da criança, a maternidade, agora, envolvia as responsabilidades pela saúde
mental e pela educação moral das crianças: pela preparação para a vida.
Rousseau, no século XVIII, faz uma exaltação extremada da função materna.
Defende que a maternidade e os cuidados da família deveriam ser as únicas atividades
exercidas pelas mães, para a felicidade de todos. Badinter ([198-], p. 207) sintetiza essa
mudança de noção e valorização dos cuidados maternos, que percorreu o caminho que parte
da indiferença e mesmo desvalorização, para a concepção de uma maternidade que, “tal como
concebida no século XIX, a partir de Rousseau, é entendida como um sacerdócio, uma
experiência feliz que implica também necessariamente dores e sofrimentos. Um real sacrifício
de si mesma. Se tanto se insiste nesse aspecto da maternidade, com uma certa benevolência, é
sempre para mostrar a adequação perfeita entre a natureza da mulher e a função de mãe”.
Prosseguindo nessa linha de raciocínio, a autora argumenta que essa mudança de mentalidade
em relação à maternidade permitiu que muitas mulheres pudessem exteriorizar um aspecto
essencial de sua personalidade com muito orgulho e alegria. Porém, os discursos exaltados e
autoritários sobre a condição materna, criaram um mal-estar inconsciente nas mulheres que
não desejavam realmente ser mães.
Por outro lado, a Revolução Francesa com seu lema de igualdade, pôs em
dúvida, pela primeira vez, que a subordinação da mulher ao homem fosse natural e
inalterável. Langer (1986) observa que não houve mudanças imediatas nas classes média e
alta, diferentemente do que ocorreu na classe baixa: “Tanto na família do trabalhador rural,
como do artesão, mulher e filhos tinham compartilhado o trabalho do homem e todos estavam
muito limitados em seus direitos. A mulher estava inserida no processo de produção caseira,
mas alternou sem limites definidos com este trabalho a atenção da família e a criação e
educação dos filhos” (p. 18-19).
Porém, com a Revolução Industrial e os descobrimentos técnicos, a
transformação do trabalho foi intensa, levando à concentração dos operários nas fábricas. A
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mulher da classe baixa seguiu o homem de imediato, não por rivalidade a ele, mas por pura
necessidade. Agora, os filhos “transformavam-se em um peso para a mulher, que, voltando
cansada do trabalho, tinha que dedicar suas poucas horas livres à atenção das crianças e da
casa” (Langer, 1986, p. 19).
A mudança que ocorreu com a mulher da classe operária, no decorrer do
século XIX (nos países industrializados) não afetou a mulher das classes média e alta, até a
Primeira Guerra Mundial. Em 1914, a mulher da classe média aderiu com grande entusiasmo
ao apelo das autoridades para que abandonassem o lar e começassem a trabalhar, “não
somente por patriotismo, mas também por estar disponível psicológica e materialmente [...] a
mulher de começos do século [XX], tinha um número reduzido de filhos e sentia-se
desperdiçada em seu lar vazio” (Langer, 1986, p. 19). Os progressos da medicina
proporcionaram a diminuição da mortalidade infantil e puseram à disposição do casal
métodos anticoncepcionais eficazes, inclusive a realização de abortos sem maiores riscos
físicos e legais. “No século XIX e principalmente neste [século XX], vem aparecendo sinais
bem visíveis do enfraquecimento do patriarcado no mundo ocidental, provavelmente como
reflexos da Revolução Francesa, que matou o Rei Pai divino e instalou os princípios de
Liberdade, Fraternidade e Igualdade” (Rzezinski; Mac Cord, 1997, p. 57).
Surge, então, a questão: Quem é a mulher atual?
Riechelmann (1997) discute tal questão, através de pesquisa bibliográfica com
autores renomados nesse assunto: (Michelet, 1992; Muraro, 1983; Muraro, 1990; Muraro,
1991; Riechelmann, 1993; Vicent, 1992), realizando uma síntese esclarecedora a esse
respeito.
O primeiro aspecto da mulher atual refere-se à sua participação no sistema
econômico de produção. O referido autor (1997) considera que foi, realmente, a partir da
Segunda Guerra Mundial que a mudança do papel social da mulher ganhou vulto e
velocidade. A ida dos homens para os campos de combate obrigou o mercado de trabalho a
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admitir as mulheres em funções que antes eram exclusivas dos homens. Além disto, o clima
de guerra favoreceu a queda do preconceito social que insidia sobre a mulher que trabalhava
fora de casa, que passou a ser valorizada por oferecer sua contribuição à sociedade em
momentos difíceis. As conseqüências logo surgiram: por um lado, o mercado de trabalho
descobriu que as mulheres produziam como os homens com salários bem menores, e as
mulheres descobriram as vantagens da independência financeira em relação aos seus maridos.
Por outro lado, as mulheres pagaram o preço da dupla jornada de trabalho feminino, já que a
relutância dos homens em abandonar suas posições de poder frente às mulheres obrigou-as a
somar a jornada de trabalho fora de casa ao trabalho doméstico.
Outro aspecto refere-se à reapropriação do próprio corpo, da sexualidade e
liberação da culpa sexual, que tomou vulto a partir das décadas de 50 e 60 do século passado,
principalmente através do Movimento da Contracultura que propunha o amor livre. Somando-
se a isso, a invenção da pílula anticoncepcional favoreceu uma mudança radical na maneira da
mulher lidar com sua sexualidade. “A gravidez, que representava um impedimento de
desligar-se do homem e um castigo pela relação sexual fora do casamento, ficou sob controle
da mulher. O sexo deixou de ser uma atividade que acarretava maternidade e passou a ser
possível como simples atividade de prazer” (Riechelmann, 1997, p. 45).
Por último, cabe destacar o acesso ao poder que a mulher conquistou na
medida em que foi se estabelecendo, em definitivo, no mercado de trabalho e na
Universidade. Gradualmente, passa a disputar as mais altas posições de liderança e gerência
nas empresas, oferecendo às empresas maior produtividade a menores custos, que passaram a
deslocar os homens de várias posições de comando empresarial e político. Enfim,
diversas forças sociais (movimentos feministas, agilização dos meios
de comunicação, ondas de democratização em antigas ditaduras,
avanços médico-tecnológicos da economia, etc...) resultaram no perfil
de uma nova mulher. A mulher atual vê diante de si o mundo,
contrastando com a mulher tradicional, que sempre teve diante de si
apenas o lar (Riechelmann, 1997, p. 45).
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O antigo preconceito da inferioridade feminina servia de apoio à estabilidade
da sociedade ao delimitar o campo de ação de ambos os sexos. Apesar de ser prejudicial à
mulher, facilitava a cada sexo sentir-se seguro de seu papel estritamente definido. Mas,
através de suas conquistas concretas, a mulher derrubou esse preconceito e, então, “tanto o
homem como a mulher, começavam a sentirem-se inseguros, a duvidar de seus direitos e
deveres no status de nossa sociedade em mudança” (Langer, 1986, p. 20). Margareth Mead
realizou muitos estudos antropológicos em sociedades bastante diferentes (culturalmente) da
nossa, e considera que tal confusão, frente ao papel dos sexos, é oriunda do fato de que a vida
real entrou em discrepância com as normas que ainda regem os conceitos e ideais relativos ao
que deveria ser a maneira de viver dos dois sexos. Tentou compreender e discriminar os
traços de personalidade que são autenticamente masculinos e femininos e chegou “à
conclusão, desconcertante para ela mesma, de que nosso conceito a respeito é resultante de
nossa própria cultura”. Mas “vê a possibilidade de que iremos nos adaptando pouco a pouco
às novas condições que nos impõe o desenvolvimento cultural atual” (apud Langer, 1986, p.
27-28).
Porém, forças e sentimentos ambivalentes delineiam perspectivas de conflitos
entre o modelo de mulher atual e as vivências da gestação/maternidade: “A mulher atual tende
a viver a gravidez com sentimentos ambivalentes de intensidade mais extrema que a
mulher tradicional (Riechelmann, 1997, p. 49, grifo do autor). As mudanças do papel social
da mulher nas últimas décadas abriram as possibilidades de realização pessoal, profissional e
de independência financeira, como também a levou a “arcar com a dupla jornada de trabalho
e, ironicamente, com sérias limitações para o exercício do papel que historicamente a
sociedade lhe consagrou: o papel de mãe” (p. 47). Ficou sensivelmente mais amplo o leque de
fontes de angústia perante a gestação, já que esta pode acarretar perspectivas de limitação e/ou
impedimento de realização existencial e profissional. “ É claro que a realidade tende a ser
mais no sentido dos adiamentos do que propriamente de perdas definitivas, mas esta visão
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realista em geral só é atingida muito tempo depois de terminada a gestação. É muito difícil
para a gestante ser realista em um período como a gravidez, caracterizado por fortes
sentimentos de insegurança, ansiedade e medo perante o desconhecido” (p. 48-49).
A mudança do papel da mulher no contexto social é fato consumado. Diante
desta realidade, Riechelmann (1997, p.51-52) faz um balanço bastante interessante dos
ganhos e perdas realizadas:
A mulher atual ganhou em dignidade, cidadania e possibilidades de
crescimento pessoal. Paga com aumento de estresse, conflitos com a
maternidade e igualdade de incidência de doenças antes tipicamente
masculinas. O homem ganhou a consciência da necessidade de crescer
emocionalmente, além do tradicional crescimento puramente
intelectual. Ganhou também permissão para ser mais amoroso, mais
dedicado ao lar e à família, enfim, compartilhar o que antes era
exclusivo da mulher. Paga com a perda de seu poder autoritário.
Ganham as crianças, que não precisarão mais aprender com a mãe a
serem submissos e aprender com o pai a terem medo de amar.Pagam
com a diminuição da duração da infância, obrigados que são ao
amadurecimento precoce pela menor disponibilidade dos pais. Ganha
muito o capitalismo, pela disponibilidade de exércitos de mulheres
que produzem muito bem por salários mais baixos que os dos homens.
Paga (pouco e quando paga!) com a responsabilidade de manter a
renda da mulher nos momentos que sua condição feminina obriga a
parar de produzir, por exemplo, durante o ciclo gravídico-puerperal ou
devido a uma forte tensão pré-menstrual, custo esse que não existia
quando os trabalhadores eram todos homens.
Langer (1986, p.18-19), também explicita sua tese básica acerca do assunto:
[...] antigamente a sociedade impunha à mulher severas restrições ao
campo sexual (tomando o termo em seu sentido mais restrito) e social,
mas favorecia o desenvolvimento de suas atividades e funções
maternais. As conseqüências destas restrições foram a grande
freqüência da histeria e outras manifestações psiconeuróticas na
mulher. Por outra parte, parece ter sofrido relativamente poucos
transtornos psicossomáticos em suas funções procriativas. Atualmente
o quadro mudou. Neste último século, a mulher de nossa civilização
adquiriu uma liberdade sexual e social totalmente desconhecida há
apenas três gerações. Mas, por outra parte, as circunstâncias sociais,
culturais e econômicas impõem graves restrições à maternidade. Em
conseqüência desta situação, diminuem os quadros neuróticos típicos
e já não se encontra mais a ‘grande hystérie’, mas aumentam de forma
alarmante os transtornos psicossomáticos mencionados.
Como é possível observar através dos tempos, a partir do século XVIII, o
significado e valorização sociais de ser mãe se transformaram: a maternidade passa a envolver
as responsabilidades pela saúde mental e pela educação moral das crianças. A partir de
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Rousseau, a maternidade é entendida como um sacerdócio: uma experiência feliz, mesmo que
implique também dores e sofrimentos, um real sacrifício de si mesma. Instala-se, assim, o
Ideal da Maternidade. Porém, tal ideal se choca com as condições reais necessárias para sua
realização. A mulher atual tende a viver a maternidade com conflitos e sentimentos
ambivalentes de grande intensidade.
Com a mudança de casa e nascimento da segunda filha, Lara precisou deixar o
trabalho que tinha, mas suas vizinhas ficavam dizendo que ela deveria trabalhar para
contribuir com o término da construção e renda da sua casa. Através da psicoterapia, é
possível constatar o nível acentuado de ambivalência com que ela vive o conflito maternidade
(e trabalho doméstico) X trabalho fora de casa. Aos poucos, Lara foi retomando sua vida
profissional, mas a preocupação e culpa quanto a se ausentar do lar e dos cuidados com os
filhos eram intensos. Não queria reproduzir, com os filhos, o sentimento de abandono que ela
viveu em relação aos seus pais, principalmente no que se refere a colocar os filhos na creche.
Aos 5 anos de idade, mais ou menos, ela e um irmão passaram a ficar o dia todo em uma
creche: essa experiência a marcou de forma muito negativa.
Além disso, o relato de Lara mostrou (capítulo 3), que após o parto de sua
segunda filha (Mariana), muitos problemas de saúde ocorreram com esse bebê, exigindo
muito desta mãe, que diz que “a partir daí tudo começou a piorar”. No capítulo 3, tamm,
pudemos observar que estudiosos da depressão puerperal destacam, como fatores causais
importantes: a distância entre o bebê imaginário e da fantasia, com o bebê real que vai se
revelando após o parto; e, a incongruência entre a imagem atual da mãe (no puerpério) e o que
havia projetado num Ideal de Eu. Boukobza (2000, p. 20) considera que “o motivo da
depressão pós-parto a ser diferenciado do baby-blues, que seria mais uma referência à
separação e à perda do objeto interno parece ser uma renúncia muito forte exigida de uma
mulher com um narcisismo ao mesmo tempo exacerbado e frágil, não suficientemente
sustentado pelo entorno (a mãe, o cônjuge )”.
93
Nesse sentido, parece que Lara tinha, em si, exigências muito elevadas, ao
mesmo tempo em que se dava conta da sua falta de possibilidades reais para realizá-las.
94
7 INTERJOGO DO EGO COM O IDEAL DO EGO E A AUTO-ESTIMA
No capítulo 3, abordamos os episódios que Lara relata ter entrado em
depressão. No terceiro episódio, pudemos observar uma distância entre aquilo que o meio
externo lhe coloca como um ideal a ser realizado por ela e suas reais possibilidades de
conseguí-lo. Vejamos a fala de Lara: [...] foi tudo demais para mim: foi muita emoção e eu não
agüentei. O padre ia falando as coisas, a gente já era recebida com música, já colocavam a gente
sentada e traziam as melhores coisas para comer – já faziam tudo por nós: era uma coisa muito além
daquilo que é a minha realidade... diziam que somos pessoas de luz, que a gente seria semente e teria
que levar tudo para as outras pessoas, espalhar essa semente para todos os lugares... [sic].
Nesse relato, Lara traz este elemento em comum com os demais episódios: a
distância acentuada entre um ideal de ego e o ego real (bastante fragilizado). Associado a isso,
Lara está bastante enredada por auto-recriminações. Tais processos levam a um estado de
tensão excessiva entre o ego e o superego.
Ideal do ego é uma expressão usada por Freud na medida em que vai
elaborando a segunda teoria do aparelho psíquico, ao longo de sua obra. É difícil estabelecer
um único sentido para esse termo porque está estreitamente ligado à construção progressiva
da noção de superego. Laplanche e Pontalis (1992) definem o ideal de ego ou ideal de eu
como uma “instância da personalidade resultante da convergência do narcisismo (idealização
do ego) e das identificações com os pais, com os seus substitutos e com os ideais coletivos.
Enquanto instância diferenciada, o ideal de ego constitui um modelo a que o sujeito procura
conformar-se” (p. 222).
Em Sobre o narcisismo: uma introdução, aparece a expressão ideal do ego
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pela primeira vez, como uma formação intrapsíquica relativamente autônoma “pelo qual [o
homem] mede seu ego real” (Freud, 1914, p. 111), as suas realizações efetivas. Sua origem é,
principalmente, narcísica. Surge a partir de um deslocamento do narcisismo desfrutado na
infância pelo ego real. Nos primórdios da vida psíquica, o “ego real” seria mais um ego ideal,
na medida em que se instala através de um movimento psíquico parental: cabe aos pais
afetuosos atribuir um projeto ideal para seu bebê, inaugurando seu ego pela instalação do
narcisismo primário. Isso ocorre porque na relação com o filho – bebê – os pais revivem seu
próprio narcisismo, abandonado há muito tempo. Assim,
eles se acham sob a compulsão de atribuir todas as perfeições ao filho
– o que uma observação sóbria não permitiria – e de ocultar e
esquecer todas as deficiências dele. Além disso, sentem-se inclinados
a suspender, em favor da criança, o funcionamento de todas as
aquisições culturais que seu próprio narcisismo foi forçado a respeitar,
e a renovar em nome dela as reivindicações aos privilégios de há
muito por eles próprios abandonados [...] ela [a criança] será mais
uma vez realmente o centro e o âmago da criação – ‘Sua Majestade o
Bebê’, como outrora nós mesmos nos imaginávamos. A criança
concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram [...] O
amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é
senão o narcisismo dos pais renascido, o que, transformado em amor
objetal, inequivocamente revela sua natureza anterior”(p. 107-108).
Por isso, o ideal do ego, tal “como o ego infantil, se acha possuído de toda
perfeição de valor” (1914, p. 111). Tal estado de narcisismo – que Freud compara a um delírio
de grandeza – não é renunciado com facilidade. Freud (1914) entende que o indivíduo,
[...] quando, ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de
terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a
não mais poder reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a
forma de um ego ideal. O que ele projeta diante de si mesmo como
sendo seu ideal é o substituto do seu narcisismo perdido de sua
infância na qual ele era o seu próprio ideal (p. 111).
Assim, o narcisismo infantil é abandonado (ou deslocado) em razão das
críticas que, principalmente os pais e demais educadores, fazem à criança. Tais críticas são
interiorizadas na forma de uma instância psíquica especial: instância de censura e de auto-
observação, que irá observar “constantemente o ego real, medindo-o por aquele ideal” (Freud,
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1914, p. 112). Note-se que, nesse texto, o ideal do ego é apresentado como um conceito
distinto da instância de censura e de auto-observação.
Em Psicologia de grupo e a análise do ego(1921), Freud relata que o censor
do ego é denominado de ideal do ego: trata-se de uma mesma instância psíquica com as
funções de auto-observação, consciência moral e censura. O ideal do ego “é o herdeiro do
narcisismo original em que o ego infantil desfrutava de auto-suficiência; gradualmente reúne,
das influências do meio ambiente, as exigências que este impõe ao ego, das quais este não
pode estar à altura; de maneira que um homem, quando não pode estar satisfeito com seu
próprio ego, tem, no entanto, possibilidade de encontrar satisfação no ideal do ego que se
diferenciou do ego” (p. 138).
No que se refere a Lara, criou-se uma distância bastante grande entre o ego
atual (real), bastante fragilizado, e as expectativas elevadas colocadas pelo ambiente e por si
mesma (ideal do ego). Freud (1921) considera que a distância entre essas duas instâncias pode
variar muito de um indivíduo para o outro. E, como desencadearia a doença?
O ideal do ego se origina através de um processo de “gradação diferenciadora
do ego”; porém, “cada uma das diferenciações mentais com que nos familiarizamos,
representa um novo agravamento das dificuldades de funcionamento mental, aumenta a sua
instabilidade, podendo tornar-se o ponto de partida para a sua desintegração, isto é, para o
desencadeamento de uma doença” (1921, p. 164). Ao longo desse processo, vai se colocando,
cada vez mais, a necessidade de reprimir conteúdos para deixá-los fora do sistema consciente
– no inconsciente. O material inconsciente fica guardado pela resistência, porém, a
estabilidade dessas novas aquisições, fica exposta a abalos, tal como ocorre nos sonhos e
neuroses, onde aquilo que está excluído tenta emergir.
Por isso, a “separação do ideal do ego do próprio ego não pode ser mantida por
muito tempo, tendo de ser temporariamente desfeita. Em todas as renúncias e limitações
impostas ao ego, uma infração periódica da proibição é a regra” (1921, p. 165). Vários são os
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exemplos através da história: a instituição dos festivais, as saturnais dos romanos, o nosso
moderno carnaval, etc. Em tais ocasiões, “há sempre uma sensação de triunfo quando algo no
ego coincide com o ideal do ego” (Freud, 1921, p. 166)
Neste sentido, tanto o sentimento de culpa, quanto o de inferioridade, são
expressões da tensão entre o ego e o ideal do ego. Por isso, parece provável que, parte do
sofrimento desencadeador e mantenedor dos episódios depressivos de Lara, seja a expressão
de um agudo conflito entre o ego e o ideal do ego, “conflito em que o ideal, em excesso de
sensitividade, incansavelmente exibe sua condenação do ego com delírios de inferioridade e
com autodepreciação” (1921, p. 167).
Em O Ego e o Id (1923), Freud observa que pode ser precisamente a atitude do
ideal do ego que determine a gravidade de uma doença neurótica. Nesse texto, usa pela
primeira vez a expressão superego, e o faz como sinônimo de ideal do ego. Trata-se, pois, de
uma mesma instância formada a partir de identificações com os pais, por ocasião da vivência
edípica. Na dissolução do complexo de Édipo produzir-se-á uma identificação paterna e uma
identificação materna que se unirão, de alguma maneira, formando um precipitado no ego e
conseqüente modificação desse. Esta modificação do ego “se confronta com outros conteúdos
do ego como um ideal do ego ou superego” (p. 49). O superego reúne as funções de ideal –
aquilo que deveria ser – e, ao mesmo tempo, de interdição – aquilo que não deve ser. Além
disso, “preenche a mesma função de proteger e salvar que, em épocas anteriores, foi
preenchida pelo pai” (p. 75).
O superego compreende tanto os resíduos das primitivas escolhas objetais do
id, como também uma formação reativa enérgica contra essas escolhas: a proibição. O
superego comporta pois esse aspecto duplo: aquilo que deveria ser e, ao mesmo tempo, aquilo
que não pode ser. Freud (1923) considera que “o superego retém o caráter do pai, enquanto
que quanto mais poderoso o complexo de Édipo e mais rapidamente sucumbir à repressão
(sob a influência da autoridade, do ensino religioso, da educação escolar e da leitura), mais
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severa será posteriormente a dominação do superego sobre o ego, sob a forma de consciência
(conscience) ou, talvez, de um sentimento inconsciente de culpa” (p. 49). A tensão entre as
exigências do ideal do ego e os desempenhos reais do ego, é também vivenciada como
sentimento de culpa; e pode ser precisamente a atitude do ideal do ego, que determine a
gravidade de uma doença neurótica (p. 66).
Tanto na neurose obsessiva, quanto na melancolia, o sentimento de culpa
atinge uma força extraordinária, tornando-se “superintensamente consciente; nelas, o ideal do
ego demonstra uma severidade particular e com freqüência dirige sua ira contra o ego de
maneira cruel” (Freud, 1923, p. 67). Na neurose obsessiva o sentimento de culpa também é
superconsciente, porém não se justifica para o ego, que se rebela e procura o apoio do
terapeuta para repudiar tais sentimentos. Pelo contrário, na melancolia, o ego não faz objeções
e admite sua culpa, submetendo-se ao castigo. Tal diferença se estabelece porque na neurose
obsessiva “eram os impulsos censuráveis que permaneciam fora do ego, enquanto que na
melancolia o objeto a que a ira do superego se aplica foi incluído no ego mediante
identificação” (p. 67-68).
Para Freud (1923), o ponto fundamental que pode explicar como é que o
superego se manifesta essencialmente como sentimento de culpa (ou como crítica) e
desenvolve tamanha rigidez e severidade para com o ego, é o instinto de morte. Na
melancolia, a crueldade e a violência impiedosa com que o superego trata o ego, pode ser
entendida seguindo o ponto de vista sobre o sadismo: “o componente destrutivo entrincheirou-
se no superego e voltou-se contra o ego. O que está influenciando agora o superego é, por
assim dizer, uma cultura pura do instinto de morte e, de fato, ela, com bastante freqüência
obtém êxito em impulsionar o ego à morte, se aquele não afasta o seu tirano a tempo, através
da mudança para a mania” (p. 69-70). Ao contrário, o neurótico obsessivo nunca dá o passo
para a autodestruição, porque devido à regressão à organização pré-genital, os impulsos
amorosos são transformados em impulsos de agressividade contra o objeto, liberando o
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instinto de destruição.
Mas, como é que, na melancolia, o superego se tornou uma trincheira para os
instintos de morte? Uma resposta possível remete ao tema da moral na sua relação com a
agressividade e com o controle instintual. Nesta perspectiva, pode-se considerar que o id é
totalmente amoral, o ego se esforça por ser moral e o superego pode ser “supermoral e tornar-
se então tão cruel quanto somente o id pode ser. É notável que quanto mais um homem
controla a sua agressividade para com o exterior, mais severo – isto é, agressivo – ele se torna
em seu ideal do ego [...], mais intensa se torna a inclinação de seu ideal à agressividade contra
seu ego. É como um deslocamento, uma volta contra seu próprio ego” (Freud, 1923, p. 71).
Neste ponto, Freud (1923) introduz uma nova hipótese visando ampliar a
compreensão acerca desta relação estabelecida entre o superego e a agressividade. Entende
que tal relação é possível devido a uma defusão instintual que se efetua na constituição
mesma do superego: o superego surge de uma identificação com o pai, identificação esta que
tem a natureza de uma dessexualização ou mesmo uma sublimação. É possível que em
transformações deste tipo ocorra uma defusão instintual: o componente erótico não consegue
mais unir a totalidade da agressividade que fica, então, “liberada sob a forma de uma
inclinação à agressão e à destruição. Essa defusão seria a fonte do caráter geral de severidade
e crueldade apresentado pelo ideal – o seu ditatorial 'farás'” (p. 71).
Nesta perspectiva de Freud, como compreender a formação do superego em
Lara, partindo do pai e da mãe que tem e/ou teve em sua infância?
No princípio do trabalho com Lara fui observando que quase não se referia à
sua família de origem e, quando indagada sobre isso, era evasiva ou dizia não querer falar
sobre... Aos poucos, começou a falar sobre isso de maneira espontânea.
Seu pai foi um homem bastante rígido e distante afetivamente. Batia muito em
sua mãe, nela e nos irmãos. Controlou muito aquilo que cada um comeria: no passado, nunca
permitiu que saciassem a fome e, atualmente, quando Lara e os irmãos vão almoçar na casa
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dos pais, o pai fica contabilizando a comida que cada um levou com aquela que poderá comer.
Na adolescência, não permitia que ela saísse de casa para passear com amigos. Quando
descobria que isso ocorrera, castigava-a com violência. Sempre lhe colocou apelidos que
geravam muita dor: “pezão”, “olhos vermelhos”, “goiaba branca” e outros que nem se lembra
mais. Também era comum ele denegrir a imagem da mãe de Lara: somente há pouco tempo é
que foi descobrindo que tinha uma maneira muito distorcida (negativamente) de ver sua mãe.
A relação com seu pai foi, assim, marcada por situações de constrangimento,
desqualificações e humilhações. E era, também assim, que Lara sentia o mundo externo:
como ameaça constante de desqualificações e humilhações. Contou várias situações vividas
com a família de seu marido em que se sentiu assim... Aos poucos, com o andamento do
nosso trabalho, Lara foi se dando conta que, em algumas dessas situações, não tinha ocorrido
realmente isto, mas ela assim as interpretou.
No fundo, o que está colocado nesse tipo de relação com o mundo é o medo de
uma outra perda: da auto-estima. Ela se refere a tais vivências dizendo que as pessoas a
derrubaram, a fizeram cair...
Com freqüência, trouxe situações em que a família do marido fez com que ela
“caísse”: quando questionavam o destino que Cláudio dava ao seu salário, uma vez que
ganhava muito bem e Lara e os filhos estavam sempre mal vestidos e calçados. E, na casa
deles, faltavam muitas coisas: alguns móveis indispensáveis e, inclusive, a porta dos fundos.
Contou várias situações em que se sentiu humilhada e que seus filhos foram tratados como
pessoas de segunda categoria. Com o transcorrer dos encontros, começou a entender que a
família do marido e, principalmente sua sogra a tratavam como uma coitada, tentando poupá-
la de tudo: “ficam me dizendo como eu devo agir e viver, mas é exatamente isto que não é
bom para mim, porque o que eu quero e preciso é andar com as minhas próprias pernas: é
isto que fará com que eu fique forte, novamente.” [sic]. Conta outra situação que a angustiou:
os sogros foram visitá-los e pegaram o número da carteira de identidade de Maria Luisa, por
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conta própria: não lhe pediram e nem lhe falaram nada a respeito... Depois, veio a saber, que a
sogra havia falado com o marido, sobre a necessidade de ter o documento da filha, porque
esta iria viajar com eles. Lara entende que as intenções dela [sogra] são as melhores, mas não
gosta disto, porque não é disto que precisa: “ela me deixa de fora das coisas e me trata como
se eu fosse uma incapaz, uma inútil... Eu não me sinto bem na casa deles: me sinto mal, com
falta de ar, sufocada, já tive crise de bronquite quando dormia lá... Eles reparam em tudo!”
[sic] Então, me pergunta: “Será que ela [sogra] pensa que porque minha mãe já esteve
internada e tenho uma irmã com problema mental, eu também vou ser doente mental? Será
que não sabe que eu não quero ser tratada assim, que eu não quero ser poupada...? Será que
têm medo que eu fique como a minha mãe? Agora que eu estou conseguindo colar as coisas...
Como é que eu não percebi isto antes?” [sic]
A problemática da auto-estima evoca, em Freud (1914), o tema do narcisismo,
porque a auto-estima depende da libido narcisista; dito de outra maneira: está relacionada com
o elemento narcisista do amor.
Sua origem, no desenvolvimento emocional normal do ser humano, se
confunde com o surgimento do narcisismo primário: instala-se através do amor dos pais, com
todos os projetos, expectativas e sonhos que são atribuídos ao recém-nascido – Sua Majestade
o Bebê. Na verdade, Freud (1914) entende esse movimento amoroso dos pais como, nada
mais do que o narcisismo dos pais que renasce com a chegada de seu filho, porém
transformado em amor objetal. O narcisismo primário, então, caracteriza-se pelo amor por si
mesmo: o bebê toma a si mesmo como objeto de amor. Nesse mesmo movimento é que se
constitui o ego infantil: a partir dos ideais (amorosos) dos pais (seria, então, um ego ideal),
como já abordamos no início deste capítulo.
Freud (1914) considera que a “auto-estima expressa o tamanho do ego”, e sua
dinâmica, em termos quantitativos, tem uma íntima relação com a libido objetal. Quando o
investimento libidinal nos objetos é elevado, a auto-estima terá uma diminuição proporcional.
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Em um segundo momento, a auto-estima pode voltar a se fortalecer através do retorno que
tais objetos dão ao ego, em termos de amor ou realizações. Freud (1914) dá o exemplo do
estar apaixonado: “Um indivíduo que ama priva-se, por assim dizer, de uma parte de seu
narcisismo, que só pode ser substituída pelo amor da outra pessoa por ele” (p. 116). Ser
amado aumenta os sentimentos de auto-estima.
Mas, a regulação da auto-estima, também, estabelece uma relação muito íntima
com o interjogo do ego com o ideal do ego. O desenvolvimento do ego implica num
afastamento do narcisismo primário, mesmo que, ao mesmo tempo, mantenha um movimento
de tentativa de retorno a esse estado. Para promover tal afastamento, o ego desloca a libido
em direção a um ideal do ego, imposto de fora. Ao mesmo tempo, o ego emite as catexias
objetais libidinais – se empobrecendo –, na tentativa de alcançar o ideal do ego. Quando
consegue realizar o seu ideal, o ego se satisfaz e aumenta os sentimentos de auto-estima. Por
isso, “tudo o que uma pessoa possui ou realiza, todo remanescente do sentimento primitivo de
onipotência que sua experiência tenha confirmado, ajuda-a a aumentar sua auto-estima”
(Freud, 1914, p. 115).
No caso de Lara, as coisas foram sucedendo-se no sentido contrário do exposto
acima. As situações, aqui relatadas, apontam para uma impossibilidade desse interjogo entre
tais instâncias, desembocando em sentimentos de culpa e em um “delírio de inferioridade”:
O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor,
incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível; ele se repreende
e se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e
sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma
pessoa tão desprezível. Não acha que uma mudança se tenha processado
nele, mas estende sua autocrítica até o passado, declarando que nunca foi
melhor (Freud, 1917 [1915], p. 278).
Fenichel (1981) desenvolveu algumas compreensões sobre a relação entre
auto-estima e depressão, que parecem contribuir com nossas reflexões.
A depressão, assim como as adições e as neuroses impulsivas, possuem uma
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mesma predisposição: o indivíduo se fixou “no estado em que a auto-estima lhe é regulada
por provisões externas”, ou o indivíduo regrediu a esse estado, devido aos sentimentos de
culpa. Tais indivíduos “vivem em situação de perpétua avidez. A não se lhes satisfazerem as
necessidades narcísicas, diminui-lhes a auto-estima a ponto de risco” (Fenichel, 1981, p. 361).
Devido à fixação pré-genital, tais indivíduos tendem a reagir com violência,
diante da frustração. Por outro lado, “a dependência oral respectiva leva-os a tentar obter
aquilo de que precisam pela propiciação e pela submissão” (p. 361). São dependentes e suas
escolhas objetais são do tipo narcísico.
Freud (1914) entende que, no tipo de escolha objetal narcisista, a pessoa busca
a si mesmo como objeto amoroso: “(a) o que ela própria é (isto é, ela mesma), (b) o que ela
própria foi, (c) o que ela própria gostaria de ser, (d) alguém que foi uma vez parte dela
mesma” (p. 107).
Fenichel (1981) busca compreender este tipo arcaico de regulação da auto-
estima retomando “os estádios desenvolvimentais do sentimento de culpa” (p. 362).
Inicialmente, na vida do bebê, os estádios de fome se alternam com a
saciedade. Quando está faminto, o bebê “se lembra de que já foi satisfeito” e tenta retomar
onipotentemente, esse estado, gritando e gesticulando. Depois, o bebê vai perdendo a crença
na sua onipotência, e projetando-a nos pais.Tenta recuperá-la pela participação na onipotência
deles: o sentimento de ser amado. “A esta altura, a sucessão de fome e saciedade é substituída
pela sucessão de estados em que a criança se sente sozinha e, daí, experimenta uma espécie de
autodepreciação – chamamo-la aniquilamento – e estados nos quais se sente amada e se lhe
restabelece a auto-estima” (Fenichel, 1981, p. 362).
Mais tarde, o superego se desenvolve e assume a regulação da auto-estima.
Então, a manutenção da auto-estima não será dada somente pelo sentimento de ser amado,
mas, também, pelo sentimento de haver feito o dever, o que é direito. Nesse momento, já é
possível à consciência realizar a sua função de advertência: cria estados de aniquilamento
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menores ou pequenas diminuições da auto-estima, para advertir dos perigos que representam
uma perda definitiva das provisões narcísicas: agora oriundas do superego.
Segundo Fenichel (1981), “uma depressão severa representa o estado a que o
indivíduo oralmente dependente chega quando faltam as provisões vitais; as depressões
ligeiras são antecipações deste estado para fins de advertência” (p. 362). Dito de outra
maneira: “as experiências que precipitam depressões representam ou uma perda da auto-
estima, ou uma perda de provisões que, na expectativa do paciente, lhe garantiriam a auto-
estima” (p. 364).
Lara diz conviver com “problemas de auto-estima” desde tempos remotos da
sua vida. Evidenciaram-se com mais força a partir da adolescência: sentia-se um “poço de
defeitos” o que prejudicava muito na relação com os rapazes.
Lara nos remete ao tema do reconhecimento de si mesma pelo outro. Foram
raras as sessões em que não aparecia a pergunta: “isto é normal?”. É uma pergunta que
deságua em outra mais profunda: quem sou eu? Traz consigo um pedido: me espelhe...? A
necessidade de reconhecimento da sua singularidade e seu sofrimento é algo bastante presente
na transferência comigo, o que nos remete ao tema da função especular do analista e da mãe.
Em sua obra, Winnicott atribui grande ênfase ao papel desempenhado pelo
ambiente – e a mãe, num primeiro período –, para que o desenvolvimento do bebê se realize
de modo apropriado. Quando o ambiente desempenha bem sua função, o processo de
integração, o inter-relacionamento psicossomático e a relação de objeto vão se realizando. Até
o momento em que o bebê olha à sua volta e encontra o rosto da mãe: o que ele vê?
Winnicott (1971) considera que, normalmente, o bebê vê a ele mesmo: o rosto
da mãe reflete para o bebê, a própria imagem dele, pois seu olhar exprime aquilo que ela vê.
Temos, aqui, mais uma função materna vital: a função especular da mãe. Essa função é vital
para o bebê, pois ele depende das manifestações faciais e do olhar da mãe para que possa
constituir seu próprio sentimento de self. A mãe, pelo seu olhar, possibilita a emergência do
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self do bebê. Isso significa que ser é, antes de tudo, ser visto, e o rosto da mãe é o primeiro
espelho do bebê: um espelho vivo!
Tal função pode não se realizar de maneira satisfatória, quando o rosto da mãe
não funciona como um espelho, e o bebê é obrigado a perceber algo que não é ele, mas sim os
estados de humor da própria mãe, ou pior ainda, a rigidez de suas próprias defesas.
Isso tem conseqüências para muitos bebês: “sua própria capacidade criativa
começa a atrofiar-se e, de uma ou de outra maneira, procuram outros meios de obter algo de si
mesmos de volta, a partir do ambiente”. Nas situações cujo rosto da mãe é fixo, o bebê pode
lançar mão de outras estratégias para obter reações por parte dela: “A maioria das mães pode
reagir quando o bebê está em dificuldades ou quando é agressivo, e, especialmente, quando
doente. Depois, o bebê se acostuma à idéia de que, quando olha, o que é visto é o rosto da
mãe. O rosto da mãe, portanto, não é um espelho” (Winnicott, 1971, p. 155). Nesse caso, a
percepção se instala prematuramente acarretando um desenvolvimento egóico prematuro no
bebê: a percepção torna-se uma defesa, e a existência... puramente reativa, em detrimento de
seu sentimento de self.
Abram (2000) esclarece que Winnicott emprega o termo “Apercepção”
referindo-se à experiência subjetiva de fusão do bebê com a mãe, o que envolve a relação com
os objetos subjetivos. Já o termo “percepção” refere-se à capacidade de ver o conjunto dos
objetos, que está associada à capacidade de estabelecer a diferenciação entre eu e não-eu, daí
que ela surge a partir da apercepção. Porém, “se a percepção surgir prematuramente por meio
da incapacidade da mãe de oferecer uma resposta ao rosto do bebê, ele encontrará maneiras
para que tal aconteça, mas em detrimento de seu sentimento de self. Esse tipo de falha
materna acarreta no bebê um desenolvimento egóico prematuro” (p. 159).
Portanto, a condição básica do sentir-se existindo consiste em ser percebido
primeiramente, sem que tenha que perceber de maneira ativa. O reflexo de si mesmo no olhar
da mãe é, pois, a primeira forma de identidade. Reconhece a sua existência como
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possibilidade de autonomia e gesto espontâneo.
Ao contrário, falhas na realização da função especular materna geram
conseqüências danosas ao desenvolvimento humano, em graus diversos de severidade, no que
se refere à descoberta e desenvolvimento do self, ao sentimento de existir, de sentir-se real e à
auto-estima. Em Winnicott (1971) encontramos, pois, um elo de ligação entre a auto-estima e
a realização da função especular materna.
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8 AS TAREFAS E AS FALHAS DA MÃE
A mãe de Lara parece ter sido uma pessoa ausente, desde o início.
Lara nasceu no final do outono de 1969 de parto normal. Não tem muitas
informações sobre este período da sua história – as que possui foram dadas por sua irmã mais
velha – mas acredita que seus pais não planejaram e nem evitaram ter filhos: “então, os filhos
nasciam, assim, sem querer... eu não sei o que aconteceu em relação a mim, mas sei que
minha mãe teve depressão pós-parto em quase todos os partos que teve. Ela ficava muito
internada porque teve eclampsia no parto da irmã mais velha que eu e quase morreu... Sei,
também, que quando eu tinha, mais ou menos, dois meses de idade fui internada em um
hospital e fiquei durante um mês sozinha em um quarto escuro, porque tive coqueluche.
Depois disto, nunca mais fiquei internada.” [sic]. O seu nome, como o de seus irmãos – nove
– foram dados por sua avó, já que sua mãe ficava muito internada... “por isso, não participou
da nossa educação: a minha irmã mais velha é quem cuidava de todos nós. Somente da minha
irmã deficiente que minha mãe cuidou...” [sic].
Entende que sua mãe sempre teve muitos problemas: já ficou internada muitas
vezes em hospital psiquiátrico. Também teve que cuidar de um irmão de Lara que, aos 17
anos, começou a ter “problemas de cabeça: era como o Pelotão [pessoa muito conhecida na
cidade], que as pessoas mexiam e ele saia correndo atrás, jogando pedras” [sic]. Depois,
uma sua irmã, “aos oito anos ficou com problema mental: os médicos disseram que era
aquela doença chamada de ‘esquizofrenia’. Nesta época, minha mãe estava até muito mal:
ficava só no quarto, na cama, e quando viu a minha irmã daquele jeito, levantou, arregaçou
as mangas e foi cuidar dela. Depois disso, a minha mãe ficou melhor de cabeça que todos
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nós” [sic]. Mas, então, Lara já era adulta...
Winnicott nos fala do quanto a mãe é necessária como pessoa viva, presente
com seu calor e alento: “Sem a presença viva da mãe, a mais erudita técnica materna nada
vale” (1964, p. 99). Então, “se ninguém está ali para ser mãe, a tarefa desenvolvimental do
bebê torna-se infinitamente complicada” (1971, p. 153). Quando ocorrem falhas significativas
da função materna nos primórdios da nossa vida, as repercussões em relação ao processo
maturacional do ego são diversas. Os problemas de sua mãe podem ter ocasionado fraturas no
holding, apresentação de objeto, manuseio e outras, na vida de Lara.
Winnicott buscou compreender as influências mútuas da relação mãe-bebê, nos
seus momentos iniciais. Enquanto pediatra contatou com um número muito grande de mães,
ouvindo, analisando e acompanhando-as na relação que estabeleciam com seus bebês. Talvez
por isso, Winnicott tenha se aproximado tanto de um ponto de vista feminino sobre a
maternidade, trazendo contribuições inovadoras e criativas para a compreensão do
extraordinário mundo da criança e dos pais. Os seus escritos versam sobre o amplo caminho
do desenvolvimento humano, que vai desde o vínculo natural entre mãe e bebê – chamado por
ele de amor, e que se constitui na chave para a formação da personalidade – passa pela relação
pai-filho, e chega nas múltiplas questões que permeiam a relação do ser humano com o
mundo externo – sociedade. Portanto, a mãe é essencial para a teoria do desenvolvimento
emocional de Winnicott por ser o primeiro ambiente para o bebê.
Acredita que não é necessário que se explique às mães, antecipadamente, o que
se sente ao ser mãe. Uma de suas principais idéias é que “os melhores instintos maternos
promanam de uma confiança natural dos recursos próprios e convém distinguir as coisas que
ocorrem naturalmente e as que têm de ser aprendidas; por isso, tento distinguir entre ambas,
de maneira que tudo quanto sucede naturalmente não se estrague” (Winnicott, 1964, p. 9-10).
Na verdade, para que uma mulher seja uma boa mãe, não são necessários, estudo ou
inteligência. O que é necessário é que a mãe use sua intuição para lidar com as situações
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referentes ao manejo de seu filho. A natureza materna se realiza através do vínculo
estabelecido entre a mãe e o bebê.
Aqui, gostaríamos de ressaltar uma afirmação de Winnicott (1964): o vínculo
entre ambos é a essência e a própria natureza do cuidado materno. “Para que os bebês se
convertam, finalmente, em adultos saudáveis, em indivíduos independentes, mas socialmente
preocupados, dependem totalmente de que lhes seja dado um bom princípio, o qual está
assegurado, na natureza, pela existência de um vínculo entre a mãe e o seu bebê: amor é o
nome do vínculo” (p. 17).
Winnicott esclarece, outrossim, que tal amor não se refere a sentimentalismos.
Esse amor de mãe diz respeito a uma força primitiva: “nele se conjugam o instinto de posse, o
apetite e até certo elemento de contrariedade, em momentos de exasperado humor; e há nele
generosidade, energia e humildade, também”. As mães precisam confiar na sua intuição e
amor. Os profissionais que lidam com elas precisam protegê-las no sentido de que nada se
interponha nesse vínculo e estrague sua tarefa, ao tentar fazer o que lhe dizem que deve ser
feito: seja aquilo que sua própria mãe fez ou o que os livros afirmam que deva ser feito.
Assim é que o autor não visa dizer às mães o que fazer, mas sim compreender o que acontece
na relação entre a mãe e seu filho (1964, p. 17).
Winnicott, em seus estudos psicanalíticos, busca compreender e aprofundar
sobre o papel desempenhado pela mãe no processo através do qual o bebê humano chega à
capacidade de objetivar. Em tal processo, a característica fundamental da situação do bebê
está na dependência, e de início, na dependência absoluta em relação ao meio ambiente.
Decorre, daí, que a maneira como o meio ambiente se apresenta tem importância
fundamental, por se constituir numa parte do bebê. Winnicott, Shepherd e Davis (1994, p.
197) esclarecem que “o estágio de dependência absoluta ou quase absoluta tem a ver com o
estado, no começo, do bebê que ainda não separou um NÃO-EU do que é EU, do bebê que
ainda não se acha aparelhado, para desempenhar essa tarefa”. Nesse estágio, o bebê percebe o
110
objeto de maneira subjetiva, enquanto algo que faz parte dele mesmo; e, não enquanto algo
que é objetivo e tem existência própria, fora dele.
O bebê passa ao estágio seguinte por causa das experiências que vivencia com
a mãe (ou substituto materno). As tendências herdadas do bebê são importantes, mas não são
suficientes para os desdobramentos das operações ou processos que levam à integração da
personalidade. É no comportamento adaptativo da mãe que se “torna possível ao bebê
encontrar fora do self aquilo que é necessário e esperado. Através da experiência da
maternagem suficientemente boa, o bebê passa para a percepção objetiva, havendo herdado a
tendência a fazer isso e tendo-lhe sido dado, a aparelhagem perceptual e a oportunidade”
(Winnicott; Shepherd; Davis, 1994, p. 197). O fundamental é que entre a mãe e seu bebê se
estabeleça uma relação de mutualidade, através da comunicação entre ambos e das
identificações cruzadas.
Ao ingerir o alimento, não existe uma comunicação entre o bebê e a mãe, a não
ser que se desenvolva uma situação de alimentação mútua: o bebê dá de comer e tem a idéia
de que a mãe sabe o que é ser alimentada. A mãe e o bebê alcançam o ponto da mutualidade
de maneiras diferentes. A mãe tem uma experiência de vida, onde já foi bebê e foi cuidada; já
brincou e viveu situações relacionadas com o cuidar de um outro ser humano que se encontra
em condições de extrema dependência. Porém, o bebê não tem história de vida, seu caminho
se inicia agora e não pode saber o que é ser um bebê e muito menos o que é ser mãe. De
acordo com Winnicott, Shepherd e Davis (1994, p. 199), “o bebê traz para a situação apenas
uma capacidade em desenvolvimento de chegar a identificações cruzadas na experiência de
mutualidade que é tornada um fato. Esta mutualidade pertence à capacidade que a mãe tem de
adaptar-se às necessidades do bebê”.
No primeiro estágio do bebê, a mãe é necessária de várias maneiras.
Primeiramente, é necessária como pessoa viva, como um corpo que oferece ao bebê calor e
alento. Em segundo lugar, é extremamente importante o processo de adaptação que realiza a
111
mãe suficientemente boa no momento inicial de onipotência e estabelecimento da ilusão pelo
bebê, pois ela é quem irá apresentar o mundo ao bebê: a isto, Winnicott denomina
apresentação de objeto. Winnicott (1964, p. 101) relata, com muita beleza, tal processo:
Imaginemos um bebê que nunca tivesse sido amamentado. A fome
surge, e o bebê está pronto para imaginar algo; a partir da
necessidade, o bebê está pronto para criar uma fonte de satisfação,
mas não existe uma experiência prévia para mostrar ao bebê o que ele
tem de esperar. Se, nesse momento, a mãe coloca o seio onde o be
está pronto para esperar algo e se for concedido tempo bastante para
que o bebê se sacie à vontade, com a boca e as mãos, e, talvez, com
um sentido de olfato, o bebê ‘cria’ justamente o que existe para
encontrar. O bebê, finalmente, forma a ilusão de que esse seio real é
exatamente a coisa que foi criada pela necessidade, pela voracidade e
pelos primeiros impulsos de amor primitivo. A visão, o olfato e o
paladar registram-se algures e, passado algum tempo, o bebê poderá
estar criando algo semelhante ao próprio seio que a mãe tem para
oferecer. Um milhar de vezes, antes de desmamar, pode ser
justamente propiciada ao bebê essa apresentação peculiar da realidade
externa por uma única mulher, a mãe. Um milhar de vezes houve a
sensação de que o que era querido era criado e constatado que existia.
Daí se desenvolve uma convicção de que o mundo pode conter o que
é querido e preciso, resultando na esperança do bebê em que existe
uma relação viva entre a realidade interior e a realidade exterior, entre
a capacidade criadora, inata e primária, e o mundo em geral, que é
compartilhado por todos.
Winnicott está se referindo a um exemplo de fusão que se dá entre a mãe e seu
bebê em um momento em que o bebê ainda não elaborou a diferenciação entre o eu e não-eu –
denominado estado de não-integração. A tranqüilidade com que a mãe realiza tal função é
fundamental ao bebê, que também “necessita sentir-se amorosamente envolvido, isto é, de um
modo repleto de vida, mas sem pressa: sem impaciência e sem tensão” (1964, p. 51).
Uma terceira maneira pela qual a mãe é necessária refere-se à tarefa materna
de desilusionamento, que constitui um aspecto mais vasto do desmame. Depois de ter
oferecido ao bebê a ilusão de que o mundo pode ser criado a partir da necessidade e da
imaginação dele, e tendo ela estabelecido nele a crença nas coisas e pessoas do mundo, é
necessário que ela promova um processo de desilusão em pequenas doses: “Gradativamente, a
mãe habilita a criança a aceitar que, embora o mundo possa fornecer algo parecido com o que
é preciso e procurado e que pôde, portanto ser criado, não o fará automaticamente, nem no
112
momento exato em que a disposição surge ou o desejo é sentido” (Winnicott, 1985, p. 102).
Porém, ressalta que tal processo somente poderá se fazer, caso a mãe tenha, primeiro,
significado tudo para a criança.
Também relacionada com a capacidade da mãe ter empatia com seu bebê,
temos uma outra função da mãe suficientemente boa, denominada holding. A apresentação do
objeto pela mãe depende da sua estabilidade e confiança. A repetição da confiança, engendra
o ambiente de holding.
Nos estágios iniciais do cuidado do bebê, em que as pulsões instintuais não se
acham especificamente envolvidas (a fisiologia e a psicologia ainda não se diferenciaram),
ocorre a experiência partilhada de embalo, em que o fundamental é a comunicação entre mãe
e bebê em termos de anatomia e fisiologia dos corpos envolvidos. Tal situação conduz a
interações ainda mais primitivas cuja natureza das comunicações são silenciosas. Winnicott
emprega o conceito de holding (sustentação) para descrever tudo que uma mãe faz no cuidado
físico de seu filho: refere-se à experiência de mutualidade vivida pela mãe, que se encontra
tão identificada com o bebê, que sabe, sem pensar, do que ele precisa; ao mesmo tempo em
que faz isso sem perder a sua própria identidade. A experiência de sustentação faz nascer no
bebê o sentimento de confiabilidade: alicerce para seu desenvolvimento no sentido da
autonomia. O holding é descrito por Winnicott como um processo em que a mãe ou
substituta:
Protege de agressões fisiológicas.
Leva em conta a sensibilidade da pele do bebê: o toque, a
temperatura, a sensibilidade visual, a sensibilidade do cair (uma ação
da gravidade) e a falta de conhecimento por parte do bebê da
existência de alguma outra coisa que não o self. Isso inclui toda a
rotina do cuidado que se estende pelo dia e pela noite. Não ocorre o
mesmo com dois bebês diferentes, pois isso faz parte do próprio bebê.
Um bebê não é igual ao outro.
Sucede, também, um momento do dia-a-dia que opera uma mudança e
que faz parte do crescimento e do desenvolvimento do bebê, tanto
físico como psicológico (apud Abram, 2000, p. 138).
Em O Bebê como Organização em Marcha (1949b), Winnicott esclarece que
113
um aspecto essencial do holding para o bebê diz respeito ao prazer que a mãe pode extrair do
complicado negócio de cuidar de uma criança. Por isto, faz votos que a mãe se divirta:
Divirta-se por a julgarem importante. Divirta-se deixando que as
outras pessoas cuidem do mundo, enquanto você está produzindo um
dos seus novos membros. Divirta-se com a sua concentração interior,
quase enamorada de si própria – o bebê é uma parcela tão próxima de
si. Divirta-se com a maneira como o seu homem sente-se responsável
pelo bem-estar tanto seu como do bebê. Divirta-se descobrindo coisas
novas a seu próprio respeito. Divirta-se tendo mais direito do que
jamais conseguirá ter, antes de fazer justamente aquilo que acha bom.
Divirta-se quando fica contrariada porque os gritos e prantos do bebê
o impedem de aceitar o leite que você anseia por dar com
generosidade. Divirta-se com toda espécie de sentimentos femininos
que você não pode nem sequer começar a explicar a um homem (p.
27-28).
Portanto, grande ênfase (poética, poderíamos dizer) é atribuída ao papel
desempenhado pelo ambiente, e a mãe num primeiro período, para que o desenvolvimento do
bebê se realize de modo apropriado.
Vimos, portanto, as principais funções maternas. Para Winnicott, qualquer
mulher pode exercê-las adequadamente, desde que seja sadia e natural, e isto depende dela
própria ter recebido uma maternagem suficientemente boa.
Entretanto, as “mães incapazes de proporcionar o ambiente que o bebê
necessita para um desenvolvimento sadio podem ser divididas (de forma artificial) em três
diferentes categorias: a mãe psicótica; a mãe que não pode se entregar à preocupação materna
primária; a mãe atormentadora”. No caso da mãe psicótica, temos que ela até consegue
suportar as demandas iniciais do bebê, porém é incapaz de separar-se dele para que cresça
afastado do seu olhar. Na segunda categoria, é freqüente que esteja muito deprimida ou
preocupada com algo, o que a incapacita de vivenciar a preocupação materna primária. E, “a
mãe atormentadora tem, segundo Winnicott, o pior dos efeitos sobre a saúde mental do bebê,
já que a natureza errante do ambiente viola o coração do sentimento do self” (Abram, 2000, p.
161).
Temos, pois, as mais importantes funções desempenhadas pela mãe
114
suficientemente boa. A partir disso,
cabe a cada indivíduo empreender a longa jornada que leva do estado
de indistinção com a mãe ao estado de ser um indivíduo separado,
relacionado à mãe, e ao pai e à mãe enquanto conjunto. Daí o caminho
segue pelo território conhecido como família, que tem no pai e na mãe
suas principais características estruturais [...] A família protege a
criança do mundo; este, porém, aos poucos vai se introduzindo: as tias
e tios, os vizinhos, os primeiros grupinhos de crianças, e por fim a
escola. Essa introdução gradual do ambiente externo é a melhor
maneira de levar uma criança a entrar em bons termos com o mundo
mais vasto, e segue de modo exato o padrão pelo qual a mãe
apresenta à criança a realidade externa [...]” (Winnicott, 1957, p.
60, grifo nosso).
Entretanto, é importante ressaltar que, assim como é necessário considerar o
contexto familiar em que a mãe realiza suas funções, precisamos também ter em mente que a
oferta dos pais à família que constróem “depende em grande medida de seu relacionamento
com o círculo mais amplo que os envolve, ou seja, seu contexto social imediato”, e assim
sucessivamente, com relação aos grupos sociais mais vastos. “Mas não se pode considerar os
pais simplesmente segundo suas relações com a sociedade. Há forças muito poderosas de
criação e conservação da família que resultam da própria relação entre os pais [...] Essas
forças estão ligadas à complexa fantasia sexual” (Winnicott, 1957, p. 61).
Dando continuidade à teoria freudiana, Winnicott (1957) afirma e enfatiza a
importância dos pais terem satisfações sexuais entre si, pelo fato de representarem “um dos
pontos culminantes da saúde mental” e “serem uma conquista do crescimento emocional da
pessoa [...] Pelo outro lado, os distúrbios sexuais estão associados com todo tipo de neurose,
problemas psicossomáticos e desperdício das potencialidades do indivíduo” (p. 61). Nesse
sentido, as fantasias sexuais, tanto as conscientes, quanto as inconscientes são bastante
variadas e de importância vital. Porém, um aspecto precisa ser considerado com especial
atenção, ao tentarmos compreender a influência da fantasia sexual para o exercício da
maternidade e paternidade: “o sentido de preocupação ou culpa que advém dos elementos
destrutivos (muitos deles inconscientes) que acompanham a expressão física do impulso
amoroso” (p. 62). Tanto a mulher como o homem possuem esses temores relacionados à sua
115
destrutividade que são inconscientes na sua maior parte e que geralmente emergem com
grande força por ocasião da gravidez e do parto, e também antes disso, constituindo-se como
motivação inconsciente para se ter filho(s):
Pode-se admitir de pronto que esse sentido de preocupação e culpa
contribui em grande medida para a necessidade que cada um dos pais
tem, e que ambos têm juntos, de constituir uma família. O
crescimento da família, melhor do que tudo o mais, neutraliza as
idéias assustadoras de danos causados, de corpos destruídos, de
monstros gerados. As ansiedades muito reais que acometem o pai
quando a mãe encontra-se em trabalho de parto refletem, tão bem
quanto possível, as ansiedades que relevam da fantasia sexual e não
de uma mera preocupação pelo estado físico da parturiente”
(Winnicott, p. 62-63, grifo do autor).
Tal ansiedade costuma ser abrandada pelo nascimento do filho, que nascendo
humano, completo e contendo em si um princípio de vida, dá aos pais “uma grande sensação
de alívio, livrando-os de idéias que procedem de seu sentimento de culpa e inutilidade”. E,
isso terá grande influência na atitude que cada um dos pais terá em relação a cada filho, pois
cada criança terá um significado diferente “em termos da fantasia consciente e inconsciente
dos pais em torno do ato que produziu a concepção”; o que explica, até certo ponto, a
diferença que existe entre os filhos: aqui, está em jogo a elaboração imaginativa da função
sexual e o modo específico pelo qual cada criança irá se encaixar, “ou não, num certo
contexto imaginativo e emocional, contexto esse que nunca é duas vezes o mesmo, por mais
que todo o ambiente físico restante não sofra mudanças” (Winnicott, 1957, p. 63).
Existe outro fator, já bastante conhecido, que pode também afetar o
relacionamento dos pais com a criança: o sexo do filho pode não ser o esperado pela mãe e/ou
pelo pai.
Contudo, a contribuição da criança para a integração familiar vai além do
alívio que proporciona às ansiedades e fantasias associadas ao intercurso sexual. Winnicott
(1957) ,também, destaca o “fato de que a integração da família deriva da tendência integrativa
de cada criança individual” que é inata ao ser humano, mas que o bebê humano será capaz de
116
manifestar em condições favoráveis oferecidas pela mãe (ligadas à íntima identificação que
realiza com seu filho), e posteriormente pelo interesse combinado de ambos os pais. Essa
integração da criança, “um processo ativo que movimenta muita energia, afeta por sua vez o
ambiente externo”, contribuindo para a situação familiar ( p.68).
Portanto, o bebê necessita de “uma certa confiabilidade e disponibilidade” dos
pais, que tendem a responder adequadamente, devido à capacidade que possuem de
identificarem-se com os filhos. “Essa capacidade, por sua vez, depende de termos
desenvolvido nossa própria personalidade de modo satisfatório quando tínhamos a mesma
idade que ora têm os filhos” (1957, p. 69-70).
Lara traz sua mãe como uma mulher doente, que vivia no quarto: deitada,
quando não ficava internada em hospitais. Nunca relatou nada que sugerisse algo do campo
psicótico. O que, no momento, nos parece, é que a mãe de Lara vivia às voltas com uma
depressão grave. Isso, provavelmente, a incapacitou de vivenciar a preocupação materna
primária. Já abordamos esse conceito de Winnicott, no capítulo 4. Aqui, gostaríamos de
salientar que Winnicott (1956) considera que, alcançar tal estado, é condição fundamental
para que a mãe ofereça um setting apropriado ao estabelecimento do sentimento de self e de
continuidade do ser do bebê.
A mãe precisa oferecer o contexto apropriado para que “a constituição da
criança comece a se manifestar, para que o bebê comece a experimentar movimentos
espontâneos e se torne dono das sensações correspondentes a essa etapa inicial da vida”.
Quando a mãe proporciona uma adaptação suficientemente boa, a linha de vida do bebê pode
seguir seu curso natural, com poucas perturbações por reações a intrusões. Porém, “a falha
materna provoca fases de reação à intrusão e as reações interrompem o ‘continuar a ser’ do
bebê”. É através de um suficiente “continuar a ser” que se constitui a base para o
estabelecimento do ego: “a constituição inicial do ego é, portanto, silenciosa [...]. O que a mãe
faz bem não será jamais aprendido pelo bebê nesse estágio [...]. Suas falhas não são sentidas
117
como falhas da mãe, e sim como ameaças à existência pessoal do eu” (Winnicott, 1956, p.
403).
O percurso de Lara se fez com muitas rupturas, algumas até bem profundas...
Além das já abordadas aqui, também, ocorreram outras. O desmame no seio é trazido como
tal. Também a ida para uma creche, aos cinco anos de idade, onde permanecia por período
integral. Durante o primeiro mês chorou muito, mas depois foi se acostumando: “lá as
crianças passavam a maior parte do tempo no quarto – dormindo – e, às vezes, assistiam
TV... eu não suportava isto... por isso, comecei a ajudar com os serviços da cozinha, pois,
assim, eu fazia alguma coisa diferente de dormir e, ao mesmo tempo, aprendia alguma coisa
de útil para minha vida. Até hoje tenho trauma de cachorro, porque na entrada da creche
tinha dois cachorros em estátua e essa imagem eu não esqueço...” [sic].
A mudança de bairro já citada, os episódios depressivos, as experiências com
ajuda psicológica (um psicólogo que faltava muito porque viajava sempre e um grupo
terapêutico que coloca a necessidade dela separar-se do marido para poder curar-se...):
representam, também, rupturas no seu percurso.
O seu nascimento pode ter sido vivido como ruptura de si mesma.
Winnicott (1949a) considera que a experiência do nascimento pode se realizar
de maneira que o “continuar a ser” pessoal do bebê é interrompido por reações a intrusões
excessivas, e, ao reagir, o bebê é “empurrado para fora do estado de ‘ser’ [...] Ao reagir, o
bebê não está ‘sendo’” (p. 267). Aqui, é importante esclarecer que Winnicott acredita que já
exista um início de desenvolvimento emocional durante a vida intra-uterina, incluindo,
também, a capacidade para uma aceleração falsa ou não saudável desse desenvolvimento.
Assim ele se expressa:
Na saúde, as perturbações ambientais até um certo grau constituem
um estímulo valioso, mas para além desse grau tais perturbações são
contraproducentes na medida em que dão margem a reações. Nesse
estágio tão inicial do desenvolvimento ainda não há uma força
suficiente do ego para que ocorra uma reação sem perda de
identidade” (p. 263).
118
Nesse tipo de situação, a experiência do nascimento torna-se traumática, em
termos psicológicos, uma vez que as interferências do ambiente são tão intensas ou tão
prolongadas “a ponto de cortar o fio do seu processo pessoal e contínuo”. Então, cada aspecto
da intrusão e da reação fica registrado na memória do indivíduo. “A intrusão vinda do exterior
faz com que o bebê tenha de adaptar-se a ela, e o fato é que à época do nascimento o bebê
necessita é de uma adaptação ativa do ambiente” (Winnicott, 1949a, p. 265).
Antes do parto, o bebê já está preparado para uma certa intrusão ambiental. Na
experiência normal (não-traumática) de nascimento, a reação à intrusão própria do
nascimento, “não excede o nível de reação para o qual o feto já se encontra preparado”
(1949a, p. 274). Após o nascimento, ocorre “um retorno natural da reação a um estado em que
não é preciso reagir, sendo este último o único estado em que o eu pode começar a ser”
(1949a, p. 264).
Por isso, o trauma representado pela necessidade de reagir é o mais importante,
pois ocorre em um estágio do desenvolvimento humano em que a reação significa uma perda
temporária de identidade, provocando um sentimento extremo de insegurança. Isso “situa-se
na base da expectativa de novos exemplos de perda da continuidade do ser, e mesmo de uma
desesperança congênita (embora não herdada) quanto à possibilidade de alcançar uma vida
pessoal” (1949a, p.265).
Essas colocações de Winnicott foram constatadas na relação de Lara comigo,
em que pude perceber claramente que ela se sentia perdida... Durante algum tempo do nosso
trabalho ela nunca sabia o caminho a tomar na saída da sala de atendimento da clínica-escola.
Sempre me pedia orientações sobre como manejar a sua vida. Daí a necessidade de darmos
continuidade no tempo, para ela retomar a si mesma.
Através dessa continuidade, Lara foi novamente se envolvendo e investindo em
atividades diversas que, na época em que nos conhecemos, não conseguia realizar. A
princípio, vivia quase que a maior parte do tempo em seu quarto. Não conseguia fazer boa
119
parte das atividades rotineiras da casa, como lavar e passar roupa, limpar a casa, etc. Sua filha
é quem a ajudava. Pouco a pouco, foi retomando algumas dessas atividades e começou a
querer voltar a estudar e trabalhar: fez duas tentativas em relação aos estudos, mas desistiu.
Começou, também, a assumir outras atividades em relação aos filhos (levá-
los): natação, cursos paralelos, etc. Em uma dessas situações, conheceu a mãe de uma amiga
de sua filha que se dispôs a treiná-la em uma atividade profissional. Lara realizava as
atividades domésticas e ia à casa da dita pessoa, várias vezes por semana, levando consigo seu
filho. Por não ter dinheiro suficiente para ir de ônibus, percorria longos trajetos a pé ou de
bicicleta. Todos estes desafios lhe geravam muita apreensão e ansiedade: como se uma
catástrofe inusitada fosse ocorrer e derrubá-la, impedindo que continuasse caminhando. E,
literalmente, ocorreu em um dia próximo a um feriadão (ficaríamos um tempo sem sessão):
quando se dirigia ao referido lugar, sentiu que suas pernas não a seguravam, ela foi caindo e
quase perdeu os sentidos. Não foi mais lá, no treinamento. Certa vez associou tais sentimentos
com a maneira como sua mãe reagia diante das iniciativas que os filhos tinham de crescer:
“minha mãe sempre gorava e dizia que a gente nunca ia conseguir nada, nunca ia conseguir
ser feliz... Será que praga de mãe pega?” [sic].
Lara nos traz sua mãe como alguém que tenta impedir o crescimento (e, por
que não nascimento?) dos filhos. Associa isso às fobias que se evidenciaram a partir do
surgimento da depressão, mas que, de maneira pouco perceptível, já existiam há muito mais
tempo. Com o andamento da psicoterapia, foi reconhecendo, em si, muito medo da vida. Às
vezes, costuma dizer: “eu tenho medo é da vida, de viver!”
Tais vivências parecem estar relacionadas com o medo que sente de um objeto
interno bastante destrutivo e invejoso, que a ameaça toda vez que busca caminhar no sentido
de sua autonomia. Na relação comigo, tal drama se colocava toda vez que iniciava uma nova
experiência de trabalho e/ou de aprendizagem: ficava com muito medo que eu não quisesse
mais atendê-la. Aos poucos, foi reconhecendo a inveja de sua mãe, como também, a inveja
120
que sentia em relação à sua filha mais velha (Maria Luisa).
Em seu percurso, não encontrou um chão suficientemente firme em que pisar,
para poder crescer. A construção da sua subjetividade foi excessivamente marcada pela
solidão.
Apesar e com tudo isso, Lara foi seguindo seu caminho... Até que se abriu uma
primeira fenda: depois que a segunda filha nasceu, entrou em depressão pós-parto.
121
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Depois de quase quatro anos de estudo, fica a convicção de que buscamos
realizar um mergulho profundo na compreensão do caso estudado e do tema recortado. O que
mais haveria para dizer, aqui? Talvez retomar, de maneira pessoal, aquilo que se revelou
como mais significativo neste estudo.
A maternidade foi abordada como essencialmente de natureza psíquica.
Quando focada através do olhar dos diversos autores que dialogaram conosco, pode parecer, à
primeira vista, como uma vivência complexa, mas uniforme. Certa vez, uma bibliotecária que
traduziu um texto psicanalítico sobre este assunto me disse que, depois do contato com o
material, começou a repensar sobre ter ou não filhos: o texto a desmotivou em relação à
maternidade. Considerou que eram problemas e angústias demais para qualquer mulher.
Sob uma aparente uniformidade se revela a diversidade: cada mãe é única em
si, em razão de sua história pessoal e do contexto social em que a vivência da maternidade se
realiza. Algumas situações são esperadas na gestação, no parto e no puerpério: nelas, cada
mãe irá imprimir o seu estilo.
Após a mãe dar à luz, é esperado que ela viva alterações emocionais em graus
bastante distintos e amplos quanto à severidade. Pode ocorrer algum grau de depressão,
ansiedade, irritabilidade, perda de apetite, distúrbio do sono, tendência ao choro e
instabilidade emocional. Isso ocorre devido ao processo próprio do parto, que desgasta e
provoca várias mudanças fisiológicas e hormonais, aos efeitos colaterais de medicamentos e
ao ambiente hospitalar. Também, decorre dos aspectos psicológicos que envolvem a relação
materno-filial inicial, profundamente marcada pelo novo e desconhecido, com suas
122
expectativas, fantasias e ideais estabelecidos a priori, de maneira consciente ou não.
Mas, o que mais se destaca é que, desde a gestação, a mulher vivencia um
processo regressivo, de intensidade variável que será fundamental para que possa realizar suas
tarefas de mãe. É uma regressão a níveis psicossomáticos muito primitivos, que estabelece
contato com a memória corporal e o registro dos cuidados que a puérpera recebeu de sua
própria mãe, o que lhe permitirá reconhecer e satisfazer as necessidades demandadas pelo seu
bebê.
Tal regressão psicoafetiva traz repercussões sobre as fantasias conscientes e
inconscientes da gestante, acentuando o narcisismo e a capacidade de fantasiar. Durante a
gravidez, são reativadas fantasias inconscientes da gestante em relação à sua própria mãe,
provocando uma exacerbação das vivências persecutórias.
O processo de dar à luz um filho reativa profundas ansiedades na parturiente e
faz renascer temores irracionais. O momento do parto evoca a experiência que a mãe teve no
seu próprio nascimento, e isso influencia intensamente a vivência do parto de seu filho. A
angústia reativada no parto pode ter um caráter bastante invasor e desintegrador que, ao
invadir o ego, pode fragmentá-lo, talvez propiciando o surgimento de perturbações psíquicas.
Assim sendo, o processo de gestação, parto e puerpério coloca a mulher num
estado de relativa vulnerabilidade psíquica, que poderá variar num continuum que vai de uma
capacidade aumentada de criatividade até uma tendência elevada para a depressão ou psicose
puerperal.
As pesquisas quantitativas revelam percentuais elevados da depressão
puerperal: 10% a 15% das mulheres em geral. Para 60% dessas mulheres, constitui-se como o
primeiro episódio de depressão em suas vidas. Isso indica que o estado da maternidade se
coloca como um terreno, relativamente, propício para a depressão puerperal.
A maneira como se constitui a história de vida de cada mulher influencia
sobremaneira nos desdobramentos da sua maternidade. Como visto acima, a maternidade
123
reativa as vivências da infância e, principalmente, dos primórdios da vida psíquica. O presente
estudo de caso indica que a depressão puerperal pode surgir como decorrência de falhas no
desenvolvimento emocional primitivo da puérpera, principalmente daquelas relacionadas à
vivência da posição depressiva, aos desdobramentos do narcisismo primário e da constituição
do superego, e, especialmente, à experiência que teve no seu próprio nascimento.
Porém, algo que se destaca como fundamental, diz respeito à falta de suporte
oferecido pelo ambiente circundante a Lara e às perdas vividas por ela nas proximidades do
parto e puerpério. A maneira como cada mulher vai vivenciar a maternidade não diz respeito
somente a ela: convoca, necessariamente e inevitavelmente, o ambiente circundante e a
sociedade da qual participa.
A maternidade é responsabilidade da puérpera, do seu companheiro, das
pessoas próximas e profissionais envolvidos e da sociedade como um todo. Afinal, é a
sobrevivência e o percurso da humanidade que está em pauta. Por isso, buscamos, ao longo
desta dissertação, refletir sobre a maneira como a mulher está vivendo a maternidade na
sociedade atual.
Grosso modo, podemos considerar assim: quando o ambiente e a sociedade
não oferecem a sustentação necessária, as dificuldades primordiais relacionadas com o ser
mãe tendem a ocupar a cena já no campo patológico.
Podemos dizer que as possibilidades do ambiente (familiares, amigos e
vizinhos) em oferecer uma sustentação suficientemente boa às mães têm diminuído muito no
decorrer do último século, e mais intensamente ainda, nas últimas décadas: todos trabalham
muito ou estão concentrados na busca do trabalho e da sobrevivência. Todos estão ocupados
com a própria vida.
Quanto à sociedade em que vivemos, seria uma ampliação do que dissemos
acima? A responsabilidade e o interesse pela maternidade parecem estar muito ofuscados
pelos interesses financeiros, de conquista de status e de sobrevivência dentro dessa
124
engrenagem.
Assim, chegamos, inevitavelmente, no profissional psi e naquele que lida com
a saúde da mulher, e mais especificamente, das mães. As pesquisas voltadas para o estudo da
depressão puerperal e da maternidade são importantes, porque podem contribuir com a prática
clínica, com os demais profissionais envolvidos com saúde mental, e com as organizações que
buscam uma intervenção sobre a população em geral.
É hora de finalizar. Mas, permanece o desejo de apresentar mais material
clínico a respeito de Lara, para que este trabalho fique mais completo. Não temos tempo
suficiente para isso. Então, temos, aqui, um caso que precisa se encontrar com outros casos,
para que possamos avançar nas compreensões e formulações sobre este tema.
125
REFERÊNCIAS
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131
APÊNDICE
132
APÊNDICE A –– Roteiro de Entrevista: empregado no período da realização da
avaliação psicológica
ROTEIRO DE ENTREVISTA
Nome:
Idade: Data de Nascimento:
Escolaridade: Profissão:
Estado civil:
Procedência:
Endereço:
Telefone:
1. HISTÓRIA DA MOLÉSTIA ATUAL (QUEIXA)
- Como se sente?
- Desde quando ocorre?
- Qual a primeira vez (detalhes) ?
- O que desencadeou?
- Na 1
a
. vez o que foi feito, procurou ajuda? E nas outras vezes?
- Da 1
a
. vez para cá como tem sido?
- Como era antes de ter a dificuldade? Houve modificações?
- Como os familiares e pessoas do convívio reagiram e reagem diante da
dificuldade?
- Houve pioras ou melhoras em algumas situações, o que estava acontecendo?
- Mais alguma coisa a acrescentar?
2. HISTÓRIA PESSOAL
. Falar livremente sobre os seguintes temas:
. Infância
- Gestação
- Parto
- Pós-parto
- Amamentação e desmame
- Hábitos higiênicos
- Desenvolvimento físico
- Jogos e brincadeiras
- Escolaridade
- Desenvolvimento Geral
- Sexualidade
- Relacionamento familiar
- Algo a acrescentar
133
. Adolescência
- Começo da puberdade
- Amizades e relacionamento social
- Sexualidade
- Hábitos
- Escolaridade
- Relacionamento familiar
- Algo a acrescentar
. Idade adulta
- Preocupações mais importantes
- Metas e ambições
- Hábitos e atividades
- Sexualidade
- Características predominantes da personalidade
- Algo a acrescentar
3. HISTÓRIA FAMILIAR
- Mãe
- Pai
- Irmãos
- Esposo
- Filhos
- Algo a acrescentar
4. SAÚDE E ENFERMIDADES FÍSICAS E EMOCIONAIS
- Presente
- Passado
- Algo a acrescentar
5. ADAPTAÇÃO ATUAL
134
ANEXOS
135
ANEXO A –– Termo de Consentimento Livre e Esclarecido: modelo assinado pelo sujeito
da pesquisa
136
ANEXO B –– Parecer do Comitê de Ética em Pesquisa - PUCSP
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