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realista em geral só é atingida muito tempo depois de terminada a gestação. É muito difícil
para a gestante ser realista em um período como a gravidez, caracterizado por fortes
sentimentos de insegurança, ansiedade e medo perante o desconhecido” (p. 48-49).
A mudança do papel da mulher no contexto social é fato consumado. Diante
desta realidade, Riechelmann (1997, p.51-52) faz um balanço bastante interessante dos
ganhos e perdas realizadas:
A mulher atual ganhou em dignidade, cidadania e possibilidades de
crescimento pessoal. Paga com aumento de estresse, conflitos com a
maternidade e igualdade de incidência de doenças antes tipicamente
masculinas. O homem ganhou a consciência da necessidade de crescer
emocionalmente, além do tradicional crescimento puramente
intelectual. Ganhou também permissão para ser mais amoroso, mais
dedicado ao lar e à família, enfim, compartilhar o que antes era
exclusivo da mulher. Paga com a perda de seu poder autoritário.
Ganham as crianças, que não precisarão mais aprender com a mãe a
serem submissos e aprender com o pai a terem medo de amar.Pagam
com a diminuição da duração da infância, obrigados que são ao
amadurecimento precoce pela menor disponibilidade dos pais. Ganha
muito o capitalismo, pela disponibilidade de exércitos de mulheres
que produzem muito bem por salários mais baixos que os dos homens.
Paga (pouco e quando paga!) com a responsabilidade de manter a
renda da mulher nos momentos que sua condição feminina obriga a
parar de produzir, por exemplo, durante o ciclo gravídico-puerperal ou
devido a uma forte tensão pré-menstrual, custo esse que não existia
quando os trabalhadores eram todos homens.
Langer (1986, p.18-19), também explicita sua tese básica acerca do assunto:
[...] antigamente a sociedade impunha à mulher severas restrições ao
campo sexual (tomando o termo em seu sentido mais restrito) e social,
mas favorecia o desenvolvimento de suas atividades e funções
maternais. As conseqüências destas restrições foram a grande
freqüência da histeria e outras manifestações psiconeuróticas na
mulher. Por outra parte, parece ter sofrido relativamente poucos
transtornos psicossomáticos em suas funções procriativas. Atualmente
o quadro mudou. Neste último século, a mulher de nossa civilização
adquiriu uma liberdade sexual e social totalmente desconhecida há
apenas três gerações. Mas, por outra parte, as circunstâncias sociais,
culturais e econômicas impõem graves restrições à maternidade. Em
conseqüência desta situação, diminuem os quadros neuróticos típicos
e já não se encontra mais a ‘grande hystérie’, mas aumentam de forma
alarmante os transtornos psicossomáticos mencionados.
Como é possível observar através dos tempos, a partir do século XVIII, o
significado e valorização sociais de ser mãe se transformaram: a maternidade passa a envolver
as responsabilidades pela saúde mental e pela educação moral das crianças. A partir de