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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
Cristine Weissheimer
A DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO ARROIO GRANDE,
NOVA HARTZ, RS
PORTO ALEGRE
2007
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2
Cristine Weissheimer
A DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO ARROIO GRANDE,
NOVA HARTZ, RS
Dissertação de Mestrado em Geografia apresentada
ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul como
parte dos requisitos necessários à obtenção do título
de Mestre em Geografia.
Orientador: Prof. Dr. Luis Alberto Basso
BANCA EXAMINADORA:
Profa. Dra. Dirce Maria Antunes Suertegaray
Departamento de Pós-Graduação em Geografia -UFRGS
Prof. Dr. Nelson Luiz Sambaqui Gruber
Departamento de Pós-Graduação em Geografia -UFRGS
Drª. Marta Elisabeth Valim Labres
Bióloga - Doutorado em Agronomia - UFRGS
FEPAM/SEMA-RS
PORTO ALEGRE
2007
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3
WEISSHEIMER, Cristine.
A degradação ambiental no arroio Grande, Nova Hartz, RS /
Cristine Weissheimer - Porto Alegre: UFRGS/PPGEA, 2008.
[171] f. il.
Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. Instituto de Geociências. Programa de Pós-Graduação em
Geografia, Porto Alegre, RS - BR, 2007.
1. Geografia. 2. Degradação ambiental. 3. Indicadores. 4. Sub-bacia
hidrográfica. 5. Percepção ambiental. 6. Intervenção antrópica. 7.
Urbanização. I. Título.
_____________________________
Catalogação na Publicação
Biblioteca Geociências - UFRGS
Renata Cristina Grun CRB10/1113
4
Dedico essa monografia:
Ao meu pai Victor Hugo (in memoriam), um ser que viveu
para ensinar a olhar para o melhor dos outros, acreditando na
bondade e, acima de tudo, respeitando o outro como ele é,
À minha mãe Loiva, exemplo de coragem e persistência,
de vontade e de fé, sempre apoiando minhas decisões,
À tia Rose, meu apoio emocional e material em todas as
conquistas,
À Ani, amiga e companheira incansável, motivadora,
conselheira e crítica,
E a todos os seres que tecem a teia da Vida e, bem por
isso, tem direito igual a ela, independente de seus “níveis de
consciência” ou de suas utilidades para nós, humanos...
5
AGRADECIMENTOS
Esse trabalho é resultado do esforço e contribuição de muitas pessoas, que direta
ou indiretamente tornaram possível o aprendizado não só acadêmico como pessoal.
A todas essas pessoas queremos agradecer a doação do tempo, paciência,
sabedoria, material, conhecimento e amizade e de forma especial:
À Mariani da Silva, pelo auxílio fundamental na execução do trabalho,
acompanhando-me nas coletas de dados em campo, nas entrevistas e na correção do
texto;
À colega Rejane M. Valdameri, do setor de geoprocessamento da FEPAM, pelo
auxílio na confecção dos mapas;
À colega Márcia Berreta, do Programa de Pós-Graduação em Geografia, pelas
sugestões e correções e, principalmente, por me passar a tranqüilidade necessária para o
enfrentamento dos imprevistos;
À amiga Dra. Carla Klein (CPRM/RS), pela acolhida em sua casa durante o
acompanhamento das disciplinas e pelos bons conselhos;
À Diretora do Museu Histórico de Nova Hartz, Vânia Inês Ávila Priamo, pelo
empréstimo de material de pesquisa histórica;
Aos moradores entrevistados, que tão docemente nos receberam;
Ao Heleno Quevedo de Lima, da UERGS, pelo auxílio na coleta de dados;
Ao Dr. Sigurd Gernot Schinke, tradutor público e intérprete, pelas versões do
resumo nos idiomas inglês e alemão;
Aos professores e colegas do curso de Pós-Graduação em Geografia, com os
quais aprendi novas abordagens no tratamento das questões sócio-ambientais;
Ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRGS, pela oportunidade de
desenvolver um trabalho em área diversa da graduação em Biologia, o que muito tem
contribuído em minha atuação profissional;
Ao Prof. Dr. Luis Alberto Basso, que além de excelente profissional, sabe
motivar e corrigir as lacunas em nosso aprendizado, mostrando de maneira objetiva e
clara, as formas mais corretas da produção acadêmica;
E, finalmente, agradeço a Deus por tanta generosidade, por ter colocado em
minha vida pessoas especiais que muito me ensinam, como meus mestres, amigos e
familiares.
6
Experiência não é a soma das coisas
que nos acontecem: é a maneira
pela qual reagimos a essas coisas”
Aldous Huxley
7
RESUMO
O presente estudo foi realizado no município de Nova Hartz,
localizado a nordeste da encosta do planalto médio, na região metropolitana de Porto
Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Objetivou-se diagnosticar a situação atual da
degradação ambiental do arroio Grande, através da descrição e mapeamento de
indicadores naturais e antrópicos. A área pesquisada abrange parte da sub-bacia do
arroio Grande, pertencente à bacia hidrográfica do rio dos Sinos. Acrescentou-se aos
levantamentos físicos, uma pesquisa junto aos moradores antigos com o objetivo de
reconstruir o cenário sócio-ambiental desde meados do século XX até os dias atuais. A
recuperação da cobertura vegetal nas encostas de morros devido ao abandono das
atividades agrícolas, como aspecto positivo e a degradação dos recursos hídricos como
aspecto negativo, foram constatados, descritos e analisados na presente pesquisa.
Constatou-se que, apesar da intervenção humana estar causando alterações no equilíbrio
dinâmico dos ecossistemas, a área apresenta fatores naturais que contribuem para sua
fragilidade, gerando degradações cujos processos são acelerados e acentuados pelas
atividades humanas inadequadas sobre esses ambientes frágeis. Os indicadores de
degradação de origem natural, como erosões, solapamento das margens e assoreamento
dos cursos de água, estão mais presentes nas áreas rurais. Indicadores de degradação de
origem antrópica, como ausência de mata ciliar e despejo de efluentes domésticos e
industriais, se fizeram presentes de forma mais acentuada nas áreas urbanizadas. Os
resultados das análises de alguns parâmetros indicadores da qualidade das águas do
arroio Grande mostraram uma significativa diminuição da qualidade das águas na área
urbana e a jusante dela. Algumas sugestões foram somadas ao presente trabalho, no
intuito de possibilitar ações que possam minimizar os impactos dos indicadores
mapeados e evitar futuros problemas já ocorridos em outras cidades com características
semelhantes à Nova Hartz.
Palavras-chaves:
Degradação ambiental. Indicadores. sub-bacia hidrográfica. percepção ambiental.
intervenção antrópica. urbanização.
8
ABSTRACT
The present study was carried out in the county (municipality) of
Nova Hartz, localized to the northeast of the slope of the medium highlands, in the
metropolitan region of Porto Alegre, capital of Rio Grande do Sul. Our goal was to
diagnose the real situation of the environmental degradation of the rivulet Arroio
Grande, through the description and the mapping of of natural and antropic indicators.
The area under survey includes part of the sub-basin of Arroio Grande, belonging to the
hydrographic basin of the river Rio dos Sinos. To the physical data we added a survey
with the older dwellers aiming at reconstructing the socio-environmental scenario since
the middle of the 20
th
century till our days. The recovery of the vegetal cover on the
moutain slopes due to the abandonment of agricultural activities, as a positive aspect and
the degradation of the hydric resources as a negative aspect, were verified, described
and analyzed through the perception of old dwellers of the place. It was verified that, in
spite of the human intervention bringing about alterations on the dynamic balance of the
ecosystems, the area presents natural factors contributing to its fragility, bringing about
degradations whose processes are accelerated and accentuated by inadequate human
activities on these fragile environments. These degradation indicators of natural origin,
like erosion, underwash of brook banks and the silting up of water courses , are more
present in rural areas. Degradation indicators like the absence of ciliary woods and the
inflow of domestic and industrial wastewaters are much more accentuated in urbanized
areas. Some suggestion were added to the present paper with the intent of allowing
actions which might minimize the impact of the mapped indicators and help avoid
future problems as have already happened in other towns with characteristics similar to
Nova Hartz´s.
Key words
Environmental degradation. Indicators. Hydrographic sub-basin. Environmental
perception. Antropic intervention. Urbanization.
9
ZUSAMMENFASSUNG
Die vorliegende Untersuchung hat in der Nordosten Hoch-ebene
Stadt Nova Hartz, spielend in der erzbischöflichen Region Porto Alegre – Hauptstadte
des Bundesland Rio Grande do Sul- stattgefunden . Das Ziel wurde die aktuelle Situation
der umweltliche Verwitterung des Bach Arroio Grande durch Beschreibung und
Übersicht des naturelles Zeiger zu erkennen. Das untersuchte Gelände fasst Teil des
Arroio Grande Unterbecken um, das zum Bewässerungsbecken des Rio dos Sinos gehört.
Zur physichen Daten nahm man eine Forschung bei ehmaliger Einwohner zu, um die
soziale und umweltliche Landschaft von mitte des XX Jahrhundert bis heutzutage zu
bilden. Die Wiederaufbau des pflanzliche Decke in dem Hang den Bergen wegen der
Verzicht auf landwirtschaftliche Arbeit, als positiv gesehen und die Verwitterung des
Wasserstoffreserven, als negative Ansicht, wurden in dieser Forschung festgestellt,
beschreibt und analysiert. Wurde nachgeprüft, dass, trotz der menschliche Intervention,
die die Änderung in dynamischen Gleichgewicht des ökologisches System verursacht,
das Gelände naturelle Faktoren zeigt, die zu seiner Schwäche beitragen, und dass, das
Verwitterungen zeugt. Diese Verwitterungen sind durch die menschliche unangemessene
Akten über diese schwacheUmwelt schneller und verstärkt. Die Zeigen von naturellen
Verwitterungen, so wie Erosion, Auswaschung des Flussufer und Versandung den
Wasserlaufen, kommen im ländlichen Gegend am meistens vor. Andere Zeigen
Verwitterungen, wie Fehlen von wimperichem Wald und Entleerung häuslichen und
industriellen Abfall, kommen stärker im städischen Gegend vor. Einige Vorschläge
stehen in dieser Arbeit, in der Absicht neue Handlungen, die der Aufschlag den Zeigen
minimizieren, zu ermöglichen, und so, zukunftliche Problemen, die in anderen Städten
mit ähnlichen Kennzeichen als Nova Hartz vorkommen, zu verhindern.
Schlüssel-Wörte:
Ökologiche Verwitterung. Zeigen. Bewässerung-unterbecken. Umweltliche
Wahrnehmung. Menschliche Intervention. Urbanisierung.
10
LISTA DE FIGURAS:
Figura 1 - Representação de uma bacia hidrográfica dividida em sub-bacias ........... 24
Figura 2 - Representação da zona ripária de um rio ..................................................... 32
Figura 3 - Biota de rio natural ...................................................................................... 35
Figura 4 - Biota de rio retificado ................................................................................... 35
Figura 5 - Mapa de localização geográfica do estado do Rio Grande do Sul no
Brasil e na América do Sul .......................................................................................... 45
Figura 6 - Mapa da situação geográfica da bacia hidrográfica do rio dos Sinos na
região hidrográfica do Guaíba ....................................................................................... 46
Figura 7 - Mapa da situação geográfica do município de Nova Hartz na RMPA ...... 47
Figura 8 - Mapa da localização geográfica da área estudada na bacia hidrográfica
do rio dos Sinos ........................................................................................................... . 48
Figura 9 - Mapa da sub-bacia do arroio Grande e seus principais arroios tributários .. 49
Figura 10 - O arroio Grande no município de Nova Hartz ........................................... 50
Figura 11 – Imagem de satélite SPOT 2002 - Nova Hartz ....................................... 50
Figura 12 - Mapa altimétrico do município de Nova Hartz ......................................... 54
Figura 13 - Mapa das unidades geológicas na sub-bacia do arroio Grande segundo
Projeto RADAM/BRASIL ........................................................................................... 55
Figura 14 - Perfil geológico em corte da bacia hidrográfica do rio dos Sinos ............. 56
Figura 15 - Mapa das formações geológicas do município de Nova Hartz segundo
METROPLAN/CPRM ................................................................................................ 57
Figura 16 - Províncias ambientais que compõem a biota da bacia hidrográfica do
rio dos Sinos ................................................................................................................ 63
Figura 17 - Foto da referência do mapa de 1870 ........................................................ 74
Figura 18 - Foto de parte do mapa de 1870 ................................................................. 75
11
Figura 19 - Os morros ocupados por plantações em 1930 .......................................... 76
Figura 20 - Recuperação da vegetação nos morros, década de 1970 .......................... 77
Figura 21 - Cenas da inundação e deslizamento de terra ocorridos em 1992 ............. 82
Figura 22 - Localização do cemitério às margens do arroio Grande .......................... 86
Figura 23 - Representação da atividade econômica principal em meados do século
XX na área estudada ................................................................................................... 97
Figura 24 - Desenho esquemático de uma atafona ..................................................... 98
Figura 25 - Mapa de declividades da sub-bacia do arroio Grande ............................. 110
Figura 26 - Mapa de declividades segundo a legislação ............................................ 111
Figura 27 - Área de mineração sem licenciamento ambiental ................................ 127
Figura 28 - Traçado antigo do leito do arroio Grande (em preto) e traçado atual
após a retificação (em azul) ...................................................................................... 134
Figura 29 - Classificação dos arroios segundo um índice de qualidade ambiental ... 135
Figura 30 - Localização dos pontos de coleta de água em foto satélite ................... 140
Figura 31 – Mapa: ausência de mata ciliar ............................................................... 155
Figura 32 – Mapa: solapamento das margens .......................................................... 156
Figura 33 – Mapa: despejo de efluentes ................................................................... 157
Figura 34 – Mapa: deposição de resíduos sólidos .................................................... 158
Figura 35 – Mapa: localização das barragens e pontos de coleta de água .............. 159
Figura 36 – Mapa Geral dos Indicadores de Degradação Ambiental ....................... 160
12
LISTA DE FOTOGRAFIAS:
Fotografia 1 - Nevoeiros freqüentes na sub-bacia do arroio Grande .......................... 53
Fotografia 2 - Cascata no arroio da Bica ..................................................................... 58
Fotografia 3 - Detalhe do basalto sobre o Botucatu ................................................... 58
Fotografia 4 - Cascata no arroio Grande sobre basalto ............................................... 60
Fotografia 5 – Cascata no arroio Grande sobre Botucatu ............................................ 60
Fotografia 6 - "Rumbolposs": área de banho no arroio Grande ................................... 60
Fotografia 7 - Morro da Canoa como unidade geomorfológica: morro testemunho ... 60
Fotografia 8 - Poço cavado em Arroio da Bica ............................................................. 62
Fotografia 9 - Captação de água de nascente no arroio Grande ................................... 62
Fotografia 10 – Espécies vegetais típicas de Floresta Aluvial .................................... 65
Fotografia 11 - Morros cobertos, em parte, pela Floresta Estacional Semidecidual ... 66
Fotografia 12 - Desmatamento: encosta de morro em área urbana ............................. 67
Fotografia 13 - Desmatamento: clareira na encosta de morro em área rural............... 67
Fotografia 14 - Florestamento: plantação de acácia ................................................... 68
Fotografia 15 - Armadilha para capturar tatu .............................................................. 70
Fotografia 16 - “Cicatrizes” deixadas pelo deslizamento de terra em 1992 ................. 83
Fotografia 17 - Mineração sem licenciamento ambiental ........................................... 84
Fotografia 18 - Assoreamento no leito do arroio Fuzil ............................................. 84
Fotografia 19 - Residências instaladas em área de risco ............................................. 85
Fotografia 20 - Risco de contaminação: cemitério em APP ....................................... 86
Fotografia 21 - Atafona de Luis Henckel em 1925 ................................................... 99
13
Fotografia 22 - Atafona de Afonso V. Henckel em 2007 .......................................... 100
Fotografia 23 - Atafona de Rudi Brunner em 2007 .................................................... 100
Fotografia 24 - Enchente no arroio Fuzil em 1943 ..................................................... 102
Fotografia 25 - Passeio de moças no arroio da Bica em 1930 .................................... 105
Fotografia 26 - Balneário “rumbolposs” em 1950 .................................................... 105
Fotografia 27 - Comparação entre dois momentos diferentes da vazão no arroio: em
dias de chuva e em situação normal .......................................................................... 108
Fotografia 28 - Aspecto da vazão do arroio Fuzil em época chuvosa: fevereiro ....... 113
Fotografia 29 - O mesmo local, em setembro, com mais de 20 dias sem precipitação
Pluviométrica ............................................................................................................... 113
Fotografia 30 - Sulcos e ravinas em área declivosa .................................................... 117
Fotografia 31 - Desmatamento das encostas .............................................................. 117
Fotografia 33 - Solapamento da margem do arroio Grande a jusante da área urbana. 119
Fotografia 34 - Exemplo de solapamento das margens do arroio Grande .................. 120
Fotografia 35 – Estrada à margem do arroio Grande ................................................ 121
Fotografia 36 - Aspectos do assoreamento do arroio Fuzil ........................................ 121
Fotografia 37 - Área de banho “rumbolposs” em 1950 ............................................ 122
Fotografia 38 - Área de banho “rumbolposs” nos dias atuais ................................... 122
Fotografia 39 - Arroio Fuzil “espremido” entre construções urbanas ...................... 123
Fotografia 40 - Cultivo ocupando as margens do arroio da Bica ................................ 123
Fotografia 41 - Esgoto doméstico sendo lançado diretamente no arroio Grande ...... 125
Fotografia 42 - Ocupação urbana em APP com despejo de efluentes residenciais .... 125
Fotografia 43 - Despejo de efluente industrial no arroio Grande .............................. 126
Fotografia 44 - Chorume em estrada vicinal – área rural .......................................... 129
Fotografia 45 - Aparas de couro nas margens de arroio assoreado ........................... 129
Fotografia 46 - Antigo lixão de Nova Hartz sobre Botucatu ...................................... 130
14
Fotografia 47 - Aparas de couro e restos de construção encontradas às margens ...... 131
Fotografia 48 - Resíduos sólidos industriais à margem do arroio Grande ................ 132
Fotografia 49 - Barragem dos Pilger no arroio Grande ............................................ 133
Fotografia 50 - Ruínas da barragem dos Schönardie no arroio Grande .................. 133
15
LISTA DOS GRÁFICOS:
Gráfico 1 – Evolução urbana de Nova Hartz ............................................................ 79
Gráfico 2 – Faixa etária dos entrevistados .............................................................. 92
Gráfico 3 – Proporção entre homens e mulheres entrevistados................................ 93
Gráfico 4 – Tempo de existência da moradia dos entrevistados ............................. 94
Gráfico 5 - Percepção do volume de água no arroio Grande em épocas passadas
em comparação com a época atual ........................................................................... 95
Gráfico 6 - Percepção quanto à importância (funções) do arroio Grande ............... 95
16
LISTA DOS QUADROS:
Quadro 1 - Fatores naturais e antrópicos causadores do processo erosivo .................. 28
Quadro 2 - O uso do solo e sua interferência na qualidade dos recursos hídricos ........ 42
Quadro 3 - Utilização dos arroios para escoamento de resíduos: conseqüências.......... 43
Quadro 4 - Totais Mensais e Médias Anuais da Pluviosidade registradas na
Estação Pluviométrica de Araricá entre 1962 e 1995 ................................................... 52
Quadro 5 - Crescimento populacional e migrações: comparativo entre os cinco
Municípios com maiores índices de migrações na região ............................................ 72
Quadro 6 - Produção agrícola do município de Nova Hartz, referente ao
ano de 2001 .................................................................................................................. 73
Quadro 7 - Proporção de moradores por tipo de abastecimento de água nos anos
De 1991 e 2000 ........................................................................................................... 74
Quadro 8 - Classes de declividades conforme inclinação do terreno .......................... 109
Quadro 9 - Pesos relativos dos parâmetros adotados pela Fepam e Comitesinos...... 139
Quadro 10 - Faixas de IQA e classificação da qualidade das águas (conceito)
e cores .......................................................................................................................... 140
Quadro 11 – Metodologias usadas em laboratório para análise das águas ................. 140
Quadro 12 – Resultados do cálculo do IQA para as águas do arroio Grande nos
pontos de coleta ........................................................................................................... 148
Quadro 13 - Resultados das análises das águas superficiais nos pontos de coleta .... 152
17
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .................................................................................................. 18
1.1 Objetivos ......................................................................................................... 20
2 REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
2.1 Referencial teórico e conceitual ................................................................. 21
2.1.1 A pluviosidade e sua influência sobre a erosão ............................................. 26
2.1.2 A erosão, o solapamento das margens e o assoreamento ............................ 27
2.1.3 As matas ciliares ........................................................................................... 30
2.1.4 A urbanização e suas conseqüências ............................................................ 33
2.1.5 O uso do solo em áreas rurais ...................................................................... 36
2.1.6 As áreas de preservação permanente (APPs) ............................................... 37
2.1.7 A qualidade das águas ................................................................................. 39
2.2 Procedimentos metodológicos e operacionais
2.2.1 Levantamento bibliográfico .......................................................................... 43
2.2.2 Coleta de dados em campo ........................................................................... 43
2.2.3 Técnicas de geoprocessamento .................................................................... 44
2.2.4 Entrevistas com moradores .......................................................................... 44
3 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO: aspectos físicos
e sócio-ambientais
3.1 Situação e localização geográfica ................................................................ 45
3.2 Caracterização do meio físico e biótico
3.2.1 Aspectos climáticos ...................................................................................... 51
3.2.2 Geologia, formas de relevo e tipos de solos ................................................ 53
3.2.3 Águas superficiais e subterrâneas ................................................................ 61
3.2.4 Biota: vegetação e fauna .............................................................................. 63
3.3 Aspectos sócio-ambientais do município de Nova Hartz
3.3.1 População e aspectos sócio-econômicos ...................................................... 71
3.3.2 O processo de ocupação humana ................................................................. 73
3.3.3 Principais problemas sócio-ambientais........................................................ 80
18
4 RECONSTRUÇÃO DO CENÁRIO SÓCIO-AMBIENTAL
4.1 Metodologia .................................................................................................. 91
4.2 Resultados...................................................................................................... 94
4.3 Reconstrução do cenário sócio-ambiental através do relato de
moradores antigos ........................................................................................
96
5 DESCRIÇÃO, ANÁLISE E MAPEAMENTO DOS INDICADORES
DE DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO ARROIO GRANDE
5.1 Fatores naturais favoráveis à erosão ........................................................ 108
5.2 Fatores antrópicos aceleradores da degradação ambiental .................. 115
5.2.1 Ausência de mata ciliar e desmatamento de encostas ............................... 115
5.2.2 Solapamento das margens e assoreamento .................................................. 118
5.2.3 Despejos de efluentes ................................................................................... 123
5.2.4 Deposição de resíduos sólidos (lixo) ........................................................... 128
5.2.5 Barragens e retificações do leito .................................................................. 132
5.3 A qualidade das águas do arroio Grande ................................................ 135
5.3.1 Índice de Qualidade da Águas (IQA) ... ..................................................... 137
5.3.1.1 Metodologia ................................................................................................ 138
5.3.1.2 Descrição dos parâmetros de qualidade utilizados ..................................... 141
5.3.1.3 Resultados .................................................................................................. 148
5.4 Cartografia dos Indicadores de Degradação Ambiental. ....................... 153
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS E SUGESTÕES
6.1 – Considerações Finais ..................................................................................... 161
6.2 – Sugestões ........................................................................................................ 162
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................ 167
19
INTRODUÇÃO
Ross (1993) nos lembra que “os diferentes ambientes naturais
encontrados na superfície da terra que são decorrentes das diferentes relações de troca
de energia e matéria entre os componentes, são denominados ecossistemas, na
concepção da teoria dos sistemas”. Analisado sob o prisma da teoria dos sistemas,
Tricart (1977) defende que na natureza as trocas de energia e matéria se processam
através de relações em equilíbrio dinâmico. No entanto, esse equilíbrio é
frequentemente alterado pelas intervenções humanas nos diversos componentes desse
intrincado sistema.
Sabe-se hoje, após inúmeros estudos, que um ecossistema torna-se
degradado quando perde sua capacidade de recuperação natural após alguma
interferência em seu natural equilíbrio, ou seja, perde sua resiliência. É necessário
termos a noção dos limites de tolerância dos componentes naturais para estabelecer os
limites das interferências dos seres humanos nos ecossistemas. Os habitats alterados
pelas atividades humanas são mais vulneráveis à ação e proliferação, por exemplo, de
agentes patogênicos, pois com a diminuição da biodiversidade local, a colonização de
um novo patógeno é facilitada, pois ela encontra menos competição com as poucas
espécies nativas existentes. É o ser humano sofrendo as conseqüências de suas próprias
intervenções no equilíbrio dinâmico do meio natural.
Assim, o ser humano não deve ser tratado como um elemento
estranho na natureza e nos ecossistemas, mesmo porque ele é parte fundamental na
dinâmica representada pelos fluxos energéticos que compõem o sistema como um todo.
Infelizmente, sua interferência tem induzido graves processos degenerativos da
qualidade dos ambientes naturais e da própria sociedade humana, porquanto degradação
ambiental está diretamente ligada à miséria e diferenças sociais. Em inúmeros exemplos
apreendemos que os vínculos entre desenvolvimento econômico, condições ambientais e
saúde são muito estreitos. E são exatamente nas regiões onde a intervenção humana se
faz de forma mais inadequada que a degradação ambiental acarreta uma diminuição na
qualidade da saúde da população. Como exemplo, podemos citar as periferias pobres das
cidades.
20
A inserção do elemento humano na análise do contexto
físico está presente no pensamento geográfico denominado Geografia Socioambiental.
Com sua abordagem holística, interdisciplinar e sistêmica, a geografia socioambiental
transcende a desgastada dicotomia entre geografia física e geografia humana, “pois
concebe a unidade do conhecimento geográfico como resultante da interação entre os
diferentes elementos e fatores que compõem seu objeto de estudo” (MENDONÇA,
2001). Neste contexto, a noção de meio ambiente não recobre somente a natureza (fauna
e flora) e sim as relações de interdependência que existem entre o homem, as sociedades
e os componentes físicos, químicos, bióticos do meio, integrando seus aspectos
econômicos, sociais e culturais.
Passadas três décadas da Conferência de Estocolmo, que
disseminou a mensagem urgente preservacionista, o desafio continua sendo o de
conciliar as necessidades humanas com a conservação dos recursos naturais do planeta
(o que, em nosso entender, também é necessário para sobrevivência da espécie humana).
O presente trabalho foi estruturado a partir da observação
inicialmente empírica de situações de conflito entre sociedade humana e ambiente
natural no município de Nova Hartz, na região metropolitana de Porto Alegre, capital do
Estado do Rio Grande do Sul. A partir destas observações, partiu-se para a aplicação de
metodologia científica com objetivo de constatar, registrar, descrever, analisar e mapear
dados sobre os indicadores de degradação ambiental de um trecho do arroio Grande que
reflete a situação de parte da sub-bacia hidrográfica desse arroio. Buscou-se o resgate do
saber popular por meio de entrevistas e aplicação de questionário que resultou na
reconstrução do cenário ambiental através da percepção de moradores antigos do local.
Na soma de dados científicos e dados obtidos na experiência das pessoas objetiva-se,
além do diagnóstico da situação atual, a busca de soluções para os problemas
encontrados.
O tema da presente dissertação é a degradação ambiental no arroio
Grande, no município de Nova Hartz. Sabidamente, a qualidade das águas em uma
bacia hidrográfica depende da qualidade das águas das suas sub-bacias. Da mesma
forma, um arroio recebe influência da qualidade das águas e dos usos realizados em seus
tributários. Portanto, para obter resultados mais precisos foi necessário analisar não só a
21
degradação que afeta diretamente o arroio principal, como também a parte da sub-bacia
na qual se insere o trecho estudado do arroio Grande.
1.1 Objetivos
O objetivo geral da presente pesquisa é diagnosticar a situação
sócio-ambiental de parte da sub-bacia hidrográfica do arroio Grande através da
descrição, análise e mapeamento dos indicadores de degradação ambiental do trecho
médio do arroio Grande, município de Nova Hartz, RS.
Como objetivos específicos temos:
- Caracterizar a área de estudo em termos físicos e sócio-
ambientais, com análise do processo de ocupação humana;
- Resgatar o processo de transformação do cenário ambiental
através do saber e percepção dos moradores antigos do local;
- Cartografar os indicadores de degradação ambiental constatados
no trecho estudado do arroio Grande;
- Estabelecer um Índice de Qualidade Ambiental (IQA) das águas
de um trecho do arroio Grande e o enquadramento desse trecho em classes de uso
conforme resolução CONAMA n° 357/2005;
- Sugerir ações recuperadoras e conservacionistas dos recursos
naturais da área em estudo.
22
2 - REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
2.1 – Referencial Teórico e Conceitual
O presente trabalho aborda conceitos e temas diversos, alguns
bastante complexos, que interagem na caracterização ambiental de uma área com
ocupação humana.
Conceitos e temas, como: diagnóstico ambiental, bacia
hidrográfica, degradação ambiental, qualidade das águas, percepção ambiental,
desmatamento, erosão, podem ser analisados a partir de uma perspectiva integrada entre
as diferentes disciplinas que tratam de cada uma dessas questões.
Guerra e Albuquerque (2003) destacam a importância do enfoque
interdisciplinar, característico das ciências que compõem a Geografia Física, como a
Geomorfologia, que tratará do risco erosivo identificado na área; a Climatologia, que
identificará as alterações micro climáticas locais; a Biogeografia e a Ecologia, que
poderão identificar o potencial biótico e as alterações sobre as biotas e a Cartografia
que auxiliará no mapeamento da área.
Apesar da complexidade da Geografia Física, para atingir os
objetivos que a presente pesquisa propõe, acredita-se que a Geografia Humana e sua
metodologia de pesquisa completa essa visão sistêmica, inserindo o fator humano como
variável inerente aos processos de transformação do ambiente. Nenhuma outra espécie
interage com o ambiente de forma tão intensa quanto a humana. A própria concepção de
ambiente modificou-se bastante no século XX assim como a Geografia e outras ciências
que concebiam o ambiente quase exclusivamente de um ponto de vista naturalista. Nos
últimos 40 anos a dimensão social tem sido paulatinamente inserida na questão
ambiental visto que, conforme Mendonça (2001): “a crise ambiental contemporânea não
pode mais ser compreendida e nem resolvida segundo perspectivas que dissociam
sociedade e natureza”.
23
A formulação de novas bases teórico-metodológicas na Geografia
para a abordagem do ambiente com o envolvimento da sociedade e natureza, onde o
natural e o social são concebidos como elementos de um mesmo processo, resultou na
concepção da corrente de pensamento geográfico denominada Geografia
Socioambiental. O mesmo autor defende que essa concepção transcende a desgastada
dicotomia entre geografia física e geografia humana, “pois concebe a unidade do
conhecimento geográfico como resultante da interação entre os diferentes elementos e
fatores que compõem seu objeto de estudo”.
Veyret, citado por Mendonça (2001), afirma que: “de fato, para
um geógrafo, a noção de meio ambiente não recobre somente a natureza, ainda menos a
fauna e a flora somente”. Para o autor, o termo meio ambiente designa as relações de
interdependência que existem entre o homem, as sociedades e os componentes físicos,
químicos, bióticos do meio e integra também seus aspectos econômicos, sociais e
culturais.
Neste sentido, as ferramentas metodológicas apresentadas neste
trabalho foram buscadas tanto nas ciências físicas, como a geomorfologia, a hidrologia,
a cartografia, a ecologia, o geoprocessamento, quanto nas humanas, através das
entrevistas com moradores antigos que guardam valiosas informações em suas
vivências. Acredita-se que com esta abordagem o presente estudo poderá contribuir na
busca da compreensão e, consequentemente, de soluções aos problemas sócio-
ambientais existentes no local estudado e em outros que apresentam situações similares.
Partindo dessas premissas, o presente trabalho foi estruturado
através da observação, inicialmente empírica, de situações de conflito entre sociedade e
natureza, onde a degradação dos recursos naturais pode ser facilmente identificada em
alguns pontos. A constatação e registro, assim como a descrição, análise e mapeamento
dos dados sobre os indicadores de degradação ambiental desse estudo tem como meta o
diagnóstico da situação atual utilizando metodologia apropriada e a busca de soluções
para os problemas sócio-ambientais encontrados. A degradação dos recursos naturais foi
identificada através de indicadores como: solapamento das margens, ausência de mata
ciliar e desmatamento, deterioração da qualidade das águas superficiais, deposição de
resíduos sólidos, despejo de efluentes domésticos e industriais e outras intervenções
24
antrópicas que aceleram o processo de degradação ambiental na área em estudo. Foram
obtidos dados preciosos contidos na vivência dos moradores e que não estavam
disponíveis em nenhuma bibliografia ou documento impresso. O resgate destas
informações se deu através de entrevistas e aplicação de questionário que revela a
percepção dos moradores quanto à situação do arroio Grande e de parte da sub-bacia
estudada.
Quanto aos aspectos físicos da área em estudo, trabalhos
realizados pela CPRM e METROPLAN em 1994 sobre a Catástrofe de Nova Hartz e
sobre o Potencial Hídrico Subterrâneo desse município foram uma das primeiras fontes
de informações. Alguns estudos acadêmicos específicos sobre Nova Hartz, apesar de
serem em pequeno número, possuem dados sociais importantes.
Para o ser humano é relativamente simples realizar grandes
modificações em seu ambiente que afetam o funcionamento do sistema como um todo.
Exemplos são as construções de represas, desvios de cursos de água, drenagem de áreas
úmidas, extração de águas subterrâneas, todas desenvolvidas com novas e avançadas
tecnologias e que interferem no ciclo hidrológico.
O ciclo hidrológico está ligado ao movimento e à troca de água
nos seus diferentes estados físicos que ocorre na hidrosfera, entre os oceanos, as
geleiras, as águas superficiais, as águas subterrâneas e a atmosfera.
Guerra e Cunha (1995) destacam que, segundo a Teoria Geral dos
Sistemas, na natureza as trocas de energia e matéria se dão através do equilíbrio
dinâmico e são estáveis. Se os ambientes, em função da interferência humana não estão
em seu equilíbrio dinâmico, passam a ser instáveis. E estas interferências alteram a
eficiência e capacidade natural dos cursos de água para armazenagens e transferências de
energia. Uma ação sobre a transferência ou armazenagem pode causar mudanças em
todos os outros depósitos e transferências.
Ross (1994) cita que: “a fragilidade dos ambientes naturais face às
intervenções humanas é maior ou menor em função de suas características genéticas”.
Ele comenta que os ambientes naturais, em sua grande maioria, apresentavam-se em
25
estado de equilíbrio dinâmico até o momento em que as sociedades humanas passaram a
intervir na exploração dos recursos naturais.
Assim, atualmente, a noção de ambiente está diretamente ligada
aos graves problemas advindos da interação entre a sociedade humana e a natureza,
sendo que o ciclo hidrológico sofre diretamente com as alterações causadas pela intensa
interferência humana. Estas questões são sentidas por milhares de seres humanos
atingidos, por exemplo, pela falta de água, tornando-se óbvio que a busca de soluções
para os problemas sócio-ambientais deva estar acima de quaisquer ideologias religiosas
ou político-partidárias.
Para delimitar a área de estudo, optou-se por trabalhar com a
unidade denominada sub-bacia hidrográfica. A sub-bacia é um conceito derivado de
Bacia Hidrográfica (BH). A BH, segundo Silva et al. (2004): “é uma área da superfície
terrestre que drena água, sedimentos e materiais dissolvidos para uma saída comum,
num determinado ponto de um canal fluvial”. O limite da BH é conhecido como
“divisor de drenagem” ou, simplesmente, “divisor de águas”. As BHs podem variar de
tamanho desde milhões de km
2
até bacias com poucos m
2
.
Guerra e Albuquerque (2003) afirmam que: “as BHs podem ser
desmembradas em um número qualquer de sub-bacias, dependendo do ponto de saída
considerado ao longo de seu eixo-tronco ou canal coletor”. As sub-bacias, segundo os
mesmos autores, são subdivisões que devem estabelecer conexões com a área maior,
conforme exemplificado na figura 1.
Figura 1 - Representação de uma BH dividida em sub-bacias
Fonte: GUERRA, A.J.T e ALBUQUERQUE, A.R ( 2003)
26
A sub-bacia, portanto, tem os mesmos elementos da BH, porém
em dimensões menores. Tem seus afluentes, sua topografia própria que são definidos e
detalhados para compreensão dos fenômenos nela ocorridos.
Dessa forma, a bacia ou sub-bacia hidrográfica espelha as
condições naturais e as atividades humanas nelas ocorridas. Sabe-se que os fatores
naturais (topografia, solos, vegetação, clima, geologia) podem principiar desequilíbrios
que são agravados e acelerados pelas atividades humanas. Segundo Silva et al (2004),
“um trabalho desenvolvido em sub-bacias têm maior êxito na difusão, por exemplo, de
práticas de manejo de solo, na conservação dos recursos naturais e na introdução de
alternativas tecnológicas viáveis para aquela região”.
De acordo com Moreira (1990), o termo indicador, nas ciências
ambientais, significa um organismo, uma comunidade biológica ou outro parâmetro
(físico, químico, social) que serve como medida das condições de um fator ambiental,
ou de um ecossistema.
o termo degradação ambiental tem sido usado para qualificar
os processos resultantes dos danos ao meio ambiente, onde houve perda de qualidade ou
da capacidade produtiva dos recursos ambientais.
Não há como compreender a situação sócio-ambiental de uma
área na qual um corpo hídrico se insere, sem conhecer e analisar como certos processos
fundamentais iniciam e se desenvolvem.
A seguir apresentam-se, sucintamente, algumas reflexões e idéias
referentes a fenômenos e processos que contribuem para a degradação ambiental da área
de estudo.
27
2.1.1 - A pluviosidade e sua influência sobre a erosão
Um dos principais fatores desencadeadores de outros tantos, é a
pluviosidade. As chuvas representam o início do processo natural de desagregação das
rochas, de formação dos solos e da erosão desses mesmos solos.
A pluviosidade é o fator natural considerado o marco inicial do
processo erosivo na região em estudo, sendo que a chuva causa a denominada “erosão
de impacto”, que é o primeiro efeito dos pingos sobre o solo. Segundo Stallings (1957):
“o cientista alemão Wollny, em 1879, foi um dos primeiros a ressaltar que a vegetação
protegia o solo contra a ação da água da chuva”. E Ellison, em 1944, foi o primeiro a
reconhecer que a ação de impacto da gota de chuva no solo diretamente e o salpico
resultante, são as causas principais da erosão hídrica, demonstrando que o efeito da
proteção da cobertura vegetal “era devido ao fato de que esta absorvia a energia cinética
da gota de chuva em sua queda”.
Estudos como os de Bertoni e Lombardi Neto (1990) revelaram o
potencial do dano causado pelas gotas de chuva que golpeiam uma superfície
desprotegida de solo, rompendo os torrões e reduzindo os tamanhos das partículas de
matéria orgânica que são lançadas e carreadas pelo escoamento superficial. O resultado
desse carreamento é a perda da camada fértil do solo.
Verifica-se, também, que a distribuição espacial da pluviosidade
no Rio Grande do Sul segue o padrão observado por Grimm e Sant´anna (2000), ou seja,
as maiores anomalias ocorrem no nordeste do estado, região na qual se insere o
município de Nova Hartz.
Em síntese, a chuva é, sem dúvida, o fator principal da erosão.
Quanto maior a quantidade e freqüência, mais ela irá influenciar o processo erosivo. Se
o terreno tem pouca declividade, a água da chuva irá "correr" menos e erodir menos. Se
o terreno tem muita vegetação, o impacto da chuva será atenuado porque este estará
mais protegido, bem como, a velocidade da chuva no solo ficará diminuída devido aos
obstáculos (a própria vegetação "em pé e caída") e também a erosão ficará diminuída
devido a existência de raízes que darão sustentação mecânica ao solo; além disso, as
raízes mortas propiciarão a formação de canais para dentro do solo onde a água pode
28
penetrar e com isso sobrará menos água para escoar na superfície. A cobertura do solo
amortece a energia cinética da gota de água da chuva, evitando o início do processo
erosivo. Outra função, principalmente da serrapilheira (material que está depositado
sobre o solo, constituído de folhas e outras partes que se desprenderam da vegetação), é
o aumento da rugosidade do solo. A rugosidade serve de barreira para o escoamento
superficial das águas, evitando o arraste das partículas do solo e favorecendo a
infiltração de água.
2.1.2 – A erosão, o solapamento das margens e o assoreamento
O processo erosivo é um fenômeno natural que sofre influência
direta do clima através dos agentes como o vento (erosão eólica) e da água da chuva
(erosão hídrica). A erosão hídrica depende fundamentalmente da quantidade de chuva e
da capacidade de infiltração da água no solo. E esta capacidade de absorver a água está
relacionada com o tipo de solo, com o tipo e a quantidade de vegetação e com o grau de
inclinação do terreno (topografia).
A erosão inicialmente é desencadeada pela alteração das
condições geológicas ou climáticas ao longo de milhares de anos, mas pode também ser
induzida pelas atividades humanas que em poucos anos causam efeitos problemáticos
que devem ser combatidos. A erosão induzida e acelerada pelas atividades antrópicas
normalmente é iniciada pelo desmatamento e seguida pelo cultivo das terras, criação e
implantação de estradas e cercas. A erosão é conhecida como "laminar", quando os
filetes de água (pluvial) ao escorrerem encosta abaixo lavam a superfície do terreno
como um todo, sem formar canais definidos. Já a erosão conhecida por "escoamento
concentrado" acontece quando os filetes de água se juntam até formar enxurradas com
elevada capacidade de arrancar partículas dos solos e de transportar grande quantidade
de material solto, formando os sulcos e as ravinas.
Quanto ao processo de assoreamento numa bacia hidrográfica,
Guerra e Cunha (1995) afirmam que: “esse processo encontra-se intimamente
relacionado aos processos erosivos, uma vez que a erosão fornece os materiais que darão
origem ao assoreamento”. Segundo esses autores, quando não há energia suficiente para
29
transportar o material erodido, este material é depositado. Dessa afirmação pode-se
concluir que o depósito de sedimentos no leito dos cursos de água será mais intenso
quanto menor for a energia da correnteza, ou seja, onde a vazão é menor. E isso ocorre
onde a declividade é mais suave, nas áreas de várzea.
Destaca-se que a erosão, através do assoreamento, contribui para a
contaminação das águas por carga orgânica, sedimentos e agroquímicos (agrotóxicos e
fertilizantes químicos) devido ao carreamento ou transporte destas cargas contaminantes
junto às partículas dos sedimentos dissolvidos nas águas. A deposição e migração para o
subsolo destes elementos contribuem na contaminação da água subterrânea. Este fato é
de fundamental importância para o município de Nova Hartz, que não possui
abastecimento público com água tratada e, portanto, dependente da quantidade e
qualidade da água subterrânea.
Verifica-se, dessa forma, que o processo de erosão do solo sofre
a atuação de diferentes fatores, tanto naturais como antrópicos, onde cada fator terá uma
influência variável conforme sua tipologia e a interação entre eles. Portanto, faz-se
necessária a análise integrada das relações entre os fatores que favorecem a erosão para
uma gestão ambiental adequada dos recursos naturais do local. Para auxiliar na
compreensão disso, o Quadro 1 apresenta os fatores naturais e antrópicos que intervém
no processo erosivo.
Quadro 1: Fatores naturais e antrópicos atuantes do processo erosivo na sub-bacia do
arroio Grande, Nova Hartz
FATORES NATURAIS FATORES ANTRÓPICOS
- Topografia: inclinação do terreno - Ausência de Mata Ciliar e desmatamento
das encostas
- Tipo de solo - Impermeabilização do solo
- Clima: pluviosidade - Ocupação e uso inadequado do solo
- Cobertura Vegetal
- Ventos
Entende-se como naturais os fatores que ocorrem ou ocorreriam
mesmo sem a presença da ação humana. Já os fatores antrópicos resultam da
interferência humana sobre os processos naturais de degradação, que os aceleram e os
tornam diretamente prejudiciais à própria qualidade de vida nos locais atingidos.
30
Embora o processo de erosão tenha origem natural, algumas
atividades humanas aceleram esse processo, tais como: a impermeabilização do solo na
área urbana; a ocupação do solo, impedindo grandes áreas de terrenos de cumprirem
com seu papel de absorvedor de águas e aumentando, com isso, a potencialidade do
transporte de materiais; o desmatamento na área rural e em margens de corpos hídricos
que desprotege o solo e favorece o assoreamento; técnicas agrícolas inadequadas
promovendo à extinção das matas ciliares e o uso de agrotóxicos e poluentes que turvam
a água, diminuindo o oxigênio e consequentemente a manutenção da vida aquática dos
mananciais hídricos atingidos.
A erosão e o assoreamento são dois processos que estão
associados e que interferem na dinâmica da bacia hidrográfica. O primeiro refere-se à
remoção de sedimentos e seu transporte e o segundo refere-se à deposição dos
sedimentos transportados para o leito dos rios e fundo de vales, causando a diminuição
da calha e aumento do extravasamento lateral (inundações) quando ocorrem intensas e
prolongadas chuvas.
Merten (1995), citado por Silva et. al. (2004) afirma que “a
sedimentação em corpos de água é uma das principais e mais sérias conseqüências do
processo de erosão”. O assoreamento dos arroios, cobrindo os seixos rolados do leito
dos cursos de água, destrói a micro fauna bentônica e, consequentemente, altera toda a
biota desses recursos hídricos. A ocorrência de seixos rolados é importante na
manutenção de vários organismos por abrigar microfauna que representa um nível
trófico vital para a fauna aquática.
Outro aspecto a ser considerado é sobre a radiação solar que
atinge a superfície da água. Essa radiação sofre alterações conforme a quantidade de
material dissolvido e em suspensão. Quanto maior a quantidade de material em
suspensão, representada pela turbidez, menor a propagação solar e luminosidade nas
camadas de água. Essas alterações refletem no ciclo de nutrientes, ou seja, na cadeia
trófica, podendo reduzir drasticamente a produção de nutrientes e, consequentemente, o
número de indivíduos do ecossistema aquático, constituindo-se outro impacto negativo
do assoreamento dos cursos de água.
31
2.1.3 - As matas ciliares
Entre os fatores antrópicos que aceleram o processo erosivo está a
retirada das matas ciliares. A denominação “mata ciliar” ou “mata ripária” tem sido
usada para caracterizar a vegetação situada em faixa marginal dos cursos de água.
Conhecida também como mata de galeria e formação ribeirinha. Alguns autores
preferem os termos “área ciliar” ou “área ripária” para denominar toda a porção de
terreno que inclui desde a ribanceira dos cursos de água até a planície de inundação,
com suas condições edáficas próprias e a vegetação associada (aí sim, incluem-se as
matas ciliares ou ripárias). A todo esse conjunto podemos denominar ecossistema
ripário.
As matas ciliares ocupam áreas bastante dinâmicas em uma sub-
bacia hidrográfica e por esse motivo possuem importantes funções hidrológicas,
ecológicas, geomorfológicas e limnológicas em relação às águas superficiais e à
preservação de sua qualidade. Funções como proteção das margens contra a erosão e o
assoreamento dos mananciais hídricos; servem como filtro na diminuição e filtração do
escoamento superficial das águas da chuva, evitando o carreamento de sedimentos e
substâncias para os cursos de água e diminuindo o pico dos períodos de cheia;
interceptação e absorção da radiação solar (manutenção da estabilidade térmica, ou seja,
regulação do ciclo de nutrientes existentes na água); auxiliam no controle do fluxo e
vazão das águas; influenciam a formação de micro clima, de habitats, de áreas de abrigo
e de reprodução, assim como corredores ecológicos e de migração da fauna terrestre
aumentando a biodiversidade local; agem regulando as características físicas e químicas
das águas, assegurando a existência de fontes contribuindo assim para o equilíbrio do
ciclo hidrológico.
Como cita Delitti (1989), os resultados conhecidos de estudos
sobre o papel das florestas ripárias confirmam a hipótese de que elas atuam como filtros
de toda água que atravessa o conjunto de sistemas componentes da bacia de drenagem,
sendo determinantes, também, das características físicas, químicas e biológicas dos
corpos de água.
32
Portanto, a mata ciliar tem papel fundamental na qualidade das
águas superficiais margeadas por ela. Um dos principais efeitos da existência da mata
ciliar é sobre a quantidade de água ou vazão. Porém, a qualidade das águas também
depende de sua presença. O transporte de solo fértil para dentro dos corpos hídricos, o
solapamento das margens, o assoreamento dos leitos dos arroios, descontrole da
temperatura da água por falta de sombreamento, a eliminação dos refúgios da fauna e do
fluxo gênico entre as populações, são alguns dos efeitos da retirada de mata ciliar.
Alguns desses efeitos, como solapamento das margens e assoreamento dos leitos foram
nitidamente observados na área em estudo. A Figura 2 mostra a complexidade de
relações no ecossistema ripário.
Figura 2 – Representação da zona ripária de um rio
FONTE: Diretrizes Ambientais para Restauração de Matas Ciliares, p. 07 – Secretaria
Estadual de Meio Ambiente (SEMA)/Departamento de Florestas e Áreas Protegidas
(DEFAP), 2007
33
A falta de mata ciliar somada a solos desprotegidos, favorece o
carreamento de sedimentos que são levados pelas águas das chuvas para os cursos de
água. O mesmo acontece com os resíduos sólidos (lixo) e produtos químicos
(agrotóxicos) usados nas lavouras.
Com essas considerações, conclui-se que o próprio equilíbrio dos
ecossistemas aquáticos depende diretamente da proteção da vegetação ripária, que age
como reguladora das características químicas e físicas da água, mantendo as condições
para sobrevivência da ictiofauna.
2.1.4 - A urbanização e suas conseqüências
O crescimento demográfico desordenado no município de Nova
Hartz, como em tantas outras cidades brasileiras, somada à tendência humana de se
estabelecer próximo aos mananciais hídricos e à falta de planejamento para uso e
ocupação do solo, trouxeram como conseqüência o desequilíbrio dos sistemas hídricos
locais. Esse desequilíbrio resultou nos fenômenos de degradação observados na área em
estudo, como: erosão, assoreamento, inundações e deterioração da qualidade das águas
superficiais, subterrâneas e do solo. Os efeitos negativos recaem não só sobre os
recursos naturais, mas também e, principalmente, sobre a qualidade de vida das pessoas
que sofrem com as inundações, deslizamentos de terra, doenças transmitidas pelas águas
contaminadas, destruição das lavouras e residências e até perdas de vidas.
Por exemplo, para ser possível a urbanização (como ela tem sido
concebida e executada na maioria das cidades brasileiras), a cobertura vegetal é retirada
e o solo impermeabilizado. A alteração na cobertura vegetal da bacia hidrográfica
provoca efeitos que modificam o ciclo hidrológico natural. E a impermeabilização do
solo provoca a redução da infiltração de água no solo, o aumento do escoamento
superficial e a diminuição da recarga dos aquíferos. Todos esses efeitos resultam em
sérios problemas, como inundações, falta de água, assoreamento dos arroios, perda da
camada fértil do solo. São as atividades antrópicas acelerando os processos erosivos
naturais e causando danos à população.
34
As “construções urbanas” como pontes, taludes de estradas, canais
de drenagem, condutos subterrâneos, barragens, diques e drenagens inadequadas
também contribuem para a alteração da vazão e da qualidade das águas superficiais e
subterrâneas.
Já o impacto no solo com o processo de impermeabilização do
mesmo, acontece ainda que o mesmo não esteja totalmente pavimentado. O solo que
fica exposto com a retirada da vegetação apresenta albedo mais susceptível a
concentração de calor do que quando coberto pela vegetação. Essa alteração pode
influenciar o micro clima urbano, podendo ser o início de fenômenos conhecidos por
“Ilhas de Calor” e a inversão térmica.
As conseqüências da impermeabilização do solo podem ser
resumidas em: alterações do ciclo hidrológico; redução significativa da infiltração de
água e comprometimento do lençol freático; aumento do escoamento superficial,
acelerando/causando processos erosivos; enchentes, seguida de possíveis tragédias
humanas, perdas materiais e proliferação de doenças como a leptospirose. A
conseqüente diminuição das áreas verdes afeta direta e indiretamente a fauna e flora.
Outro efeito da impermeabilização, principalmente nas áreas urbanas, é o aumento da
poluição atmosférica com o comprometimento da qualidade do ar consumido pelo seres
vivos.
Outra intervenção humana de grande proporção observada na área
estudada foi a retificação do leito dos arroios. Sabe-se que o material sólido transportado
e o material constituinte do leito e das margens de um manancial hídrico é que definem
sua morfologia. Dessa forma, a força da corrente e sua capacidade de transporte
determinam as modificações naturais do seu leito. As intervenções antrópicas como as
retificações, impedem essas modificações e renovações naturais, o que atinge
diretamente a biota aquática.
A Figura 3 traz uma representação da biota rica em espécies em
região onde não houve retificação do leito do rio. Na Figura 4 está representada a perda
de biota causada pela retificação de um rio. Esse estudo foi realizado em um rio situado
35
na Alemanha, mas os efeitos prejudiciais do encurtamento do leito ocorrem para
qualquer ecossistema fluvial.
Figura 3 - Biota de rio natural
Fonte: Rios e Córregos – Preservar – Conservar – Renaturalizar – A Recuperação de Rios –
Possibilidades e Limites da Engenharia Ambiental. Projeto PLANÁGUA/GTZ de Cooperação
Técnica Brasil-Alemanha, agosto de 1998
Figura 4 - Biota de rio retificado
Fonte: Rios e Córregos – Preservar – Conservar – Renaturalizar – A Recuperação de Rios –
Possibilidades e Limites da Engenharia Ambiental. Projeto PLANÁGUA/GTZ de Cooperação
Técnica Brasil-Alemanha, agosto de 1998
36
A retificação provoca o aumento da capacidade de vazão,
reduzindo a freqüência do transbordamento das cheias menores e médias, porém
permanecem as grandes enchentes. A alteração na relação entre a área a montante e a
área inundável causa desaparecimento de locais de desova de peixes.
Segundo o projeto PLANÀGUA (1998), a redução do
comprimento do curso e a uniformização da seção de vazão aumentam a velocidade da
corrente, ocasionando o aumento da erosão e do assoreamento à jusante, onde o volume
excessivo de água em épocas de chuvas tende a extravasar.
2.1.5 - O uso do solo em áreas rurais
Em relação às áreas rurais, Silva et al (2004) lembram que: “para
as regiões rurais o bom uso do solo é primordial para o sucesso da propriedade rural”.
Os mesmos autores citam que a impermeabilização do solo é bem maior nas áreas
urbanas e que o regime hidrológico nas áreas rurais sofre menor alteração devido à
maior infiltração de água no solo e à facilidade de instalação de cobertura vegetal, viva
ou morta. No entanto, o manejo do solo é o fator decisivo nessas áreas, pois a exposição
do solo à força erosiva dos ventos e chuvas é que define sua qualidade. Como já foi
citado anteriormente, o carreamento de grandes quantidades de sedimentos para os
cursos de água depende das características do solo, da topografia e da pluviosidade.
As práticas agrícolas inadequadas como as queimadas deixam o
solo nu, desprotegido e a mercê da energia dissipativa das gotas de chuva. E o uso das
máquinas pesadas sobre o solo causa sua compactação, assim como o pisoteio do gado,
diminuindo o espaço entre as partículas do solo e, consequentemente, a capacidade de
absorção de água, causando a impermeabilização do solo, favorecendo a erosão
superficial ou laminar. São bastante comuns na área em estudo, as queimadas para
“limpeza” do terreno e a criação de gado em áreas com declividades acentuadas, onde a
retirada da mata é realizada para em seu lugar introduzir pastagens.
37
2.1.6 – As áreas de preservação permanente (APPs)
Orlandi F° et al (1994), no trabalho intitulado “A Catástrofe de
Nova Hartz”, apontaram como um dos cinco maiores problemas ambientais no
município de Nova Hartz o uso inadequado do solo.
O uso e ocupação do solo são inadequados quando não obedecem
a critérios técnicos e legais. Dessa forma, o uso e a ocupação do solo em áreas de
preservação permanente (APPs) também pode ser usado como indicador de degradação
ambiental, pois são áreas legalmente protegidas e raras são as intervenções antrópicas
permitidas.
A Lei Federal 4771/65 – o Código Florestal, define as margens de
qualquer curso de água como Área de Preservação Permanente (APP). No entanto, esta
é uma das leis menos cumpridas nesse país, principalmente em áreas urbanas, mas
também, nas áreas rurais, onde a agricultura e pecuária têm utilizado as margens de
corpos hídricos. Essas áreas são consideradas patrimônio da União e tornam-se alvo
fácil de ocupação desordenada pela falta de fiscalização, causando complexos processos
jurídicos e problemas sociais que tornam complicada a posterior desocupação e
recuperação ambiental.
O regime de proteção legal das APPs é bastante rígido, sendo
admitida excepcionalmente a supressão vegetal nos casos de utilidade pública ou
interesse social legalmente previstos no Código Florestal de 1965 e em posteriores
legislações. No entanto, vários artigos desse Código e de outras leis deixam dúvidas
quanto à sua aplicabilidade, até mesmo em relação ao significado de termos como
“utilidade pública” e “interesse social” ou de quem seria a competência de declarar que
tipo de intervenção se adequaria nesses termos. O fato de a legislação generalizar as
medidas das áreas de proteção, fixando metragens conforme a largura dos cursos de
água, nem sempre esteve de acordo com o conhecimento técnico sobre áreas específicas,
pois a diversidade de condições é grande em nosso país. Por exemplo, manter intactas
largas margens em torno dos cursos de água em áreas urbanas torna-se quase inviável,
38
devido à pressão de ocupação e da necessidade de instalação dos equipamentos e
estruturas urbanas. Nem mesmo a distância mínima de 30 m é observada na maioria das
cidades. A tendência humana sempre foi ocupar as áreas que margeiam os corpos
hídricos, por serem fornecedores de alimento, água e energia. Na busca de soluções para
esses problemas, o conhecimento técnico dos ambientes das bacias hidrográficas é
instrumento valioso, enquanto fornece a base para uma gestão ambiental que tem como
papel fundamental o estabelecimento de regras e limites da intervenção humana nos
ambientes naturais. Junto a este aprimoramento do conhecimento de cada realidade, é
necessária uma maior atenção dos governos quanto à estruturação dos órgãos
reguladores e fiscalizadores.
Outro exemplo de ocupação inadequada refere-se a locais de
grande importância ecológica, como as áreas úmidas, que mesmo não sendo declaradas
como áreas de preservação ambiental, servem como locais de recarga de aqüíferos
subterrâneos. Essas áreas estão sendo drenadas e aterradas para instalação de
loteamentos e outras edificações urbanas. A preservação dessas áreas é especialmente
importante para o município de Nova Hartz cujo abastecimento público depende da
qualidade e quantidade de água subterrânea.
Quanto à recuperação ambiental dessas áreas, o Poder Judiciário
tem atuado através das promotorias em defesa do meio ambiente. No entanto, quando
essas são acionadas, o dano ambiental, na maioria dos casos, já ocorreu.. A exigência de
recuperação dos danos, quando possível, é exercida pelas Promotorias através de
Termos de Ajustamento de Conduta (TAC), onde o infrator se compromete a realizar a
recuperação dos danos ou executar medidas compensatórias. No caso de áreas que já
apresentam fragilidades, a intervenção humana pode acentuar de tal forma a degradação
ao ponto de tornar irreversível a recuperação dos danos causados aos ecossistemas.
O que se verifica na prática, no caso das APPs, é que elas não tem
sido preservadas, sendo que o uso inadequado do solo e a ocupação irregular dessas
áreas tem provocado o assoreamento e a poluição dos cursos de água, resultando em
sérios riscos às populações através de enchentes, deslizamentos das encostas e
transmissão de doenças veiculadas pela água ou por vetores que dela se utilizam.
39
2.1.7 - A qualidade das águas
A avaliação da qualidade da água em um ecossistema abrange
vários parâmetros físicos, químicos e biológicos. Entre as variáveis físicas, os aspectos
climatológicos exercem influência direta sobre os corpos de água, alterando o
metabolismo dos seres aquáticos. Exemplificando, em períodos de maior precipitação
pode ocorrer aumento da turbidez em função do aporte de sedimentos que são carreados
pelas chuvas para o corpo hídrico. O vento, por sua vez, provoca uma mistura na água
com ressuspensão de nutrientes das partes mais profundas.
Costuma-se definir a contaminação da água como a adição de
substâncias estranhas que degradam sua qualidade natural. E isto nos leva a pensar que a
fonte exclusiva de contaminação é a ação humana com o descarte de seus produtos
diretamente nos corpos hídricos.
Várias são as classes de substâncias que podem chegar a
contaminar a água. Algumas podem causar turbidez na água (diminuição da
transparência), outras aumentar a salinidade ou a temperatura. Como exemplo pode-se
citar:
- Sólidos em suspensão - provêm da erosão dos solos, atividades
de mineração, agrícolas ou industriais. Estas substâncias diminuem a transparência da
água e consequentemente a atividade fotossintética, podendo causar danos às guelras e
brânquias dos organismos aquáticos e perturbar os locais de desova e refúgio destes.
- Substâncias tóxicas - os problemas mais graves são das
substâncias resistentes à decomposição microbiana, cujo poder acumulativo na água e
nos organismos põe em perigo a estabilidade dos ecossistemas aquáticos, da vida
animal e do homem. Dentre estes estão os metais pesados, como Cádmio, Cromo, Zinco
e Mercúrio, extremamente tóxicos.
- Detergentes - os detergentes, devido a sua composição química,
têm a propriedade de limpar com maior rapidez e de ser mais eficiente em águas com
alto conteúdo de Ca
++
e Mg
++
, ultrapassando, em muito, o sabão. Os detergentes
baixam a tensão superficial da água, exercendo um efeito desoxigenador no corpo
40
d'água, pois reduzem a superfície de contato entre a água e o ar. Contribuem também
para a eutrofização, devido ao conteúdo de fósforo incorporado à sua molécula, o qual
após a degradação passa a estar disponível para a comunidade aquática.
Do ponto de vista ecológico, porém, a definição de qualidade de
água é mais ampla, no sentido que alguns ecossistemas podem possuir elevadas
concentrações de sais ou pHs ácidos ou mesmo baixa concentração de oxigênio
dissolvido (OD) e sustentar comunidades estáveis, adaptadas a esses meios. Sendo
assim, a qualidade da água não depende apenas das substâncias nela dissolvidas
oriundas da ação antrópica, mas sim, e fundamentalmente, dos aportes naturais
fornecidos pela chuva, pelas condições geológicas, pedológicas e geoquímicas da bacia
de drenagem. Dessa forma, é a soma dos fatores naturais e antrópicos que irá determinar
a qualidade dos recursos hídricos.
Em relação ao efeito do desmatamento sobre a qualidade das
águas dos mananciais hídricos, Odum (1988) ressalta que o aporte de Nitrogênio para os
corpos de água é quinze vezes maior em área recentemente desmatada do que antes,
quando era florestada. Isto ocorre devido à maior quantidade de água que flui ao corpo
receptor de água e que deveria ficar contida na cobertura vegetal e no próprio solo da
floresta. Em relação a esse assunto, Silva et al (2004) também se manifestam
comentando que o nitrogênio (N
2
), assim como o fósforo (P) são dois elementos que tem
sido especialmente estudados por participarem diretamente no metabolismo dos
ecossistemas aquáticos. Por participar da molécula de proteína, o N
2
é um dos elementos
básicos na formação da biomassa. Se ele se apresenta em baixas concentrações, passa a
atuar como fator limitante na produção primária dos ecossistemas aquáticos. Em altas
concentrações, contribui para a eutrofização.
Esteves (1988) explica que o nitrato (NO
3
) e o amônio (NH
4
) são
os íons mais facilmente transportados pelas águas do escoamento superficial,
constituindo-se nas principais fontes de nitrogênio para os produtores primários (algas) e
bactérias fotossintetizantes. No entanto, como já foi citado anteriormente, o excesso de
nutrientes pode causar eutrofização dos corpos de água.
41
Em outras palavras, todo sistema aquático é influenciado pelo
ambiente físico do corpo de água, ou seja, pela geomorfologia, pela velocidade da
corrente e vazão, pelo tipo de substrato, pelo tempo de retenção da água e pela
quantidade de substâncias dissolvidas. Ocorre que, e isto deve ser destacado, são nestes
fatores físicos determinantes da qualidade da água que a ação humana tem interferido e
cujos muitos dos efeitos não são perceptíveis a curto e médio prazo. Interferências na
modelação da topografia, retirada da camada fértil do solo, modificações no curso
original dos mananciais hídricos fluviais, retirada da cobertura vegetal que afeta o
microclima, drenagens, aterramento de áreas inundáveis são algumas das tantas
atividades humanas que têm interferido nas características funcionais dos ecossistemas.
O conceito de “qualidade da água”, no entanto, tem se relacionado
ao uso que o ser humano deseja para aquele ponto do manancial hídrico. Para um
mesmo rio, por exemplo, a classe de uso desejável em suas nascentes é a melhor
possível, a mais próxima de seu estado original, livre de qualquer tipo de contaminação.
Já em outra porção do rio, devido aos usos antrópicos e sua condição física natural, este
mesmo rio pode apresentar qualidade inferior, mas que ainda serve para alguns tipos de
usos da água.
Nesta linha de pensamento, o padrão de qualidade ambiental da
água tem visado primordialmente a proteção da saúde humana, com o controle de
substâncias potencialmente prejudiciais ao bem-estar físico dos seres humanos, como
micro-organismos patogênicos, substâncias tóxicas ou venenosas e elementos
radioativos.
Observa-se, portanto, que o conceito de qualidade da água
restringe-se, na maioria das decisões político-econômicas, ao uso antrópico, embora se
procure através de monitoramento e do cumprimento das leis ambientais a melhora da
qualidade da água para todos os seres. Se considerarmos a qualidade da água para todos
os seres vivos dela dependentes, este conceito será igualmente variável conforme as
necessidades fisiológicas de cada espécie. Porém isto não justifica a forma como um
dos seres tem tratado as necessidades das demais espécies. É notória a falta de
conhecimento sobre os fatores limitantes de cada espécie em seu habitat e o flagrante
desrespeito às demais criaturas mesmo quando se conhece os efeitos das alterações
42
ambientais sobre a sobrevivência dos mesmos. Esse fato torna, sem dúvida nenhuma, o
ser humano como o maior responsável, direta ou indiretamente, pela degradação
ambiental verificada atualmente no planeta. Prova disso é o número de espécies que vem
se somando à lista de extinções Como exemplo temos a recente confirmação da extinção
de uma espécie de golfinho, cujo habitat era o poluído Rio Yang Tze, na China.
O Quadro 2 foi elaborado com intuito de representar os efeitos
gerados pelas intervenções antrópicas em relação ao uso do solo e suas conseqüências
sobre a qualidade e quantidade das águas.
Quadro 2 - O uso do solo e sua interferência na qualidade dos recursos hídricos
A retirada da cobertura vegetal acarreta efeitos cascata, representadas no esquema
abaixo:
1°) Diminuição da infiltração da água da chuva no solo
ª 2°) Aumento do escoamento superficial
ª 3°) Aumento do assoreamento de córregos e rios
ª 4°) Alteração na vazão e na qualidade
das águas superficiais
)A diminuição do estoque de água subterrânea é efeito direto da retirada de cobertura
vegetal.
Obs.: Os efeitos da impermeabilização e compactação do solo são os mesmos acima
descritos, pois o primeiro efeito se faz sentir sobre a capacidade de absorção (infiltração)
de água pelo solo.
Fonte: Weissheimer, C, 2007
O Quadro 3 representa um esquema ilustrativo dos efeitos do uso
dos recursos hídricos para escoamento de resíduos provenientes das atividades humanas.
43
Quadro 3 – Utilização dos arroios para escoamento de resíduos: conseqüências
Conseqüências da utilização dos arroios para escoamento de resíduos:
1°) Aumento de substâncias orgânicas tóxicas no ambiente aquático
ª Alteração no equilíbrio físico-químico para produção dos
nutrientes da base da cadeia alimentar aquática
ª Alteração no n° de indivíduos da biota aquática
ª Alteração nas funções ecológicas dos
organismos
ª Alteração na reciclagem dos materiais e na
resiliência (capacidade de recuperação
natural) do ecossistema aquático
ª Perda das funções ecológicas do
ecossistema aquático.
Fonte: Weissheimer, C, 2007
2.2 – Procedimentos metodológicos e operacionais:
2.2.1 - Levantamento bibliográfico
Sobre cada indicador encontrado buscou-se o aprofundamento
destes fenômenos em textos e trabalhos científicos publicados, tanto nas bibliotecas
especializadas das universidades como pela Internet, confrontando as informações
obtidas com a realidade observada em campo.
2.2.2 - Coleta de dados em campo
Na presente pesquisa foram observados em campo, descritos,
analisados e mapeados os seguintes indicadores de degradação ambiental: ausência de
mata ciliar; solapamento das margens; despejos de efluentes; deposição de resíduos
sólidos (lixo) e barragens, em uma extensão aproximada de 7 km do arroio Grande. A
qualidade das águas superficiais do arroio Grande foi avaliada através da análise
laboratorial de amostra de água para nove parâmetros e através de seus resultados se
construiu um Índice de Qualidade da Água (IQA) para o trecho do arroio estudado,
44
representando a qualidade das águas superficiais na data da coleta, 24 de janeiro de
2007. Com os dados obtidos em campo e georreferenciados foi construída uma
cartografia para cada um dos Indicadores de Degradação Ambiental. O mapeamento
dos indicadores de degradação ambiental e as análises da qualidade das águas se
resumiram ao trecho médio do Arroio Grande.
2.2.3 - Técnicas de geoprocessamento
Os dados georreferenciados em campo, através de GPS, foram
convertidos em vetorial, tipo ponto, para a confecção das cartas temáticas, usando o
software ARCGIS 9.2 e cartas topográficas digitalizadas. O mapa das áreas de
preservação permanente (APP) foi gerado considerando-se a legislação. A partir da rede
de hidrografia da parte da sub-bacia em estudo foi gerado o buffer de 30m que
corresponde à APP de cursos de água cuja largura tem menos de 10m.
2.2.4 - Entrevistas com moradores
Foram realizadas 30 entrevistas com moradores antigos da
localidade de Nova Hartz, nas quais se aplicou um questionário cujo objetivo era
orientar a entrevista para os assuntos pertinentes. A entrevista serviu para reconstruir o
cenário sócio-ambiental desde as primeiras décadas do século XX até os dias atuais,
buscando informações contidas na memória dos moradores mais antigos.
45
3 - CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO: aspectos
físicos e sócio-ambientais
3.1 – Situação e Localização Geográfica
O trecho do arroio estudado localiza-se no município de Nova
Hartz, pertencente ao vale do rio dos Sinos e à Região Metropolitana de Porto Alegre
(RMPA), capital do estado do Rio Grande do Sul (RS), extremo sul do Brasil. A Figura
5 localiza o estado do Rio Grande do Sul no Brasil e na América do Sul.
Figura 5 – Mapa de localização geográfica do Estado do Rio Grande do Sul
no Brasil e na América do Sul
Fonte: GEOFEPAM, 2007
O estado do Rio Grande do Sul possui três Regiões Hidrográficas,
sendo que a parte da sub-bacia estudada está inserida na bacia hidrográfica do rio dos
Sinos (BHS), que, por sua vez, é uma das oito bacias hidrográficas pertencente à Região
Hidrográfica do Guaíba..
46
A BHS é a terceira em densidade populacional do estado do Rio
Grande do Sul, correspondendo a uma área de 3.716,91 km
2
, com uma população de
1.181.997 hab, com densidade aproximada de 318 hab/ km
2
. A Figura 6 mostra a
situação geográfica da BH dos Sinos inserida na Região Hidrográfica do Guaíba, uma
das três regiões hidrográficas do estado do Rio Grande do Sul. A Figura 6 situa
geograficamente a BHS (destacada em amarelo) no estado do Rio Grande do Sul,
inserida na Região Hidrográfica do Guaíba
Figura 6 – Mapa da situação geográfica da bacia hidrográfica do rio dos Sinos
na Região Hidrográfica do Guaíba
Fonte: GEOFEPAM, 2007
47
A parte da sub-bacia do arroio Grande estudada atinge outros
quatro municípios, além de Nova Hartz: Araricá, Sapiranga, Santa Maria do Herval e
Igrejinha. Os três primeiros pertencem ao vale do rio dos Sinos, enquanto que Igrejinha
está inserida no vale do Paranhama. A Figura 7 mostra a situação geográfica da sub-
bacia do arroio Grande no contexto da BHS e os municípios acima citados.
Figura 7 – Situação geográfica da sub-bacia do arroio Grande na
BH dos Sinos e os municípios vizinhos de Nova Hartz.
48
A área estudada da sub-bacia é de aproximadamente 5.250 ha.
Essa área foi selecionada para a obtenção dos dados físicos, biológicos e sócio-
ambientais, pois nela insere-se a maior parte das observações inicialmente empíricas
sobre a degradação ambiental, ocupando uma parcela aproximada de 70 % do território
municipal de Nova Hartz. A Figura 8 mostra a situação geográfica da área estudada da
sub-bacia do arroio Grande na hidrografia da BHS. O arroio Grande é um afluente do rio
dos Sinos que atravessa o município de Nova Hartz no sentido norte-sul. Foi, novamente
nesse mapa, destacado em azul o trecho do arroio Grande submetido ao estudo mais
detalhado através dos indicadores de degradação ambiental.
Figura 8 – Mapa de localização geográfica da parte da sub-bacia do arroio Grande
na bacia hidrográfica do rio dos Sinos
Fonte: modif. de COMITESINOS, 1998
49
A Figura 9 mostra a imagem de satélite SPOT, do ano de 2002
onde se pode observar a hidrografia e a proximidade das grandes altitudes em relação à
área urbana, representada pela mancha mais clara da foto.
Figura 9 - Imagem de satélite SPOT, 2002 – Nova Hartz
Fonte: GEOFEPAM, 2006
A jusante da área urbana, o arroio Grande recebe as águas do
arroio Tigre, em sua margem esquerda e logo abaixo, as águas do arroio da Bica em sua
margem direita (FIG 10).
50
Figura 10 - Mapa da sub-bacia do arroio Grande e seus principais arroios tributários
Fonte: GEOFEPAM, 2007
51
O município de Nova Hartz situa-se a nordeste da Região
Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), mostrada a seguir na Figura 11.
Figura 11 – Mapa da situação geográfica do município de Nova Hartz na Região
Metropolitana de Porto Alegre (RMPA)
Fonte: GEOFEPAM, 2007
Importante destacar que o município de Nova Hartz, embora
distante 70 km da capital gaúcha, tem sua história de expansão ligada à Porto Alegre,
por ter sido caminho de tropeiros, da linha férrea e da navegação fluvial, caminhos esses
que ligavam a região nordeste do Vale do Rio dos Sinos à capital do estado. O fato de
ser “passagem” facilitou o comércio e a industrialização local.
52
3.2 – Caracterização do meio físico e biótico
3.2.1 – Aspectos climáticos
O clima da região da BHS é subtropical. Segundo a classificação
climática de Köppen, o Rio Grande do Sul pertence à zona fundamental temperada ou “C”,
ao tipo úmido ou “Cf ”, com as variedades subtropicais “Cfa” e temperada “Cfb”. Segundo
Moreno (1961),
nesta classificação a letra “C” representa a principal categoria, na qual o
mês mais frio tem temperatura média entre -3° C e 18° C e onde o mês mais
moderadamente quente tem temperatura média maior que 10° C. A letra “f” representa a
distribuição sazonal das precipitações, simbolizando ausência de estação seca. A letra
“a” da classificação de Köppen expressa características adicionais da temperatura,
significando verão quente, sendo que o mês mais quente possui temperatura média
acima de 22° C.
Mesmo não existindo estação seca definida para o Rio Grande do
Sul, nos últimos anos o Estado tem enfrentado períodos de graves estiagens, causando
escassez no suprimento de água para a população. A seca atingiu seriamente o rio dos
Sinos em 2005 sendo que o leito desse importante rio secou em alguns trechos.
O fenômeno da estiagem atingiu as atividades agropastoris e
pequenas lavouras que não possuíam irrigação. Isso porque o rebaixamento do lençol
freático provocado pela falta de chuvas e conseqüente não alimentação das nascentes
dos arroios afetou o fornecimento de água subterrânea, obtida através de poços, fonte
principal de abastecimento de água na área pesquisada.
As precipitações anuais na região da BHS variam entre 1700 mm
a 2400 mm em média e as temperaturas oscilam entre 14°C e 20°C. Para Nova Hartz, a
EMATER (1997) encontrou uma média anual de 1800 a 2050 mm entre os anos de
1991 e 1997, sendo que aquele órgão também apontou, para o ano de 1997, as seguintes
temperaturas:
Média temperatura máxima = 36,1 °C
Média temperatura mínima = 5,5 °C
Temperatura média = 19,87 °C
53
Ainda de acordo com EMATER (1997), os ventos predominantes
de janeiro a maio são os ventos da direção sudeste; em junho, do leste e, de julho a
dezembro, a maior parte dos ventos provém do nordeste.
A estação pluviométrica mais próxima encontrada na pesquisa foi
a de Araricá, mantida pela CEEE entre os anos de 1962 e 1995. Os dados foram
enviados pela estatal, via e-mail e estão apresentados no Quadro 4.
Quadro 4: Totais Mensais e Médias Anuais da Pluviosidade registradas na estação
pluviométrica de Araricá entre 1962 e 1995
Posto:
2950001 - ARARICA
Municipio:
SAPIRANGA
ANO JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL
A
GO SET OUT NOV DEZ MÍNIM
A
MAXIM
A
MÉDI
A
1962 41,3 29,1 29,1 41,3 35,2
1963 197,5 125,2 124,5 43,2 53,0 44,8 80,5 171,8 191,8 286,4 218,3 71,7 43,2 286,4 134,1
1964 22,9 157,6 135,6 68,6 45,1 81,6 160,4 146,2 141,0 91,8 55,8 169,8 22,9 169,8 106,4
1965 31,8 57,8 123,6 106,0 106,4 65,4 158,4 426,8 307,0 224,2 179,0 203,2 31,8 426,8 165,8
1966 127,6 277,6 207,2 71,4 1,2 178,8 234,6 185,8 128,4 219,4 70,8 290,3 1,2 290,3 166,1
1967 143,0 92,6 83,0 42,6 55,6 102,0 67,4 99,4 393,6 82,4 100,4 61,8 42,6 393,6 110,3
1968 163,4 68,2 168,0 68,8 56,8 98,8 87,8 27,0 208,4 130,6 118,8 140,4 27,0 208,4 111,4
1969 334,4 305,6 108,0 91,6 120,8 69,2 45,6 128,8 140,2 18,1 117,2 115,9 18,1 334,4 133,0
1970 181,7 154,3 206,4 63,2 227,2 227,7 152,4 158,3 24,7 271,2 58,8 135,5 24,7 271,2 155,1
1971 199,4 291,7 241,9 120,7 90,5 163,6 90,3 200,6 82,1 37,0 79,8 146,3 37,0 291,7 145,3
1972 256,0 159,2 267,7 167,0 79,6 206,4 137,9 246,9 244,7 170,3 163,8 76,6 76,6 267,7 181,3
1973 254,5 234,6 63,2 189,5 109,2 129,2 152,2 217,6 132,8 110,6 44,6 165,2 44,6 254,5 150,3
1974 94,5 172,0 236,4 25,4 103,8 196,1 70,3 50,2 78,0 54,0 141,2 199,8 25,4 236,4 118,5
1975 84,1 246,8 213,7 58,0 90,8 133,4 38,8 275,2 218,6 102,2 126,2 83,0 38,8 275,2 139,2
1976 263,8 134,2 223,6 82,6 204,4 137,2 231,0 124,2 105,4 87,0 119,0 156,0 82,6 263,8 155,7
1977 168,8 218,6 126,8 71,2 60,2 134,4 235,0 177,6 77,6 91,2 116,1 179,0 60,2 235,0 138,0
1978 123,0 61,6 82,0 14,2 32,6 81,4 169,0 132,4 100,0 142,4 147,0 169,0 14,2 169,0 104,6
1979 17,4 96,4 170,8 121,8 157,4 77,4 126,8 83,0 126,6 121,2 166,2 123,9 17,4 170,8 115,7
1980 154,3 152,9 122,5 127,9 119,0 95,5 183,0 112,6 118,6 146,0 137,2 261,6 95,5 261,6 144,3
1981 237,1 158,8 128,4 157,8 91,4 189,6 88,4 87,4 183,4 81,4 118,2 115,8 81,4 237,1 136,5
1982 40,6 141,4 58,2 23,4 33,6 400,0 161,5 175,5 178,8 211,4 214,2 210,8 23,4 400,0 154,1
1983 203,0 260,6 214,8 151,4 215,6 147,4 390,6 209,2 87,5 186,4 146,0 112,8 87,5 390,6 193,8
1984 230,1 183,6 110,4 231,8 321,6 470,0 193,4 112,3 55,0 162,8 88,2 123,4 55,0 470,0 190,2
1985 82,0 125,8 153,2 138,6 68,0 78,4 126,8 247,0 144,8 49,4 8,8 86,2 8,8 247,0 109,1
1986 52,0 111,8 128,2 193,4 194,9 112,0 114,9 198,4 171,7 119,3 437,0 142,8 52,0 437,0 164,7
1987 159,0 179,9 72,2 139,1 192,5 196,3 294,2 318,7 175,4 153,7 218,0 161,5 72,2 318,7 188,4
1988 263,6 49,4 39,7 102,8 87,9 274,6 27,2 43,2 351,8 150,3 124,3 44,0 27,2 351,8 129,9
1989 171,1 73,5 77,2 250,2 133,7 37,4 111,7 187,2 225,9 124,5 111,7 54,5 37,4 250,2 129,9
1990 107,1 153,8 150,7 269,7 103,9 200,2 58,4 48,2 232,7 327,1 142,7 133,9 48,2 327,1 160,7
1991 59,6 108,2 77,0 185,9 62,8 152,9 127,4 137,7 101,8 90,2 71,8 163,7 59,6 185,9 111,6
1992 235,1 206,3 155,3 208,4 230,3 113,2 212,2 140,3 166,1 117,7 151,7 48,5 48,5 235,1 165,4
1993 272,5 166,3 165,1 62,5 205,0 127,2 332,6 74,5 81,3 178,2 163,8 183,3 62,5 332,6 167,7
1994 135,1 238,9 114,0 188,5 175,2 176,6 183,8 157,5 86,9 319,0 84,3 137,7 84,3 319,0 166,5
1995 170,0 129,9 120,7 134,0 85,8 142,0 350,4 85,8 350,4 161,8
Média 158,7 160,5 141,5 120,3 118,7 152,7 157,4 159,4 158,2 145,5 129,8 136,3
NDC 988678899877
Total Anos 34
Precipitação - Totais Mensais e Média
Fonte: Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), 2007
A presença da série de morros denominada “Ferrabrás,” que
circunda em “U” o município de Nova Hartz, desencadeia ventos que sofrem constantes
“desvios” constituindo os chamados “pés-de-vento”. As chuvas são bem distribuídas em
54
todas as épocas do ano. O fato da sub-bacia estar cercada por morros mantém elevada a
umidade do ar e a freqüência de nevoeiros (Fotografia 1), principalmente nas maiores
altitudes, sendo que em todas as estações do ano a umidade mantêm-se acima de 70% .
Fotografia 1 - Nevoeiros freqüentes na sub-bacia do arroio Grande
Fonte: Weissheimer, C., 2007
3.2.2 – Geologia, formas de relevo e tipos de solos
O território de Nova Hartz apresenta um relevo ondulado ao sul e
montanhoso ao norte. As porções mais altas representam as primeiras elevações da Serra
Geral, cuja seqüência de morros dirigem-se ao norte do país, constituindo-se na Serra do
Mar. A porção sul da parte da sub-bacia estudada possui cotas altimétricas de 20m,
sendo que para norte elas aumentam alcançando, em distância menores de 4 km,
altitudes superiores a 700m, onde situam-se as nascentes do arroio Grande.
55
A Figura 12 mostra o mapa altimétrico da área em estudo. Nele
podem-se observar as classes altimétricas que variam de 20 a 700m de altura. Observa-
se, destacado em azul, o trecho estudado do arroio Grande, que corta o município no
sentido Norte-Sul, assim como o limite do município de Nova Hartz.
Figura 12 – Mapa altimétrico do município de Nova Hartz
Fonte: GEOFEPAM, 2006
56
O município de Nova Hartz encontra-se em área de transição
entre a borda do Planalto Meridional e a Depressão Central, apresentando os seguintes
elementos do perfil topográfico: formação Serra Geral, formação Botucatu e depósitos
aluvionares. A Figura 13 apresenta o mapa das principais unidades geológicas na sub-
bacia do arroio Grande, gerado a partir dos dados do Projeto RADAM/BRASIL 2003.
Figura 13 – Mapa das unidades geológicas na sub-bacia do arroio Grande segundo
Projeto RADAM/BRASIL
Fonte: GEOFEPAM, 2007
57
Observa-se no mapa acima o derrame basáltico envolvendo a
sub-bacia, ao norte, tendo na parte central, justamente onde se localiza a área urbana, o
substrato permeável representado pela formação Botucatu.
A Figura 14 apresenta um perfil topográfico característico da BHS
que mostra as principais formações geológicas que cobrem também a área em questão, a
saber: os derrames basálticos (em azul), a formação Botucatu (em cor laranja) e os
depósitos aluvionares mais recentes (em cor cinza), sendo que no centro desse último
encaixa-se o leito do rio dos Sinos.
Figura 14 – Perfil geológico em corte da bacia hidrográfica do rio dos Sinos.
Fonte: COMITESINOS, 1998 (modificado)
Segundo Szubert et. al. (1994), os derrames basálticos encontram-
se ao norte, constituindo-se na formação Serra Geral, unidade I do mapa da Figura 15.
Nestes derrames situam-se as cabeceiras dos principais arroios que drenam o município
e fluem em direção às porções sedimentares mais baixas, onde se situa a área
urbanizada. Essa unidade geológica destaca-se pela sua importância como área de
recarga dos aqüíferos e mananciais hídricos da sub-bacia do arroio Grande. Na Figura
15 pode-se observar a formação Serra Geral circundando, em forma de ferradura, a área
urbana de Nova Hartz. As diáclases encontradas nas rochas desta formação constituem
pontos fracos de ataque por parte da erosão e podem estar relacionados à suscetibilidade
das rochas que provocaram os deslizamentos de terra em 1992.
LEGENDA:
58
Os arenitos são encontrados a partir da cota de 80m em direção
ao sul e abaixo dos derrames basálticos, circundando a área urbana do município:
constituem a unidade II do mapa da Figura 15. Os arenitos permeáveis com
estratificação cruzada de grande porte podem ser visualizados nos paredões que
compõem as quedas de água, como o da cascata vista na Fotografia 2. Esta formação de
origem eólica constitui a Fácie Eólica (dunas) da Formação Botucatu. O arenito
Botucatu, devido a sua permeabilidade, abriga o principal aqüífero da região, o aqüífero
Guarani.
Figura 15 - Mapa das formações geológicas do município de Nova Hartz segundo
METROPLAN/CPRM, 1994
Escala 1 : 85. 000
LEGENDA:
Unidade I Unidade II Unidade III
Formação Serra Geral Formação Botucatu Depósitos Quaternários
Fonte: modificado do caderno Proteger – O Potencial Hídrico de Nova Hartz -
METROPLAN/CPRM (1994)
59
A Fotografia 2 mostra a cascata no arroio da Bica de
aproximadamente 70 m de altura, sendo que a metade superior é formada pelo derrame
basáltico sobre o Botucatu que ocupa a parte inferior. A Fotografia 3 mostra um detalhe
desta sobreposição, observando-se as marcas da estratificação cruzada de grande porte.
Em torno da cota de 40m encontra-se o nível de base de erosão da
área municipal de Nova Hartz, formado pelos depósitos quaternários – unidade III, que
recobrem os arenitos argilosos da Fácies Interdunas da Formação Botucatu. Geralmente
esta unidade apresenta uma cobertura de 3 a 4 m de espessura de lateritos argilosos de
baixa permeabilidade sobre os quais estão instalados os arroios da Bica, Tigre e Fuzil,
formadores do arroio Grande. Esse arroio encontra-se entulhado por sedimentos
provenientes da erosão da meia-encosta, constatados em observações de campo.
Segundo Szubert et. al. (1994), o uso da água subterrânea nesta unidade é restrito a
Fotografia 2 – Cascata no
arroio da Bica
Fonte: Weissheimer,C., 1996
Fotografia 3 – Detalhe do basalto sobre o
Botucatu
Fonte: Weissheimer,C. ,1996
60
pequenas demandas, sendo que o mesmo fica mais comprometido quanto mais próximo
de cursos de água que recebem efluentes industriais e domésticos.
Com a apresentação do quadro geológico da área da sub-bacia do
arroio Grande, caracterizada por uma faixa semicircular de derrames basálticos com
forte gradiente para as porções internas, compreende-se os caminhos das águas,
provenientes das cabeceiras dos arroios em direção à região central, onde se localiza a
área urbana. Dessa forma, as águas das chuvas, em solos desprotegidos de vegetação,
alcançam as áreas urbanizadas levando grande quantidade de sedimentos, provocando
erosão e assoreamento, verificados em diversos pontos do trecho do arroio estudado.
Uma grande quantidade de água é represada em um nível de erosão aplainado nas
proximidades da cota de 40m em cursos de água mal drenados com baixo gradiente e já
bastante assoreados, a jusante da área urbana central. As precipitações elevadas e
bruscas nas cabeceiras dos arroios, situadas a curta distância e considerável altitude,
podem provocar o extravasamento das águas dos arroios, resultando em enchentes e
todos os danos delas decorrentes. Esse quadro é resultado de uma soma de fatores
naturais e antrópicos que afetam a parte da sub-bacia hidrográfica do arroio Grande em
questão.
Segundo Orlandi F° et. al. (1994), uma longa dissecação
provocada pelo arroio Grande e seus afluentes e a presença de falhamentos compuseram
nesta sub-bacia, sistemas de relevos que correspondem à encosta abrupta, morros-
testemunho, vertentes convexo-côncavas e planície aluvial, constituindo-se estes nos
principais aspectos geomorfológicos da sub-bacia.
A unidade de relevo encosta abrupta ocorre a NNE a partir da
cota de 200m atingindo os 700m. Caracteriza-se pela predominância de declividades
entre 30% e 45%. As nascentes do arroio Grande tem nessa encosta suas origens.
Existem inúmeros desníveis que ocasionam as quedas de água encontradas no percurso
do arroio Grande a partir de cotas bem menores, próximas à área urbana, como pode ser
visualizado no conjunto das fotografias 4, 5 e 6.
61
Fotografia 4 - Cascata no
arroio Grande, sobre basalto
Fonte: Weissheimer, C., 1996
Fotografia 5 - Cascata no
arroio
Grande, sobre Botucatu
Fonte:Weissheimer, C., 2006
Fotografia 6 -
“Rumbolposs”: área de
banho no arroio Grande
Fonte:Weissheimer, .,2006
Os morros testemunhos fazem parte da unidade de relevo que,
como o nome denota, testemunham o que resta na paisagem de uma época passada onde
as altitudes nesta área eram bem maiores. A Fotografia 7 mostra o morro da Canoa, de
formato piramidal, denominado geomorfologicamente como morro testemunho.
Fotografia 7 - Morro da Canoa como unidade geomorfológica: morro testemunho
Fonte: Weissheimer, C., 2006
62
Na unidade de relevo de Vertentes Convexo-Côncavas a
fisionomia destes morros pode ser descrita da seguinte forma: da meia encosta em
direção ao topo a vertente apresenta-se de forma convexa, registrando algumas rupturas
de declive, porém, na base, apresenta uma certa concavidade.
A Planície Aluvial corresponde a uma superfície relativamente
plana, formada por depósitos aluviais recentes, muito argilosos. Possui trechos com
altitude inferior a 20m. Essa unidade, na sub-bacia do arroio Grande possui uma
individualidade na paisagem caracterizada pelo material de acumulação.
A maioria dos solos da área de estudo se desenvolveu a partir de
rochas eruptivas básicas, principalmente o basalto. Sua utilização pode ser limitada em
relevos mais íngremes, podendo apresentar aí fertilidade baixa. Segundo o mapa de
solos da Secretaria da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (1985), o solo de
Nova Hartz é do tipo podzólico – brunizem, contendo nas áreas mais baixas o solo
hidromórfico. Segundo Lepsch (1976), os solos podzólicos prestam-se relativamente
bem à agricultura desde que não estejam situados em áreas de relevo com forte
declividade. Nessas condições, são extremamente susceptíveis à erosão hídrica. O
mesmo autor também comenta que, devido à baixa fertilidade e acidez, os solos
podzólicos necessitam uso adequado de corretivos e fertilizantes para que o cultivo seja
favorável.
3.2.3 – Águas Superficiais e Subterrâneas
Convém lembrar que os padrões e densidade da drenagem de uma
região dependem do tipo de substrato rochoso. Nessa parte da sub-bacia do arroio
Grande, a Formação Serra Geral, localizada entre as altitudes de 80 m a 700 m, formada
por derrames basálticos com acumulação de água de precipitação nas zonas de contato
entre os derrames, ou seja, áreas de recarga dos aqüíferos, são de especial interesse
hidrogeológico local e devem ser preservadas. A maior parte desta água escoa para as
partes baixas e sedimentares desta sub-bacia. A captação da água nesta formação
rochosa se dá através de nascentes e poços escavados para abastecimento doméstico nas
pequenas propriedades rurais (SZUBERT, et. al. 1994)
63
O substrato rochoso da Formação Botucatu, encontrado aflorante
desde a cota de 40m até 100m, é formado por arenitos finos e médios de matriz argilo-
siltítica e estratificação cruzada de grande porte. Essa formação contém o principal
aqüífero da região, devido à boa permeabilidade e posição na meia encosta, junto à área
basáltica de recarga. Aí são encontrados poços cavados, como o da fotografia 8, situado
em residência rural, com apenas 7 m de profundidade e há mais de cem anos em uso e,
segundo o proprietário, sem nunca ter secado. A fotografia 9 mostra a captação de água
de nascente no arroio Grande. A água é retirada através de mangueira e conduzida até a
propriedade, onde é utilizada para todos os fins. A característica de boa permeabilidade
desse substrato rochoso o torna frágil, pois não só a água tem facilidade de atingir o
lençol freático, mas também outras substâncias que são depositadas na superfície do
solo.
Fotografia 8 - Poço cavado, em Arroio da Bica
Fonte: Weissheimer, C., 2006
Fotografia 9 – Captação de água de nascente no arroio Grande
Fonte: Weissheimer, C., 2006
64
3.2.4 – Biota: vegetação e fauna
De acordo com o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do rio
dos Sinos, (COMITESINOS), são cinco as províncias ambientais que compõem a biota
da BHS, publicadas no caderno alusivo aos seus 10 anos, em 1998 (Figura 16)
Figura 16 – Províncias ambientais que compõem a biota da BHS
Fonte: COMITESINOS, 1998
LEGENDA
65
A análise da Figura 16 permite identificar para a parte da sub-
bacia do arroio Grande estudada, duas províncias: a província ambiental II, composta
predominantemente pela floresta subtropical (no mapa em azul), situada entre as cotas
de 30 até 700 m acima do nível do mar e a província ambiental III, onde os campos e
matas baixas (no mapa em amarelo) prevalecem na paisagem, situados em cotas abaixo
de 30m e sobre solos aluvionares.
Quanto à vegetação, a maior parte da cidade de Nova Hartz está
inserida na região fitoecológica da Floresta Estacional Semidecidual.
Na região da Floresta Estacional Semidecidual, o clima é
classificado como úmido, sendo que o período de frio é responsável pela estacionalidade
fisiológica das plantas. Divide-se em três formações: Floresta Aluvial, Floresta das
Terras Baixas e Floresta Submontana.
A Floresta Aluvial (até 40m acima do nível do mar), encontrada
em Nova Hartz na estrada RS 464 que dá acesso a sede municipal vindo da RS 239, é
representada por espécies vegetais como o sarandi-amarelo (Terminalia australis), o
salseiro (Salix humboldtiana), o branquilho (Sebastiana klotzchiana), o ingá (Ingá
marginata), além de quantidade de taquaraçu (Bambusa trinii) e jerivás (Arecastrum
romanzofianum), maricás (Mimosa bimucromata), conforme mostra a Fotografia 10 e
corticeira do banhado (Eritrina crista-galli). Um morador local calcula que o
desmatamento destas formações vegetais na área foi de 95% desde a década de 1960.
Naquela ocasião havia três granjas de arroz que utilizavam a água do arroio Grande para
irrigação, sendo que na década de 1970 houve a necessidade de abrir um canal para
trazer água do arroio da Bica para irrigar as lavouras, pois o arroio Grande apresentava
deficiência de água em época de menor precitação.
66
Fotografia 10 - Espécies típicas de Floresta Aluvial, área com Maricás
Fonte: Weissheimer, C., 2006
A Floresta de Terras Baixas é uma formação restrita às planícies
inundáveis do rio dos Sinos, não tendo representatividade no município pelo fato do
mesmo não ter proximidade ao rio. Porém algumas espécies características desta
formação são encontradas na área estudada devido à sua dispersão natural, como
angicos (Parapiptadenia rígida), figueiras (Fícus sp) e canjeranas (Cabralea
canjerana).
A Floresta Submontana é a formação mais extensa da região
estudada, loclizando-se em área de relevo ondulado a fortemente ondulado, em altitudes
de 30 até 700 m acima do nível do mar, onde se situa a maior parte da sub-bacia do
arroio Grande. A fotografia 11 mostra os morros cobertos, em parte, pela vegetação da
Floresta Estacional Semidecidual. Notam-se manchas uniformes de vegetação que
caracterizam as culturas de exóticas, como acácias e eucaliptus.
67
Fotografia 11 – Morros cobertos, em parte, pela Floresta Estacional Semidecidual
Fonte: Weissheimer, C., 2007
Com a mudança do perfil das atividades econômicas dessa região,
ou seja, abandono das áreas tradicionalmente utilizadas para a agricultura colonial e
conseqüente aumento da concentração populacional junto ao núcleo urbano e industrial,
a vegetação secundária nos diversos estágios sucessionais passou a desenvolver-se em
extensas áreas. Iniciou-se, assim, a recuperação das matas nativas.
Atualmente, os grandes agrupamentos florestais remanescentes
encontram-se em áreas de maiores altitudes e declividades, portanto áreas de difícil
acesso. Também se encontram remanescentes dessas matas entremeadas com áreas
destinadas ao florestamento com acácia negra (fotografia 14), eucaliptus e pinus eliotis,
além de áreas desmatadas nas encostas dos morros, onde o solo encontra-se exposto,
como pode ser observado em vários pontos da parte da sub-bacia estudada (fotografia 12
e 13).
68
Fotografia 12 – Desmatamento: encosta de morro em área urbana
de Nova Hartz Fonte: Weissheimer, C., 2006
Fotografia 13 – Desmatamento: clareira na encosta de morro em área
rural de Nova Hartz Fonte: Weissheimer, C., 2006
69
Portanto, as matas das encostas, de maneira geral, não se
apresentam mais na sua forma primária. Segundo relato de moradores mais antigos, o
incêndio ocorrido em meados da década de 1940 em parte dos morros, na divisa com
Araricá e em direção à localidade de Canudos, alterou significativamente a vegetação.
Isto fez com que a constituição e estruturas atuais denotem características de uma
formação secundária em partes que poderiam ser remanescentes da mata original.
Observou-se que apenas nos pontos mais inacessíveis ao alcance da ação humana, a
mata apresenta alta densidade de indivíduos e alta diversidade específica com
predominância de espécies características de uma formação madura (clímax), como o
cedro, o catiguá, a guabiroba, o louro-pardo, a paineira e o tarumã. Na maior parte das
matas remanescentes em encostas de morros existe uma mistura de espécies da
formação clímax com espécies características de formação secundária, o que confere às
matas um aspecto bastante heterogêneo.
Fotografia 14 – No centro da foto: plantação de acácia
Fonte: Weissheimer, C., 2006
70
Essa riqueza florística pôde recentemente ser comprovada através
de um levantamento da vegetação realizado pela Fundação Zoobotânica do Rio Grande
do Sul (FZB) – documento não publicado, em 2000, onde foram descritos 7 tipos de
formações vegetais para o município de Nova Hartz: campos, áreas de cultivo, capoeira,
banhados, matas de encosta, matas ripárias e áreas de reflorestamento. Em resultados
preliminares, foram encontradas 118 espécies, distribuídas em 107 gêneros e 62
famílias. Infelizmente, esse estudo não foi concluído, segundo a FZB, por falta de
cumprimento do convênio por parte da Prefeitura Municipal de Nova Hartz na gestão
2000 – 2004.
A fauna local está representada principalmente pela avifauna,
constatada através da visualização direta e/ou audição, como sabiá, joão-de-barro, garça,
saracura, jaçanã, maçarico, socó, aracuã, urubu, pomba-do-mato, suiriri, bem-te-vi,
gralha-azul, quero-quero, canarinho-da-terra, tucano, coleirinho, beija-flor, coruja, anu-
preto, anu-branco, gavião, trinca-ferro, cambacica, andorinha, pica-pau, tico-tico, pardal,
martim-pescador, cardeal, saíra, entre outros. Merece destaque a presença de aves mais
raras de serem encontradas em áreas mais povoadas, como tucanos, vistos bem
próximos à área urbana central e a gralha-azul, essa última observada em área rural de
maior altitude devido à existência de araucárias dispersas nas matas.
Uma prática ilegal que ainda persiste no município é a apreensão
de aves silvestres para criação em cativeiro ou mesmo comércio. Também ainda existe a
caça ilegal de tatus, lebres, gambás, graxains, lontras e macacos bugio. Há relatos de captura
e sacrifício de bugios, pois alguns colonos acreditam que a gordura deste animal pode ser
usada na cura da artrose. Algumas aves são mortas devido ao estrago que elas causam nas
lavouras e açudes, como saracuras e o martim-pescador.
A fotografia 15 mostra uma armadilha colocada na saída da toca de
tatu para aprisioná-lo, localizada na margem de um canal de drenagem em um loteamento,
na localidade de Campo Vicente. Nos relatos de moradores das proximidades a caça de tatu
é comum, pois sua carne é apreciada por muitos caçadores.
71
Fotografia 15 – Armadilha para capturar tatu
Fonte: Weissheimer, C., 2006
Existe um representativo número de lagartos na área urbana,
provavelmente devido a uma tradição ainda persistente de plantio de aipim, milho e outras
culturas em terrenos baldios. Estes ambientes servem de abrigo a esses animais assim como
a presença de algumas manchas de matas e de banhados dentro do perímetro urbano
favorecem a existência dessas espécies e sua convivência com os seres humanos. Por outro
lado, nesse município, a criação de aves em área urbana, embora proibida em lei, não é
fiscalizada e, pode-se afirmar, é algo tolerado entre os moradores. Devido a esses fatos,
muitos desses animais silvestres são mortos porque em sua dieta incluem-se, por exemplo,
ovos de galinha.
72
3.3 – Aspectos sócio-ambientais do município de Nova Hartz
3.3.1 – População e aspectos sócio-econômicos
Segundo censo (IBGE 2003), a população de Nova Hartz era de
17.261 habitantes em 2003. A densidade demográfica, no mesmo ano, foi calculada em
275,6 hab/km
2
e a taxa de urbanização na ordem de 87,1%. A alta taxa de crescimento
demográfico é resultante da vinda de migrantes de outras regiões em busca de emprego
na indústria calçadista. O município de Nova Hartz foi criado em 02 de dezembro de
1987, através da Lei n° 8429, desmembrado do município de Sapiranga.
Segundo o Observatório de Políticas Urbanas e Gestão Municipal
– IPPUR/UFRJ-FASE (2003), as cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre
(RMPA), entre 1991 e 2000, que apresentaram incremento populacional acima da média
nacional (no total de 17) estão, em sua maioria, em áreas limítrofes à capital e em sua
área de expansão urbana. Entre os anos citados, Nova Hartz foi, dos 31 municípios da
RMPA, o segundo em crescimento populacional, apresentando o índice de 4,65% .
A área total do município é de 58,72 km
2
, sendo que até a presente
data, desses, calcula-se que apenas 8,38 km
2
sejam ocupados pela área urbana e que
50,34 km
2
sejam ocupados pelas áreas rurais, segundo informação da Prefeitura
Municipal. Com a aprovação do novo Plano Diretor em sua atual redação, esses
números sofrerão modificações, pois partes de áreas rurais pertencentes atualmente às
localidades de Arroio da Bica e de Campo Vicente, serão transformadas em urbanas.
O Quadro 5, publicado no Jornal NH, de Novo Hamburgo, em
16/08/2005, apresenta os índices de migração em relação ao crescimento vegetativo.
73
Quadro 5: Crescimento populacional e migrações: comparativo entre os cinco
municípios com maiores índices de migração na região.
Município
Pop. 2000 Pop. 2004 Cresc. Pop. Migrações Cresc. Veg.
Araricá 4.032 4.580 548 (8,8%) 329 (60,04%) 219 (39,96%)
Dois Irmãos 22.435 26.406 3.971
(8,49%)
2.975
(74,92%)
996 (25,08%)
Ivoti 15.318 17.443 2.703
(8,78%)
1.421
(66,87%)
704 (33,13%)
Nova Hartz 15.071 17.774 2.703
(8,47%)
1.902
(70,36%)
801 (29,64%)
Nova Santa
Rita
15.750 18.765 3.015
(8,39%)
2.429
(80,56%)
586 (19,44%)
Fonte: Jornal NH, 16/08/2005
Observa-se no quadro acima que o crescimento populacional em
Nova Hartz deve-se principalmente às migrações (mais de 70%), sendo que os quase
30% restantes correspondem ao crescimento populacional vegetativo. Nova Hartz é um
dos municípios que mais receberam migrantes no Vale do rio dos Sinos nos últimos
anos.
O Quadro 6 apresenta a produção agrícola, segundo dados
referentes a 2001 do IBGE, em ordem decrescente de quantidade de produção.
74
Quadro 6: Produção agrícola do município de Nova Hartz, referente ao ano de 2001
PRODUTO QUANTIDADE (em ton.) ÁREA PLANTADA (em ha)
Mandioca 1.500 150
Batata-inglesa 270 45
Cana-de-açúcar 260 10
Milho 238 95
Batata-doce 135 15
Melancia 50 5
Feijão 38 32
Cebola 30 5
Tomate 30 1
Fontes: IBGE, Produção Agrícola Municipal 2003; Malha municipal digital do Brasil:
situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2005.
Os produtos agrícolas mais produzidos continuam sendo a
mandioca, a batata e o milho, culturas que exigem tratamento do solo com fertilizantes e
adubos. Em visita às propriedades rurais para levantamento de dados, alguns colonos
relataram casos de intoxicação com agrotóxicos usados no plantio das batatas.
Na pecuária, segundo censo de 2003 do IBGE, dados de 2001, o
município contava com 1.719 cabeças de bovinos, 747 cabeças de suínos e 116 cabeças
de eqüinos. Esse número é significativo para um município com menos de 60 km
2
e com
extensas áreas com topografia imprópria para a criação de gado. Dessa forma, a pecuária
se concentra na área de várzea, que possui, todavia, inúmeras áreas úmidas cuja
preservação é protegida em lei.
Os produtos da silvicultura em Nova Hartz no ano de 2001 foram:
carvão vegetal= 46 ton; lenha = 7.009 m
3
produzidos; madeira em tora = 50 m
3
e acácia-
negra (casca) = 96 ton. produzidas (IBGE,2003). As manchas de plantio de exóticas
podem ser facilmente observadas na paisagem das encostas de morros e em áreas planas
mais altas (patamares).
75
Quanto ao abastecimento de água, o Quadro 7 apresenta os dados
do censo IBGE dos anos de 1991 e de 2000:
Quadro 7 – Proporção de moradores por tipo de abastecimento de água,
nos anos de 1991 e 2000
Proporção de Moradores por Tipo de Abastecimento de Água
Abastecimento Água 1991 2000
Rede geral - 4,7
Poço ou nascente (na propriedade) 98,5 94,5
Outra forma 1,5 0,8
Fonte: IBGE/Censos Demográficos
Observa-se que em Nova Hartz persiste o abastecimento público
através de poços artesianos, sem tratamento prévio. A rede geral citada no Quadro 7
refere-se a algumas redes de distribuição de água subterrânea em loteamentos.
3.3.2 – O processo de ocupação humana
Segundo pesquisa efetuada por Rossato (2005), o período
mais intenso de urbanização no vale do rio dos Sinos ocorreu entre as décadas de1970 e
1990 e, especialmente em Nova Hartz, na década de 1980. Em seu trabalho, a autora
menciona os dois momentos marcantes do processo de ocupação humana: o primeiro
período corresponde ao da colonização alemã e o segundo, o período da
industrialização.
Niewöhner (2007) relata que por volta de 1846/47, os irmãos
Jakob e Wilhelm Hartz constituíram as primeiras duas famílias a se estabelecerem no
local onde hoje se situa Nova Hartz. O autor descreve as dificuldades encontradas por
esses pioneiros, que para garantir sua sobrevivência, inicialmente foram obrigados a
caçar e pescar. Aos poucos, foram derrubando o “mato virgem”, abrindo espaço para as
roças e potreiros, onde poderiam confinar seus animais domésticos. A natureza
proporcionou a madeira que necessitavam. Para cozinhar, por exemplo, uma chapa de
ferro sobre as pedras servia de fogão. A lenha constituía-se de troncos inteiros de
árvores nativas colocadas aos poucos por baixo da chapa. Os telhados das primeiras
76
casas eram confeccionados também a partir da madeira, dividida em pequenas tábuas. A
iluminação era feita através de tochas alimentadas com banha. Só mais tarde a banha foi
substituída pelo querosene. Para fazer o pão, era usada a farinha de milho misturada à
raspa da planta cará, encontrada abundantemente na região.
Por muito tempo o local era conhecido como “Picada Hartz”.
“Picada” era o nome dado ao caminho aberto em meio à mata para chegar ao lote
comprado. A junção do nome “picada” ao sobrenome da primeira família que chegou ao
local formou o nome Picada Hartz, usado até a emancipação do município, em 1988,
quando então passou a chamar-se Nova Hartz.
O arroio Grande foi um marco geográfico delimitador na região,
pois dividia ora distritos, ora municípios, como aparece na cartografia mais antiga,
datada de 1870. No Museu Histórico de Nova Hartz encontra-se uma “planta
topográfica” de 1870 que só pode ser fotografada. A Figura 17 é a fotografia da parte do
mapa com as referências, título e ano e a Figura 18 mostra a foto da parte do mapa de
1870 que apresenta a divisa entre dois municípios, na época, São Leopoldo e Taquara.
A divisa territorial entre aqueles dois grandes municípios era o arroio Grande. Ao
entrevistar-se um dos moradores do município - Sr. Adolar Haag – conta ele que tinha
de sair de São Leopoldo duas vezes ao dia para tocar o sino em Taquara. Atualmente,
estes municípios nem mesmo fazem limite entre si, devido às inúmeras emancipações e
desmembramentos de seus territórios que deram origens a outros municípios.
Figura 17 – foto da referência do mapa de 1870.
Fonte: Museu Histórico de Nova Hartz
77
Figura 18 – foto de parte do mapa de 1870
Fonte: Museu Histórico de Nova Hartz (modificado)
Naquela época, por volta da metade do século XIX, à margem
direita do arroio Grande situava-se São Leopoldo e à sua margem esquerda, Taquara.
Sabe-se, a partir dos relatos dos entrevistados, que isto nunca representou problema para
as relações entre as famílias que ali se instalaram. Apesar de a localidade ter sido
“cortada” geograficamente pelo arroio Grande, na verdade, ele foi marco aglutinador
devido às várias atividades que dele dependiam, como a agricultura minifundiária e a
indústria rudimentar representada pelas atafonas nas primeiras décadas do século XX.
Atualmente o arroio Grande corta longitudinalmente todo território municipal. A
descrição mais detalhada dos impactos e mudanças no cenário sócio-ambiental dessa
região no processo histórico será abordada no capítulo 4.
78
O segundo período, destacado por Rossato (2005) caracterizou-se
pela vinda maciça de migrantes de outras regiões do Estado do Rio Grande do Sul e do
norte do estado de Santa Catarina para trabalharem nas fábricas de calçados que estavam
se instalando no local por volta de 1950. Esse período marca a expansão da indústria
calçadista no vale do rio dos Sinos. A grande demanda por mão-de-obra na indústria não
só atraiu esses migrantes como também retirou da agricultura, que já apresentava
dificuldades por falta de incentivos e apoio governamental, a mão-de-obra para sua
sobrevivência, representando o êxodo rural local. O abandono das lavouras instaladas
nas encostas dos morros, por outro lado, promoveu a recuperação das florestas, segundo
relatos dos moradores e documentos fotográficos antigos (Figura 20). Observam-se
nessa foto da década de 1930 (Figura 19), as manchas de florestas apenas nos topos dos
morros. As demais áreas foram utilizadas para plantio de espécies exóticas, pasto para o
gado e, principalmente, plantio da mandioca, entre as décadas de 1930 e 1950.
Figura 19 – Os morros ocupados por plantações, em 1930
Fonte: Museu Histórico de Nova Hartz
79
A Figura 20 mostra o início da recuperação da cobertura vegetal
dos morros na década de 1970.
Figura 20 – Recuperação da vegetação nos morros, década de 1970
Fonte: Museu Histórico de Nova Hartz
A migração do 2° período é um processo ainda presente no
município de Nova Hartz. Rossato (2005) lembra que a maioria desses migrantes vem
da região noroeste do Estado, do oeste de Santa Catarina e do sul do Paraná, atraídos
pela oferta de emprego na indústria calçadista. Além disso, o fato de parentes estarem ali
estabelecidos e em melhor situação de vida, motiva os demais membros da família a
migrarem, segundo relato de muitos deles. A mesma autora destaca:
“As transformações que ocorreram na cidade de Nova Hartz são
visíveis e profundas. O número de habitantes que aumentou assustadoramente, de forma
desordenada e em pouco tempo, fez da cidade um aglomerado de habitantes. Ela cresceu
sem planejamento” (ROSSATO, 2005).
80
A migração mais expressiva ocorreu na década de 1980 tendo
continuidade nos anos seguintes, como pode ser visualizado no Gráfico 1, que apresenta
a evolução urbana de Nova Hartz em relação ao crescimento demográfico.
Gráfico 1 – Evolução Urbana de Nova Hartz
Fonte: Niewöhner (2007)
81
A falta de planejamento e de fiscalização quanto ao cumprimento
das regras e leis para as obras civis, tanto públicas como particulares, continua sendo
uma das fontes geradoras dos problemas sócio-ambientais verificados no município.
Ainda hoje, a cidade não possui saneamento básico adequado, tendo bairros sem rede de
esgoto, ruas não calçadas, terrenos sem padronização e água não-potável, pois uma
parcela mínima da população tem acesso à água tratada.
3.3.3 – Principais problemas sócio-ambientais
Os problemas ambientais não podem ser vistos puramente pela
ótica da degradação ambiental por si, pois a dependência que o ser humano possui dos
recursos naturais faz com que os problemas do ambiente sejam também problemas
referentes ao bem-estar e sobrevivência da espécie humana. Assim, não há como
desvincular estes dois aspectos, o natural e o humano, sendo que na descrição dos
aspectos até agora vistos foram apontados vários problemas sócio-ambientais.
Brito e Sattler (2002) apresentaram o trabalho “Avaliação de
Sustentabilidade Urbana da Cidade de Nova Hartz” no II Congresso Brasileiro de
Direito Urbanístico, realizado em 2002, no qual os autores destacaram o potencial de
recursos naturais do município, como a biodiversidade, contrapondo-se com os impactos
ambientais advindos da urbanização. Apontam os autores, como principais problemas
ambientais: o uso inadequado do solo na área rural, ausência de critérios para expansão
urbana, a precariedade de infra-estrutura, como abastecimento de água sem tratamento e
falta de tratamento de esgotos, tipos inadequados de pavimentação que causa
impermeabilização do solo e a disposição inadequada de resíduos industriais.
Observa-se que a maioria dos problemas sócio-ambientais são
mais acentuados onde as condições do ambiente são menos favoráveis à ocupação
humana, como em áreas inundáveis, em áreas com acentuada declividade, em margens
de corpos hídricos e sobre solos fragilizados.
82
Nestas áreas ocorrem as enchentes, os deslizamentos, o
assoreamento dos leitos dos mananciais hídricos, a erosão dos solos e as voçorocas e a
conseqüente perda da camada fértil do solo. A aptidão natural destas áreas contra-indica
seu uso. Não é por acaso que muitas destas áreas (topos de morros, margens de arroios,
áreas alagáveis, áreas com acentuada declividade, entre outras) são decretadas em lei
como Áreas de Preservação Permanente (APP’s). Suas características intrínsecas
dificultam o uso antrópico por não apresentarem os requisitos mínimos exigidos, como
estabilidade, capacidade de suporte e salubridade. Ressalta-se que não apenas as
construções civis são extremamente contra-indicadas, mas também a interferência
humana através da deposição de resíduos e do lançamento de efluentes. Mas o que se
observa na maioria dos municípios com altos índices de expansão demográfica, é
justamente a ocupação dessas áreas pela população menos privilegiada economicamente
e a expansão dos loteamentos aterrados sobre áreas inundáveis, solução encontrada por
muitas administrações municipais com menos custos financeiros e menos ônus político
para os administradores, mas, evidentemente, com custos muito mais altos para a
população, pelo agravamento dos problemas sócio-ambientais decorrentes dessas
intervenções técnica e ambientalmente incorretas.
Pelas observações realizadas em campo e confirmadas nas
entrevistas, a realidade acima descrita se repete no município de Nova Hartz,
constatando-se que, muitas vezes, uma causa básica é responsável pelo
desencadeamento de uma sucessão de problemas sócio-ambientais.
Na inundação ocorrida em 1992 no município de Nova Hartz, a
intensa chuva nas cabeceiras dos arroios acarretou uma descida abrupta e violenta de um
grande volume de água e sedimentos, provocando deslizamento de terra nos morros e
transbordamento das águas dos arroios na área central urbana. Esse desastre deixou
inúmeros desabrigados, causou a morte de uma menina e enormes prejuízos aos
estabelecimentos comerciais e industriais, com a paralisação de várias atividades
econômicas por vários dias. Orlandi F° et. al. (1994) registraram algumas fotos (Figura
21).
83
Figura 21 – Cenas da inundação e deslizamento de terra ocorridos em 1992
Fonte:Caderno Proteger “A Catástrofe de Nova Hartz”, METROPLAN/CPRM/1994
Os deslizamentos ficaram restritos à porção centro-norte do
município, na localidade de Canudos, estando intimamente associados às porções mais
íngremes da encosta de basalto da Formação Serra Geral (zona de disjunção vertical, em
cotas aproximadas de 170 m). Eles ocorreram em forma de faixas paralelas alongadas,
formando grandes cicatrizes na vegetação da encosta que podem ser visualizadas em
foto do ano de 1997, ou seja, cinco anos após o acidente (fotografia16).
Os deslizamentos de terra provocaram destruição das culturas ali
existentes, danificação das nascentes, deslizamento de solo carregando grandes árvores e
enormes matacões, além de destruição de obras civis, como residências, galpões, abrigo
dos animais e outras edificações. A saturação do solo e sub-solo devido à intensa chuva
ocorrida no dia 12.02.1992 serviu de lubrificante entre o solo e a rocha mãe, provocando
assim, esses deslizamentos de terra.
A fotografia 16 mostra o local dos deslizamentos de terra
ocorridos em 1992 na região conhecida como Solitária Alta.
84
Fotografia 16 - Cicatrizes deixadas pelo deslizamento de terra em 1992
Fonte: Weissheimer, C., 1997
O trabalho realizado pela METROPLAN/CPRM em 1994
constatou que o assoreamento dos arroios estava ligado ao desmatamento da meia-
encosta (na área de ocorrência de arenitos – Formação Botucatu e coluviões) e à
eliminação de grandes trechos das matas ciliares. A vegetação de meia-encosta e as
matas ciliares servem como amortecedores da força da água da chuva, diminuindo o
escoamento superficial e, consequentemente, as vazões dos arroios que irão inundar as
áreas marginais dos arroios a jusante. A cobertura vegetal também impede que o solo
fique exposto e à mercê do processo erosivo, diminuindo, assim, o assoreamento dos
arroios.
Associados a esses fatores naturais como acentuada declividade e
pluviosidade, está presente a intensa atividade humana desenvolvida na área de meia-
encosta (Fotografia 17) que afeta a estabilidade do solo, provocando e/ou favorecendo
os fenômenos de assoreamento (Fotografia 18), deslizamento e corrida de terra, erosão e
enchentes.
85
Fotografia 17 - Mineração sem licenciamento ambiental, em área
rural de Nova Hartz Fonte: Weissheimer,C., 2005
Fotografia 18 - Assoreamento do arroio Fuzil decorrente da atividade de
mineração sem licenciamento ambiental, em Nova Hartz
Fonte: Weissheimer,C., 2005
86
A ocupação das áreas rurais também se dá de forma desordenada,
criando pontos de desestabilização de encostas pela ausência de técnicas adequadas para
a implantação de moradias, como, por exemplo, a falta de sistema de drenagem, que
aumenta o problema da erosão dos solos. O crescimento da ocupação desordenada
potencializa esse problema e poderá acarretar problemas futuros como o aparecimento
de trincas nas paredes das casas, surgimento de minas d’água e vazamento de fossas
sanitárias, o que coloca as famílias em risco. A Fotografia 19 retrata a ocupação de área
de risco, à margem de talude com acentuada declividade.
Em alguns pontos da sub-bacia verifica-se a ocupação de áreas de
risco, especialmente, em margem de barrancos, ocupadas por residências,como pode ser
visto na Fotografia 19. Outras áreas de risco são as áreas de preservação permanente
(APPs) como margens dos cursos fluviais e banhados, pois são sujeitas a inundações.
Fotografia 19 – Residências instaladas em área de risco, Nova Hartz
Fonte: Weissheimer, C., 2006
87
Fato preocupante de ocupação de área de preservação permanente
(APP - margem de arroio) é a existência de cemitério a poucos metros do leito do arroio
Grande. A fotografia 20 e a figura 19 retratam essa realidade em Nova Hartz, onde o
cemitério católico encontra-se em APP, a menos de 6 m do leito do arroio Grande e
sobre solos permeáveis (Arenito Botucatu), localizado nas coordenadas geográficas 29°
34’ 48.9” S ; 50° 54’ 18.5” W .
Fotografia 20 – Risco de contaminação: Cemitério em APP
Fonte: Weissheimer,C., 2007
Figura 22 - Localizão do cemitério às margens do arroio Grande
Fonte: Google Earth, 2007
88
Os cemitérios representam um risco potencial não só ao ambiente
natural como à saúde dos moradores próximos. Em regra, são escolhidas áreas de baixo
valor imobiliário para a sua implantação, o que significa áreas cujas condições
hidrogeológicas são inadequadas para essa atividade.
Pacheco (2006) afirma que os impactos ambientais causados pelos
cemitérios dividem-se em duas categorias: a) o impacto físico primário ocorre quando
existe contaminação das águas subterrâneas de menor profundidade e as águas
superficiais, excepcionalmente. Já o impacto físico secundário é quando existem odores
nauseabundos provenientes da decomposição dos cadáveres. Os gases funerários daí
oriundos são o gás sulfídrico e os mercaptanos, causadores de maus odores, além dos
gases dióxido de carbono, metano, amoníaco e fosfina. A fuga desses gases ocorre
devido à má confecção e manutenção das sepulturas e jazigos.
Segundo Silva (2001), os corpos em decomposição liberam um
líquido conhecido como necrochorume (30 a 40 litros por corpo de 70 kg), de forma
intermitente, durante até 8 meses, dependendo das condições geológicas locais. Esse
líquido viscoso, com densidade 1,23 g/cm
3
, é constituído por 60% de água, 30% de sais
minerais e 10% substâncias orgânicas degradáveis, dentre as quais duas diaminas muito
tóxicas, a putrescina (1,4 Butanodiamina) e a cadaverina (1,5 Pentanodiamina), dois
potentes venenos para os quais ainda não se conhece antídoto eficiente. O necrochorume
pode contaminar as águas subterrâneas sob o aspecto toxicológico, através dessas
diaminas e dos metais pesados, como também através dos agentes patogênicos que
causaram a morte da pessoa. As bactérias e vírus que, ao alcançarem as águas
subterrâneas cujo teor de oxigênio é baixo e favorece a multiplicação de agentes
anaeróbios, podem transmitir doenças através das águas consumidas diretamente dos
poços e fontes circunvizinhos ao cemitério.
Convém destacar que o necrochorume decompõe-se naturalmente,
reduzindo-se a substâncias mais simples e inofensivas, ao longo de determinado tempo.
Esse tempo de depuração natural depende do tipo de solo. Em solos argilosos a filtração
é lenta, possibilitando a morte das bactérias antes de atingirem os lençóis freáticos.
Porém, em solos arenosos, a contaminação pode acontecer se o necrochorume atingir o
89
lençol freático praticamente íntegro, carregando sua carga química e microbiológica
contaminante. Um estudo do solo onde se localizam os cemitérios de Nova Hartz seria
de grande interesse público para esclarecer se existe perigo de contaminação do lençol
freático que abastece a população. Em caso positivo, deve ser feito análises da água dos
poços circunvizinhos até 500 m de distância.
A Resolução n° 335 do CONAMA, de 28/05/2003, exige licença
ambiental para funcionamento dos cemitérios. Para os já implantados antes de 2003, a
FEPAM tem exigido sua regularização através da Licença de Operação e para obras de
ampliação ou novas áreas de sepultamento, a exigência é abertura de processo de
Licença Prévia. Embora a resolução tenha quatro anos, raras são as municipalidades que
estão cumprindo a legislação. Cabe lembrar que o não cumprimento de uma medida
legal pode resultar em sanções penais e administrativas. Nenhum cemitério do
município de Nova Hartz, até a presente data, apresentou solicitação de licença junto ao
órgão ambiental competente.
Outro problema ambiental que atinge o município e que pode
estar sendo fonte de contaminação do solo e das águas é o uso e aplicação de
fertilizantes e agrotóxicos nas lavouras da região.
Com o uso de fertilizantes, as plantas dão rápidas respostas,
produzindo mais em menos espaço. No entanto, a médio e longo prazo os fertilizantes
provocam a perda de fertilidade do solo, pois causam a acidificação, mobilização de
elementos tóxicos, imobilização de nutrientes, mineralização e redução rápida da
matéria orgânica, além da destruição da bioestrutura do solo e aumento da erosão.
As adubações com NPK e as calagens com calcário são práticas
comuns entre os agricultores de Nova Hartz, devido à baixa fertilidade do solo, sem a
adição destes elementos não há colheita satisfatória.
Para a área em estudo, cujos solos já se caracterizam por serem
erodíveis, a aplicação de fertilizantes acentua a degradação e perda de fertilidade,
obrigando o agricultor a usar constantemente esses nutrientes, principalmente se não são
90
adotadas técnicas de contenção da erosão em suas lavouras, muitas localizadas em locais
com acentuado grau de declividade.
Ademais, a adição de fertilizantes causa o desequilíbrio entre os
micronutrientes. Porém, esses são insuficientes no solo para o cultivo das lavouras. Daí
a necessidade de incorporar o NPK e o calcário. Da adição desses elementos resultam os
nitratos e fosfatos, que por serem solúveis em água são rapidamente dissolvidos pelas
chuvas e podem causar a poluição e a eutrofização dos cursos de água.
Os nitratos, por exemplo, são convertidos pelos animais em
nitrosamimas, substâncias cancerígenas. O alto índice de fosfato encontrado nos pontos
2 e 3 de coleta de água para análise no arroio Grande indica, além da presença de
matéria orgânica (m.o) derivado do lançamento de esgoto cloacal, também o uso
constante de fertilizantes.
Tanto os fertilizantes como os agrotóxicos podem atingir também
as águas subterrâneas através da lixiviação dos elementos pelo perfil do solo. A
contaminação das águas superficiais dos mananciais hídricos pode se dar pelo arraste do
material de erosão contendo solo contaminado das lavouras até o leito dos cursos de
água.
Quanto maior a hidrossolubilidade do produto, maior a facilidade
de transporte do ponto de aplicação até os cursos de água e águas subterrâneas. Outros
três fatores que facilitam a contaminação são: a propriedade dos solos (solos permeáveis
e erodíveis são mais suscetíveis à contaminação); as condições climáticas (maior
pluviosidade favorece) e a inclinação das áreas tratadas com agrotóxicos (as inclinações
mais acentuadas aumentam a probabilidade de escoamento para os arroios).
Considerando que esses três fatores são encontrados na sub-bacia em estudo, assim
como o uso de fertilizantes e agrotóxicos, compreende-se os elevados índices de fosfato
encontrados nas análises de água do arroio Grande nos pontos a jusante da área urbana e
na área rural de várzea.
91
O comportamento dos diferentes agrotóxicos nos diversos tipos de
solos ainda é matéria complexa e pouco conhecida. Esse fato reforça a necessidade de
estudos e avaliações mais precisas dos efeitos ecotoxicológicos desses produtos, ainda
bastante usados em comunidades de origem rural como o caso de Nova Hartz. Há de se
considerar todas essas variáveis nas decisões sobre as práticas agrícolas adotados,
acompanhadas de estudos específicos para cada região ou sub-bacia hidrográfica.
92
4 - RECONSTRUÇÃO DO CENÁRIO SÓCIO-AMBIENTAL
Com o objetivo de reconstruir, a partir de relatos de moradores do
lugar, o cenário ambiental da área de estudo desde as primeiras décadas do século XX
até os dias atuais, realizaram-se 30 entrevistas entre o período de maio a setembro de
2006.
As entrevistas e o questionário aplicado procuraram reconstruir o
cenário sócio-ambiental através de relatos sobre as formas de uso dos recursos naturais
ao longo de quase um século. Algumas perguntas tiveram o objetivo de resgatar dados
nunca antes registrados, porém apenas contidos na memória dos moradores antigos. A
reconstrução do cenário antigo através da percepção das pessoas que testemunharam as
mudanças ocorridas na localidade, auxiliou na compreensão das causas e efeitos da ação
humana sobre os recursos naturais da área em estudo.
4.1 - Metodologia
As entrevistas foram previamente agendadas por telefone ou em
visitas, esclarecendo-se aos entrevistados os objetivos e assuntos que seriam abordados.
O pré-agendamento mostrou-se eficaz, amenizando o fator “surpresa” que pode
intimidar e causar transtornos na rotina pessoal dos entrevistados, a maioria de idade
avançada. Na ocasião do pré-agendamento, solicitaram-se fotos e registros antigos sobre
o cenário ambiental e os fatos marcantes, como inundações, locais de lazer, atividades
humanas que transformaram a paisagem, uso dos recursos hídricos, etc. Realizaram-se
registros fotográficos de todos os entrevistados. A duração das entrevistas foi, em
média, de 2h. Durante as entrevistas, observou-se que as respostas às perguntas do
questionário não se limitavam ao assunto abordado, mas se expandiam com recordações
de outros fatos relacionados ao tema.
93
Aplicou-se uma primeira entrevista para testar a metodologia e
algumas modificações foram efetuadas para as seguintes. Por exemplo, na primeira
entrevista optou-se por registrar (gravar) em fita cassete as respostas. Verificou-se que o
fato de estar sendo gravado de certa forma intimidava o entrevistado, sendo que nessa
primeira entrevista a pessoa não quis ser gravada. Por outro lado, o fato da maioria dos
entrevistados falarem em tom baixo e pausado e no idioma alemão ou, na maioria dos
casos, no dialeto desenvolvido pelos descendentes dos imigrantes alemães nesta região,
conhecido como “Hünsrich”, a audição da fita tornou-se difícil. Optou-se, então, pelo
esclarecimento das dúvidas na hora da entrevista, usando o conhecimento adquirido do
dialeto e da própria história local e registrando por escrito as respostas aos itens da
entrevista. Uma pessoa da comunidade, conhecida dos entrevistados, participante ativa
da Associação de Amigos do Museu de Nova Hartz e da ANPHA (Associação
Novahartense de Preservação do Patrimônio Histórico e Ambiental), acompanhou as
entrevistas, o que facilitou o seu desenrolar.
Os entrevistados foram pessoas na faixa etária entre 50 e 92 anos
de idade, como mostra o Gráfico 2.
Gráfico 2 – Faixa etária dos entrevistados
94
O resultado nos mostra que quase a metade do número dos
entrevistados se encontrava na faixa entre 71 a 80 anos de idade e 34% deles estavam
com mais de 81 anos de idade.
O modelo de questionário aplicado nas entrevistas com os
moradores da área de estudo encontra-se no final do presente capítulo, na página
O Gráfico 3 mostra a proporção entre homens e mulheres
entrevistados. A diferença foi de apenas duas pessoas a mais do sexo feminino.
Gráfico 3 – Proporção entre homens e mulheres entrevistados
O Gráfico 4 informa o tempo de existência das moradias
mencionadas nas entrevistas. Observa-se que 47% das moradias existem a mais de 60
anos. Esse dado deve-se ao fato de as pessoas entrevistadas serem moradores antigos
que permaneceram em suas primeiras moradias. Percebe-se no município ainda algumas
casas antigas, em estilo enxaimel, típicas da colonização alemã e outras construções do
início do século XX. Convém salientar que em algumas entrevistas os moradores apenas
se reportaram à moradia que viveram na época descrita por eles, mas sempre foram
questionados se a moradia ainda existe. E uma boa percentagem não sabia ou não se
lembrava da data de construção de suas moradias e preferiram não informar dados
imprecisos. O resultado do gráfico 4 dá uma idéia da “idade” dessas construções.
95
Gráfico 4 – Tempo de existência da moradia dos entrevistados
4.2 – Resultados
A presente pesquisa procurou identificar como os moradores
antigos percebem as modificações ambientais ocorridas no decorrer das décadas em
relação, por exemplo, ao volume de água atualmente existente nos arroios.
O Gráfico 5 retrata os resultados obtidos através da seguinte
pergunta: Em épocas passadas existia menos água, igual quantidade de água ou maior
quantidade de água nos arroios em comparação à época atual?
Os resultados do Gráfico 5 revelam a percepção da existência de
maior volume de água no arroio Grande em épocas passadas (67% dos entrevistados),
sendo que nenhum deles respondeu que atualmente tem mais água no arroio. Os
entrevistados citavam que o desenvolvimento da região na época das atafonas foi graças
à força e quantidade das águas que corriam no leito dos arroios. Outro fato que marcou o
relato de muitos foram as enchentes. Dessa forma, o volume de água, na percepção dos
entrevistados, era bem maior em épocas passadas.
96
Gráfico 5 - Percepção do volume de água no arroio Grande em épocas passadas em
comparação a época atual
O Gráfico 6 apresenta a percepção dos moradores em relação à
importância e uso atual do arroio. Os resultados foram obtidos a partir das respostas à
questão n° 8 do questionário: O que o arroio Grande significa, atualmente, para o
município de Nova Hartz? Foram compilados todas as respostas e somando-se as que se
referiam aos mesmos usos, resultou no gráfico 6.
GRÁFICO 6 - Percepção quanto à importância (funções) do arroio Grande
LEGENDA:
97
A metade dos entrevistados respondeu que um dos principais usos
do arroio Grande atualmente é para escoamento do esgoto. Isto reflete a realidade e a
forma como o município está tratando seus recursos hídricos. Não significa que essas
pessoas concordam com esse fato, apenas constatam, percebem. Por outro lado, um dos
usos mais lembrados foi o de embelezamento do local, sugerindo que o arroio ainda
mantém suas qualidades paisagísticas.
4.3 – Reconstrução do cenário sócio-ambiental através do relato de moradores
antigos
Durante as entrevistas surgiram muitos fatos que não haviam sido
registrados em trabalhos e obras anteriores e que serviriam para reconstruir o cenário
sócio-ambiental da sub-bacia estudada. Decidiu-se valorizar essa memória histórica,
elaborando um breve histórico do local a partir desses relatos, destacando a importância
de duas atividades econômicas que marcaram a vida da comunidade novahartense: as
atafonas e a indústria calçadista. Oportunizou-se também, através de perguntas do
questionário, que os entrevistados manifestassem suas percepções em relação as
modificações ambientais ocorridas no município, com ênfase no arroio Grande,
decorrentes principalmente do processo de urbanização e industrialização. Essas
percepções foram somadas no texto da reconstrução do cenário sócio-ambiental.
Na década de 1930 ocorreram desmatamentos das matas ciliares e
de encosta, devido a oportunidade de venda de madeira para a ferrovia. Muito mato
nativo foi cortado e transformado em carvão para ser vendido à rede ferroviária que o
utilizava como fonte de energia para as locomotivas. Na localidade de Picada Hartz
instalaram-se dois ou três fornos de carvão para atender essa demanda. Esse comércio
constituiu-se em uma das alternativas econômicas encontradas pelos colonos para sua
sobrevivência.
Outra atividade que utilizou os recursos naturais foi o corte de
árvores para as construções necessárias para manutenção das funções sócio-econômicas
das colônias. As árvores consideradas madeiras nobres, como cabreúva, cangerana,
cedro, grápia e louro-pardo eram cortadas e levadas às serrarias para se transformarem
98
em tábuas e postes para uso na propriedade de origem. Em 1925 algumas serrarias
instaladas no local, movidas pela energia das águas (rodas d’água) utilizavam, além das
madeiras nobres acima citadas, outras como araucária, caroba, angico, canela preta e
amarela, mata-olho e timbaúva, todas oriundas das matas circundantes. A Figura 23
ilustra bem esta prática.
Figura 23 - Representação da atividade econômica principal em meados do século XX na área
estudada. Fonte: HAAG, Ernani. A Decisão, pág. 84
Algumas atividades, como a pecuária, ocupavam as áreas das
margens dos arroios, utilizadas como potreiros. Os solos eram ocupados até as margens
dos arroios pelas plantações. Assim, as matas ciliares foram sendo dizimadas.
A economia local, durante décadas, baseou-se na produção de
farinha de mandioca, obtida nos engenhos denominados atafonas. As primeiras atafonas
surgiram a partir do ano de 1910 do século XX, às margens dos arroios da Bica e arroio
Grande. A mais antiga atafona mencionada pelos entrevistados, instalou-se em 1914
onde hoje é a área urbana do município. Essa primeira atafona era movida à tração
animal e não estava localizada às margens do arroio. Somente em 1933, ela passou a
utilizar a água para mover o moinho gerador de energia, mudando sua localização para
as proximidades do arroio.
99
Atafona, como relata o historiador Ernani Haag, em artigo para
Revista Atafona n° 1 de maio de 2003: “era uma pequena indústria artesanal que
transformava mandioca em farinha”. Segundo os entrevistados, a maioria com
experiência no plantio de vários produtos, a mandioca se adaptou bem aos solos
arenosos, pois não exige solos muito férteis, tendo-se tornado uma das poucas
alternativas economicamente viáveis para os colonos em suas pequenas propriedades.
A Figura 24 representa de forma esquemática a estrutura interna
de uma atafona.
Figura 24 – Desenho esquemático de uma atafona
Fonte: Revista Atafona, n° 01, Parobé, 2003
A partir da década de 1920 as famílias de colonos construíram
suas próprias atafonas, contudo, em condições precárias e de árduo trabalho, do qual
participavam todos familiares, inclusive as crianças. “A produção era pequena e não
chegava a poluir o arroio” – lembra o Sr.Valdo Afonso Henkel, neto do proprietário da
atafona de Luis Henkel, registrada na foto de 1925 (Fotografia 21). Na verdade, o
lançamento dos efluentes dessa atividade nos arroios não constituía poluição ou
desequilíbrio das condições naturais, alegam os entrevistados, pois a quantidade de água
e outros fatores auxiliavam na diluição dos poluentes orgânicos. O Sr. Benno Muller
lembra que já em 1925 existia uma atafona movida à vapor.
100
Fotografia 21: Atafona de Luis Henckel – 1 9 2 5
Fonte: acervo fotográfico da família Henckel
Somente nas décadas de 1930 e 1940 as atafonas passaram a ser
construídas às margens dos arroios utilizando a força da água que descia das partes mais
altas, muito próximas da sede do município. Não é por acaso que a localização das
atafonas naquela época era em áreas com acentuada declividade. Isto era estratégico
para o funcionamento das rodas d’água que necessitavam da força e velocidade da
correnteza das águas dos arroios.
Verificou-se que a partir da década de 1930, o plantio
intensificado de mandioca e a conseqüente instalação de atafonas ocasionaram a
destruição das matas ciliares devido ao aproveitamento total do solo, desmatando e
utilizando para o plantio também as margens dos arroios.
Na década de 1940 as pequenas atafonas familiares proliferaram e
isto ocasionou também um desmatamento, principalmente das encostas, onde houve
necessidade de plantio da mandioca para fabricação da farinha. As atafonas dessa época
eram movidas à água fornecida pelos arroios. Muitas pequenas barragens foram
construídas para abastecimento dos moinhos que geravam a energia para o
funcionamento destes engenhos.
101
A proliferação da produção de farinha de mandioca foi
conseqüência da queda da produção de trigo na década de 1940. Uma decisão
governamental permitiu a adição de raspa de mandioca junto à farinha de trigo. Com
esses incentivos, os colonos investiram na produção de mandioca e na construção de
atafonas. No total, existiram 66 atafonas na sub-bacia do arroio Grande. No trecho
estudado do arroio Grande, desde o ponto 1 de coleta de água, até a área urbana, em
trecho com menos de 3 km, as entrevistas revelaram a existência no passado de 6
atafonas: das famílias Schöenardie; Haag, Pilger (2 tafonas), Baum/Müller e Müller.
Foram encontradas em campo as barragens dos Pilger, dos Haag e as ruínas da atafona
da família Schönardie. Atualmente, apenas duas atafonas ainda funcionam para pequena
produção (fotografia 22 e 23), ambas às margens do arroio da Bica.
Fotografia 22 – Atafona de Afonso V. Fotografia 23 – Atafona de Rudi Brunner
Henckel Fonte: Weissheimer, C., 2007 Fonte: Weissheimer, C., 2007
A energia elétrica chegou ao local em 1949. As atafonas passaram
a ser movidas por essa energia, o que aumentou a produção das famílias de colonos que
conseguiram utilizá-la. Depois da década de 1950, os pequenos agricultores fecharam
suas atafonas e começaram a vender sua produção de mandioca para esta nova “casta”
de colonos tafoneiros. Na referência histórica sobre as atafonas são também
apresentadas as dificuldades encontradas pelos colonizadores em relação ao tipo de solo
da região: arenoso e de baixa fertilidade. Este fato permite supor sobre a necessidade de
adição de adubos e fertilizantes nas lavouras, indicando que esses produtos, devido ao
tipo de relevo e pluviosidade da região, provavelmente devam ter sido carreados aos
mananciais hídricos.
102
Era prática comum que os efluentes do processo de prensagem da
mandioca para a fabricação da farinha fossem lançados diretamente no arroio Grande, o
que ocasionava morte de peixes por asfixia (falta de oxigênio dissolvido na água) e
intoxicação devido aos componentes ácidos da mandioca. No entanto, essa poluição foi
realmente significativa depois da aquisição de motores a diesel e o surgimento da
energia elétrica para a fabricação em maior escala da farinha de mandioca. Antes da
década de 1940 a fabricação era manual, sendo que cada família obtinha apenas algumas
sacas para subsistência e a quantidade de efluentes era pequena. A década de 1950
corresponde ao auge das atafonas, muitas delas movidas a diesel e fabricando grande
quantidade de farinha de mandioca. Algumas famílias deixaram de ter sua própria
pequena atafona e passaram a vender a mandioca para as atafonas maiores.
Evidentemente, uma produção maior gerava quantidades maiores de efluentes, os quais
eram lançados diretamente nos arroios.
Outra conseqüência do lançamento direto dos efluentes das
atafonas no arroio era a formação de um lodo pegajoso no leito e nas pedras do arroio, o
que dificultava a fixação dos microorganismos nas rochas, que são uma das bases da
cadeia trófica aquática. Assim, toda a vida aquática dos arroios atingidos era ameaçada.
Na década de 1950, conforme relatos, foram realizadas vistorias de autoridades do
governo sobre a mortandade de peixes que ocasionalmente ocorria no arroio Grande. Na
época, ficou comprovado que era devido ao lançamento de resíduos provenientes das
atafonas. O antigo IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal), através do
fiscal nomeado, Henrique Luis Roessler, orientou os proprietários das atafonas para que
desviassem, através de um canal, os efluentes para uma bacia de contenção, evitando o
lançamento direto no arroio. Isto foi realizado em todas atafonas, reduzindo a poluição
antes verificada. No entanto, durante o verão, a bacia de contenção secava e emitia
fortes odores pútricos. Os atafoneiros acreditavam que, com o aumento da quantidade de
água das chuvas nos arroios na época chuvosa, o material oriundo da produção de
farinha de mandioca poderia ser dissolvido e não causar danos ambientais. Por isso, na
“calada da noite” abriam canaletas que despejavam o efluente da bacia de contenção
diretamente nos arroios.
103
A época em que havia grande quantidade de água nos arroios
corresponde ao período de inúmeras enchentes. Algumas delas de grandes proporções,
causaram muitos prejuízos à população. A Fotografia 24 mostra a enchente de 1943.
Fotografia 24 - Enchente no arroio Fuzil – 1943 que atingiu a Rua Jacob Pilger
Fonte: acervo fotográfico da família Jost
Na década de 1950 se deu o início da atividade calçadista, com o
surgimento de pequenas fábricas. Porém a fabricação de calçados era ainda de forma
rudimentar. Segundo um dos entrevistados, proprietário de uma das primeiras fábricas
de calçados, em 1954 instalou-se a San Izidro, inicialmente denominada “Haag e Cia
Ltda”, que iniciou fabricando tamancos de couro. Funcionou até a década de 1980,
quando encerrou suas atividades. O antigo prédio desta empresa, atualmente reformado,
abriga a sede administrativa do município.
A partir do surgimento destas fábricas de calçados, a localidade
teve um grande crescimento populacional proporcionado pela geração de milhares de
empregos que atraem, desde a década de 1970 até os dias atuais, os migrantes de outras
regiões do Estado do Rio Grande do Sul e do Estado de Santa Catarina.
Na década de 1960 ocorreu a intensificação de atividades
industriais, migrações, abandono da agricultura familiar, irrigação de arroz e deu-se o
início da recuperação das matas nas áreas rurais. No entanto, na área urbana o
desaparecimento das matas ciliares deve-se à crescente ocupação humana às margens
dos mananciais hídricos.
104
Da década de 1970 até o momento atual, a sub-bacia hidrográfica
do arroio Grande apresentou um considerável crescimento demográfico ligado ao
incremento da migração, resultante da expansão da indústria calçadista que oportunizou
milhares de empregos. Com o crescimento rápido e desordenado do município, ocorreu
a deposição e o manuseio inadequado de resíduos industriais perigosos; a falta de coleta
e tratamento de esgoto; a intensa perfuração de poços para abastecimento de água sem
acompanhamento e responsabilidade técnica; a falta de água tratada para abastecimento
doméstico; intensa retirada de mata ciliar na área urbana; retificação dos arroios;
ocupação de moradias em situação de risco (encostas e banhados), impermeabilização
do solo na área urbana; enfim, uma urbanização sem planejamento e sem saneamento
básico.
Segundo relatos dos entrevistados, a quantidade de água dos
arroios era bem maior há tempos atrás. Muitos citaram que a causa do desaparecimento
da água nos arroios foi o desmatamento dos morros, principalmente na época que houve
maior plantio de mandioca. Assim, as encostas dos morros e as margens dos arroios,
foram totalmente “aproveitadas”.
Em relação ao traçado do arroio Grande, ele tinha muito mais
curvas e seu leito movimentava-se naturalmente. Ele tinha uma grande capacidade
autodepurativa. Como exemplo, os resíduos das atafonas se dissolviam rapidamente
quando o arroio recebia maior volume de água através das chuvas no inverno,
justamente a época de funcionamento das atafonas.
As “retificações” realizadas na década de 1970 iniciaram na parte
sul do município e avançaram para norte, em direção à área onde hoje situa-se o centro
urbano. Segundo o entendimento dos entrevistados, a sinuosidade do curso natural,
aliado à maior vazão existente nos arroios em épocas passadas, causava uma maior
freqüência de enchentes. Sabe-se que, ao contrário, a presença de meandros diminui a
velocidade das águas. Essa percepção dos moradores é influenciada pelo fato de as
enchentes terem diminuído de freqüência, embora sejam outras as causas, como a
própria diminuição da vazão dos arroios, a destruição das nascentes e a recomposição
das matas ciliares e de encosta.
105
Alguns citaram que as enchentes aconteciam devido à baixa
profundidade dos arroios por causa do assoreamento e da quantidade de água que descia
dos morros quando chovia nas cabeceiras. As águas, segundo os moradores,
extravasavam principalmente nas curvas dos arroios. Portanto, como muitos lembraram,
bastava pequena quantidade de chuva para inundar o centro da localidade. Dessa forma,
a população recebeu com agrado as obras de “retificação” do arroio Grande e arroio
Fuzil, pois associaram essas obras à diminuição da ocorrência de inundações na área
central do município.
Em relação aos processos erosivos, os entrevistados citaram que
em épocas passadas aconteciam “desbarrancamentos” nos meandros dos arroios devido
à força das águas durante as enchentes.
Sobre o lixo, segundo relato dos moradores, não era depositado
em locais impróprios como se vê atualmente, pois grande parte era reaproveitado.
Também não havia tanto material descartável e a população era bem menor. A partir do
desenvolvimento industrial, começaram a aparecer depósitos de aparas de couro e outros
materiais descartados pelas fábricas e atelieres. Com o crescimento da população e
ocupação das margens dos arroios, o lixo depositado nos cursos d’água passou a ser
cenário comum, assim como o lançamento de esgoto direto no leito dos arroios.
Em tempos passados, quando a área era somente rural, na maioria
das unidades rurais os resíduos cloacais humanos eram descartados em grandes buracos,
que faziam parte das “capungas ou patentes”. Esses buracos, de tempo em tempo, eram
aterrados e um outro buraco era aberto em local diferente. Portanto, a maior parte dos
dejetos não era lançado diretamente nos arroios. Szubert et al. (1994) destaca que ainda
na década de 1990 haviam algumas dessas “capungas” instaladas às margens dos arroios
e que lançavam seus dejetos diretamente neles.
Observou-se na fala de alguns dos entrevistados que o respeito à
natureza era no sentido do temor às catástrofes naturais, como enchentes, vendavais,
temporais e que os arroios eram importantes quando tinham utilidade como geração de
energia, irrigação, pesca e lazer. Nas Fotografias 25 e 26 aparece a população fazendo
uso dos arroios para lazer, nas décadas de 1930 e 1950.
106
Fotografia 25- Passeio de moças no arroio da Bica - 1933
Fonte: acervo fotográfico da família Haag
Fotografia 26 – Balneário “rumbolposs” no arroio Grande, em 1950
Fonte: acervo fotográfico da família Becker
107
Durante a presente pesquisa, um livro sobre a história dos
Protestantes em Nova Hartz foi lançado no ano de 2007, o qual também buscou nas
entrevistas informações sobre o passado desse município.
108
QUESTIONÁRIO APLICADO AOS MORADORES:
ENTREVISTA N° ____ Data: ____/____/2006 Fotos nº: ___________
Nome completo: Data de nascimento:
Local de nasc.: endereço atual: fone:
Endereço do local descrito:
1 – Descreva a paisagem do seu local de moradia na década de 19___ :
Local: Tempo de existência da moradia:
a) como eram as margens do arroio Grande quanto ao tipo de vegetação (matas,
campo, lavoura, pastagens, moradias...)
b) que tipo de uso faziam das margens e da água do arroio?
c) que animais e peixes eram encontrados neste arroio? Havia pesca e caça?
d) existia algum tipo de depósito de lixo? De que material?
e) em épocas passadas existia menos água, igual quantidade de água ou maior
quantidade de água nos arroios em comparação à época atual?
f) já havia sinal de desmoronamento das margens do arroio em algum ponto?
Qual? O que poderia ter causado estes desmoronamentos?
g) conheces algum ponto no qual houve alteração do curso natural do arroio?
Quem executou o desvio e porque? Em que ano aproximadamente?
h) conheces alguma barragem construída no arroio Grande ou nos arroio Tigre e
da Bica?
i) quanto às matas, aconteceram alterações? Quais? Sabes algo sobre o incêndio
de 1941 nos morros?
2 – Existia alguma autoridade ou órgão que protegia o ambiente, as matas, o arroio e os
animais na época mencionada acima?
CENÁRIO ATUAL ATRAVÉS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL:
3 – De onde vem a água que você bebe? Se é poço, sabes a profundidade dele?
Conheces a qualidade da água? Já fizeste análise da água? Quando? Qual o resultado?
4 – O que fazes do lixo, ou seja, do que descartas em tua casa? Sabes qual o destino do
lixo inorgânico em nosso município?
5 – Que tipo de esgoto existe em sua residência? Qual o destino das águas que saem de
sua residência?
6 – O que achas que melhorou dos últimos anos pra cá em relação à natureza aqui em
Nova Hartz? E o que piorou?
7– Qual a importância do arroio Grande para você e sua família, atualmente?
8 – O que o arroio Grande significa, atualmente, para o município de Nova Hartz?
9 – Como a comunidade e os Poderes Públicos estão tratando este arroio?
10 – Tens alguma estória curiosa para contar sobre Nova Hartz relacionada aos seus
arroios? Algum fato marcante?
Agradecemos sua importante participação
109
5 - DESCRIÇÃO, ANÁLISE E MAPEAMENTO DOS
INDICADORES DE DEGRADAÇÃO AMBIENTAL
Como citado anteriormente no capítulo I, os fatores que
contribuem para os processos erosivos em geral tem origem natural porém podem ser
intensificados a partir da ação humana e uso inadequado do solo.
5.1 - Fatores naturais favoráveis à erosão
Entre os fatores naturais que contribuem na gênese e
desenvolvimento dos processos erosivos estão presentes na parte da sub-bacia do arroio
Grande: a inclinação do terreno, os tipos de solo, a pluviosidade e os ventos.
Sinteticamente, pode-se afirmar que na área encontram-se fatores
naturais que favorecem os processos erosivos, como a topografia fortemente acidentada
que envolve a área ao norte da sub-bacia estudada, os solos erodíveis (podzólicos) nas
encostas e o considerável volume pluviométrico durante o ano. Salienta-se ainda, a curta
distância (4 km) entre a sede do município e as altitudes de mais de 600m que tornam a
área urbana sujeita aos efeitos das chuvas torrenciais e erosão das partes mais altas. A
Fotografia 27 apresenta dois momentos distintos da vazão do arroio Grande em uma
pequena barragem, a montante da área urbana.
Fotografia 27 - Comparação entre dois momentos diferentes da vazão no arroio Grande:
em dias de chuva e em situação normal
Barragem dos Haag no dia 08/10/05 após
dias chuvosos
Barragem dos Haag no dia 12/10/05:
as chuvas cessaram há uns dois dias.
Fonte: Weissheimer, C., 2006
110
A declividade do terreno é um importante fator topográfico que
influencia o processo erosivo. Verifica-se que a instabilidade das partes mais elevadas
do relevo pode causar deslocamentos repentinos de grandes massas de terra e rochas que
desabam, ocasionando grandes tragédias, como a de 1992 na região mais elevada da
área em estudo. Segundo a classificação de Ross, a declividade nesses terrenos, acima
de 30%, é muito forte (FIG. 25).
Devido à topografia acidentada, aos tipos de solos erodíveis e,
somados aos índices pluviométricos verificados na localidade estudada, optou-se por
aplicar uma classificação cujas classes de declividade foram estabelecidas considerando
as fragilidades ambientais verificadas, como capacidade erosiva, riscos de
escorregamentos, deslizamentos e inundações.
Conforme Ross (2000), a carta de declividade foi composta em
intervalos de cinco classes, que variam de Muito Fraca (até 6%) a Muito Forte (acima de
30%), como pode ser verificado no Quadro 8 .
QUADRO 8 – Classes de declividades conforme inclinação do terreno
CATEGORIAS
%
1 – Muito Fraca
Até 6
%
2 - Fraca De 6 a 12 %
3 – Média De 12 a 20 %
4 – Forte De 20 a 30%
5 – Muito Forte Acima de 30 %
A Figura 25 apresenta o mapa gerado a partir das classes de
declividades de Ross (2000), que, devido às fragilidades ambientais encontradas na área
em estudo, mostra-se mais adequada para análise dos riscos.
111
Figura 25 – Mapa de declividades da sub-bacia do arroio Grande
Fonte: GEOFEPAM, 2007
112
Segundo Ross (1994) o planejamento de uma área não pode ser
formulado a partir de uma leitura estática do ambiente, mas sim a partir do entendimento
do processo de ocupação que ocorreu, do modo de apropriação e uso do território e de
seus recursos.
Para fins de comparação, a Figura 26 mostra o mapa de
declividades seguindo os critérios da legislação, ou seja, considerando áreas de proteção
ambiental as encostas que apresentam acima de 45% de inclinação, no mapa
representadas em vermelho.
Figura 26 - Mapa de declividades segundo a legislação Fonte: GEOFEPAM, 2007
113
Assim, se o critério a ser adotado para o uso do solo em Nova
Hartz seguir o estabelecido de forma generalizada pela legislação, áreas suscetíveis à
erosão poderão ser ocupadas e sofrer interferências antrópicas que certamente trarão
prejuízos sócio-ambientais, devido às fragilidades apresentadas pela região.
Quanto aos tipos de solo e sua relação com a erosão, há de
considerarem-se fatores como a textura, a estrutura, a profundidade, a permeabilidade e
o grau de dispersão característicos do solo que definem sua erodibilidade.
Esses fatores refletem a suscetibilidade à erosão para
determinado tipo de solo. Ross (1994) classificou alguns tipos de solo de acordo com
sua erodibilidade, agrupando-os em classes, variando de muito baixa a muito forte,
sendo que para os solos encontrados na área de estudo – podzólicos de textura arenosa -
a classe de erodibilidade é forte. Se o solo é arenoso o arraste de partículas será maior
do que se ele fosse argiloso. No entanto, o solo argiloso, por ser impermeável pode
funcionar como um lubrificante no deslizamento de um conjunto. Na parte da sub-bacia
do arroio Grande estudada, associado ao fator topográfico, temos o solo arenoso
formado pelo arenito Botucatu aflorante, justamente na meia-encosta, circundando a
área urbana de Nova Hartz, como já foi apresentado no capítulo III, figura 6. Essa
unidade fornece aporte de sedimentos à unidade situada em cotas mais baixas, formando
os leques aluvionares e em cujas bases encontram-se os solos argilosos.
Os solos argilosos, por sua vez, formados por depósitos
quaternários que compõem o aluvião, ocupam a maior parte do substrato da sub-bacia
do arroio Grande e de seus efluentes. Este tipo de solo, mais impermeável, favorece o
escoamento superficial da água da chuva (erosão laminar), o que acelera o carreamento
das partículas superficiais do solo advindos dos solos arenosos mais altos, para os
mananciais hídricos, provocando o assoreamento.
Em relação à pluviosidade, Fontana e Almeida (2002) mostraram
que o número de dias com precipitação pluvial aumenta de oeste para leste no Estado do
Rio Grande do Sul, atingindo os maiores valores na Região Ecoclimática do Planalto
Superior e Serra do Nordeste. Portanto, a área em estudo está sujeita a altos índices
pluviométricos, pois está situada no início da Serra do Nordeste. As mesmas autoras
também verificaram. que a probabilidade de ocorrência de um maior número de dias
114
com precipitação pluvial em anos de El Niño é superior a dos anos neutros e a dos anos
de La Nina. Nos anos de 1991/92 e de 1992/93 houve o fenômeno El Nino. No mês de
fevereiro do ano de 1992 ocorreu uma expressiva inundação e deslizamento de terra em
Nova Hartz. As Fotografias 28 e 29 são do mesmo trecho de arroio, em diferentes
situações de vazão. Na primeira, no mês de fevereiro, que apresenta alta pluviosidade e
a segunda fotografia é a situação da vazão em épocas com menos chuvas (mês de
setembro). Na média anual de chuvas entre os anos de 1962 e 1995, a estação
pluviométrica da CEEE em Araricá registrou fevereiro como o mês com maior índice
pluviométrico.
Fotografia 28- Aspecto da vazão no Fotografia 29 – o mesmo local, em
arroio Fuzil, em época chuvosa: setembro com mais de 20 dias sem
fevereiro precipitação pluviométrica
Fonte: Weissheimer,C., 2007 Fonte: Weissheimer,C., 2007
Segundo informações obtidas no site da defesa civil, a média
pluviométrica anual de Nova Hartz entre 1991 e 1997 variou entre 1800 a 2050 mm,
sendo que entre os meses de dezembro de 2005 e agosto de 2006 foi de 1220,5 mm, o
que demonstra uma quantidade significativa de chuva nessa parte da sub-bacia.
115
Para Ross (1996), índice pluviométrico anual acima de 1800
mm/a, associado ao relevo com declividades acima de 30%, umidade atmosférica
elevada, solos erodíveis e pouca cobertura vegetal formam uma unidade ecodinâmica
com instabilidade potencial de forte a muito forte. Esses fatores associados podem ter
provocado os deslizamentos de terra e inundação ocorridos em 1992 na área em estudo.
O escoamento superficial será intensificado quando as chuvas
forem freqüentes devido à saturação do solo, fazendo com que o solo não consiga mais
absorver a água da chuva e ela passa a escoar na superfície, favorecendo a erosão. Cabe
salientar a existência de um clima local devido a uma faixa semicircular de derrames
basálticos que cercam as áreas urbanas do município de Nova Hartz.
A estação pluviométrica da Companhia Estadual de Energia
Elétrica (CEEE), instalada no município vizinho de Araricá obteve dados entre 1962 e
1995 que nos fornecem os totais mensais e as médias, (ver Quadro 4, pág 52). É a fonte
de dados pluviométricos mais próxima. Vale mencionar que o trabalho da
METROPLAN/CPRM (1994), com o objetivo de verificar as causas da inundação e do
deslizamento de terra ocorridos na noite de 12 de fevereiro de 1992, constatou que na
estação pluviométrica da CEEE em Araricá “não fora registrado qualquer ocorrência
pluviométrica na noite de 12 de fevereiro de 1992”. Esse fato indica a existência de um
clima local e a necessidade de instalação de estações pluviométricas na sub-bacia do
arroio Grande para obtenção de dados climáticos e hidrológicos mais precisos.
Em relação aos ventos, cabe informar que são predominantes de
janeiro a maio aqueles que provém do sudeste; em junho predominam os ventos do leste
e de julho a dezembro, sopram os ventos provindos do nordeste. A configuração
geomorfológica local oportuniza a criação de fortes rajadas de vento, devido à cadeia de
montanhas que cerca o vale.
116
5.2 - Fatores antrópicos aceleradores da degradação ambiental
Os fatores antrópicos que contribuem na formação e aceleração
dos processos erosivos e que constituem-se em indicadores de degradação ambiental no
presente trabalho são: ausência de mata ciliar, a erosão que causa o solapamento das
margens e o assoreamento do leito do manancial hídrico, as barragens construídas com o
objetivo de captação de água, o despejo de efluentes domésticos e industriais e a
deposição de resíduos sólidos que provocam a poluição dos recursos naturais.
Muitos dos indicadores de degradação ambiental observados ao
longo do arroio Grande estão interligados, como o solapamento das margens que ocorre
mais frequentemente onde há ausência de mata ciliar e uso inadequado do solo,onde
deveria estar presente a área de preservação permanente (APP).
Por exemplo, o impacto da urbanização se faz sentir mais
intensamente em regiões com precipitações mais freqüentes e com diferenças
altimétricas mais abruptas. Tal é o caso da sub-bacia estudada, cuja cota altimétrica vai
desde 22m até acima de 600 m em uma distância de menos de 4 km.
5.2.1 – Ausência de mata ciliar e desmatamento de encostas
A ausência da mata ciliar que se observa em diversos pontos nas
margens do arroio Grande é um indicador de degradação intimamente ligado ao uso do
solo desta parte da sub-bacia.
É importante salientar que o processo de degradação das matas
ciliares é antigo, do início do século passado, como foi relatado no cap. IV. O
desmatamento foi iniciado com objetivo de uso dessas áreas para a agricultura, pecuária
e para venda da própria madeira retirada. Assim, há mais de cem anos a erosão e a perda
da fertilidade do solo vêm ocorrendo, decorrentes do uso inadequado do solo, com
práticas agrícolas impróprias, como as queimadas e a compactação (impermeabilização)
do solo pelo pisoteio do gado e trânsito de máquinas agrícolas.
117
Para o município de Nova Hartz, cujo abastecimento de água
depende da água subterrânea, são as matas ciliares que garantem a recarga dos lençóis
freáticos, pois barram a água das chuvas, conduzindo-as mais suavemente através do
solo. Como esse solo é protegido pela cobertura vegetal, permanece poroso e com
grande capacidade de absorção. Sabe-se que o lençol freático é o repositório das águas
que escaparam das perdas através das redes de drenagem, infiltrando-se no solo e aí se
acumulando, mas que esse reservatório de água do lençol freático depende da estrutura
dos solos e da extensão das áreas revestidas por vegetação. A própria estabilidade dos
fluxos fluviais para os usos múltiplos de suas águas superficiais, depende da
alimentação desses lençóis subterrâneos pela águas das chuvas.
O desmatamento das encostas na área em estudo, situa-se na faixa
intermediária dos morros, cujo substrato é composto pela Fácies Eólica do Botucatu.
Esta área está localizada entre os derrames basálticos da Formação Serra Geral e o nível-
base de erosão. A região que recebe os sedimentos, ou seja, o nível-base de erosão é
também onde se situam as áreas urbanas, tornando-as de importância vital para o
controle das cheias. A derrubada crescente da vegetação natural destas encostas tem
favorecido a erosão, observada através de sulcos e ravinas e pela destruição da camada
superficial do solo. O produto desta erosão está se depositando nos cursos de água
superficiais que drenam as partes baixas do município, causando assoreamento e
entupimento de suas calhas, favorecendo as enchentes. Nesse quadro, basta uma
precipitação pluviométrica um pouco mais intensa para provocar inundações nas áreas
abaixo das encostas, ou seja, nas áreas urbanizadas.
A Fotografia 30 mostra uma área com declividade acentuada onde
foi retirada a mata para uso como pastagem. Pode-se observar a ocorrência de ravinas no
solo. A Fotografia 31 mostra com clareza o desmatamento de uma encosta de morro de
declividade acentuada e com solo completamente desprotegido.
118
Fotografia 30- Sulcos e ravinas em área de acentuada declividade.
Fonte: Weissheimer, C., 2006
Fotografia 31 - Desmatamento de encosta em área rural de Nova Hartz
Fonte: Weissheimer, C., 2007
119
5.2.2 - Solapamento das margens e assoreamento
A água barrenta observada após as chuvas no arroio Grande,
principalmente na área urbana é resultado dos processos erosivos que tem ocorrido a
montante da cidade de Nova Hartz, cujas origens, como já citado anteriormente, são
naturais, porém em alguns casos criados e em todos os casos acelerados pela ação
humana. Ao erodir um terreno a água da chuva leva partículas de argila e silte em
suspensão, resultando a cor avermelhada às águas.
O solo na área urbana de Nova Hartz é de origem eluvionar e
constituição argilosa. É justamente na área urbanizada onde existe a maior ausência de
mata ciliar. Sabe-se que o solo argiloso favorece o escoamento superficial e,
conseqüentemente, as inundações. O fator ausência de mata ciliar adicionado aos tipos
de solos argilosos e à maior impermeabilização do solo, torna a área urbana de Nova
Hartz uma região vulnerável aos processos erosivos. Como resultado da erosão, temos o
assoreamento dos cursos de água e as inundações, que irão extravasar a jusante do arroio
Grande, em área de várzea.
A canalização da rede de drenagem, a ocupação irregular das
margens ou ainda o lançamento criminoso de entulhos, resíduos domésticos e
industriais, tem agravado a situação da área estudada.
As observações em campo confirmam a presença constante de
solapamento das margens do arroio Grande, especialmente à jusante da área urbana,
devido à falta de mata ciliar. Nas margens onde a ausência de mata não é o principal
fator, como observado em cotas altimétricas maiores, a montante da área urbana, a
velocidade e vazão das águas que provocam correnteza forte após as precipitações, é a
causa do solapamento dessas margens.
A Fotografia 32 apresenta o solapamento das margens do arroio
Grande a montante da área urbana, onde a velocidade da correnteza e o volume de água
são os principais fatores causadores dessa degradação.
120
Fotografia 32 – Solapamento da margem do arroio Grande a montante
da área urbana de Nova Hartz Fonte: Weissheimer, C., 2007
Fotografia 33 – Solapamento de margem do arroio Grande a jusante
da área urbana de Nova Hartz Fonte: Weissheimer, C., 2007
121
A Fotografia 33 apresenta o solapamento da margem direita do
arroio Grande com uma extensão de mais de 6 m, na coordenada E=509432
N=6725254, situada a jusante da área urbana. Nota-se a ausência de mata ciliar nessa
margem do arroio, o que favorece a erosão, o solapamento da margem e o assoreamento
do leito do arroio.
De acordo com Cunha (1995), os canais meandrantes dos corpos
hídricos “são encontrados com mais freqüência nas áreas úmidas cobertas por vegetação
ciliar”. Cita o autor que essas formas representam um estado de estabilidade do canal de
acordo com um ajuste certo entre todas as variáveis hidrológicas: declividade, largura e
profundidade do canal, velocidade dos fluxos, rugosidade do leito, carga sólida e vazão.
A Fotografia 34 mostra o solapamento da margem esquerda do arroio Grande devido a
retirada de mata ciliar para implantação de estrada. É um exemplo de uma intervenção
humana acelerando o processo de erosão das margens. O solapamento está avançando e
comprometendo a segurança dos veículos que por ali trafegam. Essa proximidade do
arroio com a estrada pode ser verificada na Fotografia 35. A Fotografia 36 mostra o
grave assoreamento encontrado no arroio Fuzil, tributário do arroio Grande, cuja causa,
além das naturais, foi a retirada de terra em cotas mais elevadas, sem licenciamento
ambiental para atividade mineradora e, portanto, sem observar critérios técnicos para
evitar esses danos ao ambiente.
Fotografia 34 - Exemplo de solapamento das margens do arroio
Grande Fonte: Weissheimer,C., 2006
122
Fotografia 35 – Estrada à margem do arroio Grande
Fonte: Weissheimer,C., 2006
Fotografia 36 - Aspectos do assoreamento do arroio Fuzil.
Fonte: Weissheimer,C., 2006
123
Outro exemplo que comprova o assoreamento do leito do arroio
pode ser visto na comparação entre as fotos do ano de 1950 (Fotografia 37) e foto atual
(Fotografia 38) do balneário conhecido como “rumbolposs”. Na foto antiga, R
representa a reentrância na rocha, que atualmente está bem próxima à lâmina de água. O
L representa o leito do arroio, que em 1950 formava pequena queda de água, o que
atualmente não existe mais. Observa-se a “subida” do leito, ou seja, o assoreamento
ocorrido nesses mais de 50 anos.
Fotografia 37 – Área de banho “rumbolposs” em 1950
Fonte: Foto de acervo particular
Fotografia 38 – Área de banho “rumbolposs” nos dias atuais.
Fonte: Weissheimer, C., 2007
124
As Fotografias 39 e 40 mostram outros tipos de ocupações
irregulares em áreas de preservação permanente (APPs) como construções civis na área
urbana e lavouras na área rural.
Fotografia 39 - arroio “espremido”
entre construções urbanas
Fonte: Weissheimer, C., 2006
Fotografia 40 - Cultivo ocupando as
margens do arroio da Bica
Fonte: Weissheimer, C., 2006
5.2.3 - Despejos de esgotos domésticos e efluentes industriais
Em geral, quando a cidade tem pequeno número de habitantes é
utilizada apenas a fossa séptica para disposição do esgoto cloacal. Grande parte das
residências em Nova Hartz ainda hoje utiliza apenas fossas sépticas como destino final.
Com a falta de investimento em sistemas de tratamento de esgotos, os mesmos são
ligados a rede pluvial, sendo que o destino de todo esse material são os corpos hídricos
receptores, o que tende a contaminar uma parte superior do aqüífero, com o fato
agravante de o abastecimento de água depender das águas subterrâneas, através de poços
escavados, artesianos e nascentes. A qualidade dessas águas tende a reduzir à medida
que cresce o número de usuários, passando a exigir um tratamento químico para
combater a contaminação por coliformes fecais e outras substâncias.
125
Szubert, et. al. (1994), destacam que em Nova Hartz: “o
esgotamento cloacal é feito por fossas sépticas ligadas à rede pluvial ou por sumidouros,
o que representa riscos efetivos de contaminação da água pela proximidade: pontos de
captação x pontos de lançamentos”. Nesse mesmo trabalho, afirmam os técnicos não
existir segurança de que os poços individuais não estejam comprometidos
qualitativamente pelos esgotos, uma vez que a sua disposição final não é precedida por
qualquer tratamento ou controle.
O que se observa, ainda hoje, é exatamente este descuido perante a
legislação vigente que exige o distanciamento mínimo de 6 m entre a fossa e o poço.
Este fato é agravado pela inexistência de fiscalização eficaz do Poder Público em obras
civis, acrescida ao fato de os poços terem pouca profundidade.
Cabe lembrar que a área urbana de Nova Hartz está, quase em sua
totalidade, assentada sobre o Arenito Botucatu, que, devido a sua constituição e
estrutura, funciona como uma “esponja”. Esta propriedade da rocha sedimentar, no caso
dos poluentes, tem efeitos positivos e negativos, dependendo do tipo de poluente
considerado. Por exemplo, para os coliformes fecais oriundos do esgoto cloacal não
tratado, uma camada considerável de rocha porosa pode causar a morte das bactérias
antes delas alcançarem lençóis freáticos mais profundos, como o Aqüífero Guarani. No
entanto, outros poluentes químicos, como os organoclorados e os fosfatados conseguem
migrar até as águas subterrâneas mais profundas, seja qual for a espessura da camada
sedimentar do Arenito Botucatu. Na verdade pouco se sabe sobre o comportamento dos
poluentes quando atingem os lençóis freáticos, pois existem diferentes formas de
confinamento das águas subterrâneas e seu estudo é difícil e oneroso.
A falta de saneamento básico é retratada nas Fotografias 41 e 42,
onde se evidencia o uso do arroio como destino direto dos esgotos domésticos na área
urbana. No percurso pelo arroio vários desses canos de concreto foram observados e
georreferenciados, sendo que no local do lançamento existe odor desagradável.
126
Fotografia 41 - Esgoto doméstico sendo lançado diretamente
no arroio Grande, Nova Hartz
Fonte: Weissheimer, C., 2004
Fotografia 42 - Ocupação urbana de APP com despejo
de efluentes residenciais no arroio Fuzil, Nova Hartz
Fonte: Weissheimer, C., 2004
127
Verificou-se que a emissão dos efluentes industriais nos arroios
não está sendo monitorada satisfatoriamente. Isso pode ser constatado através de
pesquisa nas licenças ambientais através do site da Fepam. Existem também relatos de
moradores sobre o aparecimento periódico de oleosidade superficial e de manchas
coloridas nas águas do arroio Grande. Em uma das saídas em campo no arroio Grande
foi encontrado cano de despejo de efluentes, logo atrás de empresa de calçados
(Fotografia 43), no ano de 2000. Após essa data só temos relatos sobre algumas
incidências de “colorações” nas águas do arroio Grande, sem contudo comprovação de
sua origem.
Fotografia 43 - Despejo de efluente industrial no arroio Grande
Fonte: Weissheimer, C., 2000
Muitas atividades não possuem licenciamento ambiental e
tampouco tem sido exigido pelos responsáveis (órgãos governamentais) e pela
comunidade deste município. É comum, por exemplo, a atividade de mineração sem o
licenciamento ambiental, conforme registrado em imagem de satélite (Figura 27).
128
Figura 27 - Área de mineração sem licença ambiental
Fonte: Google Earth, 2003
No entanto, a população tem demonstrado preocupação em relação
à água subterrânea, questionando sua qualidade e a falta de esgotamento sanitário que
está diretamente relacionada com a saúde pública. Sobre os arroios existem ocasionais
manifestações que reivindicam melhor qualidade, geralmente incentivadas nas escolas
em datas históricas como desfile da semana da pátria ou do meio ambiente. Observou-
se, contudo, que essas manifestações, raras vezes, resultaram em medidas eficazes para
solucionar os problemas apresentados, carecendo de medidas e exigências de caráter
legal, como fiscalização efetiva e cumprimento das leis ambientais. Desta forma, os
problemas sócio-ambientais em Nova Hartz têm se intensificado a cada nova
administração, sem que ações eficazes sejam executadas para minimizar ou mesmo
sanear esses problemas que atingem a saúde da população.
129
5.2.4 - Deposição de Resíduos Sólidos (lixo)
A partir da década de 1970 houve a ascensão da indústria
calçadista que gerou grande quantidade de resíduos sólidos perigosos (aparas e raspas
de couro curtidos a cromo) que foram depositados diretamente sobre o solo e usados,
inclusive, como aterro em áreas alagadas e para substrato de estradas nas áreas rurais e
urbanas. A erosão e o trabalho das chuvas sobre o solo está fazendo com que estes
depósitos de couro aflorem e tragam consigo o chorume resultante do processo de
deterioração desse material. Em alguns locais, após as chuvas, encontra-se o chorume
escoando na superfície do solo, resultado da decomposição de couro enterrado há mais
de 40 anos, como pode ser visto na Fotografia 44, em estrada rural de servidão,
raramente usada.
Na década de 1980 houve também a utilização das aparas de
couro para alimentar fornos usados na fabricação de tijolos, em olaria situada nas
margens do arroio Grande. Essa área atualmente é ocupada por residências cujo
abastecimento de água é feito exclusivamente através de poços artesianos de pouca
profundidade. Sabe-se também que esse local, hoje Bairro Liberdade, era formado por
banhados que receberam aterros com resíduos industriais.
A contaminação trazida pelos resíduos sólidos é sutil, pois seus
efeitos não são facilmente observáveis e podem causar efeitos até mais graves do que a
poluição por efluentes líquidos. Nestes resíduos sólidos depositados em solos
permeáveis, a água da chuva descola gradativamente os produtos químicos das aparas
de couro e os leva, com o tempo, até os lençóis freáticos, podendo contaminar tanto a
água de consumo humano quanto a de abastecimento das propriedades rurais (afetando
agricultura e pecuária). Esses resíduos sólidos industriais foram também constatados
recentemente, em 2006, nas margens de arroios afluentes do arroio Grande (Fotografia
45).
130
Fotografia 44 – Chorume em estrada vicinal – área rural
Fonte: Weissheimer, C., 2004
Fotografia 45 - Aparas de couro nas margens de arroio assoreado
Fonte: Weissheimer, C., 2004
131
No entanto, não existe estudo específico sobre o
comprometimento do solo e das águas subterrâneas que abastecem o município de Nova
Hartz. Aqui existe o agravante de a área estar assentada sobre a Formação Botucatu, o
que significa dizer área de recarga do Aqüífero Guarani, um dos maiores reservatórios
subterrâneos de água doce do planeta, que aflora nessa região. Aqui, o Aquífero possui
pontos próximos à superfície que não estão protegidos e são extremamente frágeis às
alterações do ambiente. Em Nova Hartz essa formação ocupa a maior parte da área mais
densamente povoada e onde as intervenções humanas se fazem presentes de forma
desordenada e sem planejamento ambiental. Em alguns locais, basta cavar 6 m para
encontrar água em abundância, o que pode significar também oportunidade para entrada
de contaminantes para os lençóis freáticos que abastecem boa parte da população do
município.
Outro fato que pode contribuir para a poluição de aqüíferos são
os aterros sanitários que os contaminam pelo processo natural de precipitação e
infiltração. O aterro sanitário de Nova Hartz (antigo lixão) encontra-se sobre a
Formação Botucatu, como mostra a foto 45. Esse aterro, devido às suas irregularidades,
sofreu interdição pelo órgão ambiental estadual - a FEPAM - no ano de 2000 e
atualmente está em processo de recuperação natural (Fotografia 46).
Fotografia 46 - Antigo lixão de Nova Hartz sobre Botucatu
Fonte: Fepam, 2000
132
A atual Usina de Reciclagem, em operação desde 2000
apresentou problemas, como o rompimento da lagoa de contenção, em 2005, vazando o
chorume acumulado por anos, diretamente em arroio próximo. Segundo relato de
moradores vizinhos à usina, o fato não chegou ao conhecimento dos órgãos
fiscalizadores e o município não foi autuado.
A deposição irregular de resíduos sólidos industriais ainda se faz
presente em diversos focos distribuídos pela área do município, seja rural ou urbana.
Não é raro encontrar-se, por exemplo, aparas de couro, latas de tinta e componentes da
fabricação de calçados jogados diretamente sobre o solo e próximos aos arroios. A
Fotografia 47 mostra restos de construção civil e aparas de couro às margens do arroio
Grande, à montante da área urbana. Alguns metros a jusante foram encontradas
embalagens de produtos químicos usados na indústria calçadista (Fotografia 48).
Fotografia 47 – Aparas de couro e restos de construção encontrados às margens do
arroio Grande
Fonte: Weissheimer, C., 2007
133
Fotografia 48 - Resíduos sólidos industriais à margem do arroio Grande
Fonte: Weissheimer, C., 2007
5.2.5 – Barragens e retificações do leito
A barragem é uma barreira dotada de uma série de comportas ou
outros mecanismos de controle, construída transversalmente a um rio, para controlar o
nível das águas de montante, regular o escoamento ou derivar suas águas para canais.
As pequenas barragens encontradas no percurso dos
aproximadamente 7 km estudados do arroio Grande serviam para represar e/ou desviar a
água através de canais para que a água movimentasse rodas d’água que, por sua vez,
geravam energia necessária para mover as engrenagens das atafonas. Conforme visto
anteriormente no cap. IV, a produção de farinha de mandioca marcou época na
economia local. Muitas dessas barragens não existem mais e as que ainda persistem não
têm mais a utilidade de outrora. A não ser as que servem para desviar água para açudes,
o que diminui a vazão do arroio, prejudicando sua hidrodinâmica, além de se constituir
em barreira para a migração dos peixes que desovam nas cabeceiras dos arroios. A
Fotografia 49 mostra uma dessas pequenas barragens, em área rural muito próxima á
134
área urbana e central do município. As ruínas de outra barragem, de altura superior a 1,5
m, pode ser observada na Fotografia 50, sendo que esta fica à uns 500m a montante da
anterior, na área rural.
Fotografia 49 – Barragem dos Pilger no arroio Grande
Fonte: Weissheimer, C., 2006
Fotografia 50 – Ruínas da barragem dos Schönardie no arroio Grande
Fonte: Weissheimer, C., 2006
Quanto às retificações, o arroio Grande e alguns de seus
tributários tiveram longos trechos de seus leitos “corrigidos”. A Figura 28 foi feita
135
justapondo-se o traçado dos arroios digitados da Carta do exército à foto atual do
Google Earth e destacando em azul o traçado atual. Assim, pode-se observar o quanto
houve desvio no curso natural desse arroio e de parte do arroio da Bica.
Figura 28 – Traçado antigo do leito do arroio Grande (em preto) e
traçado atual após retificação (em azul).
Fonte: Modificado de GEOFEPAM, 2006
A diminuição drástica de fauna aquática no arroio Grande pode
ser verificada através dos relatos dos moradores. Atualmente, ainda pode ser observada
a presença de jundiás, lambaris, carás, mandim, mas só no curso médio do arroio, até
porque as pequenas barragens e as cascatas impedem a migração dos peixes para áreas
mais próximas das nascentes onde a qualidade das águas é mais favorável à sua
procriação.
O aumento da velocidade decorrente das retificações causa a
diminuição da infiltração da água e, consequentemente, a redução da recarga dos
aqüíferos e da vazão do arroio. Esse pode ser um dos fatores da diminuição de oferta de
136
água subterrânea observada na região. Segundo os moradores, atualmente muitos poços,
principalmente os mais rasos, chegam a secar durante épocas menos chuvosas, o que há
tempos atrás não acontecia. Evidentemente que o crescimento populacional do
município, com a abertura de milhares de poços nos últimos 15 anos é uma das
principais causas desse fenômeno.
5.3A qualidade das águas do arroio Grande
O projeto Monalisa, executado pela UNISINOS em parceria com
a SEMA/DRH/FRH-RS e cuja etapa de mapeamento dos impactos na bacia hidrográfica
do rio dos Sinos foi concluído em 2007, criou um índice de qualidade ambiental através
da atribuição de escores nas categorias de impacto. Estes escores foram somados para
cada segmento de cinco quilômetros do próprio rio dos Sinos e de todos os seus
afluentes. Este método revelou os trechos de maior concentração de impactos, que
receberam a cor vermelha no mapa. Trechos com escores intermediários receberam a
cor amarela, e os trechos com pouco impacto, foram identificados pela cor verde, como
mostra, para o município de Nova Hartz (Figura 29).
Figura 29 - Classificação dos arroios de Nova Hartz, segundo um
índice de qualidade ambiental
Fonte: UNISINOS / SEMA - Projeto Monalisa
Observa-se claramente que os trechos mais impactados
correspondem aos trechos de maior índice de ocupação e/ou uso humano. Veiga (2001)
nos traz o conceito de rurbano, que seria o município que apresenta densidade
demográfica acima de 80 hab/km
2
. Nova Hartz, portanto, se enquadra nessa tipologia de
137
cidade. Essa concentração urbana está claramente contribuindo na formação do quadro
de acentuado impacto ambiental constatado nos trechos dos arroios que atravessam as
áreas urbanas desse município.
A influência das águas superficiais na qualidade e quantidade das
águas subterrâneas foi apontada na resolução nº 15/2001 do Conselho Nacional de
Recursos Hídricos, que “reconhece a interação entre água superficial e subterrânea e a
indissociabilidade de gestão destes dois tipos”. Szubert et. al. (1994) já alertavam para o
problema: “é provável também a contaminação do aqüífero confinado profundo se a
porção superficial contaminada do poço não for adequadamente isolada”. Esta suposição
teve origem na constatação de inúmeros poços mal lacrados encontrados em Nova Hartz
e que são possíveis fontes de contaminação dos aqüíferos subterrâneos.
A contaminação das águas subterrâneas não tem somente origem na
intervenção humana sobre os recursos naturais. Tem-se a informação, por exemplo, que
o município vizinho de Araricá enfrenta problema devido à presença de altas doses de
Flúor nas águas dos poços. Esse fenômeno, segundo geóloga da CPRM (informação
pessoal) pode ser de origem litológica.
Em Nova Hartz, através das entrevistas e das observações em
campo, foi constatada a existência de extensas áreas aterradas utilizando couro curtido a
cromo, entre as décadas de 1960 e 1990, em diferentes bairros do município e em áreas
rurais. Atualmente, esses terrenos são ocupados por residências e por lavouras. Não há
conhecimento de nenhum tipo de análise toxicológica das águas subterrâneas ou dos
solos que pudessem comprovar a existência de intoxicação por metais pesados para a
região em estudo. Assim, pode-se apenas supor que as águas dos lençóis freáticos e os
solos estejam contaminados por metais pesados utilizados na fabricação de calçados e
dispostos durante mais de 30 anos sobre os solos permeáveis desse município.
5.3.1 – Índice de Qualidade da Água (IQA)
Um Índice de Qualidade de Água (IQA) é um valor numérico que
pode variar entre zero a cem, traduzindo sinteticamente a qualidade de água de um
138
manancial hídrico. Pela forma simplificada como esse índice é apresentado, torna-se
compreensível para a comunidade usuária, que, através dessa pontuação tem acesso aos
resultados das análises obtidas da rede de monitoramento.
Para obtenção do IQA existe um peso relativo para cada
parâmetro que foi obtido na experiência dos técnicos que atuam na área. Cabe lembrar
que, além de um caráter subjetivo, como cita Haase (1993): “todos esses índices
contemplam um grau de subjetividade, pois dependem da escolha das variáveis que
constituirão os indicadores principais das alterações da qualidade de água”. A avaliação
do IQA considera somente os parâmetros mais significativos que são essenciais à
manutenção da biota aquática. A existência de substâncias tóxicas que podem
comprometer a qualidade do curso de água necessita da incorporação ao IQA de um
Índice de Toxidez.
O objetivo do IQA no presente estudo é fornecer um dado
momentâneo, que reflete apenas a condição da água no momento da coleta e não utiliza
índice de toxidez. Portanto, o IQA do trecho estudado não é uma avaliação da qualidade
das águas desse arroio, devido suas limitações metodológicas que não contemplam as
características peculiares do manancial hídrico em foco. Serve, no entanto, como
ferramenta adicional à interpretação dos dados de qualidade da água e como informação
acessível à população usuária dessas águas.
Utilizaram-se os parâmetros adotados para estabelecimento do
IQA do rio dos Sinos pela Fepam, que são: Oxigênio dissolvido (OD), turbidez, pH,
coliformes fecais, sólidos totais, temperatura, nitratos, fosfatos e Demanda Bioquimica
de Oxigênio (DBO). .As amostras de água foram coletadas dia 23 de janeiro de 2007
nos pontos do arroio Grande indicados na Figura 30. Esses parâmetros são importantes
na medida em que indicam o impacto do uso do solo e da própria água sobre a sua
qualidade.
A Figura 30 mostra uma imagem de satélite do GoogleEarth,
indicando a localização dos pontos de coleta de água no arroio Grande.
139
Figura 30 – Localização dos pontos de coleta de água em foto satélite
Fonte: Modif. do Google Earth, 2007
5.3.1.1 – Metodologia
Para o cálculo do Índice de Qualidade de Água (IQA) adotou-se o
método desenvolvido pela National Sanitation Foundation (NSF). Este método consiste
em traduzir os resultados dos parâmetros selecionados em notas parciais de qualidade
que variam de 0 (zero) a 100 (cem). As notas parciais são obtidas a partir de curvas
especificas, sendo atribuídos pesos diferenciados a cada parâmetro, considerando-se os
parâmetros físico-químicos e bacteriológicos: pH, turbidez, oxigênio dissolvido (OD),
140
demanda bioquímica de oxigênio (DBO), nitrato, fosfato, sólidos totais e coliformes
fecais. Os pesos maiores são atribuídos aos parâmetros mais significativos, ou seja, que
refletem as características essenciais à manutenção da biota no manancial hídrico.
Os parâmetros aplicados para obtenção do IQA e os pesos
respectivos são apresentados no Quadro 9.
Quadro 9 - Pesos relativos dos parâmetros
adotados pela Fepam e Comitesinos
PARÂMETRO PESO RELATIVO
Oxigênio Dissolvido (OD) 0,19
Coliformes fecais 0,17
pH 0,13
DBO 0,11
Fosfato Total 0,11
Nitrato 0,11
Turbidez 0,09
Sólidos Totais 0,09
A fórmula usada para o cálculo do IQA foi multiplicativa. A
equação usada para o cálculo foi:
IQA = π. qi.
wi
, onde
π = símbolo de produtório;
wi = peso relativo do i – ésimo parâmetro;
qi = qualidade relativa do i – ésimo parâmetro;
i = número de ordem do parâmetro (1 a 8)
O IQA é agrupado em intervalo de classes relacionadas à
qualidade de água obtida nas análises e cálculos, semelhantes ao proposto pela NSF,
conforme Quadro 10. Somou-se cores diferenciadas para cada conceito, facilitando a
identificação das faixas no quadro dos resultados (Quadro 12, pág. 148).
141
Quadro 10 – Faixas de IQA e classificação da qualidade das águas (conceito) e cores
O Quadro 11 apresenta as metodologias usadas em laboratório
para análise dos parâmetros.
Quadro 11 – Metodologias usadas em laboratório para análise das águas
Oximetria Espectofoto
-metria
Potencio-
metria
Tubos
Múltiplos
Gravi-
metria
OD
Colif. Fecais
pH
DBO
Fosfato Total
Nitrato
Turbidez
Sólidos Totais
5.3.1.2 – Descrição dos parâmetros de qualidade utilizados
Turbidez
FAIXA DE IQA CONCEITO CORES
0 - 25 MUITO RUIM
26 - 50 RUIM
51 - 70 REGULAR
71 - 90 BOA
91 - 100 EXCELENTE
142
A turbidez é a medida da transparência de uma amostra ou corpo
de água, que indica a redução de penetração da luz, devido à presença de matéria em
suspensão ou substâncias coloidais. É um dos parâmetros físicos da água mais afetados
pelo aporte de sedimentos nos cursos de água. É medida em UNT (unidade
nefelométrica de turbidez).
A turbidez na água é causada pela presença de materiais em
suspensão, tais como argilas, siltes, matéria orgânica e inorgânica finamente dividida e
organismos microscópicos, resultantes de processos naturais de erosão, mas também da
descarga de esgotos. A turbidez diminui a penetração da luz na água, reduzindo a
fotossíntese.
Segundo Word e Elliot, citados em Silva et al (2004), declaram
que o sedimento é, provavelmente, o mais significativo poluente, devido aos seus
impactos na água e seus efeitos no transporte de outros poluentes. Estudos mais recentes
associam à variável turbidez em mananciais que recebem despejos de esgotos
domésticos à presença de organismos patogênicos, tornando-se além de um parâmetro
de controle estético um parâmetro sanitário de qualidade. (SANTOS et al.1999). Nos
processos de descontaminação das águas para uso humano, a turbidez pode reduzir a
eficiência da cloração, pela proteção física dos microrganismos do contato direto com os
desinfetantes, além de transportar matéria orgânica absorvida que pode provocar
alteração de sabor e odor. Além disso, o Cloro é consumido no processo de oxidação da
matéria orgânica, prejudicando a eficiência de seu efeito depurador. Já em águas
límpidas, com baixa turbidez, os microorganismos patogênicos e outros elementos
tóxicos não encontram refúgio e são mais eficazmente eliminados.
Outro importante efeito da turbidez diz respeito à entrada de luz
na coluna de água, necessária para o processo fotossintetizante que é vital para a
produção primária dos ecossistemas aquáticos. A turbidez afeta, dessa forma, toda a
cadeia alimentar, o que significa a própria sobrevivência do ecossistema afetado.
143
pH - Potencial Hidrogeniônico
O pH, ou potencial hidrogeniônico, está relacionado com a
quantidade livre de íons hidrogênio em solução aquosa, indicando a acidez ou
alcalinidade da solução. Calcula-se a partir do logaritmo negativo de base 10 da
concentração de íons de hidrogênio em moles por litro. A concentração de ion-
hidrogênio é um importante parâmetro tanto das águas naturais como das águas
servidas, pois a existência de grande parte da vida biológica só é possível dentro de
estreitos limites da variação desse parâmetro.O pH 7 indica solução neutra; valores
maiores de 7 indicam solução alcalina e valores abaixo de 7 são ácidos. O pH de um
corpo d'água também pode variar, dependendo da área (no espaço) que este corpo
recebe as águas da chuva, os esgotos e a água do lençol freático. Quanto mais ácido for
o solo da bacia, mais ácidas serão as águas deste corpo d'água.
A faixa de pH permissível varia com outros fatores como
temperatura, OD, conteúdo de outros cátions e ânions. As águas superficiais possuem
um pH entre 4 e 9. Podem estar ligeiramente alcalinas devido à presença de carbonatos.
Porém pH muito ácido ou muito alcalino pode estar associado à presença de despejos
industriais. Também um rápido aumento do pH causa acréscimo na concentração de
amônia, que é tóxica.
O pH é muito influenciado pela quantidade de matéria morta a ser
decomposta, sendo que quanto maior a quantidade de matéria orgânica disponível,
menor o pH e mais ácida a solução, pois para haver decomposição desse material muitos
ácidos são produzidos (como o ácido húmico). As águas conhecidas como “pretas” (por
exemplo o Rio Negro, no Amazonas) possuem pH muito baixo, devido ao excesso de
ácidos em solução.
DBO – Demanda Bioquimica de Oxigênio
Segundo Moreira (1990), DBO é: “a determinação da quantidade
de oxigênio dissolvida na água e utilizada pelos microorganismos na oxidação
144
bioquímica da matéria orgânica”. É o parâmetro mais empregado para medir a poluição,
normalmente utilizando-se para a análise a demanda bioquímica de cinco dias (DB05).
A determinação de DBO é importante para verificar-se a quantidade de oxigênio
necessária para estabilizar a matéria orgânica. Portanto, pode indicar a presença de
matéria orgânica, que pode ter origem nos esgotos cloacais ou nos efluentes industriais.
Quanto maior a DBO na água, menor a concentração do oxigênio que nela está
dissolvida.
Quando executado em águas de rio, este teste mede as condições
de poluição por matéria orgânica tanto de origens industriais como urbanas. Essa
demanda pode ser tão grande que consome todo o oxigênio dissolvido na água,
ocasionando a morte de todos organismos aquáticos aeróbios. Foi o que ocorreu no mês
de outubro de 2006 no rio dos Sinos, que resultou na morte de mais de 90 toneladas de
peixes (mais de 1 milhão de peixes) em um trecho de 15 km do rio, entre os municípios
de Portão e Sapucaia do Sul, sendo identificados pelo menos 26 produtos químicos nas
amostras de água e de peixes recolhidas no rio dos Sinos.
OD - Oxigenio dissolvido
Naturalmente existem duas fontes de oxigênio para os sistemas
aquáticos: a primeira é a atmosfera e a segunda é a fotossíntese, realizada pelos seres
vivos. Por isso a medida de oxigênio é muito importante para se determinar o estado de
saúde do sistema. Quando se têm pouco oxigênio, é provável que haja algum problema
no sistema. Por exemplo, despejo de esgotos ou retirada de areia do fundo. Essa retirada
levanta o material depositado no fundo (sedimento), promovendo o aumento da
decomposição e conseqüente diminuição do oxigênio pela demanda microbiana e
também pelo aumento da turbidez que afeta o processo fotossintético que produz
oxigênio.
O oxigênio dissolvido na água é fundamental para manutenção da
vida aquática. Quanto menor a concentração de oxigênio dissolvido, maior é a
possibilidade de ocorrência de mortandade de peixes e outros seres vivos do meio
aquático. Concentrações abaixo de 2,0 mg/l de oxigênio podem ocasionar mortandade
de peixes. No caso da maior mortandade de peixes ocorrida no rio dos Sinos em outubro
145
de 2006, o nível de OD chegou a 0,3 mg/l. Altas concentrações de oxigênio dissolvido,
além de benéficas para a vida aquática, favorecem a depuração da matéria orgânica
lançada nos corpos hídricos.
Para Moreira (1990): "o oxigênio dissolvido é requerido para a
respiração dos microorganismos aeróbios e de todas as outras formas de vida aeróbias.
A quantidade de oxigênio dissolvido depende de: (1) solubilidade do gás: (2) pressão
parcial do gás na atmosfera; (3) temperatura; (4) grau de pureza (salinidade, sólidos em
suspensão etc.) da água. Como as reações bioquímicas que utilizam o oxigênio
aumentam com o aumento da temperatura, os níveis de oxigênio dissolvido tendem a
ser mais críticos no verão".
Coliformes fecais
Este parâmetro visa avaliar o potencial de contaminação da água
por microorganismos patogênicos de origem fecal. Baseia-se na determinação da
concentração de coliformes fecais em um dado volume de água.
As bactérias do grupo coliformes não são, normalmente,
patogênicas, mas são organismos de presença obrigatória, em grandes números, nos
intestinos humanos e, portanto, na matéria fecal. Calcula-se que um ser humano adulto
elimina de 50 a 400 bilhões dessas bactérias. Assim sendo, sua presença permite
detectar a presença de fezes na água em concentrações extremamente diluídas,
dificilmente verificáveis pelos métodos químicos correntes. Como, por outro lado, as
bactérias patogênicas humanas veiculadas por água estão sempre associadas às fezes, a
presença de coliformes significa a presença potencial de patógenos, que podem
transmitir doenças como: cólera, disenteria amebiana e bacilar, febre tifóide e
paratifóide, gastroenterite, giardíase, hepatite infecciosa, leptospirose, salmonelose,
paralisia infantil, esses por ingestão de água contaminada. Também doenças como a
escabiose, o tracoma, as verminoses e a esquistossomose, podem ser transmitidas ao ser
humano por contato com água contaminada. A transmissão de doenças por meio de
vetores, como os insetos que se desenvolvem na água, são: a dengue, a febre amarela, a
filariose e a malária.
146
No entanto, o parâmetro coliformes fecais permite identificar o
efeito nocivo da poluição sem a necessidade do estudo analítico de identificação dos
patógenos, o que seria muito mais oneroso e demorado. A simples verificação de
ausência dos patógenos em uma pequena amostra não permite inferir que eles não
podem estar presentes na água a ser consumida, sendo que a ausência de coliformes
fecais permite, sem dúvida, concluir sobre a não existência de matéria fecal na amostra,
o que torna esse parâmetro mais seguro e prático.
Sólidos totais
Conforme Lund (1971) citado por Moreira (1990) , o conceito de
sólidos totais “é a quantidade total de sólidos presentes em um efluente, tanto em
solução quanto em suspensão". Já o material em suspensão, como o nome já diz, é o
material particulado não dissolvido, encontrado suspenso no corpo de água, composto
por substâncias inorgânicas e orgânicas, incluindo-se aí os organismos planctônicos.
Tem influência direta na diminuição da transparência da água, impedindo a penetração
da luz.
Moreira (1990) afirma que: "analiticamente, os sólidos totais
contidos nos esgotos são definidos como a matéria que permanece como resíduo depois
da evaporação à temperatura compreendida entre 103ºC e 105ºC".
A quantidade e natureza dos sólidos nas águas é muito variável,
abrangendo valores de 20 a 1000 mg/l. Quanto à natureza, de maneira geral, são
divididos em sólidos suspensos (resíduo não filtrável) e sólidos dissolvidos (resíduo
filtrável). Os sólidos totais afetam a dureza da água e aumentam com o grau de poluição.
Nitratos
As águas naturais contêm nitratos em solução. Os nitratos são o
produto final da estabilização aeróbica do nitrogênio orgânico e, como tal, eles ocorrem
147
em águas poluídas que tenham sofrido um processo de autopurificação ou processo de
tratamento aeróbico. A presença de nitratos denuncia a existência de poluição recente,
uma vez que essas substâncias são oxidadas rapidamente na água, graças,
principalmente à presença de bactérias nitrificantes. Freqüentemente ocorrem
concentrações elevadas de nitratos em poços de pouca profundidade, em sítios. Isso se
deve, em grande parte, à deficiência na proteção de poços e proximidade de fossas
sépticas. Outro fator que pode contribuir para o aumento do nitrato é a drenagem de
fertilizantes do solo para o manancial hídrico.
Stevenson, citado em Resende et. al. (2002) afirma que: “os
impactos do nitrato atingem a saúde humana (metaemoglobina em crianças, câncer,
doenças respiratórias), na saúde animal (morte de animais domésticos), na saúde das
plantas (crescimento diminuto ou excessivo) e na qualidade do ambiente (eutrofização e
redução do oxigênio atmosférico).
Resende et al (2002) também citam que: “a agricultura pode não
ser a única fonte geradora do aumento dos níveis de nitratos em cursos de água, pois
trabalhos recentes indicam que a urbanização pode ser o fator principal em algumas
áreas, onde altas doses de fertilizantes (além das necessárias) são usadas em jardins e
gramados”. Ressaltam os mesmos autores que os solos arenosos tem maior potencial de
contaminação dos cursos de água por serem mais sujeitos à erosão.
Como o nitrato tem alta mobilidade – por ser solúvel em água e
não se ligar a partículas do solo – tornou-se um dos principais poluentes da água
subterrânea.
Fosfatos
Os compostos de fósforo são um dos mais importantes fatores
limitantes à vida dos organismos aquáticos, pois tem papel fundamental no controle
ecológico das algas. Despejos orgânicos e alguns tipos de despejos industriais podem
enriquecer as águas com esse elemento.
Quando quantidades suficientes de compostos nitrogenados
estiverem presentes na água, concentrações de fósforo acima de 0,1 mg/l podem causar
148
problemas devido ao desenvolvimento de lodos e crescimento de algas, os quais afetam
o uso público, industrial e de recreação. A presença do fosfato acima dos padrões
ambientais pode causar, portanto, efeitos nocivos, como a eutrofização acelerada, com
aumento de odores e gosto na água; toxicidade sobre todos os organismos aquáticos,
especialmente os peixes; prejuízos no tratamento da água, interferindo na coagulação,
floculação e tratamento soda-ca,l assim como na coagulação quando sua concentração
ultrapassa 0,1 mg/l.
Temperatura
Este parâmetro é de fundamental importância para os sistemas
aquáticos terrestres, já que os organismos possuem diferentes reações às mudanças
deste fator.
A maior parte dos organismos aquáticos tem sua temperatura
regulada pelo meio externo. Por tanto nestes organismos a velocidade de suas reações
metabólicas dependem da temperatura da água. A elevação desta temperatura, por
introdução de águas mais quentes (poluição térmica) acelera os mecanismos de
respiração, nutrição, reprodução e movimentação. Caso haja abaixamento de
temperatura o efeito é contrário.
Nos sistemas aquáticos a temperatura da água possui ainda
diversas interações com outras variáveis, como a solubilidade dos gases.
A temperatura da água apresenta pequena variação, de forma lenta
durante o dia, garantindo a sobrevivência dos seres aquáticos. Mudanças na temperatura
podem resultar em modificações em outras propriedades como: redução da viscosidade
da água por elevação da temperatura, podendo ocorrer o afundamento de muitos
microrganismos aquáticos, principalmente do fitoplâncton; e o aumento da sua
densidade pela redução de temperatura, que ocorre até uma temperatura de 4ºC, abaixo
da qual a densidade diminui. A água possui densidade máxima a 4ºC.
149
5.3.1.3 – Resultados
A única campanha de coleta de amostras de água do arroio Grande
realizada no presente estudo não é suficiente para estabelecer um Índice de Qualidade de
Água desse arroio. Os resultados traduzem o estado das águas para o momento da
coleta, porém, as informações obtidas contribuíram para a análise dos impactos
ambientais verificados na sub-bacia.
O Quadro 12 apresenta a planilha de cálculo com os resultados
obtidos conforme fórmula descrita anteriormente, para os pontos de coleta 1,2 e 3. O w
i
representa o peso relativo do parâmetro, adotado nesse trabalho. O q
i
é a qualidade
relativa do i-ésimo do parâmetro e o é o símbolo do produtório.
Quadro 12 – Resultados do cálculo do IQA para as águas do arroio Grande nos pontos de
coleta
FONTE: Fepam, DMAE, Corsan
Para cada amostragem foi realizada análise individual, para fins
de classificação nas classes conforme resolução n° 357 do CONAMA. Fundamentando-
se nessa resolução, foram observados os teores máximos permitidos para cada classe, à
exceção do OD, onde foi considerado o valor mínimo.
150
No ponto 1, próximo a uma das nascentes do arroio Grande, todos
os resultados das análises dos 8 parâmetros classificam as águas nesse ponto na classe 1.
A pequena concentração de coliformes fecais é, provavelmente, resultante da criação de
animais em propriedades rurais a montante do ponto de coleta. No ponto 2, situado a
jusante do centro urbano, dois parâmetros – coliformes fecais e fosfato total –
apresentaram índices fora dos padrões de classificação para a classe 1. A falta de
tratamento de esgoto e o despejo desses diretamente no arroio, constatado e mapeado no
mapa dos despejos de efluentes, é a provável causa dessa diminuição na qualidade das
águas nesse ponto de coleta. No ponto 3, em área rural, a uns 2 km a jusante da área
urbana, três parâmetros apresentaram-se com índices que os classificam na classe 2. Um
decréscimo no oxigênio dissolvido pode estar relacionado à menor capacidade
depurativa do arroio neste trecho devido à maior quantidade de sedimentos e menor
velocidade e aeração das águas. Outro fator que pode estar influenciando essas
alterações é a contribuição das águas dos dois arroios tributários, o arroio da Bica e o
Tigre, que deságuam poucos metros a montante desse ponto.
Quanto ao parâmetro temperatura, o ponto 1, próximo as nascentes,
apresentou a temperatura mais baixa, devido ao sombreamento das margens e
velocidade da correnteza. Já os pontos onde as águas receberam despejos e elementos
sólidos provenientes das atividades humanas e onde a incidência solar é maior,
apresentaram 3° C a mais, ou seja, ambos os pontos apresentaram temperatura de 24° C.
O parâmetro Demanda Bioquimica de Oxigênio (DBO) nos três
pontos do arroio Grande apresentou índices em conformidade com a resolução 357/2005
do Conama para a Classe 1. No entanto, percebe-se uma significativa diminuição da
qualidade das águas no ponto 2, em área urbana e um aumento na qualidade desse ponto
até o 3, em trecho rural a jusante da urbana. A alteração da DBO, que alcançou maiores
índices no ponto 2, indica a presença de maior quantidade de matéria orgânica e isso se
deve ao lançamento de esgotos no arroio a montante, quando ele atravessa a área urbana.
O oxigênio dissolvido (OD) nos pontos 1 e 2 apresentaram-se
dentro da classe 1, sendo que no ponto 3 o resultado menor que 6,0 mg/L o classifica na
classe 2. 0 pequeno decréscimo de OD dos pontos a montante para esse ponto pode estar
relacionado ao aumento de temperatura da água e diminuição da vazão.
151
O parâmetro sólidos totais nos três pontos do arroio Grande está
dentro dos padrões legais. No entanto, observa-se que do ponto 1 para o ponto 2 o valor
duplicou, após atravessar a área urbana. Além da adição de poluentes sólidos advindos
das atividades humanas, ressalta-se o aporte de sedimentos que ocorre na área urbana
devido à erosão acentuada, influenciada pelos valores pluviométricos e pelas
declividades presentes em solos facilmente erodíveis. Portanto, a localização do centro
urbano, logo após as áreas de maior declividade, propicia o acúmulo dos sedimentos
oriundos das partes mais elevadas, causando o assoreamento e a presença maior de
sólidos totais em comparação às partes a montante do arroio, em solos pedregosos e com
mínima atuação da erosão.
Quanto ao parâmetro Turbidez, não foi detectado nos pontos de
coleta de água, o que equivale dizer que a turbidez apresentou-se menor que o 1 (valor
mínimo para detecção).
Nas análises de pH as médias encontradas nos pontos de coleta
foram para o ponto 1 de 7,9, no ponto 2 de 7,6 e no ponto 3 de 7,8. Verifica-se através
das médias nos pontos de coleta em estudo que os mesmos estão dentro das
especificações estabelecidas para os índices de pH, conforme a resolução do CONAMA
357/05 que estabelece para águas de classe 1, 2 e 3 uma faixa com índices de pH entre
6,0 e 9,0.
Quanto aos nitratos, não foi detectado no ponto 1 por serem águas
que sofrem bem menos impactos antrópicos e nos demais pontos encontram-se dentro
dos padrões legais. No município de Nova Hartz é bastante comum lavouras e roças de
aipim, mandioca, milho, feijão, amendoim e outras culturas. Devido à baixa fertilidade
do solo (solos arenosos) o uso de fertilizantes é premissa básica no entendimento dos
plantadores. O uso generalizado e constante do adubo NPK pode ser uma das fontes de
nitrato encontrado nas análises das águas do arroio Grande nos pontos a jusante da área
urbana. Isto porque é comum a presença de roças na área urbana, em terrenos baldios e
nos bairros e o ponto 3, onde o resultado foi um pouco maior, é área essencialmente
agrícola. Já o ponto 1, mais próxima à nascente do arroio, não apresenta uso intensivo
do solo para agricultura e, provavelmente por isso, não foi detectado o nitrato nas águas.
152
Os altos índices de fosfatos encontrados nos pontos 2 e 3 podem
estar relacionados com os despejos cloacais encontrados a montante destes pontos,
principalmente na área urbana.
O ponto 1 apresentou baixa presença de coliformes fecais, dentro
do limite para a classe 1. Os pontos 2 e 3 apresentam índices de coliformes fecais bem
superiores ao do ponto 1, classificando as águas nesses pontos na classe 2. A diferença
dos resultados de coliformes fecais entre o ponto 1, a montante da área urbana e os
pontos 2 e 3, ambos a jusante da área urbana torna evidente a existência do despejo de
efluentes cloacais in natura diretamente no arroio Grande.
Conclue-se que as águas do arroio Grande se apresentam com
uma boa qualidade nos trechos desde as nascentes até o início da área urbana e do final
dessa área até o ponto 3, em área rural. No entanto, no trecho urbanizado, a qualidade
foi regular, pois as águas recebem aí o maior número de impactos.
Observa-se, portanto, uma diminuição na qualidade das águas
depois que elas atravessam a área urbana, sendo que o maior problema é contaminação
por carga orgânica de origem cloacal. Isto se deve ao fato de os arroios estarem sendo
ainda usados como destino dos efluentes cloacais e industriais, sem os devidos
tratamentos. Os nutrientes, como o fosfato, requerem uma avaliação mais específica,
especialmente por terem apresentado altos índices nos pontos 2 e 3.
O Quadro 13 apresenta os resultados das análises das águas do
arroio Grande nos três pontos de coleta e os índices permitidos para cada classe de uso,
segundo resolução n° 357/2005 do CONAMA
Quadro 13 - Resultados das análises das águas superficiais
nos pontos de coleta e classificação segundo res. 357/2005 - Conama
153
PONTO 1 PARÂMETROS RESULTADOS CLASSE 1 CLASSE 2 CLASSE 3
DBO 1,3 mg/L
DBO
5
– até 3 mg/L DBO
5
até 5 mg/L DBO
5
até 10 mg/L
OD
6,0 mg/L
OD – não inferior a 6mg/L OD não inferior a
5mg/L
OD não inferior a
4mg/L
Sólidos Totais
40,0 mg/L
Sólidos Totais máx. 500 mg/L
Sólidos Totais
máx.500 mg/L
Sólidos Totais máx.
500 mg/L
Turbidez
Não detectado
Turbidez até 40 UNT Turbidez até 100
UNT
Turbidez até 100
UNT
pH
7,9
pH de 6,0 a 9,0 pH de 6,0 a 9,0 pH de 6,0 a 9,0
Nitrato
Não detectado
Nitrato 10,0 mg/L Nitrato 10,0 mg/L Nitrato 10,0 mg/L
Fosfato total
Não detectado
Fosfato Total máx 0,1 mg/L Fosfato Total máx
0,1 mg/L
Fosfato Total máx
0,15 mg/L
Coliformes
Fecais
34,0
NMP/100mL
Coliformes Fecais máx. 200
NMP/100 ml
Coliformes Fecais
máx. 1000
NMP/100 ml
máx.2500NMP/100
ml(recreação);
1000NMP/100ml
(dessedentação) e
4000NMP/100ml
(demais usos)
PONTO 2 DBO
2,4 mg/L
DBO
5
até 3 mg/L DBO
5
até 5 mg/L DBO
5
até 10 mg/L
OD
6,0 mg/L
OD – não inferior a 6mg/L OD – não inferior
a 5mg/L
OD – não inferior a
4mg/L
Sólidos Totais
88,0 mg/L
Sólidos Totais máx. 500 mg/L Sólidos Totais
máx. 500 mg/L
Sólidos Totais máx.
500 mg/L
Turbidez
Não detectado
Turbidez até 40 UNT Turbidez até 100
UNT
Turbidez até 100
UNT
pH
7,6
pH de 6,0 a 9,0 pH de 6,0 a 9,0 pH de 6,0 a 9,0
Nitrato
0,04 mg/L N-
NO3
Nitrato 10,0 mg/L Nitrato 10,0 mg/L Nitrato 10,0 mg/L
Fosfato total
0,65 mg/L
Fosfato Total máx 0,1 mg/L Fosfato Total máx
0,1 mg/L
Fosfato Total máx
0,15 mg/L
Coliformes
Fecais
280,0
NMP/100mL
Coliformes Fecais máx. 200
NMP/100 ml
Coliformes Fecais
máx. 1000
NMP/100 ml
máx.2500NMP/100
ml(recreação);
1000NMP/100ml
(dessedentação) e
4000NMP/100mL(
demais usos)
PONTO 3 DBO
1,2 mg/L
DBO
5
– até 3 mg/L DBO
5
– até 5
mg/L
DBO
5
– até 10
mg/L
OD
5,9 mg/L
OD – não inferior a 6mg/L OD – não inferior
a 5mg/L
OD – não inferior a
4mg/L
Sólidos Totais
95,0 mg/L
Sólidos Totais máx. 500 mg/L Sólidos Totais
máx. 500 mg/L
Sólidos Totais máx.
500 mg/L
Turbidez
Não detectado
Turbidez até 40 UNT Turbidez até 100
UNT
Turbidez até 100
UNT
pH
7,8
pH de 6,0 a 9,0 pH de 6,0 a 9,0 pH de 6,0 a 9,0
Nitrato
0,05 mg/L N-
NO3
Nitrato 10,0 mg/L Nitrato 10,0 mg/L Nitrato 10,0 mg/L
Fosfato total
0,36 mg/L
Fosfato Total máx 0,1 mg/L Fosfato Total máx
0,1 mg/L
Fosfato Total máx
0,15 mg/L
Coliformes
Fecais
220,0
NMP/100mL
Coliformes Fecais máx. 200
NMP/100 ml
Coliformes Fecais
máx. 1000
NMP/100 ml
máx.2500NMP/100
ml(recreação);
1000NMP/100ml
(dessedentação) e
4000NMP/100mL(
demais usos)
154
5.4 – Cartografia dos indicadores de degradação ambiental
Os produtos finais do geoprocessamento são os mapas temáticos
com a localização dos indicadores de degradação ambiental georreferenciados em
campo, ao longo do trecho estudado do arroio Grande.
A Figura 31 mostra o mapa da ausência de mata ciliar. O símbolo
representa os pontos onde não existe mata ciliar em uma das margens. No trecho
urbano marcado por uma linha vermelha contínua a mata ciliar é ausente em ambas as
margens do arroio Grande. Nas áreas rurais, tanto a montante como a jusante da urbana,
a ausência de mata ciliar está associada a outro indicador de degradação, o solapamento
das margens. Observou-se que nas áreas rurais a montante da área urbana, a retirada das
matas das margens teve como objetivo o aproveitamento do solo para plantio, sendo
ocupados por lavouras anuais. Já na área rural a jusante da urbana, mais ao sul, o
aproveitamento das áreas de preservação permanente (APP’s) é para a criação de gado,
sendo ocupadas como pasto.
A Figura 32 nos mostra o mapa do solapamento das margens. A
degradação causada pela erosão mostrou-se mais intensa nas áreas rurais. Um dos
motivos é que na área urbana existe a contensão da erosão das margens através da
construção dos “gabiões”. Essas armações de arame e pedra são colocadas na base das
margens para evitar o solapamento que causaria danos às estradas e calçadas construídas
às margens do arroio. Nas áreas rurais o solapamento está, em sua maioria, associado à
falta de mata ciliar. Na área rural ao norte, a velocidade da correnteza é maior do que na
área rural ao sul, causando solapamento principalmente nas curvas do arroio. Muitas
raízes e matacões ficam aflorantes nas margens. Na área rural mais ao sul, o
solapamento está ainda mais ligado à ausência de mata ciliar aliado ao tipo de solo mais
arenoso.
A Figura 33 mostra o mapa do despejo de efluentes. Foram
georreferenciados os canos que apresentavam despejo de efluentes no momento
observado. A maioria dos canos localiza-se na área urbana e os efluentes se
caracterizam por exalarem odor de esgoto cloacal.
155
A Figura 34 traz o mapa da deposição de resíduos sólidos. A
concentração de lixo depositado às margens do arroio Grande apresentou-se na área
rural, a montante da área urbana. A deposição clandestina é nesse trecho facilitada
pela presença de matas que “escondem” os depósitos. A falta de fiscalização e de
conscientização de moradores e empresários resultam nos achados de resíduos
residenciais e industriais, como restos de construção, embalagens de produtos
tóxicos usados na indústria calçadista, isopor usados como embalagens de
eletrodomésticos oriundos do comércio local, material de adorno do cemitério
situado à margem do arroio e outros resíduos.
A Figura 35 mostra o mapa com a localização das barragens e
dos pontos de coleta de água. Essas pequenas barragens, usadas no passado para o
funcionamento das atafonas, atualmente não possuem utilidade, constituindo-se em
barreira para a migração de peixes. Os pontos de coleta de água estão representados
pelo desenho de uma gota, sendo que o ponto 1 está localizado à norte do município
em altitude de 250m. O ponto 2 situa-se em área urbana, a jusante do centro e
distante 5 km do ponto 1. A coleta nesse ponto procurou verificar a intervenção da
ocupação humana na qualidade das águas. Entre o ponto 1 e o 2, em sua margem
esquerda, o arroio Grande recebe as águas de um arroio tributário, o arroio Fuzil. O
outro arroio, no mapa aparecendo na margem direita, não foi localizado como
tributário do arroio Grande. O ponto 3 está marcado fora do leito do arroio devido à
retificação realizada na década de 1970, após a execução das cartas topográficas
DSG 1:50.000. Atualmente é nesse ponto que passa o leito do arroio Grande.
A Figura 36 traz o mapa geral dos Indicadores de Degradação
Ambiental no trecho estudado do arroio Grande, Nova Hartz.
156
Figura 31 – Mapa da ausência de mata ciliar
157
Figura 32 – Mapa do solapamento das margens
158
Figura 33 – Mapa do despejo de efluentes
159
Figura 34 – Mapa da deposição de resíduos sólidos
160
Figura 35 – Mapa da localização das barragens e dos pontos de coleta de água
161
Figura 36 – Mapa Geral dos Indicadores de Degradação Ambiental no trecho estudado do
arroio Grande, Nova Hartz, RS
162
6 - CONSIDERAÇÕES FINAIS E SUGESTÕES
6.1 – Considerações Finais
Os dados levantados no presente estudo indicam que a degradação
ambiental na área da sub-bacia hidrográfica do arroio Grande recebe forte contribuição
dos fatores naturais, como os litológicos, pedológicos e geomorfológicos que, aliados à
significativa média pluviométrica local, favorecem os efeitos degradantes da erosão, dos
deslizamentos de terra, das enchentes e do assoreamento dos arroios. Contudo, esses
fenômenos estão sendo acelerados e incrementados pela ação humana, representada
principalmente pelo uso e ocupação inadequada de áreas que apresentam fragilidades
ambientais. O desmatamento das encostas, a retirada de matas ciliares, a deposição de
resíduos sólidos diretamente no solo e nos arroios e o despejo de esgotos diretamente
nos arroios também são fatores antrópicos que favorecem a degradação e a diminuição
da qualidade das águas.
A contaminação das águas superficiais, embora não tenha
apresentado parâmetros muito abaixo do permitido na legislação, apresentou índices
menos satisfatórios nos trechos a jusante da área urbana. O Fosfato, por exemplo,
alcançou índices altíssimos, demonstrando a presença de matéria orgânica em excesso, o
que indica o lançamento de esgotos cloacais, verificados e georreferenciados ao longo
do trecho estudado do arroio Grande. Dessa forma, o tratamento de esgoto é de vital
importância para a questão de saúde e qualidade de vida no município de Nova Hartz.
A área urbana de Nova Hartz carece de cobertura vegetal, o que
favorece a impermeabilização do solo, a erosão laminar, o assoreamento dos arroios, a
alteração da qualidade de suas águas e do microclima do centro urbano.
Embora a recuperação das matas de encostas ficou evidenciada na
pesquisa, em comparação com o cenário dos morros na década de 1930, um novo
problema surge: espécies exóticas invasoras. As plantas exóticas invasoras são
163
consideradas a segunda maior ameaça mundial à biodiversidade, perdendo apenas para a
destruição dos habitats pela exploração humana direta. Nas encostas de alguns morros
da sub-bacia, constatou-se a invasão do gênero Hovenia, conhecida vulgarmente como
uva-japonesa. A disseminação dessa planta é muito rápida, ocupando o espaço das
espécies nativas, não permitindo a recuperação natural do ecossistema. Como
conseqüência, temos a modificação dos ciclos e características naturais dos ecossistemas
atingidos, a perda da biodiversidade e a alteração fisionômica da paisagem natural. Uma
das dificuldades no combate a este problema ecológico é a escassa informação em
relação aos malefícios desta invasão, pois a revegetação rápida proporcionada por esta
espécie dá uma falsa idéia de recuperação ambiental.
A concepção da engenharia, por muito tempo, foi a de que a
retificação dos leitos dos rios e córregos era necessária para diminuir os efeitos locais
das cheias. O objetivo era dirigir as vazões para jusante pelo caminho mais curto e com
maior velocidade de escoamento possível, tendo como resultado o ganho de terras
cultiváveis e novas áreas para urbanização. No entanto, não foram consideradas outras
conseqüências, como a perda de biodiversidade da biota e o fato da retificação não deter
as grandes cheias. As retificações do arroio Grande foram significativas, tanto na área
urbana quanto na rural, a jusante daquela. Há décadas, países europeus já executam a
renaturalização dos arroios, pois existe um ganho maior na qualidade do ecossistema e
do ambiente natural que recupera muitos aspectos de seu estado original. A
renaturalização de arroios aumenta a atratividade desse recurso natural para recreação e
lazer.
6.2 - Sugestões
De modo geral, observa-se que a população urbana pouco conhece
sobre as áreas rurais, mesmo essas estando bem próximas. Quando questionados se
conheciam as cascatas e arroios, a maioria dos jovens desconhecia o ambiente além do
urbano.
Diante do exposto, conclui-se que um dos motivos do avanço dos
problemas sócio-ambientais é a falta de conhecimento sobre as realidades locais,
especialmente em relação às fragilidades e potencialidades ambientais, o que resulta no
164
uso inadequado dos recursos naturais. Um projeto de educação ambiental, formal e
informal e de forma continuada, que promova mudança de atitudes na população é
outra importante e imprescindível ação em busca de uma melhor qualidade de vida em
Nova Hartz.
Na busca de solução para os problemas ambientais apontados,
medidas de gestão ambiental como um Plano Diretor de Drenagem Urbana, baseado em
princípios de sustentabilidade poderia alcançar resultados positivos para melhoria da
qualidade das águas. Medidas apenas de cunho estrutural, como canalizações e
retificações que empurram o problema para áreas a jusante, devem ser substituídas por
ações que levem em consideração os aspectos hidrológicos da sub-bacia hidrográfica.
Um Plano de Arborização Urbana também se faz necessário, pois
é notória a falta de arborização nas áreas onde se concentram as atividades industriais,
comerciais e residências desse município. Nesse sentido, sugere-se a imediata
recuperação das margens dos arroios através do plantio de espécies vegetais frutíferas
nativas que atraem a avifauna e a construção de muro-gabião em trechos erodidos das
margens do arroio. Nos locais onde existe a possibilidade, incluir as técnicas de
contenção de erosão preconizadas pela renaturalização.
Nos demais arroios da sub-bacia caberia estudos de viabilidade de
implantação de Parques Lineares ao longo de suas margens. Essas áreas, sujeitas a
enchentes, funcionam como barreira para impedir a ocupação indevida e diminuem
consideravelmente o aporte de efluentes e resíduos sólidos, conservando sua capacidade
de reguladores da vazão do arroio. Convém destacar que os Parques Lineares não
necessitam ser utilizados para o lazer humano, mas também podem servir de corredores
da fauna silvestre e na conservação de áreas úmidas de importância ecológica.
Diante do considerável crescimento demográfico ocorrido no
município desde o ano de 2000, sugere-se a criação e execução de um Plano de
Ocupação que considere as fragilidades ambientais, como a erodibilidade dos solos, a
topografia acidentada, a qualidade dos arroios e da água subterrânea. Esse mesmo plano
deve contemplar a conservação de matas nativas remanescentes, o reflorestamento das
matas ciliares, a recuperação e manutenção das áreas úmidas e das nascentes. A
165
regularização do uso do solo, através de um Zoneamento Ambiental, por exemplo,
poderia evitar os danos causados pelas inundações, limitando a ocupação de áreas
inundáveis e implantando áreas destinadas a usos específicos, como zonas industriais,
residenciais, de florestamento, de preservação, de lavouras, etc.
Além das prioridades acima destacadas, outras medidas podem ser
adotadas, como a elaboração, para o município, de Cartas de Capacidade do Uso da
Terra e da Carta de Risco Potencial de Erosão, que fornecem subsídios ao Plano Diretor
em relação ao uso e parcelamento do solo.
Quanto à impermeabilização do solo na área urbana, sugere-se o
uso de revestimento poroso para calçamento das ruas, como bloquetos de cimento, cujas
novas tecnologias utilizam material reciclado em sua composição, sendo medida
duplamente ecológica e sustentável. Outra medida minimizadora é o plantio de árvores
nos espaços públicos e privados. Para tanto, sugere-se, além da implementação da
arborização urbana, criar incentivos tributários para que os imóveis urbanos preservem
parte de sua área verde nativa.
Para as áreas que apresentam declividades acima de 30°, sugere-se
o cultivo em curvas de nível e terraceamento. E a drenagem das águas deve ser feita
para áreas menos suscetíveis à erosão. Recomenda-se evitar as queimadas que
prejudicam a fertilidade do solo.
Na recuperação das matas nativas em áreas desmatadas nas
encostas e topo de morros, o plantio das espécimes vegetais deve ser heterogêneo, isto é,
uma combinação entre espécies de luz (pioneiras), espécies intermediárias (secundárias
precoces e tardias) e as de sombra (clímax). Não é aconselhável plantar mais de 15% da
mesma espécie. Do total de mudas plantadas, 70% devem ser de pioneiras e secundárias
precoces e 30% de secundárias tardias e de clímax. O plantio deve ser efetuado em duas
etapas: no primeiro ano, as espécies de luz e intermediárias e no segundo ano, as
espécies de sombra. As épocas de plantio mais favoráveis são as de chuvas, sendo que
em áreas de inundações devem ser quando as chuvas forem menos freqüentes. As
espécimes pioneiras sugeridas para a recuperação das matas da sub-bacia do arroio
Grande são: Cangerana, Araçá-do-mato, Mamica-de-cadela, Chá-de-Bugre, Aroeira-
166
mansa, Grandiúva, Embaúba, Ingá-feijão e Amora-branca. As espécimes intermediárias
sugeridas são: Açoita-cavalo, Angico, Araticum, Canafístula, Canela, Figueira,
Goiabeira e Ipê-Amarelo. Já as espécimes de sombra (ou de clímax) são: Catiguá,
Cedro, Guabiroba, Louro-pardo, Paineira, Pitanga e Tarumã. (fonte: adaptado de
www.funverde.wordpress.com ).
Para o problema da invasão da espécie exótica Hovenia nas
encostas dos morros, a forma eficaz de controle é a erradicação direta dos indivíduos,
desde seu sistema radicular. Para tanto, sugere-se parceria da prefeitura com a
EMATER, para que interfiram junto aos proprietários rurais na erradicação desta
espécie exótica altamente invasora.
A recuperação das matas ciliares onde há ausência das mesmas
não só é medida preventiva para uma série de problemas que afetam diretamente os
habitantes como também é medida legal, pois sua supressão é proibida em lei.
Em relação ao cumprimento da legislação ambiental, cabe uma
fiscalização mais eficaz para exigir licenciamento de atividades que atuam
irregularmente no município. Atividades como: mineração, empresas do ramo
calçadista, loteamentos, abertura de novas estradas, construção de pequenas barragens e
açudes, drenagens, retificação de canais fluviais, uso comercial e/ou industrial da água
subterrânea sem outorga, funcionam no município sem a licença ambiental exigida.
Merece atenção especial a questão da abertura de açudes, pois é
raro encontrar sítio que não tenha seu açude. Muitos deles captam água diretamente dos
arroios, através de canais ou de moto-bomba. Esta prática diminui a vazão dos arroios e
provoca alterações nos ecossistemas. Além disso, o lançamento de suas águas
diretamente aos arroios, levando resíduos orgânicos derivados da criação de peixes,
causam modificações físico-químicos na qualidade das águas desses mananciais. Outro
problema relativo à aqüicultura é a fuga de peixes de espécies exóticas dos açudes que
nos arroios irão “competir” e prejudicar as espécies nativas. Para essa atividade é
necessário igualmente aplicar a legislação vigente.
167
A proteção das águas subterrâneas requer um manejo consciente e
a cooperação dos usuários e dos órgãos governamentais. Um passo importante para a
melhoria da qualidade das águas que abastecem o município é proporcionar à população
conhecimento sobre o impacto ambiental que elas mesmas provocam sobre a água que
consomem. Tecnicamente, há necessidade de localizar as fontes de contaminação para
eliminá-las e mapear as áreas de recarga para protegê-las. Outra importante atitude é
uma eficaz regularização (e fiscalização) do uso do solo no município de Nova Hartz.
Em Nova Hartz, existe o uso popularizado de alguns pontos do
arroio Grande para banhos, mas em terras privadas. Sugere-se um estudo sobre a
possibilidade de efetuar uma renaturalização desse arroio em pontos estratégicos,
lembrando que o sucesso desse tipo de intervenção depende da conscientização e da
informação ao alcance da comunidade envolvida e do conhecimento técnico mais
aprofundado sobre a dinâmica morfológica e ecológica do ambiente em foco.
168
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