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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS
DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E TEOLOGIA
MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
A DANÇA NO CULTO CRISTÃO
Luciana R. Pinheiro Torres
GOIÂNIA
2007
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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS
DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E TEOLOGIA
MESTRADO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO
A DANÇA NO CULTO CRISTÃO
Luciana R. Pinheiro Torres
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa
De Pós-Graduação em Ciências da Religião
como requisito para obtenção do grau de Mestre.
Orientador: Prof. Dr. Haroldo Reimer.
GOIÂNIA
2007
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T693d Torres, Luciana R. Pinheiro.
A dança no culto cristão / Luciana R. Pinheiro Torres.
2007.
125 f.
Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Goiás,
Mestrado em Ciências da Religião, 2007.
“Orientador: Prof. Dr. Haroldo Reimer”.
1. Dança – culto cristão. 2. Arte. 3. Cristianismo. 4.
Religião. 5. Corpo. I. Título.
CDU: 291.315.6
AGRADECIMENTOS
A Deus, minha fonte de vida, minha inspiração e maior alvo na vida.
Ao meu esposo muito amado, pelo apoio, incentivo e compreensão nos
momentos de ausência.
Aos meus pais, irmãs e amigos, pelo apoio e pela motivação.
À Rhema, minha companhia de dança, que sempre foi meu objeto de estudo e
fonte de pesquisa. Vocês são uma bênção!
Aos diversos grupos de dança espalhados por este Brasil, meus companheiros
de caminhada, vocês foram fundamentais para este trabalho.
Aos líderes e irmãos da igreja a qual sirvo, pelo apoio e palavras de incentivo.
Ao professor Doutor Haroldo Reimer, a quem muito admiro e de quem muito
aprendi.
RESUMO
TORRES, Luciana Rodrigues Pinheiro. Dança no culto cristão. Goiânia: (Mestrado em
Ciências da Religião) Universidade Católica de Goiás, 2007.
A arte como expressão da plenitude do ser sempre esteve relacionada ao rito. A dança
como expressão artística e participante do rito se desenvolve em cada cultura, de forma
a ser a expressão do amadurecimento de conceitos e valores culturais de um povo. Ela
se torna um reflexo da sociedade em que está inserida. O presente estudo quer fazer
uma análise em relação à dança como expressão de culto ao Sagrado, apontando
discussões sobre o processo de desapropriação da dança como forma de culto por
parte do cristianismo e sobre o fenômeno contemporâneo de reapropriação da mesma.
As conclusões finais buscam conduzir a uma reflexão do fenômeno no presente.
Palavras-Chave: Dança, culto, cultura, arte, cristianismo, sagrado, religião e corpo.
ABSTRACT
TORRES, Luciana Rodrigues Pinheiro. Dance in Cristian Worship. Goiânia: (Mestrado
em Ciências da Religião) Universidade Católica de Goiás, 2007.
Arts as an expression of the human being as a whole has always been directly related to
rituals. The dance as an artistic expression, and as part of those rituals, develops it self
in each culture as a means of expressing the maturing concepts cultural values of a
people. It becomes a mirror of the society from which it comes. This study endeavours to
analyse dance as an expression of worship to deity (the sacred). It looks to discuss the
process which took place as dance lost its fundamental place as part of Christian
worship. Furthermore it looks at how dance regained its place in the current Christian
worship trend. The study also endeavours to encourage a timely reflection on this
current phenomena.
Key Words: dance, worship, culture, arts, Christian, sacred, religion and body.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO................................................................................................................10
CAPÍTULO I
A DANÇA COMO MANIFESTAÇÃO CULTURAL E RELIGIOSA DO SER HUMANO.13
1.1 A CULTURA E O SIMBOLISMO..............................................................................13
1.2 A ARTE DE DANÇAR...............................................................................................17
1.3 O MOVIMENTO CORPORAL...................................................................................19
1.4 POR UMA CONCEPÇÃO DE CORPO.....................................................................21
1.5 CARACTERÍSTICAS DAS DANÇAS DE DIFERENTES POVOS ...........................26
1.6. A DANÇA SAGRADA...............................................................................................28
1.7 O ETHOS E A DANÇA .............................................................................................30
1.8 A DANÇA COMO EXPRESSÃO DE LOUVOR E ADORAÇÃO NO CULTO
CRISTÃO.........................................................................................................................32
1.9 SÍNTESE...................................................................................................................33
CAPÍTULO II
A DANÇA NA CULTURA HEBRAICA E A GRADATIVA SUPRESSÃO DA DANÇA NO
CULTO CRISTÃO...........................................................................................................35
2.1 AS DANÇAS RELIGIOSAS E AS DANÇAS TEATRAIS ..........................................35
2.2 A DANÇA NA CULTURA HEBRAICA.......................................................................38
2.2.1 As festas hebraicas.....................................................................................38
2.2.2 A dança hebraica ........................................................................................42
2.2.3 Uma perspectiva de corpo e movimento na cultura Hebraica.....................45
2.3 A DANÇA NA CULTURA GRECO-ROMANA...........................................................51
2.3.1 A influência grega........................................................................................51
2.3.1 A influência romana.....................................................................................57
2.4 A DANÇA NO CRISTIANISMO.................................................................................61
2.4.1 A Dança no Novo Testamento.....................................................................61
2.4.2 A Dança no cristianismo primitivo ...............................................................62
2.5 SÍNTESE...................................................................................................................71
CAPÍTULO III
A DANÇA NO CRISTIANISMO EVANGÉLICO CONTEMPORÂNEO...........................72
3.1 O AMBIENTE PÓS-MODERNO................................................................................72
3.2 A REDESCOBERTA DA DANÇA NO CULTO EVANGÉLICO ATUAL.....................74
3.2.1 Concepção de dança...................................................................................76
3.2.2 Tipos de dança realizada no ambiente eclesiástico....................................77
3.2.3 A direção do louvor com danças..................................................................80
3.2.4 O fenômeno da dança no culto....................................................................83
3.2.5 O simbolismo nas roupas, objetos e desenhos coreográficos....................84
3.3 O CAMINHO DA REDESCOBERTA DA DANÇA NO BRASIL.................................85
3.4 PESQUISA JUNTO A GRUPOS EVANGÉLICOS DE DANÇA ...............................87
3.4.1 Dificuldades.................................................................................................89
3.4.2 Retorno da dança........................................................................................92
3.4.3 O corpo no mundo evangélico atual............................................................93
3.5 CIA.RHEMA...............................................................................................................94
3.6 EVENTOS EVANGÉLICOS DE DANÇA NO BRASIL...............................................96
3.7 SÍNTESE ..................................................................................................................98
CONCLUSÃO...............................................................................................................100
REFERÊNCIAS.............................................................................................................104
ANEXOS.......................................................................................................................108
10
INTRODUÇÃO
Presente na vida de tantos povos, tanto nos momentos de lazer quanto nos
momentos de adversidades, a dança é a expressão de uma comunidade, é canal de
sociabilização, é fonte de lazer e também de Adoração. Para as pessoas que se deixam
expressar através dela, há uma certeza: que a dança da vida deve ser celebrada,
festejada em forma de agradecimento a quem a doa.
Ao percorrer o caminho de uma cultura, de uma religião, de um povo com sua
história e valores, se descobre a dança. Carregada de um simbolismo comum a cada
comunidade, a dança descreve uma história, revela os valores mais indizíveis de quem
a executa. Permeada pelo ambiente incontestável da cultura, a dança de um povo
transmite pelas gerações sua história e o seu ethos, se revelando não somente como
canal de manifestação cultural e religiosa, mas como perpetuadora dos mesmos.
Em se tratando do cristianismo, percebe-se que diferente das outras religiões, a
sua dança, possui mais um caráter cultural do que cultual. Nas festas católicas, nas
danças folclóricas e nas cantigas de roda, a ênfase é dada mais para o divertimento do
que para ao aspecto religioso em si. No protestantismo, somente na pós-modernidade é
que se percebe a presença da dança como forma de culto, não se tendo indícios de sua
presença em qualquer outro momento vivenciado por esta religião. As características de
sua raiz judaica, com suas festividades que provavelmente eram acompanhadas por
danças, foram perdidas ao longo do tempo, restando em sua prática somente vestígios
de movimento, deixados no ato de se ajoelhar, se curvar e levantar as mãos.
A presente pesquisa procura discernir o momento e a razão pela qual o
cristianismo evangélico se absteve da dança como forma de culto, além de buscar o
11
caminho da reapropriação da mesma. Para tal, a pesquisa será dividida em três
capítulos.
No primeiro capítulo, se discorre sobre questões que permeiam o tema da dança,
como arte, cultura, movimento, concepções de corpo, dança sagrada e ethos.
Destacam-se ainda as características das danças em diferentes povos, fazendo
afirmações iniciais sobre a dança no ambiente do culto cristão.
No segundo capítulo, a pesquisa é direcionada para o tema da dança na cultura
hebraica como berço do cristianismo, discorrendo sobre suas festas, sua dança, sua
concepção de corpo e ainda sobre a influência que as culturas grega e romana,
exerceram sobre sua dança. Finalmente, discorre de forma direta sobre a dança no
Novo Testamento e no cristianismo evangélico.
O terceiro capítulo trata inicialmente da redescoberta da dança por parte do
cristianismo evangélico protestante, destacando a maneira como a dança começou a
ser implantada nas igrejas protestantes do Brasil. Em seguida, se discorre sobre a
maneira como os cristãos evangélicos da atualidade concebem e realizam a dança em
seu culto, na busca da compreensão do significado da mesma para esta religião.
Finalmente, o terceiro capítulo trata da pesquisa feita junto a doze grupos evangélicos
de dança que tem atuado no Brasil, na tentativa de, a partir destes, discernir como a
dança tem sido apropriada pelos cristãos evangélicos na contemporaneidade. Alguns
grupos responderam pessoalmente ao questionário, no momento em que estavam
presentes em um evento nacional de dança que acontece em Goiânia, chamado
“Festival Rhema”, enquanto que outros foram colhidos via internet.
A intenção é que esta dissertação ofereça uma visão panorâmica sobre o tema
em questão, na tentativa de esclarecer que a dança que tem sido realizada no ambiente
12
eclesiástico evangélico é uma manifestação natural do ser humano na expressão do
seu amor e dedicação a Deus. Os evangélicos contemporâneos se apropriam da
dança, na sua mais profunda forma de se comunicar com o Sagrado: na adoração.
13
CAPÍTULO I
A DANÇA COMO MANIFESTAÇÃO CULTURAL E RELIGIOSA DO SER HUMANO
Desde a Antigüidade, o ser humano tem apresentado uma necessidade de
expressão de valores e crenças, que se revela nas festas culturais celebradas
geralmente com danças. O presente capítulo discorre sobre como a dança se encaixa
dentro do universo simbólico do ser humano, apontando para como esta foi apropriada
por alguns povos primitivos. Conceitos ligados ao tema da dança também são citados
no presente capítulo, buscando a compreensão dos termos e sua aplicação dentro do
tema em questão.
1.1 A CULTURA E O SIMBOLISMO
Nas diversas manifestações do ser humano, tanto nas de ordem pessoal quanto
nas manifestações em grupo, ele se mostra como um ser que simboliza. Seu cotidiano
está repleto da presença de símbolos, que exprimem valores religiosos e morais,
armazenados durante sua existência, exprimindo seu ethos, suas crenças, valores e
ideais de vida. O símbolo se mostra carregado de significados, relaciona o eu real do
ser humano com uma significação de mundo. Simbolizar é uma maneira de situar o eu
no mundo ao redor, um tipo de cosmogonia, uma organização de mundo realizada
esteticamente.
Eliade (1992, p. 126) aponta que o homem arcaico se comunica com o mundo,
porque utiliza a mesma linguagem: o símbolo. Se o mundo lhe fala através das
14
estações do ano, das estrelas, o homem lhe responde por meio de seus sonhos, sua
vida imaginativa e seus rituais. Desta forma, ele também se sente olhado e
compreendido pelo mundo. O símbolo, então, se mostra não somente como uma
expressão de valores, mas como uma maneira de se comunicar com o mundo
espiritual, de trazer o não-palpável para o mundo real, de compreender e ser
compreendido pelo não dizível.
Para Ricoeur, “interpretação é o trabalho de pensamento que consiste em
decifrar o sentido oculto no sentido aparente, em desdobrar os níveis de significação
implicados na significação literal” (RICOEUR, 1978, p. 15). A interpretação dos
símbolos revelados em uma manifestação cultural é, muitas vezes, uma interpretação
que não se revela em palavras, mas no sentimento da pessoa que assiste e da que
participa daquela manifestação. É o valor expresso no símbolo e revelado no
sentimento de quem vê e de quem participa.
As expressões simbólicas realizadas em uma determinada religião são um
produto da cultura; são um ingrediente da mesma que expressa de forma abstrata os
valores de uma sociedade. A produção cultural de um povo, a dança, a música e a
pintura expressa crenças, necessidades, anseios e padrões de comportamento.
Parker (1996, p.52) define cultura como:
“O conjunto de práticas coletivas significativas baseadas nos
processos de trabalho em função da satisfação da vasta gama de
necessidades humanas, que se institucionalizam nas estruturas de
signos e de símbolos, que são transmitidas por uma série de
veículos de comunicação e internalizadas em hábitos, costumes,
formas de ser, de pensar e de sentir”.
A dança cultural de um povo vem carregada de simbolismo. Os movimentos, sua
intensidade, ritmo, as cores e formas do figurino utilizado, as formas coreográficas, o
15
roteiro, a atitudes dos bailarinos e a intensidade com que é interpretado um
personagem, tudo isto é uma forma de expressar crenças e valores. À medida que sua
crença é externada através dos símbolos, o ser humano se encaixa no mundo,
encontrando seu significado, realizando a cosmogonia.
Através das danças realizadas em festas culturais se dá uma perpetuação de
conceitos e valores, que promovem o cultivo de costumes e crenças. Quando o povo
hebreu, por exemplo, festeja a abundância da colheita está firmando sua fé no Sagrado,
dizendo às novas gerações que a provisão da colheita veio do seu Deus. Assim
também no catolicismo, quando se festeja a festa da quadrilha, está sendo perpetuado
às novas gerações a crença em São João. É interessante observar que tais festas têm
um forte aspecto de diversão, porém por trás deste se encontram outros dois aspectos
intrínsecos. Primeiro que estas festas promovem o cultivo da crença na Divindade, uma
vez que ao festejar para uma divindade, a pessoa vivifica a crença, aprendendo os
argumentos que a rodeiam. Um segundo aspecto é o da necessidade de ser aceito em
uma sociedade, através do ato de se seguir à religião proeminente na região. “Há uma
identificação, nos códigos semânticos populares, do ser cristão com o ser membro da
sociedade” (PARKER, 1996, p.149).
A cultura de um povo tem um forte poder de direcionar atitudes, pois de um
modo geral a cultura não é questionável. Simplesmente se vive dentro de uma cultura,
com seus símbolos, valores e crenças que foram passados de geração em geração,
sem se questionar se são pertinentes ou não. A dança acompanhada de alucinógenos
e com o corpo desenhado e invocando espíritos, que era realizada pelos índios
delaware, os shawnees e os illinois, que vivem ao leste dos Estados Unidos
(Enciclopédia Encarta, 2001), era feita após batalhas realizadas para a glorificação
16
pessoal ou do grupo. Como toda outra crença expressa em atitude cultural, era
passada de geração em geração, sem o questionamento do certo ou errado, do
verdadeiro ou falso. Era uma atitude cultural, recheada de significado religioso. É neste
ponto que fica explícita a forte ligação existente entre religião e cultura, A religião
direciona o ethos ou a visão de mundo de um povo; a cultura, por sua vez, expressa e
perpetua este ethos. Como aponta Parker, “nos diferentes modelos e formas culturais,
incluindo seus componentes explicitamente religiosos, existem concepções do mundo”
(PARKER, 1996, p. 56).
A arte de um modo geral está repleta de um simbolismo, através das cores,
formas, desenhos e movimentos. Este simbolismo reflete e sustenta os valores
humanos; em outras palavras, através da arte, uma crença pode ser perpetuada.
Comprovando esta afirmação, observa-se a afirmação de Eliade quando aponta que,
em Alexandria e Roma, a arte foi responsável por permitir a perpetuação dos deuses
homéricos, através da alegoria.
“Graças sobretudo ao fato de toda a literatura e todas as artes
plásticas se terem desenvolvido em torno dos mitos divinos e
heróicos, os deuses e heróis gregos não ficaram relegados ao
esquecimento após o longo processo de desmistificação, nem após
o triunfo do cristianismo”. “[...] essa herança mitológica pode ser
aceita e assimilada pelo cristianismo. Ela se convertera num
tesouro cultural. Em última análise, a herança clássica foi salva
pelos poetas, pelos artistas e filósofos” (ELIADE, 1992, p.136-137).
A dança religiosa, então, através de um simbolismo nas formas, desenhos,
figuras, cores de roupas, histórias, perpetua a religião, transmite crenças, assegurando
o cultivo das mesmas. Assim mostra-se extremamente importante como manifestação
cultural e simbólica de um povo.
17
1.2 A ARTE DE DANÇAR
O termo “arte” deriva do latim ars, que significa habilidade na realização de
ações especializadas (Enciclopédia Microsoft encarta). O conceito de arte se refere
tanto à habilidade técnica quanto ao talento criativo, podendo se limitar à primeira ou
ampliar-se a ponto de expressar uma visão de mundo. “A arte é atividade espiritual,
criadora, não subordinada a qualquer modelo ou conceito; é conhecimento intuitivo e
não racional, expressão do espírito no sensível” (MONTERADO, 1968, p.7).
“Arte significa mão de obra qualificada, habilidade, domínio da
forma, criação, associação entre forma e idéia e entre técnicas e
materiais. O termo arte, portanto, traz em si um imperativo para
realçar a natureza e não imitá-la, e a arte serve como instrumento
técnico e criador aos anseios e realizações humanas” (VINCENT,
1968, p.13).
A arte proporciona experiências estéticas, emocionais e intelectuais, sendo um
forte canal de expressão da plenitude do ser humano. Tal afirmação pode ser a
explicação da íntima ligação que se observa entre a arte e a religião. O ethos, a visão
de mundo, a cultura e a religião de um povo podem ser manifestas e até apropriadas
através de suas expressões artísticas. As expressões artísticas sempre estiveram
presentes nas sociedades, sendo o reflexo dos valores e a manifestação da vida
cultural dos povos. “Toda obra de arte é filha de seu tempo e, muitas vezes, mãe dos
nossos sentimentos” (FONTES, 1990, p.27).
A dança como linguagem da arte seria, então, uma intensa manifestação de
expressão do ser, de suas relações sociais e religiosas. “A dança é a arte do
movimento e da expressão, onde a estética e a musicalidade prevalecem” (ACHCAR,
18
1998 p.15). O ser humano tem a necessidade de se expressar e se expressa quando
dança. O significado da palavra “dança” deriva da raiz lingüística tan que, em sânscrito,
significa tensão. O homem se expressa com intensidade quando dança.
“A dança nada mais é do que a primeira e mais antiga manifestação
de expressão natural do homem, que desde a pré-história foi
utilizada de forma decisiva para a sua fixação, adaptação,
sobrevivência e desenvolvimento” (BERTONI, 1992, p.55).
Nos conceitos de dança, observa-se que a expressão corporal é uma forma de
comunicação e expressão, imprimindo um aspecto artístico aos movimentos cotidianos,
extraindo destes valores e anseios de determinado grupo social.
“Dança, movimentos corporais rítmicos, geralmente acompanhados
de música, que seguem um padrão e funcionam como forma de
comunicação ou expressão. A dança é a transformação de funções
normais e expressões corriqueiras em movimentos fora do comum
com propósitos extraordinários” (Enciclopédia, 1993-2001
Microsoft).
Segundo Bertoni, a dança é uma forma de expressão, um caminho de
manifestação natural, sobre o qual o ser humano desencadeia o seu desenvolvimento
integral. Ele cita a dança como a primeira expressão do ser humano, como elemento
responsável pela sua sociabilidade. Ele afirma:
“...esta forma de expressão tem sido o caminho de manifestação
natural, sobre o qual, desde o início, o desenvolvimento
integral do homem foi desencadeado. A dança foi realmente
o elemento responsável pela sociabilidade do homem”
(BERTONI,1992, p. 8).
19
O ser humano sempre se apropriou da dança como forma de linguagem,
presidindo acontecimentos importantes como: nascimentos, mortes, casamentos,
colheitas, caças, iniciações religiosas, chegadas de estações, festas religiosas e rituais
tribais. A dança promove através dos movimentos a manifestação do indizível, uma
comunicação não verbal que atravessa as barreiras de línguas e dialetos.
1.3 O MOVIMENTO CORPORAL
A linguagem simbólica precede à linguagem verbal, expressando valores
intrínsecos do indivíduo e de uma sociedade. O movimento é, então, uma linguagem
não verbal e simbólica, através da qual se expressa o que as palavras não conseguem
dizer.
Desde o seu nascimento, o ser humano utiliza o movimento para se comunicar e
para expressar necessidades, emoções e sentimentos. Através deste, o ser humano
aprende sobre sua sociedade e sobre si mesmo. “O homem necessita de um mundo de
movimento para manter-se orgânica e emocionalmente sadio. Ele é a essência da vida,
faz parte da complexidade constituição do ser humano” (NANNI, 1995, p. 10).
A atividade motora do ser humano se expressa desde os movimentos chamados
naturais como andar, correr, saltar e pular, até os movimentos realizados durante
estados emocionais diversos como o se contrair ao se sentir amedrontado ou afrontado,
o rastejar ao desejar não ser observado, o se curvar ao reconhecer-se pequeno diante
de uma divindade e o saltar para expressar alegria extrema. À medida em que o
movimento se sistematiza em uma dança, ele começa a ser aprimorado através de uma
técnica específica. A evolução do comportamento motor do ser humano chegou até às
20
técnicas tradicionais conhecidas na contemporaneidade, que possuem um aspecto
mais voltado para a apresentação, continuando, porém, a ser a expressão da
sociedade, seus valores e suas crenças.
Heidegger aponta que o fundamento ontológico existencial da linguagem é o
discurso. Todo discurso possui um caráter de pronunciamento, onde a presença se
pronuncia. “O discurso é a articulação em significações da compreensibilidade inserida
na disposição do ser-no-mundo” (HEIDEGGER, 1997, p. 221). No discurso de uma
pessoa, pode-se observar sua concepção de mundo e, muitas vezes, é através do
discurso que o ser se compreende. A pesquisa chama a atenção para o discurso que
se dá através da linguagem do movimento. A dança é então um discurso, uma maneira
de falar através de movimentos, cores e formas. Mesmo quando a dança é imitativa, ela
contém particularidades do indivíduo e da sociedade. Tal discurso é realizado de forma
instintiva, não passando pelo âmbito da razão. A maneira como uma pessoa se move,
então, aponta para quem ela é. “O homem no desempenho de seus movimentos
intencionais coordena durante o desempenho de uma habilidade motora, a inter relação
de movimentos dos domínios psicomotores, cognitivos e sócio-afetivos” (NANNI, 1995,
p.15)
As citações bíblicas dos movimentos realizados por personagens bíblicos, como,
por exemplo, Moisés, mostram a valorização que autores dos textos fazem dos
movimentos como forma de linguagem não verbal que expressa a essência do ser
humano. Pode ser citado como exemplo o texto da abertura do Mar Vermelho, feita pelo
movimento de Moisés ao levantar as mãos (Ex 14,21) e a vitória conquistada por Josué
(Ex 17,11-13) após Moisés passar todo o dia com os braços levantados sendo
21
sustentados por Arão e Ur. O movimento ou mesmo a dança poderia, então, no
contexto bíblico, possuir grande valor simbólico e espiritual.
No culto cristão, o âmbito dos movimentos é citado por Allmen de forma bastante
definida em padrões rígidos de postura, como por exemplo, o pôr-se de pé, assentar-se
e ajoelhar, o que demonstraria que no cristianismo o movimento do corpo durante o
culto, deveria ser algo programado, sem espontaneidade, sem oportunidade para o que
poderia se chamar de dança. Mas, este autor também afirma sobre o movimento que
“[...] sem eles [os gestos], porém, a liturgia da Igreja também corre o risco de tornar-se
vazia de conteúdo, ou porque não dispõe de continente, ou porque o continente
contradiz o conteúdo. Assim como a fé pode vir a secar-se quando não definida e
amparada por uma doutrina” (ALLMEN, 1968, p. 108). Allmen afirma ainda que “mais do
que mera forma [o gesto] é um ato de natureza muito pessoal, que produz uma reação
imediata naquele que o faz. Não se limita a exprimir um encontro; ele o produz. Rejeitar
o uso de gestos equivale a diminuir a intensidade do encontro litúrgico entre Deus e seu
povo” (ALLMEN, 1968, p. 109). Em outras palavras, o autor reconhece que o
movimento é a expressão natural, que o corpo humano realiza no momento de um
encontro deste com o Sagrado, porém dentro do culto cristão, o movimento não teve a
possibilidade de se desenvolver a ponto de se tornar o que poderia se chamar de
dança. Esta se resumiu em manifestações culturais e festivas do cristianismo.
1.4 POR UMA CONCEPÇÃO DE CORPO
Nas civilizações primitivas, o ser humano o separava a dimensão corpórea da
dimensão da alma, ou mesmo do espírito, assim como não se separava do mundo ao
22
seu redor. Fátima (2001, p.10) afirma que, na medida em que o ser humano foi se
desenvolvendo, começou a construir o dualismo corpo e alma, perdendo a unidade
primitiva.
Por volta do século IV e V a.C. se reforça a quebra desta unidade, quando os
grandes filósofos gregos destacam uma divergência existente entre o corpo e a alma.
Pitágoras sustentava a distinção entre espírito e matéria, harmonia e discordância, bem
e mal (BERTONI,1992, p.31). Sócrates destacava o corpo como um obstáculo à alma
(FÁTIMA, 2001, p.11). Em Platão podemos observar a mesma oposição da alma em
relação ao corpo. O corpo como algo mortal, impuro e degradante, seria a prisão da
alma que, por sua vez, era vista como eterna, pura e sábia. Aristóteles possuía uma
visão mais positiva em relação ao corpo, porém reforçando sua dualidade, afirmando
que a união da matéria e do espírito daria ao universo o seu caráter essencial
(BERTONI,1992, p.33).
Falando do povo hebreu, a importância do corpo para estes consiste em seu
caráter mediador na expressão do Sagrado entre os indivíduos (FARIA, 2004, p.27).
Pode-se observar a concepção de corpo pelos textos bíblicos uma vez que as
escrituras direcionavam seu ethos.
O corpo representa o templo em que o Sagrado pode se manifestar existe,
porém, a necessidade que este corpo esteja dentro dos padrões de pureza
estabelecidos por tais leis.
O surgimento do cristianismo traz consigo uma nova concepção da pessoa
humana, que começa a ser vista não somente em um universo físico, mas em uma
perspectiva transcendental, oposta ao domínio da razão predominante até então pela
perspectiva grega.
23
Pode-se observar que a relação do cristianismo com o corpo possui duas
vertentes. Por um lado se observa uma valorização, no momento em que Deus que se
torna corpo – carne, na pessoa de Jesus Cristo. Um Deus puro espírito se torna
corpóreo, contrariando a hostilidade ao corpo existente na época. Os relatos bíblicos
das pregações de Jesus Cristo, onde toca os corpos de pessoas enfermas trazendo-
lhes a cura, subverte os conceitos judaicos de puro e impuro, e exprime a valorização
de corpo. Por outro lado, se observa a desvalorização neste conceito, tanto pela
influência dos conceitos judaicos de impureza, quanto pela ausência da dança no
referido contexto.
“Então vieram de Jerusalém a Jesus alguns fariseus e escribas e
perguntaram: Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos
anciãos? Pois não lavam as mãos, quando comem.
Jesus porém disse: Também vós não entendeis ainda? Não
compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre
e, depois, é lançado em lugar escuso? Mas o que sai da boca vem
do coração, e é isso que contamina o homem. Porque do coração
procedem os maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição,
furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. São estas coisas que
contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos não o
contamina” (Mt 15,1.16-20).
Para o apóstolo Paulo, o corpo ocupa importante papel no lugar de encontro
entre Deus e o homem. “Apresentei os vossos corpos por sacrifício vivo, santo e
agradável a Deus, que é o vosso culto racional. No capítulo três da carta aos Romanos,
Paulo mostra o corpo como lugar de manifestação do pecado. “A garganta deles é
sepulcro aberto; com a língua urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a
boca, eles a tem cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para
derramar sangue” (Rm 3,13-15). Já no capítulo seis, o apóstolo mostra o corpo como
24
lugar da manifestação da vida de Deus “...oferecei-vos a Deus, como ressurretos dentre
os mortos, e os vossos membros, a Deus, como instrumentos de justiça” (Rm 6,13).
Baseados nestas afirmações, podemos perceber que o apóstolo Paulo reafirma o
pensamento de Jesus Cristo, na concepção de que o corpo é lugar de manifestação da
alma do ser humano, podendo ser santificado se a alma está santificada e por outro
lado portador de depravação e maldição, se a alma assim o está também. Em outras
palavras, o corpo é como um instrumento, um veículo através do qual a essência do ser
humano se expressa. É como um saxofone nas mãos de um músico, trazendo para o
mundo audível o tipo de música que o saxofonista deseja tocar. Então, o corpo em si
não é pecaminoso ou santo, mas é o lugar de manifestação da essência do ser
humano.
Na evolução do cristianismo, a igreja deixou de lado as leis de pureza
tradicionais referentes ao trato com morte e alimento, mas a categoria da pureza sexual
foi retomada, o que acarretou em conseqüência para as mulheres que com base nas
impurezas latentes em seu corpo, ficavam longe dos sacramentos. Para os homens não
havia problemas, senão a necessidade de abstenção de relações sexuais. O ministério
sacerdotal ficara restrito a eles. Segundo Pereira (1997, p.63), o cristianismo assumiu
as idéias dualistas de corpo /alma, corpo/espírito, provenientes do mundo greco-
romano, abandonando o pensamento hebraico que marcou o Novo Testamento, para o
qual não havia separação entre corpo e alma.
No período medieval, mesmo que o pensamento cristão defendesse a dignidade
do corpo como criação divina e local de manifestação do mesmo, se manteve a idéia de
que a verdadeira essência do ser humano está na alma. O trabalho físico, por exemplo,
era serviço dos escravos e dos mais pobres. “...a carne estava associada ao pecado, e
25
se costumava castigá-la para sua purificação” (FÁTIMA, 2001, p.13). Freire cita que, em
Roma, a expressão corporal não era uma atividade para pessoas sérias (FREIRE,
2005, p.47 e 48).
Com a reforma protestante se aboliu o celibato e se proclamou o sacerdócio a
todos os fiéis, rompendo com os tabus de pureza (PEREIRA, 1997, p.65). Mas, mesmo
com a crença na encarnação de Deus em Jesus Cristo, que poderia significar uma nova
concepção de corpo, o protestantismo continuava a ser influenciado pela filosofia grega,
uma vez que a expressão corporal nos cultos protestantes se restringiu ao ajoelhar-se,
curvar-se e levantar as mãos. O corpo não poderia mais ser visto como cárcere da
alma, ou algo pecaminoso, pois foi nele que a Divindade se manifestou. Porém durante
muito tempo o protestantismo se absteve da expressão corporal, e as influências da
filosofia grega, somado ao medo do pecado, foram mais fortes que esta a concepção
indicada no Novo Testamento.
Na modernidade, o corpo passa a ser objeto do conhecimento, no surgimento da
ciência da anatomia e medicina científica. Com o advento do capitalismo, o corpo se
tornou instrumento de produção, e surge uma nova concepção ideológica, a corpolatria
ou o culto ao corpo. O conhecimento científico separa o corpo da alma, ressaltando a
antiga dicotomia, porém o corpo agora passa por uma revalorização.
No mundo protestante contemporâneo existem duas vertentes em relação à
concepção do ser humano. Este pode ser visto sob uma perspectiva dualista, sendo
alma e corpo, ou sob uma perspectiva triuna, sendo espírito, alma e corpo. Porém,
ambas são separadas somente para efeitos de compreensão, pois o ser começa a ser
percebido como um todo. A valorização do corpo da modernidade, começa a dar lugar
para uma redescoberta na corporeidade do ser humano.
26
A presença da dança nas igrejas protestantes da atualidade, especialmente nas
neo-pentecostais, pode significar uma redescoberta do corpo como possibilidade do
encontro deste com Deus. Os fatores que geraram este acontecimento podem ter sido a
soma da valorização que o Novo Testamento oferece ao corpo humano, uma vez que
este direciona o ethos protestante, com a valorização do corpo na contemporaneidade.
Isso seria o ser humano em sua totalidade, se expressando e se encontrando com o
seu criador.
1.5 CARACTERÍSTICAS DAS DANÇAS DE DIFERENTES POVOS
Em diferentes civilizações primitivas, a dança apresenta caráter espiritual,
litúrgico e de diversão.
A dança no Egito apresentava no princípio características sagradas e,
posteriormente, possuía características de diversão (BERTONI, 1992, p.22).
Na Mesopotâmia, a dança era extremamente religiosa, sendo sua concepção de
caráter ritualístico e alegórico, feita para deuses como Mabo, Moloch, Astarte e Baal.
Para os gregos, a dança estava inserida na essência ideológica, cultural, política
e cotidiana. Bertoni cita o pensamento de Platão, dizendo: “... a dança é um dom dos
deuses. Ela deve ser consagrada aos deuses que a criaram. E ainda a afirmação de
Heráclito: ”...O mundo é fogo eternamente vivo, que acende e se apaga em ritmo certo”
(BERTONI, 1992, p.38).
A dança dionisiana, que era realizada e oferecida ao deus Dionísio, durante o ato
de pisar as uvas, é a mais antiga das danças gregas e deu origem ao teatro, no
momento em que começou a ser assistida por um público que se posicionava em forma
27
de teatro de arena, para assistir ao ritual. Tal dança foi convertida posteriormente em
dança litúrgica no calendário grego (SILVA, 2004, p.188).
A dança entre os hebreus era de caráter religioso. O povo hebreu era um povo
que possuía em sua cultura muitas festas para celebrar uma série de acontecimentos
do dia a dia. Porém, mesmo sendo festas sociais, estas possuíam sempre um cunho
religioso.
“E muitas de suas festas duravam cerca de uma semana, durante a
qual eles podiam extravasar seus profundos e sinceros
sentimentos. Nessas ocasiões, o povo arrependido de seus
pecados, buscava o perdão e a bênção de Deus; era o momento de
purificar a alma e marcar um novo começo. O povo expressava
grande gratidão a Deus, e o fazia dançando pelas ruas”
(COLEMAN,1991, p.263).
No seu livro sobre os costumes bíblicos, Colemam deixa claro que o povo hebreu
gostava muito de se expressar através do corpo, dançando e cantando nas muitas
festas. A dança era estritamente de caráter religioso. Possuía características
ritualísticas, com determinado limite de esquematização como rodas, danças em fila,
danças giratórias; também havia a improvisação. Sempre que as colheitas eram
abundantes, os hebreus demonstravam sua gratidão a Deus, celebrando pelas ruas,
fazendo festas com momentos de regozijo, muita música, banquetes e ainda momentos
de oração e meditação. Estas festas tinham um cunho educativo, pois continham lições
sobre a história da nação, suas esperanças, vitórias e derrotas.
A dança entre os romanos possuía características diferentes das já citadas. A
civilização romana conseguiu eclipsar a dança dentro do seu momento histórico, uma
vez que os valores estavam mais voltados às conquistas das guerras, “talvez pela
28
rudez intrínseca de um povo com espírito conquistador como o romano, povo de
soldados, voltados à administração e à legislatura” (BERTONI, 1992, p. 47).
Ao observarmos tais aspectos da dança nas referidas civilizações, podemos
perceber algumas características da mesma antes do surgimento das técnicas
tradicionais, como por exemplo o ballet clássico: a importante presença da dança
dentro dos rituais e da vida religiosa das civilizações citadas; a não-predominância do
caráter contemplativo na dança, exceto na dança dionisiana quando começa a surgir o
binômio bailarino - espectador; e finalmente a ausência de uma técnica comum que
padronizasse o ato de dançar. A dança de um modo geral era natural e instintiva.
1.6 A DANÇA SAGRADA
A dança sagrada permite que o ser-humano transcenda, uma vez que possibilita
a expressão do indizível. “A dança vem da necessidade de dizer o que as palavras não
dizem. É um meio eficiente de encontro consigo e com o próximo, com a criação e o
criador. É uma forma de oração, um ritual social e sagrado” (FÁTIMA, 2001, p.51).
Bernhard Wosien descreve o movimento na dança como uma oração silenciosa que
somente a fé compreende.
“A oração é designada como a via de comunicação da alma
humana com Deus. Injustamente, pois na oração, tanto a alma
quanto o corpo participam. Uma oração puramente espiritual é
adequada aos anjos, mas não às pessoas, com sua natureza
espírito-corporal. As formas corporais correspondentes às rezas
interiores que pertencem à oração humana” [sic!] (WOSIEN, 2000,
p. 27).
Eliade (1992) aponta o Sagrado como uma realidade de ordem diferente das
realidades naturais; equivale ao transcendente, ao poder e se opõe ao profano. O
29
profano por sua vez se refere ao mundo natural, a tudo o que está destituído do
sagrado. Afirma, ainda, que existem dois modos de ser no mundo: sagrado ou profano.
Partindo deste modo de ver o mundo, a dança sagrada seria aquela direcionada ao
Sagrado, ao transcendente, sem a intenção direta de se dirigir ao mundo natural. Por
outro, lado a dança profana seria aquela que é direcionada ao mundo natural, às
causas culturais, sociais e lúdicas. Esta distinção entre dança sagrada e profana se dá
mais por um aspecto cultural, ou seja, as pessoas acham que ao se divertir não estão
realizando uma dança sagrada e sim profana. Mas, toda arte transcende e na dança
sempre há uma transcendência, mesmo que o bailarino não saiba, mesmo que a dança
não seja uma liturgia, mesmo que a transcendência não se faça em direção a uma
determinada doutrina, mesmo que sem uma intenção direta de se relacionar com o
sagrado, todo tipo de dança é direcionado a uma divindade, e quem a dança se
relaciona com ela.
O Sagrado se insere na vida do ser humano através da experiência religiosa,
mesmo que esta experiência esteja totalmente baseada em fé, ou seja, em uma crença
e não necessariamente em uma experiência palpável. A experiência da dança sagrada
na vida do ser humano pode vir a ser como a experiência da oração, realizada porém
de forma irracional, no sentido de ser uma linguagem simbólica carregada de
sentimentos.
Baseados no pensamento de Wosien, podemos entender que a dança sagrada
proporciona um momento em que se explora a espiritualidade através de algo físico: o
corpo que dança. O poder que a dança possui de elevar o ser humano a um plano de
liberdade de expressão dos sentimentos permite àquele que dança a experiência
religiosa, no momento em que é uma linguagem que desenha no ar aquilo que as
30
palavras não conseguem dizer. Ou seja, as necessidades da alma humana, os anseios,
os temores, a reverência, a veneração e a adoração a aquilo que se chama de Sagrado
também podem ser expressos através dos movimentos. A dança seria uma oração
onde não se usa somente a linguagem verbal, mas também a linguagem corporal. A
dança seria, então, mais uma maneira de orar.
1.7 O ETHOS E A DANÇA
Para Geertz (1989), ethos é uma concepção de mundo, em conformidade com
um estado emocional admitido como expressão autêntica das coisas pertencentes à
sua visão de mundo. É o conjunto de motivações e orientações de um povo,
identificando o caráter e o estilo moral e de vida.
As manifestações artísticas e culturais de um povo permitem ver seus valores
mais antigos, seu ethos. Percebendo que o sentido verdadeiro de uma obra de arte é
um processo infinito e em constante movimento e ampliação, observar como um povo
dança pode, então, ser a maneira mais clara de se compreender seu ethos e sua
sociedade.
“...esta forma de expressão tem sido o caminho de manifestação
natural, sobre o qual, desde o início, o desenvolvimento
integral do homem foi desencadeado. A dança foi realmente o
elemento responsável pela sociabilidade do homem”
(BERTONI,1992, p. 8).
A dança de um povo revela o gráfico de sua cultura e religião. É partindo deste
pensamento que percebemos que a dança de um povo traz consigo a marca do seu
ethos. Wosien destaca esta marca, quando aponta que o ser humano não dança
31
sozinho, mas com o mundo ao seu redor, com o grupo, o que sugere que, ao dançar, o
ser humano se move dentro de padrões e concepções, direcionadas pelo ethos. “Em
nenhum lugar o homem é tão exigido em sua totalidade. Aqui, por fim, ele se encontra
não só consigo mesmo, mas também com o Tu, com o mundo em redor, com o grupo,
com a alteridade, tão simplesmente” (WOSIEN, 2000, p.28). O estudo da apropriação
da dança na experiência religiosa do mundo contemporâneo permite ver a cultura e
valores de determinado grupo social.
Uma das crenças ou visões de mundo do protestantismo é que a vida neste
mundo irá passar, havendo, então, uma vida após a morte. A salvação ou o adquirir a
vida eterna não consiste em fazer boas obras ou no ser uma pessoa boa, mas em
aceitar a Cristo como Senhor e Salvador. Porém, deve-se viver a vida dentro de
padrões de santidade e pureza, dirigindo a atenção para a vida após a morte. A busca
de santificação também é um pré-requisito para que na vida terrena se possa desfrutar
de um relacionamento com o Sagrado.
A busca pela santificação, presente no protestantismo, pode ser um dos fatores
que influenciaram na sua rejeição à dança. Quando esta nova tradição religiosa surgiu,
se levantou contra as práticas sociais mundanas que estavam sendo amplamente
difundidas entre os círculos do mundo cristão. No seu ethos, os protestantes se movem
dentro dos padrões de santidade e pureza previamente estabelecidos e a dança não
poderia fazer parte deste padrão uma vez que, no período do surgimento do mesmo,
estava misturada a práticas consideradas pecaminosas. Fátima (2001) cita que no
Concílio de Wursburg, a dança foi totalmente banida do ambiente do culto, indo então
para as praças, para o meio do povo, de onde saiu para as cortes sendo academizada,
se tornando o ballet.
32
A religiosidade do ser humano está condicionada ao seu ethos, ou seja, a
maneira como o indivíduo adora e invoca o Sagrado depende de sua visão de mundo.
A apropriação da dança no culto por parte das diferentes igrejas protestantes,
principalmente das neopentecostais, pode significar algum tipo de alteração em seu
ethos, sua visão de mundo. Tal alteração pode ter sido influenciada pela revalorização
do corpo na modernidade, que abriu caminho para que as atitudes de Cristo em relação
ao corpo, somadas às palavras de Paulo, relatadas nos textos do Novo Testamento,
fossem compreendidas de forma nova na contemporaneidade, após terem sido
abafadas pela filosofia e cultura do período medieval.
1.8 A DANÇA COMO EXPRESSÃO DE LOUVOR E ADORAÇÃO NO CULTO
CRISTÃO
No cenário protestante da atualidade, a dança se destaca como forma de louvor
e adoração, se fazendo presente nos momentos de louvor durante as celebrações do
culto a Deus. Além de possuir grupos musicais que dirigem a congregação em
animados momentos de louvor e adoração, agora as igrejas também possuem grupos
de dança com a mesma finalidade. A dança antes tida como algo pecaminoso e fora do
contexto protestante tem sido canal de celebração para os cristãos evangélicos.
Este movimento que tem acontecido nos últimos 15 anos, envolvendo igrejas
neo-pentecostais, pentecostais, tradicionais e históricas, iniciou no Brasil no momento
em que alguns bailarinos brasileiros que dançavam na festa dos Tabernáculos em
Israel, pela Embaixada Cristã em Jerusalém, começaram a difundir pelo país a dança
no culto. Vários grupos de dança, que já atuavam em igrejas evangélicas dançando,
33
porém, como forma de apresentação para ilustrar pregações ou mesmo proclamar o
evangelho, tiveram a oportunidade de se apropriar da dança não somente como
apresentação, mas como parte do culto a Deus.
O movimento ganhou força e hoje a grande maioria das igrejas evangélicas
possui uma certa abertura à dança. A procura de congressos que enfoquem o ensino
da dança no culto tem crescido cada dia mais, sendo que o centro dos estudos é a
Bíblia Sagrada. A forte presença da dança na cultura do povo hebreu, citada nos textos
bíblicos, somada à valorização do corpo na contemporaneidade, legitima a dança no
cristianismo evangélico da atualidade.
1.9 – SÍNTESE
A dança de um povo é veículo de expressão cultural e religiosa. Através do
universo simbólico contido na sua produção cultural, em meio a motivos festivos, o ser
humano revela sua necessidade de expressar valores e crenças.
A manifestação cultural de um povo se mostra também como agente perpetuador
destes valores e crenças, uma vez que vem carregada de um aparato simbólico, que
através da cultura é transmitido de geração em geração.
A dança por sua vez é a mais antiga manifestação de expressão natural do ser
humano. Um bebê, mesmo antes de andar e falar, já se expressa se movendo de forma
ritmada. O ser humano, então, se sociabiliza, expressa e perpetua valores através da
dança, uma vez que esta se faz presente nas várias manifestações culturais e religiosas
dos povos. A dança sagrada proporciona para o indivíduo uma experiência semelhante
a da oração, uma via de comunicação com o Sagrado. Porém dentro do cristianismo, a
34
dança não encontra um caminho de liberdade de expressão e manifestação, se
reduzindo a simples movimentos como se ajoelhar, levantar as mãos e se curvar.
Ao longo da história, a concepção de corpo do ser humano caminha desde um
período de uma primitiva valorização do mesmo, seguida de uma desvalorização no
período medieval, chegando finalmente a uma revalorização fortalecida pela
contemporaneidade. Tal revalorização pode ter sido o canal de alteração no ethos
cristão, que veio proporcionar a compreensão das palavras de Cristo em relação ao
valor do ser humano como um todo, espírito, alma e corpo. Ao perceber-se como um
todo, o ser humano se sente livre para achegar-se à divindade se expressando em sua
plenitude, com sua arte, com sua dança.
Passamos agora ao segundo capítulo, analisando a dança na cultura hebraica e
o desenvolvimento da dança no cristianismo.
35
CAPÍTULO II
A DANÇA NA CULTURA HEBRAICA E A GRADATIVA SUPRESSÃO DA DANÇA NO
CULTO CRISTÃO
Neste capítulo, a pesquisa inicialmente faz um paralelo entre as danças
religiosas e as teatrais, discorrendo posteriormente sobre a dança na cultura hebraica,
bem como os valores desta cultura em relação ao conceito do corpo que se expressa
na dança; também será enfocada a dança na cultura romana e grega, com seus
costumes e conceitos filosóficos que influenciaram o povo hebreu; e, finalmente, se
abordará a dança nos cristianismos, apontando para a influência que estas culturas
imputaram nas manifestações artísticas de dança.
2.1 AS DANÇAS RELIGIOSAS E AS DANÇAS TEATRAIS
A história da dança está relacionada com a história dos povos, uma vez que se
mostra como a expressão de seus valores e crenças. Nas diferentes culturas, a dança
sempre esteve presente como integrante das cerimônias religiosas. Faro (1996, p.13),
afirma que “a dança nasceu da religião, se é que não nasceu junto com ela”. Este
mesmo autor afirma ainda que, se a arquitetura veio da necessidade de morar, a dança,
provavelmente, veio da necessidade de aplacar os deuses ou de exprimir a alegria por
algo de bom concedido pelo destino ou pela divindade.
A pesquisa aponta a dança de duas formas distintas: as danças religiosas e as
danças teatrais. As danças religiosas são as danças étnicas e folclóricas realizadas
36
pelos diferentes povos, tanto em cerimônias religiosas quanto em manifestações
culturais. De um modo geral, as danças religiosas de diversas manifestações étnicas
estiveram sempre ligadas às religiões primitivas e eram inicialmente realizadas pelos
sacerdotes e iniciados dos grupos. Com o tempo, os sacerdotes foram permitindo que
as cerimônias fossem realizadas em locais públicos e não mais dentro dos templos,
passando do domínio dos sacerdotes para o domínio do povo. Desta forma, as
manifestações religiosas começaram a se tornar manifestações populares,
desaparecendo o seu significado religioso, o que deu origem às danças folclóricas.
Outra característica interessante destas danças é que, inicialmente, eram realizadas
somente pelos representantes do sexo masculino; só muito mais tarde as mulheres
também começaram a participar ativamente das danças folclóricas. As danças teatrais
são as danças que possuem uma técnica específica; são voltadas para a apresentação,
como por exemplo, o ballet, o jazz e a dança moderna.
As danças eram originalmente utilizadas como forma de culto por diversos povos
primitivos. Não havia a necessidade de um espectador, pois era uma forma de se
relacionar com os deuses. “Os fiéis, durante o ritual, não representam para os deuses,
mas dialogam com eles...” (SILVA, 2004, p.187). No entanto, podemos dizer que o
aspecto religioso deu origem ao aspecto de apresentação quando, já na Grécia Antiga,
as emoções passaram a ser vividas não somente entre os fiéis e os deuses, mas entre
um ator e um espectador. Em relação a este assunto, Silva aponta que no culto ao deus
Dioníso, durante o feitio do vinho no período do século V a.C., surge este aspecto de
apresentação no momento em que pessoas passam a participar do ritual assistindo, o
que dá origem ao coro.
37
“O coro saiu do tonel das uvas. Não saiu como espetáculo, já que a
distinção entre espectador e artista é posterior. Saiu como festa
religiosa, de que todos os presentes participavam, mas com
diferentes níveis de participação, vale dizer, alguns participavam
assistindo, provável origem da platéia” (SILVA, 2004, p.188).
Após o surgimento do teatro, veio o surgimento das danças teatrais, nos salões
da corte, no período da transição da Idade Média para o Renascimento, acompanhando
a tendência ao racionalismo e a busca pelo reconhecimento. Os bailarinos dançavam
para o deleite dos soberanos e da nobreza. Segundo Achcar, a dança deixava de estar
somente nas praças e feiras, em domínio do povo como manifestação étnica e cultural,
e começava a ser executada em forma de apresentação para a nobreza
(ACHCAR,1998, p.13). A dança deixou, assim, de ter o aspecto de culto e passou a ter
o aspecto de apresentação.
No meio evangélico contemporâneo podemos ver que a dança possui
características religiosas, no sentido de não ter o objetivo de ser uma apresentação,
mas uma ministração. Porém, fica explícito que a forte presença das danças teatrais na
contemporaneidade, seguidas do apelo comercial pós-moderno, fazem com que muitos
grupos, que iniciam com uma proposta de ministrar ao sagrado, caminhem para o
aspecto de danças teatrais voltadas para a apresentação. Por outro lado, o fato de
possuir características de apresentação, uma vez que é realizada à frente de um
público que não somente participa, mas também assiste, não tira o aspecto religioso da
dança. A intenção do bailarino ao dançar é que vai indicar se a dança é estritamente de
apresentação ou se é direcionada ao sagrado.
38
2.2 A DANÇA NA CULTURA HEBRAICA
A importância do estudo sobre a dança na cultura hebraica se dá pelo fato de ser
a cultura que é berço do cristianismo, contendo assim valores que possivelmente
influenciam na dança que tem sido realizada no meio evangélico protestante.
2.2.1 As festas hebraicas
Na longa e rica história do povo hebreu, destacam-se as inúmeras celebrações
que marcavam acontecimentos históricos, ou mesmo corriqueiros, servindo também
como forma de cultuar a Deus, oferecendo-lhe agradecimento pelos seus feitos, ou
como forma de oração, buscando sua presença e suas bênçãos.
As festas hebraicas tinham diversos propósitos. Possuíam um caráter religioso,
um caráter lúdico e ainda, um cunho educativo, com efeito didático. O caráter religioso
da dança do povo hebreu se mostrava no fato de que as danças sempre aconteciam
para louvar a Deus (COLEMAN,1991, p.262). Sempre que as colheitas eram
abundantes, os hebreus demonstravam sua gratidão a Deus celebrando pelas ruas,
fazendo festas com momentos de regozijo, muita música, banquetes e ainda momentos
de oração e meditação. Muitas de suas festas duravam cerca de uma semana, durante
a qual podiam extravazar seus profundos sentimentos. Matias (2006, p.104) afirma que
as festas eram consideradas pelos hebreus como um momento privilegiado de
entrevista com Deus. “Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: As festas fixas que
proclamareis, são as minhas assembléias” (Lv 23,2). A celebração com músicas e
danças era tida como uma maneira de orar, de se comunicar com Deus. As festas
também possuíam um cunho educativo, pois continham lições sobre a história da
39
nação, suas esperanças, vitórias e derrotas. Na medida em que novas gerações vão
surgindo, as festas judaicas vão mantendo a sua cultura, suas tradições e crenças,
revivendo a história à medida em que celebram suas festas.
Sendo um povo por natureza festivo, os israelitas apreciavam música ritmada e
não ficavam parados para ouví-la. Gostavam de expressar livremente suas emoções,
tanto as alegrias quanto as tristezas, através das danças e o faziam nas suas festas.
“Muitas vezes os seus gritos de angústia eram tão ruidosos como os gritos de alegria e
ações de graça” (COLEMAN, 1991, p.279).
As principais festas hebraicas serão colocadas a seguir, com suas respectivas
datas e motivos de celebração, destacando o aspecto religioso que as acompanha.
Rosh Hodesh – Festa de consagração do início de cada mês.
Pesah - Páscoa, celebrada dia 14 de Nisan (Abril). Esta festa é de grande
importância ao povo hebreu. Está presente em todo o Antigo Testamento, tendo-se
estendido à era cristã, onde veio a constituir as bases da igreja primitiva. A festa da
páscoa recorda que um dia os hebreus foram escravos do Egito, mas foram libertos e
protegidos por Deus. Os hebreus foram livres da décima praga do Egito, que seria a
matança dos primogênitos pelo anjo da morte. Orientados por Deus através de Moisés,
mataram um cordeiro passando sangue nos umbrais das portas de suas casas. Foram
livrados da praga e libertos pelo Faraó. A festa também aponta para a vinda do
Messias.
Omer - Primícias da Colheita. Nesta ocasião, os hebreus ofereciam feixes das
primícias da colheita de cevada, do dia seguinte a Pesah até Shavuot.
Shavuot - Festa de Pentecostes- Celebrada no dia 6 de Sivã (Junho). A festa é
realizada cinqüenta dias após a época da colheita de cevada que era na páscoa; vinha
40
então, a colheita do trigo. Esta festa começou nos tempos de Moisés (Ex 34,22),
celebrava alegria pela colheita do cereal. Dentro do cristianismo, a referida festa
marcou o início de uma nova fase, quando após a ascensão de Jesus, os crentes
estavam reunidos para esperar novas instruções e ao cumprir-se o dia de pentecostes
foram cheios do Espírito Santo (At 2,1-4). A partir deste momento foram espalhar o
cristianismo por todos os povos.
Sukkot – Festa dos Tabernáculos, também chamada posteriormente de Festa
das tendas, da colheita e festa do Senhor. Celebrada do dia 15 a 21 de Tishri (outubro).
Relembrava que YAHWEH um dia tirou os hebreus do Egito e os fez habitar em tendas.
Celebrava também a colheita das uvas e azeitonas. Nesta época, todos os judeus
devotos deveriam ir a Jerusalém (ÊX 23,16-17). Havia grande regozijo e esperava-se
que todos trouxessem uma oferta de gratidão ao Senhor. A festa continuava por sete
dias, sendo que o primeiro e o oitavo dia eram guardados como sábados cerimoniais
(Lv 13,36-39).
Elul – Durante todo o mês de Elul (Agosto), os hebreus celebravam o amor de
Deus por Israel. Antes do romper da aurora, recitavam pedidos de perdão e súplicas.
Rosh Hashanah - Dos dias 1 a 3 de Tishri (outubro). Celebravam o começo do
ano judaico.
Yamim Nora In - Dez dias de temor, feitos no intervalo entre Rosh Hashanah e
Kippur, declarando que Deus dá ao ser humano a oportunidade de receber o perdão
em Kippur.
Kippur – O dia do perdão era uma festa feita em 10 de Tishrei (Outubro). Nesta
festa, os hebreus buscam o perdão de Deus, fazendo uma pausa para refletir sobre os
pecados cometidos. O significado desta festa para o cristianismo aponta para o dia da
41
expiação quando Jesus assume a função de Sumo Sacerdote. Após dias de profundos
sentimentos de remorso e tristeza, os participantes se entregavam à alegria da festa
dos tabernáculos.
Hanukkah - Festas das candeias, proclamando às nações que a única luz neste
mundo é a luz que Deus faz brilhar. Celebra-se a conquista do templo por Judas
Macabeus, após sua profanação pelos gregos em 167 a.C. A festa é celebrada em 25
de Chisley (novembro). A tradição diz que Judas encontrou um vaso de cerâmica com
azeite que deveria durar um dia e que durou sete dias. Na festa acendiam-se luzes, que
eram mantidas acesas por sete dias.
Tu B Shevat - Ação de graças pelos frutos das árvores, no dia 15 de Shevat
(Janeiro).
Purim - Dia de Mardoqueu, em 15 de Adar (Março). É uma festa que se
comemora o livramento que Deus deu ao seu povo nos dias de Assuero, através da
intervenção da rainha Ester a favor do povo Judeu.
Tish - Lamentação pela destruição do primeiro templo por Nabucodonossor, em
9 de Av (Julho).
Yom Hatzmaut - Dia da independência e proclamação do Novo Estado Judeu - 5
de Iyar (maio) de 1948.
Shabbat - Sábado, dia de santidade e descanso. A festa é realizada em
memorial à criação e em sinal do pacto entre Deus e o povo hebreu, “porque, em seis
dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia,
descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou” (Ex 20,11).
Segundo Reimer (1999, p.38), a palavra santificar significava “manter algo como
42
separado”, como “algo especialmente dedicado” (1999, p.43). O sábado se tornou uma
marca constitutiva do povo de Israel, respectivamente do povo judeu.
2.2.2. A dança hebraica
A dança do povo hebreu tinha características religiosas e de manifestação
étnica. Notamos que os hebreus dançavam de forma geralmente intensa em todas as
situações, fazendo com que a dança estivesse presente no culto ao Sagrado. Segundo
Coleman, entre o povo hebreu a dança era estritamente de caráter religioso. Tinha
características ritualísticas, com determinado limite de esquematização como rodas,
danças em fila, danças giratórias, também havia a improvisação. A dança deste povo
vinha carregada de símbolos tirados de suas tradições. Utilizavam-se tecidos que
significavam: água, sangue, vento, toque, envolver, cobrir e proteger. Havia fitas
coloridas que lembravam alegria, fogo, intensidade e fervor. Também eram utilizados
pandeiros, fazendo alusão a Miriã que dançou com centenas de mulheres após a
travessia do Mar Vermelho, simbolizando a vitória frente aos inimigos (COLEMAN,1991,
p.262).
Os termos hebraicos para a dança citados no Antigo Testamento são:
Meholah (de hwl): dança de roda, dança (Ex 15,20);
Hwl: rodear, vibrar, voltar-se (contra); dançar em roda;
Rqd: saltitar (Ecl 3,4; Sl 114,4);
Shw: brincar, agir de maneira desajeitada, rir, sorrir;
Krr: dançar (saltar, tripudiar) (2 Sm 6,14.16);
Pzz: ser ágil, e ainda saltear, dançar (2 Sm 6,16);
43
Psh: mancar, coxear (1 Rs 18,26).
As alusões de dança nesta civilização são muitas. Ossona (1988, p.56) indica
que o Antigo Testamento é uma fonte que documenta a dança hebraica na Antiguidade.
Alguns registros bíblicos trazem as citações de danças do povo hebreu:
“Louvem-lhe o nome com dança, cante-lhe salmos com adufe e harpa” (Sl 149,3). Neste
texto, podemos perceber que o povo hebreu utilizava a dança como maneira de
expressar louvor e adoração no culto ao Sagrado.
Sempre que se lê um texto bíblico sobre arte na história dos hebreus, se observa
que esta estava ligada a líderes espirituais como levitas e sacerdotes. “Disse Moisés
aos filhos de Israel: “Eis que o SENHOR chamou pelo nome a Bezalel, filho de Uri, filho
de Hur, da tribo de Judá, e o Espírito de Deus o encheu com o seu Espírito e lhe deu
inteligência, competência e habilidade para fazer todo tipo de trabalho artístico (Ex
35,31). A celebração do rei Davi e todo o povo, ao levar a arca da aliança para
Jerusalém: ”Davi dançava com todas as suas forças diante do SENHOR; e estava
cingido de uma estola sacerdotal de linho. Assim, Davi, com todo o Israel, fez subir a
arca do SENHOR, com júbilo e ao som de trombetas (2 Sm 6,13-15). Mesmo não
sendo a função de um rei fazer os serviços sacerdotais, Davi assume esta função ao
dançar com uma estola sacerdotal. Silva e Vasconcelos ( 2003, p. 101) apontam que
uma das características do reinado de Davi era a centralização do poder em suas
mãos. Com danças, Davi leva a arca para Jerusalém, estabelecendo-a como capital
espiritual do reino e, como conseqüência, fortalecendo o seu reinado. A presença da
dança neste ritual tão importante para o reinado de Davi, bem como as referências que
apontam para o fato de haver outra liderança religiosa a conduzindo, mostra a sua
importância para o povo hebreu.
44
Outros textos bíblicos citam a personagem Miriã liderando uma dança junto às
mulheres hebraicas. A passagem mostra o festejo com danças que o povo hebreu
normalmente fazia ao celebrar suas vitórias: “A Profetiza Miriã, irmã de Arão, tomou um
tamborim, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamborins e com danças (Ex
15,20-21).
Outro exemplo dos festejos com danças é a dança em louvor a Deus, depois da
batalha bem-sucedida do exército de Saul contra o povo filisteu: “Sucedeu, porém, que,
vindo Saul e seu exército, e voltando também Davi de ferir os filisteus, as mulheres de
todas cidades de Israel saíram ao encontro do rei Saul, cantando e dançando, com
tambores, com júbilo e com instrumentos de música (1 Samuel 18,6).
Temos também relatos bíblicos de danças realizadas pelos hebreus a outros
deuses, como por exemplo a dança ao redor do bezerro de ouro, que foi condenada por
Moisés: “E aconteceu que, chegando Moisés ao arraial, e vendo o bezerro e as danças,
acendeu-se-lhe o furor, e arremessou as tábuas das suas mãos, e quebrou-as ao pé do
monte (Ex 32,19).
Algumas citações demonstram a presença das danças em situações diversas
como em Jz 11,34: “E voltou Jefté a Masfa, a sua casa, e eis que a sua filha saiu para
encontrá-lo com tamborins e com danças”. Quando após Davi matar o filisteu, “...
saíram as mulheres de todas as cidades de Israel, para cantar e dançar ao encontro de
Saul, o rei, com tamborins, com alegria e com instrumentos de música” (1 Sm 18,6).
A ausência de dança era um sinal de tristeza: “Cessou o júbilo de nosso coração,
converteu-se em lamentações a nossa dança” (Lm 5,15).
Na Bíblia, a dança também é citada como um cumprimento profético, como
manifestação de algo bom que viria a acontecer: “Então a virgem se alegrará na dança,
45
e também os jovens e os velhos; tornarei o seu pranto em júbilo e os consolarei;
transformarei em regozijo a sua tristeza” (Jr 31,13).
A quantidade de registros bíblicos existentes, citando o tema da dança, deixa
claro a forte presença desta na comunidade hebraica, em suas festas sociais e
celebrações religiosas. A dança se destaca, então, como uma notável integrante desta
cultura da qual surgiu a religião cristã. Baseado nesta afirmação pode-se concluir que a
ausência da dança vivida pelo mundo cristão protestante não aconteceu por uma
herança hebraica, uma vez que, nesta cultura, a dança se mostrava como parte
integrante de sua religião. A ausência da dança no cristianismo pode ter sido provocada
por acontecimentos posteriores ou mesmo contemporâneos à sua origem. Tal período
será abordado no item 2.4.
2.2.3 Uma perspectiva de corpo e movimento na cultura Hebraica
O movimento é uma linguagem não verbal e simbólica, através da qual se
expressa o que as palavras não conseguem dizer. Eliade afirma que o homem se
comunica com o mundo através dos símbolos (1992, p.126). A linguagem simbólica
precede à linguagem verbal, expressando valores intrínsecos do indivíduo e de uma
sociedade. Estudar o simbolismo de corpo da sociedade hebraica pode facilitar a
compreensão do valor da dança para esta sociedade.
Pereira discorre sobre o senso comum que foi construído no imaginário social a
partir das tradições bíblicas, indicando que se percebe “um deus incorpóreo, puro
espírito, e homens e mulheres cheios de ordenanças em seus corpos pecadores e
46
mortais” (PEREIRA, 2001, p. 6 ). Este aspecto aponta para uma valorização do aspecto
espiritual em detrimento do aspecto físico.
Coleman (1991, p.263) afirma que, através das danças, o povo hebreu buscava
o perdão e a bênção de Deus; a dança era o momento de purificar a alma e marcar um
novo começo. As danças no meio do povo hebreu faziam, então, parte do ritual de
purificação e também de atos de louvor e adoração a Deus.
Faria afirma que, para os hebreus, o corpo representa o templo em que o
sagrado pode se manifestar, tornando-se real (2004, p.27). Para o homem religioso é
extremamente importante a presença do real para atestar a existência do Sagrado,
promovendo a comunhão com o mesmo.
Para o hebreu, a vida do corpo se manifesta essencialmente na respiração
(neshama) e no sangue (dam). A respiração ou o neshama é a característica do
homem vivo à diferença do morto; ele mostra o homem em união com Yahveh, uma vez
que este o criou com seu fôlego de vida (Gn 2,15). “Assim a respiração, como a função
básica da vida humana, se destinava a conservar o homem unido como o seu criador”
(WOLFF, 1978, p.89). O louvor a Deus é uma tarefa a todo o ser que respira (Sl 150,6).
O sangue ou o dam também representa a vida do homem; não tem a ver com a vida
emocional ou intelectual. O sangue não poderia ser ingerido, pois ao homem compete a
carne, mas o sangue, a vida, compete somente a Deus. Segundo Wolff, o
derramamento de sangue humano é salientado como crime contra a imagem de Deus
(1978, p.90). “a respiração e o sangue estão relacionados com Javé, e que por isto a
vida sem união constante com ele e orientação última para ele não é vida propriamente
(Wolf, 1978, p.91).
47
O corpo representava a plenitude da vida do ser humano, podendo sim ser
considerado algo bom, cabível de ser oferecido a Deus em adoração e louvor, através
de movimentos. A principal palavra hebraica que é traduzida como corpo é gewyyâ, que
significa corpo humano vivo, ou cadáver que é corpo morto (WOLFF, 1978, p.46).
A palavra carne em hebraico é basar. Wolff indica que a palavra basar designa a
parte visível do corpo humano, podendo significar todo o corpo humano. “basar indica o
homem como tal, agora e o faz sob o aspecto corporal” (Wolff, 1978, p.47). Wolff indica
ainda que basar aponta para a característica fraca e caduca da vida humana. “Já no
Antigo Testamento, basar não só significa a falta de força da criatura mortal, mas
também a sua fraqueza quanto à fidelidade e obediência em face da vontade de Deus”
(Wolff, 1983, p.50).
No texto de Isaías podemos observar que existe uma certa distião
apresentada entre carne e espírito “...carne e não espírito” (Is 31,3). No hebraico, esta
palavra tem um senso de emoção, uma provável aproximação daquilo que se entende
por espírito “meu coração e a minha carne exultam pelo Deus vivo” (Sl 84,2). Talvez os
textos de Isaías e o Salmo tenham influenciado Paulo quando utiliza o termo carne,
quando o coloca distinto do corpo ao escrever em Romanos 8,8 que “...os que estão na
carne não podem agradar a Deus”. Esta distinção entre corpo e carne é importante
sobre o aspecto das danças no cristianismo, uma vez que o apóstolo não está
apontando a condenação para o corpo, mas para atitudes pecaminosas, que o ser
humano por inteiro pode cometer (1 Pe 2,11).
Certas partes do corpo são referidas nos textos bíblicos como se tivessem certa
independência de ação.
48
“Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti, pois
te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o
seu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te faz
tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te convém que se perca um
dos teus membros, e não vá todo o teu corpo para o inferno” (Mt
5,29-30).
Em alguns textos bíblicos, atitudes em relação a algumas partes do corpo fazem
alusão a diferentes situações. A cabeça ilustra liderança. “Quero, entretanto, que
saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o
cabeça de Cristo (1 Co 11,3). Cabeça levantada simboliza alegria, confiança, orgulho,
exaltação. “...és a minha glória e o que exaltas a minha cabeça” (Sl 3,3). Os pés eram
batidos no chão em ocasiões de extrema alegria ou tristeza. “Bate as palmas, bate com
o pé e dize” Ah! Por todas as terríveis abominações da casa de Israel!” (Ez 6,11). Ainda
que sejam figuras de linguagem, partes do corpo sempre são citadas nos textos bíblicos
de forma a representarem aspectos definidos do homem. Esta divisão não tira o
simbolismo do Eu indivisível, pois as funções corporais têm significado em estreita e
íntima relação com o que é sagrado. Levando este pensamento para o aspecto da
dança dos hebreus, lembra-se que dançar seria uma maneira de oferecer à Divindade
cada parte do corpo que é movida diante desta. Esta dança seria, então, uma maneira
de consagrar as atitudes do dia a dia, na medida em que se move a parte do corpo
frente à divindade. Um exemplo disto é o movimento cadenciado que os hebreus fazem
até hoje diante do muro das lamentações, movendo-se pra trás e para frente,
oferecendo à divindade suas vidas em adoração.
No Antigo Testamento, as leis levíticas que impõe os conceitos de puro e impuro,
influenciam na concepção de corpo do povo hebreu. Este conceito se baseia nos
seguintes fatores: Da ingestão de alimentos, pois a pessoa era considerada impura se
49
ingerisse certos tipos de alimentos (Lv 11, 9 -12), se não lavasse as mãos antes de
ingerí-lo; se houvesse contato com os mortos (Nm 19,11); a circuncisão, que era uma
marca feita no corpo, determinava que a pessoa tinha uma aliança com Deus; (Gn 17,9-
11); a menstruação e a gravidez deixavam a mulher impura por alguns dias (Lv 12,5).
Pode-se observar, então, uma concepção de corpo, que é valorizado a medida que se
coloca dentro dos padrões de pureza e santidade, impostos no conceito de puro e
impuro.
Os hebreus rejeitaram a crença em divindades corporificadas, o que poderia
significar uma desvalorização no conceito de corpo frente às ordenanças de não poder
ver a face de Deus e ainda, no Decálogo, o mandamento de não fazer imagem do que
há no céu. “Não fará para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há
em cima nos céus...” (Êx 20,4). Mas, biblicamente, se percebe mais uma vez, o aspecto
oposto, indicando valorização do corpo, pelo fato de a figura de Deus sempre estar
relacionada com partes do corpo. Desde o princípio da criação: “Deus criou o ser
humano à sua imagem” (Gn 1,27), em Is 50, 1 quando diz que: “a mão do Senhor não
está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder
ouvir.” Até na encarnação de Deus em Cristo Jesus: “porquanto nele habita
corporalmente toda a plenitude da Divindade” (Cl 2,9). Em seu texto sobre a
corporeidade de Deus na bíblia hebraica, Reimer indica que existe uma linha dominante
de que não se pode ver, nem representar a presença de Yahveh ou de sua
corporeidade, mas que há alguns textos que constituem uma notável exceção. Em Ex
24,10 onde Moisés e outros “viram o Deus de Israel”. Ex 32, 22-23, onde Yahveh
concede a Moisés o pedido de vê-lo “pelas costas”. Em Nm 12,6-8 existe a afirmação
de que Yahveh fala com Moisés “face a face”. “As informações dadas são suficientes
50
para deduzir que a divindade é imaginada como tendo forma humana” (EILBERG-
SCHWARTZ apud REIMER, 2005, p.16). A indicação sobre a corporeidade de Yahveh,
indica uma possível valorização do corpo, no momento em que o corpo se mostra
sendo utilizado para uma atitude honrosa, que seria manifestar o sagrado, o que se
relaciona com o espiritual e não somente manifestar o que é natural e terreno.
Os hebreus utilizavam ações corporais para se manifestar ao Sagrado. Um dos
exemplos destas ações é a movimentação corporal que os judeus realizam frente ao
muro das lamentações, realizando movimentos cadenciados na medida em que fazem
suas orações. Esta ação é realizada também na contemporaneidade. “os hebreus
manifestavam temor reverente, admiração e respeito próprios da atitude e do
significado primeiro de adoração em seu relacionamento com o Senhor traduzido,
inclusive, por ações corporais. (DOUGLAS apud COIMBRA, 2003, p. 23).
A cultura hebraica aponta, então, para um corpo que ao ser considerado puro,
poderia ser local de comunhão e manifestação ao Sagrado. O movimento corporal da
dança é então aceito na cultura hebraica, a partir do momento em que o corpo que
dança se encontra dentro dos padrões de santidade e pureza dos hebreus. Em outras
palavras, o povo hebreu tem a dança como forma lícita de adorar a Deus e também de
se manifestar culturalmente. Porém, na medida em que este povo foi sendo
influenciado por outras culturas, sua dança também foi sendo influenciada, adquirindo
assim, características consideradas pecaminosas, o que posteriormente pode ter sido
um dos fatores que proporcionaram a supressão da dança nas culturas que tiveram raíz
hebraica, como por exemplo, o cristianismo.
51
2.3 A DANÇA NA CULTURA GRECO-ROMANA
Havia para os gregos, um ideal de perfeição na harmonia entre espírito e corpo,
tal ideal foi herdado em grande parte pelos romanos, porém para o mundo judaico-
cristão, o corpo foi encarado como veículo do pecado, o que sufocou a espontaneidade
das expressões corporais.
“O corpo foi encarado como veículo do pecado e degradação e, em
nome desse conceito, no que diz respeito à dança, em que pese a
beleza dos movimentos arquitetônicos gótico e românico, grande
parte da magia, poesia, liberdade e espontaneidade foi sufocada
durante um longo período da história da humanidade” (CAMINADA,
1999, p.69).
Na concepção grega clássica, o belo exigia um corpo trabalhado no esporte, a
dança então integrava a formação do soldado e do cidadão. “Em Atenas o homem
educado era aquele que além de filosofia e política, também aprendia um instrumento,
canto e dança” (CAMINADA, 1999, p.69).
Por volta do século VI a.C., a mulher foi reduzida a condição de procriadora,
recebendo instrução mínima, o que a excluiu do teatro e da dança. Foram excluídos
também os escravos e estrangeiros. Mas a mulher continuou dançando em festas
religiosas, de comunidade e nos rituais dionisíacos. Em meados do século XII, a mulher
voltou a ter seu lugar nos espetáculos.
Por volta do século III a.C., a dança começa a perder o sentido de encenação,
quando lhe é permitido fazer uma dança sem texto.
2.3.1 A influência grega
Para os gregos, a dança representava os atributos das divindades, se
apresentando carregada de valor simbólico. A dança era o foco de atenção mais
52
intensa nos rituais cerimoniais. Haviam profissionais da dança, que eram os escravos
ou mesmo um liberto, que eram contratados para alegrar festas e banquetes. Ossona
(1988, p.57) afirma que alguns convidados traziam para as festas seus próprios
bailarinos. Mas como regra geral, estes bailarinos dedicavam seu talento para servir a
uma divindade.
A Grécia foi o berço da arte ocidental. Muitos conceitos que temos até os dias de
hoje, tiveram origem neste na arte grega, como o conceito de belo, de ética, de
desempenho e de purificação através da arte. (CAMINADA, 1999, p.47). As poucas
obras de dança existentes deste período, mostram como ela foi importante na vida
cívica daquele povo.
As danças religiosas gregas eram realizadas para celebrar divindades como
Dionísio, Ártemis, Atena, Zeus, Apolo e as musas Gregas. A dança grega dionisíaca,
de onde nasceu o teatro, surgiu nas aldeias de agricultores, onde se pisava a colheita
de uvas, trazidas à praça e dispostas em lagares imensos. Segundo Silva (2004, p.
187) o vinho tem seus registros mais antigos em torno de 2500 anos a.C. no Egito. Os
trabalhadores deslocavam-se de forma ritmada dentro dos lagares, esmagando a uva
com os pés, com movimentos sustentados e cadenciados, ao som de seus próprios
cantos. Em volta dos lagares, em bancos de pedra, ficavam os pisadores substitutos,
que iam sendo inseridos no grupo. Em torno destes bancos, numa segunda e também
em sucessivas filas, sentados em degraus, estava a população, contagiada pela
participação nos cantos e nas danças. A origem da Tragédia Grega e o culto a Dionísio
podem ter tido relação com as celebrações da praça de Atenas, onde os atores
vivenciavam a criação do vinho. A dança dionisíaca em sua origem era uma dança
53
sagrada espontânea, que posteriormente converte-se em uma dança sistematizada, ou
litúrgica do calendário grego (BERTONI, 1992, p.41).
Nas narrações de Homero, um grande poeta épico, se destacam cânticos e
danças de aqueus e feácios em luta contra Tróia. Na Ilíada e na Odisséia, temos várias
referência a danças bélicas, funerárias, agrícolas, nupciais e astrais. Homérico
mencionava ainda a dança de mulheres cretenses em volta de altares.
O ditirambo era uma dança circular em torno de um altar de Dionísio, sobre o
qual se celebrava um sacrifício sangrento; as danças por vezes eram acompanhadas
de orgias. Compunha-se de uma dança de saltos, acompanhada de movimentos
dramáticos e dotada de hinos apropriados. As palavras associadas às danças
ditirâmbicas, contribuíram para a evolução da poesia grega. Segundo Caminada (1999,
p.50) do ditiranbo nasceram dois ramos do teatro cantado e dançado no helenismo e
vigente até os dias de hoje: a tragédia (tragos: bode e odé: canto) e a comédia (comos:
desfile, cortejo e odé: canto).
A idéia de morte e ressurreição de um deus, que foi elaborada pelo cristianismo,
também estava presente nas danças gregas. Na boufonia, um escravo representando
um boi fome, era espancado e lançado para fora da cidade, enquanto gritavam: “fora
com o boi fome, entrem a riqueza e a saúde”. A dança dramática bumba-meu-boi, um
touro é morto, posteriormente um sacerdote dança vestido da pele do boi, provando
que o boi estava vivo.
Apolo simbolizava o sol e a elevação celeste. A união entre as danças para
Apolo e Dionísio simbolizava uma verdadeira união entre o que seria terreno e as
imagens celestes. As musas gregas também estavam presentes nestas celebrações.
Dentre elas destaca-se Terpsícore, musa da dança e do teatro coral.
54
Os coros dançados estavam presentes nas obras de Ésquilo (525-426 a.C.) onde
dialogavam com um ator, utilizando gestos expressivos e danças. Sobre Sófocles (496
– 406 a.C.), conta-se que dirigiu um coro de adolescentes que dançavam nus para
honrar Apolo.
A tragédia, a comédia, os dramas satíricos, as pantomimas marcaram este
período tendo se desenvolvido dentro dos ritos aos deuses gregos. Alguns destes,
mantém suas características, até os dias de hoje. Cito como exemplo a comédia que
partindo de um rito sexual, tinha atores e dançarinos que vestidos de animais,
zombavam dos personagens e cidadãos conhecidos. Era uma maneira de fazer rir para
pensar.
Por fim, pode-se mencionar as danças cotidianas que acompanhavam os
momentos da vida dos gregos como danças de nascimento, de funeral, nupciais e
danças de banquetes.
No ano de 332 aC, os exércitos de Alexandre Magno dominaram Israel,
introduzindo gradualmente elementos da cultura helênica no povo hebraico (PACKER;
TENNEY; WITE, 1988, p.85). Os judeus começaram a adotar a língua e os costumes
dos gregos. A dança grega como parte dos seus costumes foi, logicamente, começando
a influenciar a cultura dos judeus.
A helenização dos hebreus, que se acentuou no período dos Selêucidas (187-
175 a.C.) trouxe para dentro da cultura hebraica características das danças que eram
realizadas para outros deuses e tidas como profanas. “O helenismo predominou sobre
todo o chamado Oriente Médio. A cultura grega, ocidental, impregnou várias culturas
orientais, impondo a língua grega, os costumes e, enfim, todo o modo de vida helenista”
(SILVA; VASCONCELLOS, 2003, p.195). Em 167 a.C., o processo de helenização se
55
torna legalizado, pela imposição de Antíoco IV. Os judeus são obrigados a participar da
festa de Dionísio e do sacrifício mensal em honra do aniversário do rei. Ocorre o início
de uma verdadeira cruzada contra a lei. A dança a outros deuses era um dos elementos
da cultura grega, uma vez que nesta cultura se cria na presença dos deuses interagindo
na vida dos mortais. Tal cultura influenciava a dança dos judeus. A influência da dança
grega na cultura dos judeus pode ser observada também pela menção da mesma nos
textos do Novo Testamento, uma vez que, como fonte histórica, este livro relata
acontecimentos relacionados ao ambiente em que se encontrava o povo judeu, no
período próximo em questão. “dançou a filha de Herodias diante de todos e agradou a
Herodes” (Mt 14,6).
Os pensamentos dos filósofos gregos, também influenciaram o povo judeu e os
cristãos em seu aspecto cultural e isto incluía a dança. Vejamos o pensamento de
alguns filósofos sobre esta questão:
Platão (428 – 347 a.C.) cita a dança como tratamento para o histerismo,
desenvolvida ao som de flautas, sendo realizada pelos sacerdotes (BERTONI, 1992,
p.39). Este pensamento parece impor um deslocamento do conceito de dança do eixo
de louvor e adoração para o eixo de ritual de cura da alma e purificação. Ainda a ênfase
do pensamento do corpo como cárcere da alma, o que geraria sua desvalorização,
levando-a mais para um conceito aproximado ao âmbito profano, ou seja, fora do
ambiente sagrado.
“A concepção platônica do homem se inspira em forte dualismo
entre alma e corpo; o corpo é entendido como cárcere ou mesmo
como túmulo da alma. [...]o corpo é visto não tanto como
receptáculo da alma, à qual deve a vida juntamente com suas
capacidades de operação, e sim, ao contrário, como tumba e
cárcere da alma, isto é, como lugar de expiação da alma” (REALE;
ANTISERI, 2003, p.152).
56
Em Heráclito (sécs. VI a V a.C.), “o mundo é fogo eternamente vivo, que acende
e se apaga em ritmo certo”. O pensamento dá vazão a uma ligação da dança, a
aspectos da natureza, podendo trazer influência da adoração a deuses pagãos, ligados
a elementos da natureza (BERTONI, 1992, p.39). Ainda em Heráclito podemos ver a
valorização da alma em detrimento do corpo.
“Jamais poderás encontrar os limites da alma, por mais que
percorra seus caminhos, tão profundo é o seu logos. Mesmo no
âmbito de um horizonte físico, Heráclito, com a idéia da dimensão
infinita da alma, abre uma fresta em direção a algo ulterior e,
portanto, não físico” (REALE; ANTISERI, 2003, p.24).
Para Aristóteles (384 – 322 a.C.), a dança é ação vivida no ato da criação
artística, desenvolvida pelo ator dançarino do Drama. Nela o dançarino transcendia
seus próprios limites, reproduzindo em perfeita comunhão a semelhança da energia
Divina, que lhes seria exterior, ultrapassando a si mesmo (BERTONI, 1992, p.40).
Aristóteles diz expressamente que “o intelecto ativo está na alma”, e ainda, que “o
intelecto vem de fora sendo irredutível ao corpo por sua natureza intrínseca e que,
portanto, é transcendente ao sensível. É o divino em nós” (REALE; ANTISERI, 2003,
p.215). Esta alma por sua vez se move em um corpo. Tal movimento é utilizado por
Aristóteles para explicar de modo científico, a existência e a essência de Deus.
“Toda forma de movimento explica-se com um princípio motor, que
é justamente sua causa. A forma de movimento mais perfeita é a
dos céus, que é um movimento contínuo e eterno. Mas como todo
outro movimento, ele deve ter um princípio que por sua vez não é
movido, o qual, para produzir movimento eterno, deve ser eterno, e,
para produzir movimento sempre contínuo, deve estar sempre em
ato. Portanto, deve haver um motor primeiro eterno, ato puro, sem
matéria e sem potencialidade. E, enquanto tal, ele move como
objeto de amor, ou seja, como fim supremo. E este e justamente
Deus, que é vida pura, vida de inteligência que pensa a si mesma.
Deus é suma beleza, sumo bem” (REALE; ANTISERI, 2003, p.237).
57
O pensamento de Aristóteles pode nos conduzir para uma outra direção, a que o
movimento humano pode ser a manifestação viva de Deus na vida do homem.
No pensamento destes filósofos e de vários outros, percebe-se a dualidade
corpo e alma do ser humano, alguns direcionando o corpo como algo pecaminoso e
terreno, outros como lugar possível de manifestação do Sagrado. Tal dualismo pode ter
gerado controvérsias entre os cristãos no que diz respeito às expressões corporais.
Na tentativa de impedir a mistura entre as culturas, os cristãos primitivos podem
ter se abstido da dança, uma vez que esta estava sendo realizada com características
de outras culturas, adorando outros deuses, com características que não eram aceitas
pelos padrões de santidade do cristianismo. É provável que este tenha sido um dos
fatores responsáveis pelo fato de haver pouca referência à dança nos textos do Novo
Testamento. Estes fatos refletem-se nos cristianismos originários, fazendo com que
alguns grupos ainda sejam fechados para a dança como forma de culto. Para estes
grupos, a expressão corporal da dança ainda é algo considerado pecaminoso, apesar
de todas referências bíblicas que poderiam legitimar a dança como parte do culto
cristão.
2.3.2 A influência romana
A influência romana sobre os hebreus se iniciou a partir de 63 a.C. (PACKER,
1988, p. 57). A influência se intensifica a partir do fim do império helenístico e início do
império romano em 27 a.C. A educação, o governo, os valores, enfim a cultura dos
hebreus foram fortemente influenciados pela cultura dos romanos. Packer, Tenney e
58
Wite (1988, p.57) afirmam que a arte, a literatura e o governo helenístico floresceram
durante a maior parte do período romano.
No reinado de Herodes, muitas leis judaicas foram violadas. Ele introduziu jogos
e corridas na cultura dos hebreus. O mundo romano foi uma forte influência na vida dos
hebreus, inclusive em nível tecnológico.
A concepção de vida racionalista e intelectualizada dos romanos, resultaram em
uma dificuldade de trabalhar no terreno da imaginação e do êxtase, o que segundo
Caminada (1999, p.61) foram os responsáveis pelo fato da dança não ter sido entre
eles, uma expressão artística poderosa.
Haviam influências diferentes de duas escolas gregas de filosofia, no período de
dominação romana. Segundo Packer, Tenney e Wite (1988, p.57), as escolas
direcionavam um caminho para a felicidade, baseado em vertentes opostas: a escola
dos estóicos ensinava que o corpo devia ser controlado, negado, e até ignorado a fim
de libertar a mente; a escola dos epicuristas, por sua vez, ensinava que o corpo deve
ser satisfeito se a mente quiser conhecer a felicidade. Então, o período romano foi
também continuador do espírito da Grécia antiga (PACKER; TENNEY; WITE, 1988,
p.57).
O caminho que a dança percorre acompanha a história, passando pelos períodos
da Monarquia, República e Império. Na Monarquia (754 a 200 a.C.), os romanos
assimilaram dos etruscos algumas danças de origens agrárias como Ambarvali e
Atellanes, e danças de ritos religiosos e bélicos, como as festas de outubro, danças
corais de homens que compunham as procissões primaveris, as Lupercais, danças
fúnebres, Saturnais e Bacanais. As danças realizadas por homens eram muito
presentes neste período (OSSONA, 1988, p.59). Haviam as danças das armas, como a
59
dos doze sacerdotes guerreiros, que guardavam o escudo do deus Marte, chamada
tripudium nesta dança os guerreiros batiam os pés no chão em uma procissão
(CAMINADA, 1999, p.62). O tripudium também foi dançado como forma de
confraternização entre lavradores, mas sempre dedicado a Marte.
Na República (220 a.C.) as danças incorporaram influências helenísticas.
Ossona cita que um grande teatro público foi construído por Lucius Amicos, general
romano que contratou bailarinos gregos. Se introduziram coreografias etruscas e
gregas, como a bellicrepa que simbolizava o rapto das sabinas, a ambarválias ou
ambuválias, dançada aos deuses das boas colheitas. Neste período surgem em Roma
trezentas escolas nas quais se ensinava a dança, esta se tornou mais importante na
vida pública e passou a ser moda nos costumes das famílias romanas. Porém, muitas
destas escolas foram fechadas por homens de Estado. Caminada (1999, p.62) cita que
em 150 a.C., Cipião Emiliano tenta eliminar as escolas, porém Roma não resiste ao
apelo da dança e, por influência dos latinos, começam a realizar as primeiras danças de
círculo, chamadas ballista e ballistorum, que dariam origem a terminologia de baile. Os
ritos religiosos foram então esquecidos neste período.
Finalmente, no Império (por volta de 20 a.C.), a decomposição da dança marca
seu apogeu. Cresce o domínio do teatro e as danças eram apenas solos e os coros não
existiam. Os espetáculos passaram a ser grosseiros e a mímica suplantou o seu
movimento (CAMINADA, 1999, p.64). As danças de banquetes passaram a ter caráter
erótico e de orgia (OSSONA, 1998, p.59 e 60). Nestes banquetes haviam jovens belas
executando com feminilidade suas danças, o que foi se tornando um espetáculo erótico
que segundo Caminada (1999, p.64), trouxe reações por parte das primeiras
comunidades cristãs, que zelavam por seus costumes. A dança encontra um período de
60
obscuridade, se reduzindo a poucas manifestações junto à pantomima, nas barracas de
feiras, degenerando-se em mera acrobacia.
“A dança durante os banquetes, foi se deturpando e se tornando
erótica; o resultado disso foram as reações por parte das primeiras
comunidades cristãs e dos próprios romanos, zelosos de seus
austeros costumes, herdados da antiguidade” (CAMINADA, 1999,
p.64).
Em poucas palavras, o percurso da dança romana passou por três fases:
primeiramente, uma dança representada por sacerdotes com função religiosa; em
segundo lugar, uma dança social de divertimento, praticada por classes altas e, em
terceiro, uma dança a serviço da arte dramática.
Gláucia Freire indica que o cristianismo herdou forte influência da cultura romana
em sua dança. No movimento “pão e circo”, que surgiu devido às constantes guerras,
com o objetivo de agradar o povo, se faziam espetáculos que tinham forte inclinação
para o sensacional e o grosseiro. Com o passar do tempo, as encenações se tornaram
banais e degradantes. Para sobreviver à censura da igreja, a pantomima se valeu de
temas do cristianismo. Percebe-se, então, uma forte mistura entre religião e política.
Após a queda do Império Romano, por volta do século V, os cristãos
conservaram movimentos e gestos simbólicos herdados do povo hebreu e dos
sacerdotes romanos.
Freire afirma que a pluralidade artística dividiu a opinião de imperadores
romanos e da igreja; com isso, a dança e a pantomima foram proibidas pela igreja. “(...)
a influência de outras culturas fez com que os cristãos perdessem o hábito e a
capacidade de orar com movimentos” (FREIRE, 2005, p. 39).
61
2.4 A DANÇA NO CRISTIANISMO
2.4.1 A Dança no Novo Testamento
A pequena quantidade de citações bíblicas relacionadas à dança no Novo
Testamento mostra que a dança estava presente no referido contexto histórico ainda
que pouco mencionada, porém ela se apresenta de forma mais discreta na cultura
cristã primitiva do que na cultura dos hebreus. Na parábola do filho pródigo, podemos
ver a indicação de festejos com danças no meio do povo hebreu. Já neste período de
surgimento dos cristianismos. “E o seu filho mais velho estava no campo; e quando
veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças” (Lc 15,25). Nas palavras de
Jesus aos dois discípulos de João, quando fala por parábolas sobre sua missão como
Messias, se afirma: “nós vos tocamos flautas e não dançastes” (Mt 17,17 e Lc 7,32). Na
dança da filha de Herodias, seduzindo a Herodes para obter a execução de João
Batista, se observa a presença da dança no referido contexto: “dançou a filha de
Herodias diante e todos e agradou a Herodes” (Mt 14,6).
O Novo Testamento parece marcar uma significativa valorização do corpo para
os judeus convertidos ao cristianismo. Em Paulo, a pureza ou a santidade cultual é
entendida de maneira nova; provém do fato de pertencer a Cristo pela fé e pelo
batismo, e não mais pelas leis levíticas como, por exemplo, a da circuncisão, que não
mais são exigidas “porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão
têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gl 5, 6). Para Paulo, o corpo tem papel
central como o lugar do encontro entre Deus e o homem, entre o homem e o próximo. A
crença em um Deus que não é puramente espírito, mas que assume forma humana, em
62
Jesus Cristo, aponta para o fato de que o corpo não é algo indicado ao pecado,
portanto passível de valorização, mas é local possível de manifestação do Sagrado,
uma vez que foi nele que a Divindade se manifestou. Nos textos citados do Novo
Testamento fica claro, então, que, para Cristo e Paulo, o corpo pode ser canal possível
de manifestação e comunhão com o Sagrado. Tais conceitos podem ter sido um dos
fatores que, somado a outros, gerou uma maior abertura ao tema da dança no meio
protestante na contemporaneidade.
2.4.2 A Dança no cristianismo primitivo
No cristianismo, observa-se que existem alguns movimentos que acompanham
as orações, como por exemplo o ajoelhar-se, o levantar as mãos e o curvar-se.
Segundo Laban, a existência destes movimentos indicam que a dança estava presente
no cristianismo como forma de oração.
“As genuflexões dos religiosos, em nossas igrejas, são os vestígios
de preces com movimento. Os movimentos rituais de outras raças
são muito mais ricos em gama e em expressividade. As civilizações
contemporâneas se limitaram às orações faladas, nas quais os
movimentos das cordas vocais se tornaram mais importantes do
que os corporais. O falar, então freqüentemente é levado a se
transformar em canto. É provável que a prece litúrgica e a dança
ritual tenham coexistido há muito tempo atrás; sendo assim, é
provável também que o drama falado e a dança musical tenham
ambas se originado na adoração religiosa: de um lado, na liturgia, e
de outro, no ritual” (LABAN, 1978, p.24).
No meio do povo hebreu a dança se faz fortemente presente, como já foi citado,
porém se apresenta de forma bastante discreta na cultura cristã primitiva.
Provavelmente este fato se dá devido à ruptura que houve entre judeus e cristãos no
63
ano 70 d.C., quando após um período de questionamentos sobre se os cristãos
deveriam ou não observar o halaká (conjunto de prescrições e proibições que definem a
maneira como vivem os judeus) uma implacável guerra destrói a cidade de Jerusalém e
o templo (MONDONI, 2001, p.101). Esta separação marca a clara oposição entre
cristãos e judeus, o que influenciou não somente na religião, mas também na cultura.
Práticas judaicas não faziam mais parte da maioria dos cristãos, senão somente alguns
grupos assimilados a algumas seitas. A dança que fazia parte da prática judaica, pode
ter sido deixada de lado.
“O desaparecimento do templo terminou por separar os cristãos do
judaísmo. Deus mostrava com isso que a antiga lei acabara.
Destituído de templo, o judaísmo se reorganiza, marcando
claramente a sua oposição em relação aos cristãos” (COMBY,
1993, p.21).
No Império romano a pregação cristã se depara com sistemas religiosos que
favorecem o culto a deuses pagãos, o que faz com que o cristianismo sofra várias
influências que geraram o surgimento de várias seitas. O Imperador Augusto tentou
reavivar o culto a deuses pagãos realizando-os em praça pública, devendo ser
realizado e apreciado como ato de civismo, o que no século V se tornou folclore do
cristianismo, com certeza acompanhado de dança e música. Esta informação indica que
durante o cristianismo primitivo, esta atitude do Imperador fez com que os cristãos
vivenciassem a dança como algo que estava sendo realizado a deuses pagãos, o que
pode ter proporcionado um sentimento de aversão pela mesma.
“Cada cidade tinha as suas próprias divindades, as cidades gregas,
latinas etc. [...] as pessoas continuam fiéis a eles, pois se trata do
64
costume herdado dos ancestrais. Augusto procura reavivar nelas a
vida, pois as considera alicerce social. Participar dos cultos da
cidade, mesmo que se tenha uma atitude completamente cética,
constitui um ato de civismo” (COMBY, 1993, p.26).
A arte romana herdou das religiões egípcias, fenícias e sírias, cânticos e danças
que foram conservados pelas primeiras comunidades cristãs (CAMINADA, 1999, p.65).
A representação de anjos dançando em círculo enquanto louvavam a Deus, era
adaptação a cultos antigos, herdados da dança dos hebreus e da dança dos sacerdotes
romanos.
“A queda do império fizera com que leis e costumes antigos
desaparecessem e assim pareceu normal a esses cristãos manter
movimentos e gestos simbólicos, herdados dos hebreus e dos
sacerdotes romanos com suas rondas solenes em volta dos altares,
tendo ao centro o próprio bispo” (CAMINADA, 1999, p.65).
Nos séculos II e III, podemos ver indícios da presença de expressão corporal e
possivelmente de dança.
“A arte cristã originou-se nos cemitérios: representações de cenas
evangélicas e bíblicas, símbolos como a âncora, o peixe. As
inscrições fúnebres cristãs mais antigas datam de fins do século II e
princípios do III” (MONDONI, 2001, p.83).
A posição da igreja cristã nos primeiros três séculos é divergente no que diz
respeito à dança. João Crisóstemos e Basílio, por volta de 313 d.C., fizeram menções
da dança em seu caráter sagrado, com liberdade de culto. Porém, com a queda do
império romano, a dança sofreu uma forte pressão da igreja. Ambrósio, bispo de Milão
em 340 d.C., a proíbe em todas as suas dioceses e Agostinho levanta um forte
testemunho contra a dança. “Agostinho revelou-se um inimigo convicto da dança, da
65
qual dizia ser uma ronda, tendo ao centro o próprio diabo e ainda, que a cada salto
executado, os dançarinos mais se aproximavam do inferno” (CAMINADA, 1999, p.67).
Em 380 d.C. Teodósio proclama o catolicismo como a religião oficial, fazendo
com que as festas pagãs com suas músicas e danças deixem de ser celebradas. “Os
heréticos assim como os pagãos, serão perseguidos: toda prática pagã é proibida em
392. As festas pagãs deixam de ser celebradas, os templos são demolidos” (COMBY,
1993, p.77).
Segundo Bertoni (1992, p.47), a dança sofre a partir do século IV a condenação
por parte dos imperadores romanos cristãos, chegando a ser banida da liturgia no
século XII. Dentro do cristianismo, as danças pagãs foram combatidas por estarem
ligadas a ritos e cerimônias de tradição pagã. A autora afirma ainda que a dança foi,
então, acolhida como patrimônio cultural, moldada dentro dos padrões conceituais da
Igreja.
Muitas festas de outras religiões foram inseridas nas igrejas no momento em que
as tribos da Europa e Ásia Menor foram convertidas ao cristianismo. Os missionários
implantaram suas igrejas em templos já existentes, estabelecendo os dias e feriados
cristãos na mesma época dos feriados pagãos (KRAUS et al apud COIMBRA, 1981, p.
49). Assim, as danças já existentes nos costumes de outras religiões foram incluídas
nos cultos, o que fez com que os líderes da igreja se decidissem por banir a dança do
culto.
Para Ossona, foram dois os fatores que influenciaram na extinção da dança do
culto cristão. Primeiramente, o fato de os ritos pagãos terem penetrado nas cerimônias
e os templos terem sido profanados com paródias. Em segundo lugar, pelo pensamento
de valorização na crença da vida após a morte, o que enfatizava a oposição entre o
66
terreno e o celestial, o espiritual e o carnal. O corpo passa, então, a ser obstáculo. “A
dança, sendo uma atividade de ordem física e ao mesmo tempo um prazer, foi
conseqüentemente banida do culto religioso” (OSSONA, 1988, p.61).
Coimbra (2002, p. 46 e 47) relata que os primeiros líderes cristãos aprovavam o
uso da dança em cerimônias religiosas, desde que seu conteúdo fosse de fundo sacro,
e não profano. O dualismo corpo e alma se revelava na ênfase dada para a salvação da
alma em detrimento ao corpo, que era relacionado como veículo do pecado. Segundo a
autora, existem alguns registros de dança no serviço religioso cristão na Idade Média,
por exemplo nas procissões realizadas na Alemanha e França entre os séculos IX e
XVI. Nestas procissões se realizavam movimentos cadenciados chamados dança
sacra, carregando-se imagens, cruzes, balançando incensários com movimentos
cadenciados, fazendo marchas, giros, reverências e agradecimentos, passando pelo
coro e pelas laterais da igreja. As pessoas envolvidas nestas cerimônias não eram
condenadas pela igreja, por esta dança possuir características de dança sacra.
Comby indica que, o que caracteriza a Idade Média é a mescla do profano e do
sagrado (COMBY, 1993, p.147). Tomamos como exemplo a presença de ritos
religiosos, mesclado a festas populares dentro do ambiente eclesiástico.
“As pessoas dançam no átrio da igreja, jogam cartas em seu
interior. Elegem um bispo e um papa dos loucos. Diáconos e
subdiáconos comem salsichas e chouriços sobre o altar...
Periodicamente, os bispos proíbem a festa, que se mantém ainda
por um longo tempo. Existe uma festa dos asnos, na qual se faz
falar na igreja a burra de Balaão[...] Não teria fim a enumeração
desses costumes, alguns dos quais a despeito das oposições do
clero, chegaram até nós” (COMBY, 1993, p.148).
67
Em algumas festas na Idade Média, os bispos dirigiam uma dança sagrada ao
redor do altar. “Em algumas catedrais da Idade Média, havia um lugar sob a porta que
apontava para o Ocidente denominado ballatoria ou choraria, que era reservado para
danças. Ali os fiéis dançavam para honrar a Deus” (OSSONA, 1988, p. 61). A autora
cita ainda que, em algumas igrejas de Paris, o cônego dirigia uma dança antes de
começar o canto dos salmos.
O aspecto do dualismo corpo e alma, que também influenciou na repressão da
dança na igreja. Na Idade Média, enquanto o corpo estava renegado, a religião era o
único elemento de estabilidade. Havia um ambiente de muita opressão causada pela
repressão da igreja e pelas guerras. Surge, então, um movimento chamado
dançomania (mania de dança), que revelava os efeitos psicológicos que a opressão
gerou na população. Se destacavam três tipos de dança: a dança macabra, dança do
flautista de Hamelin, dança de São Vito ou São Guido e Tarantela. A concepção de
corpo se torna uma questão não somente religiosa, mas também uma questão social,
filosófica e política. A relação entre culto e dança foi comprometida, devido ao enorme
temor de uma possível mistura entre o sagrado e o profano.
“A morte se torna uma obsessão. Textos e representações
enfatizam o aspecto horrível da morte: cadáveres nus e
apodrecidos, boca escancarada, entranhas devoradas pelos
vermes. As danças macabras (A Chaise-Dieu...) acentuam a
igualdade de todos diante da morte. [...] As artes de morrer se
multiplicam”(COMBY, 1994, p.178).
“(...) para o mundo judaico-cristão nesta época, o corpo foi
encarado como veículo de pecado e degradação, e com isso,
grande parte da magia, poesia, liberdade e espontaneidade da
dança foi sufocada durante um longo período da humanidade”
(FREIRE, 2005, p.53).
68
Nos livros Louvai a Deus com danças (2003) e Dança , Movimento em adoração
(2002), Coimbra indica que um dos fatores responsáveis pela supressão da dança na
igreja na Idade Média foi a influência do pensamento dos filósofos da época, que
tinham o conceito de beleza totalmente direcionado à essência do Sagrado. A dança
encontrava resistência por supostamente não conter a essência do belo, além de se
mostrar lasciva e perniciosa (COIMBRA, 2003, p.41). O resgate do pensamento
filosófico, que uniria novamente a arte com o belo, ocorreria no Renascimento, quando
a idéia de natureza estaria adquirindo um novo sentido. O belo surge em novos
conceitos; a estética se torna uma disciplina filosófica fundada por Alexander Gottlieb
Baumgarten (1714 -1862). No século seguinte, a beleza é relativizada ao gosto de cada
um. “O belo é aquilo que agrada universalmente, ainda que não possa [sic!] justificá-lo
intelectualmente (COIMBRA, 2002, p.45). Essa maneira de pensar corpo e alma
poderia abrir novos horizontes e possibilidades em relação à posição do corpo que
dança, podendo este ser manifestação do Sagrado.
No período do século XIII, podemos ver a presença das artes cênicas sendo
apresentadas no interior das igrejas, o que sugere a presença de ações corporais e
possivelmente da dança, dentro do ambiente do culto.
“Os dramas litúrgicos encenam o Antigo e o Novo Testamento no
próprio interior das igrejas ou nos átrios destas últimas. Os Milagres
ilustram as intervenções da Virgem e dos santos. Um dos mais
célebres, o Milagre de Teófilo (século XIII), narra a história de um
clérigo que fez um pacto com o diabo para recuperar suas
riquezas[...]. Posteriormente, os Mistérios são longas e complexas
representações de episódios bíblicos, como a Paixão, feitas pelas
confrarias” (COMBY, 1994, p.152).
69
No período de transição da Idade Média para o Renascimento, a dança passa
de pouca expressão nas feiras e praças para a proteção dos salões na Corte, onde por
volta de 1489 surge o seu novo ramo, o Ballet. Tal tipo de dança caracterizou um novo
aspecto artístico da dança, agora como forma de apresentação. É um tipo de dança
teatral que daria início a um novo tempo na arte da dança.
Em 1517 surge então a reforma protestante. Martinho Lutero, propondo uma
reforma na estrutura da igreja, luta contra tudo o que é contrário aos ensinamentos
bíblicos. Dentre as práticas adotadas por Lutero está a instituição do coro, atribuindo
um lugar de destaque ao canto coral (COMBY, 1994, p. 19).
A presença da dança no cristianismo no século XV se vê, no baile realizado no
concílio de Trento.
“Depois do banquete, houve, entre outras coisas, um baile que
contou com a presença de grande número de damas da nobreza.
Como é de costume no país convidar para a dança todos aqueles
que houvessem sido convidados para o repasto e como o cardeal
havia recebido à sua mesa os bispos de Féltria, Agde e Clemont,
assim como o auditor do tribunal pontifício, Pighino, e o procurador
fiscal do Concílio, todos deveriam tomar parte na dança. Assim o
cardeal desejava fazer-lhes as honras. À noite, convidou para a
ceia o arcebispo de Palermo e numerosos bispos, aos quais pede
que abram o baile, tomando ele mesmo a iniciativa. Tudo isso se
passa, por outro lado, muito honestamente, com a modéstia e a
caridade cristã que convêm” (COMBY, 1994, p.31).
Tanto a Reforma Protestante como o Concílio de Trento são o ponto de partida
de uma evangelização dos cristãos. Os costumes religiosos populares originários da
“noite dos tempos” começam a ser rejeitados, buscando uma maior distinção entre o
profano e o sagrado, buscando “promover uma liturgia decente e a incitar a uma prática
regular” (COMBY, 1994, p.44). As autoridades religiosas tomam medidas contra as
festas folclóricas, que passam a ser realizadas secretamente, sem a participação do
70
clero. É possível que neste momento a dança tenha sido totalmente abolida do
ambiente eclesiástico cristão.
Historicamente, Freire indica que a revolução industrial foi um outro fator que
funcionou como uma ameaça à expressão corporal. A época anterior à revolução
industrial favorecia a valorização dos movimentos corporais, uma vez que de um modo
geral, o trabalho era feito manualmente. Com o advento da revolução industrial, o ser
humano perde qualidades do movimento natural, se torna mais mecânico, perdendo a
espontaneidade e fluidez (FREIRE, 2005, p. 55).
Diogo relaciona a repressão da dança na igreja com a deturpação do sentido
original da arte, que seria adoração ao Sagrado. “Toda forma de arte foi feita para
adoração a Deus” (DIOGO, 2002, p.11). A autora considera que mesmo nas
manifestações sociais, quando se festeja uma boa colheita, por exemplo, a dança pode
cumprir seu sentido original de adoração, ao se focalizar na gratidão ao Sagrado.
No Brasil, o protestantismo se desenvolve sem indícios da presença de dança
em seus cultos. Este quadro parece começar a mudar quando em 1960, as igrejas
protestantes passam por uma renovação em sua liturgia. Novos instrumentos são
inseridos no período de louvor, e com eles novos ritmos, incluindo ritmos brasileiros.
Esta renovação provavelmente gerou o início do surgimento de pequenos gestos de
dança durante o momento do louvor, o que posteriormente abriria caminho para a
apropriação da dança como forma de culto. Finalmente por volta de 1990, a dança
entra para o ambiente do culto cristão protestante, como forma de louvor e adoração.
71
2.5 SÍNTESE
De forma abrangente, tanto o aspecto religioso quanto os aspectos culturais e de
lazer são perceptíveis nas danças dos diversos povos e culturas existentes. A exceção
acontece dentro do protestantismo, que durante muitos anos se absteve da dança
como parte do culto ao Sagrado, mas que na atualidade tem sido trazida de volta ao
ambiente do culto, encontrando, porém a resistência de grupos que ainda não se
mostram abertos para este tipo de manifestação.
No meio do povo hebreu, berço do cristianismo, observa-se que a dança se faz
presente tanto no aspecto religioso quanto no cultural, sendo aceita na medida em que
se insere nos seus devidos padrões de pureza e santidade. O texto bíblico, como um
importante documento que descreve a cultura hebraica, se refere à dança como forma
de culto e também diversão, sendo considerada aceita à medida em que o corpo que
dança se encaixe nos seus padrões de pureza e santidade.
A cultura judaica sofreu influência grega e romana, adquirindo assim seus
valores filosóficos, absorvendo suas festas e sua cultura. No cristianismo, esta
influência também se faz presente. Apesar da valorização do corpo contidas no Novo
Testamento, a presença das danças gregas e romanas em sua cultura, carregada de
valores pecaminosos vividos na Idade Média, se torna um dos fatores que leva os
sacerdotes cristãos a abolirem a dança do culto, restringindo-a a poucos gestos
simbólicos que acompanham as orações.
No capítulo seguinte a pesquisa discorre sobre a dança no cristianismo
evangélico contemporâneo, bem como o processo de redescoberta da dança por parte
dos cristãos evangélicos.
72
CAPÍTULO III
A DANÇA NO CRISTIANISMO EVANGÉLICO CONTEMPORÂNEO
Na atualidade, a dança tem voltado para dentro do cenário do culto evangélico
como forma de louvor e adoração. Neste capítulo, a pesquisa aborda o trabalho dos
grupos de dança evangélicos que têm atuado nas igrejas, destacando suas práticas e
valores. Eventos de dança evangélicos que têm surgido em todo país também são
citados, pois indicam a direção que estes grupos têm seguido em um trabalho conjunto.
Também é apontado o trabalho da Companhia Rhema de Teatro e Dança, que tem se
destacado no meio evangélico por realizar um trabalho pioneiro bastante reconhecido
entre os demais grupos. Tais apontamentos são importantes para a pesquisa, pois
revelam o quadro da dança no cristianismo evangélico da atualidade.
3.1 O AMBIENTE PÓS-MODERNO
Em relação ao ambiente pós-moderno, percebe-se que alguns fatores nos
permitem começar a vislumbrar como esta pode estar influenciando na redescoberta da
dança no cristianismo evangélico contemporâneo. Souza Santos indica que nos
encontramos entre dois paradigmas, o da modernidade e o da pós-modernidade. Na
modernidade, a ciência parecia ser a solução para todas as coisas; na pós-
modernidade ela se mostra um “problema sem solução, gerador de recorrentes
irracionalidades” (SANTOS, 2003, p. 34). Como as respostas aos questionamentos
humanos não são supridas nas ciências, o ser humano volta a se abrir para o
73
transcendente, buscando suas origens e crenças. No caso do protestantismo, se
destaca um retorno das atenções à sua origem judaica. Os protestantes, principalmente
os neopentecostais, começam a inserir símbolos judaicos no ambiente eclesiástico. Isso
pode significar uma possível percepção de que a dança pode ser apropriada como
forma de louvor e adoração, assim como no judaísmo. O pós-moderno é ainda um
ecletismo, a mistura de várias tendências.
Ferreira dos Santos (2001) indica que o ambiente pós-moderno significa que
entre nós e o mundo estão os meios tecnológicos de comunicação; além disso, o real é
trocado pela simulação. Prefere-se a imagem ao objeto, uma vez que esta pode ser
incrementada pela tecnologia, justificando a preferência desta em detrimento do real.
Neste aspecto é importante se observar que o pós-moderno é um mundo recriado pelos
signos. Estes se mostram importantes, uma vez que o homem é linguagem. Imagem e
movimento são linguagens para a comunicação feitas com signos em códigos que,
gerando mensagens, representam a realidade para o homem. Esta valorização dos
signos pode significar uma maior abertura para a dança, uma vez que esta é uma
linguagem não verbal feita através de símbolos, que estão nos movimentos, nas formas
coreográficas e nas cores das vestimentas.
Souza Santos cita que na dança pós-moderna se observa a desestetização nos
passos que reproduzem movimentos banais do dia a dia, no antropocentrismo
moderno, na falta de enredo com o início, meio e fim. Enfim, a arte pós-moderna é
ecletismo, se perde a originalidade e a desordem é o carro chefe (SANTOS, 2001). Esta
desestetização dos movimentos promove uma maior abertura para a dança
espontânea, que é a dança mais utilizada no ambiente do culto evangélico protestante.
74
Uma forte característica do pós-modernismo é a perda de valores em instituições
tradicionais. O indivíduo pós-moderno se mostra como um ser consumista, hedonista e
narcisista. Um fato que Santos cita como mecanismo que promoveu tais características
é a saturação de informações da sociedade pós-industrial, que produz mensagens que
visam a especulação da vida, à simulação do real e à sedução do sujeito. Parte-se para
desejar objetos segundo o código de simulacros. Assim, se diz ao indivíduo: “libere
seus desejos, há bens e serviços só pra você”. No caso da dança, a perda de valores
nas instituições pode ter gerado a possibilidade do questionamento do por quê se
dançava na origem da religião cristã e por quê não se estava dançando mais. Tal
abertura pode ter possibilitado a compreensão da dança como possibilidade de louvor e
adoração.
3.2- A REDESCOBERTA DA DANÇA NO CULTO EVANGÉLICO ATUAL
Tanto o aspecto religioso quanto o aspecto cultural e de lazer são perceptíveis
nas danças dos diversos povos e culturas existentes na atualidade. A exceção
acontece dentro do cristianismo evangélico, que durante muitos anos se absteve da
dança como parte do culto ao Sagrado e agora tem passado por um período onde esta
tem sido trazida de volta para o ambiente do culto, encontrando, porém a resistência de
grupos que ainda não se mostram abertos para este tipo de manifestação.
Coimbra (2003, p. 27) descreve a dança como uma forma de adoração completa,
defendendo que a dança na igreja é, então, uma possibilidade de adoração.
Gláucia Freire em seu livro Dança Profética aponta que muitas gerações foram
privadas de conhecer a dança como expressão de adoração. Para ela, o medo do
75
profano foi mais forte e impediu muitos de serem livres para fazer o que seria normal
para o ser humano: se expressar (FREIRE, 2005, p. 18).
No culto evangélico atual podemos observar uma crescente redescoberta da
dança como forma de louvor e adoração a Deus. Os grupos de dança das igrejas
evangélicas da atualidade utilizam um tipo de dança espontânea, que leva a
congregação a se mover durante o culto, de forma livre ou dirigida, quebrando alguns
tabus. A apropriação da dança pelos protestantes na atualidade pode significar uma
mudança de padrões e valores, uma vez que a cultura de um povo reflete seu ethos.
Esta mudança de padrões e valores se refere ao significado do corpo e da dança para
esta sociedade.
Os cristãos evangélicos, que durante muitos anos se abstiveram da dança, e que
agora a tem incluído como possibilidade de expressão, integração, comunicação e
como forma de culto, realizam uma dança livre das bases de técnicas tradicionais, na
busca de novas possibilidades de movimento que permitem ao corpo uma liberdade de
criação e de expressão.
A dança tem se tornado, no culto, tão importante quanto a música para expressar
os sentimentos, pensamentos e para representar cenas bíblicas, atingindo pessoas de
todas as idades e níveis sociais. São representações cheias de significado, utilizando
símbolos formados através dos próprios movimentos acrescidos de objetos
significativos. Vale ressaltar que este movimento tem atingido os cristãos no sentido de
educar, preservar e transmitir valores culturais através da arte no culto.
A perspectiva é que dentro do cristianismo protestante a dança como forma de
culto se faça presente de forma a ser tão importante quanto a música. A revalorização
do corpo influenciada pela pós-modernidade, e uma crescente valorização da cultura
76
hebraica por parte dos protestantes, têm trazido para o ambiente do culto elementos
judaicos como por exemplo o Shofar e a dança. A dança no cristianismo protestante,
possui uma grande liberdade de expressão de movimentos, não se reduz a movimentos
pré-estabelecidos, o que a caracterizaria como uma reza decorada, mas passa a ser
uma oração, uma fala espontânea que exprime sentimentos e intenções ao Sagrado.
3.2.1 Concepção de dança
A dança para a cultura evangélica contemporânea se mostra como uma forma de
orar e adorar, onde a pessoa que dança se expressa com a plenitide do ser: espírito,
alma e corpo, envolvidos em ato de entrega e devoção. A dança pode por outro lado,
ser usada para o aspecto considerado pecaminoso, uma vez que é a expressão do ser
e exprime sua essência. A dança é, então, uma forma de expressão do ser humano e
para ser aceita como forma de adoração e oração, a pessoa que a realiza deve ser
alguém consagrada ao Sagrado, se mantendo firme dentro dos padrões de Caráter e
santidade do protestantismo.
Neste momento a pesquisa destaca qual é a concepção de dança, dos
evangélicos que se apropriam da mesma no ambiente do culto. Sua forma de pensar e
proceder e se organizar, são indicados a seguir, se mostrando como importante objeto
de estudo para a compreensão do fenômeno da recente presença da dança no meio
cristão evangélico.
77
3.2.2- Tipos de dança realizada no ambiente eclesiástico
A dança realizada durante o culto evangélico, de um modo geral, não se fecha
dentro de um estilo determinado. A grande maioria dos grupos executa a dança
espontânea desprovida de técnicas tradicionais. Porém, existem alguns grupos que
priorizam um determinado estilo de dança, como por exemplo, o ballet clássico ou a
dança moderna.
Para ministrar a dança em grupo, os bailarinos que ministram nos cultos sem
técnicas tradicionais se valem de técnicas específicas como, por exemplo, a da dança
experimental, onde toda uma movimentação coreográfica pode ser direcionada a partir
de uma intenção, palavra, ou uma frase. Através de sinais desenvolvidos pelo próprio
grupo, de forma dirigida, variando a direção, o nível, o espaço, o tempo, o ritmo, a
intensidade e a forma do movimento, um líder previamente estabelecido direciona como
irão se expressar no momento em questão. Os passos realizados são, de forma geral,
simples e fáceis, de modo que a congregação possa acompanhar alguns movimentos
dos bailarinos, bem como acompanhar cantando a música que está sendo ministrada.
Os grupos que utilizam as técnicas tradicionais como o ballet e o jazz, por exemplo,
precisam de ensaios prévios à ministração, pelo fato de os passos serem mais
elaborados. Mesmo neste caso, a dança não é uma simples apresentação, mas uma
ministração direcionada ao Sagrado e ao público, que receberá uma mensagem que o
direcionará também ao Sagrado.
A caracterização dos tipos de dança que se realizam no culto cristão protestante
é, então, definida mais pela intenção do que pela forma a qual é realizada. Os tipos de
dança se assemelham aos tipos de oração que normalmente se realizam no meio
78
protestante. Se o momento pede uma oração de interseção, o movimento é de
prostração e súplica. Se o momento pede celebração, a dança é cheia de saltos e
rodopios. Se o momento pede uma oração de arrependimento, a dança é cheia de
movimentos de contrações e prostração. Geralmente, a dança no meio evangélico é
dividida da seguinte forma:
Dança de júbilo - São danças alegres, com saltos, palmas, gritos, celebrando os
feitos de Deus. Acontecem normalmente no início das reuniões, utilizando músicas
rápidas, regadas por um ambiente festivo. São baseadas nas citações bíblicas que
falam sobre se alegrar com danças (Sl 150,4) e sobre a dança da profetisa Miriã
quando celebrava a vitória na travessia do Mar Vermelho (Ex 15,20). O alvo é, junto
com a congregação, expressar a Deus louvor e gratidão pelos seus feitos.
Dança de guerra - A dança de guerra é uma dança realizada contra as forças
espirituais malignas. É como uma oração impedindo uma ação espiritual considerada
maligna, na medida em que se exerce uma autoridade espiritual, que segundo o
cristianismo evangélico, foi conquistada em Jesus Cristo (Lc 10,19; Ef 1,20-22). É
composta de marchas e movimentos que expressam autoridade. Indicam uma
cosmogonia, ou tomada de posse do ambiente, à medida que realizam as marchas
sobre um local específico. O pisar a planta dos pés em um determinado ambiente,
indica que a Divindade estaria entregando este lugar em suas mãos. “Todo o lugar que
pisar a planta do vosso pé vo-lo tenho dado” (Js 1,3). Esta dança pode ser feita em
grupo ou individual, geralmente acontece de forma não programada, sendo direcionada
por uma revelação divina. Biblicamente, esta dança está presente na ocasião da queda
dos muros de Jericó, feita após uma marcha de sete dias realizada pelo povo (Js 6,3,4).
Outra referência seria a batalha de Josué contra os Filisteus, que venciam a luta
79
enquanto Moisés permanecia com os braços levantados e a perdiam quando ele
abaixava os braços, indicando um movimento que ordenava a vitória sobre aquela
guerra (Ex 17,11).
Dança profética - Baseado nos profetas do Antigo Testamento, o dom profético
era um ofício espiritual especial que consiste em revelar verdades, indicando onde
existe a necessidade de haver concertos. Os profetas da igreja cristã primitiva eram
pessoas que após receberem dons carismáticos, exerciam o ofício de profetas
proferindo declarações inspiradas, trazendo direção, exortação ou mesmo consolação
da parte de Deus. ”Mas o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e
consolação” (1 Co 14,3). A profecia então, não consiste em uma previsão do futuro,
mas em uma afirmação inspirada pelo Sagrado. É uma maneira de trazer uma
comunicação do transcendente para o âmbito natural. A dança profética por sua vez
consiste em, através da linguagem do movimento, o ministro profetizar trazendo da
parte de Deus uma palavra direcionada à congregação, ou mesmo ao momento em
questão. Como no protestantismo todo aquele que aceita a fé em Cristo é considerado
um sacerdote, um crente compromissado com sua fé, possuindo o dom carismático,
pode profetizar através da dança. É uma dança onde o bailarino vestido com as cores
de um determinado país executa movimentos que expressem arrependimento; pode ser
uma palavra profética que aquele país precisa se arrepender de seus maus caminhos e
buscar a Deus se rendendo a ele.
Dança de interseção - Interceder é se colocar no lugar de outra pessoa, para
falar a favor dela. Quando um bailarino na mesma situação citada no parágrafo acima
executa os mesmos movimentos de arrependimento diante de Deus, ele pode, além de
80
estar profetizando, estar intercedendo, pois se coloca no lugar daquela nação,
arrependendo pelos pecados dela.
Dança evangelística - São danças realizadas com o intuito de proclamar o
evangelho. Possuem o caráter de apresentação, onde o alvo é o público que o assiste.
Podem ser realizadas fora ou dentro do ambiente do culto, em ocasiões onde possíveis
novos adeptos estejam presentes.
Dança de ensino - São danças que ilustram pregações, tendo o intuito de auxiliar
no ensino da doutrina. Também possuem o caráter de apresentação, com alvo no
público presente.
- Dança de adoração – São danças onde o alvo é exclusivamente o Sagrado.
Cada bailarino procura expressar individualmente sua adoração ao Sagrado,
expressando profundo amor e devoção ao proclamar sua grandiosidade. A crença que
o acesso de cada indivíduo à presença de Deus foi conquistado em Cristo faz com que
este seja um íntimo momento de comunhão da criatura com o criador.
3.2.3 A direção do louvor com danças
Assim como existe no culto evangélico um dirigente de louvor com música que é
responsável pelo momento de louvor do culto, também existe nas igrejas que adotaram
a dança a presença de um dirigente de louvor com danças.
A direção do louvor com danças, assim como a direção do louvor com músicas,
segue alguns princípios. A pesquisa cita então, algumas qualidades que a liderança das
igrejas normalmente buscam em um dirigente de grupo de louvor e adoração com
danças:
81
3.2.3.1 Ter um chamado de Deus para o ministério
A pessoa que assume a direção do louvor com danças normalmente é alguém
chamado por Deus para trabalhar nesta área, ou seja alguém que possua um encargo
no coração de realizar tal atividade, crendo que este encargo tenha surgido por uma
indicação divina. Não pode, então, simplesmente ser alguém que goste ou tenha
habilidade para dançar. A liderança da igreja geralmente escolhe o líder após um
período de oração, crendo receber uma direção divina, além de observar se o indivíduo
possui um caráter considerado aprovado pela liderança. “Eis que chamei pelo nome a
Bezalel... e o enchi do Espírito de Deus, de habilidade, de inteligência e de
conhecimento, em todo artifício...” (Ex 31, 1-3)
3.2.3.2 Ter habilidades para o ministério
O dirigente de adoração com danças deve ser alguém que também possua
habilidades naturais na área da dança e que seja alguém disposto a desenvolver estas
habilidades. O grupo normalmente tem ensaios regulares onde desenvolvem
habilidades corporais na modalidade da dança.
3.2.3.3 Precisa ser um adorador
Normalmente, o dirigente de adoração é observado pela liderança em relação à
veracidade de suas intenções. A ministração que o dirigente realiza diante de uma
82
congregação deve ser a extensão do que ele faz na sua intimidade. Em outras
palavras, ele deve nos seus momentos a sós com a divindade ser uma pessoa que
adora com danças, que se comunica com a divindade através da dança. Isso para que
o momento diante da congregação não seja uma representação, mas uma ministração.
Uma pessoa que dança em louvor e adoração somente quando existem pessoas
olhando é questionado se sua dança realmente está sendo direcionada a Deus ou às
pessoas.
3.2.3.4 -Ter maturidade na fé
O ministro de dança é alguém que deve possuir um tempo considerável de vida
na fé, buscando crescer no conhecimento bíblico, mostrando ter coração humilde e
ensinável. Pessoas novas na fé não fazem parte do ministério com danças até que
estejam prontas para o ofício.
3.2.3.5 Sensibilidade espiritual e busca em oração
A sensibilidade espiritual é algo considerado fundamental para o líder de louvor e
adoração com danças. Deve-se retirar para oração antes da ministração, buscando as
direções de Deus para aquele momento. Através da dança, o dirigente lidera o grupo e
a igreja para orar, interceder, profetizar, louvar e adorar. Tudo isto é feito debaixo de
uma direção divina e para isto é necessário ter sensibilidade.
83
3.2.3.6 Estar em sintonia com o dirigente de louvor com música
Para que haja ordem no culto, o dirigente de louvor com danças deve estar em
sintonia com o dirigente de louvor com música. Deve estar atento para direções como:
“Vamos nos curvar diante de Deus”, “Vamos aplaudir ao Senhor”, “Vamos nos
aquietar...“ O dirigente da dança e o dirigente da música devem andar em sintonia para
que a congregação tenha segurança de que todos estão caminhando para um mesmo
objetivo em unidade de coração.
3.2.4 O fenômeno da dança no culto
O fenômeno da dança que é realizada no culto evangélico protestante se
assemelha ao fenômeno da oração. O bailarino voluntariamente se expressa diante do
Sagrado em uma oração feita com movimentos. Por mais que no momento de sua
dança, o bailarino se sinta arrebatado em sua expressão, a dança evangélica de
adoração não leva o bailarino ao que chamaríamos de “transe”. Tal característica
ressalta a diferença desta dança de outras danças sagradas, onde a dança é uma
busca do transe para incorporar as entidades, como por exemplo no candomblé.
“Uma das principais características do culto público, seu ponto
central é a possessão pela divindade: diferentemente das outras
religiões praticadas no Brasil, as de origem africana se reconhecem
pela possessão do crente pela divindade, que usa a pessoa como
seu instrumento de ligação com os mortais” (FÁTIMA, 2001, p. 77).
84
A pessoa começa a ministrar com danças e normalmente na medida em que se
expressa ela relata sentir mais forte a presença de Deus e alguns se sentem tomados
pelo Espírito de Deus, porém se encontram conscientes da situação. É fato que muitas
manifestações se assemelham ao transe, pois movimentos espontâneos diferentes
podem surgir de forma bastante diversificada, levando o bailarino a um sentimento de
êxtase, porém a manifestação do Espírito Santo não deixa a pessoa fora de si, mas
consciente e tendo controle do momento em questão. A pessoa se deixa conduzir,
como em uma dança.
O binômio bailarino - espectador, mostra que a dança sagrada possui também
um aspecto estético, que promove entre ambos a comunhão com o Sagrado. Mesmo
não participando ativamente da dança, o espectador pode ter um sentimento profundo
de comunhão com Deus simplesmente ao assistir um bailarino adorando a Deus com
danças. A beleza, a estética da dança faz com que o fenômeno da dança sagrada se
dê, não somente na vida do bailarino ao dançar, mas também no espectador que
aprecia a dança.
3.2.5 O simbolismo nas roupas, objetos e desenhos coreográficos
Da mesma forma que o movimento individual é um tipo de linguagem simbólica,
o movimento em grupo, assim como objetos, e cores de roupas, pode possuir um
elemento simbólico. Toda a performance do bailarino em um ambiente de culto, vem
carregada de um simbolismo que dá sentido à dança.
As roupas geralmente usadas nas danças evangélicas de adoração não
precisam necessariamente ter um simbolismo. Mas em determinados momentos,
85
orientados por uma direção divina, os grupos utilizam cores e formas como elementos
simbólicos. Uma dança em roda pode significar unidade entre as pessoas ou mesmo
proteção de Deus. Dançar vestido de vermelho pode significar que está coberto com o
sangue de Cristo, ou seja, estar protegido contra todo mal e ainda aliançado com Deus.
A cor amarela pode lembrar o ouro, que significa o caráter de Deus. A cor prata aponta
para a redenção realizada por Jesus Cristo na cruz do calvário. A cor verde pode
significar o óleo da unção, como marca da presença de Deus em uma pessoa. Alguns
símbolos judaicos também fazem parte do culto de algumas igrejas evangélicas como,
por exemplo, o candelabro que no protestantismo representa Jesus Cristo, como a luz
do mundo e, desta forma, são utilizados por alguns grupos de dança. Todos estes
elementos não se fecham necessariamente em um significado único, mas o significado
pode mudar de acordo com o momento da dança.
3.3 O CAMINHO DA REDESCOBERTA DA DANÇA NO BRASIL
Em diversas igrejas evangélicas se observa já há bastante tempo a presença de
grupos que utilizam a dança como forma de evangelismo, se apresentando em praças,
escolas e locais públicos, além de programações especiais em suas igrejas locais. Já a
dança como forma de culto, sendo realizada na congregação juntamente com uma
equipe de música, passou por uma trajetória diferente.
A partir de registros literários podemos traçar uma breve trajetória sobre a
implantação da dança no culto cristão no Brasil. Em 1982, a Embaixada Cristã de
Jerusalém realiza a primeira festa dos tabernáculos liderada por cristãos. Nesta nova
Festa dos Tabernáculos começaram a participar músicos, cantores e bailarinos cristãos
86
profissionais de todo o mundo, que ministravam com música e dança. Em 1994, a
bailarina brasileira profissional Sarene Lima de Manaus, hoje pastora evangélica, foi
convidada a fazer parte deste grupo, tendo retornado a Jerusalém todos os anos desde
então. Sua experiência pessoal do encontro da cultura hebraica com o cristianismo
trouxe para o Brasil a visão de como se poderia dançar no culto a Deus. Sua técnica
tinha por base a dança clássica.
Em 1995, a Companhia Rhema, de Goiânia, que já trabalhava com dança como
forma de evangelismo, começa a trabalhar com dança como forma de louvor e
adoração a Deus. Dirigida pela pastora e bailarina Adriana Pinheiro Diogo, o grupo se
apropria da dança no culto de uma forma abrangendo, além do ballet clássico, os
demais estilos de dança e priorizando a espontaneidade dos movimentos. O grupo
inicia um evento nacional denominado “Evangelizando com arte”, que atrai grupos de
todo o Brasil, interessados em se desenvolver nesta atividade. É o início de um forte
movimento que surgiria no país.
Em 1997, a bailarina Isabel Coimbra inicia, em Belo Horizonte, um trabalho de
dança com o Grupo Mudança, na ocasião do processo de produção e ensaios para
gravação do primeiro CD do Ministério Diante do Trono. Isabel Coimbra, que é
professora de dança experimental e composição coreográfica da Universidade Federal
de Minas Gerais, se apropria da dança experimental para sua adoração, utilizando-se
de tecidos, enfatizando a dança espontânea como possibilidade de fluência na
adoração. O sucesso e o reconhecimento que o ministério alcança em todo o Brasil,
frente às igrejas evangélicas de diferentes denominações, faz com que aumente a
aceitação da dança em denominações até então fechadas para esta linguagem
artística.
87
A partir de 2000 surgem vários outros registros de nomes que começaram a se
destacar no trabalho de dança como adoração, influenciando grupos em todo o Brasil,
como Gisela Morandi do ministério Dança pelas Nações em Belo Horizonte, Gláucia
Freire do movimento Companhia de dança, do Rio de Janeiro, Eliane Moura da Cia.
Josac de Brasília, Alcina Villar do Rio de Janeiro com a Cia. Mudança, além de muitos
outros nomes que têm se destacado neste processo de redescoberta da dança no culto
evangélico.
3.4 PESQUISA JUNTO A GRUPOS EVANGÉLICOS DE DANÇA
A pesquisa foi feita junto a 12 equipes evangélicas de dança, que atuam em
diferentes estados brasileiros, vindos de diferentes denominações de igrejas
evangélicas. Os formulários foram colhidos via e-mail e também pessoalmente, em um
grande evento realizado em Goiânia, que reuniu todos estes grupos. Abaixo estão
relacionados então os estados e as respectivas igrejas dos grupos que responderam ao
questionário.
- Cia EE-Taow do Centro Cultural da Escola da Igreja Presbiteriana - Goiás;
- Cia. Rhema do Instituto Evangelizando com Arte – Inter denominacional- Goiás;
- Grupo Geração que dança da Igreja do Evangelho Triangular do Brasil - São
Paulo;
- Grupo Unity da Igreja Evangélica de Campinas – São Paulo;
- Movimento Cia. de Dança da Igreja Evangélica Congregacional de Bento
Ribeiro – Rio de Janeiro;
88
- Ministério Dança e Vida da Primeira Igreja Batista em São Gonçalo – Rio de
Janeiro;
- Grupo Prostrai da Igreja Batista Nacional – Minas Gerais;
- Grupo Boas Novas da Igreja Pentecostal Arca do Concerto – Minas Gerais;
- Profetas da Dança da Igreja Batista Independente Sião - Tocantins;
- Grupo Cântico de Júbilo da Igreja de Deus Pentecostal do Brasil - Amazonas;
- Equipe Atos da Igreja Batista Nacional – Rio Grande do Sul;
- Chave Para as Nações da Igreja Batista Angelin - Maranhão;
Com base nas informações contidas nos formulários, podemos observar um
quadro geral da dança evangélica no Brasil.
Todos os grupos iniciaram suas atividades nos últimos quinze anos, sendo que
seis deles possuem mais de cinco anos de existência (Anexos 2, 4, 5, 8, 9 e 12) e
somente a Cia. Rhema (Anexo 13) possui quinze anos de atuação. Estes dados
comprovam que o surgimento da dança como forma de louvor e adoração no meio
evangélico protestante surgiu nos últimos quinze anos. Mostrando-se como um
movimento extremamente novo no protestantismo, a dança no louvor e adoração se
revela como um tema que ainda não possui características completamente definidas e
que ainda requer muito estudo por parte dos cientistas da religião e dos religiosos, no
intuito de compreender o que esta nova apropriação significa para os cristãos
evangélicos.
89
3.4.1 Dificuldades
As dificuldades encontradas pelos grupos na implantação do trabalho
aconteceram devido a diversos aspectos. A não-aceitação de músicas consideradas
Pentecostais pelas Igrejas Tradicionais foi a maior dificuldade encontrada pela Cia.
Boas Novas (Anexo 4). A não aceitação da dança por parte dos líderes e de membros
foi citada pela Cia. Chave para as Nações (Anexo 5). O grupo Prostrai (Anexo 3) cita
que, pelo fato da dança ser algo novo no meio evangélico, encontrou dificuldades de se
desenvolver tecnicamente. A falta de apoio e reconhecimento pela liderança da igreja,
foi a maior dificuldade encontrada pelos grupos, citada principalmente pelo Geração
que Dança (Anexo 7). A falta de consciência por parte dos bailarinos em relação ao
significado da dança no culto fez com que, no início, poucas pessoas se dispusessem a
participar do grupo Cânticos de Júbilo (Anexo 2). Mesmo os que se dispuseram não
tinham consciência da necessidade de consagração necessária para a realização da
dança no culto, como apontaram o grupo Profetas da dança (Anexo 6) e o grupo Unity
(Anexo 10). Outro fator de dificuldade foi a falta de espaço físico na igreja para o treino
e realização da dança. As mesmas dificuldades foram encontradas pela Cia. Prostrai
(Anexo 3), somado à falta de apoio da liderança da igreja. O ministério Dança e Vida
(Anexo 12) enfrentou em seu início de atuação o medo da contaminação com valores
mundanos e não-aceitação da existência de homens na dança. Somente um grupo
relata não ter encontrado dificuldades na implantação do trabalho em sua igreja local
que é o Movimento Cia. De dança (Anexo 12). A cia. Rhema (Anexo 13) foi motivada a
começar sua atuação pela liderança da igreja, mas encontrou dificuldades de aceitação
por parte dos membros da igreja. Fica claro que na maior parte dos grupos a
90
implantação da dança surgiu por iniciativa dos membros da igreja e não por sua
liderança, exceto na Cia. Rhema (Anexo 13) e que o preconceito e o medo do pecado
foram as maiores dificuldades encontradas por todos. Na medida em que o movimento
ia surgindo no Brasil, os membros das igrejas interessados em dançar como forma de
louvor e adoração procuravam seus líderes para começar um ministério. Os líderes
começaram a perceber que a dança poderia ser inserida no culto a Deus. Foram, então,
dando espaço aos membros das igrejas que demonstravam seriedade no trabalho de
ministrar a Deus com danças.
Oito grupos relatam que atualmente não encontram mais nenhum tipo de
dificuldade em relação à aceitação do grupo na sua igreja local; alguns citam inclusive
que em suas igrejas existem grupos de dança para crianças, adolescentes, jovens,
adultos e ainda grupos de senhoras, mostrando sua aceitação junto à liderança.
Somente os grupos Cânticos de júbilo (Anexo 2), Profetas da Dança (Anexo 6) e
Geração que Dança (Anexo 7) relatam encontrar resistência por parte de alguns
membros, porém aceitação por parte da liderança da igreja. Somente o grupo EE-Taow
(Anexo 9) relata que não pode realizar suas atividades dentro da sua igreja local,
somente em outros locais, como forma de apresentação, devido à não aceitação por
parte da liderança. A Cia. Rhema relata que os membros do grupo são reconhecidos
como ministros pelas congregações onde ministram. É interessante observar que,
atualmente, a própria liderança tem tido a iniciativa de iniciar grupos de dança em suas
igrejas, o que mostra que a dança em seu início começou de forma discreta, passando
por vários obstáculos, porém avançou para um momento de bastante aceitação no
meio evangélico protestante.
91
Todos os grupos relatam basicamente os mesmos critérios para que uma pessoa
possa entrar em um destes grupos. A pessoa deve ser membro da igreja (exceto nos
grupos inter-denominacionais), ser batizado, ter o “chamado de Deus”, estar encaixado
nas atividades e visão da igreja local (células, grupos nas casas, discipulado, etc.),
precisa-se encarar o trabalho do grupo não como entretenimento, mas como ministério,
é necessário que se passe por um período de experiência na qual estará em oração
para ver se será aceito no grupo como ministro, e ainda ter aptidão e buscar
crescimento técnico.
A concepção que os grupos possuem em relação à dança que realizam durante
os cultos é a de que a dança é, assim como a oração, uma maneira de se comunicar
com Deus; seria uma forma a mais de orar, adorar, interceder, ministrar cura e
libertação, e, ainda, de ensinar a palavra e evangelizar. O grupo Cântico de Júbilo
relata que “a dança é uma arma para libertar, curar e salvar...” (Anexo 2). “A dança é
fundamental nos dias de hoje como a música e a palavra é muito difícil imaginar os
cultos hoje em dia sem a dança...” (Cia. Boas Novas, Anexo 4). “A dança é um
instrumento de adoração a Deus. É uma maneira de expressar o amor e a adoração a
Deus” (Anexo 13).
“Acreditamos que o Senhor Jesus Cristo nos permite dançar na
presença dEle e, vemos a dança como uma ferramenta para
exercermos esta liberdade de adoração. Cremos piamente que os
nossos gestos e expressões, além de serem uma forma de louvor
ao nome Santo de Jesus, são ainda uma maneira de abençoar as
pessoas que estão naquele lugar, oferecendo-lhes cura, paz,
restauração espiritual” (Cia Geração que Dança, Anexo 7).
92
O relato sobre a reação das pessoas durante a ministração dos grupos aponta
que atualmente, alguns grupos são bem aceitos em suas congregações. O Movimento
Cia. de Dança (Anexo 11) cita haver inclusive alguns testemunhos de pessoas que
foram abençoadas durante as ministrações; porém a grande parte deles, ainda
encontra resistência por parte dos membros da igreja. A Cia. Rhema relata que, durante
suas ministrações, as pessoas dançam juntamente com os bailarinos se entregando a
Deus em adoração (Anexo 13).
3.4.2 Retorno da dança
Os motivos que levaram a dança a estar novamente no ambiente do culto cristão
evangélico citados pelos grupos são os que se seguem. O grupo Cânticos de Júbilo
relata que a dança é uma forma de linguagem de adoração e que foi muito tempo
abafada pelo preconceito(Anexo 2). O grupo Prostrai (Anexo 3), o grupo Atos (Anexo 8)
e o grupo Profetas da Dança (Anexo 6), citam a queda de paradigmas por parte de
líderes, que estão tendo a revelação em relação à dança, devido ao cumprimento da
profecia de Jeremias “nos últimos dias a virgem se alegrará na dança” (Jr 31,13). A
equipe Boas Novas (Anexo 4) aponta que, assim como a música passou por um tempo
de restauração no ambiente evangélico, agora chegou a vez da dança. O grupo
Geração que Dança (Anexo 7) cita que a mudança na concepção de corpo no mundo
evangélico atual, permitiu a igreja evangélica aceitar o corpo como mais uma
ferramenta de adoração a Deus. A Cia. EE-Taow (Anexo 9) indica que o movimento é
uma linguagem que dispensa palavras; fala por si só, sendo uma intensa maneira de
adorar a Deus. O Movimento Cia. de Dança indica que “após a grande lacuna aberta
93
por conceitos pecaminosos implantados pela Idade Média, a dança foi redescoberta
como possibilidade de expressão e adoração no culto cristão” (Anexo 11).
“Por que na verdade, ela só voltou ao seu sentido original que é
adoração a Deus. A dança sempre foi um instrumento de culto
dentro de todas as religiões, e agora está voltando ao seu sentido
original. O mover de Deus é que gerou este retorno da dança ao
seu sentido original” (Cia. Rhema, Anexo 13).
3.4.3 O corpo no mundo evangélico atual
Em relação à atual concepção de corpo do mundo evangélico atual, os grupos
afirmam que o corpo ainda é visto como algo pecaminoso e associado a atitudes
carnais, o que dificulta a aceitação da dança por parte de algumas pessoas. Outros
grupos acreditam que o mundo evangélico atual já aceita as atividades realizadas pelo
corpo como algo santo e aceitável, relatando a crença no homem como um ser triuno
constituído de espírito, alma e corpo. Outros acham que a concepção do corpo que
dança ainda está em processo de mudança de algo pecaminoso para algo aceitável
dentro da igreja; alguns grupos citam ainda que a introdução da dança na igreja
evangélica contribuiu para esta mudança de concepção.
“O corpo por muito tempo foi visto como uma barreira para se
chegar até Deus. Hoje vemos que o corpo, juntamente com a alma
e o espírito, se completam e Deus quer o culto de um ser completo
que Ele mesmo criou” (Anexo 3).
“A concepção de corpo está relacionada a sacrifícios de louvor e
não com a prisão da alma” (Anexo 8). “Apresentai os vossos corpos
como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus... para que
experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de
Deus” (Rm 12,1).
94
“O corpo não é mais visto como corpo pecaminoso. Logo a
produção corporal é perfeitamente lícita no mundo evangélico atual.
Antigamente não era permitido bater palmas nos cultos. Hoje se
dança! Nos últimos dez anos principalmente, o corpo retomou de
maneira intensa sua posição, não só como instrumento de culto
mas também abriu um leque de possibilidades para estratégias de
evangelismo” (Anexo 11).
“O corpo é o templo do Espírito Santo, ou seja algo relacionado ao
Sagrado, mas por outro lado, também desperta as paixões da
carne, por isto os bailarinos devem se vestir de forma mais
comportada durante a adoração no culto” (Anexo 13).
Finalmente, vale ressaltar que, além da adoração a Deus, a dança tem como
objetivo levar a congregação a se mover e dançar saindo da posição de expectador
para a de agente ativo no ato de dançar. A atuação dos grupos se faz dentro da
instituição religiosa com a autorização da liderança. O protestantismo não possui em
sua teologia a instituição do sacerdócio, porém na prática, os pastores são respeitados
como tais. Em relação à dança, então, esta acontece dentro da instituição e com a
permissão e apoio dos mesmos.
3.5 – CIA. RHEMA
O trabalho da Cia Rhema, de Goiânia, que há 15 anos atua com danças em
igrejas evangélicas, tem se destacado em uma trajetória recheada de uma intensa
busca de apropriação da dança como expressão e manifestação de valores e crenças,
e como veículo que provoca uma interação entre os dois olhares: o de quem dança e o
de quem assiste. A compreensão do trabalho da equipe revela o pensamento de
grande parte dos grupos citados, uma vez que devido ao seu pioneirismo é referencial
para tais.
95
A Cia Rhema de teatro e dança tem como proposta experimentar e viabilizar a
experiência cênica, enfatizando o contexto do cristianismo ou mesmo de uma cultura
cristã, cheia de valores e símbolos que podem ser vivenciados através da dança.
O grupo trabalha em duas linhas: a da dança no culto, normalmente carregada
de símbolos e previamente experimentada nos ensaios; e a da experimentação da
dança enquanto produto artístico, com espetáculos cênicos, montados a partir de
diferentes processos de criação. No presente trabalho é enfatizado a linha da dança no
culto.
O grupo compreende a arte como um produto humano, através do qual ele se
sensibiliza, se expressa, comunicando-se com seus semelhantes. Através da dança,
que é uma arte conceitual, produz-se uma comunicação não-verbal, na expressão
existente nas formas e movimentos. Segundo a diretora da companhia, “a arte é um
instrumento de adoração no culto de forma criativa. Na adoração criativa temos uma
oportunidade de “surpreender” a Deus cada vez que vamos à sua presença entregar o
nosso amor” (Adriana Pinheiro, diretora).
A Bíblia é a principal referência na qual o grupo se fundamenta. Para o grupo, a
dança se firma como instrumento de adoração a Deus, no momento em que está sendo
referida em vários textos bíblicos como forma de adoração a Deus. “Louvai a Deus com
danças” (Sl 150, 4).
Quanto à forma, a dança no culto realizada pelo grupo pode ser dirigida por uma
pessoa indicada pelo grupo e seguida por todos, com movimentos simples onde toda a
congregação é convidada a acompanhar e dançar junto com o grupo, gerando uma
grande comunicação e integração entre platéia e bailarinos e fazendo com que estes se
misturem, se tornando apenas pessoas que se movimentam de forma significativa e se
96
expressam através da dança. A dança pode ser também livre e espontânea quando,
após o momento de integração, cada pessoa se expressa da maneira que quiser, sem
preocupação estética, mas com o objetivo de comunicação intensa com o Sagrado.
O grupo utiliza símbolos tirados da tradição do povo hebreu. Utiliza tecidos que
podem significar: água, sangue, vento, toque, envolver, cobrir e proteger. Há também
fitas coloridas que lembram alegria, fogo, intensidade e fervor, arcos que indicam
alianças, que são muito citadas na Bíblia, pandeiros, que fazem alusão a Miriã que
dançou com centenas de mulheres após a travessia do Mar Vermelho, simbolizando a
vitória em determinadas situações. E ainda há bandeiras e outros objetos que
simbolizam as nações.
3.6 – EVENTOS EVANGÉLICOS DE DANÇA NO BRASIL
Uma grande quantidade de eventos de dança evangélicos tem acontecido no
Brasil nos últimos 10 anos, o que é um fato que pode ser considerado novo na história
do protestantismo, tornando necessária a observação do mesmo. Considerando que as
equipes possuem em média de 8 a 16 integrantes, e que algumas equipes participam
dos eventos, representadas somente por 1 ou 2 integrantes, pode-se apontar o número
aproximado de evangélicos que participam destes eventos no Brasil e que por sua vez
são envolvidos com o tema da dança em suas igrejas locais, o que indica o progressivo
crescimento do movimento da dança nas igrejas evangélicas contemporâneas.
- “Festival Rhema” (Goiânia - GO) – O evento acontece há 9 anos e recebe em
média 1000 (hum mil) alunos integrantes de equipes de todo o país, atingindo um
número aproximado de 150 grupos.
97
- “Festival Rhema” (Pompéia -SP) – O evento acontece há 3 anos, recebendo
em média 300 alunos da região circunvizinha, bem como grupos do norte e sul do país,
atingindo cerca de 30 grupos por ano.
- “Evangearte” (Manaus – AM ) - O evento acontece há 3 anos, recebendo em
média 400 alunos das regiões circunvizinhas, atingindo cerca de 40 grupos.
- “A dança no louvor e adoração” (Belo Horizonte - MG). O evento acontece há 6
anos, recebendo 1000 (hum mil) alunos de todo o país, atingindo um número
aproximado de 150 grupos.
- “Resgatarte” (Brasília - DF) - O evento acontece há 5 anos, recebendo cerca de
350 alunos da região, atingindo uma média de 30 grupos.
- “Adorarte” (João Pessoa – PB ) - Recebeu em 2007 o número de 200 alunos,
sendo a maioria líderes de grupos, somando um total de 80 grupos registrados no
evento.
- “Articulando vidas” (Rio de Janeiro – RJ) - Teve em sua última edição cerca de
200 alunos da região, somando uma média de 25 grupos participantes.
- “Acampe Teatro” (Curitiba – PR) - Recebeu cerca de 400 alunos da região.
- “Mostra Tribus e Amigos” (Praia Grande – SP) - 20 grupos participantes.
- “Mearte – Jocum” (Belo Horizonte - MG) - Cursos com cerca de 10 grupos
participantes.
- “Adoração e Arte” (Campinas - SP) - Recebeu cerca de 10 grupos da região.
- “4ª Mostra de Arte Cristã” (Anápolis-GO) - Conta com cerca de 20 grupos
participantes.
- “Mostra de Dança - Atraindo teu olhar” (Goiânia - GO) - Cerca de 400 pessoas
participam do evento.
98
Além disso existem alguns eventos, sobre os quais não foi possível conseguir
informações concretas quanto ao número de participantes; estes são realizados em:
Maceió - AL, Londrina - PR, Belém - PA, Palmas - TO e Itapuranga - GO.
3.7 SÍNTESE
As concepções da pós modernidade foram um dos fatores que abriram caminho
para a redescoberta da dança por parte dos evangélicos protestantes. A abertura para
o Transcendente gerada pela falta de respostas por parte da ciência, a crescente
revalorização do corpo e a perda de valor nas instituições, são fatores que abrem
discussões para questionamentos até então não colocados em pauta, como por
exemplo o tema da dança.
Entender como o evangélico executa a dança em seus cultos é um caminho para
a compreensão do fenômeno em questão. A dança para os evangélicos é uma
possibilidade de expressão de louvor e adoração ao Sagrado, podendo ser executada
de forma espontânea sem técnica específica, ou previamente ensaiada e baseada em
técnicas tradicionais. A dança é como uma oração, uma linguagem através da qual o
ser humano ora, intercede, profetiza, ensina, evangeliza e adora a Divindade. A direção
do louvor com danças, respeita padrões estabelecidos por cada igreja local, sendo
realizada assim com apoio da liderança e em seguida da congregação. A dança no
culto evangélico é ainda uma manifestação do ser humano para a sua Divindade, da
criatura para o criador. O simbolismo da dança é expresso não somente nos
movimentos, mas nas cores das roupas, formas coreográficas e objetos significativos.
99
A pesquisa junto aos grupos revela que a dança ainda está em processo de
aceitação dentro das igrejas evangélicas, tendo sido marcada por um início cheio de
preconceitos e tabus, que estão sendo quebrados ao longo do tempo. A quantidade de
eventos evangélicos de dança que existem no Brasil revela a necessidade de
crescimento e apoio que estes grupos têm necessitado, buscando o conhecimento
teórico e técnico sobre a dança no culto.
O caminho da redescoberta da dança por parte dos evangélicos no Brasil ainda
está sendo escrito por grupos que acreditam na totalidade do ser humano diante de
Deus, sendo concebido como templo deste e lugar de manifestação e comunhão.
100
CONCLUSÃO
Enfocando o tema da dança, esta dissertação procura considerar esta
manifestação humana como parte integrante da vida social, cultural e religiosa de uma
sociedade, expressando, vivenciando e perpetuando seu ethos e sua cultura.
A presença da dança desde o tempo dos povos primitivos nos revela a
manifestação natural do ser humano, nas suas expressões mais autênticas, uma vez
que, para o homem primitivo, não havia diferença entre ele mesmo e a natureza, entre
a vida religiosa e a vida social. Sua religião era sua vida.
Através da dança, um povo se manifesta, festeja, celebra, invoca, corteja e
cultua. Esta compreensão permite olhar o movimento na dança como expressão
simbólica, que perpetuada através das gerações, revelam os valores mais intrínsecos
de uma sociedade.
Como manifestação religiosa, os diferentes povos sempre se utilizaram a dança.
A dança sagrada é uma maneira de orar se comunicando com a Divindade,
expressando através de gestos simbólicos o que as palavras não conseguem dizer.
Porém no ambiente cristão protestante, a dança não foi aceita como manifestação
santa aceitável no culto a Deus. A pesquisa utiliza a palavra santa no sentido de
“separada”, “consagrada para uso da Divindade”.
Conclui-se que no cristianismo primitivo havia a presença da dança das culturas
grega e romana, que por sua vez foi influenciada por religiões egípcias, o que fazia com
que a dança cristã primitiva estivesse misturada com a dança de outras crenças. Tal
fato gerou uma pressão da igreja por parte de líderes cristãos, que mesmo a
101
reconhecendo como possibilidade de adoração, acabaram se levantando contra sua
prática dentro da igreja.
Na Idade Média, além de ainda ser muito utilizada na adoração de deuses não
aceitos pelo cristianismo, a dança estava presente em orgias e manifestações
macabras de uma sociedade que sofria com a obscuridade deste período. O
cristianismo não pôde conceber como a dança poderia ser usada na adoração a Deus,
preferindo engessar a expressão corporal dos cristãos.
Outro fator que suprimiu a dança no cristianismo foi o dualismo corpo e alma,
vigente na filosofia da Idade Média, que separou o ser humano em forças opostas: bem
e mal, Sagrado e profano, eterno e mortal. As manifestações corporais foram colocadas
em segundo plano à medida que crescia o valor da expressão intelectual, assim como o
valor da alma em detrimento do espírito.
O cristianismo exclui a dança do ambiente do culto, se apropriando desta como
patrimônio cultural, que seria realizada nas praças, ruas, feiras e também nas cortes, o
que por volta do século XV, permitiria o surgimento do ballet e a partir deste, das
demais danças teatrais técnicas.
O protestantismo por sua vez, surge em meio a toda esta carga de preconceitos
relativos à dança, o que faz com que se tenha grandes reservas em relação esta, que
acaba sendo reduzida a expressões simplificadas, como levantar as mãos, se ajoelhar
e se curvar. A dança estava fora do ambiente do culto cristão protestante, sobrando
desta somente poucos gestos de manifestação de louvor e adoração.
A pós-modernidade chega marcando uma significativa revalorização do corpo. O
ser humano começa a se perceber em sua totalidade sendo espírito, alma e corpo. Tal
característica abre horizontes para a compreensão das palavras de Cristo, quando
102
afirma que sua santidade pôde ser manifesta em um corpo humano. “sede santos
porque eu sou santo” (1 Pe 1,16). É um Deus que não é puro espírito, mas que se
manifesta em forma humana vivendo uma vida santa em um corpo mortal.
Ao voltar os olhos para a cultura judaica, percebe-se que em tal cultura a dança
sempre esteve presente, o que abre caminho para que, na contemporaneidade, possa
ser vista como possibilidade de louvor e adoração dentro do cristianismo evangélico.
A atualidade, então, se revela como um novo momento para a expressão de
adoração no cristianismo protestante: a possibilidade de expressar através do corpo,
através da dança. A dança nos cultos evangélicos, presente nas diferentes
denominações, revela uma mudança na maneira de se perceber diante da Divindade. O
antigo sentimento de temor traduzido em medo, que era revelado na rigidez diante da
Divindade, é trocado por um sentimento de respeito, que não é ferido ao se mover em
sua presença, com movimentos que revelam o desejo de estar mais próximo, de querer
alcançar, de querer se relacionar. Um corpo que antes era concebido como instrumento
do pecado agora pode ser entendido como parte da totalidade do ser, que pode se
manifestar de forma santa diante do Sagrado, vivenciando as palavras do apóstolo
Paulo. “Apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável diante de Deus,
que é vosso culto racional” (Rm 12,1).
103
A DANÇA DA VIDA
“Na dança da vida, eu me movo para ti
Oferecendo o meu corpo como sacrifício
Vivo, santo e agradável
não um sacrifício que significa dor
mas um sacrifício que significa entrega
que faz com que eu te pertença
que reconhece seu amor e sua presença
na entrega de um corpo que viveu santo
assim como quero viver
assim como quero me mover
assim como quero dançar”
Luciana Torres
104
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WOSIEN, Bernhard. Dança um caminho para a totalidade. São Paulo: Trion, 2000.
108
ANEXOS
109
ANEXO 1
CARTA ENVIADA AOS GRUPOS E FORMULÁRIO DE PESQUISA
110
Prezado Sr(a).
Segue em anexo o formulário de pesquisa que será utilizado como capítulo da
dissertação de mestrado de Luciana R. Pinheiro Torres, com o título “A dança no Culto
Cristão”. Gostaria de solicitar a participação sua e do seu grupo, preenchendo o
questionário, para que possa enriquecer a pesquisa com suas informações e respostas.
Sem mais para o momento, agradeço a atenção a mim dispensada, na
esperança de ser atendida.
Luciana R. Pinheiro Torres
111
FORMULÁRIO DE PESQUISA
Nome do grupo:_________________________________________________________
Nome do indivíduo que responderá pelo grupo na pesquisa e sua posição no grupo:
______________________________________________________________________
Identidade.__________________Endereço:___________________________________
_________________________________________Cidade/ Estado:_______________
e-mail:_________________________________________________________________
Igreja e denominação a que pertence:_______________________________________
Ao responder a este questionário concordo que as respostas dadas por mim
neste sejam aproveitadas pela pesquisadora Luciana Rodrigues Pinheiro Torres, para
compor um material de pesquisa de sua dissertação de Mestrado.
___________________________
1- Há quanto tempo o grupo atua usando a dança como forma de culto?
______________________________________________________________________
2- Quais foram as dificuldades encontradas (se elas existiram), na implantação das
atividades do grupo?
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
3- Atualmente existem dificuldades de aceitação do grupo por parte da congregação em
que atuam?
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
112
______________________________________________________________________
4- Qual é a reação das pessoas durante a ministração de vocês?
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
5- Qual é a concepção que o grupo tem de dança no culto?
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
6- Quais os critérios usados para ser um ministro de dança no grupo de vocês?
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
______________________________________________________________________________
7- O que você acha: Por que a dança se tornou (novamente) elemento do culto cristão?
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
8- Na sua opinião, qual é a concepção de corpo no mundo evangélico atual? Houve
mudanças? A partir de quando?
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
113
ANEXO 2
FORMULÁRIO DO GRUPO CÂNTICOS DE JÚBILO
114
ANEXO 3
FORMULÁRIO DO GRUPO PROSTRAI
115
ANEXO 4
FORMULÁRIO DO GRUPO BOAS NOVAS
116
ANEXO 5
FORMULÁRIO DO GRUPO CHAVE PARA AS NAÇÕES
117
ANEXO 6
FORMULÁRIO DO GRUPO PROFETAS DA DANÇA
118
ANEXO 7
FORMULÁRIO DO GRUPO GERAÇÃO QUE DANÇA
119
ANEXO 8
FORMULÁRIO DO GRUPO ATOS
120
ANEXO 9
FORMULÁRIO DO GRUPO EE-TAOW
121
ANEXO 10
FORMULÁRIO DO GRUPO UNITY
122
ANEXO 11
FORMULÁRIO DO GRUPO MOVIMENTO CIA. DE DANÇA
123
ANEXO 12
FORMULÁRIO DO GRUPO DO MINISTÉRIO DANÇA E VIDA
124
ANEXO 13
FORMULÁRIO DO GRUPO RHEMA
125
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