
bem utilizado pelos governos. Os dados da referida questão são contundentes, pois 86,7% dos
entrevistados disseram que os governos não fazem bom uso dos recursos arrecadados
48
. Esse
pode ser um retrato de algum distanciamento entre as instituições políticas e a população?
De acordo com Fedozzi (1997), a formulação e a implantação dos orçamentos nos
governos (que expressam a formação do fundo público por meio de tributos e receitas e ainda
a forma como o recurso será aplicado) são controladas quase que totalmente por uma
tecnoburocracia que reina em uma posição de verticalização da organização administrativa do
Estado. Além disso, os dados utilizados para elaborar os orçamentos governamentais são de
conhecimento apenas do pequeno número de técnicos dos órgãos administrativos
responsáveis, fazendo com que, em geral, não haja qualquer consulta seja às instâncias
administrativas, seja à população que será alvo das decisões tomadas (FEDOZZI, 1997). Com
isso, pode-se concluir que:
o estado é considerado como um instrumento que serve [ou deveria servir]
aos indivíduos (ou famílias), mas não (ou não necessariamente) como um
instrumento manejado por esses mesmos indivíduos. É manejado [ou deveria
ser] no interesse dos cidadãos; e os cidadãos são simplesmente aquelas
pessoas em cujo interesse o estado é [ou deveria ser] gerido. (WALZER,
1977).
As pessoas apontam a má qualidade dos serviços públicos (direitos dos cidadãos) pelo
mau funcionamento da máquina pública
49
. O que é fornecido em forma de impostos deveria,
pelo Contrato Social, ter retorno em forma de bens e serviços públicos acessíveis a toda a
população. Tendo por base o Contrato Social, é preciso ter claro que, para uma sociedade ser
considerada justa, as obrigações dos cidadãos devem ser equilibradas, em contrapartida, por
obrigações dos governos para com os cidadãos – a estabilidade da sociedade depende deste
equilíbrio (WALZER, 1977). Esses últimos dados corroboram o posicionamento de que o
pagamento de impostos tende a ser visto como algo negativo, pois se é uma obrigação dos
cidadãos e estes não percebem o seu retorno, passa-se a ter os tributos como “um mal
necessário, fontes de ineficiência” (CUNHA, 2002, p.1). De tal modo, a hipótese de que a
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Desse grupo de respondentes, quando indagados sobre qual área deveria receber mais investimentos dos
recursos arrecadados junto aos contribuintes, 73,5% convergiram para as áreas de saúde (48,7%) e educação
(24,8%). O fato de que mais de 85% dos porto-alegrenses considerem ser mal aplicados os recursos arrecadados
conferem com os dados apresentados pela pesquisa ACSP Impostos, pois considerando o mesmo
questionamento da pesquisa feita em Porto Alegre, 93% dos entrevistados afirmaram que os recursos
arrecadados são mal aplicados (site De Olho no Imposto, acesso em 19 set. 2006).
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Os governos, por sua vez, buscam cercar-se de mecanismos que evitem a evasão fiscal para assegurar um bom
governo – ou seja, um governo que persiga o bem coletivo (BOBBIO, 2000). Mas, para tanto, acabam optando
por mecanismos que, segundo Santos (1998) ofendem os cidadãos. Em relação ao comportamento do governo
quanto à restituição do Imposto de Renda, este autor afirma: “Guardar para a última semana do ano, ou ainda
arrastá-la para o ano seguinte a definição da situação de milhares de pessoas, a maioria das quais certamente sem
culpa, é insuportável chicana, obra de má-fé, e cabal desrespeito com o cidadão” (SANTOS, 1998, p.22).