César nos apresenta sua sogra, Ana
Maria, 48 anos, casada com o também car-
roceiro Clóvis César Toledo, de 47 anos,
que chega em seguida. Próximo dali,
numa estreita rua de terra, ficam as duas
“cocheiras” improvisadas onde hospedam
os cavalos. César apresenta Lulu, um cas-
tanho de 10 anos, com uma mancha bran-
ca na cara, “o xodó da sogra Ana Maria”.
Ana diz que “Lulu é rápido, falam que era
de corrida, mas eu não sei, não”. Ela tem
“pressão alta”, leva uma vida difícil. Preo-
cupada, pergunta se a Caros Amigos tem
como ajudá-la a vender os cavalos, pois
tem “medo de perdê-los” com a nova lei.
César e Clóvis ajeitam as carroças, per-
gunto a Clóvis como a coisa funciona.
“Tiro a carroça da cocheira, arreio o cava-
lo, engato na carroça, escovo, arrumo,
pego a sacaria pra recolher o material e
pronto, podemos ir. Vamos em duas car-
roças, cada uma deve carregar no máxi-
mo 150 quilos de material recolhido.” Vou
com Clóvis, enquanto o fotógrafo Cazu
pega carona com César e o cavalo Baião,
outro castanho, de 8 anos.
Ao primeiro tranco, a impressão é que
vou despencar, mas Clóvis é hábil com as
rédeas e tem uma tranqüilidade impres-
sionante. Logo pegamos a primeira rua do
trajeto. O simpático Clóvis é moreno e
baixinho, do tipo falante e atencioso, pau-
lista, pai de seis filhos. Estudou até a 2
a
série e começou a trabalhar com 7 anos,
numa olaria onde fez tijolos até os 15,
quando então se empregou numa gráfica.
Depois foi servente de pedreiro, vigia de
prédio e, sem maiores chances, virou car-
roceiro, profissão que exerce há dez anos
na informalidade. Confessa: “Não queria
ser muita coisa, só que desse pra viver
honestamente, um bom ordenado, como
vejo certas pessoas por aí”.
— O que faz um carroceiro?
— Várias coisas: cata papel, ferro velho,
plástico, mas também limpa um jardim se
precisar, tudo é uma forma de ganhar um
dinheiro pra quem trabalha com carroça.
— E vamos pra onde?
— O itinerário é a Água Branca, Lapa de
Baixo, e a região da Santa Marina.
— Quanto tempo leva o percurso?
— Ah, se tiver material, umas duas horas.
Se não tiver, em uma hora voltamos.
— O cavalo agüenta?
— Agüenta, vamos devagar e ele está fer-
rado e alimentado. O animal trabalha no
máximo quatro horas por dia, duas horas
de manhã e duas de tarde.
O cavalo mencionado é o Faísca, um
tordilho robusto, o jovem da turma, 7
anos, e que custou 500 reais. “Não gosta-
ria de vender. Peguei amor no Faísca, gosto
dele.” É comum os carroceiros trocarem os
cavalos entre si ou comprarem em “feiras
do rolo”, hoje extintas na capital.
— Como você faz nesse trânsito pra guiar
a carroça?
Texto 12 / Trabalho informal
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