
Ford tinha que lidar, enquanto capitalista individual, com questões relativas à
concorrência, aos sindicatos
61
e à alta taxa de rotatividade (turn over) entre seus empregados
62
.
Frente a elas, sua política salarial de foi bem sucedid a em: (i) em romper com a resistência
crônica dos trabalhadores a seu sistema de produção, fazendo diminuir o absenteísmo e a taxa de
rotatividade; (ii) influenciar positivamente (do ponto de vista da acumulação) as condições de
existência da classe trabalhadora, através do controle dos gastos do salário
63
e, nesse sentido,
enfraquecer os sindicatos; (iii) reduzir o custo unitário de cada automóvel produzido, obtendo
ampla vantagem frente a seus concorrentes diretos; (iv) fazer sua companhia crescer
exponencialmente ao consolidar, em definitivo, a “racionalização” da fábrica
64
e implantar a
produção em massa.
As questões até aqui apresentadas não foram as únicas que levaram Ford a experimentar
novas soluções. Havia outro elemento não muito evidente. Segundo Castel (1998) “[o dia de
cinco dólares] é pesando como possibilidade do operário ter acesso ao estatuto de consumidor
dos produtos da sociedade industrial” (p. 429). De fato, houve um paralelismo entre a
consolidação da homogeneização das novas condições de trabalho e do novo modo de vida da
classe trabalhadora. Esta é a dimensão efetivamente inovadora da política salarial de Ford: sua
preocupação em fornecer aos trabalhadores “renda e tempo suficientes para que consumissem os
produtos produzidos em massa” (HARVEY, 1996, p. 122). O verdadeiro pioneirismo de Ford se
manifestou, portanto, através da promoção consciente do consumo em massa, proporcionando ao
trabalhador o inédito acesso aos produtos industriais, produzidos em escala cada vez maior.
61
A Detroit de 1913 foi locus de uma forte campanha de sindicalização promovida pelo Industrial Workers of the
World (IWW) dentre os próprios trabalhadores da Ford Motor Company (BRAVERMAN, 1977, p. 132).
62
O acelerado ritmo de expansão da indústria automobilística tornava um imperativo a absorção de braços em
número cada vez maior. A cidade de Detroit havia recebido uma significativa população de imigrantes em fins do
século XIX. Essa força de trabalho, entretanto, não se adaptava, em grande medida, à coerção objetiva imposta pelo
sistema de produção de Ford que sofria, então, de um problema crônico: o freqüente abandono pelos trabalhadores de
seus postos na cadeia de produção. A subordinação ao ritmo da linha de produção por longos períodos era penosa
demais para uma remuneração tão baixa (cerca de dois dólares e meio por jornada).
63
O dia de cinco dólares era constituído por elementos fortemente condicionais: exigia um tempo mínimo de seis
meses de antiguidade no trabalho, uma idade mínima de vinte e um anos e, sobretudo, uma conduta irrepreensível
que, se maculada, implicava na suspensão do benefício. Além disso, o dia de cinco dólares não beneficiava mulheres.
Ford esperava delas a adequação a uma forma de complementar necessária à reprodução, mas melhores condições
possíveis, da força de trabalho masculina. A adoção desses critérios facilitou a seleção de trabalhadores efetivamente
dispostos a se submeter às condições da linha de produção.
64
Uma vez que cada trabalhador ocupava um posto em que executava uma tarefa específica, entre tantos outros
rigorosamente encadeados, faltas e atrasos potencialmente acarretavam um substancial distúrbio em toda a cadeia.
Dessa forma, foram introduzidas sanções pecuniárias aos trabalhadores incidentes em faltas, atrasos e/ou falta de
cuidado no trabalho.