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Considerando que uma análise da complexa teoria da ação
comunicativa proposta por Habermas fugiria aos propósitos deste estudo, nos
restringimos a lembrar que para ele a mudança de paradigma da ação instrumental
para a ação comunicativa, orientada pela racionalidade comunicativa, é um caminho
para a compreensão da modernidade e para a busca de soluções para suas
patologias.
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desenvolve aquele ‘problema da história universal’ ao qual dedicou toda a obra científica de sua vida, a saber, por
que fora da Europa ‘nem o desenvolvimento científico, nem o artístico, nem o político, nem o econômico seguem a
mesma via de racionalização que é própria do Ocidente’. Para Max Weber ainda era evidente a relação interna, e não
meramente contingente, entre modernidade e aquilo que designou como racionalismo ocidental. Descreveu como
‘racional’ aquele processo de desencantamento ocorrido na Europa que, ao destruir as imagens religiosas do mundo,
criou uma cultura profana. As ciências empíricas modernas, as artes tornadas autônomas e as teorias morais e
jurídicas fundamentadas em princípios formaram esferas culturais de valor que possibilitaram processos de
aprendizado de problemas teóricos, estéticos ou prático-morais, segundo suas respectivas legalidades internas. O que
Max Weber descreveu do ponto de vista da racionalização não foi apenas a profanação da cultura ocidental, mas,
sobretudo, o desenvolvimento das sociedades modernas. As novas estruturas sociais são caracterizadas pela
diferenciação daqueles dois sistemas, funcionalmente interligados, que se cristalizaram em torno dos núcleos
organizadores da empresa capitalista e do aparelho burocrático do Estado. Weber entende esse processo como a
institucionalização de uma ação econômica e administrativa racional com respeito a fins. À medida que o cotidiano
foi tomado por esta racionalização cultural e social, dissolveram-se também as formas de vida tradicionais, que no
início da modernidade se diferenciaram principalmente em função das corporações de ofício. No entanto, a
modernização do mundo da vida não foi determinada apenas pelas estruturas da racionalidade com respeito a fins. E.
Durkheim e G.H. Mead viram que o mundo da vida racionalizado é caracterizado antes por um relacionamento
reflexivo com tradições que perderam sua espontaneidade natural; pela universalização das normas de ação e uma
generalização dos valores que liberam a ação comunicativa de contextos estreitamente delimitados, abrindo-lhe um
leque de opções mais amplo; enfim, por modelos de socialização que se dirigem à formação de identidades abstratas
do eu e que forçam a individualização dos adolescentes. (...) Hoje o tema de Max Weber é posto sob uma outra luz,
tanto pelo trabalho dos que o reivindicam para si, quanto dos que o criticam. Somente nos anos 50 a palavra
‘modernização’ foi introduzida como termo técnico. Desde então caracteriza uma abordagem teórica que retoma a
problemática de Max Weber, reelaborando-a com os instrumentos do funcionalismo sociológico. (...) A teoria da
modernização efetua sobre o conceito weberiano de ‘modernidade’ uma abstração plena de conseqüências. Ela
separa a modernidade de suas origens – a Europa dos tempos modernos – para estilizá-la em um padrão, neutralizado
no tempo e no espaço, de processos de desenvolvimento social em geral. Além disso, rompe os vínculos internos
entre modernidade e o contexto histórico do racionalismo ocidental, de tal modo que os processos de modernização
já não podem mais ser compreendidos como racionalização, como uma objetivação histórica de estruturas racionais.
James Coleman vê nisso a vantagem de não mais sobrecarregar o conceito de modernização, generalizado na teoria
da evolução, com a idéia de um acabamento da modernidade e, portanto, de um estado final, ao qual deveriam
seguir-se desenvolvimentos ‘pós-modernos’”. (HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade. p. 3-5).
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Encontramos em Bárbara Freitag uma síntese bem adequada para a compreensão desse viés do pensamento
habermasiano: “Para Habermas, que nos forneceu outra interpretação da modernidade, impõe-se uma mudança de
paradigma: da ação instrumental para a ação comunicativa, da subjetividade para a intersubjetividade, da razão
monológica para a razão dialógica. Somente assim a modernidade poderá ser compreendida corretamente, buscando-
se, através da ação orientada para a compreensão, as soluções para as patologias. Ao fazer a distinção entre ‘mundo
vivido’ e ‘sistema’, Habermas criou a possibilidade de distinguir, em sua Teoria da Modernidade, as transformações
ocorridas no sistema (modernização societária) e no mundo vivido (modernidade cultural). Enquanto a modernização
do sistema coincide com os processos de racionalização da Economia e do Estado, conforme diagnosticados por
Weber, Habermas discorda da ‘leitura’ que Weber faz da racionalização das esferas de valor. Para Weber essa
racionalização coincide com a institucionalização exclusiva da racionalidade instrumental. Habermas, ao contrário,
interpreta a modernidade cultural como um processo de transformação ocorrido na Lebenswelt em que se