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A idéia fundamental sobre a dualidade das pulsões presente neste texto,
onde Freud se indaga sobre o sentido da agressividade na cultura, está na
abordagem da pulsão de vida como uma tendência à união, visando uma
grande unidade, e na oposição de propósitos da pulsão de morte, que, como
pulsão destrutiva, visa justamente o contrário, ou seja, a disjunção dessas
unidades, a recusa da permanência (Garcia-Roza, 1990, p. 134). Assim, a
pulsão de morte não seria uma tendência ao repouso absoluto, não visaria
retornar a um estado anterior à vida, e sim diminuir complexidades, destruir
ligações, singularizar
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.
Para Garcia-Roza (1995, p. 162), que privilegia a concepção das
pulsões desenvolvida em O mal estar na civilização e de acordo com a
concepção de pulsão de morte abordada por Lacan, no seminário A ética da
psicanálise (1960) e no seminário Os quatro conceitos fundamentais da
psicanálise (1964), considera que a pulsão de vida e a pulsão de morte são
modos de presentificação da pulsão no psiquismo e não, propriamente, duas
qualidades das pulsões elas mesmas. E o modo de presentificação da pulsão
de morte é “disjuntivo, destrutivo, desfazendo as formas constituídas, dando
lugar à emergência de novas formas”.
Marie-Christine Laznik-Penot (1994, p. 219) aponta que Lacan recusa a
dualidade da segunda teoria das pulsões de Freud, como oposição entre uma
pulsão de vida distinta da pulsão de morte. Trata-se, para ele de dois aspectos
constitutivos de toda pulsão. Lacan (1964/1998, p. 188) refere, em seu
seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), sobre as
duas faces da pulsão: “Explico assim a afinidade essencial de toda pulsão com
a zona de morte, e concilio as duas faces da pulsão – que, ao mesmo tempo
presentifica a sexualidade no inconsciente e representa, em sua essência, a
morte”. Mais adiante (1964/1998, p. 243), reafirma essa posição de serem a
pulsão de vida e de morte manifestações de dois aspectos da pulsão e de a
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Freud coloca que “a civilização constitui um processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar
indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande
unidade, a unidade da humanidade”. Porque isso tem de acontecer, não sabemos; o trabalho de Eros é
precisamente este. Essas reuniões de homens devem estar libidinalmente ligadas umas às outras
(1930/1980, p. 145). A pulsão de morte, por outro lado, visa destruir essa grande união, está mais a
serviço do indivíduo, dos interesses do homem enquanto unidade singular. A luta entre estas duas
pulsões, de vida e de morte, consistiria a vida humana. Segundo Freud (p. 145), citando Heine, “É essa
batalha de gigantes que nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar sobre o Céu”.