arranjar! Olhe! Veja! Pense! Medite, e não fale!
BRÁS (gritando) – Como diabo não hei de falar e me incomodar, se o Satanás trancou-me
a porta? (Para Micaela: ) Mulher, puxa daí, que eu puxo daqui! Anda, mulher dos
diabos! Faz força, cutia velha! Parece-me que já não vales mais nada! Olha, e faz
como eu!
MICAELA – Estou ajudando-o a bem morrer! Que mais quer!?
BRÁS (tanto puxa, que cai no cenário com Micaela e a porta. Levantando-se, para
Micaela) – Quase quebrei a cuia! Mas ao menos não fiquei enterrado! Que Dizes?
Levanta-te, não tenhas preguiça!
MICAELA – Não posso! Estou... ai! Penso que... (esfregando uma perna) eta perna se não
está quebrada, está esfolada!
BRÁS – Pois quem te mandou cair junto comigo!? Eu não te disse que segurasse a porta!?
Agora leventa-te; quer possas, quer não! (Pegando-lhe em uma mão.) Vá! Arriba!
Arriba!
MICAELA – Ai! ai! Não posso mais!
BRÁS (atirando-a) – Pois vai-te com a porta, e com todos os diabos que saírem hoje dos
infernos! Micaela (levantando-se com muito custo) – Ai! Além de ajudá-lo a abrir a
porta, e de cair com ele, mas esta crueldade! Atira comigo... esmaga-me...
(Endireita a cabeleira na cabeça.) Rasgou-me o vestido de que eu mais gostava,
com modos brutais! Quase pôs-me nua. Que crueldade! (levantando-se, compõe o
xale.) Muito sofre quem ama!
FERRABRÁS (entrando a manejar com uma bengala, vestido muito à pelintra) – Oh!
Hoje, sim! O dia foi grande! Grande! Muito grande para mim ! Vi a minha namorada da Rua dos
Andradas! A minha amiguinha do Beco do Botabica! A minha queridinha da Travessa da
Candelária! Vi, vi, vi, que mais? Ah! a minha tia avó (dando uma grande gargalhada), e em visitas
aos velhos tortos, aleijados! Etc. etc.
BRÁS – Oh! Rapaz! Quando tomarás tu juízo!? Cada vez ficas pior! Anda para ali; anda!
Toma a bênção à tua mãe.
FERRABRÁS – Ora, meu pai, sempre o Sr. me está dando mães! Há três dias era uma
velha de que todos têm nojo, porque lhe sai tabaco pelas fossas, mormente pelos ouvidos, pela boca,
e até pelos olhos! Ontem era uma torta deste olho; aleijada desta perna (batendo com a bengala na
perna direita do pai.)
BRÁS – Mais devagar com os teus exemplos, que estas pernas já são – o Sr. sabe- algum
tanto velhas e cansadas!
FERRABRÁS – Senhor! Dizia eu que ontem era uma velha nestas agradabilíssimas
condições, e hoje quer que eu tome a benção desta tagarela (puxa-lhe pelo xale e quase o tira do
pescoço.)
MICAELA – Mais prudência, Sr. Dr.! Olhe que não estou acostumada a estes insultos!
Pilha-me abatida, senão o Sr. não ousaria insultar-me, porque eu ainda teria mãos!
FERRABRÁS – Olhem; olhem que jóia!
BRÁS (muito zangado)- Este rapaz não toma mais caminho! Cada vez fica mais tolo, mais
estonteado, e mais surdo! Vai, vai! (empurrando-o) Vai procurar outro pai! Eu não te quero mais por
filho!
FERRABRÁS – Pois meu pai, o Sr. é que tem a culpa. Apresenta-me (tira-lhe a cabeleira
e atira-a no chão) com esta cabeça rapada para minha mãe, como se eu fora alguma criança! Que
quer que eu lhe faça!?
MICAELA (atirando-lhe com a cabeleira à cara) – Eu não o posso mais aturar,Sr..
atrevido!
FERRABRÁS – Olhe que lhe dou com a bengala!
BRÁS – Acomodem-se! Senão eu lhe dou um cachação!