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Certa Entidade em Busca de Outra, Qorpo-Santo
Fonte:
LEÃO, José Joaquim de Campos (Qorpo Santo). Certa Entidade em Busca de Outra. In: CÉSAR, Guilhermino
(org.). Teatro Completo. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro/Fundação Nacional de Arte, 1980. p. 163-
171.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Solange L. S. de Jesus – Curitiba/PR
Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam
mantidas. Para mais informações, escreva para <bib[email protected].br>.
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alguma forma, mande um e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso é possível.
Certa Entidade em Busca de Outra
Qorpo- Santo
Comédia em dois atos
PERSONAGENS:
Velho Brás; homem sisudo.
Ferrabrás; estudante, filho adotivo deste.
Micaela (Tagarela), mulher pouco comedida ou respeitável.
Satanás
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ATO PRIMEIRO
BRÁS (entrando) – Quem diabo está nesta casa!? (muito admirado.) Por um dos
reposteiros vi aqui a Satanás com olhos adiante e pernas atrás! Depois vi Judas
Iscariotes, que andava a trotes! Por uma janela, a Micaela abrindo a boca de gamela!
Mas o meu rapaz, o meu Ferrabrás; o meu contimpina, que de dia dorme, e de noite
maquina! Oh! Esse, nem por sombras me quer aparecer, ou eu pude ver! Bárbaros!
Assasinos! Traidores! Que tudo me roubam! Comem como burros; como cavalos; e
depois querem que eu trabalhe para sustentá-los! Infames! Poluem a honra das
famílias! Divorciam esposos para massacrá-los, e a seu gosto fruirem seus bens!
Escravizam em vez de libertarem... Hei de lançar por terra tão indigno governo! Ou
hão de os governantes e governados terem direitos e deveres, ou nenhum governo
durará no poder mais que treze meses! A Nação, cujo espírito será como o de um só
homem, - os inutilizará, a todos embrutecendo ou a cabeça fedendo! Ainda não
estão satisfeitos estes entes ( a que chamam Governo porque ocupam as posições
oficiais ) com os milhões de desgraças que têm ocasionado!? Quererão bilhões,
trilhões Assassinos, traidores de sua Pátria! Até onde chegará a vossa perversidade?
E até que ponto subirá tãobém, ou a que extensão alcançará a vingança do supremo
Arquiteto do Universo!? Tremei, malvados! A trombeta final não tardará muito a
tocar a voz: - Sejam queimados e reduzidos a cinzas!
(Aparece Satanás.)
BRÁS – Infeliz! Que fazes aqui?
SATANÁS – Sou Satanás, rei dos infernos, encarregado pelos demônios para destruirmos
os maus!
BRÁS – Oh! Daí-me um abraço! Sois meu Irmão, meu amigo e companheiro! Estais
armado?
SATANÁS – Sim. Trago as armas – do poder e da vingança
BRÁS – Pois sabei que eu empunho a espada da justiça; o revólver do direito e o punhal da
razão! Combina-se bem com as tuas. Triunfaremos!
SATANÁS – Sem dúvida. Com tais armas, jamais haverá poder que nos possa vencer!
BRÁS – Muito bem! Muito bem! Venha de lá outro abraço! (Torna a abraçá-lo.)
MICAELA (entrando muito apressadamente) - Oh! Vivam! Os Srs. Juntos! Que bela liga
há de fazer Satanás com o velho Brás! Não esperava ver o grande prazer de os
encontrar tão amigos; e até abraçados! Que lindos! Modificarão suas idéias!? Sem
dúvida grandes negócios políticos os hão juntado... Deus os conserve para felicidade
púbrica e individual. (apontando para o próprio peito.)
BRÁS – Sejam bem-vinda, Sra. D. Micaela! Não sabe quanto aprecio a sua presença (Á
parte: ) e ainda mais a sua ausência – cá para nós, a quem nenhum malévolo ouve.
Que notícias nos traz e o que há de novo pelo seu bairro? O que nos conta
finalmente?
MICAELA - Estou muito escandalizada! Sendo eu a mulher menos faladora que há,
houve quem atrevesse-se à audácia de apelidar-me Tagarela: e nesta mesma casa
meus ouvidos ouviram suas tão duras palavras!
BRÁS – Sinto profundamente que tão grande infortúnio pesasse tanto sobre a cabeça e o
coração de minha muito prezada... Sra. D. Micaela Tagarela!
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MICAELA – E o Sr. tãobém me insulta!? Com efeito, não o esperava!
SATANÁS - Oh! Eu não sabia de tal. Prometo que há de ser vingada, que... a Sra. Bem
sabe! Eu não sou peco; e tenho à minha disposição a força e poder necessário para
punir todos aqueles que ofendem a quem ninguém ofendeu. Tenho na minha carteira
as sentenças para todas espécies de crimes, e fique certa que ao abri-la, hei de puni-
la! Isto é, hei de vingá-la!
MICAELA – Muito agradecida, Sr. Satanás! Muito obrigada; eu sou a sua menor, porém
mais afetuosa criada! Quer saber a única cousa que me pesa? É que quando o Sr.
defende ou castiga sempre lesa! Entretanto sou de algum modo forçada a aceitar o seu tão importante
oferecimento!
BRÁS (chegando-se e apalpando os peitos de Tagarela)- Que pomos deliciosos!
MICAELA – Oh! Sr. Brás! Queira retira-se da minha presença! O Sr. bem sabe que eu não
sou dessas mulheres mundanas, para com as quais se procede de tal modo!
BRÁS – Desculpe-me, Sra. Tagarela! Pareceu-me – duas lindas laranjas; é por isso que
quis tocá-los.
MICAELA – Pois não continue a Ter desses enganos, porque podem Ter más
conseqüências!
SATANÁS – Sim! Sim! (À parte: )Penso que são conhecidos há muito! É talvez minha
presença que os está incomodando! Retiro-me portanto. ( Vai saindo; Brás o
agarra.)
BRÁS – Onde vai? Aonde vai? Somos companheiros; e se não chega para dois ao mesmo
tempo, há de chegar passada uma hora!
SATANÁS – Não! Não! Sempre tive, tenho e terei medo de mulheres. É para mim o objeto
de mais perigo que o ... Ah! não digo! Mas fique certo que...sim!
MICAELA – Passem bem! Passem bem, meus Srs.! (Retirando-se com a frente para
ambos, e entrando em um dos quartos.)
BRÁS (fazendo um cumprimento, e seguindo-a)- Então já vai? Não acha cedo? Eu... sim;
mas... Vamos juntos! (Enfia-se pela porta, atrás de Micaela.)
SATANÁS (pondo as mãos) – Céus! Meu Deus! Que imoralidade! Deixar a minha
presença, e a minha visita, e meterem-se em quarto... em um quarto em presença... É
audácia! É atrevimento! Mas eu os hei de compor! (Puxa a porta e fecha por fora.)
Agora hão de sair, quando eu estiver cansado – de comer, de dormir, e de viver! Já
se vê pois que aí têm de morrer, se algém os não acudir, e secos como uma varinha
de...como um palito! Porque já se sabe: eu cá hei de durar pelo menos cem anos! Ou
o que é mais certo- não morro mais! (Metendo a chave na algibeira.) Cá vai! Vou
dar meu passeio, e não sei se cá voltarei mais! (Chegando-se para perto da porta do
quarto: ) Adeus, minhas encomendas! Adeus, minhas venturas! Adeus! Adeus!
(Sai.)
ATO SEGUNDO
BRÁS (batendo na porta; fazendo esforço para abrir; gritando)- Satanás! Satanás! Ó
Diabo! trancaste-me a porta!? Judeus! Que é isto, ó Diabo! Abre-me a porta, senão
te engulo! Não falas!? Querem ver que este demônio trancou-me a porta e foi-se
embora!? Tirano! Deixa estar que tu me pagas. Hei de perseguir-te até os infernos!
MICAELA – Sr. Brás. Não se aflija! Não se incomode! Deixa estar que tudo se há de
arranjar! Olhe! Veja! Pense! Medite, e não fale!
BRÁS (gritando) – Como diabo não hei de falar e me incomodar, se o Satanás trancou-me
a porta? (Para Micaela: ) Mulher, puxa daí, que eu puxo daqui! Anda, mulher dos
diabos! Faz força, cutia velha! Parece-me que já não vales mais nada! Olha, e faz
como eu!
MICAELA – Estou ajudando-o a bem morrer! Que mais quer!?
BRÁS (tanto puxa, que cai no cenário com Micaela e a porta. Levantando-se, para
Micaela) – Quase quebrei a cuia! Mas ao menos não fiquei enterrado! Que Dizes?
Levanta-te, não tenhas preguiça!
MICAELA – Não posso! Estou... ai! Penso que... (esfregando uma perna) eta perna se não
está quebrada, está esfolada!
BRÁS – Pois quem te mandou cair junto comigo!? Eu não te disse que segurasse a porta!?
Agora leventa-te; quer possas, quer não! (Pegando-lhe em uma mão.) Vá! Arriba!
Arriba!
MICAELA – Ai! ai! Não posso mais!
BRÁS (atirando-a) – Pois vai-te com a porta, e com todos os diabos que saírem hoje dos
infernos! Micaela (levantando-se com muito custo) – Ai! Além de ajudá-lo a abrir a
porta, e de cair com ele, mas esta crueldade! Atira comigo... esmaga-me...
(Endireita a cabeleira na cabeça.) Rasgou-me o vestido de que eu mais gostava,
com modos brutais! Quase pôs-me nua. Que crueldade! (levantando-se, compõe o
xale.) Muito sofre quem ama!
FERRABRÁS (entrando a manejar com uma bengala, vestido muito à pelintra) – Oh!
Hoje, sim! O dia foi grande! Grande! Muito grande para mim ! Vi a minha namorada da Rua dos
Andradas! A minha amiguinha do Beco do Botabica! A minha queridinha da Travessa da
Candelária! Vi, vi, vi, que mais? Ah! a minha tia avó (dando uma grande gargalhada), e em visitas
aos velhos tortos, aleijados! Etc. etc.
BRÁS – Oh! Rapaz! Quando tomarás tu juízo!? Cada vez ficas pior! Anda para ali; anda!
Toma a bênção à tua mãe.
FERRABRÁS – Ora, meu pai, sempre o Sr. me está dando mães! Há três dias era uma
velha de que todos têm nojo, porque lhe sai tabaco pelas fossas, mormente pelos ouvidos, pela boca,
e até pelos olhos! Ontem era uma torta deste olho; aleijada desta perna (batendo com a bengala na
perna direita do pai.)
BRÁS – Mais devagar com os teus exemplos, que estas pernas já são – o Sr. sabe- algum
tanto velhas e cansadas!
FERRABRÁS – Senhor! Dizia eu que ontem era uma velha nestas agradabilíssimas
condições, e hoje quer que eu tome a benção desta tagarela (puxa-lhe pelo xale e quase o tira do
pescoço.)
MICAELA – Mais prudência, Sr. Dr.! Olhe que não estou acostumada a estes insultos!
Pilha-me abatida, senão o Sr. não ousaria insultar-me, porque eu ainda teria mãos!
FERRABRÁS – Olhem; olhem que jóia!
BRÁS (muito zangado)- Este rapaz não toma mais caminho! Cada vez fica mais tolo, mais
estonteado, e mais surdo! Vai, vai! (empurrando-o) Vai procurar outro pai! Eu não te quero mais por
filho!
FERRABRÁS – Pois meu pai, o Sr. é que tem a culpa. Apresenta-me (tira-lhe a cabeleira
e atira-a no chão) com esta cabeça rapada para minha mãe, como se eu fora alguma criança! Que
quer que eu lhe faça!?
MICAELA (atirando-lhe com a cabeleira à cara) – Eu não o posso mais aturar,Sr..
atrevido!
FERRABRÁS – Olhe que lhe dou com a bengala!
BRÁS – Acomodem-se! Senão eu lhe dou um cachação!
(Micaela avança à bengala, toma-a de Ferrabrás e dá-lhe uma bengalada; trava-se uma peleja entre
ambos; dando-lhe este com a cabeleira pelo rosto. Brás mete-se entre ambos para apartar a briga,
apanha e dá pancadas, e nesta luta termina a comédia.)
Porto Alegre, junho 10 de 1866.
(Escusado é dizer que nada devem poupar os cômicos para tornar mais interessante e
agradável o gracejo.)
Note-se – podem começar a cena os três últimos, dando alguns saltos, proferindo palavras
sem nexo ao discurso, mostrando a respeito de Brás algum desatinamento, e retirarem-se ao
aparecer ou sentirem o rumor da vinda daquele.
FIM
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