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ATO SEGUNDO
Brás (batendo na porta; fazendo esforço para abrir; gritando) — Satanás! Satanás!
Ó Diabo! trancaste-me a porta!? Judeus! Que é isto, ó Diabo! Abre-me a porta,
senão te engulo! Não falas!? Querem ver que este demônio trancou-me a porta e foi-
se embora!? Tirano! Deixa estar que tu me pagas. Hei de perseguir-te até os
infernos!
Micaela — Sr. Brás. Não se aflija! Não se incomode! Deixa estar que tudo se há de
arranjar! Olhe! Veja! Pense! Medite, e não fale!
Brás (gritando) — Como diabo não hei de falar e me incomodar, se o Satanás
trancou-me a porta? (Para Micaela: ) Mulher, puxa daí, que eu puxo daqui! Anda,
mulher dos diabos! Faz força, cutia velha! Parece-me que já não vales mais nada!
Olha, e faz como eu!
Micaela — Estou ajudando-o a bem morrer! Que mais quer!?
Brás (tanto puxa, que cai no cenário com Micaela e a porta. Levantando-se, para
Micaela) — Quase quebrei a cuia! Mas ao menos não fiquei enterrado! Que Dizes?
Levanta-te, não tenhas preguiça!
Micaela — Não posso! Estou... ai! Penso que... (esfregando uma perna) esta perna
se não está quebrada, está esfolada!
Brás — Pois quem te mandou cair junto comigo!? Eu não te disse que segurasse a
porta!? Agora levanta-te; quer possas, quer não! (Pegando-lhe em uma mão.) Vá!
Arriba! Arriba!
Micaela — Ai! ai! Não posso mais!
Brás (atirando-a) — Pois vai-te com a porta, e com todos os diabos que saírem hoje
dos infernos! Micaela (levantando-se com muito custo) — Ai! Além de ajudá-lo a
abrir a porta, e de cair com ele, mas esta crueldade! Atira comigo... esmaga-me...
(Endireita a cabeleira na cabeça.) Rasgou-me o vestido de que eu mais gostava,
com modos brutais! Quase pôs-me nua. Que crueldade! (levantando-se, compõe o
xale.) Muito sofre quem ama!
Ferrabrás (entrando a manejar com uma bengala, vestido muito à pelintra) — Oh!
Hoje, sim! O dia foi grande! Grande! Muito grande para mim ! Vi a minha namorada
da Rua dos Andradas! A minha amiguinha do Beco do Botabica! A minha queridinha
da Travessa da Candelária! Vi, vi, vi, que mais? Ah! a minha tia avó (dando uma
grande gargalhada), e em visitas aos velhos tortos, aleijados! Etc. etc.
Brás — Oh! Rapaz! Quando tomarás tu juízo!? Cada vez ficas pior! Anda para ali;
anda! Toma a bênção à tua mãe.
Ferrabrás — Ora, meu pai, sempre o Sr. me está dando mães! Há três dias era uma
velha de que todos têm nojo, porque lhe sai tabaco pelas fossas, mormente pelos
ouvidos, pela boca, e até pelos olhos! Ontem era uma torta deste olho; aleijada
desta perna (batendo com a bengala na perna direita do pai.)
Brás — Mais devagar com os teus exemplos, que estas pernas já são — o Sr. sabe-
algum tanto velhas e cansadas!
Ferrabrás — Senhor! Dizia eu que ontem era uma velha nestas agradabilíssimas
condições, e hoje quer que eu tome a benção desta tagarela (puxa-lhe pelo xale e
quase o tira do pescoço.)
Micaela — Mais prudência, Sr. Dr.! Olhe que não estou acostumada a estes
insultos! Pilha-me abatida, senão o Sr. não ousaria insultar-me, porque eu ainda
teria mãos!
Ferrabrás — Olhem; olhem que jóia!
Brás (muito zangado) — Este rapaz não toma mais caminho! Cada vez fica mais