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Universidade Federal do Rio de Janeiro
Da Violência Pulsional Ao Ato de Criação
Artística
Pedro Cattapan
2004
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ii
A criatividade e a arte da psicanálise no
mundo contemporâneo
Pedro Cattapan
Dissertação de mestrado apresentada
ao Programa de s-graduação em
Teoria Psicanalítica, Instituto de
Psicologia, da Universidade Federal
do Rio de Janeiro como parte dos
requisitos necessários à obtenção do
título de Mestre em Teoria
Psicanalítica.
Orientadora: Marta Rezende Cardoso
Rio de Janeiro
Janeiro/2009
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iii
Da Violência Pulsional Ao Ato de Criação Artística
Pedro Cattapan
Orientadora: Marta Rezende Cardoso
Dissertação de Mestrado submetida ao
Programa de Pós-Graduão em Teoria
Psicanalítica, Instituto de Psicologia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro
UFRJ, como parte dos requisitos à
obtenção do tulo de Mestre em Teoria
Psicanalítica.
Aprovado por:
__________________________________________________
Presidente, Profa. Dra. Marta Rezende Cardoso
Prof. Dr. Joel Birman
Dra. Ivanise Fontes
Rio de Janeiro
Janeiro/2009
iv
Cattapan, Pedro.
Da violência pulsional ao ato de criação artística/ Pedro
Cattapan. Rio de Janeiro: UFRJ/IP, 2004.
x, 111 f.; 29,7 cm
Orientadora: Marta Rezende Cardoso
Dissertação (Mestrado) – UFRJ/IP/Programa de Pós-
graduação em Teoria Psicanalítica, 2004.
Referências Bibliográficas: f. 111-116.
1. Criação arstica 2. Violência 3. Alteridade. I. Cardoso,
Marta Rezende. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro/
Instituto de Psicologia/ Programa de Pós-graduação em Teoria
Psicanalítica. III. Título
v
Ao meu irmão Felipe
vi
AGRADECIMENTOS
Ao CNPQ, pela bolsa de estudos a mim concedida.
À minha orientadora Profa. Dra. Marta Rezende Cardoso,
pela atenção e dedicação.
Aos meus pais e meu irmão Bernardo, pela força e pelo
apoio.
À minha namorada Tatiana, pelo carinho e pelo incentivo.
Ao meu amigo Pedro e a outros inspiradores artistas amigos.
Aos professores doutores Joel Birman e Teresa Pinheiro,
pelas esclarecedoras aulas.
A Pedro Henrique Rondon, pela cuidadosa revisão.
E aos professores do Departamento de s-Graduação em
Teoria Psicanalítica.
vii
RESUMO
Da Violência Pulsional Ao Ato De Criação Artística
Pedro Cattapan
Orientadora: Marta Rezende Cardoso
Resumo da Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-Graduação
em Teoria Psicanalítica, Instituto de Psicologia, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do tulo de Mestre
em Teoria Psicanalítica.
Essa dissertão é dedicada ao estudo do processo de criação artística, tendo em
vista a sua articulação com a questão da violência pulsional. Esta está referida à ação da
pulsão de morte e seus efeitos de desestruturação da instância egóica. O ego pode fazer
uso de certos mecanismos visando dar conta daquilo que lhe é radicalmente estrangeiro,
marcas” que tendem a resistir de forma particularmente intensa à ação das pulsões de
vida. Buscou-se diferenciar o processo de criação artística da sublimão que visa,
prioritariamente, a restauração da unidade, a serviço do ego e de Eros. No ato de criação
artística opera-se a assimilação de uma alteridade interna, sem que se obture, no entanto,
a abertura a essa estraneidade, via singular de integração do material intraduzível” na
unidade egóica. Contemplamos nesta pesquisa a dimensão criadora da subjetividade
humana, própria à tensão entre pulsão de morte e as pulsões de vida, já que nessa
abertura ao traumático que o ato de crião artística promove, processa-se, ao mesmo
tempo, uma elaboração psíquica e a atualização do encontro com a alteridade.
Palavras-chave: Criação Artística, Violência, Alteridade, Dissertação (Mestrado),
Psicanálise.
Rio de Janeiro
Janeiro/2004
viii
ABSTRACT
From Drive Violence To The Act Of Artistic Ability
Pedro Cattapan
Tutor: Marta Rezende Cardoso
Abstract of the Dissertation presented to the Post-graduation Programme of
Psychoanalytic Theory, Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de
Janeiro UFRJ, as a part of the requisites for obtaining the Master’s Degree in
Psychoanalytic Theory.
This dissertation is intended to studying the process of artistic creation, from the
perspective of its articulation to the issue of drive violence. This violence is referred to
the action of the death drive and its effects that shatter the ego’s structure. The ego can
utilize certain mechanisms aiming at dealing with what is radically stranger to itself -
thetraces” that tend to resist in a specially intense way to the action of the life drives.
We tried to distinguish the process of artistic creation from sublimation, which aims as a
priority at the restoration of the unity, at the service of the ego and of Eros. In the act of
artistic creation the assimilation of the inner otherness is effected, without closing,
however, the path to this strangeness, unique way to the integration of the
untranslatable” material into the ego unit. In this research we regard the creative
dimension of human subjectiveness, characteristic to the tension between death drive
and life drives. In this staying open to what is traumatic – promoted by the act of artistic
creation a psychic working through and the updating of the encounter with otherness
are processed simultaneously.
Key-words: Artistic creation, Violence, Otherness, Dissertation (Master’s Grade),
Psychoanalysis.
Rio de Janeiro
Janeiro/2004
ix
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO…………………………………………………...…....página 1
I SOBRE A SUBLIMAÇÃO......................................................................página 7
I.1 Primeiras teorizações sobre a sublimação..................................................página 9
I.1.1 Sublimação e arte......................................................................................página 11
I.2 Duas sublimações.....................................................................................página 13
I.2.I O artista Leonardo da Vinci.....................................................................página 13
I.2.2 Artista versus cientista.............................................................................página 15
I.3 O ego e a sublimação...............................................................................página 20
I.3.1 O ego, a ciência e a arte...........................................................................página 23
I.4 A sublimação na origem..........................................................................página 27
II O ATO ARTÍSTICO..............................................................................página 30
II.1 As relações entre o pulsionaldisruptivo” e o ego.................................página 31
II.1.1 O trauma..................................................................................................página 32
II.1.2 A teoria da sedução generalizada............................................................página 35
II.1.3 As marcas do trauma...............................................................................página 37
II.1.4 As marcas e a atividade artística.............................................................página 41
II.2 Freud e o ato............................................................................................página 44
II.2.1 O ato e a ligão......................................................................................página 45
II.2.2 O ato fora do eixo da representação ....................................................página 49
II.3 O ato artístico em sua especificidade......................................................página 50
II.3.1 O ato artístico como resposta à violência pulsional............................... página 52
II.3.2 O “tratamento” da violência psíquica......................................................página 57
II.3.3 O endereçamento.....................................................................................página 63
III SOBRE A INSPIRAÇÃO ARTÍSTICA...............................................página 68
III.1 A inspiração.............................................................................................página 69
III.1.1 Da sublimação à inspiração....................................................................página 73
III.1.2 A inspiração e a experiência-limite.........................................................página 77
III.2 A criatividade..........................................................................................página 82
III.2.1 Impasses e aproximações entre a criatividade e a inspiração.................página 82
III.2.2 Os elementos feminino e masculino.......................................................página 86
x
III.2.3 O olhar do outro e a criatividade.............................................................página 89
III.3 O fascínio................................................................................................página 91
III.3.1 A gênese de uma postura estética...........................................................página 93
III.3.2 A postura estética do artista....................................................................página 97
CONCLUSÃO....................................................................................página 104
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.............................................página 111
INTRODUÇÃO
A crião artística apresenta-se como um fenômeno misterioso, instigante, para
o público em geral, de modo que os artistas, desde muito tempo, têm ocupado lugar de
destaque em nossa civilização. Parece-nos que a arte e os artistas trazem esta “aura de
mistério” em parte por conta da afetação que as obras de arte provocam no público, em
parte por conta do fascínio que desenvolvemos pelas personalidades criadoras que
pagam alto preço para realizar seus trabalhos. É freqüente encontrarmos na história e
nos depoimentos de vários grandes artistas uma descrição de seus trabalhos artísticos
como algo que se impõe a eles, que os domina e a que sentem-se submetidos. Através
desses depoimentos podemos reconhecer que a mente criadora destes sujeitos apresenta-
se como enigmática não só para o público em geral, mas também para eles mesmos.
Freud, tamm fascinado pelas artes e pelos artistas, interessou-se por estudá-los
de fato, a criação artística diz respeito a um modo de funcionamento psíquico
particular, a uma singular forma de expressão do sujeito e isso o poderia deixar de
interessar a Freud, ou a nós mesmos, como pesquisadores que se orientam pela
investigação psicanalítica. Freud, de fato, voltou-se inúmeras vezes para uma
investigação da mente e da obra dos grandes artistas, como podemos perceber em
trabalhos como Escritores criativos e devaneio” (1908e), Leonardo da Vinci e uma
lembrança de sua infância” (1910c), O Moisés de Michelangelo” (1914b), O
estranho” (1919h), Dostoievski e o parricídio” (1928b) entre outros. Entretanto,
sempre reconheceu o conhecimento psicanalítico que pôde adquirir do processo criativo
2
presente nos artistas como insuficiente, e assim mais freqüentemente tratou de analisar
as obras e os artistas do que o processo criativo propriamente dito.
Pois é justamente sobre o processo criativo que recai nosso interesse porque
parece-nos que o mistério” da arte diz respeito à própria criação – é como se emergisse
a pergunta: Como é possível realizar a crião artística? O que permite ao artista criar?
Deste modo, perguntamo-nos sobre a natureza da crião artística.
É, em parte, por conta de tamm nos fascinarmos pela criação artística que
desejamos investigá-la no intuito de compreender melhor o que é necessário para sua
realizão. Mas também outro motivo para nossa investigação, motivo de grande
importância porque resulta da observação e da oportunidade de ter experimentado na
clínica psicanalítica o atendimento de alguns pacientes que eram artistas. Vale ressaltar
aqui a importância da clínica analítica na construção de questões tanto práticas quanto
teóricas. No atendimento clínico destes artistas o que se destacou como uma
problemática particularmente pregnante a estes sujeitos foi a intensidade dos efeitos
destrutivos da pulsão de morte, e a possibilidade elaborativa através da criação artística.
Conseqüentemente, reconhecer uma resposta à pulsão de morte no cerne da criação
artística parece-nos tarefa fundamental para realizar uma investigação mais aprofundada
deste processo.
De acordo com nossa observação, acreditamos que a psicanálise pode e deve
voltar-se ao estudo dos processos psíquicos que proporcionam a criação da obra de arte
porque este trabalho psíquico apresenta-se e Freud sempre manteve esta posição
como uma resposta privilegiada à demanda pulsional, sendo capaz de direcionar a
violência inerente à pulsão para uma elaboração psíquica. De fato, desejamos enfatizar
uma estreita articulação entre a criação artística e a violência psíquica. Portanto, tornar-
3
se-á de grande importância para nossa dissertão que assinalemos a presença do
disruptivo pulsional na atividade artística.
Este posicionamento implica um estudo mais aprofundado da violência psíquica,
o que nos remete a um exame do trauma psíquico. A questão da violência a que nos
referimos compreende a ação da pulsão de morte, com seus possíveis efeitos
desestruturadores da insncia egóica. Esta instância pode fazer uso de vários
mecanismos de defesa como forma de sobreviver” ao que de estranho a ela, ao que
resiste à ão das pulsões de vida. A atividade artística, como tentativa de defesa,
visaria dominar a invasão pulsional do id no ego. Estas relações de domínio merecem
ser estudadas mais aprofundadamente pois remetem-nos a uma organização preria de
um aparelho psíquico que tem de se haver com o encontro com o disruptivo pulsional, o
que, em outros termos, nos reporta a uma invasão do outro radical interno no ego a
uma prevalência da pulsão de morte no jogo de forças pulsionais.
Os violentos efeitos da pulsão de morte no psiquismo, e as tentativas deste para
lidar com aquela, estão à espera de investigação, especialmente por conta da relevância
que o tema ganha na contemporaneidade.
Tanto na clínica psicanalítica contemporânea quanto nas abordagens
psicanalíticas sobre a “cultura atual”, a violência psíquica aparece como problemática
emergente que põe em questão tanto as suas causas quanto as possibilidades de tratar”
essa violência. É a segunda questão que encontra em nossa pesquisa uma possibilidade
de ser mais bem elaborada.
Um estudo aprofundado do processo de criação artística apresenta-se como
importante via para conhecermos melhor alguns possíveis meios que o psiquismo
humano pode desenvolver para lidar com as violentas forças pulsionais: os artistas,
4
sujeitos dominados pela violência pulsional diferentemente dos sujeitos em situações
patológicas graves, os quais são afetados pela violência interna de forma estagnante e
destrutiva – conseguem, através da criação artística, tanto elaborar quanto conferir
destinos menos destrutivos à pulsão avassaladora. Delineia-se deste modo um
questionamento principal, ou seja, a situação-problema de nossa dissertação: qual a
natureza das relações entre a violência psíquica e a criação artística? Esta questão leva-
nos a também investigar através de quais mecanismos o artista consegue dar conta dos
efeitos violentos da pulsão que se expressam em sua arte.
Acreditamos que nossa tentativa de responder a estas questões poderá trazer luz
sobre o tratamento da violência psíquica e deste modo, contribuir para a construção de
um conhecimento psicanalítico acerca de um dos problemas cruciais do mundo
contemporâneo a violência avassaladora que verificamos como presente tanto em
quadros psicopatológicos graves quanto em fenômenos sociais não menos graves.
O processo de crião artística possibilitaria, simultaneamente, a assimilação de
uma alteridade interna radical e a abertura a essa estraneidade, constituindo-se, assim,
como via possível de expressão desse material intraduzível na unidade egóica.
Pretendemos, assim, contemplar o aspecto criador próprio à tensão entre a pulsão de
morte e as pulsões de vida pois nesta abertura ao traumático promovida pela criação
artística efetua-se um processo de elaboração psíquica, de representação, cuja
particularidade é a da manutenção desse encontro com a alteridade.
Ao nosso ver, a noção de sublimação que costumeiramente é empregada em
psicanálise como referência nos estudos sobre a criação artística mostrou-se obscura
no plano teórico e também insatisfatória por não remeter-se a este violento embate
pulsional que parece fazer-se presente no processo criativo dos artistas. Deste modo,
5
nosso percurso, no que se refere a esta pesquisa, iniciou-se ao buscarmos investigar
criticamente as relões entre sublimação e criação artística. Nossa tentativa de
aproximar a criação artística dos efeitos violentos da pulsão de morte busca diferenciar,
deste modo, o processo de criação artística do processo de sublimação, pois o segundo
visa prioritariamente a restauração da unidade a serviço do ego e de Eros, bloqueando a
expressão da violência pulsional.
Para que alcancemos nosso objetivo, pretendemos, portanto, iniciar nossa
abordagem do tema da criação artística pela trilha que Freud construiu: a noção de
sublimação. No entanto, a sublimação apresenta-se como apenas o início de uma
abordagem do tema da criação artística. Após uma apreciação do tema da sublimação
através de autores que se dedicaram ao estudo desta como processo de inserção na
cultura, será preciso que a comparemos à criação artística com a intenção de especificar
o que é próprio desta e, portanto, o que exige aprofundamento maior, pois escapa a um
estudo geral das realizações culturais.
Apenas tendo terminado esta primeira etapa de nosso trabalho, sempre a partir
de Freud, é que poderemos voltar-nos para um estudo mais detido do próprio ato de
criação artística. Será também ao estudar o ato artístico que deveremos ater-nos a um
aprofundamento tanto dos efeitos disruptivos da pulsão e portanto num estudo do
traumático – quanto da resposta criativa a esses efeitos.
Porém, este estudo escapa de seu objetivo se, após uma apreciação do ato
artístico e de suas particularidades, numa terceira etapa o investigarmos que situação
psíquica permitiria que este ato de criação artística se realize afinal, nem todo sujeito
consegue realizar este trabalho bem como o próprio artista não parece criar quando
quer, e sim quando pode. Deste modo, as condições da criação artística ou se
6
quisermos, a inspiração (Laplanche, 1999) serão um ponto de grande importância
para compreendermos o que viabiliza o tratamentodado à violência psíquica que se
observa na atividade artística.
O método de nossa investigação se baliza no estudo, aprofundamento e
articulão de textos caros aos assuntos em questão. Empreenderemos uma pesquisa em
psicanálise; deste modo, articularemos conceitos, termos, teorizões de Freud e de
outros autores tanto em psicanálise quanto em outros saberes afins, que nos permitam
elaborar uma linha de raciocínio que venha trazer luz sobre as questões que aqui
levantamos.
Nossa dissertação sobre a criação artística e sua relação com a violência psíquica
se enriquecerá, portanto, se, além do olhar psicanalítico sobre a atividade artística,
voltarmo-nos para outros pontos de vista sobre o assunto. Desse modo, o olhar dos
próprios artistas sobre seu trabalho de criação será valorizado nesta dissertação, sendo
que um enfoque especial será dado ao que Vincent Van Gogh escreveu a respeito do
assunto afinal, a vida e a obra deste pintor foram marcadas por uma tensão constante
entre a violência psíquica e a arte. O ponto de vista dos pensadores da arte tamm será
vislumbrado à medida que nos oferecem instrumentos outros para o estudo do processo
de criação artística pois nos auxiliarão na compreensão do que caracteriza a estética e a
obra de arte pontos importantes para uma compreensão do que é particular ao
processo de criação artística e que tamm trarão luz sobre o aspecto violento desta.
Acreditamos que, após a passagem pelas três etapas acima anunciadas, nossas
questões poderão ser clarificadas e, conseqüentemente, poderemos ter um maior
conhecimento sobre quais mecanismos estão em jogo na criação artística, que permitem
que a violência que afeta o artista seja dominada.
7
I
SOBRE A SUBLIMAÇÃO
Desde o início de sua história a psicanálise contém múltiplas referências ao
nosso objeto de estudo a criação artística. Freud interessou-se intensamente pelo
assunto, abordando-o inúmeras vezes em seus textos, e para realizarmos um estudo
devidamente rigoroso, é necessário que nos balizemos inicialmente naquilo que ele
produziu sobre o tema. Afinal, as trilhas que daí se seguiram a amplião da teoria e
os problemas que se levantaram acerca da criação artística – dizem respeito às primeiras
abordagens dessa questão, ou seja, ao que Freud trabalhou e ao que deixou de trabalhar
sobre a arte e suas particularidades.
Como mencionamos acima, o interesse de Freud pelos artistas e pelo trabalho de
criação foi objeto de alguns de seus textos, como "Escritores criativos e devaneio"
(1908e [1907]), "Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância" (1910c), "O
Moisés de Michelangelo" (1914b) e "Dostoievski e o parricídio" (1928b). Revela-se aí o
grande fascínio de Freud pelas artes e fica patente o esforço que faz para contemplar em
sua obra esta realizão cultural.
Um ponto que nos chama a atenção é a constante associação que Freud
estabelece entre o trabalho do artista e a sublimação. É comum encontrarmos nos textos
que ele dedica à sublimação uma ilustração do papel que esta teria no processo de
produção artística, por isso pensamos que é necessário aprofundarmos o estudo sobre a
sublimação. Vale ressaltar, porém, que nossa intenção não é esgotar as leituras possíveis
9
que o texto freudiano abre acerca desse tema que constitui um ponto-chave na teoria
psicanalítica.
Na obra de Freud a sublimação seria uma das quatro vicissitudes da pulsão
(Freud, 1915c), e para exemplifi-la ele sempre apelou ao trabalho da produção
artística. Em toda sua obra ele faz menção ao termo sublimação, apesar de nunca ter
apresentado de fato uma elaboração mais sistemática dessa noção, assim como fez, por
exemplo, com os conceitos de pulsão e de recalque. Nesse quarto destino da pulsão,
... tanto o objeto quanto o objetivo o modificados. Assim, o que
originariamente era um instinto [pulsão] sexual encontra satisfação em alguma
realizão que não é mais sexual, mas de uma valorão social ou ética superior
(Freud, 1923a [1922], p. 272).
Esta passagem, retirada do breve texto "Dois verbetes de enciclopédia",
publicado em 1923, tem, como qualquer verbete de enciclopédia, apenas o objetivo de
definir os conceitos apresentados. Apesar de aparentemente clara, essa explicação o
nos parece, porém, plenamente satisfatória, pois não é capaz de dar conta das exigências
metapsicológicas (análise dos pontos de vista econômico, tópico e dinâmico) aí
envolvidas; ela é apenas descritiva.
Outros autores igualmente constatam a insuficiência da abordagem da
sublimação por Freud. No Vocabulário de psicanálise, Laplanche e Pontalis reafirmam
a importância de buscar-se uma conceituação da sublimação na teoria freudiana, mas
tamm sinalizam a fragilidade de sua teorizão:
Na literatura psicanalítica recorre-se freqüentemente ao conceito de
sublimão; é efetivamente o índice de uma exigência da doutrina, e é difícil
imaginar como poderia ser dispensado. A ausência de uma teoria coerente da
sublimão permanece sendo uma das lacunas do pensamento psicanalítico
(Laplanche & Pontalis, 1982, p. 497).
10
É nos escritos dos comentadores da obra freudiana que poderemos encontrar a
busca pelo rigor que procuramos, embora, cabe dizer, estes ainda permaneçam, de certa
forma, limitados às idéias avançadas por Freud. Setambém a obra freudiana o ponto
de partida de nossa investigação. Seguiremos, portanto, um percurso histórico-crítico do
desenvolvimento da noção de sublimação em Freud, visando enfatizar as mudanças e
incrementos promovidos na construção teórica dessa noção.
I.1 Primeiras teorizações sobre a sublimação
A primeira vez que o termo "sublimão" surge na obra freudiana é numa carta
enviada a Fliess, datada de 2 de maio de 1897 (Carta 61”). Nesta, Freud se refere à
sublimação como um aprimoramento de lembranças através da fantasia (Freud, 1950a
[1887-1902]). As fantasias teriam um caráter de sublimação, à medida que constituiriam
uma forma de depurar o que foi ouvido pelo sujeito. Freud afirma que a sublimação
diria respeito ao próprio trabalho de organizão da fantasia a partir do que foi
ouvido”. Assim, da matéria bruta, sólida o que ainda o foi capaz de produzir
sentido produz-se o gasoso; ou seja acrescentaamos nós a fantasia, a
organização do psíquico e a construção de sentido.
No famoso caso Dora”, Freud vai continuar explorando a articulação entre
sublimação e trabalho clínico, pontuando que ela ocorre na relação transferencial não
como "reimpressão" de alguma "experiência psíquica prévia", mas como edição
revista” destas experiências (Freud, 1905e [1901], p. 111). Reconhecemos nestas
primeiras abordagens da sublimação a elaboração de uma concepção segundo a qual ela
envolveria um trabalho psíquico de natureza distinta daquele operado na produção do
sintoma. O que parece estar em jogo aí é algo da ordem de uma elaborão, no sentido
11
que este termo ganhará posteriormente em "Recordar, repetir e elaborar" (Freud,
1914g). Não se trata apenas de uma rememoração do material inconsciente, mas de um
trabalho de apropriação desse material, e que resulta de uma modificão do
funcionamento psíquico. Dessa forma, a linha de raciocínio iniciada na Carta 61
encontra continuidade nesse olhar mais cnico sobre o papel da sublimação.
Porém, já no caso Dora”, Freud também se referira à sublimação partindo de
um outro ponto de vista, apontando-a como um "redirecionamento" da "... disposição
sexual indiferenciada da criança ..." (Freud, 1905a [1901], Op. cit., p. 56) para
"objetivos assexuais mais elevados". Esta nova visão sobre a sublimação foi
desenvolvida num outro estudo publicado tamm em 1905 e dedicado mais
diretamente a essa noção: os "Ts ensaios sobre a teoria da sexualidade", conforme
podemos observar na seguinte passagem:
Os historiadores da cultura parecem unânimes em supor que, mediante esse
desvio das forças pulsionais sexuais das metas sexuais e por sua orientação para
novas metas, num processo que merece o nome de sublimação, adquirem-se
poderosos componentes para todas as realizações culturais (Freud, 1905d, p.
167).
A sublimão aparece, assim, como a condição psíquica que permite as
realizações culturais. A sublimação também é vista, , como desvio do que é sexual
para o não-sexual. A respeito deste ponto, cabe assinalar o que Freud acrescenta na
seqüência do trecho acima citado: as pulsões sexuais remetem-nos à natureza perversa
da pulsão. Nos "Ts ensaios", as pulsões perversas serão consideradas como sendo
aquelas que não estariam integradas à função genital.
Partindo das contribuições de Freud, Jean Laplanche vem enfatizar que o
trabalho da sublimão implica um esforço para dar conta das pulsões perversas,
lembrando-nos que Freud constantemente afirma que o destino sublimatório é, em
12
primeiro lugar, aquele dos restos não-integrados das pulsões pré-genitais (Laplanche,
1999, p. 313). Deste modo, podemos associar as pulsões perversas ao que este autor
denomina "restos o-integrados das pulsões pré-genitais". A sublimação visaria incluir
estes restos na organização genital. Compreende-se, então, que a sublimação retiraria
sua energia das pulsões perverso-polimorfas, ou seja, daquelas pulsões que "ficaram de
fora" da égide da genitalidade. Queremos com isso sublinhar que estas podem ser
tamm reconhecidas como pulsões parciais, em oposição à iia de uma unificação das
pulsões em torno de um propósito a função genital. Laplanche também propõe que
compreendamos a dessexualização como a passagem da pulsão do plano do sexual para
aquele da autoconservação (Id., 1989).
Até o momento da escritura do caso Dorao estudo da noção de sublimação
não continha nenhuma referência a uma possível relação entre esta e a criação artística.
Se justamente nos "Ts ensaios sobre a teoria da sexualidade" (Freud, 1905d, Op.
cit.) que Freud estabelecerá, pela primeira vez, um elo entre sublimação e arte.
I.1.1 Sublimação e arte
No final dos "Três ensaios", Freud reconhece, então, a arte como sublimação:
...[o] processo de "sublimação" [seria aquele] no qual as excitações
hiperintensas provenientes das diversas fontes da sexualidade encontram
escoamento e emprego em outros campos, de modo que de uma disposição em
si perigosa resulta um aumento nada insignificante da eficiência psíquica.
encontramos uma das fontes da atividade artística, e, conforme tal sublimão
seja mais ou menos completa, a análise caracterológica de pessoas altamente
dotadas, sobretudo as de disposição artística, revela uma mescla, em diferentes
proporções, de eficiência, perversão e neurose (Freud, 1905d, p. 225. O grifo é
nosso).
Grifamos nesta citação certos pontos que m especial interesse para nós. Agora
o termo sublimação é empregado pela analogia entre aquilo que se passa no terreno
13
psicológico e o fenômeno físico original: opera-se um trabalho de transformar o sólido e
inferior” da "disposição em si perigosa", no gasoso e superior” aumento da
"eficncia psíquica". Examinando a noção de sublimação na obra freudiana podemos
identificar a herança dos sentidos que ela comporta nas outras disciplinas: por um lado,
a idéia de mudança do estado sólido para o gasoso da física, ou a de purificação advinda
da alquimia, à medida que aquilo que poderia ser “perigoso” é desviado para a atividade
sublimatória; por outro lado, encontramos, aí, o sentido da "ação de exaltar,
engrandecer" própria da estética, através, como diz Freud, dessa idéia de aumento “nada
insignificante” da eficiência psíquica, assim como através desse deslumbramento que as
pessoas possuidoras de disposição artística são capazes de provocar, o que se deduz da
afirmão de Freud de que seriam “altamente dotadas”.
Neste rico trecho que escolhermos destacar, Freud nos oferece significativas
contribuições, tais como a iia da existência de uma "disposição artística", resultado de
uma mescla de eficiência, perversão e neurose. Ele parece reconhecer nos artistas a
presença de alguma organização psíquica que o se limitaria nem à categoria de
neurose, nem à de perversão, nem poderia, tampouco, ser encarada como mera
"eficiência psíquica". O artista é parcialmente eficiente em dar conta da "disposição
perigosa"; ele não está a salvo da neurose nem da perversão.
Um problema começa a se revelar, antes mesmo da tentativa de relacionar a
sublimação com o processo de criação artística: Freud havia apresentado a sublimação
como uma faculdade psíquica situada na base de "todas as realizações culturais",
porém, ao tratar da atividade artística, fala-nos de sujeitos com disposição artística.
Podemos concluir, então, que a sublimação é mais abrangente do que a atividade
artística, já que a arte seria apenas uma das modalidades de realização cultural. Ela
14
constituiria, na verdade, um tipo espefico de sublimão à qual somente alguns teriam
acesso.
I.2 Duas sublimações
Em Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância” (Freud, 1910c, Op.
cit.), encontramos uma apreciação bem mais detalhada e aprofundada sobre a
sublimação. Neste texto são mencionados aspectos desse processo cuja importância
parece-nos fundamental. Neste artigo, a arte é tratada como um tipo de sublimação
distinto de uma outra de suas modalidades, a qual também se fapresente na trajetória
de Leonardo da Vinci.
É necessário aprofundarmos nosso estudo destes diferentes tipos de sublimação.
Em primeiro lugar, voltemos nosso olhar para a atividade artística de Leonardo, tal
como Freud a analisa.
I.2.1 O artista Leonardo da Vinci
Nesse artigo sobre o artista Leonardo da Vinci, Freud se dedica à pesquisa sobre
ele o somente em função da enorme admiração e curiosidade que nutre pelo trabalho
do mestre florentino, mas aos seus olhos ele representaria o exemplo extremo do artista,
como indicado na seguinte passagem:
A mesma luta penosa frente a um trabalho, a fuga final e a indiferença quanto
ao seu destino futuro, tudo isso pode acontecer a muitos artistas, mas não
dúvida de que esse comportamento ocorre em Leonardo em grau mais elevado
(Id., ibid., p. 76. O grifo é nosso).
Quanto à nossa investigação sobre a disposição artística, identificamos neste
trecho algumas pistas sobre a relação que Leonardo trava com suas paixões, o que vem
indicar uma posvel via para melhor compreendermos a questão:
15
Leonardo não era insensível à paixão; não carecia da centelha sagrada que é
direta ou indiretamente a força motora il primo motore de qualquer
atividade humana. Apenas convertera sua paixão em sede de conhecimento;
entregava-se, então, à investigão com a persistência, consncia e penetração
que derivam da paixão... (Id., ibid., p. 83).
Sobre o termo paixão, tendemos a associá-lo às intensidades pquicas a que
podemos opor as representões; deste modo, podemos aproximar as paixões daquilo
que consideramos como pulsões. Neste trecho Freud nos fala, de fato, da paio como il
primo motore, como força motora cuja característica básica seria a persistência, a
constância e a penetração análise muito semelhante àquela que fará das pulsões no
lebre artigo metapsicológico a elas dedicado (Id, 1915c, Op. cit.).
Visto sob este ângulo, o trabalho do artista envolveria um movimento de desvio
da pulsão sexual para a atividade de investigão, aspecto que se articula com o que
Freud, no texto dos "Três ensaios", considerara como pulsão de saber. No artigo de
1905, ele havia explicado que a pulsão de saber tem sua origem, em parte, na pulsão
escopofílica perversa, sendo também uma forma sublimada de dominação (Id., 1905c,
Op. cit.). Queremos aqui ressaltar uma das particularidades do trabalho do artista: ele
resultaria do desvio do sexual para a pulsão de saber, a pulsão de investigação. O que
aqui vemos esboçar-se é a iia de que no trabalho do artista entrariam
simultaneamente em jogo uma sublimação e a ação disruptiva das pulsões parciais
perversas, como deixa entrever essa concepção acerca da pulsão de saber.
Esta compreensão do trabalho artístico está em total acordo com a iia de "obra
inacabada", que exige trabalho pois se a sublimação é falha, o aparelho psíquico
permanecerá trabalhando por uma sublimão mais "consistente", ou seja, uma
sublimação suscetível de desviar as pulsões parciais para o registro da autoconservação,
16
do dessexualizado”. A atividade de investigação do artista, por si só, vem evidenciar
este trabalho insuficiente, já que mantém o disruptivo em cena. Afinal, como lemos no
texto de Freud sobre Leonardo, esta atividade compulsiva traz cada vez mais questões
para o artista, que não consegue dar por terminada sua obra.
Joel Birman propõe que este texto sobre Leonardo possa nos fazer apreender um
dos aspectos mais importantes envolvidos no processo de sublimação:
... a sublimação poderia ser concebida como (...) uma transformação direta da
pulsão perverso-polimorfa numa produção de espírito (...). Vale dizer (...) a
sublimão não implicaria mais numa dessexualizão da perversidade
polimorfa originária. Portanto, aquela não seria a resultante de uma operação
anterior do recalque... (Birman, 2002, p. 104).
Concordando com o autor, pensamos que esta sublimão em Leonardo da Vinci
não corresponde ao modelo de sublimão apresentado nos Três ensaios. No artigo de
1905 a sublimação implicava uma dessexualização, enquanto a atividade arstica de
Leonardo, segundo Birman, aponta, ao contrário, para uma transformão direta. No
entanto, o modelo da dessexualização não será abandonado por Freud.
Dois processos bem diferentes começam a poder se distinguidos. Através de
uma análise da sublimação implicada na atividade científica de Leonardo, poderemos
melhor explorar os dois processos em questão.
I.2.2 Artista versus cientista
Até aqui temos privilegiado apenas uma das atividades de Leonardo a arte.
Sabemos, porém, que o mestre foi também um expoente no que se refere às primeiras
pesquisas científicas, cujo esboço foi iniciado no peodo do Renascimento. Em
Leonardo, as duas atividades revelam-se, entretanto, conflitantes.
17
Em seu percurso, a atividade de investigação, que originalmente esteve atrelada
à criação artística, desenvolve-se numa busca de conhecimento sobre o mundo, busca
mais vinculada ao trabalho científico, mais afastada, portanto, da arte. Freud observa
que, à medida que se dedica à pesquisa científica, Leonardo passa a empenhar-se menos
no trabalho artístico. Ele parece encontrar na ciência a possibilidade de construção de
um ideal de conhecimento sobre o mundo o que fará, aliás, de maneira muito eficaz.
Observemos atentamente mais um trecho desse artigo:
Depois da pesquisa, quando tentou voltar ao seu ponto de partida, o exercício
da arte, sentiu-se perturbado pelo novo rumo de seus interesses e pela mudança
na natureza de sua atividade mental. O que o interessava num quadro era, acima
de tudo, um problema; e após o primeiro via inúmeros outros problemas que
surgiam (...). Não conseguia mais limitar suas exigências, ver a obra de arte
isoladamente, separando-se da vasta estrutura da qual sabia que era parte
integrante (Freud, 1910c, Op. cit., p. 85. O grifo é nosso.).
O artista usara o pesquisador para servir à sua arte; agora o servo tornou-se mais
forte que o senhor e o dominou (Id., ibid., p. 85).
Levando-se em conta o que temos procurado realçar a agora sobre a
sublimação, baseando-nos ainda nas contribuições do estudo de Jean Laplanche desse
artigo de Freud sobre Leonardo (Laplanche, 1989, Op. cit.), podemos acrescentar que
neste são introduzidas duas vertentes bem distintas da sublimação: a artística e a
intelectual-científica. Na verdade, essas duas tendências são tratadas numa relação de
oposição, e parece-nos inevitável questionarmo-nos se se trataria nas duas vertentes
desse mesmo destino pulsional, ou seja, a sublimação. Em sua linha de argumentação,
Laplanche vem justamente sugerir este questionamento.
O principal problema nesse Leonardo de Freud, do ponto de vista da
sublimão, consiste em que ora nos são apresentadas duas atividades (pintura e
investigação intelectual) igualmente sublimadas e em luta uma contra a outra,
ora, e mais freqüentemente, a sublimão só é evocada para a atividade
intelectual e a luta entre as duas atividades é, em última insncia, a
incapacidade (...) de retornar, pelo menos parcialmente, ao pulsional. De modo
que a atividade pictórica seria algo muito mais próximo do pulsional, daquilo
18
que Freud chama de desejo de viver, do que a atividade intelectual (Id., ibid., p.
79-80).
Desta passagem, podemos aprender algo que nos parece de grande importância
para nossa pesquisa: a atividade artística e a intelectual supõem modos diferentes de
funcionamento psíquico, sendo que a artística é concebida como uma atividade mais
próxima da pulsão, ou seja, se constitui como uma atividade situada entre o pulsional e
a sublimação intelectual. Vale lembrar que esta visão a respeito dos artistas e cientistas,
desenvolvida no artigo sobre Leonardo, objeto dos comentários de Laplanche, já se
anunciava em "Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna":
A relação entre a quantidade de sublimação possível e a quantidade de atividade
sexual necessária varia muito, naturalmente, de indivíduo para indivíduo, e
mesmo de profiso para profiso. É difícil conceber um artista abstinente, mas
certamente não é nenhuma raridade um jovem savant abstinente. Este último
consegue por sua autodisciplina liberar energias para seus estudos, enquanto
naquele provavelmente as experiências sexuais estimulam as realizões
artísticas (Freud, 1908d, p. 181).
Logo, as experiências sexuais impõem-se como força motriz para a realização
artística em cujo cerne estão as pulsões sexuais perversas, quer dizer, as pulsões não
domesticadas.
À sublimação científico-intelectual, a do savant, procuramos associar as já
mencionadas "realizações culturais", ou seja, as realizações que inserem o homem na
cultura. O trabalho psíquico de representação, de inscrição no inconsciente, de entrada
numa cadeia de representações pressupondo deslizamentos, associações e, portanto, a
organização psíquica parece estar vinculado com o trabalho científico-intelectual. Na
pesquisa científica, o sujeito se distingue do objeto, processo que se torna possível em
função da representação. O trabalho de representação é justamente um trabalho de
separação, pois a representão se acompanhamos os artigos "Os instintos e suas
19
vicissitudes" (Freud, 1915c) e "O inconsciente" (Id., 1915e) – é um representante
psíquico da pulsão, não podendo ser confundido com a própria pulsão. Se retomamos o
texto de Laplanche, podemos, assim, melhor compreender o que este autor busca dizer
ao apontar para uma "incapacidade de retornar ao pulsional" como sendo característico
da sublimação "intelectual": a representação que buscamos articular a esta modalidade
de sublimação resulta justamente de uma ruptura com o que é pulsional.
Assim como as outras vicissitudes da pulsão, a sublimação constitui uma
resposta à pulsão. Aquilo que não é capaz de produzir sentido as próprias moções
pulsionais passa a ser "domesticado" pelas cadeias representacionais. Logo, estas
permitem que o sujeito possa partilhar significações na cultura. A ciência, como
trabalho intelectual, articula-se mais facilmente com a idéia de um processo que
pressupõe uma rede de representações. Consideramos que o processo de criação artística
não pode ser explicado por esta mesma via. Há na arte algo de disruptivo, de impulsivo,
hipótese a cuja elaboração nos dedicaremos com mais vagar em nosso segundo capítulo.
Duas modalidades bem distintas de sublimão vêm à luz: uma que diz respeito
à inclusão das pulsões perversas na organização psíquica, e que se opera através do
trabalho de representação; outra própria da criação artística na qual parece ter lugar
um estranho engendramento da força pulsional disruptiva e do trabalho de representação
o qual, afinal de contas, tem que ser suposto como presente no resultado final que é a
produção da obra de arte.
Enquanto no processo de pesquisa intelectual-científica o sujeito busca dar conta
do objeto através da representação, a dimensão de ato parece estar na base do processo
da criação artística. A sublimação artística, por sua própria essência, se dá no e pelo ato
artístico, o que sugere a presença de algo que escapa ao domínio da representação. O
20
artista parece ser, inicialmente, dominado pelo objeto para, num momento posterior,
utilizar-se do trabalho artístico e assim tentar dominá-lo. Como já tivemos oportunidade
de sublinhar, Leonardo era dominado pelo "problema" que o impelia a uma busca de
resolão na criação da obra, separando-se da vasta estrutura da qual sabia que era
parte integrante (Freud, 1910c, Op. cit., p. 85). Portanto, o trabalho de criação artística
não parece perfeitamente "encaixar-se” no modelo da sublimação, como representação.
Retornaremos à questão do domínio da pulsão nos catulos posteriores.
Visando continuar a explorar esses dois modos de sublimação dos quais nos fala
Freud a partir de Leonardo da Vinci, voltemo-nos, ainda, para algumas contribuições
suas a respeito dessa dupla face da sublimação. Freud vai novamente recorrer à idéia de
predisposição especial para explicar a ocorrência da sublimão (Id., ibid., p. 88).
Lembremo-nos que quando aborda a sublimação artística, Freud traz a predisposição
como sendo uma condição necessária à sublimão; porém, quando tem em vista a
sublimação intelectual-científica, a qual podemos relacionar com o processo
representacional, seu posicionamento é outro:
A observação da vida cotidiana das pessoas mostra-nos que a maioria
conseguiu uma boa parte das forças resultantes do instinto [pulsão] sexual para
sua atividade profissional. O instinto [pulsão] sexual presta-se bem a isso,
que é dotado de uma capacidade de sublimação: isto é, tem a capacidade de
substituir seu objetivo imediato por outros desprovidos de caráter sexual e que
possam ser mais altamente valorizados (Id., ibid., p. 86).
Reencontramos, aqui, a iia já levantada nos "Ts ensaios" segundo a qual a
sublimação seria um processo comum a todo ser humano, aquilo que torna a vida social
possível. Essa iia também perpassara o artigo "Moral sexual ‘civilizada e doença
nervosa moderna" (Id., 1908d, Op. cit.). Observamos que ora se fala da sublimão
como processo abrangente, ora da sublimação artística propriamente dita, a qual além de
21
possuir caractesticas específicas, o pode, em nosso entender, ser confundida com o
processo da sublimação, no sentido de um processo geral de socialização.
Em "Além do princípio do prazer" (1920g), Freud será ainda mais preciso
quanto à hipótese de uma "predisposição especial" como condição do ato artístico. Este
fenômeno diz respeito a uma situação econômica, mais capaz de favorecer a
sublimação, do que a uma condição dimica esta, diz Freud, está presente em todos
os seres humanos (Id., ibid.). O artista possuiria alguma particularidade em relação às
quantidades em jogo em seu aparelho psíquico, condição para a realização do trabalho
de criação.
Se a noção de predisposição artística parece-nos ainda nebulosa, pensamos,
entretanto, ter podido clarificar o nosso entendimento sobre a sublimão em geral.
Retomando o que tivemos ocasião de desenvolver sobre a "sublimão como processo
geral de socialização", lembramos que esta modalidade de sublimação apoiada no
trabalho de representação tem em sua base um processo de dessexualização, o que
supõe uma passagem para o plano da autoconservação. Sabemos que o dualismo pulsão
de autoconservação X pulsão sexual ganha complexidade em Freud quando do
reconhecimento da autoconservação como função do ego. Isto nos apresenta agora a
tarefa de nos debruçarmos sobre as relações entre a instância do ego e a sublimação.
I.3 O ego e a sublimação
No texto dedicado ao conceito de narcisismo (Freud, 1914c) e principalmente
em O ego e o id (1923b), no qual Freud enuncia a Segunda Tópica, o desenvolvimento
do conceito de ego ganha destaque. Vale ressaltar que o processo de sublimação passa a
ser visto, de certa forma, como agenciador da constituição da instância do ego.
22
Em O ego e o id, Freud sustenta que o próprio movimento da libido objetal, que
se dá no abandono do objeto sexual e no conseqüente investimento no ego, implica uma
"escie" de sublimão. Freud levanta, assim, a hipótese segundo a qual toda
sublimação seria mediada pelo ego. Esta concepção justifica uma sutil novidade
introduzida na definição de sublimação: desde "Os instintos e suas vicissitudes" (1915c,
Op. cit.) esta passa a ser definida não como desvio dessexualizante da meta, mas
tamm como desvio do objeto da pulsão. O ego, de acordo com O ego e o id, oferece-
se ao id como objeto de investimento.
A partir destes novos postulados, a função do ego passa a ser ancorada na luta
pela manutenção da unidade narcísica e o ego, portanto, é tanto a instância recalcante
quanto o agente da sublimação”. Para a realização dessa unificação narcísica, o
trabalho do recalque revela-se fundamental. Ao reconhecermos que a libido objetal
retorna para o próprio ego como sublimação, outra questão relevante apresenta-se para
nós: seria a própria origem do ego o resultado de um processo de sublimação?
Reconhecendo esta possibilidade, temos que supor que a sublimação consiste
num trabalho voltado para a tentativa de "fechamento", de ligão, a serviço da unidade,
da ntese: um trabalho de Eros (a tendência a unir e ligar), à medida que o ego é a
própria instância onde se forja a construção dessa unidade e onde as ligações se
efetuam. Promovendo uma dessexualização, a sublimação visa incluir no ego o que é de
origem sexual. Assim, constatamos que o recalque visa excluir e a sublimão, incluir,
em prol da unidade egóica.
Ainda em O ego e o id (Freud, 1923b, Op. cit.), Freud confere à instância do
ideal do ego uma importância bem maior do que aquela que havia postulado em "Sobre
o narcisismo: uma introdução" (Id., 1914c, Op. cit.). Abordando a origem do ideal do
23
ego, Freud mostra que esta instância comporta uma modificão no ego, resultante do
complexo de Édipo, ou seja, ela seria, de certa forma, herdeira do Édipo. Ainda sobre o
ideal do ego: O que pertencia à parte mais baixa da vida mental de cada um de nós é
transformado, mediante a formação do ideal no que é mais elevado na mente humana
pela nossa escala de valores” (Id., 1923b, Op. cit., p. 49). Neste ponto, encontramos
uma via de aproximação do processo de formão dessa instância com o de sublimação,
pois esta consiste justamente na possibilidade de transformar o que é mais "baixo" no
que é mais "elevado". Isto nos permite deduzir que a própria instância do ideal do ego
resultaria de um processo de sublimação.
Desse modo, a constituição do ideal remete-nos à sublimação intelectual, à
medida que nela se opera a produção de um sentido que visa conter aquilo que é
disruptivo na pulsão, ligando essa força através da construção dos ideais e fechando,
assim, o acesso direto ao que de mais "baixo". O ideal do ego, como herdeiro do
Édipo, evidencia a internalizão da interdição e das regras e normas sociais de conduta,
permitindo ao sujeito sua inserção na cultura ele se torna apto para as relações e
realizões culturais.
Tendo em vista esta importante relação entre o ego e a sublimação
vislumbramos aquela modalidade mais geral de sublimação à qual temos nos referido,
sublimação que parece funcionar a partir dos mesmos mecanismos que aqueles
implicados na sublimação de tipo "científico-intelectual". Isto reafirma a nossa idéia de
que essas duas modalidades diriam respeito ao mesmo processo. Teremos, no entanto,
que avaar ainda mais no estudo do papel do ego no processo de sublimação
"científico-intelectual", para que possamos vir a desenvolver uma outra hipótese: a de
que a criação artística é um processo de natureza diversa, com características singulares.
24
I.3.1 O ego, a ciência e a arte
O material que pudemos encontrar em O ego e o id acerca da participação da
instância egóica no processo de sublimação seaqui articulado às duas vertentes do
trabalho de Leonardo da Vinci, conforme acima destacado – a científica e a artística.
J. Birman (2002, Op. cit.) propõe que a sublimação científica e sua busca de dar
um "fechamento" estaria referida ao falo, como objeto totalizador, e a artística não o
teria como referência, mantendo-se no lugar da incompletude, aberta para os efeitos
disruptivos da pulsão. Este autor tamm propõe que reconheçamos na referência ao
falo a estética do belo, sendo que a estética do sublime seria aquela sem referência
fálica (Id., 2000). Estas categorias apontam para algo que estaria além da dualidade
sublimação artística x sublimação científica, apontando para o fato de que a criação
artística "verdadeira", a que conduziria à produção da obra de arte, funciona num
registro de incompletude. Considerando o ego como instância que busca esse
"fechamento narcísico-fálico", devemos ainda explorar a questão de suas formas de
funcionamento, seja no processo de sublimão, seja no de criação artística. Uma
passagem de "O mal-estar na civilizão" vem em nosso auxílio. Neste trecho, Freud
enuncia três medidas paliativas a que os homens apelam para suportar os sofrimentos da
vida:
...derivativos poderosos [poderosas distrações], que nos fazem extrair luz de
nossa desgraça; satisfações substitutivas, que a diminuem; e substâncias tóxicas
(...). Voltaire tinha os derivativos em mente quando terminou Candide com o
conselho para cultivarmos nosso próprio jardim, e a atividade científica
constitui também um derivativo desta espécie. As satisfações substitutivas, tal
como as oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste com a realidade; nem
por isso, contudo, se revelam menos eficazes psiquicamente, graças ao papel
que a fantasia assumiu na vida mental (Freud, 1930a [1929], p. 83. O grifo é
nosso.).
25
Nesta passagem, assim como no estudo sobre Leonardo, percebemos com
clareza como as artes e a ciência devem ser tratadas como vertentes sublimatórias cujos
mecanismos de base são distintos. O apelo aos denominados derivativos poderosos
que Freud relacionara com a atividade científica reafirma o que ele desenvolvera em
textos anteriores, onde a sublimação é definida como meio de extrair luz de nossa
desgraça”. Ou seja, onde a sublimão é definida como meio de desviar o disruptivo,
próprio à sexualidade perverso-polimorfa, através da ligão egóica. Para que isto se dê,
a libido objetal deve ser transformada em libido narcísica, o que implica um processo de
dessexualização, suscetível de dar conta do cater disruptivo das pulsões. tem lugar
um enriquecimento do ego a partir do incremento de libido em seu campo, libido antes
investida no objeto. Porém, ao nos depararmos com a idéia de satisfação substitutiva”,
que teria lugar na crião artística, processo que encontra sua eficácia no nível das
fantasias, vemo-nos diante de um novo terreno a ser investigado.
Freud parece tamm estar buscando positivar a singularidade do processo de
criação artística. Analisando ainda a passagem acima citada, perguntamo-nos se não
seria possível traçarmos uma aproximação entre os mecanismos envolvidos nesse
processo e o mecanismo de formão dos sintomas, já que sabemos que estes consistem
em satisfações substitutivas, ou seja, satisfações ordenadas pelo registro da fantasia.
Mas devemos estar atentos ao que Freud especifica: ele não utiliza, aí, a expressão
"formação substitutiva", conforme o faz ao se referir à formação de sintomas, mas faz
uso da expressão satisfações substitutivas, o que aponta para uma outra modalidade
própria ao funcionamento psíquico na atividade artística.
As satisfações substitutivas, relacionadas à arte, não seriam menos eficazes que
as "poderosas distrações", o que marca uma diferença com relão à formação dos
26
sintomas, ponto que Freud abordará posteriormente nesse mesmo livro, e que se remete,
por sua vez, à iia de eficácia questionável”. Na atividade artística encontramos um
mecanismo psíquico diferente daquele que estaria na base do processo de sublimação,
capaz de inflar” o ego, como é o caso das "poderosas distrações". As "satisfações
substitutivas", como diz Freud, apenas diminuem nossa desgraça, mas não têm o poder
de contenção que m as "poderosas distrações". O trabalho egóico que se opera no
processo de criação arstica, não sendo referido ao falo, como propõe Birman, não
promove o fechamento característico nem da formão sintomática nem da sublimação
científica, mantendo o sujeito em contato com sua própria desgraça este seria o efeito
do não-fechamento.
Os mecanismos utilizados pelo ego para realizar este fechamento são o recalque
e a sublimação. Segundo o que Freud desenvolve em seu artigo dedicado às pulsões
(Freud, 1915c, op. cit.), a sublimão consiste num destino da pulsão, assim como o
recalque. A sublimação e o recalque, os dois destinos da pulsão mais elaborados, estão
intimamente relacionados com a representação, diferentemente dos outros destinos, a
saber, "a transformão no oposto" e o "retorno sobre a própria pessoa".
O processo representacional, intelectual, está na base do processo de sublimação,
se entendemos este como processo pquico de inserção no espaço cultural, como a
própria atividade do pensamento e da linguagem. Na sublimação encontra-se um
caminho para a descarga e, assim, possibilita-se uma produção de relações e associações
entre representações, o que torna o psiquismo apto a responder à demanda pulsional.
Estas observações nada irrelevantes encaixam-se bem naquilo que avançamos sobre a
sublimação "científico-intelectual", considerando que ela está a serviço de uma maior
eficiência do aparelho psíquico. Podemos ir ainda além, pontuando que ela está a
27
serviço da unidade egóica, pois pressupõe uma assimilação daquilo que ficou de fora,
em função do recalque.
Deste modo, a "sublimação-representação" não se revela como processo especial
cuja existência seria privilégio de alguns este caráter de exceção parece servir apenas
para o viés artístico da sublimação, e não para a "sublimão-representação referida à
inserção cultural tratada por Freud como "avanço em intelectualidade" em "Moisés e o
monoteísmo: três ensaios" (Freud, 1939 [1937-1938], Op. cit.).
Jean Laplanche também defende este ponto de vista segundo o qual a
sublimação diz respeito ao trabalho psíquico propriamente dito:
A sublimação, tal qual nós fomos levados a conceber, nada tem de um processo
à parte. Ela é, deveríamos dizer, o processo normal de aculturação pelo qual o
ego tenta, sem findar, secar o Zuydersee do id, transpondo por partes as pulsões
de morte em pulsões de vida (Laplanche, 1999, Op. cit., p. 321-322).
E ainda:
...o início da sublimação nos reenvia ao início da pulsão sexual (Id., ibid., p.
328).
No capítulo seguinte discorreremos sobre a questão do conflito entre pulsão de
morte e pulsões de vida, e sua implicão em nossa reflexão. Por ora o que mais nos
interessa destacar nesta passagem de Laplanche é que a sublimação, implicada no
próprio trabalho da representão, aponta para algo de fundamental do funcionamento
do psiquismo humano. Quando nos voltamos para sua obra Problemáticas III: a
sublimação (Laplanche, 1989, Op. cit.), deparamo-nos com uma abordagem sobre a
própria origem do aparelho psíquico, compreendido como um aparelho de tradução no
qual recalque e sublimão são mecanismos de defesa necessários para a organizão do
ego. Estas respostas garantem o fechamento numa unidade que impede a irrupção do
fundo do inconsciente” (Id., ibid., p. 23) – o que temos aqui tratado como "o que fica de
28
fora do trabalho de representação". O processo de representação consiste no próprio
processo de instauração do psíquico. A sublimão nos conduz, portanto, para a origem
– para a origem do aparelho psíquico como aparelho de resposta à demanda pulsional.
I.4 A sublimão na origem
Jean Laplanche promove interessante articulação entre as idéias de sublimão e
origem do aparelho psíquico em seu livro dedicado ao estudo da sublimação (Id., ibid.).
Suas posições estão em sintonia com a idéia que temos buscado desenvolver a respeito
da articulação entre o processo de sublimão e o de inscrição psíquica. Para este autor,
a visão freudiana de sublimação apresenta vários problemas, inclusive o de sua
definição metapsicológica que, para ele, jamais foi efetivamente sistematizada. Outra
questão que Laplanche levanta é a obscuridade com a qual nos deparamos quando
tentamos precisar em que consistiria esse sexual desviado de seu objetivo e objeto. Estes
pontos nebulosos foram investigados pelo autor com a finalidade de desenvolver uma
conceituação mais apurada da sublimação.
Explorando o artigo de Freud sobre Leonardo, Laplanche destaca um trecho por
ele reconhecido como o “mais lúcido” que Freud teria escrito sobre o tema. Versa sobre
as três diferentes vicissitudes do "impulso de pesquisa" após uma enérgica repressão
[recalque]”: a inibição neurótica, a sexualizão do pensamento e a sublimação.
Referindo-se à sublimação, Freud escreve:
...o terceiro tipo, que é o mais raro e mais perfeito, escapa tanto à inibição do
pensamento quanto ao pensamento neurótico compulsivo. É verdade que nele
tamm existe a repressão [recalque] sexual, mas ela não consegue relegar ao
inconsciente nenhum componente instintivo [pulsional] do desejo sexual. Em
vez disso, a libido escapa ao destino da repressão [recalque] sendo sublimada
desde o começo em curiosidade e ligando-se ao poderoso instinto [pulsão] de
pesquisa como forma de se fortalecer. Tamm neste caso a pesquisa torna-se,
29
até certo ponto, compulsiva e funciona como substituto da atividade sexual
(Freud, 1910c, Op. cit., p. 88. O grifo é nosso.).
Partindo deste trecho, Laplanche desenvolve a iia de sublimação desde o
começo", sublimação originária, o que significa, dentre outros aspectos, remeter a
sublimação à origem do psíquico. É assim que vai enfatizar que ...apoio e sublimação,
de uma certa forma, andariam (...) emparelhados” (Laplanche, 1989, Op. cit., p. 91). O
autor não nega a existência de sublimações secundárias, mas atribui à originária
significativa importância, marcando uma grande mudança na forma de se conceber a
sublimação. Ele propõe que as verdadeiras sublimações seriam as originárias ...como
Freud nos deu a entender, especialmente a propósito dessa sublimação (...) que é a
intelectualidade de Leonardo (Id., ibid.,, p. 91).
Estando essa modalidade de sublimação situada na origem do psíquico, acaba
sendo também destacada a compreensão da sublimação como inscrição de
representações. No entanto, esta sublimação originária, que diz respeito à inscrição das
representações, e que fala da sublimação como aspecto geral do processo de
humanização, o conta da predisposição artística” que pressupõe uma
peculiaridade especial, a de estar situada além do processo de representação.
Relembremos que Laplanche teoriza que a atividade pictórica seria algo muito
mais próximo do pulsional (Id., ibid., p. 79) que a sublimação "intelectual-científica".
Esta proposição, em consonância com nossa hipótese acerca da "predisposição
artística", salienta o aspecto disruptivo presente na criação artística.
Nosso estudo acerca da singularidade deste processo de criação artística pede
uma análise desse caráter disruptivo que nos parece estar no centro da atividade
artística. A própria condição de ato no processo de criação artística remete-nos para um
30
registro que estaria além da representação. Dedicaremos o próximo capítulo a essa
vertente da questão.
II
O ATO ARTÍSTICO
Não quero suprimir de maneira alguma o sofrimento, pois freqüentemente é ele que
faz os artistas se expressarem mais energicamente.
(Millet apud. Van Gogh, 1914 [1853-1890], p. 147
)
O ato artístico, o movimento criador, tem fascinado os homens na História de tal
modo que a arte tem sido tratada e reverenciada através de um apelo quase místico,
sagrado (Sousa, 2002), misterioso e enigmático. Acerca deste mistério que paira sobre a
arte, Jean Guillaumin lembra-nos, partindo do ponto de vista tanto dos artistas quanto
do público, que ...o segredo da arte é aquele mesmo do homem e ao se dominar um,
domina-se o outro, o que é tornar-se, por deslocamento, senhor de seu próprio destino”
(Guillaumin, 1998, p. 36. A tradução é nossa). Esta passagem já indica como a arte traz
em si algo que se aproxima da origem da psique humana, algo que se busca dominar.
Esta concepção de ato como tentativa de domínio é compartilhada por nós, e tentaremos
apreendê-la melhor neste capítulo.
A arte do século XX buscou voltar nosso olhar da obra acabada para o próprio
ato artístico (Argan, 1992), e nesse sentido a action painting de Jackson Pollock
apresenta-se como o ápice dessa busca. Mesmo que a arte dos séculos anteriores nem
sempre tenha dirigido o olhar do público para o ato, esta dimensão tem sido muito
tempo reconhecida como o que vem caracterizar o próprio processo da criação. Que a
criação artística seja dependente do ato criador, parece-nos uma proposição
fundamental. Fazer a obra é condição necessária para que reconhamos determinado
32
sujeito como artista, criador. Deste modo, considerando que a criação artística se no
próprio ato, devemos investigar o que o possibilita, ou seja, temos que explorar os
fundamentos, a origem desse ato.
Através de nosso estudo, visamos compreender melhor a singularidade do ato de
criação artística. Não pretendemos com isso esgotar o tema da arte e, portanto,
desvendar” o seu mistério. Nosso objetivo é compreender o que está na base do próprio
impulso criador. A nossa meta não está voltada para o resultado final desse processo, ou
seja, para a própria obra de arte, embora essa vertente do tema perpasse, em alguns
momentos, o nosso percurso, tendo em vista que, como finalidade última do processo
artístico, a questão da natureza da obra pode trazer elementos importantes acerca das
particularidades desse ato que a realiza.
Para analisarmos os fundamentos do impulso criador, é necessário examinarmos
o que Freud avançou sobre a dimensão do pulsional disruptivo e impulsivo aí
implicado, aspecto que, desde o capítulo anterior, vimos articulando com o processo de
criação artística, tendo em vista, agora, o seu caráter de ato.
II.1 As relações entre o pulsional “disruptivo” e o ego
O conflito entre o ego e o que escapa a seu trabalho de unificação, emergindo
como força disruptiva frente a esta unidade, constitui um tema central na obra
freudiana. Isto nos conduz ao plano do conflito dapulsão versus representação, como
indicamos no catulo anterior. O que está subjacente à iia de um ego mal sucedido,
de forma mais radical, em sua tarefa de barrar uma irrupção excessiva da força pulsional
em seu território, é a noção de trauma. Passamos, então, a uma análise da questão do
33
trauma e seus efeitos, tendo em conta que o ato de criação artística é impulsionado por
uma força pulsional disruptiva.
II.1.1 O trauma
Em psicanálise a noção de trauma está associada aos efeitos disruptivos da
pulsão no aparelho pquico. É tamm a essa noção que Freud recorreao explorar a
questão da origem do aparelho psíquico, em função da demanda pulsional.
Desde a última década do século XIX ao final de sua obra, Freud tratou da
temática do trauma apelando a ela em sua reflexão sobre a origem do psíquico, sobre a
natureza de determinadas patologias e também de certas problemáticas relativas à
cultura. nos primeiros textos onde vemos constituir-se uma teoria do trauma (Breuer
& Freud, 1893-1895), essa noção surge articulada com a iia de um encontro no qual
um outro sedutor promove um excesso de excitação (pulsional) de ordem sexual. Este
encontro pode ser considerado impactante e violento, por colocar o indivíduo numa
situação de passividade e impotência – de impossibilidade de defesa. A noção de
trauma, apesar das importantes modificações sofridas ao longo do percurso freudiano,
sempre comportou um aspecto de grande importância: a dimensão da alteridade. A
questão do outro como aquele que "instaura" a pulsão sexual e, conseqüentemente, o
trabalho psíquico, é um ponto fundamental em nossa visão sobre o trauma.
Alguns anos após o abandono da hipótese de que um fato real de sedução
poderia levar à patologia histérica, e da ênfase que passa, então, a ser dada à fantasia,
(conforme a famosa Carta 69 para Fliess, datada de 21 de setembro de 1897 [Freud,
1950a [1887-1902], p. 351), o caráter traumático da origem do psíquico tendo em
vista o encontro com a alteridadereaparecerá, apesar de Freud não fazer uso, para este
34
propósito, do termo trauma. Isto pode ser observado particularmente no momento em
que ele sublinha a importância da sedução materna nos “Três ensaios (Freud, 1905d,
Op. cit.) situação que estaria na origem da pulsão sexual, se consideramos a idéia
freudiana de apoio. Merece igualmente menção o caso do Homem dos Lobos” onde
Freud busca incessantemente a cena primária que teria originado a neurose de seu
paciente (Freud, 1918b). Vislumbramos, assim, a presença subjacente da idéia de um
encontro traumático como sendo o elemento de instauração da psicossexualidade.
Com as contribuições de “Além do princípio do prazer” (Freud, 1920g), o
trauma ganha novo vigor na teoria freudiana, sendo recolocado no centro de sua
estrutura. É esta conceão do traumático, de 1920, que nos servirá de guia em nosso
percurso. Este texto põe em relevo a questão da incapacidade de defesa por parte do
aparelho psíquico diante do excesso pulsional veiculado na situação traumática. O
problema da ineficácia das ligões, da ausência de respostas ou defesas do aparelho, a
questão da passividade e sua articulação com a noção de trauma são temas que, a partir
desse momento, passam ao primeiro plano da teoria.
Vale lembrar que o trabalho de ligação é função da instância egóica. O ego
trabalha a serviço do Logos, da razão, do saber, do domínio, enquanto o traumático não
é outra coisa senão umrombo” neste Logos. É o Pathos (ou o excesso, a quantidade, o
pulsional) que se faz presente de modo violento: o trauma causa “impressões corpóreas
cujo efeito imediato traduz-se em violência” (Maciel Júnior, 2001, p. 107). Além disto,
provoca e obriga o aparelho psíquico a trabalhar contra esse excesso pulsional invasivo,
com dispêndio de grande quantidade de libido. Ao nos referirmos a essa movimentação
de libido, deparamo-nos com a questão das intensidades, que desempenham papel
especial nos caminhos tomados pelo conflito pulsional. Não é por acaso que a
35
importância do trauma é justamente reafirmada no momento da emergência do novo
dualismo pulsional.
O traumático pode ser compreendido como o excesso pulsional que vem romper,
como numa invasão”, o trabalho egóico de assimilão e ligão. Em uma de suas
conceituações da pulsão, Freud define-a como exigência de trabalho ao aparelho
psíquico (Freud, 1915e, Op. cit.), o que permite supor que o traumático esteja referido à
pulsão por excelência. A pulsão, sendo energia livre, não inserida na organizão
narcísico-egóica, é a própria pulsão de morte ou pulsão de autodestruição,
apresentando-se como o estranho, Unheimlich (Freud, 1919h), o sem possibilidade de
sentido” para a "célula narcísica".
A. Maciel Júnior afirma que ...o transbordamento da pulsão de morte não é
outra coisa senão o resultado de um sentimento intenso que coloca o ego em uma
situação de impotência...” (Maciel Junior, 2001, p.105). Fundamentando-se na obra de
G. Deleuze e F. Guattari, o autor mostra-nos que a transformação ocorrida no psiquismo
por conta do trauma é acompanhada do que ele denomina sentimentos intensos. Ainda
partindo de Gilles Deleuze, sublinha que o que provoca sentimentos intensos é sentido,
mas não é da ordem da representação. A violência inerente ao trauma impossibilitaria o
trabalho de representar. Thanatos impõe-se ao aparelho cujo estado de impotência, de
passividade radical, é correlativo da impossibilidade de dar conta dessa invasão”.
A relação entre o ego e a “invasão” da pulsão de morte ganha relevo. Se
consideramos a pulsão de morte como destrutiva, temos que observar que ela assim se
apresenta a partir do ponto de vista do ego, pois constitui uma ameaça à unidade
narcísica, apontando para a castração, em oposição à organização do ego, centrada no
phallus e no narcisismo (Birman, 2000, Op. cit.). A pulsão de morte aponta, em última
36
instância, para uma alteridade radical aquilo que se apresenta como totalmente
estranho ao ego. Ela é a evidência de um além da representão, da violenta imposição
de uma outra coisa ao "invólucro egóico". O quadro que se esboça com as defesas
enfraquecidas ou com um aparelho incapaz de operá-las é o do trauma, se o concebemos
como abertura à experiência”, sendo o trauma aqui pensado como encontro com a
alteridade, neste caso, uma alteridade radical, como sublinhamos acima.
Jean Laplanche aprofundará essa visão sobre o traumático, desenvolvendo a
partir dela sua teoria da sedução generalizada” (Laplanche, 1970). Passamos, então, a
uma breve apresentação de alguns pontos desta teoria, pontos de especial interesse em
nossa pesquisa.
II.1.2 A teoria da sedução generalizada
Esta teoria repensa a relação primária entre a mãe e o bebê à luz da noção de
sedução. Inspirando-se em alguns textos de Freud, dentre os quais podemos destacar o
“Projeto” (Freud, 1950a [1887-1902]), os “Ts ensaios” (Id., 1905d, Op. cit.) e,
principalmente, a conferência sobre a feminilidade (Id., 1933a) – “... onde Freud
escreve que a mãe é o primeiro sedutor”, como nos lembra Porret (1994, p. 118. A
tradução é nossa.) Laplanche pressupõe uma sedução origiria por parte da mãe em
relação ao bebê, objeto de investimento dela.
A sedução aponta para a particularidade desta relação. A condição de sedutora
por parte da mãe é apoiada na suposição de que ela vem implantar a sua sexualidade
inconsciente no bebê que não tem a possibilidade de ligar essa força. Esta situação
possui, assim, um caráter traumático, situação de passividade diante da pulsão sexual do
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outro. É a “contaminação” da sexualidade da mãe que provoca um trabalho do bebê, na
tentativa de dar conta do sexual, vivido por ele como enigma.
A noção de mensagem enigmática é um elemento central na "teoria da sedução
generalizada", e é particularmente importante em nosso estudo sobre o traumático e a
criação artística. Nos termos do autor, a mãe transmite uma mensagem enigmática”
que é traumática, à medida que impõe o pulsional; mas ela simultaneamente possibilita
o icio do trabalho de resposta à pulsão: o trabalho de representação, que instaura o
psíquico. É o "sopro de vida humana" advindo do outro.
O estado de passividade, de ausência de defesas do bebê ante a violenta
mensagem da mãe, coloca-nos diante da noção de desamparo, sobre a qual Freud
voltará a debruçar-se ao final de sua obra (Freud, 1930a, Op. cit.) mas cuja origem
situa-se no “Projetode 1895 (Id., 1950a [1887-1902], Op. cit.). A noção de desamparo
originário é apresentada para pontuar a dependência, ao vel mesmo da necessidade
que todo ser humano tem do outro em sua constituição. A respeito do desamparo e de
sua relação com a constituição psíquica, escreve J. Birman:
Sob o desamparo, o sujeito se encontra diante da pressão constante das forças
pulsionais, que o perpassam em diferentes direções e o inundam. O sujeito é
tomado pelo excesso, de cabo a rabo. Por isso mesmo, ele é obrigado, por um
lado, a realizar um trabalho de ligação daquelas forças irruptivas, constituindo
um campo de objetos capazes de oferecer um horizonte possível de satisfação e,
por outro, deve se impor as exigências de nomeação daquelas forças (Birman,
2000, Op. cit., p. 44).
Laplanche sustenta ainda que é o trabalho egóico de sublimação que permite a
ligação da energia disruptiva e violenta do traumático, ou seja, da pulsão de morte que
ele associa à natureza essencialmente perversa” da pulsão. Cabe observar que essa
visão sobre o processo de sublimação, tendo em vista a sua articulação com a pulsão de
morte, se torna viável em função de Laplanche considerar a pulsão de morte como
pulsão-sexual-de-morte (Laplanche, 1970, Op. cit.). O dualismo pulsional se
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caracterizaria, então, pelo conflito entre as pulsões-sexuais-de-morte que dizem
respeito à energia anárquica, livre, des-ligada e as pulsões-sexuais-de-vida ou Eros,
que se caracterizam pela energia ligada. Deparamo-nos, neste ponto, com uma
passagem na qual o autor é bastante claro em sua definição da sublimação:
Se é o eu, agente maior de Eros, que retoma a responsabilidade pelos interesses
vitais, e se sua energia é, como diz Freud, "dessexualizada e sublimada", então a
sublimão, a mutação da pulsão quanto a seus objetivos e seus objetos, vai
aparecer, na verdade, como a transferência, a transposição da energia sexual de
morte em energia sexual de vida, o ato de domar, a ligão de uma pulsão
anárquica e destrutiva em suas origens (Id., 1999, p. 312).
A sublimação aparece, portanto, como alternativa à autoviolência. Como o
próprio Laplanche pontua numa entrevista concedida a Marta R. Cardoso, “... o ser
humano está condenado a sublimar a pulsão-de-morte ...” (Cardoso, 2000, p. 62).
Na elaboração apresentada em nosso capítulo anterior, procuramos relacionar o
trabalho de sublimação com o da inscrição de representações. Este, por sua natureza
tradutiva, deixa um resto que resulta daquilo que o psiquismo não pôde assimilar e
daquilo que seria inassimilável, ou – se usamos os termos próprios a esse modelo
tradutivo daquilo que não foi possível traduzir e do que seria intraduzível. Cabea
nós explorarmos mais essa dimensão própria ao "inassimilável", visando melhor dar
conta desse caráter disruptivo que, conforme avançamos, pensamos estar na base do
ato de criação artística.
II.1.3 As marcas do trauma
O trauma causa no psiquismo efeitos que estão além do processo de
representação. Isto nos dirige para a categoria do "inassimilável". Estes efeitos podem
ser considerados em termos de "marcas do trauma" conforme propõe Lucia Grossi dos
Santos (Santos, 2002). A iia de marca resultante do vivido traumático, expressa bem a
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violência inerente ao encontro traumático. Para podermos articular a idéia de marca à
noção de "inassimilável", devemos ainda voltar-nos para uma compreensão do aparelho
psíquico a partir de uma perspectiva tradutiva, tal como a que encontramos no aparelho
neuronalda “Carta 52” de Freud a Fliess, datada de 6 de dezembro de 1896 (Freud,
1950a [1887-1902], Op. cit., p. 317-18).
Nesta carta é apresentado um modelo de aparelho de memória muito semelhante
àquele publicado posteriormente em A interpretação dos sonhos (Id., 1900a). Mas há aí
uma diferença de grande significão em nosso estudo. No modelo proposto em 1896,
entre a função da "Perceão" e o registro mmico II, a "Inconsciência", encontramos
o registro I, o registro das indicações de percepção”. Isto significa supor que haveria
algo percebido pelo aparelho que não estaria ainda inserido nas cadeias associativas de
representações do inconsciente, não produzindo, portanto, sentido algum. Com o
reconhecimento deste registro I, podemos deduzir que o encontro traumático estaria na
base desses “índices de percepção – as marcas. Além disso, podemos reconhecer que a
tradução para o registro das representões pode o ocorrer por conta de uma
irredutibilidade das marcas às possibilidades de associação e de contenção de energia;
deste modo as marcas apontam tanto para algo "intraduzível", "inassimilável", quanto
para a insistência no aparelho de uma energia disruptiva, violenta, indomada.
Baseando-nos em Mal-estar na atualidade, podemos situar estas marcas no
registro do corpo, sendo este justamente “... um território ocupado do organismo, isto é,
um conjunto de marcas impressas sobre e no organismo pela inflexão promovida pelo
Outro” (Birman, 2000, Op. cit., p. 62). Tal concepção coaduna-se com o que desenvolve
Maciel Júnior a respeito do trauma, conforme assinalamos. Ou seja, este outro promove
impressões corpóreas que se expressam em violência. O corpo do qual nos fala Birman
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é um corpo ainda fragmentado: trata-se de núcleos separados, não organização em
torno de uma unidade; não há, portanto, representação. Se o representação, o
pulsional é pura afetação, até que o aparelho psíquico venha responder a essa força. Se
relacionarmos essas afirmações de Birman com a "teoria da sedução generalizada" de
Laplanche, reconheceremos nas marcas o efeito pulsional no corpo, movimento de
erogeneizão deste, lembrando que o pulsional implica um outro que instaura a
sexualidade no sujeito. As marcas remetem para algo da ordem do excesso pulsional,
para o que escapa à representação; dizem respeito ao que o outro instaura no sujeito e
que permanece ativo, em seu interior, como violento, intraduzível. As marcas
demandam descarga, são excitatórias e, portanto, são da ordem da intensidade pulsional,
do afetivo. as representações são qualitativas, produzem sentido e ligam aquilo que
antes era pura intensidade. As representações, ao se associarem em cadeias no aparelho,
ligam a energia; a insistência das marcas é justamente a evidência da falha deste
trabalho.
Ao localizarmos as marcas a partir do contexto da Primeira Tópica entre a
"Percepção" e as cadeias de representões do Inconsciente, podemos melhor organizar
nosso pensamento. Mas uma nova exigência se apresenta: é preciso que localizemos as
marcas em relação ao ego, pois é este quem sofre a invasão” da força pulsional
disruptiva. É no modelo da Segunda Tópica que encontramos a base para pensarmos as
relações entre o ego e a força pulsional disruptiva, subjacente às marcas.
Baseando-nos em O ego e o id” (Freud, 1923b, Op. cit.), tendemos a localizar
as marcas no espaço do id; afinal é esta instância que aponta para aquilo que, sendo
inconsciente, não pode ser limitado nem ao recalcado, nem ao ego inconsciente. É no id
que Freud localiza as pulsões, e a iia que estamos apresentando a respeito das marcas
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permite-nos associá-las à energia não ligada, à pulsão de morte que irrompe no ego
quando o é barrada pelo recalque. As marcas ilustram o caráter avassalador do id
sobre o ego, que fica sujeito a ter que satisfazer suas exigências, impostas de forma
imperativa.
Em Moisés e o monoteísmo: três ensaios (Freud, 1939a [1937-1938]), Freud
sustenta que as marcas devem ser consideradas o apenas como advindas do trauma
vivido pelo indivíduo; elas são, também, de alguma maneira, transmitidas através das
gerações, sem serem "ensinadas" o termo usado por Freud neste texto não é o de
marca mas sim fóssil, mas isto não nega a iia segundo a qual o trauma deixa uma
marca; trata-se de elementos que o podem vir a situar-se na categoria das
representações em cadeia.
Em La consignation du sublimable (1994), J.-M. Porret aborda a questão das
marcas, ainda que para tal faça uso do termo traço. O autor também articula esta noção
com a dimensão de alteridade, que considera como sendo a própria base do trauma
psíquico, apelando ainda à teoria de Laplanche:
Os significantes enigmáticos maternos (por exemplo, o prazer-desprazer
inconsciente que ela pode sentir concernindo a erogeneidade do seio) não
induziriam na criança senão traços sob a forma de sensações, ou seja afetos,
enigmáticos certamente (Porret, 1994, p. 120. A tradução é nossa.).
É então na recepção dos significantes enigmáticos, ou seja, no encontro e na
internalização do que advém do outro, que os traços são produzidos. O autor continua
seu raciocínio enfatizando que esses traços corporais mmicos” não são equivalentes
das representações: dizem respeito ao que de irrepresentável. Podemos inferir que se
trata aqui justamente do que temos denominado marcas. O que é intraduzível na
transmissão de uma mensagem, a marca, tende a repetir-se e os esforços do psiquismo
42
em dominar esta interferência” da marca mostram-nos com clareza a verdade do
funcionamento do psiquismo humano: o conflito como condição inevitável.
Através dos autores que temos estudado podemos tratar as marcas do traumático
a partir da perspectiva do outro interno. É justamente a insistência deste outro interno
intraduzível em busca de expressão, de adentrar-se no ego buscando um caminho para a
descarga impondo-se, ao mesmo tempo, como externo e interno que ipromover
uma fissura nessa unidade. As marcas farão o ego "revirar-se" em busca de uma
possível assimilação desse radical "corpo estranho". Por este prisma, as marcas
psíquicas, enquanto não são integradas pela tendência unificadora, remetem-nos para a
energia livre veiculada pela ação da pulsão de morte.
II.1.4 As marcas e a atividade artística
A importância da noção de marca para a compreensão do processo de criação
artística reside no fato de que os efeitos intensos desses elementos o podem ser
incluídos no modelo de inscrição da sublimação "intelectual-científica" pois, de acordo
com o que desenvolvemos em nosso primeiro catulo, estas implicam uma ineficácia
no fechamento egóico. Esta característica de não-fechamento egóico, própria ao ato de
criação artística, é suposta por Freud em seu artigo sobre Leonardo da Vinci (Freud,
1910c, Op. cit.). Freud mostra que a arte de Leonardo trazia cada vez mais perguntas
que não encontravam respostas, não permitiam uma ntese. Inferimos, assim, que o que
não produz sentido, o que não é passível de ligação, pode fazer-se presente sob essa
nova forma.
Essa questão revela-se de grande utilidade para integrarmos a problemática da
inscrição psíquica no campo da produção artística. Mesmo que o modelo de inscrição de
43
representações até eno estudado não possa ser diretamente aplicado ao processo de
criação artística, consideramos que alguma espécie de inscrição psíquica tem lugar aí,
pois trata-se, afinal, de um ato criador de uma obra.
J. Derrida (1967) trabalha a questão da inscrição psíquica por trilhas diferentes
das nossas. Mas suas idéias são de grande utilidade para nós, já que ele também enfatiza
o caráter disruptivo ou violento presente na inscrição psíquica, como temos procurado
sustentar no que concerne à criação artística. Ao nos determos no pensamento de
Derrida, nossa intenção é bem pontual a de reforçar a dimensão de violência presente
no próprio efeito da marca, da impressão no psíquico, tão frisada por este pensador.
Em “Freud e a cena da escritura”, texto da obra A escritura e a diferença (1967),
o autor propõe uma leitura bastante original sobre a maneira como se produz a inscrição
no aparelho psíquico. Enfatiza que a escritura o se limita apenas a uma escritura
fonética. Todavia, o que mais nos importa aí é a abordagem que o autor propõe sobre a
maneira pela qual a escritura é feita. Ele ressalta a importância da força, da energia
disruptiva (e por que o chamá-la pulsional?) para que ocorra a produção de sentido,
observando este aspecto, em primeiro lugar, nas facilitações das quais Freud fala em seu
“Projeto para uma psicologia científicade 1895 (Freud, 1950 [1887-1902], Op. cit.).
Derrida denota o caráter violento inerente a esse movimento de inscrição, conforme
podemos constatar na seguinte passagem:
... abertura do seu espaço, efração,
abertura
de um caminho apesar das resistências,
ruptura e irrupção abrindo caminho (...) inscrição violenta de uma forma, traçado de
uma diferença numa natureza ou numa matéria, que são penveis como tais na sua
oposição à escritura. A estrada abre-se numa natureza ou numa matéria... (Derrida,
1967, Op. cit., p. 203).
Essa visão nos fala da importância da intervenção de uma força para que a
inscrição possa efetuar-se, para que ocorra a produção de sentido. A exigência da pulsão
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força a inscrição no aparelho. Como temos indicado até aqui, é no próprio processo de
produção de sentido que a violência pulsional podeser contida. Esta escritura da qual
nos fala Derrida o está referida a um sentido a ser descoberto, escondido nas
profundezas; também o está referida a nada que possa encerrá-la num sistema
organizado. Ao contrário, trata-se de uma escritura fragmentária, em franca oposição à
iia de unidade.
Com o auxílio de suas proposições podemos sublinhar o fato de que o que é
violento vem expressar-se pela via da inscrição. As observações de Derrida ajudam-nos
a perceber nas marcas este traçado violento de uma diferença psíquica. O fato de o autor
mostrar que a escrita é fragmentária e que se opõe à unidade remete-nos, novamente, ao
problema das marcas psíquicas, tal como o temos estudado: antes de efetuar-se a
inscrição propriamente dita, é preciso que tomemos como dado necessário o
acontecimento da marca traumática.
Na nossa interpretação do texto do autor, a proposta de que esta escrita se opõe à
iia de conceito afasta-a da representação, aproximando-a de uma atividade em que a
marca se expressa, a nada remetendo, a nada se associando. Nos momentos em que esse
autor reflete sobre a arte, nós nos beneficiamos ainda mais em nossa trajetória.
Lembremos que a própria ocorrência da marca é violenta para o psiquismo. Derrida
fala-nos dessa violência como um traçado de uma diferença numa natureza ou numa
maria no caso da arte, estaimagem apresentada por ele chega mesmo a deixar de
ser uma metáfora que pode ser entendida como sendo a própria descrição do trabalho do
artista:
Ora um corpo verbal não se deixa traduzir ou transportar para uma outra
língua. É aquilo mesmo que a tradução deixa de lado. Deixar de lado o corpo é
mesmo a energia essencial da tradução. Quando ela reinstitui um corpo, é
poesia(Id., ibid., p. 198).
45
A arte consistiria, portanto, numa tradução em que o que está de fora expressa-se
como corpo. Nosso olhar sobre o ato artístico vem, então, demandar um estudo dessa
convocação do registro do corpo, tendo em vista o que Birman elabora sobre as marcas
e o corpo (Birman, 2000, Op. cit.): as marcas indicariam o efeito da pulsão no corpo.
Compreendemos que o artista encontrará outros meios para expressar-se que não
o da representação. A arte seria uma forma de fazer a marca evidenciar-se na criação
dar possibilidade à instauração de um corpo através de uma gramática individual,
segundo as palavras de Derrida. A iia de gramática individual” direciona, por sua
vez, nosso olhar para o registro do ato, envolvido nessa convocação do corpo.
II.2 Freud e o ato
Temos delineado uma elaboração sobre o ato artístico, considerado aqui como
ato singular, pois de algum modo cria uma inscrição e ao mesmo tempo possibilita a
atualização e expressão daquilo que é disruptivo e violento, que é da ordem da ação da
pulsão de morte.
Freud o era indiferente à questão do ato, tendo produzido inúmeros textos nos
quais está presente esta temática, desde os chamados escritos pré-psicanalíticos. Paul-
Laurent Assoun elabora um excelente estudo sobre o ato em Freud (Assoun, 1985), e
que nos servi, aqui, de guia.
46
II.2.1 O ato e a ligão
Desde o momento em que Freud se volta para a problemática da histeria (Breuer
& Freud, 1893-1895, Op. cit.), a dimensão do ato é tematizada em sua investigação.
Podemos citar, por exemplo, a referência à catarse ou à natureza de certos sintomas nos
casos clínicos relatados. Porém, uma teorizão mais focada no ato encontra-se no
“Projeto para uma psicologia científica” (1950a[1887-1902], op. cit.). Nesta obra,
identificamos a emergência de uma teorizão sobre o ato, neste caso, relacionada à
questão da ligão da energia psíquica.
No “Projeto, Freud se refere à importância dos atos no funcionamento psíquico
através da noção de “ação específica (Freud, 1950a [1887-1902], p. 370). As
excitações pulsionais demandam uma descarga que alivia a tensão que elas provocam,
ainda que esta descarga possa ocorrer por meio de uma ação específica. Como P.-L.
Assoun frisa em seu artigo "De l’acte chez Freud": Há, desde então, realização, pelo
objeto e pelas condições externas, do programa da 'détente'...” (Assoun, 1985, p.150. a
tradução é nossa). Esta observação aponta para a suposição de uma retenção da libido
que, como veremos em seguida, está relacionada à ligão da libido ão que permite
uma quiescência da libido, através do vínculo ao objeto que é explorado para obtenção
de algum prazer, ou seja, de alguma descarga. Este objeto pode ser explorado pelo
bebê desamparado através de uma "ajuda externa" que lhe permite realizar a ação
específica.
Assoun mostra que a esfera do "ato específico" surge a partir do momento em
que “... a estratégia da ircia é contrariada, criando um tipo de elo de retroação com o
exterior” (Id., ibid., p. 151). A questão da ão específica indica que para que uma
quantidade de energia possa encontrar uma descarga, é preciso que parte dessa energia
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tenha sido ligada. O que está em jogo nesta regulação de energia descarregada é o teste
de realidade: o aparelho psíquico tem de se haver com a realidade para poder
descarregar sua energia, em contraposição à descarga alucinatória que não satisfaz a
demanda. (Freud, 1900a, Op. cit.).
Posteriormente, no artigo dedicado aos dois princípios de funcionamento mental
(Id., 1911b), Freud afirmará que o agir” diz respeito ao princípio de realidade. Sob o
domínio do princípio de prazer encontraríamos apenas descargas motoras
descontroladas. Assoun mostra a presença de uma instância psíquica que seria
responsável por essa modificação da descarga motora em umagir” que se efetua sobre
a realidade trata-se do ego. De acordo com o que já avançamos acerca desta instância
psíquica organizadora, podemos supor que o agir” aponta para um ato que se coaduna
com a exigência de unidade narcísica, estando submetido às vicissitudes que regulam
esta exigência o recalque e a sublimação. Dando continuidade a sua análise do texto
de 1911 e, baseando-se no modelo da Segunda Tópica, o autor sustenta que o agir diz
respeito a uma negociação entre o ego e o id sobre a fronteira da realidade – aqui o agir
estaria referido a uma formação de compromisso.
Investigando a questão sob um outro ângulo, o do domínio do ego sobre a
motilidade, Freud nos indica um ego que se opõe ao ato. Um interessante
desenvolvimento desta iia pode se encontrado em Totem e tabu (Id., 1912-13). Freud
propõe que o suposto ato de parricídio e banquete canibalístico cometido pelos filhos na
horda primeva passa a ser expiado por toda a humanidade, herdeira deste momento
inaugural da cultura. Todos nós o desejamos e punimo-nos por isso, repetindo
psiquicamente algo que outrora foi da ordem de um ato propriamente dito
1
. Este
1
O ato que teve de ser refreado exibe para nós uma outra forma de compreensão do ato: a de um ato
ainda sem ligação, que examinaremos mais à frente
48
mecanismo pressupõe um trabalho de elaboração e simbolização que estaria na base do
refreamento do ato, em nome da vida cultural e em nome da sua substituição por
símbolos mas que, mesmo assim, manteria o sentimento de culpa pelo ato desejado
(Freud, 1930a). É este refreamento do ato que possibilitará o "avanço em
espiritualidade" mencionado por Freud em Moisés e o monoteísmo” (Freud, 1939
[1937-1938], Op. cit.) e que diz respeito ao trabalho de representação. Para este
“avanço realizar-se é necessário o trabalho do recalque, através da ão do ego que
vem impedir que a sexualidade disruptiva do id domine o psiquismo. O trabalho da
sublimação viria possibilitar a formão dos ideais. O recalque visa conter a realização
de um ato, mas temos que reconhecer que o retorno do recalcado tamm pode exercer-
se através da realização de um ato. No entanto, neste caso, este ato já se encontraria
submetido à lógica da ligação libidinal; por isso mesmo, opera-se uma formação de
compromisso.
Em psicanálise, os termos atuação e ato historicamente remetem-nos aos atos
falhos (Id., 1901b) e ao acting out (Id., 1914g) os quais resultam exatamente de uma
formação de compromisso entre os sistemas inconsciente e pré-consciente/consciente,
do retorno do recalcado e, conseqüentemente, uma perspectiva de substituição de uma
iia ou representação inconsciente. É para a dimensão de representação que temos de
voltar-nos quando investigamos os atos através deste prisma. Entretanto, o ato arstico
não pode ser enquadrado dentro desta lógica, pois a atividade artística comporta, como
temos pontuado, uma dimensão disruptiva. Isto significa supor que algo falha na
formação de compromisso; não há uma resolão do mesmo tipo daquela implicada nos
atos falhos, por exemplo.
49
No estudo dos atos sintomáticos da neurose obsessiva é que Freud aborda uma
outra dimensão do ato, o que o orientana direção de sua relão com o pulsional, em
sua vertente disruptiva. O ato obsessivo, a ação compulsiva, evidencia um aspecto que
não é passível de ser harmonizado nessa concepção do ato exposta acima – o ato
entendido a partir do viés da ligão. Assoun chama a nossa atenção para o fato de que
se o trabalho de representação na neurose obsessiva se expressa tão claramente através
desse processo de intensificação do pensamento que marca essa patologia, este mesmo
trabalho se revela falho quando se trata do ato compulsivo (Assoun, 1985, Op. cit.).
O caráter compulsivo do ato obsessivo aponta para algo de uma ordem diferente
daquele “agir” dominado e regulado pelo ego. O fato de ser compulsivo, por si só,
aponta para a falta de controle por parte do ego. O que nos interessa então nelas [nas
ões compulsivas], é o que, na ão, se cristaliza de um bloqueio da representação ao
mesmo tempo que de uma descarga” (Id., ibid., p. 159. A tradução é nossa.). O próprio
Freud pontua:
... o processo de represo [recalque] que acarreta a neurose obsessiva deve ser
considerado como um processo que obtém êxito parcial, estando
constantemente sob a ameaça de um fracasso (Freud, 1907b, p. 114).
Sabendo que o trabalho de recalcamento é função do ego, podemos supor que a
falta de controle dessa instância esteja na base do fenômeno da compulsão.
Ainda que reconheçamos a presença desse aspecto compulsivo próprio ao ato
sintomático do neurótico obsessivo, este é, efetivamente, um sintoma neurótico,
implicando, portanto, uma formação de compromisso: este ato tem um sentido; associa-
se às iias recalcadas. Acreditamos ser este um dos pontos com que Freud se preocupa
ao salientar que os atos obsessivos ... que de início se destinavam principalmente a
manter a defesa aproximam-se progressivamente dos atos proibidos pelos quais o
50
instinto [a pulsão] pôde expressar-se na infância(Id., ibid., p. 115). O ato obsessivo
expressa, ao mesmo tempo, uma defesa e um ataque pulsional. Ainda sinalizando o
caráter contraditório que a neurose obsessiva apresenta, Assoun expõe, de forma clara,
seu ponto de vista sobre os atos obsessivos:
... um trabalho psíquico de deslocamento que ao ato seu sentido metafórico
(no eixo da representação), mas tamm o ato "real" – objeto do interdito – que
simultaneamente se esconde no ato ritual e se realiza nele(Assoun, 1985, Op.
cit., p. 160. A tradução é nossa.).
O caráter compulsivo que esse ato comporta aponta tamm para o que Assoun
chama de atoreal” – ato que ultrapassa o terreno da representação, apresentando-se de
forma disruptiva. Sabemos que em 1920, em “Além do princípio do prazer” é que Freud
estudao ato à luz dessa outra perspectiva por conta do fenômeno da compulsão à
repetição, fenômeno que imporá um profundo questionamento da prevalência do
princípio do prazer na vida psíquica.
II.2.2 O ato fora do "eixo da representação"
A compulsão à repetição se ancora numa lógica totalmente distinta daquela que
antes orientava Freud em sua análise do fenômeno das compulsões. Trata-se, agora, de
uma gica que se situa além da representação: é a repetição do mesmo, sem
possibilidade de associação à cadeia de representações. Estes atos, que Freud associara
às neuroses traumáticas, evidenciam uma falha no processo de elaboração de ligação,
em última instância na impossibilidade, justamente, de uma formação de
compromisso.
Estes atos não pressupõem uma produção de sentido, pois estão aquém da
representação. Isto vem novamente conduzir-nos aos efeitos das marcas do trauma.
51
Assim, deparamo-nos com o aspecto violento do ato ainda sem ligação de energia. A
violência, vale lembrar, se exerce contra o ego, que se acha em um estado de
passividade diante de uma energia pulsionalo-ligada que o invade.
Nas neuroses traumáticas o ato compulsivo aponta, portanto, para o efeito
avassalador da pulsão de morte. As marcas do trauma não entram na cadeia associativa
e dessa forma é o mesmo fenômeno que tende a se repetir. Não é possível que a energia
opere um deslizamento numa cadeia, o que permitiria a emergência do novo através da
repetição. O ato se situa sob a vigência da desfusão pulsional, como Freud postula em
O ego e o id” (Freud, 1923b, Op. cit.): é a desfusão entre as pulsões de vida e de morte
que termina por tornar avassaladores os efeitos da pulsão de morte, impedindo um
efetivo trabalho de ligação.
O ato que resulta de uma compulsão à repetição revela a precariedade do
funcionamento do aparelho psíquico que responderá à pulsão com uma descarga
motora. A representação não entra em jogo e com isso os destinos pulsionais possíveis
ficam limitados a uma alternância no eixo passividade-atividade e ao retorno da energia
pulsional sobre a própria pessoa.
II.3 O ato artístico em sua especificidade
O ato artístico é um ato criador, e deste modo o podemos abordá-lo como
sendo da mesma ordem da compulsão à repetição que fundamentalmente se refere à
repetição do mesmo. Na verdade, o ato de criação artística não parece encaixar-se em
nenhuma das vertentes anteriormente analisadas quanto ao ato. Por uma razão clara não
pode ser identificado com uma passagem ao ato”, movida pela compulsão à repetição:
esta ocorre justamente na impossibilidade de significar, elaborar, enfim, representar. A
52
criação da obra de arte, como resultado do trabalho artístico, resulta, inegavelmente, de
um trabalho elaborativo. Mas te o processo de criação a mesma natureza daquele
envolvido na produção das representações?
Nossa hipótese, já esboçada anteriormente, é que não se trata do mesmo tipo de
processo, à medida que a inscrição de representações, gerenciada pela busca de unidade
egóica, é um processo distinto daquele que fundamenta o trabalho artístico que parece
justamente desafiar a manutenção da unidade. A respeito deste ponto, a posição de João
A. Frayze-Pereira (2002) sugere, igualmente, a iia de uma assimetria existente entre o
eixo da arte e aquele que consideramos como o eixo da "sublimação-representação". Ao
enfatizar a convocação do corpo nas artes performáticas contemporâneas, este autor
escreve:
... uma ação artística como essa acaba por colocar a arte numa situação que, se
não escapa inteiramente ao campo da sublimação, pelo menos interroga o
conceito que classicamente conecta a arte ao corpo teórico da psicanálise, pois
(...) o conceito de sublimação implica "a idéia de um apaziguamento pulsional"
... (Frayze-Pereira, 2002, p. 267).
Se o ato criativo não é redutível à compulsão à repetição, isto também pode ser
pensado em relação ao processo de sublimão, ou seja, à contenção de energia através
da ligação representacional. Tamm não podemos conceber o ato artístico como
análogo ao ato sintomático compulsivo próprio à neurose obsessiva, na qual o sujeito
está incapacitado de criar, e em que o ato compulsivo marca a esterilidade do
pensamento e da conduta. O ato de criação não se caracterizaria, então, nem pela não-
inscrição inerente à compulsão à repetição, nem pela fixidez própria ao sintoma
obsessivo, que não "abre espaço" para a possibilidade da produção de uma outra coisa.
53
Se até aqui tentamos dar conta daquilo que no ato de criação em geral é distinto
do ato de criação artística, temos agora a tarefa de procurar definir, de forma
positivada, esta modalidade de ato.
II.3.1 O ato artístico como resposta à violência pulsional
Desde os primeiros textos dedicados ao assunto e, principalmente no artigo
Dostoievski e o parricídio” (1928a), Freud enfatiza a questão do excesso pulsional
implicada no ato de criação artística. Jean Guillaumin também recorre a esta dimensão
de excesso, fundamentando-se na precariedade do trabalho egóico nos sujeitos artistas,
como condição para essa saída criativa encontrada para a angústia (Guillaumin, 1998,
Op. cit.). Como indicamos anteriormente, a iia de uma precariedade egóica é
correlativa de uma “invasão” no aparelho psíquico daquilo que é disruptivo e traumático
para o ego.
A compreensão desta modalidade de ato como resposta ao efeito do traumático
sobre o ego ganha força aqui. Marta Rezende Cardoso, em seu artigo “Violência,
domínio e transgressão” (2002) ajuda-nos a explorar esta hipótese do ato como
resposta” ao traumático, através de sua análise sobre a pulsão de domínio”, onde
estabelece um contraponto desta noção com a idéia de uma dominação da pulsão”. A
autora propõe que a pulsão de domínio” indica a ação da força pulsional em seu estado
bruto, não-ligado, de energia livre. Considerando a idéia de uma dominação da
pulsão”, faz referência, dentro deste jogo de forças, a uma resposta, uma modalidade de
defesa que estaria situada aquém da simbolização, da ligação, o que sinaliza uma
precariedade do ego em representar ou recalcar a violência da pulsão de morte. É
interessante notar que a noção de domínio é enfatizada neste artigo como distinta de
54
uma elaboração psíquica. Esta abordagem da pulsão de domínio” viabiliza pensarmos
a possibilidade de algum tratamento” dado à pulsão, mas que o resulta numa
sublimação ou num recalcamento, que suporiam um fechamento” do ego o o
comprometimento de sua unidade narcísica ainda que esse tratamento” da força
pulsional deva ser entendido como resposta ao traumático.
A idéia de "domínio" permite-nos esboçar certos mecanismos que estariam em
jogo no ato artístico. A possibilidade de dominar” a pulsão, implícita neste ato, diz
respeito a esse não-fechamento de sentido, a esse modo de tratamento” da pulsão que
mantém ativas as marcas do traumático e a abertura ao outro.
Articulando essa problemática da pulsão de domínio” com a do ato de criação,
concluímos que este constitui uma resposta a uma situação onde o sujeito se encontra,
paradoxalmente, passivo passivo diante da pulsão. Isto parece-nos próximo do que
ocorre no brincar da criança no jogo do "Fort-Da" (Freud, 1920g, Op. cit.). Não basta,
neste caso, que se verbalize as palavras "Fort" e "Da" para que a criança possa dominar
a sua angústia diante da separação materna: é preciso efetivamente atuar para que um
processo de elaboração interna, ainda que de caráter elementar, possa ser desencadeado.
Tanto o jogo do "Fort-Da" quanto o processo de criação artística revelam a
possibilidade de uma inscrição, mas que se faz pela intermediação do próprio agir. A
partir dessa aproximação, levantamos a hipótese de que assim como esse brincar, o ato
de criação artística consiste numa tentativa de encontrar uma via para dar conta do
excesso de angústia. A alternância nos pólos da passividade-atividade implicada no jogo
do "Fort-Da" revela-se particularmente útil para compreendermos o caráter de resposta
que o ato artístico comporta. Da passividade diante da experiência traumática, diante de
55
um outro interno ”intraduzível, o sujeito passa à posição ativa, à resposta a este outro.
É no manejo da pulsão que se realiza a expressão artística (Kahn, 2003).
Freud sublinha tamm essa dimensão de passividade pulsional própria ao
artista tanto em seu artigo sobre Leonardo da Vinci (1910c, Op. cit.) quanto naquele que
dedica a Dostoievski (1928a, Op. cit.), sendo que neste ele chega a reconhecer o caráter
masoquista subjacente a essa situação de passividade. Como resposta aos efeitos
disruptivos, violentos e, portanto, intraduzíveis, o ego precisa reagir e deste modo, a
proposição apresentada por Guillaumin sobre o ato criativo como reação criadora
negativa, parece-nos muito rica (Guillaumin, 1998, Op. cit., p. 15-6).
Este autor supõe que a necessidade de criar uma obra de arte surge como
resposta a uma precariedade: uma dificuldade do psiquismo em delimitar o território da
tópica psíquica. Esta precariedade seria própria dos artistas, ponto de sintonia com o que
Freud diz a respeito da disposição para a atividade artística”, conforme mostramos em
nosso primeiro capítulo. A suposição de uma precariedade do ego reafirma a
importância do caráter disruptivo do id e de seu papel na criação artística. Esta iia de
precariedade pode ser entendida à luz do que Cardoso desenvolve no artigo supracitado
(Cardoso, 2002, Op. cit.), ou seja, nesse quadro tenderia a ocorrer uma invasão de
energia não-ligada no ego, resultando num ataque violento e destrutivo. Em
contrapartida, a criação se oferece ... como reconstrução do aparelho psíquico”
(Guillaumin, 1998, Op. cit., p. 17. A tradução é nossa.). Visando compreender esta
resposta criativa do ego, e inspirado na iia freudiana (de 1920) de uma reação
terapêutica negativa, Guillaumin formula a hipótese dareação criadora negativa”,
enfatizando com esta noção essa vertente compulsiva da criação artística. Vale precisar,
56
porém, que isto não se confunde com a ação de uma compulsão à repetição, como no
caso da reação terapêutica negativa.
Segundo o autor, através da obra de arte o artista cria uma tópica extraterritorial
onde é projetado seu aparelho psíquico. É nesta pica a própria obra que o conflito
psíquico é despejado”, e é nela que poderá ser elaborado. Isto virá atenuar a angústia
advinda dos embates do traumático com o ego – o artista precisa da obra para defender-
se do ataque pulsional disruptivo que abala a organização egóica. É nesse sentido que
ele pode tornar-se escravo da própria obra(Id. Ibid., p. 16. A tradução é nossa), pois
ela é a possibilidade que ele encontra de haver-se com o que há de mais violento” em
si mesmo.
Guillaumin compreende esta tópica extraterritorial da obra como uma
autocriação projetiva na qual estariam em jogo ... mecanismos psíquicos, por sua vez
muito primitivos (... ) sutilmente agenciados” (Id., ibid., p. 19. A tradução é nossa.). A
proposição de que os mecanismos em jogo seriam primitivos destaca a importância dos
destinos pulsionais postos em ação quando o recalque não pode se dar; referimo-nos aos
destinos da pulsão aquém do recalque: atransformação no oposto” e o retorno sobre a
própria pessoa”.
É através do ato de criar a obra que se poderá viabilizar algum manejo e alguma
elaboração desse embate psíquico. Esta posição encontra eco também em Harold P.
Blum, que reconhece nos auto-retratos de Van Gogh uma possibilidade de elaboração
de uma visão diferente de si mesmo, apaziguadora ainda que parcialmente de sua
angústia (Blum, 2003). O estudo do auto-retrato tamm vem realçar a função projetiva
de autocriação, da criação de um outro eu. A obra é um duplo do artista que pode ser
manipulada e elaborada por este, mas que leva em si mesma o caráter de “estranho”,
57
Unheimlich (Freud, 1919h, Op. cit.), do outro interno que se expressa como enigma
radical. A obra é uma outra possibilidade de se organizar aquilo que, não se
representando, “apresenta"-se ao sujeito.
Guillaumin afirma:
Eu sugiro desde agora que o segredo [da obra de arte] é aquele do próprio
corpo do criador, retornado projetivamente de dentro para fora (...) e fixado em
seguida cuidadosamente pela técnica nessa nova posição (Guillaumin, 1998,
Op. cit., p. 22. A tradução é nossa.).
A referência que o autor faz ao segredo da obra como sendo o do corpo do
artista, evoca o que desenvolvemos anteriormente a respeito das marcas do trauma e de
sua importância no processo de criação artística. Nesta passagem tamm encontramos
uma indicação sobre o papel do mecanismo do retorno sobre a própria pessoa”, tópico
a que retornaremos adiante. Esta passagem de Guillaumin introduz, ainda, uma outra
temática de interesse para nós: a técnica do artista. Esta é relativa às habilidades do
artista no manejo de um ato que, de outro modo, seria intensamente violento, puramente
disruptivo, como é no caso daspassagens ao ato”. O tão valorizado domínio dacnica
diz respeito ao domínio sobre o ato – e deve ser diferenciado de uma simples contenção.
O que queremos sublinhar nessa busca de “domínio da técnica” é o fato de o ato ter que
ser efetivamente realizado.
A noção de reação criadora negativa”, reação que consiste no próprio ato de
criação, por ser inspirada na noção de reação terapêutica negativa”, pode ser
comparada com as reações violentas nas quais a possibilidade de mediação e elaboração
revelam-se demasiadamente prerias ou mesmo ausentes. Mas, vale insistir, estas duas
"reões" são muito distintas. Se o artista, como nos indica Guillaumin, pode se tornar
“escravo da obra, isto se dá como tentativa de proteger-se e proteger o outro da
violência que, de outra maneira, revelaria a sua face destrutiva:
58
... a operação de criação, destinada sem dúvida a ordenar uma nova
diferenciação-separação do ego e do mundo com a ajuda do que eu considero
como uma verdadeira tópica auxiliar, deixa sempre (...) um resto, um inacabado
o qual a obra leva em conta. O criador pôde evitar se destruir ou destruir seus
objetos num corpo a corpo direto, intercalando a obra entre ele e aqueles (Id.,
ibid., p. 14. A tradução é nossa.).
II.3.2 O "tratamento" da violência
Supor que através da criação da obra o artista venha a proteger-se e a proteger o
outro de sua violência interna, aponta para mais uma característica da atividade artística,
ponto que já procuramos esboçar: a propriedade da arte de dar algum tratamento” à
violência, tendo em vista a singularidade desse manejo. Como mostramos
anteriormente, este manejo não se limita a uma contenção, como ocorre na inscrição de
representações, com fechamento” de sentido. A obra de arte, ela própria, é a
elaboração possível, a mediação criada pelo artista para poder dar conta de um id
avassalador, daquilo que escapa à tradução.
É esta tentativa de dizer o que não pode ser dito que encontramos no famoso
sorriso enigmático da Mona Lisa de Da Vinci, como Freud (1910c, Op. cit.) indica. A
arte, como tentativa de representar o irrepresentável, ao mesmo tempo em que coloca o
artista em situação de trabalho, não é capaz de apaziguar sua angústia, mas apenas de
direcioná-la é isto que queremos dizer quando sugerimos que na atividade artística
ocorre um tratamento dado à violência. O caráter de um trabalho não-apaziguador
mostra-se neste lamento que Vincent Van Gogh faz numa carta a Théo, seu irmão:
E eis a causa primeira e última de meu desvario.
Você conhece esta frase de um poeta holandês:
"Estou ligado à terra por laços dos mais que terrestres".
É o que senti com muita angústia antes de mais nada em minha doença
mental.
59
Infelizmente tenho uma profiso que não conheço o suficiente para me
exprimir como desejaria (Van Gogh, 1914 [1853-90], p. 375).
A incapacidade de se exprimir como desejaria” não detém o artista. Ao
contrário, é ela que o move a tentar dominar a pulsão. O direcionamento dado à pulsão
apresenta-se como fator determinante, tanto através do retorno sobre a própria pessoa”,
quanto da transformão no oposto, já que o recalque parece falhar e o trabalho de
contenção é barrado. Lembremos que Freud se refere às quatro vicissitudes da pulsão
como defesas do ego ao ataque pulsional (Freud, 1915c, Op. cit.), mesmo que estas duas
primeiras vicissitudes não impeçam que o caráter disruptivo da pulsão venha a exercer-
se.
Ao tematizar estes destinos pulsionais mais elementares e seu papel no processo
de criação artística, Guillaumin ressalta que o caráter destrutivo da pulsão sofre uma
"mudança em seu oposto": ... pode-se dizer que o artista cria para tentar fazer
prevalecer o amor sobre o ódio” (Guillaumin, 1998, Op. cit., p. 68. A tradução é nossa),
de modo que, tendo em vista a segunda teoria pulsional, essa passagem contém a iia
do trabalho de Eros sobre a "demoníaca" pulsão de morte. O autor seguimento a sua
análise sobre as complexas combinações dos destinos anteriores” da pulsão com o
recalque, que se dão no processo de criação artística:
... a combinação de elementos reunidos , "ser ativo (no lugar de ser passivo) +
ser construtor e bom (no lugar de cruel e destruidor)", constitui, mesmo se ela é
frágil, uma estrutura original e talvez específica. (...)
[No] "retorno sobre a própria pessoa" (...) a preposição "sobre" é tomada ao
mesmo tempo no sentido literal e no sentido simbólico. (...) [A] obra é o artista
e o artista é sua própria mãe ... (Id., ibid., p. 68-69. A tradução é nossa.).
A possibilidade de estabelecermos uma comparação entre a reação criadora
negativa” e a destrutiva reação terapêutica negativa pode ser uma proposta pertinente
para compreender-se a capacidade que a arte tem, de dar conta dos efeitos devastadores
60
da pulsão. A reão terapêutica negativa fonte de inspiração de Guillaumin na
construção de sua noção de “reação criadora negativafoi habilmente explorada por
J.B. Pontalis (1981). Seu estudo permite-nos avançar ainda mais em nossa reflexão
sobre o ato artístico, como “reação criadora negativa”.
Assim como Guillaumin, Pontalis chama nossa atenção para o termo reação”,
mas no caso desse artigo, a reação em questão é a reação terapêutica negativa”. Este
autor concebe-a como efeito de uma ação. A ação seria a invasão do outro internalizado,
conforme apresentamos no estudo que fizemos anteriormente sobre as marcas do
trauma. Na situação a que Pontalis se refere, esta invasão se de forma irredutível,
impossibilitando a formação de vias mediadoras e, portanto, a de uma diferenciação
entre o que é da ordem do ego e o que advém desse outro, invasor interno. Essa
incapacidade de mediação tem como resultado uma não-diferenciação, uma ineficiência
do ego quanto a defender-se da ação da pulsão de morte a não ser através de uma
reação, como medida extrema.
O paciente que produz a reação terapêutica negativa utiliza-se deste recurso para
se proteger contra a autodestruição. O artista, ainda que de forma distinta, tamm se
protege da autodestruição através da obra. O sujeito continua a sofrer o ataque interno,
mas encontra uma via reativa que lhe possibilita existir além do outro. O artista também
sofre com as invasões de um outro interno avassalador, o-diferenciado do ego, e sua
resposta também se por meio de uma reação. Porém, uma distião fundamental
impõe-se aqui: na reação criadora negativa, a própria criação do objeto artístico
evidencia uma elaborão possível para este ataque interno e para a construção dos
limites entre o ego e o outro. É exatamente esta particularidade, esta tópica
61
extraterritorial que permite, em última instância, uma elaboração, pois o aspecto
indomável do outro é “transferido” para a obra.
Elaborando esta noção a reão criadora negativa Guillaumin explicita ainda
que o artista sofre para criar, e o resultado da criação de uma obra o satisfaz apenas
temporariamente. Fazer a obra de arte revela-se necessário para que o artista possa
encaminhar sua angústia, mas sem extingui-la. Um outro trecho de carta de Van Gogh a
seu irmão Théo ilustra o que estamos tentando mostrar:
É preciso que eu me resigne, é bem verdade que um monte de pintores ficam
loucos, é uma vida que leva a ficar meio abstraído, para dizer o nimo. Se eu
me relanço em cheio no trabalho, muito bem, mas continuo sempre louco (Van
Gogh, 1914 [1853-1890], Op. cit., p.389).
Outros objetos terão, imperativamente, de ser criados e, se isso não ocorrer, o
artista tenderá a um auto-ataque ou a um ataque ao outro. Em momentos de crise, com
estranha lucidez, Van Gogh evidencia a insistência dessa vertente destrutiva no artista:
Gostaria apenas que pudessem nos provar algo tranqüilizante e que nos
consolasse de maneira que não nos sentíssemos mais culpados ou infelizes, e
que assim pudéssemos caminhar sem nos perdermos na solidão ou no nada, e
sem ter que a cada passo temer ou prever nervosamente o mal que sem querer
poderíamos estar causando aos outros” (Id., ibid., p.308).
A ineficiência da quiescência da libido não significa que a produção artística não
pressuponha uma inscrição psíquica. Quer dizer, sim, que se trata de uma inscrição de
ordem diferente daquela que reconhecemos na sublimação sob a estética do belo, que se
fecha na unidade. J.L. Bonnat, em Van Gogh: écriture de l’oeuvre (1994) reconhece o
trabalho artístico como a construção de uma possibilidade de inscrever o que o pode
ser inscrito em palavras, encontrando na obra de Van Gogh um ótimo exemplo para sua
hipótese. No trecho seguinte, este autor mostra como Van Gogh criou sua própria
“escrita”:
62
Sua "escritura na pintura" é feita (...) das estrias, barras, círculos, quadrados ou
losangos deformados, bastões justapostos e traçados uniformes que ele formava
no âmago de seus "empastamentos" vigorosos, sólidos (Bonnat, 1994, p. XIV.
A tradução é nossa.).
Consideramos que o que esta "escrita" tem de particular é o fato de permitir que
as marcas traumáticas participem efetivamente da expressão, não sendo excluídas. A
arte, a poesia, como nos lembra Boris Eizykman, possibilita que as metamorfoses e a
simultaneidade” (Eizykman, 2003, p. 552. A tradução é nossa.) de sentidos habitem o
processo secundário caracterizado pelo fechamento do sentido. Este autor desenvolve
seu raciocínio afirmando que a poesia aponta para a própria plasticidade pulsional, o
que está de acordo com a hipótese anteriormente levantada por nós sobre a "expressão
das marcas". Parece ser também em torno dessa mesma dimensão do ato artístico
como forma de inscrição na qual as marcas se impõem que Edson L. A. de Sousa
afirma:
... a sensibilidade (os sentidos do corpo) vem operar como motor de um
processo de apreensão do mundo (...)
O artista é um tradutor que não precisa construir seus instrumentos de leitura,
suas gramáticas e dicionários de mão, como precisa tamm fundar o texto que
vai traduzir (Sousa, 2002, p. 144).
A abordagem de Sousa dá ênfase ao caráter tradutivo da inscrição psíquica, tema
que temos explorado a partir da noção de que a mensagem enigmática do outro, ao ser
internalizada, continua a exigir tradução. Deste artigo de Sousa, destacamos a indicação
que faz dos dois pilares por onde se operaria o processo de criação artística: o primeiro
deles é o endereçamento a um outro. O segundo é a possibilidade de dar forma a
mundos informes (Id., ibid., p. 145), ou seja, o trabalho de tradução/inscrição e
elaboração que a obra permite.
63
Com relação a este segundo pilar, relativo à construção que o artista promove,
relativo à sua "escrita", cabe relembrar que é a projeção para uma tópica extraterritorial
que torna possível essa inscrição, inscrição-limite”, acrescentaamos nós, das marcas.
O que é projetado é o próprio aparelho psíquico do artista. A obra é a construção desta
tópica projetada onde os conflitos internos podem ser repetidos, manipulados e
elaborados sob a estética do sublime, “tratamento” do traumático que não está orientado
para a via de fechamento narcísico-fálico. A obra é um outro corpo e, ao mesmo tempo,
uma extensão do corpo do artista e dos enigmas que traz.
Este corpo da obra é, ao mesmo tempo, expressão e elaboração do corpo do
artista e isto vale para todas as artes, mesmo para as literárias, como pontua Guillaumin.
O ato criador evidencia uma precária elaboração interna onde a palavra o é suficiente
para conter e ligar a energia não-ligada, que continua a expressar-se; o estilo, de acordo
com Guillaumin, apresenta-se como evincia disso e, afinal, é o domínio deste que
transforma um romance ou um poema numa obra de arte. O violento excesso pulsional,
em função da ineficiência do seu recalque sobre ele obriga à descarga, o que se dano
próprio ato, no fazer da obra, tratado” pela técnica e expresso no estilo.
O "tratamento" do excesso pulsional não resulta num fechamento do ego, o que
quer dizer que este ego continua a sofrer” e a responder através da criação. A própria
precariedade, tanto do ego quando da prótese criada (a obra de arte), permite-nos
reconhecer que o movimento compulsivo próprio ao trabalho artístico, o faz calar a
angústia, mas, sem dúvida, permite um domínio da energia des-ligada, como a noção de
"reação criadora negativa" indica.
O complexo jogo de atividade-passividade envolvido na produção da obra de
arte interroga-nos sobre a dimensão de endereçamento que a obra comporta. Sendo esta
64
uma reação, uma resposta, está implícito o lugar de um outro a quem esta reação se
endereça.
II.3.3 O endereçamento
A obra, como projeção de um conflito psíquico, é sempre uma mensagem
endereçada a algum público além do público comum: é endereçada a um outro
indefinido” (Laplanche, 1999, Op. cit., p. 355. A tradução é nossa.). Aprendemos com
Laplanche que o outro ao qual se endera a resposta é o outro do encontro traumático.
Porém, é o público comum que efetivamente receberá a obra de arte e o enigma que ela
comporta. Mais que isso, é o público que se submeterá a ela, assim como o artista se
submeteu passivamente ao trauma. Desse modo, o público terá de se haver com este
caráter "estranho" e sedutor que a obra comporta. Freud já indicara o caráter de
endereçamento da obra de arte em seu artigo sobre os escritores criativos (1908e),
porém a contribuição de Laplanche, ao estudar a criatividade artística (Laplanche, 1989,
Op. cit.), acentua de forma decisiva essa dimensão do endereçamento, através da
categoria de mensagem enigmática.
Reconhecemos também no pensamento de Sousa (2002, Op. cit.) uma grande
ênfase dada à iia de que o que se endereça ao outro é o próprio enigma, o disruptivo.
Este autor defende a idéia de que a operação artística visa ...desfocar (...) certos cios
interpretativos, deslocando pensamentos cansados e interpretações repetitivas” (Id.,
ibid., p. 145). O público tem de se haver com o "estranho" que o artista imprime na
obra. A partir desta passagem, compreendemos que o caráter provocativo da arte, tão
valorizado pelos movimentos de vanguarda do início do século XX (Argan, 1992, Op.
cit.), deve-se, em grande parte, ao "tratamento" e ao enderamento da violência sofrida
pelo artista em seu conflito com uma alteridade interna radical. Esta mensagem atingi
65
o público e lhe provocaefeitos disruptivos. A transmissão da mensagem enigmática,
da verdade interna do sujeito, é inerente ao caráter artístico da obra.
Surpreendentemente, o pensamento de Martin Heidegger em A origem da obra
de arte (1950), distante da produção psicanalítica, vai tamm enfatizar a importância
do enderamento da verdade, através da obra de arte, para um público. Para
compreendermos o que Heidegger desenvolve sobre o endereçamento de uma verdade
teremos de entrever alguns pontos importantes de seu livro mencionado.
Ao estudar a obra de arte este autor busca compreender o que seria próprio da
obra de arte. Seu foco, diferente do nosso, é a própria obra de arte e não a criação
artística. Todavia, os dois objetos de estudo estão estreitamente entrelaçados, e a partir
de sua pesquisa muito podemos aprender acerca do processo de criação.
No início de sua investigação, Heidegger escreve:
... a obra de arte é ainda algo de outro, para am de seu caráter de coisa? Este
outro, que está, é que constitui o artístico. A obra de arte é, com efeito, uma
coisa, uma coisa fabricada, mas ela diz ainda algo de diferente do que a simples
coisa é (...). A obra publicamente a conhecer outra coisa, revela-nos outra
coisa (Heidegger, 1950, p. 13. O grifo é nosso).
Reconhecemos nesta constatação de que a "coisa" da obra dá a conhecer "outra
coisa", o que temos tratado como o "convívio" na obra de arte de uma inscrição com as
marcas, com o que não pode ser dito, significado.
Seguindo sua investigão, o autor postula: Na obra de arte, a verdade do ente
pôs-se em obra. A arte é o pôr-se-em-obra da verdade(Id., ibid., p. 30). Ele explicará
em que consiste esta verdade que reconhece na obra: Verdade deve pensar-se no
sentido da (...) desocultação (Unverborgenheit) do ente”. (Id., ibid., p. 40). O autor
explica-nos que o ente (o ser), por sua essência, fecha-se em si mesmo, não se permite
"acesso" – o homemo pode alcançá-lo; mas, na obra de arte, uma abertura” se faz no
66
ente de modo que ele é “desocultado”, o que não significa que o homem passe a
conhecer aquele. Ao contrário, a desocultação do ente significa um reconhecimento da
impotência do homem diante do ser:
O homem é impotente para dominar uma larga parte do que há no ser. pouco é
conhecido. O conhecimento permanece algo de aproximado, o dominado algo de
incerto. Nunca o ente, como poderia demasiado facilmente parecer, está de baixo do
nosso poder ou até na nossa representação (Id., ibid., p. 42. O grifo é nosso.).
A desocultação” do ser não poderia ser compreendida como a expressão das
marcas, do outro interno enigmático? Esta seria a verdade que a arte comporta: a
verdade do não-inscrito, da não-totalidade do ego. Para Heidegger, a essência do
próprio criar é a desocultação do ser a criação implicaria a transmissão desta
desocultação do ser. Se uma transmissão, deparamo-nos enfim com a questão do
encaminhamento para um outro.
Heidegger mostra-nos que para uma obra de arte ser reconhecida como tal é
necessário que um outro faça este reconhecimento. Reconhecer uma obra como tal o
diz respeito ao conhecimento dos peritos em arte, historiadores, cticos, etc., mas sim
um reconhecimento dadesocultação do ente” que, em nossa interpretão, aponta para
um reconhecimento do disruptivo, do não-traduzido. A obra, no pensamento deste autor,
para ser obra de arte, tem que comportar uma caractestica de salvaguarda”, ou seja,
de que algm vai reconhecer a verdade que ela transmite, como podemos ler na
passagem abaixo:
Assim como uma obra não pode ser obra sem ser criada, assim como precisa
essencialmente de criadores, assim tamm o próprio criado não pode tornar-se
ser sem os que salvaguardam.
Mas, quando uma obra não encontra os que salvaguardam, ou não os encontra
imediatamente, de tal modo que eles respondam à verdade que acontece na
obra, isso não significa de modo algum que a obra permaneça obra, mesmo sem
os que salvaguardam. Ela permanece sempre, se aliás é uma obra, ligada aos
que salvaguardam (...). Mesmo o esquecimento em que a obra pode cair não é
nada; é ainda uma salvaguarda. Vive ainda na obra (Id., ibid., p. 53-54).
67
O que o pensamento deste autor nos mostra é que a obra de arte só pode ser
tratada como tal se nela está implicado um endereçamento, e que um público possa ser
afetado por aquele. Se o endereçamento faz parte da especificidade da obra de arte,
tamm faz parte da especificidade do processo de criação. Maria Luiza S. Persicano
defende posição semelhante:
A arte (...) tem um apoiado na irracionalidade e salta para a razão a partir da
realidade do outro. "A tarefa do artista é a criação de uma realidade nova", que
consiste em criar um mundo próprio, mas que faça sentido ao outro e que
suscite no outro a convicção de realidade nova e diferente. A criação da obra de
arte (...) se endereça à alteridade (Persicano, 2002, p. 181. O grifo é nosso).
Só criação artística se o enderamento da mensagem enigmática se põe em
jogo. Agora que chegamos a essa descoberta o importante - o fato de não podermos
pensar na criação artística sem pensar em seu caráter de endereçamento – reconhecemos
ainda com maior clareza o quão essencial é o lugar da relação do artista com o outro no
processo de criação.
Podemos supor que a obra, como possibilidade de ligão, impede um ataque
destrutivo ao outro. No caso da criação artística, a reação ao outro interno seria
destrutiva se o fosse mediada pela obra; assim, apesar de o público sofrer também
passivamente a experiência da obra, a violência que sofre passa a ser
impressionantemente reduzida. Para enfrentar o caráter violento da mensagem, alguma
energia passa a ser manejada e o trabalho elaborado que é uma obra de arte passa a
garantir ao público o que o artista não teve: recursos para dar conta da violência
destrutiva do ataque interno. A arte constrói, está a serviço de Eros e, nesta perspectiva,
é o oposto da violência o que não significa que a própria energia que a move não seja
uma energia pulsional des-ligada, disruptiva e portanto, violenta.
68
A questão de endereçamento sinaliza um modo de relação com o outro, própria
do artista, implicando tanto o outro interno quanto o público. Uma específica relação
com o outro interno é necessária para que a crião se realize. Procuraremos
desenvolver no próximo capítulo um estudo que possa apontar para a real dimensão
desta relação o particular com o outro interno, que revela alternância entre uma
situação de passividade ante o ataque, e uma reação na qual se promove um
endereçamento da violência interna, do excesso pulsional.
III
SOBRE A INSPIRÃO ARTÍSTICA
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o u.”
(Pessoa, 1922, p. 82)
Na História da Arte as condições psíquicas para a realização da atividade de
criação artística vêm sendo indicadas por alguns termos que se repetem com uma certa
freqüência, dentre eles o dom, a verve artística” ou a inspiração. Estes termos
parecem sempre apontar para algo de específico no psiquismo do artista que lhe permite
ser criativo. Lembremos que o próprio Freud escreve-nos a respeito de uma
predisposição artística”, como tivemos oportunidade de apontar nos capítulos
anteriores.
Compreender que condições psíquicas são estas que estão em jogo no artista
para possibilitar-lhe criar a obra de arte, parece-nos ter importância fundamental para
nosso estudo. A partir do que estudamos a aqui podemos empreender uma
investigação mais aprofundada do tema, uma vez que nossa pesquisa levou-nos a
algumas importantes hipóteses acerca da criação artística.
No capítulo II pudemos concluir que essa criação necessariamente implicaria
um endereçamento, e portanto a remissão do disruptivo pulsional a um outro. Também
70
pudemos desenvolver naquele capítulo que este endereçamento tem um caráter de
resposta, de reação ao estrangeiro interno o outro internalizado intraduzível” mas
que, de fato, esta resposta/reão é recebida pelo público. Desse modo, podemos
reafirmar a iia de que a criação artística se realiza a partir da passividade do artista ao
outro interno invasor, ao qual associamos as marcas psíquicas do trauma. Cabe aqui,
neste catulo, aprofundarmo-nos nesta complexa relação do sujeito com o outro interno
intraduzível, com o traumático que marca a atividade artística, como meio para
compreendermos as condições psíquicas necessárias para a criação artística.
Como eixo principal de nossa investigão mais uma vez recorreremos aos
estudos que Jean Laplanche desenvolveu sobre a criação artística afinal este autor
particular importância a essa relação do artista com o outro inassimilável. Este autor
propõe que consideremos esta particular relão a partir de um daqueles termos
historicamente freqüentes na caracterizão do “segredo” do trabalho artístico a
inspiração (Laplanche, 1999, Op. cit.). Mais que os termos “dom ou verve artística”, o
termo inspiração enfatiza a dimensão do outro dimensão que comporta uma
apreciação do aspecto disruptivo e violento que destacamos como presente na criação
artística.
III.1 A inspiração
A inspiração do artista diz respeito à sua afetação pelas musas, como é ilustrado
por inúmeros exemplos na História da Arte. Podemos depreender daí que o artista é
afetado por um outro de tal modo que este fenômeno o impulsiona e o motiva a produzir
as obras de arte. Podemos reconhecer na inspiração um estado de fascinação do artista
71
pela Musa inspiradora”, estado no qual o sujeito abre-se à experiênciae deixa-se
influenciar por ela.
Esta abertura à experiência aproxima-nos do que estudamos no catulo II a
respeito dos efeitos da violenta pulo de morte no aparelho psíquico a invasão de
uma energia livre que impede o fechamento narcísico. E é justamente esta aproximação
que Laplanche desenvolve em Sublimation et/ou inspiration (1999, Op. cit.).
Ao estudar a criação dos artistas, Laplanche mostra-nos que, além da tentativa
de dar umtratamentoà violência do outro interno traumático, o motor do trabalho dos
artistas tem de ser observado também sob o ponto de vista da inspiração que, segundo
sua hipótese, implica um retorno à relação primária sobre a qual tivemos oportunidade
de discorrer no catulo II. Este autor buscara articular a relação primária à sedução
infantil ocorrida muito cedo, recorrendo, para isso, ao artigo de Freud sobre Leonardo
da Vinci (Freud, 1910c, Op. cit.). Ainda debruçado sobre este artigo, Laplanche
reconhece-o como um estudo no qual pode-se observar a sedução e a relação primária
claramente relacionadas à inspiração do artista: a lembrança de infância do artista é
interpretada por Freud como uma indicão da experiência de sedução da mãe em
direção ao bebê. Freud ainda levanta a hitese de que um reencontro com esta mãe,
que saiu de cena muito cedo na vida de Leonardo, sebuscado na realizão de toda
sua obra artística.
O que Laplanche ressaltará é o fato de que é da própria particularidade da
relação entre a mãe e a criança que se trata na sedução, e esta relação é que estaria na
base do fenômeno da inspiração. É importante relembrarmos que a abordagem de
Laplanche à relação primária, além de tratar do paraíso perdido” da união mãe-filho,
salienta o inferno descoberto na experiência de passividade ante um violento invasor-
72
sedutor na instauração do demoníaco” da pulsão, e do conflito que move o trabalho
para contê-la.
Em consonância com a constatão de uma expressão do disruptivo na arte (ver
cap. I e II acima), consideramos a inspiração como fator necessário para a criação
artística; porém vale lembrar que Laplanche faz uma ressalva a esta asserção na
entrevista concedida a Marta R. Cardoso (2000, Op. cit.): nem todo artista vivenciaria a
inspiração; porém, apenas aqueles que a experienciam é que poderiam, com justiça, ser
chamados de artistas. Estes seriam justamente os sujeitos que teriam de utilizar-se de
uma reação criadora negativapara dar conta desse outro invasor, como Guillaumin
(1998, Op. cit.) nos propõe apenas um sujeito que experimenta uma situação em que
suas defesas se encontram prerias diante do traumático, necessita responder através da
criação da obra de arte.
Na inspiração, o artista retorna, portanto, àquela situação de passividade do
encontro traumático com um outro invasor. A possibilidade de um retorno àquela
situação aponta para uma posição de submissão à mensagem do outro, posição que
reconhecemos como referida ao que Freud chama de feminilidade (Freud, 1933a
[1932]), termo que nos auxiliabastante na compreensão da experiência de inspiração.
Vale lembrar que, ao final de sua conferência sobre o assunto, Freud escreve que uma
“consulta” aos poetas pode nos ensinar mais a respeito da feminilidade; com esta
proposição ele discrimina os poetas como sujeitos que, necessariamente, vivenciariam a
experiência de feminilidade. Laplanche lança a hipótese de que a inspiração implica
uma postura estética específica diante do mundo: uma postura na qual a experiência da
“abertura prevalece sobre um “fechamento hermético”, o enigma é sustentado, a
73
condição de desamparado é reconhecida o que na nossa interpretação do texto
freudiano, é justamente o que Freud busca realçar ao tratar do tema da feminilidade.
A feminilidade como nos esclarece Birman (2000, Op. cit.) articula-se à
estética do sublime, termo com o qual já estamos trabalhando desde os capítulos
anteriores e que salienta o o-centramento, o o-fechamento narcísico-fálico, e o
conseqüente reconhecimento da alteridade radical. A inspiração, portanto, também se
remeteria a esta estética, pois deve ser vislumbrada como retorno à passividade da
relação primária, como experiência da feminilidade, do desamparo. Escreve Laplanche,
sempre remetendo-nos à ação do outro sobre o sujeito:
Ora, a inspiração se conjuga no outro. Seu sujeito não é "o" sujeito, mas o
outro: exatamente como é para a sedução, a perseguição, a revelação. Em
ressonância com o outro adulto originário, este outro, em momentos
privilegiados, vem reabrir a ferida do inesperado, do enigma (Laplanche, 1999,
Op. cit., p. 334. A tradução é nossa.).
Conforme nossa investigação, feminilidade e a inspiração supõem uma
possibilidade de sustentar-se a passividade ante o outro e, desta maneira, a situação de
desamparo. Isto fica de acordo com nossa leitura de Heidegger: a verdade inerente à
obra de arte, segundo este autor a desocultação do ser aponta para uma
compreensão de que a crião artística sustenta o reconhecimento da experiência
avassaladora do disruptivo. E Heidegger frisa que é justamente isso que caracteriza tal
obra como artística. Vale a pena voltarmo-nos aqui para um depoimento do famoso
escultor Alberto Giacometti, citado por Laplanche, para entendermos do que se trata na
inspiração, esta abertura para o que está fora do processo representacional, para o não-
ligado, para a incompletude, e que remete à relação com a verdade”: A arte me
interessa muito, mas a verdade me interessa infinitamente mais (Giacometti, apud
Laplanche, 1999, Op. cit., p. 330. A tradução e o grifo são nossos.) este depoimento
74
indica para nós que a criação da obra de arte é conseqüência de uma busca, de um
lançar-se em direção ao enigmático, ao disruptivo.
Para compreendermos por que Laplanche precisou recorrer a esta noção de
inspiração para teorizar sobre a produção criativa do artista, teremos de voltar-nos para
a gênese desta proposição. Sua origem pode ser remontada ao livro Problemáticas III
A sublimação (Laplanche, 1989, Op. cit.). Deste modo, vemo-nos novamente diante da
sublimação, porém agora com uma tarefa específica: a de compreender como Laplanche
desenvolveu seu pensamento a partir de uma teoria da sublimão, para chegar a
formular a hipótese da inspiração que está na base da criação artística.
III.1.1 Da sublimação à inspiração
No artigo Sublimation et/ou inspiration (1999, Op. cit.), Laplanche deseja fazer-
nos entender que haveria uma diferença entre as noções de sublimação e inspiração,
porém esta hipótese nem sempre esteve clara para ele. Desde seu livro sobre a
sublimação (1989, Op. cit.), ele defende um ponto de vista sobre a sublimação como
resposta ao ataque pulsional ao traumático através da inscrição psíquica, como nos
familiarizamos em nosso percurso. Nesse livro, o autor utiliza-se da noção de
traumatofilia” para tentar dar conta da origem da sublimão de Leonardo. Ele define a
noção de traumatofilia como ... a tendência para reexperimentar indefinidamente o
traumatismo, mas tamm para elaborá-lo, simbolizá-lo” (Laplanche, 1989, Op. cit., p.
176), e podemos depreender daí que estaria em jogo nesse processo uma particular
sensibilidade à sedução traumática. O sujeito parece de algum modo buscar repetir uma
situação traumática, mas não de forma autodestrutiva, e sim criando a partir do
vivido”.
75
Laplanche teoriza ainda que uma “traumatofobia”, ou seja, uma postura de
aversão ao trauma, e a “traumatofilia”, diriam respeito ao mesmo fenômeno (loc. cit.)
o fascínio e o desconforto são ambos evidências da experiência de sedução, permitindo-
nos uma melhor compreensão da ambivalência presente na passividade inicial do ser
humano, à qual o artista retorna. A sensibilidade ao traumático se expressa tanto na
fascinação pelo outro sedutor quanto no pavor diante de um outro violento e invasivo.
Em seu livro sobre a sublimação (1989, Op. cit.), Laplanche iniciara uma
problematização à qual já nos referimos nesta dissertação, e na qual levanta a questão de
saber se o que ocorre no caso da experiência artística deve ser tomado como uma
sublimação ou, ao contrário, como algum outro processo psíquico. Nesse livro o autor
indica que há uma diferença entre a atividade artística e a sublimão, e esboça algumas
hipóteses a respeito das particularidades do processo artístico, como a de que a atividade
artística estaria mais próxima do pulsional do que a sublimação intelectual (ver cap. I).
Esta hipótese continuará a ser sustentada em sua obra posterior, mas a idéia da
traumatofilia o parece ter sido explorada nesse estudo de 1989 em todas as
possibilidades que implica. Pensamos que isso se deve em parte a que o autor, nesse
momento, oscilava entre a iia de que a traumatofilia é um processo que diz respeito às
atividades sublimatórias em geral, e a de que ela seria um processo especial, próprio da
atividade artística.
A noção de traumatofilia reaparecerá em Sublimation et/ou inspiration
(Laplanche, 1999, Op. cit.), expressando-se desta vez mais claramente o como
fenômeno que remete à sublimão como processo geral”, e sim como fenômeno
ligado ao processo de criação artística em particular.
76
Voltando-se novamente para o estudo da origem da crião, e mais
particularmente para o estudo de como se a recepção da mensagem enigmática no
caso do artista, o autor percebe que existem três maneiras pelas quais os seres humanos
podem responder àquela mensagem. A primeira seria uma foraclusão da mensagem, ou
seja, não haveria tradução ou inscrição; a segunda seria uma tradução/inscrição da
mensagem, sendo que o resto, próprio do trabalho de representar, é recalcado
processo que promove um fechamento egóico em relação ao não-assimilado e também
ao "inassimilável", ao traumático. A terceira maneira é tamm uma tradução/inscrição,
mas que de algum modo sustenta uma abertura ao traumático; esta abertura permite a
manutenção de uma afetação, o que nos remete à noção de traumatofilia encontrada no
livro de 1989 e que podemos, de acordo com a proposição de Laplanche, reconhecer no
processo de inspiração dos artistas. O artista inspirado é aquele que sustenta a
“abertura”, definida assim por Laplanche: A abertura é precisamente estar disponível
para o outro que vi surpreender-me” (Laplanche, 1999, Op. cit., p. 332. A tradução é
nossa.) e então possibilitar a criação. O fechamento à afetação, nesta linha de raciocínio,
é também o fechamento da criatividade do sujeito.
Se a inspiração é correspondente ao fenômeno da traumatofilia, devemos
compreender que o sujeito, além de estar “aberto pelo trauma o que quer dizer que
suas defesas estão enfraquecidas – também está aberto para o trauma, ou seja, que ele se
lança diante da experiência traumática.
Recapitulando o desenvolvimento de nossas investigações aaqui: no capítulo
anterior supúnhamos um processo de ligão capaz de manter especialmente viva a
potencialidade dos elementos não-ligados, os quais continuam produzindo efeitos.
Agora compreendemos que os elementos não-ligados são a fonte maior da inspiração na
77
criação artística. O que é realçado pela noção de inspiração/traumatofilia é que além de
o artista ser aquele sujeito capaz não somente de viver a experiência do traumático e de
dar um tratamento à violência através da criação, ele tamm manteria essa abertura,
de modo que o recalque o consegue fazer-se dominante ao contrário: revela-se
frágil.
A inspiração não é, deste modo, o processo criativo propriamente dito, mas o
momento psíquico que necessariamente precede e possibilita a criação artística. É
conseqüência da inspiração que possa ocorrer o trabalho de inscrição psíquica no qual o
ego mantém-se aberto ao id mais especificamente, à expressão das marcas, ao outro
interno invasor. Podemos, a partir daí, compreender por que a noção de
inspiração/traumatofilia é particularmente importante para a produção artística, e por
que o pode ser utilizada para explicar a sublimação como processo geral que
pressupõe umo-fechamento.
No primeiro catulo desta dissertação, destacamos na obra de Freud um olhar
sobre os artistas que supõe uma predisposição especial para a atividade artística. Esta
perspectiva esde acordo com a constatação da especificidade da inspiração diante do
processo sublimatório em geral. O artista teria uma “predisposição especial" e esta
seria sua capacidade de se inspirar, o que implica a precariedade egóica e a particular
dificuldade de estabelecer fronteiras entre as territorialidades psíquicas que Guillaumin
tanto enfatiza (1998, Op. cit.). O que está no cerne desta noção de inspiração é a grande
sensibilidade diante do trauma, indicada na proposição de uma
traumatofilia/traumatofobia em 1989.
A relação entre o trauma e a crião já foi estudada por nós, porém Auterives
Maciel Júnior desenvolve uma linha de raciocínio que merece ser examinada
78
atentamente, pois também exalta atendência para reexperimentar o traumatismo”
como condição da criação, escopo semelhante ao de Laplanche. O ponto de vista de
Maciel Júnior é especialmente fértil para nossa dissertação, porque também observa a
possibilidade de a criação realizar-se à luz do violento encontro com o outro. Dessa
forma, este autor enfatiza o caráter desesperado” tanto do movimento da inspiração
quanto do ato de criação, esclarecendo-nos quanto a que relão é esta que o artista
mantém com esse outro intraduzível. Se a inspiração é observada por este prisma, a
pulsão de domínio”, como Marta R. Cardoso a define (ver cap. II), é que se apresenta
no jogo de forças entre o ego e o id. A violência pulsional seria avassaladora na
experiência aberta” da inspiração.
A. Maciel Júnior desenvolve em sua tese O que nos faz pensar? As condições do
pensamento na experiência-limite (Maciel Júnior, 2001, Op. cit.) uma concepção da
condição para a criação como sendo a “abertura ao que é traumático. O autor utiliza-se
de uma abordagem particular do conceito de experiência-limite e da iia de um
pensamento “do Fora”, desenvolvidos por Michel Foucault e Gilles Deleuze, para
estudar as possibilidades da ocorrência do fenômeno da criação como resposta possível
à violência. Com um exame enfocado no que o autor escreve sobre a criação
buscaremos captar a relevância que a idéia de uma experiência-limite tem, para trazer
uma maior compreensão da inspiração.
III.1.2 A inspiração e a experiência-limite
Para compreendermos a perspectiva adotada por Maciel Júnior sobre as
condições da criação, teremos de habituar-nos com alguns termos e conceitos com que o
79
autor trabalha, particularmente os já mencionados "pensamento relacionado 'ao Fora'" e
"experiência-limite".
De que se trata neste pensamento relacionado ao Fora”? Para este autor, em
conformidade às reflexões de Foucault, trata-se de um pensamento que desafia o saber
racional, o Logos. Este pensamento, acrescenta Maciel Júnior, seria algo de fora da
consciência, que se impõe à mente: forças exteriores, ou melhor, estranhas ao aparelho
psíquico, impõem-se a este, exigindo um trabalho de assimilação. Estas forças
exteriores possuem um caráter traumático, ou seja, de encontro com um outro numa
situação de passividade. Elas acossam o aparelho a produzir a última possibilidade que
lhe resta de defesa contra a violência: a criação é esta situação que o autor,
inspirado” na obra de Foucault, denomina experiência-limite.
Esta compreensão do que é a experiência-limite define-se como muito
semelhante à noção de inspiração com que estamos trabalhando; todavia Maciel Júnior
não explicita se esta criação diz respeito ou não à criação artística.
Este autor informa-nos, entretanto, que a criação deve ser compreendida como o
engendramento do pensamento do Fora. A partir do que apreendemos de sua
definição de pensamento do Fora”, como desafiador do Logos, acreditamos que
podemos articulá-lo com a tentativa de inscrição e/ou expressão das marcas do trauma, e
com o não-fechamento egóico. Mas o que este autor acentua como foco de sua
investigação no estudo deste tipo de pensamento não é sua finalidade, ou seja, a
inscrição, a representão, e sim o modo como este pensamento se opera. Este enfoque
no modo e o na finalidade deste tipo de pensamento salienta o aspecto ousado e
compulsivo deste “enfrentamento” do pulsional.
80
Maciel Júnior ensina-nos que este pensamento pode operar-se na experiência-
limite, quando o há mais defesa possível por parte do ego diante do enigma do outro,
e buscamos articular isso à inspiração. O psiquismo é impelido, forçado a criar, e é
sob esta pressão que algo é criado, pois a natureza da pulsão de vida é conservadora, no
sentido de não querer” abandonar o que já edificou, o que já está construído (Freud,
1920g. Op. cit.), nem mesmo o sintoma. Vale a pena ressaltar a importância que Maciel
Júnior ao entendimento dessa experiência-limite como um encontro, pois um
encontro pressupõe um outro, uma alteridade, tal como a idéia de inspiração.
O pensamento “do Fora” ocupa um lugar privilegiado no pensamento deste autor
para pensar a alteridade. Este pensamento se refere ao “...limite do saber, a um
impensado radical, isto é, a um inconsciente” (Maciel Júnior, 2001, Op. cit., p. 97) e
deste modo podemos acrescentar a um outro radical intraduzível em relação ao ego.
Este pensamento aparece como repetição que insiste por uma elaboração, o que nos
aproxima de uma concepção do aparelho psíquico como aparelho de tradução em que o
que não se pode traduzir é o outro enigmático e invasivo que Laplanche (1970, Op. cit.)
e Pontalis (1981) reconhecem na mãe que promove uma sedução avassaladora. Este
pensamento não é simplesmente um trabalho do ego buscando dar sentidos,
significões, representações; devemos compreendê-lo como uma imposição do que
está “de fora”, ou seja, a alteridade radical. Deste modo, é o pensamento que se impõe
ao aparelho, e o o contrário em outras palavras, o psiquismo é invadido por um
pensamento donde podemos reconhecer uma vetorização de fora (que interpretamos
como fora do sistema representacional) para dentro, o que em outras palavras é a
violenta irrupção do pulsional: afetão causada pela sedução.
81
O autor nos fala de uma aposta no intolerável, na experiência-limite, para definir
o pensamento do Fora”. Este é a ousadia de experimentar, possibilidade do novo e
invenção de resposta quando não há resposta satisfatória – pois para o traumático não há
resposta satisfatória.
Desenvolvendo este tema, o autor explica-nos que para permitir-se o novo e criar
em cima dele é preciso rearranjar valores, abandonar alguns mas, principalmente, criar
outros – portanto, o efeito deste pensamento na experiência-limite seria, então, da
construção de uma estética. E não é isto que o artista faz? Não é ele quem cria novos
valores e, com isso, uma nova estética a partir da obra de arte?
O trabalho do artista, ao nosso ver, seria paradigmático para se compreender o
pensamento realizado na experiência-limite. Sendo assim, pode-se levantar a hipótese
de que o artista se lança em direção ao trauma numa busca desesperada” para tentar
dominá-lo através da crião.
O que permite o trabalho de criação, o trabalho do artista, é, antes de tudo, esta
“abertura à alteridade. Os sujeitos que são tomados pela estética do belo evitam ao
máximo essa abertura; temem o outro, temem uma ameaça à unidade egóica, enquanto o
artista embarca nesta aposta no que Maciel Júnior chama de caos, como lemos na
passagem abaixo:
...o caos deixa de ser uma ameaça de dissolução e passa a ser condição de
criação. O homem que retorna do caos, tendo desafiado as associações regradas
e determinadas pelas opiniões, é como se retornasse do país dos mortos (Maciel
Júnior, 2001, Op. cit., p. 121).
O termo caos empregado pelo autor pode ser mal compreendido, por isso é
preciso que esclareçamos a que se refere. O caos de que Maciel Júnior fala significa um
potencial de possibilidades de ser” e o “pura desordem. São estas possibilidades de
ser que se impõem na irredutibilidade do outro interno de ser simbolizado.
82
Levando em conta a citação de Maciel Júnior, o movimento que reconhecemos
no artista em relação ao traumático, ao ponto duro do outro internalizado, seria o
seguinte: ele busca lançar-se em direção à afetação e, num momento seguinte, retornar
do “país dos mortos para poder, através desta experiência, enriquecer sua criatividade.
O retorno do país dos mortos remete-nos ao mito greco-romano de Orfeu,
paradigmático na compreensão do trabalho artístico: em busca de resgatar Eurídice, sua
amada e musa inspiradora, o músico e poeta Orfeu desceu às profundezas dos infernos,
encontrou-a lá, mas como nos lembra P. Commelin,
Plutão e Prosérpina (...) impuseram uma condição, isto é, que ele não a olhasse
antes de haver passado os limites dos infernos. Dirigia-se Orfeu para as saídas
das moradas infernais por um caminho em declive, e Eurídice caminhava atrás
dele; os namorados quase alcançavam as portas do mundo, quando,
impaciente por ver aquela que o seguia (...) o desgraçado amante se voltou
(Commelin, 1983, p. 231).
Sabemos o final da história: Orfeu perdeu novamente sua amada. Tal como
Orfeu, os outros artistas mergulham nos infernos pulsionais na busca do encontro com o
outro sedutor e inspirador para, na volta desta viagem”, tentar representar e assim
apoderar-se da “musa inspiradora” no entanto, a musa o pode ser alcançada, ela se
presentifica sem ser representada, vista”. O artista a traz a as portas do mundo
através de sua obra, e ali ela se expressa; mas na tentativa de represen-la o artista
percebe que não alcançou o resultado almejado. No entanto, é este mergulho que
permite que a criatividade do artista se exerça no mito de Orfeu, este personagem,
após perder Eurídice pela segunda vez, inspirou-se para cantar sua tristeza.
Toda a lógica deste movimento, no qual reconhecemos a
inspiração/traumatofilia, supõe uma “entrega” por parte do artista ao outro (ao fora), um
deixar-se afetar pelas forças pulsionais, que parece-nos relacionar-se com a origem da
criatividade do artista.
83
Um olhar mais detido sobre a criatividade, como veremos, destaca alguns
pontos importantes na nossa busca de compreender a “disposição artística”. O termo
criatividade em si já nos remete para alguma especificidade da possibilidade de se
efetuar o trabalho de criação um aprofundamento no estudo da "criatividade" tra luz
às relações entre esta, a inspiração e a criação artística.
III. 2 A criatividade
A contribuição de Donald Winnicott para o estudo da criatividade é de grande
importância (Winnicott, 1971) para compreendermos melhor as condições para que
ocorra a criação artística. Porém, seu olhar sobre o tema, bem como seu posicionamento
teórico em geral, é bastante distinto do nosso. Portanto, para podermos relacionar com
rigor seu olhar sobre a criatividade com o nosso sobre a inspiração, torna-se muito
importante que conheçamos bem sua conceão de criatividade, para eno podermos
aproximá-las; desta maneira, desejamos pontuar nossa particular leitura do texto deste
autor enquanto apreciamos seu pensamento.
III.2.1 Impasses e aproximações entre a criatividade e a inspiração
Winnicott expande para as mais variadas atividades humanas a compreensão do
que é a criatividade, e não a resume ao trabalho artístico. Ele se refere ao “viver
criativamente como indício de saúde não bastaria que o sujeito aceitasse a
castração”, seria preciso ser criativo. O viver criativo opõe-se à submissão à realidade
externa se esta submissão ocorre, viver passa a significar um estéril ajustar-se e
adaptar-se a essa realidade. A princípio este ponto de vista sobre a criatividade parece
84
contrário ao nosso, afinal temos valorizado a importância do estado de inspiração para
compreendermos a criatividade e pudemos entrever que nesse estado de inspiração
uma submissão à experiência, uma passividade. No entanto, se examinarmos melhor
este ponto, veremos que esta oposição pode ser reconhecida como falsa.
Quando encontramos em Winnicott a idéia de uma o-submissão à realidade
externa devemos reportar-nos à diferença entre realidade externa e realidade psíquica. A
inspiração, por conta de uma invasão do outro interno intraduzível, diz respeito a uma
realidade interna, e não à externa. Acreditamos poder compreender esta idéia de
submissão à realidade externa de acordo com o que Freud escreve em Neurose e psicose
a respeito da relão do ego com o mundo externo:
[nas neuroses transferenciais] o ego se defende contra o impulso instintual
[pulsional] mediante o mecanismo de represo [recalque] (...). o é
contradição que, empreendendo a repressão [recalque], no fundo o ego esteja
seguindo as ordens do superego, ordens que, por sua vez, se originam de
influências do mundo externo que encontraram representação no superego
(Freud, 1924b [1923], p. 167-168. O grifo é nosso.).
Por conta desta passagem, torna-se possível reconhecer a submissão à realidade
externa como a submissão à representação da realidade externa no psiquismo, o que
implica a neurose. A criatividade, sob este escopo, apontaria para algo além da
produção de uma neurose e além da submissão à representação; assim concluiríamos
que com um viver criativo” evitar-se-ia o recalque que impede a livre expressão
portanto percebemos que é posvel correlacionar a possibilidade de criar à estética do
sublime e à inspiração. Através da leitura que Jurandir F. Costa faz do texto
winnicottiano, encontramos outras possíveis articulações entre criatividade e inspiração.
Este autor oferece-nos uma boa metáfora para a criatividade proposta por Winnicott:
...o moinho de água ou vento, que aproveita a força da natureza para a realizão de
85
trabalhos úteis” (Costa, 2000, p. 18) deste modo, a criatividade diria respeito a um
deixar-se tomar” pela força pulsional, pelo excesso para, a partir dessa afetação, criar.
O próprio Winnicott não associa esta criatividade às pulsões sexuais tal como o
fazemos, mas sim a uma idéia de espontaneidade que diz respeito a uma pura expressão,
a uma pura agressividade (Winnicott, 1950). Não compartilhamos deste ponto de vista
que pressupõe que existiria vida psíquica além do pulsional. Acreditamos que, apesar
desta importante diferença entre a base teórica do estudo deste autor e a do nosso,
algumas de suas hipóteses e inferências podem ser-nos úteis, à medida que chamam
atenção para algumas questões que também temos trabalhado. Além disso, em seu
artigo "Playdoier pelos irmãos", Jurandir F. Costa desenvolve uma leitura particular do
texto de Winnicott na qual reconhece o pulsional na criatividade, ao escrever que “Para
Winnicott, portanto, a relação da pulsão com a insncia que limita seu fluxo é de
instigação recíproca. Uma incita a outra a se tornar mais forte e expansiva, dando
andamento ao movimento criativo” (Costa, 2000, Op. cit., p. 21), o que reaproxima a
leitura winnicottiana sobre a criatividade da nossa sobre a criação artística
compreendida como reação egóica às pulsões do id avassalador.
Ultrapassado este problema, parece que nos deparamos com outro: Winnicott é
enfático na afirmação de que não se deve confundir a criatividade com as obras de arte,
pois estas são o produto da primeira, que também pode produzir, por exemplo, uma
brincadeira. No entanto, de fato, a partir do raciocínio de Laplanche, devemos concordar
com Winnicott: a inspiração – o “enriquecimento” pela experiência que permite a
criação não necessariamente leva à criação da obra de arte, mas é condição para que
aquela se realize, e este também parece ser o olhar do autor inglês sobre a criatividade.
86
O sujeito criará se puder vivenciar esta posição passiva ao outro interno
irrepresentável para, a partir daí, responder com o endereçamento de sua produção. A
respeito do endereçamento, Winnicott teoriza que, na saúde, toda relação é criatividade,
o que segundo ele quer dizer que o indivíduo coloca algo de si próprio no outro e isto
traz o prazer de sentir-se vivo. Portanto o endereçamento faria parte do que este autor
chama de viver criativo. No entanto, o caráter de resposta que temos enfatizado o
parece estar presente aí, e sim sua idéia de espontaneidade que, ao nosso ver, o
conta do caráter compulsivo e “desesperado que reconhecemos no trabalho de criação.
Na leitura de José Outeiral e Luiza Moura, o viver criativo ao qual Winnicott se
refere é examinado sob outro prisma, estabelecendo-se como uma noção importante que
devemos levar em conta no que diz respeito às condições da crião artística:
O viver criativo se constitui para Winnicott na capacidade de transitar entre o
dentro e o fora, abandonar-se a estados não-integrados, com a confiança de que
é possível uma reintegração. Esta confiança, que permite flexibilidade e
permeabilidade ao self, é herdeira de uma experiência precoce (Outeiral &
Moura, 2002, ps. 3-4)
2
.
Acreditamos que esta leitura também vislumbra a compreensão de que o sujeito
pode criar se estiver diante de uma experiência de não-fechamento egóico e, deste
modo, de afetação que, no ponto de vista de Laplanche, refere-se à inspiração um
retorno à relação primária que temos abordado através do que Maciel Júnior reconhece
por experncia-limite.
Relembrando o que Maciel Júnior nos ensina, é apenas por conta de uma
afetação ocasionada pelo encontro com o outro que o sujeito poderá criar algo numa
tentativa de inscrever, de produzir significados. Interpretamos este encontro com o outro
2
A noção de self em Winnicott é um tanto obscura. Uma possível interpretação compreende o
self como uma concepção do aparelho psíquico como um todo, não se restringindo nem à
instância egóica nem a qualquer outra.
87
radical como um retorno à relação primária, como Laplanche propõe a respeito da
inspiração; acreditamos ser este o ponto de vista que Winnicott busca exprimir na
seguinte passagem:
A mãe correspondeu à criatividade primária da criança, tornando-se assim o
objeto que a criança estava pronta para encontrar. (A criança não poderia ter
criado a mãe, mas o significado da mãe para ela depende da sua criatividade.)
(Winnicott, 1956, p. 411. O grifo é nosso.).
O posicionamento de Winnicott em relão à criatividade, como vemos,
possibilita algumas associações com a perspectiva com que vimos trabalhando. Mas
ainda não exploramos alguns pontos importantes da abordagem deste autor ao tema
em particular o que ele chama de elemento feminino e elemento masculino do
psiquismo.
III.2.2 Os elementos feminino e masculino
A grande riqueza do ponto de vista de Winnicott sobre a criatividade está
exatamente no que este autor elabora acerca dos elementos feminino e masculino. Em
seu artigo sobre a criatividade (Winnicott, 1975, Op. cit.), este autor busca compreendê-
la através da idéia de uma expressão do elemento feminino, o qual se opõe a um
elemento masculino. A definição que este autor é que esse elemento feminino puro
diz respeito à pura existência, espontaneidade experiência primeira em que o se
separam ainda sujeito e objeto. Acreditamos poder aproximá-lo do que Freud chama de
o primeiro Ego da Realidade em "Os instintos e suas vicissitudes" (1915a, Op. cit.),
ou ainda daquele estágio inicial de indiferenciação do ego descrito em Mal-estar na
civilização (1930a [1929], Op. cit.) que se refere à origem do sentimento oceânico”
discutido por Freud nesse artigo. Tamm podemos associar este elemento feminino à
88
iia de afirmão desenvolvida em A negativa (Freud, 1925h) que pressupõe uma o-
contenção da expressão psíquica. Deste modo, ao articularmos o elemento feminino às
categorias freudianas, podemos reconhecer que este elemento, essencial para a
criatividade, diz respeito a um momento” primitivo do aparelho psíquico, aquém da
representação.
É quando Freud trata do Ego-prazer/desprazer, no artigo das pulsões (1915a,
Op. cit.), e da expulsão ou primeira negão de A negativa (1925h), que poderemos
encontrar uma resposta do aparelho à moção pulsional, fazendo surgir uma divisão entre
mundo interno e mundo externo. Parece-nos viável a aproximão deste momento ao
que será chamado de elemento masculino por Winnicott, pois este autor explica-nos que
este elemento aponta para os investimentos libidinais, as relações de prazer/desprazer e
as respostas à pulsão. O elemento masculino pressupõe uma separação entre “sujeito” e
objeto”, afinal refere-se a um impulso endereçado ao objeto. Segundo Winnicott o
elemento feminino “é”, enquanto o masculino faz”.
A criatividade, por ser proveniente do elemento feminino em oposição ao
masculino pode ser relacionada à possibilidade de permitir-se influenciar pelo mundo
externo, de permitir-se afetar e assim enriquecer o mundo psíquico com a experiência.
Portanto, a criatividade pode, mais uma vez, ser relacionada ao que chamamos de
inspiração ou traumatofilia; de fato, Porret nos chama a atenção para o fato de que esta
criatividade a que Winnicott se refere é
... uma criatividade originária que encontra sua origem na relação mãe-bebê.
Ele [Winnicott] liga esta criatividade primária à transmissão à criança pela mãe
de um elemento feminino puro (quer dizer, não ainda contaminado pela
masculinidade)... (Porret, 1994, p. 132.. A tradução é nossa.).
Deste modo, a observação de Porret permite-nos reconhecer no elemento
feminino os efeitos da sedução materna e uma conseqüente passividade do bebê, o que
89
nos aproxima da noção laplancheana de inspiração, mesmo reconhecendo que a sedução
para Winnicott não tem o caráter violento que Laplanche enxerga.
A experiência da criatividade sozinha não leva à criação da obra de arte, e o
mesmo vale para a inspiração é preciso que ocorra uma reação criadora negativa
para a criação de uma obra de arte realizar-se, o que nos remete à participação do
elemento masculino. De fato, Winnicott explica-nos que tais elementos nunca estão
totalmente dissociados, e é por isso mesmo que o impulso criativo pode ocorrer nele,
encontramos o elemento feminino expressando-se através de uma atividade que implica
o elemento masculino.
A leitura que Outeiral e Moura fazem da teorização de Winnicott sobre a
criatividade, buscando articulá-la à criação artística, esclarece-nos bastante sobre o
pensamento daquele autor e aproxima-se de nossas hipóteses:
...a obra de arte seria um espaço onde se tentaria conciliar o dentro e o fora, o
elemento feminino e o masculino, o ser e o fazer. Isto é, a obra se torna uma
busca desesperada de um self integrado e não o reflexo de uma integração.
Compulsivamente o artista buscaria a construção de si próprio nas
manifestações artísticas, ao mesmo tempo em que se expõe à admiração do
espectador, numa tentativa de se constituir através do olhar do outro (Outeiral &
Moura, 2002, Op. cit., p. 9).
Tal ponto de vista, ao denotar o aspecto desesperado” do fazer a obra para
construir territorialidades (aqui, o self, e na perspectiva de Guillaumin a fronteira entre o
ego e o id), apresenta-se próximo ao pensamento que buscamos desenvolver. A obra de
arte é concebida, assim, como um lugar de expressão do conflito psíquico e também
tentativa de elaborá-lo. Esta leitura remete-nos novamente a um olhar sobre a criação
como resposta, o que em nossa interpretação diz respeito à resposta ao id invasor.
Encontraremos ponto de vista semelhante sobre a criatividade no pensamento de
Maria Luiza S. Persicano, se considerarmos suas observações a respeito do rebro
90
humano do mesmo modo como tomamos a enunciação de um aparelho neuronal por
Freud no Projeto de 1895 (Freud, 1950a [1887-1902], Op. cit.); isto é, tomando o
sistema neuronal como metáfora do psíquico. Persicano escreve:
...posso afirmar que a criatividade ou capacidade criadora podem ser entendidas
como a capacidade de atualizar os potenciais inexplorados do rebro nunca
antes usados pela espécie ou pelo indivíduo um excesso de potencialidades
diante da ausência de necessidades imediatas, para o qual a vazão é a criação...
(Persicano, 2002, p. 196).
Deste modo, interpretamos que a criatividade remete-nos às potencialidades de
ser (o caos) de que Maciel Júnior fala, e também para a traumatofilia proposta por
Laplanche. O uso do termo criatividade denota em si mesmo quão enriquecedora é a
experiência da traumatofilia, ainda que perigosa, porque uma submissão ao outro
evidencia um sujeito desamparado, indefeso.
III.2.3 O olhar do outro e a criatividade
Devemos voltar-nos para a passagem citada de Outeiral e Moura (em particular
para o último parágrafo) se quisermos compreender melhor a complexidade que a iia
de criatividade abarca. Estes autores realçam um ponto importante da teorizão
winnicottiana, ainda não abordado por nós. Para enfatizar este ponto, devemos remeter-
nos a outro trecho daquele texto:
Buscas compensatórias de se constituir a partir do olhar do outro podem se
manifestar durante toda a vida, tanto numa compulsão a manter situações de
sedução com diferentes parceiros, como numa exposição de si próprio em
criações artísticas a serem admiradas por diversos observadores (Outeiral &
Moura, 2002, Op. cit., p. 8).
As duas passagem do texto de Outeiral e Moura a que nos referimos remetem-
nos à seguinte hipótese: O artista busca constituir-se através do olhar do outro, idéia
91
que também é defendida por Rabain (2003). Complexificando o que elaboramos sobre o
endereçamento da obra para o outro, percebemos que este movimento está intimamente
ligado com o aspecto elaborativo da obra. Através da resposta do outro à obra, o artista
poderá elaborar algo do que é interno e enigmático. Logo, o público poderá ocupar o
lugar de um outro que oferece instrumentos ao artista para poder representar e manejar
as territorialidades psíquicas, e conseqüentemente construir uma representação de si
mesmo. Esta busca por representar-se através do olhar do outro será sempre falha, daí
Outeiral e Moura enfatizarem o aspecto compulsivo deste trabalho artístico. François
Gantheret (2003) compartilha deste ponto de vista sobre essa busca incessante do
artista, lembrando-nos da tragicidade da tarefa artística de representar o que não pode
ser representado, tal como buscamos enfatizar ao remetermo-nos ao mito de Orfeu.
Freud, em Escritores criativos e devaneio (1908e [1907], Op. cit.), tamm
realça a importância da resposta do público para a obra do artista como viabilização da
possibilidade desse representar-se. Mas diferentemente de Freud e em consonância com
Laplanche (1999, Op. cit.), acreditamoso poder reduzir o apelo ao público, em última
instância, a uma busca de construção narcísica, de fechamento” – como enfatizamos no
catulo anterior, o endereçamento deve ser explicado principalmente pelo seu caráter
de reação ao outro inassimilável.
A criatividade, deste modo, o é somente uma noção semelhante à da
inspiração
3
por apresentar-se como condição da criação na qual o sujeito se abre para a
afetação; ela enriquece e enfatiza a complexa relação do artista com o outro invasor
interno ao qual reage, mas ao qual apela em sua busca de alguma possibilidade de
3
O próprio Laplanche, em Sublimation et/ou inspiration (1999, Op. cit.) reconhece o termo
“criatividade” como mais explicativo do fenômeno que investiga.
92
construção de uma representação de si mesmo. É a esta dimensão de apelo que o
pensamento de Winnicott vem trazer luz.
O que se delineia como fenômeno de grande importância nesta particular relação
do artista com o outro – uma reação e um apelo na construção de uma representação – é
o fascínio que o artista desenvolve por esse outro. O artista apresenta-se submetido ao
olhar, à sexualidade, à invasão de um outro ao qual ele apela. A iia de que um
fascínio se expressa aí está, de certa forma, implícita na noção de inspiração. Ainda
assim, ela pode esclarecer-nos algo mais sobre a relação entre o sujeito artista e o outro
invasor poderemos compreender melhor por que esse outro interno atraio artista, e
por que mantém um caráter sedutor, como percebemos na relão que os poetas
desenvolvem com suas Musas.
III.3 O fascínio
A questão do fascínio é uma interessante via a ser explorada, porque reporta-nos
ao perder-se no outro”, a uma abertura à invasão “territorialdo outro; no entanto, a
experiência do fascínio não é exclusiva ao artista. O sujeito submetido à autoridade do
líder e o sujeito apaixonado (Freud, 1921c) são dois exemplos em que Freud também
reconhece esta experiência de fascinação por um outro, e não implicam necessariamente
que o sujeito que os vivencia seja um artista. Deve-se ressaltar que nos voltamos para o
estudo do fascínio pois este termo expressa tanto um estado de passividade quanto uma
busca pelo encontro com o outro, e os dois exemplos tomados do texto freudiano apenas
realçam o que observamos. O que se apresenta como fundamental para nossa
investigação é o que há de comum em todas essas situações de fascinação, incluída a
inspiração artística: a postura de entrega”, de passividade a um outro sedutor.
93
A partir das duas posturas estéticas com que temos trabalhado a saber, a
estética do belo e a do sublime – podemos reconhecer duas possibilidades de fascinação
bem diferentes. O fascínio pelo belo nos remeteria para uma posição passiva diante do
falo, e o fascínio pelo sublime – e este é o caso do artista – nos remeteria à inspiração. O
que fascina o artista é algo que vem do outro e que demanda tradução, algo deduro” na
mensagem enigmática. Neste caso, é preciso permanecer exposto, aberto a uma
alteridade que o fecha essa ferida”, para que se possa construir algo da ordem do
novo, fora da lógica do recalque ou da foraclusão. Encontramos uma ilustração desta
experiência de fascínio no artista, intimamente ligada à inspiração e à estética do
sublime numa passagem quase didática das cartas que Vincent Van Gogh escreveu a seu
irmão Théo:
Eu mesmo não sei como pinto; venho sentar-me com uma tela branca frente ao
local que me impressiona, vejo o que tenho diante dos olhos, e digo a mim
mesmo: esta tela deve tornar-se alguma coisa e volto insatisfeito coloco-a de
lado e depois de ter descansado eu a olho com uma certa angústia e continuo
insatisfeito, porque aquela maravilhosa natureza es muito na minha cabeça
para que eu possa estar satisfeito mas no entanto vejo na minha obra um eco
do que me impressionou, vejo que a natureza me contou algo, falou comigo, e
que anotei isto em estenografia. No meu estenograma pode haver algumas
palavras indecifráveis erros ou lacunas no entanto, resta alguma coisa do
que o bosque, a praia ou a figura disseram... (Van Gogh, 1914 [1853-1890], Op.
cit., p. 96-97).
Van Gogh mostra-nos como é invadido por um outro (no caso, a “natureza”), de
modo que este outro o fascina e o leva ao trabalho desesperado” de tentativa de
tradução/inscrição psíquica.
O enfoque de nosso estudo sobre o tema do fascínio traz consigo a necessidade
de investigarmos mais atentamente estas posturas estéticas referidas. As conseqüências
de estar fascinado pelo falo ou inspirado”, são muito diferentes. Marie-Claude
Lambotte é uma autora que, a partir de sua clínica, no atendimento de melancólicos,
94
pôde reconhecer a gênese do que ela chama de “uma postura estética” durante a análise
destes sujeitos, e assim estudar as diferenças no funcionamento psíquico dependendo de
qual seja a postura estética pela qual o sujeito se regula. Seus textos que tratam deste
tema nos serão de grande importância, pois nos permitio compreender melhor os
efeitos das posturas estéticas que temos estudado nas possibilidades de crião; além do
mais, podemos destacar na obra desta autora um olhar bastante original sobre o fascínio.
III.3.1 A gênese de uma postura estética
Lambotte desenvolveu, a partir de alguns de seus estudos a respeito da
melancolia (2000, 2002, 2003), uma compreensão de como se desenvolve uma postura
estética que retirava seus pacientes melancólicos de uma situação mortificada”. Para
isso, foi-lhe muito cara a elaboração do conceito de objeto estético, diretamente
relacionado com a idéia de fascínio, como veremos mais adiante. Para compreendermos
do que se trata exatamente neste conceito de objeto estético, será preciso que sigamos o
pensamento da autora em torno do tema da melancolia, até chegarmos ao ponto que
desejamos a gênese de uma postura estética o referida ao fechamento narcísico, ou
seja, a estética do sublime.
Uma das caractesticas principais do quadro da melancolia, para Lambotte, é
que o sujeito melancólico o mundo sem relevo”. Isto quer dizer que não fascínio
pelos objetos do mundo: todosm o mesmo valor, o que, no final das contas, é nenhum
valor, porque algo se torna valioso em comparação com outra coisa quando o
sujeito tem o mesmo interesse por todas as coisas, não parece apropriado falarmos nem
em interesse nem em valor. No entanto, esta autora propõe-nos que esta postura do
melancólico diante do mundo esconde uma outra a de que, por trás deste mundo
95
fútil”, que não lhe desperta interesse, há um “mundo ideal (a autora conta-nos que seus
pacientes, ao se referirem a este outro mundo, utilizam-se de termos como “luz”,
fusão”, segurança”). Este mundo ideal é concebido através da idéia de um absoluto
que o sujeito é incapaz de alcançar, um absoluto do qual o sujeito foi privado, o que
termina por causar uma relação de “ou tudo ou nada com as coisas: ou eu tenho tudo,
ou fico com o nada!”. Isto, no ponto de vista do melancólico, justificaria sua postura
negativista.
Pois justamente na clínica dos sujeitos melancólicos a autora descobriu uma
possibilidade de estes sujeitos saírem dessa relão de “ou tudo ou nadapara tomarem
um objeto e o investirem (algo que podeamos esperar como improvável na
melancolia), o que quer dizer que o melancólico acaba por reconhecer algum relevo
neste mundo chato em que vive o objeto investido é o que Lambotte denomina
objeto estético. Ele evidencia o aparecimento do interesse, do valor.
Para entendermos como ocorre esse surgimento” de uma postura estética, é
preciso que acompanhemos o pensamento da autora mais detidamente. Ela nos ensina
que o sujeito melancólico “... se diz já morto por ter afirmado o reverso de toda
empreitada, em outros termos, o reverso do desejo” (Lambotte, “A propos de la
mélancolie: le défaut de perspective”, p. 3. A tradução é nossa.). Se ele já está morto, os
objetos o o atraem, pois a escolha objetal é sempre uma escolha diante da morte; o
interesse opõe-se à morte. O melancólico está fascinado pelo mundo do absoluto” de
tal modo que parece-nos correto afirmar que tal fascínio apresenta-se como mortífero
(Lambotte, 2002), paralisante. Este fascínio aponta para o fato de que nenhum objeto
mundano poderá satisfazê-lo, daí Freud dizer-nos em "Luto e Melancolia" (1917e
[1915], Op. cit.) que o melancólico sabe algo da trágica verdade de todo homem. Mas
96
no fundo, lembra-nos Lambotte, uma crea do melancólico de que naquele “mundo
do absoluto” poderia haver a possibilidade de satisfação, de completude de seu
narcisismo, porém ele é incapaz de alcançá-la. Acreditamos que tal fascínio diz respeito
a um sujeito voltado para a estética do belo que reconhecemos agora como paralisante,
por reportar-se a uma crença numa completude absoluta.
A autora aposta numa compreensão de por que as coisas se dão desta forma na
melancolia, assim como Freud o faz, através da proposição de que muito cedo em sua
vida o sujeito foi bruscamente abandonado pelo objeto, pelo outro que tanto ela
quanto Freud, Winnicott e Laplanche reconhecem na figura materna. Por conta desse
abandono, o sujeito passa a identificar-se ao desaparecimento do objeto ou, dito de
outra forma, à falta do objeto. O melancólico não consegue representar esta perda e o
efeito disto é traumático, já que o que não pôde ser representado incide violentamente
no aparelho, demandando trabalho psíquico. Reforçando o aspecto traumático deste
encontro, Lambotte remete-nos a um olhar indiferente da mãe” em relação ao bebê,
que causaria um enigma indecifrável, pois obstrui a construção de uma imagem de si
mesmo não tão precária. O melancólico sofre, portanto, da nostalgia de um encontro não
realizado com o outro.
Porém, como já adiantamos acima, Lambotte percebeu que o melancólico
poderia desenvolver algum tratamento
4
do traumático e sair de uma postura de fascínio
mortificante. Havia um interesse por parte de alguns de seus pacientes, ao longo do
tratamento, pela atividade de composição. Com isto, a autora quer dizer que, mesmo na
descrição desafetada que estes pacientes faziam do mundo, percebera uma ordenação tal
que mostrava-se como uma composição de um ambiente, um espaço com ... um apelo
4
O termo “tratamento” é aqui empregado no mesmo sentido proposto no capítulo II.
97
ao ‘ver’, dito de outra forma, à contemplação.” (Lambotte, A propos de la mélancholie:
le faut de perspective, Op. cit., p. 9. A tradução é nossa.). Esse processo é o que esta
autora chama de criação de um contexto.
A criação de um contexto tem por conseqüência uma nova visada” sobre os
objetos: passa-se a atribuir-lhes valores, pois que uma ordenação jamais será neutra, por
mais que o tente. Se valores para os objetos, algum será mais valioso que outros o
objeto estético de modo que a visão de um mundo chato” vai, aos poucos, ganhando
relevos. A formão de um contexto implica um complexo de relações entre os rios
elementos deste contexto, possibilitando a formão de uma rede associativa – cadeia de
representações, ou seja, a inscrição psíquica.
O objeto estético é aquele, na definição de Lambotte, que incita o sujeito a “abrir
os olhos”, é o objeto da contemplão, do fascínio. Nas palavras desta autora, ...a
construção estética se esforça por deixar visível o que, precisamente, ficava invisível...”
(Lambotte, 2002, Op. cit., p. 36. A tradução é nossa.). O objeto estético servirá de
possibilidade de expressar o que antes era tomado como “mundo do absoluto” o outro
sedutor internalizado através do investimento num objeto outrora banal, o que, em
nossa interpretação, põe em questão a própria crea na união com o absoluto. A
postura estética que surge com a criação do contexto e do objeto estético remete-nos à
estética do sublime, pois a apreciação do objeto agora volta-se para o invivel ou,
se quisermos, o indizível e não para um absoluto” que fecha sentidos. O fascínio
que encontramos nesta postura diante do objeto estético é de outra ordem que o
aquela mortífera: agora, o sujeito se coloca num trabalho psíquico que expressa a
tentativa de tradução ao mesmo tempo que se submete aos efeitos do intraduzível”.
98
A autora cita a pintura de naturezas-mortas como um exemplo do trabalho de
tornar o objeto banal em estético os ready-made de Marcel Duchamp (Argan, 1992,
Op. cit.) tamm se apresentam como um bom exemplo. Porém, Lambotte frisa que o
objeto estético não deve ser confundido com o objeto artístico, porque o primeiro é
criado num contexto clínico, durante o tratamento e tem valor para aquele sujeito
naquela análise a experiência do objeto estético, portanto, é singular. Se este é assim
definido, não podemos confundi-lo com o objeto artístico que possui um valor
compartilhado numa cultura, numa sociedade, numa época. Tomamos todas estas
considerações de Lambotte como pertinentes; no entanto, temos de reconhecer que se o
objeto estético não é necessariamente artístico, o objeto artístico é necessariamente
estético, pois reconhecemos como característica de todo objeto artístico essa
propriedade de expressar o invisível. Dito de outra maneira, uma postura estética
referida ao sublime deve ser anterior à criação artística, e esta deve estar condicionada
àquela.
Torna-se importante que relacionemos o que a autora nos ensina sobre a tomada
de uma postura estética e o fascínio pelo objeto estético, com os pontos de vista sobre as
condições da criação artística que abordamos na intenção de esboçar um quadro geral
do que pudemos avançar em nosso percurso sobre a inspiração dos artistas.
III.3.2 A postura estética do artista
Lambotte pôde privilegiadamente observar a construção de uma visada
estética na clínica dos melancólicos; no entanto, acreditamos que suas descobertas
permitem que articulemos suas considerações a respeito da importância e do caráter da
construção de uma “visada” estética, às condições da criação da obra de arte e, assim, à
99
noção de inspiração. É a própria Lambotte quem relaciona a constrão do objeto
estético ao trabalho artístico:
Devemos nos esforçar a todo custo para reinserir aquele [o objeto de gozo, um
objeto que permite a descarga, a satisfação econômica] dentro de um contexto,
de um meio, mediante um trabalho psíquico que consiste em um trabalho de (re)
composição, de arranjo, do mesmo modo que, através da disposição dos
elementos do quadro, o pintor dá testemunho de sua maneira de exprimir o gozo
(Lambotte, 2002, Op. cit., p. 30. A tradução é nossa.).
A autora reaproxima o trabalho artístico da gênese de uma estética – que
interpretamos como a estética do sublime quando conta-nos que o pintor alemão
Caspar David Friedrich era impelido por uma busca da verdade” que poderia ser
comparada à tomada de uma postura estética como a que observou na clínica, com seus
pacientes melancólicos. Esta busca orientava Friedrich na concepção e na produção de
suas obras que tentavam, em o, reproduzir essa verdade”, da mesma maneira que o
melancólico busca a “verdade” através do objeto estético e aqui devemos lembrar-nos
tamm de Giacometti e sua busca da “verdade”. É esta busca sempre falha (Gantheret,
2003) que permite o trabalho arstico.
Podemos reconhecer na construção do objeto estético a busca de alcançar e
transmitir a verdade do conflito psíquico, expressão da violência das marcas do trauma,
aquém da inscrição tal como interpretamos o que Heidegger observa acerca da obra de
arte. É notável a apreciação que este pensador faz do quadro de Van Gogh em que
vemos pintados dois sapatos de camponeses (Heidegger, 1950). Heidegger mostra-nos a
transformão do objeto banal num objeto que “expressa algo mais, que desoculta o
ente e, acrescentamos nós, que se apresenta como o objeto estético tal como Lambotte o
concebe.
O que parece esboçar-se nesta transposição do modelo de Lambotte para o plano
dos artistas, o é uma concepção destes como melancólicos, mas sim uma percepção,
100
na clínica, de um processo de fascínio e inspiração por um outro referido a uma
“aberturado psiquismo que, como temos visto, possibilita a crião. É digno de nota
que Laplanche, ao estudar a inspiração, parece reconhecê-la tamm no plano clínico
no processo analítico (1999, Op. cit.) sendo que o mesmo acontece no estudo de
Winnicott sobre a criatividade (1971, Op. cit.). De fato, é bastante freente nos estudos
psicanalíticos sobre a criação artística uma tentativa de compará-la à crião que se
realiza em análise (Gantheret, 2003; Gagnebin-De M'Uzan, 2003; Kahn, 2003). Não nos
parece apropriado, neste momento, investigarmos estas possíveis relações entre a
criação artística e a analítica pois isso nos afastaria demais de nosso objetivo de
compreender as condições da criação artística. Mas vale pontuar que um estudo
aprofundado das relões entre estes dois processos criativos pode mostrar-se bastante
frutífero, pois traria luz, ao mesmo tempo, sobre a importância da criação no trabalho
analítico e tamm sobre as possibilidades elaborativas do artista.
Voltemo-nos, deste modo, à nossas considerações sobre a postura estética do
artista. Para isso, vale a pena comentarmos um pouco mais sobre o artista a que
Lambotte se refere – Friedrich – e sua postura estética diante do mundo.
Caspar David Friedrich, como nos ensina Giulio Carlo Argan em sua obra Arte
moderna (1992, Op. cit.), foi um representante do movimento romântico nas artes
plásticas, movimento que surgiu como crítica ao neoclássico. O neoclássico aspirava a
atingir modelos de equilíbrio, proporção, clareza; a cnica deveria ser ...um
instrumento racional que a sociedade construiu para suas necessidades e que deve servir
a ela” (Id., ibid., p. 21). Ainda sobre o neoclássico, a escolha do que deve ser
reconhecido como belo deveria ser um ato crítico e racional. Podemos associar este
movimento artístico a um movimento encontrado tamm nos indivíduos: a dinâmica
101
egóica de assimilão, ordenação, ligão e fechamento de sentido, mais voltada a um
domínio do processo secundário (Freud, 1900a). Buscava-se um ideal de que o mundo é
racional e passível de ser organizado, decifrado e ordenado, onde a estética do belo era
exaltada.
Argan ainda nos explica que o movimento romântico, opondo-se ao neoclássico,
chamava a atenção para as particularidades, ao invés de uma iia de domínio do
universal. A razão passava a não mais ser tomada como o modo de compreensão do
mundo. Os românticos acreditavam que era preciso deixar-se afetar pelas sensações,
pelos sentimentos, pelas intensidades, para se ter uma verdadeira compreensão do
mundo; daí surge a necessidade de estar “abertoàs novas experiências, pois através
delas é que conseguiríamos alcançar a “verdade”. O mundo passava a ser visto como
misterioso e enigmático, e não mais compreensível racionalmente.
Reconhecemos nesta postura diante do mundo aquilo que tratamos por estética
do sublime uma postura que sustenta que o indecifrável” deve expressar-se, e desta
expressão advém a criatividade. O romantismo abriu os olhos” do sujeito moderno
para o fascínio, para a afetação, para a verdade do sujeito fragmentado, incapaz de
traduzir tudo, falto. O fato de Lambotte procurar num expoente do movimento
romântico alemão (Friedrich) aproximações com uma postura que permite a construção
de um contexto e de objetos estéticos, não se faz por acaso – Laplanche recorda-nos que
foram justamente os românticos que deram tanto vigor ao termo inspiração” e à sua
importância no processo criativo (Laplanche, 1999, Op. cit.).
Se o romantismo abriu os olhos do sujeito moderno para o fascínio, para o
aspecto disruptivo e violento da arte, de modo algum devemos entender que a arte
anterior a esse movimento o remetesse ao fascínio pelo outro enigmático. Ao nos
102
referirmos ao neoclássico e ao romantismo, estamos nos referindo à ideologia dos
movimentos artísticos, e o às obras de arte. Argan esclarece-nos bastante sobre este
ponto nesta passagem em que escreve sobre os termos clássico e romântico:
A cultura artística moderna mostra-se de fato centrada na relação dialética,
quando não de antítese, entre esses dois conceitos. (...) São duas concepções
diferentes do mundo e da vida, associadas a duas mitologias diversas, que
tendem a se opor e a se integrar (...). Teorizar períodos históricos significa
transpô-los da ordem dos fatos para a ordem das idéias ou modelos (...). Se
existe um conceito de arte absoluta, e esse conceito não se formula como norma
a ser posta em prática, mas como um modo de ser do espírito humano, é
possível apenas tender para este fim ideal, mesmo sabendo que não se
possível alcançá-lo, pois alcançando-o cessaria a tensão e, portanto, a própria
arte (Argan, 1992, Op. cit., p. 11).
O fascínio do artista reporta-nos à inspiração, posição de passividade ao outro
que tem sido reconhecida por nós como a postura caractestica e condicional à
realizão da obra de arte em qualquer grande artista. Por exemplo em Leonardo da
Vinci, e portanto bem antes dos Românticos, esta postura fica exemplificada na lebre
frase “o olho é a janela da alma”, como Freud nos lembra em seu artigo de 1910. Parece
ser exatamente este o processo criativo vinculado à inspiração e ao fascínio que
encontramos no "Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância" de Freud:
Leonardo pintava na busca do “conhecimento”, que Freud interpretou como sendo uma
busca da relação com a mãe sedutora afastada muito cedo do bebê Leonardo. Esta
particular relação com a mãe quando internalizada, inspirou e fascinou o artista na
produção de suas obras-primas como aSant’Ana” a que Freud se refere.
Assim, um quadro geral a respeito de nossas investigações pode ser, então,
traçado: tanto em Giacometti quanto em Friedrich, Van Gogh e Leonardo percebemos
uma mesma postura estética que se faz notar no fenômeno da inspiração. Um ponto em
comum no escopo de Freud, Laplanche e Lambotte permite-nos levantar a hipótese de
que as Musas inspiradoras dos grandes artistas sejam elas a verdade (Friedrich e
103
Giacometti), o conhecimento” (Leonardo), a natureza (Van Gogh), etc. são os
modos encontrados pelos artistas para tentar nomear o inomivel: a experiência de
sedução invasiva, traumática com a mãe e ocorrida muito cedo, que por um motivo
peculiar àquela relação específica não instrumentalizou o aparelho psíquico daquele
sujeito, de forma que o excesso se impôs diante da precariedade egóica numa
experiência-limite.
Este estado de passividade ao outro tem como contrapartida um processo de
criação que se opera como tentativa frustrada do ego de, ao mesmo tempo, reagir e
encontrar este outro. Para este processo realizar-se, como vimos, é necessário que o
sujeito fascine-se por algum objeto do mundo das coisas”, tornando-o estético, porque
este lhe permiti empreender seu projeto ambivalente tanto de separação quanto de
encontro deste outro sedutor, que caracteriza a crião da obra de arte.
O encontro, o perder-se no outro, não se realiza totalmente, mas o artista é
capaz de fazer com que o outro interno avassalador se expresse através da obra que
possibilita ao artista dar algum tratamento à violência desse encontro. A separação
completa o se efetua mas, como já examinamos, o artista constrói alguma elaboração
deste conflito interno tanto por conta da construção de uma tópica extraterritorial a
obra (Guillaumin, 1998, Op. cit.) quanto por conta de seu apelo ao olhar do outro
sobre a obra que, como Winnicott ressalta, pode instrumentalizar o artista a desenvolver
alguma representão de si mesmo.
Como vemos, o projeto é malsucedido” em suas duas ambições: não
encontro nem separação. O que se apresenta é umaabertura” ao outro interno, mas na
qual o sujeito o convalesce” como nas neuroses traumáticas. É a possibilidade de
104
sustentar esta abertura a estética do sublime que viabiliza o processo de criação do
artista.
Estas importantes hipóteses sobre o processo de criação artística e sua relação
com o outro interno demonstram ao mesmo tempo um desenvolvimento e uma
articulão de alguns pontos de vista que nos permitiram uma visão mais clara da
importância do fenômeno da inspiração para a ocorrência de uma criação artística e
desta para um tratamento do traumático reexperimentado naquela. Entretanto, nossas
investigações tamm nos remetem ao fato de que, por mais que tenhamos avançado em
nosso estudo, os mistérios da arte o foram desvendados ao contrário percebemos
que esses mistérioso podem ser desvendados porque dizem respeito àquilo que
escapa à compreensão, à representação e, por isso mesmo, a arte continuafascinando-
nos e impelindo-nos a pesquisar mais e mais.
Assim, fazemos nossas as palavras de JoOuteiral e Luiza Moura quando, ao
observarem suas próprias posturas ante Frida Kahlo, Camille Claudel e Coco Chanel
mas que podemos estender à nossa postura ante os grandes artistas em geral – escrevem:
... vemo-nos, frente a essas artistas, numa situação paradoxal: buscamos
desvendá-las, mas são justamente os seus mistérios que nos fascinam.
Ao mesmo tempo em que elas, como os demais artistas, tamm parecem viver
um dilema: a necessidade urgente de se comunicarem e a necessidade
igualmente urgente de não serem decifradas (Outeiral & Moura, 2002, Op. cit.,
p. 18).
Conclusão
Após nossa investigação acerca da crião artística ter-nos movido de um estudo
da sublimação para um estudo das condições psíquicas necessárias para que o ato de
criação artística se realize, podemos propor algumas importantes conclusões a respeito
das complexas relações entre a crião artística e a violência psíquica.
Aprendemos com a noção de inspiração que uma condição fundamental para a
realizão da criação artística é que o sujeito repita uma postura de passividade e o-
fechamento à mensagem enigmática do outro, semelhante àquela do bebê em relação à
mãe na experiência muito inicial do encontro traumático, ou seja, na relação primária.
Nesta postura, as defesas contra o efeito avassalador do outro sedutor intraduzível” e
internalizado estão ausentes e, surpreendentemente, é nesta mesma postura que se
coloca o sujeito diante da violenta pulsão que desperta a criatividade.
Ao nos aprofundarmos no estudo das condições psíquicas para a criação
artística, pudemos associar aquela noção de inspiração articulada à abertura” ao
traumático à construção de uma estética que interpretamos como sendo a própria
estética do sublime. Esta estética diz respeito a uma abertura do psiquismo que se
realiza porque a unidade narcísica é colocada em questão – uma postura que permite um
viver criativo”. O aspecto criativo do encontro com o pulsional e, mais
especificamente, com a pulsão propriamente dita a pulsão de morte é ressaltado
numa concepção da experiência do excesso pulsional como sendo um defrontar-se com
umpotencial de possibilidades de ser” que não se realiza por conta das ligações
psíquicas administradas pelo ego sob a predominância de Eros.
106
Ao nosso ver, a postura estética do sublime não deve ser confundida com a
sublimação. A segunda encontra mais afinidade com o que tratamos por estética do
belo, ou seja, uma estética voltada para um fechamento narcísico-fálico. a estética do
sublime necessária para a criação artística articula-se à posição de feminilidade, a
qual diz respeito à possibilidade de sustentar a trágica situação de desamparo diante do
outro, ao reconhecimento da fragmentação psíquica – do “intraduzível que nos habita e
ao qual incessantemente buscamos responder.
O desamparo, a fragmentação, a ação das marcas psíquicas intraduzíveis” do
trauma, dizem respeito a uma verdade psíquica de cujo contato, de cujo conhecimento, o
recalque protege o ego. Isto quer dizer que o recalque, na criação artística, não é bem
sucedido quanto a afastar o efeito das marcas; estas expressam-se na obra.
Para a tomada de uma postura estética não voltada para o fechamento – e,
portanto, que expresse a verdade psíquica é preciso que o sujeito seja tomado pelo
violento excesso pulsional de tal modo que, numa experiência-limite na qual as defesas
falham e tenha-se de reconhecer a expressão da pulsão, torne-se possível sustentá-la o
que impele ao movimento de criar. Aí está em jogo uma situação psíquica de tamanha
tensão na qual o sujeito responde desesperadamente” ao que não tem resposta. A
experiência do excesso, da invasão” do outro interno intraduzível não pode ser
dissociada da passividade, da precariedade do ego em se defender – a criação artística é
a resposta (ou defesa) possível à violência que se faz em ato. É neste fenômeno – o ato –
que o aspecto disruptivo da pulsão e a outra face desta moeda, ou seja, a precariedade
egóica, aparecem mais claramente: é neste momento” que o artista lançar-se-á no
impulso criador que o domina, e no qual ele pode dominar o que é excessivo e
107
violento da pulsão, ao contrário do que ocorre nas passagens ao ato que estão marcadas
pelos intensos efeitos violentos da pulsão de morte.
A precariedade egóica dos artistas tamm é particularmente observada ao
tratarmos das condições psíquicas para a criação da obra de arte. Uma particular
constituição psíquica em que a internalização do outro faz-se de tal forma que o sujeito
não pode defender-se dos efeitos violentos da sexualidade, remete-nos a um ego frágil,
de organizão preria, e que tem de recorrer aos destinos pulsionais aquém do
recalque para lidar com aquela violência. Através do “retorno sobre a própria pessoa”, a
partir da tomada da obra como uma projão egóica, o psiquismo pode direcionar a
violência psíquica para esta territorialidade psíquica exterior que a obra constitui.
Através da “transformão no seu oposto” o psiquismo pode alternar da passividade ao
outro sedutor, para a atividade como resposta a ele. Esta resposta implica um
endereçamento do “intraduzível” da mensagem enigmática ao outro, de modo que
aquele que recebe a obra o público é afetado pelos efeitos disruptivos que esta traz.
Esta complexa busca de domínio sobre o pulsional é própria da obra de arte: ela protege
o artista e o público da violência, e ainda permite um trabalho elaborativo.
Assim, o ego do artista o se organiza em função de um recalque com uma tal
força que possa bloquear e conter o disruptivo isto inviabilizaria a crião, tal como
pode-se perceber na esterilidade criativa do neurótico obsessivo. O ego do artista
tamm não convalesce, como ocorre nas neuroses traumáticas. O ego do artista é
invadido pelo disruptivo pulsional, pela expressão das marcas do trauma, e seu estado
de passividade revela-se como traumatofilia e traumatofobia ao mesmo tempo – ou seja,
o sujeito sente-se seduzido e, ao mesmo tempo, busca repelir o que é da ordem do
traumático. Sua resposta tem um caráter de reação devido à ineficácia do trabalho de
108
recalque e sublimão que deveria permitir uma contenção do excesso e uma
demarcação das territorialidades egóicas. Esta reação é umareação criadora negativa”,
pois é através desta reação (que constitui a própria obra) que o sujeito pode elaborar
alguma discriminação entre seu ego e o invasor” interno do id o outro
irrepresentável.
Se não nem falência egóica nem uma poderosa contenção pulsional no ato
artístico, podemos compreender a singularidade deste ao enfatizarmos que ele se
num tratamento” à violência psíquica daquilo que escapa à possibilidade de
representação: através da transmissão ao outro daquilo que é enigmático e disruptivo,
negando a posição de passividade e protegendo-se da autoviolência o artista encontra
uma via particular de domínio do pulsional. Queremos exprimir com o termo
“tratamento” a ação dos destinos pulsionais incapazes de contenção pulsional já citados
mais acima: atransformação em seu oposto” e o retorno para a própria pessoa”. Deste
modo, podemos perceber que é exatamente a confecção da obra de arte que impede o
artista de “convalescer” por conta de um ataque interno pelo qual é constantemente
ameaçado. A crião da obra aponta para a possibilidade de representar sem fechar-se
para o irrepresentável.
Como vimos, para a realizão da obra é preciso que o sujeito tenha
desenvolvido uma postura estética diante do mundo. Para isto efetuar-se, é preciso
“escolher” um objeto de fascinação o objeto estético no qual o artista encontra a
possibilidade de expressar a ambivalência da sedução vivida em relação ao outro:
atração e repulsa pelo traumático. A obra de arte precisa ocupar este lugar de objeto
estético, pois a possibilidade de estes movimentos ambivalentes se desenvolverem é
própria dela. Apenas encontrando um espaço razoavelmente seguro para experimentar a
109
inspiração/traumatofilia e tamm reagir à auto e heteroviolência através do
endereçamento é que pode-se falar na criação de uma obra de arte.
O artista é aquele que não é capaz de vivenciar a experiência do traumático e
dar conta desse excesso através da criação, como também aquele que busca esta
abertura, enquanto as pessoas em geral fecham-se: recalcam e sublimam em nome da
unidade narcísica. O artista, impulsionado que é em sua inspiração pelo excesso
pulsional, pela violência das pulsões diante a que permaneceu especialmente exposto,
responde a isto em ato, movimento externo/interno, paradoxalmente progressivo e
regressivo, processo de criação que põe em marcha, subjacente à aprimorada elaboração
que esse processo exige, mecanismos elementares e primários, aquém do recalque e que
não podem ser reduzidos à noção de sublimação. Deste modo, nosso estudo abre uma
nova via não para o estudo da criação artística em psicanálise, mas tamm outra via
na abordagem do tema da sublimação, a qual não corresponde à “abertura” ao pulsional
característica da arte, mas ao contrário, a um fechamento.
Deste modo, pudemos explorar uma linha de pensamento acerca da criação
artística que enfatiza a singularidade e a importância deste processo de domínio da
pulsão na vida psíquica do artista. Entretanto, um olhar sobre como o público
experimenta o efeito estético da obra de arte foi por nós salientada apenas como sendo o
receptor da mensagem enigmática veiculada pela obra. Seria de grande importância para
a compreensão dos efeitos psíquicos que a obra causa no público se, a partir do que foi
elaborado nesta pesquisa, desenvolver-se um estudo aprofundado dos efeitos da obra de
arte desta vez o no artista, mas sim no público isto traria luz à continuidade dos
efeitos do pulsional disruptivo que agora agiriam sobre o público, bem como aos
110
processos psíquicos a que este poderia recorrer para dominar a pulsão e haver-se com a
“abertura”.
Os autores que estudamos em nosso percurso, além de relacionar esta “abertura
do psiquismo à atividade artística, preocupam-se também em associá-la à clínica
psicanalítica. Se reconhecermos a hipótese de que a expressão da criatividade do sujeito
seria um índice de saúde psíquica, compreenderemos a importância da “aberturado
psiquismo na inspiração para uma pesquisa a respeito da clínica analítica. Parece-nos
particularmente importante no prosseguimento de nossas investigações o intuito desses
autores de aproximar a aberturapsíquica que reconhecemos como condição da arte,
daquela que ocorre na análise. Deste modo, somos levados a indagar: Se estaabertura”
tamm ocorre na psicanálise, pode-se aproximar a criação artística daquela que ocorre
na análise? O que diferenciaria o artista do analisando? A finalidade de uma análise
seria tornar o analisando “artista de sua própria vida”?
Estas importantes questões ainda não podem ser respondidas a partir do material
que desenvolvemos, mas elas nos fazem defrontar-nos com um horizonte que ainda está
por ser explorado com mais aprofundamento daquilo que apenas pudemos vislumbrar
por meio da realização desta dissertação. Nossa intenção é de, em outro momento, dar
seguimento a nossa investigação por estas vias acima esboçadas afinal as pesquisas
voltadas para tal possível articulão entre a criação artística e a analítica parecem-nos
frutíferas para uma melhor compreensão tanto da prática clínica quanto do “tratamento”
da violência que o artista realiza.
Acreditamos que nossa investigação, além de levar-nos aos questionamentos
acima, esclareceu-nos bastante acerca da precariedade do psiquismo do artista e da
intrincada relão que o autor passa a ter tanto com sua obra quanto com o outroa
111
quem a endereça. Assim, tal conhecimento permite o desenvolvimento de novos
escopos na pesquisa de casos clínicos graves no que diz respeito à passividade aos
efeitos disruptivos da pulsão, com a finalidade de tratar” a violência a que estão
submetidos não para torná-los artistas, mas para permitir-lhes tomar outra postura
estética diante do mundo e experienciar umviver criativo”.
Finalizando, é importante que ressaltemos que além dos problemas acima
mencionados que se apresentam diante de nós, algo próprio da criação artística que,
justamente por estar ligado ao pulsional às marcas, como tivemos oportunidade de
enfatizar não pode ser representado, ou seja, o pode ser dito, e permanece sempre
misterioso e inacesvel ao nosso conhecimento. Mas, como já foi frisado, é isto mesmo
que nos fascina e faz com que a produção destes sujeitos seja tomada pela cultura como
objeto de grande valor – a obra de arte.
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