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Em seu percurso, a atividade de investigação, que originalmente esteve atrelada
à criação artística, desenvolve-se numa busca de conhecimento sobre o mundo, busca
mais vinculada ao trabalho científico, mais afastada, portanto, da arte. Freud observa
que, à medida que se dedica à pesquisa científica, Leonardo passa a empenhar-se menos
no trabalho artístico. Ele parece encontrar na ciência a possibilidade de construção de
um ideal de conhecimento sobre o mundo – o que fará, aliás, de maneira muito eficaz.
Observemos atentamente mais um trecho desse artigo:
Depois da pesquisa, quando tentou voltar ao seu ponto de partida, o exercício
da arte, sentiu-se perturbado pelo novo rumo de seus interesses e pela mudança
na natureza de sua atividade mental. O que o interessava num quadro era, acima
de tudo, um problema; e após o primeiro via inúmeros outros problemas que
surgiam (...). Não conseguia mais limitar suas exigências, ver a obra de arte
isoladamente, separando-se da vasta estrutura da qual sabia que era parte
integrante (Freud, 1910c, Op. cit., p. 85. O grifo é nosso.).
O artista usara o pesquisador para servir à sua arte; agora o servo tornou-se mais
forte que o senhor e o dominou (Id., ibid., p. 85).
Levando-se em conta o que temos procurado realçar até agora sobre a
sublimação, baseando-nos ainda nas contribuições do estudo de Jean Laplanche desse
artigo de Freud sobre Leonardo (Laplanche, 1989, Op. cit.), podemos acrescentar que
neste são introduzidas duas vertentes bem distintas da sublimação: a artística e a
intelectual-científica. Na verdade, essas duas tendências são tratadas numa relação de
oposição, e parece-nos inevitável questionarmo-nos se se trataria nas duas vertentes
desse mesmo destino pulsional, ou seja, a sublimação. Em sua linha de argumentação,
Laplanche vem justamente sugerir este questionamento.
O principal problema nesse Leonardo de Freud, do ponto de vista da
sublimação, consiste em que ora nos são apresentadas duas atividades (pintura e
investigação intelectual) igualmente sublimadas e em luta uma contra a outra,
ora, e mais freqüentemente, a sublimação só é evocada para a atividade
intelectual e a luta entre as duas atividades é, em última instância, a
incapacidade (...) de retornar, pelo menos parcialmente, ao pulsional. De modo
que a atividade pictórica seria algo muito mais próximo do pulsional, daquilo