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A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL
Andreína da Silva Moura
Dissertação de Mestrado
Porto Alegre/RS, 2007
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A CRIANÇA NA PERSPECTIVA DO ABUSADOR SEXUAL
Andreína da Silva Moura
Dissertação apresentada como requisito parcial
para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia
Sob Orientação da
Profª. Dr.ª. Silvia Helena Koller
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Instituto de Psicologia
Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Março, 2007
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Dedico este trabalho, a todas as
famílias que sofrem com as
situações de abuso sexual.. a todos
as crianças, mães, pais.. enfim
todos aqueles que sofrem ou
sofreram com esta experiência em
algum momento de suas vida.
AGRADECIMENTOS
É madrugada, e está é a última parte importante dessa dissertação. Como
não sou poeta, serei clara, não vou usar metáforas. Vou apenas agradecer a todas as
pessoas que amo e que contribuíram direta ou indiretamente para que eu concluísse
o mestrado. Ao pensar nisso, dou-me conta de que muita gente (mas, muita mesmo)
esteve me acompanhando nessa caminhada que começou em São Paulo no ano de
2002, quando eu chorei ao ver uma palestra com os integrantes do CEP-RUA. Ter
tantas pessoas como companheiras denota que tenho ao meu lado muitas pessoas
importantes em minha vida. Isso me conforta e me deixa feliz.
Primeiro, agradeço a minha família, pois eles são sim meu alicerce, minha
força, meus primeiros e grades amores. Agradeço a minha mãe, Walda, por ter me
ensinado a lutar pelo que desejo, ao meu pai (Matos) por ter me dado o conselho
certo na hora certa, a minha avó Isabel pela sua doçura e apoio e ao meu irmão
(Júnior) pelo carinho e companheirismo. E claro, a todos eles pelo GRANDE amor
que sempre me dirigiram. Agradeço a vocês por terem me ensinado a amar, por
terem me ensinado que na vida as pessoas são bem mais importantes que as coisas.
Enfim; Família, amo vocês! E tenho muitas saudades de nossa convivência diária.
Agradeço também aos meus tios, primos e Maria pelo carinho. Ao meu
avô que, não está mais entre nós, por ter sido um grande homem.
Agradeço aos meus amigos. Tenho tantos! Amigos de verdade! Primeiro aos
de Natal: A Karlinha, a Lara, a Júbis, a David, Carlão, Alyson, Tita, Rayanne,
Débora, Maíra, João Felipe, Aninha, Karin. Kátya, Laali, Mateus, Felipe que foram
meus melhores espelhos. Amo, de verdade, todos vocês! Muitos foram chamados
pelos apelidos, pois é assim que os conheço... carinhosamente. Mesmo estando tão
distantes fisicamente, vocês continuam em mim e continuarão pra sempre. Um
agradecimento especial a Sol... Minha amiga brilhante, como seu apelido, com que
divido minha vida em tudo! Te amo! Tu sabes que é irmã que não tive. Não poderia
deixar de agradecer a Normanda, pois ela que me apresentou ao CEP. Mas, claro,
os agradecimentos não são por isso. Agradeço por ter sido uma companheira de
casa tão amável e agradável, por me apoiar sempre, tanto nos assuntos acadêmicos
quanto nos pessoais.
Quero agradecer também aos amigos que fiz em terras gaúchas. Cris e Mel
por terem sido sempre tão prestativas e o amáveis mesmo quando éramos ilustres
desconhecidas. Obrigada, gurias!
Outros amigos feitos aqui nos pampas: Michele, Laíssa e Clarinha. A
Michele, por ter sido uma boa amiga nessa fase final, a Laíssa por mesmo antes de
me conhecer ter me orientado... ainda me lembro dela chegando com os livros pra
me emprestar mesmo antes de eu pedir. A Clarinha pela sua meiguice e por ter me
acompanhado em momento difícil a minha vida.
Agradeço ao Vicente, pelas tardes de trabalho que passamos juntos. Ao
Lucas, pelas piadas que me fizeram rir sempre. Agradeço a ele também pela lucidez
das conversas. A Airi pela força que me deu em tantos momentos: Brigada, Riri!
Meus agradecimentos vão também para Ana Paula e Samara, por dividir um
momento profissional tão delicioso quanto aquele de Cruz Alta. A Camila, essa
cearense tão carinhosa que entrou na minha vida, pela sua dedicação. A Luísa e
Martha por terem me ensinado tanto sobre esse difícil tema que é o abuso sexual
contra crianças. A Carmem, tão querida, que sempre esteve ao meu lado. Ao Jan,
pelo seu carinho. Ao amigo William pelas horas de conversa.
A minha querida orientadora Sílvia Koller, pelas suas orientações, correções
e por acreditar em mim. Obrigada, Chefa! Terás para sempre minha admiração,
apreço.. amor mesmo!
Agradeço a minha equipe de pesquisa: Juliana, Marco, Renata e Carol, pelas
reuniões tão produtivas e prazerosas. Um agradecimento especial para Juliana, pois
começamos juntas na UFRGS, ela na graduação, eu no mestrado.
Agradeço também as professores da banca: Cleonice Bosa, Vera Ramirez e
Renato Flores pelas suas disponibilidades e contribuições tão relevantes ao meu
trabalho. Um agradecimento especial para o Renato que abriu as portas do
Ambulatório de Genética para que eu pudesse realizar a coleta.
Agradeço também ao CNPq por ter me proporcionado a oportunidade
material de cursar o mestrado.
Agradeço também as minhas professoras Martha, Rosangela e Magda, pois
afinal eles me iniciaram na vida acadêmica.
Agradeço aos meus queridos sogros (Sérgio e Valquíria Duvoisin) pelo
cuidado expresso de tantas maneiras nos últimos meses. Serei sempre grata a vocês.
Agradeço a Deus por ter-me feito capaz de levar meus sonhos adiante.
Finalmente, agradeço ao meu amor eterno Christian Duvoisin... meu
companheiro, meu amado. Te agradeço por tudo: pelas conversas, pela paciência,
pelo empréstimo do computador, pelas risadas, pelas nossas brincadeiras, pela
nossa amizade, pelos nossos planos,por você sempre, sempre, e sempre acreditar
em mim, por todo amor que me tens. Te amo, meu amor! Sempre! Todas essas
palavras não são capazes de expressar o quão feliz e grata sou a você.
Acabo por aqui com tantas lágrimas nos olhos... lágrimas de alegria por ter
me dado conta que tenho pessoas admiráveis a minha volta! Obrigada, sempre!
Muito obrigada!
É preciso fé cega
E pé atrás
Olho vivo
Faro fino
E tanto faz
(Engenheiros do Havaí)
É preciso ainda
Mudar de perspectiva
Mudar de ângulo
Olhar por trás
E isso exige que a gente
Mude
De ponta cabeça
E de frente pra trás
SUMÁRIO
CAPÍTULO I
INTRODUÇÃO.................................................................................................. 10
1.1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as
Crianças no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos.......................... 11
1.2 Abuso Sexual contra Crianças: Números, Conceitos e Definições.... 21
1.3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características....................... 29
1.4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças........................... 33
1.5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais ............ 41
CAPÍTULO II
MÉTODO........................................................................................................... 45
2.1 Delineamento ...................................................................................... 45
2.2 Participantes ....................................................................................... 45
2.3 Instrumentos....................................................................................... 49
2.4 Procedimentos..................................................................................... 49
CAPÍTULO III
RESULTADOS E DISCUSSÃO........................................................................ 51
CAPÍTULO IV
CONCLUSÕES................................................................................................ 126
ANEXOS
ANEXO A: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ............................ 139
ANEXO B: Termo de Concordância para o Departamento de Genética ...... 142
ANEXO C: Ficha Bio-Sócio-Demográfica ...................................................... 143
ANEXO D: Entrevista Semi-Estruturada....................................................... 144
7
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Fases do Ciclo Vital dos Participantes 51
Tabela 2: Visão sobre as Crianças 54
Tabela 3: Caracterização das Vítimas 58
8
Resumo
O objetivo deste estudo foi investigar as relações de abusadores sexuais com
crianças ao longo de suas vidas, de modo a obter sua visão sobre as crianças.
Estudos indicam que abusadores possuem distorções cognitivas sobre crianças.
Realizou-se um estudo exploratório descritivo com 5 homens, de 37 a 73 anos,
acusados de abuso sexual contra pessoas de até 13 anos, recrutados no Ambulatório
do Departamento de Genética da UFRGS. Os instrumentos utilizados foram: uma
Ficha Bio-sócio-demográfica e uma Entrevista Semi-Estruturada contendo questões
sobre visão acerca das crianças, relações entre participantes e crianças, etc. As
entrevistas foram realizadas individualmente, em sessão única. Os resultados
indicam relações saudáveis entre participantes e crianças, e uma visão não-
distorcida e positiva sobre crianças. Entretanto, essas respostas foram
estereotipadas, pois eles demonstraram capacidade empática limitada em relação às
crianças, depreciando suas vítimas infantis. Reflexões sobre a utilização de auto-
relatos na pesquisa com abusadores sexuais são discutidas.
Palavras-chave: abusadores sexuais; abuso infantil; visão sobre as crianças.
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Abstract
The aim of this research was to analyze child sexual abusers’ view about children,
through their relationship with them along their life spam. Researches indicate that
abusers have cognitive distortions about children. A descriptive exploratory study
has been carried out with 5 subjects, aged from 37 to 73 years old, accused of
sexual abuse against 13 year old children. A bio-social-demographic protocol and a
semi-structuralized interview containing questions related to view about children,
relationship between participants and children, etc. were applied to participants,
who were recruited at an ambulatory of genetics studies at the university. The
results indicated healthy relationships between the participants and children, and a
non-distorted and positive view about children. However, those answers were
stereotyped, as the participants demonstrated a limited emphatic capacity related to
children, depreciating their child victims. Self-report measures used in sexual
abusers research are discussed.
Keywords: Sexual abusers; child sexual abuse; perceptions about children.
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CAPÍTULO I
INTRODUÇÃO
O presente estudo teve como objetivo investigar as relações de abusadores
sexuais com crianças ao longo de suas vidas, de modo a obter sua visão sobre as
crianças. O abuso sexual infantil tem sido considerado um fenômeno que preocupa
a saúde pública, devido à freqüência com que tem sido identificado. O dano
psicológico que provoca pode perdurar ao longo da vida das vítimas (La Fond,
2005). Estima-se que a prevalência de abuso sexual na população brasileira seja de
30% (Picazio, 1998; Silva, 2002). No entanto, uma importante lacuna em
pesquisas sobre as vítimas, que é ainda maior, quando relaciona-se com dados sobre
abusadores.
A maioria dos estudos tem se concentrado nas vítimas, e uma das razões
para isto é a dificuldade que os pesquisadores têm em acessar e manter vinculados
os abusadores durante o processo de coleta de dados, sobretudo no âmbito nacional
brasileiro. Temas como empatia, presença de vitimização dos próprios abusadores
na infância e distorções cognitivas figuram em alguns estudos publicados.
Investigar a visão de abusadores sobre as crianças poderá auxiliar na
identificação de aspectos prévios ao abuso, que indicariam possíveis problemas
futuros, que crianças protagonizam os atos de abuso nos quais os perpetradores
são importantes coadjuvantes (Abel, Becker, & Cunningham-Rathner, in Horley,
2000; Gannon, Polaschek, & Ward 2005). A visão que o abusador possui sobre as
crianças está diretamente relacionada à que ele possui sobre ele mesmo (Horley,
2000). Este é um aspecto fundamental a ser investigado, porque ao longo da vida o
ser humano relaciona-se com outras pessoas e nestas relações vai construindo uma
visão de si mesmo. O próprio desenvolvimento ao longo do ciclo vital faz com que
a pessoa, em suas interações apresente, mantenha e revise sua visão pessoal. No
entanto, como vai agir com outras pessoas está sempre relacionado a como se
percebe (Horley, 2000). Entretanto, além da focalização deste estudo sobre este
aspecto individual dos abusadores, deve também ser reconhecida a possível
influência dos aspectos contextuais para ocorrência do abuso.
11
1.1 Modos de Perceber a Infância: Analisando as Crenças sobre as Crianças
no Contexto Social e a partir da Fala de Adultos
Ariès (1975/1981), em seu livro História Social da Criança e da Família”,
descreve como as formas de conceber as crianças em uma determinada época
ocasionaram também modos diferentes de lidar com elas. Este autor foi um dos
primeiros a investigar as concepções de infância no mundo ocidental, através de
obras de artes contendo figuras de crianças. A partir disto, descreveu, então, a visão
que os ocidentais possuíam sobre as crianças e como esta modificou-se através da
história. Tal análise sobre a visão social da criança ao longo da história, como
afirma Finkelhor (in Phelan, 1995) traz à tona importantes variáveis sociais
envolvidas no cuidado e no abuso.
Antes do século XIII, “a arte medieval desconhecia ou não tentava
representar a infância. É difícil crer que esta ausência se devesse à incompetência
ou à falta de habilidade. É mais provável que não houvesse lugar para a infância
nesse mundo” (Ariès, 1975/1981, p.50). Até o século XIII, crianças não eram
concebidas como seres em desenvolvimento, pois eram retratadas como adultos em
miniatura, com rostos, corpos e vestimentas típicas da fase adulta apenas em
tamanho menor. Ariès salienta que as crianças da época eram vistas como
possuidoras das mesmas capacidades dos adultos, diferenciando-se deles apenas
pelo tamanho e força física.
A partir de meados do século XIII, a criança começa a obter destaque no
mundo das artes, sendo retratada com características típicas da fase infantil.
Surgiram figuras de anjos que representavam crianças que eram educadas para
ajudar na missa. Este tipo de figura mantém-se presente até o século XV e, entre os
séculos XIV e XV, o Menino Jesus e a Virgem Maria Menina aparecem na arte,
representando a infância santa e sagrada. Ariès (1975/1981) conclui que a infância
retratada nas obras de artes desta época ainda não representava uma infância
comum, mas uma infância pertencente apenas aos santos católicos.
Nos séculos XV e XVI, crianças começam a ser retratadas em cenas
cotidianas, geralmente em grupos de pessoas, que eram na maioria adultos. Para
Ariès (1975/1981), este fato revela que a vida diária das crianças estava misturada
às das pessoas mais velhas. Ainda não havia separação cronológica entre os
períodos da vida, não havendo também divisão entre as funções destinadas a
adultos e crianças. As crianças participavam de todas as atividades, inclusive das de
trabalho. Ariès relata ainda que os pintores davam a estes quadros de crianças um
12
certo “ar pitoresco”. Esta característica era conferida pela representação de crianças
como seres engraçadinhos” e graciosos. O gosto por tais cenas coincide com o
surgimento do primeiro “sentimento” de infância, que Ariès denomina como
“paparicação” (p. 67). Tal “sentimento” diz respeito à consciência sobre uma
natureza particular da infância e é definido pela noção de que as crianças eram
indivíduos pitorescos, que servem para o divertimento dos adultos. A “paparicação”
foi identificada, por Ariès como um “sentimento” precoce, pois nesta época havia
ainda o que ele chamou de “desperdício necessário”. Tal desperdício” era a idéia
de que muitas crianças deveriam ser geradas, pois apenas algumas poucas
sobreviveriam devido à alta mortalidade infantil da época. A morte precoce de
crianças, o era sentida como algo desolador, pois era um fato costumeiro. Esta
concepção denunciava a pouca importância dada à criança, pois o fato de morrer
muito cedo, o provocava importância e atenção devidas. Por conseguinte, dar
atenção às crianças, mesmo que fosse para fins de diversão dos adultos, pode ser
considerada uma atitude precoce.
A partir do século XVII, as crianças passam a ser retratadas sozinhas nas
obras de artes e é apenas no século seguinte que surge, o que Àries (1975/1981)
chama de segundo “sentimento de infância”. Várias influências são apontadas como
causa para o “nascimento” deste segundo “sentimento”. A introdução das idéias
malthusianas de controle da natalidade na sociedade européia começava a
modificar a idéia de “desperdício necessário”. Por conseguinte, a criança, a partir
deste momento, poderia ser conservada e sobreviver. Desta forma, a maior parte
destas crianças precisa de cuidados especiais o que fez com que os adultos
prestassem mais atenção às necessidades delas. Outro aspecto que influenciou o
pensamento da época sobre as crianças, a partir do culo XVIII, foi a
cristianização dos costumes, que consistia em propagar o catolicismo entre as
pessoas leigas não ligadas diretamente ao clero. Um dos alvos deste movimento foi
o modo de tratamento das crianças. Estas passam a ser percebidas, então, como
seres que tinham “movimento de alma” (p. 69) e, por conseguinte, mereceriam
apreço e consideração dos adultos e da sociedade. Além disso, por ocasião da
cristianização dos costumes, a criança passou a ser vista como um ser inocente, pois
era livre dos pecados do sexo.
Algumas idéias moralistas e o surgimento das escolas para crianças também
foram fortes influências para o surgimento de um segundo sentimento de
infância”. Os preceitos moralistas dos organizadores dos primeiros bancos escolares
13
tinham como alvo aqueles indivíduos que por estarem no início de suas vidas
seriam mais propensos a serem educados. A idéia de que a criança é uma tábua rasa
é oriunda dessa época. A partir destes preceitos, a criança seria o centro das
atenções dos educadores e das famílias. Este é o germe tanto das idéias atuais sobre
a infância quanto da necessidade de oferecer cuidados e educação à criança para
que se torne um adulto sadio (Ariès, 1975/1981). O valor dado a educação nos dias
atuais ainda está associado a questão do desenvolvimento sadio da criança, o que
por sua vez, asseguraria uma adultez também saudável.
A ênfase nesta revisão busca demonstrar a importância que o estudo de
Ariès (1975/1981) dá aos modos de perceber as crianças ao longo da história
ocidental e, conseqüentemente, de como a visão de infância foi se modificando
através dos tempos. A análise de obras de arte revela que tais modos de perceber
refletem-se diretamente em formas de tratamento que são dedicadas à criança. Esta,
então, alcança mais e mais importância social e cultural através dos tempos e passa
a ser reconhecida como um ser em desenvolvimento, que merece ser tratada de uma
maneira específica. Contudo, tal abordagem da infância ao longo da história
apresenta alguns aspectos que vem sendo contestados. Alguns autores criticam o
presentismo de Ariès (Archad, 1993; Pollock, 1983; Santos, 1996), que definem
como uma forma de conceber os fenômenos a partir de uma perspectiva do
presente. Tais críticos alegam que analisar os “sentimentos de infância”, a partir de
uma perspectiva do presente impossibilita a percepção de particularidades destes
“sentimentos” nas épocas passadas. Segundo os críticos, quando Ariès não encontra
atitudes que mostrem o moderno “sentimento” de infância, conclui que ausência
deste “sentimento” ou da consciência da natureza particular da infância. Os
opositores de Ariès afirmam ainda que ele apenas constata esta ausência, sem,
contudo, indicar como as crianças eram percebidas antes do século XVIII. Segundo
Santos (1996), antes do século XVIII, as crianças eram vistas a partir de
características de vulnerabilidade, potencialidade e pouca responsabilidade, tais
como nos dias atuais. Contudo, afirma que não havia a idéia de uma ligação entre a
mentalidade do adulto e da criança, sendo “a passagem entre os estágios de
desenvolvimento concebida como um problema de iniciação e não de formação” (p.
82). Ou seja, não havia a idéia de que os acontecimentos ocorridos em uma
determinada fase eram importantes para as posteriores. Desta forma, para os pais ou
pessoas que estavam em contato com a criança, o importante era iniciá-la em certas
atividades, não sendo tão essencial ajudá-la a se desenvolver nestas novas funções.
14
As fases da vida eram vistas como uma repetição de experiências, e não como uma
etapa de preparação para a fase adulta.
Como conseqüência desta crítica outra, ainda mais contundente. Os
críticos de Ariès alegam que ele exagerou ao afirmar que o sentimento de infância
não existia antes do século XVIII. Santos (1996) destaca que a sociedade medieval
conhecia um sentimento de infância, que, contudo, era diferente daquele que se
inaugurou na modernidade e que se faz presente nos dias de hoje. De qualquer
forma, os estudos de Ariès foram importantes na medida em que impulsionaram
várias outras pesquisas sobre a visão social de crianças ao longo da história
ocidental.
Além das idéias de cuidados e educação voltadas às crianças apontadas por
Ariès (1975/1981), ainda outras características, no âmbito social, associadas à
fase infantil. Phelan (1995), por exemplo, salientou que na sociedade ocidental a
concepção de que a criança deve ser sempre obediente aos adultos. Este tipo de
atitude perante as crianças pode ser um facilitador para as situações de abuso,
que elas dificilmente irão se opor com veemência às decisões tomadas pelos
adultos, mesmo que estas sejam abusivas. As crianças também são comumente
vistas como seres dependentes dos adultos em todos os sentidos (biologicamente,
financeiramente e etc.). Ao conceber a criança desta maneira, não haveria, na
sociedade ocidental, meios de a criança reivindicar os mais variados direitos
(Kramer, 1999). Enfim, pode-se perceber que a visão atual que se tem acerca da
criança se faz a partir de várias marcas” que a colocam, ao mesmo tempo, como
um indivíduo especial e como alguém que não é capaz de reivindicar os seus
próprios direitos pela sua própria voz. As crianças têm este direito assegurado pela
Convenção sobre os Direitos da Criança promovida pela Organização das Nações
Unidas (United Nations Organization, UNO,1989). que se comentar ainda que
os tratamentos diferenciados com os filhotes (no caso dos humanos, com as
crianças), apesar de ser uma característica recente na história humana, já é
percebida entre várias comunidades animais, inclusive entre os chimpanzés. Estes
tratamentos, entre os chimpanzés são percebidos pela sucessão da época de
acasalamento e de cuidado com a prole que raramente se misturam, atestando que
as mães, quando seus filhos nascem, se dedicam ao cuidado integral de seus
filhotes, pois estes dependem delas (Duhram, 2003). Analisar o cuidado com a
prole em outras espécies é importante, pois esse aspecto atesta a ligação humana
com os outros animais na cadeia evolutiva.
15
No Brasil, alguns estudos foram desenvolvidos avaliando concepções por
trás das leis direcionadas para crianças (ver Londoño, 1999). Uma revisão destes
aspectos também auxilia no entendimento da percepção que a sociedade tem das
crianças e de como uma criança em desenvolvimento constrói a visão de si mesmo
e das demais crianças ao longo de seu ciclo vital. Um levantamento no acervo
bibliográfico da Faculdade de Direito na Universidade de São Paulo realizado por
Londoño (1999) revelou que desde o fim do século XIX, o termo “criança” associa-
se freqüentemente ao termo “menor”. Antes desse período “menor” não era comum
na literatura jurídica e que a partir da década de 20, do século passado, tal termo
aparece associado à criança em situação de abandono e marginalidade, além de
indicar uma condição jurídica e civil e os direitos que lhe correspondiam. O
surgimento desse termo representou o “nascimento” de uma nova categoria para a
área jurídica (a figura do menor) e também de uma nova atitude perante algumas
crianças. Antes do fim do século XIX, a palavra menor como sinônimo de criança,
jovem ou adolescente era utilizada para definir os limites etários relativos à
emancipação paterna ou às responsabilidades civis e criminais. Até fins da década
de vinte do século passado, não havia legislação voltada mais especificamente para
crianças e adolescentes no Brasil, sendo que quaisquer determinações legais
estavam em outros conjuntos de leis. Nestes códigos, segundo Londoño, havia
disparidade entre os critérios de idade para definir responsabilidades civis e penais.
Alguns artigos poderiam definir que menores de 17 anos fossem mandados às
prisões, já que era entendido, naquela época, que estes indivíduos possuíam
discernimento sobre o ato criminoso. No entanto, apesar de serem tidos como
conscientes sobre seus atos criminais nesta idade, apenas aos 21 anos sairiam da
tutela do pátrio poder. As diferenças atribuídas às questões de idade demarcavam
que em determinados momentos as crianças podiam ser concebidas como adultas.
A definição do que é ser criança, a partir da lei, era bastante indefinida.
Em 1927, surge o Código de Menores baseado na Doutrina do Direito do
Menor. Este código tanto definia quem eram os “menores”, bem como ditava os
modos de tratamento jurídico a algumas crianças e os direitos delas, em geral as
abandonadas ou infratoras, passou a ser dever da lei. Entretanto, as crianças que
possuíam uma família continuavam a ter seus direitos regidos pelo código civil da
época. Tais fatos revelam duas visões muito distintas sobre as crianças no Brasil: as
“filhas de família” com seus direitos garantidos e os menores”, que além da sua
situação de risco, eram também vistos como perigos para a sociedade. Tal noção de
16
periculosidade associada à figura da criança baseava-se no entendimento que sem a
tutela dos pais sua natureza seria descontrolada, o que acarretaria comportamentos
inadequados. O Estado tinha, então, a tutela destas crianças e esta ameaça potencial
exigia repressão.
Em 1979, surge o segundo Código de Menores, agora, balizado pela
Doutrina da Situação Irregular, distinguindo os abandonados daqueles que eram
“criminosos” (Silva, 2004). Mesmo com esta distinção, estas crianças e
adolescentes estavam sob a mesma insígnia da situação irregular. A imagem da
criança associada a noções negativas de abandono e marginalidade pode ser um
facilitador de abuso de todos os gêneros, já que elas não teriam um cuidador
responsável que lutasse por seus direitos.
Apenas na década de 80 do século XX, a visão sobre as crianças e os
adolescentes no Brasil começou a ser modificada (pelo menos na forma da lei). Em
1990, foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA; Brasil, 1990)
baseado na Doutrina da Proteção Integral, com base na Convenção sobre os
Direitos da Criança (UNO, 1989), que tem direção oposta às duas anteriores
(Doutrina do Direito do Menor e Doutrina da Situação Irregular), pois não
preconiza a repressão ou o tratamento diferenciado entre as crianças. Para o ECA,
todas as crianças são vistas como dever do Estado, da família e da sociedade, que
devem zelar pelo bem estar destes indivíduos. Além disso, o ECA protege todos os
direitos de todas as crianças sem distinção de raça, gênero, condição
socioeconômica, etc. A criança é compreendida como um ser em desenvolvimento,
sendo também um sujeito de direitos e deveres. Mesmo com o advento promissor
do ECA (Brasil, 1990), como salienta Londoño (1999), o preconceito e a violência
contra as crianças ainda existe.
A visão sobre as crianças na sociedade brasileira tem uma história que
certamente afeta o macrossistema social, as crenças e as ideologias compartilhadas
pelos seus membros. A visão brasileira da criança partilha da visão ocidental,
analisada na obra de Ariès (1975/1981) e outros autores (Kramer, 1999; Phelan,
1995) nas quais a criança é um ser que deve ser educado e controlado e, ao mesmo
tempo, é inocente. Além disso, a criança também é vista como um indivíduo que
possui direitos a serem zelados. A contextualização dos modos de ver a criança em
indivíduo que possui direitos a serem zelados. A contextualização dos modos de ver
a criança em nível macrossocial suscita um entendimento sobre o que é ser criança
17
e o modo de lidar com ela, mesmo levando em conta estudos que tem como fonte
de dados leis e obras de arte.
Algumas pesquisas que investigaram o modo como as pessoas definem o
que é ser criança podem expandir a compreensão sobre a visão social da infância na
sociedade, que influencia a visão pessoal, especialmente quando é abordada a
violação de direitos da criança. Uma pesquisa realizada por Heilborn (1997)
revelou que pais moradores de bairros periféricos do Rio de Janeiro concebiam seus
filhos como indivíduos que precisam ajudar nos afazeres domésticos ou com
trabalhos remunerados, como uma forma de recompensar seus cuidadores. A
compensação seria uma troca tanto pelos bens materiais quanto pelos cuidados
físico-emocionais fornecidos pelos pais. O trabalho doméstico no caso das meninas
e o trabalho remunerado no caso dos meninos seria algo permitido e estimulado.
Tal visão de que crianças precisam trabalhar para compensar os cuidados que lhe
são dados é um fator importante, pois influencia tanto a entrada e a manutenção de
crianças no mercado informal de trabalho quanto o tipo de parentagem que elas
estão recebendo. O trabalho, enquanto atividade remunerada e aprendizado de um
ofício reveste-se de uma identidade social legítima para as crianças. Os valores que
embasam essa visão de mundo estão na base das escolhas que realizam em suas
vidas (Heilborn, 2000).
Em estudo com professores, sobre as representações sociais das fases do
desenvolvimento humano revelou uma concepção de infância definida como fase
de brincadeiras e dependência (Almeida & Cunha, 2003). A dependência foi
explicada como um “elemento estruturante” para a representação que estes adultos
possuíam sobre as crianças. Por conseguinte, a partir da “dependência”, viam as
crianças como incapazes de cuidar de si mesmas e menos capazes cognitivamente.
A adultez apareceu como ponto ótimo do desenvolvimento para estes professores, e
as demais fases como incompletas em relação a esta. A criança vista como um ser
lúdico e pueril e o adulto como um ser completo pode gerar uma relação de poder e
atitudes de um ser superior dirigidas a quem não tem capacidade de se
responsabilizar por si mesmo, neste caso a criança.
Em um outro estudo, Gaiva e Paiao (1999) investigaram qual a visão que
estudantes do curso de graduação de Enfermagem possuíam sobre as crianças. O
estudo foi realizado em dois momentos: antes e depois de uma disciplina sobre as
concepções da criança na atualidade. A disciplina tinha como objetivo esclarecer
que tais concepções seriam uma construção determinada pelas mudanças sociais e
18
históricas, mostrando também que na época as crianças são vistas como sujeitos de
direitos. Os autores relatam que, no momento anterior a esta disciplina, as respostas
das enfermeiras realçaram a imaturidade, e o conseqüente despreparo da criança
para a vida. Seriam também seres “engraçados” e “bonitinhos”. A criança seria
também um ser frágil que necessitaria da proteção e do cuidado dos adultos. A
imagem da criança também foi associada à diversão e às brincadeiras, elementos
estes que as distanciavam do mundo do trabalho. No segundo momento, após o
término da disciplina, as características anteriores continuaram a ser relatadas.
Entretanto, nessa segunda etapa, as participantes destacaram que as crianças o
sujeitos de direito, que merecem um espaço no qual possam ser ouvidos. Os
resultados dessa pesquisa sugerem que a concepção da criança na sociedade atual
ainda é marcada por elementos da concepção da modernidade (imaturidade, etc.) e
por noções mais novas que compreendem a criança como sujeitos de direitos.
As diferenças entre meninos e meninas também são importantes para uma
compreensão mais abrangente sobre a visão que as pessoas possuem sobre as
crianças. Em uma pesquisa com pais de escolares, detectou-se que os meninos
foram vistos como mais agressivos, duros, agitados, esportistas e as meninas foram
vistas como mais educadas, calmas e quietas (Souza, 2000). A visão dos pais sobre
as características de meninos e meninos foi estereotipada e esse tipo de visão é
comum na sociedade. Esta idéia aparece no estudo de Bonamigo e Koller (1995),
que comentam que em qualquer cultura, até nas primitivas, existem diferenças nas
funções delegadas a homens e mulheres. Tais diferenças podem se basear em vários
fatores, conforme pontuam Rosaldo e Lamphere (1979), inclusive no fato de as
mulheres serem as responsáveis pelo nascimento e cuidado dos filhos. Elas
dedicariam boa parte do seu tempo a essa função, exercendo funções mais passivas
e domésticas. As funções femininas de cuidado com os filhos e com a casa foram
tornando-se secundárias, enquanto as masculinas por serem mais dinâmicas foram
conservadas. Certamente, funções adultas diferenciadas por gênero têm sua origem
na infância e em como esta é percebida.
A partir das funções executadas pelos dois sexos, foram se consolidando
características determinadas a cada um deles. As meninas foram tidas, então, como
dóceis, passivas, afetuosas, pacientes enquanto os meninos foram vistos como
agressivos, fortes, competitivos e independentes (Biaggio, 1981). Há, ainda, a idéia
de que a mulher por possuir todas essas características seria um ser frágil que
necessitaria dos cuidados masculinos (Strey, 1998). Essas características foram se
19
constituindo como os papéis sexuais que seriam o conjunto de normas referentes às
atitudes, comportamentos, valores que são concebidos como adequados para cada
sexo, em uma determinada cultura, em um determinado momento (Graciano, 1978).
Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos sexuais, atuando como padrão
fixo do que significa ser homem ou mulher. Esses estereótipos são essenciais para a
sociedade, pois permitem a conservação, nesse caso, dos papéis sexuais, servindo
como mediadores de um acordo implícito em um grupo social. Contudo, apesar de
serem tão importantes, os estereótipos sexuais são um grupo de características fixas
e pré-concebidas sobre como gêneros diferentes devem se comportar e que, muitas
vezes, ditam o que é ou não permitido em seu comportamento. O que não é
permitido nesse grupo de características pode ser visto como anormal, necessitando
ser modificado. Os estereótipos sexuais podem ser considerados como aplicáveis a
todas as idades, inclusive às crianças. É comum que esses estereótipos se associem
também a questão da sexualidade: a virgindade seria valorizada para as mulheres e
os comportamentos sexuais seriam mais permitidos para os homens (Giffin, 1994).
Embora, a valorização da virgindade feminina esteja declinando (Taquette, 1997),
tendo como reflexo a diminuição na taxa de adolescentes virgens (Heilborn &
Bozon, 2001), a castidade feminina ainda é valorizada. Em contraposição, os
comportamentos sexuais masculinos são mais permitidos, pos embora haja a noção
de que o sexo é algo natural para a espécie humana, essa premissa se aplica mais
aos homens (Giffin, 1994). O homem possuiria uma natureza sexual irrefreável o
que faria com que ele tivesse dificuldade em controlar tais impulsos. Além disso,
Essas diferenças na concepção sobre a sexualidade de homens e mulheres se
baseiam nas formas patriarcais da organização da sociedade (Narvaz, 2005).
Outras questões são relevantes para um melhor entendimento da visão sobre
as crianças. A nova concepção da infância e subdivisão das idades do ciclo vital,
antes inexistente na sociedade ocidental foram fatores importantes na “invenção”
do mais novo período da vida: a adolescência (Salles, 2005). As crianças sendo
concebidas como seres completamente distintos e dependentes dos adultos
necessitariam de uma fase de preparação para a chegada a adultez. A adolescência
surgiu, então, como esta fase de preparo para a vida adulta. Salles comenta que a
idéia da fase adulta como meta é inerente a idéia de desenvolvimento humano, pois
a infância a adolescência seriam etapas a serem ultrapassadas para que o
desenvolvimento pleno (adultez) se estabeleça. A partir dessa separação, a
definição da infância e da adolescência seria possível pela contraposição às
20
características do mundo adulto, o que determina uma posição adultocêntrica em
relação às outras fases do desenvolvimento. Uma importante discussão feita por
Salles diz respeito às mudanças que têm ocasionado uma certa dificuldade em
demarcar os limites entre os ciclos da vida, pois uma “uma desconexão nas
diferentes dimensões que definem a entrada na vida adulta” (Salles, 2005, p.38).
Assim, o processo de ingresso na adultez agora é feito com outros parâmetros
distintos daqueles originados na modernidade. Os critérios usados para a entrada na
adultez a partir da era moderna se baseavam no modelo clássico de socialização.
Este modelo fundamenta-se na idéia de desigualdade entre adultos, crianças e
adolescentes, no qual o adulto possuía autoridade e sabedoria superiores as do
público infanto-juvenil. O acesso a informação pelas crianças adolescentes que faz
com que este público entre em contato com conteúdos de violência, sexo e conflitos
íntimos, e a maior autonomia dada as crianças e adolescentes, por exemplo,
questionam esse modelo de socialização. Se antes o acesso a informações e os
comportamentos eram controlados pelos adultos de acordo com a faixa etária de
crianças e jovens, na atualidade é dado a adolescentes e criança o direito de
questionar se o comportamento ditado pelo adulto é o mais adequado. Além disso,
o público infanto-juvenil entra em contato com conteúdos que não o mais de
posse exclusiva dos adultos. A partir dessas e de outras mudanças, a organização
das idades da vida torna-se mais complexa, pois ela não se baseia mais na
hierarquia entre as idades. Ou seja, agora não se pode mais afirmar que certos
comportamentos são permitidos apenas na infância, apenas na adolescência ou
apenas na adultez. Assim, os critérios cronológicos, apesar de ainda válidos, não
seriam mais uma dimensão básica para delimitar os ciclos vitais. Essas
modificações na sociedade, além de desordenar as idades da vida, questionam
também o adultocentrismo (Salles, 2005).
A infância não se caracterizaria apenas pela oposição a adultez, mas também
à adolescência. Hall (in Newcombe, 1999) inaugurou, na ciência psicológica, a
idéia de que a adolescência seria um momento de crise e de conflitos. Essa fase
seria atravessada pela descoberta da sexualidade, pela perda dos referenciais
paternos, entre outros. Assim, ao contrário da infância tida como um momento
destinado às brincadeiras, felicidade, ausência de problemas, etc. a adolescência
seria um período turbulento. Tais idéias de crise e estresse da adolescência a muito
ultrapassaram os saberes da psicologia. Atualmente, tais concepções estão
distribuídas pelo senso comum, sendo corriqueiro, portanto, que as pessoas definam
21
os adolescentes, por exemplo, a parir da rebeldia e da revolta que naturais dessa
época da vida (César, 1998).
Após rever os estudos descritos até aqui, pode-se notar que a visão de
criança na sociedade atual, ainda guarda elementos da modernidade (inocência,
imaturidade, etc.), mas também começa a ter outros contornos que impulsionam
uma maior autonomia delas. Os modos de ver as crianças podem ser partilhados
entre pessoas de uma dada sociedade, e dependem de contextos sociais e culturais.
A visão sobre as crianças que é gerada tem forte influência sobre os hábitos,
atitudes e crenças das pessoas no cotidiano e sobre a percepção de si mesmas.
Como afirma Salles (2005): “Há uma correspondência entre a concepção de
infância presente em uma sociedade, as trajetórias de desenvolvimento infantil, as
estratégias dos pais para cuidar de seus filhos e a organização do ambiente familiar
e escolar” (p. 33). Muitas dessas crenças podem ser adequadas, uma vez que
revelam cuidados e proteção. Entretanto, outras podem ser fragilizadoras, por não
respeitarem os limites e as potencialidades que crianças e adolescentes apresentam.
1.2 Abuso Sexual contra Crianças: Números, Conceitos e Definições
Até 1997, não havia estatística sistematizada sobre o abuso sexual contra
crianças e adolescente no Brasil (Safiotti, 1997). No entanto, esta dificuldade em ter
estatísticas sobre os casos de abuso ocorre tamm em outros países. Nos Estados
Unidos, Larson, Terman, Gomby, Quinn e Behrman (1994) relatam que os órgãos
oficiais oferecem informações incompletas tanto sobre a incidência (número de
casos relatados a cada ano) quanto sobre a prevalência (número de pessoas na
população como um todo que sofreu um determinado agravo de saúde, neste
caso, o abuso sexual). Finkelhor (1994) examinou 19 artigos sobre abuso nos quais
os números sobre a prevalência variavam de 3 a 62% entre as vítimas do sexo
feminino e de 3 a 16% para as do sexo masculino. O alcance dos casos de violência
tanto física como sexual é difícil de ser estimado, devido à subnotificação e à
carência de amostras que representem a população de vítimas (Rich, Gidcyz,
Warkentin, Loh, & Weiland, 2005). Por conseguinte, a falta de dados uniformes é
obstáculo tanto para a realização de pesquisas que se aproximem da realidade
quanto para formulação de políticas nacionais voltadas à resolução deste problema.
Há, então, apenas estimativas para a prevalência dos casos de abuso. Finkelhor, por
exemplo, estima que até 20% das mulheres, e entre cinco a 10% dos homens norte-
americanos tenham sofrido alguma espécie de abuso sexual. No Brasil, é
22
estimado que o abuso sexual contra crianças e adolescentes atinja mais de 30% da
população (Picazio, 1998; Silva, 2002).
Alguns números sobre as situações de abuso em geral o importantes para
contextualização do estudo. Um levantamento realizado no Ambulatório de Maus
Tratos de Caxias do Sul/RS, sobre abusos sexuais, entre 1998 e 1999, revelou o
predomínio de casos em vítimas do sexo feminino (77%; na maioria em crianças de
seis a nove anos de idade), sendo o pai responsável pela maioria dos abusos (De
Lorenzi, Pontalti, & Flech, 2001). Em Porto Alegre, uma análise realizada em 71
processos jurídicos do Ministério Público do Rio Grande do Sul, no período entre
1992 e 1998, por violência sexual (Habigzang, Azevedo, Koller, & Machado, 2005)
apontou a maioria das vítimas do sexo feminino (80,9%), com idades entre cinco e
dez anos (36,2%). Os pais foram os agressores em 79% dos casos (40), seguidos
pelos padrastos (16) das vítimas. A violência sexual foi denunciada pela mãe da
vítima em 37,6% dos casos, pela própria vítima em 29% dos casos, por outros
parentes, em 15,1%, e, por instituições, tais como, escola, hospital e departamento
de polícia em 6,5% dos casos. Entretanto, em 61,7% dos casos, alguém informou
que sabia da situação abusiva e não denunciou. Estes dados chamam a atenção
sobre a mobilização da sociedade contra a posse e o uso da criança por aqueles que
devem ser unicamente os responsáveis por ela. Na atualidade, uma atitude contra
estas idéias pode influenciar positivamente no desenvolvimento de uma criança
(Koller & De Antoni, 2004).
Para a compreensão do que é considerado abuso sexual será fornecida a
definição usada pela Organização Mundial da Saúde (World Health Organization -
WHO, 1999):
Abuso sexual infantil é todo envolvimento de uma criança em uma atividade sexual
na qual não compreende completamente, já que não está preparada em termos de seu
desenvolvimento. Não entendendo a situação, a criança, por conseguinte, torna-se
incapaz de informar seu consentimento. São também aqueles atos que violam leis ou
tabus sociais em uma determinada sociedade. O abuso sexual infantil é evidenciado
pela atividade entre uma criança com um adulto ou entre uma criança com outra
criança ou adolescente que pela idade ou nível de desenvolvimento está em uma
relação de responsabilidade, confiança ou poder com a criança abusada. É qualquer
ato que pretende gratificar ou satisfazer as necessidades sexuais de outra pessoa,
incluindo indução ou coerção de uma criança para engajar-se em qualquer atividade
sexual ilegal. Pode incluir também práticas com caráter de exploração, como uso de
crianças em prostituição, o uso de crianças em atividades e materiais pornográficos,
assim como quaisquer outras práticas sexuais ilegais.
23
A definição fornecida pela WHO é ampla, já que não define que atos
específicos (exibicionismo, toques ou intercurso sexual) podem ser considerados
como abuso. A definição, não esclarece se todos estes atos, ou apenas alguns deles
podem ser tidos como abuso sexual. Por conseguinte, para fins deste estudo serão
considerados como abuso atos de exibicionismo, toques, assédio, exposição à
pornografia, intercurso sexual, e toda e qualquer atividade sexual entre um adulto e
uma criança. Neste estudo optou-se por esta definição, pois ela não limita que atos
específicos possam ser abuso. Esta amplitude permite que se considere, como abuso
sexual, mesmo aqueles atos tidos como menos graves, tal como a exibição sexual
na presença de crianças. Qualquer ato sexual entre um adulto e uma criança
reconhecido como abuso, mesmo que não haja intercurso sexual, é levar em conta
que mesmo os menos graves podem acarretar uma carga de sofrimento para a
criança, havendo graves danos psicológicos para a vítima. Koller e De Antoni
(2004) chamam a atenção para os efeitos do abuso sobre o desenvolvimento,
pontuando que questões relacionadas à freqüência, severidade, intensidade e
duração dos episódios podem ter efeitos psicológicos variados de uma criança para
outra, mas que certamente todos influenciam na construção da identidade exposta
ao risco. O abuso sexual é considerado grave, em qualquer de suas nuances, porque
como afirmam Amazarray e Koller (1998), não nele só a violência sexual, mas
também abuso físico e emocional.
A definição de abuso sexual contra criança pode ser diferenciada de incesto
ou pedofilia, embora estas palavras sejam comumente usadas como sinônimos.
Nem todo ato de abuso sexual contra criança pode ser considerado incestuoso e
nem todo indivíduo que comete tal ato pode ser diagnosticado como pedófilo. O
incesto pode ser caracterizado como a união entre parentes com qualquer laço de
parentesco podendo tal laço ser de consangüinidade ou adoção (Cohen, 1993). Por
conseguinte, o incesto pode ocorrer entre parentes da mesma idade (entre irmãos,
por exemplo) sem necessariamente envolver um adulto e uma criança ou um
adolescente que mantenha uma relação de confiança, cuidado ou responsabilidade.
Portanto, nem todos atos incestuosos podem ser considerados atos sexuais abusivos.
A pedofilia é caracterizada como uma patologia sexual inserida no grupo
das parafilias, que são patologias psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais
recorrentes e intensas com pessoas “não-autorizadas”, animais ou objetos. O
indivíduo portador deste tipo de distúrbio experimenta fantasias intensas e
excitantes e impulsos sexuais cíclicos envolvendo crianças. Além disso, o portador
24
de pedofilia pode chegar a manter atividades de caráter sexual com crianças pré-
púberes (de zero aos nove anos). Para ser classificado como pedófilo, o indivíduo
precisa ter pelo menos 16 anos e ter uma diferença de idade em relação à vítima de
pelo menos cinco anos, critério esse estabelecido pelo Manual diagnóstico e
Estatístico de Trantronos Mentais (American Psychiatric Association, 1994).
Pessoas podem ter fantasias sexuais envolvendo crianças ou se sentirem excitados
por elas, sem, entretanto, chegar a cometer o ato de abuso propriamente dito. As
características atribuídas aos pedófilos dizem respeito tanto às tendências
psicológicas quanto aos comportamentos sexuais propriamente ditos entre adultos e
crianças. Assim, indivíduos portadores desse transtorno podem apresentar apenas
os desejos e fantasias com crianças, sem se tornarem abusadores.
O papel dos abusadores tem sido explicado por diversas teorias, que se
ocupam, principalmente, em definir as motivações para tais atos (ver
www.secasa.com.au). Uma breve compilação de diferentes teorias apresentadas
neste site, embora de forma superficial, demonstra que estas abordagens podem
fornecer um panorama das formas como o conhecimento nesta área tem sido
produzido. Para teoria psicanalítica, por exemplo, algumas situações vivenciadas
ainda na infância, tais como o Complexo de Édipo e a inabilidade para ultrapassar
esta etapa, bem como outros eventos traumáticos podem explicar o comportamento
abusivo. O conflito de Édipo se caracteriza pela saída de uma fase na qual o objeto
da criança deixa de ser apenas a mãe, pois percepção de que existe um terceiro
(pai), que compete com ela pela atenção materna. Esse conflito ocorreria entre os
três e os cinco anos e seria vital para a estruturação da vida psíquica do indivíduo,
pois é nele que se originam o superego, com a interiorização de normas e valores
(Gabel, 1997). A falha neste conflito ocorre quando os pais da criança não estão
suficientemente amadurecidos, e satisfazem desejos dela, erotizando essa relação
(Almeida, 2003). O comportamento sexualmente desviante poderia resultar desta
relação erotizada entre pais e filhos, gerando ansiedade de castração, o que por sua
vez, acarretaria sentimentos de inadequação sexual e necessidade de ser
sexualmente dominante. Desta forma, os abusadores seriam, em geral, perturbados
e perversos em conseqüência desse desenvolvimento psicossexual pobre
(www.secasa.com.au). Uma limitação desta teoria é a sua focalização apenas nas
dificuldades do desenvolvimento individual, principalmente nos aspectos
psicopatológicos vinculados ao perpetrador do abuso, desconsiderando os fatores
sociais e culturais. A partir da teoria da precipitação da vítima, com origem no
25
início do século XX, abusadores e vítimas agem segundo uma mesma intenção ou
objetivo, ou seja, a vítima pode apresentar gestos, olhares, palavras que incentivam
o agressor a cometer o ato abusivo. Portanto, tais comportamentos produzidos pelas
vítimas seriam interpretados como formas de consentimento para o abuso. A
atividade sexual entre adultos e crianças (na maioria das vezes entre uma criança do
sexo feminino e um adulto do sexo masculino) é vista como um desejo inconsciente
da criança. Seria um “desejo anormal da criança de obter satisfação sexual, e
consequentemente de padecer de traumas sexuais” (Abrahan in Intebi, 1998). As
crianças teriam um desejo semelhante aos das mulheres que sofrem violência física
por parte de seus parceiros, pois possuem um intuito masoquista nessas relações
sexuais com adultos (Intebi, 1998). Alguns estudos baseados nessa teoria, datados
da segunda metade do século XX, separavam as vítimas de abuso em dois grupos:
as acidentais e as participantes. As acidentais eram aquelas que eram abusadas
apenas uma única vez por um adulto desconhecido. as participantes, eram
aquelas que mantinham uma “relação” duradoura com um adulto conhecido. A
manutenção dessa “relação” pressupunha, assim, uma participação da vítima, pois,
a repetição dos episódios seria possível mediante o constimento dela (Rogers in
Intebi, 1998). Outros estudos, baseados nessa teoria, classificavam os abusadores
como seres amáveis e inofensivos, enquanto as crianças eram vistas como perversas
e manipuladores (Intebi). Apesar de essa teoria não ser usada atualmente, Intebi
afirma que ainda em 1984 ainda havia estudos baseados nela. Esse tipo de teoria é
perigosa, pois pode ser usado como justificativa para os atos de violência cometidos
pelo abusadores. A responsabilização apenas da vítima é uma forte limitação desta
teoria, pois propicia uma visão de igualdade de condições entre elas e os seus
abusadores, embora o que ocorre seja uma situação clara de coação e violência.
A família tem sido descrita pela teoria da disfunção da família, no caso de
abuso, como disfuncional, pois revela um sintoma de desestruturação pela qual
todos os membros o responsáveis. Baseada nas teorizações da área sistêmica, o
foco de análise sobre a situação abusiva centra-se na dinâmica que se estabelece
entre os membros do grupo familiar. Segundo esta teoria, em famílias abusivas
sexualmente, as barreiras intergeracionais foram rompidas em algumas esferas das
relações familiares, ocasionando uma inversão de papéis entre pais e filhos. Com
esta inversão, filhos e filhas podem atuar ao mesmo tempo como parceiros de seus
progenitores, e como filhos. Essa ambigüidade é gerada quando, ao procurar
cuidados emocionais dos pais, as crianças recebem carinhos sexualizados,
26
caracterizando, portanto, a situação de abuso (Almeida, 2003). Devido a confusão
entre carinhos emocionais e gestos sexuais, as vítimas do abuso podem apresentar,
posteriormente, um comportamento sexualizado junto aos seus filhos, quando na
realidade desejam expressar cuidado emocional. Esse fator seria importante na
manutenção do abuso através das gerações de uma mesma família (Furniss, 1993).
A mãe teria um papel central nestes casos, pois se considera que o abuso acontece
por uma ausência dela no que diz respeito à satisfação de necessidades emocionais
de seus filhos, tornando-os mais vulneráveis ao abuso. Disfunções sexuais e
comportamentos depressivos da mãe podem desencadear comportamentos abusivos
nos quais os filhos tentam satisfazer suas necessidades emocionais, buscando a
figura do pai. O pai que não é satisfeito pela esposa vai, então em busca da filha,
para satisfazer-se sexualmente. O abusador (geralmente o pai) é tido por essa teoria
como alguém que está no mesmo nível de maturidade emocional da criança
(Furniss, 1993). Os autores da teoria sistêmica consideram também que fatores
de personalidade individuais que contribuem para etiologia dos abusos sexuais nas
famílias. Contudo, os motivos pessoais para início das situações abusivas o são
os fatores mais importantes para esta teoria. O foco de análise recai sobre como
estas motivações individuais atreladas a de outros membros da família interagem
para criar as situações de abuso (Almeida, 2003). Esta teoria possui claras
limitações, pois não aponta o pai como o principal responsável pelo abuso sexual,
culpabilizando a mãe e todos os membros da família pelo início e manutenção dos
atos de violência sexual contra crianças. O foco de teorias psicológicas desloca-se
da vítima ou da família para a situação de abuso sexual propriamente dita. Na
análise desta situação dois pontos são centrais: a identificação do perfil psicológico
do agressor e o conhecimento das motivações para o abuso. Algumas tendências
psicológicas do agressor são destacadas, tais como: introversão social, sentimentos
de inadequação da masculinidade, necessidade de exercer graus elevados de
dominação e controle nas relações familiares, além de responsabilizar a vítima pelo
acontecimento do ato. Há, ainda, outros fatores importantes tais como tendências
criminosas, doenças mentais, alcoolismo e baixo controle interno, citados como
comuns em ocorrências de abuso. Pode-se afirmar que a maioria dos estudos sobre
abusadores concentra-se neste tipo explicação, pois uma parcela significativa deles
tem como objetivo investigar, por exemplo, a personalidade ou as patologias que
estes indivíduos apresentam. Além disso, outros estudos se dirigem para a análise
das variáveis desenvolvimentais (tais como um ambiente violento na infância) que
27
podem contribuir para o surgimento de problemas psicológicos associados ao
cometimento de atos de abuso sexual contra crianças. Um exemplo de teoria
psicológica é a cognitivo-comportamental. O trauma tem papel central nessa área.
O trauma ocorreria, quando a exposição a um evento avassalador que
compromete as estratégias de coping e de defesa da pessoa. Quando esses eventos
são percebidos como incontroláveis, eles podem ser uma fonte de trauma psíquico.
Assim, as terapias derivadas desse pressuposto estariam preocupadas com a
resolução desse trauma e dos efeitos negativos gerados no comportamento
(Almeida, 2003). Vários estudos (ver Widon & Ames, 1994) analisam a prevalência
de abuso de todos os tipos em abusadores sexuais, realçando que estes se
configurariam como traumas que influenciariam o surgimento de estratégias
comportamentais disfuncionais, entre elas o abuso sexual contra crianças. A teoria
cognitivo-comportamental pode ser criticada na medida em que associada ao
trauma, pode estar idéia de que as vítimas de abuso sexual são danificadas” de
maneira irrecuperável (Almeida, 2003). Esse tipo de prerrogativa pode dificultar a
crença de que o tratamento pode ser realmente eficaz para a vítima. As teorias
feministas ganharam destaque nos 80 e 90 após a constatação de que a maioria das
vítimas de abuso sexual era de meninas e que a maioria dos agressores era de
homens adultos (Almeida, 2003). Para esta teoria, o abuso sexual ocorre, sobretudo
em um contexto social de desigualdades, no qual os homens (potenciais agressores)
teriam direitos de explorar mulheres e crianças. As meninas (por serem do sexo
feminino e crianças ao mesmo tempo) seriam as vítimas preferenciais para este tipo
de violência (Almeida, 2003). Nesta abordagem não são considerados motivos
psicológicos sendo citados apenas modelos sociais (ver www.secasa.com.br). As
críticas a este modelo surgem a partir do momento em que houve um aumento nas
denúncias de abuso sexual contra mulheres. Em decorrência disto, a prerrogativa
fundamental de que a relação desigual entre homens e mulheres seria a variável
mais importante para a ocorrência dos atos de abuso passa a ser questionada
(Almeida, 2003).
A teoria de quatro pré-circunstâncias baseia-se nas idéias psicológicas e
sociológicas de Finkelhor (in Krivacska 1989). De acordo com esta teoria, haveria
uma interação de fatores para que o abuso ocorra. Primeiro, o perpetrador precisaria
ter motivações para cometer o ato de abuso. Segundo, ele precisaria superar
inibições internas para executar o ato. Terceiro, o abusador necessitaria transpor as
barreiras externas para chegar a abusar. Finalmente, ele deveria ultrapassar a
28
resistência da criança (quarta pré-circunstância). A motivação se relaciona aos
fatores pessoais do abusador envolvidos no início dos atos de abuso. As inibições
internas dizem respeito tanto à conscientização de que o contato sexual com
crianças é inadequado quanto a habilidade de controlar tais impulsos sexuais
dirigidos a elas. As inibições externas seriam as estratégias ambientais que
impediriam os atos de abuso. A presença de outra pessoa que poderia testemunhar o
ato e o pouco tempo privativo de um abusador com uma criança figuram como
estratégias possíveis na inibição do abuso sexual infantil. Contudo, essas estratégias
o efetivas quando percebidas pelos abusadores como barreiras reais para o
cometimento do ato. Em um número signitificativo de oportunidades, os abusadores
racionalizam essas dificuldades, cometendo os abusos mesmo quando elas estão
presentes. Assim, não é necessário apenas aumentar os impedimentos externos ao
abuso, mas fazer com que os potenciais abusadores os percebam como ameaçadores
aos seus intentos contra as crianças. Após ultrapassar esses fatores inibitórios, o
abusador precisa vencer as resistências da criança. Estas resistências podem ser
incrementadas, por exemplo, por fortes laços emocionais entre ela e a família que a
deixam segura, estimulando-a revelar os atos ou as tentativas de abuso. Contudo,
vale ressaltar que a resistência da criança não pode ser encarada como uma
responsabilização dela, pois esse fator dependerá basicamente de como o entorno se
organiza para lhe apoiar. Um aspecto importante da teoria de Finkelhor (in
Krivacska) é que esses quatro aspectos ocorrem sequencialmente. Assim, se o
primeiro o está disponível, os outros não ocorrerão. Esse modelo pode ser
entendido como um continuum no qual de um lado está a motivação para o ato de
abuso e do outro os três fatores restantes que representariam as inibições. Assim,
para que o abuso ocorra, a motivação deveria ser mais intensa que a combinação
das amplitudes dos fatores inibitórios. A teoria de Finkelhor não explica como
ocorre o desenvolvimento das motivações sexuais desviantes do abusador
(Krivacska, 1989). Esta pode ser vista como a principal crítica da teoria das quatro
pré-circunstâncias, pois ela não explica os fatores primários nos quais se poderia
concentrar a prevenção. Entretanto, a teoria de Finkelhor é positiva na medida em
que fornece uma visão mais contextual sobre o abuso.
Azevedo e Guerra (1989) acrescentam três teorias às mencionadas,
buscando o entendimento do fenômeno do abuso sexual impetrado por adultos
contra crianças. A teoria psicodinâmica propõe que o comportamento sexual
agressivo seja resultado de traços de personalidade patológicos do agressor. É
29
necessário, entretanto, atentar para o fato de que os casos que apresentam
perturbações graves somam apenas 10% do total de registros dos casos de abuso
sexual. A teoria da aprendizagem social que tem como base o pressuposto de que o
comportamento violento é aprendido, socializado e, portanto, repassado. Já a teoria
sócio-psicológica considera a violência contra criança como resultado de uma
multiplicidade de fatores, tais como posição social, valores pessoais, traços de
personalidade, problemas neurológicos, stress, uso de drogas, etc. (Azevedo &
Guerra, 1999).
Outras teorias, em sua tentativa de explicar a situação de abuso sexual,
provocam o aparecimento de algumas explicações que podem legitimar
preconceitos e mitos. Burt (1980) afirma que algumas crenças quanto ao estupro
que são apoiados socialmente, tais como “as mulheres podem resistir ao estupro, e
se isso acontece é por que eles querem”, “mulheres pedem pelo estupro” (p.217),
entre outras. Em sua análise, aponta que muitos casos de estupro nos Estados
Unidos são julgados de acordo com tais idéias, ocasionando a responsabilização das
vítimas e salvando seus algozes das penas legais. Um estudo com adolescentes na
África do Sul revelaram que tanto os jovens do sexo masculino quanto os do sexo
feminino entrevistados por eles afirmaram que os homens possuem impulsos
sexuais incontroláveis e que cabe às mulheres o controle de tais impulsos (Petersen,
Bhana, & MacKay, 2005). Como pondera Marques (2005), apesar de haver
diversas explicações sobre as causas do abuso sexual, estas sempre esbarrarão em
algumas limitações, que o tema do abuso é complexo por sua multideterminação
com as teorias explicando apenas parte das variáveis envolvidas. Além disso, cada
situação de abuso é específica e as explicações que servem para um caso podem
não ser úteis para outros. Portanto, entender os abusadores sexuais e alguns
aspectos que os constituem pode ser um esforço válido na direção da compreensão
do fenômeno, além de propiciar informações para ações interventivas.
1.3 Abusadores Sexuais: Classificações e Características
Uma revisão de literatura, com consulta ao Index-Psi-Periódicos (www.bvs-
psi.org.br) e ao PsycInfo (http://www.apa.org/psycinfo/), revela a escassez de
estudos, especialmente os brasileiros, realizados sobre abusadores sexuais. Alguns
autores m tentado classificar abusadores em grupos segundo semelhanças
psicológicas e comportamentais (Azevedo & Guerra, 1989; Gijseghem, 1980;
30
Marcet, 2005; Smith & Sounders 1995). Embora, como reiteram Cohen (1993) e
Marques (2005), ainda seja também escassa a literatura sobre tais classificações.
Classificar abusadores, a partir de algumas características, envolve uma
questão ética conforme salientam Cohen e Gobetti (2002). O tema do abuso sexual
de adultos contra crianças e adolescentes suscita opiniões indignadas, que rotulam
os indivíduos que cometem os atos de abuso, geralmente como seres irracionais”
desprovidos de qualquer semelhança com outros seres humanos. É necessário ter
clareza, contudo, que estes indivíduos são seres humanos que portam patologias e
precisam de tratamento.) Dirigir um olhar de compreensão e empatia ao abusador
não significa que se deseja isentá-lo de sua responsabilidade perante o ato de abuso.
Os estudos apresentados a seguir, portanto, não buscam atribuir um rótulo ao
abusador sexual. Ao contrário, procuram fornecer um olhar compreensivo aos
abusadores (Furniss, 1993).
Em um estudo, com base em mais de noventa casos de abuso sexual,
Gijseghem (1980), um perito canadense e pesquisador com referencial na
psicologia jurídica agrupou os abusadores em oito categorias. Seu estudo
referencial viabilizou a verificação do tipo de comportamento do abusador, as
possibilidades de recidiva e de tratamento. A classificação usada por este autor é
pouco prática, baseada fundamentalmente em características internas do abusador
(tais como seus conflitos internos, seu complexo narcísico, ou sua vontade de
superioridade) sendo de difícil identificação e operacionalização em termos de
pesquisa.
Ainda relatando as características dos abusadores, Azevedo e Guerra (1999)
diferenciam dois tipos de abusador sexual. O primeiro tipo é chamado agressor
sexual situacional. quatro subtipos dentro desse primeiro. O primeiro subtipo é
denominado regredido. Estes indivíduos possuem como característica comum
dificuldades para enfrentar desafios e sua motivação para a prática do abuso se
pela substituição de parceiros sexuais adultos por crianças. Além disso, o critério
para escolha das vítimas é a disponibilidade e o método de abordagem das crianças
geralmente é coercitivo. Possivelmente estes indivíduos colecionam pornografia
infantil. Um segundo subtipo dos agressores sexuais situacionais é o moralmente
indiscriminado. Este indivíduo abusa de pessoas em geral. Por conseguinte, ele
abusa sexualmente de crianças, pois o abuso torna-se algo comum para ele. É
oportunista na escolha de suas vítimas, aproveitando-se de sua vulnerabilidade. Age
coagindo, manipulando ou tentando sua vítima. É ainda sadomasoquista e coleciona
31
revistas de detetive. O terceiro subtipo é o sexualmente indiscriminado. Possuem
como característica básica uma ampla experimentação sexual. A motivação para o
abuso sexual infantil é o tédio e ele escolhe vítimas mais jovens e de aparência
diferente. É altamente provável que colecione pornografia de natureza variada.
Além disso, aborda a vítima se relacionando com elas em outras atividades
anteriores (brincadeiras, por exemplo). O inadequado é o quarto subtipo. Tal
indivíduo possui como característica básica demonstrar-se inadequado socialmente.
A insegurança e a curiosidade o os motivos para o abuso sexual infantil. Estes
escolhem vítimas que não pareçam ameaçadoras, abordando-as, explorando as
vantagens (tamanho, por exemplo) que possuem em relação a elas (Azevedo &
Guerra, 1999).
Um segundo tipo de abusador sexual infantil apontado por Azevedo e
Guerra (1999) é o agressor sexual infantil preferencial. Os três subtipos inseridos
nesta classificação compartilham as características de preferência sexual por
crianças e coleção de pornografia infantil. O primeiro subtipo é o sedutor. A
motivação para abusar de crianças é a identificação com as características infantis.
Eles, geralmente, escolhem as vítimas tendo como critério idade e sexo, abordando-
as através de um processo de sedução. O segundo subtipo é denominado
introvertido. Eles se relacionam sexualmente com crianças por medo de
comunicação com as pessoas de sua idade. Escolhem crianças jovens e estranhas e
seu modo de operação para o abuso o contatos sexuais não-verbais. O terceiro e
último subtipo é o sádico. Este indivíduo é motivado pela necessidade de infligir
dor às suas vítimas. Operam com as vítimas através de várias tentativas ou força.
Estes indivíduos escolhem suas vítimas por idade e sexo. A caracterização feita por
Azevedo e Guerra é bastante útil para classificar abusadores, segundo suas práticas
abusivas e não de acordo com características de personalidade internas e abstratas.
Contudo, as classificações postas por estas autoras não podem ser vistas como
definitivas, pois corre-se o risco de reduzir as características dos abusadores apenas
a algumas categorias. Outros indivíduos podem agir de maneira distinta das
descritas, entretanto, eles continuarão a ser abusadores pelo fato de terem cometido
violência sexual contra crianças.
Outros estudiosos, apesar de não classificarem os abusadores em grupos,
identificaram uma série de patologias que podem estar associadas aos casos de
abuso. Walsh, MacMillan e Jamieson (2001) investigaram a associação entre
transtornos psiquiátricos de pais e o cometimento de vários tipos de abuso. Esta
32
investigação foi conduzida junto a 8548 homens e mulheres que responderam se
haviam vivido algum tipo de abuso durante a infância. Os participantes também
responderam se seus pais sofreram com algum tipo de transtorno mental durante
suas vidas. Apesar de os dados não serem fornecidos pelos pais abusivos, os
resultados apresentados são importantes, porque associam algumas doenças
psiquiátricas a certos tipos de abuso. Foi encontrada uma alta correlação entre
doenças como depressão, mania e esquizofrenia e abuso físico e sexual contra
crianças. Esses três tipos de doenças apresentam índices semelhantes de correlação
com as situações de abuso. Contudo, quando foram identificados comportamentos
anti-sociais houve uma maior correlação com a ocorrência de abusos físicos e
sexuais do que quando foi detectada a presença dos outros tipos de doenças citados.
Portanto, a presença de comportamentos anti-sociais sugere um maior risco para
estes tipos de abuso. Os autores fazem uma ressalva quanto a estes achados, já que
nem em todos os questionários se pôde identificar quem foram os agressores. Ou
seja, não ficou claro neste estudo se foram os pais dos participantes da pesquisa que
cometeram os atos de abuso. A presença de transtorno, desta forma, não significa
que os pais sejam abusivos. Contudo, os sintomas destas patologias podem
acarretar alguns comportamentos negligentes por parte dos pais, o que pode deixar
seus filhos mais vulneráveis à violência de outros adultos.
Corroborando o estudo de Walsh et al. (2001), um estudo realizado com
abusadores incestuosos notou que em um quarto dos participantes havia algum
distúrbio de personalidade, com destaque para o Transtorno de Personalidade Anti-
Social (Trepper, Niedner, Mika, & Barret, 1996). Um estudo realizado com pais
incestuosos e mães não-abusivas procurou investigar particularidades entre
abusadores foi o de Smith e Saunders (1995). Os abusadores foram definidos tanto
pelas mães das crianças vítimas quanto pelos pais abusadores de um lado como
dominantes, abusivos e autoritários e por outro lado como dependentes e passivos.
Esta diferença pode ser explicada pela ausência de uniformidade entre as
características dos abusadores evidenciada por vários estudos obtidos na literatura.
Uma parcela significativa de abusadores sofre de patologias que são
classificadas como parafilias (Becker, 1994). As parafilias são patologias
psiquiátricas caracterizadas por fantasias sexuais recorrentes e intensas com pessoas
“não-autorizadas”, animais ou objetos. Para que uma pessoa seja diagnosticada com
parafilia, é necessário também que ele aja segundo as suas fantasias ou que estas
tenham uma natureza intrusiva. No caso dos abusadores, reitera-se que a pedofilia é
33
o tipo de parafilia diagnosticada mais comumente. Contudo, outras doenças
psiquiátricas do grupo deste mesmo grupo podem estar presentes.
No estudo realizado com três abusadores sexuais incestuosos, Marques
(2005) notou certas similaridades em seus funcionamentos. Entretanto, destaca que
apesar destas semelhanças não é possível deixar de observar a singularidade com
que cada um dos participantes agia, tanto em termos do abuso sexual como em
outros aspectos de suas vidas. A falta de uniformidade entre classificações de
abusadores pode, em parte, dificultar as pesquisas que busquem algum tipo de
categorização, já que não um critério único a ser seguido. No Brasil, o perfil do
abusador será considerado o perfil fornecido, com base em 1565 denúncias feitas
entre os anos de 2000 e 2003, pela Associação Brasileira Multiprofissional de
Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA) disponíveis on-line no ano de 2003
(www.abrapia.org.br). As denúncias foram realizadas através de telefonemas e
revelaram o seguinte perfil: 90% do abusadores são do sexo masculino; 58% estão
na faixa etária que se estende desde os 18 aos 45 anos; e 21% tinham mais de 45
anos, 59% possuíam vínculo biológico ou de responsabilidade com a vítima,
enquanto 41% não possuíam tal vínculo. Dados dos Estados Unidos que
corroboram este perfil. Do total de abusos cometidos naquele país, 96% foi
praticado por homens. Um outro dado importante mostrado no estudo americano é
que em grande parte dos casos as vítimas conhecem seus agressores (La Fond,
2005). Esta informação também está de acordo com o perfil traçado pela
ABRAPIA, já que na medida em que um pouco mais da metade dos agressores tem
vínculo com a vítima, está claro que no Brasil parte expressiva destas vítimas
também conhece seus agressores.
Considerando este perfil do abusador sexual no Brasil, na próxima seção
serão descritos alguns estudos que versam sobre a visão que eles possuem sobre
crianças. Serão apresentadas também algumas teorias que tentam explicar o modo
como os abusadores vêem as crianças.
1.4 Abusadores Sexuais e sua Visão sobre as Crianças
As cognições sobre o abuso tem sido um tema de interesse entre os
pesquisadores que se concentram em estudar os abusadores. Uma coletânea de
estudos apresentada a seguir tangenciam tais cognições e a visão de infância,
permitindo algumas inferências sobre características e crenças que abusadores
possuem sobre as crianças. Ward e Keenan (1999) afirmam que investigar como os
34
abusadores pensam e percebem o mundo a sua volta é determinante para
compreender o modo como eles agem. Os abusadores parecem organizar três tipos
de teorias implícitas sobre o abuso. A primeira delas abrange as crenças sobre as
pessoas e o mundo em geral. O segundo tipo de teoria diz respeito àquelas crenças
intermediárias que categorizam os elementos em geral, como por exemplo, os
significados atribuídos às crianças. O terceiro e último tipo de teoria implícita está
ligado àquelas crenças que o abusador possui sobre objetos ou pessoas específicos.
Neste nível estão inclusas as teorias implícitas sobre uma vítima em especial.
Três modelos predominantes têm sido empregados para descrever o papel
das cognições em abusadores sexuais (Murphy, in Geer, Estupinan, & Manguno-
Mire, 2000). O primeiro modelo deriva-se da literatura clínica (Abel, Becker, &
Cunningham-Rathner, in Geer et al., 2000), que considera que as distorções
cognitivas dos abusadores são erros consistentes no pensamento que ocorrem
automaticamente (Beck, 1997). Segundo este modelo, estas distorções não são
causas dos atos de abuso, mas uma justificativa construída após os atos abusivos.
Um segundo modelo sobre as distorções cognitivas é derivada da abordagem
feminista. Descreve vários tipos de atitudes direcionadas às mulheres, aceitando o
“mito do estupro” e atitudes relacionadas ao papel dos estereótipos (Malamuth,
1986). O terceiro e último modelo é proveniente da literatura criminal, que propõe
que os padrões de percepções e pensamentos distorcidos são causas para a agressão
sexual e para outros domínios de comportamento.
Citando mais especificamente estudos que mostram como abusadores vêem
as crianças, Swaffer, Hollin, Beech, Beckett e Fisher (2000) discutem que a
percepção sobre características físicas e sobre tipo de relacionamento que o
abusador pensa ter com a criança influenciam diretamente para a prática abusiva
contra a criança. Por exemplo, se ele acredita que pode manipulá-la para conseguir
o que deseja, tal crença será importante para a prática do abuso. Em acordo com o
estudo de Swaffer et al. (2000), a investigação de Ward e Keenan (1999) revelou
que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais e que, portanto, este
contato sexual apenas despertaria impulsos que existiam antes do momento do
abuso. Por conseguinte, segundo os abusadores, as crianças só teriam benefícios em
ter contato sexual com adultos. Os resultados de outro estudo demonstram que
abusadores justificam o abuso informando que as crianças querem o contato sexual
tanto quanto eles, pois, elas não resistem e não contam a outros adultos. Por último,
afirmam que os abusadores percebem as crianças como seres sexuais, na medida
35
em que elas fazem perguntas sobre sexo (Gannon et al., 2005). Os agressores
sexuais percebem que as crianças cooperam durante o episódio de abuso e que são
elas próprias que, muitas vezes, iniciam o contato. Estes abusadores viam as
crianças como menos ameaçadoras socialmente (Gannon et al.). Abusadores usam
várias estratégias para justificar seus comportamentos abusivos. Entre essas
estratégias estão: afirmar que a vítima consentiu ou provocou o abuso, acusar a
vítima de contar mentiras, alegar que a relação entre ele a vítima era de natureza
afetiva e não abusiva, entre outras (Lawson, 2003). Tais estratégias se baseiam na
premissa da pouca responsabilidade do abusador e da culpabilização da criança,
distorcendo assim os papéis de ambos. As estratégias que depreciam as crianças, ou
as que utilizam a divisão de responsabilidade entre abusador e criança parecem
funcionar a favor do perpetrador, pois muitas vezes, a vítima é desacreditada pela
própria família (Morales & Scharamm, 2002). A responsabilização pelo ato de
abuso foi discutida por Waterman e Foss-Goodman (in Almeida, 2003). Estes
autores afirmam que as atribuições de culpa, em situações hipotéticas de abuso,
fora, influenciados diretamente pela idade da vítima, de modo que se fosse uma
adolescente envolvida na acusação, a relação é tida como menos abusiva, as
adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é arrogada uma menor
responsabilidade.
Em estudo com 40 pais biológicos e adotivos que abusaram de suas filhas,
revelou que 21 deles acreditavam que suas filhas gostaram da experiência do abuso,
pois não demonstraram nenhum sinal de oposição aos atos de abuso (Phelan, 1995).
A empatia parece ser uma questão-chave neste achado. Considera-se de acordo com
a perspectiva de Eisenberg e Strayer (1990), que empatia é uma resposta afetiva que
resulta de compartilhar a percepção emocional de outra pessoa, ou seja, significa
“sentir com” o outro. Tal reação afetiva pode ocorrer como resposta a dicas
concretas do estado emocional alheio (tais como as expressões faciais), ou como
conseqüência do reconhecimento de pistas indiretas desses estados emocionais
(perceber a natureza da situação problemática pela qual o outro está sofrendo).
Então, pode-se definir a empatia como a resposta emocional que origina-se da
percepção do estado ou condição emocional de outrem e que é congruente com esse
estado ou condição. A empatia, no entanto, pode não levar a pessoa a sentir o
mesmo incômodo emocional de outrem. Assim, segundo as autoras, o
necessariamente a tomada de perspectiva do ponto de vista do outro. Pode-se
simplesmente, por exemplo, perceber a situação como semelhante a uma já ocorrida
36
antes, e reconhecer que aquele tipo de situação pode causar sofrimento. Alguns
pontos importantes precisam ser clarificados para que se compreenda a
conceituação de empatia. Um deles se relaciona ao grau de diferenciação eu-outro.
Eisenberg e Strayer (1990) afirmam que em estágios mais precoces do
desenvolvimento, ainda o tal diferenciação, e que as crianças podem sentir
afetos gerados pelo reconhecimento irrefletido dos estados emocionais dos outros,
sem ter consciência de que esse estado não tem como fonte ela própria. Assim,
nesses estágios do desenvolvimento, ainda não haveria empatia propriamente dita,
existindo apenas um estado precursor da empatia. A empatia em si se configuraria
apenas quando um grau mínimo de diferenciação eu-outro que permita que a
pessoa reconheça que os estados emocionais não são originados da sua própria
situação. Os construtos “simpatia” e “angústia pessoal” devem ser diferenciados
entre si. A simpatia seria um estado posterior a empatia, pois ela define o estado no
qual uma pessoa se preocupa em aliviar o sofrimento do outro, por perceber seu
sofrimento. Contudo, segundo as autoras a simpatia (assim como a empatia), podem
ser fruto de processos cognitivos, tais como tomada de perspectiva através do ponto
de vista do outro.
De acordo com Eisenberg e Strayer (1990), algumas pessoas quando
percebem o sofrimento do outro, podem experienciar um estado aversivo de
ansiedade e preocupação que não é congruente com o estado do outro, e o que é
mais importante, pode levar a reações ou preocupações auto-orientadas e egoístas.
Batson (citado por Eisenberg & Strayer, 1990) afirma que experimentar angústia
pessoal frente ao sofrimento do outro pode orientar as pessoas a desejarem o alívio
de seu próprio estado aversivo. A angústia pessoal se diferenciaria da empatia por
essa última não estar associada nem a uma resposta egoísta nem a uma orientada
para a outra pessoa. a simpatia de diferenciaria da angústia pessoal, pois a
primeira claramente seria uma resposta orientada para o alívio do sofrimento do
outro, enquanto a segunda seria egoísta e auto-orientada. Eseinberg e Strayer
comentam ainda que a angústia pessoal pode ser um estado precursor da empatia
nas etapas mais precoces, mas que ela pode ocorrer mesmo em estágios mais
avançados do desenvolvimento, sem estar portanto associada aos sentimentos
empáticos. Claramente, as atoras adotam a empatia, como uma variável que é
influenciada pela idade e pelo vel de desenvolvimento. Os homens entrevistados
por Phelan (1995), então, foram incapazes de perceber que a situação de abuso se
constituía como prejudicial para suas filhas, não demonstrando empatia. Alguns
37
estudos (Pithers, 1999; Webster & Beech, 2000) demonstram que os abusadores
teriam déficits em sua capacidade empática, o que atuaria como um facilitador para
a prática de abusos. Quando não incapacidade, pode haver supressão dos
sentimentos empáticos no momento do abuso. Além disso, como comenta Fisher
(in Webster & Beech, 2000), os estudos sobre empatia em abusadores demonstram
que eles possuem um índice normal de empatia geral. O que aconteceria no caso de
abuso seria a pouca empatia direcionada a uma vítima específica. Verificar a
capacidade empática dos abusadores com as crianças é importante, também para
entender como eles percebem as necessidades e os sentimentos delas.
Uma investigação com 91 homens que haviam cometido algum tipo de
abuso sexual contra crianças verificou o modo como os abusadores se relacionam
com crianças (Elliot, Browne, & Kilcoyne, 1995). O instrumento utilizado abrangia
diversos tipos de informação com relação à vida dos abusadores. Os resultados
revelaram que eles informavam ter preferência por meninas na faixa de idade entre
oito e 13 anos, com idade média de 8,5 anos. Sessenta e seis por cento deles
afirmaram conhecer as crianças com as quais cometeram o abuso. Quando
questionados sobre como selecionavam suas vítimas, 42% responderam que
procuravam por crianças bonitas, enquanto outros 27% justificaram sua escolha
pela vestimenta “provocante” da vítima, dizendo, por exemplo, que “as meninas
que eu procurava eram pequenas e usavam mini-blusas e mini-saias”. Um resultado
importante relacionou-se com o fato de 49% dos abusadores terem afirmado que
procuravam por vítimas que pareciam não ter alguém de confiança, que tinham
baixa auto-estima ou problemas familiares. Um último resultado importante foi o
fato de 13% dos abusadores terem selecionado suas vítimas pela aparência de
inocência ou que pareciam crianças confiáveis e que, portanto, o comentariam o
abuso com outras pessoas. Os dados deste estudo revelam uma visão de criança
elegida como vítima, por possuir um perfil específico, aos abusadores.
Na cidade de São Paulo, Safiotti (1997) levantou dados sobre violência
impetrada contra crianças, a partir de registros de denúncias em uma delegacia da
mulher, no período de 1990 a 1993, bem como dados do Programa SOS Criança, do
ano de 1987 a 1993. Os dados revelaram que crianças e adolescentes do sexo
feminino sofrem mais violência sexual e as do sexo masculino sofrem mais
violência física, enfatizando a influência do gênero como uma variável importante.
A violência física aparece como forma disciplinar para os meninos. Já para a
violência sexual vivida pelas meninas, revela-se uma educação para a submissão,
38
para atender todos os pedidos (ou ordens) de figuras de autoridade do sexo
masculino. Segundo Narvaz (2005), “a obediência é um fator que predispõe a
submissão às situações de violência no contexto das relações familiares” Desta
forma, entender crianças, principalmente as meninas, como pessoas que devem ser
obedientes e atender todas as ordens de adultos, claramente, contribui para a
ocorrência de violência, que não é permitido a estas crianças recusar qualquer
investida. Contudo, não apenas a submissão de meninas como fator importante
para situação de abuso. Os homens, por sua vez, se sentem com direito de ter
relacionamento sexual com estas meninas submetendo-as a situações de violência
sexual. O abuso sexual aparece aqui como um produto de uma relação de poder
desigual entre as crianças e adolescentes do sexo feminino e homens adultos. Tal
abuso sexual intrafamiliar é mantido em segredo, numa dinâmica complexa, pois o
perpetrador em seu papel de cuidador utiliza-se da confiança e do afeto que a
criança tem por ele. A criança, por sua vez, não identifica o abuso e não a revela a
ninguém (Furniss, 1993; Habigzang & Caminha, 2004; Habigzang, Koller,
Azevedo, & Machado, 2005, in press).
Abusadores sexuais preferiam crianças que possuam algum tipo de
deficiência, por serem mais fragilizadas ou não terem condições de revelar o fato
(Koller, 1999). Além disso, em um relatório de pesquisa com caminhoneiros que
abusaram sexualmente de crianças, Koller, Moraes e Cerqueira-Santos (2005)
mostraram a preferência destes participantes por crianças que possuíam um status
diferente de suas filhas ou meninas de suas famílias, afirmando indiretamente que
em alguma medida, era permitido ter sexo com meninas que encontravam nas
estradas. Em complemento a este argumento, os participantes da pesquisa
afirmaram que caso a menina abusada o fosse mais virgem, seria permitido
manter relações sexuais com elas. Mais uma vez, fica evidente que a visão que os
abusadores possuem sobre as crianças está diretamente envolvida em um contexto
que propicia a situação de abuso. Embora, os caminhoneiros tenham revelado esse
tipo de idéia sobre as crianças exploradas sexualmente nas estradas, quando
questionados que tipo de atividades são mais típicos de crianças ou adolescentes,
eles responderam que as atividades lúdicas seriam mais característica da infância e
o namoro da fase adolescente. Os resultados são assim, divergentes, pois, por um
lado indicam que estes indivíduos percebem que o sexo não é uma atividade típica
da fase infantil e por outro que o sexo é permitido com algumas crianças.
39
As distorções cognitivas (das quais se pode inferir a visão que eles possuem
sobre as crianças) geralmente se associam a quatro fatores: a visão que o abusador
sexual possui sobre si mesmo; a sua visão sobre o papel que ele ocupa em uma dada
estrutura social; o reconhecimento e/ou aceitação dos valores éticos e das
expectativas sociais e as características de seu contexto social (Horley, 2000). Ao
analisar estas últimas conclusões, pode-se inferir alguns pontos acerca da visão que
os abusadores possuem sobre as crianças. A visão que eles possuem acerca dos
seres infantis estariam ligadas a questões individuais, mas também as questões
contextuais. Assim, a visão que ele possui sobre as crianças está diretamente ligada
a como ele se relaciona com o mundo de uma maneira geral. Gannon et al. (2005)
partilham de posição semelhante a de Horley quando afirmam que os atos de abuso
sexual devem ser entendidos em relação a como o abusador pensa o mundo à sua
volta. Abusadores sexuais infantis possuem comportamentos auto-centrados,
percebendo suas necessidades, anseios e desejos como mais importantes que as
vontades alheias (Ward & Kennan, 1999). A criança, então, seria percebida por eles
como menos importantes que eles. Um auto-conceito negativo e uma conseqüente
baixa auto-estima são fatores importantes para a análise da percepção que os
abusadores possuem sobre si mesmos. A auto-estima, parte do auto-conceito, é
vista aqui como o valor que a pessoa nutre sobre si mesmo (Tamayo et al., 2001). A
baixa auto-estima em abusadores faria com que os abusadores receassem lidar com
situações problemáticas. Assim, eles lidariam com o estresse através de estratégias
disfuncionais, como o abuso sexual contra crianças (Marshal, Crips, Anderson, &
Cortoni, 1999). Lidar com as crianças, seres mais frágeis usando-as para a
satisfação de seus impulsos, seria mais fácil que enfrentar as situações
problemáticas. Desta forma, se a visão que o abusador tem sobre si mesmo
influencia na sua visão das outras pessoas e, por conseguinte, das crianças, suas
vítimas infantis são vistas por ele como menos importantes. Para corroborar esta
posição, Amazarray e Koller (1998) destacam que o abusador sexual infantil não
percebe a criança enquanto uma pessoa que possui sentimentos, mas como um
objeto.
Associado a estes dois fatores está o fato de alguns estudos demonstrarem
que uma parcela significativa de abusadores foi abusada durante a infância. Aqui a
vitimização do próprio abusador quando criança pode ser um fator chave, que os
modos como ele foi tratado (abusado) pode ser um fator que predispõe a atos de
abuso e aos modos como as crianças. Contudo, é válido destacar que os abusos
40
sofridos pelos abusadores não são necessariamente apenas de ordem sexual.
Pesquisa realizada por Widon e Ames (1994) revelou que entre homens que haviam
cometido algum ato de abuso sexual, não houve diferença significativa entre
aqueles que haviam sido vitimizados sica ou sexualmente. Certos tipos de abuso
podem levar ao aparecimento de desordens psiquiátricas. Na pesquisa realizada
com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais, o abuso sexual durante a infância
apareceu associado à pedofilia (Lee, Jackson, Pattison, & Ward, 2001). É
importante destacar que os números sobre a prevalência de vitimização entre os
abusadores varia, com estudos demonstrando nenhuma prevalência a 80% de abuso
entre essa população (Widon & Ames, 1994). Em seu trabalho clínico e de
pesquisa, Intebi (1998) comenta que apesar da variação desses índices, ela pôde
verificar que todos os abusadores atendidos foram vitimizados sexualmente quando
crianças. Ela comenta que a revelação dos abusos sofridos por eles foi feita após
várias sessões de psicoterapia. Assim, Intebi comenta que aquelas pesquisas que
utilizam apenas uma entrevista podem subestimar o índice de abusadores que foram
vitimizados na infância.
Um estudo qualitativo com oito abusadores revelou que todos eles sofreram
algum tipo de violência em suas infâncias (Garret, 2004). Além disso, descreveram
ambientes familiares disfuncionais, nos quais eles tiveram que assumir os papéis de
cuidados com os irmãos. Todos eles relatam também relações de violência ou
abandono com suas figuras paternas. Os relacionamentos conjugais dos pais desses
participantes foram descritos por eles como instáveis. Devido a pouca estabilidade
econômica e emocional de suas famílias, alguns deles disseram ter mudado de
residência várias vezes, ou foram morar definitivamente com outros parentes.
Todos narraram que seus sonhos quando criança eram basicamente sobreviver às
violências sofridas para conseguirem se distanciar de suas famílias de origem. Em
decorrência dos abusos sofridos, estes homens afirmaram não serem capazes de
estabelecer laços de confiança e intimidade com outras pessoas, tornando-se
pessoas isoladas. Eles comentaram ainda que se sentiam como objetos que os
outros utilizavam segundo seus próprios desejos. Em suas falas, ficou evidente que
suas infâncias se configuraram de maneira tão problemática que eles foram
incapazes de recordar, com profundidade, episódios positivos ocorridos nelas.
Todos comentaram também ter usado álcool precocemente (antes dos 12 anos de
idade). Esses homens expuseram ainda que as pessoas a sua volta os chamavam de
estúpidos e idiotas, e que sempre se sentiram desvalorizados e solitários em
41
decorrência dessa forma depreciativa e pejorativa com a qual foram tratados. Todos
eles afirmaram ter desenvolvido uma baixa valorização de si mesmo, padrão este
que perdurou até a adultez. Além disso, a escola e as relações experienciadas nelas
foram lembradas de maneira negativa. Devido a todos esses estressores, os
abusadores da pesquisa desenvolvida por Garret foram taxativos em afirmar que
não percebem outro modo de “ser no mundo” além de serem violentos. Segundo
eles: “Você aprende o que você vê!” (Garret, 2004, p. 189). As características
familiares (inversão de papéis hierárquicos, clima afetivo pobre, prática de
violência) descritas pelos participantes deste último estudo são constatadas em
outros estudos sobre violência intrafamiliar (Flores & Caminha, 1994; Silva &
Hutz, 2002). Os entornos de abusadores sexuais aparentam ser tão problemáticos
que os primeiros atos de abuso cometidos por eles se iniciam na adolescência
(Abel & Harlow, 2000; Becker, 1994).
Pode-se questionar por que os abusos sofridos na infância de um abusador
sexual podem influenciar no seu modo de ver uma criança e, por conseguinte, no
cometimento de atos de abuso. Para responder pelo menos em parte a esta questão,
o estudo de Lambie, Seymour, Lee e Adams (2002) respondem que alguns
abusadores sexuais relatam ter fantasiado sobre o abuso sofrido em ocasiões
posteriores. Associado a isso, uma boa parcela destes afirmou que o abuso foi uma
experiência percebida como normal, relatando que não sentiam como uma
violência, além de não terem uma figura de confiança para a qual pudessem relatar
a violência sofrida. Desta forma, a idéia de que as crianças podem querer sexo e
que podem desfrutar da experiência de abuso, pode ser algo natural para os
abusadores, já que em suas experiências isso se mostrou verdadeiro. A falta de uma
pessoa de confiança para relatar o episódio foi uma importante variável, que reitera
o fato de que os abusadores em sua infância não tiveram alguém para afirmar a eles
que os atos de abuso não eram algo comum.
1.5 A Bioecologia do Desenvolvimento dos Abusadores Sexuais
Os modos como os abusadores em o mundo a sua volta e,
conseqüentemente as crianças, são explicados a partir de vários fatores. Algumas
teorias focalizam as interferências sociais (Burt, 1980), enquanto outras explicam as
cognições dos abusadores como distorções cognitivas, que ocorrem em decorrência
de alguma patologia (Becker, 1994). Desta forma, as teorias explicam apenas parte
dos fatores importantes envolvidos nesta questão. Neste estudo foi adotado o
42
Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano, proposto por Urie
Bronfenbrenner (1979/1996), que considera que “as características de uma pessoa
em dado momento de sua vida são uma função conjunta das características
individuais e do ambiente ao longo do curso de sua vida” (1989, p. 90). O
desenvolvimento é um processo no qual uma interação recíproca da pessoa com
seu contexto, através de sua história (tempo). Acessa-se o processo de
desenvolvimento acompanhando as mudanças em função da exposição e interação
de uma pessoa com o meio ambiente (Bronfenbrenner & Morris, 1998). Tal
interação não é simétrica, as características da pessoa ou do contexto têm
importância diferente em situações diversas. Bronfenbrenner desenvolveu um
modelo teórico chamado PPCT, ou modelo Processo-Pessoa-Contexto-Tempo. A
seguir cada um destes elementos será descrito. Com a descrição destas primeiras
características, nota-se que abordar a visão que os abusadores possuem sobre a
criança a partir do Modelo Bioecológico é uma tentativa de compreender o
fenômeno de uma maneira global, considerando tanto os fatores microssistêmicos
quanto os macrossistêmicos. Além disso, a teoria utilizada corrobora as proposições
de Horley (2000), que afirma que a visão que os abusadores possuem sobre as
crianças e sobre o mundo em geral são influenciadas por fatores pessoais (como a
visão que o abusador possui sobre ele mesmo) e por fatores de ordem social e
cultural (como o sistema de crenças e valores da sociedade na qual o abusador está
inserido).
Os processos proximais são “os principais motores do desenvolvimento”
humano (Bronfenbrenner & Morris, 1998, p. 996). Para que uma atividade seja
considerada como tal é necessário que haja interação recíproca nas relações
interpessoais, e que a pessoa esteja engajada em uma atividade. Além disso, a
interação deve ocorrer em uma base regular através do tempo, e que os símbolos e
os objetos do ambiente imediato estimulem a atenção, a manipulação e a
imaginação da pessoa em desenvolvimento (Bronfenbrenner, 1999). É através do
estudo dos processos proximais que se pode investigar como se o
desenvolvimento de uma pessoa, que é através dele que as características dos
outros elementos se expressam, permitindo analisar, por exemplo, as relações dos
abusadores com crianças ao longo de suas vidas. As relações destes indivíduos de
com as pessoas em geral e com as crianças, mais especificamente, foram descritas
como disfuncionais. Na revisão de literatura pode-se notar, por exemplo, que eles
43
estabeleceram relações de responsabilidade com seus irmãos e relações tumultuadas
com seus pais e outros cuidadores (ver Garret, 2004).
A pessoa, para o modelo bioecológico do desenvolvimento humano,
abrange tanto as características biopsicológicas quanto aquelas que foram
adquiridas ao longo da vida. Modificações nas primeiras características podem
alterar o curso do desenvolvimento da vida de um indivíduo. Em 1983,
Bronfenbrenner categorizou os atributos das pessoas em três tipos. Apenas um dos
tipos será relatado aqui. Brofenbrenner e Morris (1999) elaboraram o construto
forças da pessoa que são aquelas características de uma pessoa que tem maior
influência no seu desenvolvimento futuro. Estas duas forças são denominadas como
desenvolvimentalmente-geradoras e desenvolvimentalmente-disruptivas. A
primeira classe de forças envolve orientações ativas por parte da pessoa, tais como
curiosidade, tendência para engajar-se em atividades sozinhas ou em companhia de
outros, responsividade para as demandas dos outros, capacidade de adiar uma
gratificação imediata e persistir numa meta a longo prazo. O segundo tipo varia
entre dois pólos. O primeiro deles relaciona-se com comportamentos de
impulsividade, agressividade, explosividade, incapacidade de adiar gratificações,
distrações e prontidão para recorrer a agressões e violência. O outro pólo designa
comportamentos de apatia, indiferença, desatenção, sentimento de insegurança,
timidez ou uma tendência geral de se retirar de atividades coletivas. Os abusadores
foram descritos por vários autores (ver Azevedo & Guerra, 1999; Garret, 2004)
como pessoas isoladas, auto-centradas, violentas, entre outras características
negativas. Assim, eles poderiam ser classificados como pessoas que se movem
basicamente através das forças desenvolvimentalmente-disruptivas.
O contexto divide-se em quatro sistemas, a saber: micro, meso, exo e
macrossistema. Os microssistemas são aqueles ambientes nos quais a pessoa em
desenvolvimento tem suas interações face-a-face (Bronfenbrenner, 1979/1996). O
envolvimento em situações de abuso ao longo da vida, bem como as relações com
outras crianças em diversos ambientes podem ser investigadas, permitindo o
entendimento das interações em diversos microssistemas (família, escola,
vizinhança, etc.). Os microssistemas ao longo da vida dos abusadores foram
descritos como turbulentos, problemáticos e violentos. A compreensão desses
ambientes na infância são particularmente importantes, pois eles são determinates
na formação psicológica dos abusadores (Garret, 2004). O mesossistema é o
conjunto de microssistemas freqüentados pela pessoa e as relações entre eles
44
(Bronfenbrenner, 1979/1996). Entradas e saídas em novos ambientes ocasionam
uma alteração no mesossistema. O exossistema é composto pelos ambientes nos
quais a pessoa não participa diretamente, mas que possuem influência direta sobre
seu desenvolvimento. Finalmente, o macrossistema é composto pelo conjunto de
ideologias, valores e crenças, religiões, formas de governo, culturas e subculturas
presentes no dia-a-dia das pessoas e que influenciam diretamente os modos de
pensar e comportar dos indivíduos (Bronfenbrenner, 1979/1996). Viver numa
sociedade que acredita que os pais têm posse sobre uma criança é um aspecto
macrossistêmico que pode influenciar no aparecimento de atitudes de violação de
direitos destas crianças (Koller & De Antoni, 2004). Áries e outros trazem aspectos
macrossistêmicos importantes das sociedades ocidentais ao longo dos séculos e
como elas construíam a visão de infância de seus contemporâneos.
O último elemento do modelo proposto por Bronfenbrenner (1999) é o
tempo considerado tanto em termos de ciclo vital como em termos de mudanças do
ambiente ao longo da história e a interação entre estes dois elementos. O tempo será
considerado neste estudo, já que se reconhece que a visão que abusador possui
sobre si mesmo e sobre as crianças foi construída ao longo de sua história de vida
por concepções macro e micro.
Diante de todo este quadro, o objetivo deste estudo foi investigar a visão
que abusadores sexuais possuem sobre as crianças, analisando as relações que eles
estabeleceram com elas ao longo de seu ciclo vital. A análise feita neste estudo
tinha como foco a compreensão dessas relações nos ambientes (família, escola,
bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas
(infância, adolescência, adultez), considerando assim o aspecto temporal. Além
disso, foi fundamental também averiguar o modo como eles viam a si mesmos ao
longo de suas vidas. A maior compreensão da visão sobre as crianças ao longo do
ciclo vital por abusadores pode trazer contribuições teóricas, ainda escassa na
literatura, sobre o próprio desenvolvimento de pessoas que cometem abuso sexual,
assim como subsidiar ações de prevenção e intervenção a estes casos. Políticas
públicas e jurídicas podem ser influenciadas por estes achados, assim como o
acompanhamento clínico.
45
CAPÍTULO II
MÉTODO
2.1 Delineamento
Realizou-se um estudo exploratório descritivo que investigou a visão que os
abusadores sexuais infantis possuem sobre as crianças, analisando as relações que
ele estabeleceu com elas ao longo de seu ciclo vital.
2.2 Participantes
Participaram deste estudo cinco homens que foram acusados de cometer
abuso sexual contra crianças e adolescentes de até 13 anos. As idades dos
entrevistados foram as seguintes: dois com 37, um com 38, um com 70 e outro com
73 anos. A amostra utilizada foi de conveniência pela dificuldade de acesso aos
participantes. Uma vez que a quantidade de denúncia para os casos de abuso é
subestimada (Rich et al., 2005), este fato teve influência significativa no número de
casos disponíveis para pesquisa. Além disso, poucos casos quando denunciados são
transformados em processos judiciais. também que se considerar que as
questões criminais também influenciam na acessibilidade dos participantes, por eles
não desejarem se expor por temer a condenação e a prisão. Diante destas
dificuldades, para realizar a pesquisa foram acessados participantes no Ambulatório
do Departamento de Genética, serviço ao qual eram encaminhados para avaliação
psicológica solicitada compulsoriamente pela justiça. A equipe de pesquisa avaliou
aqueles que eram direcionados para a participação neste estudo. Quatro dos
participantes estavam respondendo a processos judiciais pelas acusações de abuso
sexual e por isso estavam nessa situação de encaminhamento compulsório. Apesar
da obrigatoriedade da avaliação, a participação na pesquisa era voluntária. Um
deles, contudo, chegou a o Departamento de Genética por livre e espontânea
vontade à procura de ajuda psicológica. O único critério de exclusão utilizado neste
estudo foi a ausência de deficiências mentais. A entrevista realizada neste estudo
era profunda e permitia a análise desse tipo de transtorno. Caso fosse detectada
alguma deficiência cognitiva a entrevista seria interrompida, o participante
agradecido e os dados excluídos da análise. No entanto, tal critério de exclusão não
foi aplicado.. A faixa etária estabelecida (18 a 45 anos) no projeto para este estudo
46
não pôde ser mantida devido às dificuldades em acessar um número suficiente de
casos no período de execução do estudo para análise.
Caracterização Bio-sócio-demográfica
As idades dos participantes variaram de 37 a 73 anos. Quanto à
escolaridade, dois afirmaram ser analfabetos, outros dois concluíram o ensino
médio e um concluiu apenas o ensino fundamental. No momento da pesquisa, um
dos participantes trabalhava como zelador, um outro com processamento geodésico
e um deles estava preso em decorrência da acusação de abuso sexual contra sua
filha. Por este motivo, ele não estava exercendo nenhuma atividade profissional.
Dois já eram aposentados devido à idade. A renda dos participantes variou entre um
e três salários mínimos da época, que correspondia a R$ 350,00 mensais. Os casos
estão inicialmente descritos um a um, em virtude das particularidades de cada uma
das histórias. Os nomes dos participantes e de seus familiares são fictícios para
resguardo de suas identidades.
Caso Marcos
Marcos tinha 38 anos e estava preso na época da pesquisa devido à acusação
de abuso sexual contra sua filha. No momento anterior a sua prisão, ele era
carroceiro e coletava materiais para reciclagem. Morava em uma cidade no interior
do Rio Grande do Sul, com sua companheira, um enteado e três filhos.
Marcos foi acusado de abusar de sua filha de dez anos, mas ele alega não ter
cometido nem esse nem qualquer outro tipo de violência contra ela. Em seu
depoimento, a filha afirmou que o pai friccionava os seus órgãos sexuais contra o
corpo dela. Ele já havia sido preso anteriormente acusado de abusar de seu enteado,
mas foi absolvido da acusação.
Marcos estava com aspecto bem cuidado, principalmente considerando o
fato de estar preso. Aparentou estar pouco a vontade durante a entrevista, sempre
olhando para baixo. Falou apenas o necessário para responder as perguntas da
entrevista, demonstrando-se assertivo em suas respostas.
Caso Osmar
Osmar tinha 73 anos, é estrangeiro e vive no Brasil 35 anos. No
momento da pesquisa, residia em uma cidade na região metropolitana de Porto
Alegre. Antes de acusação de abuso sexual contra uma das filhas de sua enteada
(seis anos), ele morava com sua segunda esposa e vários filhos e netos. Após a
47
denúncia, passou a morar sozinho. Osmar também se declara inocente da acusação
de abuso sexual. A vítima declarou que Osmar tinha tocado sua genitália em troca
de presentes e dinheiro. Quando este fato foi denunciado, uma das filhas de Osmar
revelou que ele havia cometido abuso sexual contra ela na infância.
Destaca-se que no ano de 1986, ele foi acusado informalmente, por uma de
suas noras de observar uma de suas netas enquanto ela tomava banho. A ex-esposa
de Osmar expôs também que a vinda dele do país de origem para o Brasil ocorreu
em virtude de uma acusação de estupro. Ele teria estuprado uma filha de sua
primeira esposa, engravidando-a.
Osmar foi o único entrevistado que pode comparecer duas vezes ao
Departamento de Genética para a coleta de dados. Nesses dois momentos, ele
apresentou-se bem vestido. Desde o início, mostrou-se solícito e educado. Em
certos momentos, tentou manipular as entrevistadoras como um meio de descobrir o
resultado de sua avaliação. Além disso, muitas vezes Osmar foi evasivo com
relação as perguntas, relatando aspectos que não estavam associados diretamente a
elas. Mesmo assim, mostrou-se seguro ao responder todas as questões.
Caso Flávio
Flávio tinha 37 anos quando a entrevista foi realizada. Antes da acusação de
abuso sexual contra sua enteada, Flávio residia em uma cidade no interior do estado
junto com a esposa, um filho e uma enteada. Após a denúncia, Flávio e sua esposa
se separam e no momento da pesquisa, ele residia sozinho em sua cidade natal,
também no interior do estado.
Flávio havia sido preso, anteriormente, em decorrência da acusação de
abuso sexual de sua enteada de 13 anos, que o acusou de tentativa de estupro,
afirmando que o padrasto estava sob o efeito do álcool. Quando foi a delegacia para
prestar depoimento, Flávio admitiu que tentou violentar sexualmente a vítima.
Contudo, durante a entrevista desta pesquisa negou que tenha feito tal afirmação na
delegacia. Declarou que as policiais que ouviram seu depoimento estavam
emocionalmente perturbadas e que, portanto, compreenderam erroneamente as
afirmações. Flávio foi libertado da prisão e estava em liberdade provisória, quando
a pesquisa foi realizada.
Flávio apresentou-se bem vestido. Não parecia estar à vontade, observando
um relógio na parede durante quase toda a entrevista e falou apenas o necessário
para responder as perguntas. Algumas vezes demonstrou hostilidade,
48
principalmente quando foi questionado sobre algum aspecto da acusação de abuso
sexual contra ele. Outras vezes hesitou em responder outras questões e, em vários
momentos, se contradisse sobre vários aspectos de sua vida.
Caso Francisco
Francisco tinha 37 anos e residia na periferia de Porto Alegre com sua
esposa e duas filhas na época da pesquisa. A denúncia de abuso sexual ainda não
havia se transformado em processo judicial quando a entrevista foi realizada.
Assim, Francisco não chegou ao serviço de atendimento encaminhado
compulsoriamente pela justiça, mas por sua própria vontade, em busca de
atendimento psicológico, com queixas de dificuldade de sono, irritabilidade e
sentimentos de culpa que começaram após o relacionamento com sua afilhada.
Francisco admitiu que manteve relações sexuais com a sua afilhada (13 anos),
sobrinha de sua esposa. Segundo ele, os encontros com ela aconteceram sete vezes
e duraram cerca de um mês. Quando se referiu a essa relação com sua afilhada, ele
nunca usou o termo “abuso”, pois segundo suas afirmações, as relações sexuais
entre eles foram consentidas por ela.
Francisco tinha um semblante casando no inicio da entrevista. Apesar disso,
mostrou-se loquaz e cooperativo ao responder as perguntas, acrescentando
informações importantes sem que isso lhe fosse solicitado. Demonstrou
assertividade em todos os questionamentos que lhe foram dirigidos.
Caso Paulo
Paulo tinha 70 anos e no momento da pesquisa, residia com sua esposa, dois
filhos, uma filha, genro e uma neta em uma cidade do interior do estado. Paulo foi
acusado de abusar sistematicamente de sua filha então com 14 anos. Apesar de a
denúncia ter acontecido alguns meses antes da entrevista dessa pesquisa,
indícios de que abuso vinha acontecendo a alguns anos antes, pois pessoas
próximas da vítima revelaram que ela apresentava comportamentos
hipersexulizados. Tais comportamentos, quando são verificados em crianças e
adolescente, são típicos de vítimas de abuso sexual (Intebi, 1998). Além disso, o
próprio acusado comentou que a vítima havia fugido de casa duas vezes,
afirmando que não sabia o motivo de tal comportamento. Assim, as fugas podiam
ser as expressões de que algo em sua casa a afetava. Paulo negou que fosse suspeito
de abusar sexualmente de sua filha, afirmando que a acusação que pesava sobre ele
49
era de que usava a filha para aliciar outras meninas menores de idade com o
objetivo de manter relações sexuais com elas. Ele se declarou inocente tanto de uma
quanto de outra acusação.
Paulo aparentava estar disposto a responder as perguntas no início da
entrevista. Contudo, em vários momentos manipulou as falas de modo a não
responder a várias questões. Além disso, tentou manipular as pesquisadoras na
tentativa de conseguir saber qual era a opinião dela sobre seu comportamento.
Mostrou segurança ao responder todas as perguntas.
2.3 Instrumentos
Foi utilizada uma Ficha bio-sócio-demográfica (Anexo B) com o objetivo
de identificar os participantes. Este instrumento continha questões sobre idade,
renda mensal, escolaridade, profissão e estado civil. Utilizou-se, também, uma
entrevista semi-estruturada que investigou o modo como os participantes vêem as
crianças, e como se percebem ao longo do ciclo da vida, iniciando com sua
infância, passando pela adolescência e vida adulta, até o momento atual. Nestas
etapas do ciclo vital, os participantes foram questionados sobre suas relações com
outras pessoas e, principalmente, com crianças. Investigaram-se suas visões sobre
questões tais como: episódios positivos e negativos de suas vidas, o ambiente
familiar durante suas vidas, os sentimentos de empatia com as crianças, a visão
sobre as diferenças entre meninas e meninos, os direitos e as necessidades das
crianças, entre outros. Para finalizar a entrevista de forma positiva, foram
acrescentadas perguntas sobre expectativas para o futuro (Anexo C).
2.4 Procedimentos
O projeto foi encaminhado e aprovado pelo Comitê de Ética da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob o protocolo de número 2006557,
em acordo com as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Saúde na
Resolução n. 196 (1996) e pelo Conselho Federal de Psicologia na Resolução n.
16/2000 (2000). A equipe de pesquisa foi treinada antes de ir a campo para a coleta
de dados. O treinamento, realizado semanalmente, envolveu aspectos teóricos,
metodológicos e éticos.
O recrutamento dos participantes ocorreu no Departamento de Genética da
UFRGS. Quase todos eles foram encaminhados compulsoriamente pela justiça ao
Ambulatório do Departamento de Genética. Apenas um deles chegou até esse
50
serviço de livre espontânea vontade. As entrevistas foram marcadas com
antecedência e com quatro participantes, a coleta de dados ocorreu em apenas um
encontro. A duração média das entrevistas com cada um deles foi de duas horas e
meia. Em todos esses casos, deu-se liberdade para que o participante escolhesse o
momento de interrupção da entrevista. Todos decidiram realizá-las sem intervalos.
O tempo reduzido para a coleta de dados (um único encontro) ocorreu em virtude
das dificuldades de deslocamento dos entrevistados até o serviço de atendimento.
Com um dos participantes a coleta de pode ser realizada em dois momentos, pois
ele mostrou-se disponível para isto. As entrevistas foram conduzidas pela
mestranda e por um(a) aluno(a) de graduação. A presença de dois pesquisadores
garantiu uma melhor discussão dos dados coletados, que diminuiu o risco de
interpretações equivocadas que poderiam ser gerada pela presença de apenas um
pesquisador.
Inicialmente, houve a explicação aos participantes sobre a natureza da
pesquisa, deixando-os livre para participar, a partir da assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo A). Logo em seguida, aplicou-se a
Ficha Bio-sócio-demográfica (Anexo B) e, posteriormente, foi realizada,
individualmente, a Entrevista sobre o modo como os participantes em as
crianças, e como se percebem ao longo do ciclo da vida (Anexo D). Todas as
entrevistas foram gravadas em áudio e posteriormente transcritas.
51
CAPÍTULO III
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Este estudo investigou a visão que abusadores sexuais possuem sobre as
crianças, analisando as relações estabelecidas com elas ao longo de seu ciclo vital.
A análise focalizou na compreensão dessas relações nos ambientes (família, escola,
bairro) nos quais estiveram inseridos nos diferentes momentos de suas vidas
(infância, adolescência, adultez). Além disso, foi averiguada a visão que eles
tinham de si mesmos ao longo de suas vidas. A análise fundamentou-se no
estabelecimento de categorias de acordo com os critérios adotados por Bardin
(1979), sobre Análise de Conteúdo. Utilizou-se a modalidade temática, na qual se
objetiva apreender tanto o conteúdo quanto a lógica de cada uma das entrevistas.
Após essa primeira etapa, as principais falas dos participantes foram identificadas e,
posteriormente, foram criadas categorias a posteriori (núcleo de sentidos) que
foram articuladas na discussão com o referencial teórico.
No decorrer da análise de conteúdo das entrevistas surgiram as seguintes
categorias que foram esquematizadas na Tabela 1, 2 e 3.
Tabela 1
Fases do Ciclo Vital dos Participantes
Infância
Pergunta Categoria
Ser Criança na Família de Origem Pertencimento Positivo
Lembranças Positivas de
Atividades, Sonhos e
Aspirações
Lembranças Positivas e Negativas da
Infância na Família
Ausência de Lembranças
Positivas
Relação com Crianças na Mesma Casa Respostas Positivas
Definição de Si Mesmos e dos Pais
Quando Crianças
Características Positivas
Lembranças Positivas Lembranças Positivas e Negativas na
Escola
Lembranças Negativas
52
Desempenho Regular com
Evasão Escolar
Desempenho Escolar
Bom Desempenho sem Evasão
Escolar
Relações com os Pares na Escola Relações Positivas
Aluno Inteligente/Agitado
Aluno Tímido, mas
Participativo
Descrição das Professoras Sobre os
Participantes
Aluno nem Participativo nem
Quieto
Lembranças Positivas e Negativas de
Outros Espaços na Infância
Lembranças Positivas
Relações Positivas sem
Descrição de Conflito
Relação com os Pares em outros
Espaços na Infância
Relações Positivas com
Descrição de Conflito
Atividades Lúdicas e de
Trabalho sem Estudo
Atividade de Trabalho e de
Estudo
Ocupação do Tempo na Infância
Atividades Lúdicas e de Estudo
Brincadeiras Preferidas Jogos e Brincadeiras com
Objetos
Adolescência
Pergunta Categoria
Características Positivas
Características Negativas
Descrição de Si Próprios
Adolescente Normal
Apenas com a Família de
Origem
Com a Família de Origem e a
Companheira
Pessoas com as Quais Convivia na
Adolescência
Com a Família de Origem e
com Outras Pessoas
Relação com as Pessoas com as Quais
Convivia
Relações Positivas
53
Trabalho e Atividades de Lazer
Trabalho e Encontro com os
Amigos
Ocupação do Tempo Durante a
Adolescência
Trabalho e Estudo
Lembranças Positivas
Lembranças Negativas
Episódios Positivos e Negativos
Durante a Adolescência
Ausência de Lembranças
Negativas
Adultez
Pergunta Categoria Subcategoria
Temperamento Temperamento
positivo
Auto-estima Auto-estima positiva
Traços Morais Pensamentos e ações
corretas
Auto-percepção
Outros Traços Pessoa frustrada
Ausência de defeitos
Mudanças Familiares Após
a Denúncia
Formação da Família e
Relação com Ela Antes e
Depois da Denúncia
Manutenção das Relações
Familiares após a Denúncia
Respostas de Desesperança
Respostas Relacionadas à
Situação de Acusação de
Abuso Sexual
Desejo de Paz e
Tranqüilidade
Desejos para o futuro
Planos de Realização
Pessoal
Relação da História de
Vida com a Acusação de
Abuso
Ausência de Conexão entre
a História Vivida e a
Acusação
54
Tabela 2
Visão sobre as Crianças
Pergunta Categoria Subcategoria
Visão positiva e
romanceada da
infância e das crianças
O que é Ser Criança Respostas Politicamente
Corretas e/ou
Estereotipadas
Incompletude das
crianças em relação
aos adultos
Infância como fase
importante para as
demais
Quem É uma Criança Definição Cronológica Definição cronológica
por gênero
Diferenciação por
Identificação como Fase
de Transição do
Desenvolvimento em
Geral
Diferenciação por
Rebeldia
Diferenciação por
Autonomia
Diferenciação por
Autonomia de Pensamento
Diferenças Entre
Crianças e Adolescentes
Diferenciação por Gostos
e Interesses
Diferenciação por
Responsabilidades
Estudo como dever
para as crianças
Diferenças Entre
Crianças e Adultos
Diferenciação por Deveres
Pequenos trabalhos
domésticos como
deveres para as crianças
55
Obediência como dever
para as crianças
Diferenciação por
Atividades Lúdicas
Necessidade de objetos
materiais
Necessidade de
alimentação
Necessidade de carinho
Diferenciação por
Necessidades
Necessidade de ser
prontamente atendida
Direito de não trabalhar
e de estudar
Direito de higiene
Direito de alimentação
Direito de saúde
Direito de
afeto/cuidado
Direito de não ser
obrigado a ter deveres
Direito de cuidado
recebido/devido por
adultos
Diferenciação por Direitos
Prioridade de direitos
Diferenças da Infância
para as Demais Fases
Similaridade por
Problemas Enfrentados
Transição Não-
Cronológica para as
Demais Fases
Definição por Contestação
para Transição da Infância
para Adolescência
Processos Importantes na
Transição da Infância
para a
Adolescência/Adultez
Definição por Mudanças
56
Biológicas na Transição de
Criança para Adolescente
Definição por
Responsabilidade da
Infância para a Adultez
Definição Cronológica
com Base na Adoção das
Responsabilidades
Jurídicas na Transição da
Infância para a Adultez
Definição por Entrada na
Maioridade na Transição
da adolescência para a
Adultez
Autonomia
Mudanças Biológicas
Contestação
Transformação de um
Menino em
Adolescente/Adulto
Definição Cronológica
Responsabilidade
Mudanças Corporais
Semelhantes as dos
Meninos
Transformação de uma
Menina em
Adolescente/Adulta
Perda da Virgindade
Diferenças por
Atividade/Passividade
Diferenças por
Proteção/Cuidado
Diferenças por
Brincadeiras com Aspecto
Sexual
Diferenças e
Semelhanças Entre
Meninos e Meninas
Semelhanças Entre
Meninos e Meninas
57
Respostas Pragmáticas
Respostas com
Sentimentos Positivos
Respostas de Angústia
Pessoal
Empatia
Respostas Empáticas
Sentimentos e
Comportamentos Positivos
Relação de Cuidado
Relação Ideal entre
Adultos e Crianças
Respostas Sobre a
Moralidade
58
Tabela 3
Caracterização das Vítimas
Pergunta Categoria
Sexo das Vítimas Vítimas do Sexo Feminino
Vítimas Crianças Idade das Vítimas
Vítimas Adolescentes
Beleza da Vítima Aparência Física das Vítimas
Recusa em Avaliar a aparência
da Vítima
Ausência/Presença de Deficiências Ausência de Deficiências
Características Positivas Atitudes
Características Negativas
Vínculo com o Abusador Relação de Proximidade Entre
Vítima e Perpetrador
Relações Positivas Qualidade das Relações Entre os Participantes
e as Vítimas
Relação de Vigilância
Envolvimento da Vítima pela
Ação de Terceiros
Envolvimento da Vítima pela
sua Própria Ação
Envolvimento Específico da Vítima na
Denúncia
Envolvimento pela Ação do
Participante
Infância
Embora a investigação sobre as fases dos ciclos vitais esteja descrita na
entrevista após as perguntas sobre a visão acerca das crianças, optou-se por
descrevê-las antes para uma melhor compreensão dos resultados. A partir deste
ponto serão relatadas as experiências infantis dos participantes deste estudo. Serão
descritas as experiências nos microssistemas familiares, na escola e em outros
espaços (bairro, por exemplo).
Ser Criança na Família de Origem
A seguir serão relatadas as respostas obtidas em relação à pergunta “Como
era ser criança nessa família?”. As respostas foram agrupadas na categoria
pertencimento positivo.
59
Pertencimento Positivo
Todos os participantes responderam a esta questão usando expressões
positivas. Um deles comentou, por exemplo, que ser criança em sua família Era
bom, eu considero que era bom(Marcos, 38 anos). Flávio (37 anos) mencionou
que Era bom, era bom, era regrado, a gente tinha horário. Levantava para ir pro
colégio voltava, tirava pra brincar ou então chamava outro pra brincar... Era
bom (Flávio, 37 anos). Finalmente, um deles relatou que Ah, eu... apesar que
meus pais tinham dificuldades, assim de.... de dar coisas pra nós, né? (...) nunca
faltou, assim, comida, nunca faltou carinho, nunca faltou nada pra nós, né. E eu
era uma criança bem feliz, sabe” (Francisco, 37 anos). Com essas respostas, nota-se
que os participantes avaliaram positivamente a sua condição de criança em suas
famílias de origem. Este dado parece contrastar com os dados obtidos na revisão de
literatura, pois o único estudo ao qual se teve acesso sobre experiências infantis de
abusadores sexuais mostra que eles desejavam sair de suas casas assim que isso
lhes fosse possível, pois se sentiam prejudicados pelas violências sofridas (Garret,
2004).
Lembranças Positivas e Negativas na Família
Nesta parte, são descritas as respostas á pergunta: Fale-me sobre sua
infância... que lembranças você tem de sua infância na sua família?”. As falas dos
participantes foram organizadas da seguinte maneira: lembranças positivas de
atividades, sonhos e aspirações, ausência de lembranças positivas, ausência de
lembranças negativas, lembranças negativas e ausência de lembranças negativas.
Lembranças Positivas de Atividades, Sonhos e Aspirações
Ao serem indagados sobre as lembranças boas de sua infância, quase todos
os participantes mencionam que uma lembrança boa seria Lembrança que eu me
lembro, boa que eu tive, no tempo que da minha infância junto com meus pais,
tempo suficiente trabalhando junto com meus pais (Paulo, 70 anos). Outro
lembrou que Boas? Brincava, jogava bola, jogava bolita... Isso (Marcos, 38
anos). Flávio (37 anos) recordou que Acho que a lembrança boa da minha
infância foi a minha primeira bicicleta, né?”. Os sonhos de infância foram
relatados por um deles, sendo relembrados como um aspecto positivo de sua
infância. Um deles relatou “sempre quis ser piloto de avião (Flávio, 37 anos)
60
Ausência de Lembranças Negativas
Na minha infância coisas ruins eu não me lembro. Fui muito feliz quando
menino. Vivia no campo” (Osmar, 73 anos).
Lembranças Negativas
Quando questionados sobre as lembranças ruins, apenas um dos
participantes recordou que em um dado momento lembrança ruim:
... um dia meu pai chegou em casa, que ele tinha ido receber, né... era fim de mês e
ele tinha ido receber ... nós tava já sem as coisas em casa, assim. De alimentação,
outras coisas. Só que daí ele pegou o dinheiro e gastou no jogo. Jogou todo o
dinheiro e chegou em casa sem dinheiro... nenhum. Então essa é a lembrança ruim
que eu tenho assim, né. (Francisco, 37 anos)
Os outros enfatizaram que o conseguiam lembrar de episódios negativos.
O caso de Marcos (38 anos) merece ser comentado, pois ele mencionou:
Aí eles me castigavam... me surravam, na época, na época todos os pais faziam isso,
né? Surravam com cinto, com vara (...)Ficava... Uns verdão no corpo. Era com vara,
com cinta, né?... É a surra, né? Quando fazia arte, quando fazia algo de errado. Essa
é que era a parte mais difícil por que tinha que apanhar. (Marcos, 38 anos)
Contudo, essa resposta foi dada depois que a pesquisadora questionou
especificamente se as surras que o participante sofria não era algo ruim que ele
recordava da infância. Espontaneamente, Marcos não lembrou de nada que em sua
opinião, fosse ruim.
Ausência de Lembranças Positivas
Apenas um deles afirmou o recordar nenhum episódio positivo em sua
infância: “Uma lembrança boa ... que tenha me marcado na minha infância (...) E a
lembrança boa, eu não consigo me lembrar nenhuma agora, no momento
(Francisco, 37 anos).
Os participantes desta pesquisa aparentaram ter vivido uma infância feliz e
tranqüila em suas famílias, diferentemente dos participantes do estudo de Garret
(2004), que descreveram uma infância turbulenta. Alguns dos participantes desse
último estudo relataram que suas infâncias foram tão difíceis e violentas, que seus
principais sonhos eram sobreviver às violências sofridas e sair da casa de suas
famílias. Os sonhos dos participantes daqui não se relacionaram em qualquer
medida ao desejo de ser ver livre de maus-tratos. Apenas um deles revelou que
sofria abusos físicos umas duas vezes por mês (Marcos, 38 anos). Contudo, as
surras sofridas não foram lembradas como algo negativo, pois na época todos os
61
pais faziam issoe além disso, as surras ocorriam só de vez em quando. Era
quando eu fazia algo de errado”. (Marcos, 38 anos). Assim, as surras eram mais
um dispositivo de correção da sua conduta do que atos de violência.
Relações com Crianças na Mesma Casa
Nesta seção, serão expostas as respostas sobre como era a relação dos
participantes com crianças (irmãos, primos, etc.) que viviam na mesma que eles
durante a infância. As respostas foram organizadas nas categorias respostas
positivas, respostas incoerentes e respostas ausentes.
Respostas Positivas
As relações com crianças da mesma na casa na infância também foram
descritas de maneira positiva. Um deles revelou, por exemplo, que sempre se deu
Muito bem. Todos eles (irmãos), muito bem(Osmar, 73 anos). O outro enfatizou
que “Normal. Tudo normal. Eu e meu irmão, a gente brigava direto. Esse que era
da... quase da minha idade. Que era quase da minha idade, a gente brigava direto,
assim. Desde guri se... mas é normal, assim.” (Francisco, 37 anos).
Respostas Incoerentes
Quando indagado sobre essa questão, Paulo (70 anos) insistiu que queria
perguntar pra doutora se senhora sabe do que tão falando de mim. (Paulo, 70
anos)
Respostas Ausentes
Um participante revelou que só morava eu, minha avó, meu tio e minha
bisavó(Marcos, 38 anos). A única referência encontrada sobre a convivência de
abusadores com outras pessoas de sua infância foi o de Garret (2004) que faz
apenas uma pequena referência sobre a relação entre irmãos. Os participantes da
pesquisa de Garret relataram que suas relações com os irmãos, ora eram distantes,
ora era de responsabilidade. Eles citaram que seus pais delegavam a eles as tarefas
de cuidados com os irmãos mais novos. Nessa pesquisa, não foi observado esse tipo
de relação com os irmãos. A relação dos participantes com as crianças da mesma
casa pode ser descrita como saudável, sem que eles assumissem essa relação de
responsabilidades com seus irmãos.
62
Definição de Si Mesmo e dos Pais Quando Crianças
Serão descritas, nesta seção, as respostas às perguntas: “Como você acha
que seus pais lhe descreveriam como criança?” “Fazendo de conta que voltássemos
no tempo: Olhe pra você como criança e me descreva esta criança?”. As respostas
foram organizadas em duas categorias: definições positivas e respostas ausentes ou
inadequadas.
Definição Positivas
Os participantes definiram a si próprios como crianças usando expressões
positivas. Definiram-se como “bem feliz, sabe?” (Francisco, 37 anos), ou como uma
criança carinhosa com meus pais” (Paulo, 70 anos) e que “brincava e trabalhava
(Paulo, 70 anos) Além disso, falaram sobre si como uma criança levada
(Francisco, 37 anos). Mas, ao mesmo tempo um deles relatou que era uma criança
regrada e (que) obedecia aos pais” (Flávio, 37 anos). A autodefinição foi,
sobretudo, de “crianças normais” (Flávio, 37 anos).
As respostas sobre como os pais dos participantes os descreveriam, foram
semelhantes as que os entrevistados deram sobre eles mesmos. Segundo Paulo (70
anos) seus pais falavam sobre ele da seguinte maneira: Vou dizer o que eu me
recordo, não me recordo de muita coisa. Eles diziam que eu era trabalhador e
educadoAlém disso, um outro relatou que seus pais lhe descreveriam como Uma
criança normal.. feliz... quieta” (Osmar, 73 anos). Francisco (37 anos) declarou que
seus pais o viam como Arteiro, muito arteiro”. A coerência entre as respostas
mostra que os participantes se percebiam de forma positiva, assim como seus pais.
Os resultados encontrados no estudo de Garret (2004) sobre a autodescrição
negativa e pejorativa de abusadores sexuais não são corroboradas nesta pesquisa.
Garret informa que eles se atribuam definições como crianças estúpidas e idiotas, já
que esta essa era a percepção que os outros tinham sobre eles.
Respostas Ausentes ou Inadequadas
Um dos participantes alegou não saber como responder a esta pergunta. Foi
insistido pra que ele desse alguma informação, mas ele se recusou afirmando Não
sei mesmo!” (Marcos, 38 anos). Um outro forneceu uma resposta incoerente:
É que na verdade para pai e mãe a gente nunca cresce, né? Por mais velho que
esteja, o carinho, é sempre, o pai e mãe dão carinho, né? Sempre vão chegar e te
tratar como se tu não tivesse crescido. Eles vão entender que tu cresceu, se tornou
63
adulto e tal, mas pra eles tu vai continuar sendo criança. Vai ser eterna criança. Pelo
menos eu acho assim. (Flávio, 37 anos)
Flávio parece o ter compreendido a pergunta. A pesquisadora não a
repetiu para uma melhor compreensão do participante. De maneira geral, pode-se
notar que a infância desses homens, em suas famílias, é percebida ou descrita por
eles como feliz e saudável. Contudo, o relato dos episódios positivos parece vago.
Ao serem solicitados a descrever com mais profundidade suas lembranças,
limitavam-se a repetir o que havia sido dito sem realmente trazer novos dados e
lembranças mais profícuas. Segundo Garret (2004), a descrição de momentos bons
na infância dos participantes da pesquisa conduzida por ela também foi vaga. Ela
afirma que mesmo diante de sua “insistência” nas perguntas sobre tais episódios, os
participantes não foram capazes de ser mais específicos. A ausência de lembranças
A quase total ausência de relatos de maus-tratos na amostra deste estudo
merece ser comentada, pois, estudos (Lee et al., 2001; Widon & Ames, 1994)
indicam que sofrer algum tipo de abuso (não apenas o sexual) é importante preditor
para o cometimento de abusos sexuais contra crianças. Widon e Ames (1994)
comentam que em uma pesquisa com homens que cometeram abusos sexuais contra
crianças, não houve diferença significativa entre aqueles que haviam sido
vitimizados sica ou sexualmente na infância. Eles apontam ainda que ambos os
maus-tratos são mais freqüentes em pessoas que cometem abuso sexual contra
criança do que na população me geral. Certos tipos de abuso podem levar ao
aparecimento de desordens psiquiátricas, que podem estar associados ao
cometimento de certos delitos (Lee et al., 2001). Em uma pesquisa realizada por
esses autores, com 64 abusadores e 33 criminosos não-sexuais, a vitimização sexual
do abusador na infância esteve estaticamente associada a sintomas de pedofilia
durante a adultez. Assim, a ocorrência de maus tratos na infância parece ser um
fator comum nas infâncias de homens que cometem atos de abuso sexual. No
presente trabalho o se encontrou esse tipo de resultado. Isso pode ter acontecido
por várias razões. que se considerar que a quantidade de participantes nesse
estudo foi pequena e pode não ser representativa da população de abusadores.
Assim, os resultados desta amostra, embora ilustrativos, o poderiam ser
generalizados para a população total de abusadores. Não foram encontradas
estatísticas sobre a quantidade de homens que praticaram algum tipo de abuso
sexual contra crianças, devido à subnotificação dos casos (Rich et al. 2005).
Contudo, ao analisar a estimativa de crianças (30%) que já sofreram alguma espécie
64
de abuso sexual (Picazio, 1998; Silva,2002) pode-se considerar que o número de
homens que cometeram algum tipo de abuso certamente deve ser maior que os
cinco casos detalhados neste estudo. A não-obtenção de dados dos possíveis abusos
sexuais sofridos na infância impossibilitou também a investigação de como esta
situação foi sentida pelos participantes, se ela seria encarada como natural por parte
dos participantes como afirmam Lambie et al. (2002). Outro aspecto importante foi
o tempo de acompanhamento dos casos. No estudo de Intebi (1998) que envolveu
trabalho clínico e de pesquisa, ela pôde verificar que todos os homens que
abusaram de crianças relataram terem sido abusados em suas infâncias, apenas após
um contato prolongado com a terapeuta. Portanto, essa revelação não foi feita em
uma entrevista inicial. Neste estudo, com exceção de um dos casos (o de Osmar), as
entrevistas aconteceram em apenas um momento com cada um dos participantes.
Assim, não houve contato mais prolongado da equipe de pesquisa com os
participantes, o que pode ter dificultado a obtenção desse tipo de dado.
Lembranças Positivas e Negativas na Escola
Questionou-se aos participantes que lembranças ele tinham do ambiente
escolar. As respostas foram classificadas como lembranças positivas, lembranças
negativas e respostas ausentes.
Lembranças Positivas
Flavio (37 anos) comentou que os momentos positivos que vivenciou na
escola foram “Ah! Episódio bom na escola... Só dos jogos que a gente jogava, né. A
gente jogava... de episódio bom na escola, campeonatos que a gente ganhava,
que jogava em times, né? Jogava basquete” (Flávio, 37 ano). Francisco, por sua vez
relatou que Ia no planetário e era muito legal. Eu gostava muito de ir” (Francisco,
37 anos). Osmar mencionou que gostava da escola pois Gosto, gostava. A minha
professora era muito querida. Sempre gostei de estudar.” (Osmar, 73 anos)
Lembranças Negativas
Francisco de 37 anos comentou que um episódio ruim que eles se recorda da
época da escola foiAquela vez que eu fui expulso da escola, né. Porque eu briguei
com um colega” (Francisco, 37 anos). Flávio (37 anos) falou que:
Um episódio ruim que aconteceu na escola que eu lembro foi uma menina que nós
‘tavamos jogando vôlei e a gente se pexou. Daí eu cai no chão assim, e quando
65
levantei ela me deu um tapa... um tapa no rosto. Eu levei um tapa no rosto e daí eu
sai, né? Sai da quadra e fui pra lá... Não. Sai chorando só. Não, daí em seguida a
gente se acertou. Ela pediu desculpa. Mas eu sai chorando só (Flávio, 37 anos).
Osmar (70 anos) também comentou um episódio ruim da escola afirmando
que “nós somos adventistas, minha família era a única nesse lugar que era, então o
resto era católicos, então havia problema. Na escola umas vezes os guris se
embestericavam pra me bater, mas eu me encostava na parede e ai não podiam me
bater”. (Osmar, 70 anos).
Respostas Ausentes
Um participante (Marcos, 38 anos) freqüentou por pouco tempo e outro
(Paulo, 70 anos) não chegou a freqüentar a escola e por isso o tinham
recordações importantes sobre a escola.
Não foram encontrados estudos específicos que versassem sobre o ambiente
escolar de abusadores sexuais infantis. Contudo, Garret (2004) relata que os
abusadores entrevistados em seu estudo revelaram ter mais lembranças escolares
negativas, nas quais se recordavam de brigas e de sentirem pouco capazes em
relação às atividades acadêmicas.
Desempenho Escolar
O desempenho escolar dos participantes também foi questionado. As
respostas foram classificadas nas categorias: desempenho regular com evasão
escolar, bom desempenho sem evasão escolar e respostas ausentes.
Desempenho Regular com Evasão Escolar
O desempenho escolar dos participantes variou. Um deles (Francisco, 37
anos) teve reprovações e um posterior abandono da escola:
Olha, eu rodei... eu rodei, que eu me lembre, assim, eu rodei uma ou duas vezes, na
quarta série. Não tenho certeza. Isso aí só olhando em boletim ou perguntando pra
minha mãe, porque eu não vou ter certeza. Mas parece que eu rodei uma ou duas
vezes. Mas, na verdade o que aconteceu é que eu desisti de estudar. Não quis mais ir.
Eu entrei, assim, na ... no consenso que eu cheguei e disse pra minha mãe: ‘eu tô
trabalhando, tô ganhando meu dinheiro, tô perdendo tempo estudando, não vou mais
estudando’ E aí eu larguei. Ah, eu não me lembro. Acho que eu tinha uns 13, por
(Francisco, 37 anos).
Um outro não chegou a ter reprovações, mas também se evadiu do espaço
escolar, chegando a concluir o ensino médio quando tinha cerca de 24 anos:
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Normalmente eu fazia exame. Mas eu nunca rodei. Então eu não era um aluno muito
estudioso, nem era um aluno totalmente desinteressado. Depois dos 16, que eu
comecei a fazer o curso, eu praticamente fui parar de estudar... lá pelos 24, 25,
quando eu parei, quando eu me formei no curso de comercial, né? (Flávio, 37 anos).
Bom Desempenho Sem Evasão Escolar
Apenas um deles completou o ensino médio no período adequado:
Terminei meus estudos no tempo certo, na escola militar” (Osmar, 73 anos).
Osmar também foi o único participante que relatou perceber o estudo como uma
atividade prazerosa: Era normal, era normal. Sempre gostei de estudar, ainda
gosto, leio muito” (Osmar, 70 anos).
Respostas Ausentes
Como já foi comentando anteriormente, Marcos (38 anos) freqüentou a
escola por pouco tempo e Paulo (70 anos) não chegou a estudar. Por isso, estes dois
participantes não possuem recordações do espaço escolar.
Nota-se que os participantes deste estudo apresentaram além de uma baixa
escolaridade, uma história escolar de pouco sucesso. Este fator está diretamente
ligado a questão da classe social dos participantes, pois se sabe que pessoas
provenientes da classe trabalhadora têm pouco acesso aos bancos escolares,
apresentando, conseqüentemente, uma escolaridade escassa.
Relações com os Pares na Escola
Foi questionado também como eram as relações dos participantes com seus
amigos na escola. As respostas se organizaram em duas categorias: relações
positivas e respostas ausentes.
Relações Positivas
Todos os participantes que freqüentaram a escola relataram que tinham
amigos no espaço escolar. Flávio, 37 anos esclareceu que Alguns eram da escola,
Por que eu estudei, fui bolsista em colégio particular, eu estudei no colégio
marista... E naqueles 4 anos que convivi, convivi muito bem com eles(Flávio, 37
anos). Francisco (37 anos) disse que possuía amigos na escola com os quais se
relacionava bem. Contudo, havia brigas entre a sua turma e outras crianças: Ela
(relação) sempre foi saudável. Uma convivência saudável sempre... a gente sempre
brigava muito, mas com pessoas, crianças que não eram... É, outras crianças. A
67
gente brigava muito” (Francisco, 37 anos). Outro comentou também que Tinha
poucos, mas tinha. Me dava muito bem. Jogávamos bola” (Osmar, 73 anos).
Pode-se afirmar que os participantes possuíam relações saudáveis com os
pares na escola. Apesar de não fazer referencia específica ao ambiente escolar,
Garret (2004) em seu estudo sobre as experiências infantis de abusadores sexuais de
crianças verificou que seus participantes sentiam-se isolados, brigavam com seus
colegas e não possuíam confiança em suas relações de uma maneira geral, o que
caracterizaria relações pouco íntimas e pouco profícuas. Assim, constata-se
novamente que as respostas dos participantes do presente estudo não corroboram os
dados traçados por Garret.
Descrição das Professoras sobre os Participantes
Também foi perguntando aos participantes “Como você acha que sua
professora lhe descreveria?”. As respostas foram organizadas em três categorias:
Aluno inteligente e agitado, aluno tímido e participativo, aluno nem participativo
nem quieto e respostas ausentes.
Aluno Inteligente e Agitado
Um dos participantes disse que em opinião da professora sobre o aluno que
ele foi na infância certamente seria É. Diziam que eu era muito agitado, e tal.
Mas, que eu era muito inteligente, sempre me acharam muito inteligente, assim.
Que eu tinha condições de pá e tal”. (Francisco, 37 anos).
Aluno Tímido, mas Participativo
Osmar (73 anos) relatou que apesar de sua timidez, ele era um aluno
participativo:
Mas eu sei muito bem que até agora, então havia participação nas comemorações
pátria, da primavera. Daí dava para recitar uma poesia... Eu era tímido, sempre fui
tímido. Então mas fazia.Fazia o que eles me mandavam. Me diziam para fazer um
poesia, eu decorava e dava a poesia. Atuar no palco isso eu fazia, mas com uma certa
timidez, não era muito aberto, assim” (Osmar, 73 anos).
Aluno nem Participativo nem Quieto
Flávio (37 anos) disse que Acho que eu não era muito participativo,
nem muito quieto também” (Flávio, 37 anos).
68
Respostas Ausentes
Como foi dito, Marcos (38 anos) e Paulo (70 anos) não possuem
lembranças do espaço escolar, pois o primeiro freqüentou este espaço por pouco
tempo e o segundo não chegou a estudar.
Nesta questão, nota-se que os participantes relataram características
tanto positivas (inteligente, participativo) e outras que não podem ser
classificadas nem como negativas nem como positivas (nem quieto nem agitado,
tímido). Desta forma, verificou-se que eles também não eram adjetivados com
características pejorativas e depreciativas como ocorreu aos participantes do
estudo de Garret (2004).
Lembranças Positivas e Negativas de Outros Espaços na Infância
Nesta seção, serão relatadas as respostas dos participantes sobre as
lembranças positivas e negativas sobre outros espaços da infância. As respostas
foram organizada em uma única categoria denominada lembranças positivas, pois
não houve recordações de episódios negativos.
Lembranças Positivas
Todos os participantes relataram apenas episódios positivos no bairro. Um
deles enfatizou, por exemplo, que Nessa época... nessa época eu morava aqui no
bairro Santana, perto da Oswaldo Aranha ali. Então a gente se reunia todo mundo
e a gente ia pra Redenção, ali pra Oswaldo Aranha, pro cinema direto, assim. Era
bastante gente. Mais de 40” (Francisco, 37 anos). Osmar (73 anos) também disse:
Era tudo tranqüilo. Nessa firma havia um acampamento para as famílias que a
própria firma dava. Então tínhamos casa, luz, água tudo que dava a firma. E tinha
mercado, padaria, praticamente uma cidade pequena. Então todos que moravam ali
eram filhos de trabalhadores. Não havia gente desocupada. Tinha escola e coisa
assim. E havia uns ônibus que levavam para a capital (Osmar, 73 anos).
Duas respostas se refeririam as brincadeiras(Flávio, 37 anos e Marcos,
38) e uma última ao gosto pelo trabalho na lavoura.
Mais uma vez, as lembranças positivas foram destacadas pelos participantes,
dado este oposto àqueles encontrados no estudo de Garret (2004), pois os desta
última pesquisa relataram um vida conturbada, com a presença de muitos conflitos
e violências.
69
Relações com os Pares em Outros Espaços
Aqui o descritas as relações com crianças que não pertenciam nem ao
espaço escolar e nem ao ambiente familiar durante a infância. As respostas foram
classificadas em duas categorias: relações positivas sem a descrição de conflito e
relações positivas com descrição de conflito.
Relações Positivas sem a Descrição de Conflitos
Nesta categoria foram organizadas as respostas que descreviam apenas os
aspectos positivos das relações com outras crianças que não pertenciam nem ao
espaço escolar, nem ao ambiente familiar. Um dos participante salientou:
Os mesmos que são hoje. Conserva até hoje. Os mesmos amigos que foram na minha
infância, a gente foi criado junto e até hoje a gente se fala, se telefona (...) É, quer
dizer a gente sempre foi super amigo desde criança, todos, os mesmos amigos que
eram da infância continuam ate hoje (Flávio, 37 anos).
Outro disse que havia um amigo especial com a qual ele estava em todos os
momentos: Porque ele tava sempre junto, né. A gente acordava, se procurava,
saía junto pra rua, pra... andar de bicicleta, andar de skate. Essas coisas assim.
Fica vadiando na esquina e tal. Desde criança até hoje. Ele é meu compadre. É o
padrinho da minha filha (Francisco, 37 anos). Outro comentou que Sim, tinha
amigos, eu tinha amigos. No meio de tudo isso, tinha amigos sem dúvida. Brincava
(Osmar, 73 anos). Paulo (70 anos), por sua vez, salientou que Amigo a gente
sempre tinha. Mas, os amigos era de trabalho”.
Nota-se que quase todos os participantes se refeririam aos amigos sem
relatar nenhuma história de briga ou conflito. Alguns (Flávio e Francisco, ambos
com 37 anos) enfatizaram que algumas amizades da infância permaneceram até a
vida adulta.
Relações Positivas com Descrição de Conflito
Apenas um dos participantes salientou a presença de conflitos entre ele e
outras crianças. Contudo, esses conflitos foram classificados algo normal
(Marcos, 38 anos).
De maneira geral, pode-se afirmar que as relações com os amigos podem ser
classificadas como saudáveis. Novamente, este dado está em desacordo com os
achados que Garret (2004), pois os participantes do estudo conduzido por ela
relataram relações pouco íntimas e conflituosas com as pessoas de uma maneira
geral durante a infância.
70
Ocupação do Tempo na Infância
Aqui são descritas as respostas à pergunta “Como você ocupava seu tempo
na infância?”. As respostas foram classificadas nas categorias atividades lúdicas e
de trabalhos sem estudos, apenas atividades de estudo e atividades de trabalho e de
estudo.
Atividades Lúdicas e de Trabalho sem Estudo
Dois dos participantes (Marcos, 38 anos e Paulo, 70 anos) afirmaram que
seu tempo na infância era dedicado ao trabalho remunerado e as atividades lúdicas.
Segundo Paulo (70 anos): Do jeito que eu tava falando. Domingo, se não tivesse
um serviço apertado, a gente ia na casa do vizinho de um tio, de quem fosse, né?
Brincar.Marcos (38 anos), por sua vez disse que Até uma altura era brincava,
daí depois quando eu fiquei mais grandinho daí era mais era trabalhar mesmo.
Cuidava. ela (a avó) pedia pra mim ver lenha pra ela que era tudo fogão a lenha..
eu ia quebrar lenha pra ela. Varria a casa também pra ela, essas coisas
(Marcos, 38 anos). As respostas dos dois participantes sugerem que eles
enfrentaram uma rotina rígida de trabalho na qual não havia tempo suficiente para
as brincadeiras.
Atividades Lúdicas, de Estudo e de Trabalho
Dois dos participantes (Flávio e Francisco ambos com 38 anos) afirmaram
que durante a infância, dividiam seus tempos entre as brincadeiras, o estudo e o
trabalho remunerado. Segundo Francisco: “(A partir dos 11 anos) Trabalhava meio
período e estudava... e brincava. Não gostava muito de estudar... fui começar a
estudar mesmo na adolescência (Francisco, 37 anos). Flávio (37 anos) também
relatou que “Eu trabalho desde os doze anos de idade, né? Fora brincar e estudar”.
Atividades Lúdicas e de Estudo
Apenas um dos participantes ressaltou ter apenas estudado e brincado
durante a infância, sem exercer nenhum trabalho remunerado. Osmar comentou que
Nenhuma outra atividade. Só estudava e brincava” (Osmar, 73 anos).
As atividades laborais dos próprios participantes é um ponto que necessita
ser um pouco mais discutido. Quase todos eles se referiram ao trabalho como uma
forma de ter mais responsabilidades, o que parece ter “encurtado” sua infâncias e
71
adolescências. Assim, a entrada no mundo do trabalho e das responsabilidades
parece ser um aspecto prático que define a mudança de criança para adulto ou para
adolescente. Em suas falas sobre o que é ser criança ficou visível uma concepção
ideal sobre as crianças e sobre a infância. A infância seria uma época feliz, sem
trabalhos e responsabilidades. Contudo, as infâncias deles próprios, não foi como
estas descritas nesse estudo, que eles relatam que tornaram-se adultos mais cedo,
pois exerciam atividades remuneradas desde muito cedo. Esse tipo de afirmação
fornece pistas de que em nível abstrato as respostas são dadas de uma maneira
idealizada, enquanto na prática ser criança acontece de uma outra maneira,
determinada pelas experiências mais concretas. Para exemplificar, esse
encurtamento da infância a fala de Francisco, 37 anos é emblemática:
Ah, adolescente passa a ser adulto a partir do momento que, teoricamente, completa a
maioridade, né. Pra mim. No meu caso... não foi dessa maneira, né. Mas pra mim
acho que a pessoa, perante a sociedade... No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já
tinha família, eu já trabalhava. Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. E...
assinei carteira com 15 anos. Então com 17 anos eu já tinha família, já me auto-
sustentava e... então comigo não foi assim. Foi um pouco diferente (Francisco, 37
anos).
Mais uma vez, as respostas dadas divergem dos dados encontrados na
literatura, pois segundo Garret (2004) a infância dos participantes em seu estudo foi
atravessada por outras atividades de responsabilidade que não ao trabalho como o
cuidado com a rotina dos irmãos mais novos ou ser responsável pelo bem-estar de
suas irmãs.
Brincadeiras Preferidas
Nesta parte, serão descritas as respostas á pergunta Quais eram suas
brincadeiras preferidas?” As respostas foram organizadas nas seguintes
categorias: Jogos e brincadeiras com objetos como bola, bolinhas de gude,
brincar com skate/bicicleta e resposta incoerente.
Jogos e Brincadeiras com Objetos
Dois dos entrevistados (Flávio, 37 anos e Osmar 73) citaram que
gostavam de “jogar bola”. Flávio também comentou que “jogava basquete”.
Osmar (73 anos) também comentou que “Brincava de bolita”.Marcos (38 anos)
disse Andar de bicicleta eu gostava”. Francisco (37 anos), por sua vez,
afirmou que Sempre gostei de bicicleta, de skate, essas coisas assim, .”. As
72
brincadeiras descritas por eles dão a impressão de uma infância comum e
tranqüila.
As perguntas sobre a infância tinham como objetivo analisar que
avaliação os participantes faziam dela. Verificou-se que eles possuem um
sentimento de pertencimento positivo em relação a família, relembrando
majoritariamente episódios positivos em relação a ela. Disseram também que se
dava bem com os irmãos e não comentaram nenhum episódio de vitimização
acontecido no ambiente familiar. Além disso, afirmaram que seus pais os
descreviam de maneira positiva quando crianças. Também deram adjetivos
positivos a si mesmos quando descreveram-se como crianças. Esse último dado
indica que, em suas infâncias, os participantes possuíam um bom auto-conceito
de si. Na escola, as relações com os pares também foram descritas de maneira
positiva. A baixa escolaridade dos participantes e uma história escolar de pouco
sucesso foi constatada neste estudo. que se considerar que esta não deve ser
uma característica associada ao perfil de homens acusados de cometer delitos
sexuais contra crianças. A baixa escolaridade se relaciona mais diretamente a
classe social da qual esses homens participam. Pois, sabe-se que pessoas
provenientes da classe social com baixo poder aquisitivo possuem um acesso
restrito aos bancos escolares, e por isso, apresentam poucos anos de estudo, ou
um histórico escolar de pouco sucesso. As lembranças no bairro também foram
majoritariamente positivas. As relações com outras crianças nesse espaço,
também. Assim, verificou-se que as relações estabelecidas nos microssistemas
(escola, família e bairro) foram construídas de maneira saudável, sem a
presença de episódios de violência.
Adolescência
A partir desse ponto, serão descritos alguns aspectos sobre a
adolescência dos participantes.
Descrição de Si Próprios Quando Adolescentes
A seguir serão descritas as respostas quando se questionou Fale de você
quando adolescente”. As respostas se organizaram em três categorias:
Características positivas, características negativas, adolescente normal e respostas
ausentes.
73
Características Positivas
Um dos participantes relatou que Mas eu sempre fui obediente” (Flávio, 37
anos).
Características Negativas
Francisco (37 anos), por sua vez, disse que perdi um pouco o senso de
responsabilidade que eu tinha quando eu era mais novo.” (Francisco, 37 anos).
Adolescente Normal
Outro participante se descreveu como um adolescente normal”. Segundo
ele: O que eu mais gostava de fazer era de ir em festa. Diversão.. divertimento.
Normal. ” (Marcos, 38 anos).
Respostas Ausentes
Osmar (73 anos) não respondeu a essa questão, evadindo-se da resposta.
Paulo (70 anos) não respondeu a esta e outras questões sobre a adolescência, pois
desde o início da entrevista mostrou dificuldades em delimitar esta etapa da vida.
Observa-se pelas respostas dadas sobre a questão da descrição dos
participantes enquanto adolescentes, que eles não possuíam uma visão pejorativa e
depreciativa sobre eles próprios. A resposta ausente no caso de Osmar ocorreu
devido ao seu comportamento manipulador que tinha por objetivo discutir apenas
os aspectos relacionados com a denúncia. Este seu comportamento tinha uma meta
mais específica de conseguir obter dados que lhe fossem favoráveis.
Pessoas com as Quais Convivia na Adolescência
As respostas relacionadas nessa seção referem-se às perguntas Com quais
pessoas com quem convivia durante a adolescência”. As respostas foram
classificadas nas categorias apenas com a família de origem, com a família de
origem e com a companheira e com a família de origem e com outras pessoas.
Apenas com a Família de Origem
Flávio (37 anos) relatou que convivia com “Meu pai, minha mãe, minha avó
e minha irmã”. Paulo (70 anos) deu uma resposta semelhante afirmando que “morei
com minha família até quando fui pro exército”.
74
Com a Família de Origem e com a Companheira
Um deles afirmou que “(Com 17 anos) aí... a gente ficou junto. E ela foi
morar lá na minha casa. Com a minha mãe com meus...”. Marcos (38 anos)
também conviveu com uma companheira na adolescência: A primeira vez... casar
eu num casei nenhuma vez... viver junto com outra pessoa foi com 17 anos, 18, por
aí”.
Com a Família de Origem, com Parentes e com Outras Pessoas
Osmar (70 anos) disse que em sua adolescência morou com seus pais e
posteriormente Sim, era a mãe da minha mãe. Inclusive ela tinha uns 60 anos
(...)E ela estava sozinha mesmo, não morava ninguém com ela. E justamente por
isso ela pediu para algum dos filhos para lhe fazer companhia”. Depois disso,
Muito novo, eu tinha uns 14, 15 anos. E ai eu só fui para o exército, para a escola
militar”. (Osmar, 70 anos).
Relações com as Pessoas com as Quais Convivia
Questionou-se aos participantes como era a relação deles com as pessoas
com as quais eles conviviam na adolescência. A seguir são relatadas as respostas a
essa questão que foram categorizadas da seguinte maneira: Relações positivas e
respostas ausentes.
Relações Positivas
Todos os participantes, durante a adolescência se relacionavam bem com as
pessoas ao seu redor. Francisco (37 anos) relatou que a relação com sua família
Sempre foi boa. Sempre foi boa. Sei. Tinha eventual discussão e... tal.... briga.
Essas coisas normal, né. De família normal. Mas sempre foi.... não... nunca
ninguém brigou de tirar sangue um do outro. (Francisco, 37 anos). Ele também
comentou que Sempre, sempre, semprese relacionou bem com sua companheira
(outra pessoa com a qual conviveu na adolescência). Marcos (38 anos) também
relatou que sua relação com sua família de origem Continuou a mesma coisa, uma
relação boa... não mudou nada”. Flávio (37 anos) disse que sua relação com sua
mãe era especial durante a adolescência: “Pelos ensinamentos, pelo jeito que ela me
regrou, pelos tipos de conduta, pelas normas... ela é uma pessoa que eu me dou
bem até hoje, ”. Osmar (73 anos) também comentou se dar bem com a família,
enfatizando que Me dava bem principalmente com minha mãe”. Osmar também
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conviveu com os companheiros do exército, pois foi interno em um colégio militar.
Ele frisou que ocorrência de brigas no exército era “comum”. Entretanto, ele
comentou que se dava bem com seus companheiros do colégio militar e que brigou
apenas uma vez com um deles: Me lembro de uma vez que falaram de minha mãe,
que não gostei (...) Nos batemos. Nos agarramos os dois”.
Respostas Ausentes
Paulo (70 anos), novamente mostrou dificuldade em responder a pergunta,
por não conseguir compreender o que significa a adolescência.
Pelas respostas dadas pelos participantes percebe-se que as relações que elas
mantinham com as pessoas em geral durante a adolescência também eram
saudáveis. A partir do relato dos participantes sobre suas adolescências, nota-se que
este período não foi atravessada por grandes conflitos. Muitos estudos fazem
referência (Abel & Harlow, 2001; Becker, 1994) aos primeiros atos de violência
sexual, inclusive contra crianças, já nessa fase. Nas falas dos participantes da
pesquisa, a relação com crianças nessa fase nem chegou a ser mencionada. Assim,
através dos auto-relatos o puderam ser observadas relações disfuncionais com
crianças na fase adolescente.
Ocupação do Tempo Durante a Adolescência
As respostas relacionadas a seguir dizem respeito a pergunta “Como
ocupava seu tempo durante a adolescência?” As respostas foram organizadas nas
seguintes categorias: Trabalho e atividades de lazer; trabalho e encontro com os
amigo e trabalho e estudo.
Trabalho e Atividades de Lazer
Marcos (38 anos) citou que sua rotina na adolescência era dividida entre o
trabalho e a diversão: “Eu trabalhava bastante. Trabalhava... tinha também o final
de semana como eu falei, né? Daí a gente se divertia, daí, né?” .
Trabalho, Encontro com os Amigos
Um dos próprios participantes mencionou Então... mas era normal,
assim... eu trabalhava. Trabalhava bastante e... chagava em casa, tomava um
banho, pegava o violão, me sentava na esquina com os guris e... ah... normal... uma
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adolescência acho que normal, assim(Francisco, 37 anos). É válido explicar que
Francisco se evadiu da escola aos 13 anos.
Trabalho e Estudo
Dois dos participantes citaram que as atividades mais freqüentes em suas
vidas na adolescência eram trabalhar e estudar. Osmar (73 anos) afirmou que: De
manhã ia para escola e voltava mais tarde. Eu estava trabalhando naquela firma
que eu lhe falei que meu pai arrumou para mim e eu trabalhava como office-boy” .
Flávio (37 anos) citou comentou também que “Ah! Eu praticamente, depois dos 16,
que eu comecei a fazer o curso (de piloto de avião), eu praticamente fui parar de
estudar pelos 24, 25. E trabalhava... Eu fazia pintura de antena. Era pintor. Aos
14 comecei a trabalhar com oficina de moto”.
A partir destes dados pode-se afirmar que as atividades exercidas pelos
participantes em suas adolescências eram atividades típicas de pessoas de classes
sociais menos favorecidas. Nessas classes não é incomum a evasão escolar na
adolescência e a entrada precoce no mercado de trabalho, características estas
expressas pelas falas dos participantes.
Episódios Positivos e Negativos durante a Adolescência
As respostas apresentadas a seguir referem-se à pergunta “Descreva
episódios bons e ruins de sua adolescência”. As respostas foram organizadas nas
categorias lembranças positivas, ausência de lembranças, lembranças negativas e
respostas ausentes.
Lembranças Positivas
Um dos participantes lembrou que um episódio bom foi “A parte boa
digamos, é a primeira namorada que eu tive” (Marcos, 38 anos). Outro afirmou que
sua melhor lembrança da época da adolescência é Ah episódio bom, assim, acho
que a primeira... festival que a gente foi tocar, assim, foi bem bom” (Francisco, 37
anos). Flávio (37 anos), por sua vez, lembrou que uma lembrança boa que eu
tenho da parte da adolescência por que eu estudava bastante e viajava muito, né?
Viajava muito, conhecia muita gente diferente. Conhecia muita gente importante
também, né? Fiquei conhecido aqui praticamente no Rio Grande do Sul inteiro,
”.
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Ausência de Lembranças Negativas
Ao serem indagados sobre episódios negativos de sua adolescência, um
deles afirmou que: “Ruim, ruim da minha adolescência acredito que não teve.
Nenhum? Na minha adolescência, não. Não teve episódio ruim” (Flávio, 37 anos).
Osmar de 70 anos apresentou o mesmo tipo de resposta: “Ah... ruim. Não me
lembro mais. Sinceramente. Uma coisa ruim... Não me lembro”. Francisco (37
anos) fez uma afirmação semelhante a dos dois participantes anteriores: Ah, num
lembro de nenhum episódio que eu possa dizer que foi ruim. Nada, nada”.
Lembranças Negativas
O único que se referiu a um episódio negativo de sua adolescência foi
Marcos (38 anos): Uma das coisas tristes é quando a gente ta acostumando com
uma pessoa e de repente aí termina... pode ser isso daí” (Marcos, 38 anos).
As respostas sobre a adolescência denotam mais uma fase tranqüila, sem
conflitos ou violências. Sobre as respostas ausente de um dos participantes (Paulo,
70 anos), em um certo ponto, a pesquisadora optou por não fazer mais perguntas
sobre a fase adolescente, pois notou que ele estava constrangido por o saber
como responder, demonstrando bloqueio diante das perguntas.
Adultez
A partir desta parte, são apresentadas as respostas às indagações feitas sobre
a fase adulta dos participantes.
Auto-percepção
Nessa seção, são apresentadas as respostas referentes à pergunta “Fale-me
de você como adulto”. As respostas foram organizadas nas categorias
temperamento com a subcategoria temperamento positivo, auto-estima com a
subcategoria auto-estima positiva e traços morais, com a subcategoria pensamento
e ações corretas frente aos outro e outros traços, com as subcategorias frustração e
ausência de defeitos.
Temperamento
Temperamento positivo
Quanto ao seu temperamento, todos participantes descreveram a si mesmos
como pessoas calmas. A resposta de Flávio (37 anos) ilustra esse tipo de resposta:
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Praticamente sou uma pessoa tranqüila, né? Não sou agitado, nem nada”. Apenas
Francisco (37 anos) admitiu que foi impulsivo quando se relacionou sexualmente
com sua afilhada: “Não, mas esse troço aí eu fiz sem pensar... nesse caso, eu fui sim
(impulsivo)... fiz besteira”. Contudo, ele citou que esse não é seu padrão constante
de comportamento, afirmando que As pessoas sempre me dizem que sou uma
pessoa calma, me dou com todo mundo”. Também se descreveram como pessoas
sem comportamentos impulsivos. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica este
tipo de resposta: “Sempre penso antes de fazer as cosias, Acho que o certo, né”.
Auto-estima
Auto-estima positiva
A auto-estima é uma importante parte do auto-conceito. Tamayo et al.
(2001) definem a auto-estima como a “avaliação global que a pessoa faz do seu
próprio valor” (p. 157). Dois deles relataram que depois da acusação sua auto-
estima diminuiu, mas que ainda se valorizam. A fala de Francisco (37 anos) serve
para ilustrar esse tipo de resposta: “Bem, depois que fiz isso, posso dizer que
gostei mais de mim. Como te disse... me sinto culpado demais por tudo que fiz...
pela minha esposa está como está”. Os outros afirmaram que se gostam e se
valorizam. A resposta de Osmar (70 anos) exemplifica esse tipo de fala: “Eu gosto.
Gosto de como sou. Se eu posso, divido a paz como tudo mundo (..)”. Com tais
respostas, conclui-se que os participantes do presente estudo possuem uma boa
avaliação de si mesmos.
Traços Morais
Pensamentos e Ações Corretas
Sobre os traços morais dos entrevistados, todos os participantes relataram
que sempre foram respeitadores. A resposta de Paulo (70 anos) exemplifica esse
tipo de postura: “Eu sempre tive respeito na minha vida”. Além disso, disseram não
se arrepender de nenhuma ação que tenha executado, pois sempre agiram
corretamente com as pessoas. A fala de Osmar serve como exemplo deste tipo de
pensamento: Que eu saiba nunca fiz nada grave assim, sempre fui disciplinado,
nunca teve motivo” (Osmar, 73 anos). As falas de Osmar e de Paulo também
chamam a atenção pelo fato de os dois ressaltarem o respeito a mulheres e meninas:
“Eu respeito totalmente as moças, mulheres, o que for. Evito de ter alguma coisa,
assim, errada. Eu sou religioso. Não que eu me esconda atrás da religião, mas eu
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sou religioso.”. Paulo (70 anos) também citou: “Eu dou o respeito até pra mulher
pública... da boate”. Esse tipo de resposta diverge das idéias que apóiam o mito do
estupro tais como “as mulheres podem resistir ao estupro, e se isso acontece é por
que eles querem”, “mulheres pedem pelo estupro” (Burt, 1980, p. 217), na medida
em que as respostas de Paulo e Osmar enfatizam um respeito pela mulher em
qualquer situação. A resposta de Paulo, principalmente denuncia que ele respeitaria
até as prostitutas.
Pelas respostas dadas, constata-se que os participantes possuem um bom
conhecimento intelectual sobre as normas que regem o relacionamento entre as
pessoas.
Outros Traços
Pessoa Frustrada
Um deles se definiu como uma pessoa frustrada pelos projetos que não
conseguiu realizar. Francisco citou que havia um grande pesar em sua vida: “Uma
grande frustração, assim, que eu tenho na minha vida é que todas as coisas que eu
decidi fazer, nenhuma deu certo. Não... não deu certo em termos, assim, de ir pra
frente, entendeu?” (Francisco, 37 anos).
Ausência de Defeitos
Quando questionados sobre seus defeitos, em um primeiro momento, eles
afirmaram que não possuíam algum defeito que se lembrassem. Apenas um deles
afirmou que seu pior defeito era corrigir as pessoas quando essas emitiam alguma
informação equivocada. A fala de Flávio (37 anos) sobre seus defeitos pode ser útil
para ilustrar o tipo de resposta dada: “Defeito mesmo, agora no momento eu não
lembro de defeito meu assim...”.
Com as respostas dadas, conclui-se que os participantes têm um bom auto-
conceito e uma boa auto-estima, embora dois deles afirmem que antes da acusação,
suas auto-estimas fossem mais elevadas. Pode-se notar que o auto-conceito e a
auto-estima dos participantes, ao longo de suas vidas, foram definindo-se de
maneira positiva. De acordo com as declarações dos participantes, eles vivenciaram
uma vida tranqüila, com relações saudáveis nas quais foram amados e respeitados.
Assim, não haveria motivos pelos quais eles se percebessem de maneira negativa e
não se valorizassem. Os auto-conceitos positivos e a boa auto-estima seriam reflexo
da vivência de episódios positivos durante suas vidas. Mais uma vez, aos dados do
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presente estudo são completamente inversos aos encontrados na pesquisa realizada
por Garret (2004). Os abusadores da pesquisa realizada por ela enfatizam que suas
vidas foram conturbadas, nas quais os sentimentos de desvalorização e humilhação
se fizeram presentes, resultando em auto-conceito negativo e baixa auto-estima. Os
abusadores relatam, por exemplo, que na infância, eram chamados de “estúpidos”
(p.133) e se sentiam como objetos que serviam para o uso das outras pessoas
segundo esses participantes, esse tipo de visão que os outros possuíam sobre eles
tornou-se verdadeiro, fazendo com que eles se sentissem especialmente
desvalorizados até a fase adulta.
Gannon et al. (2005) e Horley (2000) comentam que o modo como
abusadores vêem a si mesmos e o mundo são determinantes para compreender o
modo como eles agem, com as pessoas, inclusive com as crianças. Desta forma, o
auto-conceito e auto-estima são importantes de serem investigados, pois eles dão
indícios de como os abusadores percebem a si mesmos. Gannon et al. citam que os
comportamentos dos abusadores são auto-centrados, com eles percebendo suas
vontades e necessidades mais importantes que os dos outros. Nesta pesquisa
constatou-se que eles possuem auto-conceito positivo e auto-estima elevada, e que
não possuem a visão de que suas vontades são mais importantes que as do outros e
que devem ser cumpridas de maneira imediata. As falas deles, inclusive, reiteraram
o que eles sentem respeito pelos outros. O único dado que sugere uma auto-
centração é ausência de defeitos relatados por todos eles. Horley afirma que a
aceitação ou não das regras sociais está relacionada diretamente ao cometimento
dos atos de abuso sexual contra crianças. Estas falas sobre respeito aos outros são
importante para compreender a aceitação dessa regras, pois quando os participantes
reiteram que respeitam as outras pessoas, implicitamente eles dizem que aceitam as
normas sociais. Alguns participantes frisaram inclusive que respeitam as meninas e
as mulheres, fato este que parece divergente quando se contata que todas as vítimas
relacionadas a acusação de abuso sexual contra eles são meninas ou adolescentes do
sexo feminino. Uma última conclusão sobre este aspecto é que parece não haver
“erros” nas cognições sobre o respeito que se deveria ter com as pessoas de uma
maneira geral.
Um aspecto sobre a auto-estima merece ainda ser comentado. A baixa auto-
estima vem sendo associada à etiologia e à manutenção do cometimento de abuso
sexual contra crianças. Possuir baixa auto-estima faria com que os abusadores
sintam-se inseguros em enfrentar situações de estresse. Assim, eles aprenderiam
81
desde cedo a adotar estratégias disfuncionais para lidar com as situações
estressantes (Marshal et al., 1999). Praticar atos de abuso sexual contra crianças
seria uma dessas estratégias disfuncionais, pois lidar com crianças, seres mais
frágeis e desprotegidos, seria mais fácil que lidar com as situações estressantes
propriamente ditas. Pode-se notar que uma baixa auto-estima não foi um dado
encontrado no auto-relato dos participantes. Teoricamente, esta característica não
estaria associada às denúncias de abuso sexual infantil contra eles.
Formação da Família e Relação com Ela na Época da Entrevista
Nesta parte, serão relatadas as respostas às perguntas “Quem é sua Família”
e Como você se relaciona com ela”. As respostas estão organizadas a partir das
categorias mudanças familiares após a denúncia e manutenção nas relações
familiares após a denúncia.
Mudanças Familiares Após a Denúncia
Quatro participantes relataram que suas vidas familiares modificaram-se
após a denúncia. Flávio (37 anos) disse, por exemplo, que antes da denúncia sua
esposa:
Gastava com roupas chegava praticamente estourava o salário, na metade do mês eu
tinha que correr atrás. O senhor ficava chateado com ela quando ela fazia
isso?Ficava chateado, né? Mas tinha que pagar, só dizia pra ela que tinha que dar
um jeito de pagar, só. Não ia encrencar com ela por causa disso. Só pedia para ela
não fazer mais aquilo, mas parece que não adiantava .
A relação com sua esposa no momento imediatamente anterior à denúncia
parecia conflituosa, mas o casal permanecia junto e ele se relacionava bem com sua
enteada (vítima na denúncia de abuso sexual) e com seu filho: Era bom, não tinha
muito problema. O Ricardo (filho) não tem o que falar, (Flávio, 37 anos).
Entretanto, após a denúncia, ele rompeu o relacionamento com sua esposa e está
impossibilitado de ver o filho, motivo pelo qual ele afirma que sua família no
momento da entrevista era A minha família é a mãe, é o pai, a minha irmã que ta
sempre do meu lado, os meus amigos... O meu filho eu não sei se vou conseguir ver
ele de novo”. Francisco (37 anos), por sua vez, disse quando a denúncia (no caso
dele informal, pois ainda não havia se transformado em processo judicial) veio a
tona a relação com a família tornou-se conflituosa:
Olha... até o acontecido aí era mil maravilhas. Muito bom. Minha sogra me tratava
como se um filho dela. Meu sogro, é falecido agora, sempre gostou muito de mim.
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Sempre dizia que era o genro que ele mais gostava. As pessoas tinham muita
confiança em mim e... agora tá um pouco complicado.
Francisco disse, ainda, que apesar dessas mudanças na relação familiar, ele
não separou-se da esposa e continua considerando que
A minha família, pra mim, hoje a minha família é bem grande, né. Porque tem a
minha família por parte dos meus pais, meus irmãos, né. Tem a minha família por
parte da minha esposa, né... a minha família, que eu considero a minha família
mesmo, que é eu, a minha esposa e minhas duas filhas.
A relação de Marcos (38 anos): com sua ex-esposa, antes da denúncia, foi
descrita da seguinte maneira: “A gente discutia bastante, por causa do motivo dos
caprichos dela (com a casa), como eu falei A relação de Marcos com sua esposa
tornou-se conflituosa, com agressões físicas entre eles: Dei uns puxão de cabelo
pra me defender”. Ele também relatou que sua relação com os filhos era normal e
saudável:
Normal. Normal de pai com filho. Sempre que eu podia dar eu dava... um presentinho.
Quando precisava corrigir alguma arte também, botava de castigo, alguma
palmadinha. Eu sou um pai assim que me preocupo com que eles fazem, como é que
eles vão no colégio, como é que eles se comportam com os amiguinhos quando eles
vão brincar, que dá bastante problema sobre isso aí (Marcos, 38 anos).
Marcos foi preso pela acusação de denúncia de abuso sexual contra sua filha
e relata que desde que foi preso (40 dias antes da entrevista), sua esposa e filhos
foram lhe visitar só uma vez”. Este tipo de respostas sugere uma relação distante
entre ele e sua família.
Osmar (73 anos) disse que antes da denúncia Eu me dava com a minha
filha, com meus filhos. Difícil eu vou poder perdoar a minha filha”. . Disse que
depois da denúncia não concebe mais seus filhos e sua esposa como sua família,
pois Todos sumiram, minha filha me acusou de algo muito grave”. E comentou
também que sua família naquele momento era apenas Uma menina que tem oito
anos que eu criei praticamente... (...) E tem um filho também. Tem um filho que tem
quarenta e poucos anos. Foi o único que chegou para mim e falou comigo”.
Manutenção das Relações Familiares Após a Denúncia
O relacionamento de Paulo (70 anos) com sua esposa e filhos, foi descrito
como tranqüilo, pois nunca houve um conflito grave entre eles. não vai dizer que
nunca teve... Uma briga. Uma troquinha de palavras”. Contudo, nota-se certo
autoritarismo de Paulo com as pessoas de sua casa. “Quer dizer ali, eu trazia ela no
toco. A mãe também, os irmãos também como a irmã.”
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A descrição desses resultados é importante para compreender como era a
relação dos participantes com as pessoas de maneira geral e com outras crianças.
Segundo o relato de quase todos eles (exceto o de Marcos), as relações com suas
esposas não era abusiva. A relação com outras crianças que não a vítima também
foi apresentada de maneira positiva. Novamente os dados apresentados nesse
estudo entram em desacordo com aqueles apresentados na revisão de literatura, pois
segundo os estudos da área, as famílias nas quais os abusos ocorrem são
freqüentemente disfuncionais. Pesquisadores citam que um clima afetivo pobre,
prática freqüente de violência como forma de disciplina, pais abusados na infância,
inversão dos papéis hierárquicos entre pais e filhos, entre outras (ver Flores &
Caminha, 1994; Silva & Hutz, 2002).
Desejos Para o Futuro
Nesta seção serão descritas as respostas das perguntas “Como você quer que
seja sua vida no futuro?” e Descreva para mim coisas boas que você gostaria que
acontecessem no futuro”. Essas perguntas foram feitas com o objetivo de finalizar a
entrevista de forma positiva. As respostas foram agrupadas, pois ambas se
relacionam aos planos e desejos que os participantes pensam para seus futuros. As
respostas foram classificadas nas categorias respostas de desesperança, respostas
relacionadas à acusação de abuso sexual, desejos de paz e tranqüilidade e desejos
de realização pessoal.
Respostas de Desesperança
Um dos participantes relatou, por exemplo, que não percebe nenhuma
solução para seu caso e acreditava que seria preso. Ele comentou:
Eu não penso mais no futuro, o futuro é muito longe agora... de repente você acorda
na madrugada e tudo aquilo que você estava fazendo fica pra trás. Praticamente você
acorda no meio da noite e deu, você não tem mais, não tem mais nada. Você fica no
meio de um monte de gente que esta te acusando, dão risadas... (Flávio, 37 anos).
Francisco (37 anos) também afirmou que sentia desesperança em relação ao
seu futuro, pois temia ser condenado no processo de acusação sexual que pesava
sobre ele: “É. Esse aí seria um problemão, né. É, esse aí eu acho que até não teria
solução. Tenho pensado muito nisso e não vejo uma solução pra isso.
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Respostas Relacionadas à Situação da Acusação de Abuso Sexual
Marcos (38 anos) comentou que Coisa boa pra mim que eu vejo agora é
que termine tudo bem essa acusação contra mim. Pra mim poder tocar minha vida,
né? Cuidar dos meus filhos, da minha mente”. Paulo também relatou que desejava
que a situação da acusação contra ele fosse resolvida:
Olha, eu espero eu cumpri as ordens que sempre eu cumpri, e esperar a minha hora
de eu ter que deixar eles né, mas é por gosto por Deus. E torcendo né... Não, de acuso
não tenho medo, quem não deve não teme, garota. Agora só penso, que eu não sei a
idéia do juiz. Não sei que o juiz vai mandar ela embora, como eu já pedi (Paulo, 70
anos).
Desejos de Paz e Tranqüilidade
Osmar (73 anos) relatou que desejava Recuperar essa parte (paz), para
mim era o melhor do mundo. Voltaria, quem sabe, a ser melhor que antes, foi bom,
ia ser melhor que antes, se eu recuperar”.
Planos de Realização Pessoal
Nesta categoria foram incluídas aquelas respostas que expressavam algum
plano concreto de realização pessoal do participante. Um deles disse:
Ah, eu não sei. Eu assim ó. Eu pretendo juntar um dinheiro pra isso, entendeu? Só
que agora, no momento não tá dando. Entendeu? Eu gostaria de trabalhar com
animais, né. Eu gostaria, por exemplo... eu gostaria que um dia eu poder botar uma
loja, assim, de venda de animais, né. Com aquários, plantas e animais.É tipo um pet
shop, assim, né. Mas, não com venda de rações e injeções, medicamentos. (Francisco,
37 anos)
Outro comentou que desejava escrever um livro: Sim. Escrever um livro.
Eu já tenho a capa, como eu sou desenhista, artista plástico, comecei a fazer um
esboço do livro, tenho na cabeça o que vou escrever, mas agora vou ter que
escrever quando passar a edição” (Osmar, 73 anos).
A partir das respostas dadas, percebe-se que os participantes preocupam-se
com as conseqüências futuras que as acusações contra eles podem gerar. Alguns
mostraram-se esperançosos e outros menos. Além disso, alguns deles, mesmo
diante da preocupação, foram capazes de expressar algum desejo de realização
pessoal.
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Relações da História de Vida com o Momento Atual
As respostas que serão descritas nessa seção se relacionam à pergunta
“Pensando em sua vida hoje, você acha que sua história influenciou em algo que
acontece no momento atual?”. As respostas foram classificadas em única categoria:
Ausência de conexão entre as histórias de vida e as denúncias.
Ausência de Conexão entre as Histórias de Vida e as Denúncias
Quando foram questionados sobre suas histórias de vida e a relação com a
denúncia, os participantes revelaram que nenhum aspecto dessa história se
relaciona com as acusações. Reiteraram que suas vidas foram tranqüilas e que por
isso não conseguiam conectá-las as denúncias de abuso sexual contra eles. A
resposta de Flávio (37 anos) serve para ilustrar esse quesito: Não, acho que a
minha história de vida é uma paz só, né? Acho que seguida, talvez passe, né?
quero continuar com a minha profissão, ajudando meus pais...”.
O tipo de resposta dado pelos participantes era, de certa forma, esperado,
pois na situação de envolvimento com a justiça, na qual quase todos eles se
encontravam, a expectativa é de que eles não poderiam declarar nada que os
comprometessem. Assim, eles podem ter entendido que comentar que suas histórias
de vida podem ter contribuído de alguma maneira para a acusação na qual se
encontravam poderia afetá-los de maneira negativa.
Visão Sobre a Criança
A partir deste ponto serão descritas as respostas relacionadas à visão sobre a
criança.
O Que é Ser Criança
As respostas dos participantes a esta pergunta foram agrupadas em uma
categoria mais ampla denominada respostas politicamente corretas e/ou
estereotipadas sobre a criança e a infância. Dentro desta, foram organizadas três
subcategorias: Visão positiva e romanceada da infância, incompletude da criança
em relação aos adultos e infância como fase importante para as demais.
Respostas Politicamente Corretas e/ou Estereotipadas sobre a Criança e Infância
Visão Positiva e Romanceada da infância
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Ao serem questionados sobre o que é ser criança os participantes
responderam, por exemplo, que ser criança é a “parte mais feliz” (Flávio, 37 anos) e
bonita (Flávio, 37 anos). A frase seguinte serve para ilustrar essa idéia: Ser
criança é a idade mais feliz do mundo” (Osmar, 73 anos). Outro participante
salientou que ser criança é não ter problemas(Francisco, 37 anos), e outro citou
que a infância é aquela na qual se esdescobrindo o mundo e todas as coisas
bonitas do mundo(Flávio, 37 anos). Gaiva e Paiao (1999) atestaram que a fase
infantil e as crianças foram vistas por estudantes de Enfermagem como uma coisa
a ser admirada”, ou seja, como um ser gracioso com o qual se pode brincar. Além
disso, as crianças foram percebidas pelas estudantes como uma como fonte de
alegria e satisfação” para os adultos. Pode-se notar, portanto, que as respostas
obtidas nessa pesquisa se aproximam das respostas da pesquisa de Gaiva e Paiao,
pois os dois públicos percebem as crianças e a fase infantil de uma forma positiva,
permeada pela felicidade. Contudo, apesar de as respostas serem semelhantes,
algumas contradições podem ser apontadas. A princípio, estudantes de enfermagem
estão se preparando para a função de cuidar. A essa função estaria associada a
necessidade de se apreciar as crianças de maneira positiva. Assim, seria coerente
que as estudantes da pesquisa de Gaiva & Paiao vissem as crianças e a infância
desse modo. Contudo, para homens acusados de cometer delitos sexuais contra
crianças, esse tipo de resposta parece incoerente, pois esses indivíduos, a princípio,
não analisariam as crianças de maneira positiva, considerando-os apenas como
objetos (Amazzaray & Koller, 1998). Assim, as respostas positivas e romanceadas
sobre as crianças e infância podem estar, no contexto dessa pesquisa, associadas
mais a uma estereotipia das respostas e ao que é socialmente aceitável do que as
reais visões que esses homens possuem. Além disso, que se considerar que esses
indivíduos foram encaminhados compulsoriamente pela justiça até o local da coleta
de dados, com o objetivo de serem avaliados psicologicamente. Assim, suas
respostas podem ter sido dadas de modo que eles não se comprometessem com elas.
Incompletude da Criança em Relação aos Adultos
Nessa segunda subcategoria, os participantes destacaram que ser criança é
não ter responsabilidades” (Francisco, 37 anos), pois as crianças pensa apenas
em jogos e brincadeiras(Osmar, 73 anos). Gaiva e Paiao (1999) comentam que
suas participantes também associaram a imagem da criança à diversão. Neste
último tópico, pode-se perceber mais uma vez que os resultados apresentados se
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aproximam aqueles encontrados na pesquisa com as estudantes de enfermagem.
Relacionar a fase infantil com as idéias de diversão e lazer, distanciando-a do
mundo do trabalho e das responsabilidades é uma “marca” do modo como são
percebidas as crianças na sociedade moderna (Ariès, 1981). Quando identifica-se as
crianças e a fase infantil dessa maneira, é quase inevitável não limitar aquelas
atividades que são permitidas ou não para elas, como o trabalho, por exemplo. A
criança é vista como um ser incompleto por ainda não possuir responsabilidades,
não trabalhar e apenas ter como interesses jogos e brincadeiras. Pode-se afirmar que
as respostas dos participantes dessa pesquisa parecem estar permeadas pelas noções
sociais sobre o que é ser criança.
Outro tipo de resposta está associado à incopletude da criança em relação
aos adultos é expressa na fala de Francisco (37 anos): “criança é querer ser adulto
A idéia principal contida na fala do participante é de que criança é um vir a ser do
adulto. Em um estudo com professores acerca das concepções das fases do
desenvolvimento, verificou-se que esses participantes identificaram a infância e as
demais fases da vida incompletas em relação à adultez, pois esta última foi
apontada por eles como ponto ótimo do desenvolvimento humano (Almeida &
Cunha). Assim, a resposta de Francisco se assemelha as do professores. Além disso,
o vir a ser adulto” seria a oportunidade de ter suas capacidades em pleno
desenvolvimento. Pensar a infância como uma fase incompleta em relação à adultez
implica pensar que a conduta da criança deve ser superada, pois a meta do
desenvolvimento seria tornar-se adulto (Salles, 2005). A fala de Francisco,
portanto, está em acordo com essa concepção comum na sociedade ocidental.
Infância Como uma Fase Importante Para as Demais Fases
Osmar (70 anos), quando questionado sobre o que é ser criança enfatizou
que os problemas, às vezes lhe podem futuramente ser um trauma, né?”. Tal
resposta expressa o que Santos (1996) aponta sobre a continuidade entre uma fase e
outra do desenvolvimento, ou seja, que as experiências vividas em uma fase
anterior da vida o importantes para as posteriores. A idéia de que problemas na
infância podem causar traumas futuros está associada a essa noção de continuidade,
pois a infância, por ser a etapa mais precoce teria conseqüências para as demais
etapas do ciclo vital. Assim, problemas na fase infantil poderiam se transformar em
traumas que perdurariam na vida futura.
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De maneira geral, pode-se afirmar que os participantes apresentam uma
visão positiva e romanceada das crianças e da infância, ainda que as considerem
incompletas, pela ausência de responsabilidade. As falas dos participantes indicam
que suas visões sobre as crianças o permeadas pelas noções da sociedade em
geral, pois segundo vários autores (ver Almeida & Cunha, 2003; Ariés,
19875/1981; Salles, 2005) as visões positivas sobre a infância e a idéia de
inclopetude delas em relação aos adultos são comuns na sociedade atual. Nenhum
dos participantes revelou algum tipo de distorção cognitiva, comum em abusadores
sexuais, na quais as crianças são percebidas como seres sexuais, que consentem
relações dessa natureza ou iniciam contatos desse tipo de contato com adultos
(Gannon et al., 2005; Ward & Keenan, 1999). Portanto, todas as respostas a questão
“o que é ser criança” podem ser classificadas na categoria única respostas
politicamente corretas e/ou estereotipadas sobre a criança e infância, que todos
eles enfatizaram apenas as noções socialmente aceitáveis. Isto indica que os
participantes reconhecem que uma norma social sobre o que é ser criança que
dita como as crianças devem ser vistas e conseqüentemente como devem ser
tratadas. Assim, pelo menos neste quesito não há uma indicação de erros cognitivos
sobre as crianças. Por outro lado, há ainda a clara indicação que com estas respostas
os participantes visavam a atender à expectativa da equipe de receber respostas
positivas e socialmente aceitáveis, desfazendo a possível crença sobre si próprios
como pessoas de mau caráter, devido às denúncias sobre abuso sexual que os
acompanhavam.
Quem É uma Criança
A pergunta “Quem é uma criança” tinha por objetivo analisar quem os
participantes poderiam indicar como sendo uma criança. As respostas foram
categorizadas da seguinte maneira: Definição cronológica, com a subcategoria
definição cronológica por gênero e a categoria de resposta ausentes ou
inadequadas. A seguir, cada uma delas aparece descrita.
Definição Cronológica
Basicamente, os participantes definiram quem é uma criança através de
critérios cronológicos, identificando, por exemplo, “a minha (filha) de cinco anos é
criança e outra de 14 é adolescente”. Um outro participante identificou que
pessoas podem ser consideradas como crianças até os dez e/ou 12 anos. Os critérios
89
utilizados por este último participante são semelhantes àqueles utilizados pela
World Health Organization (WHO,sd) e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) de 1990. A WHO define a idade de dez anos e o ECA 12 anos, como limite
para ser considerado criança.
Definição Cronológica por Gênero
Nesta subcategoria, foi classificada a resposta de um participante que
indicou quem era uma criança usando parâmetros cronológicos de gênero: Disse
que pra passar, disse que pra passar de maior tem que ser com 21 anos, 22. me
falaram que é com 18 Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21. Na
parte do homem, desculpa eu me explicar assim, diz que é 18, 19” (Paulo, 70 anos).
Ao falar sobre essas idades, o participante disse que acreditava que esse era o
critério definido pela lei, mas não definiu que código jurídico seria esse.
Respostas Ausentes ou Inadequadas
Dois outros participantes o souberam responder. Repetiu-se a pergunta
para que ela ficasse mais compreensível, mas ambos recusaram alegando que não
sabiam como definir. Um deles reagiu de maneira indiferente ao questionamento da
pesquisadora, enquanto o outro pareceu sentir-se envergonhado de não saber
responder a questão.
Observando as respostas, percebe-se que alguns participantes usaram o
critério cronológico (idades) como definição de quem é uma criança. As idades
citadas aproximam-se dos limites etários ditados pelas leis (ECA, 1990) e por
órgãos internacionais (WHO, 2003), sem, no entanto, mencionarem essas fontes.
Este aspecto demonstrou, mais uma vez, uma visão sobre a criança permeada pelos
ditames socialmente aceitáveis. Um outro participante quando citou as idades,
deliberadamente falou sobre os critérios etários usados na lei, sem comentar a que
código jurídico ele se referia. Ele citou que uma menina poderia ser considerada
criança até os 21 anos e os meninos, até os 18. No caso desse participante, ele usou
critérios mais próximos da entrada na maioridade em vez de a idade limite para que
alguém possa ser considerada criança (12 anos). Embora haja uma certa confusão
sobre os limites etários previstos por lei para classificação de pessoas como
crianças, especialmente no que tange à discussão de direitos e deveres, não é
justificável que alguns participantes que não soubessem responder. A mídia e o
senso comum apresentam uma série de possibilidades para definir, mesmo que de
90
forma estereotipada ou pragmática quem é uma criança. Respostas inadequadas, da
mesma forma, indicam a confusão, que pode ser gerada por alguma ansiedade, em
estruturar uma resposta, mesmo que não consistente, à pergunta. Os limites etários
para ser considerado criança parecem ainda confusos como eram no início do
século XX, quando os códigos jurídicos ainda traziam classificações etárias
diversas sobre quem poderia ser considerado criança (Londoño, 1999).
Diferenças Entre Crianças e Adolescentes
Questionou-se aos participantes quais seriam as diferenças entre crianças e
adolescentes e adultos (gostos, interesses, comportamentos, etc.). Como as
diferenças foram descritas aos pares (criança-adolescente, criança-adulto, crianças-
demais fases do desenvolvimento), optou-se por descrevê-las em seções distintas.
Nesta parte, estão relatadas apenas as diferenças entre crianças e adolescentes. As
respostas foram categorizadas da seguinte maneira: diferenciação por identificação
como fase de transição no desenvolvimento em geral, diferenciação por autonomia
com a subcategoria diferenciação por autonomia de pensamento; diferenciação
por rebeldia, diferenciação por gostos e interesses e respostas ausentes ou
inadequadas.
Diferenciação por Identificação como Fase de Transição no Desenvolvimento em
Geral
A adolescência foi entendida por um dos participantes como uma fase de
transição na qual a pessoa não é mais criança, mas também não pode ser ainda
classificada como adulto. Uma maior responsabilidade na adolescência marcaria a
diferença entre uma criança e um adolescente. Contudo, esta maior
responsabilidade não seria ainda como aquela assumida por um adulto. A frase
seguinte exemplifica essa idéia: O adolescente para mim é uma criança que está
passando por uma fase de transição... que nem é mais criança e ainda não é
adulto. Mas passa a ter mais responsabilidade” (Osmar, 73 anos). A
adolescência aqui é compreendida como uma fase de experimentação e de transição
para vida adulta. Segundo Salles (2005), a distinção entre criança e adulto, iniciada
ainda no século XVII, fez com que a adolescência começasse a ser percebida como
um período à parte do desenvolvimento humano, sendo a ponte” que uniu uma
fase a outra. Assim, a noção de que a adolescência é uma fase de transição se
originou nessa época, perdurando até os dias atuais, como expressou esse
91
participante. Ela seria uma fase mista entre a infância e a adultez, diferenciando-se
da fase infantil.
Diferenciação por Rebeldia
A adolescência foi concebida como uma fase de contestação e rebeldia.
Segundo Francisco, 37 anos: Eu acho que o que faz isso aí, passar a ser
adolescente, é justamente a contestação”. Outro respondeu que Acho que o
adolescente já é mais aquela fase de rebeldia” (Flavio, 37 anos). A idéia de
rebeldia e contestação está intimamente ligada à concepção de “crise”, pela qual os
adolescentes necessariamente passariam. Esta concepção foi inaugurada na
psicologia por Stanley Hall (1844-1924, in Newcomb, 1999) que definiu a
adolescência como uma fase de tempestade e estresse”. Apesar de esta idéia de
crise adolescente ter sido gerada inicialmente no meio da disciplina psicológica,
esta ultrapassou tais limites bastante tempo, tornando-se um conceito do senso
comum (César, 1998). Esta noção pode ser notada claramente nas respostas obtidas.
A fase infantil diferenciar-se-ia da adolescência pela ausência desta rebeldia e/ou
contestação. Ao recordar as respostas dadas pelos participantes quando foram
questionados sobre o que é ser criança, pode-se verificar que a infância foi vista
como uma fase sem problemas permeada pela felicidade. Assim, pode-se sugerir
que a etapa infantil seria uma contraposta à adolescência, pois esta última seria
problemática.
Diferenciação por Autonomia
Outra diferença importante entre crianças e adolescentes, segundo um dos
participantes foi expressa na seguinte sentença: por mais que as crianças tenham
suas próprias vontades, elas m que obedecer às ordens dos adultos” (Francisco,
37 anos). Os adolescentes, segundo este participante, seriam mais autônomos e o
teriam que ser submissos aos adultos, enquanto as crianças deveriam obedecer:
A criança (...) não tem vontade própria ainda. Ela tem, mas a gente... a gente é que
sabe o que que vai fazer, que que ela vai fazer, onde que ela vai ir. E adolescente não.
Adolescente já tem vontade própria. Ela quer ir, quer ir, e vai. Quer fazer e faz.
Mesmo que a gente não queira. (Francisco, 37 anos).
Diferenciação por Autonomia de Pensamento
Esta subcategoria foi criada, pois ela designa mais especificamente uma
maior autônima de pensamento por parte dos adolescentes:“aquela fase que a gente
92
acha que sabe das coisas, mas a gente não sabe” (Flávio, 37 anos). Esta resposta
denota que, para o participante, uma autonomia de pensamento por parte dos
adolescentes, mas, que ainda pouca maturidade das pessoas nesta fase da vida,
pois, embora elas acreditem que sabem como agir, ainda não possuiriam bom senso
suficiente para discernir sobre como proceder. As crianças, em contraposição aos
adolescentes, ainda não teriam essa autonomia de pensamento para realizar este tipo
de avaliação. A idéia de uma maior autonomia adolescente é aceita na sociedade
contemporânea, pois ela seria necessária para que eles exercitassem as funções que
desempenharão quando tornarem-se adultos (César, 1998).
Diferenciação por Gostos e Interesses
Os interesses das crianças basicamente se associaram às brincadeiras,
segundo os participantes. Os interesses dos adolescentes foram descritos de maneira
mais variada: “(adolescente) quer sair, quer escutar música, quer ir ao cinema,
quer viajar. Quando sai de férias da escola. Quer namorar. Muito (Francisco, 37
anos). Algumas dessas atividades (sair e viajar) associam-se diretamente à visão de
uma maior discutida anteriormente. A questão do namoro também é uma outra
idéia aceita com sendo uma característica típica da fase adolescente, encarada como
sendo uma conseqüência de um instinto sexual natural que irrompe nesta fase.
(César, 1998). Assim, as respostas dos participantes a esta questão foram,
novamente, permeadas pelas noções do que é socialmente aceitável. As crianças se
diferenciariam dos adolescentes, por não namorarem, saírem com os amigos, etc.
Em uma pesquisa com caminhoneiros, sobre a exploração sexual infanto-juvenil,
verificou-se que as brincadeiras foram vistas como sendo atividades infantis e o
namoro como uma atividade tipicamente adolescente (Koller et al., 2005). Alguns
dos participantes dessa última pesquisa declararam ter mantido relações sexuais
com crianças durante suas viagens. Nota-se nas respostas dos caminhoneiros a
mesma estereotipia de respostas dos participantes da pesquisa aqui relatada, pois
em ambos os casos, mesmo tendo ciência de que o sexo entre crianças e adultos não
é uma atividade típica da fase infantil, os dois grupos foram capazes de abusar
sexualmente das crianças.
Respostas Ausentes ou Inadequadas
Houve também certa confusão de um dos participantes em definir
características típicas da fase adolescente, confundido-a tanto com a infância
93
quanto com a adultez. Em suas palavras: “Quer dizer, que é uma criança de
repente, adolescente. É uma criança. (Então, criança é igual a adolescente?) Não. É
diferente de criança, quando ela pega mais idade. Essa pergunta eu num sei”.
(Paulo, 70 anos). O entrevistado distinguiu adolescentes de crianças apenas pela
questão da idade.
Ao analisar as respostas dadas sobre as diferenças entre crianças e
adolescentes, nota-se que os participantes possuem idéias claras sobre as diferenças
entre estes dois grupos, denotando que eles possuem ciência de que certas
atividades são permitidas ou não para as crianças.
Diferenças Entre Crianças e Adultos
Nesta seção, são apresentadas as diferenças, citadas pelos participantes,
entre crianças e adultos. Elas foram agrupadas nas seguintes categorias:
diferenciação pela responsabilidade; diferenciação pelos deveres (com as
subcategorias: deveres mais brandos para as crianças, estudo como dever das
crianças e diferenciação por pequenos trabalhos domésticos como deveres
para as crianças); diferenciação por dever de obediência; diferenciação por
cuidados recebidos ou devidos por adultos e diferenciação pelas atividades
lúdicas.
Diferenciação pela Responsabilidade
É marcante a questão da responsabilidade na diferenciação entre o que é ser
criança, e o que é ser adulto para os participantes deste estudo. Todas as respostas
indicaram que a principal diferença entre adultos e crianças é a presença de
responsabilidade na adultez e ausência dela na fase infantil. A responsabilidade
esteve associada, sobretudo, ao trabalho e ao conseqüente ganho do dinheiro.
Francisco (37 anos), por exemplo, citou que O adulto tem que ter
responsabilidade, né. Tem que batalhar... tem que... tem que correr atrás do
dinheiro que é pra poder pagar as coisas, ”. A fala de Paulo (73 anos) também
exemplifica essa idéia: “Quer dizer que o adulto vai ter que trabalhar, fazer a vida,
cumprir as obrigações, se tiver obrigação”.
Pode-se perceber, através das falas destes participantes, o reflexo do que
Ariés comentava em 1981 sobre a moderna (e ainda contemporânea) concepção da
infância. A separação da criança do mundo do trabalho e das responsabilidades
94
revela-se em suas respostas. Para Áries, a criança estaria dissociada de tais
responsabilidades por uma razão primordial: ela seria incapaz de manejá-las.
Diferenciação pelos Deveres
Dentro desta categoria foram criadas subcategorias, pois, embora todas elas
se relacionem a questão dos deveres diferentes para crianças e adultos, cada um
delas designa deveres específicos.
Deveres Mais Brandos para as Crianças
Um dos participantes respondeu que crianças, se comparadas aos adultos,
possuem menos deveres. Além disso, acrescentou que, quando tais deveres existem,
eles seriam mais brandos que os dos adultos. A fala de Osmar (73 anos) ilustra esse
tipo de resposta: “Quase não tem deveres. Eles têm... devíamos ensinar a ter
deveres. Tem deveres, mas não como os nossos (...), ensiná-los tanto na escola
quanto em casa tem que ensinar a ter dever... Não como os nossos...”. A imagem
da criança aparece novamente relacionada a menos responsabilidades.
Estudo Como Dever das Crianças
Um dos deveres das crianças seria estudar: Tem que ir à escola, tem que
fazer os temas da escola (Francisco, 37 anos). Conceber a educação como um
dever pode estar associado à idéia amplamente aceita de que as crianças se
beneficiam quando ingressam na educação fundamental ou primária. Este ingresso
garantiria um desenvolvimento pessoal (Ramirez, sd), que por sua vez, asseguraria
um futuro sadio para as crianças (Ariès, 1975/1981. Contudo, a mais importante
idéia expressa pelo participante associada à questão da educação, é a preocupação
com o vir a ser da criança e com seu futuro. A fase infantil não é simplesmente uma
etapa a ser vivida por si só. É uma preparação para a fase adulta, encarada como
meta máxima do desenvolvimento. A educação formal seria um aspecto
fundamental para assegurar o futuro (adultez). A fala de Paulo (73 anos) sugere
essa concepção:
Agora tem que tá com um colégio na parte da noite, tá estudando. Porque hoje em dia
é o estudo que tá valendo. Agora com pouquinho estudo... em qualquer lugar mesmo
pra pegar em qualquer outra função, no lixo assim precisa ter, nem me lembro o grau
que tem que ter. Num pega mais. Agora no meu tempo, não precisava ler, num
precisava escrever. Pegava qualquer conta.
95
Diferenciação por Pequenos Trabalhos Domésticos como Deveres
para as Crianças
Apesar de o trabalho remunerado não ser visto pelos participantes como
uma atividade aceitável para as o público infantil, a realização de pequenos
trabalhos domésticos foi uma das respostas sobre os deveres das crianças: “Em casa
às vezes lavar os pratos, quem sabe, dependendo da idade que ele tem. Fazer a
cama dele, fazer o quarto dele. Acho que devia ser um dever que deviam ensinar
para a criança(Osmar, 73 anos). A realização desse último tipo de atividade foi
discutida por Bastos (2002) como permitida para as crianças de baixa renda, faixa
social da qual emergem os participantes deste estudo. Este tipo de trabalho seria
uma forma de solidariedade entre os membros da família, inclusive as crianças.
Heilborn (1998) também detectou uma visão semelhante dos pais em relação às
suas filhas em bairros periféricos do Rio de Janeiro. Para estes pais, o trabalho
doméstico seria uma forma de suas filhas retribuírem pelos cuidados físicos e
emocionais fornecidos.
Diferenciação por Dever de Obediência
A questão da obediência também citada como um dever da criança é um
importante ponto a ser discutido. Em rios outros momentos, os participantes
expressam que uma das características das crianças é ser obedientes: Tem que
obedecer aos pais, ?” (Francisco, 37 anos). Contudo, a obediência o seria uma
opção para criança, sendo encarada como um dever, ou seja, a criança precisaria ser
submissa aos adultos. Esse tipo de concepção comentada pelos participantes pode
ser reflexo da concepção sobre a criança da sociedade ocidental. A obrigatoriedade
da criança em ser obediente decorreria de uma outra característica dela: ter menos
capacidade que os adultos. Essa menor capacidade daria origem a uma relação de
dependência entre o adulto e a criança. Assim, ser dependente dos adultos faria com
que a criança devesse obediência a ele (Kramer, 1999; Phelan, 1995).
Diferenciação por Cuidados Recebidos ou Devidos por Adultos
Com relação aos deveres dos adultos, os participantes citaram que adultos
deveriam ensinar as crianças(Osmar, 73 anos). Esse tipo de resposta sugere que
os adultos têm como dever a responsabilidade com a criança, pois ele deve ensiná-
la. Pelas respostas dadas sobre as diferenças de deveres entre esses dois públicos,
mais uma vez percebe-se que a adultez é destinada ao trabalho e as
96
responsabilidades (com a criança, inclusive), enquanto a infância é a etapa da vida
na qual não muitos deveres e responsabilidades e que necessita de cuidados do
outro (adulto).
Diferenciação Pelas Atividades Lúdicas
A brincadeira foi outro importante tema usado pelos participantes para
diferenciar crianças e adultos. Um dos participantes citou que crianças brincam, e
adulto, .. adulto não brinca mais” (Paulo, 70 anos). A imagem da criança ligada
a diversão e conseqüente separação do mundo do trabalho, ou seja, do mundo dos
adultos comentada anteriormente é uma característica marcante do modo de se
conceber a criança desde a modernidade (Ariès, 1975/1981) até os dias atuais.
As repostas desta seção, novamente, denotam uma visão sobre as fases do
desenvolvimento a partir das noções socialmente aceitáveis. Os adultos são vistos
como tendo mais deveres em relação às crianças, mais responsabilidades, enquanto
as crianças brincariam e estudariam. Entretanto, a questão da obediência como uma
obrigação das crianças pode ser uma crença que pode favorecer aos abusos de todos
os tipos, pois na medida em que os adultos pensam ter esse direito sobre as
crianças, eles podem praticar atos abusivos e as crianças deveriam,
necessariamente, se submeter.
Diferenças das Crianças para as Demais Fases do Desenvolvimento
Nas respostas desta seção os participantes não citaram diferenças entre as
crianças e os adultos ou adolescentes especificamente, relatando essas distinções de
maneira generalizada. As respostas foram reunidas da seguinte maneira:
Diferenciação por necessidades. Dentro desta, estão reunidas as subcategorias:
necessidades de objetos materiais, necessidades de alimentação, necessidades de
carinho e necessidades da criança de ser prontamente atendidas. ainda uma
outra categoria denominada diferenciação por direitos das crianças com as
seguintes subcategorias: direito de não trabalhar e de estudar, direito a higiene,
direito a alimentação; direito a afeto e prioridade de direitos. Esta classificação
está descrita a seguir.
Diferenciação por Necessidades
Dentro dessa categoria estão as respostas que se relacionaram a
necessidades das crianças como um ponto de diferenciação entre elas e as pessoas
97
das demais fases do desenvolvimento. Estas respostas foram alocadas em uma
subcategoria, pois cada uma delas associa a necessidades distintas.
Necessidades de Objetos Materiais
Um dos participantes se respondeu que as necessidades da criança se
relacionaram a aquisição de objetos materiais. Ele citou que: “Caderno ou qualquer
outra coisa, que para ele é um problema, por que não tem o que os outros tem,
então a necessidade vem coisas que não pode ter, por que as vezes os nosso pais
não dão” (Osmar, 73 anos).
Necessidades de Alimentação
Paulo de 73 anos comentou que crianças precisam ter o alimento na hora
que pedir pro pai”. (Paulo 73 anos). Esse tipo de resposta indica que umas das
necessidades básicas da criança seria alimentação.
Necessidades de Carinho
Paulo de 73 anos relatou também que a criança “Precisa de carinho”,
enfatizando que essa também seria uma necessidade fundamental da criança é ser
tratada com carinho.
Necessidades da Criança de Ser Prontamente Atendidas
Paulo (73 anos) frisou a importância de sempre se atender prontamente às
necessidades das crianças: “(Criança) tem que ter tudo pronto, na hora que pedir”.
Direitos das Crianças
Nesta questão ocorreu o mesmo com a categoria das necessidades, pois
dentro desta categoria foram organizadas várias subcategorias.
Direito de Não Trabalhar e de Estudar
A resposta seguinte exemplifica esta categoria: “Eu acho que não (que
criança não tem que trabalhar). Por que se eu tivesse tido oportunidade de estudar
eu poderia ta vivendo bem melhor hoje em dia(Flávio, 37 anos). Essa resposta
sugere que as crianças deveriam estudar e o trabalhar, como foi no caso dessa
participante. Outro participante também citou que a criança tinha direito a
98
educação, embora não tenha comentado que a educação estava em contraposição
com o trabalho como o fez Flávio.
Direito à Higiene
Francisco (37 anos) destacou que crianças precisam de Higiene... essas
coisas, tudo assim”. A resposta de Francisco indica que ter direito aos cuidados de
higiene seriam um direito das crianças.
Direito à Alimentação
Nessa categoria a alimentação aparece como um direito assegurado para a
criança. “Receber (...) alimentação, essas coisas tudo, né?” (Francisco, 37 anos).
Direito à Saúde
Francisco (37 anos) também comentou que “é... saúde, principalmente,
né?”, afirmando que em sua concepção as crianças tinham direito a saúde.
Direito à Afeto e Cuidado
De acordo com um dos participantes, as crianças precisam de afeto e
carinho: carinho, afeto assim... por parte dos pais e tal (Francisco, 37 anos).
Francisco também citou que as crianças, por não poderem cuidar de si sozinhas, são
de responsabilidade do adulto, tendo, portanto, direito a cuidados por parte deles:
O adulto tem que cuidar da criança, né?”.
Direito de Não ser Obrigada a ter Deveres
Osmar (73 anos) comentou que Eles têm, devíamos ensinar a ter deveres,
mas não obrigá-los, ensiná-los tanto na escola quanto em casa tem que ensinar a
ter dever”. Este tipo de concepção sugere uma criança que tem direito de ser
respeitada e não deve ser obrigada a fazer nada, inclusive a ter deveres. A idéia da
criança como sujeito de direito, expressa pelo ECA (1990), está associada a fala
desse último participante. A idéia de paparicação (Ariès, 1975/1981) na qual a
criança serviria apenas para a diversão dos adultos é ultrapassada na concepção
implícita na fala de Osmar, pois a criança agora teria suas próprias vontades, o
sendo apenas um objeto a serviço das vontades adultas. A importância da criança,
assim, estaria para além da diversão das pessoas mais velhas.
99
Prioridade de Direitos
Nesta categoria não foi frisado nenhum direito específico, mas um dos
participantes comentou que as crianças teriam prioridades de direitos em todos sos
aspectos. De acordo com Osmar, 73 anos: Todos direitos, eu acho. Prioridade em
todos os sentidos”. A prioridade de direitos é uma meta descrita pelo Estatuto da
Criança e do Adolescente (1990). Apesar de o participante não ter se referido
diretamente a esse código, o tipo de resposta dada por ele pode sugerir que uma
disseminação ampla na sociedade sobre as leis que protegem a criança que passam
a fazer parte das imagens sociais da criança.
As respostas citadas tanto para as necessidades quanto para os direitos das
crianças estão de acordo com nova visão sobre a prioridade de direitos das crianças
(criança como sujeito de direito) inaugurada e propagada pela Convenção Mundial
sobre os Direitos das Crianças (1949). Além disso, as crianças teriam que ter suas
necessidades e direitos assegurados com prioridade frente a adolescentes e adultos.
Entretanto, a forma como aparecem, têm um conteúdo pragmático e estereotipado.
A resposta é dada de acordo com o que seria esperado do participante pelos
pesquisadores. Isto se evidencia quando é solicitado um aprofundamento da
resposta e o participante apenas consegue repetir o que disse sem desenvolver a
idéia. No Brasil, os preceitos desta convenção basearam a formulação da Doutrina
da Proteção Integral subjacente ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
promulgado em 1990. Esta doutrina apregoa que crianças e adolescentes sejam
concebidos como sujeitos de direito, possuindo direito de ser protegido contra os
mais variados tipos de violência, de terem atendidas suas necessidades sicas que
garantam a sua sobrevivência além de terem direito à participação nas decisões
políticas e sociais que influenciam suas vidas e é exatamente esta convenção que
embasa o ECA que os condena ou acusa. Foram citados pelos participantes direitos
e necessidades que se relacionam, sobretudo a garantia das necessidades básicas
para a sobrevivência de uma criança (saúde, alimentação, etc.). O amor e afeto
citado por eles, pode ser visto como a garantia de proteção contra as violências e,
por conseqüência, do direito de ser bem tratado por todos e não ser abusado.
Similaridade por Problemas Enfrentados
Embora os participantes tenham salientado, principalmente, as diferenças
entre crianças e adultos, um deles citou as semelhanças entre uma fase e outra do
desenvolvimento. Segundo Osmar (73 anos): São seres humanos, sentem dor,
100
sentem os problemas”. Enfatizou, ainda, que criança não assimila problema, mas
alguns problemas são levados para elas, e elas sentem os problemas”. Observando
as respostas dessa seção, percebe-se que as diferenças entre crianças e as pessoas
das demais fases do desenvolvimento são enfatizadas, enquanto as semelhanças não
são frisadas. Essas repostas denunciam que as crianças são concebidas como seres
distintos que possuem necessidades e direitos e específicos, dentre eles o direito de
não ser tratado com carinho e afeto o que implicaria não ser violentada ou abusada.
Processos Importantes na Transição da Infância para Adolescência/Adultez
Nesta seção estão agrupadas todas as respostas que se referiram aos
processos importantes na transição da fase infantil para a adolescência e/ou adultez
inquiridos através da pergunta. As respostas aqui se referem tanto as perguntas “até
que idade uma pessoa é criança?” e “O que faz com que uma criança passe a ser
adolescente ou adulta”. Optou-se por agrupar as respostas dessas duas perguntas,
pois ambas se relacionam aos limites entre as fases infantil, adolescente e adulta.
As respostas foram categorizadas da seguinte maneira: definição não-cronológica
para a saída da infância para as demais fases, definição por contestação para
transição da infância para adolescência, definição por mudanças biológicas para
transição da infância para adolescência; definição por responsabilidade parta a
transição da infância para adultez; definição cronológica com base na adoção das
responsabilidades jurídicas na transição da infância para adultez; definição por
entrada na maioridade para transição da adolescência para adultez. A seguir, cada
uma delas foi detalhada.
Transição Não-Cronológica para as Demais Fases
A resposta de um participante destacou que não havia uma faixa etária exata
na qual se possa classificar alguém como criança: Acho que isso depende muito
da pessoa, né. Varia muito de pessoa pra pessoa. Acho que não tem uma idade
definida(Francisco, 37 anos). O participante não definiu que outros fatores seriam
importantes para que uma criança passe a ser adolescente ou adulta, apenas citando
que isso variava de indivíduo para indivíduo.
Definição por Contestação para a Transição de Criança para Adolescente
Um dos participantes afirmou que o que define a transformação de uma
criança em adolescente é contestação: Eu acho que o que faz isso aí, passar a ser
101
adolescente, é justamente a contestação. A partir do momento que ela começa a
contestar. O que ela quer, o que ela quer fazer, o que ela deseja fazer, o que ela
precisa de bem material(Francisco, 37 anos). Desde os anos 50, com a ajuda dos
meios de comunicação de massa, a adolescência passou a ser vista como uma fase
de rebeldia (César, 1998). Essa última idéia permanece até os dias atuais, como se
pode observar na fala desse participante.
Definição por Mudanças Biológicas na Transição de Criança para Adolescente
Apenas um dos participantes fez referência às mudanças corporais e da
sexualidade como marcas de identificação da passagem da infância para a
adolescência. Nas palavras de Osmar (73 anos): “Muda ser atraído por outra
pessoa e começar a gostar de alguém”. A sexualidade pode ser entendida como um
aspecto inexistente na vida de crianças, sendo apenas permitido (em parte) para os
adolescentes. A criança seria um ser puro, livre dos pecados ligados ao sexo, por
isso seria inocente. As idéias de pureza e inocência da criança foram herdadas pela
sociedade em geral principalmente dos preceitos cristãos vigentes no ocidente
(Áries, 1981).
Definição por Responsabilidade na Transição de Criança para Adulta
Outro participou expressou que no momento em que a pessoa sente-se
responsável por si mesma, ela já pode ser considerada adulta:
A criança deixa de ser criança na medida em que ela toma outro rumo na vida, né?
Acho que daí ela deixa de ser criança... Ah, na medida em que ela toma outro rumo...
Que é... Chega, conclui a faculdade, que se forma nos estudos, se torna... que já é
responsável pelos seus atos, que é, se não se acha responsável, que já é responsável
pelos seus atos, mesmo deixando, tendo certa idade, mas quando já é responsável
pelos seus atos, daí deixa de ser criança, né.
O critério responsabilidade para entrada na fase adulta já foi discutida
anteriormente.
Definição Cronológica com Base na Adoção das Responsabilidades Jurídicas na
Transição da Criança para Adulta
Outro participante comentou que “... disse que pra passar, disse que pra
passar de maior tem que ser com 21 anos, 22. Já me falaram que é com 18” (Paulo,
73 anos). Depois, disso a pessoa seria capaz de assumir as responsabilidades
jurídicas, perante e lei. A citação seguinte expressa esta última concepção:
102
Quer dizer que na parte da menina disse que até de 21. Quer dizer que num se
governa. Eu mesmo lá comprei uns terrenos, umas coisas, pra deixar pra cada filho
no dia que Deus me levar, né? Quer dizer que aí, que eles num puder assumir quanto
num completou 18 anos. O que muda é que as eles vão ter que fazer a vida deles por
si próprios. Vocês têm que pegar o rumo de vocês. Arranjar um emprego e agarrar
pra vocês terem um futuro (Paulo, 73 anos).
As duas categorias anteriores possuem dois pontos em comum. O primeiro é
que a questão da responsabilidade surgiu, em ambas, como um critério para a
passagem da infância à adultez. O segundo relaciona-se ao fato de as duas respostas
sugerirem que uma passagem direta da infância para a adultez, sem que fosse
considerada a adolescência.
Definição por Entrada na Maioridade na Transição da Adolescência para Adultez
a passagem da adolescência para a fase adulta seria marcada pela
maioridade. Esse critério da maioridade seria apenas teórico, pois na prática, se a
pessoa é responsável por si mesma e por outros, ela pode se considerar adulta.
Contudo, perante a sociedade, uma pessoa será adulta apenas quando se tem
permissão para assistir certos tipos de filmes ou dirigir. A citação seguinte
exemplifica esta idéia:
Ah, adolescente passa a ser adulto a partir do momento que, teoricamente, completa a
maioridade, né. Pra mim. No meu caso... não foi dessa maneira, né. Mas pra mim
acho que a pessoa, perante a sociedade... No meu caso antes de eu fazer 18 anos eu já
tinha família, eu já trabalhava. Comecei a trabalhar com 11 anos de idade. E...
assinei carteira com 15 anos. Então com 17 anos eu já tinha família, já me auto-
sustentava e... então comigo não foi assim. Foi um pouco diferente. (Francisco, 37
anos).
A variedade de respostas denuncia que definição sobre as “fronteiras” para
cada uma das fases da vida, incluindo a infância, não é uma questão simples.
Embora os critérios cronológicos ainda sejam válidos, a faixa etária não pode mais
ser compreendida como uma característica básica para delimitar os períodos da vida
(Salles, 2005). Não é mais possível afirmar que uma pessoa por ser mais madura
possui mais responsabilidade ou autonomia e que a criança por ser mais jovem não
teria tais capacidades. Esse tipo de concepção foi constatado nas falas dos
participantes, pois eles afirmaram, por exemplo, que quando a pessoa se sente
responsável por si mesma, independendo da idade, ela já pode ser considerada
adulta. Nota-se que certa confusão em definir as características de acordo com a
faixa etária, pois a responsabilidade poderia pertencer tanto a alguém mais jovem
103
quanto a alguém mais velho. Além disso, as respostas m apresentadas aqui se
relacionam em alguma medida com concepções sobre as fases da vida
moderadamente já aceitas pela sociedade, como a questão da responsabilidade
como marca da vida adulta e início da sexualidade em contraposição a pureza da
criança.
Outro ponto que precisa ser analisado é consideração de dois participantes
sobre a passagem direta da infância para a adultez. Um deles (Flávio) afirmou que
desde os 12 ele começou a trabalhar, e que por isso se sentia adulto desde essa
época. O outro (Paulo), se referiu a ele ou como criança ou como adulto. As
declarações dos participantes sugerem assim que eles por não terem passado por
uma fase que eles possam chamar de adolescência, considerem que a passagem da
infância para a adultez ocorra diretamente. Assim, as experiências pessoas podem
ser importantes nas concepções que eles têm acerca dos ciclos da vida.
Transformação de um Menino em Adolescente/Adulto
Nessa seção, serão apresentadas as respostas a pergunta “O que faz com que
um menino passe a ser adolescente ou adulto?”. As categorias foram agrupadas da
seguinte maneira: Autonomia, mudanças biológicas; contestação e critério
cronológico.
Autonomia
Novamente, as respostas a essa pergunta se relacionaram a responsabilidade
e dessa vez mais especificamente a autonomia. Na fala de Flávio: É, acho que é
aquilo que eu lhe falei. Acho que ele deixa de ser criança no momento que ele toma
as rédeas da vida dele, né? Que ele diz assim ‘eu vou ser isso agora. Vou ser dono
do meu nariz(Flávio, 37 anos). Assim, a partir do momento em que um menino
assume uma postura de autonomia frente a sua vida ele se tornaria adulto. Esse tipo
de resposta remete a questão da obediência já discutida anteriormente, uma vez que
as crianças (e os meninos) não teriam que ser mais obedientes, podendo ser mais
autônomos. Assim, eles deixariam de ser crianças e se tornariam adolescentes.
Mudanças Biológicas
Apenas uma das respostas enfatizou as mudanças corporais (nascimento de
pêlos) e atração pelo sexo oposto, marcando assim o inicio da sexualidade como
critério para a entrada na adolescência: Por si mesmo, sentir certo impulso,
104
atração pelo sexo oposto. A as mudanças físicas, mudanças no corpo e começar
ver que esta a nascer é, é. Pêlos e coisas”. Nota-se que esse participante possui um
conhecimento mais específico sobre as mudanças fisiológicas (nascimento de
pêlos) e comportamentais (atração pelo sexo oposto relacionado ao inicio da
sexualidade) envolvidas na transformação de um menino para adolescente.
Contestação
A contestação(Francisco, 37 anos) foi outra resposta dada como marca
do início da adolescência de um menino. Segundo o participante, o menino como
uma pessoa qualquer, se transformaria em adolescente a partir do momento em que
ele comece a ter comportamentos de contestação.
Definição Cronológica
A questão da idade (18 anos) foi novamente reiterada por um dos
participantes (Paulo, 70 anos) como sendo o critério necessário para que um
menino passe a ser adulto. As respostas até este momento pareciam ser coerentes
entre si, demonstrando que os participantes possuem uma visão lógica sobre as
crianças e as demais fases da vida.
Transformação de uma Menina em Adolescente/Adulta
As respostas foram bastante semelhantes as da pergunta anterior. Assim, as
categorias foram agrupadas de maneira semelhante: Autonomia, contestação,
mudanças corporais semelhantes a dos meninos. Contudo, a dimensão perda da
virgindade foi comentada apenas como um processo importante para a entrada das
meninas na adultez. A seguir, serão descritas cada uma dessas categorias.
Autonomia
Flávio (37 anos) respondeu que a menina a partir do momento que ela
tomar conta da vida dela ela já pode ser considerada adulta. Mais uma vez a
resposta sobre autonomia se repetiu.
Contestação
Ao ser questionado sobre qual aspecto seria importante na passagem da
infância para a vida adulta ou para adolescência no caso das meninas, Francisco (37
105
anos) respondeu que A responsabilidade. Não tem diferença. (A mesma coisa?) A
mesma coisa”.
Mudanças Corporais Semelhantes as dos Meninos
Um dos participantes relatou também que acreditava que as mudanças que
aconteciam para s meninos se assemelhariam aquelas das meninas Contudo, ele
comentou que não poderia citar quais diferenças eram essas, pois não pode observar
mais aproximadamente o desenvolvimento de suas filhas adolescentes. A frase
seguinte ilustra a idéia desse participante: “Deve ser igual aos meninos, mas... Para
a menina eu não conheço. Não sei, eu sempre criei as minhas filhas assim, a mãe
que dava orientação em tudo, ela que sabia (Osmar. 73 anos). Embora o
participante afirme que não acompanhou o desenvolvimento de suas filhas, ele
ainda assim exibe algum conhecimento sobre as mudanças que ocorrem na vida de
uma menina no período de transição da infância para adolescência.
Perda da Virgindade
A única resposta que se diferenciou das demais foi a categoria perda da
virgindade”. De acordo com um dos participantes, esse seria o processo principal
que caracterizaria a passagem da infantil para a fase adulta em uma menina: Quer
dizer que aí, a ficar mulher (...) ter contato com o marido dela ou se juntar, ou se
perder. Se perder uma guria quando não faz erro, nenhum tem aquele ditado: é
virgem(Paulo, 73 anos). Por haver uma diminuição na valorização da virgindade
feminina, conforme apontado por Taquette (1997) e Heilborn e Bozon (2001), as
taxas de virgindade entre adolescentes são mais baixas na atualidade. Contudo,
respostas como a deste último participante revelam que a valorização da virgindade,
ainda é vista como um símbolo da pureza da menina. Essa valorização torna-se
mais visível quando o participante associa a perda da virgindade ao erro”, pois ele
afirma que uma guria quando não faz erroé aquela que é virgem(Paulo, 70
anos). Pode-se concluir também que considerar a perda da virgindade como fator
primordial na passagem da infância para a fase adulta pode negligenciar outros
fatores importantes desse processo, como os cognitivos, por exemplo. Essa foi a
única resposta que apontou para diferenças na passagem da infância para
adolescência/adultez de meninos e meninas.
De maneira geral, as respostas dos participantes denunciam que não foram
consideradas diferenças entre meninos e meninas no que diz respeito à passagem da
106
infância para adolescência ou para adultez. Mais uma vez, dois dos participantes
consideraram que há uma passagem direta entre a infância e a adultez, tanto no caso
das meninas quanto no caso dos meninos.
Diferenças e Semelhanças entre Meninos e Meninas
Nesta seção, serão relatadas as respostas a pergunta: “Meninos e meninas:
No que são iguais? No que são diferentes?”. As respostas foram categorizadas
como diferenças por quantidade de atividade, diferenças por proteção/cuidado e
facilidade, diferenças de brincadeiras que envolvam aspecto sexual e diferenças
por autonomia. As semelhanças entre meninos e meninas foi mencionada por
participante e foi classificada na categoria semelhanças entre meninos e meninas.
Diferenças por Atividade/Passividade
Os meninos foram tidos como mais ativos” e as meninas como “mais
quietas” (Flávio, 37 anos). Tal distinção seria ocasionada pela criação diferenciada
dirigida a meninos e meninas. Esta resposta repete o que Souza (2000) observou
entre pais de escolares, afirmando que os meninos foram vistos como duros,
agitados, agressivos, levados e as meninas como passivas, educadas, comportadas,
entre outras. Safiotti (1998) comenta que esta diferenciação entre meninos e
meninas baseada na dicotomia atividade/passividade geraria também diferentes
tipos de violência contra estes dois públicos. A violência física seria a mais
utilizada como um modo de repreensão e controle para a intensa impulsividade dos
meninos. para as meninas, a sua obediência e submissão facilitariam a violência
sexual contra elas, já que elas seriam obrigadas a concordar com esse tipo de abuso,
sendo educadas até mesmo para não revelá-lo. A educação para a submissão é um
facilitador para este tipo de abuso contra meninas (Narvaz, 2005).
Diferenças por Proteção/Cuidado e Facilidades
Segundo um dos participantes, as meninas foram vistas como mais
protegidas e cuidadas tendo também mais facilidades: (as meninas) levam a
parte melhor” (Francisco, 37 anos), tendo mais facilidades. Isso aconteceria, pois
elas seriam mais vulneráveis. Segundo o próprio participante, esse tipo de
concepção estaria associada ao pensamento machista vigente na sociedade que dita
que os meninos são mais fortes, e que, portanto, precisariam de menos proteção que
as meninas. Segundo Francisco, 37 anos:
107
A menina ela é sempre mais protegida. É... A menina sempre leva a parte melhor. As
coisas melhores são pra meninas. Então os meninos sempre são mais deixados de
lado, assim. Porque, assim, um pouco por parte de ... Mas seria, tipo assim, como se
fosse machismo da parte da... O menino é menino, é mais forte, é mais isso, mais
aquilo. Ele é o mais forte ... é o mais saudável. Sei lá. o precisa de tanto cuidado.
Menos vulnerável, né, que a menina.
Esse último tipo de resposta revela que a noção de fragilidade e a conseqüente
necessidade de proteção da mulher, criadas a partir dos modos de organização
patriarcais de organização da sociedade (Strey, 1998), ainda estão presentes nos
dias atuais.
Diferenças de Brincadeiras com Aspecto Sexual
Outro participante (Paulo, 70 anos) relatou que eu acho conforme o
brinquedo que o guri brinca, a guria não vai brincar.”, como por exemplo, aquelas
que os meninos fica dizendo palavrão “. Esse último tipo de conduta seria
reprovável para as meninas. Além disso Paulo (70 anos) afirmou que:
O guri fica tirando o tiquinho pra fora. O que o guri faz, a guria não pode fazer. E
mostrar também, né?’ Nenhum pode. No certo, nenhum pode. Mas... Pra menina fica.
Fica mais feio. Guri é guri. Aquele ditado: ‘um garotinho que tá se criando homem’.
E a guria já tem uma diferencinha”.
De acordo com esse participante, a conduta sexualizada seria mais permitida
por parte dos meninos, simplesmente por eles serem do sexo masculino. Na
sociedade atual, apesar de a sexualidade ser vista como algo natural para a espécie
humana, essa concepção se aplicaria mais aos homens (Giffin, 1994). Assim,
constrói-se a noção de que os impulsos sexuais masculinos (e suas expressões) são
incontroláveis. Esta percepção faz com que as condutas sexualizadas de meninos
sejam mais bem aceitas, como foi notado na fala desse último participante. Em
estudo na África do Sul, verificou-se que tanto adolescentes do sexo masculino
quanto do sexo feminino destacaram que os homens possuem uma natureza sexual
irrefreável, cabendo a mulher a tarefa de controlar os impulsos sexuais (Petersen et
al., 2005). Através dos resultados desse último estudo nota-se que a compreensão
de que homens possuem impulsos sexuais irreprimíveis o é exclusiva de homens
acusados de cometer delitos sexuais contra crianças. Esse tipo de crença é
especialmente perigoso no que diz respeito aos casos de abuso sexual. Ela pode
servir como justificativa para as condutas de homens que cometeram violências
sexuais contra crianças, na medida em que eles podem alegar que não tiveram
meios de conter seus impulsos. Além de poder ser usada como justificativa no caso
108
do próprio abusador, as pessoas envolvidas na situação (parentes, profissionais, e
membros da área, jurídica, por exemplo) podem também possuir a mesma
percepção, livrando o abusador de sua responsabilidade.
Semelhanças Entre Meninos e Meninas
Apenas um dos participantes dês te estudo realçou as semelhanças entre
meninos e meninas, comentando que “Eu acho... Iguais no sentimento, por que são
humanos, tanto um como outro. Então seus sentimentos são iguais.
Agora...diferentes? Simplesmente no físico. Mas nos sentimentos são iguais
(Osmar, 73 anos).
Apenas esta última resposta frisou as semelhanças entre meninos e meninas.
Assim, uma visão majoritariamente estereotipada em relação às diferenças entre
meninos e meninas. De acordo com Bonamigo e Koller (1995), até nas culturas
mais primitivas, pode-se notar uma distinção nas funções arrogadas a homens e
mulheres. A consolidação dessas diferenças baseou-se principalmente na função
materna da mulher (Rosaldo & Lamphere, 1979), pois ao longo do tempo ela foi
exercendo tarefas mais passivas e domésticas, que não as impedissem de cuidar da
prole. As funções masculinas de manutenção (material, entre outras), por sua vez,
foram conservadas e mais valorizadas por serem consideradas dinâmicas.
A partir das funções exercidas pelos dois gêneros, foram sendo consolidadas
características determinadas a cada um dos sexos. As mulheres foram tidas então
como dóceis, passivas, afetuosas e pacientes, enquanto os homens foram vistos
como agressivos, fortes, competitivos e independentes (Biaggio, 1981). Essas
características foram se constituindo como papéis sexuais, que seriam o conjunto de
normas referentes às atitudes, comportamentos, valores que são tidos como
apropriados para cada sexo, em uma determinada cultura, em um determinado
momento (Graciano, 1978). Vinculados aos papéis sexuais estão os estereótipos
sexuais, atuando como padrão do que significa ser homem ou mulher. Com todas as
respostas aqui descritas, pode-se notar que os homens entrevistados compartilham
dessa visão estereotipada dos sexos, percebendo o sexo masculino como mais forte
e ativo e as meninas como mais protegidas, frágeis e quietas. Acrescenta-se a isso, a
visão de que os comportamentos de expressão sexual seriam mais permitidos aos
meninos, enquanto as meninas teriam que comportar-se de maneira moral”, sem
expressar sua sexualidade.
109
Empatia
As questões seguintes “O que você sente quando uma criança
dormindo?”, “O que você sente quando uma criança brincando?”, “O que você
sente quando uma criança chorando?” e “O que você sente quando uma
criança gritando?” tinham como objetivo avaliar processos empáticos dos
participantes. As respostas foram agrupadas a partir das seguintes categorias:
resposta pragmática, resposta empática, resposta de sentimentos positivos resposta
e de angústia pessoal. As respostas pragmáticas foram aquelas nas quais houve
uma definição utilitária e objetiva da situação, sem a expressão de sentimentos. As
respostas empáticas, por sua vez, enfatizaram o estado emocional da criança Já, as
respostas com sentimentos positivos, destacaram os sentimentos dos participantes
congruentes com o estado emocional da criança, sem, no entanto, se referir
diretamente à condição emocional dela. Finalmente, as respostas de angústia
pessoal expressaram exclusivamente o estado emocional do participante. A seguir,
cada um dessas categorias será exemplificada de acordo com as perguntas feitas aos
participantes.
O que Você Sente Quando Vê uma Criança Dormindo?
Resposta Pragmática
Um dos participantes quando indagado nesta questão citou que É uma
criança dormindo”, ou seja, a resposta sugere uma definição pratica, sem expressão
de sentimentos, mostrando uma fuga da resposta na qual se utiliza os termos da
própria pergunta. Não foi expresso nenhum tipo de sentimento empático, se
consideramos que a empatia é “sentir com” o outro (Eisenberg & Strayer, 1990).
Resposta Empática
Outro participante disse que a criança por estar dormindo, “ela em paz
(Flávio, 37 anos). Nesse caso, o participante inferiu o estado emocional da criança
que dorme, revelando capacidade de apresentar uma resposta empática, ou seja,
cujo conteúdo indica a percepção do estado emocional de outrem (Eisenberg &
Strayer, 1990).
Em outra resposta, um deles apesar de afirmar que Eu não sinto nada
(Osmar, 73 anos), comentou, posteriormente, que Simplesmente deixo dormir por
que estava cansada, sinto que é uma necessidade da criança por que deve estar
cansada(nome, idade). Esses dois tipos de afirmações revelam que esses homens
110
são capazes de perceber os estados emocionais das crianças (nesses casos, estar
paz” ou “estar cansada”), através de pistas do seu comportamento (dormir) e que
portanto, são empáticos, de acordo com a definição de Eisenberg e Strayer (1990).
O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Brincando?
Resposta Pragmática
Mais uma vez aqui se repetiram as respostas pragmáticas. Um dos apenas
participantes afirmou: “Que ela tá brincando” (Flávio, 37 anos).
Resposta de Angústia Pessoal
Outras respostas enfatizaram apenas o estado emocional do entrevistado,
pois em sua fala ele afirmou: Isso varia um pouco do tipo de brincadeira, né. Tem
algumas brincadeiras que me irritam um pouco, mas dependendo se for uma
brincadeira calma, que não fizer muito barulho assim eu acho legal. Gosto. Ah,
gritaria, correria. Essas coisas assim(Francisco, 37 anos). Esse tipo de resposta
revela uma proximidade com aquilo que Eisenberg e Strayer (1990) denominaram
de angústia pessoal, pois o participante revela seu incômodo com a brincadeira e
em nenhum momento destaca o sentimento das crianças que brincam. O estado
emocional do entrevistado (irritado) revela-se incongruente com o estado
emocional da criança que brinca.
Respostas com Sentimentos Positivos
Um dos entrevistados citou que “Eu me sinto tando brincando ta com
saúde(Paulo, 70 anos). Talvez a expressão não seja clara do sentimento positivo
do participante, mas pode ser inferido que em sua compreensão a criança está bem
para poder brincar. Uma outra resposta centrou-se no estado emocional positivo do
participante: Eu sinto felicidade” (Osmar, 73 anos). O participante expressa
claramente o estado emocional que a brincadeira da criança gera. Aqui não é
revelada diretamente a condição emocional da criança. Contudo, os sentimentos
positivos expressados pelos participantes mostram-se congruente com o
comportamento lúdico da criança.
111
O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Chorando?
Resposta Pragmática
Um dos participantes faz referência a uma resposta utilitária sobre os
motivos do choro, sem revelar o que ele sente ao presenciar a situação: “Aí depende
do, assim, o motivo que ela ‘tá chorando, né. Tem crianças que choram porque não
ganharam um iogurte, né. E tem crianças que choram porque tão com fome.
Realmente. Aí vai depender” (Francisco, 37 anos). Nessa frase, fica implícita a idéia
de que o que ele sente vai depender da plausibilidade do motivo.
Resposta de Angústia Pessoal
Um outro participante afirmou que sente muita dor e tristeza(Osmar, 73
anos). Esse tipo de declaração está claramente ligado a uma focalização sobre os
próprios sentimentos aversivos, indicando assim estresse pessoal (Eisenberg &
Strayer, 1990).
Resposta Empática
Duas respostas denotaram empatia por parte dos participantes. Um deles
enfatizou que Que ela tá com algum problema” (Flávio, 37 anos), e outro afirmou:
Quer dizer que depende. Tem que ver que não caiu, não se machucou, ou tá
com um gesto que tá doente... se é que com um jeito que tá doente, tem que levar no
posto de saúde ou no hospital, né?” (Paulo, 73 anos).
A primeira resposta, apesar de não enfatizar o estado emocional específico
da criança, atesta que o participante pode identificar o desconforto dela expresso
pelo choro, frisando a perspectiva da criança e não o seu próprio estado emocional.
A segunda revela um sentimento aparentemente empático do participante, ao notar
e compreender a situação da criança.
O Que Você Sente Quando Vê uma Criança Gritando?
Resposta de Angústia Pessoal
Uma das respostas relacionadas à angústia pessoal foi a seguinte: Ah, eu
sinto nervosismo. Me incomoda, eu sinto tristeza, dor (Osmar, 73 anos). Nesse
caso, está claro que mais consideração ao incômodo pessoal do participante do
que aos sentimentos da criança que grita, sugerindo que nesse caso angústia
pessoal (Eisenberg & Strayer, 1990).
112
Resposta Empática
Flávio (37 anos) responde: Se ela gritando? Ah, se ela gritando, ela
braba com alguma coisa, então a gente tem que conversar com ela, pra saber por
que ela ‘tá assim”. Um outro participante relatou que Uai, como eu me sinto na
minha memória, a criança ta alegre. Com a criança ‘tando quieta, sentada,
montada em cima de um banco alguma vai ter. Ou ta triste, ou ta doente. Agora,
esteja brincando pulando, eu acho que nada ta existindo com ela” (Paulo, 70 anos).
Nos dois, houve a focalização no estado emocional da criança o que revela um
verdadeiro sentimento empático (Einsenber & Strayer, 1990). A resposta de
Francisco (37 anos) também expressou um comportamento empático:
É aquilo que eu te falei, né. Isso aí vai depender também. É porque eu também não
sei qual é o motivo que ela tá gritando. Ela pode tá gritando por socorro, né. Ela tá
gritando por socorro. Ela tá em apuros. Ela tá em emergência, né. Todo mundo é
igual, na real, quando tá em apuros. Todo mundo grita”.
As perguntas feitas em relação aos comportamentos das crianças tinham
como objetivo detectar os processos empáticos dos participantes. Pode-se observar
que as respostas variaram desde expressões genuínas de empatia, passando pelas
respostas pragmáticas que não demonstraram nem os possíveis sentimentos da
criança nem dos participantes até aquelas que destacaram apenas os estados
emocionais (aversivos ou positivos) dos participantes. A expressão de sentimentos
aversivos (angústia pessoal) frente aos comportamentos infantis é especialmente
preocupante, pois tais sentimentos podem levar os participantes a se engajar, como
afirmam Eisenberg e Strayer (1990) em estratégias auto-orientadas ao lidar com os
sentimentos do outro. Na execução dessas estratégias importaria apenas o alívio das
“dores” dos participantes, não havendo consideração pelos sentimentos alheios.
Pode-se pensar que o abuso sexual de crianças é uma estratégia auto-orientada e
disfuncional executada pelos participantes quando sofrem de sentimentos aversivos
frente às dores dos outros.
Por outro lado, as respostas de angústia pessoal não foram exclusivas, pois
respostas empáticas também estiveram presentes. Fisher (in Webster & Beech,
2000) afirma que muitos abusadores apresentam um índice normal de empatia
geral. Esse aspecto, pelo menos em parte, foi visto nos resultados aqui
apresentados, pois em várias situações eles foram capazes de “sentir com” as
crianças. Pode-se se questionar então, se os déficits de empatia estão mesmo
associados às situações de abuso como mostram alguns estudos (Pithers, 1999;
Webster & Beech, 2000). Estes mesmos autores respondem a este questionamento,
113
sugerindo que o que aconteceria nos casos de abuso contra crianças, seria um
déficit de empatia com uma vítima específica e não uma deficiência geral nos
processos empáticos. Esse déficit específico em relação à vítima pode ter ocorrido
com os participantes desta pesquisa, já que todos eles apresentaram alguma empatia
nas situações descritas. Contudo, não se pode afirmar isso com certeza, pois o
houve meios de verificar esse aspecto. Estudos que questionem como as relações
com as vítimas se estabeleceram são essenciais para que se entenda se esses déficits
específicos realmente ocorrem. No entanto, esses estudos devem ser conduzidos
junto a abusadores que reconheçam que tenham abusado das crianças, o que não foi
o caso deste estudo. Apenas assim, os dados relatados o estarão permeados pelo
que é socialmente aceitável.
Ao relembrar respostas anteriores sobre “o que é ser criança” e as sobre as
necessidades e direitos delas, percebe-se que os participantes possuem uma visão
positiva da criança, na qual suas necessidades devem ser prontamente atendidas,
possuindo também prioridade de direitos. Contudo, essas idéias de uma infância na
qual todas as necessidades são consideradas parecem se localizar mais em um nível
abstrato, pois as falas dos participantes sobre os estados emocionais das crianças,
em situações mais práticas e concretas, revela que suas necessidades o possuem
tanta visibilidade. Isso é atestado, por exemplo, quando ao chorar ou gritar, os
participantes alegam que uma necessidade de se analisar a plausibilidade dos
motivos para tais comportamentos, para só depois, atender as necessidades delas.
Descrição da Relação Ideal entre Adultos e Crianças
Nesta seção, serão descritas as respostas para as pergunta “Descreva para
mim como deve ser a relação entre uma criança e um adulto”. As respostas foram
organizadas nas seguintes categorias: Sentimentos e comportamentos Positivos,
relação de cuidado e respostas sobre a moralidade.
Sentimentos e Comportamentos Positivos
A maioria dos participantes citou sentimentos e comportamentos positivos
que deveriam existir entre adultos e crianças. Um deles citou que Adulto e a
criança m que ter respeito, né? Cordialidade entre eles, né” (Flávio, 37 anos).
Aqui, haveria uma relação de cordialidade recíproca entre adultos e crianças na
qual o adulto deveria ser cortês e ter respeito pelo adulto e vice-versa.
114
Relação de Cuidado
Um participante respondeu que Adulto é que tem que tratar a criança bem”
(Paulo, 70 anos), comentando também que Pra quem cuida dela. Tem que ter tudo
pronto. ‘Não, eu não vou te levar’, no meu pensar que ta entristecendo a criança.
Eu acho que é dever de família, família nenhuma pode fazer isso”. Outro foi mais
específico sobre a questão dos cuidados com as crianças, e afirmou:
Vejo se a pequena tomou banho, se a grande trouxe tema pra fazer. Dou uma passada
nos cadernos dela. Que a minha grande, ela é muito preguiçosa sabe, apesar de ela
ser inteligente ela é muito preguiçosa. Ela não quer fazer tema, não quer... tem
preguiça. Então eu tô sempre coordenando. (Francisco, 37 anos).
Assim, ele teria que coordenar as atividades diárias das suas filhas.
Percebe-se que estes dois participantes fizeram referência às pessoas da família
como aquelas que teriam maior obrigação de acompanhar a rotina das crianças e
de atender aos seus pedidos. A visão da criança como alguém que precisa ser
cuidada eshistoricamente associada à formação da família nuclear, que teria
como um dos objetivos principais, justamente, o cuidado dessa criaa (Ariès,
1975/1981). Assim, os cuidados da criança seriam dever de sua família e não
mais de outros núcleos sociais. Tal idéia no Brasil foi difundida, sobretudo,
pelos higienistas no século XIX. O movimento ditava que a família
(monogâmica, nuclear) deveria ser o local privilegiado da educação pelo “futuro
da nação” (Ribeiro, 2006). Conceber a criança como sendo de responsabilidade
apenas da família gerou a divisão entre os filhos de família e os órfãos,
enjeitados e delinqüentes, categorias opostas de crianças que estavam presentes
como alegorias das crianças nos Códigos de Menores de 1924 e 1929, como
comenta Londoño (1999). As crianças que o tinham família eram
consideradas apenas dever do Estado que dirigia a elas uma disciplina
opressiva. Essa tipificação das crianças foi ultrapassada, pelo menos em termos
jurídicos pela ocasião da promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente.
Contudo, considerar a criança como sendo de responsabilidade apenas da
família ainda pode ser vista nos dias atuais, como explicitam as respostas dos
participantes. Esse tipo de atitude frente às crianças pode implicar na pouca
consideração e até em violência contra crianças que não seriam de
responsabilidade da família nuclear. Assim, cometer abusos contra estas
crianças que não sejam da família pode ser mais permissível que abusar das
crianças do próprio núcleo familiar.
115
Respostas Sobre a Moralidade
Para um dos participantes (Osmar, 73 anos), os adultos teriam que corrigir
as crianças, pois elas possuem discernimento moral, não sabendo distinguir entre
certo e errado:
Criança, para começar, eles às vezes não sabem o que estão fazendo. O adulto sabe o
que está fazendo, então o adulto está consciente do que faz e deve respeitar a criança.
Até a criança, às vezes, tem um comportamento sem pensar, pode ter um
comportamento que ela mesmo não sabe que não é correto. Não, ela não sabe. A
criança não conhece, não sabe o quê... Não tem consciência... De que aquilo ali pode
ser alguma coisa errada. Não tem consciência que pode ser alguma coisa errada.
Agora, a pessoa adulta que pode chegar a ultrapassar, quem sabe, a barreira dos
limites da moral, ele devia de evitar.
Com essa citação pode-se notar que o participante atribui ao adulto a
obrigação de evitar “erros morais”, revelando a idéia da inocência da criança. Tal
concepção tem aparecido nos discursos sociais desde os preceitos moralistas e
religiosos do século XVI, descritos por Ariés (1975/1981), que descreviam as
crianças como seres assexuados ou livres dos pecados do sexo. No estudo de
Almeida e Cunha (2003) este mesmo tipo de concepção apareceu entre professores
de crianças, quando questionados acerca das características que melhor
descreveriam as crianças e a fase infantil. Mais uma vez, demonstram-se as
respostas estereotipadas dos participantes da pesquisa. De maneira geral, os
participantes demonstraram ter clareza sobre como adultos devem se comportar
frente as crianças, e que a relação com o adulto deve ser pautada no respeito e nos
sentimentos e comportamentos positivos, sem que haja coerção ou violência.
Caracterização das Vítimas
A seguir são expostas as respostas dos participantes em relação às
características das vítimas.
Sexo das Vítimas
Perguntou-se as participantes o sexo das crianças envolvidas na denúncia.
As respostas foram agrupadas em uma categoria única denominada vítimas do sexo
feminino.
Vítimas do Sexo Feminino
Todas as vítimas envolvidas nas denúncias contra os participantes eram do
sexo feminino. Apenas um dos participantes havia sido acusado anteriormente de
116
um abuso contra uma criança do sexo masculino. A preferência por vítimas do sexo
feminino é relatada em diversos estudos (De Lorenzi, et al., 2001; Elliot et al.,
1995, Habigzang et al.2005; Safiotti, 1998) A violência sexual contra meninas, é
mais freqüente, pois elas seriam educadas para obediência e para submissão
(Narvaz, 2005; Saffiotti, 1998). Estas teriam que se submeter a todos os pedidos e
ordens advindas de homens mais velhos e com mais autoridade que elas. A
submissão e a obediência não estariam associadas apenas ao início do abuso,
estando intimamente intricada com a manutenção do segredo, pois “faz parte do
jogo” da obediência não apenas aceitar o abuso, mas também não revelá-lo a
ninguém.
Idades das Vítimas
Foram indagadas também as idades das vítimas envolvidas com a denúncia.
Nesse estudo, as idades das vítimas variaram. As respostas foram agrupadas nas
seguintes categorias: Vítimas crianças e vítimas adolescentes.
Vítimas Crianças
Duas das vítimas eram crianças com idades de 6 e 10 anos cada uma.
Vítimas Adolescentes
Três vítimas eram adolescentes, cada um delas com 13 anos de idade.
A faixa etária das vítimas parece estar de acordo com as médias dadas por
Elliot et al (1995), pois segundo este estudo a idade das vítimas varia de 8 aos 13
anos.
Aparência Física das Vítimas
A aparência física da vítima também foi outro aspecto investigado. As
respostas se agruparam na categoria única: Beleza da vítima e recusa em avaliar a
aparência da vítima.
Beleza da Vítima
Os participantes avaliaram como bonitas as crianças e adolescentes que eles
foram acusados de abusar. A resposta de Osmar (70 anos) serve para exemplificar o
tipo de resposta dada pelos participantes de maneira geral: Ela é bem bonitinha, eu
acho”. Essa característica foi discutida por Elliot et al. (1995) como sendo uma
117
importante característica para a escolha da vítima. Segundo esses autores, 42% de
91 abusadores sexuais infantis, responderam que procuram por vítimas de boa
aparência física.
Recusa em Avaliar a Beleza da Vítima
Um dado vale a pena ser comentado: um dos participantes respondeu que
não poderia se pronunciar sobre a beleza da filha, pois isso não seria correto de sua
parte. Insistiu-se pra que ele justificasse o motivo pelo qual ele não podia se
pronunciar, mas ele apenas respondeu o seguinte: “Olha, diz os antigos que pai não
acha filha bonita. Agora, ela não serve pra feia e nem bonita, também. Penso eu na
minha criação que eu tive”. A resposta desse participante parece ter como objetivo
transparecer a idéia de uma posição politicamente correta, pois se o participante
nem pode avaliar a beleza da filha, isso indicaria que ele jamais cometeria abuso
sexual contra ela.
Ausência/Presença de Deficiências
Averiguou-se também se os participantes identificavam algum tipo
deficiência (física e/ou mental) em suas vítimas. As respostas foram organizadas
em uma categoria única: Ausência de deficiências.
Ausência de Deficiências
Todos os participantes afirmaram que a as crianças vítimas do abuso não
possuíam nenhuma deficiência física e/ou mental. As vítimas foram descritas como
muito inteligente” (Francisco, 37 anos) ou como muita esperta”. (Flávio, 37
anos). Koller (1999) comenta que algumas vezes crianças com deficiência física ou
mental podem ser escolhidas como vítimas, pois seriam mais frágeis e vulneráveis,
não tendo como revelar o fato. Essa característica da vítima não esteve ligada, no
entanto, a nenhum dos casos dessa pesquisa.
Atitudes
Foi solicitado também que os participantes relatassem que outras
características eles poderiam identificar nas crianças e adolescentes envolvidas na
denúncia de abuso sexual contra eles. As respostas foram agrupadas em duas
categorias: Características positivas e características negativas.
118
Atitudes Positivas
As atitudes das crianças e adolescentes vítimas do abuso foi descrita de
maneira diversa. A maioria delas foi descrita como obediente(Paulo, 70 anos)
pelos participantes. Um deles enfatizou inclusive que a vítima era a mais obediente
de seus filhos: “Ela inclusive era mais obediente, mas obediente um pouco que os
outros. Num era todas às vezes que eu chegava era que ela tava na rua. Mas, às
vezes tava também” (Marcos, 38 anos). Mais uma vez, essa característica pode ser
vista como associada ao início e a manutenção do abuso sexual dessas meninas.
Outros adjetivos usados para classificar as vítimas foram como bacana(Flávio,
38 anos) e “educadas” (Paulo,70 anos).
Atitudes Negativas
Flávio (37 anos) classificou sua enteada como uma pessoa convincente:
Eu não sei... Talvez a menina tenha sido convincente na primeira declaração dela,
né? Ela tem costume de... Quando ela vai falar alguma coisa... Quando ela vai falar
alguma coisa ela chora, né? Ela é assim. Ela é muito chorona. Então, acho que ela é
muito convincente.
Quando Flávio se referiu a sua vítima como convincente, ele sugeriu que ela
estaria mentindo em suas alegações. Essa convicção teria feito com que as pessoas
acreditassem em sua “mentira” sobre a tentativa de estupro. Aqui o entrevistado
claramente tentou utilizar uma característica da vítima para escapar a acusação,
enfatizando que ela mentiu. Freqüentemente, as vítimas de abuso sexual o
desacreditadas (Morales & Scharamm, 2002). Nesse caso, o participante tenta
depreciar a vítima, fazendo com que ela seja vista como mentirosa. Aqui cabe um
comentário, apenas a título de sugestão. A autoridade do adulto nesse ponto pode
valer mais que a fala da criança e do adolescente, pois o adulto saberia mais sobre o
certo e o errado. Muitos abusadores se valem desse tipo de autoridade para
desacreditar as vítimas perante os outros. Lawson (2003) realizou um levantamento
teórico em estudos de 1982 a 2001 sobre as principais razões que os abusadores
alegavam para o cometimento de atos abuso sexual contra crianças. Ela comenta
que uma estratégia freqüente usada por abusadores é alegar que a vítima mentiu
sobre o abuso sexual, assim como fez Flávio.
Neste estudo, foram encontrados apenas alguns dados que estão de acordo
com o perfil de vítima traçado pelos estudos. A maioria feminina, a beleza e a
relação de proximidade com o abusador foram as respostas que se aproximaram
com os dados apresentados respectivamente nos estudos de De Lorenzi et al.
119
(2001), Eliot (1995) e de Habigzang et al. (2005) e outros. Contudo, não foram
encontradas as características relacionadas a deficiência física (Koller, 1999) a
baixa auto-estima, a fragilidade, a inocência, confiabilidade da crianças e das
adolescentes em nenhum dos casos, como comentam Elliot et al. (1995).
Vínculo com o Abusador
Perguntou-se aos participantes qual era a relação com a vítima envolvida na
denúncia de abuso contra eles. As respostas foram classificadas em uma única
categoria chamada relação de proximidade entre a criança e o perpetrador.
Relação de Proximidade Entre a Criança e o Perpetrador
Todas as vítimas eram crianças que possuíam uma relação de proximidade
com os abusadores e no caso desse estudo uma relação de confiança, pois todos
exerciam papéis de cuidadores (pai, padrasto, a e padrinho). Os dados da
literatura se confirmam nesse caso, pois é sabido que a maioria dos agressores
conhece sua vítima (ABRAPIA, 2003; De Lorenzi et al., 2001; Elliot et al 1995;
Habigzang, et al., 2005).
Qualidade das Relações entre os Participantes e as Vítimas
A relação entre a criança vítima e os participantes foi outro quesito
investigado. As respostas foram organizadas duas categorias: relações positivas e
relação de vigilância.
Relações Positivas
A relação com as vítimas foi particular em cada caso, mas quase todas
podem ser classificadas como positivas. Francisco (idade) comenta que sua relação
com sua enteada (e vítima) de 13 anos era de muita proximidade. Ele e a esposa
sempre atuaram como cuidadores secundários da adolescente. Na entrevista, ele
relatou que apesar de fornecer objetos materiais e cuidados, não a considerava
como filha, apenas como afilhada. Sua proximidade com a vítima era vista com
desconfiança pela família, antes mesmo da acusação de abuso sexual. De acordo
com Francisco:
Então eu sempre fui muito agarrado a ela. Ela muito agarrada a mim. E a gente...
combinados entre eu e a minha esposa a gente... sempre que a gente podia a gente
dava tudo pra ela, né? E eu muito agarrado nela. Então... começou, né.... começou
ela a crescer e o pessoal começou a buzinar tanto na minha cabeça que na dela.... e
120
na dela também. Começaram a falar, já. Isso há uns dois anos já começaram a falar,
né. Que ela era muito agarrada em mim, que ela saía do meu colo, que ela.... tava
sempre agarrada em mim, que eu também tava sempre agarrado nela. Mas eu nunca
vi aquilo ali como um problema.
Marcos (38), por sua vez, descreve a sua relação com a filha da qual foi
acusado de abusar como uma relação normal de um pai com uma filha. “Uma
relação normal de pai com filho... boa... Era normal de um pai com filho. Normal...
quando ela pedia alguma coisa se eu achasse que dá, eu dava. Se ela pedisse pra ir
brincar com coleguinha, seu eu achava que dava, eu deixava”.
Flávio (37 anos) apenas relatou que se relacionava bem com a enteada e não
entende o motivo de ele ter o acusado da tentativa de estupro. Osmar expôs que
tratava a filha de sua enteada (a qual ele é acusado de abusar) como sua filha, tendo
um excelente relacionamento com elas. Segundo Osmar (70 anos): “E ela me
conhece como pai. Ela não tem outro pai. Se você ver ela junto comigo ela diz
pai”.
Relação de Vigilância
Paulo (70 anos) relatou que observava com rigidez a rotina de sua filha,
vítima do abuso pelo qual foi denunciado. De acordo com ele:
Vai, mas você tem que mandar a mais velha junto ou o irmão, né?’ Nunca deixei ir
sozinha. E sempre em cima. No colégio, no colégio, eu levava numa hora, chegava lá
deixava bater a entrada do colégio... aí, avisava a diretora a Priscila (filha) já ta lá,
na sala dela. Quinze pras cinco, eu ia buscar ela, sempre, sempre. Sete horas eu
largava a Marina (outra filha do participante), essa que é casada que tá em casa e a
Karina, aí dava sete horas. Quinze pras onze, eu tava lá podia ter frio, podia ter
vento. Tava lá esperando pra trazer pra casa. Já foi tirado que eu trazia aqui ó.
Nunca dei corda, sempre cumprindo as minhas obrigações que eu tinha que ter de
cuidar o filho.
De maneira geral, nota-se que as relações dos participantes com as crianças
envolvidas na denúncia se configuraram de maneira positiva, com exceção do caso
de Paulo (70 anos). Esse tipo de resposta pode indicar que os participantes usam
esta relação positiva para se aproximar das vítimas para cometer os atos de abuso.
A proximidade e o vínculo que perpetrador e vítima possuem, muitas vezes, faz
com que o ele se valha da relação de afeto e confiança com a criança para cometer
o abuso mantê-lo em segredo. (Furniss, 1993; Habigzang & Caminha, 2004;
Habigzang et al., 2005, in press). As respostas relatadas na questão seguinte
explicitam melhor a qualidade de relação que os participantes tinham com suas
121
vítimas. Em nenhum dos casos, os participantes apontaram uma relação de
manipulação com as vítimas, característica essa apontada como importante por
abusadores em outros estudos (Swaffer et al., 2000).
Envolvimento Específico da Vítima na Denúncia
As respostas seguintes referem-se à pergunta “Por que esta criança e não
outra criança está relacionada a esta denúncia?”. As respostas foram organizadas
nas categorias envolvimento da vítima pela ação de terceiros, envolvimento da
vítima pela sua própria ação, e envolvimento pela ação do participante.
Envolvimento da Vítima pela Ação de Terceiros
Dois participantes atribuíram o envolvimento da criança na denúncia, pela
vontade que alguns parentes tinham de prejudicá-los. Assim, as crianças não se
envolveram nessas acusações por vontade própria. No caso de Osmar (73 anos), ele
foi acusado de abusar da filha de sua enteada. Contudo, ele alega que é inocente e
que a denúncia contra ele só foi levada a cabo, pois:
Essa última (denúncia) é para ficar com a casa. Que elas me queriam tirar a casa. A
raiz de tudo é a minha filha que eu não quis que o marido entre na casa. Então ela
disse: ‘Não quer, meu marido não vai sair, tu que vai ter que sair’ E aí a raiz de tudo
é isso. O homem, o segundo homem que ela teve que eu não quis que entre na casa, e
ai veio essa acusação. E ai a minha mulher se aproveito de pegar a metade que ela
queria. Deu metade para tua filha a outra metade é minha, é da minha filha. Esse é
o... Não tem nenhum outro motivo. (Osmar, 73 anos)
Marcos (38 anos), por sua vez, relatou que sua esposa quis vingar-se dele e
haveria encorajado sua filha a acusá-lo falsamente de abuso sexual. Segundo o
entrevistado, o motivo da vingança seria um relacionamento extra-conjugal que ele
vinha mantendo:
Eu conheci uma outra mulher e comecei a ter um caso com a outra mulher. Daí ela
pegou e disse que pra mim que se eu num ficasse com ela, eu num ia ficar com mulher
nenhuma. Eu fui acusado por essa minha esposa de ter abusado da minha filha. Só
que não é verdade. Eu não fiz isso aí. Jamais teria coragem de fazer isso aí. Ela me
acusou na época (Marcos, 38 anos).
Envolvimento da Vítima por sua Própria Ação
Nesta subcategoria foram organizadas as respostas que expressavam o
envolvimento da vítima a partir de sua própria ação. Os participantes usaram como
justificativa características adolescentes das vítimas para esse envolvimento nas
122
denúncias. Flávio (37 anos), por exemplo, afirmou que sua enteada o acusou
injustamente, pois esta estava entrando para a adolescência e queria mais liberdade:
(A vítima) Começou a mentir e andava com um pessoal na esquina que tudo se
juntam numa esquina pra fazer uso de maconha... Ai andava junto com os caras e tal.
Foi isso. Eu não sei... Talvez eu estivesse, assim... É como se diz... a gente... o que...
Como tu sabe se uma criança deixa de ser criança... Eu acho que, talvez, eu me meti
no espaço dela, né? Eu acho que eu devia ter dado mais liberdade pra ela, né? No
caso ela queria sair, queria ter os namorados dela... Acho que nesse ponto eu agi
errado... acho que ela devia de ter saído, eu não devia ter trancado ela, no caso.
Nessa parte ai, eu acho que eu agi errado. Por que eu tentei controlar de mais a vida
dela. Que é uma coisa que como ela mesmo diz, eu não tinha direito. E eu acho que
não tinha mesmo. (Flávio, 37 anos).
A entrada na adolescência e a busca pela liberdade seriam os motivos pela
denúncia. O entrevistado se vale das características da fase adolescente para se
escusar da denúncia de abuso. Conceber a adolescência como uma fase de conflitos
(Hall, in Newcomb, 1999) pode servir como uma forma de desacreditar
adolescentes que denunciam seus abusadores.
O caso de Francisco de 37 anos vale ser discutido separadamente. O
participante admitiu que tinha abusado de sua afilhada de 13 anos. Durante toda a
entrevista, Francisco não usou o termo “abuso sexual”. Em suas palavras, ele
manteve um relacionamento afetivo-amoroso com sua a vítima. Ele justifica que
não houve abuso, pois a adolescente não foi forçado, entendeu?”. Segundo o
abusador, a responsabilidade pelo abuso seria dos dois, pois Porque ela quis e eu
quis”. Quando inquirido sobre a responsabilidade em relação com sua afilhada,
afirmou:
Ah, com certeza, né (ela também é responsável). E... e... também, não, a partir do
momento que... que ela é uma criança como tão dizendo que ela é. Eu não vejo ela,
assim, sabe, com essa inocência toda. Então ela sabia o que ela fazendo também, né.
Eu acho, né. Eu acho que ela sabia o que tava fazendo.
Quando afirma que a adolescente não tem essa inocência toda isso
significa que ele a concebe como uma pessoa que possui responsabilidades sobre
seus atos, pois é ciente do que é ou não uma conduta adequada. Entretanto,
Francisco admite que perante a lei, ele era pessoa que tinha a responsabilidade pela
situação, pois ele era o adulto. Segundo ele: “Porque ela quis e eu quis. Então... eu
errei porque eu sou o maior. Ela é criança. Mas ahn... não foi forçado, entendeu?
Mas eu tenho consciência, hoje, que perante a lei é como se fosse” (Francisco, 37
anos). Das falas de Francisco percebe-se que, perante a lei, ele sabe que teve uma
123
conduta inadequada. Todavia, sem os parâmetros da lei, sua conduta de ter abusado
da afilhada parece o ser tão grave, pois a vítima era adolescente e não mais
criança.
Além disso, Francisco fez referência a outros relacionamentos sexuais que
sua afilhada haveria mantido com outros homens Ah, e ela teve outros homens,
também, ?(Francisco, 37 anos). Ele fez esse comentário também para justificar
que ela já não “era tão inocente” (Francisco, 37 anos) (e, portanto, nem tão criança)
quanto outras pessoas alegavam. A questão de não ser mais virgem precisa ser mais
aprofundada. Koller et al. (2005) discutem que em uma pesquisa com
caminhoneiros sobre a exploração sexual comercial infanto-juvenil, esses
indivíduos enfatizaram que se uma menina não fosse mais virgem, a
responsabilidade deles em manter relação sexual com elas, era diminuída. A
concepção de Francisco é análoga a dos caminhoneiros, pois ele enfatizou que ela
não era mais virgem e que por isso ela seria permitido se relacionar
sexualmente com ela. Foi questionado se a adolescente havia agido como uma
criança ou como uma adulta. O entrevistado respondeu que agiu como uma
adolescente capaz de provocá-lo:
E ela foi pro banheiro e eu fique na cozinha tomando banho. Ela entrou no banheiro e
tomou o banho dela. Mas podia ter se vestido no banheiro, só que ela não se vestiu.
Ela veio até a cozinha enrolada na toalha. E parou na frente e soltou a toalha no
chão. E começou a me abraçar e aí... foi que aconteceu, entendeu? Ah, eu acho que
ela agiu como uma adolescente, né. Ela agiu como uma adolescente agiria
(Francisco, 37 anos).
A fala de Francisco esclarece que esse tipo de conduta pode ser típico de
uma adolescente, mas não de uma criança. Assim, na resposta desse entrevistado, as
condutas sexuais podem ser vistas como mais aceitáveis para as adolescentes,
inclusive quando o relacionamento sexual ocorre entre ela e uma pessoa de nível
psicossexual mais adiantado.
Sobre a denúncia de Paulo (70 anos), ele relatou que sua filha o acusou, pois
na idade em que está, ela o tem consciência do que faz. Segundo Paulo: “A
Priscila na idade que tá, a cabeça dela é uma abóbora verde. Uma abóbora verde.
Não tem miolo. E fazer como o outro... Ele conversou muito. Foi de adolescente
dela, que ela começou com essa cabeça” (Francisco, 70 anos). Atrelado a pouca
consciência de sua filha, sua filha estaria se relacionando com um homem com o
dobro da idade dela. Essa pessoa, segundo, teria convencido sua filha a mentir, pois
queria que ele fosse preso para poder se relacionar com ela sem a vigilância do pai.
124
Assim, a ausência de senso de sua filha facilitaria a persuasão. Ele associou esse
tipo de conduta por parte de sua filha a entrada na adolescência. Mais uma vez, as
características da fase adolescente funcionaram como um caminho para
desqualificar a denúncia feita pela vítima. Paulo alegou ainda que a sua filha estava
mentindo quando a acusação que fez contra ele. Lawson (2003) comenta que
afirmar que a vítima está mentindo é uma das principais estratégias usadas por
abusadores sexuais infantis.
Envolvimento pela Ação do Participante
Francisco destacou também que nutria um afeto de natureza diferente pela
sua afilhada, da qual abusou. Segundo ele, não foi apenas beleza, pois:
Eu tenho várias sobrinhas, tenho a outra que tem 14 anos e tem a mesma idade da
minha filha, que é tão bonita quanto ela, tão bonita quanto a minha filha e tão bonita
quanto a Ana. Todas elas são bonitas.
Ele citou que sentiu atração sexual, mas que também nutria um sentimento
mais profundo por ela, mas que não também não podia ser classificado como
amor(Francisco, 37 anos). Afirmar que a relação entre abusador e vítima não se
configurou como abuso, mas sim como uma relação afetiva, é descrita por Lawson
(2003) como uma estratégia comumente usada por abusadores sexuais. Neste ponto,
foi questionado se ele já havia pensado em suas filhas de maneira sexualizada. O
entrevistado respondeu negativamente e enfatizou que sua afilhada não era sua
filha, como uma forma de esclarecer que com suas filhas jamais agiria dessa
maneira. Exemplificando a fala de Francisco:
Me atendeu uma senhora lá, ela perguntou se eu já tinha... a mesma vontade que eu
tinha tido com ela, se eu já tinha tido com a minha filha, né. Aí eu achei uma coisa
absurda, sabe, mas depois eu parei pra pensar: ‘Bom, ela deve tá pensando que, sei
lá, que eu sou um tarado, que eu sou um louco, sei lá o que ela ta pensando de mim.
Então vou responder só o que eu acho que é certo. (Francisco, 37 anos).
A fala de Francisco mais uma vez este em concordância com os discursos
dos caminhoneiros pesquisados por Koller et al. (2005) sobre a exploração sexual
infantil. Os sujeitos da pesquisa realizada por estes últimos autores, revelaram que
uma das justificativas que os impediam de abusar de crianças nas estradas, era
pensar em suas filhas, pois jamais teriam coragem de manter relacionamento com
elas. Além disso, eles afirmaram que as meninas que se “prostituem” nas estradas
não seriam como suas filhas. Koller et al. comentam que essa diferença de status
(entre as meninas de suas próprias famílias e as outras) facilita o cometimento de
125
atos de abuso sexual, pois esse tipo de conduta é tido como mais permitida com
aquelas crianças não fariam parte das famílias dos caminhoneiros.
Os motivos pelos quais as vítimas estariam envolvidas nas denúncias foram
variados. Algumas estratégias usadas pelos entrevistados, tais como alegar que a
que o ocorreu não foi um abuso sexual, mas sim uma relação afetivo-sexual
consentida é comum entre os abusadores (Lawson, 2003). Constata-se que a idade
da vítima pode ser um importante fator que interfere nos modos como os
abusadores justificarão os motivos pelos quais as vítimas se envolveram na
denúncia, pois notou-se que quando as vítimas eram crianças, o seu envolvimento
na denúncia se deu pela ação de terceiros (caso Marcos e caso Osmar). Contudo,
quando a vítima era adolescente (caso Paulo, caso Flávio e caso Francisco) os
motivos que levaram a se envolver na denúncia foram provocados basicamente pela
ação delas. As meninas mais jovens vítimas dos homens entrevistados nesse estudo,
não foram acusadas de mentir ou de provocar seus abusadores, mas sim de estarem
envolvidas na denúncia, pois pessoas mais velhas as teriam persuadido a mentir.
no caso das meninas mais velhas, as vítimas foram acusadas pelos abusadores de
mentir ou de consentirem o abuso. Waterman e Foss-Goodman (in Almeida, 2004),
afirmam que as atribuições de culpa, em situações hipotéticas de abuso, são
influenciados diretamente pela idade da vítima, de modo que se for uma
adolescente envolvida na acusação, a relação é tida como menos abusiva, as
adolescentes são mais culpabilizadas e aos abusadores é atribuída menos
responsabilidades. Pode-se concluir que os abusadores se valem desse tipo de
percepção social que se tem acerca do abuso sexual de crianças como um modo de
se escusar das acusações.
126
CAPÍTULO IV
CONCLUSÕES
O presente estudo alcançou seus objetivos, uma vez que, obtiveram-se
dados sobre as relações dos participantes com criança ao longo do ciclo vital bem
como sua visão sobre as crianças. Ao analisar, inicialmente, as características sócio-
demográficas dos participantes deste estudo observa-se que quase todos eles
apresentaram uma história escolar de pouco sucesso, sendo provenientes de classes
sociais menos favorecidas. Obviamente, essas características não devem ser
tomadas como típicas do perfil de homens acusados de delitos sexuais contra
crianças, mesmo porque o número de participantes deste estudo não permite
generalizações. Ocorreu, no entanto, nos casos deste estudo, como em muitos
outros, de as denúncias sobre abuso sexual infantil terem provenientes de classes
sociais menos favorecidas. Este fato é comum em classes pobres, pois nas demais
classes socioeconômicas as pessoas estão mais preocupadas em manter sua
privacidade, mesmo quando são cometidas violações contra os direitos das crianças.
Isto significa que pessoas com alta escolaridade e poder aquisitivo mais alto,
advindas de classes sociais mais favorecidas também podem praticar abuso sexual
infantil. Além disso, que se considerar que esta pesquisa foi realizada em um
serviço gratuito e para o qual o encaminhamento era compulsório. Como afirmam
Cohen e Gobetti (2002), classificar abusadores sexuais a partir de algumas
características específicas envolve uma questão ética. Desta forma, neste estudo
optou-se por não rotular esses indivíduos, tomando-se o cuidado em discutir,
mesmo que superficialmente, as características sócio-demográficas dos
participantes.
Um segundo ponto a ser considerado se refere às histórias de vida dos
participantes, que em geral, se caracterizaram por informações sobre uma vida
tranqüila, sem episódios de abuso, apresentando relações saudáveis com as pessoas
(inclusive com crianças) de todos os microssistemas (família, escola, bairro) ao
longo do ciclo vital (infância, adolescência, adultez e até velhice para alguns). De
maneira coerente, eles enfatizaram que suas histórias de vida (devido a esta suposta
tranqüilidade) em nada se relacionavam com as denúncias de abuso sexual contra
eles. Assim, suas histórias de vida também não pareciam ter contribuído para uma
distorção da visão sobre as crianças levando-os a cometer abuso sexual, o que foi
127
demonstrado nas respostas dos participantes. Eles viam as crianças, aparentemente,
de maneira positiva, como seres felizes que se ocupam apenas das brincadeiras e
não possuem muitas preocupações, responsabilidades ou deveres. Além disso, as
crianças foram vistas como tendo prioridades de direitos e necessidades, como seres
inocentes sobre os diversos aspectos da vida, principalmente com relação ao sexo.
Assim,não foi notado nenhum “erro” cognitivo que se associasse a uma visão
distorcida, na qual as crianças seriam descritas como seres sexuais, que
espontaneamente desejariam relacionar-se sexualmente com adultos (Gannon et al.,
2005; Ward & Keenan, 1999).
A visão que o abusador tem sobre si mesmo e a aceitação das regras sociais
influenciariam diretamente na visão que eles possuem sobre o mundo e sobre as
crianças (Gannon et al., 2005; Horley, 2000). Portanto, para chegar à condição de
abusadores, as pessoas em geral poderiam ser descritas como aquelas que teriam
comportamentos auto-centrados e não aceitariam normas sociais. Os participantes
deste estudo, no entanto, não manifestaram comportamentos auto centrados, que
ditariam que suas vontades são mais importantes que as de outrem. Chegam a
apresentam bom auto-conceito e auto-estima elevada. Expressam ainda
reconhecimento e aceitação das normas sociais, como estando de acordo com elas,
especialmente quando afirmam que têm respeito pelos outros. Todos esses fatores
contribuiriam assim para uma visão romanceada e positiva destes participantes
sobre os aspectos gerais de suas vidas e também com relação à criança e à infância.
Contudo, a denúncia de abuso sexual contra uma criança menor de 13 anos
associada a outros dados de suas histórias mostram que suas visões sobre e as
crianças não são o positivas quanto eles gostariam de transparecer. Este dado fica
ainda mais claro quando são inquiridos sobre situações mais práticas às quais
tendem a ser mais pragmáticos e a emitirem respostas com definições utilitárias,
superficiais e objetivas da situação, sem expressão de sentimentos. Não furtaram-se
ainda a emitir respostas inadequadas ou confusas, como uma alternativa à falta de
resposta que também foi freqüente, soando como um aspecto manipulador de suas
personalidades pouco vinculáveis. Nas questões sobre empatia, algumas respostas
sugeriram que tais processos não se apresentavam de forma consistentes, ora com
respostas pragmáticas, ora transparecendo angústia pessoal (Eisenberg & Strayer,
1990). A falta de empatia denunciou que as necessidades das crianças não possuem
afinal tanta visibilidade para eles, embora aparecem em seus discursos. Além disso,
alguns deles demonstraram crenças estereotipadas sobre os gêneros, como conceber
128
a expressão da sexualidade como mais permitida para meninos que para meninas.
Esse tipo de crença pode contribuir para a justificativa de abuso sexual praticado
por homens, na medida em que essa permissividade para os comportamentos
masculinos se baseia na premissa de que a natureza sexual masculina é
incontrolável. As crenças sobre a obediência das meninas verificada neste estudo
também é outro ponto que pode sublinhar o abuso sexual de crianças do sexo
feminino (Narvaz, 2005; Safiotti, 1997). Além disso, quando questionados sobre as
acusações que pesam sobre eles, os participantes desqualificaram os
comportamentos de suas vítimas, ao afirmarem que elas mentiam ou teriam a
mesma responsabilidade que eles, menos sendo crianças ou adolescentes, estando,
portanto, em um estado psicossexual mais precoce que eles. Evidentemente que
embora pragmáticos quanto à visão de quem é uma criança, eles não definiam
apropriadamente a resposta a esta questão. Nota-se, de qualquer forma, uma
tentativa persistente de emitir respostas politicamente corretas e estereotipadas,
buscando sobrepujar a denúncia e o fato em si e passar a impressão geral de que
foram inadequadamente culpabilizados.
Neste ponto, pode-se questionar os motivos de algumas respostas serem tão
“corretas” e outras apresentarem um pouco menos dessa retidão. As respostas
politicamente corretas e estereotipadas podem ter sido dadas por duas razões
principais. A primeira delas é quase todos participantes foram recrutados quando
estavam envolvidos em avaliação psicológica compulsória determinada pela justiça.
Portanto, não poderiam fornecer respostas que os comprometessem. Este dado é
confirmado, principalmente, quando se comparam as respostas dadas pelos
participantes que estavam no serviço compulsoriamente e do participante que
estava neste mesmo local em busca de ajuda psicológica pelos sintomas
relacionados à culpa sentida pelo abuso reveladamente cometido. As respostas
daquele que afirma ter cometido a violação parecem mais verazes do que as dos
demais participantes. Contudo, a fala desse mesmo participante, (Francisco, 37
anos) sobre a resposta dele para uma profissional de saúde que questionou se ele
possuía desejos sexuais por suas filhas, revela a tentativa de transparecer apenas o
que é socialmente aceitável: Eu vou falar o que é certo(Francisco, 37 anos).
Mesmo parecendo mais “verdadeiro”, pode-se pensar que se o único que admitiu se
coloca dessa maneira diante das perguntas sobre seus desejos sexuais, pode-se
também pensar que aqueles que não admitiram ter praticado o abuso estejam
fornecendo respostas ainda menos fidedignas.
129
que se comentar que as medidas de auto-relato, como as usados neste
estudo, têm sido criticadas, pois elas estão sujeitas a influência da do que é
desejável socialmente (Tierney & MacCabe, 2001). Assim, o uso de instrumentos
Assim, estudos que busquem outras fontes de dados, como relatos de familiares, ou
testes falométricos (Marshal and Laws, 2003) podem ser mais úteis, quando se
pretende ter dados de melhor qualidade sobre as vidas e os interesses sexuais de
abusadores sexuais infantis. O estudo aqui descrito usou apenas os relatos dos
próprios participantes para obter dados.
Outro aspecto que deve ser considerado é a brevidade do contato com os
participantes em um contexto de pesquisa e a possibilidade escassa de vinculação
com a equipe de pesquisa. Itenbi (1998) comenta que a acessibilidade a certos
dados (como os de vitimização dos próprios abusadores) aconteceu apenas depois
de várias sessões com estes indivíduos. O tempo reduzido da coleta neste estudo
(apenas um encontro com quatro participantes e dois com um outro) pode ter
diminuído a chance de vinculação com os participantes, impedindo também o
acesso a dados mais fidedignos. Esta coleta não deixa de ter validade ecológica,
uma vez que traz dados da expressão dos participantes nas condições expostas.
Certamente, mais encontros poderiam propiciar maior vinculação, o que, no
entanto, não pode ser garantido, uma vez que os índices de transtornos anti-sociais
são indicados como elevados entre pessoas envolvidas com abuso sexual contra
crianças (Trepper et al., 1996). Os sintomas deste transtorno associam-se à
manipulação, à mentira patológica entre outros comportamentos, que podem
facilitar a expressão de respostas assertivas por parte destes indivíduos. Além disso,
investigações científicas em períodos nos quais os participantes estão envolvidos
em processos judiciais pode ser considerada como uma limitação. Entretanto,
avaliações psicológicas de pessoas que cometem abuso sexual contra criança feitas
em período limitado não podem ser descartadas, pois muitas vezes os profissionais
envolvidos neste tipo de atividade dispõem de pouco tempo para a realização de tal
tarefa. O uso de instrumentos que não forneçam apenas auto-relatos (como os
comentados anteriormente) são especialmente importantes quando se dispõe de
pouco tempo para fazer avaliações. Instrumentos que usam dados de outras fontes
(como registros escolares e médicos, etc.) tais como a Psychopathy CheckList
Revised (Hare, 1991) pode ser uma sugestão para uma avaliação mais veraz da
situação de um abusador sexual. Além disso, sugere-se que haja uma maior
preocupação com o tratamento das pessoas que cometeram o abuso sexual para que
130
elas se responsabilizem pelo ato de violência que praticaram contra criança.
Acredita-se que apenas com uma intervenção mais focalizada nestes indivíduos
pode-se alcançar este objetivo. A responsabilização é particularmente importante,
pois com os resultados obtidos neste estudo demonstrou-se que os abusadores
negam veementemente as acusações contra eles, e que no curto período de tempo
no qual se realiza a avaliação é quase impossível realizar alguma intervenção que se
reflita na conscientização da gravidade do ato de violência por eles praticado.
Enfatiza-se ainda que outras fontes de dados, tais como uma melhor investigação
do relato da criança e de seus familiares devem ser obtidas como provas em casos
de abuso sexual, que a auto-culpabilização dos autores dos atos é um processo
difícil.
Finalmente, a visão de criança que os participantes desta pesquisa têm
revela o pragmatismo com que tratam a criança e como transferem para a sessão de
pesquisa a atitude de responder às demandas socialmente aceitas, embora tenham
por detrás uma denúncia de tamanho peso. Ser criança para um abusador sexual
pode ser carregado de uma definição funcional para alguns, ou quase ausente para
outros. Contudo, como foi reiterado diversas vezes, o contexto no qual as
respostas foram dadas
131
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139
ANEXOS
ANEXO A
Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de
Rua
Instituto de Psicologia, UFRGS
Rua Ramiro Barcelos, 2600, Sala 104 - 90035-003 Porto Alegre
RS Brasil
Tel. 55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51)
81197091
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Pesquisa: A Criança na Perspectiva do Abusador Sexual.
Coordenadora: Psicólogas Andreína Moura e Sílvia Koller, do Instituto de
Psicologia da UFRGS
1. O que é esta pesquisa: Nós, Andreína Moura e Sílvia Koller da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, convidamos você a participar
desta pesquisa, que tem como finalidade saber sobre rios pontos da vida
(vida escolar, vida familiar, sua visão sobre as crianças) de pessoas que
cometeram ou estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra
crianças e adolescentes.
2. Quem são as pessoas que participam desta pesquisa: Pessoas que
cometeram ou que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual contra
crianças e adolescentes.
3. Como será a sua participação na pesquisa: Ao participar deste projeto, você
deve deixar que um membro do grupo de pesquisa faça algumas perguntas a
você. As entrevistas serão feitas no Departamento de Genética em uma sala
que estará reservada. Serão feitos mais ou menos três encontros com cada
participante. O tempo de cada um destes encontros sede mais ou menos
uma hora e trinta minutos. Algumas perguntas podem trazer algumas
lembranças e sentimentos que podem incomodar. Por isso, será oferecido ao
fim de cada um dos encontros, um momento para que você fale o que você
quiser. Você tem liberdade de não querer participar e pode, ainda, se recusar
a continuar participando em qualquer momento sem qualquer prejuízo para
Fundado em
1994
140
você. Mas, solicitamos sua ajuda para completar o roteiro de perguntas que
lhe será solicitado, garantindo assim um melhor resultado para pesquisa.
Sempre que quiser, você poderá pedir mais informações sobre a pesquisa e
você poderá falar com as coordenadoras da pesquisa Andreína Moura
ligando para o telefone (51) 8442-4059 ou no telefone (51) 3316-5150 com
a Profa. Dra. Sílvia Koller.
4. Como e onde serão as entrevistas: As entrevistas serão marcadas com
antecedência. Será pedido que você algumas informações sicas e que
responda a uma entrevista sobre vários pontos de sua vida. As entrevistas
serão realizadas nas dependências do Departamento de Genética.
5. Riscos e desconfortos: A participação nesta pesquisa o tem relação com
qualquer caso seu com a justiça. Talvez, traga lembranças de alguns eventos
que podem causar incômodo. O que será feito durante esta pesquisa estão de
acordo com os Critérios da Ética na Pesquisa com Seres Humanos conforme
a Resolução n. 196/96 do Conselho Nacional de Saúde.
6. Confidencialidade: Todas as informações obtidas neste estudo não serão
reveladas a ninguém. As gravações e aquilo que você falar nesta pesquisa
serão identificados com um código e não com seu nome. Apenas os
membros do grupo de pesquisa saberão sobre os dados.
7. Ao participar desta pesquisa, você não deverá ter nenhum ganho direto.
Entretanto, esperamos que este estudo traga informações importantes sobre
as questões relativas a pessoas que estão sob suspeita de terem cometido ou
cometeram abuso sexual contra crianças e adolescentes. Além disso, se você
necessitar de atendimento psicológico durante ou imediatamente após a
pesquisa, você será atendido no serviço no qual serão realizadas as
entrevistas. Os profissionais do próprio serviço, no Departamento de
Genética serão os responsáveis por estes atendimentos.
8. Você não terá nenhum tipo de despesa ao participar desta pesquisa, e
também nada será pago a você pela sua participação.
Após estes esclarecimentos, pedimos seu consentimento de forma livre para
participar desta pesquisa. Portanto, preencha os dados que se seguem:
141
CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Tendo em vista os itens acima apresentados, eu de forma livre e esclarecida.
Manifesto meu interesse em participar da pesquisa.
Identificação
Local e Data
Assinatura do participante da pesquisa
Andreína Moura e Silvia Koller - Coordenadoras do projeto
142
ANEXO B
Centro de Estudos Psicológicos sobre Meninos e Meninas de
Rua
Instituto de Psicologia, UFRGS
Rua Ramiro Barcelos, 2600, Sala 104 - 90035-003 Porto Alegre
RS Brasil
Tel. 55(51) 33165150 Fax: 55(51) 33165473 Celular: 55(51)
81197091
TERMO DE CONCORDÂNCIA PARA O DEPARTAMENTO DE
GENÉTICA
Estamos realizando uma pesquisa que tem como objetivo investigar a visão
que pessoas que estão sob suspeita de terem cometido abuso sexual possuem sobre
crianças. A pesquisadora responsável por esta pesquisa é a psicóloga Andreína
Moura sob supervisão da Profª Dra. Sílvia Koller do Curso de Pós-graduação em
Psicologia do Desenvolvimento do Instituto de Psicologia, UFRGS. Caso queiram
contatar com a equipe, isto poderá ser feito pelo telefone 8442-4059 ou 3316-5150.
Tal estudo prevê a participação pessoas adultas do sexo masculino de 18 a
59 anos. Para tanto solicitamos autorização para realizar este estudo, nessa
instituição. Também será encaminhado um Termo de Consentimento aos próprios
participantes, para que os mesmos apresentem sua concordância em relação a sua
participação. A coleta de dados deve envolver a realização de entrevistas
individuais. Os instrumentos serão aplicados individualmente para aqueles que
apresentarem sua concordância em horários previamente marcados. Optar-se-á por
gravar as entrevistas, informando este procedimento aos participantes da mesma.
Os participantes deste estudo serão claramente informados de que sua
contribuição é voluntária e pode ser interrompida em qualquer etapa, sem nenhum
prejuízo. A qualquer momento, tanto os participantes quanto os responsáveis pela
instituição poderão solicitar informações sobre os procedimentos ou outros assuntos
relacionados a este estudo. Todos os cuidados serão tomados para garantir o sigilo e
a confidencialidade das informações, preservando a identidade dos participantes
bem como das instituições envolvidas. Todo o material desta pesquisa ficará sob
responsabilidade dos pesquisadores no Instituto de Psicologia e será posteriormente
destruído.
Através deste trabalho, esperamos contribuir para o esclarecimento de algumas
questões sobre o modo como abusadores sexuais vêem as crianças. Agradecemos a
colaboração do Departamento de Genética para a realização desta atividade de
pesquisa e colocamo-nos à disposição para esclarecimentos adicionais.
_____/___/______
Data
__________________________________
Psicóloga responsável Sílvia Koller CRP 07/2037
Concordamos que as pessoas que participam desta instituição, participem do presente
estudo.
Data ____/____/___
________________________________________________________________
Responsável pelo Departamento de Genética
Fundado em
1994
143
ANEXO C
FICHA BIO-SÓCIO-DEMOGRÁFICA
1.Identificação
Nome (apenas as iniciais):
Ficha:
Data: ___/___/___ Entrevistador:
Grupo étnico: a. branco ( ) b. negro ( ) c. índio ( ) d. mestiço ( ) e. amarelo ( ) f.
outro
Escolaridade:
Estado civil:
a. solteiro ( ) b. casado ( ) c. divorciado ( ) d. separado e. viúvo ( )
f. outro
Cidade de origem:
Endereço atual:
Renda:
Com quem você mora?
Há quanto tempo mora com estas pessoas?
144
ANEXO D
ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA
1. Visão sobre a infância
Explique para mim o que é ser criança.
Explique, agora, para mim quem é criança.
Crianças, adolescentes e adultos: no que são iguais? No que são diferentes?
(explorar duas categorias de cada vez: criança-adolescente; criança-adulto ver
necessidades, preferências, interesses, direitos, deveres, etc.).
Até qual idade você acha que uma pessoa pode ser considerada criança?
O que faz com que uma criança passe a ser adolescente ou adulta?
O que faz com que um menino passe a ser adolescente ou adulta?
O que faz com que uma menina passe a ser adolescente ou adulta?
Meninas e meninos: no que são iguais? No que são diferentes?
O que você sente quando vê uma criança dormindo?
O que você sente quando vê uma criança brincando?
O que você sente quando vê uma criança chorando?
O que você sente quando vê uma criança gritando?
Descreva para mim como deve ser a relação entre um adulto e uma criança.
Fazendo de conta que voltássemos agora no tempo: olhe para a criança que você era
e me descreva esta criança.
2. Infância: Relações (explorar esta fase do ciclo vital)
Fale-me sobre sua infância... Que lembranças você tem de sua infância? (Explorar
lembranças boas/ruins).
Fale-me de sua família.
Como era ser uma criança nesta família?
Como você acha que sua mãe/pai o descreveriam?
Que lembranças você tem de sua infância na sua família? Conte-me sobre um
episódio bom. Conte-me sobre um episódio ruim (se não mencionar vitimização na
infância por abuso sexual perguntar se passou por alguma experiência relacionada
ao fato)
(Explorar relações com irmãos, primos, outras crianças que viviam na mesma casa)
Fale-me de sua escola...
145
Você tinha amigos(as) na escola? Fale-me sobre eles...
Como você acha que sua professora o descreveria?
Que lembranças você tem de sua infância na sua escola? Conte-me sobre um
episódio bom. Conte-me sobre um episódio ruim.
(Explorar relações com colegas, professores, atividades no recreio, desempenho
escolar)
Fale-me de seus amigos fora da escola...
Quem eram estes amigos(as)? Fale-me sobre eles...
Que lembranças você tem de sua infância no seu bairro? Conte-me sobre um
episódio bom. Conte-me sobre um episódio ruim.
Do que você mais gostava de brincar? Por quê? Como ocupava seu tempo?
3. Adolescência: Relações (explorar esta fase do ciclo vital)
Fale-me de você, como um adolescente...
Como era sua família quando você era adolescnete?
Quem eram as pessoas com as quais convivia?
Como era sua relação com elas?
(Explorar relações com irmãos, primos, outras crianças que viviam na mesma casa,
durante a adolescência)
Como ocupava seu tempo?
Conte-me sobre um acontecimento bom e um ruim em sua adolescência.
4.Vida adulta: Relações (explorar esta fase do ciclo vital)
Fale-me de você hoje, como um adulto.
Quem é sua família?
Quem são as pessoas com as quais convive?
Como é sua relação com elas?
(Explorar relações com irmãos, primos, outras crianças que vivem na mesma casa)
5. Situação atual: Relações
Você foi encaminhado até aqui por um juiz. Conte-me um pouco sobre isto.
(Focalizar na criança a qual esrelacionada a suspeita de vitimização por ele, com
as perguntas abaixo).
Quem é a criança?
146
Quantos anos ela tem?
Qual o seu relacionamento com ela?
Como é esta criança era? Descreva-a (explorar aspectos como aparência, atitudes,
percepção de inteligência e maturidade, deficiência, etc.)
Por que você acha que esta criança e não outra está relacionada a esta denúncia?
6. Expectativas
Pensando em sua vida hoje, você acha que sua história influenciou em algo que
acontece no momento atual?
Como você quer que seja sua vida no futuro?
Fale-me sobre coisas boas que você quer que aconteçam.
O que você achou desta entrevista? Quer acrescentar alguma informação?
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