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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM AGROECOSSISTEMAS
A CONSTRUÇÃO PARTICIPATIVA DE ARRANJOS SILVIPASTORIS
EM SÃO BONIFÁCIO – SC
LUIS ANTONIO DOS SANTOS DE FREITAS
Florianópolis – SC
Maio, 2008
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LUIS ANTONIO DOS SANTOS DE FREITAS
A CONSTRUÇÃO PARTICIPATIVA DE ARRANJOS SILVIPASTORIS
EM SÃO BONIFÁCIO – SC
Dissertação apresentada como requisito parcial
à obtenção do título de Mestre em
Agroecossistemas, Programa de Pós-
Graduação em Agroecossistemas, Centro de
Ciências Agrárias, Universidade Federal de
Santa Catarina.
Orientador: Dr. Sergio L. G. Pinheiro
Co-orientadora: Dr.ª Karen Follador Karam
FLORIANÓPOLIS – SC
2008
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Freitas, Luis Antonio dos Santos de
A construção participativa de arranjos silvipastoris em São Bonifácio SC / Luis Antonio
dos Santos de Freitas. – Florianópolis, 2008.
123 f.: il., graf., tabs.
Orientador: Sergio Leite Guimarães Pinheiro
Dissertação (Mestrado em Agroecossistemas) Universidade Federal de Santa Catarina,
Centro de Ciências Agrárias.
Bibliografia: f. 102-107
1. Pesquisa Participativa 2. Sistemas Agroflorestais 3. Agricultura Familiar 4. Extensão
Rural.
iii
TERMO DE APROVAÇÃO
LUIS ANTONIO DOS SANTOS DE FREITAS
A CONSTRUÇÃO PARTICIPATIVA DE ARRANJOS SILVIPASTORIS EM SÃO
BONIFÁCIO – SC
Dissertação aprovada em 19 de maio de 2008, como requisito parcial para obtenção do grau
de Mestre no Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas, Centro de Ciências
Agrárias, Universidade Federal de Santa Catarina, pela seguinte banca examinadora
BANCA EXAMINADORA:
Florianópolis, 19 de maio de 2008
iv
Dr. Sergio L. G. Pinheiro
Orientador
Dr.ª Karen F. Karam
Co-Orientadora
Dr. Alfredo Celso Fantini
Presidente (CCA/UFSC)
Dr. Sandro Luís Schlindwein
(CCA/UFSC)
Dr.ª Vivien Diesel
(CCR/UFSM)
Dr. Álvaro Afonso Simon
(EPAGRI/CIRAM)
Dr. Alfredo Celso Fantini
Coordenador do PGA
Agradeço...
À minha FAMÍLIA, por todo o apoio e incentivo, principalmente, no decorrer destes
dois anos.
À minha colega, parceira de aventuras e amiga Daiane Caporal, por toda a ajuda
antes e durante essa jornada através de sugestões, conselhos, trocas de idéias etc.
Aos meus orientadores Karen e Sergio, pelas sugestões sempre muito pertinentes
sobre os assuntos deste trabalho.
Ao PGA como um todo (Professores, Janete e Colegas) por me proporcionar não
apenas um crescimento profissional como também um amadurecimento pessoal através do
convívio com pessoas tão especiais como Victor (Baiano), Sebastián, Lido, Júlio, Jair,
Guilherme, Lícia, Lúcia Helena (Magra) entre tantas outras pessoas.
À todos os agricultores de São Bonifácio que fizeram parte da construção deste
trabalho.
Aos técnicos da equipe local de agricultura de São Bonifácio, pelo apoio e troca de
idéias neste trabalho.
À Juliana por todo seu incentivo, carinho, companheirismo e compreensão nessa reta
final dos estudos.
À professora Vivien Diesel, por me mostrar um caminho diferenciado dentro da
Engenharia Florestal e por todo o incentivo para a realização deste mestrado.
À todas aquelas pessoas que, de maneira direta ou indireta, também fizeram parte
desta construção.
À CAPES pela bolsa concedida nos últimos seis meses.
v
SUMÁRIO
RESUMO..................................................................................................................................vii
ABSTRACT............................................................................................................................ viii
INTRODUÇÃO.......................................................................................................................... 1
CAPÍTULO 1 As bases teórico-metodológicas para refletir sobre a construção de arranjos
silvipastoris................................................................................................................................. 5
1.1 – A origem da extensão rural e suas bases teórico-metodológicas.................................. 5
1.2 – A participação na extensão rural................................................................................. 16
1.2.1 – Processos participativos – possibilidade para a construção de conhecimento.... 17
1.2.2 – Processos participativos – métodos, ferramentas e/ou transformações internas?23
1.3 – Procedimentos metodológicos.....................................................................................29
1.3.1 – Reconhecimento do campo de trabalho e adaptação da proposta de pesquisa....30
1.3.2 – Definição de um método para execução da pesquisa.......................................... 33
CAPÍTULO 2 Contextualização do processo participativo sobre arranjos silvipastoris em
São Bonifácio – SC...................................................................................................................36
2.1 – O município de São Bonifácio – um breve histórico.................................................. 36
2.2 – O Agricultor Familiar de São Bonifácio membro do Grupo do Pasto........................ 38
2.3 – A atividade leiteira, a agricultura familiar e o manejo dos recursos naturais............. 40
2.4 – Os atores-chave do processo participativo sobre arranjos silvipastoris...................... 44
CAPÍTULO 3 – A participação vista pelos atores-chave: possibilidades para análise.............50
3.1 – Características do processo participativo.................................................................... 54
3.1.1 Articulando as Idéias: as características do processo participativo sobre arranjos
silvipastoris......................................................................................................................68
3.2 – Potencialidades do processo participativo...................................................................69
3.2.1 Articulando as Idéias: as potencialidades do processo participativo sobre
arranjos silvipastoris........................................................................................................ 77
3.3 – Desafios do processo participativo..............................................................................78
3.3.1 Articulando as Idéias: os desafios do processo participativo sobre arranjos
silvipastoris......................................................................................................................93
CONSIDERAÇÕES FINAIS – O entendimento coletivo sobre a participação....................... 97
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................................102
APÊNDICE A:........................................................................................................................108
APÊNDICE B:........................................................................................................................ 111
vi
RESUMO
O presente estudo constitui-se em uma reflexão sobre o processo participativo para
construção de arranjos silvipastoris, desenvolvido em São Bonifácio-SC e que teve por
objetivo construir coletivamente, entre técnicos e agricultores produtores de leite do
município e parceiros externos, arranjos silvipastoris possíveis de serem implantados. O
objetivo desta dissertação é identificar e analisar o entendimento coletivo sobre participação
entre os atores (técnicos e agricultores) de São Bonifácio-SC, envolvidos na pesquisa
participativa sobre arranjos silvipastoris. Para tanto, busca-se evidenciar e discutir algumas
das características deste processo na ótica desses atores, bem como apontar as potencialidades
e os desafios de se utilizar abordagens participativas em ações de pesquisa-extensão rural.
Trata-se de uma pesquisa qualitativa calcada em alguns instrumentos e procedimentos
metodológicos, tais como: observação direta e entrevistas semi-estruturadas com atores-chave
do processo. Os dados obtidos foram analisados e interpretados seguindo a metodologia de
análise de discurso denominada “Discurso do Sujeito Coletivo” (DSC), e evidenciaram que a
participação é visualizada de diferentes formas pelos distintos atores-chave. As mesmas
características demonstradas pelos atores-chave, ao mesmo tempo que potencializam este e
outros processos participativos de pesquisa-extensão rural representam também grandes
desafios a serem enfrentados.
PALAVRAS-CHAVE: Pesquisa Participativa, Sistemas Agroflorestais, Agricultura Familiar,
Extensão Rural.
vii
ABSTRACT
This research reflects about the participatory process related to the construction of grazing-
forestry systems developed in the region of São Bonifácio, Santa Catarina State, Brazil. The
system’s purpose involves the social construction by technicians, milk producers, local actors
and external partners of silvopastoral arrangement feasible to be implanted in the region. This
study aims the identification and analysis of the social understanding about the participation
process among the several actors (mainly farmers and technicians) involved in the
participatory research related to the construction of silvopastoral arrangement in São
Bonifácio. Methodology includes the analysis and discussion of some processes
characteristics according to these actor’s interpretations as well as the identification of
challenges and opportunities related to the use of participatory approaches in rural research
and extension activities. It involves qualitative research based on methodological procedures
such as direct observation and semi-structured interviews with key-actors. Data and
information were analyzed and interpreted according to the Collective Subject Discourse
approach (in Portuguese named “Discurso do Sujeito Coletivo”). Results highlighted that
participation is understood in diverse ways according to different key-actors and interviewees
pointed that the same characteristics which promote participatory rural research and extension
activities also represent great challenges to these processes.
KEY-WORDS: Participatory Research, Agroforestry Systems, Family Farming, Rural
Extension.
viii
INTRODUÇÃO
Esta dissertação é o resultado de uma percepção pessoal a respeito do papel da ciência
e sua relação com a realidade social, construída no decorrer dos últimos sete anos. Tal período
teve seu início durante a fase de graduação do pesquisador em Engenharia Florestal, pela
Universidade Federal de Santa Maria RS (UFSM), onde começou a construir sonhos.
Sonhos de tentar enxergar a profissão de engenheiro florestal muito além daquela preconizada
pelo curso da referida instituição em que praticamente se mostrava o viés da produção
madeireira, atendendo aos interesses de grandes empresas do setor. Entender esta profissão
como capaz de não enxergar a árvore presente no meio rural como também aquele
agricultor que está ali usufruindo dos benefícios que ela proporciona, além de tentar exercer o
ofício procurando pensar no bem-estar das pessoas com as quais se trabalha. Foi diante de tais
expectativas que nessa época de graduação surgiu o interesse por trabalhar com extensão
rural. Mas o objetivo não era simplesmente “estender” algo da academia para o rural, e sim
construir algo no rural utilizando-se de alguns conhecimentos adquiridos na academia.
Entretanto, para se conseguir isso, vislumbrava-se que era preciso entender muito mais do que
apenas sobre modernas técnicas agrícolas e silviculturais. Também era necessário
compreender: Como se a dinâmica do rural? Qual a lógica que orienta as decisões de um
agricultor familiar? Como é o perfil de um técnico-extensionista disposto a construir
conhecimentos e não somente transferir algo? Com vistas a buscar algumas destas respostas e
de complementar os estudos de graduação é que se procurou o curso de Pós-Graduação em
Agroecossistemas (PGA) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
No âmbito do PGA, a presente proposta de pesquisa foi sendo construída
gradativamente. Num primeiro momento, a proposta era trabalhar com produtores de abelhas
nativas sem-ferrão do município de São Bonifácio-SC. Porém, em tal município estavam
ocorrendo uma série de trabalhos de pesquisa e, neste momento, uma nova proposta iria muito
mais atrapalhar do que contribuir com o processo de desenvolvimento da região. Sendo assim,
era mais importante dar seqüência e/ou consolidar aquelas pesquisas em desenvolvimento.
Para tanto, o presente estudo foi sofrendo adaptações em seus objetivos ao longo do tempo, de
maneira a se transformar em algo útil à seqüência do processo participativo em curso no
município.
Dentre as diversas iniciativas de trabalhos participativos desenvolvidas em São
1
Bonifácio, podemos destacar duas: uma relacionada à discussão com os agricultores acerca da
relação entre o uso atual do solo e a legislação ambiental; e outra relacionada à construção
participativa de possíveis arranjos silvipastoris. Tais propostas surgiram dentro de um
contexto maior, em que, em 2002, o Governo do Estado de Santa Catarina negociou junto ao
Banco Mundial o Projeto de Recuperação Ambiental e de Apoio ao Pequeno Produtor Rural –
Microbacias 2 (PRAPEM/MB2), que apresenta como uma de suas principais linhas
orientadoras a participação de segmentos sociais do meio rural no planejamento e
desenvolvimento das atividades a serem executadas. Neste sentido, uma das exigências
impostas pelo órgão financiador era de que seus recursos fossem empregados em ações de
caráter participativo. Isto significou que instituições como a Epagri (Empresa de Pesquisa
Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina S.A.), que historicamente praticam ações de
pesquisa e extensão rural baseadas em pressupostos de difusão tecnológica, buscassem
transformar a orientação filosófica de suas ações pautadas pelo difusionismo para ações de
cunho participativo.
Em 2004, visando tratar com maior intensidade e dar aporte teórico-metodológico para
o desenvolvimento de ações de caráter participativo, iniciou-se a realização de um processo
de capacitação de técnicos da Epagri e de entidades afins e parceiras. Tal processo contou
com recursos do MB2 e foi executado mediante a realização de cursos, seminários e projetos,
que tinham como linha orientadora pressupostos participativos em diversas regiões do Estado
de Santa Catarina. Como em qualquer processo de transformação, algumas importantes
questões nortearam este processo e continuam presentes em trabalhos desta ordem, como, por
exemplo: Como atuar numa perspectiva participativa? Como articular diferentes parcerias
com pensamentos e propósitos distintos? O que isso exige e o que implica? Como
desencadear processos de troca/construção de conhecimentos? Tais questões também
constituem a problemática orientadora desta pesquisa, tendo em vista que se estará analisando
nesta dissertação um dos trabalhos desenvolvidos dentro deste contexto a partir de meados de
2005, qual seja: “Sistemas Agroflorestais Pecuários: rumo à construção participativa com o
Grupo do Pasto em São Bonifácio, SC” (CAPORAL, 2007).
Tal trabalho, que originou uma dissertação de mestrado defendida no Programa de
Pós-Graduação em Agroecossistemas, baseou-se nos pressupostos da pesquisa participativa e
da etnobotânica, com o objetivo de construir possíveis arranjos silvipastoris em conjunto com
agricultores familiares produtores de leite de São Bonifácio. A pesquisa acabou envolvendo,
2
além do PGA e dos próprios agricultores, alguns técnicos locais de diferentes instituições,
como a Epagri, Secretaria Municipal de Agricultura e de um dos dois laticínios privados
existentes no município. Trabalhar com os arranjos silvipastoris surgiu como uma alternativa
à demanda por sombra para o gado, levantada pelos agricultores. Esta demanda se justifica
pelo fato de estes agricultores serem produtores de leite, praticando o manejo do gado em
sistema Pastoreio Racional Voisin (PRV) em suas propriedades e que, a partir de suas
observações, perceberam o quanto o gado sofria com a exposição ao sol, principalmente em
épocas muito quentes.
Com a conclusão da pesquisa de Caporal (2007), no final de 2006, percebeu-se a
necessidade de se elaborar um novo estudo que servisse como uma reflexão sobre como o
processo participativo sobre arranjos silvipastoris, ocorrido em São Bonifácio, foi visto e
compreendido por alguns dos atores envolvidos. Neste sentido, a presente proposta de
pesquisa busca responder uma questão: Qual o entendimento coletivo de diferentes atores de
São Bonifácio-SC, envolvidos na pesquisa participativa para a elaboração de possíveis
arranjos silvipastoris, a respeito da participação? Apresenta como objetivo geral: Identificar
e analisar o entendimento coletivo sobre participação entre os atores (técnicos e
agricultores) de São Bonifácio-SC, envolvidos na pesquisa participativa sobre arranjos
silvipastoris, buscando evidenciar e discutir algumas das características dos processos
participativos na ótica destes atores, bem como as potencialidades e os desafios de se utilizar
abordagens participativas em ações de pesquisa-extensão rural. A relevância deste estudo
reside no fato de que a realização de processos participativos, em termos conceituais e
metodológicos, encontra-se atualmente ainda em um estágio relativamente inicial, o que acaba
por gerar diversas dificuldades e incertezas, tanto por parte de técnicos/pesquisadores e suas
respectivas instituições, quanto por parte dos próprios agricultores.
A problematização e análise da experiência sobre a construção de arranjos silvipastoris
em São Bonifácio é feita sob a ótica dos métodos e ações de pesquisa-extensão rural.
Portanto, para o contexto desta pesquisa, a importância da ação de pesquisa-extensão rural
está muito mais ancorada no fato de esta ter alcançado resultados para os
agricultores/desenvolvimento local do que se foram geradas novas referências tecnológicas
passíveis de difusão ou contribuições para o campo científico em uma determinada área do
conhecimento.
O que se busca com esta pesquisa é compreender o que alguns atores-chave
3
envolvidos no processo participativo pensam a respeito de participação. Para se conseguir
compreender o que uma pessoa ou um conjunto de pessoas pensam, se faz necessário
perguntar, de modo a estimular que estas pessoas expressem um pensamento, ou seja, um
discurso (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2005). Sendo assim, no período entre outubro e novembro
de 2007, foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, compostas por 07 questões abertas,
com 06 atores-chave de São Bonifácio. Estes atores-chave constituem-se em 02 agricultores e
04 técnicos representantes de instituições públicas municipais e estaduais, da iniciativa
privada e da academia. Além das entrevistas, foi realizada a observação direta do processo,
uma vez que, a partir de abril de 2006, foram acompanhadas algumas etapas do trabalho sobre
arranjos silvipastoris a ser analisado.
Os resultados aqui apresentados se referem principalmente ao material coletado nas
entrevistas, utilizando-se a metodologia proposta por Lefèvre e Lefèvre (2005), denominada
de “Discurso do Sujeito Coletivo (DSC)”. Os discursos coletivos, ou DSCs, resultam da união
de expressões contidas no discurso, que apresentam idéias semelhantes de cada ator-chave e
serão apresentados e analisados nesta dissertação.
Os resultados deste trabalho estão apresentados a seguir em quatro partes subdivididas
da seguinte maneira: inicia-se discutindo a problemática que envolve a utilização de métodos
de pesquisa-extensão rural, bem como apresentando os procedimentos metodológicos
utilizados (Capítulo 1); em seguida, faz-se uma contextualização do processo participativo a
ser analisado, mediante uma breve apresentação do processo histórico do município, que
possui estreita relação com as características dos atores-chave envolvidos (Capítulo 2); na
seqüência, apresentam-se e discutem-se os DSCs resultantes desta pesquisa (Capítulo 3),
finalizando com algumas considerações importantes sobre a pesquisa em si, tentando apontar
algumas possibilidades de continuidade do processo participativo desencadeado em São
Bonifácio.
4
CAPÍTULO 1 – As bases teórico-metodológicas para refletir
sobre a construção de arranjos silvipastoris
Os métodos empregados nas ações de extensão rural, desde suas origens até os dias
atuais, representam a maneira como é tratado o conhecimento por quem desenvolve estas
ações. Durante muito tempo, acreditou-se (e muitos ainda acreditam) que o difusionismo era o
pressuposto que deveria orientar as ações de pesquisa-extensão rural por ele entender e tratar
o conhecimento como sendo algo objetivo e capaz de ser repassado unilateralmente de uma
“fonte” a um “receptor” levando modernas tecnologias a uma “sociedade atrasada” (rural),
trazendo consigo uma infinidade de “pacotes”, como insumos, maquinários etc. No entanto, o
que se observou foram as limitações dos métodos difusionistas ao se trabalhar em regiões
mais pobres e com pessoas que possuem uma lógica
1
que orienta suas decisões, que vai muito
além da lógica capitalista. Tais limitações impõem a necessidade de se refletir e de se atuar a
partir de pressupostos participativos, os quais estão voltados à construção coletiva do
conhecimento mediante interações dialógicas entre os atores envolvidos.
Com base em tais pressupostos é que se constroem os objetivos deste trabalho, bem
como se apresentam os procedimentos metodológicos utilizados para a realização desta
investigação.
1.1 – A origem da extensão rural e suas bases teórico-metodológicas
O estudo histórico da extensão rural, enquanto prática
“educativa”, instituída para a transferência de
informações técnicas na agropecuária, assumiu
características diversas na história da humanidade,
com papéis determinados e especificidades inerentes
ao modo de produção e ao desenvolvimento das forças
produtivas em cada momento. (...) o trabalho de
extensão, mesmo sem o privilégio de ter este nome,
certamente foi desempenhado pelo homem do
período Neolítico, embora não fosse uma atividade
sistematizada sob o rigor científico que marca seu
desenvolvimento no mundo capitalista (CAPORAL,
1991; p. 28).
Segundo este breve relato extraído de Caporal (1991), as ações de extensão rural
1 Esta lógica pode ser exemplificada como interesses particulares da família, sua orientação religiosa e/ou
política, estrutura familiar, cultura etc.
5
possuem suas bases em períodos bastante antigos da história. Segundo o mesmo autor,
durante o período Neolítico, devido a existência concomitante de grupos nômades e
sedentários, era comum a troca de experiências sobre suas relações com a natureza e a
utilização e aperfeiçoamento de instrumentos de trabalho. Olinger (1996), afirma que a
atividade extensionista é praticada muitos séculos, baseado em alguns relatos de que na
época do Império Romano já havia algumas experiências de instrutores ensinando agricultores
a cultivar trigo irrigado às margens do Rio Nilo, no Egito.
Na Europa, conforme Jones (1989), fortes indícios de que o primeiro e moderno
serviço de extensão rural data de meados do século XIX, quando a Irlanda passou por uma
forte crise socioeconômica oriunda de fracas safras de batata motivada por uma doença que
atingiu as plantações no período de 1845 à 1851. Como a batata, naquela época, representava
a base da dieta alimentar dos irlandeses, tal crise resultou em fome e miséria. Diante desta
problemática, o então governador, Conde Clarendon, por meio de uma carta, citada por Jones
(1989), endereçada ao Duque de Leinster, então presidente da Real Sociedade de Agricultura
da Irlanda, apresenta um projeto de treinamento prático para pequenos agricultores atingidos
pela fome. O objetivo deste projeto era realizar uma extensão rural voltada para a capacitação
dos pequenos agricultores para a adoção de novas práticas agrícolas capazes de aumentar a
produtividade de alimentos. Para tanto, foi proposto a organização de uma rede de instrutores
agrícolas, os quais seriam responsáveis por aconselhar, instruir e treinar os agricultores
caracterizando assim, o primeiro serviço de extensão rural destinado a apoiar os agricultores e
popularizar os resultados de experiências realizadas em centros de pesquisas através de
técnicas de extensão.
No entanto, o serviço de extensão rural, como instituição pública, teve início nos
Estados Unidos (OLINGER, 1996) e surgiu durante o período pós-Guerra de Secessão, que
representou para a agricultura norte-americana a passagem de uma estrutura escravista para
uma estrutura mercantilista e capitalista (FONSECA, 1985). De acordo com a mesma autora,
esta mudança acabou desfavorecendo pequenos produtores que ficaram excluídos desse
sistema por conta de não conseguirem competir com emergentes empresas capitalistas. Tal
fato foi ainda mais agravado quando o mercado agrícola, até então de caráter puramente local,
se transformou em um mercado com alcance mundial, favorecendo ainda mais a ação de
grandes empresas capitalistas da época e também ações de especulação.
A estratégia adotada pelos pequenos produtores foi a de se organizarem em
6
associações agrícolas, para discutirem seus problemas de comercialização e aumento de
produtividade na busca de possíveis soluções. Inicialmente essas discussões eram feitas em
reuniões, mas, com o passar do tempo, começaram a ser organizadas conferências, feiras,
palestras e exposições para uma troca de resultados obtidos, com um número maior de
produtores que compartilhassem da mesma situação (FONSECA, 1985; SIMON, 1996).
Por volta de 1870 foram criados e oficialmente reconhecidos por diversos estados
norte-americanos os chamados “Conselhos de Agricultura”, que tinham por objetivo
promover conferências públicas e cursos de curta duração, com auxílio de universidades e
escolas agrícolas (FONSECA, 1985). Estas atividades rapidamente passaram a ser
complementadas com a publicação de folhetos e a participação de técnicos dos governos
federal e estadual. No entanto, apesar destes esforços, somente em 1914, o governo federal
norte-americano instituiu e oficializou o “serviço cooperativo de extensão rural”, tendo por
finalidade disponibilizar para a população rural ausente de escolas agrícolas conhecimentos
úteis e práticos relacionados à agricultura, pecuária e economia doméstica, para a adoção de
modos mais eficientes na administração da propriedade rural e do lar (FONSECA, 1985). O
serviço de extensão passa a ser gerenciado pelas universidades em parceria com o
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. As universidades passam a contar em seu
quadro com os “Professores Extensionistas”, sendo o Departamento de Agricultura o
responsável por executar o serviço oficial de extensão rural (Silva, 2000). Desta forma, a
extensão rural norte-americana passou a ser o mecanismo de aproximação da população rural
com as estações de pesquisa universitária.
Percebe-se até aqui que a extensão rural na Europa e nos Estados Unidos surgiu por
fatores endógenos, da necessidade dos agricultores por conhecimentos que os ajudassem a
resolver alguns problemas relacionados a seus sistemas produtivos. Tal conhecimento era
construído, principalmente, mediante trocas de experiências entre agricultor-agricultor. No
entanto, com o surgimento da extensão rural oficial, que tinha entre seus objetivos auxiliar no
desenvolvimento econômico do País, a unidade produtiva passou a ser entendida como uma
atividade empresarial buscando fundamentalmente a obtenção do lucro (SIMON, 1996). A
partir de então, o agricultor se viu impossibilitado de resolver seus próprios problemas devido
à forte dependência de fatores externos alienados de seu controle, como o mercado de preços;
a indústria de máquinas, fertilizantes e insumos; e as pressões por urbanização e relações
internacionais (OLINGER, 1996).
7
No período pós-Segunda Guerra Mundial, o serviço de extensão rural baseado no
mesmo modelo metodológico empregado nos Estados Unidos
2
foi difundido para países
considerados subdesenvolvidos, incluindo a América Latina. A extensão rural nestes países
foi proposta por governos locais, no entanto, sempre agia em parceria com agências de
extensão rural norte-americanas (FONSECA, 1985). Nos países da América Latina,
especialmente no Brasil, os serviços de extensão rural tiveram forte influência da American
International Association (AIA), uma fundação norte-americana de caráter filantrópico,
organizada pelo grupo Rockfeller, destinada a apoiar projetos tecnológicos, educacionais e de
desenvolvimento em países considerados subdesenvolvidos (SILVA, 2000). O objetivo destas
ações era construir o “desenvolvimento” desses países sob as mesmas concepções de
desenvolvimento entendidas pelos Estados Unidos (modernização do campo com emprego de
alta tecnologia). O rural recebe a missão de exercer dois papéis essenciais a este
desenvolvimento: abastecer o setor urbano e gerar divisas por meio de exportações de seus
produtos (SIMON, 1996).
Para tanto, a estratégia era a de agir fortemente no sentido de informar e persuadir os
agricultores a adotarem melhores práticas agrícolas, a fim de aumentar a produtividade de
fibras e alimentos, mediante intensa utilização de recursos audiovisuais como forma de
melhorar a difusão das informações (FONSECA, 1985). Percebemos com isto o conjunto de
interesses engendrados nestas ações, cujo aumento da produtividade agrícola passa por um
extremo consumo de maquinários, energia e insumos, e a utilização de modernos recursos
audiovisuais depende da disponibilidade de projetores, câmaras, impressoras etc.,
“casualmente” todos amplamente produzidos e comercializados pelos Estados Unidos.
ainda o interesse dos Estados Unidos em manter os países considerados pobres como seus
aliados frente à Guerra Fria, por julgarem que esses países, ao se encontrarem em situação
econômica precária, estariam mais suscetíveis à “incorporarem” idéias comunistas (SIMON,
1996).
Neste sentido, observamos uma clara mudança nos objetivos do serviço de extensão
rural, que inicialmente tinha por meta suprir, mediante aporte técnico e trocas de experiências,
algumas necessidades dos pequenos produtores, a fim de atenuar problemas enfrentados em
seus sistemas produtivos e passou a ter por objetivo atender a uma série de interesses
2 Modelo extensionista que ficou conhecido como o “modelo clássico” e tinha por objetivo levar os problemas
do povo rural às estações de pesquisa e, posteriormente, transmitir as tecnologias geradas nas estações de
pesquisa para o povo rural.
8
mercadológicos e políticos.
Em 1947 a AIA abriu um escritório no Rio de Janeiro, e um ano depois teve início a
primeira experiência de extensão rural no Brasil em Santa Rita do Passa Quatro e São José do
Rio Pardo, ambas no Estado de São Paulo. Ao final do ano de 1948, formalizou-se um
convênio entre a AIA e o governo de Minas Gerais criando a ACAR-MG (Associação de
Crédito e Assistência Rural de Minas Gerais) que tinha entre seus objetivos o aumento da
produção agropecuária e a melhoria das condições sociais e econômicas da população rural
(SILVA, 2000). Levando-se em consideração o sucesso da ACAR-MG, o governo brasileiro
passa a considerar que mediante financiamento e assistência técnica era possível promover o
desenvolvimento rural do país. A partir desta concepção sobre os caminhos para o
desenvolvimento, e de um acordo firmado entre os governos do Brasil e Estados Unidos, foi
criado o Escritório Técnico de Agricultura (ETA) com sede no Rio de Janeiro (OLINGER,
2006). Com vistas a dar seguimento às idéias do ETA, foi criada a ABCAR (Associação
Brasileira de Crédito e Assistência Rural) baseada nos moldes da ACAR-MG.
Para receber os benefícios técnicos e financeiros da ABCAR, os Estados criaram as
Associações de Crédito e Assistência Rural (ASCARs). Neste contexto que, no Estado de
Santa Catarina, o serviço de extensão rural foi fundado em 1957 com a criação da ACARESC
(Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina) constituindo-se em um
processo educativo informal que utilizava métodos próprios, simples e práticos, destinado a
auxiliar a família rural e elevar seu nível de vida. Tal processo educativo baseava-se no
princípio de que a pessoa aprende vendo, ouvindo e fazendo (SEIFFERT, 1990).
No Brasil, inicialmente o serviço de extensão rural não era nem um pouco atrativo
para os grandes agricultores da época, principalmente aqueles ligados aos cultivos de café,
cana-de-açúcar, cacau e à pecuária de corte, uma vez que possuíam um quadro técnico
especializado próprio (OLIVEIRA, 1998). De certa maneira, este fato acabou contribuindo
para que as ações de extensão rural fossem inicialmente direcionadas aos pequenos e médios
agricultores. Porém, não no Brasil, mas também em outros países ditos
“subdesenvolvidos”, o modelo clássico de extensão empregado encontrou sérios problemas
devido ao meio rural nesses países se caracterizar por um forte estado de pobreza e atraso
tecnológico, não atingindo os resultados esperados. A partir de então, surge a necessidade de
se adequar este modelo norte-americano às especificidades desses países. Everett Rogers
importante contribuição à adequação desse modelo, desenvolvendo a teoria
9
difusionista/inovador, que fornecia uma proposta teórico-metodológica baseada no princípio
de que uma diferenciação no tempo de adoção de uma determinada tecnologia conforme
características inerentes a cada pessoa ou grupo social (FONSECA, 1985). Logo, o modelo de
extensão rural empregado na América Latina passa do “modelo clássico” ao “modelo
difusionista/inovador”. No entanto, a simples aplicação desse novo modelo continuou não
sendo suficiente para dar conta das particularidades do meio rural de tais países.
O pensamento do momento era de que em “uma sociedade rural tradicional, o
progresso técnico não pode vir senão de fontes exteriores à comunidade” (FONSECA, 1985,
p. 51). O técnico-extensionista era dotado de técnicas educacionais com o objetivo de
modificar o que as pessoas pensam, sabem, crêem, sentem e fazem tradicionalmente, com o
pressuposto de “levar” o homem rural para uma vida “moderna” (racional, cômoda e
tranqüila). Um interessante exemplo disto pode ser observado no relato de Mussoi (2006; p.
22), em que afirma que nos cursos de pré-serviço para ingressantes no serviço de extensão
rural era muito comum ouvir que “o extensionista deveria atuar como um verdadeiro 'camelô'
(...), ou seja, era necessário 'vender o peixe' a qualquer custo”.
Segundo Caporal e Costabeber (2007), durante a década de 1950, o objetivo da
extensão rural no Brasil era o de educar o homem do campo sob o pretexto de “direitos iguais
para todos”, com vistas a este aceitar e se adequar ao modelo urbano-industrial vigente. Mas
educar não bastava, era necessário acelerar o consumo intermediário da agricultura através
do incentivo à introdução de novas técnicas. No entanto, as respostas dos pequenos produtores
a esse conjunto de iniciativas eram extremamente desanimadoras sob o ponto de vista das
exigências do setor industrial. Como “solução”, em 1960, a extensão rural brasileira passa a
recomendar que o serviço atenda somente a médios e grandes produtores que estejam aptos a
adotar as tecnologias modernas propostas (CAPORAL; COSTABEBER, 2007). Cabe
ressaltar que, em Santa Catarina, segundo Seiffert (1990), o serviço de extensão rural desde o
início optou por assistir agricultores que tivessem condições de dar melhores respostas aos
objetivos da modernização.
A medida adotada pelo governo brasileiro proporcionava um estado de realização
profissional do extensionista, possibilitando que realizasse plenamente o chamado “círculo
virtuoso da extensão rural” que, segundo Oliveira (1998), designa e valoriza o esforço do
agricultor em ver o seu trabalho se transformar em produção, esta, em renda e, por
conseqüência, em bem-estar próprio.
10
Em Santa Catarina, o serviço de extensão rural se manteve até a década de 1960 como
um serviço paraestatal estando ideológica, financeira e administrativamente vinculado aos
Estados Unidos. O foco das ações era a família, justificando a relevância concedida à
assistência à esposa e filhos dos agricultores, em consonância com o modelo de economia
doméstica implantado no meio rural norte-americano (SEIFFERT, 1990). Ainda, segundo a
mesma autora, neste período surge o Crédito Rural Supervisionado destinado a financiar a
propriedade rural em seu conjunto, condicionando a aplicação de testes em “propriedades
demonstrativas”, como parte da sistemática educativa.
Em 1961, objetivando receber recursos financeiros necessários a essas ações, o serviço
de extensão rural brasileiro elabora um plano qüinqüenal (1961-1965) em consonância com as
estratégias políticas adotadas pelo governo na busca da modernização do País (SIMON,
1996). Não obstante, o governo de Santa Catarina passa a incorporar as práticas de extensão
rural à suas ações enquanto instrumento de intervenção modernizadora no meio rural
(SEIFFERT, 1990).
Na década de 1970, com a intenção de impulsionar o setor agrícola e engajá-lo no
projeto de desenvolvimento urbano-industrial do Brasil, surge a Embrater (Empresa Brasileira
de Assistência Técnica e Extensão Rural). O modelo Embrater tenta dar conta de minimizar o
processo excludente desencadeado por este desenvolvimento buscado pelo País na época,
propondo um trabalho com médios e grandes produtores na base de tecnologia e um trabalho
com os pequenos de cunho social e assistencialista (CAPORAL; COSTABEBER, 2007).
Neste sentido, o foco das ações de extensão rural, que inicialmente estava centrado na família
rural, volta-se para o emprego de tecnologias modernas em um contexto empresarial.
Entretanto, a Embrater continuou atuando hegemonicamente segundo o modelo
difusionista/inovador e continuou também sendo insuficiente para atender as necessidades das
camadas mais pobres do meio rural, inclusive de alguns dos médios e grandes produtores.
Na década de 1980, ocorre o período conhecido como “repensar” da extensão rural no
Brasil, que passou a priorizar o trabalho junto a pequenos agricultores, porém, continuou
dando preferência aos mais abertos a aceitar as inovações e aos mais aptos a adotá-las
(CAPORAL; COSTABEBER, 2007). Vivan (sem data), afirma também que, no mesmo
período, a sociedade civil começou a se incorporar às ações de extensão rural através de ações
de Ongs (organizações não-governamentais), umas com mais e outras com menos
envolvimento das populações rurais e disponibilidade de recursos financeiros.
11
Na mesma década, começou-se a observar que o modelo difusionista/inovador,
baseado na simples transferência de tecnologia, estava dando mais prejuízos do que bons
resultados. Os custos eram altos e a “adoção” era baixa, fazendo-se necessário pensar em
métodos que aumentassem os índices de adoção de tecnologias. Além disso, no âmbito
internacional verificou-se que as políticas para a agricultura não estavam chegando aos
pequenos produtores e que as tecnologias então difundidas eram mais apropriadas as
condições dos grandes produtores. Diante de tal problemática e por se entender que para se
atingir os pequenos produtores é necessário um modelo diferenciado de pesquisa-extensão
rural, começa a emergir o enfoque sistêmico nas ações de pesquisa-extensão rural
denominado de FSR/E (Farming Systems Research / Extension).
Tal enfoque teve sua origem em centros internacionais de pesquisa como o CIMMYT
(Centro Internacional de Melhoramento do Milho e Trigo), no México; o IRRI (Instituto
Internacional de Pesquisa de Arroz), nas Filipinas; o CIAT (Centro Internacional de
Agricultura Tropical), na Colômbia e; o CIP (Centro Internacional da Batata), no Peru
(PINHEIRO, 1995). Assume-se como pressuposto do FSR/E a necessidade do
desenvolvimento de tecnologias apropriadas às condições de cada tipo de agricultor, levando-
se em consideração o contexto de seus sistemas produtivos, as oportunidades, seus problemas
e objetivos (PINHEIRO, 1995).
O FSR/E pressupõe uma transformação nas ações de pesquisa-extensão rural em que
as pesquisas realizadas em estações experimentais passam a serem conduzidas diretamente
nas propriedades com a participação do agricultor, contestando assim a relativa
homogeneidade entre os agricultores e a neutralidade das tecnologias (PINHEIRO, 1995).
Entretanto, em muitos casos tal participação se caracterizava pelo fato do agricultor
disponibilizar uma área para os experimentos, ou simplesmente “tomar conta” para que não
fossem destruídos por animais e/ou “pragas”, ou ainda realizar as práticas necessárias como
capina, aplicação de veneno etc. Assim, propôs-se a falar e praticar métodos que
incentivassem a participação dos agricultores nos processos de pesquisa-extensão rural,
porém, ainda sobre os mesmos pressupostos de transferência de tecnologia.
Em Santa Catarina, ainda no início da década de 1980, os PROATERs (Programa de
Assistência Técnica e Extensão Rural) anuais passam a considerar entre suas diretrizes a
participação do “público beneficiário” nas etapas de diagnóstico, planejamento, execução e
monitoramento dos projetos e programas.
12
Porém, a grande novidade destes PROATERs foi simplesmente a inversão da
verticalidade dos processos em que, sob o discurso da participação, a orientação dos processos
ao invés de partirem de cima para baixo (técnicos agricultores) passaram a partir de baixo
para cima (agricultores – técnicos). Assim, o “público beneficiário” (agricultores) passou a ser
compreendido como um “cliente”, em que o técnico-extensionista realiza um diagnóstico de
suas necessidades, define e transfere uma determinada tecnologia “capaz de trazer as
soluções” para seus problemas. A participação neste caso exerce o simples papel de aumentar
os índices de adoção de tecnologias por parte dos agricultores e não de construir
conhecimentos por meio de processos dialógicos horizontais entre técnicos
(extensionistas/pesquisadores) e agricultores.
À luz dessa discussão e com base nas idéias destes autores, podemos descrever o
conjunto de características predominantemente inseridas no modelo de extensão rural
empregado no Brasil até o final da década de 1980 e início dos anos 1990:
um poder absoluto da “fonte ou emissor” (técnico/extensionista) em relação ao que
seria repassado, a maneira como seria gerado, elaborado e quanto à definição dos
objetivos comportamentais esperados;
uma preocupação exclusiva com o “captar e adotar” a tecnologia, sem maiores
preocupações com as influências que estas tecnologias poderiam exercer nas pessoas;
uma unidirecionalidade e verticalidade do conhecimento, em que se considera que há
um sujeito a transmitir e um receptor a absorver este conhecimento;
este modelo resulta, na melhor das hipóteses, em ações paternalistas e/ou
assistencialistas;
possui a persuasão como sua estratégia metodológica geral a ser empregada e;
com vistas a se atingir o desenvolvimento, pressupõe a transferência de valores de
um setor moderno a um tradicional (atrasado).
Em resumo, a prática extensionista brasileira estava baseada em uma visão
extremamente positivista (crença na existência de um saber objetivo e capaz de ser
transmitido unilinearmente), em que os técnicos-extensionistas acreditavam fielmente possuir
e utilizar técnicas e metodologias rigorosamente objetivas e neutras na análise e solução de
problemas encontrados na realidade das populações rurais; na busca incessante por uma
sociedade ideal em que estabelecia-se um continuum entre o rural e o urbano, cuja meta era
construir uma sociedade moderna (urbana industrializada) em detrimento de uma sociedade
13
atrasada (rural agrícola), ou ainda, nas palavras de Mussoi, “no fundo, o objetivo deste
método é adaptar as pessoas a uma sociedade dada, em que predominam relações de
dominação” (MUSSOI, 2006; p.28); e no fomento à destituição de saberes locais, pois se
acreditava que a solução para os problemas de uma população rural poderia ser dada por
alguém de fora, ou seja, o técnico-extensionista era o único que sabia o que era melhor para
essas populações.
A partir de fins da década de 1980 e mais intensamente no início de 2000, passou-se a
falar e a buscar instrumentos para se atuar em direção ao desenvolvimento sustentável.
Surgiram novas demandas da sociedade como a preocupação ambiental, a necessidade de se
ter alimentos mais saudáveis, livres de agrotóxicos, a necessidade do homem do campo em
permanecer no campo etc. Mas como se falar em sustentabilidade sem se falar em
participação? Todos estes fatores mencionados, aliados a diversas ações de movimentos
sociais, fizeram com que o governo federal pensasse melhor o serviço de extensão rural no
Brasil, conferindo maior atenção à agricultura familiar através de políticas públicas, como o
PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) e, mais
recentemente, a criação do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário).
Cabe destacar que as novas diretrizes que passarão a orientar as ações de extensão
rural pública em muito se espelharam no exercício de inúmeras Ongs existentes no Brasil, e
mesmo no exterior, orientadas por práticas que procuravam enfatizar os processos
participativos na assistência técnica, a valorização do conhecimento das populações rurais, até
então excluídas, fossem elas agricultores familiares, assentados, pescadores artesanais,
quilombolas, indígenas, entre outros.
Nesse contexto é que, em 2004, se criou a Política Nacional de Assistência Técnica e
Extensão Rural (PNATER) que apontava como princípios: a) trabalhar prioritariamente com
aqueles grupos sociais, antigamente pouco favorecidos/atendidos ou até mesmo totalmente
excluídos dos serviços de extensão rural; b) adotar abordagens metodológicas participativas,
estimulando a articulação com diversas outras entidades não-governamentais e até mesmo
privadas, dando claramente o foco para a agroecologia (MDA, 2004). Em 2006, criou-se o
Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PRONATER), que visou
consolidar a PNATER, demonstrando e orientando as principais ações a serem realizadas por
essa política (MDA, 2006).
Estas ações governamentais contribuem para consolidar uma prática existente entre
14
as várias entidades e Ongs de assessoria que atuavam em todo o País, ao mesmo tempo em
que mostram uma mudança de pensamento a respeito dos serviços de extensão rural oficiais,
na busca de um serviço destinado a quem realmente precisa dele e à inclusão social. Para
atingir tais objetivos, os projetos executados devem seguir, como linhas gerais, abordagens
participativas.
No contexto catarinense, o mesmo período (fins da década de 1980 até atual) é
marcado por importantes transformações estruturais e de orientações filosóficas do serviço de
extensão rural oficial. Em 1991 ocorre a fusão entre a ACARESC, EMPASC (Empresa de
Pesquisa Agropecuária de Santa Catarina), ACARPESC (Associação de Crédito e Assistência
Pesqueira de Santa Catarina), IASC (Instituto de Apicultura do Estado de Santa Catarina) e
EMATER/SC (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Santa Catarina)
constituindo a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Difusão de Tecnologias (FURTADO
et. al., 1996). Mas, segundo os mesmos autores, somente em 1995 que a EPAGRI passa a se
chamar Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina S. A.
permanecendo o foco de suas ações voltado à geração e difusão de tecnologias.
Em 2002 o Governo do Estado de Santa Catarina negociou com o Banco Mundial o
Projeto de Recuperação Ambiental e de Apoio ao Pequeno Produtor Rural-Microbacias 2
(PRAPEM/MB2), tendo como um de seus pressupostos a participação dos segmentos sociais
do meio rural no desenvolvimento das atividades a serem executadas. A Epagri é uma das
principais instituições executoras das ações do referido projeto e, tal qual as demais entidades
voltadas à extensão rural no País, atuou no decorrer de sua existência segundo os preceitos da
difusão tecnológica na extensão rural. Nesse processo de transformação na base de suas ações
(difusionismo participação), importantes questões foram e continuam sendo colocadas tanto
interna como externamente à instituição, sendo elas: Como atuar na perspectiva da
participação social? O que isso implica? O que exige? O que abandonar da abordagem
conhecida? Como atuar em processos de troca/construção de conhecimento? Como ampliar a
participação e também trabalhar em conjunto com outras entidades, como universidades?
Tais questões também compõem a problemática que orienta esta pesquisa, devido ao
projeto que se está analisando se desenvolver neste contexto. Para buscar alguns elementos
que possam contribuir nesta análise é que se procurará a seguir compreender, à luz da
literatura, um pouco sobre as abordagens participativas para a construção de conhecimento,
buscando ressaltar suas características, potencialidades e desafios.
15
1.2 – A participação na extensão rural
O arado de ferro, por exemplo, foi
inicialmente rejeitado pelos camponeses bolivianos
indígenas que adoram a terra como a divindade Pacha
Mama, pois o ferro do arado fere “A Mãe de todos
nós” (BORDENAVE, 1983; p. 47).
Na Guatemala, o milho fornece talos para
fazer cercas, palha para embrulhar comida quente e
folhas para forragem, além de grãos, que devem
satisfazer as preferências locais, quanto ao sabor, e ter
a textura certa para a produção de tortilhas. Uma
variedade de milho que não tenha essas características
é inaceitável para a maioria dos agricultores, por mais
que produza muitos grãos” (BUNCH, 1994; p. 109).
Somente a leitura destes pequenos relatos nos dá muitos elementos para
conhecermos a importância de se trabalhar com métodos participativos para geração de
propostas tecnológicas na pesquisa-extensão rural. Nesses relatos, estão explícitos elementos
extremamente importantes de serem respeitados e levados em consideração ao se trabalhar
com populações rurais, como fatores culturais, religiosos, políticos, preferências pessoais e
locais, praticidade e, logicamente, econômicos. É de conhecimento de todos que a forma
como o difusionismo foi implementado com seus pacotes da revolução verde é simples
demais para dar conta deste conjunto de fatores que orientam a lógica dos pequenos
agricultores na tomada de decisão em seus sistemas produtivos.
Mas não poderíamos afirmar que os métodos de extensão empregados no modelo
clássico já eram participativos? Afinal de contas, quem decidia por adotar ou não determinado
pacote tecnológico sempre era o agricultor. No âmbito desta pergunta, muitos responderiam
até hoje que sim. Porém, analisando a citação acima, constatamos que participação é muito
mais do que simplesmente decidir sobre adotar ou não determinada tecnologia. Neste sentido,
outras perguntas se colocam: Que tipo de participação estamos falando? O que pretendemos
com ela?
A participação pode ser um meio utilizado para se atingir diversos fins. No âmbito da
promoção do desenvolvimento rural, entre tantos possíveis, destacamos dois: com vistas a
legitimar processos e com vistas a construir processos. No primeiro caso, o público
“beneficiário” de um projeto é convidado (muitas vezes, convocado) a comparecer em uma
reunião em que será relatada e apresentada uma proposta para a execução de tal projeto. A
participação, neste caso, é restrita a tomar conhecimento da proposta e a consentir com ela,
16
sem direito à discussão. Esta participação é medida e comprovada mediante o número de
nomes em uma lista de presença da reunião. Possui a capacidade de reforçar as relações de
dominação e dependência deste público “beneficiário”, tendo em vista que é passada uma
idéia de que todos possuem o mesmo poder de decisão, quando, na verdade, todas as decisões
já foram tomadas antes mesmo da reunião.
No segundo caso, o público “beneficiário”, primeiramente, deixa de ser considerado
como tal e passa a ser considerado como grupo de interesse. São convidados a discutir e
problematizar as necessidades, suas e da comunidade, e a definir propostas que busquem
possíveis soluções, não dividindo, mas também compartilhando responsabilidades. Possui
a capacidade de reforçar as idéias de autonomia, autogestão e espírito de cooperação, em que
todos exercem os mesmos poderes de decisão.
É natural que existam diferentes entendimentos a respeito de participação, até mesmo
para os que atuam dentro de uma mesma linha entre estas duas. No contexto desta dissertação,
consideraremos o segundo caso, participação para construir processos, como linha orientadora
da discussão, tentando mostrar o conjunto de características apresentadas por diferentes
autores que tratam da participação no desenvolvimento rural.
1.2.1 Processos participativos possibilidade para a construção de
conhecimento
De um modo geral, a literatura relativa ao tema preconiza que, ao se adotar a
perspectiva da participação no trabalho da pesquisa-extensão rural desenvolvido junto a
comunidades, é possível não somente alcançar objetivos meramente econômicos e produtivos,
mas também objetivos humanos mais amplos, como suprir necessidades básicas, aumentar a
auto-estima e a autoconfiança, desenvolver o senso de cooperação dentro da comunidade e
também desenvolver a autonomia das pessoas para a tomada de decisão na solução de seus
problemas prioritários.
Trabalhar na perspectiva participativa impõe uma série de transformações teóricas e
também nas formas de agir de técnicos e instituições. Há, inicialmente, a necessidade de uma
postura articuladora de saberes em detrimento de uma atitude de persuasão junto aos
agricultores (RAMOS, 2006).
O conhecimento é constituído através dos meios como as pessoas categorizam,
17
codificam, processam e imprimem significado a suas experiências, ou seja, é resultado de
distinções humanas. É construído, ao mesmo tempo, de forma coletiva e individual. Coletiva,
pois é fruto de inter-relações sociais ocorrendo através do compartilhamento de interesses dos
diferentes atores; e individual, porque estes atores captam as informações sempre respeitando
seus aspectos cognitivos (GUIVANT, 1997; MATURANA, 1997), ou seja, conhecimentos,
assim como valores, comportamentos, idéias e conceitos são o resultado de uma construção
histórica e de experiências adquiridas pelos indivíduos (como construção social) na sua
relação com o meio e com sua realidade física e social (MUSSOI, 2006). Portanto, incapaz de
ser repassado.
“É sabendo que sabe pouco, que uma pessoa se prepara para saber mais” (FREIRE,
1983; p. 51). Através destas palavras de Paulo Freire, podemos entender que o conhecimento
não está em uma fonte e nem mesmo é gerado por ela, ele é fruto de adaptações e
reestruturações, por isso dinâmico. Somente sujeitos, numa relação dialógica, são capazes de
gerar e ampliar conhecimentos, através da ação e da reflexão, e/ou através de um processo de
recriação ou reelaboração de conhecimentos existentes (MUSSOI, 2006). Um saber novo é
sempre gerado em um saber que passou a ser considerado ultrapassado, mas que antigamente
este era considerado como sendo o saber novo, também gerado em um saber velho (FREIRE,
1983).
Para que ocorra um diálogo perfeito entre a teoria e a prática, se faz necessário
compreendermos dois tipos de sistemas de conhecimento: o sistema de conhecimento local
(popular) e o sistema de conhecimento científico. Faz-se necessário compreender que os
agricultores se constituem como parte de uma rede social, cujas informações são trocadas e
estratégias são discutidas (KAMP; SCHUTHOF, 1991). Por meio dessa rede, o conhecimento
local é construído, desenvolvido e intercambiado, formando uma “rede de conhecimento”
baseada no saber, nas concepções, nas crenças e percepções, refletindo o ambiente social,
econômico, político e religioso, nos quais estão inseridos. Segundo Boef (2006), a utilização
de abordagens participativas permite que o conhecimento científico
3
incremente o
conhecimento local
4
; e acrescentamos ainda que o conhecimento local proporciona uma base
3 Entende-se por conhecimento científico como sendo aquele capaz de explicar algum fenômeno por meio da
proposição de um mecanismo responsável por gerar tal fenômeno (MATURANA, 1997). É considerado como
sendo um conhecimento racional, objetivo, lógico e confiável, exato e falível, verificável e não definitivo,
determinado pelo uso de métodos e orientado por testes de hipóteses (LAKATOS; MARCONI, 1991). É visto
como sendo detentor de um maior poder, devido a sua capacidade de agir a distância, reduzindo numerosos
elementos à leis universais válidas para qualquer contexto (GUIVANT, 1997).
4 Entende-se por conhecimento local aquele gerado através de observações de determinados fenômenos, é
transmitido de geração à geração por meio de educação informal e da oralidade se caracterizando como sendo
18
interessante para orientar a busca do conhecimento científico.
Considerar e articular o diálogo destes saberes se constitui num desafio não apenas de
comunicação, mas também pedagógico (BORDENAVE, 1983). Pedagógico porque é o que
determina como o conhecimento será tratado. Dependendo da estratégia pedagógica adotada,
o conhecimento pode ser utilizado como uma ferramenta de “aprisionamento” ou de
“libertação” das pessoas. A ação de se gerar ou de se trabalhar uma nova tecnologia pode ser
realizada por mera transmissão, por manipulação de comportamentos na direção de um
objetivo pré-estabelecido ou por um trabalho dialógico baseado na problematização de
situações concretas (BORDENAVE, 1983). Os dois primeiros são mais rápidos, porém
destituem os “aprendizes” de seus próprios saberes, exercendo uma relação de dominação e
de dependência, por isso aprisionam; enquanto o terceiro se apresenta mais demorado, porém
mais adequado a responder às necessidades reais, além de permitir plena compreensão dos
princípios da técnica a ser trabalhada e de proporcionar uma maior autonomia, por isso
liberta.
Mediante o diálogo entre conhecimentos (do técnico/pesquisador e do agricultor), é
possível se problematizar o próprio conhecimento, em sua indiscutível relação com a
realidade concreta, na qual é gerado e sobre a qual reflete, visando melhor compreendê-la,
explicá-la e, por conseqüência, transformá-la (FREIRE, 1983). Neste sentido, poderíamos
afirmar então que geração/transferência de tecnologia significaria comunicação/diálogo de
conhecimentos. Para tanto, faz-se necessário criar espaços para que o conhecimento
existente seja ensinado e aprendido, bem como estabelecer momentos destinados à produção
do conhecimento ainda não existente (RUAS et al., 2006).
Transformar a atividade extensionista em uma ação de caráter educativo e em uma
prática transformadora implica uma interação mais estreita entre pesquisadores/extensionistas
e agricultores, representando também uma mudança significativa no papel e na postura de
cada um, haja vista que ambos passam a firmar um compromisso com tal processo educativo,
envolvendo a arte de ensinar, aprender, pesquisar e socializar (RUAS et al., 2006). As
interações destes atores mudariam, portanto, de um controle coercivo e sistema de ensino
convencionais para um papel de facilitador e sistemas de aprendizagem participativa (BOEF,
2006). Necessitando, assim, priorizar os interesses sociais frente aos interesses individuais,
valendo-se para relacionamentos tanto técnico-agricultor quanto agricultor-agricultor. Uma
pouco sistemático, subjetivo e local (LAKATOS; MARCONI, 1991; GUIVANT, 1997).
19
relação de confiança mútua e a busca pelo bem-estar comum são requisitos básicos ao sucesso
de processos participativos (FARIAS, 2000).
A busca por uma maior interação entre técnicos e agricultores e também um processo
de comunicação bilateral semiformal permite aos agricultores assumirem papéis, ao mesmo
tempo de gerador, comunicador, avaliador de idéias exteriores e usuário. Enquanto que os
técnicos assumem também, ao mesmo tempo, papéis de moderador, pessoa de recurso, co-
pesquisador e professor (BOEF, 2006). Com isso, os agricultores passam a ser vistos como
geradores de conhecimentos, informações e propostas. Não estando mais interessados em que
alguém de fora proponha soluções “fáceis” para seus problemas, querem discutir, aprender,
serem entendidos, compreendidos, ajudados, e não dirigidos (HOCDÉ, 1999). Passam
somente a aceitar o técnico se este lhes esclarece perfeitamente que seu trabalho consiste em
apenas facilitar-lhes o processo de tomada de decisão e não de decidir por eles (FARIAS,
2000). Portanto, o que se difunde são idéias, e não pacotes.
A atuação do técnico-extensionista, ao seguir estes princípios, possivelmente pode
partir de uma série de observações e indicações de autores que teorizam sobre o
desenvolvimento rural. Neste contexto, Bunch (1994) coloca que os objetivos de um projeto
ou programa devem ser sempre definidos com a participação de agricultores, com vistas a
superarem seus problemas mais imediatos, pois o que eles querem é um trabalho que responda
não às necessidades gerais da região, mas às suas próprias necessidades. Ainda que um
aumento na renda represente uma dessas necessidades e possa permitir que as pessoas se
alimentem, vistam, morem e se eduquem adequadamente, esse aumento por si não garante
tais benefícios.
Os agricultores não querem mais que se “fale para eles”, e sim o que realmente
desejam é que se “converse com eles” (BOX, 1987). Buscam serem ouvidos e não
simplesmente ouvintes, “alvo” de um projeto de “desenvolvimento”. Até porque, segundo
Bunch (1994), o verdadeiro desenvolvimento, entre outras coisas, está na realização de um
processo através do qual as pessoas aprendem a cuidar de suas próprias vidas e a resolver seus
próprios problemas. O saber “como foi feito”, neste caso, é muito mais importante do que
saber “aquilo que foi feito”, ainda que ambos aspectos devam caminhar juntos.
Neste sentido, alguns autores chamam a atenção para a necessidade de uma maior
integração entre os processos de pesquisa, geração e comunicação de tecnologias, mediante
um estreito diálogo entre a pesquisa, a extensão e o agricultor (BOX, 1987; HOCDÉ, 1999;
20
FARIAS, 2000). Em trabalhos participativos, as ações de pesquisa e extensão estão
“grudadas” por meio de constantes processos de retro-alimentação. Nesses processos, ao invés
de o serviço de extensão ser a última etapa do trabalho de geração de uma tecnologia, ele está
presente desde o início, dialogando, ao mesmo tempo, com os agricultores e com os
pesquisadores.
Neste sentido, podemos afirmar que processos (pode ser uma pesquisa, um projeto, um
programa ou uma atividade de extensão) participativos demandam constantes trabalhos de
reflexão e ação, em que a teoria e a prática andam juntas. Para tanto, se faz necessário
planejar ações que respeitem, entre seus objetivos, requisitos como especificidade,
flexibilidade e sensibilidade (BUNCH, 1994).
Nesse contexto e diante dessa perspectiva que, em 2004, a Epagri, através do
PRAPEM/MB2, financiado pelo Banco Mundial e tendo como pressuposto a participação,
iniciou um processo de capacitação de seus técnicos, destinado a qualificá-los para atuar com
uma outra abordagem a pesquisa participativa. Para tanto, a estratégia adotada foi a realização
de seminários, cursos e projetos que tinham como base esses pressupostos em diversas regiões
do Estado de Santa Catarina. Nesses eventos, foi estimulada não a participação dos
pesquisadores e extensionistas da própria instituição como também pertencentes a diversas
outras de caráter público e da sociedade civil organizada, além de professores e alunos de
instituições de ensino e de profissionais autônomos de formações diferenciadas.
Tal situação resultou na formação de equipes multidisciplinares em 08 regiões do
Estado de Santa Catarina, denominadas de Unidades de Planejamento Regionais (UPRs), com
o intuito de desenvolverem projetos-piloto de pesquisa participativa (PINHEIRO; BOEF,
2006). O município de São Bonifácio pertence a UPR7, que abrange a região do litoral
catarinense, juntamente com outros 19 municípios. O importante a se observar nessa proposta
é que uma instituição que tradicionalmente realiza um serviço de extensão rural público,
baseado na teoria difusionista/inovador, como é o caso da Epagri, hoje se propõe a trabalhar
de forma diferenciada, mesmo que de maneira ainda muito incipiente, disposta a promover o
diálogo entre técnicos e pesquisadores, pertencentes a ela mesma e a outras instituições, e
agricultores.
Dentre esses projetos-piloto, encontramos o caso de São Bonifácio, que teve como
objetivo principal “Promover a melhoria da renda e da qualidade de vida dos agricultores
familiares da Microbacia do Rio do Poncho, São Bonifácio, Santa Catarina, pela
21
potencialização da capacidade produtiva da diversidade de pastagens nas experiências
inovadoras do “Grupo do Pasto”” (EPAGRI, 2005; p. 08). A relevância desta proposta está
justificada pela importância que a atividade leiteira tem para a região de São Bonifácio, a qual
representa uma das principais atividades econômica, ao lado da produção de fumo.
O início desse processo foi marcado pela criação, em 2004, do Grupo do Pasto,
formado por 40 famílias, com o objetivo principal de discutir coletivamente (entre técnicos e
pesquisadores da Epagri, produtores de leite do município, Secretaria Municipal de
Agricultura, técnicos de um dos dois laticínios privados do município e pesquisadores da
UFSC) temas relacionados à melhoria de sistemas de produção empregados e à implantação
do sistema de produção Pastoreio Racional Voisin (PRV). Em meados de 2005, este projeto
passou a abranger outras duas regiões do município, além daquela inicialmente estabelecida, a
da microbacia do Rio do Poncho. Estas duas áreas, juntamente com a do Rio do Poncho,
formam as principais microbacias do município, a do Rio Sete e do Rio Capivari
5
.
A partir de experiências vividas por esse grupo, surgiram novas demandas por
pesquisas que visassem a melhoria das condições sócio-econômicas dos agricultores e
compatibilizassem os interesses de uso e conservação dos recursos naturais da região. Neste
contexto, emergiram novos processos participativos
6
, entre os quais pode-se destacar duas
propostas de pesquisa participativa que deram origem a duas dissertações de mestrado. Uma
delas focou a demanda por sombreamento nos piquetes, visando o bem-estar dos animais, e a
outra visando discutir a paisagem e o uso do solo com base na legislação ambiental e na
percepção dos agricultores locais. A elaboração e a execução das pesquisas foram realizadas
em conjunto, envolvendo 12 famílias de agricultores familiares residentes nas três
microbacias.
O tema relacionado com o sombreamento dos piquetes foi desenvolvido e pesquisado
dentro do Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas, em nível de mestrado, na
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sob o título “Sistemas Agroflorestais
5 Todo o contexto deste projeto piloto, desde o período de colonização alemã até a formação do Grupo do
Pasto, é abordado de maneira mais detalhada por Caporal (2007).
6 Dentre os novos processos participativos desencadeados em São Bonifácio podemos citar: estudos e práticas
de tecnologia da melhoria da pastagem; arranjos silvipastoris; espacialidade ambiental; estudos de
tecnologias apropriadas das atafonas; design gráfico dos produtos artesanais da agricultura familiar local; e
marca territorial de São Bonifácio. Tais processos foram desenvolvidos através de parcerias entre a
comunidade local de agricultores familiares, Prefeitura Municipal de São Bonifácio, UDESC, UFSC, Epagri
MB2, e Laticínios Doerner. (informações obtidas de pôster publicado por José Giovani Farias et. al., no I
Colóquio Internacional sobre Desenvolvimento Territorial Sustentável realizado em Florianópolis-SC de 22 a
25 de agosto de 2007).
22
Pecuários: rumo à construção participativa com o Grupo do Pasto em São Bonifácio, SC”
(CAPORAL, 2007). Teve por objetivo realizar um estudo etnobotânico a respeito dos usos de
espécies florestais, culminando na elaboração de diferentes arranjos de sistemas silvipastoris
(CAPORAL, 2007). Com relação à discussão da legislação ambiental, o tema foi
desenvolvido e pesquisado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Geografia, em nível
de mestrado, na mesma instituição de ensino, sob o título “Transformação da paisagem em
São Bonifácio SC: a interface entre a percepção de agricultores familiares, as práticas de
uso do solo e os aspectos da legislação ambiental” (ALARCON, 2007). Seu objetivo foi
analisar as implicações da legislação ambiental sobre a dinâmica da floresta e as atividades de
uso do solo pelos agricultores do Grupo do Pasto, evidenciando a transformação da paisagem
desde 1950 até 2002 (ALARCON, 2007).
Este estudo se debruçará particularmente na análise do trabalho da proposta de
pesquisa participativa referente aos sistemas silvipastoris, uma vez que este pesquisador
esteve e está acompanhando tal processo mais tempo e também por possuir uma maior
identificação com o tema. Porém, antes de se definir com maior clareza os objetivos e
procedimentos que orientam este trabalho, julga-se necessário fazer uma breve reflexão sobre
as metodologias desenvolvidas em processos participativos, visando subsidiar o
desenvolvimento deste estudo.
1.2.2 Processos participativos métodos, ferramentas e/ou transformações
internas?
Para desenvolver processos de desenvolvimento rural, que tenham entre seus
pressupostos a participação, uma série de metodologias e ferramentas participativas
elaboradas e executadas no Brasil e no mundo.
Esses métodos participativos possuem sua origem em agentes preocupados com a
pouca efetividade dos métodos convencionais, baseados no simples difusionismo de
conhecimentos. Por conta disso, devemos ter sempre em mente que não se tratam de métodos
fechados aptos a serem aplicados em qualquer região, sob qualquer perspectiva, senão
estaríamos caindo no mesmo erro do difusionismo, e sim de princípios metodológicos, pois
cada método foi originalmente gerado em um determinado contexto (histórico, cultural,
político de uma região e/ou de uma instituição), disposto a resolver uma situação específica.
23
Sendo assim, deve seguir linhas gerais de execução, estando sempre aberto a adaptações
conforme as especificidades de cada caso.
Cada método possui um nome e um conjunto de objetivos e atividades a que se propõe
a atender. Estas atividades são realizadas através da utilização de um conjunto de ferramentas.
Tais ferramentas são escolhidas de acordo com os objetivos do método empregado, do
público ao qual se trabalha e da especificidade do conhecimento que se deseja construir ou
reelaborar. A utilização de ferramentas adequadas é um fator importante para o sucesso ou
não do método utilizado.
Podemos destacar diversos métodos participativos (ou princípios metodológicos)
empregados na promoção do desenvolvimento rural no Brasil e em diversas regiões do mundo
e que apresentam um variado conjunto de ferramentas participativas que auxiliam na
execução de cada um. Entre tantos existentes, podemos citar: ECAs (Escolas de Campo de
Agricultores), CIAL (Comitê de Investigação Agrícola Local), A/Es (Agricultores
Experimentadores), Campesino a Campesino, PPAA (Pesquisa Participativa de
Aprendizagem e Ação), DPT (Desenvolvimento Participativo de Tecnologias) e MEXPAR
(Metodologia Participativa de Extensão Rural para o Desenvolvimento Sustentável). O
objetivo aqui não é descrever cada método, até por que há uma vasta literatura sobre o assunto
(KAMP; SCHUTHOF, 1991; FARIAS, 2000; BOEF, 2006; RUAS et. al., 2006; entre tantos
outros), e sim, apresentar e discutir aspectos gerais. É importante também salientar que
nenhum método é melhor do que outro; cada um possui pontos fortes e fracos, o que os
tornam mais ou menos aptos para cada tipo de situação.
Os métodos participativos de geração de tecnologias possuem características comuns
por serem, em geral, métodos de pesquisa participativa dispostos a dar suporte aos
agricultores que, mediante o conhecimento de técnicas simples de experimentação, possam
realizar testes em suas propriedades, com o intuito de aprimorar seus sistemas produtivos,
pois a capacidade de os agricultores realizarem experimentos torna-se uma interessante
estratégia para sua autonomia e para a melhoria das tecnologias geradas, sempre muito
dinâmicas (BUNCH, 1994).
Do mesmo modo, surgiram a partir da necessidade de que boas idéias a respeito de
novas tecnologias chegassem ao conhecimento de um maior número possível de agricultores,
adotando como estratégia principal a comunicação entre eles mesmos.
Isso resultaria então em uma redução da importância do técnico-extensionista no
24
campo? Parece-nos que não. E por que não? Porque se assume como pressuposto que “o
mundo representado, e não o mundo em si mesmo, é constituído através de processos de
comunicação” (BAUER; GASKELL, 2005; p. 20), ou seja, processos participativos
pressupõem uma relação dialógica entre o técnico e o agricultor, não havendo uma soberania
ou total independência de nenhum destes dois tipos de conhecimentos em relação ao outro.
Não um detentor e um receptor do conhecimento; ambos acabam se caracterizando como
aprendizes. O que na verdade é uma maior interdependência destes conhecimentos,
reconhecendo-os como sendo diferentes, porém, complementares. O produto da estreita
relação entre estes conhecimentos constitui-se um dos objetivos finais dos métodos
participativos.
Esperamos que as potencialidades de se trabalhar com processos participativos tenham
ficado claras e evidentes no decorrer do texto, tendo por características principais a
valorização do saber do agricultor, o respeito a sua cultura, a horizontalidade de processos, o
estímulo ao sentimento de cooperação, o aumento da auto-estima do indivíduo e do grupo ao
qual pertence, o fortalecimento de identidade local, além da busca pela autogestão e
autonomia das populações rurais. Porém e apesar de tudo isso, se trabalhar com participação,
ainda é sinônimo de superar muitos desafios. Desafios estes presentes em diversas instâncias,
tanto institucional/financeira quanto individual.
Tendo em mente que “na maioria das culturas, a participação é uma arte que se
aprende” (BUNCH, 1994; p. 24), trabalhar com participação exige uma certa transformação
interna das pessoas (técnicos e agricultores) e, consequentemente, de instituições. Em relação
aos técnicos, um dos fatores limitantes para se trabalhar com abordagens participativas com
pequenos agricultores decorre de sua baixa capacidade técnica para atender aos sistemas de
produção (FARIAS, 2000). Isso se justifica pela dificuldade de os técnicos entenderem a
propriedade do pequeno agricultor como um todo, e que sua lógica de produção é orientada
por diversos fatores, além da busca por retorno econômico, como mão-de-obra disponível,
acesso a mercado e recursos naturais disponíveis. A dificuldade dos técnicos pode ter origem
também no conflito entre paradigmas que passam a enfrentar quando se propõem a trabalhar
com abordagens participativas. o confronto “Receitas Culinárias” versus “Processo
Facilitador” ou “Processo de Aprendizagem” (BOEF, 2006). Os técnicos são “formatados”
pela academia para trabalharem dentro do paradigma de receitas prontas, e muitas vezes o
próprio meio profissional onde atuam exige isso. Porém, profissionais que optam por
25
seguir abordagens participativas com vistas a construir conhecimentos, mas necessitam
primeiramente desconstruir ou reconstruir seu próprio paradigma (BOEF, 2006). ainda,
segundo Paulo Freire, um outro dilema a ser enfrentado por técnicos-extensionistas,
se transforma seus conhecimentos especializados,
suas técnicas, em algo estático, materializado, e os
estende mecanicamente aos agricultores, invadindo
indiscutivelmente sua cultura, sua visão de mundo,
estará de acordo com o conceito de extensão e estará
negando o homem como ser de decisão. Se, ao
contrário, o afirma através de um trabalho dialógico,
não invade, nem manipula, nem conquista, nega,
então, a compreensão do termo extensão (FREIRE,
1983; p. 48 Tradução nossa).
Mesmo que superem este dilema, fica ainda a pergunta: Como e onde identificar e
formar os investigadores, técnicos ou extensionistas com vocação para trabalhar com estas
abordagens participativas? Os técnicos devem estar capacitados à construir/adaptar métodos e
conhecimentos em conjunto com os agricultores e não simplesmente “repassar” um conjunto
de técnicas agrícolas para melhorar a produtividade de acordo com critérios de alguém de
fora. Além disso, deve esclarecer aspectos relativos a necessária co-responsabilidade das
ações de pesquisa-extensão rural entre o técnico e o agricultor.
O papel do técnico-extensionista tem que ser comparado ao de um espelho; suas
perguntas devem ter a capacidade de auxiliar a comunidade a analisar sua situação,
encontrando diferentes formas de melhorá-la (KAMP; SCHUTHOF, 1991). Neste sentido,
acrescentaríamos mais um “dilema existencial” ao técnico-extensionista tradicional: ele deve
ser responsável por apresentar perguntas ou respostas à comunidade com a qual trabalha?
Kamp e Schuthof (1991; p. 37) afirmam que “a população rural deveria participar
ativamente do desenvolvimento de suas comunidades”. Mas também levantam uma questão:
“A população rural tem tempo para discutir todos os seus problemas?” (KAMP; SCHUTHOF,
1991; p. 41). E perguntaríamos ainda: Será que muitas delas querem ou estariam dispostas a
discutirem seus próprios problemas? Será que algumas delas não estariam meramente
interessadas que alguém propusesse rapidamente uma solução para seus problemas?
Participação, segundo Ruas et al. (2006), constitui-se em algo que precisa ser
continuamente reconquistado, pois existe como conquista processual. Para exercer a
participação, é necessário que sejam pessoas capazes de questionar e refletir criticamente a
respeito da realidade na qual se encontram inseridas (RUAS et al., 2006). Será que em nosso
26
País encontramos muitos agricultores com esse perfil? Nosso sistema educacional nos prepara
para que sejamos cidadãos críticos?
Considerando esses pressupostos, estaríamos afirmando que existem diferentes graus
de importância de participação de acordo com as características de diferentes atores. Pensando
desta maneira, não estaríamos favorecendo que pessoas mais esclarecidas e lideranças locais
se sobrepusessem nas decisões de um determinado grupo, negando uma das principais
vantagens em se optar por processos participativos, que é fazer com que haja uma articulação
de diferentes interesses?
Estes questionamentos revelam que a pesquisa participativa, apesar de estar sendo
discutida aproximadamente três décadas, encontra-se, em termos conceituais e
metodológicos, em uma fase ainda embrionária. Probst et al. (2003) afirmam que um
grande número de atividades diferentes sob o rótulo de “pesquisa participativa”. Muitos
trabalhos vêm sendo desenvolvidos com uma utilização acrítica de abordagens participativas
que, muitas vezes, continuam sendo orientadas por pensamentos positivistas, tornando essas
experiências em apenas “um pouco mais do mesmo” (GOMES, 2001). A participação, em
muito casos, é compreendida como sendo o mecanismo que propicia que determinadas
atividades sejam desenvolvidas de acordo com os desejos e necessidades do “público
beneficiário”, ou seja, devem partir de “baixo para cima”. No entanto, participação pressupõe
articulação de saberes e interesses entre diversos atores, e essa articulação pode ser
realizada mediante a realização de processos horizontais e não verticais. Pois, em processos
verticais orientados de “baixo para cima” os atores “beneficiários” são tratados como clientes,
com os quais se detecta o problema e alguém de fora (“detentor do saber”) transmite
unilinearmente uma solução. Por outro lado, em processos horizontais ocorre a
problematização de uma determinada situação e suas possíveis soluções são construídas
coletivamente, mediante processos dialógicos entre os diferentes atores.
Probst & Hagman (2006), dão importante contribuição a essa discussão ao relatarem
que em boa parte dos casos a pesquisa participativa ocorre como uma forma de enriquecer o
modelo de transferência de tecnologia na medida em que se consideram o conhecimento e os
interesses dos agricultores na investigação científica para se gerar uma nova tecnologia.
Melhor dizendo, a pesquisa participativa constitui-se muito mais em uma articulação de
saberes com o intuito de adaptar uma determinada tecnologia a um local específico do que em
um método para gerar novas tecnologias.
27
Bentley (1997) revela em seu estudo que poucos registros de tecnologias que
tenham sido geradas por meio de interação formal entre pesquisadores e agricultores.
Killough (2006) relata um estudo feito na África, o qual revelou que apenas 15% dos
“experimentos conduzidos por agricultores” resultaram em uma nova tecnologia,
considerando que se mostraram muito mais complementares do que sinérgicos à pesquisa
científica formal e que estão mais relacionados à extensão do que propriamente à pesquisa.
A literatura faz algumas críticas ao público com o qual a pesquisa participativa se
propõe a trabalhar e com o qual ela realmente trabalha. dificuldades em se lidar com
situações em que um agricultor exerce determinados tipos de influência sobre os demais de
seu grupo. Além disso, geralmente, os que participam não são os mais pobres, e sim aqueles
que possuem estrutura mínima, como saber ler, escrever, capacidade de compreender,
observar, anotar e, talvez, aqueles que possuem sistemas de produção melhor desenvolvido ou
de maior interesse dos pesquisadores (GOMES, 2001).
Neste sentido, Probst et al. (2003) relatam alguns estudos que demonstram que
projetos realizados por algumas Ongs proporcionaram um baixo envolvimento de atores
locais. Demonstram ainda que grupos tradicionalmente marginalizados (mulheres, jovens,
idosos), teoricamente foco de processos participativos, foram “incluídos” (chamados a
participar) em estágios finais do processo, quando as tecnologias já haviam sido definidas e
se encontravam aptas a serem difundidas (PROBST et al., 2003).
Outro desafio demonstrado em experiências de pesquisa participativa é a dificuldade
em se manter uma continuidade dos trabalhos desenvolvidos. A importância de haver esta
continuidade se justifica no fato de que pesquisa participativa parte da valorização do
conhecimento local através do resgate de técnicas tradicionais na busca de alternativas futuras
(GOMES, 2001). Não havendo isso, corre-se o risco de se realizar apenas trabalhos pontuais,
contrariando a lógica da pesquisa participativa de gerar processos, e não apenas produtos.
Bentley (1997) relata uma pesquisa realizada com 25 estudos de caso de pesquisa
participativa que revelou a dificuldade em manter a participação dos agricultores para etapas
além das iniciais, como de diagnóstico, por exemplo. Gomes (2001) afirma que essa
dificuldade pode ser compreendida pelo fato de a participação continuada, de certa forma,
“prejudicar” os agricultores no desenvolvimento de suas atividades na propriedade.
Portanto, o que devemos compreender é que se trabalhar com processos participativos
nos proporciona uma série de potencialidades, porém não devemos fechar os olhos para os
28
limites dessas abordagens. Devemos estar sempre atentos ao fato de que trabalhar com
processos participativos trata-se de uma transformação interna de cada indivíduo e de
instituições, significando uma forma de viver e se relacionar diferenciada, baseada no saber
ouvir e na aprendizagem mútua, despida de intenções de dominação e invasão cultural. Por
ser orientado por princípios metodológicos e não métodos fechados, um processo
participativo pode trazer nele mesmo as respostas para se enfrentar os desafios que se
apresentam.
As idéias apontadas até aqui a respeito do que são processos participativos e o que
implica se utilizar de tais abordagens em ações de pesquisa-extensão rural, bem como seus
limites e desafios, servirão como alicerce para a análise e discussão do processo participativo
para elaboração de possíveis arranjos silvipastoris ocorrido em São Bonifácio, contexto desta
pesquisa. Através dos questionamentos levantados e de alguns entendimentos sobre o que
seria um processo participativo, apresentados ao longo deste capítulo, é que se procurará olhar
para o caso de São Bonifácio e se buscará compreender o que os diferentes atores-chave
envolvidos em tal processo entendem por participação.
Ao longo desta discussão, procuraremos estar atentos a algumas questões como: de
que tipo de participação estamos falando? Que interesses estão entremeados no discurso da
participação? Que divergências emergem deste processo participativo?
Com vistas a dar conta de tal reflexão, o objetivo geral desta pesquisa é Identificar e
analisar o entendimento coletivo sobre participação entre os atores (técnicos e agricultores)
de São Bonifácio-SC, envolvidos na pesquisa participativa sobre arranjos silvipastoris. Para
tanto, serão identificadas e analisadas as características do processo participativo sobre
arranjos silvipastoris a partir de atores-chave e também se identificará e analisará, sob a
percepção desses atores, as potencialidades e os desafios de se utilizar uma abordagem
participativa nas ações de pesquisa-extensão rural.
A fim de atingir o objetivo desta pesquisa, foram adotados alguns procedimentos
metodológicos, os quais se encontram detalhados a seguir.
1.3 – Procedimentos metodológicos
A pesquisa se desenvolveu a partir de um enfoque teórico-metodológico de
abordagens participativas em ações de pesquisa-extensão rural. Apresenta-se como uma
29
pesquisa de caráter qualitativo, utilizando-se de instrumentos metodológicos, como
observação direta e realização de entrevistas semi-estruturadas com atores-chave, procurando
analisar as informações mediante comparação com aspectos levantados por experiências
semelhantes apresentadas na literatura. A presente pesquisa transcorreu no período de abril de
2006 a novembro de 2007, com uma seqüência de etapas com dois objetivos distintos: 1º)
Reconhecimento do campo de trabalho e adaptação da proposta de pesquisa; 2º) Execução da
pesquisa.
1.3.1 Reconhecimento do campo de trabalho e adaptação da proposta de
pesquisa
Este passo se caracterizou como a primeira aproximação do campo de trabalho,
ocorrida no período de abril a setembro de 2006, mediante o acompanhamento da realização
de algumas etapas que constituíram a pesquisa participativa a ser analisada. O
acompanhamento dessas atividades teve extrema importância para a seqüência dos trabalhos
do presente estudo, na medida em que propiciou uma maior apreensão da realidade local;
integração com os agricultores e os técnicos envolvidos no processo; bem como o
embasamento necessário para se chegar à atual proposta de pesquisa. Quivy e Campenhoudt
(1992) afirmam que diversas formas de se realizar esta etapa exploratória, como através de
realização de entrevistas, observações e leituras. No âmbito desta pesquisa, as estratégias
adotadas foram leituras e observações.
No período de outubro de 2006 a novembro de 2007, desenvolveram-se as seguintes
atividades:
participação no Grupo Estadual de Pesquisa, Extensão e Aprendizagem
Participativa (PEAP) da Epagri, o qual teve o propósito de refletir sobre o
desenvolvimento dos 10 projetos-piloto sob o enfoque da pesquisa participativa,
desenvolvidos dentro do PRAPEM/MB2. Neste grupo, foram realizados encontros de
discussão semanais, buscando refletir conceitual e metodologicamente sobre a pesquisa
participativa;
participação no Encontro Estadual de Capacitação em Pesquisa Participativa,
realizado em novembro de 2006, na Estação Experimental da Epagri do município de
Campos Novos/SC; e no Encontro Estadual de Capacitação em Pesquisa Participativa,
30
realizado em novembro de 2007, no Centro de Treinamento da Epagri do município de
São Joaquim/SC; Onde estiveram presentes todas as equipes regionais da Epagri, cujo
objetivo foi refletir e debater sobre os 10 projetos em curso na instituição promotora do
evento, focando os procedimentos metodológicos que envolvem a prática da pesquisa
participativa;
revisão teórica, em artigos científicos e livros, de temas relacionados a processos
participativos na extensão rural, objetivando dar um maior suporte à elaboração do
método a ser empregado nesta pesquisa.
A idéia de se realizar uma pesquisa com o objetivo de se identificar e analisar o
entendimento coletivo a respeito de participação foi o resultado desta primeira fase. Através
do acompanhamento dos trabalhos desenvolvidos em São Bonifácio e de conversas com os
atores destes trabalhos é que se chegou à conclusão de que seria mais importante se fazer uma
pesquisa no sentido de dar continuidade ao processo desencadeado, e também de reflexão
sobre este processo, ao invés de construir uma proposta nova. Neste sentido, se faz necessário
um relato da situação na qual se elaborou e desenvolveu a presente pesquisa.
O contexto desta dissertação constitui-se nas etapas realizadas por Caporal (2007) em
seu estudo. O objetivo final da pesquisadora foi a elaboração de possíveis arranjos de sistemas
silvipastoris por doze famílias participantes do Grupo do Pasto. Para tanto, utilizou-se de
métodos e ferramentas participativas com o intuito de garantir que os arranjos silvipastoris
escolhidos contemplassem aspectos particulares de cada família e de sua propriedade. Em
linhas gerais, as etapas
7
realizadas correspondem a:
a) Diagnóstico do perfil da agricultura familiar de São Bonifácio:
Caracterizou-se por uma etapa inicial, de familiarização com o grupo de agricultores
com o qual se pretendia trabalhar. Este diagnóstico foi realizado através da identificação das
famílias agricultoras interessadas em participar da pesquisa e também através da
caracterização do perfil sócio-econômico das unidades familiares de produção.
Primeiramente realizou-se uma reunião em que se explicaram os objetivos da proposta
de pesquisa participativa, bem como as responsabilidades de cada um. Posteriormente,
realizaram-se entrevistas semi-estruturadas com cada família identificada. A análise desses
dados levantados permitiu que se chegasse a uma caracterização do perfil do agricultor
familiar de São Bonifácio, participante da pesquisa.
7 Para um melhor entendimento e detalhamento destas etapas, ver Caporal (2007).
31
b) Realização de estudo etnobotânico:
O objetivo desta etapa foi o de valorizar o conhecimento das famílias agricultoras
sobre as espécies arbóreas características da região onde vivem. Neste sentido, os métodos
empregados foram a listagem-livre de espécies arbóreas conhecidas pela família e a turnê-
guiada.
Durante a listagem-livre, os agricultores eram estimulados, mediante questões
orientadoras feitas pela pesquisadora, a não citar as espécies arbóreas que eles conheciam,
mas também a relatar aspectos específicos de cada uma dessas espécies, como seus principais
usos, formas tradicionais de manejo, características de crescimento e tipos de sombra.
A turnê-guiada foi realizada por meio de uma visita à propriedade de um dos
integrantes do grupo, onde foi possível a identificação visual das espécies mais citadas e a
sintonia do entendimento a respeito delas (tendo em vista que uma mesma espécie muitas
vezes era citada por diferentes nomes comuns). Além disso, oportunizou uma troca de
conhecimento entre os agricultores acerca dos aspectos específicos das espécies, referidos
anteriormente, e a discussão das potencialidades de cada uma para compor o arranjo
silvipastoril.
c) Discussão e desenho de sistemas silvipastoris:
Esta etapa foi desenvolvida através da realização de duas oficinas: uma com os
técnicos locais
8
e outra com o grupo de agricultores. Além de terem sido realizadas
separadamente, cada uma dessas oficinas teve um formato diferente. Porém objetivos comuns:
refletir a respeito de diferentes arranjos silvipastoris possíveis de serem implantados em São
Bonifácio.
A oficina realizada com os técnicos locais teve o propósito também de refletir a
respeito das potencialidades e limites de se implantar sistemas silvipastoris. Para cumprir tal
objetivo, foi proposto um conjunto de perguntas orientadoras como: a) No seu entendimento,
quais são os aspectos positivos e negativos da convivência entre as árvores e a pastagem? b)
No seu entender, como deve ser a dinâmica temporal do sistema – tempo de permanência das
árvores nos piquetes? c) Considerando a paisagem do município, no seu entendimento o
sistema deveria ser composto por espécies: nativas, exóticas ou ambas? Ainda, quais as
principais funções e características desejadas para tais espécies? Com base nessa discussão e
na apresentação de algumas propriedades hipotéticas, cada técnico foi convidado a elaborar
8 Não relatada no estudo de Caporal (2007), mas, por se constituir em um acontecimento importante para o
contexto desta dissertação, se faz necessário aqui relatá-la.
32
um arranjo silvipastoril que considerava mais apropriado a essas propriedades.
Posteriormente, cada um apresentou e discutiu sua proposta no grande grupo.
A oficina com o grupo de agricultores teve dois momentos-chave. O primeiro serviu
para se definir padrões a respeito de critérios levantados pelos agricultores nas etapas
anteriores. Estes padrões foram definidos tentando construir um entendimento coletivo a
respeito do tipo de sombra (o que era uma sombra boa? O que era uma sombra ruim?), tipo de
crescimento (o que era crescimento lento, moderado e rápido?) e facilidade de rompimento de
galhos e troncos (o que era de rompimento fácil, médio e difícil?), estabelecendo parâmetros
para cada um destes aspectos.
No segundo momento, realizou-se uma exposição a respeito de diversas formas
possíveis de se pensar os arranjos silvipastoris e seus diferentes objetivos. Diante disso, cada
agricultor recebeu o croqui de sua propriedade e desenhou as espécies que mais lhes
interessavam, dispondo-as conforme as especificidades de sua área e de seus objetivos com
elas. Esta oficina foi finalizada com a apresentação de cada agricultor do arranjo de sua
preferência para discussão no grande grupo.
1.3.2 – Definição de um método para execução da pesquisa
Para se atingir os objetivos desta dissertação, optou-se por seguir um método baseado
no proposto por Lefèvre e Lefèvre (2005), denominado de “Discurso do Sujeito Coletivo”
(DSC). A escolha deste método se justifica pelo fato de que, conforme Lefèvre e Lefèvre
(2005), um pensamento, uma idéia ou uma opinião se constitui sempre em um discurso. E a
melhor maneira de descrever este pensamento, idéia ou opinião, de um indivíduo ou de uma
coletividade, é coletando-o, processando-o e apresentando-o sob a forma de discurso.
Tal metodologia permite que, em um universo limitado, o próprio pesquisador
componha a sua amostra, escolhendo os indivíduos para participar da pesquisa conforme as
características que se deseja estudar (LEFÈVRE; LEFÈVRE, 2005). No contexto deste
estudo, foram escolhidos seis (06) indivíduos, denominados atores-chave, que estiveram
envolvidos no processo durante todo o período a ser analisado (Março-Dezembro de 2006).
Estes atores-chave foram assim distinguidos: atores-chave 1 e 2 são os agricultores; atores-
chave 3 e 4 representam o setor público, sendo o ator-chave 3 um técnico extensionista da
Epagri, e o ator-chave 4, o secretário municipal da agricultura; ator-chave 5, que corresponde
a um dos dois técnicos do laticínio que presta assistência técnica e compra o leite produzido
33
pelos atores-chave 1 e 2; por fim, ator-chave 6 representa os parceiros externos (UFSC). Esta
distribuição tem por objetivo tentar evidenciar o conjunto de interesses e de convergências e
divergências de pensamentos a respeito do processo, de acordo com tais categorias.
Para tanto, se fez necessário perguntar, de modo que esse conjunto de atores
expressasse um pensamento, ou seja, um discurso. A estratégia adotada foi a elaboração de
um roteiro de entrevista semi-estruturada
9
composta por perguntas abertas capazes de
promover um discurso. A escolha do método de entrevista semi-estruturada ocorreu devido a
se considerar que a entrevista se constitui em uma forma de interação, uma troca de idéias e
de significados, em que várias realidades e percepções são exploradas e desenvolvidas.
Portanto, tanto o entrevistado como o entrevistador estão, de formas distintas, envolvidos em
um processo de construção de conhecimento (BAUER; GASKELL, 2006).
O roteiro da entrevista era composto por sete (07) perguntas colocadas aos
entrevistados nesta mesma ordem:
1. Como começou o trabalho que envolve as árvores e o pasto?
2. Você poderia me descrever como foi feito este trabalho?
3. De que forma você participou deste trabalho?
4. Que outras pessoas participaram também? Qual o papel delas?
5. Houve uma diferenciação na colaboração de agricultores e técnicos neste
processo? Como foi isso?
6. O quê você tem a dizer a respeito da forma como se realizou o trabalho para a
elaboração dos desenhos dos possíveis arranjos silvipastoris?
7. Você acha que este trabalho foi diferente de outros que aconteceram na
região? Se sim, o que há de diferente? Se não, por quê?
É importante ressaltar que estas perguntas não nasceram a priori. Elas são o resultado
não apenas da teoria que orienta a ação do pesquisador mas também fruto das informações
obtidas com a observação direta.
As entrevistas tiveram duração média de 25 minutos, gravadas com o consentimento
dos entrevistados e posteriormente transcritas na íntegra. Visando facilitar o processo de
análise dos dados, estas transcrições foram organizadas de maneira a apresentar as respostas,
de cada ator-chave na íntegra para cada uma das sete perguntas (APÊNDICE A). A partir de
9 Entende-se por entrevista semi-estruturada aquela que possui sua origem em questionamentos básicos,
calcados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que, em seguida oferecem vasta gama de
interrogativas, conseqüência de novas hipóteses que vão surgindo a medida que se obtém as respostas do
entrevistado (TRIVIÑOS, 1987).
34
então, teve início a etapa de identificação de idéias centrais que caracterizavam cada um dos
três temas-base, relacionados ao processo participativo, no interior de cada discurso para a
formação dos DSCs (APÊNDICE B). Estes temas-base estão relacionados aos objetivos
específicos desta dissertação. São eles: a) as principais características de um processo
participativo; b) as potencialidades visualizadas pelos atores-chave de se utilizar abordagens
participativas em ações de pesquisa-extensão rural; c) alguns desafios que se apresentam em
processos participativos semelhantes ao ocorrido em São Bonifácio.
Com o intuito de não influenciar nas respostas, tentando promover o máximo possível
de veracidade no discurso de cada ator-chave, no início das entrevistas foi exposto que o
objetivo do trabalho era fazer uma reflexão a respeito da pesquisa participativa desenvolvida
para elaboração de possíveis arranjos silvipastoris. Neste sentido, a composição dos discursos
e sua análise será feita em cima dos temas-base apresentados e não de acordo com as
respostas a cada pergunta da entrevista, como prevê Lefèvre e Lefèvre (2005), constituindo
assim uma adaptação ao método, respeitando os objetivos e a especificidade desta pesquisa.
Para melhor compreender e, conseqüentemente, melhor analisar os DSCs construídos
a partir dos discursos de cada ator-chave, faz-se necessário apresentar uma contextualização
do processo participativo, foco deste estudo.
35
CAPÍTULO 2 – Contextualização do processo participativo sobre
arranjos silvipastoris em São Bonifácio – SC
A partir da base teórico-metodológica apresentada no capítulo anterior, a seguir situa-
se quem são os atores-chave sujeitos da pesquisa com o intuito de apontar algumas de suas
características culturais que, de certa maneira, possuem influência sobre suas ações no
município. Tais características possuem uma interessante relação com as características
ambientais da região e do processo de ocupação de São Bonifácio, como pode ser observado a
seguir.
2.1 – O município de São Bonifácio – um breve histórico
São Bonifácio está localizado a aproximadamente 80 km da capital catarinense,
Florianópolis (FIGURA 1). Abrange um dos últimos fragmentos remanescentes de Floresta
Atlântica do Sul do Brasil, possuindo aproximadamente 21% de sua área protegida por uma
unidade de conservação denominada Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. O estado atual da
floresta na região de São Bonifácio é de uma enorme devastação, principalmente
impulsionada pela indústria madeireira. A população atual do município é, em sua maioria,
moradora da área rural, onde predominam sistemas de produção com mão-de-obra familiar.
Olhar para trás e buscar entender como se deu o processo de colonização na região onde se
pretende trabalhar é um passo muito importante para um melhor entendimento a respeito da
situação sócio-econômico-ambiental atual da região.
No início do século XIX, o Governo Imperial brasileiro selecionava algumas áreas a
serem colonizadas por imigrantes europeus (neste caso, principalmente alemães), seguindo
alguns interesses próprios. A eles interessava povoar áreas tipicamente de florestas,
principalmente na Região Sul do Brasil, neste caso, especificamente Santa Catarina, com o
intuito de ligar as áreas litorâneas ao Planalto como forma de facilitar o trânsito de produtos a
serem comercializados (SEYFERTH, 1974).
Seriam distribuídos pequenos lotes entre os produtores para que cultivassem as áreas
de mata nativa com auxílio da família. A divisão do trabalho nestas propriedades era exercida
de acordo com a composição da família, em que “todos os seus membros, com exceção das
crianças muito pequenas ou das pessoas muito idosas, tinham sua parcela de trabalho, agrícola
36
ou não” (SEYFERTH, 1974, p. 75). A maior ou menor produção agrícola estava intimamente
ligada ao tamanho da família, ou seja, quanto maior o número de membros de uma família
maior seria a produção agrícola.
FIGURA 1: Mapa de localização do município de São Bonifácio no Estado de Santa Catarina.
Neste sentido, esses colonos
10
alemães ocuparam terras anteriormente habitadas por
índios e caboclos e trouxeram consigo seu modo de vida e de produção. Adotaram a
agricultura como seu recurso principal, dentro de um regime de pequena propriedade, cultivos
diversificados (policultura), além da pecuária, porém como uma atividade secundária e
limitada (SEYFERTH, 1974). Diferentemente de seus locais de origem, encontraram em São
Bonifácio uma enorme oferta de madeiras nobres e, como o manejo delas não fazia parte de
sua cultura, esses imigrantes substituíram grande parte das áreas de mato nativo por áreas
destinadas à pastagem e à agricultura. Começava então o processo de degradação ambiental
em São Bonifácio.
Estimulada pela construção civil de algumas das principais cidades da região
(Florianópolis e Tubarão) e, pela necessidade de alternativas de geração de renda por parte
dos agricultores, a indústria madeireira ganhou força em meados do século XX. Em
decorrência, houve a instalação de inúmeras madeireiras na região, o que acarretou um
aumento significativo da retirada de mato nativo pelos agricultores, sem nenhum tipo de
10 Entende-se aqui por colono a definição descrita por Seyferth (1974), em que o conjunto de lotes cedidos pelo
Governo Imperial para abrigar os imigrantes alemães ficou conhecido como Kolonie (colônia). Por
conseqüência, quem habitava essas colônias ficava conhecido por colono.
37
planejamento. Frente a essa situação e por se tratar de uma área de Mata Atlântica, em 1975
foi criado o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.
São Bonifácio, por ter sido colonizado por imigrantes alemães que sempre trabalharam
em regime familiar, tendo a produção voltada para a subsistência e o mercado, até hoje
mantém o eixo de sua economia centrado na atividade pecuária e agricultura de base familiar.
A exploração familiar não apenas possui seus objetivos voltados à produção e ao consumo,
mas também se preocupa com a acumulação e transmissão do patrimônio, assim como a busca
pela reprodução de seus sistemas de produção ao longo das gerações da família. É neste
contexto que se faz necessário entendermos que tipo de agricultor familiar é este de São
Bonifácio e como ocorre a sua interação com os recursos naturais.
2.2 – O Agricultor Familiar de São Bonifácio membro do Grupo do Pasto
O tema “agricultura familiar” deve ser tratado com muito cuidado devido à enorme
diversidade apresentada por esta categoria de acordo com diversos níveis de envolvimento
familiar e integração com o mercado. De maneira geral, o conceito de agricultura familiar
corresponde ao tripé: trabalho-produção-família, ou seja, a mão-de-obra utilizada no trabalho
é, em sua maioria, da própria família; é ela responsável pela administração e tomada de
decisões relativas aos aspectos produtivos; e também é ela que detém a posse da terra e dos
meios de produção.
Não se constitui objetivo desta dissertação identificar o tipo de agricultor familiar que
constitui o Grupo do Pasto em São Bonifácio, tendo em vista que fora identificado por
Caporal (2007) no contexto de seu estudo. Porém, se faz necessário apresentar aspectos gerais
desse agricultor familiar para melhor entendermos como ele se relaciona com a natureza e a
necessidade de se trabalhar com ele utilizando-se de abordagens participativas.
De acordo com o estudo de Caporal (2007), os agricultores familiares membros do
Grupo do Pasto em São Bonifácio correspondem à tipologia “agricultor familiar moderno”
proposta por Lamarche (1998). Acrescentaríamos ainda que a este agricultor também
corresponde a tipologia de agricultor de “pequena produção mercantil” proposta por Ploeg
(2006). Ele possui como características básicas a comercialização do resultado da produção,
no entanto, a força de trabalho e os recursos essenciais, como terra, sementes, conhecimento,
água, animais etc., não são considerados somente como mercadorias, havendo diversos outros
38
aspectos subjetivos que envolvem cada um desses recursos, que vão além da simples troca
monetária (PLOEG, 2006). Há uma forte inter-relação entre a produção e o consumo familiar,
em que predomina a produção de valores de uso, e não de valores de troca, e a unidade
familiar utiliza-se de mão-de-obra externa, porém mais temporária do que permanente
(LAMARCHE, 1998).
Na expectativa de se atingir uma certa autonomia (busca pela sobrevivência, dignidade
e uma vida melhor), os agricultores articulam-se num processo contínuo de construção,
aperfeiçoamento, ampliação e defesa de uma importante base controlada de recursos (recursos
naturais, conhecimento local e relações sociais), inserindo-se em uma co-produção (PLOEG,
2006). Os aspectos importantes dessa co-produção são a interação entre o homem e a natureza
viva e entre os recursos sociais e materiais, além da articulação com os mercados em que uma
parte da produção é comercializada, outra é consumida pela família e outra é utilizada para
alimentar o ciclo de produção (PLOEG, 2006).
Em síntese, o agricultor familiar do Grupo do Pasto é um agricultor com algumas
características camponesas, porém mais tecnificado e com mais necessidades (LAMARCHE,
1998). Por disporem de uma base limitada de recursos, necessitam desenvolver estratégias de
produção que sejam compatíveis e que não haja uma deterioração da qualidade destes
recursos ao longo do tempo (PLOEG, 2006). Aliado a estes fatores, podemos acrescentar o
que Carmo (1998) chama de “racionalidade limitada do agricultor”, o qual não dispõe da
informação perfeita, porém procura manter um equilíbrio entre o ótimo e o satisfatório
possível.
Diante disso, a dinâmica familiar de produção adquire outros objetivos, além daqueles
orientados pela necessidade de acumulação de capital, que determinam suas tomadas de
decisões como a busca pelo “equilíbrio em função do conjunto doméstico e da fase que
atravessam quanto ao crescimento, à maturidade ou regressão numérica” (CARMO, 1998, p.
229). Sua lógica de desenvolvimento e prosperidade se de tal forma diferenciada da lógica
patronal, que pode ser obtida mesmo com uma renda capitalista em decadência (CARMO,
1998).
Wanderley (2000) afirma que, no Brasil, a agricultura familiar se caracteriza por se
apresentar como uma realidade complexa e multifacetária, que não se resume na simples
oferta de produtos ao mercado, mas disponibiliza também outros benefícios à sociedade,
incluindo bens considerados imateriais, o que torna a agricultura uma atividade com diversas
39
funções, isto é, multifuncional. Carmo (1998, p. 231) afirma que:
a produção familiar, dadas as características de
diversificação/integração de atividades vegetais e
animais, e por trabalhar em menores escalas, pode
representar o locus ideal ao desenvolvimento de
uma agricultura ambientalmente sustentável.
Diante desse perfil do agricultor familiar do Grupo do Pasto e das perspectivas
apontadas pela literatura a esta categoria, se faz ainda necessário apresentar qual a relação de
suas características peculiares com as formas de manejo dos recursos naturais desenvolvidas
em São Bonifácio.
2.3 A atividade leiteira, a agricultura familiar e o manejo dos recursos
naturais
São Bonifácio possui, em sua extensão, áreas que se localizam muito próximas, e
algumas até mesmo dentro da área pertencente ao Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, e,
aliado ao fato de grande parte das propriedades possuírem áreas de encosta de morro e
algumas serem até bastante pedregosas, isso proporciona aos agricultores locais fortes
restrições ambientais para a produção de alimentos (FIGURA 2). Diante de tais condições,
esses agricultores desenvolveram estratégias para a utilização de suas propriedades através da
pecuária extensiva, do reflorestamento com monocultivo de espécies exóticas e a apicultura
(produção de mel de abelhas exóticas do gênero Apis). Porém, estas práticas se confrontam
com a relevância ecológica da região e acabam gerando conflitos entre os interesses de uso e a
conservação dos recursos naturais.
A atividade leiteira representa uma das principais atividades econômicas do
município. Neste sentido, surgiu a necessidade de se encontrar alternativas para essa produção
leiteira, as quais estivessem em consonância com a relevância ecológica da região. Foi então
que a partir de 2002 uma nova alternativa para essa atividade começou a ser discutida no
município. Ela é conhecida como PRV (Pastoreio Racional Voisin), que tem como objetivo
principal incrementar a produtividade leiteira mediante o manejo adequado e melhoramento
da pastagem. Devido à forma como ocorre a produção leiteira neste tipo de sistema, que pode
ser melhor visualizada e compreendida por meio do livro de André Voisin, de 1957, intitulado
“Produtividade do Pasto”, ele é considerado como causador de reduzidos impactos
40
ambientais. Caporal (2007) relata estudos que comprovam que o PRV possui a capacidade de
aumentar a biodiversidade do solo, aumentando assim a sua vida; favorecer a capacidade de
conservar a água no solo, evitando assim degradações nas propriedades como erosão; além de
proporcionar um melhoramento do bem-estar animal.
FIGURA 2: Paisagem característica do município de São Bonifácio (Foto: Daiane Caporal Maio/2006).
A partir de meados de 2005, os agricultores do Grupo do Pasto passaram a perceber
que manejar a pastagem não era mais suficiente para sua produção leiteira. Observavam
que seus animais sofriam muito com a exposição ao sol, principalmente nos períodos de
verão, perdendo assim um pouco de sua produtividade. Além dessa demanda por sombra,
Caporal (2007) demonstra que esses agricultores possuem na árvore outros interesses, como
produção de pólen e néctar para as abelhas, preservação de espécies nativas, produção de
frutas, conservação da água, além da “estética” da propriedade.
As características gerais da agricultura familiar, em especial do agricultor familiar do
Grupo do Pasto, somando-se às idéias de Eric Sabourin a respeito de reciprocidade, baseadas
nas teorias de alguns outros autores, podem ser úteis para explicarmos esta situação. Sabourin
(2006) faz um interessante questionamento sobre as teorias de coesão social, seu principal
argumento é que tudo ocorre devido a algum tipo de interesse, seja ele individual ou coletivo.
O autor exemplifica uma série de tipos de reciprocidades possíveis, mas para o nosso caso de
41
discussão utilizaremos a “estrutura de reciprocidade ternária unilateral”. Este é um importante
elemento que pode nos dar uma justificativa para a opção dos agricultores familiares em
quererem acrescentar um viés “mais ambiental” aos seus sistemas de produção leiteira, pois
são “motivados pela responsabilidade da humanidade perante as gerações futuras”
(SABOURIN, 2006, p. 225). Este tipo de reciprocidade não possui interesse de um retorno
imediato, e sim para as próximas gerações de suas respectivas famílias, por isso se caracteriza
como unilateral. Prova disso é o caso de um agricultor de São Bonifácio que, quando
questionado a respeito de seus critérios de seleção de espécies e seus objetivos com a árvore
no sistema, afirmou que gostaria que seu filho de um ano de idade tivesse a oportunidade de
conhecer tais espécies
11
.
Porém, incrementar árvore no pasto vai além. A árvore representa um elemento a mais
a ser manejado em seu sistema produtivo. Ademais dos tradicionais manejos do gado e da
pastagem, o agricultor passa agora a se preocupar com o manejo das árvores. Mas o que
significaria isso em termos ambientais e culturais?
Para entendermos o significado da árvore no sistema sob estas perspectivas, faz-se
necessário recorrermos à noção de sistemas agroflorestais. Entende-se por sistemas
agroflorestais (SAFs) o coletivo de práticas e formas de uso da terra, cujas espécies perenes
lenhosas (árvores e arbustos) são plantadas em associação com cultivos agrícolas e/ou
animais, numa mesma área, tanto em mistura espacial ou seqüencial temporal, com interações
ecológicas significativas entre estes componentes (DUBOIS et al., 1996). Ou ainda, como
afirmam D'Agostini et al. (2007), SAFs correspondem a um modo de produzir. De acordo
com as combinações dos componentes, diferentes denominações para SAFs,
correspondendo a diversos tipos. Entre tantos, e o que mais interessa a essa discussão, o
chamado Sistema Silvipastoril (SSP). Este tipo de sistema corresponde ao arranjo de árvores
ou arbustos em associação com plantas forrageiras herbáceas e animais (Dubois et al., 1996).
Compreendido isso, qual a relevância dos sistemas agroflorestais, em especial os silvipastoris,
para os agricultores familiares do Grupo do Pasto?
Diversos estudos
12
demonstram que a árvore, inserida no sistema gado-pastagem,
exerce importante influência no que corresponde à conservação ambiental e longevidade
desse sistema, como a capacidade de seqüestrar carbono; baixa oxidação da matéria orgânica
11 Informação obtida em conversa informal do pesquisador com o agricultor.
12 Este relato está baseado em anotações feitas pelo pesquisador ao longo do curso “Atualização em
Arborização de Pastagens”, proferido pelo pesquisador da Embrapa/Florestas Vanderley Porfírio da Silva, em
julho de 2007, no Centro de Treinamento da Epagri/CETUBA no município de Tubarão – SC.
42
no solo devido à sombra; deposição dessa matéria orgânica com aporte de nutrientes (C, N, P,
K, Ca e Mg); promove fixação biológica de nitrogênio e associações micorrízicas; suas raízes
rompem camadas mais profundas do solo, proporcionando uma melhor disponibilidade de
água e nutrientes para a pastagem; conforto térmico do animal e proteção de forrageiras a
extremos de temperaturas (muito baixas no inverno e muito altas no verão); nutrientes
contidos na poeira são interceptados por sua copa e disponibilizados à pastagem por
escorrimento da água da chuva; em terrenos acidentados, como é o caso de São Bonifácio,
proporciona o impedimento do escorrimento superficial da água da chuva evitando assim
processos erosivos.
O que se pretende aqui é demonstrar que a produção leiteira em sistemas silvipastoris
representa não uma alternativa de produção em sintonia com a relevância ecológica da
região, mas também garantir a reprodução do sistema produtivo, requisito básico da
agricultura familiar. Aumentando-se o número de componentes de um sistema, se estará
aumentando também a autonomia desses componentes, tornando o sistema mais confiável
(D'AGOSTINI et al., 2007). Ou seja, além de o gado continuar se alimentando da pastagem,
esta alimentação poderá estar sendo complementada com a forragem produzida pelas árvores,
significando que, em períodos de baixa produtividade da pastagem, o agricultor pode contar
com o complemento alimentar das árvores.
Além disso, o gado, assim como as pessoas, gosta de alimentos variados, tendo a
opção de pastagem, frutas e/ou das folhas das árvores. Utilizando espécies arbóreas
apropriadas, o agricultor poderá disponibilizar nutrientes necessários ao bom
desenvolvimento de sua pastagem que, por conseqüência, estará disponibilizando um bom
alimento ao seu gado. Conseguirá, assim, reduzir custos quanto a insumos externos à
propriedade (adubos e ração, por exemplo). De “brinde”, pode ainda, a longo prazo e se essas
árvores forem bem manejadas, conseguir uma renda com a madeira; pode utilizar essa
madeira para consumo interno (pequenas construções, lenha, ferramentas etc.); obter uma
maior disponibilidade de alimento (pólen e néctar) para suas abelhas, além de permitir a
sobrevivência e perpetuação da fauna silvestre.
O que estamos falando aqui não é do caráter ambiental da árvore no sistema, mas
também de aspectos econômicos que ela pode proporcionar. Para tanto, não podemos pensar a
propriedade desse agricultor apenas pelo viés da produção leiteira, e sim a propriedade como
um todo. Seus benefícios econômicos, às vezes, podem até não vir de uma maneira mais
43
direta, mas, para um agricultor familiar, deixar de gastar com insumos vindos de fora
representa um importante lucro para suas finanças.
Apesar dessas vantagens, ainda há muitos desafios para se trabalhar com SSPs em São
Bonifácio, principalmente os relacionados com divergências geradas pela diversidade de
interesses que fazem parte da cadeia produtiva do leite e a aspectos culturais de técnicos e dos
próprios agricultores. Por conta desses desafios e da importância de se valorizar atributos
culturais é que as pesquisas realizadas em conjunto com as populações rurais assumem um
papel fundamental. Neste sentido, se faz necessário realizar uma breve apresentação dos
atores-chave participantes desta pesquisa, evidenciando algumas de suas principais
características que, em nossa visão, exercem alguma influência em suas ações.
2.4 – Os atores-chave do processo participativo sobre arranjos silvipastoris
Como anteriormente relatado, o grupo de atores-chave que compõem esta pesquisa
representam dois agricultores (atores-chave 1 e 2) e quatro técnicos de diferentes “esferas”
(atores-chave 3, 4, 5 e 6).
O Grupo do Pasto é formado por 40 famílias de pequenos agricultores familiares,
produtores de leite em São Bonifácio, das quais 12 se mostraram interessadas em participar da
pesquisa participativa sobre arranjos silvipastoris desenvolvida por Caporal (2007) por
considerarem importante proporcionarem sombra para seus animais. Destas 12 famílias, 07
participaram mais ativamente das etapas propostas na referida pesquisa, elaborando seus
desenhos de arranjos silvipastoris possíveis de serem implantados e manejados em suas
propriedades. Das 07, apenas 03 foram selecionadas como atores-chave a serem entrevistados
pelo presente estudo, devido ao fato de se mostrarem mais interessados e comprometidos com
o processo, participando de todas as atividades
13
.
No entanto, por razão de o período de realização das entrevistas semi-estruturadas
coincidir com o período de colheita do fumo, portanto de intensa carga de trabalho de uma
dessas três famílias, apenas duas acabaram tendo a possibilidade de participar da pesquisa
14
.
13 É importante salientar que o método empregado nesta pesquisa, ou seja, a realização de entrevistas semi-
estruturadas com perguntas abertas, foi desenvolvido com o intuito de que o entrevistado contasse a história
do processo participativo sobre arranjos silvipastoris. Portanto, não fazia muito sentido entrevistar pessoas
que não acompanharam tal processo por inteiro.
14 Cabe ressaltar que as entrevistas foram realizadas individualmente, apenas com um representante de cada
família mais estreitamente ligado às atividades da pesquisa participativa sobre sistemas silvipastoris
44
A primeira família agricultora, representada pelo ator-chave 1, é composta por três
pessoas, sendo, além do próprio agricultor, sua esposa e seu filho de um ano de idade.
Segundo Caporal (2007), esta família
15
possui uma propriedade com o total de 14 hectares,
sendo
16
: 1ha com lavoura permanente; 0,5ha com lavoura temporária; 5ha destinados à
produção leiteira; 2,5ha ocupados com reflorestamento de Eucalipto; e 3ha destinados a áreas
de preservação com mata nativa. Como é possível perceber, a maior parte da propriedade
(5ha) é destinada à produção de leite, em que são manejados 20 animais em PRV composto
por 50 piquetes de aproximadamente 1.000m² (FIGURA 3).
FIGURA 3: Alguns piquetes da propriedade do ator-chave 1 (Foto: Luis de Freitas Dez/2007).
O produtor pretende que a árvore em seu sistema leiteiro produza sombra para seus
animais, frutas para consumo próprio e dos animais, além da preservação de algumas espécies
de sua preferência. Por representarem um casal jovem, cujo esposo trabalhou por um tempo
na cidade, retornando ao campo por opção própria e por estarem abertos a novas idéias que
possam de alguma forma contribuir para a melhoria das atividades desenvolvidas na
propriedade, esta família possui extrema importância com relação aos objetivos desta
realizada.
15 Identificada no estudo de Caporal (2007) como família F3.
16 A discriminação do tamanho das áreas e respectivas formas de utilização constituem valores aproximados em
hectares, portanto pode haver discrepância com o tamanho total da área.
45
proposta de pesquisa.
A segunda família agricultora, representada pelo ator-chave 2, é composta por um
casal de idosos e três filhos homens solteiros que residem na propriedade e realizam as
atividades. Segundo Caporal (2007), esta família
17
possui uma propriedade com tamanho total
de 80,9 hectares distribuídos em: 3,9ha com lavoura temporária; 0,5ha com lavoura
permanente; 24ha para produção leiteira; 2,5ha destinados ao reflorestamento com Eucalipto;
e 50ha utilizados como área de preservação com mata nativa. Como pode ser observado por
meio dos dados apresentados, a maior área da propriedade destinada à produção é para a
criação de gado leiteiro (24ha). Destes 24ha, apenas 5,2ha são destinados ao PRV, em que são
manejados 20 animais, sendo o restante da área destinado à produção extensiva. Dos 20
animais, atualmente 10 se encontram em fase de lactação, gerando uma produção diária que
varia entre 90 e 100 litros de leite (FIGURA 4).
FIGURA 4: Alguns piquetes da propriedade do ator-chave 2 (Foto: Luis de Freitas Dez/2007).
Com a finalidade de diversificar sua atividade econômica, recentemente esta família
demonstrou o interesse na produção de frutas que tenham potencial comercial para secagem,
questão discutida no âmbito do Grupo de Agroecologia que vem se formando em São
Bonifácio. Neste sentido, os objetivos dessa família com a implantação das árvores em seu
17 Identificada no estudo de Caporal (2007) como família F6.
46
sistema de produção leiteiro, além da sombra para as vacas, é a produção de frutas para
autoconsumo e secagem (comércio), produção de madeira para lenha, comercialização de
toras, além de outros usos na propriedade e recomposição de áreas de mata ciliar.
Com base nessas informações dos atores-chave 1 e 2, podemos compreender melhor a
lógica que orienta os agricultores familiares no que se refere à incorporação do elemento
árvore no sistema gado/pastagem, bem como da importância de se conduzir este processo de
maneira participativa. Cabe destacar ainda que, como vimos anteriormente, os objetivos de
cada família com a árvore são distintos, porém estão intimamente ligados à forma
característica de um agricultor familiar visualizar sua propriedade e seus sistemas produtivos,
valorizando também outros aspectos que vão além daqueles meramente econômicos. Os
agricultores entrevistados (denominados de ator-chave 1 e ator-chave 2), através da
composição dos DSCs com expressões contidas nos discursos de cada um, nos mostrarão
importantes elementos que nos permitirão compreender como é visto e entendido um processo
participativo por parte de quem são considerados protagonistas desses processos.
Os outros protagonistas são sintetizados pelo grupo de técnicos participantes desta
pesquisa, que correspondem a “esferas” diferenciadas, desempenhando papéis distintos dentro
do processo participativo para elaboração de possíveis arranjos silvipastoris em São
Bonifácio.
A intensão inicial era entrevistar todos os técnicos envolvidos nesse processo,
procurando evidenciar os entendimentos distintos de cada um, correspondendo à sua posição
no município e à instituição à qual pertence, porém, isso não se fez possível. Dentro do
município fortes e evidentes divergências entre os diferentes atores (técnicos) da inciativa
privada, do setor público e parceiros externos. Tais divergências ocorrem devido a uma gama
de fatores que transcendem os objetivos desta dissertação, mas acabam exercendo certa
influência sobre a pesquisa.
Tais divergências, na maioria das vezes, são administradas pelos atores, mas, em
alguns momentos, acaba prejudicando o desenvolvimento de algumas atividades importantes
ao andamento dos processos participativos no município, como o momento de reflexão
proposto por esta dissertação. Todos os atores citados foram convidados a participar das
entrevistas, recebendo um convite por via eletrônica (e-mail). No entanto, não se obteve
resposta dos dois principais atores da iniciativa privada. A entrevista realizada com o ator-
chave 5, pertencente à iniciativa privada e muito importante para os objetivos desta
47
dissertação, somente foi possível mediante intervenção do ator-chave 4, que aparentemente
desempenha um papel de conciliador no município.
Esta negativa por parte dos atores da iniciativa privada em participar da presente
pesquisa talvez não tenha relação direta com este pesquisador ou com a pesquisa em si, mas
sim, pode estar relacionada a experiências vividas pelas respectivas instituições (Secretaria
Municipal de Agricultura, Epagri e Laticínio), as quais um bom tempo realizam atividades
conjuntas. Os resultados de sucesso destas atividades são, geralmente e na opinião de alguns
dos atores, creditados a apenas uma ou algumas das instituições, fazendo com que essa
relação fique estremecida com o tempo.
Logicamente que nada temos a ver com estes acontecimentos, mas por fazermos parte
de um processo que envolve estes diferentes atores com interesses distintos e que, por
conseqüência, emergem divergências, acabamos sendo de certa maneira afetados por esta
situação. Entretanto, o objetivo desta dissertação não é discutir as razões e muito menos
buscar alternativas para solucionar tal situação, apesar de se constituir um interessante tema
para uma dissertação, mas se faz aqui necessário relatar a nossa percepção a respeito dessas
divergências, mesmo correndo o risco de sermos superficiais, com o intuito de
compreendermos algumas das razões para a recusa dos atores da iniciativa privada em
participar desta pesquisa e também de melhor analisarmos alguns dos pensamentos dos
técnicos demonstrados nos DSCs.
Sendo assim, o conjunto de técnicos que formaram o grupo de atores-chave desta
proposta de pesquisa ficou assim definido: ator-chave 3 é um técnico extensionista da Epagri,
atuante no município aproximadamente 4 anos; ator-chave 4 representa a Secretaria
Municipal de Agricultura de São Bonifácio, atuante no município aproximadamente 18
anos; ator-chave 5 representa um dos dois técnicos do laticínio que presta assistência técnica e
compra o leite produzido pelos agricultores que fazem parte deste estudo; ator-chave 6 é a
facilitadora da investigação participativa sobre SSPs e que representa os parceiros externos
(UFSC).
O que gostaríamos de salientar nesta breve descrição de quem são os atores-chave do
processo participativo a ser analisado por esta dissertação é que se poderão observar diversas
semelhanças nos DSCs compostos por técnicos e agricultores. No entanto, também
observaremos idéias contrastantes a respeito do que pensam os técnicos pertencentes às
diferentes “esferas” e os agricultores, as quais aparecerão na forma de DSCs diferentes. Esta
48
breve descrição dos atores-chave nos auxiliará numa melhor análise e compreensão dos dados
representados pelos DSCs, que serão apresentados e discutidos no capítulo seguinte.
49
CAPÍTULO 3 – A participação vista pelos atores-chave:
possibilidades para análise
Os discursos aqui apresentados são o resultado da união de expressões contidas no
discurso de cada ator-chave, articuladas em torno de uma mesma idéia central, ou seja, o
discurso do sujeito coletivo (DSC) pode representar a fala de um ator, alguns atores ou todos
os atores. Desta forma, procurou-se construir tantos DSCs quanto fossem necessários,
conforme a convergência de pensamentos entre os atores. Os temas-base características,
potencialidades e desafios de processos participativos foram estabelecidos anteriormente à
elaboração do roteiro de entrevista, não sendo expostos aos entrevistados. As respectivas
perguntas foram elaboradas no sentido de estimular o entrevistado a relatar o processo
participativo sobre arranjos silvipastoris sob a sua ótica, incentivando-o sempre a analisar os
fatos através de questões como “O que você acha disso?”, “Há algo mais que queira falar a
respeito?”, evitando-se intervir de maneira a tendenciar alguma resposta. Neste sentido, o
enquadramento dos discursos dentro de cada um dos três temas-base se constitui em uma
interpretação nossa, logicamente, baseada em expressões contidas nos discursos.
Cabe destacar ainda que cada tema-base estará constituído de um conjunto de idéias
centrais que o caracterizam. Por exemplo, com relação ao tema-base “Características de um
processo participativo”, foram identificadas uma série de idéias centrais nas respostas de cada
ator-chave a cada uma das sete perguntas do questionário, como, por exemplo, “demanda dos
agricultores”, “valorização do conhecimento local”, “protagonismo dos agricultores”, entre
outras. De acordo com a similaridade das expressões de cada ator-chave com relação a cada
idéia central é que se foram unindo expressões dos discursos para formarem os DSCs de
técnicos e agricultores e, a partir daí, verificar os pontos de convergência e de dissonância
entre eles.
Os DSCs não serão apresentados entre aspas por não representarem uma citação, e sim
uma fala ou um depoimento coletivo. Neste sentido, serão apresentados apenas em itálico
dentro de balões explicativos que possuem cores
18
correspondentes ao grupo de atores-chave
que compõe tal DSC (FIGURA 5). As quatro categorias de atores-chave (agricultores, setor
público, parceiros externos e iniciativa privada), apresentadas no capítulo anterior, foram aqui
18 As razões para o conjunto de cores utilizado, bem como para a aglutinação dos discursos estão detalhadas na
Figura 6 apresentada a seguir.
50
aglutinadas em apenas duas, técnicos e agricultores, por evidenciarem contrastes mais
marcantes, e serão distinguidas conforme coloração dos balões.
FIGURA 5: Balões representativos dos DSCs de cada grupo de atores-chave
Com vistas a preservar o anonimato das pessoas citadas nos DSCs, utilizar-se-á X”,
Y etc., para denominar aqueles atores que não correspondem aos atores-chave da pesquisa.
Quando as pessoas citadas forem os próprios atores-chave, utilizar-se-á a mesma
denominação apresentada anteriormente (ator-chave 1, ator-chave 2 etc.).
Cabe destacar ainda que no trabalho analisado a demanda por sombra advinda dos
agricultores caracteriza-se como sendo o tema gerador do processo participativo sobre
arranjos silvipastoris. É assim chamado devido ao fato de que “sombra” significa, em um
processo participativo como este, muito mais do que simplesmente plantar árvores no pasto.
Esse plantio representa um tema capaz de gerar diversos outros processos que possuem uma
relação mais direta ou indireta com a cadeia produtiva do leite, ou seja, “sombra” representa
um grande pano de fundo neste processo todo. No entanto, este tema é entendido de diversas
maneiras pelos diferentes atores-chave, como pode ser observado pela Figura 6.
Os diferentes atores-chave percebem à “sombra” sob diferentes pontos de vista,
conforme características inerentes de cada um. Os atores-chave 1 e 2 enxergam o tema
“sombra” como uma possibilidade para conservação dos recursos naturais de suas
propriedades e o bem-estar de seus animais mediante a implantação de espécies arbóreas
nativas. Estes interesses estão intimamente ligados às características dos agricultores
familiares do Grupo do Pasto, apresentadas anteriormente, em que esses agricultores se
demonstram preocupados com aspectos de sua propriedade e de sua família, como a beleza
cênica proporcionada pelas árvores nativas e a manutenção dos recursos naturais disponíveis
para seus sucessores.
Logicamente não demonstram total desinteresse na produtividade do leite, até porque
muitos afirmam que, proporcionando bem-estar para suas vacas mediante implantação de
51
DSC DSC DSC DSC
Atores-chave 1 e 2 Atores-chave 3, 4 e 6 Ator-chave 5 Atores-chave 3, 4, 5 e 6
árvores para sombra, estarão automaticamente melhorando a qualidade do leite, obtendo,
assim, um melhor preço. No entanto, quando são perguntados sobre o principal interesse na
“sombra”, sempre relatam sobre a necessidade de proporcionar bem-estar para seus animais e
a conservação dos recursos naturais.
Os atores-chave 3 e 4, por serem técnicos do setor público (Epagri e Secretaria
Municipal de Agricultura, respectivamente), vêem o tema “sombra” como sendo um elemento
importante para o desenvolvimento do município, haja vista que existem outras questões que
também envolvem os agricultores em processos participativos, como o desenvolvimento
participativo de uma marca territorial para a comercialização de produtos do município, por
exemplo. “Sombra” também é vista por estes atores como uma possibilidade para se
desenvolver uma “tecnologia” culturalmente apropriada à São Bonifácio. ainda por parte
dos atores-chave 3 e 4 uma preocupação com a produtividade do leite, que também é
demonstrada pelo ator-chave 5.
No entanto, as razões para tal preocupação parecem ser distintas. Os atores-chave 3 e
4, por pertencerem ao setor público e obviamente serem mais preocupados com o
desenvolvimento do município, preocupam-se com a produtividade do leite devido ao motivo
de que muitos dos agricultores de São Bonifácio dependem quase que exclusivamente da
renda desta atividade para sobreviver. o ator-chave 5 pertence à iniciativa privada, que
logicamente está interessada em obter ganhos financeiros com o leite. Logo, suas razões para
a preocupação com a produtividade do leite se deve ao fato de seus fornecedores
(agricultores) produzirem bem para que eles também comercializem bem.
ainda divergências entre estes dois grupos de técnicos a respeito dos benefícios da
árvore no sistema gado/pastagem. Enquanto os técnicos do setor público parecem entender
que a árvore pode ajudar na melhoria da produtividade leiteira por proporcionar bem-estar aos
animais, o que refletiria diretamente na qualidade do leite, os técnicos da iniciativa privada
contestam afirmando que a árvore iria fazer com que o agricultor perdesse área de pasto, o
que acarretaria uma redução na produtividade do leite. Neste caso, que se considerar a
opinião dos agricultores que demonstram entenderem que a árvore no sistema gado/pastagem
proporcionará muito mais benefícios do que prejuízos, tanto na questão ambiental da
propriedade quanto sob o ponto de vista econômico.
A visão do ator-chave 6 com relação ao tema “sombra” está calcada basicamente na
possibilidade de se desenvolver uma “tecnologia” para a produção leiteira culturalmente
52
apropriada ao município e também como uma alternativa de uso e conservação dos recursos
naturais. Talvez esta visão seja explicada por este ator representar a academia e entender que
existem formas viáveis de se produzir sem esquecer de conservar.
Tema Gerador:
Sombra
Ator-chave 5
Atores-chave
3 e 4
Ator-chave 6
Atores-chave
1 e 2
Conservação
dos Recursos
Naturais
“Tecnologia”
culturalmente
apropriada
Leite (maior
produtividade e renda
para as famílias)
“Tecnologia”
culturalmente
apropriada
Elemento
importante para o
desenvolvimento
do município
Leite (maior produtividade
e lucro para o laticínio)
Bem-estar
dos animais
Conservação dos
Recursos Naturais
FIGURA 6: Diagrama ilustrativo sobre a percepção dos atores-chave de São Bonifácio a respeito da
“sombra”.
Este panorama da visão dos atores-chave a respeito do tema gerador (sombra) do
processo participativo sobre arranjos silvipastoris em São Bonifácio é resultado da análise dos
discursos de cada um e da observação direta. Tal caracterização nos dará um importante
aporte para a compreensão da heterogeneidade dos pensamentos e da emergência de
divergências evidenciadas nos DSCs. Vale lembrar que a visão dos atores-chave aqui
apresentada não significa que cada ator veja a sombra apenas sob a ótica descrita, mas sim
que esta ótica se demonstra predominante em seus discursos e ações.
A seguir apresenta-se o resultado da análise segundo os temas-base definidos, quais
sejam: características do processo participativo, bem como suas potencialidades e desafios
apresentados.
53
3.1 – Características do processo participativo
Este item se constitui na apresentação dos DSCs que representam o pensamento
coletivo de cada grupo de atores-chave com idéias centrais relativas às características de
processos participativos. Tais processos, geralmente, são oriundos de demandas levantadas
por um grupo de interesse formado. No caso específico desta pesquisa, o grupo de interesse é
formado por agricultores do Grupo do Pasto e sua demanda é obter sombra para seu rebanho
leiteiro. Partindo de forma endógena, os processos participativos permitem que se valorize o
conhecimento dos agricultores, proporcionando assim que eles exerçam importante poder de
decisão nas ações de pesquisa-extensão rural. Outra característica importante de processos
participativos é a sua capacidade, ou até mesmo necessidade, de estabelecer um diálogo entre
diferentes atores que representam interesses distintos na busca de alternativas viáveis para as
demandas colocadas pelo grupo de interesse.
Em processos participativos, os agricultores e os técnicos/pesquisadores exercem
papéis diferenciados em relação àqueles exercidos em ações que possuem pressupostos
difusionistas. Os agricultores não mais atuam apenas como meros receptadores de tecnologias
prontas, mas atuam ao mesmo tempo como avaliadores e geradores de idéias, bem como
contribuem ativamente na construção do conhecimento referente a novas tecnologias. Quanto
aos técnicos/pesquisadores, estes deixam de ser responsáveis por levar respostas prontas
(pacotes) aos agricultores e passam a atuar de maneira a construir estas respostas em conjunto
com os agricultores, caracterizando-se como facilitadores de tal processo.
Será que tais características se mostram presentes no processo participativo de São
Bonifácio? Os atores-chave conseguem visualizá-las? Estas e outras questões serão
apresentadas e discutidas a seguir.
54
i) IDÉIA CENTRAL: Demanda dos agricultores pelo Sistema Silvipastorila árvore
no pasto
Analisando estes discursos, conseguimos perceber que o trabalho sobre arranjos
silvipastoris resulta da convergência da percepção dos 2 grupos de atores-chave: de um lado
os agricultores mostram a demanda e, de outro, ao se perceber esta demanda, mesmo que não
formalizada, os técnicos a incorporam. O DSC dos técnicos evidencia que essa forma de
trabalhar teria sido uma decisão estratégica entre técnicos locais e parceiros externos. Mesmo
considerando a exigência do órgão financiador (Banco Mundial) do projeto MB2 para que
seus recursos somente fossem empregados em ações participativas, pode-se observar uma
forte disponibilidade dos técnicos em desenvolver tais ações.
Com a fala dos agricultores, percebemos que a demanda por sombra teria surgido
devido as suas observações com relação ao comportamento dos animais em situações de
temperaturas altas, mostrando a importância de seu conhecimento empírico adquirido em
atividades diárias. No entanto, podemos notar, principalmente no trecho A gente veio
pedindo quase um sistema (...), que talvez a idéia de participação para eles ainda seja apenas
exporem seus problemas aos técnicos e esperarem por soluções, sem considerarem uma
construção conjunta.
Por que razões prefeririam soluções prontas ao invés de construírem coletivamente
respostas aos seus problemas? Gomes (2001) pode nos dar alguma pista quanto a isto ao
afirmar que a participação continuada dos agricultores é dificultada pelo fato de atrapalhar o
desenvolvimento das atividades na propriedade. O que estaria, de certa maneira, de acordo
55
DSC AGRICULTORES
Ah, isso surgiu quase como uma
necessidade assim, porque a gente que os
animais em tempo de verão eles sofrem muito,
né. Tem que tirar do piquete e coisa. O
sombreamento, faz muita falta. Faz muita falta
mesmo. E a gente já tinha percebido que os
animais na sombra eles passam o dia mais
tranquilo. A gente já veio pedindo quase um
sistema, no começo do projeto do
Microbacia e pediu também orientação sobre
legislação e tudo mais assim.
DSC TÉCNICOS
Com um diagnóstico realizado na
pesquisa participativa, a professora X identificou
isso [necessidade de sombra] na fala de alguns
agricultores e foi o que estimulou a começar a
trabalhar com este assunto. Ator-chave 6, não
queria trazer um arranjo silvipastoril pronto
pros agricultores. E também a gente achô que
não era isto. E nem os agricultores querem. A
gente partiu da idéia de que teria que construir
com os agricultores, quais as plantas? Qual
arranjo? À luz do interesse deles.
com a visão de outros autores como Kamp e Schuthof (1991), que questionam se a população
rural teria tempo suficiente para discutir os seus problemas.
Pela análise dos DSCs, participação pode estar sendo entendida de maneira bastante
diferenciada por parte dos técnicos e dos agricultores. Pois, enquanto os agricultores pedem
algumas respostas aos técnicos, estes, por sua vez, se mostram dispostos a construir
alternativas em conjunto. Por outro lado, o que pode estar ocorrendo é que quando os
agricultores expõem os seus problemas, eles estão na verdade sugerindo um tema gerador
para se desenvolver um processo participativo de construção conjunta de alternativas. O tema
gerador, neste caso, seria “sombra”.
No DSC dos técnicos nota-se uma preocupação por construir arranjos silvipastoris que
estejam de acordo com as condições e os interesses de cada agricultor. Mas, como valorizar o
conhecimento dos agricultores? Que estratégias utilizar?
ii) IDÉIA CENTRAL: Valorização do conhecimento local
Os DSCs demonstram que ocorreu de fato uma preocupação, por parte de quem
orientou o trabalho sobre arranjos silvipastoris, em valorizar o conhecimento dos agricultores
com relação às espécies arbóreas nativas. Neste sentido, de certa forma, poderíamos afirmar
que uma conformidade no DSC dos agricultores com o dos técnicos. Na fala dos técnicos
menção ao uso de metodologias (que na verdade se constituem em ferramentas)
56
Não é comum este tipo de trabalho
acontecê, do jeito que tá acontecendo. A maioria das
inovações tecnológicas que existem ou de resposta
aos anseios dos produtores, já vem um kit pronto.
Então eu penso que a grande distinção deste
trabalho, é que o método, a estratégia adotada na
pesquisa participativa do arranjo silvipastoril ela
comunga, ela tá concatenada com o interesse dos
agricultores. Que não seria construir um arranjo
externo ao interesse dos agricultores, mas sim a
partir do saber deles. Mas aí, eu acredito assim, que
pra chegá no arranjo silvipastoril, nesse design, que
a gente pode chamá assim de design este arranjo,
né. Pra isso existem metodologias participativas
que eu percebi que foram usadas ao longo desse
processo. Porque o agricultor é quem vai compor [o
SSP] à luz de seu interesse.
DSC AGRICULTORES
É primeiro, elas passaram
perguntando pra saber do nosso conhecimento
das árvores né. o nome, se servia pra lugar
seco ou úmido, se no sol ou não. Aí depois a
gente foi fazer um dia de campo [Turnê-
guiada], porque teve divergência assim teve
muita árvore que tem três nomes e depois no
dia é tudo a mesma árvore, né. A gente foi lá,
pra esse dia de campo pra reconhecer as
espécies. Depois, acho que veio meio a parte de
planejamento, né. De como fazer e tudo, e
mapas e vamo plantar essas árvores.
DSC TÉCNICOS
participativas como estratégia de se construir arranjos silvipastoris incorporando o saber dos
agricultores. E eles (agricultores) perceberam isso, pois não relatam algumas ferramentas
participativas como também demonstram conhecimento a respeito da importância delas, fruto
da construção coletiva ocorrida ao longo do trabalho.
Além disso, na fala dos técnicos, poderíamos observar que um certo “ar de
estranheza” ao método utilizado, mas, ao mesmo tempo, uma satisfação em estarem
realizando algo novo. Talvez este fato possa se justificar por uma certa insegurança em se
trabalhar de maneira participativa, tendo em vista as características de suas formações
acadêmicas baseadas em métodos tradicionais de extensão, como o difusionismo, por
exemplo, ainda impregnado em suas concepções.
Percebemos com estes DSCs que as ferramentas participativas utilizadas no
desenvolvimento do processo participativo analisado (turnê-guiada, entrevistas semi-
estruturadas e oficinas), tiveram um importante papel para que os agricultores descobrissem
seus conhecimentos e também construíssem coletivamente novos conhecimentos. Mas como
foi isso na prática? De que forma se deu a articulação de saberes entre os atores (entre
técnicos/pesquisadores – agricultores e entre agricultores – agricultores)?
57
iii) IDÉIA CENTRAL: Construção coletiva do saber
Na análise destes DSCs, percebe-se que uma certa conformidade com o que os
agricultores e os técnicos pensam a respeito do processo participativo desenvolvido em São
Bonifácio. Demonstram que compreendem que uma diferenciação entre o conhecimento
do técnico e do agricultor, mas reconhecem também que uma complementaridade entre
eles. Portanto, a interação desses dois saberes é apresentada como sendo útil na construção de
arranjos silvipastoris adequados a cada propriedade, minimizando erros e economizando
58
Ah, a gente sei lá, teve opiniões assim, né. Uns tem uma opinião outros tem outras, no caso em
plantar em linha, coisa assim. Depois foi levantado assim que pra funcionar certinho teria que ter
planejado o desenho do próprio piquete, de acordo com o rumo do sol e toda essa parte assim, que até
isso que teria que ter sido planejado antes, né. É importante se discutir, porque até o pessoal pega no
até hoje né, que eu defendia tanto a Grandiuvera que todo mundo dizia: não presta, não presta e eu digo,
não, é boa, é boa, é boa. E então o problema agora é que a vaca tá comendo a casca, né. E a outra parte
eu achando ela boa, né. Ela não aquela sombra intensa, né. Quem sabe a gente acharia até um
produto pra passá na casca, pra diminuir o apetite dos animais, né. Até tipos de árvores. Porque tem a
árvore que frutifica mas atrapalha, outras não. Outras até melhora. Então isso são coisas e a gente não
tem em mãos aquela ciência pra sabê exatamente que árvore faz isso ou não faiz. Então o técnico tem
alguma coisa em livro, alguma coisa que ele pode descobrir ou que de repente, não, isso ali vai nos
destruir a pastagem ou isso ali não. Ou isso tem que ser de uma forma ou isso tem que ser de outra. Então
ali o técnico tem a sua vantagem a mais do que a gente tem. A gente sabe que todo mundo tem, sabe de
assim, você sabe um pouco. Às vezes eu sei uma coisa, mas o outro sabe outra que é melhor ainda,
então essas discussões são muito, muito boas, não é assim fazê as coisa com os olhos fechados. Então essa
parte aí, pra dizer a verdade ela foi até fundamental pra isso tudo que acontecendo. A gente descobriu
um monte de coisa. A gente tem algum conhecimento em cima de alguma coisa, mas a gente não tem
nenhuma pesquisa em mãos pra saber o que é melhor. Porque nóis, inclusive, nóis tamo fazendo a
pesquisa pra vê o quê vai no futuro. Então vamo descobrindo aos poucos o que é que daqui a pouco
vai se adaptá mais.
O trabalho foi feito de maneira participativa. Então
contando com o conhecimento dos agricultores e a gente levando
alguns elementos também pra serem discutidos através da
pesquisa bibliográfica. Como a gente tinha uma visão diferente da
dos agricultores, houve uma interpretação do conhecimento deles
sobre a possibilidade da inserção das espécies ou não. Que
características os agricultores consideram serem relevantes pra
inserirem espécies arbóreas no sistema pastoreio Voisin? E daí a
gente fez os desenhos então, dos possíveis arranjos, onde a gente
pôde assim: os agricultores ouviram um pouco sobre os possíveis
desenhos que podem ser feitos, né, com base em elementos que a
gente levou pra eles né, e apresentou mesmo. Isso mostra que nós
não tamo aqui construindo verdade de fora pra dentro. Nós tamo
construindo conhecimento de, se é que verdades, de processo
endógeno. A partir dos agricultores, com os parceiros, com os
técnicos, um novo desenho de conhecimento, né.
DSC AGRICULTORES
DSC TÉCNICOS
tempo.
No DSC dos agricultores percebemos a importância da afirmação de Bordenave
(1983) de que se trabalhar e articular saberes constitui um desafio não só de comunicação mas
também pedagógico. A estratégia pedagógica adotada no processo participativo sobre arranjos
silvipastoris foi a de problematizar o tema “sombra”. Desta maneira, todos os atores
envolvidos (técnicos/pesquisadores e agricultores) foram incentivados a pensar coletivamente
sobre arranjos silvipastoris possíveis de serem implantados em São Bonifácio, evidenciando,
assim, o objetivo de discutir idéias e não de transferir pacotes.
Os agricultores demonstram ter se apropriado dos princípios dos sistemas silvipastoris,
tendo em vista que relatam que, para se pensar em um SSP perfeito, deveriam ter pensado
primeiro na própria disposição dos piquetes conforme características de suas propriedades.
Este planejamento desde o início proporcionaria uma melhor interação entre árvore, gado e
pastagem. Porém, reconhecem que uma limitação de seus conhecimentos em relação a
questões mais “científicas”, como demonstrada na afirmação: Então o técnico tem alguma
coisa em livro, alguma coisa que ele pode descobrir ou que, de repente, não, isso ali vai nos
destruir a pastagem ou isso ali não. Ou isso tem que ser de uma forma ou isso tem que ser de
outra. Por isso entendem como importante a articulação do saber científico com o saber local.
No DSC dos técnicos pode-se observar de que maneira ocorreu essa articulação de
saberes no processo analisado, tendo em vista que foi feito um esforço para demonstrar alguns
estudos realizados sobre SSPs, com o intuito de apresentar os princípios desta tecnologia e
apropriá-los à realidade dos agricultores de São Bonifácio. Cabe destacar ainda que os
agricultores entendem também como importante a interação entre os seus próprios saberes
(agricultor-agricultor), como forma de construírem novos conhecimentos, como exposto no
trecho: (...) você sabe um pouco. Às vezes eu sei uma coisa, mas o outro sabe outra que
é melhor ainda, então essas discussões são muito, muito boas (...).
Este relato dos agricultores importante embasamento às idéias de autores, como
Kamp e Schuthof (1991), os quais afirmam que em processos participativos se faz necessário
compreender que os agricultores fazem parte de uma rede social. E é através desta rede que
ocorrem os processos de troca/construção de conhecimento.
Além disso, podemos observar no DSC dos agricultores o perfil experimentador
desses atores quando relatam: Quem sabe a gente acharia até um produto pra passá na
casca, pra diminuir o apetite dos animais, né. Esta afirmação está relacionada com o que
59
Boef (2006) menciona a respeito do papel assumido pelos agricultores em processos
participativos, que se caracteriza por um papel ao mesmo tempo de gerador, comunicador,
avaliador de idéias exteriores e usuário. ainda de se destacar que com o mesmo relato
esses agricultores demonstram estar interessados muito mais em discutir, aprender e serem
compreendidos do que simplesmente receber respostas prontas para seus problemas, como
demonstrado pelas idéias de Hocdé (1999).
Segundo Mussoi (2006), o conhecimento somente é capaz de ser gerado e ampliado
por sujeitos em uma relação dialética, através de processos de ação e reflexão e/ou
reelaboração do conhecimento existente. Os técnicos vêem no processo participativo para
elaboração de arranjos silvipastoris uma possibilidade de se construir conhecimento de, se é
que verdades, de processo endógeno. Talvez o que eles queiram dizer com a palavra
“verdades” é construir “tecnologias”. No entanto, o que ocorreu não foi uma construção de
uma tecnologia, e sim discussão e adaptação de uma tecnologia (Sistema Silvipastoril)
existente e amplamente estudada e divulgada. Portanto, o que ocorreu foi uma reelaboração de
um conhecimento já existente.
Este fato acaba dando mais um subsídio às críticas de alguns autores, como Bentley
(1997), Probst e Hagman (2006) e Killough (2006), que afirmam que a pesquisa participativa
é muito mais utilizada para adaptar tecnologias existentes do que desenvolver novas
tecnologias. Tais críticas, apesar de importantes e relevantes, não desmerecem a opção feita
pelos técnicos locais de São Bonifácio e parceiros externos por trabalhar o tema “sombra”,
mediante implantação de SSPs, de maneira participativa, pois estes técnicos poderiam
simplesmente tratar esta tecnologia da maneira convencional, ou seja, persuadindo os
agricultores a adotarem tais práticas. Porém, optaram por métodos que privilegiaram a
troca/construção de conhecimentos com os agricultores, lembrando que, como fora
mencionado anteriormente, essa opção está fortemente ligada à exigência do órgão
financiador do MB2.
60
iv) IDÉIA CENTRAL: Protagonismo dos agricultores
Ao considerar que o processo participativo sobre arranjos silvipastoris partiu de uma
demanda dos próprios agricultores, pressupõe-se que estes não constituem o “alvo” das ações
deste processo, e sim os protagonistas. No entanto, as posturas mais evidentes sobre tal
protagonismo apareceram apenas nas falas dos técnicos e, como pôde-se observar, foi
apresentada sob a forma de dois DSCs.
A análise dos discursos nos inspira a pensar que pode estar havendo um certo
desentendimento a respeito do que é considerado “protagonismo dos agricultores” pelos
diferentes grupos de atores-chave que correspondem aos técnicos. Este entendimento pode
estar se dando de duas maneiras distintas: “com vistas a construir processos” e “com vistas a
legitimar processos”. Estas duas formas de entender a participação fora discutida no
contexto desta dissertação e se referem a: para o primeiro caso (construir processos), discutir e
problematizar as necessidades dos agricultores definindo propostas, planejamentos e
compartilhando responsabilidades; para o segundo caso (legitimar processos), participação
é entendida como uma ferramenta para “validar”, junto aos agricultores, decisões previamente
tomadas por atores externos.
No DSC formado pelos atores-chave 3, 4 e 6, participação parece ser entendida como
tendo o objetivo de “construir processos”, evidenciado pelo uso de expressões como O
61
Uma questão muito importante, quando você
trabalha com o agricultor, votem que conseguí que ele
faça parte, que ele se sinta parte daquilo ali. Dificilmente
um trabalho vai por água abaixo quando o agricultor se
sente parte dele. E eles estão se sentindo parte do trabalho.
Até porque eu conheço eles, e se eles não se sentissem
parte, eles já tinham saído.
Os agricultores desde o começo tiveram papel essencial né, porque foram eles que
estão discutindo junto com a gente a questão das árvores. O grande ator desse processo todo
é os agricultores. Porque se a gente chegá num ponto de tê um trabalho bonito mas não tê os
agricultores do lado da gente, em algum lugar nós esquecemos eles. Eles são os mais
estratégicos. Eu acho que sempre o referendo nosso, a nossa âncora, vamos dizê assim o
cerne de todo esse processo é os agricultores. Não adianta aqui tudo que é universidade,
um monte de intelectual orgânicos e expertivos num assunto, se nós não tiver os agricultores.
O resto é resto. Porque os outros atores, você vai embora, eu embora. Quem fica aqui é
os agricultores, com seus problemas, com seus sucessos, fracassos, né.
DSC TÉCNICOS
grande ator desse processo todo; Eles são os mais estratégicos; o cerne de todo esse
processo é os agricultores; O resto é resto. (...) Quem fica aqui é os agricultores com seus
problemas, com seus sucessos, fracassos. Por outro lado, no DSC formado pelo ator-chave 5,
participação parece estar sendo entendida com vistas a “legitimar processos”, como
demonstrado no trecho: (...) você tem que consegui que ele faça parte (...). Dificilmente um
trabalho vai por água abaixo quando o agricultor se sente parte dele.
O relato do ator-chave 5 pode ser uma importante evidência das afirmações de autores
como Gomes (2001) e Probst et al. (2003) a respeito de que muitos trabalhos vêm se
desenvolvendo com utilização acrítica de abordagens participativas, rotulando uma série de
atividades como “pesquisa participativa” quando, na verdade, continuam se baseando nos
mesmos pensamentos positivistas. Tal ator-chave pode estar confundindo o trabalho com
SSPs como um simples trabalho de difusão de uma tecnologia. Porém, a proposta é construir
conhecimento através da interação entre atores e com base nos princípios dos SSPs, na busca
de alternativas viáveis à demanda por sombra.
Diante disso, ficam alguns questionamentos: Por que este protagonismo dos
agricultores não é claramente evidenciado nas falas dos próprios agricultores? Por que
existem divergências no entendimento de “protagonismo dos agricultores” por parte dos dois
grupos de técnicos? O que essa divergência de pensamentos implicaria no desenvolvimento
do processo participativo?
62
v) IDÉIA CENTRAL: Diálogo entre diferentes atores
Este discurso traz uma série de pontos que merecem ser observados com uma melhor
atenção, como a importância de se fazer parcerias, de “fundir” os interesses de diferentes
instituições, colocando os interesses coletivos à frente de interesses individuais (FARIAS,
2000); a importância de se alternar momentos de reflexão e ação para o bom andamento de
processos participativos; e também nos mostra a dificuldade de colocar algumas dessas idéias
em prática.
A formação de parcerias se torna relevante na medida em que se consegue articular
atores com diferentes olhares, na busca de um mesmo objetivo, o desenvolvimento de uma
localidade. Mas não nos esqueçamos de que, ao que nos parece, quando os atores-chave falam
em desenvolvimento aqui não é no sentido de uma visão de “fora para dentro” e sim de
“dentro para fora”, como pode ser conferido pela expressão Eles [agricultores] que tiveram o
papel central na pesquisa. Essa articulação de atores externos e internos acaba sendo um
mecanismo interessante para se realizar momentos de ação-reflexão-ação, tão importantes aos
processos participativos, conforme apontado por autores como Box (1987), Hocdé (1999),
Ruas et al. (2006) e Mussoi (2006).
Percebe-se também que uma certa disposição em tentar priorizar interesses
63
o local, pelo local, não desenvolve o local. É preciso essa interação com forças externas. É a
questão glocal, né. O global e o local atuando de forma sinérgica. Trazê diferentes disciplinas pedagogo,
engenheiro florestal, antropólogos pra que a gente pudesse repensá o desenvolvimento. Ou as soluções
desse desenvolvimento. Nesse sentido, a equipe local e procuro chamá a equipe local justamente pra não
sê a equipe da Epagri, equipe da prefeitura e sim, equipe local que interessada no desenvolvimento local,
do município – e o ator-chave 3 principalmente, foi o papel assim de abrir espaço, de apresentar os
parceiros pros agricultores de fazer possível este processo. A professora X teve uma atuação mais teórica
assim na elaboração do projeto, e a prática na última etapa assim, quando foi a oficina. Ela teve um
acompanhamento mais, assim digamos, nos bastidores. Eles [agricultores] que tiveram o papel central na
pesquisa, na pesquisa sobre as árvores. A equipe aqui da regional da Epagri, também foram atores que
foram essenciais porque eles possibilitaram um projeto através de recursos. E de discussões também sobre o
processo. Porque são pequenas participações que fazem um trabalho maior. A gente trabalhando com
agendas. Isso é compromissos e comprometimentos, né, coletivos. E não processos individuais, ou espúrios,
né, ao interesse maior do desenvolvimento local. Por isso que eu enfatizo, a grande inovação, a grande
novidade desse nosso trabalho é de a gente conseguí fazê as parcerias. Que muito tá na teoria, tá nos papéis
e na prática não acontece. Porque é mais difícil.
DSC TÉCNICOS
coletivos frente aos interesses individuais, através de iniciativas como denominar o trabalho
de técnicos da Secretaria Municipal de Agricultura, da Epagri e do laticínio como trabalho da
“equipe local” e de incentivar a vinda de pesquisadores de diferentes instituições (UDESC e
UFSC, por exemplo) para desenvolver seus trabalhos no município. Isto nos leva a crer que
consideram que cada um desses atores exerce papéis diferenciados no processo, mas nem por
isso menos importantes. Tal fato nos mostra que não existem participações diferentes e, muito
menos, níveis de importância quanto à participação. Toda participação se faz igualmente
importante na medida em que cada um é convidado a expressar o que pensa, contribuindo
assim com o que sabe (fruto de suas vivências e relações sociais).
Reconhecem ainda que a articulação de diferentes atores encontra-se muito mais
presente na teoria do que demonstrada na prática. Por que isso estaria ocorrendo? Interesses
individuais estariam atrapalhando a realização desses momentos para reflexão do processo?
Será que todos da chamada “equipe local” (técnicos da prefeitura, Epagri e do laticínio)
estariam igualmente interessados no desenvolvimento do município, conforme exposto no
DSC?
64
vi) IDÉIA CENTRAL: Novos papéis assumidos
Para transformar a atividade extensionista em uma ação educativa e em uma prática
transformadora, faz-se necessário que, primeiramente, haja uma mudança interna de cada ator
(técnicos/pesquisadores e agricultores), originando uma nova postura e novos papéis
assumidos (RUAS et al., 2006). As interações entre os atores mudariam de um controle
coercivo e de um sistema de ensino convencionais para um papel de facilitador e sistemas de
aprendizagem participativa (BOEF, 2006). No caso de São Bonifácio, parece haver uma
conformidade entre técnicos e agricultores a respeito do papel de cada um nesse processo.
Através de expressões como: Hoje o técnico, ele de uma forma diferente. - Por parte dos
agricultores. E - os agricultores, como os colaboradores, acho que atores principais, nesse
trabalho todo. Na verdade eles abriram a porteira das suas propriedades pra esse trabalho. -
Por parte dos técnicos. Diante de ambas as falas, poderíamos afirmar que ambos os atores
reconhecem uma mudança no papel de cada um.
65
Foi agricultores, dando idéia também. Foi vocês que vieram aqui da pesquisa, até
nossos próprios técnicos local ali que incentivaram. O nosso papel é transformar isso em
realidade. E vocês tão trazendo idéias e ajudando, colaborando com que isso vai sair com
mais perfeição, né. Hoje o técnico ele de uma forma diferente. Hoje o técnico que nóis
temo ali ele, distribuiu melhor pelo município. Porque nóis se não tivesse o técnico local, nóis
não ia chegar em vocêis. Com toda a certeza. Eles também tem o seu papel. Vocêis tem o
papel de vocêis trazendo a idéia, fazendo o manejo. Fazendo o manejo não, . Isso é meu.
Mas trazendo a idéia e estudando a coisa de que jeito nóis vamo fazer isso.
Eu diria assim, que pra fazê esse trabalho de desenvolvimento local,
não é com a razão. A gente faz com o coração, né. Não é com as mãos, a
gente faz com o sentimento também. E quando a gente vai fa um trabalho
desse, a gente tem que se despojá de alguns orgulhos institucionais ou orgulhos
individuais. Então você tem que cedê muito, e isso é uma postura que tu não
aprende na academia. Isso você tem que construí dentro de você. Então, dentro
da equipe local teve um papel na articulação de reuniões e de tentá fazê o meio
de campo entre a academia e o trabalho e numa articulação entre os conflitos,
vamos dizê assim. Tentando apaziguá alguns ânimos, tentando fazê com que as
pessoas se desarmem pra podê escutá os outros. A X, o Y, o pessoal da Epagri
[Florianópolis], eu acho mais uma supervisão, dessas partes, . Ator-chave 6
como diz, uma orientadora do trabalho. E os agricultores como os
colaboradores, acho que atores principais, nesse trabalho todo. Na verdade
eles abriram a porteira das suas propriedades pra esse trabalho, né. A equipe
se preocupa em atendê, como fim o produtor, e não uma tecnologia. Oferecê as
tecnologias pra ele como ferramentas e não como objetivo dele trabalhá.
DSC TÉCNICOS
DSC AGRICULTORES
Os agricultores parecem perceber que os técnicos estão mais preocupados com os seus
problemas e procuram solucioná-los de maneira construtiva. Enquanto que os técnicos
parecem considerar os agricultores como parceiros no processo de construção de arranjos
silvipastoris. Tais fatos possuem relação com as idéias de Hocdé (1999), o qual afirma que os
agricultores não estão mais interessados em respostas prontas trazidas de fora, e sim,
interessam-se por discutir, aprender, serem entendidos e compreendidos.
No trecho do DSC dos agricultores: O nosso papel é transformar isso em realidade. E
vocês tão trazendo idéias e ajudando (...), podemos observar as idéias colocadas por Farias
(2000), o qual afirma que os agricultores aceitam melhor o técnico se este se dispõe a apenas
facilitar-lhes o processo de tomada de decisão, apresentando-lhes opções para a solução de
seus problemas. Demonstram conhecimento claro a respeito do papel de cada ator no processo
participativo, bem como a partilha das responsabilidades.
No DSC dos técnicos, podemos observar que a mudança de perfil é entendida por eles
como importante, porém, ainda se deparam com alguns desafios, como o expresso no trecho:
(...) com que as pessoas se desarmem pra podê escutá os outros. Esta fala remete-nos ao
pensamento de que, devido às diferenças de concepções e convicções a respeito de
determinados assuntos, alguns técnicos não se proponham nem a parar para ouvir novas
idéias. Talvez esta resistência dos técnicos em ouvir novas idéias possa ser justificada pelas
afirmações de Farias (2000) de que os técnicos possuem baixa capacidade técnica em lidar
com sistemas de produção, acarretando uma limitação para o trabalho participativo com
pequenos agricultores. Esta baixa capacidade técnica pode estar ligada com o tipo de
formação recebida na academia onde, na maioria das vezes, é passada a idéia de que o técnico
é o detentor exclusivo do saber, quando, na verdade, segundo Freire (1983), o saber está em
cada um. Deparam-se com a subjetividade da população do meio rural e com os diferentes
fatores que determinam a tomada de decisão de um agricultor familiar, com as quais possuem
extrema dificuldade em lidar.
Técnicos e agricultores demonstram estar em sintonia no que se refere ao
entendimento de seu papel e o dos demais no processo, o que é facilmente identificado nos
DSCs. Ambos reconhecem que o papel do técnico é o de trazer idéias e não um pacote pronto.
E o do agricultor é o de refletir sobre essas idéias, de transformá-las e colocá-las em prática
conforme suas particularidades. Mas fica ainda uma pergunta importante: Quem é mais
resistente a novas idéias: técnicos ou agricultores?
66
vii) IDÉIA CENTRAL: Prioriza a geração de processos ou de resultados?
Observando os DSCs, parece-nos haver um entendimento homogêneo entre os atores-
chave a respeito de que uma ação que priorize abordagens participativas é, geralmente, mais
demorada. Porém, também nos parece que os atores vêem essa “lentidão” de maneira
diferenciada. No caso dos agricultores, parecem entender esta “lentidão” como sendo algo
inseguro, incerto, sem um objetivo final pré-estabelecido. Isso, de certa forma, estaria de
acordo com o primeiro DSC dos técnicos, composto por representantes dos parceiros externos
e do setor público. No entanto, os agricultores parecem ver essa incerteza como algo negativo,
apresentando uma certa dificuldade em lidar com esta situação, talvez justificada por uma
certa “incapacidade dos técnicos em conseguir esclarecer que existem objetivos bastante
concretos em tal processo participativo.
Os técnicos parecem entender essa “lentidão” como algo positivo e necessário ao
objetivo de agregar diferentes formas de pensar e também por talvez entenderem o que os
agricultores chamam de “sem objetivo pré-estabelecido” como sendo uma potencialidade
apresentada pelos processos participativos, na medida em que eles possuem uma grande
capacidade de desencadear novos processos, além de simplesmente atingir o objetivo final.
um outro DSC dos técnicos, composto pelo ator-chave 5, que representa a inciativa
privada, instiga-nos a pensar que processos participativos possam ser vistos como processos
onde muita reunião, muita conversa e poucas ações práticas. Ruas et al. (2006), afirmam
que esses momentos de reflexão (reuniões, conversas etc.) são muito importantes, pois se
constituem em espaços para o ensino-aprendizagem do conhecimento existente e/ou para
67
Geralmente um processo participativo ele é um trabalho, um
processo que demora mais tempo pra um resultado. Têm muitas
incertezas. Porque são enes fatores a serem considerados neste
processo. Não é uma aplicação de tecnologia pura, vai e faz isso.
Então, é demorado pra construí-lo com várias pessoas que pensam de
forma diferente, né. E nós aqui trabalhamos mais com processos que
geram resultados. Pra mim o resultado é a consequência do processo.
O quê determina a qualidade de um resultado é o processo.
É quase que nem entrá
numa canoa, descê o rio e vamo
vê onde é que nós vamo chegá, né.
Ou, entra numa canoa e não, nós
vamo chegá em tal lugar. sim,
talvez teria sido melhor.
DSC AGRICULTORES
Então, assim a crítica mais
forte que eu tenho a respeito disso é
essa questão, de mais conversado e
pouco praticado.
DSC TÉCNICOS
produção do conhecimento ainda não existente. A opinião desse grupo de técnicos pode ser de
quem está pensando a utilização de abordagens participativas na geração de tecnologias ainda
sob os mesmos pressupostos do difusionismo, no qual o que importa é o resultado
representado por X produtores que adotaram determinada tecnologia, tal qual como fora
desenvolvida. Por isso talvez considerem esses momentos de construção conjunta como sendo
uma “perda de tempo”.
3.1.1 Articulando as Idéias: as características do processo participativo sobre
arranjos silvipastoris
Através dos DSCs compreendemos que os processos participativos partem de uma
demanda local em que um determinado grupo de interesse sugere um tema gerador a ser
trabalhado. No caso de São Bonifácio, a demanda partiu dos agricultores do Grupo do Pasto
que demonstraram interesse em alternativas para proporcionar sombra para suas vacas
leiteiras. Tais agricultores não queriam respostas prontas, e sim, discutir idéias. Os técnicos
locais e parceiros externos se mostraram sensíveis à construção de alternativas coletivamente.
A utilização de métodos e ferramentas participativas demonstradas neste processo
propiciou uma interação de saberes de técnicos e agricultores, fazendo com que cada
conhecimento fosse valorizado. Os agricultores puderam ter consciência de seus saberes,
considerando-os importantes e complementares aos saberes dos técnicos, caracterizando
assim uma relação de ensino-aprendizagem.
No processo participativo sobre arranjos silvipastoris não ocorreu a geração de uma
nova tecnologia. O que de fato ocorreu foi a reelaboração de um conhecimento existente,
mediante a construção de SSPs adaptados às condições de cada agricultor e de sua
propriedade. No entanto, tal processo não deixa de ser inovador, tendo em vista que os SSPs
mais comumente encontrados são aqueles formados com monocultura de espécies arbóreas
exóticas e com objetivos estritamente para a comercialização da madeira. os arranjos
elaborados pelos agricultores do Grupo do Pasto são compostos por uma variedade de
espécies nativas que cumprirão diferentes funções, além de proporcionar sombra, como:
conservação da água; preservação da espécie arbórea nativa; produção de alimentos para a
família e os animais, além de pólen e néctar para as abelhas; beleza cênica da propriedade; e
madeira para diferentes fins, inclusive comercialização.
68
Percebemos que os agricultores deixaram de exercer um papel de meros receptadores
de tecnologias e passaram a ser parceiros na construção de idéias. Os técnicos também
mudaram sua postura, optando por relações mais horizontais, caracterizando-se como
facilitadores do processo. Estes também buscam promover o diálogo entre diferentes atores
internos e externos. No entanto, encontram inúmeras dificuldades que acabam fazendo com
que este diálogo esteja presente muito mais na teoria e no discurso do que na prática. Por fim,
mas não menos importante, processos participativos, na visão dos atores-chave de São
Bonifácio, são mais demorados, apresentando resultados mais visíveis somente a longo prazo,
o que acaba gerando algumas incertezas entre estes atores.
Cabe ainda ressaltar que o conjunto de características apresentadas representa ao
mesmo tempo potencialidades e desafios emergentes de um processo participativo. Como
estas potencialidades e estes desafios são vistos pelos atores-chave e evidenciados no caso de
São Bonifácio, constitui-se o foco da discussão que se sucede.
3.2 – Potencialidades do processo participativo
A opção da extensão rural por desenvolver suas ações utilizando-se de abordagens
participativas surgiu a partir das limitações apresentadas pelos métodos tradicionais
(difusionistas) em lidar com a complexidade do meio rural, principalmente em regiões mais
pobres. Tal complexidade está ligada a fatores culturais, religiosos, políticos, preferências
pessoais e sociais, à praticidade e econômicos que orientam a lógica da tomada de decisão de
agricultores familiares.
Os métodos difusionistas da extensão rural baseiam-se prioritariamente em aspectos
econômicos, por isso preconizam um aumento na produtividade e, por conseqüência, na renda
dos produtores. No entanto, segundo Bunch (1994), mesmo que esse aumento na renda seja
importante e possibilite que as pessoas se alimentem, vistam, morem e se eduquem
adequadamente, tal aumento por si não garante estes benefícios. Muito mais do que um
aumento na renda, as pessoas querem e têm todo o direito de suprir suas necessidades básicas
e de ter uma maior autonomia para a tomada de decisão e para pensar sua maneira de produzir
conforme a própria lógica familiar.
O desenvolvimento de processos participativos, mediante a valorização do saber do
agricultor, o respeito a sua cultura e a horizontalidade do diálogo permite que se atinjam
69
objetivos humanos mais amplos. Tais objetivos representam o aumento da auto-estima do
indivíduo e do grupo social ao qual pertence, o fortalecimento de uma identidade cultural
local e a busca pela autogestão das populações rurais.
Neste sentido, a seguir serão apresentadas as idéias centrais presentes nos discursos
dos atores-chave que representam como algumas destas potencialidades são evidenciadas no
caso de São Bonifácio.
i) IDÉIA CENTRAL: Saber que sabe pouco
Este DSC remete-nos a pensar no que Paulo Freire falava sobre a importância de o
indivíduo descobrir que sabe alguma coisa sobre algo, buscando saber mais (FREIRE, 1983).
Além disso, esse DSC pode ser um interessante indicativo da capacidade dos processos
participativos em melhorar a auto-estima das pessoas, não convidando-as a refletirem em
grupo sobre sua própria realidade como também promovendo a partilha de conhecimentos.
Este aumento da auto-estima pode ser observado pela empolgação demonstrada no DSC dos
agricultores quando falam sobre o momento em que descobriram que tinham bastante
conhecimento a respeito das árvores.
Esta descoberta feita pelos agricultores de seu próprio conhecimento é fruto da
utilização de algumas ferramentas participativas por parte da facilitadora da pesquisa
participativa. Prova disso é o relato sobre a realização da entrevista semi-estruturada e da
turnê-guiada. A entrevista teve o objetivo de caracterizar os agricultores familiares do Grupo
do Pasto e apontar o conhecimento desses agricultores a respeito de espécies arbóreas nativas
(características, usos e manejos). o objetivo da turnê-guiada foi o de sintonizar o
entendimento dos agricultores sobre o nome das árvores, tendo em vista que uma mesma
espécie era citada por diversos nomes pelos diferentes agricultores.
70
Até o dia que eles perguntaram pra mim se eu daria essa entrevista sobre as espécies,
eu adisse olha eu até posso dar, mas eu conheço umas quatro árvores. E daí no fim, no
resto eu conhecia muita, muita árvore, né. E eu até achava que eu nem conhecia tanto, né. E
no dia de reconhecer [Turnê-guiada], também foi bom assim porque apra gente saber, né.
Às vezes a pessoa fala ah tal árvore, né, aí eu não sei o quê que é. Daí depois fomo ver, não mas
eu sabia sim, só que por outro nome, né.
DSC AGRICULTORES
No entanto, além de se atingir os objetivos pré-estabelecidos pelo ator-chave 6, estas
ferramentas proporcionaram algo diferente aos agricultores, como a descoberta de seu
conhecimento e elevação de sua auto-estima. Se a intenção, neste caso, fosse a de utilizar
métodos difusionistas, cuja orientação pedagógica seria a persuasão, provavelmente tais
resultados não seriam alcançados.
ii) IDÉIA CENTRAL: “Tecnologia” culturalmente apropriada
Pela análise do DSC dos agricultores, temos uma idéia sobre o significado de
“tecnologia culturalmente apropriada” para eles. Na passagem - De repente o técnico trazê
sim, o que tem pesquisado, assim, no caso, em cima de uma árvore. Mas nunca deixá de
fazê a pesquisa, porque cada local é um local também -, podemos observar que a noção de
tecnologia apropriada pode ser uma noção relativa à articulação de saberes. Tal articulação se
pelo fato de os técnicos exporem alguns conhecimentos científicos consolidados com o
intuito de problematizar a realidade desses agricultores em busca de alternativas viáveis para
seus problemas prioritários. Isto demonstra a necessidade de os técnicos adotarem uma
postura de articulação de saberes frente a atitudes de persuasão junto aos agricultores,
discutida por Ramos (2006). Neste contexto, de se destacar também as idéias de Box
71
Porque os agricultores, ao debatê os
problemas deles pra gerar e pra melhorá renda
nessa atividade, eles disseram que muitas das
tecnologias que eles foram vê nas excursões, ao
fazer em São Bonifácio, aqui na comunidade do
Rio do Poncho, em vez de ajudá deu prejuízo pra
eles. Eles queriam desenvolvê experiências por eles
mesmo. Testá antes na propriedade, se
funcionava. Fazê uma pesquisa entre eles pra
depois adotar, o quê até minimiza o erro. surgiu
a idéia da pesquisa participativa, porque a gente
perguntou: o quê que eles gostariam de
experimentá? Na verdade o agricultor é um
eterno experimentador, ele vive testando as coisas,
né. Por isso há uma preocupação de colocar as
espécies que eles gostem, que sejam bonitas, que
possam auxiliar assim no aspecto paisagístico da
propriedade. Tudo isso existe, né. Principalmente
os agricultores mais idosos assim, é o que eu noto.
Mas eles tão dispostos assim a fazer e ver o quê
que vai acontecer.
Dentro do piquete a sombra nóis precisava
muito mais rápido do que isso. Só que, is ia fazê com
um monte de erros. De repente o técnico trazê sim, o que
tem pesquisado, assim no caso, em cima de uma
árvore. Mas nunca deixá de fazê a pesquisa, porque cada
local é um local também. E cada situação é uma
situação. Eu procurei, juntar um pouco de cada um, né.
Eu fiz umas parte em linha, outras parte eu fiz no meio
do piquete e outras árvores que nasceram por si, então
elas tão na posição que tão porque nasceram ali, né. Mas
pra diferenciar um pouco assim, né. Na própria
experiência pra ver se é melhor que elas tão em linha ou
se é melhor por dentro do piquete assim, né. Por isso,
da pastagem ser mais rápido, podia ser. Da árvore se
fosse muito rápido [o processo] com certeza a gente ia
cometê mais erro do que assim. Além de ela faltando
do começo já, a árvore dentro do piquete. E a gente
teve problemas com isso. Mas a árvore, como eu vejo, ela
é um pouco mais complexa pra tu colocar. Ela requer um
estudo a mais.
DSC AGRICULTORES DSC TÉCNICOS
(1987), que afirma que os agricultores não querem que se “fale para eles” e sim que se
“converse com eles”. Possuem consciência de seus saberes a respeito não das
características de suas propriedades como também sobre manejo de seus sistemas, exigindo
respeito e valorização de tais saberes nos processos de geração/adaptação de tecnologias.
Os agricultores se mostram cientes de que, para que isto seja possível, se faz realmente
necessária a realização de atividades com o objetivo de discussões em grupo sobre aspectos
técnicos a respeito de tal tecnologia, justificando, de certa maneira, aquele sentimento de
“lentidão” evidenciado anteriormente como uma das características de processos
participativos.
Pela análise do DSC dos técnicos, podemos notar que uma preocupação por parte
deles em se respeitar aspectos relativos à lógica que orienta a tomada de decisão do agricultor
familiar, que vai muito além do simples retorno econômico, evidenciando assim a opção pelo
trabalho com abordagens participativas. Mas será que no trecho do DSC - Testá antes na
propriedade, se funcionava. Fazê uma pesquisa entre eles pra depois adotar, o que até
minimiza o erro -, não estariam engendradas aquelas idéias de que a participação se resume ao
fato de o agricultor decidir se tal tecnologia é boa ou não e, por conseqüência, decidir adotar
ou não?
Por outro lado, os técnicos podem estar se referindo à idéia de que o agricultor faz,
necessita e gostaria de continuar realizando experiências em sua propriedade, até porque, no
próprio DSC dos agricultores, eles reconhecem que momentos de discussões a respeito da
tecnologia propiciam para que se reduza o erro e, conseqüentemente economize tempo.
Diante disso, parece-nos claro que uma conformidade entre os técnicos e agricultores a
respeito da importância de se discutir idéias (tecnologias), com o objetivo de apropriá-las à
realidade de São Bonifácio, ou até mesmo de gerar novas idéias a partir das já existentes.
72
iii) IDÉIA CENTRAL: Desenho conforme interesse próprio
Através deste DSC, como também demonstrado na análise da idéia central anterior, o
que podemos supor é que tenha verdadeiramente ocorrido uma preocupação, por parte dos
técnicos, de que todos os interesses dos agricultores fossem considerados igualmente
importantes no momento de elaboração dos arranjos silvipastoris. Os interesses dos
agricultores podem ser considerados em um processo de geração e/ou adaptação de uma
tecnologia mediante métodos que pressupõem o diálogo entre os atores, o que de fato ocorreu
no caso de São Bonifácio.
A oficina para a elaboração de possíveis arranjos silvipastoris realizada com alguns
agricultores do Grupo do Pasto permitiu que esses agricultores se apropriassem de alguns
princípios dos SSPs e elaborassem seus desenhos conforme as condições de suas propriedades
e dos interesses seus e de sua família (Caporal, 2007). Durante a realização dessa oficina, os
agricultores demonstraram que seus interesses na sombra proporcionada pela árvore vão além
do interesse econômico. Consideraram aspectos como conservação da água, disponibilidade
de néctar e pólen para as abelhas e a própria preservação de algumas espécies florestais,
demonstrando assim sua lógica que orienta a relação entre o manejo dos sistemas produtivos e
a conservação dos recursos naturais. O resultado dessa oficina foi a elaboração de algumas
alternativas de arranjos silvipastoris bastante distintas, não se demonstrando portanto um
modelo único ou um pacote igualmente aplicável para todos.
73
Claro que pra um agricultor que trabalha com apicultura ou é pecuarista de leite, mas
tem um forte viés pra apicultura, o arranjo vai uma tendência mais pro interesse de pastagem
apícola. Um agricultor, pecuarista de leite que tem ovelha, ele vai buscar árvores que procure
contemplá nesse arranjo aquilo que vem de encontro com o interesse de um ovinocultor. Que
também não cria ovelhas, ele cria junto com a pecuária de leite. E muitas vezes é por uma
questão de belo, de outros interesses, né. Neste sentido que cada agricultor elaborou seu desenho
de acordo com as características da propriedade dele, com os interesses que ele tinha, com o
interesse que ele tem na árvore, né, e das características de sua propriedade.
DSC TÉCNICOS
iv) IDÉIA CENTRAL: Construção conjunta
Analisando o DSC dos agricultores, remetemo-nos mais uma vez à idéia de “lentidão”
característica de processos participativos e discutida anteriormente. Pela passagem - A gente
foi vendo algumas coisas ali de árvore e discutindo idéias. Tamo chegando numas idéia
melhor de repente. Já tivemo uma idéia no dezembro do ano passado que até nóis já fizemo o
mapa. Hoje, a idéia é completamente diferente -, podemos observar que os agricultores
compreendem e reconhecem a importância dos espaços de discussão sobre SSPs,
proporcionados pelo ator-chave 6. No entanto, algumas vezes se demonstram inseguros
quanto aos resultados finais a se esperar, “rotulando” tal processo como muito demorado.
A solução desta situação depende muito da sensibilidade do técnico facilitador em
perceber a motivação e o entusiasmo dos atores em participar, alternando entre atividades de
caráter mais teórico/reflexivo com as de cunho mais prático. As idéias de Bunch (1994) vão
74
Mas a discussão que veio de 2005 pra foi muito bom, porque nóis próprio viemo
mudando de idéia desde lá até aqui. A gente foi vendo algumas coisas ali de árvore e discutindo idéias.
Tamo chegando numas idéia melhor de repente. tivemo uma idéia no dezembro do ano passado
que até nóis fizemo o mapa. Hoje, a idéia é completamente diferente. Então, esse mapa, hoje,
não mais valendo pra nóis. Então por isso que eu acho que aquelas discussões longas pra fazê isso
ali até tem o seu valor. A gente tem uma necessidade de fazer alguma coisa diferente, e pra isso a
pesquisa tá sendo bom, que veio e a gente tem a possibilidade de descobrir novas coisas. A minha idéia
foi até de fazer menos sombra. De repente já mudou. Mas também é uma coisa que eu tê que vim em
casa falar com os outros em casa, porque não é eu que vou mandar lá, né. Daí temo que
também lá, e junta a pesquisa, junta o técnico e depois quando iniciá o trabalho temo que vê, né. Então
isso teve uma boa vantagem, porque isso não veio e nem eu hoje tenho uma idéia fixa de como deve ser
ou como de repente vai ser. Trabalhos parecidos jamais aconteceram. E a gente participando de
pesquisa, desde o microbacia pra cá. Antes a gente trabalhava livremente. Na idéia da gente, né. Um
trabalho direto com nóis lá como tá sendo agora, isso nunca aconteceu antes.
A construção, assim. Formas de construir a tecnologia.
Uma foi o PRV e agora é uma nova tecnologia que tá sendo inserida
no meio. que de outra forma. E agora dessa forma, construindo
junto com o agricultor, né. A diferença do PRV que foi
transferido. Porque nenhum dos dois deixa de ser difusão, entre
aspas, ou implantação de uma nova tecnologia. Mas a forma como
foi implantado o PRV é muito diferente da forma como sendo
implantada agora. Pela construção assim, junto com os
agricultores, este trabalho vêm desconstruindo paradigmas, né. De
que estas verdades não vêm num livrinho, num pacote. Esse
livrinho, esse pacote pode sê construído na comunidade com os
agricultores, né.
DSC AGRICULTORES
DSC TÉCNICOS
ao encontro desta alternativa, visto que este afirma que o sucesso de processos participativos
está estreitamente ligado ao entusiasmo dos atores em participar das atividades. Pois, somente
pessoas entusiasmadas se interessam por buscar soluções para seus problemas e trocarem
experiências entre si.
Em ambos DSCs parece claro que discussões conjuntas possuem enorme valor no
momento de se pensar uma tecnologia. Para os agricultores, este valor estaria representado
pelas possibilidades que essas discussões os proporcionam, no intuito de dar conta da
dinâmica do conhecimento. Este dinamismo é defendido por autores como Freire (1983) e
Mussoi (2006), os quais explicam este fato por considerarem o conhecimento como o
resultado de vivências individuais e relações sociais, portanto em constante transformação.
Os agricultores parecem ver nas discussões também uma possibilidade de amadurecer
suas idéias a respeito da tecnologia, proporcionando condições adequadas para que esta
tecnologia as melhores respostas possíveis as suas condições. para os técnicos, a
construção conjunta ocorrida neste processo aparentemente está permitindo que vislumbrem
que mais tecnologias sejam trabalhadas dessa maneira em parceria com os agricultores. Porém
afirmam que - Esse livrinho, esse pacote pode construído na comunidade com os
agricultores. - O que estariam querendo dizer com isso? Quando falam em “pacotes”,
estariam se referindo a pacotes válidos somente para a realidade de cada agricultor de São
Bonifácio ou estariam se referindo a pacotes amplamente válidos a todas as realidades?
v) IDÉIA CENTRAL: Diferentes olhares como estratégia para o desenvolvimento
rural
75
Eu acho que a proposta da pesquisa participativa é um grande caminho pra gente fazê
extensão rural ou desenvolvimento rural. você bota pesquisador, extensionista e agricultor numa
mesa pra construí saber, isso é maravilhoso. Nunca aconteceu da universidade estar aqui dentro da
cidade. Um pequeno território, uma cidade pequena como essa. O fato de trazê atores externos pra
dentro de um ambiente de discussão de problemas internos da comunidade. Eu acho que a grande
novidade foi criá um ambiente onde todos sentam e conversam, mesmo com suas diferenças, com seus
conflitos. Essa foi a grande novidade. Trazê o desenvolvimento rural, o desenvolvimento rural
sustentável, territorial pra dentro do trabalho de extensão rural e de pesquisa. Foi colocá na mesma
mesa pesquisador, extensionista, agricultor e gestor local público.
DSC TÉCNICOS
Analisando este DSC, podemos ter o exemplo concreto a respeito de que um tema
gerador, como no nosso caso “sombra”, pode desencadear um conjunto de processos. O
resultado de trabalhos como este não é simplesmente um número X de agricultores que
“adotaram” sistemas silvipastoris, mas também o processo de construção destes sistemas.
Segundo Bunch (1994), o verdadeiro desenvolvimento, entre outras coisas, ocorre
quando as pessoas aprendem a cuidar sozinhas de suas vidas e a resolver seus próprios
problemas. Em outras palavras, somente faz sentido falar em desenvolvimento quando este é
buscado através de processos que primem por construções coletivas e pelo empoderamento,
por parte dos agricultores, dos princípios do que esteja sendo trabalhado (uma determinada
tecnologia, por exemplo).
A forma como a “tecnologia” de sistemas silvipastoris foi trabalhada em São
Bonifácio, utilizando-se de diversos métodos e ferramentas participativos, proporcionou aos
agricultores se apropriarem dos princípios de tal sistema a ponto de elaborarem arranjos
bastante diferenciados. À luz dessas argumentações, podemos, sim, pensar que o processo
participativo para elaboração de arranjos silvipastoris está contribuindo para o
desenvolvimento do município.
Enxergar no processo participativo uma possibilidade de desenvolvimento
corresponde a técnicos que possuem uma visão mais ampla a respeito de um processo
participativo. Uma visão de que estes processos podem gerar muito mais do que resultados
quantitativos. Geram desenvolvimento humano e do município, constituem-se em uma forma
diferenciada de trabalhar, priorizando relações mais horizontais, constroem e transformam
saberes, entre outras possibilidades.
de se destacar ainda que a afirmação - Eu acho que a grande novidade foi criá um
ambiente onde que todos sentam e conversam, mesmo com suas diferenças, com seus
conflitos - ainda se constitui muito mais em um desejo de alguns do que em algo que
realmente aconteça. Para exemplificar, podemos citar a divergência de idéias a respeito da
inclusão da árvore no sistema gado/pastagem. Alguns técnicos, principalmente os
pertencentes à iniciativa privada, possuem vários questionamentos a respeito. No entanto,
nunca se propuseram a debater o assunto de maneira séria, discutindo dados, construindo
argumentações etc. Tal debate chegou a ser proposto algumas vezes pelo ator-chave 6 e por
alguns outros técnicos, mas nunca acabou sendo realizado. Portanto, o discurso dos técnicos
sobre um ambiente de diálogo de saberes se encontra presente, neste momento, muito mais no
76
próprio discurso do que evidenciado nas ações.
3.2.1 Articulando as Idéias: as potencialidades do processo participativo sobre
arranjos silvipastoris
A partir das idéias evidenciadas pelos DSCs, percebemos que o processo participativo
para construção de arranjos silvipastoris apresenta inúmeras potencialidades vistas pelos
atores-chave. O uso de métodos e ferramentas participativos, como a entrevista semi-
estruturada e a turnê-guiada, proporcionou aos agricultores descobrirem que possuíam
conhecimento a respeito das árvores, o que acabou por entusiasmá-los a buscarem novos
conhecimentos e a elevar sua auto-estima. Esta busca por conhecimentos evidencia o caráter
experimentador e observador dos agricultores familiares do Grupo do Pasto.
Esses agricultores perceberam que reproduzir tecnologias conhecidas através de
visitas em outros locais não basta. Faz-se necessário reconstruí-las na própria propriedade.
Somente aceitam os técnicos se estes lhes trouxerem idéiaspesquisadas, as quais eles ainda
não conseguem acessar por si só. Consideram indispensável a realização de pesquisas em suas
propriedades por acreditarem que também possuem conhecimentos válidos e que são os
maiores conhecedores de seus sistemas de produção e das características de suas
propriedades.
Os agricultores reconhecem que o processo participativo é mais demorado, mas a
vantagem é que propicia uma maior discussão a respeito de idéias sobre uma tecnologia,
fazendo com que esta seja mais adaptada a sua realidade e gere os melhores resultados
possíveis. A postura facilitadora dos técnicos locais e de parceiros externos permitiu que os
agricultores se apropriassem dos princípios dos SSPs, elaborassem arranjos diferenciados
conforme interesses e condições de cada um e não reproduzissem modelos.
Outro elemento importante de considerar é que técnicos e agricultores viram no
processo participativo de São Bonifácio uma possibilidade de articular saberes mediante
interação entre técnicos extensionistas, pesquisadores e agricultores. A partir desta interação,
vislumbram a possibilidade de construir conhecimentos e/ou reelaborar conhecimentos
existentes em busca de alternativas viáveis para cada agricultor.
O que se pôde observar pela análise dos DSCs feitos até o momento foi que processos
participativos, através do conjunto de suas características, potencializam que sejam atingidos
77
objetivos mais amplos, além de resultados quantitativos. Porém, ao mesmo tempo, este
conjunto de características apresenta algumas dificuldades que geram muitos desafios. Tais
desafios, serão apresentados e discutidos a seguir.
3.3 – Desafios do processo participativo
Trabalhar com processos participativos não representa um “mar de rosas”,
apresentando somente potencialidades, possui também algumas dificuldades. Quem se propõe
a trabalhar dessa maneira deve ter consciência das dificuldades e enfrentar os desafios que se
apresentam como conseqüência.
O desenvolvimento de um processo participativo é, em geral, mais demorado; seus
resultados são geralmente perceptíveis a longo prazo; possui uma grande capacidade de
evidenciar divergências de diversas ordens como, por exemplo, interesses e visões dos
diferentes atores.
Há também limitações de ordem individual e institucional. Individual porque o técnico
geralmente se frente a um dilema interno com relação ao paradigma construído na
academia (receitas prontas) e muitas vezes exigido na realidade do meio rural (processo
facilitador ou de aprendizagem). Quando supera tal dilema e opta por seguir um processo de
aprendizagem, às vezes surge um novo dilema, o institucional. Isto se deve ao fato de a
instituição na qual trabalha continuar orientando suas ações dentro do outro paradigma, o de
receitas prontas. Encontrar saídas para estes dilemas se tornam verdadeiros desafios a serem
enfrentados e superados por técnicos que se propõem a trabalhar em processos participativos.
Esses e outros desafios serão melhor apresentados e discutidos a seguir.
78
i) IDÉIA CENTRAL: A demora desanima
Ao ler o DSC dos agricultores, percebemos a angústia deles por começar a plantar as
árvores e ver a concretização das discussões conjuntas. Vale lembrar que o processo
participativo para construção de arranjos silvipastoris teve seu início em 2005 e continua em
curso. Mas, para o âmbito desta dissertação, estamos analisando somente o período até
dezembro de 2006, que corresponde à finalização da pesquisa realizada por Caporal (2007),
que culminou na elaboração dos desenhos de possíveis arranjos silvipastoris pelos
agricultores. No entanto, mesmo com o pedido para que os entrevistados procurassem
responder às perguntas do questionário pensando o processo participativo apenas no período
de 2005 até dezembro de 2006, foi impossível desvincularem-se do período atual. Neste
sentido, faz-se necessário um breve relato do contexto atual.
A alternativa encontrada pelos técnicos locais com vistas a suprir a demanda dos
agricultores do Grupo do Pasto por sombra, em São Bonifácio, foi a de incentivar a realização
de uma pesquisa participativa com o objetivo de selecionar espécies arbóreas que
apresentassem potencial para comporem SSPs e, ao mesmo tempo, fossem de conhecimento e
interesse dos agricultores. A partir da seleção das espécies, os agricultores desenhariam
arranjos silvipastoris conforme as condições de suas propriedades e de seus interesses na
79
a única coisa que eu vejo e que tenho certeza que é da maioria, é a demora né. O pessoal qué
agilidade, né. A coisa vai, fica todo mundo naquela expectativa de fazer e fazer, e entra ano e sai ano e (...).
Eu nem sei em que ano que começou isso, mas eu acho que tamo uns dois anos quase nesse rolo e
ninguém plantou árvore ainda e o pessoal começa a desanimar, né. Como talvez o agricultor ele é
acostumado assim, ele planta o milho, vai ter que carpir, né. Então é tipo assim, é quase como se ele tivesse
plantado o milho e ficou esquecido. Daí depois, quando ele tava quase pra colher, daí foi carpir, né. O
pessoal quer assim, que dê uma sequência, né. Fez, esse mês teve uma coisa, mês que vêm vamo fazer outra,
pra coisa andá. Só que é como por exemplo já foi dito né, não depende do pessoal que tá fazendo isso aí,
né. Tem outras coisas por trás, né. que daí mesmo que desanimou assim. Isso vai acabar que não vai
saí nada e daí a gente começou a fazer por conta. Da minha parte eu peguei, demorou, demorou,
demorou e eu comecei a pegar umas plantas e plantar pra ver se acelerava, assim. Porque eu vejo a
necessidade, né. Os animais precisam desta sombra.
Desanima trabalhar com pesquisa participativa. O
início dessa proposta foi muito teórica e pouco prática. Logo,
os agricultores cobraram pela prática. Além disso, não tem
como trabalhar com pouco recurso. Não tem, é impossível
porque as coisas demoram, as vezes o que tu esperava fazer
numa tarde tu vai levar 3 dias, e pra isto tu vai precisar do
triplo do recurso que tu tinha previsto. É aquela questão de tu
respeitar o tempo processual da pesquisa. Então tu faz um
projeto, prevê um recurso x e, quando tu vê, não tem como tu
executar com aquele recurso, né.
DSC TÉCNICOS
DSC AGRICULTORES
árvore. Portanto, um trabalho meramente de reflexão.
Após a conclusão da pesquisa de Caporal (2007), em dezembro de 2006, através de
um projeto elaborado e apresentado ao PRAPEM/MB2, foram disponibilizados recursos para
que os desenhos de arranjos silvipastoris elaborados pelos agricultores fossem colocados em
prática. No entanto, por questões burocráticas, tais recursos somente foram liberados em
agosto de 2007, significando assim um período de oito meses de espera e justificando a
posição dos agricultores ao afirmarem que a demora desanima.
Porém, tal justificativa dos agricultores pode ser questionada, pois desde o início do
processo eles foram constantemente lembrados de que estavam participando de uma pesquisa
(que originaria uma dissertação de mestrado) e de que esta não tinha nenhum outro objetivo
senão a construção conjunta de possíveis arranjos silvipastoris. Tal construção poderia
desencadear (como realmente desencadeou) um novo processo para a implantação dos SSPs,
porém nada poderia ser garantido pela pesquisadora, evidenciando assim um dilema constante
entre pesquisa e extensão.
Analisando o DSC dos técnicos, também podemos ter algumas explicações para as
angústias demonstradas no DSC dos agricultores. Aparentemente, o principal problema
enfrentado pelos técnicos é a dificuldade em conciliar o tempo processual do grupo com o
qual se trabalha, com o volume de recurso financeiro disponível e com os prazos estipulados
pelos financiadores do projeto. Segundo Kamp e Schuthof (1991), esta é uma das mais
importantes limitações de processos participativos. Esses autores afirmam que algumas
instituições, principalmente governamentais, possuem um conjunto de hierarquias e regras
extremamente rígidas que acabam prejudicando as ações dos técnicos no campo.
No entanto, muitas vezes tais regras e burocracias são impostas pela própria fonte
financiadora dos projetos, que exige cumprimento total dos objetivos pré-estabelecidos dentro
de prazos rígidos e de resultados, em geral, bastante quantitativos. Por isso que autores como
Bunch (1994) afirmam que processos participativos, para obterem sucesso, devem ser
flexíveis tanto na alocação de recursos quanto no cumprimento de prazos, sensíveis ao tempo
processual do grupo e respeitarem especificidades locais (cultura, religião, política etc.).
O interessante de notar neste caso é que os técnicos sabem da angústia dos agricultores
e estes, por sua vez, sabem que a seqüência dos trabalhos às vezes vai além da simples
vontade do técnico. Entretanto, parece não haver muito o que ambos possam fazer a respeito,
a não ser ter paciência e acreditar na proposta.
80
ii) IDÉIA CENTRAL: O processo tem dono
Farias (2000) afirma que, em processos participativos, os interesses coletivos sempre
devem estar à frente dos interesses individuais ou de um pequeno grupo. Com o DSC,
percebemos que no caso de São Bonifácio ainda uma certa “vaidade” entre alguns atores
do processo. E, ao que tudo indica, essa “vaidade” se por parte de alguns técnicos, o que
nos leva a pensar que a interação entre diferentes atores, ao mesmo tempo que se torna
importante na construção de um processo coletivo, ela possa estar ferindo alguns “egos”.
Quem sabe, não seja o “ego” que está sendo ferido, e sim o real interesse por trás do discurso
de “participativo” que esteja sendo ameaçado?
Talvez o que esteja implícito neste DSC é que o Grupo do Pasto, um espaço para
discussão e construção conjunta de alternativas aos problemas enfrentados pelos produtores
de leite do município, estaria sendo utilizado para atender a outros propósitos diferentes
daqueles para o qual inicialmente fora criado. Tal propósito pode estar sendo o de legitimar
junto aos agricultores os interesses do setor privado.
Segundo Kamp e Schuthof (1991), em alguns países a participação é ainda vista como
uma instância de poder político. Proporcionar que os cidadãos tenham voz ativa, portanto,
participem das decisões, significa dar poder a estas pessoas, reduzindo, assim, relações de
dominação. As decisões não dependem mais somente dos interesses do governo e passam a
81
A equipe local eu acho que o principal papel foi esse, foi o de abrir espaço, de incentivar o
trabalho e em alguns momentos de complicar o trabalho, né. Porque eles têm um cuidado muito grande
assim, têm um medo que o pessoal que entre acabe fazendo bobagem, então eles tiveram este papel
assim de incentivar, e algumas vezes fazer parar pra pensar e discutir o processo. Porque todo mundo
trabalha e cada um quer ser o dono da coisa e os técnicos que tão a mais tempo no município são
donos, né. Abrem espaço e ao mesmo tempo ficam sempre com um atrás. São feudos, são burgos, né.
São tipo guetos que as pessoas estabelecem e acham que qualquer pessoa estranha ou uma interdisciplina
que aconteça ali, tá, vamo dizê assim, gerando uma incerteza, uma insegurança. Que o próprio processo
de parceria, de interdisciplina que a gente ilustrando aqui gera esse medo, sabe. Um medo atávico das
pessoas. Vício muito grande das pessoas em, mesmo que seja inconsciente, mas de tentá se impor sobre as
demais parcerias para que seu ponto de vista seja maior do que os outros. É um ato reacionário clássico
de nossa sociedade. As pessoas são como felinos, mijam em quatro cantos da parede e definem territórios.
O Grupo do Pasto não é um território exclusivo do pasto ou só pra produzí leite com qualidade. É pra fazê
gente, fazê gente feliz, fazê cidadania. É até um ato de humildade a gente se despojá desse orgulho
técnico, né. Muito técnico se acha o rei da cocada, é ele que sabe tudo, leva as verdades, soluções, a gente
tá repostulando a idéia de que não é. A verdade não tá com nós, tá com os agricultores.
DSC TÉCNICOS
receber intervenções da sociedade civil. Fazendo uma analogia ao caso de São Bonifácio,
alguns técnicos e respectivas instituições que durante muito tempo exerceram total influência
sobre os agricultores, tomando quase todas as decisões, se vêem, atualmente, “obrigados” a
discutir conjuntamente tais decisões.
Como veremos mais adiante,quem defenda que o Grupo do Pasto deve ter um foco
que seria a produtividade do pasto, e quem defenda que o mesmo deva ter o foco em todas
as questões que envolvem a produtividade leiteira (árvores, pasto, animais etc.). Quem estaria
com a razão? Considerando que esta discussão é feita somente entre os técnicos, qual seria a
opinião dos agricultores a respeito? Será que alguém se interessou em perguntá-la?
O que fica claro com a análise do DSC dos técnicos é que processos participativos
possuem uma capacidade de evidenciar fortes divergências, neste caso, a divergência de
interesses. Mediar tais divergências se constitui em desafios para aqueles que desejam
trabalhar de maneira participativa. Superar estes desafios depende da capacidade dos
profissionais em responder as seguintes questões: Como lidar com sentimentos de “posse”,
como o demonstrado por atores mais tempo em São Bonifácio? Como articular os
diferentes interesses envolvidos em um processo participativo no sentido de canalizá-los em
prol do interesse maior dos agricultores?
iii) IDÉIA CENTRAL: Emergência de divergências
Probst et al. (2003) afirmam que atualmente a pesquisa participativa encontra-se
82
É um assunto [sombra] interessante de trabalhado. Como foi trabalhado. Mas, é um
assunto conflitante. São várias formas de vê um assunto de um ponto de vista diferente. O
agricultor tem uma visão. Técnico tem outra visão. Legislador tem outra visão. O problema, na
verdade, é que é desanimador trabalhar com pesquisa participativa. Porque é complicado tu
atender a todos os interesses, né. Quando é participativo todo mundo dá “pitaco”. É difícil
atender a todos os interesses e ao mesmo tempo fazer um trabalho que seja dinâmico, que seja
interessante pra todos os atores. Que todo mundo goste de participar, que contente a todos.
Mesmo a construção sendo com todos, o resultado final pode o quê o se espere. Que o se
tenha o resultado esperado. E isso pode acontecê. Este é o principal problema assim de trabalhar
com pesquisa participativa. Então assim como resolver estes conflitos é que é o principal assim.
Na verdade eu não sei como resolver isso, não sei quem capacitado assim, se pessoas que
trabalham com pesquisa participativa estão capacitadas pra resolver este tipo de conflito, né.
DSC TÉCNICOS
conceitual e metodologicamente em um estágio embrionário. Talvez esta seja uma explicação
para os técnicos afirmarem que é difícil trabalhar com pesquisa participativa, utilizando
inclusive a palavra “desanimador”. Farias (2000) alerta para a dificuldade em formar técnicos,
investigadores e extensionistas com um perfil para trabalhar com abordagens participativas. A
maioria dos cursos de Ciências Rurais forma técnicos aptos a trabalharem com receitas
prontas e, portanto, sensíveis a simplificar a complexidade encontrada no meio rural. Aqueles
que buscam trabalhar de maneira diferenciada encontram sérias dificuldades, como em
relação à mediação de divergências.
Por pressupor diálogo, portanto, interação de idéias, concepções e visões, os processos
participativos acabam gerando divergências. Tais divergências podem ser das mais diversas
ordens, como culturais, religiosos, de gênero e geração, entre tantas outras. No presente DSC
dos técnicos está evidenciada uma divergência de interesses entre os distintos atores.
Parece-nos que uma preocupação por parte dos técnicos em encontrar formas de
“contentar a todos”. Será que existiria uma fórmula mágica para realizar algo que envolva
diferentes pessoas, com diferentes opiniões e interesses, e que todos se sintam igualmente
satisfeitos? Será que o descontentamento referido no DSC não será pelo simples fato de que
talvez alguns dos atores não estejam interessados em participar?
Construir algo participativamente não significa simplesmente abarcar todos os
interesses, significa também negociação e flexibilidade entre os atores. Há a necessidade de se
entender que em determinados momentos do processo ele se torna menos atraente aos seus
interesses individuais, porém, mais atraente aos do coletivo. Todos os atores envolvidos, em
algum momento, terão que ceder. A pré-disposição de cada um ceder um pouco representaria
um real indicativo de interesse no processo. Não havendo essa pré-disposição, dificilmente
um processo participativo teria condições de obter êxito em seus propósitos.
83
iv) IDÉIA CENTRAL: Divergência de visões
84
Todo mundo sabe da necessidade de ter a sombra. Até o pessoal falou de, como é que vocês
dizem, é Sistema Silvipastoril e coisa, eles [técnicos da iniciativa privada] dizem que não vêem muita
vantagem de ou de não [árvores para sombra]. Que até foi apresentado pra mim, assim, quantos
dias no ano eu precisei tirar os animais dos piquetes, né. O meu pensamento é aquele, eu quero dar
conforto pras minhas vacas, né. Eu quero plantar uma árvore . Eu não tenho interesse nenhum de
pensar em daqui a 20 anos cortá uma tora. Eu não penso nada disso. Eu quero plantar ela pra que meus
animais se sintam bem e que não prejudique a minha pastagem, né. Mas assim, em vez de interesse
econômico, eu não tenho esse interesse. Eu acho assim que, o meu econômico, pra isso eu tenho o
eucalipto, né. Se eu quero vender tora, eu vendo dali e a árvore no pasto pra mim ela é pra ali pra
passarinho fazer ninho e pra sombra pras vaca, né. Não penso assim num planejamento, de plantar
pra daqui a 20 anos tirar tantos m³ por tora ou coisa assim. Isso pra mim não é o foco, né.
DSC AGRICULTORES
85
Houve um debate muito grande entre a nossa equipe [equipe local], e o grupo disse assim: sim,
vai Grupo do Pasto ou Grupo da Árvore? E a gente entrô num grande debate conceitual de que
árvore também pode ser uma pastagem. Não forrageira, mas uma pastagem arbustiva, né. E aí eu acho que
foi um divisor de águas na concepção conceitual clássica já da universidade, como foram formados alguns
técnicos de Ciências Agrárias, eles vêm com um conceito que pastagens é plantas pratenses. E não
aceitaram a idéia, né. Ou não concordam com a idéia de que isso também faz parte da pastagem. Os
agricultores, eles estão empolgados, assim. Eles não acham que a árvore no pasto trazer um problema.
Assim, nem pro pasto nem pro gado. Ao contrário, eles acham que vai trazer benefícios, né. O técnico
ele estuda. Ele estudou. Então ele sabe que pode sim ter vários problemas se não for bem manejado. E isso
é fato! Mas eles o acreditam numa mudança de que pode haver um uso mais sustentável dos recursos,
né. Eu acho que aquele padrão de produtividade e da revolução verde, ainda muito presente, apesar de
não aparecer. Como é que vovai desconectá pastagem da árvore? A árvore tem um grande potencial de
pastagem apícola. Não só apícola mas também forrageiro, pros animais. Em vez da gente fazê silo, a gente
pode uma árvore, que faz sombra e serve de comida pras vacas. Silo-aéreo-arbóreo. Quando a gente
tenta introduzí a discussão da árvore, que é bom pros animais, é bom pra agricultura, pra biodiversidade,
você começa a mexer em alguns confortos conceituais, né. Em algumas posturas que tem que
reconvertida, ou desestabilizar essa postura. Isso vem do currículo, da faculdade, que é uma faculdade
cartesiana, né. Voltada pra absolutês, pra pacotes, pra receitas, pra recomendações técnicas. Alguns
técnicos [iniciativa privada] começaram a ficar mais na visão setorial, mais com a cadeia produtiva do
leite. E a gente [setor público e orientador da pesquisa] tava querendo trabalhá mais numa visão holística,
sistêmica. Então aí, se dizem que hoje há um grande conflito muito explícito que não adianta botá embaixo
do tapete. A gente tem um conflito de percepção de como resolver, de como desenvolver o território.
uma percepção de que tem que focá numa questão setorial. Que não é menos importante, mas que conflita
com a percepção de uma visão sistêmica. Ao você abordá um problema do agricultor, você não vai abordá
só aquela questão tecnológica, só o pasto, só Voisin, melhoramento de pastagem. Mas, a pessoa tem que
desarmada pra podê ouvi o outro lado. Eu acho que por aí que é vital. O descontentamento há, quando as
pessoas, às vezes, não escutam umas às outras. O quê aconteceu em algum momento neste trabalho.
O arranjo silvipastoril que eu entendo, que eu aprendi na academia, ele tem o viés
econômico da madeira, né. Então, aqui há uma discussão diferenciada a este respeito, né. Questão
de sombra com árvores nativas, que a gente sabe que tem uma comercialização impedida por
legislação, a não ser que se faça uma adequação da propriedade e se faça um plano de corte, em
fim. Você tem uma atividade e você vai manejá a árvore junto com essa atividade, e no caso a
atividade principal é a pastagem, porque essas propriedades vivem da atividade leiteira.
Exclusivamente disso, sem outra fonte de renda. Então a árvore, ela tem que entrá nesse manejo
como 1+x, mais alguma coisa. Sempre mais alguma coisa. Então, eu acho que na questão de
você trabalhá com espécies nativas, essa questão do 1 mais alguma coisa fica em dúvida, bota em
cheque a atividade agrícola. A minha opinião técnica com árvore pra sombra ela é inviável. Você
perde mais do que ganha botando árvore no manejo. Especificamente pra sombra. Então faz um
grupo de discussão focado nessa discussão.
DSC TÉCNICOS
Por meio da análise desses DSCs, poderíamos afirmar que algumas divergências
bem claras para todos os atores-chave envolvidos no processo participativo sobre arranjos
silvipastoris. Representam divergências de visões tanto agricultores versus técnicos, quanto
técnicos versus técnicos. De um lado parece estar uma visão mais ampla com relação à árvore,
por parte dos atores-chaves 1, 2, 3, 4 e 6. De outro, uma visão mais fixa na produtividade
leiteira, por parte do ator-chave 5.
Os agricultores, em seu DSC, demonstram a lógica que orienta a tomada de suas
decisões, que vai além do retorno econômico. Carmo (1998) afirma que a lógica de
desenvolvimento e prosperidade de um agricultor familiar, como é o caso do agricultor do
Grupo do Pasto, se dá de forma tão peculiar que pode ser obtida mesmo com uma redução em
sua renda econômica. Além do mais, tais agricultores dispõem de recursos limitados, o que os
obriga a desenvolver estratégias de produção que sejam compatíveis e que não proporcionem
uma deterioração na qualidade desses recursos ao longo do tempo (PLOEG, 2006),
justificando assim o interesse pelo plantio de espécies arbóreas nativas.
Desta maneira, podemos ter uma noção do porquê do interesse dos agricultores na
árvore somente pela perspectiva de obter conforto para seus animais. Alguns destes
agricultores chegam a relatar que tal conforto proporcionado pela árvore refletiria diretamente
na qualidade do leite, pois, seus animais passariam por menores períodos de estresse,
melhorando, assim, a produtividade e a qualidade do leite. Mas, por que não pensar também
em um possível retorno econômico com a comercialização da madeira? Será porque a árvore
representa mesmo somente um desejo de preservação ambiental e de obtenção de benefícios
indiretos ou por terem dificuldade em visualizar seus sistemas produtivos a longo prazo?
Neste sentido, um embate entre a visão dos agricultores e a visão dos técnicos,
principalmente os pertencentes à iniciativa privada. Os técnicos do setor público e parceiros
externos concordam com os agricultores no que se refere aos benefícios indiretos com a
árvore e de preservação da espécie. Porém, divergem quanto à utilização da madeira. Os
técnicos e parceiros acreditam que possibilidades de se conservar as espécies nativas
escolhidas pelos agricultores e, ao mesmo tempo, utilizar a madeira na propriedade. Tudo
realizado através da elaboração e execução de um plano de manejo detalhado, conforme
orientações da legislação ambiental vigente.
com relação aos técnicos da iniciativa privada e agricultores, total divergência a
respeito da inclusão da árvore no sistema gado/pastagem. O interessante é que os agricultores
86
sabem exatamente o que pensam esses técnicos a respeito do tema, como o comprovado pelo
trecho - (...) Sistema Silvipastoril e coisa, eles [técnicos da iniciativa privada] dizem que não
vêem muita vantagem de ou de não [árvores para sombra]. Que até foi apresentado pra
mim, assim, quantos dias no ano eu precisei tirar os animais dos piquetes (...), e os próprios
técnicos da iniciativa privada confirmam dizendo: A minha opinião técnica com árvore pra
sombra ela é inviável. No entanto, os agricultores continuam acreditando nas suas idéias em
relação à árvore e abertos a discutir e buscar novos argumentos, enquanto esses técnicos não
se dispõem a discutir e continuam fechados em suas concepções.
A divergência de visões entre os técnicos do setor público, parceiros externos e os
técnicos da iniciativa privada se na diferença de concepção a respeito da atividade leiteira.
O Grupo do Pasto foi criado com o intuito de se discutir, entre técnicos e agricultores,
assuntos relativos à atividade leiteira em São Bonifácio. que o termo “atividade leiteira” é
entendido de diversas maneiras pelos referidos técnicos. Enquanto os técnicos do setor
público e parceiros externos possuem uma visão mais ampla sobre a atividade leiteira,
defendendo idéias de que se devam discutir diversos assuntos relevantes para os agricultores e
de influência na referida atividade, como o manejo do gado, manejo da árvore, manejo do
pasto, as propriedades do leite, entre tantos outros, os técnicos da iniciativa privada preferem
focar somente na produtividade do pasto e do leite.
Com a afirmação - Então faz um grupo de discussão focado nessa discussão [da
árvore no pasto] -, os técnicos da iniciativa privada sugerem que o Grupo do Pasto não é
espaço para discutir assuntos além dos referidos anteriormente. Por outro lado, os técnicos
do setor público e parceiros externos questionam: Como é que você vai desconectá pastagem
da árvore? Isso evidencia a divergência de uma visão sistêmica versus uma visão setorial.
Mas por quais razões estaria ocorrendo esta divergência entre visões dos técnicos? Teria
alguma relação com as instituições às quais pertencem?
87
v) IDÉIA CENTRAL: Divergência de paradigmas
A análise destes DSCs dos técnicos de São Bonifácio nos importantes elementos
para compreendermos melhor as análises das idéias centrais anteriores. Parecem estar bastante
evidentes as diferentes maneiras de pensar dos técnicos com relação à árvore no sistema
gado/pastagem e o rumo que as discussões do Grupo do Pasto deve tomar.
Os técnicos do setor público e parceiros externos, como discutido anteriormente,
possuem uma visão mais ampla sobre as possibilidades do trabalho participativo com SSPs.
Entendem que SSPs é um elemento importante que se mistura a tantos outros para promover
melhorias na atividade leiteira, bem como o desenvolvimento do município. Para eles, a
atividade leiteira está ligada a diferentes fatores além da produtividade do pasto. Está ligada,
entre outras coisas, ao cuidado com a manutenção dos recursos naturais da propriedade e aos
desejos da família do agricultor com o bem-estar de seus animais e a beleza da propriedade,
por exemplo, todos benefícios indiretos da árvore.
Para obter tais benefícios, como relatado em DSCs anteriores, faz-se necessário um
88
A partir do momento que a gente se postula numa extensão rural que você parte da construção
da verdade com os agricultores, que você rediscute essa tecnologia, até que ponto a gente pode trazê um
pacote? E não, vamos contruí ele com os agricultores. Você bate de frente com o modelo da própria
academia, da grade curricular das nossas escolas, desde o colégio agrícola até a faculdade de
Agronomia, Engenharia Florestal, Medicina Veterinária. A academia forma o técnico pra
pastagem, PRV. Eu acho que a gente aqui se deparando com a pontinha do iceberg. Na verdade, o quê
tá submerso aí é todo o modelo mental da própria escola, da própria sociedade que ainda não traduziu de
todo o relativismo. Nós ainda estamos na era da absolutês. Achamos que tem que chegá pro agricultor e
dizê: óh, essa é a árvore, aqui a muda, tu tem que plantá, o pacote é esse. E nós estamos fazendo o
contrário, né. A academia, muitas vezes, é um entulho de saber que de costas pra sociedade. Muitas
vezes a academia dentro da academia com suas lucubrações, com as suas reflexões, mas não tem o
pé na roça. Nunca abriu uma porteira. Nosso embate hoje é tentá dizê que a árvore faz parte da temática
do Grupo do Pasto. Que não existe o Grupo do Pasto, Grupo da Árvore ou Grupo da Espacialidade
Ambiental. São todos temas geradores que derivam de um mesmo processo e que estão muito imbricados
um com o outro. Não tem como desconectá a árvore, do pasto e das outras questões do desenvolvimento,
né.
É como na questão da pastagem, você tem uma reunião
[Grupo do Pasto], estão 10, 12 que querem discutí
pastagem, enfim, atividade leiteira e tudo que envolve. E você
querê falá de outra questão que não tem nada a com aquilo.
Muitos daqueles dali podem saí. Não, mas eu fui pra pra isso e
a conversa foi outra. Então, faz um grupo de discussão focado
nessa discussão [árvore]. Composto por pessoas desse foco. Até
pra não haver desvio de raciocínio no meio de uma reunião
dessa.
DSC TÉCNICOS
bom manejo do sistema árvore/gado/pastagem. Para tanto, os técnicos defendem a idéia da
extrema importância de discutir o manejo da árvore no sistema leiteiro, ou seja, o manejo
silvipastoril, pois o sistema tem que ser manejado como um todo, e não seus elementos de
forma isolada.
Os técnicos da iniciativa privada defendem a idéia de que o Grupo do Pasto é um
espaço para (...) discutí pastagem, enfim, atividade leiteira e tudo que envolve. Porém, o “tudo
que envolve” significa produtividade da pastagem e do leite, preços e qualidade do leite, ou
seja, uma visão bastante limitada sobre atividade leiteira. Em seu discurso, eles usam o
agricultor como argumento. Constantemente afirmam que os agricultores não estariam
interessados em discutir questões mais amplas relativas à atividade leiteira, quando, na
verdade, sabemos que não é bem assim. Em DSCs anteriores vimos que a opinião dos
agricultores, em geral, é bastante diferente da opinião dos técnicos da iniciativa privada.
Então por que utilizar os agricultores para argumentar suas idéias? Por que não procurar
expressá-las com seus próprios argumentos? Esta visão tão focada na produtividade do leite
teria algo a ver com imposições de sua instituição (laticínio)?
vi) IDÉIA CENTRAL: Imposições institucionais
Estes DSCs demonstram a dificuldade de técnicos que se propõem a trabalhar com
89
A visão da Epagri é uma visão muito de resultado. Então nós aqui estamos trabalhando muito
com processos. E isso, à luz do modelo clássico da Epagri. A percepção de uma instituição como a
Epagri que trabalha com tecnologia, com pessoas, é de produtos. Eles querem vê a curva do pasto.
Mas pra nós, o mais importante é o processo de como se construiu a curva do pasto. Se a gente qué se
preocupá só com o arranjo silvipastoril, vai lá pega um pacote e leva. Mas não. Nós estamos
estabelecendo aqui um processo de pesquisa participativa e aprendizagem pra gerá um produto.
Então, eu acho assim, que o grande desafio, o grande problema é como institucionalmente, trabalhá
na UPR7 e até com os outros atores, a significação, a importância que tem o processo tanto quanto o
produto? E normalmente, dentro da Epagri e dentro da nossa sociedade as pessoas tão preocupadas
com o produto.
Eu pago pela iniciativa privada pra trabalhá com
pastagem e atividade leiteira, então eu também tenho que um
cuidado pra não me envolver demais com atividades que não sejam
de interesse da empresa [laticínio]. cobrado pra trabalhá
especificamente em cima da atividade leiteira. Se eu tivesse em uma
iniciativa pública, ficaria mais fácil, eu poderia uma dedicação
mais profunda, né. Eu ainda acho que às vezes eu ainda me excedo.
DSC TÉCNICOS
abordagens participativas em lidar com as orientações de suas respectivas instituições. Os
técnicos do setor público (Secretaria Municipal de Agricultura e Epagri) e parceiros externos
(UFSC), por pertencerem a instituições de extensão e de pesquisa no meio rural, parecem
conseguir trabalhar melhor com processos participativos. Mesmo que suas instituições exijam
resultados quantitativos e rápidos, conseguem negociar prazos e apresentar resultados mais
qualitativos.
Por outro lado, os técnicos da iniciativa privada pertencem a uma instituição que exige
resultados bastante quantitativos de seu trabalho, traduzidos em produtividade do leite e em
lucro. Parece pouco interessante para a empresa que seus funcionários se envolvam em ações
que não representem um acréscimo em seus rendimentos mensais, mesmo que estas ações
representem um acréscimo para os agricultores. E poderia ser diferente? Uma empresa
poderia pensar no bem-estar de seus fornecedores (os agricultores) sem que isso representasse
um benefício financeiro direto?
Será que, dentro de uma visão capitalista, uma alternativa para esse laticínio não seria
a de ganhar espaço no mercado, representando um benefício financeiro mediante a divulgação
de um leite produzido em um sistema com baixo impacto ambiental? De estar
comercializando um leite, e seus derivados, produzido em sistemas silvipastoris com árvores
nativas, conservando assim os recursos naturais?
vii) IDÉIA CENTRAL: Dificuldade para articular saberes e interesses
O desafio dos processos participativos exposto pelos técnicos se justamente em
90
A forma como o nosso trabalho se realizô, ele pecô em não explorá ou discutí os processos. E a
interação entre os atores. A interface entre os saberes. Porque a gente não sabe fazê isso. Como gerenciá
os vários setores que participam deste trabalho? Tanto a iniciativa privada, público, ong, né. Como é
que eu pegá o saber local, com o saber acadêmico, com o saber técnico dos técnicos, que o na
trincheira, com o saber da cadeia produtiva, que é um saber também técnico, como é que eu vô
interfacializá diferentes saberes? E trabalhá esse processo de conflitos que emerge nessa parceria? E
isso a gente tá aprendendo. A gente quebrando a cara. Tá até dando o couro pra batê, porque a gente
não sabe fazê isso. O bom é que a gente não fazendo sozinho, né. Se eu fosse hoje começá tudo de
novo, há 4 anos atrás, eu ia enfatizá mais a interatividade e a interface entre os atores e os saberes destes
atores. Então esse fórum não é limite só nosso. É um limite institucional, é da sociedade esses limites, né.
DSC TÉCNICOS
criar espaços para ação e reflexão e também articular pesquisa e extensão rural. autores,
como Box (1987), Hocdé (1999) e Farias (2000) que atentam para a importância de integrar
processos de pesquisa, geração e comunicação de tecnologias, promovendo intenso diálogo
entre pesquisa, extensão e o agricultor. Outros, como Ruas et al. (2006) e Mussoi (2006),
afirmam que processos participativos demandam constantes momentos de ação-reflexão. No
entanto, nenhum desses autores atenta à dificuldade para a realização de tais processos.
Tais dificuldades vão desde a baixa capacidade de os técnicos em lidar com
divergências de visões, até da própria sociedade, que não está acostumada a lidar com
situações complexas. Muitas vezes não é de interesse das instituições a criação de fóruns para
discutir como os diversos assuntos que emergem de um processo participativo interagem entre
si. Preferem ficar cada uma numa visão pontual, por diversas razões, praticidade ou
segurança, enfim, por preferirem a acomodação.
Percebe-se neste DSC que um reconhecimento da importância e uma preocupação
de se criar espaços para reflexão sobre o processo. uma preocupação não de
compartilhar conhecimentos, mas de se encontrar formas de interagi-los e de compreender
quais as relações entre eles. Porém, ainda não se encontrou uma maneira de transformar essa
preocupação em ações práticas, demonstrando que este seria um dos principais desafios a
serem superado.
91
viii) IDÉIA CENTRAL: Baixa disposição de alguns técnicos em discutir
O que parece estar exposto aqui nestes DSCs é que ocorre um processo participativo
em que os atores se propõem a dialogar e construir conhecimentos. No entanto, uma certa
restrição de alguns com pensamentos contrários em se dispor a discuti-los. Resgatando
análises de DSCs anteriores, os técnicos da inciativa privada sempre demonstraram opiniões
contrárias a respeito da inclusão da árvore no sistema gado/pastagem. Na idéia central
relacionada a “divergência de visões”, percebemos pelo DSC dos agricultores que a opinião
destes técnicos é conhecida por todos os atores, portanto, eles a expuseram, contrariando o
relatado no presente DSC: A nossa opinião, vamos dizer, em questões de arranjo, a gente por
uma questão até de não querê interferir, a gente não colocô. Talvez o que os técnicos da
iniciativa privada, ao relatarem que preferiram não interferir queiram, na verdade, dizer é que
não agiram no sentido de persuadir os agricultores a não participarem das discussões a
respeito da árvore no pasto.
No DSC dos técnicos do setor público e parceiros externos estão evidenciadas algumas
92
Eu me posicionei assim: de não interferir
negativamente nesse processo. A primeira posição que
eu tive foi essa. Eu disse, vamo permitir. Os
agricultores vinham quetioná, e o quê que vocês
acham? E pela confiança que a gente detém, se a
gente quisesse dizer que não e coisa e tal, era
diferente. Talvez hoje não estaria o trabalho em
andamento. Ator-chave 6 tem o conhecimento
específico e tá trabalhando em cima disso. Então eu
prefiro não opi no trabalho dela, e colaborá
analisando esse desenvolvimento. A nossa opinião,
vamos dizer, em questões de arranjo, a gente por uma
questão até de não querê interferir, a gente não
colocô. Porque a minha opinião seria de fazê áreas de
lazer. Então pra mim não colocá essa opinião e daqui
a pouco induzir um resultado, eu me omití. Deixei pra
eles. Ah não, vocês [agricultores] o quê que é
melhor pra vocês em cima do que ela colocando
de possibilidades, e vocês decidam. Até pra prová que
não teve influência técnica de opiniões na questão
daquilo ali.
Os técnicos sempre preocupados com a
questão da competição com o pasto. Com a questão
da produtividade do pasto mesmo. Que não diminua
a produtividade, que não tenha doença no gado.
Todas essas coisas assim que os técnicos estão
sempre levantando, mas nunca se propuseram
assim, mais de perto a discutir isso, assim, em bases
teóricas que existem. Então, eles levantam muitas
incógnitas mas contribuem muito pouco. Eles dizem
que acham que é importante colocar árvore. E eles
reconhecem isso, mas ao mesmo tempo colocam
vários problemas, né. Eu acho que simplesmente
assim, falta um conhecimento maior talvez. Falta
mais discussão talvez. Eles [agricultores] tão ali na
prática e tão vendo que isso o tem tanta, que o
fato de colocar árvore no pasto não vai causar
tanto problema como o pessoal fala, né. Mas ao
mesmo tempo eu acho que tem que ter certo cuidado
porque os agricultores também são muito
empolgados, mas se não for bem manejado o
sistema pode sim ter vários problemas. Então não
adianta fazer a coisa assim ao léu né.
DSC TÉCNICOS
idéias discutidas anteriormente em outros DSCs, como a dificuldade em criar fóruns para
articular saberes entre todos os atores e a recusa dos técnicos da iniciativa privada em
participar de debates a respeito de sistemas silvipastoris. Analisando os dois DSCs temos uma
ótima noção da dificuldade que é criar espaços para debate de idéias, tão importantes em
processos participativos.
Com relação ao DSC dos técnicos da iniciativa privada, questionamos: Será que um
ator, “omitindo” sua opinião por considerar contrária às opiniões dos demais envolvidos,
estaria contribuindo para o sucesso de um processo participativo? Será que poderíamos
chamar de participativo quando se “omitem” opiniões que possuem certa fundamentação
apenas por considerar que são contrárias? Haveria alguma outra intenção por trás do “nobre
sentimento” de omitir sua opinião pensando no “êxito” do processo participativo?
3.3.1 – Articulando as Idéias: os desafios do processo participativo sobre arranjos
silvipastoris
Analisando o conjunto dos DSCs relacionado aos desafios do processo participativo de
São Bonifácio, percebemos que os principais desafios estão muito mais presentes entre os
técnicos locais e parceiros externos do que propriamente entre os agricultores. Além disso,
processos participativos são, em geral, mais demorados para apresentarem resultados, pois
não trazem verdades e soluções prontas. Uma nova tecnologia não é dada, mas sim,
construída. Ou ainda, como no caso de São Bonifácio, reelaborada.
Para se construir ou reelaborar uma determinada tecnologia em processos
participativos, necessita-se primeiro resgatar o conhecimento dos atores em relação a tal
tecnologia no sentido de valorizar e considerar seus saberes e interesses. Para tanto, faz-se
necessária a realização de uma série de atividades que muitas vezes acabam parecendo muita
conversa e pouca prática. Para lidar com tal situação, cabe ao técnico facilitador do processo
ter a sensibilidade de perceber a insatisfação dos atores com as atividades de discussão e
alternar com atividades mais práticas.
Através dos DSCs, percebemos que o processo participativo sobre arranjos
silvipastoris evidenciou fortes divergências entre os atores-chave, e que o principal desafio é
justamente encontrar alternativas para lidar com estas divergências. No entanto, o que
podemos perceber é que tais divergências estão presentes muito mais entre os atores-chave
93
técnicos do que entre os atores-chave agricultores. Geralmente, ao se falar e discutir os
desafios ao se trabalhar com processos participativos, a literatura aponta para divergências, ou
até mesmo conflitos, existentes entre agricultores ou entre forças internas na comunidade. Em
São Bonifácio ocorre algo totalmente diferente. As maiores divergências estão nas forças
externas, ou seja, entre os técnicos. São eles que não sabem lidar com seus egos, que se
indispõem a discutir, que divergem entre interesses e paradigmas, e são alguns deles que se
recusam a discutir idéias e por isso dificultam a articulação de saberes.
Ao analisarmos os DSCs, percebemos que existe uma divergência mais explícita
referente aos agricultores e, mesmo assim, se constitui uma divergência de visão entre
técnicos e agricultores. E esta divergência pode ser explicada pelo fato de alguns técnicos
acharem que sabem o que os agricultores querem e o que seria melhor para eles. Os
agricultores demonstram estar bastante convictos sobre os benefícios da árvore para seus
sistemas produtivos leiteiros e sabem exatamente o que esperar dela. Sabem que atividade
leiteira não se resume à produtividade do pasto e do leite, tanto é que sugeriram que se
discutisse “sombra”. os técnicos ficam imersos em suas divergências quanto ao rumo das
discussões do Grupo do Pasto, aos benefícios da árvore no sistema de produção leiteiro e no
que consiste a atividade leiteira.
Alguns vêem no processo participativo um risco, pois, devido a este tipo de processo,
ao pressupor interação entre diversos atores internos e externos no sentido de discutir
alternativas para os problemas dos agricultores, consideram que estão perdendo espaço no
município. A reação de quem possui tal sentimento é a de se mostrar resistente em participar
das atividades propostas.
As possíveis respostas para lidar com as divergências evidenciadas no processo
participativo de São Bonifácio podem estar em um dos princípios característicos destes
processos, que é o de respeitar os interesses coletivos frente aos interesses individuais. Os
técnicos, respeitando os interesses dos agricultores, que são os principais interessados, muitas
destas divergências poderão acabar. Ao invés de perderem tempo decidindo os rumos das
discussões do Grupo do Pasto, o que seria atividade leiteira ou o que seria mais importante
para os agricultores, os técnicos deveriam fazer estas perguntas aos próprios agricultores e,
com certeza, encontrariam todas as respostas. Logo, a maioria dos desafios apresentados
evidenciados pelos atores-chave do processo participativo de São Bonifácio representa
desafios dos técnicos, e não dos agricultores, e, muito menos, do próprio processo em si.
94
Para finalizar com um panorama geral sobre a visão dos atores-chave a respeito do
processo participativo sobre arranjos silvipastoris em São Bonifácio, utilizamos uma metáfora
de uma árvore (FIGURA 7). Como bem se sabe, uma árvore é constituída de raízes, tronco,
folhas, flores e frutos. Pensemos que no caso de São Bonifácio o tema gerador “sombra” seria
o tronco de uma árvore, responsável pela sustentação e pelo transporte de nutrientes e que faz
com que as demais partes sejam geradas. Tais nutrientes são retirados do solo e conduzidos ao
tronco pelas raízes. Os atores do processo participativo de São Bonifácio representam estas
raízes, pois são eles que alimentam todo o resto.
As folhas desta árvore constituem as características do processo participativo, pois as
folhas são um dos elementos que diferenciam uma espécie de árvore de outra. No mesmo
galho onde são geradas determinadas folhas, também são gerados os frutos. Os mesmos
nutrientes que dão as características às folhas dão também as características aos frutos. No
entanto, nossa árvore possui a capacidade de gerar frutos totalmente saudáveis, prontos para
serem consumidos, e frutos que merecem um maior cuidado ou um maior aporte de
nutrientes. Os frutos saudáveis representam as potencialidades do processo participativo, e
aqueles que merecem um maior cuidado representam os desafios. Cuidar desta árvore,
proporcionando os adubos necessários para que ela gere frutos sempre saudáveis, cabe a cada
um que se proponha a trabalhar em processos participativos, seja técnico ou agricultor.
95
FIGURA 7: Organograma ilustrativo do processo participativo sobre arranjos silvipastoris em São
Bonifácio, a partir da visão dos atores-chave.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS – O entendimento coletivo sobre a
participação
Ao longo desta dissertação, tivemos a oportunidade de observar o quão diferenciado
pode ser o entendimento a respeito de participação. Observamos também que muitas pessoas
que se propõem a trabalhar de forma participativa encontram uma série de dificuldades por
não entenderem ao certo o que estão realizando ou ainda pelas próprias limitações que estas
abordagens apresentam. Parece bastante claro que se trabalhar com processos participativos
proporciona uma série de vantagens, mas carrega consigo também inúmeros desafios a serem
superados nas mais variadas esferas. O presente estudo analisou um caso concreto, em que se
desenvolveu um processo participativo voltado à construção de arranjos silvipastoris
adaptados às condições de cada agricultor familiar do Grupo do Pasto, em São Bonifácio.
O interessante neste caso é que a opção por desenvolver um processo participativo
partiu de uma instituição como a Epagri, que sempre teve o difusionismo como eixo
orientador de suas ações. A literatura consultada propiciou-nos um bom aporte teórico para
embasarmos a discussão e entendermos a transformação ocorrida com instituições como a
Epagri em seus métodos de pesquisa-extensão rural. Através da literatura, percebemos
também o quanto os métodos participativos representam uma novidade para muitos
profissionais e instituições de pesquisa-extensão rural, fazendo com que o trabalho com tais
métodos se torne verdadeiro desafio a ser superado.
O objetivo desta dissertação foi o de identificar e analisar o entendimento coletivo
sobre participação de diferentes atores (técnicos e agricultores), do município de São
Bonifácio, envolvidos no processo participativo sobre arranjos silvipastoris. Para se atingir
este objetivo, a metodologia utilizada foi a análise do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC).
Tal metodologia permitiu que montássemos, através da união de expressões contidas nos
discursos dos diversos atores-chave, DSCs que representassem o pensamento coletivo sobre o
processo participativo, a partir de suas características, potencialidades e desafios. Os DSCs
permitiram que distinguíssemos os pontos de vistas dos diferentes atores, bem como
encontrássemos convergências.
Um ponto que ficou bastante evidente nos DSCs é que a maior parte das divergências
ocorre entre os técnicos e pesquisadores de diferentes instituições. A principal divergência
apontada pelos agricultores refere-se a diferenças de percepções a respeito da viabilidade e
97
dos benefícios da árvore para a atividade leiteira. Mesmo assim, esta divergência aparece
porque alguns técnicos ainda acham que a lógica que orienta as decisões dos agricultores é
meramente a econômica, quando, na verdade, os DSCs dos próprios agricultores apontam que
sua lógica vai muito além disso. Um estudo aprofundado a respeito das razões destas
divergências de interesses, bem como de possíveis formas de mediar e saná-las, apresenta-se
de extrema relevância para o processo participativo em curso em São Bonifácio.
Esta dissertação se propôs a responder uma questão: Qual o entendimento coletivo de
diferentes atores de São Bonifácio-SC, envolvidos na pesquisa participativa para a
elaboração de possíveis arranjos silvipastoris, a respeito da participação? Não chegamos a
uma conclusão a respeito de participação preconizada pelo grupo de atores-chave
participantes da pesquisa, e nem essa era a nossa intenção. Chegamos, sim, a um conjunto de
princípios e de aspectos percebidos neste caso específico de São Bonifácio e que podem ser
considerados como característicos de processos participativos. Princípios como a valorização
do conhecimento e da identidade local, o necessário diálogo entre atores internos e externos, a
busca do bem-estar coletivo, o respeito ao tempo processual de cada um e a construção
conjunta de conhecimentos mostraram-se presentes nos discursos dos atores.
O processo participativo analisado teve seu início na demanda dos agricultores por
sombra em seus piquetes, com o intuito de dar conforto aos seus animais. Portanto, o tema
gerador foi “sombra”. Entendia-se que os agricultores, através da lida diária em suas
propriedades, detinham um certo conhecimento a respeito de características e formas de
manejo de espécies arbóreas nativas. Neste sentido, optou-se por se utilizar metodologias que
valorizassem este conhecimento e ao mesmo tempo permitissem uma interação com o
conhecimento científico na busca de arranjos silvipastoris mais adequados. Como não poderia
ser diferente, tendo em vista a participação de pessoas diferentes, com experiências de vida
diferentes, portanto conhecimentos diferentes, surgiram opiniões distintas a respeito da real
necessidade dos agricultores por sombra e das alternativas de arranjos silvipastoris possíveis.
Se fizeram presentes nos DSCs alguns aspectos que emergem de um processo
participativo, como alguns descontentamentos gerados por uma certa demora característica do
processo, um sentimento de insegurança quando novos atores (parceiros externos) são
convidados a participar e o aparecimento de muitas divergências fruto de interesses, visões,
idéias, concepções e de paradigmas distintos, tanto de ordem individual quanto institucional.
As idéias dos atores-chave, expressas pelos DSCs possuem estreita relação com a forma com
98
que cada um entende o processo participativo através das possibilidades visualizadas com o
tema gerador “sombra” (FIGURA 8).
Elemento importante para o desenvolvimento do
município
“ Tecnologia” culturalmente apropriada
Conservação dos
Recursos Naturais
Bem-estar
dos animais
Leite
(produtividade)
Tema Gerador:
Sombra
FIGURA 8: Esquema representativo das possibilidades, visualizadas pelos atores-chave de São
Bonifácio, para o tema gerador “sombra”.
A partir do ponto de vista de cada ator-chave do processo participativo, o tema gerador
“sombra” possui um alcance diferenciado. Este alcance possui estreita relação com os
interesses, a visão, as concepções, enfim, características inerentes a cada um. Percebemos que
os atores não se apresentam inteiramente ligados a apenas uma das esferas demonstradas pela
figura, mas sim, permeiam por todas elas. Os agricultores visualizam o tema gerador
“sombra” como potencial para uma melhoria na produtividade do leite e para a construção ou
reelaboração de uma tecnologia adaptada as suas propriedades, como é o caso dos SSPs.
Porém, seus principais interesses estão voltados ao bem-estar de seus animais e para a
conservação dos recursos naturais.
Os técnicos, por sua vez, também possuem um alcance diferenciado em relação às
possibilidades do tema gerador “sombra”. Todos eles conseguem visualizar todas as esferas
99
de possibilidades, porém se detêm em apenas algumas, conforme interesses seus e de suas
instituições. Os atores-chave 3 e 4, por pertencerem ao setor público (Epagri e Secretaria
Municipal de Agricultura), possuem um interesse mais voltado à produtividade do leite como
uma das principais alternativas de renda dos agricultores familiares do município; o interesse
nos SSPs está também na possibilidade de se construir ou de se reelaborar uma tecnologia
adequada às condições de cada agricultor; e também estão mais interessados em realizar ações
no sentido de promover o desenvolvimento de São Bonifácio, e o tema gerador “sombra”
representa uma das possibilidades. O ator-chave 6, por representar os parceiros externos
(UFSC), em parte compartilha dos mesmos interesses desses atores-chave, no entanto,
maior importância à reelaboração de uma tecnologia adaptada a São Bonifácio e à
conservação dos recursos naturais. Por fim, o ator-chave 5 confere maior importância à
produtividade do leite, devido ao fato de este pertencer à iniciativa privada, que claramente
possui seus interesses voltados apenas à rentabilidade econômica.
Estas divergências entre os atores-chave se caracterizaram como a causa de uma série
de empecilhos que acabaram impedindo que algumas boas idéias, tão importantes ao sucesso
de tal processo, saíssem da teoria e fossem colocadas em prática, como uma discussão séria a
respeito da implantação da árvore no PRV, com a participação de técnicos, parceiros externos
e agricultores. Esta discussão ocorreu somente de forma isolada entre técnicos locais-
agricultores, parceiros externos-agricultores e, pouquíssimas vezes, técnicos locais-parceiros
externos, mas nunca essas três categorias de atores juntas. Talvez esta situação explicaria
algumas incertezas a respeito dos objetivos do processo.
Por outro lado, as mesmas divergências também proporcionaram algo de bom ao
processo, pois garantiram, de certa maneira, que a construção de arranjos silvipastoris seria
realizada com os “pés no chão”, que se elaborassem arranjos que realmente estivessem em
conformidade com as especificidades de cada agricultor e que trariam benefícios não
ambientais às propriedades como também econômicos.
A forma como se lidou, no processo participativo analisado, com este conjunto de
divergências e seus aspectos positivos e negativos fez-nos pensar que não pode haver
participação onde todas as partes pensam da mesma maneira, onde não um embate de
idéias; pelo menos aquela participação com objetivo de se construir processos. Pode-se
observar neste caso que a riqueza de um processo participativo está justamente na diversidade
de idéias, de conhecimentos e de interesses presentes entre os diferentes atores. Claro que esta
100
diversidade somente se mostra um aspecto positivo desde que utilizada de maneira
construtiva, através do respeito a todas as opiniões, na busca de alternativas. Mesmo que essa
interação não tenha ocorrido de maneira mais concreta, como justificada nos parágrafos
anteriores, pode-se afirmar que exerceu um importante papel para a elaboração dos arranjos
silvipastoris, evidenciando, assim, que não é omitindo suas opiniões que atores conseguirão
superar seus desafios e acharão um meio termo entre o conjunto de interesses imersos em um
processo participativo.
O que se pode perceber é que entre os técnicos uma pré-disposição por praticar
abordagens participativas em seus métodos de extensão, uma vez que se mostram sensíveis ao
diálogo com agricultores e parceiros externos. Mas, ao mesmo tempo, encontram sérias
restrições; restrições de ordem interna por, muitas vezes, não conseguirem controlar seu
orgulho técnico representado por achar que sabem mais e por quererem para si os “louros”
do sucesso coletivo. E restrições de ordem externa, proporcionadas por uma formação
acadêmica que não os prepara para lidar com a complexidade existente no rural e também
devido a imposições da instituição na qual trabalha que, muitas vezes, não os permite tentar
encontrar alternativas para lidar com tal complexidade.
Os agricultores percebem o participativo como algo bom, que os ajuda a construir
novas idéias possíveis de serem implantadas em suas respectivas propriedades, porém
reclamam um pouco da demora para a concretização de tais idéias. Reconhecem que as
discussões em grupo se tornam interessantes na medida em que oportunizam que exponham e
que até descubram alguns de seus conhecimentos. Demonstraram-se satisfeitos com as
discussões proporcionadas, porém preocupados com algumas incertezas geradas, pois não
conseguiam visualizar onde exatamente iriam chegar.
Portanto, a grande contribuição deste trabalho foi entendermos que participação é o
resultado de relações entre pessoas que pensam e agem de maneira bastante diversificada.
Implica conviver com diferentes visões. É discutir idéias e superar desafios. É se despir de
preconceitos e de orgulhos. É respeitar conceitos e opiniões contrárias. É agir e refletir. É
lidar com incertezas, com inseguranças. É saber ouvir e querer opinar. É aprender e ensinar ao
mesmo tempo. É compartilhar conhecimentos e responsabilidades. Participação é, sobretudo,
um ato de cidadania, de democracia, de respeito e de eqüidade social.
101
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107
APÊNDICE A:
108
RESPOSTAS DOS ATORES-CHAVE À PERGUNTA Nº 1
APÊNDICE A: As respostas, na íntegra, de cada ator-chave para a pergunta nº 1
PERGUNTA Nº1: Como começou o trabalho que envolve a árvore e o pasto?
ATOR-CHAVE 1
Ah, isso surgiu quase como uma necessidade assim, porque a gente que os animais em tempo de
verão eles sofrem muito, né. Tem que tirar do piquete e coisa. Depois, junto com o Grupo do Pasto com as
pesquisas, daí entraram vocês no caso assim, com essa idéia de fazer essa pesquisa. foi pedido assim pra
quem quisesse participar assim da (...) fazer uma experiência pra ver assim como é que tava. E a gente já tinha
percebido também né, que os animais na sombra eles passam o dia mais tranquilo. Que eu me lembro no
momento assim (...).
PESQUISADOR: Mas era mais por causa do calor mesmo ou tinha alguns outros objetivos de vocês
começarem a discutir isso?
A minha parte era o calor, né. Mas tinha gente que tinha outros interesses pra discutir também. Mas a
minha preocupação é a sombra, é o bem-estar animal, né.
PESQUISADOR: E no início eram quantas pessoas assim, mais ou menos?
Ah, tinha bastante. Agora, quantas (...)
PESQUISADOR: Tinha bem mais então do que tem hoje?
Mais. Tinha aquele do Rio do Poncho que agora não participa mais. Tinha no caso ele que veio
hoje (numa viajem a Curitiba) mas também não tava vindo mais. Eu também não tava vindo mais.
PESQUISADOR: E por que tu acha assim que essas pessoas, acabaram não vindo mais?
Olha, eu acho até que é pelo mesmo motivo, é muita demora. A coisa vai, fica todo mundo naquela
expectativa de fazer e fazer, e entra ano e sai ano e (...). Eu nem sei em que ano que começou isso, mas eu acho
que tamo uns dois anos quase nesse rolo e ninguém plantou árvore ainda e o pessoal começa a
desanimar, né.
ATOR-CHAVE 2
É, isso começou lentamente. Ator-chave 6 veio vindo no começo ali, e daí a gente foi vendo algumas
coisas ali de árvore e discutindo idéias. Temo chegando numas idéia melhor de repente. Sei lá, vamo vê,
porque é uma pesquisa, né, e sempre pode mudar uma coisa ou outra. Eu achando um trabalho muito bom,
porque não é só um que tá decidindo.
PESQUISADOR: Por que tu tá achando bom?
É bom porque preserva e também o sombreamento, que faz muita falta. Faz muita falta mesmo. E daí a
gente tem uma necessidade de fazer alguma coisa diferente, e pra isso a pesquisa sendo bom, que veio e (...)
a gente tem a possibilidade de descobrir novas coisas.
PESQUISADOR: E tu acha que isso partiu mais do ator-chave 6 que começou ou teve mais coisas?
Um conjunto, um conjunto. Das reuniões do ator-chave 6 que começou atrás e (...), porque a
gente veio pedindo quase um sistema, no começo do projeto do Microbacia que a gente pediu
orientação sobre legislação e tudo mais assim. que daí depois, daí a pesquisa veio entrando e (...), a gente
também topô e (...) levando isso adiante. Eu acho muito bom. As excursões, a gente viu coisa diferente que
foi muito bom.
ATOR-CHAVE 3
Isso aconteceu numa reunião que nós realizamos em 2004 no Rio do Poncho. E a hora que nós
fomos fazê o plano estratégico, o plano participativo com a comunidade, PDMH, plano de desenvolvimento
da microbacia do Rio do Poncho, a comunidade apontou renda como o principal problema. E a gente ficô num
dilema: que tipo de renda? Renda em quê atividade? E a comunidade hierarquizou, priorizô a renda focada
na pecuária leiteira, que era mais importante. Mas tinha a pecuária de corte, a questão da ovelha, e nós
começamos a entendê que pra trabalhá isso teria que trabalhá com o Grupo do Pasto pra articulá esses
agricultores que tinham interesses em comum voltado pra pecuária. Mas como é que surgiu a idéia de trabalhá
o pasto e a árvore? Porque os agricultores, ao debatê os problemas deles pra gerar (...) pra melhorá renda
nessa atividade, eles disseram que muitas das tecnologias que eles foram nas excursões, ao fazer em São
Bonifácio, aqui na comunidade do Rio do Poncho, em vez de ajudá deu prejuízo pra eles. Exemplo, eles
citaram, o “frichtal”, é um sistema de estala que o animal fica preso, confinado, pra produzir leite. Eles
montaram este sistema porque viram noutro lugar. que ao implantar na propriedade esse sistema não (...)
não viabilizô, ele não se justificô, não se sustentô ao longo do tempo. eles disseram assim, que eles queriam
desenvolvê experiências por eles mesmo. Testá antes na propriedade, se funcionava. Fazê uma pesquisa
109
entre eles pra depois adotar. surgiu a idéia da pesquisa participativa, porque a gente perguntou: o quê que
eles gostariam de experimentá? Na verdade o agricultor é um eterno experimentador, ele vive testando as
coisas, né. eles alegaram que um dos pontos cruciais deles era a pastagem. Eles queriam conhecer melhor,
como que ela produzia? Como que era o rendimento dessa pastagem? Quanto ela suportava de lotação? E
essa questão técnica foi uma demanda que apareceu no PDMH. apontado em 2004, no PDMH da
microbacia, como o principal foco a questão da pastagem, né. E a questão do arranjo silvipastoril. Questão da
árvore, da sombra, todo esse processo aí. E aí, a partir desse tema abordado (...) dessa demanda, foi feita uma
reunião na UPR7 e dos PDMH que tinha demandas de pesquisa participativa, o nosso foi escolhido como uma
prioridade da UPR7 aqui (...), da encosta, né, da Serra Geral. Porque aqui tem e é umas das prioridades da
UPR7, da região de Florianópolis, e a gente foi elencado como uma prioridade do componente de pesquisa
participativa.
ATOR-CHAVE 4
O trabalho iniciô com o Grupo do Pasto, da necessidade de pesquisá sombra. Evoluiu até pra uma
(...), pra outras (...), pra questão do plantio de árvores, onde plantá, onde não plantá. Se plantá depois pode
aproveitá isso ou não. Ser uma fonte de renda. Na conversa que a gente tinha no Grupo do Pasto essa era a
necessidade, até mesmo da questão legal de tudo isso. De tu podê aproveitá isso ou não, e como fazê. E até
mesmo a possibilidade de a gente tê algum subsídio pra questioná a aplicação da legislação dentro da pequena
propriedade de agricultura familiar. Tanto é que hoje se aplicá a legislação, de forma a explorá a propriedade
rural, se torna inviável. Então a além da sombra, além da retirada, um dos objetivos que se tinha era
exatamente esse: era questioná (...) ter subsídio pra se questioná a exploração desta área.
ATOR-CHAVE 5
Éh, o trabalho, na verdade (...), especificamente sobre árvore ou arranjo silvipastoril ele começou em
cima de uma demanda da pesquisa participativa, aonde uma (...) num dia de campo do Grupo do Pasto, os
agricultores questionaram a questão de sombra pro gado. Então, como a gente sempre presa a
multidisciplinaridade da coisa, do trabalho em si, a gente buscou então (...), meios de este retorno pra os
agricultores com alguém especificamente direcionado nesta área, né. Aí o ator-chave 3 juntamente com o Y, eu
me recordo do dia de campo ainda, contactaram a (...), eu me esqueci o nome dela, a professora que era
orientadora da (...), a X, exatamente, e ela trouxe o ator-chave 6 pra essa reunião. Nessa reunião, ah (...) o
grupo tinha uma outra dúvida que era a questão (...) a questão ambiental da coisa, neste processo todo. Então,
se dividiram em duas (...) em duas linhas de trabalho: uma seria o arranjo silvipastoril, em cima de árvores pra
o sombreamento do gado; e a outra seria ah (...) um zoneamento, um mapeamento, em cima da legislação
ambiental, mas com o objetivo de dar subsídio de contestá esta legislação. Sei que é uma coisa difícil, mas
quando tem base científica e participação de agricultores que na verdade, nesta situação são os maiores
prejudicados, né. Porque você sabe, você conhece a lei se for aplicada na íntegra em São Bonifácio, poucos
ficam aqui, né. Dada a conjuntura do (...) deste ecossistema, né (...) dessa bacia hidrográfica. Então, estas duas
linhas de trabalho elas (...) elas começaram. Então, em princípio o grupo (...) ou ator-chave 6, junto com a Z
fizeram visitas, e fizeram levantamento etno (...) de etnoespécies, trabalho de campo, um trabalho interessante e
tal, pra buscar espécies nativas (...) da região pra compor esse arranjo silvipastoril. E, esse trabalho se
estendeu eu acho que durante o ano de 2006, inteiro, né. Com esse trabalho paralelo delas, indo a campo e (...)
mobilizando os agricultores e os agricultores participando da (...) dos dias de campo que elas tinham
organizado, em fim. E, nós é (...), na verdade, continuamos o nosso trabalho esperando (...) esperando o
momento em que (...) em que a pastagem e árvores, na verdade, iam se encontrar. Praí nós termos uma (...) até
uma situação mais palpável pra começá. Aí, tu sabe da (...) da situação, o ano de 2007 não foi um ano muito
(...) é (...) questão financeira do projeto, houve um declínio das atividades, né. Aonde houve um
questionamento dos agricultores quanto a continuidade deste trabalho, né, e agora mais ao final desse ano, a
coisa começou a retornar, né. Tanto é que teve as visitas e tal. Éh, em fim, o trabalho ele se iniciou assim, e ele
está até este ponto com bastante dúvidas. Eu tive um feedback dos agricultores até após essa viagem de
Curitiba que foi ao Paraná, e bastante questionamento. Isso é importante, quando questionamento então
trabalho. Então aí, é questão de trabalhar.
ATOR-CHAVE 6
O trabalho começou por uma demanda dos agricultores que observavam que o gado precisava ter
sombra quando manejado em PRV. Porque antes de ter PRV eles procuravam ter remanescentes de mata
nativa, daí com PRV como eles ficam cercados e, assim, entre aspas confinados numa área, é um manejo mais
intensivo. Então resolveu essa possibilidade e aí, também com um diagnóstico realizado na pesquisa
participativa. Num processo de formação e aprendizado de pesquisa participativa da Epagri, a professora X
identificou isso na fala de alguns agricultores e foi o que estimulou a começar a trabalhar com este assunto.
110
APÊNDICE B:
111
A MONTAGEM DOS DSCs
APÊNDICE B: Identificação das idéias centrais que caracterizam cada tema-base nos
discursos dos atores-chave
Potencialidades de um Processo Participativo
Ator-chave 1
Até o dia que eles perguntaram pra mim se eu daria essa entrevista sobre as espécies, eu até
disse olha eu até posso dar mas eu conheço umas quatro árvores. E daí no fim, no resto eu
conhecia muita, muita árvore, né. E eu até achava que eu nem (...) nem conhecia tanto, né. E
no dia de reconhecer lá, também foi bom assim porque até pra gente saber,né, às vezes a
pessoa fala ah tal árvore, né, aí eu não sei o quê que é. Daí depois fomo ver, não mas eu sabia
sim, só que por outro nome, né.
Ah, a gente (...) sei lá, teve opiniões assim, né. Uns tem uma opinião outros tem outras, no
caso em plantar em linha, coisa assim (...). Depois foi levantado assim que pra funcionar
certinho já teria que ter planejado o desenho do próprio piquete, de acordo com o rumo do sol
e toda essa parte assim, que até isso que teria que ter sido planejado antes, né. [...] É eu
procurei, juntar um pouco de cada um, né. Eu fiz umas parte em linha, outras parte eu fiz no
meio do piquete e outras árvores que nasceram por si, então elas tão na posição que tão
porque nasceram ali, né. Mas pra diferenciar um pouco assim, né. Na própria experiência pra
ver se é melhor que elas tão em linha ou se é melhor tá por dentro do piquete assim, né.
É quase que nem entrá numa canoa, descê o rio e vamo vê onde é que nós vamo chegá, né. Ou
entra numa canoa e não, nós vamo chegá em tal lugar. Aí sim, talvez teria sido melhor.
Ator-chave 2 [...] daí a gente foi vendo algumas coisas ali de árvore e discutindo idéias. Temo chegando
numas idéia melhor de repente. Sei lá, vamo vê, porque é uma pesquisa, né, e sempre pode
mudar uma coisa ou outra. Eu achando um trabalho muito bom, porque não é só um que
decidindo. [...] E daí a gente tem uma necessidade de fazer alguma coisa diferente, e pra isso
a pesquisa tá sendo bom, que veio e (...) a gente tem a possibilidade de descobrir novas coisas.
[...] ali é uma idéia onde eu acho que teve uma grande vantagem, porque a minha idéia
foi até de fazer menos sombra. De repente já mudou a (...), mas também é uma coisa que eu
tê que vim em casa falar com os outros em casa, porque não é só eu que vou mandar lá, né.
Daí temo que também lá, e junta a pesquisa, junta o técnico e depois quando iniciá o
trabalho temo que vê, né.
Olha eu participei, dando idéia também. [...] Ah, com certeza porque a gente veio até
mudando de idéia de algumas coisa conforme veio discutindo, veio (...) veio trabalhando, né.
Então isso teve uma boa vantagem, porque isso não veio e nem eu hoje tenho uma idéia fixa de
como deve ser ou como de repente vai ser. Então, isso pode ainda surgir mudanças ou não de
repente, não sei. Mas a discussão que veio de 2005 pra foi muito bom, porque a gente
veio (...), nóis próprio viemo mudando de idéia desde até aqui. Em função que a gente
ficou conversando e vendo as coisa, percebendo também das necessidade que tinha, que no
começo nóis também não sabia que era tanta. Então isso tudo colaborou pra nóis chegá numa
idéia já diferente.
[...] a função tanto de vocês quanto às veiz dos técnicos local é incentivar e (...) trazendo até
idéias também. Mostrando idéias. Tem algumas que a gente acha que é bom, outras acha que
não (...) não tão bons. que tem uma idéia variável. Então acho que a função do técnico
sendo bem representada também e a nossa função vai começar a ser feita daqui a pouco. É
fazê o trabalho.
[...] isso foi muito bom porque a gente vêm discutindo. tivemo uma idéia no dezembro do
ano passado que a nóis fizemo o mapa. Hoje, a idéia é completamente diferente. Mas
por quê? Porque a gente teve mais reuniões, a gente teve excursão, e dentro do nosso
sistema de trabalho tem outras idéias já. Então em função disso ali, nóis já viemo mudando de
idéia. Então, esse mapa, hoje, já não tá mais valendo pra nóis. Então por isso que eu acho que
aquelas discussões longas pra fazê isso ali até tem o seu valor. Além que, dentro do piquete a
sombra nóis precisavamuito mais rápido do que isso. Só que, nóis ia fazê com um monte de
erros que hoje nóis já podia tá, éh já(...), corrigindo então. [...] de repente o técnico trazê sim,
o que tem pesquisado, assim no caso, em cima de uma árvore. Mas nunca deixá de fazê a
pesquisa, porque cada local é um local também. E cada situação é uma situação [...].
[...] trabalhos deste tipo nunca aconteceu. Não tem eu como dizer, um diferente do outro.
112
Trabalhos parecidos jamais aconteceram. E a gente tá participando de pesquisa, de (...), desde
o microbacia pra cá. Antes a gente trabalhava livremente. O antes era na idéia da gente, né.
[...] num trabalho direto com nóis lá como tá sendo agora, isso nunca aconteceu antes. [...] foi
quando eles liberaram aqueles cursos, ali pra nóis. E daí apoiaram um pouco a gente ali, mas
fora isso eu não me lembro de muito envolvimento com técnico. Eu acho que nóis, nunca
(...), nunca tinha. [...] Olha, eu acho que nóis nem participemo de reunião, nenhuma outra.
Isso nunca aconteceu porque a gente nunca ficou sabendo e (...) se ficou sabendo, uma ou
outra veiz até o cara nem foi ainda também. Nóis não acreditava. [...] Olha, da pastagem ser
mais rápido (...), podia ser. Da árvore se fosse muito rápido com certeza a gente ia cometê
mais erro do que assim. Além de ela tá faltando lá do começo já, a árvore dentro do piquete. E
a gente teve problemas com isso. Mas a árvore, como eu vejo, ela é um pouco mais
complexa pra tu colocar. Ela requer um estudo a mais.
Ator-chave 3
Porque os agricultores, ao debatê os problemas deles pra gerar (...) pra melhorá renda nessa
atividade, eles disseram que muitas das tecnologias que eles foram nas excursões, ao fazer
em São Bonifácio, aqui na comunidade do Rio do Poncho, em vez de ajudá deu prejuízo pra
eles. [...] eles queriam desenvolvê experiências por eles mesmo. Testá antes na propriedade,
se funcionava. Fazê uma pesquisa entre eles pra depois adotar. surgiu a idéia da pesquisa
participativa, porque a gente perguntou: o quê que eles gostariam de experimentá? Na verdade
o agricultor já é um eterno experimentador, ele vive testando as coisas, né.
E esse arranjo silvipastoril emerge da idéia das etnoespécies, que seriam plantas no senso
comum, na linguagem dos agricultores (...) nomes assim vulgar que eles mesmo denominavam
ao longo do saber local deles, né. [...] Claro que pra um agricultor que trabalha com
apicultura (...). É pecuarista de leite, mas tem um forte viés pra apicultura, o arranjo vai
uma tendência mais pro interesse de pastagem apícola. Um agricultor, pecuarista de leite que
tem ovelha, ele vai buscar árvores que tenha (...) que procure contemplá nesse arranjo aquilo
que vem de encontro com o interesse de um ovinocultor. Que também não cria ovelhas, ele
cria junto com a pecuária de leite. E muitas vezes é por uma questão de belo, de outros
interesses, né.
Eu acho que a proposta da pesquisa participativa é um grande caminho pra gente fazê
extensão rural ou desenvolvimento rural. você bota pesquisador, extensionista e agricultor
numa mesa pra construí saber, isso é maravilhoso.
E institucionalmente a gente acabou (...), éh o componente de pesquisa participativa ele vêm
fazendo uma ruptura. Ele vêm desconstruindo paradigmas, né. De que estas verdades não vêm
num livrinho, num pacote. Esse livrinho, esse pacote pode sê construído lá na comunidade com
os agricultores, né.
[...] por exemplo, éh (...) nunca aconteceu da universidade estar aqui dentro da cidade. Um
pequeno território, uma cidade pequena como essa. [...] O fato de trazê atores externos pra
dentro de um ambiente de discussão de problemas internos da comunidade. [...] Eu acho que a
grande novidade foi criá um ambiente onde que todos sentam e conversam, mesmo com suas
diferenças, com seus conflitos. Essa foi a grande novidade. Trazê o desenvolvimento rural (...),
o desenvolvimento rural sustentável, territorial pra dentro do trabalho de extensão rural e de
pesquisa. Foi colocá na mesma mesa pesquisador, extensionista e agricultor (...) e gestor local
público. [...] E houve reações locais aqui. Houve atores locais que diziam assim: e Ator-
chave 3, você é exibido, qué trazê aluno e professor pra cá. Qué trazê essa gente tudo estranha,
de fora. Por quê? Porque tava mexendo no comodismo. Pra quê trazê essa gente, e ônibus, e
alunos, e pesquisá, e mexê com os agricultor? Mas na verdade, a gente tava tentando construí
respostas às necessidades. E a gente construiu ela com os agricultores. [...]. Em nenhum
momento a gente deu passos, né, pode que eu esteja equivocado, mas a gente sempre evitô
de dá passos sem tê a legitimidade do agricultor.
Ator-chave 4
Ator-chave 5
[...] seria ah (...) um zoneamento, um mapeamento, em cima da legislação ambiental, mas
com o objetivo de dar subsídio de contestá esta legislação. Sei que é uma coisa difícil, mas
quando tem base científica e participação de agricultores que na verdade, nesta situação são
os maiores prejudicados, né.
E até minimiza o erro, quando a construção é mútua e não é um pacote vertical. [...] Acho que
tem que construí mediante uma análise da situação como um todo. Minimiza o erro.
113
Ator-chave 6
[...] cada agricultor elaborou seu desenho de acordo com as características da propriedade
dele, com os interesses que ele tinha, com o interesse que ele tem na árvore, né. Se o interesse é
mais leite, ou se o interesse é mais mel, tipo, em função do interesse que ele tem e das
características da propriedade ele elaborou o desenho.
[...] é claro que uma preocupação sim de colocar as espécies que eles gostem, que sejam
bonitas, que possam auxiliar assim no aspecto paisagístico da propriedade. Tudo isso existe,
né. Principalmente os agricultores mais idosos assim, é o que eu noto. Mas eles tão dispostos
assim a fazer e ver o que que vai acontecer.
Uma foi o PRV e agora é uma nova tecnologia que sendo inserida no meio. que de outra
forma. E agora dessa forma, construindo junto com o agricultor, né. A diferença do PRV que
foi transferido. [...] A construção, assim. Formas de construir a tecnologia. Porque é (...),
nenhum dos dois deixa de ser difusão, entre aspas, ou implantação de uma nova tecnologia.
Mas a forma como foi implantado o PRV é muito diferente da forma como tá sendo implantada
agora. Por isso, pela construção assim, junto com os agricultores.
LEGENDA:
Saber que sabe pouco
Tecnologia culturalmente apropriada
Desenho conforme interesse próprio
Construção Conjunta
Diferentes olhares como estratégia para o desenvolvimento rural
IDÉIA CENTRAL: Saber que sabe pouco
DSC AGRICULTORES
Até o dia que eles perguntaram pra mim se eu daria essa entrevista sobre as espécies, eu até disse olha
eu até posso dar mas eu conheço umas quatro árvores. E daí no fim, no resto eu conhecia muita, muita
árvore, né. E eu até achava que eu nem conhecia tanto, né. E no dia de reconhecer [Turnê-guiada],
também foi bom assim porque até pra gente saber,né, às vezes a pessoa fala ah tal árvore, né, eu não sei o
quê que é. Daí depois fomo ver, não mas eu sabia sim, só que por outro nome, né.
IDÉIA CENTRAL: Tecnologia culturalmente apropriada
DSC AGRICULTORES
Dentro do piquete a sombra nóis precisava muito mais rápido do que isso. que, nóis ia fazê com
um monte de erros. De repente o técnico trazê sim, o que tem pesquisado, assim no caso, em cima de uma
árvore. Mas nunca deixá de fazê a pesquisa, porque cada local é um local também. E cada situação é uma
situação. Eu procurei, juntar um pouco de cada um, né. Eu fiz umas parte em linha, outras parte eu fiz no meio
do piquete e outras árvores que nasceram por si, então elas tão na posição que tão porque nasceram ali, né.
Mas pra diferenciar um pouco assim, né. Na própria experiência pra ver se é melhor que elas tão em linha ou
se é melhor por dentro do piquete assim, né. Por isso, da pastagem ser mais rápido, podia ser. Da árvore se
fosse muito rápido [o processo] com certeza a gente ia cometê mais erro do que assim. Além de ela faltando
lá do começo já, a árvore dentro do piquete. E a gente já teve problemas com isso. Mas a árvore, como eu vejo,
ela é um pouco mais complexa pra tu colocar. Ela requer um estudo a mais.
DSC TÉCNICOS
Porque os agricultores, ao debatê os problemas deles pra gerar e pra melhorá renda nessa atividade,
eles disseram que muitas das tecnologias que eles foram nas excursões, ao fazer em São Bonifácio, aqui
na comunidade do Rio do Poncho, em vez de ajudá deu prejuízo pra eles. Eles queriam desenvolvê experiências
por eles mesmo. Testá antes na propriedade,se funcionava. Fazê uma pesquisa entre eles pra depois adotar,
o quê até minimiza o erro. Aí surgiu a idéia da pesquisa participativa, porque a gente perguntou: o quê que eles
gostariam de experimentá? Na verdade o agricultoré um eterno experimentador, ele vive testando as coisas,
114
né. Por isso uma preocupação de colocar as espécies que eles gostem, que sejam bonitas, que possam
auxiliar assim no aspecto paisagístico da propriedade. Tudo isso existe, né. Principalmente os agricultores mais
idosos assim, é o que eu noto. Mas eles tão dispostos assim a fazer e ver o que que vai acontecer.
IDÉIA CENTRAL: Desenho conforme interesse próprio
DSC TÉCNICOS
Claro que pra um agricultor que trabalha com apicultura ou é pecuarista de leite, mas tem um forte
viés pra apicultura, o arranjo vai uma tendência mais pro interesse de pastagem apícola. Um agricultor,
pecuarista de leite que tem ovelha, ele vai buscar árvores que procure contemplá nesse arranjo aquilo que vem
de encontro com o interesse de um ovinocultor. Que também não cria só ovelhas, ele cria junto com a pecuária
de leite. E muitas vezes é por uma questão de belo, de outros interesses, né. Neste sentido que cada agricultor
elaborou seu desenho de acordo com as características da propriedade dele, com os interesses que ele tinha,
com o interesse que ele tem na árvore, né, e das características de sua propriedade.
IDÉIA CENTRAL: Construção Conjunta
DSC AGRICULTORES
Mas a discussão que veio de 2005 pra foi muito bom, porque nóis próprio viemo mudando de
idéia desde até aqui. A gente foi vendo algumas coisas ali de árvore e discutindo idéias. Temo chegando
numas idéia melhor de repente. tivemo uma idéia no dezembro do ano passado que até nóis fizemo o
mapa. Hoje, a idéia é completamente diferente. Então, esse mapa, hoje, não mais valendo pra nóis.
Então por isso que eu acho que aquelas discussões longas pra fazê isso ali até tem o seu valor. A gente tem uma
necessidade de fazer alguma coisa diferente, e pra isso a pesquisa sendo bom, que veio e a gente tem a
possibilidade de descobrir novas coisas. A minha idéia foi até de fazer menos sombra. De repente mudou.
Mas também é uma coisa que eu que vim em casa falar com os outros em casa, porque não é eu que
vou mandar lá, né. Daí temo que também lá, e junta a pesquisa, junta o técnico e depois quando iniciá o
trabalho temo que vê, né. Então isso teve uma boa vantagem, porque isso não veio e nem eu hoje tenho uma
idéia fixa de como deve ser ou como de repente vai ser. Trabalhos parecidos jamais aconteceram. E a gente
participando de pesquisa desde o microbacia pra cá. Antes a gente trabalhava livremente. Na idéia da gente,
né. Um trabalho direto com nóis lá como tá sendo agora, isso nunca aconteceu antes.
DSC TÉCNICOS
A construção, assim. Formas de construir a tecnologia. Uma foi o PRV e agora é uma nova tecnologia
que tá sendo inserida no meio. Só que de outra forma. E agora dessa forma, construindo junto com o agricultor,
né. A diferença do PRV que foi transferido. Porque nenhum dos dois deixa de ser difusão, entre aspas, ou
implantação de uma nova tecnologia. Mas a forma como foi implantado o PRV é muito diferente da forma como
tá sendo implantada agora. Pela construção assim, junto com os agricultores, este trabalho vêm desconstruindo
paradigmas, né. De que estas verdades não vêm num livrinho, num pacote. Esse livrinho, esse pacote pode
construído lá na comunidade com os agricultores, né.
IDÉIA CENTRAL: Diferentes olhares como estratégia para o desenvolvimento rural
DSC TÉCNICOS
Eu acho que a proposta da pesquisa participativa é um grande caminho pra gente fazê extensão rural
ou desenvolvimento rural. você bota pesquisador, extensionista e agricultor numa mesa pra construí saber,
isso é maravilhoso. Nunca aconteceu da universidade estar aqui dentro da cidade. Um pequeno território, uma
cidade pequena como essa. O fato de trazê atores externos pra dentro de um ambiente de discussão de
problemas internos da comunidade. Eu acho que a grande novidade foi criá um ambiente onde que todos
sentam e conversam, mesmo com suas diferenças, com seus conflitos. Essa foi a grande novidade. Trazê o
desenvolvimento rural, o desenvolvimento rural sustentável, territorial pra dentro do trabalho de extensão rural
e de pesquisa. Foi colocá na mesma mesa pesquisador, extensionista, agricultor e gestor local público.
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