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PL: Acho que todo romance tem, de uma forma ou de outra, um cunho social e político. Por
minha formação, por tudo o que vivi, vai ter sempre uma dose de denúncia do racismo, da
violência, das desigualdades sociais. Porém, não ponho a denúncia acima dos valores
transcendentes da arte, a começar pelo valor da liberdade na criação. Do contrário, estaria
fazendo obra panfletária. Tudo o que acontecia na favela Cidade de Deus estava nos jornais.
Eu apenas fiz aquilo que não é função da imprensa - formar naquele cenário da favela
personagens e, sem fantasiar a realidade, mostrar que eles são pessoas normais. Ou seja,
eles têm sentimento, amam, sofrem e estão naquela situação não porque desejem, mas
porque, de certa forma, a vida os lançou na criminalidade.
JC: Como anônimo morador da favela, você já tinha essa visão dos que se entregam à
criminalidade?
PL: Não. Antigamente, eu tinha ódio de bandidos. Por causa deles minha mãe pedia para eu
não sair de casa à noite, havia tiroteios na vizinhança, balas perdidas matavam inocentes.
Depois, já com o olhar de escritor, passei a sentir pena deles e procurei ver no que eles
poderiam se diferenciar dos bandidos da literatura ao realizar as pesquisas para escrever
Cidade de Deus.
JC: A que conclusão chegou?
PL: Como o referencial maior de nossa literatura romanesca era sobre a violência no campo e
não na cidade, e se concentrava de preferência no Nordeste em razão de sua pobreza
histórica, fui então estudar os grandes autores da região. Verifiquei que os bandidos urbanos
não se diferenciavam daqueles descritos por Jorge Amado, Graciliano Ramos, José Lins do
Rego e mesmo do mineiro Guimarães Rosa. A formação da personagem de Zé Amaro, de
José Lins em Fogo Morto, de Pedro Bala ou Volta Seca, de Jorge Amado em Capitães de
Areia é igual à de Zé Pequeno em Cidade de Deus. As épocas, as circunstâncias e os lugares
são diferentes, mas as motivações de base são idênticas na constituição do bandido do sertão
e da favela - a revolta diante da injustiça, da exclusão social. O mesmo quadro você encontra
nos grandes clássicos da literatura universal, basta ler Dostoievski, entre outros.
JC: Quer dizer que, mesmo vivendo no meio de bandidos, você teve de recorrer à literatura
para conhecê-los e compreendê-los?
PL: Não se pode perder de vista o fato de que entre os 250 mil habitantes da Cidade de Deus,
para ficarmos no cenário do livro, apenas uma centena de pessoas está diretamente envolvida
com a criminalidade. Os bandidos se diluem na massa, mudam de esconderijos
continuamente, só se movem pela madrugada, tornam-se invisíveis. Nem por isso, contudo, a
influência deles deixa de ser muito forte e perigosa na comunidade porque estão super-
armados. Porém, ao realizar a pesquisa para o romance, fui entrevistá-los. Eles me receberam
não porque eu fosse um intelectual, universitário, mas porque eu morava lá e já havia
promovido ações sociais e culturais na favela, ao lado dessa grande benfeitora da causa da
integração, Cleonice Dias. Eu era respeitado. Foi aí que percebi, como antes José Lins, Jorge
Amado, que a violência não é praticada por pessoas congenitamente más e sim, na maioria
dos casos, pelos que não tiveram uma oportunidade na vida. No mais, escrevi o livro com
pleno conhecimento de causa, sabia do que estava falando porque vivi a violência na própria
pele.
JC: Como avalia a contribuição da literatura engajada para a mudança do mundo?
PL: A literatura e as artes em geral podem contribuir, trazendo à luz situações engendradas
pela miséria, pela violência, pelo racismo, suscitando o debate em torno das grandes questões
da sociedade, mas o resultado resta muito modesto. No caso do Brasil, o impacto duradouro
das obras de Amado, Graciliano, José Lins, do teatro de Augusto Boal, das músicas de Chico
Buarque contribuiu, sim, para o enriquecimento da consciência individual, porém não
conseguiu alterar a visão das elites sobre as perversões que fazem de nosso país uma
sociedade injusta. Seja como for, temos que continuar martelando na mesma tecla nas artes,