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1
JULIANAVOTTOCRUZ
ACONSTRUÇÃODOSUJEITOHISTÓRICOEM
AVANTE,SOLDADOS:PARATRÁS
Dissertaçãoapresentada aoProgramade
Pós-GraduaçãoemLetras–Mestradoem
História da Literatura da Fundação
Universidade Federal do Rio Grande,
como requisito parcial para obtenção do
graudeMestreemLetras.
Orientador:
Prof.Dr.JoséLuísGiovanoniFornos
RioGrande
2007
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2
Folhadeaprovação
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3
Poracreditarnaprodução deconhecimento
como fator de transformação social, dedico
esta dissertação àqueles que se propõem
pensarasrelaçõeshumanasparaalémdas
margens fixas que a tradição ensina e o
fazemcomousadiaesabordeliberdade.
4
AGRADECIMENTOS
Agradeçoaconstruçãodestetrabalho:
-aosmeuspaisecompanheiros, FlávioeMaria,pelosmomentos demuito
carinho, preocupação e confiança. Pela maneira como fui educada, pelos valores
quetragocomigoepelaliberdadedesubvertê-los.Porqueaindaacreditamnoamor
comoprincípiomaiorderealizaçãopessoal.
- ao meu irmão, Arthur, por partilhar da mesma paixão por tudo que é
humano. Pelo riso solto, por preparar a trilha sonora das horas difíceis entre os
livros.Poracreditaremmim.
-aosmeusavósPedroeJúlia,pelaternuratãoraraeconstante.Aosmeus
tios Uia e Duda, parceiros ideais para discussões teóricas, noites de violão,
confissõesecaminhadaspormundosreaisouimaginados.

-aosmeusamigos,osantigoseosqueconheciduranteocaminho.Obrigada
peladescontração,pelasconversas animadas, pelas horasem quetornaram tudo
maisleve.Flávia,CláudiaeLuciano:sãoparavocêsmeusdesejosmaisfundosde
sucessoefelicidade.

-aoprofessorJoséLuís Fornos,pelapaciência,reconhecimento eexemplo
deintelectualdedicado.Pelasindicaçõesdeleitura,pelaorientaçãosegura.
-aocorpodocentedoProgramadePós-GraduaçãoemHistóriadaLiteratura,
poracreditarememumaestudantedeHistóriaqueusoucomoúnicoargumento o
profundodesejodemergulharnouniversoliterário.
-àsprofessorasSylvieDioneRubelisedaCunha,pelacompreensãoepelo
apoionestemomentodelicado.
-eatodasaspessoasque,porumarazãoououtra,ouviramarespeitodeste
trabalhoeprocuraramajudaraseumodo.Foramreclamaçõesemônibus,lamentos
em filas de banco, descobertas anunciadas em aniversários, conquistas
compartilhadasduranteojantar.Obrigadapelapaciência.
5
RESUMO
A presente dissertação discute a relação entre ficção e história, propondo uma
traduçãoentreambososdiscursos,pormeiodaanálisedacomposiçãoculturaldo
sujeito histórico no romance Avante, soldados: para trás (1992), de Deonísio da
Silva. Foram consideradas as transformações da poética da narrativa ficcional
histórica ao longo do século XX e a condição pós-colonial do Brasil, levando em
contaconceitoscomohibridismo,multiculturalismo,diásporaecarnavalizaçãonum
contextopós-moderno.Igualmente,realiza-seumaleituraculturaldaspersonagens
eumarevisãodaobradeDeonísiodaSilvaemrelaçãoaosistemaliterárioatual.
6
ABSTRACT
The present thesis discuss the relation between fiction and history, proposing a
translation connecting both discourses,
by means of analyzing the cultural
constitutionofthe
historicalsubjectinthenovelAvante,soldados:paratrás(1992),
by Deonísio da Silva. For this work, the changes that occurred in the poetics of
historical fictional narratives during the twentieth century and the postcolonial
condition of Brazil have been considered, as well as concepts such as hybridism,
multiculturalism, diaspora and carnivalization in a postmodern context. Likewise,
culturalreadingsonthecharactersinadditiontoareviewontheworkofDeonísioda
Silva,relatingittothecurrentliterarysystem,areperformed.
7
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.......................................................................................................
8
1–AMETAFICÇÃOHISTORIOGRÁFICANOCONTEXTOPÓS-COLONIAL....
12
1.1–Odiscursoficcionalhistóricoeaidentidadenacional...............................
12
1.2–Literatura,históriaepós-modernismo.......................................................
17
1.2.1–Osdesafiosàrecepçãonopós-modernismo......................................
21
1.3–Aconstruçãoficcionaldosujeito...............................................................
26
1.4–Ametaficçãohistoriográficanosestudosculturais................................... 29
1.5–AGuerradoParaguainodiscursodahistória...........................................
39
2 – AVANTE, SOLDADOS: PARA TRÁS: UMA LEITURA CULTURAL DO
SUJEITO................................................................................................................
50
2.1–Caracterizaçãodaobranocontextodametaficçãohistoriográfica...........
51
2.2 – As múltiplas vozes do sujeito: manifestações identitárias no ambiente
fronteiriço...............................................................................................................
64
2.2.1–Ainstâncianarrativa:memóriasdeumsoldadosonhador.................
64
2.2.2–Os(anti-)heróishistóricosrevisitadospeloolhardaliteratura............
71
2.2.3–Ofemininonamemóriadaguerra......................................................
80
2.2.4–Osujeitomarginalnafronteiraentrehistóriaeficção.........................
87
2.3–AprosadeDeonísiodaSilvanosistemaliterárioatual............................
94
CONSIDERAÇÕESFINAIS...................................................................................
102
REFERÊNCIAS..................................................................................................... 106
8
INTRODUÇÃO
GraduadaemHistóriapelaFundaçãoUniversidadeFederaldoRioGrande,o
universo dos estudos literários se configuroucomo possibilidade de estudocom o
meuingressonoProgramadePós-GraduaçãoemLetras,MestradoemHistóriada
Literatura,namesmauniversidade,noanode2005.Aliteraturaesuasrelaçõescom
ahistóriacomorecursodeanálisesemprefoiobjetodomeuinteresse.
ComoalunadaPós-GraduaçãoemLetras,novasperspectivasdepesquisa,
bem como outras formas de pensar a história emergiram, principalmente nas
disciplinas de Teoria da História da Literatura e Tópicos Avançados de Teoria da
HistóriadaLiteratura.Estaúltimaproporcionou-meocontatocomonovodiscurso
ficcionalhistóricolatino-americano,peloqualdesenvolviespecialinteresse.
A opção por um romance do escritor Deonísio da Silva adveio de leituras
anteriores. Particularmente, Avante, soldados: para trás suscitou questões
relevantesesetornouumapossibilidadedeestudo.Comaparticipaçãonoprojeto
PolifoniaeCríticaPós-ColonialnasNarrativasdeFicçãoAfro-Luso-Brasileiras,soba
orientaçãodoprofessorJoséLuisGiovanoniFornos,aidéiaadquiriuconsistência.A
discussãoacercadetemasrelacionadosàrealidadepós-colonialemnarrativascom
temáticas históricas tornou viável um diálogo entre literatura e história em uma
perspectivacultural.
Caracterizado como novo romance histórico, Avante, soldados: para trás
insere-senosistemaliteráriocomo obra representativadogênero, quesubverte o
modelotradicionalderomancepropostoporautorescomoWalterScotteteorizado
porLukács. Fruto de transformações ocorridas principalmente a partir dasegunda
metade do século XX com a publicação de El reino de este mundo (1949), do
cubanoAlejoCarpentier,onovodiscursoficcionalhistóricoémarcadoporcódigos
estéticosprópriosepelacomplexidadenarrativa.
9
Aproblematizaçãoconscientedahistóriamedianterecursoscomointertextos,
ironia, teor paródico e humorístico, e ainda a natureza metatextual desse tipo de
narrativa, constitui um desafio lançado ao leitor, que passa a atuar como agente
geradordesignificaçãonotextoerevisitaodiscursooficialcomnovosinstrumentos
deanálise.
AobradeDeonísiodaSilvaseencontraimersanesseuniversoderelaçõese
secomunicacomautorescomoAlejoCarpentier,JoséSaramago,LuizAntoniode
AssisBrasil,GabrielGarcíaMárquez,IsabelAllende,entreoutros,tantonoquese
refereaosaspectoscompositivosformais,quantopelaopçãotemáticacomoprojeto
de revisão da história pela ficção. Em um contexto pós-colonial, a releitura da
história oficial adquire forçano própriodiscurso do sujeito colonizado, que,com a
oportunidade de recriar imagens múltiplas do próprio passado, gera novas
possibilidadesdeconstruçãoidentitáriacombasenadiversidade.
Sobesseprisma,aquestãofundamentalquemotivaestapesquisaéanalisar
emquemedidaocorpusficcionalescolhidoseinserenoâmbitodoNovoRomance
Histórico,ou metaficção historiográfica,e dequemaneiraa relaçãoproposta pelo
autorentreficçãoehistória,emdiálogocomoutrasséries,adquirecaráterpolítico
diante do referido contexto histórico e das lacunas porventura deixadas pelo
discursooficial.
Dados esses aspectos, esta dissertação justifica-se pela importância que o
novo romance histórico granjeou no sistema literário e, mais recentemente, nos
estudos históricos; por contribuir com o diálogo entre literatura e história,
considerando a formação do sujeito histórico através da perspectiva ficcional pós-
moderna;poranalisararealidadeficcionalapartirdeumeixoteóricosócio-histórico
emumaconjunturapós-colonial;epelarelevânciadeestudaraobradeDeonísioda
Silva,expoentedogêneronoBrasil.
Nessesentido,estapesquisatemporobjetivos:
analisar a construção do sujeito histórico presente nas personagens
de Avante, soldados: para trás, considerando seus aspectos
compositivos e relacionando-os com as teorias sócio-históricas
previstas;
10
realizarumaleituraculturaldosujeitoemAvante,soldados:paratrás,
focalizandoocontextopós-colonialemqueestáinserido,apartirde
questões acerca dos novos códigos estéticos do discurso ficcional
histórico;
contribuir para estudos histórico-literários posteriores e evidenciar a
relevânciadeseanalisaraobradeDeonísiodaSilva.
A pesquisa considera a contribuição de teóricos fundamentais: Bakhtin, no
âmbito da natureza dialógica, híbrida e polifônica do discurso romanesco; Homi
Bhabha e Stuart Hall, no que tange aos aspectos culturais, e Linda Hutcheon,
conceituando paródia e pós-modernismo. Outras colaborações oportunas
encontram-se nos estudos de Paul Ricoeur, Georg Lukács, Seymour Menton,
HaydenWhite,RolandBarthes,PeterBurke,MichelFoucault,entreoutros.
A dissertação está estruturada em dois capítulos, sucessivamente
subdivididos em seise sete partes. No primeiro capítulo,éproposta uma reflexão
teórica a respeito do diálogo entre a metaficção historiográfica e o contexto pós-
colonial.Emumprimeiromomentorealiza-seumadiscussãoacercadarelaçãoentre
odiscursoficcionalhistóricoeaconstruçãodaidentidadenacional,emespecialno
séculoXIX.Emseguida,evidenciandoastransformaçõesocorridascomanarrativa
ficcional históricano século XX, o subcapítulointitulado “Literatura, história e pós-
modernismo”tratadorelacionamentoentrehistóriaeficçãoconsiderandoaspectos
relativosàrealidadepós-modernaetrazcontribuições aesserespeitodeteóricos
comoHaydenWhiteeLindaHutcheon.Aindanesseitemsãolevantadoselementos
referentesàproblemáticadarecepçãocontemporânea.
Porseuturno, o subcapítulo“Aconstruçãoficcionaldosujeito” propõe uma
revisãodoconceitodesujeitohistóricosoboviéscultural,postuladoporStuartHall
em A identidade cultural na pós-modernidade (2004), além da colaboração de
conceitosbakhtinianosedoteóricopós-estruturalistaMichelFoucault.
Noqueconcerne ao penúltimosubcapítulo da primeira parte, “Ametaficção
historiográficanos
estudosculturais”,busca-seintegrarasreflexõesanteriorescom
relação ao novo romance histórico à cena dos estudos referentes à cultura e à
identidadepós-modernas,permeadaspeloconceitodeparódiadeHutcheon.
11
O último subcapítulo, “A Guerra do Paraguai no discurso da história”,
pretende, em um breve painel inicial sobre o conflito na prosa histórica,
problematizarodiscursohistoriográficooficialveiculadoecotejardiferentesversões
dehistoriadoresparaomesmoevento.
Na segunda parte, Avante, soldados: para trás: uma leitura cultural do
sujeito”, dividida em sete itens, primeiramente é discutida a inserção da obra
ficcionalnoestudodarelaçãoentrehistóriaeliteratura.Apresenta-seumestudodas
diferenças e semelhanças entre ambos os discursos, mediante auxílio de Paul
Ricoeur, Peter Burke e Jacques Le Goff. A recorrência na literatura do tema da
guerra é igualmente problematizada, seguida da análise da obra ficcional como
representativadametaficçãohistoriográfica.
A seguir, é traçado um perfil da construção identitária das personagens do
romancenumaperspectivacultural,emsintoniacomocorpusteóricooraexposto.
Essasidentidades,somenteparaefeitodeinvestigação,sãoapresentadasdivididas
eminstâncianarrativa,personagenshistóricas,personagensfemininasepersonagens
periféricas. Em cada subcapítulo, além da análise das personagens ficcionais,
propõe-seumavisãodeconjuntodessespadrõesidentitáriosnasociedadeaolongo
dahistóriaedosestudosculturais.
12
1–AMETAFICÇÃOHISTORIOGRÁFICANOCONTEXTOPÓS-
COLONIAL
1.1–Odiscursoficcionalhistóricoeaidentidadenacional
Pareçocabo-verdiana
Pareçoantilhana
Pareçomartiniquenha
Pareçojamaicana
Pareçobrasileira
Pareçocapixaba
Pareçobaiana
Pareçocarioca
Pareçocubana
Pareçoamericana
(ElisaLucinda)
A
histórialiteráriaderegiõesquepassaramporprocessodecolonização,de
modogeral,estámarcadapeloentrecruzamentodosdiscursosficcionalehistórico.
Nessecontexto, desenvolve-se umaespéciedeliteraturavinculadaà históriaque,
noséculoXIX,atingeoseumomentoáureocomochamadoromancehistórico.Na
definição do crítico húngaro Georg Lukács (1997), o romance histórico tradicional
caracteriza-se por ser contextualizado em um período histórico determinado,
abordandoeventosrepresentativosdessemomentodemaneirasemelhanteàprosa
histórica.Comefeito,essasnarrativasobservamumalógicalineardetempoefazem
usodedadoshistóricosparagarantirumasupostaveracidadeaodiscurso.Mesclam
ainda personagens históricas e ficcionais e o narrador, não raro, manifesta uma
posiçãodeimparcialidadepormeiododiscursoemterceirapessoa.
SeymourMenton(1993)consideraquetodoromanceéhistórico,jáque,em
maior ou menor grau, absorve o meio social das suas personagens, inclusive as
mais introspectivas na trama. Outra premissa para que um romance seja definido
13
como histórico é a ação situada predominantemente num tempo passado não
experimentadopeloseuautor.
O romance histórico clássico/realista do século XIX, identificado com o
Romantismo, desempenha fundamental papel durante a formação dos estados
nacionais modernos na Europa. Cada nação anseia por afirmar-se como única, o
queimplicapossuirhistóriaeliteraturapróprias,eventosrelevantes,heróisemitos
fundadores.AfunçãodoEstadoé,deumlado,enalteceraculturanacionalcomo
diferentedasdemais,edeoutro,incentivarahomogeneidadedaspráticasculturais
no âmbito local. O Romantismo é o responsável pela expressão do ideal
nacionalista, por meio de valores que buscam identificar indícios de originalidade.
ParaohistoriadorEricHobsbawn(1998,p.49),existem
Trêscritériosquepermitiamaumpovoserfirmementeclassificado
comonação,semprequefossesuficientementegrandeparapassar
daentrada:o primeirodestescritériosera suaassociação histórica
comumEstadoexistenteoucomumEstadodepassadorecentee
razoavelmentedurável.O segundocritério eradadopelaexistência
de uma elite cultural longamente estabelecida, que possuísse um
vernáculo administrativo e literário escrito. O terceiro critério, que
infelizmenteprecisaserdito,eradadoporumaprovadacapacidade
paraaconquista.
Aidentidadenacional,todavia,ocaraparaosEstadosquenascem,nãose
constitui em algo objetivo ou concreto, mas em uma construção discursiva e,
portanto,ficcional.Asfronteirasinternacionaissãomaisbemidentificadasporsuas
diferenças ideológicas, culturais e socioeconômicas do que por limites naturais.
SegundoBenedictAnderson(1989),aidéiadeidentidadefuncionapararepresentar
ficcionalmente valores, crenças e tradições de uma determinada “comunidade
imaginária”.Éessacaracterísticaemespecialqueconfereaosromânticosaautoria
daidéiadenação.Apossibilidadedefusãoentreaspectosmeramentefictícioscom
outrossupostamente verídicos seduzo leitor da época, quecria a ilusãode estar
diantedeumfolhetim,porém,semdúvida,maisdinâmico.
Participar de uma comunidade, de uma nação é, de forma concreta, não
pertenceraoutra.Aidentidadenacionalestáfundamentadanoprincípiodeunidade
interna e, naturalmente, de exclusão ou rejeição ao externo e diferente (sou
14
brasileiro porque o sou paraguaio). Contudo, a negação do outro parte da sua
existência; o diferente apenas existe se puder ser comparado a um padrão de
existênciadistinto.Osentimentodeancestralidadeeparentescoérepresentadonas
narrativas românticas, e a comunidade passa a ter um legado a ser preservado,
renovadoeressignificadoconstantemente.Astradiçõesestãosendoconstruídase
ascomunidadesnacionaisbuscamumaautonomiaespaço-temporalquesejacapaz
detirá-lasdoseuanonimato.JosédeAlencar(1872),emSonhosd’ouro,demonstra
demodoclaroessarelação:“Opovo quechupaocaju,amanga,ocambucáea
jabuticaba,podefalarumalínguacomigualpronúnciaeomesmoespíritodopovo
quesorveofigo,apêra,odamascoeanêspera?”
1
.
Demodogeral,essasnarrativasvalorizamanaturezaeaspaisagenstípicas,
como ambientação para o surgimento do herói nacional, protagonista-exemplo do
povoemquestão,frutodeumalinhagemnobre,guerreira.Portadordevalorescomo
justiça e hombridade e dono de uma sensibilidade inabalável, busca a harmonia
comoumperfeitodescendentedeApolo.
Oromancehistóricorealistaseprestaperfeitamenteaessafinalidade,porse
constituiremumanarrativamonológica
2
,centralizadoraefechada,proporcionando
as condições favoráveis à consolidação de um mito. A noção de que a história
intervémnavidadoindivíduo,advindadaRevoluçãoFrancesa
3
,edequeasmassas
devemsertransformadas peloconhecimentodemaneira natural,seguindo oideal
positivista,contribuisubstancialmenteparaadifusãodogênero.
ORomantismoeseuteornacionalista,emconstantebuscaporumapátriapara
enaltecer,estabeleceumprincípio(passadoimaginário)apartirdeumfim(presente
real).OBrasiltemsuabaseculturalpautadanamiscigenaçãodeculturas,etniase
histórias.Portanto,sefaznecessárioum“atoinaugural”ideal,noqualessanatureza
híbridasejavalorizadaeelevadaàcategoriadenobre,justificandoocaráterbastardo
dopovonopresente,frutodocontatoentrecolonizadorecolonizado.
 
1
Aquiutiliza-seaquintaedição,daMelhoramentos(s.d.,p.13).
2
Monológico,nosentidodeBakhtin,correspondeaodiscursodeumavozapenas.Fechadoemuitas
vezes dogmático,o discurso monológico não permiteintervenção por parte do interlocutor, que se
obrigaarecebernaíntegraasinformaçõesdotexto.
3
ComoadventodaRevoluçãoFrancesaeareconfiguraçãodasclassesnopoder,aidéiadequea
História transforma a vida da sociedade passou a ser fortemente veiculada em toda a Europa. A
literatura,nocasoaprosaromântica,converteu-seemvaliosoinstrumentodessatransformação.
15
NoBrasil,JosédeAlencaréresponsávelpelapublicaçãodevastaobracom
referência histórica durante o século XIX. Suas narrativas ambientam-se em
cenáriosparadisíacostípicosderegiõestropicaisetêmcomotemáticaaformação
do povo brasileiro. Para tanto, as personagens protagonistas são geralmente
indígenas,comoPeri,nocélebreOguarani(1857).MembrodatribodosGoitacás,o
índio é escravizado por uma família portuguesa, cujo patriarca é o pai da jovem
Cecília,porquemPeriseapaixona.
Cecília(queosindígenaschamavamCeci)decidepermanecernaselvacom
Peri,apóstersuasegurançaconfiadaaoíndiopeloprópriopaiduranteumataqueà
propriedade, episódio que
contempla o ideal clássico de formação do povo
brasileiro, pela miscigenação do indígena com o branco europeu. O grande
diferencialemOguaraniéqueadecisãodeCeciempermanecernoBrasilfazcom
que o ideal indígena prevaleça e a identidade nacional seja afirmada. Outros
romancesdeAlencarrepresentativosdogênerosãoAsminasdeprata(1865)eA
guerradosmascates(1873).
Aconcepçãohistóricadaépoca,entretanto,persisteignorandoosintervalos,
as rupturas e as contradições existentes nesses processos e segue a lógica
unidimensional
4
. Os romances de Alencar, por conseguinte, representam o
imaginário europeu de nacionalismo, na medida em que propõem uma conclusão
fechada que desconsidera a presença do conflito na natureza híbrida do povo
brasileiroeconduzaumafalsaidéiade“ordemnaturaldascoisas”.Pode-seafirmar,
dessemodo,queoromancehistóricotemumaorigemeuropéiaeeuropeizante.
No contexto latino-americano, o romance histórico caracteriza-se por
temáticascoloniaisequeretratamosprocessosdeindependênciaelibertaçãoem
relaçãoàEuropa.Devidoapoucasfontesdocumentais,asnovasnaçõesconstroem
seu ideal identitário conferindo grande valor ao imaginário. O romance histórico
funciona como instrumento aglutinador entre história e memória, preenchendo
 
4
Marcuse,teóricodaEscoladeFrankfurt,iráredefinirotermounidimensional”,jáfazendoreferência
àsociedadeindustrialdoséculoXX.Segundooautor,nocélebreAideologiadasociedadeindustrial
(1982),oHomemUnidimensionaléincapazdesemanifestarindividualmentenasociedadecapitalista
industrial. Ele é dominado por uma racionalidade institucional ou tecnológica que não permite
oposições,massimonivelamentosocial.Assim,osujeito,completamentealienado,nãoparticipadas
decisõespolíticasetemsuaconsciênciaesmagadapelalógicadoconsumo,inclusiveemseutempo
delazer.
16
espaços, reconhecendo rupturas e valorizando a cultura popular como fonte
geradoradesignificados.
Deduz-sedaíque,enquantonaEuropaabuscapelaidentidaderepresentaa
ascensãodaburguesiaeaafirmaçãodeumanovaordemsocial,naAméricaessa
busca consiste na própria construção de uma identidade local. Vale ressaltar que
muitasvezesessaconstruçãoacontecedeformaverticalecontraditória,relegando
elementos étnicos e culturais fundamentais da cultura local. A finalidade desses
escritores adquire dimensões políticas ao contribuir para a criação de uma
consciência nacional, que torna familiar o contato entre o sujeito leitor e as
personagens que representam os sucessos de um passado desatrelado ao
conservadorismodasinstituiçõescoloniais,segundoSeymourMenton(1993).
Onacionalismoeuropeuforja-sedemaneiralinearehomogênea,oqueseria
impensável no contexto latino-americano, pautado pela fragmentação, pelo
hibridismo e pela difícil relação com o próprio passado, picos de regiões
colonizadas. Entretanto, é fundamental apontar para o fato de que o processo de
construçãodasidentidadesnacionaiséprodutodeumarelaçãoparadoxal,pois,se
porumladotodasasnaçõesbuscamasingularidadeeooriginal,igualmentetodas
seremetemaummodelocomumdeEstado.
Nasprimeiras décadas doséculo XX, o romancehistóricotradicionallatino-
americanorecebeainfluênciadomovimentoartísticomodernistaeincorporanovas
características, associadas a uma postura de contestação e crítica aos novos
problemasgerados pelavida nos grandes centros urbanos, aliadaàbusca de um
conceito de identidade nacional que valoriza a cultura dos povos nativos, em
detrimentodamiscigenaçãoadvindadacolonização.
17
1.2–Literatura,históriaepós-modernismo
Opensamentosempre
funcionouporoposição
Fala/escrita
Alto/baixo
Issosignificaalgumacoisa?
(HélèneCixous)
Literaturaehistóriaestãoinegavelmenterelacionadas.Ambasutilizam-sedo
texto–portanto,dodiscurso–comoformadeexpressão.HaydenWhite,historiador
quedefendeocaráternarrativodahistória,afirmaqueosfundamentosdecoerência
econsistênciadodiscursohistóricosão,emúltimaanálise,construçõeslingüísticas
e o historiador, embora tenha seu estilo próprio e defenda correntes teóricas
específicas, o faz cumprindo um protocolo lingüístico. Para Fernando Aínsa,
remetendo a Hayden White, “A história não é nada além de uma fiction-making-
operation,jáque, qualquer queseja seuconteúdo,a históriaé umanarraçãoque
utiliza os mesmos procedimentos da ficção. Ela seria uma verdadeira poética do
saber’”
5
(AÍNSA,1991,p.11).
Ahistóriadeixadeseraúnicaformadeacessoaosfatospassadoseadquire
uma postura mais aberta e permeável à subjetividade do escritor. As grandes
metanarrativas
6
seesgotamenquantoprojetospolíticos.Ahistóriaassume-secomo
discursoe,nessacondição,
passívelàliberdadedecriação.Osfatoshistóricossão
concebidos como elementos de um domínio social específico e fruto de um olhar
particularnadescriçãodopassado.Todoequalquerfatohistóricoéumaconstrução
quesesubmeteàsexperiênciassociaisdoautoredassuasopçõesteóricas.
A literatura, em especial o romance histórico, traz à tona o passado e
reconstrói os acontecimentos, dessacralizando a versão da história oficial. Para
White,
 
5
Traduçãonossapara:Lahistorianoesmásqueunafiction-makingoperation,yaque,cualquiera
seasucontenido,lahistoriaesunanarraciónqueutilizalosmismosprocedimientosdelaficción.La
historiaseríaunaverdaderapoéticadelsaber”.
6
ParaoteóricoJeanFrançoisLyotard,nãoépossívelseguirrecorrendoaoqueelechamougrande
narrativa, ou metanarrativa, que se pode entender como aqueles discursos de cunho libertador
advindos do ideal iluminista e que deram origem a um leque de teorias sociais vigentes
principalmenteno culoXIX. Segundo Lyotard(2000),essas interpretaçõesdasociedade sempre
trarãoconsigoumteordogmáticoecoercitivo.Oautor,simpáticoàPós-Modernidade,argumentaque
afragmentaçãodoconhecimentopodesercapazdereligaroindivíduoàsociedade.
18
Emboraoshistoriadoreseosescritoresdeficçãopossaminteressar-
se por tipos diferentes de eventos, tanto as formas dos seus
respectivosdiscursoscomoseusobjetivossãoamiúdeosmesmos.
A história não é menos uma forma de ficção do que o romance é
umaformaderepresentaçãohistórica(1994,p.137-138).
AstransformaçõesocorridasnanarrativaaolongodoséculoXXsãofrutode
uma crise da história baseada em uma lógica linear, totalizante e oficialmente
veiculada.Estetipodehistóriadesconhece–ouprefereignorar–apluralidade,as
múltiplas vozes, e legitima a linguagem monológica. O processo de crise e
questionamento desse fazer histórico, além de lento e gradual, não acontece
somente no âmbito da história, mas em diferentes séries do conhecimento. O
romance histórico de então é uma espécie de tentativa de reprodução do “real”
revelado pela história oficial, semelhante às próprias crônicas históricas. Os
aspectoshistóricosopostosemevidênciaeosestéticosrelegadosaumsegundo
plano.OsromancesrealistasdeWalterScottsãorepresentativosdaépoca.
De forma acentuada, a partir da década de 1920, passa-se a questionar o
sistema social estabelecido. O contexto artístico é absorvido pela lógica do
consumo. Na Alemanha, em 1924, é fundado o Instituto de Pesquisas Sociais de
Frankfurt. Seus colaboradores são intelectuais ligados à esquerda alemã e
comprometidos com aspectos sociais, econômicos e culturais de seu tempo.
Justamente por essa razão são perseguidos pela sociedade conservadora
germânicadaépoca,quejátraztraçostotalitáriosquesemanifestariamnãomuito
depois.UmacaracterísticacomumaospensadoresdeFrankfurtéocarátercrítico
de suas idéias. Eles denunciam os danos irreversíveis causados pelo avanço do
sistemacapitalistanaEuropaenosEstadosUnidos.
É de Theodor W. Adorno, nome representativo de Frankfurt, a expressão
indústria cultural, em oposição a cultura de massa. Para Adorno, referir-se a uma
culturademassaéservítimadoenganocontidonotermo,dequeconsisteemuma
culturaprovenientedasclassespopularese,portanto,desejável.Jáaindústriacultural
visaaadestrar”osujeitocomoumbomconsumidoremtempointegral,atravésda
produção em larga escala e da veiculação de padrões únicos. Desse modo, fica
vetadaaosujeitoqualquermanifestaçãoautônomaoudecisãoindividual.
19
Nocasodanarrativaliterária,essemovimentodecontestação,representado
por vanguardas artísticas, é responsável por introduzir as primeiras noções de
ruptura, criando um universo de contrários em seus temas, sobretudo oscilando
entreooriginaleoimitado,entreavalorizaçãodonacionaleocosmopolitismo.A
partir da década de 1940, assiste-se a uma evolução ainda mais evidente na
narrativapós-colonialeprincipalmentenaestruturadodiscursoficcionalhistórico.
As rupturas introduzidas pelas vanguardas adquirem maturidade. A história
passa a ser problematizada. Uma história fragmentada, hesitante, em movimento,
comoolharvoltadoparaasquestõesculturais,paraaentãoclasseoperáriaeparaas
inquietaçõesdopresente,aospoucosvaiconquistandoespaço.Essarelativizaçãodo
conceitodehistória,entreoutrosfatores,possibilitaaevoluçãonanarrativadaficção
históricaeénessanovahistóriaqueodiscursoliteráriobuscainspiração.
A partir dos anos 1970, com a consolidação do período chamado pós-
modernidade, o romance histórico vive um novo momento de amadurecimento
enquantogênero.SegundoacanadenseLindaHutcheon,
Decertaforma,então,aficçãopós-modernasimplesmenteevidencia
oprocessodarepresentaçãonarrativa–dorealou dofictícioede
suasinter-relações(1993,p.36,apudFERNANDES,2005,p.379).
Fatos são eventos para os quais demos significado. A ficção pós-
modernatematiza,comfreqüência,oprocessodetransformareventos
emfatospormeiodafiltragemedainterpretaçãodosdocumentosdos
arquivos(op.cit.,p.57,apudFERNANDES,id.,ibid.).
Poucos conceitos são alvo de tantas tentativas de definição quanto “pós-
modernismo”e“pós-modernidade”.DeacordocomTerryEagleton,
A palavra pós-modernismo geralmente refere-se a uma forma de
cultura contemporânea, enquanto que o termo pós-modernidade
alude a um período histórico específico. Pós-modernidade é um
estilodepensamentoqueduvidadasnoçõesclássicasdeverdade,
razão, identidade e objetividade, da idéia de progresso e
emancipaçãouniversais,deestruturasúnicas,grandesnarrativasou
fundamentosdefinitivosdeexplicação.Pós-modernismoéumestilo
deculturaquerefletealgumacoisadessamudançadeumaépoca,
numa arte pluralista, descentralizada, auto-reflexiva, eclética, que
torna indistintas as fronteiras entre cultura “alta” e “popular”, bem
comoentrearteeexperiênciacotidiana(1998,p.8).
20
A preocupação em dessacralizar os discursos dominantes, como o discurso
científicoeodasociedadedemercado,edeexpor,pormeiodoromance,asreflexões
contemporâneas sobre a sua linguagem própria, são características que marcam as
prodõesartísticaseintelectuaisdapós-modernidade.Seantesoimportanteérevelar
o cater de construção da narrativa e transgredir os moldes tradicionais, na s-
modernidade manifesta-se o ápice da crise da ciência, gerada no seio da própria
evolãodoconhecimentohumanoedosavançostecnológicos.Onovopassaaser
elementoincorporadoaosistemaeahistóriaperdeaobrigaçãoevolucionistaetransita
commaisliberdadenareleituradopassado.SegundoNíziaVillaça,
Nosubcampoliterário,muitasvezeséapartirdanarrativadaprópria
revoluçãoquesepõeemcausaomitopelamultiplicidadecontraditória
dos discursos de progresso ou pela confrontação dos ideais
universalistascomassituaçõeslocaiseparticulares(1996,p.25).
A economia neoliberal dissolve identidades, na medida em que redefine o
conceitodefronteira,eessefenômenoserefletediretamentenaliteratura.Comoum
paradoxo,aomesmotempoemqueaglobalizaçãodiluiidentidadestradicionaisatravés
da homogeneização, ela é responsável por fazer nascer novas formas identitárias
híbridas, com características próprias e o menos definidas. Os movimentos de
contraculturaofazemmaissentido,oqueproduzofimdatensãohistóricaentreo
alto e o baixo. Os sujeitos que surgem dessa reconfiguração habitam fronteiras,
territoriaisouimaginárias.Habitamentre-lugares
7
,segundooconceitodeHomiBhabha.
Osujeitoémarcadopelamultiplicidade,descentramentoefragmentação.Naliteratura
essacondiçãoéaindamaisevidente.ConformeNíziaVillaça,
Fala-sedosujeitofraco,sujeitoplural,máscarasdosujeito,sujeitos
tribais, no indivíduo sem sujeito, no eu mínimo, no sujeito como
produção,noquasesujeitoe,paralelamente,naquedadosgrandes
relatos,massificação, indiferenciação,simulacro e sedução (1996,
p.10).
 
7
Para Nubia Jacques Hanciau, em ensaio intitulado O entre-lugar” (2005 p. 125), retomando o
conceito de Homi Bhabha: “O conceito de entre-lugar torna-se particularmente fecundo para
reconfigurar os limites difusos entre centro e periferia, pia e simulacro, autoria e processos de
textualização, literatura e uma multiplicidade de vertentes culturais que circulam na
contemporaneidade e ultrapassam fronteiras, fazendo do mundo uma formação de entre-lugares.
Marcado por múltiplas acepções, o entre-lugar é valorizado pelos realinhamentos globais e pelas
turbulências ideológicas iniciadas nosanos oitenta do último século, quando a desmistificação dos
imperialismosrevela-seurgente”.
21
Otempoeoespaçosãoproblematizados.Ambosseentrecruzam,substituindo
alinearidadedodiscurso.Otempoévalorizadoemsuamultiplicidade.Subjetividade,
avançoserecuos,simultaneidadedecenas(emalusãoaprocedimentosdocinema
moderno),descontinuidade,quebradaseqüênciaprevisívelsãorecursos
utilizados,
além de múltiplas linguagens, incorporação, num mesmo texto, de fragmentos
diversos,deváriosautores,estiloseépocas,realizandoaintertextualidade.Histórias
encapsuladassãotambémpresentesnessasnarrativas.
Aspersonagenssãohumanizadas,sujeitasàsinquietaçõesdeseusdesejos;
asfigurasheróicasincorporamvíciosedesviosdeconduta.Aspersonagens/idéias,
simbólicas são incorporadas ao romance. A historiografia é revisitada e são
evidenciados
anacronismos,distorções,hipérboles,questionamentos,provocações,
metáforasmenos óbvias. Os intertextos, a presençado humorísticoedoparódico
exigemdoleitorumafunçãomaisativafrenteaotexto,jáqueprecisaposicionar-se,
dialogar, emitir uma opinião ao ser desafiado por ele, ser um “colaborador
consciente”(HUTCHEON,1991).
1.2.1–Osdesafiosàrecepçãonopós-modernismo
A evolução epistemológica do conceito de leitura contribui para conferir ao
diálogoumtemarelegadoaumaesferamenornoâmbitodoromanceoitocentista:o
lugarocupadopeloleitordessetipodenarrativa.Queméosujeitoquelê,qualsua
realidade,comosecomportadiantedaprovocaçãopropostapelotexto,queagora
passa a desafiá-lo? São fatores relevantes a serem pensados com mais ênfase
quandosefalaemrecepçãodeumromancepós-moderno.
Odestinatáriodeumaobra–ficcionalounão–lêcomasferramentasdesua
época e de sua cultura. Sem abrir mão da individualidade de sujeito, é uma
realidade social e histórica. O processo de leitura preserva invariavelmente as
marcasdeseutempo.SegundoBakhtin, odestinatárioéumainstânciainteriorao
enunciado, considerado inclusive como co-autor, na medida em que participa do
processodecomposiçãodaobraaointerpretá-la.Aestruturadotextoromanescose
organizaemfunçãodoreceptor,ouseja,dodialogismo.
22
O ato de ler torna evidente o debate entre a realidade da narrativa e a
realidadedosujeitoquelê.Atravésdaleitura,osujeitopodefinalmentetransporo
texto e ressignificá-lo, mediante sua capacidade de fazer analogias próprias, de
perceber conceitos e interpretá-los a partir do lugar particular que ocupa na
sociedade. A cada leitura, realizada social e individualmente, nasce uma nova
camadadepossibilidadessobreasjáestabelecidas.
Tal disposição para redimensionar uma obra ficcional está relacionada à
dialéticaprópriaàcultura,queremeteosujeitoaprojetaraprópriaimagemcomoem
um espelho na realidade das personagens, eventos e lugares, mas também lhe
permitecriar,atravésdeummosaicoimaginado,outrosuniversosdesatreladosde
referenciaisimediatos.NaconcepçãodeUmbertoEco(1994),oleitorrepresentaum
elemento fundamental da própria história, e ler ficção é ter contato com situações
que aconteceram, estão acontecendo ou irão acontecer no plano real. Por essa
razão,lerficçãoéfugirdaansiedadequesesenteaotentardizeralgoverdadeiroa
respeitodomundo.ParaEco,todanarrativapossuioseuleitor-modelo,aqueleque
aceitaojogoepercorreositineráriospropostospeloromancistasemprocurarfugir
oudesviardestes.Aotomaressaatitude,oleitor-modeloadquireacapacidadede
preenchervazios.
Ler é uma atitude invariavelmente social. Cada leitor é um universo em si
mesmo.Eoédevidoàssuasexperiênciassociaisparticulareseintransferíveis.No
entanto, cada leitor representa infinitas outras leituras, memórias, valores e
conceitosque absorveuaolongodavida. Como em um palimpsesto, o ato deler
carrega em si espessas camadas de significados diretamente relacionados à
tradição a que está submetido o leitor, que é entidade individual e coletiva e se
posicionapoliticamentediantedotexto.
A leitura da metaficção historiográfica representa uma das formas
fundamentais de relacionamento do sujeito com a história, na medida em que
proporcionaaressignificação“livre”deconceitos,fatoseeventosoutrorapresosà
objetividade científica do discurso histórico oficial. De acordo com Flávio Loureiro
Chaves (1999, p. 89), “na leitura do texto não se há de separar o presente e o
passado, pois aquilo que parecia ser inicialmente um painel epocal, adquire
dimensõesdeuniversalidade”.
23
A complexificação da entidade narrativa está diretamente associada à
evoluçãodaleitura.SegundoCátiaGoulart
8
,
Aliteraturatemexploradoa instâncianarrativaem uma pluralidade
de perspectivas, quer pelo desempenho de múltiplos narradores,
quer pela integração de diferentes modalidades discursivas à
narrativa ficcional: textos historiográficos, jornalísticos, radiofônicos,
televisivos,míticos,lendários,religiosos,teatrais,cinematográficos.
Onarradorenquantofunçãoadquireumaposturaquestionadora,menosautoritária
diante do texto. Apesar de não abandonar a onisciência, torna-se cada vez mais
reticente e dialoga mais profundamente com as outras personagens. Para Paul
Ricoeur(1995),oleitorfirmaumpactodeleituraecumplicidadecomavoznarrativa
emquestão.Assim,oleitor“baixaaguarda”epassaaconfiarnoquelê.
A metaficção é outro elemento incorporado ao discurso romanesco de teor
histórico.Areflexãosobreopróprioatodeescrever écadavezmaispresente.O
romance então assume definitivamente seu caráter polifônico. Abarca diferentes
discursos,dialogacom outrasséries,trazàtonapluralidadesculturais,linguagens
marginais,evalorizaaoralidadedodiscurso.
EmPoéticadopós-modernismo(1991),LindaHutcheonproblematizaebusca
definiropós-modernismo,apesarde“definição”jánãoser,segundoela,omelhor
termo para falar de um fenômeno tão aberto. Observa que pós-modernismo é o
conceito mais sobredefinido e, ao mesmo tempo, subdefinido na atualidade,
geralmente acompanhado de idéias negadoras, como descontinuidade,
desmembramento,deslocamento,descentralização,indeterminaçãoeantitotalização.
Tal análise se justifica por ser justamente um fenômeno contraditório, que
chegaapontodesubverterasidéiasqueacabadeinstalar.Porser,portanto,algo
complexoenascidodeumaculturafragmentada,éfundamentalquenosfurtemos
àsgeneralizaçõespolêmicasesimplistasaseurespeito.Opós-modernismoéum
fenômeno situado na história e indiscutivelmente político, como fruto das
idiossincrasias do próprio sistema capitalista do qual é gerado. Tem como papel
 
8
TextoapresentadoduranteumaauladadisciplinaTópicosAvançadosdeHistóriadaLiteratura,em
2005.
24
basilar estabelecer um diálogo inusitado e irônico com o passado histórico,
reelaborando-o de forma crítica e nunca simplesmente reproduzindo antigos
conceitos.Portanto,elese nutredopróprioelementoquepretendequestionareé
justamentenesseaspectoqueseencontraseuvalor.
Ametaficçãohistoriográfica–porremeteraopassadoeàmetatextualidade–
éogêneroquemelhortraduzoconceitodepós-modernidadeesuarelaçãocomo
passado,deumaformatotalmenteparadoxalecomplexaentreaauto-reflexividade
eaapropriaçãodeelementoshistóricos.Odiscursoficcionalhistóricopós-moderno
ultrapassaoslimitesdahistóriaedaficção.Desafiasemnegar,afirmaadiferençae
nuncaahomogeneidade.
Adiferençaéumconceitoessencialnoâmbitodasdiscussõespós-modernas.
Elavemsubstituiraidéiadanão-identidade,denegaçãodaalteridade.Serdiferente
nãoconstituiumasituaçãoestável,masmúltiplaeprovisória;nadaépermanenteou
seráconsideradodiferenteeternamente.Assim,anoçãodeconsensoédestruídae
substituídapor,nomáximo,umailusãodeconsensosobqualquercircunstância.
Aidéiademultiplicidadeemcontrapontoafragmentação,epluralizaçãoem
vezdeanulação,denotaascaracterísticaspeculiaresdapós-modernidadecomoum
conjuntodefenômenossociaisnão-linear.Entenderapós-modernidadecomotempo
híbridoéafastaraidéiadeumprincípiogeradorepossibilitaradiscussãoacercade
construçãoderedesdesignificaçãodarealidade.Ainda,éreforçaracapacidadede
suportaroimprevisívelerefinarasensibilidadeparaasdiferençasqueeleimplica.
A literatura abarca esses fenômenos sociais em seus temas, habitando as
fronteirasintertextuaisquediluemolimiteentrerealidadevividaeimaginada.Artee
história passam a ser concebidas como discursos sociais, apesar de suas
especificidadesesuacomplexidade.ParaHaydenWhite(1992),oquesepretende
nãoénegaraexistênciadeentidadesextradiscursivas.Nemtudoélinguagem,texto
ou discurso. Porém, a referencialidade e a representação lingüística configuram
temas significativamente mais complexos do que entendem as velhas noções
literalistasdelinguagemediscurso.
Afronteiramaisradicaljáultrapassadapelopós-modernismofoi,portanto,a
existente entre ficção e uma suposta noção de realidade representada pelo fazer
25
histórico.White(1991,p.30)lembra,ainda,queNãoexisteumahistóriareal’.As
histórias são contadas ou escritas, o encontradas. E quanto à noção de uma
‘história verdadeira’, ela é virtualmente uma contradição em termos. Todas as
históriassãoficções”.
Aliteraturapós-modernadesafiaasformastradicionaisdeperspectiva.Dessa
maneira,oleitortransitaentrereferenciaisdiversos.Nãoéapenasreceptorpassivo
dosacontecimentos. Eleprecisalutar contra a fugacidade de um narradorfugidio,
compreenderumintertextocomplexoouperceberumaparódiatraiçoeira.Asnoções
deonisciênciaecentrosedeslocameoutrasformassãoelevadas.
O marginal e o ex-cêntrico, conceito-produto de reflexões de Hutcheon,
adquiremumnovosentido.Comunidadeslocalizadasedefinidas anteumacultura
de massa, grupos minoritários (os sujeitos chamados outsiders), ou até mesmo
personagens secundários – no caso de um romance – ganham voz e espaço.
Apesar disso, o ex-cêntrico não é automaticamente transformado em centro, pois
não há possibilidade de existência de um “centro” ou garantias absolutas. Para
Hutcheon (1991, p. 31), “O pós-modernismo não possui uma essência. Ele é um
processoouatividadeculturalemandamento”.Alémdisso,érelevanteapontarque
todo e qualquer binarismo que possa ser atribuído às discussões pós-modernas
deveserbanido,jáqueseucaráteréhíbrido,pluralecontraditório.
1.3–Aconstruçãoficcionaldosujeito
Eunãosoueunemsouooutro,
Souqualquercoisadeintermédio:
Pilardapontedetédio
QuevaidemimparaoOutro
.
(MáriodeSá-Carneiro)
Observa-senocontextoatual
osurgimentodeidentidadesfluidaseumsujeito
fragmentado, antes identificado como uma unidade ideológica coerente. As
referênciasfixassãodeslocadaseascertezasindividuaisficamàderiva.Todosos
padrões de existência se relativizam: classe, etnia, gênero, nacionalidade. Stuart
26
Hall, em A identidade cultural na pós-modernidade (2004), aponta três tipologias
para sujeito e identidade, cada uma em um período distinto historicamente. A
primeiragrandenoçãodeidentidaderefere-seaosujeitodoIluminismo,quevigora
até meados do século passado. De acordo com essa concepção, o sujeito
representaumindivíduo
Totalmentecentrado,unificado,dotadodacapacidadederazão,de
consciência e de ação, cujo “centro” consistia num núcleo interior,
queemergiapelaprimeiravezquandoosujeitonasciaecomelese
desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo
(HALL,2004,p.11).
Umdosfundamentaispensadoresquecontribuemparaaconcepçãodesujeito
individual éRenéDescartes. Paraele,existem duas forças absolutamente distintas
agindosobreanaturezahumana:aespacial,oumatéria,eapensante,oumente.É
daoposiçãoentreessaspotênciasqueseconstituiosujeitocartesiano.Eleseafirma
nacapacidadedepensar:Cogito,ergosum.Essaconcepçãodesujeitoassocia-seà
demanda capitalista, principalmente após a Reforma Protestante, por um homem
competitivo,independente,seguro,livreeembuscadeascensãosocial.Entretanto,
comodesenvolvimentodocapitalismoeasnoçõesdeclasseecorporaçõessociais,o
indivíduoinsere-seemumcontextonovoededimensõeselevadas.
A partir do alargamento das reflexões introduzidas com mais ênfase pelo
movimento modernista na arte e as novas teorias na área das ciências sociais,
psicologia e antropologia, passa-se a questionar a complexidade do mundo
moderno,eaidentidadenucleartorna-sedefinitivamenteincoerente.Osujeitonão
maispodeserconcebido comoumserindependente,masfrutodarelaçãocomo
meioemqueestáinserido.
Oresultadodainteraçãohomem-sociedadeéochamadosujeitosociológico.
ParaHall(op.cit.,p.11),“Osujeitoaindatemumnúcleoouessênciainteriorqueéo
‘eureal’,mas este é formadoemodificado numdiálogo contínuocom os mundos
culturais‘exteriores’easidentidadesqueessesmundosoferecem”.
Oindivíduocedelugaràidentidadecaótica,típicadasmultidõesquehabitam
grandes cidades. O coletivo ganha espaço e o sujeito individual passa por uma
27
espéciedeexílio,emborapermaneçaodesejoderetornaràsituaçãode“senhorde
simesmo”.Comomarxismoeasolidificaçãodoconceitodeclasse,osujeitosofre,
na concepção de Hall, um grande “descentramento”. O homem individual não é
relevante em última análise, na medida em que a ideologia e a consciência de
classeéquetornampossívelarevoluçãosocial.Ocoletivotempodereoindivíduo
deve se submeter a ele, numa tentativa de minimizar os conflitos filosóficos no
interiordaclasseàqualpertence.
Ainda no século XIX, outra revolução, não menos devastadora, é proposta:
Freud e a psicanálise vêm para questionar a noção de unidade postulada por
Descartes. A constatação de Freud de que a razão não é uma força monolítica,
lógicaeconstante,pormeiodadescobertadoinconsciente,fazcomqueoCogito,
ergo sum de Descartes perca eficácia. A identidade não é mais concebida como
umacaracterísticainata,masresultadodeprocessosmentaisinclusiveregidospor
desejosinconscientes.
AterceiratipologiaidentificadaporHalléadesujeitopós-moderno.Produto
dastransformaçõessociaiseeconômicasevidenciadasmaisprofundamenteapartir
dasdécadasfinaisdoséculoXX,elesecaracterizapelamobilidade.Fragmentadoe
inconstante, esse sujeito se constrói de maneira permanente e se submete às
próprias contradições. Segundo Hall, a identidade desse novo sujeito não é mais
definidapelasleis da biologiaougenética, maspelas condições históricas desua
época,àmercêdasmudançasemtemporecorde.Afalsaidéiadelinearidadeque
temosde nósmesmos é,de acordocom aconcepção de Lacan
9
,proveniente de
umaconstruçãopessoal,com oobjetivodecausaralíviodiantedoaparentecaos.
Seria,paraLacan,umprocessonarrativoquecriamosdeformafantasiosa.
Éprecisoatentarparaaevidentesimplificaçãopropostaaquiparafenômenos
investidosdecomplexidade.Asrupturashistóricassãoobviamentefictíciasetêmo
mero intuito de facilitar a discussão. Sabemos que o sujeito iluminista não se
transforma em sociológico ou pós-moderno repentinamente. Assim como seria
ingenuidadepensarqueapós-modernidaderompecomospadrõesmodernos,que
 
9
ParaLacan,o“eu”(sujeito)constrói-seàimagemdosemelhante,namedida emqueseenxerga
atravésdaimagemdevolvidapelo“outro”,comoemumreflexodeespelho.Oolhardooutrolevao
indivíduoaconheceromundo(mãeebebê).Quandonasce,oindivíduosomentepodeveromundo
pelosolhosdamãe,fantasiosamente,alienadodarealidadeembuscadealívioesegurança.
28
se pautam justamente na noção de ruptura com antigas formas. Segundo Hall
(2004),éumequívococontinuarusandooconceitofechadodeidentidade,masse
deveriaexperimentaraidentificação,vistoquejáseconcebeaidéiademobilidade
constante,decontinuidade.NíziaVillaça(1996,p.97)corroboraessaopinião:
Enquantoamodernidadesebaseavanalógicadaidentidade(sexual,
profissional,ideológica),hojesurgemaisespecificamenteumalógica
da identificação, isto é, a perda de identidade estável, aderindo
sucessiva e simultaneamente a uma série de figuras. No lugar do
indivíduosurgiriaapessoacomsuasmúltiplasfacetasemáscaras.
Outro aspecto fundamental no processo de descentramento do sujeito
modernoremeteaoquepostulaMichelFoucault(2005),emanalogiaàsrelaçõesde
podernasociedade.Segundooautor,quantomaisorganizadainstitucionalmentefor
umasociedadenapós-modernidade,maisisolado,vigiadoeindividualizadotorna-se
o sujeito. Além disso, o movimento feminista é considerado a quinta força
deslocadora do sujeito na décadade1960, namedida em que abriu espaçopara
outras manifestações de grupos marginalizados e novas discussões como a
subjetividadeequestõesdegênero.Deduz-sedaíqueosujeitoontológico,dotado
de um eu consciente e de uma unidade absoluta, só pode ser considerado uma
construçãoficcional.
ParaBakhtin(1990),osujeitoérepresentadopelo homemquefala,ecada
ser “falante” leva consigo a sua linguagem
e mais as infinitas linguagens nela
sobrepostas durante sua experiência de vida. O sujeito é, por conseguinte, um
homemsocial,historicamenteconcreto.Seudiscursoélinguagemsocial,nãodialeto
individual. Põe-se em crise o sujeito falante monológico e atribui-se valor à
heterogeneidade de sua construção. O sujeito histórico romanesco, enquanto
entidadeficcional,mantémconstantediálogocomahistória.
Osujeitobakhtinianoconstróiseudiscursoemfunção de outros,adquirindo
sentido somente em diálogo com a alteridade. Para o autor, o sujeito surge do
contato com o outro. Ele é dialógico e seu conhecimento é fundamentado no
discursoqueeleproduzpormeiodessarelação.AconcepçãodeBakhtinpromovea
crise da concepção tradicional do sujeito, na medida em que tem consciência da
29
presençadeinúmerasvozesemseudiscurso.Elenuncaestápronto,acabado,mas
torna-seumaconstruçãopermanente,móvel.Arelaçãocomooutroformaolocalde
atuação do sujeito. Para tanto, a intertextualidade constitui-se na ferramenta
responsávelpordiminuiradistânciaentreopassadohistóricoeopresentedoleitor
eporredefini-loapartirdessenovocontexto.
ApartirdadefiniçãodeBakhtin,concebe-seoromancecomoumadiversidade
social de linguagens organizadas artisticamente. Para o autor russo, é através do
discursodoautor,donarradoredaspersonagensqueoplurilingüismoseintroduzno
romance.Bakhtindesenvolveuoconceitodehibridizaçãodialogizadaparadesignaro
sistemadefusãoquebuscaesclarecerumalinguagemcomaajudadeoutra.
1.4–Ametaficçãohistoriográficanosestudosculturais
Na busca pela superação de antigas formas, recursos como a ironia, a
irreverência e a paródia representam opções importantes para a metaficção
historiográfica.Aironialançamãodemanifestações bizarrasegrotescas,contudo
semdeixardepermanecernotempohistórico.Arelaçãocomomundonessetipode
narrativa é estabelecida e depois subvertida. Toda a noção de realidade é
redefinida,namedidaemquesão postos em confronto os discursos daarte e da
história,doeruditoedopopular.
Assim,tantohistóriacomoficçãorejeitamatradiçãoaqueestavamsujeitase
apostam em exploração, experimentação e, especialmente, geração de novos
significados.Todavia,aocontráriodoquesepossadeduzir,opós-modernismonão
negaahistória,maspropõequesejarepensadaenquantocriaçãohumanaquesó
pode ser alcançada mediante recursos textuais (que podem ser documentos,
depoimentosouevidênciasmateriais).
A paródia no discursoficcionalhistórico, segundoLindaHutcheon (1991, p.
10), aponta para os paradoxos pós-modernos de modo profundo. Ela representa
umarepetiçãoimbuídadeespíritocríticoquepossibilitaironizaradiferençanoseio
dasemelhança.Dessamaneira,torna-seimpossívelalmejaralcançaropassadoem
suaessênciafundamental.Opassadosóéatingidopeladiscursividadecríticaesó
30
existehistoricidadenamedidaemqueestareconheceapróprianaturezadiscursiva.
Esse passado alia-se então ao presente e se transforma (nunca negado ou
esquecido),obtendonovossentidos.Aparódiaéahistóriarevisitadaejamaisuma
simplesimitaçãoridicularizadora.
O uso da paródia, na visão particular de Hutcheon, se diferencia da
concepçãobakhtiniana,quevêorisoparódicocomopromotordefunçõescatárticas
esubversivas, por meioda criação de uma novaversãosatírica do texto original.
ParaHutcheon(1991),oatoparódiconuncasignificaráaperdadaseriedadeedo
objetivonasproduçõesartísticas.Opós-modernismonãosepretendeiconoclasta,
comoeramasvanguardasmodernistasnoséculoXX.Aocontrário,elereafirmaa
consciência histórica e o hibridismo de sua natureza. O discurso artístico auto-
reflexivoestáatreladoaumdiscursosocial,aocontextoaquepertence.
Ofato éque,por meiodaparódia,aficçãopós-moderna procurase deixar
penetrar pela história, como resposta ao formalismo que domina a cena,
principalmenteatéasegundametadedoséculoXX.Aparódiaintertextual,comoéo
casodoromanceaseranalisadonestadissertação–Avante,soldados:paratrás,
deDeonísiodaSilva–,éresponsávelporpermitirqueoleitortenhaapermanente
sensaçãodecontatocomopassado,emborasempreumpassadopermeadopela
textualidade, com vestígios tanto literários quanto históricos. Ela rompe com o
passadodeformairônica,poisdependedeleeoafirmaparaqueissoaconteça.Na
metaficção historiográfica, a auto-reflexão e o contexto histórico apresentam-se
distintos, tornando possível evidenciar o confronto entre arte e mundo. Porém, é
relevantedestacarqueambososdiscursossãoabsolutamentepermeáveis.Nãohá
espaçoparaconceitoscomo“verdadeiro”e“falso”.
Sob esse prisma, outra questão teórica da atualidade é a que se refere à
originalidadeartística eà referencialidadehistórica. Ambassãodestituídas de seu
valoranterior.Históriaeficçãoconstituememsimesmassistemasdesignificação
cultural,deconstruçãodeideologias,oqueimpossibilitaaidéiadeautenticidadee
auto-suficiência.Ouniversaleoabsolutocedemespaçoaomúltiploeaodialógico.
Ainovaçãodametaficçãohistoriográficaestáemnãoadmitirosujeitohistórico
(protagonista)como “síntese”,masadotar a pluralidade de vozes, avalorização da
31
diferença, os múltiplos pontos de vista, a inserção da subjetividade no discurso da
história.Aconstruçãodosujeitohistóricopresentenessasnarrativaslevaemconta,
portanto,ocaráterhíbridodaspersonagensesuacondiçãocontraditória.
A linguagem na metaficção historiográfica se refere de modo constante a
outrostextos.Ocontextodiscursivo éinfinitamentemaissignificativoqueofactual
ou “concreto”. História e ficção interpenetram-se e dão origem a uma forma
complexadenarrativabaseadaemparadoxos.Oprocessodeconstruçãonarrativa
é,paraHutcheon,umaformafundamentaldeimposiçãodesentidoedecoerênciaà
compreensãohumanadiantedocaosdosacontecimentosnaatualidade.
Nãohá,portanto,comoconceberametaficçãohistoriográficasemorecurso
daintertextualidade.Éelequepermite ao leitor – e lhe exigeumconhecimento
nãoapenasdohistórico,mastambémdoquefoimanipuladopelaparódiairônica.É
o intertexto que torna possível a percepção da relação entre arte e mundo. Essa
forma narrativa constitui uma revolução para as concepções tradicionais tanto da
históriacomodaficção.Éaterceiramargem,naqualoex-cêntrico
seolhaeévisto,
cujodiscursoinviabilizaaalienaçãocaracterísticadaindústriaculturaleapontapara
umnovoolhar.
Na concepção bakhtiniana, cada termo constitui ao menos duas
possibilidades de significado e cada ocorrência lingüística é a releitura de uma
relação entre sujeitos históricos diferentes. É possível que em um mesmo
enunciado,domesmosujeito,operemvozesdiversaspromovendoumarelaçãode
forçaentresi. Eleconstróiasuaidéia de estilísticajustamentenessaperspectiva,
poisoquetradicionalmenteseconsideracomoogenuínoolhardoespíritocriador
doartista,Bakhtindefinecomoaestratégiapelaqualoconflitodasmúltiplasvozes
se realiza na enunciação, ou a maneira como um sujeito histórico se materializa
diantedaguerradaslinguagens.
Bakhtin entende o real e o cotidiano como espaços contraditórios e em
permanente transformação. Sua leitura do mundo é pluralista e polifônica. A
polifonia, nesse sentido, adquire um caráter prático de transformação social, na
medida em que abre infinitas possibilidades diante da massificação identitária
impostapelasociedadedemercado.Aconcepçãodialógicabakhtinianapressupõe,
32
portanto, uma cultura não-unitária, na qual diferentes discursos coexistem em
relaçõesconflituosasounão.
No romance polifônico, o herói perde sua majestade. Transformadas em
idéias, as personagens são representadas em suas formas diversas e o herói
constitui apenas uma dessas ideologias: “O híbrido romanesco é um sistema de
fusão de línguas literariamente organizado, um sistema que tem por objetivo
esclarecerumalinguagemcomaajudadeoutra,plasmarumaimagemvivadeuma
outralinguagem”(BAKHTIN,1990,p.159).Qualquerromanceé,segundoBakhtin,
umhíbridointencional,conscienteeorganizado.
Os estudos culturais de indicação pós-colonial passam a existir com maior
solidez e reconhecimento no meio acadêmico no final da década de 1980, entre
intelectuais dos Estados Unidos e Inglaterra (e suas ex-colônias), como Fanon,
EdwardSaid,StuartHall,HomiBhabhaeSpivak,eseexpandem,posteriormente,
entreestudiososdediásporasemdiversasregiões,comoPortugal,França,Canadá
eaAméricaLatina,embora,emumprimeiromomento,ocolonialismobritânicosirva
comomodelodeanálise.
Oconceito de pós-colonialismo não deve, entretanto, ser problematizadosem
queseleveemcontaaduplasignificaçãoparaotermo.Primeiramente,refere-seaum
períodohistóricoposterioraoprocessodeindependênciadascolôniaseserelaciona,
em especial, às esferas econômica, política e social, acerca do papel dos estados
nacionaisdiantedofim da colonização.Emumasegundaacepção,pós-colonialismo
representa, segundo Boaventura de Sousa Santos, “um conjunto de pticas e
discursosquedesconstroemanarrativacolonial,escritapelocolonizador,eprocuram
substituí-lapornarrativasescritasdopontodevistadocolonizado”(2006,p.233).
Nesse sentido, os estudos pós-coloniais apresentam um viés cultural e
discursivoque,aocontráriodeexcluirasmotivaçõeshistóricas,procurampreencher
seus silêncios. Portanto, o emprego dos termos pós-colonial e pós-colonialismo
geralmenteestáassociadoàsituaçãopolíticadepaísesquesofreramprocessode
colonização após sua independência, ou para definir uma condição universal da
contemporaneidadecomoconseqüênciadoprocessodeglobalizaçãodaeconomia,
33
entreoutros fatores. Stuart Hall (2003,p. 60) enfatiza importantes aspectos ao se
questionarsobreotermo:
O que deveria ser incluído e excluído de seus limites? Onde se
encontra a fronteira individual que o separa de seus outros (o
colonialismo,oneocolonialismo,oTerceiroMundo,oImperialismo)e
emcujoslimiteselesedefineincessantemente,semsuperá-losem
definitivo?
Embora seja considerado um conceito universal, é importante salientar que
nem todas as sociedades vivem o pós-colonial da mesma maneira. Cada região
constróideformaparticularassuasrelaçõescomarespectivametrópole.Estudaro
pós-colonialismo só adquire validade, desse modo, na medida em que auxilia na
compreensão das transformações ocorridas nas relações internacionais em
decorrência da transição da era das “grandes nações” para a posterior à
independênciadesuascolônias.
O uso do prefixo “pós” não significa que as sociedades ultrapassem ou
superemasantigasformasderelaçõescoloniais.É,antes,umaposturaintelectual,
estética, política e econômica que pretende questionar e problematizar narrativas
totalizadoras, responsáveis pela legitimação de uma cultura uniforme e,
naturalmente, excludente. Segundo Homi Bhabha (1998), as perspectivas pós-
coloniais emergem do testemunho colonial dos países do Terceiro Mundo e dos
discursosdas“minorias”dentrodasdivisõesgeopolíticas.
Os estudos pós-coloniais chamam a atenção para a singularidade dos
processosdecolonização.Oconceitodepós-colonialnãopode,naturalmente,ser
aplicadosemqueseconsideremasespecificidadesdecadasituação,comojáfoi
mencionado. Do contrário, corre-se o risco de naufragar em maniqueísmos
simplistasequenãoajudam.SegundoStuartHall(2003,p.109):
As diferenças entre as culturas colonizadora e colonizada
permanecem profundas. Mas nunca operaram de forma
absolutamente binária, nem certamente o fazem mais. Nos
obriga(mos)alerosbinarismoscomoformasdetransculturação,de
traduçãocultural,destinadasaperturbarparasempreosbinarismos
culturaisdo tipo aqui/lá.Éprecisamenteessa“duplainscrição”que
34
rompe com as demarcações claras que separam o dentro/fora do
sistema colonial, sobre as quais as histórias do imperialismo
floresceramportantotempo.
Uma região pode comportar-se simultaneamente como pós-colonial nas
relações com sua antiga metrópole, e de maneira diferente com outros países
emergentes que vêm sendo inseridos no contexto devido à reconfiguração
geopolíticaatual.Um exemploéocasohistóricodePortugal,que,nasituaçãode
dependenteeconômicodaInglaterraàépocadacolonizaçãobrasileira,cumpreesse
papel.Deumlado,agecomo“subcolônia”britânica,edeoutro,comocolonizadordo
Brasil.Conseqüentemente,oBrasilsofreessa“dupla”colonização,entreainfluência
britânicaeametrópoleportuguesa.
ParaHall,umadasprincipaiscontribuiçõesdosestudospós-coloniaisésalientar
queacolonização,enquantofenômeno,atingenamesmaintensidadeassociedades
metropolitanasecoloniais,emboracomconseqüênciasdiferentesparaambas.Os-
colonialismo, para o autor, ao reler a colonização como processo transcultural e
transnacional,produzumanarrativadescentralizada,bemdiferentedatradicional.
Adiscussãoacercadoprocessodeglobalizaçãodaeconomiaélugar-comum
dos estudos pós-coloniais no fim do século passado e avança na atualidade. O
centro dos debates no que tange os aspectos culturais é o temor da
homogeneização.Osprojetosdeumasociedademundialedeumaeconomiasem
fronteirasseguemsendoelaboradosesuasconseqüênciasconduzemaprocessos
de unificação e adaptação, a modelos de consumo muito semelhantes, a uma
diluiçãonoconceitodenação(namedidaemquesereduzopoderdeatuaçãopor
partedosestadosnacionais)eaumanovaformadeconstruçãoidentitária.
Essacondiçãoépossível,entreoutrosfatores,pelaevoluçãotecnológicados
meiosdecomunicação,paridadenoscustosdasmercadoriasesuaoferta–emuma
análise geral –, busca de novos mercados consumidores nos países emergentes
pelos países desenvolvidos, acesso a línguas faladas nesses países e migrações
territoriais.Durantemuitotempo,acredita-seemumaespéciedeconformidadepor
parte dos países mais afetados, caindo-se em binarismos insuficientes como
explicaçãoparaofenômeno.
35
Observa-se igualmente o surgimento, nos países industrializados, de uma
tendência extremista de direita, aliada a demonstrações de xenofobia e violência
contraosimigranteseminoriassociais,comoparteda“lógicadosistema”.Aprática
daexclusãocontribuiparaafragmentaçãosocialeparaumaatomizaçãopolítica,na
medidaemquearesistênciaacabaocorrendodeformaisoladaporpartedecada
grupo que se sente “atingido”, configurando o que se chamou fim das utopias ou
relativismo, no qual os indivíduos se anulam e esperam que a “maioria” defina o
curso dos acontecimentos, como uma força independente. Os valores difundidos
limitam-seàvalorizaçãodaliberdadeindividual,enquantoengajamento,mobilização
social,cidadaniaeparticipaçãopolíticaficamemsegundoplano.
Paralelamente, um movimento de preservação e resgate das culturas
marginalizadas vem à tona, embora disforme e por vezes aparentemente
desorganizado,ocupandolugardedestaquenosestudoss-coloniais,principalmente
na literatura, que acaba por revelar essas especificidades nas narrativas. Todo
processodehomogeneizaçãoimplicacontradições,tensõesereaçõesdedesconforto.
A função social desse movimento é reclamar a voz do colonizado, silenciada pelo
discursodominante,etransporafronteiraentrecríticaepolítica.
O termo cultura de massa deve, portanto, ser analisado. Segundo Edgar
Morin (1990, p. 14), cultura de massa é aquela produzida segundo as normas
maciças da fabricação industrial; propaganda lançada pelas técnicas de difusão
maciça, destinando-se a uma massa social, isto é, um aglomerado gigantesco de
indivíduos compreendidos aquém e além das estruturas internas da sociedade
(classes, família,etc.) e que tem como objetivo ahomogeneizaçãodoconsumo e
dos costumes. Já para Adorno (2002), a cultura de massa é o grande meio
encontrado pelo sistema capitalista para inibir o poder de crítica da sociedade. O
acessoaosmeiosdecomunicação,porsuavez,tornapossíveladifusãodeidéias
emredeereconfiguraanoçãodetempoeespaçotradicional.
Entretanto,odesenvolvimentodeumaculturademassaexigeumcapitalismo
em nível avançado e homogêneo, o que não é o caso de regiões vítimas de
colonização.SegundoLuizCostaLima(2000,p.64-65),
36
O modelo clássico – tecnologia avançada, sociedade de consumo,
cultura de massa – seguido tanto nos Estados Unidos quanto na
Europa, pelacultura demassa, aquinão sereproduz.Paísonde a
desigualdade de rendas faz com que a um décimo da população
corresponda40%darendanacionaleondeodesequilíbriocontinua
a ser acusadomesmo no interior desse um décimo, de modo que
20%darendanacionalcorrespondea1%daqueledécimo,nãopode
conter uma sociedade de consumo, mas sim, e apenas, bolsões,
ilhasresumidasacírculosrestritosnaspoucasmetrópoles.
Conseqüentemente,aomesmotempoemqueaglobalizaçãomutilaculturas
locais,elacontribuiparaageraçãodediversidadeesuatransmissão,namedidaem
queocapitalismonãosedesenvolvedeformahomogêneaemtodasasregiões.
Aofalaremdiferençacultural,faz-sereferênciaprincipalmenteaessanoção
deheterogeneidadecultural eétnicanasociedade.Aindaestáimplícitaaidéiade
queosdiferentesgruposhumanosquecarregamconsigoadiferençaemrelaçãoao
modelo“legitimado”,ouadefendem,sofremdificuldadesdeintegração.Éigualmente
importante, porém, salientar que no pólo oposto está a demanda crescente por
inclusão e redefinição das práticas políticas. A cultura ocidental sofre uma
descentralização e movimentos de resistência se consolidam contra o modelo
europeucolonialista.
Emtermosgerais,falardeidentidade,coletivaouindividual,épensaradistinção
entre o que é idêntico e o que se considera como “outro”, isto é, o que significa
continuidade e o que representa ruptura e deve ser expulso. Em sociedades
colonizadas,aquestãoquesecolocaé:comoidentificaropróprioeoimpróprio?Como
encontrar o legítimo em uma nação formada sob o jugo estrangeiro? Fato é que a
identidade dessas regiões se reconstrói mediante novos pametros, partindo do
princípiodequeháumacisãotemporalentreoanteseoapóssituaçãocolonial,entreo
tempo colonial e o tempo nacional. Essa condição torna impossível pensar uma
continuidade,tantonoâmbitolingüísticoquantonodaexpressãoculturaldessespovos.
No século XX, a noção de identidade nacional é abalada e o caráter
conciliatório entre colonizador e colonizado, tão aclamado pelos primeiros
românticos, passa a ser repensado. No caso da América Latina e do Brasil em
especial, o modernismo é responsável por retomar essa relação, mas agora
pendendoparaoladodocolonizado,novamentefazendoumaopção”quenegao
37
caráteridentitáriohíbrido.Osmodernistaseasuachamadaantropofagia”fazemdo
elementoindígenaum “comedor” e assimiladordaculturaeuropéiaebuscam,por
suaarte,recuperaressaculturaoriginalautóctone,porémpermeadapelaalteridade,
ouseja,semprefazendoreferênciaaoeuropeu/colonizador,ignorandoosefeitosdo
processosobreocolonizador.
Novasformas deidentidadedesafiamoetnocentrismo, e o grande discurso
multicultural no século XXI é “legitimar as diferenças”, mediante a rejeição dos
modelos totalizadores. Através da diferença cultural, a uniformização e, por
conseqüência, a idéia de nacionalismo, são questionadas. Entretanto, é preciso
atentarparaoperigodacelebraçãoindiscriminadadohibridismo,sobpenadeque
sejamocultadososreaisdramasvividospelosrepresentantesdasminorias.
Emrelaçãoaopós-modernismo,osestudospós-coloniaissalientamacríticaà
ausência de limites pós-moderna ao exaltar a fragmentação em detrimento de
questões políticas, outrora levantadas pela modernidade. Para Sousa Santos, o
riscoconsistenareduçãodarealidadeaodiscurso,queexcluiamaterialidadeeas
práticasnão-discursivasdadiscussão.Umahipóteseéquetantoopós-modernismo
comoopós-colonialismosejamfrutosdeestudosgeradosnoambienteacadêmico,
queignoraempiricamenteosproblemassociais.
Apolifoniasurgeparaevidenciarasimultaneidadedevozes,namedidaem
que valoriza a heterogeneidade no discurso, que acaba sendo elemento
transgressornaculturahegemônica,emborasofraosdanosprovocadospelalógica
demercado,cujaintençãoéacanharqualquerformademanifestaçãoplural,através
doincentivoaumaculturademassa.Oindivíduonemsempreconsome,mascultiva
osvaloresedesejaconsumir.Oleitordeumromancepolifônicoprecisa,portanto,
superartaisobstáculosatéconseguiraproximar-sedaobra.
Oromancepolifônicopós-colonialconstitui-seemumaforçadetransformação
social, em contraponto aos discursos político e econômico. Nessa perspectiva, a
literatura atua como mediadora entre o fragmentado e o homogêneo. O embate
culturalinstigadopelocontatodeculturasdiferentes,masqueseencontramemum
espaçofísicocomum,representaterrenofértilparaquesefaçampossíveisreflexões
38
em relação ao lugar da literatura na construção da identidade dos sujeitos
representantesdessasituação.
Odiscursoficcionalhistóricotem,nosúltimosanos,conquistadoaindamais
relevânciaaoabordaraspectosrepresentativosdasrealidadespós-coloniais,como
situações de diáspora, migrações territoriais, embates culturais, entre outros. São
cada vez mais recorrentes os romances cujo tema é a diáspora, a emigração, a
mudança de território por várias razões – o sonho de uma vida economicamente
melhor,estudos,umafugaforçadaouasguerras.Taistemáticassãoevidentesem
literaturasderegiõesquesofremcomacolonização.
O romance pós-colonial tem como uma de suas principais características
problematizar, extravasaregerarreflexão acercadaidentidadehíbridadohomem
diaspórico;suarelação–nemsempreclaraeharmônica–comapátriaondenasceu
eanovaqueacabaporassumircomosua,espontaneamenteounão.Consisteem
umaproduçãoteóricaeintelectualquerefleteediscuteessaherançacolonialeas
relações que ela é capaz de produzir: colonizador/colonizado, centro/periferia,
desenvolvido/subdesenvolvido, além de outras infinitas possibilidades mais sutis,
nãomenoscomplexas.
Pode-seaindadefiniroromancepós-colonialcomoa literaturaqueprovoca
uma reflexão sobre a diáspora e o duplo papel do emigrante (permanente ou
temporário)enquantocolonoecolonizador.Logicamente,taisrelaçõesnãosedão
deformafixaevertical.Anarrativacaracteriza-seporsuaposturaderesistênciae
críticaaomodelodesociedadeanterior.Elanãosurgesomenteapósacolonização,
mascomacolonização,paraquestioná-la.Comefeito,aassociaçãoentreestudos
culturais e literatura proporciona, como conseqüência, novas possibilidades de
leitura do texto literário, na medida em que atribui valor a temáticas antes
menosprezadas. zia Villaça lembra que “focos de resistência sutis se instalam,
forçandoosmecanismosdeirradiaçãoabuscarumahibridaçãocomaalteridadede
modoamanterumaboaperformance”(1996,p.20).
O discurso romanesco pós-colonial evidencia as profundas marcas da
exclusãoedosparadoxosduranteo domíniodasmetrópoleseastransformações
ocorridas nas relações globais após esse período, bem como as novas práticas
39
culturaiseos“novos”sujeitosqueseconfiguramapartirdasrelações,ematritocom
ospadrõesideológicostradicionais.
O romance histórico, ou metaficção historiográfica, na acepção de Linda
Hutcheon (1991), encontra no pós-colonialismo os elementos necessários para
desenvolver-se como gênero e redefinir a relação entre os discursos ficcional e
histórico. Para Hutcheon, história e ficção são criações humanas e, portanto, ao
mesmo tempo em que nasce um movimento de releitura do passado, há uma
reflexãosobreoprocessodeescritaficcional.
1.5–AGuerradoParaguainodiscursodahistória
Cegoéocoraçãoquetrai
aquelavozprimeira
quededentrosai
eàsvezesmedeixaassim
aorevelarqueeuvim
dafronteira
ondeoBrasil
foiParaguai
(AlmirSaterePauloSimões)
A Guerra do Paraguai foi o mais longo conflito travado entre pses sul-
americanos. Estendeu-se de dezembro de 1864 a março de 1870. Os países
envolvidoseramoParaguai,cujamotivaçãofundamentaleraabuscadeumasaída
paraomar,eaTrípliceAliança,formadaporBrasil,ArgentinaeUruguai;eapoiada
pelaInglaterra.
DuranteosgovernosdeJoséGasparRodríguezdeFrancia(1813-1840)ede
Carlos Antonio pez (1841-1862), o Paraguai vivenciou um desenvolvimento
bastanteoriginalemrelação aodosoutrospaíses daAméricadoSul.A política de
Francia e de Carlos Antonio López procurava alcançar um desenvolvimento
ecomicoauto-suficiente,poisospaísesvizinhoslheimpuseramoisolamento,uma
vezqueaArgentinaaindanãoreconheciaaindependênciadopaísguaranie,assim,
oestabeleciaumacordocomvistasagarantiraoParaguaiumasaídaparaomar.
40
Após o falecimento de Carlos Antonio López, seu filho assume o poder. O
regime de Francisco Solano López caracteriza-se por um centralismo total sem
espaço para o surgimento de uma verdadeira sociedade civil. Não há distinção
efetivaentreopúblicoeoprivadoepezgovernaopaíscomosegovernasseuma
grandepropriedadeparticular.
OEstadocontrolaocomércioexterioreosprincipaisprodutosdeexportação
paraguaiossãoomate,ofumoeasmadeirasraras,cujasvendasmantêmabalança
comercial com saldo favorável.O Paraguai também evitacontrair empréstimos no
exterioreadotaumapolíticaprotecionista,istoé, deconteraentradadeprodutos
estrangeirospormeiodeimpostoselevados.
Amodernizaçãodopaís tambéméumdosobjetivosdogovernodeSolano
López.Maisdeduzentos técnicos estrangeiroscontratadospelo ditador trabalham
nainstalaçãodelinhastelegráficas,estradasdeferroenaassistênciaàsindústrias
siderúrgicas,têxteis,depapel,tinta,construçãonavalepólvora.
UmadasreferênciasparaguaiaséafundiçãodeIbicuí,fundadaem1850.Na
fundição são fabricados canhões, morteiros e balas de todos os calibres. Nos
estaleiros de Assunção, a capital, o construídos inclusive navios de guerra. O
Paraguai, então, sustenta também a sua condição militar, mantendo-se
independenteemrelaçãoaomercadoexterno,sobretudodaInglaterra,paragarantir
oseupoderiobélico.
Porém,paraSolanoLópez,oprotagonismoeconômicoobtidopeloParaguai
seria ínfimo enquanto não houvesse uma maior afirmação do país em relação ao
mercadoexterno,oquesomenteseriapossívelapartirdeumaligaçãocomomar.
EstasaídaseriapelooceanoAtlântico,jáqueosmercadosconsumidoresestavam,
sobretudo,naEuropa.ComofracassodiplomáticoemrelaçãoaospaísesdoPratae
aoBrasil,SolanoLopézpassouaprepararumaestratégiabélicaparaseuprojetode
expansãocomercial.
OprojetodenominadoParaguaiMaiorvisavaaumaligaçãocomoAtlântico,
cortandooBrasilemumafaixaquefariaaligaçãodopaíscomooceano.Como
objetivo de sustentar tais políticas, inicia-se o incentivo à indústria de guerra, e a
grande mobilização de homens para o exército (o serviço militar no Paraguai era
41
obrigatório), submetendo-os a um treinamento intensivo, além da construção de
fortalezas nas proximidades do rio Paraguai. No plano diplomático, o Paraguai
procurava aliar-se, no Uruguai, ao partido dos blancos, que estava no poder,
adversáriodoscolorados,queeramaliadosdoBrasiledaArgentina.
DesdequeoBrasileaArgentinasetornaramindependentes,adisputaentre
osgovernosdeBuenosAiresedoRiodeJaneiropelahegemoniadaBaciadoPrata
marcou significativamente as relações políticas e diplomáticas entre os países da
região.ApretensãodogovernoargentinoerareconstituiroterritóriodoantigoVice-
Reinado doRio da Prata, anexando oParaguaieoUruguai.AArgentinarealizou
diversas tentativas nesse sentido durante a primeira metade do século XIX, sem
obter êxito, muitas vezes devido à intervenção brasileira. Temendo o excessivo
fortalecimento argentino, o Brasil favoreceu o equilíbrio de poderes na região,
ajudandooParaguaieoUruguaiapreservaremsuasoberania.
O Brasil, sob o domínio da família real portuguesa, é o primeiro país a
reconhecer a independência do Paraguai, logo após a declaração em 1811. No
período em que a Argentina é governada por Juan Manuel Rosas (1829–1852),
inimigocomumdoBrasiledoParaguai,oBrasilcontribuiparaomelhoramentodas
fortificações e do exército paraguaios, enviando oficiais e técnicos a Assunção.
Comonãoháestradas ligando aprovínciade MatoGrosso ao RiodeJaneiro, os
navios brasileiros precisam atravessar todo o território paraguaio, subindo o rio
Paraguai,parachegaraCuiabá.Muitasvezes,porém,édifícilobterpermissãodo
governodeAssunçãoparalánavegar.OmotivobasilardeconflitosnaAméricano
século XIX é a disputa de influência em relação à manutenção da hegemonia no
continente.Tambémédisputadaasituaçãodeliderançadiplomáticaparaobtenção
debenefíciosemrelaçãoàInglaterra.
Em abril de 1864, o Brasil envia ao Uruguai uma missão chefiada pelo
conselheiroJoséAntônioSaraivaparaexigiropagamentodosprejuízoscausadosa
fazendeiros gaúchos por fazendeiros uruguaios, em conflitos de fronteira. O
presidenteuruguaio,AtanasioAguirre,dopartidodosblancos,recusa-seaatender
às exigências brasileiras. Solano López, com a intenção de se fortalecer
politicamentenocontinente,oferece-secomomediador,mas nãoé aceito.Rompe
então relações diplomáticas com o Brasil, em agosto de 1864. É divulgado um
42
protesto afirmando que a ocupação do Uruguai por tropas do Império brasileiro
significa um atentado ao equilíbrio dos Estados do Prata. Em outubro do mesmo
ano, tropas brasileiras invadem o Uruguai. Os partidários do colorado Venancio
Flores,quecontainclusivecomoapoiodaArgentina,unem-seàstropasbrasileiras
paradeporAguirre.EmrepresáliaàintervençãonoUruguai,nodia11denovembro
de1864SolanoLópezordenaaapreensãodonaviobrasileiro“MarquêsdeOlinda”.
Nodiaseguinte,ovaporparaguaio“Tacuari”detémonaviobrasileiro,quesubiao
rio Paraguai rumo à então Província de Mato Grosso, levando a bordo o coronel
FredericoCarneirodeCampos,recém-nomeadopresidentedaquelaprovíncia,queé
feitoprisioneiro.AsrelaçõescomoBrasilsãorompidasejánomêsdedezembroo
MatoGrosso éinvadido.Emmarçode1865astropasdeSolanoLópezpenetram
em Corrientes, na Argentina, visando ao Rio Grande do Sul e ao Uruguai, onde
esperamencontrarapoiodosblancos.
Comoresultadodas tensõesjáestabelecidasentre ospaíses,nodia13de
dezembrode1864oParaguaideclaraguerraaoBrasil,etrêsmesesmaistarde,em
18demarçode1865,àArgentina.OpresidentedoUruguai,VenancioFlores,que
chegaaogovernocomaajudadoBrasiledaArgentina,solidariza-secomospaíses
queohaviamapoiado.
Ahistoriografiatem-sededicadoespecialmentenasúltimasdécadasasuprira
ausênciadenarrativasmais comprometidascom oseventosemenos binaristas.O
fatoéqueahistóriadaGuerradoParaguaitemsidocontadaatravésdepolarizações
aosabordosdesejosdopesquisadoremquestão.Deumlado,omemorialismodos
militares e sua exaltação à vitória brasileira, criando heróis e mitos. De outro, a
indicação revisionista, que propõe uma verdadeira varredura ao que já havia sido
oferecidoetransformaoParaguaiemvencedorideológicodoconflito.
Pode-seobservarumexemplodeabordagemtradicionalepatriótica”nolivro
NossaPátria,dohistoriadorRochaPombo,publicadoem1933.Segundooautor,a
guerratemcomocausaunicamenteosinteressesdeSolanoLópez:
ÉoditadordoParaguai,FranciscoSolanoLópez,quevairenovaras
pretensõesdeRosas,deformarnoPrataumgrandeimpério,rivaldo
Brasil. Para isso preparava-se solícita, mas dissimuladamente; e
aguardavaagoraumpretextoparaentraremcena.Essepretextovai
43
seranovaintervençãodoImpérionoEstadoOriental,em1864(1960,
p.34).
ÉnítidoopartidarismotomadoporPomboaoreferir-seaoditadorparaguaio
comoumestrategistafrio,queestariadispostoapôremriscoapopulaçãodeseu
país por puro capricho econômico. Ao não analisar a dinâmica das relações que
envolvem a região do Prata na ocasião, Rocha Pombo apresenta uma visão
superficialdoacontecimento.Paraoautor,Solanoaproveitaparacriarumpretextoe
iniciaraguerra:
Para isso é que começa por assustá-lo apoderando-se de um
paquetebrasileiroqueiadeMatoGrosso,levandoabordoocoronel
Carneiro de Campos, novo presidente daquela nossa província, e
queficoutambém prisioneiro: tudo istode surpresa, sem nenhuma
declaraçãodeguerra.Dava-seistonodia12denovembro[1864];e
pouco mais de um mês depois, o coronel Barrios, com cerca de
6.000 homens, saía de Assunção, e no dia 26 [de dezembro]
apresentava-sediantedonossofortedeCoimbra(op.cit.,p.45).
PombojustificaaassinaturadoTratadodaTrípliceAliança,acreditandoqueo
Brasilcumpriaaliumamissãolibertadora:
Censurou-semuito,notempo,ecensura-seaindahoje,estetratado,
estranhando que três nações se houvessem assim entendido para
derribarumgovernoestrangeiro.Esquecem,noentanto,oscríticos,
acontingênciaemqueseviramosgovernosaliados.López,senhor
absolutodo seu povo,agredirao Brasile aRepública Argentina,e
punha no maior perigo a ordem internacional em todo o sul do
continente. De que outra forma poderia corrigir-se a audácia
agressiva do ditador senão fazendo francamente, os governos
ameaçados, uma liga de salvação no intento de destruir aquela
clamorosa tirania, e impedir queum déspota perturbasse a pazde
trêsnações?(op.cit.,p.48)
A visão legada por Rocha Pombo à história do conflito é parcial e
comprometidacomamanutençãodostatusquo.Paraohistoriador,ofimdaGuerra
doParaguaiéummarcoparaahistóriadaAméricaLatina:“Lópezéoúltimogrande
caudilho,quefecha,nazonaplatina,ahistóriadaquelasterríveisusurpaçõesdaforça
44
contraodireitodascoletividades.Adestruiçãodesuatiraniamarcaumaeranovana
civilizaçãodocontinente”(op.cit.,p.51).
Ocontextopolíticoesociallatino-americanoaltera-senasegundametadedo
século XX, principalmente com a implantação de ditaduras militares. A história da
GuerradoParaguaiganha,nessemomento,novasabordagens.Oconflitopassaa
ser visto como fruto da expansão capitalista e imperialista. Interesses europeus,
sobretudobritânicos,teriamlevadoaTrípliceAliançaaserconstituída,comointuito
debarrarodesenvolvimentoassombrosodanação“insubmissa”daAméricadoSul.
Exemplos dehistoriadoresrevisionistas são LeonPomer eJúlio José Chiavenato,
alémdeMárioSchmidt,quechegaaafirmaremumdeseuslivros,destinadoàsexta
série do Ensino Fundamental: “Esqueça tudo o que você leu nos livros didáticos
tradicionais.Oquehouvefoiumadascoisasmaisnojentasdahistória”(1993,p.82).
Eemoutrofragmento,dignodeumromanceprosaico:
Os ingleses agiam nos bastidores. Não gostavam da autonomia
paraguaia. Além disso, poderiam ter bons lucros financiando as
forças armadas da Argentina e do Brasil. Foi selado o acordo
comercial.Oresgateseriaemsangue(op.cit.,p.84).
Outro historiador que segue a linha de raciocínio de Schmidt, embora de
forma menos sensacionalista, é Chiavenato (1999). Seus escritos influenciaram
estudantes durante décadas e seguem com muita audiência inclusive no meio
acadêmico.Éfatoqueessetipodenarrativaobtémmuitosucessoeaceitaçãodo
públicoemgeral,justamenteporapresentarumalinguagemsemelhanteàdeobras
ficcionais. Seu principal livro, Genocídio americano: a Guerra do Paraguai, foi
publicadopelaprimeiravezem1979ereeditadoduranteosvinteanosseguintes,
pelomenos. Apesardas reedições,oteordeseu texto nãofoi sequeratualizado,
levandoemconsideração os avançosobtidospela historiografiaatualreferentes à
guerra.Umexemploéestetrecho:
Em resumo, para a historiografia oficial a história da Guerra do
Paraguai já está escrita. Está pronta e acabada. Qualquer versão
que contrarie seus preconceitos está tacitamente proibida. Na
impossibilidade de uma abordagem crítica, os historiadores oficiais
45
aceitam a tática imposta desde o Império – com alguns clarões
discordantesapartirdaRepública,comoTeixeiraMendes–efazem
da sua alienação um exercício de cata às pulgas dos detalhes
históricos. A maioria dos livros esmiúça batalhas e se escrevem
crônicas românticas e se forjam heróis. E nem falamos aqui das
obrasditasdidáticas(CHIAVENATO,1999,p.64).
Apesar de sedutor, esse tipo de discurso é sustentado por muito poucas
evidênciashistoricamenterelevantesesebaseiaprincipalmenteemsuposiçõestão
românticas quanto as encontradas nas crônicas dos primeiros narradores ex-
combatentes. Masnegar que a supremacia daTrípliceAliançafoi reforçadapelos
constantes empréstimos e doações de armas feitas pela coroa britânica seria
ingenuidade.Éevidenteaparcialidadedasanálisesreferentesaoconflito,tantopor
partedoshistoriadorestradicionais,quantodospretensos“revisionistas”.
A guerra, desde o início, configura-se como um combate desigual. O
Paraguai,emboraincentivassemaciçamenteoserviçomilitareinvestissemuitoem
armamento, não era adversário significativamente ameaçador à Tríplice Aliança –
que, por sua vez, jamais foi um exemplo de organização. A superioridade bélica
individual paraguaia logo cederia à inegável supremacia numérica dos efetivos
aliados, embora a participação do Uruguai tenha sido meramente simbólica em
termospráticos.Aindaassim,estima-sequedurantetodooconflitooParaguaitenha
recrutadonomínimooitentamilhomens,incluindoadolescentesecrianças.
A independência paraguaia acaba por significar também um isolamento
autodestrutivo.Namedidaemquesuasforçasvão-seesvaindo,opaísvê-seforçado
aceder,enquantoasforçasaliadasobtêm
constantementerecursosexternos,como
armamentoenaviosdeguerra,emsuamaioriaproduzidosnaEuropa.
Noiníciodaguerra,oscombateslimitam-seaofensivasparaguaiascontrao
MatoGrosso,noBrasil,eCorrientes,naArgentina,entreofimde1864eocomeço
de1865.Oterritóriouruguaiojamaiséatingidoportropasparaguaiasejánoanode
1866o Paraguaiassumeuma atitudepredominantementedefensivanoteatro dos
acontecimentos, principalmente após a vitória aliada na batalha do Riachuelo, a
mais violenta e definitiva de todo o conflito. Após Riachuelo, o Paraguai sofre
bloqueiopermanenteatéofimdaguerra.
46
ApósainvasãodoParaguaiem1866,asbatalhasvão-setornandocadavez
mais raras. Os aliados padecem mais de doenças e hostilidades naturais que de
ataquesparaguaios.Lópezjáfalaemnegociaçõesqueresultemnofimdaguerra.
Porém,oParaguaireúneforçaseobtémalgumasvitóriassobreaTrípliceAliança,
como a que resulta na retirada de Laguna, episódio eleito por Deonísio da Silva
comocenárioparaAvantesoldados:paratrás.
A historiografia oficial tradicionalmente trata a retirada de Laguna de forma
obscuraedistorcida.Com o objetivo deencobrir uma evidente derrota daTríplice
Aliança,oeventoédeliberadamentereconstruído,visandoàmanutençãodostatus
quo e da idéia de supremacia invicta dos aliados. Em narrativas históricas
tradicionais, mais comumente quando o temaéa guerra, a ênfaseédirigida para
feitosalegoricamenteheróicoseoespaçoparaderrotasouhomenscomunsé,via
deregra,restrito.
Alfredo d’Escragnolle Taunay, ou Visconde de Taunay (1843-1899), é
responsávelpelalegitimaçãodessediscursonoqueserefereàretiradadeLaguna.
Na obra homônima, Taunay usa como principal fonte um diário de campanha
igualmente de sua autoria, contendo, segundo ele, “lembranças”. O objetivo do
Visconde é justificar a participação brasileira no episódio e relatar as provações
sofridaspelacolunaaindanoMatoGrosso,numatentativaclaradeenalteceraidéia
deamoràpátriaefidelidadeaoImpérioporpartedoexércitonacional.
Nofinalde1864,SolanoLópezordenaaocupaçãodoMatoGrossoporágua
eporterra.Oexércitoparaguaiofixa-sejustamenteemáreasfronteiriças,eareação
do Império é enviar uma coluna partindo de São Paulo, que seria reforçada pelo
caminho com efetivos militares de Minas Gerais e Goiás. O objetivo é conter o
avanço paraguaio de maneira rápida e recuperar a região invadida. Entretanto, a
coluna brasileira iria ficar na região ainda dois anos. O Visconde integra a tropa
comoajudantedacomissãodeengenhariaeregistraemseudiárioosmomentosda
expedição.
Éfundamentalqueseleveemconsideraçãoo“lugarsocial”apartirdoqualo
autor construiu seu discurso. Taunay foi um súdito fiel ao Império e desejava
profundamenteexaltarseusdesígnios.Suaobraépartidáriae,emborasepretenda
47
objetiva,étecidacomaspectosromanescosoucomoumgrandeépico,comdireitoa
heróiseantagonistas.
Oexércitobrasileiro,segundoAnaPaulaSquinelo(2002,p.63),
Carecia de uma estrutura de combate, aqui entendida como
armamentos,atendimentomédico,abastecimentoeuniformes,entre
outros. Sabia-se que na maioria das vezes as decisões a ser
tomadaserampensadas,discutidaseordenadasapoucosmetrosde
distânciadoteatrodeoperações.
Taunay não cala diante de tal evidência. Entretanto, procura narrar as
mazelas convertendo a situação degradante em oportunidade para evidenciar
possíveisatosheróicosporpartedossoldadosbrasileirosnadesastrosaretirada.A
coluna conta com cerca de 3.000 soldados, que enfrentam toda a sorte de
dificuldades durante o período em que permanece no Mato Grosso. Doença,
umidade, solo pantanoso, falta de estrutura básica, desentendimentos entre os
comandantes,culturasdiversasemconflitonoseiodatropa,entreoutrosproblemas,
resultamemumgrandenúmerodebaixas.AnaPaulaSquinelodefendeatesede
que a tropa brasileira é exposta a essa situação devido a desavenças entre os
comandantes, que, apesar de cientes das condições dos soldados, acabam por
ordenarqueavancem.
Tudoconsisteemumaquestãoóbvia:éprecisotransporafronteira,romperos
limitesterritoriais,invadir.Masdequeforma,comascondiçõesprecáriasemquese
encontram?Osparaguaioslutamdeformasingular.Nãofazemprisioneiroseadotam
ométododadegola.AsoluçãoparaoBrasiléretirar-seantesdesereliminado.
O episódio é envolto por uma retórica de heroísmo que busca atenuar o
vexamedacampanha.Taunayredigedessemodoaordemdodia:
Àtardeera lidaa ordem dodia, que redigide um jacto, concisa e
vibrante.Ei-la:
Aretirada,soldados,queacabaisdeefetuar,fez-seemboaordem,
aindaquenomeiodascircunstânciasmaisdifíceis.Soldados,honra
48
àvossaconstânciaqueconservouaoImpérioosnossoscanhõese
asnossasbandeiras(apudSQUINELO,2002,p.40).
Apesar da derrota dos aliados em Laguna
10
, em 1870, Solano López é
capturadoemorto,deixandoseupaísemruínas–pesquisasafirmamqueonúmero
demortospode ter atingidoemtorno de 50%dapopulação(221 milparaguaios),
entre batalhas, fome e doenças. A economia paraguaia igualmente fica
desmantelada.Suasbasesprodutivassãodestruídaseoisolamentoanteslouvável
como sinônimo de independência torna-se retrocesso, e até os dias atuais não
vislumbraalternativa.
AguerraatingeigualmenteoBrasilemtodasasesferas,comconseqüências
profundas que vão além dos territórios anexados. Durante os anos de conflito,
refreia-seacausaabolicionista,sobopretextodequeénecessáriaumadedicação
totalàguerra.AdívidadoscincoanosdeguerrachegaacustaraoImpério614mil
contosderéis,quandooorçamentodopaíséde57milcontos,emboraaindústria
nacional tenha sido estimulada. As baixas brasileiras totalizam cerca de 50 mil
homens.
Asprimeirasnarrativasdecaráterhistóricosobrea guerrasurgemlogonos
últimos anos do Império. As então chamadas crônicas de guerra são escritas
principalmente por ex-combatentes que visam a enaltecer a bravura das forças
nacionaiseseusícones–Caxias,OsórioeTamandaré.
Essasnarrativasotãotendenciosasedeliberadamentedescomprometidas,
quedefinemcomomarcoinicialdoconflitoadetençãodonaviobrasileiro“Marquês
deOlinda”peloParaguaiemnovembrode1864,enãoaintervençãobrasileira,um
mêsantes,contraoUruguai,apoiadopeloParaguai.Jáapartirdadécadade1930,
ahistoriografiaparaguaiaconquistaautonomiaemrelaçãoàsnarrativasdospaíses
vencedoreseconstróisuaversãonacionalistaparaoconflito.
No Brasil, o revisionismo de Chiavenato critica com veemência a ação da
Tríplice Aliança. A idéia é apresentar a ótica dos diversos grupos envolvidos no
conflitoenãoapenasaversãodaselites.ArecepçãodaobranoBrasilésolidificada
 
10
Laguna:nome de uma fazendalocalizada no Paraguai,de onde partiua tropa derrotada, sobo
comandodoCoronelCarlosdeMoraesCamisão,rumoaoBrasil.
49
pelodiscursocontraaditaduramilitar,queganhaforçanaépoca,pelosmilitantesde
esquerda.
A evolução do conceito de história nas décadas subseqüentes proporciona
novasformasdeanálisedaguerra,querejeitamqualquertipodeidéiatotalizadorae
valorizamasminoriasenvolvidas,alémdosaspectossociaiseantropológicosdeum
modogeral,aindaquedeformaincipiente.
ArecentepublicaçãodeMalditaguerra,deFranciscoDoratioto(2002)critica
explicitamente o revisionismo e propõe uma leitura mais sensata da guerra.
Doratioto analisa o conflito de forma detalhada, mas sem especificar as
multiplicidades culturais das sociedades envolvidas, caindo na falha da
homogeneizaçãoefazendoaopçãoporumahistóriapolítica,tãocombatidapelos
adeptos da chamada Nova História Cultural. Faz-se, portanto, necessária uma
análisedascondiçõesdevidadaspopulaçõesenvolvidasnoconflito,seushábitos
cotidianosesuaorganizaçãosocial.
50
2–AVANTE,SOLDADOS:PARATRÁS:
UMALEITURACULTURALDOSUJEITO
Literaturajamaisseráobradeshowbusiness.
Enquantoexistiroserhumano,haverásempre
lugaretempoparaqueumescritordigaaum
leitor o que ele acha de temas essenciais da
condiçãohumana,devaloresabsolutos,como
o amor, a liberdade, a amizade, e da brutal
devastação que nos causam tais sentimentos
quandoperdidosouextraviados.
(DeonísiodaSilva)
2.1–Caracterizaçãodaobranocontextodametaficçãohistoriográfica
OhúngaroGeorgLukács(1997)postulacaracterísticascomunsàsnarrativas
que se referem a eventos históricos. Segundo o autor, romances definidos como
históricosapresentamsuasõessituadasemumtempopretéritoetêmporcortina
defundoumcenáriofactual,espéciedeespelhoreportadodahistoriografiaoficial.
Personagens históricas convivem com ficcionais, em uma trama enriquecida por
episódios igualmente fictícios, criada pelo romancista. O enredo imaginado deve
cumpriras“exigências”históricasdaépocanaqualestáambientado,bemcomoser
verossímildeacordocomospressupostosaristotélicos
11
.ParaLukács,oromance
históricoéumaproduçãodialéticamoderna.Deumladoodadohistórico(atese),e
deoutro,oqueelechamade“ironiadoromancista”(aantítese);amboscompõema
síntese,queéopróprioromance.
Lukácsargumenta, ainda, quea ironia é a responsável pela literariedade do
discursoromanesco.SobreaironiaemLukács,dizPedroBrumSantos(1996,p.36):
 
11
NaconcepçãodeAristóteles(aproximadamente384-322a.C),ahistóriasediferenciadapoesia(o
conceitodeliteraturaaindanão erarecorrentena época)peloteordeverdadeemseudiscurso.A
história narra os fatosreaisea ficção temafunção deimitá-los. O textoliteráriodeve, entretanto,
apresentarsituaçõesverossímeis,possíveis.
51
Desse modo, a ironia, entendida como o recurso que mantém a
distância entre o prosaísmo biográfico do escritor e sua criação,
cumpreumpapelredentor.Cabe-lheafunçãoderedimiroromance
do paradigma do factual e do historiográfico, instituindo-lhe uma
qualificaçãodecaráterartísticoe,comisso,possibilitandoqueentre
seusdadosnarrativosdesvelem-seconteúdosdefeiçõesessenciais.
O nem sempre harmônico relacionamento entre os discursos histórico e
ficcionaltemsidotemadediscussõesteóricasaolongodotempo.Valelembrarque
talzonadecontatoéumaconstruçãosocial,pautadapelasdiferençasculturaisem
épocasdistintas,esofrereleiturasconstantesàmedidaquenovasteoriassurgem
paratornaraindamaisfértilecomplexaareflexãosobreotema.
De acordo com Walter Mignolo (1993, p. 118), pela lógica existem mais
diferençasdoquesemelhançasentrehistóriaeliteratura,masumapolíticaemprol
dassemelhançasvemsendoincentivada.Segundooautor,éprecisodeixarclaroque
esse eixo de análise refere-se apenas ao que diz respeito a formas narrativas do
ocidente,nãosendo,portanto,aconselháveisasuniversalizações.Históriaeliteratura,
para Mignolo (op. cit., p. 123), são convenções sociais e podem sofrer alterações
dependendodareferênciaculturalqueasconceitua.ParaohistoriadorPeterBurke,
asrelaçõesricasemdiversidadegeramconflito,mas,principalmente,oencontro:
Damesmaformaqueoutrasfronteiras culturais,asfronteirasentre
gêneros cumprem duas funções contraditórias: são obstáculos à
comunicação e também regiões de encontro. A segunda função
depende da primeira, já que o encontro na fronteira será rico e
frutífero somente sejáhouve obstáculos anteriores à comunicação
(1997,p.111).
Entenderacomunicaçãoentreosdiscursosépartirdopressupostoprimeiro,
que é a identificação de suas peculiaridades individuais que as fazem possuir
identidades distintas. Apesar da atualincontestável permeabilidade existente entre
história e literatura, pode-se assegurar que, na história, a invenção não é uma
característica permitida ao autor. Comunidades humanas sentem necessidade de
preservaretransmitirseupassado,namesmamedidaemquedesejamexpressar
suacriatividadepormeiodaarte,emboraofaçamemdiferentescondições.
O historiador, ainda que esteja sujeito às suas subjetividades, deve
apresentar evidências comprováveis a respeito do que afirma, embora, hoje se
52
saiba,essa“verdadeindiscutível”daprovaexistaapenasnoplanodasuposiçãoe
sejaigualmentesubjetiva.DizJacquesLeGoff:
Julgamosqueohistoriadortemodeverdecolocarquestõescomoeixo
doseutrabalho.Emseguida, ele comorespondê-las,apoiando-se
naquiloque,éclaro,continuasendooseumaterialespecífico,quesão
os documentos. Logo, o próprio fato de partir de uma questão
problemáticaintroduzalgumaracionalidade.Depois,seohistoriador
pretende realizar uma obra científica ainda que a história seja uma
ciênciamuitopeculiaracreditoquesejaumaciência–tambémdeve
levar em conta o movimento da história, a sua diversidade, sua
irracionalidade,suaflexibilidade.Pessoalmente,tenhograndeinteresse
na história do imaginário e, no imaginário há muita irracionalidade.
Portanto, introduzir a racionalidade na história o significa excluir o
irracional,oimpreciso,oflutuante.Muitopelocontrário.Significaquea
gentetentaexplicarasmudançashistóricasapartirdarespostaauma
questãoque,porsuavez,éracional(1991,p.262).
Adiferençapareceestarpautadanaidéiadefunçãosocialdahistóriaeda
ficção com relação ao tempo. Segundo Paul Ricoeur, ambas tomam empréstimos
entre si – historicização da narrativa e ficcionalização da história –, mas mantêm
uma relação distinta entre seus objetivos. A história, diferentemente da ficção,
constróicomopassadoumarelaçãoderesponsabilidade:
O recursoaos documentosmarcauma linha diviria entre história e
ficção:aocontriodoromance,asconstrõesdohistoriadorvisamser
reconstruções do passado. Por meio do documento e da prova
documentária,ohistoriadorestásubmetidoaoque,umdia,foi.Eletem
umadívidaparacomopassado,umadívidaparacomosmortos,queo
transformamnumdevedorinsolvente(RICOEUR,1995,p.242).
ParaLindaHutcheon(1991),remetendoaestudiososcomoMichelFoucault,o
acessoaopassadosóépossívelpormeiodotexto.Dessemodo,oqueexistesão,no
máximo, possibilidades múltiplas de verdades, que pertencem tanto ao domínio da
história quanto ao da literatura. Segundo Hutcheon, o conceito de verdade está
diretamente associado a diferentes versões dos fatos, que podem ser narradas
igualmentepelahistóriaepelaficção,jamaisacreditandoserpossívelalcançaroreal.
As raízes da ciência histórica estão no Iluminismo, doutrina predominante
entreosséculosXVIIeXIX.Ahistóriadaépocasepropõeciênciaresponsávelpelo
53
relatoeanálisedosaspectosrelativosàrealidadehumana.Amparadosnosvalores
emancipatórios iluministas, os historiadores argumentam que o homem – e não
Deus – passa a ser o centro de interesse de seus estudos e, portanto, à história
cabeatarefaderelatardeformametódicaoseventoshumanosnotempo.Éentão
necessáriomanterocaráterexatoeinfalíveldeanálise,comoobjetivodeorganizar
commétodooaparentecaosdavidaurbanacrescente.
A estrutura doromancetradicional também se encontra centrada nosujeito
emancipado e seu cotidiano, e muito se vale da história para suas tramas
ambientadasnascidadeseuropéiasemergentes.DeacordocomEdgardeDecca,
Aoposiçãoentreverdadeeficçãoouentrehistóriaeromancequese
estabelecenamodernidadeéadequeaformadonarrarhistórico,ou
oenredohistórico,vemtodoelerespaldadocomprovasdocumentais,
opiniõesdeoutroshistoriadoressobreoseventosnarrados,quecriam
um efeito de real, produzem a sensação de que o que está sendo
narrado, de algum modo, aconteceu. Esta preocupação com a
verdadecientíficaécompletamenteestranhaaoromanceeoseventos
dentro das tramas e dos enredos não precisam de provas
documentaisparaadquirirsignificado(1987,p.197).
Naliteraturaaspossibilidadessemultiplicam.A“verdade”,paraoromancista,
serveapenaspelovalorestéticoquepossui.Oautordeficçãotemaliberdadedese
valer de argumentos duvidosos, informações imprecisas ou ambíguas. Segundo
AssisBrasil(2000),“Aliteraturajogacomumelementovital:aambigüidade.Tire-se
a ambigüidade da literatura e teremos o relato. Meios-tons, subtexto, zonas
crepusculareseinefáveis:eisamatéria-primadotextoliterário”.
A crise do fazer histórico, agravada pela ascensão do movimento dos
Annales, anteriormente citado, traz à tona relevantes questionamentos acerca da
subjetividadeedaabrangênciadahistórianaentãosociedadedemercado,gestada
durante a Revolução Industrial
12
. Explicações deterministas ou totalitárias perdem
 
12
ARevoluçãoIndustrialfoi,semdúvida,agranderesponsávelpelaacumulaçãorápidadebensde
capital, devido à mecanização do processo produtivo. O capitalismo, como sistema econômico
vigente,estavaconsolidado,eatransiçãodaproduçãoemoficinasdeartesanatoparaasindústrias
fezcomqueseproduzissemuitomaisemmenostempoedeformaorganizada.Apossedosmeios
de produção igualmente não era mais do artesão, mas do proprietário da fábrica, gerando novas
relações de trabalho e organização social. O movimento possibilitou grande evolução tecnológica,
54
espaço diante da pluralidade socioeconômica e cultural que surge com o
capitalismo. A verdade empírica não mais interessa, mas uma antropologia
especulativa, ouseja,conhecerohomemapartirdodebate,discussão,cotidiano,
imaginação.Ahistóriapassaaserconcebidacomofrutodeumaconstruçãocoletiva
enãoindividual,naqualelementossãoconstantementeinseridos.
Achamadamicro-história
13
,responsávelpelaanálisedeeventosdocotidiano
nadadignos denota, aparece paracondenar definitivamente o antigodesígnio da
históriacomociênciadaverdade.Assim,asfronteirasentrehistóriaeficçãovoltama
servisitadas.ParaPeterBurke(1997,p.112),
Apesardastransgressões locais,foiapenasnanossaprópriaépoca
queafronteiraentrehistóriaeficçãosereabriu.Essequestionamento
é relacionado ao retorno de uma crise da consciência histórica.
Curiosamente, a crise assume muitas das mesmas formas que
apresentouaofinaldoséculoXVII,emboraosparticipantesprincipais
do debate pareçam o perceber esses paralelos. Hayden White
ressuscitou a discussão humanista da retórica da história, e a
indignação quesuaobraprovocaemalgumasparagenssugereque
elequebrouumtabuequeafronteiraentrehistóriaeficçãoésagrada,
possivelmente “a fronteira mais sagrada de todas”. Os historiadores
debatemsedocumentos-chavecomoosdiáriosdeHitlersãogenuínos
ouforjados.Algunsdelesvãotãolongeapontodenegaraexistência
degrandeseventoscomooholocausto.
Oshistoriadoresdamicro-história,aonarraroimpactodoseventosnavidade
personagens pouco ou nada expressivas politicamente, comportam-se de forma
muitosemelhanteaosautoresderomanceshistóricos.ParaPeterBurke,otextonão
é capaz de reproduzir o fato, mas apenas de representá-lo. História, portanto, é
narrativaepossuitodososseuselementos.Passadeumestadodecoisasaoutro
pela ação de um narrador, em um tempo e espaço determinados. Um exemplo
clássico é O queijo e os vermes, do italiano Carlo Ginzburg
14
. Na obra, o autor
    
social e econômica, que desencadearia muitas outras manifestações históricas, como a análise
teóricasocioeconômicadeKarlMarx,porexemplo.
13
A chamada Micro-História é uma tendência de análise que surgiu a partir das discussões dos
historiadores da Escola dos Annales. Sua principal característica é fazer um recorte temático e
analisaralgonotadamenteespecífico,comoocotidianodeumhomemcomum,porexemplo.Porém,
é importante ressaltar que essa análise deve estar diretamente relacionada com um tema mais
abrangente.SegundoohistoriadorGiovanniLevi,écomodarumzoomemumafotografia.Observa-
seoespaçoampliadosemesquecerdorestantedafotografia.
14
Carlo Ginzburg nasceu em Turim, em 1939. É historiador e antropólogo, um dos principais
expoentesdamicro-história;autordeOqueijoe osvermes:ocotidianoeasidéiasdeummoleiro
perseguidopelaInquisição.
55
preocupa-seemrelatarospercalçossofridosporumsimplesmoleironaépocada
Inquisição,questionandoainclinaçãodahistóriaparaosgrandeseventos.
Edgar de Decca (1987, p. 34) reflete sobre os grandes eventos históricos
utilizadospelaliteraturacomocenário:
O grande evento é o sinal indicativo do sentido da própria história
como resultado das ações humanas. Ele é areferência a partir da
qualtoda avidaindividualse debate,de organizae setransforma,
como se ele assumisse uma dimensão transcendente, que o
pensamentomodernodoiluminismohaviabanido,comsuacríticaà
religião. Na historiografia e nos romances históricos dos grandes
eventos,odestinodoindivíduoestádeterminadoporforçasqueele
não controla, e épor esta razão que Hanna Arendt
15
afirma que o
romance criou os dons da sensibilidade moderna, sempre pronta
para o sofrimento, a compreensão e o desempenho de qualquer
papelaserdesignadoparaoindivíduo.
Apesardaevoluçãonoconceitodehistória,ametaficçãohistoriográficavem
sendo, especialmente nas últimas quatro décadas, a partir das transformações
ocorridas com o gênero, a grande responsável pelo preenchimento de lacunas
deixadaspelahistoriografiaoficial.Osgrandeseventos
16
passamaserreinventados
pelaficção,cumprindoumafunçãoqueahistóriaaindanãoousadesempenhar–e
talvezjamaisofaçacomtamanhaliberdade.
Avante, soldados: para trás, obra contemplada com o prêmio Casa de las
Américas em 1992, é de autoria do catarinense Deonísio da Silva. O romance,
ambientado na Guerra do Paraguai, pode ser classificado como metaficção
historiográficadevidoàpresençadametatextualidadeeporremeterdiretamenteaum
evento históricoconhecidodo passado.Trata-se de umromance deguerraemum
contextodetensãopolíticainternacional.É,igualmente,umahistóriadeidentidades.
Aoescolhercomocenárioparaatramaumeventosignificativo,amplamenteabordado
pelahistoriografiaoficial,Deonísiodeixanítidaaopçãoporumaliteraturapolêmicae
principalmentepolítica,alémdoslimitesmeramenteestéticos.
 
15
HannaArendt(1906-1975),teóricapolíticaalemã,foiperseguidaduranteodomínionazistaepresa
porduasvezesporsuacondiçãodeestudiosaedefensoradacausasionista.RefugiadanosEstados
Unidos, seguiu suas pesquisas relacionadas a temas polêmicos como política, autoritarismo
masculino,educaçãoeviolência.
16
Entendemospor“grandeseventos”aquelesfatosconsideradosdecisivos–pelahistoriografiaoficial
–paraocursodosacontecimentos,geralmentepolíticos,comoguerras,conquistasterritoriais,crises
econômicas,entreoutros.
56
Tema clássico de narrativas ao longo dos séculos, a guerra é cenário de
possibilidadesinfinitasparaoromancista.Ossentimentosnaepiderme,acrueldade,
o perdão, a solidariedade, a solidão, os valores morais, religiosos e culturais o
recorrentesemromancesquecontextualizamaguerra.Utilizaratemáticadoconflito
armadoéagarantiadeumatramaenvolvente.Aliteraturatradicionaloitocentista,ao
tratardaguerracomotema,muitoauxiliaahistóriaoficialadifundirseusconceitos
de herói, vencedor, vítima, inimigo – sempre em uma perspectiva política. Os
romancesdaépocasãoverdadeirascrônicas,narradascomexatidão,minúciaeboa
dosedeliberdadepoéticaemnomedospropósitospolíticosenvolvidos.Seuobjetivo
é,porvezes,quasejornalísticocomonocasodeOssertões,deEuclidesdaCunha,
querelataoconflitodeCanudos,paratomarcomoexemploumaobranacional.
Em Os sertões, publicado em 1902, Euclides da Cunha faz uso do
conhecimento científico vigente na época, aliado a valores estéticos ficcionais.
Jornalista,escreveumasériedecrônicassobreCanudosparaojornalOEstadode
SãoPaulo,em1897.Diantedosucessodacoluna,optaporescreverumromance,
que acredita ser o relato de um acontecimento grandioso da história. Canudos
representaparaEuclidesaoposiçãoentreoprogressodaRepúblicaeoatrasodo
Nordeste. Seu posicionamento se encontra junto aos interesses da República,
evidenciando as diferenças entre o litoral europeizado e o sertão miscigenado,
miserávelevítimadefanatismosreligiosos.ParaEuclides,oconflitoemCanudosse
legitimapela“missãonobre”queosrepublicanostêmdecivilizarosertão.Umbom
exemplodaopiniãodoautoréotrechoaseguir:
Amisturaderaçasmuidiversasé,namaioriadoscasos,prejudicial.
Ante as conclusõesdo Evolucionismo, ainda quando reaja sobre o
produto o influxo de uma raça superior, despontam vivíssimos
estigmas de inferior. A mestiçagem extremada é um retrocesso. O
indo-europeu, o negro e o brasílio-guarani ou o tapuia, exprimem
estádiosevolutivosquesefronteiam,eocruzamento,sobreobliterar
as qualidades preeminentes do primeiro, é um estimulante à
revivescência dos atributos primitivos dos últimos. De sorte que o
mestiço–traçodauniãoentreasraças,breveexistênciaindividual
em que se comprimemesforços seculares – é, quase sempre, um
desequilibrado(CUNHA,1999,p.115).
57
O romance se divide em três partes. “A terra”, que descreve a paisagem
geogfica, berço do sertanejo; O homem”, no qual o autor responsabiliza a
mestiçagempelasupostainferioridadequecausaoatrasoeofanatismodohomemdo
sertão,eaúltima,Aluta”,momentoemqueelenarradiretamenteoscombatesentre
governoejagunços.Quandoanarrativachegaaofim,percebe-sequeEuclidestoma
umaposiçãocontráriaàguerra,aoevidenciarqueoBrasilestariase“autodestruindo”.
OutroexpoenteimportantenessateticaéJosédeAlencar,comAguerrados
mascates(1873-1874).Oconflito,descritoporAlencarcomimensatécnicaeênfase,
ocorrenoestadodePernambucoentre1709e1711.Osenvolvidososenhoresde
engenhodeOlindaecomerciantesdoRecife,estasubmetidapoliticamenteaOlinda.
Depoisdaexpulsãodosholandeses,Recifesetornaumgrandecentrocomercialejá
oaceitaadominaçãopelossenhoresdeOlinda.Osmercadorespassamareivindicar
seusdireitoseossenhoresdeOlindapartemparaoconflitoarmado.Comavitóriados
mascates,comoeramchamadososcomerciantesdeRecife,selegitimaopredomínio
do capital sobre o sistema de produção colonial antigo. A Guerra dos Mascates
representa importante momento na história do desenvolvimento do capitalismo
brasileiro, pois reconfigura as relações a partir da perspectiva econômica. Alencar
aproveita-se do evento para questionar o contexto político e econômico da época,
polemizandoinclusiveafiguradeD.PedroII.Usadaironiaedosarcasmo,emborade
formatímida,paradenunciaradisputapelopoderqueobservaemseutempo.
Ainda, sobre a própria Guerra do Paraguai, Alfred D’Escragnolle Taunay,
futuroViscondedeTaunay,personagemhistóricadoconflito,éautordeAretirada
deLaguna(1871),romancequetemcomotítuloumepisódiodederrotadaTríplice
Aliança, da qual o Brasil era integrante. Escrito originalmente em francês e
retratandoumeventopoucoexpressivonaguerra,oromanceé,nomínimo,curioso
para o contexto de sua produção. Segue um trecho no qual o relatados, com
detalhesassustadores,osinúmerospadecimentosdatropadiantedocólera,doença
responsávelpelamortedamaioriadossoldados,muitomaisqueasarmasinimigas:
Caiu à noite uma chuva abundante que agravou todos os nossos
sofrimentos.Oscoléricos,amontoadosjuntodapequenabarracados
médicos,aoarlivreesemabrigo,recebiamnocorpoenregeladoos
aguaceiros, que se sucediam a intervalos. Penalizava-nos ver
aquelesdesgraçados,extremamenteagitados,rasgandoosfarrapos
58
com que procurávamos cobri-los, rolando uns sobre os outros,
contorcendo-se de cãibras, vociferando, lançando urras que se
confundiamnumúnicogritoarticulado:“Água!”(TAUNAY,2002).

Apesardessatentativadereproduziroeventocomoumespelho,otemada
guerrapertenceàesferadoimprevisíveleéporessemotivoquetrazemsimesmo
tantofascínio.Alinearidadeé constantementeinterrompidaporum novoepisódio,
muitasvezesdecisivoparaatrama.SegundoDecca(1987,p.203),
JosédeAlencaremAGuerradosMascates,TaunayemAretirada
deLagunae,porfim,EuclidesdaCunha,emOssertões,todoseles
romances históricos cuja referência são os grandes eventos da
história nacional. Mas na historiografia e no romance histórico
moderno a soberania do grande evento, como as guerras e as
revoluções, não é afirmação realista, mas percepção de que as
ações humanas se movem por meio de forças desconhecidas e
incontroláveiseforadoalcancedoespíritoracional.Oeventotorna-
se,nestamedida,nãomaisamanifestaçãodarazãoquecomanda
as ações humanas, comoacreditavam os iluministas, mas irrupção
do acaso. A história sujeitada ao princípio da indeterminação, sem
nenhumsentidoditadopelaimanênciadarazãohumana.
Avante,soldados: para trás narra as aventurasde uma colunade soldados
brasileirosqueprotagonizamaretiradade Laguna,duranteaGuerradoParaguai.
Aooptarporescreversobreumaderrotabrasileira,Deonísiopropõequeseleiaa
históriadoBrasilpeloladoavesso.
A tropa brasileira marcha em direção ao território inimigo, mas ignora sua
exata localização, o número certo de oponentes, as condições ambientais, ou
mesmo o propósito da guerra: “Vamos guerrear contra um país que não
conhecemos, essa é a grande verdade. Não sabemos seu exato tamanho.
Ignoramossuatopografia,seusrios,montes,vegetação,vilas”(p.17)
17
.
CadacapítulotemcomoepígrafeumacitaçãodoRomanceirodaInconfidência
(1953) de Cecília Meireles. A obra remete à Inconfidência Mineira, movimento
republicanobrasileirodebaseliberalqueocorre noséculoXVIIInaentãoCapitania
das Minas Gerais. O Romanceiro, cantado em verso, alcança uma dimensão lírica
 
17
AscitaçõesdeAvante,soldados:paratrásserãoindicadasaolongodestadissertaçãoapenaspelo
númerodapágina.
59
superior,tornando-seumainterrogaçãosobreosentidodasaçõeshumanasalémda
relaçãoparticularcomahistória,namedidaemquetomapartidopelosderrotadose
fazcríticacontundenteàselitesenvolvidasnoevento.Aescolhadointertextonãose
fazsemrazão:Deonísio,comoCecília,transcendeotemadaguerraeosubjetiviza.
HánoRomanceiromanifestaçõesdecontestaçãoeanálise,versosderevolta
erebeldia,queporsuavezconvivemcomsensibilidadeedelicadeza.Aautoranão
se restringe aos fatos históricos clássicos a respeito da Inconfidência Mineira. É
possível encontrar passagens nas quais o foco é deslocado para situações
inusitadas, ocultas, mais abrangentes. Abre espaço para expor o sofrimento dos
escravos e para criticar a prática de alguns fidalgos. Os fragmentos a seguir são
citados por Deonísio, demonstrando sintonia entre as obras: Aqui, além, pelo
mundo, ossos, poeira... Onde, os rostos? Onde, as almas?” (p. 14). “De coração
votado a iguais perigos, vivendo as mesmas dores e esperanças, a voz ouvi de
amigoseinimigos”(p.34).Talvezporessasrazões,ostrechosdoRomanceiroda
InconfidênciasejamadequadosparaAvante,soldados:paratrás.
No romance, os soldados brasileiros vão guiados pelo coronel Camisão,
inspirado no seu homônimo histórico. Vale ressaltar, por ora, que o Camisão da
história oficial é geralmente descrito como um homem temperado, discreto e
indubitavelmente incapaz de hesitar, ao passo que o coronel de Deonísio é
demasiadohumano:Háumtomdevacilaçãonaautoridadedocoronelemmuitos
olhares. Camisão fica sem jeito, vários auxiliares sentem que o desconforto
aumentou.Trava-seumasurdalutadepodernacoluna”(p.26).
Camisãoapaixona-seporMercedes,umagalopeira
18
inimiga,ecomelaformao
par romântico inusitado da trama: “A lua iluminava o rosto da moça e Camio
saboreava com os olhos os seus exatos contornos. Boca pequena, dentes bem
arrumadoseumagraçaespalhadaportodoosemblante,assimeraainimiga”(p.138).
Constantemente sujeito às inquietações dos seus desejos, Camisão é uma
personagemqueduvida,reflete,erra,sente,dói.Porfim,morrevítimadediarréia,como
 
18
Asgalopeiraseramguerreirasparaguaiasqueagiamsempremontadasacavalo.Existempoucas
fontesreferentesaessasmulheres,muitasvezesassociadasàsamazonas–guerreirasmitológicas
daGréciaAntiga,queandavamacavaloeabominavamoshomens.Extirpavamumseioparamelhor
manusearoarcoeaflecha,suasarmasmaisrepresentativas.
60
umametáforadesuatotalimpotênciadiantedohorroredodespropósitodaguerra.É
característica da metaficção historiográfica de teor paródico apresentar personagens
históricasconferindoênfaseaseusatributosmenosgloriosos.
A coluna é formada por diferentes tipos humanos, que não poderiam ser
classificadoscomoheróis,aomenosdeacordocomaconcepçãotradicionalparao
termo. São negros, índios, europeus, aristocratas, mulheres acompanhando seus
homens; cada um em busca de seu objetivo particular com a guerra. Esse grupo
heterogêneoirádesbravarospântanos,conhecerohorrordasbatalhas,padeceras
doresdadoença,construiraguerradentrodesi.
O narrador é representado porum mbolo clássicodas guerras:osoldado
cronista, responsável por transcrever fielmente aos comandantes na capital as
informações mais relevantes das batalhas. Há, ainda, tipos pitorescos que geram
ricadiscussão,comoopadrecientista,ocontadorde“causos”,ocozinheirojudeu,o
visconde francês. Também são exploradas a história de uma antiganamorada do
coronelemumafazendadeescravoseabissexualidadedaheroína.
Avante,soldados:paratrás,escritonadécadade1990,podeserclassificado
como Novo Romance Histórico de acordo com a definição de Seymour Menton
(1993),queenumeraseiscritériosbásicosquedevemserobservadosparagarantir
que uma obra se caracterize como Novo Romance Histórico: 1) presença dos
conceitos bakhtinianos de heteroglosia, paródia, dialogismo e carnavalização; 2)
intertextualidade;3)metaficção,oucomentáriosdonarradorsobreoatodacriação;
4) ficcionalização do protagonista histórico; 5) distorção da história mediante
exageros, omissões e anacronismos; 6) subordinação da reprodução mimética de
certoperíodoaconceitosfilosóficostranscendentes.
Em Avante, soldados: para trás, a instância narrativa é complexa, os
referenciaisdetempoeespaçosãoplurais,estãopresentespersonagenshistóricas
eainteraçãoentreelementosintraeextratextuaiséestimulada.Há,nanarrativa,a
consciência de que é impossível atingir a verdade histórica partindo da prática
discursiva, por defender uma concepção de história na qual o elemento surpresa
estápresente.Nãoháprevisibilidadepossível:
61
Paranossasurpresa,depoisdealgunsatrapalhos,comunsaessas
horasdecisivasdaguerra,quandodepoisdetomarmosasdecisões
nãosabemosse agimosdo modo mais acertado,demos comuma
pessoafantástica,denomeSilvestre,umcontadordehistóriasmuito
divertidas(p.41).
Alémdisso,verificam-seomissões,exageros,alucinaçõeseanacronismos:
PadreLandellestevemesmonacoluna?Minhamãodireitanãosabe
oquepensaoladoesquerdodaminhacabeça.Nãoseimaisdizerse
foisonho,realidadeoupesadelo.Erammuitososquemorriam,outros
tantososquedesapareciam,semcontarosdesertores(p.114).
A obra é uma paródia das grandes narrativas de guerra – como a já
mencionadaAretirada de Laguna, de Taunay –ouosrelatos históricos.Deonísio
criticacommaestriadiversastendênciasdahistóriadoconflito,desdeostradicionais
ex-combatenteseseusufanismosprosaicos, atéapretensãodosrevisionistas,ao
se suporem mensageiros da “verdade”. Dessa maneira, numa atitude tipicamente
pós-moderna, o autor renova o símbolo guerra, conferindo-lhe novo sentido. É,
ainda, uma paródia da própria guerra como texto abrangente e plural. Segundo
LindaHutcheon (1985), a paródia é uma espécie de repetiçãocomdiferença, e a
distância entre o texto paródico e o original é gerada pela presença do recurso
irôniconaversãoparodiada.E,comoaparódiasempredependerádotextooriginal,
écarregadadeelementosparadoxais.
Deonísio, ao parodiar, utiliza recursos característicos da metaficção
historiográfica, sem, contudo, abandonar o horror da guerra ou a seriedade do
evento.Homenageiaaguerra“torcendoonariz”paraela,comodiriaHutcheon.Não
éirresponsávelaonarrar,masredefineoconflitocomolhosdopresente,propondoa
construçãodeumtextomedianteumpactofirmadoentreoselementos:autor,leitor,
texto.Suaironiaémaduraeexigeperspicáciadoleitor:
Escreva aí, francês, o que vou lhe ditar. Um resumo. Servirá de
efeméridesdanossaretirada.Útilparaescolaresnofuturo;útil,daqui
a algumas semanas, para os relatórios militares, apreciações de
superioreseomais.Sempreébomregistraroquesepassa.Oque
édisperso acabaseperdendo,como disseSantoTomás. Escreva,
pois,francês,porqueseiquevoumorrer.Queminhafalasejaessa
62
nasreuniõesquedepoisseseguirem.ViemoslibertaroParaguai.Foi
anossamissão.Libertaraliberdade.Nossavocaçãodelibertadores,
comosempre(p.169).
Areescrituradeumtextosobnovoolharouoatodeparodiarsãodesafios
impostosaoescritorcolonizadonaconstruçãodesuaidentidade.Acomposiçãode
um novo texto com base em um original ou até mesmo a reescritura fiel do texto
primário são processos que adquirem espaço no contexto latino-americano,
sobretudo por influênciade Jorge LuisBorges. No conto“Pierre Menard,autor de
Quixote” (BORGES, 1972), Menard não deseja recriar um novo Quixote à sua
maneira,masopróprioQuixotedeCervantes.
OmesmointuitopareceteronarradordeAvante,soldados:paratrás,quando
reproduzostrechosdeAretiradadeLagunadeTaunay.Emambososcasosestá
presente o intuito de reescrever a história sob outro viés cultural. Esse recurso
permiterediscutirastendênciasuniversalizantesdodiscursocolonizadoratravésde
uma literatura de resistência, na expressão de Edward Said, na medida em que
remeteaopassadopelaóticadosdominados.
Odiscursometaficcionalhistórico nasce de uma autoconsciência do poder da
linguagemesuacapacidadedeproduzirimagens,instrumentoessencialnaconstrução
denovospadrõesidentitários,namedidaemquevênaheterogeneidadeumaautêntica
confluência discursiva. Por seu turno, a releitura da história representa elemento
descolonizador,queatuaemcontrapontoàmentalidadeimpostapelodiscursooficial.
Nesse sentido, o novo discurso ficcional histórico se identifica como alternativo ou
marginalfrenteaumaevidentecentralizãodaEuropanamodernidade,quemuitas
vezesdesconsideraaspeculiaridadesinternasdecadaregião.
Sobesseprisma,arecepçãodessetipodeliteraturaépossívelmedianteum
pactofirmadoentretextoeleitor,quese dáapartirdomomento emque o leitor,
aindaquesabedordaficcionalidadedaobra,sedeixaenvolverporseuscaminhose
suspendeadescrença.Ofatorimagináriopossibilitaacriaçãodeumanovavisãode
mundoqueseriaimpossívelsemapresençadaficção.
Pode-se afirmar, dados esses aspectos, que o autor de Avante, soldados:
paratráspropõeumarevisãodialógicaeirônicadahistóriapelaficção.Suanarrativa
63
possuinaturezabitextual,oqueexigedoleitorgrandecapacidadedepercepçãoe
análise. Não apenas o sujeito que lê experimenta a possibilidade de recriação da
obra e da história, mas o próprio texto ficcional se transforma ao ser lido por
diferentessujeitosemdiferentesmomentoshistóricos.SegundoHutcheon,
Aessênciadaformanarrativaqueveioaserdesignadapormetafião
residenomesmoreconhecimentodanaturezaduplaouatédúpliceda
obradeartequeintrigavaosromânticosalemães:oromancedehoje
ainda continua a afirmar, freentemente, ser um nero com raízes
nasrealidadesdotempohisricoedoespogeográfico:e,todavia,a
narrativa é apresentada apenas como narrativa, como a sua própria
realidade–istoé:comoartifício(1985,p.46).
OtrechoaseguirdeAvante,soldados:paratrásexemplificaorecursoàironia:
“Tropadeotários!”gritouquaserasgandoagoelaosargentoSilva.
“Estamosnumaguerra.Nãonumcirco”.“Agoraentendoporqueos
militaresdoalto comandovivemfalando em‘teatro deoperações’”,
disse Argemiro: “a guerra não passa de um teatro; olha só que
palhaçada”(p.39).
Nofragmento,oautorusaironia,entretantosemapelarparaoridículoouo
caricato.Faz,poresserecurso,umjulgamentosérioeumaavaliaçãodasituação
queseriaimpensada em umtexto histórico, devido àquase ilimitadaliberdade ao
narrar. Diálogos com forte teor filosófico entre as personagens e intertextos que
remetem a autores e eventos clássicos da história, como Shakespeare, Confúcio,
guerra do Peloponeso, César, Xenofonte
19
e a Bíblia aparecem sucessivamente,
descaracterizando o estereótipo do militar como sujeito voltado apenas para
aspectospragmáticosdocotidianoeelevandoareflexãoparamúltiplostemas:
Confúcio dizia que gatos, cachorros e demais bichos pensam que
são eternos. Não sabem que vão morrer um dia. A morte sempre
vem de surpresa para eles. Como para nós, mas de um modo
diferente. – Todossão eternos, francês. Mas só a espécie. O gato
 
19
Xenofonte (430-355 a. C.), historiador grego que participa em 401 a. C. de uma batalha entre
mercenáriosgregosqueajudamopersaCiroadestituirseuirmãodopoder.Ciroéderrotadoelidera
aRetiradadosDezMil.Oepisódio,narradoporXenofonte,éamaisantigareportagemdeguerrade
quesetemregistro.Nessecaso,ohistoriadoraludeàpersonagemdeCamisão,queé igualmente
líderdeumaretiradahistóricaesepreocupaemregistraroevento.
64
perdura em todos os gatos que passam. O boi ali da canga é o
mesmoquelavrouparaCaim.Caimtambémestáemmim.Deveser
issoqueochinêsquisdizer(p.177).
Nessecontextohíbrido,multicultural,polêmicoeabundante,seráanalisadaa
construção dos diferentes sujeitos históricos, partindo das suas estratégias
comunicativas em uma perspectiva pós-moderna, levando em consideração a
condiçãodoromancecomometaficçãohistoriográficaeinseridonosistemaliterário
pós-colonial.
2.2 – As múltiplas vozes do sujeito: manifestações identitárias no ambiente
fronteiriço
2.2.1–Ainstâncianarrativa:memóriasdeumsoldadosonhador
Onarradorpredominanteéumsargentoencarregadode–alémdecombater
– observar o cotidiano da guerra e relatá-lo aos seus superiores, que estão na
capitaldaprovíncia do MatoGrosso.Éumsoldadocronista,personagemclássica
em romances (tradicionais) com esse tema. Mas em Avante, soldados: para trás,
essesoldadotranscendeoslimitesdesuacondiçãoeapresentaoladoobscurodo
conflito, suas minúcias, suas dores e efêmeros momentos de prazer em meio ao
caos,revelandoaspectoseproblemáticasdecarátersociocultural.Seupapeléode
historiador-testemunha,pelofatodehabitarumespaçoprivilegiadonadiegese,ode
testemunha ocular dos acontecimentos. Ele faz observações extremamente
subjetivas, carregadas de emoção e informalidade e de caráter memorialista. Isso
produzoefeitodequeonarradorsugereaoleitorquesuapropostavaialém.Ele
tem um objetivo por trás daquele: mostrar seu parecer pessoal da guerra,
problematizar,criticar.Raramenteparticipadeumdiálogodignodenotanatrama,
falapouco,masousatecercomentáriostendenciososecheiosdepormenores.
Osoldadocronistaépersonagemsecunriadoromance,marcada,expcita.É
testemunhadiretadosfatos;aomesmotempoemquenarra,ouve,vivenciaahistória.
Poressemotivopode-seperceberemseudiscursoapresençadevozesplenivalentes
naconcepçãobakhtiniana–,queonarradorpermiteapermeabilidade,ouseja,não
65
assume postura autoritária ou monológica. Os olhares individuais das personagens
aparecemnahistóriacomoversõesparticularesdoseventos.NatipologiadeNorman
Friedman,podemosidentificá-locomo“eucomotestemunha”:
O narrador-testemunha é uma personagem de pleno direito na
história,implicadoemmaioroumenorgraunaação,detratomais
oumenospróximocomaspersonagensprincipais,equesedirige
ao leitor em primeira pessoa. A testemunha não tem acesso aos
estadosmentaisdosdemais.Oleitor,podendodisportãosomente
dos pensamentos, sentimentos e percepções do narrador-
testemunha, contempla a história de onde poderíamos chamar
periferiamóvel
20
(1996,p.83).

Já para Prada Oropeza (1986, p. 56), ele seria chamado de “narrador-
testemunhadireto”:“Éelequecontaahistóriadoprotagonista,naqual,alémdisso,
exerce um papel temático mais ou menos importante que lhe permite estar ‘em
contato’comadiegese”.
A focalização é interna e individual. Sua voz se manifesta em primeira
pessoa,oranosingular,quandosecolocananarrativa,oranoplural,nasvezesem
quefalapeloscompanheiros:“VejooViscondeàsombra,escarrapachado”(p.15);e
logo depois, no mesmo capítulo, “O medo viaja conosco. Nossos soldados são
cheiosdesuperstiçõeselêemanaturezaaomododeles”(p.19).
Há, durante toda a narrativa, o predomínio da cena. O narrador opta por
mostrar. Diálogos o utilizados em grande quantidade. A forma, por vezes
desordenada, com que ele fornece as informações lembra um mosaico que
possibilitamúltiplasleituras.Alémdisso,aaparentefragmentaçãodanarrativapode
serconsideradaumametáforadaprópriaguerracomoeventocaótico.
Quantoàquantidadedeinformação,onarradorutilizaestratégiastextuais:na
maiorpartedanarrativa,fazquestãodeincluirdetalhesmuitoespecíficos,comoa
biografia de cada personagem, o número de baixas, os detalhes do cotidiano.
 
20
 Tradução nossa para: “El narrador-testigo es un personaje de pleno derecho en la historia,
implicadoenmayoromenorgradoenlaacción,detratomásomenoscercanoconlospersonajes
principales,yquesedirigeallectorenprimerapersona.Eltestigonotienemásaccesoalordinarioa
los estados mentales de los demás. El lector, pudiendo disponer tan sólo de los pensamientos,
sentimientosypercepcionesdelnarrador-testigo,contemplalahistoriadesdeloquepodríamosllamar
laperiferiamóvil”.
66
Portanto, apesar de se mostrar equisciente
21
, já que não consegue penetrar na
mente das personagens e não pode estar distante o suficiente para ver o todo,
“presenteia” o leitor com quantidade razoável de informação.  Em determinado
momento,admitesuaincapacidadedeacessototalàsinformaçõesedeixaclaroque
apresenta apenas a sua idéia individual do conflito. A partir de sua perspectiva
particulareparcial,outrasvozesseinseremnacena:
Transcrevooquecolhideouvidoedesentimento.Euestavalá,mas
osacontecimentosseespalhavampormuitoslugares.Nemtudoeu
via.Nemtudoeuouvia.Sãomuitasaslimitaçõesdequemescreve.
Maioresdoqueaquelasdequemlê.Mesmoemtemposdepaz.Eeu
estavanaguerra.Serviameupaís.Comosoldadoeescritor.Lutava
eescrevia(p.118).
Ofragmentopermiteobservarumoutroelementofundamentalnanarrativa:o
meta-relato,ouatematizaçãodaescriturapelavozdonarrador.Osargentofala,a
partirdasituaçãodaguerra,daangústiadoescritor,doatodecriaçãocomoofício,
comoúnicaalternativaàmorte:
Confortaumhomemdeletrassaberquedisfarçaamortecomesses
frágeis signos incrustados no papel. E que a imortalidade dos
escritores talvez semelhe a dos bichos. O gato que olha enquanto
escrevoéomesmohámilharesdeanos,aindaqueadomesticação
tenhaalteradoumououtrotraço,aguçadoesseouaquelesentido.
Também não sou eu o que foi Tucídides narrando a Guerra do
Peloponeso?(p.218)
Ao problematizar a própria literatura, Avante, soldados: para trás pode ser
considerado um romance paródico, intertextual e auto-reflexivo. Para o soldado
narrador, a literatura se apresenta como sua maneira de ser e estar no mundo.
Promover a reflexão sobre o fazer literário é motivar discussão entre realidade
(história)eficção(literatura)emumaperspectivadialética.Apartirdotextoliterário,
temáticassociaisimersasvêmàtonaesãoconfrontadaspeloolhardosujeitoquelê.
O discurso do soldado narrador se caracteriza por comportar em si outros
discursosadvindosdetemposdiferentesdahistória,concordandocomBakhtin,que
 
21
ConformeatipologiadeOscarTacca(1983,p.74).
67
afirmaseroromanceumuniversodeconfluênciadevozes.Essasvozes,comoado
historiador grego Tucídides, remetem o leitor do romance ao tempo passado da
GuerradoPeloponesoeaoespaçodaGrécia,mastambémoconduzemparauma
dimensãoatemporal,umconstantepresente,queseagregaaotempodoleitor.Ler
avozdeTucídidesatualizadapelaspalavrasdonarradordeAvantesoldados:para
tráséreinterpretaraprópriahistóriadaGrécia.
O soldado escreve suas memórias em um tempo posterior ao da história,
emboraotempodramáticosejaopresentedosacontecimentos,oquefazcomqueo
leitorsesintaenvolvidopeloseventoseconvidadoaseposicionar.ParaPaulRicoeur,
A característica mais visível, mas não necessariamente a mais
decisiva, da oposição entre tempo fictício e tempo histórico é a
libertaçãodo narrador emrelaçãoà obrigaçãomaiorque seimpõe
ao historiador, ou seja, dobrar-se aos conectores específicos da
reinscrição do tempo vivido sobre o tempo cósmico. Personagens
irreais, diremos, têm uma experiência irreal do tempo. Irreal, no
sentidodequeasmarcastemporaisdessaexperiêncianãoexigem
vinculação à única trama espácio-temporal constitutiva do tempo
cronológico(1995,p.218).
Aintençãodepreservaramemóriadohorroréelementodeterminantenatrama.
Apartir do relato do narrador, oleitor experimenta perplexidade diante da crueldade
humana no espetáculo trágico. A literatura provoca reflexão, por meio do olhar do
narrador,que,aoindividualizara dor,ultrapassa afunção estéticaese aproximada
situação real, conferindo valor histórico à preservação dessas lembranças.
Acompanhandoorelatodonarradordiantedoshorroresdaguerra,percebe-seacrítica
feitaaoacontecimentoeaincapacidadehumanadecompreendê-loracionalmente:
Além das mutilações de cadáveres e cavalos, assistimos agora os
inevitáveis despojos. São mulheres que – viúvas de repente –
passam a exigir os pertences dos maridos. São irmãos que gritam
que tal ou qual coisa é do irmão que morreu. São parentes, são
colegas,sãoamigos.Eo gênero humanonessashorasrevelasua
outra,talvezmaisverdadeira,face.Todosqueremtudo(p.66).
Lembro-me do horror do Apocalipse. Horror pior encontro nesta
guerra.Apósocombate,contemploosmortosnus,expostosaosol,
saqueadosdetudo.Comodóiavida!Agorarestaamorte.Vejoum
rapaz paraguaio, corpo de bailarino, a cabeça perfurada por uma
bala,deumatêmporaaoutra.Suaslágrimasestãomisturadascom
68
sangue. É um emblema da guerra, sua marca mais pungente. O
apocalipseestáaqui(p.67).
Camisãoquaseacariciaoferidoqueinterroga.Perguntasformuladas
em fala cheia de toda calma, pausada, escandindo as labas,
esclarecendo as dessemelhanças entre as parecidíssimas línguas
dosdoisExércitos(p.70).
Emumprimeiromomento,brasileiroseparaguaiosoaparentamnenhuma
semelhança. A construção identitária geralmente é forjada pelo aparato oficial de
formafictícia,comoobjetivodelegitimaradefesadefronteiraseapreservaçãode
umlegadohistóricoparticular.Osaspectosconsideradosnesseprocessovariamde
acordo com a região de origem, e a inclusão de indivíduos em uma comunidade
implica a exclusão de outros. No entanto, subvertendo esses valores com o
desenrolardosacontecimentosprópriosdeumaguerra,osinimigosseaproximam
pelador.O morrer,segundo Ricoeur (1995), assumeum caráterambíguo entre a
individualidadedecadamorteeaesferapúblicadesubstituiçãodemortosporvivos.
Entre público e privado está a morte anônima, muito comum nas guerras, que
remeteàmemóriacoletivanahistória.
As fronteiras se diluem. Na obra se encontra um importante elemento que
caracteriza a literatura pós-colonial: o espaço da fronteira. A guerra acontece na
zonalimítrofeentreBrasileParaguai,e,poressarazão,fronteiranãoseconfigura
apenas como fator limitador, mas como zona de confluência entre culturas
diferentes,naqualumterceiroespaçosecrianoencontroeolimiteperdesentido:
“Lutamosemorremosnestecalor.MasaquioBrasiléParaguai,oParaguaiéBrasil,
tudoestámisturado,quemnãovê?”(p.19).E,àsvésperasdofimdoconflito:
Isso confundia homens como Camisão, para quem o divisor de
águas deveria ser bem claro. “Inimigo é o que está além das
fronteirasdoBrasilenosataca.Ouagenteosataca,oque dáno
mesmo”. Mas até o termo fronteira se diluía nessas conversas
escuras(p.136).

A identidade nacional perde valor diante da cumplicidade na memória do
sofrimento:
69
Contaramquefoicomoexércitoaliadoqueaconteceuoquesevai
narrar.Dizem,porém,quefoicomoinimigo.Talveztenhaacontecido
a mesma coisa a outros exércitos. Deserção, traição, frouxidão,
covardia e outras pragas grassam de parte a parte numa guerra.
Comoosheroísmos(p.117).
Sãocadavezmaisfreqüentesreflexõesrelativasàalteridadenaperspectiva
daliteraturaenquantoagentedetransformaçãosocial.HomiBhabhaafirma:
O estudo da literaturamundial poderia ser o estudo do modo pelo
qual as culturas se reconhecem através de suas projeções de
“alteridade”. Talvez agora possamos sugerir que histórias
transnacionais de migrantes, colonizados ou refugiados políticos –
essas condições de fronteira e divisas – possam ser o terreno da
literaturamundial, em lugar da transmissão
de tradiçõesnacionais,
antesotemacentraldaliteraturamundial(1998,p.33).
A preocupação com a repercussão, nem sempre responsável, do conflito na
históriaeacríticaàsatitudesdos“heróis”comandantestambémtransparecemnaobra:
Ao posar
para os daguerreótipos e fotos do período não ficou de
frente como os outros três. Preferiu o perfil esquerdo, intuindo ser
mais apropriado daquele lado, uma vez que depois seria impresso
emdiversosdocumentos,reproduzidoemlivros,olhadoeexaminado
por muitos. Que idéia fariam dele os professores e alunos dos
internatos e escolas do Brasil ao contemplarem sua figura quando
estivessemestudandoaGuerradoParaguai?(p.186)
Em uma história encapsulada, abre-se espaço para o privado através das
memóriasdocoronelCamisãocomrelaçãoaLili,umantigoamordesuajuventude.
NocapítuloVII–“AmoresdeCamisão”–,todaanarrativadosoldadosobreaguerra
faz uma pausa para converter Camisão em foco. O narrador, agora mero ouvinte,
reproduz a história da vida de Lili, que o coronel conta ao cabo Argemiro, numa
verdadeiraalusãoàhistoriografiadaintimidade.Opúblicoeoprivadocompartilhamo
mesmoespaço.Asaudadeinvadeadiegese,comoemumafãdeamenizarasdores:
Lili chegou à casa do coronel Eufrásio numa tarde de verão e foi
recebidacomtodasashonras.AsaladacasadosEufrásiosexibia
alguns melhoramentos de que muito se orgulhava o clã. Já havia
70
banhos de assento para neles mulheres e mocinhas fazerem as
abluções genitais. Quanto aos homens, consideravam a higiene
coisafeminina(p.76).
NocapítuloVIII–“Opadretelefonista”–, anarrativaretomaseu curso.Em
váriosoutrosmomentosonarradorabremãodesuasmemóriaspessoaisparadar
voz a outras personagens e narrar suas versões dos acontecimentos e histórias
particulares. Nesse caso verificam-se características polifônicas no discurso do
soldado, que quase desaparece para que outros falem. As cartas enviadas por
Camisão ao presidente da província são anunciadas no texto por um sinal de
asterisco(*)esãoditadaspelocoronelaoviscondefrancês.Oconteúdodascartas
éumareproduçãolivredetrechos do romanceAretirada deLaguna, do histórico
ViscondedeTaunay.Seonarradoréentendidocomoavozquefala,queemitea
mensagem, pode-se notar nas cartas um narrador híbrido, mistura das idéias de
Camisão (quem fala) e da transcrição – não neutra do visconde (quem relata).
Existemdoisnarradores.Nestefragmento,issosetornamaisclaro:
Deus guarde Vossa Excelência. Outro dia dou prosseguimento a
novosrelatos.(a)CoronelCarlos deMoraisCamisão,comandante-
em-chefedestasforçasemoperações.PS–Umoficialfrancêsque
acompanhaaexpedição,nacondiçãodeengenheiromilitarequeé
quem escreve esta carta, engraçou-se de uma bugrinha e está
apaixonadíssimo:queratécasarcomelaquandoterminaraguerra.
PS2 – Releve Vossa Excelência esta segunda nota: de próprio
punho, eu, o escrivão desta missiva, por mando do coronel que a
assina,declaroquejamaispenseiemcasarcomabugrinha(p.45).
Aguerramudaatodos.Osanosemterritórioestrangeirodeixamcicatrizese
oretornoàterranatalsignificarecompensaportantodesgasteepadecimento.Mas
omedodoretornooassolaedesacomodanamesmamedidaemqueconforta.O
sujeitoquevoltanãoéomesmoquedeixouolaroutrora,e,emboraasmemóriasda
pátriasejammaternaiseconfortadoras,eletemenãoencontrarseuespaçosocial
definido,justamentepornãosermaisquemera:
Emresumo,aquiperdemos,aquificamos.AnoiteceemAquidauana.
Foram802diasdemarcha.Ninguémmaisprecisacarregarferidos.
Obedecer nãoé mais necessário. Vamos embora, cada um por si,
71
em coluna por um, cada um comandando a si mesmo, sem o
destempero de chefe nenhum. Voltaremos para o Atlântico. Esse
interiornosconfundiu(p.197).
Comofimdaguerra,osoldado-narrador,quelevaconsigoaheroínaMercedes
comoverdadeiracondecoraçãopelosatosdebravura–físicaeintelectual–viveseus
últimos anos ao lado de sua companheira, mantendo-se com o que ganha da
publicaçãodesuasmemórias.Oescritorinvadeoespaçodosoldado,paraquema
realidadedoconflitotorna-sefamiliar.Oregressoàpátrialhesoa“confuso”
22
.
OnarradordeAvante,soldados:paratráséresponvel pelaindividualização
das personagens no conflito, optando por não concederprivilégios. As personagens,
históricasounão,oconsideradas apenas humanas.Aocompartilhar sua vozcom
outraserelatarfatos cotidianosenadaheróicos, mostraapresença do indivíduo na
guerra,oquesubverteasversõesdaliteraturatradicionaledaprópriaprosadahistória.
2.2.2–Os(anti-)heróishistóricosrevisitadospeloolhardaliteratura
Dosheróisquecantaste,quesobroualémda
melodiadoteucanto?
(CarlosDrummonddeAndrade)
Elemento fundamental das narrativas de teor histórico, a presença de
personagens inspiradas em homônimos reais tem sido abordada sob diferentes
ângulosnocursoda histórialiterária.Senosromancesoitocentistasoessencialé
demonstrar fidelidade aos relatos históricos e reproduzir imagens semelhantes
dessessujeitosnoespaçoliterário,nametaficçãohistoriográficaaintençãoépropor
uma reinterpretação desses relatos oficiais. De acordo com Roland Barthes, a
convivênciaentrepersonagenshistóricaseficcionaisproduz,naficção,umefeitode
 
22
Essesentimentodeo-pertencimentoàterranatalétípicododiscursopós-colonial,namedida
emqueosujeitodiaspórico,quandoregressa,estáimpregnadodevaloreshíbridosesuaidentidade
é fragmentada. Segundo Chambers, apud Hall (2003, p. 27), “Não podemos jamais ir para casa,
voltar à cena primária enquanto momento esquecido de nossos começos e autenticidade, pois há
semprealgonomeio.Nãopodemosretornaraumaunidadepassada,poissópodemosconhecero
passado,amemória,oinconscienteatravésdeseusefeitos,istoé,quandoesteétrazidoparadentro
dalinguagemedeláembarcamosnumainterminávelviagem”.
72
realidade, ainda que a função das personagens históricas seja apenas atuar no
contextocomasfictícias:
[Os personagens históricos] são introduzidos na ficção lateralmente,
obliquamente,enpassant,pintadossobreocenário,enãodestacados
nopalco;pois,seopersonagemhistóricoadquirissesuaimportância
real,odiscursover-se-iaobrigadoadotá-lodeumacontingênciaque,
paradoxalmente, o“desenraizaria”.Aocontrário,seestãoapenasao
ladode seus vizinhos fictícios, apenas chamados para umareunião
mundana, sua modéstia, como uma eclusa que ajusta dois níveis,
igualaoromanceeahistória:reintegramoromancecomofamíliae,tal
como osantepassados contraditoriamente célebreseinsignificantes,
dão ao romanesco seu brilho de realidade, não de gria: são os
efeitossuperlativosdoreal(1992,p.129).
A revio histórica proposta pela ficção desafia conceitos epistemológicos
tradicionais, convertendo a história em um espaço de dispersão, no momento em
quegeraincongruênciasaoinverterospapéisdohistóricoedoliterárionointerior
da diegese. Essa atitude exige de quem lê um posicionamento crítico diante dos
fatoseumconhecimentopréviododiscursooficialvigente,mediantediálogocoma
história.Umahistóriaficcionalsobrepõe-seàversãooficial,fazendocomqueoleitor
tenha possibilidade de “julgar” o discurso tradicional através do contato com
variantesqueosubvertem.
Nas primeiras décadas do século passado, são relevantes as discussões
relativasaquestõesdeclasseougênero,aopassoquenos dias atuais, devidoà
evolução tecnológica, bem como à superespecificação do conhecimento e à
fragmentação de conceitos como sujeito e identidade nacional – de acordo com
teóricoscomoHomiBhabhaeStuartHall–,oeixodosdebatestemsidodeslocado
para aspectos (multi)culturais enquanto consciência grupal e simultaneamente o
sujeito passa a ser pensado em sua individualidade. Grupos minoritários e suas
histórias particulares e complexas ocupam a posição antes concedida a relações
bináriascomooprimido/opressor,burguês/proletário,bom/mau,etc.
No âmbito literário, através de recursos como a carnavalização, papéis são
invertidos,criandouniversosdemúltiplaspossibilidades.SegundoBakhtin(1999),é
nocarnavalquemelhorsepodeperceberedesfrutardainversãodaordemsocial
73
estabelecida e da interferência mútua entre os sujeitos. No carnaval, espécie de
“mundo às avessas”, o rei experimenta ser plebeu, ainda que por um período
conhecidoedeterminado.Damesmaforma,oplebeutemapermissãodeiludir-se
livrementeeinterpretaropapeldesoberano.Essapermutailusóriatornapossíveis
experiências híbridas de interpretação e análise do local ocupado pelo sujeito na
história, posto que, fazendo uso das máscaras, essas figuras experimentam a
ambivalência ou a justaposição de papéis. É também de Bakhtin o conceito de
hibridismo, não no sentido de anulação das vozes heterogêneas como em um
processodefusão,masdejustaposiçãooucoexistêncianodiscurso.
Orisoconfigura-seemelementoaglutinadordasdiferentesmanifestaçõesdo
ritual carnavalesco. Através do ato de rir e rebaixar o elevado, o dogmático e o
oficial,sãosuspensasasformashierárquicas,enoçõesdeverdadeincontestávelou
permanênciasãorelativizadas.Oconceitodecarnavalizaçãopodeserassociadoao
discurso ficcional pós-moderno, namedida em que ultrapassa formas tradicionais,
criandorelaçõesparadoxaisemseustemas.
Ao transportar esse viés de análise para a construção ficcional das
personagens históricas de Avante soldados: para trás, pode-se apreender grande
potencial irônico e carnavalesco de composição. Em uma espécie de “cenário
apócrifo”, personagens históricas convivem com ficcionais, tecendo um diálogo
constanteentreorealeoimaginado.Comefeito,oheroísmodessaspersonalidades
conhecidas da Guerra do Paraguai é questionado; seus desejos, ambigüidades,
hesitaçõesefalhassãopostosemevidência,alterandoexplicaçõestradicionaispara
ocursodosacontecimentoseoferecendooutrasversõespossíveis.Nãosetratade
uma redução do seu papel na narrativa, mas de uma redefinição de sua posição
medianteodistanciamentotemporaldaenunciaçãoedarecepção.
Umexemplo digno dereferência é areleituraficcional do coronel Camisão.
Retratado pela historiografia oficial como portador das características positivas
atribuídasaosheróisprotagonistasdegrandeseventos–comandanteaustero,forte
física e espiritualmente, pleno de virtudes morais, destreza e capacidade de
liderança – recebe, no contexto literário, um homônimo nem tanto ardiloso, auto-
suficienteou“plastificado”.Ocoroneldaficçãonãoestápreocupadocomexatidões
numéricasouatosheróicos.Extremamenteafetuosoehumano,nãohesitaempedir
74
ajuda, abdicando do orgulho típico dos líderes. Apaixona-se por uma guerreira
inimiga,constróilaçosdeamizadecomsoldadosrasosequestionasentimentosde
patriotismo ao observar que o destino dos homens independe do uniforme que
vestem.Erraalocalizaçãodaprópriatropaquelideraeévítimadoescárniodeseus
homensemsituaçõesisoladas.Apesardeestaremumaguerra,deixa-searrebatar
porlembranças de amoresdajuventudeedeseja ofim doconflito, demonstrando
poucaafinidadecomexperiênciasmilitares.Éculto,namedidadopossívelparaum
homemdadoaaçõesbelicosas.
Aoperceberaiminênciadaderrotadesuacoluna,Camisãopedeaovisconde
francêsquefaçaumrelatodesuasperipécias–quesupostamenteteriainspiradoo
romancedoTaunayhistórico,AretiradadeLaguna–paraqueasgeraçõesfuturas
estejamcientesdos infortúniossofridosporaquelegrupodehomensemulheresjá
destituído de qualquer esperança. Em uma atitude pouco provável ao Camisão
historiográfico,preocupa-secomacondiçãodossoldadosnegrose,comanecessária
imparcialidadedodiscursodeseucompanheiro,propõeumarevisãododiscursoda
históriatradicional,quenormalmentesuprimeaspectosreferentesàsminoriasétnicas
efazopçãoporcontaruma“históriadebrancos”.Emdadomomentoelediz:
Escrevacomoeudito,assim,nesseestilobíblico,queéoquemesai
dasentranhas,comoocorreucomosprofetasdoAntigoTestamento,
que o escreviam, vomitavam e às vezes urinavam e
excrementavampalavras.Digadosdesertores.Escrevaqueosoldado
brasileiro,podendo,fugia.Poiseraescravoeestavaaliparamorrerno
lugardosbrancos.Masescrevatambémqueosbrancosmorriamnas
frentesdebatalhas.Nãotomepartido.Escrevatudo(p.178).
OCamisãodoromance,assimcomoseuhomônimohistórico,morrevitimado
pelocólera.Aimplacávelenfermidadeéminuciosamentedescritanaobra:
Adoençaacarretavaasupressãodaurina,adiarréia“emformade
água dearroz”, escreveu ele. Os soldados caíam com cãibras nas
pernas, pés e mãos eram tomados de friagem medonha. Aquele
calorãodanadoepareciaqueosdoentesengatinhavamsobregelo.
Portodaparte,vômitos.Nadaaplacavaasededocolérico.Orosto
docontaminadoiaficandomagro–retratopréviodamorte.Avozia
se perdendo em rouquidões. Compunham a coreografia dos
sintomas também a dispnéia e a cianose. E o sujeito ia sumindo
comosombraquandoseaproximavaomeio-dia(p.179).
75
A morte do coronel é exposta com veemência na trama. Não sem rao, a
escolhapordetalharmomentotãodegradantesofridoporumlíderevidenciaanalogia
diretacom aidéia de desconstrução de mitos como o deherói invencível, elemento
picodotextoparódico.Defato,oCamisãodahistóriamorrevítimadadoença,masno
discurso historiográficoo fato é ocultado oumencionadoem linhas midas. Na obra
ficcional,porém,amortedecadentedocomandanteépostaemevidência.Umhomem
compassivoesonhadortomaopostodolídermilitar.Asofisticaçãodossentimentosse
manifestaemmeioàscrisesdevômitoediarréia,emumaclararelãoparadoxal:
Não conseguiamais vomitar, apesar dos arrancos.Tampoucosaía
qualquer coisa do fundo do ventre que não fossem pavorosos
líquidos esverdeados. Esvaía-se, junto com o sangue e o suor, o
desespero.Ocalorincendiavaoar,avegetação,ospantanais.Fogo
maisintensoqueimavaCamisãopordentro.Odelírioaumentavaea
maisbeladasgarçassetransformavaemMercedes,cheiadegraça.
Numa hora assim, iria Camisão importar-se com a colocação dos
pronomes,elequenãosabiamaisondearriarosossos,fugindodas
própriasfezesvazandoportodoocorpo?(p.185)

Pode-seestabeleceraquiumaaproximaçãocomacarnavalizaçãobakhtiniana,
na medida em que são invertidas as posições de poder, elevando o vulgar e
submetendo o heróico. Camisão, ao padecer de complicações da doença, como a
diarréiaeomito,provocapenaoueuforiasarcásticaealudeaoqueoautorrusso
denomina “realismo grotesco”, o mau funcionamento ou deformação do “baixo
corporal”–ventre, boca, ânusegenitais. Segundo ele,ao privilegiar-se osorifícios
comqueocorpoéligadoaomeioexterno,épropostaumadinâmicademorteevida.
Ainda é possível verificar paradoxos na composição do caráter do
protagonista.Ocoroneléumheróimedíocre,inconstante,sujeitoàsinquietaçõesde
seus desejos. Jamais pode ser caracterizadocomo um sujeitoestável, mascomo
um ser flutuante, que duvida de sua missão e de seu lugar no mundo. Seu fim
degradanteextinguequalquerpossibilidadedeheroísmo elevaoleitor, deacordo
comasubjetividadedesuaavaliaçãopessoaldapersonagem,afocalizaraspectos
humanos–enãoheróicos–desuapersonalidade.
Outro expoente de similar relevância na trama é o Visconde de Taunay,
igualmenteinspiradonoviscondehistórico,quiçámaispopularpelaautoriadocélebre
76
romanceAretiradadeLagunaquepelaparticipaçãonoconflito.Assimcomoocoronel,
a personagem do visconde francês é problematizada. Convocado como engenheiro
com a função de examinar estradas e locais para preparação de acampamentos,
transcendesuafunçãoeassumeopostodebraçodireitodeCamisão.
Descritocomohomemjusto,imparcial,eruditoequemantémboarelaçãocom
a natureza, o visconde parece não se adequar ao contexto da guerra. É, antes, o
orientadordogrupo,avozsábia,seguraetemperadaqueaconselhaCamisãoeos
soldados,quebuscaaharmoniadatropaetemumaplacidezeuropéiainabalável.O
Taunaydaficçãoironizaaprópriacondiçãodeviscondeeosatributosadvindosdela,
emóbviacríticaàpolíticadeconcessãodetítulosdenobrezavigentenoImpério:
Quissaberporqueéqueeleévisconde.“Rapaz”,medisseele,“eu
nunca entendi essas monarquias ibéricas, mas a do Brasil entendo
ainda menos. Em oito culos, Portugal chegou a 1808 com 16
marqueses,26condes,8viscondese4barões.OBrasil,com8anos
deidade,játinha28marqueses,8condes,umaporradadeviscondes
eumachusmadebarões.Quandoamonarquiabrasileirativeraidade
da portuguesa contará com 3000 marqueses, 710 condes, 1400
viscondese1863barões.Umverdadeiroexércitodenobres!”(p.18)
AsugestãodequeoBrasilcontacomum“exércitodenobres”levaonarrador
aconcluirqueseriamaiscoerentequeosnobreslutassem,jáqueamotivaçãodos
soldadossereforçapelosonhodaobtençãodetítulosdenobrezaapósoconflito.A
críticaaomodelodeadministraçãobrasileiroe,portanto,americanoemcomparação
ao português – que ele também critica por ser ibérico, ou seja, uma nação
consideradaatrasadaemrelaçãoàsdemaiseuropéias–traduz,igualmente,típica
opiniãodeumeuropeuquesejulgamaiscivilizadoemoderno.Nessesentido,um
francêscriticarumbrasileiro,aindaqueopróprioimperador,soanaturalporsetratar
da opinião de um colonizador diante de uma monarquia jovem, com um passado
colonialrecentee,porisso,vítimadefalhasadministrativasedemandaspueris.
O visconde, enquanto elemento europeu, provoca estranhamento e suscita
comentáriosporparte dossoldados,queo consideramfracoedespreparadopara
enfrentarocalorrigorosodopantanal.Opreparofísicodosbrasileirospassaaexistir
como componente compensador da falta de instrução comparada à erudição do
77
europeu.Observa-seaintençãodoautoremconfirmaraidéiadeduplainscriçãodo
processo de colonização, ao evidenciar intervenções mútuas entre europeu e
brasileiros. Em outro momento é o coronel Camisão quem fixa o olhar brasileiro
sobreofrancês.Convémobservarqueoteorsatíricopermanece,adespeitodeser
carregadodeumrespeitopróprioaodiscursodocolonizado:
Fale menos, francês, escreva mais. Vocês são povo muito prolixo.
OutrodiaolhavaummapadeastronomiaqueseensinaemFrança.
Começava assim: Ao anoitecer, quando caem sobre a terra os
primeiros orvalhos, levantando nossa cabeça e olhando para a
maravilhosaabóbada,cheiadecandeeirosqueobomDeushouvepor
beminstalarnofirmamento,podemosverànossaesquerdataisetais
astros, ànossadireitaessesemaisaqueles.– Estáumcéubonito,
francês. Deixemos, porém, os anuários e cuidemos das feridas da
nossaguerra,agoraregistradas,pois,comonosensinouPúblioSiro,
etiam sanato vulnere, cicatrix manet.– O senhor aprendeu latim na
Escola Militar? – Não. Apenas estudei. No Brasil não aprendemos
nada,apenasestudamos.Nãosomoscomovocês(p.171).
Companheiro do comandante em momentos de puro devaneio filosófico e
autordefrasesimpregnadasdeclichêsemetáforas,ovisconde,pormotivosóbvios,
é eleito para relatar em um diário os principais momentos vividos pela tropa. O
conteúdodasmemóriasdofrancêsequivaleaodoromancedeautoriadoTaunay
histórico,inclusivesãoreproduzidosfragmentosemricointertextocomaobra.Em
um deles, onarrador discorda dosdados obtidos pelo visconde, trazendo ainda à
tona a problemática da subjetividade e possível co-autoria do sujeito tradutor:
“Morreramdizimadospeloinimigo,pelofogoepelocólera980soldados.Ofrancês,
no capítulo XXI de sua A retirada da Laguna, ou seu tradutor para a edição
brasileira,refere908perdas.Oengenheiroerrouacontadosmortos”(p.193).
Aintençãonadiegeseélegaràhistóriaasdificuldades,derrotasevitóriaspara
que não sejam jamais esquecidas, mas mantidas na memória coletiva. Existe um
desejoprofundodepertenceraodiscursooficial,denãotombarnoesquecimento,de
fazer valer suas penas, de reconhecimento. Nesse sentido, os “heróis” têm
consciênciadeseulugarnahistórianacional,oupretendemconstruí-lopormeiodo
discurso,cientesdequesomentepelapalavraamemóriaéconservada.Domesmo
modo, pela palavra, sujeita às subjetividades do escritor, que imperfeições são
corrigidaseequívocosocultados,emevidentereflexãometadiscursiva:
78
– Escrevo também sobre os mortos, informando o número de
cadáverespelomenos?–Não.Elesqueimaginem.Eoquehaverão
dedizernúmeros?–Guerraéguerra.Oqueescrevoagora?Odia
em que ooutro Lopes,o nosso, nos pôs a perder, parecendoque
trabalhavaparaohomônimo?(p.176)
Ofrancêsdatramacultivaverdadeirofascíniopelamulheramericana.Seus
companheirosasseguramque“nãopodeverrabo-de-saia”(p.17).Apaixona-sepela
índia Lidinalva, por trazer em si a essência sedutora do “Novo Mundo”. Ela, ao
contrário,encanta-sepeloestereótipoeuropeudehomembranco,olhosclaros,alto,
culto.Novamenteareferênciaaocontatointerculturalacenaparaaherançacolonial,
jáqueoamorjamaisétornadopúblico.
Taunay compartilha com o soldado cronista o amor pela escritura e é por
essas duas vozes que o leitor percorre o pantanal junto da tropa brasileira.
Convertidoemumaespéciedeantropólogocomseucadernodecampo,ofrancês
tudo observa e tudo registra. Angústias pessoais se misturam a uma espécie de
devermemorialistadoengenheiroqueabrigaemsiumpoetaromântico.
Uma figura importante para o desenvolvimento da trama é o guia Lopes –
citadoporTaunayemseuromanceepelahistoriografia,aindaquedeformabreve–,
sertanista responsável por conduzir o grupo pelos caminhos desconhecidos do
pantanal.Lopes,porjátervividoemterritórioparaguaioemépocaanterior,desbrava
o mato com perícia e por isso se torna o mais precioso homem para o coronel
Camisão,comquemconstróiinusitadaamizade.Homemsimples,temamulhereos
filhosvitimados pelas armas paraguaias, sem,contudo,abandonar alealdadeaos
brasileirosqueacompanha.Percebe-senapersonagemumaidentificaçãorelevante
comoarquétipodoheróipopular,quesacrificaavidaemproldobemcomum,como
se ele fosse verdadeiramente um mártir da guerra, ainda que sem pompa ou
patente.Nessecontexto,osujeitopoucolembradopelodiscursooficialganhavoze
localprivilegiadonanarrativa.
Esseintuitodepreencherlacunashistóricasereparardesequilíbriosquepode
serpercebidonadiegesepermitequepersonagensilustrescomoolíderparaguaio
Solano López – pouco mencionado na trama e descrito como um sujeito de
personalidadeduvidosa,nemheróica,nemcruel–tenhamamesmaimportânciaque
simples soldados, imigrantes, religiosos e mulheres. Nomes históricos como o de
79
Juvêncio,chefedaComissãodeEngenheirosetalvezúnicodesafetodeCamisão
entreosbrasileiros,CoronelGalvãoeomissionárioitalianoFreiMarianodeBagnaia
sãoigualmentemencionados.
ApersonagemdoreligiosoresponsávelpelaparóquiadacomunidadedeVila
deMiranda,noMatoGrosso,mereceespecialdestaqueporsetrataraprincípiode
um foco de resistência diante da invasão inimiga. O frade é seqüestrado para
interrogatório, e depõe
sob torturas sucessivas ordenadas pelo major Urbieta,
comandanteparaguaioquedizsentir-seculpadoportomartaisatitudescontraum
religioso.Aaparenteoposiçãodopadrelugaraumacolaboraçãoforçadaeele
passa a informante dos paraguaios. Aqui a imagem do religioso é destituída de
qualqueradornomoral,quandoointuitodopadreitalianopassaaserunicamentea
preservaçãodaprópriavidaeabdicadequalquermartíriocristãocomomissão.
Outra figura religiosa é inserida na trama: trata-se do historicamente
conhecido Roberto Landell de Moura, gaúcho de Porto Alegre, nascido em 1861.
Landell,alémdepadre,éum dos responsáveispelainvençãode instrumentos de
comunicaçãocomootelefoneeotelégrafosemfio,alémdeterrealizadoaprimeira
radiotransmissão(Marconifariaomesmosomenteumanodepois).Noromance,o
“padrecientista”,queàépocadaGuerradoParaguaieracriança,éficcionalizadoe
tornado personagem do conflito. Recém-chegado de Campinas (onde o padre
histórico de fato viveu), Landell surpreende os soldados ao apresentar seus
aparelhos de estranhos nomes – telauxiófone, caleófono, anematófono, telétiton e
edífono – que imediatamente se convertem em instrumentos auxiliares de ões
bélicas.Apresençadopadrecientistaproporcionaodiálogoentrereligiãoeciência,
alémdeconfirmaraguerracomocatalisadortecnológico,namedidaemquenovas
estratégiasdeaçãorepresentammelhoresresultados.Aficcionalizaçãodesujeitos
externosàtemporalidadedoromance–queproduzaintertextualidade–érecurso
correntenoNovoRomanceHistórico.
NocasodeAvante,soldados:paratrás,pode-seobservarumasubversãodo
modelotradicionaldasnarrativasdeguerra.Exemplodemetaficçãohistoriográfica,a
obrapropõeumespaçodediálogocom odiscursohistórico,conduzindooleitora
umatomadadeposiçãodiantedosevidentesdeslocamentospropostospelatrama
para o curso dos acontecimentos. Fazer juízo de valor torna-se tarefa árdua ou
80
desnecessária, bem como tomar partido no conflito. A idéia é justamente
complexificar as relações de poder e problematizar o protagonismo de figuras
históricas, ao questionar sua real relevância, pondo em relevo seus atos menos
nobres e elevando vozes periféricas, embora atuantes. Na obra, os sujeitos o
apenashumanos,instáveis,falíveisefragmentados.
2.2.3–Ofemininonamemóriadaguerra
Quando o centro começa a dar lugar às
margens,quandoauniversalizaçãototalizante
começa a desconstruir a si mesma, a
complexidade das contradições que existem
dentrodasconvenções–como,porexemplo,
asdegênero–começamaficarvisíveis.
(LindaHutcheon)

A imagem estereotipada associada à mulher remonta aos pilares da
sociedade ocidental, dominada pelo regime patriarcal. Relações de oposição
permeiam a construção social desses estereótipos, oferecendo ao sexo feminino
apenas dois caminhos possíveis: o da submissão, sacrifício e santidade ou o da
lascíviaepromiscuidade,ficandoexcluídastodasasoutrasformasdemanifestação
docaráterfeminino.JánatragédiaMedéia(apudSILVA,1997),deEurípedes(431
a. C.), confirma-se a autoconsciência e resignação feminina como ser dotado de
qualidades negativas e a repulsa masculina, que só enxerga na mulher serventia
paraaperpetuaçãodaespécie:
Medéia:Anaturezafezasmulheresincapazesparaasboasões;
nãoháparaamaldadeartíficesmelhoresdoquenós.
Jasão:Sefossepossívelterfilhosdeoutromodo,nãomaisseriam
necessáriasasmulheres,eoshomensestariamlivresdessapraga
(p.155).
NaIdadeMédia,aassociaçãofemininacomosatânicoécorroboradapelas
passagensbíblicasreferentesaomitodacriação,queacusaaprimeiramulher,Eva,
comoaresponsávelpelaexpulsãodaespéciehumanadoparaísocriadoporDeus
81
(que, aliás, é Pai e, portanto, homem). Eva, seduzida pelo mal simbolizado na
imagemdeumaserpente,ematitudederebeldiaehisteria,desobedeceàsordens
divinas,comeofrutoproibidoesetornavítimadaprópriacuriosidadeanteomistério
do universo. Como alternativa à imagem negativa de Eva, a religião católica,
dominantenaépoca,propõeasantidadesemmáculasdeMaria,jovemquenegaa
própriasexualidadeesesacrificapeloidealdivinodamaternidade.Emnomedessas
idéias,asociedademedieval–easprimeirasdécadasdaIdadeModerna–legitima
acondenaçãoemortedemilharesdemulheres.
A historiografia moderna do século XIX, inspirada no modelo iluminista,
demonstra descaso com uma diferenciação entre os sexos, já que pressupõe um
sujeito universal, o que significa uma padronização ao perfil do homem branco e
europeu. Desde então, as mulheres passam a ser consideradas como grupo
minoritário,apesarderepresentaremmaiorianuméricaemmuitosgrupossociais.
A partir da década de 1920 surgem com mais ênfase as organizações de
mulheresquereivindicamodireitoaovoto,àeducação–principalmenteespaçoem
escolas de ciências exatas, destinadas exclusivamente aos homens – e a mais
participação social. No Brasil, somente em 1932 o governo de Getúlio Vargas
garante o direito de voto às mulheres. No entanto, nesse mesmo ano, de 215
deputadoseleitos,apenasumaémulher.
Na década de 1960, o movimento feminista ressurge com definitiva força,
fundamentalmente na Europa e Estados Unidos. O aparecimento da pílula
anticoncepcionalmarcaumamudançanocomportamentosexualdasmulheres,que,
sem o temor de engravidar com a variação de parceiros, não ficam restritas ao
ambiente doméstico. As idéias feministas são apoiadas por intelectuais como
SimonedeBeauvoir,quepublicaOsegundosexoem1949,eportransformações
na historiografia, que conduz seu eixo de interesse para aspectos cotidianos e
culturais,comachamadaNovaHistóriaCultural,articuladaaodesenvolvimentoda
antropologia social, apontando para a emergência de uma história das minorias
marginalizadas,entreelas,asmulheres.
Énadécadade1970queoestudodequestõesdediferençasexualpassaa
ser chamado pelo termo “gênero”. Apoiados em conceitos pós-estruturalistas, os
82
intelectuaispassamavalorizarelementossociais,comoaestruturadasrelaçõesde
poderacrescidadeaspectosétnicoseoutrosfatoresgeradoresdedesigualdade.A
proposta nos dias atuais parece ser reinterpretar os sistemas simbólicos e migrar
paraumaperspectivamulticultural,levandoemconsideraçãoaconstruçãoidentitária
híbridaquepermitediscussõesmenospolarizantesouexcludentes.DizLuisSouza:
O mundo industrial se descobre não apenas poluidor e masculino,
mastambémbrancoeocidental.Povoseraçasvãoseinsurgircomo
o outro oprimido em busca de libertação. Gênero, raça, natureza,
essas dimensões de um mundo plural rasgam, pelas práticas e
denúncias,oshorizontesestreitosdasanálisespolítico-econômicas.
Sem negar as dominações que estas apontaram, as cruzam com
outrasquetinhamficadoàmargem(1994,p.21).
No âmbito estético, essas transformações são acompanhadas e o espaço
conquistadopelamulhernasartesemgeraleespecificamentenaliteraturatambém
obedece a um processo dialético. Antes idealizada como objeto de idolatria
masculina,porémdesprovidadevontadepróprianoidealromântico,amulherpassa
a desempenhar papéis cada vez mais relevantes nas narrativas. A participação
feminina, que ficava restrita a romances de costumes, nos quais as mulheres se
limitavamahabitarambientesexclusivamentefemininos,comoalidadoméstica,os
ritosreligiososouoscuidadoscomosfilhos,seestabeleceemoutroscontextos.A
obradeVirgíniaWoolférepresentativanessesentido.
Comefeito,nametaficçãohistoriográficaapresençafemininaadquiremaior
maturidade na narrativa. Temas como a homossexualidade, bissexualidade, a
constituição familiar o-ortodoxa e a emancipação da mulher no universo
profissional, característicosdasociedade pós-moderna,orecorrenteseauxiliam
norompimentodeantigospadrões.
EmAvante,soldados:paratrás,asidentidadesfemininasapresentamtraços
comunsentresi.Sãomulheresinconformadascomaordemvigente,legitimadorado
domíniomasculino,queatuamnocenáriodaguerracomgrandemobilidade.Essas
mulheres interferem diretamente no curso dos acontecimentos, tomam decisões,
combatem,curam,reivindicamposiçõesequebramtabus.Sãorevolucionáriasaseu
83
modo e compartilham o espaço na narrativa com os homens. A liberdade e o
protagonismofemininosãotemasrecorrentesnaobradeDeonísiodaSilva.
Asfigurasfemininassãorepresentadasporandarilhas,esposas,prostitutas,
guerreiras imaginadas, que habitam fronteiras reais ou subjetivas. Quatro desses
perfismerecemdestaque:aheroínaparaguaiaMercedes,aprofessoraLili,aíndia
Lidinalvaea“enfermeira”negraAna,quefazumaalusãoimplícitaecríticaàilustre
AnaNéri,viúvabaianadeclassemédia,mãedeummédicomilitar,queacompanha
ofilhocuidandodedoenteseéimortalizadapelahistoriografia.
O olhar dos homens sobre a mulher também está presente na narrativa.
Historicamente,aperspectivamasculina(dominante)arespeitodouniversofeminino
é marcada por preconceitos – advindos do desconhecimento, além do desejo de
conservaçãodopoder–mas,alémdisso,pelofascínioprovocadoprecisamentepela
idéia de mistério. Michel Foucault, em História da sexualidade, aponta para o
conceito de histerização do corpo da mulher como mecanismo de domínio
masculino.Segundooautor,ocorpofemininofoi
Analisado–qualificadoedesqualificado–comocorpointegralmente
saturado de sexualidade; pelo qual este corpofoi integrado, sob o
efeito de uma patologia que lhe seria intrínseca, ao campo das
práticas médicas; pelo qual, enfim, foi posto em comunicação
orgânicacomocorposocial,comoespaçofamiliarecomavidadas
crianças: a e, com sua imagem em negativo que é a “mulher
nervosa”,constituiaformamaisvisíveldestahisterização(1980,p.99).
Assim, as identidades das personagens femininas, apesar de apresentarem
características modernas de sujeitos emancipados, estão permeadas por esses
aspectosdacríticamasculina.Mercedes,aheroínaparaguaiaquecombatecavalgando
nas noites estreladas, agrega qualidades contraditórias que a tornam ainda mais
atraente.Inteligente,livre,perspicaz,bissexual,estrategista,doce,maternalebonita,a
protagonistareageaoprópriodestinodepermaneceremseuvilarejocomoamaioria
dasmulhereseoptapelacondiçãode“soldado”.Aescolha,quepoderiaterconotação
heica,parece serumafugadiante dacondição miserávelimpostapelaguerra que
levaoshomenseabandonamulheresecriançasàprópriasorte:
84
As cidades diminuíam a cada chegada de recrutadores. As
comissões militares sempre tinham a mesma desculpa. O povo se
assustavacomtantasbuscas.Asmãeseram,talvezporintuição,as
maisdesconfiadas.Entregavamosfilhoscomchoroscontidos–era
proibida a lamentação. Estes, porém, se despediam alegres.
Mercedes seguiu assim para Humaitá. Logo na noite da chegada
percebeu que ali nada seria muito diferente do que vira durante a
viagem(p.203).

MercedesévistaporCamisãopelaprimeiravezquandosuascompanheiras
urinam e ele se surpreende pelo modo estranho” como as mulheres o fazem. O
homemobservadetalhadamenteassuasroupasemaneiras,temendoopoderque,
segundo ele, está contido no objeto de desejo. A galopeira assume uma atitude
dominadoraemrelaçãoaocoronel,jáenvolvidopelamisteriosainimiga.Elaacredita
serohomem“umbichomedroso”(p.141)evênarelaçãoapenasumanestésicoem
meioaocaos.
Aheroína,quenãorejeita oshomens,masosconsiderainferiores,assume
umaposturafeministaeviveumromancecomsuacompanheiraYolanda,chefedo
regimento feminino paraguaio. A relação entre ambas
23
é pouco abordada na
narrativa e parece cumprir apenas a função de tornar Mercedes ainda mais
representativadoobjetodedesejomasculino.Dominadoranocombateedominada
nosexoporCamisão,forja-senoimagináriocomooarquétipodaguerreirasensual,
jámuitorepresentadanaliteraturapelaimagemdaamazona.
O encontro do casal no lago, quando Mercedes sucumbe às investidas de
Camisão e cede aos apelos da “natureza humana” – segundo palavras dela –,
representaopróprioencontrodeBrasileParaguai.Oinimigobrasileiro,assimcomo
Mercedes,éforteemisterioso,alémdeimpressionarpelapeculiaridadenastécnicas
decombateeindependênciadiantedaderrotaiminente.JáoBrasil,vencedorpor
destino,padecedoencantopelanaçãoinimiga,queresisteapesardodesequilíbrio
diantedopoderaliado.ComoMercedes,oParaguaicede.ComoCamisão,oBrasil
hesita,beiraoridículo,porématingeseusobjetivos.
 
23
Acredita-sequeoaspectodabissexualidadecumpreessafunçãopornãoserproblematizadona
diegese.Oautoroptaporapenasintroduziroelementonanarrativae,aonãocontextualizá-lo,acaba
por sugerir que se trata somente de mais uma idealização masculina, já que não representa uma
característicarelevantenaconstruçãoidentitáriadeMercedes.
85
Ao casar-se com o soldado narrador após a morte de Camisão, Mercedes
abdicadoheroísmoedaexperiênciaerranteporumavidasemriscos–comoqualquer
mulhertradicionalfariaeenfraqueceseupotencialinicialcomomulherindependente
na trama. Há um evidente desequilíbrio entre a corajosa galopeira do começo e a
resignadaesposa do final. Novamente, ointuito do autor éreescrever a história sob
novoolharedemonstrarqueapersonagem,antesidealizada,paradoxalmentenãoé
nadaalémdeumserhumanoembuscadeestabilidadenaidademadura.
Diferentede Mercedes,aprofessorafrancesaLili,antigoamordeCamisão,
parecemaismaduraeinconformada.Contratadaparalecionaremumafazendacuja
riquezavemdamão-de-obraescrava,Lilipodeparecersubmissa,masassumeuma
postura crítica e igualmente desafia os valores do coronel. Através do olhar da
professora, a narrativa propõe uma verdadeira historiografia da intimidade. O
cotidiano da fazenda dos Eufrásios é descrito e analisado com detalhes nessa
espéciedehistóriaencapsulada,típicaderomanceslatino-americanos.
Camisão, em nostálgico diálogo com o cabo Argemiro entre um combate e
outro, denunciaosmaustratosaqueeramsubmetidasasmulheresdafamília dos
Eufrásios.Ressaltaaindaaignorância dopatriarca,cujoinvestimentoemeducação
representa apenaso desejo de opulência e destaquesocial.Aabsorçãodacultura
francesanoséculoXIXéoutrofatorrelevante;afamíliaesforça-separareproduziros
costumesfrancesessemconhecerqualqueraspectodaprópriahistória.Ainfluência
estrangeiraaparececomofatorrelevantenaconstruçãodaidentidadenacionaldaex-
colônianesseperíodo,representandoumestadoidealdecivilizaçãosuperior.
Segundo Camisão, “Lili estranhava tudo” (p. 78): as formas de tratamento, a
maneira como os escravos se comportavam, como eram maltratados, a cultura
multifacetadada populão brasileira, ora imitando hábitos europeus, ora assumindo
aspectosculturaisdeíndiosounegros.Paraelatudopareceatrasadoeforadeordem.
Seuolhareuropeu,porém,émaiscuriosodoquecolonizador.Liliotentamodificaro
ambiente–excetoalgumasintervençõesnamobília–,masvivenciaadiferençacom
estranhamento eprocuraadaptar-se.Seuolhardesafiaopensamento colonizadode
Camisãoaobservararealidadesoboutraperspectiva,emumarelaçãodiatica.
ApersonagemdaíndiaLidinalvacrescenodecorrerdatramaeadquireuma
86
proporçãoaprincípioinesperada.Responsávelpelalimpezadacasaparoquialsob
responsabilidade de Frei Mariano, Lidinalva é expulsa quando o religioso é feito
prisioneirodosparaguaiosepassaaacompanharovelhoSilvestrecomoutrascinco
mulheres. Envolve-se com o visconde francês, que assim a descreve: “guarani,
mestiçaemorena,faceira,temumbeloporte,éfronteiriçaecantamuitobempolcas
eguarânias”(p.45).Fronteiriça, nessecaso,parecefuncionarcomoadjetivo para
mulheresfortes, livresesimplesquehabitamregiões-limite.Éatravés desua voz
que a tropa brasileira toma conhecimento da prisão do missionário italiano. A
bugrinha,comoerachamadanummistodecarinhoedesdém,acabaseunindoaos
brasileiros,desgarradadesuasorigens.
Diante do terrordas batalhas e do número assustador demortos e feridos,
surgeafiguradeAna,esposadosoldadoJeremias,queacompanhavaseuhomem
naguerra,comomuitasoutras.Atraenteedotadadegrandeenergia,anegraAna
seempenhanatarefadeenfermeiraimprovisadanocuidadoaosferidos,chegando
a“rasgarasprópriasroupasparafazercurativos”(p.68),semseimportarsesão
inimigos ou não. Serve os feridos com curativos e com sexo. Carrega consigo a
essência de todas as mulheres. Representa o ideal de mulher de fibra”, que se
sacrificaporalgomaiorsemperderadisponibilidadeparaasfunçõessexuais.
ApersonagemdeAnapermitequeseobservearelaçãoidealizadadosujeito
masculino em relação à mulher. Embora esteja em uma situação de guerra, ela
encontra forças para superar o próprio medo e cansaço e entregar-se
completamente às tarefas que realiza. Além disso, é descrita com requintes
incompatíveiscomarealidadedaqualparticipa:
Anarefazseuprazer.SoldadosquevêmcheirarAnasentemoviço
que se refez como sempre, todo mês. Para os finos, Ana oferece
mudanças imperceptíveis. Uma nota em bemol nas canções que
assobia. Um cheiro levemente diferente. Pequenas oscilações no
caminhar. Perfumes. Saber cheirá-los. Mais que isso, decifrá-los.
Distinguirentretodosoperfumedoamor(p.69).
AsmulheresdeAvante,soldados:paratrásnãosãoesposasdegeneraisdo
alto escalão, nem senhoras da nobreza, nem personalidades destacadas pela
87
história. São, ao contrário, seres errantes, aventureiras que participam dos
acontecimentoscomoconstrutorasdosprópriosdestinos.Personagenssilenciadas
pela perspectiva da historiografia tradicional, que não cede espaço para mulheres
emumaguerra,ganhamvalornaliteraturaetêmsuaexistênciareconhecida.Sãoas
mulheresasresponsáveisporfazerseguirocursodoamor,aindaquenaguerra.É
delasoméritodasboaslembranças,dosmomentosrarosdeternuraedoresgatede
sutis complexidades que aproximam o sujeito leitor do sujeito personagem pela
natureza humana que compartilham. Essas sutilezas, pelo olhar da literatura,
passamdetemáticascoadjuvantesaelementofundamentaldanarrativa.
2.2.4–Osujeitomarginalnafronteiraentrehistóriaeficção
Doponto de vistada coruja,domorcego, do
boêmioedoladrão,ocrepúsculoéahorado
cafédamanhã.Achuvaéumamaldiçãopara
oturistae umadádivapara ocamponês.Do
pontodevistadonativo,pitorescoéoturista.
DopontodevistadosíndiosdasIlhasdoMar
do Caribe, Cristóvão Colombo, com seu
chapéu de penas e sua capa de veludo
encarnado, era um papagaio de dimensões
nuncavistas.
(EduardoGaleano)

Nocontextodedesconstruçãodospadrõesmodernos,rediscute-seovalorda
identidadefixaeoconceitodesujeitoentraemcrise.ParaFoucault,“Oquetantose
lamentanãoéodesaparecimentodahistória,massimoesfacelamentodestaforma
dehistóriaqueestavareferidaàatividadesintéticadosujeito”(1986,p.52).Oideal
da modernidade – com o fim de concepções religiosas forja-se com base nos
princípios racionais de liberdade, igualdade e fraternidade, associados ao cenário
capitalista europeu de orientação liberal, que pressupõe simetria nas relações
atravésdaconcorrência.Nessesentido,aodefinirosujeitocomoentidadeuniversal,
amodernidadesimultaneamenteadmiteaindividualidade
24
,excluielementoscomo
diversidade étnica e gênero (entre outros fatores, a teoria marxista defende a
 
24
Descartes,aoproporadissociaçãoentresujeitoeobjeto,defineosujeitocomoagentefundamental
paraateoriadoconhecimento.Assim, osujeitocriadorindividualpassaaexercerdomíniosobreo
objeto.
88
concepção do sujeito social, inserido em contexto de classes sociais) e converte
categoriascomomulheresenegros–maiorianumérica–em“minoriassociais”.
Nessa perspectiva, o fazer histórico no século XIX – como o das demais
ciências–,nabuscaporexplicaçõestotalizantes,produzgeneralizações,focaseu
interesse em eventos políticos que julga relevantes e exclui realidades periféricas
comosenãoexistissem,extirpandoaspectossocioculturaisdeseudiscurso.
Ocientificismoiluministalançateoriasraciaiscomo explicaçãoparaasuposta
inferioridadede negrosepovosindígenase legitimapráticas comoaescravidãoea
exploraçãodeseusterritórios.AprópriaBíbliajánoséculoXVéusadacomoinspiração
paraasconquistaseuropéiasnaAmérica,quandoadmiteaservidãodeCan,filhode
Noé (Gênesis, 9, 25). A tese de que os povos indígenas o desprovidos de alma
somentesetornaobsoletaem1537,pordeterminaçãodopapaPauloIII.
Ainda em 1758, Carolus Linnaeus divide a espécie humana em quatro
categorias: os vermelhos indígenas (despreocupados, livres e geniosos), os
amarelos da Ásia (ambiciosos e severos), os negros africanos (ardilosos e
irrefletidos) e os brancos europeus, que logicamente o identificados por
características nobres, como ativos, inteligentes e engenhosos”. Evidentemente,
nãohá nenhuma comprovaçãocientífica paratais afirmações, mas a memória do
preconceito se mantém e se transforma. Teorias que acusam a miscigenação de
enfraquecer a espécie se multiplicam principalmente nos séculos XVIII e XIX,
substituindoversõesreligiosas,eservemdebaseparaqueseconsolidemregimes
políticoscomoonazismonadécadade1930.
Adespeitodeessasteoriasseremcomprovadamenteinfundadas,aexclusão
queproduzempermanecevivanamemóriacoletiva.Algunsantropólogosacreditam
queaprincipalrazãosejaofatodeoetnocentrismoserumfenômenouniversal.A
maioria dos povos que possuem um mito de criação se considera a sociedade
“eleita”.O queteriamudadoseriamosfatoresdeexclusão.NaGréciaAntiga,por
exemplo,aquelesquenãofalassemgregoeramchamadosde“bárbaros”.Acorda
pelecomodistinçãoéposteriorerepresentaapenasumafacedaexclusão.Antes
das expedições européias que proporcionam seu contato com americanos e
africanos,oconceitodebrancosequerexiste,masnascedocontato.Essarelação
89
de ignorância mútua entre colonizador e colonizado, permeada por atitudes
violentas, é observada por Montaigne no capítulo “Os canibais”, de seus Ensaios
(1980).Oautoranalisaautopiarepresentadapelaterradescoberta,emcontraponto
ao canibalismo dos nativos, como mecanismos interdependentes. A atitude de
negação da alteridade necessita da presença de um “outro” em relação ao “eu”.
Essa idéia está presente em Bakhtin quando analisa a inversão carnavalesca, na
qualaexperiênciadeinversãoépossível.SegundoBoaventuradeSousaSantos,“A
repulsãodocanibalismoéooutro lado do desejo deunidadecomanatureza e o
cosmos,aunidadequeoseuropeustinhamperdidoeque,aseusolhos,osíndios
conservavam”(2006,p.251).
Comacrisedamodernidadeeodesenvolvimentodosistemacapitalista,quese
voltaparaaeconomiademercado,seestabeleceoadventodavida,domovimentoe
da heterogeneidade. A sociedade de consumo multifacetada abre espaço para
reflexões a respeito de fronteiras culturais e identidade nacional, subvertendo o
paradigma fixo de unidade do sujeito, que passa a ser pensado como ambíguo e
fragmentado diante da pluralidade de imagens – sem dogmas – representativas do
mundo aqueésubmetido.Otermobrido passaaser admitidocomfreênciana
análisedefenômenossociais,enfatizandoorespeitoàalteridadeeconferindovalorao
diferente,numdeslocamentodadiscussãoparazonasoutrorasilenciadas.
Énasculturasmarginaisqueahibridaçãomelhorsemanifesta.Namargem,
na fronteira, na periferia e nos espaços esquecidos pelo tempo, traduzem-se e
mesclam-se hábitos, línguas, tradições, gerando outras histórias em um complexo
processoderessignificação.Damesmaforma,corre-seoriscodeconverteresses
elementos da cultura popular em produto, construindo um imaginário ilusório a
respeito destes e os consumindo como a qualquer outro objeto sob o utópico
pretextodavalorização.
PrincipalmenteapósaSegundaGuerraMundial,teminícioummovimentode
estudiosos interessadosem aspectosreferentesàsrealidades dasregiõesvítimas
de colonização. Na mesma época, muitos desses intelectuais originários de ex-
colônias – os chamados migrant writers – transferem-se para grandes centros
urbanos e inserem a crítica pós-colonial no cerne dos estudos culturais. Segundo
HomiBhabha,asrelaçõesentrecolonizadoresecolonizadosnãoseconstroemde
90
forma homogênea, mas pela sua natureza ambivalente, o que desafia qualquer
tentativa de generalização desses processos. Desde então, a noção de sujeito
históricotemsidovítimadeumaespéciededescrençaenovascategoriaspassama
fazerpartedesuaformação,comooimaginário,oonírico,ouaspectosculturaisde
regiões específicas, como cultos populares, mitos e lendas. Na literatura esses
elementossãoincorporadosàmalhanarrativadametaficçãohistoriográfica,quetem
avantagemdeserelacionarcomodiscurso historiográficonamesmamedida em
que aponta para o caráter metadiscursivo. O novo discurso ficcional histórico
pulveriza os pilares da certeza quando admite a dúvida e a indiferença e,
conseqüentemente, valoriza os habitantes das margens, preenchendo espaços
esquecidospelahistóriae–porquenão–pelaliteraturatradicional.
EssaéexatamenteafunçãoexercidaemAvante,soldados:paratrás.Semo
comprometimento com a autenticidade de fontes históricas e fazendo uso de
recursoscomoaironia,orisoeacarnavalização,nocenáriomarcadopelohorrorda
guerra,personagensmarginalizadaspelahistoriografiaoelevadas,ganhamvoz,
vez e chances alternativas de existência. Novas oportunidades são oferecidas às
personagenshistóricas,quepodemdizeroufazernouniversoficcionaloquenãoé
registradopelodiscursooficial.
Temaspolêmicos comoaparticipação dosnegrosnoconflito oua situação
das comunidades indígenas são abordados, em um ambiente marcado pela
diversidadecultural,noqualocozinheiroéjudeu,opadrefazciência,oengenheiro
francês apaixona-se por uma índia e um romance entre trincheiras opostas é
possível.Comseuestiloirônicoeassinaladopelohumor,oautorconduzanarrativa
paraumterceiroespaço,ondeamargematua.
Perdido entre lembranças da amada e envolvido pelos sons do pantanal, o
caboOsvaldonãopercebequeseráatacadopelasgalopeiras.Maisque“voluntário
dapátria”,Osvaldoé homempoeta,comodefineocoronelCamisão,quecriticao
sentimentalismodosoldado.OsonhodeOsvaldo,desejotãohumano,éembalado
pela visão gica das guerreiras que se aproximam “sacudindo seios, mostrando
coxas bem-torneadas, com lanças em posição acertada para a cavalaria” (p. 31).
Seus sentimentos são descritos com detalhes pelo narrador que tudo observa. O
sonho do soldado se mistura a memórias de sua vida errante e sem vitórias. Ele
91
morre a morte desejadae merecida.Osvaldo,sentinelasem patentes, oriundo da
camadamaispobredosservosdoImpério,“crioulofranzino”(p.29)emedroso,luta
aguerradosoutros,guardaosonodequemnãoconhece.Asuaguerrainternaé
sonhada,imaginadaemterrasdistantesdaquelasmatasquenadalhedizem.
Amigraçãocompulsóriaaqueésubmetidaatropaconfundeequestionasua
noçãodeidentidade.EntreodesejoforjadodeserviraoImpério,acimadetudo,ea
dor do abandono das raízes, a unidade se torna impossível. Segundo o cabo
Argemiro,“umaalmacheiadepaixões”(p.32),aexperiênciadiaspóricadedeixara
mulher e os filhos em uma situação desesperadora em seu país para lutar
“desarruma”seussentimentos,ofragmenta.
AindividualizaçãomáximadaspersonagensOsvaldoeArgemiro,atravésda
ênfaseemsingularidadesdesuaspersonalidades,émarcadaficçãopós-moderna.
Ummosaicodesituaçõesseabreeoleitoréconfrontadocomumuniversomúltiplo
de imagens desses sujeitos individuais e anônimos, que atuam na história e
constroem as suas próprias versões do evento do qual compartilham. A guerra,
nesse caso, atua como facilitador para que se manifestem tais experiências. O
horror da morte convive com as virtudes: ’A noite é cheia de mistérios’, disse o
coronel.‘Vamosterminarderecolherosmortosedormir’”.
NocenáriodosacontecimentossurgeafiguradoVelhoSilvestre,nocapítulo
intitulado“Xerazadesuspendeaguerra”.Fazendomençãoàfamosapersonagemde
As mil e uma noites, que conta histórias para escapar da morte, Silvestre, um
paraguaio – portanto, supostamente inimigo – que surpreende a tropa em seu
rancho,passaaamigopormeiodesuahabilidadedenarrarassuashistóriasvividas
ou inventadas. As histórias de Silvestre, pautadas por seu discurso carregado de
humor, ironia e sarcasmo, funcionam como elemento catártico e afastam as
lembrançasdaguerra.
Aspectos culturais das tradições dos Terena e Guaicuru também estão
presentes,aindaquecomcertarestriçãoedistanciamento.Ossoldadosdeorigem
indígena que fazem parte da coluna brasileira têm, segundo o coronel Camisão,
hábitos “patológicos”. Depois de matar o inimigo, os índios mutilam seu cadáver:
“Nossos soldados passaram a mutilar os cadáveres inimigos, como se, depois de
92
abatidosemortos,aindacontinuassemcontranós”(p.65).AopiniãodeCamisão,
emboramarcadaporpreconceitoshistóricosemrelaçãoaoelementoindígena,está
maiscondicionadaàignorânciadiantedeumaculturaqueconsideraexótica.
A participação de negros e índios na Guerra do Paraguai, analisada pelo
discurso historiográfico, depende fundamentalmente de registros em jornais e
revistas da época e, portanto, vítima de seus equívocos. Jornais paraguaios
menosprezamoexércitoaliado–principalmenteobrasileiro–comaafirmaçãode
que,portersuaformaçãocompostademaioriamestiçaounegra,possuiqualidade
inferior. Fato é que em pelo menos três dos quatro exércitos que participam do
conflitohásoldadosnegrosedeorigemindígena.
NoBrasil,em1865,criam-seoschamadosCorposdeVoluntáriosdaPátria,
que têm por objetivo o recrutamento livre da população adulta. Em uma primeira
fase,grandecontingentemasculinoapresenta-se, emespecialnosestadosdoRio
GrandedoSuleMatoGrosso,quetêminteresseemdefenderasprópriasfronteiras
ameaçadas. Porém, com o curso da guerra e a necessidade de reposição dos
soldadosvitimados,asconvocaçõesde“voluntários”tornam-secompulsórias–eo
termoadquireotomdepiada.
Aqueles que possuem recursos esquivam-se do recrutamento fazendo
doaçõesemdinheiro,equipamentos,escravosouempregados.Osmaispobressão
obrigados a oferecer os próprios filhos, sobrinhos, netos, etc. Nesse momento a
aquisiçãodeescravosparasubstituiçãodehomenspassaaserpráticacorrente.O
Império, por sua vez, promete liberdade aos escravos alistados. Apesar disso,
pesquisasrecentesafirmamque,doexércitobrasileiro,apenas7%eramescravos,
diversamentedoquepostulamasversõesrevisionistas,comoadeChiavenato.
Para o Império brasileiro, negros, índios e pobres são igualmente
considerados material humano barato para a guerra. Em que pese considerar-se
liberal, o governo do Brasil beneficia os interesses das antigas oligarquias e
incentivaoalistamentocompulsóriodehomensdasclasses menosfavorecidas.A
questão aparentemente é menos racial do que social. A literatura, por seu turno,
podetratardaparticipaçãodeíndiosenegroscomisençãoeliberdade.
93
Elementosreligiosossãoigualmentequestionadosnaobraesetornamtema
nas personagens de Padre Landell e do cozinheiro judeu. Expulso de sua cidade
sobacusaçõesdeloucuraecumplicidadecomodemônio,PadreLandell,cientista,
apresenta-sediantedeCamisãocomsuasinvenções.Oreligiosocriaaparelhosque
facilitam a comunicação, precursores
do telefone. Logo, a tropa vê potencial nos
equipamentosparavenceraguerra.Emumcontextodepolarizaçãoentreadeptos
da religião e da ciência e, ao mesmo tempo, de valorização do científico como
símbolodeavançotrazidopeloidealiluminista,afiguradeumpadreinventoré,no
mínimo,ousadaepolêmica.
SujeitosmarginalizadoscomoocozinheirojudeuJacótêmhistória,culturae
memória em Avante, soldados: para trás. Apesar de ser cozinheiro, Jacó é
identificado como portador de “sólidos conhecimentos e vasta cultura como todo
judeu”(p.150),emumaevidentegeneralização.Artistadaspanelaseconhecedor
dosmistériosdagastronomia,ocozinheiroéadmiradopelorestodatropa,inclusive
pelos muçulmanos, históricos rivais. No ambiente fronteiriço da guerra, no qual a
alimentaçãoéescassa,oslimitesculturais,outrorasólidos,serompemeapresença
de um cozinheiropassa a valertanto quantoa de um militar.Jacótraz consigoa
memória dos padecimentos sofridos por seu povo e parece conformar-se com os
horroresdaguerra.
Osábiocozinheiroéresponsávelporproblematizarnadiegeseoconceitode
identidadenacional.Aoserquestionadoarespeitodaidentidadejudaica,Jacórefaz
a pergunta: “O que é ser brasileiro?” Os soldados tecem opiniões estereotipadas,
afirmando, como exemplo, intimidade com Deus. Mas Camisão identifica o “ser
brasileiro” com a idéia de dispersão. O brasileiro seria fruto da mistura de raças
diaspóricas,comoibéricoseafricanos,eporessarazãoteriaumavocaçãoparaa
migração,jáquesuaprópriaterraémistura,nostalgiaemovimento.Obrasileiroé
umeternosaudosoderaízesquehabitamterraslongínquas.
AproblematizaçãodaidentidadenacionalnaobradialogacomSérgioBuarque
deHolanda,queemRaízesdoBrasilafirma:“Somosaindahojeunsdesterradosem
nossa terra” (2006, p. 31). Segundo o autor, a análise das peculiaridades do
colonialismo português é fundamental para a compreensão da construção da
identidade brasileira. Portugal, nação européia periférica em relação ao centro
94
representadopelaInglaterra,constitui-seemzonafronteiriça,caracterizadaporuma
populaçãodeorigemmestiça.ParaSérgioBuarque,afaltadecoesãonaorganização
socialbrasileiraétradicionalmenteportuguesae,portanto,recorreràtradiçãocomo
meioderetornoaumaordemsupostamente“perdida”éumequívoco.Ainda,oautor
apontaparaaausência,porpartedogovernoportuguês,deumahierarquiarigorosae
poucacapacidadedeorganização,doquedecorreria ocaráter aventureiro epouco
trabalhadordoslusitanos–éticadaaventura–,aocontráriodospuritanosingleses–
éticadotrabalho.Osportuguesespraticamummodosingulardecolonizaçãoaose
adaptaremaoscostumes locais, absorvendopráticasagrícolase nãohesitandoem
misturar-se com negros e índios. Esses fatores, sem dúvida, contribuem para a
formação híbrida da identidade nacional brasileira, tão bem identificada pela
personagemdeCamisãocomodispersiva.
Igualmente, a noção de serviço à pátria aparece na obra envolta no véu
permanente da dúvida, entre momentos de exaltação da guerra e outros de
frustraçãoeausênciadeidentificaçãocomoconflito.NovamenteDeonísiocriticaas
instituições, desde o exército até a igreja e a organização familiar. Idéias
incoerentes,hesitaçõeseparadoxospodemserverificadosemdiversosmomentos,
conferindo valor paródico à obra, que, além de questionar versões oficiais
homogêneas, subverte o próprio “texto” da guerra como evento histórico bem-
sucedidoparaoBrasil.
2.3–AprosadeDeonísiodaSilvanosistemaliterárioatual
Todo escritor cria os seus próprios
precursores. A sua obra modifica a nossa
concepçãodopassado,talcomomodificaráo
futuro.
(JorgeLuisBorges)
DeonísiodaSilvanasceunacidadedeSiderópolis,estadodeSantaCatarina,
em1948.Junto dafamíliadeixaSantaCatarinaemuda-separaoParanáe, logo
depois,paraoRioGrandedoSul.GraduadoemLetraspelaUNIJUÍ–ondeatuou
comoprofessor–emestreemLiteraturaBrasileirapelaUniversidadeFederaldoRio
95
GrandedoSul(UFRGS),emPortoAlegre,vaiparaSãoPaulo,ondeobtémotítulo
deDoutoremLetrasnaUniversidadedeSãoPaulo(USP).Étambémprofessorda
Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, e preside o Instituto da Palavra.
Mantém uma coluna semanal de etimologia na revista Caras, escreve para os
jornais Primeira Página e O Sul e nos sites www.eptv.com.br e
www.observatoriodaimprensa.com.br.Suasobrasforamtraduzidasparaoespanhol,
alemão,sueco,italiano,inglêsefrancês–Avante,soldados:paratrásfoipublicado
em Cuba e Portugal. É autor de cerca de trinta livros, entre romances, contos,
literatura infanto-juvenil e ensaios teóricos, e teve obras interpretadas no
teatro/teleteatro,comoareuniãodecontosExposiçãodemotivos(1976),eTeresa
(1997).Atualmente,concluiseupróximoromance,GoetheeBarrabás,quedeveser
publicadoaindaem2007pelaeditoraAGirafa.
Deonísio recebeu importantes prêmios, como o da Biblioteca Nacional de
romance,porTeresa,eoCasadelasAméricasporAvante,soldados:paratrás,que
contacomapresençadeJoséSaramagonacomissãojulgadora.Sobreoromance,
dizSaramago
25
:
O romance projeta umolhar críticosobre a Guerra do Paraguai. A
ficcionalização deste cruel episódio da história brasileira e latino-
americanaéfeitacomdistanciamentoirônicoerevelaograndejogo
de interesses que moveram essa guerra. O romance consegue
narrar os pequenos grandes dramas do cotidiano, criando
personagens complexos e contraditórios, através dos quais
consegue sublinhar o absurdo dessa e de todas as guerras. O
domínio das técnicas narrativas, o trabalho equilibrado com a
tradiçãoeainvenção,alinguagemsólida,semgrandesdeslizes,são
algumas das qualidades literárias que justificamo Prêmio Casa de
LasAméricas.
Além desses, Deonísio da Silva foi contemplado com: Prêmio Brasília de
Literatura,oferecidopeloMEC,porExposiçãodemotivosem1977;PrêmioVirgílio
VárzeadeLiteratura,dogovernodeSantaCatarina,porcontosquevêmaintegraro
livroLivrai-medastentações(1984);PrêmiodemelhorroteironoFestivaldeCinema
deBrasíliapelolonga-metragemRepúblicaGuarani,sobadireçãodeSylvioBack;
PrêmiodaFunarteporObarrocodascortescatólicasnaRepúblicaGuarani:suas
 
25
Disponívelemwww.deonisio.com.br,acessadoem22jun.2007.
96
relaçõescomopoder metropolitanonosséculos XVII eXVIII;em1980; XPrêmio
AbrildeJornalismo(1985)porNosbastidoresdacensura:ocasoRubemFonseca;
PrêmioJabuti,nacategoriade“amigodolivro”,portrabalhorealizadocomautorese
suasobras naUniversidadeFederaldeSãoCarlos.SobreoprêmioCasadeLas
AméricasporAvante,soldados:paratrás,dizDeonísio
26
:
OprêmioCasadelasAméricasmelevouaoespanholeissojáseria
em si uma coisa ótima. Mas o mais bonito é que foi conferido por
uma entidade prestigiosa, de um país socialista, a Casa de las
Américas, com sede em Havana, fundada por uma intelectual e
guerreiragloriosa,aHaydéeSantamaría.Efoiimportantetambémo
Saramagoestarnojúri.
AutordosromancesAcidadedospadres(1986),Orelhasdealuguel(1988),
Avante,soldados:paratrás(1992),Teresa(1997)eOsguerreirosdocampo(2000)
e da novela A mulher silenciosa (1986), publicou também as seleções de contos:
Estudos sobre a carne humana (1975), Exposição de motivos (1976), Cenas
indecorosas(1976),Amesadosinocentes(1978),Livrai-medastentações(1984),O
assassinato do presidente (1994), Ao entardecer ele abraçava as árvores (1995),
Tratadodoshomensperdidos(1987),Jogodeespelhos&outrashistórias(1999)eA
primeiracoisaqueeuboteinaboca(2002).
Deonísio da Silvaproduz também literatura infanto-juvenil, em Os segredos
dobaú(1982),AdãoeEvafelizesnoparaíso(1984),Asmaravilhosasinvençõesde
seu Mané (1987) e A melhor amiga do lobo (1990). E ainda obras teóricas: A
ferramenta do escritor (1978), Um novo modo de narrar (1979), O caso Rubem
Fonseca (1983), Nos bastidores da censura (1989), Rubem Fonseca: proibido e
consagrado(1996),De ondevêmas palavras(1997),Deondevêmas palavrasII
(1999),Avidaíntimadaspalavras(2001)eAvidaíntimadasfrases(2004).
Elementoscomoaironia,ohumor,aoralidadedodiscursoeavariaçãodas
estruturasnarrativassãosignificativosnaobradeDeonísio.Traçosconfessionaise
autobiográficos também são identificados nas referências constantes em contos e
romancesaosanospassadosnoseminário,ouaoespaço,quegeralmenteremete
 
26
Disponívelemwww.plataforma.paraapoesia.nom.br,acessadoem05jun.2007.
97
ao sul do país ou à cidade de São Carlos. Ainda são temas recorrentes o olhar
críticoemrelaçãoàcenapolíticanacional,amulhercomovítimadepreconceitoea
sensualidade.
Oestiloirônicoe,porvezes,satíricodoautordemonstraseuintuitodefazer
ficção como instrumento político de transformação social. Na novela A mulher
silenciosa(1986),ofocoéadenúnciaàsinstituições,quevivemoaugedesuacrise,
aindaemumplanopós-ditaduramilitar.Asituaçãodasuniversidades,acorrupção
que ronda a ocupação dos cargos, o papel da imprensa e a hipocrisia são
problematizados em um contexto multifacetado. O passado recente de repressão
políticapermanecelembradonotomdeacusaçãoqueanarrativaassume,quando
abordaatortura,aviolênciaouafragilidadedaspolíticaspúblicasdestinadasaos
menosfavorecidos.Múltiplosolhareseversõessobre omesmofato –umestupro
seguidodeassassinato–opossíveisnumaespéciedejustaposiçãofragmentária,
naqualapequenacomunidade
fictíciaexpõesuasopiniões,queseintercruzamno
decorrerdatrama,mostrandoaoleitorummosaicoaserinterpretado.
Em Orelhas de aluguel (1988), o autor amadurece técnicas narrativas com
digressões e histórias em cápsula. Prioriza as personagens femininas novamente
fazendousodeironia,erotismo,humoredespojamento,aotratardeumtemaainda
pouco abordado: o neonazismo no Brasil e as falhas no sistema de investigação
nacional. A idéia de cerceamento e morte é uma constante na obra, que transita
entreasvariadasformasdeprisãodoindivíduo,desdetorturasduranteaditadura
militar, passando por convicções que assumem a função de cárcere, até a
inadequaçãoaopadrãodebelezacontemporâneo,quelevaatraumasefrustrações.
Pode-seafirmarqueoromanceérepresentativodaépocadesuaprodução,naqual
opessimismodiantedasituaçãopolíticapós-ditaduramilitareachamadacrisedas
utopiasestãopresentes.
Vamos morrendo aos poucos. Morre um hoje, outro amanhã, mais
outro semana que vem, outro mês que vem, outro espera o ano
novo,mastodosumdiasevão.Outrasmortesocorremnummesmo
indivíduo.Hojemorreaféqueeletinhaemcertacoisaoupessoa,
amanhã morre a esperança que acalentou tantos anos, depois de
amanhã se fina a percepção que tinha do mundo e assim se vai
morrendoaospoucos(SILVA,2001,p.93).
98
Acidadedospadres(1986)promovereflexãosobreotemadasMissiõesno
RioGrandedoSul,sobaperspectivadodéspotaesclarecidoMarquêsdePombal,
na segunda metade do século XVIII. O principal objetivo da política pombalina,
característica do ideal iluminista, era o desligamento do Estado com o clero,
considerado promotor do atraso intelectual do país, já que detinha o controle das
instituiçõeseducacionais.Maisespecificamente,noquetangeàregiãodasMissões
Jesuíticas,osreligiososeramaliadosdosespanhóis,quedisputavamcomPortugal
ocontroledaregiãodoPrata.
As memórias do marquês são precedidas no romance por um episódio
inusitado:nadécadade1980,umescritorédetidopelogoverno,representadona
figuradeumpresidentemilitar,pelapublicaçãodeseulivro,consideradosubversivo.
Esse livro, intitulado Pombal se recorda, é justamente o segundo capítulo de A
cidade dos padres. A narração, portanto, o fica restrita às recordações do
déspota,masnoúltimocapítuloéretomadoodiálogoentreapolíticapombalinaea
do regime militar já em 1980. Em “Pombal se recorda”, personagens históricas
relacionam-secom o marquês, emboranem todastenhamvividoemsuaépoca e
lugar,edessaformaacronologiavaisendodispensada.Oromanceérepresentativo
do Novo Romance Histórico pela presença na obra de características comuns à
poéticaparaogênero.SegundoReginaZilberman,
Pombalnãoapenasadvogaemcausaprópria.Olivroqueaceitae
endossasuaperspectivapretendeseroutraversãodahistória,mais
autêntica. À ficção, pois, são atribuídas maior potencialidade de
representaçãoecargamaisintensadeverdade.Acidadedospadres
procura chegar a este resultado através de algumas modificações
infundidas no romance histórico. Não apenas a abolição da
cronologiaerenúnciaaorealismocolaboram;éimportantedestacar
o teor das informações: todas são retiradas de documentos dos
períodosapresentados,otextoesforçando-seporevitareventosou
personagensfictícios(1992,p.132).
Teresa – namorada de Jesus (1997) surge da investigação a respeito da
biografiadeTeresad’Ávila,religiosaemísticaespanholaquesofreuperseguições,
inclusive um julgamento por parte do Tribunal da Inquisição no século XVI. As
acusações baseavam-se naidéia de queTeresa seriaheregepor afirmar manter,
99
com o próprio Cristo, uma relação de amor intensa, com momentos de profundo
êxtase.Em1970,foideclaradaDoutoradaIgreja.
A religiosa, nascida em 1515, ingressou no convento das Carmelitas em
1535.FundouaOrdemdasCarmelitasDescalças,alémdeterdeixadoumavasta
obracomreferênciaatemáticasfeministasdeextremovalorpoético,cujoenfoqueé
arelaçãoíntimacomodivino,questionandoacastidadecompulsóriadosreligiosos
e elevando o amor como fusão do sagrado e o carnal. Teresa mantém estreita
amizade com o também carmelita João da Cruz, com quem compartilha seus
momentosdereflexão.TeresaeJoãosãorecriadosporDeonísiodaSilvaemseu
universoparticular.Otextoépautadopelasensualidadeepelaironia,aotratarde
temascomoa corrupçãoehipocrisia porparte daIgreja – novamenteacríticaàs
instituições – e ao sugerir suposto e inusitado “triângulo amoroso” entre João,
TeresaeJesus.
O romance pode ser dividido em três momentos distintos: no primeiro,
observam-setraçosautobiográficos,postoqueonarradoréummeninoque,vivendo
emuminternatoreligioso,relatasuasexperiências–oautortambémestudouemuma
instituiçãosemelhanteerecorreaesse tema constantementeemsua obra. Com o
falecimento do Padre Divino, é encontrado entre seus pertences um romance
inacabadosobreTeresad’Ávila.Nasegundaparte,emestruturaadaptadaaoteatro,
apareceoromancedeDivino,quetratadahistóriadeTeresaeJoão.Sãopermitidos
deslocamentos espaço-temporais, em uma mistura de história da Espanha e
misticismo universal. Finalmente, no terceiro momento, o menino adulto retoma a
funçãodonarradorerelaciona-secomAçucena,mulherdetemperamentooradoce,
oraselvagem,queéidentificadoporelecomoaessênciadofeminino.Açucenaéa
traduçãocontemporâneadeTeresa,nessahistórianaqualsecruzamtempo,espaço
evalores,proporcionandomomentosdeintensareflexãosobreanaturezahumana.
Noano2000,DeonísiodaSilvaapostaemumtópicoatualepolêmicopara
compor Os guerreiros do campo: a atuação no país, do Movimento dos
TrabalhadoresRuraisSemTerra.Apesardeumcomeçoquepodeserconsiderado
lugar-comum,noqualossem-terrachegamaocéuaoladodosfazendeirosapósum
massacreesãovítimasdeumjulgamentocoletivo,oromancetemméritoaotratar
doassuntosemtomarpartido,masmostrandooladoobscurodeambasaspartes
100
envolvidas na situação. Com efeito, é clara a intenção do autor em denunciar a
política de repressão por parte dos latifundiários, apoiada pelo governo federal.
Critica, entretanto, as idéias defendidas pelos sem-terra, que considera
ultrapassadaseinviáveis,comoosocialismopormeiodarevoluçãoarmada.
Assim comonosromances, emsuasreuniões de contos oautormantém o
tomirônicoesarcásticoaotratardocotidianohumanoevidenciandoseusaspectos
menos gloriosos. Em Tratado dos homens perdidos (1987), é possível identificar
umacríticaferozaoscostumesdaépoca,quejáapresentaindíciosdefragmentação
eausênciadesentido,alémdacrisenaeducaçãoedarepresentaçãodapopulação
pelo Estado. Nos contos, marcados pela linguagem coloquial e pela idéia de
movimento, com o predomínio da cena, o autor denuncia práticas políticas que
consideracorruptas,aindamantendooolharvoltadoparaanoçãodecoletividade.
JáemJogodeespelhos(1999),comoonomesugere,épostoemevidênciao
ladocrudaexistênciahumanaindividual,osmuitosvícioseaspoucasvirtudesdo
sujeito pós-moderno. A hipocrisia nas relações e o comportamento de sujeitos
influentessãoquestionados.Casosdeincestoeviolênciasexualsugeremreflexãoa
respeito da instituição familiar como núcleo mínimo de relações de poder e
dominação. Deonísio aborda ainda a questão de uma suposta postura comum no
meioacadêmico:apseudo-intelectualidadecomoformademanipulaçãoeabusode
poder. Todos esses aspectos são expostos de maneira a privilegiar os múltiplos
pontosdevistaarespeitodomesmofatoedeixandoespaçoparaqueoleitorforme
suaprópriaopinião.
Sobretudonasobrasdeteorhistórico,frutodeintensapesquisaadespeitodo
caráterestético,éperceptívelaintençãodeDeonísiodedeixarclaraaimpossibilidade
de atingiro passado emsuatotalidadeedeconsideraracoexistência demúltiplas
versõesarespeitodeummesmoeventoregistradopela historiografia.Aopção por
alguns fatos em detrimento de outros confirma essa idéia de contestação à
“grandiosidade”dopassado.EmAmulhersilenciosa,dizonarrador:
Eusouapenasumouvidoquerecolheepassaadiante,maravilhado
diantedasversõesqueumfatopodeter.Comosesabe,umfatonão
existesemversão;edecadafatoasversõessãotantasquenenhum
evento sobrevive por si mesmo, com o poder raso que tem; ao
101
contrário,multiplicam-sedebocaemboca;proliferamdiantedecada
máquinadeescrevereexplodemdiantedecadaleitorcompotência
ainda mais extraordinária. E, me digam, é possível relatar algum
eventosemrecorreràimaginaçãoeàfantasia?(SILVA,1986,p.72).
Segundooautor,aspersonagenshistóricasvêmconcluídas,permitindoqueo
escritorasrecomponhadeformairônica,sendolidasapartirdeoutraperspectiva.
Deonísioacredita quenão existeminocentesem situaçõesconflituosascomo,por
exemplo,aGuerradoParaguai,porémadmitequea históriageralmente éescrita
pelos vencedores. A literatura, que ele concebe como “história clandestina dos
povos”,estaria apta a tratar essas temáticas comisenção e seriedade, apesardo
traçoirônico.EmentrevistaconcedidaaFabrícioCarpinejar(2007),elediz:
Hámomentosemqueahumanidadeseelevaaoscéus;outrosem
quechafurdanasmaisinfectaspocilgas,comonocasodonazismoe
detodasasguerras.Seiqueohumorestápresentenamaioriade
meustextos,masnãofizforçapraisso.
As transformações sofridas pela poética do romance histórico no pós-
modernismoproduzemefeitosestéticosqueredimensionamorelacionamentoentre
história e literatura. A obra de Deonísio da Silva aponta para esse caminho ao
apostarnoteorpolifônico,nosjogosintertextuaisenaparódiairônicacomofatorde
reflexãocrítica sociocultural,e conseqüentementepromove novas perspectivas de
construçãoidentitária.
Elementoscomoacomplexificaçãodainstâncianarrativa,ametatextualidade
earelaçãoo-linearentretempoeespaçopossibilitamaoleitorumaparticipação
ativanageraçãodesignificados,alémdodiálogocomoutrassériesculturais.Sob
esse prisma, Deonísio compartilha seu espaço com autores representativos do
gênero,fundamentalmentenacenalatino-americanaepós-colonial.
102
CONSIDERAÇÕESFINAIS
Apartirdaanálisedesenvolvidanessadissertação,considera-sepertinentea
retomada das reflexões empreendidas, com o intuito de que contribuam para o
processo dialógico entre literatura e história, num viés cultural. Em um primeiro
momento, por meio da contribuição de teóricos como Georg Lukács e Seymour
Menton,buscou-seumaconceituaçãopararomancehistóricoesuarelaçãocoma
construção de padrões identitários, em especial no que concerne à formação dos
Estados Nacionais Modernos na Europa, e, em contraponto, a influência dessas
narrativasnahistóriaderegiõesquepassaramporprocessodecolonização,comoa
AméricaLatina.
Oromancehistóricooitocentistaauxiliaahistóriadaépocaemseuobjetivode
forjarnaçõesbaseadasemcaracterísticassupostamentecomuns dedeterminadas
comunidadeshumanas.NoBrasil,JosédeAlencarrepresentaoobjetivodelegitimar
uma origem nacional, fruto do contato entre europeus e nativos. Para o autor, tal
contatoé,demodogeral,salutar,egaranteànaçãoumsentimentodeoriginalidade
quepoucodestoadomodeloeuropeu.Essasnarrativas,contudo,sofremprofundas
transformações, principalmente em regiões colonizadas, e alcançam na pós-
modernidadeumconsideráveldesenvolvimento.
A relação entre literatura, história e pós-modernismo foi problematizada
partindo da discussão sobre a crise da história como ciência e das principais
alteraçõesnodiscursoficcionalhistóriconoséculoXX,sobinfluênciadomovimento
modernistaesuasnoçõesderuptura.ONovoRomanceHistórico,porsuaessência
polifônica,metatextualepluridiscursiva–comoestratégiascomunicativas–promove
um diálogo com o passado histórico pelo viés ficcional, que põe em xeque as
versões oficiais. Além dessas características, o gênero é marcado por diferentes
103
associações espaço-temporais, procedimentos paródicos e humorísticos e caráter
intertextual,exigindoumleitorquecooperenoprocessodesignificaçãodaobra.
Partindo das discussões a respeito do pós-modernismo, evidenciou-se o
surgimentodeformasidentitáriasbridasedesujeitosmarcadospelamultiplicidade,
descentramentoefragmentação.DeacordocomStuartHall,oconceitodesujeitonão
é estável e compreende três tipologias fundamentais: o sujeito iluminista, fruto do
processodeemancipaçãodohomememdetrimentodevaloresreligiososeenvolto
por uma noçãode universalidade e idealização; o sujeito sociológico, que tem sua
individualidade desqualificada em prol da idéia de classe social, característica de
teorias sociais do século XIX, como o marxismo, e o sujeito descentrado pós-
moderno.SegundoBakhtin,aunidadedoconceitodesujeitoéimpossível,namedida
emqueseudiscursoseconstróiexclusivamentedocontatocomaalteridade.
Foipropostaumadiscussão
acercadamútuainfluênciaentreonovoromance
histórico e os estudos culturais. Recursos como a ironia e a paródia, presentes
nessas narrativas, contribuem na geração de novas redes de significação e
encontramnopós-colonialismooselementosparaodesenvolvimentodogêneroeo
fomento do diálogo entre literatura e história. Nesse sentido, são repensados o
caráterconciliatórioromânticoentrecolonizadorecolonizadoeatentativaderevisão
modernista–quependeapenasparaoelementoindígena.Apropostaéreconhecer
que o processo de colonização atua de maneira complexa e distinta tanto no
colonizadorquantonocolonizado.
Igualmente,foirealizadaumaretomadageraldoseventosrepresentativosda
GuerradoParaguai,atravésdocotejoentreversõestradicionaiserevisionistasde
historiadores. O intuito de apresentar diferentes histórias de um mesmo fato foi
corroborar a opinião de Hayden White, quando defende a natureza discursiva da
históriaapesardapretensãocientífica.
ApósaverificaçãodequeAvante,soldados:paratráséumaobraquecontribui
deformasubstancialparaarelaçãoentreliteraturaehistória,procedeu-seàanálise
dosdiferentespadrõesidentitáriosdaspersonagens,partindodainstâncianarrativa,
representada pela figura do soldado-cronista. Personagem secundária na trama, o
sargento é identificado como historiador-testemunha e faz emergir a discussão a
104
respeito do fazer literário, namedidaem quesofreda angústia do escritor,entre o
desejodefazerliteraturaearesponsabilidadecomaexatidãodosfatos.
Em seguida, realizou-se
uma leitura crítica das personagens históricas, da
qualfoipossívelconcluirqueointuitodoautoréproporumarevisãodahistóriapela
ficção. Com a utilização de recursos como a ironia e a paródia, promove a
humanização das figuras heróicas, possibilitando ao leitor um efetivo
posicionamento, mediante diálogo entre o discurso histórico oficial e a versão
parodiada. Nesse sentido, a obra contribui para o preenchimento de lacunas
deixadaspelahistória,convertendo-seemelementodetransformaçãosocial.
Aspersonagensfemininas,porsuavez,comomarcadaficçãodeDeonísioda
Silva, são valorizadas como sujeitos que atuam diretamente nos acontecimentos e
subvertemaordemsocial,dominadapelodiscursomasculinocomofatordeopressão.
Essas mulheres assumem voz de ação, interferindo no curso da trama e são
marcadaspelasensualidadeeerotismo,comoidealizaçãomasculina.Igualmente,os
sujeitos marginalizados são apresentados naobraem sua pluralidade, sem quese
abramãodasespecificidadesdecadacultura.Oautorpromoveumaindividualização
dessessujeitosaotratarparticularmentedesuashistórias,comonocasodosíndios,
negros,religiosos,ocozinheirojudeu,entreoutros.
Na análise, verificou-se que Deonísio da Silva aponta para uma formação
fragmentadaeinconclusadessestiposhumanos,aindaqueemumcenáriopautado
pelo tema tradicional da guerra. Mediantea desconstrução de figuras heróicas da
historiografia,alémdaopçãoporredimensionaroespaçoconcedidoapersonagens
periféricasefemininas,queatuamcommaiorrelevâncianaobra,oleitordepara-se
não com um conceito universal e coeso de sujeito, mas com a natureza híbrida
dessa construção. Por meio de um mosaico, no qual as cenas são expostas
livremente,essapercepçãosetornaaindamaisviável.
Desse modo, a obra analisada questiona construções históricas oficiais e
disponibilizadiferentesleiturasemrelaçãoaomesmoevento.Poressarazão,atua
napreservaçãodamemóriaculturalnãoapenasnocontextobrasileiro,mas,deum
modogeral,noqueconcerneàsregiõesquevivenciaramcolonização.Talposturaé
marcadanarrativadeDeonísiodaSilva.
105
Aintençãodoautor,aotematizaracrisedasinstituições,alémdeassumirum
tomdedenúnciaemrelaçãoàcorrupção,aopreconceitodediversasnaturezasea
práticas políticastotalitárias ou tradicionais, reforça a premissa de que a literatura
possui poder de intervenção social. Sob esse aspecto, a obra adquire especial
importância no diálogo com diferentes práticas culturais contemporâneas, por
compartilharelementosdiscursivoseestratégiascomunicativasemumaperspectiva
sistemática,comonocinemaoutendênciasmusicais,alémdapróprialiteratura.
Comefeito,tais constatações,apesardenão encerraremem definitivoeste
estudo, representam suma relevância para o propósito estabelecido de analisar a
construção do sujeito em uma perspectiva ficcional, sob o respaldo do
desenvolvimento de um modelo teórico sócio-histórico. Partindo das reflexões
expostas,acredita-seseresteumprojetopolíticoesocial,namedidaemquetrazà
tona reflexões a respeito do relacionamento entre história e literatura, em um
presente pautado por contradições, lacunas e relações de disparidade, no qual a
nova narrativa ficcional histórica torna possível a revisão de certezas
universalizantes do discurso colonizador e configura-se como fator de resistência.
Essa literatura atua como força-motriz de transformação, ao questionar versões
oficiais e apontar para alternativas teóricas de construção identitária baseadas na
diversidade,heterogeneidadeeconvivênciaentrerealidadesplurais.
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