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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC SP
Pedro Paulo Sammarco Antunes
Travestis envelhecem?
MESTRADO EM GERONTOLOGIA
SÃO PAULO
2010
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC SP
Pedro Paulo Sammarco Antunes
Travestis envelhecem?
MESTRADO EM GERONTOLOGIA
Tese apresentada à Banca Examinadora
como exigência parcial para a obtenção do
título de Mestre em Gerontologia pela
Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, sob orientação da Professora
Doutora Elisabeth Frohlich Mercadante
São Paulo
2010
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Banca Examinadora
_____________________________
_____________________________
_____________________________
4
Dedico este trabalho à amiga Laura de Vison (in memorian).
5
AGRADECIMENTOS
À minha orientadora Profª Drª Elisabeth Frohlich Mercadante, pela confiança em
minhas capacidades e por ter me ensinado a ser um pesquisador, com o carinho e
dedicação de uma grande amiga e sabedoria de uma acadêmica excelente.
À Profª Drª Vera Lucia Valsecchi de Almeida pelo profissionalismo, carinho e
exímio cuidado no trato com os alunos, e pela participação fundamental no exame de
qualificação que contribuiu para a execução deste estudo com críticas e sugestões que
engrandeceram muito o presente trabalho.
À Profª Drª Maria Helena Villas Boas Concone, pela valiosa participação no exame
de qualificação e pelas especiais contribuições oferecidas a este trabalho.
Ao Prof. Dr. Juracy Armando Mariano de Almeida, pelas contribuições acadêmicas
durante o processo do mestrado.
Ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, pela oportunidade de realizar este trabalho.
À CAPES, pela concessão da bolsa de estudos que possibilitou a conclusão desta
pesquisa.
Às colaboradoras desta pesquisa por contribuírem com suas histórias de vida para a
realização deste trabalho, meu agradecimento especial a todas vocês.
Aos demais professores, colegas de mestrado e autores consultados pelo apoio e
trocas acadêmicas valiosas.
A todos os familiares e amigos queridos, pelas conversas, apoio, carinho, amor e que
têm me acompanhado nessa trajetória de batalhas e conquistas. Por fim, a todos que
direta ou indiretamente, participaram da realização deste trabalho. Meus profundos
agradecimentos!
6
Desde que tudo no mundo é causado pelo concurso das
causas e condições, não poderá haver nenhuma distinção
básica entre as coisas. As aparentes distinções são criadas
pelos pensamentos absurdos e discriminadores dos homens.
No firmamento não a distinção entre o leste e o oeste; os
homens criaram, em suas mentes esta distinção e a julgam
como verdadeira (Kyokai, 1982, p. 103).
7
SUMÁRIO
RESUMO.........................................................................................................
08
ABSTRACT.....................................................................................................
09
INTRODUÇÃO...............................................................................................
10
CAPÍTULO I CORPO, CONTROLE E RESISTÊNCIA........................
15
1) Revisão de literatura...................................................................................
15
1.1) Relações de saber-poder..................................................................
22
1.2) Sociedade disciplinar.......................................................................
28
1.3) Biopoder............................................................................................
38
1.4) Biopoder e sexualidade humana.....................................................
46
1.5) Sociedade de controle.......................................................................
52
1.6) Subjetividade e resistência..............................................................
60
1.7) Subjetividade e corpo.......................................................................
64
CAPÍTULO II CORPO, GÊNERO SEXUAL E VELHICE....................
71
2) Revisão de literatura...................................................................................
71
2.1) Construção do corpo travesti..........................................................
71
2.2) Corpo, gênero sexual e envelhecimento.........................................
82
CAPÍTULO III ABORDAGEM METODOLÓGICA..............................
120
CAPÍTULO IV TRANSCRIÇÃO E ANÁLISE DAS ENTREVISTAS..
129
4.1) Primeira Entrevistada......................................................................
129
4.2) Segunda Entrevistada.......................................................................
169
4.3) Terceira Entrevistada.......................................................................
218
4.4) Análise das entrevistas......................................................................
240
CONSIDERAÇÕES FINAIS.........................................................................
259
ANEXOS..........................................................................................................
263
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...........................................................
265
8
RESUMO
ANTUNES, Pedro Paulo Sammarco Travestis envelhecem? São Paulo: Dissertação de
mestrado em Gerontologia. Programa de estudos Pós-graduados em Gerontologia;
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2010
O presente estudo tem o objetivo de conhecer o período do processo de vida,
chamado de velhice e envelhecimento daquelas que foram designadas como travestis.
Essas denominações foram construídas para organizar o funcionamento social. As
ciências biomédicas foram importantes na categorização dessas pessoas. Apropriaram-
se dos corpos humanos e determinaram o que é considerado normal, portanto desejável
e o que é considerado anormal, logo patológico e indesejável. A intenção é compreender
o impacto que tais diagnósticos terão sobre aqueles que são reconhecidos como
anormais em relação ao que foi denominado de gênero sexual. Devido ao número quase
inexistente de pesquisas sobre envelhecimento e velhice de travestis, fez-se necessário
esse estudo, que não pretende esgotar o tema, mas sim iniciar uma importante
discussão. Os aspectos de gênero, bem como os de velhice foram relacionados.
Percebeu-se que tanto o gênero como a velhice são compostos por atos, que
constantemente reiterados, dão a impressão que uma essência natural de gênero e
velhice, inerentes a todos os corpos, manifestando-se ao longo da vida. Foram
realizadas três entrevistas abertas com o foco em histórias de vida. Por serem
consideradas, desviantes e anormais, travestis já não são vistas como não humanas
desde tenra idade. Atravessam a vida como invisíveis e sob muito preconceito. Por
causa disso, improvisam suas existências em contextos violentos. Suas expectativas de
vida são baixas. As que vivem até a chamada velhice, podem ser consideradas
verdadeiras sobreviventes. Acabam servindo de referência e exemplo para as mais
jovens. O objetivo principal da pesquisa resultou no levantamento de demandas e
necessidades em relação às travestis. Percebe-se que precisam urgentemente de políticas
públicas que as reconheçam como humanas desde sempre. Dessa forma chegarão à
velhice com dignidade e respeito, já assegurados pelos Direitos Humanos Universais.
Palavras chaves: velhice, envelhecimento, gênero, travesti
9
ABSTRACT
ANTUNES, Pedro Paulo Sammarco Travestis envelhecem? São Paulo: Dissertação de
mestrado em Gerontologia. Programa de estudos Pós-graduados em Gerontologia;
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2010
This study is aimed to understand transgender aging context in Brazil. Aging and
transgender are definitions that were created by society to organize its process of
functioning. Biological sciences played a very important role concerning those
definitions. They created what we call normal and abnormal. Our intention
comprehends in getting to know what happens to those who are considered abnormal on
gender rules. Because there is almost no study considering what is called transgender
aging, this work is socially relevant. Gender and aging are understood to be natural and
essential processes. However, they are performed by repeated actions that make us feel
that gender and aging are inherent and happens exact the same way to everyone. For
being considered deviants, transgender people are not seen as human beings. They end
up living in violent environments. Their life expectancy is low. Many of them do not
believe to reach old age. They face a lot of prejudice and death threat. Those who get to
what we call old age are considered survivals. They become a model to the younger
ones of their social group. This research was able to show satisfactorily their demands
and needs. To be considered visible, they have to count on public policies to give them
existence since their childhood. That way, we believe they will reach what we call old
age with respect as dignity, already assured by the Universal Human Rights.
Key words: old age, aging, gender, transgender
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INTRODUÇÃO
Este estudo trata do envelhecimento de travestis. Com o aumento da população
idosa, as travestis que envelhecem merecem destaque, justamente por ser um segmento
populacional que sofre exclusão em qualquer idade. Pouco se sabe sobre esse período
da vida delas. Mesmo entre os membros de seu próprio grupo. Será que envelhecem?
Se sim, como isso acontece? Optei pelo título dessa dissertação, justamente por ela
refletir a pergunta que me foi feita várias vezes.
Muitos se admiram com o fato de alguém estar estudando esse tema, pois
consideram que as travestis nem mesmo chegam a envelhecer devido a seu estilo de
vida arriscado. Outros acham o tema interessante e ficam se perguntando como será que
é envelhecer como travesti, simplesmente pelo fato de raramente terem visto uma idosa.
Por fim, outra pequena parcela considera o tema bizarro, digno de asco e chacota.
É bem verdade que o preconceito em relação às travestis vem diminuindo
lentamente ao longo dos anos. Os movimentos de lutas pelos direitos de gays, lésbicas,
bissexuais, travestis e transgêneros vem conquistando espaço. Porém, o preconceito
ainda é forte e atua na vida das travestis desde a infância, quando são chamadas de
homossexuais afeminados. As que chegam ao envelhecimento atravessam a vida sendo
alvo de ataques constantes.
Nesse caso, o preconceito advém do processo de organização social que estipula
o que é considerado normal e o que é considerado anormal. Aqueles que não se
enquadram no funcionamento desejado sofrem preconceito. O conhecimento científico
em relação àquilo que chamamos de sexualidade foi sendo construído sobre os corpos e
ditando como esses deveriam ser.
11
A sociedade disciplinar que surgia na Europa por volta do século XVIII, tinha
como objetivo tornar os corpos dóceis e produtivos, corroborando com a Revolução
Industrial. O princípio era vigiar, identificar, classificar, punir e corrigir para extrair
lucros.
Os saberes sobre sexualidade vão sendo constituídos pela religião, ciências
biomédicas, políticas públicas, leis com o objetivo de disciplinar a espécie humana. A
ciência da época encontrava seu financiamento principal nos burgueses capitalistas.
Portanto, sua construção levará em conta a moral que rege esse grupo.
A família passa a ser considerada a célula fundamental de funcionamento do
sistema socioeconômico que surgia na Europa no século XVIII e se espalhava pelo
mundo. A vida será gerida pelas biopolíticas que estipularão regras sobre como se deve
viver para atingir a tão sonhada qualidade de vida. Dentre os aspectos abordados por
essa política está a definição do que seria uma sexualidade normal e saudável. As
práticas sexuais que não atendiam aos padrões eram submetidas à punição e tratamento
para que fossem corrigidas e normalizadas. Travestis ainda são consideradas fora do
padrão de normalidade, pois infringem as normas de gênero que fundamentam a
sociedade.
Após a sociedade disciplinar surge a sociedade de controle. O que importa para
essa sociedade é que haja produção, consumo e reprodução. A prescrição é para que os
corpos sejam sarados, ágeis, adaptáveis e sempre jovens. Portanto, a travesti idosa
significa uma verdadeira resistência diante daquilo que é prescrito socialmente. Pois,
além de não serem jovens, não estão de acordo com as normas.
Tanto o gênero como a velhice são performatizados por meio de atos que
reiterados transmitem a impressão de que há uma espécie de essência fixa e natural, que
se manifesta no corpo de cada um. Esses atos fazem parte do conjunto de
12
comportamentos padronizados para o gênero e velhice. Eles variam conforme a época e
o local.
Nas últimas décadas, os padrões de comportamentos prescritos para o gênero e a
velhice vêm sofrendo modificações. Os idosos atuais são estimulados a fazerem o que
os jovens fazem. Em nome da chamada qualidade de vida, a sociedade de controle não
permite que ninguém envelheça carregando os antigos estigmas de doença e
decadência.
Embora haja pressões para se comportar dessa ou daquela forma, cada um vive
sua velhice de forma singular. As travestis desde pequenas enfrentam muitos
desafios. Muitas sofrem preconceito na própria família, depois na escola, alistamento
militar e mercado de trabalho. Alegam que vão para a prostituição, pois o puderam
estudar e não conseguem ocupação em lugar nenhum.
Reiteram que sem formação escolar, ganham mais reconhecimento
comercializando seus corpos do que tentando se encaixar no mercado formal de
trabalho. Elas precisam investir maciçamente no design e construção de corpos que
sejam lucrativos. Nesse campo, enfrentam risco de morte, pois estão em contato com a
rotina violenta das noites urbanas. As que conseguem ir para fora do país, juntam
dinheiro suficiente para quando voltar, se preparar para a velhice.
É importante lembrar que para as travestis que se prostituem, a velhice chega
quando não podem mais trabalhar. Enquanto seus corpos forem considerados atraentes,
elas continuam atuando. Não há números oficiais, mas segundo relatos, isso pode
acontecer até mais ou menos os quarenta e poucos anos. Esse segmento da população é
invisível em toda a sua trajetória existencial. As que chegam à velhice podem ser
consideradas verdadeiras sobreviventes. Servem de alerta e reflexão para as mais novas.
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Devido à quantidade razoável de pesquisas sobre travestis na infância,
adolescência e idade adulta, fez-se necessário investigar o que acontece ao atingirem o
chamado envelhecimento (Benedetti, 2005; Kulick, 2008; Pelúcio, 2009; Silva, 2007).
Foi encontrado apenas um estudo realizado sobre o assunto, realizado por uma
antropóloga da Universidade Federal de Santa Catarina (Siqueira, 2004). Estudar a
velhice travesti é procurar saber qual o impacto que as marcas físicas do
envelhecimento têm sobre um corpo cuidadosamente construído ao longo da vida para
ser sempre jovem e lucrativo.
Para coleta de dados são utilizadas entrevistas abertas com foco nas histórias de
vida de cada entrevistada. Acredita-se que conhecendo suas trajetórias de vida, é
possível levantar quais são as estratégias de sobrevivência adotadas ao longo do
processo. Além disso, é preciso identificar quais são suas necessidades para a
elaboração de políticas públicas que as amparem não na velhice, como em todos os
momentos de suas vidas.
O que se sabe é que sendo consideradas ininteligíveis desde pequenas,
atravessam a vida inteira como seres invisíveis. A velhice é vista como parte de um
processo de uma vida inteira, que no caso delas é considerado inexistente. Cada uma
envelhece de uma forma, pois cada uma é de uma forma.
Essa pesquisa tem o foco principal na Gerontologia e, portanto é de caráter
interdisciplinar. Busquei dialogar com autores das ciências sociais, biomédicas e
filosofia. Os primeiros dois capítulos tratam justamente de como o controle foi se
apropriando dos corpos individuais para posteriormente se apropriar do corpo da
espécie. Tanto a sexualidade como a velhice foram socialmente construídos em nome
desse controle.
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O terceiro capítulo discorre sobre a abordagem metodológica utilizada para a
realização dessa pesquisa. No quarto capítulo estão transcritas e analisadas a
entrevistas, tendo como referência teórica os primeiros dois capítulos. Para terminar,
seguem as considerações finais apontando sugestões para pesquisas futuras sobre o
tema.
15
CAPÍTUO I
CORPO, CONTROLE E RESISTÊNCIA
1) Revisão de literatura
A filosofia ensina que devemos nos libertar das aparências e ir além das
opiniões e percepções imediatas. Imaginemos então um muro bem alto que separe o
mundo externo de uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe
de luz exterior. Em seu interior permanecem seres humanos que nasceram e cresceram
ali.
Eles ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder locomover-se,
forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de
outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Os prisioneiros julgam
que essas sombras sejam a realidade.
Um dos prisioneiros decide abandonar essa condição e fabrica um instrumento
com o qual quebra os grilhões. Aos poucos vai se movendo e avança na direção do
muro e o escala, com dificuldade enfrenta os obstáculos que encontra e sai da caverna,
descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como também todo o
mundo e a natureza.
No mito da caverna, o filósofo grego Platão (428 a. C. 348 a. C.) faz a
seguinte analogia: a caverna é o mundo das aparências, as sombras equivalem àquilo
que percebemos, os grilhões são nossos preconceitos e opiniões. Portanto o
prisioneiro que se liberta representa o filósofo e a luz do sol a realidade. O instrumento
que quebra os grilhões representa a filosofia.
16
Esse mito é uma metáfora da condição humana perante o mundo, no que diz
respeito à importância do conhecimento filosófico e da educação como forma de
superar da ignorância, isto é, a passagem gradativa do senso comum, enquanto visão de
mundo e explicação da realidade, para o conhecimento filosófico, que é racional,
sistemático e organizado. (Chauí, 2003; Nicola, 2005).
Em geral, não costumamos questionar nossas crenças, pois elas nos parecem
naturais. Algumas vezes acreditamos que algo ocorre quando na verdade o ocorre.
Quando observamos o sol, por exemplo, temos a impressão de que é ele que gira em
torno da Terra. Quando questionamos e buscamos um conhecimento específico sobre o
assunto, percebemos que é a Terra que gira em torno do sol. Portanto é necessário
adquirir uma atitude filosófica diante dos fatos e abandonar o senso comum. A filosofia
serve para não aceitarmos tudo de imediato como se fosse natural.
É natural, por exemplo, pensarmos que alguém que nasce com um pênis, logo
será chamado de menino e vai se identificar com outros meninos, quando crescer vai se
vestir e se comportar como um homem. Por que isso nos parece tão natural e
inquestionável? Afinal, o que é ser menino? O que é se comportar como homem? O que
significa ter pênis? O que significa se identificar com os outros meninos?
Ao filosofar, colocamos o mundo entre parênteses, questionando nossos pré-
conceitos. Uma atitude filosófica implica fazermos as seguintes perguntas ao objeto a
ser estudado: o que é? Como é? Por que é? Para que é? A primeira busca encontrar uma
definição para o objeto do estudo. A segunda busca a estrutura de relações e o
funcionamento do objeto em questão. A terceira busca encontrar a origem e as causas
da existência de nosso objeto. Por fim, a quarta pergunta, nos remete à finalidade do
nosso objeto (Chauí, 2005).
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Sobre o envelhecimento de travestis, por exemplo, a filosofia perguntaria: o que
é uma travesti? O que é o envelhecimento? O que é o processo de envelhecimento de
travestis? Como é o processo de envelhecimento de travestis? Por que ocorre o
processo de envelhecimento de travestis? Para que ocorre o processo de
envelhecimento de travestis?
No entanto, parece natural perguntar sobre as causas daquilo que é considerado
anormal em qualquer campo de estudo. Porém, certa minoria de pesquisadores se
pergunta sobre as causas daquilo que é considerado normal. Poucos se ocupam em
saber como foi o processo de construção da “normalidade”? Por que será que certos
fenômenos e manifestações são considerados normais? Quais são os critérios que
definem o que é “normal”? Aquilo que é considerado normal muitas vezes é
hierarquizado, naturalizado e essencializado, portanto é automaticamente livre de
questionamentos sobre sua constituição.
A filosofia não é um conjunto de opiniões e sim um sistema reflexivo de idéias
fundamentadas em teorias críticas a cerca de conhecimentos e práticas sobre si mesma e
das chamadas ciências humanas, exatas e biológicas. Em plena sociedade grega antiga,
Protágoras (481 a.C. - 420 a.C.), Górgias (483 a.C. - 376 a.C.), e Isócrates (436 a.C.-
338 a.C.) estavam entre os primeiros filósofos sofistas conhecidos.
Esses últimos se compunham de grupos de mestres que viajavam de cidade em
cidade realizando aparições públicas (discursos, etc.) para atrair estudantes, de quem
cobravam taxas para oferecer-lhes educação. O foco central de seus ensinamentos
concentrava-se no logos ou discurso, com ênfase em estratégias de argumentação. Os
sofistas alegavam que podiam “melhorar” seus discípulos, ou, em outras palavras, que a
virtude poderia ser ensinada.
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Diversos sofistas questionaram a sabedoria recebida dos deuses e a supremacia
da cultura grega (uma idéia absoluta na época). Argumentavam, por exemplo, que as
práticas culturais existiam em função de convenções ou nomos, e que a moralidade ou
imoralidade de um ato não poderia ser julgada fora do contexto cultural em que aquele
ocorreu.
A conhecida frase “o homem é a medida de todas as coisas” surgiu dos
ensinamentos sofistas. Uma das mais famosas doutrinas sofistas é a teoria do contra-
argumento. Para eles todo e qualquer argumento poderia ser contraposto por outro e a
efetividade de um argumento estava na verossimilhança (aparência de verdadeiro, mas
não necessariamente verdadeiro) perante uma platéia (Bornheim, 1994; Nicola, 2005).
os céticos, representado principalmente pelo filósofo grego Pirro de Élis (360
a.C. - 275 a.C.) seguia uma linha de raciocínio parecida com os sofistas. Os princípios
de sua obra são expressos, em primeiro lugar, pela palavra acatalepsia, que define a
impossibilidade de se conhecer a própria natureza das coisas. Para ele qualquer
afirmação pode ser contraditada por argumentos igualmente válidos. Ou seja, a cada
afirmação pode-se contrapor outra contraditória, mas com base igualmente coerente.
Qualquer que seja a opinião de alguém, a opinião contrária é tão inteligente e
competente para julgar quanto à primeira.
Em segundo lugar, é necessário preservar uma atitude de suspensão intelectual.
Ou seja, nenhuma afirmação pode ser considerada melhor que outra. Em terceiro lugar,
estes resultados são aplicados na vida em geral.
Sobre a realidade, podemos apenas responder que não sabemos nada. Sabemos
apenas de sua aparência, mas somos ignorantes quanto a sua substância íntima. O
mesmo objeto aparece diferentemente a diferentes pessoas, e assim é impossível saber
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qual aparição é a correta. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais
triviais (Chauí, 2003; Nicola, 2005).
Portanto, o tema a ser abordado nessa dissertação, o envelhecimento das
travestis, será discutido a partir de um determinado ponto de vista em contraposição a
outro determinado ponto de vista, o qual, por sua vez, resultará especificamente, em um
terceiro e determinado ponto de vista. Para isso, pretendo partir das chamadas ciências
biológicas, representadas principalmente pela psiquiatria, psicologia, e ciências da
sexualidade fazendo um contraponto com as chamadas ciências humanas, representadas
principalmente pela sociologia, antropologia e filosofia.
É importante lembrar que não é meu objetivo esgotar o tema e nem encontrar “a
verdade”. muitas formas e muitos ângulos a serem abordados sobre o assunto. Essa
é apenas uma e não a única. Ou seja, conforme afirmam os céticos e sofistas,
dificilmente conseguiremos abordar uma questão, contemplando ao mesmo tempo, a
totalidade de seus múltiplos aspectos. É fundamental que procuremos delimitar o
contexto em que determinada questão estiver sendo abordada. Passado esses
esclarecimentos, podemos dar prosseguimento à dissertação.
Para entendermos em que contexto está a travesti que envelhece, é importante
conhecer, mesmo que brevemente, como se objetivam as instituições sociais, nas quais
estão inseridas, se constroem. A sociedade é um produto humano que se objetiva e age
sobre o homem. O que ocorre é um processo de instituição, exteriorização e
interiorização. Esse último se através da apropriação sem crítica. Já na
internalização, o sujeito se apropria de algo criticamente.
Nossa sociedade é construída por nós e pelo outro por meio da
intersubjetividade. O homem é ao mesmo tempo produto e produtor do social. A cultura
envolve as crenças do ser humano. Não nascemos “humanos”; somos “humanizáveis”.
20
O processo de objetivação social se através dos atos que se tornam hábitos que, por
sua vez, criam padrões que se institucionalizam, tornando-se legítimos. Criamos algo
que ao mesmo tempo nos cria, a sociedade. Portanto, essa dissertação se focará em
dois aspectos que foram institucionalizados pela sociedade: a sexualidade e o
envelhecimento humano, representado aqui pelo envelhecimento de travestis, conforme
já mencionado.
A ideologia existe porque nós a reconhecemos. Determinadas ações são
desejadas por todos. As crenças dão subsídios às instituições, prescrevendo papéis. As
legitimações são justificadas nas instituições. Criada uma realidade objetiva,
mecanismos para mantê-la. Caso haja um rebelde que não se submeta à norma
estabelecida, haverá a tentativa de aplicação terapêutica, com o objetivo de tratar para
corrigir.
Se não for possível corrigir, restará a prisão ou até mesmo o aniquilamento.
Como exemplo, podemos citar a inquisição religiosa que levaram muitos a perderem
suas vidas em praça pública. Geralmente os condenados eram enforcados ou queimados
para servir de “exemplo” para que não houvesse qualquer tipo de transgressão às
normas estabelecidas. A exclusão social se através da eleição de um grupo como
“bode expiatório” dos homossexuais (Berger e Luckmann, 2006).
As travestis, por exemplo, são excluídas e por vezes aniquiladas da sociedade,
pois não se enquadram as normas de gênero estabelecidas. São submetidas a tratamento
para serem corrigidas. as travestis em processo de envelhecimento, sofrem dupla
estigmatização, a de estar envelhecendo, e a de estar envelhecendo como travesti.
A instituição é uma produção lingüística de primeira ordem, pois é uma fala
(discurso) do que é. A legitimização é uma produção lingüística de segunda ordem na
medida em que “fala” porque é. Através da linguagem e da socialização, incorporam-se
21
as instituições. Uma instituição é um conjunto de significados articulados. A sociedade
está sempre lidando com conflitos de interesse e, frente a isso, as decisões são tomadas.
As ideologias são jogos de poder.
A sociedade moderna é marcada, a um tempo, pelo individualismo e pelo
pluralismo. O sentido é constituído subjetivamente e objetivado intersubjetivamente. As
instituições dão sentido a tudo. Se antes eram as instituições religiosas, atualmente são
as financeiras (Berger e Luckmann, 2004 e 2006).
para Goffman (1989), ocupamos um lugar na sociedade e desempenhamos
papéis; uma platéia vai nos observar e avaliar. Os atributos considerados “imorais” e
“patológicos” servirão para estigmatizar. Nas políticas de identidade, o especialista diz
para o grupo como ele deve agir. No caso das travestis em processo de envelhecimento,
por exemplo, as ciências médicas e psicológicas (psiquiatria e psicologia) irão
categorizá-la e discipliná-las de acordo com uma determinada forma específica, que
veremos mais adiante.
Por meio das ciências da sexualidade, foi institucionalizado um padrão de
comportamento. Isso ocorreu por volta do final do século XVIII, na Europa Ocidental.
O principal especialista encarregado dessa tarefa foi a psiquiatria, como ramo de
especialidade da medicina.
É como se houvesse uma espécie de essência/verdade que estivesse latente e
oculta, pronta para ser descoberta, em cada organismo de cada ser humano. Os
discursos médicos foram tão naturalizados, que é como se “a sexualidade humana”
fosse uma espécie de composto natural aderido ao corpo biológico da espécie. Poucos
questionam, pois ela parece ser óbvia e estruturante.
Foi então definido, que cabem somente as ciências biológicas, representadas
aqui principalmente pelas ciências biomédicas, a tarefa exclusiva de descobrir e revelar
22
aquilo que estava encoberto. Ou seja, é como se a única verdade estivesse apenas no
que os saberes da medicina colocam como tal.
Conforme vimos inicialmente, através do pensamento filosófico da escola
sofista e cética, a verdade se constrói de muitas maneiras. Isso depende das complexas
relações de poder que a produzem e do ângulo que cada questão é abordada ao ser
construída dessa ou daquela forma. Não estou querendo dizer com isso que a
sexualidade não exista. Apenas quero colocar que ela não é naturalmente dada. Ela foi e
está sendo construída a cada dia. É tão sólida quanto uma rocha, pois se materializa e
organiza a vida das pessoas. Os sexos não são opostos, eles foram construídos
socialmente dessa forma, como forma de organizar o funcionamento social.
1.1) Relações de saber-poder
Segundo Geertz (1989) o homem tem necessidade de se organizar e criar regras
para o contexto em que vive. Caso contrário, sua vida seria um caos. Isso é a cultura.
Não natureza por si só. Ela é imediatamente mediada pela cultura. O olhar
antropológico se volta para a diversidade das culturas. É difícil traçar uma linha entre o
que é natural, universal, constante no homem, e o que é convencional, local e variável.
A antropologia se preocupa em compreender quais são os traços culturais essenciais à
existência humana e quais aqueles que são apenas adventícios, periféricos e
ornamentais.
Alguns aspectos parecem ser universais. Todas as sociedades, a fim de
persistirem, precisam reproduzir seus membros ou alocar bens e serviços. O que resulta
em alguma forma de família ou troca de produtos. Todas parecem ter algum tipo de
religião. Psicologicamente, os indivíduos recorrem às necessidades básicas como o
23
crescimento pessoal por meio das instituições educacionais. Biologicamente o
metabolismo e a saúde. Culturalmente, os hábitos alimentares e os processos de cura.
Para compreender o homem é preciso procurar relações sistemáticas entre
fenômenos diversos. É importante que fatores biológicos, sociológicos e culturais
possam ser tratados como variáveis dentro dos sistemas unitários de análise. A cultura é
vista não apenas como padrões complexos de comportamentos e sim como um conjunto
de mecanismos de controle para governar o comportamento. Comparando com as
ciências da computação, os padrões culturais seriam os programas (softwares) a serem
instalados. os corpos humanos seriam as máquinas (hardwares), onde esses
programas (softwares) seriam instalados por meio das relações sociais.
O ser humano depende de mecanismos de controle para ordenar seu
comportamento, pois se não fossem esses sistemas organizados de símbolos
significantes, seu comportamento seria virtualmente ingovernável. Ou seja, um simples
caos de atos sem sentido e explosões emocionais. Sua experiência o teria nenhuma
forma ou sentido. A cultura não é apenas um ornamento ou totalidade acumulada de
tais padrões. Ela é a principal base essencial de sua especificidade. O que nos interessa
nessa dissertação é saber qual é o resultado do impacto da cultura brasileira sobre os
corpos das chamadas travestis idosas.
Cada sociedade constrói seu regime e verdade, fazendo com que seus indivíduos
mostrem uns aos outros e a si mesmos quem são. Isso ocorre por meio da produção e do
funcionamento de discursos convenientes a determinada época e local (Foucault apud
Mansano, 2007).
Travestilidade e envelhecimento são duas categorias que foram naturalizadas e
construídas ao longo dos tempos, conforme as necessidades de organização da
sociedade. Ao nos referirmos a elas, temos a sensação de que sempre existiram da
24
forma como as conhecemos. Porém, o conjunto de conhecimento que as definiram, tal
como as conhecemos começou a se formar com o advento da sociedade disciplinar, por
volta do século XVIII, no continente europeu.
Cada enunciado a respeito daquilo que seria uma travesti idosa acaba criando a
própria travesti idosa, ou seja, o enunciado sobre determinando objeto cria o próprio
objeto do saber. A travesti idosa não existe como uma espécie de substância posta e
natural que será descoberta por determinado cientista. Nesse caso não have uma
descoberta, mas apenas uma definição, reprodução e disseminação de saberes que
existem sobre a travesti idosa. Falar não é ver necessariamente o que acontece. O
enunciado nem sempre reflete o mundo real, mesmo porque a realidade também é
construída por meio de enunciados daqueles que os emitem. A questão sempre é
abordada e definida conforme o ponto de vista teórico adotado.
É interessante perceber que aquilo que é dito, emite determinado efeito de
“verdade” que não existe fora de determinada relação de poder. Não há discurso isento
de qualquer relação de poder que o produz. Para isso é preciso compreender o regime
de “verdade” de uma determinada época. Portanto, nenhuma “verdade” é neutra,
soberana e imutável (Foucault, 2008a).
Depois desses esclarecimentos, vamos tentar compreender como essas
“verdades” foram produzidas ao longo dos tempos. A partir do século XVI, na Europa,
a ciência passou a se preocupar em observar, descrever, catalogar e classificar os seres
vivos. por volta do século XVIII, a grande preocupação era o estudo da vida como
um todo. Por volta do século XIX surge o ramo da ciência especializado em estudar
esse assunto: a biologia. Uma das formas de exercer controle é por meio da
sistematização e especificação do conhecimento (Foucault, 1993).
25
Essa preocupação em controlar se justificava, porque a produção de
conhecimento não estava desassociada do seu contexto sociocultural e histórico. Na
Europa Ocidental daquela época, havia grande êxodo rural por causa do capitalismo
burguês e da Revolução Industrial. Por razões sociais e econômicas, as cidades estavam
recebendo um grande número de pessoas muito rapidamente.
Era necessário um conhecimento e ordenamento dessas populações para que
elas se adequassem ao novo sistema político e econômico que surgia: o capitalismo
industrial, agora incorporado ao capitalismo comercial. O processo de urbanização
gerou pressão, anonimato e a criação dos chamados “desviantes” que não se adequavam
às normas reguladoras do funcionamento social capitalista e urbano. Assim, por
exemplo, o desempregado passou a ser patologizado de “vagabundo” e a prostituta de
“compulsiva sexual”, ou seja, em geral, aquele que não fosse economicamente
produtivo e biologicamente reprodutivo, era considerado “anormal”.
O conceito de desvio consolidou-se com o de degeneração hereditária no meio
médico e criminológico como algo anormal, incapacitante e de origem biológica. Seus
maiores teóricos foram o médico italiano Cesare Lombroso (1835 - 1909), ligado aos
estudos criminológicos, e o psiquiatra e sexólogo alemão Richard von Krafft-Ebing
(1840 - 1902). A idéia de eugenia (do grego eu, “bem”, genia, “nascido”) vai sendo
instaurada no contexto sociocultural. O termo foi cunhado pelo cientista inglês Francis
Galton (1822 - 1911) que definiu eugenia como o estudo dos agentes sob o controle
social que podem “melhorar” ou “empobrecer” as qualidades raciais das futuras
gerações física e mentalmente.
Acreditava-se que qualquer defeito” em questão estava localizado no código
genético do indivíduo e não nos processos socioculturais e históricos que o produziram.
Questões sociais eram justificadas por meio do determinismo biológico. Para o
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sociólogo canadense Erving Goffman (1922 - 1982) era importante modificar a
perspectiva hegemônica sobre o desvio e passar a focar os normais e as regras de
normalidade socialmente prescritas. Para esse teórico, o conceito de desvio se tratava
da diferença entre as normas sociais estabelecidas e aquilo que estava sendo analisado.
Caso não houvesse o “perfeito enquadramento” ao padrão, o sujeito seria considerado
um desviado.
A partir do conceito de eugenia e degeneração hereditária, foi sendo incentivada
a segregação de grupos considerados anormais, desviantes e inferiores. Esse processo
contribuiu para desembocar na eugenia nazista e no holocausto da segunda guerra
mundial (1939 - 1945). O objetivo era eliminar aqueles que eram considerados
marginais em vez de eliminar o processo de marginalização. Travestis idosas, por
exemplo, ainda são consideradas desviantes e marginais, por isso vistas como alvo de
“extermínio” em nome da “purificação social” que atende a conceitos eugênicos
(Miskolci, 2005).
Diversos tipos de comportamento e formas de ser sempre existiram, porém
nunca tinham sido problematizados. Por meio das relações de poder e comando, as
pessoas controlavam e eram controladas por um complexo conjunto de forças. Tratava-
se de uma produção coletiva, na qual cada indivíduo comparecia como co-produtor. Da
mesma forma que as pessoas pertenciam a um dispositivo, elas também resistiam,
contribuíam, reproduziam e transformavam esse aparato.
Para o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) o que interessava saber era
como tal poder de categorização era exercido. Quais eram seus mecanismos? Quais
eram as tecnologias e dispositivos que incidiam sobre a vida das pessoas? Como
ocorriam as relações de poder? Como tais relações poderiam ser interceptadas? Qual o
efeito que elas produzem? (Foucault, 2007).
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Quando Foucault fala em dispositivo, refere-se a determinada maneira de
dispor, ordenar e posicionar estrategicamente sujeitos e equipamentos. Formas
específicas de saber são produzidas e por sua vez subsidiam programas institucionais,
regras de conduta e os diversos procedimentos de normalização. São redes de relações
que podem ser estabelecidas entre elementos heterogêneos.
Fazem parte desses elementos discursos, instituições, arquitetura, regramentos,
leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas,
filantrópicas o dito e o não dito. O dispositivo estabelece a natureza do nexo que pode
existir entre esses elementos. Além de participarem na produção de subjetividades, eles
podem ser acionados em qualquer lugar, por qualquer pessoa e a qualquer momento
(Castro, 2009; Mansano, 2007).
Por exemplo, tanto o idoso como a travesti são resultados de relações de poder
entre esses elementos que acabaram produzindo os sujeitos como os conhecemos na
atualidade. Procurar entender o processo de produção desses sujeitos é um de nossos
desafios.
O dispositivo disciplinar uniformaliza, universaliza, homogeniza e controla. É
uma relação de poder. O conceito de indivíduo acaba sendo uma fabricação do poder
disciplinar que o toma como uma unidade evidente. Para isso ele necessita ser criado
para que atenda a uma demanda, voltada para determinado fim.
O indivíduo é atravessado por relações de forças que o produzem. Os corpos
estão impregnados pelo poder disciplinar. É importante lembrar que podemos entender
aqui a palavra corpo como sendo todos os corpos materiais (todas as estruturas físicas
orgânicas e inorgânicas), e os corpos imateriais (todos os pensamentos, ações, idéias,
linguagens, normas, políticas, leis, sentimentos e subjetividades). Travesti e idoso, por
exemplo, são corpos socialmente construídos e originários do poder disciplinar.
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As relações de poder engendram novas formas de saberes. Criam verdades que
reforçam as relações existentes. um primado das relações de poder sobre o saber.
Depois o próprio saber acaba reforçando as relações de poder que o produziu. O efeito
é atingir a vida das pessoas nos mínimos detalhes ditando como elas devem proceder no
seu cotidiano.
O objetivo é massificá-las para determinado propósito: controle, consumo,
produção e acúmulo de riquezas. Trata-se de uma espécie de seqüestro que se apropria
do tempo, do corpo, do comportamento com o objetivo de extrair mais saberes. Esses
por sua vez servirão de sustentação para a manutenção e o aperfeiçoamento do
exercício do poder sobre esses mesmos sujeitos. Com o conhecimento do seu
mecanismo de manipulação, torna-se possível interceptar seu exercício. Controle e
resistência se dão ao mesmo tempo.
O poder não está em ninguém que o exerce. Ele não se localiza em um só lugar.
É múltiplo, móvel e descentralizado. As instituições são apenas pontos terminais do
poder e fundadas por ele. O discurso funda e produz o objeto em questão. O poder não
tem uma forma específica, ele cria formas. A travesti idosa, por exemplo, é uma forma
criada pelas relações de poder, especialmente pelo poder médico (Foucault, 2007 e
2008b).
1.2) Sociedade disciplinar
Foucault começa descrevendo de que forma o poder era exercido em
determinadas situações históricas. Em uma delas, por meio de exames, eram
combinadas técnicas de hierarquia que vigiavam e sanções que normalizam. O exame
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ainda servia para qualificar, registrar e armazenar. Escalas de normalidade e
anormalidade são criadas e baseadas nos dados coletados.
Para explicar esse contexto, Foucault cita um exemplo ocorrido na Europa. Na
situação de epidemias e pestes tudo era vigiado. Isso aconteceu, por exemplo, durante a
peste negra no século XIV, que foi responsável pela mortalidade de cerca de um terço
da população mundial da época. O objetivo era ordenar e evitar as misturas. O poder
disciplinar faz ver. Nada pode ficar obscuro. O procedimento era o de localizar,
identificar, catalogar, individualizar e separar os corpos “pestilentos” dos corpos
“saudáveis”.
O indivíduo considerado doente não é naturalmente dado. A doença é o
resultado de um conjunto de enunciados do poder disciplinar que a define como tal.
Isso também acontece com as chamadas travestis idosas. São consideradas doentes pelo
código internacional de doenças.
Voltando ao caso da peste, os corpos identificados como infectados seriam
tratados e “corrigidos” para serem, novamente considerados “normais” e “saudáveis”.
Na situação de peste tudo era controlado e governado. Já na situação de lepra, por
exemplo, os corpos eram identificados e isolados. O objetivo era que eles fossem
eliminados, pois na época não havia terapêutica eficaz contra a lepra. Nesse caso há o
sonho de uma sociedade pura.
A partir da Revolução Industrial ocorrida na Europa ocidental, não era mais
interessante tratar aqueles que eram considerados anormais como se fossem “leprosos”.
Era mais rentável financeiramente tratá-los como “pestilentos”. Dessa forma seriam
incluídos ao sistema e receberiam tratamento. Se fossem excluídos e eliminados
provocariam diminuição no número de consumidores em potencial. Isso não era
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interessante ao capitalismo burguês industrial que se afirmava como sistema econômico
hegemônico mundial.
A travesti idosa, por exemplo, é considerada uma anormal pela sociedade e
recebe o tratamento, pois se encontra em situação de “pestilenta”. Dessa forma, é
incluída pelo sistema social quando recebe um diagnóstico médico, denominado de
“transtorno de identidade de gênero”. Tal diagnóstico pressupõe certa terapêutica a ser
adotada, assim como na situação de peste, acima citada. Por vezes a travesti idosa será
tratada como uma “leprosa”. Aí será excluída da sociedade pelo outro ou por si mesma.
Tal exclusão pode ocorrer através do isolamento ou até mesmo de atitudes
preconceituosas de violência sutil ou direta.
Conforme visto, mudanças sociais ocorridas na Europa nos séculos XVIII e XIX
levaram a alterações no jogo de poder, que foi sendo gradativamente substituído pelo
que Foucault denomina de sociedades disciplinares, as quais atingiram o seu apogeu no
século XX. A passagem de uma forma de dominação a outra ocorreu quando a
economia do poder percebeu ser mais eficaz e rentável vigiar, ao invés de punir
(Foucault, 2007).
A existência de mecanismos disciplinares é anterior ao período que Foucault
denominou como sociedade disciplinar, mas antes existiam de forma isolada,
fragmentada. O padrão de visibilidade das sociedades disciplinares projetou-se no
interior dos prédios das instituições, que passaram a ser construídos para permitir o
controle interno.
Na sociedade disciplinar os espaços são disciplinados através das instituições
que fazem parte e organizavam as relações de poder na sociedade. Escolas,
universidades, hospitais, fábricas, clubes, orfanatos, quartéis, prisões, edifícios públicos
são alguns exemplos de instituições disciplinadoras. Os corpos são dispostos em
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espaços fechados e transpassados pela física dos poderes. São submetidos à ótica,
mecânica e fisiologia do poder. Suas existências e comportamentos são
microscopicamente esquadrinhados e qualificados.
O objetivo inicial da sociedade disciplinar era extrair desses corpos obediência,
doçura, resignação, produtividade e lucratividade para o sistema capitalista industrial
que se definia como sistema econômico vigente. Era preciso seguir um conjunto de
normas que estabeleciam uma série de medidas bastante precisas. Tinham como
objetivo estabelecer uma seqüência determinada do comportamento e adestramento dos
corpos. Foram instituídos diversos procedimentos normalizadores do comportamento.
Foucault inicia seus estudos sobre sociedade disciplinar por meio de um modelo
prisional ideal proposto pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748 1832) em 1785
que foi chamado de panóptico. Como fonte de inspiração na tentativa de um controle
total, o panóptico tem suas raízes no esquema de quarentena que era empregado no
século XVII. Em caso de epidemia, a exemplo da peste negra citada acima, a cidade era
fechada e todos os animais errantes (cachorros, gatos e outros) eram mortos.
As pessoas eram trancadas em suas casas e proibidas de sair sob pena de morte.
Dividia-se a cidade em quarteirões que eram guardados por um intendente. Cada rua
estava sob a vigilância de um síndico que vinha pessoalmente trancar todas as casas.
Ele tinha uma lista de nomes de todos os moradores de cada uma das casas da vila,
assim como o prefeito. A comida era entregue por roldanas.
Havia corpo de guarda nas portas da prefeitura e em todas as ruas. Todos eram
obrigados, diariamente, a aparecer na janela e informar seu estado de saúde ao síndico e
prestar informações sobre os doentes e os mortos. Qualquer sonegação de informação
era sumariamente penalizada com a morte. Os registros dessa vigilância, realizada em
bases permanentes, subiam a hierarquia de autoridades da comunidade.
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Preparados pelos síndicos chegavam até o prefeito, depois de passar pelos níveis
intermediários da burocracia local. Máximo controle que, entretanto, não era exercido
predominantemente de modo visual em todos os momentos. Não visava a controlar
todas as ações dos encarcerados, senão primordialmente sua circulação, o que exigia
significativa alocação de recursos para sua manutenção.
O ponto-chave no avanço imaginado por Bentham era exatamente possibilitar
total controle visual e, se possível auditivo, a ser exercido sobre indivíduos presos a um
espaço perfeitamente delimitado. O conceito do desenho arquitetônico do panóptico
permite a um vigilante observar todos os prisioneiros sem que estes possam saber se
estão ou não sendo observados. Ou seja, quem é vigiado, adquire o olhar de quem vigia,
pois a partir disso começa a se vigiar. No design proposto por Bentham, os custos
seriam menores em relação às demais prisões da época. Isso se explica, pois esse novo
sistema prisional contaria com menos empregados, destinados a vigiar so presos.
Para Bentham, é a consciência permanente, por parte do indivíduo controlado,
do seu estado de visibilidade contínua que garante a eficiência, mais que o simples
funcionamento do poder. É fundamental saber-se vigiado, mesmo na impossibilidade
de determinar o momento e o autor da vigilância. Esta é simbolizada pela onipresença
inafastável e inverificável da torre central.
O termo panoptismo, como foi denominado posteriormente, aplica-se também
ao sistema de vigilância de outros tipos de instituições que surgiam na época. Nelas,
haveria uma torre de observação localizada no pátio central não da prisão, como
também do manicômio, escola, hospital, quartel e fábrica. Aquele que estivesse sobre
esta torre, poderia observar todos os presos da cadeia (ou os funcionários, loucos,
estudantes, etc), tendo-os sob seu controle.
33
A estrutura da prisão incorpora uma torre de vigilância no centro de um edifício
anular que está dividido em celas. Cada uma destas celas compreende uma superfície
tal que permite ter duas janelas: uma exterior para que a luz possa entrar e outra interior
dirigida para a torre de vigilância. Os ocupantes das celas se encontrariam isolados uns
de outros por paredes e sujeitos ao escrutínio coletivo e individual de um vigilante na
torre que permaneceria oculto. Para isso, Bentham não imaginou persianas e
venezianas nas janelas da torre de observação, mas também conexões labirínticas entre
as salas da torre para evitar clarões de luz ou ruído que pudessem delatar a presença de
um observador.
O tríplice aspecto do panoptismo: vigilância, controle e correção, fundamentam
as relações de poder em nossa sociedade. Câmeras de vigilância que vigiavam apenas
presidiários, agora estão presentes em estabelecimentos comerciais, universidades,
igrejas, ruas, parques e diversos outros lugares. Tornaram-se parte da paisagem, em
nome da segurança de todos.
O termo panoptismo é utilizado na obra Vigiar e Punir história da violência
nas prisões do filósofo francês Michel Foucault que foi publicada originalmente em
1975, para tratar da sociedade disciplinar, e pelos teóricos das novas tecnologias para
designar o possível controle exercido pelos meios de comunicação sobre seus usuários.
(Barton e Barton, 1993; Foucault, 2007)
Traçando um paralelo entre o modelo de panoptismo proposto por Bentham e as
instituições sociais que surgiam na Europa a partir do século XVIII, Foucault esclarece
que para que a sociedade disciplinar funcionasse eficazmente, os corpos precisavam ser
discriminados para que o poder fosse exercido de forma minuciosa. Tal discriminação
era feita por meio da vigilância do corpo no espaço e no tempo. A observação,
34
descrição, anotação, classificação, categorização e localização do corpo, possibilitavam
que eles fossem controlados.
Na lógica do funcionamento da sociedade disciplinar é preciso institucionalizar
para disciplinar e incluir. A inclusão ocorre com objetivo de controlar. Incluir as
minorias (pestilentos) seja ela qual for, é uma estratégia de controle sobre os
“excluídos”, como acontece com as travestis.
Justamente por ter sido transformado em indivíduo que a pessoa fará parte de
um coletivo específico que estará sobre o controle de uma instituição e de um saber que
a comanda. É aí, por exemplo, que o coletivo de travestis idosas receberá uma
classificação e o tratamento de uma instituição hospitalar.
Para isso é preciso que haja um especialista, no caso o psiquiatra, responsável
por tal terapêutica. As especialidades existem para categorizar e disciplinar em relação
a uma norma estabelecida. É criada para controlar aquilo que foi denominado de
travesti, por exemplo, foi a sexualidade humana. O ramo da medicina criado para
controlar aquilo que foi denominado de velhice foi a geriatria. Ambas derivam da
biologia, medicina e psiquiatria (Castro, 2009; Foucault, 2008).
As práticas sexuais que não estivessem de acordo com a norma da procriação e
de gênero foram sendo observadas, descritas e catalogadas. A travesti, por exemplo, é o
resultado de um híbrido entre duas categorias psiquiátricas que surgiram: o
homossexual e o hermafrodita. O primeiro foi considerado anormal, pois sua prática
sexual não está de acordo com as normas de procriação de novos
consumidores/produtores. o segundo, além de não estar de acordo com as normas de
procriação, não está de acordo com as normas de gênero. Tais normas foram
convencionadas, com o objetivo de atender a um determinado tipo de organização
35
econômica e social adotada. Essas por sua vez respondem à determinada proposta de
funcionamento social.
A norma, nesse caso, nos faz acreditar que é como se houvera uma espécie de
“essência” de gênero coerente e natural que estaria dentro de cada um de nós. Tal
coerência se dá entre o sexo biológico e o gênero identificado. Logo cabe ao sujeito,
apenas manifestar essa “essência” coerente ao longo da vida. Lembrando que de acordo
com essa lógica, homens manifestam a “essência masculina”. as mulheres,
manifestam a “essência feminina”. Com base nessa forma de pensar, a travesti idosa é
considerada uma resistente inexistente, pois manifesta outra “essência”, uma “essência
incoerente”. Para sociedade, a travesti idosa simplesmente não é possível de existir.
O gênero é produzido e convencionado de acordo com as necessidades sociais
de organização em uma determinada cultura e época. Ele nada mais é do que um
conjunto de enunciados que determinam um padrão de comportamento construído
socialmente. No caso da nossa sociedade temos aquilo que foi denominado de gênero
masculino e aquilo que foi denominado de gênero feminino.
Com a velhice acontece o mesmo. Ela nada mais é do que um conjunto de
enunciados que determina uma série de comportamentos padrões e esperados para esse
segmento da população. Tal padronização em relação à velhice varia conforme o local e
a época em questão.
Por razões econômicas e sociais esse segmento da população vem recebendo
muita atenção ultimamente. O idoso passou a ser categorizado e classificado, pois além
de seu número estar aumentado, ele não é avaliado como produtivo pela sociedade
atual. Outro aspecto considerado motivo de categorização, é o fato dele também não se
reproduzir. A reprodução contribui para o aumento da população de novos
consumidores e geradores de riquezas. Assim como as travestis, os idosos também
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foram transformados em “pestilentos”. A sociedade tenta “tratá-los” para que eles
continuem consumindo e produzindo. Diversos produtos comerciais estão sendo
criados especificamente para esse segmento da população.
Apesar de todos os esforços para adequar e integrar aquele que é considerado
idoso, ele ainda é estigmatizado como gerador de despesa por conta da aposentadoria,
por exemplo. Quanto maior o número de idosos, maior o orçamento previdenciário.
Considerando que a taxa de natalidade e de mortalidade estão diminuindo no Brasil, o
número de idosos está aumentando. Além disso, o idoso não se encaixa nos modelos
padronizados de sujeitos idealizados pela sociedade de controle. Não são considerados
ágeis, rápidos, vorazes, competitivos, independentes e produtivos. Por não serem
considerados assim, serão tratados para que se tornem assim.
Na sociedade de controle, a qual todos nós estamos inseridos, caracteriza se pela
volatilidade, competitividade, individualidade, rapidez, mudança e por ser facilmente
modulável e ajustável aos sistemas de poder que a controlam. Existe preconceito contra
aqueles que não são moldáveis, rápidos e flexíveis. O idoso geralmente costuma sofrer
o estigma daquele que é lento, rígido, sistemático, metódico, dependente e inflexível.
O corpo idealizado produzido pela sociedade de controle é o corpo sarado,
magro, “bonito”, independente, sempre jovem e “saudável”. O corpo produzido pela
sociedade disciplinar é o corpo cil e obediente. Estamos vivendo exatamente a fusão
entre a sociedade disciplinar com a sociedade de controle.
Após a categorização dos corpos em travesti e idoso, por exemplo, será feita a
tentativa de disciplinar tais corpos para que esses correspondam às normas vigentes.
Elas estão principalmente voltadas para os fluxos de funcionamento mercadológicos e
sociais estabelecidos.
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Para que isso ocorra de maneira eficaz, uma terapêutica é configurada para tratar
e corrigir tais corpos considerados inadequados. De maneira geral, o idoso será
pressionado a tentar se adequar aquele que é considerado o modelo ideal pela sociedade
de controle: o jovem sarado, bonito, ágil, produtivo, flexível, independente e
consumista. Já a travesti idosa irá tentar se adequar a mulher jovem, sarada, bonita, ágil,
independente, flexível, consumista e produtiva.
Definir o que é a velhice da travesti acaba sendo um mecanismo de poder, pois
traz consigo um repertório de padrões que a configura como tal. Ou seja, toda produção
de saber tem o poder de criar formas. Ele está relacionado a uma estrutura de poder.
Cria modelos normatizadores de como se “deve” viver. Está de acordo com aquilo que
é definido como sendo “normal” e desejado. Ser travesti e idosa não é considerado
“normal” e desejado.
Com a crise das instituições de confinamento, como prisão, hospital, fábrica
escola e família, são discutidas reformas nesses sistemas. É preciso pensar outras
formas de controle que contemplem a diversidade de situações que vem surgindo desde
a última metade do século XX (Deleuze, 1992).
O que tem ocorrido é uma grande produção e disseminação de conhecimentos
pelas diversas áreas do saber para um grande número de pessoas ao mesmo tempo. Elas
também estão convocadas a participar do processo de reforma das instituições. O
indivíduo sai da condição de obediente e dócil, passando a assumir a condição de
“cidadão” ativo e responsável. Isso se por meio de uma rede ampla e complexa de
controle, em que controla e ao mesmo tempo é controlado.
Na sociedade de controle, a noção de identidade se fragmenta. A pessoa continua
sendo consumidora fora da loja, estudante fora da escola e funcionária fora da empresa.
Com o advento dos computadores portáteis, internet e celular: loja, escola e empresa
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estão em todo o lugar, em todas as horas do dia. O funcionário continua conectado a ela
e sendo “forçado” a trabalhar mesmo em dias de folga. O estudante continua a estudar,
mesmo fora da instituição escolar. O consumidor continua consumindo, quando acessa
endereços eletrônicos de lojas do mundo inteiro, a qualquer hora e lugar. Os produtos
serão sempre entregues em seu domicílio, mediante o pagamento de uma taxa extra,
facilitando ainda mais o consumo voraz (Mansano, 2007).
1.3) Biopoder
Outra forma de controle a ser exercida é por meio de um dispositivo que foi o
biopoder. A sociedade disciplinar se preocupava com o controle individual dos corpos.
Já a política do biopoder se ocupa com o controle do corpo da espécie.
Entre os séculos XVII e XIX, consolidou-se na Europa Ocidental o processo
pelo qual os padres e os representantes religiosos ficavam responsáveis por organizar e
gerenciar o mundo privado e individual. Enquanto isso, a ordem pública agora era
organizada e gerenciada por cientistas. Tanto o corpo individual como o corpo
“espécie humana” serviram de base para a manutenção do estado burguês industrial que
surgia.
Os soberanos das nações não mais causavam a morte e sim a manutenção,
controle e o gerenciamento da vida. As biopolíticas irão estabelecer a ponte entre o
cotidiano das pessoas e o saber científico por meio dos chamados especialistas do corpo
(Leite Junior, 2008).
Na passagem da sociedade de soberania para a sociedade disciplinar surge a
idéia de que é preciso defender a sociedade. Não mais de um povo contra outro povo
distinto, ou mesmo de uma etnia contra outra etnia. A questão se pela criação da
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noção de um único grupo mais homogêneo, identificado como sociedade. Ela como um
todo deve controlar e evitar todo o tipo de “degeneração própria”. certa ambição
para que esta sociedade se mantenha em constante processo de “purificação”.
Isso servirá como uma das dimensões fundamentais da normatização social. A
noção moderna de racismo, por exemplo, surge como discurso de base para auxiliar o
Estado e as instituições sociais na vigilância e eliminação daqueles que são
considerados divergentes sociais e “inimigos internos” que ameaçam o funcionamento
“ideal” da sociedade (Foucault, 2000).
É justamente nessa época que surgem os conceitos biológicos de “espécie
humana” e “população”. Depois de criados tais conceitos, esse dispositivo de poder vai
incidir sobre a coletividade, controlando justamente aquilo que criou: a espécie humana
e a chamada população. Vai gerir a vida aumentando a potência dos corpos, para que
esses produzam e consumam ainda mais. Ainda promove a diminuição dos riscos de
morte, prometendo uma espécie de juventude eterna e saudável para sempre.
A biopolítica foi um elemento indispensável para o desenvolvimento do
capitalismo. Serviu para assegurar a inserção controlada dos corpos no aparato
produtivo e para ajustar os fenômenos populacionais ao processo consumista. O
investimento sobre o corpo vivo, sua valorização e a gestão distributiva de suas forças
são indispensáveis para atingir seu objetivo (Foucault, 2008d e 1993).
O biopoder é composto de tecnologias de segurança com o objetivo de evitar os
riscos de morte, doenças, o aleatório, modificando o destino biológico da espécie. É
uma política que propõe o exorcismo da morte, a promoção da saúde e a boa qualidade
de uma vida longa. Aquilo que envolver qualquer risco de morte será considerado
resistência ao biopoder.
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Portanto, será combatido e eliminado através de maciço investimento em
políticas públicas de saúde e prevenção de patologias, através de constantes exames
médicos e laboratoriais. Tais estratégias procurarão capturar o máximo de corpos
possíveis, movimentando altas cifras financeiras em remédios, cosmética, produtos,
serviços e tratamentos de saúde. Padrões de saúde física e mental são estabelecidos com
o objetivo de serem seguidos obsessivamente. Aquele que não se adequar sofrerá
pressões por parte da indústria de remédios para que se adéqüe.
Assim, por exemplo, todos deverão estar sempre felizes. A felicidade foi
considerada algo esperado, bom e saudável. Caso haja qualquer tipo de alteração de
humor, por mínima que seja, será imediatamente capturada pelos mecanismos
normalizadores e normalizadores do biopoder. A quantidade de sintomas psiquiátricos,
que formam as síndromes e transtornos psiquiátricos, além de aumentarem de tempos
em tempos, conta com o seu respectivo antídoto: o remédio normalizador. A
indústria farmacêutica movimenta altas cifras financeiras no mundo inteiro em nome da
a “qualidade de vida” ideal. Todos acabam sendo alvo de controle. As travestis idosas
geralmente são capturadas pela indústria da beleza, estética, moda e saúde.
Os veículos midiáticos participarão ativamente na disseminação de modos de
vida considerados adequados para atingir a “qualidade de vida” adequada. Esse termo
está associado a um repertório padronizado de comportamentos desenvolvidos em
nome do bem-estar, segurança e vida longa com “qualidade”. A indústria da saúde,
maior beneficiada, movimenta bilhões de dólares anualmente no mundo inteiro. A
gestão da vida se transforma em um negócio altamente lucrativo. Não basta os cuidados
básicos com a saúde, agora é preciso investir em programas de prevenção e estética dos
corpos. Travestis idosas serão obrigadas a se manter sempre jovens, belas e saudáveis,
caso isso não aconteça, o preconceito já sofrido, será ainda maior.
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Várias áreas e profissões se beneficiam economicamente dessa política. A mídia
ajuda na disseminação das biopolíticas de forma maciça. Os meios de comunicação
estão todos interligados, facilitando assim, o controle maior das pessoas. Especialistas
de diversos setores do conhecimento, especialmente da área da moda, saúde e estética
irão recomendar como se deve agir, comer, dormir, exercitar, relaxar, trabalhar,
namorar, vestir, viajar, planejar, investir, comprar, interagir, rezar, sentir e viver para
atingir tal qualidade.
Graças à biopolítica, por exemplo, a população idosa, está sendo estimulada e
controlada a viver em maior número, melhor e por mais tempo. A velhice está
recebendo atenção enquanto coletivo. É considerado estatisticamente o período do
processo de vida onde a saúde e a longevidade se tornam mais ameaçadas pela morte: a
maior inimiga do biopoder. Por conta disso o idoso acaba sofrendo investimento
significativo de biopoder, para que sua vida seja mais longeva e saudável.
Aquilo que é considerado doença, além de ser inimiga do biopoder, traz prejuízo
financeiro que são mostrados nos diversos meios de comunicação, acompanhados
sistematicamente de estudos estatísticos, referentes ao tema. O biopoder manipula as
pessoas através do medo que elas têm da decrepitude e da morte. Ele lida com o nosso
instinto de preservação que no geral é bem forte. Velhice, inutilidade, dependência,
decrepitude, doença e morte são diretamente associadas por crenças populares.
Para que o fracasso do biopoder seja evitado, é necessário o mapeamento da
vida em seus mínimos detalhes, evitando assim, tudo aquilo que é considerado
arriscado, aleatório e ameaçador. As ciências relacionadas à estatística, por exemplo, se
desenvolvem justamente no século XIX. A estatística utiliza as teorias probabilísticas
para explicar a frequência de fenômenos e para possibilitar a previsão desses
fenômenos no futuro. Consiste no estudo dos riscos.
42
As estatísticas de morte sempre serão mostradas com uma solução para evitá-
las. Morrer representa escapar completamente das biopolíticas. Aquilo que escapa a tais
domínios deverá ser identificado, nomeado, pesquisado, disciplinado e corrigido
através de uma terapêutica adotada. As pesquisas são impulsionadas e subsidiadas
diante daquilo que foge ao controle. É preciso conhecer os detalhes para poder
controlar e evitar melhor os riscos. Variáveis se tornam objeto de estudo. Uma vez
estudas e conhecidas serão facilmente dominadas e corrigidas. Foucault define que o
dispositivo de biopoder foi inspirado no poder pastoral (Castro, 2009; Mansano, 2007).
Nesse tipo de poder, o pastor assegura a salvação de cada uma de suas ovelhas.
Ele zela pelo seu rebanho com devotamento. É estabelecido entre ele e cada membro do
seu rebanho uma relação de dependência. O rebanho não pode viver sem o pastor, pois
esse provê todas as suas necessidades. O objetivo é suprir em cada indivíduo qualquer
tipo de vontade própria. Se alguém agir por vontade própria, se considerado um
resistente.
A governabilidade no ocidente é pastoral. Governar é ser pastor de um rebanho.
O poder pastoral foi incorporado ao poder estatal. É um mecanismo que controla a
população em movimento. Qual será o efeito desse tipo de poder? Que tipo de pessoa
está sendo produzida? O Estado toma para si a gerência da vida como estratégia de
poder. No poder pastoral muito beneficio é recebido a custa de muita obediência
dispensada.
Ele assegura como as pessoas devem viver. As controla em seus mínimos
detalhes. Uma das normas que ditam e regulam como as pessoas devem viver em nossa
sociedade, por exemplo, são as normas de gênero. A travesti idosa não está de acordo
com as normas de gênero. Elas desorganizam a ordem vista como lógica. Aquilo que é
considerado natural precede aquilo que é considerado normal. Portanto, modificar um
43
corpo, “naturalmente” dado, o “desnaturaliza”, se tornando um corpo “anormal”. Por
isso, travestis idosas são consideradas “ovelhas” rebeldes e resistentes desse rebanho,
chamado de espécie humana (Castro, 2009; Foucault, 1993).
Dois cuidados são fundamentais para que o controle do Estado aconteça: cuidar
das pessoas e dos bens. Para isso é preciso vigiar como os homens vivem e produzem
as riquezas estatais. A vigilância assegura vigor estatal e zela por aquilo que é
considerado público. O controle do Estado é garantido por meio de suas inúmeras
instituições. O ser humano acaba sendo estimulado a ser ativo e produtivo, porém
controlado pelo Estado. As políticas públicas governamentais são formas de controlar a
vida das pessoas em seus mínimos detalhes. Quanto mais presente, mais as pessoas
acabam necessitando delas, tornando-se cada vez mais dependentes e obedientes.
Com o advento da estatística, são criadas as curvas de normalidade que acabam
estabelecendo índices daquilo que é considerado normal e anormal, para diversos
aspectos da vida, dentre eles a sexualidade humana. A estatística é aplicada da seguinte
forma: primeiro é convencionada uma norma, depois se analisa através de dados
estatísticos se determinado dado está dentro da norma ou não. A norma geralmente se
através da mensuração de determinado coletivo no tempo e no espaço. Ela é móvel,
pois varia de acordo com aquilo que está sendo medido.
Podemos, por exemplo, comparar a de expectativa de vida do brasileiro na
atualidade com a de 1980. Perceberemos que ela varia conforme a região do país em
questão, embora haja uma média nacional. Toda média estatística, sobre qualquer
assunto, acaba se tornando um dispositivo de poder, pois seu objetivo é colocar todos
no mesmo padrão de normalidade. Aqueles que estiverem fora do padrão serão
considerados anormais. Todo tipo de padronização é opressor, pois fatalmente nem
todos responderão ao que está sendo padronizado (Foucault, 2008c).
44
Padrões corporais para cada gênero sexual são estabelecidos. Através deles são
instituídas as verdades sobre si”. O que é considerado ambigüidade, é eliminado a
partir de variadas formas de controle corporal. Portanto, para esse estudo, no qual só
duas possibilidades completamente aceitas socialmente. Ou as pessoas são classificadas
como sendo homens, ou são classificadas como sendo mulheres. Serão aceitas ainda
mais, se forem jovens, saradas e belas.
Aquilo que é considerado o padrão normal para homens é:
pênis = menino = homem = identidade de gênero masculina = nome social idêntico
ao nome do registro civil = comportamentos considerados culturalmente
masculinos = desejo sexual exclusivo por mulheres = ativo sexualmente =
fecundador = preferencialmente pai = perpetuador da espécie = bem resolvido
psicologicamente e emocionalmente = culto = informado = jovem = sarado = belo =
branco = postura exclusivamente ativa diante da vida = produtivo = provedor =
independente financeiramente = competitivo = consumista = normal = saudável =
correto= não resistente às normas de gênero = inteligível socialmente = existência
reconhecida = visível.
Para as mulheres o padrão considerado normal é:
vagina = menina = mulher = identidade de gênero feminina = nome social idêntico
ao nome do registro civil = comportamentos considerados culturalmente femininos
= desejo sexual exclusivo por homens = passiva sexualmente = preferencialmente
mãe = fecundada = geradora = parideira = cuidadora = perpetuadora da espécie =
bem resolvida psicologicamente e emocionalmente = culta = informada = jovem =
sarada = bela = branca = postura preferencialmente passiva diante da vida =
produtiva = preferencialmente independente financeiramente = competitiva =
45
consumista = normal = saudável = correto = não resistente às normas de gênero =
inteligível socialmente = existência reconhecida = visível.
Já a travesti idosa se encontra na seguinte situação perante a sociedade:
pênis = menino = homem = identidade de nero masculina e feminina = nome
social diferente do nome do registro civil = comportamento considerado
culturalmente masculino e feminino = desejo sexual exclusivo por homens,
mulheres ou ambos = não geradora de descendentes = preferencialmente passiva
sexualmente = mal resolvida psicologicamente e emocionalmente =
preferencialmente ignorante = idosa = flácida = feia = postura ativa e passiva
diante da vida = improdutiva = não competitiva = anormal = patológico = errado
= resistente às normas de gênero = não inteligível socialmente = existência não
reconhecida = invisível.
Conforme observado no modelo acima, além de não estar de acordo com as
normas de gênero impostas, a travesti idosa apresenta características consideradas
anormais em diversos aspectos como a não perpetuação biológica da espécie, situação
financeira e faixa etária inadequadas, se comparada com aquilo que ela “deveria” ser. O
nível cultural passa a ser indiferente, embora seja preferível que ela seja inculta e
obediente às normas já estabelecidas. A conseqüência é a exclusão e o preconceito.
Não só a travesti idosa, como qualquer pessoa que não se enquadrar em todos”
os itens padronizados, referente ao seu respectivo sexo biológico, será considerada um
tanto “anormal” pelos demais membros da sociedade. A idéia de normalidade não é
imposta. Seu poder se estabelece através da sedução do indivíduo prometendo saúde,
felicidade, longevidade e beleza. Tais promessas aprisionam pessoas em um dispositivo
de eterno exame e correção. Dessa forma, o ideal de normalidade se sofistica, ficando
cada vez mais inalcançável e frustrante. Aqueles que tiverem maiores condições
46
socioeconômicas, poderão consumir mais tecnologia para estar mais próximo do
conceito inatingível de normalidade.
1.4) Biopoder e a sexualidade humana
A natureza do poder não é necessariamente repressiva. O poder produz sujeitos
dóceis e obedientes. Por meio de especificações ocorridas dentro da ciência, com o
objetivo de aumentar ainda mais o conhecimento e o controle sobre a vida das pessoas,
a sexualidade surge como especialidade das ciências psicológicas (medicina, psiquiatria
e psicologia). Mas por quê?
Os dispositivos de poder incidem sobre dois aspectos fundamentais ao mesmo
tempo: o corpo físico de cada um e o corpo da espécie humana como um todo. Dessa
forma o controle pode ser exercido de maneira mais ampla. O objetivo é disciplinar o
corpo e a vida de acordo com o sistema de valor burguês capitalista e industrial.
Produção de corpos dóceis, obedientes, produtivos e consumistas. Tal dispositivo está
diretamente ligado ao corpo das travestis idosas.
O que nos interessa é analisar os discursos sobre a sexualidade. Qual é o tipo de
“verdade” que a ciência produz quando define o que é a sexualidade? Qual é o
componente de poder que está contido nessa “verdade”? Quais os efeitos de poder que
se produzem através da oficialização dessas “verdades”? A normatização e
regulamentação da vida parece ser uma desses efeitos. As políticas de regramento da
vida sexual estipulam o que é “normal” e o que é “anormal” de acordo com certo
padrão estabelecido por diversos interesses de comando.
Toda e qualquer definição sobre qualquer assunto ou objeto é feita com o
objetivo de torná-lo conhecido. Ela se baseia na construção teórica daquele que a
47
define. Ao definir algo, a própria definição limita e controla aquilo que está sendo
definido. Isso ocorre, pois as palavras que definem o que é isto ou aquilo criam regras
padronizadas de como tal objeto “deve” ser ou o ser. Nomear algo é tentar controlar
o que está sendo nomeado por meio de definições.
No entanto, a realidade vai além de qualquer tentativa de definição conceitual.
O objeto escapa às palavras que tentam defini-lo como sendo desse ou daquele jeito.
Quando algo não se enquadra em determinado conceito, outras definições
imediatamente se encarregarão de capturar aquilo que escapa à definição padrão. Dessa
forma, tudo está sobre o controle das definições de determinado saber que se
transforma em poder.
Geralmente elas tentarão classificar e dividir os conceitos em dois aspectos
distintos: aquilo que é considerado normal e aquilo que é considerado anormal. Normal
está associado ao correto e anormal ao incorreto. Isso também ocorre com o que foi de
sexualidade humana. Ela varia conforme a época e o local em questão. Atualmente, ou
homens ou mulheres. Travestis não se encaixam na definição daquilo que é
considerado homem, nem naquilo que é considerado mulher (Castro, 2009).
Nos meios religiosos e científicos defendeu-se por muito tempo que o sexo era
algo reprimido. Isso ocorreu principalmente após o estabelecimento do cristianismo
como religião principal no continente europeu na idade média. Qual o sentido em dizer
que o sexo é reprimido? Qual é a relação de poder que isso produz? A estratégia
principal do poder é reprimir? Liberar o sexo é contrariar o poder? Qualquer
intervenção no sentido de prevenir algo, aciona um dispositivo de controle sobre esse
algo. Tentar evitar a manifestação do sexo provoca o controle do próprio sexo.
Portanto, dizer que o sexo é reprimido aciona dispositivos de controle sobre a vida
sexual das pessoas.
48
Enquadrar as travestis idosas em classificações psiquiátricas, por exemplo,
sugere que o controle haja sobre as próprias travestis. Elas são impedidas de se
manifestar, pois receberam uma classificação, que as torna passíveis de tratamento e
correção (Foucault, 1993).
Depois do quarto concílio de Latrão, ocorrido no século XIII, a confissão torna-
se obrigatória pela igreja católica. O confessionário é criado dentro da própria igreja.
Aquele que confessa incita o especialista que ouve e classifica. Foucault ainda diz que o
método psicanalítico de tratamento clínico criado pelo médico alemão Sigmund Freud
(1856 - 1939), se inspirou também na confissão religiosa. Para Foucault, o psicanalista
tem a função de ouvir, interpretar, categorizar e disciplinar, de acordo com as normas
sociais vigentes, aquele que fala.
Para Foucault a confissão vai além do ato de enunciar para o outro suas culpas e
pecados. Ela também se interioriza como prática de penitência e do exame de
consciência. Estabelece-se como uma relação de saber-poder que funda subjetividades.
Na época, o confissionário era um dos únicos lugares institucionais onde o discurso
individual encontrava acolhimento. A medicina e a psicanálise seriam seus herdeiros.
O interrogatório e a confissão são formas em que o saber e o poder psiquiátrico
se articulam. A psicanálise se inscreveria na linhagem confessional, ao constituir um
sujeito sujeitado ao saber do outro. Analista mostra a verdade” ao analisado. É como
se a subjetividade de cada um fosse subjugada à sua própria sexualidade.
Em outros termos, a vida sexual da pessoa dizia “a verdade última” sobre quem
ela era de fato. Sua subjetividade estava sendo manifestada por meio de desejos,
fantasias e ações sexuais. Subjetividade (mente) e corporalidade (corpo) encontram na
sexualidade sua conexão. Entre os anos de 1860 e 1870 houve certa multiplicação de
discursos médicos que buscavam comprovar que os comportamentos sexuais e todos os
49
demais tinham sua origem na biologia (Foucault apud Bento, 2008; Castro, 2009;
Foucault apud Pelúcio, 2009).
Quando o filósofo francês Rene Descartes (1596 - 1650) estabeleceu de forma
clássica a divisão entre corpo (físico e mortal) e alma (espiritual e imortal) no
pensamento filosófico, resgatou idéias do filósofo grego Platão (428 a.C. - 348 a. C.).
Não é por acaso que tal forma de pensar acabou facilitando o controle maior do todo,
através das partes “identificadas”: corpo e alma.
De acordo com os preceitos religiosos cristãos, era entendido que a carne passa
refletir a alma ou subjetividade da pessoa. Eles acreditam que ali se encontra o espírito
ou mente que por sua vez expressam a “identidade real” do sujeito. Portanto, aquilo que
era considerado pecado se manifestava na carne em forma de desejos. Através da
prática da confissão, os desejos consumados e até mesmo imaginados eram revelados.
Em manuais de confissão, o desejo vai sendo mapeado e estudado para ser mais bem
controlado.
A vida sexual das pessoas passa a ser exposta através das confissões. O sexo era
revelado e liberado. Era pregado que através da liberação das fantasias e atos sexuais,
por meio do confessionário, a alma iria se libertar do pecado. A igreja provocou a
confissão. O sexo foi transformado em algo poderoso. A sexualidade era estimulada. Os
desejos foram categorizados em pecado e não pecado. Com a liberação daquilo que foi
denominado de sexualidade, tornou-se possível construir um padrão de certo e errado,
normal e anormal em relação a isso.
Com o passar do tempo, por volta do século XIX, o tipo de atividade sexual
que era considerada pecaminosa e anormal, começa a ser controlada e incorporada
pelas ciências biológicas, representadas principalmente pela medicina e psiquiatria.
Manuais médicos foram sendo escritos contendo a forma “normal” e “anormal” de
50
como a recém “criada” sexualidade “deveria” ser praticada. Além de ser controlada
pela igreja, agora ela passa a ser controlada pela medicina e justiça. Quanto mais
liberada ela se tornava, mais visível, categorizada e disciplinada.
Os manuais eram baseados em padrões de normalidade. Tal padrão era
submetido à moral religiosa, social, jurídica, médica, burguesa e européia do culo
XIX. Até essa época, o discurso religioso era praticamente responsável por mapear e
organizar a disciplina do corpo. De acordo com tal discurso, o sexo deveria ser
exclusivamente heterossexual, monogâmico, dentro do casamento e para fins
reprodutivos.
Todas as práticas sexuais que não atendessem a esse propósito eram
consideradas anormais e passíveis de tratamento e correção. As práticas sexuais foram
sendo detalhadas para serem facilmente controladas. Como exemplo disso, em 1886
surge na Alemanha o primeiro estudo médico na área chamado Psychopathia Sexualis.
É considerada uma obra cientifica clássica, que influencia diagnósticos referentes à
sexualidade humana até os dias atuais. Foi escrita pelo médico alemão Richard von
Krafft-Ebing (1840-1902). Nenhuma prática imaginada poderia ficar fora de tal
mecanismo de visibilidade, classificação e controle. Para isso, os relatos eram
realizados de forma minuciosa e com riqueza de detalhes. Cada nuance considerado
anormal sofreria imediatamente categorização e patologização.
Os mecanismos de controle se apropriam daquilo que agrupava o maior número
de pessoas possível. Um simples comportamento, a atividade sexual, que era exercido
no cotidiano por grande número de indivíduos, agora passa a sofrer categorização e
disciplina. Tal feito ocorreu por meio do crivo da própria sociedade burguesa, que por
sinal, financiava as atividades científicas. A partir de então, as ciências biológicas,
juntamente com a justiça e a religião, ditavam como a atividade sexual “deveria” ser
51
praticada. Aqueles que não a praticassem da forma considerada correta, sofreriam
punição e tratamento.
É justamente o que ocorre com as travestis idosas, por exemplo. São punidas
pelo preconceito e recebem tratamento para se adequarem às normas de gênero
impostas. Quem não é servo dos modelos impostos pode ter a chance de criar e
reinventar a própria vida. Contudo, essa é uma tarefa difícil, pois os modelos são
bastante opressivos. Quem se submete tem maior chance de ser aceito socialmente.
Quem não se submete é automaticamente excluído.
Conforme vemos então, a sexualidade acabou sendo produzida através de
conexões entre vários discursos e dispositivos de poder. Entre os principais vistos estão
igreja, sistema político e jurídico, medicina, psicologia, pedagogia, economia, família e
outras instituições sociais de forma geral.
Dessa forma, a sociedade disciplinar e as biopolíticas, da qual a sexualidade
humana faz parte, vão configurando por meio da anatomopolítica individualizante e a
biopolítica massificante o que vai ser denominado de sociedade do controle.
O falar de si inaugurou o espaço de reconhecimento e captura. Da culpa e
pecado o sexo passa a ser considerado normal ou patológico. A profusão de discursos
normatiza o sexo. O Ocidente dessa forma acaba inaugurando a ciência da sexualidade
humana. É um saber que se constitui engendrado por relações de poder que regulam a
vida. Por fim, acaba sendo um conjunto de saberes que objetiva e subjuga o sujeito. O
corpo não pertence ao sujeito e sim às instituições que o definem como, por exemplo: a
igreja, a família, o Estado, as ciências biomédicas, químicas, físicas e humanas, a
filosofia e demais setores da sociedade.
Em relação ao gênero sexual, comportamentos e vestimentas são
constantemente reiterados pelo sujeito no sentido de confirmar o que se espera
52
culturalmente do seu corpo. Dessa maneira, o mecanismo de controle é reforçado e
realimentado. Porém, onde controle, resistência. Travestis idosas vêm reiterando
normas de gênero que se materializam em seus corpos, desde a adolescência. Ao
mesmo tempo resistem a essas mesmas normas, quando efetuam alterações que partem
de corpos biologicamente masculinos (Castro, 2009; Foucault, 1993; Leite Junior,
2006).
1.5) Sociedade de controle
Diversos veículos de comunicação, câmeras de vigilância, mapeamento e
rastreamento por satélites, sistemas de segurança, alerta contra atentados terroristas,
registros de dados, senhas de acesso, procedimentos burocráticos, códigos,
monitoramento de doenças, perfis de comportamento, exames preventivos, escalas de
medições, tabelas, gráficos, índices estatísticos, ditadura do relógio, enfim, tudo faz
parte da sociedade de controle. O poder nessa sociedade é massificador, pois atua no
corpo da espécie, diminuindo o risco de doença, mortalidade, aumentando assim, a
longevidade. Índices estatísticos e demografias são estabelecidos. Comportamentos são
tabulados e organizados em gráficos e “padrões de normalidade”.
Na sociedade capitalista industrial era preciso extrair forças produtivas dos
corpos por meio da sociedade disciplinar. Na atualidade, já estamos vivenciando a
sociedade de controle, que surge a partir do século XX. Mecanismos da sociedade
disciplinar foram integrados a sociedade de controle, aumentando ainda mais o seu
nível de sofisticação e precisão de domínio. Não mais a necessidade da disciplina
nos espaços confinados. Com a internet, por exemplo, o controle é exercido
eficazmente a todo tempo, em todo lugar e por qualquer pessoa.
53
Foucault dizia que o poder não mais emanaria de um monarca ou de um
governante. Afirmava que ele será constituído de uma rede fina, diferenciada e
contínua. Nessa rede várias instituições iriam se alternar com ares de observação e
neutralidade, como a justiça, a polícia e a medicina. O poder está pulverizado,
disseminado e interconectado. Tanto ele, como a punição são introjetados por quem é
controlado. Assim, aquele que é controlado passa a controlar, alternando de posição
com aquele que controla (Foucault apud Mansano, 2007).
A vigilância é colocada justamente sobre aqueles que atrapalham o fluxo
considerado importante para o funcionamento da ordem social estabelecida pela
sociedade de controle. A travesti idosa, por exemplo, é acusada de colocar em risco o
fluxo considerado correto. Sua forma de ser e de viver não estão de acordo com os
valores e regras estabelecidos para aquilo que foi considerado um “bom”
funcionamento social. São acusadas de estarem em desacordo com as normas de
gênero, valores familiares, sociais, religiosos, políticos e econômicos. Por isso são
visadas, vigiadas, detectadas, classificadas, excluídas e tratadas.
Na sociedade disciplinar tudo é moldado em lugares próprios e cada um recebe
uma função. O poder do chefe da fábrica funciona dentro de um determinado espaço
físico. Já na sociedade de controle, não há um espaço físico definido no qual o poder é
exercido. Os corpos são capturados a u aberto. Não mais a necessidade de um
espaço fechado para disciplinar. O indivíduo é continuamente controlado onde quer que
esteja. Trata-se de práticas de controle que atentam para o corpo do outro, para sua
aparência e conduta. Travestis idosas são vigiadas e controladas quando apontadas pelo
outro que a discrimina.
Na sociedade disciplinar havia começo, meio e fim para o controle. Na
sociedade de controle, nada acaba. O indivíduo precisa sempre se atualizar. O processo
54
de avaliação é contínuo. Todos são estimulados a consumir tanto bens materiais como
bens não materiais, como estilos de vida, relações humanas, lazer, auto-ajuda,
conhecimento e principalmente informação atualizada sobre tudo.
No imaginário cultural, é como se o produto consumido agregasse valores que
dissesse algo sobre aquele que o consome. Com o consumo de certo produto, a pessoa
deseja transmitir valores, condição financeira, filosofia de vida, valores religiosos,
cultura, intelecto, estilos de ser, ideologias, evolução profissional, mesmo que seja
apenas uma aparência de si. A indústria da propaganda investe no produto e no
mercado. Ela produz imagens e enunciados que o retirados do cotidiano dos próprios
consumidores e devolvidos a eles em forma de peças publicitárias que são associadas a
determinado produto (Mansano, 2007).
Por meio de pesquisas, as empresas de publicidade têm acesso ao mundo interno
do cliente. O consumidor não percebe que ele mesmo ajuda a criar a peça publicitária.
As informações são coletadas e traduzidas em produtos e slogans publicitários. O
marketing se propõe a vender o desejo do cliente que é simbolizado no produto. Ele
acaba consumindo sistemas de subjetividades e representações. Dentre eles está a
crença de que adquirindo certo produto, vai encontrar afeto, sucesso, bem-estar e
felicidade. A televisão vende imagens e desejos que serão consumidos em forma de
produtos.
O mercado nos submete ao controle-estimulação. Para Foucault nossos corpos
não estão mais sujeitos ao controle-repressão que é pico da sociedade disciplinar.
Agora somos encorajados a ficar nu, porém teremos que apresentar um corpo sarado,
bronzeado, magro e jovem. A diferença que existe entre as expectativas idealizadas de
corpo e a realidade possível de ser atingida gera frustração. Os ideais são aperfeiçoados
e sofisticados para que sejam cada vez mais inatingíveis. Dessa forma a pessoa
55
continuará consumindo na tentativa de atingir as metas impostas (Foucault apud
Mansano, 2007).
Esse mecanismo de controle e consumo estará implicado diretamente no
envelhecimento de travestis. Porém, o discurso de verdade sobre quem o sujeito é se
voltará para a aparência física. É como se o corpo revelasse quem a pessoa é. Uma vez
exposto a olhares externos é largamente submetido a avaliações e vigilância. O culto ao
corpo considerado belo, que é definido pela indústria da moda e da saúde, é cada vez
mais crescente.
Cada vez mais o número de pessoas de diferentes classes sociais e faixas etárias
aderem a tal prática de embelezamento do corpo. A intervenção é realizada desde
estruturas microscópicas até estruturas macroscópicas. Da biologia molecular à
ecologia, o controle total da vida está sendo assegurado. Atualmente já contamos com a
nanotecnologia que está associada a diversas áreas de pesquisa (como a medicina,
eletrônica, ciência da computação, física, química, biologia e engenharia dos materiais)
e produção na escala nano (escala atômica). O princípio básico é a construção de
estruturas e novos materiais a partir dos átomos (os tijolos básicos da natureza). O
objetivo principal não é chegar a um controle preciso e individual dos átomos, mas
elaborar estruturas estáveis.
Políticas preventivas de saúde em nome do bem estar e da beleza são
desenvolvidas e disseminadas em alta escala, gerando altos lucros. A busca obsessiva
pela estética perfeita, que envolve investimento financeiro e disciplina é apresentada ao
público como sinônimo de amor próprio e aumento da auto-estima. Porém, a
proliferação de produtos de beleza se tornou um mercado altamente promissor e
lucrativo. O sujeito é estimulado pela propaganda a sentir prazer ao cuidar do próprio
56
corpo. Pois à medida que isso é feito, ele é impelido a acreditar que qualidades
espirituais da sua alma estão sendo automaticamente desenvolvidas e aprimoradas.
O mercado que explora o corpo associa valores subjetivos a valores estéticos
quando desenvolve e dissemina a seguinte mensagem: a beleza externa aparente em
músculos bem torneados e definidos, nada mais é do que o reflexo direto da existência
de uma beleza interna correspondente. Influenciados por Platão, tendemos a pensar que
se é considerado belo, é automaticamente bom. Entretanto, sabemos que muitas vezes,
as aparências são apenas aparências. A associação feita pela propaganda entre o
cuidado com o corpo e a sexualidade humana, provoca nas pessoas excesso de auto-
erotismo, narcisismo, individualismo, competitividade, sensualidade e hedonismo.
Ser hedonista é buscar o prazer como o bem supremo e torná-lo o principal
objetivo da vida moral. Em outras palavras, o comportamento animal ou humano é
motivado pelo desejo de prazer e evitar o desprazer. Portanto, a energia sexual, quando
estimulada, torna-se muito poderosa e principalmente rentável financeiramente. Tal
estratégia publicitária movimenta cifras bilionárias, especialmente na indústria do sexo
e suas ramificações indiretas. Além disso, o corpo bem cuidado vai receber atenção,
elogios e aprovação do outro que está sempre examinado e avaliando se ele se enquadra
ou não nas normas impostas (Sant’Anna, 2001).
Por meio dos veículos de comunicação, valores positivos são agregados ao
mundo daqueles que conseguem atingir determinado padrão de beleza estabelecido.
Dimensões tipicamente humanas como passagem do tempo, velhice, infortúnios,
doenças, sofrimento, conflitos e mortes não encontrariam formas de se expressar em
um mundo de tamanha beleza. É a propaganda moral-estética da vida prometendo que a
melhora de aspectos emocionais acontece à medida que há melhora dos aspectos
físicos. As travestis também expressam alto nível de preocupação com o seu visual.
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Muitas acabam vivendo da prostituição. Portanto a aparência se torna muito importante.
Como será que lidam com isso, quando o corpo começa a sofrer as ações do tempo?
(Mansano, 2007).
Na sociedade de controle tudo está em um banco de dados que é voltado para o
marketing de serviços e produtos. Os primeiros são construídos pelo registro individual
de compras, formando assim, o que é chamado de perfil do consumidor. Os grandes
controladores são o fluxo financeiro, as empresas e a propaganda. As forças vitais são
engolidas e transformadas em slogan publicitário com o objetivo de vender e aumentar
o lucro das empresas.
Por exemplo, em um determinado local geográfico é criado um parque
ambiental que é explorado financeiramente para se transformar em uma espécie de
zoológico a céu aberto. Tanto a fauna quanto a flora desse lugar serão “capturados”
pelo mecanismo da indústria do turismo. As operadoras de turismo alegarão que tudo
será feito em nome da preservação ambiental, não mencionando, no entanto, seus
ganhos financeiros.
Catástrofes naturais são transformadas em espetáculo pelos meios de
comunicação. Terremotos, enchentes, doenças, adversidades do clima que ameaçam a
vida humana e as biopolíticas são transformados em oportunidades para se lucrar com
vacinas e medicamentos. Isso aconteceu, por exemplo, com a indústria farmacêutica,
diante da pandemia chamada gripe suína (tipo A H1/N1), ocorrida em 2009.
Na sociedade de controle tudo é globalizado, instantâneo, rápido, volátil,
moldável e descartável, tendo em vista os interesses em questão. preconceito contra
quem não tem mobilidade e flexibilidade. Muitas vezes os idosos são estigmatizados
como pessoas que não se adéquam a sociedade de controle, justamente por não se
adaptarem a tanta rapidez.
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Na sociedade disciplinar o sujeito é individualizado, identificado e classificado.
Na sociedade de controle ele é fragmentado. O que interessa são determinadas
competências e aspectos do seu ser que serão requisitados e explorados. Por exemplo, o
consumidor, o funcionário, o turista, o pai, o fiel, o torcedor, o atleta e o aposentado.
Dependendo do interesse, terão um ou outro aspecto requisitado pelo sistema
comercial.
Da condição de indivíduo passa para a condição de endividado na sociedade de
controle. Fica atrelado ao sistema financeiro, por meio do seu cartão de crédito. É
justamente por sua condição de subjugado pelo endividamento que se torna um cliente
preferencial. Os aposentados, por exemplo, são capturados por meio de promoções e
oferta de empréstimos, a juros baixos, descontados diretamente de suas aposentadorias.
Nessa sociedade os diversos tipos de informações circulam rapidamente por
máquinas acopladas aos corpos físicos das pessoas. Elas podem ser o rádio, televisão,
walkman, computadores portáteis, celulares, ipod, ipad, iphone, smart phones, etc.
Altos volumes de dados e saberes são disseminados rapidamente através desses meios
de comunicação. Eles definem regras, normas, estilos, padrões, maneiras, formas,
conceitos de como se “deve” viver a vida para que cada um seja considerado uma
pessoa normal, inserida e feliz. Portanto, será aceita por todo o sistema que a produz e é
produzido por ela.
Pela rede mundial de computadores, mais conhecida como internet, qualquer
um pode ter acesso a esse grande fluxo de informações a partir de qualquer lugar e a
qualquer hora. Além disso, esses aparelhos ainda contam com câmeras que podem ser
usadas para gravação de imagens, sons e fotos que poderão ser divulgadas como forma
de vigilância, fiscalização, monitoramento e controle. Assim, todos podem se vigiar e
controlar.
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Saberes e regras são incorporados ao cotidiano das pessoas. Baseadas em um
conjunto de normas e regras que foram incorporadas as suas vidas, os indivíduos
também ditarão ao outro como ele “deve” viver. Caso alguma regra for desrespeitada,
seu autor será imediatamente apontado como um desviante. É a sociedade da vigilância
onde um vigia e tenta corrigir o outro.
Por exemplo, as comunidades sociais de relacionamentos virtuais na internet
tornam-se cada vez mais, verdadeiros instrumentos de vigilância mútua. Programas de
comunicação instantânea são criados proporcionando o monitoramento através da fala e
imagem da vida de cada um em tempo real. Acontecimentos serão flagrados em
qualquer tempo e lugar por câmeras de monitoramento. Suas imagens serão
instantaneamente disseminadas para todos que tiverem acesso ao rádio, televisão e a
esses aparelhos de comunicação ligados em rede pela internet.
Essa sociedade não pretende apenas controlar os vivos. Ela pretende gerir a
morte, por meio dos cuidados paliativos. Além disso, através da tecnociência, pretende-
se clonar partes de órgãos de seres humanos que serão usados para substituir os que não
funcionarem adequadamente. Interferir na genética através do controle do código
genético pode evitar que certas doenças comprometam o fluxo da vida. Garantindo
assim, o triunfo das biopolíticas. Imperativos estão sendo disseminados a todo o
momento por todos os veículos de comunicação. Eles ditam regras e normas em nome
do bem estar e do bem viver.
É interessante pensar como ficam as travestis idosas dentro desse contexto.
Como será que elas lidam subjetivamente com todas essas “imposições” sociais?
Segundo Félix Guattari a subjetividade é fabricada e moldada justamente no registro
social. A sociedade abarca uma multiplicidade de sujeitos, como por exemplo, as
60
chamadas travestis idosas. As pessoas se constituem por meio de processos de
subjetivação imanentes ao social (Guatarri e Rolnik, 2005).
Para Michel Foucault a concepção moderna de pessoa e indivíduo foi
artificialmente construída como universal e naturalmente associada com a linguagem
(discurso) da moralidade, religiosidade, lei, direito, racionalidade, responsabilidade,
sanitarismo e sexualidade. Foucault desconstrói o sujeito produzido na Europa
Ocidental pela Idade Moderna por meio da investigação das instituições e normas que o
formaram (Lukes apud Pelúcio, 2009).
1.6) Subjetividade e resistência
Subjetividades são sempre multicomponenciais. Os elementos que participam
nesse processo difundem-se em fluxos que percorrem o meio social. Incorporam-se a
diferentes formas de viver que são assumidas pelas pessoas no decorrer da vida. Fluxos
de informações, objetos, idéias, valores, afetos e normas que circulam servem como
verdadeiras matérias-primas para a construção da subjetividade. A produção do sujeito
se opera na encruzilhada de múltiplos componentes de subjetividades (Guatarri e
Rolnik, 1996).
A maneira como cada um irá incorporar os elementos que estão disponíveis
nesse fluxo que é compartilhado, varia de pessoa para pessoa. Alguns irão se apropriar
desses dispositivos modificando seus elementos. Outros irão incorporar os dispositivos
sem quase alterá-los. Os acontecimentos que atravessam a vida das pessoas
intensificam os afetos e provocam transformações em suas subjetividades. É difícil
saber como cada um vai experimentar os acontecimentos.
61
Cada pessoa experimenta diferentes graus de potência para afetar ou ser afetado.
Os graus de potência pertencentes a uma pessoa, não se manifestam da mesma forma, o
tempo todo. Elas podem aumentar ou diminuir de acordo com os encontros vividos por
seu corpo. O sujeito ao constituir-se, não se restringe a experiência geral de encontro
com determinado dado. Ele vai além quando produz sentidos singulares para cada
experiência. Nenhuma vivência detém um sentido único e imutável tal como se fosse
uma espécie de essência.
A experiência é viva, somente aquele que a experimenta vai estabelecer suas
próprias relações entre as idéias e os acontecimentos. Pode, por exemplo, ser tomado
mais por algumas sensações do que por outras. Atentar mais a certas idéias do que
outras. Envolver-se mais em certas situações do que outras. A maneira como cada um
acolhe e problematiza cada uma das experiências vividas pode ser compreendida como
a própria produção da subjetividade. Deleuze lembra bem que o dado não é dado ao
sujeito. Ele se constitui no próprio dado por meio de suas capacidades de associar,
agrupar, selecionar, organizar e atribuir valor. A produção de sentido orienta sua ação
no mundo (Deleuze; 2001; Mansano, 2007).
Toda a experiência vivida, por mais autoritária ou restritiva que seja, conta com
diferentes graus de participação do sujeito. Ele comparece aos encontros por meio de
um corpo afetável, que produz sentidos imprevisíveis perante o que está sendo vivido.
Pode não se resumir a uma relação de passividade e obediência apenas. O sujeito
participa como co-produtor de sentidos. Introduz graus de tensão e imprevisibilidade
nas relações.
Dessa forma, algo sempre irá escapar ao controle, apesar das fortes opressões
impostas pelas relações de poder. Nenhuma relação de poder é completamente
soberana. Sempre haverá outra relação que se contrapõe. Controle e resistência
62
aparecem juntos, travando conflitos o tempo todo. É justamente no contato com aquilo
que oprime que as possibilidades de resistência vão se desenhando. Não controle
absoluto, pois sempre haverá resistência. Não há resistência absoluta, pois sempre
haverá controle. Onde há o poder do Estado (controle), por exemplo, há o poder
paralelo do “mundo do crime” (resistência). Segundo Foucault, as relações de poder são
móveis. Elas podem se modificar. Não são dadas de uma vez por todas (Mansano,
2007; Foucault, 2008).
Para Deleuze não um sujeito único e indivisível e sim uma sucessão de
composições que se modificam ao longo da vida em conseqüência dos afetos
experimentados a cada encontro do indivíduo com aquilo que o atravessa. Tais
encontros introduzem rupturas e transformações. Quanto mais intensivos os encontros,
mais decisivos na existência do sujeito.
O filósofo ainda ressalta que a subjetividade é um processo. Para saber algo
sobre sua produção, é necessário fazer um inventário dos diversos momentos desse
processo. Perguntar pela subjetividade consiste em investigar: quais as forças que ali
atuam? Quais os afetos e intensidades são experimentados pelo sujeito? Das conexões
vividas, quais aumentam ou diminuem sua potência de ação? Em que medida se
desorganiza e se envolve na produção de novos sentidos em relação ao que está
vivendo? Para cada experiência de contato, novas respostas serão dadas à essas
perguntas (Deleuze apud Mansano, 2007).
Para compreender o processo subjetivo, é interessante perceber como cada
sujeito se move singularmente entre os dispositivos, acolhendo, recusando,
transformando ou às vezes incorporando em suas vidas, sem ao menos percebê-los. A
maneira como cada um recorda os dispositivos e os coloca em funcionamento, produz
63
efeitos nas relações de poder. Por meio do desejo o sujeito se inscreve nos dispositivos.
Por vezes ele pode acioná-los, por outras vezes pode tirá-los de circulação.
É justamente através da produção e intensificação do desejo, em relação a
determinado dispositivo, que o controle pode ser exercido de forma eficaz. O poder não
pode ser repressivo nem negativo, ele deve produzir efeitos positivos naquele que o
legitima fazendo funcionar. Por exemplo, em nome do bem estar geral da população, o
comportamento das pessoas é rastreado e vigiado por câmeras de segurança pública e
privada, nos mais diversos espaços.
Foucault ainda nos lembra que não podemos nos colocar em uma relação onde
não haja nenhum dispositivo de poder. No entanto, é possível transformar a situação
(Mansano apud Foucault, 2007). No mesmo sentido desse pensamento, Deleuze conclui
que aquele que se apropria e transforma os dispositivos de controle, deve se apropriar
de um conjunto de impossibilidades. Assim ao mesmo tempo, dentro desse contexto,
acaba criando algo possível. A resistência pode ser um processo criativo, ao traçar seu
caminho entre impossibilidades (Deleuze, 1992).
Aquilo que foi denominado de travesti pode ser compreendido como uma
resistência, pois é contra aquilo que foi estabelecido como sendo coerente com as
normas de gênero. Através do corpo travestis manifestam seu contra poder em relação a
tal norma e poder sobre si mesmas. A travesti atinge o que é considerado
envelhecimento ainda resistindo aos ditames de como seu corpo “deveria ser”. Sua vida
toda foi sendo marcada pela resistência.
Elas são percebidas como opositoras a estrutura de funcionamento do biopoder,
pois interferem nos modelos reprodutivos e de organização familiar. Como já foi dito, a
família nuclear burguesa, tal como a conhecemos na atualidade, é considerada protótipo
de saúde e a célula fundamental do funcionamento da sociedade capitalista, agora
64
globalizada. Por hora falemos sobre o corpo e sua importância. É justamente por meio
do corpo que a pessoa manifesta sua subjetividade, portanto corpo e subjetividade estão
unidos. No entanto, o corpo não foi sempre compreendido dessa forma por algumas
correntes filosóficas.
1.7) Subjetividade e corpo
A doutrina do empirismo foi definida explicitamente pela primeira vez pelo
filósofo inglês John Locke (1632-1704) no século XVII. Ele argumentou que a mente
seria, originalmente, um “quadro em branco” (bula rasa), sobre o qual é gravado o
conhecimento, cuja base é a sensação. Ou seja, todas as pessoas, ao nascer, o fazem
sem saber absolutamente sobre nada, sem impressão nenhuma, sem conhecimento
algum. Todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido pela experiência,
pela tentativa e erro. Historicamente, o empirismo se opõe a escola conhecida como
racionalismo, segundo a qual defende que o homem nasceria com certas idéias inatas,
as quais iriam “aflorando” à consciência e constituiriam as verdades acerca do universo.
A partir dessas idéias, o homem poderia entender os fenômenos particulares
apresentados pelos sentidos. O conhecimento da verdade, portanto, independeria dos
sentidos físicos.
Uns dos principais representantes dessa escola é o filósofo francês René
Descartes (1596-1650). Ele defendia que o que definia o ser humano eram sua
consciência e pensamento. Ele procurava um método seguro para encontrar a verdade.
Para isso instituiu o método da dúvida. Deve-se duvidar até dos métodos científicos. É
possível alguém duvidar até que está sonhando. Posto que a dúvida seja um
pensamento, não se pode duvidar de sermos pensantes. Quem duvida pensa e por isso é
65
um ser pensante. Logo quem pensa, existe. Descartes chegou à conclusão que a única
instância capaz de apreender a verdade era a consciência e a razão. Fez-se então na
filosofia, de forma expressiva, a separação entre a mente e o corpo. Sendo a mente
considerada o habitat da razão por excelência.
O fato de pensar nos permite afirmar somente como seres pensantes, mas não
ainda como indivíduos dotados de corpo. Antes de iniciar a prática da dúvida, a
sensação de existir como corpo parecia uma certeza. Porém, até mesmo a existência do
corpo foi colocada em dúvida, assim como a percepção. Somente o pensamento,
segundo Descartes, não pode deixar de existir. Porque para se duvidar de qualquer
coisa, é preciso pensar. Logo, sua célebre frase: “penso, logo existo”.
A partir de então surgiu na filosofia, de forma bem demarcada, uma corrente
que privilegiava o corpo e outra que privilegiava a mente. Explicitam-se os dualismos:
idealismo versus materialismo; racionalismo versus empirismo; subjetividade versus
engrenagem; pensamento versus máquina; consciência versus físico; espírito versus
matéria; cógito versus objetividade; interioridade versus exterioridade.
É certo que a moral definitiva de Descartes não apresenta uma unidade perfeita.
Influências estóicas, epicuristas e cristãs estão presentes nela. Mas, na realidade, essa
complexidade reflete a própria complexidade da condição humana. Na plano das idéias
claras e distintas, Descartes separa claramente as duas substâncias, alma e corpo: a
essência da alma é pensar; a do corpo é ser um objeto no espaço. E no entanto, o
pensamento (alma) está preso a esse fragmento de extensão (corpo). A alma age sobre o
corpo e este age sobre ela. Para Descartes, o ponto de união da alma ao corpo é a
glândula pineal, isto é, a epífise.
Alguns filósofos posteriores a Descartes penderam para um lado e outros
penderam para o outro, sendo que, para alguns, somos feitos dos dois aspectos. Para o
66
filósofo holandês Baruch Spinoza (1632 - 1677) no homem não há senão uma entidade,
vista interiormente como mente, e exteriormente como matéria (corpo). O que existe na
realidade é uma mistura inseparável. A mente e o corpo não agem um sobre o outro,
porque não outro. O processo “mental” e interior corresponde em cada estágio ao
processo “material” e externo. A ordem e conexão das idéias é a mesma que a ordem e
conexão das coisas.
O corpo não pode determinar que a mente pense; nem pode a mente determinar
que o corpo fique em movimento ou em repouso, ou em qualquer outro estado. A
decisão da mente e o desejo e determinação do corpo são uma coisa. Pois não
existem dois processos nem duas entidades. Não senão um processo visto
interiormente como pensamento e exteriormente como movimento. (Abbagnano, 2007;
Chauí, 2003; Nicola, 2005).
Corroborando com as idéias de Spinoza, o filósofo francês Maurice Merleau-
Ponty (1908-1961), defendia que não separação e sim co-existência. Somos unidade
única, duplicidade una e unidade ambígua. O conceito de experiência ainda define que
somos consciência entre aquilo que foi denominado de espírito e o que foi denominado
de matéria. Para Merleau-Ponty o corpo não é um objeto. Quer se trate do corpo de
alguém quer se trate do próprio corpo. O único modo de conhecê-lo é vivenciando seu
próprio drama e aquilo que lhe atravessa confundindo-se com ele (Abbagnano, 2007).
No plano pré-reflexivo somos vivência; no plano perceptivo, somos experiência.
Ora nos percebemos mais corpo, ora nos percebemos mais mente (conhecida também
na filosofia como alma ou espírito). Nosso corpo nos situa, é uma forma de ser e estar
no mundo. Percebemos a tudo e a todos. A cultura nos constitui, assim como a
constituímos. Nosso corpo nos compõe, assim como subjetivamente, compomos nosso
corpo. Não temos como nos separar dele.
67
Através do corpo alcançamos o mundo. Somos o nosso corpo no mundo. Nosso
corpo é condição necessária para percebemos nosso campo de presença no mundo. O
corpo nos situa, limita e demarca tornando possível a relação com outros corpos. A
subjetividade está tanto no corpo, como na própria mente. Ou seja, somos nosso corpo
com os outros corpos no mundo.
Percebemos nosso corpo não apenas como um objeto localizado no espaço. O
corpo é a condição necessária para perceber, sendo esse, o campo de presença no
mundo. Ele nos situa, pois nos relaciona com o espaço, tempo e outros seres. Ao
mesmo tempo nos limita. Tal limite demarca, tornando possível a relação com o outro.
Através dele desenvolvemos posturas.
Para Merleau-Ponty, é a história de cada um que nos constitui. somos quem
somos, pois fomos o que fomos. O tempo é uma dimensão do nosso ser. O tempo está
no nosso corpo; ele nos situa em relação ao passado pela memória, presente pela
vivência e futuro pela imaginação. Para o autor, o que nos limita nos faz compreender o
outro. Ser eu me possibilita compreender o não-eu. Ser finito nos faz aspirar ao eterno.
Assumir que morremos nos permite viver melhor (Chauí, 2003; Merleau-Ponty, 2006).
Os corpos buscam adequação aos padrões de identidade socialmente aceitas. Tal
enquadramento tem justificado as mais variadas formas de controle e disciplina que o
corpo tem sofrido por mais de dois séculos. A história da criação dos corpos e
identidades sociais, conforme vimos, está ligada a produção de subjetividades. As
relações entre corpo e subjetividade são maiores do que parece, pois alcança formas
como nos compreendemos e somos levados a ver o outro.
Conforme as rápidas mudanças ocorridas no mundo nos últimos tempos, a
indústria da moda vem diminuindo cada vez mais o tamanho dos vestuários, desde o
início do século XX. Gradativamente surgem peças menores tanto para homens como
68
principalmente para as mulheres. Os corpos vão sendo cada vez mais expostos
conforme as décadas desse século avançam. A partir da década de 1980, os corpos
estavam bem amostra, e a famosa “geração saúde” crescia expressivamente em todas as
classes sociais.
Desde então, o culto ao corpo tem tido o objetivo de corporificar “identidades”
pautadas em modelos inalcançáveis, onde cada um se torna individualmente
responsável pelo corpo que tem. Quanto mais considerado apropriado, maior atribuída
será sua capacidade de autodisciplina e cuidado. A disciplina corporal cria corpos
padronizados e subjetividades controladas. Na atualidade, quem não tem um corpo
bronzeado, malhado, magro, lipoaspirado e siliconado, é visto como alguém que
fracassou inclusive em outras dimensões da vida, como finanças, profissão, família,
vida sentimental, amizades, dentre outras (Sant’Anna, 2001).
Isto talvez explique o aumento dos seguintes transtornos psiquiátricos, além de
outros relacionados como depressão e ansiedade.
Anorexia - perceber o corpo menos magro do que na realidade ele
aparece no espelho. O sujeito se torna obcecado por dietas para
emagrecer, que muitas vezes são levadas ao extremo do exagero, com o
objetivo de ter um corpo idealmente magro.
Bulimia - ingestão excessiva de alimento em um curto espaço de tempo,
levando posteriormente ao vômito induzido.
Vigorexia perceber o corpo menos definido do que na realidade ele
aparece no espelho. Isso gera obsessão e vício por práticas de exercícios
físicos com o objetivo de ter o corpo idealmente musculoso e definido.
69
Ortorexia preocupação obsessiva por ingestão de alimentos
considerados pelas ciências biomédicas nutritivamente saudáveis,
balanceados e naturais.
As ciências biomédicas associam a obesidade à preguiça, lentidão, acomodação,
falta de saúde, baixa agilidade, pequena produtividade, falta de cuidado, desleixo,
dificuldade de adaptação, falta de flexibilidade, predisposição à outras doenças fatais
como derrame e enfarte, exigência de cuidados especiais adaptados, problemas
emocionais e falta de beleza estética. Por tudo isso ela é combatida, além de representar
foco de resistência ao ritmo de funcionamento que estrutura a sociedade de controle: o
biopoder.
As indústrias relacionadas ao emagrecimento, principalmente as que pertencem
ao ramo da saúde e moda, movimentam cifras bilionárias no mundo inteiro em nome da
“saúde e estética física ideal”. Não as travestis idosas, como todos os indivíduos são
capturados por mais essa política do biopoder. Ela gerencia corpos e vidas em nome do
bem estar e da “qualidade de vida” (Foucault, 1993; Kaplan et al., 2007).
Diferenças de classe, etnia, gênero e geração, historicamente criadas tendem a
ser percebidas como naturais e corporalmente visíveis. Por isso mesmo, modificável
por meio de técnicas de adequação corporal. É como se alguém pudesse deixar de ser
pobre, “negro”, ou feminino, apenas por meio de técnicas, cosméticos, drogas e
cirurgias para se adequar ao “padrão de sucesso”.
A idéia é que o corpo considerado “fora da forma” padrão é o reflexo direto de
uma alma que também está “fora da forma” padrão. O processo prescrito atualmente é a
busca da materialização daquilo que é considerado feminino para mulheres e aquilo que
é considerado masculino para homens. O físico masculino “deve” ser forte, dominador
70
e definido. O físico feminino “deve” ser delicado, passivo e definido. O sujeito introjeta
o controle. Passa a se controlar e se avaliar na construção do corpo esperado (Miskolci,
2006).
71
CAPÍTULO II
CORPO, GÊNERO SEXUAL E VELHICE
2) Revisão de literatura
2.1) Construção do corpo travesti
A espacialidade do corpo próprio é diferente da sua localização no espaço. Com
o corpo se desenvolvem posturas. A experiência da sexualidade, por exemplo, é uma
experiência de corpo inteiro. A sexualidade nos constitui, assim como a constituímos
por meio da cultura. Por meio da linguagem pensamos. Não podemos pensar sem as
palavras. Pensamento e linguagem estão juntos. A linguagem nos constitui e é
constituída por nós socialmente. Ela se transforma no tempo e no espaço. Não é
totalmente natural e convencional (Merleau-Ponty, 2004 e 2006).
Portanto travestis “constroem” seus corpos, por meio de um longo trabalho de
“engenharia” física. Para isso, elas se baseiam na cultura e na linguagem. Procuram
transformação física e social. Retiram e incorporam elementos sociais. É justamente no
corpo que elas manifestam os principais dados simbólicos, daquilo que é considerado
masculino e feminino pelas normas de gênero. Tais normas foram constituídas pela
sociedade e legitimada principalmente pelas ciências biológicas e psicológicas
(psiquiatria e psicologia). Saberes esses que insistem em naturalizar essas normas.
Segundo Bourdieu (2009) o corpo é o espaço onde a cultura está. Nele se situam
os principais esquemas de percepção e apreciação do mundo, os quais são formados a
partir de estruturas básicas fundamentais. Como por exemplo, as construções binárias:
72
baixo/alto, forte/fraco, claro/escuro, masculino/feminino, etc. A cultura é incorporada
através do que o autor denomina como sendo o habitus. Para o autor, o habitus é o
próprio processo de naturalização da cultura, pois é o operador gico que promove a
ligação entre o simbólico (visto como cultural) e o corpo (visto como natural).
Habitus traz em si um processo de inculcação, ou seja, interiorização da
exteriorização. É um sistema de disposição durável, pois não foi produzido pelo
indivíduo, sendo anterior a ele. Funciona praticamente como uma bússola,
determinando as condutas “razoáveis” ou “absurdas” para qualquer agente inserido em
determinada estrutura social. Além disso, é a matriz que gera sentidos. No caso do
gênero sexual, o que dará inteligibilidade e sentido será a heterossexualidade. A partir
dessa matriz que se justificam e se constroem corpos hierarquizados como “entidades
diferentes”. No momento do agir, o ator social exterioriza uma leitura própria, fruto da
interiorização da exteriorização, da situação vivida (Bourdieu apud Bento, 2006).
Ele ainda ressalta que não um estrato puramente biológico do corpo,
governado por leis naturais, como insistem as ciências biológicas e psicológicas. Nossa
percepção sobre o corpo é imediatamente mediada por representações e símbolos
culturais que variam conforme o local e a época em questão. O corpo tanto produz,
como é o cenário primeiro dos significados. Portanto, é no corpo das travestis que os
símbolos do masculino e do feminino se concretizam produzindo tais sujeitos sociais
(Csordas apud Benedetti, 2005).
Esse processo de transformação e produção do corpo travesti começa em geral
por volta dos doze anos de idade. As partes dos corpos mais fácies de se transformar
inicialmente são as mãos e a cabeça. Unhas grandes e esmalte colorido ainda são
bastante associados ao que é considerado, por nossa sociedade, como sendo signos do
“universo feminino”. Unhas de porcelana, vermelhas, da moda, pontiagudas e
73
cuidadosamente ornamentadas. Aos poucos as transformações começam a acontecer.
Sendo que todo o seu processo pode durar uma vida inteira.
É no rosto que a maquiagem vai começar a se manifestar. Contornos de
sobrancelhas bem feitas, corretivo, base, compacto, cílios postiços, lápis de olho,
sombra, delineador para os olhos, rímel, sombra, blush, brilho labial, delineador labial e
batom. A maquiagem além de ser associada diretamente ao “mundo feminino” ainda
tem a função de esconder a barba, considerada símbolo do “mundo masculino”.
A base e o compacto servem para formar uma aparência de pele de pêssego
(lisa e macia), perfilar o nariz e disfarçar linhas de expressão consideradas típicas de
um rosto masculino. O blush é usado para ressaltar a vivacidade dos pômulos do rosto.
O batom é um dos primeiros itens a ser usado. Tanto ele como o delineador labial têm o
objetivo de dar um formato mais redondo e alongado aos lábios. Para as travestis a boca
vermelha é considerada um símbolo muito poderoso que pertence ao “mundo
feminino”. O batom estimula com a sexualidade, sedução e sensualidade.
Os cosméticos oculares têm o objetivo de tornar o olhar mais lânguido,
insinuante e alongado. As travestis ainda investem em transformar a expressão dos
olhos. Tornando-os delicados, inocentes, confusos e indefesos. Lentes de contato
coloridas e cílios postiços também são usados para realçar o olhar. As cores preferidas
são o azul e verde.
Os pêlos são considerados grandes obstáculos na construção do corpo pelas
travestis. Para elas, eles pertencem exclusivamente ao “mundo masculino”. Lutam
diariamente contra sua proliferação por todo corpo, especialmente a barba. Consideram
que o rosto é a apresentação inicial do corpo e deve mostrar o maior número possível
de atributos considerados femininos. Muitas usam pinça arrancando fio a fio num
74
trabalho minucioso e paciente. Outras usam aparelho de barbear comum, embora não
obtenha um resultado tão satisfatório.
Outra técnica é a depilação dos pêlos faciais através de cera depilatória. Ela
também é utilizada nas pernas, virilhas, púbis, ânus, axilas, braços, costas, nádegas e
peito. Algumas se beneficiam da eletrólise que é uma técnica que consiste na aplicação
de uma descarga elétrica que atua na região da raiz do pêlo, fio a fio. Muitas
consideram essa técnica demorada, além de deixar marcas na pele.
As travestis que tomam hormônios femininos não têm muitos los. Às vezes
optam por clareá-los com água oxigenada. Algumas alegam que a espessura dos pêlos
fica mais fina, conforme vão ingerindo mais hormônios. Muitas começam a tomar
hormônio no início da adolescência.
Outro cuidado que as travestis têm, é com a sobrancelha e com os cabelos.
Procuram contorná-las para que fiquem bem finas. Já os cabelos são bem longos,
sedosos e cuidados. Elas procuram estarem sempre atualizados com técnicas, apliques,
novidades, cremes, tinturas e produtos que os embelezem ainda mais. Os cabelos são
amplamente usados para seduzir e mostrar poder, além de ser outro signo importante do
mundo “feminino”.
Outra preocupação é com a voz. Elas forçam a voz para falar em um tom mais
agudo ou em falsete. Algumas acreditam que através de ingestão de hormônios, o
processo de virilizarão da voz pode ser suavizado. Porém, o principal método é o treino
constante da voz em tom mais agudo.
Quando pensamos em travesti, geralmente pensamos em homens biológicos
vestidos com roupas consideradas de mulher. Ou mulheres biológicas vestidas com
roupas consideradas de homens. Muitas travestis relatam que desde criança vestiam
escondidas, roupas de suas mães ou suas irmãs. A roupa é o primeiro recurso que
75
permite a aparição de características consideradas femininas, independentemente de
qualquer intervenção hormonal ou cirúrgica.
Travestis chamam o processo de se vestir de se montar. Passam horas
escolhendo cuidadosamente o modelo de roupa que irão usar. Vestimentas também são
usadas como formas de se comunicar, pois transmitem aspectos simbólicos a elas
associados e convencionados pelas normas sociais estabelecidas. De acordo com aquilo
que se pretende transmitir, a combinação de roupas é feita. Consiste no importante
processo de construção e “montagem” da travesti. Com o grupo de convivência,
aprendem que certas roupas valorizam mais certas partes do corpo do que outras como
nádegas, quadris, seios, coxas e pernas.
Outro item importante e indispensável para o visual são os assessórios como
jóias, bijuterias, bolsas e outros. Por causa do preconceito, muitas travestis acabam
criando uma espécie de comércio informal de roupas entre elas mesmas. Outras acabam
desenvolvendo pequenas confecções.
Sapatos também compõem um item importante do visual. Principalmente os
sapatos com salto alto. Porém, é preciso saber andar neles de maneira elegante e segura.
Andar no salto requer aprendizado e experiência. Os perfumes também são
fundamentais, pois auxiliam no processo de sedução e encantamento.
O estilo para a travesti é muito importante. É como se fosse um personagem que
vai sendo montado à medida que vão se transformando. Além do guarda roupa,
precisam se preocupar com os gestos, impostação de voz, penteado adotado,
maquiagem, forma de andar, falar, pensar e se relacionar com as outras pessoas. O
estilo é a forma como ela quer ser representada ou até mesmo representar.
As formas angulosas e retas originais do corpo do homem precisam ser
modeladas para adquirir formas arredondadas e roliças do corpo da mulher. Isso é feito
76
através do uso de hormônios, próteses e silicone. Esse momento é muito importante na
vida da travesti, pois aí estará decididamente “fabricando” um corpo portador de signos
considerados femininos. A partir desse momento são introduzidas mudanças corporais
mais definitivas e difíceis de reverter. Seios se desenvolvem, siluetas se arredondam,
pêlos diminuem e os cabelos crescem adquirindo formas de mulher.
Para iniciar o processo, as futuras travestis tomam altas doses de progesterona e
estrógeno por volta dos treze anos de idade. Os hormônios agem sobre o organismo,
desenvolve seios, arredondam quadris, braços, pernas, afinando a cintura, diminuem o
crescimento de pêlos, redistribui a gordura uniformemente pelo corpo, suaviza os
joelhos, diminuem o tamanho dos testículos e do pênis, rareia a produção de sêmen.
Algumas travestis alegam que os hormônios também influenciam no modo de ser,
gesticular, andar, falar, sentir e pensar. O significado simbólico atribuído aos
hormônios pelas travestis, é que eles suprem o que falta daquilo que é considerado
feminino pelo conceito cultural.
Os efeitos colaterais alegados são: inchaço nas pernas e nos pés, retenção de
água pelo organismo, diminuição do apetite sexual e da possibilidade de ereção,
aumento do apetite, varizes, preguiça, apatia e irritação (Benedetti, 2005).
Outro produto fundamental utilizado na construção do corpo da travesti é o
silicone. É preciso que a decisão em aplicá-los seja bem pensada. Uma vez aplicado o
silicone industrial, sua retirada é praticamente impossível, pois ele se mistura aos
músculos. É utilizado após o uso de muito hormônio. O silicone pode ser aplicado nas
pernas, joelhos, coxas, quadris, nádegas, seios, face, boca, testa.
Os resultados são imediatos e visíveis logo no final da aplicação. Geralmente é
aplicado de forma caseira por travestis mais velhas que são chamadas de bombadeiras.
Pois bombear, para as travestis, consiste em injetar silicone. As bombadeiras são uma
77
das responsáveis pela construção dos novos corpos das travestis. É como se fosse uma
espécie de trabalho de arquitetura e engenharia do corpo travesti (Albuquerque e
Jannelli, 1995; Benedetti, 2005).
O silicone líquido não está disponível no mercado. Nem todos podem comprá-
lo. Normalmente é a bombadeira que tem contato com alguns fornecedores do comércio
informal. A venda do produto é considerada ilegal. Pelo fato de ser mais barato, muito
do silicone que está no corpo da travesti é de uso industrial e não cirúrgico. Por causa
disso, pode provocar problemas a saúde. Algumas ainda usam óleo mineral produzido
para uso mecânico, tal uso era mais comum na década de 1980.
O silicone para uso cirúrgico é produzido em forma de prótese. São pequenas
bolsas que contêm um gel, que quando aplicadas a determinada parte do corpo,
produzem formas. São controladas pelos organismos estatais competentes. Porém,
mesmo essas, podem sofrer rejeição por parte do organismo.
As bombadeiras esterilizam o silicone antes de aplicá-lo. Esse fica cerca de três
dias no congelador. Algumas seringas usadas são de uso veterinário, por serem mais
grossas e terem maior capacidade de armazenamento e injeção. As sessões de aplicação
levam muitas horas, requer muita paciência e muita resistência à dor, pois são
geralmente feitas sem anestesia. Muitas travestis que se submetem a esse tipo de
método alternativo alegam vantagens. Dizem que o preço pago pela aplicação do
silicone industrial é mais baixo do que a colocação de prótese com silicone cirúrgico.
Relatam ainda, que a dor sofrida é o preço que pagam para atingir a beleza tão
desejada.
Depois de feita a aplicação a bombadeira recomenda que a pessoa tome um
antibiótico e fique em repouso uma semana para que o silicone possa se firmar ao
corpo. Caso haja movimentação física o silicone pode se espalhar pelo corpo, perdendo
78
o formado almejado. Algumas usam até meia calça de alta pressão para poder modelar
melhor o silicone aplicado. Ao comprimir a perna, a meia impede qualquer
deslocamento ou deformação.
Além do silicone líquido, próteses de silicone são usadas pelas travestis para
modelar os seios. Tanto a compra como a aplicação da prótese de silicone cirúrgico são
mais caras. A aplicação de silicone líquido nos seios é muito perigosa, pois pode atingir
o pulmão, causando a morte. É preciso usar um sutiã bem firme com um pedaço de
madeira entre os seios para que eles não se misturem, formando o que as travestis
chamam de peito de pombo ou peito de sapo.
Precisam tomar cuidado para que a modelagem de seus seios não seja
comprometida. Exercícios físicos devem ser evitados, pois podem prejudicar a
modelagem do silicone. Pancadas violentas deformam formas que o silicone produziu.
Travestis mais velhas criticam as mais novas pelo uso excessivo de silicone. Na época
que começaram seu processo de transformação, o que havia eram apenas hormônios.
Por fim, outro recurso usado para fabricar formas consideradas femininas são as
cirurgias plásticas. No entanto, é um método caro. As intervenções preferidas pelas
travestis acontecem no rosto. Elas preferem narizes mais finos e arrebitados, lábios
maiores e formato de olhos mais languidos, eliminação do pomo-de-adão, redução da
testa, preenchimento das maçãs do rosto e colocação de prótese de silicone cirúrgico
nos seios. Outras intervenções também podem ser feitas em outras partes do corpo,
conforme a preferência e a disponibilidade financeira. Já a técnica de esconder o pênis
sob a roupa, quando o prendem para trás, é chamada pelas travestis de acuendar a neca.
Isso é feito para que a região pubiana fique com a aparência parecida a de um genital de
mulher. Outra técnica que valoriza o corpo é o bronzeado artificial ou natural para
deixar marca de biquíni (Benedetti, 2005; Kulick, 2008; Pelúcio, 2009).
79
Para construir seus corpos, a travesti mais nova inicialmente acaba se
encontrando no corpo da travesti mais velha. Muitas acabam se tornando “mães” das
mais novas. O que aborrece as mais velhas é que as jovens em geral não admitem sua
inexperiência e esnobam aquelas que abriram as portas. Travestis mais velhas
orgulham-se de serem mães” ou “madrinhas” das mais novas. Seu papel é de iniciar,
proteger e ensinar a viver como travesti. Noção de mãe para as travestis está ligada ao
processo de transformação.
Dentre as funções que a travesti mais velhas (como se fossem mães)
desempenha em relação às mais novas (como se fossem filhas) destacamos: ensinar
técnicas corporais e potencializar atributos físicos. Ou seja, ela ensina a tomar
hormônios, sugere à travesti mais nova que partes do corpo devem ser bombadas e a
quantidade de silicone a ser aplicada.
A “mãe” indica em qual bombadeira sua “filha” deve ir. Muitas bombadeiras
são tidas como mães, pois “fazem o corpo”, orientando quais os cuidados com ele.
Dominam técnicas que as colocam em posição de prestígio entre as travestis. Além
disso, algumas travestis mais velhas ocupam lugar de cafetinas. Elas organizam a
ramificada rede de prostituição entre as travestis que se prostituem.
As mais velhas em geral atuam em algumas frentes básicas. Na rua, quando
organizam os a distribuição dos espaços de prostituição. Em casa, quando alugam
quartos ou pequenos imóveis de sua propriedade para as mais novas. Financeiramente,
quando atuam como agiotas em empréstimos financeiros para aquelas que pretendem se
prostituir na Europa, ou para outros fins. Algumas travestis que estão no exterior
prestam esse tipo de serviço, auxiliando as mais novas na chegada e estadia. Elas tanto
exploram e maltratam como também são aquelas que cuidam das mais novas.
80
Basicamente, em uma casa que moram travestis que se prostituem, tanto por
interesses afetivos como financeiros, se alguma travesti tiver algum problema de saúde
ou de outro tipo, vai reportar diretamente a sua “cafetina” que muitas vezes é a locatária
ou “mãe” da travesti. Quando isso não acontece, é a própria “mãe” que vai perceber que
algo está alterado na rotina de suas “filhas”.
Muitas “mães” consideram que “fabricar” um corpo é também “fabricaruma
pessoa. Pois implica entre outras coisas, a transmissão de valores próprios da
travestilidade. O código moral das travestis se constitui nos espaços onde as relações
referentes à travestilidade acontecem. São formados por aqueles e aquelas que são
perseguidos sistematicamente pela moralidade dos comportamentos. Não contam com
leis regidas pelo Estado, que os nomeiam como cidadãos, porém não os tratam como
tais (Pelúcio, 2009).
Várias razões podem levar uma pessoa a se transformar naquilo que chamamos
de travesti. Segundo Kulick (2008) a vida da travesti está ancorada no desejo. Seus
corpos são fabricados em função desse desejo. O desejo não é sempre sexual. Graças à
transformação de seus corpos, muitas conseguem reconhecimento, afeto, carinho,
dinheiro, valorização, reconhecimento, bens materiais, ascensão social, resgate dos
laços afetivos com a família, amizades, prestígio, status, etc. (Kulick, 2008; Pelúcio,
2009).
Em sua pesquisa realizada em Salvador, Bahia em meados da década de 1990,
Kulick mostrou que muitas das travestis entrevistadas associavam o desejo por homens
a identificação por aquilo que foi socialmente denominado de identidade feminina. É
como se aquele que nasce biologicamente homem e sente desejo por outro
biologicamente homem tivesse que obrigatoriamente incorporar elementos daquilo que
é popularmente considerado feminino para assim, ter a “permissão” de sentir tal desejo.
81
Muitas dessas travestis acreditam ser o próprio desejo homossexual em sua
forma mais perfeita e acabada. Alegam que os homossexuais masculinos não são
completos, pois não incorporam os elementos considerados femininos, como as
travestis incorporam. Elas rejeitam as outras subjetividades homossexuais,
considerando todas desonestas e presas a algum estágio inicial daquilo que elas vêem
como o pleno desenvolvimento e reconhecimento daquilo que chamam de identidade
homossexual. Algumas se percebem como a arquiencarnação e verdadeira expressão do
objetivo final do desejo homossexual. Mais uma vez é feita associação entre sexo
biológico, identidade de gênero e desejo. Tal forma de pensar está baseada no modelo
heterossexista normatizador.
Para as travestis pesquisadas existem três tipos hierarquizados de gênero,
sexual: homens, mulheres e viados (homossexuais). As travestis se classificam como
viados. O autor ainda apontou que na configuração brasileira de sexo e gênero, o
critério determinante para identificar homens e mulheres parece ser o papel que a
genitália desempenha no intercurso sexual. Se a pessoa só penetra, é considerada
homem. Se for penetrada é considerada mulher ou viado (homossexual).
O ato de penetrar ou ser penetrado determina o gênero independentemente do
sexo biológico e identidade de nero. De maneira geral, a penetração está associada
com atividade e superioridade, que por sua vez estão associadas aquilo que chamamos
de masculino. Ser penetrado está associado com passividade e inferioridade, que por
sua vez estão associados àquilo que chamamos de feminino. Ao naturalizar o sexo, que
exige um gênero supostamente coerente a uma anatomia, algumas travestis mantêm-se
atadas à matriz heteronormatizadora, uma vez que aquele seria definidor de papéis
claros e legítimos. Quanto mais próximo ao ideal, maior a chance de ser aceita
socialmente (Fry, 1985; Fry e MacRae, 1983; Kulick, 2008; Pelúcio, 2006).
82
Acompanhar a transformação dos corpos é nosso objetivo. Perceber a velhice
como mais um momento em que os corpos sofrem a transformação do tempo e de suas
próprias agentes. Qual será que é o impacto do envelhecimento humano no corpo
definido como travesti? Quais as conseqüências? Quais são os efeitos?
2.2) Corpo, gênero sexual e envelhecimento
O gênero faz parte da lógica social que estabelece significado aos corpos,
práticas, relações, crenças e valores. Mesmo que seja variável e diverso culturalmente.
Parece fazer parte de um princípio que confere sentido à realidade que vivemos. Tanto
o corpo produz o gênero, como o gênero produz o corpo em uma relação simultânea
(Benedetti, 2005; Scott, 1990).
Para a filósofa norte-americana Judith Butler (nascida em 1956) o gênero não
deve ser uma inscrição cultural de significado sobre um sexo pré-dado. Ele deve
designar também o próprio aparato de produção no qual os sexos são estabelecidos. O
sexo não está para a natureza assim como o gênero está para a cultura. O gênero é um
meio discursivo cultural pelo qual uma natureza sexuada ou sexo natural é produzido e
estabelecido como realidade pré-discursiva. Como se o sexo fosse anterior à cultura e
atuasse sobre uma superfície politicamente neutra (Butler apud Benedetti, 2005).
A maior parte das travestis não se iguala às mulheres. Nem desejam isso. Elas
sabem que são travestis e constituem seus corpos travestis a partir de seus corpos
biológicos masculinos. Travestis em geral vivem transitando constantemente entre
aquilo que foi denominado de características femininas e aquilo que foi denominado de
características masculinas (Benedetti, 2005).
83
As travestis idosas têm um papel muito importante na construção e reprodução
do gênero entre as travestis mais novas. Geralmente elas acabam “adotando” as
travestis mais novas como se fossem “filhas”. Estas últimas serão “tuteladas” e
“protegidas” em seu processo de construção do “gênero travesti”. Tanto a travesti mais
velha como a travesti mais nova acabam resignificando o processo de reprodução social
de novas travestis.
No “corpo de homem” vão sendo inscritas “marcas de mulher”, a partir de uma
cuidadosa observação daquilo que é considerado feminino. Gestos, olhares, formas de
falar, vestir, comportar, caminhar, sentar, rir, seduzir, pensar, sentir, amar e ser. As
referências são buscadas em mulheres estabelecidas pela mídia como modelo a ser
seguido. Atrizes, manequins, cantoras, artistas, divas, estadistas, socialites e outras
figuras públicas consideradas mais do que mulheres, ou seja, mulheríssimas (Kulick,
2008).
O gênero é uma construção deliberada e não um processo natural. Porém
certa insistência por parte das ciências médicas (psiquiatria e psicologia) em
essencializar o gênero. Tal idéia sobre essencialização se constituiu a partir de reflexões
do filósofo grego Aristóteles (384 a.C - 324 a.C.), que se perguntava o que levava
determinada coisa ser do jeito que era.
Concluiu que o que fazia as coisas serem o que são é a finalidade para a qual
nasceram. A existência de um objeto, ente ou indivíduo para esse filósofo, significava
dirigir-se a um objetivo. Para ele todos os seres são dotados de potência que por sua vez
serão transformadas em ato. A potência indica a possibilidade por parte da matéria de
assumir determinada forma. O ato indica a realização dessa possibilidade. Portanto,
tudo na natureza tem uma causa final.
84
Se tudo fosse casual, não existiriam causas finais, mas somente eventos
acidentais. Organismos complexos teriam se formado somente por uma feliz
combinação. As regularidades dos fenômenos naturais depõem contra essa hipótese da
casualidade. O fato de existirem certas exceções, isso não invalida as regras. Na
natureza existe a matéria e a forma. Para Aristóteles a forma é a causa final. O
finalismo está presente na natureza e na arte.
Segundo Aristóteles, deve-se instituir uma hierarquia entre os quatro
significados da noção de causa que são as seguintes: causas materiais, eficientes,
formais e finais. Pensemos, por exemplo, no notável mármore (causa material) da
cidade italiana de Carrara, que foi transformado em uma famosa estátua (causa final)
para a humanidade. Ele começou a ser esculpido pelo famoso artista italiano (causa
eficiente) Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475-1564) em 1501.
O mármore por sua vez, serviu de estrutura que determinou a realidade da futura
estátua (causa formal). A estátua de mármore ficou pronta em 1503 e teve a finalidade
de homenagear (causa final) David ou Davi. Ela procura mostrar o momento
imediatamente anterior a batalha contra Golias, quando Davi estava se preparando para
enfrentar uma força que todos julgavam ser impossível de derrotar. É considerada uma
das esculturas mais importantes do Renascimento. O trabalho de cinco metros e
dezessete centímetros de altura, retrata o herói bíblico com realismo anatômico
impressionante. A escultura encontra-se na Galeria da Academia de Belas Artes da
cidade italiana de Florença (Baumgart e Holler, 2007).
Aristóteles defendia que compreender a verdadeira causa de um evento era
intuir sua essência, especificidade e necessidade. Outro filósofo que corroborou com as
idéias de Aristóteles foi o alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646 1716). Para ele, o
mundo foi criado para um determinado fim. Tudo o que existe tem uma causa final que
85
define o seu propósito e a sua existência. Nada acontece sem uma razão profunda
suficiente. Agir para um fim e, em relação a este, avaliar os próprios meios é típico da
natureza humana. Conforme a hipótese finalista, a natureza também seria movida por
análogo critério de intencionalidade. O cristianismo fez do finalismo sinônimo de
providência divina.
Influenciada pelo pensamento essencialista e finalista, as questões de gênero
foram sendo construídas pelas normas religiosas, médicas, políticas e jurídicas.
Portanto, o raciocínio estabelecido foi o seguinte: aquele que é definido como homem
biológico foi feito com um pênis. Depois foi dotado de uma “essência masculina”. Sua
finalidade é buscar uma mulher biológica que foi feita com uma vagina e dotada de
uma “essência feminina”. A partir desse encontro, os dois estabelecerão uma relação
complementar e serão os responsáveis pela perpetuação da espécie humana. Além de
garantirem a continuidade da vida, estarão cumprindo com as normas religiosas e
mandamentos sociais estabelecidos.
Aristóteles ainda dizia que tudo é composto de uma substância, o termo
significa literalmente o que está por baixo de. Não possui uma existência acidental e
eventual. Ela existe para si. Tem vida própria e goza de determinadas propriedades
possuindo apenas uma essência. Substância e essência coincidem. Nesse caso podemos
pensar na “essência masculina” e na “essência feminina”. Essas por sua vez, são
compostas de comportamentos normatizados e específicos para cada gênero em questão
(Abbagnano, 2007; Chauí, 2003; Nicola, 2005).
Tal forma de raciocinar ficou conhecida na filosofia como essencialismo. As
essências são produzidas através de respostas dadas a seguinte pergunta: o que é isto ou
aquilo? Quando se pergunta, por exemplo, o que é o gênero, a mulher, o homem, o
idoso ou a travesti, está se perguntando pela definição desses entes. Para Aristóteles
86
apud Nicola (2005), pode-se descrever a essência como aquilo que permanece e se
conserva imutável, apesar da mutação aparente. Definir a essência da vida é mais difícil
do que definir a essência de um triângulo, por exemplo.
Em oposição ao essencialismo, outra corrente na filosofia denominada de
existencialismo. Essa linha de pensamento diz que o ser humano, não é um conjunto de
teorias. uma preocupação com o sentido ou o objetivo das vidas humanas, mais que
com verdades científicas ou metafísicas sobre o universo. Assim, o existencialismo foi
influenciado pela fenomenologia do filósofo alemão Edmund Husserl (1859 - 1938).
Tal pensamento dizia que a experiência interior ou subjetiva é considerada mais
importante do que a verdade “objetiva”.
O existencialismo diz que o homem não foi planejado por alguém para uma
finalidade, como os objetos que o próprio homem cria. O homem se faz em sua própria
existência. Não havendo tal essência, todos são iguais e igualmente livres para se
fazerem em relação a determinado contexto. Afirma o primado da existência sobre a
essência. Não há afirmações gerais e verdadeiras sobre o que os homens devem ser. Um
de seus principais representantes é o filósofo francês Jean Paul Sartre (1905 - 1980) que
leva esse indeterminismo às suas mais radicais conseqüências.
Para Aristóteles, e muitos outros filósofos, a essência de ser humano era ser
racional. Mas para Sartre, a pessoa deve produzir sua própria essência. A existência
precede a essência. Como seres conscientes, estamos sempre querendo preencher o “vir
a ser” que na realidade é a verdadeira “essênciado nosso ser consciente. Queremos
nos transformar em coisas em vez de permanecer perpetuamente num estado em que as
possibilidades estão sempre irrealizadas. Para Sartre nos tornamos algo acabado,
quando morremos.
87
O homem passa toda sua existência em um processo de devir. Estamos sempre
abertos às novas possibilidades de reinvenção partindo de um determinado contexto
existencial possível. Sartre chamou isso de facticidade. Ela diz respeito às resistências e
objetos que a liberdade necessariamente se defronta quando cria nova situação.
Como exemplo de facticidade, podemos pensar no sexo biológico, família, país,
cidade, cultura, época e condição socioeconômica que nascemos. As condições
impostas pela facticidade conjugadas ao significado dado pela liberdade se combinam
para criar uma nova situação. Sartre defende que não importa o que foi feito do
indivíduo, e sim o que o indivíduo faz com aquilo que foi feito dele. A resistência é
intrínseca à liberdade e ao humano.
Travestis nasceram biologicamente homens. Podemos pensar que esse fato
remete à facticidade ou àquilo que foi feito delas. Alteram seus corpos com signos
considerados culturalmente próprios do feminino. Esse fato remete à liberdade ou ao
que fazem com aquilo que foi feito delas.
No entender de Sartre estamos condenados à liberdade. Cada ato contribui para
definir como nos apresentamos ao mundo. Em qualquer momento podemos começar a
agir de modo diferente e desenhar um retrato diferente de nós mesmos.sempre uma
possibilidade de mudança, de começar a fazer um tipo diferente de escolha. Temos o
poder de nos transformar indefinidamente, tendo sempre como ponto de partida, nossa
facticidade (Sartre, 2005).
Não nenhuma “essência” determinada que oriente a priori, o comportamento
de ninguém. Porém, há o que Sartre chama “projeto original”. Como uma pessoa é uma
unidade, e não apenas um amontoado de desejos ou hábitos sem relação, deve haver
para cada uma delas uma escolha fundamental por um papel ou script de vida, o qual dá
o significado de qualquer aspecto específico de seu comportamento. Essa escolha nem
88
sempre acontece de forma consciente. Saber sobre o “projeto original” de alguém
demanda cuidadosa análise de sua trajetória existencial (Perdigão, 1995).
Sartre acreditava que não nenhum deus e, portanto não qualquer plano
divino que determine o que deve acontecer. Não um sentido ou propósito último
inerente à vida humana. Logo ela é absurda. Isto significa que o indivíduo foi jogado de
fato na existência sem nenhuma razão real para ser. Simplesmente descobrimos que
existimos e temos então que decidir o que fazer de nós mesmos. O homem não é mais
do que aquilo que ele faz de si mesmo. Se não nenhum deus, não nenhum padrão
objetivo de valores (Giles, 1989).
Conseqüentemente, devemos estabelecer ou inventar, a partir da liberdade e
facticidade nossos próprios valores particulares. Tal é o primeiro princípio do
existencialismo ateu de Sartre. Sem diretrizes absolutas, nós devemos sofrer a agonia
de nossa tomada de decisão e a angústia de suas conseqüências. A angústia é, então, a
consciência da própria liberdade e a consciência da imprevisibilidade última do nosso
comportamento.
Sartre define como “má fé” a tentativa de fugir da angústia fingindo que não
somos livres. Tentamos nos convencer que as nossas atitudes e ações são determinadas
pela nossa personalidade, horóscopo, situação ou por qualquer outra coisa fora de nós
mesmos. Segundo Sartre, nenhum motivo ou resolução passada determina o que
fazemos agora.
Cada momento requer uma escolha nova ou renovada. Mesmo que não fizermos
nada, uma escolha está sendo realizada: o não agir. Negar a liberdade é uma tomada
de posição covarde, a fim de fugir da angústia da escolha, e achar o repouso e a
segurança na confortável ilusão de ser uma essência acabada. Portanto, o
existencialismo se contrapõe ao essencialismo, à medida que defende que não somos
89
determinados. Para essa corrente filosófica, podemos nos reinventar a cada momento
(Abbagnano, 2007; Bornheim, 2000; Chauí, 2003).
Inicialmente, as idéias essencialistas se tornaram mais expressivas que as idéias
existencialistas. Portanto, as primeiras influenciaram mais as ciências biológicas do que
as ciências humanas. Logo, para as ciências médicas e biológicas, assim como todos os
entes, homens e mulheres também possuem uma essência e finalidade que serão
manifestadas ao longo da vida.
O filósofo inglês Francis Bacon (1561 - 1626) se preocupava com a
possibilidade de evitar erros de raciocínio. Concluiu que o engano muitas vezes advinha
de uma série de ídolos presentes no intelecto humano. Toda leitura interpretativa,
ocorre a partir de um ponto de vista estabelecido. Eles são compostos por crenças,
suposições, prejulgamentos e preconceitos que condicionam a aquisição de um novo
saber. A linguagem dá origem a equívocos. A mente humana tem a tendência de
generalizar e formular leis com poucos exemplos (Nicola, 2005).
Logo, quem nasceu com pênis, por exemplo, só poderá desenvolver determinada
forma de ser: a masculina. Travestis idosas transtornam as formas tradicionais de
raciocínio sobre o que foi denominado de gênero sexual. Segundo Bacon o ser humano
atribui um peso excessivo às preferências pessoais, obstruindo seu intelecto, sem que o
sujeito se conta. Dessa forma, ele não pode receber o novo, pois está preenchido
pelo velho.
Assumir que o modelo para homens e mulheres, exposto acima, é natural e
essencial, ignora que ele foi construído e convencionado para o melhor funcionamento
da sociedade. Uma forma de pensar (essencialista) obstrui a outra (construcionismo
social). Segundo Gergen, (1985) os estudos sócio-construcionistas focam-se nos
90
processos cotidianos, ou seja, como as pessoas falam, percebem e experienciam o
mundo em que vivem.
A postura básica desta perspectiva é ser crítica à naturalização dos fenômenos
sociais. As teorias de cunho essencialista, geralmente intrínseco nas mais diversas
disciplinas, realizam suas investigações sem questionar seus objetos, concebendo-os
como algo pronto. O construcionismo social também pode ser definido como uma
perspectiva de observação e análise da realidade a partir de uma visão cio-histórica,
negando qualquer essência natural inerente aos fenômenos humanos.
Para Judith Butler, o modelo de gênero que obedece a uma coerência
estabelecida, foi denominado pela autora de gênero inteligível. Nosso objetivo é
compreender como a sociedade se organizou para atingir seus objetivos de
funcionamento e quais os efeitos que tal organização provoca naqueles que são
considerados rebeldes as normatizações e normalizações.
Pessoas que se enquadram nesse no modelo social têm suas existências visíveis
e reconhecidas pelos demais. Para Butler (2003) gêneros inteligíveis são aqueles que,
em certo sentido, instituem e mantém relações de coerência e continuidades entre
aquilo que foi estabelecido como sexo, gênero, prática sexual e desejo. A autora ainda
critica o gênero como uma modalidade de regulação de identidades e defende a
ampliação do reconhecimento de formas de ser que escapem do binarismo homem-
mulher, impostos pelas ciências do corpo e da mente. No item seguinte veremos mais
detalhadamente como tais regulações repercutem na vida daqueles que são
considerados inteligíveis e aqueles que são considerados ininteligíveis.
Vejamos como as ciências humanas trataram a questão do essencialismo
naturalizado relacionado às questões de gênero. Enquanto o aparelho de ecografia
passeia pela barriga da mãe, por volta do terceiro mês de gravidez, ela aguarda ansiosa
91
pelo resultado. Quando o médico identifica e anuncia a genitália do bebê, um conjunto
de expectativas é acionado criando realidades que serão materializadas em brinquedos,
cores, modelos de roupas e projetos para a futuro filho ou filha, antes mesmo de esse
corpo vir ao mundo. A criança nasce com um sexo biológico definido.
É justamente por causa do seu sexo biológico, que no contato social, a
sociedade vai prescrever a criança o que é próprio ao seu respectivo gênero. O que
chamamos de gênero estrutura e organiza as relações de poder na sociedade. É uma
relação assimétrica e hierarquizada de direitos e deveres em que homens, no geral,
dominam mulheres. Ser considerado homem ou mulher pressupõe certos direitos e
deveres, de acordo com a época e lugar em questão. Travestis idosas são consideradas
ambíguas, são destituídas de direitos, porém continuam tendo seus deveres a cumprir.
Às vezes existem parcialmente ante essa dinâmica, às vezes o existem de forma
alguma (Bento, 2006; Scott, 1990).
Segundo a antropóloga norte-americana Gayle Rubin (nascida em 1949), o
sistema sexo-gênero constituiria uma parte da vida social que seria lócus da opressão
das mulheres e das ditas minorias sexuais. A autora propõe uma revolução feminista
profunda que libertaria não somente as mulheres, como também formas de expressões
diversas. Rubin ainda discute o conceito de estratificação sexual vigente em nossa
sociedade ocidental.
A antropóloga propôs uma espécie de pirâmide valorativa com as seguintes
categorias a seguir: no topo está a sexualidade considerada boa, normal, natural e
abençoada pela religião, ou seja, heterossexual, conjugal, monogâmica, procriadora,
não comercial, somente entre os dois membros do casal, relacionamento estável,
mesma geração, em local privado, sem pornografia, somente entre os dois corpos, (sem
nenhum objeto de fetiche envolvido no ato), pasteurizada, mesma classe social e étnica.
92
Em seguida vem a sexualidade heterossexual do não casado, monogâmica, para
procriação, não paga, somente entre os dois membros do casal, em um relacionamento,
inter-geracional, em local privado, sem pornografia, somente entre os dois corpos
envolvidos, pasteurizada, entre classes sociais e étnicas.
No meio da pirâmide está a sexualidade homossexual em relacionamento
estável, em pecado, promíscua, não procriativa, por dinheiro, sozinho ou em grupo,
ocasional, mesma geração, em público, com objetos fetichistas e sadomasoquista. Na
base da pirâmide estão os excluídos: sexualidade considerada má, anormal, patológica,
não natural e condenável, ou seja, sexo homossexual solteiro, fora do casamento,
promíscua, não-procriativa, comercial, sozinho ou em grupo, ocasional ou compulsiva,
entre gerações, em público, pornográfica, entre fetichistas, sadomasoquistas,
transexuais e travestis (Rubin, 1999).
Portanto, travestis estão na base da pirâmide. Uma das principais teorias que
trataram sobre as classificações acima citadas e o gênero sexual foi a teoria queer. Ela
começou a ser desenvolvida nos EUA a partir da década de 1980 por uma série de
pesquisadores e ativistas bastante diversificados, sendo, portanto, interdisciplinar. O
termo queer, em português pode ser traduzido como “estranho”, “ridículo”,
“excêntrico”, “raro”, viado”, “bicha”, extraordinário”, “esquisito”.
Sua conotação em inglês é mais ofensiva. Tratando-se de uma injuria que
identifica o injuriado como “desviante”, anormal, defeituoso e impuro. O queer
geralmente é usado como insulto. Procura denunciar no insultado “a esquisitice”
estreitamente ligada à sexualidade, bem como a detectável “inadequação ao gênero”.
Tal “xingamento” imputa aos assim designados certa marginalidade quanto à sua
identidade sexual.
93
No campo teórico, o livro Between Men: English Literature and Male
Homosocial Desire, da educadora norte-americana Eve Kosofsky Sedgwick (1950 -
2009), publicado em 1985 pode ser tomado como um marco dos estudos queer.
Partindo de idéias de filósofos franceses como Michel Foucault (1926 - 1984), Jacques
Derrida (1930 - 2004) e Gilles Deleuze (1925 - 1995), que procuram escapar dos
binarismos rigidamente estabelecidos e desnaturalizar identidades, gêneros e corpos.
As ditas minorias sexuais começaram a questionar o termo queer, assumindo a
perspectiva de oposição e de contestação. Para esse grupo, a palavra queer muda de
sentido e passa a colocar-se contra qualquer tipo de normatização como: “a mulher”’,
“o homem”, “o corpo”, “o sexo”, “a travesti”, “o idoso”. Dualidades como: sexo-
gênero, masculino-feminino, ativo-passivo, homossexualidade-heterossexualidade,
normal-patológico, jovem-idoso, homem-animal e natureza-cultura foram questionadas
(Leite Junior, 2008; Pelúcio, 2009).
Neste sentido, um dos maiores esforços reside na crítica ao que se convencionou
chamar de heteronormatividade homofóbica, defendida por aqueles que vêem no
modelo heterossexual, conhecido também como heteronormatividade compulsória, o
único correto e saudável. Por isso, os primeiros trabalhos dos teóricos queer apontam
que este modelo foi construído para normatizar as relações sexuais, segundo
conveniências complexas de organização social. Assim, pesquisadores e ativistas
pretendem desconstruir o argumento de que a sexualidade segue um curso natural.
Heteronormatividade (do grego hetero, “diferente”, e norma, “regulamento” em
latim) é um termo usado para descrever situações nas quais variações da orientação
heterossexual são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas e crenças
sociais ou políticas. Inclui a idéia de que os seres humanos recaem somente em duas
94
categorias distintas e complementares: macho e fêmea. Dessa forma, as relações
sexuais e maritais são naturalizadas somente entre pessoas de sexos diferentes.
Portanto, por meio da heteronormatividade cada sexo tem seu papel
determinado pela cultura em questão. Além de se complementarem, são hierarquizadas.
Em geral, o homem ainda é visto como o dominador, e a mulher vista como a
dominada. Assim, sexo biológico, identidade de gênero e papel social de gênero
enquadram a pessoa dentro de normas consideradas ou masculinas ou femininas. A
ordem social na atualidade tem como fundamento a heteronormatividade. Tal padrão é
considerado como sendo o único “normal” e “natural”, pois é um modelo socialmente
conveniente às estruturas econômicas dominantes.
Em outros termos, a heterossexualidade é legitimada como sendo a única
orientação sexual “correta”. Ela é um conjunto de prescrições que fundamentam
processos sociais de regulamentação e controle. O objetivo é formar todos para serem
heterossexuais e organizarem suas vidas a partir de um modelo que parece ser
absolutamente “coerente, superior, lógico e natural”. É institucionalizada assim, a
heterossexualidade obrigatória e compulsória (Rich apud Bento, 2006; Wittig apud
Bento, 2006).
Originalmente o termo foi concebido para descrever as normas contra as quais
os não-heterossexuais lutam. Rapidamente incorporou-se tanto no debate de gênero
quanto no de transgênero. Também é freqüentemente usado em debates pós-
modernistas e feministas. A teoria queer propõe-se a uma genealogia radical dos
discursos que instituem a heterossexualidade como norma compulsória (Bento, 2006;
Miskolci, 2009; Pelúcio, 2009).
Dessa forma, travesti idosa não está de acordo com o modelo heteronormativo.
Foucault apud Miskolci (2009) aponta que as identidades sexuais são efeitos resultantes
95
da forma como o conhecimento foi organizado e produzido. Tal produção social de
identidades acaba sendo naturalizada pelos saberes dominantes como a biologia,
medicina, psicologia, pedagogia, direito e religião.
Conforme vimos em Foucault (1993), aquilo que foi definido como sendo “a
sexualidade humana” é mais um dispositivo de dominação e regulação das relações
sociais. Isso tem se dado por meio da estimulação dos corpos, revelação dos desejos,
intensificação dos prazeres, formação de conhecimentos, reforço dos controles e das
resistências que se encadeiam uns aos outros, segundo estratégias de poder e saber.
O que parece estar fora de um sistema de classificações já está dentro dele.
Assim, o que é considerado anormal é definido baseando-se naquilo que é considerado
normal pelos saberes citados. A definição de “normal” necessita da definição de
“anormal” para existir. Por oposição lógica, um conceito acaba produzindo o outro.
O procedimento analítico que mostra o implícito dentro de uma oposição binária
é chamado de desconstrução pelo filósofo francês Jacques Derrida (1930 - 2004).
Desconstruir, nesse caso, é explicitar o jogo entre presença e ausência. O conceito de
heterossexualidade é produzido a partir do conceito de homossexualidade. No entanto,
esse último é considerado hierarquicamente inferior ao primeiro, pelo fato de não ter
sido naturalizado pelo conjunto de saber-poder que o definiu (Derrida apud Miskolci,
2009).
Os estudos queer se propõem a compreender as práticas sociais que organizam a
sociedade como um todo através da “sexualização,” “heterossexualização”,
“homossexualização” de corpos desejos, atos, identidades, relações sociais,
conhecimentos, cultura e instituições sociais. Interrogação dos processos sociais
normatizadores que criam classificações gerando a ilusão de que existem sujeitos
96
estáveis, identidades naturais e comportamentos regulares (Seidman apud Miskolci,
2009).
Para Miskolci (2009), a matriz essencializadora e hierarquizadora criada pela
sociedade seria formada pela conexão entre etnia e sexualidade. Nela um que
evidencia o mesmo processo normatizador que acaba criando seres considerados mais
humanos e menos humanos (seres abjetos). Os seres humanos se tronam viáveis
através de categorias socialmente reconhecidas. Portanto, segundo tal matriz
essencializadora, travestis idosas, são consideradas abjetas e invisíveis, justamente por
não corresponderem a nenhuma categoria considerada viável e às normas estipuladas.
A teoria queer desafia a sociologia a não estudar mais aqueles que rompem as
normas, nem os processos sociais que os criaram como desviantes. Ao invés disso,
insiste em focar nos processos normatizadores marcados pela produção simultânea do
hegemônico e do subalterno. Tais estudos se preocupam em criticar os processos
normatizadores. Portanto, segundo Pelúcio (2009) os estudos queer, procuram desvelar
mecanismos de naturalização e essencialização dos termos e relações por eles
significados.
Green apud Miskolci (2009) aponta que a maioria dos fenômenos considerados
como sendo um desvio, podem ser encarados como diferenças, resultantes de processos
contínuos e inter-relacionados de inferiorização. Quando se cria a categoria outros”,
justifica-se a distribuição e o acesso desigual ao poder. Diante disso, o estudo queer se
posiciona como uma desconstrução geral da ontologia social. O reconhecimento de
social mínimo, possibilita que os sujeitos considerados queer, tenham suas vidas
habitáveis e visíveis. Dessa forma, percebe-se que outras formas de corpos são
possíveis.
97
A criação de sujeitos normais e naturais pelas estruturas sociais acaba
estabelecendo espaços de violência social contra aqueles que serão considerados
anormais e perversos. O autor ainda ressalta que sujeitos não têm experiências. São as
experiências que tem os sujeitos. Elas os constituem. Portanto os processos sociais
precisam ser explicados e analisados por quem pesquisa. Criticar a normalização
favorece a multiplicação das diferenças. Essas por sua vez, tendem a subverter os
discursos totalizantes, hegemônicos, hierárquicos e totalitários.
Em geral, o que é privilegiado como norma são relações entre pessoas do sexo
biológico oposto, mesma etnia, classe social, faixa etária e voltados para a reprodução.
Ou seja, travestis idosas estão fora do padrão aceito. Idéias sobre o pensamento
darwinista-social, a eugenia, higienismo e formas contemporâneas de controle
biopolítico marcam relações internacionais, evidenciam a conexão entre nação, etnia e
sexualidade. Além disso, associam discursos variados e práticas sociais diversas no
controle de suas populações (Miskolci, 2009).
Consideradas anormais, travestis idosas são pessoas que se entendem como
homens biológicos. Preferem se relacionar sexual e afetivamente com homens
biológicos. Fisicamente, preferem se apresentar incorporando símbolos considerados
femininos pela a cultura em questão, como roupas, sapatos, acessórios da moda,
maquiagem, próteses, silicones e hormônios.
Por definição das ciências médicas e por vontade própria, não desejam extirpar
sua genitália, pois convivem com elas sem grandes conflitos. Apreciam seus corpos,
seja pela valorização do sêmen que podem produzir e serem dotadas de um pênis. São
definidas por possuírem um corpo considerado híbrido. Elas sabem que são homens.
Temem a calvície, o câncer de próstata ou que silicone se aloje na bolsa escrotal ou em
outras partes não desejadas.
98
Outra teórica fundamental em relação aos estudos queer e de gênero é a filósofa
norte-americana Judith Butler. Ela se pergunta se existiria um sexo biológico anterior e
independentemente dos significados culturais a ele atribuídos. Ou seja, haveria um sexo
pré-discursivo? Para ela, não. Se o sexo for tomado como naturalmente dado,
independentemente do nero socialmente construído, nada impede que sobre o sexo
masculino se inscreva o gênero feminino e vice-versa. Para ela o corpo não é neutro, ele
está inteiramente sedimentado por discursos sobre aquilo que foi denominado de
sexo, gênero e sexualidade. O corpo ao surgir é imediatamente mediado pela cultura
(Butler, 1993; Fausto-Sterling, 2002).
A construção social do que pode ou não ser reconhecido como um corpo, sexo,
ou ser humano, é um jogo de relação entre poderes que se organizam, embatem e
resistem criando assim as normas de gênero. Tal dinâmica organiza nossa percepção do
mundo, moldando políticas sobre os corpos que se materializam conforme adquirem
importância. A materialização das normas de gênero é oriunda de diversos campos de
saberes.
A noção de dualidade sexual encontrada no corpo (ou mesmo na mente) é
conseqüência das normas de gênero, e não causa delas. O processo de naturalização nos
faz acreditar que o gênero é essencializado nos corpos. O que os especialistas do corpo
tentam encontrar como “masculinidade” ou feminilidade” é, antes de tudo, a
competência esperada da performance de gênero daquele que está sendo analisado e
julgado.
Tais normas organizam e justificam socialmente hierarquias, salários, terapias,
tratamentos, encarceramentos, privilégios, visibilidades e legislações que ditam quais
vidas “devem” continuar existindo e quais devem ser “banidas”. O sexo não é
simplesmente aquilo que alguém tem ou uma descrição daquilo que alguém é. Ele se
99
torna uma das normas que alguém se torna viável como existência no interior do
domínio da inteligibilidade cultural. Travestis idosas são consideradas inviáveis e
invisíveis, portanto sofrem exclusão e todo o tipo de preconceito por não “poderem” ser
quem são (Butler apud Leite Junior, 2008).
Segundo Butler (2003), o gênero não é expressão do que alguém é, e sim
expressão do que alguém faz. Para o gênero tornar-se manifesto e uma experiência
concreta, a ação do gênero requer performatividade reiterada. Tal repetição é em um só
tempo reencenação e nova experiência de um conjunto de significados estabelecidos
socialmente para cada gênero. É a forma mundana e ritualizada de sua legitimação. O
gênero não deve ser uma identidade estável ou lócus de ação do qual decorrem vários
atos.
As repetições constantes sedimentam as normas de gênero, naturalizando e
criando uma condição de a-historicidade. São ficções sociais impositivas que aparecem
como se fossem uma organização natural dos corpos em sexos. O gênero é construído
no tempo e instituído no espaço externo determinado por meio de uma repetição
estilizada de um padrão instituído de atos específicos. Está sempre sujeito a mudanças
contextualizadas.
O conjunto desses atos forma aquilo que chamamos de gênero. O efeito
resultante de estilos, gestos, falas, pensamentos, sentimentos, comportamentos,
vestimentas, ornamentos, movimentos e costumes corporais de vários tipos formam a
ilusão de que um “eu” permanente marcado pelo gênero em questão. Logo, não
uma forma mais verdadeira de ser travesti idosa, por exemplo, mas sim, configurações
de práticas que se efetivam mediante interpretações negociadas com idealizações do
que a sociedade entende por “travesti idosa”.
100
Assim como o gênero é performático, podemos pensar que a velhice, bem como
todas as outras definições em relação ao humano, também são feitas de atos
performáticos reiterados como, por exemplo: “a criança”, “o adolescente”, “o adulto”,
“a mãe”, “o professor”, “o estudante”, etc. A definição que nos caracteriza, determina
nossos atos performáticos em relação ao papel que estamos desempenhando em
determinada situação. A teoria da performance de Butler fala sobre o gênero, porém
humildemente, peço licença para traçar um paralelo entre sua teoria e as demais
categorias que definem o ser humano.
Assim, em determinado momento somos “o filho”, em seguida “o consumidor”,
depois “o patrão” e assim por diante. A existência de cada um acaba sendo abalizada
pela seqüência de atos performáticos executados. Entretanto, especificidades em
relação aos papéis que desempenhamos. Cada um irá imprimir sua marca particular aos
próprios atos performáticos. Nem toda travesti idosa será igual. Embora haja aspectos
comuns que as definem como tais.
Portanto, a velhice é construída no tempo e instituída em determinado espaço
externo por meio de uma repetição estilizada de certo padrão instituído de atos
específicos. Está sempre sujeita a mudanças contextualizadas. O conjunto desses atos
forma aquilo que chamamos de velhice. O efeito resultante de estilos, gestos, falas,
pensamentos, sentimentos, comportamentos, vestimentas, ornamentos, movimentos e
costumes corporais de vários tipos formam a ilusão de que um “eu” permanente
marcado pela velhice humana.
Do mesmo modo, as normas de gênero e a chamada velhice nos são informadas
através de vários campos como: religiões, artes, filosofias, tradições, comportamentos,
tecnologias, momento histórico, espaço geográfico, moda, mídia, internet, propaganda,
etnia, classe social, economia, política, ciências e diversos outros saberes que
101
organizam as relações de poder em nossa sociedade. A cada momento é estabelecido
um repertório de comportamentos que padronizam a velhice e o gênero.
A noção de velhice encontrada no corpo (ou mesmo na mente) é conseqüência
das normas padronizadas de velhice, e não causa delas. Está sempre sujeito a mudanças
contextualizadas. O conjunto desses atos forma aquilo que chamamos de velhice. O que
os especialistas do corpo tentam encontrar como “velhice” é, antes de tudo, a
competência esperada da performance de “velhice” daquele que está sendo analisado e
julgado. Dessa forma, gênero e velhice são instituídos no tempo e no espaço por meio
de regulamentos sociais que os definem como tais.
Estes regulamentos vão sendo estabelecidos historicamente principalmente pelas
religiões, tradições, leis e discurso biomédico. Eles servem de legitimação para que as
performatividades sejam naturalizadas, universalizadas, neutralizadas, atemporalizadas
e justificadas pelas ciências biomédicas. Então, o reconhecimento de características
“naturais” consideradas masculinas, femininas e idosas se opera entre o mais superficial
da pele ao mais profundo da mente humana.
Dessa forma é estabelecida uma relação direta entre o “verdadeiro sexo”, o
“verdadeiro gênero”, o “verdadeiro idoso” e o “verdadeiro corpo humano”. Os saberes
se perpetuam através de textos científicos, jurídicos e religiosos. Estabelecem quais
performatividades serão reconhecidas e quais serão condenadas (Leite Junior, 2008).
Conforme foi dito, as normas de gênero e velhice são constantemente
atualizadas conforme o local e a época em questão. Travestis idosas questionam as
normas de gênero, influenciando até mesmo em seu processo de reinvenção e
modificação. Tanto o modelo de idoso, o modelo de homem, como o modelo de mulher
são sempre idealizados em todos os lugares. Dessa forma, não existem cópias bem
realizadas de tais ideais, justamente por serem apenas ideais.
102
Como não nenhum gênero e velhice “originais”, “naturais”, “essenciais”,
“universais”, “imutáveis”, “fixos”, “neutros” e “verdadeiros”, a noção de cópia de
gênero e velhice perde o sentido. Nesse caso, não como copiar aquilo que não se
concretizou. Todas as variações da velhice, feminilidade e masculinidade são válidas.
Eles se concretizam enquanto performatividades. Para serem reconhecidos e
legitimados, necessitam da aceitação social.
As que não seguirem o modelo inteligível não receberão reconhecimento como
expressão “autêntica” de humanidade. As normas de gênero identificam quem deve ser
considerado humano e quem não deve. Quanto maior for a expressividade performática
do gênero em questão, maior reconhecimento existencial por parte do social. As
próprias travestis cobram umas das outras, performances de gênero mais próximas do
modelo de feminilidade idealizado (Butler, 2004; Leite Junior, 2008).
Se sociedades inventam formas de materializar e regular o sexo nos sujeitos, e
elas precisam ser repetidas, podem sofrer lapsos ou torções no processo. Os corpos nem
sempre se conformam completamente as normas que impõe as suas materializações. É
justamente que os conflitos, brechas, interstícios, fissuras e disjunções que
possibilitam que os sujeitos subvertam as normas de gênero como é o caso das travestis
e transexuais. A invenção dos corpos pressupõe, portanto, reinvenção contínua.
Portanto o gênero é múltiplo, inacabado, dinâmico, mutante e performático, pois ele
varia de acordo com a época, local e cultura em questão (Butler, 2004).
Quando as travestis idosas utilizam maquiagem, vestuários, acessórios,
hormônios, silicones e próteses para transformar seus corpos de homens em “outra
coisa”, elas estão mostrando que podem se reinventar e se apropriar do uso de
tecnologias estéticas para interferir em seus corpos independentemente das normas de
inteligibilidade de gênero sexual.
103
Elas são consideradas pertencentes à gêneros não inteligíveis, pois símbolos
(pênis) daquilo que é considerado masculino continuam existindo em um corpo que
adquiriu símbolos (próteses de seios) considerados femininos. A travesti idosa expressa
resistência em relação ao biopoder normatizado. Assim, ela faz de seu corpo uma obra
de arte. Mesmo que isso contra as regras de coerência de gêneros sexuais
estabelecidas. A travesti idosa desestrutura e confunde. Sua presença questiona valores
que regulam o funcionamento social (Pelúcio, 2009).
Sobre isso, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 - 1900) dizia que podia
haver mais verdade nos pontos interrogativos do que por trás de todas as afirmações
categóricas. A travesti idosa vem questionando as afirmações de gênero desde sua
infância. Para o filósofo o medo e a preguiça impedem o homem de se escutar para
alcançar sua realização. Por temerem as pressões sociais, poucos ousam ser o que são.
Para Nietzsche, no homem encontram-se criatura e criador. As pessoas nada fazem pelo
seu “verdadeiro eu”, mas apenas pelo fantasma do seu “eu”. Como resultado, elas
vivem obedecendo a uma nuvem de opiniões impessoais sobre como “deveriam ser”.
O filósofo ainda defendia que a sociedade e o Estado não representavam a
consumação da racionalidade, justiça, moral e filosofia, e sim a encarnação da
mediocridade. O Estado e a sociedade impendem que o homem se realize, à medida que
não permite que ele se torne consciente de existir, nem para si mesmo. O social serve
apenas de andaime, sustentáculo e base para que somente uma pequena espécie seleta
de homens possa realizar seus próprios objetivos, dominando assim, os demais homens.
Para ele, foi o ser humano que colocou valores nas coisas a fim de se conservar.
Por isso o homem se chama homem. A palavra “homem” significa aquele que avalia,
julga, aprecia e cria. Certos aspectos foram chamados de bom pelo homem, outros
foram chamados de mau. As relações de poder, conveniências locais e temporais
104
determinaram o que deveria ser considerado bom e o que deveria ser considerado mal
pelo homem. Basicamente, o bom era tudo aquilo que aumentava o sentimento de
poder. o mau, era tudo aquilo que diminuía tal sentimento. Segundo o filósofo, a
vontade de poder (potência) foi considerada o impulso fundamental do ser humano
(Giles, 1989; Lefranc, 2005).
Travestis idosas diminuem a vontade de potência, quando interferem na forma
como a sociedade se organiza por meio da heteronormatividade sempre jovem. Elas são
consideradas más. Roubam poder enfraquecendo o funcionamento social dito
adequado, simplesmente por serem quem são. Representam um processo que se inicia
na adolescência, e se arrasta ao longo de suas vidas até o momento atual. Elas são
verdadeiros modelos de resistência.
Da mesma forma que o gênero, a reiteração das normas daquilo que é
considerado velhice são anteriores àqueles que as reiteram. Ao serem permanentemente
reiterados, materializam aquilo que nomeiam. São performativas, pois reiteram aquilo
que foi regulado. O conjunto de normas é materializado nos corpos, os quais exigem
práticas estilizadas, mediante os quais se produzem generalizações. As normas de
gênero bem como aquilo que é considerado velhice não se tratam de escolhas, e sim de
uma coerção social que produz nos corpos das travestis idosas, um efeito naturalizado e
atemporal.
A performatividade de gênero no caso das travestis idosas, não pode ser
confundida com encenação de gênero. Nesse caso, ela reitera e materializa discursos
patologizantes e criminalizantes que faz com que o senso comum as veja como formas
extremadas de homossexualidade e o resultado de pessoas perturbadas e transtornadas.
Seu gênero implica em sexualidade desordenada.
105
A crença de que um sexo biológico que subjaz é recorrente entre as próprias
travestis. Diante disso, elas se percebem como infratoras, que burlam as normas tidas
como naturais. Essas últimas por sua vez se associam a forças consideradas sagradas e
deterministas. Sentir-se identificada com aquilo que é considerado feminino ou ter
interesse afetivo-sexual por aquilo que é considerado masculino, mesmo sabendo-se
homem, é muitas vezes considerado pelas travestis como algo que se nasce com. O
determinismo do ser é associado com noções do destino e da natureza, as quais
conjugam forças internas e externas que seriam maiores que o indivíduo pudesse
controlar.
Muitas travestis dizem que se sentem mulher, pois têm “cabeça de mulher”.
Como se houvesse uma interioridade natural, essencial e “feminina” que fosse
manifestada exteriormente através de um corpo considerado também “feminino”.
Algumas dizem que é justamente a cabeça o órgão que elas compreendem como sede
da dimensão moral de cada sujeito.
O gênero está na cabeça que por excelência é vista como instância superior. Ela
pode assim dominar o corpo, adequando esse último a alma. A “cabeça de mulher” é
considerada a dimensão íntima e “verdadeira” do ser. Tal cabeça pede um “corpo de
mulher” que é considerada a dimensão física e social do ser. Adequando-se a “cabeça
de mulher” ao “corpo de mulher” produz-se coerência social (Benedetti, 2005).
A bipartição sexual da mente seria a versão da ciência sexual do mesmo
processo que ocorria no mesmo período, o surgimento do racismo moderno, que
mesmo indiretamente, preconiza a existência de uma “alma branca” e uma “alma
negra”. Buscar pelo sexo “masculino” ou feminino” na mente seria como procurar
uma “cor” ou “etnia” inscrita “naturalmente” na mente ou no cérebro. Resultado de
106
mais uma manifestação das normas de gênero que interpretam o indivíduo (Leite
Junior, 2008).
Tal pensamento retoma as idéias do antigo filósofo grego Aristóteles (384 a.C. -
322 a.C.) sobre o essencialismo. Porém, no caso das travestis, algumas alegam que sua
essência “naturalmente feminina” foi colocada no corpo errado: o “naturalmente
masculino”. Ou seja, sua essência deveria ter sido colocada em um corpo biológico de
mulher. Representações de gênero, sexualidade e corporalidade se alicerçam na
produção de uma identidade compondo uma totalidade em um corpo sexualizado.
Outro aspecto implicado na construção do gênero entre as travestis está na
diferença entre aquilo que é determinado como sendo travesti e aquilo que é
determinado como sendo transexual. Travestis em geral estão diretamente associadas à
classes populares mais baixas, enquanto transexuais estão associadas à classes sociais
mais elevadas.
Transexuais estão associadas a serem vítimas de uma doença. Pois dizem que
possuem “alma feminina” em um corpo “masculino”. Travestis são associadas à
perversão e safadeza. Pois, em geral, não buscam tirar o pênis e ainda o utilizam para
ganhar dinheiro com a prostituição (Leite Junior, 2008; Pelúcio, 2009).
Segundo Denizart (1997), travestis esforçam-se na construção de uma
engenharia erótica, capaz de dar visibilidade a atributos associados ao feminino.
Feminino esse glamorizado, muitas vezes inspirados nas grandes divas do cinema,
teatro, música ou no meio artístico em geral, de todos os tempos, que convive muitas
vezes com atributos típicos da masculinidade (autonomia, independência, força física,
valorização da honra, exacerbação da sexualidade).
Muitas travestis investem parte dos seus recursos no processo da feminização,
ainda que isso se oponha ao luxo. Necessidades como moradia e alimentação são
107
preteridas. O luxo também aparece na esmerada produção corpórea das travestis, por
meio das vestimentas, acessórios, perfumes, materializando certa “hiperfeminilidade”
glamorizada. Glamour se relaciona com a vida artística, teatro, shows de dublagens em
casas noturnas, aparições em bailes de carnaval. Ele se coloca entre a aceitação versus
escárnio, palco versus prostituição, ser diva versus ser um “viado com peito”.
A passagem pela Europa significa ascensão social no meio travesti em geral.
Além de possibilitar ganhos financeiros, pois muitas acabam vivendo da prostituição,
ainda transformam parte de seus ganhos em capital corporal como próteses de silicone
cirúrgico para os seios, intervenções plásticas nos corpos, principalmente no nariz,
roupas de grifes importadas, perfumes caros, outros bens simbólicos, falar outros
idiomas, ser fina, culta, viajada, cosmopolita (Pelúcio, 2009).
As travestis imprimem em um corpo determinado biologicamente masculino,
símbolos considerados femininos. Assim, estão ao mesmo tempo entre a resistência e a
“adequação” de gênero. Pois, quanto mais se “parecerem” com aquilo que é
reconhecido como sendo “o modelo de mulher”, mais adequadas estarão. Resulta que
sofrerão menos preconceitos, pois não apresentarão incongruência de gênero,
normatizado pelo modelo heterossexual que regula a sociedade.
Em geral, os valores exaltados pelas travestis que se prostituem são a juventude,
tamanho de pênis avantajado, traços delicados, nádegas grandes e belas. Quanto mais se
adequarem aos padrões de beleza referentes às mulheres, mais prestígio terão junto à
seus clientes. Em geral quem procura se relacionar sexualmente com travestis está
buscando uma aparência considerada feminina de corpo, rosto, jeito de andar, falar e ao
mesmo tempo, características consideradas masculinas como pênis avantajado,
despojamento, insaciabilidade, grande apetite sexual e virilidade.
108
Tornar-se travesti exige rígida disciplina de cuidados corporais cotidianos por
toda a vida. Isso leva a incorporar valores dominantes sobre como deve ser o corpo, a
roupa, os gestos, as cores e acessórios para cada gênero sexual num constante processo
cíclico de produção e incorporação.
Interessante paralelo é traçado entre travestis e fisiculturistas. Sabino apud
Pelúcio (2009) acredita que as travestis estão no pólo oposto aos fisiculturistas.
Fisiculturismo ou culturismo é um esporte cujo objetivo é buscar, por meio da
musculação, a melhor formação muscular. Os requisitos são: volume, simetria,
proporção e definição muscular. São conhecidos como pessoas super fortes. Esse
esporte pode ser praticado tanto por homens como por mulheres. Exige uma série de
exercícios diários para os profissionais e uma alimentação específica que não
prejudique o corpo do atleta.
vários torneios no mundo do fisiculturismo onde o que possui mais
requisitos vence e ganha o prêmio. Sua disputa ocorre em apresentações coletivas ou
individuais, por comparação. Cada qual tem sua maneira de se exercitar. Os praticantes
desse esporte exercitam-se de uma forma massiva para adquirir todos os músculos
definidos com o objetivo de chamar a atenção de todos.
Muitas mulheres fisiculturistas não gostam que sua imagem seja confundida
com a imagem das travestis ou de mulheres homossexuais. Elas se vestem com roupas
consideradas femininas, porém aparentam ter um corpo excessivamente masculinizado.
Seus músculos são bem desenvolvidos e definidos. Muitas gostam de reafirmar que se
sentem atraídas sexualmente por homens, justamente para evitar a relação direta que o
social faz entre mulher masculinizada e mulher homossexual (Estevão apud Leite
Junior, 2008).
109
Tanto as travestis como os fisiculturistas associam beleza do corpo com saúde
orgânica. As primeiras são consideradas opostas aos homens fisiculturistas no que se
refere ao corpo e ao gênero. Enquanto os primeiros buscam “a supermasculinidade”, as
travestis buscam apresentar feminilidade exacerbada. Evidente que essa busca, tanto no
caso dos homens fisiculturistas como das travestis, procura sempre se adequar às
normas de gênero reconhecidas pela sociedade. Embora façam uso “subversivo” das
tecnologias protéticas e químicas disponíveis, não subvertem verdadeiramente a ordem
binária masculino-feminino.
Porém, no caso das mulheres fisiculturistas, elas fazem a junção de elementos
considerados masculinos em um corpo biológico de mulher. Da mesma forma, travestis
fazem a junção de elementos considerados femininos em um corpo biológico de
homem. Ambos são acusados de transgredirem as normas de gênero, justamente por
fazerem a junção de elementos definidos como antagônicos. Dessa forma, mesmo que
de forma lenta, dificultosa e não intencional, abrem espaço para mudanças nos padrões
de inteligibilidade dos gêneros. É no interior da performatividade de gênero que as
fissuras ocorrem, moldando caminhos para novas possibilidades e vivências (Butler,
2004; Leite Junior, 2008).
No final, o que as travestis conseguem, é formar corpos que se aproximem do
idealmente normatizados. Dessa maneira terão maior chance de aceitação. O desejo de
“ter um corpo” sobrepõe-se aos “riscos”, dores e sacrifícios implicados tanto na
materialização do corpo das travestis como dos fisiculturistas. O objetivo é ser aceito
em seu grupo, o qual reconhecerá seu status de travesti. Quanto mais a travesti,
conhecer na carne, os efeitos dessa adesão, mais o terá na alma.
Dessa forma poderá ser no futuro uma bombadeira que sabe aplicar silicone e
receitar hormônios. O que a confere prestígio entre as travestis. Pois conforme vimos, a
110
bombadeira se destaca recebendo o reconhecimento pelo seu papel fundamental na
“fabricação do corpo e da subjetividade” da travesti mais nova. Em muitos dos casos
ela seria uma espécie de “criadora” da travesti mais nova.
Investimentos diários e caros de produtos, tecnologia, química, cirurgias,
implantes, aplicações, roupas, acessórios, jóias, sapatos, estilo, cultura, disciplina
poderão promovê-la ao status de diva ou européia. Acreditam que dessa forma, quanto
mais investirem nesses aspectos, mais estarão se distanciando da abjeção e da
invisibilidade social. (Pelúcio, 2009).
Para Butler (2003) a marca do gênero parece qualificar os corpos como
humanos. O bebê só será humanizado quando já no exame de ultrasom é revelado se ele
será um menino ou uma menina. Ser reconhecido como pertencente a um determinado
gênero implica a incorporação de uma série de comportamentos sociais relativos aquilo
que foi denominado de masculino e feminino de acordo com a época e local. O gênero
do bebê é imposto a partir do momento que seu sexo genital é descoberto por volta
do terceiro mês de gestação.
Inicialmente o sexo genital se coloca como o principal índice que irá determinar
o gênero, no qual pênis é igual a masculino e vagina é igual a feminino. É justamente
dessa divisão mecanicista que as travestis escapam. Não se reconhecem nesse modelo,
nem são reconhecidas por ele. Mostram que o gênero pode ser construído, independente
de modelos impostos.
Porém, quando fazem isso, são reconhecidas pela sociedade através do rechaço,
desprestígio, invisibilidade, exclusão, preconceito, desumanização e invisibilidade.
Dessa forma é como se as travestis e transexuais não existissem. Legisladores precisam
assumir a tarefa de abrir um debate sobre as questões de gênero, fora do marco do
111
gênero binário baseado na heteronormatividade. Onde estão travestis e transexuais na
legislação? São considerados doentes e passíveis de tratamento médico.
Quais são seus direitos? Se ainda são considerados doentes pelas ciências
biomédicas e sujeitas a determinada “correção”, então, não existem para a lei, portanto
ainda são destituídas de direitos. A patologização, em geral, coloca a travesti na
condição de inferior e menos capaz, justamente por ser chamada de “doente”. Muitas
travestis acabam recorrendo ao método informal para modificar seus corpos. Usam
silicone industrial e tomam hormônios sem garantia de qualidade. Correm muitos riscos
de saúde.
Não políticas públicas de saúde que as auxiliem em seu processo de
transformação. As únicas que ainda podem contar com tal auxílio são aquelas que o
diagnosticadas como sendo transexuais e que estão em busca da cirurgia de
readequação sexual. Porém, elas devem se submeter a todos os requisitos e tratamentos
necessários para serem consideradas preparadas para a cirurgia. Geralmente não é um
processo fácil, além de levar muito tempo.
Qual a política de inserção no mercado de trabalho? Muitas alegam que acham
dificuldade em arrumar um emprego, pois preconceito. Acabam tendo que se
prostituir para sobreviver. Sofrem preconceito na infância, tanto na vida familiar, como
na escola. Muitas não conseguem levar adiante os estudos. Em geral, nossas escolas se
apresentam como instituições incapazes de lidar com a diferença e pluralidade.
Funcionam como uma das principais instituições guardiãs das normas de gênero e
produtora da heterossexualidade. Por causa da pressão, fogem ou são expulsas de casa
no início da adolescência. A maioria delas é procedente do interior do país e migram
para os grandes centros urbanos.
112
Dizem que muito preconceito e falta de espaço para se desenvolverem em
suas cidades natais. Por que os crimes contra transexuais e travestis repercutem pouco
ou quase nada no cenário legislativo de maneira geral? Pois são considerados invisíveis.
Em geral são vítimas do preconceito e da exclusão. Não é interessante para as
autoridades apurarem crimes contra pessoas que são consideradas inexistentes e abjetas.
Patologização das identidades autoriza e confere poder aqueles que são
considerados normais, a realizar com as próprias mãos a “assepsia” que deixará a
sociedade livre da “contaminação”. As normas de nero conferem inteligibilidade,
ou seja, existência e direito a vida, àqueles que estão alocados em “gêneros
apropriados” aos seus respectivos “corpos sexuados”.
Além disso, elas possibilitam a emergência de conflitos identitários com essas
mesmas normas. Portanto, o saber médico, um dos “fabricantes das normas de gênero,
não descreve a natureza e sim a produz. Nenhuma formação de saber que estrutura
determinado conceito é neutro (Bento, 2008).
Uma das primeiras teóricas sobre gênero sexual foi a antropóloga norte-
americana Margaret Mead (1901 1978) que publicou em 1935 uma de suas obras
mais famosas, Sex and temperament in three primitives societies que em português foi
traduzido como: Sexo e Temperamento. Nessa obra, ela estudou três sociedades na
Papua - Nova Guiné. A divisão sexual do trabalho e as estruturas de parentesco foram
analisadas para explicar os diferentes papéis do gênero nas etnias arapesh,
mundugumor e tchambuli.
Este estudo foi considerado pioneiro no assunto e proporcionou importante
material empírico para questionar a rígida diferenciação entre personagens “femininos”
e “masculinos”. Documentou culturas em que homens e mulheres dividiam entre si
práticas consideradas exclusivamente masculinas no Ocidente (como a guerra, por
113
exemplo) ou outras em que a distribuição das tarefas domésticas eram exatamente
opostas às usualmente praticadas nas ocidentais (Mead apud Leite Junior, 2008).
A separação entre “sexo” e “temperamento” remete a separação entre mente e
corpo, que estava presente nas ciências biomédicas e provavelmente influenciadas
pelas idéias do filósofo francês René Descartes (1596 - 1650). Com o tempo passou a
ser entendido que não o corpo tinha um sexo como a mente também tinha.
Gradualmente surge a idéia de um sexo na mente que resultará no sexo da mente. Tal
forma de pensar vai formando aos poucos aquilo que vai originar o conceito de gênero
(Meyerowitz apud Leite Junior, 2008).
É interessante lembrar que antes de Descartes, o filósofo grego Platão (428 a. C.
- 328 a. C.) defendia a noção de que o homem está em contato permanente com dois
tipos de realidade: a inteligível e a sensível. A primeira é a realidade imutável, igual a si
mesma. A segunda são todas as coisas que nos afetam os sentidos, são realidades
dependentes e mutáveis que nada mais são do que imagens das realidades inteligíveis.
O mundo concreto percebido pelos sentidos é uma pálida reprodução do mundo das
idéias.
O problema que Platão propõe-se a resolver é a tensão entre o filósofo grego
Heráclito de Éfeso (540 a. C. - 470 a. C.) e outro filósofo, que também era grego:
Parmênides de Eléia (530 a. C. - 460 a. C.). Para o primeiro, o ser é a mudança. Tudo
está em constante movimento e é uma ilusão a estaticidade, ou a permanência de
qualquer coisa. Para o segundo, o movimento é que é uma ilusão, pois algo que é não
pode deixar de ser e algo que não é, não pode passar a ser. Assim, para Parmênides não
há mudança.
Portanto para Platão, o mundo das idéias é o mundo real. Posteriormente com
Descartes, o mundo das idéias foi associado à mente (alma). o mundo da aparência,
114
foi associado ao corpo (matéria). Logo, foi sendo estabelecido que “a verdade” sobre o
sujeito está inteiramente localizada em sua alma. Por ter sido influenciada tanto pelas
idéias de Platão como de Descartes, para as ciências biomédicas era tão importante
conhecer o “sexo verdadeiro da alma” (Chauí, 2003; Nicola, 2005).
As regras de gênero são específicas e produzem efeitos constitutivos sobre a
subjetividade. São regras que governam a identidade inteligível onde o masculino é
superior ao feminino e a heterossexualidade é compulsória. Não é nem a expressão de
uma essência interna nem um artefato de uma construção social. O gênero se torna ele
próprio uma norma (Áran et al., 2007).
Antes do final do século XX no ocidente, as famílias tinham maior participação
na organização dos sujeitos e suas relações. Porém, transformações econômicas e
culturais ocorridas por volta da década de 1960 levaram a um processo de
desconstrução das bases materiais e familiares. As relações no mundo m se tornado
cada vez mais complexas e globalizadas. queda no número de casamentos civis
registrados, aumento de separações, taxa de natalidade declinante. As pessoas estão
preferindo morar juntas a se casar formalmente.
O modelo de núcleo familiar clássico ocidental ruiu com o questionamento da
hierarquia entre os sexos, a entrada da mulher no mercado de trabalho, a pílula
anticoncepcional, o planejamento reprodutivo, separação entre sexualidade e
reprodução, divisão das tarefas domésticas e maior igualdade entre os sexos. Além
disso, a progressiva redução da atenção e autoridade dos pais sobre os filhos, a
formação de novos arranjos familiares, onde a mulher é a provedora, estão
transformando as famílias. Os pais estão muito ocupados com suas vidas profissionais.
Os filhos em geral estão sendo “educados” por babás, escolas, colegas, internet, jogos e
programas de televisão.
115
A maior visibilidade dos gays e das lésbicas alterou a forma social de
compreensão das relações amorosas e sexuais assim como novos arranjos familiares e
parentais vêm sendo desenvolvidos. Os homossexuais em menos de um século
passaram pela criminalização, patologização e despatologização de si. Embora ainda
sejam considerados seres hereges pela maioria das religiões, agora lutam por seus
direitos civis.
Em geral, tal “aceitação” acontece desde que suas relações amorosas se
enquadrem aos modelos tradicionais de família heterossexual monogâmica. Porém o
estigma social continua sobre as pessoas que não tem parceria, independente da
orientação afetivo-sexual, os famosos solteiros, sem família. Os transexuais, travestis,
crossdressers, fetichistas e sadomasoquistas continuam estigmatizados, pois além de
serem quem são, são invisíveis aos direitos civis (Miskolci, 2005b).
Vamos conhecer agora a trajetória de vida de uma militante. Virginia Prince
(1912 - 2009) foi uma grande ativista que lutou pelos direitos de transgêneros nos EUA.
Nascido em Los Angeles e recebeu o nome Arnold Lowman. Começou a se transvestir
com roupas consideradas femininas aos doze anos de idade. Graduou-se em química em
1935. Fez mestrado em 1937 e doutorado em 1939 pela Universidade da Califórnia,
ambos em farmacologia.
Casou-se com Dorothy Shepherd em 1941, teve um filho em 1946. Sua esposa
não compreendia seu impulso por vestir-se de mulher. Procurou um psiquiatra que a
aconselhou a se divorciar, dizendo que o marido era homossexual por causa do
transvestismo. Em 1953 foi proibido pela justiça de ver o filho e acusado de ser um
mau pai por Dorothy.
Começou a trabalhar com indústria química associada a cosméticos. Em 1955
começa a tomar hormônio feminino. Com o auxílio da mãe de Arnold, casa-se com
116
Doreen Skinner em 1956. Ela havia sido filha de uma governanta que trabalhou para a
família Lowman. Doreen estava ciente que Arnold gostava de se vestir de mulher.
Aprendeu a compreender e conhecê-lo mais. Em 1960 Arnold funda uma revista
cientifica voltada ao publico transgênero que se chamava Transvestia.
Em 1962 conhece Robert Stoller (1921 2006), famoso médico e especialista
na área da sexualidade. Doreen, porém não agüenta a pressão de ver Arnold vestido de
mulher em algumas ocasiões. Ela pede o divórcio em 1966. Na ocasião Arnold morava
com o filho Bent que começou a enfrentar problemas com o uso de drogas. Com o
divórcio Doreen ficou com metade das ações da indústria química de Arnold.
Em 1968, aos cinqüenta e seis anos de idade, vivia o tempo todo vestida
inteiramente como mulher. O nome Virginia Prince havia sido adotado desde 1941.
Poucos anos antes, em 1961, sofreu processo criminal por enviar a revista Transvestia
por correio para alguns leitores. Foi alegado que Arnold, agora Virginia estava
enviando material erótico. Porém a publicação da revista continuou até a década de
1980. A partir da década de 1960 começou a trabalhar intensamente com outros
especialistas, dentre eles o doutor Harry Benjamin (1885 1986) pelos direitos de
transgêneros, além de ajudar a esclarecer sobre tal “fenômeno” até sua morte em 2009.
Virginia relata que começou a se vestir de mulher, pois desenvolveu fetiche
sexual por sapatos de saltos altos seguido por masturbação. Com o tempo foi
descobrindo a “mulher interior” que habitava dentro dela. Ao longo da vida
desenvolveu pensamento acadêmico a respeito do assunto. Fundou organizações para
pessoas que se transvestiam (Docter, 2004).
Em seu artigo Homosexuality, transvestism, and transexuality: Reflections on
their ethiology and differentiation faz a distinção entre homossexualidade (orientação
sexual), transvestismo (comportamento) e transexualidade (alteração do sexo genital
117
com o objetivo de alterar o gênero). Coloca que a orientação sexual não tem
necessariamente uma relação direta com a expressão de gênero. Virginia diz que ela
mesma nunca se interessou por homens (Prince, 2005a).
Em outro artigo, intitulado de The expression of femininity in the male faz a
diferenciação entre sexo e gênero. Ela defende que a socialização impõe certa
identificação de gênero correspondente ao sexo biológico determinado. Com isso, todas
as características consideradas do gênero oposto deverão ser reprimidas. Para ela o
transvestismo masculino é a expressão da feminilidade suprimida em homens
biológicos.
O verdadeiro travesti é o personificador daquilo que é considerado feminino. O
objetivo é atingir a expressão total da personalidade independente do gênero. O ideal
seria que todas as tarefas fossem desempenhadas tanto por homens e mulheres. Normas
de gênero limitam a manifestação da criatividade das pessoas, pois elas não podem usar
toda a sua criatividade. Para a autora tais normas transformam a todos e meio-seres-
humanos (Bruce, 2005).
Em Sex versus Gender, Prince defende que o gênero pode ser performatizado
independentemente do sexo anatômico. Ela diz que grande confusão entre órgão
genital e sexo performatizado. O que se busca é a mudança de gênero, não de sexo
(órgão genital). Para ela o sexo está entre as pernas e o gênero está entre as orelhas.
Ela acredita que no futuro as barreiras entre os gêneros serão abolidas. As
pessoas poderão transitar entre um e outro sem sofrerem preconceito. Não haverá
roupas específicas para homens e mulheres. Classificações como transexuais, travestis,
homossexuais, bissexuais e heterossexuais se tornarão obsoletas, pois as pessoas serão
classificadas apenas como pessoas. Não haverá mais necessidade de tratá-las disso ou
118
daquilo. Aquilo que chamamos de androgenia será cada vez mais comum. Haverá uma
fusão completa entre o que chamamos de masculino e feminino (Prince, 2005b).
em Transsexuals and Pseudotranssexuals Virginia argumenta que não quis a
cirurgia de redesignação sexual, pois seu caso tratava de questões de gênero
(psicossociais) e não e sexo (biológicas e fisiológicas). A sociedade machista,
polarizada e patriarcal é que associa gênero, sexo e orientação sexual. Socialmente se
entende que como o sexo é dado ao nascer, o gênero também deve ser.
Prince argumenta que tanto homens quanto o restante da sociedade considera se
alguém é homem ou mulher por sua anatomia física. Tal idéia também foi defendida
por (Bento, 2008 e 2006). Ela critica transexuais que buscam a cirurgia de redesignação
sexual argumentando com sua idéia clássica de que o gênero está entre as orelhas e não
entre as pernas. É como se a neovagina concedesse autorização social para que as
transexuais vivessem o estilo de vida que sempre quiseram (Prince, 2005c).
Em The “transcendents” or “trans” people, Virginia defende que nos
casamentos heterossexuais ao invés de duas pessoas inteiras se acompanharem, duas
pessoas dependentes da parte suprimida da outra, buscando assim, seu complemento.
Para a autora, a mulher reconheceu antes do homem que era preciso lutar pela
integração e romper as categorias estanques de gênero. Ela ainda argumenta que muitos
problemas emocionais são advindos da criação e educação para se adequar ao gênero
imposto, de acordo com o genital de nascimento (Prince, 2005d).
É interessante perceber que Virginia se tornou completamente aquilo que se
chama de transgênero por volta dos sessenta anos de idade, ou seja, momento do
processo de vida que chamamos de velhice. Foi militante, lutou por direitos e escreveu
artigos e livros científicos sobre o tema. Assim como Virginia, outras pessoas
consideradas transgêneros, se tornam militantes em idade avançada. No capítulo a
119
seguir, vamos saber sobre as vidas de algumas pessoas que chegaram à velhice como
aquilo que as ciências biomédicas denominam de transgênero, do qual as travestis
fazem parte.
120
CAPÍTULO III
ABORDAGEM METODOLÓGICA
Lembrando que foi a escassez de estudos publicados sobre o envelhecimento e
velhice de travestis - que muitas vezes não chegam a envelhecer - que nos levou a
desenvolver a investigação proposta. Este trabalho justifica-se, igualmente, pela
relevância social do tema, chamando a atenção sobre o processo de envelhecimento para
o próprio grupo de travestis, bem como para os demais segmentos sociais. Para isso,
faz-se necessário uma metodologia adequada.
Geertz (1989) nos lembra que ao abordarmos a cultura, o grande objetivo é
ganhar acesso ao mundo conceitual em que os sujeitos vivem, para que dessa forma
possamos conversar com eles.
“Métodos quantitativos e qualitativos são mais que apenas
diferenças entre estratégias de pesquisa e procedimentos de
coleta de dados. Esses enfoques representam,
fundamentalmente, diferentes referenciais epistemológicos para
teorizar a natureza do conhecimento, a realidade social e os
procedimentos para se compreender esses fenômenos”.
(Filstead apud Bauer, Gaskell & Allum, 2002; p. 29)
Para a investigação proposta, a opção metodológica recaiu sobre a abordagem
de caráter qualitativo. Esta opção guarda estreita relação, pelo que entendemos, com os
objetivos de identificar as representações de envelhecimento e de velhice dos sujeitos
da investigação. Levantar a auto-percepção do processo de envelhecimento e da velhice
dos entrevistados. Estabelecer comparações entre as trajetórias de vida e as
representações de velhice entre as três entrevistadas.
121
Ainda que os mesmos possam ser objeto de tratamento quantitativo, as
especificidades da abordagem qualitativa contribuíram para a opção feita. Como afirma
Bachelard, a ciência não corresponde a um mundo a descrever. Ela corresponde a um
mundo a construir” (apud. Goldenberg, 2001; p.13).
Em Goldenberg, lemos que:
A pesquisa científica exige criatividade, disciplina, organização
e modéstia, baseando-se no confronto entre o possível e o
impossível, entre o conhecimento e a ignorância. Nenhuma
pesquisa é totalmente controlável, com início, meio e fim
previsíveis. A pesquisa é processo em que é impossível prever
todas as etapas. O pesquisador está sempre em estado de tensão
porque sabe que seu conhecimento é parcial e limitado o
“possível” para ele. (2001; p. 13).
Dentre as especificidades acima mencionadas, as abordagens de cunho
qualitativo buscam, de algum modo, “penetrar” e “compreender” o mundo dos sujeitos:
trajetórias e histórias; sentidos, significados e representações; desejos, aspirações e
projetos. Tarefa realizada a partir da palavra (oral ou escrita), ou seja, da relação
dinâmica entre pesquisador e sujeito (emissor e receptor), por meio da fala.
A “fala” é, como afirma Minayo, um
“instrumento privilegiado de coleta de informações. [Ela] é
reveladora de condições estruturais, de sistemas de valores,
normas e símbolos (sendo ela mesma um deles) e ao mesmo
tempo [tem] a magia de transmitir, através de um porta-voz, as
representações de grupos determinados, em condições
históricas, sócio-econômicas e culturais específicas.” (2010; ps.
109/110).
122
Outra especificidade reside no fato de as abordagens qualitativas possibilitarem
o acesso à intencionalidade; acesso difícil de ser obtido através de dados exclusivamente
quantitativos.
É sabido que a abordagem qualitativa envolve diversos procedimentos de coleta
de dados, a exemplo da “história de vida” (método biográfico) e da entrevista, em suas
diversas modalidades (individual em profundidade, estruturada, semi-estruturada). Entre
elas, o denominador comum de “uma conversa a dois [...] destinada a fornecer
informações pertinentes para um objeto de pesquisa, e entrada (pelo entrevistador) em
temas pertinentes com vistas a este objetivo”. (Kahn & Cannell, apud. Minayo, 2002;
p. 108).
Segundo Duarte e Barros (2005) o método biográfico envolve o uso e a coleta de
narrativas e documentos da história da vida. O foco desse todo são as experiências
vividas. Através da história de vida pode-se captar o que acontece na intersecção do
individual com o social, assim como permite que elementos do presente fundam-se a
evocações passadas.
Podemos dizer que a vida olhada de forma retrospectiva faculta uma visão total
de seu conjunto. É o tempo presente que torna possível uma compreensão mais
aprofundada do momento passado. Cabe lembrar que se deve estar ciente dos avanços e
recuos, da cronologia própria, e da fantasia e idealização que costumam permear
narrativas quando elas envolvem lembranças, memórias e recordações.
As entrevistas de história de vida trabalham com memória e, portanto, com
seletividade, o que faz com que o entrevistado aprofunde determinados assuntos e
afastem outros da discussão. O que interessa quando trabalhamos com história de vida é
a narrativa da vida de cada um, da maneira como ele a reconstrói. Mais do que qualquer
123
outra técnica, exceto talvez a observação participante, é aquela capaz de dar sentido à
noção de processo (Bosi, 1994; Minayo, 2010).
Este processo requer uma compreensão íntima da vida de outros, o que permite
que os temas abordados sejam estudados do ponto de vista de quem os vivencia, com
suas suposições, seus mundos, suas pressões e constrangimentos. A história de vida é,
geralmente, extraída de uma ou mais entrevistas denominadas entrevistas prolongadas,
nas quais a interação entre pesquisador e pesquisado se dá de forma contínua. O
entrevistador se mantém em uma “situação flutuante” que permite estimular o
entrevistado a explorar o seu universo cultural, sem questionamento forçado (Haguette,
1987).
O diálogo que se entre os dois sujeitos através da entrevista cria
possibilidades interpretativas em níveis diferentes que incluem tanto a perspectiva do
pesquisador, como do pesquisado. Portanto, quando o pesquisador efetuar a análise da
entrevista, irá interpretar a interpretação que o próprio entrevistado atribui a si mesmo
(Mercadante, 1997).
Baseando-se no objetivo dessa dissertação, foram entrevistadas duas travestis
com mais de sessenta anos e outra com mais de quarenta anos. Essa última foi escolhida
devido a sua importância como militante política das causas LGBT (lésbicas, gays,
bissexuais e transgêneros). De qualquer forma, cabe lembrar, desde logo, que a velhice
(apreendida pelas marcas físicas do corpo) no contexto travesti, chega mais cedo.
Especialmente para aquelas que acabam se prostituindo como forma de ganhar o próprio
sustento (Siqueira, 2004).
Em janeiro de 2008 fui convidado para visitar uma amiga que é de Salvador.
havia iniciado a pesquisa e soube que o Grupo Gay da Bahia se situava em um
importante ponto turístico da cidade, o Pelourinho. Aproveitando o passeio turístico,
124
resolvi visitar essa importante organização não governamental onde tive a oportunidade
de conhecer a presidente da Articulação Nacional de Travestis, Transexuais e
Transgêneros que coincidentemente, fica sediada no mesmo local.
Minha intenção era entrar em contato com o universo de travestis por meio da
ONG acima situada. Não imaginava que iria conhecer imediatamente uma pessoa tão
importante nacionalmente para o grupo em questão. Fiz um contato inicial e informal no
primeiro dia. Voltei no dia seguinte e perguntei se ela, a presidente, uma travesti de
mais ou menos quarenta e poucos anos, poderia me conceder uma entrevista que seria
gravada e transcrita posteriormente. Ela concordou e realizamos a entrevista.
Antes da primeira entrevista, havia lido algum material metodológico sobre
pesquisa em histórias de vida. Porém, ainda não havia feito nenhum roteiro de
perguntas, pois não imaginava que conseguiria uma entrevista tão rapidamente, durante
minha viagem de férias a Bahia. Dispunha de um aplicativo no meu aparelho celular
que podia gravar cerca de duas horas de conversa. Então realizei a primeira entrevista
procurando focar na trajetória de vida e no tema da dissertação. Recebi algumas dicas
de como acessar mais colaboradoras futuras.
Quando voltei a São Paulo, já com uma entrevista feita, entrei em contato com o
Centro de Referência da Diversidade que havia sido inaugurado em março de 2008. Ali
pude ter contato com algumas travestis, dentre elas a segunda entrevistada dessa
dissertação. Muitas travestis me alertaram que seria difícil encontrar travestis idosas, ou
por estarem ocultas, preferindo uma vida mais reclusa e discreta ou porque haviam
falecido devido ao seu contexto existencial violento. Disseram que a palavra velhice era
considerada um palavrão, dentro do seu grupo.
A segunda entrevista seguiu mais ou menos o mesmo roteiro e tempo de duração
que a primeira, cerca de duas horas. Pouco antes, fui instruído pelos membros da banca
125
de qualificação dessa dissertação a entrevistar travestis acima de 60 anos de idade.
Embora a velhice atinja mais cedo o grupo de travestis, as mais velhas
cronologicamente, teriam mais experiências de vida para compartilhar.
Foi então que marquei a segunda entrevista para o início de 2010. Ela foi
realizada no Centro de Referência da Diversidade da cidade de São Paulo, local onde a
segunda entrevistada trabalha atualmente. Era preciso mais uma entrevistada, pois
originalmente eu e minha orientadora pensamos em quatro colaboradoras.
Soube por meio de assistidos pela ONG acima citada que na Praça Roosevelt,
localizada no centro de São Paulo, havia uma travesti idosa, que era atriz e trabalhava
para uma companhia de teatro situada no local. Comecei a freqüentar os teatros e bares
da região e tive acesso à terceira entrevistada. Realizamos a entrevista em um café que
fica ao lado do teatro onde ela estava com uma peça em cartaz. Seguiu mais ou menos o
mesmo roteiro que as outras duas e durou cerca de uma hora. Embora essa tivesse sido a
entrevista mais curta, devido à disponibilidade da colaboradora, julguei que a entrevista
havia sido satisfatória em relação aos meus objetivos.
Minha tarefa seguinte era buscar conhecer mais duas travestis com mais de
sessenta anos, para que atingisse meus objetivos. Comecei a encontrar dificuldades para
localizar travestis acima de sessenta anos de idade e que estivessem dispostas a falar.
Ao saberem do assunto da pesquisa, as poucas travestis que conhecia, não desejavam
participar, pois não se consideravam velhas.
Entretanto, houve uma que mesmo não concedendo entrevista disse algo
interessante a ser analisado. Ela alegava que estava no melhor momento da sua vida
profissional e que velhos eram aqueles que não serviam mais para nada. Além disso,
ficavam esquecidos e jogados em um canto. Falou que tinha muitas coisas boas para
falar, mas não gostaria de ser colocada na categoria de velha.
126
Ainda, finalizou dizendo que não gostaria de contar que toda a sua família
havia falecido, sentia-se solitária e não estava com nenhum companheiro no momento.
Ressaltou que esses assuntos a machucavam emocionalmente e, portanto essa seria mais
uma razão para não participar da pesquisa. A chegada à velhice é vista como negativa
para muitas pessoas. Muitas a associam com inutilidade e abandono. Abordaremos
melhor como a velhice é percebida, no capítulo seguinte.
Com o prazo para realizar as entrevistas se encerrando, ao invés de continuar
buscando mais colaboradoras, pensamos então em utilizar a primeira entrevista
realizada em Salvador. Embora a entrevistada tivesse quarenta e poucos anos, é
presidente de uma importante organização não governamental que assiste às populações
de travestis e transexuais em todo o Brasil. Penso que é interessante e relevante para o
objetivo dessa pesquisa, saber o que a líder de uma organização nacional, pensa sobre a
velhice desse segmento populacional. Então, a entrevista que era considerada até então
piloto, foi utilizada como parte oficial da pesquisa.
As histórias de vida foram gravadas e transcritas na íntegra, respeitaram-se as
regras que presidem a ética em pesquisa. Devo ressaltar que a pesquisa foi submetida ao
comitê de ética da PUC-SP obtendo a aprovação que será anexada ao final dessa
dissertação.
O “método biográfico” (histórias de vida) não se pauta por roteiros pré-fixados e
rígidos. A coleta deve fluir de acordo com a situação da “conversa a dois” (Haguette,
1987). No entanto, alguns pontos foram propostos ao longo das entrevistas. Assim, foi
solicitado que as entrevistadas discorressem sobre a infância, adolescência, idade adulta
e momento atual; experiência de travesti; envelhecimento e velhice; perspectivas
futuras.
127
Com estes itens, pretendíamos esclarecer as seguintes questões: como têm sido
suas trajetórias de vida até o presente momento? Quais são seus projetos futuros? Qual
o preparo que estão tendo em relação a seu processo de envelhecimento? Como estão
envelhecendo? O que esperam da vida? Quais políticas públicas gostariam que houvesse
que as amparassem? Como percebem os seus corpos, suas relações e suas necessidades?
Embora extenso, optei por transcrever a entrevista na íntegra, pois acredito que
observando a trajetória de vida de cada colaboradora, seria possível compreender
melhor o seu processo de envelhecimento. A velhice se caracteriza pelo percurso
existencial e não apenas pelo momento presente que cada uma se encontra. Ela faz parte
de um processo de vida.
Concluído o trabalho de campo, as entrevistas foram analisadas de modo a
contemplar todos os aspectos explorados e os conteúdos apresentados. Para a análise
dos dados coletados alguns autores das ciências sociais e filosofia foram alçados á
condição de interlocutores teóricos. No próximo capítulo referente à transcrição e a
análise das entrevistas, as perguntas foram transcritas em negrito, as respostas estão
em itálico. Ao longo da entrevista foram feitas determinadas pausas para análise. Elas
foram escritas da mesma forma que o restante da dissertação.
Prefiro que as próprias entrevistadas se apresentem em suas respostas, por isso
não fiz nenhum tipo de apresentação antes de cada entrevista. Ao analisar as entrevistas
é fundamental saber que é justamente do presente que parte o chamado para que a
lembrança responda. A memória da entrevistada depende do seu relacionamento com a
família, classe social, escola, religião, profissão, grupos de convivência e de referência
específica. Para Halbwachs apud Bosi (1994) lembrar não é reviver. Para esse autor é
refazer, reconstruir e repensar com as idéias do hoje, as experiências vividas no passado.
128
Portanto, a lembrança não será exatamente fiel ao fato tal como ele aconteceu.
Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma
imagem que experimentamos na ocasião. Isso acontece, pois não somos mais os
mesmos de então. Nossa percepção mudou e com ela nossas idéias, juízos e valores.
Quando o indivíduo deixa de ser ativo na sociedade, adquire uma função
própria: a de lembrar e ser a memória da família, do grupo, da instituição e da
sociedade. O autor ainda nos adverte que o passado ao ser remanejado pelas idéias e
ideais presente naquele que lembra, pode sofrer desfiguração, modelando o seu passado
para recompor sua biografia individual e grupal, baseando-se em valores ideológicos.
O indivíduo conservará seu passado conforme for mais apropriado a ele. O
material indiferente será descartado, o desagradável será alterado. O pouco claro e
confuso será simplificado. O trivial será elevado. No fim forma-se um quadro, no qual
não havia o menor desejo consciente de falsificá-lo.
Por fim, a publicação na íntegra ainda poderá facilitar que outros pesquisadores
de diversas áreas também possam utilizá-las eticamente, conforme seus respectivos
objetivos de pesquisa. Com a pesquisa concluída, espero que os dados levantados e
analisados colaborem para a identificação e definição de políticas públicas que auxiliem
a categoria das travestis idosas.
129
CAPÍTULO IV
TRANSCRIÇÃO E ANÁLISE DAS ENTREVISTAS
4.1) Primeira Entrevistada
As travestis se assumem?
Enquanto na maturidade, maioridade, enquanto na terceira idade, quarta idade;
enfim... Para todas as pessoas é bem difícil falar sobre a terceira idade, tem gente que
está na terceira idade e não assume que está lá, mesmo uma mulher, por exemplo,
sempre quer aparentar ser mais jovem do que realmente é. Seria interessante você
perguntar para as travestis: Vocês se assumem enquanto da terceira idade?Eu tenho
43 anos e estou na segunda idade ou terceira, enfim...
De acordo com a ONU é a partir de sessenta anos...
Bom, eu estou na segunda, então é extremamente difícil para mim, quando alguém vem
me chamar de tia e baiano é muito folgado, chama de tia, avó, mãe; enfim e por
vai... Pegam intimidade imediatamente! Então, imagino que as pessoas mais velhas que
eu têm mais dificuldade neste transitar. Porque se você trabalha na construção do
feminino como as travestis fazem, tendo que aparentar uma figura exuberante e
desejada e de bem com a vida; a velhice vai tirando tudo isto e todos estes atributos
que voadquiriu na juventude. Como é uma pessoa assumir-se travesti na terceira
idade com um monte de preconceitos acompanhando?
Para começar é suscitada a seguinte questão: como é investir na construção de
um corpo durante grande parte da vida, porém, quando a velhice chega, como lidar com
130
os efeitos sofridos sobre aquilo que foi cuidadosamente construído ao longo de
décadas?
Nesse trecho a entrevistada faz associação entre envelhecimento e decadência
física. Conforme foi dito, o corpo considerado jovem é valorizado em detrimento do
corpo considerado idoso. Na sociedade de controle prima pelo corpo sempre jovem,
sarado, magro, ágil, flexível, produtivo, consumista, independente e adaptável. O corpo
velho vai contra tais ideais.
E também é importante perceber que estas travestis que assumirem este patamar de
estarem na terceira idade, com cinqüenta, sessenta, setenta anos; elas procurarão
fazer uma inversão da condição que nós temos agora que é a da jovialidade. Para que
elas pudessem se espelhar nestas que tem mais de sessenta anos seria como: Se eu
consegui, vocês também podem conseguir! Se estas meninas com sessenta, setenta
anos agora, passaram por dificuldades; muitas que estão com dezoito anos, não
passarão. Então, será mais fácil para esta juventude que está aparecendo agora e vai
surgir ainda por mais dez, quinze anos, possa se espelhar nestas meninas como as que
estão no livro: “Uma batalha pela igualdade” da Associação Igualdade do Rio Grande
do Sul. Para que elas possam ler e conhecer o nosso e também o seu próprio trabalho
daqui a dez anos e refletir coisas como: tinham travestis que iniciaram este
processo e que sofreram; foram discriminadas e torturadas e ainda assim continuaram
com a sua identidade travesti, não abriram mão disto e continuaram vivendo felizes.
Como eu que tenho quarenta e três anos e quando cheguei aqui na Bahia em 1983, eu
não tinha esta felicidade que tenho hoje, pois era muito discriminada. Talvez eu e as
travestis daquela época se tivéssemos alguém ou pessoas para nos espelharmos no
passado, talvez a nossa vida tivesse sido muito mais fácil.
131
Você está falando que a travesti de mais idade pode servir como modelo, uma
referência para as mais novas?
Sim, mas ainda assim é importante você assumir a sua idade.
Você está falando sobre a travesti que está na terceira idade ou com uma idade
avançada?
É importante respeitar e reverenciar uma travesti mais velha. Quando chega uma
travesti mais velha aqui na região, eu reverencio com palavras e afeto. Eu comi o pão
que o diabo amassou quando cheguei aqui! Imagine você, quem chegou aqui antes de
mim... Então, a necessidade de contar estas histórias para que estas travestis novas
conheçam a realidade das travestis mais velhas, da terceira e quarta idades; creio que
da quarta não existam mais. Estas travestis de outrora, as precursoras, implantaram
ações dentro de cada município e estado brasileiros e grande parte do que temos agora
foi conquistado por estas que foram e que estão velhinhas e ninguém traz mais para
as luzes da cena.
Onde elas estão?
Sim o trabalho é este, procurar onde elas estão. Aqui na minha região tem umas quatro
ou cinco travestis mais velhas que eu e elas são avessas a qualquer tipo de
aproximação ou conversa, porque naquela época não havia o interesse dos
acadêmicos, do governo e da sociedade como tem hoje em dia. O importante é deixar
marcado para as gerações futuras, não para os homossexuais, mas, para os jovens
heterossexuais, a importância de reverenciar sempre os seus antepassados e os
diversos segmentos da sociedade como nós: os travestis.
Sim! Olhar o idoso e as pessoas mais velhas como pioneiros que abriram
caminhos, construíram experiências e coisas!
132
Eu tive que ir aqui à Avenida Sete defender uma travesti que deve ter por volta de
quarenta e seis ou quarenta e oito anos, porque outra travesti não a queria na rua. Ela
chegou aqui na sede dizendo: “Keila! Tem uma travesti que não quer que eu fique mais
rua, reclamando que eu faço varejão!” (Varejão é cobrar menor preço pelo programa
que as demais cobram). Eu penso: Uma pessoa que tem quarenta e seis e quarenta e
oito anos não vai disputar com uma menina de dezoito anos. Daí, eu fui com a travesti
mais velha para rua. Chamei a menina que estava causando problema, que por sinal
tinha dezessete anos, e disse: Quando uma travesti mais velha aparecer aqui, você deve
respeitá-la porque muitas delas trouxeram o asfalto para a Av. Sete e as árvores do
Campo Grande. Este foi um modo dizer na cara da travesti mais nova a realidade e o
que aquela pessoa mais velha representa! Ela era ainda mais velha que eu. Quando
cheguei aqui, sofri com ameaça da polícia, chicotadas, massacres e torturas. Imagine
você, a senhora mais velha!
A entrevistada coloca que as travestis idosas são importantes em relação às
travestis mais novas, pois foram pioneiras. Conquistaram direitos que atualmente são
gozados pelas travestis mais novas. Além disso, enfrentaram muitos preconceitos e
situações de violência que as travestis mais novas não precisam mais enfrentar. Muito
embora, as mais novas enfrentem outros tipos de violência.
Fica claro que para as travestis que se prostituem, a velhice chega mais cedo,
por volta dos quarenta anos de idade. A competição se torna mais acirrada em relação
as mais jovens. Alguns autores exploraram o papel da travesti mais idosa. Quando não
podem mais viver da prostituição, muitas se tornam locatárias de quartos ou imóveis
que possuem, agiotas nacionais e internacionais, profissionais da moda e da indústria
do entretenimento, cabeleireiras, manicures, esteticistas, costureiras, domésticas,
133
artistas, comerciantes, bombadeiras, “mães” das mais novas, ícones, agentes de
prostituição no exterior e cafetinas. Quando isso não acontece, podem acabar na
miséria, viver da caridade de alguém, em um asilo qualquer ou até mesmo se tornarem
moradoras de rua (Benedetti, 2005; Böer; Kulick, 2008; Pelúcio, 2009; Silva, 2007).
Você é do interior do Maranhão. Você escolheu a Bahia por alguma razão em
especial? Por que você não escolheu São Luís?
Sim, eu sou de Pedreiras. Eu fui muito “rechaçada” quando fui ao Soares e não
falei o nome da minha cidade! Vou contar a minha história bem resumidamente. Eu
nasci em Pedreiras e depois quando comecei a me entender como gente, não sabia que
era gay, mas, percebi que não gostava do sexo oposto, de mulheres. Aquilo tudo era
muito pequeno para mim. Então, sai da minha cidade e fui para Teresina no Piauí na
casa de uma prima.
Sua prima era travesti também?
Não. Chegando lá, não deu muito certo e fui embora com uma amiga. Começamos a
trabalhar em casas de família e depois fomos para a praça nos prostituir. Começamos
a conciliar o trabalho em casa com a prostituição na praça. Mas, era muito cruel, a
polícia nos prendia, e nos maltratava, jogando baldes de água gelada com pedras de
gelo na nossa cabeça, às duas horas da manhã! Enfim, de Teresina fomos para São
Luís do Maranhão. Eu tinha feito algumas amizades e começamos a fazer um tour
pelas capitais. Quando tínhamos dinheiro comprávamos passagem de ônibus e íamos
para as cidades; o íamos de carona. Chegando a São Luís, começamos a
trabalhar em uma lanchonete e fazer prostituição à noite. O pessoal que trabalhava na
lanchonete tinha família em Recife e falavam muito da cidade. Então, nós pegamos um
ônibus e fomos para Recife. Chegando lá, começamos a trabalhar com prostituição.
134
Eu até tinha vindo com o meu namorado do Recife. A minha meta e de minha amiga
era chegarmos a São Paulo; mas, parei na Bahia. A minha amiga seguiu para São
Paulo e eu fiquei. Estou aqui desde 1983. Mas, aqui, nos anos oitenta, acontecia
muita coisa.
Eu lembro que você comentou que muitas travestis eram levadas para as praias ao
norte da Bahia e muitas ficavam com a mão uma no rosto da outra se protegendo
dos cassetetes dos policiais...
Parte desta época, eu ainda estava no Recife e começava o assassinato das travestis na
rua. Tinha um homem, que eu agora não me lembro o seu codinome... Ele saia
matando as travestis. Eram cinco, oito, dez, travestis por semana. Aquilo me assustou
muito. Eu estava acostumada com uma vida mais pacata e sossegada. Tanto em São
Luís quanto em Teresina não tinha esta enormidade de assassinatos, mas em Recife
tinha. Quando chegamos aqui na Bahia havia uma epidemia de AIDS, e uma grande
violência da policia civil e militar que era dizimadora. Á noite na rua as pessoas nos
apedrejavam, pois achavam que mesmo não fazendo sexo com ninguém, nós
transmitiríamos o vírus da AIDS para eles. A delegacia de costumes da região nos
prendia e depois de três dias nos soltavam. A polícia batia, prendia e torturava. Eles
nos levavam para a Praia do Flamengo, soltavam a nossa peruca na Praça da Sé, os
sapatos no Campo Grande, os vestidos ficavam na Praia da Barra... Eles nos
humilhavam, fazendo com que cada uma de nós beijasse na boca uma da outra. Era
horrendo! Poucas pessoas conseguem vislumbrar o que acontecia conosco. Quando
chegávamos à Praia do Flamengo, que era deserta, longe do centro, estávamos quase
nuas e pediam para nós que formássemos duplas e brigássemos entre a gente. Aquelas
que perdiam apanhavam ainda mais dos policiais. Eram dois carros, eles ligavam os
faróis, um de frente para o outro e nós ficávamos brigando! E eles? Colocavam
135
defeitos e dizendo quem era bonita ou feia entre nós; ficavam tirando o sarro da gente!
Nós começamos a desenvolver uma metodologia para nos livrarmos dos policiais. Nós
não nos batíamos, ficávamos apenas agarradas umas nas outras e caímos na água. É
claro que eles não queriam molhar as fardas e daí, iam embora. Daí, pegávamos
aqueles restos de roupas sujas lavávamos na água do mar, íamos para a estrada e
tentávamos uma carona para conseguir chegar em casa. Naquela altura, não nhamos
mais dinheiro, estávamos sem bolsa, ficávamos ao léu. Isso era cotidianamente! De
duas a três vezes por semana! Mesmo pela manhã, quando saímos para a farmácia
comprar hormônio, éramos presas porque estávamos de saia e era para estarmos de
calça. Aqui mesmo no pelourinho, quando estávamos dormindo a polícia entrava e
fazia uma corda de caranguejo, amarrando travesti por travesti e nós éramos levadas a
delegacia e tínhamos que lavar a delegacia inteira e todas as viaturas que por sinal,
nos prendiam. Terminando tudo, ficávamos presas e nos soltavam no dia seguinte,
isto, se o delegado estivesse de bom humor, caso contrário, em dois ou três dias
éramos libertadas. Eu era bem jovem quando cheguei aqui, experimentei tudo isto e foi
dentro deste mundo que eu me formei. Eu via que aquilo estava errado, mas eu não
tinha como olhar e não sabia como ajudar. Todo mundo era passivo diante daqueles
absurdos! Nós corríamos para escapar ou ficávamos e sofríamos agressão e tortura.
Várias vezes nós corríamos e escapávamos, chegando em casa e nos trancando. Nós
morávamos em uma casa de um cômodo e possuíamos uma gambiarra que ligava toda
a luz da casa. Para não sofrermos na mão da polícia, a primeira que chegasse
puxava um fio na eletricidade apagando a luz e assim ficava difícil para que os
policiais nos achassem. No começo era fácil, mas depois eles vinham com as lanternas
e ficavam dentro da nossa casa nos procurando.
136
A entrevistada mostra o quanto a violência que sofreu foi significativa. Passou
por situações que as mais novas não passam mais. Coloca que a violência na década de
1980 na cidade de Salvador em relação às travestis que se prostituiam era maior. É
como se a violência sofrida pelas mais antigas ajudasse a conquistar certo espaço de
segurança que foi deixado para as gerações mais novas de travestis. Entretanto, as
jovens ainda sofrem violência, porém não é mais o mesmo tipo que as mais velhas
sofriam.
De acordo com a entrevistada, outra responsabilidade atribuída às travestis que
se prostituiam naquela época, e ainda hoje, foi a disseminação rápida do vírus do HIV.
A idéia implantada pelo biopoder era o da preservação da saúde, beleza e “vida eterna.
Portanto, o estilo de vida das travestis que se prostituiam foi encarado como uma
verdadeira resistência a tal política. Trocar o dia pela noite, baladas, múltiplos
parceiros sexuais, alta exposição a todas as doenças sexualmente transmissíveis, uso e
abuso de drogas, alimentação inadequada, administração de hormônios e aplicação de
silicone industrial por conta própria, condições péssimas de moradia, falta de dinheiro,
desamparo social, contexto de vida violento, exclusão, enfim. Todos esses itens são
contra a boa “qualidade de vida” que é uma das principais bandeiras das biopolíticas.
Nos anos de 1980, e ainda hoje, as travestis têm sido vistas como transmissoras
e portadoras do vírus HIV e outras doenças, que pode matar, pois ainda não há maneira
de destruí-lo completamente. Morte e doença representam resistências às políticas
públicas do biopoder. Naquela época ainda não havia órgão público significativo que as
defendessem. Atualmente diversas organizações não governamentais que lutam por
direitos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros) (Foucault, 1993).
Por causa das diferenças entre as pessoas, criam-se preconceitos como forma de
proteção e ataque contra aquilo que é considerado diferente da maioria. Isso acontece,
137
pois o diferente culturalmente representa ameaça à ordem estabelecida. O preconceito
engloba três componentes: o afeto (sentimentos ou emoções em relação a um grupo de
indivíduos) a cognição (estereótipos) e o comportamento (discriminação). O estereótipo
é uma forma de organizar a percepção. Devido ao grande número de informações e
especificidades, o cérebro as simplifica, pois as categoriza definindo formas de ser
generalizadas. O rótulo é um tipo particular de estereótipo. Quando se rotula alguém
disso ou daquilo, determinamos nossa forma de se relacionar com o rotulado.
Tendemos a perceber somente o rótulo. As pessoas rotuladas tendem a se comportar de
acordo com aquilo que é esperado delas (Nunan, 2003).
Travestis são estigmatizadas e rotuladas como pessoas abjetas, ininteligíveis,
invisíveis, não humanas e desviantes das normas de gênero que regulam as relações
sociais. O conceito de desviante está relacionado ao patológico. A idéia de desvio
implica que há naturalmente a existência de um comportamento “médio” ou “ideal” (no
caso, a heteronormatividade) que estaria em harmonia com o funcionamento estrutural
da sociedade em questão. Só há aquilo que é considerado desvio (transexualidade), pois
aquilo que é considerado o não desvio (heterossexualidade). Não desviantes em
si. O que há são determinados grupos (heterossexuais) que acusam outros grupos
(homossexuais, transexuais e travestis) de serem desviantes (Butler, 2003; Velho,
1989).
A ideologia dos não desviados e dos desviados existe porque nós a
reconhecemos como tal. Determinadas ações são desejadas por todos. que se haver
uma norma. Porém, qual é o impacto que tal norma tem sobre certas pessoas? As
crenças dão subsídios às instituições, prescrevendo papéis. As legitimações são
justificadas nas instituições. Criada uma realidade objetiva, mecanismos para mantê-
la. Caso haja um rebelde que não se submeta a norma estabelecida, haverá a tentativa de
138
aplicação terapêutica, com o objetivo de tratar para corrigir. Se não for possível corrigir,
restará a exclusão ou até mesmo o aniquilamento. A exclusão social se através da
eleição de um grupo como “bode expiatório”, que nesse caso é dos homossexuais.
Conforme relato acima, tentava-se aniquilar o coletivo de travestis na década de 1980
em Salvador, por serem vistas como minoria.
Radicado no campo das ciências sociais, especialmente na Sociologia, o
conceito de “minorias” refere-se, basicamente, a grupos que independente do número
vivem em desvantagem frente a outros grupos e/ou categorias sociais, sendo objeto de
estigmas, preconceitos. Ocupam, via de regra, uma posição social frente a grupos
hegemônicos e socialmente reconhecidos como legítimos.
Assim, a expressão “minoria” é usada pelos sociólogos não em termos
numéricos, mas por referência ao lugar ocupado nas relações de trocas sociais. Raça,
gênero, etnia, idade e orientação sexual são critérios frequentemente empregados para a
construção social das minorias” . Cabe ressaltar que o fato de ocuparem posições
subordinadas leva, incontáveis vezes, a vivência do abandono (legal, real ou
simbolicamente), do isolamento e do desamparo. (Roso et. al., 2002).
Crimes e assassinatos de travestis ainda são constantes por causa de complexas
relações sociais de ódio de um grupo contra o outro, motivados pela homofobia e
transfobia. O comportamento discriminatório ou intolerante pode ser direto (desde
formas violentas de agressão fisíca, xingamentos e até o desprezo) ou indireto (como
recusar-se a garantir que pessoas transsexuais sejam tratadas da mesma forma que as
demais pessoas consideradas normais.
Travestis são acusadas de serem violentas. Entretanto, elas alegam que recebem
muita violência por parte da sociedade e por isso, respondem com violência. Tal assunto
é muito complexo, digno de um estudo mais aprofundado. Nem todas são violentas.
139
as travestis em processo de envelhecimento, sofrem dupla estigmatização, a de estar
envelhecendo, e a de estar envelhecendo como travesti. Representam verdadeiras
resistências as políticas do biopoder, mesmo na velhice (Berger e Luckmann, 2006;
Foucault, 2007). As travestis idosas são mais bem respeitadas quando tem um bom
emprego, boa condição financeira, bons relacionamentos sociais e de parentesco
(Siqueira, 2004).
Em 1991, eu conheci o Grupo Gay da Bahia, fui a algumas reuniões e percebi que nos
poderíamos denunciar os abusos que sofridos. Cada dia um contava a sua história e
aquilo servia de alento para nós. No outro dia comentávamos sobre as reuniões e até
dávamos risada das amigas que tinham fugido da polícia. Eu tive os meus dois braços
quebrados pela polícia. Hoje eu conto isto tranquilamente; na época era muito difícil.
Mas, e aquelas que não conseguiam escapar? Ficavam fraturadas, raladas, cheias de
hematomas e com o seu dinheiro roubado. Então, começamos a compartilhar as nossas
histórias entre si, entre os grupos e logo encontramos parceiros dos quais poderiam
nos ajudar, denunciando a violência e os abusos. Vamos combinar? Ministério e
defensoria pública não funcionam para nós. A polícia é um dos segmentos mais
corporativos que você encontra dentro da sociedade. quinze dias chegou aqui um
policial querendo que uma travesti fosse identificar outro policial que estava preso por
matar uma travesti. Eu disse que não e o policial afirmou que daria segurança a
travesti. Reafirmei que ela não iria, pois quando voltasse para a rua, quem garantiria a
segurança dela? Expliquei que ele era um policial diferente, que trabalhava para o
bem da comunidade, mas dentro da corporação ele era minoria da minoria. A grande
maioria é corrupta! Enfim, ele acabou concordando comigo. Não adianta! Noventa por
cento da população de travestis se prostituem. É uma das populações mais vulneráveis
140
em todos os segmentos da sociedade. São vulneráveis pelo HIV; pois transam todos os
dias com vários parceiros. Nós damos os preservativos, mas, fica difícil saber se elas
estão utilizando corretamente. Elas estão sujeitas a toda a forma de violência, pois
estão na rua sozinhas. Quando vão e quando vem, pois precisam pegar transporte
coletivo ou van. Então, ela passa grande parte da vida neste mundo de vulnerabilidade.
Quando ela consegue um status mais ou menos razoável, ela quer esquecer aquela
vida.
Como é que você acha que a travesti se prepara para a velhice?
Ela não se prepara...
Diante de tudo o que você me falou e sabendo que hoje em dia com o avanço da
medicina e tecnologia os idosos vivem mais e há um maior número deles no
mundo; Como as travestis se preparam para a longevidade?
Hoje em dia, vemos no cotidiano, uma grande quantidade de travestis jovens que não
se preparam, sendo que a média de idade delas não é muito grande. Não travestis
com sessenta anos! Com cinqüenta, você encontra uma ou outra... Uma travesti na
ativa com trinta e oito ou quarenta anos você não encontra mais. Quando chegam
acima dos cinqüenta anos, elas próprias se ocultam e somem completamente. O que
nós estamos fazendo agora? Eu represento uma rede nacional que tem cinqüenta e
duas instituições e aconselhamos todas as travestis a pagarem o INSS para que no
futuro tenham uma aposentadoria. Pedimos também para que elas voltem a estudar e
consigam outro trabalho ou que até mesmo tente casar a prostituição com a sua nova
possível profissão. Existem as travestis que vão para Europa e ficam ricas. Voltam ao
Brasil e gastam todo o dinheiro. Nós aconselhamos a não fazer isto.
141
Entrevistada aponta a importância de se preparar financeiramente para a velhice
e a garantia de ter uma aposentadoria. Cuidar-se no presente, para poder atingir a
velhice com saúde. Conscientizar as travestis mais novas sobre a importância de
guardar dinheiro e contribuir para o INSS. Formar organizações não governamentais,
que as amparem é uma forma de proteção.
Elas gastam muito?
Sim, chegam aqui alugam carros, fazem festas. Imagine você! Uma pessoa que nunca
teve nada, quando tem acaba gastando em excesso. A gente até compreende que elas
exploram um pouco este lado de “gastonas”, mas aqui nas instituições, nós
aconselhamos a poupar um pouco para o futuro. Mas, o que eu falo que é fundamental
é o retorno para a escola ou a inserção escolar, pois é que vai se formar a
cidadã. No entanto, agora, no encontro nacional de travestis que tivemos em setembro
de 2008, aqui em Salvador, direcionamos várias propostas ao Ministério da Educação
para criação de algumas políticas públicas para as travestis e transexuais serem
inseridas na escola e também para que a escola se torne um ambiente mais favorável,
respeitando a identidade de gêneros e orientação sexual; não restringindo travestis e
transexuais a utilizarem coisas que elas não gostem. É preciso que elas usem seu nome
social como no estado do Pará que fez uma portaria para que os travestis e transexuais
utilizassem seu nome social no âmbito da escola. Uma escola que tenha esta portaria
aplicada e que efetivamente respeite estas pessoas tem grande importância e merece
que este modelo seja replicado em todo o nosso país. Daí não terá uma escola X
que respeite as travestis e sim todas as escolas; basta à travesti escolher qual delas se
adequará melhor para os seus estudos. Eu estava falando com a Janaina nossa
liderança em Campinas e ela disse que tem uma escola apelidada de “bichola”, pois
142
tanto diretor quanto os serventes aprenderam a conviver com as travestis. O
importante é que haja escolas que respeitem todos. Não também a necessidade de
serem estereotipadas como no caso a escola de Campinas ser chamada de “bichola”.
Nossa intenção é que apareçam em todo o Brasil, professores capacitados e
sensibilizados, além de alunos, diretores e serventes de escola. Eu sempre quando vou
dar palestras em escolas, digo que não adianta você sensibilizar só diretores e
professores e não sensibilizar serventes, alunos e seus pais, respectivamente. Porque se
na sala de aula o professor fala ao aluno para não discriminar as travestis e em casa
não há a sensibilização dos pais deste aluno, ele obedecerá aos pais e não o professor.
É um trabalho até as famílias de todos os alunos.
É um trabalho muito grande, não é?
Existem muitos projetos no Brasil tratando da diversidade sexual dentro da escola.
Vários materiais estão sendo elaborados. Eu mesma sou consultora do projeto escola
sem homofobia. Agora teremos cinco formações em cada região do Brasil para lidar
com professores da rede pública, abordando assuntos sobre lésbicas gays e “trans”,
como algo natural e dizendo que nós somos pessoas normais, pois apenas fugimos do
padrão convencional heterossexual da sociedade atual. Nas instituições, pegamos as
travestis e contamos que a escola está se tornando desta maneira, mais tranqüila para
recebê-las e aconselhamos todas, a voltarem aos estudos e que para conciliar a
prostituição com a escola. Fazemos este trabalho de mão dupla sensibilizando a escola
e as travestis. E isto faz com que elas voltem a estudar. Muitas meninas que são
militantes hoje desta causa, tinham abandonado a escola antes, mas agora voltaram a
estudar.
Você acha que antes elas tinham medo e por isso abandonaram a escola?
143
No meu caso, eu abandonei a escola no segundo colegial porque a escola começou a se
fechar de um jeito que não dava mais para ficar. Eu chegava para estudar e me
xingavam! O professor deixava todo mundo me discriminar. Eu ia para a diretoria e
era uma diretora mulher extremamente homofóbica. era um ambiente não
preparado para pessoas com estereótipo gay como eu. E agora as meninas que estão
na militância vão para a escola e a primeira coisa que elas fazem quando entram, é
chegar e falar com a diretoria: Somos travestis, gays, transexuais e queremos que a
escola comece a nos respeitar a partir da entrada na escola, na hora da chamada e por
assim vai... É um trabalho e atitude que elas conseguem a partir de um
conhecimento.
E começando também a partir do nome, não é Keila? Muitos ainda chamam pelo
nome de registro...
Sim. As meninas militantes chegam à escola e fazem uma reunião com os diretores,
professores e dizem: Olha! Nós somos travestis e queremos estudar! Queremos
concluir os meus estudos e queremos ser tratadas na escolha com os nossos nomes
sociais e não com os nomes de registro. Os meus documentos, certificados e diplomas
sairão com os nomes de registro, mas, o nosso tratamento aqui na escola a partir da
hora da chamada será com o nome social. Se a chamada é feita por nome e não por
número, então não me chame de Carlos e sim de Keila, por exemplo.
Você acha que deveria haver uma política pública para a alteração de nome para
a travesti, se ela quiser?
A deputada Cida Diogo do PT do Rio de janeiro fez um projeto de lei que está agora
no congresso nacional para unir o nome social com o nome de registro. Eu tenho meu
nome de registro no RG e ao lado eu tenho o meu nome social. Algumas meninas
acharam que era melhor só o nome social e ainda estamos discutindo isto. Eu acho que
144
é muito melhor ter o nome social ao lado do nome de registro do que somente o nome
de registro, sem alteração de gênero masculino ou feminino. A deputada ficou de olhar
agora na comissão de justiça da própria câmara dos deputados se será possível tirar
todo o nome de registro e deixar o nome social. Eu, porém acho mais tranqüilo que
você deixe apenas o primeiro nome do registro. Se nós tivéssemos a condição de
alterar o nosso nome como alguns países da Europa fazem, seria mais tranqüilo,
pois deixaríamos de sofrer diversos constrangimentos como na fila do banco, para
tirar documento, tirar visto. Quando fui ao médico, na hora em que chamaram o meu
nome de registro cinco vezes e não quis me levantar. Daí, eu disse: Este homem que o
senhor está chamando sou eu e ele retrucou: Desculpe senhora!
Mas, ele também não tinha como saber que Carlos era Keila...
Se eu te conheço intimamente vopode me chamar de Carlos, eu o quero que o
meu nome de registro seja chamado em público. A situação foi diferente, eu estava
sentada no da porta como eu sempre faço quando vou ao médico e me conheciam.
Antigamente eu ia ao médico e sempre fazia assim e quando me chamava, eu já entrava
por debaixo do braço da pessoa. Depois de anos, a portaria do ministério da saúde foi
publicada, e é a mesma semelhante a do estado do Pará, dizendo: Todas as pessoas
com o cartão de usuário podem ser chamadas do jeito que quiserem. Nosso trabalho é
sensibilizar médicos e postos de saúde para nos tratar pelo nosso nome social. Mas,
mesmo assim é um constrangimento diário para nós. Eu viajo muito e não tenho
problema. Na TAM e GOL não tenho problema, mas, na Webjet, quando olham para a
minha identidade perguntam: Cadê o passageiro? E eu digo: Sou eu aqui! Se já
tivéssemos isto alterado na nossa identidade ajudaria muito!
Tudo o que você está falando é muito importante, mas quero voltar a falar sobre
educação e escola e sobre o que você disse: “Incentivar as travestis a procurarem
145
algo alternativo e não só a prostituição”. Mas, por outro lado existe uma sociedade
que rechaça. Como ficam as travestis para desenvolverem este preparo? Elas
pensam nisto?
Nós começamos a falar isto agora. Até 1990 não se falava nada sobre isto. Era a
polícia que determinava! Nós começamos a falar faz pouco tempo. São apenas dezoito
anos!
Ter o nome social feminino confere as travestis maior inteligibilidade de gênero
conforme Judith Butler. Quanto maior for a coerência entre corpo, vestuário, aparência,
comportamento e demais atributos daquilo que se espera socialmente em relação aos
gêneros sexuais, maior será a aceitação por parte da sociedade (Butler, 2003).
Gays e lésbicas têm uma situação social mais confortável a ponto de suas
reivindicações sofrerem menos preconceito no mercado de trabalho e na escola. A
possibilidade da união civil e a criminalização da homofobia são mais prováveis de
acontecer. para as travestis e transexuais, é importante que existam nos documentos.
Assim, será o primeiro passo para lutar pelos demais direitos. A utilização do nome
social em documentos de identidade é permitida em alguns estados do Brasil. Para
regulamentar a questão no país, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei da
deputada Cida Diogo (PT), apresentado em 2008.
De acordo com o movimento, que defende o reconhecimento da identidade
travesti como gênero feminino, a proposta, que cria a possibilidade da utilização do
nome social ao lado do nome oficial nos documentos, ainda esbarra na burocracia e no
preconceito. Além de serem casos de polícia, agora passam a ser também caso de
política.
146
É muito pouco, não é?
As pessoas que chegam agora estão pegando um terreno bem aplainado e elas têm um
pouco mais de “trânsito”. Nós começamos a ter uma convivência amistosa com a
polícia desta cidade há menos três anos. A polícia perseguia todo dia; tinha sempre um
policial de plantão para nos perturbar, bater e espancar as travestis na rua. Elas
também não são santas na rua, mas, não é para a polícia pegar e espezinhar. Se a
polícia algumas erradas, pega e prende! Nós não vamos à porta da delegacia fazer
protesto para travestis delinqüentes e marginais e sim para as travestis que nos
sabemos que são inocentes. Não apontamos quem é marginal, isto cabe a polícia.
Como trabalharíamos entregando umas e soltando outras? Isto seria totalmente um
equivoco para nós. Então, estas meninas estão aprendendo a falar agora e o mais
importante de tudo isto é o convívio social. Antigamente os espaços eram marcados.
Havia o reduto das travestis como no pelourinho, algumas no onze de julho e mais em
nenhum outro bairro em Salvador. Hoje se você circular pelos bairros em Salvador,
dificilmente você não vai encontrar uma travesti. Bairros mais populares sempre têm
travestis. Eu acho que isto é importante porque a sociedade começa a perceber que é
natural. Uma amiga minha chegou ontem de Belo Horizonte e disse que as travestis de
saem à noite. De dia elas são camufladas com chapéu, camisas “largonas” e
calças. Eu disse: Você tem que sair de minissaia e de blusinha. Se você tem um corpo
perfeito, pode fazer isto! Você não precisa sair nua, mas, de minissaia e ainda com
umas pernas bonitas? Sim! Quando nos mostramos de uma maneira comportada e
decente acabamos nos inserindo na sociedade e a mesma não te aceita, mas te respeita.
Antigamente, faziam abaixo assinados para que tirassem as travestis de determinado
prédio ou bairro que elas fossem morar. Hoje em dia você consegue trabalhar, dormir
de dia, e pela tarde ir ao mercado e ao salão se arrumar. Isto, elas aprendem por conta
147
própria. A nossa orientação é ajudá-las a chegar à escola, a um serviço de saúde ou a
uma secretaria pública.
A entrevistada aponta a importância da postura da travesti em relação ao
comportamento em sociedade. Quanto maior postura e respeito em relação às outras
pessoas, menos possibilidade a travesti terá de ser alvo de preconceito. Sobre postura,
retomaremos mais adiante o que isso significa exatamente.
E os desafios para a longevidade?
São os de pensar que estas meninas que agora tem dezoito anos e daqui a dez anos um
dia que tenho a certeza que quero passar deste plano e não vou deixá-lo como
encontrei. Eu vou viver até os cento e tantos anos e quero que muita gente venha
comigo e que façamos a vigésima oitava ou a trigésima quinta parada aqui em
Salvador. Quero ver várias travestis de cabelos brancos, bengalas, cadeiras de rodas,
mas, que estejam comigo! Este é o nosso ideal de vida! Trabalhar para a nossa
longevidade! Faz um tempo, chegou uma menina muito jovem aqui na região e disse
que morreria aos trinta e seis anos. Hoje, ela tem trinta e seis e eu disse: Você não
morreu?Acho que você tem mais pecados para pagar ainda! Daí, ela brincou dizendo
que morreria com quarenta e seis e eu disse: Ótimo! Você se deu mais dez anos! Eu
acho que é importante você brincar com este lance da idade e quando uma pessoa no
futuro perguntar a minha idade, eu não tenha mais vergonha em dizer. Quero ser
exemplo para as travestis de dezoito que me vêem com quarenta e três anos e pensam:
Se ela chegou eu também quero chegar! Ou não, pois não querem ficar velhas, vai
saber... Por isto eu detesto que me chamem de tia, me chamem de senhora ou de moça
148
ou até mesmo de rapaz, moço, senhor, mas, me chamar de tia eu fico louca e desço do
salto na hora!
É comum associar velhice com debilidade física. A entrevistada apresenta
relação ambígua em relação a velhice. Aponta ainda que ela serve como um exemplo de
estímulo para as travestis mais jovens. Por que para ela é tão complicado ser chamada
de tia? O que será que para ela significa ser chamada de tia?
Nesse trecho podemos notar ainda que conforme Siqueira (2004), contextos de
existenciais violentos, padrão de beleza ameaçada pelas marcas do tempo, estilo de vida
considerado insalubre, uso abusivo de drogas e exposição a doenças e preconceito
colaboram para que muitas travestis que se prostituem não acreditem que chegarão à
idade avançada.
Você me disse que a partir de certa idade elas precisam reinventar o modo de
viver. Como elas podem fazer isto?
A primeira coisa é assumir-se enquanto com a idade que tem. É dizer: Eu tenho
cinqüenta e três, sessenta e dois, setenta e um anos e sou travesti também!
São duas coisas que elas têm que assumir...
Sim, a idade e o ser travesti! Não vai adiantar você quando completar cinqüenta anos,
tirar a peruca e assumir-se como um gay. Acredito que uma pessoa que faça isto lhe
falte auto-estima para continuar a ser travesti com cinqüenta anos de idade. Parece
que certas pessoas começam a imaginar que com uma idade mais avançada, não
podem fazer certas coisas e entram neste padrão de começar a se heterossexualizar.
Isto não é necessário para mim.
149
A resposta dada pela entrevistada suscita uma questão. Será que algumas
travestis que começam a entrar na velhice, começam a se transformar naquilo que foi
designado de gênero masculino? Essa é uma questão para se investigar em trabalhos
futuros. Caso façam isso, por que isso acontece? Por que não envelhecem como
travestis? Muitas vezes isso se dá, pois elas afirmam que perdem a funcionalidade
como travesti. Nesse caso, ser travesti também está vinculado ao trabalho de
prostituição, reiterando a máxima que diz que ser jovem é ser útil e produtivo.
Você acha que algumas travestis podem se olhar enquanto travestis como sendo
apenas uma função de sobrevivência e trabalho e não um modo de vida e de ser
simplesmente uma travesti? Às vezes pode ser apenas um personagem para
sobreviver?
Sim pode existir! Eu estava pensando sobre isto. Quando trabalhei na Europa por
quatro anos e chegava em casa para tirar todo o paramento, bijuterias e afins...
Lá é muito mais produção, não é?
Sim lá é tudo ao quadrado do que se faz aqui em termos de produção.
Onde você morou?
Na Itália? Nas cidades de Rimini, Gênova e Florença. Voltando, quando eu chegava da
rua e tomava uma ducha, tudo aquilo parecia que estava descendo pelo ralo do
chuveiro. Mas, quando eu acordava pela manhã , tomava outro banho e colocava uma
maquiagem mais discreta, um bom óculos no rosto para esconder as olheiras e com o
cabelo arrumadinho normalmente: Eu me tornava travesti. Então, nós precisamos
orientar as travestis para que não achem que isto é só um paramento para a juventude,
mas, que também é um paramento para a velhice! Eu agora me peguei com uma dúvida
cruel: Quero fazer uma tatuagem e colocar um piercing e me perguntei se tenho idade
150
para fazer isto? E cada dia eu fico mais convencida que posso fazer qualquer coisa
com a idade que eu tiver! Se com oitenta anos, tiver vontade de saltar de pára-quedas,
vou saltar! não vou fazer como aquele padre louco de Santa Catarina que saiu
carregado de balões e acabou morrendo! Mas, acredito que tenha muita gente como eu
que faça estes questionamentos quando chegam à minha idade. Eu tenho quatro
minissaias que são lindas e quando chega sexta-feira, quero dar uma volta pelas ruas,
conversar com as meninas e pergunto: Gente! Será que eu tenho idade para usar
minissaia? Elas falam que sim, mas eu fico na dúvida... Tiro a minissaia e coloco uma
calça cigarette. Eu mesma com a grande experiência que tenho. E eu tenho uma puta
experiência de vida viu?! Eu ainda fico na dúvida em como me vestir na minha idade.
Eu visto, me olho no espelho, mas, ainda não tenho aquela segurança em vestir roupas
mais jovens. Eu adoro calças cigarette! Um dia, estava na dúvida em usar, pois tenho a
barriga muito grande e ela estava meio Saint-Tropez, mas passou um homem e disse
que a minha bunda era gostosa! Então a calca funcionou! Mas, mesmo assim chegando
em casa me perguntei: Como uma senhora de quarenta e três anos pode usar aquela
calça? Talvez, eu não tenha a segurança em sair assim. Tipo: Vou sair assim e foda-se
o mundo! Talvez seja esta a informação que temos que passar para as travestis com
mais idade: Não tenham esta dúvida! Usem! Você quer pintar o cabelo de verde uma
parte e azul, a outra? Pinta! Acho que se estiver bem consigo mesma estará bem com o
mundo!
A resposta dada pela entrevistada mostra que determinadas roupas e
comportamentos se adequariam a sua respectiva idade em oposição à outras. É como se
houvesse um padrão que orientasse como a pessoa deve ser em relação a determinada
faixa etária. Ela ainda frisa que tem uma “puta” experiência de vida. Percebe-se como
referencia.
151
Assim como o gênero é performatizado, a velhice também é performatizada por
meio de atos e formas de ser que foram designados pela sociedade como sendo próprios
daquele grupo em questão. Assim, é esperado que o idoso se vista e se comporte de
certa maneira. Da mesma forma é esperado que o homem/mulher se vista e se comporte
de acordo com aquilo que foi denominado culturalmente como pertencente ao gênero
sexual masculino/feminino. Os padrões não são fixos, eles variam conforme o local e a
época em questão.
De acordo com Butler (2003), são determinados atos continuamente reiterados
que nos dão a impressão de que uma entidade fixa, essencial e “natural” em cada
pessoa, que socialmente, chamamos de gênero sexual. Da mesma forma, arriscamos
dizer que determinados atos continuamente reiterados nos dão a impressão de que há
uma entidade fixa, essencial e “natural” em cada pessoa que quando atinge determinada
idade, chamamos de velhice. Tanto aquilo que foi denominado de gênero sexual como
aquilo que foi denominado de velhice são construídos socialmente. Para se tornar seres
inteligíveis, as travestis mais velhas são pressionadas a se comportar como mulheres
mais velhas.
Você apontou três questões fundamentais que poderão ser o “esqueleto mestre” da
pesquisa: assumir a idade, a travestilidade e o sustento, a subsistência. O que você
acha que acontece ao assumir a travestilidade? Pois muitas podem chegar aos
quarenta anos muito mal resolvidas, do tipo: Eu sou transexual e não travesti!
O principal para assumir a travestilidade é conhecer cada segmento da sociedade em
que vivemos e muitas se orientam pelo conceito de que muitos travestis são gays que
viraram travestis. que vivemos em uma sociedade que é conceitual. Que
conceitos para tudo. Por que todo gay não virou travesti? Estamos trabalhando com
152
conceito de identidade de gênero que diz: Você não vira! Mas, você se identifica!
Então, desde muito cedo é necessário dizer a estas travestis mais novas que elas são
fruto de uma questão de identidade e não de simplesmente se tornarem travestis.
Você acha que elas não possuem a informação sobre elas mesmas?
Há pouco tempo não tinha esta informação e ajuda. Nem eu mesma tinha. Então, o que
fazemos agora é buscar fontes de informação e passar conceitos certos sobre
identidade e gênero para as travestis mais novas. Nós não impomos nada. Cada um é
livre para fazer o que quer. Tanto é que se chegar aqui um homem barbudo, e disser
que é transexual (de homem para mulher) o meu dever será de respeitá-lo. Precisamos
primeiramente conhecer a história de cada pessoa para começarmos a orientá-la.
Assim trabalharemos os conceitos e informações, sendo que muitas informações,
estudos que chegam aos montes de todos os lugares até nós precisam ser filtrados. E
isto leva um tempo, pois, às vezes não podemos passar aquela informação, nua e crua
que recebemos para todas as meninas, pois algumas estão em estágios diferentes de
compreensão e assimilação das coisas. Então, devemos trazer a informação para o
nosso mundo e passar a informação exata para que elas saibam tranqüilamente que ser
travesti é uma questão de identidade!
Os conceitos também ficam embaralhados na cabeça delas, pois elas cresceram em
uma sociedade preconceituosa como a nossa que afasta e não liberdade para o
autoconhecimento...
Nos arquivos dos anos setenta e oitenta, todos eram taxados de homossexuais. Esta
coisa de LGBT é algo novo! Nós dizemos que não sofremos de homofobia e sim de
transfobia, pois, nós os travestis, somos os únicos que colocamos o pé na rua e todos
sabem que ali é um travesti. Há raríssimas exceções, mas geralmente é assim. Para nós
153
o preconceito vem mais forte. Dentro do mundo LGBT existe várias especificidades.
Muitos gays não gostam quando nós saímos por esta tangente, mas, seguimos o nosso
caminho, andando os nossos degraus. Você pode perguntar para qualquer travesti que
faz parte do movimento nacional, ela dirá que tem a necessidade de afirmar-se
enquanto: “ser, viver e morrer” travesti. Não existe aquele pensamento que alguns
acham: Ah... Nasci gay, vou virar gay ou travesti e daqui a pouco vou estender para
transexual. A Hannah Suzart brincou e disse: Essa coisa de evoluir, então daqui a
pouco nós travestis vamos evoluir para Digimon! Nós temos identidade de gênero
definida, somos travestis! Não queremos pertencer nem ao gênero feminino, nem ao
masculino.
A nossa sociedade binária diz: Ou você é um homem ou mulher...
Sim! Você está ou cá. Eu quero ser homem e mulher ao mesmo tempo! O direito é
meu! Então, a sociedade agindo assim, te joga de lado; você não serve. O papa disse:
O homem nasceu homem e a mulher nasceu mulher. Você não pode mudar de sexo,
pois Deus não criou você assim.
E as travestis não podem nem ficar em cima do muro não é?
Será que Deus me criou? Será que ele pegou Adão do barro e depois fez Eva, como
o cristianismo disse? Eu quero ser travesti. Eu tenho o biológico masculino e o social
feminino. Aonde eu vou me encaixar, nas mulheres? Não, porque elas têm vagina. Nos
homens? Não, porque o que eu tenho é um pênis. Onde eu vou estar? Sou travesti!
As transexuais se enquadram no gênero feminino direitinho porque elas querem tirar o
genital masculino; ou colocar como no caso dos transexuais femininos. Eu gosto do
meu genital masculino e gostaria até de aumentar um pouco o meu!
154
Conforme discutido exaustivamente no primeiro capítulo, as ciências
biomédicas classificam as pessoas no sentido de organizar e controlar as relações na
sociedade. A sexualidade humana faz parte de mais um item criado, para análise do ser
humano. As pessoas que não se encaixarem completamente nas categorias definidas
sofrerão preconceito e exclusão. Não serão reconhecidas como humanas. Serão
definidas como aberrações não humanas desprovidas de direitos e cobradas sem seus
deveres. Ambigüidades não serão toleradas. Transexuais tentam eliminar todo o tipo de
ambigüidade, enquanto travestis não, por isso talvez, sofram mais preconceito.
Eu lembro que no livro de Kulick, você falou que as travestis que tinham o pênis
maior eram muito mais procuradas e ganhavam muito mais dinheiro. O que você
acha das pessoas que procuram as travestis? Elas querem este híbrido?
Os homens que saem com uma travesti não querem sair com um homem, eles querem
sair com uma travesti. As pessoas acham, a maioria mulheres, que os homens que saem
com travesti têm vontade de dar para o travesti e isto é um ledo engano. O que atrai os
homens a saírem com uma travesti é aquela figura feminina com aquele “que” de
masculino. Aquilo excita e os fazem ter prazer. Eles nem precisam fazer o papel de
passivo. Querem pegar, tocar, e ao mesmo tempo pensam: Como uma mulher com
peitos lindos, uma bunda maravilhosa, tem um nis e funciona? Nós despertamos a
curiosidade nestes homens. É mais que certo que as transexuais que fazem a cirurgia
para mudança de sexo, não conseguem tantos clientes como tinham antes da operação.
Quando as transexuais operam ganham vagina e viram mulher e se assemelham as
mulheres nascidas biológicas. Por curiosidade, os homens podem até procurar uma
transexual operada, mas, depois se cansam daquilo, pois ali não mais uma
transgressão e os homens adoram uma transgressão. Eu acho que a prostituta mulher
155
está mais para afirmar o masculino no homem do que propriamente dar tesão. Os
homens procuram a prostituta para se firmarem como homens. Eles pedem qualquer
coisa para a travesti fazer na cama. Já com a namorada, eles não pedem e têm
restrições; inclusive com as prostitutas. Já com a gente, eles pedem tudo: bater,
espancar, pisar, cuspir, vomitar, peidar, cagar e mijar! Eles pedem coisas que você
nem pode imaginar! Para o homem que procura sexo fora do casamento, a esposa é
imaculada, cuida dos filhos e etc. Coisa que as feministas rechaçam. Então, se ele
procura uma prostituta é para afirmar todos os atributos masculinos e forças
másculas. Ele não pode pedir qualquer coisa, pois as prostitutas também têm seus pré-
requisitos. Nós não temos, podemos transgredir. Agora, quando ele quer transgredir
muito chega ao ponto de transar com um cão, gato, aspirador de pó... Nos anos
noventa quando fomos a Europa voltamos com cabeça mais livre; todos os nossos
próprios conceitos sobre sexo caíram por terra. Começamos a querer penetrar nos
nossos clientes! Até 1980 nós éramos as passivas da história. Eu fazia programa aqui
em 86, atendia em média de 10 a 15 clientes por dia e eles não tocavam no meu pênis.
O sexo era mecânico, eles chegavam e nos penetravam. Acredito que os homens
começaram a ser mais livres sem impor nenhum tipo de papel em relação ao sexo. Vou
ser isto ou aquilo? Não importa! Na Europa não tem nada disso. Eles saem com
travestis, eles transam, eles chupam, eles comem, eles dão e até mesmo trazem suas
namoradas para transarem conosco e continuam se sentindo homem. Agora aqui no
Brasil muitos pensam, eu um homem se sair com uma travesti e ser penetrado; Será
que sou gay? Não, você não é! Você desempenhou um papel sexual na cama que
não tem nada a ver com a sua identidade ou orientação sexual. Vonão vai virar
homossexual só porque deu o cú pela primeira vez. Você pode questionar a sua
sexualidade se isto se tornar um hábito e se você fizer constantemente, mas, se você
156
tem um tesão, vai e faça sem problemas! Hoje em dia apontamos para um sexo mais
liberal. Você não mais absurdo em uma menina de 13 anos sexualmente ativa.
Houve até um caso de um cara de 18 anos que fez sexo com uma menina de 13 sem o
consentimento dela. Daí é um problema, é crime! Tem crianças com 10, 12 anos
fazendo sexo, tem sim! Acho que temos que orientar as pessoas para fazerem sexo
consentido e protegido, mas, esta de coisa de proibir fazer sexo, não vai funcionar
nunca! Se você falar para a sua filha: Não faça sexo com um homem mais velho! Ela
fará para transgredir!
Interessante perceber como a entrevistada percebe os grupos de transexuais,
prostitutas mulheres e clientes que procuram travestis. Faz comparação entre os clientes
do Brasil e os da Europa. Coloca que a travesti é especial e diferente por seu caráter de
transgressão em relação às prostitutas mulheres. Faz alusão ao seguinte sistema vigente
no Brasil:
penetrador = atividade = masculinidade = superioridade
penetrado = passividade = feminilidade = inferioridade
Coloca ainda, como o contato com a Europa foi importante para que as próprias
travestis rompessem com o padrão rígido de comportamento de gênero estabelecido
acima. Esse modo de perceber ainda é muito corrente na construção do gênero sexual
descrito por (Fry, 1985; Fry e MacRae, 1983; Kulick, 2008).
É importante lembrar que os diagnósticos biomédicos fazem acirrar mais
ainda o preconceito não entre as pessoas como também entre os próprios membros
da comunidade dos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis. Isso talvez se
explique, pois o indivíduo estigmatizado pode mostrar ambivalência de identidade
quando de perto que os outros membros do seu grupo, que é discriminado,
157
comportam-se de modo estereotipado, exibindo de maneira extravagante ou desprezível
os atributos negativos que lhes são imputados. Ele não consegue nem aceitar seu grupo
completamente, nem abandoná-lo. Acaba se tornando vítima do próprio preconceito
(Goffman, 1988).
Então, gays considerados mais afeminados são discriminados por gays que se
consideram menos afeminados e demais pessoas. Bissexuais são discriminados por
todos, pois são acusados de ora gostar de homens, ora gostar de mulheres, quando não,
dos dois ao mesmo tempo. Os sensos médico e comum não admitem ambigüidades em
relação ao desejo afetivo-sexual.
Assim como gays considerados femininos, as lésbicas consideradas masculinas
são alvo de preconceito. Transexuais são consideradas loucas por algumas travestis,
pois essas últimas alegam que elas nunca serão mulheres, mesmo fazendo a cirurgia de
redesignação sexual. Travestis são consideradas abjetas, pois são vistas como ambíguas
em relação à suas características físicas e psicológicas. As travestis, por sua vez, ainda
acusam as mulheres biológicas de serem menos interessantes do que as próprias
travestis. Essas últimas dizem que suas performances sexuais são melhores do que das
mulheres em geral. Ainda defendem que se cuidam mais, são mais deslumbrantes e
atraentes, pois oferecem algo a mais (Kulick, 2008).
Como assumir a idade e reinvenção do modo de viver?
Acho que assumir idade será mais favorável quando tivermos políticas públicas
melhores.
Por exemplo?
Se há uma escola pública que te respeite e comece a usar o nome social da travesti, ela
irá estudar e se formar.
158
Isto é como um plano B de vida para a travesti?
Sim! Se você vai a um posto de saúde e o médico te respeita isto te favorecerá também!
Se uma travesti de 80 anos... (Será que existe? Seria ótimo encontrarmos!)
Seria!
Então, voltando, se esta travesti de 80 anos fosse ao supermercado e tivesse um jeito de
senhora, as pessoas não olhariam. Olha, eu até prefiro aquelas com trejeitos
masculinos e femininos. Agora imagine você ela sendo assim como eu gosto... O quanto
a travesti seria olhada e o quanto ela sofreria de constrangimento? O que não é
comum de ser visto, as pessoas estranham! Quando começarmos a ver mais as travestis
nas ruas de bengala, com seus namorados passeando e sentados na praça será natural!
E não estou aqui falando de nenhuma utopia, não... Isso vai acontecer!
Não é somente a informação que vai diminuir o preconceito. O contato e a
interação entre as pessoas é um importante aliado nessa tarefa. É preciso integrar para
que haja conhecimento entre os grupos segregados e segregadores.
Você acha que a população de travestis ainda vai aumentar muito?
Além de aumentar, vão existir mais travestis idosas. É por isso que eu digo, é
importante criar a política, por que isso faz com que as pessoas se afirmem enquanto
travestis, assumam a sua travestilidade durante toda a sua existência, e não precisem
em certo período parar de assumir aquela travestilidade, e se oculte dessa mente
estereotipada masculina. E com as políticas públicas eficientes e constantes, as pessoas
vão ter mais facilidade de assumir e de viver no mundo enquanto travesti numa
sociedade que respeita, na sociedade que acata. Numa sociedade que sabe conviver
com essas diferenças. Hoje não é muito comum ter bairros com professores que são
159
gays e que a população toda gosta? Um professor velhinho... O nosso presidente, aqui
do Grupo Gay da Bahia, Luiz Mott, no bairro onde ele mora, todo mundo gosta,
conhece e o respeitam, sabendo que ele é gay, por que ele vai à televisão toda hora
dizer que é gay. E as pessoas não discriminam mais por isso. Ele vai à fila do mercado;
conversa com todo mundo. E para os gays, que tempos atrás era difícil assumir e
conviver normalmente na sociedade? Isso vai ficar naturalmente mais fácil!
Porque as travestis teriam um caminho mais...
Árduo? É sempre mais difícil. Claro! Isso eu tenho falado desde o início, pra gente é
sempre mais difícil. A sorte nossa hoje é que nós temos essas 52 instituições, que vão se
tornar muito mais, a gente vai ter uma assembléia agora em São Paulo. Algumas
instituições que estão por aí, que são ONGs fazem muito trabalho, muito trabalho
mesmo, começam a colocar na cabeça dessas pessoas a importância de você assumir
sua situação enquanto travesti. Pressionando o governo para efetivação e criação de
política pública, para favorecer esse nosso segmento.
Não é somente a informação que vai diminuir o preconceito. O contato e a
interação entre as pessoas é um importante aliado nessa tarefa. É preciso integrar. O
reconhecimento existencial da possibilidade da pessoa se tornar aquilo que a sociedade
chama de travesti desde sempre a tonará mais humana. Isso começa na família, escola,
políticas públicas de saúde que as auxiliem no processo profissional, seguro e assistido
de transformação física. Dessa forma, não precisarão recorrer a métodos clandestinos e
perigosos. Não alimentarão a indústria informal.
Fisiculturistas homens obtêm certo apoio social para cultivar seus músculos e
formas. Eles estão amparados por normas de gênero que dizem que o homem necessita
ser forte fisicamente. Ou seja, quanto mais forte, mais masculino. Além disso, a força
160
física é o reflexo da força psicológica. Homens em geral não são encorajados a
demonstrar emoção, embora tais conceitos estejam mudando.
Já as mulheres fisiculturistas sofrem preconceito, pois as normas denero
dizem que mulheres o devem ter músculos grandes e definidos. Porém, as mulheres
que desejam aumentar o tamanho de suas nádegas, coxas e seios receberão apoio social.
É privilegiado que a mulher seja considerada gostosa: seios, nádegas, coxas, pernas
grandes e firmes. A travesti nasceu biologicamente homem, e, portanto não receberá
incentivo para transformar-se.
Em sua pesquisa realizada no início dos anos de 1980 na cidade de São Paulo, o
antropólogo argentino Néstor Perlongher (1942 - 1992) faz uma etnografia bem
aprofundada da prostituição viril. Ele constata que os clientes justamente buscam aquilo
que nossa sociedade chama de atributos masculinos e viris. Os garotos de programa ou
michês se apresentam como heterossexuais, másculos, ativos, machos e viris que estão
fazendo sexo exclusivamente por dinheiro. Negam que sejam homossexuais e
defendem que aquilo que os atraem em geral é o ganho financeiro com a prostituição.
a travesti que se prostitui, procura manifestar aquilo que chamamos de
hiperfeminilidade, porém de maneira extremada. Fazendo uma analogia, o garoto de
programa seria o travesti do homem, assim como a travesti seria a “travesti” da
mulher (Perlongher, 2008).
Voltando as políticas públicas, mais adiante, na idade adulta, transexuais e
travestis necessitarão de políticas públicas que as coloquem no mercado de trabalho,
deixando a prostituição como opção e não como a única alternativa de sobrevivência.
Quando atingirem a velhice, elas necessitarão de políticas públicas referentes a esse
período do processo da vida como: cuidados dignos com a saúde física, mental e
espiritual; preparação específica dos profissionais da saúde para lidar com travestis e
161
transexuais; condições descentes de moradia; oportunidades de trabalho; benefícios
previdenciários adequados; direitos civis assegurados; apoio jurídico; locais de
socialização; instituições de esporte, cultura, educação e lazer; formação de cuidadores
habilitados para aqueles que não tiverem condições de se cuidar; organizações não
governamentais voltadas exclusivamente ao processo de envelhecimento da
comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros); instituições de longa
permanência voltadas para as necessidades e especificidades do coletivo LGBT.
Evidentemente que as propostas de políticas específicas, acima citadas, ainda
são utópicas mesmo para os idosos não LGBT no Brasil e em muitos lugares do mundo.
Por melhoras nas condições de vida, nunca houve tantas pessoas longevas no mundo
como há na atualidade. A sociedade ainda não está preparada para o envelhecimento.
Porém, aos poucos, conforme foram sendo implementadas, tais políticas
começarão a dar reconhecimento e visibilidade a esse chamado segmento social que
passará de invisível a visível e de não humano a humano. A falta de políticas públicas
voltadas para esse segmento da população auxilia que haja preconceito, invisibilidade e
exclusão por parte dos demais segmentos da sociedade chamados de não LGBT. Além
disso, as travestis e transexuais em processo de envelhecimento requerem cuidados,
legais, civis, físicos, psicológicos e sociais bem específicos, pois o considerados
minoria que pertencem a um grupo de minoria. Eles são apenas o T da sigla LGBT
(Kimmel et al., 2006).
O recolhimento do INSS através da prostituição como um trabalho autônomo?
É pode. Hoje pode, e acho até com o novo código brasileiro de ocupação. consta
profissional do sexo, você pode recolher nessa rubrica. Qual é o problema? Ele te
aposenta quando você não tiver mais; ele te garantias quando você se acidentar,
162
quando você não tiver mais (necessidade) de trabalho. E as ONGs servem pra isso, pra
começar a colocar na cabeça dos travestis que tem outras alternativas. Quando
tiverem 40 anos e não puderem mais fazer prostituição, para não cortarem os pulsos e
morrerem.
Você acha que muitas acabam fazendo isso?
Não, não. Eu acho que não. Essa coisa de se cortar... Bom, todas as travestis quando
antigamente se cortavam, se mutilavam, era mais pra fugirem das ameaças policiais do
que propriamente para se auto-agredirem. A travesti sabia que ia apanhar então,
primeiro ela começava a se cortar, porque vinha com o sangue, a ameaça do vírus
HIV, e por aquela razão os policiais se afastavam. Tinha muito disso ou então, era
pra fugir mesmo. Tava presa na delegacia, e o policial não queria soltar, algumas se
cortavam. E daí, ia pro hospital e do hospital para casa. Tinha todas essas artimanhas.
Mas, não se cortavam pra dizer: Ah... Eu vou me mutilar porque eu quero morrer. Com
travesti não aconteceu; com transexual pode até ter acontecido sim. Eu não conheço
nenhuma história e não posso te relatar. Mas eu não conheço nenhuma que corte os
pulsos pra morrer. Ela se corta porque brigou com o namorado, mas, não pra morrer,
corta pra fazer chantagem emocional. Pra morrer mesmo acredito que não. Tem um
vídeo lá em casa que é muito engraçado, uma travesti fala assim: “Eu acho tão
divertido ser travesti, que se eu morresse e voltasse eu queria ser travesti de novo”. E
quando ela fala isso, eu me realizo: “Ela fala que é divertido agora, porque se ela
tivesse vivido na minha época, em 1983, ela não ia achar nada divertido. Era travesti
porque era mesmo e não tinha de onde sair dali. Mas, agora talvez seja divertido sim,
sair na rua ser desejada, poder andar tranquilamente, ir à farmácia comprar
hormônio, ir ao cinema com o namorado, sair a noite num barzinho, ficar a noite na
163
rua desfilando e os homens pagarem. Se achar desejada e bonita! Isso seria muito
tranqüilo. Hoje seria, mas, antigamente não.
As que estão na idade (uma, duas ou três que você conhece). Como que elas
sobrevivem? Quais as alternativas de sobrevivência?
Uma das que eu conheço, é aposentada. Se aposentou por idade. Se ocultou através da
sua identidade masculina e vive tranquilamente. Tinha um rapaz que antes era um
amante dela.
Ela cortou o cabelo?
Cortou. Mas mesmo assim a chamo de Angélica. O nome dele é José, mas, sempre que
vou visitá-la chamando de Angélica. Sempre a chamei de Angélica e vai morrer
Angélica pra mim. E tem um rapaz que era caso dela e ficou como filho, e teve ainda
uma mulher que está em casa, e esse rapaz toma conta também dela agora. Ele
trabalha, junta o dinheiro dele com a aposentadoria dela. Juntaram dinheiro para
comprar uma casa própria e conseguiram comprar um apartamento e vivem lá. A
outra travesti mora aqui pertinho, tem uma casa e aluga quartos. Ela veio da Europa e
conseguiu comprar um casarão que ela divide em cômodos e alugando. Tem uma
outra que trabalha como vendedor ambulante, fica na ruas nestas festas vendendo
cerveja. Todo mundo conhece, Martinha, Carlete. Principalmente essa que ainda
pra ver. Mas, Angélica não. Ela é deficiente; teve derrame em um olho, não enxerga
desse olho. Aí, ela não sai mais de casa. Mas, você pode contar nos dedos as travestis
que tem hoje, com mais de 70 anos. E pergunta pra elas a idade, se tem 70. Elas vão
dizer que tem no máximo 60 anos. Terão 80 e dirão 60.
A entrevistada aponta que algumas travestis ao envelhecerem podem sofrer o
processo oposto de transformação ao qual se submeteram, a partir da adolescência.
164
Voltam a ser “homens”. Parece que nesses casos específicos, para a entrevistada,
transvestilidade e envelhecimento não combinam. Ela ainda aponta algumas
alternativas que algumas travestis idosas usaram para lidar com esse momento do
processo de vida chamado de envelhecimento.
E a respeito daqueles 10 % que você falou, que não se prostituem, são as meninas
mais novas que trilham outro caminho?
Acredito que não sejam as mais novas. Acredito que para se prostituir é necessário ter
perfil.
Qual o perfil para a prostituição?
Primeiramente você precisa se despir de todos os conceitos e preconceitos. Você tem
que chegar à prostituição como uma pessoa altruísta, sorridente, fagueira e ainda tem
que ser bonita também. Na Europa, as meninas dizem que se tiver uma vassoura
vestida ganha, se tiver o pênis avantajado, melhor ainda. Tem que saber conversar e
principalmente estar muito sorridente, se você estiver na rua de cabeça baixa e as
mãos para trás, não vai conseguir nada e é necessário também fazer sexo com
qualquer tipo de pessoa e que seja consentido. Fazer sexo com uma pessoa menor de
18 anos? Nunca! Mas, dos 18 aos 105 anos... Tipo aquele velhinho gagá que acabou de
receber a aposentadoria e quer sair com você e você ter tesão para sair com aquele
homem. Não adianta você ir para a prostituição sabendo que você não vai se dar bem
lá! Então, estes 10 % sejam de pessoas que não tem este perfil e não tenham outra
perspectiva de vida através do seu trabalho, se bem que eu considero a prostituição um
trabalho e deveria se legalizada sim!
165
Mais uma vez o que chama atenção no trecho acima é associação constante e
direta entre velhice, aposentadoria e demência psíquica. Isso fica claro quando ela usa a
expressão velhinho gagá. Outra associação que é comum não pela entrevistada,
como também pela grande maioria das pessoas é associar a velhice com falta de
atratividade física. Ela diz que na prostituição é necessário aceitar todos os tipos de
clientes, inclusive os “velhinhos gagás”. A sociedade de controle globalizada, na qual
todos nós estamos inseridos, prima pelo alto investimento em corpos considerados
sempre jovens, sarados, magros, ágeis, produtivos, consumistas, independentes,
manipuláveis e facilmente adaptáveis às constantes mudanças (Deleuze, 1992;
Foucault, 1993).
E a classificação brasileira de atuação ajuda?
Não, pois não é tido como profissão e sim ocupação. Primeiramente tem de ser
reconhecido como profissão para depois ser legalizado. Não me recordo agora, mas
eles elencaram várias atividades como ocupação e não profissão, mas, se pode
recolher a partir disto. Exemplo: Você faz doces em casa, é doceiro, não entra na
profissão como alguém que trabalha em uma delicatessen, mas, no Código Brasileiro
de Ocupações. Para se prostituir é preciso talento. Aquelas que não querem trabalhar
com isto são cabeleireiras, maquiadoras, costureiras e cozinheiras. Eu tenho pedido
junto ao Ministério da Saúde que faça parcerias com universidades e criem um censo,
principalmente, nas principais capitais brasileiras para procurar negociar um estudo e
termos um dado real da quantidade de travestis e levantarmos políticas públicas mais
eficientes.
Para finalizar, quais são as principais políticas blicas para tratar do
envelhecimento das travestis?
166
Se conseguirmos a profissionalização delas, as políticas públicas virão. Se
conseguirmos a aprovação no congresso nacional da mudança de registro para o nome
social será um bom começo. Para que tenhamos uma velhice tranqüila é necessário
garantir em nível federal que todas as políticas públicas e portarias em relação às
travestis se cumpram e se tornem leis. Não tem nada neste segmento! Nem para os
gays, imagine você! Eu li em uma revista que 37 direitos são negados aos gays e
favorecidos aos heterossexuais. Precisamos fazer pressão junto aos legisladores
estaduais e federais para que criem leis. Enquanto não tivermos isto, as travestis que
tem dinheiro: poupem! As que estão na prostituição: paguem uma previdência,
recolham o INSS! Todas que tem negócio: pensem em ampliar o seu negócio. Se não
pensarmos nisto, vamos acabar numa rua da vida, num asilo público como travesti e
será difícil porque você terá regras: homem é homem e mulher é mulher. Como
colocaremos um travesti neste ambiente?
Fazer um pé de meia...
Sim! Pelo menos para que tenham um lugar onde morar!
A respeito da sociedade de controle, mapear e levantar dados estatísticos
também é uma forma de exercer controle sobre determinado grupo escolhido. Ao
mesmo tempo em que tal grupo é trazido para a visibilidade, direitos e deveres lhe são
assegurados. Suas existências vão sendo gradualmente reconhecidas, desde que se
enquadrem as normas dominantes. A entrevistada ainda aponta alternativas de
subsistência que não apenas a prostituição (Castro, 2009; Mansano, 2007).
E para você Keila? Qual a perspectiva para o seu futuro?
As mesmas perspectivas. Eu quero chegar aos 101 anos.
167
E como fazer isto? Você ainda tem uns bons anos pela frente...
Eu vivo tanto o meu presente que nem planejo o meu futuro, eu trabalho com alguns
projetos e não recolho INSS como autônomo. Agora neste ano pensei em ir ao INSS
regularizar esta situação e ver se posso recolher mais para que eu tenha uma
aposentadoria mais rentável no futuro. Minha meta é trabalhar!
Você quer ser remunerada?
Não, meu trabalho é completamente voluntário. Eu moro de aluguel, pago R$ 350,00
todo mês.
Onde você mora?
Eu moro aqui no centro. E não tenho nenhuma poupança, não tenho bens. Gastei todo
meu dinheiro que eu tinha mesmo na Europa. O custo de vida é muito caro. E a
minha situação é essa, viver o dia a dia. Eu não penso em planejar muito o meu futuro.
Até porque eu moro longe da minha família, eles moram no Maranhão, e eu moro aqui
com um companheiro 12 anos e a mãe dele que faz as coisas em casa. Minha
sogra tem 77 anos e ela toma conta da minha casa. Ela mora no andar de baixo e eu
moro no de cima. Num prédio de apartamentos. Faz 12 anos que eu vivo com esse
rapaz e a mãe dele está sempre junto com a gente. É a minha família aqui em Salvador.
Ela é aposentada, ele não trabalha, mas faz algumas coisas de fim de semana, ganha
algum dinheiro, mas é livre com o dinheiro dele. E eu me ocupo com as despesas de
casa.
De onde vem a sua renda?
De projetos. Agora mesmo, eu tenho uma renda mensal de R$ 257,00. Aí, tenho que
fazer mais algumas coisas por fora para pagar o meu aluguel, e colocar as minhas
contas em dia. Conta de internet, água, luz e telefone... Eu tenho que ir pra rua, rodar
bolsinha. Brincadeira, eu não me prostituo mais. Eu vou uma vez ou outra na rua,
168
conversar com as meninas. Agora, se aparecer um programa eu faço. Mas, eu faço
outras coisas e ganho um dinheiro. Alguma consultoria, algum grupo que vem aqui
fazer alguma coisa de trabalho na ANTRA. A gente vai vivendo dessas coisas. De
aventura e de bicos...
Como muitos brasileiros. Não é só uma realidade dos travestis.
É muito difícil você não ter uma renda. Uma renda no final do mês, que vai suprir
todas as suas necessidades. Você não sabe se nesse mês você paga, se nesse mês você
não paga. É muito complicado. Mas, enfim, é a vida, eu vou fazer o que? Você tinha
falado de dois livros. Um eu comprei: Toda feita do antropólogo Marcos
Benedetti e o outro: A Batalha pela Igualdade: Prostituição de Travestis em Porto
Alegre. Uma tese do Alexandre Böer. Sim, o batalha foi uma tese que o Alexandre
er fez, entrevistando travestis das décadas de 60 e 70 em Porto Alegre; acho que
custa R$ 28,00 e ainda tem também o livro: Travesti de Don Kulick.
A pergunta fez a entrevistada refletir sobre o seu próprio futuro. Embora ela
tivesse condições de orientar outras travestis, não pensou em seu próprio. Parece que
viver o presente é uma constante na vida da travesti que se prostitui. Elas não pensam
muito no futuro. Não planejam, pois muitas acreditam ou mesmo não desejam chegar à
velhice. Contextos de existenciais violentos, padrão de beleza ameaçada pelas marcas
do tempo, estilo de vida considerado insalubre, uso abusivo de drogas, exposição a
doenças e preconceito colaboram para que muitas travestis não acreditem que chegarão
à idade avançada (Siqueira, 2004).
169
4.2) Segunda Entrevistada
Tais, eu queria saber primeiro de você; que você contasse um pouquinho da sua
vida. Onde você nasceu?
Eu nasci no interior de Minas Gerais em uma cidade chamada Várzea da Palma. Fiz
meu ensino fundamental lá, e depois fui para o Rio de Janeiro na adolescência e depois
estudei também na adolescência num colégio particular e depois sai de casa e parei os
meus estudos.
Mas, quando você foi para o Rio, você foi sozinha ou com família?
Não... Eu tinha a minha tia... Porque, é assim... A minha cidade é muito pequena e na
época tínhamos o ensino primário que a gente chamava na época, então quando a
gente ia pro ginásio, essa coisa toda, a gente ia pro Rio de Janeiro, e nós ficávamos
com a nossa tia e continuávamos os nossos estudos ali no Rio de Janeiro. Aí, depois
tinha o ensino médio e faculdade, e eu não fiz nada. Eu me envolvi com um homem que
era bem mais velho que eu e fui morar com ele.
Isso aí era mais ou menos... Você tinha quantos anos?
Eu tinha dezesseis anos, dezessete.
Daí, você se envolveu com ele no Rio?
No Rio. Eu morava no Rio de Janeiro. Daí, ele montou uma casa pra mim; ele era
um homem casado e eu fiquei escondida numa rua que era no meio do quarteirão da
casa da minha tia e que meus irmãos, todo mundo morava e eu fiquei bem protegida
porque eu era de menor e ali morando com ele eu comecei a tomar hormônio e a me
transformar.
Com dezesseis?
Comecei a me transformar em travesti depois de dezenove anos pra vinte. Eu gostava
170
muito dele, mas era uma relação mais de filho e pai né?
Quantos anos ele tinha?
Uns quarenta anos na época, e depois eu comecei a fazer um curso de costura na época
e conheci um rapaz que era da minha idade e comecei a namorar com ele, e o Paulo
descobriu e a minha vida começou a ficar meio tumultuada com dois homens e assim...
Eu não decidia porque eu era sustentada pelo Paulo e não tinha como largar o Paulo e
morar com o outro que tinha dezoito anos e tava servindo o exército.
Ele montou uma casa pra você, o Paulo? Uma casa para vocês dois; e ele continuou
casado?
É assim, ele tinha a família dele e ficava comigo até onze horas; ele era advogado.
eu comecei arquitetar, planejar me separar dele. Eu precisava ser independente né? Eu
não sabia fazer absolutamente nada. E nesse meio tempo eu conheci, comecei a fazer
amizade com um cabeleireiro e daí a gente resolveu que ia fazer faxina para eu ganhar
dinheiro e começar a me libertar do Paulo. o primeiro lugar que eu fui foi essa
cabeleireira que mandou...
Você já tinha uns vinte aí?
É! Eu fui ser faxineira nesta boutique. Daí a mulher me achou muito bonita e botou pra
ser vendedora. Fiz sucesso como vendedora imediatamente, que ela vendia atacado.
Eu é que vestia as roupas para mostrar para os donos de boutique, normalmente ela
tinha muitos clientes aqui de São Paulo e teve um cliente daqui de São Paulo que me
conheceu e ele ficou apaixonado por mim profissionalmente e eu vim embora com ele
para São Paulo. Fiquei na casa dele e trabalhava pra ele. Virei manequim de prova e
fiquei em São Paulo. Depois aconteceu assim, como eu era travesti e tinha aquele
coisa: “Ai você é travesti e te dou emprego!” eu fiquei numa situação, assim...
Explorada mesmo. Depois eu trabalhava como manequim de prova pra ele e depois ia
171
para o Shopping Ibirapuera vender e fiquei nesta coisa assim três anos. apareceu
uma nova gerente na loja do Ibirapuera e ela sabia da minha documentação, e assim as
mulheres do Shopping Center Ibirapuera fizeram um abaixo assinado alegando que eu
era homem e usava banheiro de mulher e me botaram para fora do Shopping
Ibirapuera. Daí eu voltei a trabalhar na confecção só, mas eu tava acostumado com
outro status. Eu como vendedora ganhava muito dinheiro. eu voltei para aquela
situação no show room e ia vendendo também na loja na Augusta, que esta loja não
vendia tanto. Aí, eu comecei a sair à noite. Aqui em São Paulo eu tinha um amigo que
era do Rio também. Ai, ele dizia: “Vamos para Angélica, na Angélica você curte e
ainda ganha dinheiro. Aí eu fui e comecei a sair com homens, homens de dinheiro, essa
coisa toda. O que era bem diferente a situação da travesti naquela época do que é
agora.
A entrevistada coloca que foi explorada por ser travesti. O preconceito pode
gerar a invisibilidade. O ser não é visto em toda a sua integridade. Não é respeitado
como pessoa, pois é considerado um não humano. Outra situação que reflete isso foi o
abaixo assinado que mobilizou as mulheres do Shopping Ibirapuera a expulsá-la de lá,
pois seu nome civil não estava de acordo com sua aparência física. Butler (2003 e 2004)
fala sobre a inteligibilidade do ser. A travesti não corresponde às normas de gênero.
Dessa forma é invisível e, portanto alvo de abusos e abaixo assinados para excluí-la.
Como era naquela época?
Pelo menos eu vivi um mundo bem glamoroso. Eu pude escolher os homens com que eu
saia e eu fazia isto no final de semana. Eu trabalhava com moda, a roupa era feita
no meu corpo; as peças piloto, então eu tinha roupas, roupas e roupas para eu vestir.
172
Você era manequim?
Eu era manequim. Daí eu ia e ganhava o dinheiro dos homens. Às vezes, tinha homem
que me dava assim... O meu salário passou a ser irrisório né? Eu mantinha o meu
salário por causa do status do emprego, essa coisa toda, mas na verdade eu não
precisava mais do meu...
Salário!
Salário. Mas, a história de ter tido um abaixo assinado e me botado para fora do
Shopping. Aquilo me deixou ressentida e ali eu comecei a tomar consciência da minha
posição na sociedade. Até então eu vivia cercada por um mundinho que me protegia e a
minha vida era fácil. Ninguém sabia que eu era travesti e era uma vida nula. Não era
minha vida real, não era a travesti que estava ali, era uma moça bonita; aquilo ficou
ali como uma advertência. conheci uma menina que vinha para Paris, comecei a
ter contato com ela através de cartas e essas coisas todas. Em Paris estava tendo
aquele boom de botar silicone no corpo e elas ganhavam muito dinheiro. Elas eram
pouquíssimas e elas sempre falavam: “Vem embora, vem embora!” Eu to contando bem
resumidamente assim... E eu fui embora para Europa. Ali eu pude estudar... Eu sou de
uma família que fala latim, francês, porque o brasileiro estudava, falava francês
antigamente e eu tinha uma escola dentro da minha casa com os meus irmãos,
minhas irmãs mais velhas, e eu já falava francês.
A entrevistada percebe que era considerada marginalizada perante a sociedade
brasileira da época, por ser travesti. Foi buscar maior inteligibilidade e reconhecimento
de existência, mesmo através da prostituição na Europa.
Quantos irmãos você tem?
Nove.
173
Nove o quê?
Três mulheres e seis homens, inclusive eu né.
Sim eu entendo! Em qual posição você está dos nove?
Eu sou o penúltimo. Depois de mim, tem uma irmã e depois tem duas irmãs que são
bem mais velhas. Hoje em dia eu chamo a minha irmã mais velha de mãe, porque ela
que cuidou de mim. Minha mãe tinha muito filho e disse: “Tá bom vou ter mais um filho
mais vocês que vão cuidar”. Então, toda a responsabilidade é a minha irmã que tinha e
que prometeu para a minha mãe que cuidaria de mim. E eu prometi que cresceria a
chamando de mãe e o meu irmão mais velho de pai. E eu faço isto até hoje!
Interessante... E os do meio, irmãos...
São meus irmãos. Nós temos a diferença de um ano quase de um para outro e isto era
normal antigamente e as famílias eram numerosas. Meus sobrinhos têm uma diferença
de idade bem pouca também. Meus sobrinhos são mais jovens do que eu seis anos. A
família é bem unida.
Os seus irmãos mais velhos são bem mais velhos?
São... Nem tão mais velhos... Nossa diferença é de um ano. Nossa! Minha mãe teve um
filho a cada ano!
Seriam uns dez anos...
A minha irmã que eu chamo de mãe ela é mais velha do que eu acho que dez anos, e
como são pessoas que são criadas no interior, com alimentação, ar puro; são pessoas
muito bem conservadas, bem saudáveis.
E eles estão lá?
Sim. A minha família vêm aqui, os meus sobrinhos vêm aqui. Eu não tenho muito
talento para voltar na minha trajetória... O único retorno que eu fiz foi da Europa
para São Paulo. Assim mesmo porque os meus patrões ficavam em cima de mim. Eles
174
iam todo ano para Europa. “Ai ! Vamos! O Brasil não é mais como antigamente”.
tem a coisa da Roberta Close... A cabeça do povo hoje, você volta a trabalhar, e eu
voltei para trabalhar na Shadow Indústria Comercial e Representação de Roupas Ltda.
Eu voltei para trabalhar com eles, fiquei e depois eu também tinha uma amiga que nós
temos muita afinidade. Ela estava ficando alcoólatra, ela morava na Europa também,
que ela tinha o hábito de beber e ela se transformou numa alcoólatra e eu vinha
para Europa e podia me dar o luxo, e eu vinha para o Brasil e tinha um emprego.
Quando eu cansava do meu emprego eu podia voltar para Europa.
O emprego aqui era com roupas, com manequim, com moda?
Sim. nós resolvemos comprar um restaurante na Vila Matilde para minha amiga
porque na verdade eu não precisava disto aqui. Eu tinha um emprego...
Para dar um negócio para ela...
ela não precisa voltar para Europa porque a desculpa que ela dizia que ela bebia
porque era na Europa. Ela veio e a gente comprou o restaurante e tudo, mas mesmo
assim depois de quinze dias ela voltou e não segurou a barra; e eu fiquei porque
tinha despesa, tinha toda coisa que eu tinha gasto e tudo e eu fiquei trabalhando de
repente num mundo na Vila Matilde, na Praça da Toco. Depois de uma vida
glamourosa nas passarelas que eu fazia a feira da moda, a FENIT e tudo, eu fui parar
num botequim, servia almoço...
Isso aí é mais ou menos com trinta anos?
Por aí assim, ou mais...
Trinta e poucos...
Trinta e poucos, quarenta que eu tinha por assim... Porque eu tinha badalado
horrores na Europa. Minha passagem pela Europa não foi assim como eu falo. Eu fiz
estudo, eu fui para Itália, estudei no Dante Alighieri na Itália também. Mas, eu no
175
fundo no fundo, eu batalhei muito, curti muito, eu tive uma vida aqui como na Europa
muito glamourosa. que eu sempre tinha uma sensação de que estava muito vazio,
muito fútil e eu não tinha essa formação de futilidade. Eu sou de origem Kardecista e a
gente tem outros valores que eu tinha aprendido na minha casa e tudo isso acho que à
medida que o tempo ia passando, essa coisa me chamava. Aí, eu comecei a freqüentar a
Federação Espírita do Estado de São Paulo e a trabalhar e em seguida. Eu não
agüentei o restaurante, vendi e fui trabalhar como voluntária, e nesse meio tempo veio
aquela coisa da AIDS e em São Paulo, aquela coisa meio complicada para os
homossexuais. A AIDS sendo chamada de peste gay, mas começou pro lado dos
homossexuais e ao ponto que o hospital Emílio Ribas, os médicos, enfermeiros
abandonaram o Emílio Ribas com medo que estavam, e que peste era esta e tinham
pavor do contágio e tudo. E a gente tinha na época uma travesti a Brenda Lee que era
uma cafetina, que as meninas, as travestis que trabalhavam com ela começaram a
cair doentes e ela começou a cuidar das meninas na casa dela e a vida fez com que ela
transformasse a casa dela numa casa de apoio e abrigava. veio a interferência do
Governo e tudo, financeiramente e ela começou a receber na casa dela não as
travestis, mas os portadores que não tinham para onde ir. Eu fui trabalhar como
voluntária lá, trabalhava de tudo, mas eu não tinha nenhum curso de enfermagem e eu
fui aprender ali na teoria e tudo. Chegou um momento que eu precisei de um curso
porque eu estava integrada naquela coisa e descobri que era aquilo que eu gostava.
eu trabalhei com ela e a gente trabalhava numa situação assim, as pessoas que se viam
com AIDS, elas iam para casa da Brenda esperar a morte chegar, como se fosse um
depósito, esperando a morte chegar.
Como era a casa?
A casa era assim, a Brenda administrava a casa e a gente tinha o apoio dos médicos
176
que começou a fundar o Centro de Referência da Diversidade, o CTA, Centro de
Testagem e Aconselhamento em DST/Aids que existe até hoje que começou na rua
Antonio Carlos. E aí era assim a gente levava os pacientes muito acamados pra lá para
fazer o tratamento e traziam de volta. tinha um médico o Dr. David, que vinha e
fazia como se fosse os exames naqueles pacientes acamados que ficava muito pesado; o
governo deu ambulância pra gente. Eu fiquei um tempo assim me sentindo uma
faxineira dos corpos e aquilo estava me deixando muito frustrada e eu parei com isto.
Fui para Europa para ver o que tava rolando. Eu tinha amigos na Alemanha que
estavam doentes. Aí eu fui para Alemanha, daí eu não fui para Alemanha com a vida
glamourosa. Eu fui para Alemanha, procurei médicos que falam português muito bem
formados, estagiários, enfermeiros, tudo... porque eles o muito profissionais estes
alemães. E o governo na Alemanha oferecia toda a sustentação para as pessoas que
quisessem ficar com os seus doentes em casa porque o doente em casa fica numa
situação muito mais confortável e daí eu comecei a cuidar destas pessoas e fazia aquela
troca assim eu cuidava da pessoa doente com ajuda de médicos e enfermeiros e
ganhava casa e comida porque eu ficava na casa dos doentes. E daí eu estudava
também e eu comecei a fazer um trabalho numa escola que tinha uma professora de
alemão que ela falava francês e eu conversava com ela em francês e nós tínhamos na
época assistente social de toda América do Sul, estudando e aprendendo todo esse
manejo social na Alemanha e eu comecei a fazer assim, eu trabalhava com elas e
fazíamos trabalhos de redução de danos e preservação, preservativos, essas coisas
todas com as prostitutas da América do Sul que trabalham nos cabarés na Alemanha.
Era um trabalho meio penoso para você conviver com meninas bêbadas nestes cabarés
porque elas ganhavam dinheiro vendendo, fazendo os clientes beber, mas elas também
bebiam. E aí eu fiquei assim como uma assistente social e fazia a tradução. E
177
comecei ficar conhecida no meio da saúde, no meio social em Hamburgo e surgiu à
oportunidade de eu conhecer os médicos sem fronteiras da França que trabalhavam na
África, tudo... E eu fui para Togo e Côte d'Ivoire na Costa do Marfim. Ainda não tinha
medicação...
Interessante perceber como a entrevistada reinventou sua vida a partir daquilo
que é praticamente imposto, como única forma de se sustentar economicamente no meio
das travestis: a prostituição. Conforme vimos no primeiro capítulo, onde controle, há
resistência (Mansano, 2007). Embora tenha se prostituído, mesmo que seletivamente,
dizia que a prostituição não a preenchia existencialmente. Foi se instrumentalizar e
trabalhar com pacientes portadores do vírus HIV em São Paulo, Alemanha, Togo e
Costa do Marfim. A impressão passada pelas ciências biomédicas, religião e outros
segmentos da sociedade era que o vírus HIV afetava amplamente a comunidade LGBT.
Muitas pessoas do próprio meio se mobilizam para ajudar. A doença vira símbolo de
peste gay. Os homossexuais se tornam “bode expiatório” e são acusados de serem os
únicos a portar e disseminar a doença. Havia a crença cultural de que o vírus surgiu
entre os homossexuais, portanto esses foram os responsáveis pelo contágio dos ditos
não homossexuais (Nunan, 2003; Pelúcio, 2009).
Foi antes do Coquetel?
Foi em 1997, eu tava na Alemanha e daí surgiu o primeiro coquetel que era um
comprimido imenso deste tamanho assim que você tinha que quebrar em vários
pedaços pro paciente tomar. Isto era o coquetel. E assim, foi um boom, nossa
senhora! O povo começou com esperança neste coquetel. Surgiu como uma vacina e
tinham histórias de pessoas na Alemanha que estavam muito bem que tinham
178
recobrado o peso, o apetite e toda essa coisa, e fiquei sabendo daqui também.
eu vim embora, sabendo que tinha toda esta bagagem, experiência, mas eu não tinha
estudo de enfermagem. E eu queria vir para o meu país. Mas a minha intenção era que
quando eu fui para Europa foi ver o que eles estão fazendo que o nosso país ainda não
está. o trabalho, a política social na Europa, porque tem política social,
principalmente na área da saúde tudo... Daí eu vim, voltei pra Brenda e comecei a fazer
o curso de auxiliar de enfermagem.
Ela era viva ainda?
Não. Nisto que eu estava na Alemanha, ela foi assassinada. Mas a Casa da Brenda
continuou.
Continuou?
eu vim e voltei a trabalhar e fiquei trabalhando lá. Eu voltava para Europa, ia e
vinha, e depois eu cheguei à gerente administrativa na Casa de Apoio Brenda Lee, mas
começou um atritozinho por questões de segurança porque tinha a diretora
presidente e como eu era uma pessoa assim muito conhecida de todo mundo da Casa da
Brenda pelo pessoal que freqüentava... Eles procuravam a mim e ela começou a se
ressentir, começou a criar situações e... Eu tava muito cansada e eu tinha um ritmo de
trabalho assim e eu precisava parar.
E você recebia dinheiro ou era voluntária?
Eu era voluntária e tudo... E quando eu passei a ser a gerente administrativa eu
comecei a receber um salário de R$ 800, 00 reais, mas não tinha carteira assinada, não
tinha nada. Mas nesse meio tempo eu fui chamada por este pessoal, do Pela Vida.
Porque quando eu trabalhava na Casa da Brenda, o Grupo Pela Vida fazia, fazem até
hoje umas reuniões chamadas Chá Positivo que era uma interação social. eu trazia
as meninas na Casa da Brenda e ia nessas reuniões. Então, eu fiquei conhecida aqui no
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Grupo pela Vida que hoje é o nosso patrão. Aí, eles me telefonaram pra minha casa e
me perguntaram se eu não queria fazer as provas e tal para eu trabalhar aqui e eu fui,
passei nas provas e vim trabalhar aqui e to trabalhando aqui até hoje. E não exerço
mais a enfermagem porque o horário não permite.
Então, me fale o que você faz aqui...
Eu faço assim, na verdade eu sou contratada para recepção. Eu sou recepcionista.
Mas, eu sou uma recepcionista que acabo sendo o braço de todo mundo; porque
primeiro que eu sou a fundadora daqui né? Não tem mais ninguém de antes. E hoje eu
faço arte terapia com os usuários. Aí, eu vim trabalhar aqui. Eu faço arte terapia com
os usuários e tenho uma abordagem muito boa com o pessoal de rua com dependência
química e às vezes, quando tem algum curso de fábrica de sabonete , tudo... Eu vou
assim, dez minutos antes do final da aula tem uma mini palestra com os usuários com
aquela orientação assim de inclusão social, como se conduzir numa entrevista, como se
apresentar, como se comportar, enfim, na sociedade, essas coisas...
Aqui é um centro de inclusão social né?
Sim! E eu sou uma ponte muito boa porque como eu sou travesti; tenho uma projeção
muito boa em qualquer meio né, da minha experiência de vida, de todas essas coisas,
de conhecimento, de todos os níveis da sociedade, eu tramito muito bem no submundo e
também, como podemos dizer, no mundo...
Da alta sociedade...
Da sociedade. Porque nós trabalhamos com pessoal que não é reconhecido pela
sociedade porque os seus deveres são cobrados, mas eles não têm direitos porque eles
não têm abrigo ou assistência de qualquer natureza. O nosso trabalho aqui podemos
dizer que é um trabalho pioneiro. Nós temos uma proposta em cima de profissionais do
sexo, dentro de toda a natureza de GLBTT, sendo travestis, sobretudo, sendo os mais
180
penalizados pela sociedade, e nós oferecemos esses cursos que chamamos de geração
de renda. São cursos rápidos para que eles possam, no mínimo, observar que há
possibilidades virem a ser, além de profissionais do sexo e perceber que outras
possibilidades de sobreviver e viver, dependendo da sorte...
Você falou que começou nesta indústria da moda trabalhando com isto e foi para
Europa conhecendo pessoas. Você chegou a fazer algum trabalhado relacionado
com...
Relacionado à moda não. Na Europa, por exemplo, estes problemas que eu tinha aqui
na escola e na Europa toda a oportunidade que eu tive, eu fui estudar. O mundo da
moda não me dizia nada mesmo porque eu ia correr atrás da moda? Eu ia ganhar o
que até conseguir notoriedade? Então assim para eu sobreviver na época, eu era
estudante e os meus patrões na época conheciam o Ministro da Cultura, que a gente
não podia tirar dinheiro daqui para me manter como estudante na Europa. Eles não
aceitavam. Através do Ministro da Educação o meu patrão conseguiu que eu recebesse
do Brasil US$ 300 dólares para viver na Europa. Eu ganhava mais que US$ 300
dólares por dia, mas eu tinha que ter esta prova de renda porque eu era estudante e
para a polícia de estrangeiro eu era estudante. Mas na verdade eu estudava e me
prostituía não àquela prostituição pesada, mas com uma abordagem mais refinada,
com clientes mais sofisticados. Eu não me matava como prostituta, mas eu vivia uma
vida bem folgada financeiramente.
Você não se prostituía sete dias?
Eu tinha clientes que me levavam para jantar e pagavam a noite. Na Europa pinta isto.
Muita dama de companhia. Mesmo em bares, tem bares que muitas moças trabalham
como dama de companhia sem sexo.
Isto, na França? Esta sua experiência foi na França?
181
Na França e na Europa em geral. Na Alemanha eu não fiz, não foi assim. Na Itália eu
fui, só me prostitui.
O que você estudou na França?
Eu fui para Sorbonne e estudei literatura francesa. eu conheci um rapaz italiano, fui
para a Itália com ele e comecei estudar italiano. A minha meta era esta, estudar
literatura italiana. Era tudo muito fácil, dinheiro e tudo, então a gente não se
sacrificava por uma série de coisas. Quando você tem um berço e valores esta coisa da
prostituição não te faz feliz. eu voltei para a minha vida de enfermeira e eu estou
agora aqui.
O que você acha que te levou a prostituição?
Obrigatoriamente eu tive que me prostituir.
É o que você tinha para sobreviver. US$ 300 dólares não são nada...
É ridículo! Precisa ser muito alienada para viver com US$ 300 dólares na Europa,
porque como pagaria moradia, comida, todas essas coisas.
É caríssimo né?
Mas, eu desconhecia a existência desses US$ 300 dólares porque pra mim, eles não
valiam nada, eu ganhava muito. quando você é mais jovem tudo é diferente. a
coisa era muito fácil por um lado né? Mas, eu sempre tive vontade de voltar para o
Brasil e eu sempre tive vontade de conhecer outras coisas. E eu gosto dessa situação,
dessa conscientização social; eu gosto de viver essa situação... A política, a economia...
Sabe aquela coisa? A evolução do homem, você vive no meio, você vê as diferenças
sociais e vai filosoficamente formando conceito de vida e você começa a ler e você pode
ler mais. Eu freqüento sempre a Federação e nós lemos sempre estudos de filosofia e é
muito abrangente. Depois pelo seu próprio interesse você vai pegando livros, você vai
lendo e de repente você é uma autodidata. Quando você tem um despertar social.
182
Na sua opinião, o que você acha que leva as pessoas, as travestis a se prostituírem ?
Eu não acho. Eu tenho certeza. O que leva uma pessoa a se prostituir porque é claro
que pessoas que tem talento e até gostariam de se prostituir, mas é uma exceção. O
fato das pessoas se prostituírem é a falta de opção de sobrevivência, não tem outro
meio. Tanto é que hoje em São Paulo, não posso dizer nem Brasil, São Paulo está
oferecendo possibilidades muito frágeis. Você vai aprender a fazer bijuteria ao invés de
se prostituir?
Não dá dinheiro!
Depois que se acostuma a ganhar x por noite. que a prostituição vem acompanhada
de cafetão, de traficante e quando você não tem uma visão do todo; quando você
você está envolvida com tudo isto e está acontecendo por aí, o crack que está aí. Nós
estamos vivendo uma situação que até então não existia. Travesti mendigo, travesti
debaixo da ponte. São Paulo e Rio de Janeiro eram glamour e agora a coisa mudou. A
AIDS, a informática mudou a visão da prostituição. A tendência da sociedade é acabar
com a prostituição porque o sexo agora é muito livre. Eu tenho pela informática, pela
sala de bate papo e pelo MSN.. Eu sou um rapaz homossexual, eu quero um parceiro;
eu sou travesti eu boto uma peruca, pinto a minha boca e tudo eu faço da minha casa
de graça. Então, um homem que quer fazer coisas com este travesti, este pretenso
travesti, ele não vai pagar um na rua que corre muitos riscos inclusive né? De
violência, de roubo, de toda esta coisa... Hoje em dia a prostituição do travesti, a
prostituição do ser humano, ela vai mudar de aspecto. Isto pelo menos eu te garanto
porque esta prostituição de ficar em pé na rua aos poucos vai acabando.
E está muito violento agora né?
Muitos travestis que estão começando a virar travestis agora têm outra visão. Os
professores são orientados a tratá-la como mulher. Não tem mais esta violência.
183
Mesmo o bullying... Porque quando a menina é travesti na escola, o bullying e todas
estas coisas não acontecem, o que acontece com o gayzinho, o viadinho, a bichinha.
Para os adolescentes que pegam a bichinha é horrível. Mas com a travesti muda de
figura porque a travesti tem a fama de que sabe se defender. Então, as pessoas lidam
com a travesti com certo medo e de certa forma isto é bom porque isto protege a
travesti das violências.
Embora a prostituição tenha sido vista como uma atividade hierarquicamente
menor em sua vida, a entrevistada relata que ganhou muito dinheiro com ela. Reforça a
idéia que muitas travestis atualmente não acabam encontrando outras formas de
sobrevivência além da prostituição. Embora novas oportunidades profissionalizantes
estejam surgindo para as travestis, elas ainda são muito frágeis financeiramente. Com a
prostituição, ganham muito dinheiro, muito embora sofram muitos riscos.
Ainda ressalta a importância de ter estudado e desenvolvido trabalhos sociais.
Destaca que prefere estar engajada em trabalhos que envolvam políticas públicas
voltadas para evolução do ser humano. Compara como o contexto de prostituição das
travestis tem mudado muito nos últimos anos.
Como você vê a relação das travestis mais novas e as da sua geração?
Eu me relaciono maravilhosamente bem com as travestis jovens. Talvez eu tenha um
olhar maternal, isso é da minha natureza, este olhar maternal, independente da minha
idade, eu sempre fui assim. Eu sempre fui capaz de amar muitas pessoas ao mesmo
tempo e quando você ama isto é uma questão de energia, isto emana de você. A pessoa
que se aproxima de você, se sente aconchegante com você. Isto é uma das coisas que
faz eu ter sucesso no trabalho social. Porque elas percebem que alguma coisa
184
diferente em mim; certa dignidade. Eu sou travesti, sou feminina e as pessoas me dizem
que sou muito bonita até hoje. Isto não rende uma história de rivalidade porque eu
sou uma senhora. Mas elas têm um bom referencial, pois elas passam a querer ser
como eu e isto é muito gratificante.
Você acha que isto funcionaria como modelo?
Como ícone. Nós nhamos outro coordenador aqui que dizia que eu era um protótipo,
o ideal da travesti porque as pessoas me seguem inconscientemente... Desde as unhas, a
maneira da mão, o jeito de se vestir, e eu sou muito sóbria, muito clássica! Sou muito
diferente deste universo de prostituição porque a travesti é focada neste negócio da
sensualidade. Então, quando elas se deparam com uma travesti tão clássica, tão
diferente, mas ao mesmo tempo elegante e bonita; é o que elas querem para elas, ser
bonitas e elegantes. A beleza é como uma flor, ela é resplandecente, mas de pouca
durabilidade e a elegância, à medida que você vai envelhecendo você vai ficando mais
sábia, vai ficando mais elegante e você vai adquirindo consciência da sua elegância e
você se esmera. Daí quando eu sei que posso servir e for uma orientação para outras
pessoas serem, eu me esmero muito nisto de uma maneira contrária. Cada vez eu sou
uma pessoa mais simples na maneira de se vestir, bem discreto com roupas que eu
prefiro que sejam bem cortadas que tenham um bom caimento no meu corpo e numa
aparência simples. Você vê que eu não uso maquiagem, mas eu tenho atitudes maneiras
como a impostação da voz. Em todas estas coisas você tem que ser o modelo. Então,
hoje em dia eu sou um modelo ideal. Não um modelo que vende roupa e sim um modelo
que vende conceito. Vende não, mas que passa conceito e modo de vida. Eu nunca
imaginei que eu chegaria isto e observo com muita felicidade que eu sou lentamente eu
percebo as minhas cópias. E isto me faz muito feliz as minhas cópias. As minhas cópias
na maneira de puxar o cabelo, da unha, e às vezes tem gente que até quer imitar a
185
boca, botam silicone, mas não importa. O que importa é que as pessoas observam com
lado bom da vida. Acaba que é gratificante é confortável e de maneira gratificante. Eu
faço uma coisa que eu gosto e que é muito sutil o resultado, mas que eu percebo o
resultado. Não uma vaidade nisto, mas uma gratidão porque no fundo eu sou uma
privilegiada; não preciso de holofotes e percebo o reflexo da minha conduta nas
pessoas e isto é muito importante pra mim. Hoje eu posso dizer que a vida não passou
por mim inutilmente e eu estou direcionando de uma maneira e se eu puder ficar aqui
ou num outro lugar que tenha este foco de inclusão social, eu vou sempre ser um
modelo, sem ditar, apenas exemplificando. As pessoas me pegam como exemplo e isto é
muito bom, é durável, é pra sempre. São conceitos que a gente cria sem precisar
rivalizar, a gente cria um estilo sem perceber que está criando.
Então você está falando que isto é muito mais que uma beleza física?
Aí outra coisa que é muito interessante é que pra estas meninas é que eu escuto às vezes
a conversação delas é que uma travesti com trinta anos elas acham que é velha. E de
repente elas deparam comigo e percebem que não é nenhum terror e se você souber
envelhecer porque aqui com os garotos, eu sou muito abordada e eles disputam a tapa
para conversar comigo. Então, elas percebem que eu estou com sessenta anos, mas os
rapazes deixariam de sair com elas para ir comigo porque não deixa de ser um status
sair com uma mulher mais velha, elegante. Eu sou uma pessoa que entra em tudo o que
é lugar e sou muito respeitada. Graças a Deus eu tenho esse lado bom em mim que não
sei se é o olhar que eu me imponho e a minha presença se impõe naturalmente.
A entrevistada se percebe atualmente como ícone. Aponta que o amor que
emana de si acaba atraindo as pessoas. Diz que sua atitude reflete um exemplo a ser
seguido pelas travestis mais jovens. Pois passa um conceito ao invés de vender uma
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imagem. Percebe que as mais novas a “copiam” inconscientemente. Sua conduta se
reflete nas demais pessoas. Diz que é muito mais importante a elegância e a forma de
agir do que a beleza física, que é passageira.
Então você está falando que independe da pessoa ser travesti, homem ou mulher e
sim depende da pessoa, da atitude da pessoa?
Você não inventa uma pessoa. Estas coisas vão acontecendo muito naturalmente. As
criaturas nascem e são levadas para as coisas. Eu falei para você que sou
Kardecista e que acredito em reencarnação, eternidade do ser. Não coincidência,
tudo é muito bem estudado, projetado e não erros. Você prestou atenção que não
há erros no Universo? Os erros do planeta Terra são causados pelo homem. O universo
é perfeito. A única coisa erradinha nessa maravilha toda somos nós. Nós temos o
tempo, a eternidade para reparamos os nossos erros para aprender, evoluir, enfim para
chegar naquela coisa de amar. Eu amo muito a vida, eu amo muito as pessoas. Eu falei
de mim pra você muito artificialmente. Eu iria falar para você por muito tempo para
me anunciar. Então, eu não entrei em detalhes que são dolorosos, mas eles
aconteceram e não foi só glória e nada destas coisas. Essas coisas negativas não foram
notáveis na minha vida. Apenas me serviram para esperar o que vai acontecer de bom
amanhã. Então, eu sempre fui muito altruísta, sempre amei o mundo e nunca fui uma
pessoa rancorosa. Eu sempre compreendi muito bem a vida. Eu sempre fui uma pessoa
muito madura, mesmo quando fui muito jovem. Eu entendia as pessoas, nunca pretendi
que as pessoas me entendessem. Mas, eu sempre senti necessidade de entender as
pessoas porque é muito mais fácil quando você entende as pessoas você começa a
compreender e a aceitar o preconceito. A conduta que não é ideal e que você queria
para você, a maneira que você gostaria que fosse tratada, essa coisa toda... Mas, ao
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mesmo tempo você vai criando, vai levando para as pessoas, quase sem palavra
nenhuma, você faz com que as pessoas te respeitem e te tratem como você gostaria de
ser tratada. São moedas de troca. Não acredito que você vai me tratar mal se eu for
elegante com você, se eu for cortêz com você.
E isto desde sempre né?
Desde sempre. Se bem que eu tive uma casa bem harmônica e nos éramos muito
cortezes uns com os outros, mas tudo muito simples. Sem nenhuma pretensão, mas a
gentileza sempre foi uma coisa normal na minha vida. Eu me lembro muito
perfeitamente disto. Os meus pais, entre eles dois, era uma relação amistosa, dedicada.
Eles são vivos?
São. Os meus irmãos são muito delicados, os meus sobrinhos são muito delicados,
sobretudo comigo, eles são mais delicados ainda. Isto é uma questão de geração em
geração. Nos grandes centros, talvez essas coisas não sejam praticadas como seria o
ideal.
Se perdem...
Mais acontece o seguinte: eu não posso me perder. Eu sou atenta com todo mundo
aqui. Não quero dizer que deixo todo mundo, uma zona. Tudo é muito disciplinado,
todo mundo tem horário para ir no computador, cada uma tem direito a meia hora e eu
vejo o que está sendo visto no computador. Eu faço este discurso de disciplina; a
necessidade... Eu não quero ficar dizendo que você tem que sair do computador. Você
tem que se conscientizar que o seu direito é igual ao do seu irmão. Se voficou trinta
minutos, eu não preciso mandar você sair, deixa o outro e quando todo mundo tiver
tido seus trinta minutos, todo mundo recomeça de novo. Então, agora eu estou
conseguindo que eles se resolvam eles mesmos no computador. Isto é bobo? Não, não
é! Ali o cidadão começa a conhecer os seus limites, seus direitos, essas coisas todas e
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começa agir como tal e isto é um ganho para sociedade.
Isto é uma lição de vida né?
Uma lição para vida. Você começa a respeitar, a ter paciência, esperar o seu momento.
Eles estão na rua porque não se adequaram aos pais, ao lar, essa coisa toda... Então,
aqui eles têm uma liberdade, mas com muita conversação que é o que os pais deveriam
fazer. Os pais não conversam com os filhos. Eu me lembro que eu era criancinha e a
minha mãe recebia na casa dela, e a minha cidade era pequena e tinha uma rua que ali
aquelas meninas não iam para o resto da cidade e as pessoas não iam para este lugar
que era um prostíbulo ali. Mas, a minha mãe recebia estas mulheres pelo fundo do
quintal que era um quarteirão todo. E a minha mãe oferecia medicação, orientação e
de como elas deveriam se comportar.
O que a sua mãe fazia?
Minha mãe fazia muito assim... Minha mãe era uma dona de casa, mas que fazia
roupinha para crianças pobres.
Ela já era ligada ao social?
Ela não tinha consciência da atitude ainda dela socialmente, mas ela fazia isto
espontaneamente. Eu cresci assistindo isto. Teve um momento na minha vida que eu
costurei. A Federação faz muito isto. Eu moldava milhões de roupas para crianças que
eles mandavam cortar e trabalhava de enfermeira e isto me realizava. O que é isto?
Isto é berço! Nossa! Me orgulho muito do meu berço! Tudo o que eu sou hoje; sou uma
pessoa feliz por causa do meu berço! Meu pai, minha família; um alicerce muito forte!
Sua relação com seu pai era boa?
É lógico! A minha relação com a minha família é muito boa. Tanto é que se eu não vou
à minha casa, minha família vem aqui. Eu saí de casa, não foi a minha família que me
botou pra fora de casa.
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A entrevistada se refere a rotina do seu trabalho que auxilia na inclusão de
populações vulneráveis socialmente, principalmente os profissionais do sexo. Muitos
garotos de programa, travestis e outros vão ao Centro de Referência da Diversidade
(CRD). encontram assistência em programas que os incluem socialmente, pois são
considerados marginais pela maioria da sociedade. Podem utilizar a internet dentre
outras atividades.
Desde 2008, a meta do CRD é oferecer diversas atividades como oficinas
profissionalizantes com foco em geração de renda. O centro conta ainda com
psicólogos, assistentes sociais e dará também apoio jurídico. A iniciativa é resultado de
uma parceria da Prefeitura da Cidade de São Paulo e as Secretarias de Assistência e
Desenvolvimento Social, Trabalho, Cultura, Participação e Parceria, Relações
Internacionais e as subprefeituras da e da Mooca com a União Européia e as Ongs
Grupo Pela Vida e Nós do Centro. Desenvolver uma fonte de renda que não seja
exclusivamente através da prostituição, pode ser uma alternativa para enfrentar o
processo de envelhecimento, que a idade limite para se prostituir, dificilmente passa
dos cinqüenta anos de idade.
A entrevistada diz que através de um bom exemplo e berço recebidos de sua
família, manifesta a gentileza e cidadania que servirão de exemplo para que outras
gentilezas e senso de cidadania também sejam manifestados por outras pessoas em seu
local de trabalho. Relata que seu exemplo refletirá nas populações vulneráveis que são
assistidas pelo CRD.
Você saiu para estudar no Rio?
Fui para estudar no Rio, mas no Rio eu era adolescente e tinha o apelo sexual, essa
coisa toda e conheço um homem lindo de quarenta anos, e o que você acha que eu ia
190
fazer? Ali, Paulo foi um pouquinho inconseqüente porque ele poderia ter dado um jeito
de fazer a coisa. Quando você tem dezesseis anos nos anos sessenta, você quer tudo. Eu
nunca imaginei que iria arranjar um homem, um namorado que tinha carro que me
levava para passear.
E você ainda naquela época não tinha feito a transformação?
Não, eu tinha cabelo curtinho. Foi com ele que comecei a ter peito, essa coisa toda e
deixar o cabelo crescer. Ele foi que me comprou o meu primeiro vestido, a minha
primeira saia. Me lembro até hoje do medo de sair de saia e fui ao teatro com ele
assistir: Liberdade para as Borboletas. Você já ouviu falar dessa peça?
Não.
Ela é belíssima, ela tem um humor muito inteligente, mexe e vira esta peça volta em
cartaz. De Jorge Dória, Liberdade para as Borboletas. É linda, linda, linda esta
peça e trata, inclusive, da homossexualidade. E esse homem; eu tinha uma leitura muito
focada na sociedade. na minha casa pintava um Émile Zola e Hermann Hesse, e o
Paulo começou a trazer pra mim, Oscar Wilde, um escritor homossexual que não era
permitido em todas as casas na época. Eu comecei a ter contato com estes outros
escritores, Nietzsche. Eu comecei a ter contato com este tipo de escritores de filosofia
ainda adolescente porque o Paulo era advogado, era muito culto, era português
também. Eu tive muita sorte na vida de conhecer pessoas assim. Os meus patrões que
me trouxeram pra aqui, eram um casal gay e o Soares era advogado e também
professor de matemática da Unicamp em Campinas e esse homem era assim... Ele era
muito culto e tudo o que ele lia, ele trazia pra mim. E a gente fazia muito debate porque
ele me achava muito inteligente e sempre achava que eu tinha que estudar advocacia. A
coisa da moda não dizia nada pra ele. Ele era administrador da loja. O Carlos que era
estilista e fazia todas as coisas. O Soares era um advogado, um matemático, um bom
191
advogado. O sonho dele era que eu me transformasse em advogada. Ele achava que eu
deixasse a coisa de travesti porque ele era advogado e argumentava e a gente discutia
muito e me cutucava para ver a minha verve, essa coisa toda. Ele dizia que eu era
advogada nata. Muito embora eu sou uma pessoa que goste de justiça, mas acho que
minha vida seria sempre assim no social.
O existencialismo diz que o homem não foi planejado por alguém para uma
finalidade, como os objetos que o próprio homem cria. O homem vai se fazendo em sua
própria existência. Não havendo tal essência, todos são iguais e igualmente livres para
se fazerem em relação a determinado contexto. O filósofo francês Jean Paul Sartre
(1905-1980) defendia que não importa o que foi feito do indivíduo, e sim o que o
indivíduo faz com aquilo que foi feito dele (Giles, 1989; Perdigão, 1995; Sartre, 2005).
A entrevistada aproveitou aquilo que vinha ao seu encontro de uma forma única
e própria. Segundo seu relato, foi se tornando uma pessoa autodidata, sofisticada e
elegante. Acredita que sua educação familiar e seu contexto existencial influenciaram
em suas escolhas ao longo do seu processo de vida.
E como você acha que começou esta coisa da travesti? Você se inspirou em quem e
como foi acontecendo?
Eu sempre... Eu gosto de ser muito honesta comigo e acho que tudo tem um tempo. Eu
acho que tenha sido por isso. Como nada é por acaso, eu penso será que já nasci assim
e meus irmãos não? Como minha irmã costurava para crianças e eu tinha oito anos.
Não, eu era bem bebezinha e às vezes ela me chamava para ver a roupa, ver a altura e
acho que teve uma vez que ela botou um vestido em mim para medir a minha altura e
tudo, e eu perguntei se aquilo era pra mim, se eu ia tomar banho e vestir aquele vestido
192
e ela disse: Vai sim! E quando foi no final do dia eu tomei banho, esperando aquele
vestido e o vestido não veio. A porta da minha casa era de areia, não tinha calçada, e
eu saí do banho e rolei na areia, mas eu criava caso pra cortar cabelo porque as
crianças daquela época tinham os cabelos bem curtinhos, mas eu criava caso para
cortar os cabelos, já não aceitava.
É uma coisa que vem?
Uma alma feminina. E hoje é cientificamente provado pelo cromossomo y e x, essa
coisa toda. Você sabe que você tem isto no seu cérebro. O homossexual, o
heterossexual. Não é uma doencinha - Ai preciso tomar hormônio ou preciso ir no
psiquiatra, qualquer coisa assim para ter cura. Isto tá no seu DNA.
E você lá no Rio se inspira em quem ou no que?
Antigamente eu não me inspirei em mulheres glamourosas, eu sempre me inspirei em
mulheres fortes, mulheres inteligentes. Eu sempre admirei inteligência. Porque
inteligência é uma beleza eterna e a vida me provou isto. Se eu tivesse sido... Eu não
era nem bonita, eu sempre fui muito elegante. Tanto é que o fascínio que o meu patrão
tinha por mim ao ponto de ter coragem de me jogar numa passarela representando a
grife dele que na época era ele Lino Ventura nos anos setenta aqui em São Paulo.
Imagina o poder que eu já tinha sobre as pessoas.
Como chamava a grife?
Shadow Indústria Comercial e Representação de Roupas Ltda. Eu tenho carteira
assinada até hoje. Eu sempre ouvi duas coisas, eu sempre ouvi muito que eu sou muito
sensual e que sou muito elegante até hoje. Eu adoro escutar isto porque se eu fosse
bonitinha, eu não seria mais hoje. Agora elegante, eu posso ter cem anos que posso
ser elegante. Não sei se sou inteligente, mas pelo menos eu sou muito informada,
procuro me informar muito. Será que isto é inteligência? Acho que sou muito intuitiva.
193
E das mulheres inteligentes que você falou de quem você gostava, da sua época?
Indira Gandhi, Golda Meir. Elas eram mulheres horrorosas, mas eram mulheres que...
Horrorosas quem dizer fisicamente?
Horrorosas fisicamente porque elas eram ousadas, fabulosas e corajosas para época.
Irmã Dulce não tinha nada de sexy. Eu nunca iria imitar estas mulheres na maneira de
se vestir. Mas, a conduta, a posição da mulher. Tanto é que eu sempre fui uma travesti,
no meio das travestis com esta conduta. Eu nunca quis ser a glamourosa. Eu acho que
a glamourosa é detonada no final da passarela. Agora a mulher que abre a boca e
fascina e cativa oportunidade... Quando eu fiz trabalho na Federação com duas mil
pessoas e fui aplaudida de pé. Eu sei que eu tenho uma verve, um poder de atrair com
meu discurso. Eu sou uma boa oradora. Inteligência... As pessoas são inteligentes ou
burras? Você acredita em pessoas burras? Eu acho que não existem pessoas burras eu
acho que elas não tiveram acesso as coisas. É claro que uns aproveitam mais, o livro
que lê. Eu me inspiro muito, não vou dizer para você que sou uma pessoa original. Mas
eu busco as minhas fontes. Se eu for apresentar um trabalho, eu vou fazer uma pesquisa
antes. Isto é meu, é intuitivo. Mas eu sei que eu tenho uma facilidade, uma oratória
assim (estala os dedos) que às vezes você não entende nem o que estou falando, mas
você fica fascinado como o todo que acompanha esta coisa... faz parte do jogo, faz
parte da sobrevivência, faz parte de toda aquela coisa da inclusão social que a gente
precisa, para você se arranjar e se safar se não você dança.
Uma coisa que você falou dentre as demais coisas interessantes eu vi uma que eu
quero esclarecer mais...
Agora que admirei muito a Jacqueline Onassis. Era uma mulher elegantíssima, mas
muito clássica, muito discreta na maneira de se vestir, mas ela é um ícone de elegância
até hoje. Uma jornalista muito inteligente. Entre Marylin Monroe e Jacqueline
194
Kennedy, eu me transvesteria de Jacqueline automaticamente.
A entrevistada acredita que uma essência masculina e outra feminina que se
manifesta nos aspectos biológicos do ser humano. Assim, alguns podem ser dotados de
uma essência feminina e um corpo biológico masculino e vice versa. As ciências
biomédicas foram influenciadas pelas idéias essencialistas em detrimento das idéias
existencialistas. Quando a entrevistada cita pessoas, comportamentos, atitudes e
condutas de determinadas pessoas que a inspirou, ela não percebe que está
performatizando um gênero.
Segundo Butler (2003), o gênero não é expressão do que alguém é, e sim
expressão do que alguém faz. Para o gênero tornar-se manifesto e uma experiência
concreta, a ação do gênero requer performatividade reiterada. Tal repetição é em um só
tempo reencenação e nova experiência de um conjunto de significados estabelecidos
socialmente para cada gênero. É a forma mundana e ritualizada de sua legitimação. O
gênero não deve ser uma identidade estável ou lócus de ação do qual decorrem vários
atos. Portanto ele não é natural e sim construído socialmente.
Mais uma vez a entrevistada ressalta a importância de ser ter uma postura e
elegância diante da vida para não “dançar”. Destaca que a maneira de se comportar e de
se colocar em sociedade através de uma “boa verve”, lhe garantiu respeito e
reconhecimento.
Você tinha falado do glamour, da vida na Europa que as meninas tinham. O que
chama de glamour daquela época?
Eu não convivia com as travestis. Glamour pra mim é que eu era um garoto que nasci
no interior de Minas Gerais e que de repente eu tinha homens riquíssimos que eu
195
pegava na porta da minha casa para levar a teatros, restaurantes, essas coisas todas;
com casaco de pele, com sapato porque eu fazia sapato sob medida na Suíça. Isso é
glamour! Não aquele glamour de boate, de espetáculo e sim o glamour de uma vida
sofisticada, às vezes materialista, mas com muita elegância. Aí, elegância eu falo de
vestido que eu tinha dinheiro para comprar, essa coisa toda. Aí entra o glamour.
E elas? Quando você as via?
Lamentavelmente, as meninas eram muito centradas no corpo, aquela coisa de botar
silicone no corpo e ir para o Brasil comprar casa pra papai, mamãe e depois os
familiares tomavam a casa delas e elas não se preocupavam muito e nós tínhamos
possibilidade. Qualquer lugar da Europa que nós entrávamos na época já éramos
tratadas como mulher na escola, nos hospitais, tudo essas coisas... Então, eu não acho
que elas não souberam de maneira nenhuma aproveitar isto porque eu cheguei a
ganhar US$ 1300 dólares em duas horas. Era muito dinheiro na época e era uma coisa
assim de você não acreditar. E essas meninas, elas estragaram tudo isto com a conduta,
a selvageria e todas essas coisas lamentavelmente. Eu vim embora porque como eu era
muito sofisticada e me adaptei mesmo a vida sofisticada, eu não iria ficar na Europa
sendo vista como mais uma porque de certa maneira eu tenho uma vida aqui incluída
na sociedade.
Aqui você já teve que trabalhar na prostituição?
Não. Eu fiz michê, mas o contexto era outro porque era homem bonito, carro bonito, ia
à casa dele que na época me dava 5 mil cruzeiros. Com o meu salário, quatrocentos e
cinqüenta cruzeiros, eu dava para comprar um pacote de cigarros. Mas eu lembro que
eu comprava para as meninas que trabalhavam na máquina de confecção, na costura
porque eu não precisava daquele salário. Era bem divertido. Agora eu não via aquilo
como trabalho eu via como uma diversão.
196
Mas assim, mesmo na hora de cobrar era divertido?
Era assim, na hora de cobrar eu nem precisava cobrar, eles vinham e me davam como
presente.
Eles falavam isto?
Um homem rico sabe o que quer uma mulher rica né? Olha pra minha mão tem um
brilhante e no meu pé eu estou com um scarpin de grife igual ao que as mulheres deles
usam e sabem mais ou menos o preço disto né? Então, eles não iriam me oferecer um
dinheirinho que não desse para eu manter o meu status. É isto que as meninas não têm.
As de hoje?
E a maior parte daquelas de ontem. Então você vale enquanto pesa na prostituição
porque você está vendendo o seu corpo. Então um homem refinado quando sai comigo
ele não vai me oferecer um dinheirinho porque ele sabe imediatamente que eu sou uma
pessoa refinada e você tem que se pôr no alto. Na Europa eu aumentava o meu preço e
sempre falava que o meu preço era mais. Mas, o mínimo, eu vou sair, vou para uma
noite é 3000 francos. Eu estava com brilhante no dedo, com Chanel no meu corpo, um
scarpin sem salto fino porque eu não me vestia de puta de maneira nenhuma.
Você disse que se apresentava como uma pessoa glamorosa para poder ser
equivalente...
Sim!
Uma coisa que eu queria perguntar e achei interessante é que você falou da sua
relação com as travestis jovens. Quero saber como vovê de uma maneira geral
as travestis mais velhas em relação às novas?
As travestis mais velhas eram muito mais preparadas do que as de hoje. Muito embora
acontecer agora uma transformação bem rápida porque estas meninas agora têm
orientação social. Elas vêm aqui e a “Taíszinha” que é transexual e assistente
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social, que se formou aqui no Brasil, então elas não são tão burras assim. Elas vão
vendo que a prostituição não está muito satisfatória, pobre. Mas, quando você vai
tomar outra direção fica muito bagunçado e é o que está acontecendo agora: as
meninas drogadas, embaixo da ponte, e existem meninas que não querem isto e vão
fazer um movimento diferente e as jovens de hoje tem muito mais possibilidades
inclusive de transformação com hormônios, cirurgias plásticas e tudo mais acessível à
tecnologia em favor da beleza delas. Então, uma beleza aliada ao conhecimento,
cultura; elas percebem quando estou fazendo numa entrevista, conversando com uma
pessoa. O que estes rapazes e homens ficam conversando tanto comigo? Porque eles
me escutam, então eu devo ter muita coisa pra dizer. Eu falo para elas, eu leio muito,
estudo muito e o que acontece com elas? Elas começam a despertar. Tem que cuidar da
aparência sim, mas tem que cuidar do intelecto também e vocês hoje tem possibilidades
que eu não tive; na minha época não tinha e eu cheguei a ser agredida por professor de
matemática no primário.
Foi?
Foi. Eu fui empurrada para fora da sala e ele não gostava de mim. É claro que isto não
era dito abertamente. A atitude dele era porque eu era muito mariquinha e ele era
muito machista, homofóbico, estas coisas... Eu tive muita dificuldade em matemática
por isto que eu sempre puxei para literatura porque a matemática me detonava.
A entrevistada relata que as travestis da atualidade estão tendo mais
oportunidades de crescerem e serem menos alvo de preconceito e exclusão. Reafirma
que em sua época tudo era mais difícil. Isso corrobora com outras falas da entrevistada
anterior que dizia que as travestis mais antigas sofreram uma trajetória mais árdua que
as mais novas, por serem as pioneiras.
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Ainda destaca que de sua época para a atualidade a prostituição de travestis foi
ficando cada vez mais comum, vulgar e decadente. Diz que o tipo de prostituição que
havia na sua época, era mais sofisticada e elegante. Refere que mesmo na época que se
prostituia na Europa, algumas travestis começaram a ter uma conduta considerada
inadequada que inclusive a envergonhava. Isso também pode ser visto na dissertação de
mestrado de Siqueira (2004). As travestis mais velhas da sua pesquisa consideram que
as mais novas são até certo ponto vazias e fúteis, pois apresentam preocupação
excessiva com a aparência física, são usuárias compulsivas de drogas e acomodadas
com a prostituição.
E você fez alguma transformação e o que praticamente tinha na sua época era o
hormônio. Você fez alguma atualização?
Eu coloquei uma prótese de peito que eu detestei, era grande e quando eu voltei para o
Brasil eu tirei porque voltei a ser manequim da Shadow e coloquei uma pequena.
Que é o silicone cirúrgico né?
Sim!
E hoje em dia tem as meninas que usam o industrial. O que você acha disto?
É uma temeridade porque de repente você pega uma louca. Muitas morreram... Em
médio a longo prazo, este silicone é agressivo. Ele na verdade não é aconselhável
injetar esse silicone no corpo. A prótese é diferente porque a prótese você teve um
problema você vai a um cirurgião e tira e acabou o problema. o silicone que é
injetado no seu corpo na sua cara, e ele mistura com a carne e tudo, e depois para você
tirar não tem como.
Você conhece o Fofão? (apelido dado a uma “travesti” que é freqüentemente vista
fazendo divulgações culturais nos semáforos da região da Avenida Paulista em São
199
Paulo. Seu rosto parece ter sido deformado pela intensa aplicação de silicone).
Conheço. Ele vem sempre aqui.
Você sabe da história dele?
É um grande cabeleireiro, um grande maquiador que começou a se deslumbrar e a
colocar silicone na cara e que se transformou e ficou horrível e ele teve um distúrbio
mental, emocional mesmo. Parece que era ele e um amigo. Os dois tiveram um caso e
traiu ele. É uma história meio horrorosa.
Eu queria saber como você seu momento atual? Você falou várias coisas de
quanto é importante de você começar a se perceber enquanto ícone, enfim, como
você vê seu momento atual hoje em dia?
Eu acho que eu na área social poderia ser mais aproveitada, mas é aquela coisa. Eu
não tenho diploma em área social. E depois me questiono que toda vez que eu penso em
fazer uma faculdade; eu não tenho mais esta coisa física de trabalhar de dia e enfrentar
uma faculdade. Não quero mais me sacrificar, quero me acarinhar. Eu já trabalho aqui
está bom demais. Eu não vou enfrentar uma faculdade, eu convivo com uma
assistente social e eu não me sinto nem um pouco diminuída. Sem querer parecer muito
pretensiosa, mas a gente tem que... Hoje em dia eu observo que o diploma... Te deixa
inoperante. Você se baseia no seu diploma e não expande o seu ser. Limita. Então, o
problema do diploma é este. Hoje em dia eu não preciso mais ficar mostrando nada pra
ninguém, mas eu gosto de mostrar pra mim a quantas andam e onde eu estou como
cidadão, conhecimento e até onde eu ainda sou interessante numa roda de conversa
com tipo de gente eu posso manter uma conversação e ser interessante. Isso é inclusão
social. Hoje eu me vejo como um cidadão incluído na sociedade porque eu busquei isto.
Por isto que eu falo que a gente não pode criar cobranças com ninguém e cada ser é
um ser e cada um tem as suas maneiras de chegar lá. E uma coisa você pode ter
200
certeza: tudo é movido por aquela coisa da sorte. Agora, querer é muito bom, sonhar.
Eu sempre falo assim: sonhar é muito importante porque os seus sonhos acabam se
realizando. Eu sempre fui muito sonhadora, e a coisa da passarela, do desfile, essa
coisa toda, foi um sonho de infância que eu falava que eu ia fazer e aconteceu. Então,
eu já acredito no sonho.
O que é a sorte?
Sorte, por exemplo, eu saí de casa e vim para São Paulo e estou aqui.
Você diz o que aconteceu em relação a sua trajetória?
Sim. Mas eu também poderia ter caído em outro universo. Eu sempre procuro
aproveitar e tem a coisa da humildade, entendeu? Eu não sou prepotente e deixo às
vezes as pessoas até acharem que estão me enganando. Eu acredito muito em mim e em
Deus, sobretudo.
Quais são os seus planos para o futuro?
Eu não tenho.
O que é o futuro para você?
Quem me garantias para o futuro? Seria muito cansativo planejar o futuro. Eu
nunca planejei o futuro. Eu sempre deixei que as coisas acontecessem.
Tanto na fala da entrevistada como da entrevistada anterior não aparece
planejamento em relação ao futuro. Sua trajetória de vida parece ter sido de acordo com
as oportunidades que lhe apareciam.
Você conhece outras pessoas da sua geração? O que está acontecendo com elas?
Como elas estão vivendo?
Conheço. Eu tenho um universo próprio. Às vezes como eu tenho este trabalho com o
201
pessoal todo, eu gosto muito de me recolher... na minha casa, livro, ler... Essas coisas
todas... Eu não tenho uma vida social, uma vida noturna, eu nunca gostei disto nem
quando eu era jovem, agora muito menos. Então, existe umas coisas... Eu disse para
você, a minha vida é pautada em outros valores. Eu não sinto necessidade, nem espécie
de nenhuma badalação, badalação me cansa.
E as pessoas que você conhece? Da sua geração, o que você sabe delas?
Eu sei que elas não sabem falar delas.
Elas não sabem falar delas?
Talvez não. Eu talvez seja muito exigente. A gente fica assim em um contato, mas um
contato meio assim, artificial. Quando eu quero falar outras coisas, eu tenho que falar
com outro tipo de gente. Tem gays, tudo; aí a coisa flui melhor do que com as travestis.
Mostra que uma necessidade de recolhimento nesse momento atual da vida.
Acha mais interessante as pessoas que não são travestis da sua geração. Mostra
dificuldade de se relacionar com as travestis da sua idade, alegando que o contato é
superficial e que elas não sabem falar de si. Tais situações também aparecem na
dissertação de mestrado de Siqueira (2004) sobre travestis na velhice.
O que você acha que para a sua geração possa existir em políticas públicas?
Tudo de maravilhoso. Nós estamos começando política agora...
O que você sugere?
Acho que estamos indo no caminho certo que você não pode fazer um futuro de uma
nação analfabeta. O primeiro que você tem que oferecer é o despertar de informações,
depois acompanhada uma boa escola técnica onde você possa descobrir os seus
talentos e exercer. Então, aqui o Centro é um grão de areia jogado no Universo, mas as
202
coisas do mundo são formadas assim. Você começa no micro e vai pro macro. Nós
estamos no caminho certo, é por que a inclusão social se por conhecimento.
Então, você tem que ensinar para depois incluir estas pessoas na sociedade. Vai ser
agora imediatamente? Não! Mas, eu vislumbro um futuro comum e muito natural
entre os três sexos, que existe os três sexos, ou de repente, esse três sexos serão
desmantelados e vai haver a bissexualidade natural mesmo. Talvez, seja isto. O futuro é
bissexual.
Não vai mais haver esta separação...
Essa separação tão doentia, e a coisa vai fluir muito naturalmente, onde travesti vai
viver na sociedade muito naturalmente. Porque o travesti é um cidadão como outro
qualquer, que ele gosta de salto alto e de vestido. E tem uns que se submetem à
cirurgia, trocam de sexo, ficam sem pau são mulheres e têm a ilusão que serão aceitos
na sociedade porque tudo é a questão de ser aceito. Isto vai dar postura e ela não vai
precisar mais de se mutilar. Coloca o seu salto, passa a sua maquiagem bonita e tem
prazer sexual. Toda a pessoa que tem prazer sexual é feliz.
A fala acima corrobora com o que outros teóricos falaram. A primeira é: no
futuro haverá a fusão dos sexos e quebra da barreira entre os gêneros (Prince, 1973). A
segunda é: transexuais se operam para serem aceitos e estarem mais de acordo com as
normas de gênero (Bento, 2008). Aponta ainda a educação como base para o surgimento
de políticas públicas voltadas para esse segmento da população.
O que é ser travesti para você?
Essa pergunta já foi me feita tantas vezes...
O que vem agora no momento? Não precisa ter uma definição bonitinha, científica.
203
O que é para você, agora; neste momento?
Sabe qual o problema da humanidade? Tem o heterossexual e eu não sei de quando ele
se apossou da idéia de que o normal é heterossexual e de que o resto é não conta.
Então, o resto tem que se explicar, por exemplo, eu tenho que me explicar o que é ser
travesti, o que é ser homossexual... E o que é ser heterossexual?
É uma pergunta interessante. O que é ser heterossexual?
Então, eu estou te respondendo esta pergunta com outra pergunta. Quando você
responder a esta minha pergunta, com certeza terei achado a resposta para a sua
pergunta. Porque as pessoas... O heterossexual, a sociedade que é constituída de
“heterossexual”, são donos da verdade, das coisas, do poder e nós temos que dar
explicações... O que eu quero dizer para você é que ser travesti é tão normal quanto ser
heterossexual. Eu sou travesti, eu acredito que não tenha que me explicar pra ninguém.
Porque todas as explicações que eu precise que alguém me dê, eu me faço a mim
mesma, e eu nunca senti necessidade de que ninguém me explicasse porque eu sou
travesti. Eu me basto, eu estou bem comigo. Eu sou normal. Respondeu?
A fala da entrevistada vai ao encontro das explicações de grandes teóricos que
definem a sexualidade como uma construção social que organiza as relações de poder
em sociedade. A heteronormatividade foi convencionada como “essencial”, “natural” e
“correta”, pois está baseada na forma como está estruturada as relações sociais, políticas
e econômicas em nossa sociedade (Bento, 2008; Foucault, 1993; Leite Junior, 2008;
Pelúcio, 2009).
Respondeu! Na outra semana você estava falando coisas muito interessantes sobre
envelhecimento, sexualidade. Você poderia retomar estas idéias que as pessoas com
os Viagras da vida e tal; as pessoas com mais idade estão tendo uma vida sexual
204
mais longeva e ativa...
Por incrível que pareça envelhecer é uma preocupação da sociedade porque o cidadão
que vai vivendo ele vai vendo a velhice nos outros não nele. Então, fica difícil
responder. Eu, por exemplo, o mês que vem eu faço sessenta e um anos, mas eu não me
vejo como as outras pessoas de sessenta anos; não me vejo como uma sexagenária; não
me sinto como uma sexagenária. Eu tenho uma vida sexual ativa, não que eu a procure,
mas eu sou procurada. bom pra você, uma mulher de sessenta anos, uma travesti
que é muito assediada felizmente. Então, eu tenho uma vida muito plena; eu posso dizer
que eu tenho uma vida sexual plena porque eu sei o que quero, eu conheço muito mais
o meu corpo. Uma relação sexual hoje vale por tantas que eu tive na minha juventude.
Hoje eu sei o que é uma relação sexual. Hoje eu escolho, eu digo não, eu digo sim
porque eu sei o que eu quero, eu sei o que me agrada, o que me prazer. Isto é
relação sexual. Relação sexual para as pessoas que têm medo da velhice... Só as
pessoas burras têm medo da velhice, eu nem chamo de velhice, chamo de maturidade,
porque a maturidade é encontro dos seus apanhados ao longo da vida, você faz um
buquê de flores gloriosas se você tiver sensibilidade e prestado atenção na sua vida, ao
longo dela.
E se você tiver colhido flores também?
Naturalmente quando você distribui flores, você colhe flores. Eu acredito que me
esforcei muito para distribuir flores. Eu sempre fui muito amorosa, eu sempre amei a
vida em primeiro lugar. O resto é derivado da vida. Eu amo tudo. Acho que isso me faz
uma pessoa plena aos sessenta anos.
Você falou uma coisa interessante: Eu não me sinto como as outras pessoas
sexagenárias... Como são essas outras pessoas sexagenárias?
Como eu poderia falar das outras pessoas sexagenárias quando eu não gostaria que
205
elas falassem de mim, não sentem os meus sentimentos, os meus anseios, os meus
desejos, as minhas angústias, os meus medos... Nós somos individuais e podemos
trabalhar em equipe os nossos sentimentos mais profundos, sobretudo com relação à
sexualidade.
A gente sabe que na vida existe padrão para tudo né? Você acha que existe padrão
para a velhice?
Quando você não tem sensibilidade de viver a sua vida para outro. Eu sou uma pessoa
muito altruísta, tudo o que eu construo, se é que eu construo, eu construo pesando no
próximo. Construir quando são coisas boas pra mim. Então, quando você vive os
seus interesses enquanto sexualidade. Você é travesti, o que o meu vizinho vai pensar,
quando você tem esta pequenez na sociedade, não a velhice, mas a sua vida fica
muito difícil. Eu não posso viver agradando ao mundo. Eu vou conseguir agradar o
mundo, quando eu realmente me agradar. Eu acho que eu agradei a minha volta
porque eu sempre me agradei e as pessoas que eu tenha desagradado, talvez nem saiba
quais foram porque deve ser uma pessoa que não tenha passado nada de bom.
Eu estava ouvindo tudo o que você falou e você falou muito de elegância, uma coisa
que me marca muito, estilo e postura durante a vida inteira. Não é na idade de
sessenta anos ou mais, não é isto?
Por isto que eu falei de construção. Um dos tópicos fundamentais é a sua elegância
porque quando a pessoa é elegante, é elegante enquanto está nua porque as outras
elegâncias, o estilo de vestir, isto tudo vem do seu ser, vem do seu íntimo, do seu foro
íntimo porque você vai construindo a imagem e tem momentos que as pessoas te olham
e te acham uma pessoa elegante, independente de como você está vestido porque se
você não é uma pessoa elegante na sua conduta, a roupa não te faz elegante. O seu
olhar, o seu tom de voz te faz uma pessoa elegante. Quando você tem estes predicados
206
você vai olhar e ter senso crítico. Dificilmente, você vai deixar de ser uma pessoa
elegante. Você vai ser simples, discreto e você sabe que não precisa de excessos. Eu
procuro isto na minha vida. Eu sou tão habituada que as pessoas me acham elegante
e agradeço muito a Deus por isto porque eu sempre fiz muita questão de ser elegante.
Elegante para mim é nunca negar um sorriso para quem quer que seja. Aí começam as
relações, o sorriso é o cartão de visitas, o sorriso com os dentes e nós brasileiros
estamos caminhando pra isto e para o brasileiro que é tão sorridente possa ter um
sorriso bonito. Existe um sorriso que vem da sua alma é espontâneo e existe aquele
sorriso esteticamente falando que é muito importante para sociedade que cobra tanto
da gente e dá tão pouco.
Outro aspecto que você abordou que eu achei muito tocante foi o de chegar à idade
sendo um ícone e atravessar a vida sendo um ícone.
Toca a mim principalmente porque é muito gratificante porque eu sempre procurei
desesperadamente ser bom e quando chego ao final do meu dia, e eu to longe de ser
perfeita, porque gente perfeita é um no saco, eu acho que não fiz nada. De repente,
você escuta de uma pessoa e esta pessoa não estava falando comigo e falando de mim
num contexto de uma reunião que eu era um caso a parte, um modelo, não sei o que ela
usou se falou que eu era um protótipo ou qualquer coisa assim, ele usou um termo
muito técnico que eu fiquei espantada e depois disse que eu simbolizava o ideal de
qualquer mulher, qualquer travesti na minha conduta, na minha maneira de me vestir e
que as meninas iam muito na minha cola e que era muito importante que eu
permanecesse neste centro de referência sobretudo por isto. Era o meu ideal e eu gosto
de fazer... Eu estou num momento agora aqui muito bom pra mim que eu sou professora
de arte terapia. Eu fico interagindo o dia inteiro com as meninas. A gente conversa
muito, a gente brinca muito, e eu percebo que vou desfazendo aquele linguajar que elas
207
têm o hábito de usar e começam a usar termos que eu aplico nas minhas conversações
e isto é muito gratificante você vê-las mudando inconscientemente pelo fato de estar
comigo e isto cada vez mais me acarreta uma responsabilidade na minha maneira de
ser com elas.
O que você sente em relação a isto?
Eu já tive este despertar que sou assim e agora eu vejo isto como uma responsabilidade
maior. Agora eu estou muito mais atenta a mim, embora eu tenha sido muito crítica
comigo mesma, e eu não estou mais criticando porque eu não quero ser mais maldosa
comigo e agora eu estou numa fase de me acarinhar muito e observar a minha conduta
porque é muito importante que você embeleze a sua volta e que você desperta nas
pessoas a idéia de embelezar. Somos nós que criamos o nosso mundo, o entorno, todas
essas coisas, nossas situações. É bom e é engraçado. Outra coisa que não dá a respeito
de envelhecer é: à medida que você vive você tem que descobrir que todo o dia que
você aprende com os outros e de como as inspirações que você tem naquele momento
inspiram as pessoas: “Eu não pensei isto antes”. Então, você vai vivendo e vai se
descobrindo e redescobrindo e descobri que vale muito a pena viver. Você aprende a
viver e viver é muito glorioso.
Então, eu poderia entender que o envelhecimento seria algo relacionado a parar?
E quando você falou assim: Por isto que a gente não pode envelhecer, a gente está
sempre aprendendo e todo o dia é um dia para aprender, e envelhecer significa
parar.
A idéia de envelhecer fica retida na sua aparência, mas o seu cérebro, o seu ser, o seu
espírito, ele se renova a todo instante para aquele cidadão e cidadã que procura
aprender a todo tempo não envelhece nunca. Quando você tem o espírito ansioso para
aprender e você não tem medo das rugas que possam aparecer no seu rosto, pois elas
208
não bloqueiam seu status social, a sua atuação social. A prova disto é você teria
voltado para me entrevistar. Você teria voltado se eu não tivesse nada para te dizer e
fosse linda com vinte anos?Voltou por quê? Porque talvez fosse interessante me
entrevistar. Você envelhece quando não frutos. Quando você frutos,
sombra, você não envelhece, pois todo mundo quer desfrutar dos seus frutos e da sua
sombra. Quando as pessoas não querem que você envelheça, elas deixam de ver os seus
traços e começam a ver a luz que emana do seu ser.
Você está falando que a pessoa vai transcender desta coisa física e do rótulo?
A nossa sociedade é muito cheia do rótulo. Eu observo muito e observo o dia inteiro os
jovens e elas se preocupam muito com a minha idade porque elas sabem que eu não sou
da idade delas e que sou uma senhora, mas ao mesmo tempo que senhora é esta que
fascina né? Qual a sua idade? Me dê a idade que vocês quiserem porque eu me dou a
idade que eu quero e a resposta fica no ar e elas não ousam aprofundar a idéia porque
não é interessante que eu diga a minha idade .
A idade é um rótulo.
Eu não alimento mais na sociedade um rótulo. Na Europa as pessoas se relacionam
muito diferente com esta coisa da idade.
Como eles se relacionam lá?
Um homem de vinte anos sair com uma mulher de trinta anos é o ximo! Eles não
estão nem para uma garotinha, eles querem uma mulher e é chique ter uma mulher e
elas não são tão acessíveis assim. Aqui, às vezes as pessoas gostam de mim, mas tem
que provar para sociedade; porque quando você prova pra você, você vive os seus
anseios e não precisa provar nada para a sociedade pegando uma menininha. Isto é
subcultura e quando vodesenvolve intelectualmente e culturalmente, as coisas ficam
assim como adereços né? O que você tem para me oferecer quando o que importa para
209
você são os anos que você ainda não viveu e não sabe tirar proveito dos anos que você
já viveu. Eu tiro todos os anos que vivi.
Você diz que a árvore que não envelhece é a árvore que tem sombra e acolhe, e tem
frutos bons para que as pessoas possam colher. E a árvore velha? Como ela é?
Eu não sei como ela é! (Risos) Eu vejo o lado bom da vida, acredito que ela seja
assim, vazia... Destituída. Sem a seiva interior que te brilho e as folhas que reluzem
você não tem nada a oferecer, então você murcha e fenece.
Daí não tem folhas, não tem frutos, não tem nada? É uma árvore seca?
Se na sua juventude você não colheu nada, você precisa chegar ao final da sua jornada,
olhar para suas mãos e ter alguma coisa. Eu passei a minha vida inteira amando e
passei procurando ser amado. Quando você não ama tudo é obsoleto, agora quando
você ama tudo é fabuloso e o que destrói é dispensável.
Destaca que a velhice é sempre vista no outro. Não se reconhece como tendo a
idade que tem. Justifica que faz coisas que uma pessoa da sua idade (sessenta e um
anos) não faria. Diz que é procurada sexualmente. Tem uma vida sexual plena, pois se
conhece mais atualmente e sabe escolher melhor o que quer.
A velhice muitas vezes é associada a um conjunto de performances que são
desempenhadas caracterizando uma pessoa de velha. Assim como vimos através de
Butler (2003), que o gênero é performatizado, peço licença para traçar um paralelo com
sua teoria e colocar que a velhice, bem como todos os atos que desempenhamos em
sociedade, são também performatizados.
A entrevistada relaciona que ser procurada sexualmente não faz parte do
repertório de atos que se espera de uma pessoa sexagenária. Por isso, talvez, não se sinta
uma sexagenária. Culturalmente é comum imaginar que com a chegada do
210
envelhecimento, não haverá mais atrativos sexuais, pois nossa sociedade é baseada na
juventude eterna, no corpo definido e sarado. Ser procurado sexualmente significa ser
atraente. Portanto, pessoas atraentes não são consideradas velhas.
Ela substitui o termo “velhice” pelo termo “maturidade” e define esse período
de seu processo de vida como sendo o encontro com os apanhados ao longo da vida.
Considera que esses apanhados são flores que serão transformados em um lindo buquê.
Para isso, é preciso ter sensibilidade para prestar atenção aos apanhados feitos.
Aponta a importância de viver de acordo com os próprios anseios ao invés de
viver o anseio do outro. Isso deve acontecer não só na velhice como em qualquer tempo
da vida. Diz que foi se tornando travesti para se agradar e não para agradar o outro.
Acredita que quando se agrada primeiro, tem condições de agradar o outro em seguida.
Viver a própria verdade ao invés da verdade do outro. Onde o controle do outro,
também a resistência própria. Não poder sem resistência, nem resistência sem poder
(Mansano, 2007).
Destaca a importância de ser um ícone para que as travestis mais novas, mesmo
que inconscientemente a siga como modelo. Ressalta que não podemos envelhecer, pois
estamos aprendendo coisas novas com os outros e consigo mesmo. Provavelmente a
entrevistada associe envelhecer com parar de aprender. Logo, não envelhece quem está
sempre aprendendo. Portanto, ela não se considera envelhecendo. O constante processo
de aprendizagem funcionaria como algo que vai impedir que as pessoas vejam as rugas
que surgem em seu rosto. Outra fala importante a ressaltar é que não adianta ser linda
com vinte anos de idade, se não tiver nada a dizer. Aqui, associa-se beleza com
juventude e sabedoria com velhice. Como se a compensação por ficar “velha” e “feia”
fosse a aquisição de sabedoria.
Envelhecer, segundo a entrevistada, também está relacionado a falta de
211
produção. Ter algo a oferecer impede que as pessoas envelheçam ou sejam vistas como
velhas. Isso se através da comparação que faz entre uma árvore que pode oferecer
frutos e sombra e outra que é sem folhas, frutos e seiva interior. O primeiro tipo de
árvore irá atrair muitas pessoas que não irão querer que esta árvore não envelheça. o
segundo tipo de árvore será solitária e seca.
A idéia do envelhecer também aparece associada à aparência. No entanto, o
cérebro, o espírito e o ser não envelhecem nunca. Ou seja, uma separação entre a
mente e o corpo. Tal maneira de pensar foi sendo instaurada ao pensamento ocidental
através do filósofo grego Platão (428 a.C. - 348 a. C.) e reiterada pelo filósofo francês
René Descartes (1596-1650). Dada tal separação, o corpo (finito) é aquele que
envelhece, enquanto que a mente (infinita) pode permanecer imune ao envelhecimento.
Segundo a entrevistada, o indivíduo pode evitar o envelhecimento, quando se faz
interessante através de sabedoria, amor, acumulo de experiências, exemplos a serem
dados, conduta adequada e elegância na maneira de se comportar. Relata que na Europa
não há preconceito em relação à idade e que inclusive é chique um rapaz mais novo sair
com uma mulher mais velha.
Esse amor que você fala é o amor uma pessoa e outra pessoa ou o amor por tudo?
Quando você ama, você ama a vida e o amor é uma coisa sem porquês. O amor é
incondicional e não conheço alguém que ame incondicionalmente. Voconhece? Nós
queremos algo da pessoa amada em troca e isto não é amor incondicional. Eu acho
muito difícil amar uma pessoa como deveríamos amar. Eu amo a vida, eu amo o
universo, eu enterneço com as mínimas coisas que fazem parte do todo. Será que eu
amo um rapaz ou amo algumas coisas do físico dele que me completam fisicamente?
Mas, eu acho que vou amar quando eu sentir que não tenha necessidade de saber o
212
por que ele não veio ontem ou porque chegou atrasado. Isto é um sentimento de
domínio. O amor não gera estes sentimentos, o amor gera paz, gera tranqüilidade,
então enquanto eu souber que ele feliz, isto será o bastante e não vou precisar saber
o porquê ele chegou atrasado, o porquê ele não veio.
Então, aproveitando isto tão bonito que você tem uma vida sexual ativa. Você está
em um relacionamento?
Eu estou. Sempre tive. Eu acho que nunca vou deixar de ter um relacionamento porque
sempre mistura as coisas e de repente de uma amizade vira um relacionamento... E os
meus companheiros sempre dizem que eu sou a culpada que eu sou muito envolvente e
eu adoro ouvir isto. Sou super vaidosa, e sou comodista; prefiro uma relação sexual
tranqüila de parceiros que conhecem os meus defeitos. Estou falando de defeitos físicos
porque você acha que sou uma perfeição aos sessenta anos de idade. Se bem que eu me
acho maravilhosa. Tudo bem que eu não tenho o corpo de quando eu tinha vinte anos,
apesar de que eu mantenho o meu peso no manequim. Sempre acho que a pele perde
aquela firmeza, aquele brilho. Daí, eu prefiro o meu parceiro que me conhece e que
desfrute da minha entrega. Eu sou muito completa, muito inteira na minha relação. Eu
prefiro me relacionar quando eu posso me dar realmente e você não pode se lembrar
que você tem estria ou a bunda dura. O corpo é apenas veículo da nossa comunicação.
Fala sobre o próprio corpo que envelhece e o quanto é importante estar com
alguém que a aceite na cama, pois aos sessenta anos não tem mais o mesmo corpo que
tinha quando era mais jovem. A aceitação do outro facilitará que ela se aceite e se
entregue mais na relação sexual. Ou seja, a beleza e a juventude por si parecem ser
suficientes para se aprovar. Quando se é mais velha, é preciso algo além do aspecto
físico do corpo.
213
Com esse que você falou, você está há quanto tempo?
Não sei. Se lembrar do tempo, vou lembrar do outro. Deve fazer assim uns onze anos.
O relacionamento de onze anos é linear?
Ele é linear porque desde que ele começou, ele nunca parou e não é aquela vida a dois
que eu moro junto.
Você tem este tipo de vontade?
Acredito que é mais cômodo pra mim.
O que?
Que ele tenha a independência dele e eu a minha.
Você está satisfeita assim?
Imagine você onze anos com um homem na mesma casa. Eu sou muito independente.
Por eu ser muito independente eu não sei lidar com pessoas com muitas dependências e
eu acho que seria um desastre que depende de mim afetivamente. Tenho medo de ser
indelicada, de machucar, eu ai acabar me machucando. Do jeito que está, tá ótimo.
Se vocês morassem juntos, o que você chamaria de dependência? Como você os
relacionamentos dependentes?
Como eu sou uma pessoa madura, eu tenho aquela coisa que as pessoas já vêm a mim
com certo incesto na história. Eles são mais novos que eu e eles vêem até o pai, a mãe,
sobretudo, mas também a parceira sexual. Eles são menos seguros do que eu. Eles
acham que sou uma mulher muito segura, muito forte que eu sei que eu emano porque
embora eu adore ser frágil.
Então você está satisfeita?
Estou. Você me pergunta isto muitas vezes. É muito engraçado isto. Eu não estou te
repreendendo, nem nada, mas as pessoas acham e criaram a idéia de rejeitar o
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homossexual, então eles sentem uma necessidade de que o homossexual diga que não
está bem. No fundo, no fundo eles queriam que disséssemos: eu não estou bem! Eu não
sou bem comigo porque você me rejeitou, mas à medida que o homossexual está dando
a cara à tapa e que está todo mundo saindo do armário, você vai descobrir muito
assustadoramente que o número de heterossexuais é muito menor que vocês imaginam.
Por conseqüência, o número de pessoas felizes é muito menor que você imagina porque
as pessoas felizes são as que ousam ser como eu, íntegra, ela internamente. Ou ela
aceita como eu sou ou tchau! Foi isto que eu sempre fiz porque eu sou cidadão que
constrói, um cidadão que doa, um cidadão como os outros cidadãos heterossexuais do
mundo. Porque eu não entrei no sistema sou excluída. Meu talento não é
aproveitado, a minha inteligência não é aproveitada. Onde será que está este defeito?
Será que está em mim? Ou nesta limitação que o heterossexual tem de ver a vida? Sou
uma pessoa normal, já tirei dez nas provas, já tirei zero na escola como todo mundo. Já
pintei quadros lindos que eu tinha talento para pintar, cantei. De repente se eu
quisesse ser cantora, eu teria ido bem. Eu teria ido bem em muitas coisas, e não fui bem
e me dou o luxo em dizer que foi em relação a algum impedimento da sociedade porque
se a sociedade tivesse me deixado ser quem eu sou eu teria criado muito mais, teria
dado muito mais.
Você falou que você acha que poderia ser mais bem aproveitada na área social. O
que você quer dizer com isto?
Em todos os âmbitos da sociedade, como cidadão eu deveria ser mais bem aproveitada.
Eu não seria pária. Eu tenho criatividade, inteligência, eu tenho capacidade de
aprender. Não vou negar para você, eu tive muita dificuldade por eu ter uma atitude
feminina diante da vida. Teve muito preconceito. O defeito não foi meu. O defeito foi
dos professores.
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Começa lá na escola, né?
Sim, pois disseram que eu tinha que ser padrão. Quem disse que eu tinha que ser
padrão porque eu não inventei o meu ser, eu só ousei porque tiveram muitos que se
suicidaram ao longo da vida e que criaram famílias mentirosas e infelizes porque não
ousaram em dizer não ao sistema, eu vou por ali e fim de papo, e eu fui por ali, quebrei
a minha cara. Estou com sessenta anos e valeu a pena sim querido! Eu fiz o que tinha
que fazer, e você não sabe o prazer que eu tenho de sair com o meu salto alto o meu
bom tailleur e ver que os homens viram todos para me olhar e as mulheres de vez em
quando porque não? Valeu a pena eu ousar do que ter entrado no sistema, enfiado
bigode de mentira na minha cara, ter falado grosso que seria possível, coçar o saco que
faz parte da indumentária masculina.
Por causa do preconceito social a entrevistada alega que sofreu dificuldades. A
entrevistada anterior também aponta que as dificuldades da travesti começam na escola,
depois na família e em seguida na sociedade como um todo. Sua aparência não condiz
com as normas de gênero e o nome social não corresponde com o nome de batismo. Por
conta disso, elas são consideradas seres abjetos e destituídos de direitos. Para saber
mais sobre o processo de preconceito que a travesti sofre desde a infância ver
(Benedetti, 2005; Bento, 2006; Kulick, 2008; Pelúcio, 2009; Silva; 2007).
A entrevistada considera que é mal aproveitada em relação a suas capacidades,
por ter tido uma atitude feminina diante da vida. Diz-se vítima de transfobia. Coloca que
a pessoas esperam que aqueles que são excluídos socialmente estejam sempre se
sentindo mal, o que afirma não ser o seu caso.
Butler (2003) reflete sobre as pessoas que não se enquadram as normas de
gênero sexual estabelecidas quando fala em seres não inteligíveis. São consideradas não
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humanas e inexistentes. Dessa forma, é mais fácil ser alvo de preconceito e exclusão. As
potencialidades não são vistas, o que é visto é só o estigma (Nunan, 2003).
Agora para gente finalizar você teria alguma mensagem para deixar? Este
trabalho será publicado e você teria alguma mensagem para deixar para as
pessoas, a sociedade, ou para as travestis ou para quem quer que seja sobre você
para o mundo?
Eu não gosto de deixar norma de vida para ninguém porque isto é muito perigoso. O
destino existe cada um tem o seu. É muito importante que a pessoa viva com ética,
sobretudo ética em relação a si próprio e você não pode mentir para você. Respeite o
seu semelhante, o seu momento, o seu tempo porque é muito importante. Você não pode
pretender que aos sessenta anos uma pessoa de vinte anos entenda você. Mas, você aos
sessenta anos, de preferência, deve procurar entender uma pessoa de vinte anos e
amar, sobretudo.
Muito obrigado pela entrevista! Desculpa por alguma pergunta atravessada que eu
fiz, mas é que muitas vezes eu estou aqui representando a sociedade.
Muitas vezes não. Você é a sociedade também. E eu estranhamente, também sou. O ser
humano é inesgotável. Enquanto a gente está conversando a gente está aprendendo. As
perguntas que eu fico respondendo me pergunto: Será que eu consegui entender? A
gente vai trocando idéias.
E como foi para você ter dado a entrevista?
Para mim foi uma autodescoberta.
Depois que o gravador foi desligado ela exclama:
Ufa! Agora já posso me despir do meu melhor modelo!
Relata que estranhamente também faz parte da sociedade. Conforme vimos em
217
Mansano (2007), onde controle, resistência. Embora seja vista como uma
resistência em muitos aspectos, ela precisa se submeter ao controle em outros aspectos.
Portanto, todo poder é uma relação entre o controle e a resistência.
Depois que o gravador foi desligado afirma que podia “se despir” do seu
melhor modelo. Talvez essa atitude sugira que em uma entrevista, por mais a vontade
que a entrevistada esteja, por várias razões, ela tomará algum cuidado em dizer o que
diz. Dificilmente setotalmente natural. A própria situação de entrevista pode gerar
inibição. A lembrança pode ser modificada, de acordo com a necessidade atual daquele
que lembra (Halbwachs apud Bosi, 1994).
218
4.3) Terceira Entrevistada
Eu queria que você falasse da sua vida, de você. Fale um pouquinho. O que você
quiser falar...
Pelo que eu sei nasci oito mesinhos. Eu nasci com oito meses pelo o que contou meu
pai. Eu me dava mais com o meu pai do que com a minha mãe. E pelo o que me conta é
que eu quase morro porque não tinha incubadora na época em que eu nasci; então faz
parte de uma coisa mais espiritual a minha vida porque a minha mãe
desesperadamente... Isso foi o que quando eu vim, passei uma turnê pela América
Latina e tinha que passar obrigatoriamente por Havana para continuar viagem para
outra turnê que iria fazer para Sul América, e logicamente a ver o meu pai, meu pai era
oculista e fui no consultório dele, a falar com ele e ele falou: Você tem que ver a sua
mãe, a sua sobrinha, a sua família!” Ele me chamava de fofo porque naquela época eu
ainda não estava tão transex, ainda não tava... Yo era um ator. E meu pai falava assim:
“Precisa você esquecer esse rancor que você tem da sua mãe, porque sua mãe, mesmo
que você não queira deu você a sua vida. Sua mãe pegou as fraldas (minha mãe tinha
seios grandes) e ela botou você com as fraldas aqui entre os seios para dar o calor do
corpo dela para você poder sobreviver”.
Serviu como se fosse uma incubadora...
Exatamente. Yo era como um rato. Eu vi fotografias minhas. Eu era deste tamanhinho.
Eu vi, parecia um macaco, um macaquinho, um rato, sabe? Era uma figura estranha.
Prematuro né?
Exatamente. Então aí, minha mãe vendo que não adiantava e mesmo o calor do corpo
dela não estava dando certo. Tudo isto me contando o meu pai e que eu deveria tirar
este rancor que eu tinha da minha mãe porque ela tinha me dado a vida duas vezes e
219
que tinha parido duas vezes; problemas hormonais, mulher né? E que meu pai que
caminhava, caminhava e saiu do hospital e deram um ultimato pra mim porque não
estava respirando direito e acho que vai morrer. Você tem de se conscientizar que esta
criatura não vai viver. Eles foram caminhando do hospital e pelo o que me contam e
hoje não sei se existe mais, não existe mais eu perguntei, me falaram que não existe
este hospital e se chamava Maria Auxiliadora.
Mas era em Havana?
Sou Havaneira! Aí, ela caminhou, caminhou, foi até perto do mar isto meu pai me
contando: “Tire este rancor!!!” Essas coisas de pai defendendo a minha mãe né?
Você tinha quantos anos aí?
Eu estaria para dezesseis anos para dezessete nessa época. Eu comecei muito cedo no
teatro. E aí, disse o meu pai tudo isto contando o meu pai. Levamos você até o mar e
principalmente entrando na areia, na pouca areia que tinha naquela praia... Ela olhou
para o mar e falou estas palavras que vou te dizer: “Yemanjá! Salva o meu filho!” e me
ofereceu a Yemanjá! Eu me emocionei muito com isto que o meu pai falou. Aí, eu falei
para ele, bom pai! Eu iria ver a minha mãe em casa de minha irmã que eu também
não me dava com esta irmã.
Você tinha irmã? Tinha mais irmãos?
Tinha muito mais. Yo sou a caçula.
Quantos filhos tinham?
Morreram dois, ficaram oito. E eu tenho muitos sobrinhos, filhos de todos os irmãos.
Muitos! Muitos! Muitos! Bom, então falei, eu vou, vou em agradecimento. Você me fala
tanto de minha mãe. Eu comprei um presentinho para a minha sobrinha Maggie, a filha
da minha irmã que dizem que faleceu. Depois conto o porquê. Tinha uma latinha de
dólar, então valendo. Então, comprei uns presentes com os dólares que tinha, tomei
220
um táxi e fui até o bairro que morava a minha irmã. A maioria das casas em Cuba, em
Havana e os prédios não são muito altos, são pequenos. Os únicos prédios que tem
altos, altos, altos são os hotéis. Mas, as casas mesmo, o cidadão havaneiro moramos
em ...
Casas pequenas...
Sobrados. Daí eu subi, bati na porta e saiu uma empregada com aquelas toquinhas que
usam as empregadas.
Um uniforme, tinha uniforme...
Minha irmã adorava. Era muito metida à chique! Por causa da família de meu pai. A
família do meu pai era muito bem de vida, a maioria dos irmãos do meu pai, inclusive
isto é um orgulho que eu tenho é que o irmão do meu pai foi o ícone do teatro cubano
em Havana e até hoje tem um nome.
O nome dele é?
Sergio Acebal. Aquela mulher me olhou de em cima embaixo e viu uma mulher... E
falou um momento, fechou a porta e foi chamar a minha irmã. Minha irmã não gostava
de mim e dizia que eu era muito marica, muito pintosa. Eu era marica natural, não era
aquelas (desmunhecando). A minha fisionomia você vê. Eu não tenho cara máscula.
Naquela época mesmo andando de homem, eu não tinha cara máscula. Não precisava
fazer assim para dizer que eu era. Quando minha irmã ficou sabendo que era eu, a
empregada falou é assim, assim, assim, é marica! Ihhh! Minha irmã falou sei quem
é! Mande entrar pela porta de serviço. Yo fiquei puta!!! Mas eu respondi pra mim:
calma! A minha mãe saiu. A minha mãe saiu, mas ela não abriu a porta, ela ficou
assim, com a metade do corpo para dentro e a metade para fora. Foi que eu fiquei
mais puta!!! Comecei a xingar, comecei a puta que pariu! E eu sou bicha, sou
maravilhosa, sou uma estrela e viajo países e vou continuar viajando e vai tomar no cú!
221
Toma! Esse presente é para a minha sobrinha! Tchau! E ela não sei o que... E eu,
nunca mais fales comigo!!! Fui embora. tinha despedido do meu pai. Eu fazia uma
dupla, eu com uma mulher. Fazíamos dois programas de televisão em Havana. Fizemos
mais uns quinze dias que seria de teatro e embarquei para o Panamá. Isto foi no fim de
1954 para 1955. Veja quantos anos que sou profissional. Daí fui para o Panamá,
tinha despedido do meu pai, não tinha falado nada com a minha mãe e começou a
minha carreira de viagem que comecei mais e que comecei a minha experiência de
vida. Foi passando-se os países e fui viajando. De Panamá fui Nicarágua, fiz teatro em
Nicarágua. América do Sul; do Brasil para baixo, muito pouco, muito pouco... Está um
pouquinho melhor Costa Rica, Guatemala porque na minha época não era nada
agradável, mas eu fiz, tinha que trabalhar e queria ter conhecimentos teatrais e você
para ser alguém, você tem que trabalhar. Daí, fui viajando e fiz treze países da América
do Sul até chegar no Brasil. Cheguei no 1958 no Brasil quando estava Juscelino
Kubitschek; ôôô Brasil.... me apaixonei pelo Brasil. Quem me trouxe para o Brasil foi
Walter Pinto do Teatro de Revista. A Rogéria sabe isto porque a Rogéria me conheceu
nesta época. Fiz com Walter Pinto dois anos. Teatro de Revista com Eva, J. Maia e o
Teatro Rival quando estreou o Teatro Rival com Costinha, o cômico. As vedetedes
todas da época. Trabalhei com muitas estrelas. Conheci a Consuelo Leandro, fiz
amizade com a Consuelo Leandro, depois mais tarde trabalhei com ela. Foi se
passando os anos, aí veio a maldita da ditadura do Brasil. Aí acabou-se o teatro e cada
um fazia o que podia para sobreviver. Todo mundo sabe o que aconteceu no Brasil com
muitos atores, com os artistas, sobretudo. Aí tive que me virar feito uma cadela velha.
A entrevistada relata sua complicada relação com a mãe e sua irmã que não a
aceitavam da forma como era. Pessoas consideradas não inteligíveis socialmente em
222
relação às normas de gênero são vítimas de preconceito, principalmente na família. Elas
são consideradas seres abjetos, invisíveis e não humanos. Tais estórias de exclusão são
comuns na vida de outras travestis e transexuais.
Mas você nesta época ainda não tinha feito a sua transformação? Como foi e
quando?
Foi em 1958. Eu fiz. Havia uma cúmplice da minha mãe no Brasil, então, ela sempre
me ameaçava porque eu sempre no carnaval no Rio, eu morei oito anos no Rio. Morei
oito anos. Então, mesmo que eu viajava, vinha para São Paulo, fazia televisão em São
Paulo, fiz Recife, Bahia, enfim, ela não me deixava em paz, ela sabia que eu gostava de
me vestir de mulher e eu sempre me vestia no carnaval. Aí eu conheci a famosa
Coccinelle. Francesa! Essa Coccinelle era amiga de um transformista e trabalhou
comigo e com o Walter Pinto e se chamava Ivanah. Tu deve conhecer essa história de
Ivanah, foi famosa em São Paulo.
Conheço a de Coccinelle. Até a cito na dissertação.
Coccinelle me conheceu por intermédio de Ivanah e Ivanah falou assim para
Coccinelle, olha Córdoba é super transexual, tem cabeça de mulher e a fisionomia
também”, e Coccinelle pegou abriu a bolsa dela, a pochete e me deu hormônio. Foram
os franceses que descobriram os hormônios. As transex francesas sempre foram as mais
perfeitas do mundo. Era uma coisa! Olha! Coccinelle... Jean Bella... La Bambi que era
amante daquele ator francês, como se chama? Aquele que fez muito filme? Ai como é o
nome dele? Me esqueço de vez em quando o nome... Ela foi amante dele e era transex.
Alain Delon?
Alain Delon. Foi amante dele. Ela fez um filme com ele. Bambi! Ela era linda! É que
Coccinelle se sobressaiu porque sempre tem uma que fica mais estrela que a outra.
223
Eram todas lindas, a Jean Bella era perfecta.Como se chamava? E a Rogéria trabalhou
ali também. Não me lembro qual o nome da boate; uma boate pequenininha... Le
Carrousel de Paris! E então, yo comecei a tomar hormônio. Como era de menor ainda,
a amiga da minha e apareceu no país, queria me levar para Cuba porque ficou
sabendo que eu tinha um romance com um homem que essa filha da puta pegou e ligou
para a minha mãe e disse: “Ai... Seu filho está com um homem!!!” E a minha mãe ficou
louca!!! “Não, não! O meu filho viado, não!” Então, ela foi atrás de mim para encher o
meu saco! Como eu briguei com a minha mãe e eu tinha medo do que a minha mãe ia
fazer comigo, entende? Me ameaça muito!
Essa senhora, deixa eu ver se eu entendi. Ela era muito amiga da sua mãe? Era
como se fosse uma comadre, uma...
Puxa saco do caralho!!! E eu estava com dezenove anos ainda e na minha época até os
vinte um, você é de menor. Nos anos 50 aqui no Brasil, até 60, 70. De uns anos para
que é maior, mas não é! Pra mim não é! Os vinte e um! Mas fizeram essa lei; os
políticos; os meninos tenham voto. Para ganhar voto!
Depois diminuiu para dezesseis até! Facultativo, mas foi!
É, pois é! Depende do que eles fazem! Isso politicamente! Então, comecei a me
transformar em mulher! Não foi de repente. Estava esperando cumprir vinte e um.
Pero, um dia, eu fiquei dois anos tomando hormônio. Foi em 1958 eu estava com
seios já! Não muito grande. A mim nunca me cresceu muito grande, não tenho seio
muito grande; eu nunca tive, me entende? Um belo dia ela me abriu a blusa: “Ai você
com teta! Ai... vou falar para tua mãe!” Olha, pode falar para minha mãe. Está
faltando muito pouco tempo para eu ter os vinte e um. Estava com vinte já! Ela: “Você
está louco! Bicha, você está louco!” Bicha louca do cú da cabeça, ela falava, como boa
cubana né? Eu to louca do cú, da cabeça, mas eu tenho a minha cabeça louca de
224
mulher! “Mulher sou eu!” Ela falava... Sempre falava isto pra mim! “Mulher sou eu
com buceta!” Mas, a buceta minha tá aqui! (aponta para a própria cabeça). Quando eu
cumpri os vinte e um, você vê, ela ficou doente. Ela não podia trabalhar. Eu me
escrevia com o meu pai. Meu pai sempre me escrevia e minha mãe mandava as cartas
dela sempre dentro das cartas do meu pai e eu não respondia pra ela, eu respondia pra
meu pai.
E aí a puxa saco ficou doente?
Porque ela fez um aborto. Ela ficou grávida de um cara que não sei que caralho é e
não me interessa, nunca me interessei dos amantes dela. Fez um aborto e passou mal.
Eu tava no Teatro Rival e Carlos Gil que agora faleceu, e que ultimamente estava de
figurinista na Globo, ele foi fundador do Le Girls do Brasil.
E a Rogéria participou?
E eu também! Aí, ela falou assim pra mim: “Olha, Córdoba! Você não está mais assim
para entrar em cena. Você parece uma mulher macho! Todo mas é mulher? Homem?
Uma mulher vestido de homem?” Tava muito feminina para entrar. Eu apenas cantava.
Para entrar cantando você tem a voz muito feminina quando você fala e cantando é
pior. Por que você não se veste de mulher?”Porque eu tenho contrato com Américo
Leal, dono do Rival. Eu te faço a roupa, você compra um aplique. Eu sei usei meio o
cabelo como aquela peruca que eu usei hoje, meio assim usava. Você usa um aplique,
eu te penteio, você se maquia muito bem; entra em cena e faça o mesmo que você faz de
homem faz de mulher, normal, vestida de mulher fica melhor! E foi o que eu fiz. De
repente, ele me fez a roupa em uma sexta-feira e eu não disse para ninguém, ninguém
do teatro, nem mesmo o nosso querido que morreu que é o pai da Ângela. A Ângela
Leal é filha dele. Ele deixou o Teatro Rival para ela e para a filha dela, a neta dele, a
Leandra Leal. O Leal estava sentado na primeira fila com um empresário que tinha
225
casino em Manaus. Eu entrei e o Leal fez assim (assustado) e se encolheu na poltrona.
E o homem: “Ai! Que mulher é esta! Que sensualidade! Que bonita!”Imagine... Eu era
mais jovem e com vinte um anos era um escândalo! Se ainda com a idade que eu tenho
todo mundo fala que eu sou bonita, imagine naquela época. Ele: “Ai! Que mulher
grande!”E não se atrevia dizer que eu não era mulher.
Desculpa eu perguntar... Você pode falar a sua idade?
Eu tenho setenta e dois anos. Siete dos años querido... Aí, aconteceu que o cara queria
me levar para Manaus, o Leal tinha que falar, ele: “Olha! Não é mulher...” O cara:
“Como?” “E é a primeira vez que entra em cena. Eu contratei com uma dupla, a dupla
ficou doente e ficou ele sozinho”. “Ai! Ela é maravilhosa!” É a primeira vez que estou
vindo de mulher e o Leal não sabia como falar porque tinha como falar porque dois
anos trabalhando com ele e eu sempre entrando de homem. Então, primeira vez ele
ficou surpreso. Bom, bom, vão levar e levamos na companhia, e o cara queria me
foder de todo o jeito. Não estava nem aí que não era mulher, mas queria porque
pensava que era uma glória, uma gostosa e era. Era gostosa. Eu tinha um camarim
sozinha. Bicha, você é atrevida! Eu respondi, Eu queria ser mulher Leal muito
tempo! “Que nome você vai usar? Porque eu não posso de anunciar como Felipe D.
Córdoba. Tem que mudar o nome para mulher. Maria?” Eu, não! Eu te trago. Tira o
cartaz o nome masculino, segunda-feira eu venho a e te trago o nome que vou usar
de mulher. Ai, ai, ai. Eu não esqueço nunca mais da Aline, já falecida. “Ai, ai, ai. Essas
bichas são todas loucas; essa louca vai fazer o que? Você vai usar que nome?” Eu
disse, calma! Eu morava com uma bicha que era amigo meu de muitos anos que era
costureiro, era uruguaio e eu sempre gostei de estudar teatro. Eu lia muito e eu tinha a
mitologia grega que me roubaram inclusive. Aí eu falei para José, que é falecido
também. Bicha, eu vou começar a fazer teatro de mulher. “Como?” Ele me viu
226
chegando de mulher e no prédio o porteiro ficou assim (assustado); ele sabia que eu
era bicha, mas, de repente, de salto alto e de mulher entrando no prédio, todo mundo
ficou assim né? Eu entrei linda, o José: “Você veio pela rua assim de mulher?” Eu
falei sim! “Tu é atrevida, no carnaval que as bichas se vestem de mulher!Eu vou
andar de mulher! Ai! Felipe!” Tira que eu vou tirar este nome! Yo vou usar outro!
Abri e comecei a ler a filosofia e disse: olha tem Electra, bailarina; é lindo Electra.
Posso usar Córdoba ainda? “Claro!” Porque eu tenho um nominho em teatro por
causa de Felipe D. Córdoba porque Córdoba tem que ficar! Electra? o gostei... Fui
vendo as deusas do Olimpo. Mas aí, uma das páginas vi incesto, Phedra. Eu olhei e
aquilo (explosão). A minha espiritualidade, que me deram para Yemanjá e é ela que
me domina, e eu falei assim: Phedra! “Tu tá louca?” Tô! Olha como é forte: Phedra D.
Córdoba! “É Forte! É seu nome que irá abrir meu caminho de novo ainda para o
teatro! E nasceu Phedra D. Córdoba em 1958 no Rio de Janeiro. E, depois viajei para
Manaus, fiquei dois meses em Manaus abalando Paris! Dava muito! Os homens todos
queriam me comer! Eu dava! Gozei muito! E a Phedra que está está aqui agora!
Essa é a minha história!
Para se tornar inteligíveis aos requisitos culturais, muitas transformistas que
trabalhavam no show business e teatro de revista da época acabavam se transformando
através de hormônios ou mesmo cirurgia. Muitas eram consideradas ambíguas em
relação ao que as ciências biomédicas definem como sendo pertencente ao gênero
correto. Ter fisionomia considerada de mulher em um corpo biológico de homem é
tido como ambíguo e passível de correção pelas próprias transexuais e travestis.
Quanto mais próximas estivessem do gênero que estavam representando, menos
eram rechaçadas. Tanto é que ouve da amiga da mãe que ela (entrevistada) não era
227
mulher, pois não tinha vagina. Mais uma vez há referência ao que Butler (2003)
denominou de gêneros coerentes ou inteligíveis.
Outro aspecto abordado foi que no Brasil antes da década de 1960 em geral, os
homens se vestiam de mulher no carnaval. Caso fizessem isso fora desse contexto,
poderiam ser presos. A revolução sexual da década de 1960, cirurgias de redesignação
sexual e o aparecimento dos hormônios femininos contribuíram para que lentamente
aquilo que chamamos de transexuais e travestis, fossem surgindo lentamente nos
grandes centros urbanos. Por razões complexas, muitas acabaram se voltando para o
mercado da prostituição (Green, 2000; Trevisan, 2000).
No final do trecho acima a entrevistada diz que a Phedra que estava lá, está aqui
agora. Para o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), é a história de cada
um que nos constitui. somos quem somos, pois fomos o que fomos. O tempo é uma
dimensão do nosso ser. O tempo está no nosso corpo; ele nos situa em relação ao
passado pela memória, presente pela vivência e futuro pela imaginação (Chauí, 2003;
Merleau-Ponty, 2006).
E de 1958 para cá?
Porra!!! Fiz muito show, cinema! Só parei um pouco na época da repressão querido!
Ah, então isso que eu ia te perguntar. Como que era?
Repressão eu tive...
Você tava falando que no teatro...
No teatro eu tava fazendo com Jofre Soares. Você lembra de Jofre Soares?
Sim!
Marcos Granado que era da TV Tupi, eu fiz a Corcunda de Notre Dame do famoso
francês né? Sabe quem é né? Fiz a Cigana Esmeralda do Corcunda no Teatro das
228
Nações. Aí, cismaram com peça, diziam que era comunista e acabou! Militar era tudo
metido a santo, só que na verdade eram tudo putanheiro!
Mas o fato de você ser trans, eles não implicavam contigo?
Não podiam implicar porque eu sempre tive pessoas que me defendiam. Eu soube me
defender muito bem. Yo era uma puta fina! Sabe como é? Eu sabia vender o meu corpo
e queria que me pagassem muito bem e me pagassem bem até na política! E foi o que
eu fiz!
E o fato de você ser cubana, isto já te comprometeu?
Todo mundo me protegia. Yo tinha um chefe de polícia do Rio de Janeiro que era meu
amante. Ele vivia comigo e me comia muito! Eu gostava dele, ele gostava de mim. Ele
me protegia!
Pode se dizer que ele foi um amor que você teve...
Não, não, foi!
Foi o grande amor da sua vida?
Foi amor, mas ele era muito perigoso porque todo o policial, sobretudo delegado de
polícia são perigosos, muito perigosos! Eles matam quando eles não querem e dão tiro;
eles são policiais e o corruptos até hoje querido... Agora está pior, qualquer
militarzinho mata! Imagina os delegados... Ele me mandava muito, ele queria me
mandar, ele queria me governar. Eu sou de um signo, de uma personalidade que não
gosto que me mandem. Você notou como eu sou? Sou difícil! Difícil de falar comigo.
Eu sou uma pessoa muito difícil; sou problemática. Não tenho problema nenhum
psicológico. É que eu sou muito orgulhosa, não sei o que me nasce de dentro para fora!
Tem pessoas que não gostam de mim por causa disto no teatro. Têm muitos que me
admiram porque a personalidade minha é muito forte e eu chego em um lugar e eu
domino. Tem pessoas que com isto não gostam e acham que eu quero me sentir. Acho
229
que isto meu, nasceu comigo. Eu acho que sei lá, vamos acreditar que foi que minha
mãe me deu para uma rainha e minha cabeça está muito em rainha. Mas, eu não me
sinto uma rainha, é que eu ajo como ela. Eu quero e eu tenho que sair com o meu. Eu
sou lutadora, eu lutei muito. Eu vou mudar de sexo, e mudei! Aos trancos e barrancos,
eu mudei! Quando eu falei no Rio de Janeiro para as pessoas que eu iria usar Phedra
D. Córdoba e que esse nome era um nome forte e as pessoas começaram a tirar sarro
de mim. Olha lá a louca!
Você falou uma coisa interessante que a buceta está na cabeça. Está mesmo na
cabeça?
E está na cabeça e acabou!
Eu lembro que quando conversei com você há um tempo você falou que na época a
operação era uma castração e por isto você nunca fez.
Sabe o que acontece Pedro? Eu estive com algumas operadas e eu cheguei a um
cálculo que nós podemos ser e nos sentirmos mulher e que a gente nunca vai ser
mulher. Podemos nos sentir mulher, ser muito feminina, não ser uma bichinha. Você
tem que saber sobreviver e levar a sua vida e ter personalidade para encarar isto. Eu
encarei muito fortemente isto! Eu me defendi com a minha própria defesa. Veja bem,
uma coisa que eu vou dizer pode até se dizer que é loucura minha. Tem muita travesti
que vai atrás de mim que elas me imitam e querem ser mulher por minha causa. Teve
várias aqui. Cláudia Wonder não! Cláudia e eu éramos amigas. Eu digo das novas. A
Maria Clara, essa que se operou pouco tempo. Ela é mulher por minha causa! Ela
disse: Quando eu vi você e vi sua reportagem. Ela aí, você pode ser como ela! Você
nunca vai ser igual a ninguém amor... Eu sempre falo isto para a Maria Clara até hoje!
Não imites a ninguém, seja você mesma! Tenha a sua própria personalidade. Não vá no
caminho das outras, porque eu não sou igual a você, eu não penso igual a você, eu ajo
230
diferente de você. Eu trabalhei diferente a você. Eu tive que enfrentar muita coisa que
você não enfrentou e não vai enfrentar! A não ser que você para a Europa e seja
puta como muitas fazem. Que você vai ter que jambrar! Mas assim ela é funcionária
pública, ganha um ordenado e foi operar porque tinha dinheiro. Entraste num cinema e
mostrou a buceta porque foi operada. Eu não. Isso pouco tempo que eu falei isto
para ela aqui. Eu não! Veja bem, eu fui isso, isso, isso, isso, yo entrei em cena, me
vestia de mulher e o meu contrato não era como travesti, era como ator, bailarino e
cantor. Entrei! Falei: vou! Meu nome vai ser marca! E você está seguindo o meu
caminho porque você viu uma reportagem que um amigo teu falou: “Aaaaa! Phedra!
Olha ela aí!”. Não me imite, não seja igual a mim! E eu abri um caminho para vocês.
Eu não abri porque eu quis. Eu não sou Cláudia Wonder! Falei bem assim pra ela. “Ai!
Phedra!” Eu não sou Cláudia Wonder! Eu não defendo ninguém! Eu defendo o meu!
Posso ser até egoísta, eu falei! Sinto tanto... Se vocês querem o meu caminho, o
problema é de vocês!
Então, você não se considera um ícone?
Yo no! Eu me considero uma lutadora que lutou por si para viver a vida que eu queria
ter. Yo sou feliz bicho, muito feliz! Não tenho dinheiro, mas eu me visto bem! Como
bem, me mantenho bem e tenho muita gente que gosta de mim como eu sou! Tenho
amigos, entende? Por que? Porque os amigos os que eu tenho são verdadeiros porque
vêem o meu modo de ser e que não sou hipócrita que eu tenho um caráter reservado,
mas que quando sou amiga, sou amiga. Isso faz que o ser humano que tem uma visão
um pouco mais aberta e espiritual que eu sou sincera e que sou autêntica. Eu sou
autêntica, entende? Eu nunca quis ser miss de nada! Nunca! E no Rio quando eu
comecei de mulher e andava três anos. “Ai! Vamos! Desfila! Desfila!” E eu: não!
Não é a minha coisa. Você sou amiga íntima da Roberta Close. E a Roberta falava:
231
“Desfila!” E eu: não gosto disto! Ui... Quero ser miss! Não tenho esta coisa de miss!
Eu tenho uma coisa da terra! A Elke Maravilha que me diz que eu sou muito terra! Eu
sou muito aqui! Quero aqui, não quero uma coroa. Isto que eu gosto, entrar em cena e
fazer aquilo e ver a reação do público, e no final eu olho assim, para o público e digo:
Essa sou eu!
E falando em teatro que você gosta tanto, você nessa peça que agora a gente viu;
você fez o papel de idosa que esem uma cadeira de rodas, catatônica por causa
da morte do marido e do abandono de um filho. O que essa idosa faz você pensar
sobre a sua vida? Ele mexe com você em alguma coisa?
Ah... Não pode mexer não! Psicologicamente não mexe tanto quanto a outra que eu fiz;
aquele era uma esotérica. Essa sou eu uma esotérica que as coisas que vão
acontecer, e eu olho para a pessoa e detalho a alma que a pessoa tem. Eu tenho coisas
assim que eu vejo e falo coisas que vão assim acontecer não sei por que cargas d’água.
E porque eu não trabalho esta espiritualidade minha? Aí, eu teria de ser escrava da
vida, uma igreja... No candomblé é uma igreja, não é exatamente uma profissão, como
se diria é você ser devota daquilo. Eu não quero ser presa a nada. Olha como eu sou!
Você tem a sua própria fé?
Tenho!
Sua própria maneira...
Meus próprios sentimentos. O que existe e o que não existe. me perguntam, o que
mais me toca é pensar. Eu to vendo uma novela. Essa novela está sendo escrita por
algum médium.
A novela espírita da Globo?
Sim! Escrito nas Estrelas! Me toca muito porque tem algo. Mas a mim eu tenho uma
espiritualidade com um certo respeito. Eu respeito isto muito. Meu pai me contou uma
232
coisa quando eu estava em Havana antes de eu começar a viajar. Ele não acreditava
em espiritualidade. O cubano é muito de candomblé , a santeria que eles chamam.
Tem muita influencia africana lá?
Sim! Demais, demais; muita força! E meu pai não acredita, e depois de um belo dia, ele
me contou a morte de um outro tio meu, irmão dele, que morreu tuberculoso, era nos
anos 40, 50, tuberculoso naquela época ia embora. Hoje em dia se cura, naquela
época todos esses tipos de doenças eram fatais! E ele disse que tava com irmão dele e
conversando e disse que o irmão dele pediu, Horácio, nome do meu pai, me levanta um
pouco. Meu pai botou o travesseiro e ele praticamente sentado; meu pai era muito bom
irmão e muito bom pai. Era completamente... Eu não posso julgar a minha mãe porque
eu tenho um caráter meio parecido com o dela, mas acho que meu pai tinha uma alma
muito limpa. E essa novela que está acontecendo agora, acontecendo uma coisa
parecida eu com o meu pai. Nós temos que ter tido alguma outra coisa em outra vida
porque é um amor tão grande que às vezes, eu penso assim, agora com idade que tenho
agora Yo incestar com meu pai e meu pai era incesto comigo porque era um amor que
se tornava quase sexual.
E seu pai não se importava com nada?
No!
Ele te aceitava completamente?
A mim, completamente. Nunca me criticou quem me criticava era a minha mãe. Minha
mãe não queria de jeito nenhum. Ela se cortava um braço para que eu fosse macho.
E ele já tinha outros filhos homens?
É! Tem até hoje um no meio que ninguém sabe se ele era ou não era. Pra mim era gay.
Mas, como na minha época era tudo... Tampavam! Mas, eu sabia que ele era! A gente
se cheira.
233
No trecho acima a entrevistada diz que nenhuma cirurgia de redesignação sexual
vai torná-la mulher. Complementa colocando que se a vagina torna alguém mulher,
então sua vagina está na cabeça. Tal argumento vai ao encontro do que a ativista
Virginia Prince disse. Contrariando as normas de gênero estabelecidas, que dizem que o
gênero deve estar em total congruência com o sexo, Virginia defendeu que o gênero está
entre as orelhas e o sexo está entre as pernas (Prince, 1973).
Não se considera um ícone, nem militante, nem miss, nem modelo, muito
embora diga que grande número de travestis e transexuais a seguem porque querem.
Considera-se feliz, pois se percebe como alguém que lutou para ter a vida que queria
ter. Disse que acabou abrindo caminho para as outras, mesmo que sem querer, pois
defendendo exclusivamente o que era dela mesma, automaticamente defendia o que era
das outras. Argumenta que soube se proteger, quando se envolvia com pessoas que
podiam defendê-la. Em alguns momentos foi o que chamou de uma “puta de luxo”, o
que garantiu sua sobrevivência na época da ditadura militar no Brasil. Atualmente,
constata que tem amigos sinceros que a aceitam como é. Disse que o que sempre quis
fazer faz até hoje: o teatro.
Agora para a gente finalizar, a sua vida é muito rica e ensina muito. Eu queria que
você falasse como você vê as travestis de hoje? As novas, a relação...
Que cheguem como nós. A Rogéria, eu, a Cláudia Wonder. Elas praticamente seguem
nós, praticamente seguem nós. Porque como s abrimos o caminho praticamente
para elas. Rogéria, Cláudia e eu já lutamos por elas.
Sim! Então tá tudo fácil para elas?
Exatamente! Tá demais fácil entende? Nós éramos as únicas que se pintavam na
234
televisão, reportagens e no teatro e pra aqui pra lá. Agora estou vendo na televisão.
Hoje mesmo, vi no programa da Eliana uma mulher linda, tida como a... Um monte de
drag e travestis ali no programa dela! Imagina na nossa época? Nós íamos, mas era
uma coisa assim, com muito cuidado porque para que não aconteça nada. Hoje em
dia... Putz...
Fácil né? Você falou que hoje você se considera uma pessoa muito feliz.
Sou!
Você faz plano para o futuro, você pensa no futuro?
Não pelo amor de Deus! Com a idade que eu tenho eu sempre penso que hora que vai
ser que eu...
Vai morrer?
É a única coisa que me deixa meio encolhida, mas eu faço assim Epa! Não, não e não!
Porque senão vou ficar muito down, muito... Vou mudar a minha fisionomia, não... O
dia que chegar a minha hora e que eu veja os espíritos chegando e que eu saiba que
estou indo embora, me um time para que eu. Eu quando eu vou ao candomblé,
falei isto para alguns médiuns: quero ir embora tranqüila! o pai de santo falou
assim: “Você? Você até vai saber a hora que você vai morrer...” Eu fiquei olhando
assim e disse pai tomara que seja verdade porque tenho respeito. “Não tenhas medo
porque você vai ter uma saída daqui, limpa.” Tomara, tomara porque eu vejo tantas
pessoas sofrerem para irem embora.
E Phedra, como você vê a velhice das travestis?
Pois é! Triste...
Como?
Triste!
Triste?
235
Muito triste...
Você acha que elas não se preparam, não pensam?
As que se preparam espiritualmente... É que a maioria pensa no seguinte, pensa em ir
para Europa, ficar rica, a aparência... Ir para Europa, ficar rica, ter um carro, um
apartamento e um bofe. Eu já não penso assim!
Como você pensa?
Não! Não penso! Você acha que yo tivesse pensado na Europa não tinha saído
muito tempo? Eu tive muito tempo. Teve pessoas que me deram o dinheiro até para eu
ir embora! Eu sou tranqüila. Eu nunca fiz mal a ninguém e nunca meti a língua em
ninguém, tipo eu sou a estrela. Tem duas travestis comigo aí na peça que são perigosas,
e estou trabalhando com elas porque não tenho medo das perigosas. Yo as enfrento! E
elas tem que baixar a cabeça porque elas vêem que não sou covarde! Entende? Eu to!
Eu faço assim... Oi meu amor! Gosta de trabalhar comigo? Puta que pariu, uma
estrela! Porque eu sou, com uma palavra em cena que você mostra quem você é.
Eu quando entro em cena mostrei quem eu sou. Só minha entrada, fica todo mundo...
O que é aquilo? Você viu? Você gostou da entrada?
Vi, vi! Claro!
Entra todo o público e começam a se mexer. Quando eu entro em cena fica todo mundo
(cara de espanto). E você acha que eu não vejo? Quando estou assim eu to vendo todo
mundo.
Você falou da morte. Você pensa que você ou você não pensa sobre ela? Ou são
coisas que você não pensa? Ficar como essa senhora da peça que você interpreta,
na cadeira de rodas e catatônica por causa do marido e do filho que a abandonou...
Tem alguma coisa do tipo?
Bom...
236
Em relação ao seu final...
Péra, péra, péra! Eu vou te dizer como estou analisando a D. Soledad, o nome dela. Eu
estou analisando a D. Soledad que é completamente diferente a mim. Eu nunca ficaria
catatônica por causa de filho, de homem, de ninguém porque eu nunca deixei na minha
vida, eu decair como ser humano, nunca! Eu nunca deixei ninguém botar um rótulo de
viado... Quando ia dizer.. Repete o que você está falando! Ninguém! A pessoa não
terminava a frase. Sempre! Então, eu me respeitava então me respeitam. Então, que
mais eu posso querer? Então, o que eu mais posso querer se os grandes diretores do
Brasil falam de mim, me cumprimentam, fazem assim pra mim e me beijam a mão? Isso
para mim é normal, porque eu me acostumei, eu fiz o meu caminho, o meu caminho foi
esse! E me fiz respeitar com toda minha vida e não estou dizendo idade agora. A minha
vida inteira eu me fiz respeitar por homem, pelo cara que eu estava trepando. Muitas
vezes eu falava assim: Olha bem! Você tem dois caminhos para ir ali com uma mulher,
ter buceta e ter filho, como você me quer? Eu sempre fui tão dominante que eu falava
isto com homens que eles ficavam com medo. Olha bem! Você esme escolhendo você
vai enfrentar tudo o que eu enfrentei. O homem que teve caso comigo nunca foi
cafetão, foram melhores do que eu. Tinham posses e trabalho. Eu era menos do que
eles. Nossa! Eu andei com o delegado de polícia geral do Rio de Janeiro. Ele estava
estudando para ser juiz. Esse advogado era um homem que sabia falar, mas, eu fiz isto
com ele. Quando ele me conheceu no baile dos enxutos no carnaval e botou o olho em
cima de mim; ele estava com os outros policias dele. Ele me pegou e botou num carro
dele e eu falei assim, nunca me esqueço: Sabes o que eu sou né? “Claro é um...” Não
falou... “É um...” Disse: uma! Vivi dois anos com ele. E quando ele começou: “porque
isto, porque aquilo, você tem que fazer! Tu é mulher!” Sí! Mas, não me mandes! Eu
posso ser sua mulher, sua amante, você me dá, mas, me dominar, não! Quando eu vi
237
que ele estava muito perigoso, eu peguei e ó! Me mandei do Rio, fiquei um ano sem
voltar para o Rio. Eu mandava o dinheiro do meu aluguel daqui pra lá! Eu fui para o
candomblé que sempre freqüentei, sempre! E quando eu falei com mãe de santo de
Oxum, que já faleceu, ela que fez o meu buri e eu deitei pro santo nessa época. Eu falei,
eu quero que este homem encontre uma mulher e case. Quando ele me viu e veio aqui já
estava casado e com filho. “Phedra!” e eu, olá, como tu tá? “Nossa... Você está linda
como sempre! Olha meu filhinho!” Aaaah! Que bom! Casou! Eu fiquei feliz porque
assim ele levou a vida dele e eu pude seguir o meu caminho e vida.
Muito bem! Agora para finalizar mesmo. Isso vai ser publicado e eu queria saber
se você tem alguma mensagem, alguma síntese de tudo o que você viveu e queria
passar para as pessoas... Algo... É claro que ao longo da sua entrevista você já falou
muita coisa. O que te vem agora, se não vier agora não tem problema...
Me vem que nós temos que olhar para nós mesmos. Olhar para nós mesmos e se
policiar. Qual o defeito que eu tenho? Qual a qualidade que eu tenho? E tratar de não
fazer mal a ninguém. É o que eu posso dizer. A vida é muito bonita, vamos saber viver,
ai que maravilha, não? Então é o que eu posso te dizer!
Então, eu te agradeço pela entrevista, peço desculpas por alguma pergunta.
Não tenho medo de nenhuma que você me fez. Achei que era minha vida mesmo...
Sim era isso que eu queria saber!
E ainda não te contei tudo!
Sim! Porque tamm nem daria em uma hora...
Veja bem eu saí de minha casa com dezesseis anos em 1954... até 2010! Puta que pariu
né? É muita coisa!
Só de Brasil quantos anos?
Cinquenta e dois anos! Cheguei dezoito! Dezenove, vinte, vinte e um... Fiz vinte um
238
aqui e continuei até hoje aqui. Olha que viajei pra caramba! fui para Europa duas
vezes e me falaram: “Você ficaria aqui em Paris?” Ahhh Paris é maravilhoso, mas
Brasil... Sabe o que é? Vou dizer o por que! Putaria existe em todo o lugar que em
Brasil também tem e que eu também trabalhei em puteiro e não sei por que deu esta
ilusão desta terra. Os Orixás que tem aqui parecem que são muito meus! É Yemanjá
que é cultuada! Isso que ela que me fez ficar a cá. É Oxum! É Ogum! É Xangô! Todos
os meus Orixás que eu tenho na minha linha são daqui! E sempre quando vou ao
candomblé, eles me chamam. Quando o pai de santo incorpora, toda a vez que vou ao
candomblé que não sou conhecida. Eu tenho a minha freqüência e também vou a outros
lugares para ver. Eu sou tão viva que eu quero ver se é verdade aquilo que me falam,
então, vou a outro lugar para ver se é a mesma coisa que me falam. Eu fui em uma em
Araçatuba, Araçatuba, não! Sorocaba! Vamos ir agora! Vou com a peça. Tem um
cabeleireiro meu que está lá. Ele é de São Paulo, mas está lá; abriu um salão e
ganhando melhor do que aqui. Aqui é muito grande e tem muitos salões. Ele é o rei lá!
“Como você é ator vou te levar em um pai de santo”. Chego lá, o pai de santo
incorpora, vem pra cima de mim e me pega e começou a falar comigo. “Minha filha
você sabe o que você tem na cabeça?” Não sei... “Olha é um babalô que te protege e te
completa a sua saúde!” e fui vendo que tudo que falaram aqui, saiu lá com outro pai de
santo, com outra pessoa que não me conhece e que falou. Aí, eu vi que é verdade.
Aquele pai é legal, viu bicha...“Ai Phedra, ele falava e você fazia assim com a cabeça!
Tá falando tudo para ela o que falou”
Phedra, muito obrigado! Parabéns pelo espetáculo!
Cita o baile dos enxutos, que ocorria no carnaval do Rio de Janeiro, na década de
1950 e 1960 e contava com a presença de muitos travestis. Atraiam a presença de
239
diferentes camadas sociais. Em geral, era permitido que homens se vestissem de
mulher, nessas ocasiões. Havia concursos de fantasias que ocorriam nos teatros ao redor
da Praça Tiradentes na cidade do Rio de Janeiro. Os bailes migram da região central
para a Zona Sul. Muitos transformistas surgem no universo do entretenimento e do
show business em cabarés e boates. A maioria era ligada ao teatro de revista e filmes de
chanchada. Apareciam como belas e elegantes. Porém, nas décadas de 1960 e 1970,
com o advento do feminismo e a revolução sexual, um aumento significativo do
número de travestis que não eram ligadas aos musicais. Elas começam a se prostituir
nos bairros cariocas da Lapa, Centro e Copacabana (Green, 2000; Silva, 2007).
Diz que as travestis de hoje seguem o exemplo dela e de outras veteranas como
Rogéria e Claudia Wonder. Fala que foram as pioneiras e tiveram coragem de abrir
caminho para as atuais. Esse argumento também é encontrado nas duas entrevistadas
anteriores.
A entrevistada não faz planos para o futuro. Esse aspecto também foi encontrado
no relato das duas entrevistadas anteriores. Fala que sabe que pode ter uma morte a
qualquer momento por causa da idade que tem. Apenas deseja que sua passagem seja
tranqüila. Um abatimento surge quando pensa sobre a morte, mas logo ela se recupera e
continua sua vida. Diz que as atuais não pensam na velhice, pensam em viver o
momento.
Talvez isso se dê, pois não políticas públicas que as amparem. Sendo assim,
suas existências não são reconhecidas. Elas acabam se tornando invisíveis, pois segundo
Butler (2003) são consideradas gêneros ininteligíveis. Portanto, improvisam suas vidas
e tentam viver o possível do imediato, já que não contam com garantias futuras.
Ressalta que conseguiu sobreviver graças a seu respeito próprio que fazia que os
outros a respeitassem. Disse que sempre se colocou como uma mulher e nunca como
240
um viado. Socialmente a mulher é mais inteligível do que o viado (homossexual) ou a
travesti. Bento (2006) destaca que quanto mais próxima do gênero feminino a
transexual estivesse, mais aceita seria. Porém, a entrevistada considera-se uma artista
acima de tudo. Falou que não se deixava dominar por ninguém e gostava de ser livre,
característica também encontrada, na entrevistada anterior.
4.4) Análise das entrevistas
A pergunta inicial que a primeira entrevistada deixa para ser respondida é se as
travestis se assumem na velhice. Fala que as travestis passam grande parte da vida
investindo na construção daquilo que a sociedade chama de feminino desejável. Com a
chegada da velhice, os atributos físicos não são mais considerados belos. Esse é o
grande impacto que acomete a vida das travestis que envelhecem. Visto que muitas
acabam se sustentando através da prostituição.
Destaca que as travestis mais velhas devem servir de espelhos e modelos para as
mais novas. É importante que as últimas conheçam a trajetória das mais velhas. Dessa
forma, elas reconhecerão que se gozam de alguma liberdade e certo espaço na
atualidade, isso se graças as mais velhas que “abriram” o caminho. É importante que
as mais novas vejam as mais velhas como precursoras. Tal fala também é encontrada
entre as outras duas entrevistadas.
A primeira entrevistada coloca que travestis mais velhas tendem a se ocultar. A
velhice não é valorizada, inclusive entre as travestis. É como se a travesti perdesse a
função. Então, acabam desaparecendo. relatos de algumas que envelhecem e voltam
a se vestir como homens. Passam por uma espécie de des-transformação”. Outras
acabam assumindo outros trabalhos como: costureiras, maquiadoras, bombadeiras,
241
cozinheiras, cabeleireiras, cafetinas, locatárias, agenciadoras, artistas, etc.
Fala que é importante que as travestis se reúnam em ONGs para se fortalecerem.
Acredita que seja fundamental que as travestis mais novas contribuam com a
previdência social para que possam ter uma renda na velhice. Acha que elas também
precisam voltar a estudar, pois dessa forma aumentarão suas chances de conseguir
outros trabalhos que as amparem na velhice. Diz que se houvessem políticas públicas
que reconhecessem as travestis desde a mais tenra idade até a velhice, algumas não
precisariam se ocultar quando envelhecessem. Lembra que ainda muito a ser feito.
A literatura antropológica nos adverte que tanto a velhice como o gênero sexual
são duas categorias que são revestidas de significados sociais de acordo com a época e o
local em questão. Geralmente são categorias naturalizadas, essencializadas e
universalizadas. A partir da segunda metade do século XIX na sociedade ocidental, a
velhice é associada à decadência física e a ausência de papéis sociais (Debert apud
Siqueira, 2004).
Travestis idosas que se prostituiam vão sendo consideradas decadentes conforme
envelhecem. Logo, perdem sua função na sociedade. Pois sua fonte de trabalho, que é o
corpo, não é mais considerado atraente. Beleza e jovialidade se relacionam com
produção e atividade. o envelhecimento está associado à feiúra, falta de produção e
dependência. Portanto a travesti que se prostitui é considerada idosa quando seu corpo
não é considerado mais atraente. Conforme a primeira entrevistada, isso acontece por
volta dos quarenta e poucos anos de idade.
Beauvoir (2003) faz um estudo comparativo entre tratamentos destinados aos
velhos de várias sociedades, em diferentes locais e tempos específicos. A autora
constata em sua obra clássica que este pode variar entre respeito em algumas sociedades
ditas tribais primitivas à indiferença nas chamadas sociedades industriais desenvolvidas.
242
Nessas últimas, o velho que não mais produz e se reproduz é relegado ao estado de total
inutilidade. Entre a sociedade Navajo, situada no noroeste do estado do Arizona, EUA,
grande elo entre saber e poder mágico. Os mais velhos dessa sociedade são vistos
como os detentores de tais características. São reverenciados, respeitados e
considerados.
as travestis idosas são consideradas abjetas mesmo antes do seu processo de
transformação. Atravessam a vida como abjetas. As que atingem a velhice são
verdadeiras sobreviventes. Muitas vezes precisam se prostituir para garantir a
sobrevivência, quando mais jovens. Suas vidas são marcadas por marginalidade,
perigos, doenças, violência, exclusão, drogas e exposição a diversos tipos de risco de
morte. São consideradas invisíveis ao longo de toda sua existência, portanto
desprotegidas. Portanto, suas chances de atingirem aquilo que chamamos de velhice,
são pequenas. Quanto mais o tempo passa para elas, mais invisíveis vão se tornando
devido ao acúmulo de preconceito. Ser homossexual, travesti e idosa.
A segunda entrevistada diz que embora ao longo da sua vida seus interesses
fossem sempre voltados para a área social e aos aspectos espirituais, confessa que
ganhou muito dinheiro com a prostituição. Parece que certa resistência em assumir a
prostituição como atividade vantajosa tanto para a segunda entrevistada, como para a
terceira. Fala que atualmente as oportunidades (cursos profissionalizantes) que se
configuram nos grandes centros urbanos, são frágeis para as gerações atuais de travestis.
Justifica dizendo que o dinheiro que elas ganham com a prostituição é
consideravelmente maior do que com outras profissões que possam desenvolver.
Ressalta que no local onde trabalha é vista como um ícone, protótipo e modelo
de vida. Percebe o reflexo de sua conduta no comportamento das travestis mais novas
que são assistidas pelo Centro de Referência da Diversidade de São Paulo. Acha
243
importante ser um modelo sem ter que ditar o que deve ser feito, apenas
exemplificando. Acredita que a vida não passou inutilmente por ela. Diz que foi
criadora de conceitos que nunca envelhecem e que expressam seu estilo de vida. Conta
que as travestis mais novas se deparam com ela e percebem que não é nenhum terror
envelhecer como travesti, se souberem como.
Considera que é importante ter tido uma boa educação familiar, berço e contato
com pessoas eruditas. A partir daí pôde construir sua vida criando um estilo próprio e
exemplar para as gerações mais jovens. Inspirou-se em mulheres consideradas
inteligentes e pioneiras, que expressam conduta elegante voltada para o bem estar social
da humanidade. Declara que é preferível ser considerada elegante em suas atitudes do
que elegante apenas por sua beleza física. Não adianta ser linda aos vinte anos de idade
se não nada de construtivo a dizer. Parece que para ela, a idade pode trazer sabedoria
e experiências que devem ser compartilhadas.
Não se considera uma sexagenária. Fala que temos a tendência de ver a velhice
nos outros. São os outros que envelhecem, pois afinal ela relata que executa atividades
que pessoas de sua idade não executam. Diz que é procurada sexualmente até hoje.
Sugere que pessoas da sua idade não são procuradas sexualmente da mesma forma que
ela é. Percebe-se como alguém que desperta interesse, pois as pessoas gostam de
conversar com ela e estar ao seu lado. Diz que com a idade passou a se conhecer
melhor, principalmente em relação a seu corpo. Sabe escolher melhor quando está em
uma relação sexual.
Com o passar do tempo foi adquirindo maior qualidade na vida sexual e em
outros aspectos da vida. Ser mais seletiva em relação aquilo que querem nesse período
de seu processo de vida, também foi observado na dissertação realizada por Siqueira,
(2004), que estudou o envelhecimento de travestis. A entrevistada ainda aponta que o
244
período que está vivendo prefere chamar de maturidade e não a velhice. Possivelmente
isso acontece por causa do conjunto de significados negativos que a velhice é composta
em nossa sociedade ocidental.
Considera que a velhice é caracterizada pelo encontro com os seus apanhados ao
longo da vida. A meta é reunir todos esses apanhados e fazer um buquê de flores
gloriosas. Para isso, é preciso ter sensibilidade para perceber as flores que são colhidas
durante o percurso. Para ela, continuar aprendendo evita que envelheçamos. O
aprendizado é um antídoto contra o envelhecimento. Declara que quando aprendemos
não envelhecemos.
Reforça que o conceito de envelhecimento fica restrito muito na aparência física
das pessoas. Afirma que ser interessante não permite que as pessoas vejam as rugas que
aparecem no rosto. Logo, as pessoas não querem que o envelhecimento apareça naquele
que é considerado interessante. Dessa forma, ela descreve que a pessoa será como uma
árvore com seiva brilhante, folhas, flores, sombras e frutos onde todos irão querer
desfrutar. A árvore velha é seca, sem folhas, seiva, brilho, flores, frutos e vazia. Será,
portanto, solitária. Faz parte da cultura ocidental, associar velhice à solidão, abandono,
exclusão e falta de beleza e atratividade.
a terceira entrevistada fala de sua experiência de artista. Conta sua trajetória
desde Cuba, onde nasceu até chegar ao Brasil em 1958. Sofria homofobia na família,
principalmente por sua mãe. Fala de sua transformação, carreira artística como
transexual e envolvimentos com pessoas influentes que puderam defendê-la. Relata que
nunca quis ser um ícone ou modelo para ninguém. Disse que acabou defendendo a si
mesma e conseqüentemente acabou abrindo caminho para as gerações mais novas.
Reconhece que acabou servindo de modelo, embora não desejasse.
Associa velhice com morte. Diz que não quer sofrer para partir, porém
245
considera-se tranqüila em relação a sua morte, pois recebe amparo da religião que
acredita: o candomblé. Assim como a terceira entrevistada, muitas travestis que viveram
no mundo artístico acabam envelhecendo como artistas. Não se reconhecessem na
categoria de travestis nem de prostitutas, e sim como artistas.
Passamos agora a compreender um pouco mais sobre o envelhecimento e as
falas acima citas. A velhice nem sempre teve o significado que tem atualmente. Ela
varia conforme a época e o local em questão. É uma construção social. Até a metade do
século XX os estudos sobre o envelhecimento eram relacionados basicamente ao campo
das ciências biomédicas. Acreditava-se que era um processo comum a todos, dissipando
qualquer diferença de etnia, gênero, classe social, período histórico, localidade, etc.
Com o advento dos estudos por parte das ciências humanas, ampliou-se a compreensão
sobre os velhos. O envelhecimento não é natural e igual a todos. Ele é especifico e deve
ser contextualizado.
A velhice era prestigiada em Esparta, nas oligarquias gregas e em Roma até por
volta do século II depois de Cristo. Os jovens e os adultos confiavam e se apoiavam nos
idosos quando as sociedades eram tradicionais, estáveis e hierarquizadas. Porém, em
sucessivos momentos de revoluções e mudanças permanentes, os jovens substituíram os
idosos no comando e nos papéis sociais prestigiados.
Durante a Idade Média a quantidade de idosos não era muito numerosa. Aqueles
que sobrevivessem dependiam da solidariedade da família, a caridade pública de
senhores feudais e da Igreja. Com o surgimento do capitalismo comercial, por volta do
século XVI na Europa, e posteriormente a revolução industrial, os idosos tornavam-se
cada vez mais dependentes. Eles precisavam se adequar às novas configurações de
funcionamento da indústria e do comércio.
Ao longo do processo, a era agrícola foi superada, a máquina foi suplantando o
246
trabalho humano, uma nova relação entre capital e trabalho se impôs. Novas relações
entre nações se estabeleceram e surgiu o fenômeno da cultura de massa, entre outros
eventos. Essa transformação foi possível devido a uma combinação de fatores, como o
liberalismo econômico, a acumulação de capital e uma série de invenções, tais como o
motor a vapor. O capitalismo tornou-se o sistema econômico vigente. A fase da
aposentadoria e o encerramento da produção no mercado de trabalho foram associados à
velhice. Os corpos não produziam tanto quanto em relação a sua juventude. Como
continuavam a viver, precisavam ser aposentados, até que a morte chegasse.
As relações socioeconômicas ocorridas a partir da Idade Moderna na Europa
começam a definir que a vida não será mais um processo e sim dividida em etapas. A
fase chamada de infância surge por volta do século XIII separando-se da vida adulta. A
infância caracteriza-se por extrema dependência e formação educacional. A chamada
adolescência surge como fase intermediária entre a infância e idade adulta no século
XIX. A chamada idade adulta caracteriza-se pela produção máxima de lucros e a
reprodução da espécie. Já a velhice recebe a designação de período da degeneração,
dependência e prejuízo. No sistema capitalista o ser humano passa a valer o quanto
produz. O velho não é visto nem como produtor, muito menos como reprodutor e sim
como um parasita inútil.
Para organizar melhor as relações sociais, os diversos ramos da ciência
organizaram as idades nas chamadas: cronológica, biológica, social e psicológica. A
idade cronológica marca a data de nascimento em anos, meses e dias. Ela nem sempre
caminha junto com a idade biológica que é determinada pela interação entre fatores
genéticos, ambientais, mudanças fisiológicas, anatômicas, hormonais e bioquímicas do
organismo.
A idade social relaciona-se às normas e crenças, estereótipos e eventos sociais
247
que controla as pessoas através do critério de idade. A idade social contém o relógio
social que determina o que as pessoas numa determinada época histórica, certo grupo
social deve ou não fazer. Exemplo: idade de ir à escola, de sair da escola, de escolher
uma profissão, de começar a trabalhar, de se casar, ter filhos, de se aposentar, de não
usar mais um determinado tipo de roupa, etc. Em geral as pessoas seguem o relógio
social, que organiza a sociedade para um determinado fim. A nossa diz respeito ao
consumo e a produção. Porém, aqueles que “desobedecem” o padrão estabelecido.
Executam determinadas atividades que são consideradas próprias de outra faixa etária.
Exemplo: casar-se, quando “deveriam” estar se tornando viúvos (Debert, 2004;
Mascaro, 2004).
Finalmente, a chamada idade psicológica é influenciada por comportamentos
decorrentes de transformações biológicas, normas, expectativas sociais e componentes
de personalidade, sendo, portanto, algo individual. Porém, para efeitos de estudos
populacionais, controle e políticas sociais, a Organização das Nações Unidas considerou
em 1985 a população acima de 60 anos de idade como idosa. De acordo com esse órgão
internacional é em torno dessa idade que se acentuam as mudanças biológicas típicas de
tal fase, a aposentadoria e descompromissos com alguns papéis tradicionais estipulados,
também ocorrem (Mascaro, 2004). Dividir a vida em períodos que ditam padrões de
comportamento é uma forma de controle da espécie através das biopolíticas (Foucault,
história da sexualidade).
Por causa da sociedade de controle, descrita no primeiro capítulo dessa
dissertação, o que é valorizado na atualidade é a juventude. Esta simboliza força,
adaptabilidade, criatividade, produtividade, consumo, esperteza, agilidade, versatilidade
e rapidez. As chamadas adolescência e idade adulta se confundem. Todos buscam
permanecer nos vinte e cinco anos de idade para sempre. O horror à velhice nasce da
248
sociedade narcisista e do culto ao eu magro e sarado. A velhice é vista como uma
ameaça aos atributos admirados e valorizados.
Conforme vimos no primeiro capítulo, o poder não vem apenas do cultural e do
capital, ele vem também do culto ao corpo e do enorme consumo que isso gera,
alimentando diversos ramos dos mercados ligados a saúde, economia e política. As
marcas do corpo interpretadas como marcas de velhice são associadas a marcas de
velhice que também surgem na mente. É como se o corpo fosse o reflexo direto de algo
que também está acontecendo na mente, ou seja, corpo em decadência seigual a uma
mente em decadência (Mercadante, 1997).
O tempo da produção e do consumo segue muito rápido. Não incluem o passado
e muito menos as memórias. Projeto de vida e velhice são incompatíveis com as
biopolíticas da sociedade do controle. A velhice, em geral, é culturalmente associada
com morte iminente e a decadência física. Porém, vem adquirindo importância devido
ao aumento do número de idosos. Esta faixa da sociedade está sendo normatizada
através do consumo e de padrões de comportamento que lhe são impostos. Para a
antropologia o importante é compreender os mecanismos que tornaram a velhice uma
categoria social (Almeida, 2003).
Os modelos de velhice valorizados são representados por idosos que enfrentam
desafios, fazem projetos para o futuro, mantêm uma agenda completa de atividades,
mostram-se criativos, joviais e relutam em se aposentar. Parece que o modelo
tradicional de velhice que pressupunha o idoso em casa, aposentado, doente, decadente,
isolado e aguardando a morte chegar, está mudando rapidamente. A sociedade de
controle impõe que os modelos tradicionais se alterem para se adequar a produção e ao
consumo sem limites.
O autoconceito que cada um constrói a respeito de si geralmente está associado
249
aos papéis que desempenha na sociedade. Com a chegada do envelhecimento o
indivíduo é submetido a algumas perdas como aposentadoria e viuvez. Portanto, os
modelos da velhice bem sucedida implicam em ocupar o sujeito com muitas atividades
para que esse não sinta a perda de determinados papéis.
Outro aspecto a ser ressaltado é que a sociedade de controle procura adequar o
sujeito aos ideais de consumo, produção, juventude eterna, corpo sarado, agilidade,
independência e atividades constantes. Os idosos são obrigados a se comportar como
jovens para serem aceitos. As experiências de vida dos mais velhos não são valorizadas,
pois ninguém pode mais envelhecer. As transformações fisiológicas inerentes ao
corpo humano por causa da ação do tempo são disfarçadas pelas indústrias da moda,
cosméticos e todos os demais ramos da saúde.
O envelhecimento está sendo reinventado ao ser capturado pelas novas
exigências da sociedade atual. Um novo mercado de consumo é criado prometendo a
eterna juventude através de um novo vestuário, formas de lazer, estilos de viver, relação
com o corpo, família e amigos. Não espaço para o modelo clássico de velhice que é
representado por doenças, decadência física, dependência e finitude. Portanto, essa
“nova” velhice aparece agora transvestida de termos como “terceira idade”, “melhor
idade” e “maior idade”. São novas categorias construídas socialmente, que incluem
novos consumidores que não desejam se perceber como idosos padrões.
Esses novos conceitos sobre o envelhecimento sugerem que esta é uma fase da
vida que reflete a continuidade de um processo e não mais uma etapa final. Quem está
nessa fase, é visto socialmente como aquele que está aberto a novos aprendizados,
desafios e experiências. Como exemplo, podemos citar a faculdade voltada para a
terceira idade. A velhice clássica causa prejuízos às biopolíticas, a terceira idade gera
lucro, pois prega o envelhecimento saudável, produtivo, desejável e aceitável (Debert,
250
2004; Mascaro, 2004; Mercadante, 1997).
O modelo de velho, durante muito tempo foi construído a partir do oposto ao
modelo de jovem. Muitos idosos não se reconhecem nesse modelo, pois o
envelhecimento é singular. Negar o modelo estabelecido para que todos envelheçam da
mesma forma, inaugura outra forma de envelhecer. Travestis são consideradas
diferentes desde a infância. Atravessam a vida como pessoas singulares que envelhecem
singularmente (Mercadante, 1997).
Siqueira (2004) em sua dissertação sobre envelhecimento de travestis levantou
dentre suas entrevistadas que apesar de estarem vivendo uma fase mais tranqüila e com
melhor qualidade de vida na velhice, salientam que não foi fácil chegar à idade que
chegaram. A autora entrevistou cinco travestis entre 59 e 79 anos de idade e que são
moradoras da cidade do Rio de Janeiro. Elas relatam que envelhecer com dignidade
como travesti não é para qualquer uma. Chegar à velhice como travesti, ainda representa
uma posição de status perante o seu grupo.
O estudo também ressalta que elas se sentem satisfeitas por serem confundidas
com senhoras. Talvez isso ocorra, pois não são vistas mais como pessoas ambíguas.
Porém, não basta serem confundidas como senhoras. O importante para essas
entrevistadas é constatar que por terem vivido da prostituição, atualmente são senhoras
bem sucedidas que escaparam da contaminação do HIV, compulsão pelo uso e abuso de
drogas, violência e preconceito. Dizem que transitam por todos os meios sociais, são
respeitadas no local onde moram. Ressaltam que cada um envelhece de uma forma e
que é difícil generalizar o envelhecimento mesmo entre elas. Costumam se engajar em
militância política e auxílio em relação aos problemas do grupo pelo fato de se
considerarem pioneiras e experientes.
Reforçam que traçaram seus caminhos de forma original no sentido de
251
conquistar algum espaço, à custa de muita luta. Ainda contam que servem de espelho e
exemplo para as mais novas. Estimulam que essas últimas se engajem na militância,
desenvolvam senso de cidadania e auto cuidado. Por outro lado acabam reduzindo seu
circulo de amizades e selecionam melhor os contatos estabelecidos. Ainda frisam que
apesar da idade, ainda são procuradas sexualmente e desejadas. Finalizam aconselhando
que é importante que as mais novas se preparem para a velhice, pois esse período é
muito difícil no Brasil, especialmente para aqueles de baixa renda e travestis. Os
mesmos achados também foram encontrados entre as entrevistadas dessa dissertação.
Já vimos que envelhecer é sentido socialmente como perda e doença. As ciências
investem no controle desse processo atuando nas estruturas microscópicas moleculares
das células responsáveis. Os idosos se tornaram objeto de poder e de produção de saber
que acabam por controlá-los ditando como eles “devem” viver sua velhice.
Não devemos tomar os valores como dados, mas sim interrogá-los. Procurar
saber que relação de forças os produziu, seu sentido e efeitos. É preciso problematizar
os valores impostos (Tótora, 2006).
Deleuze e Foucault influenciados por Nietzsche distinguem os sentidos entre
ética e moral. Por ética são entendidas aquelas regras facultativas que avaliam o que
fazemos e dissemos em função do modo de existência que isso implica. Ética implica no
uso da liberdade. A moral é composta por regras coercitivas que julgam as ações com
base em valores referenciais, que variam conforme a época e o local em questão
(Deleuze apud Tótora, 2006).
Os sujeitos se produzem por meio das relações de poder e das formas de saber.
O poder é uma relação de forças. Toda força tem o poder de afetar e de ser afetada. As
resistências se dão no âmbito dessa relação. A subjetivação escapa às formas de sujeição
ou resistência no interior da relação de poder e acaba constituindo-se em uma relação
252
consigo mesmo, que resulta em formas singulares de existência e subjetivação.
Foucault compreendia estética da existência, como um modo artístico de viver
que não segue códigos estabelecidos. Na sociedade greco-romana, a produção do sujeito
também estava relacionada ao processo de envelhecimento. Era preciso viver para ser
velho, pois então o sujeito se completaria. Atingir a velhice constituía o objetivo da
vida. Portanto, não fazia sentido atribuir um modo específico de vida para cada fase. A
vida é processo e não uma fase seguida da outra. Logo, ser velho tornava-se um
privilégio: o de ter desfrutado uma longa existência. Não havia o que descobrir. Era
preciso se tornar, construir-se a cada instante. Ficar com os próprios desejos e não com
os desejos dos outros.
Cada um atribuiria um modo específico de existência. A ética residia no cuidado
de si traduzido em práticas e regras facultativas. As práticas que orientavam o cuidado
de si tanto na cultura grega como na romana eram diversas. Elas excluíam qualquer
rmula universal. Ao cuidar de si, o indivíduo teria condições de cuidar do outro. Se
ele poderia governar a si mesmo, então poderia governar uma cidade. Uma pessoa que
não consegue se autogovernar acaba sendo escrava de si mesma.
Para o filósofo romano Lucius Annaeus Sêneca (4 a.C 65 d.C), o momento do
gozo de si está reservado àqueles que se prepararam, ao longo da existência, para
desfrutar a sabedoria de si na velhice. Criar expectativas é estar sempre na situação de
falta. Prazer é estar satisfeito com o que se tem. É ter o senso do limite próprio.
Desfrutar do prazer com serenidade em seu justo limite, atingindo a ataraxia e
imperturbabilidade do espírito, seja por ausência de preocupações, ansiedades e
instabilidades.
O objetivo é fazer o uso sábio e regrado dos prazeres. Para isso é preciso atender
aos desejos naturais, ignorar os desejos superficiais e eliminar as paixões. A ataraxia é
253
basicamente o triunfo da razão do homem. É um estado de espírito onde o homem deixa
de temer o divino, a dor e principalmente, a morte. O período do processo de vida
chamado de velhice é uma oportunidade para consolidar a autogestão. Envelhecer é um
acontecimento digno. Negar a velhice é não ser digno do que acontece. É importante
perceber o envelhecimento como um contínuo processo de desenvolvimento e não de
espera pela morte.
Na atualidade, o culto ao eu e aos excessos do prazer são estimulados gerando
um estado de carência permanente. na antiguidade greco-romana, não se atingiria a
sabedoria de si sem o combate das paixões e apetites exagerados. O cuidado de si tem o
objetivo de se produzir e atingir o próprio modo de ser. A velhice era caracterizada pela
plenitude de uma relação acabada consigo (Foucault apud Tótora, 2006).
Em nossa cultura atual, que valoriza a juventude, o excesso de prazeres e o culto
da felicidade como sinônimo de ausência de sofrimentos, doenças e dores, tornar-se
velho é sinônimo de aberração. O tempo é visto como algo linear em direção à morte,
tendo a velhice como fase final. Ninguém quer envelhecer. Portanto, através das
biopolíticas, as ciências biomédicas se apropriam das estruturas microscópicas do
corpo, com o objetivo de prolongar a vida e evitar a morte. É estabelecida a regra de
congelar a juventude para todas as idades cronológicas, aniquilando assim, as
singularidades (Tótora, 2006).
Conforme já visto, o filósofo grego Aristóteles (384 a.C - 324 a.C.) defendia que
tudo era criado para uma determinada finalidade. Os seres apenas existiriam com o
objetivo de realizar suas essências. Os valores morais foram transformados em essência
natural, inerente a todos os seres. Logo, através da prática e realização dos valores, se
chegaria à essência do ser. Porém, conforme vimos através do existencialismo, o
homem constrói sua própria essência a partir de sua existência. A existência precede a
254
essência e não o oposto.
A moral se traduz em leis, normas, códigos e regras que têm a pretensão de
controlar os riscos e o inesperado. Para isso toma por base valores que são naturalizados
e considerados acima do bem e do mal, atingindo igualmente a todos. Muito embora
saibamos que a moral varia conforme e época e o local em questão. Ela tem como meta
regular as condutas, substituindo a potência (o que se pode ou não fazer) pelo dever (o
que se deve ou não fazer).
A lei carrega um sentido moral, seu princípio é o dever e seu efeito a obediência.
Os modelos são reproduzidos e tidos como universais. Exemplo: modelo de velhice e de
gênero. Travestis idosas não se encaixam nem no modelo de gênero e muito menos no
modelo de velhice.
A ética não se pauta pelo dever e sim pelo conhecimento por meio dos modos de
existência que são experimentados nos bons e nos maus encontros. São regras
facultativas que orientam as ações. Nelas, o sujeito pode inventar seu modo de ser,
fazendo da existência uma obra de arte. Conforme observamos nas entrevistas
realizadas acima, a trajetória de vida de cada uma delas se baseou em uma ética própria
em detrimento de uma moral estabelecida. Cada uma adotou seu próprio estilo de vida
desde muito cedo. Por conta disso, enfrentaram muito preconceito e exclusão.
Para o filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677), a potência de um corpo
varia baseado no seu poder de afetar e ser afetado. O bom encontro se quando um
corpo se compõe com outro e aumenta sua potência de agir, produzindo afetos de
alegria. Nos maus encontros os corpos não se compõem, pois um corpo acaba por
subtrair a potência de agir do outro corpo, produzindo afetos de tristeza. As paixões
tristes são provocadas pelos indivíduos que desejam nos governar. O único modo de
saber se o encontro será bom ou não é experimentar.
255
É preciso estar de posse da potência de agir. Por isso não sabemos o que pode
um corpo. Enquanto não se sabe o que pode um corpo, arrisca-se nos maus encontros.
Em geral os indivíduos ficam nos maus encontros, pois acabam se submetendo a moral
do que “deve” ser feito, não se permitindo experimentar. O importante é saber o que
podemos fazer conforme nossa potência, arte e sabedoria de produzir bons encontros.
Livres de preceitos morais o indivíduo terá condições de avançar para uma ética do
envelhecimento. A velhice pode nos proporcionar a arte de produzir bons encontros. O
tempo passa a ser vivido em sua intensidade e não em sua extensão cronológica.
Devido às experiências vividas, arriscar-se nos maus encontros na velhice,
torna-se cada vez mais improvável. Envelhecer pode trazer alegria ao estarmos de posse
do nosso processo de agir. O ritmo e a velocidade de nossas ações são cadenciados pelo
grau de intensidade e da potência de que somos capazes. Desta forma, a velhice não é
mais encarada como um estado de carência ou perda, mas como o vivenciar de um
modo de vida singular (Deleuze apud Tótora, 2006).
Para que a velhice de cada um se afirme, é preciso destruir os valores morais que
obstruem o livre fluxo da vida. Negar e destruir são condições para se afirmar. Quando
se diz sim a vida, é preciso ter audácia para dizer não aos valores morais existentes do
“dever ser” que sujeitam os corpos aos jogos de poder dos códigos morais. É preciso
aprender a envelhecer para criar novos modos de existência para que a velhice deixe de
ser apenas uma fase cronológica pré-estabelecida de padrões de comportamento a serem
seguidos. Para isso, constrói-se em atitude para fazer a vida recriar-se a cada instante
como se fosse o derradeiro dia. Viver o infinito da vida, no finito de cada instante.
Em Assim falou Zaratustra o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900)
através de seus aforismos filosóficos, fala sobre o percurso de um novo começo para a
afirmação da vida. Trata-se das transformações ocorridas pelo espírito do homem que se
256
torna camelo, leão e por fim, criança.
Transformar-se em camelo representa ajoelhar-se para carregar todos os valores
morais e a culpa do mundo. É o “dever ser” contido nos valores morais. Em geral somos
formados culturalmente para sermos sempre camelos. Tal como o camelo caminha
carregado de mantimentos para o deserto, o homem caminha para o seu próprio deserto
carregado de moralidades sociais. O vazio do deserto auxilia no processo de
criatividade. ocorre a segunda transformação quando o camelo vira um leão. Tem
condições para se tornar o senhor e criador de seus próprios valores. Não será mais
servo dos valores alheios.
É preciso destruir valores antigos para criar outros. Para isso é necessária muita
força, luta e coragem para ir à cata do grande dragão que representa os valores morais
vigentes. O “tu deves” do dragão deve ser vencido pelo “eu quero” do leão. É necessária
a força do leão para abrir caminho para a liberdade do inventor. Para criar novos valores
o leão sofre outra transformação e se torna a criança, que representa o devir. Essas fases
não são cronológicas e, sim experimentáveis a cada instante em que se vive. Elas são
parte de um processo contínuo. Liberar-se do peso das imposições morais é o caminho
para produção do sujeito ético em sintonia com a sua existência (Nietzsche apud Tótora,
2006).
Travestis idosas aprenderam desde pequenas que os valores morais vigentes não
se misturavam bem com elas. Diminuíam sua potência de agir. Enfrentaram desde cedo
o dragão da moral social na família e escola. Usando a metáfora de Nietzsche, foram
camelos que se refugiaram no deserto, transformando-se em leoas que dizem não à
heteronormatividade. A partir de então, se transformam em crianças, pois precisam
inventar seu próprio modo de viver que é baseado no cuidado de si. Atravessam a vida
como artistas e criadoras de suas próprias vidas. Impuseram ao mundo seu jeito de ser,
257
porém se fazendo respeitar, a custa de muito esforço.
Nietzsche (1999) ainda nos lembra que matar Deus simbolicamente é libertar-
se das cadeias do sobrenatural. É ser capaz de viver sem esperanças na imortalidade da
alma e a existência de um paraíso eterno. O que impressionava o filósofo era como a
crença em Deus e na providência parecer diminuir o valor e o significado do homem,
levando a desvalorização desse mundo e da vida terrestre em nome de uma possível
vida futura de glórias eternas.
Para ele, não se trata de estabelecer ou não, a existência de Deus e de uma vida
além dessa. A expectativa da perfeição em outro mundo fez com que os homens se
conformassem com as imperfeições desse. É importante não insistir o tempo todo nessa
hipótese, pois ela tira o foco da busca de sentido nessa realidade que estamos. Para isso,
é preciso viver e aceitar esta vida na sua totalidade, incluindo a velhice e a morte, com
todas as suas alegrias e vicissitudes.
O pensador nos adverte que ser digno daquilo que nos acontece é enfrentar a
vida sem revoltas, nem negando ou dissimulando as situações. Para atender ao mercado,
a velhice está se transvestindo de juventude e disfarçando a realidade. As biopolíticas
não permitem que as pessoas fiquem doentes ou envelheçam mais (Giles, 1989).
Para o filósofo, o homem atualmente está em uma situação de passagem incerta.
Se um abismo a ser percorrido, então o homem é a ponte entre as duas margens. Ele
é um meio de passagem e não o destino. Atravessar esse abismo envolve risco pessoal e
auto-superação. Ao invés de querer entender o significado do mundo, o novo homem
consegue impor ao mundo os seus próprios significados e valores morais. Inverte o
modo convencional de pensar. Isso é o que as travestis idosas têm feito, desde tenra
idade (Nicola, 2005).
Elas percebem que ao chegarem à velhice, se conhecem mais e podem escolher
258
melhor em diversos aspectos de suas vidas. Dizem que com a idade puderam aprimorar
melhor a elegância e a sofisticação para lidar com a vida. Consideram-se mais sábias e
verdadeiras batalhadoras, pois alegam não ter sido fácil ter chegado à idade que
chegaram com dignidade. Procuram evitar as más misturas”, justamente por saberem
aquelas que aumentam ou diminuem suas potências de agir. São verdadeiras
sobreviventes que estão na velhice. Suas trajetórias de vida servem como exemplo de
luta e construção de uma ética e estética própria de existir.
259
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conforme vimos, padrões estabelecidos que respondem a uma determinada
forma de organização econômica e social. O que nos importa é saber qual é o impacto
que as normas de gênero têm sobre as travestis que atravessam a vida e atingem a
velhice.
Seus corpos foram apropriados pelos saberes religiosos, jurídicos e científicos
determinando como eles deveriam se comportar. Ao invés de viver o que pode um
corpo, são pressionadas a viver o que deve um corpo. O trajeto que descreverei não
tem a intenção de estabelecer uma regra. No entanto, diante da bibliografia
especializada consultada e dos relatos obtidos, pôde-se perceber que os percursos e a
dificuldades enfrentadas são parecidas para a grande maioria delas.
Desde pequenas começam a perceber que não estão em um bom encontro em
relação ao que é estabelecido. Conforme dados levantados e presentes em diversas
passagens dessa dissertação, a exclusão da travesti começa na família, justamente por
não se adequarem as regras sociais. Podem até mesmo sofrer violência por parte de seus
familiares.
Acontece um mau encontro que diminui sua potência de agir. O próximo
desafio vem na escola. O nome social que elas desejam usar combinado com a
aparência são elementos para que sejam rechaçadas na escola, tanto pelos colegas como
professores e demais funcionários. Muitas relatam que por causa disso, não conseguem
terminar os estudos.
Ao mesmo tempo, saem de casa ou são expulsas, encontrando nas travestis mais
velhas a referência para construir seu modo próprio de ser. Travestis mais experientes
260
terão um papel importante na vida das mais novas. Ajudarão a construir os novos
corpos, estilos de vestir e formas de ser das novas travestis.
Devido à dificuldade de encontrar um emprego, por causa da aparência, aliada a
baixa escolaridade, acabam se prostituindo para sobreviver. Precisam modelar seus
corpos de forma quase que clandestina e arriscada, pois não contam com políticas
públicas de saúde que as amparem. Isso exige altos investimentos, pois quanto menos
considerado ambíguo e atraente for o corpo, menos discriminação e maiores os ganhos
financeiros.
A condição de seres patológicos que são colocadas facilita que a sociedade não
as veja como humanas e sim como seres abjetas. Em sua maioria, são consideradas
aberrações, sujeitas a tratamento, punição ou até mesmo extermínio. Desde cedo seu
drama como não humanas já começa e se arrasta até quando conseguirem sobreviver.
As que conseguiram driblar os riscos inerentes ao contexto existencial de
marginalidade, precisam adotar estratégias. Para isso, seguem um estilo próprio de
existir. Não como generalizar sua forma de lidar com as adversidades da vida. Cada
uma terá seu jeito próprio. Além de ter sobrevivido, chegar à velhice é também
sinônimo de referência, exemplo e alerta para as mais jovens.
Ser travesti na atualidade não é o mesmo que ter sido travesti antes da década de
1960. Se um homem saísse na rua vestido de mulher, geralmente era preso. Não havia
hormônios nem silicone. Porém, mesmo assim, muitas podiam ser travestis durante os
bailes de carnaval. Outras se tornavam artistas, o que possibilitava que pudessem ser
mais travestis em um contexto de artes cênicas. As prostituições eram veladas e sutis,
conforme acompanhamos nos relatos de vida de duas de nossas entrevistadas.
Após as revoluções sexuais ocorridas no final do século XX no mundo, os
conceitos de família e gênero sofreram profundas transformações. A travesti passou a
261
ter mais espaço. Saiu da clandestinidade e começou a se prostituir nas ruas dos grandes
centros urbanos. Assim como os jogadores de futebol, muitas saíram de contextos
socioeconômicos mais humildes. Como prostitutas, galgaram espaço nos grandes
centros até chegarem ao exterior. Lá, precisavam ganhar muito dinheiro em curto
espaço de tempo, para que pudessem ter um futuro.
Quando não pudessem mais viver do corpo, seriam consideradas velhas. Para
as travestis o conceito de velhice está vinculado ao trabalho que desempenham como
prostitutas. Enquanto trabalham são úteis, produtivas e, portanto jovens.
Conhecer suas trajetórias de vida possibilita identificar quais são os pontos mais
críticos onde não qualquer amparo existencial. Elas são grandes improvisadoras,
visto que não são reconhecidas como pessoas humanas. Precisam inventar suas vidas de
forma original. Como não “existem” perante a lei, estão sujeitas a todo tipo de violência
e aniquilamento. Quem as defenderá?
Essa pesquisa detectou que é preciso haver políticas públicas que as amparem,
começando pela família e escola. Depois necessitarão de políticas de saúde que as
auxiliem em seus processos de transformação corporal para que não tenham que se
arriscar clandestinamente com silicone industrial e ingestão hormonal desregrada. Em
seguida está outro grande desafio: sua profissão e meio de sobrevivência. Ocupações
onde não precisem se arriscar a doenças e violências. E que se assim for, que seja por
escolha e não por ser a única forma de sobreviver.
Por fim, as políticas públicas continuarão amparando suas velhices, pois se
adequarão às necessidades especificas de cada travesti que envelhece. Embora sujeitas
aos mecanismos de controle, as políticas públicas dão reconhecimento e condição de
existência para as travestis.
262
Existir por meio de políticas públicas, as retira da situação de marginalidade e
violência. Alegam que muitas vezes são violentas, para se defender da violência que
sofrem por serem invisíveis.
Vemos que o assunto é muito complexo e que muito ainda o que ser feito.
Estou satisfeito com os resultados desse estudo, pois o primeiro passo foi dado:
começar a conhecer quem elas são. Trazendo-as a visibilidade, teremos melhores
condições de traçar políticas específicas que as amparem desde tenra idade. Convido
todos os pesquisadores interessados nesse assunto a continuar esse trabalho gratificante
e desafiador.
263
ANEXOS
264
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