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agora uma teia de aranha coberta por gotas de orvalho, ao som não mais de tambores, mas de
instrumentos de cordas. A primeira teia dá lugar a outra, e a outra, e a outra, continuando a
ocupar toda a tela, pontilhadas por gotas de água, o que causa um efeito de impressionismo às
avessas, pois vemos apenas as partículas que formam o todo, com uma proximidade que
acaba afastando a imagem de sua indicialidade e aproximando-a de uma iconicidade poética
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menos presa à representação usual e realista de uma teia de aranha. O vento balança a trama
de fios finíssimos, alguns desfocados, outros visíveis e com maior nitidez.
Da teia, somos levados ao fundo do rio, onde cardumes de inúmeros peixes
produzem um efeito plástico e visual semelhante ao das gotas nas teias. Os peixes atravessam
o plano, quase trombando na câmera, voltando em seguida para perto uns dos outros,
mantendo, assim, um grafismo onírico abstrato como base de composição das imagens. Do
fundo do rio, passamos para sua superfície, com a câmera fazendo um travelling que nos
mostra o movimento de pequenas ondas, pontuado pela trilha de cordas. A imagem é quase
toda no mesmo tom, com as bordas mais claras (o rio e o céu), sendo o centro de um azul
mais intenso.Voltamos a ver os peixes no fundo do mar e, mais uma vez, a bolha que passeia
sobre a superfície da água. Seguimo-la até que, no ritmo da música, ela estoura novamente.
A trilha dá lugar ao som direto quando a câmera mostra o personagem sentado na
beira do rio, com a lata na mão, parado, enquanto olha para o lado. Na verdade, o suspiro
proporcionado pela seqüência anterior de composições gráficas, em sintonia com a trilha,
funciona como uma suspensão temporal que o próprio personagem parece experimentar em
sua rotina compassada e morosa de todos os dias. Esse fragmento do filme consegue revelar,
por meio de imagens icônicas, qualidades e sensações da figura retratada, de forma abstrata e
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Referimo-nos aqui aos chamados qualissignos icônicos que, segundo Júlio Pinto (1995), pertencem à primeira
tricotomia dos signos formulada por Peirce, ou seja, aquela que pensa o signo em si, sem considerar a relação
entre o signo, o objeto e o interpretante. É uma qualidade que é um signo. O caráter icônico aqui enfatizado diz
respeito ao conceito de ícone, signo que compartilha características de seu objeto. Essa semelhança com o objeto
não é, necessariamente, especular, sendo suficiente que o signo compartilhe uma única propriedade monádica
com o objeto, um traço. Portanto, o qualissigno icônico é um tipo de signo que abrange uma qualidade do objeto,
mas, ao mesmo tempo, conserva sua primeiridade e virtualidade, na medida em que constitui uma representação
aberta do objeto.