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Fevereiro de 2008 – Nº 19
CADERNOS
TEMÁTICOS
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EXPEDIENTE
Expediente
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Centro de Informação e Biblioteca em Educação (CIBEC)
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&'8
Conselho Editorial
Patrícia Barcelos, Solange Moreira Corrêa, Maria Amelia Ayd Corrêa,
Sonia Ana Charchut Leszczynski, Sandra Branchine e Cinara Barbosa
Coordenação Editorial
Cinara Barbosa
Produção Executiva
Patrícia Barcelos e Sandra Branchine
Reportagens
Marco Aurélio Fraga, Rodrigo Farhat, Sophia Gebrim e Stela Rosa
Assistente de Produção Gráfica
Muriele Cristina de Oliveira
Relações Públicas
Pablo Viana
Revisão
Denise Goulart
Diagramação
www.grifodesign.com.br
Impressão
Cromos
Impresso no Brasil
A exatidão das informações, os conceitos e opiniões emitidos nos artigos e
nos resumos estendidos, relatos de experiência e práticas pedagógicas são de
exclusiva responsabilidade dos autores.
2008 Ministério da Educação
É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte
Série Cadernos Temáticos
Tiragem: 10.000 exemplares
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica
Esplanada dos Ministérios, Edifício Sede, bloco L, 4º andar
CEP: 70047-900 – Brasília/DF
Telefones: (61) 2104-8127/9526
Fax: (61) 2104-9744
www.mec.gov.br
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SUMÁRIO
Sumário
Apresentação 5
Editorial 7
Reportagens 8
• Escola de Guanambi lança cultivar resistente a fungos 8
• Sonda diminui seqüelas do câncer de mama 14
• Pesquisa incorpora microondas em processos industriais 18
• Ensino aliado à tecnologia 22
Artigos 25
• A trajetória de uma empresa incubada no hotel tecnológico:
o caso Forlogic Software 25
• A metrologia no cotidiano e suas principais funções 33
• Bioinformática estrutural aplicada à farmacogenética 41
• Classificação de falhas em máquinas rotativas utilizando redes neurais artificiais 48
• Utilização da flora nativa com potencial econômico 56
• Alternativas de minimização dos impactos ambientais
da silvicultura nas microbacias do Rio Grande do Sul 63
• Produtividade de três cultivares de mamona em consórcio
com feijão caupi, com e sem adubação 71
• Efeitos da temperatura e umidade do solo na produtividade do milho 77
• Análise experimental da influência de Redes PLC na qualidade da energia elétrica 83
Resumos Estendidos, Relatos de Experiência
e Práticas Pedagógicas 91
• Uso da realidade virtual na melhoria do processo de ensino da física 91
• Acessibilidade aos portadores de deficiência visual no uso do telefone celular 94
Contatos 96
5
APRESENTAÇÃO
Apresentação
Esta publicação tem história. Resulta de um trabalho iniciado em mea-
dos de 2004. Àquela época, a equipe de Comunicação Social da Secretaria
de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação tinha
alguns desafios à frente: revelar o cotidiano das escolas de formação de
trabalhadores; mostrar a diversidade dessas unidades; valorizar a produção
cultural e científica de servidores, estudantes e professores. Havia, ainda,
algumas barreiras a vencer, como manter e aperfeiçoar a qualidade de tex-
tos e imagens das publicações.
Quinze edições depois, as tentações são outras. Luta-se para ampliar
a tiragem, de forma a aumentar o número de leitores, assim como avaliar
qualitativamente cada edição.
Nesse percurso, mais precisamente em 2007, a coletânea Cadernos Te-
máticos da Educação Profissional passou a integrar o Qualis, lista de perió-
dicos com qualidade recomendada pela Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ao lado de anais, revistas e jornais,
os cadernos se tornaram divulgadores avalizados da produção intelectual
de professores e alunos de programas de pós-graduação. Os cadernos re-
ceberam classificação em três áreas distintas: ciência de alimentos (nível C
em âmbito nacional), educação (nível C nacional) e multidisciplinar (nível B
nacional). Dessa forma, os trabalhos produzidos por professores e estudan-
tes da Rede Federal de Educação Profissional ganharam mais visibilidade e
ampliaram o diálogo com as agências de fomento à pesquisa.
Hoje, todas as escolas da Rede Federal de Educação Profissional e Tec-
nológica recebem exemplares dos Cadernos Temáticos. Consegue-se, tam-
bém, atender às escolas estaduais de educação profissional. Entretanto, a
cobertura não atinge ainda as instituições públicas de ensino médio. É uma
meta a ser alcançada.
Em quatro anos, o projeto gráfico-editorial pouco foi alterado. A princi-
pal preocupação para as modificações foi o refinamento do projeto gráfico,
de forma a facilitar a leitura da revista e a compreensão de seu conteúdo,
tornando-a de leitura mais ágil. Barras coloridas passaram a servir de indi-
cadores das seções: reportagens em vermelho, artigos em azul, resumos,
relatos e práticas em verde, de forma a diferenciar uma página da outra. No
quesito editorial, buscou-se ampliar a abrangência, de maneira a descorti-
nar o mosaico de ações e estudos produzidos pelas escolas, numa ligação
explícita com a realidade de cada região.
A finalidade dos Cadernos Temáticos continua a mesma, ou seja, divul-
gar trabalhos, pesquisas e projetos de servidores, professores e alunos da
Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica. A seleção do material
enviado pelas escolas é feita de acordo com alguns critérios. Os mais impor-
tantes são a pertinência ao tema e a relevância das informações, de forma a
que os artigos contidos nesses cadernos reflitam a diversidade e a realidade
de cada local, de cada cidade e de cada escola. Todos mostram, por meio
de texto – artigos, resumos, relatos, práticas e reportagens –, a realidade da
formação de profissionais no Brasil.
O desafio de editar cada número dos Cadernos Temáticos, entretanto,
é o mesmo desde o início deste projeto da Setec: escrever a história da
educação profissional e tecnológica no país.
Rodrigo Farhat
7
EDITORIAL
Editorial
Cadernos são retratos do Brasil
Os volumes 16 a 20 dos Cadernos Temáticos mostram experiências ino-
vadoras, práticas pedagógicas, pesquisas e resumos de artigos que contri-
buem para o desenvolvimento da educação profissional e tecnológica no
Brasil. São um retrato da harmonia das quase duas centenas de escolas da
rede com as realidades regionais do país.
De 1909 a 2002, 140 escolas técnicas foram construídas no país. De
2003 a 2010, serão mais 214, dentro do plano de expansão da rede federal
de educação profissional e tecnológica. A meta do Ministério da Educação
é chegar a 354 unidades, com a oferta de 500 mil vagas, num investimento
total de R$ 933 milhões.
A Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica oferece cursos
de qualificação, de ensino técnico de nível médio, superior e de pós-gradu-
ação. As áreas variam de acordo com a realidade regional, em sintonia com
os arranjos produtivos locais.
O lançamento de um cultivar de bananeira resistente a fungos pela EAF
Guanambi/BA e a sonda criada por professor do Cefet/PE para reduzir se-
qüelas de câncer de mama são destaques deste número dos Cadernos Te-
máticos da Educação Profissional, assim como os artigos sobre os efeitos
da temperatura e da umidade na produtividade do milho e as funções da
metrologia no cotidiano.
Com a ampliação da rede, mais experiências poderão ser temas de re-
portagens e cenários de experiências, práticas pedagógicas e pesquisas. A
diversidade brasileira tratará de enriquecê-las. Aguardem.
8
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Professores da Escola Agrotécnica Federal Antônio José Teixeira (EAFA-
JT), de Guanambi/BA, estão na linha de frente na pesquisa de novos tipos
de bananas. Em conjunto com pesquisadores da Empresa Brasileira de Pes-
quisa Agropecuária (Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical), desenvol-
veram um novo cultivar de banana, o PA42-44, resistente tanto à sigatoka
negra quanto ao mal do Panamá.
A pesquisa responde à soberba dos norte-americanos, que sempre con-
sideraram os países da América Latina como “banana republics” e reforça
a sátira de Alberto Ribeiro e João de Barro, que, em 1938, lançaram a mar-
chinha “YES, NÓS TEMOS BANANA”.
Escola de Guanambi lança
cultivar resistente a fungos
Pesquisas foram desenvolvidas em parceria com a Embrapa
YES, NÓS TEMOS BANANA
(Alberto Ribeiro e João de Barro)
“Yes, nós temos banana/Banana pra
dar e vender/Banana menina/Tem
vitamina/Banana engorda e faz
crescer/Yes, nós temos banana/
Banana pra dar e vender/Banana
menina/Tem vitamina/Banana engorda
e faz crescer/Vai para a França o café,
pois é/Para o Japão, o algodão, pois
não/Pro mundo inteiro/Homem ou
mulher/Banana para quem quiser”.
Fotos: Rodrigo Farhat
Fruticultura aquece negócio no interior da Bahia
BANANA BRASILEIRA
BANANA BRASILEIRA
9
REPORTAGENS
Sem entrar no mérito da polêmica, o fato é que o Brasil é um grande pro-
dutor da fruta. Em 2005, produziu 6,9 milhões de toneladas. O volume de
exportações de bananas, no ano seguinte, foi de 179,9 mil toneladas, segun-
do dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Minis-
tério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). No Brasil,
os MAIORES PRODUTORES são os estados de São Paulo e Bahia, seguidos de
Santa Catarina, Pará e Minas Gerais. Em 2005, a Bahia produziu 1 milhão de
toneladas da fruta, 21,5% a mais do que em 2004 (872 mil toneladas).
No estado nordestino, professores da Escola Agrotécnica Federal Antô-
nio José Teixeira (EAFAJT) têm buscado melhorar a produção e a qualidade
do produto e, para isso, em 1997, iniciaram uma parceria com a Embrapa
Mandioca e Fruticultura Tropical para avaliar e selecionar variedades e hí-
bridos de bananeira.
MERCADO – F
oram conduzidos experimentos de avaliação de diferen-
tes genótipos de pés de bananas originários do Programa de Melhoramento
de Bananeira da Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical, entre 1997 e
1999, 2002 e 2004, 2004 e 2006, no PERÍMETRO IRRIGADO de Ceraíma,
na área da EAFAJT, e de 2006 até hoje, no perímetro irrigado do Estreito,
em terreno de produtores.
Alessandro de Magalhães Arantes é um desses produtores rurais. Tam-
bém professor de fruticultura e coordenador-geral de produção e pesquisa
da EAF de Guanambi, tem 10 hectares de banana, pinha e maracujá. Ele
diz que a produtividade média no perímetro é de mil caixas por hectare e
que os principais mercados estão em Aracaju, Belo Horizonte, Brasília, Juiz
de Fora, Recife, Rio de Janeiro e Salvador.
MAIORES PRODUTORES
No mundo, o Equador, embora tenha
produção menor do que a brasileira, é o
líder em exportação da fruta, com cerca
de 30% do comércio mundial do produto,
enquanto o Brasil possui menos de 2%.
A produção mundial está em torno de
72 milhões de toneladas, quando apenas
bananas são consideradas, e de 105
milhões de toneladas, quando se incluem
os plátanos (banana de fritar e cozinhar).
Índia, Brasil, Equador
, China e Filipinas
são os maiores produtores.
PERÍMETRO IRRIGADO
Os perímetros irrigados foram implantados
pela Companhia de Desenvolvimento
do
Vale do São Francisco (Codevasf),
a partir da segunda metade dos anos
1960. Sete pólos de desenvolvimento
foram criados na bacia do São Francisco:
norte de Minas, Guanambi, Formoso e
Correntina, Barreiras, Irecê, Juazeiro e
Petrolina e Baixo São Francisco. O de
Guanambi, na margem direita do rio São
Francisco, abrange os perímetros de
Estreito e Ceraíma, totalizando 2,5 mil
hectares em operação.
A fruticultura é a principal fonte
de renda dos irrigantes.
Setor emprega 6,7 mil
pessoas no perímetro
10
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
As frutas são comercializadas em caixas
de 22 quilos, com preço pago ao produtor
entre R$ 7,00 e R$ 7,50, e variação de R$
3 a R$ 18, dependendo do período.
Alessandro começou a plantar bananas
pela demanda do mercado. “Era a cultura
mais difundida, estável e com mão
-de-
obra qualificada disponível”, lembra.
O perímetro, que comercializa 60 ca-
minhões por semana, responde por R$
12 milhões a R$ 15 milhões por ano. São
560 agricultores e cada um emprega, em
média, três trabalhadores. O setor emprega 1,7 mil pessoas diretamente e
outras 5 mil indiretamente.
RESULTADOS – As pesquisas, desenvolvidas pelos professores Sérgio
L
uiz Rodrigues Donato, Alessandro de Magalhães Arantes e equipe, serviram
para avaliar e selecionar cultivares superiores com relação à produtividade,
resistência a problemas fitossanitários, como os relacionados à sigatoka ne-
gra, sigatoka amarela e ao mal do Panamá (veja box), e precocidade para
recomendação e incorporação aos sistemas produtivos dos agricultores.
Como atividades de extensão, foram realizados seminários, dias de cam-
po e cursos. As ações de extensão foram direcionadas para três perímetros
irrigados da Bahia: de Ceraíma (Guanambi), do Estreito (Urandi e Sebastião
Laranjeiras) e do Formoso (Bom Jesus da Lapa).
Produtores negociam preço de
bananas no campus da escola
Divulgação/EAFAJT
11
REPORTAGENS
Os resultados desses trabalhos foram divulgados para os agricultores da
região em seminários e cursos. Como resultados práticos, pode-se desta-
car, segundo o professor Sérgio, a recomendação e posterior incorporação
de cultivares selecionados aos sistemas de produção do agricultor regional,
como Grande Naine, FHIA-18 e PA42-44, aumentando, assim, o espectro
de cultivares utilizados.
Os resultados gerados pelos experimentos conduzidos em Guanambi,
juntamente com outros ensaios de mesma natureza implantados em di-
versos locais do país, respaldaram o lançamento pela Embrapa Mandioca
e Fruticultura Tropical de outros cultivares, como o FHIA-01 (Maravilha),
SH36-40 (Prata Graúda), Caipira, Nam, FHIA-18, PV42-85 (Preciosa),
PV42-142 (Japira), PV42-68 (Pacovan Ken).
Fungos são os maiores
limitadores da bananicultura
As sigatokas negra e amarela e o mal do Panamá são as três principais
doenças que afetam as bananeiras. Para o pequeno produtor são os maiores
limitadores da produção.
A sigatoka negra é a mais grave. A sigatoka amarela, apesar de menos
destrutiva, também causa grandes perdas na bananicultura. Pesquisadores
avaliam em cerca de 80% e 50% as perdas provocadas na produção pelas
sigatokas negra e amarela, respectivamente.
O mal do Panamá tem sido um fator limitante para o cultivo da banana
maçã e já começa a atacar as produções da prata anã em algumas regiões
brasileiras. O fungo, quando ocorre em variedades como a banana maçã,
provoca perda de 100% na produção. Já nas do tipo prata, com menor
suscetibilidade, a incidência do mal do Panamá, geralmente, situa-se num
patamar de 20% de perdas.
PA42-44 é resistente a fungos
Os resultados gerados pelos experimentos conduzidos pelos professo-
res da escola de Guanambi ilustram de maneira consistente a inserção da
EAFAJT no mundo da investigação científica para geração e extensão de
conhecimentos básicos e aplicados, de forma a assegurar bases sólidas para
o desenvolvimento sustentável.
Os trabalhos de melhoramento empreendidos pela EAFAJT em parceria
com a Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical resultaram na indicação
para lançamento de um cultivar de bananeira tipo prata, o híbrido PA42-
44, descendente da prata anã, resistente à sigatoka negra, sigatoka amarela
e ao mal do Panamá.
A EAFAJT avaliou o material por quatro ciclos de produção no perímetro
irrigado de Ceraíma e por dois ciclos de produção no perímetro irrigado
do Estreito, apresentando os resultados à comunidade de produtores, em
2003, num dia de campo em Ceraíma, e, em 2007, no Estreito. O produto
deverá ser lançado no mercado brasileiro em 2008.
12
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Guanambi forma profissionais comprometidos
com problemas do semi-árido
Os professores da Escola Agrotécnica Federal Antônio José Teixeira, em
Guanambi/BA, ensinam a seus alunos diferentes formas de enfrentar os pro-
blemas do semi-árido. O diretor do Departamento de Desenvolvimento
Educacional da instituição, Sérgio Luiz Rodrigues Donato, explica que há
duas maneiras de trabalhar com a escassez de água: pela redução ou pela
convivência com o problema. Enquanto a primeira solução envolve maior
custo e nível tecnológico, a segunda exige menos recursos e tecnologia.
A construção de sistemas de barramento de água, de irrigação e o cul-
tivo de frutíferas nobres, como a mangueira e a bananeira, e a produção
de forrageiras, como capim elefante e cana-de-açúcar para alimentação
animal, são exemplos de redução do problema da escassez de água. Já o
uso de plantas que exigem pouca irrigação, como o umbuzeiro e a palma
forrageira, são mostras da convivência com o problema. Ele conta que am-
bas as possibilidades têm que ser mostradas ao aluno.
Atualmente, os cursos de Guanambi são oferecidos nas áreas de agricul-
tura, agropecuária, informática, zootecnia. São 520 alunos, dos quais 142,
internos. De acordo com o diretor Ariomar Rodrigues dos Santos, em 2008,
dois novos cursos serão abertos, de agroindústria e informática, nas versões
pós-médio e para jovens e adultos.
A produção de estudos e pesquisas científicas também segue o princípio
de contribuir para melhorar as práticas de adubação em frutíferas nos perí-
metros irrigados da Bahia.
Entre 1997 e 2001, pesquisadores da escola adotaram práticas de in-
dução floral na cultura da mangueira e extrapolaram os resultados para
o perímetro irrigado de Ceraíma por meio de visitas técnicas e cursos de
mangicultura, generalizando o uso desta técnica na região. A EAFAJT con-
tribuiu, dessa forma, para a reabertura das exportações de manga do perí-
metro irrigado do Brumado, em Livramento de Nossa Senhora/BA, para os
Estados Unidos. Esse trabalho se efetivou através da realização de trabalhos
técnicos de campo, desenvolvimento de planilhas de controle do programa
de moscas das frutas e palestras proferidas para auditorias realizadas pelo
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), o órgão responsá-
vel pela abertura das exportações.
Atualmente, implantado e em avaliação na EAFAJT, projeto de pesquisa
com a cultura da mangueira, de autoria dos professores Carlos Elizio Co-
trim, Márcio Mota Ramos, Eugênio Ferreira Coelho, Maurício Coelho Filho
e Paulo Roberto Cecon, trata de experimento contemplando avaliações de
redução de lâmina de água na cultura da mangueira. A experiência, rea-
lizada em parceria com a Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical e a
Universidade Federal de Viçosa (UFV), busca desenvolver alternativas de
manejo de irrigação para projetos instalados no semi-árido que promovam
aumento na eficácia de uso da água pela cultura da manga.
Segundo o estudo, em países com escasso recurso de água, como Aus-
trália, Espanha e Israel, muitas pesquisas têm sido feitas com a proposta
13
REPORTAGENS
de economizar o uso da água sem afetar significativamente a produção
da cultura e a qualidade do fruto. Ao final da pesquisa, os resultados vão
mostrar um balanço de água no solo, por meio do qual se poderá saber,
de toda a água aplicada através da irrigação, quanto ficou armazenada
no solo, quanto foi usada pela planta na transpiração, quanto se perdeu
por evaporação, quanto se perdeu por percolação profunda ou quanto se
ganhou por ascensão capilar.
Banana é alimento completo
A banana, uma das frutas mais consumidas no mundo na forma fresca,
é cultivada em todas as regiões do país. CONTÉM hidratos de carbono, vita-
minas, minerais, carboidratos, proteínas, gordura e baixo teor calórico (de
90kcal a 120kcal/100g).
Utilizada como calmante intestinal, a banana estimula o apetite e as
funções digestivas, evita e regula a hipertensão arterial. Além disso, ajuda
no sono e melhora o humor
. É a preferida de bebês, por sua consistência
pastosa, e de atletas, por ser ótima fonte de energia.
Estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual Pau-
lista (Unesp) mostrou que cascas, folhas e talos de alimentos possuem nu-
trientes como vitamina C, carboidratos, cálcio e fibras, muitas vezes em
quantidades superiores às da própria polpa. Os estudiosos avaliaram o valor
nutricional, em cada 100 gramas, das 20 espécies de frutas e hortaliças mais
consumidas pelos brasileiros. Por falta de conhecimento sobre o valor nu-
tricional de talos, folhas e cascas e de como aproveitá-los na alimentação,
as pessoas acabam jogando-os no lixo, o que é inadmissível em um país em
que a desnutrição atinge cerca de 22 milhões de pessoas, como declarou,
em ENTREVISTA ao jornal da instituição, a professora do Departamento de
Bioquímica da Unesp, Giuseppina Lima.
O estudo revelou que as camadas externas de várias frutas são ricas em
carboidratos. A casca da banana, por exemplo, tem o dobro de potássio
(0,9g) em relação à polpa (0,4g).
Reportagem: Rodrigo Farhat
CONTÉM
A fruta tem, em sua composição,
vitaminas A
, B1, B2 e C, cálcio, cloro,
enxofre, ferro, fósforo, magnésio,
niacina, potássio, silício e sódio, entre
23g a 32g de carboidratos, 1,0g a
1,3g de proteínas e 0,37g a 0,48g de
gordura, em cada porção de 100g. O
destaque é para o teor de potássio,
cerca de 400mg/100g
-1
.
ENTREVISTA
Ver Jornal Unesp nº 213, de julho
de 2006, disponível na internet, no
endereço http://www
.unesp.br/aci/
jornal/213/desperdicio.php.
Fruticultura é a principal atividade
dos perímetros irrigados
14
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Quando uma mulher realiza a MASTECTOMIA, não é apenas a região
da mama que fica afetada. A paciente também apresenta inchaços e di-
ficuldade de movimento no braço que vão acompanhá-la pelo resto da
vida. Isso ocorre devido ao chamado esvaziamento axilar, que retira todos
os LINFONODOS presentes na região da axila, evitando, assim, o risco de
metástase. Pensando no desconforto de um braço seqüelado, o engenhei-
ro eletrônico e doutor em instrumentação nuclear Iran José Oliveira da
Silva, professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Pernam-
buco (Cefet/PE), desenvolveu, para sua tese de doutorado na Universida-
de Federal de Pernambuco (UFPE), uma sonda que pode evitar a extração
dos linfonodos, sem o risco que o tumor se dissemine pelo corpo.
SAÚDE
Sonda diminui seqüelas
do câncer de mama
Tecnologia desenvolvida no Cefet/PE
tem preço inferior ao do mercado
MASTECTOMIA
Cirurgia de câncer de mama.
LINFONODOS
Defesa do organismo que
filtra impurezas do sangue.
Fotos: Sophia Gebrim
15
REPORTAGENS
A sonda SGHI-01 é a primeira tecnologia nacional desse tipo. Ela foi
elaborada no Laboratório de Instrumentação Nuclear do Departamento de
Energia Nuclear, sob a orientação da professora Helen Khoury, da UFPE. A
sonda é um equipamento que possibilita ao médico encontrar, no momen-
to da cirurgia, o primeiro linfonodo da cadeia linfática, chamado sentinela.
Através desse, que prediz o estado dos demais, o médico vai saber se deve
ou não retirar todos os outros.
O que ocorre é que nem todas as mulheres com câncer de mama pos-
suem os linfonodos comprometidos. Nos procedimentos usuais, o médico
não tem como saber se eles apresentam ou não células tumorais, retirando-
os por precaução. Com a sonda, é possível localizar, pouco antes da cirur-
gia, o local exato onde se encontra o sentinela. Após detectá-lo, o cirurgião
o retira, encaminhando-o para a biopsia, que ocorre imediatamente. Se ele
estiver contaminado, realiza-se o esvaziamento axilar; se não, a paciente
preservará os demais e não terá seqüela alguma na região.
Existem tecnologias importadas de sondas com essa mesma finalidade
que vêm sendo desenvolvidas há 10 anos nos EUA. Porém, o preço dessas
sondas é alto, o que limita a quantidade de médicos que podem ter acesso
ao procedimento, não coberto pelos planos de saúde. “Essas sondas custam
na faixa de U$ 15 a U$ 17 mil. Então, não é qualquer médico que tem
coragem de investir nelas. Já a nossa sonda está orçada num preço que mal
chega a um terço disso”, explica Iran Oliveira.
Com o barateamento do equipamento, a sonda fica mais acessível aos
médicos e, em conseqüência, aos pacientes. “O preço da nossa sonda pode
tornar esse procedimento mais comum no meio médico, já que hoje ele é li-
mitado devido ao alto custo da sonda. É possível que nós possamos fazer pro-
tótipos e implantar essa tecnologia até no sistema público, o que traria maior
qualidade de vida às pacientes de baixa renda”, declara o pesquisador.
“O grande passo é este: nós dominamos a tecnologia e fizemos um sensor
diferente do que é utilizado na sonda convencional”, acrescenta Iran Oliveira.
“Construímos um
sensor diferente
do que é utilizado
na sonda
convencional”
Iran Oliveira
Próximo passo é testar em pacientesA sonda SGHi-01 é a primeira tecnologia nacional do tipo
16
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
FUNCIONAMENTO – Essa análise prévia evita a extração desnecessária
de todos os linfonodos das axilas (ESVAZIAMENTO AXILAR), procedimento
preventivo adotado nas cirurgias que deixa seqüelas como dores nos braços
e comprometimento da produção de anticorpos. A sonda brasileira poderá
substituir as similares importadas, feitas com material mais caro.
Com o uso da cirurgia RADIOGUIADA é possibilitado ao médico selecio-
nar os gânglios a serem retirados para biópsia e definir com maior precisão
a área da cirurgia.
Já existe há algum tempo no país técnicas para identificar e retirar o lin-
fonodo sentinela. No método que usa a sonda, uma substância radioativa à
base de tecnécio – que libera raios gama – é injetada na área do tumor ini-
cial 24 horas antes da cirurgia. Esse líquido migra para o linfonodo sentinela
(estação linfática mais próxima), que fica marcado pelo tecnécio. Durante
a cirurgia, a radiação gama é detectada pela sonda e traduzida em sinal lu-
minoso que, por sua vez, é convertido em um sinal sonoro por meio de um
sistema eletrônico, permitindo que o método identifique o linfonodo.
Atualmente, são usadas nesse procedimento sondas importadas, que
custam cerca de US$ 16 mil. A sonda brasileira custaria cerca de três vezes
menos. O diferencial do novo instrumento é o sensor (cintilador) que trans
-
mite a radiação em sinal luminoso. Segundo o criador da sonda, os apare-
lhos importados usam um cintilador do tipo cristal, mais caro e menos resis-
ESVAZIAMENTO AXILAR
Nas cirurgias tradicionais de câncer de
mama, geralmente retiram-
se gânglios
linfáticos junto à axila para reduzir a
possibilidade de metástase do tumor. O
esvaziamento axilar acarreta à paciente
desconforto e limitações no movimento
dos braços. Além disso, exames
realizados nos gânglios linfáticos,
retirados nas cirurgias, têm mostrado
que grandes percentuais dos tecidos
não apresentavam células tumorais.
Isso significa que, em grande parte
das vezes, a mulher se submete ao
esvaziamento axilar sem necessidade.
RADIOGUIADA
Com a utilização de uma sonda que
auxilia a encontrar o tumor
.
Intenção é baratear
técnica e torná-la mais
acessível a hospitais e
planos de saúde
Professor Iran e aluna Sloana realizam testes em laboratório
17
REPORTAGENS
tente a choques mecânicos. Para a sonda brasileira, o pesquisador adaptou
um cintilador plástico, comumente usado na detecção de partículas beta,
para se tornar sensível também à identificação dos fótons gama emitidos
pelo tecnécio. A eficácia da nova sonda já foi comprovada em laboratório
e os testes em pacientes deverão começar no segundo semestre deste ano.
“Nossa intenção é baratear a técnica e torná-la mais acessível a hospitais e
planos de saúde”, afirma Iran.
Destaque no curso de radiologia
A estudante do curso superior de tecnologia em radiologia, Sloana Gies-
ta Lemos, recebeu no final de 2007 um prêmio de menção honrosa, na
área de Exatas e Engenharia, pelo trabalho que desenvolveu em sua bolsa
de iniciação científica do Cefet/PE/Facepe, entre o ano de 2006 e 2007. A
pesquisa sobre “Desenvolvimento e estudo de sonda gama para cirurgia ra-
dioguiada de câncer de mama” é um desdobramento da tese de doutorado
do seu orientador e professor, Iran José.
Baseada no trabalho do professor Iran, a estudante realizou medidas
em laboratório utilizando um simulador de mama. “A legislação brasileira
proíbe testes em humanos, portanto, a melhor forma de realizarmos as ex-
periências com a sonda é em laboratório”.
Depois da simulação, o próximo passo são os testes em pacientes. “O
objetivo das medidas preliminares realizadas em laboratório é a viabili-
zação dos testes da sonda, em hospitais, nos procedimentos cirúrgicos”,
esclarece o professor.
HISTÓRICO – O câncer de mama é provavelmente o mais temido pe-
las mulheres, devido à sua alta freqüência e, sobretudo, pelos seus efeitos
psicológicos, que afetam a percepção da sexualidade e a imagem pessoal.
Ele é relativamente raro antes dos
35 anos de idade, mas acima desta
faixa etária sua incidência cresce
rápida e progressivamente.
Esse tipo de câncer represen-
ta, nos países ocidentais, uma das
principais causas de morte em
mulheres. As estatísticas indicam o
aumento de sua freqüência tanto
nos países desenvolvidos quanto
nos países em desenvolvimento.
Segundo a Organização Mundial
da Saúde (OMS), nas décadas de
1960 e 1970, registrou-
se um au-
mento de 10 vezes nas taxas de
incidência ajustadas por idade nos
Registros de Câncer de Base Popu-
lacional de diversos continentes.
Reportagem: Sophia Gebrim
Experimento garante a funcionalidade da sonda
18
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Docentes e alunos do Cefet/PB inovam na área de pesquisa e estão
realizando estudos sobre a utilização do MICROONDAS nos processos indus-
triais. Incipientes, essas investigações estão em fase inicial na maior parte do
país. Na Paraíba, parcerias entre a escola e empresas locais estão garantindo
o desenvolvimento de pesquisas na área industrial e hospitalar.
Um dos estudos que estão sendo realizados é o processo de secagem
de ARGILA. A pesquisa objetiva otimizar a produção, com economia ener-
gética, reduzir os impactos ambientais, melhorar a qualidade final do pro-
duto e, conseqüentemente, gerar mais retorno financeiro para as empresas
que fabricam o produto.
PESQUISA
Pesquisa incorpora microondas
em processos industriais
Microondas sai da cozinha e começa a fazer
parte do dia-a-dia da indústria
MICROONDAS
É uma onda eletromagnética. O uso
desse equipamento para aquecer
alimentos foi aplicado pela primeira
vez na década de 1940 por um
pesquisador da empresa norte-
americana Raytheon, especializada
em radares. Em 1946, a empresa
patenteou o processo e, em 1947,
construiu o primeiro forno microondas
da história, que pesava 340 kg, tinha
quase 1,70 m de altura e produzia
uma enorme radiação, quase três
vezes mais do que a radiação normal
de um forno de microondas moderno.
Danilo Ferreira, aluno que integra o grupo de pesquisa, aprende na prática
Fotos: Divulgação Cefet/PB e Bentonisa
19
REPORTAGENS
Forte na economia da Paraíba, o estado é responsável por mais de 90% da
produção bruta e beneficiada da argila do tipo BENTONITA no Brasil. Para se
ter uma idéia da extensão desse mercado, são consumidas no mercado inter
-
no quase 300 mil toneladas ao ano, o que corresponde a dois terços do total
produzido no país, segundo estimativa do Ministério de Minas e Energia.
De extração simples, esse material pode ser utilizado nos mais diversos
fins industriais, como em moldes para fundição, PELOTIZAÇÃO de minério
de ferro, rejeito de dejetos animais, na indústria química e farmacêutica,
clarificantes, tratamento de águas e EFLUENTES e em fluidos de perfuração,
aplicação de grande interesse na indústria de extração de petróleo.
Augusto F
onsêca, especialista em química inorgânica, professor do cur-
so Técnico de Recursos Naturais do Cefet/PB e um dos responsáveis pela
pesquisa, explica que o uso do microondas nos processos de secagem traz
benefícios para as empresas e para o meio ambiente. A maioria das em-
presas usa fornos a gás, elétricos ou a carvão, ou ao ar livre. Processo que,
segundo ele, é prejudicial ao meio ambiente e, quando feito a céu aberto,
pode contaminar o produto com bactérias, inviabilizando a comercializa-
ção para a indústria de cosméticos. “Ao fazer uso do microondas, evita-se
a geração do CO
2
e de outros gases nocivos ao meio ambiente, como as
DIOXINAS e os FURANOS”, explica, acrescentando que isso também con-
tribui no combate ao aquecimento do planeta. Outro benefício, segundo
ele, é que nesse tipo de secagem remove-se apenas a água, sem alterar a
estrutura do produto. Ainda tem a vantagem de possibilitar o controle da
umidade final do produto, de acordo com as necessidades de sua utiliza-
ção, exigência comum na indústria de cosmético.
O leque de descobertas proporcionado pelos testes ainda está em fase de
estudo. Augusto Fonsêca informa que também serão monitorados os resíduos
gerados nesse processo de secagem, os quais podem ser reaproveitados.
ARGILA
Podem receber várias definições,
é denominada de barros, rochas
e materiais naturais, terrosos, de
granulação fina, que geralmente
adquirem plasticidade quando
umedecidas com água. São formadas
essencialmente por silicatos hidratados
de alumínio, ferro e magnésio.
BENTONITA
Dentre os diversos tipos de argila,
encontram-
se as bentonitas, de grande
valor econômico e grande interesse
industrial. Esse mineral, utilizado em
áreas tão distintas quanto a siderurgia
e a higiene de animais domésticos,
movimenta um mercado de US$ 300
milhões ao ano no Brasil.
PELOTIZAÇÃO
Processo de aglomeração que,
através de um tratamento térmico,
converte a fração ultrafina gerada no
beneficiamento do minério de ferro em
esferas de tamanhos na faixa de 8 a 18
mm, com características apropriadas
para alimentação das unidades de
redução (Fonte: Wikipédia).
EFLUENTES
São produtos líquidos ou gasosos
produzidos por indústrias ou resultante
dos esgotos domésticos urbanos que
são lançados no meio ambiente. P
odem
ser tratados ou não (Fonte: Wikipédia).
DIOXINAS E FURANOS
São subprodutos de processos
industriais e incineração de resíduos
perigosos e hospitalares. São
formados, também, em queimadas e na
combustão em veículos, especialmente
os movidos a diesel.
Microondas caseiro é usado para pesquisa
Processo de secagem ao ar livre tem risco de contaminação
20
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Parceria para
desenvolver pesquisa
A utilização do microondas nos
processos industriais ainda carece
de investigações. Para acelerar os
estudos, empresas e instituições
de ensino estão fazendo parcerias.
Em João Pessoa, a BENTONISA, em-
preendimento que beneficia argila,
está financiado a pesquisa realizada
pelos docentes e alunos do Cefet/
PB. Os testes feitos em laboratório
com equipamento caseiro já com-
provam a eficiência do processo de
secagem. Em função disso, já está
sendo fabricado um forno microon-
das de esteira com maior potência,
para ser usado para secagem contí-
nua e em maior escala.
Adriana Almeida Silva, pesquisadora do Centro de Pesquisas e Tecnolo-
gia da Bentonisa, avalia que o maquinário trará diversos benefícios, dentre
eles a eficiência de processo e a esterilização do produto. “Poderemos ga-
rantir mais qualidade, homogeneidade e rapidez durante a secagem, com a
vantagem de podermos controlar o processo, sem riscos de contaminação.
Além disso, passaremos a utilizar uma tecnologia ecologicamente correta,
fato que também agrega valor ao produto final e segue a tendência mundial
de qualidade ambiental”, ressalta. Analisando-se a relação custo-benefício,
ela acredita que é fundamental investir em pesquisas para que possam ser
desenvolvidos novos processos e produtos. “O empreendimento só evolui
se houver investimentos em tecnologia, caso contrário, a empresa poderá
perder market share (fatia de mercado) para concorrentes”, ressalta.
Para Augusto Fonsêca, a parceria gera benefício para
ambos, possibilitando a ampliação de conhecimento
para o corpo docente e alunos e o aprimoramen-
to dos empreendimentos locais. “Este tipo
de associação permite que possamos de-
senvolver pesquisas e aplicá-las na prática,
o que também retorna para a comunidade
com a ampliação de postos de trabalho e
melhora a qualificação técnica dos profis-
sionais na escola”, pontua. O entusiasmo do
professor Augusto Fonsêca é compartilhado
por outros docentes. Atualmente, o Cefet
conta com um núcleo de pesquisa que está
investigando a aplicação do microondas em
diversas áreas. Além da secagem industrial,
o equipamento está sendo testado na desin-
fecção do lixo hospitalar.
Adriana Almeida é pesquisadora da empresa
Pesquisador Augusto Fonsêca desenvolve projetos
com uso de microondas em escala industrial
21
REPORTAGENS
RIQUEZA NATURAL
A Paraíba é, hoje, o maior berço de
argilas bentoníticas, estando suas
jazidas localizados principalmente no
município de Boa Vista, distante 60 km
da cidade de Campina Grande e 180 km
da capital, João P
essoa. As reservas de
Boa Vista totalizam cerca de 16 milhões
de toneladas de argila e a quantidade de
bentonita bruta e beneficiada (bentonita
sódica) produzida representa 96% da
produção nacional. Os 4% restantes são
produzidos no estado de São Paulo.
MERCADO DE TRABALHO
A argila é fonte de renda para o estado
da P
araíba, onde hoje estão instaladas
nove empresas, entre mineradoras e
beneficiadoras, sendo as argilas utilizadas
para os mais diversos fins industriais.
Em outros estados, pesquisadores estão verificando o uso da tecnologia
na secagem de madeiras, na aceleração de reações químicas e também
para o tratamento de determinados tipos de câncer. “As aplicações são va-
riadas, precisamos investir em pesquisa, pois isso representa desenvolvi-
mento tecnológico para o país”, avalia Augusto Fonsêca.
A integração de alunos na pesquisa é outra vantagem ressaltada pelo
professor. Segundo ele, uma das prioridades da escola é formar profissio-
nais qualificados e com capacidade para responder aos desafios deman-
dados pela economia local. “Em qualquer parceria que estabelecemos
com as empresas locais, a participação dos estudantes é uma exigência
inegociável”, conta.
José Adriano Lins de França é um dos alunos que integra a equipe de
pesquisa. Estudante do curso Técnico em RECURSOS NATURAIS, ele acre-
dita que a experiência será útil para a sua atuação profissional. “
O ramo de
novas tecnologias está crescendo. Seria importante se todo aluno pudesse
vivenciar a aplicação da teoria que aprendemos em sala de aula na prática.
A participação nesse estudo ampliará os meus conhecimentos e as minhas
chances de ingressar no MERCADO DE TRABALHO”, comemora.
P
ara Danilo Ferreira, que faz o mesmo curso de Adriano, essa parceria é
uma via de mão dupla. “Nós aprendemos e a escola contribuiu com conhe-
cimentos que estimulam o desenvolvimento da economia local”, analisa.
Pelo potencial econômico, alunos e docentes têm motivos de sobra para
investir na área. De acordo com o Sindicato dos Mineradores Não-Metáli-
cos (Sindiminerais), a produção de bentonita gera um faturamento anual da
ordem de R$ 60 milhões, correspondendo a uma média de R$ 3 milhões
por ano em impostos para o estado. Além disso, estão empregados hoje, no
setor de mineração e beneficiamento, aproximadamente, 500 trabalhado-
res, com renda média mensal de R$ 300,00.
Reportagem: Stela Rosa
O estudante José Adriano Lins de França
também participa da pesquisa
São consumidas no mercado interno quase
300 mil toneladas de argila do tipo bentonita,
ou dois terços do total produzido no país
22
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Com o avanço da tecnologia e a necessidade de um constante aprimo-
ramento da qualidade e capacidade de produção das empresas, de forma
a atender às exigências do mercado, SISTEMAS digitais microcontrolados
vêm sendo utilizados em larga escala nos processos de produção das indús-
trias automotivas e de eletroeletrônicos.
Acompanhando essa tendência de mercado e o necessário aprimoramento
profissional de seus estudantes, o Centro Federal de Educação Tecnológica do
Mato Grosso incluiu, há dois anos, em suas atividades de classe, um kit didático
de desenvolvimento microcontrolado que propicia aos alunos dos cursos técni-
co em Eletrônica e superior de Tecnologia em Automação Industrial o estudo e
aplicação prática de sistemas para a automação de tarefas.
“A idéia de elaborar um sistema didático de desenvolvimento microcon-
trolado surgiu da necessidade de ter um instrumento facilitador de ensino”,
explica o professor que idealizou o projeto no ano de 2003, Ghilson Rama-
MICROELETRÔNICA
Ensino aliado à tecnologia
Estudantes do Cefet/MT criam kit e desenvolvem
práticas na área da microeletrônica
SISTEMAS
A necessidade de diminuir custos
e aumentar a produção fez da
eletrônica digital, especialmente de
sistemas microprocessados, uma
ferramenta de grande utilidade para
o engenheiro eletrônico. Dispositivos
cada vez menores e potentes
surgiram, e dentre eles encontram-
se os microcontroladores.
Fotos: Divulgação Cefet/MT
O kit didático de desenvolvimento microcontrolado possibilita a realização de montagens práticas
23
REPORTAGENS
lho Corrêa. De acordo com Ramalho, o sistema
teria que fornecer ao futuro profissional uma base
sólida para o desenvolvimento de novas soluções
em aplicações industriais, automotivas, médicas,
domésticas, ou até mesmo aperfeiçoar as existen-
tes com tecnologia moderna e compacta.
Hoje em dia, a maioria dos ELETRODOMÉSTICOS
de uma casa reúne em si o princípio dos micro-
controladores. O usuário envia ordens ao sistema
através de botões e comandos que são transmitidas
à parte mecânica que executa a ação. Para o usuário do dia-a-dia, a comple-
xidade das ações que se integram no corpo desse sistema é confortavelmente
oculta por uma interface de metais e plásticos. “Mas para o profissional téc-
nico ou tecnólogo que atua no campo da microeletrônica, saber interpretar e
interferir em cada uma dessas etapas é essencial ao correto funcionamento e
contínuo desenvolvimento desses sistemas”, explica Ramalho.
Segundo Ramalho, o kit didático é resultado de um projeto de pesquisa ini-
ciado em agosto de 2002. Durante o desenvolvimento da pesquisa, o objetivo
principal era construir uma plataforma de estudo para aplicações práticas basea-
das em microcontroladores, e que pudesse ser efetivamente aplicada ao ensino
profissionalizante, demonstrando assim características e vantagens da utilização
de microcontroladores em sistemas reais. “Hoje, esta plataforma de desenvol-
vimento proporciona ao aluno interessado em estudar sistemas de controle co-
nhecimentos correlatos importantíssimos e uma grande fonte de aprendizado”,
explica Ramalho. Para o docente, ela também permite a união de diversas áreas
do conhecimento tecnológico, colaborando para a formação de profissionais
dotados de bases teóricas e práticas em sistemas microcontrolados.
Antes mesmo de ser utilizado em sala de aula, o kit didático participou
de uma exposição na primeira feira de ciências Amazon-Tech, realizada
em Cuiabá/MT. “Na divulgação do kit, ainda em fase experimental, houve
grande interesse por parte de estudantes de escolas técnicas públicas e pri-
vadas, hobistas, técnicos e engenheiros ligados à área de sistemas digitais,
controle e automação, eletrônica embarcada, aquisição de dados, alarmes
e miniaturização de equipamentos”, conta Ramalho.
ELETRODOMÉSTICOS
Os sistemas que empregam
microcontroladores têm provocado uma
revolução ainda em andamento na vida
das pessoas. Seja no trabalho, no lar
, na
escola ou no lazer, as soluções integradas
são encontradas nas mais inesperadas
situações do nosso dia-a-dia. Exemplos
contemporâneos são os carros mais
seguros e confortáveis, eletrodomésticos
inovadores e equipamentos portáteis
com múltiplas funções.
A idéia de elaborar
um sistema didático
de desenvolvimento
microcontrolado
surgiu da necessidade
de ter um instrumento
facilitador de ensino
Exposição do kit didático durante a Amazon-Tech
24
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Facilidade no aprendizado
Na opinião do estudante do curso técnico em Eletrônica, Marcos Antô-
nio Mendes, na elaboração de um projeto digital é quase impossível deixar
de utilizar um microcontrolador, principalmente pensando na redução de
custo, consumo de energia, tamanho do equipamento, confiabilidade e
proteção do software que é gravado internamente. “O kit didático possibi-
lita a realização de montagens práticas de eletrônica e faz despertar ainda
mais a nossa curiosidade”.
De acordo com Mendes, o kit proporciona, de forma simples, o funcio-
namento de dispositivos utilizados nos diversos campos comerciais com ex-
trema perfeição. Sua aplicação vai desde um simples acender de uma lâm-
pada com tempo programado ao mais complexo dispositivo de visualização
de imagens através do display alfanumérico. “As aulas de programação de
MICROCONTROLADORES, que antes eram interminavelmente cansativas,
agora são simples e envolventes”.
Ramalho insere a visão de educador: “P
ercebíamos que os alunos ti-
nham potencial para aprender mais, mas não tínhamos o elemento princi-
pal: uma ferramenta para praticar. Quando incluímos o kit e os estudantes
começaram a observar resultados práticos, o interesse e a satisfação pelo
trabalho aumentaram, mostrando que esta é uma poderosa ferramenta di-
dática”, argumenta ele.
Hoje, há 25 kits que ficam no laboratório da instituição. A ferramen-
ta didática já beneficiou o aprendizado de cerca de 140 alunos dos cur-
sos técnicos de Eletrônica e Telecomunicações e ainda o tecnológico em
Automação Industrial. Bene Jazem Bandeira Nobre foi um dos estudantes
que colaboraram na implantação do projeto e que viu as turmas seguintes
aprenderem a partir da plataforma. “Com o kit didático, houve uma melho-
ra significativa na qualidade da informação que é passada aos alunos. Hoje,
eles têm a oportunidade de utilizar ferramentas avançadas de desenvolvi-
mento e observar imediatamente o resultado do trabalho”.
Agora, o desafio da escola é continuar aprimorando a ferramenta para
que ela acompanhe as rápidas mudanças da área de tecnologia. Ramalho
exemplifica: “Daqui a dois anos esta ferramenta vai estar obsoleta. Vamos
tentar desenvolver versões melhoradas por meio de novas pesquisas e pro-
postas. O conhecimento é fruto de construções permanentes: quanto mais
se cria, maior o sentimento de continuar construindo”.
Para o diretor do Cefet/MT, Henrique do Carmo Barros, esta plataforma
de desenvolvimento proporciona um salto adiante na qualidade do ensino
oferecido pela instituição. “Ela representa apenas o primeiro passo no de-
senvolvimento de seus alunos e, sem dúvida, irá inspirá-los à busca de no-
vas idéias”. Segundo o diretor, com o apoio necessário, essas idéias poderão
ser concretizadas, proporcionando uma constante evolução na qualidade
de ensino aos alunos da escola.
Reportagem: Marco Fraga
MICROCONTROLADORES
Trata-se de um conjunto de
componentes integrados que
reúnem todos os circuitos
necessários à implementação de
diversos sistemas digitais e que
podem ser programados com o
auxílio de um computador comum.
Com o kit didático,
houve uma melhora
significativa na
qualidade da
informação que é
passada aos alunos
25
ARTIGOS
RESUMO
Este artigo apresenta a trajetória da ForLogic Software, uma das empresas
incubadas no hotel tecnológico da UTFPR/Campus Cornélio Procópio, desde
a fase de projeto, iniciada em 2003. Atualmente, a empresa está lutando para
se consolidar no mercado e contribuir para modificar o ambiente em que
está inserida. Apesar das dificuldades enfrentadas, os empreendedores têm
demonstrado comprometimento com seus objetivos e alcançado progressos
significativos. O texto descreve a importância do apoio do programa de em-
preendedorismo e inovação da universidade para que a empresa pudesse
A trajetória de uma empresa
incubada no hotel tecnológico:
o caso ForLogic Software
DE BASTIANI, Jeison A.; MARINHO, Diogo A.; JACOMETTI, Márcio
Universidade Tecnológica Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio
Palavras-chave: Empresa Incubada; Programa de Incubação; Acesso a Mercado.
Fotos: Márcio Jacometti
26
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
dar seus primeiros passos e entrar no difícil mercado de comercialização de
softwares, menciona a conquista de bolsas junto ao CNPq para manter uma
equipe de desenvolvedores, apresenta um esboço de seus principais produ-
tos e serviços, bem como os principais clientes referenciais conquistados e as
parcerias realizadas. Permanecer e crescer no mercado é um grande desafio
e o diferencial que a ForLogic possui é a personalização de suas soluções com
foco na qualidade. Desta forma, a empresa pretende atingir suas metas e con-
tribuir para o desenvolvimento tecnológico e social na região de atuação.
Introdução
A ForLogic Software
1
é uma jovem empresa pré-incubada inicialmente
no hotel tecnológico da UTFPR, Campus de Cornélio Procópio, desde agosto
de 2003, quando ainda era um projeto. No início, sua equipe era formada
por quatro alunos graduandos do curso superior de Tecnologia em Sistemas
de Informação. Constituída legalmente em maio de 2004, atua na área de
desenvolvimento de sistemas e atualmente atende instituições financeiras,
indústrias e órgãos públicos, desenvolvendo softwares de qualidade, fáceis
de usar e seguros. Em 2005, a empresa passou para a fase de incubação e uti-
lizou uma sala cedida pela universidade. A partir de então, a incubadora de
inovações foi inaugurada em março de 2008 e a empresa já migrou para este
novo habitat de inovação. O foco de atuação é a criação de soluções para
aumentar a produtividade e reduzir os custos operacionais dos clientes.
O artigo busca apresentar a empresa, seus produtos, clientes, casos de
sucesso e as instituições parceiras, sendo dividido da seguinte forma: descri-
ção do suporte oferecido pelas instituições que apóiam a empresa e apre-
sentação das soluções criadas em termos de produtos e serviços. Os casos
de sucesso são apresentados na seqüência, bem como os depoimentos de
alguns clientes referenciais e a visão da empresa em relação a seu futuro na
região onde está situada, suas estratégias e seus objetivos sociais.
Apoio e infra-estrutura
Para se iniciar um empreendimento, na maioria das vezes, são necessá-
rios investimentos para compra de materiais, pagamento de serviços de ter-
ceiros e de colaboradores (funcionários, estagiários, bolsistas, fornecedores
etc.). Arrecadar esses recursos financeiros pode ser um problema para uma
empresa que está iniciando e ainda não tem um fluxo de caixa estável.
Através da UTFPR, a ForLogic Software e os outros empreendimentos
incubados têm apoio técnico e econômico, além de participar de projetos
de pesquisa e extensão em parceira com a universidade. Essa interação
empresa-universidade oferece uma troca de informações excelente para a
disseminação do conhecimento em ambas as partes.
Uma empresa não pode ser criada apenas com boas idéias e força de von-
tade, o problema da falta de recursos financeiros é comum. Por esse motivo,
os apoios citados são fundamentais para que o empreendimento possa cres-
cer. Com a parceria, os profissionais puderam se fixar na empresa e batalhar
por ela, sabendo que outras instituições de renome acreditam na idéia.
1. A ForLogic Software é uma empresa
que desenvolve softwares que buscam
aumentar a produtividade e auxiliar na
gestão da qualidade em indústrias de
médio e grande porte. Atua também
na criação de soluções em softwares
sob encomenda. Possui três produtos:
MyLogical – Gestão de Calibrações
e Instrumentos de Medição; GEDi
– Gerenciador Eletrônico de Documentos
e Informações e NCTracker – Controle e
Acompanhamento de Não-Conformidades.
Jeison Arenhart de Bastiani
é graduado em Tecnologia
em Sistemas de Informação
pela UTFPR/Campus Cornélio
Procópio e sócio-proprietário
da ForLogic Software.
Diogo Arenhart Marinho é
graduado em Tecnologia
em Sistemas de Informação
pela UTFPR/Campus Cornélio
Procópio e sócio-proprietário
da ForLogic Software.
Márcio Jacometti é mestre
em Administração, linha
de pesquisa: gestão
da produção e estudos
de estratégias para o
desenvolvimento local,
especialista em gestão
da qualidade total e
desenvolvimento gerencial,
coordenador da incubadora
de inovações da UTFPR/
Campus Cornélio Procópio.
27
ARTIGOS
Mediante projetos submetidos ao hotel tecnológico, foram realizadas
viagens a eventos, treinamentos freqüentes, visitas gerenciais, participações
em feiras, além da oferta de ambiente de trabalho adequado com acesso
gratuito à internet, limpeza, vigilância e energia elétrica.
Vários professores se tornaram colaboradores e orientam a empresa
em editais de fomento junto aos órgãos do Governo Federal, como foi o
caso do CNPq (2006), quando a ForLogic foi contemplada no Edital RHAE
Inovação, em 2005, para empresas do setor de informática. Com isso, a
empresa conseguiu oito bolsas por 18 meses para colaboradores que já
estão trabalhando no projeto contemplado e aprendendo a desenvolver
software com qualidade.
O Proem – Programa de Empreendedorismo e Inovação da UTFPR con-
ta, em Cornélio Procópio, com dois ambientes de incubação: o hotel tecno-
lógico (2007) e a incubadora de inovações, buscando incentivar a formação
de futuros empreendedores, através de uma infra-estrutura que possibilite a
transformação de idéias em negócios, contribuindo para a transferência de
conhecimento e tecnologia, além da consolidação do empreendimento.
A Universidade Tecnológica Federal do Paraná é a primeira assim deno-
minada no Brasil, tendo sido criada em outubro de 2005, com a transfor-
mação do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná (Cefet/PR).
Tem uma ampla abrangência, com onze campi no estado (UTFPR, 2007).
Cada campus mantém cursos planejados de acordo com a necessidade da
região onde está situado, ofertando cursos técnicos, tecnologias e engenha-
rias, todos reconhecidos pelo Ministério da Educação, sendo a maioria com
conceito A, além de cursos de pós-graduação lato e stricto sensu.
A ForLogic Software está instalada na cidade de Cornélio Procópio/
PR, com mesas, cadeiras, computadores e outros equipamentos já ad-
quiridos pela própria empresa. Foi a primeira empresa que realmente
incubou no hotel tecnológico.
Atualmente, possui um escritório
dentro da UTFPR, que reduz cus-
tos e aumenta a proximidade com
a academia. Além disso, o Proem
disponibiliza laboratórios, salas
de reunião, entre outros, além de
apoiar com consultorias específi-
cas, cursos de gestão empresarial
e oferecer suporte para a abertura
legal da empresa.
A empresa utiliza tecnologia de
ponta no desenvolvimento de siste-
mas, inovando em seus produtos.
Atualmente, estabeleceu um pro-
cesso de desenvolvimento próprio,
utilizando metodologias e tecnolo-
gias já consolidadas, porém volta-
das para a realidade de equipes de
desenvolvimento reduzidas.
28
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Apoio do CNPq
O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
– CNPq (2006), através de edital do Programa de Desenvolvimento de
Recursos Humanos para Atividades Estratégicas em Apoio à Inovação Tec-
nológica (RHAE-Inovação), selecionou um projeto da ForLogic Software
para financiamento.
Este projeto propõe uma nova versão de um dos produtos da empresa,
o software MyLogiCal. O projeto, que visa desenvolver o software em ca-
madas com interface web e novas funcionalidades, teve início em janeiro
de 2006 e está sendo concluído em agosto de 2007. Através do CNPq,
foram investidos R$ 69.926,72 em bolsas para colaboradores atuarem
em desenvolvimento de software. Além de desenvolver a nova versão do
MyLogiCal, estes investimentos foram utilizados para realizar pesquisas,
buscando formas de melhorar o processo de desenvolvimento deste e de
outros produtos.
Outro parceiro fundamental é a Associação de Desenvolvimento Tec-
nológico de Londrina – Adetec, que possibilita o contato com indústrias
da região que estejam interessadas no desenvolvimento tecnológico do
norte do Paraná. Através da Adetec, foi feita uma parceria com a socie-
dade Softex, que auxilia empresas de desenvolvimento de software na
busca da qualidade e da excelência, criando caminhos para a exportação
dos softwares desenvolvidos no Brasil. Este é um caminho que está no
planejamento estratégico da empresa, além da busca pela certificação no
desenvolvimento de softwares.
Produtos e desenvolvimento sob demanda
A ForLogic Software presta serviços desenvolvendo soluções sob deman-
da para seus clientes, ou seja, identificando uma necessidade do cliente e
desenvolvendo uma solução específica para aquele caso.
Um suporte informatizado permite que a informação seja assimilada
sempre da mesma maneira, de modo que qualquer funcionário retome o
trabalho sem quebra de continuidade. Afinal, é muito mais fácil acessar o
arquivo de um cliente num sistema informatizado do que encontrar refe-
rências numa pilha de pastas não padronizadas de um colega num sistema
operacional. Com o advento da internet, a
ForLogic Software também desenvolve so-
luções sob demanda a distância, com todas
as entrevistas com usuários, levantamento
de requisitos e avaliações feitas a distância
(através telefone, videoconferências, Mes-
senger, e-mails e chats).
Os produtos são desenvolvidos com
foco no cliente e surgem de necessidades
que são compartilhadas por diversas em-
presas. Alguns dos produtos estão descritos
na seqüência.
29
ARTIGOS
MyLogiCal – Gestor do
processo metrológico
O MyLogiCal é um software ges-
tor do processo metrológico para ge-
rência de instrumentos de medição,
padrões e calibrações, desenvolvido
para atender a normas internacionais
de qualidade, como ISO 9000, QS
9000, ISO 10012 e ISO/IEC 17025
(FORLOGIC, 2007).
O público-alvo do projeto são
indústrias que possuam ou preten-
dam possuir um laboratório metro-
lógico para a aferição/calibração
de seus instrumentos de medição
ou que possuam um número considerável de instrumentos a serem calibra-
dos e que realizam essas calibrações com laboratórios terceirizados.
O MyLogiCal integra diversas funcionalidades para uma completa ges-
tão de instrumentos, padrões e calibrações. Essas funcionalidades estão di-
vididas em gerências, o que possibilitou a centralização das operações e
funcionalidades com mesmo propósito, tornando a utilização do sistema
muito simples. A interface amigável e fácil de ser utilizada foi projetada sob
conceitos de ergonomia e usabilidade para reduzir o trabalho e o desgaste
de quem utiliza o sistema.
GEDi – Gestor eletrônico de documentos e informações
O GEDi (FORLOGIC, 2007) realiza a gerência eletrônica dos documen-
tos de uma organização. Com ele, todos os documentos de uma empresa
podem ser compartilhados entre os funcionários, de forma que um fun-
cionário consegue acessar seus documentos de qualquer computador da
empresa, facilitando assim o back-up dos arquivos e a disseminação da
informação, já que um funcionário pode disponibilizar seus documentos
para outras pessoas, se achar conveniente. Documentos como propostas,
contratos, relatórios, formulários, entre outros, poderão ser facilmente com-
partilhados e distribuídos na organização.
NCTracker – Controle e acompanhamento
de não conformidades
Atualmente, as empresas estão cada vez mais preocupadas em aumen-
tar a qualidade de seus produtos e se diferenciar no mercado. Isso pode
ser conseguido através dos sistemas de gestão, tais como ISO 9000 (gestão
da qualidade), ISO 14000 (gestão ambiental), entre outros que exigem o
tratamento e acompanhamento das não conformidades identificadas. O
NCTracker é um software que tem o objetivo auxiliar de acompanhar as
ocorrências e correções de não conformidades (NC) dentro de uma or-
ganização. Para isso, se propõe a gerenciar os usuários, ações corretivas,
preventivas e demais informações das etapas de correção das NCs.
30
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Casos de sucesso
Cia. Iguaçu de Café Solúvel
A ForLogic implantou o LogiCal na Cia. Iguaçu de Café Solúvel, um dos
maiores exportadores de café do Brasil. O aplicativo ajudou a equipe de
controle e garantia da qualidade a aumentar sua produtividade e eficiên-
cia, otimizando o tempo dos colaboradores envolvidos com as tarefas de
calibração dos instrumentos de medição, garantindo a rastreabilidade do
processo e oferecendo acesso imediato à informação.
UTFPR
A Universidade Tecnológica Federal do Paraná é a primeira assim deno-
minada no Brasil. Possui onze campi no estado e oferece 41 cursos superio-
res de tecnologia e engenharias, entre outros. Anualmente, todos os campi
precisam preencher relatórios sobre a gestão de relações empresariais e co-
munitárias e enviá-los à Pró-Reitoria da UTFPR. A ForLogic Software desen-
volveu uma solução para integrar essa gestão dos campi, agilizando e dando
maior confiabilidade a este processo. O software instalado controla todos
os indicadores de desempenho das gerências de relações empresariais e
comunitárias de cada campus e facilita a integração das informações.
Sicredi
O Sicredi é uma cooperativa de crédito que atua na região Sul do Brasil.
A ForLogic Software proporcionou, no primeiro ano, uma economia de
seis vezes o valor investido pelo Sicredi Norte do Paraná (que controla 17
postos), com a implantação de ferramentas de automação de escritório,
reduzindo o retrabalho e otimizando o tempo dos funcionários.
Sicoob
O Sicoob também é uma cooperativa de crédito distribuída por vários
estados do país. A ForLogic atende a uma regional situada em Londrina
que administra três agências e suas soluções poderão ser implantadas em
diversas cooperativas do Paraná.
Foi desenvolvida uma solução que funciona como intranet, ligando to-
dos os postos do Sicoob Norte do Paraná. Com isso, a troca de informações
ficou muito mais rápida e eficiente, assim como a emissão e o acompanha-
mento de comunicados e informativos.
Contribuições sociais da empresa
A região de Cornélio Procópio possui poucos investimentos voltados
para geração de empregos na área de tecnologia. Também não possui um
número adequado de empresas que atuam no setor tecnológico para absor-
ver a mão-de-obra qualificada gerada pela UTFPR.
Muitos egressos da UTFPR envolvem-se em outras atividades não rela-
cionadas ao curso superior realizado ou precisam se deslocar para centros
31
ARTIGOS
maiores em busca de emprego. Com a criação de empresas de tecnologia
próximas à UTFPR os benefícios são mútuos.
A comunidade se beneficia com a criação de empregos de tecnologia
mediante programas de incubação de empresas de base tecnológica na
universidade. Assim, surgem os habitats de inovação, dando oportunidades
de estágios e empregos para os alunos, troca de informações e geração
de produtos e serviços inovadores. A empresa ganha com a mão-de-obra
qualificada, além de ter seus custos reduzidos e intercâmbio com as outras
empresas no ambiente de incubação.
Visão de futuro
A ForLogic possui uma visão de futuro muito clara. Pretende, juntamente
com o Programa de Empreendedorismo
1
e Inovação da UTFPR e entidades
parceiras, realizar uma mudança no perfil da região, criando um ambiente
propício à inovação e ao desenvolvimento tecnológico.
A empresa sabe do peso desta responsabilidade e da dificuldade na ta-
refa, porém, tanto sócios como colaboradores já vislumbram uma empresa
que desenvolva software no interior e comercialize nos grandes centros. A
equipe de desenvolvimento é composta apenas por profissionais da cidade
e região. Num futuro breve, os produtos serão comercializados também em
Curitiba, São Paulo e assim sucessivamente, em cada capital que demons-
trar potencial e onde sejam prospectados novos clientes.
Política de recursos humanos
Para os colaboradores, a ForLogic oferece a oportunidade de cresci-
mento junto com a empresa, pessoal e profissionalmente. No ambiente de
trabalho, prevalece o bom relacionamento interpessoal durante a jornada,
com intervalos regulares para café e demonstrações de como cada colabo-
rador é importante para o crescimento da empresa.
Os colaboradores recebem treinamentos constantes que enriquecem
seus currículos e proporcionam a experiência necessária para atuar no
mercado de trabalho. A empresa oferece treinamentos técnicos, huma-
nos e organizacionais, que muitas vezes são ministrados por alguns dos
próprios colaboradores. Todos os colaboradores também participam de
reuniões periódicas para ficarem cientes dos rumos da empresa e das
dificuldades enfrentadas, opinando muitas vezes em decisões estratégi-
cas. Com isso, os colaboradores atuam como intra-empreendedores e
não apenas como empregados da empresa, visualizando outros valores
que vão além da remuneração. Esta política foi adotada em função dos
seguintes problemas:
dificuldades para contratar colaboradores para período de experiên-
cia sem remuneração;
alta rotatividade de profissionais na área de desenvolvimento de
software; e
manter colaboradores com remuneração compatível para uma em-
presa start-up.
•
•
•
1. A Incubadora de Inovações (IUT)
é um projeto iniciado em 2006, em
parceria com a Secretaria de Estado
de Ciência, T
ecnologia e Ensino
Superior do Paraná (SETI-PR) e a
Fundação de Apoio à Educação,
Pesquisa e Desenvolvimento Científico
e Tecnológico da UTFPR (FUNTEF-
PR). Trata-se de um habitat de
empreendimentos de base tecnológica,
lotado na Universidade, com o objetivo
de apoiar empresas nascentes,
tanto da comunidade interna quanto
da externa. A Incubadora é um
mecanismo de apoio do Programa
de Empreendedorismo e Inovação
(PROEM) que dá continuidade aos
trabalhos desenvolvidos na pré-
incubação do Hotel Tecnológico,
acolhendo também empresas da
região. O diferencial da Incubadora
é o de estar localizada dentro de
uma entidade promotora e criadora
de tecnologia, com infra-estrutura
própria, podendo agregar alunos e
pesquisadores da UTFPR.
32
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Assim, para resolver esta situação, decidiu-se realizar investimentos no
bem-
estar e na satisfação dos colaboradores. Reuniões periódicas foram
realizadas para esclarecer a situação da empresa (dificuldades financeiras,
estratégicas e organizacionais); procurou-se ouvir e adotar sugestões; respon-
sabilidades foram delegadas e buscou-se reconhecer os méritos dos colabo-
radores. Para tanto, a empresa adotou a realização de dois intervalos para o
café e ginástica laboral, criando um momento de lazer dentro da empresa e
passou a ofertar capacitação diversificada para os todos os colaboradores.
O trabalho em escritório muitas vezes pode causar lesões por esforço
repetitivo, principalmente quando os colaboradores trabalham o dia todo
com o computador. A empresa acredita que seu maior patrimônio é o ca-
pital humano e, por isso, precisa estabelecer uma prática que evite lesões
que ocorrem no ambiente de trabalho, devido ao excesso de utilização do
computador. A ginástica laboral, portanto, habitua todos os colaboradores a
realizar exercícios de alongamento, procurando exercitar as partes que mais
sofrem durante a jornada de trabalho e todos os colaboradores têm a opor-
tunidade de conduzir os exercícios. Esta prática simples e eficaz minimiza
os malefícios causados pela utilização contínua do computador.
Como resultado, o ambiente de trabalho tornou-se mais agradável; aumen-
tou a confiança entre as pessoas da equipe e a identificação do colaborador
com a empresa; houve redução do desgaste ocorrido pelo trabalho diário e,
conseqüentemente, do estresse, aumento da produtividade e da satisfação dos
colaboradores no ambiente de trabalho. Com isso, a empresa tem conseguido
manter colaboradores que recebem outras propostas de trabalho com salários
superiores aos oferecidos, por muito mais tempo, reduzindo a rotatividade.
Considerações finais
A ForLogic Software espera colaborar para mudar o perfil da região, con-
tinuar a gerar empregos na área de tecnologia, melhorar a remuneração dos
colaboradores gradativamente e contribuir para o desenvolvimento tecno-
lógico juntamente com seus parceiros. Seus produtos e serviços são claros
e objetivos, buscando firmar, com isso, uma relação de confiança com os
clientes e torná-los, acima de tudo, parceiros. A empresa conta com doze
colaboradores e teve um crescimento no faturamento em 2007 de 70%. Os
colaboradores da empresa já possuem essa visão de parceria e compartilham
o sonho de que num futuro próximo a empresa possa atingir seus objetivos.
REFERÊNCIAS
CNPq. Edital MCT/CNPq 03/2006 – RHAE-Inovação. Brasília, 2006. Disponível em: http://
www.cnpq.br/ editais/ct/encerrados.htm. Acesso em: 26 de setembro de 2006.
______ Cornélio Procópio, 2008. Disponível em: http://www.cp.utfpr.edu.br/noticia.
php?noticia=128. Acesso em: 18 de março de 2008.
HOTEL TECNOLÓGICO. Programa de Empreendedorismo e Inovação. Cornélio Procópio, 2007.
Disponível em: http://www.cp.cefetpr.br/empreendedor. Acesso em: 23 de agosto de 2007.
FORLOGIC Software. Empresa. Cornélio Procópio, 2007. Disponível em: http:// www.forlo-
gic.com.br. Acesso em: 23 de agosto de 2007.
UTFPR – Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Curitiba, 2007. Disponível em: http://
www.utfpr.edu.br. Acesso em: 23 de agosto de 2007.
33
ARTIGOS
RESUMO
A metrologia, conceituada como ciência das medições, possui um papel
de grande destaque em diversos países desenvolvidos devido à sua im-
portância econômica, social e ambiental, sendo um requisito obrigatório
para a elaboração de suas políticas industriais. Esta é presente no coti-
diano de todos os cidadãos, pois a todo momento é comercializado um
determinado produto que foi contado, pesado ou medido. Dessa forma,
a metrologia legal participa de todos os níveis e setores da atividade hu-
mana, explicitando definições legais, técnicas e administrativas, métodos
de medição, instrumentos de medida, materiais de referência. O valor
dos experimentos químicos ou de uma medição, sempre dependerá da
confiabilidade que possa ser oferecida em seus resultados. O número de
laboratórios que estão adotando os princípios de garantia de qualidade
(GQ) vem crescendo satisfatoriamente. Dessa maneira, o laboratório re-
A metrologia no cotidiano
e suas principais funções
BRAZ, Danilo C.; FONTELES, Carlos A. L.; BRANDIM, Ayrton S.
Centro Federal de Educação Tecnológica do Piauí
Palavras-chave: Metrologia; Qualidade; ISO/IEC 17025.
Fotos: Danilo Cavalcante Braz
34
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
vela aos interessados em seus serviços que possui capacidade para forne-
cer resultados confiáveis através de equipamentos e condições ambientais
adequadas, pessoal competente, métodos validados, entre outros requi-
sitos para uma GQ apropriada. É neste contexto que a confiabilidade
adquire um elevado grau de importância, dado o seu enorme potencial
para o aumento de produtividade e melhoria de qualidade dos serviços.
Assim, a noção de confiabilidade exerce grande influência na percepção
e avaliação que os usuários fazem sobre a qualidade destes dados ou até
mesmo sobre os laboratórios que realizaram o ensaio.
Introdução
A metrologia e o cotidiano
Com o aumento da tecnologia, a cada dia cresce o ambiente compe-
titivo sempre na busca de uma maior produtividade e qualidade. Assim,
indústrias, empresas, entre outros, têm procurado respostas para o cresci-
mento de sua competitividade basicamente em duas “formas de ataque”:
na melhoria de seus processos produtivos e no incremento dos seus proces-
sos de produção de novos produtos. Dessa forma, a confiabilidade adquire
um elevado grau de importância, devido à sua grande influência para o
aumento na produtividade e na melhoria da qualidade dos serviços (PUC/
Certificação Digital nº 0125205/CA).
A metrologia, conceituada como ciência das medições, possui um pa-
pel de grande destaque em diversos países desenvolvidos devido à sua
importância econômica, social e ambiental, sendo um requisito obrigató-
rio para a elaboração de suas políticas industriais. Esta é presente no coti-
diano de todos os cidadãos, pois a todo o momento é comercializado um
determinado produto que foi contado, pesado ou medido de certa forma.
Exemplos diários, como um taxímetro que mede a distância percorrida
pelo táxi e calcula o valora ser pago, o hidrômetro que mede quantos m
3
de água foi consumido, a necessidade de saber a temperatura do corpo
humano por meio de um termômetro clínico, da mesma forma, a pressão
arterial que é medida por um aparelho chamado esfigmomanômetro, en-
tre vários outros exemplos (FILHO, 2004).
Dessa forma, as medições fazem parte da vida humana e sua extinção
ocasionaria um caos total em toda a população. Sendo assim, é colocado
o seguinte questionamento: se as medições são realizadas na maioria dos
produtos que a população consome, como saber se elas estão realmente
corretas? Como saber se o pacote de açúcar comprado no mercado tem
realmente os cinco quilos especificados em sua embalagem? E a balança
utilizada nessas pesagens fornece resultados confiáveis? No entanto, para
cuidar desses problemas, existe a metrologia legal. Já existem grupos, for-
mados por órgãos do governo, laboratórios e organismos credenciados,
que são responsáveis pela criação e execução de normas relacionadas
com a utilização das medições (Ibid, 2004). Em todo o mundo, existem
organizações nacionais e internacionais que utilizam a metrologia. No
Brasil, parte desta, relacionada com as transações comerciais, é regulada
pelo Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qua-
lidade Industrial. Este tem como objetivo proporcionar às empresas um
Ayrton S. BRANDIM é
professor doutor do grupo
de pesquisa em materiais e
metrologia – G.PMM, Cefet/PI.
Carlos A. L. Fonteles é
professor especialista da
Universidade Federal do Piauí,
do Departamento de Química e
do Laboratório de Análises de
Combustíveis (Lapetro).
Danilo C. Braz é bolsista de
iniciação científica. Grupo
de pesquisa em materiais e
metrologia – G.PMM, Cefet/PI.
35
ARTIGOS
crescimento de sua produtividade, utilizando métodos com fins voltados à
melhoria da qualidade, promovendo um padrão de vida mais digno para
o cidadão brasileiro (INMETRO).
Dessa forma, a metrologia legal participa de todos os níveis e setores
da atividade humana, explicitando definições legais, técnicas e adminis-
trativas, métodos de medição, instrumentos de medida, materiais de re-
ferência. A situação que necessitar de uma confirmação relacionada com
a exatidão metrológica e a segurança dos procedimentos utilizados atua
com a metrologia legal, promovendo ações preventivas como a aprovação
de modelos, verificação inicial e periódica de medidas materializadas e
instrumentos de medição, e também ações como a fiscalização e a vigi-
lância pública. Com isso, tem-se uma sociedade mais organizada, evitan-
do a ação de cidadãos que lucram com a falsificação dos produtos que
são medidos e comercializados (FILHO, 2004).
O Inmetro participa no controle quantitativo de granéis no comércio
interno e externo, pois os erros, durantes as pesagens, medições e outros
fatores, podem, neste caso, ocasionar prejuízos aos exportadores, empre-
sários e consumidores, isto dependendo dos erros existentes nas mesmas
(BALLERINI & MOTA, 2004).
Em relação à legislação metrológica, a atuação do Inmetro tem se base-
ado em recomendações internacionais adaptadas à situação brasileira com
o intuito de criar ligações com o meio internacional, viabilizando um cres-
cente intercâmbio entre os países (Ibid, 2004).
Um breve histórico sobre a metrologia
No início dos tempos, o homem utilizava partes do corpo como um
padrão para a realização de suas medições, pois facilitava realizar uma
medida que poderia ser feita por qualquer cidadão. Dessa forma surgiram
padrões como a polegada, o palmo, o pé, a jarda e o passo. O Antigo
Testamento relata que Noé construiu a arca com uma medida chamada
côncavo, a qual era padrão somente da região onde habitava, sendo esta
equivalente a três palmos, ou em torno de 66 cm. Em geral, essas uni-
dades eram baseadas em medidas do corpo do rei, e toda a população
deveria seguir esses padrões (REMPI).
Os egípcios, em torno de 4.000 anos atrás, utilizavam o cúbito, que era
simplesmente a distância do cotovelo até o dedo médio. Como estas medi-
ções variavam em relação ao tamanho da pessoa, e estavam ocasionando
muitos erros de medição, eles começaram a utilizar barras de pedra como
padrão, surgindo assim o cúbito padrão. Com o passar dos tempos, essas
pedras foram sendo substituídas por peças de madeira, devido à facilidade
no transporte, mas como havia uma rápida degradação da madeira, foram
marcados nas paredes dos principais templos o comprimento equivalente a
um cúbito. Assim, qualquer cidadão poderia conferir seu instrumento e/ou
produzir outros, caso precisasse (Ibid).
No século XVII, na França, houve um grande avanço na utilização das
medidas. A toesa, unidade de medida linear, equivalente a seis pés-de-
rei, em torno de 182,9 cm, foi padronizada em uma barra de ferro que
36
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
possuía dois pinos nas extremidades, sendo chumbada na parede externa
do Grand Chatelet, localizada em P
aris. Como o cúbito padrão, os cida-
dãos poderiam verificar seus materiais. Logo, com o tempo, esse padrão
se desgastou e teve que ser refeito (Ibid).
Em 1790, houve a criação de um sistema único de pesos e medidas
com o intuito de encontrar uma unidade oriunda da natureza, consti-
tuindo um padrão de medidas. A mesma deveria ter suas unidades de
acordo com o sistema decimal. Portanto, para a criação desse padrão, foi
desenvolvido um projeto para determinar a distância entre Durkerque
(França) e Montjuich (Espanha), equivalente a 9,5° do meridiano, sendo
que a décima milionésima parte dessa medida foi denominada de metro,
derivado do latim metru, que significa “uma medida” e do termo grego
metron, que significa “medir”. Esses conceitos, com o avanço da tecnolo-
gia, foram modificados como se mostra a seguir (Ibid):
décima milionésima parte de um quarto de meridiano terrestre;
distância entre dois extremos da barra de platina depositada nos
arquivos da França e apoiada nos pontos de mínima flexão na
temperatura de zero grau Celcius;
distância de dois traços principais marcados na superfície neutra
do padrão internacional depositado no BIMP (Bureal Internacio-
nal dês Poids et Mesures), na temperatura de zero grau Celsius,
sob pressão atmosférica de 760 mmHg e apoiado sobre seus pon-
tos de mínima pressão;
distância que a luz percorre em 1/299.792.458 de segundo.
Sendo assim, em 1975, foi proibida por lei a fabricação de produtos
usando medidas antigas e colocando o metro como medida de comprimen-
to, o litro como medida de volume, o grama como medida de massa e o
franco como moeda. No Brasil, o metro foi adotado a partir de 26 de julho
de 1862, de acordo com a Lei Imperial nº 1.157 (assinada por D. Pedro II),
na qual foi estabelecido um prazo de dez anos para a substituição dos
padrões antigos pelo metro (Ibid).
Devido à falta de um órgão res-
ponsável pela metrologia no Brasil,
em 1961, foi criado o Instituto Na-
cional de Pesos e Medidas (INPM),
que mesmo com uma estrutura
carente e com recursos limitados,
abriu grandes portas para a expan-
são da metrologia legal no país.
Mais adiante, com a Lei nº 5.966,
foi criado o Inmetro – Instituto
Nacional de Metrologia, Normali-
zação e Qualidade Industrial, res-
ponsável por coordenar todas as
atividades relacionadas com a me-
trologia, a normalização e a certifi-
cação da qualidade de produtos e
serviços industriais (Ibid).
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•
•
37
ARTIGOS
A confiabilidade
de um sistema
de medição
Um sistema de medição (SM)
sofre a influência de diversos pa-
râmetros, tais como: temperatura
do ambiente, umidade, condição
e/ou plano de manutenção, cali-
bração etc. Portanto, são inúmeros
os fatores que podem ocasionar
erros e até o descarte do material
que está sendo produzido. Assim,
a análise de um sistema de medi-
ção – MSA (Measurement Systems
Analysis) preferencialmente é rea-
lizada pelo método estatístico para estudar o seu comportamento, pro-
porcionando uma maior confiabilidade nos seus resultados; logo, é de
suma importância o analista saber identificar quais as principais fontes de
erros que podem alterar os resultados, fazendo com que este não utilize
os recursos de correção para outros fatores ou afirme que não precisa ser
corrigido (CANOSSA).
Para tanto, é necessário que as empresas possuam um programa de con-
fiabilidade metrológica que mantenha o nível dos resultados dentro de uma
faixa de tolerância aceitável, proporcionando verificações periódicas nos pro-
cedimentos, métodos utilizados, equipamentos e uma qualificação continua-
da para os analistas. Esses métodos têm como objetivos principais (Ibid):
compreensão do processo de medição e determinação se o mesmo
poderá atender a todas as especificações exigidas; e
estando este confiável, garantir sua confiabilidade.
Mesmo com a implementação dessa qualidade, sempre irão ocor-
rer erros que invalidarão os resultados de uma determinada medição.
Um erro é caracterizado por duas componentes, nomeadamente, uma
componente sistemática e uma componente aleatória (EURACHEM). Os
erros aleatórios ou indeterminados se manifestam através de pequenas
variações nas medidas de uma amostra feitas em sucessão pelo mesmo
analista, tomando todas as precauções necessárias efetuadas sob mesmas
condições de análise. Esse tipo de erro é produzido por fatores que não
podem ser controlados pelo analista, mas geralmente pode ser reduzido
aumentando o número de análises (VOGEL, 2002).
Já os erros sistemáticos, também chamados de erros determinados,
aparecem a partir de uma falha na execução de um experimento ou em
uma falha em um equipamento. Esse tipo de erro é reprodutível se o ana-
lista conduzir o experimento várias vezes da mesma maneira, portanto,
não pode ser reduzido com o aumento do número de análises, como
acontece com o erro aleatório. Em princípio, o erro sistemático pode ser
descoberto e corrigido, embora essa não possa ser uma tarefa fácil de ser
realizada (HARRIS, 2001).
•
•
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CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Assim, quando é obtido um resultado de uma medição, é obrigatório
que seja fornecida alguma indicação quantitativa da qualidade desse re
-
sultado, para que, assim, esse possa ser avaliado, por exemplo, por um
cliente ou também por um órgão certificador. Com a falta dessa indicação,
os resultados não podem ser comparados entre si ou com valores atribuídos
em normas ou especificações. É, portanto, necessário à existência de um
procedimento que possa caracterizar e delimitar o quanto o erro pode alte-
rar o resultado de uma medição, ou seja, para expressar a sua incerteza de
medição (Ibid). Sendo assim, a incerteza de medição é conceituada como
um parâmetro associado ao resultado de uma medição obtida que caracte-
riza a dispersão de valores que podem ser fundamentalmente atribuídos ao
mensurando (VIM, 1995).
A metrologia química
O valor dos experimentos químicos ou de uma medição sempre de-
penderá da confiabilidade que possa ser oferecida em seus resultados. O
número de laboratórios que estão adotando os princípios de garantia de
qualidade (GQ) vem crescendo satisfatoriamente. Dessa maneira, o labora-
tório revela aos interessados em seus serviços que possui capacidade para
fornecer resultados confiáveis através de equipamentos e condições am-
bientais adequadas, pessoal competente, métodos validados, entre outros
requisitos para uma GQ apropriada (BRASIL, 2006).
A GQ tem como uma de suas funções verificar a ocorrência desses
erros durante as análises realizadas. Se for colocado um maior esforço
durante esses experimentos, os erros tendem a diminuir, mas nunca zerar
sua ocorrência. Como a minimização dessas falhas requer maiores recur-
sos, é necessário igualar o nível de confiança dos resultados com um custo
aceitável da GQ (Ibid).
É neste contexto que a confiabilidade adquire um elevado grau de
importância, dado o seu enorme potencial para o aumento de produtivi-
dade e melhoria de qualidade dos
serviços. Quando se trata de um
laboratório de ensaio, o conceito
de confiabilidade não é diferente.
A confiabilidade de uma análise,
por exemplo, está associada ao
grau de veracidade da resposta
dos dados fornecidos, ou seja, é
algo obrigatório, óbvio. Assim, a
noção de confiabilidade exerce
grande influência na percepção e
avaliação que os usuários fazem
sobre a qualidade desses dados ou
até mesmo sobre os laboratórios
que realizaram o ensaio (Ibid).
Segundo Cerqueira Neto, cita-
do por Paiva (2001), para a obten-
ção do conhecimento laboratorial
39
ARTIGOS
é necessária a presença de três
contribuições (CANOSSA):
os analistas do laboratório
sejam habilitados para exe-
cutar as medidas;
o uso de uma metodologia
adequada no qual explicite
os passos que serão segui-
dos pelo operador na reali-
zação de uma análise;
os instrumentos utilizados
devem ser devidamente
calibrados.
Portanto, para um laboratório
adquirir a confiança de sua cliente-
la em relação à qualidade de seus
serviços, é preciso que o mesmo
possua um reconhecimento formal
por habilitação. Nesta, um conjun-
to específico de atividades desenvolvidas pelo laboratório serão avaliadas
para garantir que as mesmas atinjam os fins estabelecidos. Essas avaliações
incluem exames dos métodos analíticos, documentação da qualidade e sis-
tema da qualidade. Sendo que as análises serão avaliadas de forma que
possam verificar se os métodos documentados presentes estão realmente
sendo seguidos de maneira correta (BRASIL, 2006).
Para a implementação dessa qualidade, pode-se citar como exemplo a
NBR ISO/IEC 17025:2005, que fornece os requisitos gerais para a compe-
tência de laboratórios de ensaio e calibração. Mundialmente conhecida, é
utilizada por vários órgãos habilitadores, nacionais e internacionais, como
norma base para a habilitação laboratorial (ISO/IEC, 2005).
Dessa maneira, o laboratório que desejar que sua competência seja ava-
liada por um determinado órgão habilitador, é necessário que seja imple-
mentado com sistema de gestão de qualidade seguindo e atendendo aos
requisitos da norma NBR ISO/IEC 17025:2005 (FUJIMURA).
Segundo Gontijo (2003), a ISO/IEC 17025 tem como objetivos
principais (Ibid):
firmar um padrão internacional e único com o objetivo de provar a
competência dos laboratórios para a realização de ensaios e/ou cali-
brações, facilitando, dessa forma, a formação de acordos recíprocos
entre os organismos nacionais;
tornar a forma como são interpretados e aplicados os seus requisitos,
evitando, assim, opiniões conflitantes entre o pessoal do laboratório
durante a adequação da mesma;
ampliação das atividades formais (escopo) em relação à ISO Guia 25,
incluindo amostragem e desenvolvimento de novos métodos;
estabelecer uma ligação mais estreita e sem obscuridades com a
ISO 9001:2000.
•
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•
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•
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CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
REFERÊNCIAS
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edição, 2002.
Considerações finais
A metrologia, desde o início dos tem-
pos, trouxe grandes benefícios para toda
a população mundial. As grandes desco-
bertas científicas foram e continuam sen-
do formuladas através de procedimentos
experimentais, ou seja, de medições.
Esta tem grande importância no desen-
volvimento tecnológico, pois a quali-
dade, a segurança e o controle de um
determinado processo são adquiridos
através de uma operação de medição
direta ou indireta. A metrologia está in-
clusa em diversos setores da sociedade,
como na medicina, química, mecânica,
biologia, educação, alimentos, materiais,
enfim, em qualquer área que utilize medições, garantindo assim uma maior
confiabilidade em seus resultados. Portando, para a obtenção de produtos
e serviços de qualidade, é necessário que as empresas, indústrias e labora-
tórios tenham implementados um programa de confiabilidade metrológica
que fornecerá uma maior qualidade e confiabilidade de seus serviços.
41
ARTIGOS
RESUMO
Este trabalho faz um estudo sobre a bioinformática, uma nova e interdisci-
plinar área do conhecimento científico, enfocando principalmente a bio-
informática estrutural. Aspectos atuais como modelagem por homologia e
docking molecular são discutidos. Além disso, ilustra como os conceitos da
bioinformática estrutural podem ser empregados para o estudo e plane-
jamento de fármacos individualizados, campo este que se relaciona com
outra área recente da pesquisa científica, a farmacogenética.
Bioinformática estrutural
aplicada à farmacogenética
RAMOS, Ricardo M.; BRANDIM, Ayrton S.; de AMORIM, Hermes L. N.
Centro Federal de Educação Tecnológica do Piauí
Palavras-chave: Bioinformática; Bioinformática Estrutural; Farmacogenética.
Foto: Divulgação Cefet/PI
42
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Introdução
A bioinformática começou a ser utilizada bem antes dos grandes pro-
jetos genoma e das tecnologias que a tornaram uma área tão importante
atualmente. A partir da década de 1980, com o aprimoramento das técni-
cas de seqüenciamento e de novas tecnologias, o termo bioinformática foi
lançado como uma nova área do conhecimento científico, representando
a interação da biologia com a informática. Esta nova área passou a fazer
parte de muitos projetos nas áreas de saúde e biociências, como forma
de organizar, armazenar e analisar grandes quantidades de dados, apre-
sentando resultados dessas análises em interfaces acessíveis via web, tor-
nando a pesquisa mais interativa e dinâmica. Uma definição mais ampla
da bioinformática seria a aplicação de ferramentas de computação para
análise, captura e interpretação de dados biológicos. É uma área inter-
disciplinar envolvendo conceitos da computação, matemática, biologia,
química, física e medicina (BAYAT, 2002).
O estudo de proteínas em bioinformática utiliza-se, por exemplo, de
anotações de seqüências de proteínas (estrutura primária) disponíveis em
bancos de dados, para obtenção de informações importantes acerca da
evolução e função dessas biomacromoléculas (BAXTER & FETROW, 2001;
BORK & KOONIN, 1998; BURKHARDT et alii, 2006).
Um dos grandes desafios da bioinformática surgiu a partir da era pós-
genômica, na qual a proteômica (área envolvida no estudo do conjunto de
proteínas presentes numa célula) emergiu como uma área de fundamental
importância para o estudo dos processos biológicos. Em decorrência dos
avanços obtidos pela proteômica, as relações estrutura-função de proteí-
nas estão sendo cada vez melhor entendidas. Isso decorre principalmen-
te do rápido aumento no número de estruturas tridimensionais (3D) de
macromoléculas biológicas (e.g. proteínas, oligonucleotídeos, fragmentos
de DNA e RNA) disponíveis em bancos de dados de acesso livre como o
PDB (Protein Data Bank) (BERMAN et alii, 2000). Por sua vez, as particu-
laridades envolvidas na análise estrutural das macromoléculas biológicas
levou à criação de uma sub-disciplina da bioinformática: a bioinformática
estrutural (BIE) (CHOU, 2004).
Ricardo Ramos é professor
de informática do Cefet/PI,
doutorando em Genética e
Toxicologia Aplicada (Ulbra/
RS), mestre em Ciência da
Computação pela Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE)
e bacharel em Ciência da
Computação pela Universidade
Federal do Piauí (UFPI). Linha
de pesquisa: bioinformática,
bioinformática estrutural e
farmacogenética. Ayrton de Sá
Brandim é doutor em Ciências
e Engenharia de Materiais pela
Universidade Federal de São
Carlos, mestre em Engenharia
de Materiais pela Universidade
Federal de São Carlos, possui
licenciatura plena em Mecânica
pela Universidade Federal do
Piauí (UFPI) e especialização em
Prática de Laboratório de controle
de Qualidade pelo Cefet de Minas
Gerais. Atualmente é professor
GR&HIHW¼3,HDWXDSULQFLSDOPHQWH
nos temas: Aços Inoxidáveis
Martensíticos, Fadiga Térmica,
Microestrutura, Soldagem.
Hermes Luís Neubauer de Amorim
é doutor em Biologia Celular e
Molecular pela Universidade
Federal do Rio Grande do
Sul, mestre em Química pela
Universidade Federal do Rio
Grande do Sul e é graduado
em Química pela Universidade
Luterana do Brasil. Atualmente é
conselheiro suplente do Conselho
Regional de Química 5ª Região
(CRQ-V) e professor adjunto do
Curso de Química da Universidade
Luterana do Brasil (ULBRA). Tem
experiência na área de Química,
com ênfase em Modelagem
Molecular e Bioinformática,
atuando principalmente nos
temas: bioinformática, dinâmica
molecular, relações estrutura-
função de macromoléculas
biológicas e planejamento racional
de agentes terapêuticos.
Fotos: Shutterstock
43
ARTIGOS
Bioinformática estrutural
A bioinformática estrutural é formada pela intersecção de três grandes
áreas: bioinformática, modelagem molecular e biologia molecular estrutu-
ral. Embora métodos tradicionais de anotação funcional trabalhem somente
com as seqüências protéicas, sabe-se que é a estrutura tridimensional de uma
proteína, não simplesmente a sua seqüência, que determina a sua atividade.
Quando a proteína se enovela, os resíduos importantes são orientados em
suas corretas posições para a formação das regiões funcionais. Essas regiões
funcionais são, na sua maioria, interfaces para ligação da proteína a molé-
culas. É bastante comum que proteínas de uma mesma família apresentem
estrutura tridimensional conservada (semelhantes na forma), mesmo apresen-
tando baixa similaridade de seqüência. De fato, está bem estabelecido que as
proteínas são mais parecidas na estrutura do que na seqüência. Nesse senti-
do, sabe-se que mais importante do que a porcentagem total de identidade
entre duas seqüências, é a identidade dos resíduos chaves, responsáveis pela
função. Assim, assumindo que a estrutura conservou a orientação tridimen-
sional relativa desses resíduos, as proteínas possuirão a mesma função.
A estrutura 3D de uma proteína pode ser obtida por métodos expe-
rimentais (e.g. cristalografia de raios-X e ressonância magnética nuclear
- RMN) (NORWELL & MACHALEK, 2000; TERWILLIGER, 2000) ou com-
putacionais como, por exemplo, modelagem por homologia (D’ALFONSO
et alii, 2001) e métodos ab initio (ORTIZ et alii, 1998).
Para se obter a estrutura 3D de uma proteína por métodos experimen-
tais é necessário que, além do emprego de um método adequado de de-
terminação estrutural, a macromolécula tenha sido previamente isolada,
identificada e seqüenciada. Como conseqüência, os requisitos necessários
para que a estrutura de uma proteína seja determinada experimentalmente
implicam um elevado custo econômico e de tempo. Ainda, em alguns ca-
sos, a obtenção da estrutura 3D de uma proteína é inacessível a partir das
metodologias conhecidas.
Por outro lado, os métodos computacionais caracterizam-se pela rapi-
dez e baixo custo na aquisição de estruturas de proteínas (XIANG, 2006;
TAKEDA-SHITAKA et alii, 2004). Neste aspecto, a bioinformática estrutural
tem sido cada vez mais empregada na predição de modelos 3D de proteí-
nas por modelagem por homologia, metodologia pela qual o vasto e com-
plexo conjunto de dados de cristalografia de raios-X e RMN é empregado
(BURLEY et alii, 1999).
Com a informação da estrutura, torna-se mais fácil e confiável atribuir a
função de uma proteína desconhecida (WATSON et alii, 2007). Além disso,
quando a proteína representa um alvo farmacológico, o conhecimento da
estrutura 3D pode ser empregado no planejamento de agentes terapêuticos
mais seletivos e eficientes (PANG, 2003; LUNDSTROM, 2006). As etapas
para utilização desse método incluem:
a) identificação do molde (template) para modelagem da proteína-alvo;
b) alinhamento da seqüência-alvo com a seqüência molde;
c) construção do esqueleto carbônico do modelo;
d) construção de regiões de alças (
loops) não conservadas;
44
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
e) ajuste do esqueleto carbônico;
f)
adição de cadeias laterais;
g) refinamento do modelo, que consiste principalmente em ajustar a
molécula, para que assuma menor estado de energia livre (minimiza-
ção de energia), utilizando programas como CHARMM, AMBER ou
GROMACS (FIGUEIREDO et alii, 1997; FIGUEIREDO, 1998a).
Farmacogenética
A farmacogenética consiste no estudo das variações interindividuais
na seqüência de DNA, relacionadas com a resposta a fármacos, eficácia
e segurança dos mesmos (HUGHES, 1999). A farmacogenética surgiu em
virtude da constatação da existência de respostas diferenciais a uma mes-
ma droga ministrada em doses equivalentes, e de que alguns desses des-
vios apresentavam padrão de herança mendeliana simples (HENRIQUES,
2003). Nesse sentido, sabe-se que fatores genéticos dão origem a popula-
ções com grandes diferenças nos níveis das enzimas biotransformadoras e,
conseqüentemente, distintas habilidades de metabolizar xenobióticos espe-
cíficos (HENRIQUES, 2003).
Dentro do conceito de gene molecular que domina os fundamentos da ge-
nética atual, os polimorfismos genéticos são diferenças de ocorrência natural
e muitos deles não causam efeito algum, porém, alguns afetam a expressão e
função de proteínas, resultando em fenótipos susceptíveis a doenças e com
respostas diferenciadas aos fármacos (WALKER & RAPLEY, 1999). O genoma
dos indivíduos tem 99,9% de similaridade, diferindo apenas em 0,1%, que
corresponde a três milhões de polimorfismos, chamados de polimorfismos
de único nucleotídeo (SNP – single nucleotide polymorphism). Dentre os
polimorfismos no genoma, os SNPs correspondem a aproximadamente 90%
das variações interindividuais, algumas das quais podem estar relacionadas
com respostas diferenciadas aos fármacos (YAGIL & YAGIL, 2002).
A ocorrência de SNPs no genoma humano é de aproximadamente um
SNP para cada 800 pares de bases, ocorrendo na forma de substituição, de-
leção ou inserção de uma base nitrogenada no DNA. Quando o polimorfis-
mo ocorre em uma região codificante do gene, pode afetar a seqüência de
aminoácidos da proteína e alterar a função da mesma. Assim, fica claro que
uma variação na seqüência das bases nitrogenadas pode afetar tanto a es-
trutura da proteína como suas propriedades físico-químicas ou, em alguns
casos, alterar a síntese da proteína envolvida no metabolismo do fármaco
ou especificamente o próprio alvo do fármaco, resultando em variação in-
terindividual na resposta ao tratamento (TROTTA et alii, 2004).
A grande variabilidade interindividual na resposta a fármacos é geral-
mente associada com mutações freqüentes no citocromo P450 e glucoro-
nil-transferases (PHILIPS et alii, 2001). Estudos têm demonstrado que certos
efeitos adversos severos provocados por fármacos, que podem levar inclu-
sive à morte, estão diretamente relacionados com determinados polimorfis-
mos em genes do citocromo P450 (PHILIPS et alii, 2001). Tal observação é
indicativa que o conhecimento sobre as mutações em determinados genes
representa parte importante de qualquer estratégia que vise reduzir a inci-
dência de efeitos adversos de certos fármacos (SADÉE & DAI, 2005).
45
ARTIGOS
Integração da bioinformática
estrutural com a farmacogenética
A farmacologia sempre teve um forte componente estrutural, isso devido
à estrutura tridimensional de fármacos ser crítica para o entendimento de me-
canismos de ação e para o projeto de desenvolvimento de fármacos (EKINS
& JONES, 2001). Nesse sentido, o número crescente de estruturas 3D dispo-
nínveis nos bancos de dados estruturais tem sido empregado para análise ou
criação de modelos de interação entre diferentes proteínas e seus substratos,
ligantes ou inibidores, cujo principal objetivo é aquisição de informações que
contribuam para o planejamento de fármacos mais eficientes e menos tóxicos.
Dados obtidos em setembro de 2007 na página do PDB (principal repositório
de estrutura de macromoléculas biológicas) mostram que este banco de da-
dos possui mais de 45.500 estruturas, sendo que os avanços tecnológicos e a
emergência na determinação de estruturas promete manter uma rápida taxa
na aquisição desses dados (BLUNDELL & MIZUGUCHI, 2000).
Os tipos de análise estrutural que estão se tornando importantes in-
cluem os seguintes métodos:
1. Métodos para
docking de pequenas moléculas (ligantes) em alvos de
proteínas para predizer a afinidade. O processo de docking envolve
o uso de algoritmos capazes de posicionar e orientar pequenas mo-
léculas (levando em consideração ou não a flexibilidade do ligante)
em um sítio de ligação (KITCHEN et alii, 2004). Além disso, muitos
desses algoritmos são capazes de estimar com boa aproximação a
energia livre de um complexo proteína-ligante. Na fase de posiciona-
mento podem ser empregados cálculos de energia simples (levando
em conta as contribuições eletrostáticas e de van der Waals), ou pro-
cedimentos mais elaborados que considerem outras propriedades,
tais como a entropia (KITCHEN et alii, 2004).
Assim é possível estudar e classificar uma série de ligantes relaciona
-
dos em termos de sua afinidade ou estimar a energia livre de ligação
(FOSTER, 2002). Devido ao crescimento do número de estruturas de
macromoléculas biológicas disponíveis, os experimentos de docking es-
tão ganhando cada vez mais importância no planejamento racional de
fármacos. Esse interesse pode ser em parte atribuído à possibilidade do
emprego de métodos de screening virtual, no qual bancos de dados de
ligantes são usados na busca automatizada por novas moléculas bioati-
vas e para identificação de novos alvos terapêuticos (SILVEIRA, 2005).
2. Métodos de modelagem por homologia com o objetivo de cons
-
truir modelos 3D de proteínas cujas estruturas não foram resolvidas
experimentalmente. Uma variedade de programas desenvolvidos e
testados oferecem boas opções para construção de modelos 3D de
proteínas globulares que possuem 30% ou mais de identidade de
seqüência com uma estrutura conhecida (SANCHEZ & SALI, 2000).
Nestas aplicações, a posição e o possível significado funcional de
SNPs não-sinônimos (tipo de SNP no qual a mutação no gene leva a
uma substituição de um aminoácido no produto gênico) em partes
codificantes de proteínas podem ser avaliados (SUNYAEV, 2001). Es-
tudos recentes estimam que 30% dos SNPs não-sinônimos podem estar
associados com mudanças significativas na função das proteínas (CHAS-
46
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
MAN & ADAMS, 2001). Há também algumas indicações que mesmo
SNPs sinônimos (não há alteração de aminoácidos) podem mudar a es
-
tabilidade do RNA e afetar o nível de atividade para algumas proteínas.
3. Métodos para predição de interações proteína-proteína. É certo
que muitas proteínas têm parceiros com quem elas interagem como
ativadores, inibidores ou, de outra maneira, como modificadores.
Progressos alcançados no desenvolvimento de algoritmos de docking
molecular proteína-proteína (CLAUSSEN et alii, 2001; STERNBERG
et alii, 1998) permitem aos pesquisadores combinar propriedades
geométricas e energéticas com a finalidade de compreender como a
superfície de duas proteínas pode interagir.
Considerações finais
O número de seqüências e estruturas 3D de macromoléculas biológicas
armazenadas nos bancos de dados públicos tem aumentado substancial-
mente, dando subsídios para a análise destes através da bioinformática. Por
exemplo, a partir do conhecimento adquirido sobre o sistema de enzimas do
citocromo P450, o qual relaciona o papel central deste nas interações entre
medicamentos, estão sendo identificados os fatores envolvidos nas diferenças
interindividuais na resposta aos fármacos: a associação com polimorfismos
genéticos, sinalizando a relevância de uma base genética para as interações
entre fármacos. Nesse sentido, o conhecimento das estruturas tridimensio-
nais das isoformas do citocromo P450 e de seus complexos com fármacos e
metabólitos vem se constituindo fundamental. Em vista destas observações,
pode-se afirmar que a bioinformática estrutural surge e se consolida como
uma área vital para o melhor entendimento das bases moleculares do reco-
nhecimento dos fármacos por enzimas específicas, o que, por seu turno, re-
presenta uma importante contribuição para o desenvolvimento de fármacos
individualizados (farmacogenética), mais eficientes e menos tóxicos.
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48
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
RESUMO
Atualmente, técnicas de análise de vibrações sofisticadas estão sendo dispo-
nibilizadas para serem utilizadas no monitoramento e classificação de falhas
em máquinas rotativas complexas. Dentre elas, podemos citar as técnicas
de inteligência artificial como redes neurais, lógica fuzzy, sistemas espe-
cialistas etc. As redes neurais são ferramentas que têm despertado grande
interesse de pesquisadores nos últimos anos. Elas possibilitam o monitora-
mento on-line da manutenção preditiva visando à minimização do tempo
entre o recebimento das informações e o diagnóstico do problema. Neste
Classificação de falhas em
máquinas rotativas utilizando
redes neurais artificiais
SANTIAGO, Darley F. de A.; BRITO, Jorge N.; PEDERIVA, Robson
Centro Federal de Educação Tecnológica do Piauí
Unidade Descentralizada de Floriano
Palavras-chave: Diagnóstico de Falhas; Máquinas Rotativas; Redes Neurais.
Fotos: Shutterstock
49
ARTIGOS
trabalho, mostra-se a viabilidade e eficiência da aplicação de redes neu-
rais na classificação de falhas numa máquina rotativa. São introduzidas na
bancada de testes (eixo-rotor-mancais) as seguintes falhas: defeito elétrico,
folga mecânica na base de fixação, desbalanceamento + folga mecânica
e desbalanceamento. Várias arquiteturas de redes neurais implementadas
com o software Matlab foram treinadas visando à obtenção de uma arqui-
tetura eficiente no diagnóstico das quatro falhas introduzidas na bancada
de testes. Resultados mostram que as redes neurais artificiais podem ser
usadas na classificação de falhas introduzidas numa bancada de testes de
forma bastante eficiente.
Introdução
A manutenção preditiva é uma ciência que usa vários tipos de dados
para determinar a condição da máquina e predizer uma falha antes que
ela ocorra. Os benefícios da manutenção preditiva, em geral, são redu-
zir o tempo de parada das máquinas, evitar panes, diminuir os custos de
manutenção e aumentar a segurança e a confiabilidade dos componen-
tes. Este componente pode ser pequeno como um transistor ou pode ser
grande como uma usina hidroelétrica (LIN & WANG, 1996) e (BAILLIE &
MATHEW, 1996). Atualmente, com a sofisticação dos sistemas das máqui-
nas, a manutenção preditiva tem se tornado uma ferramenta viável para
o monitoramento e diagnóstico de falhas. Por muitos anos, a análise de
vibrações tem sido largamente aceita como sendo o método mais confiável
de diagnóstico de falhas em máquinas rotativas. Os sinais de vibrações são
usados para o monitoramento da condição de máquinas rotativas, diagnós-
tico de falhas e estimação de severidade.
A detecção e diagnóstico de falhas são geralmente divididos em três
estágios (AMAND et alii, 2001):
Detecção – Ocorreu uma falha?
Identificação – Onde a falha ocorreu?
Diagnóstico – Por que a falha ocorreu?
A importância da detecção e diagnóstico de falhas em máquinas rota-
tivas cresceu consideravelmente devido ao aumento da sua complexidade
e altos custos associados à falha e ao tempo de parada. Normalmente, o
reconhecimento de falhas requer uma análise detalhada dos sinais das má-
quinas para identificar padrões de falhas específicas. Tradicionalmente isso
é realizado através de inspeção visual e por pessoas experientes em análise
espectral ou através de métodos de processamento de sinais. Entretanto,
esses métodos são geralmente caros e ineficientes em alguns casos. As redes
neurais são uma das ferramentas que têm despertado grande interesse de
pesquisadores nos últimos anos, por ser uma ferramenta que possibilita o
monitoramento on-line da manutenção preditiva visando à minimização do
tempo entre o recebimento das informações e o diagnóstico do problema.
Inúmeras aplicações utilizando redes neurais no diagnóstico de falhas me-
cânicas podem ser encontradas nas seguintes referências: Wu et alii (1992);
Alguindigue et alii (1993); Chow et alii (1993); Liu et alii (1996); Zang &
Imregun (2001); Brito (2002) e Santiago (2004).
•
•
•
Darley Fiácrio de Arruda Santiago
é doutor em engenharia mecânica.
Atualmente é professor do Centro
Federal de Educação T
ecnológica
do Piauí/Uned – Floriano. Tem
experiência na área de engenharia
mecânica, com ênfase em projetos
mecânicos, atuando principalmente
nos seguintes temas: diagnóstico
de falhas de máquinas rotativas e
manutenção preditiva.
Jorge Nei Brito é doutor em
engenharia mecânica. Atualmente
é professor do Departamento de
Mecânica da Universidade Federal
de São João del Rei (UFSJ). Atua
nas áreas de detecção de falhas
em máquinas rotativas através de
técnicas preditivas e inteligência
artificial e desenvolvimento de
softwares didáticos.
Robson Pederiva é doutor em
engenharia mecânica. Atualmente
é professor do Departamento de
Engenharia Mecânica da Unicamp.
Tem experiência na área de mecânica
dos sólidos e projeto mecânico,
atuando principalmente nos seguintes
temas: vibrações de máquinas e
estruturas, monitoramento e detecção
de falhas em máquinas, modelagem
de sistemas mecânicos.
50
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Neste trabalho, mostra-se a viabili-
dade e eficiência da aplicação de redes
neurais na classificação de falhas intro-
duzidas numa máquina rotativa. Utiliza-
ram-se, para realização deste trabalho,
uma bancada de testes do Laboratório
de Vibrações da Unicamp/FEM/DPM e um Analisador de Sinais da CSI
(Ultraspec 2000). Foram introduzidas na bancada de testes (eixo-rotor-
mancais) as seguintes falhas: defeito elétrico; folga mecânica na base de
fixação; desbalanceamento + folga mecânica e desbalanceamento. Vá-
rias arquiteturas de redes neurais implementadas com o software Matlab
foram treinadas visando à obtenção de uma arquitetura bastante eficiente
para o diagnóstico das quatro falhas introduzidas. Resultados da aplica-
ção de redes neurais na classificação de falhas de uma máquina rotativa
utilizando dados reais são mostrados, bem como seus aspectos práticos e
teóricos de implementação.
Redes neurais artificiais
Uma rede neural pode ser definida como um processador maciço para-
lelamente distribuído, constituído de unidades de processamento simples
(neurônios) capazes de armazenar conhecimento experimental e torná-lo
disponível para uso futuro (HAYKIN, 1999). Um neurônio é uma unida-
de de processamento de informação imprescindível para o funcionamento
de uma rede neural. O neurônio pode ser representado matematicamente
através das seguintes expressões:
onde:
x
j
são sinais de entrada; w
kj
são os pesos sinápticos; v
k
é a saída
do combinador linear;
b
k
é o bias; J(.) é a função de ativação; e y
k
são
os sinais de saída do neurônio. Os valores dos pesos sinápticos são deter-
minados pelo treinamento da rede com dados de entrada-saída usando
o algoritmo backpropagation. Em outras palavras, o algoritmo modifica
individualmente os pesos sinápticos até o erro global predeterminado ser
alcançado pela rede. O erro global é calculado através do erro quadrático
médio (E.Q.M.) o dado pela seguinte expressão:
onde,
a
k
é a resposta desejada. Mais detalhes sobre o algoritmo backpropa-
gation, métodos do gradiente descente e Levenberg-Marquardt são encon-
trados em Haykin (1999).
(3)
(1)
(2)
51
ARTIGOS
Resultados e discussão
Nesta seção apresentam-se alguns resultados obtidos a partir da im-
plementação e treinamento de diversas arquiteturas de redes neurais
com o algoritmo backpropagation, utilizando dados reais como parâ-
metros de entrada da rede. O toolbox de redes neurais do software Ma-
tlab foi utilizado para implementação das redes neurais. Os dados reais
(padrões) utilizados para o treinamento, teste e validação das diversas
arquiteturas de redes neurais implementadas foram gerados numa ban-
cada de testes, mostrada na figura 1. A bancada consiste de um motor
elétrico de 0.5 CV, um rotor fixado ao eixo do motor e suportado em
ambas as extremidades por dois mancais de rolamentos, os quais estão
fixados na base através de molas flexíveis.
As falhas foram introduzidas na bancada de testes separadamente e, em
seguida, foram feitas as aquisições dos sinais de vibrações (velocidade) utili-
zando um acelerômetro fixado em um dos mancais posicionado na direção
vertical. A seguir, descrevem-se algumas características particulares de cada
tipo de falha, bem como se mostra um espectro do sinal medido referente
a cada tipo de falha introduzida na bancada de testes.
Defeito Elétrico – Este tipo de falha é bastante comum em máqui-
nas rotativas e pode ser causado basicamente por excentricidade
do rotor e linha com voltagem desbalanceada. No segundo caso,
este defeito se manifesta, dentre outras características, com freqü-
ência igual a duas vezes a freqüência da linha de alimentação e o
plano dominante é o radial com amplitude baixa e estacionária. O
espectro deste sinal coletado durante a fase de aquisição de dados
é mostrado na figura 2(a).
Folga Mecânica – Este tipo de falha foi introduzido na bancada de
testes a partir do afrouxamento dos parafusos de fixação entre o mo-
tor elétrico e a base da bancada. O espectro deste sinal coletado
durante a fase de aquisição de dados é mostrado na figura 2(b).
•
•
Figura 1. Bancada experimental de testes
Darley Santiago
52
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Foram feitas 80 aquisições (padrões) de sinais de vibrações (velocida-
de), sendo 20 aquisições para cada tipo de falha. A rotação do rotor foi
mantida estacionária em aproximadamente 3.600 rpm. A freqüência de
amostragem dos sinais de vibrações foi de 400 Hz, e a freqüência da linha
de alimentação ou da rede é de 60 Hz. O conjunto de dados reais utiliza-
dos para treinamento, teste e validação das arquiteturas de redes neurais
Figura 2. Espectros do Defeito Elétrico (a); Folga Mecânica (b);
Desbalanceamento Vertical + Folga Mecânica (c) e Desbalanceamento Horizontal (d)
Desbalanceamento Vertical + Folga Mecânica – O desbalancea-
mento foi introduzido na bancada de testes pela fixação de uma
massa de 7,8 gramas em um ponto qualquer da extremidade do
rotor
. A folga mecânica aparece de forma combinada com o des-
balanceamento. O espectro deste sinal coletado durante a fase de
aquisição de dados é mostrado na figura 2(c).
Desbalanceamento Horizontal – Este defeito foi introduzido na
bancada de testes pela fixação de uma massa de 2,5 gramas em um
ponto qualquer da extremidade do rotor e o seu espectro coletado
durante a fase de aquisição dos dados é mostrado na figura 2(d).
•
•
53
ARTIGOS
implementadas para diagnosticar as quatro falhas introduzidas na bancada
de testes foi dividido da seguinte maneira: 40 espectros (padrões) como
conjunto de dados de treinamento da rede (sendo 10 padrões para cada
tipo de falha); 20 padrões como conjunto de dados de teste da rede (sendo
5 padrões para cada tipo de falha) e 20 padrões como conjunto de dados
de validação da rede (sendo 5 padrões para cada tipo de falha). Utilizaram-
se parâmetros de entrada e saída para treinamento das redes neurais. Como
parâmetros de entrada foram escolhidas as amplitudes dos sinais de cada
falha (FRF) correspondentes às freqüências em 1xRPM, 2xRPM, 3xRPM,
4xRPM, 5xRPM e 6xRPM e como parâmetros de saída atribuíram-se os
seguintes valores (níveis de ativação): 1000 (Defeito Elétrico), 0100 (Folga
Mecânica), 0010 (Desbalanceamento Vertical + Folga Mecânica) e 0001
(Desbalanceamento Horizontal).
Utilizou-se neste trabalho como dados de treinamento 40 FRFs (pa-
drões) com quatro falhas diferentes dispostas de forma aleatória como da-
dos de entrada (amplitudes dos sinais de cada falha (FRF) correspondentes
às freqüências em 1xRPM, 2xRPM, 3xRPM, 4xRPM, 5xRPM e 6xRPM) e
como dados de saída os níveis de ativação correspondentes a cada tipo de
falha citada acima. Durante as fases de implementação, treinamento, teste
e validação da rede neural considerou-se a função de ativação a tangen-
te hiperbólica; método de otimização, Levemberg-Marquardt; número de
épocas: 300 épocas; e erro total admissível: 1e-5.
Depois de feito o treinamento da rede neural, utilizou-se o seguinte pro-
cedimento para teste e validação da mesma rede neural: para o teste da rede
utilizaram-se 20 padrões como dados de entrada diferentes dos 40 padrões
utilizados durante a fase de treinamento; e para validação da rede utilizou-
se 20 padrões como dados de entrada, diferentes dos 40 padrões utilizados
durante a fase de treinamento, e dos 20 padrões utilizados durante a fase
de teste. A seguir, mostra-se, na tabela 1, um resumo dos resultados obtidos
com o treinamento de 12 tipos de arquiteturas de redes neurais.
Tabela 1. Resultados das diferentes arquiteturas de redes neurais
Arquitetura
da Rede
Nº de
Épocas
Tempo de
Treinamento
Taxa de Acerto (%)
Rede de Teste
Taxa de Acerto (%)
Rede de Validação
5x5x4 10 44 seg. 100 75
10x5x4
14 192 seg. 100 100
10x10x4 9 327 seg. 100 95
15x10x5x4 21 15 min. 100 100
5x10x5x4 13 93 seg. 90 100
10x5x5x4 19 295 seg. 100 100
5x5x10x4 11 183 seg. 85 70
5x10x10x4 10 187 seg. 95 60
10x10x10x4 11 421 seg. 100 100
5x5x5x4 49 267 seg. 0 50
10x5x10x4 18 603 seg. 100 100
20x15x10x5x4 14 29 min. 100 100
54
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Observando-se a tabela 1, chega-se às seguintes conclusões: a rede neu-
ral com arquitetura 5x5x5x4 (5 neurônios na camada de entrada, 5 neurô-
nios na 1ª camada oculta, 5 neurônios na 2ª camada oculta e 4 neurônios
na camada de saída) foi quem apresentou pior taxa de acerto dos sinais (pa-
drões) a ela apresentados, ou seja, dos 20 padrões de testes apresentados
à rede ela não reconheceu nenhum padrão e dos 20 padrões de validação
apresentados à rede ela reconheceu somente 50% deles. Em geral, observa-
se na tabela 1 que as demais arquiteturas de redes neurais treinadas foram
capazes de diagnosticar com eficiência de 100% as quatro falhas introdu-
zidas na bancada de testes. Dentre as doze arquiteturas de redes neurais
implementadas, a que melhor apresentou capacidade de generalização foi
a rede 15x10x5x4. A seguir, mostram-se nas figuras 3 a 6, resultados satis-
fatórios de como a rede neural foi capaz de classificar as falhas introduzidas
numa bancada de testes (máquina rotativa) de forma bastante eficiente.
Vale ressaltar que as figuras 3 a 6 mostram os resultados comparativos da
eficiência das redes neurais de treinamento, teste e validação.
Figura 3. Defeito Elétrico
Figura 4. Folga Mecânica
Figura 5. Desb.Vertical + Folga Mecânica
Figura 6. Desbalanceamento Horizontal
55
ARTIGOS
Conclusões
As redes neurais são uma das ferramentas que têm despertado grande
interesse de pesquisadores nos últimos anos, por ser uma ferramenta que
possibilita o monitoramento on-line da manutenção preditiva visando à mi-
nimização do tempo entre o recebimento das informações e o diagnóstico
do problema. Diante dos resultados apresentados, observou-se que: dentre
muitos aspectos teóricos e práticos que fazem parte de um projeto de rede
neural, a escolha de uma arquitetura de rede neural e de seus parâmetros
de treinamento não segue regras predefinidas; o conhecimento e experiên-
cia do projetista em relação ao problema enfrentado são mais importantes;
a fase de definição é delicada, pois envolve, além da escolha da topologia
da rede, a obtenção do conjunto de variáveis significativas para resolução
do problema. Essa obtenção envolve, além da identificação das variáveis
que estão relacionadas com o problema, a remoção de variáveis não con-
fiáveis para o processo ou cujo uso seja impraticável por razões técnicas e
econômicas. Adicionalmente, observou-se que a sensibilidade e o tempo
de resposta das redes neurais em relação a outras técnicas de diagnóstico
de falhas são aspectos importantes e que podem ser avaliados e melhorados
durante as fases de implementação, treinamento, teste e validação da rede
neural. Finalmente, resultados mostram, a partir de um caso real, a viabili-
dade e eficiência da aplicação de redes neurais artificiais na classificação de
falhas em máquinas rotativas.
REFERÊNCIAS
ALGUIDINGUE, I. E.; BUCZAK, A. L.; UHRIG, R. E. Monitoring and Diagnosis of Rolling
Element Bearings Using Artificial Neural Networks. IEEE Transactions on Industrial Electron-
ics, vol. 40:(2), 209-217, april, 1993.
AMAND, T. H.; HEYEN, G.; KALITVENTZEFF, B. Plant Monitoring and Fault Detection Syn-
ergy Between Data Reconciliation and Principal Component. Computers and Chemical En-
gineering, vol. 25, p. 501-507, 2001.
BAILLIE, D. C.; MATHEW, J. A Comparison of Autoregressive Modeling Techniques for Fault
Diagnosis of Rolling Element Bearing. Mechanical Systems and Signal Processing, vol. 10,
nº 1, p. 1-17, 1996.
BRITO, J. N. Desenvolvimento de um Sistema Inteligente Híbrido para Diagnóstico de Falhas
em Motores de Indução Trifásicos. Tese de Doutorado. Faculdade de Engenharia Mecânica,
Universidade Estadual de Campinas, 2002.
CHOW, M.-Y.; SHARPE, R. N.; HUNG J. C. On The Application and Design of Artificial
Neural Networks for Motor Fault Detection – Part II. IEEE Transactions on Industrial Electron-
ics, vol. 40:(2), 189-196, april, 1993.
HAYKIN, S. Redes Neurais - Princípios e Prática, Prentice Hall, 1999.
LIN, C.-C.; WANG, H.-P. Performance Analysis of Rotating Machinery Using Enhanced Cer-
ebellar Model Articulation Controller (E-CMAC) Neural Networks. Computers Ind. Engng.,
vol. 30, nº 2, p. 227-242, 1996.
LIU, T. I., SINGONAHALLI, J. H., IYER, N. R. Detection of Roller Bearing Defects Using Expert
System and Fuzzy Logic. Mechanical Systems and Signal Processing, 10:(5), 595-614, 1996.
SANTIAGO, D. F. A. Diagnóstico de Falhas em Máquinas Rotativas Utilizando Transformada de
Wavelet e Redes Neurais Artificiais. Tese de Doutorado. Faculdade de Engenharia Mecânica,
Universidade Estadual de Campinas, 2004.
56
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
RESUMO
No Piauí, como em outras áreas do Brasil, estudos etnobotânicos são de
grande valia, uma vez que o Brasil aparece como um dos países com floras
mais ricas do globo, das quais 99,6% são desconhecidas quimicamente.
O estudo teve como objetivo inventariar o conhecimento (etnobotânico)
sobre as plantas utilizadas em diferentes categorias de uso na região de
Floriano, Piauí. No período de outubro a dezembro de 2005, uma vez por
semana, foram realizadas visitas para o levantamento de dados ao mercado
público municipal vereador Israel de Almeida, município de Floriano, Piauí
(06° 46’ 04” S e 43° 01’ 21” W). Os dados foram obtidos por meio de entre-
vistas abertas e semi-estruturadas com base em questionário com questões
objetivas e subjetivas. Foram citadas neste estudo 49 plantas pertencentes
Utilização da flora nativa
com potencial econômico
SOUSA, Pollyana K. S.; OLIVEIRA, Maria E. A.
Centro Federal de Educação Tecnológica do Piauí
Unidade Descentralizada de Floriano
Palavras-chave: Etnobotânica; Recursos Naturais; Uso Sustentável.
Fotos: Shutterstock / Gráficos: Maria Oliveira
57
ARTIGOS
a 28 espécies e 14 famílias botânicas que apresentaram alguma categoria
de uso pela população local. Leguminosae (9), seguida de Bignoniaceae (3)
e Anacardiaceae (2) foram as famílias com o maior número de espécies ci-
tadas. Foram catalogadas três categorias de uso, destacando-se a medicinal
(92,8%), seguidas de alimentar e outros. Os entrevistados demonstraram
vasto conhecimento sobre o uso das plantas, mas em geral desconhecem
estratégias de uso sustentável da vegetação. Tais resultados subsidiarão o
uso sustentável dos espécimes da flora local e regional, bem como abre
perspectivas para a valorização econômica e cultural de plantas da região.
Introdução
A etnobotânica compreende os estudos das comunidades humanas e
suas interrelações com o meio ambiente (AMOROZO & GELY, 1988; AMO-
ROZO, 2003; ALBUQUERQUE & LUCENA, 2004). Estudos nessas áreas
facilitam a determinação de práticas apropriadas ao manejo da vegetação
com finalidade utilitária, pois empregam os conhecimentos tradicionais para
solucionar problemas comunitários ou para fins conservacionistas (ALBU-
QUERQUE & ANDRADE, 2002; SANTOS et alii, 2007). Os estudos etno-
botânicos valorizam o conhecimento total e parcial das populações acerca
do uso sustentável da vegetação no local onde vivem, e este conhecimento
vem sendo passado de geração a geração (SANTOS et alii, 2007).
Os estudos etnobotânicos vão além do que pretende a investigação bo-
tânica, uma vez que em alguns lugares esta é a única forma de sobrevivência
das comunidades que ali habitam (BARRERA, 1979). A prática de estudos
etnobotânicos vem crescendo no Brasil, demonstrando a necessidade de
obtermos informações sobre os nossos ecossistemas que vêm sendo degra-
dados em uma escala crescente de destruição nunca antes vista.
O território brasileiro conta com grande diversidade de ecossistemas
e mais de 2.000 grupos étnicos diferentes (BRASIL, 1998). A forte pressão
antrópica que os ecossistemas vêm sofrendo tem levado a perdas de exten-
sas áreas verdes, da cultura e das tradições das comunidades que habitam
essas áreas, que dependem de recursos do meio para sobreviver (FONSE-
CA-KRUEL & PEIXOTO, 2004).
Pouco se tem escrito sobre estudos etnobotânicos na vegetação das
caatingas quando comparados com algumas outras áreas de vegetação
brasileira (OLIVEIRA-NETO et alii, 2007; TAQUEDA et alii, 2007). Ecossis-
temas como a mata atlântica e a caatinga são ainda pobres em investiga-
ções da relação seres humanos-natureza (ALBUQUERQUE & ANDRADE,
2002), e em particular aos cerrados, tipos vegetacionais estes de grande
importância no estado do Piauí (OLIVEIRA et alii, 1997). A caatinga é uma
vegetação caducifólia, sendo que algumas poucas espécies mantêm suas
folhas durante o período seco. O principal condicionante físico deste tipo
de vegetação no Nordeste é o clima, especificamente a precipitação plu-
viométrica (ANDRADE-LIMA, 1988). Estudos etnobotânicos com espécies
nativas do bioma cerrado especificamente do grupo Nordeste, um dos
três supercentros de biodiversidade dos cerrados no Brasil, também são
pouco conhecidos (CASTRO, 1994; CASTRO et alii, 1999).
Maria Edileide Alencar Oliveira
é doutora em biologia vegetal.
Atualmente é professora do Centro
Federal de Educação Tecnológica
do Piauí/Uned/Floriano. Possui
experiência na área de ecologia
de cerrados e áreas ecotonais,
com ênfase no meio norte do
Brasil, atuando principalmente
nos seguintes temas: florística
e fitossociologia dos cerrados,
gradientes campo-floresta no Piauí.
Pollyana Kelly Siqueira Sousa é
aluna do curso de Licenciatura
Plena em Biologia (Módulo VII).
Monitorias desenvolvidas: níveis
de organização química da matéria,
diversidade de vida vegetal,
morfologia e anatomia vegetal.
58
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
A caatinga é um ecossistema exclusivamente brasileiro, composto por
um mosaico de florestas secas e vegetação arbustiva (savana-
estépica), com
enclaves de florestas úmidas montanas e de cerrados. Foi recentemente re-
conhecida como uma das 37 grandes regiões naturais do planeta, conforme
estudo coordenado pela organização não-governamental Conservation Inter-
nacional (TABARELLI & SILVA, 2002). Este estudo teve como objetivo geral
fazer o resgate do conhecimento dos “raizeiros” sobre o uso da flora lenhosa
com potencial econômico na região de Floriano, Piauí. Com este propósito,
foram levantados alguns questionamentos: 1) quais as populações de plan-
tas com potencial econômico (flora lenhosa) na área selecionada?; 2) que
informações são fornecidas pela população local quanto ao uso das plantas
com potencial econômico numa dada vegetação?; e 3) quais partes e de que
maneira as populações de plantas são utilizadas pela população local? O res-
gate do conhecimento acerca do uso dos recursos vegetais subsidiará práticas
conservacionistas da diversidade local existente na região.
Materiais e métodos
No período de outubro a dezembro de 2005, foi feito o levantamento
de informações acerca do uso das plantas junto aos “raizeiros” do mercado
público municipal vereador Israel de Almeida, na cidade de Floriano, sudo-
este do Piauí (06° 46’ 04” S e 43° 01’ 21” W).
Foram aplicados questionários semi-estruturados constituídos de dezesse-
te (17) questões subjetivas e objetivas, com a finalidade de levantar os dados
necessários ao conhecimento do uso de plantas da região junto a três “raizei-
ros”, todos homens, que trabalham no mercado com a venda de produtos
naturais. Para cada planta citada utilizava-se um questionário individual, num
total de 49 questionários aplicados sobre as plantas lá comercializadas, con-
tendo as seguintes informações: nome científico, nome vulgar, família, hábito
da planta, origem e formas de uso e preparo, dentre outras. Foram excluídas
deste estudo sete espécies consideradas como cultivadas.
A identificação taxonômica dos espécimes botânicos foi feita com base
em bibliografia especializada, sendo que a correta grafia dos taxa foi feita
por consultas ao site (www.ipni.org/index.html). As espécies vegetais foram
classificadas de acordo por sua origem, categoria de uso e as partes mais
utilizadas pela população local.
Resultados e discussão
Foram aplicados quarenta e nove (49) questionários, cada um por es-
pécime botânico, citados pelos “raizeiros” do mercado municipal vereador
Israel de Almeida em Floriano, Piauí. Estas plantas fazem parte da comercia-
lização de produtos naturais daqueles comerciantes, sendo esta sua princi-
pal atividade econômica. Os “raizeiros” entrevistados, todos do sexo mas-
culino, encontravam-se na faixa etária de 60 a 65 anos de idade, residentes
na cidade de Floriano há mais de 35 anos.
Foram registradas a ocorrência de 28 espécies, pertencentes a 14 famí-
lias botânicas, destacando-se as famílias Leguminosae (9 espécies), Bigno-
niaceae (3 espécies) e Anacardiaceae (2 espécies) como as mais citadas para
a região estudada (figura 1).
59
ARTIGOS
A lista das espécies citadas que fazem parte da flora nativa da vegetação
de Floriano são mostradas na tabela 1.
Os entrevistados demonstraram grande conhecimento sobre o uso das
plantas citadas, mas geralmente desconhecimento de estratégias de uso sus-
tentável da vegetação local. A cada espécime citado eram identificadas as
partes utilizadas pela população como matéria-prima para a elaboração de
remédios que tratassem de enfermidades no homem, por exemplo, infla-
mação, doenças relacionadas com o sangue, gripe, derrame, dentre outras,
que apareceram com mais freqüência durante este estudo (tabela 2).
As espécies de plantas foram classificadas de acordo com a categoria de
uso, seja medicinal, alimentar ou outros (figura 2). O número de espécies ci-
tadas variou de acordo com a categoria de uso, destacando-se o uso medici-
nal pelo número de citações, 25 espécies, enquanto que na categoria outros
foram citadas 14 espécies, seguidas de somente três de uso na alimentação
(Anacardium occidentale L., Platonia insignis Mart. e Tamarindus indica L.).
Figura 1. Ordem decrescente das famílias botânicas mais
representativas citadas pelos “raizeiros” no mercado público
municipal vereador Israel de Almeida, Floriano, Piauí
Figura 2. Categorias de uso das plantas citadas pelos “raizeiros” do
mercado público municipal vereador Israel de Almeida, Floriano, Piauí
Na categoria medicinal, as diferentes espécies são amplamente utiliza-
das de forma adequada. De acordo com a indicação terapêutica popular,
as plantas citadas pelos entrevistados foram enquadradas nos sistemas cor-
póreos reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde. Com ação no
60
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
sistema respiratório, foram as mais citadas as espécies Bowdichia vir
gilioides
Benth. (sucupira), Stryphnodendron coriacem Benth. (barbatimão) e Ana-
cardium occidentale L. (caju) (tabela 2). Para o sistema digestivo, a Xime-
nia americana L. (ameixa), a Caesalpinia sp. (catinga-de-porco), a Platonia
insignis Mart. (bacuri) e a Caesalpinia ferrea Mart. (pau-ferro) são as mais
exploradas. Para o sistema renal, a Acacia farnesiana (L.) Willd. (coronha) e
a mamuscada foram as espécies mais citadas. Com ação antiinflamatória e
cicatrizante, a Albizia niopoides Burkart. (angico) e a Myracroduon urundeu-
va M.Allemao (aroeira) tiveram um grande número de citações.
Tabela 1 – Plantas listadas pela aplicação de questionário junto a “raizeiros”
do mercado público municipal vereador Israel de Almeida, em Floriano, Piauí
Nome popular Nome científico Família Cat. de uso Hábito Origem
Açoita-cavalo Luehea
divaricata Mart. TILIACEAE R Arv. N
Ameixa Ximenia americana L. OLACACEAE R Arb. N
Angico Albizia niopoides Burkart. LEGUMINOSAE R, Ot Arv. N
Aroeira Myracroduon urundeuva M.Allemao ANARCADIACEAE R, Ot Arv. N
Bacuri Platonia insignis Mart. CLUSIACEAE A, R Arv. N
Barbatimão Stryphnodendron coriacem Benth. LEGUMINOSAE R, Ot Arv. N
Caju Anacardium occidentale L. ANACARDIACEAE A, R Arv. N
Canela-branca Ocotea spixiana (Nees) Mez. LAURACEAE R Arv. N
Catinga-de-porco Caesalpinia sp. LEGUMINOSAE R, Ot Arb. N
Catuaba Anemopaegma sp. BIGNONIACEAE R AS N
Coronha Acacia fornesiana (L.) Willd. LEGUMINOSAE R Arb. N
Coroa-de-frade Melocactus sp. CACTACEAE R Herb. N
Imburana-de-cheiro Commiphora leptophloeos (Mart.) J.B.Gillett BURSERACEAE R Arb. N
Inharé Brosimum sp. MORACEAE R, Ot Arb. N
Jatobá Hymenaea sp. LEGUMINOSAE R, Ot Arv. N
Imbiriba Guazuma ulmifolia Lam. STERCULIACEAE R, Ot Arv. N
Mamuscada Desconhecida 01 R N
Mangabeira Hancornia speciosa B.A. Gomes APOCYNACEAE R, Ot Arv. N
Pau-d’arco Tabebuia sp. BIGNONIACEAE R, Ot Arv. N
Pau-d’arco-roxo Tabebuia sp. BIGNONIACEAE R, Ot Arv. N
Pau-de-ferro Caesalpinia ferrea Mart. LEGUMINOSAE R, Ot Arb. N
Paulista Luffa operculata Cogn. CUCURBITACEAE R Herb. N
Pega-pinto Boerhaavia coccinea Mill. NYCTAGINACEAE R Herb. N
Pixuri Desconhecida 02 R N
Quina-quina Coutarea hexandra K.Schum RUBIACEAE R, Ot SA. N
Sabiá Mimosa caesalpiniifolia Benth. LEGUMINOSAE R, Ot Arb. N
Sucupira Bowdichia virgilioides Kunth LEGUMINOSAE R, Ot Arv. N
Tamarindo Tamarindus indica L. LEGUMINOSAE A, R, Ot Arv. N
Categorias de uso: A = Alimentar; R = Remédio; Ot = Outros: madeira, artesanato, lenha. Hábito: Herb. = Herbácea; SA. = Subarbustivo;
Arb. = Arbustivo; Arv. = Arbóreo; Pal. = Palmeira; Epi. = Epífita; Ter. = Trepadeira. Origem: N = Nativa; C = Cultivada; E = Espontânea.
61
ARTIGOS
A citação de sete espécies cultivadas possibilita a população maior utilização
de plantas de jardins e quintais, espaços considerados como secundários na pro-
dução e reprodução doméstica das comunidades (TAQUEDA et alii, 2007).
O conhecimento tradicional sobre o uso das plantas é vasto e é, em muitos
casos, o único recurso que a população rural de um país em desenvolvimento
tem a seu alcance. As plantas usadas como medicinal (remédios) quase sem-
pre têm posição predominante e significativa nos resultados das investigações
etnobotânicas de uma região ou grupo étnico (PASA et alii, 2005).
Tabela 2. As partes da planta mais utilizadas pela população como
matéria-prima e suas indicações fitoterapêuticas catalogadas no
mercado público municipal vereador Israel de Almeida, em Floriano, Piauí
Nome popular Parte utilizada Indicação fitoterapêutica
Açoita-cavalo Casca Diabete/Sangue
Ameixa
Casca Inflamação/Gastrite
Angico Casca Inflamação/Coluna
Aroeira Casca Inflamação/Gripe
Bacuri Fruto Intestino/Verme/Queimadura
Barbatimão Casca Diabete/Tuberculose/Câncer
Caju Fruto Diabete/Garganta
Canela-branca Casca Calmante
Catinga-de-porco Casca Estômago
Catuaba Casca Intestino/Nervos/Sangue
Coronha Fruto Convulsão/Inflamação/Rins
Coroa-de-frade Fruto
Imburana-de-cheiro Semente Derrame
Inharé Casca Sangue/Manchas na pele (pano-branco)
Imbiriba Casca/Semente Inflamação
Jatobá Casca Sangue/Tuberculose
Mamuscada Semente Inflamação dos rins/Próstata
Mangabeira Casca/Folha Fígado/Rins
Pau-d’arco Casca Sangue/Câncer
Pau-d’arco-roxo Casca/Folha Coceira
Pau-de-ferro Casca/Semente Digestão/Gripe/Sinusite
Paulista Fruto Asma/Sinusite
Pega-pinto Raiz Inflamação/Verme
Pixuri Semente Derrame
Quina-quina Casca Inflamação/Aborto
Sabiá Casca Inflamação
Sucupira Semente Gripe/Sinusite
Tamarindo Casca/Folha/
Fruto/Semente
Intestino
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CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
REFERÊNCIAS
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AMOROZO, M. C. M. A perspectiva etnobotânica na conservação da biodiversidade.
2003. Disponível em: www.rc.unesp.br/xivsbsp/palestra05MMCMA.pdf.
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Naturalia 22: 131-150, 1997.
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Eleuthrine plicata no tratamento de doenças gastrointestinais na Amazônia paraense.
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et alii (ed.) Biodiversidade, conservação e uso sustentável da flora do Brasil. Universidade
Federal de Pernambuco, Recife. p. 47-52, 2002.
As espécies citadas neste estudo são as comumente comercializadas nos
mercados públicos das cidades, portanto, de fácil acesso pela população
local. Esta constatação levanta preocupações quanto à conservação destas
populações de plantas na natureza. Nossos resultados poderão subsidiar
práticas de uso sustentável da vegetação da área de estudo.
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ARTIGOS
RESUMO
O Rio Grande do Sul tem sido, nos últimos anos, palco de uma série de in-
vestimentos no setor florestal. A metade sul do estado, estagnada econo-
micamente, está aderindo às monoculturas arbóreas sem o conhecimento
prévio das possíveis conseqüências no plantio destas florestas no ecossis-
tema regional. Esta atividade de florestamento com espécies exóticas de
rápido crescimento tem sido impropriamente denominada de “reflores-
tamento”. Diante da realidade e da conscientização de um desenvolvi-
mento sustentável, esta revisão bibliográfica tem o intuito de identificar
os impactos ambientais causados pela substituição da vegetação nativa
Alternativas de minimização dos
impactos ambientais da silvicultura
nas microbacias do Rio Grande do Sul
GUIMARÃES, Fernando R.; SÁ, Jocelito S. de
Centro Federal de Educação Tecnológica de Pelotas
Palavras-chave: Floresta de Eucaliptos; Microbacias; Impacto Ambiental.
Fotos: Shutterstock
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CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
do Rio Grande do Sul por florestas de eucaliptos nas microbacias sulinas
e, assim, buscar alternativas de minimizá-los, seguindo as normas e leis
ambientais vigentes e estimulando o estudo prévio de cada microbacia
com suas características hídricas e geomorfológicas. Desta forma, busquei
analisar a cultura do eucalipto e seus impactos ambientais na implantação
nas microbacias, sem posicionamento de defesa ou ataque, e sim colo-
cando uma análise imparcial e criteriosa dos impactos e as alternativas
para minimizá-los ou até mesmo evitá-los, buscando sempre um manejo
sustentável e a preservação do meio ambiente com suas características
originais e, com isso, a estabilidade dos ecossistemas.
Introdução
As florestas de eucaliptos sempre estiveram na mira de discussões em
vários países do mundo em função dos efeitos sobre os recursos hídricos,
principalmente no que diz respeito ao consumo de água.
Os impactos hidrológicos são significativos na substituição da vegetação
nativa (rasteira e de pequeno porte) por florestas de grande porte e de rápi-
do crescimento: de forma direta, o consumo do recurso hídrico superficial
sofre um aumento considerável ocasionando desequilíbrio no ecossistema
e na microbacia hidrográfica. A partir deste impacto, com o crescimento
da floresta e com manejo incorreto, outros problemas vão surgindo e se
agravando: o escoamento superficial e a erosão, a qualidade e a quantida-
de de água, a água no solo e subterrânea, o consumo de água, a lixiviação
de agroquímicos e a precipitação, que está relacionada com o processo de
interceptação das chuvas.
Este trabalho relacionará os impactos ambientais de plantações da espé-
cie eucalyptus, principalmente no que diz respeito à sustentabilidade das
microbacias hidrográficas. Visará identificar e quantificar esses efeitos e su-
gerirá alternativas para que sejam minimizados ou até mesmo eliminados.
Política de gestão ambiental
As políticas de gestão ambiental, incluindo legislação e normas de pro-
cessos de certificação, são abordadas para demonstrar a origem e objetivos
das políticas e métodos de avaliação de impacto ambiental (AIA).
Política ambiental privada pode ser entendida como a declaração de
uma organização, expondo suas intenções e princípios em relação ao seu
desempenho ambiental global, que provê uma estrutura para ação e de-
finição de seus objetivos e metas ambientais. A gestão ambiental privada
é amplamente tratada nas normas ISO da série 14000, das quais se pode
deduzir o seguinte conceito: gestão ambiental privada é parte integrante do
sistema de gestão global de uma organização e constitui-se em um processo
administrativo, dinâmico e interativo de recursos que tem como finalidade
equilibrar a proteção ambiental e a prevenção de poluição com as neces-
sidades socioeconômicas e ajudar a proteger a saúde humana, através da
formulação de uma política e objetivos que levem em conta os requisitos
legais e as informações referentes aos impactos ambientais significativos,
Fernando Riefel Guimarães
é aluno do curso superior
de Tecnologia Ambiental,
cujo texto é original de seu
trabalho de conclusão de
curso, sob orientação do
Prof. Dr. Jocelito Saccol de
Sá, no Cefet/Pelotas.
65
ARTIGOS
visando à melhoria contínua no desempenho ambiental da organização de
forma a atender às necessidades de um vasto conjunto de partes interessa-
das e à s crescentes necessidades da sociedade sobre proteção ambiental.
Principais impactos da silvicultura
A natureza e a magnitude dos impactos ambientais da silvicultura de-
pendem das características da região onde esta atividade se insere. Os efei-
tos são tanto maiores quanto maior for o grau de transformação dos ecos-
sistemas e da paisagem.
A conversão de campos naturais em bosques de árvores exóticas repre-
senta uma transformação radical do ambiente.
Desta forma, os principais impactos negativos das monoculturas, da in-
fra-estrutura e das atividades produtivas florestais são inúmeros, entre eles:
interceptação das chuvas;
escoamento superficial e erosão;
água do solo, água subterrânea e consumo; e
vazão e qualidade final da água.
Interceptação das chuvas
O impacto hidrológico significativo das plantações florestais, no que diz
respeito à precipitação, que está relacionado com o processo de intercep-
tação das chuvas, os efeitos negativos são claros, sendo a precipitação in-
cidente redistribuída pela copa da floresta e parte perdida por evaporação
direta da água interceptada, impacto esse não significativo nas coberturas
vegetais nativas, que são predominantemente gramíneas.
A perda total por interceptação inclui a evaporação que ocorre ainda
durante a chuva, mais a evaporação da água que fica temporariamente
retida na copa depois de cessada a chuva.
As condições de rugosidade aerodinâmica florestal aumentam o consu-
mo de água, principalmente em decorrência da maior quantidade de ener-
gia advectiva disponível, em com-
paração com vegetações de menor
porte. Há ainda o requisito fisiológico
relacionado à espécie florestal, à efi-
ciência do uso de água e às mudan-
ças proporcionais no balanço hídrico
ao longo da idade do talhão.
Desta forma, esses dados estão,
numa primeira avaliação, mostrando
que a perda por interceptação, que é
um importante componente do con-
sumo total de água por uma floresta,
é, em média, menor nos campos na-
tivos do que em plantações de espé-
cies florestais, como as de eucaliptos.
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66
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Escoamento
superficial e erosão
Muitos dos nutrientes, assim
como alguns contaminantes agro-
químicos, estão normalmente as-
sociados com a fração fina do solo.
Dessa forma, a erosão contribui,
inevitavelmente, com a contami-
nação dos cursos d’água por nu-
trientes e produtos químicos. Prati-
camente todo o fósforo, alumínio,
ferro, manganês e potássio são per-
didos de forma associada ao trans-
porte de sedimentos. O alumínio, por exemplo, é liberado inteiramente
na forma inorgânica, que pode resultar em concentrações potencialmente
tóxicas nos cursos d’água. De maneira semelhante, a maior parte do aporte
de contaminantes orgânicos, tais como pesticidas, ocorre, também, em as-
sociação com o transporte de sedimentos (LIMA & ZAKIA, 2006).
Segundo experimento feito por LIma (1999), no período inicial, todas as
micro-parcelas foram submetidas às operações de preparo do solo, segui-
das do plantio nas parcelas que foram reflorestadas. Os resultados médios
desse primeiro ano mostraram um alto valor do escoamento superficial e de
taxa de erosão para todas as parcelas. À medida que as árvores cresciam,
todavia, tanto o escoamento superficial quanto a erosão diminuíam sensi-
velmente nas parcelas reflorestadas, comparativamente à parcela testemu-
nha. As perdas de nutrientes se relacionam com as taxas de escoamento
superficial e também diminuíram com o desenvolvimento da plantação.
Desta forma, é correto afirmar que as plantações de eucaliptos, nas con-
dições do experimento, podem apresentar um significativo controle tanto
do escoamento superficial quanto das perdas de solo e nutrientes do sítio.
Mas em plantações florestais com destino industrial, e com o corte raso, o
escoamento superficial volta a ocorrer, muitas vezes ajudado pela compac-
tação mecânica do solo, e, assim, exposição do solo favorecendo a erosão.
Água do solo, água subterrânea e consumo
Na discussão desses estudos está implícito o fato de que a profun-
didade do lençol freático varia ao longo da paisagem e, dessa forma, a
possibilidade de extração de água do lençol freático pelo sistema ra-
dicular do vegetal também é variável. As espécies de eucaliptos, pelo
menos daquelas mais utilizadas em plantações industriais, são geralmen-
te caracterizadas por apresentar um sistema radicular superficial. Dessa
forma, a possibilidade de uma extração significativa da água do lençol
freático somente ocorreria onde este se encontra normalmente na su-
perfície, ao alcance das raízes, como nas áreas ripárias, por exemplo, ou
nas margens de reservatórios.
Como resultado dessa característica de concentração do sistema radi-
cular nas partes superficiais do solo, essas camadas superficiais desempe-
67
ARTIGOS
nham, normalmente, uma função ativa na hidrologia do solo. Em outras
palavras, a recarga da água do solo pelas chuvas, assim como a exaustão
da água armazenada no solo pela transpiração, define, ao longo dessa
camada hidrologicamente ativa, um padrão anual de alta variabilidade
do conteúdo de umidade, como tem sido verificado em plantações de
estudo de Lima (1999).
Vazão e qualidade final da água
Como podem ser observados, os efeitos sobre a produção de água varia
de acordo com a proporção da área da bacia que é submetida ao corte, ou
na qual ocorre a plantação florestal.
Os dados disponíveis apresentam uma clara evidência de que as planta-
ções de eucalipto, no que diz respeito ao balanço hídrico de bacias hidro-
gráficas, não diferem de outras espécies florestais, apresentando aumento
médio do deflúvio ao corte da floresta, e diminuição média do deflúvio
devido ao reflorestamento da bacia, da mesma magnitude de resultados
similares obtidos com outras espécies florestais. Mas, evidentemente, essa
comparação não se faz singular às características naturais das microbacias
sulinas que possuem, normalmente, vegetação de pequeno porte.
O escoamento superficial é o principal meio de transporte da poluição
difusa gerada por práticas agrícolas convencionais, na qual a matéria orgâ-
nica e os agroquímicos são carreados até os corpos d’água após um evento
de precipitação.
A qualidade da água é reflexo do efeito combinado de muitos pro-
cessos que ocorrem ao longo do curso d’água. De acordo com Lima
(2001), a qualidade da água não se traduz apenas pelas suas caracterís-
ticas físicas e químicas, mas pela qualidade de todo o funcionamento
do ecossistema.
Esse funcionamento hidrológico nas microbacias resultou numa meto-
dologia adequada para o estudo dos efeitos das atividades silviculturais so-
bre a qualidade da água. Observaram que o manejo de preparo do solo,
como o corte raso da floresta, pode resultar num aumento da concentração
de nutrientes no deflúvio da bacia hidrográfica, em conseqüência da ruptu-
ra do equilíbrio da ciclagem geoquímica de nutrientes.
A vazão final do arroio de uma microbacia, que está sendo utilizada para
o cultivo florestal, será a resultante do somatório de todos os impactos am-
bientais anteriormente comentados. Dessa forma, esse resultado determinará
a quantidade e a qualidade final d’água que seguirá rumo à jusante.
Alternativas de minimização dos impactos
ambientais da silvicultura nas microbacias
zoneamento ambiental da silvicultura (ZAS);
identificação e preservação da zona ripária;
desenvolvimento e manejo sustentável; e
fidelidade às normas e leis ambientais.
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68
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Zoneamento ambiental da silvicultura (ZAS)
O zoneamento ambiental da silvicultura tem por objetivo elaborar um
instrumento de gestão que possibilite análises regionais da inserção da ati-
vidade da silvicultura nos ambientes naturais do Estado e de suas inter-
relações com aspectos socioeconômicos. Sendo este um dos instrumentos
da política ambiental do Estado, previsto na Lei Estadual nº 11.520/2000,
define diretrizes para plantios florestais, considerando as características am-
bientais das diversas regiões do Estado.
Foram identificados os impactos da silvicultura e os fatores que determi-
nam a maior ou menor fragilidade de cada unidade. Essas informações são
dispostas em uma matriz, na qual cada impacto será ponderado de acordo
com as características ambientais e socioeconômicas de cada unidade de
paisagem. Na caracterização das unidades, estão sendo levados em conta
critérios como presença de espécies em extinção, grau de antropização
(uso da terra), percentual já utilizado para silvicultura, disponibilidade de
recursos hídricos e áreas de turismo ecológico e rural, entre vários outros.
Os atributos de cada unidade definirão as diretrizes e restrições para a im-
plantação de silvicultura.
O zoneamento garante também, além das restrições que garantam a sus-
tentabilidade do ecossistema, que o Pampa, paisagem que recobria 63% do
território gaúcho, não seja descaracterizado como o foram, em outras épocas,
os banhados e as florestas do Planalto (BENCKE, REVISTA BIO3, 2005).
Identificação e preservação da zona ripária
A preservação ou a reconstituição das matas ripárias foi tornada obri-
gatória pela legislação de proteção ambiental, sob o argumento principal
de controle da erosão e melhoria da qualidade e quantidade de água.
A retenção de materiais pela vegetação ripária é bastante discutida e o
consenso é que sua manutenção contém as ribanceiras de rios, diminui
e filtra o escoamento superficial e dificulta o carreamento de sedimen-
tos. A vegetação ripária desempenha várias funções hidrológicas. Graças
a ela, ocorre a estabilização de ribanceiras do rio, pelo desenvolvimen-
to e manutenção de um emaranhado radicular, evitando, com isso, a
erosão; funciona como filtro entre os terrenos mais altos e o ecossiste-
ma aquático, participando do controle do ciclo de nutrientes na bacia
hidrográfica, através de ação tanto do escoamento superficial quanto
da absorção de nutrientes do escoamento sub-superficial, impedindo
ou dificultando o carreamento de sedimentos para o sistema aquático,
contribuindo dessa forma para a manutenção da qualidade de água nas
bacias hidrográficas (LIMA & ZAKIA, 2006).
Estas funções ecológicas já são, sem dúvida, razão suficiente para justifi-
car a necessidade da conservação das zonas ripárias. A isso deve-se somar
a função hidrológica das zonas ripárias na manutenção da integridade da
microbacia hidrográfica, representada por sua ação direta numa série de
processos importantes para a estabilidade da microbacia, para a manuten-
ção da qualidade e quantidade de água, assim como para a manutenção do
próprio ecossistema aquático.
69
ARTIGOS
Desenvolvimento e manejo sustentável
O manejo das áreas plantadas deve ser sustentável não apenas no
ponto de vista econômico, mas também social, cultural e ecológico. Não
há mais lugar, no atual contexto, para atividades de manejo de florestas
ou de qualquer outro tipo de uso da terra nesse sentido que não esteja
em sintonia com as demandas contemporâneas de sustentabilidade, as
quais refletem a percepção atual que o homem tem para com o ambiente
(LIMA & CÂMARA, 1999).
Para atender a essas demandas contemporâneas, incorporar a pers-
pectiva da microbacia hidrológica como unidade básica de planejamen-
to do manejo pode constituir um modo consistente de equacionamento
das complexidades envolvidas nessa nova estratégia de sustentabilidade.
Primeiro, pelo fato de que essa estratégia realça a importância das áreas
ripárias e da integridade do ecossistema ripário, que são fundamentais, na
escala da microbacia, para a conservação da água. Segundo, por facilitar
o entendimento da questão das escalas de sustentabilidade dos recur-
sos hídricos, reforçando a necessidade de analisar essas relações entre o
manejo florestal e água em todas as escalas. E, terceiro, por se constituir
em procedimentos experimentais consistentes para a identificação e a
validação de indicadores hidrológicos apropriados para o monitoramento
na busca do manejo sustentável das florestas plantadas, em termos de
conservação da água.
O manejo florestal sustentável implica, antes de tudo, a existência
de uma ligação mútua e interativa entre os recursos florestais e todos
os demais elementos inerentes ao ecossistema florestal e a resiliência
da bacia hidrográfica na qual se insere o manejo: a água, a fauna, o
potencial produtivo do solo e a biodiversidade. Implica, ainda, que a
alteração de um recurso natural em uma dada área, incluindo aí a co-
lheita florestal, causa, invariavelmente, impactos em todos os demais
elementos do ecossistema.
Assim, é muito importante equacionar adequadamente esse problema
no que diz respeito às atividades de silvicultura intensiva de plantações flo-
restais para fins de abastecimento industrial. Com isso, podemos delinear
alternativas de preparo do solo, espaçamento de plantio, alinhamento do
plantio e atividades de exploração florestal que resultassem em significativa
diminuição dos impactos na microbacia.
Fidelidade às normas e leis ambientais
As áreas de preservação permanente são protegidas por lei desde 1965
(Lei nº 4.771), quando foi instituído o Código Florestal, cobertas ou não por
vegetação nativa com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a
paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna
e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas.
A Resolução Conama n° 03, de 20 de março de 2002, dispõe sobre pa-
râmetros, definições e limites de áreas de preservação permanente, define
e complementa:
70
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Art. 1º Constitui objeto da presente Resolução o estabelecimento
de parâmetros, definições e limites referentes às áreas de preser-
vação permanente.
Ar
t. 2º Para os efeitos desta Resolução, são adotadas as seguintes
definições:
• nível mais alto: nível alcançado por ocasião da cheia sazo
-
nal do curso d’água perene ou intermitente;
Art. 3º Constitui área de preservação permanente a área situada:
I - em faixa marginal, medida a partir do nível mais alto, em
projeção horizontal, com largura mínima de 30 metros.
Conclusão
Os campos do Rio Grande do Sul possuem sua vegetação nativa, pre-
dominantemente, rasteira e de pequeno porte. Assim sendo, os impactos
hidrológicos são bastante significativos na substituição dessa vegetação nati-
va por florestas de eucaliptos, de forma que o consumo do recurso hídrico
superficial sofre um aumento considerável, ocasionando um desequilíbrio
no ecossistema e nas microbacias.
A minimização desses impactos surge a partir de um zoneamento am-
biental adequado em que se respeite as leis e normas ambientais vigentes.
Assim, busca-se a restauração, conservação e manutenção dos recursos hí-
dricos, bem como estabelecer um manejo sustentável consistente com base
em um estudo prévio da microbacia.
Busca-se a implantação de um manejo florestal sustentável que entenda
essas interações e inter-relações e procure aplicar práticas de manejo espe-
cíficas às características naturais da paisagem, visando organizar a ocupação
do espaço produtivo de maneira a garantir a permanência dos processos
ecológicos e hidrológicos em toda a unidade de manejo, minimizando os
impactos ambientais.
Dessa forma, pode-se afirmar que, dentre os grandes desafios que a hu-
manidade enfrenta atualmente, a recuperação, a conservação e o manejo
sustentável dos recursos hídricos são dos mais críticos. Mas, com certeza, a
partir da conscientização da importância de um ecossistema natural estabi-
lizado, os cultivos florestais implantarão técnicas e manejos que viabilizem
a produção com menor ou sem impactos ambientais.
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LIMA, W. P.; ZAKIA, M. J. B. As florestas plantadas e a água – implementando o conceito da
microbacia hidrográfica como unidade de planejamento. 2006
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Cuiabá. Rio de Janeiro/RJ, 206 p. Tese de Doutorado. Universidade Federal do Rio de Janeiro.
71
ARTIGOS
RESUMO
O trabalho foi desenvolvido no Cefet/Januária/MG, em parceria com a
Epamig/CTNM, objetivando comparar a produtividade de 3 cultivares
de mamona consorciadas com feijão caupi, com e sem adubação, em
cultivo de sequeiro. A cultura foi implantada no início do período chu-
voso, seguindo um delineamento experimental de blocos ao acaso, com
6 tratamentos e 4 repetições, com o semeio do feijoeiro 30 dias após.
Foram colhidas separadamente as duas culturas, analisando-se os dados
estatisticamente pelo teste de Tukey com 5% de probabilidade. A cul-
tivar IAC 226 apresentou a maior produtividade em condições de adu-
bação (1.207 kg ha
-1
), seguida da Nordestina (952 kg ha
-1
) e da Guarani
Produtividade de três cultivares de
mamona em consórcio com feijão
caupi, com e sem adubação
VIEIRA, Gustavo H. S.; GONÇALVES, Nívio P.; CARNEIRO FILHO, João; TORRES, Marco A. C.
Centro Federal de Educação Tecnológica de Januária/MG
Palavras-chave: Cultura da Mamona; Adubação; Cultivo Consorciado.
Fotos: Shutterstock
72
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
(860 kg ha
-1
). A cultivar mais produtiva com adubação foi também a me-
nos produtiva sem adubação, estendendo o resultado para as demais.
O feijoeiro adubado apresentou uma produtividade de 2.791 kg ha
-1
,
contra 1.140 kg ha
-1
do não adubado. Diante dos resultados, concluiu-
se que a variedade IAC 226 possui alta produtividade, comparando-se
com a média nacional, as variedades mais produtivas de mamona são
também as mais exigentes em nutrição, é possível produzir mamona
em consórcio com feijão caupi na região do semi-árido mineiro com
boa produtividade, o feijão caupi respondeu positivamente à adubação
mineral e o cultivo consorciado de mamona com feijão caupi é uma boa
indicação para agricultura familiar de subsistência.
Introdução
A cultura da mamona (Ricinus communis L.) vem se destacando no ce-
nário agrícola nacional pelo seu potencial aproveitamento na produção de
óleos para a indústria química/farmacêutica e, atualmente, para a produção
de biodiesel. A área cultivada com a mamona no Brasil vem aumentando a
cada ano, contribuindo com o desenvolvimento e a geração de renda para
a agricultura familiar.
Segundo dados do IBGE (2008), a previsão de produção de mamona no
Brasil é de 130.494 toneladas em 2008, contra 87.071 t, em 2007, resul-
tando num aumento de 49,9%. A área cultivada com mamona, em 2007,
está na faixa de 157 mil hectares, concentrando sua produção nos estados
do Nordeste (149,5 mil ha) e do Sudeste (4,3mil ha).
A produtividade média da mamona no Brasil gira em torno de 0,6 t
de bagas por hectare, mas segundo Kouri et alii (2004), o rendimento
poderia ser maior que 1 t ha
-1
. O mesmo autor cita como causa da baixa
produtividade da cultura a falta de aplicação de práticas culturais ade-
quadas, como espaçamento, época de plantio e consorciação por parte
do produtores. De acordo com Severino et alii (2006), a adubação da
mamoneira, com fertilizantes químicos, promove considerável aumento
da produtividade.
Nesse intuito, objetivou-se, nesse trabalho, comparar a produtividade
de 3 cultivares de mamona, consorciadas com feijão caupi (Vigna unguicu-
lata (L.) Walpi), com e sem adubação, em cultivo de sequeiro.
Gustavo Haddad Souza Vieira
é engenheiro agrônomo,
mestre em engenharia
agrícola, irrigação e
drenagem e professor do
Cefet/Januária/MG.
Nívio Poubel Gonçalves
é Engenheiro agrônomo,
mestre em entomologia e
pesquisador da Epamig.
João Carneiro Filho é
engenheiro agrônomo, mestre
em fitotecnia e professor do
Cefet/Januária/MG.
Marco Aurélio Caldeira
Torres é técnico agrícola e
pesquisador da Epamig.
73
ARTIGOS
Procedeu-se às adubações de plantio, com aplicação de 90 kg ha
-1
de P
2
O
5
e de K
2
O e de cobertura, com 40 kg ha
-1
de N. O controle fitos-
sanitário foi efetuado no momento em que se observou o aparecimento
de pragas/patógenos, de modo a garantir o perfeito desenvolvimento
das culturas.
Materiais e métodos
A pesquisa foi realizada em parceria com a
Epamig/CTNM, na área experimental do Centro
Federal de Educação Tecnológica de Januária, lo-
calizado na cidade de Januária, norte de Minas
Gerais, a uma altitude de 473 m, latitude 15° 16’
sul e longitude 44° 16’ oeste. Foi estudado o ren-
dimento de bagas, em kg ha
-1
, de três cultivares de
mamona, considerada a cultura principal, sendo
duas de porte alto (Nordestina e IAC 226) e uma
de porte baixo (Guarani), além do rendimento de
grãos, em kg ha
-1
, de feijão caupi. A cultura da
mamona foi plantada no início do período chu-
voso, conduzida nos espaçamentos duplos de 4,0
x 1,2 x 1,0 m para as variedades de porte alto e
4,0 x 0,6 x 0,5 m para a variedade de porte baixo. O feijoeiro (considerado
cultura secundária) foi plantado 30 dias após, a 1,0 m das fileiras duplas da
mamoneira, com espaçamento de 0,5 m entre linhas de plantio e 0,25 m
entre plantas, conforme apresentado na figura 1.
Figura 1. Esquema de plantio da cultura da mamona
consorciada com feijão caupi
74
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Resultados e discussão
No quadro 1 são apresentados os rendimentos médios de cada trata-
mento e o resultado da análise estatística pelo teste de Tukey, com 5% de
probabilidade. Houve diferença significativa comparando-se os tratamen-
tos adubados com aqueles não adubados, fato que pode ser verificado
visualmente na figura 2 (A: Adubado; B: Não Adubado), porém, entre as
variedades, tanto adubadas quanto não adubadas, não verificou-se signi-
ficância estatística.
Quadro 1. Médias de produtividade dos tratamentos
e teste de Tukey, com 5% de probabilidade
Variedade Média
IAC226 com adubo 1207 a*
Nordestina com adubo 952 a b
Guarani com adubo 860 a b c
Guarani sem adubo 433 c d
Nordestina sem adubo 368 d
IAC226 sem adubo 113 d
*As médias seguidas pela mesma letra não diferem estatisticamente
entre si pelo teste de Tukey, com 5% de probabilidade.
Figura 2. Área experimental do Cefet/Januária com o plantio da mamoneira em consórcio com feijão caupi
O delineamento experimental (figura 2) foi o de blocos ao acaso, com
6 tratamentos e 4 repetições, somando 24 parcelas de 12 m
2
cada. Foram
colhidas as bagas de 20 plantas úteis de mamoneira por parcela, que em
seguida foram secas à sombra e separadas do cacho, procendendo-se à
pesagem. Os resultados obtidos foram computados e analisados estatistica-
mente pelo teste de Tukey, com 5% de probabilidade. O feijão caupi foi co-
lhido em duas etapas devido à desuniformidade de maturação das vagens.
Após a segunda colheita, separou-se os grãos das vagens e procedeu-se à
pesagem e análise dos dados.
75
ARTIGOS
Na figura 3, são apresentados os rendimentos da mamoneira, em kg
ha
-1
. Os tratamentos com adubação apresentaram as maiores produtivida-
des, o que indica a exigência nutricional da cultura, contrariando a crença
de que a mamoneira seja uma planta rústica que se desenvolve bem sem
as práticas agronômicas adequadas. A variedade IAC 226 com adubo foi
a que mostrou a maior produtividade, atingindo um valor de 1.207 kg de
bagas de mamonas secas por ha, seguida da variedade Nordestina com
adubo (952 kg ha
-1
) e do híbrido Guarani (860 kg ha
-1
).
Uma observação interessante é que a variedade mais produtiva com
adubação foi também a menos produtiva quando cultivada sem adubo.
Este fato estende-se às outras cultivares, visto que a cultivar Nordestina, que
mostrou o segundo maior rendimento com adubo, mostrou também o se-
gundo menor rendimento sem adubo.
Ficou claro, com esses resultados, que
as culturas mais produtivas são também
as que mais exigem tratos culturais, vis-
to que com o ganho de produtividade,
perdem sua rusticidade.
A produtividade do feijoeiro é
apresentada na figura 4. Observa-se
um acréscimo de aproximadamente
145% no rendimento de grãos devido
à adubação. O cultivo do feijão caupi,
em consórcio com a mamona, é uma
maneira de aumentar os rendimentos
na área de plantio, uma vez que, nas
condições experimentais, apresentou
um incremento de aproximadamente
45 sacos de feijão por hectare.
Figura 3. Produtividade da mamoneira, em quilogramas
por hectare, para os diferentes tratamentos
76
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Conclusão
Diante dos resultados obtidos, é possível concluir que:
a variedade IAC 226 possui alta produtividade, comparando-se com
a média nacional (600 kg ha
-1
) se submetida a condições de nutrição
adequada;
as variedades mais produtivas de mamona são também as mais exi-
gentes em nutrição;
é possível produzir mamona em consórcio com feijão caupi na re-
gião do semi-árido mineiro com boa produtividade, se plantado na
época adequada;
o feijão caupi respondeu positivamente à adubação mineral, mos-
trando que é necessário que se faça o fornecimento adequado de
nutrientes para a cultura; e
o cultivo consorciado de mamona com feijão caupi é uma boa indi-
cação para a agricultura familiar de subsistência.
•
•
•
•
•
REFERÊNCIAS
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Disponível em: ftp://ftp.ibge.gov.br/Producao_Agricola/Fasciculo_Indica-
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macronutrientes e micronutrientes. Pesq. Agrop. Bras., Brasília, vol. 41, nº
4, p. 563-568, abr. 2006.
Figura 4. Médias dos tratamentos de produtividade do feijoeiro
77
ARTIGOS
RESUMO
O solo, dependendo do sistema de manejo a que é submetido, pode ser pre-
servado ou degradado. Nesse sentido, faz-se necessária a adoção de sistemas
de manejo que protejam o solo e reduzam a temperatura e aumentem sua
umidade para preservar seu potencial produtivo. O plantio direto poderia
ser utilizado para essas finalidades, já que em outras regiões tem se mostrado
viável na melhoria da conservação do solo, no controle da sua temperatura
e no aumento do conteúdo de água do solo. Com o objetivo de encontrar
um sistema de manejo do solo e de restos culturais mais adequado para a
região Nordeste do Brasil, foi instalado um ensaio na Estação Experimental da
Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba (EMAPA/PB), no mu-
nicípio de Alagoinha/PB, tendo como cultura explorada o milho, três sistemas
de manejo do solo na presença e ausência de adubação mineral com NPK,
Efeitos da temperatura e umidade
do solo na produtividade do milho
SILVA, Antonio S.; SILVA, Ivandro de F. da
Escola Agrotécnica Federal de Senhor do Bonfim/BA
Palavras-chave: Restos Culturais; Precipitação Pluvial; Plantio Direto.
Fotos: Shutterstock
78
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
representados por: plantio direto com guandu (PG), plantio direto (PD) e
cultivo convencional (CC), utilizados por quatro anos consecutivos. Os resul-
tados mostraram que a cada ano, nos sistemas PG e PD, ocorreu um acúmulo
de resíduos culturais na superfície do solo, contribuindo, conseqüentemente,
para diminuição da temperatura e aumento da umidade em relação ao sis-
tema CC. A produtividade da cultura não diferiu entre sistemas de manejo,
diferindo, porém, quando recebeu a adubação em relação ao tratamento
não adubado. Pelos resultados, a precipitação pluvial foi o principal regulador
da produtividade da cultura do milho no local.
Introdução
O solo, em função do manejo a que está submetido, é passível tanto
de degradação quanto de melhoramento em seu potencial produtivo.
Nesse sentido, numa exploração agrícola é fundamental o uso de siste-
ma de manejo visando ao melhor aproveitamento de água, evitando-
se taxas excessivas de escoamento superficial e de evaporação (MELO
FILHO & SILVA, 1993).
A infiltração de água no solo é um dos aspectos mais importantes no
sistema, pois, quanto maior a infiltração, menores serão as taxas de erosão
e maior será a disponibilidade de água para a cultura; a água por sua vez,
ajudará a diminuir e controlar a temperatura do solo. A resteva da cultura
favorecerá o acúmulo de resíduos orgânicos e do húmus na camada super-
ficial, agindo para reduzir as variações de umidade e temperatura (SIDIRAS
& PAVAN, 1986; VIEIRA et alii, 1991).
A formação de uma boa cobertura favorecerá uma maior umidade do
solo, evitará a incidência direta dos raios solares e diminuirá a evapora-
ção, além de dificultar o escoamento superficial e favorecer a infiltração.
O aumento da umidade e da proteção ao solo contribuirá para reduzir
a temperatura do solo. O aumento nos teores de matéria orgânica au-
mentará, conseqüentemente, a disponibilidade de nutrientes do solo. No
plantio direto, a cobertura morta que se acumula sobre o solo, de acordo
com Muzilli (1985), presta-se para permitir os aspectos de melhoria do
solo, contribuindo para um maior armazenamento de água, formando
uma camada isolante, impedindo maior perda de água por evaporação e
diminuindo a sua temperatura.
Sidiras et alii (1983), estudando o efeito de sistemas de preparo do solo
(plantio direto, escarificação e convencional), no comportamento da umida-
de do solo e no rendimento da cultura durante três anos, concluíram que,
na capacidade de campo, o solo cultivado em plantio direto apresentou na
camada de 0-20 cm, uma diferença no teor de água de 4 a 5% superior ao
preparo convencional e que o plantio direto proporcionou também um ren-
dimento médio da cultura superior ao obtido no convencional em 33%.
Visto que a umidade e a temperatura do solo são fatores críticos na
exploração do solo com culturas, objetivou-se avaliar o efeito do plantio
direto nesses fatores, tendo como reflexo mais importante o compor-
tamento da produtividade da cultura do milho em comparação com o
cultivo convencional.
Antonio Sousa Silva é agrônomo,
mestre em manejo e conservação
do solo e água pela Universidade
Federal da Paraíba (UFPB) e
professor da Escola Agrotécnica de
Senhor do Bonfim/BA.
Ivandro de França da Silva é doutor
em manejo e conservação do solo
e água pela UFRGS, pesquisador
bolsista do CNPq/UFPB e professor
do DSER/CCA/UFPB.
Esta pesquisa é parte da
dissertação apresentada por
Antonio Sousa Silva ao curso de
Pós-Graduação em Manejo de Solo
e Água – CCA/UFPB, Areia/PB.
79
ARTIGOS
Materiais e métodos
O experimento foi conduzido na Estação Experimental da Empresa Es-
tadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba (Emepa/PB), no município de
Alagoinha/PB, microrregião de Guarabira, num solo classificado como lu-
vissolo crômico pálico abrúptico (EMBRAPA, 1999). As plantas utilizadas
foram milho (Zea mays) e guandu (Cajanus cajan).
Os três sistemas de manejo de solo: plantio direto com guandu (PG),
plantio direto (PD) e cultivo convencional (CC), foram conduzidos na pre-
sença e ausência de adubação com N-P-K. No sistema CC, utilizou-se lim-
pas manuais de enxada, os resíduos culturais foram queimados e incorpora-
dos ao solo através de revolvimento com enxada. O PD se caracterizou pela
manutenção dos resíduos culturais e uso de herbicidas para o controle de
ervas daninhas. O sistema PG constituiu-se, além das operações realizadas
no PD, de plantio em fileiras duplas de guandu nas extremidades da parce-
la, que duas vezes por ano eram podados a 25 cm do solo e sua fitomassa
usada como cobertura de solo. O milho foi plantado em covas feitas com
enxadas manuais no espaçamento de 1,0 m entre fileiras e 0,20 m entre
covas na fileira nos três sistemas de manejo.
As amostras de solo para as análises de umidade foram coletadas uma
vez por semana, coincidindo dia e horário, nas profundidades de 0-5, 5-
10, 10-20 e 20-30 cm. As leituras de temperatura do solo foram realizadas
com termômetros colocados na fileira central da parcela, na profundidade
de 5 cm. Na determinação da percentagem de cobertura do solo, foi uti-
lizado o método de transeção linear conforme metodologia de Sloneker
& Moldenhauer (1977).
O delineamento experimental utilizado foi de blocos ao acaso, com três
repetições com parcelas subdivididas no tempo e no espaço para a variá-
vel umidade, e parcela subdividida no tempo para as demais variáveis. As
médias foram comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade. Os
dados obtidos foram analisados pelo programa estatístico SAEG 8.1.
80
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Resultados e discussão
Os dados de precipitação pluviométrica anual são apresentados na
figura 1, para os anos de 1998 a 2001, correspondendo ao total anual
de 531,3, 688,9, 1.373,4 e 690,8 mm, demonstrando a grande variabi-
lidade na precipitação. Para Aldrich & Leng (1965), produções elevadas
de milho são atingidas quando ao milho são disponibilizados de 650
a 750 mm de água. Informação de Fornasieri Filho (1992) mostra que
a cultura do milho, para completar seu ciclo vegetativo e reprodutivo,
em solos sem deficiência hídrica, consome 573 mm de água. Melo Ivo
& Mielniczuk (1999) afirmam que a fenologia do milho é desenvolvida
muito rapidamente e o consumo de água é bastante elevado. Desta for-
ma, a água precipitada é pouca nos quatro anos analisados para atender
às necessidades da cultura, principalmente quando avaliada sua distri-
buição durante o ciclo da cultura. Para as condições do Brasil, a falta de
água durante o ciclo da cultura do milho torna-se o principal fator de
queda de produção, uma vez que são milhões de hectares explorados
em agricultura de sequeiro.
Figura 1. Precipitação pluviométrica mensal para os anos de 1998 a 2001
Na tabela 1 são apresentados os dados de produtividade de grãos de
milho e os valores de umidade, temperatura e cobertura do solo nos dife-
rentes sistemas de manejo. Dos resultados, observa-se que a presença ou a
ausência de adubação proporcionou diferenças significativas entre produ-
tividade de grãos, umidade e temperatura do solo, não afetando, porém, o
comportamento da percentagem de cobertura.
81
ARTIGOS
Com relação aos anos de cultivo, observam-se acúmulos de resíduos
na superfície do solo com o passar dos anos. No quarto ano, a produção
de fitomassa foi beneficiada pela precipitação do ano anterior, elevando,
assim, a percentagem de cobertura do solo por resíduos vegetais. Com isso,
a temperatura do solo nos sistemas de manejo com cobertura (PG e PD)
foram menores do que no sistema CC.
No ano de 2001, as temperaturas registradas no solo foram bem eleva-
das em comparação com os anos anteriores, embora apresentasse a melhor
cobertura. Isso ocorreu por causa da baixa precipitação e ausência de umi-
dade no solo, uma vez que, segundo Morote et alii (1990), a umidade do
solo parece ser fator primordial no controle da temperatura, pois quando
o solo está úmido, as variações de temperatura são diminuídas e as plantas
apresentam melhor desenvolvimento.
Os sistemas PG e PD apresentaram maiores teores de umidade e me-
nores de temperatura no solo que o CC. Klein et alii (2001) explicam que
maiores quantidades de fitomassa, como cobertura do solo, promovem
acúmulo de água retida. Para Schick (2000), a cobertura do solo forma um
impedimento à perda de água por evaporação, por escoamento superficial
e por erosão, disponibilizando maiores quantidades para a cultura, resul-
tando, conseqüentemente, em menores temperaturas do solo.
Tabela 1. Efeitos dos tratamentos na cobertura vegetal, na umidade
e temperatura do solo e na produtividade do milho, durante os anos avaliados
Tratamentos Cobertura (%) Umidade (%) Temperatura (
0
C) Produtividade (t ha
-1
)
Adubado 76,37 a 10,35 b 27,07 a 4,49 a
Não Adubado 76,41 a
10,84 a 27,50 b 3,12 b
PG 77,21 a 10,91 a 27,15 a 4,11 a
PD 75,57 a 10,74 a 27,12 a 3,96 a
CC 5,96 b 10,14 b 27,58 b 3,95 a
Ano 1998 52,89 c 10,33 b 24,25 a 3,76 c
Ano 1999 78,76 b 10,89 b 29,58 c 4,27 b
Ano 2000 77,37 b 14,57 a 25,15 b 4,84 a
Ano 2001 96,53 a 6,59 c 30,15 d 3,15 d
Obs.: Médias seguidas pela mesma letra minúscula na coluna não diferem estatisticamente entre si, pelo teste de Tukey a 5%.
A produtividade do milho seguiu os valores de precipitação pluvial.
Assim, a maior produtividade foi conseguida com a maior precipitação e
a menor produtividade de milho ficou com o ano em que ocorreu menor
precipitação. Na região Nordeste, as condições climáticas dificultam o
aumento da produtividade. O possível efeito da alta cobertura vegetal do
solo no quarto ano é suplantada pela falta de água precipitada, resultando
em baixas produtividades. Verifica-se uma diferença de aproximadamen-
te 54% na produtividade do ano com maior precipitação para aquele com
menor precipitação.
82
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
REFERÊNCIAS
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EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA-EMBRAPA. Sistema brasileiro de
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KLEIN, A. V.; BARBOSA, R.; ANESI, A. L.; SIOTA, T. A. Retenção de água em restos culturais.
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MOROTE, C. G. B.; VIDOR, C.; MENDES, N. G. Alterações na temperatura do solo pela co-
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SCHICK, J.; BERTOL, I.; BATISTELA, O.; BALBINOT JUNIOR, A. A. Erosão hídrica em cambis-
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peratura da camada superficial do solo em função da cobertura morta por resteva de soja em
plantio direto. R. Bras. Ci. Solo, Campinas, 15: 219-224, 1991.
Conclusões
1. A precipitação pluvial foi o principal fator na redução da produtivi-
dade da cultura do milho, contribuindo muito mais que os próprios
sistemas de manejo.
2. Os quatro anos de cultivo foram insuficientes para que os sis
-
temas de manejo promovessem mudanças na produtividade de
grãos de milho.
3. Mesmo em situações restritas quanto ao regime pluviométrico,
o acúmulo de cobertura do solo após quatro anos apresenta-se
adequada e suficiente para instalação do sistema de plantio dire-
to, contribuindo para aumentar os teores de umidade e reduzir a
temperatura do solo.
83
ARTIGOS
Análise experimental da
influência de Redes PLC na
qualidade da energia elétrica
BIONDI, Rafael B.; WANDERLEY, Augusto C. F.; CAMPOS,
Antonio L. P. de S.; MOURA, João Maria da C.
Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte
Palavras-chave: Redes domiciliares; Energia elétrica; Redes PLC.
Introdução
Uma demanda crescente por conectividade em ambientes domésticos vem
surgindo devido à necessidade de compartilhar recursos e acesso à Internet em
banda larga. Assim, o paradigma de redes domiciliares foi criado privilegiando
características importantes como a onipresença de pontos de acesso à rede na
residência (CAMPISTA, 2004). O grande mercado para os próximos anos em
redes domiciliares é a interconexão, em rede e com qualidade de serviço, de
equipamentos de áudio e vídeo. O custo é fator primordial em redes domicilia-
res e, conseqüentemente, a realização de obras civis para instalação de novos
cabos pode ser decisiva na escolha da tecnologia a ser adotada.
Fotos: Shutterstock / Gráficos: Antonio Campos
84
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
As redes domiciliares através da rede elétrica (Redes PLC – Power Line
Communication) são uma alternativa de acesso que têm a grande vantagem
de não precisarem de novos cabos para a comunicação. Redes domiciliares
é a interconexão de dispositivos domésticos restritos a uma área residencial,
limitada a 300 m. Prevêem-se aplicações de controle e monitoramento de
eletrodomésticos, interconexão de computadores, aparelhagem de som e
vídeo, telefonia (voz sobre IP) e compartilhamento de acesso a Internet
em banda larga. Hoje o mercado está voltado para as aplicações de inter-
conexão de computadores e acesso à Internet, enquanto para um futuro
próximo espera-se poder atender a aplicações de vídeo.
A idéia de usar a fiação elétrica como meio de comunicação não é
nova. Já em 1838, surgiu o primeiro medidor de consumo remoto. A fiação
elétrica é um meio bastante hostil para comunicações de dados, e estas
aplicações pioneiras somente foram possíveis por requererem baixas taxas
de transmissão. Recentemente, surgiram as primeiras propostas de se utili-
zar complexas técnicas de modulação e correção de erros para permitir o
aumento da taxa de transmissão. Isto possibilitou a interconexão de compu-
tadores e o compartilhamento de acesso a Internet usando a fiação elétrica,
com isto, surgiu o Padrão HomePlug.
O padrão HomePlug (LEE, 2002) está em sua primeira versão e foi de-
senvolvido pela HomePlug Powerline Alliance. Este padrão define o método
de acesso ao meio e especificações da camada física. Sua principal preocu-
pação é a robustez da transmissão de dados para compensar as adversida-
des do canal. Segundo Pavlidou o meio elétrico tende a ser pior que o meio
sem fio em termos de atenuação e ruído (PAVLIDOU, 2003).
Os principais fatores que dificultam a propagação de sinal são: a ate-
nuação, o ruído e a distorção. Para resolver estes problemas o padrão Ho-
mePlug usa técnicas avançadas de modulação como o OFDM (Orthogonal
Frequency Division Multiplexing) e controle de acesso ao meio por CSMA/
CA (Carrier Sense Multiple Access with Collision Avoidance). O controle de
acesso ao meio por CSMA/CA é geralmente utilizado, pois devido à atenua-
ção, não é possível garantir a detecção de colisão (BINGHAM, 2003).
Este trabalho visa promover experimentos em um ambiente fechado, com
a presença de transmissão PLC e sem a presença desta transmissão, para que
se seja possível uma comparação de resultados, chegando à conclusão sobre
os graus de interferência causados na rede elétrica e se estas interferências
são capazes de prejudicar ou até mesmo interferir em um processo residen-
cial ou produtivo. Os fatores analisados são a Taxa de Distorção Harmônica
(THD) e um possível aumento na presença de freqüências harmônicas.
Padrão Homeplug 1.0
A tecnologia PLC começou a ser utilizada na década de 1920 para trans-
missão de voz (modulação AM) em redes de alta tensão. Mais tarde come-
çou a ser utilizada em aplicações de telemetria e controle. Apenas na déca-
da de 1990 foi criado o primeiro protótipo de um modem que trabalhava
com uma taxa modesta de 60 bps e transmitia a uma distância máxima de
1 km. Dentre as principais melhorias do protótipo estão a capacidade de
Rafael Briani Biondi é aluno do
Cefet/RN, do Curso Superior
de Tecnologia em Automação
Industrial. Suas áreas de
interesse são Automação e
Redes de Computadores.
Augusto César Fialho Wanderley
é professor do Cefet/RN, mestre
em Engenharia Elétrica pela
Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN). Tem
realizado trabalhos na área de
Qualidade e conservação de
energia elétrica.
Antonio Luiz Pereira de Siqueira
Campos é professor da UNED
Zona Norte, do Centro Federal
de Educação Tecnológica do
Rio Grande do Norte, doutor
em Engenharia Elétrica pela
Universidade Federal da Paraíba
(UFPB). Tem realizado trabalhos
na área de Eletromagnetismo e
Comunicação de dados sobre a
rede elétrica.
João Maria da Costa Moura é
aluno da UNED Zona Norte, do
Centro Federal de Educação
Tecnológica do Rio Grande do
Norte, do Curso Subseqüente
de Sistemas de Informação.
Suas áreas de interesse são
Programação e Redes de
Computadores.
85
ARTIGOS
transmissão bidirecional, a utilização de freqüências mais elevadas e meno-
res níveis de potência do sinal transmitido.
Até pouco tempo atrás não havia nenhum padrão para essa tecnologia,
o que significa que cada empresa desenvolvia sua própria tecnologia PLC.
A iniciativa de criar uma tecnologia unificada teve início com a criação do
grupo HomePlug Alliance, formado por algumas das maiores empresas de
tecnologia do mundo como LG, Motorola, Linksys, Intel, Sansung, Sharp,
Texas Instruments, etc.
O padrão Homeplug 1.0 foi o primeiro padrão PLC desenvolvido pela
HomePlug Alliance, um consórcio criado em 2000 composto de empre-
sas de grande participação no mercado internacional de tecnologia como
Linksys, Intel, LG, Sansung, Motorola, etc com o objetivo de criar um pa-
drão para a tecnologia PLC. Esse protocolo foi concebido para distribuir
internet em um ambiente residencial. Na verdade ele veio para tentar suprir
um “vácuo” entre as tecnologias “com fio” e “sem fio”. Para conseguir essas
taxas o padrão utiliza multiplexação OFDM com as modulações derivadas
do PSK (Phase Shift Keying): DBPSK (Differential Binary Phase Shift Keying) e
DQPSK (Differential Quadrature Phase Shift Keying). Enquanto que a modu-
lação DBPSK consegue transmitir 1 bit por símbolo por portadora, o DQP-
SK consegue modular 2 bits por símbolo por portadora.
Na camada física o Homeplug 1.0 utiliza 128 subportadoras igualmente
espaçadas ocupando a faixa de 0 a 25 MHz. Destas, apenas 84 são escolhi-
das depois de uma análise periódica do meio. Além disso, 8 subportadoras
não são utilizadas devido à interferência de algumas delas nas transmissões
de rádio amador, restando ao final 76 subportadoras.
Monitoramento dos parâmetros
de qualidade da energia elétrica
O monitoramento da qualidade da energia elétrica deve ser realizado
com o objetivo de caracterizar as variações na rede elétrica. Este monitora-
mento deve atender as seguintes atividades:
conhecimento das instalações elétricas;
escolha do(s) local(is) de instalação dos equipamentos de medição;
duração e quantidade das medições;
análise dos resultados das medições; e
aplicação de soluções corretivas.
O conhecimento das instalações elétricas abrange o estudo dos diagra-
mas unifilares e trifilares e a inspeção dos vários sistemas e tipos de cargas
elétricas. A elaboração de um histórico dos distúrbios observados ajuda no
planejamento das ações. O(s) local(is) de instalação dos equipamentos de
medição permite determinar a abrangência do(s) problema(s), ou seja, até
onde os seus efeitos são detectados. O primeiro local deve ser o quadro ge-
ral. Se apenas um equipamento é atingido seu circuito de alimentação deve
ser analisado. O tempo de monitoração também é um fator importante,
pois a duração dos fenômenos, é bastante diversificada. Aldabó afirma que
para observar um problema devemos monitorar a tensão; para determinar
a causa devemos monitorar a tensão e a corrente.
•
•
•
•
•
86
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Devido a grande variedade de distúrbios relacionados à qualidade da
energia elétrica, também é grande a quantidade de soluções adotadas para
a sua correção. Dentre estas soluções podemos citar: equilíbrio das cargas
elétricas, instalação de reguladores de tensão, supressores de surto, filtros,
sistema de fornecimento ininterrupto de energia (UPS) etc.
Metodologia dos testes
Com o objetivo de analisar os efeitos produzidos por uma rede de com-
putadores utilizando tecnologia PLC, na qualidade da energia elétrica do
&HIHW¼51D PHWRGRORJLD DGRWDGD SUHYr YiULDV PHGLo}HV GRV SDUkPHWURV
elétricos envolvidos. Estas medições foram realizadas na presença e na au-
sência de transmissões PLC. Os locais escolhidos para as medições, são:
Quadro Terminal de Luz (QTL) do qual se origina o circuito elétrico
de alimentação dos computadores;
Quadro de Distribuição Geral (QDG) do laboratório de eletromecâni-
ca, o qual alimenta o QTL.
Fazendo as medições nestes quadros elétricos poderemos constatar até
onde os possíveis distúrbios originados pelo uso da tecnologia PLC se pro-
pagam. Um diagrama unifilar simplificado das instalações elétricas envolvi-
das no roteiro acima pode ser visto na Figura 1.
O equipamento que será utilizado para realizar as medições será um
analisador de energia elétrica, modelo 808, distribuído pela HOMIS. Este
equipamento, além de medir as grandezas elétricas usuais (tensão, corren-
te, potência e energia), permite a medição de harmônicas, afundamento e
elevação de tensão e transitórios. Através de um software fornecido com o
equipamento podem-se visualizar em um computador todas as grandezas
medidas pelo instrumento.
•
•
Figura 1. Diagrama unifilar das instalações elétricas
envolvidas nas medições
87
ARTIGOS
O diagrama da Figura 2 ilustra como serão efetuadas as medições no
QTL, no circuito que alimenta os equipamentos.
Medições serão realizadas nos quadros elétricos indicados na Figura 1,
visando detectar possíveis distúrbios causados apenas por um computador e
também quando os dois computadores estiverem ligados. Após estas medi-
ções, os modem’s serão conectados aos seus computadores e novas medi-
ções serão realizadas. A seguir, serão enviados entre os dois computadores
arquivos de dados e novas medições serão feitas. Em todas as medições os
dados serão armazenados no analisador de energia e somente depois serão
analisados com o auxílio do software. Os resultados obtidos com estas medi-
ções podem sugerir a necessidade de fazê-las em outros pontos da instalação
elétrica. A Figura 3 mostra o diagrama de ligação do analisador de energia
em quadros trifásicos, como o QDG ELETROMECÂNICA e o QGBT.
Figura 2. Diagrama para medição no QTL
Figura 3. Diagrama para medição em um quadro trifásico
88
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Análise dos resultados
Nesta seção são efetuadas análises gráfica e numérica dos dados obtidos
a partir das medições efetuadas no sistema elétrico do Laboratório de Eletro-
mecânica do Cefet/RN. Para esta análise foi escolhida a técnica das medianas,
que consiste em se obter o valor central dos dados para representar toda a
classe dos mesmos, provocando uma maior concordância dos resultados.
Primeiro, serão analisados os diagramas de espectros harmônicos presen-
tes na tensão e na corrente das três fases do sistema elétrico e posteriormente
as THD das mesmas fases, para que se possa chegar a alguma conclusão.
Para a primeira fase, os diagramas de espectro da tensão e da corrente
são mostrados nas figuras 4 e 5, respectivamente. As figuras ilustram a THD
antes e durante as transmissões PLC.
Figura 7. Diagrama espectral das harmônicas presentes
na corrente da segunda fase até a 13ª harmônica
Figura 6. Diagrama espectral das harmônicas presentes
na tensão da segunda fase até a 13ª harmônica
Figura 4. Diagrama espectral das harmônicas presentes
na tensão da primeira fase até a 13ª harmônica
Figura 5. Diagrama espectral das harmônicas presentes
na corrente da primeira fase até a 13ª harmônica
Nos diagramas ilustrados nas figuras 4 e 5 pode-se observar que as har-
mônicas presentes, tanto na tensão, como na corrente da primeira fase,
não sofreram variações consideráveis a ponto de interferir ou até mesmo
desestabilizar o sistema elétrico, tendo em vista que as mesmas sofreram
variações menores que um ponto percentual.
Para a segunda fase, os diagramas de espectro da tensão e da corrente
são mostrados nas figuras 6 e 7, respectivamente. As figuras ilustram a THD
antes e durante as transmissões PLC.
89
ARTIGOS
Para esta fase pode-se notar que também não houve taxas de variação
consideráveis, como se pode observar nos diagramas, tendo em vista que a
variação também não ultrapassa o valor de um ponto percentual.
Para a terceira fase, os diagramas de espectro da tensão e da corrente
são mostrados nas figuras 8 e 9, respectivamente. As figuras ilustram a THD
antes e durante as transmissões PLC.
Figura 9. Diagrama espectral das harmônicas presentes
na corrente da terceira fase até a 13ª harmônica
Figura 8. Diagrama espectral das harmônicas presentes
na tensão da terceira fase até a 13ª harmônica
Para esta fase obteve-se uma taxa de variação maior do que um ponto
percentual, porém a mesma se deu através de uma redução na presença
de harmônicas durante a transmissão de dados e isto pode ser associado
a algum fator externo. Sendo assim, pode-se concluir para essa fase que
não foram obtidos valores significativos no aumento da presença de fre-
qüências harmônicas.
A Tabela 1 ilustra a análise das THD obtidas experimentalmente na
tensão e na corrente das três fases, antes e durante as transmissões de
dados na rede PLC.
Tabela 1. Valores de THD na tensão e na corrente das três fases,
com e sem a presença da rede PLC
Parâmetro V
1
I
1
V
2
I
2
V
3
I
3
THD total com Transmissão 2,1% 3,0% 2,1% 5,8% 2,1% 8,9%
THD total sem Transmissão 1,9% 3,0% 1,9% 6,7% 1,9% 13,6%
Como se pode perceber houve variações pouco perceptíveis na THD
das três fases do sistema elétrico. Pôde-se observar uma variação um pou-
co maior na THD das correntes I
2
e I
3
. Entretanto, houve uma diminuição
da THD o que leva a descartar a possibilidade de interferência originada
da transmissão de dados PLC, tendo em vista que os valores que foram
medidos durante as transmissões são menores do que os valores obtidos
sem as transmissões. Este aumento na THD total está relacionado com
fatores externos à rede PLC.
90
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
REFERÊNCIAS
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BINGHAM, J. A. C. Multicarrier modulation for data transmission: an idea whose time has
come. IEEE Communications Magazine, vol. 28, nº 5, 1990, p. 5-14.
CAMPISTA, M. E. M. Uma análise da capacidade de transmissão na rede de energia elétrica
domiciliar. In: XXI Simpósio Brasileiro de Telecomunicações – SBRt 2004, 2004, Belém.
CANETE, F. et alii. Modeling and evaluation of the indoor power line transmission medium.
IEEE Communications Magazine, 2003, p. 41-47.
DAI, H.; POOR, V. Advanced signal processing for power line communications. IEEE Com-
munications Magazine, 2003, p. 100-107.
DOSTERT, K. M. Frequency-hopping spread-spectrum modulation for digital communica-
tions over electrical power lines. IEEE journal on selected areas in communications, vol. 9,
nº 3, p. 700-710, 1990.
DUGAN, R. C.; McGRANAGHAN, M. F.; BEATY, H. W. Electrical power systems quality. New
York: McGraw-Hill, 1996.
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th
Africon
Conference, África, vol. 2, nº 4, p. 558-563, 1996.
HUANG, H. et alii. Development of an intelligent energy management network for buil-
ding automation. IEEE transactions on automation science and engineering, vol. 1, nº 1, p.
14-25, 2004.
INSTITUTE OF ELECTRICAL AND ELECTRONICS ENGINEERS. IEEE Std. 519: IEEE recom-
mended practices and requirements for harmonic control in electrical power systems. New
York, 1992.
INTERNATIONAL ELECTROTECHNICAL COMMISSION. IEC 61004-4-30: Electromagnetic
compatibility (EMC) - Part 4-30: Testing and measurement techniques – Power quality measu-
rement methods. 2003.
LEE, M. K. et alii. HomePlug 1.0 Powerline Communication LANs –Protocol
Description and Performance Results version 5.4. International Journal of Communication
Systems, 2002, p. 1-25.
LIN, Y. J., LATCHMAN, H. A. e NEWMAN, R. E. A Comparative performance study of wi-
reless and power line networks. IEEE Communications Magazine, vol. 41, nº 4, 2003, p.
54.63.
PAVLIDOU, N. et alii. Power line communications: state of the art and future trends. IEEE
Communications Magazine, 2003, p. 34-40.
Conclusão
Após a análise dos dados pode-se perceber que as redes PLC não
proporcionam aumento significativo nas Taxas de Distorção Harmôni-
cas (THD) e na presença de freqüências harmônicas dos sistemas elé-
tricos nos quais as redes estão transmitindo. Foram analisados fatores
de aumento na presença de harmônicas e na THD do sistema elétrico,
deixando-se de lado outros fatores de qualidade de energia, assim um
número maior de medições seria necessário para se ter uma melhor
abrangência sobre o problema e uma análise mais precisa dos dados.
Entretanto, este trabalho é um início para esta linha de pesquisa e seus
resultados podem ser de bastante utilidade para pesquisadores que pos-
teriormente decidam estudar as redes PLC e sua co-relação com os fato-
res de qualidade de energia.
91
RESUMOS ESTENDIDOS, RELATOS DE EXPERIÊNCIAS E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
A educação é uma área ampla, na qual o conhecimento é um ativo
que possui diversas formas de aquisição. Nessas diferentes maneiras de
aprender, uma certeza é clara: trocar a abstração pelo real tem tido bons
resultados. Com isso, a informática se torna um ponto forte de apoio, pois
o uso do computador cria condições para que o aluno construa o seu
conhecimento por meio da criação de ambientes de aprendizagem para
uma melhor visualização e interação com o assunto apresentado. Nes-
se contexto computacional, a realidade virtual desponta como o melhor
instrumento para a criação de cenários imaginados, podendo resolver o
grande problema de abstração de alguns conteúdos, como, por exemplo,
a física, área extremamente carente de procedimentos de simulação, pois
é crescente a preocupação dos docentes pelo insucesso dos alunos na
aprendizagem dessa disciplina.
Uso da realidade virtual na melhoria
do processo de ensino da física
ARAÚJO, Jucélio C.
&HQWUR)HGHUDOGH(GXFDomR7HFQROyJLFDGH8UXWDt¼*2
Unidade Descentralizada de Morrinhos
Fotos: Shutterstock / Gráficos: Jucélio Costa de Araújo
92
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
O uso da realidade virtual
1
estende-se em várias áreas, uma em desta-
que é a educação, que é um dos campos mais vastos para sua aplicação.
Em um país como o Brasil, no qual a demanda por ensino cresce a cada
ano, a realidade virtual pode agir como fator impulsionador da divulgação
de sistemas de simulação, como uma nova forma de ensino na dissemina-
ção do aprendizado. Na avaliação do sistema, foram feitas entrevistas com
professores da rede pública e particular de ensino na área de física, espe-
cificamente do movimento harmônico simples (MHS), buscando, assim,
enumerar os principais problemas encontrados pelos alunos durante as
aulas desta matéria. Aplicou-se, também, um questionário aos alunos en-
volvidos dessas escolas, para se saber especificamente quais as principais
dificuldades de aprendizado dentro deste conteúdo de física. Com estes
métodos, detectou-se a dificuldade por parte dos alunos em visualizar os
processos físicos de uma maneira mais concreta, pois as imagens estáticas
(imagens em livros, ou apostilas) às quais eles estão acostumados davam
apenas uma visão parcial do evento, fazendo com que os alunos tivessem
uma interação menor com o fenômeno.
O movimento harmônico simples (MHS) é um tipo particular de mo-
vimento periódico oscilatório em que a partícula se move sobre uma
reta, de modo que a intensidade da força que tende a levá-la ao ponto
fixo cresce na mesma proporção em que aumenta o seu afastamento
deste mesmo ponto fixo. O movimento harmônico simples pode ser
visto como a projeção ortogonal do movimento circular uniforme (MCU)
sobre qualquer reta. Por exemplo, se uma partícula descreve um MCU
num plano vertical, a sombra da partícula descreve um MHS sobre uma
linha vertical.
Na implementação do sistema, foi construído um protótipo para ser
apresentado aos alunos para a comparação do nível de aprendizado da
aula virtual em relação a uma aula comum, e outra aula com o uso de
um ambiente virtual demonstrando o campo de atuação do movimento
harmônico simples dentro do movimento circular. O ambiente virtual foi
modelado na linguagem VRML, permitindo a interação do usuário com o
mundo, havendo a necessidade da integração da linguagem VRML e Java
script, para uma melhora do nível de animação dos objetos participantes
do evento, pois a linguagem VRML é limitada para atualizações automáticas
no mundo virtual. Essa simulação trata do movimento harmônico simples
aplicado no movimento circular uniforme.
Como pode ser visto nas figuras, existem três partículas, representadas
por pequenos círculos, um deles está em cima da borda circular azul e
os outros em um dos dois diâmetros. Tais diâmetros são perpendiculares
entre si. Assim, uma partícula se movimenta de modo que, em intervalos
de tempos iguais, o movimento se repete identicamente (movimento pe-
riódico). Assim, uma partícula estará em MHS quando se move sobre uma
reta sob o efeito de uma força cujo módulo é proporcional ao afastamento
da partícula de um ponto fixo sobre esta reta e dirigida para esse ponto.
Uma força que, atuando sobre uma partícula, tem a propriedade de estar
sempre dirigida a um ponto fixo, é chamada de força restauradora. A força
que governa o MHS é uma força restauradora cujo módulo é proporcional
ao afastamento da partícula do ponto fixo considerado.
1. Segundo Cláudio Kirner,
em Sistemas de Realidade
Virtual. Grupo de pesquisa em
Realidade Virtual, Departamento
de Computação – UFSCar,
1997. Documento disponível
no endereço eletrônico:
http://www.dc.ufscar.br/~grv/,
acesso em: setembro 2005.
93
RESUMOS ESTENDIDOS, RELATOS DE EXPERIÊNCIAS E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
O ambiente foi apresentado a alunos e pro-
fessores de uma escola pública e outra privada.
O ambiente foi testado por cerca de 50 alunos
dessas escolas, os quais que tinham dificulda-
des no conteúdo MHS da disciplina de física.
Foi feita, inicialmente, a apresentação formal
do ambiente, tanto para alunos quanto para
professores, e a real finalidade desta demons-
tração. Primeiramente, foi ministrada uma aula
nos moldes normais para alunos, com o envol-
vimento apenas de quadro e giz para a explica-
ção do movimento harmônico simples. Em um
outro momento, foi apresentado o mesmo con-
teúdo, porém com a utilização do ambiente vir-
tual, mostrando o MHS em uma outra visão, na
qual os alunos tiveram uma participação mais
interativa com o ambiente. Após a apresentação
do protótipo, todos os participantes responde-
ram questionários apresentando suas opiniões
referentes ao uso da realidade virtual dentro do
ensino da física e apresentaram também suges-
tões em relação ao uso da realidade virtual no
ensino do MHS. No geral, os resultados finais
foram satisfatórios, pois 95% dos usuários do
processo acharam que o aprendizado foi bem
estimulado com o uso do ambiente virtual, e
somente 5% acharam que tiveram alguma di-
ficuldade no aprendizado do movimento har-
mônico simples utilizando ambientes virtuais,
como é mostrado na tabela 1.
Tabela 1. Resultados do experimento do ambiente virtual
de física em escolas públicas e particulares
Usuários
do sistema
Quantidade Aprovação ao uso
do sistema
Rejeição ao uso
do sistema
Professores 4 4 0
Alunos
90 86 4
A principal conclusão deste trabalho é a aplicabilidade da realidade vir-
tual como instrumento capaz de melhorar e motivar alunos e professores
no processo de ensino-aprendizagem de qualquer conteúdo. À medida que
era feito o estudo sobre o assunto, ficou claro que hoje se busca sempre,
na área da educação, meios para se poder ter um melhor aprendizado em
relação às disciplinas, e, com isso, a tecnologia passa a ter um papel de fun-
damental importância em relação à qualidade de aprendizado. Contudo, as
opiniões dos professores foram bem aceitas, pois os mesmos possuem um
conhecimento bem concreto em relação ao assunto, porém, mais de 95%
dos alunos tiveram a mesma opinião, fazendo com que a idéia realmente
tivesse sucesso – o que nos torna responsáveis pela mudança dos paradig-
mas que existem atualmente dentro da educação.
Figura 1. Imagens do aplicativo referente ao
ponto de visualização da aplicação em RV
94
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no mundo, existem
45 milhões de pessoas com cegueira e 135 milhões com profunda deficiên-
cia visual. No Brasil, segundo a mesma fonte, essa taxa está na faixa de 1% a
1,5% da população, sendo que 80% possui deficiências comprometedoras
da visão e 20% tem ausência total da visão. Esses dados reforçam a impor-
tância e a necessidade de oportunizar e aumentar o grau de acessibilidade
dessas pessoas que, particularmente, precisam de uma linguagem própria
para a comunicação fundamentada no uso dos sentidos humanos. O co-
nhecimento dos sentidos humanos por um portador de deficiência visual se
faz necessário para o entendimento das formas de adaptação e compensa-
ções que os mesmos necessitam.
Acessibilidade aos portadores
de deficiência visual no uso
do telefone celular
MARTINS, Ronan M.; KUHNEN, Igor A.
Centro Federal de Educação Tecnológica do Mato Grosso
Shutterstock
95
RESUMOS ESTENDIDOS, RELATOS DE EXPERIÊNCIAS E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
A interação do homem com o ambiente é tão eficaz e espontânea que
é difícil avaliar as complexas operações por trás até mesmo da experiência
sensorial mais simples. Desse modo, os sentidos são usados sem se dar aten-
ção ao ato de “utilizar”: o mecanismo da sensibilidade funciona de maneira
espontânea, sem que haja esforço para isso. Nesse sentido, a tecnologia é
um meio facilitador desta relação.
Com o propósito de mostrar tal relação, o presente trabalho ilustra os
principais elementos tecnológicos envolvidos no desenvolvimento de um
programa computacional que permite a interação entre o portador de
deficiência visual com o telefone celular, especificamente, com as men-
sagens recebidas pelo telefone celular, isto é, assim que a mensagem é
recebida, toca-se o som das palavras contidas na mensagem. Desta forma,
o portador poderá receber mensagens de amigos, parentes, informativos,
propaganda etc., e também utilizar normalmente outros recursos que o
próprio aparelho dispõe.
O desenvolvimento desta aplicação ocorreu através da linguagem de
programação Java e com o J2ME Wireless Toolkit 2.2 para emulação e de-
senvolvimento do sistema. A figura 1 ilustra as tecnologias utilizadas no
desenvolvimento do programa.
A figura 2 ilustra o emulador usado nos experimentos.
Este trabalho teve como finalidade primordial contribuir no sentido de
proporcionar acessibilidade ao portador de necessidade visual com a tec-
nologia envolvendo o telefone celular
1
. É um projeto de intuito social e, cer-
tamente, poderá obter ajuda de várias pessoas para o seu aprimoramento.
Figura 2. Emulador utilizado
1. Todo o código fonte pode
ser obtido com os seguintes
Figura 1. Estrutura tecnológica utilizada no desenvolvimento
do programa computacional
96
CADERNOS TEMÁTICOS Nº 19 FEV. 2008
CONTATOS
Contatos
BA
Efeitos da temperatura e umidade
do solo na produtividade do milho
Antonio Sousa Silva
Ivandro de França da Silva
Escola Agrotécnica Federal
de Senhor do Bonfim
Estrada de Igara, Km 04 – Zona Rural
Senhor do Bonfim/BA
CEP: 48970-000
Telefones: (74) 3541-3676 / 3382
Fax: (74) 3541-3676
Escola de Guanambi lança
cultivar resistente a fungos
Sérgio Luiz Rodrigues Donato
Alessandro de Magalhães Arantes
Escola Agrotécnica Federal
Antônio José Teixeira
Zona Rural – Distrito de Ceraíma
Guanambi/BA – Caixa Postal: 009
CEP: 46430-000
Telefone: (77) 3493-2100
Fax: (77) 3493-2099
Site: www.eafajt.gov.br
GO
Uso da realidade virtual
na melhoria do processo
de ensino da física
Jucélio Costa de Araújo
Centro Federal de Educação
7HFQROyJLFDGH8UXWDt¼*2
Faz. Palmital, Km 2,5 – Zona Rural
Urutaí/GO – CEP: 75790-000
Telefone: (64) 3465-1900
Fax: (64) 3465-1903
Site: www.cefeturutai.edu.br
Unidade de Ensino
Descentralizada de Morrinhos
Rod. BR 153, Km 1413 – Zona Rural
Morrinhos/GO – CEP: 75650-000
Telefones: (64) 3413-2112 / 2126
Fax: (64) 3413-2122
MG
Produtividade de três cultivares
de mamona em consórcio com
feijão caupi, com e sem adubação
Gustavo Haddad Souza Vieira
Nívio Poubel Gonçalves
João Carneiro Filho
Marco Aurélio Caldeira Torres
Centro Federal de Educação
Tecnológica de Januária
Estrada Januária, s/nº
Fazenda São Geraldo – Zona Rural
Januária/MG – CEP: 39480-000
Telefone: (38) 3621-1100 / 2108
Site: www.cefetjanuaria.edu.br
MT
Acessibilidade aos portadores
de deficiência visual no uso
do telefone celular
Ronan Marcelo Martins
Igor Antonio Kuhnen
Ensino aliado à tecnologia
Ghilson Ramalho Corrêa
Centro Federal de Educação
Tecnológica do Mato Grosso
Rua Prof
a
. Zulmira Canavarros, 95
Centro – Cuiabá/MT
CEP: 78005-390
Telefones: (65) 3264-5635 /
3314 / 3500
Fax: (65) 3322-6539
Site: www.cefetmt.br
PB
Pesquisa incorpora microondas
em processos industriais
Augusto Fonsêca
Adriana Almeida Silva
Centro Federal de Educação
Tecnológica da Paraíba
Av. 1º de Maio, 720
Jaguaribe – João Pessoa/PB
CEP: 58015-905
Telefones: (83) 3208-3000 / 3241-4408
Fax: (83) 3208-3088
Site: www.cefetpb.edu.br
PE
Sonda diminui seqüelas
do câncer de mama
Iran José Oliveira da Silva
Centro Federal de Educação
Tecnológica de Pernambuco
Av. Prof. Luiz Freire, 500 – Curado
Recife/PE – CEP: 50740-540
Telefones: (81) 2125-1600 / 1604
Fax: (81) 3271-2338
Site: www.cefetpe.br
PI
A metrologia no cotidiano e suas
principais funções
Danilo Cavalcante Braz
Carlos Alberto Lopes Fonteles
Ayrton de Sá Brandim
Bioinformática estrutural
aplicada à farmacogenética
Ricardo Martins Ramos
Ayrton de Sá Brandim
Hermes Luís Neubauer de Amorim
Centro Federal de Educação
Tecnológica do Piauí
Praça da Liberdade, 1597 – Centro
Teresina/PI – CEP: 64000-040
Telefone: (86) 3215-5224
Fax: (86) 3215-5206
Site: www.cefetpi.br
Classificação de falhas em
máquinas rotativas utilizando
redes neurais artificiais
Darley Fiácrio de Arruda Santiago
Jorge Nei Brito
Robson Pederiva
Utilização da flora nativa
com potencial econômico
Maria Edileide Alencar Oliveira
Pollyana Kelly Siqueira Sousa
Unidade de Ensino
Descentralizada de Floriano
Rua Francisco Urquiza Machado, 462
Meladão – Floriano/PI
CEP: 64800-000
Telefones: (89) 3515-2234 / 2239
Fax: (86) 3515-2234
Site: www.cefetflo.edu.br/uned-floriano
PR
A trajetória de uma empresa
incubada no hotel tecnológico:
o caso ForLogic Software
Márcio Jacometti
Jeison Arenhart De Bastiani
jeison@forlogic,.com.br
Diogo Arenhart Marinho
Universidade Tecnológica
Federal do Paraná
Campus Cornélio Procópio
Avenida Alberto Carazzai, 1640
Cornélio Procópio/PR
CEP: 86300-000
Fone: (43) 3520-4000
Fax: (43) 3520-4010
Site: www.cp.cefetpr.br
RN
Análise Experimental da
Influência de Redes PLC na
Qualidade da Energia Elétrica
Augusto César Fialho Wanderley
Antonio Luiz P. de Siqueira Campos
Rafael Briani Biondi
João Maria da Costa Moura
Centro Federal de
Educação Tecnológica
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RS
Alternativas de minimização
dos impactos ambientais
da silvicultura nas microbacias
do Rio Grande do Sul
Fernando Riefel Guimarães
Jocelito Saccol de Sá
Centro Federal de Educação
Tecnológica de Pelotas
Praça 20 de Setembro, 455 – Centro
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