
57
inclusive partes dele destacadas e projetadas como modelo para outros corpos. Cumpre
ressaltar, partes correspondentes às zonas erógenas, sendo essas manipuladas como
valor pelo enunciador, cumprindo o papel de impulsionar a adesão do enunciatário ao
programa narrativo de investimento na forma corporal.
A dimensão realista impressa na nudez do corpo da modelo, cuja imagem
alcança a marca da revista, misturando-se com a mesma, deixando entrever a marca de
identificação do enunciador com o modelo de corporeidade exposto, surge de forma
positivizada, na medida em que aparece como um revestimento do corpo, aos moldes de
uma vestimenta, valorizada no plano da visibilidade.
46
Tomando em conjunto as enunciações que remetem ao corpo objetal de Veja ,
Época e Istoé, observa-se a escolha de uma seleção lexical, na composição dos
enunciados de capa, bem como na extensão das matérias, que atualizam figuras de um
corpo idealizado segundo padrões de perfeição: “ordem estética”, “técnicas arrojadas”,
“formas perfeitas”, “aprimora(mento) de técnicas”, “aperfeiçoamento do belo”, que, a
princípio, atualizam um conceito de beleza fundado na idéia de proporção e simetria,
que relembram a tradição clássica
47
. Ao fixar modelos de perfeição, na composição um
imaginário corporal, o discurso midiático cuida em acentuar as imperfeições do corpo
do sujeito enunciatário, instalando-o no percurso narrativo na posição de sujeito de uma
busca constante. Uma busca que é renovada sempre que há a divulgação de uma nova
técnica de alcance da beleza idealizada. A busca da conformação com o novo,
anunciado como ruptura, na verdade reorienta o agir do sujeito mediante a perspectiva
da programação, uma vez que assegura a manutenção da perspectiva modelar. Nesse
caso, o novo simplesmente resulta na afirmação do velho e mesmo padrão de beleza,
inatingível, por definição, na medida em que sempre se renova. O filtro da
46
Configurando uma constante nos enunciados da mídia semanal, tomando a especificidade do corpus
analisado, destaca-se a reiteração da nudez. Entre as muitas maneiras de significar, essas atreladas, caso a
caso, ao modo como é colocada em cena, aproveitamos, aqui, a reflexão de E. Landowski sobre os
regimes de visibilidade do ‘nu’, a partir de corpus tomado do discurso publicitário, que nos parece
aplicável ao discurso midiático. Observando não apenas critérios figurativos mas também da dimensão
plástica, o semioticista destaca a “noção de nu em estado puro”: “A ausência de cor como característica
plástica coincide, quase sempre, figurativamente falando, com um modo específico de encenação do
corpo: com aquilo que se poderia chamar de nu em estado puro por oposição ao despido”. Indo um pouco
mais adiante sobre a própria noção de nu, observa que, em determinadas construções, o nu pode não se
definir “necessariamente como o resultado de um processo, em curso ou concluído, de desvelamento –
negação de uma negação que revelaria o que se achava oculto ou suspenderia algum interdito”, podendo
apresentar-se também positivamente, como se fosse uma forma de vestimenta – uma entre outras
possíveis. In: “Masculino, feminino, social”, Presenças do outro, op cit, p. 157.
47
As origens do culto à beleza corporal pode ser localizada na Grécia antiga. Na antiguidade clássica, a
beleza era reflexo de simetria e se fazia presente em obras primas como a escultura da deusa Atena.
Entretanto, embora cultuassem o físico, o ideal de beleza dos gregos era acompanhado de um
aprimoramento intelectual e do espírito.