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— Boa noite, murmurou o negro com uma voz triste e profunda, quase
lúgubre.
Acendiam-se as estrelas no céu muito alto e de uma limpidez outonal...
Bom-Crioulo não pensou em dormir, cheio, como estava, de ódio e
desespero. Ecoavam-lhe ainda no ouvido, como um dobre fúnebre, aquelas palavras
de uma veracidade brutal, e de uma rudez pungente : —“Dizem até que está
amigado!”
Amigado, o Aleixo! Amigado, ele que era todo seu, que lhe pertencia como o
seu próprio coração: ele, que nunca lhe falara em mulheres, que dantes era tão
ingênuo, tão dedicado, tão bom!... Amigar-se, viver com uma mulher, sentir o
contacto de outro corpo que não o seu, deixar-se beijar, morder, nas ânsias do gozo,
por outra pessoa que não ele, Bom-Crioulo!...
Agora é que tinha um desejo enorme, uma sofreguidão louca de vê-lo,
rendido a seus pés, como um animalzinho; agora é que lhe renasciam ímpetos
vorazes de novilho solto, incongruências de macho em cio, nostalgias de libertino
fogoso... As palavras de Herculano (aquela história do grumete com uma rapariga)
tinham-lhe despertado o sangue, fora como uma espécie de urtiga brava
arranhando-lhe a pele, excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora sim, fazia
questão! E não era somente questão de possuir o grumete, de gozá-lo como outrora,
lá cima, no quartinho da Rua da Misericórdia: — era questão de gozá-lo,
maltratando-o, vendo-o sofrer, ouvindo-o gemer... Não, não era somente o gozo
comum, a sensação ordinária, o que ele queria depois das palavras de Herculano:
era o prazer brutal, doloroso, fora de todas as leis, de todas as normas... E havia de
tê-lo, custasse o que custasse!
Decididamente ia realizar o seu plano de fuga essa noite, ia desertar pelo
mundo à procura de Aleixo.
Inquieto, sobreexcitado, nervoso, pôs-se a meditar. O grumete aparecia-lhe
com uma feição nova, transfigurado pelos excessos do amor, degenerado, sem
aquele arzinho bisonho que todos lhe admiravam, o rosto áspero, crivado de
espinhas, magro, sem cor, sem sangue nos lábios... Pudera! Um homem não resiste,
quanto mais uma criança! Aleixo devia estar muito acabado; via-o nos braços da
amante, da tal rapariga — ele novo, ela mocinha, na flor dos vinte anos —, via-o
rolar em espasmos luxuriosos, grudado à mulher, sobre uma cama fresca e alva —
rolar e cair extenuado, crucificado, morto de fraqueza... Depois a rapariga
debruçava-se sobre ele, juntava boca à boca num grande beijo de reconhecimento.
E no dia seguinte, na noite seguinte, a mesma cousa.
Bom-Crioulo desnorteava. Inconscientemente era arrastado para um mundo
de idéias vagas que não o permitiam tomar uma solução pronta, definitiva. Só uma
idéia conservava-se firme e clara em seu espírito: fugir, fugir quanto antes, não
esperar mais nem um segundo, romper os diques de seu isolamento e amanhecer
na rua, no meio da cidade, longe do hospital, “desse hospital de merda”!
Seus cálculos não podiam falhar. Deixava uma janela aberta, pretextando
calor, arrumava a trouxa...— qual trouxa! nem era preciso trouxa! — e, alta noite,
descia por um cabo. As janelas que davam para os Órgãos ficavam sobre um
terreno anfractuoso, espécie de ladeira bronca, meio íngreme, despenhando para
umas oficinas e estaleiros que havia embaixo, na ilha. Não eram, porém, tão altas
que se não pudesse, embora dificilmente, com agilidade, tentar uma escalada. E
Bom-Crioulo não seria o primeiro; antes dele, outros haviam desertado por ali.
Contava-se de um que rolara a montanha, sendo encontrado quase morto ao pé de