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Universidade da Amazônia
Bom-CriouloBom-Crioulo
de Ade Adolfo Caminhadolfo Caminha
NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Av. Alcindo Cacela, 287 – Umarizal
CEP: 66060-902
Belém – Pará
Fones: (91) 210-3196 / 210-3181
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Bom-Crioulo
de Adolfo Caminha
CAPÍTULO I
A velha e gloriosa corveta — que pena! — já nem sequer lembrava o mesmo
navio d’outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como um galera de
lenda, branca e leve no mar alto, grimpando serena o corcovo das ondas!...
Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas velas
encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro que entusiasmava a
gente nos bons tempos de “patescaria”. Vista ao longe, na infinita extensão azul, dir-
se-ia, agora, a sombra fantástica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha
carcaça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal das velas até a primitiva
pintura do bojo.
No entanto ela aí vinha — esquife agourento — singrando águas da pátria,
quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já como uma enorme
garça branca flechando a líquida planície, mas lenta, pesada, como se fora um
grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o mar...
Havia pouco entrara na região das calmarias: o pano começava a bater
frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois, com uma pancada
surda e igual, no mesmo abandono sonolento; a viagem tornava-se monótona; a
larga superfície do oceano estendia-se muito polida e imóvel sob a irradiação
meridional do sol, e a corveta deslizava apenas, tão de leve, tão de leve que mal se
lhe percebia o movimento.
Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, indício algum de criatura
humana fora daquele estreito convés: água, somente água em derredor, como se o
mundo houvesse desaparecido num dilúvio medonho..., e no alto, lá em cima, o
silêncio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia.
Triste e nostálgica paisagem, onde as cores desmaiavam à força de luz e a
voz humana perdia-se numa desolação imensa!
Marinheiros conversavam à proa, sentados uns no castelo, outros em pé,
colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqüilamente, esquecidos da faina.
As chapas dos mastros, a culatra das peças, varais de escotilha, tudo quanto é aço
e metal amarelo reluz fortemente, encandeando a vista.
De vez em quando há um grande rebuliço: a mastreação geme, como se fora
desprender-se toda, o pano bate com força de encontro às vergas, chocam-se cabos
com um ruidozinho seco, e ouve-se o cachoeirar da água no bojo da velha nau.
— Agüenta! diz uma voz.
E volta o sossego e continua a pasmaceira, o tédio, a calmaria sem fim...
Já os primeiros sintomas de indolência refletiam-se no semblante da gente,
convertendo-se em bocejos e espreguiçamentos de sesta, e ainda ficavam tão longe
as montanhas da costa e os carinhos da família!...
Escasseavam os gêneros, e o regimen de carne-seca e das conservas em
lata aproximava-se ameaçadoramente, causando apreensões à marinhagem.
Tinham dado onze horas na sineta de proa.
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O tenente que estava de quarto no passadiço conferiu o relógio d’algibeira,
um belo cronômetro de ouro comprado em Toulon, torceu o bigode, passou uma
vista d’olhos no aparelho, e, dirigindo-se para a espada que descansava junto ao
mastro, numa voz clara um pouco, metálica:
— Corneta!
Era um oficial distinto, moço, moreno, os olhos vivos e inteligentes, grande
calculista, jogador da sueca e autor de um Tratado elementar de navegação prática.
Ninguém a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava d’olhos
fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe à ponta do lápis de um modo admirável.
Era, invariavelmente, o primeiro que achava a hora meridiana. Tornara-se conhecido
logo ao sair da escola pelo sei entranhado amor às matemáticas e à vida naval.
Como guarda-marinha deixava-se ficar a bordo nos dias de folga, somente “para não
perder o hábito”. Inimigo de terra, preferia o farniente de seu camarote, ali ao pé dos
livros e das fotografias marítimas, ao movimento esterilizador e absorvente dos cafés
e dos teatros.
— Corneta! repetiu, carregando o semblante numa sombria expressão de
constrangimento.
Outras bocas foram transmitindo a ordem até que surgiu, correndo, a figura
exótica de um marinheiro negro, d’olhos muito brancos, lábios enormemente
grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cuja fisionomia acentuavam-se
linhas características de estupidez e subserviência
— Pronto! disse levando a mão ao boné com um jeito marcial.
— Toca mostra, ordenou o tenente.
Às primeiras notas da corneta, límpidas e sem eco no silêncio do mar alto,
houve logo um estranho bulício em todos os recantos da corveta. — Agora os
marinheiros que descansavam à proa, olhavam-se por cima dos ombros com ar
desconfiado. Na tolda e pelas cobertas o movimento foi-se acelerando à proporção
que o toque finalizava, sobressaindo no atropelo a voz dos guardiões: — Sobe,
sobe, — tudo para cima! — de envolta com um barulho de ferros que vinha dos
porões.
O “mestre d’armas”, cabrocha pedante, muito cheio de si e de seus galões
reluzentes, ia enfileirando a marinhagem por alturas, num exagero metódico de
instrutor de colégio, arredando uns para colocar outros, advertindo estes porque não
tinham a camisa abotoada e aqueles porque não tinham “fita” no boné, ameaçando
estoutro de levá-lo à presença de “seu” tenente porque recusava-se a perfilar...
Oficiais começavam a aparecer em segundo uniforme — boné e dragonas —,
arrastando as espadas, mirando-se d’alto a baixo, apertados no talim de pano azul,
por cima da farda.
Com pouco estava tudo pronto, marinheiros e oficiais — aqueles alinhados a
dois de fundo, num e noutro bordo, estes a ré, perto do mastro grande, em atitude
respeitosa de quem vai assistir a um ato solene.
Tinha-se feito silêncio. Uma ou outra voz segredava baixinho, timidamente. E
agora, no silêncio da mostra, é que se ouvia bem o cachoeira de água no bojo da
corveta caturrando...
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— Agüenta!
Por fim apareceu o comandante abotoando a luva branca de camurça, teso
na sua farda nova, o ar autoritário, solta a espada num abandono elegante, as
dragonas tremulando sobre os ombros em cachos de ouro, todo ele comunicando
respeito.
Era homem robusto de feições e presença nobre, olhar enérgico, muito
moreno, desse moreno carregado, cor de bronze, que o sol imprime nos homens do
mar, bigode largo e compacto, levemente grisalho, com uma ponta de arrogância
convencional.
Silêncio absoluto nas fileiras da marinhagem. Cada olhar tinha um brilho
especial de indiscreta curiosidade. Um frêmito de instintiva covardia, como uma
corrente elétrica, vinha à face de toda aquela gente abespinhada ali assim perante
um só homem, cuja palavra trazia sempre o cunho áspero da disciplina. Era um
respeito profundo chegando às raias da subserviência animal que se agacha para
receber o castigo, justo ou injusto, seja ele qual for.
— Os presos..., fez o comandante, sem se alterar, dando um puxão na manga
da farda.
Todos os olhos voltaram-se para o fiel d’artilharia, vivamente curiosos,
enquanto este, obedecendo à ordem, precipitou-se pela escada que ia ter à coberta,
mudo e taciturno.
O tenente continuava no passadiço, a passear como se tudo corresse às mil
maravilhas naquele pequeno mundo flutuante de que ele era, agora, uma espécie de
rei provisório. Ouvia-se-lhe o passo vagaroso e igual como o de uma sentinela
noturna.
A luz intensa do sol caía do alto, pondo brilhos de malacacheta no cristal
imenso do mar clamo. Um calor forte e asfixiante penetrava a carne, acelerando a
circulação, congestionando, irritando o sistema nervoso atrozmente,
implacavelmente.
Toda a atmosfera parecia vibrar num incêndio universal.
E o pano, largo e frouxo, a bater, a bater como uma cousa desesperada...
— Calmaria estúpida! pensava o tenente consultando os horizontes. — Ele, o
grande patesca, a olhar o tempo, sem fazer nada, por causa de um diabo de calma
interminável. Raríssimas vezes lhe acontecia aquilo: era mesmo para danar uma
pessoa...
Chegam os presos: um rapazinho magro, muito amarelo, rosto liso,
completamente imberbe; outro regulando a mesma idade, mas um pouco moreno,
também grumete; e um primeira-classe, negro alto, espadaúdo, cara lisa.
Vinham em ferros, um a um, arrastando os pés num passo curto e demorado,
e encaminharam-se para o meio do convés, fazendo alto a um aceno do
comandante. Este imediatamente segredou a outro oficial, que estava a seu lado
com um livro na mão, e, dirigindo-se ao primeiro sentenciado, o da frente, o
rapazinho amarelo, cor da terra:
— Sabe por que vai ser castigado?
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O grumete, sem levantar a cabeça, murmurou afirmativamente: que sim,
senhor...
Chamava-se Herculano e no seu rosto imberbe de adolescente havia uns
longes de melancolia serena, assim como uma precoce morbidez sintomática... um
secreto arrependimento.
Na gola quadrangular de flanela azul destacava a divisa branca de sua
classe.
As unhas metiam náusea, muito quilotadas de alcatrão, desleixadas mesmo.
Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impressão desagradável e persistente.
O comandante, depois de um breve discurso em que as palavras “disciplina e
ordem” repetiam-se, fez um sinalzinho com a cabeça e logo o oficial imediato, um
louro, de bigode, começou a leitura do Código na parte relativa a castigos corporais.
A marinhagem, analfabeta e rude, ouvia silenciosa, com um vago respeito no
olhar, aquele repisado capítulo do livro disciplinar, em pé, à luz dura e mordente do
meio dia, enquanto o oficial do quarto, gozando a sombra reparadora de um largo
toldo estendido sobre sua cabeça, ia e vinha, de um bordo a outro bordo, sem se
preocupar com o resto da humanidade.
Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e
reforçado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e boné e
segurando com ambas as mãos, sobre o joelho em descanso, o instrumento de
castigo: era o guardião Agostinho, o célebre guardião Agostinho, especialista
consumado no ofício de aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os
guardiões, e cujo zelo em cousas de “patescaria” tornara-se proverbial, Nos
momentos de manobra difícil, era ele quem auxiliava o mestre na faina,
invariavelmente munido de um apito de prata, não se afastando nunca de suas
obrigações.
— Caboclo macho! diziam os companheiros.
Se acontecia desprender-se um moitão, um cabo qualquer, lá cima nos
mastros, em lugar arriscado, ele, mais que depressa, galgava os enfrechates, com
aquele corpo muito pesado, transpunha o cesto da gávea, sem olhar para trás, e ei-
lo agarradinho aos vaus, atando e desatando, ligeiro, alvo de todos os olhares,
oscilando com o navio, em termos de precipitar-se no mar. Homem de poucas
palavras, muito metido consigo, tolerante e enérgico ao mesmo tempo em matéria
de serviço, não compreendia a disciplina sem chibata, “único meio de se fazer
marinheiro”.
E tinha sempre esta frase na ponta da língua: — Navio de guerra sem chibata
é pior que escuna mercante...
Por isso os companheiros não o estimavam muito; pelo contrário, evitavam a
sua presença, procurando intrigá-lo com o mestre e com os outros inferiores. — O
guardião Agostinho, sim, que era homem valente, capaz de comandar um quarto...
E riam às escondidas, praguejando contra “o burro do Agostinho, que nem ao
menos tinha jeito para capitão de proa...”
Ele ali se achava também, no sue posto, à espera de um sinal para
descarregar a chibata, implacavelmente, sobre a vítima. Sentia um prazer especial
naquilo, que diabo! cada qual tem a sua mania...
— Vinte e cinco..., ordenou o comandante.
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— Tira a camisa? quis logo saber Agostinho radiante, cheio de satisfação,
vergando o junco para experimentar-lhe a flexibilidade.
— Não, não: com a camisa...
E solto agora dos machos, triste e resignado, Herculano sentiu sobre o dorso
a força brutal do primeiro golpe, enquanto uma voz cantava, sonolenta e a arrastada:
— Uma!... e sucessivamente: duas!... três!... vinte e cinco!
Herculano já não suportava. Torcia-se todo no bico dos pés, erguendo os
braços e encolhendo as pernas, cortado de dores agudíssimas que se espalhavam
por todo o corpo, até pelo rosto, como se lhe rasgassem as carnes. A cada golpe
escapava-lhe um gemido surdo e trêmulo que ninguém ouvia senão ele próprio no
desespero de sua dor.
Toda gente assistia aquilo sem pesar, com a fria indiferença de múmias.
— Corja! regougou o comandante brandindo a luva. Não se compenetram de
seus deveres, não respeitam a autoridade! Hei de ensiná-los: ou aprendem ou
racho-os!
O caso era simples: Herculano tinha uns modos esquisitos de viver sempre
retraído, pelos cantos, evitando a companhia dos outros, fazendo seu serviço
calado, não se envolvendo em sambas à noite, na proa. Tímido e esquivo, cada vez
mais pálido, o olhar morto com uma pronunciada auréola de bistre, a voz cansada,
caindo de fraqueza, — tinham-lhe dado o apelido ridículo de Pinga...
O grumete não podia se conformar com esse tratamento, por mais inofensivo
que ele fosse, e vingava-se dos companheiros atirando-lhes palavrões de regateira
aprendidos ali mesmo a bordo.
— Ó Pinga!...
Bastava isto para que ele desenrolasse o vocabulário do insulto numa cólera
ameaçadora que às vezes chegava ao delírio.
Os outros, porém, caíam na gargalhada:
— Olha o Pinga! Segura ele!
— Pinga é ...
E lá ia uma obscenidade, um calão grosseiro.
Palavra puxa palavra, quase sempre o gracejo acabava em questões de outra
ordem e daí prisões, castigos...
Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Herculano foi surpreendido, por
outro marinheiro, a praticar uma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-
no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a mexer com o braço numa posição
torpe, cometendo, contra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados.
O outro, um mulatinho esperto. que tinha o hábito de andar espiando, à noite,
o que faziam os companheiros, precipitou-se a chamar o Sant'Ana, e, riscando um
fósforo, aproximaram-se ambos “para examinar”.... No convés brilhava a nódoa de
um escarro ainda fresco: Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime não
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previsto nos códigos, um crime de lesa natureza, derramando inutilmente no convés
seco e estéril, a seiva geradora do homem.
Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apanhado em flagrante naquela
grotesca situação. Investiu para o Sant'Ana, fulo de raiva, extremamente pálido, e
com pouco estavam os dois agarrados numa luta corpo a corpo, aos trambolhões,
acordando os que dormiam por ali o bom sono da madrugadinha... Terminou o
alvoroço com a prisão de ambos.
— Ah! seu Pinga, seu Pinga!... repetia o guardião do quarto. Não pense que,
por ser branco, há de fazer das suas...
Tal fora o delito de Herculano e do seu camarada Sant’Ana que também ia
ser castigado.
O Sant'Ana, porém, não era lá rapaz de que sofresse calado: tinha sempre o
que dizer na ocasião do castigo, desculpando-se como podia perante a autoridade a
fim de escapar manhosamente à ação criminal, o que nunca lhe sucedera, porque
toda gente o conhecia bastante.
Era um pobre diabo de terceira classe, moreno cor de jenipapo, cabelo rente,
à escovinha, olhos negros, nariz acaçapado, cara magra, e cujo nome lá estava no
livro de castigos um ror de vezes. Gago de nascença, fazia rir aos companheiros
quando abria a boca para dizer qualquer cousa, principalmente se estava num de
seus momentos de sobreexcitação colérica, porque, então, ninguém o compreendia.
Tinha a facilidade ingênita das lágrimas: a mais leve comoção fazia-o chorar,
transformando-lhe os olhos em duas fontes de úmida ternura.
Pôs-se logo a gaguejar uma história de “implicações”: que estava bem
sossegadinho no seu canto e o Herculano fora provocá-lo, “implicar com ele”...
— Vamos, guardião, vamos, que é tarde. Não estou para ouvir histórias. Vá!...
Agostinho vergou o junco e, resolutamente, sem inquirir cousa alguma, com
um risinho de instintiva malvadez no canto da boca, desfechou o primeiro golpe:
— Uma! contou a mesma voz de há pouco.
O rapaz empinou-se na ponta dos pés, arregalando muito os olhos,
esfregando as mãos.
— Ah! gemeu com um grito de dor. — Pe... pe... pelo amor de... de... de
Deus, seu... seu... comandante!
— Vamos, vamos!...
Seguiram-se as outras chibatadas implacáveis, brutais como cáusticos de
fogo, caindo uma a uma, dolorosamente, no corpo franzino do marinheiro.
Ele não teve jeito senão suportá-las todas, uma a uma, porque de nada lhe
serviam os gritos, as súplicas e as lágrimas...
— Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em súbita cólera, mal
humorado sob a luz ardentíssima do meio dia tropical. — Hei de corrigi-los: corja!
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Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, testemunha habitual daquelas
cenas que já não logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodução
banal de um quadro muito visto.
Começava a cair uma aragenzinha leve, tão leve que apenas atenuava a
força cáustica do sol, inflando as velas quase imperceptivelmente.
O tenente, um pouco animado agora com a viração que precede os ventos
largos, tomava notas num pequeno caderno, ansioso por chamar a gente aos
“braços”.
Meio dia quase e ainda não estava acabado o castigo.
Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro, muito alto e corpulento,
figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a
morbidez patológica de toda uma geração cadente e enervada, e cuja presença ali
naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro,
gajeiro da proa — o BOM CRIOULO na gíria de bordo.
— Aproxime-se, disse o comandante imperiosamente, carregando na voz e
no semblante.
Houve um sussurro longínquo, um leve, um tímido murmúrio nas fileiras da
marinhagem, assim como o vago estremecimento que assalta os espectadores de
um teatro nas mutações de cenário. Agora a cousa era outra, na verdade. O
Herculano e o Sant'Ana, de resto, não passavam de uns pulhas, de uns miseráveis
marinheiros que dificilmente agüentavam no lombo vinte e cinco chibatadas: uns
criançolas!... Queria-se ver o Amaro, o célebre, o terrível Bom-Crioulo.
Fez-se nova leitura do Código em voz lenta e cadenciada de ofício religioso, e
o comandante, formalizando-se dentro de sua farda muito justa e luzida:
— Sabe por que vai ser castigado?
— Sim senhor.
Estas palavras, Bom-Crioulo proferiu-as num tom resoluto, sem o mais ligeiro
constrangimento, firmando o olhar, atrevidamente, nos galões de ouro daquele
oficial. Em pé, junto ao mastro, unidos os calcanhares, os braços caindo ao longo do
corpo, militarmente perfilado, havia, contudo, na linha dos ombros, no jeito da
cabeça, onde quer que fosse, um recolhido e traiçoeiro cunho de flexibilidade e
destreza felinas.
Com efeito, Bom-Crioulo não era somente um homem robusto, uma dessas
organizações privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resistência do bronze
e que esmagam com o peso dos músculos.
A força nervosa era nele uma qualidade intrínseca sobrepujando todas as
outras qualidades fisiológicas, emprestando-lhe movimentos extraordinários,
invencíveis mesmo, de um acrobatismo imprevisto e raro.
Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lhe à força de um exercício
continuado que o tornara conhecido em terra, nos conflitos com soldados e
catraieiros, e a bordo, quando entrava embriagado.
Porque Bom-Crioulo de longe em longe sorvia o seu gole de aguardente,
chegando mesmo a se chafurdar em bebedeiras que o obrigavam a toda a sorte de
loucuras.
Armava-se de navalha, ia para os cais, todo transfigurado, os olhos
dardejando fogo, o boné de um lado, a camisa aberta num desleixo de louco, e
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então era um risco, uma temeridade alguém aproximar-se dele. O negro parecia
uma fera desencarcerada: fazia todo mundo fugir, marinheiros e homens da praia,
porque ninguém estava para sofrer uma agressão...
Quando havia conflito no cais Pharoux, já toda gente sabia que era o Bom-
Crioulo às voltas com a polícia . Reunia povo, toda a população do litoral corria
enchendo a praça, como se tivesse acontecido uma desgraça enorme, formavam-se
partidos a favor da polícia e da marinha... uma cousa indescritível!
O motivo, porém, de sua prisão agora, no alto mar, a borda da corveta, era
outro, muito outro: Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda classe,
porque este ousara, “sem o seu consentimento”, maltratar o grumete Aleixo, um belo
marinheirito de olhos azuis , muito querido por todos e de quem diziam-se “cousas”.
Metido em ferros no porão, Bom-Crioulo não deu palavra. Admiravelmente
manso, quando se achava em seu estado normal, longe de qualquer influência
alcoólica, submeteu-se à vontade superior, esperando resignado o castigo.
Reconhecia que fizera mal, que devia ser punido, que era tão bom quanto os outros,
mas, que diabo! estava satisfeito: mostrara ainda uma vez que era homem... Depois
estimava o grumete e tinha certeza de o conquistar inteiramente, como se conquista
uma mulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro... Estava satisfeitíssimo.
A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um
Hércules ao pulso do guardião Agostinho. Já nem se lembrava do número das vezes
que apanhara de chibata...
— Uma! cantou a mesma voz. — Duas!... três!...
Bom-Crioulo tinha despido a camisa de algodão, e, nu da cintura para cima,
numa riquíssima exibição de músculos, os seios muito salientes, as espáduas
negras reluzentes, um sulco profundo e liso d’alto a baixo no dorso, nem sequer
gemia, como se estivesse a receber o mais leve dos castigos.
Entretanto, já iam cinqüenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, nem
percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele
costão negro as marcas do junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como
uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os
sentidos.
De repente, porém, Bom-Crioulo teve um estremecimento e soergueu um
braço: a chibata vibrara em cheio sobre os rins, empolgando o baixo-ventre. Fora um
golpe medonho, arremessado com uma força extraordinária.
Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo ao ver, afinal,
triunfar a rijeza de seu pulso.
Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado, alongavam o olhar, cheios
de interesse, a cada golpe.
— Cento e cinqüenta!
Só então houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no
espinhaço negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita
de sangue.
Nesse momento o oficial, ponteirando o óculo de alcance, procurava
reconhecer uma sombra quase invisível que parecia flutuar muito longe, nos confins
do horizonte: era, talvez, a fumaça de algum transatlântico...
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— Basta! impôs o comandante.
Estava terminado o castigo. Ia recomeçar a faina.
CAPÍTULO II
Inda estava longe, bem longe a vitória do abolicionismo, quando Bom-Crioulo,
então simplesmente Amaro, veio, ninguém sabe donde, metido em roupas
d’algodãozinho, trouxa ao ombro, grande chapéu de palha na cabeça e alpercatas
de couro cru. Menor (teria dezoito anos), ignorando as dificuldades por que passa
todo homem de cor em um meio escravocrata e profundamente superficial como era
a Corte — ingênuo e resoluto, abalou sem ao menos pensar nas conseqüências da
fuga.
Nesse tempo o “negro fugido” aterrava as populações de um modo fantástico.
Dava-se caça ao escravo como aos animais, de espora e garrucha, mato a dentro,
saltando precipícios, atravessando rios a nado, galgando montanhas... Logo que o
fato era denunciado — aqui-del-rei! — enchiam-se as florestas de tropel, saiam
estafetas pelo sertão num clamor estranho, medindo pegadas, açulando cães,
rompendo cafezais. Até fechavam-se as portas com medo... Jornais traziam na
terceira página a figura de um “moleque” em fuga, trouxa ao ombro, e, por baixo, o
anúncio, quase sempre em tipo cheio, minucioso, explícito, com todos os detalhes,
indicando estatura, idade, lesões, vícios, e outros característicos do fugitivo. Além
disso o “proprietário” gratificava generosamente a quem prendesse o escravo.
Conseguindo, porém, escapar à vigilância dos interessados, e depois de curtir
uma noite, a mais escura de sua vida, numa espécie de jaula com grades de ferro,
Amaro, que só temia regressar à “fazenda”, voltar ao seio da escravidão,
estremeceu diante de um rio muito largo e muito calmo, onde havia barcos vogando
em todos os sentidos, à vela, outros deitando fumaça, e lá em cima, beirando a
água, um morro alto, em ponta, varando as nuvens, como ele nunca tinha visto.
Depois mandaram-no tirar a roupa do corpo (até ficou envergonhado...),
examinaram-lhe as costas, o peito, as virilhas, e deram-lhe uma camisa azul de
marinheiro.
No mesmo dia foi para a fortaleza, e , assim que a embarcação largou do
cais a um impulso forte, o novo homem do mar sentiu pela primeira vez toda a alma
vibrar de uma maneira extraordinária, como se lhe houvessem injetado no sangue
de africano a frescura deliciosa de um fluido misterioso. A liberdade entrava-lhe
pelos olhos , pelos ouvidos, pelas narinas, por todos os poros, enfim, como a própria
alma da luz, do som, do odor e de todas as cousas etéreas... Tudo que o cercava: a
planura da água cantando na proa do escaler, o imaculado azul do céu, o perfil
longínquo das montanhas, navios balouçando entre ilhas, e a casaria imóvel da
cidade que ficava para trás — os companheiros mesmo que iam remando igual,
como se fossem um só braço —, e sobretudo, meu Deus!, sobretudo o ambiente
largo e iluminado da baía: enfim, todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma
sensação tão forte de liberdade e vida, que até lhe vinha vontade de chorar, mas de
chorar francamente, abertamente, na presença dos outros, como se estivesse
enlouquecendo... Aquele magnífico cenário gravara-se-lhe na retina para toda a
existência; nunca mais o havia de esquecer, ó, nunca mais! Ele, o escravo, o “negro
fugido” sentia-se verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser,
grande como a natureza, em toda a pujança viril da sua mocidade, e tinha pena,
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muita pena dos que ficavam na “fazenda” trabalhando, sem ganhar dinheiro, desde a
madrugada té ... sabe Deus!
No princípio, antes de ir para bordo, foi-lhe difícil esquecer o passado, a “mãe
Sabina”, os costumes que aprendera nos cafezais... Muita vez chegava a sentir um
vago desejo de abraçar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa
lembrança esvaía-se como a fumaça longínqua e tênue das queimadas, e ele
voltava à realidade, abrindo os olhos, num gozo infinito para o mar crivado de
embarcações...
A disciplina militar, como todos os seus excessos, não se comparava ao
penoso trabalho da fazenda, ao regimen terrível do tronco e do chicote. Havia muita
diferença... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua
roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida,
amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e
“sangue de Cristo”... Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a
liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram
iguais, tinham as mesmas regalias — o mesmo serviço, a mesma folga. — “E
quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então
é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d’amanhã!”
Amaro soube ganhar logo a afeição dos oficiais. Não podiam eles, a princípio,
conter o riso diante daquela figura de recruta alheio às praxes militares, rude como
um selvagem, provocando a cada passo gargalhadas irresistíveis com seus modos
ingênuos de tabaréu; mas, no fim de alguns meses, todos eram de parecer que “o
negro dava para gente”. Amaro já sabia manejar uma espingarda segundo as regras
do ofício, e não era lá nenhum botocudo em artilharia; criara fama de “patesca”.
Nunca, durante esse primeiro ano de aprendizagem, merecera a pena de um
castigo disciplinar: seu caráter era tão meigo que os próprios oficiais começaram a
tratá-lo por Bom-Crioulo. Seu maior desejo, porém, sua grande preocupação, era
embarcar fosse em que navio fosse, acostumar-se a viver no mar, conhecer,
enquanto estava moço, os costumes de bordo, saber praticamente “amichelar uma
verga, rizar uma vela, fazer um quarto na agulha...” Podia muito bem ser promovido
logo... Invejava os que andavam no alto-mar, longe de terra, bordejando à solta por
esses mundos de Deus. Como devia de ser bom para a alma e para o corpo o ar
livre que se respira lá fora, sobre as águas!...
Divertia-se a construir pequenas embarcações de madeira imitando navios de
guerra com flâmula no tope do mastro e portinholas, cruzadores em miniatura,
iatezinhos, tudo à ponta de canivete e com a paciência tenaz de um arquiteto.
Mas, nada de o fazerem embarcar definitivamente! Ia para bordo, às vezes,
em exercício, remando no escaler, mas voltava logo com a turma dos outros
aprendizes, triste por não ter ficado, sonhando histórias de viagens, cousas que
havia de ver, quando pela primeira vez saísse pela barra fora...
Chegou afinal esse dia. Bom-Crioulo estava nomeado para embarcar num
velho transporte que seguia para o sul.
— Ora, até! fez ele, erguendo os braços com um gesto de maravilhosa
surpresa. Até que enfim, graças a deus, lembraram-se do Bom-Crioulo!
E saiu por ali muito feliz, muito alegre, todo alvoroçado, anunciando seu
destino. — Queriam alguma cousa do sul? Nem uma lembrançazinha do Rio
Grande? Nada, nada ?...
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12
— Traze uma paraguaia, ó Bom-Crioulo, gracejava um.
— Olha, eu me contento com uma dúzia d’ovos, de Santa Catarina...
Outros encomendavam-lhe cousas impossíveis: um pedaço de “gringo”
assado; uma terça de sangue espanhol: a orelha de um “barriga-verde”...
E riam todos no rancho, e todos o que estimavam é que Amaro fosse muito
feliz na sua primeira viagem, que voltasse gordo e forte “pra matar galego no cais
dos Mineiros”.
Alguns gabavam o comandante do transporte, o velho Novais, bom homem,
que não gostava de castigar e que era até amigo dos marinheiros.
— E o imediato?
Ora, o imediato era um tal Pontes, um de suíças, que naufragara na corveta
Isabel, muito feio, coitado, mas boa pessoa; também não fazia mal a ninguém, pelo
contrário — marinheiro que lhe caísse nas graças era tratado a vinho do Porto...
Bom-Crioulo exultava!
O embarque devia se efetuar à tardinha, pouco antes de “arriar a bandeira”.
Todo ele estava pronto, e via-se-lhe no olhar, na fala, nos modos, o grande
contentamento de que estava cheio seu coração. Era uma felicidade estranha, um
bem estar nunca visto, assim como o começo de uma loucura inofensiva e serena,
que o fazia mais homem vinte vezes, que o tornava mais forte e retemperado para
as lutas da vida. Suave embriaguez dos sentidos, essa que vem de uma grande
alegria ou de uma tristeza imensa... Bom-Crioulo só experimentara prazer igual
quando o tinham obrigado a conhecer o que é liberdade, recrutando-o para a
marinha. Essa liberdade ampliava-se agora a seus olhos, crescia
desmesuradamente em sua imaginação, provocando-lhe frêmitos de alucinado,
abrindo-lhe n’alma horizontes cor-de-rosa, largos e ignorados.
Não deixava um só inimigo, um rival sequer na fortaleza; ia bem com todos,
egoísta na sua felicidade, mas levando a saudades irresistível dos que se vão
embora...
Quando o escaler que o conduzia se afastou da ponte, onde os companheiros
acenavam com os bonés, num entusiasmo comovente, ele sentiu a quentura de uma
lágrima fugitiva descer-lhe rosto abaixo, e, disfarçando, pôs-se também a acenar, em
pé na embarcação, vendo sumirem-se pouco a pouco, na bruma do crepúsculo, os
contornos da ilha e as saudações da maruja.
Parecia-lhe ouvir ainda, na proa do transporte, como as últimas
reminiscências de um sonho, a voz dos companheiros abraçando-o: — Adeus, ó
Bom-Crioulo: sê feliz!
Não dormiu toda essa noite. Estendido no convés sobre o dorso, como se
estivesse num bom leito macio e amplo, viu desaparecerem as estrelas, uma a uma,
na penumbra da antemanhã, e o dia ressurgir glorioso, dourando os Órgãos,
ourejando os edifícios, cantando o hino triunfal da ressurreição.
E pouco depois o esplêndido cenário da baía transformara-se num vastíssimo
oceano deserto e resplandecente, desdobrando-se num círculo imenso d’água, onde
não verdejava sequer um canto de oásis... A grandeza do mar enchia-o de uma
coragem espartana. Ali se achava, ao redor dele, a sublime expressão da liberdade
infinita e da soberania absoluta, coisas que o seu instinto alcançava muito
vagamente através de um nevoeiro de ignorância.
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13
Dias e dias correram. A bordo todos o estimavam como na fortaleza, e a
primeira vez que o viram, nu, uma bela manhã, depois da baldeação, refestelando-
se num banho salgado — foi um clamor! Não havia osso naquele corpo de gigante:
o peito largo e rijo, os braços, o ventre, os quadris, as pernas, formavam um
conjunto respeitável de músculos, dando uma idéia de força física sobre-humana,
dominando a maruja, que sorria boquiaberta diante do negro. Desde então Bom-
Crioulo passou a ser considerado um “homem perigoso” exercendo uma influência
decisiva no espírito daquela gente, impondo-se incondicionalmente, absolutamente,
como o braço mais forte, o peito mais robusto de bordo. Os grandes pesos era ele
quem levantava, para tudo aí vinha Bom-Crioulo com seu pulso de ferro, com a sua
força de oitenta quilos, mostrar como se alava um braço grande, como se abafava
uma vela em temporal, como se trabalhava com gosto.
Entretanto, o seu nome ia ganhando fama em todos os navios. — Um pedaço
de bruto, aquele Bom-Crioulo! diziam os marinheiros. — Um animal inteiro é o que
ele era!
Tinha um forte desejo ainda: suspirava por embarcar em certo navio, cujo
comandante, um fidalgo, dizia-se amigo de todo marinheiro robusto; excelente
educador da mocidade, perfeito cavalheiro no trato ameno e severo.
Bom-Crioulo conhecia-o de vista somente e ficara simpatizando imensamente
com ele. Demais, o comandante Albuquerque recompensava os serviços de sua
gente, não se negava a promover os seus afeiçoados. Isso de se dizer que preferia
uma sexo a outro nas relações amorosas podia ser uma calúnia como tantas que
inventam por aí... Ele, Bom-Crioulo, não tinha nada que ver com isso. Era uma
questão à parte, que diabo! ninguém está livre de um vício.
Mas, anunciou-se a viagem da corveta, e lá Bom-Crioulo deixou o cruzador
para seguir seu novo destino.
Contava então cerca de trinta anos e trazia a gola de marinheiro de segunda-
classe. Por sua vontade não sairia mais barra fora: em dez anos viajara quase o
mundo inteiro, arriscando a vida cinqüenta vezes, sacrificando-se inutilmente. —
Afinal a gente aborrece... Um pobre marinheiro trabalha como besta, de sol a sol,
passa noites acordado, atura desaforo de todo mundo, sem proveito, sem o menor
proveito! O verdadeiro é levar a vida “na flauta”...
Nessa viagem Bom-Crioulo não foi mais feliz que nas outras. Nomeado
gajeiro de proa, espécie de fiscal do mastro do traquete, a princípio dera conta
irrepreensivelmente de suas obrigações e podia-se ver o asseio e a boa ordem que
reinavam ali, desde a borla do tope té embaixo à chapa das malaguetas. Fazia gosto
a presteza com que se efetuavam as manobras. A faina corria sempre na melhor
ordem, livre de acidentes, como se todo o mastro fosse uma grande máquina movida
a vapor, desafiando a gente dos outros mastros.
Agora, porém, de torna-viagem as cousas tinham mudado. O traquete era um
dos últimos a estar pronto, havia sempre um obstáculo, uma dificuldade: era um
cabo que “pegava”, um “andarivelo” que se partia ou cousa que faltava...
— Anda com isso! bradava o oficial do quarto já impaciente.
E só depois de muito tempo é que o Bom-Crioulo anunciava lá de cima do
mastaréu, com a voz estragada:
— Pronto!
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Diziam uns que a cachaça estava deitando a perder “o negro”, outros, porém,
insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, dês que “se
metera” com o Aleixo, o tal grumete, o belo marinheirito de olhos azuis, que
embarcara no sul. — O ladrão do negro estava mesmo ficando sem vergonha! E não
lhe fossem fazer recriminações, dar conselhos... Era muito homem para esmagar
um!
O próprio comandante já sabia daquela amizade escandalosa com o
pequeno. Fingia-se indiferente, como se nada soubesse, mas conhecia-se-lhe no
olhar certa prevenção de quem deseja surpreender em flagrante...
Os oficiais comentavam baixinho o fato e muitas vezes riam maliciosamente
na praça d’armas entre copos e limonadas.
Tudo isso, porém, não passava de suspeitas, e Bom-Crioulo, com o seu todo
abrutalhado, uma grande pinta de sangue no olho esquerdo, o rosto largo de um
prognatismo evidente, não se incomodava com o juízo dos outros. — Não lho
dissessem na cara, porque então o negócio era feio... A chibata fizera-se para o
marinheiro: apanhava até morrer, como um animal teimoso, mas havia de mostrar o
que é ser homem!
Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes
afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no momento fatal
em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefinível que
acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexo contrários, determinando o
desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz o homem escravo da
mulher e que em todas a espécies impulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-
Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho.
Nunca experimentara semelhante cousa, nunca homem algum ou mulher produzira-
lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia! Entretanto, o certo é que o
pequeno, uma criança de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a,
escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como a força magnética de um imã.
Chamou-o a si, com a voz cheia de brandura, e quis saber como ele se
chamava.
— Eu me chamo Aleixo, disse o grumete baixando o olhar, muito calouro.
— Coitadinho, chama-se Aleixo, tornou Bom-Crioulo.
E imediatamente, sem tirara vista de cima do pequeno, com a mesma voz
branda e carinhosa:
— Pois olhe: eu me chamo Bom-Crioulo, não se esqueça. Quando alguém o
provocar, lhe fizer qualquer cousa, estou aqui eu, para o defender, ouviu?
— Sim senhor, fez o marinheirito levantando o olhar com uma expressão de
agradecimento.
— Não tenha vergonha, não: Bom-Crioulo, gajeiro da proa. É só me chamar.
— Sim senhor...
— Olhe mais, tornou o negro segurando a mão da pequeno: — Muito
sossegadinho no seu lugar para não sofrer castigo, sim?
Aleixo só fazia responder timidamente: — Sim senhor — com um arzinho
ingênuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul garço pontilhado, e
os lábios grossos extremamente vermelhos.
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Era filho de uma pobre família de pescadores que o tinham feito assentar
praça em Santa Catarina, e estava se pondo rapazinho. Seu trabalho a bordo
consistia em colher cabos e arear os metais, quando não se ocupava na ronda pela
noite.
Bom-Crioulo metia-lhe medo a princípio, e quase o fizera chorar uma vez
porque o encontrara fumando em intimidade com o sota de proa na coberta. O negro
deitara-lhe uns olhos!... Felizmente não aconteceu nada. Mas daí em diante Aleixo
foi-se acostumando, sem o sentir, àqueles carinhos, àquela generosa solicitude, que
não enxergava sacrifícios, nem poupava dinheiro, e, por fim, já havia nele uma
acentuada tendência para Bom-Crioulo, um visível começo de afeição reconhecida e
sincera.
Foi então que o negro, zelosa da sua nova amizade, quis mostrar ao grumete
o seu grande poder sobre os outros e té onde o levava esse zelo, esse egoísmo
apaixonado, esmurrando implacavelmente o segunda-classe que maltratara Aleixo.
A idéia de que Bom-Crioulo sofrera por sua causa calou de tal maneira no
espírito do grumete que ele agora estimava-o como a um protetor desinteressado,
amigo dos fracos...
Quando regressou dessa longa viagem ao sul, estava inda mais forte, mais
viçoso e mais homem. Era uma massa bruta de músculos ao serviço de um
magnífico aparelho humano. No tocante à disciplina mudara também um pouco: já
ninguém lhe via certos escrúpulos de obediência e seriedade, perdera mesmo
aquele ar, aquela compostura de respeito que o fazia estimado pelos oficiais em
Villegaignon, e o distinguia da marinhagem insubmissa e desbriada. A maioria
dominara-o positivamente; aquele caráter dócil e tolerante, deixara-o ele no alto mar
ou nas terras por onde andara. Agora tratava com desdém os superiores, abusando
se esses lhe faziam concessões, maldizendo-os na ausência, achando-os maus e
injustos. Uma cousa, porém, ele soubera conservar: a força física, impondo-se cada
vez mais aos outros marinheiros, que não ousavam agredi-lo nem brincando. Sua
fama de homem valente alargara-se de modo tal que mesmo na província falava-se
com prudência no “Bom-Crioulo”. — Quem é que não o conhecia, meu Deus? Por
sinal tinha sido escravo e até nem era feio o diabo do negro...
Do transporte em que fizera sua primeira viagem passou a servir num
cruzador chegadinho da Europa. Aí a vida não lhe ocorreu muito calma. O
comandante, um Varela, capitão-de-mar-e-guerra, severo e inflexível como nenhum
outro oficial do seu tempo, homem que não ria nunca, chamou-o a conta um belo
dia, e quase o deixou sem fala, simplesmente porque Bom-Crioulo dera com um
remo na cabeça de outro marinheiro por uma questiúncula de ofício. Tal foi o seu
primeiro castigo depois de quatro anos de serviço. Profundamente magoado,
concentrou-se para reaparecer mandrião e insubmisso, cheio de ressentimento, não
se importando, como dantes, com os seus deveres, trabalhando “por honra da firma”
sem vexame nem sacrifício. — “Tolo era quem se matava. Havia de receber seu
soldo quer trabalhasse, quer não trabalhasse. — ... que os pariu!”
E ia se fazendo esquerdo, cuidando mais de seus interesses que de outra
cousa, passando um mês no hospital e outro mês a bordo, ou em terra, com licença.
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CAPÍTULO III
À calmaria equatorial da véspera sucedera, felizmente, uma viração fresca e
reparadora, crispando a larga superfície d’água, enchendo as velas e dando a todas
as fisionomias um aspecto novo de bom humor e jovialidade.
O céu tinha uma cor azul esverdeada, limpo de nuvens, alto e imenso na
eterna glória da luz... Avezinhas de colo branco acompanhavam a corveta,
pousando n’água, trêfegas e alvissareiras, misturando sua alegria ruidosa com o
surdo marulhar das vagas, num rápido espanejamento d’asas.
Agora, sim, todos regozijavam com a esperança de chegar breve, em paz e
salvamento, à Guanabara, lá onde havia sossego e abastança, lá onde a vida corria
suave e cheia de tranqüilidade, porque se estava perto da família, defronte da
cidade, sem os cuidados de quem anda no alto-mar... E depois já era tempo! Vinte
dias a bordejar estupidamente, sem ver um pedaço de terra, uma ilha sequer,
passando mal como cão! Já era tempo...
Só uma pessoa desejava que a viagem se prolongasse indefinidamente, que
a corveta não chegasse nunca mais, que o mar se alargasse de repente
submergindo ilhas e continentes numa cheia tremenda, e a velha nau, só ela, como
uma cousa fantástica, sobrevivesse ao cataclismo, ela somente, grandiosa e
indestrutível, ficasse flutuando, flutuando por toda a eternidade. Era Bom-Crioulo, o
negro Amaro, cujo espírito debatia-se, como um pássaro agonizante, em torno dessa
única idéia — o grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar noutra coisa, que o
torturava dolorosamente... — Maldita hora em que o pequeno pusera os pés a
bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem
preocupações incômodas, ora triste. ora alegre é verdade, porque não há nada firme
no mundo, mas enfim, ia-se vivendo... E agora? Agora... hum, hum!... agora não
havia remédio: era deixar o pau correr...
E vinha-lhe à imaginação o pequeno com seus olhinhos azuis, com o seu
cabelo alourado, com suas formas rechonchudas, com o seu todo provocador.
Nas horas de folga, no serviço, chovesse ou caísse fogo em brasa do céu,
ninguém lhe tirava da imaginação o petiz: era uma perseguição de todos os
instantes, uma idéia fixa e tenaz, uma relaxamento da vontade irresistivelmente
dominada pelo desejo de unir-se ao marujo, como se ele fora de outro sexo, de
possui-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo!...
Ao pensar nisso Bom-Crioulo transfigurava-se de um modo incrível, sentindo
ferroar-lhe a carne, como a ponta de um aguilhão, como espinhos de urtiga brava,
esse desejo veemente — uma sede tantálica de gozo proibido, que parecia
queimar-lhe por dentro as vísceras e os nervos...
Não se lembrava de ter amado nunca ou de haver sequer arriscado uma
dessas aventuras tão comuns na mocidade, em que entram mulheres fáceis, não:
pelo contrário, sempre fora indiferente a certas cousas, preferindo antes a sua
pândega entre rapazes a bordo mesmo, longe das intriguinhas e fingimentos de
mulher. Sua memória registrava dois fatos apenas contra a pureza quase virginal de
seus costumes, isso mesmo por uma eventualidade milagrosa: aos vinte anos, e
sem o pensar, fora obrigado a dormir com uma rapariga em Angra dos Reis, perto
das cachoeiras, por sinal dera péssima cópia de si como homem; e mais tarde,
completamente embriagado, batera em casa de uma francesa no largo do Rocio,
donde saíra envergonhadíssimo, jurando nunca mais se importar com “essas
cousas”...
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E agora, como é que não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue?
Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas
do mesmo sexo, entre dois homens?
Tudo isto fazia-lhe confusão no espírito, baralhando idéias, repugnando os
sentidos, revivendo escrúpulos. — É certo que ele não seria o primeiro a dar
exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir... Mas — instinto ou falta de
hábito — alguma cousa dentro de si revoltava-se contra semelhante imoralidade que
os outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre o
convés... Não vivera tão bem sem isso? Então, que diabo! não valia a pena sacrificar
o grumete, uma criança... Quando sentisse “a necessidade”, aí estavam mulheres de
todas as nações, francesas, inglesas, espanholas... a escolher!
Caía em si, arrependido e frio, escrupulizando as cousas, traçando normas de
proceder, enchendo-se de uma ternura por vezes lânguida e piedosa — o olhar
erradio no azul inconsútil.
O castigo por causa do Aleixo trouxera-lhe outro prejuízo: no mesmo dia
deixou ele o cargo de gajeiro de proa, o que afinal era um descanso, um alívio de
trabalho. Tudo quanto lhe fizessem estava muito bem feito, contanto que o
deixassem no seu canto, no seu ramerrão: nunca pedira favores a ninguém.
— Olha, dizia ele ao grumete com uma ironia na voz conselheira: não te
metas com oficiais. São muito bons, muito amigos da gente, enquanto precisam de
nós, só enquanto precisam, mas depois — adeus, hein! — dão-nos com o pé no
focinho.
Aleixo estava satisfeitíssimo com a vida que ia levando naquele céu aberto da
corveta, querido, estimado por todos, invejado por meia dúzia. Nada lhe faltava,
absolutamente nada. Era mesmo uma espécie de principezinho entre os camaradas,
o “menino bonito” dos oficiais, que o chamavam de “boy”. Habituando-se depressa
àquela existência erradia, foi perdendo o acanhamento, a primitiva timidez, e quem o
visse agora, lesto e vivo, acudindo à manobra, muito asseado sempre na sua roupa
branca, o boné de um lado, a camisa um poucochinho decotada na frente, deixando
ver a cova do pescoço, ficava lhe querendo bem, estimava-o deveras. Essa
metamorfose rápida e sem transição perceptível, foi obra de Bom-Crioulo, cujos
conselhos triunfaram sem esforço no ânimo do grumete, abrindo-lhe na alma
ingênua de criançola o desejo de conquistar simpatias, de atrair sobre a sua pessoa
a atenção de todos.
Gabando-se de conhecer “o mundo”, Bom-Crioulo cuidou primeiro em
lisonjear a vaidade de Aleixo, dando-lhe um espelhinho barato que comprara no Rio
de Janeiro — “para que ele visse quanto era bonito”. O pequeno mirou-se e...sorriu,
baixando o olhar. — Que bonito o quê!... Uma cara de carneiro mocho! — Mas não
abandonou o trastezinho, guardando-o com zelo no fundo da trincheira, como quem
guarda um objeto querido, uma preciosidade rara, e todas as manhãs ia ver-se,
deitando a língua fora, examinando-se cuidadosamente, depois de ter lavado o
rosto.
Bom-Crioulo compreendeu o efeito da experiência e tratou de completar a
“educação” do marinheiro. Ensinou-lhe como se dava laço na gravata... (gravata
não, dizia ele, isso não se chama gravata, chama-se lenço...); aconselhou-o que
nunca usasse o boné no meio da cabeça: — Um marinheiro deve usar o boné de
lado, com certa graça...
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E a camisa? — Oh, a camisa devia ser um bocadinho aberta para mostrar a
debaixo, a de meia. O hábito faz o monge.
O grumete aceitava tudo com um ar filial, sem procurar a razão de todo esse
esmero. Via marinheiros imundos, mal vestidos, cheirando a suor, mas eram poucos.
Havia os que até usavam essências no lenço e óleo no cabelo.
No fim de alguns dias Aleixo estava outro e Bom-Crioulo contemplava-o com
esse orgulho de mestre que assiste ao desenvolvimento do discípulo.
Um belo domingo, em que todos deviam se apresentar com uniforme branco,
segundo a tabela, o grumete foi o último a subir para a mostra. Vinha irrepreensível
na sua toilette de sol, a gola azul dura de goma, calças boca-de-sino, boné de um
lado, coturnos lustrosos.
Bom-Crioulo, que já estava em cima, na tolda, assim que o viu naquela
pompa, ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era
abraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de
carícias debaixo do seu corpo. — Sim senhor! Parecia uma menina com aquele
traje. Esta mesmo apto! Então o espelhinho sempre servira, hein?
E com um gesto rápido, nervoso, disfarçando a concupiscência:
— Bonitinho!
O pequeno, longe de se amuar com o gracejo, mirou-se d’alto a baixo,
risonho, deu um muxoxo e seguiu para a forma sem dizer palavra.
Depois de terminada a leitura do regulamento, feita a revista, Bom-Crioulo
chamou-o à proa, e entraram numa longa palestra, deliciosa para o negro a julgar
pela expressão cada vez mais fulgurante de sua fisionomia.
O mar estava relativamente calmo, apenas eriçado por uma viração branda
que ameigava o mormaço. Nuvens aglomeravam-se para o sul, crescendo em
bulcões pardacentos, como impelidas pela mesma força, longe ainda, rente com o
horizonte. Em cima, no alto do grande hemisfério que a luz do meio dia incendiava, o
azul sempre o azul claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito e
misterioso... Parecia que se estava muito perto de terra, porque no mesmo horizonte
da corveta ia passando uma velinha triangular de jangada, microscópica e fugitiva.
Pela alheta de boreste vinha-se chegando também o vulto sombrio de um grande
vapor de dois canos.
Bom-Crioulo e Aleixo conversavam à sombra da bujarrona, lado a lado,
indiferentes à alegria dos outros marinheiros, cuja atenção volvia-se agora para o
transatlântico. Todos, menos os dois, queriam saber de que nacionalidade era o
“bruto”. Uns afirmavam que era inglês, por causa do tamanho; outros viam na cor
dupla das chaminés o distintivo das Messageries Maritimes: devia ser o Equateur ou
o Gironde — um dos dois. Faziam-se apostas, enquanto o monstro se aproximava
silenciosamente e a jangadinha sumia-se pouco a pouco...
— Mas, olhe, você não queira negócio com outra pessoa, dizia Bom-Crioulo.
O Rio de Janeiro é uma terra dos diabos... Se eu o encontrar com alguém, já sabe...
O rapazinho mordia distraidamente a ponta do lenço de chita azul-escuro com
pintinhas brancas, ouvindo as promessas do outro, sonhando uma vida cor-de-rosa
lá nesse Rio de Janeiro tão falado, onde havia uma grande montanha chamada Pão
d’Açúcar, e onde o imperador tinha o seu palácio, um casarão bonito com paredes
de ouro...
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Tudo avultava desmesuradamente em sua imaginação de marinheiro de
primeira viagem. Bom-Crioulo tinha prometido levá-lo aos teatros, ao Corcovado
(outra montanha donde se avistava a cidade inteira e o mar...), à Tijuca, ao Passeio
Público, a toda parte. Haviam de morar juntos, num quarto da rua da Misericórdia,
num comodozinho de quinze mil-réis onde coubessem duas camas de ferro, ou
mesmo uma só, larga, espaçosa... Ele, Bom-Crioulo, pagava tudo com o seu soldo.
Podia-se viver uma vida tranqüila. Se continuassem no mesmo navio, não haveria
cousa melhor; se, porém, a sorte os separasse dava-se jeito. Nada é impossível
debaixo do céu.
— E não tem que dizer isto a ninguém, concluiu o negro. Caladinho: deixe
estar que eu toco os paus...
Nesse momento o transatlântico defrontava com a corveta, içando a ré a
bandeira inglesa, uma grande lenço de tabaco, encarnado, e saudando com três
guinchos medonhos o navio de guerra, cuja bandeira também flutuava na popa,
verde e ouro.
Um mundo de gente movia-se na proa do inglês, decerto imigrantes italianos
que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco,
chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo. Lenços acenavam para a
corveta que ia ficando atrás, toda em panos, lenta e soberba.
E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota,
sozinha no meio do mar, desolada e lúgubre. Os marinheiros tinham se espalhado
pela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, esperando o rancho das quatro
horas.
A montanha de nuvens que há pouco erguia-se fantasticamente lá longe, ao
sul, alastrava o céu, aproximando-se cada vez mais, cor de chumbo, tempestuosa,
desdobrando-se em contornos de feições bizarras, como uma barreira enorme que
de repente se levantasse entre a corveta e o horizonte. Meio encoberto já, o sol
coava sua luz triste através das nuvens, irisando-as de uma faixa multicor e
brilhante, espécie de auréola, que descia para o mar.
O aguaceiro estava iminente.
— Obra dos joanetes e sobres! gritou o oficial de quarto.
A essa voz o movimento foi geral. Imediatamente soaram apitos e a tolda
encheu-se de marinheiros e oficiais, que surgiam das escotilhas num alvoroço,
correndo, empurrando-se. A figura do guardião Agostinho destacava à proa, calma e
solene, medindo a mastreação.
— Arria, carrega!
Trilaram de novo os apitos num desespero de manobra açodada: avalanches
de marinheiros precipitaram-se de um bordo e doutro, alando os cabos, atropelando-
se em correrias de horda selvagem, batendo os pés, ao barulho dos moitões que
chiavam como carro de bois na roça.
— Agüenta o leme! avisava o oficial todo embuçado na sua capa
impermeável.
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O tempo escurecera completamente, e a ventania refrescando, esfuziava na
mastreação de modo sinistro, com a força extraordinária de titãs invisíveis. Mar e
céu confundiam-se na escuridão, formando um só conjunto negro em torno da
corveta, abarcando-a em todos os sentidos, como se tudo ali dentro fosse
desaparecer debaixo das águas e das nuvens... Passavam grandes ondas
altaneiras, rugindo sob a quilha, dançando uma dança medonha e vertiginosa na
proa, cada vez que o navio mergulhava o bojo com risco de abrir pelo meio... Chuva
copiosíssima alagava o convés obrigando os marinheiros a se arregaçar,
encharcando as pilhas de cabo, numa baldeação geral e inesperada.
A corveta ficara somente em gáveas e mezena, e corria, agora, sobre o mar,
como se fosse um simples iatezinho de recreio, leve, enfunada, cavalgando as
ondas — a bordas quase rente com a água...
Que orgulho para o oficial de quarto! Como ele sentia-se bem naquele
momento, debaixo de seu sueste, molhado té à ponta dos pés, todo olhos para que
o navio não saísse fora do rumo, cheio de responsabilidade, calmo no seu posto,
enquanto os outros descansavam na praça d’armas! De vez em quando olhava para
a popa e via, com grande júbilo d’alma, a larga esteira de espuma que a corveta ia
deixando atrás. Sentia-se forte, sentia-se homem! — Decididamente a marinha é,
por excelência, uma escola de coragem! pensava.
Durou hora e meia o aguaceiro, uma chuva cerrada e insistente de revés, que
parecia não acabar mais. O céu abriu-se de repente, claro e azul; a luz tornou a
iluminar os horizontes; e pouco a pouco foram desaparecendo os últimos vestígios
da “brincadeira”, como dizia, depois, o tenente Souza, o da calmaria, que entrava de
quarto.
O vento, porém, continuava rijo, açoitando os cabos, fustigando a superfície
d’água, gemendo tristemente salmodias de violoncelo fantástico, em lufadas que
faziam estremecer todo o navio.
Dez milhas, acusava a barquinha, dez milhas por hora.
— Cuidado com o leme!
Marinheiros vassoiravam o convés, enquanto outros iam passando o lambaz
onde já não havia água. De cima, da tolda, ouvia-se a voz dos oficiais conversando
na bateria, sentados por ali numa desordem grotesca, fumando, rindo... O
comissário, um de suíças longas, magro, estudava clarinete, embaixo, na praça
d’armas, com admirável paciência, equilibrando-se. A chuva reanimara-os a todos,
oficiais e marinheiros, desentorpecendo-lhes o corpo.
Bom-Crioulo, cansado da faina, descera à coberta, e conversava também
com Aleixo, de quem só se separava na hora do serviço.
A umidade, o frio que entra pelas escotilhas, aquele ambiente glacial
comunicava-lhe um desejo louco de amor físico, um enervamento irresistível. Unido
ao grumete num quase abraço, a mão no ombro de Aleixo que, àquele contacto,
experimentava uma vaga sensação de carícia, o negro esquecia todos os seus
companheiros, tudo que o cercava para só pensar no grumete, no “seu bonitinho” e
no futuro dessa amizade inexplicável.
— Tiveste muito medo?
— De quê?
— Do tempo...
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— Não, nem por isso.
E Aleixo aproveitou o ensejo para narrar rum caso de vento sul em Santa
Catarina: — Tinham saído, ele e o pai, numa canoa de pesca, assim pelo meio-dia.
De repente o mar começa a encrespar, o vento desaba... e agora? Estavam
sozinhos perto da ilha dos Ratones dentro de uma canoa que era ver uma casquinha
de noz. O velho, coitado, não teve dúvida, não! puxou pelo remo: — vuco, te vuco...,
vuco, te vuco...— Segura-te, meu filho! E o vento cada vez mais forte, zunindo no
ouvido que nem o diabo. Mas veio uma rajada de supetão, um golpe de vento
medonho, e quando ele, Aleixo, quis agarrar-se ao pai, era tarde: a canoa emborcou!
— Emborcou?
— Emborcou de verdade, pois então? Sei bem que fui ao fundo e voltei à
tona. Aí perdi o sentido... quando acordei estava na praia, são e salvo, graças a
Deus!
— Assim mesmo foste feliz, disse o negro com interesse. Podias morrer
afogado...
Bom-Crioulo também quis contar sua história, e a conversa prolongou-se té
ao anoitecer, quando todos subiram par a distribuição do serviço.
Em vez de abrandar, o sueste soprava com mais força, duro e tenaz,
ameaçando levar tudo quanto era cabo e pano. A corveta, o “velho esquife”, como a
chamavam, ia numa vertigem por aqueles mares, arfando suavemente, oscilando às
vezes, quando o vagalhão era maior, com os seus dois faróis de cor — o encarnado
a boreste, o verde a bombordo — e a lanterninha do traquete, pálida e microscópica
no alto do estai da giba.
Sempre em gáveas e mezena, vento em popa, grande e sombria na noite
clara, espectral e silenciosa, ela voava desesperadamente caminho da pátria.
A lua surgindo lenta e lenta, cor de fogo a princípio, depois fria e opalescente,
misto de névoa e luz, alma da solidão, melancolizava o largo cenário das ondas,
derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o coração do
marinheiro, comunicando-lhe a saudade infinita dos que navegam.
E nada de serenar o vento!
Naquele caminhar, cedo se estaria em terra. Cousa talvez de um dia mais...
Enquanto não chegava a hora triste do silêncio oficial, a hora do sono, que se
prolongava té o romper d’alvorada, marinheiros divertiam-se à proa, cantando ao
som de uma viola chorosa, numa toada sertaneja, rindo, sapateando, a ver quem
melhor improvisava modinhas de pé quebrado, “cantigas do mato”... — Não se
perdia um luar como aquele! Tinham trabalhado muito: era preciso folgar também.
Deitados no convés, de ventre para o ar, outros em sentido contrário, queixos na
mão — um sentado pacatamente, aquele outro de pernas cruzadas fumando —
todos em plena liberdade, formavam roda em cima do castelo, enquanto era cedo.
O oficial do quarto passeando, passeando, escutava-os enternecido, cheio de
contemplação por aquela pobre gente sem lar nem família, que morria cantando,
longe de todo carinho, às vezes longe da pátria, onde quer que o destino os
conduzisse. Aquelas cantigas assim rudes, assim improvisadas, quase sem metro e
sem rima, tinham, contudo, o sabor penetrante dos frutos naturais e o misterioso
encanto de confissões ingênuas... Fazia bem ouvi-las, como que o coração dilatava-
se numa hipertrofia de saudade terna e consoladora.
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Deixá-los cantar, os pobres marinheiros, deixá-los esquecer a vida incerta que
levam — deixá-los cantar!...
Geme a viola, soluça uma alma em cada bordão; ressoam cantares em
desafio no silêncio infinito da noite clara...
O tempo voa, ninguém se apercebe das horas, ninguém se lembra de dormir,
de fechar os olhos à paisagem translúcida e fria do luar tropical varrida pelo vento
sul. Misterioso instrumento essa viola, que fazia esquecer as agruras da vida,
embriagando a alma, tonificando o espírito!
Bom-Crioulo não tomou parte no folguedo. — Estava cansado de ouvir
cantigas: fora-se o tempo em que também gostava de fazer seu pé-de-alferes,
dançando o baião, fazendo rir a rapaziada.
E quando a sineta de proa badalou nove horas, viram-no passar esgueirando-
se felinamente, sobraçando a maca. Ia depressa, furtando-se à vista dos outros,
mudo, impenetrável, sombrio... Embarafustou pela escotilha, escadas abaixo, e
sumiu-se na coberta.
Que iria ele fazer? Algum crime? Alguma traição? — Nada: Bom-Crioulo
tratava de se agasalhar como qualquer mortal, o mais comodamente possível. — Lá
em cima fazia um arzinho de gelo, caramba! A coberta sempre era um pouco mais
quente. O seguro morreu de velho...
Abriu a maca, estendeu-se sobre o convés cautelosamente, com mãos de
mulher, examinou o lençol, e, sacando fora a camisa de flanela azul, deitou-se com
um largo suspiro de conforto. — Ah! estava como queria. Boa noite!...
Nem uma voz rompia o silêncio regulamentar, senão a do oficial, de hora em
hora:
— Barca!
Ventava forte ainda.
O convés, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de um
acampamento nômade. A marinhagem entorpecida pelo trabalho, caíra numa
sonolência profunda, espalhada por ali ao relento, numa desordem geral de ciganos
que não escolhem o terreno para repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, as
correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era maior o atravancamento.
Macas de lona suspensas em varais de ferro, umas sobre as outras, encardidas
como panos de cozinha, oscilavam à luz moribunda e macilenta das lanternas.
Imagine-se o porão de um navio mercante carregado de miséria. No intervalo das
peças, na meia escuridão dos recôncavos moviam-se corpos seminus, indistintos.
Respirava-se um odor nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano
diluído em urina e alcatrão. Negros, de boca aberta, roncavam profundamente,
contorcendo-se na inconsciência do sono. Viam-se torsos nus abraçando o convés,
aspectos indecorosos que a luz evidenciava cruelmente. De vez em quando uma voz
entrava a sonambular cousas ininteligíveis. Houve um marinheiro que se levantou,
no meio dos outros, nu em pêlo, os olhos arregalados, medonho, gritando que o
queriam matar. No fim de contas o pobre-diabo era vítima de um pesadelo, nada
mais. Tudo voltou ao silêncio.
E lá cima, no passadiço, o oficial de quarto, vigilante e imperturbável, de hora
em hora:
— Barca!
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Havia um rebuliço ligeiro; o guardião apitava acordando a gente de serviço: —
Levanta, levanta! olha a barca!... — e as horas iam correndo assim, monotonamente.
Bom-Crioulo estava de folga. Seu espírito não sossegara toda a tarde,
ruminando estratagemas com que desse batalha definitiva ao grumete, realizando,
por fim, o seu forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega.
Por vezes tinha querido sondar o ânimo do grumete, procurando convencê-lo,
estimulando-lhe o organismo, mas o pequeno fazia-se de esquerdo, repelindo
brandamente, com jeitos de namorada, certos carinhos do negro. — Deixe disso,
Bom-Crioulo, porte-se sério!
Nesse dia Priapo jurou chegar ao cabo da luta. Ou vencer ou morrer! — Ou o
pequeno se resolvia ou estavam desfeitas as relações. Era preciso resolver “aquilo”.
— Aquilo quê? perguntou o rapazinho, muito admirado.
— Nada; o que eu quero é que não te zangues comigo.
E precipitadamente:
— Onde vais dormir esta noite?
— Lá bem à proa, na coberta, por causa do frio.
— Bem: havemos de conversar.
Às nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca e
precipitou-se no encalço do pequeno. Foi justamente quando o viram passar com a
trouxa debaixo do braço, esgueirando-se felinamente...
Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo roliço, a
branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contactos impuros, um apetite
selvagem cortou a palavra ao negro. A claridade não chegava sequer à meia
distância do esconderijo onde eles tinham se refugiado. Não se viam um ao outro:
sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores.
Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, aconchegando-se ao
grumete, disse-lhe qualquer cousa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, sem
respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se, instintivamente de sono, ouvindo, com
o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimo de
murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de
Bom-Crioulo: o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os teatros, os
passeios....; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas não
disse nada. Uma sensação de ventura infinita espalhava-se em todo o corpo.
Começava a sentir no próprio sangue impulsos nunca experimentados, uma como
vontade ingênita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que
ele quisesse — uma vaga distensão dos nervos, um prurido de passividade...
— Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza.
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CAPÍTULO IV
Amanhecera um belo dia de sol, quente, luminoso, de uma transparência fina
de cristal lavado.
Logo pela madrugadinha, antes de apagar-se a última estrela, a corveta
“acendera fogos”, e demandava o porto, em árvore seca, impulsionada pela sua
velha máquina de sistema antigo — um estafermo quase imprestável, porejando
vapor, abrindo-se toda em desconjuntamentos de maquinismo secular.
Enfim se chegava!
Agora cada um tratava de si, de sua roupa, do que trouxera da longa viagem
ao sul, dessa viagem maldita que parecia não acabar nunca.
Lá estava bem defronte, por bombordo, o Pão d’Açúcar, talhado a pique,
sombrio, íngreme, batido pelas ondas, guardando a entrada; e mais longe para o sul
— termo final de uma espécie de cordilheira primitiva e bronca — o cocuruto da
Gávea, cinzento, dominando o mar...
— E aquela ilha com ponto branco? perguntou Aleixo curiosamente,
Estava ao lado do Bom-Crioulo, contemplando embevecido a costa
fluminense.
— Aquela ilha é a Rasa, explicou o negro. Não vês o farol, aquilo branco?...
E começou a descrever o pedaço do litoral que se ia desdobrando à luz,
alcantilado e fulgurante, como essa terras lendárias de tamoios e caramurus...
Aquela faixa de areia, muito estreita, do outro lado (e estendia o braço por cima do
ombro do pequeno), beirando a água, chamava-se Marambaia. Lá adiante, uma
montanha quase apagada, era o Cabo Frio...
E foi indicando, um a um, com exclamações de patriotismo, os acidentes da
entrada, os edifícios: as fortalezas de S. João no alto, e de Santa Cruz à beira mar,
olhando-se, com sua artilharia muda; a Praia Vermelha, entre morros; o hospício;
Botafogo...
Tudo aquilo, dizia ele abarcando com um gesto largo, morros e casas, tudo
aquilo é a cidade de Niterói, ouviste falar?
— Não ...
— Pois é ali.
Aleixo, de resto, não experimentava grande surpresa. Entre montanhas havia
ele nascido e perto do mar. O entusiasmo de Bom-Crioulo nem sequer o abalava:
fazia outra idéia do Rio de Janeiro!
— Mas isto ainda não é a cidade, meu tolo, explicava o negro. Tu não viste
nada por enquanto...
A corveta aproximava-se de Villegaignon...
Bom-Crioulo mal teve tempo de dizer ao grumete: —“Foi ali que eu
comecei...” E desapareceu entre a chusma da marinhagem.
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Era quase meio-dia. Escaleres de guerra vinham em direção da fortaleza,
cortando a água numa carreira macia de out-riggers. Ouvia-se a pancada igual dos
remos acompanhando a voga.
Ao redor da barca de banhos pairavam botes de comércio. Lanchas apitavam
cruzando a baía. Navios de guerra imóveis, aproados à barra, faziam sinais, içando
e arriando bandeiras. Entre esses havia uma grande couraçado ao lume d’água,
raso, chato e bojudo, com uma flâmula azul no mastro grande.
A corveta diminuiu a marcha, seguindo vagarosa e dominando com seu porte
de nau antiga e legendária, o conjunto de embarcações que por ali estacionavam.
Pouco adiante de Villegaignon fez uma parada imperceptível, tocando atrás:
ouviu-se um grande baque n’água e logo um rumos de amarras que se desenrolam,
que se precipitam...
— Ora, graças! exclamaram algumas vozes ao mesmo tempo, como se
houvessem combinado fazer coro de alegria.
Entretanto, Bom-Crioulo começava a sentir uns longes de tristeza n’alma,
cousa que raríssimas vezes lhe acontecia. Lembrava-se do mar alto, da primeira vez
que vira o Aleixo, da vida nova em que ia entrar, preocupando-o sobre a amizade do
grumete, o futuro dessa afeição nascida em viagem e ameaçada agora pelas
conveniências do serviço militar. Em menos de vinte e quatro horas Aleixo podia ser
transferido para outro navio — ele mesmo, Bom-Crioulo, quem sabe? talvez não
continuasse na corveta...
Instintivamente seu olhar procurava o pequeno, acendia-se num desejo
sôfrego de vê-lo sempre, sempre, ali perto, vivendo a mesma vida de obediência e
de trabalho, crescendo a seu lado como um irmão querido e inseparável.
Por outro lado estava tranqüilo porque a maior prova de amizade Aleixo tinha
lhe dado a um simples aceno, a um simples olhar. Onde quer que estivessem
haviam de se lembrar daquela noite fria dormida sob o mesmo lençol na proa da
corveta, abraçados, como um casal de noivos em plena luxúria da primeira
coabitação...
Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um
delírio invencível de gozo pederasta... Agora compreendia que só no homem, no
próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres.
Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida tivera a
lembrança de perscrutar suas tendências em matéria de sexualidade. As mulheres o
desarmavam para os combates do amor, é certo, mas também não concebia, por
forma alguma, esse comércio grosseiro entre indivíduos do mesmo sexo; entretanto,
quem diria!, o fato passava-se agora consigo próprio, sem premeditação,
inesperadamente. E o mais interessante é que “aquilo” ameaçava ir longe, para mal
de seus pecados... Não havia jeito, senão ter paciência, uma vez que a “natureza”
impunha-lhe esse castigo.
Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro:
fizera muito em conservar-se virgem té aos trinta anos, passando vergonhas que
ninguém acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os
médicos proíbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consciência,
tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial
de quem se diziam cousas medonhas no tocante à vida particular. Se os brancos
faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza
pode mais que a vontade humana...
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Começou a faina de arriar escaleres, uma lufa-lufa barulhenta e
ensurdecedora, um incessante rumor de cabos e moitões, de vozes e apitos,
confundindo-se em algaravia de mercado público, ressoando clamorosamente no
silêncio da baía.
Em torno da corveta agitava-se uma multidão de escaleres e lanchas
conduzindo oficiais de marinha e senhoras, que acenavam para bordo — aqueles
em uniforme de “visita”, espada e luva branca, afetando autoridade, aprumando-se
no paineiro com essa desenvoltura natural dos homens do mar; aquelas em toilletes
de verão, muito rubras do sol.
Houve um momento de geral precipitação, em que todos procuravam subir a
escadinha do portaló, investindo a um tempo, quando a visita sanitária pôs-se ao
largo. — Atraca daí! gritava uma voz. — Larga a canoa! bradava a outra. — Ciando
à ré! — Abre de proa! — Rema avante!
Ninguém se compreendia no tumulto.
Daí a apouco, porém, foi-se restabelecendo a ordem, todo aquele alvoroço
desapareceu e ouvia-se apenas a voz dos marinheiros conversando. Foi então que
atracou um escaler coma bandeira inglesa, e um oficial ruivo, de suíças, muito
parecido com o rei Guilherme, da Alemanha. Era o comandante do Ironside,
cruzador britânico.
Austero, hermeticamente abotoado, subiu e desceu logo, sem se voltar,
pisando forte nos degraus da escadinha.
Bom-Crioulo que se debruçara na amurada, assim que o viu saltar no escaler:
— Inglês bruto! murmurou entre dentes, e ficou-se com sua indignação, olhando a
água calma... Ele ali estava, enfim, na baía do Rio de Janeiro, depois de uma
ausência de seis longos meses! Precisava ir à terra naquele mesmo dia para
arranjar o negócio do quarto da Rua da Misericórdia, antes que o pequeno se
arrependesse; tinha umas compras a fazer...
Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a
guarnição passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado
em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. — Diabo de vida sem
descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas as ordens. E não
as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido em ferros... Ah! vida,
vida!... Escravo na fazendo, escravo a bordo, escravo em toda a parte... E chamava-
se a isso de servir à pátria!
Anoiteceu. Noite estrelada, cheia de silêncio, profundamente calma e
reparadora. A guarnição da corveta dormia sem abalos um sono tranqüilo e delicioso
de oito horas, ao ar livre, sobre o convés desbastado.
Bom-Crioulo nem sequer pensou em Aleixo: estava incapaz de trocar palavra,
sucumbido pela canseira, o corpo mole reclamando conforto, o espírito parado; todo
ele sem ânimo para cousa alguma. Trabalhara brutalmente; não havia resistir à
fadiga. Momentos há em que os próprios animais caem extenuados... Deitou-se a
um canto, longe de todos, e adormeceu imediatamente num sono cataléptico. Ao
primeiro toque d’alvorada espreguiçou-se, abrindo os olhos com surpresa, e sentiu-
se alagado. — Oh! ... — Passou a mão no lugar úmido, tateando, e verificou, cheio
de indignação, cheio de tédio, com um gesto de náusea, a irreparável perda que
sofrera inconscientemente durante o sono — um verdadeiro esgotamento de líquido
seminal, de forças procriadoras, de vida, enfim, que “aquilo” era sangue
transformado em matéria! Se ao menos tivesse gozado... Mas não sentira nada,
absolutamente nada, mesmo em sonho! Dormira toda a noite como um porco, e o
resultado ali se achava no lençol — quase um rio de goma prolífica!
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E triste, desesperado, maldizendo a natureza na linguagem torpe das galés,
ergue-se e foi juntando a roupa de cama bruscamente, atabalhoadamente, como se
alguém houvesse concorrido para a sua “desgraça”.
Entrou pelo dia com ares de quem não quer se incomodar, o semblante
carregado numa sombria expressão de aborrecimento, falando pouco e em tom
grosseiro, ameaçando: — que o deixassem, que o deixassem; não queria
brincadeira; ainda rachava a cabeça dum!
Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam
que “o negro era meio doido”.
À tarde, porém, esse estado nervoso amainou, graças ao Aleixo que lhe fora
perguntar, com certo interesse e com uma meiguice na voz de adolescente, se ele,
Bom-Crioulo, estava disposto a ir à terra.
— Por que não? Já estava concedida a licença.
— Ah! pensei que tinha se esquecido.
— Qual esquecido! Pois eu não te disse que hoje mesmo havíamos de
arranjar nosso ninho?
E muito carinhoso:
— Espero em Deus estrear hoje...
Faltava, entretanto, a licença do grumete. Aleixo não se animava a pedir que
o deixassem ir à terra, com receio de uma negativa. Bom-Crioulo encorajou-o — Não
fosse tolo! Isso a gente dizia que voltava logo, que era um instante, ou então forjava
qualquer história...
— Dize ao imediato que tens um padrinho rico em terra, uma cousa assim...
Aleixo criou ânimo, e daí a pouco voltava muito satisfeito, risonho, dando
pinchos.
— Não havia nada como a gente ser um menino bonito! Até os oficiais
gostavam...
Bom-Crioulo é que não gostou da pilhéria. Ferrou o olhar no pequeno — hum!
hum! — como para o fulminar. Mas o grumete corrigiu prontamente: — Brincadeira,
menino, brincadeira... pois não se podia brincar?
— Isso não são brinquedos, repreendeu o negro. Eu quando gosto de uma
pessoa gosto mesmo e acabou-se! Já lhe disse que ande muito direitinho...
Vestiram-se e abalaram no escaler das cinco horas, depois da ceia.
— Vamos primeiro tomar um golezinho de jeribita, disse Bom-Crioulo ao saltar
no cais Pharoux. Aqui mesmo no quiosque ... É preciso esquentar os rins.
— Eu não quero.
— Hás de tomar nem que seja um copo de maduro.
— Maduro?
— Sim, maduro: é uma bebida muito boa.
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Foram andando...
O relógio das barcas marcava seis horas menos um quarto, e a cidade,
mergulhada no crepúsculo, adormecia lentamente, caía pouco a pouco numa
estagnação de praça abandonada, num triste silêncio de aldeia longínqua...
Acendiam-se as luzes e rareavam os transeuntes no Largo do Paço. Um ou
outro retardatário, em pé na sombra, e sujeitos que saltavam dos bondes em frente à
estação das barcas, conduzindo embrulhos. O velho pardieiro dos Braganças, o
sombrio casarão, em que, durante quase um século, a monarquia fez reclamo de
suas pratas, imobilizava-se lugubremente, ermo e fechado aquela hora.
Bom-Crioulo tomou à esquerda, por baixo da arcada do Paço, enfiando pela
rua da Misericórdia, braço a braço com o grumete, fumando um charuto que
comprara no quiosque.
Lá adiante, nas proximidades do Arsenal de Guerra, pararam defronte um
sobradinho com persianas, de aspecto antigo, duas varandolas de madeira
carcomida no primeiro andar, e lá em cima, no telhado, uma espécie de trapeira
sumindo-se , enterrando-se, dependurada quase. Embaixo, na loja, morava uma
família de pretos d’Angola; ouvia-se naquele momento, no escuro interior desse coito
africano, a vozeria dos negros.
— É aqui, disse Bom-Crioulo, reconhecendo a casa, e desaparecendo no
corredor sem luz, que ia ter ao sobradinho. Aleixo acompanhava-o taciturno,
silenciosos, cosendo-se à parede, como quem pela primeira vez entra num lugar
estranho.
— Anda tolo! fez o outro, segurando-lhe o braço. De que tens medo?...
Subiram cautelosos, por ali acima, uma escada triste e deserta, cujos
degraus, muito íngremes, ameaçavam fugir sob os pés.
O negro puxou o cordão que pendia da cancela e lá dentro, na sala de jantar,
uma campainha fez sinal, timbrando surdamente.
Bom-Crioulo tornou a puxar com força.
— Quem é? Oh!...
— Sou eu, D. Carolina: tenha bondade.
— Já vai...
E com pouco o marinheiro atirava-se nos braços de uma senhora gorda,
redonda e meio idosa, estreitando-a contra o peito, suspendendo-a mesmo, apesar
de toda a sua gordura, com essa alegria natural de pessoas que se tornam a ver,
depois de um ausência.
— Conta-m’lá, Bom-Crioulo, anda, entra... Quem é este pequeno?
— Este pequeno?... Por causa dele mesmo é que estou aqui. Depois
conversaremos...
— E tu, como vais, meu crioulo? Dize, conta... Ora, se eu soubesse que era
tu... Dá cá outro abraço, anda!
Abraçaram-se de novo, com grande alvoroço, rindo, gargalhando, ela de
avental, muito rechonchuda, o cabelo em duas tranças, partido ao meio, Bom-
Crioulo fazendo-se amável, cobrindo-a de exclamações, achando-a mais gorda,
mais bonita, mais moça!...
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D. Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Misericórdia
somente a pessoas de “certa ordem”, gente que não se fizesse de muito honrada e
de muito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos
velhos... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com classe ou profissão
do sujeito. Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo era a
mesmíssima cousa! o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o
do mesmo modo aos outros.
Vivia de sua casa, de seus cômodos, do aluguelzinho por mês ou por hora.
Tinha o seu homem, lá isso pra que negar? Mas, independente dele e de outros
arranjos que pudesse fazer, precisava ir ganhando a vida com um emprego certo,
um emprego mais ou menos rendoso para garantia do futuro. Isso de homens não
há que fiar: hoje com Deus, amanhã com o diabo.
Quando moça, tinha seus vinte anos, abrira casa na rua da Lampadosa. Bom
tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros como a luz do dia, sem ela se
incomodar. Uma fortuna de jóias, de ouro e brilhante! Já era gorducha, então:
chamavam-na Carola Bunda, um apelido de mau gosto, invenção da rua...
Depois esteve muito doente, saíram-lhe feridas pelo corpo, julgou não
escapar. E, como tudo passa, ela nunca mais pode reerguer-se, chegando, por
desgraça, ao ponto de empenhar jóias e tudo, porque ninguém a procurava,
ninguém a queria — pobre cadela sem dono... Passou misérias! até quis entrar para
um teatro como qualquer cousa, como criada mesmo. Foi nessa época, num dia de
carnaval (lembrava-se bem!), que começou a melhorar de sorte. Um clubezinho
pagou-lhe alguns mil-réis para ela fazer de Vênus, no alto de um carro triunfal. Foi
um escândalo, um “sucesso”: atiraram-lhe flores, deram-lhe vivas, muita palma,
presentes, — o diabo! Durante quase um ano só se falou na Carola, nas pernas da
Carola, na portuguesa da rua do Núncio.
A pobre mulher narrava isso com lágrimas e suspiros de profunda e
melancólica saudade, e repetia: Bom Tempo! Bom tempo!
Esteve duas vezes amigada, tornou a cair doente, foi à Portugal, regressou ao
Brasil, cheia de corpo e de novas ambições, amigou-se outra vez, e, afinal de
contas, depois de muito gozar e de muito sofrer, lá estava na Rua da Misericórdia,
fazendo pela vida, meu rico!, explorando a humanidade brejeira, enquanto o seu
“macacão” trabalhava por outro lado em negócios de carne verde e fornecimento
para os quartéis.
De resto, essa aliança com o açougueiro, uma senhor Brás, homem de
grandes barbas e muitos haveres, essa aliança pouco ou nada lhe rendia, a ela,
porque o sujeito era casado e só de mês em mês dava o ar de sua graça, deixando-
lhe a ninharia de cento e cinqüenta mil-réis para o aluguel do sobradinho, fora a
carne que mandava diariamente.
— Tenho quarenta anos de experiência, dizia, quarenta anos e alguns fios de
prata na cabeça. Conheço este mundo velho, meu amor; tudo isso pra mim é
miséria.
Estimava Bom-Crioulo desde o dia em que ele, desinteressadamente, por um
acaso providencial, livrou-a de morrer na ponta uma faca; história de ladrões... Era
caso até para beijar os pés do marinheiro, porque nunca vira tanta coragem e tanto
desinteresse!
D. Carolina buscava sempre ocasião de recordar o fato, narrando-o com
todas as cores, dando-lhe mesmo umas tintas de paleta rembrantesca, desfazendo-
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se em elogios à gente da marinha, gabando os homens do mar, “uns benfeitores da
humanidade”.
Uma noite — só ao pensar tinha calafrios! — vinha de assistir ao Drama no
alto-mar, que se representava na Phenix, quando, ao meter a chave na porte, foi
surpreendida por dois indivíduos, cuja fisionomia não pode reconhecer e que lhe
pediram os anéis e dinheiro que porventura trouxesse.
Ela, com efeito, além de um anel de brilhante, lembrança dos bons tempos! e
duas esmeraldas, levava cinqüenta mil-réis. Ora, já se passava de meia noite e a
Rua da Misericórdia estava deserta que nem um cemitério. Nenhum guarda por ali!
Quis abrir a boca e pedir socorro, mas os gatunos foram dizendo logo que, se ela
ousasse gritar, morria. E brandiram os punhais, duas lâminas de bom aço, tamanho
de facões! Ah! mas Deus é grande! Nesse momento ia passando o vulto de um
marinheiro e ela disparou correndo, sobre ele: — Socorro! Socorro! — Travou-se
uma luta. O marujo saltava fugindo aos punhais e investindo logo, como uma fera,
de navalha em punho. Felizmente (Deus sabe o que faz!) aos gritos de socorro,
encheram-se as janelas de gente em camisa de dormir, soaram apitos no escuro e a
polícia chegou a tempo de prender os ladrões, completamente desarmados pelo
bem-vindo marinheiro. — Qualquer pessoa nos casos dela faria o que ela fez: abriu
cerveja para o seu protetor, que disse chamar-se Amaro, vulgo Bom-Crioulo,
marinheiro de um navio da esquadra. E, como no sobradinho moravam praças de
bordo, Bom-Crioulo deu-se a conhecer, havendo logo uma intimidade entre ela,
Carolina, e o negro. Palavra d’honra como nunca vira tanta coragem num homem.
Estimava-o por isso: porque era um marinheiro valente — homem para
quatro!
Bom-Crioulo começou a freqüentar o sobradinho onde iam outros
marinheiros, e daí a grande amizade da portuguesa por ele, não que houvesse outra
intenção: ela sabia que o negro não era homem para mulheres...
— Vamos, conta-m’lá essa viagem!
Tinham-se sentado, os três, numa sala de jantar, à luz do gás. D. Carolina
estufada, muitíssimo gorda, cabeceando, sem fôlego, estava ansiosa por saber
notícias. O negro, de boné no alto da cabeça, recostado familiarmente, acabava o
charuto, cuja cinza abria-se de vez em quando num clarão rubro e quente. Aleixo,
imóvel numa cadeira, olhava as paredes, examinando o papel do forro, os quadros
— oleografias de carregação figurando assunto de alcova, duas em cada parede,
colocadas simetricamente —, o guarda-louça quase vazio, e uma coleção de
estampilhas de caixa de fósforo armada em leque. Tudo velho e incolor, poento e
maltratado. Respirava-se uma atmosfera de sebo e cânfora, renovada por uma triste
janelinha que abria para a espécie de área pertencente à loja.
Bom-Crioulo resumiu em poucas palavras a viagem da corveta: — Seis
meses de estupidez! O Aleixo é que trouxera um pouquinho de alegria na volta...
E desfiou a história do grumete.
— Agora D. Carolina vais no arranjar um quartinho, mesmo que seja no sótão,
rematou; mas um quartinho sem luxo, para quando viermos à terra.
— Uma cama ou duas? perguntou sorrindo a quarentona.
— Como quiser... Marinheiro é gente que dorme aos quatro, aos cinco... aos
cinqüenta! Se houvesse uma caminha larga...
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— Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portuguesa. O comodozinho de
cima está desocupado, e, quer que lhe diga? eu acho que ficavam melhor...
Sempre risonha e trêfega, sufocada pelo calor, a mulher piscou o olho a Bom-
Crioulo.
— Então, já sei que vens outro... Bendita viagem! ou o mar ou as tais
cantáridas!...
Riram, compreendendo-se, enquanto Aleixo, debruçado à janela, cuspia para
baixo, para o quintalejo dos africanos.
CAPÍTULO V
Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, começou a
experimentar uma delícia muito íntima, assim como um recolhido gozo espiritual —
certo amor à vida obscura daquela casa onde ultimamente quase ninguém ia, e que
era o seu querido valhacouto de marujo em folga, o doce remanso de sua alma
voluptuosa. Não sonhava melhor vida, conchego mais ideal: o mundo para ele
resumia-se agora naquilo: um quartinho pegado às telhas, o Aleixo e ... nada mais!
Enquanto Deus lhe conservasse o juízo e a saúde, não desejava outra cousa.
O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie de
sótão, ruído pelo cupim e tresandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amarela
um portuguesinho recém chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres
de mau caráter, não se importou com isso, tratando de esquecer o caso e
instalando-se definitivamente. Todo dinheiro que apanhava era para a compra de
móveis e objetos de fantasia rococó, “figuras”, enfeites, cousas sem valor, muita vez
trazida de bordo... Pouco a pouco o pequeno “cômodo” foi adquirindo uma feição
nova de bazar hebreu, enchendo-se de bugigangas, amontoando-se de caixas
vazias, búzios grosseiros e outros acessórios ornamentais. O leito era uma “cama de
vento” já muito usada, sobre a qual Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela
manhã, quando se levantava, um grosso cobertor encarnado “para ocultar as
nódoas”.
Durante meses viveu ele uma vida calma, escrupulosamente pautada,
rigorosamente metódica, cumprindo seus deveres a bordo, vindo à terra duas vezes
por semana em companhia de Aleixo, sem dar motivo a castigos ou recriminações.
Até os oficiais estranhavam-lhe o procedimento, admiravam-lhe os modos. — “Isso é
cousa passageira, insinuava o tenente Souza. Breve temo-lo aqui, bêbedo e
medonho. Sempre o conheci refratário a toda norma de viver. Hoje manso como um
cordeiro, amanhã tempestuoso como uma fera. Cousas de caráter africano...”
O grumete, por sua vez, trazia a alma na perpétua alegria dos que não têm
cuidados. Em terra ou a bordo, não tinha de que se queixar: andava sempre limpo,
ninguém o via deitado no convés, ou emporcalhando-se de alcatrão à proa.
Felizmente o imediato escolhera-o para o serviço de cabo-marinheiro, em atenção à
sua conduta, reconhecendo nele um rapazinho de bons costumes, amigo do asseio,
obediente e trabalhador. De modo que raro via-se Aleixo entre a marinhagem. Seu
lugar predileto era o passadiço ou a ré cosendo bandeiras, tesourando flâmulas,
aprendendo certos misteres do ofício. Às vezes tinha palestras com o oficial do
quarto, narrando histórias de Santa Catarina, casos da província, do tempo em que
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ele era um simples filho de pescador, um pobre menino da beira-mar. Os outros
marinheiros olhavam-no com inveja, tocando-se os cotovelos maliciosamente. Havia
um guarda-marinha, moço bem educado e muito democrata, que, uma vez por outra,
dava-lhe dinheiro, níqueis para cigarros. Ele ia logo mostrar a Bom-Crioulo as
moedinhas de tostão que “seu guarda-marinha lhe dera”. Todos a bordo lhe faziam
festa; o próprio guardião Agostinho, seco e ríspido, tratava-o bem, com branduras na
voz. Uma vida regalada!
Em terra, no quarto da Misericórdia, nem se falava! — ouro sobre azul.
Ficavam em ceroulas, ele e o negro, espojavam-se à vontade na velha cama de
lona, muito fresca pelo calor, a garrafa de aguardente ali perto, sozinhos, numa
independência absoluta, rindo e conversando à larga, sem que ninguém os fosse
perturbar — volta na chave por via das dúvidas...
Um cousa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque
Bom-Crioulo não se contentava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite,
queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher-a-
toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noite
exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria ver o corpo...
Aleixo amuou: aquilo não era cousa que se pedisse a um homem! Tudo
menos aquilo. Mas o negro insistiu: Ninguém o levava a capricho:— Ou bem que
somos ou bem que não somos... — Que asneira! fez o grumete. Por-se agora nu em
pêlo defronte do Bom-Crioulo ! Está visto que tinha vergonha.
— Vergonha de quê? tornou o outro. Não és homem como eu? Donde veio
essa vergonha?
— Decerto!...
— Ora, deixa-te de luxo, menino, vamos: tira a roupa...
Havia luz no quarto, uma luz mortiça. no topo de uma vela de sebo.
— Nem se vê nada... fez Aleixo choramingando, sem lágrimas.
— Sempre há se de se ver alguma cousa...
E o pequeno, submisso e covarde, foi desabotoando a camisa de flanela,
depois as calças, em pé, colocando a roupa sobre a cama, peça por peça.
Estava satisfeita a vontade de Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora em pleno
e exuberante nudez, muito alvo, as formas roliças de calipígio ressaltando na meia
sombra voluptuosa do aposento, na penumbra acariciadora daquele ignorado e
impudico santuário de paixões inconfessáveis... Belo modelo de efebo que a Grécia
de Vênus talvez imortalizasse em estrofes de ouro límpido e estatuas duma
escultura sensual e pujante. Sodoma ressurgia agora numa triste e desolada baiúca
da Rua da Misericórdia, onde àquela hora tudo permanecia numa doce quietação de
ermo longínquo.
— Veja logo... murmurou o pequeno, firmando-se nos pés.
Bom-Crioulo ficou extático! A brancura láctea e maciça daquela carne tenra
punha-lhe frêmitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho,
excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoroçando-lhe o coração. Nunca
vira formas de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos
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como aqueles... Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira
mulher!... Que beleza de pescoço, que delícia de ombros, que desespero!...
Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a fêmea... Todo ele
vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche
diante de um símbolo de ouro ou como um artista diante duma obra prima. Ignorante
e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado até os nervos mais recônditos, até às
profundezas do seu duplo ser moral e físico, dominado por um quase respeito cego
pelo grumete que atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de
marinheiro rude.
— Basta! ... suplicou Aleixo.
— Não, não! Um bocadinho mais...
Bom-Crioulo tomou a vela, meio trêmulo, e, aproximando-se, continuou o
exame atencioso do grumete, palpando-lhe as carnes, gabando-lhe o cheiro da pele,
no auge da volúpia, no extremo da concupiscência, os olhos deitando chispas de
gozo...
— Acabou-se! tornou Aleixo depressa, impaciente já, soprando a luz.
Seguiu-se, então, no escuro, um ligeiro duelo de palavras gemidas à surdina.
e, quando Bom-Crioulo riscou o fósforo, ainda uma vez triunfante, mal podia ter-se
em pé.
Tais eram os “desgostos” de Aleixo. Fora disso a vida corria-lhe
admiravelmente, como um leve barco à feição...
D. Carolina, essa tratava-o pelo carinhoso apelido de bonitinho: —“o meu
bonitinho” é como ela dizia, ameigando o sotaque peninsular.
Achava uma graça infinita naquele pedacinho de homem vestido de
marinheiro, alvo e louro, sempre muito bem penteado, o cabelo sedoso, os
borzeguins lustrosos, todo ele cheirando a essência, como uma rapariga que se vai
que se vai fazendo mulher...
O pequeno, muito acessível a tudo quanto fosse carinho, mostrava-se
reconhecido, não subia para o quarto sem primeiro dar os bons-dias à portuguesa,
abrindo-se com ela com franquezas ingênuas, deixando-se agradar.
Ele, D. Carolina a Bom-Crioulo eram como uma pequena família, não tinham
segredos ente si, estimavam-se mutuamente.
Para que vida melhor? Longe de seus pais, numa terra estranha, encontrava
naquela casa um asilo de amor, um paraíso de felicidade...
A corveta, dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, entrou para o dique.
Esgotada a grande bacia de granito, larga e profunda, como um abismo
natural, aberta à picareta nos seio da rocha dura e implacável, começaram as obras.
Um martelar contínuo reboava ciclopicamente no interior daquela sepultura de
pedra, como numa forja subterrânea: operários em mangas de camisa recomeçavam
todos os dias a mesma faina brutal de calafetar o bojo da velha “barcaça”, enquanto
os marinheiros iam, por outro lado, raspando o mexilhão que o calor apodrecia no
fundo seco do dique. Sufocava, lá embaixo, o cheiro forte dos mariscos em
decomposição: subindo como bafos de monturo, resistindo à potassa e ao ácido
fênico.
Era justamente em dezembro, mês de epidemias e de insuportável calor.
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Dir-se-ia que aqueles homens, operários e marinheiros, não tinham aparelho
respiratório, não tinham pulmões, ou estavam saturados de miasmas.
Trabalhavam cantando e martelavam assobiando, com uma indiferença
heróica, sem pensar no grande perigo que os ameaçava.
Pela noite, desde o escurecer, o odor pestilento aumentava e então não havia
remédio: a marinhagem toda precipitava-se para fora, como um formigueiro
alvoroçado tapando o nariz: — Foge! foge! olha a febre amarela!
Navio no dique, marinheiro à solta. O serviço diminuía, tinha-se mais
liberdade, podia-se folgar à vontade, porque o campo era largo, o convés estendia-
se pela ilha até certa distância. Dali para terra era um pulo, não faltavam botes de
ganho; breus em quantidade atracavam próximo ao dique: vivia-se como em
qualquer parte.
De vez em quando: “Seu tenente dá licença que eu visite um amigo no
hospital? — Vá, mas não demore...”
O hospital ficava no topo da ilha, numa eminência que dava acesso por uma
estrada em ziguezague. Todas as tardes passavam marinheiros naquela direção,
subindo lentamente aos quatro, em procissões: iam visitar os companheiros, ou
eram baixas que vinham da esquadra.
Bom-Crioulo agora multiplicava os passeios à terra. Assíduo no trabalho,
nunca se negando a fazer o que lhe ordenavam, cumprindo suas obrigações com a
mesma paciência de outrora, quando o futuro lhe sorria esperanças de vida melhor,
reabilitava-se a olhos vistos de umas tantas falcatruas que cometera em viagem. O
imediato fazia-lhe concessões prevenindo-o que “tomasse cuidado, não fosse beber
demasiadamente”.
Todo marinheiro trabalhador e disciplinado tinha nele um amigo, um
verdadeiro pai: a questão era andar direitinho, “portar-se como gente”.
E Bom-Crioulo compreendendo isso, fazia o possível para o não
descontentar, trabalhando sempre que havia serviço, de cara alegre, sem
constrangimento, na certeza de ir à terra.
Um dia sim outro não ei-lo no seu quarto da Rua da Misericórdia, todo
entregue ao descanso, livre, completamente livre de incômodos e obrigações.
Não esquecia de beber seu golito de “conhaque brasileiro”, mas sabia se
conter evitando excessos. De resto, era tão calma sua vida, corria-lhe a existência
tão doce, tão suave, que ele até estranhava.
Ultimamente começou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longe de
fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esforço, vinha-lhe
uma sonolência profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia,
um relaxamento dos nervos... Os próprios companheiros notavam certa mudança
em sua fisionomia: — Estás magro, ó Bom-Crioulo, que diabo é isso?
— Eu, magro?... e passava a mão no rosto examinando-se. Estarei doente?
— Alguma crioula, hein?
— Qual crioula!
Um dia consultou ao grumete:
— Achas que estou emagrecendo?
Aleixo também foi de parecer que sim, mas “era pouca cousa”.
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Bom-Crioulo não se importou: foi continuando a viver tranqüilamente, ora a
bordo, ora em terra, numa grande paz de espírito, vendo crescer a seu lado o Aleixo,
assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos órgãos, o desabrochar da
segunda idade, como quem estuda a evolução de uma flor curiosa.
Sua amizade ao grumete já não era lúbrica e ardente: mudara-se num
sentimento calmo, numa afeição comum, sem estos febris nem zelo de amante
apaixonado.
Quase um ano de convivência fora bastante para que ele se identificasse
absolutamente com o grumete, para que o ficasse conhecendo, e a convicção de
que Aleixo não o traía, entregando-se à fúria selvagem de qualquer marmanjo, a
certeza de que era respeitado, a certeza que era respeitado pelo outro, comunicava-
lhe essa tranqüilidade confiante de marido feliz, de capitalista zeloso que traz o
dinheiro guardado inviolavelmente.
Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa,
cultivada no alto da Rua da Misericórdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois
marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.
— Vocês acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.
Nunca vira dois homens gostarem-se tanto! Bom-Crioulo não era tolo nem
nada... Tolo era quem se fiasse nele...
E o negro sorria orgulhoso, com seus dentes de marfim, meio aguçados,
como presas de tubarão.
A corveta saíra do dique, indo amarrar numa bóia por trás do morro de S.
Bento com fronte ao Arsenal.
Em todo caso sempre era mais perto de terra que no poço, no ancoradouro
dos navios de guerra, onde a gente não tinha liberdade.
Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a notícia de que estava
nomeado para servir noutro navio — um de aço, muito conhecido pelo seu
maquinismo complicado e pela sua formidável artilharia; belo conjunto de forças
navais, que fazia desse couraçado uma dos mais poderosos do mundo.
Bom-Crioulo desapontou: —... que os pariu! Nem se tinha tempo de conhecer
bem os navios: hoje num, amanhã noutro... Até parecia brincadeira!”
E furiosos, amarrando o saco de lona, trombudo:
— Por isso é que um marinheiro fica relaxado: por isso...
Enquanto os outros passavam e tornavam a passar de popa à proa,
tranqüilos, no seu descanso, ele, somente porque era uma boa praça, lá ia para o
couraçado — aquele diabo de ferro, aquele monstro, sem o Aleixo, sem o seu
Aleixo... Vivera tantos meses ali a bordo da corveta mais o pequeno e agora, de
repente, sem quê nem para quê: — Passe... Era mesmo uma perversidade!
Mas, Deus é grande! pensava Bom-Crioulo . Deus sabe o que faz: a gente
não tinha remédio senão obedecer calada, porque marinheiro e negro cativo, afinal
de contas, vem a ser a mesma cousa.
Aleixo consolava-se, resignado: paciência, homem, o mundo não se acabava.
Sempre haviam de se ver, que diabo! Para isso é que tinham alugado quarto. Um dia
sim outro não podiam se encontrar do mesmo modo em terra...
— Agora vê lá se vais fazer alguma... preveniu o negro.
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— Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portuguesa. O comodozinho de
cima está desocupado, e, quer que lhe diga? eu acho que ficavam melhor...
Sempre risonha e trêfega, sufocada pelo calor, a mulher piscou o olho a Bom-
Crioulo.
— Então, já sei que vens outro... Bendita viagem! ou o mar ou as tais
cantáridas!...
Riram, compreendendo-se, enquanto Aleixo, debruçado à janela, cuspia para
baixo, para o quintalejo dos africanos.
CAPÍTULO VI
No dia seguinte Aleixo encontrou fechada a porta do quarto.
— Oh! Bom-Crioulo não tinha ido à terra, como prometera. — Exigências do
serviço, pensou. No couraçado a disciplina era outra; o imediato, homem feroz, só
falava de chibata e golilha. Estava muito satisfeito na sua corveta assim mesmo
velha e triste...
Abriu a janela para entrar luz e começou a se despir, trauteando qualquer
coisa, o olhar perdido lá fora no ar imóvel, no azul coruscante... O calor abrasava.
Nenhuma aragem sequer. O sol das duas horas caía obliquamente, pondo reflexos
de ouro sobre os telhados, vitorioso e torrencial, pulverizando crisólitos de brilho raro
ao longe nas vidraçarias... Uma opulência de luz nunca vista!
Aleixo despiu-se, pela primeira vez acendeu um cigarro, deitando-se à larga
na velha cama de lona. — Passa ! Que forno!...
Queria descansar um bocado, esperar Bom-Crioulo té às cinco horas, dormir
uma soneca. Saíra de bordo muito cedo porque ajustara com o negro, e agora não
tinha remédio senão esperar naquela pasmaceira, naquele calor. Enfim, como fizera
quarto a noite passada, ia ver se conseguia dormir...
Não chegou ao fim do cigarro, um detestável mata-ratos que Bom-Crioulo
esquecera sobre a mesinha, e que abriu-se de todo em sua mão desajeitada. — Não
sabia que diabo de gosto o dos fumantes. Qual! decididamente não se acostumava
com o fumo. Vinha-lhe logo a dor de cabeça...
Pôs-se a olhar o teto, as paredes, um retrato do imperador, já muito apagado,
que viera na primeira página de um jornal ilustrado, preso em caixilhos de bambu,
um cromo de desfolhar, examinando com atenção o pequeno aposento, os móveis
— a mesa e duas cadeiras —, como se estivesse num museu de cousas raras.
Adormeceu justamente quando soaram duas horas no relógio de D. Carolina,
embaixo, no primeiro andar.
Acordou indisposto, sobressaltado, num banho de suor, a língua seca
torcendo-se em espreguiçamentos de quem dormiu toda uma noite.
O sol abrandara um pouco e já havia nuvens no alto, quebrando a monotonia
do azul. — Nada; com certeza Bom-Crioulo não vinha mais, pensou o grumete.
Diabo de insipidez!
De resto, o negro não lhe fazia muita falta: estimava-o, é verdade, mas aquilo
não era sangria desatada que não acabasse nunca...
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Essa idéia penetrou-o com uma lembrança feliz, como um fluido esquisito que
lhe inoculassem no sangue. — Podia encontrar algum homem de posição, de
dinheiro: já agora estava acostumado “àquilo”... O próprio Bom-Crioulo disseram que
não se reparavam essas cousas no Rio de Janeiro. Sim, que podia ele esperar de
Bom-Crioulo? Nada, e, no entanto, estava sacrificando a saúde, o corpo, a
mocidade... Ora, não valia a pena!
Saltou da cama e foi se vestindo devagar, assobiando baixinho, dominado por
aquela idéia. — Estava aborrecido, muito aborrecido; precisava mudar de vida...
— Dá licença?
— Oh! madame...
Era a portuguesa: ainda não tinha visto o “seu bonitinho”, dera-lhe uma
saudade...
— Bom-Crioulo não veio hoje?
Não, não tinha vindo. E Aleixo contou a paisagem do negro para o couraçado,
o desgosto de Bom-Crioulo, a vida de trabalho que o outro ia levar...
— Coitado! lamentou D. Carolina. Mas há de vir à terra...
— Sim, por que não? Sempre há de vir. Não será tanto como na corveta...
— Coitado!...
— Tem aí uma cadeira, ofereceu Aleixo. Por que não se senta?
— Que calor, hein? tornou a mulher sentando-se. Temos chuva.
E logo, muito curiosa:
— Vai sair?
— Vou dar uma volta, passei o dia tão aborrecido...
— Que falta, o negro, hein? acentuou a portuguesa sublinhando um risinho,
abanando-se com o avental.
Tinha-se sentado, muito vermelha, o casaco arregaçado, os pés nus dentro
de uns tamancos de pano com que batia a roupa no quintal.
— Não, disse Aleixo, com um desdém na voz. Aquilo já está me
aborrecendo...
— Oh! Já?... Muito cedo, homem.
E fraternalmente:
— Pois é uma boa criatura, coitado. Eu, às vezes, tenho-lhe pena.
— É porque madame não sabe quem está ali... Muito bom, mas quando se
zanga, Jesus! chega a meter medo...
— Assim?
— Ora!...
— Pois, meu filho, se eu lhe disser que nunca vi Bom-Crioulo zangado...
— Uma fera!
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Aleixo estava defronte do espelho acabando a toilette. O cabelo cheio d’óleo,
escorrido e liso, tinha um brilho fugaz de seda preta. Abria-o de um lado, puxando
em pasta sobre a calote esquerda, até quase a sobrancelha. Era uma de suas
grandes preocupações — o cabelo bem penteado, úmido sempre. Que trabalho para
lhe dar jeito! Desmanchava-o um sem número de vezes, tornava a acertá-lo, e,
afinal, depois de repetidas tentativas, punha o boné devagar, jeitosamente.
— Pronto! fez ele dando a última demão.
— Gosto de ver um marinheiro assim, elogiou a mulher, erguendo-se para
endireitar a gola do grumete, que estava dobrada. Ninguém me venha falar em
homem porco.
E colocando-se diante de Aleixo, os braços em arco e as mãos nos quadris:
— Está mesmo d’encantar, o diabinho! Vai daqui namorar alguma biraia no
Largo do Rocio, aposto!
O efebo soltou uma risada muito sem gosto, olhando-se ainda uma vez no
espelho.
— Qual o quê, madame! Vou daqui ao Passeio Público; às nove horas, o mais
tardar, cá estou de volta.
— E não me convida?
— Quer ir, vamos...
— Não, obrigada; bom proveito e volte direitinho, é o que eu quero...
Foram saindo.
— Mas, olhe, tornou D. Carolina com resolução, no alto da escada. Preciso
lhe falar: volte cedo.
— Por que não diz agora?
— Não, não: quando voltar; prefiro conversar à vontade.
— Pois sim... é um instante. Até logo!
— Té loguinho.
E alto, de cima da escada, enquanto o grumete desaparecia no corredor:
— Cuidado hein?!
Estaca escurecendo: seriam seis e pouco. Na rua já havia luz. Continuava o
calor, um ar abafadiço, de subterrâneo, sem oxigênio, pesado e asfixiante.
A portuguesa desceu a escadinha do sótão, que estalava com o seu peso, e
foi acender o gás da sala de jantar, muito alegre, cantando uma modinha
sentimental lá da terra, numa voz lânguida e tremida.
Há dias metera-se-lhe na cabeça uma extravagância: conquistar o Aleixo, o
bonitinho, toma-lo para si, tê-lo como amantezinho do seu coração avelhentado e
gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa,
calçados, almoço e jantar nos dias de folga — dando-lhe tudo enfim.
Era uma esquisitice como qualquer outra: estava cansada de aturar
marmanjos. Queria agora experimentar um meninote, um criançola sem barba, que
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lhe fizesse todas as vontades. Nenhum melhor que Aleixo, cuja beleza
impressionara-a desde a primeira vez que se tinham visto. Aleixo estava mesmo a
calhar: bonito, forte, virgem talvez...
Arranjava-se perfeitamente, sem que Bom-Crioulo soubesse. Mas como falar
ao grumete, como propor-lhe o negócio? Ele talvez ficasse ofendido, e podia haver
um escândalo...
O verdadeiro era pouco a pouco ir lhe dando a compreender que o estimava
muito, oferecendo-se-lhe pouco a pouco, excitando-o.
Outras mais velhas gabavam-se, por que é que ela, com os seus trinta e oito
anos, não tinha o direito de gozar? Histórias! mulher sempre é mulher e homem
sempre é homem.
Viu-se ao espelho e notou que realmente ainda “prestava serviço”: — Qual
velha! Nem um pé-de-galinha sequer, nem uma ruga — pois isso era ser velha?
Certo que não. Lá quanto à idade ninguém queria saber. A questão era de cara e
corpo... Ora, adeus!...
Começou a fazer-se muito meiga para o rapazinho, guardando-lhe doces,
guloseimas, passando a ferro, ela própria, seus lenços, gabando-se na presença de
estranhos, fingindo-se distraída quando queria mostrar-lhe a exuberância de suas
carnes — perna, braço ou seios... Uma ocasião Aleixo vira-a em camisa curta,
deitada, com as pernas de fora; porque os aposentos da portuguesa davam para o
corredor e, nesse dia, ela esquecera de fechar a porta. O grumete voltou o rosto
depressa, todo cheio de respeito, como se aquilo fosse uma profanação: mas,
depois, ao lembrar-se do caso, tinha sempre uns arrepios voluptuosos, não podia
evitar certa quebreira, certo desfalecimento acompanhado de ereção nervosa...
Nunca mais lhe saíra da lembrança aquela cena de alcova: uma mulher
deitada com as pernas à mostra, muito gordas e penugentas — num desalinho
irresistível, braços nus, cabelo solto. — Devia de ser esplêndido a gente dormir nos
braços de uma mulher. A portuguesa não era mazinha.
Aleixo, porém, estava longe de supor que D. Carolina, aquela D. Carolina, que
o tratava como filho, bondosa e meiga, pretendesse fazê-lo seu amante.
Semelhante idéia nunca lhe passara pela imaginação. Via entrar homens no
quarto dela, sabia os amores do açougueiro, mas isso era lá com os outros de
barba; o que lhe parecia impossível, e ele nem sequer pensava, é que D. Carolina
tivesse intenções com um rapazinho de sua idade, uma criança quase...
— Pronto! fez ele ao voltar do Passeio Público.
— Oh! depressa! exclamou a portuguesa, erguendo-se. Venha cá, no meu
quarto está mais fresco...
O quarto de D. Carolina ficava justamente por baixo do sótão, na frente da
casa, um largo aposento de mulher solteira, onde havia uma bela cama de casal
com travesseiros de renda.
Quando o grumete chegou, ela estava na sala de jantar lendo os anúncios do
Jornal do Comércio, à luz do gás.
— Divertiu-se muito?
— Qual! Fui e voltei logo.
— Por minha causa?
— Não, o Passeio é que estava insípido... Pouca gente.
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Aleixo parou à porta do quarto como quem receia entrar.
— Entra, filhinho, entra, que isto aqui é nosso, isto aqui é da tua
portuguesinha, não vês?
E, alegre como nunca, foi abrindo as janelas que diziam para a Rua da
Misericórdia, num alvoroço.
Enquanto o pequeno andava fora, ela fizera nova toilette, penteara-se,
mudara a roupa, trocara os tamancos por umas sapatinhas cor de sangue e colocara
os anéis, os célebres anéis que lhe tinham querido roubar: transformara-se
completamente.
— Senta, deixa de tolice, filho!
Aleixo sentou-se muito acanhado, com um ar de colegial que pela primeira
vez penetra num lugar suspeito. Morava naquela casa há um ano e só agora entrava
ali, no quarto da portuguesa.
— Bonita sala!
Bonita o quê, ó pequeno; estás a debicar, hein? disse a mulher acendendo o
gás, no bico dos pés, rindo. Bonito és tu — tu é que és bonitinho...
— D. Carolina gosta de caçoar com a gente!...
E a portuguesa, sentando-se também, alisando-lhe o cabelo com as mãos,
rubra de calor:
— Pois é isto, minha flor: o que eu tinha a dizer é que estou apaixonada por ti!
— Ora!...
— Estou falando sério; não vais dizer a Bom-Crioulo que eu lhe quero tomar o
amigo... Olha que o negro é capaz de estrangular-me...
— Já está D. Carolina com brincadeiras...
— Não é brincadeira, não, filho, tornou a outra, afetando seriedade. Quero
que durmas hoje, ao menos hoje, com a tua velha...
E foi se derreando sobre os ombros de Aleixo, com uma fingida ternura de
mulher nova.
O pequeno desviava o olhar dos olhos dela, cheio de pudor, um sorriso fixo
na boca sombreada por um buço em perspectiva, muito encolhido na sua cadeira,
sem dizer palavra.
O contato de sua perna com a da portuguesa produzia-lhe um calorzinho
especial, um brando enleio d’alma, uma vaga e deliciosa canseira no fundo do ser,
um esquisito bem-estar.
Por sua vontade ficaria naquela posição eternamente, sentindo cada vez mais
forte a influência magnética daquele corpo de mulher sobre os seus nervos de
adolescente ainda virgem...
D. Carolina chegava-se pouco a pouco, estreitando-o, colando-se-lhe num
grande ímpeto de fúria lúbrica, de mulher gasta que acorda para uma sensação
nova...
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— Tu não podes comigo, disse trançando a perna sobre o joelho do Aleixo.
E envolvendo-o todo com o seu corpo largo de portuguesa rude:
— Dize lá: ficas ou não ficas?
O efebo teve um arranco de novilho excitado, e, segurando-se à cadeira com
as mãos ambas, todo trêmulo agora, sem sangue no rosto:
— Fico!
Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo,
cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas
nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama:
— Pr’aí, meu jasmim de estufa, pr’aí! Vais conhecer uma portuguesa velha de
sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos!...
Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo,
enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem que
o queria deflorar ali assim, torpemente como um animal.
— Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tua velha... Anda, que
eu estou que nem uma brasa!...
Aleixo não tinha tempo de coordenar idéias. D. Carolina o absorvia,
transfigurando–se a seus olhos.
Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, aparecia-
lhe como um animal formidável, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo
extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote...
Era incrível aquilo!
A mulher só faltava urrar.
E a sua admiração cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa
ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um
estranho fulgor no olhar de basilisco.
Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animalidade humana, e,
passando o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era feito de carne e
osso, como o negro e D. Carolina: — Valia a pena decerto uma noite como aquela!
Acordou cedinho, pela madrugada. Queria ir para bordo no escaler das
compras.
A portuguesa ergue-se, fez café ali mesmo no quarto, sem despertar
ninguém, jubilosa como uma noiva, exultando!
Graças a Deus estava muito conservadinha, não era tão velha como se
pensava. Ainda tinha forças para inutilizar muito homem robusto, olá se tinha!
— E agora já sabes, meu pequerrucho: quando o negro não vier à terra — um
abracinho à Carola. D’hoje em diante quero que me chames Carola, ouviste? É mais
bonito, entre pessoas que se estimam... Carola e Bonitinho é como nos devemos
tratar.
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Vinha amanhecendo quando o grumete, ainda bêbedo de sono, os olhos
apertados, o passo leve, saiu direto ao Cais dos Mineiros. Estava muito pálido, com
grandes olheiras, repetia maquinalmente: — Se Bom-Crioulo soubesse!... ao mesmo
tempo que seu espírito voltava-se todo para o sobradinho da Rua da Misericórdia,
onde aquela hora D. Carolina encharcava-se num magnífico banho frio de chuveiro.
— Se fosse possível não me encontrar mais, nunca mais, com aquele negro,
ah! que felicidade! pensava o grumete aproximando-se de um grupo de marinheiros,
perto do cais.
E a figura da portuguesa, muito gorda e risonha, os dentes muito alvos, os
quadris largos, a face rubra, dançava em sua imaginação, como um sonho diabólico.
CAPÍTULO VII
Bom-Crioulo não estava satisfeito no couraçado, naquela formidável prisão de
aço, que lhe consumia o tempo, e cuja disciplina — um horror de trabalho — privava-
o de ir à terra hoje sim, amanhã não, como nos outros navios, Ah! mil vezes a
corveta. mil vezes! Ao menos tinha-se liberdade. Separado agora de Aleixo, vivendo
no meio de toda gente desconhecida e sem amor, lembrava-se, com tristeza, da bela
vida que passara em companhia do grumete: um ano quase de sossego e
felicidade!... Era bem certo o ditado: não há bem que sempre dure...
Enchia-se ódio contra os superiores: — Uma cáfila! Todos a mesma cousa;
faziam do pobre marinheiro um burro... Ninguém os entendia. — Revoltava-se
principalmente contra o Quartel-General que o mandara passar da corveta para o
couraçado. Não lhe custava nada ir ao ministro, contar uma história muito grande e
pedir, inda que fosse de joelhos, outro embarque. Se duvidasse muito, baixava ao
hospital, desertava, ia-se embora pelo mundo com o pequeno. Estavam
enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver só
num deserto...: “—... que os pariu!...”
Logo no primeiro dia teve o desgosto de ficar à bordo: seu nome fora
recomendado ao imediato em bilhete especial: —“Muita cautela com o Amaro (Bom-
Crioulo). É uma praça irrepreensível quando não bebe, mas em chupando seu
copito, guarda debaixo! faz um salseiro dos diabos”. Houve logo prevenção entre os
oficiais.
— Era bom não o deixar ir à terra muitas vezes. Um homem daquele até
metia medo!
E ficou assentado que ele só teria licença um vez por mês. Passou o primeiro
dia, o segundo, o terceiro. O quarto era um sábado.
— Seu imediato, eu precisava ir à terra, implorou o negro perfilado, a mão em
pala no boné.
— Ainda não, resmungou o oficial, sem prestar-lhe atenção. Quando chegar
sua vez eu direi.
— Mas seu imediato...
— Já lhe disse, não me amole!
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Bom-Crioulo retirou-se calado, o olhar no convés, mordiscando o beiço. Ia
cheio de uma cólera muda. jurando vingança talvez... — Ah! era assim? calculava
ele depois, na proa. Havia de mostrar...
E no dia seguinte pela manhã ofereceu-se ao guardião para remar no escaler
que ia às compras. Embarcou, sem dar à perceber cálculo algum, e lá foi remando
na voga, o boné carregado pra frente, muito sério, teso na sua bancada.
O domingo amanhecia esplêndido e preguiçoso numa soberba ostentação de
azul, fresco e transparente. As montanhas da baía, o Pão d’Açúcar, os Órgãos, e, lá
longe, o Corcovado, sem um floco de nuvem no topo, desenhava-se na eternal
limpidez do ar calmo, davam à vista uma doce impressão de aquarela.
Bela manhã para um bródio sobre a água. O vulto de um paquete alemão ia
saindo barra fora, impassível e misterioso... O mastro do Castelo fazia sinais. Os
navios de guerra pareciam dormitar ainda silencioso e imóveis.
Era quase dia...
— Leva! manobrou o patrão do escaler. Tinham chegado ao cais. Os
marinheiros, todos a um tempo, suspenderam os remos, arriando-os logo, com um
movimento igual, dentro da embarcação.
Daí ao mercado era perto. Começaram a atracar os escaleres doutros navios.
Pouco a pouco ia clareando... A praça, entretanto, permanecia quase deserta ainda;
um ou outro galego, homem de ganho, vagava em torno dos quiosques.
Bom-Crioulo desembarcou, a pretexto de “fazer uma necessidade”,
prometendo voltar logo.
— Era um pulo...
Enfiou pelo jardim que decorava o largo, e, uma vez fora da vista dos
companheiros, estugou o passo em direção à Rua da Misericórdia, resmungando
insultos que ninguém ouvia. A porta do sobradinho estava fechada. Bateu. D.
Carolina ressonava. Tornou a bater, impaciente, dando fortes punhadas na porta.
O caixeiro da padaria defronte, veio espiar quem é que batia com todo aquele
desespero.
— Quem havia de ser? Um negro!...
Afinal vieram abrir: um senhor de longas barbas, obeso, em suspensórios,
com cara de réu, e que se afastou para deixar passar o marinheiro.
— Bom dia!
— Bom dia! correspondeu o barbaças.
— Quem é? perguntou lá de cima a voz abafada da portuguesa.
— Sou eu, D. Carolina; desculpe a maçada.
— Ah! é o Bom-Crioulo? Que maçada o quê! Por aqui tão cedo? Ninguém o
vê mais!... A chave está no prego!...
— Obrigado...
E com pouco Bom-Crioulo escancarava a janelinha do quarto, recebendo em
cheio, no rosto, a frescura matinal: — Agora queria ver se o arrancavam dali. Uma
ova! Estava em sua casa, muito bem escondido. Não era nenhum burro de carga!...
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Veio-lhe à mente o grumete: — Aleixo ainda se lembraria dele? Sim, porque
neste mundo a gente vive enganada... Quanto mais se estima uma pessoa, mais
essa pessoa trata com desprezo. E afinal, ele, Bom-Crioulo , não caíra do céu...
Abriu as gavetinhas da mesa, revistou móveis, remexeu papéis, como quem
procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando... O vidro de óleo não
estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa d’água Florida, que ele
deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos...; a latinha de graxa
imobilizava-se no chão, de borco, ao pé do lavatório de ferro; o assoalho era uma
imundície de pontas de cigarro e cuspo.
— Eu faço idéia! ... murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem
habitual. Eu faço idéia!...
Nesse instante o carrilhão de S. José começou a bimbalhar os “Sinos de
Corneville”, enchendo o espaço de uma alacridade sonora e festiva que multiplicava-
se em notas de uma limpidez offenbachiana, como se fosse um maravilhoso
instrumento de cristal suspenso nos ares... Instintivamente o marinheiro cantarolou o
velho trecho da opereta:
Dlingo, dlingo, dlingo,
Dlingo, dlingo, dlão!
No fundo estava alegre, sentia-se humorado, com ímpetos de criança brejeira,
como um pássaro solto... Estranhava-se até! Há muito não amanhecia tão bem
disposto...
O retrato do imperador sorria-lhe meigo, com a sua barba de patriarca
indulgente. Era o seu homem. Diziam mal dele, os tais “republicanos”, porque o
velho tinha sentimento e gostava do povo...
Acendeu um cigarro e deitou-se.
— Ah! isso era outra cousa! não lhe fossem falar em navios de guerra:
preferia sua cama, seu bem estar, seu descanso.
Pela janela entrava agora uma réstia de sol, e o carrilhão continuava o seu
interminável estribilho musical...
Dlingo, dlingo, dlingo,
Dlingo, dlingo, dlão!
— Bom-Crioulo, ó Bom-Crioulo!
— Anh!... Que é?
— Acorda rapaz, olha que não tarda meio-dia.
— Meio-dia?
— Sim, pois não vês o sol como vai alto?
D. Carolina, vendo que o marinheiro estava custando a descer, foi acordá-lo.
Amaro dormia profundamente, com a boca aberta, estendido na cama, o boné sobre
os olhos, um fio de baba escorrendo pelo queixo, imóvel... Pendiam-lhe os braços
numa frouxidão cadavérica. A mulher, ao entrar no quarto recuou pálida. — Jesus!
estaria morto? O negro, porém, ressonava alto. — Que susto. Aproximou-se
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timidamente para o não sobressaltar e, quando ele abriu os olhos, viu-a, diante de si,
muito gorda e risonha, toda em roupa nova, um avental branco.
— Acorde, seu preguiçoso! fez ela dando uma palmada na coxa do negro.
Vamos, levante-se, que isto não são horas de dormir.
Bom-Crioulo ergueu-se vagarosamente, limpando a saliva com a manga,
perguntou pelas horas, o corpo mole, os olhos vermelhos, um sabor esquisito na
boca.
— Então que foi isso hoje? perguntou a portuguesa...
— Eu que fugi, disse o marinheiro naturalmente, abrindo os braços num
bocejo. Vim no escaler das compras e aqui estou sem licença.
— Que loucura, filho! São capazes de mandar-te prender...
—... que os pariu! Não sou escravo de ninguém. Fujo quantas vezes quiser;
ninguém me proíbe...
— Modera-te, rapaz. É preciso ir com jeito...
— Qual jeito qual nada, minha senhora! Depois que estou naquele navio
ainda não tive descanso. Isso também é demais!
— Ora, meu filho, paciência. Deus há de ajudar...
— É a tal história: fia-te na Virgem e não corras...
— Vocês lá se entendem, rematou a portuguesa, fitando o retrato do
imperador, como se nunca o tivesse visto.
— Uma cousa, tornou Bom-Crioulo: o Aleixo tem vindo à terra?
— Veio quinta feira, se não me engano...
E o outro contando os dedos:
— Quinta, sexta, sábado, domingo: ontem era dia dele vir...
— Agora vocês vivem sempre desencontrados. Não combinam...
— Vamos a saber, disse a mulher. Queres comer alguma cousa, ou já
almoçaste?
— Nada, vou petiscar ali no frege.
— Manda-se comprar...
— Não, obrigado, preciso mesmo dar uma volta, esticar as pernas, fazer
exercício.
— Cuidado! Olha algum oficial...
E dirigindo-se para a escadinha:
— Bom, vim apenas te acordar. Até logo.
— Té logo, madame. Então o pequeno só veio uma vez, hein?
— Uma vezinha, coitado...
E o negro ficou pensando no grumete, sentado à mesa, de crista caída,
esgravatando maquinalmente a unha com um fósforo — “Aquilo” não ia bem...
Precisava tomar uma resolução: abandonar o Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a
bordo, ou então amigar-se aí com uma rapariga de sua cor e viver tranqüilo. Estava
emagrecendo à toa, não comia, não tinha descanso, em termos de adoecer, de
apanhar uma moléstia, por causa do “senhor Aleixo”. Se ao menos pudesse vê-lo
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todos os dias, como na corveta...; mas assim, longe um do outro? Não valia a pena,
era cair no desfrute...
E, tomando o boné, com uma expressão de aborrecimento:
— Ora, adeus! havia de se resolver hoje ou amanhã;
Bateu a porta, deu volta à chave, e saiu por ali fora, palpando os bolsos. com
desespero.
D. Carolina estava para dentro e lá ficou estendendo uma roupinha no
coradouro.
Faiscavam as pedras da rua sob a luz perpendicular do meio-dia. Na taverna
da esquina, ali perto, havia uma aglomeração de gente e cada transeunte que
passava era mais uma curioso, um basbaque. Os moradores debruçavam-se às
janelas, esticando o pescoço com uma interrogação no olhar. Um oficial de
bombeiros passou correndo para o lugar do “acontecimento”. Gente punha-se em pé
nos bondes. O padeiro, em mangas de camisa, chegou à porta, com um lápis atrás
da orelha, arrastando os chinelos.
Bom-Crioulo supôs logo que fosse algum “rolo” e precipitou-se, abrindo
caminho. Era um sujeito acometido de gota, que se espojava no chão, babando, o
rosto ensangüentado, a barba suja de areia, em contorções horrorosas.
Caíra de repente, ao sair da venda.
— Tinha bebido muita cachaça, dizia penalizado o taverneiro. Se soubesse,
não teria vendido...
Dois guardas tentaram erguer o homem pelo torso, mas fraquejaram.
Passa fora, o animal pesava que nem chumbo!
— Espera, espera! saltou Bom-Crioulo. Vocês também não prestam pra
nada...
O povo recuou, admirado, e viu o negro suspender o homem com as duas
mãos e levá-lo ao ombro à Santa Casa de Misericórdia, sem grande esforço, como
se pegasse uma criança.
Fez-lhe pena ver aquele pobre homem caído ali assim, no meio da rua,
cercado de gente, estrebuchando como um animal sem dono. Aquilo apertou-lhe o
coração, fê-lo estremecer, comoveu-o... Talvez fosse algum pai de família, coitado,
algum infeliz... Um horror, a tal gota! já noutra ocasião salvara uma mulher bêbeda
que ia sendo pisada por um bonde.
E o português da venda, o padeiro, os guardas, um doutor que passava
casualmente, o dono do açougue, todos gabavam o pulso do negro.
“— Sim senhor, tinha força para desancar um burro! — Essa gente do mar é
uma gente perigosa! — Dois guardas não puderam com o homem, no entanto só o
negro fez tudo! — A marinha sempre é a marinha...”
Um soldado, que estava presente, ergueu o seu protesto:
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— Não senhor, não era tanto assim. Cá e lá más fadas há... No exército
também se encontravam homens de pulso, assim como na armada havia gente
fraca, rapazinhos de papelão...
Ninguém disse mais uma palavra, e pouco a pouco o ajuntamento reduziu-se
a duas ou três pessoas que ficaram por ali conversando.
Bom-Crioulo voltou imediatamente no seu passo largo, sacudindo os braços,
o boné derreado como de costume, a face radiante. — Na verdade o homem pesava
seu bocadinho, mas era uma vergonha dois guardas não poderem com ele. Olhe
que eram dois guardas!
E, dirigindo-se ao vendeiro:
— Uma terça, faz favor...
O português, muito amável, sem despregar os olhos do marinheiro, encheu a
medida. — Sim, era uma vergonha para o Brasil, murmurou sorrindo. Em Portugal...
Bom-Crioulo tossiu, escarrou, e escorropichando o copo: — Puah!... fez com
repugnância. — Arre, diabo, que isto é mesmo que beber fogo!
Desatou a ponta do lenço, onde costumava trazer o cobre — um triste lenço
enxovalhado, com desenhos na margem.
— São os últimos vinténs; resto do soldinho, do miserável soldinho...
Felizmente eu não me aperto enquanto existir uma portuguesa chamada Carolina...
O bodegueiro piscou o olho: — Ahn, ahn!... Como era fino, hein?...
— Que quer, meu amigo, faz-se pela vida...
Tinha a cabeça muito fraca, muito leve: um gole de aguardente. uma dose
insignificante de líquido espirituoso, um martelo de vinho punha-lhe os olhos em
brasa, desequilibrava-o, subindo logo ao cérebro. E, quando bebia demais, em
pândega, lá uma vez ou outra — santo Deus! ninguém podia com ele: redobrava de
força, não conhecia os amigos, insultava a humanidade, ameaçando, brandindo o
punho fechado, carregando o boné, gingando o corpo — medonho, terrível!
Nesse dia como que Bom-Crioulo resolvera se embriagar propositalmente.
Pouco depois de engolir a cachaça, meio tonto, empinando-se para não demonstrar
fraqueza, mas com a vista caliginosa e um azedume na língua, retirou-se da venda
sem rumo certo, para os lados do cais do Pharoux. Ia triste, zarolho, vendo casas
em duplicata e rodando em torno de sua cabeça, encostando-se à parede,
monologando cousas imperceptíveis, transfigurado já.
Confundiam-se-lhe as idéias numa turva agitação de quem vai perder o juízo;
os objetos começavam a parecer-lhe sombrios, tinha vontade de cometer loucuras,
de se sentar no meio da rua e abrir a boca e dizer horrores como um alienado.
— Eu daqui vou direitinho, mas é para bordo, murmurava. Hei de mostrar à
canalha! Vou porque quero, porque sou livre!
E batia com força no peito.
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— ... que os pariu! Salvei o homem da gota, fiz um ato de caridade, agora
podem falar! Papagaio de noite não tem olho, como dizia meu comandante... já não
me lembra o nome...
Eram duas horas da tarde. As lojas tinham-se fechado: os armazéns de
madeira, todas as casas de negócio, com exceção de raríssimos cafés, estavam
trancadas àquela hora dominical.
Poucos transeuntes iam passando vagarosamente, ao sol, numa marcha
lenta de gado que recolhe à tardinha, calados, pensando na vida...
Bom-Crioulo desceu rua abaixo, cambaleando, ziguezagueando, sem prestar
atenção à ninguém. Mas, ao desembocar no Largo do Paço, um cachorro vadio
começou a ladrar, atirando-se a ele, perseguindo-o, cercando-o. Outros cães vieram
se juntar ao primeiro e fez-se logo em torno do negro um alarido infernal, que
aumentava pouco a pouco, ensurdecedor e azucrinante. Garotos açulavam a
canzoada com assobios e gritos. Houve um alarma entre os galegos do cais. — Ora
quem havia de ser? Quem havia de ser?... O negralhão, o marinheiro!
No entanto, Bom-Crioulo caminhava sempre, aos tombos, equilibrando-se,
investindo contra os cães, ameaçando-os à pedra, ganindo insultos: —... que os
pariu!”
Viram-no se dirigir para o cais.
— Ó do escaler! gritou ele avistando uma pequena embarcação de guerra
imóvel sob os remos, ao largo.
Ninguém respondeu.
Havia calma no mar. A água reluzia como aço polido. Abafava!
Defronte, lá muito longe, em Niterói, via-se a torre branca de uma igreja,
pequenina, esguia como um obelisco.
Botes de ganho flutuavam silenciosamente, com o toldo aberto, amarrados
uns aos outros, na lingüeta de mar, entre as estações das barcas, quietos,
modorrentos...
— Ó do escaler! bradou o negro.
A embarcação não se movia: era como se não houvesse ninguém a bordo.
Os marinheiros fingiam-se distraídos.
— Cambada de burros! Atraca essa porcaria!
E abriu a boca numa tremenda explosão de impropérios, fechando o punho
ameaçadoramente, desenrolando todo o vocabulário imundo e obsceno das
tarimbas contra os companheiros, berrando em alta voz “que era livre, que havia de
fazer, que havia de acontecer!...”
— Infames! Não preciso de vocês pra nada! Pra nada!
Mas, ao voltar, deu de ombros com um português, que estava a seu lado
rindo tranqüilamente, segurando um remo.
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— E você também, seu galego; você está se rindo, porque ainda não
apanhou nessa lata! fez Bom-Crioulo dando um empurrão no homem.
O português carregou o rosto, medindo o negro d’alto a baixo, sem dizer
palavra.
— E não tem que olhar não, não! Se dúvida faço-o beber água salgada.
— Vá-s’embora, homem de Deus! murmurou o outro com benevolência. Vá-
s’embora...
— O quê?
— Mal vai a cousa...
— O quê, seu galego, o quê?
E “abotoou” o português, oferecendo-lhe o peito e sacando fora o boné.
— O senhor não me provoque...
— Arrebento-lhe a cara, seu galego, aqui mesmo!
O homem perdeu a calma Nos seus olhos fulgurou um clarão de raiva, o
sangue tomou-lhe o rosto, o remo caiu-lhe da mão, e, investindo para o Bom-Crioulo,
quis derrubá-lo corpo a corpo, naquele mesmo instante. Era sujeito baixote, rijo, de
bigode fulvo, muito vermelho, com pintas de sarda.
Abriu-se a luta imediatamente. O cais, todo o espaço entre as duas estações
marítimas, coalhou-se de gente rumorosa, alvoraçada, que vinha de todos os
ângulos da praça numa precipitação de avançada. — “Rolo! Rolo!”
E, no desespero da briga, os dois homens iam ganhando terreno para o largo,
afastando-se daquele ponto insustentável, onde não se podiam mover livremente,
sem risco de cair n’água, abraçados, corpo a corpo, enroscados um no outro, qual
mais forte — iguais na envergadura muscular.
O escaler de guerra tinha se aproximado.
Havia grande rebuliço nos botes: o alarma era geral no cais e imediações.
— Desaparta! Desaparta! gritavam os catraieiros.
Assobios, canzoada, berros: — Não pode! não pode! confundiam-se num
alvoroço descomunal, reboando na praça.
De repente, com um safanão medonho, Bom-Crioulo separa-se do português
e rápido, ligeiro, esgueirando-se, puxa do cós um objeto: logo toda gente viu, com
espanto, reluzir na mão do marinheiro o aço de uma anavalha.
— É agora! disse uma voz no meios do povo.
A multidão espalhou-se, recuando, abandonando o campo da luta. O clamor
aumentava: — Pega! Pega! não pode!
O português, com a roupa em frangalhos e o cabelo em desordem, abalou na
carreira; mas o negro, vendo se aproximarem polícias, brandindo a arma furioso,
ameaçou:
— Quem for homem, venha!
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A figura do “galego” tinha desaparecido: sua cólera voltava-se agora contra o
povo e contra a polícia. Ninguém ousava se aproximar daquele homem-fera, cujo
olhar fazia medo...
Quatro horas no relógio da estação.
Daí a pouco saltou no cais um oficial da marinha. Bom-Crioulo esperou-o a pé
firme: — Não venha, que leva!
Era um primeiro tenente; acompanhavam-no marinheiros.
— Segurem aquele homem, ordenou, parando à distância.
— Não venha! Não venha! exclamou o negro, gingando com a navalha no ar.
Os homens dividiram-se, três para cada lado, e marcharam impavidamente,
de prancha desembainhada.
Foi um momento de ansiedade e assombro.
A figura colossal do negro, multiplicando-se em movimentos de requintada
clownerie, torcia-se, evitando as baionetas, como se o impelisse oculta mola de
arame. — Não venha! Não venha!...
Mas, quando, num formidável arranco, salta à direita, um pulso mais forte
“gruda-o” pela esquerda e Bom-Crioulo, o invencível Bom-Crioulo, sente-se
agarrado, preso como um animal feroz!
O povo todo afluiu vitorioso ao lugar do conflito, sem o receio de agressões,
comentando o fato, e o marinheiro foi acompanhado à beira d’água por uma onda de
curiosos.
Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um
desespero hidrofóbico, insultando, rogando pragas.
Afinal, lá o conduziram à viva força, e a embarcação deslizou, toda branca, na
baía calma...
CAPÍTULO VIII
O comandante do couraçado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreensível e
caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo,
“falavam-se cousas...”
Um lenda obscura e vaga levantara-se em torno do seu nome, transformando-
o numa espécie de Gilles de Rais menos pavoroso que o da crônica, cheio de
indiferença pelo sexo feminino, e cujo ideal genésico ele ia rebuscar na própria
adolescência masculina, entre os de sua classe.
Calúnia, talvez, insinuações de mau gosto.
Os marinheiros narravam entre si, por noites de luar e calmaria, quando não
tinham que fazer, lendas e histórias muitas vezes forjadas ali mesmo no fio da
conversa...
O comandante, diziam, não gostava de saias, era homem de gênio esquisito,
sem entusiasmo pela mulher, preferindo viver a seu modo, lá com a sua gente, com
os seus marinheiros...
E havia sempre uma dissimulação respeitosa, um pigarrear malicioso, quando
se falava no comandante.
Fosse como fosse, ninguém o desrespeitava, todos o queriam assim mesmo
cheio de mistério, com o seu belo porte de fidalgo, manso às vezes, disciplinador
intransigente, modelo dos oficiais.
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Bom-Crioulo, porém, nunca o estimara verdadeiramente: olhava-o com certa
desconfiança, não podia se acostumar àquela voz untuosa, àquele derretido aspecto
protetoral que ele sabia fingir nos momentos de bom humor. Evitava-o como se evita
um inimigo irreconciliável. Por quê? Ele próprio, Bom-Crioulo, ignorava.
Repugnância instintiva, natural antipatia — forças opostas que se repelem...
— Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro
supersticiosamente.
Metido em ferros no mesmo dia do “rolo”, a imagem do comandante brilhou
na caligem de sua embriaguez e o perseguiu toda a noite sem trégua, sem o deixar
um instante, ora terrível, ameaçadora, implacável, outras vezes, doce, meiga e
complacente...
Dormiu essa noite numa sepultura de ferro, espécie de jaula estreita e sem
luz onde só cabia um homem. Trancado ali dentro, imóvel, porque os pés e as mãos
estavam presos, adormeceu quando os outros acordavam, ao primeiro toque
d’alvorada, quase dia. Durante o sono viu a figura do português inchando para ele
com uma faca, desafiando-o: “Vem, negro, vem, que eu te mostro!” Era um homem
reforçado, em cuja roupa havia manchas de sangue — barba longa, olhar atrevido.
Iam se pegar, mas Aleixo não consentiu dizendo que a polícia vinha os
prender, que não valia a pena brigar por uma cousa à toa... Então Bom-Crioulo,
como gostava do pequeno, fugiu, deixando o português no meio de uma praça muito
grande, cheia de arvoredos.
A realidade, porém, veio despertá-lo. Eram onze horas. Tinha-se aberto a
porta da solitária e, mesmo em jejum, ele ia ser castigado. Faltava o comandante
para se dar princípio à solenidade. Uma onda de luz banhou a prisão iluminando o
rosto do marinheiro.
— Levante-se! ordenou o sargento da guarda.
Bom-Crioulo não podia se mover: foi preciso que o segurassem. Apertava-lhe
a boca uma mordaça de ferro. Havia no seu olhar uma indignação muda e triste.
Ergueu-se trôpego, bambo, os olhos como duas tochas, uma equimose roxa
na face, porque adormecera com a cabeça no joelho em posição de múmia
indígena. Fez-lhe bem o ar livre da manhã; a luz que se esperdiçava no espaço
reanimou-o; todo ele sentiu-se vibrar; oferecia-se ao castigo, sem medo, impávido e
sereno, odiando intimamente, lá no fundo de sua natureza humana, aquela gente
que o cercava exultando, talvez, com a sua desgraça. Não tinha ninguém por ele —
era um abandonado, um infeliz... O próprio Aleixo onde estaria?
Essa lembrança o comoveu. Sim, o Aleixo era a causa de tudo... Enquanto
vivera na companhia do grumete, nunca se embriagara positivamente: bebia, de
longe em longe, um golezinho de cachaça para aquecer, e ficava satisfeito. Agora
não, só se contentava com uma terça e gostava de repetir. — Ah! seu Aleixo, seu
Aleixo!...
Como da outra vez, na corveta, houve “mostra geral”, a guarnição inteira
formou à ré, na tolda.
O castigo foi tremendo.
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— Não se iluda a guarnição deste navio! perorou o comandante.
Desobediência, embriaguez e pederastia são crimes de primeira ordem. Não se
iludam!...
E, como da outra vez, Bom-Crioulo emudeceu profundamente sob os golpes
da chibata. Apanhou calado, retorcendo-se a cada golpe na dor imensa que o
cortava d’alto a baixo, como se todo ele fosse uma grande chaga aberta, viva e
cruenta... Morria-lhe na garganta um grunhido estertoroso e imperceptível, cheio de
angústia, comprimido e seco; dilatavam-se-lhe os músculos da face em contrações
galvânicas; o sangue convulsionado, rugia dentro, nas artérias, no coração, no
íntimo de sua natureza física, palpitante, caudaloso, numa pletora descomunal!
Ele sofria tudo com aquele orgulho selvagem de animal ferido, que se não
pode vingar porque está preso, e que morre sem um gemido, com um olhar aceso
de cólera impotente!
Errava na luz intensa do meio dia uma tristeza vaga e universal. Lá de fora,
da barra, vinha, encrespando a agia, um arzinho fresco impregnado de maresia. A
cidade, em anfiteatro, cintilava entre montanhas na lânguida apatia daquela hora
calmosa. O vulto do couraçado, largo e imóvel no meio da baía, com seu enorme
aríete, com sua cobertura de lona, resplandecia destacado, longe dos outros navios,
longe de terra, fantástico, arquitetural!
À última chibatada, Bom-Crioulo rodou e caiu em cheio sobre o convés,
porejando sangue. Ah! mas não havia no seu dorso uma nesga de pele que não
fosse atingida pelo vime. Caiu fatalmente, quando já não lhe restava a menor
energia no organismo, quando se tornara desumano o castigo e a dor sobrepujara a
vontade.
Só então apareceu o médico, trêmulo e nervoso, dizendo que “não era nada,
que não era nada; que trouxessem o vidrinho de éter e água, um pouco d’água...”
O comandante aproximou-se também, mas retirou-se logo com o seu
desdenhoso aspecto de fofa nobreza: — “Não se iludam, não se iludam!”
E daí a pouco largava um escaler sem flâmula, conduzindo o marinheiro para
o hospital.
Fica-te malvado, fica-te! exclamou Bom-Crioulo, voltando-se para o
couraçado, em caminho: — Fica-te!
Aleixo nesse dia estava de folga, e muito cedo, cousa de um hora, veio à terra
impelido por uma grande saudade que o fazia agora escravo da portuguesa.
Receava encontrar Bom-Crioulo, ter de o suportar com seus caprichos, com o seu
bodum africano, com os seus ímpetos de touro, e esta lembrança entristecia-o como
um arrependimento. Ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de
repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia
seu amigo unicamente para o gozar. Tinha pena dele, compadecia-se, porque,
afinal, devia-lhe favores, mas não o estimava: nunca o estimara!
Subiu devagar, pé ante pé, a escada do sobradinho, meticulosos, agarrando-
se à parede, ouvido alerta, comprimindo a respiração. — Felizmente a porta de cima
estava aberta...
De vez em quando pisava em falso e os coturnos de bezerro gemiam
surdamente. — Era o diabo se o Bom-Crioulo estivesse...
Foi andando sempre cauteloso, té à sala de jantar. Ninguém! Enfiou pela
cozinha; e, da janela que abria para o quintal, viu lá baixo, vergada sobre um montão
de roupa úmida, a portuguesa em tamancos, arregaçada e sem casaco, às voltas,
cantarolando. O instinto fê-la voltar-se e olhar para cima; seu primeiro movimento foi
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um grito de surpresa e alegria: — Oh! o pequenino, o meu pequenino! já lá vou.
Espera, sim?
Aleixo pediu silêncio, com o dedo na boca, e, indicando o sótão, perguntou,
debruçando-se à janela, sem Bom-Crioulo estava...
— Qual Bom-Crioulo! rompeu D. Carolina alto e sem mistério,
estabanadamente. Qual Bom-Crioulo! Tua negra está só, meu pequenino! Já lá vou.
Mas o grumete não se conteve: desceu ao quintal para examinar aquela
fartura de mulher em trajos de lavadeira, que seus olhos viam extasiados.
Com efeito, a portuguesa estava irresistível para um adolescente nas
condições de Aleixo, bisonho em aventuras dessa ordem, e cuja virilidade apenas
começava a destoucar-se.
D. Carolina vestia camisa e saia curta que lhe dava pelo joelho; a cabeça
estava coberta com um grande lenço de chita amarrado por baixo do pescoço.
— Não venhas, meu pequeno, disse ela, percebendo as intenções de Aleixo.
Olha, deixa-me acabar isto, sim?
O grumete formalizou-se: — “Oh! podia acabar podia acabar...”
E logo, aproximando-se:
— Vim apenas vê-la de perto...
— Estás caçoando, hein! estás caçoando com a tua velha...
— Caçoando, não. Estou falando sério.
A portuguesa desatou numa risada límpida e gostosa, de uma sonoridade
vibrante, sacudindo os quadris, cabeceando histericamente:
— Ora o meu pimpolho! Ora o rico pimpolhozinho!
E ria, ria num desespero.
Aleixo encavacou:
— Está bom, vou-me embora.
— Oh! não, não... Brincadeira! Se vais, fico zangada. Vê lá, hein! vê lá...
E com fingida ternura, ameigando a voz:
— Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra...
Ele sorriu vagamente e entraram a conversar como bons amigos.
Estiveram ali, debaixo do telheiro de zinco, um ror de tempo — o grumete
sentado à beira do tanque, perna trançada, a portuguesa muito açodada na faina de
concluir a lavagem.
Fora daquele pequeno espaço refrescado pela água, brilhava o sol com uma
intensidade rútila e abrasadora. O capim seco do coradouro ardia, muito raso, muito
desolado e outoniço. Na vizinhança, um papagaio de estima berrava
estridentemente. Havia grande calma. A água da bica não cessava de cantar no
tanque, escorrendo, escorrendo...
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Aleixo dependurou a jaqueta de flanela azul e deixou-se ficar em camisa de
meia, ouvindo cantar a água, enquanto D. Carolina ia enxaguando a roupa.
Falaram em Bom-Crioulo e riram à custa do negro, baixinho, à socapa.
— Boa criatura! sentenciou a portuguesa com um quê de ironia.
— Para o fogo! acrescentou Aleixo.
Não sabiam do “rolo”. A portuguesa disse apenas que o outro saíra na
véspera, depois do meio dia, e não regressara. — Naturalmente fora preso...
Um relógio deu horas.
— Quantas? perguntou a mulher.
— Quatro, disse o grumete.
— Jesus! Vou acabar, vou acabar! Fica pr’amanhã o resto.
— É! Basta de trabalho, isso não vai a matar, disse Aleixo erguendo-se.
E seus olhos pousavam traiçoeiramente sobre o colo nu, sobre a espádua
nua de D. Carolina, cheios de desejo, ávidos de gozo.
Ela, como se sentisse no próprio corpo as ferroadas daquele olhar, como se
lhe experimentas e o calor vivo, a força magnética, o poder físico, material e
irresistível, chegou-se ao grumete e disse-lhe ao ouvido estas palavras, que
produzira, nele o efeito indizível e vago de um estremecimento nervoso: — Vamos
tomar banho?...
— Aqui?
— Por que não?
— Podem ver...
— Fecha-se a porta da rua. Não tenho inquilinos agora...
Aleixo não disse que sim nem que não. Espreguiçou-se todo, contorcendo-se
num espasmo incompleto, sentindo um friozinho bem, extraordinariamente bom,
uma comoçãozinha maravilhosa percorrer-lhe as fibras, descendo pelo espinhaço e
espalhando-se por todo o organismo.
A portuguesa foi depressa lá cima, ao sobrado, e voltou, sem demora, com a
face radiante.
Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as calças,
pô-lo nu a seus olhos. Bom-Crioulo já lhe havia dito que Aleixo “tinha formas de
mulher”.
Depois começou a se despir também...
O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro através da água
límpida e fresca.
Ninguém os via naquela nudez primitiva, frente a frente — o corpo largo e
mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo —,
escandalosamente nus, pecadoramente bíblicos no silêncio do quintalejo ao abrigo
do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo!
O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os
muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por
trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro.
D. Carolina realizara, enfim, o seu desejo, a sua ambição de mulher gasta:
possuir um amante novo, mocinho, imberbe, com uma ponta de ingenuidade a
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ruborizar-lhe a face, um amante quase ideal, que fosse para ela o que um animal de
estima é para o seu dono — leal, sincero, dedicado até ao sacrifício.
Aleixo remoçava-a como um elixir estranho, milagrosamente afrodisíaco.
Sentia-se outra depois que se metera com o pequerrucho: retesavam-se-lhe os
nervos, abria-se-lhe o apetite, entrava-lhe n’alma uma extraordinária alegria de noiva
em plena lua-de-mel, toda ela vibrava numa festiva exuberância de vida, numa
eclosão torrencial de felicidade — o corpo leve, o espírito calmo... Aleixo pertencia-
lhe, enfim; era seu, completamente seu; ela o tinha agora preso como um belo
pássaro que se deixasse engaiolar; tinha-lhe ensinado segredinho de amor, e ele
gostara imenso, e jurara nunca mais abandoná-la, nunca mais!
O grumete, por sua vez, experimentava o que experimentaria qualquer
adolescente — uma tendência fatal para a portuguesa, um forte desejo de possuí-la
sempre, sempre, a toda hora, uma vontade irresistível de morde-la, de cheira-la, de
palpa-la num frenesi de gozo, num grande ímpeto selvagem de novilho insaciável.
A tarde passou rapidamente. Depois do jantar (sopa, cozido e bananas de S.
Tomé, fora o vinho fornecido pelo açougueiro) dirigiram-se à sala da frente. Aleixo
quis ver o álbum de retratos; a portuguesa trouxe-lho. E sentado no velho sofá, num
quase abraço — ele muito curioso, desejando saber de quem eram as fotografias,
ela meio derreada, o cabelo úmido e solto, explicando minuciosamente cada figura,
paisagens da Europa, trechos de Portugal e das ilhas —, esperaram a noite.
Escureceu. D. Carolina foi acender o bico de gás, queixando-se do calor, “que
a sua vontade era não sair d’água, viver dentro d’água, morrer n’água, flutuando...”
Aleixo riu, achou graça, lembrando-se, talvez, da semelhança que havia entre
a portuguesa e uma grande corveta bojuda...
— Ora, dize uma cousa, ó pequerrucho, tu me queres bem mesmo ou isso é
uma esquisitice, uma pândega?
E risonha, sentando-se:
— Mas olha, dize a verdade! Vê lá me vens com história...
Ele então disse que estimava-a do fundo do coração e tornou a jurar que
havia de morrer junto dela, na mesma cama — juntinho, lado a lado...
— E se morreres a bordo, no mar?
— Paciência, murmurou o grumete num tom de tristeza.
Mas, arrependida, ela o cobriu de beijos:
— Não, ele não morreria no mar. Brincadeira, brincadeira...
Havia no rosto imberbe e liso do grumete uns tons fugitivos de ternura
virginal, o quer que era breve e delicado, a branca melancolia de certas flores, o
recolhimento ingênuo e discreto de uma educanda; e era isso justamente, esse quê
indefinível, essa poesia inocente derramada no semblante de Aleixo, que provocava
a portuguesa, ferindo a corda sensível do seu coração abandonado e gasto. Era
uma pena, decerto, ver aquele rosto de mulher, aquelas formas de mulher, aquela
estatuazinha de mármore, entregue às mãos grosseiras de um marinheiro, de um
negro... Muita vez o pequeno fora seduzido, arrastado. Ela até fazia um benefício,
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uma obra de caridade... Aquilo com o outro, afinal, era uma grossa patifaria, uma
bandalheira, um pecado, um crime! Se Aleixo havia de se desgraçar nas unhas do
negro, era melhor que ela, uma mulher, o salvasse. Lucravam ambos, ele e ela...
Mas Aleixo não podia esquecer Bom-Crioulo. A figura do negro
acompanhava-o a toda parte, a bordo e em terra, quer ele quisesse quer não, com
uma insistência de remorso. Desejava odiá-lo sinceramente, positivamente,
esquecê-lo para sempre, varrê-lo da imaginação como a um pensamento mau, como
a uma obsessão insólita e enervante; mas, debalde! O aspecto repressivo do
marinheiro estava gravado em seu espírito indelevelmente; a cada instante
lembrava-se da musculatura rija de Bom-Crioulo, de seu gênio rancoroso e vingativo,
de sua natureza extraordinária — híbrido conjunto de malvadez e tolerância —, de
seus arrebatamentos, de sua tendência para o crime, e tudo isso, todas essas
recordações o acovardavam, punham-lhe no sangue um calafrio de terror, um vago
estremecimento de medo, qualquer cousa latente e aflitiva... Suas expansões com a
portuguesa eram incompletas, vibravam-lhe os lábios em sorrisos de falsário, cada
vez que ela o exaltava para deprimir o outro...
Todavia a noite foi como um delírio de gozo e sensualidade. D. Carolina
cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abraços e sucções violentas...
CAPÍTULO IX
Vida triste era a de Bom-Crioulo, agora, no hospital, longe da Rua da
Misericórdia e do seu único afeto, obrigado a um regimen conventual, alimentando-
se parcamente, ouvindo a toda hora gemidos que lhe entravam na alma como uma
salmodia agourenta, como a dorida expressão de seu próprio abandono, metido
entre as paredes de uma lúgubre enfermaria — ele que amava a liberdade com um
entusiasmo selvagem, e cujo ideal era viver sempre na companhia de Aleixo, do
ingrato Aleixo...
A figura do rapazinho, rechonchuda e nédia, esvoaçava-lhe na imaginação
provocadoramente, seduzindo-o, arrastando-o para um mundo de gozos, para uma
atmosfera de lubricidade, para o silêncio misterioso de uma existência devotada ao
amor clandestino, ao regalo soberano da carne , a todos os delírios de uma paixão
que chegava à loucura.
A ausência aumentava-lhe o desespero, aquela vida triste de hospital enchia-
o de aborrecimentos, era um castigo sem nome para quem, como ele, reclamava
liberdade e amor — liberdade absoluta de proceder conforme o seu temperamento,
amor físico por uma criatura do mesmo sexo que o seu, extraordinariamente querida
como Aleixo... Nunca mais tivera notícias dele, nunca mais o vira, nunca mais
haviam trocado um simples olhar...
Entretanto, quê de recordações povoavam-lhe o cérebro, à noite, quando, só
ele Bom-Crioulo, d’olhos abertos no escuro, fitando o teto da enfermaria, velava, ele
só, ali dentro! Quê de recordações, meu Deus! Via, como se estivesse vendo na
realidade, as formas do grumete, o seu olhar azul e a face branca, o quartinho
morno da Rua da Misericórdia, trepado, lá cima, no sótão, à beira do telhado, a
cama de lona, o retrato do imperador, pregado à parede, muito sério, com um ar de
suprema bonomia, e tudo que o cercava no voluptuoso ambiente, onde vivera tantos
dias de felicidade... Ficava horas e horas pensando, horas e horas mergulhado
numa abstração vagarosa, num êxtase calmo, recordando, capítulo por capítulo, a
história de seu amor. Daí um profundo e inexplicável desgosto, uma idiossincrasia
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especial feita de ciúme e de ternura dolente. Imaginava cousas de homem que
perdeu o juízo: — Aleixo ainda o estimaria? Não, com certeza. Se ainda o
estimasse, tê-lo-ia procurado, onde quer que ele, Bom-Crioulo, estivesse; mas Aleixo
nunca mais se importara, desde o dia da separação. Quem sabe? novos amores...
O negro enchia-se de ódio ao mesmo tempo que sentia aumentar dentro do
coração o desejo de possuir eternamente o rapazinho.
Desejava-o, sim, mas virgem de qualquer outro contato que não fosse o dele,
queria-o como dantes, para si unicamente, para viver a seu lado, obediente a seus
caprichos, fiel a um regimen de existência comum, serena e cheia de dedicações
mútuas.
Era-lhe impossível abandonar o grumete; e agora principalmente, agora é que
esse amor, essa obsessão doentia redobrava com uma força prodigiosa impelindo-o
para o outro, acordando zelos que pareciam estagnados, comovendo fibras que já
tinham perdido antigas energias. o Bom-Crioulo da corveta, sensual e uranista, cheio
de desejos inconfessáveis, perseguindo o aprendiz de marinheiro com quem fareja
uma rapariga que estréia na libertinagem, o Bom-Crioulo erotômano da Rua da
Misericórdia, caindo em êxtase perante um efebo nu, como um selvagem de
Zanzibar diante de um ídolo sagrado pelo fetichismo africano — ressurgia
milagrosamente.
Ele ali se achava no hospital, abandonado e só, gemendo tristezas
inconsoláveis, arrastando os farrapos de sua alma, ganindo — pobre cão sem dono
— blasfêmias contra a sorte que o desligara de Aleixo, contra Deus, contra tudo!
As janelas da enfermaria davam para o mar, ficavam defronte dos Órgãos,
abriam para o fundo melancólico da baía. Na sala umas dez camas de ferro,
colocadas em ordem, simetricamente imobilizavam-se com os seus cobertores de lã
vermelha dobrados a meio e pondo uma nota viva de sangue na brancura dos
lençóis. Aí, como em todos os alojamentos do hospital, predominava um cheiro
erradio de desinfetantes, o vago odor característico das casas de saúde e dos
necrotérios, insuportável, às vezes, como uma exalação de sepultura aberta. Os
doentes, em seu uniforme branco de algodão, erguiam-se e tinham licença para
recrear fora, nas dependências do estabelecimento, licença especial do médico a
quem estavam entregues. Cada enfermaria tinha o seu especialista. Bom-Crioulo
fora recolhido à seção dos escrofulosos, à grande sala que dizia para o mar e donde
se gozava um belíssimo aspecto de natureza americana. Indiferente a tudo que não
fosse o grumete, cuja lembrança infligia-lhe as maiores torturas, ninguém o vira sorrir
depois que baixara ao hospital.
Carrancudo, o olhar atrevido e ameaçador — fugindo à companhia dos
outros, não podia esquecer, não podia apagar do espírito aquela idéia-pesadelo: o
grumete nos braços doutro homem... Ah! bastava isso para tirar-lhe o sossego, para
fazer dele um ente miserável, contorcendo-se nas angústias de um ciúme bárbaro.
Aleixo fazia-o padecer noites inteiras, dias sucessivos, como ave que se debate em
estreita gaiola de ferro. — Amava muito decerto, queria um bem louco ao pequeno,
preferia-o a todas as mulheres bonitas do mundo!
Enquanto iam-lhe cicatrizando as feridas roxas do corpo tatuado pela chibata,
abria-se-lhe na alma rude de marinheiro uma grande vácuo; terrível sensação de
desespero acometia-o cada vez que pensava no outro, nesse grumete sem alma
que o iniciara no amor e que o fazia sofrer as amarguras de uma vida de
condenada... Bom-Crioulo sentia-se transformar inteiramente; alguma cousa
profunda e grave, que ele próprio não sabia explicar, assim como um prenúncio fatal
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de desgraça, punha-o triste, arrebatava-o às alegrias da camaradagem, dando-lhe
um aspecto estranho de malvadez rebuçada.
— Aquilo não era hospital, aquilo era um inferno! monologava crispando o
beiço em assomos de raiva feroz. Estava-se-lhe esgotando a paciência.
Já uma vez pedira alta; se o queriam levar a capricho, então adeus!... Morria,
mas não dava parte de fraco... Era homem, que diabo! e um homem deve mostrar
para que veio ao mundo...
Embirrava com toda gente, afinal: — Enfermeiros brutos! Cozinheiros de
frege! O próprio médico, assim que lhe dava as costas, era logo insultado.
Seu consolo nesse abandono de galé, nessa espécie de viuvez d’alma, era o
retrato de Aleixo, uma fotografia de baixo preço tirada na rua do Hospício, quando
ele e o pequeno moravam juntos na corveta. Representava o grumete em uniforme
azul, perfilado, teso, com um sorriso pulha descerrando-lhe os lábios, a mão direita
pousada frouxamente nos espaldar de uma larga cadeira de braços, todo meigo,
todo petit-jesus... Bom-Crioulo guardava essa miniatura religiosamente, com
cautelas de namorado, e à noite, quando se ia deitar, despedia-se dela com um beijo
úmido e voluptuoso. Habituara-se àquilo do mesmo modo que se habituara a fazer o
sinal-da-cruz antes de fechar os olhos. Uma superstição pueril de amante cheio de
ternuras... Agora, porém, esse amuleto inestimável acompanhava-o a toda a parte.
Durante o dia mesmo, ele sacava-o fora do bolso e punha-se numa contemplação
mística, num vago enleio ideal, a olhar o retrato de Aleixo, como se daquele cartão
inanimado e frio lhe pudesse vir um raio de amor, um luar de esperança...
Achava-o muito parecido com o original, oh! mesmo muito... Os olhos, a boca,
o sorriso, o nariz... tudo! Como é que se podia, num momento, copiar assim as
feições de uma criatura! Era ele, exatamente o Aleixo!
E ficava admirado, ficava idiota, perdia a cabeça, quando seus olhos caíam
sobre o pequeno “registro”... Ria-se, às vezes, para ele, sem que ninguém visse,
retirado para um cano obscuro, longe dos outros.
E cada dia que passava era como se fosse um ano, um século, uma
eternidade!
Lembrou-se de pedir a alguém que lhe escrevesse um recado ao grumete,
duas palavras, uma linha...
Talvez ele nem soubesse onde estava o Bom-Crioulo... Falou a um rapazinho
empregado no hospital: era favor, sim? um favorzinho... E ali mesmo, na enfermaria,
perto da janela que olhava para os Órgãos, quase ao escurecer, traçaram estas
palavras:
“Meu querido Aleixo
Não sei o que é feito de ti, não sei o que é feito do meu bom e carinhoso
amigo da Rua da Misericórdia; Parece que tudo acabou entre nós. Eu aqui estou
no hospital, já vai quase um mês, e espero que me venhas consolar algumas horas
com a tua presença. Estou sempre a me lembrar do nosso quartinho... Não faltes.
Vem amanhã, que é domingo.
Teu
Bom-Crioulo”
Somente isto. — Queria ver agora como se portava o “senhor Aleixo”, se
ainda o estimava, se era o mesmo da corveta, o mesmo da Rua da Misericórdia,
meigo e dócil, carinhosos e reconhecido.
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59
No dia seguinte, pela manhã cedo, o primeiro escaler que largou da ilha para
a terra conduzia o bilhetinho cautelosamente fechado, escrito numa garatuja
desigual, tortuosa, indecifrável, que o empregado traçara ao crepúsculo, defronte do
mar e à pressa.
O negro ficou ansioso pela resposta, numa inquietação de namorado que
espera o desejado momento de abraçar a sua ela, contando as horas minuto por
minuto, frenético às vezes; quando, por uma ilusão do ouvido, julgava perceber a
voz do outro, animado agora e depois completamente desanimado, à proporção que
as horas iam passando, fazendo cálculos ideais, balbuciando monólogos
imperceptíveis, indo e vindo pelos corredores, pelas dependências do hospital como
um idiota, como uma pessoa inconsciente. — E se ele não viesse? Ah!
decididamente é porque já não o estimava: é porque o desprezava. Mas, ao menos,
havia de responder fosse o que fosse.
Não podia acreditar que ele, sempre tão amável, tão bom e solícito, rasgasse
o bilhete sem dar uma respostazinha, um sim ou um não. Qual...
Tinha penteado o cabelo, mudado de roupa, e de instante a instante fazia
uma chegada ao espelhinho, ao seu miserável caco de espelho, um traste que
possuía no fundo da maca.
Passou a hora do almoço, chegou a hora do jantar, entraram e saíram
marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! nem sinal de
Aleixo, nem sombra dele! — Era mesmo para uma pessoa danar! Se não quisesse
ir, dissesse!
Começava a perder a esperança. — Amigos! fie-se a gente em amigos!...
Crescia-lhe a inquietação moral, crescia-lhe o desespero como uma onda que
vai pouco a pouco intumescendo, empolando-se, até se desfazer em espuma,
quebrar-se de encontro à rocha... — Não almoçara, não jantara, e o resultado era
aquele: o senhor Aleixo divertia-se!
E quando as corvetas da esquadra fizeram sinal de “arriar a bandeira”,
quando o portão do hospital fechou-se às visitas, uma tempestade de ódio levantou-
se no interior daquele homem capaz de todas as dedicações e de todos os
horrores.
Bom-Crioulo rugiu interiormente; alguma cousa despedaçou-se dentro dele,
tamanho foi o abalo do seu corpo. Entrara-lhe no espírito a convicção, a certeza
absoluta de que o pequeno estava com “outro”, abandonara-o. Recolheu-se à
enfermaria taciturno, cheio de cólera, num delírio de raiva surda, numa febre de
vingança que até lhe incendiava o rosto por fora, queimando a pele...
Veio a noite e ele não pode dormir, nem fechar os olhos.
Espojava-se na cama, de um lado para o outro, abafado, sem ar que lhe
enchesse os pulmões, numa terrível crise de nervos, como se estivesse a lutar com
fantasmas, ora repuxando os lençóis, ora descobrindo-se todo na agonia de uma
formidável dispnéia. — Abandonado, ele! abandonado por aquele que o devia
estimar como a um pai! Abandonado por Aleixo, por seu querido Aleixo!...
Parecia-lhe incrível! desespero igual nunca ele experimentara. Só lhe vinham
à imaginação cousas tristes, idéias lúgubres. E, para maior infelicidade, para maior
desgraça, ouviu toda a noite alguém gemer na enfermaria vizinha — uma voz de
homem, grossa, abafada, inimitável, chamando pelo nome de Jesus e que a ele,
Bom-Crioulo, parecia a sua própria voz de amante infeliz apelando para a suprema
bondade de Deus... O desgraçado, quem quer que fosse, gemia, gemia sem trégua,
cortado de dores horríveis.
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Pairava na atmosfera calma do hospital um cheiro muito vivo de alfazema
queimada, assim como um vago odor de câmara mortuária. Bom-Crioulo que nunca
em sua vida, tivera medo, e que sempre desafiara a morte corajosamente, não pode
evitar, essa noite, um calefriozinho de pavor. Houve um momento em que se
revoltou contra o pobre doente que gemia. — Diabo! Não se podia dormir com
aquele agouro!... Se tinha de morrer, morresse logo...
Mas, arrependeu-se: — Coitado! era algum desgraçado como ele, algum
pobre marinheiro sem amigo na terra...
Os gemidos foram pouco a pouco cessando, pouco a pouco diminuindo —
triste monodia que se cala no silêncio da noite. Pela madrugada sentia-se ainda o
cheiro de alfazema, enjoativo e penetrante, mas o doente cessara de gemer. Quem
sabe se teria morrido? Foi embalado por essa idéia desoladora que o Bom-Crioulo
caiu no sono...
Davam três horas.
Nesse dia, como nos outros, a mesma preocupação, a mesma idéia fixa,
obstinada e mortificante, encheu a alma do pederasta. Ele próprio se admirava de
como é que “aquilo” renascera — ele que se julgava forte para não se impressionar
com tolices, ele que supunha tudo fácil, tudo passageiro na vida! — Porque afinal
(refletia) quando se ama uma rapariga bonita, uma mulher nova, branca ou mesmo
de cor — vá! Um homem perde a cabeça, e com razão; mas, andar uma pessoa
triste, sem comer, sem dormir, sem fazer pela vida, por causa de outro homem, por
causa de um “individuozinho” que se abre para todo mundo — é uma grande
loucura...
Mas embalde procurava iludir-se: a imagem de Aleixo agarrara-se-lhe ao
espírito e cada vez o torturava mais; borboleta importuna, esvoaçava em torno dele,
provocando-lhe o apetite sensual, estimulando-o como um afrodisíaco milagroso,
fazendo-lhe renascerem todas as forças vivas do organismo genital, que ele julgara
enfraquecidas pelo excesso, pela intemperança.
Sentia-se forte ainda para grandes cometimentos, para maiores provas de
virilidade, e nenhuma criatura humana, fosse a mais bela de todas as mulheres,
alcançaria proporcionar-lhe tanto gozo, tanta felicidade, num só momento, como
Aleixo, o delicioso e incomparável grumete, que era, agora, o seu único desejo, a
sua única ambição no mundo. Havia de o possuir, havia de o gozar, como dantes,
por que não?: Morto ou vivo, deste ou daquele modo, Aleixo havia de lhe pertencer!
Começou a imaginar um meio de fugir, de abandonar o hospital em procura
do grumete. — Ora, adeus! o que tem de ser sempre é! Já não podia suportar cheiro
de hospital. Para castigo bastava...
Mas, como fugir? como iludir a vigilância das sentinelas? Uma vez embaixo,
no cais, era fácil tomar um bote de ganho, ou mesmo ir à nado...
E os dias passavam, uns após outros, com a mesma uniformidade, cheios de
monotonia, cheios do sol quente de estio, e Bom-Crioulo não achava ocasião
oportuna de realizar seu plano de fuga.
Ia-se-lhe tornando cada vez mais insuportável a existência naquela espécie
de convento de inválidos. Estava magro, visivelmente magro: — “estava acabado!” E
que sonhos terríveis, que pesadelos! Uma noite sonhou que Aleixo tinha morrido
com uma facada no coração; que ele, Bom-Crioulo, via o pequeno ensangüentado
numa cama de vento, nuzinho, os beiços muito roxos... e que a portuguesa, D.
Carolina, chorava perdidamente, enxugando os olhos com um grande lenço de
tabaco... — Já viram que extravagância?...
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E outros e outros sonhos... Se continuasse ali, naquele presídio, acabava
maluco, era capaz de morrer doido. — Oh! sim, queria fugir, não tolerava mais
aquilo. “—... que os pariu”...”
E todos os dias a mesma cousa, o mesmo penar, a mesma série de idéias
vagas, incompletas, as mesmas oscilações, as mesmas dúvidas. Uma noite ia sendo
preso, quando tentava escalar o muro do hospital...
CAPÍTULO X
Mais tranqüilo agora, sem receio de que Bom-Crioulo o procurasse para uma
vingança, identificado com a portuguesa, esquecido mesmo de certas cousas que o
faziam tímido e medroso, Aleixo ia passando uma vida regalada, ora em terra, ora a
bordo da corveta, sem outros cuidados que não os da sua rude profissão. Estava
gordo, forte, sadio, muito mais homem, apesar da pouca idade que tinha, os
músculos desenvolvidos como os de uma acrobata, o olhar azul penetrante, o rosto
largo e queimado. Em pouco tempo adquirira uma expressão admirável de robustez
física, tornando-se ainda mais belo e querido. A portuguesa, essa vivia dele; amava-
o, adorava-o!
Ah! era muito capaz, ela, de fazer uma loucura por causa do seu bonitinho!
— Quando Aleixo vinha de bordo, nada lhe faltava naquele pobre sobradinho da Rua
da Misericórdia. Tudo ela guardava para o seu formoso marinheirito: eram frutas,
doces, comidas especiais, quitutes à portuguesa, isso, aquilo, aquilo outro... Ela
mesma batia, engomava a roupa dele com um melindroso carinho de mãe amorosa,
dobrando as camisas, perfumando-as de alecrim para ele mudar quando viesse do
trabalho. Como tudo mudara naquela casa depois que o negro saíra! O sótão, o
misterioso sotãozinho estava abandonado, Aleixo não queria saber dele, odiava-o,
porque ali é que se tinha feito escravo de Bom-Crioulo, ali é que “tinha perdido a
vergonha”. O pobre quarto era como um lugar de maldições: vivia trancado à chave,
lúgubre e poeirento. D. Carolina raríssimas vezes abria-o, isso mesmo quando tinha
de recolher algum traste velho, algum móvel sem préstimo. O retrato do imperador, a
cama de lona, os cacaréus de Bom-Crioulo e do grumete, aquilo tudo que dantes
fazia o encanto do dois amigos tinha desaparecido. Nada restava agora daquele
viver comum.
— E se o negro vem por aí um belo dia? imaginou Aleixo, receoso.
— Qual vem, qual nada! fez a portuguesa com um gesto de profunda
convicção. Bom-Crioulo já nem se lembra de ti; anda na bilontragem; o que ele
queria era te desfrutar.
E logo:
— Se vier, é a mesma cousa. Ninguém morre de careta. Diz-se-lhe que os
engenheiros proibiram morar no sótão; que o teto ameaça desabar.... Inventa-se...
E os objetos de Aleixo, somente os dele, foram colocados na alcova da
portuguesa, embaixo, no primeiro andar. De então em diante passaram a dormir
juntos, como um casal, na mesma cama larga. E ninguém pisou mais no sotãozinho,
agora transformado em depósito de móveis inúteis, coberto de pó, abrigo de insetos,
ninho de ratos.
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Há quase um mês que isso durava, e, longe de se aborrecer, Aleixo sentia,
pelo contrário, uma inabalável e profunda afeição por D. Carolina, exigindo até que
ela não recebesse mais o barbaças do açougue. Queria-a para si, unicamente para
si, ou estava tudo acabado!
Ela procurou convencê-lo que o sujeito, o Man’el, era um tipão “necessário”,
porque lhe dava mesada, pagava o aluguel do sobrado: uma pechincha! Quanto a
ser homem, ora! o “bonitinho” ficasse descansado: não havia perigo.... Man’el era
um pobre coitado, uma criatura sem forças, um porcalhão...
Mas Aleixo indignou-se: — Não senhora, não admitia outro homem!... Ela
bem podia trabalhar honestamente e ganhar dinheiro para o aluguel. Não senhora,
ou ele, Aleixo, ou o barbaças.
D. Carolina riu e protestou não receber mais o Man’el. Haviam de viver
“honradamente”!
Aleixo ficou muito satisfeito, muito orgulhoso, muito convencido.
Mas a verdade é que, se o açougueiro não continuasse a fornecer carne e a
pagar o aluguel do sobradinho, tanto ele como a portuguesa teriam renunciado
àquele amor.
— Nem o Man’el sabe do bonitinho, nem o bonitinho sabe do Man’el, pensava
D. Carolina.
E tudo ia marchando sem atropelos — dourada embarcação em mar de
rosas...
... Vai senão quando chega o bilhete do negro: — Meu querido Aleixo...
D. Carolina passou os olhos com sofreguidão, correndo logo à assinatura, e,
ao deparar com o nome do Bom-Crioulo meneou a cabeça desdenhosamente.
Depois releu aquelas palavras tocadas de amor e de saudade, e ficou um ror de
tempo no meio da sala, em pé, como se houvesse enlouquecido.
Seriam onze horas; — uma manhã quente de dezembro, cheia de luz e de
poeira.
Tinha acabado de almoçar, como de costume, o seu bife e o seu café com
leite, quando bateram:
Era o bilhete do negro, do “maldito”!
Aleixo tinha ido para bordo naquela manhã e só devia regressar no outro dia.
— Felizmente, meu Deus, felizmente o “bonitinho” não estava em casa, porque,
então, podia se impressionar...
Passou um último olhar no papel, como se quisesse decorar o recado, e fê-lo
em miuçalhas atirando os bocadinhos no caixão do cisco. — Ora, adeus! aquilo não
servia para nada!
Mas ficou pensativa, cheia de um vago e misterioso pressentimento que lhe
fazia bater o coração. Assaltaram-lhe idéias horrorosas de crimes, de homicídios de
sangue; relembrava casos que tinham alvoroçado o Rio de Janeiro, casos de
ciúmes, de traições... Na Rua do Senhor dos Passos um sargento esfaqueara uma
pobre “mulher da vida”; encontrara-a com outro... A polícia correu ao lugar do
sinistro, mas o assassino. como era noite, evadira-se, deixando o cadáver da
rapariga crivado de golpes, rubro de sangue. Lembrava-se também de outro caso
medonho; fora na Rua dos Arcos: o assassino cortara a mulher em bocados como
se esquarteja uma rês. O povo correra em massa para ver o espetáculo; dizia-se até
que a vítima era uma espanhola de alto bordo chamada Lola.
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Tudo isso vinha-lhe à imaginação desordenadamente, esfriando o seu amor,
enchendo-a de receios, de um medo pueril, que era como um aviso de desgraça
próxima.
Passou o dia sem fazer nada, inquieta, ora na alcova, deitada, a pensar,
calculando o futuro, rememorando uma cousa ou outra, suspirando pelos bons
tempos da sua mocidade, ora nos fundos da casa, indo e vindo como tonta: — “que
não se podia com o calor de dezembro, uf!...”
Ficou muito admirada quando ouviu bater duas horas: — Ainda! Jesus, que
dia longo! E nem roupa havia para lavar, nem um servicinho, nem uma distração...
Era contra seus hábitos aquilo: não podia estar em pé sem fazer cousa alguma, Que
ferro!
Não lhe saía da cabeça o bilhetinho do negro que ela espedaçara. — E não é
que o tal Bom-Crioulo ainda se lembrava do Aleixo! Grandessíssimo pederasta!
Nunca supusera que uma paixão amorosa de homem a homem, fosse tão
duradoura, tão persistente! E logo um negro, Senhor Bom-Jesus, logo um crioulo
imoral e repugnante daquele!
Entrou pela noite com a mesma inquietação, com o mesmo receio vago e
indefinido, quase arrependida de se ter metido com o Aleixo. Bem que estava
sossegada no seu cantinho da Rua da Misericórdia, vivendo como Deus queria, sem
se incomodar. Afinal de contas, o grumete era uma criança e ela uma senhora de
idade...
E logo, refletindo: — Ah! mas ninguém está livre: homem e mulher são como
fogo e pólvora ... Assim mesmo quarentona, ela era mulher, tinha sangue nas veias
e um coração para sentir...
Bateu as portas, mais cautelosa que nunca, revistou o quintal, e foi deitar
muito cedo, pensando em Bom-Crioulo, no Aleixo e nas loucuras da humanidade.
Quase toda a noite ouviu rodarem os bondes. Fazia um grande calor abafado de
estufa, e ela não podia conciliar o sono, adormecer tranqüilamente; fechava os olhos
em vão, para tornar a abrir, no mesmo instante, sufocada, agitada por um nervoso
ridículo de mulherzinha histérica, ela, um mulherão daquele, gorda, forte e sadia!
Nenhuma posição lhe agradava na cama: um mal estar, uma asma, que lhe
tirava o fôlego e o sono. Era a primeira vez que tal cousa lhe sucedia. Debalde
escancarou as portas da alcova — a que dizia para a sala de jantar e a do corredor.
Qual! A mesma falta de ar, o mesmo inferno. E sempre a lembrança do negro e do
outro atormentado-a como um pesadelo cruel. Via Bom-Crioulo entrar pela casa
bêbedo, os olhos em chama, segurando uma navalha de marinheiro, brandindo a
arma, cheio de ódio feroz, terrível, hediondo, e, de repente, cair sobre o grumete,
espumando ciúme, cortando-lhe de navalhadas; e parecia-lhe estar vendo o outro
rolar no chão sem fala, num rio de sangue, morto!... E depois a polícia, gritos de
socorro, vergonhas, curiosos que vinham ver...
Bateu duas horas da madrugada. Já se não ouviam os bondes. Um silêncio
absoluto na rua, e, dentro, no sobrado, a mesma quietação dormente e abafada —
uma calma infinita de subterrâneo.
Mais um quarto de hora e portuguesa caiu no sono profundamente — um
sono de pedra, inabalável como o sono eterno...
Como de costume, Aleixo “folgou” no dia seguinte, e, como de costume, veio
direto à casa, muito leve, muito desobrigado, no seu uniforme azul, capa branca no
boné, oloroso e risonho. D. Carolina estava para dentro, às voltas com a cozinha.
Eram três horas da tarde. O grumete estranhou que a porta da rua estivesse fechada
àquela hora, e bateu com força. — Oh! isso era novidade!...
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A mulher correu logo a ver da janela: — Seria o bonitinho?
Houve um pequeno rebuliço na vizinhança. Embaixo, na loja, apareceu uma
cabeça negra, toda curiosa, fingindo que chegava ao postigo naturalmente, por
acaso... O caixeiro da padaria estirou o pescoço, de dentro do balcão.
D. Carolina, mal reconheceu o marinheiro, veio abrir logo com uma
exclamação de surpresa: — Oh! não o esperava tão cedo!
— Tão cedo? Pois ainda achava cedo? É boa: quase noite!
— Oh! filho são duas horas...
— Duas não senhora: já vai para as quatro.
E foram subindo a escada, ela com o braço no ombro do rapazinho, ele muito
sério, muito desconfiado, os olhos baixos, uma expressão melancólica no rosto
púbere. — Que lembrança fechar a porta da rua àquela hora!..
E a portuguesa beijando-o na face:
— Não te zangues, meu jasmim, não te zangues. Porta fechada livra de
tentações... Deu-me uma cousa, um medo...
— Qual tentações, qual medo! Você já não é criança para andar se
escondendo... Isso até faz a gente desconfiar.
Mas D. Carolina não queria dizer a verdade, os seus escrúpulos com relação
à Bom-Crioulo, o caso do bilhete. Para que sobressaltar Aleixo? Ele bem sabia que o
outro não o abandonava facilmente: negro é raça do diabo, raça maldita, que não
sabe perdoar, que não sabe esquecer... Aleixo bem conhecia o gênio de Bom-
Crioulo. De resto, o caso do bilhete era uma tolice em que ninguém devia pensar: —
Cousas de negro...
— Olha, ó pequenino, juro-te que não fecharei mais a porta da rua. Sossega,
ouviste? sossega...
Estavam na alcova. O grumete corria o olhar nos móveis, na cama, pelo
quarto e pela sala, como quem procurava descobrir vestígios de infidelidade. A
mulher ajudava-o a se despir, tomando-lhe a roupa úmida de suor, toda cheia de
cautelas para que ele não se constipasse. — Olha, muda a camisa; olha, toma um o
pouquinho de aguardente; olha, cuidado com o vento; olha os chinelos...
Nunca vira tanto carinho, zelo tanto. A portuguesa multiplicava-se em
dedicações, em ternuras quase infantis, desejando até que ele a maltratasse, que
ele a espezinhasse. O olhar azul de Aleixo tinha sobre ela um poder maravilhoso,
uma fascinação irresistível: penetrava o fundo de sua alma, dominando-a,
transformando-a num pobre animal sem vontade, queimando-a como uma brasa
ardente, impelindo-a para todos os sacrifícios... Perto dele, fugiam-lhe todos os
receios, todas as dívidas: era capaz de atirar-se a um homem, de morrer na ponta
de uma faca, de assassinar, de fazer loucuras!
Nesse dia principalmente, ao contrário da véspera, em que ela, no meio de
seus temores, desejava ver-se longe do rapazinho, nesse dia principalmente
achava-se de uma bondade maternal: a amizade convertera-se-lhe numa espécie de
fanatismo, numa adoração religiosa. Beijava-o a cada instante, meiga, cariciosa e
feliz, como se todas as virtudes estivessem reunidas ali, no olhar de Aleixo, nesse
olhar ideal, de uma doçura infinita.
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— Tu és o meu santo, ó pequenino, dizia ela; tu és a minha única felicidade
neste velho mundo tão cheio de misérias...
E abraçava-o, rilhando os dentes, nervosa, excitada, oferecendo-se ao
rapazinho numa fúria sensual e mórbida.
— Mas, que diabo é isso, filha, estás louca? ralhava o grumete cuja
fisionomia, desde que chegara, não se abrira num sorriso amável: — que desespero
é esse?
— Oh! mas eu te quero tanto bem, meu queridinho, eu te amo tanto!
Ele não disse palavra. O jantar correu frio. D. Carolina retraiu-se por sua vez,
humilhada com as maneiras de Aleixo, porque ele, seco e indiferente, não lhe fazia o
menor agrado. Ambos permaneceram calados, como duas pessoas estranhas na
mesa de um hotel. Mas, para o fim, ela não pode suportar aquele silêncio incômodo.
— Que te fiz eu, ó filho, dize, que te fiz eu? Não me encontraste só, em casa,
trabalhando, mourejando? Que te fiz eu?
Aleixo continuava mudo, os beiços agitados por um tremor convulso, o olhar
na parede.
— Vamos, dize, que te fiz eu? insistiu a portuguesa tocando-lhe no braço. Hás
de ter alguma razão para te zangares...
Ele, porém, não se movia, não dava resposta, impenetrável na sua mudez
obstinada e cruel, que estava quase arrancado lágrimas à mulher. Então D. Carolina
sentiu um desespero n’alma, e, erguendo-se triste, foi-se para a alcova, maldizendo-
se, lamentando a “sua desgraça”: — Que era uma infeliz, que todos a desprezavam,
que estava cansada de sofrer, que a vida era um inferno, que preferia morrer!
— Para que fechou, então, a porta da rua? tornou ele. Há algum mistério
nesta casa? A senhora não me esperava hoje?
— Ó filho, pois eu já não te disse que fechei apor causa de um medo que me
assaltou de repente?...
— Que medo, senhora, que medo! Para tudo há desculpa. A senhora não
está procedendo bem...
D. Carolina tinha se deitado na cama, fungava, limpando os olhos com o
avental, muito queixosa.
— Donde é que veio esse medo hoje? Todos os dias a senhora não abre a
porta, não a deixa escancarada?
— Está você fazendo barulho à toa, por uma ninharia... Ou o homem tem
confiança na mulher ou não tem. Você nunca me encontrou com outro, para fazer
mau juízo da gente...
— Bom, mas, então, seja franca, explique-se. Por que é que fechou a porta
da rua?
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Havia já um princípio de reconciliação. Aleixo aproximara-se da cama
sensibilizado pela voz magoada da portuguesa que lhe botava uns olhos muito
ternos, muito cheios de humildade e resignação.
— Queres que eu te diga porque é que fechei a porta da rua? Pois senta-te
pr’aí que eu te vou dizer. Calei-me por tua causa mesmo, para não te dar cuidado.
O grumete imaginou logo uma série de cousas desagradáveis: tentativas de
roubo, ameaças e prisão, violências, um horror! Estava longe, porém, de pensar em
Bom-Crioulo; a seus olhos o negro morrera, desaparecera; ninguém lhe dava
notícias dele; decididamente nunca mais voltaria; talvez andasse nalguma viagem,
mar afora, nalgum cruzeiro. ..
E a portuguesa narrou o caso do bilhete, que ela rasgara., “porque não valia a
pena a gente se amofinar...”
Aleixo ouviu tudo curioso, a face na mão, derreado na cama larga.
— E onde está ele? perguntou vivamente.
— No hospital de marinha, na ilha, com alguma doença... Quem o não
conhecer que o compre.
Aleixo não quis dizer nada; mas a história do bilhete comovera-o, enchera-o
de uma vaga melancolia: — Bom-Crioulo ainda se lembrava!...
Pensou em visitar o negro, talvez fosse mais prudente...
— Que acha?
D. Carolina reprovou: — Jesus, que asneira! Isso era o mesmo que uma
pessoa se atirar do Corcovado. Não, nunca!
— Deixa-o lá, filho: pouco a pouco ele irá se esquecendo; faze pela vida e
deixa-o lá. Vamos indo muito bem sem ele. Nada!
— E se ele entrar por aqui adentro um belo dia?
— Qual!... Por isso é que eu trago a porta da rua fechada...
— Bom, murmurou o grumete, erguendo-se. A vida é esta!...
— E ninguém deve ir contra as leis da Providência, resumiu D. Carolina
dogmaticamente.
Serenara a pequena discórdia. Estava tudo explicado. Aleixo reconhecera sua
injustiça para com a portuguesa, e ela o perdoara, sempre boa, sempre generosa.
Do alto do sobradinho viam ambos, agora, aconchegados, felizes, rindo, os que
passavam embaixo, na rua. Que importava Bom-Crioulo? Que importava a febre
amarela? Em todo o Rio de Janeiro, em todo o mundo só havia duas criaturas
felizes: ele, o grumete, e ela, a portuguesa — felizes como Adão e Eva antes do
pecado, felizes como todos os casais que se amam...
Saíram juntos, a dar uma volta, nessa noite. Aleixo propôs irem ao Passeio
Público tomar um sorvete, um refresco, uma bebida qualquer. Não se podia estar em
casa com o calor! D. Carolina lembrou a Guarda-Velha: — Não seria melhor irem à
Guarda-Velha, à fábrica de cerveja? Havia música também...
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Mas o grumete ponderou que na Guarda-Velha estava-se muito à vista, iam
marinheiros de bordo, havia muita gente. O Passeio Público era maior e menos
freqüentado: tinha-se mais liberdade. E depois era só tomar o bondinho da Lapa.
— Oh! vai com a roupa de marinheiro! suplicou D. Carolina, vendo-o enfiar um
jaquetão à paisana. É mais fresca e dá respeito...
— O respeito não está na roupa, doutrinou Aleixo, abotoando-se; é respeitado
quem procede bem. Deixa-me ao menos variar!
Ela gostava tanto de o ver em seu uniforme, “todo bonitinho”, como uma
pintura, chamando a atenção dos burgueses, admirado, invejado, gabado.
Assentava-lhe muito mais a roupa de marinheiro; sem comparação! O que era um
soldado à paisana? Um homem como qualquer outro, um pobre-diabo que ninguém
respeitava. Oh! a farda...
— Mas eu não quero, filha, não gosto. São cousas...
— Bom, não precisa brigar. Vai como quiseres.
Estava escurecendo. No interior do sobradinho já se não distinguiam os
objetos. Fora, na rua, acendiam-se os primeiros bicos de gás e havia grande calma,
uma sonolência profunda no quarteirão.
— Creio que vamos ter chuva, disse Aleixo dando um salto à janela.
Com efeito, nuvens escuras alastravam-se pelo céu, baixas, pesadas, rolando
como fumarada negra de incêndio. O tempo refrescava. Corria mesmo uma
aragenzinha branda e acariciadora. Uma voz humana imitava guinchos de
locomotiva para os lados da Misericórdia.
Passava o bonde da Lapa. D. Carolina e Aleixo embarcaram, ela muito
alegre, muito expansiva, na sua toilette improvisada, que lhe dava um ar bonachão
e honesto, ele um pouco triste, chapéu de palhinha derreado para a nuca,
mostrando o cabelo penteado em pastas, uma gravata cor de sangue — aprumado e
circunspecto.
O bonde tocou.
CAPÍTULO XI
Um desespero surdo, um desespero incrível, aumentado por acidentes
patológicos, fomentado por uma espécie de lepra contagiosa que brotara, rápido, em
seu corpo, onde sangravam ainda, obstinadamente, lívidas marcas de castigo — um
desespero fantástico enchia o coração amargurado de Bom-Crioulo. Não lhe restava
mais esperança que Aleixo fosse vê-lo ao hospital: estava desiludido. O grumete
abandonara-o, esquecera-o, e nem ao menos dera-lhe uma satisfação! — Atrás dos
apedrejados vem as pedras... Uma pessoa, no fim das contas, era obrigada a tornar-
se ruim, a fazer todas as loucuras... Isso de a gente pensar na vida, sacrificar-se,
proceder bem, não vale nada, é uma grande tolice, uma grande asneira.
Tinha momentos de calma, procurando afastar do espírito qualquer idéia de
vingança, de desforra, como quem se julga superior às pequeninas misérias da vida.
Durante o dia jogava a dama com o tal empregado que lhe fizera o bilhete,
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resignado, sem cólera, prazenteiro mesmo, não perdendo, entretanto, aquela vaga
expressão de melancolia que boiava em seus olhos traindo mistérios d’alma...
Era à noite, porém, que o caso de Aleixo voltava-lhe à imaginação, enchendo-
a de fantasmas, povoando-a de sonhos, com a insistência de um remorso —à noite,
nas horas de repouso, quando tudo era silêncio no hospital.
Positivamente não se conformava com a idéia de que o Aleixo o abandonara
por outro... E quem seria esse outro? Algum marinheiro também, decerto, algum
“primeira-classe”... Era muita ingratidão, muita baixeza! Abandoná-lo, por quê?
Porque era negro, porque fora escravo? Tão bom era ele quanto o imperador!...
Consumia-se em reflexões pueris, verberando o procedimento de Aleixo,
uivando pragas que ninguém escutava, dardejando cóleras, tempestuoso e
medonho na sua mudez alucinada. Eram noites e noites de um sonambulismo
fantástico e enervante, de uma obsessão rude e esmagadora. E quando, pela
madrugada, vinha-lhe o sono, era impossível dormir, porque vinham-lhe também o
que ele chamava “as coceiras”, um horroroso prurido na pele, no corpo todo, como
se o sangue fosse esguichar pelos poros numa hemorragia formidável ou como se
estivesse crivado de alfinetes da cabeça aos pés; — não podia fechar os olhos, nem
tranqüilizar o espírito. Seu desejo era sair como um doído por ali fora, meter-se num
banho e ficar n’água um ror de tempo agachado, nu em pêlo. Parecia uma maldição!
Rebentavam-lhe feridas: havia uma grande aberta no joelho esquerdo. Não atinava
com aquilo. Talvez alguma praga injusta... Era horroroso! Levar um homem a noite
inteira sem dormir, pensando numa cousa, noutra, e, ainda por cima, o diabo de
umas coceiras que punham a gente doida!
Então é que tinha raiva de Aleixo, então é que se revoltava contra o grumete,
o “causador de todos os seus males”. Naquele estado aflitivo de desespero de corpo
e d’alma ia-se-lhe a razão — Bom-Crioulo só tinha uma idéia: vingar-se do efebo,
persegui-lo até a morte, aniquilá-lo para sempre!
Era um misto de ódio, de amor e de ciúme, o que ele experimentava nesses
momentos. Longe de apagar-se o desejo de tornar a possuir o grumete, esse desejo
aumentava em seu coração ferido pelo desprezo do rapazinho. Aleixo era uma terra
perdida que ele devia reconquistar fosse como fosse; ninguém tinha o direito de lhe
roubar aquela amizade, aquele tesouro de gozos, aquela torre de marfim construída
pelas suas próprias mãos. Aleixo era seu, pertencia-lhe de direito, como uma cousa
inviolável. Daí também o ódio ao grumete, um ódio surdo, mastigado, brutal como as
cóleras de Otelo...
Aleixo com outro homem! Esta idéia fazia-o enlouquecer de ciúme, torturava-o
como um sofrimento agudo, como uma chaga viva e dolorosa.
Que felicidade, que alívio, que suprema ventura, quando pela manhã, já dia
claro, o sol, tépido e loução, entrava cheio de mistério pela enfermaria dentro, e
recomeçava em todo o hospital a bela vida!...
Foi justamente numa dessas noites e obsessão e desespero que Bom-Crioulo
galgou a muralha do estabelecimento e abalou vertiginoso para a Rua da
Misericórdia, cego, às tontas, como quem vai precipitar-se num abismo.
Era um sábado feriado. Entre os marinheiros que tinham ido ao hospital visitar
os amigos, Bom-Crioulo reconhecera o Pinga da corveta, seu companheiro de
viagem outrora — o Pinga, o Herculano, que fora surpreendido a praticar uma ação
feia e deprimente do caráter humano, junto à amurada, na proa, certa noite...
— Ó Herculano, vem cá!
— Oh! Bom-Crioulo!
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— Então, que é feito de ti? perguntou o negro, interessado, conduzindo o
outro pelo braço. Onde é que estás agora?
Herculano estava mudado, já não era o mesmo Pinga retraído e esquivo, com
olheiras, falando pausadamente. Estava outro, admiravelmente outro, O Herculano
— gordo, rosado, o olhar vivo e brilhante, sem melancolia, nem sombra alguma de
tristeza. Perdera a antiga palidez que lhe dava um arzinho pulha de cousa à-toa,
falava desempenado, alto, e ria, como uma criança, por ninharias. — “Onde estava
agora? Na corveta, sempre na corveta.”
— Ainda? fez Bom-Crioulo admirado, ocultando a satisfação que lhe fazia a
resposta. Ainda estás na corveta, homem de Deus?
— Por que não? Aquilo é que é navio. Depois que saiu do dique, nem parece
a mesma. Faz gosto vê-la. Toda pintadinha, toda nova, que é ver uma tetéia.
— Mas, como é que se muda assim, rapaz? Tu, que eras tão pobre de
sangue, estás me parecendo bonito, homem!
— Qual o quê! sorriu Herculano. Já estive mais gordo...
Ia reparando em Bom-Crioulo. Como estava acabado o negro! Viam-se-lhe os
ossos da cara; tinha uma grande cicatriz, uma espécie de ruga funda no pescoço...
— Estás doente? perguntou.
— Ando com umas coceiras, umas feridas no corpo... Diz que é sarna.
— Ah!... Porque estás magro, meu velho, estás na espinha. Que diabo!
E depois de uma pausa.
— Eu vim ver o Anacleto, que está com uma carregação... Não sabias que
tinha baixado também, que andavas por aqui. Fazia-te longe...
— É verdade, há quase um mês nesta desgraça, me acabando!
Chegaram à enfermaria. Os doentes olhavam-nos, palrando, em grupos, nos
corredores, nas dependências do hospital. Alguns convalescentes jogavam a peteca
num largo donde se avistava o mar.
Ia para as seis da tarde. Os navios de guerra, imóveis e embandeirados,
tinham um aspecto festivo. Ouviam-se toques de corneta ao longe e sons de música
em terra, na cidade. Barcas de Niterói cruzavam-se no meio da baía calma. Por toda
a parte, no mar e em terra, um frêmito de alegria universal e domingueira, uma
estranha alacridade perdendo-se ao longe, nas primeiras névoas do crepúsculo. Já
se não via o disco de ouro do sol; a claridade ia pouco a pouco tornando-se difusa,
esmaecida, langue, como uma manhã de brumas. O perfil das embarcações, o
contorno das montanhas, torres e chaminés — tudo mergulhava na noite que descia
palpitante de mistérios...
Ao Herculano pouco se lhe dava que anoitecesse, porque estava de folga;
daí, do hospital, iria para terra num bote de ganho. Mas era preciso não demorar
muito, sob pena de fechar-se o portão do estabelecimento, e ele amanhecer naquele
“cemitério de vivos”...
Bom-Crioulo tranqüilizou-o: — Ainda era cedo,. Que pressa, que vexame!
E muito jeitoso, muito amável:
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— Senta um pouco. Nada de cerimônias: isto aqui é meu, é teu, é do
Governo. Podemos conversar à vontade.
Herculano correu o olhar pela enfermaria, pelo chão, pelo teto, pelas camas
alinhadas. De resto, não era má vida... Boas camas, bom passadio, liberdade...
— É porque ainda não passaste uma noite aqui dentro, meu velho. Um
inferno é o que isto é. Só mesmo para quem não pode agüentar-se. Boa cama
temos nós a bordo.
— Pode-se fumar? perguntou o outro.
— É proibido, mas fuma lá teu cigarro.
Tinham se sentado na cama do negro, muito encardida. — “Era só um
instantinho”, avisou o grumete.
E Bom-Crioulo puxou conversa:
— Dá-me notícias daquela gente, ó Herculano. Como vai o Aleixo, como vai o
guardião Agostinho, como vão todos?...
— Bem. O guardião Agostinho sempre malvado, aquele cabra — malvado e
“implicante”. Eu, felizmente, não lhe tenho caído nas unhas; felizmente! O Aleixo,
aqui pra nós, anda muito metido com os oficiais. Vive na praça d’armas, é quem dá
corda no relógio, é quem arruma os camarotes, quem faz tudo. Está um pelintra,
filho, um grande pelintra: é o nenenzinho de bordo. Sai quando quer, entra quando
quer...
Bom-Crioulo pigarreou.
— Eu, por mim, não troco palavra com ele, continuou Herculano. Estamos de
mal, por uma asneira, por uma tolice... Outro dia quase nos pegamos. Dizem até que
está amigado, em terra, com uma rapariga.
— Amigado!?...
— Sim, amigado, um pitorra daquele. É o que dizem, eu não sei.
Bom-Crioulo tomava sentido, cheio de interesse, dominando-se, abafando
uma golfada de palavrões, uma onda de cólera, que estava quase a irromper-lhe da
boca. Desesperava. Na tépida penumbra da enfermaria o seu olhar tomava uma
expressão dolorida e úmida, como o olhar de um náufrago perdido no círculo imenso
das águas. Era uma tempestade surda e impenetrável, um desabar de todas as
crenças, de todas as ilusões, de todas as forças que mantém o equilíbrio de uma
natureza humana em revolta...
— O Sant’Ana, esse desertou, foi-se embora, foi-se embora, ninguém sabe
para onde. Também, coitado! apanhava que nem boi ladrão. Era um pobre diabo...
Trocaram ainda algumas palavras. Herculano contou episódios íntimos de
bordo, muito loquaz, muito verboso; e como já fosse noite:
— Adeus, Bom-Crioulo, que eu me vou chegando. Estimo que fiques bom,
hein! que fiques completamente bom. Eu lá estou, na corveta, para o que quiseres.
Boa noite!
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— Boa noite, murmurou o negro com uma voz triste e profunda, quase
lúgubre.
Acendiam-se as estrelas no céu muito alto e de uma limpidez outonal...
Bom-Crioulo não pensou em dormir, cheio, como estava, de ódio e
desespero. Ecoavam-lhe ainda no ouvido, como um dobre fúnebre, aquelas palavras
de uma veracidade brutal, e de uma rudez pungente : —“Dizem até que está
amigado!”
Amigado, o Aleixo! Amigado, ele que era todo seu, que lhe pertencia como o
seu próprio coração: ele, que nunca lhe falara em mulheres, que dantes era tão
ingênuo, tão dedicado, tão bom!... Amigar-se, viver com uma mulher, sentir o
contacto de outro corpo que não o seu, deixar-se beijar, morder, nas ânsias do gozo,
por outra pessoa que não ele, Bom-Crioulo!...
Agora é que tinha um desejo enorme, uma sofreguidão louca de vê-lo,
rendido a seus pés, como um animalzinho; agora é que lhe renasciam ímpetos
vorazes de novilho solto, incongruências de macho em cio, nostalgias de libertino
fogoso... As palavras de Herculano (aquela história do grumete com uma rapariga)
tinham-lhe despertado o sangue, fora como uma espécie de urtiga brava
arranhando-lhe a pele, excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora sim, fazia
questão! E não era somente questão de possuir o grumete, de gozá-lo como outrora,
lá cima, no quartinho da Rua da Misericórdia: — era questão de gozá-lo,
maltratando-o, vendo-o sofrer, ouvindo-o gemer... Não, não era somente o gozo
comum, a sensação ordinária, o que ele queria depois das palavras de Herculano:
era o prazer brutal, doloroso, fora de todas as leis, de todas as normas... E havia de
tê-lo, custasse o que custasse!
Decididamente ia realizar o seu plano de fuga essa noite, ia desertar pelo
mundo à procura de Aleixo.
Inquieto, sobreexcitado, nervoso, pôs-se a meditar. O grumete aparecia-lhe
com uma feição nova, transfigurado pelos excessos do amor, degenerado, sem
aquele arzinho bisonho que todos lhe admiravam, o rosto áspero, crivado de
espinhas, magro, sem cor, sem sangue nos lábios... Pudera! Um homem não resiste,
quanto mais uma criança! Aleixo devia estar muito acabado; via-o nos braços da
amante, da tal rapariga — ele novo, ela mocinha, na flor dos vinte anos —, via-o
rolar em espasmos luxuriosos, grudado à mulher, sobre uma cama fresca e alva —
rolar e cair extenuado, crucificado, morto de fraqueza... Depois a rapariga
debruçava-se sobre ele, juntava boca à boca num grande beijo de reconhecimento.
E no dia seguinte, na noite seguinte, a mesma cousa.
Bom-Crioulo desnorteava. Inconscientemente era arrastado para um mundo
de idéias vagas que não o permitiam tomar uma solução pronta, definitiva. Só uma
idéia conservava-se firme e clara em seu espírito: fugir, fugir quanto antes, não
esperar mais nem um segundo, romper os diques de seu isolamento e amanhecer
na rua, no meio da cidade, longe do hospital, “desse hospital de merda”!
Seus cálculos não podiam falhar. Deixava uma janela aberta, pretextando
calor, arrumava a trouxa...— qual trouxa! nem era preciso trouxa! — e, alta noite,
descia por um cabo. As janelas que davam para os Órgãos ficavam sobre um
terreno anfractuoso, espécie de ladeira bronca, meio íngreme, despenhando para
umas oficinas e estaleiros que havia embaixo, na ilha. Não eram, porém, tão altas
que se não pudesse, embora dificilmente, com agilidade, tentar uma escalada. E
Bom-Crioulo não seria o primeiro; antes dele, outros haviam desertado por ali.
Contava-se de um que rolara a montanha, sendo encontrado quase morto ao pé de
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uma árvore, o corpo todo cheio de pisaduras, vertendo sangue pelo nariz; veio a
morrer da queda, que lhe produzira uma doença grave na espinha.
O negro não teve dúvida; ergueu-se (era uma hora da madrugada), foi à
casinha, para não dar a perceber, amarrou na cintura uma navalha de marinheiro
que o acompanhava sempre, vestiu, por baixo da roupa branca de doente, a camisa
de gola, e voltou cauteloso, perscrutando o silêncio e a escuridão. Depois, foi tudo
rápido: deu volta ao cabo na janela, um cabo grosso trançado, e —... que os pariu!
— saltou fora. Uma escuridão medonha na baía e um silêncio de arrepiar cabelo.
Era a hora do sono forte, do sono pesado. As sentinelas bradavam, de instante a
instante, o seu prolongado — alerta! que o eco repetia no mar e em terra. Nenhuma
outra voz, nenhum outro sinal de vida. A cidade iluminada, estrelada de luzes
microscópicas, era como vasta necrópole na lúgubre inquietação da noite.
Bom-Crioulo sentia um friozinho brando, um leve bafejo matinal arrepiar-lhe a
nuca. Dirigiu-se tateando, tateando, rente com o paredão do hospital, sem olhar pra
trás, sem ver nada. Tinha examinado bem o terreno antes de se aventurar; por esse
modo, caminhando naquele rumo, ia direito a uma descida pouco escabrosa.
Embaixo ficava o dique. era preciso muita cautela, muito jeito para não precipitar-se.
Foi indo, foi indo, ora agachado, ora em pé, segurando aqui, segurando acolá, às
apalpadelas, e pôde enfim —que os pariu! — chegar ao cais, à beira d’água, sem o
mais leve arranhão. Dava meia hora na Candelária — uma pancada sonora e cheia,
que reboou longe, soturnamente, acordando os ecos. — “Faltava atravessar o canal,
pensou Bom-Crioulo, medindo com o olhar a extensão líquida que separava o
arsenal da ilha. Paciência, um pouquinho de paciência. Devagar...” Encolheu-se todo
por trás de um guindaste, reflexionando. — Ia dali rente para o sobrado: queria ver
como estava aquilo; queria fazer uma surpresa ao senhor Aleixo. E a portuguesa? Já
não se lembrava dela!... É verdade, a portuguesa?...
Um relâmpago, uma dúvida passou rápida em seu espírito, deslumbrando-o:
— Qual! Não era possível!... Que tolice!...
O friozinho aumentava. O relógio da Candelária, sonoro e profundo, badalou
duas horas. Bom-Crioulo ergueu a vista para o céu: — as estrelas palpitavam; a via-
láctea resplandecia, branca e tortuosa, na infinita serenidade da noite. Defronte, no
arsenal, erguia-se o perfil de uma grande chaminé sombria. A água marulhava no
cais monotonamente, em seu eterno fluxo e refluxo. — Alerta! bradavam as
sentinelas a cada instante, na ilha, no arsenal, na Alfândega, nos trapiches. Em toda
parte o mesmo silêncio, a mesma quietação, a mesma clama profunda.
A noite parecia não acabar, não ter fim: era como uma eternidade. Arrastado
pela maré, um objeto ia flutuando águas abaixo, vagarosamente. — Algum trapo
velho, pensou o negro, talvez mesmo, quem sabe? algum “corpo”...
E nada de clarear, nada de amanhecer; já se ia impacientando! Que diabo
fazia ele que não tomava uma resolução? Era para isso que tinha fugido, pra estar
ali de boca aberta, caindo de sono? Mas não havia remédio, senão esperar, não
havia outro jeito. Ir a nado? Qual! E as sentinelas?... Paciência, paciência...
Duas horas no relógio da Candelária. Apenas uma voz bradou, longínqua e
desolada, sem eco: — Alerta!
Bom-Crioulo recostou a cabeça no guindaste, bêbedo de sono, um peso nas
pálpebras, uma indisposição no corpo; e, não obstante as “coceiras”, que aí vinham-
lhe subindo nas pernas, como um formigueiro, adormeceu ao rumorzinho da água no
cais.
Quando ergueu a vista, momentos depois, era quase dia. Começava o
tumulto de escaleres e catraieiros para os lados da Alfândega. Ouvia-se o barulho
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de remos e o arquejar de uma lancha deitando vapor fora. Os Órgãos, indistintos
ainda na meia sombra do alvorecer, iam pouco a pouco evidenciando sua bela
configuração de harmônium colossal. Uma ou outra luzinha pálida no anfiteatro da
cidade. Tinha-se apagado a iluminação. No mosteiro de S. Bento um sino fanhoso
vibrava matinas desde as três horas, insistentemente, num alvoroço de igrejinha
d’aldeia que acordas proclamando os triunfos da cristandade. A bordo, nos navios
de guerra, cornetas preludiavam o hino do amanhecer. Do outro lado da baía, em
Niterói, uma névoa fina, transparente, como a evaporação de um grande lago,
fraldejava as montanhas, ocultando a paisagem de um extremo a outro. E lá fora da
Barra, para além do Pão d’Açúcar, um listrão cor de rosa, pouco apouco ia-se
tornando mais vivo, mais fulgurante no céu lívido...
Bom-Crioulo circunvagou o olhar, muito admirado, muito surpreendido, como
se estivesse num lugar estranho, e a primeira palavra que lhe veio à boca foi uma
obscenidade: — “... que os pariu! Ia-se desgraçando!... Mãos à obra! Felizmente
ainda não era dia claro...”
Nenhum bote, nenhuma embarcação, ali perto, no canal, O movimento era
todo na vizinhança da Alfândega, no cais dos Mineiros. Passavam escaleres de
guerra: Bom-Crioulo escondia-se para não ser visto. — Diabo! diabo! Tudo por
causa de um grumetezinho!...
De repente, ouviu barulho n’água — aproximou-se: era um bote de ganho.
— “Até que enfim! Ora até que enfim!”
A pequena embarcação vinha-se chegando para a ilha sem toldo, remada por
um galego de suíças, meio velho. Trazia à popa, no recosto do paineiro, o dístico —
Luis de Camões, por cima de uma figura à óleo, que tanto podia ser a do grande
épico como a de qualquer outra pessoa barbada, em cuja fronte se houvesse
desenhado uma coroa de louros. Nessa infame garatuja, o poeta tinha o olho
esquerdo vazado, o que, afinal de contas, não interessava ao negro.
— Quer me levar ao cais? perguntou Bom-Crioulo ao português,
— É já! disse o homem atracando. O Luis de Camões não dorme.
— Vamos.
— Pode embarcar.
— Upa!
E, com um salto, Bom-Crioulo embarcou. Estava, enfim, livre de perigo; — “...
que os pariu!”
Daí a instante perdia-se no labirinto da cidade, marchando no seu passo
largo, muito desenvolto, quebrando ruas, dobrando esquinas, “bordejando”...
Estava um dia lindo, lindo! Um dia de galas no azul e nas montanha, um dia e
liberdade!
CAPÍTULO XII
Quase nenhum movimento ainda na Rua da Misericórdia; sujeitos mal
vestidos, operários e ganhadores, desciam com ar miserável e bisonho de ovelhas
mansas que seguem fatalmente, num passo ronceiro, numa lentidão arrastada,
numa quase indolência de eunucos. A vaca do leite, com as grandes tetas pesadas,
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um chocalho ao pescoço, ia no seu giro quotidiano, muito dócil, o ventre bojudo,
uma baba a escorrer-lhe do focinho em fios d’espuma. A carrocinha do lixo, pintada
de azul, andava na sua faina matinal, parando aqui, parando acolá.
Nenhum esto de vista quebrava a monotonia do quarteirão; somente o ruído
dos bondes e uma ou outra voz falando alto. Pairava um cheiro forte de urina, assim
como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera,
intoxicando a respiração. Os primeiros reflexos do sol batiam nas vidraças
obliquamente acordando os moradores, colorindo a frente das casas em pinceladas
de ouro, dando brilhos de cristal puro ao granito dos portais, doendo na vista com
fulgurações quentes de revérbero; e já se começava a sentir um calorzinho brando,
uma tepidez morrinhenta, um princípio de mormaço.
Abriam-se botequins preguiçosos, lojas de negócio, estabelecimentos de
madeira, carvoarias, quitandas.
O movimento, porém, aumentava com a luz; multiplicavam-se os transeuntes
numa confusão bizarra de cores e toilettes: daqui, dali, surgiam caras estranhas,
fisionomias amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço.
A vida recomeçava.
Bom-Crioulo foi encurtando o passo, diminuindo a marcha, calculando a
distância, lento e lento, rumo do sobradinho. Já o avistava: era o mesmo de outrora,
o mesmíssimo, com as duas janelas da frente, com o seu aspecto antigo, do tempo
del-rei, e lá, no alto, lá cima, no telhado, a trapeira sumindo-se, enterrando-se,
dependurada quase...
Veio-lhe um não sei quê, uma saudade, como cousa que lhe entrasse n’alma,
a dor de uma ingratidão: ali é que ele se juntara ao outro com uma confiança de
noivos; ali é que ele tinha passado o melhor da sua vida; ali é que ele tinha
aprendido a amar, a “querer bem”...
E murmurava entre dentes, banhado no eflúvio da suas reminiscências,
levado pelo fio inquebrantável das doces recordações: — “Aquele sobradinho,
aquele sobradinho!...”
Lembrava-se claramente, nitidamente, de quando ele e o pequeno voltaram
do cruzeiro e lá foram juntinhos para o quarto de cima, onde morrera, dias antes, o
português, de febre amarela. Oh! tinha tudo na cabeça; lembrava-se bem: a primeira
noite, os modos ingênuos de Aleixo, a cena da vela... — tudo estava gravado em
sua imaginação, tudo!
Enchiam-se-lhe os olhos d’água, turvava-se-lhe a vista, nem era bom
pensar...
Bom-Crioulo sentia-se mais do que nunca abandonado, mais do que nunca
lhe doía fundo o desprezo do grumete, esse desprezo calculado, proposital,
voluntário, com que Aleixo o esmagava, o ludibriava impunemente. “—Ah! era assim,
hein? Pois havia de lhas pagar hoje ou amanhã. A gente é como um copo d’água:
vai-se enchendo, vai-se enchendo, até não poder mais!”
Faiscavam-lhe as retinas como duas brasas, como dois fogachos, por trás da
névoa úmida das lágrimas; todo ele vibrava, todo ele tremia como um epiléptico:
vinham-lhe cóleras, ímpetos, aflições... Quase não se podia conter diante daquela
casa, que era como o túmulo mesmo das suas ilusões. Transfigurava-se,
enlouquecia de ódio, espumava de cólera, de raiva, de ciúme! O aspecto das
cousas, o mundo exterior, a gente que passava para o trabalho, tudo quanto seus
olhos viam naquela hora de amargura, o próprio sol, a própria luz torrencial do dia
causava-lhe um tédio imenso; arrancando-lhe blasfêmias da boca entreaberta num
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sorriso agoniado e convulso. Não tinha coragem de fitar, de demorar os olhos no
sobradinho: baixava-os logo gelado: — “Era ali mesmo, tal e qual!”
Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de
insetos, uma cousa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas;
ia-se-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um
delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue... Passou a mão nos
olhos, trêmulo, encostando-se à coluna de um gás; quase não podia ter-se em pé:
estava sem forças, o hospital enfraquecera-o, debilitara-o horrorosamente, o “maldito
hospital”. —“Nunca mais havia de lá, por os pés, nunca mais!”
A porta do sobrado estava fechada; em cima a meia vidraça de uma janela
conservava-se aberta; nem parecia morar gente ali: uma imobilidade sepulcral,
desoladora!
Bom-Crioulo rodou nos calcanhares, atônito, sem consciência do meio em
que estava, o olhar perdido ao longe, na rua, e foi andando, andando, muito devagar
por ali acima.
De repente: — “Ah! a padaria!” Já se não lembrava; era a mesma também, a
mesmíssima, com seu grande letreiro na fachada — Padaria Lusitana, com suas três
portas, debaixo de uma sobrado, quase defronte da portuguesa. Vinha lá dos fundos
um cheiro bom de massa, um apetitoso cheiro de pão quente.
Enfiou pelo estabelecimento, e, sem reflexionar, dirigiu-se ao empregado, um
muito vivo, rapazola, que, pelos modos, parecia de além-mar.
— O senhor sabe me dizer se ainda mora ali defronte, no sobradinho, uma
portuguesa?
— D. Carolina?
— Essa mesma: uma gorda, bonitona...
— Mora, pois não! disse o outro com um quê de malícia nos olhos.
— E um rapazinho, marinheiro, de olhos azuis...?
— Também, Acordam tarde. Ultimamente a porta vive fechada. Costumam
sair juntos à noite...
— Saem juntos?
— Pois não! A mim me parece que o menino é bem espertinho...
Bom-Crioulo estremeceu. Ia saber tudo agora, pela boca do caixeiro: a
ocasião era a melhor porque o dono do estabelecimento andava fora.
— O senhor não estará enganado? tornou ele muito curioso,
precipitadamente, numa voz quase humilde, o olhar grudado no rapaz.
E entrou a explicar, a dizer como era a portuguesa, como era o marinheiro: —
Uma gorda, bonitona, muito vistosa, d’olhos grandes, que alugava quartos...
— Essa mesma, homem!
— O outro não tinha barba, era meio criança ainda, olhos azuis, muito alvo,
bonitinho...
— Exatamente, informou o caixeiro. Foram ao teatro, ontem, à Tomada da
Bastilha. Conheço muito D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...
Quase as mesmas palavras do Herculano! A mesma história de mulher! Bom-
Crioulo ficou imóvel, calado, perdido nas suas idéias. — Aleixo amigado com a
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portuguesa, com a D. Carolina! Era inacreditável, era um desaforo sem nome, um
desrespeito, uma falta de vergonha, um escândalo!
— Está admirado? perguntou o rapaz fitando o negro, cujo olhar tinha agora
uma dolorosa, uma extraordinária, uma indizível expressão de melancolia e
surpresa. Não se admire, não, que é que o todos dizem...
E logo, interrompendo-se, com o braço estendido:
— Olhe, nem de propósito: aí vem ele, o pequeno...
Aleixo ia saindo porta fora, tranqüilamente, apertado na sua roupa azul e
branca de marinheiro, a camisa decotada, a calça justa.
O negro teve um daqueles ímpetos medonhos, que o acometiam às vezes;
garganteou um — oh! rouco, abafado, comprimido, e, ligeiro, furioso, perdido de
cólera, sem dar tempo a nada, precipitou-se, numa vertigem de seta, para a rua. Não
via nada, tresvariado, como se de repente lhe houvesse fugido a luz dos olhos e a
razão do cérebro. Precipitou-se, e, esbarrando com o grumete, fintou-o pelo braço.
Tremia numa crise formidável de desespero, os olhos congestionados, um
suor frio a porejar-lhe da testa negra e reluzente.
O pequeno estacou surpreendido:
— Sou eu mesmo, rugiu Bom-Crioulo, sou eu mesmo! Pensavas que era só
meter-te com a portuguesa, hein? Olha para esta cara, olha como estou magro,
como estou acabado... Olha, olha!
E apertava bruscamente o outro, sacudindo-lhe como se o quisesse atirar no
chão.
— Vê lá se me conheces, anda! Olha bem para esta cara!
O efebo debatia-se, pálido, aterrado:
— Me largue! Não me provoque, senão eu grito!
— Anda pr’aí, grita, se és capaz! Grita, safado, sem-vergonha... mal-
agradecido!
Sua voz tomava uma inflexão voluptuosa e terrível ao mesmo tempo; a
palavra saía-lhe gaguejada, estuporada e trêmula.
— Grita, anda!
O outro mudava de cores, recuava trôpego, a língua presa, quase a chorar,
numa aflição de culpado, o olhar azul submisso refletindo a imagem do negro:
— Me largue, repetiu. Eu lhe peço: me largue!
Transeuntes olhavam-nos de banda e voltavam-se para os ver naquela
posição, rosto a rosto, juntinhos, agarrados misteriosamente. Porque Bom-Crioulo
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não falava alto, que todos ouvissem, não dava escândalo, não fazia alarme: sua voz
era um rugido cavernoso e histérico, um regougo abafado. longínquo e profundo.
— Grita, anda, grita pela vaca da Carolina!
— Me solte! continuou o efebo trêmulo, acovardado. Me largue!
— Não te largo, não, coisinha ruim, não te largo, não! Bom-Crioulo, este que
aqui está, não é o que tu pensas...
— Mas eu não fiz nada! Me solte, que é tarde!
Os olhos do negro tinham uma expressão feroz e amargurada, muito rubros,
cruzando-se, às vezes, num estrabismo nervoso de alucinado.
Um sujeito parou defronte, a olhá-los; vieram depois outras pessoas, outros
curiosos; um marinheiro da Capitania, um italiano carregado de flandres, um guarda
municipal, crianças, mulheres...
Houve logo um fecha-fecha, um tumulto, um alvoroço. Trilaram apitos; vozes
gritavam — rolo! rolo! e a multidão crescia no meio da rua, procurando lugar,
empurrando, abrindo caminho, precipitando-se, formando um grande círculo de
gentes ao redor dos dois marinheiros, invisíveis agora.
Os bondes paravam. Senhoras vinham à janela, compondo os cabelos, numa
ânsia de novidade. Latiam cães. Um movimento cheio de rumores, uma balbúrdia!
Circulavam boatos aterradores, notícias vagas, incompletas. Inventavam-se histórias
de assassinato, de cabeça quebrada, de sangue. Cada olhar, cada fisionomia era
uma interrogação. Chegavam soldados, marinheiros, policiais. Fechavam-se portas
com estrondo.
Alguma cousa extraordinária tinha havido porque, de repente, o povo recuou,
abrindo passagem, num atropelo.
— Abre! abre! diziam soldados erguendo o rifle.
De cima, das casa, mãos apontavam pra baixo.
E D. Carolina também chegara à janela com a vozeria, com o barulho, viu,
entre duas filas de curiosos, o grumete ensangüentado...
— Jesus! Meu Deus!
Uma nuvem escureceu-lhe a vista, correu um frio pelo corpo, e toda ela tremia
horrorizada, branca, imóvel.
Muitas vistas dirigiam-se para o sobradinho.
Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um fardo, o
corpo mole, a cabeça pendida para trás, roxo, os olhos imóveis, a boca entreaberta.
O azul-escuro da camisa e a calça branca tinha grandes nódoas vermelhas. O
pescoço estava envolvido num chumaço de panos. Os braços caiam-lhe, sem vida,
inertes, bambos, numa frouxidão de membros mutilados.
A rua enchia-se de gente pelas janelas, pelas portas, pelas calçadas. Era uma
curiosidade tumultuosa e flagrante a saltar dos olhos, um desejo irresistível de ver,
uma irresistível atração, uma ânsia!
Ninguém se importava com o “o outro”, com o negro, que lá ia, rua abaixo,
triste e desolado, entre as baionetas, à luz quente da manhã: todos, porém, queriam
“ver o cadáver”, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga...
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Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se
espalhando, se espalhando, té cair tudo na monotonia habitual, no eterno vaivém.
FIM
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