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Ação Dialógica
José Henrique Manhães
Jun., 2006
Licença:
Subject: Creative Commons - Public Domain Dedication
Date: Wed, 21 Jun 2006 12:05:58 -0500
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Junho, 2006
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RESUMO
Este estudo toma como referência a ação dialógica do professor
contemporâneo de escolas públicas na construção da identidade dos sujeitos. A
inquietação básica é a articulação do aluno-professor como proposta de
construção do conhecimento que prioriza o diálogo como elemento primordial ao
desenvolvimento das práticas pedagógicas e construção de identidade que se
efetivam em sala de aula, possibilitando por meio da ação dialógica a formação
de sujeitos reflexivos e atuantes no mundo globalizado.
Partindo do pressuposto que ensinar não é transferir conhecimentos e
conteúdos para meramente formar o cidadão, mas sim uma ação à qual o sujeito
dá forma e estilo, não se reproduzindo à condição de objeto um do outro – quem
ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. A pesquisa aqui
apresentada trata de uma experiência construída a partir das diversas leituras de
vários sujeitos, indo desta forma, para além de uma experiência: um
acontecimento plural, motivador, concebido a partir de semelhanças e diferenças
com: Os Batuques do Pelourinho.
Esta pesquisa teve, portanto, como objetivo levantar questões referentes a
ação dialógica que se dá entre professores e alunos de escolas públicas. Com
bases no quadro teórico buscou-se a justificativa de se apresentar este trabalho.
A pesquisa buscou narrar de que forma os professores de escolas públicas
realizam suas práticas levando-se em consideração a ação dialógica do aluno e
professor. Para tanto foi realizada pesquisa empírica exploratória em três
unidades de ensino. Os depoimentos colhidos nesses estabelecimentos
analisados a luz das teorias indica que a produção do conhecimento em sua
plenitude só se dará se cada vez mais professores e alunos se conscientizem que
essa produção só se efetiva em sua plenitude na relação dialógica.
Palavras- chave : educação – ação dialógica – construção de identidade.
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1. A Ação dialógica nos batuques do Pelourinho
Em 1985 o Pelourinho era palco de tráfico de drogas e prostituição. Sua
geografia correspondia a becos e vielas onde os moradores se amontoavam nos
pequenos e grandes cortiços que lá existiam. Na mesma área era exercido um
poder paralelo. As pessoas sobreviviam a fome e ao desprezo social, cultural
econômico e ideológico. Os profissionais da época sentiam-se resistentes e
ficavam receosos de atuar em uma “área de risco”. Será que as minorias
excludentes do país oferecem risco? Durante quatro anos esse foi o palco no
qual este pesquisador viveu e conviveu. Nesse palco foi percebido que a
formação docente do pesquisador se deslocaria do pensamento à ação, pois a
reflexão do pensar, aliada ao fazer, o possibilitaria incorporar as análises dos
saberes fundamentais. Não há como negar que nesse momento a (in) certeza das
possibilidades e dos limites iam se concretizando. Mas, logo na segunda semana
de exercício, num dia de Bênção, as terças feiras, que os parênteses e o prefixo
do vocábulo ficaram menos evidente. As atividades docentes eram realizadas
todas as terças, quartas e quintas feira e para felicidade deste pesquisador às
terças-feiras a duração da aula se dava de 18h30 às 19h10, pois acontecia e até
hoje sobrevive a maior manifestação cultural e religiosa do estado “A Festa da
Bênção”. Essa festa é um acontecimento plural, motivador, concebido a partir das
semelhanças e diferenças. É múltiplo e por ser múltiplo escapa ante a qualquer
tentativa de ser reduzido. Vale ressaltar a partir dessas considerações o olhar de
Williams(1998: 37) sobre cultura:
A organização social da cultura, como um sistema de significações
realizados, está embutido em uma série completa de articulações,
relações e instituições, das quais apenas são manifestadamente
culturais. Pelo menos nas sociedades modernas, esta é uma utilização
teórica mais eficiente do que o sentido de cultura como o de uma vida
global. Esse sentido, oriundo originalmente da antropologia, tem o grande
mérito de salientar um sistema geral - sistema específico e organizado
de suas práticas, significados e valores desempenhados e estimulados.
Ele é um princípio potente contra os hábitos de estudos isolados,
historicamente desenvolvidos dentro da ordem social capitalista.
A primeira vista, pode-se afirmar que não há como desprezar uma
manifestação que ocorre todas as terças feiras em um espaço único onde há
colégios, teatros, Casa de Jorge Amado e espaços para lazer.
Neste momento de batuques, os próprios ressoavam com grande nitidez e
apontavam para grandes momentos de êxtase. Seus batuques eram traduzidos
no pensamento deste pesquisador, como a ação dialógica que se completava e
que se harmonizava entre os participantes deste evento semanal. Alunos e
professores compartilhavam e bebiam na mesma taça desse vinho, falavam a
mesma linguagem e todos, davam formas diversas aos sons que eclodiam do
Grupo Olodum.
Sendo assim, não há como desprezar a sabedoria de Freire (2000) de
“quem forma se forma e reforma ao formar e quem é formado forma-se e forma
ao ser formado”.
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Nesta manifestação os sentidos iam se estabelecendo de um para outro e
de outro para outro. As trocas, sobretudo, as que vinham dos batuques eram
decodificadas ao olhar e traduzidas pelas danças. É o olhar recortando o todo,
dando luz, dando sentido ao que se tinha lido e estudado. Era teoria em ação, em
comunhão.
Assim cumpre definir que este estudo, “a ação dialógica do docente” tem
por base a construção de identidade do educando, pois resulta dos diversos
saberes, das diversas práticas do professor e do aluno.
2. A ação dialógica como produtora de significados
Para explicitar este artigo, a reflexão foi organizada sobre dois eixos
norteadores; a ação dialógica do docente e a construção de identidade.
Para tanto, foi necessário redefinir o que é ação dialógica e identidade.
• Ação dialógica: a ação dialógica é um elemento
constitutivo da linguagem e da consciência ideológica.
Sua ênfase está na importância da linguagem como
fenômeno sócioideológico e apreendida dialogicamente no
curso da história.
Nesse sentido compreender a ação dialógica como uma instância
produtora de linguagem e, portanto, formadora de subjetividade, requer
considerar o ser humano como um todo inacabado que se constitui de suas
relações sociais. Decorre, então, a importância do “outro” na formação subjetiva
do ser humano. Um exemplo fiel desta pesquisa são os batuques do Pelourinho
na ação dialógica. São nesses sons que se busca a totalidade perdida que a
linguagem emerge e através dos contrasons , ou ainda contraritmos, é que novos
códigos surgirão à partir de um novo meio interativo.
Com isso, pretende-se demonstrar a relevância das interações ocorridas na
escola e no cotidiano, estes adolescentes estão internalizando palavras de outros,
tornando-os também parte integrante do eu, enfim, se constituindo enquanto
sujeitos e da melhor forma possível. Bakhtin (1997:130), por exemplo, em seu
esforço para definir os aspectos da linguagem na sua subjetividade afirma:
Vivencio a vida interior do outro enquanto alma, ao passo que em mim
mesmo vivo no espírito. A alma é a imagem vivida que globaliza tudo o
que foi efetivamente vivido, tudo o que faz a atualidade da alma no
tempo, ao passo que o espírito globaliza todos os significados de
sentidos, todos os enfoques existenciais, os atos que fazem sair de si
mesmo.
De fato, essa questão permite uma série de reflexões sobre a ação
dialógica e a constituição do outro. É a experiência de construção de si mesmo
com o outro, o que implica no estabelecimento de um diálogo que em última
instância faz com que o eu se veja na imagem que constrói do outro.
Diante dos argumentos apresentados anteriormente a ação dialógica tem a
ver com a sintonia com os sons e com as palavras. A sala de aula é lugar de voz.
• Identidade: Numa abordagem antropológica, a identidade
é uma construção que se faz com atributos culturais, isto
é, ela se caracteriza pelo conjunto de elementos culturais
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adquiridos pelo indivíduo através da herança cultural. A
identidade confere diferenças aos grupos humanos. Ela se
evidencia em termos da consciência da diferença e do
contraste com o outro.
Em uma sala de aula ou outro espaço fora desse contexto escolar atores
são chamados a falar, a se colocar, a romper o silenciamento que trazem consigo.
Falam e discutem sobre os problemas que vivem e enfrentam no cotidiano, junto
com seus vizinhos e moradores. Falam e conversam. Trocam experiências,
idéias, alegrias, derrotas, vitórias, contam estórias, mobilizam-se e organizam-se
para tarefas comuns.
Esse falar, leva ao domínio da fala, a descoberta do poder falar e esse
poder falar parece significar poder. Poder de expor-se, confrontar-se e confrontar,
transformar e ser transformado. Influenciar e ser influenciado. Tomar decisões e
exercer decisões. De silenciado e em silenciamento, parece viver um processo de
provável dessilenciamento em que a verbalização e os gestos que a
acompanham indicariam uma ruptura de uma silenciosa opressão. Seria a
constituição de um ser de poder, por que se descobre com o poder de falar, dizer,
se expressar. A palavra, o falar, o dizer não só estariam indicando a constituição
de um sujeito dessilenciante, mas também estaria indicando a descoberta do falar
igual aos tambores do Pelourinho, descoberta do falar enquanto poder: poder é o
mesmo que o grito dos afoxés; do poder enquanto falar, falar é resignificar os
sons dos afoxés, e com isso sujeitos políticos. Sujeitos em seus reencontros,
políticos enquanto cidadãos.
Sendo assim, é apropriado resgatar um exemplo que é dado por Rodrigues
(2001:20):
É este reencontro que recoloca os indivíduos no seu grupo, na sua
classe, nas suas relações sociais e os capacita à reconstrução da
experiência e do mundo, não mais segundo os ditames de verdades
exteriores a ele, mas a partir das verdades que ele é capaz de descobrir
segundo sua nova visão e segundo um novo sentido de mundo.
Em Arroyo (1999: 19) se busca apoio, quando trata do sujeito enquanto
agente transformador da sociedade, ao enunciar:
(...) a concepção do povo e de sua ação como sujeito político exige uma
revisão profunda na relação tradicional entre educação, cidadania e
participação política. Para equacionar devidamente o peso da educação
na cidadania teremos que prestar atenção aos processos reais de
constituição e de formação do povo como sujeito político, que processos
são estes e como se dão.
Calazans (2001: 36) também reflete sobre a questão dos sujeitos e seus
diversos espaços como formação de identidade. Ela diz assim:
Habituados a viver nos deparando com um sistema educacional
organizado, no qual somos integrados desde cedo, tendemos a pensar a
aprendizagem apenas como conseqüência da educação. Entretanto
desde sempre, olhando os céus, seguindo o curso dos rios,
compartilhando o calor das fogueiras, o homem aprendeu com as coisas
. Antes de haver ‘transmissão de conhecimentos’- e portanto
aprendizagem do conhecimento pronto- o homem depende de um outro
aprender , decorrente de um intercâmbio com o mundo e com as
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pessoas em ambiente social, através do qual ‘descobre’ coisas, por
meios práticos, por reflexão, por experimentação- e até por acaso.
Ao discutir o conceito de identidade Hall (2001:59) explica que:
(...) não importa quão diferentes seus membros possam ser em termos
de classse , gênero ou raça, uma cultura nacional busca unificá-los
numa identidade cultural, para representá-los todos como pertencendo à
mesma e grande família nacional.
Diante dos argumentos apresentados pode-se afirmar que quando se trata de
sujeitos e construção de identidade, numa perspectiva de ação dialógica é
necessário provocar um retroceder no tempo histórico. Para que nesse retroceder
o leitor possa se perceber, segundo as condições históricas de cada época, as .
pessoas se formam respondendo as questões de seu tempo de um determinado
modo e de acordo com as vivências de seu grupo cultural. Assim, é necessário
comparar as respostas dadas por outros povos, em outros tempos, com as
respostas que são dadas em nosso tempo, encontrando o sentido e a história de
nossas próprias respostas.
Não há como produzir conhecimento sem contextualização histórica, social,
política e cultural. O repertório de cada indivíduo e sociedade está preso ao
contexto vivido. O sujeito não se forma e reforma alienado de seu ambiente
social, da mesma forma que ele é influenciado por seu tempo histórico, social e
cultural, ele (indivíduo) marca a sociedade em que vive. Nesse processo a
linguagem é elemento diferenciador e diferenciado de cada tempo histórico
construído a partir da trajetória das diferentes sociedades sempre marcada pelas
práticas e ações do indivíduo e da coletividade.
Nesta direção é importante destacar: (MARX 1975: 66) :
A história não faz nada, nada possui grandes riquezas, não liberta nem
ao menos uma só de suas lutas; quem faz tudo isso, quem possui e luta
é o próprio homem, o homem real, o homem vivente. Não é a história
quem usa o homem como ferramenta para atingir uma meta, como a
história fosse um ser à parte, a história é senão a ação do homem na
perseguição de seus objetivos.
Mais do que em qualquer tempo, há a consciência que o ser é histórico, por
isso, imersos nas experiências anteriores, nos conhecimentos, vivências, culturas,
acertos, erros, encontros e desencontros acumulados ao longo do cotidiano e de
várias gerações.
Por exemplo, a resposta ao que é belo/beleza é dada de diferentes
maneiras. Depende da posição ideológica que o indivíduo ou grupo tem no
momento. Em algumas culturas e épocas a beleza é concebida utilizando-se de
critérios e padrões diferenciados e de cultura para cultura alguns desses critérios
chegam até mesmo apresentar padrões antagônicos para expressar o belo. Isto
também acontece com os olhares relativos a constituição do sujeito e suas
ideologias. Não basta que seja visto somente pelo olhar individual e pessoal, nem
somente pelos olhos dos outros. Para de fato ser enxergado e compreendido é
fundamental aprender a desenvolver uma visão ampla e completa que comporte
os pontos de vista individual e coletivo.
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Nesse sentido resgate-se também as palavras de MARQUES (2003: 25)
(...) a ideologia do cotidiano está, pois, implicada na relação que o
indivíduo mantém com seus grupos, pela orientação social que recebe e
que exerce sobre eles. Portanto, ela aborda o indivíduo de fora para
dentro. É a partir da vivência social e dos discursos que recebe, que o
indivíduo busca seu próprio discurso como referencial.
De fato esta questão permite uma série de reflexões sobre as relações não
autoritárias, o estabelecimento do diálogo entre os interlocutores. Alguns autores
fizeram reflexões e caracterizações importantes sobre a ação dialógica, abaixo
são destacadas, além da contribuição de Marques, mais duas contribuições.
A primeira é expressa por Gutierrez quando diz que existem algumas
possibilidades quando o pensamento se apóia numa relação dialógica: os
interlocutores falam e escutam, levam em consideração todas as informações,
conhecimentos e experiências do grupo em que esta interlocução está ocorrendo
e este diálogo faz com que ocorra um maior envolvimento entre todas as pessoas
e o assunto em pauta.
A segunda é aquela que é apontada por Freire (2000: 92) quando registra
que:
o diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para
designá-lo. Se ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens
os transformam, o diálogo impõem-se como o caminho pela qual os
homens encontram seu significado enquanto homens; o diálogo é, pois,
uma necessidade existencial. E já que o diálogo é o encontro no qual a
reflexão e a ação, inseparáveis daqueles que dialogam, orientam-se para
o mundo que é preciso transformar e humanizar, este diálogo não pode
reduzir-se a depositar idéias em outros. Não pode também converter-se
num simples intercâmbio de idéias... Não é também uma discussão
hostil, polêmica entre os homens que não estão comprometidos nem ao
chamar ao mundo pelo seu nome , nem na procura da verdade, mas na
imposição de sua própria verdade.
Portanto, para se estabelecer diálogo entre os interlocutores é necessário
perceber que não existem verdades absolutas, é preciso uma atitude voltada para
a busca do novo, para a escuta, para o transladar-se, para o ponto de vista do
outro, transitando pela opinião e redimensionando posições.
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3. AS DIVERSAS POSSIBILIDADES DA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
O exercício de pensar filosoficamente e historicamente o cotidiano dá-se a
partir das problematizações temáticas: o educador torna-se alguém que exercita a
arte de perguntar, de instigar o educando a pensar nas respostas e de colocar-se
diante de novos problemas.
Abaixo, transcreve-se um exemplo de Lipman (1977: 48) mostrando como
ele trabalhou em sala de aula, a partir da historicidade e da filosofia, o diálogo e
sua construção com um grupo de alunos:
Perguntei as crianças se suas carteiras têm história, se sua escola tem
história, se seu país tem uma história e se o mundo tem uma história.
Responderam que sim a cada pergunta, com certa minúcia.(Depois
arrependi-me de não lhes haver perguntado se a história do mundo era a
história deles ou a história de sua história). Concluí o exercício
perguntando-lhes se, eles também, tinham histórias. Com isso,
concordaram entusiasmados. No final da sessão, para minha surpresa e
satisfação, diversos deles se dirigiram a mim para perguntar se eu queria
que escrevessem suas próprias histórias, de modo que pudessem dá-las
para mim.
A perspectiva assumida nesta investigação é que, através do diálogo, se
avalia as diversas possibilidades de explicação dos fenômenos com os quais ao
longo da trajetória de existência depara-se o ser social. Contudo, estas
possibilidades têm dialeticamente duas características: a de movimento e a de
permanência. O que se quer dizer é que por meio do movimento o aluno tem a
possibilidade de descobrir e de resignificar novas descobertas que fazem as
antigas serem superadas. Por exemplo, o que num determinado momento é
considerado como correto em outro pode não o ser. Por outro lado é sua
característica de permanência que possibilita a passagem, o acúmulo e a
manutenção dos conhecimentos de uma época para outra, se isso não ocorresse
certamente não se teria a história dos seres humanos, não se teria a história da
escola mecanicista, da nova escola, não se conheceria as abordagens
tradicionais, cognitivas, sócio-culturais etc.
Diante dos argumentos apresentados o exercício de pensar e dialogar o
cotidiano dá-se a partir de problematizações; o educador torna-se alguém que
exercita a arte de perguntar, de instigar o educando a pensar e de colocar-se
diante de novos problemas. O cotidiano é profundamente desafiador e, esse
desafio coloca-se não como um obstáculo, mas sim como uma exigência de
respostas. Os tambores ressoam e suas batidas são resignificadas pelo eu e pelo
nós. Isso exercita a tomada de decisões diante de outras posições; nesse sentido
o educando, a partir dessa ação dialógica, constrói novos sentidos aos ecos das
batidas dos tambores do Pelourinho, assumi posições de vida, ressignifica
conceitos e isso afetará a qualidade do processo vivido por cada um. Assim, na
ação dialógica de educando-educador vira uma importante estratégia pedagógica
porque:
(...) só o diálogo de busca constante do saber, através das inter e trans-
reciprocidades de nossas perguntas e respostas, gera um genuíno
conhecimento. Um conhecimento que aspira habitar em cada um de nós
e entre todos nós. Só é um educador aquele que se recusa a sair do
diálogo. (DEMO, 2001, p.14)
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Nesse sentido, a prática dialógica também fundamentada nas concepções
de Bakhtin (1992) indica a importância dos aspectos éticos, políticos e
epistemológicos na constituição do atuante e capaz de partilhar, mediar o
conhecimento e desenvolver práticas culturais democráticas.
O processo dialógico desenvolvido na sala de aula promove a interação
dos múltiplos aspectos que envolvem a cognição, colaborando para que o homem
aprenda a ser homem e o conhecimento científico possa florescer.
De fato,é a partir da ação dialógica que educando-educador transcendem
para uma concepção da construção da identidade. Para muitos autores essa
questão também deve ser analisada a partir da premissa, que o homem constrói
seu conhecimento por meio de outros fatos que permeiam sua vida e que o
ensinar a aprender estes fatos é uma tarefa inter-relacional que pertence não só
ao educador, mas também ao educando com suas experiências e
problematizações, pois se entende que a construção do conhecimento científico
não é só, mas, também um agente para tal construção.
Com efeito, Japiassu (1999: 66) trata com muita propriedade esta questão
do conhecimento científico:
Ensinar a aprender, a se construir ou a se reconstruir, eis o papel do
educador. Todo progresso na educação está na construção do espírito,
não em sua domesticação. Só o educador que se considera um mestre,
não possui o sentido do fracasso ... Se queremos compreender o que
realmente se passa no real , precisamos exorcizar os erros que se
infiltram naturalmente em nossas primeiras construções do mundo
percebido. Precisamos deixar de considerar a incerteza como um sinal
de fracasso. E superar a rigidez das idéias recebidas... Daí a importância
de se refletir sobre a imagem das ciências que os alunos já se fazem.
Porque o empreendimento de comunicação científica , pelo ensino, deve
ser concebido como confronto de dois cognitivos distintos, não como o
confronto entre um conjunto pleno de ciência e um conjunto vazio de
conhecimento.
E mais:
Para o homem, o mundo é sua provocação, um lugar onde enfrenta
desafios e testa experiências . Por isso seu processo de aprendizagem,
deve exigir que seja dada tanta importância à compreensão quanto à
produção do saber. Porque é um ser essencialmente social. Por
natureza, político-cultural. Para ele, a sociedade não é uma seleção de
indivíduos perecíveis e substituíveis vivendo num território, falando uma
língua e praticando exteriormente certos comportamentos. Enquanto
indivíduo, o ser humano pertence a sociedade, não somente porque
participa de suas significações imaginárias, de suas normas e valores, de
seus mitos e representações, de seus projetos e tradições, mas porque
partilha da vontade de ser dessa sociedade e de seu contínuo fazer-se.
(JAPIASSU, 1999: 92)
Morin (2002: 26) oferece apoio, ao utiliza o conceito de cultura na
construção do conceito científico dentro de uma perspectiva plural da ação
dialógica ao enunciar:
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A cultura é constituída pelo conjunto de saberes, fazeres, regras, normas
, proibições estratégias, crenças, idéias, valores, mitos, que se transmite
de geração em geração, se reproduz em cada indivíduo, controla a
existência da sociedade e mantém a complexidade psicológica e social.
Não há sociedade humana, arcaica ou moderna, desprovida de cultura,
mas cada cultura é singular. Assim, sempre existe a cultura nas culturas,
mas a cultura existe apenas por meio das culturas.
Porque:
O ser humano é ao mesmo tempo singular e múltiplo. Dissemos que todo
ser humano, tal como ponto de um helograma, traz em si o cosmo.
Devemos ver também que todo ser, mesmo aquele fechado na mais
banal das vidas, constitui ele próprio um cosmo. Traz em si
multiplicidades interiores, personalidades virtuais, uma infinidade de
personalidades quiméricas... Cada qual tem em si galáxias de sonhos e
fantasmas (MORIN, 1993: 57)
Diante dos argumentos e citações apresentados acima é lícito afirmar que
a interação das múltiplas vozes que compõem o processo cognitivo tem a
possibilidade de construir através da prática do ensinar, concretizada na
perspectiva da dialogia. À medida que se interage com o outro, conhecem-se
suas culturas, seus saberes, seu cotidiano, suas práticas e constituí-se o modo
próprio de ler a vida conhecer o mundo. E tendo a ‘pluralidade dos sons’
envolvendo as múltiplas vozes que acompanham o processo inter-relacional com
as coisas.
A relação dialógica envolve sempre, duas consciências e sua ação é uma
relação com o sentido, constituindo as práticas discursivas efetivadas na sala de
aula.
E a palavra na ação do diálogo, conforme ressalta BAKHTIN (1997: 128)
está em todas as relações entre indivíduos. E para explicar a ubiqüidade social da
palavra, o autor diz:
(...) As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e
servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios. É
portanto claro que a palavra será o indicador mais sensível de todas as
transformações sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que
ainda não tomaram forma, que não abriram caminhos para sistemas
ideológicos estruturados e bem formados
Silenciar a palavra do outro é afastá-lo de suas próprias idéias e
pensamentos, podendo provocar-lhe uma concepção equivocada a respeito de si
mesmo, dada as condições de assujeitamento a que foi exposto. A palavra,
utilizável como signo, é material semiótico da consciência, ou seja, do discurso
interior. Apontando para o desempenho da palavra no desenvolvimento do
pensamento, Vygotsky (1991: 132) afirma que “uma palavra é um microcosmo da
consciência humana”
Servindo de mediação entre o educando e educador, a palavra tem seus
significados e sentidos constituídos na relação entre esses dois sujeitos. Portanto,
é de se refletir como está sendo trabalhada a linguagem que imerge dessa
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relação interpessoal, quais os significados constituídos nessa interação e como
está definido o papel do educador e educando nesta ação dialógica.
4. TERRITÓRIOS EM AÇÃO
A escola é uma das expressões mais conhecidas da cultura, mas parece
ser a menos compreendida tanto pelos governantes como por aqueles que a
freqüentam.
No contexto do poder dir-se-á da escola como aquela que reflete de
alguma forma as possibilidades e limitações de todo cidadão. Neste sentido, a
escola deve ser um sistema social que admite na sua composição interna a
formação de subsistemas de uma mesma índole.
Considerando-a como sistema não pode se negar a sua complexidade e ao
mesmo tempo reconhecer que uma de suas características é de promover
embates, discussões. Essas discussões decorrem da interdependência de seus
componentes. Professores e alunos não são simples participantes; muito pelo
contrário, são seres sistêmicos e complexos dentro de um sistema chamado
escola e sala de aula.
E a sala de aula, posta como um espaço situa-se como uma alternativa
para estar. A sala de aula, nesse sentido, partilha a categoria da espacialidade
com outros espaços, mas a forma de sua ocupação cria especificidade. Portanto,
não basta a existência possível de sala de aula para que se torne sala de aula.
Tal como um cenário, ela não se basta para que um enredo todo se desenrole.
Da sala de aula resta analisar o que lhe é essencial, isto é, o que sem o
qual deixa de ser o que é. Ao mesmo tempo, a sala de aula pode ser deslocada
para lugares os mais diversos possíveis, pois sua atividade essencial extrapola
limites físicos.
Historicamente a sala de aula foi e tem sido localizada no perímetro da
escola. Dificilmente se consegue pensar em sala de aula separadamente da
escola e vice-versa. A escola constitui-se o espaço social que procura garantir
minimamente o tempo para a sua ocupação. Cabe lembrar que a palavra escola
deriva do grego e significa lugar de ócio.
Formalmente, a sala de aula é ocupada pelas figuras do professor e do
aluno. O encontro ou desencontro entre estas figuras confirma a diferença como
elo que os relaciona. Relacionar-se pela diferença significa afirmar o outro, a
alteridade. Afirmar o outro é afirmar o próprio eu, pois o reconhecimento do eu
passa pelo reconhecimento do que é distinto, diverso.
No entanto, deve-se perguntar, por que reconhecer o outro? Tudo é
sempre o mesmo! Foucault (1980) diz que os olhos que são feitos para ver não
vêem e somente vêem quando são vistos. Lidar com o desconhecido é
extremamente desconfortável por isso o eu compreende esforços para enxergar e
compreender o outro. O próprio pensar, a mínima consideração sobre a realidade,
desdobra o eu num outro, numa distinção e ao mesmo tempo, a identificação não
é absoluta, pois um desaparece no outro. Portanto, o eu já é um outro e este já é
um eu. Como também diz Hegel (1992) “o ser em estado puro, indeterminado,
equivale ao nada”.
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A completude do eu encontra-se no outro. Mas o outro é sempre o outro e
se assim não for, a relação se desfaz. Por isso o outro permanece um
desconhecido, aquele que deve ser buscado sempre. Ser amante do outro é
perceber-se ignorante do outro. Afinal, amante é o que está fazendo algo. É o que
na Língua Portuguesa antiga se chamava de particípio presente. É o que faz e
continua fazendo, e o amante é o inesperado muito embora sempre desejado. Ele
é a diferença do estabelecido, do oficial. Ainda o amante não só aparece
distintamente, mas redescobre o que se tem e o que se desconhece. Assim é a
relação com o outro no sentido de redescoberta, de aluno, de professor. Assim é
o espaço da escola em todas as suas dimensões.
Como afirmado até o momento o outro precisa ser levado em
consideração, mas isso não deve ser tomado como se o outro fosse o eixo da
relação. Cabe mencionar aqui que o outro não é lugar de perfeição, mas como
pensa Marques (2003: 58) “(...) os indivíduos são capazes de se constituírem em
sujeitos, na medida que esses se percebem como parte de um coletivo, porque o
sentido se concretiza no outro”. Nesse sentido a completude entre o eu e o outro
não é de mero acoplamento, posto que não se trata de seres divididos que
buscam no outro sua metade. E a sala de aula é a relação entre o professor e o
aluno. Um encontra no outro sua identificação e, concomitantemente, sua
negação, pois o professor pressupõe o aluno e vice-versa. O professor nega o
aluno porque este necessita ir além do que é para tornar-se realmente o que é. O
aluno, por sua vez, nega ao professor o perfil do que ensina para cobrar-lhe a
aprendizagem, posto que o desconcerto provocado exige um novo olhar sobre o
outro, o aluno.
Assim sendo, resta ao professor perceber a experiência do aluno,
provocando o reconhecimento dele pelo próprio aluno e a realização mais
consistente de sua elaboração.
O professor, obviamente, não é a única mediação possível, às vezes, nem
a melhor, mas é um momento da relação e muito privilegiado porque está aí para
o outro. Nietzsche sugere que aquele que pretende estabelecer uma relação com
alguém tem que se perguntar se é capaz de conversar com esse alguém por
algum tempo. Conversar exige atenção à fala do outro. E a sala de aula enquanto
espaço de encontro é local de desafios, posto que é isso que resulta do estar com
o outro. O ato de estar junto deve ser investigado segundo o que possa ser mais
do que é. Por isso, professor e aluno necessitam estar constantemente aos ritmos
dos atabaques para não calcificar o próprio ser e inibir outras possibilidades.
Trata-se de um encontro entre humanos e, talvez, precisamente devido a
isso, tenham-se desencontros. Ser professor e ser aluno, estar na sala de aula e
manter a ação dialógica pede apreciação no que se pode neste espaço.
5. (DE) MARCANDO AS REFLEXÕES
O exercício de pensar e discutir o ensino e a ação dialógica para
desenvolver a prática pedagógica é desenvolver a educação, dentro e fora da
sala de aula, ao desafio do diálogo e criar métodos e meios para que ela se
realize como uma relação, dentro de ritos proveitosos em que a troca seja a
norma. Podemos dizer, nesse sentido, que a realidade da existência humana é a
experiência da relação. Acredita-se que essa relação pode ser descortinada em
todos os momentos do fazer pedagógico e do pensar a prática docente.
12
Em PALOMAR, encontram-se argumentos para essas constatações: “Não
podemos conhecer o nada exterior a nós se sairmos de nós mesmos. (...) O
Universo é o espelho que podemos contemplar só se tivermos aprendido a
conhecer em nós”
Em Giroux (1997:159) fundamentam-se as concepções de docentes que se
colocam como interlocutores. Concorda-se, sobretudo, em aprender a levantar
questões acerca dos princípios que subjazem as teorias da educação em vez de
aprender o “como fazer” o que muitas vezes é requerido na formação do docente.
Há que se privilegiar a reflexão sobre os problemas escolares, sem ditar normas,
cartilhas ou modelos. Há que se privilegiar, como argumenta Giroux (1997: 163) o
desenvolvimento de uma linguagem crítica atenta aos problemas relacionados a
prática de sala de aula .
O olhar neste trabalho, numa intenção de pesquisa qualitativa, foi de
buscar os ecos dos sons e os ritmos do discurso docente e discente analisado
com uma perspectiva de quem está dentro também do mesmo universo retratado.
Aqui voltam os sons e os ritmos: o pesquisador pesquisa sua própria ação e as
possíveis mudanças que elas provocam.
A opção foi por uma pesquisa qualitativa exploratória (Bell, 1997) mediante
entrevistas em profundidade, com o auxílio de um roteiro não estruturado, com
abordagem direta e pessoal que foi inserida na categoria “não convencional”
exposta por SOARES.
Durante o desenvolvimento da pesquisa, foram registrados as memórias,
ações, exercícios, expressões verbais e escritas de trabalhos dos professores.
Da leitura das memórias do docente retirou-se categorias em um outro
processo simbólico: que são os signos verbais e toda a sua representação
semântica.
Em relação aos alunos, extraiu-se das memórias dos depoimentos, dos
trabalhos e das atividades diversas em aula, dentre outras, as seguintes
categorias que enriqueceram esta pesquisa sobre a ação dialógica: criatividade,
convivência na diversidade, educação, transformação, relações interpessoais,
contextualização, inteligência emocional e sala de aula como espaço de
convivência.
Para dialogar com os dados anteriores foi realizado um mapeamento de
duas escolas públicas. Uma, situada no Parque São Vicente, Belford Roxo,
Escola Estadual Alice Paccini Gélio e a outra, Escola Municipal Golda Meir
situada na Avenida Sernambetiba 3300, dentro do Condomínio Barra Mares. Sua
clientela é separada por duas vias: Linha Amarela e Linha Vermelha. Separa-se
também, nesse sentido, a fartura, os privilégios, o mar, areia da praia, a brisa, o
vento, os carros importados, os condomínios de luxo, as novas tecnologias, o
desjejum, o almoço, o café da tarde e o jantar. Também são separadas pelas ruas
enlameadas, pelas praças que não existem, pelas áreas de lazer que nunca
saíram do papel. As escolas se separam pelo descaso do poder público, pelo
menino que é órfão e por todos aqueles que não têm voz. Uma de frente para o
mar e a outra de frente para o descaso das autoridades. Mas as duas escolas
gritam pela igualdade, seus sons ecoam nos lugares mais longínquos do
Universo. As duas sabem das travessuras dos Fundef’s e da sodomia do Banco
Mundial. As duas têm gente querendo chorar, rir, comemorar, bater palmas, tocar
tambores, afoxés, agogôs. Os dois espaços são assim: sabem o politicamente
correto. As duas são co-irmãs dos afagos e desabafos dos professores, por vezes
13
indignados e cansados destes aparthaids que ainda são comuns na sociedade
brasileira. Na Escola Estadual Alice Paccini Gélio, que fica a sessenta e dois
quilômetros de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, bairro classe Média
Alta da capital do Rio de Janeiro, foi entrevistada a Professora Verônica Osório e
foi perguntando o que ela achava sobre o diálogo travado entre o professor e o
aluno em suas práticas pedagógicas. Ela diz assim: “(...) o diálogo é fundamental,
pois através dele o professor conhece as necessidades do aluno e assim ele
pode realizar o processo ensino aprendizagem de forma eficiente”
E diz mais: “(...) através das experiências vividas em sala de aula constato
que as práticas educativas terão um efeito muito maior no processo se houver
uma interação entre professor e aluno”
Evidencia-se na fala da docente uma proposta dialógica que perpassa pela
mediação e interação com o outro. Neste processo percebe-se que a ação
dialógica, que também dá corpo ao conhecimento, é a relação na qual os sujeitos
se completam e se harmonizam, estando a verdade precisamente, na interação
entre eles.
Sobre a “vida” e sua condução foram entrevistados também alguns alunos
da Escola Golda Meir e mostrou-se pertinente o que se lê abaixo. É um
depoimento da aluna Rosineide Alencar. O que você acha da escola e qual
contribuição que a escola tem para sua vida?
“Minha vida é meio que um conto. Mas não é de fadas, não. Um dia tô
feliz, outros dias estou triste e as vezes mais ou menos. Acho que a
escola não representa tanta coisa. Eu não vejo ela modificar a minha
vida. Quando estou triste tento pensar o que fiz na escola para ver se eu
me alegro mas a primeira lembrança é a hora do recreio”
E as pinturas na classe. As aulas de desenho?
“Ah, essa até é boa. No desenho, às vezes eu conto algumas coisas que
eu não falo pela boca. Quando estou triste eu coloco no desenho,
quando minha mãe briga comigo eu também coloco e quando minha
professora também briga aí é que eu fico mesmo triste”
Neste fragmento, fica evidenciado que o conceito de escola e suas
contribuições não ficam muito claros. A estudante fala de sua vida, de suas
tristezas, mas não comenta como a escola poderia dialogar com suas angústias.
É necessário, educadores e sociedade, criar um espaço de discussão que
tente encontrar o significado de alguns conceitos na busca de esclarecer o
sentido de que se adquire na escola e na família.
E professora Gislane de Fátima do Carmo da Escola Estadual Alice Paccini
Gélio também enriquece esta pesquisa quando diz:
“ (...) uma educação de qualidade só se constrói no diálogo, na busca de
soluções em conjunto, através de discussões coletivas que levem a um
posicionamento crítico diante de um tema. Dialogar com o aluno é não ter
medo de atuar ‘no campo das emoções’ pois esse entrosamento
14
favorece à auto-estima do aluno, constituindo um poderoso instrumento
para a aprendizagem e o sucesso escolar”.
Entende-se, a partir da fala da docente, que para o sujeito se constituir é
preciso que esteja num contexto de palavras. Para que se construa a
subjetividade, é imprescindível entrar “no campo das emoções”, uma vez que o
psiquismo humano transcende o real. Até onde as palavras alcançam é o campo
do outro.
Se o jovem depende que nele alguém projete um ideal, face uma
idealização, na escola o aluno depende que o professor nele projete um ideal,
aposte algo sobre a sua aprendizagem. É salutar quando professores acabam
investindo na capacidade de um estudante ir além do que eles próprios puderam
ir. Nesse sentido o professor consegue direcionar vários alunos para o campo do
conhecimento por causa da sua relação com esse conhecimento. O aluno fica
implicado do ponto de vista do seu desejo, da sua história.
Do mesmo colégio vem uma contribuição valiosa da aluna Antônia Amérita
Araújo Oliveira. Ao responder o seguinte questionamento:
_ Os professores da sua escola dialogam com você. Isto é importante?
Ela responde:
“Nem todos. O diálogo seria importante, mas infelizmente não acontece
e isso prejudica um pouco o desempenho escolar do aluno. Do meu
ponto de vista, isso não me prejudica muito, pois tenho um bom
desenvolvimento com os professores mas para outros alunos isso é
muito prejudicial. Além do ensino fundamental das matérias, os alunos
precisam do diálogo com os professores, pois isso é algo que trás
facilidade ao estudante no compreendimento do estudo, não só com a
matéria mas também na forma de se comunicarem com o mundo”
E em outro questionamento.
_ Qual o sentido da escola para você ?
A estudante Antônia Amérita respondeu:
“Fundamental. É uma das primeiras portas a serem abertas na minha
vida, pois, é com o estudo que conseguimos conhecer e aprender algo
que a vida pede a nós. Não só nesse sentido, mas também me ajuda a
reconhecer e me ajuda a me dar melhor com que eu vou precisar no
futuro”
O “conhecer e aprender algo que a vida pede a nós” é uma fala perfeita
para ensinar e sinalizar que o mundo e a escola são tarefas bem mais complexas
do que há tempos , seja ainda pela manutenção do antigo paradigma, ou seja, em
particular, pelo papel atual da escola como espaço de fomentações.
Neste cenário os educadores da rede precisam e têm de lidar,
concomitantemente com diferentes desafios.
A estudante, o que é corroborado por esse pesquisador, acredita que
apesar de todas as dificuldades que as escolas públicas passam, a busca de uma
ressignificação tem que vir como desafio para se pensado coletivamente, ou seja,
juntos e conectado a proposta da estudante em projeto de vida, projeto
pedagógico e projeto de sociedade de modo que os estudantes possam
reconhecer este espaço como um local não somente de notas, conceitos e
15
conteúdos, entretanto, um local também no qual possa ser discutida a liberdade
de escolha, de ação, do gostar ou não deste espaço chamado escola.
Prosseguindo com as entrevistas, recebeu-se a contribuição da professora
Auriane, também docente da mesma escola da Baixada Fluminense exercendo
suas atividades pedagógicas na disciplina de Geografia. A pergunta foi mesma
da primeira professora entrevistada. Ela diz assim:
“Sinto necessidade de estabelecer com meu aluno uma relação de gente
para gente, com toda complexidade que esta relação implica. Lidar com
gente é difícil; às vezes, acontecem alguns embates próprios da
convivência com o outro, e , é preciso alguns cuidados para que não haja
ressentimentos e desavenças. Acho indispensável estabelecer elos,
laços; penetrar e ser penetrada pelo que me caracteriza como gente e
pelo o que faz do meu aluno gente, é o que me realiza como alguém que
acredita na parceria, não se vê como modelo, nem dona da verdade,
muitas vezes até, precisando refletir bastante sobre como encaminhar
algumas questões que no relacionamento aluno professor surgem,
precisando de resposta ou questões que sinalizam para áreas que fogem
ao meu controle”.
Neste depoimento Bakthin, Certeau, Malcher, Marques, Morin E Vygostsky
trazem várias contribuições. Entre outras, a de que o sujeito se constitui na
dialética das relações sociais.
As relações humanas criam, transformam e administram sempre espaços
heterogêneos entre si. Um bate papo pode ser considerado construção em si.
Todos os dias estes espaços são vividos, pois nascem das interações entre
pessoas, grupos, etc..., surgem subjetividades nascidas das relações
interpessoais, que crescem e transformam-se. Para tanto, não se pode perder de
vista a formação do educador. Educa-se pelo que se é. Ninguém consegue
educar quando existe uma dicotomia entre discurso e prática. Padre Vieira já
falava que palavras sem exemplos são tiros sem balas.
Continuando a entrevista a professora Auriane ainda tocou em pontos
muito relevantes. A docente continua, falando:
“O conteúdo tem personalidade, a personalidade de quem o está
passando, não é neutro. Conteúdo programático este, que é inócuo se
não estiver marcando a convivência que o professor e o aluno
estabelecem no processo ensino aprendizagem, fazendo as pessoas
envolvidas nesse processo serem melhores como pessoas no seu dia-a
-dia. Caso contrário, para que serve! Quem e não o que é que importa na
apreensão do conteúdo escolar; para que e por que deve o aluno
aprender o que a escola ensina! Sendo conteúdo por conteúdo, não vai
fazer os agentes envolvidos crescerem como pessoas, muito menos vai
criar vínculo de amizade, solidariedade... não fará do professor que é
gente, e do aluno que é gente seres complementares”.
Em face do exposto esta fala remete a questão de currículo. Com vistas
que a visão emergente de mundo e de pessoa possa ser traduzida no
desenvolvimento curricular da escola, é necessário todo educador ter atenção ao
que o currículo pode proporcionar. A professora Auriane com sua fala remete a
uma postura pluralista, não dogmática que conduza os alunos e professores a
uma atitude aberta para com as diversas abordagens do conhecimento, sem
16
prepotência, de modo a manter acesa a chama da curiosidade e interesse do
aluno pela escola, ao fazer cair viseiras e posições apriorísticas ligadas ao
paradigma dominante.
Há a necessidade das relações das partes que integralizam o todo. Eis a
questão do currículo. É a partir da integralização que se dá a complexidade que
se explica pelos múltiplos aspectos influentes no processo do pensar.
Para dar continuidade a reflexão é preciso ressaltar as palavras de Certeau
(1993:19):
Ao mesmo tempo em que a escola perde suas forças próprias, uma
grande parte da opinião reclama dela a solução de dois dos mais graves
problemas da sociedade contemporânea: uma redefinição da cultura, a
integração da juventude.
Uma instituição ou educadores que preparam jovens e que os impõe
determinados sistemas como mais corretos em detrimento de outros certamente
estará reforçando a atitude dogmática hoje vigente em alguns espaços e em
conseqüência estará preparando os jovens para repetir modelos fechando-se a
tudo o que se enquadrar às referências do espaço. Em decorrência, estar-se-á
cerceando a busca, a progressão, impedindo o crescimento da ciência e o
encontro de outras ou de novas explicações para os problemas existentes.
Continuando a entrevista:
“Sinto necessidade de estabelecer uma correspondência biunívoca,
passando e recebendo a bola; como num jogo de futebol que ninguém é
dispensável, a vitória não é de um jogador, é do time. Neste contexto, o
professor é um no processo ensino aprendizagem, sendo cada aluno
tendo que ser inserido, conduzido a perceber a sua importância no
processo. Quero ser importante não pelo conteúdo programático que sei
um pouco mais do que eles (e, que eles podem vir a saber mais do que
eu),mas pelo que construo na relação que se estabelece no processo
ensino aprendizagem. O conteúdo que levo para os alunos só tem
sentido se na prática objetivam o sucesso num exame seletivo (claro!),
mas também se representar o aprimoramento humano. Para mim não
tem sentido passar tanto tempo com o aluno, compartilhando só de um
espaço geográfico-físico, nada acrescentando e, em nada sendo
acrescentada; não há emoção! Máquina que é assim, justifica a que veio
sendo eficiente na sua função e apenas isso traça a sua importância. Sou
gente, meu aluno é gente e é com gente que nos fazemos gente! O
professor “conteudista” está pronto para ser substituído pelo robô, pelo
computador, já que só tem importância pelo conteúdo que carrega
armazenado em sua memória; nego-me a ser esse professor. Aliás, por
estar precisando mais do que a escola lhe oferece, esse aluno está
desestimulado, não há sentido em aprender por aprender, sem nada que
o envolva, o emocione. É assim que penso minha relação diária com meu
aluno, acreditando que nenhuma máquina pode me substituir, porque o
conhecimento que trago armazenado na memória é só um item; busco
ser referência para além do conteudismo”
Entende-se, que é sob este prisma também se coloca o trabalho de Morin.
Quando se diz: existo, não se quer dizer com isso que alguma coisa é dona ou
possuidora do eu, mas sim que o eu faz parte e está intimamente envolvido com
uma realidade maior do que o eu mesmo. Esta complexidade permiti que o
educador compreenda as teias das relações existentes entre todas as coisas .
Trata-se, porém, de uma mudança de mentalidade , que o educador percebe que
17
transformando a sua prática renovar-se-á para um caminho multidimensional
para além do conteúdo e das aulas tradicionais. A relação dialógica, neste
sentido, a partir da entrevista da docente, produz condições para que esta prática
renovadora e autônoma possa se solidarizar com outras e outros companheiros
de formação da educação.
A fala da docente, dialoga com a afirmação de Morin ( 1993: 77):
(...) a agonia planetária não é só a soma de conflitos tradicionais de todos
contra todos, mas as crises de diversas espécies, mais o surgimento de
problemas novos sem solução, é um todo que se nutre desses
ingredientes conflituais, de crise e de problemas, englobando-os,
ultrapassando-os e, por sua vez, alimentando-os(...)
Na relação dialógica, o ser humano desenvolve-se e organiza-se,
transformando-se. Como sujeito participa de seus grupos sociais, de sua cultura,
têm sentimentos e sente a necessidade de expressá-los, porque é gente,
humano. Nesta relação, a transdisciplinaridade surge como maneira de romper
com os limites entre as disciplinas, que fragmentam o saber e a visão de
educadores e alunos. A consciência reflexiva de si e do mundo implica uma
necessidade de mudança diante da vida. Morin (1993:100), nesse sentido,
afirma:
O problema da complexidade joga-se em várias frentes, vários terrenos.
O pensamento complexo deve preencher várias condições para ser
complexo: deve ligar o objeto ao sujeito e ao seu ambiente; deve
considerar o objeto, não como objeto, mas como sistema-organização
levantando os problemas complexos da organização. Deve respeitar a
multidimensionalidade dos seres e das coisas. Deve trabalhar-dialogar
com a incerteza, com o irracionalizável. Não deve desintegrar o mundo
dos fenômenos, mas tentar dar conta dele mutilando-o o menos possível.
Abaixo, foram lançadas perguntas ao aluno Vínicius Albuquerque França
da escola Golda Meir. Torna-se interessante visualizar as repostas.
- Qual a contribuição da escola em sua vida? Ele responde que :
“A escola me serve para eu ser alguém na vida”
-E o que é ser alguém na vida?
“É saber ler, escrever e falar bem também.”
- E através do voto, você pode contribuir para mudar a sua vida?
“Sim, eu tendo consciência do meu voto e votando certo, a
escola pode mudar, os professores também, a família e eu também.”
Esta fala também permite apreciar a função da escola ou do espaço
escolar. Entende-se que a posição do estudante Vinícius não é neutra. Este
estudante também pode ser sujeito transformador. Pode contribuir na formação
de si mesmo, de seu cotidiano, de sua história e na história da sociedade,
individual ou coletivamente, desde que na prática político-epistemológica da
escolarização se oportunize o transformar-se, o ser transformado e o transformar
simultâneo do contexto social, econômico, cultural em que está inserida. As
microrelações poderão surgir como toda e qualquer relação estabelecida pelo
sujeito. Pelos sujeitos. Pelos excluídos. Aqui se estabelece o saber poder de
Foucault.
A Professora Maria Helena Gomes Rodrigues de Paula, exerce suas
atividades didáticas na mesma escola da Baixada Fluminense, lecionando a
18
disciplina de Matemática. Foi perguntado o que ela achava do diálogo travado
entre professor-aluno em suas práticas pedagógicas. Ela diz assim: “O diálogo dá
oportunidade aos alunos de mostrar até que ponto eles são capazes de
formularem conceitos e melhorarem na participação das aulas.”
O lugar da sala de aula valoriza indivíduos como representantes bem
caracterizados de constituição e formadores de identidade. Os conceitos, em sala
de aula, podem ser constituídos a partir do outro ou constituindo-se de si mesmo.
Observem quando a docente diz: “eles são capazes de formular conceitos...” Essa
intencionalidade pressupõe a possibilidade de contribuição da educação da
escola, da Professora Maria Helena de Paula à transformação da sociedade.
Assim posto, em um exercício de sintetize, pode-se considerar que aula e
sala de aula podem ser compreendidas, como locais ou diversos locais, quaisquer
que sejam, onde ocorre uma relação de aprendizagem e desenvolvimento
recíproco entre sujeitos ou múltiplos sujeitos.
A aluna Maria Leonídia dos Santos da escola Golda Meir deu, também, sua
contribuição:
-Qual a diferença entre escola e família?
A estudante afirma que: “escola é onde se aprende e família é onde se
vive”. Ao questionamento foi perguntado se poderia ser ao contrário, ou seja, que
a escola é onde se vive e a família é onde se aprende! Ela respondeu
objetivamente que “sim”. Em seguida ao questionar a mesma aluna, na tentativa
de criar dúvida, foi perguntado se a escola e família (se ela concordava) ser local
de vivência e aprendizado? Ela, sem ponderar, riu e respondeu: “Se eu aprendo
na escola é porque eu vivo nela e se eu vivo em casa também aprendo nela”.
No primeiro momento de sua fala, Maria Leonídia estabeleceu diferenças
entre casa e escola. Em um segundo momento, na próxima pergunta estas
diferenças não mais foram estabelecidas. Ela percebeu que em suas relações
familiares algo também poderia ser apreendido, o que possivelmente, não se
aprende na escola, ou também se aprende? Depois descobriu que tanto no
espaço escolar e no contexto familiar algo se constitui. Cada um com sua
contribuição, sua constituição, com o seu conhecimento. Mas aprenderia? Ou
apreenderia? Quem sabe ainda a descoberta de acolher e ser acolhida, nos dois
espaços, sobretudo aquele que ao longo da vida tem sido sistemático e
organicamente excluído do saber e do próprio sentimento. Ser acolhido, ser
ouvido, ser escutado. A escuta como princípio básico da Democracia.
Possibilidade de ter direito a si mesmo, sem ser rejeitado, sem ter medo de sê-lo.
A possibilidade de falar de seu sentir, de sua dor, de sua alegria, daquilo que a
aflige no cotidiano: família, casa, rua, escola. Aquilo que a aflige a si mesmo, mas
tendo alguém para partilhar e compartilhar, ouvir, acolher, dar atenção. Contar
sua história, sua trajetória, rir de si mesmo, com o outro, brincar consigo e com o
outro. Ser. Enfim, um mundo de cultura historicamente produzida e acumulada
que passa pelo canto, desencanto, encanto, desenho, conto, poesia, pelo
impróprio, pelo cordel, pela estória de avós, pais. Ser. Sabedoria popular negada
por todos os positivistas, mas presentes nos jovens e adolescentes de escolas
públicas, de Belford Roxo a Barra da Tijuca, dos condomínios de luxo as classes
mais miseráveis e desprivilegiadas do Brasil, inerentes a um certo universo de
tráfico e traficantes, mas também ao universo do sentir e pensar.
19
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que se pretende defender neste texto não é que a escola se exima de
possibilitar a reflexão à cerca da ação dialógica, mas também ser instrumento e
espaço social aberto para tal reflexão entre discentes e docentes.
Como o objetivo é explicitar resultados de um processo, há que se
considerar que muitos deles ainda estão se tornando mais explícitos agora, ao
final de sua apresentação, pois a organização do conhecimento acaba mostrando
a gama de caminhos para seu alcance e a impossível missão de ter concluído ou
chegado ao final da busca. Mais essa é a razão do conhecimento, sua dinâmica e
constante mutação por isso a busca incessante e contínua.
A vida, bem como as experiências, são resultados de participação num
processo espiral em que se sabe o porquê perseguir: experiências e imperiências
também. A habilidade está em conseguir a seta do tempo, onde as experiências
se dão! O que foi que denotou o impulso...
Posto que não se pode antecipar resultados prontos e fechados, uma vez
que a pesquisa revela que a experiência é intransitiva. O artigo que foi
apresentado que é parte integrante de uma pesquisa não é um caminho até um
objetivo previsto, até uma meta que se conhece de antemão, mas uma abertura
diante do desconhecido, que não é possível antecipar. Portanto a experiência traz
a (in) certeza que a pesquisa não é a descrição de um código, mas a construção
de um sentido, de um olhar, abrindo possibilidades de re (significação).
Enfim, a pesquisa sobre a ação dialógica de professores de escolas
públicas não veio para mostrar um saber, um resultado a que se chegar, mas se
constitui um anúncio de provisoriedade do saber, uma verdade particular e
relativa - uma construção de ética e cidadania.
Aqui se enfatiza a importância da responsabilidade ética no exercício do
papel de professores e formadores de outros sujeitos.
Assim, o estudo encontra-se permeado pelo sentido necessário da ética
que conota expressivamente a natureza da prática educativa enquanto atividade
reflexiva. Portanto, uma ética afrontada na manifestação de qualquer forma
discriminatória, que envolve o crédito na capacidade do outro, que exige acreditar
nas pessoas e nas suas potencialidades e possibilidades de produção.
O trabalho pedagógico, a escola e à realização deve ser associada a um
empenho em buscar, nos acontecimentos produzidos pelos professores e seus
alunos, o que há de novo, de peculiar e potencial, com vistas a desmistificar
qualquer tipo de descrédito e despreparo do professor, mas averiguando a
possibilidade de que a escola, os professores e seus alunos, se lá estão é porque
há tempo para despertar esperanças, auto - estima e valorização. De fato, uma
nova cultura, uma nova postura e uma nova ética imposta pelo novo milênio, já
estão a se exigir.
Ao encerrar este artigo, (re) afirma-se que, cada vez mais, se estar
convencido da implementação de uma prática que advém de uma postura
reflexiva, considerando que alunos e professores são partes de um mesmo
processo, de um mesmo dizer, sem o qual ambos juntos, deixam de ter sentido.
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