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Colombina nomeia as agressões sofridas, os atos violentos do parceiro como:
estupidez, ignorância, cobranças, baixaria, brutalidade. Utiliza os seguinte verbos para se
referir às violências cometidas pelo parceiro: bater, perturbar, empurrar, agredir
fisicamente e verbalmente, provocar, magoar, brigar, (querer) matar, cortar, sair, ferir,
aprontar, machucar, ameaçar, esmurrar, infernizar, chorar, triscar a mão, espancar,
enforcar, pisar, quebrar (objetos), discutir, maltratar, gritar, arrumar confusão.
Nas narrativas de algumas experiências conjugais, a violência é significada de
maneira mais ampla: vai além do ato em si, situa-se no sentido subjetivo que ele toma, no
que ele comunica no contexto conjugal, na interpretação de sua intencionalidade. Quando
Colombina narra a cena na qual fingiu estar desmaiada na hora em que era agredida por
Arlequim, o que provocou maior dor foi o fato de o parceiro ter “pisado”, andado em cima
dela, o que ela interpretou como: “é como se eu não significasse nada pra ele”. A
violência não se limita ao dano físico, mas ao assujeitamento: ela não passa de uma coisa
sobre a qual ele pisa. Ela se sente tão negada, tão objeto, que não duvida de que ele seja
capaz de matá-la.
Por outro lado, se inicia o discurso referindo-se a outras violências que não a física
– verbal, psicológica – em determinados trechos parece significar como agressão apenas os
ataques físicos. Isso é exemplificado no trecho no qual narra uma briga. O marido ligou o
som alto para que ninguém conseguisse dormir em casa, lançou objetos, gritou,
“infernizou”, ameaçou, mas ela explica: “chamei a polícia (...), mas não porque ele me
agrediu”. Os sentidos atribuídos à violência servem para amenizar os conflitos gerados por
sua experiência; a percepção dos danos e riscos envolvidos e para justificar, sustentar o
vínculo amoroso.
Outra vez aparecem reflexões de Colombina sobre o seu posicionamento. Ela se
autocritica pela maneira como reage após as agressões, buscando amenizar a explosão,
controlar o parceiro e chegando a ter, como no episódio no qual o parceiro pisou no seu
corpo, relações sexuais com Arlequim (ela justifica que é para acabar com a briga). É
como se cobrasse de si mesma uma atitude mais firme diante da violência do parceiro. Esta
forma de agir faz com que ela se veja como “uma pessoa assim que não se dá valor
entendeu, que não pensa na vida, uma pessoa apagada”. Este modo de se ver aparece
quando ela fala do impacto da violência. As imposições/restrições do parceiro fizeram com
que ela perdesse o prazer, a vontade de rir, com que perdesse a convivência com amigos e
parentes: “eu me apaguei da minha vida e do mundo”. Como reagir e enfrentar a violência
de outro modo, se está apagada? É costumeiro pensar que as mulheres que sofrem
violência dos parceiros não reajem, mas é preciso considerar que a violência, o impacto