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identificavam bem natural com prazer e mal natural com dor
267
. Na terminologia de
Kail, no sistema humeano o valioso é o prazer e a dor; pois o filósofo escocês
afirma:
Ora, como a virtude é um fim, e é desejável
por si mesma, sem retribuição ou recompensa,
meramente pela satisfação imediata que
proporciona, é preciso que haja algum sentimento
que ela toque, algum gosto ou sensação interior, ou
como se quiser chamá-lo, que distinga entre o bem e
o mal morais, e que abrace o primeiro e rejeite o
segundo.
Assim, os distintos limites e atribuições da
razão e do gosto são facilmente determinados. A
razão transmite o conhecimento sobre o que é
verdadeiro ou falso; o gosto fornece o sentimento de
beleza e deformidade, de virtude e vício. A primeira
exibe os objetos tal como realmente existem na
natureza, sem acréscimos ou diminuição; o segundo
tem uma capacidade produtiva e, ao ornar ou
macular todos os objetos naturais com as cores que
toma emprestadas do sentimento interno, erige de
certo modo, uma nova criação. A razão, sendo fria e
desinteressada, não é um motivo para a ação, e
apenas direciona o impulso recebido dos apetites e
inclinações, mostrando-nos os meios de atingir a
felicidade ou evitar o sofrimento. O gosto, como
produz prazer ou dor e com isso constitui felicidade
ou sofrimento, torna-se um motivo para a ação e é o
princípio ou impulso original do desejo e da volição.
A partir de circunstâncias e relações conhecidas ou
supostas, a primeira nos conduz à descoberta das
que são oculta ou desconhecidas. O segundo,
quando todas as circunstâncias e relações estão
dispostas à nossa frente, faz-nos experimentar [feel]
diante desse todo um novo sentimento de censura
ou aprovação (E 293-294)
268
.
267
Cf. KAIL, 2007, p. 176.
Por exemplo, para Locke, de acordo com MacIntyre, “Bom” é o que causa prazer ou diminui a dor;
“mau” é o que causa dor ou diminui o prazer. O “bem moral” é a adequação de nossas ações a uma
lei cujas sanções são as recompensas do prazer e os castigos da dor”.
Cf. MACINTYRE, 2006, p. 176.
268
Com essa citação em conjunto com E 291-292 temos a chamada doutrina do projetivismo de
Hume, compartilhada por vários autores em diferentes versões, inclusive Kail, que basicamente
afirmam que: nós tingimos e douramos os objetos naturais com as cores de nossos sentimentos,
efetuando assim um tipo de criação. Virtudes e vícios não se encontram nas ações e nas pessoas,
são sentimentos que nós experimentamos (feel) e projetamos nas coisas.
Outras interpretações projetivistas de Hume:
-S. Blackburn em seu expressivismo ou projetivismo complementado com o “quase-realismo” aceita,
em linhas gerais, o argumento humeano de que se a moralidade é prática (ou seja, se o que
pensamos ser certo ou errado nos fornece um motivo para agir ou deixar de agir de determinado
modo), então as considerações morais devem estar do lado dos afetos e não das crenças. O cerne,
então, de uma posição expressivista ou projetivista em ética, diz Blackburn, reside na crença de que
a essência da ética está em sua função prática: “A linguagem ética não está aí para descrever fatos –
os fatos éticos – ou para dar uma descrição peculiar de fatos naturais comuns, mas para exprimir as
respostas a serem dadas por nós às coisas”.
Cf. BLACKBURN, 1984, pp. 83, 170-171.