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UNIVERSIDADE DE MARÍLIA — UNIMAR
EDSON MODESTO DE ARAÚJO JÚNIOR
A CONSTRUÇÃO DA PERSONA MIDIÁTICA DE LULA.
Marília
2007
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UNIVERSIDADE DE MARÍLIA — UNIMAR
EDSON MODESTO DE ARAÚJO JÚNIOR
A construção da persona midiática de Lula.
Dissertação apresentada ao programa de mestrado em
comunicação da Universidade de Marília FCETUR —
Faculdade de Comunicação, Educação e Turismo, como
requisito parcial à obtenção do título de mestre.
Orientadora: Profª Dra. Nícia Ribas D´Ávila
Marília
2007
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A minha eterna orientadora, Nícia D’Ávila
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“Todo parecer é imperfeito: oculta o ser; é a partir dele
que se constroem um querer-ser e um dever-ser, o que já é
um desvio do sentido. Somente o parecer, enquanto o que
pode ser – a possibilidade –, é, vivível”
A.J Greimas
“Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”
Fernando Pessoa
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AGRADECIMENTOS
Não sou nada sem ti, Deus meu.
Aos meus Pais, pelo incentivo e pelo amor incondicional.
A você Fuba pelo companheirismo, apoio e compreensão.
À tia Angelina, pelos puxões de orelha, encorajando-me na elaboração dessa pesquisa.
Jamais consiguirei expressar aqui a altura do devido merecimento de minha amiga e orientadora,
Prof
a
. Dra. Nícia Ribas D’Ávila que, acreditou no meu sonho e projeto, fazendo-o tornar
realidade. Obrigado professora, pelos ensinamentos, pelo encorajamento na hora do desânimo,
pelas longas madrugadas que sei que dedicou a nossa pesquisa. Obrigado pelo desafio que me
apresentava a cada dia, pelas broncas que me fazia refletir e tomar um novo rumo; obrigado pelo
comprometimento que tens como professora, educadora e sobretudo com a ciência.
Muito obrigado minha amiga, serei eternamente grato.
Ao Prof
o
. Dr. Silvio Santana, pelos questionamentos e ensinamentos necessários na qualificação
desse trabalho.
À Prof
a
. Dr. Elêusis Camocardi agradeço pelo apoio e orientação na elaboração de meu Pré-
Projeto, pontos fortes para o meu ingresso no programa de mestrado e pela inegualável presença
na banca de qualificação e defesa.
Ao Prof
o
Ms. Roberto Reis pelas dicas e por sempre ter se mostrado totalmente pronto e a
disposição com informações, bibliografias de grande valia para o ingresso no programa de
mestrado.
A você Rosangela, nossa querida Rô, pela paciência e amizade em todos esses anos.
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RESUMO
Esta pesquisa visa a conduzir destinatários ao entendimento das estratégias que regem os
discursos das campanhas eleitorais na busca de evidenciar a construção da persona de um
candidato ao comando da Nação. Sob a perspectiva das teorias semióticas greimasiana e
daviliana (análise verbo-sonora), identificamos os processos de produção que configuram as
modalidades do ‘persuadir’ e do ‘convencer’ nos textos políticos e os efeitos de sentido gerados
por meio de sua organização sintática e semântica.
Para alcançar o objetivo desejado, delimitamos o corpus deste estudo ao discurso
proferido por Lula poucos dias antes da eleição presidencial de 2002, visando a qualificar o
eleitor como um destinador do Poder ao mandante citado, à sua eleição, e a si mesmo, como um
auto-destinador, no papel de mandatário ideal. É na busca do "/fazer-crer/ para /fazer-agir/" que
se caracterizam os discursos de manipulação que propusemos desenvolver nessa pesquisa.
Palavras- chave: Semiótica, Marketing Político, Lula, Discurso, Persuasão.
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Abstract
This research seeks to conduct destinators to the knowledge of strategies that guide
electorial campaings speeches looking foward to make evident the construction of one
candidate´s persona in the lidership of a Nation. Under the perspective of Greima´s and
D´Ávila´s (verb-sonorous analysis) semiotics theories, we identified the processes of production
that configures the forms of 'to persuade' and 'to convince' on political texts and the sense of
effects caused throught its syntactical and semantics organization.
In order to achieve the desirous objective, we restricted the corpus of this present study to
Lula´s given speech just a few days before the 2002 presidential election, seeking to classify the
elector as a destinator of Power to the mentioned commandant, to his election, and to himself, as
a self-destinator, on the role of the ideal mandatary. It is on the search of "/do-believe/" to
"/make-proceed/" that all speeches of manipulation individualize them selves on the study that
we suggested to develop.
Key-words: Semiotics, Political Marketing, Lula, Speech, Persuasion
.
7
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
Elucidações Gerais.............................................................................. 10
CAPÍTULO 1 – A POLITICA COMO PROCESSO HISTÓRICO
1. Um pouco de história política brasileira.....................................22
1.1 Trajetória de Lula. Personalidade e Carisma..............................26
2. Marketing Político e o poder da imagem...................................27
2.1 Publicidade Eleitoral e Propaganda Política..............................30
CAPÍTULO 2 – METODOLOGIA
E GÊNESE DA SIGNIFICAÇÃO
1. A Teoria Semiótica de A.- J. GREIMAS....................................35
1.1 Visão Semiótica do Discurso Político.........................................38
2. A Semiótica Não-Verbal e Sincrética de N. D’ÁVILA..............50
2.1 Simbolismo e semi-simbolismo..................................................52
CAPÍTULO 3
ABORDAGEM SEMIÓTICA DO TEXTO/ DISCURSO.
1. O CORPUS verbo-sonoro..........................................................70
8
2. A Manifestação Verbal - (Teoria de A.- J. GREIMAS)................71
2.1 O Percurso Gerativo do Sentido Verbal ........................................73
2.2 Níveis de estruturação do sentido...................................................77
a) Estruturas discursivas................................................................77
b) Estruturas sêmio-narrativas superficiais....................................85
c) Estruturas sêmio-narrativas profundas......................................102
2.3 Isotopias Figurativas e Temática....................................................105
3. A Manifestação Rítmico-sonora (Teoria de N. D’ÁVILA)..........106
3.1 O Percurso Gerativo do Sentido Musical......................................108
3.2 A Síncopa e os Projetemas............................................................114
CAPÍTULO 4
RECONSTRUÇÃO DE UM PERSONA.
1. Variantes espácio-temporais........................................................126
Considerações finais
Lula, O Poder e suas contradições: .........................................................132
BIBLIOGRAFIA.....................................................................................135
9
INTRODUÇÃO: Elucidações gerais.
Desde que decidi ingressar na faculdade de jornalismo, sempre me entusiasmava quando
tinha oportunidade de ler e debater sobre o tema “retórica”. Em minhas inquietudes sempre
buscávamos entender como funcionava o mecanismo de fazer mudar mentes por meio da arte
retórica. Após terminarmos a faculdade e já trabalhando com comunicação midiática, percebemos
a notoriedade e imponência que a as palavras têm em mudar conceitos, construir verdades e criar
cenários. Chegamos à conclusão de que deveríamos voltar à academia e tentar acalmar as
indagações que nos propunhamos investigar. Logo nos sentimos envolvidos pela política e
retórica que, a nosso ver, está intrinsecamente ligada, com diferentes patamares persuasivos para
a produção de sentido, conduzindo-nos à escolha do corpus que desenvolvemos, sob pesquisas,
como dissertação.
Já no mestrado, tivemos a felicidade de sermos apresentados à Semioticista Greimasiana
Professora Doutora Nicia Dávila e percebemos no transcorrer dos seus cursos, a importância da
semiótica na análise do tema: “A construção da persona midiática de Lula”. Por meio da
semiótica, procuraremos demonstrar o modo pelo qual os discursos ganhavam significados,
dando um sentido ao texto, e como neste o sentido é articulado. A escolha do tema sobre Lula
não nasceu por acaso. Toda pesquisa surge a partir de uma observação que se torna uma
inquietação. Quando nos deparamos com uma nova expressão ou nos aproximamos de uma nova
situação que a princípio nos parece estranha, ambígua, embaraçosa ou "sem sentido", e
concluímos, em seguida, que ela também, tal como as expressões e as situações familiares, "quer
dizer" algo ou simplesmente "faz sentido", nem sempre nos damos conta da importância desse
fazer e desse querer que revelam o sentido em sua natureza, ao mesmo tempo estrutural e
dinâmica. Já dizia A.J. Greimas “Parece-nos que o mundo humano se define essencialmente
10
como o mundo da significação. Só pode ser chamado ‘humano’ na medida em que significa
alguma coisa” (Greimas, 1966:11).
Ao depararmos com a história pregressa de Lula e sua trajetória até à Presidência da
República, buscamos algumas perguntas que, nesse trabalho, propomos responder ou ao menos
elucidar. Lula é sem dúvida um fenômeno. Conseguiu transformar sua imagem de político de
esquerda radical, para o de um “salvador da pátria”, em 2002. Depois de três derrotas
presidenciáveis conseguiu obter a maior votação da história da democracia brasileira. A pergunta
chave é: Lula realmente mudou? Se mudou, como essa imagem foi reconstruida? Além dos
aspectos óbvios que percebemos como uma fala mais pautada, uma indumentária mais politizada,
o que mais mudou por trás de tudo isso? Nossa pesquisa pretende ser um estudo em relação à
construção da imagem e não a de situá-la no âmbito meramente político. O que levaremos em
questão é a capacidade de argüir e manipular o eleitor na perspectiva de alcançar o fim
estabelecido: a Presidência da República. Outra pergunta que procuraremos responder é qual a
dimensão dessa mudança? A busca do Poder está acima de qualquer disputa ideológica?
De acordo com Michael Foucault (2004), filósofo francês, o discurso vive a dinâmica
entre o desejo e o poder. Não existe a possibilidade de haver nos discursos um sujeito de
plenitude cuja individualidade teria uma representação original. Para Foucault, o discurso atesta,
antes, a dispersão desse sujeito, que nele aparece como uma posição, funções vazias prontas a
serem ocupadas. Diz ele:
suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo
controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de
procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu
acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. (Foucault,
2004:68)
11
Nossa perspectiva acerca do discurso político de Luis Inácio Lula da Silva será a de
estudar como um processo de reconstrução da linguagem verbo-sonora por meio da significação,
o conhecimento do mundo das relações apresenta-se como primordial. Essas relações
estabelecem o que interpretamos como conjecturas, sistemas epistêmicos não determinantes,
podendo pensar-se nos sistemas de crenças, de convicções, de pressuposições e, por fim, nas
ideologias.
Ainda em relação ao nosso tema, pensamos na construção da persona midiática, por tratar-
se de uma análise do material televisivo da campanha presidencial de 2002. Nesse contexto, a
mídia será apenas pensada como um objeto modal, ou seja, apenas como um mediador para
propagar a informação assim como um instrumento coadjuvante de interferência na construção de
sentidos e significados. Assim, o caráter visual somente será abordado quando imprescindível à
reconstrução do instante.
Escolhemos esse período na vida de Lula, por tratar-se do seu apogeu na carreira política.
O que se percebe é que durante o período citado, Lula apresentou uma mudança relativamente
gradativa em relação às propostas e estratégias políticas nas campanhas eleitorais precedentes.
É realmente em 2002, com a sua vitória presidencial, que essa mudança fica mais nítida.
Apesar de Lula não admitir que as ideologias do partido mudaram, ele reconhece que “está mais
light”, e que o partido sofreu uma evolução, desde que começou a concorrer ao posto da
presidência da república em 1989; é em 2002, que a sua transformação fica mais evidente e, de
fato, assumida. Pensando no contexto semiótico, no qual a significação se dá pelas diferenças,
buscamos esse período da vida de Lula por pensarmos ser o mais rico em significados.
Em nossa pesquisa, as buscas desses significados nos discursos de Lula terão duas
vertentes de questionamentos; a primeira – demonstra a perspectiva de como o sujeito Lula
12
constrói seus discursos com intencionalidade de manipular o eleitor a fim de ser aceito para o
posto de Presidente da República. O que nos interessa, prioritariamente, não é somente o que
narra o texto, mas como o texto narra. É assim que a semiótica nos encaminha para um primado
do racional (e não da intuição e da sensibilidade) para a fixação de uma gramática do conteúdo,
que segundo D’Ávila (1999), é constituída por um razoável número de esquemas e inúmeras
regras que, engendrando um impredizível número de combinações, explicam grande parte das
indagações do espírito humano; a segunda vertente, reside na perspectiva do eleitor –
denominado pela semiótica, nesse trabalho, como enunciatário, na medida que este recebe a
mensagem dando um novo sentido ao texto ou discurso.
O sentido é uma construção. Construção de quem o produz e reconstrução de quem o
apreende. Um texto (verbal ou não verbal) é um artefato portador de sentidos, mas não constitui
uma pura dádiva em que esses sentidos sejam diretos e imediatamente apreendidos. Um texto não
nos dá sentidos de “mão beijada”; nele os sentidos são engendrados pelo destinador ao longo da
sua própria “tessitura”. Diante disso, a necessidade de a leitura ser uma técnica e um esforço de
construção em vários níveis. Começa-se por ser uma sensação tímica
1
advinda da totalidade
narrada da frase e dos períodos que vão, aos poucos, compondo a substância do conteúdo capaz
de produzir efeitos de sentido ou ilusões referenciais. Não é ainda a exposição do sentido
articulado e analisado sob a condição de forma do conteúdo de significado absoluto. Quanto à
substância da expressão (significante) contamos com elementos grafados, físico-químicos, se
manifestados no papel; ou fônicos, quando em realização sonora valendo-se de um sistema. A
Forma da expressão é definida por meio do sistema pelo qual a manifestação se faz apreender. A
1
A sensação segundo D’Ávila, provém de tímia (thymós em grego), significando temperamento “disposição afetiva
fundamental”. A timia é formada pela euforia e disforia tendo aforia como termo neutro. Dicionário Greimas s/data
p/ 462-463.
13
substância, como processo, variável, precisa da forma como sistema invariável para manifestar-
se.
O percurso dessas fases concebe uma gradação de exigências. Muitas pessoas - justamente
a maioria do eleitorado brasileiro – são capazes, apenas, de captar os efeitos de sentido dos
discursos acabados. Mas o importante é salientar que mesmo essa maioria não sendo capaz de
fazer uma “leitura” mais profunda do discurso “lulanês”, buscando elucidar os mecanismos
manipulatórios que existem em qualquer discurso político, ainda têm uma capacidade
mobilizadora em mudar o próprio sujeito desse discurso.
Aconteceu, no entanto, que durante muito tempo a interpretação dos textos ficou entregue
à intuição, ao espontaneísmo, ao nosso "sentimento lingüístico", às formulações perfeitamente
subjetivas do tipo "Eu entendo que...". O sistema foi funcionando porque as análises recobriam-se
umas às outras, e porque havia de fato um consenso mínimo entre as várias leituras. Mas, como é
evidente, essa prática não poderia ter pretensões científicas.
A Semântica (estudo das significações linguísticas) sempre teve dificuldades em ser
reconhecida como ciência. Primeiro, foi preciso descobrir, segundo Hjelmslev, que o sentido é
forma e substância da expressão e também forma e substância do conteúdo; só essas duas formas,
naquela época, seriam capazes de explicar cientificamente a significação. Somente depois de ter-
se eliminado a perspectiva subjetiva e de ter-se dado à significação uma metodologia para análise
de cunho lógico-filosófico é que o estatuto científico da Semântica começou a se impor.
A Semiótica da Escola de Paris, qualificada como Teoria da Significação veio dar uma
contribuição estimável para a ciência do estudo dos sentidos rejeitando o empirismo reinante e o
imediatismo falacioso. A semiótica – e é nisto que ela se distingue da semiologia – declarou sua
operatoriedade concernente a compreender as condições imanentes de produção do sentido.
14
Este trabalho sobre análise dos discursos políticos tem seus alicerces fincados nos
trabalhos da Escola Semiótica Francesa, a "Escola Semiótica de Paris", onde continua a
pontificar, pelo menos em espírito, Algirdas Julien Greimas.
A análise que propomos não se limita, contudo, a uma perspectiva unicamente na
semiótica objetal greimasiana. Essa vale-nos aqui enquanto orienta a exploração dos sentidos
verbais, enquanto nos faz perceber a dinâmica da significação e nos mostra que o sentido não é
um palpite, ou apenas uma evidência. Um discurso qualquer não pode ser julgado apenas como
um objeto construído ou como um resultado da desconstrução aleatória. Um discurso como
resultado de um ato de comunicação é um fazer, uma atividade que se polariza entre duas
instâncias: uma que produz o sentido, escrevendo-o; outra que (re)produz, recebendo-o como
entidades estáticas que se dinamizam no ser dos personagens que buscam pelo discurso encontrar
suas identidades.
O discurso assim entendido é lugar de operações enunciativas ou discursivas. Ele, quando
escrito para ser oralizado enquadra os sujeitos enuncivos ou textuais num contexto historicamente
social. É neste particular que pensamos na análise do discurso como uma abordagem histórico-
ideológica, pois ao produzir um discurso estamos não apenas utilizando um código de
comunicação – língua – mas também informando o destinatário sobre quem fala, porque fala,
qual o estilo utilizado na fala e o “feed back” imediato e retardado.
Dessa forma, nessa proposta de análise dos discursos políticos de Lula, o objetivo é duplo
como também o é a sua fundamentação – compreender as estratégias que regem os discursos na
construção da persona de Lula, por meio de uma análise em teoria greimasiana, identificando os
processos de produção que configuram o caráter persuasivo dos textos políticos e os efeitos de
15
sentido gerados por meio de sua organização sintáxica, semântica verbal e sonora; e, por outro
lado, identificar o poder dos eleitores na condução do percurso político e estratégico de Lula.
A partir da teoria de Greimas, num primeiro momento, procuraremos abordar a estrutura
contida no texto verbal a partir de seus conjuntos significantes. Em um segundo momento, sob a
teoria semiótica de D’Ávila (2004) – uma continuidade da semiótica greimasiana – analisaremos
o caráter não-verbal (sonoro) apreendido das falas no vídeo do discurso de Lula como um
processo que, segundo a teorização, desencadeia um “fazer-fazer” no destinatário, seja o mesmo
“pretendido ou não pretendido da mensagem”.
A semiótica: escolha para a realização da pesquisa
A semiótica, que tem no Brasil um dos principais pesquisadores da América Latina, Nícia
D’Ávila, discipula direta de A.J Greimas e J.C Coquet, mostrou-se uma ferramenta
indispensável, adequada e coerente para auxiliar-nos em uma investigação profunda do discurso
sincrético. A teoria permite examinar o texto como objeto de comunicação entre sujeitos e
também como objeto de significação, tornando possível, em outras palavras, uma análise
imanente – ou estrutural – e uma visão transcendental – que examina o texto como objeto
cultural, inserido numa sociedade de classes e construído em função de uma série de coerções,
tanto ideológicas como de formato da própria mídia.
Estamos falando em análise imanente e transcendente por mera diferenciação. Segundo
D’Ávila
2
, o texto só existe quando concebido nessa dualidade que o define – objeto de
significação comunicativa e objeto de comunicação significativa.
Pode-se definir a teoria semiótica de Greimas com uma única palavra: rigor; e é o rigor
metodológico que se teve pretensão de aplicar para analisar os discursos de Lula. O projeto
2
D’Ávila, Nícia – Unimar Apostilas “Secomlin” 2005. Teoria de Jean Claude Coquet.
16
semiótico, contudo, não é uma forma pronta. Uma das áreas em construção é justamente a de
exame de textos que utilizam várias linguagens simultâneas para produção de sentido, a chamada
semiótica sincrética.
No início do trabalho, pensou-se que seria possível mostrar a teoria durante a aplicação
nos textos escolhidos, mas nas primeiras análises ficou clara a necessidade de reunir alguns
conceitos para que não ficassem repetitivos, e escolher alguns caminhos teóricos em áreas ainda
em debate. Nasceu, então, o capítulo Metodologia - uma parte mais assumidamente didática da
dissertação.
Durante a realização desta pesquisa, Luis Inácio Lula da Silva exerce a função de
Presidente da República. Obviamente é vasto o material disponível na imprensa e nos órgãos
oficiais após o dia 27 de outubro de 2002, data do corpus que apresentamos para a efetuação
desta pesquisa, até a presente data. Contudo, a análise estará restrita até o momento em que Lula
pleiteava ser eleito. Tal recorte deve-se a motivos metodológicos e aos objetivos propostos neste
trabalho.
Organização da dissertação
A presente dissertação está estruturada em quatro capítulos além da introdução e da
conclusão.
Em um primeiro momento fragmentos da história da política brasileira e explicitamos o
decorrer da trajetória de Lula, desde quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos até à
eleição de 2002. Ainda no primeiro capítulo é elaborada uma breve apresentação do poder da
imagem e da função do marketing no processo político.
17
O segundo capítulo foi idealizado não só para fazer uma breve apresentação sob as quais
examinaremos o assunto mas, para fundamentar – dentro dos limites de uma dissertação de
mestrado - as bases da análise a desenrolar-se nos capítulos seguintes. Buscou-se discutir e
entender o sincretismo de linguagens. Explicitamos resumidamente as teorias: do verbal e do
não-verbal. A partir daí, abordamos alguns conceitos já sedimentados da teoria, notadamente na
análise do plano de conteúdo dos textos, para examinar outros, como as relações entre os
elementos verbais e não verbais nos efeitos de sentido. Buscamos também definir a importância
da proxêmica e da hierarquia entre elementos verbais e não-verbais no texto sincrético. A
proxêmica, em semiótica, visa analisar os sujeitos e os objetos no uso e na disposição que
desenvolvem no espaço para fins de significação (Greimas & Courtés, s/data: 359).
No terceiro capítulo analisaremos o corpus, efetivamente, apreendido por meio da análise
semiótica com a utilização da metodologia teórica explicitada no capitulo anterior. Em seguida, é
elaborada uma reconstrução do sentido dos discursos que se constitui da análise das estruturas
superficiais (discursivas) às estruturas profundas (sêmio-narrativas), visando descrever a
Substância e Forma do conteúdo, até atingir a composição da estrutura elementar da significação
- o quadrado semiótico.
O quarto capítulo é uma perspectiva do destinatário-eleitor, que nos elucida sobre a
importância do imaginário coletivo na acepção da reconstrução de uma persona. Esse capítulo
tenta responder como a mensagem atinge o destinatário e como ele se apropria dessa mensagem,
através da “triagem pós-reflexiva” (D’Ávila, 2003), a partir da fenomenologia da percepção que
se configura em: sensação, percepção e reflexão, defendida por Merleau Ponty.
18
Porque Lula?
A força de um político por meio de seus discursos pode ser calculada pelo total de
corações e mentes que cativa. Luis Inácio Lula da Silva foi eleito Presidente da República com a
maior votação da história da democracia brasileira, ascendendo ao posto depois de 22 anos,
fazendo parte da oposição política nacional. Desde 1980, quando fundou o Partido dos
Trabalhadores, doravante PT, Lula sempre esteve em evidência nas mídias nacionais pela sua
trajetória e por suas idéias extremistas sobre a política social e econômica brasileira.
Em 2002, Lula foi eleito pelo voto direto sendo o primeiro presidente brasileiro oriundo
da classe operária na maior eleição realizada no país, em que 115 milhões de eleitores definiram
nas urnas seu futuro político. O fato justifica, por si, a importância de conhecermos melhor o
fenômeno. Mas ao elegermos o discurso proferido na campanha de 2002, como objeto deste
estudo, nosso mote foi tentar apreender as relações semióticas e dialogadas no período, de modo
a articular o lingüístico e o social, vinculando a linguagem (verbal e não-verbal) à ideologia com
todo; seu caráter plural, dinâmico e vivo.
A função da nossa Persona
Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos;
através dela nós nos relacionamos com os outros. A persona inclui nossos papéis sociais, o tipo
de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo persona foi
cunhado por Jung (1992:146) a partir da máscara utilizada pelos atores no antigo teatro grego.
Conforme assinala Jacobi (1976) tratava-se de uma máscara rígida, de modo que se neutralizava
qualquer contribuição pessoal do ator, uma vez que o teatro grego abordava dramas universais,
muito mais que o destino dos indivíduos. Em todo caso ela constituía um disfarce por trás do qual
o individuo se anulava em nome do coletivo. Mas especificamente, estamos falando de
19
uma atitude piscossocial que atua como intermediária entre o mundo interior e
mundo exterior, um tipo de máscara que desenvolvemos para exibir uma fase
relativamente consistente para o mundo exterior, através da qual aqueles com quem nos
encontramos possam relacionar-se conosco de modo adequado. (Jocobi, 1976:36).
A persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Uma persona dominante pode
abafar o indivíduo e aqueles que se identificam com sua persona tendem a se ver apenas nos
termos superficiais dos seus papéis sociais e de sua fachada. Jung (1992) chamou também a
persona de “arquétipo da conformidade”. A persona pode ser considerada um instrumento
precioso para a comunicação. Nos dramas gregos, as máscaras dos atores, audaciosamente
desenhadas, informavam a toda a platéia, ainda que de forma um pouco estereotipada, sobre o
caráter e as atitudes do papel que cada ator estava representando.
Segundo Jung (1992:23), “entre os símbolos comumente usados para a persona, incluem-
se os objetos que usamos para nos cobrir (roupas, véus), símbolos de um papel ocupacional
(instrumentos, pasta de documentos) e símbolos de status (carro, casa, diploma)”. Na psicologia
junguiana, o arquétipo de persona atende a um objetivo semelhante: da possibilidade de compor
uma personagem que necessáriamente não seja ele mesmo, mas tão somente uma máscara ou
fachada, ostentada publicamente com a intencionalidade de provocar uma impressão favorável a
fim de que a sociedade o aceite.
A construção da persona é imprescindível à sobrevivência no meio social. É por meio
dela que o indivíduo se atualiza e desempenha papéis temáticos. A exemplo, Lula quando busca
eleger-se Presidente da República, terá que descobrir o papel que dele se espera. Nisso
provavelmente estarão incluídas características pessoais como uma boa indumentária, um
discurso qualificado, se possui diploma universitário, etc. Nas palavras do próprio Jung é
“complexo funcional a que se chegou por motivos de adaptação ou de desnecessária
comodidade”, (1992:478). Assim, procura projetar seu papel nos demais e exige que desempenhe
20
um papel igual ao seu. Se estiver em posição de mando, poderá sobrepor a existência dos que se
encontram sob a sua autoridade.
Nesse raciocínio, os costumes e as leis relacionadas com a conduta pessoal constituem
uma expressão da persona de um grupo. Visam a impor padrões uniformes de comportamento a
todo grupo desconsiderando as necessidades individuais.
A pessoa quando incorpora a sua persona, a priori ela simula, fingindo ser algo que
acredita. Na medida que essa persona possui uma duratividade contínua, ela não finge mais ser e
sim está convencida de que é.
Numa perspectiva semiótica a persona é instaurada em um papel temático no nível
discursivo que veste o ator, cabendo ao actante o papel de operar, agir, no nível narrativo. A
construção dessa persona possibilita a capacidade operadora e performante no papel
desempenhado.
21
CAPÍTULO 1 – A POLÍTICA COMO PROCESSO HISTÓRICO
1. Um pouco de histórica política brasileira
O Partido dos Trabalhadores foi organizado em 1980. Nasceu em uma época em que o
debate sobre a democracia era o tema central. O país estava sob o regime militar e o PT surge
como uma ruptura do sistema político vigente. A ditadura militar preparava a transição “lenta,
gradual e segura” aos moldes das democracias burguesas da América Latina, de exclusão política
dos movimentos sociais. “Construir uma sociedade igualitária, onde não haja exploradores” – é o
que diz o Manifesto do Partido. Em 1982 já se encontrava estabelecido em todos os estados
brasileiros, com cerca de 400 mil militantes.
O partido nasceu com uma proposta de organização dos sistemas políticos, com
base na inserção político-institucional de novos atores; reestruturando da representação
de interesses, fundada na noção de representação política orgânica; e apresentação de
uma forma de governo popular e um projeto de sociedade socialista e democrática
(Meneguello, 1989: 56).
O avanço das lutas populares permitia que os operários industriais, assalariados,
funcionários públicos, moradores da periferia, trabalhadores autônomos, camponeses, mulheres,
negros, estudantes, índios e outros setores explorados e marginalizados da sociedade brasileira
pudessem organizar-se politicamente para defender seus interesses. Dessa maneira, o PT se
vinculava originalmente com os movimentos sociais, principalmente com o movimento sindical
surgido no final da década de 70. Esses novos setores populares, através da participação e
associação, formaram uma visão mais crítica com relação às esquerdas tradicionais.
Ao menos teoricamente, nesse período surge uma nova classe trabalhadora no cenário
político do país, que, depois de muitos anos de regime autoritário, trouxe para o espaço público a
participação dos trabalhadores no combate ao autoritarismo burocrático militar no final da década
de 70 até meados dos anos 80.
22
O nascimento da oposição
Em 1980, Lula ainda estava no comando do Sindicato dos Metalúrgicos, quando a
categoria decidiu pela greve que começou no dia 1 de abril. Esta duraria, em tempo recorde, 41
dias e contou com a paralisação de 270 mil assalariados. Com Lula à frente do movimento, a
chamada “República do ABC” ganhava fama internacional. A visibilidade de Lula perante a
sociedade e a mídia nacional começava a assustar o governo vigente. Muito se indagava porque
ele não foi exilado ou morto nos porões da ditadura. Segundo os historiadores, ele não foi extinto
porque apesar de representar uma classe, até o momento não possuía nenhum partido político.
Outro motivo também, deu-se pelo fato de Lula ter sido considerado pelos civis da classe média
como um instrumento para desafiar a ditadura militar. Ele era visto pelos empresários
interessados no processo de redemocratização do Brasil e por seus representantes no governo
como um “sindicalista de confiança” – como alguém que partilhava de uma ideologia comum a
deles. Segundo Paraná (2003:25)
Estes empresários desejosos do fim da era dos governos militares foram, em
parte, responsáveis pela ascensão de Lula como líder dos trabalhadores, na medida que
necessitavam de um “intelocutor de confiança” para encampar seu projeto de abertura
democrática. (...) Esse foi o período em que Lula foi acalentado pela grande imprensa, a
imagem de seu rosto e suas palavras foram impressas e reproduzidas aos milhares.
Sendo assim, “extinguir” Lula seria uma tarefa bem mais complexa, pois ele começou a
representar não somente os operários do ABC, mas também toda uma classe oprimida pelo poder
ditatorial da época. Assim como toda ideologia partidária origina-se em pequenos grupos, é
somente pela classe elitista que ela se torna reconhecível. Até porque quando Lula percebe sua
notória visibilidade política e decide criar um partido, a classe elitista, a mídia e o empresariado
começaram a tratá-lo com desdém. Como se não fosse permitido a um representante da classe
trabalhadora organizar-se politicamente. Conforme explica Lula, apud Paraná (2003:120):
23
a burguesia é um pouco hipócrita. Ela admite que o trabalhador até saiba
reivindicar, agora ela não admite que a classe trabalhadora se organize politicamente.
Então quando eu era sindicalista, a imprensa tratava a gente bem. (...) Quando a gente
começou a criar o PT, ai então começou a haver um divisor de águas nesse país.
Ciente de que os operários necessitavam ter seus próprios representantes na esfera
política, Lula foi um dos principais articuladores do projeto que culminou com a criação do
Partido dos Trabalhadores, em 10 de fevereiro de 1980. Integrado basicamente de sindicalistas,
representantes das organizações de esquerda, do setor progressista da Igreja católica e de
intelectuais, o PT apareceu no cenário brasileiro como uma inovação e se constituiu como um
partido representativo das classes trabalhadoras e dos marginalizados da esfera política.
Conforme argumenta o autor, “este partido forjado do movimento sindical modificou a
forma tradicional de fazer política no Brasil e abalou os alicerces da velha elite política
conservadora” (Paraná, 2003:56).
Em 1982, o PT participou de sua primeira eleição e Lula foi candidato ao governo de São
Paulo, ficando em quarto lugar. O partido elegeu oito deputados federais, 12 estaduais e 78
vereadores. Quatro anos mais tarde, disputando uma vaga na Câmara Federal, Lula tornou-se o
deputado mais votado do Brasil naquele pleito com 651.763 votos. Mas sua carreira política iria
atingir degraus bem mais altos.
Depois de 29 anos sem eleições diretas para a Presidência da República do Brasil, em
1989, o deputado Luis Inácio Lula da Silva chega ao segundo turno das eleições presidenciais
com 16 milhões de votos, numa das mais disputadas campanhas da história nacional, perdendo
por uma diferença de 6% dos votos válidos para seu opositor, Fernando Collor de Melo, que tinha
o apoio das oligarquias nacionais e do grande empresariado.
24
Lula Idealista
Nas eleições presidenciais seguintes, apesar de liderar as pesquisas de opinião pública
durante meses e com ampla margem de vantagem sobre opositores como candidato à presidência
da república, Lula é derrotado no primeiro pleito de 1994. O vencedor, ex-ministro da Fazenda de
Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, ganhava os louros de um projeto de controle da
inflação, o Plano Real.
Na eleição presidencial que se seguiu, em 1998, novamente o sociólogo Fernando
Henrique Cardoso, ganhou no primeiro turno, reelegendo-se Presidente do Brasil. Foram
35.923.259 votos para Fernando Henrique contra 21.470.442 votos de Luis Inácio Lula da Silva,
representando 43,1% contra 25% dos votos válidos.
Somente depois de concorrer pela quarta vez à presidência da república, em 2002, Lula da
Silva conquista a vitória, tornando-se o 17
o
presidente eleito pelo voto direto no Brasil. Ele
alcançou 52.788.428 votos contra 33.366.430 votos de seu adversário, José Serra – apoiado pelo
então presidente Fernando Henrique Cardoso. O resultado dessa eleição foi decidido em segundo
turno com 61,3% contra 38,77% dos votos válidos. Luis Inácio Lula da Silva teve sua vitória
saudada no Brasil e no exterior como um triunfo da democracia brasileira, além de ser o primeiro
presidente sem antecedentes políticos, relacionado às carreiras políticas galgadas, e sem
escolaridade para chegar ao posto presidenciável brasileiro.
Pensar na vida de Lula é pensar na história de milhões de brasileiros. Sua história coincide
com a de inúmeros nordestinos que, expulsos da terra pelo latifúndio ou condenados à fome pela
“indústria da seca”, rumam para São Paulo em busca de melhores condições de vida.
Compreender a trajetória de Lula e da família Silva, é como argumenta Paraná (2003:25)
25
Compreender a história recente do Brasil no mais amplo sentido que o termo
compreender possa traduzir. Há inscritos em sua história de vida, em sua cultura, em sua
personalidade, “textos, que evidenciam, traduzem os processos políticos, econômicos,
sociais pela qual o país passou
(Paraná,2003:25)
1.1 A Trajetória de Lula: Personalidade e Carisma
Depois de alguns anos instalada em São Paulo, a família Silva já estava um pouco melhor
que no nordeste, região de onde se originou. Lula e seu irmão Frei Chico eram metalúrgicos. Por
insistência de Chico, Lula começa a fazer parte do sindicato dos Metalúrgicos. Ali começa a
nascer um grande líder político
3
.
Segundo seus companheiros, Lula era, desde novo, uma figura de grande alcance
carismático. Como personagem anônimo de um nordeste faminto, Lula chega a São Paulo como
centenas de migrantes nordestinos e, depois de alguns anos, se torna um grande mobilizador de
idéias.
Em 1975, já era o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Cheio de
contradições, cabe lembrar que se tornou um dos maiores representantes da esquerda brasileira
sem nunca ter trilhado os caminhos tradicionais de formação político-ideológica deste país. Mas
as contradições vividas por esse homem que, quando criança, compartilhou água com o gado em
poças abertas no solo e, mais tarde, foi brindado entre bolhas de champanhe francesa por chefes
de Estado, são muito maiores que as contradições de caráter meramente ideológico.
Claro que na vida de Lula não foi somente o carisma que o levou ao cargo de Presidente
do Brasil. Existe algo muito mais forte, muito maior que as próprias teorias e práticas: é a palavra
verbalizada por sua capacidade de observação e memorização, a sua eminência e seu alcance,
atingindo os mais inusitados resultados ao mobilizar idéias, transformando-as em ideais.
3
Segundo Aristóteles (1998. p,80), existem vários tipos de líder: o autoritário, o permissivo (que na verdade não
chega a ser um líder) e o carismático. Desse último é que extraímos o perfil de Lula.
26
Considerando a sua trajetória constituída ao longo das três últimas décadas, e que culmina
no momento em que este conquista o cargo mais alto da política brasileira, é pertinente perguntar
como sua imagem foi criada, transformada e consolidada durante esse período.
Desde que assumiu a liderança dos metalúrgicos de Santo André, São Bernardo do
Campo, São Caetano e Diadema, o ABC paulista, em 1978, Lula sempre foi uma figura polêmica
e caracterizada pela sua política radical e anarquista, conjeturada por um discurso de rupturas e
de reivindicações.
Em 1978, ainda no regime militar, o Brasil completava dez anos sem greves da classe
trabalhadora – a última ocorrera em 1968, em Osasco (SP) – Com o fim do milagre econômico,
os operários estavam descontentes com o arrocho salarial, queriam a redução da jornada de
trabalho e, sobretudo, a garantia de emprego. Por meio do Sindicato dos Metalúrgicos e da
liderança de Lula, os trabalhadores desafiaram o regime autoritário que até então desconhecia
greves de importância nacional, pois estavam, terminadamente, proibidos por lei.
Foi assim que no dia 12 de maio de 1978, os metalúrgicos da fábrica de caminhões
resolveram entrar em greve – Lula começava a mostrar sua capacidade mobilizadora de liderança
a favor da classe operária. O movimento difundiu-se pelo estado de São Paulo, atingindo cerca
de 150 mil operários.
2. Marketing Político e o Poder da Imagem
Tornar o candidato um objeto desejável exige estratégias que têm alcançado cada vez
mais as ações do marketing atividade que no âmbito das empresas serve, historicamente, para
mobilizar o consumidor, no sentido de fazer com que compre um determinado produto ou
serviço. Organizando as ações de campanha eleitoral em um todo sistemático, de valor
27
estratégico, essa ferramenta vem sendo largamente aplicada para mobilizar o eleitorado em torno
de candidatos. Assim, a ferramenta estratégica para a relaboração desse novo Lula é definida
como marketing que, segundo o dicionário, origina-se na liturgia do poder, fazendo-se presente
na Historia da humanidade como sistema de camuflagem para lapidar a imagem de governantes,
imperadores, reis, príncipes, presidentes, políticos e celebridades.
4
Antes de eleger-se presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva já havia tentado três
vezes chegar ao poder. Nas primeiras tentativas foi derrotado, sucessivamente, por candidatos de
diferentes matizes e discursos.
O que teria mudado então, nas últimas eleições, para finalmente o candidato Lula tornar-
se Presidente do Brasil?
Mudaram os eleitores, mudou o país, e muito mais profundamente mudou o próprio Lula.
Mudou como? Lula transformou-se em Lulinha – paz e amor. Melhor dizendo: Lula foi
transfigurado na imagem do outro.
O homem que emergiu da luta dos movimentos sindicais e que todos conheciam,
surpreendentemente foi transformado em alguém com ternos bem talhados, voz mansa, postura e
falas equilibradas. Enfim, uma nova imagem do que seria um novo homem.
Dessa forma, a preocupação de passar uma imagem “desejável” perante a opinião pública
é tão antiga quanto a civilização. Quinto Túlio já o experimentava em 64.a.C – quando
aconselhava o irmão Marco Cícero, famoso tribuno romano, candidato ao consulado, a
apresentar-se como um novo homem bem preparado para conseguir adesão entusiasmada do
povo. César calculava os gestos políticos. Maquiavel ensinava o príncipe a divertir o povo com
4
Definição segundo Novo Dicionário Aurélio, pg. 891, s/data.
28
festas e jogos. Luis XVI desfilava nos espetáculos que promovia. Napoleão era um pavão vestido
de púrpura quando se coroou para receber a benção do papa em Notredame.
Hitler também utilizou como nunca os artifícios do marketing – foi treinado em aulas de
declamação para agitar as massas, usou a cruz gamada para propagar o nazismo, podendo-se
dizer que o marketing político ganha status profissional sob o comando de Joseph Goebels, o
“marqueteiro” hitlerista.
No Brasil, o marketing político é utilizado há quatro décadas e encarado como engenharia
que encanta as massas. Em 1960, tivemos as primeiras campanhas marquetizadas. Deu-se início à
mobilização das massas nas ruas, depois passou-se pela adoção de símbolos, cores e cantos até
ganhar-se, hoje, dimensão pirotécnica, quando elege a forma em detrimento de valores. Foi assim
que ganhamos um Collor de postura apolínea, puxando as carreiras, um cordão de jornalistas
pelos arredores da Casa da Dinda, num cooper diário. Era o arremedo de Alexandre Magno –
exibindo vigor, juventude, modernidade. Assim foi com o histórico Juscelino Kubitschek que
estampava amplo sorriso para encantar as massas. Jânio deixava caspa caindo no terno
amarfanhado para se mostrar um homem do povo, brandindo, depois, uma vassoura para varrer a
corrupção.
Até pouco tempo atrás e, em geral, nos países com o jogo político ainda em estágio de
desenvolvimento, o que coincidia normalmente com os que tinham um índice de anafalbetismo
muito grande, não era o partido que promovia o homem, mas o homem que promovia o partido.
Essa prática vinha justificada pela afirmação de que os povos mais atrasados
intelectualmente não podem sentir atração pelo programa político de um partido, que é algo bem
mais complexo, e que poucos chegam a entendê-lo. Porém, atualmente, o que se nota como
tendência universal, independente de estágio de desenvolvimento social e, no mundo todo –
29
democrático ou não – é a personalização em que os políticos estão apostando para motivar o
eleitor ao voto. Nos dois casos, o magnetismo pessoal dos políticos vem cumprindo um papel
muito importante, e a massa acaba sendo atraída pela imagem, mais do que qualquer outro fator.
Segundo Shwartezenberg (1978) “em outros tempos, política eram idéias. Hoje são
pessoas ou melhor, personagens”. O autor defendia a tese de que, nas origens da democracia, o
poder era quase anônimo e que a democracia supunha uma luta contra os poderes pessoais da
monarquia ou da ditadura para oferecer em troca um sistema de poder não personalizado, quase
anônimo. Com o passar do tempo, vemos que o poder democrático vem degenerando-se
novamente para a personalização, ou seja, para a identificação do “poder” com quem o encarna,
no sentido pleno da palavra, o que resultaria numa personalização dos políticos e a criação do
“estado espetáculo”.
Sendo assim, a maneira como se realiza uma publicidade vendendo a imagem de um ator
político, com seu estilo, sua intensidade, sua técnica, etc, é fundamental para construir essa
personalização.
No Brasil, o candidato atrai mais votos do que qualquer programa de partido ou ideologia,
por isso, ele passa por um processo de mitificação de sua imagem pública, e será seu discurso
(verbal e não-verbal) que vai servir de início para que esse processo possa acontecer.
2.1 Publicidade eleitoral e Propaganda Política
Segundo D’Ávila (2004), existiu uma grande diferença entre propaganda e publicidade no
passado. Propaganda, é originado do latim Propaganda Fidae ou propagação da fé, em
campanhas realizadas pela Igreja Católica, a partir do século XVI – é tão antiga quanto o homem,
já que existe desde quando nasceram as relações de poder entre dominantes e dominados. Dessas
30
remotas origens, quando não havia produtos a comercializar, como na atualidade, e da
apropriação da Igreja Católica para sua ação doutrinadora, passou-se a aplicar o termo ao
conjunto de regras e técnicas empregadas para propagar idéias, ou seja, intrinsicamente ligado à
ideologia pelo persuadir, de caráter epistemológico, voltado ao pragmatismo observado no
universo político implicando um /fazer-crer/, que ao dizer de Greimas (s/data, p. 333), é uma das
formas do “fazer cognitivo”.
Segundo a definição de Malanga para Propaganda “A propaganda define-se como um
conjunto de técnicas de ação individual utilizadas no sentido de promover a adesão a um dado
sistema ideológico, político, social ou econômico” (1979: 11).
Já a publicidade é o conjunto de regras e técnicas empregadas para divulgar produtos e
serviços. Assim a publicidade é mais mercadológica e tem um efeito de fazer agir/consumir. Por
exemplo, ao ver um comercial televisivo de um cosmético feminino, o enunciatário é seduzido a
adquirir o produto por acreditar que usando-o terá o mesmo resultado que o destinador do
comercial.
Diferentemente da publicidade, a propaganda buscava converter o indivíduo à ideologia
proposta. A palavra “conversão” remete-nos a uma mudança de comportamento durativo,
ratificado pela construção de um argumento cognitivo a fim de, e por algumas vezes, mudar toda
uma filosofia de vida. A publicidade já é mais usada em uma perspectiva mercadológica
consumista (não isentando um caráter ideológico, muitas vezes camuflado, neste caso ainda mais
intenso). É um feito que busca uma resposta imediata, de compra e venda, um fazer/fazer de
caráter persuasivo, implicando o consumo, na moeda de troca.
É necessário frisar que a propaganda não se restringe apenas aos meios de comunicação
de massa, mas tende a abranger todas as atividades sociais, até as mais disfóricas, como ocorria
31
na Alemanha Nazista. A sustentação na criação de um sistema se dava por meio de uma estrutura
dupla em que “propaganda na organização” estava em “função uma da outra”. Segundo Hitler
(2003: 34) “por essa propaganda dever-se-ia conseguir, pouco a pouco, um pequeno núcleo de
indivíduos, convencidos da nova idéia, os quais se tornariam o material que, mais tarde, poderia
fornecer os primeiros elementos de uma organização”.
Nos dois casos, política e publicidade, os valores postos em circulação remetem a um
objeto projetado como desejável.
Hoje os lexemas “publicidade” e “propaganda” se confundem, sendo insistentemente e
propositadamente permutados, uma vez que dificilmente se consegue isolar a ideologia embutida
nas publicidades, e as propagandas em que apenas defendiam idéias no passado, transformaram-
se em matéria de cunho publicitário. A exemplo das propagandas políticas hoje produzidas sob a
permanente vigilância de exímios publicitários como Duda Mendonça, que conduziu a campanha
de Lula em 2002; essas propagandas publicitárias ou publicidades propagandísticas “vendem”
idéias e “fazem “comprar” com os votos, com ilusão de “dias melhores” (crença dirigida), a
opinião pública (o consumidor em geral).
Um exemplo da utilização da propaganda como clara propagação de idéias, ideais e
ortodoxias, foi a utilizada por Hitler. Ela foi a principal base do partido, sendo responsável tanto
pela conversão dos simpatizantes, como pela manutenção da ordem oficial criada por ele, na
época.
Desde os primórdios da Segunda Guerra Mundial, Hitler dedicou-se em dar ênfase
especial para a propaganda, tratando-a como tática política. Para ele, “a propaganda estimulava a
coletividade no sentido de uma idéia, preparando-a para a vitória da mesma.” (Hitler, 2003:23)
32
Já no final de 1920, Hitler compra o jornal Völkischer Beobachter, transformando-o no
órgão de imprensa do partido. Seguindo a meta traçada pelo ditador, são organizados comícios
que se realizam periodicamente e cada vez com maior freqüência.
Com a tomada do poder, a propaganda terá seu próprio ministério, que trabalhava
incessantemente para mobilizar a população a cada nova campanha. Assim, a propaganda aos
poucos expandia-se para o cinema, música, comícios, eventos e arquitetura; até mesmo os corpos
dos indivíduos foram usados como objetos propagandísticos. O corpo passou a ser treinado e
disciplinado a fim de espelhar a “perfeição” nacional-socialista. Tudo tornou-se passível de
conversão propagandística.
A capacidade que um líder político tem em propagar suas idéias está intrinsecamente
ligada ao momento histório no qual se encontra. No caso de Hitler, ele começou a difundir as
idéias nazistas em uma Alemanha destruída pela Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918). Os
alemães estavam destituídos de qualquer auto-estima. Então nesse momento nasce o Partido dos
Trabalhadores Alemães (DAP) que tinha como preceitos básicos de seus ideais o anti-semitismo,
o nacionalismo exaberbado e o anticomunismo ferrenho.
Assim, por meio desse partido, Hitler reascendeu o anti-semitismo já existente na
memória dos arianos, valorizando e aguçando a importância do nacionalismo para a reconstrução
da Alemanha. É o que chamamos, na teoria retórica de Perelman apud Sousa, (2003:50) em
petição de princípio, “apresentar uma tese como já aceite pelo auditório, sem cuidar
primeiramente de confirmar se ela se beneficia previamente de uma suficiente adesão”, ou seja,
na busca da adesão de um auditório é mister uma concordância a priori com o destinatário da
mensagem, para sim, depois, ser explicitada a argumentação.
33
Em todos os casos, por mais que a trajetória política de Hitler tivesse sido traçada por um
autoritarismo facista, que teve início com Mussolini, na Itália, em 1922, ele procurou convencer
a população a seguí-lo. Um regime ditatorial, aconteceu também no Brasil em 64; apesar de o
povo brasileiro sofrer intimações de qualquer espécie, a todo momento o discurso militarista era
regido por uma isotopia
5
ufanista. Como “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Assim, toda intimidação
pressupunha uma sedução a priori.
Já dissemos anteriormente que na motivação para a criação de uma nova organização
política existe sempre a perspectiva de uma mudança pelo descontentamento da situação vigente.
Sendo assim, todos esses movimentos possuem um discuso sempre de oposição ao poder
governamental.
5
É a reiteração de categorias sêmicas. Caráter de termos que se repetirão no texto, visando uma redundância criando
coerência interna caracterizando o texto. (Greimas & Courtés, s/data p. 245).
34
CAPÍTULO 2: METODOLOGIA E GÊNESE DA SIGNIFICAÇÃO
1. A Teoria Semiótica de A. J. GREIMAS
Como estudar e aplicar a semiótica diante de uma história pela busca do sentido que não
pára de ampliar horizontes e questionamentos? Quando Greimas publicou Semântica Estrutural,
na França, em 1966, já tinha intenção de descrever qualquer conjunto significante verbal, mesmo
diante da responsabilidade exigida frente a uma análise tendo como manifestação dominante o
caráter verbal. É o auge do estruturalismo francês. O autor participou ativamente do movimento.
Tentou-se dar um estatuto científico às ciências humanas a partir da busca de modelos de
abstração que desvendassem a construção do sentido, não só na lingüística, mas também na
antropologia, na psicologia, na filosofia. Fiorin (1995:19) afirma que Semântica Estrutural traz o
discurso fundador da semiótica e “estabelece uma identidade teórica para um dado grupo de
pesquisadores, dando a eles o sentimento de pertença a um projeto de construção do
conhecimento”.
Nos finais dos anos 60, a ampliação do estudo da significação para outras linguagens faz
nascer a semiótica francesa como necessidade de demonstrar o modo como o sentido se articula
em discursos ou textos. Assegura Greimas (1966:11): “Parece-nos que o mundo humano se
define essencialmente como mundo da significação. Só pode ser chamado “humano” na medida
em que significa alguma coisa”. Assim, o termo semiótica suplanta o de semiologia e o de
estruturalismo.
Greimas desenvolve idéias de Saussure, fundador da lingüística moderna. Um conceito se
torna base para a semiótica: um elemento de uma estrutura só adquire valor na medida em que se
relaciona com as outras unidades e com o todo do qual faz parte. Relação é o termo-chave em
qualquer estudo semiótico.
35
O exemplo clássico muito conhecido em lingüística, porém pouco difundido em
comunicação, é dado pelo próprio Saussure. Trata-se do jogo de xadrez. Uma peça, como o
cavalo, por exemplo, tem o seu valor não em função do material de que é feito. Pode ser ele de
madeira, marfim, plástico. Não importa nem mesmo sua figura aparente. É possível substituí-lo
até por um pedaço de pedra. O que determina a identidade do cavalo, e seu valor no jogo, é a
relação de oposição mantida com as outras peças (o fato de não ser uma rainha, um peão ou uma
torre e não poder fazer os mesmos movimentos), além da posição do tabuleiro.
Outra preocupação de Greimas na árdua elaboração de um projeto de ciência para a
semiótica é a criação de uma metalinguagem específica de análise. Desenvolveu uma linguagem
conceptual para falar de uma ou mais linguagens. Para o autor, o objeto de estudo não devia
confundir-se com os instrumentos do mesmo estudo: “O acusado é ao mesmo tempo o seu
próprio juiz” (1973:19).
Greimas até seu falecimento, em 1992, em Paris, preocupou-se em desenvolver e ampliar
os horizontes da teoria. Sob o estímulo e supervisão do autor, outros estudiosos deram sua
contribuição com o exame de textos bíblicos, literários, políticos, musicais, publicitários, dentre
outros.
Não podemos adentrar na metodologia semiótica, em seus fundamentos, sem mencionar
Saussure. Ele desenvolveu a noção de signo na obra Curso de Lingüística Geral, publicada em
(1969:21). Signo é a combinação entre o conceito (que Saussure amplia para significado), e a
imagem acústica (também ampliado para significante). Saussure definiu a língua como “sistema
de signos que exprimem idéias e é comparável, por isso, à escrita, ao alfabeto dos surdos-mudos,
aos ritos simbólicos, às formas de polidez, aos sinais militares, dentre outros. Ela é apenas o
principal desses sistemas” (1969:24).
36
O autor também separou o estudo da lingüística – o sistema de signos que é a língua – dos
outros sistemas, que deveriam ser objetos de análise da semiologia, ciência que estudaria “a vida
dos signos no seio da vida social”, e à qual a lingüística seria subordinada.
Hjelmslev, outro teórico que influenciou profundamente Greimas, reformulou as noções
de signo de Saussure. Significante e significado passaram a ser entendidos em termos de planos
de linguagem. O autor chamou o significante de plano de expressão – onde as qualidades
sensíveis em que explora uma ou mais linguagens para se manifestar são selecionadas e
articuladas entre elas, em relações. O significado passou a ser designado como plano de
conteúdo, o lugar dos conceitos. Para exemplificar: podemos imaginar uma negação como o
plano de conteúdo. O plano de expressão desse conceito pode ser veiculado pela reunião das
letras n, ã e o em português, um gesto de cabeça ou do indicador. No primeiro caso, o plano de
expressão é a linguagem verbal escrita. Nos dois outros, linguagem gestual.
Hjelmslev fez ainda divisões. Postulou que cada um dos planos da linguagem – expressão
e conteúdo – tinham não só uma forma, mas também uma substância específica, dentro da
seguinte formulação:
SEMIOSE
PLANO DO CONTEÚDO PLANO DA EXPRESSÃO
Substância Forma Substância Forma
37
Uma questão importante: a dimensão do signo, para Hjelmslev, é variável. “Ao contrário
de signos mínimos como palavras, pode-se também falar em signos enunciados ou signos-
discursos”, conforme o dicionário de Greimas & Courtés. (s/data, p.422). Um texto, portanto,
pode ser entendido como um “grande signo formado por outros signos (menores)”. A apreensão
da realidade e sua transformação em signo é o processo de semiotização.
1.1 Visão semiótica do Discurso Político
Em momento de campanha eleitoral, os eleitores são bombardeados por diferentes
propostas de candidatos a cargos eletivos. A política transforma-se em um jogo de encenação, em
um espetáculo que remete ao teatro. Uma encenação que, em alguns casos, leva candidatos a
assumirem personagens diferentes do que são, estabelecendo para si mesmos refletindo a
identidade do político ideal, com o intuito de convencer o eleitorado de sua capacidade
operadora.
Do ponto de vista da semiótica greimasiana, tomada como “teoria da significação”, cuja
preocupação se volta para a explicação das condições da apreensão e da produção do sentido
(Bertrand, 2003, p.16), o discurso deve ser analisado como uma “cena” ou “espetáculo”
enunciativo
6
*, o que implica, entre outros aspectos, examinar a instancia da enunciação*. Esta,
desdobrada em enunciador* e enunciatário*, simula uma relação contratual* entre um
destinador* e um destinatário*. Assim, o enunciador, através de um fazer-persuasivo*, propõe ao
enunciatário um acordo, um contrato, levando- o a crer nos valores em jogo e na própria
veracidade do discurso.
Segundo Greimas/Courtés,(s/data, p. 150, 114), “denomina-se enunciador o destinador
implícito da enunciação (ou da “comunicação”), distinguindo-o assim do narrador”.
6
* Todas as palavras com os asteriscos remetem ao Dicionário de Semiótica
38
“Paralelamente, o enunciatário corresponderá ao destinatário implícito da enunciação,
diferenciando, portanto do narratário”. Já o destinador e o destinatário, tomados por Jakobson (de
seu esquema da comunicação lingüística), designam, em sua acepção mais geral, os dois actantes
da comunicação (chamados também, na teoria da informação, mas numa perspectiva mecanicista
e não-dinâmica, emissor e receptor).
As relações contratuais que se estabelecem entre enunciador e enunciatário são, para a
semiótica, relações de comunicação
7
e de manipulação. Conforme já assinalamos o primeiro
propõe ao segundo um contrato, um acordo, valendo-se de um fazer-persuasivo. Com esse fazer,
espera determinar os valores em jogo e levar o enunciatário a crer no que propõe e a realizar o
que ele (enunciador) pretende. A “resposta” do enunciatário é um fazer-interpretativo que
determinara a aceitação ou a recusa do contrato proposto. Segundo Greimas & Courtés,
Exercido pelo enunciador, o fazer persuasivo só tem uma finalidade: conseguir
a adesão do enunciatário, o que está condicionado pelo fazer interpretativo o que este
exerce, por sua vez: pelo mesmo motivo, a construção do simulacro da verdade, tarefa
essencial do enunciador. (...) está igualmente ligada tanto a seu próprio universo
axiológico quanto ao do enunciado e sobretudo a representação que o enunciador se faz
deste último universo (Greimas & Courtés,s/data:487).
A questão da persuasão remete à da verdade. Como dizer para ser acreditado? É preciso
construir a “verdade”. No entanto, como afirma Barros (1990:94), “o discurso constrói sua
própria verdade, por essa razão, prefere-se falar em ‘dizer-verdadeiro’ e não em verdade
discursiva”. Compreende-se, então, por que, em condições como essas “...o conceito de verdade
esteja sendo cada vez mais substituído pelo de eficácia na reflexão epistemológica”, segundo
Greimas & Courtés (s/data: 487). Isso implica dizer que o enunciador não produz discursos
7
Nos estudos de comunicação distinguem-se duas grandes correntes de investigação, uma que entende a
comunicação, sobretudo como um fluxo de informação, e outra que entende a comunicação como um fazer-crer
(epistemológico) e um fazer-fazer (factitivo) ou ainda um fazer-saber (informativo), podendo destinatário não
assumir a mensagem. A primeira corrente é a escola processual da comunicação e a segunda é a escola semiótica
francesa.
39
verdadeiros ou falsos, mas discursos que parecem verdadeiros e que, sendo interpretados como
tais pelo enunciatário, levam-no a aceitar o contrato proposto. A semiótica, portanto, substitui a
questão da verdade pelo do “dizer verdadeiro”.
Nesse momento é valido esclarecer a importância da distinção entre persuadir e
convencer. Para D’Ávila, na esteira de Coquet, persuadir representa um fazer-crer, quando o
sujeito manipulador- enunciador não possui em si, fundamentos de credibilidade para se fazer
acreditar pelo enunciatário. Situa-se na dimensão cognitiva embora com caráter tímico-patêmico
(efeito de sentido). Segunda D’Ávila
8
, “patêmico é uma palavra que vem do grego pathos
(afeição, mal) pathêtikos (relativo à paixão) = complementariedade, suscitando assim, a emoção
no enunciador.
De acordo com Greimas & Courtés,
Numa visão mais ampla, o fazer crer, o qual, enquanto fazer persuasivo, não
pode ser tratado indepentemente do crer, constitui uma das formas principais da
manipulação. Sendo assim, a questão do crer aparece como um dos temas da pesquisa
semiótica dos anos a virem (Greimas & Courtés, s/data: 91-92)
Já o convencer leva o enunciatário a reconhecer, pela reflexão, valores que lhe são
apresentados como provas comprobatórias de caráter prioritariamente cognitivo-reflexivo. O
enunciador utiliza o convencer como modalidade de cunho que exige questionamentos, não
isentando, ambos, os aspectos manipulatorios contidos no discurso.
No caso do Sujeito (actante
9
LULA) ele tem que persuadir o destinatário, a crer para
fazer-fazer, e convencê-lo , finalmente, pela razão.
8
Segundo Nícia D’Ávila durante explicação em classe na disciplina Teoria Semiótica – Texto e Imagem do
programa de mestrado em Comunicação da UNIMAR
9
Segundo Greimas/Courtés,(p/data, p. 12), “ O actante pode ser concebido como aquele que realiza ou que sofre o
ato, independentemente de qualquer outra determinação
40
A forma de atuação, assim como o que enuncia, verbal/visual e ou gestualmente, os
modos de relação propostos e os papéis atribuidos aos demais actantes, são
direcionados a alcançar o eleitor potencial de forma, tímica, cognitiva e pragmática. O fazer
tímico e cognitivo do candidato, enquanto narrador, visa um resultado pragmático, o voto do
eleitor, como fonte de poder, através da instalação de um relação intersubjetiva, que pressupõe
um fazer recíproco, o reconhecimento mútuo.
O fazer enunciativo define os modos de existência dos demais actantes, como simulacros
de uma “realidade” representada no ato narrado, embutindo um juizo de valor capaz de revelar o
universo ideológico do sujeito da enunciação, que acomoda tanto o enunciador quanto o
enunciatário do discurso. Os simulacros funcionam como mediadores da relação entre os actantes
e sustentam bases contratuais que unem, no caso, o candidato e o eleitor. São simuladores de uma
relação de parceria, que os candidatos tentam construir com os eleitores, visando objetivos
enunciados como comuns, enquanto cidadãos de um mesmo país.
No processo democrático, o esquema eleitoral determina um contrato entre um destinador
e um destinatário que, na perspectiva do presente trabalho, resulta de uma confiança imaginada
em que o povo, pela delegação do voto, pauta as ações e normas de conduta que devem ser
seguidas pelo eleito. O destinador-social
10
é a maioria de eleitores e o esquema desenvolvido, a
partir das campanhas pré-eleitorais, introduz um detinatário virtual que, no papel de enunciador,
segundo Barros (1990:62), “define-se como destinador-manipulador, responsável pelos valores
do discurso e capaz de levar o enunciatário a crer e a fazer”. Na instância discursiva, procura
persuadir (fazer/crer) o eleitor de um país, estado ou de um município, a dotar (fazer/fazer) um
10
Destinador social do poder/fazer, segundo Coquet, tiérs actant, (1984 e 1985), o eleitor, é subordinado ao sujeito
da enunciação com um terceiro actante transcendente.
41
dos concorrentes (ou mais, se a eleição for para a esfera legislativa) com a competência do
poder/fazer (governar ou legislar), através do voto.
Segundo D’Ávila (Artigo Sukita. In: Letras e Comunicação. Rio de Janeiro. 2001, p.105-
106.), o destinador-social é pressuposto, manipulador em primeira instância, e judicante, na
resultante final (feedback), sancionando os programas realizados. Por exemplo, a satisfação do
público consumidor em adquirir constantemente determinados produtos, manipula o publicitário
a produzir textos cada vez mais selecionados visando a aceitação coletiva. Será por ela,
fatalmente sancionado.
Assim, a campanha política torna-se um espaço de interação entre sujeitos, no qual o
candidato na busca do objeto Valor (poder), manipula e ao mesmo tempo é manipulado, pelo
eleitor, ou seja, entra em cena como parceiro, como opositor dos concorrentes, construindo ou
aceitando, por sua vez, o simulacro dos candidatos, o que pode obedecer padrões de referência
distintos, depedendo do grupo, do sócio-ideológico no qual esteja inserido.
Na corrida eleitoral, todos os candidatos procuram evidenciar uma competência indicativa
de uma performance necessária ao cargo eletivo desejado, através de um conjunto de ações
(projetos, programas) que prometem implementar, se eleitos. O objetivo é a sanção positiva do
eleitorado, potencial, o que faz a campanha seguir, segundo Santos (1994:119), “um ritual
publicitário, que tem como primeiro passo a construção de imagem pública (...). Um jogo de
ilusão, subjacente ao discurso eleitoral, que transforma a eleição em um rito carnavalesco em que
todo mundo brinca de por a máscara”.
Esse “jogo de ilusão”, como coloca a autora, anima a dimensão espetacular das
campanhas, que passaram a integrar em seus elencos as figuras dos homens de marketing, antes
voltados para o lançamento e fomento de consumo de produtos e serviços. Esses profissionais
42
atuam como observadores de uma opinião pública, transformando-se em informantes do
candidato. As informações, colhidas em diferentes fontes, permitem a produção de esquemas que
definem formas “ideais” de conduta e auxiliam a elaboração de um programa de governo, para
que as “idéias” representadas tenham relação com as necessidades e carências manifestas pelo
público alvo.
A semiótica entende que não há estratégias sem relação entre sujeitos, e que são
articuladas visando a produção de um fazer ou uma transferência de estado. As reflexões de
Landowski, (1992:179) permitem observar que, em política, a estratégia passa, primeiramente,
“... pelo estágio da virtualização dos programas narrativos...” , o que embute percursos de
manipulação (ação cognitiva), para que do fazer do eleitor, resulte a performance do
manipulador. Um jogo persuasivo, em que a ação prevista para o eleitor e para o candidato, em
seus respectivos programas e percursos, evidencie relações previstas, que podem ser contrárias e
contraditórias, dinamizando a narrativa, que dessa forma pode, apresentar tanto um caráter
polêmico, quanto um transacional.
É como um sujeito
11
manipulador eficicente que o candidato pode conduzir o eleitor a um
fazer, que corresponda a seu próprio objetivo, fazendo-o sentir-se (crer/ser) participante do
processo de realização de um programa virtual apresentado. Tratando de um discurso de busca de
poder, o candidato procura estabelecer uma identidade de valores, uma “comunhão” participativa
com o eleitor, mesmo que ilusória. Ainda que, em alguns casos, sirva para ocultar ou mascarar
um discurso autoritário, no qual o candidato institui-se como qualificado por um saber sobre o
que é ideal para o público que deseja representar, determinando um dever/fazer e/ou um
dever/ser aos eleitores.
11
O sujeito é situado no interior do enunciado objetivado e tratado como uma grandeza observável, suscetível de
receber as determinações que o discurso lhe atribui. (Greimas & Courtés, s/data: 445)
43
Em suas campanhas eleitorais, os candidatos esforçam-se para provar que podem
representar os eleitores, agindo em seu nome. A competição entre vários sujeitos, em uma eleição
com mandatos limitados numericamente, realça o caráter espetacular da disputa. O parecer ser e o
parecer/saber-fazer/ e /querer-fazer/ dominam o enredo das manifestações discursivas dos
pretendentes do poder, em uma representação que conta hoje com os palanques eletrônicos, como
um espaço que pode ser eficaz para o embate dos atores que visam obter um mesmo papel: o de
eleito.
A eleição deve ser compreendida assim, como o momento em que o eleitor, destinador do
poder/fazer, escolhe um novo sujeito para dirigir a nação. O voto sela um contrato, resultante de
um julgamento do eleitor à imagem e ao programa de governo de um candidato - a partir dos
simulacros – capazes de revelar o conjunto de qualificações necessárias a um mandatado. É
contrato, diz Fiorin (1988:22) pelo qual o contratante estabelece um dever/fazer (prescrição) e
institui um querer/dever/fazer (obediência) na condução do mandato pelo eleito.
Deste ponto de vista, os candidatos são os contratados virtuais que buscam o poder, e a
campanha eleitoral representa o momento da comunicação não só deste saber/fazer, mas também
de um querer/dever/fazer. Os programas de governo são embasados por uma “vontade popular” à
qual o candidato promete obediência. São sujeitos reveladores do saber de cada um, que integra a
“promessa” estabelecida pelo candidato ao eleitor. Na transmissão deste saber, o candidato é o
destinador e o eleitor seu destinatário.
A recorrência a um mesmo sistema de valores é, em política, fator determinante para a
adesão do eleitor a um candidato e a seu programa de governo. Uma estratégia pressupõe a
vinculação dos sujeitos a um mesmo (ou mais) destinador, predispondo o destinador à confiança
do destinatário. Esse sistema de valores “único”, representa, para Landowski, (1992:16) “(...)
44
uma instância destinadora impessoal e abstrata, mas capaz de garantir, uma vez por todas, a
‘regularidade’ de seus comportamentos recíprocos”.
A utilização de estereótipos de fácil assimilação pelo destinatário – extraídos de seu
universo axiológico- pode gerar outros efeitos no jogo persuasivo implementando, possibilitando,
por exemplo, a credibilidade, a partir do reconhecimento do candidato como aquele “que pensa
igual”, que segundo Greimas & Courtés (s/data:487) “(...) está igualmente ligada tanto a seu
próprio universo axiológico quanto ao do enunciatário e, sobretudo, à representação que o
enunciador se faz deste último universo”.
Em alguns casos, esse processo discursivo de construção de objetos privilegia a
recorrência ao universo de crenças do público alvo, para encobrir o que pode ser pura simulação.
O uso de figuras e embates com origem na narrativa mítica, de forma implícita, é um dos
recursos mais comuns para este fim.
As estratégias dessa natureza visam, sobretudo, levar o destinatário da mensagem a
conceber como verdadeiros os simulacros criados. A crença nos valores enunciados pode
despertar o querer/fazer do eleitor. Resultado de um fazer persuasivo, a crença é um fazer
interpretativo e assumido pelo destinatário. É a partir de um julgamento epistêmico que o
enunciador exerce um fazer persuasivo (isto é, um fazer-crer), o enunciatário, por sua vez,
finaliza o seu interpretativo por um juízo epistêmico (isto é, por um crer) que ele admite sobre os
enunciados de estado que lhe são submetidos. (Greimas & Courtés, s/data:151). O destinatário
escolhe o programa de governo e seu executante – enquanto objetos modais, conferindo a um dos
candidatos, a competência necessária à ação (governar/lesgislar). O objeto, portanto, é o lugar
sintático das aspirações e desejos, determinante do querer/ser e/ou querer/fazer do sujeito.
45
A Semiótica trabalha com dois tipos de valores. Os modais, correspondem à aquisição de
competência (querer/dever/poder/saber); os descritivos são os valores finais buscados pelo sujeito
ou seja, os que correspondem ao programa de performance, conforme explicam Greimas &
Courtés (s/data:151).
Em períodos eleitorais, o eleitor é “convocado” pelos candidatos a atualizar, pelo voto, o
objeto-valor descritivo, a partir de valores determinados por um destinador- manipulador e
aceitos pelo destinatário-manipulado, organizados em forma de texto. A atualização dos “valores
compartilhados” é assim uma proposta de um fazer das partes que, em seu conjunto, é tomado
como uma ação recíproca.
A posse de um eleito é considerada, semioticamente, como o momento em que o
candidato atualiza oficialmente sua relação com o poder/fazer, qualificação necessária ao fazer
(governar). E marca o inicio de um novo percurso, do qual, do fazer do eleito, compreendendo a
missão aceita, depende a conjunção do destinador do poder/fazer com os valores propostos. É a
posse desse eleito que vai possibilitar a realização do eleitor com o objeto-valor
12
descritivo. É o
momento que caracteriza o ápice da esperança.
Investido do poder/fazer, o governante é “vigiado” quanto ao cumprimento do contrato
estabelecido com o destinador. Este comunica a missão e cumpre o papel de julgador de sua
realização.
A semiótica deu grande impulso ao exame da sintaxe narrativa. É o campo revelador dos
recursos persuasivos que levam um sujeito a agir sobre outro sujeito, para modificar o seu ser ou
12
Define-se, como lugar de investimento de valores (ou das determinações) com as quais o sujeito está em conjunção
ou em disjunção. (Greimas & Courtés, s/data:313)
46
o seu fazer. Segundo D’Ávila (2003b:3) “a sintaxe narrativa consiste na relação entre actantes
sujeito e objeto, (...) com a finalidade de definir sua competência no nível do ser e do fazer”.
Já na instância da semântica discursiva, os valores assumidos no nível narrativo são
disseminados sob a forma de persursos temáticos, que podem ser ou não figurativizados,
transformando sujeitos em atores (sintaxe discursiva) e garantindo a coerência do discurso. Os
traços semânticos são recobertos por temas (elementos semânticos que não tem representação no
mundo natural: amor, liberdade, omissão, etc.) ou figuras (recursos de cobertura figurativa de
elementos semânticos, com representação no mundo natural: homem, casa, rosa, etc). Segundo
D’Ávila (2003b:2), “para que o figurativo tenha sentido, deverá se constantemente tematizado,
isto é, ter um tema como suporte e uma forma sintáxica determinada”. A esse processo a
semiótica denomina tematização e figuratização.
A recorrência de temas ou figuras temas é que assegura a coerência semântica, a partir de
linhas sintagmáticas definidas no discurso enunciado. Essa reiteração é denominada isotopia que,
segundo D’Ávila se configura na reiteração de categorias sêmicas, promovendo a coerência e a
coesão do texto, mas os discursos podem representar mais de uma leitura temático-figurativa: são
os discursos pluri-isotópicos. A análise das linhas isotópicas é feita pelo exame dos traços
semânticos, abstratos e figurativos que se repetem no discurso, levando à localização dos temas
dominantes.
No caso dos discursos políticos, o investimento temático é predominante e o figurativo
espaso, “não chegando a construir percursos figurativos complexos” (Barros, 1990: 71). A
reiteração temática é que estabelece, preferencialmente, nesse caso, o caminho ou os caminhos de
leitura possíveis. Nos discursos temáticos os efeitos da enunciação são enfatizados. Isto é, os
47
efeitos de aproximação ou distanciamento do enunciador com o enunciado são realçados,
tornando os discursos, respectivamente, subjetivos ou objetivos.
Na figurativização, figuras do conteúdo recobrem os percursos temáticos abstratos. A
iconização é o investimento figurativo exaustivo, final, com o objetivo de produzir uma ilusão
referencial precisa, (Greimas & Courtés, sem/data: 223). Os efeitos de realidade resultantes desta
iconização que segundo Barros,
denomina-se como ancoragem trata-se de atar o discurso a pessoas, espaços e
datas que o enunciatário reconhece como “reais” ou “existentes”, pelo procedimento
semântico de concretizar cada vez mais os atores, os espaços e o tempo do discurso,
preenchendo-os com traços sensoriais que os “iconizam”, os fazem ‘cópias da
realidade’. Na verdade, fingem ser “cópias” da realidade, produzem tal ilusão. (Barros,
1990:60)
Esse efeitos levam o enunciatário a reconhecer no discurso figuras do mundo, o que
permite compreender sua validade como recurso persuasivo. “O fazer crer e o crer dependem de
um contrato de veridicção entre enunciador e enunciatário e o regulamenta, entre outras coisas, o
reconhecimento das figuras”. (Barros, 1990:72).
As notícias de jornal, por exemplo, utilizam fartamente o recurso da iconização para gerar
o efeito de realidade, obtendo assim o “aval” do leitor para o contrato de veridicção que
estabelecem. Os elementos da iconização produzem no jornal a ilusão de realidade dos fatos
ocorridos.
O enunciador, de todo e qualquer texto, deixa marcas para que o enunciado seja
concebido como uma verdade. Os recursos argumentativos servem como instrumentos de
persuasão, pois pressupõem um contrato entre enunciador e enunciatário, com base em valores.
Como diz Baccega (1995:58), o enunciador é um “porta-voz dessa multiplicidade: ele é
enunciador/enunciatário de todos os discursos em constante embate nas sociedade”.
48
De acordo com D’Ávila (em suas aulas),
o enunciador pode projetar-se como narrador ou observador dos fatos que
enuncia, e/ou ainda como interlocutor (ou assumir sincreticamente esses papéis
discursivos), projetando de forma correspondente o enunciatário. Pode ainda explicitar
ou deixar implícitos conteúdos, que deseje que sejam tomados como verdades
enunciadas, e apresentar provas ou testemunhos sobre o que diz.
Lula, por exemplo, utilizou conhecimentos compatilhados pelo eleitor como inflação alta,
ciranda financeira, desemprego, etc..., deixando explícito em alguns discursos que esses fatores
decorriam do desgoverno reinante. Fazia surgir um eleitor decepcionado com um governo
qualificado como injusto e inoperante. Desqualificando um outro sujeito e suas práticas,
qualificava a si mesmo e a seu projeto. O eleitor, envolvido nesse universo de valores, era
persuadido a acreditar na verdade revelada por Lula, que formatava o governo dizendo ser o da
“crise”, não era comprometido com os ideais de um povo. Lula mostrava a idéia da mudança, do
novo como forma de uma “nova era” na política brasileira
Os efeitos de sentido, criados discursivamente, moldam as relações entre enunciador e
enunciatário, gerando contrato. Os contratos podem ser de veridicção e fiduciário e servem de
base ao estabelecimento de relações intersubjetivas entre os sujeitos, que interagem em uma
situação de comunicação. A semiótica possibilita compreender o nível semio-narrativo de
superficie como o patamar persuasivo, considerando que crer no enunciado, em si e no narrador é
a condição para a ação e, conseqüentemente, para a performance pretendida.
Aceita-se dessa forma, a tese de que a finalidade última de todo ato de comunicação não
seja reduzida à sua capacidade de transmitir informação, mas à de persuadir e convencer o outro a
aceitar o que esta sendo comunicado. É o jogo de manipulação, visando fazer o enunciatário crer
no que é transmitido.
49
Pretende-se, com essas observações sobre o processo de análise estabelecido pela
semiótica – sobre esse modo como é concebido o percurso gerativo de sentido nos textos -
oferecer uma base mínima de entendimento aos leitores não familiarizados com a terminologia
empregada. Esta preocupação atende a um outro objetivo: dar respaldo teórico e metodológico o
acompanhamento da análise aqui empreendida, que permitirá entender o discurso de campanha
eleitoral de Luís Inácio Lula da Silva como instrumento de persuasão e manipulações diversas,
útil aos que pretendem politizar-se diante de candidatos que manipulam o eleitor e se tornam
competentes para um fazer específico: chegar ao posto de presidente da república. É importante
ressalvar que não se premeditou de dar à presente pesquisa um caráter-didático, por excelência.
2. A Semiótica Não –Verbal e Sincrética de N. D’ÁVILA
A semiótica define a reunião de diversas linguagens num determinado texto, de
“sincretismo”. Segundo Greimas & Courtés, (s/data:426), são consideradas semióticas sincréticas
aquelas que – como a ópera ou o cinema – acionam várias linguagens de manifestação; da mesma
forma a comunicação verbal não é somente do tipo lingüístico: inclui igualmente elementos
paralingüísticos (como a gestualidade ou a proxêmica), sociolingüisticos, etc.
No caso de um discurso televisivo, como os da campanha de Lula, angulação, cor, o
verbal o gestual, são exemplos de sincretismo composto de elementos paralingüísticos e
lingüísticos. A expressão reforça o caminho adotado para entendê-los: o de considerar que as
linguagens estão em relação para criar sentido. Porém para que este sentido seja examinado foi
preciso criarem técnicas e metodologias para a sua desconstrução em unidades mínimas de
significação concernentes a cada uma das linguagens envolvidas na manifestação textual.
De acordo com D’Ávila,
50
a semiótica sincrética designa linguagens que se manifestam
concomitantemente com interferências de estruturas semânticas e ou sintáxicas no
Objeto Semiótico em análise. Estas surgem como interferentes ocasionais que
proporcionam uma observação límpida do caráter inferencial permitindo melhor
articulação do sentido, pois surgem em momentos precisos no interior do discurso
ou
interferentes de atuação permanente (em concomitância), que seriam examinados
como “figura de fundo” não interferindo, aparentemente, na resultante significativa do
fato. Ambos deverão ser examinados no momento em que a presença dos mesmos se
faça indispensável (determinante) para a Significação. (D’ Ávila, 1998:461)
Um spot publicitário, uma historieta, um telejornal, uma manifestação cultural ou política
televisivas ou públicas são, entre outros, exemplos de discursos sincréticos.
Um discurso televisivo, por exemplo, surgiu a partir de diferentes substâncias de
expressão – plásticas, cromáticas, fisico-acústica. Quando tomamos contato com a primeira
imagem, o que vemos são as substâncias citadas já “enformadas”, colocadas em um sistema de
relações: percebemos um fundo preto, por exemplo, ou uma legenda junto da imagem do
enunciador, ou um cenário como pano de fundo, com os slogan do partido, bandeiras, música,
etc.
Temos uma semiótica sincrética porque estamos diante da significação produzida por
diferentes linguagens (verbal, gráfica, tipográfica, fotografica, gestual, entre outras)
administradas, unidas e hierarquizadas na forma de único texto, um “todo de sentido”, sendo o
verbal dominante em primeira instância, pela legenda ou pela imagem figurativa (com
representação verbal). Para analisá-lo, devemos procurar entender que há dois planos, o do
conteúdo, onde situam-se: “o que o texto diz e como o texto se diz texto”; e o plano da
expressão, onde igualmente observamos o que compõe a expressão (as substâncias, em processo)
e como é arranjada (a forma, o sistema), usados em princípio para a manifestação verbal,
produtora de efeitos de sentido e de sentido articulado na produção em simultaneidade desses
dois planos: expressão + conteúdo.
51
2.1 O Simbolismo e Semi-simbolismo
Vamos aprofundar agora questões sobre autor e o telespectador pressupostos pela
existência dos textos. Há dois tipos de textos que serão estudados nesse trabalho: o verbal e o
rítmico-sonoro, dentro do conjunto maior de textos escolhidos (o corpus).
Floch defende que
(...) a semiótica greimasiana não quer conhecer do produtor (do enunciado)
senão aquilo que o seu enunciado pressupõe. Nenhuma informação sobre ele, sua
ideologia ou a sua competência que não seja pressuposta pelo texto, a imagem ou o
gesto, e neles próprios. (Floch
,1985:197).
A semiótica francesa recusa o ponto de vista comum de teorias da Comunicação de que a
relação entre o autor (como emissor) e o telespectador (como receptor) é de mera transmissão de
informações. Para a semiótica, um dos componentes determinantes do processo de comunicação
é também o fazer-crer, ou seja, mudar ou reforçar crenças, mexer com atitudes que vão redundar
ou não em determinados atos.
Segundo Greimas, os discursos sincréticos se produzem sob a forma de “ancoragem”.
Esta designa o ato de por em relação grandezas semióticas pertencentes a duas ou mais
semióticas diferentes, ou a instâncias discursivas distintas (texto e título). Uma das grandezas é
transformada em referência contextual servindo, nesse caso, para desambigüizar a outra, no caso
de contarmos com duas grandezas. A verbal tem sempre o caráter hegeomônico, segundo
D’Ávila
13
, “quando nos colocamos sob efeitos de sentido inerentes à substância do conteúdo
sincrético examinado.
Porém, ao isolarmos cada uma das linguagens, e atentarmos aos interferentes ocasionais
responsáveis pela transformação do sentido em parcialidades do texto/discurso, não verbal,
13
Refere-se às explanações em sala de aula
52
rítmico-sonoro (a exemplo do nosso corpus em análise), verificamos que cada linguagem tem seu
potencial na transmissão de significados verbais ou não, embora nos valhamos da linguagem
verbal como metalinguagem para a elucidação dos conteúdos não-verbais a fim de que possamos
captar dos mesmos sua essência , sua natureza semiótica concorrendo à produção de efeitos de
sentido e do sentido articulado em significação.
Dependendo do texto/discurso, a manifestação não-verbal pode ter um caráter simbólico
ou semi-simbólico. Assim atuando, podemos afirmar que serão instituídos dois ou três percursos
geradores de sentido, com seus devidos patamares ou níveis de produção.
O primeiro referente à manifestação verbal ou seja, ao texto aqui apresentado em
seqüências (10 seqüências), e sua análise semiótica.
No segundo, referente à manifestação rítmico-sonora quando faremos ressaltar que,
tratando-se de um sincretismo não melodizado, ou seja, da fala humana, o trabalho para a
desconstrução do sentido – levando em conta as entonações e intonações, com a califasia, os
sonemas e os soemas –, é intenso e de longa duratividade, uma vez que demandaria uma segunda
análise completa, com insenção do significado verbal que, no som intonado ou entonado, vem
acoplado.
Desmanchar as linguagens para encontrar o modo de articulação, é o lema do semioticista,
seguindo as pegadas de Greimas que desconstruiu patamares em níveis de produção, permitindo-
nos observar as diferenças entre o nível semio-narrativo e discursivo. Somente desconstruindo
poderemos encontrar os elementos significativos básicos e os de preponderante significância, não
verbais, que transformam o verbal manifestado, no modo como foi “dito” aquilo que o discurso
apresentou.
53
Sabemos sobre o poder de um discurso político veiculado pela televisão, que tem a
capacidade de atingir milhões de telespectadores, e que esse mesmo veículo ainda possui outras
competências na medida em que pode repetir diariamente esse mesmo discurso, afetando os
mesmos e outros destinatários. Interessa-nos descobrir como os autores e telespectadores
“construidos” pela própria veiculação midiática, sendo pensados em posições tão abstratas como
enunciador - destinador e enunciatário – destinatário, possam permutar suas posições se o
primeiro quer persuadir que apresenta a verdade e cumpre o papel do destinador mandatário ideal
e manipulador, e o segundo, que interpreta se o texto é verdadeiro ou não, está no papel de
manipulado. Ambos aparecem reunidos pela semiótica no chamado sujeito da enunciação.
Essa definição soa estranha a princípio, pois parece concentrar duas posições,
aparentemente antagônicas, em uma única. Serve, porém, para reafirmar um aspecto importante,
principalmente em análise conciliadora de discurso midiático: sempre se cria um texto baseado
nas características específicas de quem vai recebê-lo. Não nos esqueçamos, porém, de que uma
vez diante do texto acabado, após uma, duas ou três releituras, sentimos-nos sempre surpresos
com novos acréscimos interpretativos. Assim sendo, somos também enunciatários diante de
nossa criação. O enunciador é sempre o primeiro enunciatário de sua própria mensagem.
Isso não quer dizer que o simulacro imaginado do eleitor/enunciatário sempre corresponde
às expectativas. Um texto pode ser bem sucedido ou mal sucedido. Em um discurso midiático, os
números e estudos sobre a quantidade ou a qualidade de eleitores, telespectadores, ouvintes
internautas é sempre um dado importante para avaliar o sucesso ou fracasso de um texto.
Segundo Greimas, na semiótica,
o enunciador propõe um contrato, que estipula como o enunciatário deve
interpretar a verdade do discurso; (...) o reconhecimento do dizer –verdadeiro liga-se a
uma série de contratos de veridicção anteriores, próprios de uma cultura, de uma
54
formação ideológica e da concepção, por exemplo, dentro de um sistema de valores, de
discurso e seus tipos (Greimas, s/data: 237).
A interpretação depende, assim, da aceitação do contrato fiduciário e, sem dúvida, da
persuasão do enunciador, para que o enunciatário encontre as marcas de veridicção do discurso e
as compare com seus conhecimentos e convicções, denominado como paradigma (Greimas &
Courtés, s/data:324), no nosso caso específico, interpretado como o acúmulo estatizado de
informações que formam o repertório de cada indivíduo, seu estoque; já a sintagmatização,
interpretamos como a combinação dos elementos desse repertório, sendo transformados em
processo de significação regidos por uma escala axiológica, que se configura numa descrição dos
sistemas de valores morais, lógicos, e estéticos. Um contrato fiduciário é um contrato de
confiança, bilateral.
No discurso político de Lula, por exemplo, esse contrato inclui diversas “cláusulas”: o
candidato é como um de nós, não vai mentir, é um candidato pressupostamente preparado, possui
habilidades, entre tantas outras. Isso não quer dizer que o eleitor – mesmo hipotético – receba
tudo sem questionar. Pelo contrário, ele está a todo tempo comparando com o que lê, ouve, com
suas próprias vivências, expectativas e convicções. No entanto, em sua tarefa de conquistar o
destinatário, o destinador persuade a si próprio, por suas próprias palavras, seus significados,
apresentando um discurso que reflete o pensamento, as aspirações daqueles. Num jogo de
sedução, envolvendo o verbal e o não-verbal, o destinador revela-se um “camaleão” ao se
transformar, no discurso, na possibilidade de realização das expectativas dos destinatários. Dessa
forma, o enunciador deixa de ser manipulador para auto-manipular-se.
A semiótica, portanto, oferece estratégias e os mecanismos que um texto mobiliza para
fazer crer sobre a veracidade (ou mesmo falsidade, no caso das histórias de pescador ou de
55
grandes ironias) dos fatos, além da metodologia e técnicas de descontrução textual, permitindo
entender como foram as mesmas aplicadas para a manipulação do enunciatário, ou vice-versa.
Uma técnica de persuasão muito comum no discurso político é fazer com que os fatos
tenham um sentido de subjetividade e aproximação, que na semiótica greimasiana denominamos
de debreagem actancial enunciativa.
Para a semiótica greimasiana, há dois tipos de projeção de pessoa: a enunciativa, em que
se instala o eu no discurso, e enunciva, em que se projeta o ele discursivo. As projeções
(debreagens) enunciativa e enunciva criam, em principio, dois grandes efeitos de sentido: de
subjetividade e de objetividade (Fiorin, 1996:45)
Essa característica do discurso político fica bastante evidente na “fala” de Lula. Nela, há
um “eu” que perpassa todo o discurso. Esse é um dos efeitos de sentido manejados por meio da
enunciação. Greimas & Courtés explicam a enunciação como “o lugar de exercício da
competência semiótica, é ao mesmo tempo a instância da instauração do sujeito (da enunciação)”,
e o enunciado “considerado como o resultado alcançado pela enunciação”, (Greimas & Courtés,
s/data:146-147).
A definição é importante para unir o sujeito da enunciação, ao ato de produção do texto.
Este gera o sentido, que faz o sujeito, e ela é geradora do enunciado e gerada pelo sujeito. Pode-
se comparar a enunciação a uma explosão em que só temos acesso às conseqüências que
provocou. A partir da análise de fragmentos deixados, contudo, das pistas, pode-se remontar toda
a cena e descobrir as pretensões, conhecimentos e estratégias do autor. Também podemos
entender o enunciado como sinônimo de texto.
56
Uma das principais tarefas do sujeito da enunciação no percurso de enriquecimento de
sentidos é fazer uma série de ‘escolhas’, de pessoa, de tempo, de espaço, de figuras, de temas e,
no caso do sincretismo, das linguagens e mecanismos à disposição para criar um texto. Tudo o
que falamos até agora sobre o percurso gerativo de sentido do plano de conteúdo, as técnicas
usadas, uso ou não de legenda, cores, angulação, gestual, assim como as diversas relações entre
plano de conteúdo e plano de expressão são estratégias de enunciação manejadas pelo nosso
sujeito da enunciação coletivo, decorrente da junção de vários sujeitos.
As relações de pessoa, tempo e espaço têm uma complexidade na análise de um discurso
político. Pensemos, inicialmente, na questão da “pessoa”. Todo político possui uma marca, cuja
identidade é visualmente esteriotipada por uma imagem e verbalmente por uma slogan. São as
representações de um “eu” que assume o discurso, um “autor” construído pelo texto ou, em
outras palavras, um simulacro do sujeito da enunciação.
Greimas estabelece um esboço de uma tipologia dos discursos cognitivos, na qual
inscreve os discursos interpretativos, os cientificos e os propriamente persuasivos: o da
Pedagogia, o da Política ou da Publicidade (Greimas & Courtes, s/data:333-334).
Como já dissemos no capítulo 1, item 2.1., a título de exemplificação, a publibidade e a
propaganda têm finalidade comum com o discurso de natureza política. Exatamente por sua
característica, o discurso político tem hoje seu complemento no discurso publicitário. Ambos são
“... textos argumentativos que visam levar o destinatário dos valores enunciados a um tipo de
comportamento particular: na publicidade, à compra; na política, à aceitação.” (Desmedt,
1984:143).
57
Na esfera política o eleitor promove um querer/dever ser ou fazer do candidato, ele usa de
habilidade para organizar os valores “desejáveis” pelo próprio eleitorado
14
, enquanto obediência
a uma “...opinião, invocada como figura capaz de manipular a vocação dos governantes”.
(Landowski, 1992:27). Um saber, em forma de objeto (discurso), enunciado como projeto de
governo (ideais), capaz de alcançar cognitivamente o eleitor. O crer e o querer são condições
para o fazer. Quando crê no objeto e em seu enunciador, o eleitor vislumbra a assunção do
candidato escolhido ao poder, como o caminho para a conjunção com o objeto descritivo
desejado. Caminha, pragmaticamente, em busca dos valores enunciados, como objetos que
integram o seu sonho de completude, revelando seus estágios passionais.
Mesmo que de maneiras distintas, os candidatos a cargos governamentais procuram
mostrar ao eleitor o potencial que têm as personalidades certas para direcionar o país, com
capacidade para administrá-lo de forma a garantir o que todos almejam: maior equilibrio
econômico e social. O percurso desenvolvido visa a qualificação de um candidato virtual ao
poder, como o melhor entre todos os concorrentes. E desta forma atuam, como em um
espetáculo, aguardando os aplausos da platéia.
A publicidade de marca, por exemplo, utiliza-se de processos demonstrativos e, sempre,
coloca em cena uma transformação operada por um produto. De acordo com D’Ávila (1999:13),
“toda publicidade é centralizada num destinatário, preocupada com todos os meios para bem
atingi-lo”. E acrecenta, (...), “tem o poder de tranformar um comprador virtual e um assimilador
atual num consumidor realizado”.
O crer do consumidor, relacionado ao fazer manipulador-narrador do enunciador e a
qualidade do produto, é que podem determinar o saber/poder-querer/dever/fazer para vir a “ser”,
14
Concebido como um actante coletivo, uma instância destinadora de valores.
58
do consumidor. O objetivo da persuasão, em textos publicitários dessa natureza, é levar o
destinatário a crer na possibilidade de sua própria transformação (seja física ou como modo de
vida), assumindo como verdadeira a capacidade operadora do produto anunciado, comprando-o.
O processo demonstrativo utilizado serve de argumento. Diz D’Ávila (1999a:13): “(...) ‘levar a
comprar’ é a palavra chave da propaganda que transforma um universo de dados em
possibilidades do fazer/saber, fazer-crer e fazer-fazer”.
A opção clássica pelo termo propaganda como exclusivo designador do momento de
campanha eleitoral, decorre da ausência do caráter comercial das estratégias empreendidas. E esta
não difere muito das campanhas de marca, que visam a fixação. Muitas campanhas de produto,
da mesma forma que as de naruteza política, procuram evidenciar uma ordem ameaçada ou
pertubada, que pode ser recuperada (Desmedt, 1981:143). Na política, o social e o econômico
podem ser reconstituidos ou instaurados, na perspecitiva de uma ordem desejada, com a aceitação
de um determinado candidato. Observa-se assim, que a publicidade de produtos, e a propaganda
política operam com valores atribuidos a objetos, para gerar o querer/fazer para vir-a-ser dos
destinatários de suas mensagens.
O candidato é apresentado como desejável e necessário ao programa de busca do eleitor,
(porque diz ao eleitor aquilo que ele quer ouvir e cuja opinião já manipulou o candidato). Aí
reside o caráter instrumental do discurso de campanha, condicionado o candidato a um programa
de uso do eleitor, (eleitor manipulador, o desejo do público é o objeto modal para manipular o
candidato). E também a seu caráter “publicitário”. O produto enunciado pelas campanhas
publicitárias também é direcionado a um “desejo” do público ao qual é dirigido. Como na
politica, a substância do conteúdo é moldada com base em um suposto desejo de destinatário da
mensagem. Reproduções dos valores “desejáveis”, capazes de promover uma identidade do
59
candidato com o do desejo do eleitor, enquanto modo de reconhecimento. Segundo D’Ávila
(explicação em sala de aula), é o produtor da mensagem que se modifica em função do público,
(que o manipula e julga no final).
Estas observações permitem concluir que no programa de competência do candidato, o
saber é doado por um outro sujeito (eleitor), em uma transferência por comunicação participativa
sobre os desejos: o que doa não se abstém do saber doado. No dizer de Greimas & Courtés
(s/data:278), é caracterizado como metassaber, é um saber que um sujeito tem do saber de um
outro sujeito. O metassaber pode ser transisito, (quando se trata do saber que S1 pode ter do saber
de S2 sobre o fazer de S2), ou reflexivo ( se trata do saber de S1 sobre o saber de S2 relativo ao
fazer pragmático de S1).
Já o programa de performance do candidato só será atualizado se, por um fazer transitivo,
este mesmo candidato, conseguir chegar ao posto que candidatou-se, fazer o eleitor a votar nele
(voto: objeto modal do candidato), atualizando assim a relação com o objeto descrititvo (poder:
presidência). No caso do Lula - emprego, mudança, segurança, reforma agrária, política, etc.,
estas figuras, que são extraídas do campos semânticos dos discursos de Lula, formam o percurso
figurativo do Programa de governo, (Programa de doação: Eu presidente ofereço ao povo os
louros do governo), que resultam da isotopia da “Promessa” que define ao tema do compromisso.
A comunicação de qualquer objeto desejável tira o sujeito do estado de espera. A exemplo
do eleitor com a promessa de dias melhores pelo candidato. E cada passo dado por um sujeito
em direção a uma qualificação, para tornar-se competente a alcançar o eleitor, representa uma
mudança em sua existência modal.
Os enunciados políticos, propagandísticos-publicitários, traçam programas, perscursos e
esquemas narrativos e põem em jogo modalidades do crer, do querer/dever/saber/poder fazer ou
60
ser, atribuindo papéis actanciais aos actantes: sujeito, objeto, destinador e destinatário da
mensagem. A análise de textos dessa natureza, essencialmente argumentativos, fazem aparecer as
estruturas narrativas. Mesmo que não narrem a ação do sujeito manipulado, a mantém como
meta, como horizonte, o que é característico dos discursos de manipulação.
O fazer persuasivo é característico dos discursos argumentativos e estabelece programas
na relação relaxamento/tensividade. Ao provocar a tensividade, evidenciando que uma ordem
está ameaçada, ou que pode ser restaurada (governo), o enunciador persuade o eleitor a crer no
poder atribuido a ele, propondo o relaxamento. Os valores, enunciados como eufóricos ou
disfóricos, apresentam a capacidade, por uma oposição representada, de definir a trajetória dos
sujeitos, em busca seja de uma conjunção ou disjunção com o candidato.
A propaganda política procura, inevitavelmente, apresentar o candidato como um sujeito
operador, capaz de realizar uma conjunção/disjunção com os valores projetados como
desejáveis/indesejáveis, respectivamente, que atendam a expectativa do eleitorado. O eleitor é um
actante ativo, “delegado da nação” disjunto dessa “ordem”, de valor eufórico. O objetivo do
enunciado é colocar o candidato como sujeito competente, “reclamado” pelo eleitorado, de forma
que seja aceito como tal.
Crer na capacidade anunciada sobre o sujeito, levando o eleitor ao voto (objeto - modal),
gera como aceitação de uma “verdade”, uma relação de confiança, imprescindível para que o
candidato consiga implementar outras formas de modalização sobre o eleitor, para levá-lo a agir
(votar). Toda uma orientação axiológica favorece este ‘reconhecimento’, visto que, sujeito e
objeto escolhem-se reciprocamente, o sujeito, porque impõe protensivamente ao objeto
propriedades sintáticas seletivas, e o objeto, porque semantiza o sujeito, sendo a valência o
critério regulador desse encontro, como dispõem Greimas & Fontanille (1993:45).
61
Para convencer esse eleitor, o candidato persuade e manipula. Destinatário segundo o
saber, o eleitor é seduzido a acreditar que a mudança de estado e/ou sua manutenção, só será
possível se houver uma busca, uma ação. Isto representa um fazer-crer /persuasivo do qual
corresponde a manipulação. Auxiliados pela Semiótica compreendemos que todos os textos são
persuasivos, o que faz aparecer a argumentação como forma de convencimento, considerando
que mesmo as provas lógicas podem ser nominadas de recursos persuasivos. Segundo D’Ávila,
As provas lógicas estão diretamente relacionadas ao convencer. Fazem apelo à
razão, às reflexões lógico-semânticas do destinatário. Conduzem – no ao crer pela
cognição e não pela timia ou por “estados de alma”, passionais, facilmente distinguíveis
na persuasão (D’Ávila, 2006: 40).
Assim, a forma como o enunciador realiza um fazer enunciativo, capaz de levar o
enunciatário a crer, para assumir o fazer pescrito, tanto pode ser pelo persuadir quanto pelo
convencer.
Para a semiótica, a persuasão é um fazer cognitivo pelo qual o enunciador convoca todo o
tipo de modalidade para fazer o enunciatário aceitar o contrato enunciativo proposto, (Greimas &
Courtés, s/data:333), tornando eficaz a comunicação e permitindo o surgimento do destinador e
do destinatário em uma relação de comunicação, que não prescinde da manipulação. Sua
finalidade é afetar o enunciatário em seu fazer, permitindo a construção dos programas
narrativos.
É na transmissão de um saber que o candidato propõe ao eleitor o caminho para uma
transformação. É o que qualifica o texto político de campanha eleitoral como um discurso
persuasivo, que de acordo com Greimas & Coutés, (s/data:333), “trata-se de um fazer cognitivo
do destinador-enunciador, ligado à instância da enunciação. Consiste de todo tipo de modalidade
convocada pelo enunciador, para que o enunciatário aceite o contrato proposto, tornando a
comunicação eficaz”.
62
Busca fazer/crer para fazer/fazer (agir), conduzindo o eleitor a votar, visando ( no caso do
candidato Lula), o posto de presidente da república. A capacidade persuasiva de um candidato é
mais eficiente do que a de outro, quando ele consegue estabelecer uma relação intersubjetiva que
possibilite realizar o seu próprio programa de competência
15
, que precede ao de performance
16
.
Acreditando da veracidade da argumentação, em torno de um objeto-valor (descritivo),
confiante na competência do candidato e no papel que lhe é destinado, é que o destinatário do
discurso parte para a ação. Na arte da sedução, o orador utiliza múltiplos recursos
complementares, compreendendo estratégias que, em seu conjunto, formam um composição
sistêmica que pode ser perfeita.
A ação argumentativa não se reduz à mera exposição dos argumentos. Implica em todo
um sistema de persuasão. Nas campanhas eleitorais, várias estratégias são desenvolvidas para
garantir a eficiência persuasiva. Primeiro, estratégia de campanha procura estabelecer uma
identidade com o eleitor e orienta, por um saber – para fazer/crer – que ele pode ter seu modo de
existência modificado por objetos que apresentam valores mais “positivos” para a nação. Em um
segundo momento, a campanha evidencia o poder/fazer do eleitor (votar) como forma de
“contribuir” para a aquisição do objeto – valor (descritivo). Uma persuasão para que o eleitor
acredite em si mesmo, enquanto destinador do poder/fazer, e na existência de um candidato, que
melhor se habilite enquanto um sujeito virtual do fazer transformador, e em suas propostas como
valores mais positivos, destinando a esse o mandato.
O enunciador constrói simulacros dos objetos, adequados ao universo referencial do
enunciatário, para que sejam concebidos como uma representação ou descrição, o que tem força
15
O programa de competência compreende o percurso do sujeito para adquirir os valores modais necessários para a
performance desejada (alcance do objeto descritivo)
16
O termo performance cobre a instância da realização. Dizemos que um sujeito é performante quando altera o seu
estatuto actancial, tornando-se disjunto ou conjunto de um objeto
63
de argumentação. A competência do sujeito da enunciação reside, portanto, na capacidade de
criar as “ilusões referenciais” dos objetos.
Em política, os recursos persuasivos oferecem um rico campo de análise, pois o
enunciador precisa garantir a verossimilhança do objeto, sobre o qual repousa o crer, e obter
credibilidade através da credulidade do enunciatário. Landowski trata da sinceridade, confiança e
intersubjetividade no capitulo IX da obra Sociedade Refletida.
É a sintaxe actancial da enunciação que vai dar conta da capacidade de empreendimento,
pelo político, de uma persuasão eficiente ou não. Mesmo que se projete de forma desdobrada em
enunciador e narrador dos fatos que enuncia (e simule uma interlocução), qualificando-se como
competente para este fazer enunciativo, o político há que considerar o outro actante sujeito como
um parceiro – ou um adversário - , dotado de competência. O que significa dizer que não pode
menosprezar a capacidade do eleitor de “aceitar” o simulacro do “lider”, do país “idealizado”
(conforme o enunciado) ou construir, ele próprio, uma figura do enunciador, de si próprio e da
“realidade” representada no discurso. Os eleitores, no caso, são os interlocutários, que segundo
D’Ávila (explicações em sala de aula), interlocutor e interlocutário estão “dentro” do texto, no
enunciado, emitindo questões e produzindo respostas. Na enunciação, as questões são
pressupostas no texto examinado, as respostas são observadas pelas palmas, aplausos, expressões
corporais, etc.
O reconhecimento da competência do destinatário exige, do destinador, um percurso de
manipulação. E este percurso (fazer/fazer) passa pela troca de simulacros actanciais (fazer/crer).
Esta troca é que torna possível o acordo contratual dos sujeitos em relação “a construção dos
“estados de coisas” (do “contexto”) e à natureza das relações que os unem” (Landowski,
64
1992:151). É o que marca a relação recíproca entre candidato e eleitor, característica da
manipulação política. O famoso falar o que o eleitor quer ouvir. Segundo Andrade,
No entanto, em sua tarefa de conquistar o enunciatário, o enunciador persuade a
si próprio, apresentando um discurso que reflete o pensamento, as aspirações daquele.
Num jogo de sedução envolvendo o verbal e não- verbal, o enunciador se revela um
camaleão ao se tranformar, no discuso, na possibilidade de realização das expectativas
do enunciatário. Dessa forma, o enunciador deixa de ser o manipulador para ser
manipulado (Andrade, 2004:3)
Observa-se assim que eleitor e candidato, respectivamente destinador e destinatário,
segundo um poder/fazer, são sujeitos construidos pelo enunciador. Resultado do fazer/crer (no
enunciado) empreendido, de sua capacidade argumentativa, seladora do contrato de confiança
que resulta em uma relação intersubjetiva entre esses dois parceiros.
O candidato faz saber sobre o objeto e persuade o eleitor a crer no enunciador, no
enunciado e no simulacro estabelecido para si próprio. É o caminho para despertar o “desejo” e
instalar – “imaginariamente” – candidato e eleitor, reunidos, em um único papel, ou seja, de
actante dual, segundo Greimas, sujeito do querer. É o querer “comum” ou “complementar’’,
visando a performance dos parceiros em relação, que vai estabelecer a interação entre eles.
“O essencial do fazer persuasivo do enunciador consiste, pois, nesse caso, em
fazer o enunciatário aderir à imagem de si mesmo que lhe é proposta enquanto árbritro
(“real”ou simulado) dos valores, isto é, enquanto destinador construído”. (Landowski,
1992:57).
O candidato estabelece uma “promessa” de governar/legislar, para a concretização dos
valores assumidos por ele e pelo eleitor como “comuns”, o que vai exigir do candidato, como
programa inicial, a construção do destinador: um percurso de manipulação para qualificar o
candidato como competente.
A promessa inclui um programa, tomado como objeto; são atribuidos à vontade do sujeito
da enunciação, enunciados como metas e ações, que visam atender expectativas e necessidades
do eleitor. Assim surge, narrativamente, um destinatário do saber que quer o objeto.
65
Por isso compreende-se que a competência poder/saber fazer do candidato, como
destinador, é o que fundamenta a campanha política. Esta “qualificação” do parceiro com o qual
interage, exige que o candidato instale em si mesmo – enquanto enunciador – como um actante
(individual), capaz do fazer operador. Assim, ele busca ser reconhecido como este sujeito do
fazer, tornando o voto (objeto modal) a ser “utilizado” pelo eleitor para o candidato, no caso
Lula, chegar ao posto de presidente da república. A partir do contrato fiduciário estabelecido, um
atua sobre o outro, em uma relação intersubjetiva que visa um fim, eufórico enunciado como
interesse de ambos.
É através do fazer persuasivo, na instância enunciativa, que o enunciador consegue
estabelecer um código de verdade sobre o que fala, ou seja, sobre o que constrói
enunciativamente. Sem eficácia persuasiva não surgem os actantes narrativos. E o objeto, criado
pelo enunciador, perde a função de iniciar a trama narrativa, pois até ai, só é possível prever um
sujeito potencial.
No caso dos discursos políticos, o estatuto de veridicção precisa ser estabelecido tanto em
relação aos simulacros dos parceiros, aos opositores, quanto ao objeto-programa, representando
por um plataforma de ação para o futuro mandato. A aceitação dos simulacros, como sanção
positiva, decorre quando, através da persuasão, o enunciador promove este crer, que
sobredetermina o querer/fazer do eleitor. Só quando ele faz crer é que reúne adjuvantes e
oponentes e instala o conflito de valores, característicos das narrativas políticas de campanha.
Contratos como modos de relação
O estatuto de veridicção do enunciado, quando confirmado pelo crer do enunciatário, é
que permite ao destinador dar início ao percurso de manipulação. Nas campanhas eleitorais, ela é
66
empreendida para capacitar o eleitor a votar no candidato, de forma que a conjunção do
mandadato virtual com o poder, seja aceita como condição para a performance dos sujeitos.
O voto na urna é a forma figurativizada da aceitação, e de sua “promessa” de ação
operadora. Corresponde a uma relação contratual, estabelecida como conseqüência da sanção
positiva do eleitor ao destinador virtual do poder/fazer e a seu programa de governo. É revelador
da relação fiduciária que se estabelece entre o destinador do poder (candidato) e o sujeito que ele
representa, o eleitorado.
É importante observar que a relação intersubjetiva se funda a partir do contrato fiduciário,
baseado na confiança dos valores em troca, entre destinador e destinatário. É resultado direto da
manipulação. Pode-se dizer que o eleitor assina hipotéticamente esse contrato, quando está
seguro do valor objeto a ser recebido através de seu fazer “intermediário” e do fazer do candidato
após a eleição. “ O contrato de confiança estabelecido entre sujeitos não é necessariamente um
contrato verdadeiro mas, na maior parte das vezes, um simulacro” (Greimas, Apud Barros,
1990:50). Esse simulacro pode também abrigar, sob a forma de um contrato não necessáriamente
verdadeiro, um contrato unilateral ou pseudo-contrato.
O contrato de veridicção, que se refere ao dizer verdadeiro do discurso enunciado,
proposto na instância da enunciação visa, exatamente, o estabelecimento da convenção fiduciária.
Essa interação, em torno de objetos comuns ou complementares à performance de cada um, é que
movimenta os principais sujeitos das campanhas eleitorais: candidato e eleitor.
A garantia do estatuto de veridicção do enunciado vai depender da forma como o
candidato-enunciador consegue estabelecer o caráter verdadeiro sobre este objeto. As ilusões
referenciais criadas é que podem gerar, como efeito de sentido, o seu parecer verdadeiro. São
simulacros, construidos a partir do universo axiológico do enunciador e do enunciatário. Desta
67
forma, os simulacros, mesmo concebidos como uma reprodução do “real”, podem transformar-se
em uma nova realidade, mais intensa do que a lhe deu origem.
O discurso político de campanha, por sua espeficidade, exige assim, que o candidato
obtenha a confiança do eleitor, como sujeito capaz não só de transmitir, mas também de
concretizar os valores desejáveis. A confiança é que pode transformar o eleitor, em um segundo
momento, em destinador do poder/fazer ao candidato. Por isso, o marketing de campanha se
detém na procura de um “perfil” ideal para o candidato, criando um simulacro no qual o eleitor
confie, visando unir esses sujeitos em torno de identidades através das quais se reconheçam e se
aprovem. Para Landowski, a opinião é como uma “instância testemunha que assiste ao
“espetáculo” e interpreta sua significação”, sendo assim, observadora e informante, portanto,
manipuladora e não manipulada, como se pressupõe. O marketing político submete-se, portanto,
a essa opinião pública. D’Ávila acrescenta (em suas aulas), ao dizer que:
(...) a opnião pública é auto-manipulada por um estado de falta, que lhe provoca
, repetidamente a agir. Ela quer continuar sendo “opinião pública”, título que lhe é
ortogado pelo seu sucesso na demonstração da “força popular”. Na práxis enunciativa
colhemos a manipulação exercida pelos movimentos velados que incitam a comunidade
a emitir opiniões que denominamos práxis velada.
Em seu fazer interpretativo, o destinatário julga o simulacro apresentado, estabelece
comparações. Muitos candidatos não mobilizam o eleitor, por não conseguirem convencê-lo dos
valores do objeto ou, simplesmente, por não “provarem”sua competência. Quando o candidato
não consegue fazer crer ao eleitor que tem competência para ser o mandatario, é ignorado
enquanto objeto – valor modal. O que significa dizer que, o programa de governo pode constituir-
se como um objeto descritivo desejável, o mesmo não ocorrendo com o candidato. Se não inspira
confiança, o simulacro não convence, e é tomado como uma mentira (máscara), que pode ocultar
o vilão.
68
CAPÍTULO 3: ABORDAGEM SEMIÓTICA DO TEXTO/DISCURSO
1. Corpus: Texto não sincrético. Transcrição do verbal extraído de gravação em
vídeo.
LULA ( Discurso – 2002)
I
Tá chegando a hora. Agora, só faltam poucos dias para as eleições.
II
Durante todos esse programas eleitorais vocês viram, tenho falado exclusivamente dos meus
projetos para um novo Brasil.
III
Hoje, quero pedir sua permissão para não falar de projeto, quero apenas conversar com as
mulheres e os homens do Brasil que estão quase votando em mim, mas que ainda não se
decidiram.
IV
Vejam, a essa altura existem praticamente três tipos de eleitores:
Os que já votam em mim, e eu agradeço a confiança.
Os que estão votando em outros candidatos e que merecem de mim o mesmo respeito, e aqueles
que estão quase, quase se decidindo a votar em mim.
V
Vejam, meus amigos e minhas amigas quase Lula, sei que vocês também querem a mudança do
nosso país, sei que vocês compreendem a necessidade do Brasil ter um governo que tem que se
preocupar com o desenvolvimento, com o futuro mas que não vai esquecer os pequenos, os mais
fracos, os famintos sempre tão esquecidos.
VI
Eu preciso do seu voto de confiança e sinceramente eu mereço essa oportunidade para qual tanto
me preparei.
VII
Veja minha amiga quase Lula, do mesmo modo que você deseja ser feliz e não quase feliz, o
Brasil também precisa de uma mudança e não quase uma mudança porque temos que enfrentar
69
uma crise e não uma quase crise, e você precisa de um emprego e não de um quase emprego, não
é verdade?
VIII
Tenho hoje um grande apoio para governar o país, nos empresários, nos sindicatos, dos maiores
economistas, de dois ex Presidentes da República, Itamar Franco e José Sarney, de políticos de
todos os partidos, de importantes lideranças das forças armadas, só falta o seu voto.
IX
Pense nisso com muito carinho, até porque no dia da eleição não existe na maquininha o botão do
quase.
X
e que Deus lhe ilumine.
2. A manifestação verbal – Teoria de A.J. GREIMAS
Em semiótica observa-se melhor o sentido em processo, quando um sujeito parte em
busca da ideologia encrustada em um objeto qualquer. Sentido, portanto, aparece aqui na acepção
de “direção”. Essa leitura também permite perceber que o sentido nasce da quebra de uma
situação de harmonia e da necessidade de sua retomada. A performance, ou ação, é justamente
essa busca do sujeito para encontrar o valor inserido no objeto de busca. Todas as ações do
sujeito podem ser resumidas nos verbos: fazer e ser. Uma das grandes conquistas da semiótica de
Greimas é permitir entender a ação (o fazer do sujeito) como resultante de diferentes
combinações assentadas sobre quatro verbos modais: querer, dever, poder e saber.
Outro ponto importante deve ser destacado: o sujeito também deposita diferentes valores
(ideologias) em um mesmo objeto. Um homem pode querer um carro para ter acesso ao status, ou
a outro, pelo conforto. Quem maneja as crenças (ou crer) do sujeito é o destinador, que manipula
o sujeito (aqui no papel de destinatário) à ação. Greimas verificou a existência de quatro grandes
tipos de manipulação do destinador, aqui exemplificadas na relação eleitor e eleitorado:
70
1 – Tentação. “Se você votar em mim, vai ter o emprego que sempre almejou”
2 – Intimidação. “Se você não votar em mim, continuará nessa miséria que assola o país”
3 – Sedução. “ Cidadãos inteligentes, como vocês, sabem a importância de escolher um
político competente no dia das eleições”.
4 – Provocação. “ O povo brasileiro precisa levantar o traseiro da cadeira, para melhorar
de vida. Eu ofereço as oportunidades”.
Segundo D’Ávila
17
(...) toda ação entre sujeitos implica a existência da manipulação. Ainda que a
manipulação não conste explicitada no texto, surgindo a sanção, fica implícito que houve
manipulação de algum modo, em algum lugar da narrativa. A sedução e a provocação
estão instaurada na dimensão do saber ou seja, no cognitivo, já a intimidação e a
tentação estão alçadas na dimensão pragmática, ou seja, na do poder.”
Assim, para o governo manter-se no poder, é necessário construir na mente do povo, por
meio da sedução, a priori, a importância de tal conduta para a segurança da população,
propagando a garra e a determinação do povo brasileiro. Como exemplo, a publicidade que foi
muito difundida: “Sou brasileiro, e não desisto nunca”.
O fazer persuasivo está ligado à instância da enunciação e consiste na convocação, pelo
enunciador, de todo tipo de modalidades com vistas a fazer aceitar, pelo enunciatário, o contrato
enunciativo proposto e a tornar, assim, eficaz a comunicação Greimas/Courtés,(s/data, p. 333).
Assim, o fazer persuasivo tem por finalidade conseguir a adesão do enunciatário. E a decisão do
destinador que o faz querer manipular e é a execução que faz dele, efetivamente, um
manipulador. Condicionado pelo fazer interpretativo, ao simulacro de verdade construído pelo
enunciador, deve passar pela decisão do enunciatário de aceitar ou recusar a manipulação para
então agir ou não conforme a vontade do manipulador.
17
Explicação esplanada na disciplina Semiótica verbal do Programa de Mestrado da Unimar, 2006.
71
Mesmo em um regimento ditatorial, os governantes procuram ainda estabelecer uma
coerência, ou seja, procura-se dar uma explicação para tal comportamento coercivo, sendo a
sedução uma forma de chamar a atenção para fazer esse destinatário/enunciatário população a
querer/fazer, e assim, poderem exercer-lhe uma intimidação fazendo-o dever-fazer, isto é, ser
obediênte à ditadura.
Assim, o enunciador “governo militar”, por meio de um fazer-persuasivo, propõe ao
enunciatário um acordo, um contrato, levando-o a crer nos valores em jogo e na própria
veracidade do discurso.
2.1. O Percurso Gerativo do Sentido Verbal
O texto será analisado semioticamente de conformidade com as seqüências discriminadas
no ítem anterior, em acompanhamento ao Percurso Gerativo do Sentido greimasiano (Greimas &
Courtés, s/data:209), cuja recodificação foi efetuada por D’Ávila após 15 anos no uso da teoria e
na observação das dificuldades apresentadas por seus orientandos oriundos de diferentes áreas do
universo acadêmico.
72
Um texto verbal é uma "história" expressa numa determinada língua natural. Constitui,
portanto, uma manifestação textual, do tipo linguístico, que é o resultado da reunião de uma
expressão a um conteúdo. A expressão é definida nas substâncias e forma lingüísticas assumidas
pela língua natural; o conteúdo, em substância e Forma, é representado, em substância, pela
"história" que está sendo por ele veiculada. Podemos dotá-lo de uma natureza (parcialmente)
73
autônoma, uma vez que pode ser retomado em outra língua ou até em outro suporte de
comunicação, como, por exemplo, numa banda desenhada, num filme ou num discurso político
de coletiva à imprensa, ou como o que expomos nesta análise, como CORPUS.
Deixando de lado, por ora, a substância da expressão pertencente ao significante, nosso
maior interesse voltou-se ao que a semiótica de Greimas, por intermédio de seus seguidores,
definiu como “o plano do conteúdo”, com a finalidade de um aprofundamento cada vez mais
detalhado no campo da pesquisa científica.
Na esteira de Hjelmslev, a teoria ilustra que o plano do conteúdo e o plano da expressão
comportam, cada qual, uma forma e uma substância. No caso da expressão lingüística, o sistema
de fonemas e grafemas (forma) opõe-se à cadeia fônica ou gráfica (substância). Do mesmo modo,
o plano do conteúdo deve apresentar sua "gramática" como “forma” e um "dicionário" ou
"léxico" para a “substância semântica”.
SEMIOSE
EXPRESSÃO CONTEÚDO
SUBSTÂNCIA FORMA SUBSTÂNCIA FORMA
Variável Invariável Variável Invariável
(Processo) (Sistema) (Processo) (Sistema)
____________________________________________________
Substância Sistema O que contou Como contou
Físico-acústica lingüístico a ‘história’ o que contou.
purport Verbo-sonoro O discurso Propag. Política
EXPRESSÃO = SIGNIFICANTE e CONTEÚDO = SIGNIFICADO.
74
No que se refere à forma da Expressão, pelo esquema acima dado em sala de aula
(D’Ávila, 2004), podemos dizer que esta caracteriza-se no sistema lingüístico que está sendo
examinado, como uma espécie de código, cuja utilidade consiste em agregar, ordenar e
estruturar, codificando a cadeia de elementos físico-acústicos que se encontram dispersos, sob
forma processual, desordenada.
As Substâncias e Forma do conteúdo.
Estas se definem num agregado de traços diferenciais postos em relações com a finalidade
de produzir sentido. Não há sentido senão na diferença e pela diferença. Ao considerarmos os
elementos pertinentes, capazes de construir as diferenças, estaremos reconstruindo a substância e
a forma do conteúdo, isto é, não apenas o sentido em si, mas indicando o seu percurso, em
articulação.
Segundo Santana (2001:127), Greimas define significação como produção, ou melhor,
articulação do sentido, isso significa dizer que o sentido ao ser manifestado transforma-se em
significação. A semiótica, segundo D’Ávila (2002), é uma gramática do conteúdo.
Assim, a oposição forma/substância semânticas situa-se inteiramente no interior da análise do
conteúdo .O estudo do conteúdo, tal como o leva a cabo a análise semiótica, implica a distinção
de dois níveis: um nível de superfície e um nível profundo.
No nível profundo ou imanente, a semiótica perscruta a rede de relações entre os valores
dos sentidos e o sistema de operações que permite passar dum valor a outro. No nível da
superfície (o nível em que o conteúdo começa a manifestar-se), a semiótica distingue uma
componente narrativa, que regula os estados e as suas transformações, e uma componente
discursiva que regula, num texto, o encadeamento das figuras e dos efeitos de sentido.
75
De acordo com Santana (2001:128), o plano de conteúdo teorizado por Greimas divide-se
em níveis de estruturação, em patamares, que compõem o percurso gerativo da significação.
Podemos falar desses níveis de modo simplificado: profundo, narrativo e discursivo,
considerando os primeiros o nível semiótico propriamente dito (estruturas sêmio-narrativas), e o
último, o nível menos profundo ou mais superficial (estruturas discursivas), cada qual com seus
componentes sintáxico e semântico.
Assim, para análise do conteúdo, serão abordadas as estruturas discursivas (que remetem
à enunciação), e as Sêmio-narrativas (representativas do enunciado), comportando os níveis-
superficial e profundo.
2.2. Níveis de estruturação do sentido
I) Estruturas discursivas
Sintaxe Discursiva
Os actantes e o modelo actancial.
A noção de actante, cujo conceito foi criado por L. Tesnière (Greimas & Courtés:13), foi
introduzida na narratologia por Greimas no seu esforço de rever e simplificar o capítulo VI da
obra de Propp apud Fiorin (1993:23). O seu modelo actancial, com seis actantes, tem por base
uma relação transitiva e teleológica entre sujeito e objeto:
76
Segundo D’Ávila (2003b), corresponde à análise dos atores no tempo e no espaço
inserindo-os de acordo com seus papéis: temático (discursivo) e actancial (narrativo). A
construção do ator se faz com, pelo menos, um papel actancial e um temático. O discursivo veste
o narrativo.
Os papéis actancial e temático estarão sendo aqui demonstrados em dicotomia, embora
estejam em patamares de produção diferenciada do sentido.
Papel Temático (discursivo) Papel actancial (narrativo)
LULA Sujeito do /fazer-crer/ do /Poder/, /Querer/, /Saber/ e
do /Dever-fazer/, manipulador, manipulado, do convencer
da camuflagem, actante individual e coletivo, destinador-
destinatário, entre outros.
.
ELEITOR Sujeito do /Dever/ (manipulado), do /querer/, do /Saber/ e
do /Poder/ (manipulador), actante coletivo, destinatário-
destinador, adjuvante, etc.
77
Adjuvants na manipulação para fazer valer seu programa de governo, são os empresários,
sindicatos, economistas, ex- Presidentes da República, políticos em geral e membros das forças
armadas.
Æ uma relação de comunicação (plano de contrato) entre destinador e
destinatário, tendo em vista a aquisição do objeto-Valor (descritivo) ganhar a
eleição como fim almejado, valem-se S1 + adjuvants, para tanto, de objetos
de valor modal(oratória + o voto) como um meio para atingir o objetivo. Esta
é uma relação polêmica capaz de influenciar a relação dos /dever, querer,
poder e saber/ entre actante-sujeito e actante-objeto, uma vez que não apenas
como adjuvants mas também como objetos modais, podem enquadrar-se os
sujeitos acima citados. Desse modo foram, assim, por nós incluídos, também
como fortes elementos estratégicos da oratória utilizada.
No percurso do Sujeito, Lula (temático), S1 desenvolve vários papéis actanciais de:
S1 sujeito do fazer, Sujeito destinador
Sujeito do querer/saber-fazer ----“tenho falado exclusivamente dos meus projetos”
Sujeito manipulador (do /fazer-fazer/).
Sujeito do dever ----- “Eu preciso do seu voto de confiança” ...
Sujeito da auto-sanção ----- “eu mereço essa oportunidade”.
Sujeito operador – capacidade para mudar o Brasil “atual” (estado) para um “Brasil
Novo” (fazer transformador)
Sujeito delegado de S2 (o eleitor) – o delegado não está como termo que veste o actante.
Está no domínio do plano narrativo, logo, actancial.
Sujeito destinatário - manipulado.
78
Sujeito da persuasão (do /fazer-crer/)
Sujeito do ‘convencer’.
Sujeito em sincretismo (actante dual, actante coletivo)
Sujeito da Camuflagem e/ou decepção.
O nível discursivo, o mais próximo da manifestação textual, é o que revela, para Barros
(1990:54) “...os recursos persuasivos utilizados para manipular o enunciatário ou a cobertura
figurativa dos conteúdos narrativos”, permitindo localizar “...valores sobre os quais e para os
quais o texto foi construído”. A narrativa deve ser compreendida assim, como um texto ordenado
por um sujeito da enunciação, que veicula valores (organização semântica), criando os objetos
com os quais os actantes-sujeitos da narrativa vão se relacionar.
A enunciação é uma instância pressuposta pelo enunciado e tudo o que dela se revela,
advém das marcas que o sujeito da enunciação deixa no próprio texto. Assim, sujeitos e objetos
são tomados enquanto simulacros concebidos nessa instância, presentes no texto enunciado.
O texto é um objeto que o enunciador quer fazer/crer como verdadeiro. É um objeto de
comunicação. É pelo fazer persuasivo que o enunciador consegue estabelecer o estatuto de
veridicção de seu enunciado. O mesmo procedimento é utilizado para que os simulacros dos
sujeitos e do objeto sejam aceitos como “válidos”. A sintaxe discursiva vai explicar as relações
do narrador com o narratário. Vai dar conta assim, do modo como o enunciador cria efeitos de
sentido, seja o de proximidade ou distanciamento com o que enuncia, ou de realidade ou
referência, que sustentam os actantes criados discursivamente. Esses efeitos garantem a
objetividade ou a subjetividade, fazendo surgir sujeitos que se fazem “responsáveis”, ou não, pelo
que enunciam. São criados pelos mecanismos da debreagem e da embreagem, de pessoa, tempo e
espaço, que podem ser enuncivas (em 3
a
pessoa “ele”), ou enunciativas (1
a
e 2
a
pessoa “eu e tu”).
79
Em política, por exemplo, quando Lula diz: “Eu vou fazer uma mudança nesse País”,
manifesta-se como responsável pelo que enuncia. Esta é uma debreagem actancial enunciativa.
Mas ao dizer “ vamos fazer um Brasil com que todos nós sonhamos”, o “nós” remete a um “tu”
(a pessoa com quem se fala subentende “vocês” da enunciação): é o destinatário da mensagem
implicito, que compõe com o “nós” um actante coletivo, que confere o mesmo caráter
enunciativo, só que por meio de uma operação de embreagem.
A partir de marcas como essas que o enunciador deixa no texto, é que se pode falar dos
dispositivos empregados para produzir o discurso, concebidos como recursos para persuadir
sobre a verdade do enunciado.
Semântica Discursiva
Figuras e Tema – Texto em seqüências.
FIGURAS
As figuras são sememas de valor no discurso que se destacam formando percursos
figurativos. Estes conduzem a um tema ou conteúdo temático, propício a gerar isotopias.
( ° ) Levantamento de
Campos semânticos; tem como função agrupar figuras dentro de
uma área de significação que representam isotopias discursivas (da primeira à última palavra do
texto). Ligam ao mesmo tempo sememas unidos por um núcleo sêmico comum ou por relações
de ordem classemática.
I
Tá chegando a hora. Agora, só faltam poucos dias para as eleições.
Figuras de valor: /chegando a hora/, /agora/, /poucos dias para eleições/.
( ° ) Temporalidade, proximidade, civismo. (Percurso figurativo da cidadania)
80
II
Durante todos esse programas eleitorais vocês viram, tenho falado exclusivamente dos meus
projetos para um novo Brasil
Figuras de valor: /Durante programas eleitorais/, /falado exclusivamente/, /projetos para novo
Brasil/.
( ° ) Difusão, restrição, plataforma, mudança. (Percurso figurativo da modernidade)
III
Hoje, quero pedir sua permissão para não falar de projeto, quero apenas conversar com as
mulheres e os homens do Brasil que estão quase votando em mim, mas que ainda não se
decidiram.
Figuras de valor: /pedir permissão não falar de projeto /apenas conversar com mulheres e homens
do Brasil/, /quase votando em mim/, /ainda nãodecidiram/.
(°) apelo, delimitação, público-alvo, iminência, por pouco. (Percurso figurativo da indecisão)
IV
Vejam, a essa altura existem praticamente três tipos de eleitores:
os que já votam em mim, e eu agradeço a confiança;
os que estão votando em outros candidatos e que merecem de mim o mesmo respeito, e aqueles
que estão quase, quase se decidindo a votar em mim.
Figuras de valor: /votam em mim/, /agradeço a confiança/, / votando em outros merecem
respeito/, /quase/, /quase se decidindo/.
( ° ) eleição, confiabilidade, respeitabilidade simulada, iminência, decisão, temporalidade ou
duratividade (Percurso figurativo da estratégia e da dissimulação).
81
V
Vejam, meus amigos e minhas amigas quase Lula, sei que vocês também querem a mudança do
nosso país, sei que vocês compreendem a necessidade do Brasil ter um governo que tem que se
preocupar com o desenvolvimento, com o futuro mas que não vai esquecer os pequenos, os mais
fracos, os famintos sempre tão esquecidos.
Figuras de valor: /meus amigos, minhas amigas quase Lula/, /vocês também querem mudança
país/, /compreendem necessidade Brasil ter governo/, /preocupar com desenvolvimento, com
futuro/, /não esquecer pequenos/, /mais fracos/, /famintos/, /sempre tão esquecidos/.
( ° )chantagem afetiva, iminência passional, transformação, liderança, desenvolvimento, inclusão
social. (Percurso figurativo do Progresso e Integração).
VI
Eu preciso do seu voto de confiança e sinceramente eu mereço essa oportunidade para qual tanto
me preparei.
Figuras de valor: /preciso voto de confiança/, /sinceramente mereço oportunidade/, /tanto me
preparei/.
( ° ) necessidade, credibilidade, auto-promoção, vaidade. Precurso figurativo da presunção).
VII
Veja minha amiga quase Lula, do mesmo modo que você deseja ser feliz e não quase feliz, o
Brasil também precisa de uma mudança e não quase uma mudança porque temos que enfrentar
uma crise e não uma quase crise, e você precisa de um emprego e não de um quase emprego, não
é verdade?
Figuras de valor: /minha amiga quase Lula/, /ser feliz, não quase feliz/, /precisa mudança não
quase mudança/, /enfrentar a crise não quase crise/, /você precisa de um emprego não quase-
emprego/.
( ° )Chantagem afetiva, iminência passional, , transformação, aproximadamente transformação,
agravamento, aproximadamente agravamento, ofício, aproximadamente ofício. (Precurso
figurativo da não plenitude, da não-conjunção).
82
VIII
Tenho hoje um grande apoio para governar o país, nos empresários, nos sindicatos, dos maiores
economistas, de dois ex-Presidentes da República, Itamar Franco e José Sarney, de políticos de
todos os partidos, de importantes lideranças das forças armadas, só falta o seu voto.
Figuras de valor: /grande apoio para governar/, /empresários, sindicatos, economistas, ex-
Presidentes, políticos, partidos, Forças Armadas/, /falta você/.
( ° )sustentação, governabilidade, apoios, lideranças econômicas políticas e militares, persuasão.
(Percurso Figurativo da Presunção)
IX
Pense nisso com muito carinho, até porque no dia da eleição não existe na maquininha o botão do
quase.
Figuras de valor: /pensar com carinho/, /no dia eleição/, /não existe o botão do quase/.
( ° )desvelo, preferência, sufrágio, não votar no ‘aproximadamente’. (Percurso figurativo da
incerteza)
X
E que Deus lhe ilumine.
Figuras de valor: / Deus lhe ilumine/
( ° )Bênção, proteção divina. (Percurso figurativo da Fé).
Os percursos figurativos conduzem a um Tema.
a) Cidadania, modernidade, progresso, integração, Proteção Divina
b) indecisão, estratégia de dissimulação, presunção,
c) não plenitude e não-conjunção, presunção, incerteza.
No Percurso Figurativo a), encontramos a Temática da EVOLUÇÃO, da
SOLIDARIEDADE e da FÉ.
No Percurso Figurativo b), a temática da INSEGURANÇA.
83
No Percurso Figurativo c), a temática da INDECISÃO e HESITAÇÃO.
Neste patamar da reconstrução do sentido, começam a surgir as isotopias que se
acrescentarão no transcorrer da análise com a função de garantirem a coerência textual e
discursiva.
II) Estruturas sêmio-narrativas superficiais
Sintaxe Narrativa
A narrativa é a unidade mínima de ação no conceito greimasiano de narratividade. “A
falta e a liquidação dessa falta permite interpretar a narrativa como uma sucessão de degradações
e de melhoramentos. Nesse caso, torna-se considerável não mais a atividade dos sujeitos e sim a
articulação dos objetos –valor, aparecendo então os sujeitos de fazer como simples operadores. A
narrativa é também a representação de um acontecimento e não pode ser confundida como mera
descrição, que é um gênero não emancipado da primeira. Para defini-la semioticamente, opta-se
pela definição de Greimas & Courtés (s/data:294), “o termo narrativa é utilizado para designar o
discurso narrativo de caráter figurativo (que comporta personagens que realizam ações)”. É uma
sucessão temporal de funções no sentido de ações . Santana, (2001:128), argumenta que
todo texto/discurso forma-se por um fenômeno de sucessão de estados e
transformações que, em semiótica greimasiana, denomina-se narratividade. Esta consiste
não apenas em um dos níveis de estruturação do sentido do texto, mas no princípio
organizador de qualquer discurso.
O enunciado de fazer rege o enunciado de estado, pois designa o sujeito operador – capaz
de operar junções; de transformar o sujeito de estado. Greimas (s/data:238) compreende, desta
forma, que o narrador “conhece” o final do texto, na medida que a ação do narrador não é
voluntária e sim supõe uma motivação e um fim, uma intencionalidade, de forma que, em função
do texto, determina os meios para a transformação, estabelecendo os sujeitos que nele vão
84
interagir e os programas que devem ser desenvolvidos. Estabelece assim, uma situação inicial e
uma situação final, a partir da relação dos sujeitos com o objeto, do querer e do dever-
modalidades virtualizantes.
* A circulação do Objeto entre Sujeitos
Transformação Aquisição Privação
PROVA APROPRIAÇÃO
Reflexiva
DESPOSSESSÃO
Transitiva
DOAÇÃO ATRIBUIÇÃO
Transisitva
RENÚNCIA
Reflexiva
Segundo Santana,
Nas relações sujeito/objeto verifica-se sempre, além da questão da junção
(conjunção/disjunção), o interesse, a disponibilidade, o desejo, ou ainda a
intencionalidade que, por sua vez, abrange a motivação e a finalidade; toda relação
sujeito/objeto implica na modalização do sujeito pelo querer, mais precisamente, em
semiótica, pelo querer-ser e, subseqüentemente, pelo quer-fazer, instaurando assim o
sujeito de busca (Santana, 2001:132)
Tranformação
Antes Depois
O antes, por exemplo, pode ser designado por uma situação de disjunção de um sujeito
(de estado) com um objeto dado como desejável. A narrativa, dessa forma, “indica” uma situação
final de conjunção, como realização do sujeito de busca, a partir de uma (ou mais) transformação.
O exemplo poderia também ser inverso. É importante ressalvar também que uma situação final
constitui-se em uma nova situação inicial.
85
Os percursos do sujeito, entendidos como seqüência de programas narrativos, podem
desenvolver-se separadamente, mas é necessário que haja um momento de encontro. A
confrontação dos sujeitos constitui um dos eixos do esquema narrativo e ela é que determina o
caráter polêmico (combate) ou transacional (troca) da narrativa.
Enquanto a sintaxe permite operações entre termos que criam relações lógicas e abstratas,
a semântica do nível fundamental dá conta do estabelecimento de categorias que constróem
valores axiológicos virtuais. Observa-se, por exemplo, o investimento semântico dado aos termos
em uma relação.
Os esquema narrativo canônico, conforme exporemos na página 89, prevê a existência, no
nível narrativo dos discursos, de unidades sintáticas que mantêm entre si uma relação hierárquica:
programa, percurso e esquemas. O programa é dado pelo encadeamento lógico dos enunciados
18
que determinam a existência de actantes sintáticos: sujeito de estado, sujeito de fazer e objeto.
Os percursos narrativos é que definem os papéis actanciais: sujeito competente, sujeito do
querer, sujeito do saber, etc. E o esquema narrativo resulta dos percursos traçados, estabelecendo
actantes funcionais: sujeito, objeto, destinador (enunciador implícito no enunciado) e
destinatário.
Os enunciados narrativos que podem estar determinando tanto uma junção quanto
qualquer transformação, geram os programas, percursos, esquemas e estratégias. São eles que
determinam os programas que os sujeitos devem desenvolver para tornarem-se competentes e/ou
performantes e os percursos desenvolvidos com este fim. E esses podem ser de estado ou de fazer
18
Os enunciados narrativos determinam os sujeitos de estado e do fazer, respectivamente, os que agem pragmática e
cognitivamente e timicamente.
86
Os objetos, em torno dos quais os sujeitos se movimentam, dinamizando as narrativas,
correspondem aos valores que impulsionam uma busca e são “eleitos” por uma instância
primeiramente exterior aos sujeitos: a da enunciação, que resultam os programas narrativos,
permitindo emergir as figuras do destinador e do destinatário.
Em um primeiro momento, de forma ainda sucinta, apenas para que se compreenda esta
aplicação de forma prática, pode-se dizer que Lula instala-se em seus discursos (por um fazer
enunciativo como se verá adiante, no nível discursivo) como um sujeito do fazer operador, capaz
de disjungir-se do vínculo de cidadão operário, sujeito de estado, de valores disfóricos para
jungir-se ao valor governar inserido no objeto “Presidência da República”, valores eufóricos.
A separação do sujeito do fazer de um sujeito de estado é que vai caracterizar a relação do
destinador e destinatário. É ele, o destinador segundo um saber, que comunica valores e
estabelece a missão a ser realizada. Mas cada um dos sujeitos, envolvidos no texto a ser
analisado, tem que construir um programa de competência exclusivo, mesmo que um venha a
ocupar um papel funcional na trajetória definida para o outro, em um programa comum. Um
caminho próprio, pois a competência é da ordem do ser, enquanto a performance compreende o
fazer. Um exemplo: Lula sujeito do estado transforma-se em sujeito do fazer para persuadir o
eleitor, sujeito de estado (tomado aqui como um representante da nação, sujeito estático), para
alcançar um objeto Valor (poder) usa como objeto modal a sua imagem contendo frases, gestos
e intonações para persuadir e convencer o eleitor.
De acordo com D’Ávila, o objeto de valor modal, é meio, e o objeto-Valor é “fim”, é
ideológico. Utilizamos o objeto modal para alcançarmos o objetivo pretendido no objeto-valor,
responsável por nosso estado de falta e desejo de busca.
87
A semiótica entende que as narrativas, articuladas em torno de objetos (sejam eles do
querer, do saber, do dever e ou do poder), estruturam-se em uma sequência canônica que
compreende, na sintaxe narrativa, quatro fases: a manipulação, a competência, a performance e a
sanção. A manipulação corresponde à ação de um sujeito sobre o outro, para fazê-lo cumprir sua
parte em um contrato “virtual”, proposto por um destinador de valores. É a instância que cria,
portanto, os sujeitos virtuais. A competência refere-se ao percurso desenvolvido pelo sujeito para
adquirir os “meios” necessários à ação. A performance compreende a aquisição de valores
descritivos e a sanção é o reconhecimento, positivo ou negativo, exercido pelo destinador, sobre a
ação realizada pelo destinatário. De acordo com D’Ávila, “a performance principal (objeto-valor)
opõe-se à performance modal, quando observamos o surgimento do objeto de valor (modal) para
a aquisição da competência”.
Segue o esquema narrativo instarado por (Greimas), releitura didática (D’ávila,
2001b:68).
ESQUEMA NARRATIVO (GREIMAS)
Cognitiva e
pragmática
Greimas = disjunção - contrato aquisição
Propp = Falta busca prova
MANIPULAÇÃO COMPETÊNCIA PERFORMANCE SANÇÃO
Fazer/fazer Ação: fazer-ser O Ser do SER
MODALIDADES
88
Saber-fazer
Poder-fazer é o Ser do fazer (sua essência)
Querer-fazer
Dever-fazer
Segundo D’ávila (2003b), é na sintaxe narrativa que os actantes sujeitos desenvolvem
programas narrativos (PNs) na busca do objeto-valor (OV), com a finalidade de definir sua
competência no nível do ser e do fazer. A competência é definida pela aquisição de habilidades
para realizar um programa narrativo (PN). É nessa fase que verificamos a relação entre os
sememas, relação predicativa entre os actantes = função sintáxica (plano de conteúdo). O lexema
(a palavra no léxico) é constituido por um conjunto de sememas virtuais reunidos num núcleo
sêmico comum.
Símbolos indicativos na elaboração dos Programas Narrativos:
PN = Programas Narrativos;
OV = Objeto-Valor.
Om = Objeto Modal ou de valor modal
S1 = Sujeito operador, narrador (LULA)
S2 = Sujeito operador, narratário (ELEITOR)
Sx = Actante Coletivo (Povo em geral)
D = Destinador
( ) = situação de Estado.
[ ] = situação de /Fazer/
89
Æ = implicação lógica do /fazer/
Æ F: = Fazer
Æ = conjunção; U = disjunção;
LULA 2002
Os Programas Narrativos (PNs)
PN Base: (S Ov) (S Ov)
Ov: Poder como Presidente da República (Identidade de S1)
Estrutura (S1 Sx) (S Sx) Virtual
“Tá chegando a hora. Agora, só faltam poucos dias para as eleições”.
Seq.I
PN1
F: S1 [ ( S2 Om1) (S2 Om1)] Virtual
S1: Lula S2: eleitores Om1: duratividade ínfima para o dia.
“Durante todos esses programas eleitorais vocês viram, tenho falado exclusivamente dos meus
projetos para um novo Brasil”
Seq. II
PN2
F: S1 [ ( S2 Om2) (S2 Om2)] Realizado
Om2: Projeto para um novo Brasil
Hoje, quero pedir sua permissão para não falar de projeto, quero apenas conversar com as
mulheres e os homens do Brasil que estão quase votando em mim, mas que ainda não se
decidiram”.
90
Seq. III
PN3
F: D S1 [ ( S2 Om3) (S2 Om3)] Virtual
Om3: Decidirem-se por S1
D: Destinador- manipulador (a vontade de S1)
Manipulação por sedução – (homens, mulheres, quase votando)
Trata-se uma auto-manipulação do actante sujeito S1, e manipulação sobre S2
“Vejam, a essa altura existem praticamente três tipos de eleitores: os que já votam em mim, e eu
agradeço a confiança; os que estão votando em outros candidatos e que merecem de mim o
mesmo respeito, e aqueles que estão quase, quase se decidindo a votar em mim”.
Seq. IV
PN4
F: D1 S1 [ ( S2 Om4) (S2 Om4)] Virtual
Om4: quase- temporalidade
Manipulação por sedução
“Vejam, meus amigos e minhas amigas quase Lula, sei que vocês também querem a mudança do
nosso país, sei que vocês compreendem a necessidade do Brasil ter um governo que tem que se
preocupar com o desenvolvimento, com o futuro mas que não vai esquecer os pequenos, os mais
fracos, os famintos sempre tão esquecidos”.
Seq. V
PN5
F: D2 S1 [ ( S2 Om5) (S2 Om5)] Virtual
Om5: desenvolvimento, fracos, pequenos, futuro do país, famintos, esquecidos
(Meus amigos, minhas amigas, sei que vocês sabem, compreendem, querem, também,
necessidade, desenvolvimento). Manipulação sobre S2 por sedução e por provocação.
“Eu preciso do seu voto de confiança e sinceramente eu mereço essa oportunidade para qual tanto
me preparei”.
91
Seq. VI
PN6
F: D
3 S1 [ ( S2 Om6) (S2 Om6)] Virtual
Om6: voto de confiança e oportunidade
Manipulações: (Eu preciso do seu voto) Sedução posta
(eu mereço essa oportunidade) provocação pressuposta pela auto-sanção (eu mereço).
“Veja minha amiga quase Lula, do mesmo modo que você deseja ser feliz e não quase feliz, o
Brasil também precisa de uma mudança e não quase uma mudança porque temos que enfrentar
uma crise e não uma quase crise, e você precisa de um emprego e não de um quase emprego, não
é verdade?”
Seq. VII
PN7
F: S1 [ ( S2 Om7) (S2 Om7)] Virtual
Om7: totalidade “não quase”
S2: (individual e coletivo)
Sedução (minha amiga) intimidação (quase-crise) provocação (dever votar para impedir a crise).
“Tenho hoje um grande apoio para governar o país, nos empresários, nos sindicatos, dos maiores
economistas, de dois ex-Presidentes da República, Itamar Franco e José Sarney, de políticos de
todos os partidos, de importantes lideranças das forças armadas, só falta o seu voto”.
Seq. VIII
PN8
F: D1 S1 [ ( S2 Om8) (S2 Om8)] Virtual
D1 : adjuvants pressupostos e postos na manipulação (empresários, forças armadas, etc.)
Om8: o voto de S2 + oratória
Sedução (status) esta camufla as outras três manipulações.
Tentação (empresários, economistas, etc) fazer querer ser um dentre eles.
Intimidação (forças armadas) + provocação.
“Pense nisso com muito carinho, até porque no dia da eleição não existe na maquininha o botão
do quase”.
92
Seq. IX
PN9
F: D5 S1 [ ( S2 Om9) (S2 Om9)] Virtual
Om9: pensar com carinho na totalidade/ Sedução
Manipulação: sedução (carinho); provocação (botão do quase).
“E que Deus lhe ilumine”.
Seq. X
PN10
F: D2 S1 [ ( S2 Om10) (S2 Om10)] Virtual
Om10 = A fé (na iluminação de Deus).
D2 = Destinador auto manipulado (pelo desejo de mostrar-se paternal e religioso) e manipulador
por sedução.
* Lembrando que a persuasão acompanha todo o texto, segundo Greimas, o fazer-crer está
presente em todos os textos ou discursos manipuladores.
Os Programas permanecem virtuais até que se finalize a análise ou que se obtenha a
confirmação de que o sujeito de Estado que se encontrava disjunto do Objeto-Valor, finalizou seu
percurso de busca em conjunção a esse objeto.
Espácio-Temporalização. Aspectualização
Duratividade descontinua greimasiana, ou iteratividade do “quase”
Incidência temporal do “quase”
Na perspectiva do eleitorado, há um percurso figurativo que nos referencia o "poder de
decisão" e resulta de um investimento em certas figuras: "capacidade", "sensibilidade",
"esperança", “confiança” etc.
93
A competência é, virtual e, por conseguinte, representa uma organização dos valores
modais que permitem denominá-la de competência modal. A competência apresenta-se de duas
formas visa à aquisição de valores modais ( ex: aprender uma lingua estrangeira), ou visa a uma
aquisição ou produção de valores descritivos (ideológicos, objetos-valor, ex: uma receita de
bolo). Se o ato é um fazer-ser, a competência é aquilo que faz-ser (Greimas, s/data: 62).
Além da competência modal existem a semântica (manipulada pela competência modal)
geradora das competências sêmio-narrativas (de que se encarrega a enunciação) e discursiva e
textual (que define a enunciação como instância mediadora que possibilita a realização do
discurso enunciado.
As performances, uma apropriação de valores descritivos.
PN de Competência
F Brasil novo: S1 [ ( S1 S2) Ov)]
Ov: valores modais = querer fazer + dever fazer + saber fazer + poder fazer
para vir a SER competente.
S1 faz/fazer S2 ficar conjunto com o Ov = querer/dever/saber e poder votar no candidato
certo para assim estar conjunto com os valores descritivos = Brasil Novo, mudança, emprego,
desenvolvimento, projetos. Segundo nossa pesquisa em questão, a performance é uma atualização
de pontencialidades prévias.
* Só o SER e o FAZER são modalidades realizantes.
PN de Performance
F Votar: S1 [ ( S1 S2) Ov)] PN Atual
94
Ov: valores descritivos (transformar pelo voto)
Projeções de pessoa
Um primeiro ponto importante a ser considerado é que, enquanto no discurso científico, a
ênfase no discurso (enunciado) apaga as marcas do sujeito (enunciador), criando um efeito de
sentido de "saber objetivo", no político, ao contrário, é o discurso, por excelência, do sujeito
explícito. O enunciador é, pois, um sujeito presente que se instaura completamente no discurso
(Pinto, 1989).
Para a semiótica greimasiana, há dois tipos de projeção de pessoa: a enunciativa, em que
se instala o eu no discurso, e a enunciva, que se projeta o ele discursivo. As projeções
(debreagens) enunciativa e enunciva criam, em princípio, dois grandes efeitos de sentido: de
subjetividade e de objetividade (Fiorin, 1996:45)
Essa característica do discurso político fica bastante evidente na análise da "fala" de Lula.
Nela, há um "eu" que perpassa todo o discurso (debreagem actancial enunciativa, no dizer da
semiótica greimasiana), criando um efeito de sentido de subjetividade e conferindo ao que é dito
um "tom" de engajamento ou de compromisso pessoal, o que pode ser comprovado nas frases
abaixo:
"... tenho falado exclusivamente dos meus projetos para um novo Brasil..."
"... Eu preciso do seu voto de confiança, eu mereço..."
"... Hoje tenho um grande apoio para governar.."
"...Veja minha amiga quase Lula, do mesmo modo que você deseja ser feliz e não quase
feliz, o Brasil também precisa de uma mudança e não quase uma mudança porque temos que
95
enfrentar uma crise e não uma quase crise, e você precisa de um emprego e não de um quase
emprego, não é verdade?”
Esse "eu" dirige-se a um "tu" (representado ora por vocês = Brasil, sobretudo nos
momentos inicial e final do discurso, ora por um você específico, com quem o enunciador
procura estabelecer um vínculo mais estreito, mais íntimo, e que reforça a idéia de reciprocidade
que, segundo Benveniste (1991:286), está inscrita na linguagem, mostrando que esses dois
termos se implicam (um não se concebe sem o outro):
Lula também se vale da debreagem interna (ou de 2
o
grau), dando "voz" ao outro no
discurso. Nesse caso, citando como referência além das forças armadas, sindicatos, economistas,
etc, ele cita o dos dois ex-presidentes da república, Itamar Franco e José Sarney, criando assim
um efeito de sentido de verdade, dando a impressão de veracidade e integridade do discurso. Lula
se vale desse expediente para responder àqueles que questionavam sua competência para assumir
o cargo mais alto da nação. Passa-lhe desapercebido, no entanto que, para um grande parcela da
população ficaram bem claros a partir dessas colocações o apoio e a grande ajuda financeira que
um político influente recebe para poder eleger-se sendo assim, ele não só quer, como DEVE
mencionar terceiros.
Lula utiliza conhecimentos compartilhados pelo eleitor como emprego, desenvolvimento,
mudança, etc..., deixando explícito que esses fatores não eram assumidos pelo governo reinante.
Fazia surgir um eleitor decepcionado com um governo qualificado como injusto e inoperante.
Desqualificando um outro sujeito e suas práticas, qualificava a si mesmo e a seu projeto. O
eleitor, envolvido neste universo de valores, era persuadido a acreditar na verdade revelada por
Lula, que formatava o governo reinante dizendo ser da “crise”, e que não era comprometido com
96
os ideais de um povo. Lula mostrava a idéia da mudança, do novo como forma de uma “nova
era” na política brasileira.
Por meio de diferentes projeções de pessoa, com seus diferentes efeitos de sentido, Lula
vai construindo seu fazer-persuasivo-discursivo, levando o outro a saber, mas sobretudo a crer
nas suas "boas intenções". Não podemos deixar de observar, no entanto, a predominância do "tu"
(que desliza, com certa freqüência, para o "ele"/ "O Brasil"), revelando assim, um sujeito
individual "minha amiga, meu amigo" que se opõe a um sujeito coletivo "Brasil novo, Brasil
mudança, Brasil crise".
Semântica Narrativa
Lula sujeito do fazer/fazer para alcançar o objeto-Valor (Poder, ou seja, ser Presidente da
República), precisa de meios para desenvolver o seu percurso de conformidade com o eleitor,
sujeito de estado (que se transformará no decorrer da narrativa em sujeito operador). O voto nesse
caso, passava a ser um objeto-modal do eleitor, para a ascensão desse candidato ao poder. Irá
representar a possibilidade de performance do eleitor, pela conjunção com os valores modais e
descritivos inscritos no programa de governo; os últimos quando, anunciados, tornam-se
almejados. É preciso ressaltar que um objeto só se torna valor, como projeção do querer/ser do
sujeito, revelador de um querer que tem relação direta com as qualificações atribuídas a esse
mesmo objeto. Conforme Santana (2001:132)
(...) o sujeito não busca o objeto em si, mas o valor que se encontra investido no
objeto; esse valor, numa abordagem semiótica, assumido pelo sujeito, caracteriza a
ideologia, definida como busca permanente de valores, e toma a forma do arranjo
sintagmático desses valores, por oposição à axiologia que se designa pelo seu modo de
existência paradigmática.
As modalidades que definem o objeto do sujeito que almeja adquirir a competência para a
performance acontecer são assim descritas pela semiótica greimasiana:
97
Querer do sujeito (volitivo)
Dever do sujeito (deôntico)
Saber do sujeito (cognitivo)
Poder do sujeito (Pragmático)
Na Seq. IX, Lula busca pelo apoio do coletivo para persuadir o individual.
Quer apoio - Indivivual = Só falta Você (através do "quase")
Tem apoio - Coletivo = empresários, sindicatos, economistas,
dois ex presidentes da república,
politicos em geral, forças armadas
Práxís Enunciva
Individual - Minha Amiga Coletivo - Brasil mudança
Seu emprego Brasil crise
Timia e Patermização
EUFORIA DISFORIA
desenvolvimento pequenos, famintos, fracos, esquecidos
futuro
Mudança
O interesse de S1 é demonstrado na proporção em que o mesmo intenciona consquistar S2
(o eleitor) para o dia "D". O individual está acima do coletivo.
TIPOS DE DESTINATÁRIOS
O lexema “quase” comporta no contexto vários semas, a saber: "incompleto", "inacabado"
"indeciso". A importância desse semema é essencial para a análise do texto, visto que, é partindo
98
dele, que se desenrola todo o percurso do sentido. Ele conduz à imperfectividade à incompletude
do actante destinatário narratário (in do texto) e do destinatário-leitor ( extra texto).
Destinatários
Sx1 sx2
Querer ser lula (agora e sempre) Querer não ser lula no momento- (quase)
Sx3 Sx4
Não querer não ser Lula (quase) Não querer ser Lula, jamais.
preocupação para influenciar
o que não quer ser
Querer ser com
comedimento
Na verdade apesar de ser o Sx4 aquele que Lula precisa convencer de acordo com nosso
quadrado semiótico, são o Sx2 e o Sx3 com quem Lula se preocupa nesse momento em persuadir,
por tratar-se de um discurso proferido poucos dias antes das eleições. Sendo assim, se até o
momento Lula não conseguiu fazer-crer Sx4 a votar nele, dificilmente o fará em poucos dias por
tratar-se de um objeto – valor (ideologia) para o destinatário e de um objeto – Valor (poder) para
Lula. Fazer Sx4 votar nele, seria muito mais complexo do que aparenta, levando-se em conta
que para mudar ideologicamente o modus vivendi de um grupo é necessário levar em
consideração a duratividade e a espacialização que o enunciador possui, seu repertório sócio-
político, sua capacidade de ação, além das necessidades e potencialidades do Sx4,
fundamentadas, as primeiras, naquilo que o adversário político poderia oferecer de melhor que a
Sx4 e que S1 poderá assumir, para o “fazer/ fazer” - convencimento.
O discurso anunciado por Lula detém assim valores de forte apelo cognitivos e
pragmáticos. Qualidades atribuídas ao projeto Brasil Novo, que qualificava Lula como sujeito
99
competente para retirar um significativa parcela dos brasileiros do estado de imperfeição em que
viviam.
A estrutura geral da narrativa inscreve-se num eixo semântico, compreendendo uma
sucessão temporal, que ressalta o devir sugerido. Um eixo que estabelecia um estado inicial e um
estado final do modo de existência do eleitor, de forma pressumida. A previsibilidade da junção
do sujeito com o objeto criava a tensão necessária à narrativa. Todos os dêiticos remetem nos à
enunciação
TER/SER QUASE TER/SER
Lula Quase Lula - substantivo
Votar Quase votar - advérbio
Mudança Quase mudança - substantivo
Compreendem Quase compreendem - advérbio
Ser Feliz Ser quase feliz - advérbio
Crise Quase Crise - substantivo
Emprego Quase Emprego
Quase se decidir – advérbio
Agora e Hoje = advérbios de tempo;
Durante = preposição
Temporalidade
Agora
durante hoje
Logo, seu surgimento estabelece a ligação entre os outros dois sememas implicados e de suma
importância.
O eleitor é o destinatário-sujeito que pode dispor-se ao fazer. A mudança de seu modo de
existência, interpunha também, entre o estado inicial e o final, um fazer (enquanto performance,
resultante da ação de um sujeito após eleito) que iria operar a transformação. Não como extinção
de um universo de valores em vigência para a instalação de um outro, o que caracteriza os
100
discursos revolucionários, mas como um fazer reformador, que estabelecia mudanças parciais
sobre o estado anterior, prevendo, para o estado final, uma transformação do eleitor pobre
(preferencial) em um não-descamisado.
A história pregressa de Lula, embora nela não havendo o desabrochar da intelectualidade
nem as reminiscências de uma carreira política, dava veridicção ao simulacro do sujeito
“corajoso”, militante e persistente, capaz de transformar a relação dos eleitores com o sonho de
um país melhor. Uma apropriação mítica? O fato é que, concebido enquanto linguagem, o mito
transforma a história em ideologia, sendo responsável, muitas vezes, pela prática de “abusos
ideológicos” (Barthes, 1993:7).
III) - Estruturas Sêmio- narrativas profundas
Sintaxe Fundamental
A busca pelo poder
O poder é a modalização fundamental do discurso político. É o objeto de busca que
movimenta os candidatos a cargos eletivos. Por isso, os discursos dessa natureza embutem um
fazer interpretativo, atribuido ao enunciatário, que trata da "realidade" enunciada pelo candidato,
e um fazer (do enunciador) persuasivo, maneira de agir sobre o eleitor, visando à conquista do
poder almejado. A "realidade", transmitida como um modo imperfeito de ser da nação e de seus
cidadãos, correspondia aos simulacros dos actantes.
O observador
19
emergia, dos discursos de Lula, através de um conhecimento da
"realidade" atibuído ao próprio eleitor, desvelado pelo mecanismo da debreagem enuciva. Um
19
O observador, segundo Greimas& Courtés, é o sujeito cognitivo delegado pelo enunciador no discurso enunciado
encarregado de exercer o fazer receptivo e, eventualmente, o fazer interpretativo.
101
observador que transmitia ao narrador as "informações" colhidas a partir de uma movimentação
dentro da história política brasileira.
De qualquer, forma, a “possibilidade” apresentada na narrativa como uma futuridade,
fazia emergir um tempo e espaço similar ao da Idade de Ouro. O “paraíso” emergia como um
efeito de sentido localizado na estrutura fundamental dos discursos de Lula. Refletindo sobre esta
intermediação da narrativa mítica no discurso político, Girardet (1987:8) afirma que “nessa
nebulosa complexa, movediça, que é a do imaginário político, não há, no final das contas, uma
constelação mais constante que a Idade de Ouro.”
Desvelar os efeitos de sentido através do nível fundamental, é o que permite fazer
“aparecer” os mecanismos de persuasão implícitos no discurso. Essa contatação leva em direção
a Greimas, para quem “As estruturas profundas definem a maneira de ser fundamental de um
indivíduo ou de uma sociedade” e “determinam as condições de existência dos objetos
semióticos” (Greimas, s/data:45).
As oposições trabalhadas pelo sujeito da enunciação, produzem um efeito mínimo de
sentido. “Voto de confiança”, “oportunidade”, “tanto me preparei”, “Brasil novo”, contextualiza
o sema mudança, contraposto à continuidade, virtualizando a ruptura como valor eufórico e a
não-ruptura como valor disfórico.
102
TRANSFORMAÇÕES POSITIVAS
Verbal
MUDANÇA (ruptura radical)
viver o novo,
ser novo com S1
Verbal
NÃO PARECER MUDANÇA
Continuísmo parcial de antigas
propostas que permitem
camuflar mudança
.
Verbal
PARECER MUDANÇA
(quase radical) Não
continuísmo
parcial de antigas propostas
Verbal
CONTINUIDADE
Viver o passado com seus
ranços
NÃO TRANSFORMAÇÕES POSITIVAS
QUADRADO DA VERIDICÇÃO
VERDADEIRO
SER PARECER
SEGREDO MENTIRA
NÃO PARECER NÃO SER
FALSO
103
2.3 ISOTOPIAS FIGURATIVAS CONDUZINDO À ISOTOPIA TEMÁTICA DO PODER
COMO PRETENSÃO DO ACTANTE SUJEITO DESTINADOR S1.
FIGURATIVAS : TEMÁTICA :
CIDADANIA
P O D E R
MODERNIDADE
INDECISÃO
E G O C E N T R I S M O
ESTRATÉGIA
DISSIMULAÇÃO
CHANTAGEM AFETIVA
NÃO PLENITUDE E NÃO-
DURATIVIDADE CONJUNÇÃO
PROGRESSO
INTEGRAÇÃO CONFIABILIDADE E
RESPEITABILIDADE
PRESUNÇÃO
VISUAL
SINCRETISMO
SOMÁTICA
INTONATIVA
PRÁXIS
VELADA TÍMICO- PATÊMICA
PROTEÇÃO E
104
3. A Manifestação Rítmico-sonora (Teoria de N. D’ÁVILA)
Sendo os sons a condição sine qua non para que o produto verbal seja manifestado, têm,
ainda, em sua estrutura compositiva, oposições semânticas oriundas de um arranjamento rítmico,
rico em quantificações e qualificações sonoras gerando figuras que compõem percursos
figurativos que conduzem a um tema, organizando categorias semânticas produtoras de isotopias
que garantem, em conseqüência, a coerência do discurso sonoro. No texto sincrético é preciso
estudar sua forma de organização, seus sistemas de significação rítmico-melódicas e o poder dos
sons demonstrados nos sinais califáticos, com a finalidade de persuadir o enunciatário. Por meio
das pesquisas de Nícia D’Ávila em Semiótica Musical e Sincrética, refente às manifestações
rítmico-sonoras e inserções figurativas diversas, observamos as junção sonoras valorizadas, a
ação tenvisa do “motivo
20
”, das frases, dos períodos e dos incisos, o poder manipulador da
“síncopa”.
Os quadros I, II e III abaixo expostos permitirão demonstrar como a análise do Percurso
Gerativo da Significação Musical poderá desenvolver-se, proporcionando o acompanhamento da
desconstrução/reconstrução do sentido no discurso proferido por Lula, bem como terminologias e
conceitos de teorização de Nícia D’Ávila.
QUADRO I
ANÁLISE SEMIÓTICA DA LINGUAGEM MUSICAL – TERMINOLOGIAS E
CONCEITOS
Neologismos*
21
definidores da gramática do conteúdo em linguagem MUSICAL.
20
Núcleo que faz desenrolar toda a narrativa e obedece a uma organização discursiva particular.
21
O asterisco ao lado dos termos identifica neologismos criados por D’Ávila, sendo seguidos da respectiva
aplicação teórico-metodológica para a semiótica musical.
105
Formante Total (FT) = a totalidade escolhida como “texto” (nível da expressão)
Formante Parcial (FP) = a parcialidade textual que está sendo examinada (expressão).
Formema total (ft) = a totalidade textual manifestada (nível do conteúdo).
Formema parcial (fp) = a parcialidade textual manifestada, em análise (nível do conteúdo).
Frases rítmicas percussivo-sonoras e períodos.
Formema parcial int. (fpi) = fragmentos manifestados no interior do /fp/.
Sonema = elementos “concretos” percebidos (blocos sonoros), com feixe de semas ou combinações de
subunidades significativas na manifestação sonora. O equivalente ao semema (em semiótica greimasiana).
Soema = traço pertinente de uma unidade táxio-musical; traço semântico que distingue uma relação sonora
de outra, do mesmo campo conceitual. O equivalente ao sema (em semiótica greimasiana).
Duratema ext. = a duração englobante e externa dominando a manifestação discursiva.
Duratema int. = a duração englobada, aplicada ou internalizada nos /fpi/ e nos soemas (sons relacionados nos
frástico e transfrástico) aparentemente isolados no discurso.
Intensitema ext. = a intensidade englobante na extensão do (s) bloco (s) sonoro (s). Ex: pp ( >), significando
o dever executar suavemente, em pianíssimo, com diminuição da intensidade sonora aplicada; f ( < ),
significando o forte, com o aumento gradativo da intensidade sonora aplicada, numa frase ou, geralmente, no
final de período musical; ff, rall, afretando.
Intensitema int. = intensidade englobada, aplicada ou internalizada em sons manifestados no discurso
musical ou sonoro (em geral).
Alturema = a altura em que sons são manifestados.
Timbrema = o timbre em que os sons são manifestados.
Sonorema = texturas sonoras (sobreposição de vozes, acordes, sons instrumentais),
Densirema = densidade sonora, acúmulo de sons (volume) numa espácio/temporalidade.
Sincopema = sonema envolvendo os 5 estados da função de sincopa, e a intonação.
Prosodema (Greimas) = a soma de elementos prosódicos (acentuação, entonação, ruídos, vazios, ataques,
etc.), responsáveis pela supra-segmentação sonora (nível dos sonemas).
Projetema = a supra-segmentação tridimensional (envolvendo sonoremas)
106
QUADRO II
ABREVIAÇÕES E SINAIS CALIFÁTICOS.
Califasia é a arte da dicção expressiva para interpretar-se um trecho falado ou cantado.
V = fala individual ou coletiva (em estado normal).
= canto.
__ = acentuar a palavra.
< = intensificar um som vocal (numa sílaba ou numa vogal).
> = enfraquecer um som vocal (numa sílaba ou numa vogal)..
.... = falar sacadé (aos soquinhos).
... = interrupção do pensamento, subentendendo ou sugerindo o que não foi dito.
- - - - = falar pausadamente.
= intensificar e elevar a voz no término da palavra estendendo-a à frase.
٨ = enfraquecimento e queda de altura sonora na palavra ou frase..
. = elevação prolongada da voz.
= acentuar a palavra elevando-a na freqüência sonora.
= acentuar a palavra diminuindo sua freqüência no término desta.
Sincopa. Neste compasso 2/4, é a projeção de um som situado no tempo
fraco (f) ou na fração fraca de um tempo, sobre o tempo Forte (F) ou
fração Forte de tempo do compasso seguinte. Ela será representada pelo
sinal .
F f F f
Em negrito ou em itálico são representados também os lexemas ou abreviações de valor
[..] = imagens valorizadas acompanhando a fala do actante-sujeito.
(..) = gestos valorizados acompanhando a fala do actante-sujeito.
//..// = sons valorizados da fala, e os abaixo exemplificados:
! = exclamação ou imposição (em negrito).
? = interrogação ou incerteza, dúvida (em negrito).
Estes sinais colocados no transcorrer da narração, indicam efeitos sonoros que surgem
como interferentes ocasionais (D’Ávila, 1998, p.461) alterando a substância do conteúdo narrada,
para melhor entendimento dos enunciatários-leitores que não tiverem acesso ao discurso
televisivo.
Ef -vstgo = efeitos de sentido visuais, sonoros, táteis, gustativos e odorantes.Podem, esses
efeitos, ser apenas visuais (Ef-v) ou viso gustativos (Ef-vg), etc.
107
QUADRO III
O PERCURSO GERATIVO DA SIGNIFICAÇÃO MUSICAL – TEORIZAÇÃO DE
NÍCIA D’ÁVILA
NÍVEL do CONTEÚDO ( = O SIGNIFICADO ) NO TEXTO MUSICAL
Substância do Conteúdo (Variável) + Forma do Conteúdo ( Invariável)
SUBSTÂNCIA
DO CONTEÙDO
FORMA (nível superficial)
DO CONTEÙDO
FORMA (nível profundo)
DO CONTEÚDO
Simbólica (DENOTAÇÃO)
Formema total /ft/
da Presentificação
Fatos musicais: percussivos, melódicos;
música concreta; erudita; orquestrações
percussivas ou melódico-harmônicas com a
ausência total de ancoragem verbal, salvo
como metalinguagem.
*********
Semi-simbólica
da Representação.
(CONOTAÇÃO/denotação)
O que o fato musical está representando
com ancoragem no verbal. Duas análises
(musical e verbal) poderão ser realizadas de
forma isolada, fiéis às respectivas
estruturas, denotativas e simbólicas. Quando
acopladas indicarão os recursos
estratégicos implicados no sincretismo, o
simbolismo verbal e o semi-simbolismo
musical, e o “como” do sentido musical
alterando a significação verbal.
**********
Semi-simbólica (Conotação)
da Re-representação
O fato sincrético (musical / verbal/ viso-
gestual/ digital) com subjetividade
interpretativa . Os acréscimos fundam-se no
repertório prático, na ficção e na
criatividade do autor.
Zona Intermediária
Tonalidade G (sol maior)
Formema Total (ft)
a) Ritmo da temporalidade espacializada
englobante e englobada
periódico, aperiódico, misto. (Binário,
ternário, quaternário).
b) Ritmo na espacialidade temporalizada
Espaços do ritmo:
e1, e2; e2´, e2´´:
tético, acéfalo e anacrúsico.
Sonema numérico (tempos) “Numerador”
= da unidade de tempo (número de figuras
por cada tempo), compassos, frases.
Planos : sons de ação e de fundo, questões
x respostas (fugas)
Sonema DIAT = qualificativos do som
manifestado, quantitativo.
Formemas Parciais /fp/ e /fpi/=formemas
parciais internos.
/fpi/ ex., os figuremas: dos sinais positivos
e negativos, e dos sonemas: inciso, motivo,
contraponto, síncopas, cadência, seqüência,
mordente, trinado, etc.;
dos Sonemas tensivos: da sobreposição
(acordes) e da
Superposição sonora = cadências
Seqüências melódico-harmônicas.
Sintagmatização (melodização).
Isotopias da Horizontalidade
(melodização=encadeamentos melódicos)
e da verticalidade (harmonização =
encadeamentos harmônicos).
Denotação : Soemas
Modo Maior ou menor-
Tonal ou Atonal –
Gênero/espécie.
Soema UV = “denominador” da
Unidade de Valor:
espacialidade englobante temporalizada
subjugando espacialidade englobada
temporalizada.
Dinâmica = Intensitema rítmico
exteriorizado na /espacialidade –
temporalizada/ (pp, ff, etc.)
+ Andamento (duratemas do
/Dever-fazer/ ) = densirema.
Soemas denominativos (si3) Soema
qualitativo/quantitativo
Dos valores positivos/negativos:
/duratema/ intensitema/
/alturema e timbrema/.
Soemas da proporcionalidade
:
Tensiva
(qualidade/quantidade):
Projetemas: soemas da
“projectividade”=
Sincopema,
Projeções paradigmáticas por
extrapolação sonora. Prosodemas=supra-
segmentação melódicos segmentados x
saltos intervalares;
Sonoremas= texturas sonoras por
sobreposição de vozes ou de
instrumentos, acordes, etc.
Isotopias figurativas na temática
do Consonantal/dissonantal/
Quadrado Semiótico das formas rítmico-
musicais contínuas/descontínuas/não-
contínuas/não-descontínuas.
ESTRUTURA DISCURSIVA : FIGURAL I NUCLEAR (implicando a substância do conteúdo)
(núcleo sêmico do discurso) TONAL / ATONAL / MISTO
NÍVEL da EXPRESSÃO ( O Significante) no Texto Musical.
Na abordagem dessa teorização, visando a desconstrução do sentido no discurso proferido
Substância (Variável) – Forma (Invariável) – o sistema sonoro executado
Físico-acústico
108
por Lula, teremos a forma da expressão, representada pelo sistema físico-acústico codificado
pela sonoridade estatizada e dinamizada pelos formantes ritmicos, unido à forma do conteúdo.
Ambas determinarão as tensões produzidas pelo discurso sonoro sobre os destinatários,
provocando reações diversas que conduzem à aceitação coletiva.
Representada por unidades mínimas de significação musical, o soema, extraído do
sonema, designado da intensidade, duração, altura, timbre, dinâmica e andamento, entre outras
designações sonoras. São os soemas apreendidos das estruturas e seqüencialização musicais,
definindo qualificações contextuais determinantes do “como” do sentido.
Segundo Fernandes (2005)
22
,
Quando pessoas ouvem determinados sons melódicos em conjunção com letras
persuasivas, ocorre uma junção entre os planos do sensível e do inteligível encontradas
em cada uma das linguagens. Assim, as articulações existentes entre esses dois planos
podem definir o que se entende por belo, eufórico, manipulador , determinativo,
persuasivo tensivo ou não num texto sonoro
A forma como se pronuncia um discurso é tão importante quanto seu conteúdo, na medida
que, o como se fala é mais importante do que o que se fala. Assim para a semiótica o relevante é
como o texto se constitue um texto. Os discursos sonoros são apreagos de caráter passional, na
medida que produzem efeitos de sentido, sucitados pela timia permitindo persuadir assim o
enunciatário. Afima D’Ávila (1998:243)
Sendo a melodia a fonte que nos conduz ao mundo das emoções em
conseqüência dos intervalos premeditada e poeticamente construidos, está na divisão
rítmica o chamamento à cognição, determinando, na forma do conteúdo... “ Quanto mais
efeitos de sentido, mais nos distanciamos do conteúdo da mensagem.
Conforme os estudos de D’Ávila, devemos diferenciar três tipos de lexemas relacionados
à linguagem sonora: o entoar, o entonar e o intonar.
22
Dissertação de mestrado. “O Poder do discurso do Roque brasileiro na mídia em “Pais e filhos”. 2005. Maria
Cristina Fernandes.
109
O entoar é o fazer espontâneo, descompromissado com o discurso e com o destinatário;
é um fazer por fazer. O entonar é um fazer bem mais compromissado com o discurso do que
com o destinatário e está situado na dimensão do /saber/ e no universo deôntico (do /dever/)
que rege o /querer-fazer/. Logo, entonar é /saber-DEVER-querer dizer/, isto é, saber-DEVER
dizer, com as devidas regras de acentuações silábicas, características da Língua Portuguesa e
determinantes do discurso, aquilo que se quer dizer para fazer-se entender. a intonação,
pertencente ao universo volitivo (do /querer/), é interpretada como a estrutura modal do /saber-
QUERER-dever-querer dizer/, isto é, saber dizer da maneira que se /QUER dizer/ aquilo que
deve ser dito para que possamos nos fazer entender; é o fazer manipulador do sujeito
compromissado devidamente com o discurso, porém, bem mais com o destinatário. A
intonação é totalmente persuasiva (D’Ávila, 1998:463)
E esclarece, em outro artigo, que a síncopa musical (intonativa) considerada como um pivô
narrativo do dinamismo do discurso, ao redor do qual gira todo um sistema de valores capaz de
engendrar a significação pela manipulação, define a intencionalidade de seu produtor, criando os
mais fortes momentos tensivos da manifestação sincrética. Ela insere-se no nível das precondições
e condições de significação. (D’Ávila, 1999b:470).
O Corpus verbo-sonoro
Nossa apresentação do corpus versa sobre a manifestação sincrética envolvendo o
discurso verbal sendo apresentado em vídeo - que anexamos à dissertação-, numa coletiva
oferecida por Lula à Imprensa.
Nossa grande dificuldade voltou-se à análise de cada linguagem, em separado, para a
obtenção de uma terceira manifestação, a sincrética, onde ficaram, no término da análise, bem
mais nítidos os elementos responsáveis pelo sucesso ou insucesso dos conteúdos verbais.
Assim sendo, apresentamos o texto falado, representativo da manifestação sincrética
produzida pelo actante Sujeito S1- Lula.
LULA ( Discurso – 2002)
I
Tá chegando a hora. Agora, só faltam poucos dias para as eleições.
110
II
Durante todos esse programas eleitorais vocês viram, tenho falado exclusivamente dos meus
projetos para um novo Brasil.
III
Hoje, quero pedir sua permissão para não falar de projeto, quero apenas conversar com as
mulheres e os homens do Brasil que estão quase votando em mim, mas que ainda não se
decidiram.
IV
Vejam, a essa altura existem praticamente três tipos de eleitores:
Os que já votam em mim, e eu agradeço a confiança.
Os que estão votando em outros candidatos e que merecem de mim o mesmo respeito, e aqueles
que estão quase, quase se decidindo a votar em mim.
V
Vejam, meus amigos e minhas amigas quase Lula, sei que vocês também querem a mudança do
nosso país, sei que vocês compreendem a necessidade do Brasil ter um governo que tem que se
preocupar com o desenvolvimento, com o futuro mas que não vai esquecer os pequenos, os mais
fracos, os famintos sempre tão esquecidos.
VI
Eu preciso do seu voto de confiança e sinceramente eu mereço essa oportunidade para qual tanto
me preparei.
VII
Veja minha amiga quase Lula, do mesmo modo que você deseja ser feliz e não quase feliz, o
Brasil também precisa de uma mudança e não quase uma mudança porque temos que enfrentar
111
uma crise e não uma quase crise, e você precisa de um emprego e não de um quase emprego, não
é verdade?
VIII
Tenho hoje um grande apoio para governar o país, nos empresários, nos sindicatos, dos maiores
economistas, de dois ex Presidentes da República, Itamar Franco e José Sarney, de políticos de
todos os partidos, de importantes lideranças das forças armadas, só falta o seu voto.
IX
Pense nisso com muito carinho, até porque no dia da eleição não existe na maquininha o botão do
quase.
X
E que Deus lhe ilumine.
Em primeira análise do discurso de Lula, descrevemos a melodia que acompanha todo o
enunciado durante a fala, como um interferente permanente, usado como figura de fundo nao
interferindo na resultante significativa do fato. Todavia a posteriori, percebemos que o som
melodico vai aumentando no momento em que Lula busca por meio da intonação suscitar no
enunciatário o aspecto patêmico somatizado com a musica melodica ao fundo, produzindo um
caráter passional, gerando diversos efeitos de sentido.
Definição dos três tipos de ritmos em relação as manipulações
Tético- intimidação
Acéfalo – sincopa de quarta espécie
Anacrúsico- instabilidade, desejo de liquidar o estado de falta.
1) criação de acéfalos. I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X
112
Manipulações pela Calefasia: sedução (cognitiva) gerando instinto de compreensão da
timidez do enunciador pela expectativa causada.
Tentação (ansiedade a ser resolvida/ querer/fazer)
A Síncopa e os Projetemas
Os projetemas são soemas (semas) da projeção sonora.
A Síncopa representa, em música, a projeção de um tempo fraco, ou de uma fração fraca
de um tempo fraco de um compasso qualquer, sobre o tempo mais forte contíguo, ou sobre uma
fração mais forte do tempo forte seguinte, seja ligando tempos, ou compassos, seja no interior de
um mesmo tempo de um determinado compasso.
O termo, por extensão, identifica qualquer perturbação no decurso de uma ação
continuada ou de um processo em que possamos observar 5 etapas em sua formação.
D’Ávila, fazendo alusão aos termos síncopa e sincopema, diz:
“quando utilizamos apenas o termo sincopa, fazemos referência ao que o mesmo
significa no sistema musical universal. No entanto, quando empregamos a expressão
“funções de sincopa”, ou o termo sincopema, designamos elementos inseridos no plano
do conteúdo (Forma), teorizados como metalingüísticos, do domínio não apenas da
semiótica musical, mas também de outras linguagens. Deve o sincopema ser
interpretado no universo da semiótica musical, como uma figura do plano do conteúdo,
sintagmatizada, isto é, realizada no /ft/ como manifestação textual e discursiva.
Composta de 5 soemas (equivalentes ao sema) - que na presente teorização definimos
como elementos participativos da “Função de Sincopa”-, os sincopemas, no /fpi/,
desempenham a seguinte função:
a) soema da desorganização;
b) soema da projeção;
c) soema da condensação;
d) soema da expansão;
e) soema da reorganização” (D’Ávila, 2004b:23).
Os sincopemas podem apresentar-se sob forma de 1°, 2°, 3° e 4° graus, tanto em
manifestações rítmico-musicais, melódico-harmônicas como também no discurso intonado, desde
que seja possível realizar sua transcrição musical intonada ou entonada, ou ainda por meio dos
sinais califáticos (conforme quadros explicativos) erigidos a partir de altura, duração e
intensidade sonoras.
113
Em um compasso 2/4, o sincopema de 1° grau (ou espécie) acontece no interior do 1°
tempo do compasso, em conformidade com a projeção efetuada da segunda fração de ¼ de
tempo, fraca (f) , à terceira fração de ¼ de tempo, meio Forte (mF), desse 1° tempo (cf. gráfico
abaixo, elucidativo).
O sincopema de 2° grau é aquele que se manifesta na projeção da última fração
fraquíssima (ff) do 1° tempo do compasso, à primeira fração Forte (F) do 2° tempo do mesmo
compasso.
O sincopema de 3° grau é produzido internamente no 2° tempo do compasso, na projeção
efetuada da segunda fração de ¼ de tempo, fraca (f), do 2° tempo, à terceira fração de ¼ de
tempo, meio Forte (mF), seguinte.
O sincopema de 4° grau, ou espécie, abrigando a produção mais forte e manipuladora do
contexto, apresenta-se inserido no último tempo (fraco) de um compasso qualquer - seja ele
binário, ternário, quaternário simples, ou em compassos compostos -, projetando-se ao primeiro
tempo (que é Forte) do compasso seguinte; ou ainda, na última fração fraquíssima (ff) do último
tempo de um compasso, projetando-se à primeira fração forte (F), ou tempo forte (F), o primeiro,
do compasso seguinte.
Segundo D’Ávila (explanações sobre “O Discurso Político”, Unimar - 2006), tratamos,
nessas produções, de sincopemas simples, porém, há, ainda, sincopemas complexos.
Estes são observados nas subdivisões dessas frações. Logo, quando as
composições melódicas são simples (as populares), dificilmente observamos
sincopemas complexos. Nas frases intonadas, mesmo quando são curtas como no caso
dos discursos populares, e com várias subdivisões, os sincopemas são simples. Quando
um complexo ocorre, surge para enfatizar um sonema cuja manipulação pretendida pelo
orador deverá ser exercida pausadamente, de forma lenta e acentuada, com maior
duração intonativa. Nos complexos, as espécies (ou graus) não mudam. São
especificadas, sim, as suas subdivisões. O sincopema mais forte de todos é o de 4ª.
Espécie, em anacrúsico, concernente às manipulações intonativas por: sedução
(euforia), provocação (euforia/disforia), tentação (euforia). A intimidação pura,
determinativa do /Dever-fazer/ (disforia), jamais será observada num discurso político.
114
Na produção entonativa, porém, em ritmo tético, coincidindo o início da frase com a
sílaba tônica do sonema (=semema) entonado no 1° tempo do compasso, sendo forte e
duramente emitida (com disforia acentuada), ocorrerá uma manipulação por
intimidação- provocativa- Quando a sílaba tônica posiciona-se prosodicamente sobre o
2° tempo, de forma entonativa mas com predominância eufórica, a manipulação citada
terá um caráter mais provocativo que intimidativo.
Segundo a natureza física do som, num compasso de dois tempos (2/4), o primeiro tempo
sendo Forte e o segundo, fraco, se buscarmos subdividi-lo, teremos em colcheias a seguinte
realização:
[ 1° Exemplo ]
2/4.
1° TEMPO 2° TEMPO
FORTE fraco
F f mF ff
Forte = F; fraco = f; meio Forte = mF; fraquíssimo = ff
Nessa subdivisão tensiva, embora primária, poderemos - observando em cada meio tempo -
encontrar síncopas que podem ser assim realizadas:
a) da segunda para a terceira colcheia, ou seja, da porção fraca do 1° tempo, para a porção
seguinte, mF, logo mais forte do que a anterior;
b) da última colcheia (ff), para a primeira do compasso seguinte que será,
conseqüentemente, Forte (F). Se ainda tentarmos uma nova subdivisão do tempo em
semicolcheias = 1/4 de tempo, a natureza física do som assim poderá ser observada:
115
[ 2° Exemplo ]
2/4
1° TEMPO 2° TEMPO
F f mF ff F f mF ff F f mF ff etc...
Logo, já poderemos aqui observar a formação das espécies de síncopas acima.
Em se tratando do sincopema simples, observado no primeiro exemplo, somente podemos
visualizar 2 espécies, que denominamos sincopema matriz a) e b).
No caso do discurso em questão, percebemos que o sincopema carrega, em si, elementos
sígnicos, não-verbais, capazes de provocar sentido e efeitos de sentido ligados à instância da
recepção, “designando as pré-condições de existência do sentido, e permitindo, na qualidade de
soema aspectual e de soema modulante, que o sentido seja articulado, estabelecendo o momento
de conversão de uma instância narrativa em discursiva, e vice-versa”, conforme D’Ávila (2003c e
2004b).
A sílaba sonora que determina o início do sincopema deverá ser dotada de intensitema
marcante sendo fortemente impulsionada, para poder gerar a projeção rítmico-sonora.
A frase com a qual o actante-sujeito S1 (Lula) inicia seu discurso, deve implicar,
logicamente, um impulso que poderá ou não encaminhar à suspensão sonora e que deverá ser
seguido de um repouso. Assim sendo, na transcrição rítmico-sonora da primeira frase da
seqüência I, “tá chegando a hora. Agora ...”, dada a lambda inicial (espécie de pausa produzindo
116
uma acefalia rítmica), encontramos um sincopema de 4ª. espécie no sonema “ho-o-ra”, que se
apresenta ligeiramente camuflado em virtude de encontrar-se em quedas de volume e de
freqüência sonoros, já na instância do repouso rítmico, ou conclusão frástica.
Transcrição califática de algumas frases a seguir apresentadas, conforme destaque na
manifestação sonora apreendida do vídeo examinado como corpus.
SEQÜÊNCIA I
[ .. ] [ . . ]
Tá chegando a ho-o-ra. Agora, só faltam poucos dias ٦
__ . . . - - - -
< < <
para as eleições
Transcrição musical do caráter rítmico-sonoro entonativo e intonativo apreendido no discurso de
S1, para a comprovação da inserção do sincopema de 4° grau (ou espécie)
117
De conformidade com o término da explanação de D’Ávila sobre a acentuação entonativa
(inserida na sílaba tônica do sonema), encontramos o sonema “Ta”, no início da seqüência I, com
o caráter manipulador provocativo-intimidativo.
Obtivemos, por transcrição rítmico-musical, a comprovação da instância valorizada pela
presença manipuladora do sincopema de 4ª.espécie.
Em compasso binário simples, 2/4, a frase foi iniciada em ritmo acéfalo pela respiração do
orador finalizando-a no termino do sonema “ho-o-ra” que recobre o repouso rítmico designativo
da ‘terminação parcial’. Nele se insere a sílaba tônica, o soema “ho”, em projeção da fração fraca
(de ¼ de duração) do compasso anterior, o “ó”, em sincopema anacrúsico (de 4ª. espécie),
instaurando-se na primeira fração Forte de ¼ de tempo do compasso seguinte, e sendo
completado o sonema “ho-ó-ra”, na segunda fração de ¼ de duração do 1° tempo - seguido de
pausa de colcheia (1/2 tempo de duração) -, do compasso contíguo.
A pausa de semínima, inicial da frase sonora que é entonativa, gera provocação pela
inquietação, instabilidade emocional e desejo de completude e de aquiescência, da parte do
enunciatário/ouvinte.
SEQÜÊNCIA II
. . .
Durante todos esses programas eleitorais vocês viram . . . ٦
< < <
tenho falado exclusivamente dos meus projetos . . .
< - - - - - - - -
para um novo Brasil
-
118
A insistência na respiração aspirada ( ٦ ) produzida nesta seqüência e em quase todos os
inícios das demais seqüências, e a rapidez com que foi emitido o sonema “durante” (preposição
indicativa de duração), de modo idêntico ao sonema “agora” (adjunto adverbial de tempo) da
seqüência I, em oposição semântica ao sonema “exclusivamente” (adjunto adverbial de modo),
pronunciado pausadamente, quase de modo soletrado, demonstra, claramente, a intencionalidade
no modo de dizer. Produzindo ora uma sedução (“pedir sua permissão”, “os pequenos, os mais
fracos”), ora uma provocação (“estão quase votando em mim”), ora tentação (“um novo Brasil”),
ora intimidação (“liderança das forças armadas”), S1 desenvolveu sobre os destinatários da
mensagem não apenas um /fazer-querer-ouvir/ seu discurso, mas também um /fazer-dever-
comungar/ de suas idéias, votando nele.
No discurso do Lula, em exame, as acentuações identificadoras de demarcações rítmicas
já mencionadas carregam consigo prosodemas (semas da prosódia), conforme Greimas & Courtés
(s/data:357), responsáveis por densidades intonativas, inflexivas e manipuladoras (Saber-
Querer-dever-querer-fazer), e raras vezes entonativas (Saber-Dever-querer-fazer), a exemplo do
início da seqüência III. São projetados intensitemas internos e externos, ainda nessa seqüência,
conforme podemos observar nas frases expostas abaixo.
SEQÜÊNCIA III
Hoje... quero pedir sua permissão para não falar de projeto ;
< > < <
٦
quero apenas conversar com as mulheres , e os homens do Brasil
. < < < <
que estão quase votando em mim, mas que ainda não se decidiram...
< - - - - - < -
119
No caso do sonema entonado “HOJE”, início da seqüência III, embora sob acentuação da
primeira sílaba, em ritmo tético, na segunda sílaba ocorreu um baixa na intensidade sonora,
seguida de pausa prolongada. Esta anulará, na frase que se segue, o efeito de intimidação-
provocativa que poderia ocasionar, sendo ainda acrescida da manipulação por sedução na
expressão “pedir permissão”.
O sinal indica uma acentuação mais forte do que a que recai nos demais soemas
acentuados, numa espécie de soema tenuto, isto é, não implicando o seu prolongamento em nível
de envolver compassos, mas de fazer acentuar envolvendo de maior densidade (densirema =
volume) o soema em questão. No caso de soemas isolados, como os acima citados, percebemos
claramente seu intensitema interno e densirema externo, porém isento, o interno. de projetemas.
Na frase abaixo descrita, porém, observamos intensitemas internos, densiremas e
projetemas, indicadores da desconstrução do sentido rítmico-sonoro no (/fpi/ = bloco sonoro),
sendo manifestados sob a articulação de um intensitema externo (=dinâmica).
que-estão qua – a – se votando em mim
- . . . .
f
120
O sinal de grande porte, acima apresentado na transcrição com califasia, indica um início
forte (f) da projeção sonora, tendo sua intensidade diminuída até o término da frase. É
denominado, na teoria semiótica daviliana, de intensitema externo ou exteriorizado, englobando a
espacialidade temporalizada, observado como ‘dinâmica’, em musicologia.
Nossa análise, embora não extensiva à todas as seqüências, permitiu tecer um paralelo
entre elas propiciando antever a extensão de um exame mais detalhado que certamente acontecerá
em estudos posteriores.
As coincidências nas acentuações e duratividades contínuas e descontínuas (ou iterativa)
na emissão de determinados sonemas em blocos sonoros valorizados. As intonações
(sincopemas) e entonações recaindo sobre determinados tipos de advérbio que permitem
apreender espécies repetitivas de manipulações que identificam o estilo do orador, sua
intencionalidade e o poder da oratória, além da tipologia de discurso que está sendo produzida. O
jogo de palavras, metaforizando-as e a utilização de um sonema com diversas articulações
semânticas (ex.: o “quase”).
A manifestação representativa de (Sx) instaura um /Fazer-saber/, um /Fazer-Crer/ e um
/Fazer-fazer/ no destinário-enunciatário do discurso sonoro, manipulando-o a ação, à
dinamicidade participativa, pluriplana, segmental e supra-segmental; segmental, (no nível da
manifestação interna entre soemas contíguos = sintagmatisação ), e supra-segmental (no nível da
manifestação sonora interna + externa ao formema sonoro), pelo DIATda (duração, intensidade,
altura, timbre, dinâmica e andamento) produzido nos soemas e sonemas projectivos tensivo-
distensivos.
A importância da gestualidade nos discursos é de semelhante operatoriedade se
comparada à oralidade. Infelizmente, o tempo disponível para a efetuação desse tipo de pesquisa
não nos permitiu coloca-la em pauta como proposta para a efetivação de nossa análise semiótica.
121
Com esta pesquisa, já envolvidos em sincretismo o verbal e o musical, pudemos constatar
os momentos de oposição assim como os de consolidação semântica, no modo por meio do qual
as articulações conjuntas permitiram erigir averiguações isoladas, comparando-as.
Originárias do caráter simbólico de cada uma das duas linguagens envolvidas no
sincretismo e analisadas de forma isolada, as manifestações em separado tornaram possível
demonstrar a força comunicativa de cada uma das linguagens e o caráter discursivo e
manipulador dos sincopemas (entre outros sonemas) da manifestação musical. Estes permitiram
não apenas ler, interpretar e analisar significantes e significados musicais, em forma e substância,
que outrora eram vistos como simples “suportes” ou “apêndices” conotativos e semi-simbólicos
ancorados na manifestação verbal (simbólica), como também transferir modelos de extrema
significância e tensividade, a outras linguagens, gerando novos paradigmas num mundo de
combinações e de possibilidades criativas e inovadoras por quebra de estereótipos e de
condicionamentos saturados.
Nas grafias rítmico-sonoras que poderão vir a ser efetuadas, outros sincopemas de
diferentes espécies serão certamente apresentados de conformidade com seus respectivos graus
de valoração e conseqüentes espécies. Quanto mais fraco o tempo ou a fração de tempo em que o
mesmo venha a incorrer para, continuando sua função, projetar-se sobre o tempo ou a fração de
tempo seguinte (mais forte do que a sua), maior a força manipuladora dessa espécie de sonema
no /fpi/.
No nivel profundo do sincretismo verbo-sonoro, a espacialidade englobante
temporalizada na semínima como unidade de valor visualizada no soema UV (2/4), subjuga a
espacialidade englobada temporalizada.em 2 tempos indicados no numerador.
Um intensitema rítmico, exteriorizado na Dinâmica , mais duratemas e densirema
externos do Andamento (fala pausada), que determinam um fazer ao enunciatário, somados aos
122
duratemas e intensitemas internos, além dos timbremas sobre os sememas “quase” cujos
alturemas variam de conformidade com seus intensitemas e duratemas, apreendemos tensividades
no domínio frástico-musical, com culminância máxima sobre o projetema extraído do sincopema
de 4ª espécie.
Nesse instante já pode ser detectado o sema nuclear da “projectividade”, por projeções
sintagmáticas e paradigmáticas na extrapolação sonora dos prosodemas colhidos das frases ditas,
por suprassegmentação sonora. Essa projectividade* nos sonemas tensivos aparentemente
descontínuos na manifestação verbalizada (qua-a-se, ho-o-ra, ami-i-ga) - embora haja uma
iteratividade rítmica não periódica dos momentos em estes são produzidos -, contrapõe-se com as
aglutinações verificadas na rapidez de certos soemas falados nos sonemas: agora, durante,
verdade, emprego.
De modo análogo, a clareza verificada em certos sonemas (blocos individualizados)
acentuados contendo, nos soemas, larguremas e intensitemas por vezes contários no mesmo
sonema, a saber: hoje, mulheres, ainda, vejam, outros, exclusivamente, quase, tanto, amiga,
todos, falta, seu, voto, crise, preciso, futuro, pequenos, famintos, fracos, esquecidos, Deus,
ilumine. Esta clareza contrapõe-se à obscuridade de certos blocos rítmicos sonoros contíguos,
cujos sonemas são produzidos de forma decrescente na acentuação, produzindo uma queda no
final de algumas frases, tornando os últimos soemas quase inaudíveis. (dias das eleições, vocês
viram, dos meus projetos para um novo Brasil, não falar de projetos, não se decidiram, três tipos
de eleitores, a votar em mim.
Quadrado Semiótico das formas rítmico-musicais contínuas/descontínuas/não-contínuas/
não-descontínuas, no sincretismo com a manifestação verbal.
Discurso de 2002
123
TRANSFORMAÇÕES POSITIVAS
Verbal
MUDANÇA (ruptura radical)
viver o novo,
ser novo com S1
Rítmico-sonoro
Projectividade na frase musical.
Por sincopemas de 4ª.espécie e
por suprassegmentações sonoras
Verbal
NÃO PARECER MUDANÇA
Continuísmo parcial de antigas
propostas que permitem
camuflar mudança
Rítmico-sonoro
Obscuridade na produção de
sonemas contíguos (blocos) de
intensitemas decrescentes nos
soemas do término das frases.
Verbal
Parecer Mudança (quase
radical) Não continuísmo
parcial de antigas propostas
Rítmico-sonoro
Intensitemas e larguremas
nos Sonemas centrais nas
frases, destacando-os pela
clareza.
Verbal
CONTINUIDADE
Viver o passado com seus
ranços
Rítmico-sonoro
Aglutinações nos soemas
pela rapidez na produção de
certos sonemas.
NÃO TRANSFORMAÇÕES POSITIVAS
124
CAPÍTULO IV: VARIANTES ESPÁCIO-TEMPORAIS NA RECONSTRUÇÃO DE UMA
PERSONA – DISCURSOS DE: 1989, 2002, 2006
No discurso político, a identidade ou diferença em relação aos valores enunciados como
objetos de uma busca por um sujeito, segundo Greimas & Courtés (s/data:63), do
querer/dever/saber poder fazer, determina a relação do candidato com o público eleitor. Uma
dinâmica que pode traduzir relações conflituosas ou conciliatórias, dependendo das expectativas
e interesses dos sujeitos envolvidos. Para estabelecer o eleitor como um destinador, o candidato
necessita estabelecer um relação intersubjetiva resultante de um mínimo de “senso comum”.
Dos discursos de campanha de Luis Inácio Lula da Silva, pode-se extrair várias citações
como traços recorrentes que configuram os actantes e a forma como ele construiu o percurso para
sua qualificação. É interessante observar que os discursos da campanha de 1989, eram discursos
de ruptura, de oposição. Todos os demais, com alguns acréscimos, constituem uma redundância
semântica dos primeiros, de forma que as reduções que possam ser apresentadas tendem,
efetivamente, a representar o conteúdo analisado.
A primeira estratégia foi formatar uma identidade para a nação, como um sujeito de
estado, disjunto de “mudanças sempre reclamadas”, em conseqüência da quebra de contrato dos
governantes anteriores e da época, definidos como “oligarquias que há tantos anos dominam o
poder neste país”. Uma desqualificação dos que haviam sido no passado e dos que são, no
presente, os detentores do poder/fazer delegado do povo, numa forma de qualificar um novo
mandatário. E Lula situava-se, simultaneamente, como um virtual sujeito do fazer, destinado por
sua “geração”, em nome dos “descamisados” que constituem a maioria do povo brasileiro”,
desejosa de “assumir” o seu próprio destino e liderar o processo de mudanças. Lula simbolizava o
“novo”. Assim, desencadeava uma operação fiduciária, dominada pelo saber transmitido ao
125
eleitor, sobre um estado de existência da nação, que podia ser transformado – por força de um
sistema de valores compartilhado – e do seu próprio fazer, como sujeito competente para liderar a
missão. A expressão sempre dita por Lula “sou como um de vocês” pressupunha uma igualdade
solidária à classe proletária, em oposição aos da elite que votaram no que o sujeito Sr. Fernando
Henrique Cardoso que foi delegado pela a nação a um /fazer/, o governar e nada foi feito. Lula
figuratizava uma nova geração na política brasileira. Uma “mais velha”, experiente, testada e
“reprovada” e uma “mais nova” ansiosa de poder/fazer.
Em busca do reconhecimento e da aceitação pelo eleitor, do simulacro, por ele elaborado,
Lula procurava evidenciar-se unido ao povo, na identidade do dever lutar para a concretização de
valores mais próximos aos estabelecidos por Deus, para todos os homens. Lula buscava na
palavra MUDANÇA e OPORTUNIDADE todo o percurso para alcançar o poder.
Todo brasileiro quer mudança e oportunidade; ao fundir-se como mais um dentre os
eleitores, Lula, que figuratizava a representação dos anseios dos eleitores, instalou-se como
enunciador, em um segundo plano, o dos valores divinos, assumindo dualmente (no actante dual
– ele e o eleitor – tem se um actante com dois atores, ou seja um destinatário diante do mesmo
objeto- Valor) com o eleitor, o papel de destinatário da missão a ser realizada, condensando,
simultaneamente, o fazer de cada um. Assim, reconhecia Deus como um destinador, que faz, e o
eleitor como destinatário do poder/fazer. Deixava as marcas de sua devoção, subordinando-se ao
código de conduta que liga o homem a Deus. Lula representava o messianismo sofrido da figura
de Jesus Cristo, que veio da miséria, e agora quer mudar a vida dos “desgraçados” brasileiros.
Até o momento em que Lula torna-se um produto de consumo ele guardava
relação de similaridade com o conceito de messianismo, ou seja, a vinda de um salvador
que finalmente nos redimia e nos traria a felicidade plena. Talves como resultado de um
forte imbricamento entre ideologia política que seu partido propunha e a Igreja
.
(Pereira, 2006:3)
126
De certo modo, com vários papéis temáticos (pedreiros, metalúrgicos, professores, etc),
ou seja um actante coletivo na medida que são vários atores num actante só, para o objeto valor
pretendido, Luis Inácio Lula da Silva habitava o imaginário do brasileiro como o homem saído da
parte do povo mais excluída, sendo justamente por isso capaz de trazer a redenção desse mesmo
povo. Acreditava-se, talvez em parte por suas chances de eleição terem sido sempre reduzidas,
que ele realmente era o Redentor, uma e outra vez sendo impedido de operar o seu milagre pelas
forças do mal.
A associação de Lula com a igreja Católica só acentuou essa característica ao acrescentar-
lhe uma nuança religiosa. Nessa época era comum que padres que se irmanavam à Teologia da
Libertação pedissem uma oração por ele nas missas dominicais. Isso se somava ao do Partido dos
Trabalhadores ter sido durante décadas a referência política para a ética na política brasileira.
Sob essa ótica, os politicos do PT eram justos, incorruptíveis e acima do bem e do mal.
Seria o séqüito de homens puros e bons que frequentemente seguem um Messias.
Além disso, há a busca por encantamento que Lula sempre deu conta de encarnar. Elegê-
lo era muito mais do que votar em idéias ou ideologia. Elegê-lo era permitir dar um novo sentido
para a vida de um povo que fora desde sempre excluído. Apartado das agremiações políticas,
difuso quanto a demarcações ideológicas e francamente assistencialista, o “lulismo” tem toda a
sua força apoiada na figura, na história e no estilo pessoal de ser.
Os adeptos do “lulismo” se identificam com seu líder das mais diversas maneiras. Pode
ser por semelhança física.
Em uma das carreatas políticas, Lula abria caminho em meio à multidão quando um
homem alto, moreno e vestido com a camisa do Flamengo avançou em sua direção com a mão
127
estendida. “Esse dedo eu perdi no trabalho, igual a você”, gritou ele. O presidente então, esticou
sua mão esquerda, à qual lhe falta o dedo mínimo perdido no trabalho como metalúrgico, e
abraçou o eleitor fiel.
A identificação também pode ser feita pelo discurso. Em Salvador, perorando sobre o
programa Brasil sorridente, de saúde bucal, Lula avançou sem medo de ser mal interpretado.
“Sabem por que ninguém nunca fez isso?”, questionou a platéia. “Porque dor de dente é
problema de pobre. Rico, quando sente, vai logo ao dentista e paga obturação. Pobre não. Pobre
mastiga alho, bochecha cachaça e, quando não aguenta mais, arranca o dente”. A platéia veio
abaixo.
No interior de Pernambuco, um depoimento colhido pela equipe de tevê do presidente
obteve o seguinte de uma senhora: “Fome não é o que você sente. Você sente é precisão: sabe
que precisa comer. A fome só bate depois de cinco dias sem comer”, disse ela. “Lula sabe o que é
isso”.
Segundo o cientista político Murilo Aragão (1996:12) “ O Brasil tem sido um terreno
fértil para o surgimento de líderes populistas e o lulismo vai por esse caminho”. Ainda segundo
Aragão, no Brasil começa a ficar inevitável, neste sentido, as comparações com líderes como o
ex- presidente Getúlio Vargas e o também ex- presidente Jânio Quadros, que atuava acima dos
partidos, com base em decisões intuitivas e apoiado em seu carisma pessoal. Sua popularidade
chegou a tal ponto que ainda há adeptos do janismo mais de uma década após sua morte.
Assim, a ação do destinador/político sobre o eleitor não se torna meramente um
fazer/fazer, mas um, fazer/ser, na medida em que o mesmo busca não apenas uma ação, votar
nele como candidato, mas uma conversão, uma mudança de comportamento, apregoado pelas
crenças em um percurso axiológico.
128
A fiabilidade que o enunciador costuma passar, freqüentemente, pela exposição de seu
“caráter”, como um sujeito digno de crença. Determinando a construção dos valores transmitidos
como resultante da obediência a um saber divino e “aspirado” pela nação, submetia sua vontade,
e os compromissos partidários ao interesse maior do país.
A sacralzação dos discursos políticos não é uma novidade. Visa apresentar aos eleitores
um programa de ação que não pode ser refutado, e os torna destinatários do poder divino, sujeitos
unidos em torno de princípios comuns, propondo um contrato primeiro entre Deus e o homem,
embora unilateral, é um pseudo-contrato, este configura sob a forma de simulação, o carater de
fidúcia. O destinatário individual, pela destinação divina, é modalizado por um dever fazer para
vir-a-ser um sujeito realizado em seus objetivos. A submissão a um segundo enunciador à
“vontade de Deus”, que segundo Coquet (1984), é transcendente, um sujeito destinador extra
texto ou um “tiers actant”, sob a forma de como Lula apresentava suas idéias e propostas,
marcava o seu enunciado pela modalidade da certeza irrefutável. E ele induzia o eleitor a querer
o seu projeto de governo, como objeto portador de valores modais mais próximos aos valores
divinos. O Fome Zero, por exemplo, é um programa que visava buscar estinguir a inanição dos
famintos brasileiros.
As marcas sacralizadoras presentes em um dado discurso político visam, como o próprio
discurso religioso, “... persuadir o destinatário, fazendo-o aderir ao objeto do saber de forma a
tornar-se um crente. (...) embora a manipulação seja proposta para todos, a sanção é individual e
incide sobre o fazer individual.” (Fiorin, 1988:142-143).
Os que se opõem a valores correspondentes à destinação divina são os merecedores do
inferno, destinatários do mal. Essa construção, implícita mas “verdadeira”, pois extraída do
discurso religioso, facilitaria o trabalho de Lula em sua qualificação como um homem de bem, e
129
na desqualificação de seus opositores como traidores da vontade divina, refletida pelos
“legítimos” anseios dos homens.
Ao mesmo tempo, Lula instituía uma classe da nação como enunciatária do saber “em
nome de Deus”, que segundo Fiorin (1993), correspondia a uma destinatário do dever/fazer; ao
mesmo tempo destinadora do poder/fazer. Esta escolha formatava, parcialmente, um simulacro
do eleitorado ao qual se anunciava: um sujeito de estado (coletivo), conjunto da opressão, da
desassistência, da espoliação e da não participação, mas “obediente” a Deus. Em total estado de
imperfeição, considerando que nas democracias representativas, como no Brasil, o poder “emana
do povo” e em seu nome deve ser realizado.
Uma forma de agir também cognitivamente sobre o eleitor, para uma sanção negativa aos
detentores do poder de um passado e de um presente enunciados. Implicitamente, fazia surgir os
sujeitos que negavam valores divinos (não-dever-fazer), ocupando o papel temático dos
“traidores”, modalizados, desta forma, por um traço disfórico.
130
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em um processo eleitoral, isentar ou até mesmo amenizar a força do eleitorado na
condução do percurso do candidato, é um erro. O eleitorado não só influencia o candidato como
também é nele que se desencadeia todo processo.
Até 1989 Lula possuía como Objeto-Valor o Poder fundado na ideologia política
esquerdista, marcada pelo radicalismo ferrenho a favor dos “trabalhadores” e dos “socialmente
excluídos”. Estes, segundo D’Ávila em suas explanações, “são - em sua grande maioria-,
moradores natos ou oriundos da periferia, advindos das camadas menos favorecidas da
sociedade. É a periferia o local onde nascem os verdadeiros ‘formadores de opinião’ que, por
contaminação das massas comunitárias e das demais camadas da sociedade, definem-se,
sociologicamente, como opinião pública”.
Tendo alcançado o posto de Presidente da República em 2002, Lula mudou suas formas
tímica, cognitiva e pragmática de atuar em seu percurso político. Nasce um novo Lula, agora não
mais com um discurso ideológico esquerdista, porém com um discurso que buscava um Objeto-
Valor = o Poder por meio de uma ideologia mais de centrista.
Aparecendo em 2002 mais politizado, menos radical, e mais preparado politicamente,
Lula representava para o eleitorado brasileiro, o “cadidato igual, porém diferente”. Esta síncopa
por ele elaborada na mensagem verbal - em busca de manter-se na mídia como objeto de
discussão -, manipulou o povo a inúmeras interpretações. Assim, dependendo do universo
axiológico sob o qual o eleitor se identificava, o candidato criou efeitos de sentido como um
personagem que pensa igual
ao seu eleitorado, porém difere no modo como irá governar a nação,
estabelecendo uma ruptura no status quo da política brasileira.
131
Utilizando, no discurso que nos serviu de corpus-, a manipulação verbo-sonora por meio
do semema “quase”, em suas várias representações, ora como dêitico (advérbio), ora como
adjetivo, ora como substantivo composto (quase-Lula), o candidato criou um efeito de fusão do
eleitorado com a sua própria imagem, o que lhe possibilitou atraí-lo de maneira tão eficiente que
alcançou, nessa eleição, o tão sonhado posto de Presidente da República, com votação recorde, o
que lhe valeu a reeleição em 2006, após o maior escândalo de corrupção na política brasileira, de
todos os tempos.
A figura do personagem “Presidente Lula”, foi de certa forma “blindada” contra
quaisquer resquícios de culpabilidade nos escândalos que envolveram, e ainda envolvem, a nata
de seu partido, tais como os famosos casos do “mensalão, dos “sanguessugas”, do “quebra-
quebra” em Brasília, do “retorno à vida pública” de correligionários cassados ou que
renunciaram, por denúncias.
Se hoje afirma que “dentre as ‘boas formas’ para governar, uma delas é a de criar
empregos, mas que a ‘forma mais inteligente e progressiva’ de conduzir a nação é a de melhorar
outras necessidades básicas do povo”, demonstra não mais considerar a importância que a frase
“10 milhões de empregos” desempenhou como palavra-chave manipuladora de suas promessas
de campanha. Lula, no uso de todas as possibilidades que a mídia lhe confere, começa a
decepcionar a opinião pública já nesse início de segundo mandato.
Porém, apesar dos pesares, como grandes líderes da política brasileira, JK e Getúlio
Vargas, hoje Lula entra para o rol de politicos ‘personificados’, tornando o personagem vivo,
mais importante do que seus feitos e ideologias políticas.
Entretanto, a partir do momento em que vestiu a faixa presidencial, deixou de ser
semioticamente líder absoluto, delegando poderes ao actante coletivo “corpo ministerial”. Deixou
de exercer o papel de enunciador de seus próprios feitos para ser um objeto modal da
132
governabilidade do país, além de ser mantido em seu cargo, no poder, como uma figura de
sustentação da cúpula do seu partido, dando-lhe a almejada continuidade histórica. No entanto,
restava-nos a pergunta: “como foi construído esse percurso”?
Quais as manipulações empregues para persuadir e convencer os eleitores?
Somente pudemos obter respostas aos nossos questionamentos por meio da desconstrução
da significação nos mais sedutores e provocativos discursos de Lula.
Graças à operatoriedade das Teorias Semióticas greimasiana (verbal) e daviliana (não
verbal: sonora), foi-nos possível apreender unidades significativas de produção do sentido em
cada uma das linguagens, separadamente, assim como da manifestação sincrética (em
simultaneidade), podendo conferir às teorias o grau de confiabilidade pela postura epistemológica
na análise de textos sincréticos.
133
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