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fazer aquilo que apenas nós mesmos podemos fazer, cessar o nosso querer. Esta (realização da
Vontade) ocorre através do melhor conhecimento, e assim o Oupnek’hat, volume II, p. 216
disse: tempore quo cognitio simul advenit amor e medio supersurrexit; - “O momento do
conhecimento aparece na cena, ao mesmo tempo, o amor surgiu no seio das coisas” - aqui o
amor (desejo) significa Māyā, que é justamente aquela Vontade, aquele amor (por objetos), de
quem a objetividade ou a aparência é [113]o mundo.”
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Com essa citação de seus Manuscritos, fica evidente que Schopenhauer soube no
ano de 1814, ano da leitura dos Oupnek’hat, da existência de tal deusa. Tal teoria foi
retirada da tradução de Anquetil-Duperron conforme demonstra o trecho citado dos
Oupnek’hat. Será interessante observar que nas próximas citações dos Manuscritos,
Schopenhauer alterou o significado de Māyā, pois aqui ela ainda é amor (desejo – amor
aeternus).
Apesar de a idéia principal destacada no trecho
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do Oupnek’hat Atma (Ātman
Upaniñad) ser a de Māyā como semelhante ao amor pelo aparente, existem também
outros ingredientes que vêm a colaborar com a idéia da deusa ser ilusão. Antes da frase
citada por Schopenhauer, está escrito nos Oupnek’hat que: “Maīa é como amor eterno”
e, ao mesmo tempo, um amor aparente, não verdadeiro, que ostenta o mundo (Cf.
Oupnek’hat Atma, vol. II, pp. 215 e 216). Tal passagem demonstra o caráter ambíguo do
mundo criado pelo hinduísmo, visto que Māyā é, ao mesmo tempo, amor eterno,
verdadeiro, imutável, relacionado com Brahman e, também, é um amor pelo aparente,
ilusório e falso. Aqui ainda não está explícito que o mundo de Māyā é ilusão, mas há
indícios para tal interpretação, pois a deusa ostenta o mundo criado.
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MR, I, p. 130, passagem 213, ano 1814, local Weimar; - (HN, I, p. 120).
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Tradução: “E Maīa, a qual é amor eterno, dela dizem que o amor não tem início e nem fim. Quê?
(pois) No momento em que o conhecimento entrou em cena, ao mesmo tempo, o amor surgiu do seio das
coisas. E de maīa, o reto (verdadeiro) aparece como mentira; e a mentira é reta (verdadeira), aparece
finalmente. E Maīa, que não disse (podem dizer) não reto (não verdadeiro) e não mentira (não falso):
quê? (pois) mostrado sem ser (sem existência), é mundo com ser (existente); e é (existente) existência
universal, não é mostrado como (não existente). (...) Ente verdadeiro, que é aparente, não mostra e mostra
o mundo que não existe.” Eis o trecho completo em latim: “Et Maia, quòd amor aeternus est, ex illo
dicunt, quò amor initium non habet, et fines habet: quid? (nam) Tempore quo cognitio simul advenit,
amor è médio supersurrexit (surgit). Et è maīa, rectum (verum) medacium apparet; et mendacium, rectum
(verum) est, funis apparet. E maīa, quòd non rectum (non verum) potest dixit (possunt dicere), et non
mendacium (non falsum): quid? (nam) ostensum sine est (sine existential) mundum est (existentem)
ostendit; et est (existentem) existentiam universalem, nom est (nom existentem) ostendit. Tè non est,
exist; et rè existit, non est, ostendit: ens verum, quòd apparens est, non ostentid, et mundum, quòd
existens non est, ostendit.” (Oupnek’hat, vol. II, pp. 215 e 216.)